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1/4 Parafilias O que são parafilias? As parafilias podem definir-se enquanto perturbações sexuais, mais especificamente, perturbações da orientação sexual, mais comumente designadas por “perversões sexuais”, na gíria. Assim, as parafilias são orientações ou preferências sexuais não convencionais, por oposição a orientações sexuais saudáveis ou convencionais, tais como: bi e heterossexualidade. Por outro lado, a orientação sexual diz respeito ao que desperta desejo e atração física, sexual e emocional. Por conseguinte, alguém com uma orientação homossexual sente-se predominantemente atraído/a e apaixona-se por pessoas do mesmo género. Já na orientação parafílica, domina a prática e interesse sexuais por algo ou alguém que não é humano, não apresenta um fenótipo normal ou não é adulto. Todavia, há que distinguir entre parafilia e transtornos parafílicos. Enquanto que todo o transtorno parafílico é uma parafilia, nem sempre as parafilias são transtornos parafílicos. De acordo com a DSM V (última edição do manual de estatística e classificação das doenças mentais), deve ser feita a distinção entre aquilo que é um comportamento sexual atípico e aquilo que é um comportamento sexual atípico que decorre de uma perturbação mental, sendo que este último causa sofrimento, ameaça física ou psicológica para si ou para o bem-estar dos outros. Na maioria das vezes, as pessoas têm interesses sexuais atípicos na ausência de perturbação mental. 2/4 Quem sofre de um transtorno ou perturbação parafílica tem uma orientação sexual não saudável, isto é, tem fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais intensos e recorrentes referentes a objetos e situações incomuns, portanto não considerados atrativos do ponto de vista sexual pela maioria das pessoas. Assim, para que se considere que a pessoa sofre de uma parafilia, é necessário que, para além do sofrimento resultante da desaprovação social, a pessoa sinta angústia pessoal em relação ao seu foco parafílico. Mas isto não chega, sendo também necessário que o seu desejo ou comportamento sexual provoque o sofrimento, dano ou mesmo morte de outrem ou a prática sexual com pessoas que não querem ou que não podem ou não conseguem dar o seu consentimento para a mesma. Mas o diagnóstico de parafilias implica que estas fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais atípicos sejam recorrentes, persistam há pelo menos 6 meses e causem sofrimento pessoal ou disfunção a nível social. Exemplos de parafilias Os dois manuais mais usados de diagnóstico das doenças mentais (DSM-V e CID-10) enumeram como parafilias: Exibicionismo: o foco de desejo sexual consiste em surpreender alguém com a exposição dos seus órgãos genitais ou ainda em praticar atos sexuais com a intenção de que outras pessoas vejam; Voyeurismo: aqui, o que provoca excitação é observar alguém que não sabe que está a ser observado quando esta está num momento de intimidade, envolvida em práticas sexuais ou em situação de nudez; Fetichismo: nesta parafilia, verifica-se a utilização de objetos inanimados para obtenção de excitação sexual, tais como: sapatos ou cintos de ligas, entre outros; Pedofilia: consiste no desejo sexual por crianças pré-púberes; Masoquismo sexual: nesta pedofilia, o prazer sexual advém de se ser humilhado/a, espancado/a, amarrado/a ou ser sujeito/a a qualquer outra forma de sofrimento; Sadismo sexual: por outro lado, no sadismo sexual, o prazer advém de causar dor ou humilhação na outra pessoa; Transvestismo fetichista: consiste em obter prazer sexual através do uso de roupas e adereços do sexo oposto; Frotteurismo: neste caso, a pessoa obtém prazer sexual ao tocar ou roçar partes do corpo em outra pessoa que não deu o seu consentimento para o efeito; Outras parafilias não especificadas: existem inúmeras parafilias documentadas, tais como: a zoofilia (desejo por animais), necrofilia (mortos), coprofilia (fezes), urofilia (urina), entre muitíssimas outras. 3/4 Etiologia, Evolução e Prevalência das Perturbações Parafílicas Pouco se sabe acerca da etiologia, incidência e evolução das perturbações parafílicas, que predominam no sexo masculino, exceção feita à perturbação masoquista, que prevalece nas mulheres. As parafilias habitualmente têm início na infância e desenvolvem-se com a pessoa, tendo um percurso recorrente e cíclico, marcado por altos e baixos e sendo causadas por uma combinação de fatores, que reflete a história de vida e experiências idiossincráticas de cada pessoa, embora se defenda a existência de exposição e experimentação sexual no decurso do desenvolvimento psicossexual, durante a infância ou na adolescência. Desta forma, as experiências de vida a nível sexual (traumáticas e não traumáticas), mas também todo o ambiente envolvente (em termos culturais, educacionais e familiares) em conjunto com o seu desenvolvimento pessoal a vários níveis (emocional, social, cultural, etc.) funcionam como pano de fundo para o desenvolvimento das parafilias e dos transtornos parafílicos. Consequências das Perturbações Parafílicas Quando as parafilias se constituem enquanto transtorno parafílico, isso significa que são já muito intensos e recorrentes o sofrimento emocional que provocam na própria pessoa e a disfunção que causam a nível social, íntimo, laboral, familiar, etc. Por esse motivo, os transtornos parafílicos podem causar o mesmo prejuízo que qualquer outra perturbação mental, podendo levar ao isolamento e depressão da pessoa que deles sofrem, bem como ao abuso de substâncias e disfunção sexual. Porém, existem ainda os casos dos transtornos parafílicos cuja concretização é considerada ilegal ou criminosa, como é por exemplo, o caso do abuso sexual de menores perpetrado por pessoas que sofrem de pedofilia. Nestas situações, o prejuízo para a vida da pessoa que sofre do transtorno pode ser enorme, tal como o é para quem sofre com os seus atos, por não ter consentido ou não ter tido oportunidade ou competência para o fazer. Noutros casos, apesar de não ser ilegal ou criminoso, se se trata de um transtorno parafílico pode prejudicar profundamente o relacionamento amoroso da pessoa, que se pode ver incapaz de se relacionar sexualmente com o/a parceiro/a, sempre que o objeto de desejo parafílico não se encontra presente. 4/4 Em ambas as situações é comum que a pessoa tenta suprimir a perturbação parafílica, mas esta vai-se tornando cada vez mais difícil de controlar, sendo quase impossível evitar a passagem ao ato sexual parafílico com o decorrer do tempo e evolução da perturbação, o que naturalmente potencia as consequências negativas das perturbações parafílicas. Tratamento das Parafilias As parafilias em si não necessitam obrigatoriamente de tratamento. Apenas quando existe sofrimento e disfunção para a pessoa é que se considera existir transtorno parafílico e o tratamento é adequado nesse caso. O tratamento das parafilias é muito desafiante e complexo, pelo que é muito importante combinar a psicoterapia com medicação, a longo prazo. A natureza desafiante e complexa do tratamento está relacionada com a natureza da perturbação parafílica, que por definição é de cunho impulsivo, obsessivo e incontrolável, sendo que na ausência do estímulo parafílico a pessoa não obtém a vivência de uma sexualidade com prazer, causando assim também problemas relacionais com o/a parceiro/a sexual. Autor: Dra. Sónia Araújo, Psicóloga Clínica, Membro Efetivo OPP (CP 1300). Data da última revisão: 22/09/2021