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TÉCNICA DE ENTREVISTA E ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever identificação do problema e contato com o paciente na consulta psicológica. > Identificar práticas para entrevista clínica e exame mental do paciente. > Elencar boas práticas para informar e motivar o paciente. Introdução Ao longo da vida, somos mobilizados de diferentes maneiras pelas nossas experi- ências, emoções (que trazem significado e textura para a nossa história) e, não raro, consequentes disfuncionalidades, que podem contingenciar as nossas respostas e reações a partir da nossa relação com o outro e com o entorno. Também pode- mos desenvolver transtornos diversos, como depressão, transtorno obsessivo- -compulsivo, transtorno de pânico e transtorno de estresse pós-traumático. Nesse contexto, por diferentes razões, especialmente para a manutenção da nossa vida funcional e do nosso bem-estar biopsicossocial, somos levados a buscar apoio profissional para lidar com diferentes situações. Se somos diferentes e percebemos isso de forma singular, a prática do profissional de saúde mental é, também, atravessada por um conjunto de desafios e situações que, localmente, caracterizam o saber-fazer na prática clínica. A consulta psicológica na prática, que considera as diferenças entre mé- todos e linhas de pensamento da psicologia, é estruturada a partir de um conjunto de ações (identificação do problema, boas práticas de comunicação com o paciente e motivação) orientadas para o estabelecimento da aliança Consulta psicológica na prática Anna Rita Maciel Simião entre o profissional de saúde mental e o paciente. Além disso, essas ações visam ao atingimento de resultados terapêuticos, em meio a diferentes es- pecificidades colocadas pelos conflitos, pelas características das partes envolvidas, pelas decisões técnicas e metodológicas pertinentes ao caso (como entrevista, exame mental e devolução), etc. Neste capítulo, vamos abordar a consulta psicológica na prática. O percurso inicia com o primeiro contato com o paciente, aborda as definições de problema, queixa e demanda, bem como os principais elementos presentes no exame mental do paciente, e termina analisando a relevância da informação e da motivação como estratégias terapêuticas na prática em psicologia. Identificação do problema e contato com o paciente Esta seção aborda a consulta psicológica na prática, lançando luzes ao primeiro contato com o paciente no consultório, quando inicia a interação profissional com o paciente e ocorre a identificação embrionária do problema por meio de testes psicodiagnósticos, entrevistas, etc. Entramos, assim, na prática clínica em saúde mental. O contato com o paciente na clínica psicológica demanda abertura, humil- dade e acolhimento. Ser psicoterapeuta é uma tarefa complexa e exigente, que tende a mobilizar o self dos envolvidos em profundidade. Participar do processo de autoconhecimento e autogerenciamento de alguém, do manejo e da análise das suas experiências, intenções e emoções, demanda profunda humildade por parte do profissional nos contatos iniciais e seguintes, visando a deslocamentos necessários em torno do que é compartilhado. O intuito é que se possa responder terapeuticamente ao conteúdo ou ao não conteúdo, então elementos constituintes desses contatos iniciais (FALEIROS, 2004). A clínica psicológica é herdeira do modelo médico, por isso o profissional observa e compreende os sinais e sintomas do paciente para, posterior- mente, intervir, conforme as suas formações teórica e ética e o ambiente onde está inserido (MOREIRA et al., 2007). A clínica psicológica, portanto, “[...] caracteriza-se não pelo local em que se realiza — o consultório —, mas pela qualidade da escuta e da acolhida que se oferece ao sujeito: a escuta e a acolhida do excluído do discurso” (MOREIRA et al., 2007, p. 617). Assim, a prática profissional será pautada por concepções teóricas e metodoló- gicas, além de por princípios éticos, que refletirão a postura acolhedora diante do sofrimento ou do fenômeno psicológico que se coloca diante do profissional (DUTRA, 2004). Consulta psicológica na prática2 As psicoterapias são formas de atuação do psicólogo clínico e orientam o profissional na identificação do problema. As terapias gestalt, cognitivas e com- portamentais, a psicanálise e as terapias analíticas junguianas são algumas das abordagens-lupas que podem orientar o fazer clínico, desde a identificação do problema até o planejamento do processo terapêutico. A pessoa que procura o psicólogo chega, para o primeiro contato com o profissional, geralmente acome- tida por ansiedades e angústias. O papel do psicólogo é lidar com toda essa carga de sentimentos. Deve, então, manter uma atitude de respeito e consideração, e olhar, em conjunto com o paciente, para a situação conflitiva de maneira livre de críticas, menosprezo e desvalia. Essa postura é essencial para construir a ligação de confiança e proximidade necessária para a condução do processo. Para que o ato clínico se inicie, o paciente deve apresentar uma questão, um problema, que o levará para o serviço psicológico. A noção de problema será tratada, no texto que segue, como demanda e queixa. A queixa é, teori- camente, o motivo que levou o paciente a procurar um serviço psicológico. A demanda pode ser entendida como o real pedido de ajuda, e essa demanda, apesar de motivada pela queixa, nem sempre se converte na mesma situação que trouxe o paciente à consulta psicológica (BRANCO, 2019). A identificação da queixa é, de acordo com Branco (2019), o primeiro momento de contato entre o paciente e o profissional. O ato clínico tem, como premissa, o contato contínuo com o paciente. A queixa é, geralmente, um fator de sofrimento para o paciente, ao mobilizar as suas funções psíqui- cas do dito funcionamento normal (fisiológica e comportamentalmente). O paciente chega ao consultório com uma história prévia sobre determinada queixa que deve ser avaliada e interpretada (se pertinente) pelo psicólogo, uma vez que o profissional deve perceber e delimitar o problema e os sinais e sintomas que o circundam (CUNHA, 2003) para entender qual abordagem/ metodologia usar para dar início ao estabelecimento da aliança terapêutica. No campo da prática clínica, de modo ampliado, Cunha (2003) aponta para a diferenciação dos termos sinais e sintomas. Os sinais são como achados objetivos e observáveis, enquanto os sintomas são experiências do sujeito, são por ele sentidos. Entretanto, essa diferenciação se torna difusa no âmbito da saúde mental. Em psicopatologia, esses sinais e sintomas vão aparecer, em um primeiro momento, como alterações nas funções, como exacerbação ou diminuição de um padrão de comportamento usual. Essas alterações podem surgir quando são compartilhados fatos marcantes da vida, os quais podem caracterizar uma disfun- cionalidade/patologia de acordo com a intensidade dos sintomas. Para delimitar a queixa, o psicólogo poderá observar esses sinais e sintomas em desarranjo. Testes psicológicos e manuais de diagnóstico, como o DSM-V, são instrumentos Consulta psicológica na prática 3 científicos para auxiliar o psicólogo nessa tarefa (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSO- CIATION, 2014). Por isso, o psicólogo que realiza um psicodiagnóstico precisa ter familiaridade com os instrumentos de classificação nosológica de psicopatologias e conduzir observação e exame mental adequados ao paciente. Nosologia é a ciência que estuda a classificação das doenças. Leia mais sobre o tema no âmbito do debate científico em saúde mental digitando os termos “critério”, “sintoma” “nosologia psiquiátrica” em um motor de buscas de sua escolha. Explore, a partir dos seus achados, o artigo intitu- lado “Sobre a distinção entre ‘critério’ e ‘sintoma’ na nosologia psiquiátrica”, do pesquisador Cláudio Eduardo Muller Banzato, publicado nos anos 2000. O texto ilumina aspectos nosológicos da psiquiatria utilizando os termossintoma e critério como porta de entrada para distinções entre questões empíricas e conceituais (BANZATO, 2000). No contato com o paciente, é importante que o psicólogo observe, perceba, escute atentamente e aproxime-se, mas sem ser coercitivo. É importante, ainda, que o profissional psicólogo tenha sensibilidade para interagir com o silêncio (que pode ser necessário para complementar a análise do que é verbalizado), criando vínculos para que o paciente revele a sua intimidade e denuncie os aspectos incoerentes e confusos dos seus conflitos. A discrimina- ção entre os motivos conscientes e inconscientes que trouxeram o paciente à consulta psicológica colabora para que o psicólogo identifique quem é o seu verdadeiro paciente: se pessoa que é trazida ou o grupo familiar, ou ambos. Essa identificação tem repercussões na interação clínica entre o psicólogo e o paciente, pois ambos assumem papéis e funções e passam a interagir em dois planos: de atitudes e de motivações. No plano das atitudes, o psicólogo assume uma função de examinador, enquanto o paciente assume função de quem precisa de auxílio. Já no plano das motivações, os aspectos conscientes e inconscientes do psicólogo e do paciente caracterizam os papéis, assim como influenciam os fenômenos da transferência (do paciente para o psicólogo) e da contratransferência (do psicólogo para o paciente) (CUNHA, 2003). O contato com o psicólogo é importante para mostrar ao paciente que as dificuldades parecem se manter enquanto não forem, primeiramente, compartilhadas para, depois, serem bem acolhidas (CUNHA, 2003). Nesse contexto, o acolhimento representa uma forma de receber e se relacionar com pessoas que buscam o serviço em saúde mental. Funciona como um atendimento ágil, que se aproxima das necessidades dos pacientes e envolve três processos distintos (GOMES, 2009; NEUMAN; ZORDAN, 2011): Consulta psicológica na prática4 1. a subjetivação, que visa a permitir ao usuário se apropriar, significar e reconstruir a sua história de vida; 2. a responsabilização, que se baseia no compartilhamento, entre pro- fissional e paciente, do poder de resolução do problema; 3. a organização do serviço, que diz respeito ao planejamento institucional para os casos em que o acolhimento se dá nas instituições de saúde. Acolher a queixa do paciente e, assim, estabelecer o contato com ele é uma das tarefas mais complexas da clínica psicológica, pois representa a dimensão fundante de todo o processo analítico e dos desdobramentos esperados pelas partes. Na prática, alguns casos de acolhimento de queixa e contato com o paciente são mais desafiadores. Veja, no exemplo que segue, uma situação clínica que pode ilustrar primeiro contato desafiador ao profissional, quando o paciente chega agitado e agressivo ao consultório. Caso: primeiro contato com paciente agitado/agressivo. A agitação psicomotora, estado no qual as atividades mental e motora estão excitadas de maneira exacerbada, é uma ocorrência comum, fazendo parte do quadro de vários transtornos, como episódios maníacos e esquizofrenia (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). Aspectos iniciais No primeiro contato assim configurado, o profissional deve tentar avaliar se os seus sentimentos naturais de medo ou raiva perante a situação refletem a realidade do ocorrido, evitando agir de maneira permissiva ou demasiadamente punitiva. Antes de qualquer intervenção, o profissional deve se apresentar de maneira pausada e segura ao paciente, mas tomando cuidado com falas que podem soar hostis ou ameaçadoras. Cuidados para o manejo O profissional deve estar atento e ser cauteloso para formular alguma hipó- tese sobre a razão da agitação. É esperado que o profissional, frente ao contato com paciente que pode colocar a integridade física de terceiros em risco, aja prontamente para contornar a situação com a maior brevidade possível, pois, frequentemente, pacientes agressivos constituem uma situação de urgência, que exige habilidade e celeridade no manejo. Ao mesmo tempo, o psicólogo não deve renunciar a um tempo mínimo para observar e obter informações essenciais para qualquer tomada de decisão. Condução da entrevista: Durante a entrevista com o paciente agitado, o psicólogo deve manter o contato visual, atentando para a sua fala, os não ditos e os seus movimentos corporais. Os movimentos e o tom de voz devem ser suaves, evitando atitudes corporais como elevar a voz ou cruzar os braços (pois isso evoca confrontação), mantendo-se certa distância física do paciente. De fato, dependendo da sinto- matologia, como, por exemplo, uma agitação derivada de quadros psicóticos, o Consulta psicológica na prática 5 contato físico pode ser encarado como uma ameaça. Deve-se, também, evitar fazer anotações, mantendo atenção ao que o paciente tem a dizer ou reivindicar, ainda que não seja recomendável barganhar com ele (MONTOVANI et al., 2010). Análise: Lidar com situações extremas, como paciente agitado ou agressivo, ilustra bem a necessidade da repetição e da assimilação da importância da postura do psicólogo no primeiro contato com o paciente, que é a porta de entrada para a criação do vínculo na aliança terapêutica. Para estabelecer esse vínculo, o psicólogo precisa estar atento ao comportamento verbal e não verbal do paciente e aos motivos conscientes e inconscientes (que ele talvez nem o próprio paciente tenha acessado, como supracitado). Nesta seção, falamos sobre o contato com o paciente e a identificação do problema, como elementos da consulta psicológica na prática. A relevância desse debate para o ciclo da prática clínica, considerando o alcance dessas interações, pode ser sintetizada com Branco (2019), que destaca que, após o primeiro contato (escuta da queixa), durante a psicoterapia, a queixa poderá se converter em demanda-bússola para o planejamento terapêutico. Essa conversão não é fácil de ser percebida em terapia e necessita de um esforço conjunto por parte do terapeuta e do paciente. Cabe ao profissional, no contato com o paciente, escutar a queixa além da sua literalidade, ficando atento aos sinais e sintomas, bem como àquilo que não é dito de maneira clara, direta e verbal. Na conversão da queixa em demanda, o sujeito vai deixando de perceber o objeto da sua reclamação como algo externo e in- dependente, passando a vivenciá-lo e comunicá-lo como algo que faz parte da sua experiência, resultando em maior compreensão sobre os elementos pessoais que estão relacionados ao sofrimento. Em continuidade ao debate sobre a clínica psicológica, vamos explorar, na seção seguinte, dois outros elementos que integram e desafiam a prática clínica: a entrevista clínica e o exame mental do paciente. Entrevista clínica e exame mental na prática A entrevista clínica e o exame mental do paciente, complementarmente ao primeiro contato com o paciente (identificação da queixa), integram a prática da clínica psicológica. Nesta seção, partiremos da apresentação macro dos conceitos gerais (entrevista e exame mental) para, juntamente a isso, explorar alguns exemplos, objetivos e desafios inerentes à prática profissional do psicólogo, considerando as pluralidades e variabilidades que emergem do estabelecimento da relação entres as partes, do acometimento ora compartilhado, fundante do percurso terapêutico. Consulta psicológica na prática6 A consulta psicológica (tanto psicoterapia quanto psicodiagnóstico) pode envolver diversos tipos de entrevistas clínicas, bem como a aplicação de instrumentos de medição, os testes psicológicos. Segundo Grossen e Orvig (1998), os objetivos da entrevista clínica podem ser assim sintetizados: � investigar e pensar um diagnóstico; � encaminhar para a terapia; � elucidar informações sobre o paciente com apoio dos testes psicológicos. Nas terapias iniciais, as entrevistas clínicas têm finalidades adicionais, como: � o entendimento dos motivos que trouxeram o paciente ao consultório; � acompreensão sobre a personalidade do paciente; � a definição do problema; � o estabelecimento da aliança terapêutica. A história pessoal e o exame mental do paciente também consistem em procedimentos de rotina na clínica psicológica. Cunha (2003) aponta como desafio das consultas psicológicas para psicodiagnóstico o fato de a atuação do psicólogo, em vários casos, ser limitada pelas condições dos pacientes e pelos objetivos do exame. Alguns pacientes não são testáveis ou não con- seguem se engajar, devido a diferentes questões, como comprometimento de funções mentais ou cognitivas, desconfiança na intervenção terapêutica, etc. Em ambientes como hospitais, por exemplo, essas dificuldades podem somar-se à urgência das circunstâncias, e o trabalho do psicólogo se asse- melha muito ao trabalho do psiquiatra, de observação da sintomatologia clínica visando à condução de intervenção rápida para a urgência psiquiátrica. Importa lembrar que somente os psiquiatras, que têm formação em medicina, podem prescrever terapias medicamentosas. Quando julgar necessário, então, o psicólogo deve fazer o encaminhamento para um profissional médico especialista em psiquiatria. Em outras circunstâncias, quando o objetivo da consulta é chegar a uma avaliação compreensiva para uma intervenção terapêutica ou prover um atendimento dinâmico para a identificação de conflitos psicodinâmicos, o psicólogo pode focar a sessão (sessões) na história e em proceder ao exame Consulta psicológica na prática 7 do paciente. Em psicologia, a história clínica está relacionada aos sintomas: como os sintomas emergiram, caracterização de mudanças comportamentais em uma determinada época até a sua evolução, no momento atual, quando é solicitado o exame. Mesmo que o psicólogo esteja munido de todas as infor- mações sobre a história clínica do paciente, é importante escutar a versão do próprio paciente, pois novos não ditos podem ser descritos. Nesse momento da entrevista, a sintomatologia (sinais e sintomas identificados durante o exame do paciente) e as condições de vida (aspectos biopsicossociais) do paciente são investigadas (CUNHA, 2003). Ainda, durante a investigação da história pessoal ou a anamnese do paciente, o psicólogo reconstitui a vida do entrevistado (CUNHA, 2003). O profissional se interessa tanto pela sintomatologia objetiva quanto pela vivência subjetiva do entrevistado em relação àquela experiência. Indagar o paciente sobre dados pessoais, a sua vida social e familiar e a cronologia dos fenômenos da queixa é uma prática adequada de uma anamnese em psicopatologia. Dalgalarrondo (2008) chama a atenção para o fato de que, nas entrevistas clínicas, é importante que o profissional de saúde observe e esteja atento ao conteúdo além da fala do paciente. Um dos pontos a serem observados é o aspecto global do paciente. O aspecto global do paciente é expresso pelo corpo e pela postura corporal, pela indumentária, pelos acessórios, pela maquiagem, pelos odores, pela higiene, pelas marcas corporais, pelo porte e pelas atitudes psicológicas específicas e globais do paciente. O aspecto global contribui sobremaneira para o entendimento do estado mental do paciente e, por isso, é um aspecto fundamental para o diagnóstico. Com base nisso, podemos recuperar dois exemplos que ilustram essa reflexão na prática. 1. Paciente com transtorno de personalidade antissocial: padrão per- versivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que ocorre desde a adolescência (301.7 no DSM-V) (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSO- CIATION, 2014), caracterizado por manipulação e dissimulação. Nesses casos, o paciente pode tentar controlar as verbalizações, dissimular as respostas e temas para manipular as perguntas e os sentimentos do profissional. Assim, é importante a observação atenta do com- portamento desse paciente desde o momento da entrada na sala de exame (DAVOGLIO; ARGIMON, 2010; MORANA, STONE; ABDALLA-FILHO, 2006). Observar atitudes globais como o discurso do paciente e a sua postura durante a consulta é crucial. 2. Paciente com quadro psicótico como, por exemplo, esquizofrenia (295.90 no DSM-V): perturbação mental com desorganização do pensamento, Consulta psicológica na prática8 paciente pode delirar, ouvir vozes. Nos quadros clínicos mais crônicos, é questão diagnóstica atenção ao cuidado global do paciente. Quando um paciente com esse quadro chega ao consultório para o atendimento psicológico, o psicólogo observa, além da agitação motora, outras questões no seu estado global, que podem ser roupas muito largas, unhas por cortar, arranhões no próprio rosto, etc. Nesses quadros psicológicos, o paciente pode apresentar, ainda, acessórios bizarros que expressam os delírios (medalhas, colares e tiaras que podem ter significado no delírio) ou desorganização comportamental (DALGA- LARRONDO, 2008). Ao fazer a observação dessas características e integrá-las com os achados da entrevista, o psicólogo está realizando os primeiros passos do exame mental do paciente, pois os diagnósticos diferenciais são reforçados por esses aspectos observados pelo profissional. Quanto à investigação sobre a história pessoal do paciente, Cunha (2003) oferece um roteiro aberto e dinâmico para explorar a história clínica e de vida do paciente, que começa pela investigação da história pré-natal e perinatal do paciente, como, por exemplo, saber sobre os pais, a qualidade do rela- cionamento entre eles, se tinham vícios ou doenças genéticas, como foram as circunstâncias do parto, etc. Depois, indaga-se sobre a primeira infância até a infância intermediária (até os 11 anos), que podem ser exploradas com questionamentos sobre a relação entre mãe (ou cuidadores) e criança, sinto- mas especiais (como chupar dedo, intestino preso ou solto, ataques de raiva e pesadelos noturnos), as primeiras experiências na escola e com coleguinhas da mesma idade, etc. Na adolescência, além das relações sociais, a sexualidade deve ser investigada. Na vida adulta, as perguntas podem se concentrar na ocupação laboral, principalmente no que concerne ao estado de satisfação com a vida de trabalho. Também devem ser investigados os relacionamentos conjugais e afetivos, os relacionamentos com os filhos e os papéis de ma- ternidade ou paternidade. Cunha (2003) lembra que a anamnese precisa se adaptar à faixa etária do paciente, com as atualizações que sejam pertinentes. Dalgalarrondo (2008) e Cunha (2003) lembram que nem sempre o paciente consegue ter todas essas informações ou mesmo apontar a queixa principal que o trouxe ao consultório. Por isso, o entrevistador pode contar com infor- mações de terceiros, incluindo familiares, principalmente se os pacientes são crianças ou pessoas com sintomas psicóticos ou cognitivos graves. Porém, os autores lembram que o entrevistador deve ter em mente que esses relatos são permeados por subjetividade. Consulta psicológica na prática 9 Dentro das práticas das consultas psicológicas de psicodiagnóstico, o exame mental do paciente, mais específico e direto na investigação de fenô- menos para diagnóstico, deve priorizar a observação das funções psíquicas do paciente. Entre as funções psíquicas, podem ser citadas as seguintes (DALGALARRONDO, 2008; CUNHA, 2003). � A consciência, que, pela definição psicológica, corresponde à dimensão subjetiva do sujeito que se volta para a relação do eu com o meio am- biente. A consciência é a capacidade de o indivíduo entrar/ter contato, perceber e agir na realidade. Em uma definição neurológica, consciência é fundamentalmente o estado vígil e lúcido. A privação de sono e os estados de rebaixamento da consciência, como o delirium, são aspectos que indicam sinais e sintomas patológicos nessa função psíquica. � A atenção, processo psíquico que permite concentrar a atividade mental em determinado objeto. O psicólogo pode observar aspectos como a capacidade de concentração e a capacidade de atenção seletiva, o tempo durante o quala pessoa consegue manter o foco em um objeto ou pessoa, por exemplo. � A orientação, capacidade de situar-se quanto a si mesmo, quanto ao tempo e quanto ao ambiente. A orientação pode ser autopsíquica (orientar-se em relação a si mesmo) e alopsíquica (orientar-se em relação ao mundo). � A sensopercepção, “capacidade de captar as sensações, através dos receptores sensoriais, e transformá-las em imagens ou sensações no sistema nervoso central” (CUNHA, 2003, p. 68). As alterações mais comuns da sensopercepção são as ilusões e alucinações, alterações qualitativas. A ilusão se caracteriza pela percepção alterada de um objeto que é real e está presente e pode ser visual ou auditiva. Já a alucinação corresponde à percepção de um objeto que não está pre- sente no ambiente nem causando um estímulo sensorial respectivo. � A memória, a capacidade de registrar, manter e evocar experiências, sensações e fatos passados. Compreende o elo temporal da vida psí- quica, pois consegue ligar passado, presente e futuro. Tem três dimen- sões: a fixação (capacidade de fixar os dados), a evocação (capacidade de acessar os dados da memória) e o reconhecimento (capacidade de identificar um dado). Amnésias (incapacidade de reconhecer pessoas do convívio, lugares, nomes de objetos, etc.) devem ser investigadas com atenção pelo psicólogo. Consulta psicológica na prática10 � O pensamento, uma função que pode ser avaliada conforme o seu curso, a sua forma e o seu conteúdo, diz respeito à capacidade de construir conceitos mentais e juízos e usá-los para pensar e solucionar os problemas cotidianos e internos. O pensamento, encarado como um pensamento normal, segue uma linha lógica e está integrado com a realidade. A percepção de falas pode ser no sentido de um pensamento mágico, desconectado da realidade, com associações que não têm qualquer sentido lógico, ou de um pensamento dereístico, que faz as suas associações de acordo com o que deseja ou considera aceitável e válido, mesmo não condizendo com a realidade. � A afetividade, sensibilidade das vivências afetivas da pessoa em relação às situações, como frustrações e alegrias. É um termo genérico, que compreende algumas modalidades de vivências afetivas como humor, sentimentos, emoções, afetos e paixões. As alterações na afetividade têm variedade de fenômenos, como ansiedades, angústia, fobias (al- terações nas vivências afetivas de sentimentos e emoções) e disforias, o humor negativo e fatalista patológico (alterações no humor). � A linguagem, principalmente a verbal, é a faceta mais distinta e espe- cificamente humana das atividades mentais. É o instrumento principal de trabalho de muitas psicoterapias. Afasias (perda da linguagem falada ou escrita), disartrias (incapacidade de articular corretamente as palavras) e parafrasias (deformações de determinadas palavras) geralmente indicam quadros cognitivos, como demências, ou lesões orgânicas ou neurológicas. Por isso, devem ser observadas para o diagnóstico. Avançando nas reflexões, podemos relacionar as funções mentais com o mesmo exemplo do paciente psicótico já mencionado neste capítulo, vi- sando a ilustrar esses conhecimentos na prática clínica. No exame mental das funções psíquicas, perguntas simples (como questionar a data do dia, datas importantes, o local de residência do paciente, etc.) são extremamente eficazes para avaliar a orientação. Nas psicoses, a função da orientação pode estar prejudicada, com uma perda da capacidade de identificar a data e os locais. A função da sensorrecepção é outro ponto importante em casos como psicoses. As alucinações são comuns em pacientes com quadros psicóticos, principalmente de conteúdo persecutório ou depreciativo ou com vozes com tom de ordem (as vozes que dão comandos ao paciente de se ferir ou ferir aos outros). Perguntas como: Consulta psicológica na prática 11 Tem observado coisas que não consegue explicar? Tem ouvido vozes de pessoas estranhas ou desconhecidas? Ouve vozes sem saber de onde vêm? Sente algo estranho em seu corpo? Tem visto algo estranho, que lhe chamou a atenção? podem ser eficientes durante um exame clínico para avaliar o paciente, pois identificar alterações nas funções psíquicas é de grande valia para que o psicólogo possa avaliar a queixa do paciente, dar um diagnóstico e iniciar um tratamento (DALGALARRONDO, 2008). Dalgalarrondo (2008) chama a atenção para o fato de que as funções psíquicas não existem de maneira isolada, assim como há alterações compartimentalizadas de determinadas funções. A pessoa adoece como um todo, e as funções em desacordo com a normalidade investigadas no exame mental indicam a presciência de transtornos que atingem a personalidade como um todo, a sua estrutura e o seu modo de existir. O psicólogo deve, portanto, conduzir a entrevista clínica nesse sentido. Nesta seção, apresentamos a entrevista clínica, a observação e o exame mental como recursos para identificar informações importantes na história mental, na narrativa de vida e no estado global do paciente. Os transtornos de personalidade antissocial e a esquizofrenia foram utilizados como exemplos para a prática clínica. Também exploramos as funções psíquicas no âmbito do exame mental. Por fim, estudamos sobre o contato com paciente, a iden- tificação da queixa, as entrevistas e o exame mental. Na prática, os próximos passos do profissional são informar o paciente (diagnóstico) e motivá-lo para o processo terapêutico. Acompanhe a seguir. Informando e motivando o paciente na consulta psicológica Após a condução das entrevistas clínicas na consulta psicológica, a análise dos dados é outro momento crucial da entrevista, sejam elas entrevistas clínicas em consultório ou serviço de saúde, entrevistas clínicas em pesqui- sas ou entrevistas que integram a anamnese. A partir da análise de dados, os objetivos da entrevista poderão ser alcançados. Geralmente, depois de um processo que envolveu a identificação da queixa, a entrevista clínica Consulta psicológica na prática12 e o exame mental do paciente, chega o momento de informar o paciente em psicologia. Juntamente a isso, emerge a necessidade de o profissional motivar o paciente para aderir ao tratamento, quando pertinente. É o que estudaremos nesta seção. Especificamente para consultas de psicodiagnóstico, as informações ao paciente são prestadas, retomando a divisão de Ocampo et al. (2009), no encerramento do processo, com a comunicação ao paciente sobre os resul- tados durante a entrevista devolutiva. Durante as entrevistas devolutivas, o psicólogo informará o paciente a respeito do seu resultado diagnóstico, do encaminhamento ou de interpretações do conteúdo da psicoterapia. Informar o paciente é um dever do psicólogo. A realização da devolutiva para o paciente constitui um direito da pes- soa atendida, assegurado pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo, principalmente pelo constante no Princípio Fundamental V, que prevê que “O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões éticos da profissão” (BRASIL, 2005, p. 7). Esse direito também está previsto nos arts. 1º e 13º do referido código, que preveem o seguinte: Art. 1º — São deveres fundamentais dos psicólogos: a) conhecer, divulgar, cumprir e fazer cumprir este Código; b) assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente; c) prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional; d) prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emer- gência, sem visar benefício pessoal; e) estabelecer acordos de prestação de serviços que respeitemos direitos do usuário ou beneficiário de serviços de Psicologia; f) fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos, informações concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo profissional; g) informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de ser- viços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de decisões que afetem o usuário ou beneficiário; h) orientar a quem de direito sobre os encaminhamentos apropriados, a partir da prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que solicitado, os do- cumentos pertinentes ao bom termo do trabalho; i) zelar para que a comercialização, aquisição, doação, empréstimo, guarda e forma de divulgação do material privativo do psicólogo sejam feitas conforme os princípios deste Código; Consulta psicológica na prática 13 j) ter, para com o trabalho dos psicólogos e de outros profissionais, respeito, consideração e solidariedade, e, quando solicitado, colaborar com estes, salvo impedimento por motivo relevante; k) sugerir serviços de outros psicólogos, sempre que, por motivos justificáveis, não puderem ser continuados pelo profissional que os assumiu inicialmente, forne- cendo ao seu substituto as informações necessárias à continuidade do trabalho; l) levar ao conhecimento das instâncias competentes o exercício ilegal ou irregular da profissão, transgressões a princípios e diretrizes deste Código ou da legislação profissional (BRASIL, 2005, p. 8-9). Ainda, no Código de Ética Profissional do Psicólogo é previsto o seguinte dever sobre o atendimento à criança, “Art. 13 – No atendimento à criança, ao adolescente ou ao interdito, deve ser comunicado aos responsáveis o estritamente essencial para se promoverem medidas em seu benefício” (BRASIL, 2005, p. 13). A ação de informar sobre o diagnóstico de um paciente avaliado pode variar de acordo com o contexto prático em que ela ocorre. Dentro de uma perspectiva da consulta psicológica diagnóstica, informar o paciente ou a instituição do resultado de uma avaliação pedida por uma instituição de saúde, por uma escola, por um juiz ou advogado ou por outros profissionais da psicologia tem as suas especificidades. O tipo de linguagem adequada a ser empregada na devolutiva varia para cada caso. Em entrevistas devolutivas entre psicólogos, o comunicado pode ser feito em termos técnicos, constando as referências e alguns detalhes relevantes dos aspectos dos instrumentos utilizados e das entrevistas com o cliente. Já em relação a outros profissionais, o psicólogo deve compartilhar somente as informações relevantes, resguar- dando o caráter confidencial e sigiloso do processo. Algumas categorias profissionais, porém, têm características distintas, como as categorias jurí- dicas. A devolutiva, nesses casos, resulta em um laudo ou parecer, que deve ser formulado com os devidos cuidados de redação, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de decisão e para que os profissionais da área do direito possam compreendê-lo. Para uma devolutiva solicitada por escola, o psicólogo deve referir-se exclusivamente às questões levantadas na demanda inicial. A linguagem da co- municação deve ser acessível para quem vai receber o resultado, resguardado o sigilo e evitando temas que não têm relação com a demanda educacional. Nas situações de recrutamento e seleção, é importante que o psicólogo tenha clareza sobre o perfil do cargo para selecionar as técnicas que serão utilizadas e os procedimentos. No momento da devolutiva, o psicólogo deve informar claramente ao candidato sobre a consonância ou a falta de consonância das características pessoais e os anseios da empresa. Para avaliações psicológicas Consulta psicológica na prática14 para a obtenção da carteira nacional de habilitação, existe a obrigatoriedade do cumprimento da Resolução nº 007/2009 do Conselho Federal de Psicologia (BRASIL, 2009, documento on-line), que “[...] institui normas e procedimentos para a avaliação psicológica no contexto do trânsito”. Carrió (2012) sugere algumas técnicas para informar o paciente sobre o seu diagnóstico no caso de uma consulta clínica. O autor usa exemplos de consultas clínicas médicas, mas algumas técnicas podem atravessar o campo psicológico, como, por exemplo, a recomendação de não usar termos muito técnicos nem muito emocionais, manter comunicação direta, não monótona ou inaudível, etc. O profissional pode usar a técnica de exemplificação, que consiste em usar exemplos acessíveis e cotidianos para facilitar a compreensão do paciente. A enunciação do problema (simples, quando apenas um aspecto é diagnosticado, ou múltipla, quando mais de um aspecto é diagnosticado) pode ocorrer de forma autoritária ou parcimoniosa. Na forma de comunica- ção parcimoniosa, que permite um período para acomodação psicológica, os casos mais adequados são aqueles em que o paciente tem expectativas bem distintas do diagnóstico e precisa de um tempo para assimilar todo o acontecido. A enunciação autoritária, por ter uma característica mais direta e breve, é adequada para casos mais graves e urgentes, nos quais o encami- nhamento e diagnóstico são vitais. Carrió (2012) chama a atenção para o fato de que, no encerramento da entrevista, é importante que o profissional confirme, de maneira a evitar um tom de admoestação do paciente, se o resultado da consulta foi compreendido. Além disso, o profissional deve tomar a precaução de disponibi- lizar o telefone de trabalho ou o telefone da instituição e comunicar ao paciente que, em caso de alguma alteração no quadro ou de dúvida, ele pode retornar. Um exemplo da necessidade de cuidado do profissional para anunciar um diagnóstico são os casos clínicos que envolvem crianças, como os casos clínicos de diagnóstico de autismo, por exemplo. Diagnósticos psicopatoló- gicos para crianças envolvem, além da necessidade de preservar a própria criança, planejamentos para melhorar o prognóstico do jovem paciente, bem como acolhimento das expectativas dos pais e professores em relação ao diagnóstico. O fluxo da informação abrange, concomitantemente, todas essas variáveis. Em muitos desses casos, o profissional de psicologia precisa, na entrevista devolutiva, informar o diagnóstico para os pais sobre um transtorno delicado e que tem repercussões na vida global da criança, como acontece no transtorno do espectro autista. Consulta psicológica na prática 15 Nessa seara, seguindo o mesmo exemplo prático, é importante considerar, primeiramente, aspectos como os abordados por Carrió (2012) sobre a privaci- dade e a postura do profissional. Nesse sentido, Steyer, Bosa e Romeira (2018) orientam que a devolução para crianças e familiares de temas sensíveis como o autismo inclui tópicos sobre a retomada dos motivos que levaram os pais à busca pela avaliação, ou seja, a retomada da queixa, e sobre as principais preocupações e impressões do psicólogo sobre o processo de avaliação, além da anunciação do resultado propriamente dito. É importante, também, que o profissional abra espaço para que os pais e a própria criança (quando pertinente) possam falar sobre as suas impressões acerca do processo. O profissional deve auxiliar a família a entender o diagnóstico e responder, na medida do possível, as dúvidas dos pais, apontando as potencialidades da criança e o prognóstico, motivando-os para os enfrentamentos necessários. Além disso, juntamente ao paciente e à família, deve pensar sobre o plano terapêutico. É possível, também, a partir das observações sobre a dinâmica familiar e a abertura dos pais, que o psicólogo encaminhe os responsáveis para um psicólogo, para lidar com os desafios e sentimentos durante o tratamento da criança. É possível verificar, portanto, que informar o paciente é uma tarefa que impõe desafios e um repertório de técnicas para o psicólogo. No entanto, na psicologia clínica, sobretudo em psicoterapia, a informação que o psicólogo prestaao paciente também tem uma dimensão terapêutica. Em algumas linhas psicológicas, como as cognitivas-comportamentais, a técnica de psi- coeducação “relaciona os instrumentos psicológicos e pedagógicos com objetivo de ensinar o paciente e os cuidadores sobre a patologia física e/ ou psíquica, bem como sobre seu tratamento” (LEMES; ONDERE NETO, 2017, p. 17). Na psicoeducação, ao informar o paciente de maneira ética e técnico- -científica, despida de preconceitos e estereótipos, o psicólogo contribuirá para o processo terapêutico do paciente. O caráter educativo da psicoterapia, tanto para paciente quanto para os seus cuidadores, visa a ensinar, além da própria condição do paciente, sobre o tratamento psicoterápico. Isso porque é importante que possam tomar consciência sobre os fatos, facilitando o preparo para lidar com as mudanças que o diagnóstico e a psicoterapia trazem a partir de estratégias de enfrentamento, fortalecimento da comunicação e adaptação (LEMES; ONDERE NETO, 2017; BHATTACHARJEE et al., 2011). A respeito de informar o paciente sobre a própria terapia, Carrió (2012) recomenda a racionalidade da medida terapêutica, que consiste em explicar ao paciente como funciona o tratamento recomendado. O autor orienta, ainda, que o profissional de saúde seja receptivo à boa intenção do paciente em procurar a terapia e que evite Consulta psicológica na prática16 conceder um acompanhamento precário ou inadequado, tendo sempre o cuidado de transmitir a informação sobre o diagnóstico e o encaminhamento de maneira correta e ética. Isso posto, adentremos o debate sobre motivação, intrínseco à prática clínica. A prática da consulta psicológica nem sempre é linear. Um paciente em psicoterapia com diagnóstico, por exemplo, de algum tipo de transtorno mental (de maior ou menor gravidade) nem sempre estará bem, nem sempre vai comparecer à terapia. Esse também é um desafio da prática psicológica. Um exemplo para ilustrar essa questão é a clínica com dependentes químicos. Uma psicóloga que atende um paciente em período de abstinência precisa reavaliar o processo terapêutico caso esse paciente faça novo uso dos entor- pecentes. Na recaída, geralmente a continuidade da frequência é rompida. O psicólogo então, por vezes, precisa assumir um papel de motivador, para que o tratamento psicoterapêutico possa seguir, transpondo as barreiras que a instabilidade de adesão apresenta. A motivação deve estar presente em todo o processo terapêutico, pois é um processo constituinte da relação entre as partes envolvidas. Para Bzuneck (2004, p. 9), a motivação pode ser entendida “ora como um fator psicológico, ou conjunto de fatores, ora como um processo”. Não há, portanto, consenso entre os pesquisadores do tema (p. ex., THOMAS, 2002; EVANS 1976) sobre a noção de motivação. No entanto, “existe um consenso generalizado entre os autores quanto à dinâmica desses fatores psicológicos ou do processo, em qualquer atividade humana. Eles levam a uma escolha, instigam, fazem iniciar um comportamento direcionado a um objetivo” (BZUNECK, 2004, p. 9, grifo nosso). Todorv e Moreira (2005) debateram sobre o conceito de motivação em Psicologia. Para os autores, a questão da hierarquia nos motivos humanos pode ser explorada a partir das seguintes interações: � como certos comportamentos, em determinadas condições, invaria- velmente ocorrem depois de certas alterações no meio ambiente; � como certas alterações no ambiente, em determinadas condições, são seguidas por certos comportamentos, não por outros possíveis; � como certos comportamentos ocorrem ciclicamente, mesmo na au- sência de alterações no ambiente; � como certos comportamentos, em determinadas condições, ocorrem mesmo na ausência de alterações no ambiente; � como certas alterações no ambiente passam a fazer parte de interações organismo-ambiente e outras não. Consulta psicológica na prática 17 Portanto, o ato de procurar ou comparecer a uma consulta psicoló- gica pode ser associado à motivação para superar a queixa. Para Bordin (1979), constituiria a origem da aliança terapêutica e do vínculo positivo do paciente com o profissional e com a ideia de estar em psicoterapia e seguir as recomendações do psicólogo (continuidade). Friedrich et al. (1998) e Bordin (1979) contribuem para reflexões acerca da relação entre motivação e aliança terapêutica, apontando que, para o sucesso do tra- tamento, o terapeuta deve, além de motivar, estar receptivo aos esforços que o paciente faz. Para isso, o programa terapêutico deve ser desenvol- vido com atividades significativas para o paciente, direcionadas às suas necessidades e que compreendam as metas específicas do seu paciente, mantendo a individualidade do sujeito. Nesse contexto, Miller e Rollnick (2001) criaram a sigla FRAMES, do inglês, que apresenta seis elementos essenciais a serem trabalhados no aspecto motivacional para mudança de comportamento: � feedback (parecer, comentários), que consiste em avaliar o paciente e discutir o seu estado atual; � responsibility (responsabilidade), que contempla o suporte à liberdade de escolha do paciente em relação a mudar ou não; � advice (aconselhamento), que se relaciona a orientar o paciente quanto a uma necessidade de mudança; � menu (alternativas), que engloba identificar um leque de alternativas para a modificação do seu comportamento-problema, � empathy (empatia), que consiste em praticar a escuta habilidosa; � self-efficacy (autoeficácia), que reforça a autoconfiança do paciente e contribui para que ele acredite na própria capacidade de alcançar as suas metas. Rollnick, Miller e Butler (2009) destacam o caráter maleável da motivação em psicologia, pois o ato de falar com o paciente (e o conteúdo dessa intera- ção) pode alterar a sua motivação no sentido de mudar ou não determinado comportamento. A assertividade do profissional (ou seja, expressar-se com segurança no momento oportuno e moderar as reações emocionais do pa- ciente sem cair na agressividade nem na passividade) pode ser interpretada como uma atitude que motiva o paciente a, por exemplo, aceitar um encami- nhamento ou entrar em um tipo de terapia (CARRIÓ, 2012). Consulta psicológica na prática18 Pesquisas como as de Gastaud e Nunes (2009) sugerem uma dimensão prática terapêutica de motivação do paciente. Os autores demons- traram que pacientes tendem a criar uma aliança terapêutica mais consistente e manter o tratamento por um período mais longo quando passam por uma avaliação prévia a um tratamento, pois conseguem compreender melhor o encaminhamento e o próprio sentido de realizá-lo. Neste capítulo, abordamos a consulta psicológica na prática, desde a identificação da queixa, ou seja, aquilo que traz o paciente ao tratamento, passando pelos principais pontos do exame mental do paciente, até as muitas faces da informação e da motivação deste. O objetivo ampliado deste texto é que alguns desses pontos importantes fiquem mais claros, somando à sua trilha de aprendizagem. Após o contato com essas discussões sobre teoria e prática, esperamos que o complexo e imprevisível, mas ainda belo e desa- fiador, trabalho de acolher e escutar as muitas subjetividades possíveis na psicologia clínica aguce o interesse dos profissionais em formação. Referências AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. 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