Prévia do material em texto
Com base nisso, é correto dizer que este soneto: a apresenta a imagem de um “mundo às avessas”, em que a maioria aceita a sociedade absurda como se fosse a ideal. b desenha a sociedade ideal e utópica, que deverá ser alcançada no futuro. c explora a dualidade conflituosa entre corpo e es- pírito e associa a vertente satírica à sacro-religiosa. d apresenta um sujeito poético “sisudo e só”, o que re- tira do soneto o tom cômico que caracteriza a sátira. e apresenta a crítica aberta e racional como solução para o estado insano do mundo. 25 UFPE 2014 Se considerarmos que todas as atividades do homem são políticas, podemos admitir que toda li- teratura, enquanto atividade humana, carrega também sua dimensão política, mais ou menos explicitada. Par- tindo desse suposto, leia o texto abaixo e analise as afirmações seguintes. E pois cronista sou. Se souberas falar também falaras também satirizaras, se souberas, e se foras poeta, poetaras. Cansado de vos pregar cultíssimas profecias, quero das culteranias hoje o hábito enforcar: de que serve arrebentar, por quem de mim não tem mágoa? Verdades direi como água, porque todos entendais os ladinos, e os boçais a Musa praguejadora. Entendeis-me agora? Permiti, minha formosa, que esta prosa envolta em verso de um Poeta tão perverso se consagre a vosso pé, pois rendido à vossa fé sou já Poeta converso Mas amo por amar, que é liberdade. MATOS, Gregório de. Poesia Completa. 1636. 0-0)“Boca do Inferno” é o apelido que Gregório de Matos recebeu por dedicar parte de sua produção poética à crítica, muitas vezes satírica, à corrupção e à hipocrisia da sociedade baiana. 1-1) Na primeira estrofe, o poeta considera que, se seu interlocutor soubesse falar, satirizar ou poetar, as- sim como sabe o poeta, não calaria seu poder de crítica. 2-2)No poema é invocada a Musa praguejadora, como alusão à Musa inspiradora, levando, assim, o leitor a inferir que o poeta fará uma crítica maldizente. 3-3) Ao final do poema, o eu poético declara amar a liber- dade, dando a entender que se sente bem em falar de sua poesia, visto que é livre e ama a liberdade. 4-4) O poema em análise é característico da estética barroca, pois, do ponto de vista estilístico, joga com os opostos, fazendo uso frequente da antítese. Leia o soneto “A uma dama dormindo junto a uma fon- te”, do poeta barroco Gregório de Matos (1636-1696), para responder às questões de 26 a 29. À margem de uma fonte, que corria, Lira doce dos pássaros cantores A bela ocasião das minhas dores Dormindo estava ao despertar do dia. Mas como dorme Sílvia, não vestia O céu seus horizontes de mil cores; Dominava o silêncio entre as flores, Calava o mar, e rio não se ouvia. Não dão o parabém à nova Aurora Flores canoras, pássaros fragrantes, Nem seu âmbar respira a rica Flora. Porém abrindo Sílvia os dois diamantes, Tudo a Sílvia festeja, tudo adora Aves cheirosas, flores ressonantes. Poemas escolhidos, 2010. 26 Unifesp 2017 Mais recorrente na poesia arcádica, veri- fica-se neste soneto barroco o recurso, sobretudo, ao seguinte lema latino: a “locus horrendus” (“lugar horrível”). b “locus amoenus” (“lugar aprazível”). c “memento mori” (“lembra-te da morte”). d “inutilia truncat” (“corta o inútil”). e “carpe diem” (“aproveite o dia”). 27 Unifesp 2017 No soneto, a seguinte expressão é em- pregada pelo eu lírico em lugar de sua musa Sílvia: a “Flores canoras, pássaros fragrantes”. b “À margem de uma fonte, que corria”. c “O céu seus horizontes de mil cores”. d “A bela ocasião das minhas dores”. e “Aves cheirosas, flores ressonantes”. 28 Unifesp 2017 Assinale a alternativa em que o trecho do soneto está reescrito em ordem direta, sem alteração do seu sentido original. a “Não dão o parabém à nova Aurora/ Flores canoras, pássaros fragrantes”/ A nova Aurora não dá o pa- rabém às flores canoras e aos pássaros fragrantes. b “Calava o mar, e rio não se ouvia”/ O mar se calava e não ouvia o rio. c “não vestia/ O céu seus horizontes de mil cores”/ O céu não vestia seus horizontes de mil cores. d “Tudo a Sílvia festeja, tudo adora”/ A Sílvia festeja tudo, adora tudo. e “A bela ocasião das minhas dores/ Dormindo es- tava ao despertar do dia”/ Ao despertar do dia, estava dormindo a bela ocasião de minhas dores. F R E N T E 2 307 29 Unifesp 2017 A sinestesia consiste em transferir percep- ções de um sentido para as de outro, resultando um cruzamento de sensações. Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Verica-se a ocorrência desse recurso no seguinte verso: a “Flores canoras, pássaros fragrantes,” (3a estrofe) b “À margem de uma fonte, que corria,” (1a estrofe) c “Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,” (4a estrofe) d “Dominava o silêncio entre as flores,” (2a estrofe) e “O céu seus horizontes de mil cores;” (2a estrofe) 30 UEM As estrofes que se seguem pertencem ao sone- to “Aos mesmos sentimentos”, de Gregório de Matos. Leia-as com atenção e responda o que se pede: Corrente, que do peito destilada, Sois por dois belos olhos despedida; E por carmim correndo dividida Deixais o ser, levais a cor mudada. Não sei, quando caís precipitada, Às flores quer regais tão parecida, Se sois neve por rosas derretida, Ou se rosa por neve desfolhada. As estrofes apresentam um acontecimento emocio- nal (“sentimental”, com lágrimas), como anuncia o título do poema, que também remete a uma decep- ção (perda) amorosa. Esse acontecimento envolve descrição (um “desenho”) e narração (algo aconte- ce), aspectos que se amarram dinâmica e fortemente. Nesse quadro, o vocábulo “despedida” signica “solta”, “liberada”; e a palavra “carmim” signica cor avermelhada (superfície corada). Apresente esse acontecimento comprovando suas armações com, pelo menos, dois exemplos de descrição e dois de narração (a simples transcrição de exemplos não re- solve sucientemente a questão). 31 Famema 2019 A veia lírico-amorosa do poeta barroco Gregório de Matos (1636-1696) está bem exemplificada em: a “Aquele não sei quê, que, Inês, te assiste No gentil corpo, e na graciosa face, Não sei donde te nasce, ou não te nasce, Não sei onde consiste, ou não consiste.” b “Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade, É verdade, Senhor, que hei delinquido, Delinquido vos tenho, e ofendido, Ofendido vos tem minha maldade.” c “Senhor Antão de Sousa de Meneses, Quem sobe a alto lugar, que não merece, Homem sobe, asno vai, burro parece, Que o subir é desgraça muitas vezes.” d “Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te, Te lembra hoje Deus por sua Igreja; De pó te faz espelho, em que se veja A vil matéria, de que quis formar-te.” e “A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar cabana e vinha; Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro.” 32 Uepa 2015 Leia os versos abaixo: Deixa louvar da corte a vã grandeza: Quanto me agrada mais estar contigo Notando as perfeições da Natureza! Os versos de Bocage, acima transcritos, sugerem a tese da superioridade da natureza sobre a civilização. Assinale a opção que apresenta uma das causas des- te modo de entender a relação entre estas. a O desejo de se afastar dos problemas da vida ur- bana provocados pela consolidação do modo de produção capitalista. b O exacerbado crescimento do sistema feudal e a in- satisfação dos poetas árcades com este crescimento. c A influência do modo de produção capitalista e a as- censão da burguesia influenciando esteticamente o modelo poético árcade a ter uma visão negativa da natureza. d A satisfação com as consequências do capitalismo e o repúdio aos ideais campesinos. e A influência da propriedade da terra como fonte ge- radora de riqueza no modo de produção capitalista. Texto para as questões 33 e 34. Liberdade, onde estás? Quem te demora? Quem faz que o teu influxo em nós não caia? Porque (triste de mim!), porque não raia Já na esfera de Lísia a tua aurora? Da santa redenção é vinda a hora A esta parte do mundo, que desmaia. Oh!, venha... Oh!, venha, e trêmulo descaia Despotismo feroz, que nos devora! Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,Oculta o pátrio amor, torce a vontade, E em fingir, por temor, empenha estudo. Movam nossos grilhões tua piedade; Nosso númen tu és, e glória, e tudo, Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade! Bocage MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa Através dos Textos. São Paulo: Cultrix, 2006, p. 239. Lísia: Portugal. 33 Uepa 2014 O poema de Bocage organiza uma situa- ção comunicativa interna em que se verificam os seguintes elementos fundamentais da comunicação: emissor, receptor (contido no próprio texto) e mensa- gem. No poema, estes elementos são: a eu lírico, liberdade e crítica ao despotismo. b poema, liberdade e crítica ao despotismo. c eu lírico, povo português e crítica ao despotismo. d eu lírico, liberdade e língua portuguesa. e eu lírico, leitor e crítica ao despotismo. LÍNGUa PORTUGUeSa Capítulo 3 Literatura Colonial: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo308 34 Uepa 2014 A leitura do soneto bocageano permite afirmar que há entre a subjetividade do poeta e as questões sociais de Portugal uma ampla interação co- municativa. Marque a alternativa que comprova este comentário. A O eu lírico pede ao país que tenha, como ele, pa- ciência para suportar o despotismo. B A pátria personificada que desmaia, é comparável ao eu lírico frio e mudo. C O despotismo é a redenção muito esperada pelo eu lírico e pela sociedade portuguesa. A saudade é representada no poema pelas ima- gens do cárcere e do poeta preso por grilhões. E O eu lírico e a pátria celebram a chegada da liber- dade como um sol que surge no horizonte. 35 UFJF/Pism 3 2016 Texto I Soneto do Epitáfio Lá quando em mim perder a humanidade Mais um daqueles, que não fazem falta, Verbi-gratia – o teólogo, o peralta, Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade: Não quero funeral comunidade, Que engrole “sub-venites” em voz alta; Pingados gatarrões, gente de malta, Eu também vos dispenso a caridade: Mas quando ferrugenta enxada edosa Sepulcro me cavar em ermo outeiro, Lavre-me este epitáfio mão piedosa: “Aqui dorme Bocage, o putanheiro; Passou vida folgada, e milagrosa; Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”. BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. In: LAJOLO, Marisa (Org.). Literatura Comentada: Bocage. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 91. Ortografia atualizada. Texto II Lembranças de morrer Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro – Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Como o desterro de minh’alma errante, Onde o fogo insensato a consumia: Só levo uma saudade – é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia. [...] Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida, À sombra de uma cruz, e escrevam nela: Foi poeta – sonhou – e amou na vida. Sombras do vale, noites da montanha Que minha alma cantou e amava tanto, Protegei o meu corpo abandonado, E no silêncio derramai-lhe canto! Mas quando preludia ave d’aurora E quando à meia-noite o céu repousa, Arvoredos do bosque, abri os ramos. Deixai a lua pratear-me a lousa! AZEVEDO, Álvares de. Lira dos Vinte anos. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000. p. 188-189. Com base nos textos I e II, responda: a) Quais são as características do soneto de Bocage (texto I) que nos permitem identificá-lo como satírico? b) Os poemas de Bocage (texto I) e Álvares de Aze- vedo (texto II) tratam diferentemente do mesmo tema. Identifique esse tema e explicite as manei- ras como cada autor o trata, relacionando-as com o contexto de época. 36 ESPM-SP 2014 Camões, grande Camões, quão semelhante Acho teu fado ao meu quando os cotejo! Igual causa nos fez perdendo o Tejo Arrostar co sacrílego gigante (...) Ludíbrio, como tu, da sorte dura, Meu fim demando ao Céu, pela certeza De que só terei paz na sepultura (...) Bocage fado: destino; arrostar: encarar, afrontar. Assinale a afirmação correta sobre o poema. O eu lírico: A Expressa inveja de Camões por não ter tido igual sepultura. B Compara-se a Camões, fazendo um desabafo en- fático da amargura pela infelicidade ao longo de uma existência. C Segue o princípio clássico do relatar experiências humanas negativas aplicáveis a todos. Alterna versos alexandrinos (ou dodecassílabos) com versos decassílabos. E Dirige-se ao “Céu” e ao “Tejo” com a intenção de aliar-se aos elementos da natureza. 37 Uepa 2012 “Sobre Bocage, sabemos que foi um homem situado entre dois mundos, entre as regras rígidas de um Arca- dismo decadente, refletindo um mundo racional, ordenado e concreto, e a liberdade de um Romantismo ascendente, quando a literatura se abre à individualidade e à renovação”. www.lpm editores.com.br 03.09.11 F R E N T E 2 309