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ÉTICA E CONSUMO AULA 3 Prof.ª Aline Pires 2 CONVERSA INICIAL O objetivo desta abordagem é reconhecer o que caracteriza uma propaganda enganosa ou abusiva, pois alguns elementos aplicados na propaganda, sejam eles textuais ou não, bem como a falta deles, podem induzir o consumidor ao erro. CONTEXTUALIZANDO Por mais que o mundo atual pareça avançado por conta das conexões digitais possíveis, tecnologia, novidades, pessoas se comunicando com o mundo todo sem sequer saírem das suas casas, nós ainda temos consumidores sendo enganados pela propaganda. É muita promessa que não é cumprida. É produto que não é entregue, é ingrediente que não consta no produto, é suco que não é suco, é sanduíche de picanha que não tem picanha, é promoção que não é promoção – quando temos “tudo pela metade do dobro”, é produto que já chega com defeito, quando chega. Na publicidade existem limites. As marcas, por maiores que sejam, precisam e devem respeitá-los. Toda e qualquer comunicação que ultrapasse os limites da ética e do bom senso precisa ser devidamente punida. A pergunta que temos que fazer é: o lucro do anunciante é sempre o mais importante em uma relação de consumo? Como garantir uma boa publicidade sem que nenhum consumidor seja ou se sinta lesado? Hoje, o consumidor que é enganado pela propaganda reclama, denuncia e com razão, além de ter à sua disposição inúmeros canais para que isso aconteça. Diante disso, o que fazer então para que a propaganda respeite o consumidor, seja verdadeira, real e honesta? É o que vamos analisar nesta abordagem. TEMA 1 – PROPAGANDA ENGANOSA A propaganda está diretamente ligada à oferta de produtos e serviços. Alguns profissionais no mercado preferem usar a palavra “publicidade”, por conta da origem religiosa da palavra “propaganda”. A palavra propaganda foi traduzida pelo papa Clemente VII, em 1597 – quando fundou a Congregação da Propaganda – Congregatio Propaganda Fide, com o fito de propagar a fé́ católica pelo mundo –, 3 como derivação do latim propagare, que significa reproduzir por meio de mergulhia, ou seja, enterrar o rebento de uma planta no solo. Propagare, por sua vez, deriva de pangere, que quer dizer enterrar, mergulhar, plantar. (Sant’Anna; Rocha Júnior; Garcia, 2016, p. 67) Contudo, se pensarmos que “propagar”, “promover”, “vender” são palavras que têm relação direta, e que um produto ou serviço precisa ser visto pelos seus possíveis consumidores, ele terá uma marca, que por sua vez tem sua crença e posicionamento de marca, então isso será “propagado” e “vendido” para seu público. São criadas e divulgadas informações sobre determinado produto ou serviço, há uma publicidade em torno dele e o resultado do sucesso dessa comunicação se dará pelo seu número de vendas. Já para efeitos jurídicos, a palavra predominante é a publicidade. Isso posto, quando uma propaganda não cumpre o seu devido papel, temos então o que chamamos de “propaganda enganosa”, que é qualquer mensagem publicitária falsa que omita ou exagere em informações e leve o público-alvo (consumidor) ao erro. Desse modo, é importante conhecermos o que caracteriza essa prática, bem como seus limites e punições em caso de excessos e descumprimentos. Segundo o Código de Defesa do Consumidor – CDC, Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990 (grifo nosso), dispomos a seguir alguns artigos sobre a proteção do consumidor relacionada à publicidade enganosa ou abusiva: Seção III – Da Publicidade: Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal. Parágrafo único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem. Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva: § 1.º. É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. § 2.º. É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. § 3.º. Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço. §4.º. (Vetado). Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina. 4 Mas como saber o que pode caracterizar uma propaganda como enganosa? Vejamos um exemplo. Uma determinada rede de restaurantes lançou uma promoção. Ao comprar um determinado prato, o consumidor teria direito a outro grátis. Esse prato brinde, por sua vez, seria uma sobremesa: ravioli de chocolate. Porém, no ato do recebimento do item gratuito, o ravioli de chocolate era um chocolate (muito pequeno) em formato de um ravioli. Ou seja, não era, de fato, a massa prometida. O consumidor esperava um prato de ravioli com cobertura ou recheio de chocolate. Isso é induzir o consumidor ao erro. Sempre que uma informação publicitária não for adequada, clara, precisa e for passível de interpretações equivocadas por parte do consumidor, ela pode vir a ser considerada propaganda enganosa. Isso vale também para quando a informação for faltante, inexistente, ou seja, quando deveria constar explicitamente em uma peça publicitária e não consta. “Vale dizer que a ilicitude do anúncio pode ser configurada não apenas pelo que está anunciado, mas também por aquilo que não o foi (e deveria)” (Azevedo, 2015). É importante entender que a propaganda enganosa não é necessariamente a propaganda televisiva, mas todo e qualquer material publicitário que possa levar o consumidor ao erro, por exemplo, tabloides de supermercado, anúncios de revista, anúncios em rádio, panfletos, posts de redes sociais e materiais publicitários digitais. O que caracteriza a propaganda enganosa é a informação aplicada, ou a falta dela, na peça publicitária. Já a abusiva diz respeito à discriminação, questões éticas e morais, por isso da necessidade de uma análise criteriosa das peças publicitárias antes da veiculação. 1.1 Princípios da publicidade no Código de Defesa do Consumidor – CDC O Código de Defesa do Consumidor – CDC recomenda alguns princípios que direcionam a publicidade brasileira. De acordo com Azevedo (2015, p. 73), vejamos alguns princípios que se referem às sanções e penalidades cabíveis em relação à publicidade enganosa ou abusiva: • Princípio da correção do desvio publicitário (contrapropaganda) – A previsão da contrapropaganda encontra amparo legal […] especialmente no Art. 60: − Art.60. A imposição de contrapropaganda será cominada quando o fornecedor incorrer na prática de publicidade 5 enganosa ou abusiva, nos termos do art. 36 e seus parágrafos, sempre às expensas do infrator. § 1.º. A contrapropaganda será divulgada pelo responsável da mesma forma, frequência e dimensão e, preferencialmente, no mesmo veículo, local, espaço e horário, de forma capaz de desfazer o malefício da publicidade e enganosa ou abusiva. (Brasil, 1990) O objetivo dessa sanção administrativa é punir publicamente fornecedores que incorrem na prática da publicidade enganosa ou abusiva. Há também importante caráter inibitório, pois muitas vezes a exposição pública de um problema pode ser mais danosa do que o pagamento de multas. • Princípioda regulamentação penal da publicidade – A regulamentação penal da publicidade está prevista no Título II do CDC, que trata das infrações penais, especialmente nos artigos analisados a seguir: − Art. 63. “omitir dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou periculosidade de produtos, nas embalagens, nos invólucros, recipientes ou publicidade enseja pena de detenção de seis meses a dois anos e multa” (Brasil,1990). − Art. 67. Fazer ou promover a publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva: − Pena - Detenção de três meses a um ano e multa. − Parágrafo único. (Vetado). − Art. 68. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança: − Pena – Detenção de seis meses a dois anos e multa. − Parágrafo único. (Vetado). 1.2 Principal órgão regulador da propaganda e sua popularidade Como vimos, para que a publicidade se enquadre nas normas existentes e permaneça correta, temos alguns órgãos relevantes para essa prática. São eles que fiscalizam a ética, orientam e até mesmo punem as marcas que descumprem qualquer normativa. Trabalham por intermédio de conselhos organizados e compostos por vários profissionais, especialistas da área e membros da sociedade civil, que discutem, julgam e votam a respeito da publicidade denunciada, sejam elas oriundas do público consumidor que se sentiu enganado, ou mesmo por meio de concorrentes que também podem efetuar denúncias. É interessante destacar que é mantido o sigilo das informações pessoais dos consumidores denunciantes. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – Conar, nasceu nos anos 1970, como forma de manter a garantia da “liberdade de expressão” da propaganda. Tornou-se mais popular no ano de 2020, ao abrir representações contra cantores em razão de suposta falta de ética em seus comportamentos durante lives (apresentações ao vivo) realizadas na internet. Os cantores estariam consumindo excessivamente bebidas alcoólicas. O Conar abriu essas representações em razão do grande número de denúncias 6 realizadas pelos consumidores. A garantia da ética na publicidade é o foco do Conar, um dos principais órgãos regulamentadores que desde 1978 julgou mais de dez mil representações. Criou, ainda, o “Guia de Publicidade por Influenciadores Digitais”, que apresenta informações para a devida aplicação das regras do Código de Autorregulamentação Publicitária voltado especificamente para a publicidade realizada por influenciadores digitais nas redes sociais, algo que se fazia necessário, pois existem também na internet regras a serem cumpridas. TEMA 2 – TENSÕES ENTRE ÉTICA E LUCRO Certamente um dos departamentos mais vulneráveis às práticas antiéticas em uma empresa é o departamento comercial (compra e venda). Ao atender um cliente, é muito fácil que o vendedor cogite a possibilidade de oferecer mais do que realmente pode cumprir, visando ao alcance de suas metas mensais. Há também uma certa pressão por parte das empresas nesse sentido. Isso posto, na propaganda não é diferente. Uma empresa sempre terá suas metas a serem alcançadas e, para que isso aconteça, terá que vender sempre mais. Certa vez, uma renomada empresa de telefonia ofereceu pacotes promocionais e os vendeu além da sua capacidade de entrega. Trata-se claramente da obtenção de lucro sem o uso da ética, uma vez que a empresa conhece sua capacidade, portanto, sabia que não poderia cumprir com sua promessa. Mesmo assim, efetuou as vendas. Dito isso, uma empresa ou marca deve sempre ter em prática os seus valores, aqueles que vão constar na sua identidade organizacional, e ética certamente é um deles. Quando uma empresa começa a crescer, ganhar notoriedade no mercado, talvez ela venha a se esquecer desses valores, logo, estará fadada ao insucesso, pois perderá credibilidade. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Há alguma vantagem nisso? Não seria melhor obter lucros menores, porém constantes, do que obter um lucro excessivo em determinado momento e depois falir por que os consumidores não confiam mais na marca? No caso do exemplo da marca de serviços de telefonia comentado anteriormente, a empresa foi denunciada e condenada ao pagamento de multas altíssimas, e que são direcionadas a fundos de proteção ao consumidor. Claro que, insatisfeito, um consumidor que se sinta lesado pode cancelar o seu pacote 7 de serviços contratado, mas cancelar algum serviço de telefonia pode ser algo quase impossível. Então imaginemos o tamanho da encrenca que esta empresa causou simplesmente por não agir dentro da ética. O que é preciso entender é que ética gera lucro. Uma empresa que age eticamente é recomendada, garante a confiança do cliente e assim obtém sucesso em longo prazo. Um período sazonal anual em que a ética parece dar lugar apenas ao lucro é a Black Friday. Conhecida como “sexta-feira negra”, acontece geralmente na quarta sexta-feira do mês de novembro, dia em que os lojistas fazem suas grandes promoções para que os consumidores possam garantir as suas compras de Natal com desconto. Figura 1 – Black Friday Crédito: Mar1kOFF/Shutterstock. Isso seria interessante se os lojistas não abusassem da boa-fé dos consumidores. O Black Friday é o período em que o Departamento Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor – Procon (cada Estado tem o seu) mais recebe reclamações por parte dos consumidores. Segundo a reportagem da Isto é Dinheiro (2021), vejamos quais são os principais motivos dessas reclamações, registradas pelo Procon do Estado de São Paulo. 8 Tabela 1 – Motivos das reclamações Motivo Número de reclamações Maquiagem de preço 139 Pedido cancelado após a compra 109 Mudança de preço ao finalizar a compra 107 Produto ou serviço indisponível 101 Não entrega ou atraso 89 Fonte: Pavan, 2021. Vejamos que, ao analisarmos essa tabela, é claramente possível vermos que o lucro é almejado pelas empresas e que lhes falta ética, pois o maior número de reclamações se dá por “maquiagem de preço” (quando a empresa aumenta o preço antes de baixá-lo) ou “mudança de preço ao finalizar a compra”, ou seja, mentira, falta de respeito, falta de honestidade com os consumidores. Um profissional que atue em uma agência de propaganda deverá sempre alertar o cliente quando este estiver tomando uma decisão equivocada a respeito dessa temática que aqui discutimos: ética x lucro. As penalidades cabíveis recaem sobre o anunciante, mas a agência também poderá sofrer consequências. Lembre-se sempre de que todo mundo é honesto até a chance de não ser. Existirão oportunidades, inclusive, em que seremos colocado à prova, seja pessoal ou profissionalmente. Saiba mais Para saber quais foram as empresas campeãs de reclamações, recomendamos a leitura do artigo “Black Friday: conheça as campeãs de reclamação do Procon – SP em 2020”, da revista Isto é Dinheiro. Disponível em: <https://www.istoedinheiro.com.br/black-friday-conheca-as-campeas-de-reclam acao-do-procon-sp-em-2020/>. Acesso em: 17 ago. 2022. TEMA 3 – LIMITES ÉTICOS PARA CRIAÇÃO DE CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS A ética permeia todas as relações existentes na comunicação, principalmente no que diz respeito à criação de campanhas publicitárias. Para cada segmento, marca, produto, serviço ou público existirá algum ponto específico a ser observado sob os aspectos éticos. Estes se dividem em várias combinações de relações distintas, sejam elas entre a o cliente e a agência, entre 9 a agência e o consumidor, entre o publicitário e a agência, ou entre cliente, agência, publicitário e sociedade. Há quem diga que as campanhas publicitárias refletem o que acontece na sociedade, logo, se a sociedade age dentro da ética, esse será o reflexo a ser visto na publicidade. Entretanto,há também quem diga que a operação é inversa. A sociedade é que se comporta de acordo com o que vê nas propagandas. Ainda, se pensarmos que a publicidade (de acordo com o que diz a lei) deve ser verdadeira, então ela deve representar as realidades. A partir de 2020, vivemos o período de pandemia no Brasil, o qual foi representado em diversas campanhas publicitárias. Quando não tínhamos pandemia, a propaganda obviamente não tratava disso. Assim sendo, temos uma evidência de que a propaganda parece refletir o que acontece na sociedade. Vejamos um exemplo de campanha veiculada nesse período (Figura 2). Figura 2 – Exemplo de campanha Crédito: Roman Samb/Shutterstock; Elena_Garder/Adobe Stock. Arte: UT. É interessante avaliar que, anteriormente ao período de pandemia, nós não víamos pessoas retratadas na propaganda usando máscaras. Nessa campanha, especificamente, a marca ressalta os cuidados de proteção (hidratação) aos lábios mesmo durante o uso de máscaras. Isso porque 10 certamente houve uma redução do número de vendas desse produto nesse período, pois as mulheres entenderam que já que estariam de máscaras, logo, não precisariam usar o produto. Logo, a presente peça publicitária vem resgatar a importância do uso. É possível vermos que há um certo cuidado aplicado na peça, uma mensagem um tanto quanto sutil que respeita os limites éticos, uma vez que apresenta algo verdadeiro, associado à realidade do momento em que é apresentada. Então, podemos dizer que os limites éticos em campanhas publicitárias estarão sempre baseados em verdades, cuidado, respeito. Ainda, quando a propaganda retrata algo, é porque esse algo existe. As principais questões éticas da propaganda estão relacionadas a: • apresentação verdadeira – garantir a efetividade da mensagem, comprovar fatos e argumentos apresentados nas peças publicitárias (qualidades e benefícios); as mensagens devem reproduzir a realidade; • plágio – não copiar campanhas dos concorrentes ou ter uma campanha copiada; nenhum publicitário gosta de ter seu trabalho, sua ideia plagiada; • relação com o cliente – agência, veículos, parceiros, fornecedores, devem ter uma relação comercial ética, transparente e baseada em cumprimento de acordos; • desrespeito, discriminação e preconceito – principalmente em se tratando das minorias, garantir que todas as pessoas sejam devidamente representadas na publicidade (representação social) sem ofensas ou menosprezo; • propaganda para crianças – não incitar as crianças a práticas perigosas, contribuir para com a educação das crianças; comunicar-se com os pais e responsáveis respeitando sua autoridade; • ofensa a produto ou agência concorrente – não atuar com práticas desleais, preços abusivos ou inferiores ao mercado, não denegrir concorrentes. TEMA 4 – SENSO E CONSCIÊNCIA MORAL Senso moral é “o que caracteriza o sentimento que condiz com a moralidade, de acordo com os valores morais (o bem e o mal, o certo e o errado) presentes em uma determinada sociedade” (Significados, 2022). 11 Sob o olhar da filosofia, nossas emoções equivalem à nossa percepção diante de um determinado acontecimento. Por exemplo, como nos sentimos ao nos depararmos com alguém sendo injustiçado, como a senhora que não recebeu um lugar no ônibus, uma pessoa vendendo algo no sinaleiro, uma pessoa dormindo na rua. Trata-se de sentimentos que surgem em nós diante de situações que entendemos como desiguais, de acordo com o que é colocado como certo ou errado em determinada sociedade. Os valores morais de uma sociedade podem estar associados à legislação vigente ou não. Ainda, como vimos anteriormente, o que é entendido como certo em um país pode não ser em outro, por exemplo. Cada sociedade terá suas convenções sociais estabelecidas. A principal diferença entre o senso moral e a consciência moral está na dúvida: “enquanto o senso moral é o sentimento e a ação imediata em resposta às emoções desencadeadas pelos valores morais, a consciência moral está relacionada com a ponderação sobre quais decisões a pessoa deve tomar, em relação ao comportamento de si próprio e de outras pessoas” (Significados, 2022). Ou seja, se encontramos uma mala com muito dinheiro, nosso senso moral diz que é errado ficar com ela, porque não nos pertence e alguém acidentalmente a perdeu. Ao mesmo tempo, a nossa consciência moral faz com que nos perguntemos: será que devemos devolver? Isso porque poderíamos comprar muitas coisas com esses valores, mesmo se ficássemos somente com uma parte. Contudo, ao final entendemos que devemos devolver mesmo, porque isso é o correto a se fazer. Trata-se de tomar a decisão que para nós é entendida como certa, baseada em nossos princípios e valores, pois cada escolha traz uma consequência, e caberá sempre a nós essa reflexão anterior às tomadas de decisão ao longo da vida. Segundo Heemann (2001): a. os valores sociais fornecem os padrões de certo ou errado; b. a pessoa incorpora emocionalmente (por meio da educação) esses valores; c. em outras palavras, registram no cérebro as referências de certo ou errado que agora passa a orientar suas atitudes; d. essa incorporação, sob a interpretação da razão, assume a forma de “decisão ética”. 12 “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como um meio” (Kant, 1984, p. 135). TEMA 5 – DEVER DE INFORMAR DA PUBLICIDADE E DEVER DE REDAÇÃO CLARA Para falarmos sobre o dever de informar da publicidade e o dever de redação clara, voltaremos a analisar o CDC. O art. 6.º dispõe sobre os direitos básicos do consumidor; em seu inciso III aponta que um desses direito é o acesso a “informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem”. (Brasil, 1990). Isso posto, podemos entender que o consumidor tem o direito à livre escolha garantida, ou seja, poderá decidir se quer este ou aquele produto ou serviço, e se realmente os quer, mediante a exposição a informações claras, precisas e verdadeiras. Caso contrário, terá seu direito interrompido, uma vez que essas informações sejam faltantes, irreais ou errôneas. Desse modo, o consumidor terá sido induzido ao erro, portanto, a compra não terá validade se o seu direito de escolha mediante a informações verdadeiras for infringido. A publicidade tem o dever de informar e o consumidor tem o direito ao acesso a informações correta, ou seja, a redação clara. Podemos pensar nas “letras miúdas” que vemos (ou não vemos) na propaganda. O asterisco (*) inserido no rodapé do anúncio que aponta a informação descritiva dos produtos, muito discretamente, também conhecido como “texto legal”, geralmente vem acompanhado de palavras ou frases como “exceto para…”, “apenas para condições especiais…”, “somente para…”, “parcelamento disponível a partir do valor…”, “imagens meramente ilustrativas”. Com certeza já ouvimos o ditado popular que diz “o combinado não sai caro”. É justamente isso. Os textos publicitários são redigidos com base em criatividade e objetividade. Eles apresentam tipos de linguagem como a linguagem verbal (oral e escrita), não verbal (ilustrações, imagens, fotografias) e mista (verbal e não verbal). Além disso, o texto publicitário faz uso da persuasão e visa enaltecer as qualidades dos produtos e serviços. Contudo, informar ao consumidor que um sanduíche é de picanha sendo que ele contém apenas o 13 aroma desse produto e não o referido corte da carne, ou ainda, destacar na embalagem de um produto que ele é um suco de laranja saudável, quando na verdade o suco é apenas néctar da fruta (que apresenta um percentual bem menor da fruta), também é inaceitável.Vejamos o que diz a advogada do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – Idec, Marina Gondo (Codeco, 2022), em entrevista ao jornal Extra: É comum encontrarmos no mercado produtos que têm tanto na sua rotulagem quanto na publicidade elementos que fazem o consumidor pensar que a composição, as características nutricionais daquele alimento são saudáveis, quando na verdade não são. Isso é enganoso, o Código de Defesa do Consumidor prevê que essa é uma prática enganosa porque induz as pessoas a pensarem que o produto é uma coisa que ele não é – diz a advogada. Esses são produtos ultraprocessados, que tem como característica de composição nutricional o excesso de alguns ingredientes críticos para a saúde, como sódio, gorduras totais, saturas e trans, além de açúcares. No geral, são produtos pobres no aspecto nutricional, com pouca fibra, poucas vitaminas e poucos minerais. Na lista de ingredientes, quase não há frutas e existem diversos aditivos cosméticos, como aromatizantes, que apenas servem para disfarçar o sabor dessas bebidas – alerta. (Codeco, 2022) Vejamos outros tipos de anúncios conhecidos por apresentarem letras miúdas em sua redação: anúncios de concessionárias vendendo veículos, anúncios de bancos oferecendo créditos financeiros, anúncios de operadoras de viagem e companhias aéreas, anúncios de empresas de telefonia. Se buscarmos agora, onde quer que estejamos, um anúncio qualquer de um desses segmentos, muito provavelmente ele não será claro e não apresentará corretamente todas as informações necessárias. Façamos esse teste. Busquemos um anúncio dos segmentos citados para comprovar essa tese. Nesse sentido, a propaganda ainda precisa melhorar e muito, e podemos fazer a diferença. 14 Figura 3 – Propaganda Crédito: Valiantsin Suprunovich/Shutterstock. TROCANDO IDEIAS Leia o fragmento textual a seguir: Lentidão e instabilidade técnicas nos e-commerces nas primeiras 12 horas de Black Friday podem ter gerado um prejuízo de R$ 8,1 milhões aos lojistas. É o que aponta a projeção da Sofist, empresa que monitora a performance de grandes varejistas durante o evento e já está em sua quinta edição. A pesquisa monitorou 116 e-commerces entre as 22h desta quinta-feira (25) e as 10h desta sexta-feira (26). Neste período, informações referentes ao tempo de carregamento dessas lojas foram coletadas, além de feita uma análise para entender quantas delas ficaram fora do ar, por quanto tempo e quanto foi o prejuízo financeiro gerado por essa instabilidade. (Souza, 2021) O que entendemos ao ler esse fragmento, além da geração de prejuízo financeiro para as empresas? é possível afirmar que essa matéria ilustra o tema sobre tensões entre ética e lucro que vimos nesta abordagem? 15 NA PRÁTICA Recomendamos assistir à seguinte reportagem. Vídeo “Band Cidade – Procon proíbe a venda de suco da Coca-Cola por propaganda enganosa”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v =zda6pNp5X0g>. Acesos em: 18 ago. 2022. Qual é o sentimento que temos, enquanto consumidores, a respeito da propaganda devidamente punida e descrita na reportagem que acabamos de assistir? Podemos afirmar que a culpa é do fabricante, da agência publicitária ou de ambas as partes? FINALIZANDO Ao longo da história da propaganda brasileira, temos inúmeros comerciais importantes que fizeram as pessoas realmente felizes e que até hoje são lembrados. Recomendamos pesquisar sobre eles para observar que é possível que a publicidade continue fazendo história, e de maneira honesta. Para isso, basta agirmos dentro dos limites éticos. 16 REFERÊNCIAS AZEVEDO, N. Q. de. Direito do Consumidor. Curitiba: InterSaberes, 2015. BRASIL. Lei n. 8.078, de 11 setembro de 1990. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 12 set. 1990. CODECO, T. Idec denuncia Del Valle Fresh ao Procon – DF por propaganda enganosa. Extra, Rio De Janeiro, 15 abr. 2022. Disponível em: <https://extra.globo.com/economia-e-financas/idec-denuncia-del-valle-fresh-ao- procon-df-por-propaganda-enganosa-25476587.html>. Acesso em: 17 ago. 2022. CONAR BRASIL. Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Disponível em: <http://www.conar.org.br/>. Acesso em: 17 ago. 2022. HEEMANN, A. O corpo que pensa: ensaio sobre o nascimento e a legitimação dos valores. Joinville: Ed. da Univille, 2001. KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Coleção Os Pensadores, v. 2). NIVEA destaca importância da hidratação labial mesmo com máscara. Propmark, 29 jul. 2020. Disponível em: <https://propmark.com.br/nivea-destaca-importancia- da-hidratacao-labial-mesmo-com-mascara/>. Acesso em: 17 ago. 2022. PAVAN, B. Black Friday: conheça as campeãs de reclamação do Procon – SP em 2020. Isto é Dinheiro, São Paulo, 5 nov. 2021. Disponível em: <https://www. istoedinheiro.com.br/black-friday-conheca-as-campeas-de-reclamacao-do-proco n-sp-em-2020/>. Acesso em: 17 ago. 2022. SANT’ANNA, A.; ROCHA JÚNIOR, I.; GARCIA, L. F. D. Propaganda: teoria, técnica e prática. 9. ed. São Paulo: Cengage Learning Brasil, 2016. SENSO moral. In: Significado. Disponível em: <https://www.significados.com.br/ senso-moral/>. Acesso em: 17 ago. 2022. SOUZA, C. Lentidão de sites pode ter dado prejuízo de R$ 8,1 mi em 12 horas de Black Friday. CNN Brasil, 26 nov. 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil. com.br/business/lentidao-de-sites-pode-ter-dado-prejuizo-de-r-81-mi-em-12-hora s-de-black-friday/>. Acesso em: 18 ago. 2022.