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TÉCNICA DE 
ENTREVISTA E 
ACONSELHAMENTO 
PSICOLÓGICO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
 > Descrever identificação do problema e contato com o paciente na consulta 
psicológica.
 > Identificar práticas para entrevista clínica e exame mental do paciente.
 > Elencar boas práticas para informar e motivar o paciente.
Introdução
Ao longo da vida, somos mobilizados de diferentes maneiras pelas nossas experi-
ências, emoções (que trazem significado e textura para a nossa história) e, não raro, 
consequentes disfuncionalidades, que podem contingenciar as nossas respostas 
e reações a partir da nossa relação com o outro e com o entorno. Também pode-
mos desenvolver transtornos diversos, como depressão, transtorno obsessivo-
-compulsivo, transtorno de pânico e transtorno de estresse pós-traumático. 
Nesse contexto, por diferentes razões, especialmente para a manutenção 
da nossa vida funcional e do nosso bem-estar biopsicossocial, somos levados 
a buscar apoio profissional para lidar com diferentes situações. Se somos 
diferentes e percebemos isso de forma singular, a prática do profissional de 
saúde mental é, também, atravessada por um conjunto de desafios e situações 
que, localmente, caracterizam o saber-fazer na prática clínica. 
A consulta psicológica na prática, que considera as diferenças entre mé-
todos e linhas de pensamento da psicologia, é estruturada a partir de um 
conjunto de ações (identificação do problema, boas práticas de comunicação 
com o paciente e motivação) orientadas para o estabelecimento da aliança 
Consulta psicológica 
na prática
Anna Rita Maciel Simião
entre o profissional de saúde mental e o paciente. Além disso, essas ações 
visam ao atingimento de resultados terapêuticos, em meio a diferentes es-
pecificidades colocadas pelos conflitos, pelas características das partes 
envolvidas, pelas decisões técnicas e metodológicas pertinentes ao caso 
(como entrevista, exame mental e devolução), etc.
Neste capítulo, vamos abordar a consulta psicológica na prática. O percurso 
inicia com o primeiro contato com o paciente, aborda as definições de problema, 
queixa e demanda, bem como os principais elementos presentes no exame mental 
do paciente, e termina analisando a relevância da informação e da motivação 
como estratégias terapêuticas na prática em psicologia.
Identificação do problema e contato com 
o paciente
Esta seção aborda a consulta psicológica na prática, lançando luzes ao primeiro 
contato com o paciente no consultório, quando inicia a interação profissional 
com o paciente e ocorre a identificação embrionária do problema por meio 
de testes psicodiagnósticos, entrevistas, etc. Entramos, assim, na prática 
clínica em saúde mental.
O contato com o paciente na clínica psicológica demanda abertura, humil-
dade e acolhimento. Ser psicoterapeuta é uma tarefa complexa e exigente, 
que tende a mobilizar o self dos envolvidos em profundidade. Participar do 
processo de autoconhecimento e autogerenciamento de alguém, do manejo 
e da análise das suas experiências, intenções e emoções, demanda profunda 
humildade por parte do profissional nos contatos iniciais e seguintes, visando 
a deslocamentos necessários em torno do que é compartilhado. O intuito é 
que se possa responder terapeuticamente ao conteúdo ou ao não conteúdo, 
então elementos constituintes desses contatos iniciais (FALEIROS, 2004). 
A clínica psicológica é herdeira do modelo médico, por isso o profissional 
observa e compreende os sinais e sintomas do paciente para, posterior-
mente, intervir, conforme as suas formações teórica e ética e o ambiente 
onde está inserido (MOREIRA et al., 2007). A clínica psicológica, portanto, 
“[...] caracteriza-se não pelo local em que se realiza — o consultório —, mas 
pela qualidade da escuta e da acolhida que se oferece ao sujeito: a escuta 
e a acolhida do excluído do discurso” (MOREIRA et al., 2007, p. 617). Assim, 
a prática profissional será pautada por concepções teóricas e metodoló-
gicas, além de por princípios éticos, que refletirão a postura acolhedora 
diante do sofrimento ou do fenômeno psicológico que se coloca diante do 
profissional (DUTRA, 2004).
Consulta psicológica na prática2
As psicoterapias são formas de atuação do psicólogo clínico e orientam o 
profissional na identificação do problema. As terapias gestalt, cognitivas e com-
portamentais, a psicanálise e as terapias analíticas junguianas são algumas das 
abordagens-lupas que podem orientar o fazer clínico, desde a identificação do 
problema até o planejamento do processo terapêutico. A pessoa que procura o 
psicólogo chega, para o primeiro contato com o profissional, geralmente acome-
tida por ansiedades e angústias. O papel do psicólogo é lidar com toda essa carga 
de sentimentos. Deve, então, manter uma atitude de respeito e consideração, e 
olhar, em conjunto com o paciente, para a situação conflitiva de maneira livre 
de críticas, menosprezo e desvalia. Essa postura é essencial para construir a 
ligação de confiança e proximidade necessária para a condução do processo. 
Para que o ato clínico se inicie, o paciente deve apresentar uma questão, 
um problema, que o levará para o serviço psicológico. A noção de problema 
será tratada, no texto que segue, como demanda e queixa. A queixa é, teori-
camente, o motivo que levou o paciente a procurar um serviço psicológico. A 
demanda pode ser entendida como o real pedido de ajuda, e essa demanda, 
apesar de motivada pela queixa, nem sempre se converte na mesma situação 
que trouxe o paciente à consulta psicológica (BRANCO, 2019). 
A identificação da queixa é, de acordo com Branco (2019), o primeiro 
momento de contato entre o paciente e o profissional. O ato clínico tem, 
como premissa, o contato contínuo com o paciente. A queixa é, geralmente, 
um fator de sofrimento para o paciente, ao mobilizar as suas funções psíqui-
cas do dito funcionamento normal (fisiológica e comportamentalmente). O 
paciente chega ao consultório com uma história prévia sobre determinada 
queixa que deve ser avaliada e interpretada (se pertinente) pelo psicólogo, 
uma vez que o profissional deve perceber e delimitar o problema e os sinais 
e sintomas que o circundam (CUNHA, 2003) para entender qual abordagem/
metodologia usar para dar início ao estabelecimento da aliança terapêutica. 
No campo da prática clínica, de modo ampliado, Cunha (2003) aponta para a 
diferenciação dos termos sinais e sintomas. Os sinais são como achados objetivos 
e observáveis, enquanto os sintomas são experiências do sujeito, são por ele 
sentidos. Entretanto, essa diferenciação se torna difusa no âmbito da saúde 
mental. Em psicopatologia, esses sinais e sintomas vão aparecer, em um primeiro 
momento, como alterações nas funções, como exacerbação ou diminuição de 
um padrão de comportamento usual. Essas alterações podem surgir quando são 
compartilhados fatos marcantes da vida, os quais podem caracterizar uma disfun-
cionalidade/patologia de acordo com a intensidade dos sintomas. Para delimitar 
a queixa, o psicólogo poderá observar esses sinais e sintomas em desarranjo. 
Testes psicológicos e manuais de diagnóstico, como o DSM-V, são instrumentos 
Consulta psicológica na prática 3
científicos para auxiliar o psicólogo nessa tarefa (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSO-
CIATION, 2014). Por isso, o psicólogo que realiza um psicodiagnóstico precisa ter 
familiaridade com os instrumentos de classificação nosológica de psicopatologias 
e conduzir observação e exame mental adequados ao paciente.
Nosologia é a ciência que estuda a classificação das doenças. Leia 
mais sobre o tema no âmbito do debate científico em saúde mental 
digitando os termos “critério”, “sintoma” “nosologia psiquiátrica” em um motor 
de buscas de sua escolha. Explore, a partir dos seus achados, o artigo intitu-
lado “Sobre a distinção entre ‘critério’ e ‘sintoma’ na nosologia psiquiátrica”, 
do pesquisador Cláudio Eduardo Muller Banzato, publicado nos anos 2000. O 
texto ilumina aspectos nosológicos da psiquiatria utilizando os termossintoma 
e critério como porta de entrada para distinções entre questões empíricas e 
conceituais (BANZATO, 2000). 
No contato com o paciente, é importante que o psicólogo observe, perceba, 
escute atentamente e aproxime-se, mas sem ser coercitivo. É importante, 
ainda, que o profissional psicólogo tenha sensibilidade para interagir com 
o silêncio (que pode ser necessário para complementar a análise do que é 
verbalizado), criando vínculos para que o paciente revele a sua intimidade e 
denuncie os aspectos incoerentes e confusos dos seus conflitos. A discrimina-
ção entre os motivos conscientes e inconscientes que trouxeram o paciente à 
consulta psicológica colabora para que o psicólogo identifique quem é o seu 
verdadeiro paciente: se pessoa que é trazida ou o grupo familiar, ou ambos. 
Essa identificação tem repercussões na interação clínica entre o psicólogo e 
o paciente, pois ambos assumem papéis e funções e passam a interagir em 
dois planos: de atitudes e de motivações. No plano das atitudes, o psicólogo 
assume uma função de examinador, enquanto o paciente assume função de 
quem precisa de auxílio. Já no plano das motivações, os aspectos conscientes 
e inconscientes do psicólogo e do paciente caracterizam os papéis, assim como 
influenciam os fenômenos da transferência (do paciente para o psicólogo) e 
da contratransferência (do psicólogo para o paciente) (CUNHA, 2003). 
O contato com o psicólogo é importante para mostrar ao paciente que 
as dificuldades parecem se manter enquanto não forem, primeiramente, 
compartilhadas para, depois, serem bem acolhidas (CUNHA, 2003). Nesse 
contexto, o acolhimento representa uma forma de receber e se relacionar 
com pessoas que buscam o serviço em saúde mental. Funciona como um 
atendimento ágil, que se aproxima das necessidades dos pacientes e envolve 
três processos distintos (GOMES, 2009; NEUMAN; ZORDAN, 2011): 
Consulta psicológica na prática4
1. a subjetivação, que visa a permitir ao usuário se apropriar, significar 
e reconstruir a sua história de vida; 
2. a responsabilização, que se baseia no compartilhamento, entre pro-
fissional e paciente, do poder de resolução do problema; 
3. a organização do serviço, que diz respeito ao planejamento institucional 
para os casos em que o acolhimento se dá nas instituições de saúde.
Acolher a queixa do paciente e, assim, estabelecer o contato com ele é uma 
das tarefas mais complexas da clínica psicológica, pois representa a dimensão 
fundante de todo o processo analítico e dos desdobramentos esperados pelas 
partes. Na prática, alguns casos de acolhimento de queixa e contato com o 
paciente são mais desafiadores. Veja, no exemplo que segue, uma situação 
clínica que pode ilustrar primeiro contato desafiador ao profissional, quando 
o paciente chega agitado e agressivo ao consultório. 
Caso: primeiro contato com paciente agitado/agressivo. A agitação 
psicomotora, estado no qual as atividades mental e motora estão 
excitadas de maneira exacerbada, é uma ocorrência comum, fazendo parte 
do quadro de vários transtornos, como episódios maníacos e esquizofrenia 
(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).
Aspectos iniciais
No primeiro contato assim configurado, o profissional deve tentar avaliar se 
os seus sentimentos naturais de medo ou raiva perante a situação refletem a 
realidade do ocorrido, evitando agir de maneira permissiva ou demasiadamente 
punitiva. Antes de qualquer intervenção, o profissional deve se apresentar de 
maneira pausada e segura ao paciente, mas tomando cuidado com falas que 
podem soar hostis ou ameaçadoras.
Cuidados para o manejo
O profissional deve estar atento e ser cauteloso para formular alguma hipó-
tese sobre a razão da agitação. É esperado que o profissional, frente ao contato 
com paciente que pode colocar a integridade física de terceiros em risco, aja 
prontamente para contornar a situação com a maior brevidade possível, pois, 
frequentemente, pacientes agressivos constituem uma situação de urgência, 
que exige habilidade e celeridade no manejo. Ao mesmo tempo, o psicólogo 
não deve renunciar a um tempo mínimo para observar e obter informações 
essenciais para qualquer tomada de decisão. 
Condução da entrevista:
Durante a entrevista com o paciente agitado, o psicólogo deve manter o 
contato visual, atentando para a sua fala, os não ditos e os seus movimentos 
corporais. Os movimentos e o tom de voz devem ser suaves, evitando atitudes 
corporais como elevar a voz ou cruzar os braços (pois isso evoca confrontação), 
mantendo-se certa distância física do paciente. De fato, dependendo da sinto-
matologia, como, por exemplo, uma agitação derivada de quadros psicóticos, o 
Consulta psicológica na prática 5
contato físico pode ser encarado como uma ameaça. Deve-se, também, evitar 
fazer anotações, mantendo atenção ao que o paciente tem a dizer ou reivindicar, 
ainda que não seja recomendável barganhar com ele (MONTOVANI et al., 2010). 
Análise:
Lidar com situações extremas, como paciente agitado ou agressivo, ilustra 
bem a necessidade da repetição e da assimilação da importância da postura do 
psicólogo no primeiro contato com o paciente, que é a porta de entrada para 
a criação do vínculo na aliança terapêutica. Para estabelecer esse vínculo, o 
psicólogo precisa estar atento ao comportamento verbal e não verbal do paciente 
e aos motivos conscientes e inconscientes (que ele talvez nem o próprio paciente 
tenha acessado, como supracitado).
Nesta seção, falamos sobre o contato com o paciente e a identificação do 
problema, como elementos da consulta psicológica na prática. A relevância 
desse debate para o ciclo da prática clínica, considerando o alcance dessas 
interações, pode ser sintetizada com Branco (2019), que destaca que, após o 
primeiro contato (escuta da queixa), durante a psicoterapia, a queixa poderá 
se converter em demanda-bússola para o planejamento terapêutico. Essa 
conversão não é fácil de ser percebida em terapia e necessita de um esforço 
conjunto por parte do terapeuta e do paciente. Cabe ao profissional, no 
contato com o paciente, escutar a queixa além da sua literalidade, ficando 
atento aos sinais e sintomas, bem como àquilo que não é dito de maneira 
clara, direta e verbal. Na conversão da queixa em demanda, o sujeito vai 
deixando de perceber o objeto da sua reclamação como algo externo e in-
dependente, passando a vivenciá-lo e comunicá-lo como algo que faz parte 
da sua experiência, resultando em maior compreensão sobre os elementos 
pessoais que estão relacionados ao sofrimento. 
Em continuidade ao debate sobre a clínica psicológica, vamos explorar, 
na seção seguinte, dois outros elementos que integram e desafiam a prática 
clínica: a entrevista clínica e o exame mental do paciente. 
Entrevista clínica e exame mental na prática
A entrevista clínica e o exame mental do paciente, complementarmente 
ao primeiro contato com o paciente (identificação da queixa), integram a 
prática da clínica psicológica. Nesta seção, partiremos da apresentação 
macro dos conceitos gerais (entrevista e exame mental) para, juntamente 
a isso, explorar alguns exemplos, objetivos e desafios inerentes à prática 
profissional do psicólogo, considerando as pluralidades e variabilidades que 
emergem do estabelecimento da relação entres as partes, do acometimento 
ora compartilhado, fundante do percurso terapêutico. 
Consulta psicológica na prática6
A consulta psicológica (tanto psicoterapia quanto psicodiagnóstico) pode 
envolver diversos tipos de entrevistas clínicas, bem como a aplicação de 
instrumentos de medição, os testes psicológicos. Segundo Grossen e Orvig 
(1998), os objetivos da entrevista clínica podem ser assim sintetizados: 
 � investigar e pensar um diagnóstico;
 � encaminhar para a terapia;
 � elucidar informações sobre o paciente com apoio dos testes psicológicos. 
Nas terapias iniciais, as entrevistas clínicas têm finalidades adicionais, 
como:
 � o entendimento dos motivos que trouxeram o paciente ao consultório; 
 � acompreensão sobre a personalidade do paciente; 
 � a definição do problema;
 � o estabelecimento da aliança terapêutica. 
 A história pessoal e o exame mental do paciente também consistem em 
procedimentos de rotina na clínica psicológica. Cunha (2003) aponta como 
desafio das consultas psicológicas para psicodiagnóstico o fato de a atuação 
do psicólogo, em vários casos, ser limitada pelas condições dos pacientes e 
pelos objetivos do exame. Alguns pacientes não são testáveis ou não con-
seguem se engajar, devido a diferentes questões, como comprometimento 
de funções mentais ou cognitivas, desconfiança na intervenção terapêutica, 
etc. Em ambientes como hospitais, por exemplo, essas dificuldades podem 
somar-se à urgência das circunstâncias, e o trabalho do psicólogo se asse-
melha muito ao trabalho do psiquiatra, de observação da sintomatologia 
clínica visando à condução de intervenção rápida para a urgência psiquiátrica. 
Importa lembrar que somente os psiquiatras, que têm formação 
em medicina, podem prescrever terapias medicamentosas. Quando 
julgar necessário, então, o psicólogo deve fazer o encaminhamento para um 
profissional médico especialista em psiquiatria. 
Em outras circunstâncias, quando o objetivo da consulta é chegar a uma 
avaliação compreensiva para uma intervenção terapêutica ou prover um 
atendimento dinâmico para a identificação de conflitos psicodinâmicos, o 
psicólogo pode focar a sessão (sessões) na história e em proceder ao exame 
Consulta psicológica na prática 7
do paciente. Em psicologia, a história clínica está relacionada aos sintomas: 
como os sintomas emergiram, caracterização de mudanças comportamentais 
em uma determinada época até a sua evolução, no momento atual, quando é 
solicitado o exame. Mesmo que o psicólogo esteja munido de todas as infor-
mações sobre a história clínica do paciente, é importante escutar a versão do 
próprio paciente, pois novos não ditos podem ser descritos. Nesse momento 
da entrevista, a sintomatologia (sinais e sintomas identificados durante 
o exame do paciente) e as condições de vida (aspectos biopsicossociais) 
do paciente são investigadas (CUNHA, 2003). Ainda, durante a investigação 
da história pessoal ou a anamnese do paciente, o psicólogo reconstitui a 
vida do entrevistado (CUNHA, 2003). O profissional se interessa tanto pela 
sintomatologia objetiva quanto pela vivência subjetiva do entrevistado em 
relação àquela experiência. Indagar o paciente sobre dados pessoais, a sua 
vida social e familiar e a cronologia dos fenômenos da queixa é uma prática 
adequada de uma anamnese em psicopatologia. 
Dalgalarrondo (2008) chama a atenção para o fato de que, nas entrevistas 
clínicas, é importante que o profissional de saúde observe e esteja atento 
ao conteúdo além da fala do paciente. Um dos pontos a serem observados é 
o aspecto global do paciente. O aspecto global do paciente é expresso pelo 
corpo e pela postura corporal, pela indumentária, pelos acessórios, pela 
maquiagem, pelos odores, pela higiene, pelas marcas corporais, pelo porte e 
pelas atitudes psicológicas específicas e globais do paciente. O aspecto global 
contribui sobremaneira para o entendimento do estado mental do paciente 
e, por isso, é um aspecto fundamental para o diagnóstico. Com base nisso, 
podemos recuperar dois exemplos que ilustram essa reflexão na prática.
1. Paciente com transtorno de personalidade antissocial: padrão per-
versivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que ocorre 
desde a adolescência (301.7 no DSM-V) (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSO-
CIATION, 2014), caracterizado por manipulação e dissimulação. Nesses 
casos, o paciente pode tentar controlar as verbalizações, dissimular 
as respostas e temas para manipular as perguntas e os sentimentos 
do profissional. Assim, é importante a observação atenta do com-
portamento desse paciente desde o momento da entrada na sala de 
exame (DAVOGLIO; ARGIMON, 2010; MORANA, STONE; ABDALLA-FILHO, 
2006). Observar atitudes globais como o discurso do paciente e a sua 
postura durante a consulta é crucial. 
2. Paciente com quadro psicótico como, por exemplo, esquizofrenia (295.90 
no DSM-V): perturbação mental com desorganização do pensamento, 
Consulta psicológica na prática8
paciente pode delirar, ouvir vozes. Nos quadros clínicos mais crônicos, 
é questão diagnóstica atenção ao cuidado global do paciente. Quando 
um paciente com esse quadro chega ao consultório para o atendimento 
psicológico, o psicólogo observa, além da agitação motora, outras 
questões no seu estado global, que podem ser roupas muito largas, 
unhas por cortar, arranhões no próprio rosto, etc. Nesses quadros 
psicológicos, o paciente pode apresentar, ainda, acessórios bizarros 
que expressam os delírios (medalhas, colares e tiaras que podem ter 
significado no delírio) ou desorganização comportamental (DALGA-
LARRONDO, 2008). 
Ao fazer a observação dessas características e integrá-las com os achados 
da entrevista, o psicólogo está realizando os primeiros passos do exame 
mental do paciente, pois os diagnósticos diferenciais são reforçados por 
esses aspectos observados pelo profissional.
Quanto à investigação sobre a história pessoal do paciente, Cunha (2003) 
oferece um roteiro aberto e dinâmico para explorar a história clínica e de vida 
do paciente, que começa pela investigação da história pré-natal e perinatal 
do paciente, como, por exemplo, saber sobre os pais, a qualidade do rela-
cionamento entre eles, se tinham vícios ou doenças genéticas, como foram 
as circunstâncias do parto, etc. Depois, indaga-se sobre a primeira infância 
até a infância intermediária (até os 11 anos), que podem ser exploradas com 
questionamentos sobre a relação entre mãe (ou cuidadores) e criança, sinto-
mas especiais (como chupar dedo, intestino preso ou solto, ataques de raiva 
e pesadelos noturnos), as primeiras experiências na escola e com coleguinhas 
da mesma idade, etc. Na adolescência, além das relações sociais, a sexualidade 
deve ser investigada. Na vida adulta, as perguntas podem se concentrar na 
ocupação laboral, principalmente no que concerne ao estado de satisfação 
com a vida de trabalho. Também devem ser investigados os relacionamentos 
conjugais e afetivos, os relacionamentos com os filhos e os papéis de ma-
ternidade ou paternidade. Cunha (2003) lembra que a anamnese precisa se 
adaptar à faixa etária do paciente, com as atualizações que sejam pertinentes.
Dalgalarrondo (2008) e Cunha (2003) lembram que nem sempre o paciente 
consegue ter todas essas informações ou mesmo apontar a queixa principal 
que o trouxe ao consultório. Por isso, o entrevistador pode contar com infor-
mações de terceiros, incluindo familiares, principalmente se os pacientes são 
crianças ou pessoas com sintomas psicóticos ou cognitivos graves. Porém, os 
autores lembram que o entrevistador deve ter em mente que esses relatos 
são permeados por subjetividade. 
Consulta psicológica na prática 9
Dentro das práticas das consultas psicológicas de psicodiagnóstico, o 
exame mental do paciente, mais específico e direto na investigação de fenô-
menos para diagnóstico, deve priorizar a observação das funções psíquicas 
do paciente. Entre as funções psíquicas, podem ser citadas as seguintes 
(DALGALARRONDO, 2008; CUNHA, 2003).
 � A consciência, que, pela definição psicológica, corresponde à dimensão 
subjetiva do sujeito que se volta para a relação do eu com o meio am-
biente. A consciência é a capacidade de o indivíduo entrar/ter contato, 
perceber e agir na realidade. Em uma definição neurológica, consciência 
é fundamentalmente o estado vígil e lúcido. A privação de sono e os 
estados de rebaixamento da consciência, como o delirium, são aspectos 
que indicam sinais e sintomas patológicos nessa função psíquica.
 � A atenção, processo psíquico que permite concentrar a atividade mental 
em determinado objeto. O psicólogo pode observar aspectos como a 
capacidade de concentração e a capacidade de atenção seletiva, o 
tempo durante o quala pessoa consegue manter o foco em um objeto 
ou pessoa, por exemplo.
 � A orientação, capacidade de situar-se quanto a si mesmo, quanto ao 
tempo e quanto ao ambiente. A orientação pode ser autopsíquica 
(orientar-se em relação a si mesmo) e alopsíquica (orientar-se em 
relação ao mundo).
 � A sensopercepção, “capacidade de captar as sensações, através dos 
receptores sensoriais, e transformá-las em imagens ou sensações 
no sistema nervoso central” (CUNHA, 2003, p. 68). As alterações mais 
comuns da sensopercepção são as ilusões e alucinações, alterações 
qualitativas. A ilusão se caracteriza pela percepção alterada de um 
objeto que é real e está presente e pode ser visual ou auditiva. Já a 
alucinação corresponde à percepção de um objeto que não está pre-
sente no ambiente nem causando um estímulo sensorial respectivo. 
 � A memória, a capacidade de registrar, manter e evocar experiências, 
sensações e fatos passados. Compreende o elo temporal da vida psí-
quica, pois consegue ligar passado, presente e futuro. Tem três dimen-
sões: a fixação (capacidade de fixar os dados), a evocação (capacidade 
de acessar os dados da memória) e o reconhecimento (capacidade de 
identificar um dado). Amnésias (incapacidade de reconhecer pessoas 
do convívio, lugares, nomes de objetos, etc.) devem ser investigadas 
com atenção pelo psicólogo. 
Consulta psicológica na prática10
 � O pensamento, uma função que pode ser avaliada conforme o seu 
curso, a sua forma e o seu conteúdo, diz respeito à capacidade de 
construir conceitos mentais e juízos e usá-los para pensar e solucionar 
os problemas cotidianos e internos. O pensamento, encarado como um 
pensamento normal, segue uma linha lógica e está integrado com a 
realidade. A percepção de falas pode ser no sentido de um pensamento 
mágico, desconectado da realidade, com associações que não têm 
qualquer sentido lógico, ou de um pensamento dereístico, que faz as 
suas associações de acordo com o que deseja ou considera aceitável 
e válido, mesmo não condizendo com a realidade. 
 � A afetividade, sensibilidade das vivências afetivas da pessoa em relação 
às situações, como frustrações e alegrias. É um termo genérico, que 
compreende algumas modalidades de vivências afetivas como humor, 
sentimentos, emoções, afetos e paixões. As alterações na afetividade 
têm variedade de fenômenos, como ansiedades, angústia, fobias (al-
terações nas vivências afetivas de sentimentos e emoções) e disforias, 
o humor negativo e fatalista patológico (alterações no humor). 
 � A linguagem, principalmente a verbal, é a faceta mais distinta e espe-
cificamente humana das atividades mentais. É o instrumento principal 
de trabalho de muitas psicoterapias. Afasias (perda da linguagem 
falada ou escrita), disartrias (incapacidade de articular corretamente 
as palavras) e parafrasias (deformações de determinadas palavras) 
geralmente indicam quadros cognitivos, como demências, ou lesões 
orgânicas ou neurológicas. Por isso, devem ser observadas para o 
diagnóstico. 
Avançando nas reflexões, podemos relacionar as funções mentais com 
o mesmo exemplo do paciente psicótico já mencionado neste capítulo, vi-
sando a ilustrar esses conhecimentos na prática clínica. No exame mental 
das funções psíquicas, perguntas simples (como questionar a data do dia, 
datas importantes, o local de residência do paciente, etc.) são extremamente 
eficazes para avaliar a orientação. Nas psicoses, a função da orientação pode 
estar prejudicada, com uma perda da capacidade de identificar a data e os 
locais. A função da sensorrecepção é outro ponto importante em casos como 
psicoses. As alucinações são comuns em pacientes com quadros psicóticos, 
principalmente de conteúdo persecutório ou depreciativo ou com vozes com 
tom de ordem (as vozes que dão comandos ao paciente de se ferir ou ferir 
aos outros). Perguntas como: 
Consulta psicológica na prática 11
Tem observado coisas que não consegue explicar? 
Tem ouvido vozes de pessoas estranhas ou desconhecidas? 
Ouve vozes sem saber de onde vêm? 
Sente algo estranho em seu corpo? 
Tem visto algo estranho, que lhe chamou a atenção? 
podem ser eficientes durante um exame clínico para avaliar o paciente, pois 
identificar alterações nas funções psíquicas é de grande valia para que o 
psicólogo possa avaliar a queixa do paciente, dar um diagnóstico e iniciar 
um tratamento (DALGALARRONDO, 2008). 
Dalgalarrondo (2008) chama a atenção para o fato de que as funções 
psíquicas não existem de maneira isolada, assim como há alterações 
compartimentalizadas de determinadas funções. A pessoa adoece como um 
todo, e as funções em desacordo com a normalidade investigadas no exame 
mental indicam a presciência de transtornos que atingem a personalidade como 
um todo, a sua estrutura e o seu modo de existir. O psicólogo deve, portanto, 
conduzir a entrevista clínica nesse sentido. 
Nesta seção, apresentamos a entrevista clínica, a observação e o exame 
mental como recursos para identificar informações importantes na história 
mental, na narrativa de vida e no estado global do paciente. Os transtornos de 
personalidade antissocial e a esquizofrenia foram utilizados como exemplos 
para a prática clínica. Também exploramos as funções psíquicas no âmbito 
do exame mental. Por fim, estudamos sobre o contato com paciente, a iden-
tificação da queixa, as entrevistas e o exame mental. 
Na prática, os próximos passos do profissional são informar o paciente 
(diagnóstico) e motivá-lo para o processo terapêutico. Acompanhe a seguir.
Informando e motivando o paciente 
na consulta psicológica
Após a condução das entrevistas clínicas na consulta psicológica, a análise 
dos dados é outro momento crucial da entrevista, sejam elas entrevistas 
clínicas em consultório ou serviço de saúde, entrevistas clínicas em pesqui-
sas ou entrevistas que integram a anamnese. A partir da análise de dados, 
os objetivos da entrevista poderão ser alcançados. Geralmente, depois de 
um processo que envolveu a identificação da queixa, a entrevista clínica 
Consulta psicológica na prática12
e o exame mental do paciente, chega o momento de informar o paciente 
em psicologia. Juntamente a isso, emerge a necessidade de o profissional 
motivar o paciente para aderir ao tratamento, quando pertinente. É o que 
estudaremos nesta seção.
Especificamente para consultas de psicodiagnóstico, as informações ao 
paciente são prestadas, retomando a divisão de Ocampo et al. (2009), no 
encerramento do processo, com a comunicação ao paciente sobre os resul-
tados durante a entrevista devolutiva. Durante as entrevistas devolutivas, o 
psicólogo informará o paciente a respeito do seu resultado diagnóstico, do 
encaminhamento ou de interpretações do conteúdo da psicoterapia. Informar 
o paciente é um dever do psicólogo. 
A realização da devolutiva para o paciente constitui um direito da pes-
soa atendida, assegurado pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo, 
principalmente pelo constante no Princípio Fundamental V, que prevê que 
“O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da 
população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos 
serviços e aos padrões éticos da profissão” (BRASIL, 2005, p. 7). Esse direito 
também está previsto nos arts. 1º e 13º do referido código, que preveem 
o seguinte:
Art. 1º — São deveres fundamentais dos psicólogos:
a) conhecer, divulgar, cumprir e fazer cumprir este Código;
b) assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais 
esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente;
c) prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e 
apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e 
técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na 
legislação profissional;
d) prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emer-
gência, sem visar benefício pessoal;
e) estabelecer acordos de prestação de serviços que respeitemos direitos do 
usuário ou beneficiário de serviços de Psicologia;
f) fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos, informações 
concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo profissional;
g) informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de ser-
viços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de 
decisões que afetem o usuário ou beneficiário;
h) orientar a quem de direito sobre os encaminhamentos apropriados, a partir 
da prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que solicitado, os do-
cumentos pertinentes ao bom termo do trabalho;
i) zelar para que a comercialização, aquisição, doação, empréstimo, guarda e 
forma de divulgação do material privativo do psicólogo sejam feitas conforme os 
princípios deste Código;
Consulta psicológica na prática 13
j) ter, para com o trabalho dos psicólogos e de outros profissionais, respeito, 
consideração e solidariedade, e, quando solicitado, colaborar com estes, salvo 
impedimento por motivo relevante; 
k) sugerir serviços de outros psicólogos, sempre que, por motivos justificáveis, não 
puderem ser continuados pelo profissional que os assumiu inicialmente, forne-
cendo ao seu substituto as informações necessárias à continuidade do trabalho; 
l) levar ao conhecimento das instâncias competentes o exercício ilegal ou irregular 
da profissão, transgressões a princípios e diretrizes deste Código ou da legislação 
profissional (BRASIL, 2005, p. 8-9).
Ainda, no Código de Ética Profissional do Psicólogo é previsto o seguinte 
dever sobre o atendimento à criança, “Art. 13 – No atendimento à criança, 
ao adolescente ou ao interdito, deve ser comunicado aos responsáveis o 
estritamente essencial para se promoverem medidas em seu benefício” 
(BRASIL, 2005, p. 13).
A ação de informar sobre o diagnóstico de um paciente avaliado pode 
variar de acordo com o contexto prático em que ela ocorre. Dentro de uma 
perspectiva da consulta psicológica diagnóstica, informar o paciente ou a 
instituição do resultado de uma avaliação pedida por uma instituição de 
saúde, por uma escola, por um juiz ou advogado ou por outros profissionais 
da psicologia tem as suas especificidades. O tipo de linguagem adequada a 
ser empregada na devolutiva varia para cada caso. Em entrevistas devolutivas 
entre psicólogos, o comunicado pode ser feito em termos técnicos, constando 
as referências e alguns detalhes relevantes dos aspectos dos instrumentos 
utilizados e das entrevistas com o cliente. Já em relação a outros profissionais, 
o psicólogo deve compartilhar somente as informações relevantes, resguar-
dando o caráter confidencial e sigiloso do processo. Algumas categorias 
profissionais, porém, têm características distintas, como as categorias jurí-
dicas. A devolutiva, nesses casos, resulta em um laudo ou parecer, que deve 
ser formulado com os devidos cuidados de redação, transmitindo somente 
o que for necessário para a tomada de decisão e para que os profissionais 
da área do direito possam compreendê-lo.
Para uma devolutiva solicitada por escola, o psicólogo deve referir-se 
exclusivamente às questões levantadas na demanda inicial. A linguagem da co-
municação deve ser acessível para quem vai receber o resultado, resguardado 
o sigilo e evitando temas que não têm relação com a demanda educacional. 
Nas situações de recrutamento e seleção, é importante que o psicólogo tenha 
clareza sobre o perfil do cargo para selecionar as técnicas que serão utilizadas 
e os procedimentos. No momento da devolutiva, o psicólogo deve informar 
claramente ao candidato sobre a consonância ou a falta de consonância das 
características pessoais e os anseios da empresa. Para avaliações psicológicas 
Consulta psicológica na prática14
para a obtenção da carteira nacional de habilitação, existe a obrigatoriedade 
do cumprimento da Resolução nº 007/2009 do Conselho Federal de Psicologia 
(BRASIL, 2009, documento on-line), que “[...] institui normas e procedimentos 
para a avaliação psicológica no contexto do trânsito”. 
Carrió (2012) sugere algumas técnicas para informar o paciente sobre o 
seu diagnóstico no caso de uma consulta clínica. O autor usa exemplos de 
consultas clínicas médicas, mas algumas técnicas podem atravessar o campo 
psicológico, como, por exemplo, a recomendação de não usar termos muito 
técnicos nem muito emocionais, manter comunicação direta, não monótona 
ou inaudível, etc. O profissional pode usar a técnica de exemplificação, que 
consiste em usar exemplos acessíveis e cotidianos para facilitar a compreensão 
do paciente. A enunciação do problema (simples, quando apenas um aspecto 
é diagnosticado, ou múltipla, quando mais de um aspecto é diagnosticado) 
pode ocorrer de forma autoritária ou parcimoniosa. Na forma de comunica-
ção parcimoniosa, que permite um período para acomodação psicológica, 
os casos mais adequados são aqueles em que o paciente tem expectativas 
bem distintas do diagnóstico e precisa de um tempo para assimilar todo o 
acontecido. A enunciação autoritária, por ter uma característica mais direta 
e breve, é adequada para casos mais graves e urgentes, nos quais o encami-
nhamento e diagnóstico são vitais. 
Carrió (2012) chama a atenção para o fato de que, no encerramento 
da entrevista, é importante que o profissional confirme, de maneira 
a evitar um tom de admoestação do paciente, se o resultado da consulta foi 
compreendido. Além disso, o profissional deve tomar a precaução de disponibi-
lizar o telefone de trabalho ou o telefone da instituição e comunicar ao paciente 
que, em caso de alguma alteração no quadro ou de dúvida, ele pode retornar. 
Um exemplo da necessidade de cuidado do profissional para anunciar 
um diagnóstico são os casos clínicos que envolvem crianças, como os casos 
clínicos de diagnóstico de autismo, por exemplo. Diagnósticos psicopatoló-
gicos para crianças envolvem, além da necessidade de preservar a própria 
criança, planejamentos para melhorar o prognóstico do jovem paciente, bem 
como acolhimento das expectativas dos pais e professores em relação ao 
diagnóstico. O fluxo da informação abrange, concomitantemente, todas essas 
variáveis. Em muitos desses casos, o profissional de psicologia precisa, na 
entrevista devolutiva, informar o diagnóstico para os pais sobre um transtorno 
delicado e que tem repercussões na vida global da criança, como acontece 
no transtorno do espectro autista.
Consulta psicológica na prática 15
 Nessa seara, seguindo o mesmo exemplo prático, é importante considerar, 
primeiramente, aspectos como os abordados por Carrió (2012) sobre a privaci-
dade e a postura do profissional. Nesse sentido, Steyer, Bosa e Romeira (2018) 
orientam que a devolução para crianças e familiares de temas sensíveis como 
o autismo inclui tópicos sobre a retomada dos motivos que levaram os pais 
à busca pela avaliação, ou seja, a retomada da queixa, e sobre as principais 
preocupações e impressões do psicólogo sobre o processo de avaliação, além 
da anunciação do resultado propriamente dito. É importante, também, que o 
profissional abra espaço para que os pais e a própria criança (quando pertinente) 
possam falar sobre as suas impressões acerca do processo. O profissional deve 
auxiliar a família a entender o diagnóstico e responder, na medida do possível, 
as dúvidas dos pais, apontando as potencialidades da criança e o prognóstico, 
motivando-os para os enfrentamentos necessários. Além disso, juntamente ao 
paciente e à família, deve pensar sobre o plano terapêutico. É possível, também, 
a partir das observações sobre a dinâmica familiar e a abertura dos pais, que 
o psicólogo encaminhe os responsáveis para um psicólogo, para lidar com os 
desafios e sentimentos durante o tratamento da criança.
É possível verificar, portanto, que informar o paciente é uma tarefa que 
impõe desafios e um repertório de técnicas para o psicólogo. No entanto, na 
psicologia clínica, sobretudo em psicoterapia, a informação que o psicólogo 
prestaao paciente também tem uma dimensão terapêutica. Em algumas 
linhas psicológicas, como as cognitivas-comportamentais, a técnica de psi-
coeducação “relaciona os instrumentos psicológicos e pedagógicos com 
objetivo de ensinar o paciente e os cuidadores sobre a patologia física e/
ou psíquica, bem como sobre seu tratamento” (LEMES; ONDERE NETO, 2017, 
p. 17). Na psicoeducação, ao informar o paciente de maneira ética e técnico-
-científica, despida de preconceitos e estereótipos, o psicólogo contribuirá 
para o processo terapêutico do paciente. 
O caráter educativo da psicoterapia, tanto para paciente quanto para 
os seus cuidadores, visa a ensinar, além da própria condição do paciente, 
sobre o tratamento psicoterápico. Isso porque é importante que possam 
tomar consciência sobre os fatos, facilitando o preparo para lidar com as 
mudanças que o diagnóstico e a psicoterapia trazem a partir de estratégias 
de enfrentamento, fortalecimento da comunicação e adaptação (LEMES; 
ONDERE NETO, 2017; BHATTACHARJEE et al., 2011). A respeito de informar o 
paciente sobre a própria terapia, Carrió (2012) recomenda a racionalidade da 
medida terapêutica, que consiste em explicar ao paciente como funciona o 
tratamento recomendado. O autor orienta, ainda, que o profissional de saúde 
seja receptivo à boa intenção do paciente em procurar a terapia e que evite 
Consulta psicológica na prática16
conceder um acompanhamento precário ou inadequado, tendo sempre o 
cuidado de transmitir a informação sobre o diagnóstico e o encaminhamento 
de maneira correta e ética.
Isso posto, adentremos o debate sobre motivação, intrínseco à prática 
clínica.
A prática da consulta psicológica nem sempre é linear. Um paciente em 
psicoterapia com diagnóstico, por exemplo, de algum tipo de transtorno 
mental (de maior ou menor gravidade) nem sempre estará bem, nem sempre 
vai comparecer à terapia. Esse também é um desafio da prática psicológica. 
Um exemplo para ilustrar essa questão é a clínica com dependentes químicos. 
Uma psicóloga que atende um paciente em período de abstinência precisa 
reavaliar o processo terapêutico caso esse paciente faça novo uso dos entor-
pecentes. Na recaída, geralmente a continuidade da frequência é rompida. O 
psicólogo então, por vezes, precisa assumir um papel de motivador, para que 
o tratamento psicoterapêutico possa seguir, transpondo as barreiras que a 
instabilidade de adesão apresenta. 
 A motivação deve estar presente em todo o processo terapêutico, pois é 
um processo constituinte da relação entre as partes envolvidas. Para Bzuneck 
(2004, p. 9), a motivação pode ser entendida “ora como um fator psicológico, 
ou conjunto de fatores, ora como um processo”. Não há, portanto, consenso 
entre os pesquisadores do tema (p. ex., THOMAS, 2002; EVANS 1976) sobre a 
noção de motivação. No entanto, “existe um consenso generalizado entre os 
autores quanto à dinâmica desses fatores psicológicos ou do processo, em 
qualquer atividade humana. Eles levam a uma escolha, instigam, fazem iniciar um 
comportamento direcionado a um objetivo” (BZUNECK, 2004, p. 9, grifo nosso). 
Todorv e Moreira (2005) debateram sobre o conceito de motivação em 
Psicologia. Para os autores, a questão da hierarquia nos motivos humanos 
pode ser explorada a partir das seguintes interações:
 � como certos comportamentos, em determinadas condições, invaria-
velmente ocorrem depois de certas alterações no meio ambiente; 
 � como certas alterações no ambiente, em determinadas condições, 
são seguidas por certos comportamentos, não por outros possíveis; 
 � como certos comportamentos ocorrem ciclicamente, mesmo na au-
sência de alterações no ambiente; 
 � como certos comportamentos, em determinadas condições, ocorrem 
mesmo na ausência de alterações no ambiente; 
 � como certas alterações no ambiente passam a fazer parte de interações 
organismo-ambiente e outras não.
Consulta psicológica na prática 17
Portanto, o ato de procurar ou comparecer a uma consulta psicoló-
gica pode ser associado à motivação para superar a queixa. Para Bordin 
(1979), constituiria a origem da aliança terapêutica e do vínculo positivo 
do paciente com o profissional e com a ideia de estar em psicoterapia 
e seguir as recomendações do psicólogo (continuidade). Friedrich et al. 
(1998) e Bordin (1979) contribuem para reflexões acerca da relação entre 
motivação e aliança terapêutica, apontando que, para o sucesso do tra-
tamento, o terapeuta deve, além de motivar, estar receptivo aos esforços 
que o paciente faz. Para isso, o programa terapêutico deve ser desenvol-
vido com atividades significativas para o paciente, direcionadas às suas 
necessidades e que compreendam as metas específicas do seu paciente, 
mantendo a individualidade do sujeito. 
Nesse contexto, Miller e Rollnick (2001) criaram a sigla FRAMES, do inglês, 
que apresenta seis elementos essenciais a serem trabalhados no aspecto 
motivacional para mudança de comportamento:
 � feedback (parecer, comentários), que consiste em avaliar o paciente e 
discutir o seu estado atual;
 � responsibility (responsabilidade), que contempla o suporte à liberdade 
de escolha do paciente em relação a mudar ou não; 
 � advice (aconselhamento), que se relaciona a orientar o paciente quanto 
a uma necessidade de mudança; 
 � menu (alternativas), que engloba identificar um leque de alternativas 
para a modificação do seu comportamento-problema, 
 � empathy (empatia), que consiste em praticar a escuta habilidosa;
 � self-efficacy (autoeficácia), que reforça a autoconfiança do paciente 
e contribui para que ele acredite na própria capacidade de alcançar 
as suas metas. 
Rollnick, Miller e Butler (2009) destacam o caráter maleável da motivação 
em psicologia, pois o ato de falar com o paciente (e o conteúdo dessa intera-
ção) pode alterar a sua motivação no sentido de mudar ou não determinado 
comportamento. A assertividade do profissional (ou seja, expressar-se com 
segurança no momento oportuno e moderar as reações emocionais do pa-
ciente sem cair na agressividade nem na passividade) pode ser interpretada 
como uma atitude que motiva o paciente a, por exemplo, aceitar um encami-
nhamento ou entrar em um tipo de terapia (CARRIÓ, 2012). 
Consulta psicológica na prática18
Pesquisas como as de Gastaud e Nunes (2009) sugerem uma dimensão 
prática terapêutica de motivação do paciente. Os autores demons-
traram que pacientes tendem a criar uma aliança terapêutica mais consistente 
e manter o tratamento por um período mais longo quando passam por uma 
avaliação prévia a um tratamento, pois conseguem compreender melhor o 
encaminhamento e o próprio sentido de realizá-lo.
Neste capítulo, abordamos a consulta psicológica na prática, desde a 
identificação da queixa, ou seja, aquilo que traz o paciente ao tratamento, 
passando pelos principais pontos do exame mental do paciente, até as muitas 
faces da informação e da motivação deste. O objetivo ampliado deste texto 
é que alguns desses pontos importantes fiquem mais claros, somando à sua 
trilha de aprendizagem. Após o contato com essas discussões sobre teoria 
e prática, esperamos que o complexo e imprevisível, mas ainda belo e desa-
fiador, trabalho de acolher e escutar as muitas subjetividades possíveis na 
psicologia clínica aguce o interesse dos profissionais em formação.
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