Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 12 O Modernismo no Brasil: primeira geração136
O quarto do subúrbio e o passaporte
para Pasárgada
Os dados biográficos de Bandeira, suas lembranças e
suas preocupações pessoais também merecem destaque.
Tais elementos, como os percalços de sua saúde precária
e as doenças que sempre o acompanharam, tornam-se
essenciais para o entendimento da melancolia presente
em toda a sua obra.
Manuel Bandeira teve de conviver ao longo de toda a
vida com a possibilidade da morte iminente Em 1903, ainda
jovem, em São Paulo, ingressa nos cursos de Arquitetura,
na Escola Politécnica, e de Desenho, no Liceu de Artes e
Ofícios, abandonando-os em seguida, por causa da tuber-
culose. Dali em diante, a doença passou a fazer parte de
sua rotina, exigindo muitos cuidados e tratamentos.
Constantemente abalado pelo mal-estar da doença, o
poeta sempre lidou com conflitos entre a dor e a vontade
de viver, pois, embora fosse muito sensível à beleza e ao
esplendor do mundo, seu estado físico não permitia que
se entregasse plenamente aos sabores da vida. Os traços
desse desacordo e seus desdobramentos podem ser ob-
servados em muitos dos seus poemas, os quais apresentam
expressões de angústia e melancolia diante do efêmero
da vida.
Atenção
Apesar de sua doença, Manuel Bandeira viveu até os
82 anos de idade, deixando uma vasta produção poética
que encanta leitores até hoje. Sua vida simples e despoja
da fez com que grande parte de sua produção estivesse
simbolicamente ligada ao interior de seu quarto, o lugar
privilegiado onde percebeu poeticamente o mundo.
Por um lado, tal cômodo representa o núcleo de seus
anseios; por outro, essa limitação incita o sentimento vi-
tal de fuga. Assim, o poeta acabou se abrindo para a rua,
experimentando intensamente o mundo cotidiano, a vida
simples e as nuances do modo de ser brasileiro.
Nesse movimento de profunda interiorização, ora no
quarto, ora nas ruas, ele também pôde redescobrir sua
infância, rememorando sua terra natal, Recife, com especial
afeição. Lá, na Rua da União, ou na “casa de meu avô”,
como menciona em seus poemas, o poeta nasceu e pas-
sou a infância.
Há, inclusive, uma série de poemas a respeito da terra
natal de Manuel Bandeira Ao falar sobre Recife, o poeta re-
trata as particularidades de sua terra brasileira, descrevendo
costumes e singularidades daquela época. Ele destaca,
principalmente, aspectos alegres de sua infância; além de
reproduzir os ternos momentos de gracejo e travessuras
infantis, relembra com deleite a sua vida saudável e des-
preocupada, livre de doenças e obrigações
Assim, para Manuel Bandeira, a memória da infância no
Recife se alargou para além da referência ao lugar físico
real, forjando uma expressão poética melancólica, marcada
pelo constante sentimento da passagem do tempo
M
E
/ 
P
o
rt
a
 d
a
 C
o
p
a
Fig 2 Ilha de Antônio Vaz rodeada pelo Rio Capibaribe, no centro do Recife
Esse rio é citado no poema “Evocação do Recife”, remetendo às memórias
da infância do autor
R
. 
d
o
 H
o
s
p
íc
io
R
io
 C
ap
ib
ar
ib
e
R
. 
d
a
A
u
ro
ra
Parque treze de maio
R
. 
S
e
te
 d
e
 S
e
te
m
b
ro
R
. 
d
a
 S
a
u
d
a
d
e
R
. 
d
a
 S
a
u
d
a
d
e
R
. 
d
o
 S
o
l
R
. 
d
a
 U
n
iã
o
A
v
 D
a
n
ta
s
 B
a
r
r
e
to
R
. 
d
a
 U
n
iã
o
R
. M
am
ede S
im
ões
R
. 
d
a
 S
a
u
d
a
d
e
R
. 
d
a
 S
a
u
d
a
d
e
Praça treze
de maio
Faculdade de
Direito do Recife
Tv. do C
osta
Câmara Municipal
de Recife
R
. do R
iachuelo
A
v. M
ario M
elo
Pte. Princesa
Isabel
Governo do Estado
de Pernambuco
Espaço Pasárgada
Fig. 3 Rua da Aurora, Rua do Sol, Rua da Saudade e Rua da União são citadas
no poema “Evocação do Recife”. Na Rua da União, onde era a casa do avô de
Bandeira – prédio tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco –,
existe hoje o Espaço Pasárgada, centro de vivência e produção literária.
F
R
E
N
T
E
 2
137
Ao adentrar a atmosfera do retorno à infância e de
revisita aos seus desejos mais íntimos, emergiu em Ban
deira um sentimento poético que encontrou sua síntese na
figuração de um lugar mítico: Pasárgada, nome que surgiu
em um de seus poemas mais famosos, “Vou me embora
pra Pasárgada”, do livro Libertinagem
Espaço da imaginação, do sonho e de todas as pro
jeções e aspirações, Pasárgada dá corpo a um desejo de
evasão do eu lírico Trata-se do lugar dos momentos felizes
e das realizações, construído, ao mesmo tempo, pelo sonho
e pela realidade, isto é, entre a circunstância instantânea
real experimentada e o devaneio onírico.
Em outro plano de análise, essa abertura a um mun
do ao mesmo tempo imaginário e real é o que garante
ao poeta a absorção das novas poéticas modernistas em
alta naquele momento, as quais retrabalhavam a tradição
clássica e ancoravam a expressão poética no contexto
brasileiro
O cacto e a fragilidade da permanência
De seu livro Libertinagem, merece também destaque
o poema “O cacto”, no qual Bandeira dá novos significados
a esse elemento da natureza, que passa a protagonizar
simbolicamente uma narrativa poética. O cacto é imedia-
tamente vinculado ao universo humano quando associado
às estátuas da arte clássica de Laocoonte e Ugolino, as
quais servem para a composição da metáfora que trans-
porta a realidade física para o plano da representação do
sofrimento humano.
Na primeira estrofe, o cacto habita dois universos do
drama humano: o das imagens clássicas e o das regiões
áridas e pobres do Brasil, os quais representam dor, deses-
pero, miséria e sofrimento.
Fig 4 Hagesandros, Athanadoros e Polydoros, Laocoonte e seus filhos, c 40 30 a. C.,
mármore, Museu Pio Clementino, Vaticano, Itália
©
 I
n
d
o
s
8
2
 |
 D
re
a
m
s
ti
m
e
.c
o
m
J
e
a
n
-B
a
p
ti
s
te
 C
a
rp
e
a
u
x
/T
h
e
 M
e
tr
o
p
o
lit
a
n
 M
u
s
e
u
m
 o
f 
A
rt
Fig. 5 Jean-Baptiste Carpeaux, Ugolino e seus filhos, 1865-67, escultura, The
Metropolitan Museum of Art, Nova York, Estados Unidos.
No poema, também há uma adesão à proposta expres-
sionista, evidente na carga dramática e emotiva dos versos
e presente no tamanho exacerbado do cacto A aparência
do vegetal parece estar de acordo com o ambiente feroz
que o circunda (“Era belo, feroz, intratável”) com uma força
desmedida que modifica o cenário por completo.
O cacto ainda idealiza uma raiz simbólica e rememora
a infância do poeta vivida no Nordeste, estabelecendo uma
forte associação com o nordestino desenraizado. Inserido
na vida urbana moderna, o cacto sofre uma interferência
violenta do mundo por meio de um tufão que o arranca
pela raiz e representa a migração que deflagra as difíceis
condições do povo brasileiro
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 12 O Modernismo no Brasil: primeira geração138
Revisando
1 Em um primeiro momento, a arte do Modernismo não foi bem compreendida e provocou reações contrárias por parte
de um público acomodado a certos padrões artísticos Como era a arte antes de ser moderna?
2 Como aconteciam as mudanças no mundo das artes até a primeira metade do século XX?
3 Com a mobilidade e a facilidade de comunicação que temos hoje, como ocorrem as transformações no mundo das
artes?

Mais conteúdos dessa disciplina