Prévia do material em texto
Copyright© 2021 by Literare Books International Todos os direitos desta edição são reservados à Literare Books International. Presidente: Mauricio Sita Vice-presidente: Alessandra Ksenhuck Capa: Isabela Dantas Ilustrações: Isabela Dantas Diagramação e projeto gráfico: Gabriel Uchima Diagramação do ebook: Isabela Rodrigues Revisão: Camila Meirelles e Rodrigo Rainho Diretora de projetos: Gleide Santos Diretora executiva: Julyana Rosa Relacionamento com o cliente: Claudia Pires Literare Books International. Rua Antônio Augusto Covello, 472 – Vila Mariana – São Paulo, SP. CEP 01550-060 Fone: +55 (0**11) 2659-0968 site: www.literarebooks.com.br e-mail: literare@literarebooks.com.br APRESENTAÇÃO Este livro foi escrito tendo como plataforma as principais questões ao entorno do tratamento para portadores de Mutismo Seletivo. Não é apenas um livro sobre a narrativa do tratamento de Anna, embora o leitor deva logo identificar fatos dessa história, mas ele também apresenta, de forma objetiva e simples, os pontos mais sensíveis e importantes para uma formulação de caso no tratamento de mutistas. Embora as informações a respeito da avaliação e tratamento do Mutismo Seletivo estejam mais disponíveis nos dias atuais, sabe-se ainda dos desafios que se impõem ao terapeuta ou a outros profissionais que se dedicam a casos de Mutismo Seletivo, pois são considerados de difícil resposta a qualquer tipo de tratamento. Contudo, de longe, as Terapias Comportamental e Cognitivo- Comportamental têm sido indicadas como as mais efetivas quando comparadas a outras formas de intervenção psicoterapêutica. Ao longo do tratamento reportado neste livro, é possível observar a aplicação dos princípios que circundam essas teorias. Importante ressaltar que a Teoria da Aprendizagem, que serve como base epistemológica para as abordagens citadas acima, apresenta o entendimento de que o comportamento mudo (reposta da criança ao meio em que ela está inserida) é mantido pelas suas consequências (resposta do meio ambiente que se apresenta logo após o comportamento mudo da criança). Esse modelo, amiúde apresentado em vários artigos e trabalhos, necessita de muita atenção a fim de que seja incorporado em qualquer plano de tratamento de casos sobre Mutismo Seletivo. Algumas das razões que justificam essa atenção estão ancoradas no fato de que o conhecimento cada vez maior sobre o processamento do medo e da vergonha – emoções que estruturam a manutenção do comportamento mudo - acrescentam credibilidade às técnicas de dessensibilização para auxiliar portadores de mutismo, como: desvanecimento do estímulo, exposição gradual, reforçamento positivo, modelagem, treino de habilidades sociais etc. De forma engenhosa e bela, a terapeuta de Anna conseguiu utilizar essas técnicas em diferentes momentos do tratamento. De maneira lúdica e apropriada para crianças, são apresentadas várias situações em que essas técnicas podem e devem ser utilizadas para auxiliar na manifestação e manutenção da fala no contexto escolar da criança. A forma de atuação da psicóloga apresentada no livro deve ser ressaltada no tratamento psicoterapêutico de mutistas, pois a primeira e grande tarefa deve ser a de conseguir se comunicar verbalmente com um portador de Mutismo Seletivo. Isso é muito importante, pois não se deve avançar com o tratamento caso não se tenha alcançado a interação verbal com a criança. Neste ponto, o trabalho em conjunto com a família será de fundamental importância, bem como o planejamento dos ajustes a uma terapia tradicional, por exemplo, sobre o local de atendimento. No relato de caso do tratamento de Anna, Roseli, a terapeuta, fez os primeiros atendimentos na casa de Anna, além de utilizar as técnicas mais indicadas. Creio que a tarefa peremptória que se impõe ao terapeuta que atende portadores de Mutismo Seletivo está na conexão entre: conhecer o transtorno; se apropriar de sua etiologia e formas de manutenção; conhecer as técnicas que melhor respondem ao tratamento de uma forma geral; criar uma rede de trabalho interdisciplinar para apoiar as intervenções em suas diferentes fases; e principalmente, elaborar um tratamento baseado em evidências, que possa ser replicado por outros profissionais. Para concluir, deixo as seguintes indagações para o leitor: quais os motivos que estão por trás dos números crescentes quando se trata de ansiedade na infância? Como a sociedade pode contribuir para proteger a infância e favorecer o pleno desenvolvimento e atendimento das tarefas evolutivas nessa fase da vida? Considero que essas respostas devem estar no esforço coletivo, nos diferentes ambientes e contextos que estão ao redor da criança. Neste escopo, parabenizo as autoras do livro que, de forma diligente, têm se voltado à causa do Mutismo Seletivo. Assim, recomendo a leitura deste livro como recurso terapêutico e psicoeducativo para diferentes profissionais que lidam com o mutismo, e indico também como recurso lúdico para pais e cuidadores de crianças que apresentam sintomas do mutismo. Desejo êxito a todos! Ana Cláudia Professora do Departamento de Graduação e Pós- graduação em Psicologia e Educação Agrícola na UFRRJ. Supervisora de estágio em TCC desde 2005. Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Violência contra Crianças e Adolescentes (LEVICA/UFRRJ). Terapeuta Certificada pela FBTC. Membro do GT (ANPEPP) - Saúde mental e competências: avaliação, prevenção e tratamento. Formada em Terapia do Esquema. PREFÁCIO Este livro conta a história de Anna, uma garotinha que não conseguia falar. Anna era portadora de Mutismo Seletivo, uma condição que faz parte dos Transtornos de Ansiedade da criança e traz prejuízos de ordem socioemocional e acadêmica, num período importante do desenvolvimento infantil. A recusa em falar visa amenizar uma ansiedade avassaladora com a qual a criança não sabe lidar. Então, cala-se e não consegue verbalizar uma única palavra: a boca não se move, e a infância fica sufocada, abafada, silenciada. Pouco comentado e subdiagnosticado, atinge cerca de 1% das crianças em idade pré-escolar e necessita de tratamento com equipe multidisciplinar. Por meio de uma linguagem didática e encantadora, a presente obra dá voz ao silêncio e ajuda crianças, pais e professores a reconhecer, entender e manejar o Mutismo Seletivo. É um importante instrumento para psicoeducação. Anna é uma personagem da vida real atendida pela psicóloga Francilene Torraca e por mim, na psiquiatria infantil, que, após o tratamento adequado e cauteloso, foi a oradora da turma na festa de fim de ano da escola, enchendo todos de orgulho. Junte a família e aproveite a leitura! Dra. Natasha Ganem O QUE É O MUTISMO SELETIVO É um transtorno que tem relação direta com a Ansiedade Social. Apresenta-se com grande timidez, retraimento social, isolamento e até ocasionalmente alguns traços compulsivos. As crianças com Mutismo Seletivo não começam e nem participam de conversas, não falam na escola, não falam com amigos e, muitas vezes, não falam também com pessoas da família. Nos casos mais graves, essas crianças dialogam apenas com familiares diretos, como os pais e irmãos. Por não conseguirem conversar no ambiente escolar, têm seu desempenho acadêmico prejudicado, uma vez que a sua participação é praticamente nula. Adotam o mesmo padrão no funcionamento social, e por não existir qualquer tentativa de interação social com o grupo de pares ou com outros adultos, têm sua vida social com muitos prejuízos. O Mutismo Seletivo é um Transtorno de Ansiedade e o ideal é que seja acompanhado por psicóloga e psiquiatra infantil, necessitando, em alguns casos graves de ansiedade, do uso de medicação. O início do transtorno se dá mais ou menos a partir dos três anos de idade, mas o quadro fica evidenciado para os pais normalmente quando a criança passa a frequentar a escola, pois a falta de comunicação e de interação se torna evidente e prejudicial. “Importa compreender que o silêncio destas crianças não é uma afronta aos adultos, não é contestação da sua autoridade,não é recusa em falar apenas por birra ou por teimosia, é um comportamento altamente disfuncional, na tentativa de combater uma ansiedade sentida como paralisante, ao ponto de evitar o contacto social (Ribeiro, 2012).” Francilene Torraca Anna é uma menina de quatro anos. Ela é esperta e gosta muito de brincar. É uma menina sorridente, ama as flores do jardim do seu prédio e gosta muito de conversar com elas... Mas Anna tem um problema que a entristece: não consegue conversar com as pessoas. Como assim? Ela não fala? Sim, ela fala. Vamos entender melhor a história dessa menina que não consegue conversar com outras pessoas, além de seus pais e seu irmão? Ela mora com seus pais Amora e Daniel e seu irmão Marquinho. Gosta muito de contar histórias, falar sobre tudo que acontece na escola, e os pais se surpreendem com sua esperteza. A escola enviou um comunicado aos pais e pediu que eles fossem lá para conversar sobre o fato da Anna não se comunicar com as pessoas. Ao ler o bilhete, a mãe Amora se surpreendeu, pois em casa Anna conversa normalmente com todos e é muito falante. Mas o que seus pais ainda não sabem é que na escola ela não consegue conversar com ninguém. Fica afastada dos amigos porque não consegue brincar com os colegas como gostaria. Tem medo que lhe perguntem coisas que ela não conseguirá responder. Assim, ela fica distante, e seus colegas ficam sem entender o porquê dela não falar com eles. A pedido da escola, os pais de Anna procuraram a psicóloga Roseli para avaliar o que poderia estar acontecendo com sua filha. Não conseguiam entender como uma criança que fala normalmente em casa com eles não se comunicava com ninguém na escola, a ponto de nem pedir para beber água ou ir ao banheiro. A psicóloga Roseli foi à escola e se reuniu com a equipe para entender como Anna se comportava lá. A psicóloga Roseli iniciou o atendimento com Anna, indo semanalmente à residência dela, entendendo que ali era o local onde ela se sentia segura e conversava com todos. E, logo nas primeiras sessões, Anna começou a conversar também com Roseli. A terapeuta explicou aos pais de Anna que ela tinha Mutismo Seletivo e que isso era um Transtorno de Ansiedade. Disse também que ia precisar conversar com uma psiquiatra infantil, porque esse tipo de transtorno, dependendo do grau de ansiedade, precisa ser medicado. A medicação entra como uma aliada, em muitos casos, para ajudar a baixar os níveis de ansiedade, e a psicoterapia a ter um melhor prognóstico. É muito importante um tratamento, para que a psicóloga Roseli possa estar sempre em contato com a psiquiatra, e, desse modo, avaliarem o andamento do tratamento. Assim que Anna já estava se sentindo mais segura em conversar com a Roseli na sua casa, a psicóloga explicou que as sessões seguintes seriam na escola, ambiente onde ela não conseguia se comunicar com ninguém. Anna ficou receosa num primeiro momento, mas Roseli explicou para Anna e aos pais que fazia parte da evolução do tratamento e que isso a ajudaria a falar na escola com os amigos, que era algo que ela queria muito. Roseli também a levava para sessões externas e gostavam muito de fazer piqueniques. Eram encontros onde a terapeuta se aproximava cada vez mais de Anna, fortalecendo o vínculo das duas. Anna sorri para Roseli. A psicóloga Roseli e a psiquiatra infantil Dra. Natália se reuniram para conversar sobre o caso de Anna, e ambas apresentaram os dados que coletaram. A psicóloga Roseli deu continuidade ao tratamento de Anna indo realizar as sessões na escola. Anna, nas primeiras sessões, não conseguia conversar com a psicóloga na escola, apesar de já ter falado com ela em casa. Mas ficava tão ansiosa que, por mais que as frases rondassem sua cabeça para balbuciá-las, não conseguia se expressar verbalmente. Depois de quase dois meses da terapeuta indo à escola de Anna para realizar as sessões lá, Anna sentiu-se bem e confiante para conversar com a terapeuta dela na escola. Depois de estabelecido um vínculo de segurança verbal dentro do ambiente escolar, a psicóloga de Anna conversou com ela sobre a possibilidade de introduzir alguns amiguinhos da sala dela nas sessões. Aos poucos, foram introduzidos os seus amigos e ela foi se sentindo segura e confiante para conversar com eles. Brincavam de muitas coisas e Anna demonstrou no início medo, mas ao mesmo tempo queria muito poder conversar com os amigos e, com o apoio da psicóloga Roseli, foi enfrentando seus receios. O final do ano letivo chegou e teve uma apresentação em um festival de música na escola e Anna conseguiu se apresentar para os amigos e os pais. Anna estava radiante e correu até a plateia para abraçar sua psicóloga, que esteve com ela nessa caminhada tão bonita de superação do Mutismo Seletivo. Anna hoje consegue conversar com as pessoas e se sente feliz com isso. Apesar das dificuldades que passou, não tem mais medo e nem vergonha de falar com seus amigos da escola e seus vizinhos. Tem o apoio da sua família, da escola, psicóloga e psiquiatra. Todos trabalhando para que ela se sinta bem e segura. Caminha pelo jardim do prédio onde mora e se conecta com as flores, conversando também com elas, com seu sorriso e alegria radiantes. Este livro acabou, mas a história de Anna apenas começou! Voa, Anna! COMO SURGIU A ABRAMUTE? O Mutismo Seletivo foi o responsável pelo encontro das escritoras deste livro, assim como o nascimento da ABRAMUTE. Ao dividirem os cuidados de uma paciente com o transtorno, ambas se encantaram pelo tema e uma pela outra. Muito além de dividirem essa paciente, estavam dividindo um momento único que é a gestação. As proles nasceram com poucos dias de diferença e as famílias se uniram. O tempo passou e a parceria se fortalecia a cada paciente, a cada desafio e a cada meta alcançada. Ficava mais evidente a falta de informação acerca das condições relacionadas à ansiedade infantil e ao Mutismo Seletivo. E após observação da ausência de iniciativas e estratégias de cuidado, acolhimento de famílias e treinamento profissional para as patologias mentais que acometem o público infantojuvenil com enfoque no Mutismo Seletivo, surge a ABRAMUTE (Associação Brasileira de Mutismo Seletivo e Ansiedade Infantil). É uma instituição sem fins lucrativos fundada em 2020 pelas autoras Natasha Ganem e Francilene Torraca. A palavra infante no latim “infans”, onde “fan” significa falante e “in” constitui a negação, refere-se ao indivíduo que ainda não é capaz de falar. A infância precisa ser cuidada na sua integralidade e o Mutismo Seletivo, para além da fala, tira da criança a possibilidade de vivenciar uma infância feliz. A ABRAMUTE nasce com intuito de dar voz ao mutismo institucional e estigma das doenças mentais. Contamos com a sua ajuda. Visite nosso site, redes sociais e seja um associado, colaborador ou voluntário. Essa luta é de todos nós! www.abramute.org.br @abramute_org Baixe o caderno para colorir do livro. Aponte a câmera do seu celular ao código QR a seguir e tenha acesso às imagens para imprimir. Isabela Dantas Ilustradora e calígrafa (11) 99170-0475 isa_arte1@outlook.com Guarulhos/Sp Camila Meirelles Revisão de textos (21) 99797-7250 camilaslm@hotmail.com Apresentação Prefácio O que é o Mutismo Seletivo Como surgiu a Abramute?