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Língua portuguesa - Livro 3-0032

Conjunto de questões de Língua Portuguesa com poemas e trechos literários (Castro Alves, Guilherme de Almeida, Raul Pompeia, crônica de Antônio Prata), cobrando análise de tempos e modos verbais, uso do imperativo, interpretação de texto e preenchimento de lacunas.

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12 O poema a seguir é de Castro Alves. Leia-o
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar.
Vós, que o templo das ideias
Largo abris às multidões,
P’ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse “rei dos ventos”
– Ginete dos pensamentos,
– Arauto da grande luz!...
Se iniciarmos a segunda estrofe pelo pronome tu, os
verbos abris e fazei, que aparecem no texto, deverão
mudar, respectivamente, para:
A abre; faz
 abras; faças
C abres; faze
D abre; faça
E abres; fazes
O texto a seguir refere-se às questões 13 e 14.
Barcos de papel
Quando a chuva cessava e um vento fino
Franzia a tarde tímida e lavada,
Eu saía a brincar pela calçada
Nos meus tempos felizes de menino.
Guilherme de Almeida.
13 “[...] eu saía a brincar [...]”. O verbo está no passado
imperfeito do indicativo. O nome imperfeito advém,
porque a ação de sair a brincar é:
A presente em relação a cessar.
 passado em relação a cessar.
C futuro em relação a cessar.
D condição em relação a cessar.
E concessão em relação a cessar.
14 Assinale a forma do imperativo em desacordo com a
norma-padrão da Língua Portuguesa.
A faze tu uma armada e solta os barquinhos
 faça você uma armada e solte os barquinhos.
C façamos nós uma armada e soltemos os barquinhos
D façais vós uma armada e soltai os barquinhos
E façam vocês uma armada e soltem os barquinhos
15 “[...] arranhando sempre e não temendo nunca”. A forma
do imperativo em desacordo com a norma-padrão é:
A arranha sempre e não temas nunca.
 arranhe sempre e não tema nunca.
C arranhemos sempre e não temamos nunca.
D arranheis sempre e não temais nunca.
E arranhem sempre e não temam nunca.
Texto para a questão 16
[...]
Durante este período de depressão contemplativa,
uma coisa apenas magoava-me: não tinha o ar angélico
do Ribas, não cantava tão bem como ele Que faria se
morresse, entre os anjos, sem saber cantar?
Ribas, quinze anos, era feio, magro, linfático Boca
sem lábios, de velha carpideira, desenhada em angústia – a
súplica feita boca, a prece perene rasgada em beiços sobre
dentes; o queixo fugia-lhe pelo rosto, infinitamente, como
uma gota de cera pelo fuste de um círio...
Mas, quando, na capela, mãos postas ao peito, de
joelhos, voltava os olhos para o medalhão azul do teto,
que sentimento! Que doloroso encanto! Que piedade!
Um olhar penetrante, adorador, de enlevo, que subia, que
furava o céu como a extrema agulha de um templo gótico!
E depois cantava as orações com a doçura feminina de
uma virgem aos pés de Maria, alto, trêmulo, aéreo, como
aquele prodígio celeste de garganteio da freira Virgínia em
um romance do conselheiro Bastos.
Oh! Não ser eu angélico como o Ribas! Lembro-me
bem de o ver ao banho: tinha as omoplatas magras para
fora, como duas asas!
[...]
Raul Pompeia. O ateneu São Paulo: FTD, 1991
16 Numa descrição, os verbos estão, em sua maioria, no:
A presente do indicativo
 futuro do indicativo.
C pretérito mais que-perfeito do indicativo.
D pretérito perfeito do indicativo.
E pretérito imperfeito do indicativo.
17 Assinale a letra correspondente à alternativa que preen-
che corretamente as lacunas da frase apresentada.
Assim como as pupilas não tudo o que
, minhas memórias apenas do
que pude amar
A retêm vem alimentar se ão
 retém veem alimentar-se-ão
C retêm vem alimentarão-se
D retém veem alimentarão se
E retêm veem alimentar-se-ão
18 Cefet-MG 2020
Um escritor! Um escritor!
Antônio Prata*
Com o jornal numa mão e um guaraná diet na outra,
eu caminhava pelas ruas de Kiev, desviando de barrica-
das e coquetéis molotov(1), quando a voz no sistema de
som me trouxe de volta à poltrona 11C do Boeing 737:
“Atenção, senhores passageiros, caso haja um médico a
bordo, favor se apresentar a um de nossos comissários”.
Foi aquele discreto alvoroço: todos cochichando,
olhando em volta, procurando o doente e torcendo por
um doutor, até que, do fundo da aeronave, despontou o
nosso herói Vinha com passos firmes grisalho, como
convém —, a vaidade disfarçada num leve enfado, como
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 16 Verbo94
um Clark Kent que, naquele momento, estivesse menos
interessado em demonstrar os superpoderes do que em
comer seus amendoins.
Um comissário o encontrou no meio do corredor e o
levou, apressado, até uma senhora gorducha que segurava
a cabeça e hiperventilava na primeira fileira do avião.
O médico se agachou, tomou o pulso, auscultou peito
e costas, conversou baixinho com ela, depois falou com
a aeromoça. Trouxeram uma caixa de metal, ele deu um
comprimido à mulher e, nem dez minutos mais tarde,
voltou pros seus amendoins, sob os olhares admirados
de todos.
Ou de quase todos, pois a minha admiração, devo
admitir, foi rapidamente fagocitada(2) pela inveja. Ora,
quando a medicina nasceu, com Hipócrates, a história de
Gilgamesh(3) já circulava pelo mundo havia mais de dois
milênios: desde tempos imemoriais, enquanto o corpo
seguia ao deus-dará, a alma era tratada por mitos, versos,
fábulas — e, no entanto...
No entanto, caros leitores, quem aí já ouviu uma ae
romoça pedir, ansiosa: “Atenção, senhores passageiros,
caso haja um escritor a bordo, favor se apresentar a um
de nossos comissários”?
Eu não me abalaria. Fecharia o jornal, sem afobação,
poria uma Bic e um guardanapo no bolso, iria até a senho
ra gorducha e me agacharia ao seu lado. Conversaríamos
baixinho Ela me confessaria, quem sabe, estar prestes a
reencontrar o filho, depois de dez anos brigados: queria
falar alguma coisa bonita pra ele, mas não era boa com
as palavras. Eu faria uma rápida anamnese(4): perguntaria
os motivos da briga, se o filho estava mais pra Proust ou
pra UFC(5), levantaria recordações prazerosas da rela
ção e, antes de tocarmos o solo, entregaria à mulher três
parágrafos capazes de verter lágrimas até da estátua do
Borba Gato.
De volta ao meu lugar, passageiros me cumprimenta-
riam e compartilhariam histórias semelhantes Uma jovem
mãe me contaria do primo poeta que, num restaurante,
ao ouvir os apelos do garçom —”Um escritor, pelo amor
de Deus, um escritor!”—, tinha sido levado até um rapaz
apaixonado e conseguido escrever seu pedido de casa-
mento no cartão de um buquê antes que a futura noiva
voltasse do banheiro.
Um senhor comentaria o caso muito conhecido do
romancista que, após as súplicas de mil turistas, fora capaz
de convencer 200 tripulantes de um cruzeiro a abandonar
o gerúndio.
Eu sorriria, de leve. Diria “Pois é, se você escolheu
essa profissão, tem que estar preparado pras emergências”,
então recusaria, educadamente, o segundo saquinho de
amendoins que a aeromoça me ofereceria e voltaria, como
se nada tivesse acontecido, para as bombas da Crimeia(6),
com meu copo de guaraná
*Antonio Prata
Escritor e roteirista, autor de Nu, de Botas Jornal Folha de São Paulo,
25 mai. 2014 Disponível em: Acesso em 27 ago. 2019.
Vocabulário de apoio:
1 Kiev: capital e maior cidade da Ucrânia. No trecho:
“eu caminhava pelas ruas de Kiev, desviando de bar
ricadas e coquetéis molotov”, o autor se refere ao
tema do livro (Guerra da Crimeia) que ele lia, enquanto
estava no voo Os termos ‘barricadas’(trincheiras fei-
tas de improviso) e ‘coquetéis molotov’ (tipo de arma
química, geralmente usada em guerrilhas) estão rela-
cionados ao tema da leitura feita pelo autor
2 fagocitada: neologismo criado a partir de fagocito-
se: processo de ingestão e destruição de partículas
sólidas, como bactérias ou pedaços de tecido necro-
sado, por células ameboides chamadas de fagócitos
[tem como uma das funções a proteção do organis-
mo contra infecções.]; no texto, ‘fagocitada’ pode ser
substituída por ‘devorada’.
3- No trecho: “a medicina nasceu, com Hipócrates,
a história de Gilgamesh”, o autor se refere a Hipó-
crates – pensador grego, considerado o “pai da
Medicina” e a Gilgamesh rei da Suméria, mais co-
nhecido atualmente por ser o personagem principal
da Epopeia de Gilgamesh,um épico mesopotâmico
preservado em tabuletas escritas com caracteres
cuneiformes (o mais antigo tipo de escrita do mundo)
4 anamnese: lembrança, recordação pouco precisa.
No campo da medicina, anamnese é um histórico que
vai desde os sintomas iniciais até o momento da ob-
servação clínica, realizado com base nas lembranças
do paciente.
5- No trecho: “se o lho estava mais pra Proust ou pra
UFC”, o autor se refere a um escritor francês (Proust,
importante escritor no cenário da literatura mun-
dial) e a UFC, cuja sigla em inglês Ultimate Fighting
Championship, designa organização de MMA (Artes
Marciais Mistas) que produz eventos ao redor de todo
o mundo.
6 bombas da Crimeia referência à Guerra da
Crimeia (1853 1856), assunto do livro que o autor lia,
durante o voo.
No trecho: “Eu não me abalaria. Fecharia o jornal, sem
afobação, poria uma Bic e um guardanapo no bolso,
iria até a senhora gorducha e me agacharia ao seu
lado Conversaríamos baixinho ”, o autor empregou o
mesmo tempo e o mesmo modo nos verbos grifados
para expressar uma
A situação imaginada a partir da narração.
 sequência de fatos narrados no passado.
C ação planejada para o futuro do narrador.
D imposição de ações aos personagens da cena.
19 Famerp 2020 Leia o texto de Luiz Eduardo Soares para
responder à questão.
Logo depois que assumi a Secretaria Nacional de
Segurança, em 2003, recebi, por vias transversas, uma
mensagem de Luciano, da Rocinha Ele desejava deixar
a vida de traficante e viajar para longe. Tinha chegado à
conclusão de que seu caminho era a perdição: morreria
cedo, de modo cruel, em mãos inimigas. Queria começar
de novo e pedia uma chance. Tratara com respeito a comu-
nidade, que era, afinal de contas, sua família. A violência,
ele a usara apenas na medida necessária à proteção de seus
negócios. Esse era seu ponto de vista, sem dúvida demasia-
do edulcorado. Não obstante a possível autoidealização, o
F
R
E
N
T
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fato é que explicitá la, naquele contexto, não deixava de
ser significativo, indicando a valorização positiva do lado
certo da vida. Era um negociante clandestino, dizia, não
um criminoso selvagem: alguns traziam uísque do Para-
guai; ele vendia outras drogas. Reivindicava uma diferença
importante, no mundo do crime carioca.
(Cabeça de porco, 2005 )
A forma verbal no pretérito mais-que-perfeito, que in-
dica uma ação, anterior a outra, ambas ocorridas no
passado, está sublinhada em:
A “morreria cedo, de modo cruel, em mãos inimigas”.
 “Ele desejava deixar a vida de traficante”.
C “Esse era seu ponto de vista”.
D “recebi, por vias transversas, uma mensagem de
Luciano, da Rocinha”
E “Tratara com respeito a comunidade”
20 Unifesp 2020 Leia a crônica “Inconfiáveis cupins”, de
Moacyr Scliar, para responder à questão.
Havia um homem que odiava Van Gogh Pintor des-
conhecido, pobre, atribuía todas suas frustrações ao artista
holandês. Enquanto existirem no mundo aqueles horríveis
girassóis, aquelas estrelas tumultuadas, aqueles ciprestes
deformados, dizia, não poderei jamais dar vazão ao meu
instinto criador.
Decidiu mover uma guerra implacável, sem quartel,
às telas de Van Gogh, onde quer que estivessem. Come-
çaria pelas mais próximas, as do Museu de Arte Moderna
de São Paulo.
Seu plano era de uma simplicidade diabólica Não
faria como outros destruidores de telas que entram num
museu armados de facas e atiram-se às obras, tentando
destruí las; tais insanos não apenas não conseguem seu
intento, como acabam na cadeia. Não, usaria um método
científico, recorrendo a aliados absolutamente insuspei-
tados: os cupins
Deu-lhe muito trabalho, aquilo. Em primeiro lugar,
era necessário treinar os cupins para que atacassem as
telas de Van Gogh Para isso, recorreu a uma técnica pa
vloviana. Reproduções das telas do artista, em tamanho
natural, eram recobertas com uma solução açucarada.
Dessa forma, os insetos aprenderam a diferenciar tais
obras de outras.
Mediante cruzamentos sucessivos, obteve um tipo
de cupim que só queria comer Van Gogh Para ele era
repulsivo, mas para os insetos era agradável, e isso era o
que importava.
Conseguiu introduzir os cupins no museu e ficou à
espera do que aconteceria Sua decepção, contudo, foi
enorme. Em vez de atacar as obras de arte, os cupins
preferiram as vigas de sustentação do prédio, feitas de
madeira absolutamente vulgar E por isso foram detectados
O homem ficou furioso. Nem nos cupins se pode
confiar, foi a sua desconsolada conclusão. É verdade que
alguns insetos foram encontrados próximos a telas de Van
Gogh. Mas isso não lhe serviu de consolo. Suspeitava que
os sádicos cupins estivessem querendo apenas debochar
dele Cupins e Van Gogh, era tudo a mesma coisa
(O imaginário cotidiano, 2002.)
“Enquanto existirem no mundo aqueles horríveis giras-
sóis, aquelas estrelas tumultuadas, aqueles ciprestes
deformados, dizia, não poderei jamais dar vazão ao
meu instinto criador.” (1o parágrafo)
Ao se transpor o trecho para o discurso indireto, os
termos sublinhados assumem a seguinte redação:
A existirem, pode, meu.
 existissem, poderia, seu.
C existiam, puderem, meu
D existem, poderei, dele.
E tenham existido, terá podido, seu.
21 UEM 2019 (Adapt.)
Reflexões sobre o tempo
(Marcelo Gleiser professor de física)
Para alguns, os mais pragmáticos, o tempo não tem
nada de misterioso: ele passa, envelhecemos e um dia mor-
remos, ponto final. Já para outros, este colunista incluído,
o tempo é um paradoxo, nosso grande amigo e inimigo.
Amigo por nos ensinar a ser pacientes com a impa-
ciência dos outros, por nos fazer esquecer coisas que
devem ser esquecidas e lembrar aquelas que devem ser
lembradas Inimigo por interromper vidas e relações, mu-
dar coisas que não queremos que sejam mudadas, por nos
fazer esquecer coisas que devem ser lembradas. Em termos
psicológicos não temos dúvidas: como ninguém consegue
se lembrar do futuro, o tempo anda sempre avante.
Mas a situação não é assim tão simples. Em arte, po-
demos inventar o futuro no presente, “visualizar” o que vai
(1) ser e tentar dar vida a essa visão. O paradoxo, aqui, é
que toda criação depende apenas do passado: criamos o
futuro re-experimentando e reintegrando o passado Isso
não significa que tudo já existe; significa apenas que exis-
tem infinitos modos de olhar para trás.
Em física, a direção do tempo não é obviamente para
a frente. Na verdade, as leis da mecânica não distinguem
(2) entre ir avante ou para trás. Imagine, por exemplo, que
alguém tenha filmado uma bola voando da direita para a
esquerda. Se o filme for passado de trás para a frente, a
bola voa da esquerda para direita: quem não esteve pre-
sente durante a gravação, não saberia em qual das duas
situações o tempo vai do passado para o futuro. Dizemos
que as leis da mecânica são reversíveis temporalmente
Se a física dissesse que o tempo é reversível sem-
pre (3), estaria em séria contradição com a realidade que
vemos à nossa volta (E em nós mesmos ) Basta (4) ob-
servarmos o mundo para saber que o tempo vai para a
frente: os dias passam, coisas mudam, pessoas e animais
envelhecem, planetas giram em torno do Sol, o Sol en
velhece, estrelas nascem e morrem, o próprio Universo
cresce cada vez mais, definindo a direção cosmológica do
tempo Como então reconciliar estas observações com as
leis básicas da física? A resposta se encontra na comple-
xidade do sistema: uma bola é um sistema extremamente
simples, sua trajetória para a direita ou para a esquerda
é essencialmente a mesma. Mas um ovo virar omelete,
por exemplo, é um processo irreversível: não vemos um
omelete virar ovo. A diferença é que um ovo pode ser
transformado em omelete através de inúmeros caminhos.
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 16 Verbo96

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