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CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL Prof. Monteiro Jr. VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Aula 17 - REVOLUÇÃO FRANCESA INTRODUÇÃO “A data foi a noite do 14 de julho de 1789, em Paris, quando Luís XVI recebeu do duque da La Rochetoucauld-Liancourt a notícia da queda da Bastilha, da libertação de uns poucos prisioneiros e da defecção das tropas reais frente a um ataque popular. O famoso diálogo que se travou entre o rei e seu mensageiro é muito lacônico e revelador. O rei, segundo consta, exclamou: ‘É uma revolta’; e Liancourt corrigiu-o: ‘Não, senhor, é uma revolução’.” (Hannah Arendt. Da Revolução. São Paulo: Ática; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1988. pp. 38-39.) O fragmento acima nos fornece um registro dos primeiros acontecimentos ligados à revolução que varreu a França, a partir de 1789, e repercutiu no restante do continente europeu e também na América, transformando-se num verdadeiro divisor de águas na história da sociedade ocidental. Em sua obra A Era das Revoluções: 1789-1848, o historiador Erick HobsbawM diz que a Revolução Francesa “pode não ter sido um fenômeno isolado, mas foi mais fundamental do que os outros fenômenos contemporâneos e suas consequências foram portanto mais profundas. Em primeiro lugar, ela se deu no mais populoso e poderoso Estado da Europa (não considerando a Rússia). Em 1789, cerca de um em cada cinco europeus era francês. Em segundo lugar, ela foi, diferentemente de todas as revoluções que a precederam e a seguiram, uma revolução social de massa, e incomensuravelmente mais radical do que qualquer levante comparável. (...) Em terceiro lugar, entre todasas revoluções contemporâneas, a Revolução Francesa foi a única ecumênica. Seus exércitos partiram para revolucionar o mundo; suas idéias de fato o revolucionaram. (...) A Revolução Francesa é um marco em todos os países.” DESVENDANDO AS CAUSAS DA REVOLUÇÃO O processo revolucionário francês deve ser entendido à luz da crise do Antigo Regime, ou seja, do choque entre as novas forças econômicas/sociais/políticas em ascensão, ligadas ao desenvolvimento do capitalismo, e as estruturas tradicionais ligadas ao Antigo Regime e seus resquícios feudais. Às vésperas da Revolução de 1789, a França era, como já lemos no fragmento de E. Hobsbawn, o país mais populoso da Europa Ocidental, com uma população estimada em 26 milhões de pessoas. Sua sociedade encontrava-se organizada em três ordens/estados (que refletiam resquícios da sociedade medieval estamental). O primeiro estado era formado pelo clero, cerca de 2% da população. Dividia- se em alto clero (bispos, cardeais e arcebispos, todos pertencentes à nobreza) e baixo clero (padres e frades, de origem pobre). O segundo estado era composto pela nobreza (2,5% da população). Dividia-se em nobreza aristocrática (ou de sangue) e nobreza de toga, de origem burguesa, cujos membros obtiveram o título nobiliárquico mediante compra ou mérito. O terceiro estado (95.5% da população), extremamente heterogêneo, era formado por todos os que não pertenciam à nobreza e/ou ao clero: burgueses, profissionais liberais, artesãos, operários e camponeses. Embora minoritária dentro do terceiro estado, a burguesia conseguiu liderar, durante a revolução, os vários grupos sociais que se insurgiram contra o Antigo Regime. O país vivia sob um injusto sistema tributário, que isentava a nobreza e o clero do pagamento de impostos. Sendo assim, toda a carga tributária recaía sobre os membros do terceiro estado. Calcula-se que um camponês francês, às vésperas da eclosão da revolução, entregava cerca de 70% de sua renda bruta no pagamento de tributos ao Estado. Na política, a França era uma monarquia absolutista fundamentada na idéia do direito divino dos reis. Segundo essa teoria, o poder real provinha diretamente de Deus, cabendo aos súditos completa submissão à autoridade do rei, uma vez que o mesmo representa Deus na Terra. Portanto, não havia constituição ou leis escritas que se sobrepusessem ao poder do rei. À época da Revolução, a França era governada por Luís XVI, que herdou de seu avô, Luís XV, um Estado falido, envolvido em sucessivas guerras, mergulhado numa terrível crise financeira e com receitas que não conseguiam cobrir os elevados gastos públicos, que aumentavam continuamente. Calcula-se que apenas 28% da arrecadação financeira eram usados para custear os gastos da nação, uma vez que 60% da receita eram destinados à amortização de empréstimos contraídos pelo Estado e 12% para os gastos com a Corte. Diante desse crescente déficit orçamentário, não é de se estranhar a frequente troca de ministros da área econômica durante o governo de FIQUE POR DENTRO A expressão Antigo Regime foi cunhada para descrever as instituições que marcaram os países da Europa Ocidental entre os séculos XVI e XVIII: • absolutismo; • práticas mercantilistas; • privilégios para a nobreza e o clero; • domínio/controle do clero sobre a educação e a sociedade. A imagem retrata a opressão experimentada pelo terceiro estado. http://2.bp.blogspot.com/_39ephwOkYhQ/THPpnqA4NmI/AAAAAAAAAoo/qKblrQEiYFM/s1600/Motiva%C3%A7%C3%B5es+-+ALEGORIA+DA+OPRESS%C3%83O+DO+TERCEIRO+ESTADO+POR+PARTE+DAS+DUAS+CLASSES+PRIVILEGIADAS.jpg 184 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL – Prof. Monteiro Jr. Luís XVI (Turgot, Brienne, Necker e Calonne). Outro grave problema que a França pré-revolucionária enfrentava envolvia a agricultura. Os anos que antecederam a revolução foram marcados por péssimas colheitas devido às crises climáticas (secas e enchentes, de forma cíclica), produzindo escassez de alimentos, alta dos preços, fome e ondas de saques e pilhagens por uma população desesperada. Estima-se que, em 1789, 80 mil parisienses morreram de fome! O pão era o principal (e, às vezes, o único!) alimento do povo. Diante da escassez de alimentos, eram comuns os protestos dos pobres e famintos. Estrangeiros que visitavam o país chocavam-se com a vida miserável da massa camponesa. “Cada aldeia tinha sua rua pobre, seu pobre fabricante de barris, sua taverna pobre, sua pobre estalagem para a troca dos cavalos dos mensageiros, sua pobre fonte e todos os outros pobres estabelecimentos. Tinha também seus pobres habitantes, muitos dos quais tinham como alimento apenas algumas cebolas e verduras murchas. E as razões de toda essa pobreza eram claras: os impostos para o governo, o imposto para a Igreja Católica, o imposto para os nobres e muitos outros impostos que deviam ser pagos, de acordo com as normas criadas centenas de anos antes. Parecia que nenhuma aldeia havia escapado desse ciclo infernal”, escreveu o britânico Charles Dickens em História de Duas Cidades, sobre a situação dos camponeses franceses antes da Revolução de 1789. Em contrapartida, a Corte vivia em Versalhes, completamente distanciada desses problemas sociais/econômicos. Avesso à política, Luís XVI gastava a maior parte do tempo caçando ou dedicando-se a trabalhos de marcenaria, um de seus passatempos favoritos. Sua mulher, a austríaca Maria Antonieta, nunca foi vista como rainha pelo povo de Paris. Muitos se referiam a ela, com desdém, como “a austríaca” ou “Mme. Déficit”, numa alusão aos seus gastos com roupas, jóias, festas e vida suntuosa. Françoise Giroud, jornalista e escritora francesa, fundadora da revista L’Express, escreveu que “Maria Antonieta era bela, es- guia, branca e cor de rosa por baixo de uma suntuosa cabeleira loura, com doces olhos azuis de míope e uma graça extrema em seus movimentos. O fato, porém, era que não havia nada naquela cabeça tão encantadora, apenas um incontrolável orgulho e um desenfreado apetite pela vida e seus prazeres. Poderia ter sido uma amável e medíocre austríaca. A sua desgraça foi aquela de ser rainha da França e no momento errado.” VÃO-SE OS ANÉIS, FICAM OS DEDOS Em 1787, dois anos antesda eclosão da revolução, Callone, ministro da economia, propôs uma reforma fiscal que retirava da nobreza e do clero o privilégio da isenção fiscal. A iniciativa não era novidade. Cada vez que um ministro reformista tentava modernizar o Estado, clérigos e aristocratas se levantavam em defesa da manutenção de seus privilégios. A proposta foi apresentada à Assembleia dos Notáveis, formada por representantes da nobreza e do clero, devido à insustentável situação financeira do país. Luís XVI acreditava que a nobreza e o clero acabariam por abrir mão, voluntariamente, de seus privilégios, diante da grave situação econômica da nação. Mas não foi o que ocorreu! Os notáveis se recusaram a abrir mão do privilégio da isenção fiscal (não quiseram dar os anéis para manter os dedos). Exigiram que o rei convocasse a Assembleia dos Estados Gerais para discutir e votar o projeto das reformas. Sem perceber, nobres e clérigos criaram as condições para o estopim do processo revolucionário francês. “Quando a crise francesa atingiu o seu limite, levando o país a um passo da implosão, da Revolução, a nobreza buscou sua sobrevivência como estamento, abandonando sua aliança com o absolutismo, debilitando ainda mais o Antigo Regime como um todo”, escreveu o historiador Albert Soboul em A Revolução Francesa. A CONVOCAÇÃO DOS ESTADOS GERAIS: O ESTOPIM DA REVOLUÇÃO Em maio de 1789, pressionado pela situação interna, Luís XVI convocou os Estados Gerais para votar o projeto de reformas necessárias, a fim de tirar o país da grave crise em que se encontrava. Os Estados Gerais eram uma assembleia formada por representantes dos estados/ordens que compunham a sociedade francesa. Sua última convocação fora em 1614. O primeiro estado contava com 291 deputados, o segundo com 270 e o terceiro com 578. O sistema de votação não era por cabeça, e sim por estado/ordem. O escrutínio por estamento, e não por cabeça, favorecia claramente o clero e a nobreza. Reunião dos Estados Gerais no Palácio de Versalhes, em 1789. Maria Antonieta e Luís XVI. http://4.bp.blogspot.com/_3S-3ddlVri8/TNgo0wS2PSI/AAAAAAAAAA4/7KqNLJa98Ic/s1600/Couder_Stati_generali.jpg http://1.bp.blogspot.com/_vX778IUWfGE/TUljxZMdzBI/AAAAAAAACa8/DZhCOncZh5Y/s1600/Maria+antonieta+e+lu%C3%ADs+XVI.JPG http://4.bp.blogspot.com/_3S-3ddlVri8/TNgo0wS2PSI/AAAAAAAAAA4/7KqNLJa98Ic/s1600/Couder_Stati_generali.jpg� Aula 17 – Revolução Francesa 185 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Clérigos e nobres acreditavam que poderiam controlar as decisões dos Estados Gerais, uma vez que o tradicional sistema de votacão determinava o voto por estamento. Assim, deputados do primeiro e do segundo estado poderiam se unir e inviabilizar qualquer mudança que alterasse os privilégios que a nobreza e o clero desfrutavam há séculos. Percebendo a manobra, os deputados do terceiro estado, em sua maioria pertencentes à burguesia, não aceitaram o sistema tradicional de votação, propondo que o voto fosse computado por cabeça. O terceiro estado defendia o voto por cabeça porque sabia que alguns deputados da nobreza e do clero eram simpáticos às reformas em pauta. Dessa forma, teria maioria na Assembleia dos Estados Gerais. Clero e nobreza não aceitaram a proposta do terceiro estado. O impasse estava armado e a pauta da assembleia obstruída enquanto não se tomasse uma decisão quanto ao sistema de votação. E foi assim que os deputados do terceiro estado deixaram o recinto onde se realizava a Assembleia dos Estados Gerais e se reuniram num salão utilizado para o jogo de péla (uma modalidade de tênis disputada em espaço fechado). Ali juraram não se separar até que se elaborasse uma constituição paraa França. Esse episódio ficou conhecido como o “juramento da sala do jogo de péla” e assinala o verdadeiro início do processo revolucionário francês, quando se instala uma assembleia nacional constituinte sob a liderança dos deputados do terceiro estado. A CHAMA REVOLUCIONÁRIA SE ESPALHA Depois que os deputados do Terceiro Estado, como apoio de alguns membros da nobreza e do clero, se declararam em Assembleia Nacional, o rei Luís XVI tentou dissolver o ajuntamento. A guarda real foi convocada para sitiar o local onde a Assembleia Nacional se encontrava reunida, intimando os deputados a desfazê-la. Conta-se que o Conde de Mirabeau, nobre que aderiu aos revolucionários, respondeu à intimação: “Ide e dizei ao rei que aqui estamos pela vontade do povo e daqui só sairemos pela força das armas”. Pretendendo ganhar tempo (e também temendo perder o controle da situação), Luís XVI determinou que os deputados do Primeiro e Segundo Estados se unissem aos do povo na elaboração da primeira constituição do país. Em secreto, o rei tramava contra os revolucionários, despachando cartas aos países absolutistas vizinhos, recrutando tropas estrangeiras, a fimde que essas invadissem a França e esmagassem a revolução em andamento. Como reação dos revolucionários em defesa da permanência da Assembleia Nacional Constituinte foi organizada a Guarda Nacional, uma milícia burguesa que acabou por incentivar a população a se armar e resistir às forças conservadoras. Panfletos revolucionários circulavam por Paris, alimentando ainda mais a agitação e as manifestações populares. Emmanuel Joseph Sieyès, abade, escreveu o mais famoso deles, O que é o Terceiro Estado (veja a caixa de leitura acima). A 14 de julho de 1789, uma multidão invadiu a Bastilha, uma fortaleza usada como prisão política. Ali o rei enjaulava quem bem entendesse, daí ter se tornado um dos símbolos mais odiados do regime absolutista francês. Ao contrário do que muitos pensam, o objetivo dessa ação não era a libertação de presos, mas a obtenção de armas e pólvora, que eram guardadas nos porões da prisão. Hoje da antiga prisão sobrou apenas o desenho do seu perímetro, traçado sobre o calçamento da Place de La Bastille. De acordo com Michel Vovelle, catedrático de História da Revolução na Sorbonne, Paris apagou boa parte de sua história revolucionária (salvo exceções, como uma mal conservada estátua de Danton, um dos líderes revolucionários, na saída do metrô de Carrefour Odeon, onde começa uma ruela que leva seu nome). Aos oucos os acontecimentos na capital repercutem no campo, produzindo diversos movimentos pelo interior do país. As massas camponesas invadem propriedades, queimam castelos, pilham bens e executam nobres. Essa onda de violência ficou conhecida como Grande Medo. “O Grande Medo nasceu do medo do bandido, que por sua vez é explicado pelas circunstâncias econômicas, sociais e políticas da França em 1789. No Antigo Regime, a mendicância era uma das chagas doscampos; a partir de 1788, o desemprego e a carestia dos víveres a agravaram. As inumeráveis agitações provocadas pela penúria aumentaram a desordem. A crise política também ajudava com sua presença, porque superexcitando os ânimos ela fez o povo francês tornar-se turbulento. (...) Quando a colheita começou, o conflito entre o Terceiro Estado e a aristocracia, sustentada pelo poder real, e que em diversas províncias já tinha dado às revoltas da fome um caráter social, transformou-se de repente em guerra civil.” (LEFEBVRE, George. O grande medo de 1789. Rio de janeiro: Campus, 1979.) Primeira página do panfleto de Sieyès, O que é o Terceiro Estado, onde se lê: “O plano desse escrito é muito simples. Temos três questões a tratar: 1 – O que é o Terceiro Estado? Tudo. 2- O que ele tem sido na ordem política? Nada. 3 – O que ele solicita? Tornar-se alguma coisa.” A queda da Bastilha, 14/07/1789. http://fr.wikipedia.org/wiki/Fichier:Qu'est_ce_que_le_Tiers_Etat.jpg 186 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL – Prof. Monteiro Jr. A MARCHA DAS MULHERES Em outubro de 1789, cerca de 6 mil mulheres marcharam de Paris a Versalhes, invadindo o Palácio Real.Exigiam que a rainha aparecesse num dos balcões do palácio. Clamavam por pão, protestavam contra as longas filas, a escassez de alimento e os altos preços dos cereais. Ken Hills descreve, em A Revolução Francesa, a cena: “Ela [Maria Antonieta] veio então a um dos balcões e ficou sozinha, face a face com o povo que pouco antes pedia sua morte. Por um momento, tudo fica em silêncio. Muitas armas são apontadas em sua direção, mas ninguém atira. ‘Para Paris’, grita uma voz, seguida de milhares de outras. Terminou a provação. Pálida, quase desfalecida, a rainha voltou para dentro.” Forçado pela multidão, Luís XVI e a família real deixaram o Palácio de Versalhes e passaram a residir em Paris, no Palácio das Tulherias. A estratégia das mulheres era clara: se a família real estiver em Paris, haverá pão! Por isso as mulheres marcharam até Versalhes dizendo que iriam buscar “o padeiro e a padeira”. A ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE O período que, na história do processo revolucionário francês se estende de 1789 a 1791 é chamado de Assembleia Nacional Constituinte. Paralelamente às agitações que tomavam conta do país, os deputados votaram a aprovaram a abolição dos privilégios feudais, o confisco de terras da Igreja (numa tentative de resolver a crise financeira), a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e a Constituição Civil do Clero, que subordinava o clero francês ao Estado revolucionário, transformando os sacerdotes em funcionários públicos (o papa Pio VI opôs-se a isso, bem como a maior parte do clero). Refletindo sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o historiador inglês Eric Hobsbawm escreveu em A Era das Revoluções: “Este documento é um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária. ‘Os homens nascem e vivem livres e iguais perante as leis’, dizia seu primeiro artigo; mas ela também prevê a existência de distinções sociais, ainda que ‘somente no terreno da utilidade comum’. A propriedade privada era um direito natural, sagrado, inalienável e inviolável.” Em meio a todos esses acontecimentos, Luís XVI tenta, em vão, fugir do país (provavelmente por temer uma radicalização do processo revolucionário). Muitos nobres já tinham deixado a França, emigrando para países vizinhos, especialmente o Sacro Império Romano-Germânico. Luís XVI e sua família deixaram secretamente Paris, mas acabaram reconhecidos e capturados em Varennes e, depois, reconduzidos à capital, onde passa a viver sob vigilância. Hobsbawm diz que, a partir desse episódio, “o republicanismo tornou-se uma força de massa; pois os reis tradicionais que abandonnaram seus povos perdem o direito à lealdade”. Em setembro de 1791, chegam ao fim os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, com Luís XVI prestando juramento de obediência à Constituição. A primeira carta constitucional francesa estabelecia a monarquia constitucional, a tripartição dos poderes do Estado e o voto censitário. Representava uma clara vitória dos ideais moderados da alta burguesia, em oposição aos de outros setores do Terceiro Estado. ÀS ARMAS, CIDADÃOS Em 1792, a França é invadida por tropas austríacas e prussianas. O medo de que a revolução se transformasse num rastilho de pólvora capaz de incendiar a Europa e a pressão da nobreza francesa emigrada foram determinantes na organização das forças contra- revolucionárias. Era necessário sufocar o movimento revolucionário francês e restabelecer a ordem absolutista no país. Sob o mote “pátria em perigo”, lideres revolucionários como Danton, Marat e Robespierre comandaram a organização de umexército popular que, entoando a Marselhesa (o hino da revolução) derrotou os exércitos estrangeiros e os expulsou da França. Nessa altura dos acontecimentos, era clara a divisão entre os próprios revolucionários burgueses. Organizações e agrupamentos políticos começaram a se formar, evidenciando as diversas vertentes DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO (26/08/1789) A Assembléia Nacional reconhece e declara, na presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os direitos seguintes do Homem e do Cidadão: Art. I – Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ser fundamentadas na utilidade comum. Art. II – O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem: esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. (...) Art. V – A lei não tem senão o direito de proibir as ações prejudiciais à sociedade. Tudo aquilo que não é proibido pela lei não pode ser impedido e ninguém pode ser obrigado a fazer aquilo que ela não ordena. (...) Retorno do rei a Paris, depois da tentativa de fuga. FIQUE POR DENTRO “Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé (...)” Estas são as duas primeiras linhas da Marselhesa (ou La Marseillaise), canção revolucionária composta por Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792 e que acabou se transformando no Hino Nacional da França. O trecho acima citado diz: “Avante, filhos da Pátria, O dia da glória chegou”. http://1.bp.blogspot.com/_39ephwOkYhQ/THR6dzrMHLI/AAAAAAAAApA/WSj8DfsM6Bw/s1600/Assembl%C3%A9ia+Nacional+Constituinte+-+MARCHA+SOBRE+VERSALHES+EXIGINDO+A+VOLTA+DO+REI+A+PARIS.jpg Aula 17 – Revolução Francesa 187 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência ideológicas dentro do movimento revolucionário, o que atesta a heterogeneidade de interesses: • Girondinos – defensores da monarquia constitucional e do voto censitário; a maioria de seus membros provinha da alta burguesia comercial e industrial; seus deputados sentavam-se à direita do plenário da Assembléia Legislativa. • Jacobinos ou Montanheses – defensores da república e do aprofundamento da revolução; seus membros provinham da pequena e média burguesia; eram apoiados pelos sans-culottes (massa popular urbana); seus deputados ocupavam a esquerda do plenário legislativo. • Independentes ou Pântano/Planície – indiscutivelmente revolucionários, mas sem posicionamento ideológico preciso; seus membros provinham da alta burguesia financeira; seus deputados sentavam-se na parte central do plenário. A tentativa de fuga do rei Luís XVI contribuiu para acirrar ainda mais os ânimos entre esses grupos. Os jacobinos, insuflados por Robespierre, acusavam o rei de tramar contra a revolução e de ter solicitado a invasão do país portropas estrangeiras. Defendiam seu julgamento e execução. Os girondinos, temendo a radicalização do processo revolucionário, eram favoráveis à concessão de perdão ao rei, desde que o mesmo jurasse a Constituição (o que acabou ocorrendo). O que servia de elemento comum a esses grupos era o ideal de que as estruturas do Antigo Regime não poderiam e nem deveriam ser restauradas. Era preciso preservar as conquistas revolucionárias. A QUEDA DE LUÍS XVI E A INSTALAÇÃO DA REPÚBLICA Depois que as tropas austríacas e prussianas foram vencidas em Valmy, os grupos de oposição à monarquia constitucional não paravam de crescer. Como já foi dito, esses grupos acusavam o rei de estar por trás da invasão. A Assembleia Legislativa fora substituída pela Convenção Nacional. A situação de Luís XVI se complicou depois que um armário secreto de ferro foi descoberto no Palácio das Tulherias, onde o rei vivia desde que fora trazido de Versalhes pelas mulheres de Paris. Dentro do armário, foram encontrados mais de 600 documentos que ligavam o monarca aos contra-revolucionários estrangeiros e à nobreza emigrada. Deposto do trono, Luís XVI é levado a julgamento na Convenção e condenado à morte por “conspirar contra a revolução e trair a pátria”. Maximilien Robespierre, através de uma oratória implacável, determina: “Eu pronuncio esta fatal verdade: Luís deve morrer.” Para o criminalista italiano Adolfo Gatti, o julgamento deLuís XVI, que culminou em sua execução, foi inconstitucional: “(...) a Constituição [de 1791] prevê, no artigo 5, a decadência da qualidade soberana se o rei não prestar juramento de fidelidade. Ocorre que no dia 14 de setembro de 1791 o rei jurou. E, em todo caso, a sanção prevista para o monarca que contraria a vontade nacional é exclusivamente a abdicação. Somente atos cometidos depois da perda da qualidade soberana poderiam recair na alçada da lei penal.” Outro problema, na visão de Gatti, foi o de que uma mesma assembléia (Convenção Nacional) acusou e julgou o rei. Como ela pode ser, “ao mesmo tempo, acusador impiedoso e juiz equânime e imparcial?” A CONVENÇÃO: REPÚBLICA BURGUESA OU POPULAR? Depois da Assembléia Nacional Constituinte (1789-91) e da Monarquia Constitucional (1791-92), a Revolução ingressa em sua terceira fase, conhecida como Primeira República Francesa ou Convenção (1792-95). Essa foi a fase mais democrática e, ao mesmo tempo, radical do processo revolucionário. As disputas políticas atingem seu ponto máximo, dividindo a burguesia e colocando em risco o futuro das conquistas revolucionárias. A situação de crise econômica não dá trégua ao país. Uma revolta camponesa contra o recrutamento militar eclode na região de Vendeia, estimulada por nobres e clérigos contra- revolucionários. No plano externo, forma-se a Primeira Coalizão Europeia (Áustria, Prússia, Inglaterra, Espanha e Holanda) contra a França. Essa conjuntura acabou por criar as condições para a tomada do poder pelos jacobinos, que passaram a controlar a Convenção. Sob o governo dos jacobinos, a Revolução conheceu seu momento mais radical, o Terror, marcado por centenas de execuções dos supostos inimigos do processo revolucionário. Refletindo sobre o Terror jacobino, o historiador Edward McNall Burns, em História da Civilização Ocidental, diz que esses anos “foram de cruel ditadura na França. (...) Durante o período do Terror, de setembro de 1793 a julho de 1794, foram executadas em toda a França cerca de vinte mil pessoas, segundo as estimativas mais dignas de crédito. Uma lei de 17 de setembro de 1793 tornava objetiva de suspeicão qualquer pessoa que tivesse sido ligada de alguma forma ao governo Bourbon ou aos girondinos; e nenhuma pessoa que fosse suspeita, ou de quem se desconfiasse ser suspeita, estava a salvo de perseguições.” O braço político do Terror jacobino foi o Comitê de Salvação Pública, dirigido por Robespierre, destinado a combater os inimigos internos da Revolução (ao lado do Comitê de Salvação Nacional, encarregado de combater os inimigos externos). A ex rainha Maria Antonieta, nobres, clérigos, camponeses, artesãos, girondinos e até mesmo jacobinos, qualquer pessoa poderia enfrentar o Tribunal Revolucionário e acabar decapitada pela guilhotina. Até mesmo o líder revolucionário Danton foi guilhotinado, sob a acusação de SAIBA MAIS A expressão sans-culottes (“sem culotes”) era usada, na época da Revolução, em referência aos que não usavam os calções apertados e até os joelhos, típicos da aristocracia. Com o tempo passou a ser utilizado para caracterizar as massas populares urbanas mais radicais dentro do processo revolucionário. FIQUE POR DENTRO O assassinato de Jean-Paul Marat (1793), médico e editor do jornal revolucionário L’ami Du Peuple, muito difundido entre as classes populares, contribuiu para a instalação do Terror jacobino. Inimigo visceral dos girondinos, Marat era idolatrado pelos sans-culottes. Foi assassinado em casa, imerso numa banheira (sua dermatose inflamatória o obrigava a freqüentes e demorados banhos de imersão para aliviar a coceira e o prurido), por uma girondina, Charlotte Corday. Sua morte provocou grande comoção popular, transformando-o num mártir da Revolução. 188 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL – Prof. Monteiro Jr. ter se tornado um contra revolucionário. Roberspierre, à frente do Terror, justificou, de acordo com Burns, “a crueldade como necessária e, portanto, como um expediente louvável para promover o progresso da revolução.” Saint-Just, outro líder jacobino, engrossava as fileiras radicais, defendendo “punir não apenas os traidores, mas até os indiferentes; punir quem quer que seja passivo na República e não faça nada por ela; pois desde que o povo francês manifestou sua vontade, tudo que se opõe a ele está fora da soberania (...) é seu inimigo.” Segundo Hobsbawn, Roberspierre “(...) não era uma pessoa agradável; (...) mas é o único indivíduo projetado pela Revolução (com exceção de Napoleão ) sobre o qual se desenvolveu um culto. Isto porque, para ele, como para a história, a República Jacobina não era um instrumento para ganhar guerras, mas sim um ideal: o terrível e glorioso reino da justiça e da virtude, quando todos os bons cidadãos fossem iguais perante a nação, e o povo tivesse liquidado com seus traidores.” O próprio Maximilien Robespierre, em Sobre os princípios do governo revolucionário, diferenciou governos constitucionais de governos revolucionários: “O princípio do governo constitucional é conservar a República; o do governo revolucionário é fundá-la. O governo constitucional se ocupa principalmente da liberdade civil; o governo revolucionário, da liberdade pública. Sob o regime constitucional é suficiente proteger os indivíduos dos abusos do poder público; sob o regime revolucionário, o próprio poder público está obrigado a defender-se contra todas as facções que o ataquem. O governo revolucionário deve aos bons cidadãos toda a proteção nacional; aos inimigos do povo não lhes deve senão a morte.” Paralelamente à radicalização, às perseguições políticas, execuções e excessos, a Convenção se destacou como uma notável fase de realizações e conquistas: • Foi votada e aprovada uma nova Constituição em 1793, abolindo o voto universal masculino, ou seja, eliminando o sufrágio pelo critério censitário que a primeira Constituição francesa (1791) estabelecera. • A Lei do Preço Máximo fixou um teto para os preços dos gêneros alimentícios de primeira necessidade. • A escravidão foi abolida nas colônias francesas. • Criação do ensino primário público e gratuito. • Elaboração da Nova Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1793). • Venda aos camponeses das terras dos nobres emigrados (por baixos preços). • Desenvolvimento do culto ao Ser Supremo, fundado na razão e na liberdade. • Adoção de um novo calendário com os nomes dos meses do ano relacionados às estações da natureza - em oposição ao calendário gregoriano, com datas/símbolos ligados ao catolicismo (veja leitura complementar ao fim deste capítulo). A persistência dos problemas econômicos, as ameaças de invasões externas, as guerras contra potências estrangeiras, os radicalismos e excessos do Terror jacobino, as freqüentes execuções na guilhotina, o sentimento de insegurança da população, o temor burguês quanto à possibilidade do confisco de seus bens contribuíram para, aos poucos, isolar o governo de Robespierre e favorecer queda. Em julho de 1794, a alta burguesia conseguiu recuperar o controle sobre a Convenção, pondo fim ao governo montanhês. Robespierre e outros líderes jacobinos foram julgados e executados na guilhotina. Essa reviravolta é chamada de Reação Termidoriana, pois ocorreu no mês do Termidor, segundo o calendário vigente. Com a volta da alta burguesia ao poder, diversas decisões tomadas pelos jacobinos foram revogadas (ex: Lei do Preço Máximo) e o país mergulha numa onda de perseguições aos montanheses e sans-culottes mais radicais (Terror Branco). O DIRETÓRIO: A REPÚBLICA NAS MÃOS DA ALTA BURGUSIA Em 1795, uma nova Constituição foi adotada na França, restabelecendo o voto censitário e instituindo o Diretório, órgão composto por 5 membros (todos da alta burguesia) e que exerceria o Poder Executivo. Por isso a fase revolucionáriade 1795 a 1799 é chamada de Diretório. Para o novo governo, o restabelecimento do voto censitário era uma forma de controlar a participação política das massas e de seus líderes, evitando que o processo revolucionário pendesse para o radicalismo, como ocorrera na fase da Convenção. Mas não eram apenas os jacobinos que preocupavam a alta burguesia à frente do Diretório. O crescimento de grupos realistas, que defendiam a restaura ção da monarquia dos Bourbons, representava uma ameaça de retorno ao Antigo Regime. No plano externo, continuaram as guerras contra potências estrangeiras, desejosas de invadir a França e restaurar o absolutismo. No plano interno, novas agitações e levantes, O ESTRANHO CULTO AO SER SUPREMO No dia 8 de junho de 1794, Paris testemunhou uma das cenas mais extravagantes da Revolução. Em frente a uma grande multidão, vestido como uma espécie de sacerdote, Robespierre discursou contra o ateísmo, conclamando o povo a cultuar o Ser Supremo. Em seguida, com uma tocha na mão, ateou fogo a um monumento de papelão que representava “todos os inimigos da felicidade pública” (bem no centro se encontrava uma estátua simbolizando o ateísmo). Era a festa do Ser Supremo, instituída por um decreto aprovado na Convenção. De acordo com o professor Francisco Pitocco, catedrático da Universidade La Sapienza, de Roma, Robespierre acreditava que o culto ao Ser Supremo ergueria uma barreira insuperável para o retorno à superstição e ao império dos padres ambiciosos, ao mesmo tempo em que sinalizava à sociedade uma política de tolerância que visava reconstruir a unidade da opinião pública em torno da religiosidade natural do povo. FIQUE POR DENTRO A Conspiração dos Iguais, liderada por Graco Babeuf, foi um movimento de caráter popular e igualitário, com traços socialistas. Apoiado pela massa de sans-culottes, defendia o retorno da Constituição de 1793, a igualdade social, a distribuição de terras aos camponeses, o que levou seu líder, Babeuf, a ser considerado um precursor do socialismo. Descoberto pelo Diretório, o movimento foi sufocado com a prisão e execução de seus líderes. SEMANA 17 - H GERAL - Revolução Francesa - MONTEIRO JR - após correção do professor