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INTRODUÇÃO A SOCIOLOGIA PARA TERAPIA OCUPACIONAL AULA 4 ABERTURA Olá! Os sistemas econômicos não apenas constituem os modelos de economia praticados pelas nações, mas também alteram as formas de organização social, ao determinarem as formas de produção, de consumo e de distribuição de renda. Ao influenciar a organização social, por meio do trabalho e de seus frutos, os sistemas econômicos empreendem também uma forma de relacionamento com o poder político, com o Estado, podendo estar a ele associado ou se tornar parte das ideologias políticas que o direcionam. Nesta aula, você vai conhecer os principais sistemas econômicos da idade moderna, na história das civilizações. Você vai aprender como surgem e as principais características do capitalismo, do socialismo e dos sistemas mistos. Você irá entender que esses modelos produzem efeitos sociopolíticos importantes e poderá analisar as conquistas, os limites e as consequências de cada um. Além disso, vai compreender e traçar relações entre os modelos de economia liberal e de economia conservadora, e as respectivas influências nos modelos contemporâneos de economias neoliberais, comunistas e anarquistas. Bons estudos. Sistemas Econômicos REFERENCIAL TEÓRICO Os sistemas econômicos têm muita influência na organização social, já que eles delimitam as formas de produção e de consumo, e podem influenciar comportamentos do Estado, além de gerar polarizações ideológicas. No capítulo "Sistemas econômicos", da obra Sociologia Contemporânea, você aprenderá a identificar as estruturas e os contextos históricos de surgimento dos sistemas econômicos preponderantes nos séculos XX e XXI, bem como suas formas de interação com o Estado e a sociedade. Você vai identificar as principais características estruturais e a conjuntura de aparecimento dos sistemas econômicos: capitalismo, socialismo e sistemas mistos. Você vai compreender como se dá a relação entre os modelos econômicos estudados com os efeitos sociopolíticos para as sociedades centrais e periféricas. Analisará, ainda, os contextos de emergência da economia liberal e da economia conservadora, e os impactos desses modelos na criação e na implementação de modelos econômicos contemporâneos neoliberais, comunistas e anarquistas. Ao final deste estudo, você estará apto a: • Caracterizar o capitalismo, o socialismo e os sistemas mistos. • Relacionar as práticas econômicas atuais, seus efeitos sociopolíticos e suas dificuldades com as ideias do capitalismo e do socialismo. • Analisar a economia liberal e a economia conservadora, bem como suas relações com os sistemas econômicos contemporâneos neoliberais, comunistas e anarquistas. Sistemas econômicos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Caracterizar o capitalismo, o socialismo e os sistemas mistos. Relacionar as práticas econômicas atuais, seus efeitos sociopolíticos e suas dificuldades com as ideias do Capitalismo e do Socialismo. Analisar a economia liberal e a economia conservadora e suas relações com os sistemas econômicos contemporâneos neoliberais, comunistas e anarquistas. Introdução Neste capítulo, você aprenderá como se caracterizam e se constituem os sistemas econômicos, os perfis históricos de cada um deles e as pos- síveis relações e impactos entre Estado e sociedade no contexto destes modelos econômicos. A história das civilizações nos mostra que a troca e o comércio são atividades recorrentes em diversas organizações sociais, as quais contribuíram para a construção de fenômenos sociais que ajuda- ram a moldar as sociedades contemporâneas. Essas práticas comerciais levavam séculos para se alterar, porém, a passagem do feudalismo para os sistemas econômicos que hoje conhecemos aconteceu de maneira mais rápida e repleta de reorganizações sociais e políticas. Ao longo deste texto, você estará apto a identificar as principais ca- racterísticas do capitalismo, do socialismo e dos sistemas mistos. Poderá, ainda, relacionar os modelos econômicos estudados aos efeitos sócio- -políticos para sociedades centrais e periféricas. Conseguirá também analisar os contextos de emergência da economia liberal e da economia conservadora e seus reflexos na organização contemporânea de modelos neoliberais, comunistas e anarquistas. Capitalismo, socialismo e sistemas mistos Toda sociedade produz e consome mercadorias, alimentos, tecnologia e cultura. Todavia, é razoável afi rmar que nenhuma sociedade produz abso- lutamente tudo de que precisa, ou que consome tudo o que produz. Aquilo que falta e aquilo que sobra passa a fazer parte de um sistema de trocas, um trânsito de mercadorias em torno do qual elementos marcantes das estruturas sociais se estabelecem, como a organização política, a organi- zação social para o trabalho e a organização dos contextos simbólicos que guiam o consumo. Por isso, é possível afi rmar que as organizações sociais são profundamente afetadas pelos sistemas econômicos, mais do que os sistemas são afetados pela organização social. Os sistemas econômicos são estruturas em que se organizam a produção, o consumo e a troca do excedente, quando há. Eles determinam para que se direciona a produção: ao acúmulo de riqueza, como no capitalismo, à divisão da riqueza entre seus produtores, como no socialismo, ou ao emprego da riqueza em prol do bem comum, como na proposta da social-democracia. A seguir, você aprenderá como esses sistemas econômicos se estabeleceram e quais são as suas principais características. Lembre-se de que as trocas de mercadorias, o comércio, existiam de forma semelhante ao que se conhece hoje já na antiguidade clássica, entre povos do oriente médio, como fenícios e egípcios, e europeus, como gregos e romanos. A queda desses impérios e a organização social e política feudal suplantou essas práticas, que foram retomadas posteriormente. Antes de refletir sobre os sistemas econômicos, é importante que você saiba que a troca foi um elemento presente em organizações sociais originárias no contexto civilizatório, assim como o é em sociedades não ocidentais, nativas ou indígenas. As comunidades Kalapalo, nativas do Alto Xingu, no estado do Mato Grosso, por exemplo, não utilizam um sistema monetário como o utilizado por parte da sociedade brasileira, mas possuem um sistema de trocas interessante. Sua alimentação se baseia em peixes, pequi, mel e mandioca, e tudo isso se pode adquirir localmente. No entanto, há construções estéticas compostas por colares de conchas de caramujos de água doce, que são raros em sua região. Por isso, as pessoas dessas comunidades tecem cestas, esteiras e outros utensílios a partir da palha de buriti e trocam-nos pelas conchas, que, após longos dias de trabalho, tornam-se belos colares, raros e difíceis de se Sistemas econômicos2 Pré-capitalismo A troca de excedentes de produção, ou, ainda, a produção direcionada para a troca por produtos que não existem no território de uma determinada sociedade, é uma dinâmica presente desde as organizações sociais mais antigas. Entretanto, essas trocas, normalmente, tinham um valor simbólico atrelado a elas. O que estabelece um sistema econômico como tal é a organização da produção, a partir das estruturas sociais locais (como os papéis destinados a mulheres, homens, crianças ou idosos nesse contexto), com o objetivo de acumular o que se considera riqueza pela sociedade. A sociedade capitalista considera o acúmulo de dinheiro como riqueza. Sociedades orientais pré-dominação ocidental consideravam como riqueza, além dos metais preciosos, tecidos e papéis, armazenando-os e trocando-os quando necessário. Os sistemas econômicos da modernidade são derivados de um ponto de inflexão que redirecionou as formas de organização para produção e troca das sociedades ocidentais, mais especificamente, das sociedades europeias: o mercantilismo. Nos séculos XV e XVI, o mercantilismo se baseava no acúmulo de metais preciosospara os estados absolutistas, a partir da comercializa- ção de produtos manufaturados locais e produtos adquiridos nas colônias, como especiarias, o chamado metalismo. Cidades portuárias, como Florença, na Itália, concentravam o trânsito de chegada e as vendas desses produtos, caracterizando-se como cidades mercantis. A exploração de matérias-primas do Novo Mundo, a partir do século XVI, intensifica essas práticas e coloca um fim no modelo de produção feudal, baseado em produtos primários, como grãos, cereais e caças, suficientes apenas para consumo local e para o sustento dos exércitos e cortes. O comércio mercantilista era profundamente regulado pelos Estados, e os comerciantes que enriqueciam movendo as trocas eram chamados de “burgueses”, elementos-chave para a construção do modelo capitalista e da Revolução Industrial. O liberalismo, práticas econômicas de produção e comercialização de mercadorias com baixas ou nenhuma interferência do Estado, emerge no século XVII, especialmente a partir das teorias de Adam Smith, que propõe que o conseguir, utilizados em situações especiais, como nos jogos do Quarup. Como você pode perceber, a necessidade ou o anseio por um determinado material movimenta ações específicas, como a tecitura de objetos a partir da palha para a troca. Esse é um exemplo de como as trocas funcionam em sociedades estruturadas fora de sistemas econômicos ocidentais. 3Sistemas econômicos protecionismo dos estados absolutistas não beneficia o comércio e prejudica a acumulação de riquezas. Esse é um dos primeiros elementos que questionam a inviolabilidade do Estado absolutista, propondo, pela primeira vez, que existiam áreas nas quais as monarquias não deveriam ter controle absoluto, abrindo espaço para o modelo capitalista industrial e para as revoluções que alterariam a organização político-social. Capitalismo industrial O capitalismo industrial se caracteriza pela produção fabril. As mercadorias deixam de ser manufaturadas, ou seja, deixam de ser produções artesanais, que levavam tempo e, geralmente, eram produto do trabalho de um artesão-mestre e de dois ou três aprendizes, para se constituírem de produções industriais. Dois elementos materiais alteram as formas de produção manufaturadas para as industrializadas: a utilização do carvão como combustível, fonte de energia que possibilitava que uma só máquina executasse o trabalho de vários homens, acelerando e homogeneizando a produção; e, ainda, como produto da utilização do carvão como fonte de energia, as estradas de ferro passam a se espalhar pela Europa, levando as mercadorias pelo continente de forma mais rápida e segura dos que os veículos movimentados por animais. Estes dois elementos, o carvão e as estradas de ferro, levam à chamada Revolução Industrial, uma forma de organização da produção que rompe com o modelo anterior e altera as estruturas de organização social e, em alguns momentos, política. As fábricas passam a concentrar os trabalhadores ao seu redor, os quais se mudam dos postos de troca mercantilistas e dos núcleos feudais, em busca de trabalho. Como uma nova prática, não há regulamentação sobre o trabalho ou os benefícios do trabalhador, o que faz com que os salários sejam baixos e haja mão-de-obra abundante e barata. No entanto, a alta produtividade gera um problema: não há como a po- pulação consumir tudo de que produzia. Os preços passaram a baixar, e os salários se tornaram cada vez menores, gerando situações de fome e epidemias, o que causou agitação social e as primeiras greves. Era necessário escoar a produção, que se tornava cada vez mais eficiente, rápida. Esse cenário deu origem a uma nova corrida imperialista, desta vez não com a intenção de se beneficiar dos produtos primários das colônias, mas sim de criar mercados para escoar a produção europeia. Esses mercados deveriam crescer até certo ponto, mas era preciso mantê-los em um nível de dependência econômica e tecnológica, a fim de que não suplantasse suas colônias e não desenvolvesse mercados e produções próprias. Os burgueses mercantilistas, que enriqueceram Sistemas econômicos4 nos postos de troca de mercadoria na fase pré-capitalista, são os responsáveis por essa transformação, os quais investiram nos maquinários e estabeleceram as indústrias. O poder político que se concentrava na nobreza e no clero passa a ser divido também com os burgueses, os novos produtores de riqueza. Esse modelo se mantém do século XVIII ao início do século XX. Capitalismo financeiro Esta fase do capitalismo como sistema econômico se constitui, aproxima- damente, na década de 1920 e permanece até os dias de hoje. Esta fase é caracterizada pela virtualidade do sistema bancário, onde as informações sobre as trocas fi nanceiras precedem o trânsito real da moeda. A virtualidade também se torna um dos pontos para a acumulação ou a perda de dinheiro, como pode-se observar por meio da bolsa de valores. Você já percebeu que, dependendo de determinados acontecimentos polí- ticos, a bolsa tendem a cair ou a subir? A subida indica um aumento (virtual, inicialmente) dos investimentos em ações (em fragmentos também virtuais) das empresas e indústrias, e a queda, a retirada dos investimentos. Quando há um problema político noticiado e a bolsa cai, isso indica a retirada em massa de investimentos no país caracterizado pela venda de ações das empresas nacionais. O volume dessas trocas virtuais direciona o posicionamento de futuros investidores, que podem ser atraídos ou desistir das ações pretendidas, o que, portanto, pode acarretar em lucros e divisas, ou perdas financeiras, sem a troca real de mercadorias, ou seja, há lucro a partir de mobilizações financeiras virtuais. Socialismo Como proposta de sistema econômico, o socialismo surge por volta de 1850 como refl exão e resposta intelectual-científi ca e política à organização social pautada no modelo de produção capitalista industrial. Como dito anteriormente, o capitalismo industrial trouxe vários benefícios, como os avanços tecnológicos, que propiciaram mais conforto e facilitaram processos cotidianos e “encur- taram” distâncias com a possibilidade de viajar mais rapidamente, porém a inefi ciência em consumir toda a produção gerou um excedente produtivo, o que causou desemprego, condições de empregos insalubres, fome e epide- mias, impulsionadas pela fragilidade física e pela concentração populacional urbana em péssimas condições sanitárias. Para os socialistas, o princípio da propriedade privada era o responsável por esse contexto, uma vez que quem era 5Sistemas econômicos proprietário dos meios de produção (as indústrias) não vivia os problemas das classes trabalhadoras, pois acumulava a riqueza que era produto do trabalho empregado pelos operários, em um ciclo que tendia a perpetuar as posições: quanto maior a acumulação do proprietário burguês, mais investimentos em maquinários e mais produção de mercadorias, resultando em salários menores e agravamento das condições de vida do trabalhador. A Revolução Industrial, para os socialistas, se tornou um problema e se configurava como algo maior que uma alteração das formas de produção, mas como um redirecionamento da organização social e política da Inglaterra, e que se espalharia para a Europa e para os Estados Unidos. A solução seria a não concentração de lucros nas mãos dos burgueses, mas sim na divisão dos lucros com aqueles que produziram a riqueza, os trabalhadores. Ainda no século XVIII, os chamados “socialistas utópicos”, como Robert Owen (1771-1858) e Henri de Saint Simon (1760-1825), acreditavam que as injustiças da concentração de riqueza do capitalismo poderia ser superada por meio da criação de comunas, comunidades autossustentáveis cuja produção fosse suficiente para que seus componentes tivessem uma vida mediada entre tra- balho e conforto, trabalho e criatividade, trabalho e descanso. Essas comunas poderiam ser construídas, na visão desses pensadores,mesmo internamente a sociedades capitalistas. Comunismo e socialismo são modelos diferentes. O comunismo propõe comunidades autossustentáveis, em que tanto o emprego de força da produção quanto os seus ganhos possam ser divididos. Aqui, pressupõe-se um grupo restrito de componentes. O socialismo, por sua vez, se caracteriza pela racionalização e a planificação da produção pelo Estado, ou seja, toda a comunidade seria organizada a partir desse modelo, e o Estado organizaria a produção e os lucros. A palavra socialismo se traduz pela intenção de dividir, socializar, tornar igual o acesso aos resultados da produção, mas também pelo controle dos meios de produção. Assim, alguns intelectuais criticaram os socialistas utópicos, afirmando que o socialismo não poderia ser apenas um modelo de produção, como aquele proposto na forma de comunas, mas deveria ser, essencialmente, um modelo político e de organização social. A propriedade privada não mais Sistemas econômicos6 existiria, tudo pertenceria aos trabalhadores, sendo administrado e controlado pelo Estado, que asseguraria que a sociedade se mantivesse organizada e que a distribuição de renda fosse igualitária. O socialismo científico é derivado da análise da conjuntura política, histórica, econômica e social para se compreender e definir os caminhos necessários para a derrocada capitalista e o estabelecimento socialista. O maior expoente é Karl Marx, que, a partir da leitura científica que descreve o materialismo histórico, define que o socialismo (a organização racional dos meios de produção pelo Estado socialista) seria apenas um meio para a consecução do comunismo (o controle total da produção por trabalhadores). Entre o fim do século XIX e o início do XX, o socialismo se transforma de modelo econômico em corrente ideológica, tornando-se objetivo e bandeira de diversos intelectuais e personalidades políticas, sendo responsável por rupturas, como a ocorrida na Revolução Russa, em 1917. Sistemas mistos Os sistemas ou economias mistas são aquelas compostas por elementos de dois ou mais sistemas econômicos. Historicamente, a social-democracia surge como a chamada terceira via, a possibilidade de unir conceitos dos modelos capitalista e socialista, a partir de um viés democrático. Tanto economias capitalistas quanto economias socialistas podem existir a partir de um mo- delo político autoritário, como uma ditadura. Contudo, a social-democracia só existe a partir do viés democrático, uma vez que parte importante de sua organização é a participação popular na tomada de decisões pelo Estado (PRZEWORSKI, 1988). Os sistemas mistos permitem a existência do livre mercado capitalista, mas mantêm o controle estatal sobre setores estratégicos, como energia, tecnologia, mineração e combustíveis fósseis (petróleo e carvão), investindo os lucros desses setores nas estruturas sociais, como educação, saúde, habitação e cul- tura. A social-democracia, portanto, associa o livre mercado e a propriedade privada ao estado de bem-estar social, provido pelo Estado. Apesar de associados às organizações sociais, político-econômicas, os sistemas mistos também podem ser encontrados em empresas em sociedades capitalistas quando o capital é composto por capital privado e capital público, como no caso da petrolífera brasileira Petrobrás, que possui investimentos privados de holdings multinacionais, ainda que seja em parte propriedade do Estado brasileiro. 7Sistemas econômicos Os sistemas mistos mais bem-sucedidos foram as chamadas “sociais- -democracias nórdicas”, compostas por nações como Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia, que conseguiram, por meio desse modelo de organização sociopolítica-econômica, administrar a produção nacional e a acumulação de capital, promovendo altos índices de apoio e cuidado com a população, por meio de estruturas de qualidade para saúde, educação, trabalho, habitação, transporte, de modo que estes países figuram entre os que mais promovem o bem-estar social em contexto global. Apesar do sucesso da social-democracia em países europeus, principalmente após a década de 1980, na segunda década dos anos 2000 há um processo de redirecio- namento, em que reaparecem modelos conservadores, substituindo os modelos mistos. Para mais informações, leia o artigo “Social-democracia perde terreno em toda a Europa”, acesse o link: https://goo.gl/nDL82T Efeitos sócio-políticos das organizações econômicas contemporâneas O capitalismo trouxe elementos positivos às sociedades, especialmente aqueles ligados às melhorias das condições de vida e à participação política, mas é preciso observar alguns pontos e suas ressalvas, visto que os efeitos do capitalismo têm pesos diferentes em sociedades centrais e em sociedades periféricas. O advento do capitalismo impulsionou a corrida tecnológica, o que trouxe melhores condições de vida à população em geral, como melhoria das condições de moradia, alimentação, já que a produção é abundante e raramente se fi ca à mercê de intempéries e alterações climáticas bruscas, que causaram fome no período feudal, por exemplo. A tecnologia permitiu o advento de conquistas biofarmacêuticas, como as vacinas, a medicina, uma melhor qualidade de vida, a erradicação ou o controle de doenças e o tratamento para doenças ainda incuráveis. O transporte se tornou muito veloz, assim como as comunicações, encurtando as distâncias e alterando a noção de fronteiras. Você, por exemplo, possivelmente conhece Sistemas econômicos8 muito da vida de um artista, escritor, cientista, político ou esportista de que gosta muito, mesmo que este viva em outro continente, por meio das redes sociais; pode ter um “contato” quase diário. O livre mercado prescinde, obviamente, de liberdade, de escolhas, de posi- cionamento político. Por isso, no século XX, o capitalismo foi muito associado às democracias e a outros sistemas econômicos, como o socialismo de Cuba ou da antiga União Soviética a Estados totalitários. Todavia, é preciso refletir sobre as diferenças entre países centrais e periféricos neste contexto, tendo-se os centrais como aqueles que empreenderam a corrida neoimperialista na virada do século XIX para o XX, e os periféricos, as antigas colônias, como nações do continente africano, e os países em desenvolvimento, como os da América Latina. Nesses locais, o capitalismo ofereceu uma condição de exploração, que culminou com a péssima qualidade de vida, baixos índices de educação e acesso à saúde, à habitação e ao transporte. É nos países periféricos que se encontra a maior parte das indústrias que necessitam de mão de obra barata para a produção de bens de consumo não- -duráveis, como indústrias têxteis, calçados, peças utilizadas em bens de consumo duráveis. Nos países centrais, a produção gira em torno da tecnologia, da energia e dos bens duráveis. Essa discrepância faz com que, mesmo que praticamente não haja mais colonialismo (a Inglaterra ainda mantém algu- mas colônias), haja uma situação de dependência caracterizada nas ligações econômicas norte-sul, ou, ainda, centrais-periféricas. As economias socialistas não obtiveram muitos êxitos no século XX. O maior expoente, a União Soviética, aniquilou o sistema czarista e mudou as formas de organização social russa, porém a tentativa de planificação ignorou a necessidade de matérias-primas ou tecnologias externas, e a população russa acompanhou um desenvolvimento social mais contido com relação às outras nações capitalistas democráticas, principalmente comparando-se ao quadro de Welfare State vivido por Estados Unidos e Europa nas décadas de 1950 e 1960. A situação de Cuba parece mais estável, visto que há certo equilíbrio na qualidade de vida dos cidadãos do país, mas o embargo comercial sofrido pelo país após a tomada de poder por Fidel Castro prejudicou muito as oportunidades de desenvolvimento da nação. As perseguições políticas levadas a cabo pelo próprio governo também contribuíram parauma situação de bem-estar social abaixo dos países do norte/centrais. A China parece ser um modelo fora da curva, com resultados positivos num sistema misto (adequando valores e práticas capitalistas e socialistas), com crescimento 9Sistemas econômicos econômico estável e em aceleração ininterrupta entre 2009 e 2018, tendo sua primeira diminuição na taxa de crescimento no terceiro trimestre de 2018. O crescimento do país em 2017 ficou em torno de 6,9% (FOLHA DE S. PAULO, 2018, documento on-line). Economia liberal e economia conservadora Pode-se caracterizar as economias liberais como aquelas em que o Estado se retira do controle do mercado, mantendo a menor intervenção possível, permitindo que o mercado se autocontrole e se mantenha, a partir da pers- pectiva do laissez-faire. Economias conservadoras são economias capitalistas com posturas protecionistas, em que os Estados interferem no mercado para proteger seus capitais nacionais. O mundo conheceu uma onda da economia neoliberal nas décadas de 1980 e 1990, e o Brasil esteve inserido nesse contexto, em que houve abertura para investimentos no país de capital estrangeiro e a reestruturação para fortale- cimento econômico com o Plano Real. Houve desenvolvimento tecnológico industrial, mas, por outro lado, um intenso agravamento das concentração de renda e das desigualdades sociais, e o Brasil figurou por anos no Mapa da Fome da ONU, leitura geográfica das Organizações da Nações Unidas sobre a ausência de alimentação para famílias abaixo da linha da pobreza e os riscos de morte causada pela fome e/ou desnutrição. A década de 2000, houve um retorno aos modelos da social-democracia, permitido pela ascensão de partidos de esquerda na Europa, na América Latina e até, em partes, nos Estados Unidos, nos governos de Barack Obama. Houve um redirecionamento das ações dos Estados para a promoção de políticas sociais destinadas à educação, à mobilidade social e à segurança alimentar das classes mais baixas, como economias anarcocapitalistas, que se inserem no padrão de produção, troca e lucro, mas não há “donos” – todo a renda conseguida é revertida de maneira igualitária aos produtores, aos trabalhadores. As economias capitalistas contemporâneas vivem uma inversão de olha- res, uma volta às posturas conservadoras e protecionistas, como se observa nas posturas político-econômicas do presidente norte-americano Donald Sistemas econômicos10 Trump. No entanto, emerge da sociedade civil, com apoio de segmentos institucionais, modelos de economia mais direcionados à social-democracia, como a economia criativa e a economia solidária. A economia solidária, formada pela perspectiva da cooperação e da sus- tentabilidade, observando valores como a questão de gênero e os saberes tradicionais na produção de mercadorias. Além disso, há a agregação do valor simbólico de consumir e vender produtos que retomam a tradição e que fogem do controle das grandes corporações. Algumas grandes empresas, como empresas de cosméticos, no Brasil, utilizam a produção de cooperativas para ingredientes de seus produtos. A produção de alimentos orgânicos por grupos e movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), maior produtor de arroz orgânico do mundo, se encaixam nessa perspectiva econômico-produtiva. A economia criativa propõe a reflexão sobre o consumo, a necessidade e a intenção de fazê-lo, e é composta por artistas dos setores culturais e por artesãos dos mais variados setores produtivos, que acrescentam aos seus produtos elementos simbólicos dos saberes tradicionais e das memorias afe- tivas, como os movimentos do slowpharmacy (auxílio de plantas e vegetais como remédios naturais pautados em saberes tradicionais) ou da confort food (alimentos integralmente preparados em casa, sem a presença de elementos industrializados e processados, veganos ou não). Você pode perceber, no entanto, que a nomenclatura dessas correntes de produção e consumo estão em inglês, pois há uma presença quase irremedi- ável dos países centrais na visão formadora da ação produtiva. O problema é que esse tipo de direcionamento tende a provocar releituras conservadoras, chegando ao neofascismo, como já anunciava Przeworski sobre o cenário europeu ainda nos anos 1980: Defrontados com uma crise econômica, ameaçados com a perda de apoio eleitoral, preocupados com a possibilidade de uma contra-revolução fascista, os social-democratas abandonam o projeto de transição ou ao menos ficam à espera de tempos mais auspiciosos. Encontram coragem para explicar aos trabalhadores que é melhor ser explorado do que criar uma situação que contém riscos que podem se virar contra eles. Recusam-se a empenhar seu futuro numa piora da crise, dispõem-se ao compromisso, e a defenderem-no perante os trabalhadores (PRZEWORSKI, 1988, p. 81.) 11Sistemas econômicos FOLHA DE S. PAULO. Economia da China cresce 6,8% no primeiro trimestre. 17 abr. 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/04/economia- -da-china-cresce-68-no-primeiro-trimestre.shtml>. Acesso em: 15 dez. 2018. PRZEWORSKI, A. A social-democracia como fenômeno histórico. Revista Lua Nova, São Paulo, v.4, n. 3, jul./set. n.15, p. 41-81, 1988. Leituras recomendadas BRAGA, F. Conservadorismo, liberalismo e social-democracia: um estudo de direito político. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 34, n. 133, jan./mar. 1997. COELHO, A. F. C. O estado liberal: entre o liberalismo econômico e a necessidade de regulação jurídica. Revista Jurídica UNIGRAN, Dourados, v. 8, n. 15, jan./jun. 2006. DALTON, G. Sistemas economicos e sociedade: capitalismo, comunismo e terceiro mundo. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. FERREIRA, G. Conservadorismo, fortalecimento da extrema-direita e a agenda da diversidade sexual e de gênero no Brasil contemporâneo. Lutas Sociais, São Paulo, v. 20, n. 36, p.166-178, jan./jun. 2016. FONSECA, P. C. D. Keynes: o liberalismo econômico como mito. Economia e Sociedade, Campinas, v. 19, n. 3 (40), p. 425-447, dez. 2010. SCHUMPETER, J. A. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961. Sistemas econômicos12 PORTFÓLIO O sistema capitalista e sua perspectiva neoliberal contemporânea podem ser agressivos, mas há propostas que podem humanizar alguns traços do modelo, como as perspectivas da economia criativa e da economia solidária. Pesquise e explique os conceitos de economia criativa e economia solidária. PESQUISA Cuidando bem do seu dinheiro - Economia familiar e meio ambiente Acesse https://www.youtube.com/watch?v=gXsaGAeNx2c Cuidando do ambiente, a família do Erich Burger Netto faz uma boa economia dentro de casa. Reciclagem, compostagem, uso de bicicleta, uso racional de água e energia, produção caseira de alimentos e reutilização de artigos são alguns dos hábitos que fazem parte do dia a dia da turma. Novos hábitos para um novo mundo! Inspire-se e poupe você também. N