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LITERATURA INFANTIL LITERATURA INFANTIL Literatura infantil João Olinto Trindade JuniorJoão Olinto Trindade Junior GRUPO SER EDUCACIONAL gente criando o futuro Nesta disciplina, abordaremos os conceitos sobre um tipo particular de literatura, a infantil, bem como os demais conceitos relacionados a ela. Analisaremos estudos e linhas de pesquisa que lançam múltiplos olhares sobre esses textos, levando em consideração sua relação – diacrônica e anacrônica – para a formação de crianças e adolescentes. Isso posto, pode-se a� rmar que há toda uma tradição literária voltada para promover a interação do indivíduo com o mundo (fantástico e imaginário) e mostrar de que for- ma isso auxilia na percepção do real do sujeito que vai sendo construída. Por esse viés, re� etiremos sobre como essa vertente literária tem potencial para fa- vorecer o desenvolvimento cognitivo do indivíduo em formação, de maneira lúdica e criativa. Além disso, iremos explorar como uma série de estratégias de leitura podem ser desenvolvidas, logo nas primeiras etapas da vida, no âmbito familiar e escolar. Além da discussão sobre o que de� ne uma literatura como “infantil” e qual sua função na sociedade em que é produzida, discorreremos sobre uma rica tradição de textos – tanto no Brasil quanto no mundo – que surgiu e continua se reinventando com o decorrer das épocas. Bons estudos! SER_PEDA_LITE_CAPA.indd 1,3 16/10/20 17:34 © Ser Educacional 2020 Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro Recife-PE – CEP 50100-160 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa: © Shutterstock Presidente do Conselho de Administração Diretor-presidente Diretoria Executiva de Ensino Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Diretoria de Ensino a Distância Autoria Projeto Gráfico e Capa Janguiê Diniz Jânyo Diniz Adriano Azevedo Joaldo Diniz Enzo Moreira João Olinto Trindade Junior DP Content DADOS DO FORNECEDOR Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 2 16/10/20 17:33 Boxes ASSISTA Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple- mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. CITANDO Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. CONTEXTUALIZANDO Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstra-se a situação histórica do assunto. CURIOSIDADE Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. DICA Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. EXEMPLIFICANDO Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. EXPLICANDO Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 3 16/10/20 17:33 Unidade 1 - Literatura infantil: conceitos e origens Objetivos da unidade ........................................................................................................... 12 O estatuto da literatura infantil ......................................................................................... 13 A função da literatura infantil ........................................................................................ 15 A origem da literatura infantil ........................................................................................... 23 Contos de fadas: dos primórdios aos dias de hoje ........................................................ 30 A literatura infantil brasileira ............................................................................................ 36 Sintetizando ........................................................................................................................... 42 Referências bibliográficas ................................................................................................. 43 Sumário SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 4 16/10/20 17:33 Sumário Unidade 2 - Ideologia no Texto Infantil Objetivos da unidade ........................................................................................................... 46 Representação da sociedade: normas e valores ........................................................... 47 Representação da criança no texto literário infantil ................................................. 53 Sensibilização e aproximação lúdica da criança com a linguagem poética .......... 59 A importância da exteriorização – personagens e acontecimentos fantásticos .... 66 O sobrenatural familiar ................................................................................................... 68 Literatura e amadurecimento ........................................................................................ 69 Sintetizando ........................................................................................................................... 78 Referências bibliográficas ................................................................................................. 79 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 5 16/10/20 17:33 Sumário Unidade 3 - Escola e formação do leitor Objetivos da unidade ........................................................................................................... 82 Escola e formação do leitor ............................................................................................... 83 A importância da leitura e da literatura na escola ........................................................ 85 Estratégias de leitura em sala de aula ......................................................................... 90 Brincadeiras com palavras, sons e imagens ................................................................. 93 Leitura e leitores .............................................................................................................. 95 Didática da literatura infantil ......................................................................................... 97 Responsabilidade da escola e do professor na formação do leitor ......................... 107 A sala de aula enquanto espaço de construção ..................................................... 108 O ensino da literatura ................................................................................................... 112 Políticas e práticas educacionais .............................................................................. 113 Sintetizando ......................................................................................................................... 116 Referências bibliográficas ............................................................................................... 117 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 6 16/10/20 17:33 Sumário Unidade 4 - Métodos de ensino favoráveis à formação do leitor Objetivos da unidade ......................................................................................................... 120 O papel da família, da escola e da sociedade na promoção da leitura .................. 121 A formação de leitores no Brasil ................................................................................ 123 Processos lúdicos ......................................................................................................... 127 Leitura e formação ........................................................................................................ 129 Biblioteca escolar ..............................................................................................................131 A função formadora ...................................................................................................... 133 A animação de uma biblioteca infantil ......................................................................... 135 Fisiologia da biblioteca infantil .................................................................................... 139 A natureza da leitura em ambientes escolares ........................................................ 141 Sintetizando ......................................................................................................................... 150 Referências bibliográficas ............................................................................................... 151 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 7 16/10/20 17:33 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 8 16/10/20 17:33 Olá alunos(as)! Nesta disciplina, abordaremos os conceitos sobre um tipo particular de li- teratura, a infantil, bem como os demais conceitos relacionados a ela. Analisa- remos estudos e linhas de pesquisa que lançam múltiplos olhares sobre esses textos, levando em consideração sua relação – diacrônica e anacrônica – para a formação de crianças e adolescentes. Isso posto, pode-se afi rmar que há toda uma tradição literária voltada para promover a interação do indivíduo com o mundo (fantástico e imaginário) e mos- trar de que forma isso auxilia na percepção do real do sujeito que vai sendo construída. Por esse viés, refl etiremos sobre como essa vertente literária tem potencial para favorecer o desenvolvimento cognitivo do indivíduo em formação, de ma- neira lúdica e criativa. Além disso, iremos explorar como uma série de estraté- gias de leitura podem ser desenvolvidas, logo nas primeiras etapas da vida, no âmbito familiar e escolar. Além da discussão sobre o que defi ne uma literatura como “infantil” e qual sua função na sociedade em que é produzida, discorreremos sobre uma rica tradição de textos – tanto no Brasil quanto no mundo – que surgiu e continua se reinventando com o decorrer das épocas. Bons estudos! LITERATURA INFANTIL 9 Apresentação SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 9 16/10/20 17:33 Dedico esta disciplina aos professores – nos seus mais variados perfi s, vocações e ciclos de ensino – que buscam desenvolver estratégias para trazer seus alunos ao mundo maravilhoso da leitura. O professor João Olinto Trindade Ju- nior é doutor em Teoria da Literatura e Literatura comparada pela UERJ (2019), é especialista em Planejamento, Imple- mentação e Gestão da EaD pela UFF (2016) e possui mestrado em Literatura Portuguesa pela UERJ (2013). Além dis- so, é graduado em Letras: Português-Li- teratura pela Unisuam (2010). Como professor, atua nos seguintes segmentos educacionais: Educação Bá- sica, Superior e Pós-graduação (presen- cial e EaD), EJA e Pronatec. Como produtor de conteúdos, atua como conteudista, revisor, parecerista e designer educacional. É parecerista de revistas acadêmicas da área de Letras, Educação e Direito. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2506819258004448 LITERATURA INFANTIL 10 O autor SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 10 16/10/20 17:34 LITERATURA INFANTIL: CONCEITOS E ORIGENS 1 UNIDADE SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 11 16/10/20 17:36 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Conceituar a literatura infantil; Abordar a existência da literatura voltada para o público infantil, bem como sua função sociocultural. O estatuto da literatura infantil A função da literatura infantil A origem da literatura infantil Contos de fadas: dos primór- dios aos dias de hoje A literatura infantil brasileira LITERATURA INFANTIL 12 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 12 16/10/20 17:37 O estatuto da literatura infantil Literatura infantil, juvenil, infantojuvenil: essas terminologias são relativa- mente comuns e participam do vocabulário de muitos. No entanto, o concei- to precede a nomenclatura. A maioria das pessoas, ao serem questionadas sobre o que vem a ser literatura infantil, provavelmente responderia que se trata de textos voltados para crianças e adolescentes, abrangendo contos, fábulas, romances e outras manifestações fi ccionais. Todavia, alguns poderiam alegar que os livros da saga Harry Potter da es- critora J. K. Rowling, por exemplo, não podem ser meramente taxados de lite- ratura infantil. Apesar da abordagem da temática adolescente e do processo de descoberta, temos uma sequência de livros infl uenciados pela tradição da literatura inglesa, e até mesmo pelos romances de cavalaria, como o impor- tantíssimo A demanda do Santo Graal. Da mesma forma, apresentar os mundos extraordinários de L. Frank Baum (O mágico de Oz) e de Lewis Carroll (Alice no país das maravilhas) como “apenas” literatura infantil é um reducionismo, mesmo em se tratando de escritores que são comumente associados a esse tipo de produção. Assim, pensar o estatuto da literatura infantil abrange necessariamente essa discussão: o que a difere de outras que também recebem o título de “li- teratura”? De acordo com Antonio Candido, a literatura infantil pode ser con- siderada um gênero literário como todos os demais, já que, para ele, o texto literário abrange criações dotadas de elementos poéticos, em todas as culturas e sociedades, o que inclui “folclore, lenda, chiste e até as formas mais comple- xas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações” (1989, p. 112). Dessa maneira, há uma produção fi ccional que objetiva desen- volver nos mais novos o hábito da leitura a partir de textos que buscam criar estratégias de leitura e facilitação. É nesse ponto que nos deparamos com a literatu- ra infantil como um instrumento que auxilia na formação do sujeito, posto que ela atua como veículo educativo em prol do efeito que gera “no comportamento do leitor em fase de for- mação” (CARVALHO, 1989, p. 194). LITERATURA INFANTIL 13 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 13 16/10/20 17:37 Mas qual é a abordagem dada a essa literatura em sala de aula? É comum aquela crença de que o indivíduo deve começar sua leitura por obras descri- tas como mais leves, partindo posteriormente para outras mais significativas. Entretanto, essa dita leveza também é abordada como sinônimo de valora- ção, o que ocorre porque somos levados a taxar textos literários como “maio- res” e “menores”, “introdutórios” e “avançados”. Esbarramos, então, no estatuto da literatura infantil – real, e de fato – nos dias de hoje: a criança gosta de O menino maluquinho, de Ziraldo, mas aprende que “literatura de verdade” é Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Já no ensino médio, na disciplina de literatura, passará longe de uma Lygia Bojunga; com sorte, abordará Monteiro Lobato, dividido ente produção “adulta” e “infantil”; lerá Gabriela, em vez de O gato malhado e a andorinha Sinhá, ambos de Jorge Amado; ou transitará por A hora da estrela, sem nunca ter a chance de discutir em sala Como nasceram as estrelas, parte de uma pro- dução de Clarice Lispector voltada para crianças. Abordamos o estatuto da literatura infantil ao questionar sua recepção e classificação: literatura apenas para crianças? A que é indicada nos livros paradidáticos? Ou, talvez, aquela indicada pelo Ministério da Educação para a formação da capacidade crítica e analítica da criança durante o desenvolvi- mento da capacidade de leitura? Figura 1. O contato da criança com a leitura. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/09/2020. LITERATURA INFANTIL 14 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 14 16/10/20 17:38 A função da literatura infantil Não faz muito sentido dizer para uma criança, por exemplo, que Peri é mais esperto que Emília. O infante é constantemente confrontado com uma literatura que, por vezes, foge de sua capacidade interpretativa, ao passo que aquela que se adequa ao seu nível de formação crítica é depreciada. É em uma época como a atual, quando a criança se vê cercada por um tur- bilhãotecnológico, que a literatura infantil oferece um brilhante caminho para crianças e adolescentes. CURIOSIDADE Você já parou para pensar sobre a infl uência dos demais meios de comu- nicação no processo de leitura das crianças? Se antes conhecíamos os contos de fadas por intermédio de nossos pais, por exemplo, hoje há toda uma geração que teve contato com essas mesmas histórias por intermé- dio de fi lmes e animações, os quais, por si só, agregam novas leituras aos mesmos textos, permeados de valores – novos e ressignifi cados. Uma vez que determinada produção literária é adjetivada como infantil, e en- tendendo que esse termo não signifi ca, ao pé da letra, uma literatura menor, surge a dúvida: qual a sua fi nalidade? Esse título advém do fato de muitos acharem que ela é somente lida por crianças? Tendo isto em mente, pode-se arriscar e afi rmar que muitos adultos leram Artemis Fowl – o menino prodígio do crime (2013), por exemplo, livro no qual há um resgate dos contos de fadas nos dias de hoje. Talvez o termo “infantil” se refi ra aos textos separados para serem publi- cados em livros paradidáticos, como já apontado anteriormente, ou sancio- nados pelo MEC para auxiliar no desenvolvimento da formação de leitores críticos. Mas devemos destacar que, entre explicações, motivações e contri- buições, essa é uma literatura que pode ser utilizada como agente formador do indivíduo em uma idade específi ca, de forma espontânea e direcionada: é a criança que aprende a ler com os pais, recebe contos de presente de seus avós ou participa de rodas de leitura em sala de aula. A literatura in- fantil vai além, inclusive, ao contribuir para a formação da consciência de mundo em crianças e jovens. Ao pensar em função, é comum evocar os conceitos de “planejamento”, “meta”, “objetivo”. E é nesse ponto que entra a escola, espaço de aprendizagem LITERATURA INFANTIL 15 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 15 16/10/20 17:38 formal por excelência. Atualmente, há inúmeras críticas sobre o modelo atual da escola, bem como suas heran- ças oriundas do século XIX, época na qual havia necessidade de capacitação massiva da população. Todavia, é na escola que a criança interage, de ma- neira sistemática, com a cultura “for- mal”, o que agrega à instituição uma importância histórica, vindo a ser um espaço privilegiado para impulsionar mudanças significativas na sociedade devido a responsabilidade que lhe é atribuída na formação do indivíduo. A escola é um espaço que foi criado para dar respostas aos anseios e ne- cessidades da sociedade, e pouco mudou desde então. Para fins de compara- ção, observe como determinados institutos federais oferecem um ensino mé- dio técnico diferenciado de acordo com a região, de modo que cursos como Educação do Campo e Meio Ambiente serão mais encontrados em regiões interioranas do que nas grandes capitais litorâneas. Já nessas capitais, os ins- titutos tendem a oferecer cursos de eletrotécnica e mecânica, por exemplo. O ensino de literatura em sala de aula segue essa premissa. Como aponta Coelho (2000), o ensino da literatura está associado ao da língua, de modo que ter contato com o texto literário objetiva possibilitar ao aluno o domínio das variedades do discurso verbal, a fim de que ele possa ser um sujeito pleno. Isso ocorre pelo fato desse indivíduo ter acesso, por meio do discurso literário, ao arcabouço sociocultural do meio em que vive. Recorde seu aprendizado sobre os ciclos econômicos no Brasil. O que aconteceu com São Paulo após os ciclos do algodão e do café? Neste caso, você pode ler Cidades mortas (2009), de Monteiro Lobato, e compreender melhor o que ocorreu com várias cidades do Vale do Paraíba que dependiam de determinados produtos influenciados por ciclos econômicos. Ou pode ler Caçadas de Pedrinho (2003), do mesmo autor, para compreender que um país não é feito apenas de ciclos econômicos, mas de hábitos e costumes de um povo, os quais perduram através dos tempos. LITERATURA INFANTIL 16 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 16 16/10/20 17:40 É por meio do texto literário, e desse confronto entre o fatual e o factual, que o leitor pode refletir entre o real e o imaginado, desenvolvendo suas leituras do mundo. Nesse ponto, torna-se necessária uma literatura que atenda aos aceitos de determinada parcela da população. Aqui, pode-se pensar “mas eu escutei histórias do meu pai” ou “minha avó contava histórias da carochinha pra mim quando criança”. Isso poderia significar que há uma literatura infantil anterior à sua variedade escrita e, pode-se dizer, antes de se conceber a noção de infância. No que a literatura infantil, da maneira que a concebemos atualmente, é diferente das histórias tradicionais? Essa é uma questão em discussão até os dias de hoje. Contudo, é necessário chamar a atenção para um ponto: o impulso para ler, observar e compreender o espaço em que vive e os seres e coisas com que convive é condição básica do ser humano. Desde que a inteligência hu- mana teve condições para organizar, em conjunto coerente, as formas e si- tuações enfrentadas pelos homens em seu dia a dia, estes foram impelidos a registrar, em algo durável, aquelas experiências marcantes. Estudando a história das culturas, observamos como a literatura foi um veículo essencial, seja de maneira oral ou escrita, para as principais formas pela qual essa herança foi transmitida. Desta maneira, a tradição transmiti- da e retransmitida é um poderoso elemento para a mudança da sociedade. É nesse sentido que vemos na literatura infantil o agente ideal para a forma- ção de uma mentalidade crítica. Essa afirmação faz parecer que, por literatura infantil, queremos dizer “literatura didática”. De certa forma, não é algo de todo equivocado. Porém, conforme atesta O estatuto da literatura infantil (2003), deve-se pensar na dupla função desse tipo de discurso literário, principalmente por seu viés pedagógico: tanto transmite normas morais quanto possibilita a compreen- são do real, das experiências existentes por meio da contação de histórias. É por isso que o chamado livro para crianças não tem forma fixa, podendo abordar até mesmo temáticas adultas como a perda, a morte e o sofrimento. O livro infantil não envolve apenas a história sendo contada, mas também sua forma e seu elemento estético. É por isso que pode ser considerado como uma forma de manifestação artística que possibili- LITERATURA INFANTIL 17 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 17 16/10/20 17:40 ta a produção de um espaço carregado de textualidades plurissignificativas para o leitor, colaborando com sua forma de interagir com o mundo. Todavia, há um contraponto entre o fazer literário pelo viés da estética para a criança. É por isso que, para dar continuidade à discussão, é impor- tante observar que em Seis passeios pelo bosque da ficção (1994), Umberto Eco aborda o conceito de autor-modelo e como este, em seu processo de construção ficcional, cria um leitor-modelo, presumível. Em suma, todo tex- to possui seu leitor, seu público-alvo. Dentre as questões culturais, estéticas e morais, permanece uma pergunta: quem é o autor-modelo da literatura infantil, e qual é o leitor-modelo que ele busca conceber diante do seu pro- cesso de criação ficcional? Antes de dar prosseguimento ao conteúdo, cabe evidenciar como esse assunto abre cada vez mais espaço para outras perguntas. Pensar na função da literatura infantil envolve isso: quem é o leitor, qual seu contexto, como se dá a divulgação de determinado conteúdo. Uma série de pesquisadores se debruçou nisso, visto que não se trata somente de falar sobre uma lite- ratura voltada para crianças, mas sim abordar conceitos mais essenciais, como o que seria de fato a criança, por exemplo. Pode parecer estranho, mas na Grécia antiga as crianças eram alfabetiza- das por meio da Ilíada, obra de Homero que discorre sobre a guerra de Troia. Contudo, tratava-sede uma parte muito restrita da população. Por meio des- sa obra, esses indivíduos também aprendiam os princípios da cultura grega, seus elementos e suas marcas culturais. Claro, toda essa prática só foi possí- vel por causa de uma habilidade fundamental do ser humano: a leitura. O ato de ler é uma conquista do processo evolutivo da humanidade, pois é a fonte de toda a memória de um povo, como cultura, ideias e todas as outras coisas elaboradas e conservadas pelo homem. Assim, a palavra é caminho fundamental para evolução de um povo. Em face da realidade em constante transformação, torna-se cada vez mais urgente uma reflexão sobre a educação e o ensino, uma vez que é nessa área que os novos princípios ordenadores da sociedade serão definidos. É uma discussão profícua que atinge, principalmente, o âmbito da língua e da lite- ratura. Embora pareça pouco provável que a palavra seja a responsável pela evolução de um povo, devemos nos lembrar de que, segundo Coelho: LITERATURA INFANTIL 18 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 18 16/10/20 17:40 O verdadeiro impulso evolutivo de um grupo sociocultural ocorre ao nível da mente, ao nível da percepção de mundo que cada indivíduo vai apreendendo desde os primeiros anos como membro de uma comunidade. Muitos, porém, tardaram a des- cobrir – ou ainda não o fizeram – que o caminho fundamental para se atingir este nível é a Palavra. Ou melhor, é a Literatura, - imagem abreviada de algo mais amplo, a vida real, que passa a ser demudada em arte (2010, p. 14). A literatura, e em especial a in- fantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em trans- formação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto, estimulado pela escola. É ao livro, à palavra escrita, que atri- buímos a maior responsabilidade na formação da percepção de mundo das crianças e jovens. Leitura presume escrita, registro. Transmissão de saberes. A partir do mo- mento em que passa a dominar o código escrito, o indivíduo pode executar habilidades que antes, quando as possuía, eram limitadas, como a reflexão, mãe da filosofia. Ao escrever, pode-se registrar ideias e depois consultá-las, aumentando a quantidade de informação para além das limitações da mente. Vale destacar que o ato de ler envolve um processo de adaptação e in- serção em um campo diferente para as crianças, que é o dos significados e signos que a palavra pode transmitir. Sobre esse processo de apropriação dos códigos e signos de leitura, Yunes e Pondé afirmam que: Para a criança, o processo psíquico de identificação (a interação de subjetividade que nos lança para dentro dos livros) é ain- da mais forte; daí a necessidade de o escritor ter consciência plena do seu mistério. Os papéis propostos pelos personagens são vividos pela imaginação infantil com a força de um drama real. Por esta via, texto e leitor se fundem - o que acentua a LITERATURA INFANTIL 19 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 19 16/10/20 17:41 possibilidade de impressão, sobre a consciência do leitor, dos modelos de comportamento e dos conflitos vividos (ideologia) no universo. A leitura, para a criança, bem mais que um meio de evasão ou de socialização, é um meio de representação do real. Desse modo, o texto ajuda-a a reelaborar o real, sob a forma do jogo e da ficção (1996, p. 41). Ou seja, ao ler, crianças e adolescentes estão se apropriando dos códigos da leitura e codificando as mensagens presentes – de maneira explícita e implícita – nos textos literários infantis de modo a reelaborar o seu mundo real. Logo, o texto infantil passa a ser um instrumento importante para pro- porcionar à criança e/ou adolescente a descoberta do mundo real a partir do mundo lúdico. O ato de ler não corresponde somente ao entendimento de um tex- to (escrito ou não). Assim, a leitura necessita que o leitor mobilize o seu universo para atualizar o universo do texto e, assim, fazer sentido. Eliana Yunes (1989) afirma ainda que aprender a ler é se familiarizar com textos de diferentes esferas sociais a fim de desenvolver uma atitude crítica, perceber as diferentes vozes dos textos e, desse modo, ser capaz de se apropriar de cada ideia ou palavra apresentada. A palavra lúdico está muito presente nos dias de hoje: trabalho, compro- missos, aprendizagem e mesmo na EaD, quando tratamos do princípio de gamificação da aprendizagem. Há um sentido para isso, posto que muito do que aprendemos, na medida em que somos uma espécie de animais sociais, o fazemos por meio de jogos e brincadeiras. Das partidas de futebol, nas quais os times precisam dividir os papéis, até os jogos de videogame, que propiciam uma diversão maior quando reúnem duas ou mais pessoas, internalizamos melhor determinados saberes quando os associamos a atividades lúdicas. Não é estranho imaginar, dessa maneira, a literatura infantil como um espaço de terapia e recreação (CARVALHO, 1989), pois é um ambiente que, por meio de sua estrutura comunicativa, transmite a cultura de um grupo sociocultural, além de propiciar uma interação entre o discurso do adulto e o da criança em uma troca intersemiótica. Se faça a seguinte pergunta: é possível ensinar Filosofia para uma crian- ça, discorrendo sobre Sócrates, Aristóteles e Platão? Jostein Gaarder, escri- LITERATURA INFANTIL 20 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 20 16/10/20 17:41 tor norueguês, procurou de maneira divertida realizar essa tarefa por meio do livro O mundo de Sofia (2007). Curiosamente, a maneira lúdica e didática por meio da qual ele escreveu um romance sobre a história da Filosofia faz com que o livro seja lido por pessoas de todas as idades. Ocorreu, nesse caso, uma negociação intersemiótica, na qual um escri- tor – e professor de filosofia – remodelou seu discurso para transmitir seus saberes para um outro tipo de leitor, uma criança. Ou seja, uma linguagem direcionada para a criança, mas construída a partir das concepções de mun- do de um adulto, com suas morais e condutas adquiridas ao longo da vida. Dessa maneira, a literatura infantil atua tanto como objeto de diversão como ferramenta que contribui para o processo formativo, o desenvolvi- mento da cognição e o amadurecimento crítico da criança e do adolescente. Nesse sentido, as estudiosas literárias Lajolo e Zilberman (1985) refletem sobre a literatura infantil como uma ferramenta de construção sociocultu- ral do sujeito. Essa literatura atua em uma sociedade constantemente em evolução com o papel de agente intermediário na concepção de mundo real, por meio de questionamentos sobre valores morais, sociais e culturais que estão presentes na sociedade. Assim, a literatura infantil, nessa medida, “é levada a praticar seu engano formativo, o qual não se confunde com uma incumbência pedagógica. Com efeito, ela dá conta de uma atividade a que está voltada toda a cultura – a de conhecimento do mundo e do ser” (p. 25). É por isso que há toda uma tradição de pesquisadores que considera útil e pedagógico o desenvolvimento de metodologias a partir do uso da literatura infantil visando a formação do indivíduo, uma vez que propicia o contato com questões sociais, levando-o a interagir com a função social do texto literário. Os livros infantis são pontes que ligam o mundo imaginário ao real de maneira a proporcionar novas descobertas ao sujeito quanto ao mundo que o rodeia, bem como inseri-lo na magia e fantasia sem se desconec- tar do real. Assim, as histórias infantis são mecanismos para crianças e jovens abrirem as janelas da curiosidade, de forma a descobrirem o novo com prazer e entusias- mo, visto que a literatura possui essa artimanha de proporcionar descobertas reais por meio do lúdico. LITERATURA INFANTIL 21 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 21 16/10/20 17:41 Figura 2. Criança lendo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 03/09/2020. Desse modo, a leitura é considerada, háséculos, o mais importante meio de passatempo, divertimento e, principalmente, fonte de informação e co- nhecimento. Isso porque é por meio dela que o sujeito se constrói e se de- senvolve social e culturalmente, a partir do momento em que compreende o universo que está entreposto. Assim, segundo Zilberman e Magalhães: uma leitura lúdica e desconjuntada de finalidades pedagógicas pode ser um importante mecanismo para os alunos aprende- rem a gostar de ler e interpretar os diferentes discursos lite- rários. O texto literário pode ser uma atividade lúdica quando dirigida à ficção e à poesia (1982, p. 57). Percebe-se que a leitura literária pode trazer conceitos da vida real da criança por representar em suas histórias infantis aspectos do cotidiano, bem como o conhecimento prévio de mundo da criança, proporcionando a ela descobrir sentidos e contextos que fazem parte da formação de si e do universo. Vale destacar que a base teórico-bibliográfica sobre literatura infantil é vasta, com vários teóricos que discutem essa literatura em diferentes vertentes, como no campo pedagógico e/ou da arte. Essas duas vertentes são válidas na discussão literária, uma vez que a literatura como arte está relacionada ao papel que assume, configurando-se como lúdica, interati- LITERATURA INFANTIL 22 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 22 16/10/20 17:42 va, ilustrativa e de receptividade com o público infantil. Ademais, pode ser pedagógica no sentido de contribuir com a formação do sujeito, mas é importante ressaltar que o livro literário infan- til vai muito além dos conceitos pedagógicos. A origem da literatura infantil Até o presente momento, muito foi dito sobre a função da literatura infantil, sua relação com as práticas cotidianas e escolares e como essa produção textual é alvo de análise estética e pedagógica. Entretanto, você já deve ter ouvido falar da expressão “forma-função”, na qual a função de determinada coisa delimita sua forma. E, por formação, também que- remos dizer a origem de determinada coisa, o porquê de ela ter certas características. É por isso que precisamos, aqui, abordar o processo formativo da lite- ratura infantil, desde suas primeiras manifestações até o surgimento da- quelas que serão responsáveis pela atribuição do termo “literatura infan- til”. Queremos, com isso, tentar responder a uma grande questão: contos de fadas sempre foram considerados literatura infantil? Todo conceito agrega um significado, devendo ser utilizado em um con- texto específico. É por isso que é possível afirmar que o termo “literatura infantil” é recente, e o que pode ser evocado por essa nomenclatura, nas delimitações estabelecidas, remete ao século XVII. Este era um tipo de li- teratura que tinha forma mais estética e/ou educacional, em virtude de a criança dessa época ser considerada como um ser pequeno, sem suas próprias concepções de mundo, e seu período infantil configurava-se so- mente como uma fase que o indivíduo deveria percorrer até chegar a fase produtiva de adulto. Em suma, nesse período a literatura infantil ainda não era uma litera- tura tão específica, visto que não havia distinção de faixa etária ou desen- volvimento cognitivo para se abordar o discurso literário. Observe o que foi dito anteriormente sobre a resposta social cobrada das instituições de ensino: segundo Lajolo e Zilberman (2007), o mesmo se esperava da literatura associada a determinado estrato social. LITERATURA INFANTIL 23 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 23 16/10/20 17:42 ASSISTA A relação entre escola e literatura é tão antiga quanto é produtiva. Com a centralização dos processos edu- cacionais por meio de diferentes órgãos que ditam as ementas, gradativamente surgem projetos de leitura que interligam escola e literatura infantil. Recomendamos o excelente documentário Ler para sonhar – O mundo da literatura infantil, produzido pela TV Justiça. Nele, nos deparamos com os usos e opiniões desse gênero literário, em sala de aula, por aqueles que desenvolvem projetos de leitura: os professores. Como revela Samuel (2002), Aristóteles já apontava as funções cogni- tivas, estéticas e catárticas da literatura. Posteriormente, foi engendrada a função político-social, que seria a forma de conceber a sociedade e rea- lizar críticas à mesma. E, bem mais adiante, a função lúdica, voltada para o entretenimento. No entanto, todas elas estão intrinsecamente ligadas a um elemento que será desenvolvido com o passar dos séculos: o conceito de público. Embora seja possível apontar a função político-social desde textos como Édipo Rei, muito de sua reflexão atual tem origem em uma produção literária que começa a surgir como resultado de um movimento estético- -filosófico conhecido como Renascimento. Entre os séculos XIV e o século XVI, surge um movimento que representou o rompimento com os valores religiosos e filosóficos predominantes no período da Idade Média, e conse- quentemente consolidou a imagem do homem como o universo da ciência, antes imperceptível nas ciências anteriores. Assim, com a valorização do pensamento cientifico e racional alicerçada à cultura europeia, os modelos de comportamento humano e de conhecimento se transformam. A isso se somou a Revolução Francesa, iniciada no século XVIII, que também contribuiu com a formação de um novo conceito de indivíduo, além de visar a produtividade e o lucro para a sociedade. Assim, o pensamento renascentista-industrial influenciou toda uma forma de conceber o mundo: se antes estudar era reservado aos abastados, agora se torna uma necessidade para alcançar um mundo melhor. É preciso capacitar toda uma população para que a sociedade transcenda suas dificuldades. LITERATURA INFANTIL 24 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 24 16/10/20 17:42 Desse modo, com a Revolução Industrial foi necessário criar mão de obra especializada e qualificada para desenvolver diversos tipos de ser- viços no meio industrial, e com isso a escola se adequou a esse papel de qualificar o sujeito, proporcionando ensinamentos voltados ao ato de ler, escrever e de contar. Portanto, o ensino germanizado das escolas em vir- tude da Revolução Francesa, que foi um movimento político-social, pro- porcionou o caminho para a modernidade, bem como o acesso aos meios de produção. Esse foi um dos contextos que mais influenciaram o desen- volvimento da literatura infantil. Lajolo e Zilberman (2007) apontam isso ao evidenciar como a Revolu- ção Industrial instigou o surgimento do que viríamos a chamar de uma literatura voltada para crianças. A partir dela, decorreram transformações significativas no alicerce social, em todas as seções. Por meio da industria- lização, a sociedade homeopaticamente experienciou a modernização, e este foi um reflexo da necessidade de se adaptar aos modelos modernos emergentes no campo da educação. Isso gerou maior atenção ao merca- do de livros, desenvolvendo conceitos como layout e aperfeiçoamento do material como um todo. Observe como o aumento da população letrada também possibilita o surgimento de tipos de leitores e, ainda mais, de segmentos. É provável que, um dia, seus pais tenham lhe dito para “estudar se quiser ser alguém na vida”. Contudo, “estudar”, prática dos religiosos e da elite letrada, passa a ser um objeto de desejo, um anseio da população como um todo. Se an- tes muito do capital simbólico dessa elite envolvia o domínio dos recursos e de uma formação clássica, agora essa formação passa a ser vista como mecanismo de ascensão social. O sucesso da Revolução Industrial será um dos motores da Revolução Francesa. Devido ao comprometimento com as ideias racionais e a valori- zação do pragmatismo, segundo Carvalho (1989), há uma espécie de ojeriza com a abordagem da fantasia na literatura produzida nessa época, visto que contrapunha o mo- delo da revolução científica. Nesse momento, a questão da criança não é abordada pois ela nãoexistia, à época, enquanto um LITERATURA INFANTIL 25 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 25 16/10/20 17:42 conceito. Se Piaget discorre sobre a questão da aprendizagem da criança em meados do século XX, pode-se dizer que ele é um herdeiro direto de Jean Jacques Rousseau, que publicou Emílio, ou da educação (1762), obra que permitiu que a literatura infantil trilhasse novos caminhos e se envol- vesse com a ética e questões pedagógicas (CARVALHO, 1989). Esse livro mudou a concepção que se tinha à época por abordar a criança como um ser para além de um adulto em formação, com suas capacidades crítica, criativa e cognitiva em processo e formação. Foi necessário analisar um determinado período – transitando por épo- cas anteriores e posteriores ao Renascimento – para delimitar uma deter- minada produção literária. É necessário entender o pensamento do es- critor e o contexto de sua formação para abordar uma produção literária concebida ao longo das épocas. Isso porque os primórdios do que se convencionou chamar de literatu- ra infantil ocorre pelo resgate de histórias anteriores que remetem a tex- tos gregos e romanos (pode-se dizer que isso é um efeito do Renascimen- to), influenciando a literatura europeia e, posteriormente, com reflexos no Brasil, até o período posterior ao Modernismo. Tal fato ocorreu com a produção de Monteiro Lobato, um marco na história da literatura infantil brasileira. Pode-se, com isso, apontar que o surgimento da literatura infantil ocor- reu no século XVII, na Europa, embora existam alguns teóricos que apon- tam que essa literatura surgiu primeiramente na Índia, Egito ou Oriente (COELHO, 2010). Essa produção literária, conhecida como clássica, pode ser rastreada até seus ancestrais, como a novelística popular medieval, que por sua vez tem suas raízes mais remotas em certas fontes orientais (Índia) ou, mais precisamente, indo-europeias. Muito da literatura infantil recebeu essa influência das fábulas greco- -latinas, que continham narrativas de personagens antropomorfizados com o intuito de transmitir ao leitor mirim a imagem do ser humano com suas verdadeiras características, ou seja, suas virtudes e defeitos, bem como apresentando uma narrativa de vertente moralizadora. Há uma sé- rie de textos que são reflexo de sua época e se alimentam desse material fabulesco, conforme afirma Coelho: LITERATURA INFANTIL 26 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 26 16/10/20 17:42 como exemplo dessas influências, podemos citar: As fábulas (1668), de La Fontaine; os Contos da mãe gansa (1691-1697), de Charles Perrault; Os contos de fadas (8 vols., 1696-1699), de Mme. D’Aulnoy; e Telêmaco (1699), de Fénelon. Esses foram os livros pio- neiros do mundo literário infantil, à sua época (2010, p. 75). Muitos desses textos produzidos mantinham uma forte intertextuali- dade com as pontes greco-latinas, a exemplo das Fábulas de Esopo. Isso permitiu o surgimento de textos que, por meio de suas fábulas populares, proporcionaram uma ampliação da literatura, porém mantendo o caráter moralizador. Jean La Fontaine (1621-1695) foi um escritor do período do classicismo francês que, com um pensamento intelectual rebelde para sua época, contribuiu para a Revolução Francesa após um século de sua mor- te. Curiosamente, esses textos eram apreciados nas cortes e nos saraus literários promovidos pela elite francesa, de modo que termos como “es- critor de textos infantis” é um título posterior. EXPLICANDO La Fontaine foi um poeta e fabulista francês, autor de diversas fábulas conhecidas. Iniciou sua carreira de escritor em 1650, escrevendo peças de teatro e tentando em seguida a poesia. Inspirado em Marot, Malherbe e Ovídio, publicou madrigais, baladas e epístolas em que mistura poesia e prosa. Influenciado por Boccaccio e Ariosto, escreveu Contes et nouvelles en vers (1664), obra que, por seu imoralismo, não foi bem aceita. Entretanto, apesar da variedade dessas formas ou gêneros “nobres”, La Fontaine se imortalizou com uma forma literária popular então considerada “menor”: a fábula. Esses primeiros textos foram escritos entre os séculos XVII e XVIII, período em que não havia a concepção de infância. Ocorre que o conceito de infância viria a surgir, nessa época, como consequência da Revolução Francesa e, na onda dos valores burgueses que passariam a estar em voga, o conceito de fa- mília nuclear, mais limitado e restrito (ZILBERMAN, 2003). Ao valorizar núcleos menores, valoriza-se também o tempo de formação, as fases da vida e a ligação entre os membros. Isso é reflexo de uma mudança de paradigmas: enquanto em Romeu e Julieta, de Shakespeare, há um conflito entre grupos familiares ri- vais, em Senhora, de José de Alencar, temos uma discussão sobre validade do amor diante do casamento por conveniência. LITERATURA INFANTIL 27 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 27 16/10/20 17:42 Segundo Zilberman, a valorização da família trouxe uma nova concepção de infância, o que proporcionou a educação para os pequenos: A nova valorização da infância gerou maior união familiar, mas igualmente os meios de controle do desenvolvimento intelectual da criança e a manipulação de suas emoções. Literatura infantil e escola, inventada a primeira e reformada a segunda, são convoca- das para cumprir essa missão (2003, p. 15). Um escritor importantíssimo desse período foi Charles Perrault (1628- 1703). Sua escrita aproximou o público infantil – incluindo, também, o con- ceito de “leitor-criança” – das obras literárias, ao apresentar textos que mes- clavam elementos da cultura popular à época. Sua obra mais conhecida, Contos da mãe gansa, teve ampla divulgação entre o público infantil. Assim como La Fontaine, Perrault não entra para a história literária como poeta clássico, mas sim criador de uma literatura popular pouco apreciada pelo gosto estético de sua época, porém que ao mesmo tempo o perpetua entre os grandes escritores da literatura infantil. O século XIX, fruto cultural das revoluções burguesas, trouxe uma nova for- ma de entender o mundo, o que gerou reflexos na literatura. Conceitos imate- riais, como o sonhar, o imaginar, a religião, a crença, a esperança, o gênio criati- vo, a liberdade estética e o apreço pelos elementos da cultura local (a chamada cor local) trouxeram novos elementos para o discurso literário daquela época. É aqui que irá surgir muito daquilo que chamamos de “tradição”: com o surgi- mento e amadurecimento dos modernos estados nacionais, há a busca pelos valores originais de determinado povo, o que agregará valores considerados legítimos da terra (COELHO, 2010). Assim, no campo dos estudos literários, é durante o período do Romantismo que se pode evidenciar a produção dos irmãos Grimm, a qual mescla caracterís- ticas românticas e folclóricas, recolhendo lendas e contos orais, registrando-os e transmitindo-os para a população em geral. Esse material, de teor folclórico, foi recolhido entre os anos de 1812 e 1822, dando origem à obra Contos de fadas para crianças e adultos (Kinder- und Hausmärchen). Foi uma verdadeira recolha etnográfica com elementos culturais alemães, além de outras lendas que faziam parte da cultura europeia, mas que foram assimiladas pelos alemães. LITERATURA INFANTIL 28 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 28 16/10/20 17:42 Mas, como trata-se de uma litera- tura que aponta a emergência dos no- vos valores burgueses, essa literatura trará questões inéditas para o texto literário, como o sentimentalismo e o individualismo. Uma vez que a litera- tura gradativamente passa a se par- ticionar, representar um novo tipo de indivíduo e suas frações, esses valores também são redistribuídos. Há, por exemplo, narrativas que promovem uma relação entre os conflitos do cotidiano e o embate com a natureza. Exemplo disso é como muitas obras direcionadas atualmente para crianças, mas que não o eram especificamente em suas épocas, agregam o arromânti- co da superação e da aventura, como em Aventuras de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe; Vinte mil léguas submarinas (1870), de Júlio Verne e Pinóquio (1883), de Carlo Collodi. Outras, como Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift, abordam a crítica social do século XVIII; a obra Novos contos de fadas (1856), da Condessa de Ségur, traz uma visão mais realista – e menos crua, como nos contos dos irmãos Grimm – dessas narrativas, e Coração (1886), de Edmondo De Amicis representa o princípio do romance moderno no século XIX, com a tentativa de fomentar a identidade nacional italiana. Muitos desses escritores buscavam, por meio dos seus textos, criar, ou me- lhor, expor, a identidade cultural de seus povos, de maneira que o Estado Nacio- nal pudesse ter a legitimidade de ser a continuidade de uma nação/povo/cultura. Essa iminência do homem europeu sobre as forças da natureza começa a ser revista no século XX, com vertentes que promovem um diálogo cultural mais equidado com outras culturas. A literatura infantil de aventura reinventa- -se e, ao negociar espaços, produz novas obras. É o surgimento de uma nova safra de narrativas associadas ao chamado realismo maravilhoso, no qual há histórias que decorrem no mundo real “que nos é familiar ou bem conhecido, e no qual irrompe, de repente, algo de mágico ou de maravilhoso (ou de absurdo) e passam a acontecer coisas que alteram por completo as leis ou regras vigen- tes no mundo normal” (COELHO, 2010, p. 170). LITERATURA INFANTIL 29 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 29 16/10/20 17:43 Lembre-se: muitas das narrativas clássicas infantis, de cunho sobrenatural ou não, apresentavam ou um mundo que possuía características insólitas, a exemplo de narrativas como Branca de Neve, na qual a magia já faz parte do sta- tus quo; ou levavam o indivíduo para um lugar além do costumeiro, como em As viagens de Gulliver. Nessa nova leva de textos que exploram percepções do real, em que aquilo que chamamos de comum apresenta caracteres incomuns, teremos obras como Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, na qual há a valorização de um mundo mágico que é ao mesmo templo um refl exo de nossa realidade. De maneira surpreendente, o maravilhoso se confunde com o racio- nal, ou seja: a narrativa traz aspectos do fantástico fazendo críticas à realidade de sua época. Essa mescla entre real e sobrenatural será uma das vertentes da literatura infantil mais exploradas no século XX, infl uenciando uma geração de escritores até os dias de hoje. Carroll, em suas obras, abordou as opções dessa fusão de mundos, agregando ao texto infantil elementos do absurdo, da falta de sen- tido, da graça e do lúdico. É curioso imaginar que, em pleno século XIX, havia escritores que produziam discursos literários na contramão das narrativas ro- mânticas nacionalistas, de modo a, inclusive, resgatar o elemento sombrio e cru de muitos contos de fadas. É por isso que obras como Pinóquio, de Collodi, e Peter Pan, de Barrie, incluem-se nessa tendência, promovendo uma crítica ao próprio modelo vigente da literatura infantil (COELHO, 2010). Contos de fadas: dos primórdios aos dias de hoje Vivemos em uma época na qual o mercado se especializou em escri- tores por nicho. Peças de teatro Infantil, novelas infantis, filmes infantis, músicas infantis, romances infantis: a descoberta e desenvolvimento do conceito de “criança” impulsionou a sociedade para novos caminhos. E essa origem está nos contos de fadas, os quais, originariamente, tinham um caráter oral. É relativamente comum ouvirmos que determinada história tem uma versão diferente, na qual as coisas acontecem de outra forma. Isso ocorre porque, na origem, esses contos possuíam variações. Há contos que eram transmitidos de maneira diferente de acordo com a região, acrescentando LITERATURA INFANTIL 30 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 30 16/10/20 17:43 um detalhe ou outro – como aquelas versões de Chapeuzinho Vermelho que você provavelmente já ouviu, mas desacreditou. São contos muito antigos, associados ao folclore de um povo e, por isso, ancestrais. Ocorre que, à medida que passam a ser registrados na modalidade escrita, determina- das versões começam a ser cristalizadas. CURIOSIDADE Você já assistiu ao filme Malévola, da Disney? No final, o narrador da his- tória diz “e foi assim que aconteceu embora, talvez, com o tempo, mudem um detalhe ou outro”. O texto brinca com esse conceito, pois apresenta a história da Bela Adormecida sob o ponto de vista da Malévola. Trata-se de um filme revisionista, na medida em que mostra o passado com base em valores contemporâneos. Porém, também mostra como certas versões dos contos de fadas passaram a ser mais aceitas do que outras e, consequen- temente, se perpetuaram. Com base nisso, é possível afirmar que a publicação de Contos da mãe gansa, de Perrault, proporcionará o surgimento da produção literária in- fantil nos moldes como a conhecemos e concebemos até os dias de hoje. Muitas dessas histórias chegaram ao conhecimento do escritor por parte de sua mãe e nos salões de paris, o que já aponta como ele estava tendo acesso a versões de outros textos. Originalmente, esses textos tinham raízes em narrativas célticas, bre- tãs e indianas, as quais, gradativamente, foram se mesclando com outras fontes e sofrendo adaptações e, em alguns casos, perdendo seu sentido original (COELHO, 2012). Assim, posteriormente o escritor lançará outras obras igualmente importantes, como A bela adormecida no bosque, Chapeu- zinho vermelho, O barba azul, O gato de botas, As fadas, A gata borralheira, Henrique do topete e O pequeno polegar. Com isso, podem-se apontar dois acontecimentos fundamentais cau- sados pela produção literária de Perrault: pela primeira vez na história ocorre um surto na produção de literatura infantil, a ponto de, à posteriori, outros escritores também receberem esse título: o de escritores de litera- tura infantil, como La Fontaine; o outro foi a ascendência do gênero conto de fadas como o preferido por outros escritores para a produção de uma literatura direcionada para crianças. Soa estranho falar em “surto”, mas LITERATURA INFANTIL 31 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 31 16/10/20 17:43 lembre-se que a prensa móvel foi criada por Gutenberg no século XV, o que propiciou uma liberação da inteligência criativa dos indivíduos. Portanto, percebe-se que Perrault trouxe para a literatura infantil o mundo de sonho e magia, o que caracterizou, em sua época, o enfraque- cimento do racionalismo clássico, que valorizava a razão. Com o enalteci- mento do imaginário, do impossível, do sonho, essa literatura se fortale- ceu e se tornou um gênero literário “oficial”. Essa produção literária passará por um novo momento no século XIX devido ao advento do Romantismo e a busca pela cultura local. Aqui, as narrativas folclóricas voltaram a ser presença marcante no campo da lite- ratura infantil no momento em que o Romantismo e Realismo disputavam o mesmo espaço, trazendo a valorização da reconstrução do mundo ima- ginário e maravilhoso. Desse modo, a literatura se alicerça com novo estilo e técnica. Esse período foi denominado o século do ouro da literatura in- fantil, visto que esta passou a atingir todos os tipos de classe social, tendo contato com os mais importantes entretenimentos literários. No começo do século XIX, a literatura infantil ganhou novos rumos e alcançou uma expansão significativa com textos literários de sucesso gra- ças aos irmãos Grimm. Ambos eram linguistas que realizavam pesquisas sobre o folclore alemão, e um de seus objetivos era conceber o estudo do que viria a ser a língua alemã. Um de seus resultados foi o recolhimento de contos orais que posteriormente, em 1812, no espírito do Romantismo, foram lançados em uma coleção de contos de fadas. É a partir desse mo- mento que o termo “contos de fadas” passa a significar “literaturainfantil”. Pode-se dizer que, a partir disso, o gênero começou a se consolidar, uma vez que já delimitava um leitor-modelo estabelecido: o público in- fantil. Isso também influenciou suas principais característi- cas, como a preferência por histórias que emanam fantasia e magia. É esse modelo que será seguido poste- riormente por escritores como Hans Christian Andersen, em Contos (1833), Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas (1863), Collodi, em Pinóquio (1883) e James Barrie, em Peter Pan (1911) (LAJOLO; ZILBERMAN, 2007). LITERATURA INFANTIL 32 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 32 16/10/20 17:43 Foi com as obras dos irmãos Grimm que a literatura infantil chegou ao leitor mirim, com suas narrativas baseadas no folclore e nas tradições populares, revelando um mundo de fantasia para todas as crianças de vá- rios lugares do mundo. Consequentemente, suas obras se tornaram uma literatura universal. É possível apontar, dentre as obras dos irmãos, contos como Branca de neve e os sete anões, Cinderela, A gata borralheira, A touca mágica, O pequeno polegar, O pássaro de ouro, entre outros. Figura 3. A popularização dos contos de fadas. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/09/2020. Talvez tenha gerado estranhamento A gata borralheira ter sido referencia- da como um texto dos irmãos Grimm e, anteriormente, de Perrault. Lem- bre-se do que foi dito: são contos presentes na tradição oral, no folclore dos povos. Ocorre que muitos foram suavizados nos salões parisienses, mas mantiveram seu caráter mais cru nas versões alemãs. E, com o adven- to do mercado editorial infantil, até mesmo as versões dos irmãos Grimm atingem o público mirim com suas devidas adaptações. No século XIX, com o aumento dos jornais, surge o romance de folhe- tim: obra literária publicada em capítulos até atingir sua conclusão. Muitos clássicos que conhecemos hoje foram lançados assim e, posteriormente, em formato de livro. O mesmo ocorre com obras que hoje possuem o for- mato de novelas e romances, mas originalmente eram publicados em jor- LITERATURA INFANTIL 33 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 33 16/10/20 17:43 nais como uma sequência de contos interligados. Cada história em si era independente, mas o escritor precisava finalizar aquele trecho de forma que o leitor desejaria ler a continuação na semana seguinte. Foi assim que surgiram clássicos como Pinóquio, do italiano Carlo Col- lodi, considerado um livro literário universal por trazer uma obra ficcional de cunho filosófico que retrata o sentimento existente entre pai e filho, de- monstrando o arrependimento de um filho alicerçado a questões morais e o antagonismo entre o bem o mal, entre outros aspectos que demarcam universalidade. A inovação estética e experimental promovida pelo autor de Pinóquio fez com que surgisse uma obra fundamentalmente desenvol- vida e polissêmica em todo o seu dualismo filosófico: “boneco de pau, filho humano; no seu pluralismo despretensioso de reações humanas; na rea- lização de uma verdadeira obra de ficção – Pinóquio é um tipo de literário universal” (CARVALHO, 1989, p. 112). Figura 4. Pinóquio, um arquétipo literário. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/07/2020. As proposições apresentadas em Pinóquio não são aleatórias: perceba que há um trajeto que considera o caráter pedagógico do texto literário, culminan- do em uma produção literária pós-Revolução Francesa que precisa dar conta de uma crescente população letrada. Porém, uma população letrada que não tem tradição literária não está plenamente habituada à leitura dos clássicos. E, uma vez que há direcionamento para uma parte da população, é por meio LITERATURA INFANTIL 34 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 34 16/10/20 17:44 da narrativa curta que determinadas questões passam a ser abordadas, na brevidade de um jornal. Outro clássico infantil foi Alice no país das maravilhas (1865), de Lewis Carroll. Nessa obra-prima da literatura inglesa, o autor traz um mundo mágico por meio de uma aventura fantástica em um lugar no qual tudo acontece ao contrário do mundo real. Essa obra correu o mundo por meio de várias adaptações e demar- cou o mundo da fantasia, embora Carroll tivesse outra intenção: a de “ridiculari- zar o esnobismo, as arbitrariedades e os vícios de uma época” (CARVALHO, 1989, p. 113). Se debates literários ocorriam livremente em saraus, o autor trazia essas mesmas discussões para o texto infantil. Segundo Coelho, a importância da obra reside na seguinte constatação: Ao se divulgar como obra-prima da Literatura Infantil, Alice no país das maravilhas perdeu o estilo peculiar de Carroll: a verdadeira in- tencionalidade da criação realizada desapareceu completamente. O que ficou foi o sentido do mágico, do maravilhoso ou do absur- do que pode ser encontrado dentro do cotidiano comum e prosai- co; e que Carroll foi um dos que primeiro que o descobriram para o mundo de ontem e de hoje (2010, p. 173). Outra obra igualmente significativa – e um dos motivos desse período ser conhecido como século de ouro da literatura infantil – será a obra Peter Pan, de James M. Barrie, que ficou conhecido no mundo todo, encantando as crian- ças com suas aventuras na Terra do Nunca. Peter Pan, o menino que não que- ria crescer e que desejava viver apenas em aventuras, trouxe fantasia, magia e humor, tornando-se um sucesso imediato entre o público infantil. Essa obra tem como característica apresentar a existência de uma tradição já consolidada de escritores de literatura infantil. Barrie era leitor dos textos de vários escritores, como Charles Dickens. Embora tenha sido um escritor e dramaturgo profícuo, o que o consagrou mundialmente foi a criação de Peter Pan. Essa encantadora personagem do universo literário infantil aparece pela primeira vez no conto O pequeno pássaro branco (escrito em 1896 e publicado em 1902). Por influência do empresário de suas peças, esse conto é transfor- mado em peça teatral: Peter Pan, o menino que não queria crescer. O sucesso da personagem levou Barrie a escrever outros contos, Peter Pan nos jardins de Kessington, em 1907, e Peter Pan e Wendy, em 1911. LITERATURA INFANTIL 35 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 35 16/10/20 17:44 Figura 5. Peter Pan, ícone da liberdade na Londres vitoriana. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/07/2020. Essa tradição literária que trabalha e reinventa o gênero do conto de fadas perdura até os dias de hoje. Uma das mais belas obras literárias da literatura infantil, O Pequeno Príncipe, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, ca- racteriza-se como um livro-poema universal. Trata-se de uma obra-prima em todos os seus aspectos, permeada por um lirismo subjetivo e crítico. O texto possui uma abordagem de extraordinária beleza e delicadeza, além de estar carregado de um grau de originalidade sem igual na fi cção, cuja fantasia está explícita, gerando absoluta felicidade e sentimento crítico em cada página. Os contos de fadas, ora como histórias isoladas, ora como textos seriados, perduraram e, por sua estrutura mercadológica, continuam até os dias de hoje. Abordaremos, em outras unidades, como outros te- mas vão sendo explorados, e como esses textos tornam-se signi- fi cativos em suas épocas. A literatura infantil brasileira É a partir do Romantismo e da independência do Brasil que se torna uma questão a busca por uma literatura nacional e que representasse um estado recém-formado. É também nesse período que surge uma literatura infantil influenciada, por exemplo, pela literatura francesa de La Fontaine e Perrault, apresentados ao Brasil por intermédio de Portugal. Assim, a LITERATURA INFANTIL 36 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 36 16/10/20 17:44 literatura infantil no Brasil começou a se consolidar a partir do século XIX, conscientizando os leitores so- bre uma literatura específica para a criança. Carvalho (1989) atesta que Contos da Carochinha, de Alberto Figueiredo Pimentel,teria sido a primeira publi- cação do gênero. Entretanto, a autora também ressalta a relação com a esco- la ao afirmar em seus estudos sobre li- teratura infantil no Brasil, por meio de um traçado histórico, que foi a partir de 1820, mesmo ano de formação do Co- légio Caraça, que a literatura e a escola se tornaram restritas, ou seja: somente as classes social e economicamente dominantes tinham acesso à educação e às obras infantis consideradas clássicas. Segundo Cunha (1999, p. 20), “no Brasil, a produção literária para crian- ças se inicia com obras de teor pedagógico e, ainda por cima, são adap- tações de textos portugueses, o que demonstra a subserviência cultural colonial”. Vale destacar que, para a autora, a legítima literatura infantil brasileira foi iniciada efetivamente com o surgimento das obras de Mon- teiro Lobato, por ele ser um escritor que proporcionou a diversidade de te- mas, contextos e gênero literário, trazendo personagens que ultrapassam os estilos convencionais literários e criando, com isso, seu próprio estilo e universo ficcional. Nesse sentido, surge José Bento Monteiro Lobato na literatura infantil brasileira com suas obras Narizinho arrebitado, Sítio do Pica-pau Amarelo, Reinações de Narizinho e outras que revolucionaram o campo da literatura infantil no país, com textos que retratavam a realidade social e cultural e com personagens contemporâneos, como a boneca de pano, Emília. Em O Sítio do Pica-pau Amarelo, por exemplo, Lobato, por meio de uma série de histórias, trouxe aspectos da vida rural, como fazendas de café, com intuito de revelar as questões nacionais do País, bem como histórias com aspectos folclóricos, narradas por uma cozinheira negra, que repre- LITERATURA INFANTIL 37 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 37 16/10/20 17:45 sentavam os valores morais e culturais de um povo. E, logo em seguida, “adotando postura iconoclasta perante os valores culturais populares, Monteiro Lobato promove a cozinheira do sítio a narradora titular em His- tórias da Tia Nastácia” (LAJOLO; ZILBERMAN, 1985, p. 65). Figura 6. O Saci, elemento do folclore brasileiro resgatado na obra de Lobato. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/07/2020. Observe como Histórias da Tia Nastácia tem uma proximidade temática com a obra de Perrault, Contos da mãe gansa. Não é aleatório: uma geração de escritores lia, nos jornais brasileiros, os contos de Perrault, traduzidos por Machado de Assis. As histórias da Tia Nastácia seguiam o mesmo estilo de contação de histórias como causos populares e regionais, resgatando elementos do folclore e da cultura oral. Cabe então a discussão: literatura infantil no Brasil, ou do Brasil? Para Nely Novaes Coelho (2010), essa separação é feita por Monteiro Lobato. O autor promove uma ruptura com os estereótipos literários por meio da adaptação das narrativas europeias ao contexto brasileiro, e abre possibi- lidades para novas ideias que circulavam pelo ambiente. Assim, o mesmo Lobato realizou adaptações dos clássicos europeus, fa- zendo com que interagissem com a cultura brasileira. Personagens como Peter Pan, inclusive, visitavam o Sítio do Pica-pau Amarelo. Monteiro Lobato, ao realizar adaptações de obras clássicas, apresentava a intenção de levar às crianças o conhecimento da tradição, seja com seus heróis reais ou fictí- LITERATURA INFANTIL 38 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 38 16/10/20 17:45 cios, as conquistas da ciência, entre outros, e também questionar com elas as verdades concebidas. No entanto, Lobato propõe no campo literário infantil a ficção e a magia a partir do contexto da realidade nacional, lan- çando mão da representação da relação familiar, da vida no campo e do folclore afro-brasileiro. Portanto, vale ressaltar que na literatura infantil brasileira, além de Monteiro Lobato, vários outros autores dessa época se destacaram, a exemplo de “Coelho Neto e Olavo Bilac (Contos pátrios), Tales de Andrade (Saudade), Arnaldo de Oliveira Barreto (A festa das aves), entre outros” (LA- JOLO; ZILBERMAN, 2007, p. 27-28). Figura 7. Emília e Visconde de Sabugosa. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 04/07/2020. Assim, a partir de Lobato, sugiram novos escritores de narrativas infan- tis com perfil inovador, como ocorre com as revistas em quadrinhos, que trouxeram outra forma de leitura, bem como a televisão, que transformou as leituras dos livros infantis em seriados de entretenimento para crianças e jovens. Um exemplo é a inesquecível série infantil O sitio do pica-pau Amarelo, adaptada da obra de Monteiro Lobato e produzida pela Rede Glo- bo. Nely Novaes aponta que: em 1950, a revista em quadrinhos Pato Donald é introduzida no Brasil (a Ed. Abril SP cria o sistema de postos de venda para distri- buição em quase todo o território nacional). A partir daí ́ abre-se LITERATURA INFANTIL 39 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 39 16/10/20 17:46 o nosso mercado às Produções de Walt Disney. Registre-se tam- bém, no âmbito da literatura quadrinizada, a voga das revistas de terror (cuja popularidade se mantém até h́oje, não só em revistas, como em filmes, no cinema e na televisão) (2010, p. 275). Atualmente, a literatura infantil brasileira encontra-se alinhada aos no- vos tempos, mostrando-se preocupada com as questões sociais, culturais, políticas e especialmente com as diferenças sociais, uma vez que todo o tipo de diversidade (gêneros, etnias, raças) está inserida na sociedade bra- sileira, possibilitando ao indivíduo a busca para compreender o diferente. Assim, percebe-se que os escritores do nosso século apresentam, em suas narrativas, um contexto voltado a essas questões, de maneira a proporcio- nar à criança ou ao jovem a oportunidade de vivenciar histórias do mundo mágico que lhes aproximem da sua própria realidade. Nesse sentido, para Zilberman, a literatura infantil contemporânea bra- sileira apresenta-se no seu melhor tempo: A literatura brasileira experimenta um momento particularmen- te favorável: estatisticamente, cresceu o número de publicações originadas de autores nascidos no Brasil; diversificaram-se os gê- neros em que um escritor pode se manifestar, estendendo-se as opções dos modelos mais elevados da ficção e da poesia à pro- dução para a imprensa, para o cinema ou para o público jovem; profissionalizam-se os criadores de arte, adotando a prática de agentes literários, que medeiam as relações com editores, tradu- tores e divulgadores no campo cultural (2007, p. 183). Desse modo, observa-se que os literatos infantis estão se adequando à nova criança da atualidade, inserida na era da tecnologia digital, da internet e dos jo- gos interativos, de maneira a buscar meios de interagir e conquistar os pequenos leitores por meio das mídias sociais, como a hipermídia, que é a “encadeação eletrônica de palavras, sons e imagens, e o hipertexto – múltiplos textos em po- tencial, que só se completam pela ação do leitor” (NASCIMENTO, 2007, p. 8). O hipertexto possibilita ao leitor a liberdade de interação com o texto e incorpora vários elementos eletrônicos, com a diferença de que o foco parece estar em técnicas exclusivas, como por exemplo o site Glide, que apresenta uma exploração interativa da linguagem visual. LITERATURA INFANTIL 40 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 40 16/10/20 17:46 Desse modo, percebe-se que a literatura infantil no Brasil passou por uma significativa mudança desde os tempos idos do século XX, e, ao chegar ao século XXI, adequou-se às inovações tecnológicas, assim como acom- panhou o progresso na área educacional, continuando assim a ser uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento cognitivo da criança. Mesmo a literatura infantil alicerçada a novas tecnologias continuará proporcionando ao leitor mirim o contato com o mundo mágico e com o maravilhoso, de forma a conceber o seu mundo real a partir de uma cons- trução crítica e reflexiva do contexto social em que está inserida. DICAUm exemplo está disponível no portal Literatura Digital, em O jogo do gato poeta, um projeto de literatura digital de Ana Mello, que incentiva a crian- ça a ter o gosto pela leitura. “Uma imagem, 80 textos, descubra em qual deles está o nome do gato. Mas cuidado, você só tem sete vidas. Quer dizer, sete chances”. LITERATURA INFANTIL 41 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 41 16/10/20 17:46 Sintetizando Nessa unidade, abordamos a literatura infantil enquanto instrumento de formação da criança, uma vez que a mesma tem um papel importante no de- senvolvimento do indivíduo como ser social. A função de contar histórias para os pequenos pressupõe uma influência direta na construção de cada indivíduo e da sociedade, pois é por meio dos livros infantis que a sociedade transmite normas, conceitos, valores e cultura, perpassando diversas gerações. Desse modo, percebe-se que a literatura infantil deve exercer um papel de intermédio entre o real e o imaginário, de maneira a permitir que o leitor reflita e questione o seu papel social e sobre si mesmo. As premissas abordadas consideram o trajeto histórico da literatura infan- til, de suas origens até a atualidade, no Brasil e no mundo. Abordou-se, dessa maneira, sua inserção no mercado editorial, bem como seu reflexo para toda a sociedade e, principalmente, como nos dias de hoje ela é utilizada cada vez mais como um instrumento para ampliar a capacidade criativa da criança e inseri-la no universo da leitura. LITERATURA INFANTIL 42 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 42 16/10/20 17:46 Referências bibliográficas CANDIDO, A. Direitos Humanos e literatura. In: FESTER, A. C. R. (Org.) FES- TER, A. C. R. (org.). Direitos humanos e... São Paulo: Brasiliense; Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, 1989. COELHO, N. N. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Mo- derna, 2000. COELHO, N. N. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 2012. COELHO, N. N. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil: das origens indo-europeias ao Brasil contemporâneo. São Paulo: Manole, 2010. COLFER, E. Artemis Fowl: o menino prodígio do crime. 16. ed. Rio de Janeiro: Record, 2013. CUNHA, M. A. A. 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LITERATURA INFANTIL 44 SER_PEDA_LITE_UNID1.indd 44 16/10/20 17:46 IDEOLOGIA NO TEXTO INFANTIL 2 UNIDADE SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 45 16/10/20 17:34 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Apontar os elementos ideológicos inerentes ao texto infantil; Delimitar uma série de estratégias ficcionais utilizadas para a construção do texto direcionado ao público infantil. Representação da sociedade: normas e valores Representação da criança no texto literário infantil Sensibilização e aproximação lúdica da criança com a lingua- gem poética A importância da exteriorização – personagens e acontecimentos fantásticos O sobrenatural familiar Literatura e amadurecimento LITERATURA INFANTIL 46 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 46 16/10/20 17:34 Representação da sociedade: normas e valores A palavra ideologia nos soa estranha: somos capazes de associá-la a pon- tos diferentes e divergentes – políticos, científi cos, religiosos –, mas ignoramos sua essência: visão de mundo. A forma de compreender um discurso, o “funil” por meio do qual todo entendimento a nós chega. Assim, ideologia pode ser defi nida como a forma de se ver e interpretar o mundo, e por meio de ambos, a realidade nos atinge. Porém, e nos apropriaremos de um princípio de Roland Barthes, vivemos em um mundo feito de palavras. Os conceitos, a forma de compreender o mundo, o sentido que damos às coisas, tudo isso chega até nós por meio das palavras, dos discursos que construímos. Damos sentido, criamos conceitos, partimos para outros pressupostos - tudo por meio dos sentidos ali implícitos. Outro pesquisador, Mikhail Bakhtin, aponta como as práticas culturais do- minantes se diluem na comunicação (2008), ou seja: como há ideologias dentro da língua que são, por si só, formas de perpetuação do status quo. É por isso que a palavra, signo linguístico por excelência, é inerentemente ideológico. Barthes vai mais além, e afi rma que os signos de que a língua é feita, os signos só existem na medida em que são reconhecidos, isto é, na medida em que se repetem; o signo é seguidor, gregário; em cada signo dorme este monstro, um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se ar- rasta na língua. Assim que enuncio, essas duas rubricas se juntam em mim, sou ao mesmo tempo mestre e escravo: não me contento com repetir o que foi dito, com alojar-me confortavelmente na ser- vidão dos signos: digo, afi rmo, assento o que repito (1987, p. 15). É ai que habita esse servilismo da própria língua. Ela não apenas nos faz dizer, mas nos obriga: toda forma de discurso, de contação de algo, está im- bricado de uma série de ideologias e discursos, dominantes ou não. Estes são representativos de determinadas visões de mundo, sejam elas vitoriosas ou ignoradas. Dessa maneira, há um conjunto de valores que se perpetuam nas mais diversas formas. O texto literário não escapa desse princípio. Até mesmo um texto que se propõe a ser um contradiscurso, por defi nição, um movimento contra ideoló- LITERATURA INFANTIL 47 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 47 16/10/20 17:34 gico, já carrega em si uma visão de mundo, outra ideologia. O que são textos clássicos, como A Ilíada, ou Os Lusíadas, senão o discurso dos vitoriosos? O que é, então, uma obra como Tarzan, com o discurso das narrativas de aventura que serve como contação da vitória da empreitada colonial inglesa? Ou as diversas narrativas românticas brasileiras, do período indianista, senão uma tentativa de justificar o discurso do país recém-formado, em busca do que viria a ser a brasilidade? Esse princípio, claro, não se desassocia do texto literário infantil, mesmo antes de sua delimitação. Uma vez que o texto literário é a arte da palavra que representa a variedade ficcional do discurso dominante, há uma produção ficcional para a criança, em diferentes períodos, que não se desassocia de seu teor ideológico. Na Grécia Antiga, a obra A Ilíada, na qual é contada a guerra de Troia, era lida em sala de aula como se fosse um evento histórico. Nós mesmos não sabemos, defato, o quanto da história é fato ou ficção, mas o ponto é: o texto ensinado foi escrito séculos antes, e mesmo durante sua escritura relatava um evento presumivelmente ocorrido em tempos bem anteriores. Porém, todos os ele- mentos do que seria apresentado como parte da cultura helênica estava ali: o ideal do guerreiro, a hospedagem, o culto aos deuses; o poema de Homero, na verdade, promove uma transmissão de valores. O mesmo ocorre com Os Lusíadas, de Camões, no qual são transmiti- dos os valores idealizados dos portugueses durante a época das Grandes Navegações. Havia ainda o ideal do português que conquistava o mundo, à semelhança de Ulisses em A Odisseia. Mesmo após o domínio espanhol, durante o período barroco e após a perda das colônias há portugueses e descendentes no mundo todo que leem a obra de Camões como forma de “matar a saudade da pátria”. Assim, é por meio do texto literário que o autor transmite e perpetua uma série de valores. Como aponta Barthes (1987), a língua é um mecanismo de perpetuação do poder, mas ela própria se perpetua através do jogo linguístico que propaga, no qual atua por meio da dramaticidade. Para Barthes, o texto literário está associado, nos últimos séculos, a um ideal herdado do período do Renascimento, no qual havia a imagem das artes como forma de emancipação do indivíduo, ou melhor, um perfil de emancipação. LITERATURA INFANTIL 48 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 48 16/10/20 17:34 Certos valores se perpetuam no tempo devido a seu registro: há o registro oral, mas também o escrito; se determinados valores se revitalizam, o texto escrito permite uma maior interpretação destes. Um livro como Os miseráveis, de Victor Hugo, é carregado do desejo romântico de luta pelas causas sociais, da mesma forma que um Navio Negreiro, de Castro Alves, é uma ode aos movi- mentos abolicionistas. Essas obras, que surgem na modalidade escrita da lín- gua, atingem o status de narrativa oral, uma vez que seu sentido se perpetua para além do seu formato original. No século XIX, surgiram autores que trouxeram uma nova concepção de li- teratura para o campo literário infantil, valorizando o lirismo e o sentimentalis- mo. Citemos, como exemplo, Olavo Bilac, cujos poemas retratavam os valores ideológicos de sua época. Havia a visão cientificista de transformar a sociedade e, principalmente, divulgar esses valores. O prefácio do livro Através do Brasil, de Bilac e Manuel Bonfim, explicita a ideologia vigente, à época: “E também queremos que este livro seja uma grande lição de energia, em grandes lances de afeto. Suscitar a coragem, harmonizar os esforços e cultivar a bondade – eis a fórmula da educação humana” (COELHO, 2012, p. 239). Esse apontamento indica o lastro ideológico que irá influenciar e se perpe- tuar em praticamente toda a produção literária infantil das épocas posteriores e, em grande parte, repetindo fórmulas pré-construídas durante esse período. Observe alguns desenhos animados infantis da Disney, os quais, por sua vez, apresentam adaptações de textos infantis clássicos: em geral, há a figura da princesa, do príncipe, do monstro a ser enfrentado, por exemplo. Talvez você tenha se lembrado de uma animação chamada Shrek, dos estúdios DreamWorks, e como a obra é uma sátira aos contos de fadas, abordando seus elementos mais icôni- cos. Porém, observe como os mesmos elemen- tos estão ali presentes: Shrek, o ogro que res- gata a princesa e, no final da história, eles irão habitar o bosque e ter o seu “felizes para sempre”. Salvo elementos de outros contos, é o mesmo que ocorre na obra origi- nal, de William Steig, na qual o ogro encontra uma princesa ogra. LITERATURA INFANTIL 49 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 49 16/10/20 17:34 Figura 1. Shrek e Fiona. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 21/09/2020. É possível observar mesmo nos tempos atuais, a exemplo do livro e da ani- mação, esses mesmos elementos. O ogro paulatinamente vai descobrindo coi- sas que para ele não fazem sentido, como amor, família e amigos. Em suma, até os dias de hoje, no texto literário (seja ele infantil ou não), estamos presos a esse “servilismo linguístico”, essa herança da época na qual o texto era um perpetuador dos valores vigentes, sem um foco maior no lado lúdico da sua produção. Em um período pré-lobatiano – e até posterior – per- petuou-se a ideia de que o texto infantil é o laboratório dos valores vigentes. E é nesse ponto que resulta, até os dias de hoje, muito da crítica que conside- ra o texto infantil “menor”: aponta-se esse texto como detentor de um caráter mais didático, pedagógico, ao passo que as demais obras da literatura universal tem o valor de abordar as grandes questões. Podemos dizer, até, político. Gilles Deleuze e Félix Guattari apontam sobre a “menoridade” de certas li- teraturas, não no sentido de importância, mas de particularidade. Isso significa dizer que a literatura infantil, em relação às demais, corre o risco de ter valor apenas político ao utilizar seu espaço para ter como objetivo não o lúdico, mas a transmissão ideológica. Uma coisa não anula a outra, mas sua exclusividade torna-se um problema para esses textos. LITERATURA INFANTIL 50 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 50 16/10/20 17:35 O problema de se pensar o texto literário como mero perpetuador de valo- res ou apenas como instrumento de entretenimento reside, segundo Antônio Candido, no seguinte problema: A literatura pode formar; mas não segundo a pedagogia oficial [...], conforme os interesses dos grupos dominantes, para re- forço da sua concepção de vida. Longe de ser um apêndice da instrução moral e cívica [...], ela age com o impacto indiscrimi- nado da própria vida e educa como ela, — com altos e baixos, luzes e sombras. Daí as atitudes ambivalentes que suscita nos moralistas e nos educadores, ao mesmo tempo fascinados pela sua força humanizadora e temerosos da sua indiscriminada ri- queza. E daí as duas atitudes tradicionais que eles desenvolve- ram: expulsá-la como fonte de perversão e subversão, ou tentar acomodá-la na bitola ideológica dos catecismos [...]. Dado que a literatura, como a vida, ensina na medida em que atua com toda a sua gama, é artificial querer que ela funcione como os manuais de virtude e boa conduta. E a sociedade não pode se- não escolher o que em cada momento lhe parece adaptado aos seus fins, [...] pois mesmo as obras consideradas indispensáveis para a formação do moço trazem frequentemente o que as con- venções desejariam banir. [...] Aliás, essa espécie de inevitável contrabando é um dos meios por que o jovem entra em contacto com realidades que se tenciona escamotear-lhe (1999, p. 84-85). Essa crítica relativa ao uso direcionado é inerente a toda literatura, não apenas à infantil. Porém, pode-se apontar como, historicamente, a “literatura de adulto” (se é que podemos utilizar o termo) foi capaz de promover críti- cas dentro do próprio espaço ideológico. Durante o período do século XIX, por exemplo, iriam surgir obras que promoviam, à sua maneira, críticas às mazelas sociais, como O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, ou O Ateneu, de Raul Pompeia. Dessa forma, possibilitou-se a representação de visões diferentes do Brasil, mostrando um país multifacetado, com descrições e abordagens registradas de diferentes formas pela elite letrada da época, como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato. Este, por sinal, com uma produção direcionada para a criança, conforme evidencia Andrade em sua obra Literatura infantil, de 2014. LITERATURA INFANTIL 51 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 51 16/10/20 17:35 Outro aspecto importante a ser destacado é que o Brasil, na primeira meta- de do século XX, passava por significativas mudanças sociais e políticas, insta- lando-se assim a modernização e a transformação econômica e cultural no país e, consequentemente, na arte. A literatura infantil quebra os paradigmas dosconceitos tradicionais so- ciais, revelando uma nova concepção literária por meio de temas que libertam o nacionalismo e o moralismo da época. O ideal de uma pátria emancipada, formada por uma elite intelectual e citadina, passa a ser revisto pelo espaço da sátira – promovida pelo jogo discursivo inerente ao espaço literário – de determinadas produções literárias. Figura 2. Monteiro Lobato e Emília. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 21/09/2020. É por esse viés que surge uma literatura infantil que busca quebrar a ideolo- gia do discurso dominante, promovendo uma discussão sobre os valores trans- mitidos na produção literária infantil à época. E, apesar de escritores anterior- mente já terem publicados obras voltadas para o público infantil, foi Monteiro Lobato o grande divisor de águas, “separando o que era produzido antes e o que se passou a produzir em termos de literatura para crianças no Brasil” (AN- DRADE, 2014, p. 40). LITERATURA INFANTIL 52 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 52 16/10/20 17:37 Lobato, além de suas obras originais, também realizou adaptações e recria- ções de fábulas, o que na época não foi muito bem-visto pelo campo educacio- nal, uma vez que ultrapassava os conceitos pedagógicos, didáticos e educacio- nais por incentivar a liberdade interior e de ação. Nesse sentido, suas adaptações promoviam às crianças a curiosidade intelectual, a descoberta e a criatividade, o que proporcionou o encantamento por suas obras, até hoje lidas. Muito se é falado sobre a obra “adulta” de Lobato, a saber, dentre outras: Urupês, que traz uma visão regionalista do interior do Brasil, sem a idealização romântica; bem como Cidades Mortas, sobre a decadência de cidades que em- pobreceram. Essas obras, assim como outros romances e coletâneas, apresen- tam uma crítica sóbria com relação às transformações sociais. Sua obra infantil ocupava um espaço diferente. Embora tenha realizado di- versas traduções, a coleção de livros que gira em torno do Sítio do Picapau Amarelo – o que inclui as histórias contadas por Dona Benta a seus netos, como Os Doze Trabalhos de Hércules, Hans Staden e até Peter Pan – é o espaço lobatiano por excelência, seu “tão tão distante”. É nesse lugar que, por meio de personagens (alguns mágicos), o escritor utiliza o elemento surreal para trazer, de maneira lúdica, sua crítica social. CURIOSIDADE É comum, na crítica literária, a análise de como o autor se insere em um texto, promovendo uma polifonia por meio das personagens. É conhecida a discussão sobre como esse recurso é utilizado por Monteiro Lobato através da boneca Emília, personagem do Sítio do picapau amarelo. O humor ácido e a atitude debochada da boneca carregariam muito da per- sonalidade de Lobato, além de como ela interpreta as coisas da vida. Representação da criança no texto literário infantil É diante desses parâmetros que nos deparamos com a representação da criança no texto literário infantil. Porém, isso não se limita a uma mera criação de personagens com traços infantis. Tocamos, aqui, na grande questão: a com- preensão do que viria a ser um público infantil. Uma vez que o conceito de infância ainda era uma ideia recente, como se dá a representação do indivíduo em uma obra feita por adultos? Há um longo trajeto a ser percorrido, e um exemplo é que, a princípio, havia a utilização de LITERATURA INFANTIL 53 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 53 16/10/20 17:37 textos para a construção de “modelos de comportamento infantil, a serem re- produzidos pelo leitor” (GOUVÊA, 2000, p. 1). Mesclando elementos do pedagógico e do lúdico, a produção lobatiana re- presentará a emergência de um novo tipo de discurso, o qual, influenciado pe- los movimentos intelectuais da época, passará a conceber o texto infantil como uma das possibilidades da formação do indivíduo. Talvez você se pergunte: a quem se dirige Peri, personagem do romance O Guarani, de José de Alencar? Para uma elite burguesa citadina do século XIX. Porém, este não se distanciava muito dos textos voltados para o público infan- til da época (e a posteriori), uma vez que entravam em contato com uma visão idealizada da criança, como uma tábula rasa. Eram obras literárias feitas por e para um público adulto, e a criança configurava-se mais como uma representa- ção idealizada do que factível. Outra personagem, Emília, está mais próxima de nosso contexto formativo: debochada, sarcástica e engenhosa, é uma boneca de pano com traquinagens de criança e mentalidade de adulto. Para muitos, seria uma representação do próprio Lobato (LAJOLO; ZILBERMAN, 2007) e, mais do que isso, uma repre- sentação de um discurso que considera as particularidades de um leitor em especial: a criança. Segundo Piaget em seu livro A representação do mundo na criança de 2005, desde a compreensão da ideia de infância, de criança, passa-se a conceber determinados elementos sociais em consonância com o processo formativo. Dentro desse contexto, nas décadas de 1960 a 1990, a literatura infantil pas- sou a apresentar um novo modo narrativo, voltado tanto às questões da vida cotidiana social como à nova configuração econômica e sociocultural do Brasil, com temáticas que representavam a visão crítica da época. Portanto, a literatura infantil passa a representar a vida cotidiana das crian- ças alicerçada a temas atuais da época, o que valorizou as ilustrações nos livros infantis, retratando o contexto literário da obra. Como exemplo, é possível citar alguns renomados ilustradores dos anos 1980 e 1990, como Ângela Lago, Ciça Fittipaldi, Helena Alexandrino, Ricardo Azevedo e Ziraldo (ANDRADE, 2014). Isso posto, na década de 1960 houve uma nova demanda de textos literá- rios para o sistema educacional, visto que, com a implantação da Lei de Dire- trizes e Bases da Educação Nacional (LDB), exigia-se o ensino de literatura para LITERATURA INFANTIL 54 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 54 16/10/20 17:37 crianças de no mínimo 8 anos, sendo este voltado para o ensino-aprendizagem da leitura utilizando o texto literário como subsídio para o ensino da gramática. Desse modo, surge nos anos de 1970 uma grande necessidade de novos textos literários pautados na LDB, e autores como Francisco Martins, Maria Heloísa Penteado, Maria José Dupré e Clarice Lispector passam a atender essa nova proposta de literatura infantil. É importante ressaltar que Clarice Lispector possui experimentações no campo da literatura infantil, como no clássico Doze lendas brasileiras, obra na qual várias lendas brasileiras são recontadas pela escritora. Embora não hou- vesse uma plena dedicação, uma série de escritores realizaram também as de- vidas experimentações. O cenário dessa época tornou-se, então, oportuno para o surgimento de outras modalidades literárias direcionadas ao público infantil, “como o teatro e as histórias em quadrinhos, cujos principais títulos são O menino maluquinho, de Ziraldo, e A turma da Mônica, de Maurício de Souza” (ANDRADE, 2014, p. 43). É uma época na qual, gradativamente, há o surgimento de protagonistas crian- ças, cheias de vida e reflexos das crianças de sua época. Figura 3. As criações de Ziraldo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 22/09/2020. LITERATURA INFANTIL 55 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 55 16/10/20 17:38 Não é uma exclusividade da literatura infantil a representação da criança em meio a uma sociedade crua: Menino de engenho, de José Lins do Rego, procu- ra mostrar a vida de uma personagem que vive com o avô durante a decadência do ciclo dos engenhos. O texto, porém, carregado de elementos memorialísti- cos, procura transmitir a interpretação desse ciclo pelos olhos do protagonista, ou melhor, suas experiências de vida. Outra obra anterior, O ateneu, de Raul Pompeia, aborda um caminho parecido: as memórias de uma criança que estu- dou em um colégio interno com uma narração carregada de elementos impres- sionistas e influenciada pelas sensações que asmemórias evocam. A concepção de literatura infantil passa a visar o desenvolvimento crítico e cognitivo da criança, e as obras literárias a valorizá-la como um ser atuante no meio social. Os autores da atualidade entendem que o papel da criança não é somente o de um leitor mirim, mas, também, de um sujeito em formação, que precisa ser estimulado a buscar o gosto pela leitura para desenvolver o senso crítico e analítico dos acontecimentos cotidianos que o rodeiam e, consequen- temente, seu autoconhecimento. Portanto, as obras contemporâneas representam aspectos cotidianos, mas transformados de maneira lúdica e ficcional para que haja uma interação com o leitor. Assim, quando falamos da representação da criança na literatura infan- til, abordarmos também sua inserção, a concepção de um texto literário que promove uma interação com seu leitor-modelo (ECO, 1994). Ao falar sobre leitor-modelo, abordamos elementos literários que são an- teriores à divisão da literatura de acordo com seu público. Há um escritor que cria uma categoria ficcional, um autor, de determinada obra. E da mesma forma que temos escritores que possuem fases – obra de suspense, obra crítica, obra infantil - há o escritor que, para sua experimentação, cria um autor-modelo que se adequa a produzir um determinado tipo de texto, direcionado para um leitor-modelo. Ou seja: uma criança. Ou melhor, um “leitor criança”, implícito, deduzível, presumível. Quando falamos na inserção da criança no texto literário infantil, não nos limitamos a protagonistas infantis e suas aventuras, mas ao texto literário que utiliza uma linguagem direcionada à criança, que a concebe dentro da produ- ção ficcional como um leitor, alguém que participa do processo de produção do texto. LITERATURA INFANTIL 56 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 56 16/10/20 17:39 E é ao concebê-lo que esse autor-modelo direciona seu texto. É por isso que há uma série de escritores, os quais utilizam as mais diferentes linguagens, como verbal, mista, digital, entre outras, que realizam tais experimentações ao conceberem essa particularidade textual em suas obras. Alguns escritores, como Ângela Lago, Ziraldo, Adélia Prado e Maurício de Souza, ainda são considerados contemporâneos por proporcionarem temas atuais e que estimulam o desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança. Nesse sentido, as obras contemporâneas retratam aspectos culturais inseridos nas narrativas, como crenças, valores, costumes, preconceitos, hábitos, reli- giões, mitos, entre outros, que revelam o universo cultural de uma sociedade, afirmando assim a existência de uma identidade cultural. Conceber a criança, representá-la textualmente, significa abordar também os temas que lhe são significativos: as obras literárias infantis da contempora- neidade valorizam questões sociais, bem como a diversidade cultural a partir das questões de gênero, identidade e alteridade, temas importantes para a formação da criança como sujeito autônomo na sociedade. Um exemplo comum é a série de livros Diário de um banana, de Jeff Kinney, na qual são abordadas questões como inserção social em um contexto mais contemporâneo: Greg, o protagonista, busca ser popular na escola, uma for- ma contemporânea de ocupar espaços, principalmente em uma sociedade de informação. Outra série que trata de temas similares, mas com rumos diferen- tes, é a série Fala sério..., na qual são abordadas as interações entre Malu e as pessoas que fazem parte do seu convívio – pais, professor, amigas, irmã –, bem como suas respectivas experiências de vida. Figura 4. Personagens de Fala sério, mãe, de Thalita Rebouças. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 22/09/2020. LITERATURA INFANTIL 57 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 57 16/10/20 17:39 É vasto o número de escritores da atualidade que proporcionam, por meio de suas histórias, uma literatura juvenil alicerçada às questões socioculturais, valorizando o desenvolvimento cognitivo e intelectual da criança sem perder a ludicidade do mundo imaginário em sua fase de evolução. No entanto, é percor- rendo o tempo e o espaço que a literatura se constitui como recurso ao mundo imaginário, assim como proporciona o amadurecimento psíquico da criança. Nessa experimentação, há autores que buscam reinventar o texto ao con- ceberem temas atuais para crianças atuais, utilizando ilustrações interativas, e por se preocuparem em escrever para crianças, ou seja, pensando na contri- buição que podem proporcionar para a formação de sujeitos sociais e culturais. Como exemplo, temos Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, de Ruth Ro- cha; A bruxinha atrapalhada, de Eva Furnari; Uni Duni Tê, de Ângela Lago; A vida íntima de Laura, de Clarice Lispector; Vovô fugiu de casa, de Sérgio Capparelli; e Dois chapéus vermelhinhos, de Ronaldo Simões Coelho. É importante ressaltar que o ato de ler não corresponde somente ao en- tendimento de um texto (escrito ou não). Assim, a leitura necessita que o leitor mobilize seu universo para atualizar o universo do texto e, assim, fazer sentido. Eliana Yunes (1989) afirma ainda que aprender a ler é se familiarizar com textos de diferentes esferas sociais a fim de se desenvolver uma atitude crítica e per- ceber as diferentes vozes dos textos, sendo desse modo capaz de se apropriar de cada ideia ou palavra apresentada. Atualmente, a literatura infantil brasileira é bastante valorizada e conta com um tradicional reconhecimento literário, o Prêmio Jabuti, que tem como intui- to consagrar as melhoras obras literárias brasileiras dentro de cada tipo, seja poesia, conto ou romance, entre outros. Vários autores foram premiados na ca- tegoria Literatura Infantil desde seu início em 1959, como Lúcia Machado de Al- meida, Bartolomeu Campos de Queirós, Lygia Bojunga, Ângelo Machado, José Paulo Paes, Ângela Lago, Ana Maria Machado e Manoel de Barros, entre outros. A literatura infantil, ao longo dos tempos, procurou se atualizar com rela- ção às tendências, muitas vezes seguidas pelos autores em suas respectivas épocas. Isso trouxe contribuições para o desenvolvimento literário infantil no Brasil e no mundo, de maneira a valorizar a criança como ser social. É possível perceber que há uma literatura voltada para esse público que possui seu respectivo leitor, e que pode ser abordada de diferentes maneiras LITERATURA INFANTIL 58 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 58 16/10/20 17:39 e para diferentes fi ns: evasão, crítica social, deleite, aprendizagem, lazer e para preencher a necessidade que crianças, jovens e adultos têm de, ao conhecerem o outro, também se conhecerem. Dessa forma, há uma série de escritores contemporâneos que valorizam, em seus textos, a concepção da criança como um sujeito em formação, contri- buindo por meio de suas histórias para o desenvolvimento de seu cognitivo e seu senso crítico, social e cultural. Sensibilização e aproximação lúdica da criança com a linguagem poética Você já percebeu como utilizamos a palavra “literatura” para indicar textos não fi ccionais? Isso ocorre porque, em seu sentido, a literatura é a arte da pa- lavra. Observe como, em uma aula sobre a literatura portuguesa, apontamos que a crônica de Fernão Lopes dá início à moderna prosa portuguesa, uma vez que ele utiliza vários elementos literários para contar a historiografi a nacional. Os sermões do Padre António Vieira, por exemplo, até hoje são objetos de es- tudo em cursos de direito. No entanto, é comum avaliarmos esses textos por seu valor fi ccional. Há um efeito de transformação possibilitado pela palavra escrita e a forma como o escritor manipula o texto literário. Isso se dá desde a origem do texto, no início dos tempos, pela narração oral, poética. Quando em tempos antigos o ancião contava as histórias e lendas do seu povo para as crianças, narrava-as de maneira lírica, agregando mais do que memórias, mas emoções: por meio da manipulação discursiva,o indivíduo pode captar algo que vai além do essen- cial, enxerga além do visível. Quem é Quindim, rinoceronte que aparece nas obras de Monteiro Lobato? Para o escritor, mais do que um paquiderme: onde muitos veem um animal, lobato vê uma criatura que, supostamente, devora um livro de gramática e se torna um sábio. E é graças a isso que ele leva as crianças para diversas aventu- ras, como um passeio pelo país da gramática. No mundo visível, onde vemos pedras e objetos sem valor, mera manipulação de palavras, o escritor “dobra” o texto escrito, criando obras plurissignifi cativas, como A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, ou O menino que escrevia versos, de Mia Couto. LITERATURA INFANTIL 59 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 59 16/10/20 17:39 O conto O menino que escrevia versos, de Mia Couto, é uma brincadeira lin- guística com as palavras: ele narra a história de um menino que frequenta a es- cola e começa a escrever versos, e isso muda sua percepção da vida. Seus pais ficam assustados, pois “não são da leitura”. Mas há toda uma relação simbólica entre o ato da escrita e o da descoberta. O mesmo ocorre com outro escritor: José J. Veiga. Em Tajá e sua gente, há a história de um garoto cadeirante que arruma trabalho em um sítio, e passa a experimentar uma série de situações com seus amigos. Há a representação de vários ciclos pelos quais passamos: descoberta, amadurecimento, tristeza, desilusão, felicidade. Com prosa simples e direta, seu sentido não é ampla- mente revelado, uma vez que cada leitor, em cada época, alimenta-se dessa linguagem poética e a reverbera em sua época específica. Daí o efeito catártico da palavra poética, plurissígnica, permitindo a reinvenção da palavra literária. O ludismo inerente ao texto literário atinge a criança de várias maneiras: figuras de linguagem, associações, rimas e jogos de palavras. Lembra-se como os contos de fada sempre começavam com um “Era uma vez”, buscando intro- duzir o elemento mítico ao texto e trazendo a criança a uma época antiga, a uma história que se perde no tempo? As cantigas de ninar, por exemplo, eram uma forma de atrair a atenção da criança, uma forma de descobrir o mundo. Observe, como exemplo, o seguinte trecho: “Minha avó, que braços grandes você tem!” “É para abraçar você melhor, minha neta.” “Minha avó, que pernas grandes você tem!” “É para correr melhor, minha filha.” “Minha avó, que orelhas grandes você tem!” “É para escutar melhor, minha filha.” “Minha avó, que olhos grandes você tem!” “É para enxergar você melhor, minha filha.” “Minha avó, que dentes grandes você tem!” “É para comer você” (MACHADO, 2010, p. 44-45). Trazemos um exemplo clássico dos Grimm: sabemos que o lobo está vesti- do de vovó, pois desde antes já somos apresentados à sua artimanha, em que o mesmo despista Chapeuzinho Vermelho para chegar antes. Porém, o elemento lúdico manifesta-se pela experiência da descoberta: o leitor se coloca no lugar LITERATURA INFANTIL 60 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 60 16/10/20 17:39 da menina, e participa do jogo de descobrir, palavra por palavra, a identidade da vovó-lobo. Usamos os sentidos da criatura e a forma como a menina enxer- ga o mundo e descobre as inconsistências do animal. O lobo, por sua vez, entra no jogo: utiliza elementos visuais – olhos para enxergar melhor -, olfativos – nariz para cheirar melhor - e outros, como a audição e o paladar. O uso dessa descrição detalhada fará com que o ouvinte sinta o cheiro das flores, visualize a gra- ma verdinha e se encante com o cavalo alado que voa pelo céu estrelado.Porém, essa descrição não deve ser exagerada, a fim de permitir que o ouvinte coloque a sua própria cor do céu, en- feite o campo com arvores. (FARIAS; RUBIO, 2012, p. 5) No mesmo conto, essas experiências vão sendo construídas paulatinamen- te, e passamos a associar os sentidos do lobo, e seus órgãos exagerados, às suas características e atitudes: seus olhos, à astúcia; suas orelhas, à atenção; seu nariz, à percepção; e sua boca, à gula e ousadia. Cada um desses elementos promove uma transfiguração das imagens por meio da linguagem poética, a qual atua de maneira particular diante dos jovens leitores/ouvintes. Mais do que um conto de fadas, uma história de entretenimento, Chapeu- zinho Vermelho é um exemplo de como determinadas narrativas contribuem para o desenvolvimento da imaginação e da intuição do infante, posto que colaboram para a forma como ele descobre a realidade: há morais implícitas, como “não fale com estranhos” e “obedeça seus pais, do contrário...”, as quais vão sendo transmitidas por meio das imagens poéticas que constroem. Figura 5. Chapeuzinho vermelho. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 22/09/2020. LITERATURA INFANTIL 61 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 61 16/10/20 17:40 Não é por acaso que esses contos foram banidos durante muito tempo (BETTELHEIM, 2002): sua ação pedagógica utilizava uma linguagem poética para criar a experiência da magia, a qual oferecia respostas alternativas aos grandes problemas do mundo. É por meio dessa série de estímulos sensoriais – via linguagem poética – que a criança desenvolve sua forma de interagir com o mundo: alimenta-se e de- senvolve uma série de experimentações para conceber o mundo ao seu redor. Recorrendo à histórias aparentemente simples, mas igualmente complexas e lúdicas, o texto transmite essas imagens. Podemos observar isso nas aventuras da “Turma do Gordo”, no livro O Gênio do Crime, de João Carlos Martinho. Ao investigarem um crime de falsificação de figurinhas de futebol, Bolachão, Edmundo, Pituca e Berenice desbravam a ci- dade de São Paulo, fazem as vezes de detetives e buscam solucionar um crime. O sentimento de aventura, as relações de amizade, a experimentação da vida diante do que lhes é importante, tudo vai sendo paulatinamente transmitido e construído por meio do narrador. ASSISTA Vale a pena assistir a entrevista do escritor João Carlos Marinho sobre a obra O Gênio do Crime, bem como a relação entre escritor e obra. Na entrevista, Marinho aborda como certos trabalhos atraem os mais jovens, fascinando-os. O escritor cria uma São Paulo ficcional que parasita a sua homônima no mundo real, além de conceber personagens que se utilizam do raciocínio para resolver o grande mistério da obra, as figurinhas falsificadas. Atra- vés disso, recorre-se a uma linguagem que transporta o mundo da criança para o da fantasia, na qual as personagens ex- ploram sua sagacidade, inteligência, noções de dever moral e outras habilidades, de modo que, aqui, não são protegidas ou agraciadas por forças superiores, mas heroínas absolutas da trama. Sua “fada madri- nha”, aqui, é sua capacidade de resolver os problemas por meio do seu olhar de criança. LITERATURA INFANTIL 62 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 62 16/10/20 17:41 DICA Vale a pena refletir sobre como há toda uma crítica literária que estuda o caráter psicológico, sociológico e antropológico dos contos de fadas. No livro Reis, Moscas e um gole de astúcia: contos de fadas para pensar so- bre justiça, as escritoras Helena Gomes e Susana Ventura abordam como os contos de fadas, em suas revisitações do folclore, abordam conceitos atemporais como ética e justiça. A linguagem poética, mais pelo que induz do que pelo que mostra, destaca- -se como uma forma de instrumento didática que explora, no texto literário, a aproximação com o público infantil. Ocorre que a linguagem poética literária é uma forma de expressar experiências de mundo do autor para o leitor, o qual tem sua própria experiência afetada pelas leituras. A literatura infantil, em sua formação destinada para crianças, também já fora mais voltada para adultos. Muitas obras de aventura carregavam uma lin- guagem mítico-simbólica, e o faziam como forma de produção literária, como as aventuras de Robinson Crusoé. Curiosamente, consideramos As viagens de Gulliver uma obra adulta; massua linguagem lírico-fantástica, tomada de representações absurdas – como os homens diminutos de Liliput – passou a ser utilizada para avaliar uma espécie de paródia do mundo dos adultos voltada para a criança. Muitos pesquisadores apontam haver motivos para que certas obras, em sua origem voltadas para o público adulto, passassem a interessar às crian- ças. Para muitos, a manipulação da linguagem poética em determinadas obras as aproximaria do público infantil (BETTELHEIM, 2002), ao passo que outras causaria certo distanciamento. Muitos textos, em sua origem, eram histórias populares, contos e causos que circulavam por meio da população, antes de ga- nharem sua “adaptação” escrita, cristalizada. Independente da motivação dos escritores em resgatar elementos do folclore para transmitir novos valores, es- ses textos já eram carregados de valores a serem transmitidos. Veja o caso do conto Os três porquinhos, de Joseph Jacobs: a história, con- forme Prado (2012), traz elementos do folclore inglês associados a tempos mais modernos, já que, em uma de suas versões, não são três porcos, mas três duendes. Os três irmãos, Prático, Heitor e Cícero podem ser vistos como uma representação da força de trabalho, ou seja, do esforço e do trabalho bem feito, estes encarnados em Prático, o qual constrói uma casinha de tijolos. A própria LITERATURA INFANTIL 63 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 63 16/10/20 17:41 escolha do nome já denota isto – pelo menos, em língua portuguesa. Tal qual a ideia do século XIX do “burguês” que cria empresas e funda impérios, temos a imagem do porco, que supera a astúcia do lobo por meio do trabalho duro. Essa transmissão de valores vai sendo produzida linguísticamente por meio da estrutura apresentada, pela forma como o autor utiliza a regra de três: são três os porquinhos, são três as casas construídas. E a cada embate entre o lobo e um dos porcos, o predador emite um provérbio formado por três versos: - Porquinho, porquinho, deixe-me entrar. - Não, não, pelos fios da minha barba, aqui você não vai pisar. - Então vou soprar, e vou bufar, e sua casa rebentar (MACHADO, 2010, p. 144). É a casa de tijolos do terceiro porco a única adequada para impedir o lobo – que, em algumas versões, devora os dois irmãos -, encerrando a história. DICA A regra de três é um recurso narrativo através do qual a história progri- de por meio de três elementos, três repetições, de modo a se atingir um resultado – ou, no caso, aprender uma lição. Muitos contos de fadas e outras produções textuais seguem essa estrutura devido à facilidade de se lembrar dos elementos. Três porquinhos, três duendes: o conto escrito, herdeiro de uma variedade oral, carrega valores já conhecidos da população. Mesmo a população que não era de ori- gem popular conhecia essas histórias. Esses primeiros textos transcendem o campo da escrita, tendo origem no mito dos povos, nas lendas. Pode-se, ainda resgatando a regra de três, avaliar como há uma relação entre os três irmãos e as temporalidades da infância, na qual a saída de casa, a construção das novas casas e as experiências enfrentadas representam suas etapas de amadurecimento (PRADO, 2012). Importante destacar que literatura oral é o conjunto de manifestações lite- rárias de uma sociedade ou civilização preservadas por meio da palavra falada e/ou cantada. A literatura produzida na vasta área subsaariana do continente africano, por exemplo, distingue-se da literatura escrita em línguas europeias, a qual tem como fonte suas próprias tradições orais. Essa linguagem simbólica vai sendo construída e carrega elementos da for- mação humana. Como aponta Prado (2012), a relação entre infância e forma- LITERATURA INFANTIL 64 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 64 16/10/20 17:41 ção/emancipação se encontram nessas narrativas. É na criança, uma metoní- mia do homem primitivo, do povo em suas origens, que a sociedade vai sendo descoberta. Muitos desses escritores, antes não considerados como escritores de literatura infantil, abordavam o mito em sua versão literária como forma de atingir os processos formativos do ser humano. Estes concebiam textos em que a personagem conhece o mundo por meio do sentidos, das emoções, não dos conhecimentos mais racionais, ou seja, da experiência. Dessa maneira, predomina nos contos de fadas uma linguagem di- ferente, singular, mágica. É por isso que há essa relação entre infantil e popular, posto que ambos compreendem o mundo de uma outra maneira e seguindo uma lógica não convencional. Habita aí o motivo da linguagem poética, em sua variedade escrita, estar as- sociada à transmissão de saberes desde o início dos tempos, uma vez que era por meio destes que se transmitia a ideologia de dada sociedade. Como aponta Zilberman (2007), esses contos, em sua origem, eram transmitidos entre a po- pulação adulta e para eles produzidos, mas não faziam parte da formação da burguesia, pelo contrário: foram posteriormente declamados em salões como forma de entretenimento. Com o avançar das épocas, esses textos passam a sofrer alterações e re- ceber um “encapamento” de linguagem burguesa e um novo senso de ética, moral e visão religiosa, que por sua vez utilizam os textos infantis como forma de conformação aos papeis sociais. Esses contos utilizam uma linguagem que explana sua função pedagógica de transmitir esses novos valores aos peque- nos leitores. Diferente escritores farão uso dessa linguagem mítico simbólica em con- fronto a uma outra, de lógica racionalista, como forma de transmissão de ima- gens. É por meio dessa linguagem que o escritor transforma o abstrato em algo concreto. O conto A gata borralheira, por exemplo, busca transmitir uma história sobre conflitos sociais: a protagonista precisa superar os maus tratos das irmãs e mãe, e somente nos sonhos encontra sua liberdade. A fada madri- nha representa o ideal de que as pessoas boas possuem um caminho maior a trilhar, independentemente da sua classe social. Por meio da história da gata borralheira, as classes mais pobres transfor- mam o seu desejo abstrato em algo concreto, dando forma, nome e continuida- LITERATURA INFANTIL 65 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 65 16/10/20 17:41 de aos seus desejos. É por meio dessas obras, da transmissão dessa linguagem poética, que o texto literário auxilia na formação do pensamento do indivíduo e em sua formação cognitiva. Assim, produz-se uma linguagem que auxilia a criança em sua etapa de amadurecimento: é por meio do texto literário que ele aprende, imagina e idealiza as situações do cotidiano. A importância da exteriorização – personagens e acon- tecimentos fantásticos Literatura infantil e elementos fantásticos são quase sinônimos: em meio a gatos falantes, gansos que colocam ovos de ouro e lobos mal-intencionados, temos personagens que desbravam o mundo e vencem as difi culdades da vida recorrendo à sua astúcia. Isso ocorre porque muito dessa literatura, como abordado, encena elementos morais, os utilizando para mostrar como os ele- mentos sobrenaturais são uma forma de se reinterpretar o mundo. É por isso que, para abordarmos como os elementos sobrenaturais perdu- ram, mesmo diante de uma literatura que em sua forma contemporânea surge como maneira de “doutrinação dos adultos em formação”, precisamos abordar a sofi sticação do texto literário, a qual ocorre de tal forma que até o elemento sobrenatural nele perdura. Figura 6. A fábula da lebre e da tartaruga. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 22/09/2020. LITERATURA INFANTIL 66 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 66 16/10/20 17:41 Para tanto, devemos falar das fábulas e de um dos mais famosos escritores de literatura infantil que irá polir esse gênero: La Fontaine. Gênero muito utili- zado na história da literatura ocidental desde a Grécia antiga, por seu caráter didático vai sendo retomada durante o período do Humanismo. No século XV, escritores franceses eitalianos a redescobrem por meio das fábulas de Esopo, transmitindo diversas de suas versões. Assim, 200 anos depois há fábulas orientais como O livro das luzes ou A con- duta dos reis, traduzidas por David Sahib, e Modelo da sabedoria dos antigos in- dianos, traduzida por Pussines. O gênero perdura durante vários séculos, man- tendo seu formato sem grandes alterações. Porém, assim como os grandes escritores que foram responsáveis por re- novar constantemente a língua portuguesa em pleno século XX – a exemplo de Guimarães Rosa –, La Fontaine resgata todo o elemento lírico da fábula, ali- mentando-a com valores filosóficos que mesclavam elementos das narrativas populares. Dotado de formação literária, sob influência dos clássicos greco-la- tinos e renascentistas, entre outros, e tendo realizado experiências com vários textos, foi por meio das fábulas que Fontaine se consagrou um gênero literário de origem popular. A produção de La Fontaine reúne uma miríade de fontes, as quais tanto negociam com a cultura popular quanto se alimentam de uma tradição de pa- rábolas das mais variadas matizes. Além destas, ele produziu contos, alegorias e histórias curtas. O grande diferencial é que as obras, das cotidianas às sobre- naturais, encerram valores morais, o que singularizou sua produção. Dessa forma, muitas de suas criações originais passaram à categoria de “contos de fadas”, como as narrativas folclóricas das quais ele se alimentou para produzir seus textos. Eis o valor do escritor: as situações humanas que ali são transfiguradas em detrimento das intenções do escritor. Essa transfigura- ção, muitas vezes de teor sobrenatural, atrai o público infantil. Quando abordamos o elemento sobrenatural nos contos de fadas, devemos lembrar que suas origens já incluíam elementos maravilhosos. Isso influenciou, à época, uma série de indivíduos a conceber uma outra realidade, ocupada por seres mágicos e mitológicos, os quais contribuíram para o desenvolvimento crítico desses leitores. O que seria a Rainha Má, da Branca de Neve, se não uma revisitação do mito de Caim e Abel (a inveja), adaptado para os infantes? LITERATURA INFANTIL 67 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 67 16/10/20 17:41 Ademais, é importante evidenciar que muito desse elemento sobrenatural não é gratuito, uma vez que agrega signifi cantes e signifi cados familiares à so- ciedade. O sobrenatural familiar Exemplo disso está nas lendas. Atualmente, há uma gama variada de pes- quisas sobre manifestações populares, que misturam fatos reais e fi ctícios con- tados oralmente (como as lendas) ou expressos em narrativas escritas que ten- tam explicar fenômenos da natureza física e humana, além de outros sentidos do mundo, com base em símbolos, como os mitos. A lenda é “uma narrativa popular, que pode ser escrita ou oral. Ela pode contar histórias de seres mara- vilhosos ou encantados, de origem humana ou não. Uma lenda também pode trazer fatos” ( JOVINO, 2006 apud SOUZA; LIMA, 2006, p. 212). Exemplo disso está na nossa própria cultura: o folclore brasileiro é vasto e possui várias personagens representativas da região a que pertencem, cujas histórias são transmitidas de geração a geração. O Boto da região amazônica, por exemplo, é uma lenda que persiste até os dias de hoje neste local. Figura 7. O boto, personagem do folclore brasileiro. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 22/09/2020. LITERATURA INFANTIL 68 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 68 16/10/20 17:42 Em Menina Flor e o Boto, de Dira Paes, temos a recontação da lenda desta criatura mágica através da vida de Flor, garota que cresce na fl oresta amazô- nica, e para a qual essas lendas são, na verdade, elementos culturais de sua vivência. Há uma série de livros que têm buscado representar os elementos autóctones das várias culturas brasileiras sem estereotipação. Lendas do norte do país podem, assim, contribuir para conhecermos outros olhares sobre nos- so país (SOUZA; LIMA, 2006). Já o mito, por sua vez, possui um caráter diferenciado. De acordo com Mir- cea Eliade, este conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocor- rido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma reali- dade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação” (1971, p. 11). O mito tem, como característica principal, a oralidade. Como, em muitos ca- sos, não há registro escrito, os mitos vão transformando-se ao serem passados de uma pessoa a outra, de geração em geração. Para Lévi-Strauss (apud ZUCON; BRAGA, 2013), o mito faz parte de uma forma de linguagem que também incorpora o sentimento de quem o conta e que nele acredita. Isso porque, a cada nova narração, vão sendo adicionados elementos ou histórias diferentes que retratam crenças e costumes da gente pertencente à região do narrador. Literatura e amadurecimento Desta maneira, é por meio dessa transmissão de saberes via tradição oral que os eventos são relatados, uma vez que é através da voz do/s narrador/narradores que os mitos e os modos de organização dos rituais são transmitidos. Os mitos são consti- tuídos de palavras organizadoras dos caminhos e vivências de cada um, em particular, e da comunidade (2006, apud SOUZA; LIMA, 2006, p. 80). LITERATURA INFANTIL 69 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 69 16/10/20 17:42 Em geral, os mitos são histórias com elementos de fantasia, mas não podem ser classificados como apenas isso. Eles possuem forte caráter moralizador, carregado de emoções e sentimentos, que reforçam e instigam a crença nes- sas narrativas, provocando, muitas vezes, medo de algum castigo, ou punição decorrentes de determinada ação. O mito tem a função de explicar a origem das coisas ou apresentar uma questão moral. As populações do período Antigo Oriental e Ocidental, assim como as populações indígenas, possuíam mitos para explicar sua visão de mun- do, por meio dos quais podemos, hoje, perceber os valores dessas sociedades. Por exemplo, o mito da Caixa de Pandora conta que Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus, e que a ela foi confiada uma caixa com uma única ins- trução: nunca ser aberta. Por curiosidade, e contrariando as ordens de Zeus, Pandora abriu a caixa, permitindo que todos os males da humanidade, nela aprisionados, escapassem e se espalhassem pelo mundo. Esse mito exemplifica os valores da sociedade grega, em que as mulheres viviam confinadas em suas casas e tinham pouco poder, sendo submetidas aos homens. O mito indica também uma culpabilização das mulheres pelas maze- las do mundo, tornando-as responsáveis pelos males que acometiam as socie- dades da antiguidade. Os mitos são ensinados e vivenciados ritualisticamente no processo de ini- ciação e ao longo da vida. Em algumas regiões do continente africano, o mito da criação do universo e do homem é ensinado pelo Doma, que imprime em sua narração princípios e valores do conhecimento da tradição. É certo que muitos conhecimentos são transmitidos pela necessidade daquele que aprende; portan- to, é um conhecimento desejado e não fragmentado, criado por histórias míticas que traduzem o conhecimento e resumem a sabedoria (SOUZA; LIMA, 2006, p. 84). DICA Vladimir Propp, em Morfologia do Conto Maravilhoso, evidencia como as narrativas se reinventam com o pas- sar do tempo, e como muitas histórias são contadas com base em um elemento comum, motivo pelo qual lendas com duendes, são, com o passar do tempo, convertidas em contos sobre porcos. Recomenda-se a leitura de seu livro, a fim de entendermos as estruturas essenciais da estrutura dos contos de fadas. LITERATURA INFANTIL 70 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 70 16/10/20 17:42 Essa recorrência ao mito mostra como nas narrativas as personagens es- tão,a sua maneira, recriando o mundo. Em A chuva pasmada, de Mia Couto, as personagens um dia se deparam com uma chuva que não cai: está parada no céu, pasmada. Não há uma explicação plausível – pelo menos, para nós, en- quanto leitores – para o que ocorre, mas as personagens não tardam a agregar explicações sobrenaturais de seu cotidiano. Durante o processo para resolver o problema e sanar as dúvidas, ocorre o resgate da lenda da fundação daquele vilarejo e, quando isso se sucede, o passado se manifesta no presente, de ma- neira que a chuva volta a cair normalmente. Ao recorrerem ao elemento sobrenatural, esses escritores ampliam a pos- sibilidade do discurso literário, manipulando uma linguagem poética de tal ma- neira que abre espaço para a imaginação: a criança torna-se um protagonista, e consegue conceber a possibilidade de superar, pelo menos no mundo da fan- tasia, as dificuldades do cotidiano. Assim, criou-se um mundo que complementa o desenvolvimento da imagi- nação da criança, pois, diante de uma realidade cruel, é no elemento mágico do conto de fadas que ele se complementa. Cria-se um mundo a parte, mas, ao mesmo tempo, irmão semiótico de nossa realidade no qual as situações são narradas à sua essência. Em O gato de botas, não há a discussão sobre o sentimento de perda dos três filhos após a morte do pai; ou do abandono, quando os irmãos se separam. Há o uso de um termo caro ao leitor, o que faz com que se prenda sua atenção sem que se permita deixar escapar os elementos essenciais. Daí a relação entre a utilização de um mundo mágico e o desenvolvimento do sujeito. Essas narrativas, em sua origem, levam os leitores a um mundo encantado em que não há o conceito de mentira ou verdade, apenas a fantasia: apesar de todas as suas artimanhas, o Gato de Botas representa o bem, e o ogro, que tem seu castelo tomado, o mal. Lembremos do elemento sobrenatural em Chapeuzinho Vermelho, que apre- senta a história de um lobo falante: para que atinjamos o caráter mágico-terrífico do lobo que devorará a protagonista, é preciso declarar as perguntas e respostas em voz alta. Como aponta Bettelheim, “o valor simbólico dessas narrativas é atin- gido quando narrado em voz alta, e demonstrando todo um envolvimento por parte do narrador para levar um significado à criança” (2002, p. 185). LITERATURA INFANTIL 71 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 71 16/10/20 17:42 Isso decorre de uma herança de muitas dessas narrativas, originárias ou adaptadas, como vindas de um folclore antes de serem contadas apenas para crianças. Escritores como Perrault e outros adaptaram esses elementos de mi- tos, lendas e outros textos. Cabe observar que mesmo o maravilhoso, nas histórias, associa-se a um elemento moral: na época de sua concepção, esses contos transmitiam os valo- res da sociedade do século XIX, muitos deles em detrimento de uma sociedade industrial. Havia uma castração da infância – ainda a ser descoberta – em prol da formação social. Era nos contos de fadas que a fantasia e o desejo poderiam ser alcançados: se Cinderela tem uma Fada Madrinha que lhe concede um pouco de diversão após um dia de trabalho, Aurora, do conto A gata borralheira, possui três fadas madrinhas, as quais estão ali para que seu destino, antes tomado por uma fada madrinha má (Malévola), se concretize. No mundo da fantasia, a fada madrinha – ou um gato de botas – realiza os sonhos e desejos da protagonista, geralmente inalcançáveis: é na casa dos sete anões que Branca de Neve tem praz, tranquilidade e uma família que a acolhe. O maligno também é mágico: temos rainhas más, fadas madrinhas perversas e madrastas invejosas; isso sem mencionar, claro, gigantes, bruxos e outros. Esses seres sobrenaturais representam o desafio impossível: seja por pode- res mágicos, seja por determinação, coragem ou astúcia sobrenatural, é pelo recurso às fadas e outros mediadores que as dificuldades são superadas. Ocor- re um grande conflito, no qual o herói, representante do bem, vence o mal. Os contos de fada apresentam uma organização narrativa comumente co- nectada ao nosso mundo, problema esse que desequilibra o status quo. Dai o confronto entre o Bem e o Mal como resolução do conflito. Diferentemente de um problema do mundo real, aqui a solução encontra-se na magia: é ela que tira a gata borralheira do seu trabalho, ou que faz com que o dono do gato de botas possa atingir a riqueza; ainda, é o beijo da princesa que faz o príncipe deixar de ser um sapo. É nesse ponto que se retorna ao mundo real, de modo que o elemento sobrenatural tem uma função lúdica no universo das narrativas infantis, pro- piciando que todos retornem ao seu “felizes para sempre”. Conforme aponta Cunha, LITERATURA INFANTIL 72 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 72 16/10/20 17:42 Se o adulto é capaz de ler um livro ou ver um filme que acabe mal, sem deixar de apreciar o livro ou o filme, pelo aspecto pura- mente artístico, ou pela realidade da vida neles apresentada, tal não se pode esperar da criança. Normalmente, ela vive a histó- ria, identifica-se com a personagem simpática, e o final desagra- dável a feriria inutilmente (1999, p. 77). É a magia, em muitas situações, o ponto de partida para o enredo. Sem isso, Rapunzel seria uma princesa aleatória, sem motivação ou algo que interfira em sua vida, como uma bruxa, uma fada má ou uma madrasta invejosa. Se não fosse a crença no elemento sobrenatural, João não trocaria sua vaca por feijões mágicos, que ele saberia de antemão que não existem. Assim como uma certa princesa mimada nunca hospedaria um sapo em seu quarto, pois, desprovido da irrupção do insólito, ele não falaria. Figura 8. A princesa e o sapo. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 22/09/2020. Para o desenvolvimento cognitivo e a superação dos desafios, a magia é fundamental: ao receber uma “pílula falante”, Emília, personagem de Monteiro Lobato, ganha vida e começa a falar pelos cotovelos. É personagem/objeto má- gico e, segundo alguns, representação do autor, Monteiro Lobato. Assim, O sítio do Pica-pau Amarelo é um verdadeiro mundo fora do mun- do: rinocerontes falantes, personagens encantados e monstros – como a Cuca, uma bruxa – surgem a todo instante. Nesse mesmo espaço, Pedrinho aproveita as férias com a avó, Dona Benta (nossa versão brasileira de fada-madrinha), LITERATURA INFANTIL 73 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 73 16/10/20 17:42 que supera todas as dificuldades por meio da contação de histórias. Essas his- tórias ajudam o jovem neto a se tornar mais forte, corajoso e destemido. Os conflitos que perpassam a vida dos seres humanos se resolvem pela superação dos conflitos ficcionais: as dúvidas das crianças sobre a língua por- tuguesa são solucionadas quando estas, magicamente, visitam o País da Gra- mática, uma forma lúdica e afirmativa de transmitir valores e conhecimentos para o público infantil, utilizando a magia – as palavras e letras que tinham vida própria – para enfrentar as dificuldades. Esse mundo sobrenatural é carregado de uma narrativa simbólica: nela apresentam-se o sofrimento, o medo, a alegria, o nascimento e o fim. É uma escolha simbólica que, por isso, vai além do conceito de bem e mal: os senti- mentos humanos são parte do processo iniciativo e psicológico dos indivíduos (personagens das histórias e seus leitores), por meio dos desafios enfrentados. Desta maneira, o enfrentamento do mau é portanto uma simbologia da castração das dificuldades do mundo cotidiano, conforme afirma Bettelheim (2002). Já a vitória do bem configura-se como uma representação do “felizes para sempre”, do ato de se atingir o sonho. Observe, por exemplo, o caso de O mundo de Sofia. Sofia é uma menina que recebe um livro com um curso de Filosofia à distância. Na verdade, sem saber, ela é a protagonista de uma história: outra pessoa, Albert Knag, está escreven- do um livro para dar de presente a sua filha para ensinar-lhefilosofia. É uma forma de superar a distância, já que ele é militar e sempre está em viagem. Há uma brincadeira mágica com isso, pois contesta-se que o próprio autor da his- tória é, na verdade, uma outra criação ficcional. O elemento sobrenatural nessas narrativas é providencial: magos, anões, gatos, gênios, todos esses elementos apresentam-se em um núcleo de aventu- ras, que mescla elementos culturais e sociais, nas quais o protagonista tem a seu recurso elementos não disponíveis no mundo real. Curiosa é a relação do mediador mágico, o ser que traz a solução. Em uma de suas origens, “fada” vem de fatum, ou destino, segundo Coelho (2012). As- sim como na tragédia grega havia o Deus ex machina, o recurso do narrador para solucionar algum problema, a fada (proveniente da novelas medievais de cavalaria) interfere no destino das personagens, ou melhor, é o próprio destino representado. LITERATURA INFANTIL 74 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 74 16/10/20 17:42 Cinderela é um exemplo de virtude, e serve à madrasta e suas irmãs sem pestanejar. Nas histórias infantis, toda boa ação não fica sem premiação, e o elemento mágico – novamente, uma fada, um gato falante ou um gênio – repre- sentam o próprio destino que se vira a favor da personagem. Não é a toa que as grandes dificuldades da vida se equiparam às fadas más: demônios, feiticeiros e outras criaturas que estão dispostas a prejudicar ativamente as personagens. O elemento sobrenatural não tem uma explicação: para deleite das crian- ças, que buscam no sonho e na ilusão, o sobrenatural é elemento principal e, ao mesmo tempo, coadjuvante: age sempre a favor de um indivíduo. É por isso que seus elementos vão além das culturas. Daí a importância da relação da literatura infantil com a formação da crian- ça: há a narração de uma série de histórias em um mundo que não o nosso, cheio de encantos e um ar misterioso e surpreendente, mas igualmente capaz de despertar o interesse e a curiosidade, e com capacidade de ensinar a al- guém. É nesse processo que ocorre a formação do leitor, e é na forma como se explora o elemento fantástico, em consonância com a imaginação, que se desenvolve a relação entre leitor e texto. Nas palavras de Carvalho (2011), a criança contemporânea experimenta uma sé- rie de sensações espaciais: aparelhos eletrônicos, internet, mundo 3D, entre outros. Assim, como fornecer algo diferente em um texto que mescla o elemento fantástico com o real, de forma a retomar situações ancestrais e fornecer a apreensão que essa criança necessita? Não há temas ruins ou bons, contemporâneos ou desgasta- dos: a obra preza pela sua perfeição, e atinge sua plenitude por sua proposta. Os indivíduos, em seu processo formativo, cercam-se de problemas, con- vivem em uma visão do real tomada por dificuldades que os levam a desen- volver a imaginação e a busca por soluções fáceis, mágicas. Essa é a base de um pensamento reflexivo, de curiosidade. Muitas dessas dúvidas são sanadas pelas explicações de sua respectiva época: discursos, narrativas, experimentos científicos, muitos influenciados por causos e acontecimentos. Porém, nem sempre bastam, uma vez que aquilo que nos é certo, seguro, literal, não basta para a criança: sua forma de pensar transita pelo campo do simbólico. Nessas narrativas infantis, o que o leitor encontra são valores pere- nes, cujo conteúdo – conceitos como “bom”, “certo”, “errado” ou “mau” – vão sofrendo modificações com o passar dos tempos (COELHO, 2012). LITERATURA INFANTIL 75 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 75 16/10/20 17:42 Diferentemente do adulto, o processo de identificação psíquica da crian- ça – o modo de interação que a lança para dentro do universo de fantasia das histórias de faz de conta – é ainda mais intenso: é por isso que o escritor deve ter a compreensão do uso do elemento sobrenatural nessas histórias. As possi- bilidades do texto e a manifestação do sobrenatural passam a ser vividos pelo leitor, por meio da sua imaginação, como parte do real. Há uma fusão entre leitor e texto, bem como a forma de interpretar o mun- do: texto literário torna-se forma de interpretação do cotidiano. Daí que a leitu- ra vai além de uma evasão ou estratégia social, mas torna-se forma de apren- der a compreender o real. E isso é feito por meio do elemento sobrenatural, o que possibilita que o real passe a ser interpretado através do jogo ficcional (YUNES; PONDÉ, 1998). Por esse viés, aponta-se a forma como a criança cria uma realidade ao seu redor para suportar as situações de conflito do cotidiano. É nessa área que ela busca, imagisticamente, a resolução de seus problemas e pormenores. No campo da imaginação, essa solução de problemas é dada pelo texto literário e, como exemplo, na literatura infantil, voltada para atingir o universo infantil. Isto permite a criança enfrentar e superar seu próprio universo de conflitos, de modo a criar um espaço no qual a tempestade torna-se calmaria, possi- bilitando que o indivíduo encontre um local no qual possa se desenvolver e amadurecer para enfrentar as circunstâncias sociais que atravessam todas as etapas de sua formação. Nas palavras de Zilberman: apontam-se em elementos fulcrais associadas à formação do infante e desenvolve-se uma relação empática com a forma des- tes ver o mundo, de forma a se valorizar a percepção infantil de ver a vida, e como estes compreenderm as transformações por um olhar simbólico, tomado de liberdade e criatividade. Assim, ao irromper a magia nas narrativas infantis, o elemento fantásti- co, dá-se a criança a chance de presenciar o ato imaginativo em sua função vital, tomando vida. Da mesma forma, permite-se à criança usufruir dos meios para subverter o poder vigente, de modo que, pela leitura do simbólico – através de uma linguagem poética direcionada para esse tipo de leitor – a criança entende como funciona o mundo (2003, p. 82). LITERATURA INFANTIL 76 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 76 16/10/20 17:42 Observe que nas histórias infantis a bruxa, o ogro, o dragão, todos eles são adultos e, em alguns casos, velhos e rabugentos. Há, assim, uma relação entre a idade, a personalidade e suas atitudes. A vilã de João e Maria é uma bruxa que, em algumas versões, é cega. Uma das responsáveis pelo ocorrido com os irmãos, a madrasta, morre, como retorno pelos seus feitos. Não deixa de ser curioso o detalhe que a personalidade das duas, madrasta e bruxa, está ma- gicamente interligada: a madrasta manda as crianças para a floresta por não querer passar fome, ao passo que a bruxa deseja comer as crianças. Há casos onde a magia de um vilão-adulto é sugestionável: Conde Olaf, ar- qui-inimigo dos irmãos Baudelaire, tem a capacidade de se disfarçar e não ser reconhecido, como se fosse mágica. Infelizmente para ele, esse “feitiço” só fun- ciona com as crianças cuja fortuna ele quer roubar. Porém, como uma revitalização de valores, as versões estilizadas do conto utilizam os elementos mágicos para representar realidades diferentes. Em uma sociedade do século XIX, com o advento da família nuclear burguesa, ignora-se que, em algumas versões mais antigas, não é a madrasta mas sim a mãe quem expulsa as crianças, representando a dureza da época de origem do conto, a Idade Média. Mais uma vez, o próprio elemento mítico-simbólico carrega traços que vão além do tempo: a criança que adentra na casa busca saciar sua fome, conseguir todas as suas guloseimas, mas precisa descobrir as consequências de suas escolhas. Se por um lado as histórias da literatura infantil rompem com a percepção empírica da realidade, ainda sim seguem toda a rede da verossimilhança narra- tiva, apresentando um mundo de acordo com a enunciação de quem narra e o desdobrar coerente das ações, além de um erro que se alimenta de uma série de casualidades (ZILBERMAN, 1987). LITERATURA INFANTIL 77 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 77 16/10/20 17:42 SintetizandoNesta unidade, abordou-se a relação entre o texto literário infantil e a trans- missão de valores. Ao se pensar a representação da criança no texto infantil, aprofundarmos e delimitamos a seguinte pergunta: qual criança estaria sendo idealizada? Dessa maneira, observou-se como, em diferentes épocas, concebeu-se mo- delos de crianças – mais imaginários do que reais – que deveriam ser o exemplo a ser imitado, a norma. Abordou-se, também, como toda uma tradição de escritores, ao concebe- rem o conceito de infância, passaram a abordar tanto a inserção da criança no texto literário como a elaboração de uma linguagem que a representasse. Nesse caminho, foi resgatada uma extensa linguagem mítico-simbólica, através da qual os textos passaram a criar mundos que mesclavam elementos do real e do irreal, agregando características que seriam igualmente significati- vas para esse tipo de produção textual. LITERATURA INFANTIL 78 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 78 16/10/20 17:42 Referências bibliográficas ANDRADE, G. Literatura infantil. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2014. BARTHES, R. Aula. 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LITERATURA INFANTIL 80 SER_PEDA_LITE_UNID2.indd 80 16/10/20 17:42 ESCOLA E FORMAÇÃO DO LEITOR 3 UNIDADE SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 81 16/10/20 17:35 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Escola e formação do leitor A importância da leitura e da literatura na escola Estratégias de leitura em sala de aula Brincadeiras com palavras, sons e imagens Leitura e leitores Didática da literatura infantil Responsabilidade da escola e do professor na formação do leitor A sala de aula enquanto espaço de construção O ensino da literatura Políticas e práticas educacionais Apontar a importância de estratégias na escola para a formação de leitores; Destacar as possibilidades do uso do texto infantil em sala de aula. LITERATURA INFANTIL 82 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 82 16/10/20 17:36 Escola e formação do leitor Abordaremos nesse material a relevância da leitura na formação de leitores e cidadãos. Para tal, nos questionemos: o que é a leitura? Qual a relevância des- ta para abordar exatamente o conceito de leitor? Acreditamos que, ao lermos textos, lemos a vida, personalidades e realidades. Quando a palavra leitura é pronunciada, uma das associações mais comuns é o ato de ler um livro e, con- sequentemente, uma resistência. É curioso, pois muitos alunos, principalmen- te nos dias atuais, leem histórias em quadrinhos em mídia digital. Mais curioso ainda é que essas histórias possuem os mesmos elementos do texto publicado em livros, ou seja, enredos, aventuras, personagens, espaços fi ccionais, focos narrativos. A própria palavra leitura é polissêmica, possibilitando signifi car diversas outras ideias. Zilberman nos dá uma explicação mais lúdica. Para ela, no es- paço entre a fala e a escrita surge um código que tem como uma de suas marcas a capacidade de produzir vários sentidos, de acordo com sua organi- zação (ZILBERMAN, 2003, p. 18). Em suma, o texto por excelência tem a parti- cularidade de promover saberes quase infi nitos, e alguns, infi nitos. Isto é, ler envolve interpretar sentidos. E o texto, por defi nição, é um todo de sentido (FIORIN; SAVIOLI, 2006). Portanto, ler não envolve apenas a ação. Abrange uma compreensão mais ampla, já que está associado à interação entre o ser e a sociedade. É por meio da leitura que damos sentido ao mundo, organizando todo o caos que nos cerca. Até as inconstâncias da vida se transformam em uma forma de texto. Observe uma obra como Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. A convulsão da nova república, bem como as revoltas e confl itos que hoje nos parecem tão distantes, como se fossem apenas estatísticas, passam a ser mais esclarecidos pela pena literária. A narrativa, que era apenas um re- gistro, torna-se mais próxima a todos nós. A voz do poeta organiza os eventos por meio das possibilidades do jogo de fi ngi- mento. Seria isso muito diferente de narrativas como O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, em que a pior das punições também vem acompanhada de um processo de aprendizagem? LITERATURA INFANTIL 83 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 83 16/10/20 17:36 Mas o jovem leitor é capaz de traçar essa relação entre obras literárias tão diferentes? Como exigir que um indivíduo, durante os primeiros momentos da vida, tenha um grau suficiente de leituras acumuladas que possa identificar es- ses elementos em diferentes textos? Nós lemos e nos lemos. Em primeiro lugar, tudo o que fazemos é realizado por meio de uma forma de comunicação, uma linguagem. E esta envolve o uso de uma língua. Se pensarmos por esse lado, alguns cursos universitários, como Medicina e Enfermagem, bem como Marketing e Letras, possuem uma disciplina para aprender a interpretar tanto os sinais do corpo como dos códigos, deno- minada semiologia. Já ouviu a expressão “o corpo fala”? Bem, acontece que, em geral, dizemos mais do que realmente colocamos em palavras. A leitura pode ser compreendida como um ato de criação de sentidos e, por isso, sua importância vai além da noção de alfabetização e do ato de leitura mecânica, mas de interação social. Todos ao nosso redor são leitores, com dife- rentes graus de proficiência.Desde sempre há o fetiche da leitura como meca- nismo de ascensão cultural, a ideia de que se lermos determinados livros con- siderados difíceis ficaremos mais inteligentes. O problema nesse sofisma é que substituímos uma possibilidade por certa e desconsideramos o tipo de leitura e como o leitor se insere socialmente no cotidiano de quem adquire essas leituras. Figura 1. O conde de Monte Cristo: aventura e aprendizagem. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 28/09/2020. LITERATURA INFANTIL 84 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 84 16/10/20 17:38 É por isso que há a necessidade da apreensão, por parte dos alunos e dos pro- fessores, das práticas cotidianas de leitura. Ler não se encerra como atividade, uma vez que envolve entretenimento, obrigação, descoberta, pesquisa, revisão, dentre outras práticas. DICA Regina Zilberman, em seu artigo A leitura no Brasil – sua história e suas instituições, faz um aporte dos mecanismos nacionais criados para o crescimento do público leitor – bem como suas inconsistências. É um texto essencial para enten- der as propostas do ensino de literatura em sala de aula. A importância da leitura e da literatura na escola Quando pensamos em leitura, devemos considerar questões como: para quê, por quê, como e o quê. São pontos que direcionam a complementação dessa atividade. O texto literário, desde sempre, é um excelente facilitador do desenvolvimento das competências associadas à leitura e é comum pensarmos que, se a criança consegue ler as le- tras, formar as palavras, identifi car os códigos, então pode ser considerada um leitor competente. Bom, esclare- cemos que ela pode ser alfabetizada, mas não necessariamente um indiví- duo letrado. Isso ocorre porque o ato da leitura não está associado apenas ao texto literário, ou de saber identi- fi car os códigos textuais, pois consiste em uma atividade mais ampla. E, den- tro desse escopo, há uma facilitação para se atingir essas habilitadas, que são favorecidas pelo contato com o texto fi ccional, o qual é uma das várias possibilidades textuais existentes. Isso signifi ca que a competência para a leitura, mesmo que superfi cial, é pré-requi- sito para outras que virão a ser aprofundadas ao longo da vivência. LITERATURA INFANTIL 85 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 85 16/10/20 17:39 Se vamos tratar da questão das práticas de leitura em sala de aula, deve- mos considerar o seguinte: há diversos tipos de textos. Alguns podem ser lidos em trechos para sua compreensão; outros, demandam maior aprofundamen- to. Alguns podem ser lidos de um fôlego; outros, durante horas. Alguns textos são simplórios, enquanto outros promovem um verdadeiro jogo linguístico com o leitor. Alguns são como histórias de aventuras; enquanto outros, roman- ces policiais. E há aqueles que possibilitam múltiplas interpretações que fazem sentido ao longo dos tempos: são os textos literários, diferentes de outros que cumprem uma função bem específica, assim como roteiros, livros didáticos e manuais. Uma notícia de jornal e uma receita de bolo são textos válidos. Nesse pro- cesso de produção de saberes a partir do texto, deve-se considerar que a lei- tura informativa exige estratégias próprias que são muito importantes para realimentar nosso processo de aprendizagem. Selecionar as informações que realmente interessam, relacioná-las com outras, usá-las de modo adequado, percebê-las e ironizá-las em sua parcialidade, contextualizá-las social e histo- ricamente são algumas estratégias de produção de conhecimento por meio da leitura. Porém, a atividade da leitura nunca é igual, visto que os textos dos quais se apropria abordam diferentes faculdades psíquicas do indivíduo. Mui- tas dessas são movimentadas por influência do texto literário, fugindo do pa- drão de outros textos que circulam cotidianamente. Afinal, é possível que con- sigamos ler todos os livros da série O mundo de Oz da mesma maneira e com as mesmas estratégias, apesar do estilo dos diferentes escritores que produ- ziram todo esse universo? E considerando que se trata de um amplo universo semiótico produzido por vários escritores, cada um ampliando o universo original? Podemos usar essa mesma premissa para histórias em quadrinhos, como as criações de Mauricio de Sousa. Existe todo um universo de roteiristas, desenhistas e demais pro- fissionais envolvidos nesse processo tex- tual. Se as primeiras produções da Turma da Mônica datam de mais de 60 anos, também desenvolveram as temáticas e o tipo de leitor: LITERATURA INFANTIL 86 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 86 16/10/20 17:39 contextos diferentes, referências variadas, as quais vão sofrendo modificações com o passar do tempo. Um exemplo bem explícito disso, de como esses tex- tos mistos vão sendo produzidos em negociação a leitores com competências diferentes, são os personagens que vão sendo criados com o passar do tempo. Além de Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, Astronauta e outros, nos últimos anos surgiram personagens que dialogam com a visibilidade dada a outros per- sonagens, como André (um menino que possui transtorno do espetro autista) (Figura 2), Dorinha (personagem que é cega), Luca (que é paraplégico) (Figura 3), a dupla Igor e Vitória, ambos soropositivos, criados em uma parceria com a ONG Amigos da Vida, dentre outros. Vale destacar também o personagem Humberto, menino mudo criado em meados dos anos 1980. Figura 2. Diálogo envolvendo os personagens André, Cebolinha e Mônica. Fonte: BERNARDO, 2019. Imagem divulgação Mauricio de Sousa Produções/SAÚDE é Vital. LITERATURA INFANTIL 87 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 87 16/10/20 17:41 Figura 3. O estabelecimento de um diálogo entre personagens inclusivos, como os da Turma da Mônica, e seus lei- tores é fundamental no desenvolvimento de uma visão abrangente da realidade social dos alunos. Fonte: Wikimedia Commons. Acesso em: 28/09/2020. Quando falamos em perfis literários, devemos considerar a relação entre escritor, obra e leitor. No entanto, estar fora do padrão não significa ques- tionar todos os padrões, de modo que os perfis literários também são fonte profícua de aprendizagem para os leitores. A relação do texto literário com o universo verbal como um todo, com os outros textos escritos, já é, pois, objeto da necessária recriação por parte do leitor. Porém, a relação do texto literário com o universo extraverbal também passa por todas as transformações, sele- ções, repetições, rupturas, apropriações que sejam possíveis. É importante desta- car que determinadas leituras exigem uma gama de conhecimentos para serem melhor aproveitadas, e os próprios vão se transfor- mando e retransformando a cada texto, o qual amplia o re- pertório sociocultural dos leitores. LITERATURA INFANTIL 88 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 88 16/10/20 17:41 Por que nossos alunos, às vezes, reclamam quando pedimos que leiam os clássicos modernistas, como Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado, mas pa- recem se debruçar diante de Caçadas de Pedrinho, autoria de Monteiro Lobato, obras cronologicamente próximas entre si, mas distantes do tempo dos leitores mais jovens? Nos estudos literários, abordamos muito a questão da universali- dade de um texto e sua atemporalidade. Mas isso é um critério do escritor, da crítica literária, ou do leitor? É uma pergunta complexa, tendo em vista que se um texto deixa de ser significativo para determinado leitor, significa que deixou de ser significativo para todos os leitores ou perdeu sua capacidade de ser univer- sal? A universalidade de um texto está relacionada à sua capacidade de respon- der a grandes questões do ser humano, ou seja, não é uma qualidade individual. A leitura, por outro lado, é uma prática mais ampla. Em sua essência, ler é produzir conhecimento, como se cada um amplia-se uma biblioteca particular a cada livro que se lê. É o que aponta Darnton (2011) ao abordar que o indivíduo não desenvolvea habilidade da leitura, mas a capacidade de estabelecer rela- ções de significado, socialmente e culturalmente. Ele o faz identificando, reco- nhecendo, comparando, analisando e interpretando os códigos que lhe chegam, ou seja, o processo de intertextualidade. Imagine dois leitores: o primeiro leu Sítio do Picapau Amarelo até suas últi- mas obras publicadas, na década de 1940; o segundo teve a chance de acompa- nhar as diferentes encarnações da Turma da Mônica, dos anos 1950 até os dias de hoje. Qual desses precisou agregar mais leituras para entender os diferentes contextos de produção das respectivas obras? Ambos. O segundo teve a opor- tunidade de acompanhar como a obra de Mauricio de Sousa – e os diferentes artistas que com ela contribuíram – foi representando uma sociedade em cons- tante transformação, com novos valores, contextos e elementos. Por outro lado, aquele que teve contato com a obra de Lobato precisou, à sua maneira, amadu- recer sua leitura para, assim, formular sentidos que negociassem não apenas com o passado, mas com o presente. Afinal, se isso não fosse feito, poderíamos facilmente abandonar, nos anos 1970, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado. Porém, cabe ao leitor, em seu processo de produção de sentidos, ou seja, durante o ato de leitura, contextualizar o texto com sua respectiva épo- ca. É dessa maneira que obras como A Droga da Obediência, de Pedro Bandeira, parece-nos ter sempre algo a dizer. LITERATURA INFANTIL 89 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 89 16/10/20 17:41 EXEMPLIFICANDO Não há texto isolado do seu universo formativo. Todo texto referencia seu espaço, mesmo que por analogia. Narrativas como Os Lusíadas foram produzidas durante a época das grandes navegações, bem como Dom Quixote refl ete um período da modernidade e da ascensão da burguesia. Os textos infantis de Monteiro Lobato, por sua vez, contextualizam a época de um Brasil rural e extremamente burocratizado. Seja por livros descontinuados ou recorrentes, obras antigas ou contempo- râneas, é por meio do contato com essas obras que o leitor vai desenvolvendo seu arcabouço intertextual. Essa noção de intertextualidade é cunhada por Julia Kristeva, para a qual há no texto o que considera como qualquer tipo de refe- rência ao outro, tomado como posição discursiva: “paródias, alusões, estiliza- ções, citações, ressonâncias, repetições, reproduções de modelos, de situações narrativas, de personagens, variantes linguísticas, lugares comuns etc.” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 165). Intertextualidade, portanto, compreende o termo como “escritura simultaneamente como subjetividade e como comunicabilidade” (KRISTEVA, 1974, p. 71). Estratégias de leitura em sala de aula O livro O Fantástico Mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira (1997), aborda um bom exemplo dessa intertextualidade. O autor resgata elementos dos con- tos de fadas, os quais, por sua vez, já resgatavam elementos do conto tradicio- nal. Acrescenta-se a isso como, na obra, temos uma continuação das histórias: Branca de Neve, Cinderela e as demais são mães, que precisam resolver um mistério: que fi m deu a Feiurinha? Aliás, quem é ela? Há um processo lúdico com o próprio elemento dos contos de fadas: na transição de suas versões orais para escritas, elementos vão sendo adaptados. Enquanto as narrativas francesas sofrem uma suavização, as germânicas – a exemplo das narrativas dos irmãos Grimm – buscam mostrar a natureza mais crua. Ambas não dei- xam de ser adaptações que, paulatinamente, vão preservando determinadas versões para a variedade escrita. Nesse ínterim (como na história Os três por- quinhos, que, antes, eram três duendes (BETTELHEIM, 2007)), elementos vão se transformando, adaptando-se aos contextos. LITERATURA INFANTIL 90 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 90 16/10/20 17:41 Por sua vez, a obra brinca com esse elemento das narrativas infantis que, em sua origem, eram orais. Algumas desaparecem, outras sofrem transfor- mações. A Feiurinha era a princesa esquecida, mas igualmente legítima, pois segue os elementos do conto de fadas, carrega seu elemento mágico, sua lin- guagem transformadora e leva aos mais jovens o mundo da magia, mesmo que sendo uma leitura nos dias atuais. Notamos uma intertextualidade não com o conto em si, mas com os ele- mentos do conto. O leitor é quem dá autenticidade à nova princesa, por reco- nhecer nela variações de Branca de Neve, Cinderela e Rapunzel. O príncipe que completa o casal é, por si, mais um da família dos “Encantados”, conjunto de príncipes, parentes entre si, herdeiros de uma família nobre. A rainha-mãe não reconhecer a maternidade desse novo príncipe não faz diferença, uma vez que ele também passa a ser reconhecido como herdeiro de uma tradição mágica. Ao escrever o livro, o autor promove um jogo textual com os apontamentos de Aristóteles, para quem a literatura era, por definição, um grande diálogo entre produções anteriores e posteriores (PIAGET, 2005, p. 32). Podemos trabalhar, em sala de aula, a literatura como um amplo processo dialógico, considerando compreender algo associado ao contexto de uma res- posta em potencial. É a partir disso que se constata como o texto literário exige um leitor que perceba essa relação textual de um texto com seus anteriores ou contemporâneos. O texto não é apenas uma série de enunciados, mas a per- cepção dos diferentes significados da língua (KRISTEVA, 1974, p. 20). Pelo contato com obras que fazem parte do escopo de leituras prévias da criança, cria-se um espaço discursivo onde se conflitam quem escreve, a quem se destina e os textos com que travam diálogo, uma vez que esse pró- prio destinatário atua como um discurso presumido e, por vezes, silenciado, de maneira que todo texto permite a criação de um espaço em que se lê, pelo menos, dois textos. Temos, dessa maneira, a palavra, signo linguístico por excelência, atuando e interagin- do translinguisticamente e ininterruptamente entre sistemas semiológicos. Dentre os vários tipos de textos, o espaço por excelência é o literário para ativar a propriedade intertextual da linguagem verbal (REIS, 2008, p. 183). LITERATURA INFANTIL 91 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 91 16/10/20 17:41 É por isso que o leitor contemporâneo, com muita dificuldade, compreen- de (quando o faz) esses entrecruzamentos discursivos, entre o texto e seus elementos históricos. Podemos considerar que está aí todo o potencial da lite- ratura infantil, pois ele negocia visões de mundo que muitas vezes não são per- ceptíveis ao aprendiz, mas contribui para que o mesmo possa, paulatinamente, formar sua biblioteca literária. Como desenvolver no aluno essas competências de percepção? Por meio do texto literário, o qual possui uma dinâmica de atuação em um vasto universo textual – o qual envolve, inclusive, textos literários e não literários – que possi- bilita essa interpretação constante de textos em e através de outros textos. À medida que esse leitor se torna mais competente, é realizada uma espécie de construção de sua competência ledora por meio de recortes das suas próprias leituras (COMPAGNON, 2007, p. 12), adaptando-se continuamente a novos con- textos semióticos. Talvez uma criança não consiga compreender como os elementos presentes na narrativa A demanda do Santo Graal influenciaram toda uma série de novelas de cavalaria. Porém, é possível guiá-lo de modo a traçar uma correlação en- tre os elementos mágicos presentes no Cálice Sagrado e o sapatinho de cristal da Cinderela. Da mesma forma que uma série de cavaleiros sai da cor- te do Rei Arthur em busca do cálice, o príncipe encantado sai em uma cruza- da atrás da dona do pé no qual o sapa- tinho de cristal se encaixaria. É por isso que a prática da leitura em sala de aula deve privilegiar o seu receptor, ou seja, o leitor. Dessa maneira, pode-se atingir uma visão ampla e estruturada do processo da leitura, seus percalços,desenvolvimentos, impedi- mentos e consequências, bem como o caráter pedagógico e ideológico dessa atividade. Adentramos em conceitos pedagógicos da prática de leitura, resga- tamos as noções de gêneros textuais em prol da facilitação de práticas de lei- tura e apresentamos questões essenciais do universo sociocultural do leitor enquanto figura física e abstrata. LITERATURA INFANTIL 92 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 92 16/10/20 17:42 Brincadeiras com palavras, sons e imagens Uma pergunta que talvez incomode mais aos alunos do que seus respecti- vos professores é: que atividade é essa que muitos recomendam com afi nco, mas tantos não a praticam com a mesma intensidade? Por que, apesar de ser considerada essencial, há tantas ressalvas sobre como exercê-la? Vive- mos em uma sociedade na qual a prática de leitura é desejada e promovida; porém, muitas vezes não praticada. Debruçamo-nos sobre coleções literárias espalhadas em estantes de bibliotecas escolares, as quais acumulam poeira diante de alunos que não as acessam. Com o propósito de responder a esse e a outros questionamentos, deparamo-nos com a necessidade de abordar vários aspectos da atividade, desde a noção de atividade ledora até a de es- paços propícios para tal. Nely Novaes Coelho aponta que o texto literário e, em particular, a literatu- ra infantil “têm uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em trans- formação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo conví- vio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola” (COELHO, 2000, p. 15). Nesse sentido, os educadores e as escolas são fundamentais para proporcionar a crianças e jovens o contato com a literatura, de maneira que esses sujeitos compreendam e refl itam sobre si mesmos e a respeito do meio social em que estão inseridos. Discutir essa literatura envolve abordar suas vertentes, bem como suas linhas de pesquisas, como a artística e psicológica, e como desde cedo é atri- buída a esta uma função pedagógica, objetivando revelar que a literatura pode ser trabalhada sob diversos vieses, apresentando em cada vertente sua importância e sua forma de interpretação no contexto sociocultural. Essa re- fl exão visa abordar como a literatura infantil pode ser um instrumento de construção do mundo real a partir do lúdico que os livros proporcionam às crianças e aos jovens. Desse modo, podemos observar a relevância do livro infantil na formação de jovens e crianças, pois é por meio do livro que se torna possível explorar o mundo imaginário, em que fantasias, monstros, fadas e mitos se fazem pre- sentes nas lendas, nos contos e fábulas, proporcionando, assim, que o sujeito construa uma conexão do mundo real com o lúdico. LITERATURA INFANTIL 93 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 93 16/10/20 17:42 Merece destaque, dentre as várias contribuições dessa literatura em parti- cular, o fato de servir como agente de formação, tanto de forma espontânea como direcionada pela escola, bem como a importância da literatura para a formação da consciência de mundo por crianças e jovens. Figura 4. O fomento da leitura por crianças no ambiente escolar é imprescindível para o desenvolvimento, visando alcançar a formação de cidadãos conscientes. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 28/09/2020. A escola é o espaço de aprendizagem por excelência. O ensino de literatura em sala de aula visa transmitir ao indivíduo todo o arcabouço sociocultural do meio em que vive, permitindo que este, ao compreender as transformações estéticas pelas quais o homem transitou, possa realizar uma profunda e profícua reflexão entre o mundo real e o imaginado, a elaboração da consciência de si e do outro, a criticidade em relação à leitura do mundo, a língua como forma de expressão verbal significati- va e consciente, em suma, “a plena realidade do ser” (COELHO, 2000, p. 16). Isso nos permite resgatar o caráter lúdico das literaturas infantis. Se por um lado há associação a textos de crianças, por outro o termo agrega uma carga semântica significativa ao misturar jogos de palavras, onomatopeias e imagens verbais. Assim, a imagem que a história infantil, desde Chapeuzinho Vermelho até A Droga da Obediência, apresenta para a criança tem implicitamente os sentimentos de um “Era uma vez”. Desse modo, a literatura contribui para formação da criança como sujeito e leitor: LITERATURA INFANTIL 94 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 94 16/10/20 17:43 O contato com a literatura infantil se faz inicialmente através de seu ângulo sonoro: a criança ouve histórias narradas por adultos, po- dendo eventualmente acompanhá-las com os olhos na ilustração. É essa última que introduz a epiderme gráfi ca do livro, de modo que a palavra escrita apresenta-se via de regra como o derradeiro elo de uma cadeia que une o indivíduo à obra literária. Contudo, tão logo ela instala o domínio cognitivo de um ser humano, converte-se em um leitor, isto é, modifi ca a sua condição. Portanto, é a posse dos códigos de leitura que muda o status da criança e integra-a em um universo maior de signos, o que nem a simples audição, nem o deciframento das imagens visuais permitiam (ZILBERMAN, 2003, p. 57). Vale destacar que a criança e o jovem são seres criativos e que gostam de fanta- siar, e a literatura infanto-juvenil proporciona isso, de maneira que consegue orga- nizar o mundo mágico com o seu universo, construindo e reconstruindo a realidade e realizando tudo o que desejam. E o fazem por meio de imagens visuais criadas pelo recurso a imagens verbais, orais e escritas. Essa literatura deve ser inserida nos anos iniciais da criança, pois é a partir dessa fase que se estimula a imaginação, a interação do lúdico com o real, bem como é por meio do ato de ouvir as histórias dos contos de fada que a criança reconstrói o seu mundo, no momento em que ela reconta e recria sua própria história infantil. Sendo assim, é fundamental que o educador trabalhe a literatura infantil com os seus alunos, principalmente nas séries iniciais, de maneira a proporcionar o lúdico de forma prazerosa, permitindo que as crianças se descubram no meio social em que estão inseridas. Leitura e leitores É por meio da leitura literária que se desenvolvem capacidades imaginati- vas, sentimentos, valores e as diferentes negociações por meio da qual o meio social coloca em discussão suas questões. Entramos em outro terreno arenoso: não estaria a literatura infantil no campo das chamadas literaturas de massa? Em uma época em que vivemos a busca desenfreada pela cultura, momento em que todos desejam que seus fi lhos sejam leitores, independentemente da qualidade dessa leitura, esse espectro sonda o texto literário infantil. LITERATURA INFANTIL 95 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 95 16/10/20 17:43 Muitos se perguntam sobre a importância da literatura no currículo escolar. Deveríamos perguntar outra coisa: o que foi feito da literatura nesses currí- culos? Reduzida à historiografia lite- rária, gravação de períodos, estilos e marcas, sem um aprofundamento. O aluno, ao concluir a educação básica, pouca chance e incentivo teve para ler, por completo, os clássicos brasileiros. E, ao abordar os clássicos, tomamos a liberdade de inserir no mesmo grupo a produção literária infantil brasileira, passando até mesmo por escritores como Jorge Amado e Lygia Bojunga. Embora haja uma série de percal- ços para o acesso da leitura em sala em aula, sua importância no currículo escolar dá-se justamente pela capacidade imaginativa transmitida e desen- volvida pela literatura para ter em mão os instrumentos que lhe propiciem atingir a plenitude de sua cidadania. É no texto literário que o indivíduo atin- ge as várias possibilidades da língua que transcendem os signos cotidianos, ato possível pela acumulação de significados possibilitada por esse tipo de texto (LAJOLO, 2001). Essa acumulação transcende o imediatismo da cultura de massa,de ma- neira que a relação entre leitor e texto deve instigar uma pluralidade de repre- sentações, motivo pelo qual aqueles textos que promovem a indeterminação são os mais adequados por apresentarem um mundo ficcional a ser decifrado. Afinal, o que há de mais indeterminado do que a própria magia, elemento recorrente nos textos infantis? As regras do mundo dos adultos, nosso mundo real, são invertidas: a magia é inconstante, possibilita que o mundo sofra um revés. Se por um lado é por meio dela que a Rainha Má se disfarça e envenena Branca de Neve, é a mesma magia do beijo do amor verdadeiro do Príncipe Encantado que desperta a princesa. A magia que desconcerta o mundo estará presente no conto da Gata Borralheira, na qual, mesmo após o efeito mágico das doze badaladas, o príncipe é tomado por uma espécie de encantamento, o que o faz buscar desesperadamente pela dona do sapatinho de cristal. LITERATURA INFANTIL 96 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 96 16/10/20 17:43 Podemos ir além, considerando que o texto tem a capacidade de instigar no leitor, por exemplo, o princípio da comunidade: nos dias de hoje, há redes so- ciais voltadas para esse intuito, no qual as pessoas compartilham suas ideias, sugestões, conhecimentos e teorias sobre o que vivenciaram. São levadas a construírem sentidos individuais e coletivos, de modo que as conversas entre leitores ampliam cada vez mais essa percepção, de modo que trabalhar com o texto passa a ser algo lúdico e prazeroso. A obra fi ccional, por sinal, é a experiência de leitura por excelência, uma vez que é simbolicamente uma imagem do mundo, ou seja, nunca está totalmente encerrada (ZILBERMAN, 2007). É o texto que fala mais pelas suas ausências, pelos “talvez” e “se”, e cabe ao leitor completar esses espaços, decifrar seus enigmas por meio de sua capacidade imaginativa e vivência. Desse modo, não se pode considerar o livro como mero instrumento de preparação das séries iniciais, de- grau para leituras nas séries posteriores. É por meio de uma interação duradou- ra entre leitor e texto que se ampliam as possibilidades de um conhecimento real do mundo, transcendendo as limitações que o próprio ensino escolar estabelece para poder generalizar o processo de ensino-aprendizagem. A escola, ao instruir os alunos, padroniza os saberes, independentemente do grau ou capacidade de cada um. É por isso que esses limites são transcendidos pelo texto literário, o qual não é limitado por essas barreiras, possibilitando a descoberta de uma vivência singularizada em cada obra. Se quem lê sabe mais, então é por meio da obra de fi cção que o indivíduo melhor desenvolve sua capa- cidade de problematização para enfrentar os grandes problemas da sociedade. Didática da literatura infantil Uma vez que abordamos todo esse processo lúdico de formação do leitor, qual é a responsabilidade da escola nessa série de etapas para o desenvolvi- mento de sua capacidade de leitura? Para isso, precisamos abordar toda uma linha de saberes transversais que ampliam a discussão sobre a literatura infantil, isto é, a prática didática. De- terminadas concepções didáticas ampliaram o uso do texto infantil em sala de aula, mas sem pensar nesse mesmo gênero textual em um primeiro momento. O que seriam, então, essas práticas? LITERATURA INFANTIL 97 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 97 16/10/20 17:43 Para entender a didática, devemos adentrar em um tripé: os objetivos edu- cacionais, as estratégias de ensino e os mecanismos de avaliação. Nesse campo, a didática tem como objeto o ensino e, ao realizar esta discussão acres- cida dos saberes necessários ao professor e ainda às peculiaridades da sala de aula, buscamos abordar um pouco da teoria sobre a prática pedagógica e o processo de ensino, que têm como objetivo maior a aprendizagem. E, princi- palmente, como se intercala a relação entre didática e uso da literatura infantil em sala de aula em prol do desenvolvimento amplo das capacidades de leitura. Você, muito provavelmente, enfrenta problemas para trabalhar o texto li- terário em sala de aula, usando-o além de recurso para exercícios de inter- pretação textual. O uso do texto literário exige de sua parte não apenas um desenvolvimento didático, mas também no campo da autoformação. Portanto, busque ser um professor reflexivo, pesquisador e investigador para que con- siga transformar a sala de aula em um espaço de desenvolvimento não só dos alunos, e também como um espaço de desenvolvimento pessoal, profissional e organizacional. Isso é fundamental para que você não seja um mero leitor de textos de sala de aula, de maneira que o uso de textos literários se resuma a uma prática não reflexiva por parte dos alunos. Ensinar, em uma antiga interpretação, era tido como mostrar como fazer, anunciar, assinalar. Atualmente, qual será o significado do verbo ensinar? Troca de informações e dialogar seriam formas de ensinar? Quando há um debate ou discussão, podemos considerar que está havendo ensino? Não é presumível que em todas essas ocasiões descritas seja possível considerar que informa- ções e mesmo conhecimentos organizados estão sendo comunicados de uns para outros. O processo de ensino, em si, pode ser explorado como uma mo- dalidade específica do processo de comunicação que apresenta peculiaridades relativas aos seus propósitos e às suas dificuldades específicas. Por exemplo, uma emissora de televisão é um canal de comu- nicação e pode tanto transmitir notícias ou filmes quanto uma aula. A peculiaridade desta última é que ela é organizada e sistematizada, apresen- tando, na maioria das vezes, um desenvolvimen- to linear e tem como intenção básica desenvolver aprendizagem, ou seja, ensinar. LITERATURA INFANTIL 98 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 98 16/10/20 17:43 O que diferirá em relação ao ensino é o público, que pode tanto estar disposto a aprender quanto não estar com essa intenção ao assistir à aula. Esquematizando melhor tal explicação, pode-se considerar que a primeira peculiaridade do processo de ensinar é a intencionalidade. Esta não é uma certeza do processo, mas um esforço. Dito isso, você acha que é capaz de distinguir o que você aprendeu por esforço próprio e o que foi aprendido por você, fruto do esforço de alguém? Podemos re- fletir ainda que existem aprendizados que são aprendidos sem que ninguém nos tenha ensinado e outros que precisam nos ser ensinados inúmeras vezes. O auto- didatismo é um exemplo da organização do processo de aprendizagem. Do outro lado do autodidatismo estão os sujeitos que precisam de um sujeito ensinante, não necessariamente um professor, sendo alguém com a tarefa de ensinar. Ensinar é um esforço e nem sempre uma certeza, pois embora o ensinante ensine, o outro lado muitas vezes aprende (ou apreende) pouco ou quase nada. Para que haja sucesso entre o ensinar do ensinante e o aprender do aprendente, entram em cena os procedimentos didáticos, buscando que os dois processos (ensi- nar e aprender) se encontrem e ambos tenham sucesso em sua jornada, surgindo, assim, o campo da didática. Todavia, a prática didática não se limita apenas à sala de aula. Esse é um dos motivos de termos pessoas que desenvolveram a prática de leitura muito precocemente, e tantos outros que leram muito pouco ao longo de sua vida. A própria atuação em casa, e em outros espaços formativos, é um exemplo de prática pedagógica direcionada para a leitura. Retornando um pouco no conceito de ensinar, ele é um verbo transitivo tanto direto (ensinar o quê?) quanto indireto (ensinar a quem?). Na escola, o verbo ensinar assume formalmente seu papel, e as situações didáticas são organizadas, planeja- das, divididas em etapas e subdivididas conforme os objetivos de aprendizagem. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96) (BRASIL, 1996) trabalha com instruções e princípios da educação nacional. Expressas em seu arti- go 27, as diretrizesestabelecem que os conteúdos curriculares da educação básica considerem, dentre várias questões, a difusão de valores fundamentais ao interesse da sociedade, aos deveres e direitos dos cidadãos e às condições de escolaridade do aluno em cada instituição. Tais princípios levam em conta a ética, a política e a estética da educação em um nível mais concreto de valores. Assim, por meio do princípio de consideração da diversidade étnico-racial consideram-se as condições específicas da sociedade brasileira. LITERATURA INFANTIL 99 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 99 16/10/20 17:43 Uma educação voltada para a particularidade do indivíduo é o nosso te- ma-base. As premissas da literatura infantil aqui elencadas levam em conta esse ponto de vista, uma vez que o texto literário oferece todo um potencial de atividade e desenvolvimento de competências em sala de aula. Tendo em vista tais princípios e outros documentos legais que norteiam a educação brasileira, ao discutirmos a didática e a escola como um todo precisamos ter em mente o projeto pedagógico da instituição, que precisa considerar os valores, princípios e diretrizes legais. Outro aspecto relevante que a escola precisa pensar ao construir e imple- mentar seu projeto são as diferenças. Estas podem ser tanto de ordem indi- vidual dos sujeitos (alunos, família e professores) quanto cultural ou social da escola inserida no espaço social e comunitário. Cada escola possui sua singu- laridade. Então, não existe escola pública, aquela que tem seu projeto político copiado de outra escola pública sem se considerar suas especificidades. O que existe é uma escola, que, dentre todas as suas características, está também o fato de ela ser pública. Daí a importância da autonomia da escola na constru- ção de seu projeto, bem como da busca de sua identidade como espaço social inserido em uma comunidade. Figura 5. Uma escola que singulariza e, ao mesmo tempo, diversifica alunos e professores garante a construção de um ambiente que insere a comunidade no projeto pedagógico. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 28/09/2020. LITERATURA INFANTIL 100 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 100 16/10/20 17:44 Tal autonomia precisa considerar as características da comunidade em que a escola está inserida e dos alunos que a compõem. Isso abrange a história da escola em termos de avaliações e da aprendizagem dos alunos, a formação do seu corpo docente, o tipo de gestão na qual a escola está inserida, entre tantos outros aspectos singulares à escola. Realizada a construção de um projeto pedagógico bem delimitado, bem arranjado, é preciso conhecer a relação da didática e do currículo, ou seja, o itinerário que a formação dos alunos percorrerá. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), como seu próprio nome diz, são diretrizes, parâmetros e fundamentos que auxiliam na construção do currículo personalizado ou individualizado das escolas. As DCNs não são o currículo, são caminhos a serem seguidos, nortes a serem considerados no itinerário formativo de seus alunos. Seguem, resumidamente, algumas questões elucidadas pelas DCN’s: o cur- rículo precisa ser mais que enciclopédico, ele precisa ensinar o sujeito-aluno a aprender a aprender, pois se espera que, ao entrar para o mercado de trabalho e exercer sua cidadania, permaneça aprendendo, intercalando sua experiência profissional com períodos de intensa aprendizagem, mesmo depois de concluí- da sua escolaridade. EXPLICANDO Currículo, na concepção tratada aqui, refere-se à organização e articulação interna de um curso de estudos no seu conjunto. Pensar o currículo é con- siderar o momento histórico em que a escola e os sujeitos estão inseridos, sem desconsiderar a necessidade de escolarização apresentar uma função educativa, não informativa, mas formativa. De modo a estimular questões acerca do fomento à leitura, consideremos a seguinte questão: qual narrativa utilizar em sala de aula para abordar a ques- tão da cidadania, Os Três Porquinhos, de Joseph Jacobs, ou A Cigarra e a Formiga, de La Fontaine? Por um lado, ambas abordam a discussão sobre valores libe- rais. Apenas o porquinho que trabalha mais tem uma casa forte para resistir ao lobo, e a cigarra morre de fome porque não trabalhou durante o período mais quente. Mas várias discussões podem irromper das narrativas, como, por exemplo, a fábula da cigarra que possibilita o questionamento de que a LITERATURA INFANTIL 101 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 101 16/10/20 17:44 dignidade está na pessoa, não na profissão que ela exerce. Por outro lado, o porquinho que construiu a casa de tijolos exemplifica a noção de que vivemos em comunidade, tendo em vista que é ele quem salva os irmãos quando estes mais precisam. São elementos que podem ser resgatados pela construção de um currículo diferenciado, voltado para esse viés. Figura 6. Os três porquinhos. As fábulas podem auxiliar a abordar temáticas como a cidadania. Fonte: Sutterstock. Acesso em: 28/09/2020. Figura 7. A cigarra e a formiga. As fábulas podem auxiliar a abordar temáticas como a cidadania. Fonte: Sutterstock. Acesso em: 28/09/2020. LITERATURA INFANTIL 102 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 102 16/10/20 17:45 O currículo precisa ser pensado e organizado por área de conhecimento e não mais por disciplina. Essa é uma mudança difícil, pois precisa não apenas da modifica- ção da lógica do currículo, mas também da organização dos sistemas educacionais e da formação dos professores que atualmente estão em sala de aula. A sua formação está sendo compartimentada em disciplinas, e trabalhar por área de conhecimento, posteriormente, em sua prática profissional pode se mostrar praticamente impossí- vel devido à lógica em que você atualmente está inserido. A identidade é um dos princípios pedagógicos mais fortes nas Diretrizes Curri- culares Nacionais e deve ser prevista considerando tanto os sujeitos alunos, profes- sores e gestores quanto a comunidade em que a instituição se encontra, bem como as famílias dos alunos. No espaço escolar, na medida em que cada ator assume sua identidade inerente, ele pode contribuir para o seu próprio desenvolvimento. Isso envolve a ideia de que é preciso decidir pela escola que se quer atingir, partindo do princípio de que a escola atual envolve particularidades socioformativas. A interdisciplinaridade, como outro princípio necessário na construção do cur- rículo, também parte da premissa de que todo conhecimento é passível de diálogo com outro conhecimento, seja um diálogo que complementa, que nega, que amplia ou que questiona o conhecimento anterior. Essa premissa está presente nas adap- tações de contos de fadas, como os filmes da saga Shrek, nos quais os contos de fada dialogam com acontecimentos contemporâneos e com novas visões de mundo. Exemplo disso está na princesa, Fiona, que opta, ao final, por ser uma ogra. Figura 8. A franquia dos filmes Shrek e a intertextualidade com os contos de fada. Fonte: Rede Globo, 2015. LITERATURA INFANTIL 103 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 103 16/10/20 17:45 A contextualização é um pressuposto que busca aproximar a teoria da prática, buscando um ensino que parta de questões cotidianas e da experiên- cia do aluno para efetivar o ensino de conceitos. Essas questões são algumas considerações necessárias à reflexão durante a construção do caminho a ser seguido tanto pela escola quanto pelo professor em sala de aula. Você enten- derá mais sobre como tratar do saber do professor em sala de aula, espaço menor em tamanho, mas não tão diferente da escola como um todo, espaço que apresenta diversidades, individualidades, interdisciplinaridades, entre tantos outros aspectos. Você pode estar se perguntando o que é preciso saber e fazer para ser um bom professor, ou, ainda, como pode utilizar o texto literário em sala de aula em prol do processo formativo do alu- no. A primeira coisa a se pensar e que um professor precisa saberpara ser um bom professor é saber o conteúdo que ensinará, certo? Nem sempre essa resposta é tão simples quanto parece. O professor precisa conhecer o con- teúdo que será transmitido, mas pre- cisa saber também como preparar au- las, redigir e aplicar atividades para os alunos, interagir com os alunos, com- preendendo o que eles dizem, avaliar os alunos e sua prática, entre tantos outros saberes necessários. Precisamos refletir acerca da necessidade de conhecer bem os conteúdos curriculares de uma disciplina para que se saiba dar aula sobre ela. Será que apenas sabendo os conteúdos ensinados no ensino superior estamos preparados para lecionar no ensino fundamental e médio? Será que, para ensinar a esses níveis de ensino, é neces- sária uma mera simplificação do que aprendemos na fa- culdade? E será que ter uma vasta bagagem de leituras é o suficiente para saber contextualizá-las e aplicá-las em prol de um projeto pedagógico? LITERATURA INFANTIL 104 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 104 16/10/20 17:46 A simplificação dos conteúdos em livros didáticos pode torná-los mais di- fíceis aos alunos, pois esse método não traz o raciocínio ou o encadeamento de ideias que levam os cientistas a concluírem determinado conhecimento. Observe como, em muitos desses livros, encontramos excertos de fábulas vi- sando um ensinamento moral, sem apresentar todo o encadeamento de ideias presente na obra original. A leitura de O Gato de Botas, por exemplo, sem toda a sua contextualização sobre a questão da engenhosidade, prejudica esses tipos de projetos. Porém, para que o professor faça uma crítica aos livros didáticos e à possível simplificação desses livros, ele precisa saber os conceitos e meto- dologias de sua área do conhecimento, o que significa conhecer o raciocínio científico que levou à construção de cada um dos conceitos trabalhados, às construções metodológicas, às técnicas e à transdisciplinaridade em que uma disciplina pode ser inserida, buscando interagir com outros campos do cconhe- cimento, tanto conceitual quanto metodologicamente. Esta questão que envolve conhecer o conteúdo que será ensinado é nova para muitos docentes, tendo em vista que não é comum encontrarmos nos cursos de formação de professores disciplinas que abordem essas questões e que façam ligação entre o conteúdo a ser ensinado e a linha de raciocínio cien- tífica que levou à formação daquele conhecimento. Na verdade, os textos lite- rários estudados nos cursos de licenciatura são, em sua maioria, utilizados em prol da compreensão de uma determinada estética literária, como o romantis- mo e o modernismo, por exemplo. Estuda-se mais como o texto se encaixa em determinado movimento literário do que seu valor em si. A relação entre conhecer o conteúdo acadêmico-científico que será ensi- nado com o conteúdo escolar, ou seja, aquele que será trabalhado em sala de aula, é fortemente necessária, pois quando os professores conhecem o ma- terial a fundo, incluindo a linha científica para cons- trução daquele conhecimento, eles conseguem planejar o conteúdo escolar que será trabalha- do, abandonando a memorização repetitiva de fatos e conceitos, buscando também a constru- ção da linha científica de raciocínio por parte dos alunos no conteúdo escolar. Torna-se necessária uma integração dos saberes. LITERATURA INFANTIL 105 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 105 16/10/20 17:46 Os saberes integradores são relacionados ao ensino dos conteúdos esco- lares, sendo provenientes de pesquisas, realizadas nacional ou internacional- mente, voltadas para a produção de conhecimentos acerca da compreensão de como se ensina e como se aprende um conteúdo específico, bem como da detecção dos problemas enfrentados na formação de professores criativos dessas áreas. Pesquisas apontam que uma das principais dificuldades para propiciar a formação criativa de professores, além da falha do domínio do conteúdo, são as ideias docentes de senso comum. Os professores estão se formando mais por trazerem ideias preconcebidas de quando eram alunos do que as adqui- rindo-as cientificamente durante sua formação docente inicial e continuada. É função do docente desenvolver a capacidade de avaliar, de maneira crítica, o sistema tradicional de ensino, competência essa que envolve um esforço por parte do profissional, visto que, para tal prática, é necessário que se rompa com a sua forma de conceber a docência, aquilo que aprendeu em sala de aula. Tendo isso como objetivo, deve-se produzir uma série de atividades ainda na sua formação, visando esse objetivo, ou seja, uma correlação intensa e que permita futuramente uma ruptura entre os saberes instituídos, de modo que esse professor possa melhor interligar o saber e o saber fazer. Essas concepções trazem uma nova linha de propostas de ensino, que par- tem de referências construtivistas que possibilitam a orientação da aprendiza- gem dos discentes por meio de um processo no qual reconstroem os conhe- cimentos, partindo dos saberes iniciais que irão, gradativamente, evoluir para outros conceitos através de práticas de ensino problematizadoras e significati- vas para os alunos. A relação entre teoria e prática é imprescindível na construção do conheci- mento a partir dessa proposta, fazendo-se necessário que o professor prepare um programa de curso que leve os alunos à construção do conhecimento a partir de habilidades e atitudes com base no que se propõe ensinar. Pensemos a partir do seguinte ponto: o que Monteiro Lobato diz aos alu- nos? Sua leitura em sala de aula não pode ser igualmente aproveitada em uma aula sobre cidadania ou geografia? E as personagens de Ziraldo? Seria o Menino Maluquinho (2012) um espelho das crianças que moram nos subúrbios de cada cidade brasileira? LITERATURA INFANTIL 106 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 106 16/10/20 17:46 É preciso que o professor saiba ensinar a partir de questões problematiza- doras para que os alunos explicitem suas concepções espontâneas e para que estas sejam tomadas como hipóteses que podem ser comprovadas ou refuta- das, mas que a construção do conhecimento aconteça dessa maneira. Como fazê-lo? Deve haver aproximação com a linguagem dos alunos, buscando, no decorrer do curso, que ela mude de cotidiana para científi ca. Ao fazer com que a compreensão e o aprendizado ocorram, o professor poderá avançar para ou- tra linguagem. Apropriar-se de outro gênero discursivo faz parte da aquisição do conhecimento pelo aluno. O saber pedagógico não é aqui o menos importante, mas, sim, o que abran- ge um aspecto mais amplo, pois engloba o saber integrar, ou seja, o que é aprendido tanto nas disciplinas teóricas quanto nas disciplinas metodológicas. Essa ponte é fundamental para o saber docente ou o saber fazer do professor. Os saberes pedagógicos relacionam-se com os campos da didática geral, da psicologia da aprendizagem, bem como com os acontecimentos de dentro da sala de aula. Eles também podem ser considerados como saberes integra- dores, uma vez que aparecem, com frequência, em estudos na área de ensino e de aprendizagem sob diferentes aspectos, tais como saber avaliar, saber interagir, conhecer, ca- ráter social da construção do conhecimento, dentre outros. Os saberes pedagógicos também estão rela- cionados à violência na escola, ao ambiente em que a escola está inserida, ao clima da escola e às expecta- tivas do profi ssional da educação. Responsabilidade da escola e do professor na formação do leitor Em relação aos alunos, outros saberes precisam ser considerados no pro- cesso de ensino. Os alunos não chegam até a escola “vazios”, sem conhecimento anterior; portanto, todas essas relações precisam ser consideradas. Isso ocorre porque cada aluno agrega sua própria narrativa, sua percepção de mundo. Se abordamos tanto as narrativas fabulosas, devemos considerar a maneira como o aluno contextualiza sua existênciapor meio de suas próprias histórias. LITERATURA INFANTIL 107 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 107 16/10/20 17:46 A sala de aula enquanto espaço de construção O que é o espaço da sala de aula? Espaço de ensino e de aprendizagem? Espaço de interação, de troca? Mesmo com todo o desenvolvimento tecnoló- gico vivenciado atualmente, a sala de aula é ainda um espaço privilegiado de ensino, de aprendizagem, de interações e trocas. É onde o aluno aprende a administrar seus instintos, a pensar, a elaborar seus posicionamentos, a se posicionar, a expressar suas ideias, a ressignifi car seu conhecimento anterior e a introduzir saberes acadêmicos e científi cos, analisando e interpretando a realidade em que está inserido. A sala de aula também é um espaço em que o professor está se forman- do. Ela, pelo menos, precisa ser pensada desta forma, como um espaço em que o professor complementa sua formação inicial, assimilando na prática os desafi os que pode ter conhecido na teoria durante sua formação. Essa formação em serviço só é possível quando o professor enxerga a sala de aula como um espaço de análise de sua prática, de revisão de suas alternativas para que qualifi que o ensino que está sendo ministrado para, assim, melhorar a aprendizagem dos alunos. Disciplinas de práticas durante a formação inicial de professores são funda- mentais para o desenvolvimento do saber pedagógico, uma vez que o docente também precisa construir continuamente seus próprios saberes em relação a outros, e essa percepção potencializará sua apreensão de conceitos que for- marão a base de sua didática. Portanto, evidenciamos a importância de ir para a sala de aula, de preparar uma aula, de dialogar com os alunos, de conhecer a realidade do entorno daquela escola e de ver a sala de aula se construindo, se formando. E, em particular, no contexto do nosso conteúdo, de apresentar obras que possam ser igualmente signifi cativas para esses alunos. É comum a expressão “vá ler um livro”. Mas a frase em si corre o risco de ter um efeito contrário, na medida em que indicamos o ato da leitura pelo ato da leitura, sem um direcionamento produtivo. LITERATURA INFANTIL 108 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 108 16/10/20 17:46 Enxergar a sala de aula como espaço de construção do conhecimento dos alunos e como espaço de interação e investigação do professor é o suficiente para melhorar a aprendizagem? Desde os anos 1960, o estudo sobre a sala de aula tem sido recorrente em pesquisas acadêmicas. Um desses modelos é o modelo processo-produto. Você acha que existe um bom ensino ou uma forma de ensino adequa- do? Acredita que podemos encontrar competências e traços pessoais de al- guém que pudéssemos distinguir como um professor eficiente? Era isso que o modelo processo-produto buscava traçar ou definir. Preponderante nas décadas de 1960 e 1970, o modelo processo-produto buscava definir as características do bom ensino e as estratégias ou técnicas de como ensi- nar, padronizando o processo de ensi- no por acreditar na padronização do processo de aprendizagem, ou seja, por considerar que todos os alunos aprendiam de maneira igual ou muito próxima. Buscava-se padrões de com- portamentos e estímulos utilizados pelos professores, ou seja, processos capazes de produzir melhores resul- tados de aprendizagem nos alunos. Em outros termos, procurava-se me- lhores produtos para que fosse possível definir padronizações de comporta- mentos capazes de garantir a eficiência do professor. Já o modelo construtivista tinha como premissa a visão do professor como mediador, na medida em que os processos de ensino e de aprendizagem nada mais são do que processos de interação. Partindo do fato de que muitos alunos apresentavam dificuldade de compreender conceitos científicos estu- dados, percebe-se que a aprendizagem não é a simples aquisição do conhe- cimento despejado pelo ensinante. Verifica-se que a construção do conhe- cimento não é feita pela transmissão do professor, mas, sim, pelo aprendiz. LITERATURA INFANTIL 109 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 109 16/10/20 17:46 Esse modelo ganha força na década de 1980, a partir de uma constatação de que, embora os alunos sejam capazes de reproduzir ou aplicar o que aprendem em contextos parecidos com a sala de aula, eles dificilmente compreendem os conceitos científicos que estudam. Essa constatação reforça que o aluno não é uma tábula rasa, como acreditado no modelo processo-produto, pois, diante de um novo conhecimento, o aluno realiza a assimilação, sendo que o significa- do não é transmitido pelo professor, sendo construído pelo aluno. O papel mediador do professor adota diferentes posturas, sendo ele, por exemplo, um problematizador nos diálogos, o que favorece a autonomia e au- xilia na compreensão de conceitos, ressignificando, assim, a construção do co- nhecimento em sala de aula. Não se pode assumir que essas propostas não tenham obstáculos ou limitações. Muitos professores ainda são resistentes a elas, tendo em vista a contradição entre práticas tradicionais e discursos ino- vadores. Há, por fim, o conceito de abordagem etnográfica da educação. Essa linha de pesquisa explora questões menos visíveis da escola e da sala de aula. Nas duas linhas anteriores, o foco são as manifestações de interações em sala de aula; nesta, a abordagem é voltada para o que é analisado e o que não é dito, não é feito, não é notado, não é examinado e muito menos problematizado. O dito currículo oculto que tem o poder de favorecer ou de dificultar a aprendiza- gem é o foco dessa linha. Ao considerar essa linha, verificamos que as propos- tas pedagógicas não se resumem às dimensões didático-curriculares, enquan- to práticas sociais comportam valores, significados, relações de poder, ações de silenciamento e atitudes de resistência. Pesquisa etnográfica ou etnografia é um termo da antropologia que denomi- na trabalhos descritivo-interpretativos de formas de vida, usos, costumes, valo- res e culturas que são observados durante algum tempo. A abordagem etnográ- fica perpassa a mesma linha de trabalho, desvelando o que não está exposto nas interações, ou seja, a dimensão simbólica das relações em sala de aula. Um dificultador da pesquisa etnográfica é que ela requer longos períodos de observação em campo, principalmente para que o pesquisador passe a ser visto como um participante do processo, e não como um ser externo aos pro- cessos de ensino e de aprendizagem. A atenção do pesquisador precisa estar voltada para pequenas ações e esquecimentos. LITERATURA INFANTIL 110 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 110 16/10/20 17:46 Tudo que foi estudado nesta unidade nos mostra que a profissão docen- te é repleta de desafios, de imprevistos, de ambiguidade e de contradições, tanto dentro quanto fora da sala de aula. Professores, familiares, estudantes e profissionais que trabalham na escola, todos são protagonistas de alguma forma nos processos de ensino e de aprendizagem. A atividade docente é constantemente desafiada pela imprevisibilidade, pela ambiguidade, pelas particularidades do fazer docente, pelas individualidades de cada aluno, pela realidade do entorno em que a escola está inserida, ou seja, são muitas as variáveis possíveis para considerar, negociar e decidir em seu trabalho. Rea- valiar sua prática enquanto professor e aperfeiçoar-se profissionalmente são tarefas difíceis por diversos fatores, como estes que foram elencados, mas uma das formas mais práticas é observar sua sala de aula com algum distan- ciamento, tornando-a objeto a ser observado à luz de sua formação inicial e continuada. As discussões apresentadas neste capítulo buscam auxiliar o professor neste distanciamento, nesta reflexão sobre sua prática, sobre sua realidade, pois, assim como não existe uma escola pública única, não existe uma única forma de ser professor nem em escolas públicas nem emprivadas. Cada aula ministrada, ainda que pelo mesmo professor, é diferente. Por fim, salientamos como esse conteúdo apresentado possui uma função ainda mais essencial: a de servir de arcabouço para as discussões seguin- tes sobre o próprio texto infantil. Ao longo do seu surgimento, a discussão sobre o que seria esse tipo de texto, bem como qual a sua função, sempre foi presente. Escritores consagrados, como Olavo Bilac, se lançaram à pro- dução de narrativas infantis contem- porâneas tendo em mente essas mes- mas premissas, de modo que a literatura infantil assume um papel que vai além do texto literário comum, visto que muito do seu surgimento correlacio- na-se com o momento em que passamos a diferenciar, embora tardiamente, as noções de infância. LITERATURA INFANTIL 111 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 111 16/10/20 17:47 O que de fato ensinamos quando ensinamos literatura? Talvez essa não seja sua experiência pessoal, mas há diversos professores que, na divisão de turmas e classes, optam por não lecionar essa disciplina. Os motivos podem ser vastos, podendo ser por falta de didática, desinteresse dos alunos e, até mesmo, menor carga horária direcionada para a disciplina. Devemos, pelo menos, buscar respostas para essas questões, tendo como referência o ensi- no de literatura no ensino médio. O ensino da literatura Por infl uência de uma gama de linhas teóricas, o próprio estudo e aborda- gem em sala de aula acaba por ser um refl exo do ensino superior. Abordamos o texto literário por um viés linguístico, antropológico, sociológico, fi losófi co, mas, na maioria das vezes, não analisamos o texto pelo texto, ou seja, sua estrutura linguística, seu sentido implícito. Com o advento dos saberes trans- disciplinares, o texto literário é sempre o complemento de outra coisa. Pas- samos a ensinar José de Alencar como complemento da chegada da família real ao Brasil e Tomás António Gonzaga como fruto da Inconfi dência Mineira. Qualquer livro de literatura possui minimamente mais referências aos movi- mentos culturais do que à análise do texto. Um dos principais refl exos é a historiografi a literária que se refl ete na educação básica. Filha do nacionalismo literário, sua presença é marcante uma vez que se centra em uma progressão cronológica de obras do cânone brasileiro e português. O livro didático pouco faz para superar essa perspec- tiva, com marcas do positivismo do século XIX, o qual agregava uma visão das ciências exatas aos livros em geral, acrescido de uma visão materialista (CANDIDO, 1999). Questionamos o que difere esse material do livro de história, uma vez que em muito se aproximam suas particularidades? A aula resume-se, salvo a leitura oral de fragmentos, por parte de professores e/ou alunos, acrescido de perguntas ao fi m de cada sequência de textos. O próprio livro do profes- sor já carrega um padrão de respostas, cabendo-lhe apenas ajustes às dos alunos. Não há uma tentativa de depreciação, mas considerando o rumo de muitos cursos de Letras que focam em produzir professores de português e LITERATURA INFANTIL 112 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 112 16/10/20 17:47 revisores, há relativa probabilidade de o professor não ter certeza de suas próprias respostas, guiando-se sempre pelo gabarito. O professor copia no quadro trechos do livro, responde às questões e, para muitos alunos, isso é considerado um exemplo de excelência de aula. Em alguns casos, é passada uma pesquisa na qual os alunos copiam os textos da internet, sem um apro- fundamento e refl exão do saber atingido – quando ocorre. Com base nessa breve exposição, devemos nos questionar o que se ensi- na na aula de literatura, além de história da literatura. É possível apontar uma contextualização grosseira, que se limita a aglutinar pontos heterogêneos, usando um texto fi ccional como arcabouço para outros acompanhamentos? A aula de literatura torna-se um verdadeiro mimetismo no qual se repete o que já está dado. Os textos não são analisados para atingir conclusões, mas para explicar a história dos movimentos literários, apresentar dados, momentos, infl uências e, com base em proposições já realizadas, realizar atividades para atingir o conhecimento previamente determinado. O problema dos estudos literários na educação básica indica que as inter- pretações não são abertas, mas reduzidas. Passamos a ser limitados (e a limi- tar os demais) pelas interpretações e leituras de grandes críticos, produtores de material didático e teóricos da literatura. Políticas e práticas educacionais Observe como, nos últimos anos, as secretarias de educação por todo o país, ao fornecerem o material didático – ou darem as devidas indicações – in- dicam uma série de materiais complementares. O texto não se basta, deve-se complementar sua leitura com fotos, fi lmes e atividades paradidáticas. As pro- postas curriculares apontam um excedente de mídias que trazem prontas suas próprias interpretações dos acontecimentos. Isso gera um ciclo vicioso que in- centiva os alunos a procurarem as interpretações de terceiros. Por exemplo, pergunte aos seus alunos quem já leu o livro Senhora, de José de Alencar, ou quem procurou uma versão em vídeo, resenha na internet, versão em quadri- nhos ou podcast que comentava a obra. Mesmo nesse tipo de situação, há as velhas inconstâncias, como o não uso de material, fazendo com que a aula se torne meramente expositiva, precedendo o modelo mais tradicional. LITERATURA INFANTIL 113 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 113 16/10/20 17:47 O problema dessa prática, existente desde o século XIX, é que temos uma gama de alunos que, como em ciclo, aprendem a teorizar normativamente sobre livros que nunca leram, criticar autores que desconhecem e decorar escolas literárias que conheciam (CORSON; VERRIER, 2007, p. 8). Não há, nes- sa situação, aula. O aluno não odeia literatura, ele odeia o seu estudo, tomando por aula uma monofonia progressivamente entediante. Como mudar esse quadro? Não se trata de um problema das práticas de ensino da disciplina em si, mas das práticas escolares, nas quais a literatura não está relegada à complementação de aulas de Português e Redação. De- ve-se, assim, reconfigurar a noção de leitura literária, de maneira a ser uma atividade livre e constante, possibilitan- do uma autonomia por parte do aluno, de modo que o mesmo se aproprie da obra, formando, assim, leitores reais. Nas práticas educacionais contemporâneas, mesmo que as ações resis- tam às novas perspectivas, uma reconfiguração tem atingido os manuais aca- dêmicos e determinações do Ministério da Educação, paulatinamente, a pon- to de já se encontrar, em não poucos documentos, o termo leitura literária para abordar a leitura de textos literários tendo em vista sua potencialização cuja existência possibilita a inserção de mudanças em prol do ensino dessa disciplina. Mas quais seriam suas implicações? Nos dias de hoje, seria um des- locamento significativo na sua didática, visto que move o foco para o texto li- terário e a capacidade de promover uma interação significativa com o aluno. É uma visão que possibilita ao aluno não se limitar aos sentidos indicados pelo professor e pelo próprio livro didático, mas aos sentidos que vão construindo por meio das leituras. Dessa maneira, a prática da leitura literária necessita transcender a vi- são muito comum de ser mero arcabouço complementar para a aplicação de teorias pedagógicas, tendo o texto e a formação do indivíduo como fim, não como espaço de transição. LITERATURA INFANTIL 114 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 114 16/10/20 17:47 Voltemos ao que fora apontado sobre o gosto de ler. Alguém não gosta de ler? A frase é ilógica. O ato de leitura presumi uma aproximação, isto é, da mesma maneira que admiramos o padrão estético de outras obras, ou que vamos ao cinema de acordo com nossos gostos, somos lançados à leiturade livros que nos atraem. Isso ocorre pela propaganda, pela indicação de alguém, pela busca por informação, e por capacitação, uma vez que profis- sionais das mais variadas áreas leem porque precisam se capa- citar. A questão é que ao nos lançarmos à leitura sem uma obrigatoriedade gera uma identificação maior entre leitor e texto. Da próxima vez que seu aluno alegar que não leu o livro que teria que apresentar em sala, pergunte qual ele estava lendo naquele mo- mento ou que acabara de ler. LITERATURA INFANTIL 115 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 115 16/10/20 17:47 Sintetizando Nesta unidade, abordamos a importância das práticas de leituras em sala de aula enquanto projeto pedagógico, bem como sugestões de interação entre livro-leitor e professor-aluno. Trouxemos a pergunta fundamental: quem é o indivíduo ao qual nos referimos como leitor, e como podemos auxiliá-lo para uma prática de leitura que vai além da atividade descompromissada? Com essas premissas, tratamos da escola como espaço por excelência de in- trodução às atividades de leitura, bem como lugar propício para o surgimento e amadurecimento da capacidade ledora do indivíduo. Além disso, apontamos a importância de se desenvolver uma percepção intertextual dos elementos que transitam entre cotidiano, livros e demais obras ficcionais, tudo isso em prol do desenvolvimento e formação do sujeito. LITERATURA INFANTIL 116 SER_PEDA_LITE_UNID3.indd 116 16/10/20 17:47 Referências bibliográficas ALENCAR, J. Senhora. São Paulo: Penguin, 2013. AMADO, J. O gato malhado e a andorinha Sinhá. Rio de Janeiro: Companhia das Letrinhas, 2008. AMADO, J. Gabriela, cravo e canela. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2012. BANDEIRA, P. O fantástico mistério de Feiurinha. 20. ed. São Paulo: FTD, 1997. BANDEIRA, P. A droga da obediência. São Paulo: Moderna, 2014. BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Moderna, 2016. BAUM, L. F. O mágico de Oz. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. BERNARDO, A. Os personagens especiais da Turma da Mônica. Veja Saúde, 30 abr. 2019. Disponível em: <https://saude.abril.com.br/blog/saude-e-pop/os-per- sonagens-especiais-da-turma-da-monica/>. 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O papel da família, da escola e da sociedade na promoção da leitura A formação de leitores no Brasil Processos lúdicos Leitura e formação Biblioteca escolar A função formadora A animação de uma biblioteca infantil Fisiologia da biblioteca infantil A natureza da leitura em ambientes escolares LITERATURA INFANTIL 120 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 120 16/10/20 17:36 O papel da família, da escola e da sociedade na promoção da leitura Todo mundo quer ter um leitor em casa. Há certo status social na frase “meu fi lho lê muito”, como se a leitura excessiva fosse sinônimo de alta cultura. Ademais, muitos responsáveis sequer se preocupam com o conteúdo consumi- do pela criança, desde que ela leia; por outro lado, grandes exigências podem ser criadas durante o processo formativo da criança para que tenha contato com obras que muitos adultos sequer leram. Eis um problema quando falamos em leitura: nós a tratamos como se fosse uma atividade solitária, quando na verdade é uma empreitada coletiva, fruto da infl uência, nos dias de hoje, da família, da escola e da sociedade como um todo. Tenha isso em mente quando se perguntar, por exemplo, o porquê de você ter lido poucos livros de literatura infantil afro-brasileira quando criança, enquanto os contos de fadas dos irmãos Grimm são reconhecidos e lidos mun- dialmente. Contudo, antes de tratarmos dessa interação entre família, escola e socie- dade na promoção da leitura, vamos defi nir esse “elemento” ao qual nos refe- rimos, o leitor: Todo texto presume, então, uma espécie de leitor empírico, im- plícito a todo e qualquer texto literário. Leitor por que é para ele que é direcionado, presumível na medida em que o autor trava um diálogo com o indivíduo que será seu “alvo”, uma imagem não física, mas prevista (ECO, 1994, p. 17). Você já fi cou surpreso como aquele seu aluno que não lê Senhora, de José de Alencar, mas “devora” em menos de duas semanas um livro com mais de 500 páginas, provavelmente sobre deuses e monstros, como O Ladrão de raios, de Rick Riordan? Isso está intimamente associado ao gosto, às formas de pensar, ao campo de atuação, à experiência e ao interesse do lei- tor. A ideia de um indivíduo que “foge da realidade”, que prefere passar seu tempo com a leitura envolve a proxi- midade com esse hábito e o texto em si. O leitor, habi- tuado à sua prática, desenvolve suas próprias estra- tégias de leitura, de acordo com sua individualidade. LITERATURA INFANTIL 121 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 121 16/10/20 17:36 A ironia é que a escola, espaço de descobertas e saberes por excelência, tor- na-se o lugar de padronização das descobertas: todo ato realizado está inserido em um conteúdo programático ou em um currículo oculto. O texto literário es- tudado, nesse contexto, dá conta das premissas da escola, mas não do amadu- recimento do aluno, embora isso não impeça, por exemplo,que transformações possam ocorrer, uma vez que a escola também precisa ser um espaço de mudan- ça. É por isso que devemos observar os caminhos atuais – e a serem seguidos – para a proposição da mudança do atual ensino de literatura na escola. O problema é que a família, a sociedade e, principalmente, a escola tratam esse leitor presumível como se fosse um leitor generalizado; como se todos tivessem os mesmos gostos, os mes- mos apreços e as mesmas experiências de leitura. Talvez um estudante que se divirta com as aventuras de Percy Jack- son não tenha apreço por outro livro in- fantojuvenil, como Meu namorado é um zumbi, de Isaac Marion, obra que mis- tura aventura, comédia e terror com dilemas juvenis. Coloquemo-nos, portanto, nessa posição tripla: família, escola e socie- dade. Qual espécie de leitores estamos formando e incentivando a formar? Considerando os 12 anos de educação básica, qual a base que um aluno tem dos textos mais fundamentais da nossa literatura? Por vezes, muitos se formam sem ter contato até com autores mais populares, ou, quando muito, tendo aces- so a contos e trechos de poemas em suas provas. A situação se agrava ainda mais quando pensamos no retorno dessas práti- cas: qual será o impacto dessas atividades, desde a tenra infância, na formação desses futuros adultos: teremos uma geração futura que terá influência no surgi- mento de novos leitores? Ou sua experiência literária prévia será apenas voltada para o deleite artístico? LITERATURA INFANTIL 122 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 122 16/10/20 17:38 Se tradicionalmente o ensino fundamental tem a responsabilidade de des- pertar o gosto pela leitura, então o estudante já deveria ser um leitor competen- te ao adentrar o ensino médio. Nada mais longe da verdade: na atual conjuntu- ra educacional do país, na qual o ENEM delimita os caminhos perseguidos por quem deseja aprovação nos melhores vestibulares, o ensino de literatura aden- tra sua fase mais tecnicista, em que o aluno é um executor de tarefas, limitado aos chavões e às decorebas. Nós abordamos constantemente a necessidade de projetos peda- gógicos que tenham como premissa o trabalho com literatu- ras infantis. A relação abordada pela escola, pela família e pela sociedade, nesse sentido, passa por essa questão e por atividades refl exivas que contribuam para a forma- ção dos discentes. A formação de leitores no Brasil Essa é uma questão antiga no Brasil: os inconfi dentes mineiros, além de questionarem o aumento de impostos, também criticavam a necessidade de uma educação de base, pois desde sempre a formação intelectual do país era direcionada para atingir as mais proeminentes universidades. Signifi cativo é o livro Contos de Escola (2015), de Machado de Assis, o qual apresenta proble- mas do cotidiano escolar, como as provações cotidianas que infl uenciariam na formação dos indivíduos. O colégio seguia uma premissa intensa de gravação de normas, regras e padrões, em todas as disciplinas. Essa mesma premissa vai estar no romance O Ateneu, de Raul Pompeia, mas sob uma ótica voltada para um público mais adulto, não infantil. CURIOSIDADE O texto literário tem a capacidade de mimetizar o meio que o cerca. Obras como Contos de escola, de Machado de Assis, refl etem uma sociedade voltada para o funcionalismo público, na qual se procura os melhores colégios não para o desenvolvimento cívico do indivíduo, mas para sua capacitação, visando os melhores cargos do mercado. Na obra, a ironia machadiana está à serviço de uma linguagem lúdica voltada para um público específi co. LITERATURA INFANTIL 123 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 123 16/10/20 17:38 Parece-lhe familiar essa situação? Não é muito diferente da mentalidade dos preparatórios dos dias de hoje, que levam o aluno a um acúmulo violento de conhecimentos, por vezes instruindo-os em um regime intensivo e extensi- vo durante três anos, não para atingirem os pilares da cidadania, mas para se- rem aprovados em uma dada avaliação. O uso da literatura fica relegado a isto: ao ensino de uma historiografia literária. Para a sociedade, aprovação; para os pais, investimento; e para a escola, reconhecimento. Mas e para o aluno? Considerando essa mentalidade que domina nosso país, o que de fato po- deria ser ensinado em uma situação de reavaliação do ensino de literatura, partindo do princípio de que a base dessa revitalização, o objeto de estudo, seria o próprio texto literário? Diferentes escritores produziram versões dos clássicos infantis, como os contos dos irmãos Grimm, que possuem versões nas mãos de La Fontaine. Ou, em alguns casos, escritores consagrados criaram versões de clássicos adultos voltados para o público infantil, a exemplo da obra Robinson Crusoé. Figura 1. Cena do filme As aventuras de Robinson Crusoé, 2016, adaptado do romance original escrito por Daniel Defoe. O trabalho com a literatura infantil possibilita uma nova visão da aborda- gem da literatura em sala de aula. Vincent Jouve delimita alguns passos a serem seguidos para que se estruture minimamente um processo de modificação do status atual. Para ele, revertê-lo envolveria antecipar o problema e reestru- turá-lo, interpretando os resultados obtidos (2002, p. 18). A leitura deve ser LITERATURA INFANTIL 124 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 124 16/10/20 17:39 interpretada como uma ação cognitiva por necessidade de dada competência, ou seja, como as capacidades mínimas que o leitor deve ter para seguir com uma determinada leitura. Uma vez que temos o fenômeno dos analfabetos funcionais, é preciso ao menos de uma progressão dos textos a serem lidos, bem como dos códigos aos quais o aluno será apresentado, visando o desen- volvimento dessas capacidades. Jouve prossegue apontando as particularidades e características que de- vem ser desenvolvidas em prol desse processo de revitalização da leitura li- terária em sala de aula: a noção de afetividade, argumentação e simbolismo (2002, p. 19-22). O texto deve ser abordado como parte de um processo afetivo, ou seja, a relação do eu - pessoal para o auxílio da aproximação. Como foi apontado que deve haver uma aproximação entre o leitor e o texto, é impor- tante também a relação entre o objeto e o que esse lhe diz. Obviamente, um livro sobre superação ou autoajuda sempre pode dizer algo ao leitor, mas se coloca em questão o princípio da universalidade de um texto, de uma obra que séculos depois ainda tem a capacidade de dizer algo e despertar a empatia do leitor. Há, também, o processo da argumentação, no qual todo texto levanta questões a serem respondidas, levan- do o indivíduo a buscar respostas. Com certeza muitos conhecem a série As Aventuras de Sherlock Homes, na qual Arthur Conan Doyle relatava vários dos casos fictícios soluciona- dos pelo detetive britânico. Porém, observe como atualmente conhe- cemos esses textos mais pelas suas adaptações cinematográficas, do que pelos livros em si. Falamos sobre os diferentes escritores de romances e contos policiais – como Borges, Aga- tha Christie e Pepetela, mas ignora- mos que, muitas vezes, não tivemos contato com os livros originais, e sim com suas adaptações. Figura 2. Capa da edição inglesa do livro, publicado em 1892. Fonte: Wikimedia Commons. Acesso em: 06/10/2020. LITERATURA INFANTIL 125 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 125 16/10/20 17:41 ASSISTA Falando ainda sobre adaptações de clássicos adultos para contextos infantojuvenis, recomendamos o filme O enigma da pirâmide, de Barry Levinson. No enredo, temos a história de dois adolescentes que se conhe- cem em um colégio interno britânico, Sherlock Holmes e John Watson, que buscam solucionar um caso envolvendo pessoas que sofrem de alucinações após serem atingidas por um misterioso dardo. Porém, com o passar do tempo, surgirão escritores que farão mais do que uma adaptação, e sim um processo de negociação: com a época, com omo- mento, com a cultura e com a própria ideia de público leitor. Exemplo disso são as famosas aventuras da turma do Gordo, grupo criado por João Carlos Marinho Silva, nas quais uma série de personagens desvendam mistérios e solucionam crimes. Um dos livros mais famosos é O Gênio do crime, no qual as personagens devem desvendar o mistério de uma falsificação de figurinhas de futebol. Outra obra que também busca trabalhar essa negociação é a série de livros de Enola Holmes, de Nancy Springer, que revisita uma Londres vito- riana por um ponto de vista de uma adolescente, a irmã de Sherlock Holmes, que também soluciona crimes. Cada texto, nesse sentido, propõe diversas leituras e confrontos de pon- tos de vista, à medida que atinge leitores diferentes, com os mais variados processos formativos. E cada leitor, dotado de seu devido capital simbólico, confronta esse capital com o texto que lê. Há uma negociação constante en- tre os símbolos internos da criança com aqueles que a atingem, de modo que, ao se mesclarem e se transformarem, também influenciarão nos símbolos de leituras futuras. Essas práticas são estruturáveis e não contradizem a leitura de outros ti- pos de texto. Voltamos à expressão: “quem lê, sabe mais”. O aluno só pode desenvolver essas habilidades à medida que tem contato com uma obra inteira, e não apenas com trechos dela. Ao se limitar ao livro paradidático e às respostas do quadro, o aluno não desenvolve plenamente as competências que poderiam ser colocadas em prática du- rante o processo de leitura. Seria como ensinar alguém a nadar, utilizando apenas um manual didático, sem uma aula prática na piscina. Sempre faltará algo. LITERATURA INFANTIL 126 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 126 16/10/20 17:41 Revitalização literária Afetividade Argumentação Simbolismo TABELA 1. FATORES PARA REVITALIZAÇÃO LITERÁRIA, SEGUNDO VINCENT JOUVE Apontamos para o grande problema no desenvolvimento da prática de leitura particularizada na escola, que não se centra no interesse do corpo discente, mas na falta de tempo e espaço para o desenvolvimento de dadas atividades. Muitas vezes isso ocorre por conta de um currículo escolar enri- jecido, oculto e desestruturado que não se atualiza, e uma cultura escolar que não oferece possibilidades para a inserção de saberes que propiciariam novas práticas de leitura para os alunos. Essas são as causas mais comuns que impedem a escola de elaborar novos conhecimentos desatrelados da es- trutura didática tradicional. Processos lúdicos Falamos sobre a responsabilidade da escola, da família e da sociedade por tratar de uma questão fundamental: o leitor se forma ou ele é formado por al- guém? Essa pergunta extremamente capciosa nos é cara e conveniente. Faça o seguinte exercício: quando adquiriu o hábito da leitura, no sentido popular a ela atribuído, ou seja, “gostar de ler livros”? Foi por curiosidade? Na biblioteca esco- lar? Ou foi um presente que recebeu? Temos um caso de que exemplifi ca isso: Ligia Bojunga, escritora de textos infantis, relata em várias entrevistas que cresceu cercada por livros, na casa da avó. Outro escritor, o moçambicano Mia Couto, gosta de relembrar como na sua casa seu pai era um ávido colecionador de clássicos portugueses: Camões, Fer- nando Pessoa, Camilo Castelo Branco, etc. LITERATURA INFANTIL 127 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 127 16/10/20 17:41 Atualmente, há docentes que buscam capacitação para trabalhar a formação do leitor em sala de aula, seja porque realizam uma pós graduação e são da área de letras, seja porque possuem diferentes perfis nas mais variadas áreas de co- municação. Contemporaneamente, entretanto, a imagem mais recorrente é a do aluno afastado, em sua maioria, do devido material literário. Isso ocorre porque há uma diferença entre o estudo teórico e a prática, afinal, podemos estudar o material didático-pedagógico exaustivamente, mas o que realmente temos para desenvolver atividades em sala de aula? Só depois de acessarmos esse resquício residual que assola a maioria dos alunos do país – muitos de alta renda, mas com carência de prática de leitura – podemos conceber ações que abordem as relações entre a literatura e a for- mação de leitores, principalmente na concepção de que o texto ficcional é uma forma de se compreender o mundo, ao passo em que aborda possibilidades e potencialidades da língua em prol da formação de leitores. Ainda não respondemos à pergunta: qual o processo formativo de um lei- tor? Podemos recorrer às considerações de alguns escritores e educadores para responder a essa dúvida, como Fanny Abramovich, para a qual a leitura era uma espécie de volúpia, uma prática deliciosa realizada com as obras dos clássicos brasileiros. Para ela, gerava-se uma sensação totalizante (1995, p. 11) que a preenchia e permitia a fruição de muitos saberes. Por sua vez, Ana Maria Macha- do revela sua predileção por contos de fadas desde pequena, por influência da mãe (LAJOLO, 1995, p. 26). Os relatos denunciam um ponto crucial que nos servirá de primeiro passo: em muitos casos a escola não foi responsável pelo desenvolvimento do hábi- to de leitura nos indivíduos. Podemos, inclusive, apontar como muitos desses escritores eram oriundos de espaços mais alfabetizados. Porém, qual fora a influência de Machado de Assis, nosso maior escritor? Que escolas frequen- tou? Quais liceus visitou? Para além das histórias de que fora trabalhar em uma padaria de um francês para aprender o idioma, é fato que o escritor não pos- suía o perfil da elite carioca na época. LITERATURA INFANTIL 128 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 128 16/10/20 17:42 Leitura e formação É importante compreender o processo formativo do leitor como um ritual iniciativo, através do qual ele passa a ter contato com um novo mundo. Dividido em etapas, possui a capacidade de possibilitar o crescimento e o amadureci- mento desse indivíduo em formação. É possível, com base nas primeiras experiências, observar o desenvolvi- mento de um gosto pela prática, em- bora não sem o apoio de facilitadores, como indivíduos que auxiliam e incen- tivam a prática, bem como o meio, ou seja, um contexto sociocultural que agregue as possibilidades de enriquecimento do indivíduo, de modo a aproxi- má-lo cada vez mais da leitura. É nessa constatação que se observa o acesso ao texto literário e a presença de outros leitores que auxiliam na capacitação, na infl uência e no reforço positivo dos futuros leitores. Esses elementos possibili- tam um despertar precoce e estimulam uma série de atividades que tão cedo agregam resultados prazerosos, afetivos e que infl uenciam todo o processo formativo do estudante. Observando os relatos anteriores, podemos apontar como o meio em que cada escritor conviveu facilitou o desenvolvimento de sua atividade como lei- tor, bem como o desenvolvimento de um perfi l de leitura. Observe, por exemplo, a série de livros Os mistérios de Enola Holmes, de Nancy Springer. Nas obras, toda a sociedade vitoriana do século XIX é revista por uma ótica feminina e juvenil. Mas isso só é possível em detrimento dos seguintes fatores: a formação literária da autora; sua capacidade de fazer inter- -relações com os textos; sua habilidade de leitura intertextual e conhecimento da obra de Arthur Conan Doyle, o que lhe possibilita resgatar per- sonagens do universo fi ccional de outro escri- tor; e sua habilidade para reler velhos paradig- mas e inserir novas leituras em temas passados, mas contemporâneos. LITERATURA INFANTIL 129 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 129 16/10/20 17:43 Figura 3. Cena do filme Enola Holmes, 2020, com os irmãos Sherlock Holmes à esquerda (personagem vivido por Henry Cavill) e Enola Holmes à direita (personagem vivido por Millie Bobby Brown). Tendo isso em vista, devemos abordar o processo de leitura como uma prá- tica significativa, ou seja, associada ao cotidianode cada um, de modo a des- pertar o prazer pela atividade. Ao abordarmos a afetividade, focamos no ponto do vínculo entre o leitor e o texto, um vínculo de afinidade. Essas atividades, motivadas por vários fatores, como vínculos sociais e culturais que são estabe- lecidos ao longo da vida, promovem a aglutinação e a associação entre esses pontos, tornando o ato de leitura desassociado de outras práticas cotidianas. Não é por acaso que um contexto familiar é sempre um dos melhores espaços para esse desenvolvimento, mesmo porque muitos dos leitores deram início à sua prática por meio de histórias que lhes foram contadas. A leitura separa o ambiente para o leitor conceber sua identidade e consta- tar sua fragilidade, atos possibilitados pelo “fazer ficcional” inerente ao texto, seu jogo de devaneio e experimentação. Essa experiência tanto abre novos horizontes como amplia as percepções de cada um. Contemporaneamente, en- tretanto, o desenvolvimento desse gosto passou a ser um verdadeiro desafio. Um dos principais motivos para isso é a inconstância dos facilitadores educa- cionais, da forma e dos tipos de textos que chegam ao aluno. Ademais, o acesso ao universo literário é limitado por vários fatores, como a disponibilidade do material, a infraestrutura, os meios democráticos de acesso aos livros e os pro- jetos de promoção de leitura por parte do governo. Afinal, que propostas estão sendo implementadas, e quais são suas aplicabilidades? LITERATURA INFANTIL 130 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 130 16/10/20 17:43 Biblioteca escolar Iniciando a problemática da criação de novos leitores, principalmente em um ambiente em que o próprio acesso à cultura é defi ciente, Ezequiel Silva aponta que a formação de leitores depende do contexto nacional e da per- cepção da falta de condições sociais e econômicas para promovermos a ca- pacitação dos cidadãos brasileiros (2012, p. 10). Dessa forma, considerando a carência das bibliotecas em todo o Brasil, que são próximas das grandes concentrações urbanas, mas longe das regiões mais carentes, resta à escola, para além do seu papel de espaço de promoção da educação, a responsabili- dade do processo formativo dos leitores. Figura 4. É importante garantir o acesso à biblioteca escolar, principalmente em periferias. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 08/10/2020. Uma pergunta: quando você, na época em que frequentava a educação básica, entrou em uma biblioteca escolar, quais livros encontrava com mais frequência? Obras como Capitães de areia, de Jorge Amado, ou O Menino do dedo verde, de Maurice Druon? Segure esse questionamento, já que o retoma- remos adiante. LITERATURA INFANTIL 131 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 131 16/10/20 17:44 Devemos, porém, resgatar os problemas da mercantilização do saber: di- ferente do desenvolvimento da leitura literária, o protagonismo escolar pode ser suplantado pelo uso da velha metodologia que absorve livros didáticos e paradidáticos, afastando o aluno do uso do texto literário integral. Ocorre o erro da cristalização da leitura, prendendo o aluno às receitas e fórmu- las prontas, muitas vezes disfarçadas de prazer estético, também conhecido como “prazer superficial”. Em suma, trabalhar um texto estruturado e organi- zado que evoca o lado lúdico da leitura, mas que não atinge a função social da escola: de promover o prazer essencial que flui do ato da leitura. Nesse sen- tido, essas atividades de leitura direcionada cumprem sua função, mas apre- sentam um risco enorme: o de castrar o leitor das possibilidades da literatura. E o que difere o prazer essencial do superficial? O prazer superficial está relacionado à leitura superficial do texto, na qual a atividade se estrutura em torno da dinamização do texto literário, limitando-se a questões óbvias. Esses aspectos estão presentes em textos que apontam as características mais comuns de dada obra, dividindo as avaliações em formato objetivo, uma prática não tão incomum, uma vez que busca direcionar o aluno para uma formação específica. Já o prazer essencial, por sua vez, envolve experiências de leitura focadas no aperfeiçoamento e na emancipação do indivíduo, pos- sibilitando a problematização dos temas apresentados. Nesse segmento, as respostas não são mais essencialmente corretas, mas contextualizadas. É comum o uso do prazer superficial para a realização de atividades que visam mais o uso da língua do que o sentido do texto, de modo que o texto literário é tratado apenas como um fenômeno linguístico. Já atividades que valorizam o prazer essencial são voltadas para a contextualização e o desen- volvimento das habilidades lúdicas do aluno durante o processo de aprendi- zagem. Um exemplo disso seria uma atividade de contextualização entre Os Lusíadas, de Camões, e a obra direcionada para o público juvenil Por mares há muito navegados, de Álvaro Cardoso Gomes. O texto de Álvaro Cardoso Gomes leva o leitor a realizar um processo de interação, ao traçar paralelos com o texto de Camões: na obra, um jovem pre- cisa terminar de ler Os Lusíadas enquanto traça o mesmo caminho de Vasco da Gama em um veleiro. Há uma exigência que força o leitor a realizar cone- xões inter e paratextuais, o que desenvolve sua capacidade de leitura. LITERATURA INFANTIL 132 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 132 16/10/20 17:44 Eis a questão apresentada e não percebida pelos educadores: a incom- preensão da diferença entre o gosto e a prática de leitura. Há toda uma se- quência de produções, bem como de mercados voltados para uma prática constante, robotizada. Mas podemos falar, de fato, em leitor? Se o hábito da leitura envolve, antes de qualquer coisa, afi nidade e gosto com a prática, em que medida a obrigatoriedade de um exercício de leitura contribui para o seu desenvolvimento? A função formadora O educador/professor deve ter em mente sua função de agente forma- dor de leitores, contribuindo para sanar as carências que surgem ao longo do processo formativo dos alunos. Tornar-se ciente desses questionamen- tos contribui para a função do professor como participante do processo ini- ciativo voltado para o desenvolvimento do gosto pela leitura, bem como contribui com as instituições envolvidas na formação de leitores. Formação, nesse sentido, envolve seleção e escolha. Parece curioso para você? Retomemos nossa pergunta inicial: quais livros você encontrava com mais frequência? Os clássicos da literatura brasileira, ou alguns escritores mais associados ao público infantil, independentemente de sua relevância? Há algo retórico nessa pergunta, visto que a maioria traz nomes como Jorge Amado e Guimarães Rosa quando idealizam o tipo de leitura que gostariam que seus filhos realizassem, mesmo que eles mesmos não te- nham lido essas obras. E nesse caminho, muitas vezes aquele que é con- siderado o único espaço de leitura da criança carece de um melhor aporte para determinadas faixas etárias. Afinal, de que adianta compreendermos a relação entre a literatura infantil e a formação de leitores, se criamos espaços voltados para a leitura que excluem uma série de obras propícias para essas idades? De maneira que possamos apontar para os vários caminhos, problema- tizações e possibilidades dessa prática educativa em particular, trazemos as observações de Fanny Abramovich sobre o processo de formação de leito- res e como ele pode ser implementado em instituições que visam fomentar suas práticas: LITERATURA INFANTIL 133 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 133 16/10/20 17:44 Consta-me que a prioridade inicial deveria ser capacitar leitores inconsistentes, determinados, cheios de dúvidas, atentos para o potencial que uma história pode abordar, competentes para en- tender o motivo de não terem aproveitado ao máximo determina- da história. Texto literário é arte, é prazer, e cabe à escola abraçar essa marca educativa, o que envolve, também, ensinar a gostar e a criticar (ABRAMOVICH,1995, p. 148). Essas práticas, quando relegadas, atrapalham todo o processo de forma- ção do leitor, em vários níveis, de forma que Abramovich defende que ambos, literatura e escola, comungam de um espaço de formação. Sendo assim, se a escola educa com fatos e registros, o texto ficcional instrui com as possibili- dades, instigando o aluno/leitor por meio dos questionamentos despertados. São atividades que, por sua atuação contestadora, nunca deixam o indivíduo indiferente ao que o atinge. Assim como a escola cria um ambiente em que transmite o saber acumula- do, a literatura parasita o meio social, o meio do aluno. Assim, por mais dife- renciada que uma obra possa estar do meio que parasita, pode assim possuir a capacidade de se integrar ao leitor, uma vez que busca salientar grandes questões a serem resolvidas, como a relação entre a Terra Média de Tolkien e a Segunda Guerra Mundial. Nesse exemplo, ao atingir essa reflexão, o leitor também realiza uma atividade de autorreflexibilidade pessoal. Dessa forma, os espaços construídos para propiciar a variedade de leitura na escola, as bibliotecas, também devem parasitar o ambiente ao seu redor: devem, ao passo que disponibilizam os clássicos (brasileiros e mundiais), pa- rasitar o próprio contexto atual, dando conta das representações simbóli- cas de seus alunos. ASSISTA O documentário A negação do Brasil: o negro nas telenovelas brasileiras, de Joel Zito Araújo, promove uma análise profunda sobre a representação do negro nas telenovelas brasileiras do século XX e XXI. Além disso, o diretor apresenta como, em diferentes produ- ções artísticas – música, pintura, literatura – há uma representação da figura do negro que se perpetua para o imaginário nacional. LITERATURA INFANTIL 134 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 134 16/10/20 17:44 Essa mesma função não escapa à escola, que auxilia o aluno a interpretar o mundo, por meio dos conteúdos programáticos. Mesmo assim, é o texto literário o germinador da imaginação, que possibilita o indivíduo desenvolver a capacida- de de subverter as amarras da realidade e repensá-la em prol de seus objetivos. Desse modo, se analisarmos o valor da obra literária para a formação do lei- tor, o que a classifi caria como boa ou ruim não diverge tanto dos critérios que se aplicam à análise de qualquer outra obra de arte. Em suma, sua valoração está no princípio de favorecer um ponto de saída para uma percepção inovadora da realidade, permitindo que o leitor possa compreender melhor o mundo em que vive por outras perspectivas. Considere que um projeto voltado para a prática de leitura, que tenha como base o uso da literatura infantil, não se limite apenas às leituras trazidas para a sala de aula: é necessário o conhecimento disponibilizado na própria biblioteca. Esse espaço não deve ser apenas o repositório dos clássicos, da pesquisa cien- tífi ca e dos estudos de matemática: deve carregar em si o potencial para desen- volver a leitura do estudante. Um espaço planejado e direcionado para o incentivo à leitura favorece a inte- ração entre o leitor e a obra. À medida que uma obra exige o domínio de um códi- go cultural por parte do leitor, além de sua participação ativa, mais o livro agrega, devido à capacidade da obra de abranger o meio social, possibilitando o alarga- mento do horizonte sociocultural dos leitores. Sendo esse um processo cognitivo de intercâmbio, instaura-se o fenômeno da leitura. É comum a acepção: “o que você absorveu de bom do texto”, quando na verdade se trata da compreensão do mundo real via o imaginário. Assim, a obra literária não se limita apenas ao conteúdo escrito, mas alimenta a capacidade do leitor de assimilar a realidade. Dessa maneira, a leitura só se dá quando o processo de interpretação do mundo fi ccional se realiza em totalidade. A animação de uma biblioteca infantil Como a criança utiliza e o que associa com o espaço da biblioteca? Trabalho, estudo ou diversão? Abordamos a relação da literatura infantil com o desen- volvimento do indivíduo, bem como a criação de espaços lúdicos direcionados para a leitura; mas como isso pode ser desenvolvido? LITERATURA INFANTIL 135 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 135 16/10/20 17:44 Deve-se ter em mente, conforme apontam Bernardinelli e Carvalho, a im- portância que a criança dá para o senso de liberdade (2011, p. 4), e como essa liberdade pode ser construída por atividades básicas, como o próprio direito de escolher uma obra, embora essa mesma prática de liberdade precise de direcionamento. Pensa-se que o espaço escolar deve proporcionar, através da literatura in- fantil, “liberdade” ao aluno; entretanto, é necessário enfatizar que essa liber- dade deve ser orientada com atividades programadas em ambientes livres, na biblioteca e na sala de aula, estimulando e aumentando o potencial de cada aluno. Além disso, precisa-se levar em consideração as transformações sociais: a própria biblioteca da escola não pode ser um lugar estático. Lembra-se de quando tocamos na questão dos livros que fazem parte do acervo de uma biblioteca? Peço que tenha o seguinte em mente: no ano de 1995, surgiu a internet e a sociedade passou por uma transformação de conceitos e conflitos sociais, o que influenciou toda a dinâmica das mídias, incluindo a produção do livro infantojuvenil: Eis um dos grandes dilemas de nossa época: o poder da Má- quina, da tecnologia, em confronto com o poder da Mente, da inteligência. A Máquina e o Homem. Em síntese: cresce a ne- cessidade de que todos dominem, desde cedo, a instrumenta- lização tecnológica (para atuarem no, “cotidiano cibernético”) e, ao mesmo tempo (com igual ou maior intensidade), que cada um adquira, desde a infância, a consciência de seu próprio Eu em relação ao Outro (ao mundo à sua volta), que o comple- mentará. Consciência crítica, globalizante, que só a linguagem da cultura, da literatura (e das artes) proporcionam (COELHO, 2010, p. 288). Desse modo, essas mudanças sociais, com o surgimento da tecnologia, também modificaram a relação dos pequenos leitores com os livros, bem como impactaram a literatura em geral. Nesse sentido, foi necessário que a literatura adquirisse um novo formato, incorporando ferramentas de mídias tecnológicas, como a ilustração e os livros em formato digital. Nesse campo literário novo, a imagem passa a ter uma significativa importância, tanto quanto a letra, por ser um meio de interação com o leitor virtualmente. LITERATURA INFANTIL 136 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 136 16/10/20 17:44 CITANDO Sabemos que o trabalho do professor com a leitura e produção de textos é uma atividade árdua, principalmente porque os alunos, hoje, estão mais voltados para aspectos visuais e simbólicos do que propriamente para o texto escrito. Por isso, um livro que traga diversidade de ilustrações, textos pequenos, jogos, letras de músicas, textos em quadrinhos, pala- vras cruzadas, poesias, etc. é, sem dúvida, mais atraente e desperta mais atenção e interesse, pois esses recursos certamente abrirão novos horizontes para o aluno, podendo aguçar-lhe a imaginação e propiciar-lhe condições para reflexão (VERCEZE; SILVINO, 2008, p. 97). O que é um biblioteca nos dias de hoje? Espaço de leitura, interação ou integração? Diante de uma geração que é muito mais antenada às transfor- mações midiáticas, o que pode ser atrativo para os alunos nesse espaço? Po- demos ir além: abordamos a carência socioeconômica, o fato de que muitos estudantes sequer têm recursos básicos para ter acesso aos livros didáticos. Mas o que dizer de uma sociedade na qual podemos ler praticamente todos os livros que queremos a um clique? A esse respeito, Kirchof afirma que: “Ao contrário do que apregoam tanto as previsões eufóricas quanto as pessimistas, o que parece estar ocorrendo é uma convergência entre a cultura do suporte impresso e a dos meios digitais” (2016,p. 205). Isso nos releva como a literatura, infantil ou adulta, permane- cerá no campo literário, em quaisquer formas, para o entretenimento, para o ensinamento, para o contentamento e para a crítica política e social. Figura 5. A literatura tem relação com a tecnologia e com a afetividade. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 08/10/2020. LITERATURA INFANTIL 137 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 137 16/10/20 17:44 Porém, reafirmamos: o desenvolvimento da leitura envolve acesso, sen- do que muito desse contato, principalmente em relação à literatura infantil, ocorre por meio da biblioteca. Nesse sentido, para termos em mente o tipo de atividades a serem desenvolvidas em uma biblioteca escolar, devemos ter noção do perfil dos leitores, conhecendo as leituras que eles realizam, geral- mente (embora dependa de cada comunidade escolar): a) Recortes de livros, muitos deles de obras infantojuvenis; b) Em geral, livros nacionais, com exceção de contos de fadas; c) Um número maior de textos no livro de Língua Portuguesa e redação, mais voltados para exercícios textuais, do que para a literatura. A maioria dos livros didáticos se dividem em capítulos, voltados para te- mas que abordam, por exemplo, questões gramaticais. Cada capítulo iniciado por um trecho de uma grande obra, ou de um texto adaptado para se ade- quar ao direcionamento do capítulo. Não à toa diferentes leitores transfor- mam em ficção sua prática de leitura nas escolas, a exemplo do conto Estudar é viver, de Bartolomeu Queiroz, ou Cecília Meireles, com o livro de poemas Ou isto ou aquilo. Em suma, os textos são trabalhados mais em seu caráter lin- guístico-interpretativo, do que pelo viés lúdico e catártico: eis um dos motivos pelo qual a biblioteca não é vista como um espaço de diversão, mas sim de continuidade da sala de aula. Porém, a correlação entre leitura infantil e biblioteca é muito rica: o que acha de uma roda de leitura, na qual cada aluno possa ler trechos dos contos dos irmãos Grimm? Nos dias atuais, as crianças são tomadas pela falta de concentração, o que atrapa- lha o desenvolvimento de diferentes tipos de atividades. Nesse âmbito, a biblioteca oferece um enorme poten- cial, pois pode desenvolver atividades extensivas que captam a atenção do aluno e trabalham o seu senso de liberdade ao oferecer-lhes uma variedade de gêneros literários, muitos voltados ao público infantil: contos, fábulas, len- das, etc. (ANDRADE, 2014, p. 142). LITERATURA INFANTIL 138 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 138 16/10/20 17:44 Em suma, o problema não é a falta de literatura, mas a falta de sua acessi- bilidade lúdica. Trata-se de uma literatura prejudicada nos manuais didáticos por causa do nosso sistema educacional (SILVA, 2007), substituindo o deleite do texto pela sua castração, pela delimitação do texto lido, pelos sentidos pré-defi nidos e pelo impedimento do aluno de desenvolver sua capacidade interpretativa. Kleiman, nesse sentido, amplia a crítica: É comumente sabido que há um pré-impedimento diante do que ou é muito difícil, ou muito complexo. A simplifi cação dos textos e seu descaso durante esse período letivo contribuirão, futura- mente, para a não formação do futuro leitor, acostumado a ler enxertos e desacostumado a se lançar na leitura (2011, p. 12). Essa afi rmação tem como base os seguintes pressupostos: A interação desses conhecimentos, segundo a perspectiva cog- nitiva, ocorre na mente do leitor; ler é, portanto, uma ação indi- vidual, um ato estratégico de processamento da informação que não estabelece relação com os fatores externos ao texto. Cada uma das palavras que compõem o texto representa entidades do mundo físico, havendo uma relação direta entre linguagem e mundo (SANTOS, 2017, p. 29-30). Fisiologia da biblioteca infantil Há a necessidade de todo um preparo para o pleno deleite da leitura, prin- cipalmente nos mais jovens: a falta de relação entre o texto e o contexto causa um bloqueio no discente. Não há o prazer do texto, da mesma maneira que se impede o desenvolvimento da capacidade de interpretação literária do aluno. Todo projeto de leitura deve propor uma visão ampliada, para que o aluno entenda que a noção de leitura está relacionada a diferentes elementos, o que inclui sua receptividade. Analisam-se muitos textos de acordo com sua classifi - cação sintática, morfológica, histórica, etc., mas por vezes o caráter semântico do texto é negligenciado. Cabe à escola o papel de auxiliar o aluno na prática de interpretação da plurissignifi cação literária. Essa oposição sala de aula x biblioteca parece curiosa, mas aborda as me- mórias de escritores como Lya Luft, para quem: LITERATURA INFANTIL 139 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 139 16/10/20 17:44 A escola era terrível, seria melhor se ficássemos em casa, no quintal, lendo. Mas era divertido quando brincávamos com os vocábulos: na biblioteca havia livros, e as palavras eram como doces infinitos que a gente guardava por um instante antes de se deliciar... mas às vezes jogávamos na cara dos outros essas descobertas, de propósito, cuspindo (LUFT, 2006, p. 52). Observe como a crônica, nas mãos de Luft, assume contornos de crônica literária, promovendo um jogo lúdico de verdade/falsidade: ela tanto gostava quanto odiava a prática de leitura na escola. Quais seriam os livros? Didáti- cos? Ou livros que ela não gostava? Teria ela tido a opção de escolher obras como Turma da Mônica ou O Menino do dedo verde? Provavelmente, sim. Isso porque, na sala de aula, a escritora estava à mercê das leituras obrigatórias, aquelas associadas ao contexto do conteúdo programático. A biblioteca, por sua vez, oferecia muitas opções, de maneira que a escri- tora discute sobre os textos literários a serem trabalhados em sala de aula. Observemos como, enraizada em uma série de estudos de ordem cronoló- gica e em um curto espaço de tempo para realização de um conteúdo pro- gramático, a disciplina de Literatura se limita a textos que, como primeiro contato para os leitores, não contribui com sua função: Compete hoje ao ensino da literatura não mais a transmissão de um patrimônio já constituído e consagrado, mas a responsabilida- de pela formação do leitor. A execução dessa tarefa depende de se conceber a leitura não como o resultado satisfatório do proces- so de alfabetização e decodificação da matéria escrita, mas como atividade propiciadora de uma experiência única com o texto lite- rário. A literatura se associa então à leitura, do que advém a vali- dade dessa. [...] A experiência da leitura decorre das propriedades da literatura, [...] esse universo, contudo, se alimenta da fantasia do autor, que elabora suas imagens interiores para se comunicar com o leitor... [...] Dúbia, a literatura [...] aciona sua fantasia [...] mas suscita um posicionamento intelectual. [...] Nesse sentido, o texto literário introduz um universo que, por mais distanciado do coti- diano, leva o leitor a refletir sobre sua rotina e a incorporar novas experiências (ZILBERMAN; SILVA, 1990, p. 19). LITERATURA INFANTIL 140 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 140 16/10/20 17:44 Não cabe à escola, portanto, estruturar didaticamente o texto durante o processo de acessibilidade do texto literário, tampouco pedagogizá-lo, li- mitando suas possibilidades semânticas aos limites do manual didático. Em suma, o que precisa ser abordado é o livro, puro e simples, de maneira que o leitor possa desenvolver e ampliar sua capacidade criativa, por meio de es- colhas intertextuais e paratextuais. Essas escolhas, por sua vez, favorecem a comunicação e a apreensão das técnicas de leitura. De fato, o que apresenta mais potencial para se discutir o racismo na escola: a leitura de O mulato, de Aluízio de Azevedo; ou O menino marrom, de Ziraldo? A pergunta parece enfadonha e tendenciosa, mas é pedagógica: o primei- ro é um clássico brasileiro, presente em coletâneasescolares e pré-requisito para vestibulares e demais concursos; o segundo, pelo seu direcionamento infantil, possui a liberdade de abordar determinados temas pela visão de um público infantil. É nesse jogo de oposições que nos deparamos com o poten- cial do trabalho com literatura infantil na biblioteca escolar: ela não apenas apresenta uma linguagem diferenciada, mas se aproveita do fato que, muitas vezes, estar à margem dos planos de ensino cria potencial para o desenvolvimento de práticas de leitura. DICA É nesse contexto que algumas pesquisas abordam determinadas categorias da literatura infantil que, em muitas situações, estão fora dos bancos escolares. É o caso do artigo Leitura(s) de o gato e o escuro, de Mia Couto de autoria de Flavio García e Luciana Silva. O texto apresenta uma abordagem sobre a literatura in- fantil africana de língua portuguesa, mostrando como há uma série de escritores que realizam experiências lúdicas por meio do potencial discursivo propiciado pelo uso da linguagem infantil. A natureza da leitura em ambientes escolares Após essa abordagem sobre o uso dos textos e seu problema de contex- tualização, fruto de uma estrutura engessada presente nos currículos esco- lares, abordaremos a natureza da leitura na biblioteca escolar: qual seria sua prioridade? LITERATURA INFANTIL 141 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 141 16/10/20 17:44 Não é incomum a concepção cotidiana da leitura sobre a qual o texto deve emancipar o indivíduo, ignorando todas as suas potencialidades. Isso é tão fre- quente ao ponto de criarmos estantes para “literatura” e “literatura infantil”, delimitando-a de acordo com a faixa etária, ao mesmo tempo que criamos hie- rarquias de valor. Mas o que é mais importante e significativo? Hábito ou ludicidade? Meta ou prazer? A leitura avaliativa da sala de aula, ou a liberdade propiciada por ativi- dades em bibliotecas escolares? Não é porque o espaço escolar é, para grande parcela dos alunos, o único lugar de acesso à leitura, que podemos apresentar textos aleatórios, sempre com a mesma metodologia. O raciocínio é simples: se você precisasse desen- volver hábitos de leitura em uma turma, qual estratégias utilizaria? A pergunta pode ser ambígua, uma vez que você precisaria considerar questões de meta, disponibilidade, praticidade, objetividade e saberes a serem trabalhados. Sen- do assim, coloque-se no meio do caminho entre o aluno e o professor, fazendo essa reflexão. Enquanto se questiona, podemos delimitar não a obra, mas os métodos a serem utilizados: nosso caminho deve favorecer o ato de pensar e de cons- truir, ou seja, o ato de divagar em meio à leitura. O aluno, nesse caso, torna-se o protagonista de sua fala e de sua escrita. Dessa forma, esses exercícios pas- sam a ser a base dos métodos a serem aplicados, já que o discente é levado, via leitura, a compartilhar o que escreve, ou seja, a dar forma, corporificar. Imagine-se na seguinte situação: em uma roda de leitura, dentro da biblio- teca, você reúne seu espaço para criar um clima com seus alunos e, ao fazê-lo, convida um dos alunos para ler o texto O Menino Maluquinho, de Ziraldo. O Menino Maluquinho Era uma vez um menino bagunceiro. Ele tinha o olho maior que a barriga, tinha fogo no rabo, tinha vento nos pés, umas pernas enormes (que davam para abraçar o mundo) e macaquinhos no sótão (embora nem soubesse o que significava macaquinho no sótão). LITERATURA INFANTIL 142 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 142 16/10/20 17:45 Ele era um menino impossível! Ele era muito sabido, ele sabia de tudo, a única coisa que ele não sabia era como ficar quieto. Seu can- to, seu riso, seu som nunca estavam onde ele estava. Se quebrava um vaso aqui logo já estava lá. Às vezes cantava lá e logo já estava aqui. Pra uns, era uirapuru, pra outros, era um saci. Na turma em que ele andava, ele era o menorzinho, o mais esperti- nho, o mais bonitinho, o mais alegrinho, o mais maluquinho. Era tan- tas coisas terminadas em inho que os colegas não entendiam como é que ele podia ser um companheirão (ZIRALDO, 2012, n.p.). Se estivessem em uma sala de aula, é provável que fizessem, em primei- ro lugar, uma leitura que classificasse as classes gramaticais presentes, como substantivos, artigos, adjetivos, verbos, advérbios etc. Mas as relações no texto não são apenas sintáticas, mas também semânticas. É por isso que se deve aproveitar o aporte para abordar questões sobre quem narra, quem são as personagens, o enredo da história, seu local e tempo. Observa-se que se trata de um menino, e muitos dizem que ele é malu- quinho devido às suas peraltices. Com base nisso, podemos constatar que, no texto, o ponto crucial é o vocábulo “menino”, uma vez que todas as outras categorias narrativas – tempo, espaço, personagem, enredo, narrador – dele falam, a ele se referem. Se mudássemos a palavra – por exemplo, modificando seu gênero para “menina” – já seria outro texto, pois falaria de outra pessoa. Todos os adjetivos ao menino atribuídos, os “inhos”, bem como os advérbios que giram em torno dos verbos – suas ações –, são informações fornecidas por uma leitura atenta para caracterizá-lo e apontar as particularidades e peculia- ridades do garoto. Sendo assim, passamos a conhecer seus hábitos e até o que seus amigos acham dele. Poderíamos mudar a ordem das palavras ou alterá-las sem modificar o sujeito, mas falaríamos de outra coisa, de outra maneira. Veja que, no final do texto, há a referên- cia ao autor, Ziraldo, o que dá um indício de reaproveitamento e contextualização da obra. Observe, também, como o texto apresenta a adjetivação – como as palavras “vento nos pés” e “pernas enormes” que atribuem particularidades à personagem. LITERATURA INFANTIL 143 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 143 16/10/20 17:45 Observe que o texto exerce uma função dupla: possibilita um processo de re- leitura superficial e, ao mesmo tempo, aprofundada, um espaço para uma du- pla significação. Nesse sentido, o professor não pode se limitar a um uso que favoreça apenas as classes gramaticais, mas também deve explorar a estrutura interna do texto. Em suma, esse tipo de atividade foge um pouco do velho esquema texto- -gramática, embora seja apenas um dos usos essenciais para atividades de in- terpretação. Por outro lado, esse é um tipo de atividade que envolve textos infantis e que não se limita à sala, mesmo quando ela é transformada em uma biblioteca, criando um novo espaço de leitura. Figura 6. Espaços de leitura na sala de aula. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 06/10/2020. Imagine uma biblioteca infantil em sala de aula: quais livros utilizar? Quais atividades direcionar? De fato, ao englobar o livro no espaço da criança, é tra- zido novamente o sentimento de liberdade: a obra literária é vista como um brinquedo qualquer, como uma bolsa, um quebra-cabeça ou uma folha de co- lorir que ocupa seu devido espaço. Diferentes atividades devem ser realizadas, de forma que a criança selecione seus objetos de leitura, em escolha feita pela turma (ALBUQUERQUE; FERREIRA, 2020). LITERATURA INFANTIL 144 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 144 16/10/20 17:45 Essa é uma prática didática interessante para se desenvolver em diferentes ciclos educacionais: o trabalho como literatura – e no caso apontado, a infantil – não pode ser limitar a uma prática repetitiva, a um uso ad eternum do mesmo corpus teórico e ficcional. Procure se lembrar dos seus anos na educação bási- ca: já passou por um docente que utilizava sempre a mesma técnica? Imagine a situação do aluno quan- do o esquema da aula é, essencialmen- te, similar ao de outras? Se o ensino da literatura vira rotina, então não há, de fato, aprendizagem. O aluno entrará em sala, pegará o livro, observará se estamos estudando o mesmo período literário ou se já adentramos em outro. Se for o mesmo, vai estudar os autores sempre pela mesma régua, pelas mes- mascaracterísticas, sem se aprofundar nas particularidades dos textos. Além de não ser nem um pouco didático e, também, contraintuitivo, há um problema maior do que a leitura como obrigação: a rotina. Sobre isso, Geraldi (2002) discorre: Nas sociedades regidas pelo capital, nenhum saber é aleatório, todas as atividades visam ao atendimento de uma demanda, e a escola atua, em sua grande maioria, como espaço de perpetua- ção de normas e valores. Não se torna espaço propriamente de prazer e emancipação, mas de capacitação. Os textos a serem lidos são avaliados por resenhas ou resumos, utilizados para a realização de testes ou, até, para evitar destinos piores – na visão dos alunos –, como ler tal livro e fazer um relatório de x páginas (GERALDI, 2002, p. 12). A necessidade de promover capacitação para um contingente, o qual ocu- pará os futuros postos de trabalho, gera uma cultura de organização, padroni- zação e divisão de todos os saberes, divididos em disciplinas. Porém, quando utilizamos a ideia de biblioteca em sala de aula, rompemos uma barreira ao transmutá-la para um espaço de ensino formal e não formal. LITERATURA INFANTIL 145 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 145 16/10/20 17:46 A sala de aula enquanto espaço de leitura O texto em sala de aula, já recortado nos livros didáticos, é planejado para não ser um instrumento de emancipação. Sua filosofia de produção, por mais “dinâmica”, “inovadora” e “ousada” que possa ser, na realidade é reflexo de um meio social no qual os indivíduos são capacitados desde cedo para atuar, ou seja, para assumirem cargos, não para agirem conscientemente como indivíduos so- ciais. A escola, por sua vez, reflete essa característica por meio de avaliações que, à semelhança do patrão com seus funcionários, são uma espécie de cobrança ou cota a ser atingida. Essa situação não muda, por exemplo, devido à presença de avaliações obje- tivas ou discursivas. Como já apontamos, muitas dessas questões possuem um direcionamento de resposta, o que não é um problema em si, já que nessa faixa etária há sim uma limitação de respostas a serem atingidas justamente pela ca- pacidade discursiva dos alunos. O problema, por sua vez, está relacionado ao uso disso como prática por professores que, em sua época, também não desen- volveram sua capacidade como leitores e, consequentemente, não conseguem fazê-lo em sala. Logo, o direcionamento de respostas se torna uma verdadeira amarra para ambos, professor e aluno. O docente se limita a apresentar as ca- racterísticas dos períodos, e o aluno responde da maneira que aprendera no livro didático. Sua contextualização é perdida, já que o texto não é significativo. Em suma, as atividades se tornam similares aos exercícios de matemática, em “se Lobato é um escritor pré-modernista, e o pré-modernismo teve elementos de ruptura, então Caçadas de Pedrinho é uma obra pré-modernista”. Essas práticas precisam ser revistas e constantemente atualizadas, evitando- -se assim a atividade da leitura em sala como algo silencioso e rotineiro limitada a abrir um livro, responder questões e corrigi-las. Essas ações nos afastam da nossa meta, que é formar leitores. Dessa maneira, o texto se torna um simulacro totalmente distante da realida- de, de tal forma que, em uma aula de história, o aluno conhece todos os pontos, personagens e eventos que culminaram na Revolução Francesa, mas não de- senvolveu a habilidade de contextualizá-la no seu cotidiano, por exemplo. Sabe o que o significou a queda do Antigo Regime, mas não como isso o influencia. Dessa forma, a leitura em sua apreensão, deve transcender a categoria de ativi- dade monótona. LITERATURA INFANTIL 146 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 146 16/10/20 17:46 Porém, o elemento lúdico do texto literário, quando agregado ao próprio espaço de aula, possibilita uma série de vantagens: uma aula de Sociologia, por exemplo, pode se tornar mais interessante se for realizada uma atividade intertextual com a obra Meu pé de laranja lima, obra que aborda a questão da pobreza na sociedade brasileira. Ou, ao se tratar a questão da reforma agrária, uma rápida pesquisa aos livros da sala para um debate sobre a obra Dez Dias de Cortiço, livro de Ivan Jaff, uma vez que essa mesma obra reconta o clássico por um viés infanto-juvenil. Devemos observar que, na nossa função primordial como facilitadores da formação de leitores, precisamos ir além das estruturas escolares, propiciando um fazer que transcenda as práticas habituais. O prazer atingido não pode ser meramente contabilizado ou detalhado em uma planilha de metas, pois gera um capital simbólico incalculável. O livro como algo próximo, corriqueiro, tem o potencial para desenvolver a capacidade de leitura no aluno. Aliás, aproveita- mos para abordar o sentido da palavra “gostar”: Sentido pelo qual se percebe o sabor das coisas, paladar; sabor; prazer, agrado; simpatia, inclinação, pendor; critério, opinião; maneira, moda; faculdade de julgar os valores estéticos segundo critérios subjetivos, sem levar em conta normas preestabeleci- das; bom gosto (FERREIRA, 2019, n.p.). Etimologicamente, gostar é a ca- pacidade de julgar as propriedades de algo, valorizando-as, seja de maneira objetiva ou subjetiva. Em suma, ava- liar, apreciar, dar critério, opinar. Outro sentido de gostar, “agradar”, promove o deleite – estético ou não –, e é nes- se ponto que se aproxima o sentido de leitura que buscamos atingir, o de levar a sensação de deleite ao leitor. Mas esse prazer não é algo que sim- plesmente brota, mas está associado ao nosso meio e às nossas experiên- cias de vida. LITERATURA INFANTIL 147 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 147 16/10/20 17:46 Em outras palavras, o prazer associado ao fazer, relaciona-se ao nosso dia a dia. Se o aluno gosta de rock, você já parou para refletir que são essas as lei- turas que lhe dão satisfação, que Pitty e Skank lhe são mais prazerosos do que O Pequeno príncipe ou Emília no país da gramática? São essas leituras que lhe dão o devido “sabor”, e não outras. São essas leituras que fazem parte do seu cotidiano e lhe dão sentido. Dessa maneira, devemos desenvolver uma série de práticas que aproximem cada vez mais o aluno do universo da leitura, como a presença de atividades em bibliotecas e em salas de aula. Isso, por sua vez, esbarra nas práticas escolares, como aponta a escritora Myriam Scotti (2020), que associava o hábito da leitura ao de escovar dentes, porque era um hábito incorporado em sua rotina quando criança. Nessa ana- logia, fazemos a saúde bucal de maneira mecânica, sem uma reflexão acerca de nossas ações, e somos habituados desde cedo a fazê-lo, sob risco de puni- ção pela falta de asseio. Por outro lado, muitos têm preguiça, ou não gostam de escovar os dentes, motivo pelo qual a expressão “desenvolver hábitos de leitura” soa ambígua, como se estivéssemos desenvolvendo um sentimento de obrigação nas pessoas, e não um prazer. Para Ezequiel Silva, o contato com espaços literários favorecem o desenvol- vimento de hábitos de leitura: Lembro-me de corpo inteiro fisgado pelos “ásperos tempos”, pela “agonia da noite”, pela “luz do túnel”, vivendo, apaixonada- mente, os subterrâneos da liberdade e sendo paulatinamente introduzido, por minha própria vontade, na arte da palavra. E como a palavra, com Jorge Amado comecei a cultivar o gosto pela leitura de ficção (2007, p. 22). Cria-se um laço que circunda o leitor, a literatura e o espaço de leitura: esse laço de se lançar à leitura é um espaço privado – que envolve tanto a escola, os espaços de favorecimento da prática, quanto o mundo imaginativo do indi- víduo – que permite o livre exercício do faz de conta. Além disso, ficção vem de fingere, fingimento, que dá início a um processo de descoberta, ao ponto de o ato de ler trazer à tona ques- tionamentos sociais. Isso é feito pelos temas, enredos, estruturas, escolhaslinguísticas, tipos de abordagem ou pelas ideias apresentadas pelo autor. LITERATURA INFANTIL 148 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 148 16/10/20 17:46 Cria-se, assim, um espaço de “angústia saudável”, em que o texto literá- rio mostra justamente a sua utilidade, que é esvaziada em si. A literatura não tem uma “função”, um valor utilitarista, porque é um espaço de descoberta, de estar no mundo. Assim, alguns perguntam: qual é a utilidade de um espaço de leitura com obras infantis em sala de aula, principalmente nas escolas que possuem biblioteca? O espaço de leitura, a biblioteca infantil, a seleção de obras, esses são ele- mentos que fazem parte de uma educação não formal. Não é formal, pois vai além do conteúdo programático; não é informal, pois não está diretamente as- sociada aos espaços formativos informais, como a família; mas cria espaços de formação social diferenciados, possibilitando ao aluno acessar outros saberes para além da estrutura dos livros escolares. Assim, cria-se um ponto dentro da própria sala, no qual até versões infantis de clássicos consagrados atendem a um propósito didático e libertador: levar o aluno para além da velha estrutura pedagógica, possibilitando que ele utilize outros mecanismos para se tornar protagonista da própria aprendizagem. LITERATURA INFANTIL 149 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 149 16/10/20 17:46 Sintetizando Nesta unidade, abordamos a relação entre práticas de incentivo à leitura, a literatura infantil e o trabalho realizado em conjunto com escola, professores e comunidade. Tivemos a oportunidade de salientar toda uma relação entre a criação de projetos, o potencial da literatura infantil e o seu uso para projetos que não se limitam à alfabetização. É dentro do espaço formativo da escola, por sua vez, que uma tradição de projetos formativos foi desenvolvida, sendo que muitos não atingiram sua ple- nitude em razão das escolhas das leituras feitas, e da forma equivocada de apli- cação. Por isso, abordamos o desenvolvimento da leitura como um processo lúdico, no qual o indivíduo transforma diferentes tipos de texto em elementos que lhe são significativos. Dessa forma, traçamos o conceito de espaço de lei- tura, o qual pode envolver tanto a biblioteca escolar, uma biblioteca infantil, como também a organização de espaços na própria sala de aula, de forma a construir uma relação mais próxima entre o texto literário e o aluno em dife- rentes atividades do cotidiano. LITERATURA INFANTIL 150 SER_PEDA_LITE_UNID4.indd 150 16/10/20 17:46 Referências bibliográficas ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1995. ALBUQUERQUE, E. B. C.; FERREIRA, A. T. B. Práticas de ensino da leitura e da es- crita na educação infantil no Brasil e na França e os conhecimentos das crianças sobre a escrita alfabética. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 36, n. 01, p. 1-33, jan. 2020. ANDRADE, G. Literatura infantil. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2014. A NEGAÇÃO do Brasil. Postado por Cine Clube Dionel – Lig and ospont os. (1h. 29m. 07 s.). son. color. port. ou leg. 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