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Lírica Camoniana Prof. Mariana Neto Página 1 de 4 1. (Espm 2019) Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa, juntamente choro e rio, O mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto; Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio, Agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando, Numa hora acho mil anos, e é de jeito Que em mil anos não posso achar uma hora. Se me pergunta alguém porque assi ando, Respondo que não sei; porém suspeito Que só porque vos vi, minha Senhora. (Luís Vaz de Camões) Assinale a afirmação incorreta sobre o texto. a) Trata-se de um soneto de versos decassílabos, típico poema da medida nova praticada no Classicismo renascentista. b) Estados paradoxais do eu lírico, como “choro e rio” ao mesmo tempo, ou “em vivo ardor tremendo estou de frio”, classificam o poema no Maneirismo, pois prenunciam elementos típicos do Barroco. c) A exaltação ao amor e à mulher idealizada faz com que o eu poético passe por experiências extremadas ou hiperbólicas, como na terceira estrofe. d) A solenidade do texto ao tematizar uma mulher inspiradora de encantamento transparece, por exemplo, no uso da expressão “Senhora” com inicial maiúscula. e) O conjunto de sensações corporais opostas e a provocação de um estado mental e espiritual contraditórios não valeram a pena para o poeta, pois este só conseguiu ver a amada. 2. (Unicamp 2018) Transforma-se o amador na coisa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho, logo, mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois com ele tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assim como a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma. (Luís de Camões, Lírica: redondilhas e sonetos, Rio de Janeiro: Ediouro / São Paulo: Publifolha, 1997, p. 85.) Um dos aspectos mais importantes da lírica de Camões é a retomada renascentista de ideias do filósofo grego Platão. Considerando o soneto citado, pode-se dizer que o chamado “neoplatonismo” camoniano a) é afirmado nos dois primeiros quartetos, uma vez que a união entre amador e pessoa amada resulta em uma alma única e perfeita. b) é confirmado nos dois últimos tercetos, uma vez que a beleza e a pureza reúnem-se finalmente na matéria simples que deseja. c) é negado nos dois primeiros quartetos, uma vez que a consequência da união entre amador e coisa amada é a ausência de desejo. d) é contrariado nos dois últimos tercetos, uma vez que a pureza e a beleza mantêm-se em harmonia na sua condição de ideia. 3. (Unicamp 2017) Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões. Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho com tormento, para que seus enganos não dissesse. Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos, verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos! Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf. Acessado em 02/08/2016. a) Nos dois quartetos do soneto acima, duas divindades são contrapostas por exercerem um poder sobre o eu lírico. Identifique as duas divindades e explique o poder que elas exercem sobre a experiência amorosa do eu lírico. b) Um soneto é uma composição poética composta de 14 versos. Sua forma é fixa e seus últimos versos encerram o núcleo temático ou a ideia principal do poema. Qual é a ideia formulada nos dois últimos versos desse soneto de Camões, levando-se em consideração o conjunto do poema? TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: O dia em que nasci moura e pereça O dia em que nasci moura e pereça, Não o queira jamais o tempo dar; Não torne mais ao Mundo, e, se tornar, Eclipse nesse passo o Sol padeça. A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça, Mostre o Mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas, de ignorantes, As lágrimas no rosto, a cor perdida, Cuidem que o mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao Mundo a vida Mais desgraçada que jamais se viu! CAMÕES, Luis Vaz de. 200 sonetos. Porto Alegre: L&PM, 1998. 4. (Ufjf-pism 3 2017) No poema de Camões a visão de mundo expressa pelo eu lírico está baseada na ideia de: a) alegria de viver. b) valorização da natureza. c) sentimento órfico. d) manifestação divina. e) desconcerto do mundo. Página 2 de 4 TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES: Texto para a(s) questão(ões) a seguir. [...] o professor e escritor português Helder Macedo, que, no ensaio Camões e a viagem iniciática, irá contestar a teoria da castidade do poeta Camões, argumentando que o autor Luís de Camões, à frente do seu tempo, teria, na verdade, procurado e desenvolvido uma nova filosofia na qual os valores até então inconciliáveis do homem (o corpo e a alma) pudessem, na sua poesia, finalmente se combinar. Ora, Camões estava, sim, inserido numa Europa quinhentista, que ainda apresentava como grandes ícones poéticos os renascentistas italianos Dante e Petrarca, que, como dissemos, eram defensores do amor não carnal e em cujos versos a figura feminina era via de regra vista como símbolo de pureza. Entretanto, se estes dois poetas aprovisionam o seu fazer poético de um caráter platônico indubitável (e não o fazem apenas na arte, mas também na vida, haja vista as biográficas paixões inalcançáveis que estes nutriam pelas mulheres que se tornariam as suas respectivas musas po- éticas: Beatriz e Laura), a mesma certeza não se pode ter em relação ao poeta português. Isto porque viver na Europa quinhentista não faz necessariamente de Luís de Camões um quinhentista genuíno, no sentido ideológico e não temporal da palavra, não insere obrigatoriamente Camões no pensamento do seu tempo, a coadunar, parcial ou totalmente, com a visão de mundo vigente. E serão estas duas possibilidades, estes inegociáveis estar e não estar camonianos em sua época, que provocarão as dubiedades semânticas que podemos observar com frequência nas leituras críticas de sua poesia. Marcelo Pacheco Soares, Camões & Camões ou Pede o desejo, Camões, que vos leia. <http://www.revistavoos.com.br/seer/index.php/voos/article/view/46/01_Vol2_VOOS2009_CL2 0>. 5. (Espm 2017) Baseando-se estritamente no ponto de vista teorizado no texto acima (e não no sentido amplo da obra camoniana), Camões poderia ser vinculado a uma das definições abaixo, que caracterizam períodos da História da Literatura. Assinale-a: a) “Obediente a estritas normas de cortesia – o ‘amor cortês’ –, rendia vassalagem absoluta à dama, prometia servi-la e respeitá-la fielmente, ser discreto embora ciumento, empalidecer na sua presença...” b) “visão de mundo centrada na ideia do valor essencial e supremo do Homem, em oposição às teorias que privilegiam a Natureza, a realidade física ou concreta.” c) “Entendido ora como liame entre a Renascença e o Barroco, ora como uma tendência autônoma e diferenciada...” “É marcado pela contradição e o conflito e assumiu na vasta área em que se manifestou variadas feições.” d) “A envolvente estesia verbal ... ‘distraía’ a consciência do pecado ou do erro, simbolizado na prática de uma vida não cristã e não católica.” e) “...pregavam, na esteira de Horácio, a ‘áurea mediocridade’,ou seja, a dourada mediania existencial, transcorrida sem sobressaltos, sem paixões ou desejos.” 6. (Espm 2017) Ainda segundo o texto: a) Camões não se enquadra cronologicamente no quinhentismo, mas sim ideologicamente. b) alvos da crítica literária, as contradições semânticas são frequentes na produção poética camoniana. c) Camões produziu uma teoria da castidade, ao defender o amor puro, não material, não carnal. d) a busca da conciliação entre matéria e espírito, corpo e alma, é um traço típico da lírica camoniana. e) a consciência das tensões entre corpo e alma, “estar” e “não estar”, faz de Camões um poeta à frente de seu tempo. 7. (Unicamp 2016) Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões: “Cá nesta Babilônia, donde mana matéria a quanto mal o mundo cria; cá donde o puro Amor não tem valia, que a Mãe, que manda mais, tudo profana; cá, onde o mal se afina e o bem se dana, e pode mais que a honra a tirania; cá, onde a errada e cega Monarquia cuida que um nome vão a desengana; cá, neste labirinto, onde a nobreza, com esforço e saber pedindo vão às portas da cobiça e da vileza; cá neste escuro caos de confusão, cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião!” (Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf. Acessado em 08/09/2015.) a) Uma oposição espacial configura o tema e o significado desse poema de Camões. Identifique essa oposição, indicando o seu significado para o conjunto dos versos. b) Identifique nos tercetos duas expressões que contemplam a noção de desconcerto, fundamental para a compreensão do tema do soneto e da lírica camoniana. 8. (Ufrgs 2016) Leia o soneto de Luís de Camões e Soneto do amor total, de Vinícius de Moraes, abaixo. Luís de Camões Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Vinícius de Moraes Amo-te tanto, meu amor… não cante O humano coração com mais verdade… Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade. Amo-te afim, de um calmo amor prestante, E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente, De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim muito e amiúde, É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais do que pude. Considere as seguintes afirmações sobre os dois poemas. I. Os dois poemas apresentam a temática amorosa: no soneto de Camões, o sujeito lírico define o amor; no soneto de Moraes, o sujeito lírico diz como ama. Página 3 de 4 II. O soneto de Camões apresenta uma estrutura antitética nas três primeiras estrofes, como a exprimir o caráter contraditório do sentimento amoroso. III. O soneto de Vinícius de Moraes apresenta o sujeito lírico que ama de corpo e alma, ampliando o sentimento amoroso à dimensão física. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas I e III. d) Apenas II e III. e) I, II e III. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: Leia o soneto do poeta Luís Vaz de Camões (1525?-1580) para responder à(s) questão(ões). Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, passava, contentando-se com vê-la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assi negada a sua pastora, como se a não tivera merecida, começa de servir outros sete anos, dizendo: “Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. (Luís Vaz de Camões. Sonetos, 2001.) 9. (Unifesp 2016) Uma das principais figuras exploradas por Camões em sua poesia é a antítese. Neste soneto, tal figura ocorre no verso: a) “mas não servia ao pai, servia a ela,” b) “passava, contentando-se com vê-la;” c) “para tão longo amor tão curta a vida.” d) “porém o pai, usando de cautela,” e) “lhe fora assi negada a sua pastora,” Página 4 de 4 Gabarito: Resposta da questão 1: [E] A opção [E] é incorreta, pois o último terceto e, especificamente, o último verso exprimem a causa do estado de espírito em que se encontrava o eu lírico depois de discorrer sobre o fato que teria provocado essas sensações perturbadoras e contraditórias: “Que só porque vos vi, minha Senhora”. Resposta da questão 2: [A] A mulher vista como ser divino, superior e o amor platônico, elevado, pertencente ao mundo das ideias revelam o “neoplatonismo” camoniano no poema. Nos dois primeiros versos, a influência de Platão se manifesta pela referência à união amorosa de almas, entre o amador e sua amada, resultando em uma alma única e perfeita. Resposta da questão 3: a) Nos dois quartetos do soneto “Enquanto quis Fortuna que tivesse”, o eu lírico menciona duas divindades, Fortuna e Amor, que irão interferir na sua experiência amorosa. Enquanto Fortuna (destino) permitiu que mantivesse esperanças de vir a ser feliz, o eu lírico teve inspiração para compor poemas, o que lhe foi negado assim que o Amor se instalou nele e, por temer que alguma revelação negativa sobre ele poderia ser divulgada, lhe tirou a capacidade de inspiração. b) Os dois últimos versos do soneto são uma advertência do eu lírico às vítimas do Amor para que entendam que os seus poemas terão tanto mais sentido para os leitores, quanto mais profunda tiver sido a sua experiência amorosa. Resposta da questão 4: [E] No soneto “O dia em que nasci moura e pereça”, o eu poético lamenta o acontecimento fortuito e totalmente alheio à sua vontade de ter nascido no dia aziago que só lhe trouxe amarguras. Deste modo, atribui a origem do seu mal-estar ao destino adverso que o pôs no mundo no dia errado, ou seja, justifica o fato pelas contingências da própria existência humana, obrigada a conviver com a instabilidade e o desconcerto do mundo, como se afirma em [E]. Resposta da questão 5: [C] De acordo com o texto, Camões estaria à frente de seu tempo e apresentaria em sua obra o dualismo entre corpo e alma; o que anteciparia uma tendência do movimento literário posterior ao Classicismo: o Barroco, fortemente marcado por dualismos. Resposta da questão 6: [E] Na Europa quinhentista, a literatura era fortemente influenciada pelos poetas renascentistas italianos Dante e Petrarca, que acreditavam em um ideal de amor não carnal e representavam a mulher como símbolo de pureza. Já no primeiro parágrafo do texto, citando os estudos do professor e escritor português Helder Macedo, o autor afirma que Camões estaria à frente de seu tempo por ter “procurado e desenvolvido uma nova filosofia na qual os valores até então inconciliáveis do ho¬mem (o corpo e a alma) pudessem, na sua poesia, finalmente se combinar”. Resposta da questão 7: a) O eu lírico manifesta a sensação de exílio das terras do Sião, local sagrado e associado ao Bem que já habitou e a Babilônia, local em que se encontra no momento e onde impera o caos, a cobiça e a tirania. b) O tema do soneto remete à filosofia platônica, pois o eu lírico, circunscrito ao mundo sensível (concebido por Platão como o local onde o homem habita), expressadesconforto ao perceber que está à mercê do materialismo e do mundo em desconcerto. Nos dois quartetos, expressões como “o puro Amor não tem valia”, “pode mais que a honra a tirania”, “onde a errada e cega Monarquia/ cuida que um nome vão a desengana” refletem a sensação de desconcerto, muito presente na lírica camoniana de vertente clássica. A anáfora, constituída pela repetição do advérbio “cá”, enfatiza os aspectos negativos do plano material (Babilônia) em oposição às lembranças do mundo racional, o plano inteligível (Sião) tão desejado pelo eu lírico e, por extensão, pelos artistas do Renascimento: “cá neste escuro caos de confusão,/ cumprindo o curso estou da natureza./Vê se me esquecerei de ti, Sião!” Resposta da questão 8: [E] A afirmação [I] corretamente declara que o sujeito lírico no soneto de Camões define o amor, o que pode ser verificado no uso constante do verbo “ser” na terceira pessoa do presente do indicativo: é. Do mesmo modo, acerta em indicar que no Soneto do amor total, de Vinícius de Moraes, o sujeito lírico diz como ama, no que pode ser constatado pela grande quantidade de construções adverbiais que exprimem modo e intensidade (por exemplo, pelo emprego dos advérbios “como”, “muito”, “amiúde” ou da locução adverbial “com grande liberdade”). A proposição [II] de forma adequada se refere à construção dos versos de Camões baseados em antíteses, isto é, ideias contrárias. Por exemplo: “É um contentamento descontente”, na primeira estrofe; “É nunca contentar-se de contente”, na segunda; “É ter com quem nos mata lealdade”, na terceira. Acertadamente, como afirma a proposição [III], no soneto de Vinícius de Moraes o sujeito lírico ama de corpo (“É que um dia em teu corpo de repente / Hei de morrer de amar mais do que pude.”) e alma (“E te amo além, presente na saudade”). Resposta da questão 9: [C] O soneto “Sete anos de pastor Jacob servia” alicerça-se numa construção linear em que os quartetos expõem a narrativa, o primeiro terceto funciona como núcleo e o segundo, como remate. As palavras finais do soneto, em que se configura a antítese longo curta, são pronunciadas pela própria personagem em estilo direto, manifestam o ânimo firme de Jacob, que exprime que estaria disposto a servir Labão ainda mais tempo para conseguir Raquel. Assim, é correta a opção [C].