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[Este e-book possui caracteres especiais, recomendamos, para uma melhor experiência, que o leitor selecione, nas configurações de texto de seu aparelho de leitura, Fonte padrão/Fonte da editora. ] O CAMINHO POÉTICO DE SANTIAGO LÍRICA GALEGO-PORTUGUESA YARA FRATESCHI VIEIRA MARIA ISABEL MORÁN CABANAS JOSÉ ANTÓNIO SOUTO CABO Antes de iniciar o caminho: algumas notas OS TROVADORES E SANTIAGO DE COMPOSTELA Afonso Eanes do Cotom Abadessa, oí dizer Covilheira velha, se vos fezesse SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Airas Fernandes Carpancho Por fazer romaria, pug’ en meu coraçon Pois que se non sente a mia senhor SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Airas Nunes Porque no mundo mengou a verdade A Santiag’ en romaria ven Bailemos nós ja todas tres, ai amigas SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Bernal de Bonaval A Bonaval quer’ eu, mia senhor, ir Ai, fremosinha, se ben ajades Diss’ a fremosa en Bonaval assi: SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernando Esquio “Que adubastes, amigo, alá en Lug’ u andastes Vaiamos, irmana, vaiamos dormir SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernão Pais de Tamalhancos Con vossa graça, mia senhor Non sei dona que podesse Quand’ eu passei per Dormãa SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernão Rodrigues de Calheiros Madre, passou per aqui um cavaleiro Agora oí d’ ũa dona falar SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Airas de Santiago Pelo souto de Crexente A por que perço o dormir Ai Justiça, mal fazedes que non SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Peres de Aboim Cavalgava noutro dia Lourenço, soías tu guarecer SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Soares Somesso Punhei eu muit’ en me guardar ũa donzela quig’ eu mui gran ben SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Vasques de Talaveira Direi-vos ora que oí dizer Joan Airas, ora vej’ eu que á SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Juião Bolseiro Fez ũa cantiga d’ amor Da noite d’ eire poderan fazer Joan Soares, de pran as melhores SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Martim Moxa O gran prazer e gran viç’ en cuidar Per quant’ eu vejo SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Nuno Eanes Cêrzeo Agora me quer’ eu ja espedir SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Nuno Fernandes Torneol Levad’, amigo, que dormides as manhanas frias Vi eu, mia madr’, andar SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Osório Eanes Cuidei eu de meu coraçon E por que me desamades SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai de Cana Vedes que gran desmesura Amiga, o voss’ amigo SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai Gomes Charinho Ai, Santiago, padron sabido Quantos oj’ andan eno mar aqui SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai Soares de Taveirôs Como morreu quen nunca ben No mundo non me sei parelha Vi eu donas en celado SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pedro Amigo de Sevilha Quand’ eu un dia fui en Compostela Quen mi ora quisesse cruzar SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pero da Ponte Quen seu parente vendia Se eu podesse desamar Quen a sesta quiser dormir Maria Peres, a nossa cruzada SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pero Garcia de Ambroa Pero d’ Armea, quando composestes SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pero Meogo Levou-s’ a louçana, levou-s’ a velida Digades, filha, mia filha velida SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Rui Fernandes de Santiago Quand’ eu vejo las ondas SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Sancho Sanches En outro dia, en San Salvador SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS TROVADORES E TEXTOS EM DIÁLOGO Dom Afonso x Non me posso pagar tanto O genete SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Dom Dinis Levantou-s’ a velida Quer’ eu en maneira de proençal Proençaes soen mui ben trobar ũa pastor ben talhada SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João de Gaia Eu convidei un prelado a jantar, se ben me venha SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Zorro Bailemos agora, por Deus, ai velidas SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS GLOSSÁRIO MAPA DE SANTIAGO DE COMPOSTELA TOPÔNIMOS NAS CANTIGAS IMAGENS DOS CANCIONEIROS BIBLIOGRAFIA SOBRE OS AUTORES ANTES DE INICIAR O CAMINHO: ALGUMAS NOTAS A lírica galego-portuguesa medieval, a mais antiga manifestação literária da língua portuguesa, é patrimônio comum de todas as literaturas nacionais que, como a brasileira, se exprimem nessa língua. Originada na Galiza no último terço do século XII, essa expressão cultural foi cultivada no âmbito dos reinos centro-ocidentais da Península Ibérica (Galiza, Portugal, Leão e Castela) até o primeiro quarto do século XIV. O adjetivo “galego-portuguesa” que a define refere-se ao idioma que lhe serviu de veículo, falado na Galiza e em Portugal, e aos espaços políticos em que se desenvolveu com maior vigor. Trata-se da variante regional de uma moda europeia mais ampla, a “poesia trovadoresca”, que nasceu na Occitânia (atual sul da França), no começo do século XII, e se difundiu por todo o ocidente europeu, desde a Alemanha até a Galiza e Portugal, e do norte da França até a Sicília. O tópico dominante, embora não exclusivo, da poesia trovadoresca foi a expressão do amor, segundo os princípios do que se convencionou chamar de “amor cortês”, um código de comportamento amoroso complexo, envolvendo aspectos sociológicos, éticos e literários. Trata-se de uma concepção desse sentimento que, oposta em vários pontos à da Antiguidade, sobrevive em essência ainda hoje, de tal forma que se chegou a afirmar que o século XII inventou o amor como o entendemos e celebramos na cultura ocidental. CANTARES FREMOSOS E RIMADOS Apesar das origens occitanas, o trovadorismo galego-português apresenta características particulares que resultaram da simbiose com o substrato cultural específico do noroeste peninsular. Ordena-se em três gêneros maiores: a cantiga de amor, a cantiga de amigo e a cantiga de escárnio e maldizer. A de amor e a de amigo compartilham a temática amorosa, mas não a perspectiva, já que na primeira o sujeito poético é um homem que expressa o seu amor, quase sempre impossível, por uma mulher referida como senhor (o mesmo que “senhora”); e na de amigo, pelo contrário, a voz poética corresponde à de uma jovem que exprime os seus sentimentos pelo namorado (amigo) num tom, em geral, mais otimista. Quanto à produção satírica, conhecida pelo nome de cantigas de escárnio e maldizer, caracteriza-se, na maior parte dos casos, pela censura de caráter pessoal, com uma finalidade cômico-burlesca. Entre os gêneros menores, destaca-se a pastorela, na qual a temática amorosa aparece associada ao encontro, num locus amoenus (lugar ameno), entre um cavaleiro e uma pastora. Já a tenção (tençon) tem como traço definidor a estrutura dialogal, ou seja, a cantiga é resultado da colaboração de dois autores que nela estabelecem uma espécie de disputa literária. Além dos gêneros profanos, conservam-se também as Cantigas de Santa Maria, de temática religiosa, que geralmente apresentam narrativas de milagres atribuídos à Virgem. O corpus poético não religioso foi-nos transmitido, essencialmente, por três cancioneiros: o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa e o Cancioneiro da Biblioteca Vaticana. Outros testemunhos menores, mas de grande interesse por serem contemporâneos dessa manifestação cultural, são o Pergaminho Vindel, com as sete cantigas do jogral galego Martim Codax (seis com a respectiva notação musical), e o Pergaminho Sharrer, folha de um cancioneiro que transcreve partes de sete cantigas do rei Dom Dinis de Portugal, também musicadas. As Cantigas de Santa Maria possuem uma tradição manuscrita própria, composta de quatro códices da segunda metade do século XIII. Essa poesia, tanto a profana quanto a religiosa, era inseparável da música. Infelizmente, salvo no caso das Cantigas de Santa Maria e dos dois testemunhos menores citados, as pautas musicais não chegaram até nós. No que concerne aos autores, de acordo com os critérios gerais e nem sempre muito claros da época, podemos distinguir dois grupos: os trovadores, poetas de condição aristocrática, em seus vários níveis; e os jograis, que não pertenciam a esse estamento. Ao todo, conhecemos o nome de cerca de 160 compositores, integrados em diversos grupos sociais:monarcas, nobres, clérigos, burgueses. Não devemos esquecer que estamos diante de uma expressão cultural da camada aristocrática e que foi em seus espaços privativos que se produziu e executou, predominantemente, essa moda poética. AI SANTIAGO, PADRON SABIDO A amostra representativa da lírica galego-portuguesa que aqui trazemos toma como fio condutor a cidade de Santiago de Compostela, capital da Galiza: os compositores e, em parte, os textos editados foram selecionados pelos laços que, em diversos níveis e de modo mais ou menos direto, guardaram com Compostela. O movimento poético em que se integravam manteve, com efeito, uma ligação constante com a cidade, o que se explica facilmente quando levamos em conta que Santiago, enquanto centro urbano mais importante do reino galego, constituiu um palco privilegiado para as primeiras experiências do trovadorismo. A vinculação de Compostela a essa corrente literária evidencia-se também pela possibilidade de associar tal prática poética a algumas camadas socioculturais específicas da urbe, como se demonstra pela existência, no interior dos Cancioneiros, de um “cancioneirinho de clérigos” compostelanos. Na segunda metade do século XII, momento em que nasce a lírica galego-portuguesa, não havia no reino galaico-leonês outro centro urbano que pudesse competir com o prestígio de Santiago, cuja supremacia se devia ao uso eficiente dos recursos materiais e culturais gerados pela peregrinação. Esse protagonismo remonta, em última instância, à decisão dos bispos da diocese, com sede até então em Íria Flávia (Padrom/Padrón, Galiza), de transferir sua residência para Compostela, antes do ano 847. Ao bispo Teodomiro, cujo túmulo se encontra no subsolo da Sé compostelana, devemos, como se sabe, a inventio (“achado”, c. 825) do sepulcro do apóstolo Santiago, ao identificar como tal um mausoléu de época romana. O suporte histórico para essa descoberta consistia numa tradição que situava a predicação de Santiago na Hispânia, permitindo também a suposição de que tivesse sido sepultado no extremo ocidental da Europa. O “achado”, inserido no contexto de afirmação e fortalecimento político do reino asturo-galaico, associa-se à formação de uma igreja autônoma, desvinculada de Toledo, naquela altura em território dominado pelos muçulmanos. Compostela torna-se, assim, santuário nacional e internacional, atraindo, por meio da peregrinação, pessoas de todo o ocidente cristão. O fato de Compostela utilizar o título de “apostólica”, juntamente com o grande poder dos seus prelados, sobretudo do primeiro arcebispo Diogo Gelmires, permitiu que a cidade não se integrasse na arquidiocese de Braga – a que histórica e geograficamente pertencia –, quando se produziu a restauração desta última, em 1070. Do ponto de vista material, para além dos benefícios que resultavam das numerosas doações recebidas e das posses territoriais, cada vez mais extensas, a Igreja compostelana contava com uma importante receita constituída pelo imposto conhecido como Voto de Santiago. A magnitude econômica da instituição catedralícia resultou na organização de uma importante rede de funcionários, em geral clérigos, para gerir esse enorme patrimônio. A expansão, digamos, eclesiástica de Santiago de Compostela foi paralela à consolidação da urbe, graças ao aparecimento de uma importante burguesia comercial, infrequente na Galiza. Ao mesmo tempo, a Igreja e a cidade aparecem estreitamente vinculadas às camadas aristocráticas, a começar pela própria monarquia. Dois fatos devem ser salientados: por um lado, a instauração de uma dinastia galaico-borgonhesa com Afonso vii, filho de Dona Urraca e de Dom Raimundo de Borgonha, condes da Galiza. A identificação dessa estirpe com a Galiza e com a urbe compostelana culmina com Fernando II quando, em 1180, faz da Sé de Santiago o panteão da própria dinastia. Isso constitui o apogeu de um processo que fez da capital galega o epicentro, sobretudo eclesiástico, mas também político e cultural, do reino galaico-leonês. Esse fato serve também para explicar, pelo menos em parte, o generoso contributo daquele monarca e do filho, Afonso IX, aos trabalhos de conclusão da catedral, designadamente os da nave central, cuja abertura exibe o seu elemento arquitetônico mais relevante, o Pórtico da Glória. A casa real, por outro lado, desde os tempos de Afonso vi até Afonso IX, está associada por fortes laços à família condal dos Travas, a mais importante da Galiza, junto à qual foram instruídos Dom Afonso vii, Dom Fernando II e Dom Afonso IX. Contamos com vários testemunhos que demonstram a presença dos Travas em Santiago, cidade em que possuíam diversos imóveis. E sabemos, também, que essa família aparece intimamente relacionada às origens e à expansão do trovadorismo galego-português. Não é necessário salientar o enorme peso artístico e cultural da cidade: a própria catedral (1075-1211) e obras como a História compostelana, o Códice calistino ou o Tombo A constituem, por motivos diversos, os exemplos mais visíveis. Existem também indícios que apontam para uma atividade musical intensa e inovadora, pelo menos no âmbito catedralício. Lembre-se ainda o papel da Escola Episcopal, que tinha como maior objetivo a formação do corpo clerical da própria Sé. Do progresso dessa escola resultará a fundação de um Estudo Geral em Salamanca por Afonso IX, c. 1219, que será o berço de uma das primeiras universidades do continente. A união com Castela, em 1230, supôs o afastamento da Galiza dos centros de decisão política, o que não deixou de ter importantes repercussões econômicas e culturais. No entanto, a Igreja de Santiago vai ainda viver um período áureo que se reflete, entre outros aspectos, na atividade construtora promovida por João Airas, arcebispo compostelano entre 1238 e 1266. Esse prelado dota o conjunto catedralício de novos espaços anexos que facilitarão a vida do corpo clerical da Sé, entre eles o paço arcebispal, cujos salões terão constituído um magnífico cenário para o espetáculo trovadoresco. No que tange à vida urbana, note-se que em 1273 Dom Afonso x, desavindo-se com a Sé de Santiago, tirou-lhe o senhorio eclesiástico sobre a cidade, incorporando-a ao domínio real e permitindo, assim, que os burgueses compostelanos ampliassem o seu poder. Já com seu sucessor, Sancho IV (1284-95), mudou-se o relacionamento da monarquia com a Sé, o que se evidencia com as visitas desse monarca a Compostela, em 1286 – com repercussão literária conhecida – e em 1291. UMA REDE FAMILIAR, SOCIAL E TEXTUAL Nos séculos XII e XIII, portanto, foi determinante o papel de Santiago de Compostela como centro religioso, político e cultural, fazendo da cidade não só o polo de atração para as correntes intelectuais e artísticas prevalecentes na Europa, mas também o ponto de difusão dessas tendências ou de outras que ali teriam encontrado o seu berço. Não é de estranhar que boa parte dos trovadores cuja produção se encontra recolhida nos Cancioneiros galego-portugueses esteja, de alguma forma, a ela relacionada. Assim, os trovadores mais antigos, unidos entre si por laços familiares ou por nexos sociais vinculativos que os caracterizam como um grupo fortemente coeso e solidário, remetem a linhagens poderosas no contexto galego da época: entre elas, como já foi dito, tem papel preponderante a estirpe dos Travas, mas há outras igualmente importantes, que lhe estão associadas, como a dos Vélaz, a dos Limas, a Celanova-Toronho, a dos Cabreras e a dos Urgells. Com ramificações e alianças que se estendem aos outros reinos da Península, essas famílias ligavam-se intimamente também aos círculos do poder real e eclesiástico, com presença marcante inclusive na comunidade religiosa do arcebispado de Santiago. Desses precursores – que figuram entre os primeiros trovadores na Tavola colocciana, elaborada pelo humanista Angelo Colocci provavelmente como índice do Cancioneiro da Biblioteca Nacional – não nos chegou, por azares da transmissão manuscrita, a produção poética de João Vélaz, Dom Juião, Pedro Rodriguesda Palmeira, Dom Rodrigo Dias dos Cameros, Airas Oares e Pedro Pais Bazaco. Os Cancioneiros registram, entretanto, as composições de outros trovadores também pertencentes a linhagens nobres e possuidoras de casas em Compostela, as quais serviriam, dada a importância política e cultural da cidade, como centro aglutinador para as suas respectivas cortes. Entre eles, Osório Eanes, Airas Fernandes Carpancho, Fernão Pais de Tamalhancos e Afonso Eanes do Cotom. Além dos poetas que eram membros das famílias nobres, é preciso ainda lembrar os clérigos e os burgueses compostelanos cujas composições nos foram transmitidas nos Cancioneiros. ORGANIZAÇÃO DO LIVRO Tendo em vista, portanto, a importância de Santiago de Compostela na origem e difusão da lírica trovadoresca, apresentamos os trovadores, por ordem alfabética, dividindo a coletânea em duas partes. Na primeira – e maior – estão aqueles que fazem alguma menção a Santiago na sua produção ou que se ligam a essa área geográfica por documentação histórico-biográfica. Na segunda parte, estão trovadores cujas composições dialogam com poetas do primeiro grupo: assim, Dom Afonso x, que em duas cantigas refere Afonso Eanes do Cotom, Bernal de Bonaval e Pero da Ponte; Dom Dinis, que dialoga com Pero Meogo; João de Gaia, que menciona Martim Moxa; e João Zorro, autor de uma cantiga retomada por Airas Nunes. A seleção dos autores e das cantigas, nesta seção, levou em conta a relevância dos poetas e de suas composições, segundo critérios literários, e a consideração do papel importante que a intertextualidade desempenhou na obra dos trovadores em geral, conforme o reconhece a própria Arte de trovar do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, ao falar sobre a cantiga de seguir. OS TEXTOS As cantigas selecionadas foram transcritas de maneira que pretendemos rigorosa. Dada a natureza desta publicação, não se inclui aparato crítico nem se indicam as eventuais alterações editoriais. Nossa versão raramente corrige o texto conservado nos testemunhos manuscritos, desde que legítimo do ponto de vista linguístico. Limitamos as intervenções, assim, aos erros evidentes de cópia e a questões relacionadas à estrutura, recorrendo, ocasionalmente, à tradição editorial já estabelecida. A grafia utilizada na transcrição das cantigas é a sugerida nas Normas de edición para a poesía trobadoresca galego- portuguesa medieval (ver a bibliografia, no final), exceto no caso dos acentos diacríticos, que só excepcionalmente são incorporados. As cantigas são apresentadas como textos poéticos que possibilitam leitura e fruição independentes. Mas, para que o leitor se sinta amparado em sua leitura, elaboramos uma nota biobibliográfica para cada trovador, contendo um pequeno comentário elucidativo de cada cantiga. Além disso, incluem-se um glossário com os termos considerados mais problemáticos para o leitor contemporâneo e uma lista dos topônimos mencionados nas cantigas. O livro conclui com uma bibliografia que elenca obras de caráter geral e, quando se julgou pertinente, alguns estudos que focalizam aspectos mais específicos das composições editadas. OS TROVADORES E SANTIAGO DE COMPOSTELA A AFONSO EANES DO COTOM badessa, oí dizer que erades mui sabedor de todo ben; e por amor de Deus, querede-vos doer de min, que ogano casei, que ben vos juro que non sei mais ca ũu asno de foder. Ca me fazen en sabedor de vós que avedes bon sen de foder e de todo ben. Ensinade-me mais, senhor, como foda, ca o non sei, nen padre nen madre non ei que m’ ensine, e fiqu’ i pastor. E se eu ensinado vou de vós, senhor, deste mester de foder e foder souber per vós, que me Deus aparou, cada que per foder, direi Pater Noster e enmentarei a alma de quen m’ ensinou. E per i podedes gaar, mia senhor, o reino de Deus: per ensinar os pobres seus mais ca por outro jajũar, e per ensinar a molher coitada, que a vós veer, senhor, que non souber ambrar. C ovilheira velha, se vos fezesse grand’ escarnho, dereito faria ca me buscades vós mal cada dia; e direi-vos en que vo-l’ entendi: ca nunca velha fududancua vi que me non buscasse mal, se podesse. E non est ũa velha nen son duas, mais son vel cent’ as que m’ andan buscando mal quanto poden e m’ andan miscrando; e por esto rog’ eu de coraçon a Deus que nunca meta se mal non antre min e velhas fududancuas. E pero lança de morte me feira, covilheira velha, se vós fazedes nen ũu torto se me gran mal queredes; ca Deus me tolha o corp’ e quant’ ei, se eu velha fududancua sei oje no mundo a que gran mal non queira. E se me gran mal queredes, covilheira velha, dig’ eu que fazedes razon, ca vos quer’ eu gran mal de coraçon, covilheira velha; e sabed’ or’ al: des que fui nado, quig’ eu sempre mal a velha fududancua peideira. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Não há registros documentais com que reconstruir a biografia de Afonso Eanes do Cotom (ou Afonso do Cotom), mas é possível suprir essa falta, de algum modo, pelas referências que a ele fizeram outros poetas galego-portugueses, como o rei Afonso X e Martim Soares. Elas permitem situar sua atividade poética na corte de Fernando III e na dos primeiros anos de Afonso X. Martim Soares chegou a dedicar-lhe uma cantiga (Nostro Senhor, com’ eu ando coitado), na qual o descreve, por meio de um relato enunciado em primeira pessoa e em termos burlescos, como pessoa dissoluta e fisicamente disforme. Existe certa continuidade entre alguns desses traços e sua abundante produção satírica, caracterizada pela frequência de um tom obsceno e irreverente, como se comprova nos poemas trazidos aqui. O sobrenome toponímico Cotom levou a pensar que fosse natural de Negreira, lugar situado a quinze quilômetros ao nordeste da capital galega, onde existe um paço conhecido com esse nome. É possível que a família dos Cotons (ou algum de seus ramos) tenha estado vinculada a essa região, o que não exclui a presença da linhagem em Compostela. Com efeito, um documento compostelano de 1192, no qual aparece mencionado um João do Cotom (Iohanne Cothone, Iohannes Cothom), que supomos pai do trovador, apoia essa possibilidade. De acordo com essa escritura, ele possuía uma casa na rua Faxeira, onde também terá morado Afonso Eanes. No primeiro poema, o protagonista, dizendo-se órfão e recém-casado, implora a ajuda de uma abadessa com fama de muito experimentada em práticas sexuais, com o objetivo de superar sua suposta ignorância nesse assunto. Se ela o socorrer e, além disso, ensinar como menear as ancas às mulheres que a procuram, ganhará o reino de Deus, mais do que por jejuar. A composição, um exemplo da irreverência presente nos Cancioneiros, estrutura-se sobre o pedido de caridade, uma das sete virtudes do cristianismo. O efeito cômico e satírico resulta do contraste entre o contexto (a transcendência religiosa dessa virtude e o estatuto social da abadessa) e a expressão concreta do pedido (de natureza obscena). Além disso, a autocomparação do protagonista com o asno adquire uma dupla dimensão, pela associação do burro à ignorância e por sua simbologia fálica. A mistura do sagrado e do sexual atinge o clímax com a afirmação de que os ensinamentos solicitados à abadessa podem constituir a melhor via para conseguir até mesmo a salvação eterna. Já em Covilheira velha, se vos fezesse, uma camareira (“covilheira”) é satirizada por meio de uma série de insultos de base sexual e escatológica. A cantiga, claramente ofensiva, vale-se da acumulação de termos discriminadores, obscenos e escatológicos para acentuar a abominação de uma criada de quarto, ampliando-a ainda a toda a categoria das camareiras, que costumavam exercer também as funções de alcoviteiras ou intermediárias de relações amorosas: ela é descrita como “velha, fududancua e peideira”. Da mesma forma que a cantiga anterior enfatiza o sarcasmo pela repetição do verbo foder, esta recorre ao composto fududancua, cujo uso, considerado extremamente ofensivo, era mesmo apontado, nos textos legais, como passível de punição. Aqui, o termo perde o sentido preciso de prática sexual, retendoapenas a força de insulto máximo. P AIRAS FERNANDES CARPANCHO or fazer romaria, pug’ en meu coraçon, a Santiag’, un dia, por fazer oraçon, e por veer meu amigo log’ i. E se fezer tempo, e mia madre non for, querrei andar mui leda, e parecer melhor, e por veer meu amigo log’ i. Quer’ eu ora mui cedo provar se poderei ir queimar mias candeas, con gran coita que ei, e por veer meu amigo log’ i. P ois que se non sente a mia senhor da coita en que me ten seu amor, mia morte mui mester me seria. Se sempr’ ei d’ aver atal andança, cativo, que non morri o dia que a vi en cas Dona Constança! Pois que o dormir e o sen perdi, Nostro Senhor, e como non morri como morre quen non á proveito de morrer ren? Sequer já vivo… Mais eu, que por sandeu e tolheito and’, e como non moiro, cativo? SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Cavaleiro da pequena nobreza, Airas Fernandes Carpancho pertenceu a uma linhagem cujos ascendentes se ligavam por laços familiares ao primeiro arcebispo da Igreja de Santiago, Diogo Gelmires. Seus irmãos Adão – talvez o poeta latino conhecido como “Adão, o clérigo” – e Nuno faziam parte do cabido compostelano e estudaram em Paris, o que demonstra que se tratava de uma família que participava intimamente da efervescência cultural compostelana iniciada em tempos de Gelmires. Airas Fernandes viveu provavelmente entre 1170 e 1240. Seus pais foram enterrados às portas da Catedral. Documentos comprovam que a família possuía casas em Santiago (uma delas próxima à Porta Faxeira) e uma casa-torre também em Balcaide (no atual município de Teo). A cantiga de amor, Pois que se non sente a mia senhor, contém uma referência singular, isto é, o nome da pessoa em cuja casa tinha visto a sua amada: “en cas Dona Constança” – muito provavelmente um indício das suas relações com a importante família dos Rodeiros: uma Dona Constança Martins (c. 1190–1255) foi mulher de Dom Múnio Fernandes de Rodeiro, que usufruiu de posição preeminente na corte leonesa, de Afonso IX em diante. Tal alusão permite-nos, aliás, propor a hipótese de Dona Constança de Rodeiro ter favorecido a existência de uma corte poética em sua casa, graças à menção, na cantiga de Pai Soares de Taveirôs (ver p. 127), a uma “filha de Dom Pai Moniz”, provavelmente a filha de Pai Muniz de Rodeiro, tio de Dom Múnio e pertigueiro de Santiago em 1210. Ainda que os Rodeiros fossem uma linhagem originária das terras do mesmo nome situadas no interior da atual província de Pontevedra, nada impede imaginar que os contatos entre os participantes do grupo poético ocorressem também, ou de preferência, no centro cultural que Santiago representava, considerando que muitas das linhagens nobres do tempo tinham casa no núcleo urbano. Os Cancioneiros registram cinco cantigas de amor e oito de amigo da autoria desse trovador. No primeiro poema aqui presente, Por fazer romaria, pug’ en meu coraçon, a jovem declara ter decidido um dia ir em romaria a Santiago, para rezar, acender velas e para ver seu amigo – intenção que se sublinha na segunda estrofe e no verso repetido como refrão: e por veer meu amigo log’ i. Trata-se, provavelmente, da mais antiga composição do tipo tradicional denominado “cantiga de romaria” e a única que explicita como destino o santuário de Santiago de Compostela. Aliás, o Apóstolo é o único santo cujo nome aparece nas cantigas desse tipo de três autores: para além de Airas Carpancho, a ele aludem Airas Nunes (ver p. 32) e Pai Gomes Charinho (ver p. 121). Como norma, um determinado santuário constitui tema das cantigas de apenas um trovador ou jogral: por exemplo, João Servando compôs 23 delas, das quais dezessete incluem referência à ermida de São Servando, que nenhum outro poeta menciona. Já na cantiga de amor (ver, na p. 209, a reprodução do fólio do Cancioneiro da Biblioteca Nacional onde está transcrita), o trovador declara que a morte lhe seria muito necessária, uma vez que a amada não se compadece do seu sofrimento amoroso. Lamenta não ter morrido no dia em que a viu na casa de Dona Constança, pois desde então perdeu o sono e a razão, ficou louco e paralisado. Ao desenvolver o tema da morte por amor, bastante frequente nas cantigas de amor, o trovador lança mão de um esquema argumentativo, admirando-se da falta de aplicação ao seu caso de uma norma considerada geral nesse contexto poético: todo aquele que ama como eu amo, sem ser retribuído, morre – então, por que não morro eu? Além disso, ao fornecer indícios que poderiam revelar a identidade da amada, o poeta parece quebrar o preceito cortês do segredo sobre o nome da dama: aquela que ama é a que viu na casa de Dona Constança. No entanto, o trovador joga com certa ambiguidade, pois ao mesmo tempo a indicação é imprecisa (haveria outras jovens naquela casa…), de tal forma que ela não poderá ser claramente reconhecida. Cabe ainda supor que a menção de Dona Constança seja uma maneira de homenagear discretamente a senhora da casa nobre em cuja corte se acolhia esse círculo poético. P AIRAS NUNES orque no mundo mengou a verdade punhei un dia de a ir buscar, e u por ela fui a preguntar disseron todos: “Alhur la buscade, ca de tal guisa se foi a perder que non podemos en novas aver, nen ja non anda na irmaidade”. Nos moesteiros dos frades negrados a demandei, e disseron-m’ assi: “Non busquedes vós a verdad’ aqui ca muitos anos avemos passados que non morou nosco, per bõa fe, e d’ al avemos maiores coidados”. E en Cistel, u verdade soía sempre morar, disseron-me que non morava i avia gran sazon, nen frade d’ i ja a non conhocia; nen o abade outrossi no estar sol non queria que foss’ i pousar e anda ja fora desta badia. En Santiago, seend’ albergado en mia pousada, chegaron romeus; preguntei-os e disseron: “Par Deus, muito levade-lo caminh’ errado, ca se verdade quiserdes achar outro caminho conven a buscar, ca non saben aqui d’ ela mandado”. A Santiag’ en romaria ven el-rei, madr’, e praz-me de coraçon por duas cousas, se Deus me perdon, en que tenho que me faz Deus gran ben: ca veerei el-rei, que nunca vi, e meu amigo que ven con el i. B ailemos nós ja todas tres, ai amigas, so aquestas avelaneiras frolidas, e quen for velida como nós, velidas, se amigo amar, so aquestas avelaneiras frolidas verrá bailar. Bailemos nós ja todas tres, ai irmanas, so aqueste ramo d’ estas avelanas, e quen for louçana como nós, louçanas, se amigo amar, so aqueste ramo d’ estas avelanas verrá bailar. Por Deus, ai amigas, mentr’ al non fazemos so aqueste ramo frolido bailemos, e quen ben parecer como nós parecemos, se amigo amar, so aqueste ramo, sol que nós bailemos, verrá bailar. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Nos Cancioneiros, as cantigas desse poeta são atribuídas a um “Airas Nunes, clérigo”, ou seja, com certeza um letrado, ainda que não necessariamente alguém pertencente ao clero regular. Desconhece-se seu lugar de origem; contudo, está documentada a sua relação com a corte de Dom Sancho IV (1284-95), cuja visita a Santiago de Compostela, em 1286, motivou a composição da segunda cantiga aqui reproduzida. A familiaridade com o ambiente eclesiástico compostelano, evidente nas suas composições, permite levantar a hipótese de que fosse galego. Assim, por exemplo, a cantiga Achou-s’ ũu bispo que eu sei, ũu dia, poderia referir-se a um episódio ocorrido na Catedral de Santiago entre os anos 1286 e 1289, quando foi eleito arcebispo frei Rodrigo Gonçalves, cuja ânsia moralizadora e reformista não era bem-vista pelo clero local. Aparece representado nos Cancioneiros com seis cantigas de amor, três de amigo, uma pastorela e quatro cantigas de escárnio e maldizer. Sua suposta participação na elaboração das Cantigas de Santa Maria, de Afonso x, não está suficientemente fundamentada. Sua produção poética caracteriza-se pela ampla variedade formal e temática e pelo diálogo que estabelece com textos de outros trovadores, revelando-se também um notável conhecedor da poesia occitana. Na primeira cantiga, o poeta representa-se andando em busca da Verdade, que tanto minguouno mundo. Aonde quer que vá à sua procura – nos mosteiros dos frades beneditinos ou negrados (isto é, de hábito negro), na ordem de Cister ou nos albergues dos peregrinos de Santiago de Compostela –, sempre lhe respondem que a busque noutra parte. Configura-se, assim, uma cantiga de escárnio que se aproxima ao gênero do sirventês occitano, por desenvolver uma crítica de caráter geral, dirigida à decadência moral de todo o clero, em contraste com a sátira personalizada, preferida pelos trovadores galego-portugueses. São especialmente visadas aqui as ordens e instituições religiosas, as quais, devendo ser o grande refúgio da verdade, a tinham perdido havia muito tempo e nada sabem nem querem saber dela. Deparamo-nos, assim, com o tópico do mundo às avessas ou do desprezo do mundo presente. A mesma busca infrutífera de valores éticos naquelas comunidades encontra-se em uma cantiga de Fernão Pais de Tamalhancos (ver p. 50). Nos Cancioneiros falta o penúltimo verso da segunda estrofe. Algumas edições adotam a sua reconstrução como: “nem sabemos u ela agora x’ é”. Na segunda cantiga (A Santiag’ en romaria ven), a donzela manifesta à mãe o seu entusiasmo pela próxima vinda do rei a Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Santiago, em romaria. Ela está feliz por dois motivos: verá o rei, que nunca viu; e verá seu amigo, que vem com o monarca. Possivelmente incompleta, essa composição utiliza o modelo da “cantiga de romaria” para celebrar a visita do rei Dom Sancho IV a Santiago em 1286, numa viagem cujos motivos políticos se uniam à piedosa intenção de cumprir uma promessa, feita ao Apóstolo durante a campanha contra os muçulmanos no ano anterior. Na voz da jovem, valoriza-se a oportunidade de ver o rei até ao extremo de considerar esse fato, junto com o de ver o amigo que vem no seu séquito, como grandes bens que Deus lhe concede, o que evidencia uma intenção propagandística da viagem real. Essa cantiga tem óbvios pontos de contato com a de Pai Gomes Charinho (Ai, Santiago, padron sabido; ver p. 121), sendo provável que ambas tenham sido compostas na mesma ocasião, na corte de Sancho IV. Na última composição (Bailemos nós ja todas tres, ai amigas), a moça anima duas amigas a dançar embaixo das avelaneiras em flor, dizendo “e quem for formosa e de bom parecer como nós, se amigo amar, virá bailar” – construindo assim uma cantiga de amigo muito semelhante a outra de autoria de João Zorro (Bailemos agora, por Deus, ai velidas; ver p. 191), com identidade quase total na primeira estrofe e um desenvolvimento diferente. Podendo qualquer dos trovadores ter retomado a cantiga do outro, parece mais provável que terá sido Airas Nunes quem se serviu da composição de Zorro, dado o gosto que o clérigo galego mostrou por esse processo intertextual, visível em diversas cantigas suas. A estrutura é paralelística, isto é, articula-se através de uma série de correspondências e de repetições parciais ou integrais. Em cada estrofe, há apenas dois versos (o primeiro e o terceiro) que introduzem variação; o segundo e o quinto repetem-se; o quarto e o sexto constituem o refrão que retorna em todas as estrofes. Essas cantigas com referência à dança em tom jovial e festivo, elaboradas com estrutura especialmente adequada à “dramatização” da cantiga por um grupo de moças, recebem o nome de bailadas. Situam-se num espaço primaveril que responde ao tópico literário do locus amoenus (lugar ameno). É possível que a composição evoque um rito de passagem: a iniciação das jovens na vida amorosa. Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce A BERNAL DE BONAVAL Bonaval quer’ eu, mia senhor, ir e des quand’ eu ora de vós partir os meus olhos non dormirán. Ir-m’-ei, pero m’ é grave de fazer e des quand’ eu ora de vós tolher os meus olhos non dormirán. Toda via ben será de provar de m’ ir, mais des quand’ eu de vós quitar os meus olhos non dormirán. A i, fremosinha, se ben ajades, longi de vila quen asperades? Vin atender meu amigo. Ai, fremosinha, se gradoedes, longi de vila quen atendedes? Vin atender meu amigo. Longi de vila quen asperades? direi-vo-l’ eu, pois me preguntades: vin atender meu amigo. Longi de vila quen atendedes? direi-vo-l’ eu, poi-lo non sabedes: vin atender meu amigo. D iss’ a fremosa en Bonaval assi: ai Deus, u é meu amigo d’ aqui de Bonaval? Cuid’ eu, coitad’ é no seu coraçon, porque non foi migo na sagraçon de Bonaval. Pois eu migo seu mandado non ei, ja m’ eu leda partir non poderei de Bonaval. Pois m’ aqui seu mandado non chegou, muito vin eu mais leda ca me vou de Bonaval. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Bernal de Bonaval (ou Bernardo de Bonaval) é considerado, a partir de referências na sua obra e na de trovadores contemporâneos, um jogral ou segrel (jogral que, além de executante e cantor, sabia compor cantigas) galego, ativo em meados do século XIII, e ligado a Compostela através das menções à Igreja de Bonaval, provavelmente São Domingos de Bonaval. Coincidentemente, no testamento do juiz compostelano Fernando Afonso, de 1279, copiado no Tombo C do Arquivo da Catedral, um frei Bernardo, prior de São Domingos de Bonaval, aparece como beneficiário e como cumpridor dessa manda testamentária. Além disso, Abril Peres, trovador cuja única composição conservada é uma tenção com Bernal de Bonaval, também está mencionado como alguém ligado ao âmbito eclesiástico de Santiago: no testamento elaborado em 1269 (Tombo C do Arquivo catedralício), o cônego compostelano Abril Fernandes deixa bens aos seus parentes – e irmãos entre si – Juião Peres, cambista, Abril Peres e Fernando Peres, clérigo. Abril Peres será, portanto, parente de um cônego e irmão de um clérigo; a profissão de cambista, por outro lado, era bastante importante na cidade, tendo sido logo regulamentada na “confraria dos cambiadores”, estreitamente vinculada à Catedral e por ela vigiada. Numa cantiga satírica, Dom Afonso X escarnece do trovador Pero da Ponte (ver p. 167), dizendo que ele não trova como provençal, mas como Bernal de Bonaval – o que, considerando o caráter chistoso da cantiga, deve ser tomado como um sinal inequívoco de que ambos os trovadores contavam com boa consideração na cúria do infante ou rei Dom Afonso. Um “Dom Bernaldo” é também objeto de cantigas de escárnio e maldizer por parte de Pero da Ponte, Airas Peres Vuitorom e João Baveca. Os Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional de Lisboa conservam dele onze cantigas de amor, oito de amigo e a tenção sobre casuística amorosa com Abril Peres. A referência a Bonaval ocorre em uma cantiga de amor e quatro de amigo. Em A Bonaval quer’ eu, mia senhor, ir, o poeta declara à sua senhora que quer ir a Bonaval, mas é difícil separar-se dela e, quando o fizer, os seus olhos não dormirão mais. A cantiga de amor explora o tema da dor causada pela separação, a qual se concentra totalmente nos olhos, privados da visão da amada e, por isso, do sono. A articulação do motivo da perda da visão da amada com o de um sofrimento tão grande que o leva à insônia realiza-se com especial engenho e economia pelo encavalgamento da última palavra do segundo verso com a primeira do refrão, criando uma ambiguidade sintática e semântica: partir/tolher/quitar os meus olhos e “os meus olhos non dormirán”. O poeta afirma querer ir a Bonaval, mas ao mesmo tempo deixa claro que isso lhe é penoso. Não sabemos o motivo da sua ida – a possibilidade de ir em romaria parece pouco provável, uma vez que, nas cantigas galego-portuguesas, as romarias em geral oferecem aos amantes uma ocasião para o encontro. A referência a Bonaval poderá então corresponder a uma forma de assinatura que o trovador imprime ao seu poema. A segunda composição introduz uma voz anônima que pergunta insistentemente à moça o que faz longe da vila. Ela responde que está à espera do seu amigo. A estrutura é a de uma cantiga de amigo tradicional, com paralelismo perfeito ou leixa-pren (o segundo verso da primeiraestrofe é repetido como primeiro da terceira, e assim por diante a fim de fazer progredir a composição). Aqui, embora a personagem formule cortesmente a sua pergunta, é perceptível a insinuação de que a moça deve estar esperando alguém com quem terá de se encontrar às escondidas, longe dos olhares dos conhecidos. Mas também se pode depreender da interpelação certa pressão psicológica ou acosso: talvez um homem interessado na Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce fremosinha, que abandona afinal as expressões de cortesia, recebendo a mesma resposta da moça (“vin atender meu amigo”). A repetição da perífrase verbal vin atender, no refrão, intensifica o significado da espera, como se a prolongasse; e, ao mesmo tempo, sela a intenção que tem a jovem de encontrar-se com o amigo. Por outro lado, a expressão atender meu amigo, com o mesmo valor, encontra-se também na famosa cantiga de Mendinho, Sedia-m’ eu na ermida de San Simiom, cujo refrão é: “Eu atendendo meu amigo”. A terceira cantiga é também de amigo, de estrutura tradicional, com paralelismo parcial e refrão. Nela a moça pergunta-se, em Bonaval, por onde andará o seu amigo, que é dali (ou está ali). Julga que sofre, pois não esteve com ela na sagração. Como não recebeu dele recado algum, já não poderá partir contente daquele lugar. O verso inicial introduz uma personagem anônima, talvez a própria voz do poeta, cuja função se resume em apresentar o lamento da amiga, que teria ido a Bonaval, por ocasião das festas de sagração da igreja, com o intuito de encontrar o amigo, mas sem resultado. No final da cantiga sublinha- se, ainda, o sentimento de decepção, comparando a alegria com que foi a Bonaval e o estado em que parte agora (“vin eu mais leda ca me vou”). A sagraçon mencionada poderia referir-se à consagração da Igreja de São Domingos de Bonaval, cuja data é desconhecida, embora alguns a situem em 1230. Luana Pagung Realce –“Q FERNANDO ESQUIO ue adubastes, amigo, alá en Lug’ u andastes, ou qual é essa fremosa de que vós vos namorastes?” – “Direi-vo-lo eu, senhora, pois m’ en tan ben preguntastes: o amor que eu levei de Santiago a Lugo, esse me aduss’ e esse me adugo”. – “Que adubastes, amigo, u tardastes noutro dia, ou qual é essa fremosa que vos tan ben parecia?” – “Direi-vo-lo eu, senhora, pois i tomastes perfia: o amor que eu levei de Santiago a Lugo, esse me aduss’ e esse me adugo”. – “Que adubastes, amigo, lá u avedes tardado, ou qual é essa fremosa de que sodes namorado?” – “Direi-vo-lo eu, senhora, pois me avedes preguntado: o amor que eu levei de Santiago a Lugo, esse me aduss’ e esse me adugo”. V aiamos, irmana, vaiamos dormir nas ribas do lago, u eu andar vi a las aves, meu amigo. Vaiamos, irmana, vaiamos folgar nas ribas do lago, u eu vi andar a las aves, meu amigo. Ennas ribas do lago, u eu andar vi, seu arco na mano as aves ferir, a las aves, meu amigo. Ennas ribas do lago, u eu vi andar, seu arco na mano a las aves tirar, a las aves, meu amigo. Seu arco na mano as aves ferir, e las que cantavan leixa-las guarir, a las aves, meu amigo. Seu arco na mano a las aves tirar, e las que cantavan non-nas quer matar, a las aves, meu amigo. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Trovador pertencente à linhagem dos Esquios, da pequena nobreza galega, situada em terras de Neda e ligada ao mosteiro de Sam Martinho de Júvia/Xubia, na atual comarca de Ferrol, Fernando Esquio esteve ativo provavelmente nos finais do século XIII ou inícios do XIV, momento em que um membro da mesma família, Gonçalo Esquio, teria se casado com uma dama da importante linhagem dos Travas. Levando em conta o que se pode inferir da obra que dele se conserva (duas cantigas de amor, quatro de amigo e três satíricas), deve ter vivido em Santiago de Compostela e estar relacionado à cidade de Lugo. Tem sido identificado com Fernão do Lago, a quem se atribui nos Cancioneiros uma cantiga de amigo, mas essa hipótese é ainda controversa. Na cantiga de amigo Que adubastes, amigo, alá en Lug’ u andastes, dialogam a dama e seu amigo, num tipo de composição bastante praticado por poetas galego-portugueses a partir da segunda metade do século XIII. Ali, a dama pergunta ao amigo por que ele se demorara em Lugo, levantando a suspeita de que se teria enamorado de outra mulher naquela cidade. O amigo responde, reafirmando o seu amor por ela: “o amor que eu levei de Santiago a Lugo, esse trouxe e esse trago comigo”. Segundo as normas da Arte de trovar (manual de poética que precede o Cancioneiro da Biblioteca Nacional), deve ser classificada como “de amigo”, uma vez que nela fala em primeiro lugar a mulher; porém, pela presença do vocativo “senhora” e da ênfase colocada na reafirmação da fidelidade do homem, aproxima-se da casuística da cantiga de amor. A forma “senhora”, utilizada pelo amigo, é de uso limitadíssimo na lírica galego-portuguesa, que emprega de maneira quase absoluta o termo “senhor”, tanto para o masculino como para o feminino. Já em Vaiamos, irmana, vaiamos dormir, a amiga convida a irmã para irem dormir nas margens do lago, onde ela vira andar o amigo, com o seu arco, à caça das aves. Mas àquelas que cantam, ele poupa a vida. A estrutura dessa cantiga de amigo é paralelística, isto é, tem como princípio básico a repetição de segmentos de versos, retomados mais adiante com pequenas variações. Algumas formas linguísticas são alheias ao galego-português, como vaiamos e las (do castelhano ou do leonês). No âmbito temático, introduzem-se elementos inovadores: a presença do lago como lugar aprazível (em contraposição ao mar, que, em outras cantigas, evoca risco, afastamento dos amantes ou perturbação emocional) e o motivo venatório do amigo que sai com o arco (o que o caracteriza como cavaleiro) à caça das aves. O canto dos pássaros Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce é usado convencionalmente na lírica trovadoresca para assinalar o início da primavera, que os poetas identificam como a estação do amor por excelência; ao dizer, portanto, que o amigo poupa as aves que cantam, a jovem sugere que ele esteja enamorado. C FERNÃO PAIS DE TAMALHANCOS on vossa graça, mia senhor fremosa, ca me quer’ eu ir, e venho-me vos espedir, porque mi fostes traedor, ca, avendo-mi vós desamor, u vos amei sempr’ a servir des que vos vi, e des enton, m’ ouvestes mal no coraçon. Pero, de vós, é a min peor, porque vos vej’ assi falir, que eu ben poderei guarir oimais sen vós, ca mui milhor dona ca vós ei por senhor e que non sabe assi mentir, que fará adur tal traiçon sobre seu ome, sen razon. E veeredes qual amor vos eu fazia, pois partir me vin de vós; e descobrir- -vos-ei d’ un voss’ entendedor vilão, de que vós sabor avedes e a que pedir foste-la cinta; por en non vos amarei nulha sazon. Outrossi fez estas cantigas a ũa abadessa, sa coirmãa, en que entendia. E passou por aquel moesteiro un cavaleiro e levava ũa cinta e deu-lha porque era pera ela. E por en trobou-lhi estes cantares. N on sei dona que podesse vale-la que eu amei, nen que eu tanto quisesse por senhor, das que eu sei, se a cinta non presesse, de que mi lh’ eu despaguei, e por esto a cambei. Pero mi ora dar quisesse quant’ eu dela desejei e mi aquel amor fezesse, por que ja sempr’ aguardei, cuido que lho non quisesse, tan muito me despaguei dela, poi-la cinta achei. Nen ar sei prol que m’ ouvesse seu ben; e al vos direi: se a por atal tevesse, quando m’ a ela tornei, juro que o non fezesse, ca tenho que baratei ben, pois me dela quitei. Ca muito per ei a messe con melhor senhor e sei de mi que a servirei. Q uand’ eu passei per Dormãa preguntei por mia coirmãa, a salva e paaçãa. Disseron: “Non é aqui essa, alhur buscade vós essa; mais é aqui a abadessa”. Preguntei: “Por caridade, u é d’ aqui salvidade, que sempr’ amou castidade?” Disseron: “Non é aqui essa, alhur buscade vós essa; mais é aqui a abadessa”. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernão (Fernando) Pais de Tamalhancos, um dos trovadores mais antigos, pertenceua uma linhagem galega na qual confluem estirpes de grande notoriedade pública, como os Travas e os Celanovas. Seu avô paterno foi Dom Varela Fernandes, importante personagem da corte de Fernando II (rei da Galiza e de Leão), cujo poder político se situava na área galega do Morrazo. No entanto, por uma doação régia ao pai de Dom Varela, esse grupo familiar ficou também vinculado ao antigo distrito de Búval, na margem norte do Minho entre Ourense e Ribadávia, onde se situa a povoação de Tamalhancos (município de Vila Marim). Foi nessa região que Fernão Pais exerceu diversos cargos administrativos, como membro da corte de Afonso IX, entre 1216 e 1240, tendo ocupado previamente, em 1197, o cargo de alferes desse monarca, juntamente com o pai, Paio Moniz. Encontramo-nos num território contíguo àquele em que se assentava a linhagem dos Nóvoas, à qual pertenceu Osório Eanes, trovador relacionado familiar e literariamente com Tamalhancos. Sua produção poética está constituída por quatro cantigas de amor e quatro satíricas. Em Con vossa graça, mia senhor, o trovador dirige-se cortesmente à sua senhora, mas despede-se dela por causa da sua traição: enquanto sempre a serviu e amou, ela, desde que se viram, lhe teve desamor e ódio. Ele poderá sobreviver, pois tem outra senhora melhor, que não sabe mentir e que não atraiçoará sem razão seu namorado. Depois da despedida, revelará a identidade de um amante vilão (não pertencente à nobreza) de quem ela gosta e a quem pediu a cinta (dádiva entre apaixonados). Essa cantiga de despedida, junto com as outras duas que comentaremos a seguir, faz parte do ciclo dos escárnios de amor dirigidos à abadessa do mosteiro de Dormeá, prima do trovador, que a serviu até o momento em que ela aceitou dádivas comprometedoras de um cavaleiro vilão. A rubrica que antecede a segunda cantiga, Agora oí d’ ũa dona falar, aplica-se também a todo o conjunto, esclarecendo as circunstâncias em que foi composto. Embora desconheçamos o nome da abadessa, parece que ela seria da linhagem dos Travas, fundadores do referido mosteiro, com a qual Fernão Pais tinha laços de parentesco. O texto inicia-se com o formalismo próprio da linguagem cortês, imediatamente bloqueado por uma anticonvencional vontade de afastamento da amada. O contraste entre o léxico que remete para o amor (amar, servir, sabor…) e o alusivo ao desamor (traedor, falir, mentir…) cria uma estranheza que se acentua pela disposição privilegiada, em rima, dos vocábulos descorteses e pelas antíteses, também em posição de rima, como senhor/traedor ou peor/milhor. A cantiga é composta de três estrofes de oito versos octossílabos agudos, unissonantes (com a mesma rima), com um esquema rímico único no corpus das cantigas galego-portuguesas: a b b a a b c c. Na segunda cantiga, Non sei dona que podesse, o trovador diz que, entre as senhoras que conhece, nenhuma se compararia à que tinha amado com um amor tão intenso, se ela não tivesse aceitado a cinta (ver cantiga anterior), o que lhe desagradou tanto que o fez mudar de amor. Agora tem melhor senhora, a quem servirá. Estamos, assim, perante o segundo escárnio de amor, que continua a expor o tema da traição da senhora e o subsequente desassossego do trovador, bem como motivos secundários já apresentados anteriormente: a dádiva da cinta e a superioridade moral da atual senhora. Os verbos com Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado significado apreciativo (cuidar, saber, jurar, ter que) sinalizam o progressivo autoconvencimento que o trovador pretende atingir, embora também se expresse a sua perturbação sentimental. A cantiga aparece, com ligeiras variantes, em dois lugares diferentes do Cancioneiro da Biblioteca Nacional: uma primeira vez na seção das cantigas de amor e uma segunda, entre as cantigas de escárnio e maldizer, provável indício da hesitação do compilador quanto ao gênero literário a que pertence. A estrutura estrófica constitui também uma ocorrência única no corpus da lírica galego-portuguesa: três estrofes de sete versos heptassílabos graves e agudos, mais uma fiinda de três versos, com o seguinte esquema rímico: a b a b a b b + b b b. Quand’ eu passei per Dormãa é a terceira e última cantiga do breve ciclo de escárnios de amor que Fernão Pais de Tamalhancos dirige à sua prima. Quando o trovador passou por Dormeá, perguntou por sua pura e cortês prima. Disseram-lhe que não se encontrava ali, que a procurasse noutro lugar, mas que ali estava a abadessa. O mesmo lhe responderam quando perguntou onde se encontrava a pureza daquele lugar, que sempre amara a castidade. Por fim, identifica a senhora traidora das duas cantigas anteriores com a abadessa do mosteiro de São Cristóvão de Dormeá. Como se vê, as três composições estão em nítida sequência cronológica, assumindo um tom que vai crescendo em mordacidade. O trovador estabelece com as freiras um irônico e sucinto diálogo de estrutura paralelística, em que ataca a corrupção da abadessa. O refrão articula-se como resposta em estilo direto à pergunta formulada nos versos que compõem o corpo das duas estrofes. O texto integra-se, assim, num conjunto de sátiras galego-portuguesas que, de forma mais explícita e maldizente, tem como alvo a personagem da abadessa ou freira, caracterizando-a como mulher de práticas e costumes licenciosos (ver a primeira cantiga de Afonso Eanes do Cotom, na p. 23). Por outro lado, também encontramos o mesmo tema da busca malsucedida de virtudes ou valores cristãos nas comunidades religiosas em uma cantiga de Airas Nunes (ver p. 32). Luana Pagung Sublinhado M FERNÃO RODRIGUES DE CALHEIROS adre, passou per aqui un cavaleiro e leixou-me namorad’ e con marteiro: ai, madre, os seus amores ei; se me los ei, ca mi-os busquei, outros me lhe dei; ai, madre, os seus amores ei. Madre, passou per aqui un filho d’ algo e leixou-m’ assi penada, com’ eu ando: ai, madre, os seus amores ei; se me los ei, ca mi-os busquei, outros me lhe dei; ai, madre, os seus amores ei. Madre, passou per aqui quen non passasse e leixou-m’ assi penada, mais leixasse: ai, madre, os seus amores ei; se me los ei, ca mi-os busquei, outros me lhe dei; ai, madre, os seus amores ei. Outrossi fez outra cantiga a outra dona a que davan preço con ũu peon que avia nome Vela; e diz assi: A gora oí d’ ũa dona falar, que quero ben, pero a nunca vi, por tan muito que fez por se guardar: pois molher, que nunca fora guardada, por se guardar de maa nomeada, filhou-s’ e poso vela sobre si. Ainda d’ al o fez mui melhor, que lhi devemos mais a gradecer: que nunca end’ ouve seu padre sabor nen lho mandou nunca, pois que foi nado; e, a pesar dele, seno seu grado, non quer vela de sobre si tolher. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernão (Fernando) Rodrigues de Calheiros foi um cavaleiro português da linhagem dos Calheiros, antropônimo que remete à freguesia do mesmo nome no município português de Ponte de Lima, onde se situa o paço dessa família. Era filho de Rodrigo Fernandes, personagem ligada à corte de Afonso III de Portugal. Uma escritura lavrada na cidade castelhana de Burgos, em 1195, evidencia que fez parte do séquito de Gonçalo Eanes de Nóvoa, cavaleiro galego da corte de Afonso IX (rei da Galiza e de Leão) que chegou a ser comendador da ordem militar de Calatrava e era irmão do trovador Osório Eanes (ver p. 111). É lícito pensar, portanto, que Fernão Rodrigues de Calheiros esteve relacionado a esse último trovador, ao qual pode ainda ser associado poeticamente pela proximidade, no incipit, entre as cantigas Min fez meter meu coraçon, do primeiro, e Min pres forçadamente amor, do segundo. Dom Fernão Rodrigues de Calheiros situa-se nos Cancioneiros no grupo de poetas de cronologia mais antiga, o que condiz com os dados históricos, e conta com 32 cantigas: 21 de amor, oito de amigo e três satíricas. Na cantiga de amigo Madre, passou per aqui un cavaleiro, a jovem conta à mãe que um cavaleiro tinha passado por ali e a deixara enamorada e sofrendo as dores do amor. O núcleo narrativo é reduzido ao mínimo: a passagemdo fidalgo e o efeito que ela teve sobre a moça. O elemento lírico espraia-se no refrão, no qual a jovem declara o seu amor e revela com mais detalhe o processo do duplo enamoramento, seu e do cavaleiro: “Ai, mãe, tenho o seu amor; se o tenho – pois eu o busquei –, também lhe dei o meu. Ai, mãe, tenho o seu amor”. A estrutura geral da cantiga é paralelística, isto é, tem como princípio básico a repetição de segmentos de versos, retomados mais adiante com algum tipo de variação. Assim, o primeiro verso da primeira estrofe: Madre, passou per aqui/un cavaleiro, repete-se com pequena modificação no primeiro das demais: Madre, passou per aqui/un filho d’ algo; Madre, passou per aqui/quen non passasse. O paralelismo, que caracteriza, em geral, a poesia de cunho tradicional, constrói-se, portanto, combinando igualdade e mudança, persistência e variação. O refrão mais longo, pouco usual nesses casos, dá realce ao amor recíproco entre o cavaleiro (uma alusão ao próprio trovador?) e a jovem. A rubrica que antecede a segunda cantiga, Agora oí d’ ũa dona falar, esclarece que a cantiga é uma sátira, baseada na ambiguidade criada pelo nome do peão com quem a dama mantinha relações amorosas: Vela, nome próprio, mas também comum, com o sentido de guarda, sentinela. A mulher, diz o poeta, era tão ciosa da sua virtude que resolveu pôr ela mesma guarda sobre si. E agora, mesmo contra a vontade do pai, não quer tirar o Vela de cima de si. Observe-se o equívoco criado pelo uso da preposição sobre, que adquire conotações sexuais, uma vez desvendado o segundo sentido do termo “vela”. Além do recurso à figura da aequivocatio (ambiguidade), cuja presença é determinante para o gênero das cantigas de escárnio – como o declara a Arte de trovar anteposta ao Cancioneiro da Biblioteca Nacional –, a composição faz ainda a paródia de dois motivos presentes na lírica trovadoresca: um deles é o amor “de ouvido”, isto é, a paixão que se acende no homem só por ouvir falar bem de uma mulher que nunca viu. O exemplo que se tornou lendário desse amor é o do trovador provençal Jaufre Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Rudel pela condessa de Trípoli, que nunca vira, mas de quem ouvira dizer tão bem que embarca numa viagem ao Ultramar para conhecê-la. Outro tópico parodiado é o da “guarda de amor”, papel exercido em geral pela mãe, para proteger a reputação da jovem e garantir que ela fizesse um casamento conveniente. O trovador deixa entender que a dama em questão não era bem guardada pelo pai, o que explicaria a sua liberdade em tomar como amante um peão, isto é, uma pessoa de condição social inferior. Note-se a recorrência do termo “guardar” e do seu derivado, “guardada”, na primeira estrofe. A repetição de um vocábulo em versos da mesma estrofe chamava-se, segundo a Arte de trovar, dobre; a repetição do mesmo termo com diferentes flexões (“guardar”, “guardada”) recebia o nome de mozdobre. Ambos os recursos faziam parte do leque de procedimentos retóricos valorizados pelos trovadores. Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce P JOÃO AIRAS DE SANTIAGO elo souto de Crexente ũa pastor vi andar muit’ alongada de gente, alçando voz a cantar, apertando-se na saia, quando saía la raia do sol nas ribas do Sar. E as aves que voavan, quando saía l’ alvor, todas d’ amores cantavan pelos ramos d’ arredor; mais non sei tal qu’ i ‘stevesse que en al cuidar podesse senon todo en amor. Ali ‘stivi eu mui quedo quis falar e non ousei, empero dix’ a gran medo: − “Mia senhor, falar-vos-ei un pouco, se mi ascuitardes, e ir-m’ ei quando mandardes, mais aqui non estarei”. − “Senhor, por Santa Maria, non estedes mais aqui, mais ide-vos vossa via, faredes mesura i; ca os que aqui chegaren, pois que vos aqui acharen, ben diran que mais ôuv’ i”. A por que perço o dormir e ando mui namorado vejo-a d’ aqui partir e fiqu’ eu desemparado; a mui gran prazer se vai a Crexente en sua mua baia; vestida d’ un pres de Cambrai, Deus, que ben lh’ está manto e saia! A morrer ôuvi por en tanto a vi ben talhada, que parecia mui ben en sua sela dourada; as sueiras son d’ ensai e os arções son de faia; vestida d’ un pres de Cambrai, Deus, que ben lh’ está manto e saia! Se a podess’ eu filhar terria-m’ en por ben-andante, e nos braços a levar na coma do rocin, deante, per caminho de Lampai passar Minho e Doir’ e Gaia; vestida d’ un pres de Cambrai, Deus, que ben lh’ está manto e saia! Se a podess’ alongar quatro legoas de Crexente, e nos braço-la filhar, aperta-la fortemente, non lhi valria dizer ai! nen chamar Deus nen Santa Ovaia; vestida d’ un pres de Cambrai, Deus, que ben lh’ está manto e saia! A i Justiça, mal fazedes que non queredes ora dereito filhar de Mor da Cana porque foi matar Joan Airas, ca fez mui sen razon; mais, se dereito queredes fazer, ela so el devedes a meter, ca o manda o Livro de Leon. Ca lhi queria gran ben e des i nunca lhi chamava senon senhor; e, quando lh’ el queria mui milhor, foi-o ela logo matar ali; mais, Justiça, pois tan gran torto fez, metede-a ja so ele ũa vez, ca o manda o dereito assi. E quando mais Joan Airas cuidou que ouvesse de Mor da Cana ben, foi-o ela logo matar por en, tanto que el en seu poder entrou; mais, Justiça, pois que assi é ja, metan-na so el, e padecerá a que o a mui gran torto matou. E quen-nos ambos vir jazer, dira: “Beeito seja aquel que o julgou!” SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Airas de Santiago foi trovador ativo nas últimas décadas do século XIII, do qual conservamos 81 cantigas – quantidade realmente muito significativa na lírica medieval galego-portuguesa, apenas inferior à do rei Dom Dinis. Cultivou os três grandes gêneros poéticos (cantiga de amor, de amigo e de escárnio e maldizer), assim como gêneros menores (tenção) e outros textos caracterizados ora pelo hibridismo ou assimilação de tópicos de diversa procedência, ora pela introdução de elementos originais no contexto da lírica trovadoresca. As rubricas atributivas que acompanham algumas dessas composições acrescentam ao seu nome a indicação de “burguês de Santiago”, cidade que nomeia nos seus versos, junto com a terra de Crecente, nas proximidades do rio Sar e pertencente à freguesia de Conjo/Conxo. Na verdade, o único documento que talvez se refira a ele é o de um litígio – datado de 1302 e relativo a certa propriedade – de um João Airas e a sua mulher, Maria Eanes do Souto, com o deão de Santiago de Compostela. Outras notícias podem ser extraídas de suas próprias cantigas, que fazem alusões a viagens a Castela (onde certamente frequentou a corte de Afonso x), Leão e Portugal; ou que o situam como contemporâneo de João Vasques de Talaveira, ainda ativo no tempo de Sancho IV de Castela e de quem é interlocutor numa tenção (ver p. 81). Na verdade, trata-se de um autor dificilmente identificável, porque na documentação da época são registradas abundantes referências a indivíduos com esse mesmo nome. Na primeira cantiga, o trovador diz que viu andar pelo souto de Crecente uma pastora em local afastado, entoando um cantar e apertando a saia, quando apareciam os primeiros raios de sol nas ribeiras do Sar. Ele disse-lhe que, se o escutasse, falaria um pouco e partiria quando ela mandasse. A pastora respondeu-lhe que continuasse o seu caminho e se comportasse com mesura Luana Pagung Realce (discrição e cortesia), pois os que ali os encontrassem juntos diriam que entre eles algo mais se tinha passado. A cantiga inicia-se com a referência a um alvorecer primaveril, prolongando-se, à maneira de exórdio, pelas duas primeiras estrofes, onde não faltam menções às aves que cantavam entre as ramas e aos topônimos locais do espaço compostelano. Tipologicamente pode ser classificada como cantiga de amor, tendo em conta a perspectiva e a voz masculinas. No entanto, revela a influência do gênero provençal e francês da pastorela, dada a presença da pastora e do cavaleiro que a encontra num locus amoenus. Afasta-se, porém, doseu esquema definidor, ao iniciar apenas timidamente um diálogo que não se desenvolverá: a pastora limita-se a lembrar ao cavaleiro o código cortês da mesura, pedindo-lhe que evite maliciosas suspeitas. Já em A por que perço o dormir, o trovador declara a sua aflição perante a partida da mulher que o faz perder o sono e por quem anda apaixonado. Ela parte com prazer, na sua mula baia, vestida com um pres de Cambrai (tecido fino), tão formosa sobre a sela dourada e em mula ricamente ataviada de bom tecido (o ensai) e arções de faia. Que ditoso seria se a pudesse agarrar e levá-la nos braços sobre a crina do rocim pelo caminho de Lampai, e passar o Minho, o Douro e Gaia! Se a pudesse afastar quatro léguas de Crecente e tomá-la entre os braços fortemente! De nada lhe valeria exclamar “ai!” nem chamar por Deus nem por Santa Eulália ou Ovaia. Composição singular por vários motivos, é dificilmente classificável como cantiga de amor, mas também não apresenta uma exata correspondência com o universo tradicional do gênero satírico, por causa da gradação na emoção e da tensão contida. Encontramos aí a visão de uma dama cavalgando com elegante vestuário sua mula luxuosamente adornada, o que provoca perturbadores desejos no trovador, que quereria raptá-la ou afastá-la do seu ambiente para aproveitar a solidão e forçá-la. Não temos notícia de nenhum caso concreto ao qual o autor possa fazer referência: apesar das coincidências geográficas e textuais com duas composições de Martim Soares que aludem ao rapto de Dona Elvira Eanes da Maia pelo trovador Rui Gomes de Briteiros, João Airas afasta-se cronologicamente desse episódio. Mas talvez se trate de um modelo jocoso de rapto bem-sucedido. E, ainda, a alusão específica a Vila Nova de Gaia pode rememorar a lenda do rei Dom Ramiro de Leão, a quem o rei mouro Abencadã roubou a esposa, para viver com ela no seu castelo de Gaia − assunto conhecido na época e recolhido nos Livros de linhagens. Na terceira cantiga, o trovador queixa-se porque a Justiça não quer aplicar a sentença, prescrita pelo Livro de Leão, a uma dama chamada Mor da Cana, a quem queria muito bem e que, logo que o viu em seu poder, o matou de amores sem razão. Já que a senhora cometeu tal crime, o poeta, apoiando-se na pena que o direito estabelece para homicídio, insiste em que a ponham debaixo dele como castigo. Quem vir jazer assim os dois corpos, dirá: “Abençoado seja o que tal sentença ditou!”. Cantiga satírica na qual João Airas de Santiago aproveita os velhos preceitos jurídicos para introduzir uma nota sexual e humorística. Considerando-se assassinado por Mor da Cana (Mor Airas da Cana, dama galega, talvez sobrinha do trovador Pai de Cana – ver p. 117), reclama imperiosamente que se exija responsabilidade jurídica a essa senhora e se cumpra a lei que ordenava colocar o homicida por baixo da sua vítima. No segundo verso da fiinda, o termo beeito poderia ainda ter uma significação ambígua, isto é, por um lado como adjetivo (bento) e, por outro, como nome próprio (Bento). Nesse caso, estaríamos diante de uma possível alusão à personagem de Dom Beeito, satirizada, entre outros motivos, como marido traído na obra desse trovador. Note-se, além disso, o recurso à autonominatio (autonomeação), presente também noutro texto de João Airas de Santiago. Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce C JOÃO PERES DE ABOIM avalgava noutro dia per un caminho frances e ũa pastor siia cantando con outras tres pastores e non vos pês, e direi-vos toda via o que a pastor dizia aas outras en castigo: “Nunca molher crea per amigo, pois s’ o meu foi e non falou migo”. “Pastor, non dizedes nada”, diz ũa d’ elas enton; “se se foi esta vegada, ar verrá-s’ outra sazon e dirá-vos por que non falou vosc’, ai ben talhada, e é cousa mais guisada de dizerdes, com’ eu digo: Deus, ora veess’ o meu amigo e averia gran prazer migo”. -L ourenço, soías tu guarecer como podias, per teu citolon, ou ben ou mal, non ti dig’ eu de non, e vejo-te de trobar trameter; e quero-t’ eu desto desenganar: ben tanto sabes tu que é trobar ben quanto sab’ o asno de leer. − Joan d’ Avoin, já me cometer veeron muitos por esta razon que mi dizian, se Deus mi perdon, que non sabia ‘n trobar entender; e veeron poren comig’ entençar, e figi-os eu vençudos ficar; e cuido vos deste preito vencer. − Lourenço, serias mui sabedor, se me vencesses de trobar nen d’ al, ca ben sei eu quen troba ben ou mal, que non sabe mais nen un trobador; e por aquesto te desenganei; e ves, Lourenço, onde cho direi: quita-te sempre do que teu non for. − Joan d’ Avoin, por Nostro Senhor, por que leixarei eu trobar atal que mui ben faç’, e que muito mi val? Des i ar gradece mi-o mia senhor, por que o faç’; e, pois eu tod’ est’ ei, o trobar nunca eu leixarei, poi-lo ben faç’ e ei gran sabor. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Peres de Aboim nasceu cerca de 1213 em Aboim da Nóbrega (Minho, Portugal), filho de Pedro Ourigues da Nóbrega, descendente de cavaleiros de Entre-Douro-e-Minho e camareiro do infante Dom Afonso, futuro Afonso III. Ainda novo, foi levado pelo pai para a casa do infante, com quem regulava de idade. Acompanhou-o durante a sua permanência na França (c. 1229-45), regressando com ele a Portugal quando, com o apoio do clero e de parte da nobreza, se opôs ao irmão, o rei Sancho ii. A guerra civil então desencadeada levou ao exílio e à morte do rei e à subida ao trono de Afonso iii. A fidelidade de João Peres de Aboim ao novo rei conquista-lhe cargos e benefícios. Foi conselheiro régio desde 1248, alferes menor (1250-55), mordomo da rainha Dona Beatriz (filha ilegítima de Afonso x) e mordomo-mor da cúria, de 1264 até a morte de Afonso iii, em 1279. Foi tenente de Ponte de Lima (1259) e do Alentejo (1270-84). Em 1246, casou-se com Marinha Alonso, filha de Afonso Peres de Arganil, com a qual teve dois filhos: Maria Eanes de Aboim e Pedro Eanes de Portel, futuro sogro do conde Dom Pedro (bastardo de Dom Dinis), trovador e mecenas. Morreu por volta de 1285. Originário de família da baixa nobreza, pelos seus serviços militares e pela fidelidade ao rei recebeu deste o título de “rico-homem” (o grau mais elevado da nobreza). Além de aumentar as suas propriedades na região de onde era originário, formou também um extensíssimo patrimônio no centro e no sul do país, onde fundou Vila Boim e sua igreja, a vila, igrejas e castelo de Portel e o Mosteiro de Marmelar. Seu cancioneiro contém sete cantigas de amor (seis de autoria duvidosa), onze cantigas de amigo (uma de autoria duvidosa), três tenções – das quais duas com João Soares Coelho e uma com Lourenço (ver p. 69) – e uma pastorela. Luana Pagung Sublinhado Na primeira cantiga, o trovador conta que, cavalgando por um caminho francês, encontrara uma pastora que cantava, em companhia de outras três; ela entoava uma cantiga, admoestando-as: “Nunca mulher creia em amigo, pois o meu foi-se e não falou comigo”. Uma das amigas, porém, retruca: “Pastora, se ele se foi agora, logo retornará e vos dará explicações. Então mais vos convém cantardes comigo assim: Deus, se agora viesse o meu amigo, teria grande prazer comigo”. Note-se que a própria estrutura métrica divide o poema em duas partes: oito versos heptassílabos na parte narrativa e dois versos eneassílabos no refrão lírico. Pode-se supor que os refrães pertenceriam a duas cantigas de amigo conhecidas do público e que a técnica do trovador consiste em buscar a sua integração no pequeno relato do encontro, constituindo o que se convencionou chamar uma “cantiga de cantigas”. Dentre as oito composições que podem ser consideradas “pastorelas” – esta de João Peres de Aboim, uma de João Airas de Santiago (ver p. 60), uma de Pedro Amigo de Sevilha (ver p. 135), três de Dom Dinis (ver p. 175), uma de Airas Nunes e uma de Lourenço –, somente três apresentam os elementos que em geral caracterizam esse gênero narrativo-lírico de origem provençal e francesa:o encontro entre um cavaleiro e uma pastora num local concreto e o diálogo que se segue, no qual o cavaleiro solicita o amor da pastora. As demais, mantendo embora o ponto de vista masculino do narrador que encontra ou vê a pastora (o termo pastor, invariável quanto ao gênero, é ambíguo, tanto significando “pastora” como “jovem”), destacam a figura e o canto feminino, do qual se citam alguns refrães. A moda de inserir refrães popularescos num gênero narrativo culto impôs-se na França a partir do primeiro terço do século XIII. Não é de admirar, portanto, que João Peres de Aboim, que acompanhou o infante Dom Afonso (futuro Afonso iii) na sua longa estadia na França, tenha sido o primeiro trovador a trazer a novidade ao meio galego-português. O local preciso do encontro entre o cavaleiro e a pastora só se indica em três “pastorelas” e é Santiago ou está nas suas imediações: Pedro Amigo de Sevilha, Quand’ eu un dia fui en Compostela (ver p. 135), João Airas de Santiago, Pelo souto de Crexente (ver p. 60) e esta de João Peres de Aboim, Cavalgava noutro dia/per un caminho frances, na qual se alude provavelmente ao célebre “caminho francês” (ou a uma das suas ramificações) que levava os peregrinos desde a França até Santiago de Compostela. Note-se ainda que siia (também sedia) é forma do imperfeito do indicativo do verbo “seer”, ser, estar, existir; sentar-se. A segunda cantiga é uma tenção (tençon, isto é, cantiga dialogada em que dois poetas defendem, em estrofes alternadas, posições contrárias) entre o trovador João de Aboim e o famoso jogral Lourenço, adversário habitual nesse tipo de debate poético, que põe em destaque a polêmica existente entre trovadores (compositores) e jograis (intérpretes). Os primeiros, de status social mais alto, acusam os segundos de querer usurpar um terreno que não lhes pertence nem por capacidade nem por categoria. Aqui, João de Aboim, a fim de desenganar o jogral Lourenço, que vivia mais ou menos bem do seu citolão e agora decidira compor sem saber fazê-lo, diz-lhe: “mais sabe um asno de ler do que tu de trovar”. O atacado responde que as mesmas observações já lhe tinham sido feitas por outros, mas, quando com eles competiu em tenções, venceu-os a todos. Por isso nessa contenda também terá a vitória. O primeiro, que se atribui a prerrogativa de distinguir entre quem sabe ou não compor, insiste: “Lourenço, afasta-te sempre daquilo que não é para ti!”. O jogral, porém, não compreende por que terá de deixar uma atividade que ele faz tão bem, que sua senhora agradece e que lhe dá grande prazer. Lourenço é o principal protagonista nessas contendas cujo tema é a qualidade técnica e artística do espetáculo trovadoresco e de seus agentes. De fato, sendo desafiado também por outros trovadores, responderá sempre com brio. Concretamente, ele é referido aqui como intérprete de citolão, palavra que pode designar a cítola (ou cítara), instrumento de cordas dedilhado, marcado pejorativamente pelo sufixo –ão, ou outro instrumento de maiores dimensões, caracterizado por uma forma de execução particular, provavelmente a fricção das cordas com um arco. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce P JOÃO SOARES SOMESSO unhei eu muit’ en me guardar, quant’ eu pude, de mia senhor de nunca ‘n seu poder entrar; pero forçou-mi o seu amor e seu fremoso parecer, e meteron-m’ en seu poder en que estou, a gran pavor de morte, com’ en desejar (ben-no sabe Deus) la melhor dona do mund’ e non ousar falar con ela. E maior coita nunca vi de sofrer, ca esta nunca dá lezer, mais faz cada dia peor. Ca toda via crec’ o mal a quen amor en poder ten, se non é sa senhor atal que lhe queira valer por en. Mais atal senhor eu non ei, nen atal dona nunc’ amei onde gãar podesse ren, se non gran coita, e non al. E por esto perdi o sen por tal dona que me non val. E pero non direi por quen; mais per muitas terras irei servir outra, se poderei negar esta que quero ben. ũ a donzela quig’ eu mui gran ben, meus amigos, assi Deus mi perdon! E ora ja este meu coraçon anda perdudo e fora de sen por ũa dona, se me valha Deus! que depois viron estes olhos meus, que mi-a semelha mui mais d’ outra ren. Porque a donzela nunca verei, meus amigos, enquanto eu ja viver, por esso quer’ eu mui gran ben querer a esta dona, en que vos falei, que me semelha a donzela que vi. E a dona servirei des aqui, pola donzela que eu muito amei! Porque da dona son eu sabedor, meus amigos, assi veja prazer! que a donzela en seu parecer semelha muit’, e por end’ ei sabor de a servir, pero que é meu mal. Servi-la-ei, e non servirei al, por a donzela que foi mia senhor. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Soares Somesso está presente, com essa denominação, em duas escrituras de 1223 e 1242, lavradas no antigo distrito de Toronho, espaço territorial situado no extremo sudoeste da Galiza. Esses documentos evidenciam a ligação do poeta ao mosteiro lusitano de Fiães (município de Melgaço) e à Sé galega de Tui. Foi tradicionalmente considerado um membro da linhagem portuguesa dos Valadares, partindo da menção a um “João Soares [de Valadares], que foi bom trovador” contida nos Livros de Linhagens. No entanto, as últimas propostas biográficas sobre o poeta preferem considerar que se trata de um membro da família galega dos Fornelos, provavelmente o João Soares de Fornelos que redige o seu testamento em 1257 na vila de Ribadávia. Lembremos que essa povoação, situada na atual província de Ourense, aparece muito vinculada aos Nóvoas, grupo familiar a que pertence Osório Eanes (ver p. 111), trovador cuja relação poética com João Soares Somesso é bastante clara e do qual ele poderá ter sido parente. O espólio literário de Somesso consta de 24 cantigas de amor e um escárnio pessoal. Aqui, trazemos duas cantigas de amor que se distinguem pela estrutura e pela temática. Na primeira cantiga, o trovador relata como lutara para não cair em poder da senhora; mas, forçado por seu amor e por sua formosura, está em poder dela, com pavor de morrer e de desejar a melhor mulher do mundo e não lhe ousar falar. O mal de amor só pode ser aliviado se a senhora quiser socorrer o amante; mas a sua, muito pelo contrário, não age assim. Por isso ele perdeu a razão. Não dirá quem é; mas irá por terras, servir outra, se puder negar esta a quem quer bem. Cantiga de amor “de mestria”, assim chamada por não ter refrão. Composta de quatro estrofes de sete versos, segue o esquema rimático das cobras doblas, ou seja, a cada duas estrofes mudam-se as rimas. Essa divisão em dois blocos manifesta-se também na relação entre o verso e a estrutura sintática da frase: o sentido do último verso da primeira estrofe só se completa, por “encavalgamento”, no primeiro da segunda; o mesmo ocorre entre a terceira e a quarta estrofes. Nas duas primeiras estrofes, desenvolve-se o tema do amor que se impõe como força exterior irresistível, por meio da formosura da dama, com as suas decorrências: o sofrimento que leva ao pavor da morte e de falar com a amada. Nas duas Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce últimas estrofes, reafirma-se a recusa da dama em reconhecer e retribuir o amor; introduz-se o motivo da perda da razão, como consequência do sofrimento amoroso. Nos quatro últimos versos, aflora o motivo do segredo do nome da dama e, por fim, o tema da “cantiga de mudança” (chanson de change, variação da canção provençal e francesa), isto é, a decisão de partir em busca de outro amor. Observe-se o diálogo que esse poema estabelece com a cantiga Cuidei eu de meu coraçon, de Osório Eanes (ver p. 111), vinculado familiarmente a Somesso. Nela, encontramos o mesmo tema da mudança de amor, com algumas expressões retomadas quase literalmente na cantiga aqui examinada, como: “forçou-m’ora nov’amor/e forçou-me nova senhor”; “o bon parecer dos seus”, e até mesmo o encavalgamento: “ond’estou a pavor/de morte, ou de lho mostrar”.Em ũa donzela quig’ eu mui gran ben, o trovador declara que amou muito uma donzela que nunca mais verá, enquanto viver; mas viu outra mulher que se parece muito com ela e, por isso, vai servi-la, por amor à donzela. Essa composição tem sido interpretada como uma “cantiga de mudança”, por relatar a substituição do objeto do amor por parte do homem. Nesse caso, o interesse maior reside no fato de a segunda mulher ser escolhida por se assemelhar à primeira, motivo que se encontra, por exemplo, na história de Tristão, que, embora apaixonado pela rainha Isolda, se casa com Isolda das Brancas Mãos, por ter o mesmo nome que a primeira e parecer-se com ela; reaparece ainda em uma cantiga de Estêvão Fernandes d’Elvas (primeira metade do século XIV). No entanto, também se tem entendido que a “donzela” e a “dona” sejam a mesma mulher, em dois momentos da sua vida: o primeiro enquanto “donzela”, isto é, moça solteira e virgem, e o segundo depois de casada, isto é, “dona”. Nesse caso, estaríamos diante de um “escárnio de amor”. É possível que a oposição “donzela”/“dona” tivesse um sentido evidente para o seu público, que se perdeu para nós. De qualquer forma, deve-se observar a ênfase procurada pela repetição dos dois termos ao longo do poema. Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Riscado cantiga D JOÃO VASQUES DE TALAVEIRA irei-vos ora que oí dizer de Maria Leve, assi aja ben, pola manceba, que se desaven dela; e, pois lh’ ali non quer viver, ena Moeda Velha vai morar Dona Maria Leve, a seu pesar; Ca atal dona com’ ela guarir non pod’ ali, se manceba non á; e vedes que oí, amigos, ja: que, pois que se lh’ a manceba quer ir, ena Moeda Velha vai morar Dona Maria Leve, a seu pesar; Ca diz que morará ali mal e alhur, poi-la manceba sigo non ouver, e contra San Martinho morar quer; pola manceba que xi lh’ ora vai, ena Moeda Velha vai morar Dona Maria Leve, a seu pesar; Ca non pod’ a manceba escusar, s’ ena Moeda Velha non morar. - J oan Airas, ora vej’ eu que á Deus mui gran sabor de vos destroir, pois que vós tal cousa fostes comedir, que, de quantas molheres no mund’ á, de todas vós gran mal fostes dizer, cativ’, e non soubestes entender o mui gran mal que vos sempr’ en verrá. − Joan Vaasquiz, sempr’ eu direi ja de molheres moito mal, u as vir; ca, porque eu foi end’ ũa servir, sempre mi gran mal quis e querrá ja, por gran ben que lh’ eu sabia querer; casou-s’ ora, por mi pesar fazer, con quena nunca amou nen amará. − Joan Airas, non tenh’ eu por razon d’ as molheres todas caeren mal por end’ ũa soo que a vós fal, ca Deu-lo sabe que é sen razon; por end’ a vós ũa tolher o sen e dizerdes das outras mal por en, errades vós, assi Deus mi pardon. − Joan Vaasquiz, todas taes son que, pois viren que non amades al senon elas, logo vos faran tal qual fez a min ũa; e todas son aleivosas; e quen lhis d’ esto ben disser, atal prazer veja da ren que mais amar no seu coraçon. − Joan Airas, vós perdestes o sen, ca enas molheres sempr’ ouvo ben e averá ja, mais pera vós non. − Joan Vaasquiz, non dizedes ren, ca todos se queixan d´elas por en, senon vós, que filhastes por en don. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Trovador de origem castelhana (oriundo de Talavera de la Reina, próximo de Toledo, tal como cabe julgar a partir do seu apelido), João Vasques de Talaveira esteve ativo na segunda metade do século XIII. Pode, segundo parece, ser identificado com João Vasques, várias vezes considerado de forma errônea outro poeta, dada a falta de referências históricas a um trovador com esse mesmo nome, mas sem o topônimo, na transcrição das cantigas de amor e de escárnio e maldizer a ele atribuídas nos manuscritos. Um documento, atestando o pagamento recebido por fazer parte do grupo de infanções que acompanharam Sancho IV de Castela na sua viagem a Baiona em 1286, comprova a presença do trovador na corte castelhana naquele ano. Suas cantigas, em particular as tenções com Pedro Amigo de Sevilha (ver p. 60), João Airas (ver p. 135) e Lourenço, confirmam, não obstante, que já tinha participado bem antes do círculo trovadoresco de Afonso X (pai de Sancho IV, rei de 1252 a 1284). As relações com autores galegos podem ser justificadas por sua presença, concomitante à de trovadores daquela proveniência, na corte de Castela, e o mesmo contexto nos permite compreender o conhecimento de Santiago de Compostela que demonstra nos seus versos. Cabe supor que viria com o rei Sancho IV, precisamente, na peregrinação que este fez à cidade em 1286. Dele conservamos um total de vinte textos de diversos gêneros: quatro cantigas de amor, oito cantigas de amigo, cinco de escárnio e três tenções. Na primeira cantiga, Direi-vos ora que oí dizer, o poeta manifesta a sua admiração perante o que ouviu dizer da soldadeira Maria Leve: a sua criada desentendeu-se com ela e já não quer viver ao seu lado; por isso irá morar, embora contra a vontade, na rua da Moeda Velha. Em qualquer parte estará mal sem a criada, sendo essa rua o único lugar onde poderá dispensar a sua presença. É, assim, uma sátira dirigida contra a soldadeira (mulher que frequentava as cortes e acompanhava os exércitos, provavelmente exercendo as funções de cantora e bailarina, mas também de prostituta) Maria Leve. Entre outras ambiguidades, a cantiga joga com o equívoco da alcunha “Leve”, aludindo ao exercício da prostituição que a mulher praticaria. Esse dado seria certamente conhecido do público que ouvisse a composição, contextualizada em Santiago de Compostela por meio da menção à rua da Moeda Velha e ao mosteiro, vizinho, de São Martinho Pinário. O nome da rua, relativo a uma fábrica de cunhagem de moeda que existiu na Idade Média, conserva-se até hoje e constitui um caso excepcional de referência explícita a uma via urbana, não só no corpus das nossas cantigas satíricas, mas em toda a lírica galego-portuguesa e, possivelmente, nas demais produções trovadorescas medievais. Tenha-se em conta que, quase ao lado da rua da Moeda Velha, está a fachada norte da catedral, localizada na praça do Paraíso (atual praça da Imaculada), ponto final do itinerário dos peregrinos a Santiago de Compostela. Trata-se, portanto, de um espaço nevrálgico por seu cosmopolitismo, com grande afluência de pessoas, negócios de compra e venda de objetos e todo tipo de operações mercantis para quem tivesse algo a oferecer ao público, como seria o caso de Maria Leve. Por outro lado, a ênfase colocada na dependência da protagonista da cantiga em relação à criada talvez queira apontar para algo além do âmbito profissional, deixando entrever uma atração ou relação lésbica. De fato, numa breve (ou incompleta) composição de João Vasques de Talaveira em que se fala do “amor” entre Maria e Sancha Peres, que torna fracassadas as pretensões do trovador, o termo leve já aparece no primeiro verso. E, ainda, torna-se fácil a associação semântica entre a expressão “moeda velha” e a identificação da pessoa satirizada como uma soldadeira de idade já avançada. Na segunda cantiga, João Vasques de Talaveira interpela João Airas de Santiago: este teria criticado as mulheres porque uma o tratara mal, casando-se com um homem que não a amava nem a amará. João Vasques contesta, afirmando que nem todas as mulheres são iguais. O outro insiste, no entanto, em dizer que todas têm uma natureza desleal e conclui que, se o opositor as defende, é só porque recebeu algo em troca. Trata-se, como vimos, de uma tenção (tençon), isto é, uma cantiga dialogada em que dois poetas defendem, em estrofes alternadas, posições contrárias. João Airas argumenta que uma mulher, ao perceber que o homem a ama mais do que a qualquer outra, recusará o seu amor, tal como lhe aconteceu. Na verdade, embora pareça ser esse o móvel do debate aqui iniciado por João Vasques de Talaveira, não conhecemos nenhuma composição da autoria de João Airas de Santiago (ver p. 60) em que se diga mal das mulheres ou se generalize a partir da própria experiência. A tenção, completamente ortodoxa do ponto de vistaformal, estabelece-se a partir de um tema inédito nos Cancioneiros galego-portugueses: a misoginia, defendida por João Airas, e refutada, quase como blasfema, por João Vasques de Talaveira. O motivo, que estará, contudo, muito em voga na literatura da Península Ibérica nos séculos XIV e XV, tem já precedentes nos provençais Bernart de Ventadorn ou Cerveri de Girona, embora conviva na obra de ambos os poetas com a expressão da mais alta admiração pela mulher, conforme determina o código do amor cortês. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce F JUIÃO BOLSEIRO ez ũa cantiga d’ amor ora meu amigo por mi, que nunca melhor feita vi, mais, com x’ é mui trobador, fez ũas lirias no son que mi sacan o coraçon. Muito ben se soube buscar, por mi ali quando a fez, en loar-mi muit’ e meu prez, mais de pran, por xe mi matar, fez ũas lirias no son que mi sacan o coraçon. Per bõa fe, ben baratou de a por mi bõa fazer e muito lho sei gradecer, mais vedes de que me matou: fez ũas lirias no son que mi sacan o coraçon. D a noite d’ eire poderan fazer grandes tres noites, segundo meu sen, mais na d’ oje mi vẽo muito ben, ca vẽo meu amigo, e, ante que lh’ enviasse dizer ren, vẽo a luz e foi logo comigo. E, pois m’ eu eire senlheira deitei, a noite foi e vẽo e durou, mais a d’ oje pouco a semelhou, ca vẽo meu amigo, e, tanto que mi a falar começou, vẽo a luz e foi logo comigo. E comecei eu eire de cuidar e começou a noite de crecer, mai-la d’ oje non quis assi fazer, ca vẽo meu amigo, e, faland’ eu con el a gran prazer, vẽo a luz e foi logo comigo. – J oan Soares, de pran as melhores terras andastes, que eu nunca vi: d’ averdes donas por entendedores mui fremosas, quaes sei que á i, fora razon; mais u fostes achar d’ irdes por entendedores filhar sempre quand’ amas, quando tecedores? − Juião, outros mais sabedores quiseron já esto saber de min, e en todo trobar mais trobadores que tu non es; mais direi-t’ o que vi: vi boas donas tecer e lavrar cordas e cintas, e vi-lhes criar, per bõa fe, mui fremosas pastores. − Joan Soares, nunca vi chamada molher ama, nas terras u andei, se por emparament’ ou por soldada non criou mês, e mais vos en direi: enas terras u eu soía viver, nunca mui bõa dona vi tecer, mais vi tecer algũa lazerada. − Juião, por est’ outra vegada con outro tal trobador entencei; fiz-lhe dizer que non dezia nada, com’ or’ a ti desta tençon farei; vi bõas donas lavrar e tecer cordas e cintas, e vi-lhes teer mui fremosas pastores na pousada. − Joan Soares, u soía viver, non tecen donas, nen ar vi teer berç’ ant’ o fog’ a dona muit’ onrada. − Juião, tu deves entender que o mal vilan non pode saber de fazenda de bõa dona nada. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Nos Cancioneiros conservam-se dezoito cantigas de Juião Bolseiro: uma de amor, quinze de amigo e duas tenções, uma com Mem Rodrigues Tenoiro e outra com João Soares Coelho (incluída nesta coletânea). Sobressai a originalidade desse autor no gênero de amigo com a presença de argumentos inéditos e pouco convencionais, mas de grande realismo. Quanto à biografia do poeta, as tenções mencionadas levam a situar, de modo impreciso, sua atividade literária em meados do século XIII. Na verdade, num documento de 1240 relativo à compra-venda de uma casa na rua compostelana do Preguntoiro, encontramos o único registro conhecido com relação ao trovador. Tal escritura mostra que o seu nome real foi Juião Airas Bolseiro (Iulianus Arie Bulsarius) e dela podemos deduzir que era cidadão de Compostela. É possível que o sobrenome com Luana Pagung Realce que o conhecemos tenha estado ligado à custódia das bursas (bolsas) onde se guardavam, entre outros emolumentos, as doações monetárias efetuadas pelos fiéis. Isso permite suspeitar que fosse um membro da Sé de Santiago. Em Fez ũa cantiga d’ amor, a jovem alude às habilidades literárias e musicais do namorado, elogiando uma cantiga de amor que fizera para ela. Como é excelente trovador, saiu-se muito bem no louvor da amada e do seu mérito, mas os floreados que fez na música é que lhe arrebatam o coração. Fica muito clara, nessa composição, a autoria masculina, no caso, do próprio trovador, que utiliza a voz da moça e o gênero da cantiga de amigo para elogiar hiperbolicamente as suas habilidades poéticas e musicais, capazes de despertar forte admiração. O refrão (“fez ũas lirias no son/que mi sacan o coraçon”) alerta o leitor contemporâneo para a importância do “som”, isto é, da música (melodia e acompanhamento) na composição das cantigas. O termo lirias foi já interpretado, embora de forma hipotética, como derivado do grego lira, designando uma espécie de instrumento de corda friccionada e equivalendo, assim, a arpejos, golpes de arco, ou, numa execução vocal, a “trinados”. No contexto da cantiga, pode entender-se como uma articulação ornamental da melodia, que procuramos representar pelo termo “floreados”. Na segunda cantiga, a jovem compara a noite de ontem, que passou sozinha, à de hoje, na companhia do amigo: da de ontem poderiam fazer-se três longas noites, enquanto a de hoje mal começou e já nasceu o dia. Embora o motivo da insônia provocada pelo amor seja comum na lírica amorosa, Juião Bolseiro é o único a desenvolver o tema da noite em três cantigas de amigo. Não é usual na lírica galego-portuguesa, contudo, a jovem revelar os detalhes da intimidade amorosa com o amigo, como ela o faz nessa cantiga, celebrando a alegria do amor compartilhado e consumado. A trilogia lembra, por isso, até certo ponto, o ambiente presente na “alba”, gênero poético francês no qual os amantes, que passaram a noite juntos, são acordados pela sentinela que anuncia o dia e se despedem, amaldiçoando a brevidade da noite. As estrofes são compostas de quatro versos decassílabos mais dois de refrão, o primeiro dos quais, de seis sílabas, é intercalado entre o terceiro e o quinto da estrofe, estabelecendo uma quebra no ritmo e no sentido do poema: os dois primeiros versos são dedicados à alongada duração da noite, na ausência do amigo, enquanto nos dois últimos, em consequência da chegada dele (o primeiro verso do refrão), o tempo se acelera. Por fim, na terceira cantiga, uma tenção, Juião reprova a João Soares o fato de, sendo um homem viajado e conhecedor de mulheres nobres, ter tomado como namoradas amas ou tecedeiras. João Soares contesta que já respondeu a outros trovadores a mesma questão: já viu mulheres nobres tecerem e lavrarem cordões e cintos, e também as viu criar formosas jovens. Juião retruca, dizendo que, nas terras onde viveu, só se chama “ama” à mulher que ganhou salário ou teve privilégio por um mês nessa função; e que nunca viu mulher nobre tecer, mas só as miseráveis. Finalmente, João Soares conclui que não compete a um vilão (não nobre) como o seu opositor se manifestar sobre o que fazem as mulheres nobres. Essa tenção pertence ao ciclo conhecido como “o processo da ama”, iniciado pelo nobre português João Soares Coelho ao dedicar uma cantiga de amor a uma “ama”: “Atal vej’ eu aqui ama chamada/que de-lo dia en que eu naci,/nunca tan desguisada cousa vi,/se por ũa d’ estas cousas non é:/por aver nom’ assi, per bõa fe,/ou se lho dizen porque é amada”. Vários trovadores, entre os quais Juião Bolseiro, compuseram réplicas a essa cantiga que parecia infringir a regra básica da cantiga de amor, isto é, só poder ser dirigida a uma mulher nobre. O ciclo atesta a vivacidade do diálogo entre os trovadores que frequentavam as mesmas cortes. A datação das cantigas que o compõem, bem como a identidade da “ama” cantada por João Soares têm levantado muitas hipóteses. A mais recente propõe que a polêmica teria tido lugar na corte de Castela, entre 1242 e 1243, e que a mulher a quem se dirige o trovador seria Urraca Guterres Mocha, senhora nobre ligada por parentesco à família de Fernando de Serpa, infante português a cujo serviço estava João Soares Coelho. Este ter-se-ia valido da falsa etimologia entre o termo latino amma (mocho) e os vocábulosama (ama de leite, dona de casa) e ama, do verbo amar, para compor uma cantiga de amor a uma ama (isto é, Mocha). Os trovadores podem ter percebido o equívoco criado por João Soares (“por aver nom’ assi”), mas aproveitaram o ensejo para levantar uma discussão em torno das questões sociais envolvidas pela prática poética em moda nos círculos cortesãos. É o caso dessa cantiga, em que Juião Bolseiro toma o vocábulo “ama” no sentido de uma categoria social desprestigiada: mulher não nobre que amamenta crianças por salário ou por algum privilégio. Chama a atenção a maneira como João Soares encerra o debate, recorrendo à autoridade que lhe confere a sua própria condição: ele, um fidalgo, sabe das mulheres nobres o que Bolseiro, um vilão, não pode saber. Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce O MARTIM MOXA gran prazer e gran viç’ en cuidar que sempr’ ôuvi no ben de mia senhor, mi a fazen ja tan muito desejar, que moir’ e non perco coitas d’ amor; pero aven que algũa sazon arç’ e mi afog’ e moiro por que non senç’ u me dol nen sei en que travar. E por esto non leixei pois d’ amar e servir ben e faze-lo milhor, ca sempr’ amor per ben se quer levar, e o pequeno e o grande e o maior, quaes el quer, eno seu poder son: pois assi é, semelha-mi razon de a servir e seu ben aguardar. Ai, Deus, tal ben quen-no podess’ aver de tal senhor qual min en poder ten! Pero que tom’ en cuidar i prazer, cuidar me tolh’ o dormir e o sen, ca non poss’ end’ o coraçon partir, ca mi a faz sempr’ ant’ os meus olhos ir cada u vou, e, u a vi, veer. Mais tanto sei, se podesse seer: se viss’ ela o meu coraçon tan ben com’ el ela, dever-s’ ia doer d’ el e de min, poi-lo viss’; e por en am’ eu e trob’, e punh’ en-na servir: que entenda, pois meu cantar oir, o que non posso nen lh’ ouso a dizer. E non dev’ omen seu cor encobrir a quen sabe que o pode guarir; demais u lh’ outro non pode valer. P er quant’ eu vejo perço-m’ e desejo, ei coita e pesar; se and’ ou sejo o cor m’est antejo que me faz cuidar; ca, pois franqueza, proeza, venceu escasseza, non sei que pensar. Vej’ avoleza, maleza, per sa soteleza o mundo tornar. Ja de verdade nen de lealdade non ouço falar, ca falsidade, mentira e maldade non lhis dá logar; estas son nadas e criadas e aventuradas e queren reinar; as nossas fadas, iradas, foron chegadas por esto fadar. Louvamĩares e prazenteares an prez e poder; e nos logares u nobres falares soian dizer vej’ alongados, deitados do mund’, eixerdados, e van-se perder; vej’ achegados, loados, de muitos amados os de mal-dizer. Pela crerizia, per que se soia todo ben reger, paz, cortesia, solaz, que avia fremoso poder quand’ alegria vevia no mund’ e fazia muit’ a ‘lguen prazer, foi-se sa via, e dizia: “Cada dia ei de falecer!” Dar, que valia, compria seu tempo, fogia por s’ ir asconder! SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS As composições de Martim Moxa fazem parte, nos Cancioneiros, de uma compilação de poetas clérigos, quase na totalidade compostelanos, o que nos permite identificá-lo com Martim Eanes Moxe, cônego-arcediago da Sé de Santiago, documentado em 1281. As fontes diplomáticas demonstram que teve propriedades em Lestrove (município de Dodro) e que morou na rua da Rainha, perto da catedral. Terá sido filho de João Martins Moxe e irmão de Pedro Eanes Moxe, este também cônego compostelano. O fato de ocupar o penúltimo lugar no Cancioneiro da Ajuda, antes de Rui Fernandes de Santiago, indica que a sua cronologia se coaduna com a das personagens mencionadas, isto é, entre o último quartel do século XIII e os primeiros decênios do século XIV. Por outro lado, o caráter moralizante de parte significativa da sua obra e as muitas citações bíblicas evidenciam a cultura clerical do autor. Sua condição profissional reflete-se também num grupo de cantigas inseríveis na tipologia do sirventês moral cujo tema central é a exaltação da clerezia. Os Cancioneiros transmitiram um total de vinte poemas seus (um deles, de autoria duvidosa), entre cantigas de amor e cantigas satíricas. A primeira cantiga é uma cantiga de amor de mestria (sem refrão), com cobras doblas (a cada duas estrofes mudam-se as rimas) e uma fiinda, isto é, uma estrofe adicional (nesse caso, com três versos), que retoma a rima dos últimos versos da última estrofe e serve de remate ao argumento que vinha sendo desenvolvido na composição. Nela, o trovador expõe os contraditórios efeitos do amor sobre si: apesar do prazer que tem em pensar na sua senhora, ao mesmo tempo vêm-lhe sensações discordantes, como arder e afogar-se e não saber onde lhe dói nem em que se apoiar. Não pode afastar dela o coração, pois traz dentro dele a sua imagem e por isso a vê, aonde quer que vá. O tema do amor, assim, é tratado com certa originalidade: em primeiro lugar, o trovador refere o prazer que lhe causa pensar na dama; em seguida, a sintomatologia amorosa é descrita nos seus efeitos físicos concretos e conflitantes, que o fazem arder, mas também se afogar e se sentir perdido; ao mesmo tempo, o amor é personificado, enquanto força externa à qual ninguém, desde o pequeno até ao mais importante, pode escapar. Na terceira e na quarta estrofe, desenvolve-se um tema que foi caro à lírica provençal e francesa, mas que tem raízes clássicas (grega e latina) e cristãs: trata-se do coração como centro não só fisiológico, mas também emocional e cognitivo, de importância fundamental na origem e na continuação do amor. A imagem da amada, primeiro percebida pelos olhos, imprime- se no coração do amador. O amor é concebido como uma busca obsessiva em torno de uma imagem pintada ou refletida no mais íntimo do homem. Além disso, o coração também adquire materialidade, torna-se algo que pode ser visto: não só o poeta vê a dama como imagem que se projeta para fora de si, diante dos seus olhos, mas ela mesma deveria ser capaz de ver o coração dele e, comprovando a sua própria presença naquele órgão vital, apiedar-se do trovador. Resta ainda observar, para bom entendimento, que arço e senço são formas da primeira pessoa do presente do indicativo dos verbos arder e sentir. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Já em Per quant’ eu vejo, o trovador faz uma crítica do tempo presente: as qualidades prezadas no tempo passado estão agora ausentes e foram substituídas pelo seu oposto. A generosidade (virtude cortês por excelência) foi vencida pela avareza; a vilania virou o mundo do avesso; a verdade e a lealdade desapareceram, dando lugar à falsidade, à mentira e à maldade; louvores vãos e bajulações estão no poder; os falares nobres foram abandonados e são muito apreciados os de maldizer. A cultura, que regia todo o bem: paz, cortesia, prazer, e que tinha formoso poder quando a alegria vivia no mundo, foi-se embora, dizendo: “Cada dia morro um pouco mais”. A liberalidade, que valia, cumpriu o seu tempo e fugiu para se esconder. Dessa maneira, o trovador elabora uma sátira moral, inspirada em sirventeses provençais (gênero poético usado para fazer crítica política e moral). Pela forma métrica irregular, de versos curtos, variando entre dois, três, quatro e cinco sílabas, tem sido considerado um “descordo” (ver Nuno Eanes Cêrzeo, p. 101), embora exista regularidade nas estrofes e na própria distribuição métrica. O tema da decadência dos costumes era bastante comum na literatura medieval, em que frequentemente se representou o “mundo às avessas”, correspondendo ao que na literatura clássica se denominava adinata ou impossibilia (coisas impossíveis que, entretanto, acontecem). Esse motivo é referido por Martim Moxa nos versos 11 a 14: “Vejo a vilania, a malícia, por sua sutileza, revirar o mundo”. Mas, em vez de dar exemplos concretos (por exemplo, o cego guia de cegos, que os precipita no abismo), o trovador vale-se da abstração, da alegoria e da antítese, fazendo desfilar as virtudesdo tempo passado e os vícios do presente: a falsidade, a mentira e a maldade nasceram, estão criadas, prósperas e querem reinar. Os falares nobres foram expulsos dos lugares onde eram apreciados; em vez deles, são aclamados os de maldizer. A clerezia tem aqui um significado especial: em sentido amplo, equivale ao clero como principal detentor da cultura. Mas também inclui o que se convencionou chamar “o clérigo cortês”, isto é, o homem da igreja que circulava pelas cortes e adotava os valores da cortesia, inclusive no que dizia respeito ao código da fin’amors ou amor cortês. Vale observar aqui, quanto ao léxico, que sejo é a forma do presente do indicativo de seer (< sedere). Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce A NUNO EANES CÊRZEO gora me quer’ eu ja espedir da terra, e das gentes que i son, u mi Deus tanto de pesar mostrou, e esforçar mui ben meu coraçon, e ar pensar de m’ ir alhur guarir. E a Deus gradesco porque m’ en vou. Ca a meu grad’, u m’ eu d’ aqui partir, con seus desejos non me veeran chorar, nen ir triste, por ben que eu nunca presesse; nen me poderán dizer que eu torto faç’ en fogir d’ aqui u me Deus tanto pesar deu. Pero das terras averei soidade de que m’ agora ei a partir despagado; e sempr’ i tornará o meu cuidado por quanto ben vi eu en elas ja; ca ja por al nunca me veerá nulh’ ome ir triste nen desconortado. E ben dig’ a Deus, pois que m’ en vou, verdade, se eu das gentes algun sabor avia, ou das terras en que eu guarecia, por aquest’ era tod’, e non por al; mais ora ja nunca me será mal por me partir d’ elas e m’ ir mia via. Ca sei de mi quanto sofri e encobri en esta terra de pesar. Como perdi e despendi, vivend’ aqui meus dias, posso-m’ en queixar. E cuidarei e pensarei quant’ aguardei o ben que nunca pud’ achar. E forçar-m’ ei e prenderei como guarrei conselh’ agor’, a meu cuidar. Pesar d’ achar logar provar quer’ eu veer se poderei. O sen d’ alguen, ou ren de ben me valha, se o en mi ei! Valer poder saber dizer ben me possa, que eu d’ ir ei. D’ aver poder prazer prender poss’ eu, pois esto cobrarei. Assi querrei buscar viver outra vida que provarei e meu descord’ acabarei. SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Nuno Eanes Cêrzeo foi um cavaleiro galego pertencente a uma linhagem que adotou o nome de uma povoação − hoje Cêrcio − situada no atual município de Lalim, no interior da Galiza. Trata-se de uma área relativamente próxima daquela de onde procede a estirpe dos Taveirôs, da qual dois representantes – os irmãos Pero e Pai Soares – aparecem nos Cancioneiros logo a seguir a Dom Nuno. Contamos com três referências documentais sobre o poeta em questão, entre 1268 e 1270, altura em que já falecera. Por esses escritos, sabemos que foi irmão de Urraca e Pedro Eanes e pai de Afonso e Gonçalo Nunes. Pode-se deduzir, portanto, que o percurso biográfico do poeta ocupou a primeira metade do século XIII e que faleceu por volta de 1265. Por outro lado, a presença dos filhos na cidade de Sevilha permite suspeitar que Nuno Eanes teria participado na reconquista da Andaluzia ocidental, levada a cabo pelos reis Dom Fernando III e Dom Afonso X. Nuno Eanes Cêrzeo foi o criador da belíssima composição Agora me quer’ eu ja espedir, que apresentamos aqui. A cantiga é o único descordo classificado como tal na tradição galego-portuguesa. Além desse texto, os Cancioneiros transmitiram dez cantigas de amor da sua autoria. O poeta declara que deseja despedir-se agora daquela terra e das pessoas que ali estão, pelo muito que nela sofreu, e ir buscar fora um lugar onde esteja bem. Mas sentirá saudade do bem que ali viu; se teve algum prazer com as pessoas e nas terras de que agora se despede infeliz, foi só por causa dele. Tem, porém, de ir, pois sabe o quanto sofreu e como perdeu os dias vivendo ali. Irá esforçar-se para encontrar uma forma de se curar e ver se pode achar um lugar novo para si. Como o próprio trovador declara no último verso, é um descordo ou descort, gênero provençal caracterizado principalmente pela irregularidade estrófica e métrica (e melódica), mas também pelo conteúdo, uma vez que nele o poeta manifesta um estado de desacordo interno por meio da discordância das formas. Trata-se de um tipo de poesia culta, que revela a familiaridade do trovador com a poesia occitânica. Essa cantiga é a única, na lírica galego-portuguesa, que se autodenomina um descordo e é a primeira a trazer o gênero para o âmbito peninsular. O tema da partida da terra onde o poeta já vira algum bem (talvez o amor da dama), mas onde também sofrera muito, presta-se especialmente à expressão de estados emocionais contrastantes, como, por um lado, a tristeza causada pelo sofrimento intenso que o leva a abandonar a terra e, por outro, a saudade dos momentos felizes que ali vivera. A agitação que nele provoca a partida, bem como a preocupação com o que encontrará nesse outro lugar para onde se dirige, revelam-se igualmente na quebra da isometria das estrofes e dos metros requerida na cantiga de amor. Ao terminar o poema com a declaração: “e meu descord’ acabarei”, o trovador reinstaura a ambiguidade do termo descordo, que aqui significa não apenas a forma poética, mas também a sua “discórdia” íntima. Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce L NUNO FERNANDES TORNEOL evad’, amigo, que dormides as manhanas frias; toda-las aves do mundo d’ amor dizian. Leda mi and’ eu. Levad’, amigo, que dormide-las frias manhanas; toda-las aves do mundo d’ amor cantavan. Leda mi and’ eu. Toda-las aves do mundo d’ amor dizian; do meu amor e do voss’ en ment’ avian. Leda mi and’ eu. Toda-las aves do mundo d’ amor cantavan; do meu amor e do voss’ i enmentavan. Leda mi and’ eu. Do meu amor e do voss’ en ment’ avian; vós lhis tolhestes os ramos en que siian. Leda mi and’ eu. Do meu amor e do voss’ i enmentavan; vós lhis tolhestes os ramos en que pousavan. Leda mi and’ eu. Vós lhis tolhestes os ramos en que siian e lhis secastes as fontes en que bevian. Leda mi and’ eu. Vós lhis tolhestes os ramos en que pousavan e lhis secastes as fontes u se banhavan. Leda mi and’ eu. V i eu, mia madr’, andar as barcas eno mar, e moiro-me d’ amor. Foi eu, madre, veer as barcas eno ler, e moiro-me d’ amor. As barcas eno mar e foi-las aguardar, e moiro-me d’ amor. As barcas eno ler e foi-las atender, e moiro-me d’ amor. E foi-las aguardar e non o pud’ achar, e moiro-me d’ amor. E foi-las atender e non o pud’ i veer, e moiro-me d’ amor. E non o achei i o que por meu mal vi, e moiro-me d’amor. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Nuno Fernandes Torneol é justamente afamado pela cantiga Levad’, amigo, que dormides as manhanas frias. Até há pouco tempo, porém, nada se sabia sobre a identidade histórica desse poeta, cujo nome chegou a ser considerado uma leitura errada do termo italiano tornello (refrão). A existência de propriedades de um irmão do poeta, João Fernandes Torneol, na cidade de Córdova, em 1244, veio evidenciar a realidade do sobrenome e sugerir que, junto com o parente, tenha participado na reconquista da cidade andaluza em 1236. Por outro lado, a documentação demonstrou que Torneol foi a denominação de uma linhagem sediada em Santiago de Compostela e/ou nas redondezas da capital galega. A posição que ocupa nos Cancioneiros leva a situar a sua atividade poética no segundo terço do século XIII. Conhecemos 22 cantigas desse poeta: treze de amor, oito de amigo e uma satírica. Na primeira cantiga que aqui está, a moça acorda o amigo que dorme nas frias manhãs; todas as aves do mundo falavam e cantavam de amor. Diz-lhe: “vós lhes arrancastes os ramos das árvores em que pousavam e secastes as fontes onde se banhavam”. Ela está alegre. Nessa cantiga de amigo, paralelística com refrão, o andamento compreende duas partes. Na primeira, constituída pelas quatro estrofes iniciais, a expressão hiperbólica “toda-las aves do mundo” e a personificação das avesanunciadoras “do meu amor e do vosso” (não só cantavam, mas diziam e tinham em mente) condizem com a alegria manifestada no refrão: “leda mi and’ eu”. Na segunda, formada pelas quatro últimas estrofes, introduzem-se dois elementos perturbadores nesse ambiente de plenitude: o amigo corta os ramos em que pousavam as aves e seca as fontes onde bebiam. Nesse caso, o refrão destoa do clima melancólico que essas ações parecem sugerir. Por causa desses aspectos, a interpretação da cantiga é polêmica. Tem sido considerada, em geral, um canto de insatisfação, a partir da oposição entre um passado marcado pela felicidade amorosa e um presente nostálgico em que se evoca a harmonia quebrada pelo amante. Por outro lado, os ramos cortados e as fontes secas foram também entendidos, ao contrário, como alusões a antigos rituais eróticos, significando que o desejo foi efetivamente consumado e que a moça apela ao amigo para participar da sua alegria. A composição aproxima-se do gênero poético francês da “alba”, embora apenas pela contextualização dos amantes no amanhecer − presumivelmente após terem passado a noite juntos. Na verdade, não se encontram nessa cantiga as características essenciais desse gênero, ao não aparecerem os elementos que anunciam a chegada do dia e a pesarosa despedida dos amantes. Observe-se que siian (ou sedian) é forma do imperfeito do indicativo do verbo seer (< sedere). Na segunda cantiga (Vi eu, mia madr’, andar), a moça conta à mãe que foi esperar as barcas no mar. Mas não encontrou nelas o amigo pelo qual morre de amor. É uma cantiga paralelística com refrão, talvez incompleta, considerando que contém sete estrofes, quando a estrutura normal paralelística comporta número par de estrofes. Pelo tema, inclui-se no conjunto das denominadas “barcarolas” ou “marinhas”, uma variedade das cantigas de amigo, em que o mar ou o rio constituem motivo importante, por serem a causa da separação ou o meio para o reencontro dos amantes. Nesse caso, deduz-se que o amigo embarcou para o serviço militar e não regressou nas barcas, tal como a jovem esperava e desejava. Nesse grupo, distinguem-se especialmente as barcarolas do trovador português João Zorro (ver p. 191), que desenvolveu as potencialidades desse tipo de cantigas, chegando mesmo a compor uma barcarola que é uma cantiga de amor: “ En Lixboa sobre lo mar/barcas novas mandei lavrar/ai mia senhor velida. ” Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce C OSÓRIO EANES uidei eu de meu coraçon que me non podesse forçar, pois me sacara de prison e d’ ir comego i tornar. E forçou-m’ ora nov’ amor, e forçou-me nova senhor; e cuido ca me quer matar. E pois me assi desemparar ũa senhor foi, des enton, e cuid’ eu ben per ren que non podesse mais outra cobrar; mais forçaron-m’ os olhos meus, e o bon parecer dos seus, e o seu preç’ e un cantar que lh’ oí u a vi estar en cabelos dizend’ un son. Mal dia non morri enton, ante que tal coita levar qual levo, que nunca vi maior qual levo, ond’ estou a pavor de morte, ou de lho mostrar. E por que me desamades, ai! melhor das que eu sei? Cuid’ eu, ren i non gãades eno mal que por vós ei! Pola ira en que mi andades, tan graves dias levei: Dereit’ ei, que da ren que mais amei, d’ aquela me segurades: De vós! E, certas, sabiades outr’ amor non desejei; e se vós end’ al cuidades, ben leu tort’ en prenderei! E por Deus, no-no façades, ca por vós me perderei! Conort’ ei, en que pouco durarei, se mais de min non pensades! De muitos son preguntado de que ei este pensar? E a min pesa aficado de quen me vai demandar. Ei log’ a buscar, sen grado, razon por me lhe salvar. E a guardar m’ ei d’ eles, e rancurar, e andar i come nembrado. Ali me ven gran cuidado, depois que me vou deitar; pero sõo mais folgado, que lhi non ei de falar. Jasco d’ eles alongado que me non ouçan queixar. Tal amar podedes mui ben jurar que nunca foi d’ omen nado. ũa ren vos juraria, e devede-lo creer, que jamais non amaria, se d’ esta posso viver. Quando vós, que ben queria, tan sen razon fui perder, que prazer avedes de me tolher meu corpo, que vos servia? Ca me non receberia aquel que me fez nacer. Nen eu non vos poderia a tal coita padecer; ca per ren non poderia, pois me deit’ adormecer. E entender No vosso bon parecer A valer me deveria. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Osório Eanes é um dos poetas que, nas oito cantigas de amor conservadas, manifestam com mais clareza o influxo da lírica cortês occitana sobre a galego-portuguesa. De fato, dada a sua cronologia, pensamos que foi ele, apoiado no seu círculo familiar, um dos agentes que favoreceram a implantação daquele modelo poético no noroeste peninsular. Pertenceu às linhagens dos Limas e dos Travas, como filho de João Airas de Lima e de Urraca Fernandes de Trava. Conhecemos com algum pormenor as suas atividades, entre 1175 e 1217, já que chegou a atuar como tenente em diversas áreas do Minho ourensano. Além das conexões com esse espaço, sua família e ele mesmo estiveram muito ligados à cidade de Santiago e ao seu âmbito catedralício. Por um documento de 1217, sabemos que deixou ao cabido compostelano metade de uma casa que possuía na antiga praça do Campo, hoje de Cervantes, da capital galega. Em Cuidei eu de meu coraçon, o poeta confessa o seu engano: julgava que o coração não pudesse forçá-lo novamente a entrar na prisão do amor, mas forçaram-no um novo amor e uma nova senhora. Após ver a jovem com os cabelos descobertos, entoando uma canção, o poeta sabe que seu sofrimento é insuportável e prefere a morte. Está cheio de pavor da morte ou de mostrar sua dor à amada. Esse texto pertence à modalidade de “cantiga de mudança” (chanson de change), variedade temática da canção provençal e francesa que foi também cultivada por outros trovadores galego-portugueses, como Fernão Pais de Tamalhancos, Rui Fernandes de Santiago, João Soares Somesso (os três presentes nesta coletânea) e Pero Garcia Burgalês. A consideração do coração e dos olhos como forças independentes que libertam o amante ou o obrigam a amar é um dos motivos tópicos da cantiga de amor. Entre as notas originais, podemos sublinhar a identificação das causas que levaram o trovador a apaixonar-se de novo, concretamente, o fato de ter contemplado a dama en cabelos, quando entoava uma canção. Tratava-se, portanto, de uma jovem solteira, pois usava os cabelos soltos, sem a touca que caracterizava a mulher casada. A segunda composição é uma cantiga de amor e mestria (sem refrão) em cobras doblas (as rimas mudam a cada duas estrofes). Cada estrofe tem nove versos, sendo oito heptassílabos e um trissílabo, encaixado com a mesma rima dos dois versos vizinhos. A última estrofe parece estar deturpada no único testemunho de que dispomos, pois no terceiro e no quinto verso repete-se o mesmo vocábulo na rima: poderia, o que constitui uma irregularidade. Nela, o trovador interpela a dama, perguntando-lhe por que não o ama. Nunca desejou outro amor. Muitos questionam por que anda tão pensativo; procura um motivo para se defender deles e anda como se estivesse na plena posse das faculdades mentais. Ao deitar-se, vem-lhe grande sofrimento; mas pelo menos fica longe deles e não lhes tem de falar. Se conseguir sobreviver, jura que não mais amará. Que prazer teria a dama em matá-lo? Pois nem o receberia Deus. Não poderia tal sofrimento padecer. E deveria valer-lhe pensar na sua formosura. O tema da cantiga é, pois, o desamor da dama, contraposto ao grande e exclusivo amor que o trovador tem por ela. As estrofes 3 e 4 desenvolvem com maior minúcia o motivo da alienação social e psicológica em que cai o amante, em êxtase pela contemplação da dama e obcecado pelo sofrimento que o seu desamor lhe causa. A presença das outras pessoas pesa-lhe e ele procura evitá-las e dissimular o seu alheamento. Além desse sintoma amoroso, a cantiga também elabora o da perda do sono e o da morte por amor, recorrentes na lírica trovadoresca. Resta observar que jazco é forma do presente do indicativo do verbo jazer (jazo). Luana PagungRealce Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce V PAI DE CANA edes que gran desmesura, amiga, do meu amigo: non veo falar comigo, nen quis Deus nen mia ventura que foss’ el aqui o dia que pôs migo, quando s’ ia. Como eu tevera guisado de fazer quant’ el quisesse, amiga, sol que veesse, non quis Deus, nen meu pecado que foss’ el aqui o dia que pôs migo, quando s’ ia. E and’ end’ eu mui coitada, como quer que vos al diga, por que non quis Deus, amiga, nen mia ventura minguada que foss’ el aqui o dia que pôs migo, quando s’ ia. A miga, o voss’ amigo soub’ eu que non mentiria, posto que o jurad’ avia que veesse, mais vos digo: que á de vós mui gran medo por que non veo mais cedo. E rogou-m’ el que vos visse e vos dissesse mandado, que non era perjurado, e vedes al que mi disse: que á de vós mui gran medo por que non veo mais cedo. E rogo-vos, ai amiga, que bõa ventura ajades, que muito lho gradescades, pois m’ el roga que vos diga: que á de vós mui gran medo, por que non veo mais cedo. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS A produção poética de Pai de Cana, representada por duas cantigas de amigo, está incluída no setor dos Cancioneiros que recolhe autores de condição clerical, da mesma forma que Airas Nunes, Rui Fernandes de Santiago e Sancho Sanches (presentes na nossa seleção). Está comprovado que Pai Peres de Cana foi cônego e regedor da diocese de Santiago, substituindo o arcebispo, mas também abade da Colegiada de Santa Maria de Valhadolide (1281-83). Encontra-se ainda documentado em 1243, como confirmante da compra-venda de propriedades no atual município de Ames, limítrofe com o de Compostela. Essa cronologia coaduna-se com a dos poetas que o rodeiam na tradição manuscrita: Gomes Garcia, falecido em 1286; Rui Fernandes, clérigo compostelano que redige testamento em 1273 (ver p. 159); e Sancho Sanches, registrado em 1260 (ver p. 161). A documentação existente, segundo a qual seu irmão, Airas Peres de Cana, vende propriedades em Paradela, no ano de 1275, faz supor que os “de Cana” fossem originários desse lugar, situado na freguesia de Leovalde, no município corunhês de Tordoia, dezoito quilômetros ao norte de Santiago. A sublevação do futuro Sancho IV contra o pai, Afonso x, fez com que o trovador se refugiasse na corte deste último, junto ao qual comparece, pela última vez, em Sevilha no ano 1283. Hoje em dia, existe um lugar na freguesia de Conjo/Conxo (município de Santiago de Compostela) que leva o nome “Pai da Cana”. Na cantiga de amigo Vedes que gran desmesura, uma jovem queixa-se a sua amiga da descortesia do amigo, pois não veio falar com ela no dia que combinara, ao partir. Se viesse, teria feito tudo quanto ele quisesse; mas não veio, pois não o quis Deus nem a sua pouca sorte. É por isso que anda muito triste. De estrutura não paralelística, com refrão, essa cantiga permite recompor uma pequena narrativa. Trata-se de um diálogo, do qual ouvimos só uma das vozes: a da namorada, que confia o motivo da sua tristeza a uma amiga-confidente, declarando- lhe, ao mesmo tempo, o amor pelo amigo e a intenção que tivera de aceder a todos os seus desejos, quando voltasse. A resposta da confidente está justamente na próxima cantiga, encerrando assim todo o cancioneiro de Pai de Cana que nos foi transmitido: a amiga-confidente responde, afirmando saber que o seu namorado não lhe mentiria; traz-lhe mesmo um recado dele, que está cheio de medo dela, por não ter vindo mais cedo. A confidente roga à jovem que seja feliz e que muito agradeça ao amigo por lhe mandar tal mensagem. Nesse breve diálogo, conversam duas mulheres, a namorada e a sua confidente; o amigo só é referido através da fala das duas, uma que se queixa do seu perjúrio e a outra que lhe serve de mensageira e apresenta a sua defesa. Se a primeira composição desenvolve temas característicos das cantigas de amigo (o lamento da namorada pela ausência do namorado; a declaração de seu amor e a intenção de aceder-lhe a todos os desejos), a segunda, no entanto, parece conformar-se mais ao repertório temático das cantigas de amor, em que o homem teme ofender a amada e não tem coragem de se dirigir diretamente a ela. O amigo consegue assim, através da interposta persona, manifestar seu sentimento e sua justificativa à namorada. A composição logra, dessa forma, um aproveitamento engenhoso dos elementos de ambos os gêneros amorosos da lírica galego-portuguesa. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce A PAI GOMES CHARINHO i, Santiago, padron sabido, vós me adugades o meu amigo! Sobre mar ven quen frores d’amor ten, mirarei, madr’, as torres de Geen. Ai, Santiago, padron provado, vós me adugades o meu amado! Sobre mar ven quen frores d’ amor ten, mirarei, madr’, as torres de Geen. Q uantos oj’ andan eno mar aqui coidan que coita no mundo non á senon do mar, nen an outro mal ja. Mais doutra guisa contece oje a mi: coita d’ amor me faz escaecer a mui gran coita do mar, e te˜er pola maior coita de quantas son coita d’ amor a quena Deus quer dar. E é gran coita de mort’ a do mar mas non é tal, e por esta razon coita d’ amor me faz escaecer a mui gran coita do mar, e tẽer pola maior coita, per boa fe, de quantas foron, nen son, nen seran. E estes outros que amor non an dizen que non, mas eu direi qual é: coita d’ amor me faz escaecer a mui gran coita do mar, e te˜er por maior coita a que faz perder coita do mar, que faz muitos morrer. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai Gomes Charinho foi supostamente natural de Pontevedra, onde teria nascido por volta de 1225. Desempenhou importantes funções na corte de Sancho IV (rei de 1284 a 1295): está documentado como Almirante do Mar; em 1286, acompanhou o rei na sua peregrinação a Santiago, ocasião à qual se refere provavelmente na cantiga Ai Santiago, padron sabido, reproduzida aqui (ver também a cantiga de Airas Nunes, p. 34); deve ter permanecido então na Galiza, ocupando, desde 1290, o cargo de meirinho-mor. Depois da morte de Sancho IV, em 1295, envolveu-se nas disputas relacionadas com a sucessão do trono. Durante uma entrevista entre os infantes Dom João e Dom Henrique, em Ciudad Rodrigo, nos finais desse mesmo ano, foi assassinado por Rui Peres Tenoiro, irmão do trovador Mem Rodrigues Tenoiro, e sepultado no convento franciscano de Pontevedra, onde, em 1308, se erigiu sobre a sua tumba um mausoléu de granito com a estátua jacente do poeta. Na inscrição que seus descendentes fizeram esculpir menciona-se que “ganhou Sevilha”. A hipótese de ter participado na conquista dessa cidade (1248) não está, contudo, cabalmente documentada. São-lhe atribuídas nos Cancioneiros dezenove cantigas de amor, seis cantigas de amigo, uma de escárnio, uma tenção e uma cantiga de difícil classificação, na qual se compara o rei de Castela e Leão, muito provavelmente Sancho IV, com o mar; por causa da sua ambiguidade é às vezes entendida como um louvor; outras, como uma sátira. A presença frequente do tema marinho em suas cantigas tem sido associada ao seu contato íntimo com os perigos do mar, o que lhe permitiu criar uma série de imagens literárias bastante originais no contexto da lírica galego-portuguesa. A primeira composição distingue-se de outras cantigas em que se alude a um santuário e ao motivo da romaria, já que a menção ao Apóstolo faz parte apenas de uma invocação, sem referência ao correspondente lugar de culto. Nela, a donzela dirige-se a Santiago, que é padroeiro reconhecido, cantando: “Ai, Santiago, trazei-me de volta o meu amado!”. O primeiro verso do refrão, “Sobre mar ven quen frores d’ amor ten”, dialoga com outra cantiga do mesmo trovador, na qual a donzela manifesta o seu contentamento porque o amigo leva consigo no navio “as flores”, entendidas provavelmente como os sinais do seu amor: “As frores do meu amigo/briosas van no navio”. Como acontece com outras alusões de Pai Gomes Charinho ao mar e ao seu âmbito (navio, nesse caso), talvez haja na repetida evocação das “flores”, inusitada no contexto marítimoem que se encontra, uma referência de tipo biográfico ou mesmo, talvez, heráldico: sua mulher pertencia à nobre família dos Aldao Maldonados, cujo brasão ostentava – pelo menos em séculos posteriores, segundo consta nos Nobiliários – cinco flores de lis. A cantiga pode ter sido composta por ocasião da visita de Sancho IV a Compostela (1286), não tendo relação direta, em tal caso, com a reconquista de Jaén aos árabes, ocorrida quarenta anos antes. É possível supor que o refrão pertença a alguma cantiga tradicional relativa às guerras entre cristãos e mouros pela posse daquela cidade. Na segunda cantiga, Quantos oj’ andan eno mar aqui, o trovador contesta aqueles que dizem que o mar causa o maior sofrimento, afirmando que o padecimento provocado pelo amor é superior a esse e a qualquer outro. Pai Gomes Charinho sublinha, assim, a intensidade da mágoa ou coita de amor, estabelecendo uma comparação em grau superlativo entre essa dor e a produzida pelo mar, tão vinculada à sua própria biografia (e também à sua produção literária). Embora os marinheiros considerem que a coita por eles vivida é a maior, o trovador, com experiência em ambas as lides, sabe que o sofrimento do amante ultrapassa todos os que existiram, existem e existirão. A dicotomia entre uma e outra modalidade de coita é reforçada, aliás, pela oposição entre os outros e um sujeito poético que pertence a um grupo restrito, composto, por assim dizer, de “eleitos” por determinação divina (a dor de amor é exclusiva daqueles a quem Deus a quer dar). A cantiga apresenta uma estrutura de três estrofes com refrão e fiinda. Desenvolve, sem interrupção, a ideia da primeira estrofe até ao final, ou seja, utiliza o recurso denominado atafiinda. Com gradação crescente na argumentação poética, introduz nos últimos versos o motivo das múltiplas mortes provocadas pelo mar e revigora, assim, os termos do par em oposição. Luana Pagung Realce C PAI SOARES DE TAVEIRÔS omo morreu quen nunca ben ouve da ren que mais amou, e quen viu quanto receou d’ ela, e foi morto por en: ai, mia senhor, assi moir’ eu! Como morreu quen foi amar quen lhe nunca quis ben fazer, e de que lhe fez Deus veer de que foi morto con pesar: ai, mia senhor, assi moir’ eu! Com’ ome que ensandeceu, senhor, con gran pesar que viu e non foi ledo nen dormiu depois, mia senhor, e morreu: ai, mia senhor, assi moir’ eu! Como morreu quen amou tal dona que lhe nunca fez ben e quen a viu levar a quen a non valia nena val: ai, mia senhor, assi moir’ eu. N – V o mundo non me sei parelha mentre me for como me vai, ca ja moiro por vós e, ai! mia senhor branca e vermelha, queredes que vos retraia quando vos eu vi en saia? Mao dia me levantei que vos enton non vi fea! E, mia senhor, des aquelha me foi a mi mui mal di’, ai, E vos, filha de don Paai Moniz, e ben vos semelha d’ aver eu por vós guarvaia? pois eu, mia senhor, d’ alfaia nunca de vós ouve nen ei valia d’ ũa correa. Esta cantiga fez Pero Velho de Taveiros e Pai Soares, seu irmão, a duas donzelas mui fremosas e filhas d’ algo assaz, que andavan en cas Dona Maior, molher de Don Rodrigo Gomes de Trastamar. E diz que se semelhava ũa a outra tanto que adur poderia omen estremar ũa da outra; e seendo ambas ũu dia folgando per ũa sesta en ũu pomar, entrou Pero Velho de sospeita, falando com elas, chegou o porteiro e levantou-o end’ a grandes empuxadas e trouve-o mui mal. i eu donas en celado que ja sempre servirei, por que ando namorado; pero non vo-las direi con pavor que delas ei: assi mi an la castigado! − Vós, que essas donas vistes, falaron-vos ren d’ amor? Dizede, se as cousistes, qual delas é melhor? Non fostes conhecedor, quando as non departistes. − Ambas eran-nas melhores que ome pode cousir: brancas eran come flores; mais, por vos eu non mentir, non-nas pudi departir, tanto son bõas senhores. − Ali perdeste-lo siso, quando as fostes veer, ca no falar e no riso poderades conhecer qual á melhor parecer. Mas faliu-vos i o viso. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai Soares e Pero Velho são dois irmãos da linhagem dos Taveirôs. A terra que recebia essa denominação na Idade Média (atualmente apenas uma demarcação religiosa) está integrada nos municípios da Estrada, Forcarei e Silheda, portanto, numa área situada a sudoeste (25-35 quilômetros) de Santiago de Compostela. Conhecemos vários membros da estirpe mencionados em escrituras do último quarto do século XII e da segunda metade do XIII. No entanto, até agora, os trovadores em questão não foram atestados documentalmente. A rubrica explicativa da tenção poética de que são coautores ambos os irmãos (terceira composição) permite concluir que estiveram ao serviço poético de Rodrigo Gomes de Trava (1201-61). Com efeito, graças a esse texto, sabemos que o episódio cortês aí descrito teve lugar em casa de Dona Maior, mulher de Dom Rodrigo Gomes, referência que permite colocar a atividade poética desses autores no segundo terço do século XIII. Pai Soares conta com dez cantigas de amor e três de amigo, sendo coautor de duas tenções; quanto ao irmão, só conhecemos a participação de Pero Velho na mencionada tenção. Na primeira cantiga, o trovador declara à sua senhora que morre, assim como morreu aquele que nunca recebeu nenhum favor da mulher que mais amou; como aquele que amou quem nunca lhe quis fazer bem; como quem enlouqueceu com o grande pesar que viu, e não foi feliz nem dormiu depois; e como aquele que amou tal mulher que nunca lhe quis bem e a viu ser levada por quem não a valia nem a vale. Cantiga de amor com refrão, usando o recurso do paralelismo semântico, pelo qual o trovador reitera o mesmo significado em conjuntos mais amplos do que o verso, como as orações e as estrofes. As quatro estrofes contêm uma oração comparativa introduzida pela conjunção “como”, que ocupa os dois primeiros versos; uma segunda oração comparativa liga-se a ela por coordenação e preenche os dois últimos versos. Essas orações narram o destino final (a morte) de quem ama sem ser correspondido. Nos quatro versos de cada estrofe, o trovador desenha a figura de um amador “modelo”, aquele que ama de acordo com os preceitos da fin’amors (“amor cortês”), ou seja, o amor sem esperança de retribuição e de consumação, levando à perda do sono, à loucura e à morte. Na última estrofe, há uma referência discreta ao rival que consegue o amor (ou a mão) da dama e que não está à altura dela. Trata-se provavelmente de uma alusão ao conceito do amor idealizado como independente do casamento (em geral arranjado pela família) e sujeito a normas estritas que o tornam uma via de ascensão espiritual e mesmo social. É só no refrão que aparece a oração principal, em que se enuncia o “eu” do poema (“Ai, mia senhor, assi moir’ eu”). Essa distribuição sintática, semântica e estrófica ressalta não só a posição de humilhação do trovador diante da dama, mas também a sua submissão ao novo conceito de amor, prestigiado pela lírica trovadoresca transpirenaica e incorporado pela galego- portuguesa. Por meio da morte exemplar e compartida (observe-se a repetição das flexões do verbo “morrer” – morto, moiro – nos versos das estrofes e no refrão), o poema realiza a perfeita integração do indivíduo no grupo a que almeja pertencer: o de amadores perfeitos. Por outro lado, o refrão, único verso repetido quatro vezes na cantiga sem modificação, compensa a ausência do “eu” na estrutura estrófica do poema. A segunda composição é particularmente importante. Conhecida como a “cantiga da guarvaia”, essa é a mais controversa composição da lírica galego-portuguesa. Transmitida apenas pelo Cancioneiro da Ajuda, apresenta dificuldades relativas à extensão, à autoria, à edição, ao sentido e à identificação da protagonista. Pode ser considerada um fragmento, pois só tem duas estrofes. Foi atribuída primeiro a Pai Soares de Taveirôs e depois a Martim Soares, mas hoje se aceita como segura a autoria daquele, embora recentemente se tenha proposto a hipótese de o seu autor ser Dom Afonso X. E, ainda, os dois versos iniciaisda segunda estrofe parecem conter erros de cópia, resultando em importante deturpação na estrutura métrica e no esquema rimático da cantiga. Seguimos aqui a reconstrução tradicionalmente adotada. Na cantiga, o trovador declara que o seu sofrimento é incomparável, pois morre de amor por uma senhora que vira um dia sem manto. Identifica-a como “filha de dom Pai Moniz” e pergunta se lhe parece justo que receba dela um manto luxuoso, quando ela nunca lhe dera nada que valesse uma correia. Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce O sentido e, em decorrência dele, o gênero da cantiga também não se estabelecem facilmente. A primeira estrofe conforma- se às normas da cantiga de amor: o poeta declara o seu sentimento a uma dama que vira um dia en saia, isto é, apenas com a túnica que se usava por baixo do manto, sem o qual as mulheres não costumavam ser vistas em público. Descreve-a como branca e vermelha, expressão que também se encontra na lírica provençal para referir a brancura da pele e o corado das faces e que, em contexto satírico, pode referir-se às cores obtidas pela maquiagem. Pergunta-lhe se ela deseja que a retrate como a vira, sem manto, e amaldiçoa aquele dia em que “não a viu feia”. Na segunda estrofe, porém, o trovador transgride a regra do silêncio sobre a identidade da dama, dirigindo-se a ela como “filha de dom Pai Moniz”. Os restantes versos têm sido diversamente interpretados, por causa da referência ao suposto dom da guarvaia (manto luxuoso) e do sentido da locução por vós (“por vós” ou “para vós”): 1) perguntaria ele à dama se é razoável receber dela tão valioso presente, quando ela nunca lhe dera coisa alguma, por mais ínfima que fosse? Ou, então, 2) se deveria retratá-la coberta por um manto, quando já a viu em trajes mais íntimos? Considerando essas violações do código da cantiga de amor, tem-se proposto que se trate de um “escárnio de amor”. A identificação da “filha de dom Pai Moniz” também levantou desde cedo a curiosidade dos leitores. Durante algum tempo, supôs-se que a dama fosse a famosa Maria Pais Ribeira, a “Ribeirinha”, amante de Dom Sancho i (1154-1212) – o que faria dessa composição a mais antiga que se pode datar. Mas investigações recentes apontam para a filha de Dom Pai Moniz de Rodeiro, de importante família galega, e documentado como pertigueiro de Santiago em 1210 (ver p. 30). Além disso, o esquema rimático da cantiga é único na lírica galego-portuguesa: a b b a c c d e. Os dois últimos versos da primeira estrofe não rimam com os anteriores, mas com os versos correspondentes da segunda. Trata-se de um artifício que recebia em provençal o nome de “rimas esparsas” e em galego-português o de palavra perduda (“verso perdido”). A raridade dessa cantiga também se manifesta no fato de que três das suas rimas (-elha, -ai e -ea) não voltam a ocorrer no Cancioneiro da Ajuda. Na terceira cantiga, Vi eu donas em celado, Pero Velho diz que vira a furto umas senhoras, de quem está enamorado. Mas por medo não dirá quem são, pois muito o castigaram lá onde as vira. Pai Soares pergunta qual delas é a mais formosa. O primeiro responde que ambas eram tão belas que não pudera diferençar uma da outra. Pai Soares conclui que ele perdera a razão ao vê-las, pois era possível distinguir a mais formosa pelo falar e pelo sorriso. Temos algumas pistas para reconstruir o contexto desse diálogo na rubrica anteposta, que esclarece as circunstâncias que deram origem à tenção: foi feita a duas jovens muito fidalgas e muito formosas, que estavam na casa de Dona Maior, mulher de Dom Rodrigo Gomes de Trastâmara. Eram tão parecidas uma à outra que ficava difícil distingui-las. Num dia em que descansavam em um pomar na hora da sesta, Pero Velho entrou escondido e, quando falava com elas, chegou o porteiro, tirou-o dali com fortes empurrões e maltratou-o. A cantiga é feita com um discreto sorriso, entre o tom de uma cantiga de amor e o escárnio a Pero Velho pelos golpes que levara do porteiro. Além do tema das donzelas guardadas, coloca-se a discussão de como reconhecer a mais bela entre duas mulheres muito semelhantes entre si, isto é, como tornar mais concreta a imagem altamente abstrata da senhora das cantigas de amor. Pero Velho diz que é impossível distingui-las; mas Pai Soares, aventando o motivo da “perda da razão” que acomete o homem deslumbrado pela formosura da mulher, contesta que elas podem ser diferençadas pela maneira de falar e de sorrir, duas características comuns no retrato da dama galego-portuguesa. Essa tenção tem particular interesse por referir Dom Rodrigo Gomes de Trastâmara, magnata da estirpe dos Travas, relacionado às mais poderosas linhagens galegas e peninsulares e às casas reais. A corte de Dom Rodrigo e sua mulher, Dona Maior, teve papel importante na acolhida e difusão do lirismo trovadoresco no noroeste da Península, reunindo um grupo de trovadores, entre os quais os irmãos Taveirôs e Pero Garcia de Ambroa. A cantiga foi composta depois do casamento de ambos, ocorrido provavelmente na segunda década do século XIII. Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Q PEDRO AMIGO DE SEVILHA uand’ eu un dia fui en Compostela en romaria, vi ũa pastor que, pois fui nado, nunca vi tan bela, nen vi outra que falasse milhor, e demandei-lhe logo seu amor e fiz por ela esta pastorela. E dix’ eu logo: “Fremosa poncela, queredes vós min por entendedor, que vos darei boas toucas d’ Estela, e boas cintas de Rocamador, e doutras doas a vosso sabor, e fremoso pano pela gonela?” E ela disse: “Eu non vos queria por entendedor, ca nunca vos vi senon agora, nen vos filharia doas que sei que non son pera min, pero cuid’ eu, se as filhass’ assi, que tal á no mundo a que pesaria. E se veess’ outra, que lhi diria, se me dissesse ‘ca per vós perdi meu amig’ e doas que me tragia?’ Eu non sei ren que lhi dissess’ ali; se non foss’ esto de que me tem’ i, non vos dig’ ora que o non faria”. Dix’ eu: “Pastor, sodes ben razõada, e pero creede, se vos non pesar, que non est’ oj’ outra no mundo nada, se vós non sodes, que eu sábia amar, e por aquesto vos venho rogar que eu seja voss’ ome esta vegada”. E diss’ ela, come ben ensinada: “Por entendedor vos quero filhar e, pois for a romaria acabada, aqui, d’u sõo natural, do Sar, cuido eu, se me queredes levar, ir-m’ ei vosc’ e fico vossa pagada”. Q uen mi ora quisesse cruzar, ben assi poderia ir ben como foi a Ultramar Pero d’ Ambrõa Deus servir, morar tanto quant’ el morou na melhor rua que achou e dizer: – “Venho d’ Ultramar”. E tal vila foi el buscar, de que nunca quiso sair, atá que pôde ben osmar que podia ir e vĩir outr’ omen de Ierusalen; e poss’ eu ir, se andar ben, u el foi tod’ aquest’ osmar. E poss’ en Monpirller morar, ben como el fez, por nos mentir; e, ante que cheg’ ao mar, tornar-me poss’ e departir, com’ el depart’, en como Deus pres mort’ en poder dos judeus, e enas tormentas do mar. E, se m’ eu quiser enganar Deus, ben o poss’ aqui comprir en Burgos, ca, se preguntar por novas, ben as posso oir tan ben come el en Monpirller e dizê-las pois a quen quer que me por novas preguntar. E pois end’ as novas souber, tan ben poss’ eu, se mi quiser, come un gran palmeiro chufar. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Apesar do topônimo aposto ao seu nome, não se pôde comprovar até hoje que Pedro Amigo de Sevilha fosse sevilhano. Pelo contrário, os documentos encontrados registram, por um lado, um Pedro Amigo, clérigo da freguesia de Santo Tirso de Ambroa (município de Irijoa/Irixoa, Corunha) entre 1238 e 1275; e um Pedro Amigo, cônego de Oviedo e “companheiro” da Igreja de Salamanca, entre 1288 e 1302. Demonstra-se, nos dois casos, uma relação com o mundo jogralesco: assim, no testamento exarado em 1302, o cônego deixa mesmo a sua viola a um jogral, Pero Lozano. Por esse motivo, tem-seconsiderado que se trate do mesmo indivíduo, identificado com o trovador em causa. Por outro lado, um Pedro Amigo figura também entre os beneficiados no repartimento de Múrcia (1266), provavelmente o mesmo Pedro Amigo, jogral, que herdou no Repartimento de Jerez de la Frontera (1264-69). Essa proposta de identificação tem a seu favor o fato de localizar o trovador entre os presentes na corte sevilhana de Afonso x, num período condizente com os dados que se podem inferir das suas composições. A produção que dele nos foi transmitida, nos Cancioneiros, inclui quatro cantigas de amor, uma pastorela (a primeira composição aqui presente), onze cantigas de amigo, dezoito de escárnio e maldizer e três tenções. Além do número considerável de poemas, deve-se ressaltar a variedade dos gêneros e a familiaridade com recursos postos em circulação no âmbito palaciano pela poética occitana e francesa. Os temas tratados pelas cantigas de escárnio e maldizer colocam-no inequivocamente no círculo da corte castelhana de Afonso x: faz parte do grupo de poetas que escarnecem a soldadeira Maria Balteira, entre os quais o próprio monarca; investe também contra Pero de Ambroa (a segunda composição) e participa da polêmica em torno das pretensões poéticas do jogral Lourenço; numa tenção com Vasco Peres Pardal, pertencente ao ciclo das sátiras à Balteira, reconhecem-se referências ao contexto político dos eventos ocorridos em 1275, quando se quebrou a aliança entre Afonso X e os arrais mouros rebelados contra o rei de Granada. Vemos, na primeira cantiga, o trovador narrar que numa romaria, em Compostela, encontrara uma pastora, a mais formosa que já vira e também a que melhor falava. Imediatamente ofereceu-lhe o seu amor. Segue-se o diálogo entre ambos, com a oferta de presentes por parte do cavaleiro e a recusa da pastora, receosa de que os dons fossem para outra. O cavaleiro declara que ela é a única que ama e a jovem cede, dizendo que, terminada a romaria, partirá com ele e lhe ficará muito agradecida. Como o próprio trovador diz, a cantiga é uma “pastorela”, isto é, um gênero narrativo-lírico cujo tema é o encontro de um cavaleiro com uma pastora, num lugar ameno (ver João Peres de Aboim, na p. 68, João Airas de Santiago, na p. 60, e Dom Dinis, p. 179). O seu modelo evidente é a composição que inaugura o gênero na Provença, a pastorela L’autr’ier jost’una sebissa, de Marcabru, com a qual compartilha, além de elementos formais, expressivos e temáticos, o termo gonela, de ocorrência única na lírica galego-portuguesa. O diálogo entre os protagonistas, no entanto, tem desfecho e significado diferentes nas duas composições: enquanto na provençal a jovem resiste às lisonjas do cavaleiro, expondo a sua falta de cortesia e revelando-se a detentora de valores morais e espirituais de que ele carece, na de Pedro Amigo, ainda que recuse a princípio, não tarda em aceitar a sua corte. O debate entre ambos, ao contrário do representado na pastorela de Marcabru, é pouco desenvolvido e superficial, levando rapidamente ao desenlace. Pelo uso de alguns termos (poncela, gonela) e pelo motivo da aceitação dos dons, que marca o jogo das classes sociais presente na pastorela clássica, liga-se à pastorela occitana; o ambiente da romaria, por sua vez, pertence à tradição das cantigas de amigo; outros elementos, porém, como o elogio da mulher e a vassalagem do homem, ao universo da cantiga de amor. No poema de Pedro Amigo de Sevilha ainda se podem ouvir os ecos da cantiga de João Airas de Santiago, cujo cenário é também a área do Sar, perto de Santiago. Além disso, é a única cantiga dos Cancioneiros onde se usa o topônimo “Compostela”. Já na segunda cantiga, uma sátira, o trovador critica Pero de Ambroa por mentir, dizendo que fora ao Ultramar como cruzado, mas na verdade só chegara a Montpellier. Pelo tema – a sátira a um falso cruzado ou peregrino à Terra Santa (no caso, Pero de Ambroa) –, a cantiga pertence a um Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Seria essa talvez uma questão cultural em como o trovadorismo occitano e o galego-português tratavam a figura feminina? ciclo conhecido como as “Cantigas de Ultramar”, do qual participaram vários trovadores: além de Pedro Amigo de Sevilha, Pero (Garcia) de Ambroa, Gonçalo Eanes do Vinhal, Pero Gomes Barroso, João Baveca, Martim Soares. A cantiga vai “desmascarando” aos poucos o falso peregrino ao Ultramar. Os primeiros versos da primeira estrofe apresentam Pero de Ambroa como modelo de cruzado, enquanto os três últimos versos já deixam uma suspeita no ar, pois o trovador diz que poderia morar na “melhor rua” que encontrasse, ficar ali algum tempo e depois dizer: “Venho de Ultramar”. As demais estrofes expõem o engano sem rodeios: Ambroa buscara uma cidade que lhe agradava, Montpellier, ali permanecendo o tempo estimado para alguém ir a Jerusalém e voltar. Seguindo o seu exemplo, o trovador poderia ir à mesma cidade e, retornando, relatar igualmente as novas da sua peregrinação: por exemplo, as tempestades que enfrentara no mar e que Cristo morreu às mãos dos judeus. Mas as histórias ouvidas são tão disparatadas que nem precisaria ir a Montpellier. Mesmo sem sair de Burgos poderia ouvir as mesmas patranhas e depois contá-las, fazendo-se passar por um grande peregrino. O esquema foi também desenvolvido por outros trovadores, como o português Martim Soares, que, numa cantiga dirigida a um cavaleiro mentiroso que dizia ter ido ao Ultramar (Pero non fui a Ultramar), enumera uma série de absurdos geográficos e históricos que teriam sido alardeados pelo suposto cruzado: assim, entre outros dislates, dizia ter conhecido um judeu que vira prender Jesus Cristo, um jovem natural de Rocamador (local na Provença onde estava o famoso Santuário de Santa Maria de Rocamador, centro de peregrinação), chamado Dom Andreu; e assegurava que o santo sepulcro fica a três léguas de Santarém (cidade a 65 quilômetros de Lisboa). Sabemos pela documentação que Pero de Ambroa realizou mais de uma viagem ao Ultramar e que, inclusive, teria morrido em uma delas, antes do ano 1260. Não é preciso supor, portanto, que a sátira de Pedro Amigo, bem como as demais, tivesse a intenção de desacreditar um indivíduo mentiroso concreto; ela parece valer-se do estímulo oferecido por relatos fantasiosos de viajantes para criar situações cômicas à volta de um tema obviamente bastante sério na época, envolvendo perigos reais em terra e no mar. Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Q PERO DA PONTE uen seu parente vendia, todo por fazer tesouro, se xe foss’ en corredura e podesse prender mouro, tenho que x’ o venderia quen seu parente vendia. Quen seu parente vendia, ben fidalg’ e seu sobrinho, se tevess’ en Santiago bõa adega de vinho, tenho que x’ o venderia quen seu parente vendia. Quen seu parente vendia, polo poeren no pao, se pan sobrepost’ ouvesse, e lhi chegass’ ano mao, tenho que x’ o venderia, quen seu parente vendia. Quen seu parente vendia, mui fidalg’ e mui loução, se cavalo sop’ ouvesse e lho comprassen por são, tenho que x’ o venderia, quen seu parente vendia. S e eu podesse desamar a quen me sempre desamou, e podess’ algun mal buscar a quen mi sempre mal buscou! Assi me vingaria eu, se eu podesse coita dar, a quen mi sempre coita deu. Mais sol non poss’ eu enganar meu coraçon que m’ enganou, por quanto mi fez desejar a quen me nunca desejou. E per esto non dormio eu, porque non poss’ eu coita dar, a quen mi sempre coita deu. Mais rog’ a Deus que desampar a quen m’ assi desamparou, ou que podess’ eu destorvar a quen me sempre destorvou. E logo dormiria eu, se eu podesse coita dar, a quen mi sempre coita deu. Vel que ousass’ eu preguntar a quen me nunca preguntou, per que me fez en si cuidar, pois ela nunca en min cuidou. E por esto lazeiro eu, porque non poss’ eu coita dar, a quen mi sempre coita deu. Q uen a sesta quiser dormir conselha-lo ei a razon: tanto que jante, pense d’ ir à cozinha do infançon;e tal cozinha lh’ achará, que tan fria casa non á na hoste, de quantas i son. Ainda vos en mais direi eu, que ũu dia i dormi: tan bõa sesta non levei, des aquel dia ‘n que naci, como dormir en tal logar u nunca Deus quis mosca dar: ena mais fria ren que vi. E vedes que ben se guisou de fria cozinha teer o infançon, ca non mandou des ogan’ i fog’ acender, e se vinho gaar d’ alguen, ali lh’ o esfriarán ben, se o frio quiser bever. M aria Peres, a nossa cruzada, quando veo da terra d’ Ultramar, assi veo de pardon carregada que se non podia con ele merger; mais furtan-lho, cada u vai maer, e do perdon já non lhi ficou nada. E o perdon é cousa mui preçada e que se devia muit’ a guardar; mais ela non á maeta ferrada en que o guarde, nen-a pod’ aver, ca, pois o cadead’ en foi perder, sempr’ a maeta andou descadeada. Tal maeta como será guardada, pois que rapazes albergan no logar, que non aja seer mui trastornada? Ca, o logar u eles an poder, non á pardon que s’ i possa asconder, assi saben trastornar a pousada. E outra cousa vos quero dizer: atal pardon ben se dev’ a perder, ca muito foi cousa mal gaada. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Em uma cantiga, Pero da Ponte nomeia-se “escudeiro”, categoria social que lhe permitia também atribuir-se o título de “trovador”. Não dispomos de documentação segura para comprovar sua origem. No testamento do cônego compostelano Abril Fernandes, de 1279, um dos beneficiados é Macias, filho de Petrus Iohannis de Ponte Veteris, isto é, Pedro Eanes de Pontevedra, evidentemente conectado a Santiago. Um Pedro Fernandes de Pontevedra aparece também num documento de 1253, como perquiridor de Afonso X, juntamente com Pedro Nunes de Santiago, no bispado de Astorga e na terra de Aliste. Sua interação com outros compositores, como Bernal de Bonaval e Afonso Eanes do Cotom, ambos presentes nesta coletânea, permite igualmente supor que fosse galego. Sua atividade poética pode ser comprovada já a partir de 1235, quando compõe um “pranto” pela morte da rainha Dona Beatriz de Suábia, mulher de Fernando iii, estendendo-se ao longo do reinado de Afonso X até 1275, pelo menos. Foi um dos trovadores mais prolíficos, distinguindo-se também pela variedade dos gêneros que praticou: sete cantigas de amor, sete de amigo, quatro prantos, duas cantigas de louvor (uma ao rei Fernando III, pela conquista de Sevilha, e a outra a Jaume i, pela conquista de Valência), duas tenções e 31 cantigas de escárnio e maldizer. Nas suas cantigas, além de duas em que refere Santiago, mencionam-se também localidades castelhanas (Burgos, Carrión, Segóvia, Toledo e Jaén). A passagem pelas cortes senhoriais serviu-lhe de pretexto para a composição de sátiras ou de elogios fúnebres, como os que dedica a Lopo Dias de Haro e a Telo Afonso de Meneses. Além disso, frequentou a corte de Fernando III e a do filho, Afonso X. Em Quen seu parente vendia − cantiga de escárnio com quatro estrofes de quatro versos e refrão de dois −, um indivíduo não nomeado teria vendido o sobrinho, nobre e formoso fidalgo, para fazer dinheiro; seria capaz, portanto, de fazer muitas outras coisas desonestas e ilegais por cobiça. Dada a irregularidade das rimas, tem sido também editada com dois versos longos e o refrão em versos curtos, como numa litania: “Quen seu parente vendia, todo por fazer tesouro,/se xe foss’ en corredura e podesse prender mouro,/tenho que x’ o venderia/quen seu parente vendia”. O primeiro verso é idêntico em todas as estrofes e repete-se também como último do refrão, acentuando assim a crítica ao indivíduo elevado à categoria de exemplo: quem é capaz de vender o sobrinho para obter vantagem financeira também será capaz de fazer outras vilanias. Os dois primeiros versos de cada estrofe expõem o tema da “venda” do sobrinho. Na terceira estrofe, pode-se entender melhor o sentido de “vender”: “pôr no pau” equivale, literalmente, a “enforcar”; metaforicamente, porém, corresponderia a “pôr na miséria”. Os dois últimos versos das estrofes elaboram as demais circunstâncias em que a cobiça do satirizado se comprovaria: se estivesse numa batalha e aprisionasse um mouro, o trovador está seguro de que o venderia, ainda que isso fosse ilegal; num ano de má colheita, preferiria certamente vender o trigo reservado; se tivesse um cavalo manco, não hesitaria em vendê-lo por são. A referência à adega de vinho em Santiago não é clara: pode tratar-se de vinho destinado ao uso do culto, que o criticado também poria à venda. A cantiga coloca em hierarquia os crimes que uma pessoa pode cometer por cobiça: o mais grave, aquele que torna todos os demais possíveis, é entregar um parente por dinheiro. Isso não é de admirar, considerando que os vínculos de parentesco, nas suas diversas modalidades, tinham um papel central nas sociedades medievais, como suporte de um leque de relações bastante mais amplo que o da sociedade atual. A segunda composição é uma cantiga de amor que elabora alguns dos tópicos usuais na lírica galego-portuguesa, como o sofrimento causado pelo amor não correspondido, a perda do sono e a responsabilidade atribuída ao coração no processo de enamoramento. Por outro lado, o poeta não adota, diante da dama, a atitude submissa que lhe impunha o código do amor cortês; pelo contrário, rebela-se e manifesta o desejo de poder retribuir o sofrimento que ela lhe causara. Por esse motivo, tem sido aproximada à mala cansò, variedade da canção de amor provençal em que se falava mal da mulher ou se renegava o amor. Formalmente, a cantiga também se destaca por alguns aspectos distintivos, como a variação no primeiro verso do refrão, opondo as estrofes ímpares às pares; a palavra-rima “eu” no quinto verso de todas as estrofes; o uso do mozdobre, isto é, repetição do mesmo termo com diferente flexão – desamar/desamou, buscar/buscou etc. – em posição de rima, correspondendo ao recurso que em provençal se chamava rima derivada. Já a terceira é uma cantiga de escárnio e maldizer, em que o trovador aconselha, a quem quiser fazer bem a sesta, que vá à cozinha do infanção, depois de almoçar em outro lugar. Não encontrará mais fresco aposento para dormir: ali não se acende o fogo há muito tempo e também não há moscas. E se o infanção ganhar um vinho, ali o resfriarão bem, se quiser bebê-lo frio. Pelo tema, pertence ao grupo de cantigas satíricas feitas aos infanções, isto é, aos membros da segunda categoria da nobreza na Península Ibérica nos séculos XII e XIII, sendo a primeira constituída pelos ricos-homens. Pelas críticas que lhes são feitas, pode-se deduzir que o termo “infanção” designava nesse caso os nobres de mais baixa categoria, pobres e provincianos, por oposição aos nobres da corte, civilizados e palacianos no seu comportamento. Os aspectos que suscitam crítica são, por exemplo, a indumentária, o cavalo, a deselegância, a alimentação, a miséria e a avareza. Nessa cantiga, satiriza-se a penúria da cozinha de um infanção, onde nunca há fogo, já que não há alimentos para preparar. Para completar o quadro, alude-se ao fato de que o infanção só bebe vinho se o ganhar de alguém. A palavra fria aparece repetida três vezes, mais a flexão frio e o termo derivado esfriarán. A graça da cantiga está em fazer parecer que se elogia o que na verdade se critica, apresentando a cozinha como um lugar aprazível e fresco, não para cozinhar (o que seria de esperar), mas para dormir a sesta no verão. O tratado poético provençal Las flors del gay saber chama a essa figura de retórica antismos, termo que designa uma sátira ou injúria dirigida a alguém com palavras encobertas, de forma graciosa, sem elevar a voz nem fazer sinal algum com os olhos e o corpo, distinguindo-se assim da ironia. Finalmente, vemos, em Maria Peres, a nossa cruzada, outra cantiga de escárnio que se insere num grupo de composições satíricas dirigidas a Maria Peres, a Balteira, famosa soldadeira na corte de Afonso X. A cantiga narra que Maria, quando voltou do Ultramar, veio tão carregada de perdão que não podia com ele erguer-se; mas em cada lugar aonde vaidormir, é roubada e já quase nada lhe resta. A sua mala não tem fecho de ferro e, depois que lhe perdeu o cadeado, anda sempre destrancada. Como guardá-la, se malandros se hospedam na pousada? E, aliás, é preciso dizer que isso foi bem feito, pois o perdão fora muito mal ganho. A cantiga joga com o duplo sentido do termo “maeta”, que significa “maleta, baú”, mas também o sexo feminino. No sentido literal, a Balteira deixa que lhe roubem todos os perdões que obteve na cruzada, porque perdeu o cadeado da maleta e dorme em pousadas frequentadas por malandros; no sentido metafórico, alude-se à vida desregrada da soldadeira, que teria recaído nos antigos costumes. O uso da ambiguidade faz dessa cantiga um bom exemplo do que se considerava uma “cantiga Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce de escárnio”, na qual o trovador deveria falar encobertamente, por equívocos. P PERO GARCIA DE AMBROA Estoutra cantiga fez Pero d’Ambrõa a Pero d’Armea por estoutra de cima que fezera. ero d’ Armea, quando composestes o vosso cuu, que tan ben parescesse, e lhi revol e concela posestes, que donzela de parecer vencesse, e sobrancelhas lhi fostes põer: tod’ est’, amigo, soubestes perder, polos narizes, que lhi non posestes. E, don Pedro, põede-lh’ os narizes ca vos conselh’ eu o melhor que posso; e matarei ũu par de perdizes, que atan bel cuu com’ é esse vosso, ainda que o ome queira buscar, que o non possan en toda a terra achar, de San Fagundo atá San Felizes. E, don Pedro, os beiços lh’ er põede a esse cuu que é tan ben barvado, e o granhon ben feito lhi fazede, e faredes o cuu ben arrufado; e punhade logo de o encobrir, ca se vejo don Fernand’ Escalho vir, sodes solteiro e seredes casado. SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Os Cancioneiros atribuem a Pero Garcia de Ambroa uma cantiga de amor e a um Pero de Ambroa, uma cantiga de amigo e treze de escárnio e maldizer. Por causa dessa coincidência parcial dos nomes, alguns críticos julgaram que se tratava do mesmo indivíduo. No entanto, por um lado, Pero Garcia de Ambroa consta como já morto em 1237, ao passo que referências contidas nas cantigas de Pero de Ambroa permitem situá-lo na corte de Afonso X (ou seja, depois de 1252). Por outro lado, a cantiga de amor do primeiro encontra-se na seção dos Cancioneiros que recolhe as composições de uma fase mais antiga do movimento lírico galego-português, enquanto as cantigas do segundo se integram no “cancioneiro de jograis galegos”, organizado posteriormente. Documentação recente, porém, menciona um “Pedro Garcia de Ambroa”, morto provavelmente antes de 1260, numa viagem de peregrinação à Terra Santa, o que concorda com as referências satíricas encontradas em cantigas compostas por trovadores diversos ligados à corte do Rei Sábio. Trata-se, portanto, de dois indivíduos distintos, embora não seja impossível conjecturar que Pero (Garcia) de Ambroa, cuja atividade poética se terá desenvolvido provavelmente entre 1235 e 1255, pertencesse a uma camada secundária da estirpe de Ambroa, procedente da freguesia de Santo Tirso de Ambroa, no nordeste da província corunhesa. A mesma documentação apresenta-o relacionado à família de Dom Múnio Fernandes de Rodeiro, que, como vimos no caso de Airas Fernandes Carpancho (ver p. 28), teria favorecido a existência de uma corte poética. Na composição Pero d’ Armea, quando composestes, o trovador diz a Pero de Armea que, quando adereçou o seu cu para que ficasse formoso, pondo-lhe cosméticos (revol e concela) e acrescentando-lhe sobrancelhas, tudo estragou ao não lhe colocar nariz. Aconselha-lhe que o faça e o seu traseiro será o mais belo de toda a terra, de São Fagundo até São Felizes. Deve pôr-lhe também lábios e uns bigodes bem-feitos para ter um cu bem vaidoso. Mas depois terá de escondê-lo, porque, se o vir Dom Fernando Escalho, de solteiro passará a casado. Como se indica na rubrica que a acompanha, a composição deve ser lida na sequência de uma cantiga de Pero d’Armea, jogral de que se sabe muito pouco, na qual o sujeito poético comparava a face de uma jovem às suas próprias nádegas. Pero d’Ambroa faz agora um comentário a essa caricatura poética, acrescentando-lhe alguns pormenores: o nariz – talvez aludindo, de modo velado, ao órgão genital masculino –, os lábios e o bigode. A sátira desenvolve-se gradualmente até chegar à conclusão que se encerra nos últimos versos, onde se menciona o seu real destinatário: Fernando Escalho, alvo de zombaria também em cantigas de outros trovadores por suas supostas tendências e práticas homossexuais. Quando se fala da extraordinária beleza do traseiro de Pero d’Armea, inclui-se ironicamente a alusão à distância entre São Fagundo (atual Sahagún) e São Felizes (atual Saelices de Mayorga), que são lugares próximos. A referência às partes baixas do corpo na poesia trovadoresca – sobretudo substituindo as altas – tem-se interpretado como influência da cultura cômica popular de inspiração carnavalesca. Nos Cancioneiros, essa cantiga fica separada das restantes composições de Pero Garcia d’Ambroa, logo em seguida à de Pero d’Armea, com a qual dialoga diretamente. L PERO MEOGO evou-s’ a louçana, levou-s’ a velida, vai lavar cabelos na fontana fria. Leda dos amores, dos amores leda. Levou-s’ a velida, levou-s’ a louçana, vai lavar cabelos na fria fontana. Leda dos amores, dos amores leda. Vai lavar cabelos na fontana fria, passou seu amigo que lhi ben queria. Leda dos amores, dos amores leda. Vai lavar cabelos na fria fontana, passa seu amigo que a muit’ amava. Leda dos amores, dos amores leda. Passa seu amigo que lhi ben queria, o cervo do monte a augua volvia. Leda dos amores, dos amores leda. Passa seu amigo que a muit’ amava, o cervo do monte volvia a augua. Leda dos amores, dos amores leda. – D igades, filha, mia filha velida, por que tardastes na fontana fria? – Os amores ei. – Digades, filha, mia filha louçana, por que tardastes na fria fontana? – Os amores ei. – Tardei, mia madre, na fontana fria, cervos do monte a augua volvian; Os amores ei. – Tardei, mia madre, na fria fontana, cervos do monte volvian a augua; Os amores ei. – Mentir, mia filha, mentir por amigo, nunca vi cervo que volvesse o rio; – Os amores ei. – Mentir, mia filha, mentir por amado, nunca vi cervo que volvess’ o alto; – Os amores ei. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS A produção literária de Pero Meogo é com justiça um dos conjuntos poéticos mais célebres da lírica galego-portuguesa. São nove cantigas de amigo de tipo paralelístico, em que se relata um episódio amoroso por meio de uma narrativa de notável riqueza simbólica. Apesar do grande interesse suscitado por sua obra, a imprecisão com que o poeta é nomeado não permitiu reconhecer com segurança a personagem histórica entre os múltiplos indivíduos que ostentaram um nome similar. Porém, como foi sugerido recentemente, parece muito razoável a sua identificação com um Petrus Moogus documentado, ao lado doutros agentes poéticos, em 1260-61, como clérigo presbítero de São Simão de Ons-Cacheiras (atual município de Teo). Ele e um irmão contavam com propriedades no lugar de Costenla, nessa mesma freguesia, o que nos leva a pensar que foi originário dessa área geográfica, imediata à capital galega. A jovem formosa da primeira cantiga levanta-se de manhã e vai lavar os cabelos na fria fonte. Está feliz, por causa do amor. Enquanto lava os cabelos, passa seu amigo, que muito a amava. O cervo do monte turvava a água. É uma cantiga de amigo paralelística, com poucos elementos, que remontam a tradicionais motivos folclóricos e literários. Justapondo-se à imagem do amigo que passa, o cervo que turva a água da fonte torna-se uma metáfora daquele, por meio do simbolismo que, no paganismo ibérico medieval e na tradição bíblica, associava o cervo à sexualidade masculina. Por outro lado,o motivo do encontro amoroso na fonte pertence também ao patrimônio folclórico românico, da mesma forma que a lavagem dos cabelos ou da roupa, que remete para o simbolismo da virgindade ou da fecundidade. Nos dois Cancioneiros que a transmitiram, essa cantiga tem o primeiro verso das estrofes 1 e 2 aparentemente truncado: 1. 1 “Levou-s’ a velida”e 2. 1 “Levou-s’ a louçana”. Esse possível lapso tem sido corrigido pelos editores de diversas maneiras. Adotamos aqui a restauração habitualmente aceita. Essa composição tem sido considerada modelo para a cantiga de Dom Dinis Levantou-s’a velida (ver p. 175), na qual o papel do cervo é substituído pelo do vento: o vento lh’ as desvia. Também uma cantiga de amigo paralelística, a segunda cantiga é construída sobre o diálogo entre uma mãe, desconfiada da filha que tardara a voltar da fonte, e a filha, que procura uma desculpa para o seu atraso. O refrão, contudo, já na primeira Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce estrofe deixa clara, com certa desfaçatez graciosa, a causa da demora: os amores ei! A mãe pergunta à moça por que se demorara na fonte fria; ela responde que tardou, porque os cervos do monte turvavam a água. A mãe não aceita a desculpa; retruca que a filha mente, escondendo dela o encontro com o amigo, pois nunca vira cervo que turvasse a água do rio. Como na cantiga anterior, o cervo é uma metáfora do amigo, aludindo a um simbolismo da sexualidade masculina de origem folclórica bastante antiga. Por outro lado, dentro das condições reais de vida da época, o espetáculo dos cervos que turvam a água do rio onde se espojam seria uma experiência comum. A falta de conexão sintática explícita na fala da jovem: “Tardei, mia madre, na fontana fria,/cervos do monte a augua volvian”, pode representar um engenhoso recurso de omissão da filha, que assim evita comprometer-se com a enunciação cabal da mentira. Q RUI FERNANDES DE SANTIAGO uand’ eu vejo las ondas e las muit’ altas ribas, logo mi veen ondas al cor, pola velida; maldito seja ‘l mare que mi faz tanto male! Nunca vejo las ondas nen as altas debrocas que mi non venhan ondas al cor, pola fremosa: maldito seja ‘l mare que mi faz tanto male! Se eu vejo las ondas e vejo las costeiras, logo mi veen ondas al cor, pola ben feita: maldito seja ‘l mare que mi faz tanto male! SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Rui Fernandes de Santiago foi um clérigo trovador ativo na corte de Afonso X durante o segundo terço do século XIII. Nos Cancioneiros registra-se um trovador com o nome de Rui Fernandes de Santiago, autor de dezoito cantigas de amor, e um “Rui Fernandes, clérigo”, a quem são atribuídas sete cantigas de amigo. A crítica tem sido unânime, porém, em considerar que se trata do mesmo indivíduo. Parece possível identificá-lo com a pessoa que Afonso X nomeou como seu capelão e que, em 1273, assinava o seu testamento em Salamanca. Ainda que numa cantiga mencione que o amigo quer ir a Sevilha servir o rei, não se pode afirmar com certeza que tenha tomado parte na conquista dessa cidade (1248). Na cantiga que trazemos aqui, o poeta contempla as ondas do mar que quebram nas altas ribeiras e penhascos, e sente que elas também batem no seu coração por causa da bela mulher que ama. E diz: “Maldito seja o mar, que me faz tanto mal!”. A cantiga é singular por vários motivos: apesar de podermos inferir que a voz poética é masculina, não são desenvolvidos aqui, da mesma maneira, os temas predominantes na cantiga de amor, tais como a análise do sofrimento amoroso e a queixa pelo desamor da dama. Eles comparecem, porém, de forma inusitada, na metáfora das ondas que açoitam os altos rochedos, configurando a situação do trovador perante a superioridade e a indiferença da senhora. Além disso, o movimento das ondas sugere ao poeta o seu próprio estado de inquietação, de acordo com o tópico literário da paisagem como espelho da alma. Precisamente por essa presença da natureza, pelo emprego de adjetivos que são mais habituais na cantiga feminina para referir-se à beleza da mulher (velida, fremosa ou ben feita) e pela sua estrutura paralelística, aproxima-se da cantiga de amigo. A composição pode ser considerada reelaboração de um antigo motivo popular românico, uma vez que nela ecoa o fragmento inicial de uma canção tradicional italiana, citada por Boccaccio no Decameron: “L’onda del mare mi fa sì gran male…”. E SANCHO SANCHES n outro dia, en San Salvador, vi meu amigo, que mi gran ben quer, e nunca mais coitada foi molher do que eu fui, segundo meu sen, cuidand’, amiga, qual era melhor: de o matar ou de lhi fazer ben. El é por mi tan coitado d’ amor que morrerá, se meu ben non ouver, e vi-o eu ali e, como quer que vos diga, ôuvi a morrer por en, cuidand’, amiga, qual era melhor: de o matar ou de lhi fazer ben. Meu é o poder, que sõo senhor de fazer d’ el o que m’ a mi prouguer, mais foi i tan coitado que mester non m’ en fora, pois que o vi, per ren, cuidand’, amiga, qual era melhor: de o matar ou de lhi fazer ben. SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Atribuem-se a Sancho Sanches uma cantiga de amor e cinco de amigo. Uma outra cantiga de amor atribuída a ele e a Pero da Ponte deve na verdade ser considerada da autoria deste último. A sua produção encontra-se na seção dos Cancioneiros em que ocorrem autores de condição clerical, da mesma forma que Airas Nunes, Pai de Cana ou Rui Fernandes de Santiago. Quase nada se sabe acerca da sua vida. Numa escritura de 1260, em que se registra que o deão de Santiago compra propriedades no lugar de Oseve (São Simão de Ons–Cacheiras, atual município de Teo), figura como testemunha um Sancho Sanches, qualificado como clérigo, provavelmente membro do estamento clerical da Sé de Santiago destacado nessa área imediata à capital galega. A delimitação do âmbito geográfico com o qual aparece aí relacionado pode ser uma via para identificar o San Salvador referido numa das suas cantigas de amigo: En outro dia, en San Salvador. Trata-se, muito provavelmente, do santuário de São Salvador de Bastavales (município de Briom), cabeça da antiga freguesia desse nome (hoje integrada na de São Julião de Bastavales), situada a 6,5 quilômetros de Oseve e a dez quilômetros de Santiago de Compostela. Na cantiga, a moça declara à amiga ter visto em São Salvador o seu amigo que tanto a ama. Ficou então muito perturbada, pensando se seria melhor matá-lo, quer dizer, deixá-lo morrer de amor, ou corresponder-lhe. Quando o viu sofrer tanto, ficou mais triste do que qualquer mulher e quase morreu. Ela sabe que é a senhora e pode fazer o que lhe aprouver, mas hesita sobre o que será melhor. Por causa da menção ao santuário de São Salvador, essa composição tem sido considerada uma cantiga de romaria. O tema, contudo, é inteiramente amoroso: o poeta explora as expectativas criadas pelos tópicos da “coita” e da “morte de amor”, recorrentes nas cantigas de amor para descrever o sentimento do homem apaixonado. Na terceira estrofe, a jovem assume explicitamente a posição da “senhora”, atribuindo-se o poder de matar o homem ou de dar-lhe a vida; mas, ao contrário do que acontece com a dama das cantigas de amor, ela sente compaixão e solidariza-se com o sofrimento do amante. Por meio da disparidade extrema entre as duas soluções propostas, se tomadas ao pé da letra (“matar ou lhi fazer ben”), a cantiga adquire um tom híbrido e leve, até mesmo gracioso, como se o refrão visasse a provocar o sorriso dos ouvintes. TROVADORES E TEXTOS EM DIÁLOGO N DOM AFONSO X on me posso pagar tanto do canto das aves nen de seu son, nen d’ amor nen de mixon nen d’ armas – ca ei espanto, por quanto mui perigosas son –, come dun bon galeon, que m’ alongue muit’ aginha deste demo da campinha, u os alacrães son; ca dentro no coraçon senti deles a espinha! E juro par Deus lo santo que manto non tragerei nen granhon, nen terrei d’ amor razon nen d’ armas, por que quebranto e chanto ven delas toda sazon; mais tragerei un dormon, e irei pela marinha vendend’ azeit’ e farinha; e fugirei do poçon do alacran, ca eunon lhi sei outra meezinha. Nen de lançar a tavolado pagado non sõo, se Deus m’ ampar, adés, nen de bafordar; e andar de noute armado, sen grado o faço, e a roldar; ca mais me pago do mar que de seer cavaleiro; ca eu foi ja marinheiro e quero-m’ oimais guardar do alacran, e tornar ao que me foi primeiro. E direi-vos un recado: pecado ja non me pod’ enganar que me faça ja falar en armas, ca non m’ é dado (doado m’ é de as eu razõar, pois-las non ei a provar); ante quer’ andar sinlheiro e ir come mercadeiro algũa terra buscar, u me non possan culpar alacran negro nen veiro. O genete, pois remete seu alfaraz corredor, estremece e esmorece o coteife con pavor. Vi coteifes orpelados estar mui mal espantados, e genetes trosquiados corrian-nos arredor; tiinhan-nos mal aficados, perdian na color. Vi coteifes de gran brio, eno meio do estio, estar tremendo sen frio ant’ os mouros d’ Azamor; e ia-se deles rio que Aguadalquivir maior. Vi eu de coteifes azes con infanções iguazes mui peores ca rapazes; e ouveron tal pavor, que os seus panos d’ arrazes tornaron doutra color. Vi coteifes con arminhos, conhecedores de vinhos, que rapazes dos martinhos, que non tragian senhor, sairon aos mesquinhos, fezeron ced’ o peor. Vi coteifes e cochões con mui mais longos granhões que as barvas dos cabrões: ao son do atambor os deitavan dos arções ant’ os pees de seu senhor. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Filho de Fernando III e da rainha Dona Beatriz de Suábia, nasceu em Toledo, em 23 de novembro de 1221. Como era habitual entre os monarcas peninsulares, foi entregue a um nobre ligado à corte para ser criado: assim, passou parte da sua infância na casa de Garcia Fernandes de Villamayor – mordomo da rainha Berenguela, sua avó – e de sua mulher, Dona Maior Airas (da linhagem galega dos Limas), que tinham propriedades na região de Burgos (Castela) e em Maceda, na província de Ourense (Galiza). A sua ligação à Galiza manteve-se ao longo da década de 40 do século XIII, já que foi tenente de Ribadávia entre 1240 e 1249. Importa também salientar o seu relacionamento extramatrimonial com Maria Afonso (filha de Afonso IX e de Teresa Gil de Soverosa), vinculada ao antigo território de Toronho, no sudoeste galego. Ainda infante, Afonso distinguiu-se nas guerras de Reconquista empreendidas pelos reis peninsulares para recuperar os territórios ocupados pelos árabes. Levou a cabo a tomada de Múrcia, em 1243, participou da conquista de Jaén em 1246 e da de Sevilha em 1248. Em 1252, morto Dom Fernando iii, tornou-se rei de Castela e Leão. O seu reinado foi tumultuado por levantes muçulmanos e por revoltas da nobreza. Após a morte do herdeiro do trono, Dom Fernando de la Cerda, em 1275, iniciou-se um conflitivo processo sucessório, do qual saiu vencedor o seu filho Dom Sancho IV, apoiado pelos nobres insatisfeitos com o monarca. Desgostoso, Afonso X morre em Sevilha, em 4 de abril de 1284. Em contraste com os reveses políticos, o empenho de Afonso X na esfera cultural rendeu-lhe o epíteto de “o Sábio”. No seu escritório, situado provavelmente em Toledo, reuniam-se tradutores (entre os quais atuavam intelectuais judeus, incumbidos de traduzir obras científicas do árabe para o castelhano), legistas, astrônomos, cientistas, comentadores da Bíblia, copistas, ilustradores… A sua obra monumental inclui, entre outras, as Sete partidas, espécie de enciclopédia das instituições e valores do homem medieval, do ponto de vista legal; a Crônica geral de Espanha e a Grande e geral história, trabalhos historiográficos compostos em castelhano, sob a sua direção; obras de astronomia, astrologia e magia. É importante relevar também o papel que teve Afonso X no desenvolvimento do castelhano como língua de cultura, de forma a incluir entre os fruidores do conhecimento a parte da população que já não dominava o latim. Além do seu labor científico e historiográfico, Afonso X foi também poeta em galego-português. Sua produção profana inclui 44 poesias líricas (três cantigas de amor, uma cantiga de amigo – de autoria controversa – e as demais, satíricas). Nelas estabelece por vezes diálogo direto com trovadores que frequentavam a sua corte, como Pero da Ponte, e aqueles com os quais compôs tenções: Garcia Peres, Pai Gomes Charinho, Vasco Gil e o provençal Dom Arnaldo; indiretamente, menciona outros, como Bernal de Bonaval, Afonso Eanes do Cotom, Gonçalo Eanes do Vinhal. Alguns ciclos de cantigas à volta de um mesmo tema – como o que se compôs a propósito da famosa soldadeira Maria Peres, a Balteira – permitem identificar vários trovadores e jograis que se congregavam na corte alfonsina. O próprio rei compôs uma cantiga de escárnio que satiriza a suposta devassidão da Balteira (Joan Rodriguiz foi esmar a Balteira). Destaca-se, por outro lado, a sua obra de caráter religioso, as Cantigas de Santa Maria, que inclui 427 composições, na sua maioria narrativas dos milagres da Virgem, mas também cantigas líricas de louvor e dedicadas a festividades marianas e cristológicas. As composições são acompanhadas da respectiva pauta musical, constituindo importante repertório musical da lírica medieval. Os códices em que foram copiadas as composições demonstram o cuidado e o carinho de Afonso X pelo seu livro. As iluminuras, principalmente as do chamado “códice rico” da Biblioteca do Escorial, constituem a obra-mestra da miniatura medieval hispânica. A primeira cantiga, Non me posso pagar tanto, é de difícil classificação, dentro dos parâmetros da lírica galego-portuguesa. A sua interpretação é também controversa, havendo críticos que a entendem como um desabafo pessoal do Rei Afonso x, por causa das dificuldades encontradas por ele no fim do seu reinado, enquanto outros consideram que o monarca assume a voz de outra pessoa, para fazer uma sátira contra intrigas e traições frequentes na vida cavaleiresca. De qualquer forma, trata-se de uma composição resultante da combinação de gêneros, com fortes ressonâncias intertextuais de origem latina, castelhana, provençal e francesa. Interesse particular apresenta, por exemplo, a relação com a narrativa das atribulações de Guilherme de Inglaterra, forçado durante algum tempo a exercer a atividade de mercador, aliás com sucesso; não por acaso, esse soberano conta-se entre os ascendentes de Afonso X. O poeta contrapõe dois mundos que já conhece de experiência própria: o do cavaleiro, com as suas atividades características ligadas ao exercício das armas e ao amor, e o do mercador, dedicado ao comércio e às viagens marítimas. Rejeita o primeiro, por ser sempre permeado de perigos e traições, enquanto proclama o desejo de voltar à vida de marinheiro e comerciante que o afastaria dos traidores. Já com a descrição de uma batalha entre mouros e cristãos, no contexto da chamada “Reconquista”, na segunda composição o trovador provavelmente se refere aos árabes que chegam à Península na ocasião em que teria sido composta, isto é, por volta de 1264. Os cavaleiros mouros (genetes) são apresentados como valentes e aguerridos, enquanto os cristãos (coteifes) são escarnecidos como covardes desprezíveis. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Os códices eram os manuscritos gravados em madeira, em geral do período da era antiga tardia até a Idade Média. Manuscritos do Novo Mundo foram escritos por volta do século XVI. O códice é um avanço do rolo de pergaminho, e gradativamente substituiu este último como suporte da escrita. Luana Pagung Realce A composição é extraordinária pela vivacidade e pelo dinamismo da cena de batalha, na qual se vê e se ouve o tropel dos cavaleiros árabes que atacam e se veem os cristãos que, aterrorizados, deixam escapar um rio de urina maior que o Guadalquivir, borram-se de medo, são derrubados da sela e fogem não só diante dos genetes, mas também dos soldados da mais baixa categoria. Apesar das longas barbas, símbolo de honra, os cristãos são vergonhosamente derrotados pelos árabes de cara raspada. O significado de alguns termos utilizados na cantiga é hoje difícilde precisar: rapazes dos martinhos (soldados árabes independentes?) e o próprio coteife, que em outras composições tem o sentido de “soldado vilão”, aqui poderia ter sido usado como termo pejorativo para desqualificar o cavaleiro cristão. A cantiga, principalmente no que se refere à primeira estrofe, tem um esquema métrico invulgar. Tem sido considerada adaptação galego-portuguesa de uma estrutura comum na poesia culta latina e românica, de conteúdo mariano ou religioso, ou mesmo um contrafactum (imitação da estrutura rítmica e melódica) de um hino litúrgico. Não é de admirar, se nos lembrarmos que Afonso X é também o autor das Cantigas de Santa Maria. Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce L DOM DINIS evantou-s’ a velida, levantou-s’ alva, e vai lavar camisas eno alto. Vai-las lavar alva. Levantou-s’ a louçana, levantou-s’ alva, e vai lavar delgadas eno alto. Vai-las lavar alva. E vai lavar camisas, levantou-s’ alva; o vento lh’ as desvia eno alto. Vai-las lavar alva. E vai lavar delgadas, levantou-s’ alva; o vento lh’ as levava eno alto. Vai-las lavar alva. O vento lh’ as desvia, levantou-s’ alva; meteu-s’ alva em ira eno alto. Vai-las lavar alva. O vento lh’ as levava, levantou-s’ alva; meteu-s’ alva em sanha, eno alto. Vai-las lavar alva. Q uer’ eu en maneira de proençal fazer agora un cantar d’ amor, e querrei muit’ i loar mia senhor a que prez nen fremosura non fal, nen bondade; e mais vos direi en: tanto a fez Deus comprida de ben que mais que todas las do mundo val. Ca mia senhor quizo Deus fazer tal, quando a fez, que a fez sabedor de todo ben e de mui gran valor, e con tod’ esto é mui comunal ali u deve; er deu-lhi bon sen, e desi non lhi fez pouco de ben quando non quis que lh’ outra foss’ igual. Ca en mia senhor nunca Deus pos mal, mais pos i prez e beldad’ e loor e falar mui ben e riir melhor que outra molher; desi é leal muit’, e por esto non sei oj’ eu quen possa compridamente no seu ben falar, ca non á, tra-lo seu ben, al. P roençaes soen mui ben trobar e dizen eles que é con amor; mais os que troban no tempo da flor e non en outro, sei eu ben que non an tan gran coita no seu coraçon qual m’ eu por mia senhor vejo levar. Pero que troban e saben loar sas senhores o mais e o melhor que eles poden, sõo sabedor que os que troban quand’ a frol sazon á, e non ante, se Deus mi perdon, non an tal coita qual eu ei sen par. Ca os que troban e que s’ alegrar van eno tempo que ten a color a frol consig’ e tanto que se for aquel tempo, log’ en trobar razon non an, non viven en qual perdiçon oj’ eu vivo, que pois m’ á de matar. ũ a pastor ben talhada cuidava en seu amigo e estava, ben vos digo, per quant’ eu vi, mui coitada, e diss’: “Oimais non é nada de fiar per namorado nunca molher namorada, pois que mi o meu á errado”. Ela tragia na mão un papagai mui fremoso, cantando mui saboroso, ca entrava o verão, e diss’: “Amigo loução, que faria por amores, pois m’ errastes tan en vão?” e caeu antr’ ũas flores. ũa gran peça do dia jouv’ ali, que non falava, e a vezes acordava, e a vezes esmorecia, e diss’: “Ai Santa Maria, que será de min agora?” e o papagai dizia: “Ben, por quant’ eu sei, senhora”. “Se me queres dar guarida”, diss’ a pastor, “Di verdade, papagai, por caridade, ca morte m’ é esta vida”; diss’ ele: “Senhor comprida de ben, e non vos queixedes, ca o que vos á servida, erged’ olho e vee-lo-edes”. SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Dom Dinis nasceu em Santarém, em 9 de outubro de 1261, e morreu em Lisboa, aos 7 de janeiro de 1325. Era filho de Afonso III e de Beatriz de Guillén, filha bastarda de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela. Por parte da bisavó, Beatriz da Suábia, era aparentado à família de Frederico ii, imperador da Alemanha e senhor do reino da Sicília. Seu pai, Afonso iii, viveu por vários anos na corte do rei da França e no condado de Bolonha, onde esteve em contato com poetas franceses. Em 1279, é coroado rei de Portugal, iniciando um reinado de 46 anos, marcado por ações importantes no campo político, econômico e cultural. Procurou aumentar e consolidar o poder da realeza, frente aos privilégios da nobreza e da Igreja. Fomentou a riqueza nacional, explorando fontes até então inexploradas, como as minas de prata, estanho e enxofre. Incentivou a agricultura, estendendo a utilização das terras a pequenos proprietários e trabalhadores rurais. Entre as suas realizações, conta-se a ampliação do reflorestamento da região de Leiria por pinheiros-bravos, mais resistentes, os quais se tornaram miticamente famosos, pois teriam servido para a construção das naus na época das viagens ultramarinas (a isso alude Fernando Pessoa no poema “Dom Dinis”: “Na noite escreve um seu Cantar de Amigo/o plantador de naus a haver,/e ouve um Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce silêncio múrmuro consigo:/É o rumor dos pinhais que, como um trigo/de Império, ondulam sem se poder ver”). Deu grande impulso à cultura nacional, não só por sua atividade como poeta, mas também pelo estabelecimento do uso exclusivo do português nos documentos judiciais (anteriormente redigidos em latim) e pelas traduções importantes de obras de história e de direito ordenadas por ele, como a Crônica do mouro Rasis e as Partidas de Afonso X. Em 1290, fundou a primeira universidade do país e uma das mais antigas do mundo; ela funcionou originariamente em Lisboa, mas foi depois transferida para Coimbra. Em 1282, casou-se com Isabel de Aragão, que crescera numa corte onde a língua e a poesia occitânicas eram cultivadas e prestigiadas. Ainda em vida, a rainha angariou fama de santa. Depois da morte de Dom Dinis, em 1325, recolheu-se ao Mosteiro de Santa-Clara-a-Velha, em Coimbra, vestindo o hábito das clarissas. Naquele mesmo ano, fez uma peregrinação a Compostela, que repetiria dez anos mais tarde. Foi santificada em 1625. O cancioneiro de Dom Dinis é o mais extenso que nos chegou: compõe-se de 137 textos, dos quais 73 cantigas de amor, 51 de amigo, dez de escárnio e maldizer e três pastorelas. Recentemente, foi encontrado um testemunho parcial da obra do rei trovador, o assim chamado Pergaminho Sharrer, que contém, além do texto de seis cantigas de amor e o início de uma sétima, as respectivas notações musicais. Trata-se de descoberta de valor inestimável, uma vez que até então só dispúnhamos da pauta musical das cantigas de Martim Codax (transmitidas pelo Pergaminho Vindel) e das Cantigas de Santa Maria, de Afonso X. A partir do seu estudo, concluiu-se que a música das cantigas de amor de Dom Dinis tem um estilo muito distante da música popular da época. Na primeira composição, a jovem, formosa e de pele alva, levanta-se de madrugada e vai lavar camisas no rio. O vento desvia-as; a moça enraivece-se. Aparentemente, estamos diante do enredo singelo de uma cantiga de amigo tradicional. O primeiro verso do refrão intercala-se entre o primeiro e o terceiro da estrofe: “levantou-s’ alva”. A medida dos versos é irregular, o que motivou alguns editores a introduzirem modificações para torná-la regular. Considerando, porém, que a irregularidade, da mesma forma que o sentido, se resolveria facilmente no canto, preferimos respeitar a transmissão dos manuscritos. Pelo tema – a lavagem da roupa (ou dos cabelos) na fonte – e pelo uso de certos termos (velida, louçana), a cantiga dialoga com a de Pero Meogo: Levou-s’ a louçana, levou-s’ a velida (ver p. 155). Nesse caso, a jovem vai lavar camisas de tecido fino, ou seja, uma peça íntima de vestuário; o vento, que as desvia, adquire um sentido simbólico equivalente ao dos cervos de Meogo, construindo-se assim uma atmosfera de erotismo. No entanto, a utilização da palavra alva, repetida catorze vezes e com valor polissêmico: “de madrugada” e “branca”, remete também à cantiga de Santa Maria nº. 340, Virgen madre groriosa, que por sua vez mantém relações dialógicas com uma “alba” (gênero provençal) de Cadenet. A forma aparentemente simples e de tema folclórico esconde um trabalho culto dereferências à tradição galego-portuguesa e occitânica. A segunda, Quer’ eu en maneira de proençal, é uma cantiga de mestria (sem refrão), com três estrofes uníssonas (mesmas rimas) de sete versos decassílabos agudos, conforme a intenção explícita de dialogar com a lírica occitânica, que privilegia tal tipo de rima. Ali, o trovador declara que o seu propósito é fazer um cantar de amor à maneira provençal, tecendo louvores à amada e enumerando as suas qualidades, que a tornam melhor do que qualquer outra mulher. Pelo tema, distingue-se das cantigas de amor galego-portuguesas por se concentrar exclusivamente no retrato da dama, elencando as qualidades físicas, de caráter abstrato (fremosura, beldade) e as morais, apresentadas com maior minúcia, mas ainda assim de forma geral e não distintiva (prez, bondade, ben, gran valor, loor, falar ben, riir melhor). Essas qualidades tornam-na única entre as demais mulheres e podem ser resumidas no vocábulo ben, que se repete, pelo artifício do dobre, seis vezes no poema, ocupando, inclusive, o lugar de palavra-rima no sexto verso de todas as estrofes. A seleção de vocábulos de matriz occitânica (prez, sen) também remete ao propósito de compor uma cantiga “à maneira provençal”. Na terceira cantiga de amor, também de mestria, o trovador começa por afirmar que os provençais são bons trovadores e dizem que o fazem por amor; mas, observa o poeta, os que compõem no tempo das flores e não em outro não têm no coração a mesma dor que ele sofre por sua senhora. É bem verdade que trovam e louvam muito bem as suas senhoras; mas os que trovam quando as flores aparecem e não antes não têm um sofrimento como o dele, sem igual. Pois os que trovam e se alegram quando a flor mostra a sua cor e não depois não vivem no desespero em que ele vive e que o há de matar. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Assim, embora elogiando os provençais, o poeta aproveita a ocasião para observar que o amor que eles cantam, quando as flores nascem e os pássaros gorjeiam (o chamado “exórdio primaveril”), não pode ser tão verdadeiro nem tão forte como o seu, que o faz sofrer incessantemente, em todas as estações do ano. Ao combinar o tema do amor com o da composição poética, Dom Dinis realiza o que se poderia chamar uma “sátira literária”. À primeira vista, trata-se de criticar os provençais pela sua suposta incapacidade de amar profunda e verdadeiramente. No entanto, fica muito clara a familiaridade do poeta com a lírica occitânica, ao fazer referência a uma das suas técnicas e ao utilizar uma estrutura métrica e rímica característica daquela poesia. À medida que desmerece os provençais enquanto amadores, inferiorizando-os diante da sua total submissão à concepção galego-portuguesa de amor como sofrimento que leva à morte, Dom Dinis vai compondo a sua própria cantiga, cheia de ecos provençais. E, por fim, em ũa pastor ben talhada, o trovador compõe um quadro bucólico, no qual uma pastora formosa, pensando em seu namorado, lamenta a sua ausência. Ela trazia na mão um papagaio muito bonito, que cantava com prazer, pois entrava a primavera. Mas a pastora, infeliz por causa do amigo, caiu entre umas flores e ali ficou uma boa parte do dia. E disse: “Ai, Santa Maria, o que será de mim agora?”. E o papagaio respondeu: “Bem, senhora. E não vos queixeis, pois se erguerdes os olhos, vereis o que vos ama”. O primeiro verso coloca em cena uma pastora, o que caracteriza a cantiga como uma pastorela, gênero no qual o encontro campestre entre uma pastora e um cavaleiro é narrado do ponto de vista do homem; no segundo verso, porém, encontra-se a palavra “amigo”, o que constitui a marca da cantiga de amigo, colocada na voz da mulher. Trata-se, portanto, de uma composição híbrida no que respeita ao gênero. Além disso, contém formas narrativas, dramáticas e líricas. Do ponto de vista formal, o esquema rímico (a b b a a c a c) é exclusivo dessa cantiga na lírica galego-portuguesa. A maior originalidade, porém, é a presença do papagaio, apresentado com o termo occitânico papagai, e provavelmente alusivo às Novas del papagay, de Arnaut de Carcasses. Esse pássaro substitui, com algum senso de humor, o rouxinol e outras aves tradicionalmente usadas na literatura românica como mensageiras do amor e, na função de interlocutor da jovem, as figuras da mãe, da irmã ou da amiga, usuais confidentes da moça na cantiga de amigo. Dom Dinis vale-se, assim, na sua composição, de elementos familiares ao ouvinte (ou leitor), como os modelos da cantiga de amigo, da pastorela e reminiscências da poesia provençal. Numa forma econômica, confia que a simples alusão será adequadamente reconhecida pelo público, que saberá preencher os vazios e apreciar as novas figurações e contextualizações que lhe oferece. Luana Pagung Realce Luana Pagung Sublinhado JOÃO DE GAIA Esta cantiga foi seguida per ũa bailada que diz: “Vós avede-los olhos verdes e matar-m’-edes com eles”. E foi feita a ũu bispo de Viseu, natural d’Aragon, que era tan cardeo como cada ũa destas cousas que conta en esta cantiga ou mais e apoinhan-lhe que se pagava do vinho. Eu convidei un prelado a jantar, se ben me venha. Diz el en est’: – E meus narizes de color de berengenha? Vós avede-los alhos verdes, e matar-m’-íades con eles! − O jantar está guisado e, por Deus, amigo, trei-nos. Diz el en est’: – E meus narizes color de figos çofeinos? Vós avedes os alhos verdes, e matar-m’-íades con eles! − Comede mig’, e diran-nos cantares de Martin Moxa. Diz el en est’: – E meus narizes color d’ escarlata roxa? Vós avedes os alhos verdes, e matar -m’-íades con eles! − Comede mig’, e dar-vos-ei ũa gorda garça parda. Diz el en est’: – E meus narizes color de rosa bastarda? Vós avedes os alhos verdes, e matar-m’-íades con eles! − Comede mig’, e dar-vos-ei temporaão figo maduro. Diz el en est’:– E meus narizes color de morece ‘scuro? Vós avedes os alhos verdes e matar-m’-íades con eles! − Treide mig’, e comeredes muitas boas assaduras. Diz el en est’: – E meus narizes color de moras maduras? Vós avedes os alhos verdes, e matar-m’-íades con eles! SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA João de Gaia é designado como “escudeiro”, nos Cancioneiros. O Livro de linhagens do conde Dom Pedro identifica um João (Esteves) de Gaia, filho do clérigo Estêvão Eanes e pertencente à poderosa linhagem portuguesa dos condes da Maia, e acrescenta que “foi mui boo trobador e mui saboroso ” (LL XVI C 7). Não se conhecem as datas do seu nascimento e morte, mas pelos temas das suas três cantigas de escárnio e maldizer podemos situá-lo em fins do século XIII e primeiro terço do XIV. Uma delas, por exemplo, satiriza Fernão Vasques Pimentel, um cavaleiro que, no espaço de seis meses, foi vassalo do conde Dom Pedro de Barcelos, depois do seu sobrinho Dom João Afonso de Albuquerque e finalmente passou para o lado do infante Dom Afonso, filho rebelde de Dom Dinis. Esse dado, juntamente com a mercê que Dom Dinis fez a João de Gaia, filho de Estêvão Eanes e de Teresa Miguéis, em 1319, legitimando-o para que pudesse receber a herança dos pais, leva a crer que o trovador se tivesse aliado ao rei na sua luta contra o herdeiro, o futuro Afonso IV. Os Cancioneiros atribuem-lhe quatro cantigas de amor (uma de autoria duvidosa) e três de escárnio e maldizer. O apreço ao seu talento, registrado pelo conde Dom Pedro, podia estar baseado na sua técnica compositiva, que privilegia o recurso da intertextualidade em duas modalidades: a do “verso com autoridade”, isto é, a inclusão de versos alheios numa composição própria, e a de “seguir” (ou contrafactum), que consiste em imitar a melodia e a estrutura rímico-estrófica de outra cantiga, como o faz na cantiga aqui incluída. Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce Conforme se explicita na rubrica que a acompanha, essa composição é uma cantiga de seguir: “Esta cantiga foi composta seguindo uma bailada que diz: ‘Vós tendes os olhos verdes e matar-me-eis com eles’. E foi feita a um bispo de Viseu,natural de Aragão, que era tão arroxeado como cada uma das coisas de que se fala nesta cantiga ou mais, e diziam que gostava do vinho”. Nela, o trovador convida o prelado para jantar. Insiste com ele, enumerando as delícias que lhe oferecerá: uma gorda garça parda, figo temporão maduro, bons assados; e para acompanhamento musical, cantares de Martim Moxa. O prelado recusa, argumentando que tem o nariz vermelho (cor de berinjela, figo arroxeado, escarlate, rosa bastarda, molusco escuro e amoras maduras) e no jantar lhe seriam servidos “alhos verdes” que o matariam. Segundo a fragmentária Arte de trovar que precede o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, a cantiga de seguir consistia na imitação de outra cantiga, o que podia ser feito de três formas: utilizando a melodia e a estrutura silábica da outra cantiga; adotando, além da melodia, a estrutura rímico- silábica e rimas; ou reproduzindo a melodia, estrutura rímico-silábica e eventualmente acrescentando jogos de equívoco sobre algumas palavras de rima ou sobre o refrão. É essa última modalidade que João de Gaia adota na sua cantiga. O refrão da bailada, citado na rubrica, desenvolve um tema presente na lírica amorosa: os olhos verdes que matam de amor, como o lemos numa cantiga do trovador português João Garcia de Guilhade (Amigos, non poss’ eu negar: os olhos verdes que eu vi/me fazen ora andar assi). Ao incorporá-lo à sua cantiga, o trovador muda “olhos” por “alhos”, realizando assim uma acomodação semântica ao assunto da sua sátira: a crítica a um bispo beberrão, denunciado pela cor do seu nariz, o qual recusa o convite para jantar, usando o argumento baseado na tradição que considera os “alhos verdes” um estímulo ao consumo do vinho. Numa cantiga de temática gastronômica, que nos proporciona a tentadora descrição do que seria um banquete oferecido a um prelado bem situado na corte real, como o era o Bispo de Viseu – Dom Miguel Vivas, privado do rei Dom Afonso IV –, chama também atenção a referência aos poemas de Martim Moxa a serem cantados durante o jantar. Embora não se mencione uma cantiga em especial, convém lembrar que esse trovador compôs diversas sátiras contra a decadência moral dos clérigos e dos nobres do seu tempo (veja-se, por exemplo, o sirventês Per quant’eu vejo, na p. 95). Contando com o conhecimento que o público teria dessas composições, é possível que João de Gaia tivesse em mente não só atingir o bispo no aspecto que constitui o cerne da sua cantiga – o gosto pela bebida –, mas também aludir, através da chamada intertextual a Martim Moxa, ao seu comportamento de figura áulica em busca de proveito próprio junto ao rei. Por esse mesmo motivo, aliás, Dom Miguel Vivas foi alvo de outras cantigas de escárnio de trovadores contemporâneos, entre os quais Dom Pedro, conde de Barcelos, filho natural de Dom Dinis, trovador, cronista e responsável pela compilação do ramo mais importante da tradição manuscrita da lírica galego-portuguesa, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Luana Pagung Sublinhado Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce B JOÃO ZORRO ailemos agora, por Deus, ai velidas, so aquestas avelaneiras frolidas e quen for velida, como nós velidas, se amigo amar, so aquestas avelaneiras frolidas verrá bailar! Bailemos agora, por Deus, ai loadas, so aquestas avelaneiras granadas e quen for loada, como nós loadas, se amigo amar, so aquestas avelaneiras granadas verrá bailar! SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Jogral, provavelmente português, que terá desempenhado a sua atividade no reinado de Dom Dinis (entre os anos de 1275 e 1325), talvez nos seus anos iniciais. A presença do nome Zorro na documentação da época, assim como as alusões explícitas que faz a Lisboa e ao rio Tejo nas suas cantigas, parece confirmar essas hipóteses espaçotemporais. Porém, poderia tratar-se de um jogral da Galiza que frequentou a corte portuguesa. Na verdade, não dispomos de nenhum dado específico nem consistente acerca da sua biografia. A produção poética da sua autoria que nos foi transmitida está integrada por dez cantigas de amigo e uma de amor, que parecem aproximar-se mais do lirismo tradicional do que do provençal, contendo, porém, alguns elementos bastante inovadores. Entre eles, o lançamento de “barcas novas” ao mar, nas quais vai partir ou já partiu o amigo; a presença do rei como construtor de navios (mesmo com voz própria numa das cantigas); e o canto à capital portuguesa em quadros que nos remetem para uma cidade em plena atividade de construção naval e para a zona ribeirinha, onde o rio Tejo e o mar confluem. Por isso, os versos de João Zorro se têm apresentado como reflexos de uma nova Lisboa medieval, cuja dimensão marítima se vai progressivamente afirmando. Na cantiga aqui presente, a moça convida alegremente outras a dançar embaixo das avelaneiras em flor, dizendo “e quem for formosa e louvada como nós, se amigo amar, virá bailar”. Essa cantiga de amigo mantém um alto grau de semelhança com a de Airas Nunes, Bailemos nós ja todas tres, ai amigas (ver p. 35). Ambas apresentam o mesmo refrão intercalado (quarto e sexto verso de cada estrofe) e coincidem quase totalmente na primeira estrofe, introduzindo pequenas variantes no desenvolvimento. Embora qualquer um dos poetas pudesse ter retomado a cantiga do outro, parece provável ter sido a composição de João Zorro a base de que partiu o trovador galego, dada a inclinação deste para os diálogos intertextuais. O termo granadas (cujo significado literal é “com grãos”, cf. espanhol granada, romã, e milgranada, em Airas Nunes, equivalente a “romãzeira”), em associação paralelística com frolidas, reforça metaforicamente a imagem da árvore coberta de flores. GLOSSÁRIO Os verbos usados nas cantigas aparecem aqui em sua forma infinitiva. A ADÉS (PROV.) agora, neste momento ADUBAR fazer, conseguir, alcançar ADUR dificilmente, mal ADUZER trazer, conduzir (adugades, adugo, adusse) AFICADO com afinco, afincadamente; perseguido, apertado AGINHA depressa, rapidamente, cedo AJA BEN que esteja bem AL outra coisa ALACRAN lacrau, escorpião ALEIVOSO(-a) traidor, desleal, falso ALFAIA adorno ALFARAZ cavalo mouro pequeno e ligeiro ALHUR em outro lugar, alhures ALTO (SUBST.) rio, ribeiro AMA ama de leite, mulher que cuida de crianças, dona de casa AMBRAR menear os quadris, requebrar ANDANÇA sorte, ventura (boa ou má) ANTEJO entediado, enfastiado APARAR arranjar, proporcionar APOER atribuir, imputar (apoinhan) AQUESTE(-a) este, esta AQUESTO isto AR novamente, também ARÇON arção, peça de madeira que faz parte da armação de uma sela ATAL tal ATENDER esperar AVELANA avelaneira AVER haver, ter, possuir (ouvo, ôuvi) AVOLEZA maldade, vileza, baixeza AZ esquadrão, batalhão, fileira B BAFORDAR jogo de armas em que se tiram lanças por alto, fingindo combate militar BAIO(-A) amarelado, trigueiro BARATAR proceder, conduzir BUSCAR-SE procurar, imaginar C CA pois, porque; do que CAMBAR trocar CAMPINHA campina; talvez uma referência à Campinha, planície às margens do rio Guadalquivir, nas cercanias de Córdova CANDEA vela CARDEO de cor púrpura, violácea CAS forma reduzida de “casa”, em locuções como: “en cas Dona Maior”, “en cas Dona Constança” CASTIGO aviso, conselho, exortação CATIVO infeliz, desventurado CEDO em breve, em pouco tempo CELADO, EN às escondidas CERTAS certamente CHANTO pranto CHO te + o CHUFAR burlar, passar por CINTA cinto, faixa, correia CITOLON instrumento musical COCHON porco; homem ordinário, por extensão, servo ÇOFEINO figo algarvio arroxeado COIRMÃO(-ã) primo COITA pena, mágoa, sofrimento. COMEDIR pensar, considerar, admitir COMETER desafiar, agredir, provocar COMPRIDAMENTE perfeitamente, completamente COMPRIDO(-A) cheio, repleto COMUNAL comum, simples, afável CONCELA cosmético de cor vermelha CONORTO conforto, alívio, consolação CONTRA ao lado de COR coração CORREDURA incursão militar COTEIFE soldado inferior, cavaleiro vilão COSTEIRA falésia, encosta COUSIR olhar com atenção, contemplar COVILHEIRA criada de confiança, camareira CRUZAR tomar a cruz de peregrino, tomar parte emcruzada D DEBROCA penhasco, escarpa DELGADA (SUBST.) camisa DELGADO(-A) delicado DẽOSTAR doestar, ofender DEPARTIR distinguir; conversar, discutir DESCONORTADO desconsolado, desanimado DESI então, depois, logo DESPAGADO desgostado, descontente DESPAGAR desagradar, desgostar (despaguei) DOA presente, dom DOADO inútil, sem razão, fácil DON presente, dádiva DORMON barco pequeno E EIRE ontem EIXERDADO deserdado, escorraçado EMPARAR amparar, proteger EN disso, daquilo (forma abreviada do pronome demonstrativo “ende”) ENDE disso, daquilo ENMENTAR recordar, referir, fazer alusão ENSINADA de boas maneiras, bem-educada ENTENÇAR fazer tenção, disputa literária ENTENDEDOR namorado ERGO a não ser, exceto, senão ESCAECER esquecer ESCARLATA pano rico vermelho ESCASSEZA avareza, mesquinhez ESCUSAR dispensar, desculpar ESTAR casa, morada, sede ESTREMAR distinguir, diferençar F FADA destino, fado FADAR destinar FALIR faltar, falhar (fal) FILHAR tomar, receber, aceitar FILHAR-SE aplicar-se, entregar-se FUDUDANCUA (COMPOSTO DERIVADO DE “FODER”) insulto forte, de sentido genérico, sem correspondência literal G GAAR ganhar GENETE cavaleiro africano GONELA (prov.) espécie de túnica GRADESCER agradecer GRADO gosto, vontade, prazer GRADOAR mostrar alegria, aprazer GRANADO(-A) com grãos GRANHON barba, bigode GUARECER sobreviver, viver GUARIR escapar de um perigo, curar-se, viver, morar (guarrei) GUARVAIA manto, provavelmente de cor vermelha GUISA modo, maneira GUISADO preparado, arranjado; conveniente I I aí IGUAZ do mesmo tipo, da mesma igualha L LEDO(-A) alegre, contente LEIXAR deixar LER mar LEU (PROV.) leve, fácil, facilmente LEVAR levantar LEZER lazer, descanso, consolação LIRIA floreado LOUÇANO(-A) loução, belo LOUVAMĨAR lisonja, adulação M MAER ficar, pernoitar MAETA maleta, baú, caixa MALEZA malícia MANCEBO(-A) criado, criada MANDADO recado MARTEIRO martírio MARTINHO livre combatente mouro MEEZINHA remédio, medicina MENTRE enquanto MERGER levantar MESSE seara MESURA moderação, cortesia, maneira palaciana MIGO comigo MISCRAR causar discórdia, intrigar Luana Pagung Realce MIXON (PROV.) esforço, trabalho, canseira MORA amora MORECE múrice, molusco purpurífero MUA mula N NADO(-A) nascido NEGRADO negro NEMBRAR lembrar O OGANO este ano OIMAIS desde hoje, de hoje em diante, doravante OIR ouvir (oí) ORPELADO vestido com pele dourada P PAAÇÃO(-Ã) cortês, palaciano PAGADO agradado, satisfeito PAGAR satisfazer, dar o valor de PAGAR-SE ter gosto, prazer em algo PALMEIRO portador de palma, insígnia da peregrinação ao Ultramar PARELHA algo parecido, semelhante PASTOR (MASC. E FEM.) pessoa que guarda o gado, jovem, virgem PER (PREP.) por; expressão de realce, partícula adv. de intensidade PERFIA porfia, empenho PERO embora, conquanto POÇON peçonha, veneno POER pôr (poso) POER NO PAO enforcar, pôr na miséria PONCELA (PROV.) donzela, jovem PRAN, DE com efeito, certamente, evidentemente PRAZENTEAR lisonjear, lisonja PRENDER prender, tomar (presesse) PREÇO merecimento, fama, reputação; dar preço: atribuir fama PRES tipo de tecido PREZ preço, valor PROL proveito, vantagem PUNHAR esforçar-se, empenhar-se Q QUANDO… QUANDO ora… ora QUITAR separar-se, afastar-se R RANCURAR ter ressentimento RAPAZ criado, lacaio, servente de escudeiro RAZÕAR explicar, raciocinar, discursar REN coisa RETRAER retratar, descrever REVOL cosmético rosado ROLDAR andar de ronda à noite S SABEDOR (MASC. E FEM.) entendido, conhecedor SABIDO(-A) conhecido SABOR gosto, prazer SALVIDADE pureza, inocência, castidade SALVO(-A) puro, inocente, casto SANDEU louco, enlouquecido SAZON tempo, ocasião, época, vez SEN (PROV.) senso, juízo, inteligência, bom senso SENHOR (MASC. E FEM.) senhor, senhora SENLHEIRO sozinho SIGO consigo SINLHEIRO mesmo que “senlheiro” SO sob, embaixo de SOBREPOSTO acumulado, de reserva SOER ser costume, costumar SOLDADEIRA cantora e bailarina, prostituta SOL NON nem mesmo SOL QUE logo que, assim que SOPO (ÇOPO) manco SUEIRA cobertura longa, de lã ou seda, que cobre e adorna as ancas da mula ou do cavalo T TALHADO(-A) combinado; formoso TAVOLADO tablado, palanque; JOGAR A TAVOLADO jogo de armas de arremesso TODA VIA de toda maneira, sempre, constantemente TOLHEITO tolhido, paralisado TOLHER tirar, tomar, prender TORTO mal, agravo, injustiça TRAGER trazer, andar, vir, despachar (trei, treide) TRAMETER meter-se em algo, ocupar-se de TRÁS detrás de, para além de U U onde V VEGADA VEZ VEIRO de cores variadas VEL ou VELA sentinela noturna nas fortalezas VELIDO(-A) belo, formoso VERÃO primavera VOLVER revolver, turvar X XE/pronome reflexivo (se), usado como expletivo ou dativo ético TOPÔNIMOS NAS CANTIGAS Santiago de Compostela é o núcleo urbano a que se vinculam os trovadores e as cantigas aqui apresentados. O seu protagonismo como centro religioso, político e cultural nos séculos XII e XIII foi já apontado na Introdução. Atualmente, é a capital da comunidade autônoma da Galiza, no estado espanhol. A catedral distingue-se especialmente por ser destino da peregrinação, de caráter religioso ou cultural, ao (suposto) sepulcro de Santiago, apóstolo de Jesus Cristo que, segundo a tradição, pregara o cristianismo na Península Ibérica e, depois da morte, teve o seu corpo levado para a Galiza para ser sepultado ali. O chamado Caminho de Santiago corresponde à organização, em rotas, do movimento de peregrinos provenientes de diversas partes. O mais conhecido é o Caminho Francês, que percorre 780 quilômetros, desde Saint Jean-Pied-du-Port, nos Pireneus franceses, até Santiago de Compostela. Outros caminhos incluem: o Caminho Inglês, que passa por Ferrol e pela Corunha, a Via da Prata, de Sevilha, passando por Salamanca, e o Caminho Português. Relacionamos nomes de lugares que aparecem mencionados nas cantigas: AGUADALQUIVIR rio Guadalquivir, que percorre a comunidade autônoma de Andaluzia, sul da Espanha (Dom Afonso x, p. 169). ARAGON Aragão, comunidade autônoma no norte da Espanha (João de Gaia, p. 186). ARRAZES Arrás, cidade no norte da França (Dom Afonso x, p. 170). AZAMOR Azenmour, cidade do Marrocos (Dom Afonso x, p. 169). BONAVAL bairro compostelano fora das muralhas, em frente à chamada Porta do Caminho (Bernal de Bonaval, pp. 39, 41). BURGOS cidade na comunidade autônoma de Castela e Leão (Pedro Amigo de Sevilha, p. 138). CAMBRAI cidade produtora do tecido “cambraia”, atualmente no norte da França (João Airas de Santiago, pp. 62). CREXENTE Crecente, local situado a sudeste do centro histórico de Santiago, no atual bairro de Conjo/Conxo (João Airas de Santiago, p. 60, 62). DORMÃA atual Dormeá, paróquia na província da Corunha (Fernão Pais de Tamalhancos, p. 52). DOIRO Douro, rio que nasce na Espanha e deságua em Portugal, na altura da cidade do Porto (João Airas de Santiago, p. 62). ESTELA Estella, cidade na comunidade autônoma de Navarra (Pedro Amigo de Sevilha, p. 135). GAIA cidade localizada ao sul da cidade do Porto, Portugal (João Airas de Santiago, p. 62). GEEN Jaén, cidade na comunidade autônoma da Andaluzia, Espanha; reconquistada aos árabes por Fernando III em 1246 (Pai Gomes Charinho, p. 121). IERUSALEN Jerusalém, cidade sagrada do judaísmo, cristianismo e islamismo, situada no atual Estado de Israel (Pedro Amigo de Sevilha, p. 137). LAMPAI paróquia no concelho de Teo, perto de Santiago de Compostela (João Airas de Santiago, p. 62). LUGO cidade na Galiza (Fernando Esquio, p. 45). MOEDA VELHA rua contígua ao mosteiro de São Martinho Pinário (João Vasques de Talaveira, p. 80). MONPIRLLER Montpellier, cidade no sul da França (Pedro Amigo de Sevilha, p. 137). ROCAMADOR Rocamadour ou Roc Amador, cidade no sudoeste da França, célebre pelas peregrinações ao Santuário da Virgem Maria (Pedro Amigo de Sevilha, p. 135). SAN MARTINHO mosteiro beneditino de São Martinho Pinário, situado diante da porta norte da catedral (João Vasques de Talaveira, p. 80). SAN SALVADOR Igreja de São Salvador de Bastavales, localidade no concelho de Briom (Sancho Sanches, p. 161). SAN FAGUNDO atual Sahagún, cidade na província de Leão,no Caminho de Santiago (Pero Garcia de Ambroa, p. 152). SAN FELIZES atual Saelices de Mayorga, província de Valladolid, no Caminho de Santiago, a 23 quilômetros de Sahagún (Pero Garcia de Ambroa, p. 152). SAR rio que percorre áreas de Santiago de Compostela e deságua no rio Ulha, em Padrom (João Airas de Santiago, p. 60, Pedro Amigo de Sevilha, p. 136). ULTRAMAR região além do mar, especialmente a Terra Santa (Pedro Amigo de Sevilha, p. 137; Pero da Ponte, p.147). VISEU cidade na região centro-norte de Portugal (João de Gaia, p. 186). Luana Pagung Realce Luana Pagung Realce IMAGENS DOS CANCIONEIROS CANCIONEIRO DA AJUDA FÓLIO 16 Cantigas de Airas Fernandes Carpancho: Quisera-m’ ir; tal conselho prendi e Desej’ eu muit’a veer mia senhor O Cancioneiro da Ajuda é um manuscrito em pergaminho, datável de finais do século XIII ou inícios do XIV. Está incompleto (mutilado e inacabado): faltam-lhe rubricas atributivas de autor; somente dezesseis iluminuras foram esboçadas e parcialmente pintadas; há espaços reservados para a notação musical que, no entanto, não foi introduzida; algumas iniciais capitais (de cantiga ou de estrofe) foram deixadas em branco. A escrita, em preto, é feita na letra minúscula gótica. 1. ILUMINURA Sua presença (ou o lugar deixado em branco para ela) indica o início de um novo ciclo de composições. Neste fólio, ela marca o começo das cantigas de Airas Fernandes Carpancho. Representa um nobre sentado, um jogral tocando um instrumento (saltério) e uma bailadeira com os braços levantados, dançando ao som das castanholas. 2. NOTAÇÃO MUSICAL O espaço em branco entre as linhas da primeira estrofe destinava-se à transcrição da pauta musical, desnecessária para as demais estrofes, que seguiam a melodia da primeira. 3. INICIAIS CAPITAIS Observe-se a grande capital para a letra Q, esboçada com detalhes, para ser preenchida e pintada mais tarde. Ela marca a primeira estrofe de um novo ciclo de composições. Na página anterior é possível ver a capital D, em azul no original, segunda em tamanho na página, que indica o início de outra composição, enquanto as capitais menores, N e D, em azul também, denotam início de estrofe. Na segunda composição, a maiúscula azul E marca o início do refrão: e lh’ estaria bem; no entanto, ela falta no refrão da estrofe seguinte. 4. NOTA MARGINAL Um leitor (provavelmente do século xv) anotou à margem esquerda da grande capital o seu juízo sobre a cantiga: Muito boa. CANCIONEIRO DA BIBLIOTECA NACIONAL PÁG. 104 DA EDIÇÃO FAC-SIMILADA Cantigas de Airas Fernandes Carpancho: 175 Pois que se non sente a mia senhor; 176 Quisera-m’ ir; tal conselho prendi; 177 Desej’ eu muit’ a veer mia senhor. O Cancioneiro da Biblioteca Nacional foi copiado por volta de 1525-26, na Itália, por ordem do humanista italiano Angelo Colocci. Contém, além do maior número de textos e autores do corpus lírico galego-português a nós transmitido, também a fragmentária Arte de trovar. Saltam aos olhos algumas diferenças em relação ao Cancioneiro da Ajuda: falta a parte decorativa (iluminuras, grandes capitais decoradas) e também a previsão da notação musical. Por outro lado, inclui rubricas atributivas de autor. No fólio reproduzido, por exemplo, encontramos o nome do trovador “Ayras Carpancho”. As composições estão também numeradas. Seis copistas, usando principalmente variedades de escrita gótico-bastardas e a cursiva itálica chanceleresca, podem ser identificados na transcrição do códice. BIBLIOGRAFIA CANCIONEIROS Cancioneiro da Ajuda. Edição fac-similar do códice existente na Biblioteca da Ajuda. Lisboa: Edições Távola Redonda/Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico/Biblioteca da Ajuda, 1994. Cancioneiro da Biyblioteca Nacional (Colocci-Brancuti). Cód. 10991. Edição fac-similar. Lisboa: Biblioteca Nacional/Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1982. Cancioneiro português da Biblioteca Vaticana [cód. 4803]. Edição fac-similar. Introdução de Luís F. Lindley Cintra. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos/Instituto de Alta Cultura, 1973. EDIÇÕES GERAIS BREA, Mercedes (org.). Lírica profana galego-portuguesa. Corpus completo das cantigas medievais, com estudo biográfico, análise retórica e bibliografia específica. 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Publicou artigos e livros como Traje, gentileza e poesia: O campo semântico do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (Lisboa, 2001) e É perigoso sintetizar a Idade Média: Literatura medieval e interfaces europeias na obra de Mário Martins. (Lisboa, 2014, em coautoria com José Eduardo Franco). JOSÉ ANTÓNIO SOUTO CABO nasceu na Galiza, Espanha. É professor titular na área de Filologias Galega e Portuguesa da Universidade de Santiago de Compostela. Sua atividade acadêmica centraliza-se na análise das coordenadas sociológicas e espaçotemporais da lírica galego-portuguesa e também no estudo e edição de textos medievais. Entre as suas publicações mais recentes, encontram-se Rui Vasques: Crónica de Santa Maria Íria (Santiago de Compostela, 2001) e Os cavaleiros que fizeram as cantigas: Aproximação às origens socioculturais da lírica galego-portuguesa (Niterói, 2012). AGRADECIMENTOS Este livro beneficiou-se de sugestões e colaboração de várias pessoas: Carlos Paulo Martínez Pereiro, Emília Amaral, José Luis Rodríguez, Manuel Ferreiro, Mariña Albor Aldea, Mário Viaro, Mercedes Brea, Miguel Pousada Cruz, Vilma Arêas, Xosé Luís Couceiro. Para a parte de cartografia, foi decisiva a intervenção de Iolanda Galanes Santos e Gonzalo Méndez, bem como a competência e a atenção que Aida Ovejero nos dispensou para realizar o propósito de oferecer ao leitor brasileiro uma ideia mais clara do centro histórico de Santiago e da localização dos diversos topônimos mencionados nas cantigas. Finalmente, devemos muito a Heloisa Jahn e a Raquel Toledo, da Cosac Naify, que nos ajudaram com seu entusiasmo e sua sensibilidade a dar ao livro o formato com que sai agora. A todos, nossos melhores agradecimentos. CRÉDITO DAS IMAGENS Mapa Cartografia por Aida Ovejero. Universidade de Vigo, Galiza, Espanha. Cancioneiro da Ajuda, edição fac-similada. Apresentação, estudos e índices. Lisboa: Edições Távola Redonda/Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, Biblioteca da Ajuda, 1994. Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Colocci-Brancuti). Cod. 10991. 1. Reprodução fac-similada. Lisboa: Biblioteca Nacional/Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982. Luana Pagung Realce Obra apoiada pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas Secretaria de Estado da Cultura – Portugal © Cosac Naify, 2015 © Yara Frateschi Vieira, Maria Isabel Morán Cabanas, José António Souto Cabo, 2015 Coordenação editorial HELOISA JAHN Assistente editorial RAQUEL TOLEDO Preparação ANA LIMA CECÍLIO Revisão ISABEL JORGE CURY E PEDRO SILVA Projeto gráfico original FLÁVIA CASTANHEIRA e NATHALIA CURY Ilustrações da capa RUI VITORINO SANTOS Adaptação e coordenação digital ANTONIO HERMIDA Produção de arquivo ePub EQUIRETECH Nesta edição, respeitou-se o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) O caminho poético de Santiago: Lírica galego-portuguesa: Yara Frateschi Vieira, Maria Isabel Morán Cabanas e José António Souto Cabo São Paulo: Cosac Naify, 2015 5 ils. ISBN 978-85-405-0901-6 1. Poesia lírica 2. Poesia medieval 3. Literatura portuguesa I. Título CDD 808.81 Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia lírica-medieval 808.81 COSAC NAIFY rua General Jardim, 770, 2ọ Andar 01223-010 São Paulo SP cosacnaify.com.br [11] 3218 1444 atendimento ao professor [11] 3823 6560 professor@cosacnaify.com.br http://cosacnaify.com.br mailto:professor@cosacnaify.com.brhttp://www.facebook.com/cosacnaify http://twitter.com/cosacnaify http://editora.cosacnaify.com.br/blog/ http://http://www.youtube.com/user/cosacnaify Este e-book foi projetado e desenvolvido em janeiro de 2015, com base na 1ª edição impressa, de 2015. FONTE Swift Sumário Antes de iniciar o caminho: algumas notas OS TROVADORES E SANTIAGO DE COMPOSTELA Afonso Eanes do Cotom Abadessa, oí dizer Covilheira velha, se vos fezesse SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Airas Fernandes Carpancho Por fazer romaria, pug’ en meu coraçon Pois que se non sente a mia senhor SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Airas Nunes Porque no mundo mengou a verdade A Santiag’ en romaria ven Bailemos nós ja todas tres, ai amigas SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Bernal de Bonaval A Bonaval quer’ eu, mia senhor, ir Ai, fremosinha, se ben ajades Diss’ a fremosa en Bonaval assi: SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernando Esquio “Que adubastes, amigo, alá en Lug’ u andastes Vaiamos, irmana, vaiamos dormir SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernão Pais de Tamalhancos Con vossa graça, mia senhor Non sei dona que podesse Quand’ eu passei per Dormãa SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Fernão Rodrigues de Calheiros Madre, passou per aqui um cavaleiro Agora oí d’ ũa dona falar SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Airas de Santiago Pelo souto de Crexente A por que perço o dormir Ai Justiça, mal fazedes que non SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Peres de Aboim Cavalgava noutro dia Lourenço, soías tu guarecer SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Soares Somesso Punhei eu muit’ en me guardar Ũa donzela quig’ eu mui gran ben SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Vasques de Talaveira Direi-vos ora que oí dizer Joan Airas, ora vej’ eu que á SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Juião Bolseiro Fez ũa cantiga d’ amor Da noite d’ eire poderan fazer Joan Soares, de pran as melhores SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Martim Moxa O gran prazer e gran viç’ en cuidar Per quant’ eu vejo SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Nuno Eanes Cêrzeo Agora me quer’ eu ja espedir SOBRE O TROVADOR E SUA CANTIGA Nuno Fernandes Torneol Levad’, amigo, que dormides as manhanas frias Vi eu, mia madr’, andar SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Osório Eanes Cuidei eu de meu coraçon E por que me desamades SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai de Cana Vedes que gran desmesura Amiga, o voss’ amigo SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai Gomes Charinho Ai, Santiago, padron sabido Quantos oj’ andan eno mar aqui SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pai Soares de Taveirôs Como morreu quen nunca ben No mundo non me sei parelha Vi eu donas en celado SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pedro Amigo de Sevilha Quand’ eu un dia fui en Compostela Quen mi ora quisesse cruzar SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pero da Ponte Quen seu parente vendia Se eu podesse desamar Quen a sesta quiser dormir Maria Peres, a nossa cruzada SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pero Garcia de Ambroa Pero d’ Armea, quando composestes SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Pero Meogo Levou-s’ a louçana, levou-s’ a velida Digades, filha, mia filha velida SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Rui Fernandes de Santiago Quand’ eu vejo las ondas SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Sancho Sanches En outro dia, en San Salvador SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS TROVADORES E TEXTOS EM DIÁLOGO Dom Afonso x Non me posso pagar tanto O genete SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS Dom Dinis Levantou-s’ a velida Quer’ eu en maneira de proençal Proençaes soen mui ben trobar Ũa pastor ben talhada SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João de Gaia Eu convidei un prelado a jantar, se ben me venha SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS João Zorro Bailemos agora, por Deus, ai velidas SOBRE O TROVADOR E SUAS CANTIGAS GLOSSÁRIO MAPA DE SANTIAGO DE COMPOSTELA TOPÔNIMOS NAS CANTIGAS IMAGENS DOS CANCIONEIROS BIBLIOGRAFIA SOBRE OS AUTORES Créditos Redes sociais Colofão