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Ambrósio — Onde está ela?
Carlos — Em lugar que aparecerá quando eu ordenar.
Ambrósio — Ainda está naquele quarto; não teve
tempo de sair.
Carlos — Pois vá ver. (AMBRÓSIO sai apressado.)
PENA, Martins. “Cena III”. DEMETRIUS, Lisandro (Org.). O Noviço. [s.l.]:
Clube de Autores, 2012.
6 O trecho apresentado pertence a um dos gêneros li-
terários. Indique em que gênero se enquadra o texto
de Martins Pena e justifique sua resposta, apontando-
-lhe, pelo menos, três características.
7 No texto, podemos identificar as várias vozes enuncia-
das pelas personagens. Indique quantas personagens
temos na cena transcrita e que tipo de visão o texto
nos possibilita ter acerca delas.
8 Releia o fragmento.
Carlos — E será também falsa esta certidão do vigário
da freguesia de... (olhando para a certidão:) Maranguape,
no Ceará, em que se prova que o senhor meu tio recebeu-
-se... (lendo:) em santo matrimônio, à face da Igreja, com
D. Rosa Escolástica, filha de Antônio Lemos, etc., etc.?
Sendo testemunhas, etc.
Ambrósio — Dá-me esse papel!
Carlos — Devagar...
Ambrósio — Dá-me esse papel!
Carlos — Ah, o senhor meu tio encrespa-se. Olhe
que a tia não está em casa, e eu sou capaz de lhe fazer o
mesmo que fiz ao D. Abade.
Ambrósio — Onde está ela?
Carlos — Em lugar que aparecerá quando eu ordenar.
Ambrósio — Ainda está naquele quarto; não teve
tempo de sair.
Carlos — Pois vá ver. (AMBRÓSIO sai apressado.)
Nele, são apresentados alguns trechos entre parênte-
ses, aos quais chamamos rubricas. Qual seria a função
dessas rubricas e a que tipo de interlocutor elas se
dirigem?
9 Por que podemos afirmar que o fragmento é parte de
uma comédia?
10 Poderíamos afirmar que, pelo fragmento em análise,
a obra de Martins Pena teria uma função moralizante?
Justifique.
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 1 Introdução ao estudo literário200
1 Fuvest 2020 Os textos literários são obras de discurso,
a que falta a imediata referencialidade da linguagem
corrente; poéticos, abolem, “destroem” o mundo cir-
cundante, cotidiano, graças à função irrealizante da
imaginação que os constrói. E prendem-nos na teia de
sua linguagem, a que devem o poder de apelo estético
que nos enleia; seduz-nos o mundo outro, irreal, neles
configurado (...). No entanto, da adesão a esse “mundo
de papel”, quando retornamos ao real, nossa experiên-
cia, ampliada e renovada pela experiência da obra, à luz
do que nos revelou, possibilita redescobri-lo, sentindo-o
e pensando-o de maneira diferente e nova. A ilusão, a
mentira, o fingimento da ficção, aclara o real ao desligar-
-se dele, transfigurando-o; e aclara-o já pelo insight que
em nós provocou.
Benedito Nunes, “Ética e leitura”, de Crivo de Papel.
O que eu precisava era ler um romance fantástico, um
romance besta, em que os homens e as mulheres fossem
criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-
-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente
essas leituras já não me comovem.
Graciliano Ramos, Angústia.
Romance desagradável, abafado, ambiente sujo, po-
voado de ratos, cheio de podridões, de lixo. Nenhuma
concessão ao gosto do público. Solilóquio doido, enervante.
Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere, em nota a
respeito de seu livro Angústia.
O argumento de Benedito Nunes, em torno da nature-
za artística da literatura, leva a considerar que a obra
só assume função transformadora se
A estabelece um contraponto entre a fantasia e o
mundo.
 utiliza a linguagem para informar sobre o mundo.
 instiga no leitor uma atitude reflexiva diante do
mundo.
 oferece ao leitor uma compensação anestesiante
do mundo.
E conduz o leitor a ignorar o mundo real.
2 Enem 2011
Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
MACHADO, G. In: MORICONI, I. (Org.). Os cem melhores poemas
 brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
A memória é um importante recurso do patrimônio
cultural de uma nação. Ela está presente nas lembran-
ças do passado e no acervo cultural de um povo. Ao
tratar o fazer poético como uma das maneiras de se
guardar o que se quer, o texto
A ressalta a importância dos estudos históricos para a
construção da memória social de um povo.
 valoriza as lembranças individuais em detrimento
das narrativas populares ou coletivas.
 reforça a capacidade da literatura em promover a
subjetividade e os valores humanos.
 destaca a importância de reservar o texto literário
àqueles que possuem maior repertório cultural.
E revela a superioridade da escrita poética como for
ma ideal de preservação da memória cultural.
3 Fuvest 2015 Leia o poema de Drummond para res-
ponder às questões relativas a dois versos de sua
última estrofe.
Elegia 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum
[exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te
[arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a
[concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam
[de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande
[Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta
[distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de
[Manhattan.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
Exercícios propostos
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Considerando-se a “Elegia 1938” no contexto de Sen-
timento do mundo, explique sucintamente
a) a que se refere o eu lírico com a expressão “feli-
cidade coletiva”?
b) o que simboliza, para o eu lírico, a “ilha de
Manhattan”?
As questões de números 4 e 5 tomam por base um
trecho da conferência Sobre algumas lendas do Bra-
sil, de Olavo Bilac (1865-1918), e um soneto do mesmo
autor, utilizado por ele para ilustrar seus argumentos.
Sendo cada homem todo o universo, tem dentro de si
todos os deuses, todas as potestades superiores e inferiores
que dirigem o universo. (Tudo, se existe objetivamente, é
porque existe subjetivamente; tudo existe em nós, porque
tudo é criado e alimentado por nós). E esta consideração nos
leva ao assunto e à explanação do meu tema. Existem em
nós todas as entidades fantásticas, que, segundo a crença
popular, enchem a nossa terra: são sentimentos humanos,
que, saindo de cada um de nós, personalizam-se, e come-
çam a viver na vida exterior, como mitos da comunhão.
Tupã, demiurgo criador, e o seu Anhangá, demiurgo
destruidor. É o eterno dualismo, governando todas as fases
religiosas, toda a história mitológica da humanidade. Já
entre os persas e os iranianos, na religião de Zoroastro,
havia um deus de bondade, Ormuz, e um deus de malda-
de, Ahriman. A religião de Manés, na Babilônia, não criou
a ideia do dualismo; acentuou-a, precisou-a; a base da
religião dos maniqueus era a oposição e o contraste da luz
e da treva: o mundovisível, segundo eles, era o resultado
da mistura desses dois elementos eternamente inimigos.
Mas em todos os grandes povos, e em todas as pequenas
tribos, sempre houve, em todos os tempos, a concepção
desse conflito: e esse conflito perdura no catolicismo,
fixado na concepção de Deus e do Diabo. Os nossos ín-
dios sempre tiveram seu Tupã e o seu Anhangá... Ora, o
selvagem das margens do Amazonas, do São Francisco
e do Paraná compreende os dois demiurgos, porque os
sente dentro de si mesmo. E nós, os civilizados do litoral,
compreendemos e contemos em nós esses dois princípios
antagônicos, Deus e o Diabo. Cada um de vós tem uma
arena íntima em que a todo o instante combatem um gênio
do bem e um gênio do mal:
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora...
vesano: louco, demente, delirante.
Últimas conferências e discursos, 1927.
4 Unesp 2014 O conferencista Olavo Bilac sugere que,
apesar da diferença de credos, as religiões se filiam
a um mesmo princípio. Que princípio é esse e o que
origina no âmbito religioso?
5 Unesp 2014 No soneto, Bilac explicita sua concepção
do homem. Apresente o aspecto mais importante
dessa concepção.
6 Unicamp 2020 “O que é então o verossímil? Para encurtar:
tudo aquilo em que a confiança é presumida. Por exemplo,
os juízes nem sempre são independentes, os médicos nem
sempre capazes, os oradores nem sempre sinceros. Mas
presume-se que o sejam; e, se alguém afirmar o contrário,
cabe-lhe o ônus da prova. Sem esse tipo de presunção, a vida
seria impossível; e é a própria vida que rejeita o ceticismo.”
(Olivier Reboul, Introdução à retórica. São Paulo:
Martins Fontes, 1998, p. 97-98.)
Considerando o segundo “Sermão da Quarta-feira de
Cinza” (1673), de Antonio Vieira, é correto armar que
a presunção de conança por parte do auditório cris-
tão do século XVII decorre da
A habilidade política do pregador.
 atenção disciplinada dos ouvintes.
 crença na salvação e na danação eternas.
 defesa institucional da Igreja Católica feita pelo clero.
7 Unicamp 2015
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 51.
a) Na primeira estrofe, o eu lírico afirma categorica-
mente que “o coração está seco”. Que imagem,
nessa primeira estrofe, explica o fato de o coração
estar seco? Justique sua resposta.

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