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O Caminho do Bom Pastor Comentário Devocional de Salmos Thomas Tronco dos Santos Copyright © 2013 Thomas Tronco dos Santos All rights reserved. ISBN: 1494293153 ISBN-13: 978-1494293154 DEDICATÓRIA Dedico aos meus professores e amigos Marcos Granconato e Carlos Osvaldo Cardoso Pinto. ÍNDICE Prefácio 07 Introdução 09 Comentários 13 Referências 413 PREFÁCIO O Livro dos Salmos é talvez o mais querido de toda a Bíblia. Com efeito, ao longo dos séculos o povo de Deus tem se deleitado em seus versos de fé e esperança, tem se emocionado com os lamentos angustiados dos seus escritores e tem sido desafiado e instruído por suas tocantes declarações acerca do que é bom, justo e proveitoso aos olhos do Senhor. A verdade é que dificilmente haverá um cristão em toda a história que não tenha encontrado no Livro dos Salmos ensino, consolo e encorajamento, o que confere a essa maravilhosa compilação poética um lugar especial no coração e na história do povo de Deus. Esse impacto que o saltério produz na vida dos santos tem uma causa evidente: trata-se da natureza teológico-devocional de seu conteúdo. De fato, com o Livro dos Salmos nas mãos, os crentes são instruídos e edificados. Em suas páginas, os santos recebem suprimento para a mente que precisa de respostas e para o coração que precisa de descanso. Disso decorre não só o impacto desse conjunto de poesias sagradas, mas também a sua importância fundamental para os homens piedosos que vivem em busca de ensino teológico profundo e enlevo espiritual produtivo e verdadeiro. Foi por perceber esse grande valor do Livro dos Salmos tanto para a teologia como para a devoção cristã que o Pastor Thomas Tronco dos Santos escreveu “O caminho do Bom Pastor”. Nessa obra, ele realça os diversos elementos doutrinários que emanam dos salmos, mostrando amiúde a forma como esses elementos, além de outros fatores percebidos em cada poesia em particular, podem impactar a experiência e moldar as reações do homem de Deus neste mundo. Essa dinâmica presente no livro, geralmente se concretiza em etapas que compõem as exposições sucintas de todos os salmos. É assim que o estudo de cada poesia em particular se inicia com uma interessante ilustração, através da qual o Pastor Thomas capta de pronto a atenção do leitor, despertando seu interesse para a análise sistemática que vem logo a seguir. Feito isso, o autor conduz o leitor às conclusões práticas e vivenciais que brotam da poesia sagrada, passando por lições teológicas e destacando eventuais detalhes semânticos e gramaticais, sem, contudo, entrar nas cansativas e intrincadas discussões de ordem exegética que entediam o leitor comum e que são tão comuns em comentários bíblicos de teor mais acadêmico. O resultado disso tudo é que, lendo “O caminho do Bom Pastor”, o crente entende com maior facilidade que sua peregrinação neste mundo não abrange somente a caminhada em veredas planas e ensolaradas. Antes, aprende com os salmistas de Israel que o caminho de quem segue o Bom Pastor é repleto de perigos terríveis, de desertos secos, de montanhas íngremes e de vales sombrios. Ele vê, assim, que o tempo dessa jornada abrange noites escuras, dias de solidão e momentos de medo e ameaça. Por outro lado, descobre alegre que, seja qual for a etapa da viagem, com chuva ou com Sol, o Bom Pastor estará sempre com ele, acompanhando-o e protegendo-o durante a travessia das planícies áridas, a escalada das colinas solitárias e o cruzar dos rios caudalosos. Ademais, aprende também que o Bom Pastor o conduzirá, mesmo aqui, a muitas paisagens alegres e exuberantes, enquanto o guia no rumo de seu aprisco glorioso. Todas essas realidades serão claramente expostas diante dos olhos de quem ler “O caminho do Bom Pastor”. Vê-se assim que, numa época em que a literatura devocional evangélica se limita a meros apelos sentimentais desprovidos de sólida base doutrinária, este livro vem suprir a necessidade urgente de material de alto nível para as áreas do pensar e do viver, tão importantes para as ovelhas do Senhor. Que Deus abençoe a sua leitura! Pr. Marcos Granconato Soli Deo gloria INTRODUÇÃO Há muito tempo a igreja cristã perdeu certa homogeneidade necessária e benéfica para cumprir sua função como herdeira de Deus (Rm 8.16,17), arauto do caráter santo e perfeito do Redentor (1Pe 2.9) e mordomo imbuído da promoção da glória do Senhor no presente século (Ef 3.21). Por isso, entre as mais diversas vertentes da igreja moderna, há dois movimentos, opostos e concorrentes, que dividem a em dois grupos. O primeiro deles é formado por pessoas que se lançam à busca de um aprendizado teológico em níveis cada vez mais avançados. Eles tentam fazer jus ao legado dos teólogos do passado, os quais abriram clareiras enormes na floresta teológica que há nas Escrituras. Tudo para que seus sucessores dessem sequência ao desenvolvimento da teologia a partir de onde eles pararam. Nesse grupo se encontram teólogos bíblicos, tradutores, exegetas, professores, apologistas, escritores e pessoas apaixonadas pelo estudo da teologia, da hermenêutica, da história de Israel no Antigo Testamento e da história da igreja cristã. O segundo grupo, gerado por um pensamento pós-moderno que despreza conceitos e valores absolutos, rende à relatividade dos valores o direito de cada um pensar o que quiser como se “tudo” fosse verdadeiro – incluindo conceitos e valores tremendamente inconciliáveis entre si e autoexcludentes. Segundo essa óptica, ninguém está errado e nada pode ser descrito como pecado – talvez o único pecado para esse grupo seja alguém deixar de ser feliz e de buscar a satisfação dos seus desejos por causa de conceitos morais de certo e de errado. Esse grupo é bastante heterogêneo e reúne desde pessoas que se apresentam como “intelectuais” e como “mentes à frente do seu tempo”, que buscam na filosofia e no pensamento realista sua fonte de “sabedoria”, até pessoas que ignoram qualquer tipo ou veículo de conhecimento e se rendem à busca intensa por satisfação, felicidade e autoafirmação, cujas práticas religiosas se baseiam inteiramente na intuição e no desejo de interagir com o sobrenatural. O primeiro grupo, cada vez mais munido de recursos literários e tecnológicos, “devora” as Escrituras. O segundo, apoiado por livros de uma falsa sabedoria e por pastores ecumênicos que rejeitam a identidade singular da igreja cristã, desprezam por completo a Bíblia e tudo que se propõe a ensiná-la como verdade última e máxima para a salvação eterna e para a presente vida cristã. Apesar de diferentes e concorrentes, essas duas vertentes, infelizmente, sofrem do mesmo mal: a perda de interesse pela leitura “devocional” da Palavra de Deus. Por leitura devocional me refiro à aproximação das Escrituras não apenas para descobrir verdades teológicas contidas no texto bíblico. Não me entenda mal: a busca das verdades teológicas é realmente necessária, pois só existe “devoção” verdadeira e corretamente apontada para Deus quando há “compreensão” de quem Deus é e do que ele quer. Também não me refiro a atividades religiosas – ainda que “acaloradas” e “emocionais” – que bradam jargões retirados das Escrituras e que utilizam os escritos bíblicos como uma “varinha de condão”. Por leitura devocional, refiro-me à prática da leitura bíblica que, a partir da compreensão, gera, em primeiro lugar, admiração por Deus, por aquilo que ele fez e faz e, também, por aquilo que ele deseja. Em segundo lugar, essa leitura gera adaptação do caráter e do procedimento do leitor de modo a torná-lo cada vez mais compatível com seu Senhor e mestre. Em terceiro, ela gera aproximação de modo que o estudante das Escrituras tem o desejo diário de andar com Deus e servi-lo aqui na Terra. Por último, a leitura devocional gera adoração àquele que, percebendo a grandeza, o valor, a santidade, o poder, a perfeição, o amor, a glória, o caráter e a majestade do soberano Senhor do universo, cai aos seus pés emverdadeira atitude de louvor, a qual brota do seu íntimo. Minha análise do problema que se abate sobre esses dois grupos da igreja cristã moderna não é feita por uma óptica de quem está do lado de fora. Na verdade, faço tal análise com a consciência de que ela não me isenta dos seus resultados – eu faço parte do primeiro grupo. No sentido de produzir a necessária “devoção” nos servos de Deus, arrisco- me a dizer – certo de que quem discordar terá a seu favor argumentos de muito peso – que nenhum outro livro nos revela a natureza e o caráter de Deus tão bem como Salmos. Um exemplo que apoia essa ideia vem da história da igreja. Biógrafos de Agostinho de Hipona dizem que, em seu leito de morte, ele pediu que se afixasse diante dele o texto do Salmo 32. Esse salmo, que fala do perdão de Deus e da bem-aventurança de quem o recebe, começa dizendo (v.1): “Felizes são aqueles cuja transgressão foi retirada, cujo pecado foi coberto”. Acredito que o famoso pai da igreja, em seus últimos momentos de vida, encontrava não apenas consolo, mas encorajamento efetivo, alegria não fingida e esperança no que estava por vir, sabendo que o perdão que recebeu de Cristo era a causa da paz que teve a partir da sua conversão e que teria por toda a eternidade. O presente trabalho não é fruto de uma análise superficial e intuitiva – ele foi produzido por meio de recursos como tradução a partir do texto hebraico (indicada pela subsequente transliteração, com caracteres comuns, de cada trecho traduzido), crítica textual, pesquisas nos campos da introdução e da teologia bíblicas e a consequente exegese do texto. Contudo, tal processo não aparece explicitamente no trabalho, pois ele tem como intenção apresentar o caráter devocional e aplicativo de cada salmo, em uma atividade cujo autor realizou tanto o trabalho de um comentarista como a atividade pastoral. Nesse exercício – costumeiramente conhecido como “exposição bíblica” – o autor foi o primeiro a se beneficiar do trabalho ao descobrir o valor devocional do saltério e ao relembrar – “aprender”, eu diria – a importância da devoção pessoal na vida cristã e na adoração do santo Deus. Como essa obra não se propõe a traduzir e comentar cada versículo do livro de Salmos – principalmente dos mais extensos –, mas auxiliar na compreensão de cada salmo de modo devocional e aplicativo, acredito que uma boa e proveitosa maneira de utilizá-lo é ler – de preferência, de modo sequencial – cada capítulo “sempre” associado à leitura do salmo referente na Bíblia, dando a devida atenção às observações feitas no comentário e mantendo a devida postura devocional que exige o texto bíblico – e o nosso Deus eterno. Que o nosso Senhor amoroso e poderoso abençoe cada vida que se dedica ao estudo e meditação da sua Palavra assim como tem me abençoado! COMENTÁRIO DEVOCIONAL SALMO 1 A Felicidade e o Fracasso Quando ainda adolescente, tive uma colega que era uma grande fã do ator James Dean (1931-1955), apesar de, como eu, ter nascido muito tempo depois da morte do famoso astro “rebelde”. Por causa dela, passei a conhecer um pouco da história do ator que, ainda hoje, dá nome e tom a estilos de roupas e de penteados. James Dean, dentre os filmes que estrelou, foi o ator principal do filme Juventude transviada (Rebel whitout a cause, 1955), tornando-se modelo de uma geração de jovens que almejavam a mesma “liberdade” que ele encenava. Apesar do estilo marcante imitado por um sem-número de jovens, o que mais me impressiona a respeito dele é algo que ele dizia fora das telas. Em sua rebeldia, que extrapolava os filmes, ele disse: “Morra jovem e tenha um cadáver bonito”. Esse pensamento justificava seu modo irresponsável de vida. Infelizmente, o fim da sua vida fez jus à sua filosofia: James Dean morreu com 24 anos em um acidente de carro. Na necrópsia, além da coluna vertebral partida e da hemorragia interna que lhe levou a vida, o médico constatou inúmeras cicatrizes no peito feitas ao apagarem nele cigarros a seu pedido em um bar de Hollywood que costumava frequentar. Apesar de parecer a muitos que essa foi uma morte “poética” que coroou a carreira e a fama do ator, acredito que, dificilmente, James Dean pensaria o mesmo agora. Tenho por certo que seus pensamentos seriam sobre o quanto ele perdeu da vida ao morrer jovem, sobre a família que teria se estivesse vivo, sobre outros filmes que viria a tomar parte e coisas desse tipo. Mas, principalmente, o quanto era tola a “sabedoria” que ele julgava ter e que transmitiu com orgulho para outros. O Salmo 1 demonstra que a felicidade perene tem uma fonte certa e que, fora dela, ainda que haja sucesso momentâneo, o resultado final é tristeza e dor. Na verdade, o autor do salmo traça uma nítida distinção entre o homem feliz, ou “bem-aventurado”, e o homem ímpio que vive distante de Deus. O v.1 estipula três requisitos, na forma negativa, para a felicidade de uma pessoa. Trata-se de três “nãos”. Tal homem “não anda segundo a proposta dos ímpios” (lo’ halak ba‘atsat resha‘îm). Os ímpios aconselham-no a agir de certo modo, provavelmente igual a eles, com injustiça e engano, mas tal homem não atende seus clamores nem acolhe suas falsas sabedorias. Ele também “não permanece no caminho dos pecadores” (bederek hatta’îm lo’ ‘amad). A companhia de homens que desprezam o Senhor com seus atos não agrada o homem “bem-aventurado” de modo que não há comunhão entre eles. Seu contato com pessoas que vivem em pecado é cuidadoso e limitado. E, finalmente, ele também “não toma lugar na reunião dos cínicos” (bemoshav letsîm lo’ yashav). A falsidade e a zombaria da verdade e da justiça não são o ambiente visitado pelo homem que é bem-aventurado. Ele, cautelosamente, se mantém longe de tais ajuntamentos. Deve-se notar o poder persuasivo e perigoso do mundo que, quando próximo demais de servo descuidado, faz com que ele deixe apenas de “andar” ao lado, mas “permanecer” e, por fim, “tomar lugar” junto com ele. Por isso, os “nãos”. Esses três cuidados garantem uma parte da felicidade aos homens que fogem do estilo de vida mundano. A outra parte da felicidade é alcançada quando tal homem busca conhecer a vontade de Deus para cumpri-la. O v.2 diz que, em detrimento do afastamento dos caminhos que levam a uma alegria fácil e rápida, o homem que se torna feliz de verdade se aproxima da “lei do Senhor”. Essa expressão é uma referência ao ensino das Escrituras. Tal pessoa busca conhecer a vontade de Deus de modo tão sério que “medita durante o dia e a noite” (yehgeh yômam walaylâ) sobre aquilo que lê na Bíblia. A ideia expressa pelo salmista é a de alguém que fica recitando para si, sem se cansar, as verdades que aprendeu a fim de memorizá-las e compreendê-las. Isso e a consequente obediência às orientações do Senhor completam a felicidade que o mundo não pode conhecer por seus próprios meios nem oferecer a qualquer um que seja. O resultado de se afastar do mal, e de se aproximar das orientações de Deus para atendê-las, produz no que assim age algo que pode ser expresso por meio de um símile, uma comparação entre essa pessoa sábia e uma árvore. Mas não é uma árvore qualquer. Trata-se de uma árvore em condições privilegiadas. A árvore que serve de comparação com o homem que é feliz por seguir a Deus (v.3) é plantada “perto de um ribeiro de águas”, recebendo, em termos de alimento, todos os nutrientes e toda a água de que precisa para se desenvolver. Assim como o homem cuja fonte de sabedoria é a Palavra de Deus, tal árvore produz frutos e não é vítima da seca. Essa é uma descrição figurada, mas muito clara, da segurança e da produtividade da vida daquele que ama o Senhor e segue seu ensino. Por sua vez, os ímpios não são assim (v.4). Usando ainda uma linguagem figurada de natureza agrária, o salmista compara os injustos a “palha que o vento leva”, conferindo uma dupla ideia de transitoriedade, a saber, de ser seco e improdutivo como a palha e inaproveitávelpor ser levado para longe pelo vento. Não é uma comparação que transmite uma ideia de segurança e de um futuro feliz. Para que fique bem claro, o salmista abandona a linguagem figurada e é claro no ponto que defende (v.5). Diz que “os ímpios não ficarão em pé no juízo” (lô’-yaqumû resha‘îm bammishpat) porque não têm nada que lhes abone as faltas diante de Deus e que os impeça de serem condenados. O mesmo se dará com “os pecadores na reunião dos justos” (wehatta’îm ba‘adat tsadîqîm). Eles não podem permanecer ali, pois não é seu lugar. Durante toda a sua vida suas reuniões foram outras. O salmo termina explicando, no v.6, que a razão da felicidade perene dos que o temem e da desventura dos que agora se alegram na impiedade é que “o Senhor é quem reconhece o caminho dos justos” (iôdea‘ yehwâ derek tsadîqîm). Como esse fato é contraposto pela partícula “mas” (we) com o sentido de que o “caminho dos ímpios fracassará” (we derek resha‘îm to’ved), a primeira cláusula deve ter uma ideia mais ampla que um simples conhecimento de Deus a respeito daqueles que o temem. A interpretação mais apropriada é a de que Deus age bem para com os seus, dando-lhes uma felicidade eterna, destino este bem diferente do futuro dos pecadores. Os dois únicos futuros possíveis são “felicidade” para os que buscam a Deus, por meio da fé no Senhor Jesus Cristo, o Salvador, e “fracasso” para os que buscam alegria momentânea e a satisfação de todos os seus desejos. Por tanto, fique alerta! Se você agora defender e seguir um estilo de vida mundano e longe de Jesus, no qual a falsa felicidade é buscada desenfreadamente a qualquer custo, seu futuro pode ser bem tenebroso. Talvez, o melhor que você possa esperar seja um “cadáver bonito”. Fuja disso crendo e entregando sua vida a Jesus! SALMO 2 O ‘Irmão Mais Velho’ dos Servos de Deus Nunca fui uma criança de brigar na escola. Na verdade, nunca troquei socos com ninguém na minha vida. Minhas demandas sempre foram resolvidas por meio da boca e não das mãos. Entretanto, vi muitos colegas resolverem suas diferenças “no braço”, como se diz por aí. Quando a discussão não chegava a tanto, as ameaças e palavrões eram ouvidos a boa distância. Para piorar, quase nunca a solução vinha rapidamente. Ninguém queria deixar a última palavra para o adversário. Isso fazia com que problemas bobos se arrastassem por um bom tempo em uma discussão inútil e totalmente desrespeitosa. Contudo, um fator era capaz de amainar os ânimos e até encerrar uma briga acalorada: a ameaça de recorrer ao irmão mais velho. A discussão se mantinha em igualdade até que a possibilidade de alguém mais forte e motivado pela proteção do irmão mais novo tornava o atrito um grande risco para a outra parte. Esta, temendo ter de enfrentar alguém cuja força e tamanho fariam com que uma “surra” fosse inevitável, normalmente mostrava-se desinteressada por continuar a demanda e tratava de por fim ao embate a tempo de se livrar do pior. No final das contas, a ameaça da intervenção de um irmão mais velho servia como um agente pacificador. O escritor do Salmo 2 é um rei de Israel que Atos 4.25,26 identifica como o rei Davi. A situação que ele vivia, nesse momento, era o risco de uma revolta de nações (vv.1,2) que estavam sob seu domínio em uma espécie de motim (v.3). A possibilidade de elas criarem uma liga militar trazia um grande risco para o rei, chamado aqui de “seu ungido” (desde o início da monarquia em Israel, esse termo, meshîhô, é usado para se referir a reis ou futuros reis – 1Sm 12.3-5; 16.6; Sl 20.6; 28.8). A revolta dos amonitas e de povos contratados para combaterem os israelitas (2Sm 10.6) é um possível pano de fundo histórico para a composição desse salmo. Porém, enquanto tais povos se uniam e conspiravam contra Davi (vv.1-3), aquilo que era um risco real para Israel era motivo de risos para Deus (v.4). Como um “irmão mais velho” mais forte que os outros, Deus “ri” (yishaq) e “caçoa” (yil‘ag) dos inimigos do seu protegido. Tal reação se deve ao disparate entre a capacidade dos inimigos de Davi de feri-lo e a capacidade do Senhor de protegê-lo. A diferença é tão grande que a ousadia dos ofensores causa risos em lugar de pânico. O próprio Deus demonstra o motivo de serem inúteis os planos dos povos dizendo: “Eu ungi meu rei sobre Sião, meu monte santo” (wa’anî nasaktî malkî ‘al-tsîyôn har-qodshî). Desse modo, levantar-se contra o rei de Israel era se levantar contra Deus que o colocou lá. Não é possível enfrentar um oponente como Deus. O Senhor, então, reafirma sua benevolência para com Davi chamando-o de filho (v.7), prometendo-lhe o domínio sobre outras nações (v.8) e poder suficiente para regê-las (v.9). O rei, confiado na força do “irmão mais velho”, alerta os reis adversários a serem cautelosos (v.10) e se colocarem na posição de servos do Senhor (v.11), desistindo de atacar seu filho (v.12). Esta é, segundo Davi, a disposição e a atitude que garantirá a “felicidade” desses reis e de seus súditos. Apesar da útil e completa lição que temos ao olhar para o texto sob esse prisma, o Novo Testamento dá uma visão mais ampla do sentido desse salmo. Vários escritores neotestamentários associam o Salmo 2 a Jesus como um cumprimento profético do que Davi escreveu. Em At 4.25,26, a igreja cita o trecho do salmo que diz “por que se enfureceram os gentios e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido” e faz uma aplicação do texto se referindo a Herodes, Pilatos, gentios e israelitas que se uniram contra Jesus (At 4.27,28). Paulo e o autor de Hebreus relacionam o texto “tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei” a Jesus (At 13.33; Hb 1.5; 5.5). Além disso, menções no Salmo 2 sobre o seu reinado em Sião sobre as nações que são sua herança, seu cetro de ferro, sua ira vindoura e a felicidade para os que nele se refugiam são referências que se cumprem melhor em Cristo que no próprio rei Davi, escritor do salmo. Quando se vê o Salmo 2 desse ângulo, novas lições para hoje nos surgem. Aprendemos que as maquinações do mundo contra o Messias são tão inúteis que causam risos no Senhor. Independente dos rumos da História e do poder dos homens, o Senhor Jesus é aquele que há de reinar e possuir toda a terra. Apesar de parecer que os maus nunca são punidos, a mão do Rei pesará sobre os perversos trazendo-lhes condenação. E, mais: não importa o quanto o mundo é cruel conosco, Jesus, nosso “irmão mais velho”, é nosso refúgio e o provedor de uma vida “bem-aventurada”. Portanto, seja sempre pacífico e cordato. Mas, lembre-se bem, se o mundo e as circunstâncias da vida lhe atacarem e quiserem “sair no braço” com você, conte sempre com o “irmão mais velho”, o Senhor Jesus, para lhe proteger e guiar, fazendo cessar as ameaças ou intervindo nelas para proteger seus “irmãozinhos mais novos” por quem deu sua vida na cruz. SALMO 3 Uma Multidão Contra Mim Em 2006, passei o mês de janeiro em Guiné Bissau, na África, junto com uma equipe que, por meio de atendimentos médicos, odontológicos e fisioterapêuticos, investiu na pregação do Evangelho. Atendi cerca de duzentas pessoas e não tenho nem ideia de quantas extrações dentais fiz – extraí nove dentes só de uma mulher. Apesar do trabalho árduo, o que mais trouxe dificuldades foi a diferença de cultura e de hábitos. Nesse aspecto, dei uma “mancada” que quase me custou uma surra de um grupo de jovens senegalezes. Mesmo com as claras orientações do missionário que nos hospedou sobre o cuidado com as fotos, fotografei a estrutura de um mercado popular, algo parecido com barracas de camelôs, sem perceber que havia pessoas nas proximidades. Estas, ao perceberem o disparo da câmara, protestaram com veemência. Quando notei o que eu havia feito, me desculpei com eles na esperança de resolver o assunto. Mas, para meu espanto, foi chegando cada vez mais gente e cada vez mais brava. Uma missionária, então, interveio. Em lugar de melhorar a situação, outros homens se juntaram ao grupo com expressõesde rancor, gritando coisas que eu não podia compreender. A única coisa que entendi, para meu desespero, foi a palavra “arrebentar”. Por fim, aos poucos fui afastado da multidão por uma pequena menina e posto em segurança dentro do carro. Que susto! Davi teve um problema parecido, não com relação a fotografias, mas em relação à uma multidão contrária a ele. Absalão, por meio de dissimulações e tramoias, reuniu, em Hebrom, a título de uma festa pela tosquia do seu rebanho, um grupo de aristocratas e de militares de Israel (2Sm 15). Tendo combinado secretamente uma conspiração contra Davi em todo o país, no momento certo Absalão se proclamou rei em Hebrom e, ao som de trombetas tocadas do Sul até o Norte, a frase “Absalão é rei em Hebrom” foi proclamada por todo o reino. Apesar de as pessoas na festa nada saberem, as circunstâncias as obrigaram a aderir ao movimento. O mesmo ocorreu nos quatro cantos do território. Assim, em pouco tempo “tornou-se poderosa a conspirata e crescia em número o povo que tomava o partido de Absalão” (2Sm 15.12). O próximo passo de Absalão foi partir para Jerusalém a fim de tomar o trono de Davi, seu pai. Este, enquanto fugia do filho, foi ainda perseguido e atacado até por gente da própria Jerusalém (2Sm 16.5-8). Nesse contexto, no Salmo 3 Davi exclama ao Senhor (v.1): “Como têm se multiplicado os meus inimigos; são muitos os que se levantam contra mim!” (mâ-rabbû tsaray rabbîm qamîm ‘alay). A palavra usada para “inimigos”, aqui, também pode ser traduzida como “agressores”. Tratava-se de um grupo violento. Davi tinha um histórico glorioso como guerreiro e como general. Venceu muitas vezes tropas numerosas. Mas, dessa vez, a situação era desesperadora. Quase todo o país se uniu a Absalão em um dos mais bem executados golpes de estado da História. Poucos foram os que permaneceram fiéis a Davi. Por causa disso, as pessoas olhavam para o rei e diziam (v.2): “Não há, para ele, salvação em Deus” (’ên yeshû‘atâ lô be’lohîm). Para os tais, nada podia salvar Davi. Contrariando todas as expectativas, Davi não se desespera. Ele, em lugar disso, busca o Senhor com certas atitudes que devem ser compartilhadas por todos os servos de Deus. Em primeiro lugar, ele entrega seu caminho ao Senhor (vv.3-5). Davi, falando da atuação de Deus em relação a ele diz: “Ele é ‘o escudo que me protege’ (magen ba‘adî), ‘a minha dignidade’ (kebôdî), ‘aquele que levanta a minha cabeça’ (merîm ro’shî). Com isso, Davi se esvazia da função de garantir seu próprio bem-estar, pois o responsável e o promotor desse bem é o Senhor em pessoa. Por esse motivo, Davi também não desanima, nem anda de cabeça baixa como quem não tem esperança. Imagine só o que essa esperança significa para um rei que tem de fugir da sua cidade parecendo um covarde, além de ser agredido verbalmente e se tornar alvo de pedras como se fosse um cachorro! O rei Davi, também, durante a fuga diante dos inimigos, busca o Senhor em oração (vv.4,7). “Minha voz clama ao Senhor” (qôlî ’el-yehwâ ’eqra’) são as palavras utilizadas (v.4) para se referir à sua atitude de pedir a Deus, em oração, que faça o que ele, mesmo sendo rei, não conseguia fazer. No v.7 há um dos exemplos mais sucintos de oração e, ainda assim, mais corretos à vista da Teologia. O rei, deixando de lado a pompa, os métodos e os costumes, simplesmente se dirige a Deus com o clamor que sua necessidade exige: “Salva-me, meu Deus” (hôshî‘enî ’elohay). Não há como olhar para esse pedido sem recordar de Pedro, entre ondas bravias que o afundavam, clamando a Jesus: “Salva-me, Senhor!” (Mt 14.30). Apesar de, na hora das dificuldades, ser comum algumas pessoas se esquecerem de Deus para se concentrarem na solução dos problemas, é justamente nessa hora que os servos de Deus devem clamar “salva-me, Senhor”. Como resultado da entrega e da oração, Davi, agora, descansa em Deus (vv.5,6). Apesar do conflito familiar, das acusações falsas e do real risco de perder a vida, ao dizer que se deita e dorme, ele completa: “Acordo porque o Senhor me mantém” (heqîtsôtî ki yehwâ yismekenî). Davi demonstra, nessa frase, não sofrer de insônia nas horas de tribulação justamente porque sabe que o Senhor atua na sua proteção e amparo. Isso o tranquiliza e o faz descansar. A coragem de Davi é fruto dessa confiança e não dos seus recursos militares. Diz: “Não temo a multidão de pessoas que me cercam” (lo’-’îrâ meribbôt ‘am ’asher savîv shatû ‘alay). Note bem: Davi escreve isso sabendo que, “de fato”, milhares de soldados estão se preparando para cercá- lo e matá-lo. “A salvação pertence ao Senhor” (layhwâ hayshû‘â) é a declaração final do rei (v.8) mesmo quando tudo parece perdido, quando é tratado de modo indigno e vergonhoso e, ainda, quando tem todos os motivos para, humilhado e de cabeça baixa, desistir de tudo. Alguém até poderia dizer que Davi tinha “nervos de aço”, mas acho que ele não concordaria. Em lugar disso, ele falaria sobre a soberania de Deus, sobre seu amor e zelo pelos que lhe pertencem, sobre a confiabilidade de suas palavras, sobre o papel da oração e coisas do tipo. Enfim, Davi renderia toda a glória a Deus e, assim, explicaria sua confiança em um dos piores momentos da sua vida. Recordando o susto que passei na África, quando a multidão aumentava em número e fúria contra mim, não me lembro de ter pensado em todos esses pontos teológicos extraídos do Salmo 3 – acho que isso nem aconteceu. Entretanto, seus efeitos práticos foram sentidos por mim. Se não me recordo de todos os detalhes do que pensei no momento, lembro-me como se tudo tivesse ocorrido ontem, que, como o salmista e o apóstolo, confiante no poder de Deus, clamei de todo o coração: “Salva-me, Senhor”. SALMO 4 A Angústia do Servo de Deus e as Escrituras Ultimamente, algumas notícias têm me abalado. Não me refiro a catástrofes naturais, a crimes terríveis reportados nos jornais ou ao rumo das eleições do nosso país. Estou chocado com os rumos da igreja. Digo “igreja” de um modo genérico, pois muito do que se apresenta com tal nome nenhuma semelhança guarda com a igreja de Cristo descrita nas Escrituras. São, em vez disso, covis de malandros que, com linguagem marcada por termos extraídos da Bíblia e com promessas de fazer inveja aos políticos mais mentirosos, enganam pessoas desesperadas em busca de soluções para o seu dia a dia, sem buscarem soluções para o pecado que as separa de Deus. Fora a tristeza de ver ladrões fazerem comércio das pessoas enquanto se dizem servos de Deus, cumprindo, assim, o que foi predito por Pedro (2Pe 2.1-3), os afazeres cotidianos que se acumulam uns sobre os outros e a falta de efeito de diversos investimentos também têm me cansado e me angustiado. Coisas de tirar o sono! Nesses momentos, eu me lembro do Salmo 4. Nele, Davi se dirige ao Senhor chamando-o (v.1) de “Deus da minha justiça” (’elohê tsidqî) e lhe diz: “Na angústia, me tens aliviado; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração” (batsar hirhavta lî hannenî ûshema‘ tefillatî). Sabendo que o contexto do salmo nos leva a Davi em um momento de tristeza, preocupação e angústia, há três verdades nesse texto que sempre me alentam. A primeira delas é que o Senhor trata os seus servos de modo especial (v.3). O texto diz que “o Senhor distingue para si o fiel” (hiflâ yehwâ lô hasîd) ou, como traz a versão NVI, ele o “escolheu”. A palavra hebraica palah, na forma em que se encontra, significa “separar” ou “tratar com preferência”. Assim, apesar de o mundo ser até mesmo inóspito para os cristãos, o Senhor nos trata da maneira característica que os pais tratam seus filhos. A segunda é que o Senhor é o alvo da nossa confiança (vv.4-6). Nesses versículos, Davi diz que o servo de Deus não deve agir mal quando recebe o mal; antes, deve refrear seus impulsos devido ao louvor que rende ao seu Deus. Diante de uma instrução tão contrária aos impulsos humanos, ele imagina alguém se lamentando e perguntando quem, então, poderia estabelecer a justiça onde ela foi corrompida. A resposta vem na forma de uma oração em que o rei clama(v.6): “Levanta sobre nós a luz da tua face, ó Senhor” (nesâ-‘alênû ’ôr paneyka yehwâ). É um pedido munido de esperança na fidelidade, no poder e na capacidade de Deus de, um dia, trazer à luz a justiça que agora nos parece natimorta. A terceira verdade é que o Senhor dá a alegria verdadeira (v.7). Davi relata, aqui, seu próprio relacionamento com Deus e sua experiência pessoal, lembrando ser ele alguém que passou por inúmeras tristezas e injustiças. Ele compara a alegria que o Senhor lhe deu à alegria dos homens quando o Senhor “lhes dá fartura de cereal e de vinho”, conforme traz a versão ARA. Uma tradução literal do v.7 é: “Deste-me alegria mais do que o trigo e o vinho deles ao se multiplicar” (natattâ simhâ belivvî me‘et deganam wetîrôsham ravvû). Em resumo, a alegria gerada pela prosperidade financeira não era superior à que Deus produzia em Davi ao se relacionar com ele. O resultado da contemplação dessas verdades pelo salmista produzia nele o mesmo que produz em mim: paz e segurança. Isso é revelado no v.8, quando Davi diz: “Eu me deito em paz imediatamente durmo, pois tu somente, ó Senhor, me faz repousar em segurança” (beshalôm yahdaw ’eshkevâ we’îshan kî-’attâ yehwâ levadad lavetah tôshîvenî). A insônia do rei – e a minha – são curadas ao lembrar do tratamento que recebemos do nosso Pai celestial e do relacionamento que nutrimos com ele por meio do Senhor Jesus Cristo. Que tais verdades alentem e produzam esperança em cada um de nós, servos de Deus, e que, nas nossas horas de meditação noturna... zzzzzzzzzzzz... SALMO 5 A Atitude Correta Diante da Oração Uma boa maneira de conhecer um cristão é observar sua oração. Por ser uma exteriorização do que há no íntimo, quando vemos alguém orar conhecemos um pouco do que há onde somente Deus pode ver. Assim, se uma pessoa nunca toma a iniciativa de orar diante de dificuldades e até mesmo de tarefas corriqueiras ou se, a pedido de alguém, ora mecanicamente, percebe-se não se tratar de alguém muito dado a buscar o Senhor, seja em oração, seja pela leitura das Escrituras, seja pela meditação e contrição pessoal. Se alguém ora reivindicando bênçãos ou rejeitando dificuldades, tal pessoa tem dificuldades em se submeter à vontade e às orientações de Deus e costuma criar seu próprio modo de segui-lo. Se alguém tem por hábito orar antes de cada coisa que vai fazer, mesmo que sejam em momentos corriqueiros, surge diante dos olhos uma pessoa que entende que Deus é soberano e que sabe que os cristãos são inteiramente dependentes dele. Nesse aspecto, há um tipo de pessoa que me intriga. É aquele que ora a Deus pedindo que cuide de certa situação, que faça sua boa vontade e que seja presente em cada detalhe. Contudo, apesar da correta oração, passa imediatamente a atuar como se não tivesse orado e como se Deus nada fosse fazer no sentido de atender a oração. A pessoa pede ajuda de Deus e, em um instante, nega a ajuda que pediu tomando a frente, ela mesma, da solução dos problemas. Sob esse aspecto, Davi dá um bom exemplo para os discípulos do Senhor. Basta notar as condições do seu dia a dia expressas no Salmo 5. Ele enaltece, diante de Deus, os justos (v.12) e os que confiam e amam o Senhor (v.11), justamente porque eram as pessoas que ele tinha em menor número ao seu lado. É provável que os vv.4-6 demonstrem as características das pessoas que causavam problemas e riscos para o rei de Israel. São pessoas iníquas (v.4), arrogantes (v.5), enganadoras e violentas (v.6). Gente assim causa sofrimento a todos quantos estão ao seu redor. Sabendo da presença e do risco que os inimigos representavam, Davi fez o correto: buscou a Deus em oração. Entretanto, dizer isso é tratar o assunto vagamente, visto que, em oração, podem-se fazer e falar muitas coisas, inclusive contraditórias. Temos visto, por exemplo, pessoas que oram repreendendo os males como se neles mesmos estivesse o poder para tanto; pessoas que ordenam bênçãos espirituais como se Deus fosse seu servo pessoal; pessoas que dizem para Deus que não aceitam algum mal que os acometa; e pessoas que, por incrível que pareça, oram perdoando o Senhor por ter-lhes infligido alguma provação. Davi não orou assim, mesmo que estivesse preocupado com a violência e a maldade dos seus inimigos. Na verdade, ele teve três atitudes necessárias à oração baseada no ensino bíblico. Em primeiro lugar, ele clama a Deus por ajuda (v.1). O rei de Israel não repreendeu o problema, nem colocou Deus na parede, nem tampouco perdoou o Senhor por permitir a presença de inimigos. Davi, simplesmente, foi a Deus e fez uma petição pela solução do sofrimento. Com o coração compungido, ele diz “ouça as minhas palavras, ó Senhor, considera o meu gemido” (’amaray ha’azînâ yehwâ bînâ hagîgî). É como se dissesse: “Senhor, veja como estou sofrendo e me ajude”. Em segundo lugar, Davi sabe seu lugar diante de Deus (v.2). Ele, o rei de Israel, se dirige ao Senhor e o chama de “Rei”. Na verdade, Davi diz “meu Rei e meu Deus” (malkî we’lohay). Ele não se sente apenas como o grande rei cheio de súditos, mas sabe que também é um súdito – súdito de Deus. O orgulho que costuma, infelizmente, acompanhar um cargo como o seu, não nubla a visão de que há alguém que reina sobre ele. Isso faz com que ele não busque seus direitos ou seus próprios recursos na solução do sofrimento. Ele, antes, busca o Rei exatamente com a mesma humildade e dependência que os seus súditos o buscavam. Finalmente, em terceiro lugar, ele espera pela atuação de Deus (v.3). Depois de orar a Deus, Davi conclui com uma observação no mínimo intrigante. Quando a primeira reação que imaginamos que alguém em problemas teria, a saber, iniciar rapidamente algumas ações no sentido de dar fim ao mal, o rei de Israel leva em conta que expôs sua angústia ao Deus Todo-poderoso e confia na sua sábia resposta. Depois de abrir seu coração a Deus, Davi diz: “E eu aguardo” (wa’atsapeh). Uma outra tradução possível seria “e fico observando”. Na verdade, essa palavra demonstra que Davi confiava tanto no poder, na sabedoria e no amor de Deus que, depois de orar, ele, realmente esperava pela resposta, qualquer que fosse. Isso não significa deixar de fazer o que é de sua responsabilidade, mas deixar de fazer o que não é, além de se abster de atitudes erradas por uma “boa causa”. Apesar de ser rei, Davi esperava como um servo que seu Senhor – e nosso – agisse. Que exemplo a ser seguido por todos nós! Afinal, homens iníquos, arrogantes, enganadores e violentos cercam quase todos os cristãos. Que esse seja o incentivo e o exemplo para deixarmos de tomar caminhos tortuosos a fim de fazer o que é da alçada do Deus eterno e nos dediquemos, cada vez mais, à oração! Mas não uma oração qualquer. A oração e as atitudes dignas daquilo que Deus nos ensinou nas Escrituras. SALMO 6 O Papel do Arrependimento dos Pecados Há alguns anos, acompanhei o caso de um irmão que, apesar de sempre ter sido dedicado e ativo na igreja, vinha paulatinamente se afastando tanto dos cultos como do convívio dos irmãos e da própria família. O motivo era o desejo de pegar um grande diamante em um garimpo que mantinha com muito esforço. O ano não tinha sido bom e já chegava a época das chuvas, o que poderia deixá-lo com um grande prejuízo. Por esse motivo, ele praticamente abandonou a igreja. Eu o alertei várias vezes sobre o risco de um crente se manter longe da comunhão dos salvos e do alimento da Palavra de Deus, mas nada mudava a atitude desse irmão. Entretanto, para minha surpresa e alegria, certo dia ele me procurou e disse que não estava agindo bem e que estava arrependido. Com toda convicção, afirmou que, ainda que terminasse o ano acumulando prejuízos, não iria mais deixar os valores espirituais em segundo plano. Foi um arrependimento verdadeiro e uma grande mudança de rumo. Como uma surpresa adicional, na última semana antes do início das chuvas – que impossibilitam o trabalho de garimpo – esse irmão encontrou um poço no fundo de um rio onde pegou diamantes suficientes para pagar as despesasdo ano todo, para financiar o início do trabalho no próximo ano e para contabilizar um bom lucro. Foi incrível como a tristeza e a preocupação se transformaram em alegria, não, contudo, sem passar antes pelo arrependimento. Davi viveu essa dinâmica mais de uma vez. Uma delas está registrada no Salmo 6, o primeiro dos sete “salmos penitenciais” (6, 32, 38, 51, 102, 130, 143). O salmista experimentava um momento muito complicado em que sua própria vida estava em risco. Ele suplica a Deus que o livre e o salve (v.4) explicando, no v.5, que “não há, na morte, recordação de ti” (’ên bammawet zikreka). Davi não está, obviamente, ensinando que não há vida após a morte. Ele está clamando ao Senhor que o salve e oferece como razão, para tanto, a ideia de que empregará sua vida poupada para recordar do Senhor e da sua boa ação para com ele. Ele completa essa ideia dizendo “quem, na sepultura, o louvará?” (bishôl mi yôdeh-lak). Esse compromisso e desejo de louvar o Senhor, caso seja poupado, ocorre em um momento em que o salmista não apenas corre risco de vida, mas se sente abalado pelas circunstâncias. Ele diz “estou desfalecido no meu lamento” (yaga‘tî be’anhatî). Imagine alguém lamentar tanto um sofrimento a ponto de se sentir cansado. Essa era a realidade de Davi. Ele chorava a ponto de se sentir exausto. Esse pranto tomava horas da sua noite. “Toda noite minha cama fica cheia das minhas lágrimas; meu leito se desfaz” (bekol-laylâ mittatî bedim‘atî ‘arsî ’amseh), diz ele no v.6. Esse pranto tem uma causa (v.8): “todos aqueles que me são hostis” (bekol-tsôreray). Perante situação tão triste, mesmo aterradora, Davi considera a possibilidade de se tratar de uma disciplina de Deus. Assim, o busca a fim de pedir pela sua misericórdia. Apesar de não ficar explícito o pecado e a confissão de Davi, a semelhança desse salmo com os outros nos quais Davi pede perdão, demonstra que ele está, sim, clamando pela misericórdia de Deus em meio ao arrependimento (basta comparar o v.1 com Salmo 38.1,4 e o v.2 com Salmo 32.3, 38,3 e 41.4). Assim, Davi clama ao Senhor (v.1), não que não o repreenda, mas diz: “Não me repreenda na tua ira” ou “repreende-me não na tua ira” (’al- be’appeka tôkîhenî). O salmista sabe do poder de Deus e entende que o Senhor pode lhe trazer um castigo maior do que ele possa suportar. Jeremias parece ter a mesma visão ao dizer “castiga-me, ó Senhor, mas em justa medida, não na tua ira, para que não me reduzas a nada” (Jr 10.24). Como uma oração complementar, Davi pede: “E não me discipline na tua irritação” (we’al-bahamatka teyasserenî). É bem possível que Davi merecesse tal punição. Por isso, o foco do pedido do salmista (v.2) é “seja favorável a mim, Senhor” ou “use de misericórdia para comigo, ó Senhor” (hannenî yehwâ). Do choro Davi passa para o arrependimento. Entretanto, não para nele. Algo maravilhoso acontece nessa jornada. O pranto se transforma em alegria mediante o pedido de perdão, não porque o salmista passe a ver a situação com outros olhos, mas simplesmente porque o Senhor de fato o perdoou e agiu de acordo com essa realidade. Assim, Davi se vê livre das mãos dos inimigos (v.8) exatamente porque “o Senhor ouviu a voz do meu lamento” (shama‘ yehwâ qôl bikyî), explica ele. Sua trajetória foi “do choro ao arrependimento e do arrependimento à alegria”. O pecado realmente causa inúmeras tristezas, seja em termos de consequências, seja na óbvia tristeza pela perda de comunhão com o Senhor. O perdão de Deus encontra o cristão, nesse sentido, como um bálsamo sobre uma ferida: traz alívio e cura. Conheço muita gente que passou do choro à alegria por meio do arrependimento – eu inclusive. Nem sempre a alegria vem por meio da prosperidade ou da solução completa do problema, mas sempre há alívio da consciência culpada e restauração da comunhão com Deus e com o corpo de Cristo, a igreja. E, pensando bem, ao refletir sobre a graça, a bondade e o amor de Deus por nós – verdadeiras riquezas – o que são diamantes? SALMO 7 A Necessidade de um Juiz Reto Ultimamente, as coisas estão do avesso. Bandidos andam impunemente pelas ruas, enquanto cidadãos de bem ficam presos em suas casas. Pessoas de bem são ameaçadas por quem as deveria proteger. Homens honestos são roubados por pessoas que deveriam garantir a justiça, principalmente aos mais fracos. Quando isso acontece, mesmo desacreditados a respeito da eficácia do sistema, as pessoas que foram injustiçadas procuram os responsáveis por garantir que a retidão e os direitos dos cidadãos sejam cumpridos. Mas, é aí que começa uma parte triste da história de muita gente. A justiça, que se espera vir de órgãos criados para esse fim, às vezes não chega, seja por corporativismo, corrupção ou por desigualdade de condições financeiras entre as partes, seja por meio da morosidade e da burocracia presentes nos veículos da justiça. Tenho de ser honesto: é uma visão desalentadora. Confesso que não acredito mais na justiça promovida pelos homens, apesar de saber que há uma parcela de pessoas comprometida com a verdade e com a honestidade. No meio da minha desilusão, vêm-me à mente o Salmo 7. Ele foi escrito após Davi ser acusado injustamente por alguém chamado Cuxe. Alguns comentaristas acreditam se tratar de alguém desconhecido, enquanto outros arriscam ser ele Simei (2Sm 16.5-13), ou o próprio Saul, cujo pai se chamava Quis (1Sm 9.1,2). Independente de quem seja, o fato de ser “benjamita” nos dá, como pano de fundo, a inimizade injustificada de Saul por Davi e as diversas tentativas de assassinato por parte do rei contra o jovem que, tudo que fez, foi servir ao Senhor e a Israel com fidelidade. Seja Cuxe quem for, ele estava alinhado com a desmoralização e perseguição de Davi com base em interesses escusos. Diante dessa situação, sem se perder no desespero e na lamúria, Davi olha para o Senhor e diz: “Em ti me refugio” (v.1). Davi usa o mesmo verbo, hasah, que usou no Salmo 36.7 para dizer que “os filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas”. Traz a ideia de alguém indefeso, como um filhotinho de ave, buscando abrigo e consolo sob as asas da sua grande e decidida mãe. Afinal, quem nunca viu uma galinha enfrentando quem quer que seja para proteger seus pequeninos? Era assim, e com essa confiança, que Davi olhava para Deus. Isso justifica o pedido de Davi: “Salva-me de todos os que me perseguem e livra-me, para que ninguém, como leão, me arrebate, despedaçando-me, não havendo quem me livre” (vv.1,2). Essa esperança, contudo, não se baseava apenas em um tipo de otimismo ou em expectativas infundadas. Davi, que sabia qual era o tipo de poder que Deus possui, também conhecia a retidão dos seus juízos. Se Davi sofria injustiça diante de Cuxe e de outros benjamitas, o Senhor saberia julgar corretamente a situação e dar “ganho de causa” a quem de direito. Davi diz a Deus: “Se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniqüidade, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (vv.3-5). Ao apresentar seu caso a Deus, Davi afirma sua retidão diante das falsas acusações e da perseguição e lembra seus atos justos, como, provavelmente, o de poupar Saul quando teve chance de matá-lo. O motivo para isso é que ele sabia que Deus conhecia tais fatos e saberia agir com sabedoria e retidão para com ele. Assim, recorrendo ao Senhor de toda justiça, Davi pede “desperta-te em meu favor” (v.6). Com o rumo que as coisas têm tomado em nosso país e no mundo, principalmente no que tange à perseguição contra o cristianismo verdadeiro, é bem possível que a mesma oração de Davi deva ser feita por nós. Mas, se e quando o fizermos, que seja com a mesma atitude, em primeiro lugar confiante e, em segundo, com as mãos limpas de quem segue as palavras do Mestre. Sendo assim, descansemos. Afinal, se uma pequena galinha pode dar conforto e proteção aos seus filhinhos, o que poderá o Senhor eterno, Rei dos reis,fazer por nós, seus filhos por quem enviou e entregou à morte o Senhor Jesus Cristo? SALMO 8 Uma Profunda Destruição Quem nunca recebeu, por e-mail, aquelas mensagens que correm a Internet nos fazendo rir com “pérolas” da educação moderna? Recebi, certa vez, uma dessas mensagens que sempre me fazem rir quando as releio. Segundo quem enviou, trata-se de frases retiradas de uma redação, requisitada na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2008, sobre o “aquecimento global”. Entre as pérolas há frases como estas: “Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar o planeta”; “Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas”; “A Amazônia tem valor ambiental ilastimável”; “Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazônia” (sic). Parece até piada... Absurdos – e risadas – à parte, uma das frases me deixou pensativo: “A Amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável”. Esse é um exemplo de redundância em grau máximo. Entretanto, ele reflete um pouco da realidade das nossas matas e da nossa fauna. Quando observamos o tamanho da destruição da natureza, essa frase, uma aberração para a língua portuguesa, não nos parece tão distante da verdade em termos da geografia e biologia. A destruição tem sido, sim, profunda, devastadora e intensa. Isso é muito triste, principalmente quando nos recordamos da fonte da natureza. Ela não é produto do acaso; não é consequência de uma explosão; não é efeito colateral de um caos no Universo. Ela é obra das mãos criativas do Senhor. Um salmista escreveu: “Sede benditos do Senhor, que fez os céus e a terra” (Sl 115.15). Não obstante, o Criador de tudo colocou o homem à frente de tudo o que há na terra: “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens” (Sl 115.16). O verbo “dar”, do hebraico natan, significa também “entregar” ou “consignar”. Assim, ainda que toda a terra pertença ao Senhor, ele cedeu aos homens o direito de usufruir dela e o dever de cuidar da propriedade divina. Olhando para a relação entre Deus e homens e entre os homens e a natureza, o Salmo 8 tem coisas interessantes a nos dizer. Em primeiro lugar, o homem, diante de Deus, nada é. Davi, vendo a criação divina, olha para o homem e diz: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?” (vv.3,4). Parece que Davi considerava a grandeza da criação de Deus como algo tão maravilhoso a ponto de nublar a própria existência do homem. Entretanto, de maneira surpreendente, Davi afirma, sobre a condição do homem: “Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste” (v.5). A conjunção adversativa wa, traduzida aqui por “no entanto”, demonstra a distância entre a dignidade do homem como criatura e a dignidade conferida por Deus a ele. É a enorme distância entre o que deveríamos ser e o que somos. Em lugar de sermos meras criaturas como o restante, fomos revestidos de dignidade e responsabilidade tal que nos separou do restante da criação. Quanto a ela, foi-nos dada a fim de termos “domínio”: “Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar e tudo o que percorre as sendas dos mares” (vv.6-8). A palavra mashal não significa apenas “dominar”, mas “reger” e “reinar”. É possível que a tradução “domínio” nos faça imaginar o uso cruel e egoísta da natureza. Mas esse não é o caso. O homem não recebeu de Deus o direito de usar a natureza como bem entender, mas, sim, o dever de, como um rei, reger o que lhe foi posto como direito de usufruir e dever de zelar. E a história está cheia de bons reis que chegaram a abrir mão dos seus direitos e até do seu bem-estar pelo bem do seu reino. Esses foram consagrados como bons reis. Como dominantes da criação de Deus, temos o dever de cuidar do que pertence ao Senhor e que nos foi confiado. Portanto, o desvio do comportamento humano no sentido de destruir a natureza, em lugar de conservá-la, se deve ao fato de ser pecador. Somente quando o homem é transformado da sua condição de pecador para a condição de filho da Luz é que, também, pode haver mudança nos seus atos em relação ao restante da criação de Deus. Assim, em última instância, não é do Green Peace ou do Sea Shepherd que precisamos a fim de proteger o planeta, mas de missionários e evangelistas comprometidos em causar transformação, por meio da pregação do Evangelho, nos corações dos pecadores. Desse modo, por meio da atuação do Espírito Santo, pode haver, de modo completo e abrangente, a formação de novos seres, cujas vidas darão frutos dignos das mais belas árvores criadas por Deus. SALMO 9 A Quem Recorrer no Dia Mau? Nessa semana, furei meu pé em uma haste de ferro que sustenta uma tenda de nylon instalada no gramado de casa. Depois de ensanguentar minha cozinha, sala, quarto e banheiro, procurei o hospital que atende meu convênio a fim de tomar uma vacina contra tétano. Ouvi, lá, da atendente, que eu deveria procurar tal medicamento na rede pública de saúde. Dirigi-me para a um hospital público e aguardei um bom tempo até ser chamado junto com outras quatro pessoas. Para minha surpresa, os cinco pacientes foram atendidos em apenas 3 minutos. Minha consulta não demorou mais do que o tempo de eu contar para o médico que havia perfurado meu pé em um ferro, ele me perguntar se era o pé direito ou esquerdo – não sei para quê – e, sem nem sequer olhar o ferimento, me receitar duas injeções, a vacina e um antibiótico de largo espectro. Para ser bem sincero, me senti completamente desamparado e sem ter a quem recorrer que pudesse me dar conforto e segurança. Nesse sentido, toda vez que leio a história da mulher usada por Joabe a fim de fazer Davi receber Absalão de volta em Jerusalém (2Sm 14.1-24), fico abismado com um aspecto em particular: uma mulher desconhecida conseguiu facilmente uma audiência com o rei. Que diferença da realidade atual! Multidões, por vezes, aguardam horas e horas, debaixo de Sol e chuva, para ver de longe uma autoridade famosa como presidentes, reis e primeiros- ministros. Falar pessoalmente com eles? Impossível! Encontrar neles compaixão? Só se outros milhares estiverem sob as mesmas circunstâncias e se a solução do problema tiver repercussão na mídia. Ver tais líderes tomarem decisões justas? A justiça, muitas vezes, é interpretada conforme os interesses dos poderosos. Concordo que não é uma visão animadora, nem o que nos espera, muito promissor. Entretanto, não perco as esperanças quanto ao futuro, pois me lembro que, após os desmandos dos governantes humanos, haverá quem governe de modo especial. O Salmo 9, cântico no qual o rei Davi louva a Deus por livrá-lo dos inimigos maus e roga que o livra da fúria deles, traz alguns aspectos da função do Senhor como governante. Em primeiro lugar, ele julga com retidão inabalável. Davi diz que Deus “permanece no seu trono eternamente, trono que erigiu para julgar. Ele mesmo julga o mundo com justiça;” (vv.7,8a). A segunda parte do v.7 diz que Deus “se assentou no trono para o julgamento” (tradução literal). Entretanto, o início do versículo demonstra que essa não é uma realidade momentânea ou dependente das circunstâncias ou dos humores. Trata-se de uma disposição permanente de Deus, pois, para julgar, ele se assenta “eternamente”, le`olam. Nada pode demovê-lo desse intento ou retirá-lo desse trono. Ele é um justo juiz todo o tempo e para sempre. Em segundo lugar, ele governa soberanamente as nações. O salmista afirma que o Senhor “administra os povos com retidão” (v.8b). O verbo dyn significa, em sentido restrito, “julgar”, o que condiz com a figura do juiz apresentado no início da frase. Mas, em sentido amplo, significa “reinar, governar”. Dado o caráter judicial dos reis da época, os atos de julgar e de reinar vinham da mesmafonte. Por isso, o texto revela que Deus, não apenas pune os maus, mas “dirige” as pessoas. Seu poder faz valer suas decisões. Com Deus não existe aquela máxima tão triste de quem depende da justiça humana: “Ganhou, mas não levou”. A soberania do Senhor se faz sentir quando ele traz uma questão a julgamento. Em terceiro, ele alivia os oprimidos. O texto diz que Deus é “alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas de tribulação” (v.9). A ausência de justiça por parte dos homens sempre trouxe sofrimento aos fracos. O próprio Deus acusou os israelitas, certa vez, de não promoverem a justiça que ele ordenou: “Este [o Senhor] desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor” (Is 5.7). A injustiça de uns é o clamor de outros. Para ambos, Deus tem um tipo de tratamento: juízo para os injustos e alívio para os que clamam. Ele é um “refúgio”, diz o v.9, nas “horas de fome ou de seca”, le`ittot batzarah, o que, figuradamente, lembra da opressão e da necessidade que passa quem procura a justiça e não a encontra. Em quarto lugar, ele é acessível aos que o buscam. Davi também diz: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam” (v.10). Com uma atitude justa e inabalável, é óbvio que Deus é o alvo da confiança dos que dele necessitam e que nele buscam amparo. Contudo, algo notável surge de uma observação atenta do texto. Davi nos conta quem tem esses benefícios por parte de Deus. Diferente do mundo, onde quem é beneficiado são os poderosos e influentes em detrimento dos fracos, o alvo da benevolência e do julgamento reto do Senhor são os que o “buscam”. Enquanto, em Israel, muitas vezes a situação era de príncipes que vendiam sentenças contra os pobres que buscavam seus direitos, com Deus, aqueles que buscam nele amparo, de fato o encontram. O verbo darash reflete a atitude de um servo que, reconhecendo em outro o poder, a capacidade e a justiça, busca-o para sanar seu anseio. Essa visão é reconfortante para o cristão quando percebe que não há, entre os homens, a quem recorrer. O Senhor é completamente diferente. Ele ama a justiça, odeia o pecado, ama os que o buscam e efetua, poderosamente, a sua vontade. E o melhor de tudo: quando Deus age, nunca é necessário recorrer a outra instância. Com Deus assentado em seu trono, não há comissão de ética, nem tribunal de apelação. Busque-o e recorra a ele! SALMO 10 O Retrato do Ímpio Acho incrível como os policiais são treinados para descreverem suspeitos e reconhecerem tais características nas pessoas. Enquanto certos indivíduos são maus fisionomistas, alguns homens da lei conseguem, ao olhar para uma pessoa, saber sua altura, peso, cor dos olhos e notar marcas como cicatrizes e tatuagens. Muitas vezes, a descrição física de um suspeito, para alguns policiais, equivale a um retrato. É uma qualidade admirável – e útil – que não compartilho com os agentes da segurança pública. Apesar de eu nunca me esquecer de um rosto, eu não sei descrever ninguém. Ao que me parece, um dos salmistas soube fazer muito bem uma descrição. Na verdade, o escritor do Salmo 10 soube descrever o “perverso” tão bem que é como se tivéssemos um retrato dele. O v.2 diz que o perverso age “com arrogância” (bega’awat), que também pode significar “com orgulho” ou “com majestade”. É o sentimento de quem se julga um tipo de rei. Para ele, seu valor pessoal supera o de todos ao redor. Ele deve ser servido e sua vontade atendida. Esse sentimento maligno, segundo o texto, o leva a perseguir o pobre, tramando contra ele. Nenhum sentimento de injustiça o dissuade de agir mal contra alguém, pois ele se acha no direito de fazer o que quiser. Enquanto a cobiça é apontada pelas Escrituras como pecado e é vista com desprezo até pelo mundo, o perverso “se gloria da cobiça da sua alma” ou nos “desejos da sua alma” (v.3). A ideia de gloriar-se está expressa no verbo halal que, no grau em que se apresenta no texto, tem o sentido de “louvar, elogiar, exaltar”. É isso que o perverso faz: ele rende a si mesmo louvor e exaltação ao observar o “apetite da sua alma” (ta’awat naphshô). Apesar de essa expressão poder ter um sentido positivo, como em Isaías 26.8, o próprio v.3 dá pistas de quais são os “desejos” e “apetites” do perverso ao chamá-lo de “avarento”. Na verdade, o salmista usou um verbo para descrever a ação do perverso (botsea‘) que aponta para “aquele que arranca para si o lucro”. Nessa disposição, tal homem, diz o texto, “maldiz o Senhor”. Os anseios de tal homem são, portanto, diametralmente opostos ao desejo e ao caráter de Deus. O fato de o perverso ser tão contrário a tudo que Deus é e ensina, não o preocupa. Na verdade, ele sequer se detém para avaliar sua vida. O v.4 diz que, por causa do seu orgulho, ele “não investiga” o fato de Deus não fazer parte de todas as suas cogitações. Darash é uma “busca” que o perverso não realiza. Afinal, que erros podem ser encontrados pelo soberbo em si mesmo? Confiado na sua perfeição e no seu valor que excede o valor dos outros, ele “desafia” (yaphyah) todos quantos se opõem a ele (v.5). Sua confiança de jamais ser abalado e de não ser alvo de nenhum mal, conforme o v.6, é algo que ele repete para si mesmo “em seu coração” (belibô). Seu mal, sua soberba e sua confiança enganosa são algo nutrido no seu íntimo. Tais sentimentos estão enraizados nele. Não são apenas os atos do perverso que são maus. Aquilo que ele fala é “cheio” de maldade. Ele pronuncia “maldição” (’alah) por meio da sua boca. Sua língua é suficiente para causar destruição e sofrimento. O v.7 nos diz que naquilo que o injusto profere há “mentira” (mirmah), “engano” (tok), “opressão” (‘amal) e “maldade” (’awen). Não há como minimizar o mal e a violência capazes de ser exercidos pela boca do ímpio. Sua língua deve ser mais temida que suas mãos. Munido de tamanha maldade, o perverso olha para o desamparado e fica de “tocaia” (v.8), e prepara-lhe uma “emboscada” (v.9). Seu objetivo, segundo o v.8, é “exterminar os inocentes” (yaharog naqy) e, conforme o v.9, “arrastar com sua rede” (bemoshkô berishtô). Como um predador esperando a vítima, diz o v.10, ele “se abaixa e fica encurvado” (wadakah yashoah), preparando, assim, um ataque mortal. Essas três expressões transmitem ideias de caça: um animal matando uma presa para devorá-la, um pescador puxando sua rede com o peixe desavisado e um leão se ocultando na savana para atacar de surpresa. São três modos contundentes de avisar-nos sobre o perigo que representam os perversos para aqueles que não são como eles. Finalmente, o v.11 mostra que o perverso, como muitos criminosos e corruptos no nosso país, tem a certeza da sua impunidade. Quando olha para sua maldade e suas ações traiçoeiras, diz para si mesmo que “Deus se esqueceu” (shakah ’el) no sentido de não se importar com o que acontece. Para o perverso, não há um juiz superior que o possa punir pelo que faz simplesmente porque tal juiz não atua. Por isso, ele se convence de que seu mal Deus “não vê nunca” (bal-ra‘ah lanetzah). Tal convicção não vem apenas da arrogância, mas também do desprezo por Deus e pela sua justiça e santidade. Esse é um retrato terrível de alguém com quem devemos nos preocupar. O homem perverso é um risco para os servos do Senhor. Aquele que despreza Deus e a sua salvação é inimigo dos que amam o Senhor Jesus, ainda que não lhe tenham feito nada de mal. Portanto, na convivência com eles e até na pregação do Evangelho a eles, o cristão deve manter cautela a fim de não ser ferido, seja por meio da oposição aberta, seja por meio do desvio velado em um contato mais íntimo com o ímpio. Muitos servos do Senhor têm sido perseguidos pelo ódio dos ímpios, enquanto outros têm se desviado da santidade por meio do “amor” dos incrédulos. As táticas para abater a presa são muitas. Com o retrato do perverso em mãos, devemos ficar atentos como os policiais a fim de reconhecer o perigo e nos prevenir dos seus males. Afinal, depois de a casa ser roubada, pouco sobra para a políciafazer. SALMO 11 O Pessimista e Aquele que Confia em Deus Muitos personagens dos desenhos animados ficaram gravados na mente de toda uma geração. E, acreditem, esses personagens ainda fazem parte do dia a dia de muita gente crescida. Basta ver como as pessoas utilizam tais personagens nas suas conversas. Por exemplo, se alguém está com o carro quebrado, diz que só pode andar se for com os pés, como faziam os Flintstones. Ou, se tem um palpite muito bom sobre algo, diz que teve uma “visão além do alcance” como dizia o líder dos Thundercats. Ainda, se há alguém muito forte, é apelidado de He-Man. Um dos personagens de desenho animado que ainda é muito recordado, é uma hiena chamada Hardy. Ele e seu amigo, o leão Lippy, fizeram parte da infância de muita gente, inclusive eu. O pessimismo do Hardy faz com que, até hoje, ele seja o modelo perfeito da pessoa pessimista. Para ele, tudo estava mal e nada daria certo. Sua famosa frase, repetida até hoje, era: “Ó céus; ó vida; ó azar”. Essa frase ainda pode ser ouvida nas rodas de amigos em imitações com o sotaque característico do personagem. Toda vez que a ouço, tenho saudades da minha infância. Parece-me que tal pessimismo não é privilégio dos desenhos animados. O rei Davi conviveu com pessoas que, a exemplo do Hardy, não tinham qualquer esperança de ver o bem prevalecer sobre o mal. Pessoas que, ao primeiro sinal do mal, manifestavam a disposição de abandonar tudo sem recorrer a Deus como protetor e auxiliador dos que o buscam. O Salmo 11 inicia com uma declaração da confiança de Davi em Deus: “No Senhor me refugio” (v.1). Essa declaração não é sem propósito. É uma afirmação que se contrapunha ao que Davi ouvia nos seus dias. Ele se dirige a tais pessoas e diz “como dizeis à minha alma?” (’êk to’meru lenafshî). O fato de o verbo se apresentar na segunda pessoa masculina plural mostra que Davi se dirige a vários homens com essa pergunta, homens próximos dele. O rei está indignado com algo que eles lhe disseram. Em outras palavras, ele brada: “Como é que vocês podem me dizer uma coisa dessa?”. O teor do discurso que irritou Davi foi: “Foge, como pássaro, para o teu monte. Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração. Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (vv.1b-3). Segundo tais palavras, os maus eram tão poderosos quanto caçadores bem armados. Os justos, alvos dos caçadores, deveriam, portanto, fugir como se fossem um pássaro indefeso cuja única vantagem era a velocidade e o alcance da sua fuga. Segundo esses conselheiros do rei, a justiça perecera e nada podia reverter o mal; nada! Davi não concorda com isso. É certo que ele não minimizava os riscos dos ataques e a ferocidade dos inimigos. Ele não confiava na sua habilidade, nem no poder da sua guarda pessoal. Ele não via a situação com um otimismo sem lógica, nem dizia que tudo terminaria bem apenas por dizer. Ele olhava para o Senhor e nele se refugiava, conforme revelou na primeira frase do salmo. A partir do v.4, Davi fornece, então, as razões para ter recorrido a Deus e para nele confiar. Em primeiro lugar, Davi localiza o Senhor “no seu templo santo” (behêkal qadshô), e “no seu trono nos céus” (bashamayim kis‘ô). Esse é o lugar, figuradamente falando, onde habita alguém que, ao mesmo tempo, é Deus e rei acima de todos os reis. Um rei divino como autoridade e poder máximos. De seu trono, “seus olhos vêem”, ou “prestam atenção” (‘ênayw yehezû). Não há nada que o Senhor não conheça. Ele sabe tudo o que os homens fazem e até o que lhes passa no coração. O v.5 é um texto de difícil tradução e diversas versões apresentam possibilidades plausíveis. A dúvida está em se Deus prova ou testa apenas o justo, ou se ele o faz em relação a ambos, o justo e o ímpio. Entretanto, algo sobre o qual não há quaisquer dúvidas é o fato de que “a sua alma [de Deus] odeia aqueles que amam a violência” (’ohev hamas sane’â nafshô). Certamente, são palavras bem duras para se referir a uma reação ainda mais dura da parte do Senhor contra os perseguidores violentos dos justos. Amor e ódio estão presentes nessa frase e um é condicionado ao outro. O ódio de Deus não é gratuito, mas uma reação contra o amor ímpio dos homens pela maldade. Diante disso, o Senhor realmente toma o partido dos retos e antagoniza os maus. O v.6 contém figuras linguagem que têm a função de aclarar, para os leitores, a intensidade da ira de Deus que atingirá os perversos. A primeira figura vislumbra fogo caindo dos céus sobre os inimigos dos justos. E, nesse caso, é muito importante notar que o verbo “chover” está em um grau que, em hebraico, leva o nome de hiphil. Nesse caso, o texto não está dizendo que “irá chover”, mas que Deus “fará chover” (yamter): “Ele fará chover sobre os ímpios”. É uma atuação deliberada de Deus com a finalidade de punir. Tal castigo é descrito como uma chuva de “brasas de fogo e enxofre”. Como ler essas palavras e não se lembrar da destruição punitiva das cidades de Sodoma e Gomorra? A figura de linguagem continua e é dito que um “vento violento” (ruah zil‘afôt), algo parecido com um furacão, seria sorvido pelos injustos como “a porção da taça deles” (menat kôsam). É irônico que o prazer dos perversos, como o de degustar um vinho, seja justamente a causa de receberem o contrário do prazer que buscam. Em lugar do paladar da bebida, o que alcançam estes é uma tormenta que os despedaça. Para encerrar, Davi revela os motivos, não só para a sua confiança, mas para a atuação da parte de Deus ao punir o mau e proteger o reto. Ele diz que “o Senhor é justo” (tsadîq yehwâ). Seu caráter é justo; sua natureza é justa; sua existência é justa. Não é possível que ele mude ou que afrouxe seus justos padrões. A justiça é parte do que ele é. Além disso, ele também “ama a justiça” (tsedaqôt ’ahev). Deus se compraz naquilo que é justo. Esse é o motivo, tanto de ele se opor aos injustos, quanto o fato descrito no final do salmo, que indica que “os retos verão a sua face”. Assim, ele punirá os perversos e receberá os retos para si mesmo. Agora entendemos a indignação de Davi diante dos conselhos para que fugisse dos maus e da afirmação de que a injustiça teria prevalecido. Davi não era um otimista inconsequente, mas um conhecedor de Deus e da sua justiça. Ele sabia que podia recorrer a Deus e que ninguém há que possa se comparar em força a ele. Davi tinha convicção de que o Senhor é refúgio dos crentes em qualquer situação e de que o final de todas as histórias dos servos do Senhor é vitoriosa na presença daquele que os protege. Hoje em dia, com tantos receios sobre o futuro dos crentes e da igreja cristã, é nisso que você crê? Você confia no Senhor acima de todas as circunstâncias? Se a resposta for não, “ó céus; ó vida; ó azar”. SALMO 12 O Perigo Por Trás da Língua Bajuladora Certa vez, ouvi uma espécie de piada que frisava diferenças entre homens e mulheres. Segundo a piada, as mulheres se cumprimentam dizendo “nossa, você está linda, magrinha”; mas quando vão embora, dizem: “Como ela está gorda!”. Por sua vez, os homens se encontram e dizem: “Fala, seu gordo, careca”; ao partirem, o homem comenta: “Esse cara é gente fina”. Piadas à parte, algo que realmente acontece é pessoas usarem palavras que não refletem o que pensam. E, pior: palavras que depois são contraditas por declarações pejorativas e destrutivas. Em resumo, trata-se de pessoas que pela frente dizem uma coisa e, por trás, outra. Olhando para esse problema, Davi, no Salmo 12.1, pede “libertação” (yasha‘) ao Senhor, pois, segundo ele, “acabaram-se os leais” (gamar hasîd), ou seja, os homens que agem com lealdade e veracidade. Junto com tais pessoas, também “desapareceram os confiáveis” (cassû ’emûnîm). A situação descrita por Davi é a de um covil de mentirosos. Mas, note bem: não se trata de inimigos abertos. Pela frente, tais homens são agradáveis, pois moldam sua imagem com o cinzel da mentira. Dizem coisas que seus corações nãosentem e que são agradáveis aos ouvidos. Entretanto, pelas costas, destilam um veneno destruidor. O v.2 expande essa idéia ao dizer que tais pessoas falavam “falsidades uns com os outros”. A mentira era uma atividade tão difundida e comum naquele meio que aqueles que mentiam eram também alvo da mentira de outros. Uns querendo levar vantagem sobre os outros fingindo ser o que não eram de verdade. Ao observá-los, Davi percebeu duas táticas desses homens para alcançar o fim que almejavam. O primeiro era usar “lábios bajuladores” (sefat halaqôt) que lisonjeiam os ouvintes com a intenção de manipular suas reações. A segunda era esconder os verdadeiros sentimentos e planos atrás de um “coração fingido” (lev yedabberû). Apesar da falsidade, os desleais não temiam ser desmascarados e punidos. Além de a soberba (v.3) ser o combustível de suas línguas, o v.4 relata que, mesmo diante de Deus, sua arrogância era sentida, visto julgarem não haver ninguém que os pudesse deter ou reprovar. De forma desafiadora, Davi os vê agir como quem diz “quem é senhor para nós?” (mî ’adôn lanû), ou seja, “quem é que pode nos dizer o que fazer, ou nos punir se não o fizermos?”. Não é de surpreender que Davi tenha pedido a Deus para libertá-lo de homens assim. Na verdade, eles são mais perigosos que os homens perversos e violentos, pois desses nos afastamos, enquanto, dos bajuladores falsos e desleais, acabamos mantendo o contato e pondo neles a confiança. Mas Davi, ao mesmo tempo que observa a deslealdade dos homens, vê também a repulsa de Deus sobre essa atividade e a punição consequente, dizendo que “o Senhor corta” (yakret yehwah) todos os lábios bajuladores. Diante da opressão causada por esses egoístas lisonjeiros e mentirosos (Rm 16.18), o Senhor diz que intercede pelos que anseiam por libertação dos tais (v.5). Assim, a confiança do rei está em Deus. Mesmo que os ímpios estejam por toda parte (v.8), o Senhor, que não é como eles e cujas palavras são “puras” (tehorôt) como a prata purificada várias vezes (v.6), é aquele que “guarda” (shamar) e “cuida” (natsar) dos que nele esperam. Confesso que nessa época de eleições e de políticos agindo como esses homens descritos por Davi, talvez presentes até na sua corte, senti-me confortado e confiante em Deus, que vê e controla todas as coisas. Lembrei- me que, por mais que tais homens e mulheres desejem a ascensão, mesmo que isso signifique nossa ruína, o Senhor, ao mesmo tempo, olha com dureza para a arrogância e a maldade dos desleais e se levanta para socorrer os que não têm como se defender dos seus ardis. Por fim, lembrei-me, também, da responsabilidade de não agir como aqueles que tememos e cujas ações nós reprovamos, seja no campo da política, da economia, do direito e até naquelas conversas informais quando encontramos conhecidos pela rua. Com todos, tenhamos apenas “uma cara” e “um discurso” Que o nosso “sim” sempre queira dizer “sim” e o nosso “não” queira, realmente, sempre dizer “não” (Mt 5.37)! Assim, no falar e no agir, sejamos nós mesmos “gente fina”. SALMO 13 Quando o Socorro Parece Atrasar Sou um grande fã de filmes. Meus preferidos são filmes de aventura e ação – de preferência se forem baseados em fatos reais. Alguns filmes marcam pela emoção que causam nas pessoas e, em mim, mais ainda. Um dos momentos mais emocionantes dos filmes é quando o mocinho está para ser pego e, em cima da hora, surge alguém ou algo que o livra quando tudo parecia perdido. Alguns exemplos nesse sentido que me veem à mente são a cena em que Blondie (Clint Eastwood) atira na corda da forca do seu comparsa dependurado pelo pescoço, em O bom, o mau e o feio, e a cena da primeira luta travada em Gladiador, quando Maximus (Russell Crowe), general do império, quase sucumbe diante do inimigo até que um cavaleiro romano, que passa rapidamente pela cena, desfere um golpe mortal no adversário. Resumindo, em quase todos os filmes de ação o herói se safa no último momento. Essa é “quase” uma certeza matemática para os cinéfilos. Entretanto, na vida real, não é tão certo que os heróis sejam salvos em cima da hora. Muitas vezes, eles são pegos, maltratados e até mortos. Quando um perigo da vida real acerca alguém, não sabemos se todos serão “felizes para sempre” ao final de tudo. Frequentemente, os homens esperam o livramento, mesmo que no último momento, e ele não vem. É nessa circunstância que encontramos o rei Davi ao escrever o Salmo 13. Na verdade, esse salmo é uma oração a Deus em um momento de angústia. Talvez, mais do que isso. Esse salmo é um modelo de reação dos servos de Deus em momentos de angústia, quando o socorro perece demorar a vir. É um movimento crescente das emoções e reações que levam o servo de Deus do “vale da sombra da morte” – expressão usada por Davi no Salmo 23 – até a “sombra do Onipotente” – expressão utilizada pelo escritor do Salmo 91. Nessa jornada, Davi passa por três fases. A primeira delas é a angústia, sentimento perceptível nos dois primeiros versículos do Salmo 13. Nesse trecho, Davi pergunta quatro vezes “até quando?” (‘ad-’anâ), ou “por quanto tempo?”, dirigindo-se ao Senhor. Trata-se de uma pergunta feita por alguém que parece ter chagado ao seu limite. Ele aguentou o quanto podia e quer saber quanto mais terá de suportar sem ter forças para tanto. Tais palavras refletem o desespero de quem não sabe se conseguirá se manter em pé diante da aflição. Ele olha para Deus e pergunta: “Por quanto mais tempo o Senhor me deixará nessa situação?”. Davi pergunta até quando o Senhor “se esquecerá” dele e “ocultará seu rosto” (v.1). O contexto demonstra que Davi, ao se referir desse modo, não crê, de fato, que o Senhor o tenha abandonado, mas que ele está retardando sua atuação. É como se tivesse se esquecido de Davi e como se, desprezando- o, tivesse lhe virado o rosto como que zangado. O interesse de Davi não é saber por que o Senhor não o ama mais, mas até quando retardará sua libertação. Davi expõe diante de Deus, no v.2, a consequência dessa aparente demora perguntando até quando ele lutará contra o que ele chama de “lamento diário no meu coração” (yagôn bilvavî yômam). Termina perguntando por quanto tempo seus inimigos “se levantarão” (yarûm ’oyevî ‘alay) ou “serão exaltados” sobre ele. Perguntas que, mais que o desejo de encontrar respostas, servem para expor sentimentos de angústia pela situação difícil. Muita gente se perde nessa fase. O desespero vence e as pessoas caem em profunda depressão ou tomam atitudes mais destrutivas que benéficas, tanto para elas como para os outros. Mas Davi, nosso exemplo de servo que passa por problemas que não se resolvem, exibe mais uma atitude exemplar: a oração. Davi apresenta ao Senhor, nos vv.3,4, três pedidos. Os dois primeiros são: “olhe, por favor, e responda a mim” (havvîtah ‘anenî), desejando ser alvo da atenção especial do Senhor e ter sua oração atendida. Davi não pensa que Deus não o vê, mas deseja que o Senhor se compadeça dele na situação em que está e, diante da sua oração, atue agora, não com silêncio, mas com ação. Ele também pede “traga luz sobre mim, por favor” (há’îrâ ‘ênay). Trata-se de um pedido de solução para as trevas em que se encontra; um clamor pela atuação de Deus livrando-o daquilo que o oprime que, no caso, para que ele não seja morto pelos inimigos e para que eles não sejam vitoriosos (vv.3b,4). “Olhe”, “responda” e “traga luz” são os pedidos que revelam um servo que leva a Deus seus problemas por meio da oração sabendo que somente ele pode responder os pedidos dos fiéis e dar fim à sua angústia. Finalmente, a última fase da jornada de Davi é o descanso em Deus (vv.5,6). Três verbos expõem as ações de Davi, mesmo diante da circunstância desfavorável e persistente, no sentido de entregar completamente não apenas o problema, mas também suas reações aos cuidados do Senhor soberano e amoroso. Davi diz: “Eu, porém, confio na tua lealdade” (wa’anî behasdeka batahtî). Na verdade, é preciso uma explicação maior que a palavra “lealdade” para descrever o objeto da confiançade Davi. Ele confiava que as palavras de Deus eram verdadeiras e que ele cumpriria o que prometeu, não importasse quão complicadas fossem as circunstâncias, não apenas porque vinham de uma boca que só diz a verdade e de mãos honradas que não quebram um compromisso assumido, mas também de um coração amoroso, benigno e compassivo. Davi continua dizendo “meu coração se alegra na tua salvação” (yagel luvvî bîshû‘ateka). O objeto da alegria e da exultação de Davi, a “salvação” (yeshû‘â), é a ação libertadora identificada pelo próprio nome do “salvador” Jesus. Como resultado de tal exultação, Davi diz a si mesmo “cante eu ao Senhor” (’ashîrâ layhwâ), ou anuncia: “Dirigirei ao Senhor o meu canto”. O motivo do louvor a Deus é surpreendente. No meio da situação difícil em que se encontrava, Davi vê o Senhor agindo no sentido de lhe tratar bem. Resumindo, a jornada de Davi o leva do desespero à oração e da oração ao descanso. O que parece impossível em um primeiro momento é exemplificado diante de todos os servos de Deus como modelo de esperança e de dependência do Deus altíssimo. A oração, a confiança, a observação e a lembrança daquilo que Deus fez e faz na vida dos seus servos é um remédio contra a depressão mais poderoso do que queiram quaisquer indústrias farmacêuticas. Não se trata de autoajuda, mas da busca daquele que é soberano sobre o universo e amoroso para com os seus. O “eu, porém” de Davi, no início do v.5, demonstra o conhecimento pessoal do rei sobre o quanto os acontecimentos são fracos e reversíveis nas mãos daquele cuja vontade nunca pode ser frustrada (Jó 42.2; Ef 1.11). O cinema quase sempre mostra o mocinho se dando bem no último momento. Mas em um conceito estreito de “se dar bem”. Para tanto, ou ele “se dá bem” vendo a situação desesperadora ser revertida no último momento, ou “se dando mal” e isso reverter para o bem alheio, o que, no cinema, ainda faz um final feliz. Contudo, a vida do servo de Deus prevê um “bem” que vai além de todas as situações. Independente do final, o crente deve sempre manter seus olhos naquele que faz todas as coisas contribuírem para o benefício dos seus (Rm 8.28), mesmo quando os propósitos de Deus para eles são misteriosos. Portanto, acima de tudo, a “certeza matemática” dos que creram em Cristo é: “Minha história, agora ou no futuro, terá o maior dos finais felizes”. A esperança da vida presente dos cristãos é: “Nós, sim, seremos felizes para sempre”! SALMO 14 O Verdadeiro Órgão de Defesa do Consumidor Ultimamente, ando decepcionado com as lojas e com as prestadoras de serviço. Tive péssimas experiências de ser bem atendido na hora de adquirir algo e, depois, na hora de receber o produto ou de ter suporte técnico e manutenção, ser extremamente negligenciado. Dentre todas essas más experiências que acumulei, as piores foram aquelas cujo contato se dá por telefone. O motivo disso é que as empresas, ao que me parece, deliberadamente criam um sistema em que a burocracia vence os esforços dos clientes e burla o senso de justiça. Resumindo, elas fazem o que querem e você nunca tem com quem reclamar, já que os atendentes não passam de funcionários cuja função é apenas falar com as pessoas, registrar seus pedidos e – coitados deles – testemunhar a fúria de clientes explorados e enganados pelas empresas. Desse modo, as ricas corporações ficam cada vez mais ricas, enquanto os pobres, principalmente os que têm menos recursos a que possam recorrer, ficam cada vez mais pobres. O desgosto do consumidor é tão grande que é comum ouvir: “Todos esses homens são desonestos e não há um deles que não seja ladrão”. É muito provável que a realidade não seja exatamente essa e que haja corporações que respeitem os direitos das pessoas, mas, ainda assim, concordamos, muitas vezes, com frases desse tipo. Davi viveu uma situação parecida com a nossa. Mas o objeto do seu protesto não foram empresas de telefonia ou de cartões de crédito. O Salmo 14 é um protesto contra os “malfeitores” (v.4), os quais ele chama literalmente de “causadores de lamentos” (po‘alê ’awen). Trata-se de pessoas cujas ações trazem sofrimento àqueles que, por vezes, não têm como se defender: os “justos” (v.5) e os “pobres” (v.6). Os pobres vivem, quase sempre, à margem dos meios de justiça sem ter acesso a ele ou sem alcançar a empatia dos agentes da promoção da lei e da ordem. Os justos, por sua vez, são privados, por sua própria justiça, de terem reações vingativas ou condignas do desrespeito com que foram tratados. Sabendo disso, os malfeitores abusam deles ainda mais. Davi diz, no v.1, que esses homens insensatos falam para si mesmos: “Não há Deus” (’ên ’elohîm). Apesar de a afirmação se parecer com a proposta dos ateus, não é provável que no mundo politeísta do passado houvesse muitos que acreditassem em um vácuo divino. Na verdade, o que passava no coração daqueles homens maus e injustos é que não havia um vingador das injustiças que eles cometiam. Para eles, não havia um juiz maior que todos que os pudesse deter ou punir. Por isso, diz o texto, eles “se perverteram” (hishhîtû) e “procederam de modo abominavelmente cruel” (hit‘îvû ‘alîlâ). O v.2 contempla o Senhor fazendo uma sondagem nesses homens para ver se há, dentre tais homens, “aquele que busca a Deus” (doresh ’et-’elohîm). A resposta, duas vezes pronunciada (vv.1,3), é “não há quem faça o bem” (’ên ‘oseh-tôv). O v.3 reforça o quadro ruim demonstrando que, apesar da busca apurada, o resultado dela é que “não há nem sequer um” (’ên gam-’ehad) que aja bem ou busque a Deus. Apesar de Paulo aplicar esse texto à realidade de “toda” a raça humana em relação ao pecado (Rm 3.10-12), parece que o universo de “todos” aqueles que não fazem o bem compreende, no Salmo 14, apenas os “malfeitores”, que são contrastados, nesse salmo, com os “justos” e com os “pobres”. Trata-se de “todos” os que, conforme o v.3, “juntos se desviaram e se corromperam” (sar yahdan ne’elahû). Por fim, a maldade e a falta de temor de tais homens são tão grandes que, além de não buscarem a Deus (v.2), também “não clamam a Deus” (yehwâ lo’ qara’û) por nada. São homens completamente desligados de Deus, confiantes em seus próprios recursos e confiantes de que não há quem os possa deter ou repreender. Por essa causa, eles se aproveitam dos indefesos de modo que Deus se refere a eles como “aqueles que devoram o meu povo como quem devora pão” (’okelê ‘ammî ’okelê lehem). Não há limites para os anseios desses malfeitores. Nenhum obstáculo os faz parar nem sua consciência os acusa de nada. Prejudicam as pessoas e conseguem, mesmo assim, dormir tranquilos. Entretanto, esse abuso não é bem visto por Deus. Nem o Senhor se omite diante de tantas perversidades. Davi diz que, apesar de os malfeitores “ridicularizarem os alertas dos pobres” (‘atsat-‘anî tavîshû) sobre as consequências de agirem daquele modo, o Senhor atua em dois sentidos. O primeiro é agir como “refúgio” dos seus (v.6). Em segundo, agir como vingador no mal, causando “grande pavor” nos malfeitores (v.5). Por fim, Davi, que no momento vê os injustos prevalecerem, olha com esperanças para as promessas de Deus desejando que elas se cumpram logo e que o Senhor, em breve, venha a “restaurar o seu povo” (v.7), trazendo-lhe exultação e alegria. Não sei mais quantas vezes serei tratado injustamente pelas empresas que são mais ricas e mais fortes do que eu. Mas sei que elas não podem conter a atuação de Deus, nem impedir que ele faça justiça aos seus, seja confortando- os no sofrimento, seja livrando-os das suas armadilhas. Por isso, olho para o futuro cheio de esperanças e fazendo coro com o rei Davi: “Tomara de Sião viesse já a salvação”. SALMO 15 Quem Luta por Mim? Sempre gostei de história e ainda gosto. Quando tenho algum tempo livre ou quando preciso desligar minha mente da rotina e das dificuldades do cotidiano, gosto de ler sobre história. Recentemente, dediquei-me a conhecer um pouco de uma época triste da história brasileira: a ditadura militar. Quando digo triste, não penso unilateralmente.Refiro-me, por um lado, a assaltos, assassinatos e atitudes terroristas em nome de uma liberdade negada pelos próprios atos dos seus reclamantes e, por outro lado, os maus tratos e morte de centenas de pessoas em nome da ordem nacional até que a tortura, meio de extrair informações, passasse a uma finalidade sádica sem qualquer outra razão. No meio dessa luta entre resistência e repressão, muitas foram as pessoas que tiveram de sair do País sem poder voltar até que ocorresse a famosa anistia, muito comentada ainda hoje. É dessa época a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em resumo, a presença em território nacional não era realmente um direito de todos, mas daqueles que se enquadrassem nos interesses da liderança ditatorial do País. Assim, se alguém fosse um questionador do governo e das leis autoritárias, um líder de alguma entidade pró liberdade política e de expressão, um artista engajado na resistência ao governo ou até um intelectual contestador, esse era um franco candidato a perder o direito de habitar no seu país natal, o Brasil. Davi também teve experiências de exílio, tanto no último terço do reinado de Saul como nos dias do golpe de Estado de Absalão. O Salmo 15 parece ter sido escrito exatamente durante um exílio. Não um exílio qualquer, mas sim da cidade de Jerusalém – o que coloca o golpe de Estado de Absalão como a época de escolha para a composição do salmo. O motivo para tal suposição é a pergunta que Davi faz: “Senhor, quem residirá com o teu tabernáculo? Quem habitará no teu santo monte?” (yehwâ mî-yagûr be’ahaleka mî-yishkon behar qadsheka). Apesar de eu já ter ouvido várias vezes se tratar a expressão de uma “habitação celestial”, é muito provável que Davi fizesse referência a algo bem mais específico e próprio da sua experiência: a habitação em Jerusalém. Nessa cidade, conquistada e tornada sede do reino pelo próprio rei Davi (2Sm 5), estava o “tabernáculo” que ele erigiu para trazer a arca da aliança de seu exílio desde os dias do sumo sacerdote Eli (1Sm 4) e estava, também, o monte Sião, frequentemente denominado “monte santo” (Sl 2.6; 48.2; Jl 2.1; 3.17; Ob 17; Zc 8.3). O problema de Davi, no Salmo 15, parece ser: quem tem direito a habitar em Jerusalém, no monte santo de Deus e próximo ao tabernáculo do Senhor? As duas respostas naturais envolvem o próprio Davi e seus servos leais em contraposição a usurpadores dos seus direitos, possivelmente Absalão e os conspiradores que o acompanhavam. De modo muito interessante, Davi não perde tempo defendendo seu direito real, mas oferece o caráter de Deus como fator de separação entre os homens bons e os maus e como causa da habitação daqueles a quem ele escolhe segundo sua vontade santa, a qual defende os que lhe pertencem. O que o salmista afirma é que, nessa disputa por Jerusalém e pelos fatores ligados a essa habitação, Deus faria vencer aquele cujo caráter se adequasse ao daqueles que o servem e o buscam. Desse modo, Davi oferece cinco características do verdadeiro servo do Senhor, todas elas ligadas ao seu caráter. Assim, aquele que é beneficiário do Senhor é “o que anda honradamente” (hôlek tamîm). Uma outra designação para o próprio termo que traz um sentido mais amplo do que Davi quer transmitir é “aquele que anda irrepreensivelmente”. Isso faz com que ele “aja com justiça” e “fale a verdade em seu coração”. É uma pessoa de bem que não deixa que a malícia o conduza. Ele também “não difama com sua língua” (lo’-ragal ‘al-leshonô) no sentido de não ser como aquelas pessoas que, por meio de fofocas, mentiras e afirmações dúbias, mancham a reputação de outras pessoas. É como alguém dizer: “Tal pessoa me preocupa muito” e, interrogado pelos ouvintes sobre o motivo da preocupação, responder: “Não pergunte, pois não quero dizer nada que falte com a ética”, como se ética fosse levantar nuvens injustificadas sobre a reputação de alguém. A terceira característica do beneficiário de Deus é dupla: Ele “despreza com seus olhos o réprobo e honra os que temem ao Senhor” (nivzeh be‘ênayw nim’as we’et-yir’ê yehwâ yekavved). Ele não bajula os que agem mal, mesmo que outros interesses estejam em jogo. O relacionamento das pessoas com Deus é o que define o seu relacionamento com elas. Enquanto ele se afasta dos iníquos, suas palavras a respeito dos justos são de aprovação e apoio. Em resumo, ele está do lado dos que seguem a Deus e não dos pecadores, bajuladores e hipócritas. Tal homem também “jura para o seu próximo e não muda” (nishba‘ lehara‘ welo’ yamir). Sua palavra é confiável e não depende das circunstâncias. Em uma expressão moderna, tal homem não “dança conforme a música”. Ele empenha sua palavra e, ainda que leve prejuízo, ele a cumpre. Seus amigos têm nele um ponto de apoio com a certeza de que sabem quais serão suas atitudes mesmo quando a situação for difícil. Ele tem crédito quando diz algo. Finalmente, esse homem “não empresta seu dinheiro com ganância, nem recebe suborno contra o inocente” (kaspô lo’-natan beneshek weshohad ‘al- naqî lo’ laqah). O dinheiro para ele não é tudo e não é capaz de fazê-lo agir de forma questionável como explorar uma pessoa que passa por dificuldades. Nem tampouco tomar partido de alguém, não porque esteja certo, mas porque tem dinheiro e pode beneficiá-lo. Na verdade, esse homem não tem atitudes diferentes para com ricos e pobres. Segundo Davi, esse homem honrado, não maldizente, a favor dos bons, confiável e não ganancioso, “nunca será abalado” (lo’ yimmôt le‘ôlam). É claro que essas características não são o motivo da graça divina, mas resultado da ação de Deus sobre os seus. O fato é que Davi vê nos beneficiários de Deus, seus servos, pessoas que têm características compatíveis com seu Senhor. Esses, diante das perseguições e das injustiças, têm a certeza de contarem com o Senhor e terem-no ao seu lado para os defender. Portanto, a descrição do servo de Deus é útil para cada um avaliar sua própria condição espiritual e perceber se é ou não um beneficiário do Senhor. E, claro, saber que o único modo de sê-lo é pela fé no Senhor Jesus Cristo (Jo 1.12; 3.16; At 4.12). Aos que já lhe pertencem, contudo, cabe-lhes agora amoldarem-se ao seu caráter sabendo que o Senhor lhes é favorável e sempre o será por toda a eternidade, onde terão, de fato, uma habitação celestial com aquele que os salvou e permanece hoje ao seu lado. SALMO 16 A Rica Herança dos Servos de Deus Meu casamento aconteceu em 1997, quando eu morava na cidade de Grão Mogol, no sertão mineiro. Eu e minha esposa resolvemos fazer a cerimônia na igreja em Atibaia (SP), pois a maior parte dos nossos parentes morava ali, sendo mais fácil deslocar os que moravam fora. Contudo, devido ao tempo e aos procedimentos que envolvem o casamento no cartório, a união legal teve de ser providenciada em Minas Gerais. Cumpri todos os requisitos exigidos e me dirigi ao cartório, com os familiares e amigos, a fim de realizar a tão feliz cerimônia. Estava tudo perfeito até o escrivão ler, no documento oficial, que estávamos nos casando em “regime parcial de bens”. Em relação a bens, eu não tinha nada a ser partilhado e de modo algum pretendia que isso fosse algum dia necessário. Entretanto, eu não queria a expressão “união parcial” escrita em lugar nenhum que dissesse respeito a mim e à minha esposa. Pedi para mudar, mas já não era mais possível. Eu tinha de ter pedido isso no início do processo, mas como foi a única vez em que me casei, não tinha a menor ideia da necessidade de fazê-lo. Como o escrivão não me preveniu sobre isso a tempo, explicou, meio sem graça, que, antigamente, todos os casamentos eram com união total de bens, a não ser quando os noivos especificavam que desejavam outro tipo de união. Entretanto, pelo alto número de casamentos por interesse na herança da família do cônjuge, alguns deles até mesmo terminando em morte, a lei foi alterada e o formato padrão dos casamentos agora era a união parcial. Não deixei isso entristecer um dia tão alegre, mas não pude deixar de ficar perplexo ao pensar na ganância de muitaspessoas sobre a herança do marido ou da esposa. O rei Davi também desejou uma herança, mas desejou-a de modo muito diferente. Na verdade, a própria herança era de natureza diferente e Davi escreveu sobre ela no Salmo 16. Mais uma vez ele escreveu um salmo quando era perseguido por inimigos. Entretanto, a diferença entre esse salmo e os outros é que, em lugar de o autor falar da sua confiança na libertação divina, ele olha para o que Deus representa para ele fazendo nublar ao redor os seus problemas. Depois de declarar que Deus é seu refúgio e que o destino dos ímpios é terrível (vv.1-4), Davi declara o que Deus significa para ele (v.5): “Minha porção da herança” (menat-helqî). Como no v.2 o salmista diz “minha riqueza não está além de ti” (tôbatî bal-‘aleika), parece que a figura central que molda seu pensamento enquanto escreve é o aspecto do Senhor como “a verdadeira riqueza dos seus servos”. Ele diz mais, no v.5, descrevendo Deus como “o meu cálice e aquele que me faz próspero” (wekôsî ’attâ tômîk gôralî). Depois de falar sobre tanta riqueza, era de se esperar que o salmista apresentasse, agora, uma lista de bens como palácios, peças de ouro e prata, propriedades e povos que o servem e que lhe são tributários – tudo isso dado por Deus. Mas não é isso o que acontece. O salmista fala, sim, sobre riquezas, mas sob um prisma diferente que revela a escala de valores que ele tem. Ele aponta quatro riquezas que vêm do Senhor a ele. A primeira é o ensino reto (v.7). Davi diz, nesse sentido, duas verdades. Uma, referindo-se à atuação de Deus, é “o Senhor que me aconselhou” (yehwâ ’asher ye‘atsanî). A segunda, completando a primeira cláusula, trata do modo como Deus transmitiu tal conselho a Davi: “Pois meu íntimo me instruíu durante as noites” (’af-leylôt yisserûnî kilyôtay). É muito provável que Davi se refira, por meio desse versículo, à direção de Deus no seu coração lhe revelando os pecados que o atormentavam durante as noites, em sua cama. O resultado final dessa atuação divina foi o arrependimento do rei de Israel e sua mudança de atitude. Em resumo, quando Davi pecou, o Senhor lhe ensinou o que fazer. A segunda é a presença constante (v.8). O salmista diz: “Tenho o Senhor diante de mim continuamente” (shiûîtî yehwâ lenegdî tamîd). Isso representa tanto a presença contínua de Deus com seu servo como a comunhão do servo para com o Senhor. É um relacionamento bilateral que, contudo, é dirigido pela graça de Deus. Este, apesar da indignidade do servo, não o abandona jamais. O resultado de um relacionamento como esse é descrito nos seguintes termos: “Pois estando [o Senhor] à minha direita não fracassarei” (kî mîmînî bal-’emmôt). A terceira é a proteção pessoal (vv.9,10). Davi exulta em seu coração, pois, apesar dos frequentes ataques e tramas vindas de seus inimigos, sua certeza é: “Meu corpo repousará em segurança” (besarî yiskon labetah). É a confiança de que, pela proteção de Deus, seus inimigos não conseguiriam matá-lo. O v.10, segundo Pedro e Paulo, faz referência à ressurreição de Jesus (At 2.25-31; 13.35,36). Contudo, apesar de Davi tê-la profetizado, a aplicação desse texto ao seu contexto imediato corrobora a confiança na proteção divina demonstrada do v.9, dizendo: “Pois tu não deixarás minha alma ir para a sepultura, nem permitirás que teu servo veja o túmulo” (kî lo’-ta‘azov nafshî lish’ôl lo’-titten hasideka lir’ôt shahat). A última é o rumo sábio (v.11). Finalmente, o salmista diz: “Tu me indicarás o caminho da vida” (tôdî‘enî ’orah hayyîm). Deus age aqui como um mapa, dando a conhecer ao que está perdido o caminho correto que o leva seguro e “vivo” ao seu destino. Ao mesmo tempo, para tanto, afasta-o do caminho oposto, o caminho da morte. Entretanto, não podemos reduzir Deus a um aparelho de localização por satélite. Sua atuação não é apenas marcar um caminho no mapa, mas guiar e conduzir o perdido, seu servo, por meio dele. Mesmo depois de mais de dez anos de casado, não tenho grandes posses ou uma herança considerável. Entretanto, como Davi, também sou enriquecido pelas atuações de Deus que garantem minha segurança e eterna felicidade. Assim como para o salmista, o Senhor também é minha porção da herança. Nada tenho de maior valor que meu Salvador. Talvez seja por isso que me identifiquei tanto com o v.6. Ele diz – e eu também – “linda herança é a minha” (nahalat shafrâ ‘alay). SALMO 17 A Busca de uma Justiça Superior Um episódio marcante na história americana foi o julgamento, no século 19, envolvendo os “passageiros” do navio L’Amistad (“A amizade”, em espanhol). Eram escravos provenientes da África cujo destino era serem vendidos em Cuba. Liderados em um motim por Cinque, 53 escravos mataram quase toda a tripulação e obrigaram dois sobreviventes a levá-los de volta à África. Desconhecedores de princípios de navegação, não perceberam que foram, na verdade, conduzidos à costa dos Estados Unidos, onde, em agosto de 1839, a guarda costeira os deteve. Foram levados a um tribunal, acusados de homicídio, enquanto os sobreviventes da tripulação, a coroa espanhola e oficiais americanos reclamavam a posse dos escravos a fim de vendê-los. As coisas se complicaram ainda mais à medida que as eleições presidenciais se aproximavam e ameaçavam afetar o resultado do julgamento com motivações políticas. Diante de tantos fatores externos e tantos interesses espúrios, o julgamento dos 53 passageiros do L’Amistad tinha tudo para contrariar todos os conceitos de “justiça”. Nesse momento, o ex-presidente John Quincy Adams, recorrendo à Suprema Corte dos Estados Unidos, lutou para que a justiça garantisse a liberdade e a recolocação daqueles homens ao seu país. O resultado final, já no ano de 1841, foi a confirmação da decisão do primeiro julgamento no sentido de libertá-los e entregá-los ao presidente para que os conduzisse de volta à África, declarando os 53 negros livres e dispensando-os imediatamente da custódia da corte. Certamente, essa decisão deu novos rumos à aplicação da justiça e à história norte-americana. É também uma decisão inspiradora, pois, a despeito de todos os interesses políticos e financeiros, a justiça realmente prevaleceu. O rei Davi também recorreu à justiça suprema – não de uma corte, mas do supremo juiz. O Salmo 17 é um clamor por justiça diante dos fatos apresentados pelo salmista. Sua petição é “Senhor, ouça o que é justo! Escuta o meu clamor! Ouça a minha oração!” (shim‘â yehwâ tsedek haqshivâ rinnatî ha’azînâ tefillatî). É um clamor à suprema corte, ao único que pode decidir justamente e fazer valer a decisão. A partir de então, as provas apresentadas pelo requerente, Davi, são, em primeiro lugar, seu procedimento justo. Não significa que ele nunca pecasse, mas que buscava obedecer ao Senhor e andar em consonância com sua santidade, fosse pela luta contra o pecado, fosse por meio da busca do perdão divino. Assim, ele diz (v.1) que sua causa “não vem de lábios mentirosos” (belo’ siftê mirmâ). Diz ao Senhor (v.3): “Não encontras maldade nos meus intentos; a minha boca não transgride” (bal-timtsa’ zammotî bal-ya‘avar-pî). Ele completa o quadro (v.4) afirmando: “Eu me guardei dos caminhos do violento” (’anî shamartî ’orhôt parîts). Essa é a descrição de um servo dedicado ao Senhor cujos procedimentos são moldados pelo bem e pela retidão. O que fala é verdadeiro; seus propósitos mais secretos são isentos da maldade; suas palavras são retas e produzem o bem e não atitudes traiçoeiras; suas atitudes são pacíficas e dignas de um homem cuja ética é santa. Em segundo lugar, as provas apresentadas pelo requerente são os pecados dos seus inimigos que o perseguem e procuram uma oportunidade para matá- lo (vv.8,9). Davi diz (v.10) que “eles endureceram sua boca; falaram com arrogância” (helbamô sogrû pîmô dibberû bege’ût). Mas não é só isso. Davi ainda afirma que “os olhos deles estão postos [sobre os inimigos] para que caiam por terra” (‘ênêhem yashîtô lintôt ba’arets). Finalmente, para fins ilustrativos, Davi fala deles por meio de uma comparação (v.12),dizendo que “eles são semelhantes ao leão ávido para dilacerar a presa” (dimyonô ke’aryeh yikkôf litrôf). Esse é, definitivamente, um quadro de homens orgulhosos, mentirosos, perigosos, cujas ações contra aqueles que consideram inimigos são destruidoras. Assim, Davi, com as provas sobre a mesa, apresenta (v.13) sua solicitação ao reto juiz: “Livra minha alma dos ímpios pela tua espada” (palletâ nafshî merasha‘ harbeka). Essa é a causa do solicitante. Ele, mediante a apresentação dos seus retos caminhos, condição necessária para o clamor por justiça, e da perversidade dos seus inimigos, pede para que Deus o proteja de tais homens maus. É a última instância da justiça, visto que, ao que parece, ninguém mais pode ajudar Davi. O fato é que o salmo não especifica a resposta do divino juiz. É bem possível que o salmo tenha sido escrito enquanto a perseguição ocorria, antes do livramento almejado pelo salmista. Os inimigos ainda perseguiam e Davi ainda esperava pela libertação. Entretanto, enquanto espera e sofre com a injustiça, o salmista demonstra uma atitude exemplar que deve inspirar todos os servos do Senhor ainda hoje. Ele diz (v.15): “Ao acordar, eu me satisfarei com o teu semblante” (’esbe‘â behaqîts temûnateka). Essa oração, um pouco misteriosa e intrigante, revela que o salmista, mesmo que ainda não tenha sido aliviado do seu jugo, sente-se suficientemente feliz e grato por ter “comunhão com Deus”, como se pudesse vê-lo face a face. Davi realmente desfrutava a presença do Deus vivo e isso lhe bastava, ainda que nutrisse a esperança do livramento. Essa atitude exemplar de Davi não é gratuita. Ele conhece o Senhor a quem serve. E mais: ele ama seu Senhor e sabe muito bem que por ele é amado. Tem a perfeita noção do que tal relacionamento significa para sua vida presente e futura. De fato, temos de aprender com Davi e nutrir maior deleite no relacionamento com Deus a despeito de tudo que nos cerca. Afinal, o Senhor Deus é alguém com quem se pode ter a verdadeira e perfeita amistad. SALMO 18 O Dia da Libertação Que Vem do Senhor Recentemente, em uma disputa presidencial em nosso País, alguns candidatos, desejosos de angariar votos entre os evangélicos, foram a diversas igrejas, leram textos bíblicos, falaram sobre religião e até oraram. Quem os via tinha a impressão de que eram servos do Senhor de longa data e tinham, na pessoa de Deus, seu interesse primário em termos de obediência. Entretanto, as eleições aconteceram e definiram-se o vencedor e o perdedor. Ambos agradeceram, de público, a seus partidos, seus eleitores, seus cabos eleitorais e até seus secretários particulares, mas não deram qualquer palavra de agradecimento a Deus. O Senhor foi apenas um pretexto, durante breve tempo, para se fazer campanha entre certo grupo de eleitores. Nem mesmo quem saiu vitorioso deu uma palavra de reconhecimento àquele que institui as autoridades (Rm 13.1) e escolhe o líder a quem quer revestir de poder (Dn 4.17,25). Na verdade, esse tipo de ingratidão é muito comum. Quem de nós, depois de ajudar alguém em problemas, nunca foi completamente esquecido depois da solução dos males? Entretanto, Davi não agia desse modo e o Salmo 18 é a prova disso. Trata-se de um salmo muito interessante devido ao seu registro, praticamente idêntico, em 2Sm 22. Em ambas as referências, o contexto da composição do salmo por Davi é descrito: “O dia em que o Senhor o livrou de todos os seus inimigos e das mãos de Saul”. Diante de tão grande bênção, sabendo quantas vezes Davi orou pedindo por libertação dos inimigos, o salmista demonstra atitudes que realmente são necessárias ao servo de Deus quando tem sua oração atendida. Em primeiro lugar, Davi valoriza seu relacionamento com Deus. É comum as pessoas se esquecerem de Deus e até abandonarem a igreja quando seus problemas são resolvidos. Isso não aconteceu com Davi porque seu relacionamento não era fundamentado nos seus interesses, mas no seu amor. Ele inicia o salmo dizendo (v.1): “Senhor, eu te amo, ó minha fortaleza” (’erhomka yehwâ hizqî). Dito isso, Davi usa, novamente, o sufixo hebraico de pronome possessivo “meu” por sete vezes no v.2 em referência a Deus. Entre elas, chama o Senhor de “meu Deus” (‘elî). Ele diz “meu” porque tem um relacionamento pessoal com ele; e diz “meu Deus” porque tal relacionamento se baseava, por um lado, na soberania de Deus e, por outro, no seu amor pelos servos. Davi também se lembra dos feitos de Deus a seu favor. Essa lembrança, obviamente, envolve também seu sofrimento passado, incluindo o risco de ser morto (vv.4,5). Ele recorda sua angústia que o levou, em prantos, à busca de Deus por meio da oração (v.6). Então, em uma virada no tom da sua pena, o salmista contempla a recordação do Senhor atendendo seu pedido, o que ele assim descreve: “Do seu templo o Senhor ouviu a minha voz e o meu grito a ele por socorro chegou aos seus ouvidos” (yishma‘ mehêcalô qôlî weshaw‘atî lepanayw tabô’ be’oznayw). A partir de então (vv.7-19), ele se lembra do que Deus fez em termos figurados que dão um tom vivo à incrível e poderosa libertação do servo e vitória de Deus sobre seus inimigos. Nada escapa da sua memória. Ele, ainda, reconhece sua condição de fraqueza. No v.17, ao declarar a ação divina na sua libertação, o salmista relata que foi salvo de alguém que nomeia de “meu inimigo forte” (’oyebî ‘az). Obviamente, ao citar esse inimigo na forma singular seguido do complemento no plural “e dos que me aborreciam”, Davi tem em mente, como “inimigo forte”, o rei Saul que o perseguiu com toda ira e com seu poderio militar durante muito tempo. Apesar de ser comum os homens se sentirem “poderosos” quando se veem livres de um mal, Davi não age assim. Ele reconhece sua fraqueza ao explicar que seus inimigos “eram mais fortes do que eu” (’omtsû mimmennî). Esse vislumbre impede que ele se sinta como quem deu fim ao problema, esquecendo-se de glorificar o verdadeiro responsável pelo bem – Deus. Davi, mesmo diante do alívio, permanece cumprindo a vontade do Senhor. Diferente de pessoas que se aproximam de Deus quando têm problemas e se afastam quando são socorridas, Davi continua na mesma atitude de submissão a Deus e às Escrituras. Podemos perceber tal disposição na afirmação do v.21 em que Davi apresenta seu procedimento reto: “Eu guardei as palavras do Senhor e não reneguei o meu Deus” (shamartî darkê yehwâ welo’-rasha‘tî me’elohay). O modo de Davi se expressar não é pesaroso como se olhasse para uma realidade que se foi, mas com a confiança de que tal afirmação ainda pode ser notada no seu procedimento. Ele permanece obedecendo a Deus e agindo com retidão e santidade. Depois de narrar vividamente como o Senhor o abençoou pela sua justa instrução e como o fez vencedor dos inimigos (vv.25-45), Davi louva ao Senhor pela sua grandeza. Ele exulta (v.46) e diz: “Exaltado é o Deus da minha salvação” (yarûm ’elôhê yish‘î). A palavra traduzida como “exaltado” dá a ideia de alguém “levantado ao alto”. Assim, Davi reconhece que Deus é tremendamente superior a tudo que existe, tanto que o eleva em seu louvor declarando sua glória. Nesse caso, a tradução “seja exaltado” cumpre o papel de glorificar aquele que ouviu as orações de Davi e o salvou de inimigos mais fortes e mais numerosos que ele. Durante a exaltação ao Senhor, o salmista testemunha daquilo que lhe fez o Senhor. Ele diz (v.49): “Portanto, eu o aclamarei, Senhor, entre as nações” (‘al-ken ’ôdeka baggôyim yehwâ). Assim, Davi reconhece publicamente as ações de Deus em seu favor e lhe agradece em meio ao louvor. Esse grato testemunho produz salmos, como este, cantados diante de ouvintes a quem o salmista dá testemunho da grandeza de Deus. Tal desejo é afirmado na oração: “Faça eu cânticos ao teu Nome!” (leshimka ’azammerâ). Essas são as atitudes de Davi no dia em que foi liberto por Deus dos seus inimigos. Entretanto, elas são consequências de uma vida transformada pela fé, pelo relacionamento íntimo com o Senhor e pelo tratamento da Palavra de Deus sobre o salmista. Ele é grato a Deusporque também é amigo de Deus, servo de Deus e beneficiário da graça de Deus. Quanto aos candidatos que vimos por aí, Deus é somente pretexto para seus propósitos, assim como o é para muita gente que “o busca” somente quando lhes interessa. E quanto a você: quer ser um candidato interesseiro, ou quer ser um amigo daquele que ama e age em prol dos seus servos? SALMO 19 A Grandeza da Revelação de Deus Certa vez, entrando em um restaurante para jantar com minha esposa e minha filha, notei um grupo de pessoas conhecidas que também perceberam minha entrada. Com ouvido aguçado, escutei alguém do grupo dizer a outro que falasse mais baixo, pois eu estava próximo a eles. Qualquer que fosse o assunto, em lugar de intimidar o rapaz, esse alerta fez com que ele se virasse para mim – foi quando o reconheci – e dissesse em um tom alto de voz: “Não é verdade que isso está na Bíblia, Thomas?”. Ao perguntar a que ele se referia, a resposta foi: “... que em mulher não se bate nem com uma flor”. Diante do patente desconhecimento das Escrituras, só pude responder que, apesar de esse ditado popular não vir exatamente da Bíblia, eu realmente concordava com ele. Entretanto, o que me chamou mesmo a atenção foi perceber como as pessoas “acham” que sabem o que Deus revelou aos homens. Davi sabia bastante sobre a revelação de Deus. Ele foi um salmista profícuo, o que quer dizer que passou uma boa parte do seu tempo dedicado à composição de salmos que, na verdade, são poesias e cânticos. É o autor que tem o maior número de composições no livro de Salmos. Entretanto, música e poesia parecem não ser as únicas habilidades da pena de Davi. Em termos de teologia ele abriu o caminho para grandes servos de Deus registrarem os aspectos mais profundos da revelação bíblica. Os apóstolos escritores citaram inúmeras vezes salmos de Davi e ensinaram à igreja dos seus dias – e dos nossos – diversos conceitos registrados pelo rei poeta um milênio antes deles. O apóstolo Paulo, talvez o autor cujos escritos bíblicos sejam os de maior profundidade e importância teológica que temos, foi um dos escritores que citaram salmos davídicos em seus escritos. Um dentre os muitos temas abordados pelo apóstolo em suas cartas é aquele que fala sobre a própria revelação de Deus ao homem. Nesse sentido, Paulo apresenta dois meios que Deus utiliza para se revelar. O primeiro se dá por meio da Criação: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas...” (Rm 1.20). O segundo se dá por intermédio das Escrituras: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Os teólogos denominam esse dois meios da revelação divina de “revelação geral” e “revelação específica”, respectivamente. Toda vez que se fala em revelação, citam-se esses dois textos escritos por Paulo. Entretanto, pouco mais de um milênio antes de o apóstolo registrar tais conceitos, o rei Davi fez o mesmo, sem economizar tinta, no Salmo 19. Esse cântico é o registro tanto da grandeza da verdade revelada por Deus aos homens como dos meios utilizados pelo Senhor para se fazer conhecido a nós. Assim, em termos de revelação geral, Davi afirma (v.1): “Os céus anunciam a glória de Deus e a abóbada celeste torna conhecida a obra das suas mãos” (hashamayim mesafferîm kevôd-’el ûma‘aseh yadayw maggîd haraqîah). Deve-se notar o paralelismo sinônimo entre “céus” e “abóbada celeste” e, também, entre a ação de “anunciar” e de “tornar conhecido”, pois, seguindo esse raciocínio, percebemos que estão em paralelo, também, a “glória de Deus” e a “obra das suas mãos”. Tal percepção é importante para entender que o que Davi quer dizer com glória está relacionado à obra da criação – não que esse seja o único aspecto glorioso no Senhor. Essa é uma declaração de que tanto o ato da criação foi revestido de glória como o próprio Criador é glorioso. É também a afirmação de que a natureza gloriosa de Deus e da sua atuação pode ser deduzida pela observação do Universo. Afinal, somente um Deus glorioso e perfeito pode produzir uma obra tão perfeita e magnífica. Por isso, completa (v.4): “Sua voz foi ouvida em toda a Terra e suas palavras, na extremidade do mundo” (bekol-há'arets yatsa’ qôlam ûbiqtseh tevel millêhem). Quanto à revelação específica, aquela que se dá por meio das Escrituras, tema muito abordado pelo rei salmista – tome-se como exemplo o Salmo 119 –, seu julgamento é categórico (v.7): “A lei do Senhor é perfeita” (tôrat yehwâ temîmâ). A partir dessa afirmação, Davi apresenta quatro ações da revelação de Deus nas Escrituras sobre os homens (vv.7,8): Ela é “quem recobra a alma” (meshîvat nafesh), “reforça a sabedoria do ingênuo” (ne’emanâ mahkîmat petî), produz “as alegrias do coração” (mesammehê-lev) e “traz luz aos olhos” (me’îrat ‘ênayim). Alento, sabedoria, alegria e o caminho correto são as bênçãos produzidas por aquilo que Deus revelou por meio dos profetas e apóstolos. Mas, há que se fazer uma ressalva. Davi não tem em mente nenhum tipo de superstição como exibir em casa uma Bíblia aberta acreditando que, assim, a casa fica protegida e abençoada. O que Davi ensina, nesse salmo, é que tais bênçãos veem da leitura e aplicação dos ensinos de Deus pelos seus servos e que, assim (v.11), “há muita recompensa em cumpri-los” (beshamram ‘eqev rav). O salmista olha para essa esperança de modo aplicativo e pessoal, afirmando o que espera para si pela obediência às Escrituras (v.14): “Serei íntegro e limpo de muitas transgressões” (’êtam weniqqêtî miffesha‘ rav). Guiado pela sabedoria de Deus, sua mais profunda aspiração é: “Sejam aceitáveis diante de ti, Senhor, as palavras da minha boca e a meditação do meu coração” (yihyû leratsôn ’imrê-pî wehegyôn livvî lepaneyka yehwâ). Portanto, o servo de Deus só pode ser guiado pelo seu Senhor se tomar e ler suas instruções, seu mapa para nossa vida. Em lugar de tentar adivinhar o que a Bíblia ensina ou, pior, querer colocar sob sua autoria o que ela nem sequer diz, cada pessoa deve lançar mão do privilégio de ter acesso à vontade de Deus expressa nas Escrituras. O conhecimento salvador contido na mensagem graciosa da cruz de Cristo e a perfeita ética cristã moldada pelo próprio Senhor só são acessíveis ao homem por meio da Palavra de Deus. Afinal, ditados e provérbios populares podem ser interessantes, corretos e até úteis, mas jamais podem tornar os homens aceitáveis ao santo e justo Senhor. SALMO 20 Tempo de Oração em Tempos de Crise Duas histórias me marcaram dias atrás, ambas relacionadas com a prática da oração. A primeira delas é sobre Martinho Lutero. Dizem os estudiosos que Lutero foi um homem dedicado ao extremo à obra de Deus. Incansavelmente, desde o raiar do dia, ele investia horas a fio no estudo, tradução e comentários teológicos, produzindo um vasto material e um grande legado. Apesar de tantas obrigações autoimpostas, Lutero passava uma ou duas horas do dia orando. Curiosa mesmo era sua explicação para orar tanto tempo: “Eu oro muito porque tenho muita coisa para fazer”. A segunda história tem como pano de fundo as atividades de uma comissão eclesiástica para a contratação de um pastor. Enquanto a comissão examinava o candidato sobre suas posições teológicas e sua experiência administrativa, uma senhora piedosa o interrogou a respeito de quanto tempo ele gastava em oração. Um silêncio profundo foi sentido até que outro membro da comissão explicou que o pastor, antes de pregar, dirigiu a igreja em oração por cerca de quatro minutos. A gentil senhora então explicou: “Não foi isso o que eu quis dizer. Eu quero saber quanto o senhor ora pela igreja, pelos membros e por você mesmo em seu tempo devocional”. Essas duas histórias chamaram minha atenção, pois falam da oração feita em momentosem que se imagina que ela consome tempo e esforço necessários para tarefas “mais importantes”. As duas histórias nos lembram como esse conceito é falso e quanto a oração é necessária, inclusive – se não “principalmente” –, nos momentos mais atarefados e difíceis da vida. O rei Davi é um bom exemplo, no Salmo 20, de priorização da oração em momentos difíceis. Ao que tudo indica, ele vivenciava a iminência de uma guerra. A batalha se aproximava e todos os preparativos deviam ser feitos: o deslocamento das tropas, a preparação das armas, a instrução dos comandantes, a organização das provisões, o encorajamento dos soldados e muitas outras tarefas imprescindíveis para enfrentar militarmente um inimigo. Tudo isso leva tempo e dá muito trabalho. Na verdade, exige empenho total, principalmente por parte do comandante – nesse caso, o rei. É nesse momento tão atarefado que Davi encontra tempo para orar, ou melhor, ele prioriza a oração. E não somente para ele, mas para todo o povo. O Salmo 20 é uma composição a fim de os israelitas se dirigirem a Deus em oração pedindo suas bênçãos sobre o exército e clamando por vitória para seu rei. O mesmo salmo parece servir como veículo para levar o povo da terra e os soldados a atitudes corretas diante de Deus a fim de, com a verdade em mente, cumprir cada um seu papel em consonância com a vontade do Senhor. Pelo menos três atitudes são incentivadas por Davi por meio do salmo que deveria ser repetido, em espírito de oração, pelo povo. A primeira delas é a petição. O salmo inicia com o povo orando pelo rei (v.1): “Que o Senhor te atenda no dia perigoso. Que o nome do Deus de Jacó te defenda” (ya‘anka yehwâ beyôm tsarâ yesaggevka shem ’elohê ya‘aqov). Como o rei Davi lutou com o exército e o liderou no campo de batalha por boa parte da sua vida, o povo clama a Deus que lhe dê proteção diante do perigo de ser ferido na luta e para ser mantido seguro. A ideia é ser colocado em um lugar alto, como um pequeno filhote, para os predadores não o alcançarem. Apesar de haver um exército para proteger o rei, sem falar na sua guarda pessoal, o povo clama por um auxílio que vem de outra fonte que não soldados e generais. O pedido é (v.2): “Que envie ajuda para ti do santuário e de Sião te sustente” (yishlah-‘ezreka miqqodesh ûmitsîyôn yis‘adeka). A fonte da ajuda a Davi deveria vir do “santuário” e do “monte Sião”, ambos localizados em Jerusalém. Na verdade, essa é uma figura de linguagem para se referir àquele que era adorado no santuário e em Sião. É o Senhor Deus a fonte da proteção do seu servo na batalha. Esse tom de petição permanece até o final do salmo (v.9): “Preserve o rei, ó Senhor” (yehwâ hôshî‘â hammelek). A segunda atitude é a submissão. Apesar de o desejo do povo, dos soldados e do próprio rei ser a vitória, sua petição se submete ao plano e ao desejo do Deus dos exércitos. Sua oração não age como se fosse um modo de convencer Deus a cumprir a vontade dos pedintes. Ao contrário, é um ato de confiança e de submissão àquele cuja vontade é boa (Rm 12.2) e cuja soberania é imbatível (Dn 4.35; Ef 1.11). Assim, eles oram (v.4): “Dê-lhe conforme o teu coração e cumpra todos os teus planos” (yitten-leka kilvaveka wekol-‘atsatka yemalle’). Essa é uma oração corajosa. Lógica também, pois se baseia na revelação das Escrituras de que Deus faz tudo conforme lhe apraz. Entretanto, é corajosa por abrir mão de decidir seu rumo confiando que os rumos do Senhor, coincidindo ou não com o dos solicitantes, são sempre os melhores. Portanto, não é uma coragem irresponsável, mas a confiança corajosa de quem conhece seu Senhor. Por isso, eles declaram (v.7): “Uns confiam nos carros e outros nos cavalos, mas nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus” (’elleh barekev we’elleh bassûsîm wa’anahnû beshem- yehwâ ’elohênû nazkîr). A terceira é a gratidão. Mesmo parecendo extemporâneo, o povo, pela escrita de Davi, já fala de agradecimentos e louvores a Deus pela vitória. Devemos notar que não há aqui qualquer tipo de superstição do tipo “agradeça antes para que venha a acontecer”. O salmista conhece o modo de Deus agir nas situações da vida. Não era a primeira vez que Davi lutaria apoiado por Deus. Ele sabia como Deus o suportou no passado e como o sustentava agora. Portanto, depois de exibir confiança no Senhor, ele leva agora o povo a declarar sua gratidão a Deus e se preparar para louvá-lo na sequência da sua atuação em prol dos servos. Consequentemente, eles proclamam (v.5): “Celebremos nós pelo teu livramento e icemos a bandeira pelo nome do nosso Deus” (nerannenâ bîshû‘ateka ûbeshem-’elohênû nidgol). Só então, depois de escrever um salmo, reunir o povo e levá-los a orar a Deus pedindo proteção e vitória para o rei e seu exército, é que os preparativos para a guerra encontram oportunidade de acontecer. A lição parece ter-se perpetuado, pois, Josafá – mais de um século depois, ao receber a notícia de que três exércitos se aproximavam por um caminho inesperado e sem defesas (2Cr 20), estando a menos de um dia de Jerusalém –, em lugar de se desesperar e correr atrás dos preparativos para a guerra, em primeiro lugar, se dobrou em oração perante o Senhor e levou o povo a fazer o mesmo (2Cr 20.3,4). O resultado foi uma vitória fantástica (2Cr 20.22-25). Que exemplos como esses nos ensinem e nos motivem a buscar Deus, não apenas “apesar da falta de tempo”, mas, principalmente “por causa da falta de tempo”. Afinal, qual é o preparativo ou a providência que não vêm das mãos daquele que é soberano sobre tudo e que cuida com amor e zelo daqueles que lhe pertencem? SALMO 21 Ações que nos Levam a Agradecer Li, certa vez, sobre um capelão do Exército americano chamado Clark Vandersall Poling, ex-aluno da Yale Divinity School. Em 3 de fevereiro de 1943, em meio à Segunda Gerra Mundial, ele estava a bordo do navio cargueiro U.S.S. Dorchester, que transportava mais de novecentos homens, quando sofreu um ataque de torpedos. Era madrugada e eles estavam no mar gelado cheio de icebergs. Vinte e cinco minutos foram suficientes para afundar o navio e lançar no mar da magrugada fria os quase mil homens. A contagem de mortos foi de 678 homens – mais de dois terços do total. Entre eles havia quatro capelães, incluindo Clark Poling. Relatos dão conta de que os quatro cederam a outros os seus coletes salva-vidas e foram vistos pela última vez de mãos dadas orando pela segurança dos soldados. Tal atitude de bravura e abnegação fez com que os quatro capelães tivessem seus nomes e rostos estampados em selos, placas comemorativas, pinturas, vitrais e até em um monumento em homenagem a eles. Atitudes como as desses capelães são lembradas e recontadas muitas vezes, muito tempo depois de acontecerem. Geram um misto de sentimentos nas pessoas como admiração, tristeza e agradecimento. A guerra, em meio às suas atrocidades, consegue destacar atitudes heróicas e desprendidas de homens que, mesmo mortos, dão bons exemplos e encorajam outros a darem o melhor de si. Por isso, nos muitos documentários que li e vi em vídeos, percebi que algo se repete como um eco. Muitos guerreiros, de volta às suas casas, costumam dizer duas coisas: a primeira é que “os verdadeiros heróis são aqueles que morreram nos campos de batalha”; a segunda é que são gratos a alguém que fez algo incrível por eles, às vezes dando a própria vida para salvá-los. O rei Davi também era grato por ações de outro nas batalhas, a saber, ao próprio Deus. O Salmo 21 é um cântico de gratidão por ações ainda mais eficazes que as dos heróis guerreiros. Davi demonstra uma alegria contagiante ao lembrar o que Deus fez por ele. Por isso, o salmista inicia (v.1) seu cântico dizendo: “Senhor, o rei se regozija no teu poder e quão grande é a alegria no teu livramento!” (yehwâ be‘azzeka ismah-melek ûbîshû‘ateka mah- yageyl me’od). O rei em questão é o próprio salmista que, curiosamente, se refere a si mesmo na terceira pessoa (ele) por todo o salmo. Quanto à sua exultação, ela tem motivos bem definidos. Há, nesse salmo, pelo menos cinco ações de Deusque costumam produzir louvores nos seus servos. A primeira delas é atender as orações. Davi diz (v.2) a Deus: “Concedeste-lhe os desejos do seu coração” (ta’awat livvô natattâ lô). Esse tipo de linguagem quase sempre está ligado não apenas aos desejos do servo, mas à sua oração por eles. É o caso desse exemplo. O salmista não apenas tem necessidades, mas pede a Deus que intervenha nelas. O pranto se torna riso quando Deus, não alheio à condição e aflição do servo, ouve a súplica do rei e a atende. A exultação de Davi está, portanto, no fato de o Senhor ter respondido seu pedido. Por isso escreve: “E não negaste o pedido dos seus lábios” (wa’areshet sefatayw bal-mana‘ta). A segunda é agir com bondade. A palavra “pois” (kî), no início do v.3, demonstra que o que ele vai dizer a seguir está relacionado com o que já afirmou no verso anterior. É uma explicação que associa a resposta de Deus com sua bondade. O texto traz: “Pois leva-lhe bênçãos de bondade” (kî- teqaddemennû birkôt tov). É a ideia de alguém que deixa seu conforto para “sair ao encontro” de outro a fim de, especificamente, entregar-lhe coisas boas que são fruto de um coração benigno e amoroso. Não é de espantar que Davi, diante do Senhor dos senhores, que de ninguém precisa, fique alegre a agradecido por vê-lo agir desse modo. A visão da bondade de Deus se perfaz no resultado da ação: “Colocas sobre a sua cabeça uma coroa de ouro refinado” (tashit lero’shô ‘ateret paz). Esse é o vislumbre da vitória de Davi sobre seus inimigos e o reconhecimento público da sua entronização sobre Israel, tudo isso efetivado pelo Senhor. A terceira ação é produzir alegria. Depois de os vv.4,5 corroborarem a visão das benesses de Deus sobre o rei, o v.6 explica que as “bênçãos de bondade” não foram dadas de modo transitório. Davi está extasiado diante do Senhor “pois lhe preparaste bênçãos perpétuas” (kî-teshitehû berakôt la‘ad). “Bênçãos sem fim” também é uma tradução possível para a expressão usada pelo salmista. Deus não foi parcimonioso com seu servo. Resolveu abençoá- lo e nada vai mudar tal desejo ou a aplicação da soberania divina. O resultado de uma ação desse porte é a resposta alegre de Davi. Na verdade, as bênçãos de Deus aqui descritas produzem, por si só, tal alegria. Portanto, Davi completa: “Encheste-lhe de alegria com a tua presença” (tehaddehû besimhâ ’et-paneyka). A quarta ação de Deus que gera louvores é fortalecer os servos. Sempre que se fala de Davi, seja como rei, seja como salmista, seja como refugiado, precisa-se apontar sua constância como servo de Deus. Ele não era uma pessoa que agia de um modo quando tudo ia bem e de outro quando as coisas ficavam difíceis. Sua constância estava embasada na constância e na bondade do próprio Deus em quem esperava. Por isso, proclama o salmista (v.7): “O rei, pois, é alguém que confia no Senhor” (kî-hammelek boteah bayhwâ). Se isso é realidade enquanto escreve o salmo, sabe ele que também o será no futuro, pois acrescenta: “E com a fidelidade do Altíssimo ele não falhará” (ûbehesed ‘eleliôn bal-yimmôt). Por fim, a quinta ação é vencer o mal. A confiança de Davi não é sem razão. Depois de andar toda sua vida na presença de Deus, aprendeu sobre o modo de ele agir contra aqueles que lhe são contrários. Assim, os inimigos de Deus, que também eram inimigos do seu servo, seriam alvo da mão punitiva do reto juiz. Na certeza de que mais uma vez tal seria a ação de Deus em seu favor, Davi se alegra desde já dizendo (v.8): “A tua mão cairá sobre todos quantos lhe são hostis; a tua destra atingirá aqueles que te odeiam” (timtsa’ yodkâ lekol-’oyebyeka yemîneka timtsa’ sone’eyka). Assim, tantos os “maus” como o “mal” que produzem encontrarão um fim nas mãos punitivas do santo Deus. Não é pouco o que fez o Senhor por Davi para produzir nele todo o louvor e gratidão demonstrados nesse salmo. Na verdade, nem é pouco o que o Senhor tem feito pelos seus servos, incluindo a nós mesmos. O problema, muitas vezes, longe de estar nas mãos do Senhor, está nos olhos dos servos que deixam passar despercebidas atuações divinas tão grandiosas como essas. Quando os olhos dos servos, desprovidos de confiança e esperança, voltam-se apenas para as circunstâncias e dificuldades da vida e se afastam da bondade do Soberano, a benesse do Senhor não é notada. Isso cria crentes lamuriosos e descontentes. Contudo, basta notar o que Deus tem feito e sido para seu povo. Basta ver o modo como responde suas orações, como age com bondade para com eles, a alegria que sua presença lhes causa quando mantêm comunhão, o modo como os fortalece e como os livra do mal. Essa observação produzirá, certamente, em todos nós que já entregamos a vida a Cristo e que pertencemos ao Senhor da igreja, a mesma conclusão (v.13) com a qual Davi encerrou o Salmo 21: “Cantemos e façamos músicas sobre a tua força” (nashîrâ ûnezammerâ gebûrateka). Em outras palavras, “louvemos e sejamos gratos ao nosso santo Deus”. SALMO 22 Quando o Rei se Faz Servo Recentemente, assisti ao filme 300, que conta a história real de uma parte da resistência grega à invasão medo-persa na Segunda Guerra Médica (século 5 a.C.). Por mais que o filme contenha cenas exageradas, a história é real. Em meados do ano 480 a.C., Leônidas I, rei de Esparta, liderou cerca de 7 mil soldados gregos, dos quais apenas trezentos eram espartanos, contra o inumerável exército de Xerxes I, também conhecido como Artaxerxes no livro de Esdras – apesar de alguns estudiosos o identificarem com o Assuero do livro de Ester. Não obstante o sucesso em repelir os ataques iniciais dos persas, a descoberta de um caminho que possibilitou ao exército de Xerxes cercar os gregos fez restar, na resistência final, apenas o rei Leônidas, seus trezentos soldados espartanos e alguns tebanos e tespienses que se recusaram a se retirar. O morticínio, obviamente, foi completo. Mesmo com a derrota, essa história é um marco inspirador na história grega e – por que não? – na história da humanidade. O compromisso daqueles homens com seu país e sua obediência às leis foram tão impressionantes que fizeram jus aos dizeres do poeta Simônides de Ceos grafados em um monumento em homenagem aos trezentos: “Estrangeiro, vá contar aos espartanos que jazemos aqui em obediência às suas normas”. Entretanto, o que mais me impressiona é o fato de um rei, sem quaisquer chances reais de vitória, ter lutado e se sacrificado como um soldado comum. Não é sempre que vemos reis à frente dos seus soldados. Não é sempre que vemos reis servindo seu povo até o último suspiro de vida. Felizmente, esse não é o único exemplo de um rei que se fez servo e deu a vida para defender seu povo. O Salmo 22 prenunciou atitudes reais de outro rei que se fez servo. Não me refiro a Davi, autor do salmo. É certo que ele escreveu a respeito da sua realidade no salmo em questão. Assim como em outros cânticos que compôs, ele apresenta a Deus sua situação de desespero (vv.1,2), sua confiança no Senhor (vv.3-5), a consciência da sua condição humana limitada (vv.6-8), sua dependência de Deus (vv.9-11), sua queixa contra a perseguição dos inimigos (vv.12-18), o clamor a Deus por livramento (vv.19-21) e a exaltação do Libertador (vv.22-31). Contudo, o Espírito Santo de Deus, autor último das Escrituras (2Tm 3.16; 2Pe 1.21), parece ter revelado, por meio de Davi, no seu salmo de clamor por socorro, realidades da vida e da obra de outro rei. O Novo Testamento mostra que tal rei, o Messias, mais ainda que o rei de Esparta, agiria como um servo para seu povo. O salmo inicia com o primeiro traço da obra do Messias contido no texto que é o fato de que ele foi alvo do juízo divino em lugar dos pecadores. O v.1 diz: “Meu Deus, meu Deus, por que tu me abandonaste?” (’elî ’elî lamâ ‘azavtanî). Essas palavras foram ditas na cruz por Jesus, o Messias, por volta das três horas da tarde, ou seja, poucos minutos antes de morrer (Mt 27.46; Mc 15.34). A Bíblia explica que sua morte não foi um acidente de percurso ou um efeito colateral de um plano maltraçado. Jesusdeliberadamente deu sua vida (Jo 10.18). O motivo foi salvar aqueles que creem em seu nome (Jo 3.16; 1Jo 3.16). Para isso, teve de trocar de lugar com aqueles que ia salvar assumindo sua condenação (1Pe 3.18 cf. Gl 3.13,14). Ele serviu seus amados dando a vida por eles e se tornando o objeto do juízo de Deus sobre os pecados dos eleitos. O v.16 completa: “Como faz um leão, perfuraram minhas mãos e meus pés” (ka’arî yaday weraglay). Diante de uma frase como essa, não é possível esquecer do que disse Isaías: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Is 53.5). O segundo traço da obra servil do Messias é que ele foi um homem de condição humilde e destituída de glória. O v.6 pinta um quadro nada glamoroso ao dizer: “Vergonha da humanidade e desprezado do povo” (herpat ’adam ûbezûy ‘am). O profeta Isaías, ao falar do Messias, a quem costuma chamar de “servo de Deus”, escreve, em um dos capítulos mais conhecidos do seu livro: “Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso” (Is 53.2,3). Ao contrário do que todos poderiam esperar, Jesus não exibiu externamente em seu corpo a glória da sua divindade. Foi um trabalhador braçal – um carpinteiro – até o início do seu ministério. As pessoas o olhavam e viam apenas uma pessoa simples, sem nada a ser honrado ou admirado. Em terceiro lugar, ele foi zombado e tratado com desprezo. O v.7 traz uma cena que entristece nosso coração ao lembrar o que Jesus passou enquanto, pregado à cruz, aguardava a morte. O salmista escreveu: “Todos aqueles que me veem caçoam de mim” (kol-ro‘ay yali‘gû lî). É o retrato de uma turba zombando e se mostrando ao desprezado. O texto continua: “Eles meneiam a cabeça” (yanî‘û ro’sh). Trata-se não apenas de uma atitude irreverente e desrespeitosa, mas de uma demonstração maldosa de desprezo com a intenção de causar sofrimento e vergonha. O v.8 completa o quadro: “Recorra ao Senhor! Ele o livrará! Ele o salvará, pois se compraz nele!” (gol ’el-yehwâ yepalletehû yattsîlehû kî hapets bô). Longe de serem palavras de encorajamento, trata-se de pura zombaria contra alguém aparentemente indefeso. O que foi dito nos vv.7,8 se cumpriu literalmente, em meio a gargalhadas, durante a permanência de Jesus na cruz (Mt 27.39,43). Em quarto lugar, Jesus foi perseguido na sua infância. Herodes, rei de Israel, ao saber do nascimento de Jesus, ordenou a morte de todas as crianças com menos de dois anos que viviam na cidade de Belém (Mt 2.1-12,16-18). Jesus teria sido vítima de tamanha crueldade se Deus, por meio de um anjo que apareceu a José, não tivesse tirado Jesus de Belém a tempo, enviando-o para a terra do Egito (Mt 2.13-15), o que o fez sofrer, ainda infante, o exílio da sua terra natal. Tal acontecimento se deixa prever nas palavras do salmista (v.9): “Conduziu-me em segurança no colo da minha mãe” (mavtîhî ‘al-shedê ’immî). O quinto traço da obra de Jesus é que ele foi espoliado e seus bens foram repartidos. No v.18, escreve o salmista: “Eles repartem as minhas vestes entre si e jogam pela a minha túnica” (yehalleqû begaday lahem we‘al-lebûshî yaffîlû gôral), mais uma peculiaridade cumprida perfeitamente na crucificação por meio dos soldados romanos que, tomando as roupas de Jesus – os condenados eram crucificados nus –, fizeram exatamente o que o Salmo 22, escrito mais de mil anos antes, descreveu (Jo 19.23,24). Jesus, Deus eterno (Jo 1.1), sabia que cada um desses fatores era necessário para o cumprimento do propósito de salvar seu povo, sua igreja. E assim o fez, com a atitude real de um servo – ou, com a atitude servil de um rei. Um rei que assumiu uma carga que não exigiu de seus súditos. Um rei que, apesar da glória, morreu para salvar e proteger seu povo de quem, mesmo ultrajado na cruz, não se envergonhou. Um rei que, em lugar de ser servido, serviu aos que ama. Diante de tão grande desprendimento do rei Jesus, cabe agora à igreja, beneficiada por sua morte, manter viva a proclamação da mensagem do rei eterno, salvador dos que nele creem e confiam. Cabe também a ela manter o testemunho de vida compatível com a grandeza e a santidade do seu soberano, sem nunca se envergonhar dele ou do seu evangelho. E se o mundo, com sua falsa sabedoria e tola arrogância, quiser tirar da igreja suas convicções e responsabilidades, os súditos daquele que os salvou devem se unir e, com a coragem e a ousadia dadas pelo Espírito Santo, devem bradar o mesmo que está escrito sob uma estátua de Leônidas I, na Grécia, que é o registro em pedra do que respondeu ele à ordem persa de entregar suas armas: “Venham tomá-las!”. SALMO 23 O Pastor e Suas Ovelhas Lembro-me, em meio a risos, de certa vez que fui a uma pizzaria de uma cidade pequena. Olhei o cardápio enquanto a atendente me observava. Decidi, finalmente, e pedi uma pizza portuguesa. A atendente me respondeu que seria impossível atender ao meu pedido porque eles não tinham ovo. Então, pedi sem ovo. Mas, segundo ela, também não tinham presunto. Corri, novamente, os olhos pelo cardápio e escolhi uma pizza de calabresa, a qual, a ouvi dizer, estava em falta. Sem olhar o cardápio, daí para frente, fui pedindo outros sabores: pedi frango com Catupiry – não tinha frango –, champignon – também não – e muzarela – só tinham queijo prato. Numa iniciativa pra lá de prática, perguntei, então, que tipo de pizza eles poderiam fazer, disposto a pedir qualquer uma cujo pedido pudesse ser atendido. A surpreendente resposta foi: “Nenhuma! Hoje não temos massa”. Fiquei olhando para a moça, calado, sem saber como reagir a essa informação. As perguntas que corriam por minha mente eram, em primeiro lugar, “por que ela não me disse isso logo no início, em vez de me deixar pedir sabor após sabor?”; e: “Como pode uma pizzaria que está aberta não ter nenhum ingrediente para fazer pizzas?”. Bem, não comi pizza naquela noite, mas ganhei uma história curiosa para contar. Em contraposição a essa incabível falta de ingredientes, o rei Davi falou sobre uma fonte onde nada falta. O Salmo 23 é uma declaração da confiança irrestrita do salmista no Deus eterno a quem nada pode limitar. Trata-se de um Senhor que nunca age com infidelidade ou indiferença para com os que lhe pertencem. Se o salmo inteiro não é conhecido de todos, o trecho “o Senhor é meu pastor e nada me faltará” é um dos versículos mais conhecidos do Antigo Testamento e de toda a Bíblia. Mesmo muito conhecido, o salmo nem sempre é corretamente compreendido. Para tanto, é preciso entender o seu contexto, ou seja, o momento pelo qual Davi estava passando. Se o início do salmo é um tipo de metáfora na qual Deus é descrito como um pastor e o salmista como uma ovelha, o v.5 deixa escapar um pedacinho da realidade do escritor: “Tu preparas uma mesa diante da minha face à vista dos meus inimigos; unges com perfume a minha cabeça; minha taça está cheia” (ta‘arok lefanay shulhan neged tsoreray disshanta basshemen ro’shî kôsî rewayâ). Dois fatores nos são acessíveis diante desses dizeres. Em primeiro lugar, Davi sofria com a perseguição dos inimigos e com os riscos advindos dela. Depois, ele confiava plenamente no fato de que o Senhor o livraria dos inimigos e tornaria pública sua atuação favorável ao servo. Deus, a seu tempo, também o honraria como rei diante do povo com todos os privilégios que acompanham o cargo. Compreendendo o contexto, é possível, então, perceber a confiança de Davi por meio da comparação do cuidado de Deus em relação ao seu povo com o cuidado de um pastor em relação às suas ovelhas. Nesse sentido, cinco ações de um pastor representam as próprias bondade e proteção divinas que Davi esperava receber, motivo pelo qual declara (v.1): “O Senhor é meu pastor, não terei necessidades” (yehwâ ro‘î lo’ ’ehsar). A primeira ação é alimentar as ovelhas. Falando de Deus como pastor (v.2),diz o salmista que “ele me faz deitar em pastagens de erva verde” (bin’ôt deshe’ yarbîtsenî). Essa é uma figura muito representativa do trato de ovelhas. Elas se alimentando de ervas nutritivas e gostosas, fáceis de serem arrancadas e deglutidas. Podemos até brincar dizendo que é o sonho de toda ovelha. Representa muito bem o alimento dado por Deus aos crentes por meio da sua Palavra (Hb 5.12-14), a qual nos fortalece para a jornada cristã e nos dá o prazer de conhecer melhor nosso redentor e sua vontade para seu povo. A segunda ação é conduzir com segurança. Ainda no v.2, Davi escreve: “Ele me leva a fontes tranquilas” (‘al-mê menûhot yenahalenî). Considerando que algumas regiões de Israel são montanhosas, onde há rios cujas águas correm mais rápido que as águas de rios de planície, uma das responsabilidades do bom pastor era levar suas ovelhas aonde as águas não fossem do tipo “corredeiras”. Essa necessidade vem do fato de as ovelhas terem uma pelagem densa e farta que, quando molhada, aumenta o seu peso até ao ponto em que ela não possa se sustentar na correnteza e afunde para a morte. Assim, essa tarefa pastoril é relativa ao cuidado do Senhor com suas ovelhas ao lhes alertar sobre o pecado e suas consequências (Tg 1.15) a fim de que fujam daquilo que certamente lhes causará mal. A terceira é produzir descanso. O v.3, em uma das duas possíveis traduções, diz: “Ele devolve as forças à minha alma” (nafshî yeshôvev). Uma segunda tradução possível, cujo sentido é também verdadeiro, é: “Ele reconduz minha alma” – no sentido de produzir arrependimento no pecador. Essa tradução se encaixaria na figura do pastor buscando a ovelha desgarrada, mas, dada a sequência natural do texto, o sentido mais provável parece recair sobre o descanso, ou o refrigério. De qualquer modo, as duas possibilidades são verdadeiras. Deus tanto dá descanso ao filho cansado, sobrecarregado e oprimido (Mt 11.28), como corrige o filho que se desviou (Hb 12.5-11). A quarta é guiar por caminhos corretos. Ainda no v.3, o salmista declara: “Ele me guia no trilho da justiça por causa do seu nome” (yanhenî bema‘gelê- tsedeq lema‘an shemô). Fica claro que o sentido figurado do pastor e das ovelhas começa a perder um pouco seu enfoque para dar lugar às ações, de fato, de Deus para com seus filhos. Os servos de Deus, como suas ovelhas, têm, diante de si, um caminho moralmente justo e compatível com o santo nome de Deus. Sua preocupação, diferente da das ovelhas, não é apenas ir para onde haja comida e água, mas fazer o que é moralmente correto. E nesse sentido, Deus, o bom pastor dos que creem, não apenas aponta o caminho da justiça, mas guia o seu rebanho para lá (Mt 2.6). A quinta ação é dar verdadeiro consolo. Diz o v.4, texto também muito conhecido e citado: “Até mesmo quando eu andar no vale da escuridão, não temerei mal algum, pois tu estás junto a mim” (gam kî-’elek begê’ tsalmawet lo’-’îra’ ra‘ kî-’attâ ‘immadî). Essa é uma declaração muito encorajadora. Entretanto, podemos nos perguntar o porquê de ele não ter medo. Será que a presença de Deus o livraria de todo mal? Bem, essa esperança, por parte do salmista, está presente no Salmo 23, mas não no v.4. Nesse caso, o motivo dado pelo escritor para sua ausência de temor é baseada em mais algumas figuras pastoris: “O teu bordão e o teu cajado, ambos, me consolam” (shivteka ûmish‘anteka hemmâ yenahamunî). Deus, em lugar de livrar total e imediatamente, trabalha com seus servos “tranqüilizando-os”, enquanto os guia e protege. É uma ação maravilhosa e surpreendente que não se aplica na situação, mas acima dela (Jo 14.27; 16.33). Não é de surpreender que Davi termine o salmo dizendo: “Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida” (’k tov wahesed yirdefûnî kol-yemê hayyay). Se o Senhor era o pastor de Davi, é também o pastor de todos aqueles que creem em Jesus. Nosso salvador disse certa vez: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10.11). Como tal, disse que deu sua vida pelas ovelhas. É um pastor verdadeiro que ama como ninguém as suas ovelhas. Foi esse pastor que nos redimiu e nos libertou do pecado por sua morte. A partir de então, ele promove todo bem, proteção e direção que precisamos. Ele não se esquece de nada, nem fica ocupado demais para cuidar de nós. Assim, podemos repetir, com toda certeza, a famosa frase que até criancinhas sabem de cor: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. SALMO 24 Quem Tem Direito de Estar com Deus? Há muito tempo não existem bons programas humorísticos na televisão como havia em meus tempos de criança. Hoje, os programas são apelativos e imorais, além de deixarem o humor completamente de fora. Para sanar esse vácuo, gosto de assistir àqueles concursos musicais em sua fase inicial. Diferente das fases seguintes, qualquer pessoa pode participar, tendo ela muita, pouca ou absolutamente nenhuma noção de música. Nesse aspecto, o programa passa a ser muito engraçado devido a apresentações emblemáticas de participantes que nunca serão cantores na vida. O interessante é que muita gente vai lá, munida de extremo bom humor, somente para fazer apresentações estranhas e rir depois com os amigos. É aquela história dos “quinze minutos de fama”. Contudo, o que me deixa espantado são as reações de alguns candidatos que, após apresentações “horríveis”, ficam surpresos ao serem rejeitados pelos jurados. Alguns reclamam, choram, dizem não saber o motivo da reprovação e atacam os jurados como se fossem pessoas injustas ou como se desconhecessem a boa música. Nisso, o que me choca é o fato de tais candidatos realmente se acharem no direito de serem aprovados, apesar da total ausência de senso e de talento musical. Infelizmente, esse não é o único campo em que falta noção aos homens. Muita gente, longe dos palcos musicais, se acha no direito de ter acesso a Deus sem antes ser tratada pela sua graça e pela sua Palavra. Quase todos já ouviram pessoas defendendo seu direito ao céu por serem pessoas boas – as obras são as bases desse tipo de defesa e não a graça de Deus. Para esses, o fato de nunca terem matado ou roubado ninguém lhes dá livre acesso à presença de Deus. Outros defendem o mesmo direito com base na suposta disposição de Deus de dar um “jeitinho” para que ninguém seja rejeitado. Alguns até dizem que “Deus é brasileiro”. Nenhuma afirmação está mais distante da verdade. O Salmo 24, escrito por Davi, oferece alguns parâmetros para reconhecer aqueles que terão acesso a Deus enquanto outros serão rejeitados. Uma pergunta chave levantada pelo salmo é (v.3): “Quem subirá ao monte do Senhor e quem permanecerá no seu lugar santo?” (mî-ya‘aleh behar-yehwâ ûmî-yaqûm bimqôm qadshô). A pergunta vislumbra a cidade de Jerusalém – onde está o Monte Sião – (“monte do Senhor”) e o tabernáculo construído por Davi (“seu lugar santo”) ao trazer de volta a arca do seu exílio, primeiro entre os filisteus e, depois, em Quiriate-Jearim (2Sm 6 cf. 1Sm 6.21). Entretanto, é bem provável que o salmista tivesse em mente menos a geografia que o contato do adorador com seu Senhor. Desse modo, a pergunta não é sobre quem pode chegar a Jerusalém, mas sobre quem pode permanecer na presença de Deus. Segundo se depreende do salmo, aqueles que se relacionam com Deus e estarão para sempre com ele têm pelo menos três características inegociáveis. A primeira é que são conscientes da supremacia divina (vv.1,2). O salmista inicia seu cântico dizendo (v.1): “Do Senhor é a terra e tudo o que existe nela” (layhwâ ha’arets ûmelô’ah). O Senhor, como Criador do universo, é também o proprietário da criação. Isso lhe confere um posto singular, não apenas como Deus no sentido religioso, mas também como o Senhor de tudo que envolve o dia a dia da criação, pois tudo é dele. Antes que alguém pense que isso tem a ver apenas com a natureza e não com a humanidade, Davi completa: “O mundo e seus habitantes” (tebel weyoshebê). Assim, não há quem não esteja sob o domínio e a soberania do Senhor, de modo que possa, Deus, dispor de tudo e de todos como bem lhe parecer (Rm 9.20,21,Ef 1.5). O verdadeiro adorador do Senhor sabe dessa supremacia sobre tudo e se submete, não compulsoriamente, mas de coração como fazem os servos. Ele se deixa guiar por aquele que, por direito, o possui. Trata-se de alguém que é, em tudo, influenciado por Deus e que lhe tem como Senhor, de fato, nos mínimos detalhes da sua vida. A segunda é serem santificados pelo Senhor (vv.3-6). A santificação – separação gradual e progressiva dos pecados e da mentalidade mundana – é um fator presente na vida dos que permanecerão diante do Senhor (Hb 12.14). Apesar de a Bíblia demonstrar que as obras não podem salvar o homem (Rm 3.20; Ef 2.9) e que a purificação do crente vem mediante a atuação de Deus (Jo 17.17), o salmista olha para a demonstração externa da santificação como uma evidência da efetiva preparação para levar o servo ao seu Senhor. Diz ele (v.4), respondendo à pergunta do v.3: “O de mãos puras e de coração limpo” (̃neqî caffayim ûbar-levav). Isso significa que a santificação daqueles que são alvo dessa graça divina muda suas ações – “mãos puras” – e, também, suas intenções – “coração limpo”. Além disso, o que Deus inicia na justificação completará na glorificação (Rm 8.30), pois, conforme declara o salmista (v.5), “esse levará consigo a bênção do Senhor e a justiça do Deus da sua salvação” (yissa’ berakâ me’et yehwâ ûtsedaqâ me’elohê yishô‘). Portanto, o que Deus iniciou nesta vida será também realidade no futuro dos servos santificados pelo seu Senhor. A terceira característica é que eles são súditos do Rei da glória (vv.7-10). O v.7 anuncia, de um modo peculiar que transmite a ideia de um acontecimento glorioso, a vinda de quem ele chama de “o Rei da glória” (melek hakkavôd). Trata-se de uma menção ao Messias que vem para reinar; aquele que, segundo o v.8, é “o Senhor valoroso e poderoso; o Senhor poderoso de guerra” (yehwâ ‘izzûz wegibôr yehwâ gibôr milhamâ). O Deus dos exércitos (Sl 59.5) é aquele que irá reinar, a quem Davi aguarda. O salmista e todos aqueles que são servos desse supremo Senhor agem, portanto, como seus súditos. Isso significa honrá-lo como governante máximo, respeitando e reverenciando seu nome, e, também, dando a ele o melhor de tudo. Não dá para ser súdito desse rei honrando-o apenas com o que sobra. Ele tem prioridade na vida dos seus vassalos. O melhor do seu tempo, da sua força, dos seus esforços e do seu amor deve ser empregado a serviço do Rei dos reis. Tais são as características daqueles que, respondendo à pergunta do v.3, “subirão ao monte do Senhor e permanecerão no seu lugar santo”. A presença de Deus não está aberta a qualquer um que queira, mas àqueles que sabem quem Deus é – e creem nele assim como se revelou –, que são santificados pela fé nele e que são súditos fiéis do maravilhoso Rei. Por isso, decreta o escritor do salmo (v.6): “Este é o que o busca, aquele que procura a presença do Deus de Jacó” (zeh dôr dôreshô mebaqshê paneyka [’elohê] ya‘aqov). O Salmo 24 é muito bom para avaliarmos o tipo de relacionamento que temos com Deus e, principalmente, se estamos entre aqueles que comparecerão e permanecerão na presença de Deus com todos os benefícios de se estar lá. Aqueles que podem responder positivamente ao questionamento do salmista devem, cada vez mais, aprimorar as características descritas no salmo. Contudo, aqueles de cuja resposta se tem um “não”, devem, imediatamente, se submeter pela fé ao “Rei da glória” pedindo perdão por seus pecados e entregando a ele suas vidas. Caso contrário, serão como aqueles “cantores de chuveiro” que, achando que merecem ser ídolos, reclamarão pelo resto da sua existência que foram injustiçados por alguém que não entende de música. SALMO 25 Pedidos a Serem Feitos ao Senhor Conheço um rapaz com quem sair para jantar é, às vezes, divertido e, outras vezes, enervante. Isso se deve ao modo como ele faz seus pedidos ao garçom. Enquanto todos à mesa, depois de examinarem o cardápio, fazem seu pedido da maneira mais simples possível, essa pessoa a que me refiro pede, não somente pratos, mas detalhes que nenhum chef jamais imaginou. Os outros pedem um “filé ao ponto”. Porém, o pedido do meu amigo é mais ou menos assim: “Quero um “filé ao ponto... desde que não haja diferença entre a quantidade de fritura entre os lados da carne... A cebola, em vez de frita com azeite, quero-a frita na manteiga... manteiga sem sal... sirva- a separada e não sobre a carne... A salada não deve tocar o filé e o molho deve vir à parte... por falar em salada, quero que ela seja rasgada com as mãos e não cortada com faca... assim está bom, gosto de uma comida simples”. Esse é o gosto do meu amigo, mas – “cá para nós” – são exigências dispensáveis em um bom e gostoso pedaço de carne bem macia e temperada, frita com a experiência de um bom cozinheiro. Bem, longe de fazer pedidos irrelevantes, o rei Davi, no Salmo 25, pediu a Deus bênçãos da maior importância para a vida dos seus servos. Pedidos que devem ser repetidos por tantos quantos andam ao lado daquele que, pela graça, os salvou. Tais pedidos podem ser identificados, no salmo, pela forma dos verbos que o salmista utilizou. A forma imperativa do verbo serve para aplicar uma ordem que pode ser dirigida a uma pessoa, a um grupo e até a si mesmo. Quando a ordem é para outra pessoa – a segunda pessoa do singular ou do plural – chamamos tal forma, na gramática hebraica, de jussivo. Ela representa uma ordem a outrem, ou um pedido – este é o caso do salmista quando se dirige, desse modo, a Deus. Assim, identificando os jussivos no salmo, identificamos, também, alguns dos importantes pedidos pelos quais o rei Davi costumava clamar em suas orações. Há pelo menos cinco clamores feitos pelo salmista. O primeiro clamor é por ensino. Nos vv.4,5, o salmista é insistente, ou enfático – utiliza quatro jussivos –, em sua oração a Deus a fim de ser ensinado por ele: “Faz-me conhecer os teus caminhos, ó Senhor; ensina-me os teus trajetos; instrua-me na tua verdade e me ensina” (derakeyka yehwâ hôdî‘enî ’orehôteyka lammedenî hadrîkenî ba’amitteka welammedenî). Quando o salmista usa os termos “caminhos” e “trajetos” é óbvio que não tem em mente a geografia. Esses são modos de se referir aos ensinos de Deus sobre como seus servos devem agir. O fato de estarem no plural demonstra que se trata de várias orientações, às quais o salmista deseja atender, pelo que também ora a Deus. Por sua vez, a ocorrência do termo “verdade” na forma singular, contrastando com os plurais precedentes, demonstra que o salmista almeja andar de conformidade com o caráter de Deus que é bem definido e imutável. O segundo clamor do salmista é por relacionamento. Os três jussivos de Davi nos vv.6,7 apontam para a memória de Deus. Contudo, o salmista tem plena consciência de que não há nada que o Senhor não saiba. Não é possível lembrar Deus de algo que lhe tenha escapado ou vê-lo esquecer qualquer coisa (Sl 139). Assim, quando Davi pede que o Senhor se lembre de algumas coisas e não se lembre de outras, sua intenção não é a memória de Deus, mas o modo de o Senhor se relacionar com ele diante das realidades da misericórdia divina e do pecado do homem. Ele escreve: “Lembra-te da tua compaixão, ó Senhor, e da tua misericórdia, pois elas existem desde a eternidade; não te lembres dos pecados da minha juventude, nem das minhas transgressões; conforme a tua misericórdia, lembra-te de mim por causa da tua bondade, ó Senhor” (zekor-rahameyka yehwâ wahasadeyka kî me‘ôlam hemmâ hatto’ôt ne‘ûray ûpesha‘ay ’al-tizkor kehasdeka zekar-lî-’attâ lema‘an tubeka yehwâ). Davi pede que Deus, valorizando seus atributos de bondade e compaixão e perdoando o seu pecado, venha a agir com ele de modo favorável e paternal. O resultado final da aplicação da misericórdia do Senhor para com o servo falho é a manutenção de um bom relacionamento com ele. O terceiro é por consolo. Nesse ponto (vv.16,17), Davi apresenta suas aflições a Deus e pede que o alivie delas. Contudo, ao fazer suas solicitações, parece que Davi tem menos em mente os problemasem si que o modo como elas o estão afetando. Por isso, ainda que deseje ver o fim das oposições e perseguições, seu pedido a Deus é ser consolado da tristeza, solidão e desânimo. O efeito de tais sofrimentos é descrito no início do v.17: “Eles alargaram a aflição do meu coração” (tsarôt levavî hirhîvû). Assim, a primeira cláusula desse pedido de Davi é (v.16): “Volta-te para mim e me tenha piedade, pois eu estou solitário e aflito” (peheh-’elay wehonnenî kî-yahîd we‘anî ’anî). Davi expressa o que vem sentindo devido às circunstâncias. Sente-se sozinho, lutando contra todos sem ter com quem contar. Mas, ele olha para Deus, em oração, com a esperança de não se achar desprovido de tal apoio. Por isso, completa seu pedido (v.17b): “Retira-me das minhas angústias” (mimmetsûqôtay hôtsî’enî). O quarto é por perdão. De modo muito interessante, mas nada incomum, os sofrimentos de Davi o levam a refletir sobre seus atos. É possível que perguntasse a si mesmo durante as noites: “Será isso tudo uma disciplina de Deus para me corrigir? Que tenho feito de errado para que Deus me alerte com tais tribulações?”. Tal dedução vem da conexão que Davi faz, no v.18, entre o sofrimento e seu próprio pecado. Davi não diz a Deus algo do tipo “veja o meu pecado e perdoa-o”. Ele diz: “veja o meu sofrimento e o meu cansaço e leva todos os meus pecados” (re’eh ‘onyî wa‘amalî wesa’ lecol- hatto’wtay). Ao dizer “leva meus pecados”, a ideia do salmista é ser perdoado deles, além de ser liberto de seu domínio. Ele pede um auxílio amplo de Deus no tocante às suas faltas. Seus pecados realmente o preocupam. Nenhuma turbulência serve de motivo para Davi descuidar da sua vida espiritual ou para dar desculpas do tipo: “não estou com cabeça para pensar em pecados ou para me arrepender... você não vê como estou sofrendo?”. O último clamor de Davi nesse salmo é por socorro. Ele inicia seu pedido, assim como o anterior, dizendo “veja” (re’eh). Entretanto, seu desejo é que os olhos de Deus repousem, dessa vez, sobre seus inimigos e sobre o mal que lhe têm feito. Ele escreve (v.19): “Veja os meus inimigos, pois são numerosos e me odeiam com um ódio cruel” (re’eh-’ôyevay kî-rabû wesin’at hamas sene’ûnî). Eis o motivo da aflição de Davi: inimigos que, sem limites, o perseguem e querem sua destruição. Assim, depois de o salmista abrir seu coração a Deus dizendo-lhe o que o aflige, faz-lhe o pedido natural diante de uma situação como essa (v.20): “Guarda a minha alma e me proteja” (shomrâ nafshî wehattsîlenî). A expressão “minha alma”, nesse texto, tem a intenção de apontar para todo o salmista. Ele não quer apenas proteção espiritual, mas livramento das mãos dos que o odeiam. Assim, como Davi quer se ver livre dos maus, quer ver, também, Israel desfrutando as bênçãos de Deus longe das tribulações. Para tanto, completa (v.22): “resgata Israel, ó Deus, de todas as suas aflições” (pedeh ’elohîm ’et-yisra’el mikol tsarôtayw). Esses são os pedidos fundamentais que faziam parte das orações de Davi: ensino, relacionamento, consolo, perdão e socorro. São clamores de um homem falho que serve a um Deus magnífico, santo e soberano. Não há ordens; não há orgulho; não há bravatas. Há apenas humildade, submissão, dependência, confiança e desejo de andar com o Senhor. Tais motivações também devem guiar as nossas orações, além das nossas atitudes e escolhas durante toda a vida. Que outras preocupações deveríamos ter? Que outros anseios? O que seria mais importante que tais coisas para a nossa vida? Acaso, seria o modo de servir o molho da nossa salada? SALMO 26 Como Deve o Justo Andar Na minha adolescência, meu esporte favorito era o voleibol. Durante oito anos me dediquei ao máximo a fim de defender minha cidade nas quadras da região. Ainda tenho em casa algumas medalhas que, para mim, foram muito significativas e que, por isso, guardo-as com muito carinho. Guardo também as recordações de vitórias e derrotas que me ensinaram e me prepararam para as lutas da vida, onde também venço e perco constantemente. Olhando para trás, lembro-me de quão dedicado eu era e quão decidido no meio dos jogos. Nos momentos mais complicados, eu me enchia de coragem e de um brio de guerreiro e pedia – às vezes “ordenava” – que passassem a bola para mim para eu decidir o ponto. Em uma dessas ocasiões, meu time jogava uma partida amistosa de cinco sets corridos contra o campeão paulista daquele ano. Já tínhamos perdido três sets por placares ridículos. Estávamos “tomando uma surra”. No quarto set, quando faltava apenas um ponto para perdermos, fui para o saque e comecei a forçá-lo até ao limite. Era arriscado, mas eu não queria perder todos os sets da partida. O risco era grande, mas minha confiança vinha de saber o quanto eu treinava aquele saque e como ele me ajudou em outras ocasiões importantes. Vencemos aquele set e, ao perder o próximo, já não me senti derrotado, mas como quem conseguiu algo impossível. Davi também foi confiante em algumas ocasiões muito complicadas. O Salmo 26 não apenas demonstra a confiança do seu escritor, mas os motivos pelo qual ele confiava que podia recorrer a Deus quando homens injustos queriam fazer-lhe mal. Não que imaginasse que ele mesmo fosse perfeito ou que nunca cometesse erros. Davi conhecia bem suas fraquezas (Sl 51). Mas também conhecia seu amor pelo Senhor e seu esforço por obedecê-lo e viver de modo agradável a Deus. Baseado no seu modo de proceder, o salmista tem a confiança de pedir a Deus que compare sua vida com a de seus inimigos e, assim, lhe faça justiça. Enquanto vemos por aí homens corruptos e culpados nunca denunciarem crimes de outros para não serem, também, acusados, Davi apresenta a Deus sua vida para ser analisada. É possível, a partir de então, notar como deve andar um homem de procedimento justo. Por isso, assim começa o salmo (v.1): “Faze-me justiça, Senhor, pois eu procedi honradamente” (shoftenî yehwâ kî-’anî betummî halaktî). A confiança de Davi na obediência que tem a Deus lhe possibilita oferecer seu “coração” e seus “pensamentos” para ser escrutinado pelo Senhor (v.2). Sabendo que Deus bem conhece seu interior, Davi passa a apresentar a manifestação externa do seu íntimo, atos de um homem justo. Em primeiro lugar, Davi afirma ser um homem munido de lealdade. A palavra hebraica hesed tem muitas traduções que vão de misericórdia e benignidade até amor e fidelidade. Normalmente, o contexto oferece indícios do que o escritor tinha em mente quando utilizou a palavra. Nesse caso, Davi a associa à “verdade” (’emet). Desse modo, uma tradução coerente do v.3 é: “Pois a tua fidelidade está diante dos meus olhos e procedi na tua verdade” (kî-hesedka leneged ‘eynay wehithallaktî ba’amiteka). Dizer “tua fidelidade está diante dos meus olhos” significa que Davi tem em mente o tempo todo o caráter leal de Deus e, assim, o imita. Ele não é alguém em quem não se pode confiar. Não é uma pessoa de duas palavras. O que ele diz é verdade. O que ele promete, também cumpre. Davi apresenta mais uma qualidade justa do seu procedimento: a integridade. Segundo o que ele conta, não se deixou corromper pelas más companhias, nem pelos seus hábitos vergonhosos (v.4): “Não me assento com homens mentirosos, nem me acerco daqueles que agem às ocultas” (lo’- yashavtî ‘im-metey-shawe’ we‘im-na‘alamîm lo’ ’abô’). Nenhum homem de princípios questionáveis faz parte do grupo dos amigos de Davi. Ainda que sejam homens divertidos e poderosos, sua amizade não é mais importante para o rei que a comunhão que tem com Deus. Quando uma companhia exclui a outra e o salmista tem de escolher, ele não tem dúvidas em rejeitar os homens mundanos e permanecer na presença de Deus. E isso não se deve apenas à lógica de que não é possível andar com Deus e com os pecadores ao mesmo tempo. A própria integridade de Davi rejeita os hábitos e gostos dos ímpios. Ele não tem qualquer prazer na sua presença. Seus hábitos pecaminosos o incomodam, pelo que afirma (v.5): “Eu detesto a reunião dos perversos e não permaneço com os ímpios” (sane’tî qehal mere‘îmwe‘im- resha‘îm lo’ ’eshev). A próxima característica de Davi a seu favor, diante do escrutínio divino, é a pureza. Ele usa uma figura de linguagem que quer dizer que tem “mãos limpas” (v.6): “Eu lavo minhas mãos na inocência” (’erhats beniqqayôn kapay). Podemos pensar em diversas aplicações para a expressão “mãos limpas”. Entretanto, o próprio escritor descreve o motivo e o resultado dessa realidade: “Portanto, que eu me acerque do teu altar, ó Senhor” (wa’asoveba’ ’et-mitsbahaka yehwâ). O altar de Deus representa, aqui, sua própria presença. Os sacerdotes, a fim de oficiar os sacrifícios no altar de Deus, tinham de se purificar por meio da lavagem das mãos e pés na água que havia em uma bacia de bronze (Ex 30.18-21). Só então podiam se aproximar do altar. Davi se utiliza dessa figura para afirmar que também havia se purificado, certamente não com água, mas por meio do arrependimento que produz perdão, bem diferente daqueles orgulhosos que já se acham justos sem terem de recorrer a Deus (Pv 30.12,13). Por meio da purificação que vem da confissão de pecados a Deus (1Jo 1.9), Davi se sente preparado para se acercar de Deus e do seu santo culto. A última característica justa que confere confiança a Davi de que será beneficiado pela justiça divina é a devoção. Solenemente, Davi proclama (v.8): “Eu amo o Senhor, a habitação da tua casa e o local onde habita a tua glória” (yehwâ ’ahavtî me‘ôn betêka ûmeqôm mishkan kebodeka). O amor de Davi aponta para Deus e para o culto ao seu nome. Ele mostra que não é possível amar a Deus sem desejar prestar-lhe todas as homenagens que merece no local e do modo determinado pelo próprio Deus para esse fim. Se Davi vivesse hoje, certamente não seria daqueles que dizem amar a Deus em suas casas, longe da adoração prestada a Deus pelo seu povo, todos reunidos. Em posse desses procedimentos justos, Davi clama pela justiça de Deus. Ele se coloca sob sua avaliação e pede que ele o livre dos homens maus que não procedem assim. Ele tem confiança de orar a Deus; tem confiança de apresentar a ele a sua vida; tem confiança de pedir-lhe socorro. Por outro lado, quem age com malícia, com desregramento, com irreverência, com rancor e com desdém em relação a Deus e ao seu culto, vive sempre se escondendo: tem medo de orar a Deus e não ser atendido, de pedir justiça e ser ele mesmo disciplinado, de rogar por auxílio e ter de fazer mudanças profundas no seu modo de viver. Qual desses dois é você? Aquele que no jogo da vida cristã pede a bola para que possa definir o resultado ou aquele que se esconde com medo de falhar? SALMO 27 Escondido nos Braços do Pai Quando minha filha era pequena, tinha um modo muito curioso de se comportar. Nunca se arriscava. Descia pequenos degraus se apoiando nas paredes ou em qualquer anteparo que a pudesse proteger de uma queda. Gostava de interagir com animais, porém, à distância, sem se arriscar a tomar uma mordida ou uma picada. Amava correr e brincar nos mais diversos lugares, desde que não estivesse sozinha. Quando comparo tais atitudes com os acidentes e “artes” comuns às crianças, sempre fico intrigado com a cautela da minha filha sem que ninguém a tivesse ensinado. Contudo, apesar de ser cuidadosa ao extremo, desde que estivesse comigo, ela nunca teve medo de fazer coisas que dariam medo nas outras crianças. Bastava eu dizer “confie em mim”. Essa era a senha para que ela fizesse qualquer coisa. A impressão que eu tinha é que, no meu colo, nada a amedrontava, não porque se sentisse poderosa, mas protegida. Não sei qual era a visão que tinha sobre mim, ou quanto poder achava que eu tivesse, mas a confiança que minha filha tinha no pai era ilimitada. Davi não era criança, mas parecia compartilhar com minha filha a confiança inabalável quando estava na presença do pai – não o carnal, mas o Pai celestial. O Salmo 27 não foi escrito em uma situação de paz para o salmista. Como nos salmos precedentes, Davi estava sofrendo por causa da fúria e das tramas dos seus inimigos. Entretanto, o tom que prevalece nesse salmo não é de clamor ou angústia, mas de confiança e ânimo, por incrível que pareça. Todo o salmo se deixa guiar pela disposição demonstrada desde seu início (v.1): “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?” (yehwâ ’ôrî weyish‘î mimmî ’îra’). Segundo Davi (v.2), quando seus inimigos o atacaram, “eles escorregaram e caíram” (hemmâ kashlû wenafalû). Mesmo se a guerra fosse declarada e Jerusalém fosse cercada totalmente, diz Davi (v.3): “Mesmo assim, eu sou confiante” (bezo’t ’anî bôteah). Toda essa confiança não anula, contudo, a oração do salmista. Ele ainda tem anseios e continua tendo petições. Mas elas são de surpreender aqueles que, porventura, não têm uma ligação vital com seu Redentor. O maior desejo de Davi, ao ver-se atacado por pessoas perigosas, é o de estar com Deus. Sabendo do que tramam contra ele, conta ao Pai celestial seu anseio (v.4): “Assentar-me todos os dias da minha vida na casa do Senhor” (shivtî bebêt- yehwâ kol-yemê hayyay). O contexto sugere que Davi, ao dizer “casa do Senhor”, tem em mente o tabernáculo localizado na cidade de Jerusalém. Entretanto, os pedidos de Davi nos indicam que seu interesse maior não era o local em si, mas a presença de Deus. Ele queria se sentir acolhido pelo Senhor. Os motivos de se assentar diariamente na casa do Senhor são expostos: “A fim de contemplar a beleza do Senhor e para refletir no seu templo” (lahazôt beno‘am-yehwâ ûlebaqqer behêkalô). “Contemplar” e “refletir” implicam a ideia da busca de um relacionamento íntimo com Deus. O salmista quer meditar sobre quem Deus é e sentir-se em comunhão com ele. Quer que sua felicidade venha do fato de ser amado pelo Senhor. A preocupação primária de Davi – a contemplação do Senhor – é seguida pelo seu anseio por um refúgio seguro. Tal fortaleza, porém, não consiste de muralhas e de portas robustas, mas da proteção divina. Representando, ainda, a presença de Deus pela figura do tabernáculo (v.5), Davi escreve: “Pois ele me esconderá no tabernáculo no dia mau e me guardará no esconderijo da sua tenda” (kî yitspenenî besukoh beyôm ra‘â yastirenî beseter ’ahalô). Davi não almejava se esconder debaixo das cortinas da tenda, mas debaixo do cuidado do Pai. É possível até imaginar uma criança no colo do pai escondendo seu rosto do problema enquanto o pai o protege, consola e o “esconde” de todo perigo. Essa visão, exposta por Davi, é tão reconfortante que é improvável que os beneficiários de um tratamento tão magnífico não sejam agradecidos à fonte da sua segurança. Se pessoas salvas em incêndios ou em acidentes de carro fazem quase sempre questão de demonstrar sua gratidão aos bombeiros que os resgataram, imagine o desejo de Davi diante da atuação de Deus em seu favor. De maneira quase incontida ele afirma (v.6): “Que eu ofereça, no seu tabernáculo, sacrifícios de alegria; que eu cante e faça músicas ao Senhor” (we’ezbehâ be’ahalô zivhê terû‘â ’ashîrâ wa’azammerâ layhwâ). “Gritos de vitória” é um bom modo de entender o que são os “sacrifícios de alegria” escritos por Davi com a intenção continuar utilizando a figura do tabernáculo para representar sua busca e culto a Deus e, também, a disposição do Senhor de ser encontrado, de proteger e de manter comunhão com o servo. Quem não gostaria de ter o ímpeto de Davi de servir a Deus e adorá-lo com todas as suas forças? Quem pensa assim, normalmente olha para Davi como um “superservo” e se esquece de que ele, pecador como nós, também era guiado por Deus para que assim agisse. Davi conta (v.8) que do seu íntimo surgia um convite divino que lhe apontava o caminho da presença do Senhor: “A teu respeito diz meu coração: ‘Busque a minha face’” (leka ’amar livvî baqshô panay). O ensino do Novo Testamento sobre a atuação do Espírito Santo como guia (Jo 16.13) parece encontrar, nesse texto, a comprovação da ação correspondente no período véterotestamentário. Em resposta ao convite paternal, Davi responde positivamente: “Buscarei a tua face, ó Senhor” (’et- paneyka yehwâ ’avaqesh).Como quem vê o pai segurando as mãos frágeis do filho, ensinando-o a andar passinho após passinho, Davi se sente dirigido por Deus. Os braços do Senhor, na visão do salmista, são tão seguros quanto imutáveis. Não há em Deus apenas poder, mas também constância. Os impulsos, mudanças e desapontamentos que fazem os homens mudarem de atitude uns com os outros não estão presentes na natureza divina. Deus é aquele em quem não há “variação nem sombra de mudança” (Tg 1.17). Por isso, Davi sabe que, ainda que não seja sempre um bom filho, o Senhor nunca o abandonará, nem nas circunstâncias mais extremas. Para expressar essa certeza, ele sugere uma situação realmente extrema que exalta a fidelidade do Senhor (v.10): “Se o meu pai e a minha mãe me desampararem, o Senhor, contudo, me acolherá” (kî ’avî we’immî ‘azavûnî wayhwâ ya’aspenî). Como não nos sentir seguros ao nos escondermos em braços paternos tão poderosos, amáveis, constantes e fiéis? Não é sem motivo que Davi esperava ser cuidado pelo Senhor, em quem se refugiava e se escondia do mal. Davi imagina o contrário e não vê esperanças (v.13): “Que seria se eu não tivesse crido que iria ver a bondade do Senhor na terra dos vivos?” (lûle’ he’emantî lir’ôt betûv-yehwâ be’erets hayyîm). A resposta natural que nós mesmos podemos dar é: “Não haveria esperanças”. Entretanto, a realidade é que temos, ao nosso redor, braços que podem nos tomar como pequenos bebês e nos dar o cuidado necessário. Assim como minha filha, nós também podemos fazer as coisas mais improváveis para pessoas fracas e falhas. Basta lembrarmos que nosso Pai nos estende as mãos e diz: “Confie em mim”. SALMO 28 Um Tratamento Especial Há alguns anos, testemunhei o início da carreira de um político que tinha uma história de luta contra as dificuldades da vida. Em suas primeiras semanas de mandato, flagrei-o carregando arquivos pesados em um posto de saúde e fazendo serviço braçal nas ruas da cidade, de enxada na mão, com a intenção de servir à população – apesar de esses trabalhos serem de responsabilidade dos funcionários da prefeitura e não dele. O fato é que, mesmo inexperiente na vida política, aquele homem, simples no falar e no agir, realmente queria fazer jus ao cargo para o qual foi eleito. Não somente as responsabilidades eram novidades para esse político, mas, também, as prerrogativas. Ele se apresentava em todos os lugares como detentor de um cargo eletivo a fim de ser admirado pelos outros ou tratado com certa deferência. Certa vez, quando alertado por um motorista sobre a possibilidade de ser multado caso fosse pego por um policial sem usar o cinto de segurança do veículo, ele respondeu que não havia problema, pois bastava mostrar sua carteirinha de político para que o agente da lei desistisse de qualquer tipo de punição – o que popularmente chamamos de “carteirada”. É claro que seu cargo não era tão alto assim, de modo que o desejo desse tipo de tratamento diferenciado, principalmente ao infringir a lei, me pareceu até risível. Houve outro detentor de um cargo administrativo que pediu um tratamento diferenciado e o obteve. Fora eleito por Deus para o cargo de rei da nação israelita. Ele, o rei Davi, é o autor do Salmo 28, no qual clama a Deus para ser tratado de um modo peculiar em relação a outro grupo de pessoas. Contudo, ele não pede para receber vantagens em detrimento dos pobres e necessitados. Ele, que possivelmente corria o risco de morrer na mão dos inimigos (vv.1,2), clama a fim de ser tratado de forma diferente daquela que Deus trata os perversos. Ele quer ser alvo da graça e da misericórdia do Senhor, enquanto os ímpios são punidos com justiça. Para tanto, ele apresenta a Deus três modos de agir dos perversos que não eram compartilhados por ele, motivo pelo qual solicita, em humildade, um tratamento diferente. O primeiro modo condenável de agir dos perversos é praticar o mal. Davi escreve (v.3): “Não me arrastes com os ímpios e com aqueles que praticam a iniquidade” (’al-timshekenî ‘im-resha‘îm we‘im-po‘alê ’awen). A palavra hebraica para “iniquidade” (’awen) foi bem escolhida por Davi. Ela produz, na mente do leitor, a ideia não apenas dos atos perversos em si, mas, também, das suas consequências lastimáveis. Tais pessoas, na verdade, são “produtoras de lamentos” nos homens, pois causam dor aos que os cercam. Imagine que Raquel, pouco antes de morrer na sequência do parto de Benjamim, registrou todo seu sofrimento, tanto do parto doloroso como da iminência da morte, no nome do filho a quem chamou inicialmente de ben-’ônî, cujo significado é “o filho do meu lamento”, utilizando a mesma palavra hebraica (Gn 35.18). Davi pede para não receber o tratamento duro que Deus daria a esses homens malévolos. O segundo modo de agir dos perversos é falar falsamente. Davi se refere a eles (v.3) como “aqueles cujas palavras são pacíficas para com seus companheiros” (dovrê shalom ‘im-re‘êhem). Isso parece soar muito bem. Faz-nos imaginar pessoas agradáveis e sorridentes que elogiam e parecem ser favoráveis às pessoas ao redor. Entretanto, essa visão se torna turva e tempestuosa quando Davi, na sequência, contrapondo a primeira impressão, mapeia para os leitores o coração dos perversos: “Mas há maldade no coração deles” (wera‘â bilvavam). A realidade era que, enquanto suas bocas adulavam os ouvintes, seus corações tramavam o mal. Essa é uma atitude muito perigosa para os alvos de tal procedimento, pois, não apenas é difícil criar defesas contra os malvados ataques, como, às vezes, é improvável que se descubram os tais ataques. Trata-se daquela circunstância em que, aquele que é ferido, se senta à mesa com o agressor em plena comunhão aparente. A terceira prática condenável dos perversos é desprezar Deus. O v.5 vislumbra o modo de Deus agir na história e na criação por meio das expressões “os trabalhos do Senhor” (pe‘ullot yehwâ) e “a obra das suas mãos” (ma‘aseh yadayw). Ao ouvir tais frases, recordamos da criação divina de tudo que veio a existir a partir do nada (Gn 1.1; Hb 11.3), do modo como Deus sustenta o universo e cuida do homem (Mt 6.28-34; Hb 1.3) e das coisas que prometeu fazer no futuro (Is 61.11; Ap 22.6,7). Segundo o que descreveu Davi, os perversos não se impressionam com nada disso, visto que diz: “Pois não atinam para os trabalhos do Senhor, nem para as obras das suas mãos” (kî lo’ yabînû ’el- pe‘ullot yehwâ we’el- ma‘aseh yadayw). A grandeza da atuação de Deus não cria neles louvor, temor ou adoração. Eles desprezam os atos de Deus por desprezarem o próprio Deus eterno. O “deus” de tais homens é criado e sustentado por sua própria cobiça. Quanto ao Deus verdadeiro e único, seus corações não têm espaço para ele por ignorarem definitivamente sua revelação, seu caráter e seu poder. Diante dessas três características dos homens maus e do caráter de Davi como servo de Deus, o salmista pede um tratamento especial para o Senhor, diferente do que receberão os ímpios. O resultado de cada tratamento é descrito a fim de encorajar os leitores a servir a Deus em lugar de agirem mal. Segundo o salmista, quanto aos ímpios, “ele [Deus] os demolirá e não os reconstruirá” (yehersem welo’ yivnem). Davi descreve figuradamente, tratando o caso como se fosse uma construção, o fato de que os ímpios receberão uma punição permanente devido a uma decisão sem volta. Por outro lado, a esperança de Davi – e sua oração – é que receba o tratamento próprio daqueles que temem a Deus e esperam, pela fé, em sua bondade (v.8): “O Senhor é a força deles” (yehwâ ‘oz-lamô). O povo de Deus não fica sem amparo, pois ele é o seu defensor. Infelizmente, o que acontece nos dias de Davi acontece hoje também. Há muitos que agem conforme seus maus desejos e acreditam poder convencer Deus do contrário. A arrogância do homem tem feito com que se ache conhecedor de todas as respostas e dominador de todos os segredos. Para ele, Deus faz parte de uma imaginação humana desnecessária para o século 21. Até mesmo em muitas igrejas, o conceito de Deus se deteriorou dando lugar a um tipo de antropocentrismodoentio. Por outro lado, a boa notícia é que, assim como Davi temia e servia ao Senhor, há hoje, também, um grande número de pessoas que, pela fé no salvador Jesus Cristo, foram transformadas, perdoadas, justificadas e abençoadas com a dádiva da vida eterna. Elas servem a Deus e anunciam o evangelho de Jesus Cristo. São dirigidas pela Palavra de Deus e procuram santificar suas vidas à semelhança do seu Senhor. Esses são aqueles que receberão um tratamento diferenciado do Senhor com direito a viver por toda a eternidade ao seu lado. Minha pergunta, diante disso, é uma: você já tem direito ao tratamento especial que Deus dará aos seus filhos por crerem em Jesus, ou você, ao comparecer diante do inevitável tribunal de Deus, pretende ver se pode se dar bem por meio de uma “carteirada”? SALMO 29 O Poder das Palavras de Deus Um fato conhecido da humanidade é a capacidade que as pessoas têm de criticar umas às outras. É claro que nem toda crítica é ruim. Bem ou mal intencionadas, as críticas nos dão oportunidade de fazermos a reavaliação da nossa vida ou das nossas tarefas, tirando-nos daquela zona de conforto da qual, às vezes, não avançamos para um degrau superior no desenvolvimento das nossas habilidades. Mesmo assim, é de causar surpresa o modo como algumas pessoas reagem ao ver o que, normalmente, seria reconhecido nos outros como qualidades e progressos. Charles Haddon Spurgeon, grande pregador da Inglaterra no século 19, contou, certa vez, o caso de um filósofo cínico do mundo antigo chamado Antístenes, discípulo de Sócrates, nascido no século 5 a.C. na cidade de Atenas. Ele, segundo o relato, ao ouvir dizer que Ismênias havia tocado flauta muito bem em certa ocasião, respondeu: “Então, ele não é bom em mais nada, caso contrário, não teria tocado tão bem”. O que dizer disso? Sob esse modo cínico de ver as coisas, alguém que apresenta qualidades em determinada área não é digno de reconhecimento pelo esforço e dedicação, mas de reprimenda por ser inútil em outras tarefas. É claro que isso não deve ser visto desse modo. Ao que parece, Davi não tinha tal defeito. Ele sabia elogiar e reconhecer, como ninguém, as qualidades que via diante de si. Principalmente, quando elas vinham de Deus. Enquanto o cinismo é, muitas vezes, apontado até mesmo para os céus por meio de comentários jocosos sobre os rumos da história humana – basta haver uma enchente ou um maremoto para que os ateus acusem Deus de não ser bom –, Davi, no Salmo 29, soube reconhecer e glorificar o poder de Deus. Por intermédio da exaltação da “voz do Senhor”, o salmista demonstra que Deus faz tudo que quer, de modo que ninguém pode impedi-lo de fazer qualquer coisa que seja. Ao mesmo tempo, sabe elogiar e reconhecer que sua poderosa voz está ligada à sua imensa bondade e santidade para produzir atos maravilhosos e dignos dos maiores louvores. Sob esse prisma, Davi inicia o salmo com uma convocação pública ao louvor ao Senhor, dizendo (vv.1,2): “Prestai ao Senhor glória e firmeza; prestai ao Senhor a glória do seu nome” (havû layhwâ kavôd wa‘oz havû layhwâ kevôd shemô). A partir de então, ela passa a fazer comparações entre o poder da “voz do Senhor” e o poder das forças da natureza. A intenção é tripla, sendo a primeira reconhecer o poder de Deus, enquanto a segunda delas é produzir adoração ao Senhor nos leitores ao vislumbrarem a soberania divina. Para produzir esses intentos, Davi inicia a descrição do poder de Deus (v.3) afirmando que “a voz de Deus está sobre as águas; o Deus da glória troveja; o Senhor está sobre águas abundantes” (qôl yehwâ ‘al-hammayim ’el-hakkavôd hir‘îm yehwâ ‘al-mayim rabîm). Davi está criando na mente do leitor a imagem de uma tempestade ou de uma poderosa enchente. Mas, segundo ele, o poder destruidor das águas e o forte estrondo dos trovões são nada se comparados à voz do Senhor. Um tsunami não passa de uma marola diante das ordens poderosas e incontestáveis do nosso Deus. A próxima figura aponta para algo de grande resistência. O v.5 diz que “a voz do Senhor desarraiga os cedros” (qôl yehwâ shover ’arazîm). Apesar de o cedro não estar atualmente entre aquelas famosas “madeiras de lei”, na época e no local em que Davi viveu, o cedro era uma madeira nobre e muito utilizada pela sua força e beleza. No mesmo versículo, Davi faz questão de usar nessa comparação a melhor árvore dos seus dias, “o cedro-do-líbano” (’arzê-hallebanôn). Trata-se de uma árvore alta e robusta com raízes fortes e profundas que fazem dela uma árvore “bem arraigada”. Entretanto, nem mesmo essa resistência é capaz de impedir o Senhor de, ao som das suas ordens, arrancá-las da terra fazendo-as tombar. Na verdade, Davi afirma que, caso a voz do Senhor assim ordene, tais árvores pulam de suas covas (v.6): “E ele as faz pular como bezerro” (wayyarqidem kemô-‘egel). O salmista faz uma afirmação dramática ao comparar o poder de Deus com o poder do fogo. Ele diz (v.7): “A voz do Senhor arranca fagulhas das labaredas de fogo” (qôl yehwâ hotsev lahavôr ’esh). Trata-se de uma tradução difícil que, porém, cria uma imagem na mente do leitor. Apesar do poder destruidor do fogo, Deus o ataca com poder ainda maior. O texto não indica que isso é feito como quem apaga um incêndio com água, mas como se fosse com mais fogo ainda. Lembra aquela técnica moderna de apagar incêndios de poços de petróleo produzindo uma explosão de fogo ainda maior. Essa, talvez seja uma boa figura para entender o quanto a voz do Senhor é mais poderosa que o fogo. Na sequência (v.8), diz que “a voz do Senhor estremece o deserto” (qôl yehwâ yahîl midbar). Tanto a literatura como os filmes contêm alusões abundantes aos perigos de um deserto como o forte calor, as tempestades de areia e a escassez de água, três perigos mortais. Não é fácil entender que tipo de alusão Davi faz, vistos tantos aspectos poderosos ligados a um deserto. Entretanto, ao citar especificamente o “deserto de Cades” (midbar de qadesh), é bem provável que Davi tivesse em mente as montanhas desérticas da região. Ao fazê-lo, afirma que a voz de Deus é tão poderosa que sua ordem pode, por meio de um terremoto, aplainar as montanhas da região, tornando-as uma superfície plana. O v.9, diferente dos outros, faz um contraste entre os efeitos produzidos pelas palavras de Deus, mostrando que Deus dá vida e a tira quando quer: “A voz do Senhor dá à luz o cervo e despoja os bosques” (qôl yehwâ yehôlel ’ayyalôt wayyehesof ye‘arôt). Não parece ser coincidência que os dois alvos da voz do Senhor no v.9 ocupem o mesmo espaço. Entretanto, Deus age com cada um conforme lhe apraz (Ef 1.11), pois tem poder para tanto. A última comparação aponta para o meio da natureza que Deus utilizou no evento mais destrutivo de toda a história da humanidade: o dilúvio. Dele saíram com vida apenas oito pessoas porque foram conservadas por Deus na arca. Ninguém, fora daquela arca, resistiu à força do dilúvio. Apesar disso, diz Davi (v.10): “O Senhor presidiu o dilúvio e para sempre presidirá o Senhor, o rei” (yehwâ lammabûl yashav wayyeshev yehwâ melek le‘ôlam). O poder que demonstrou ter no passado ao enviar o dilúvio, ele ainda o tem e sempre o terá. Finalmente, depois de feita com exímia eloquência a descrição do poder de Deus pelas comparações já vistas, Davi busca cumprir a terceira das suas três intenções que é criar confiança nos servos de Deus. Todo esse poder sobre a natureza não é um fim em si mesmo na mente do salmista. Ele está argumentando que o poder que Deus demonstra por meio da natureza é o mesmo poder que ele utiliza para cuidar dos seus servos, motivo pelo qual eles não devem temer mal algum. Assim, Davi completa seu salmo dizendo (v.11): “O Senhor dá força ao seu povo; o Senhor abençoa o seu povo com a paz” (yehwâ ‘oz le‘amô yiten yehwâ yebarek ’et-‘amô bashalôm). Em resumo: “Confiem seus caminhos ao Senhor, pois ele é poderoso para cuidar de cada detalhe da vida de cada um de vocês”. Reconhecimento, adoração e confiança foram três lições de Davi nesse salmo não apenas para os homens dos seus dias,mas de sempre, incluindo a nós. A lição permanece; o que pode variar é o nosso modo de olhar para as circunstâncias da vida e para o poder de Deus. Alguns culpam Deus por tudo dizendo que ele não é bom. Outros pensam que Deus se afastou e deixou tudo sob o controle do homem ou de um destino cego que nem ele conhece. Entretanto, os servos do Senhor conhecem seus atributos, cultuam-no por sua grandeza e têm nele sua alegria e a força para andar nos dias maus. Esses últimos sabem reconhecer cada qualidade do Senhor e vivem gratos por elas, dando testemunho a todos do caráter divino. Eles olham para a perfeição do Senhor sem nunca achar, como Antístenes, que ela é prova de fraquezas em outras áreas. Em tudo eles confiam no Deus Todo-poderoso, seu Senhor. SALMO 30 As Voltas que a Vida Dá Um dos desastres naturais mais conhecidos da história da humanidade foi a destruição de Pompeia, na Itália, no ano 79, devido à forte erupção do vulcão de nome Vesúvio. O interesse por Pompeia e pela história da sua tragédia sempre foi muito grande, principalmente depois das descobertas arqueológicas. Parte da história de vários cidadãos da cidade foi reconstruída a partir dos achados. Entre elas, está a de uma mulher rica. Ela, que devia ter uma vida abastada e tranquila, cheia de respeito e pompa, viu sua sorte mudar em questão de minutos quando quis, a todo custo, manter sua paz baseada nos bens. Enquanto boa parte de população decidiu fugir do alcance destruidor das emissões do vulcão, essa mulher parece ter voltado, ou se demorado, a fim de reunir e levar consigo suas riquezas. Antes que ela pudesse juntar tudo e fugir, uma grande quantidade de cinzas a atingiu, tirando sua vida e transformando-a em uma estátua que permanece, até hoje, com as mãos recheadas de pérolas, diamantes, rubis, safiras, brincos e um broche de ouro, riqueza que seria hoje avaliada em milhares de dólares. Essa mulher é uma lição viva – ainda que por meio da morte – de que a paz proveniente da prosperidade pode se esvair pelas vicissitudes da vida e trair aqueles que nela confiam. Quase onze séculos antes dessa tragédia, o rei Davi parece ter aprendido a mesma lição. O Salmo 30 mostra que ele descobriu, a custo de sofrimento pessoal, que a confiança nos bens e nas circunstâncias favoráveis pode ser traída por mudanças bruscas e indesejadas. Por outro lado, ele também aprendeu que o Senhor é a base da segurança e a fonte de alegria dos que o buscam, ainda que passem por revezes. Além disso, o Senhor é aquele que, conforme seu desejo e sabedoria, conduz a história dos homens, de modo que seus servos devem sempre esperar dele tudo aquilo de que necessitam. O salmo, que começa com o louvor do seu escritor a Deus, só deixa compreender seu contexto à medida que avança para o final. O que Davi revela sobre sua situação é que ele, que vivia tranquilo devido à posição política e à riqueza, confiando que isso garantia seu descanso e alegria (v.6), viu tudo ruir de uma hora para outra (v.7). Inimigos o deixaram em uma situação tão complicada que Davi teve de recorrer a Deus (vv.2,8,10) diante do risco de morrer nas mãos de tais homens (vv.1,3,9). Deus, então, atendeu sua oração (vv.1-3,11), restaurou sua posição, pelo que o salmista agora o louva (vv.4,12). Nesse contexto, Davi parece ter aprendido três lições sobre a paz e o sofrimento na vida dos servos de Deus. A primeira lição é que o sofrimento do servo de Deus não é uma realidade final. É muito comum vermos as pessoas – o que inclui a nós mesmos –, em meio a um revés, agir como se achassem que o sofrimento jamais passará. Isso faz com que atitudes tolas e destrutivas compliquem até o que parece não poder ficar pior. Se essa era a realidade de Davi, ele percebeu que Deus é poderoso para mudar as piores situações e dar dias melhores aos que lhe pertencem (v.5): “Ao anoitecer pousa o pranto, mas pela manhã há alegria” (ba‘erev yalîn bekî welabboquer rinneh). Davi parece associar tal pranto a uma ação disciplinar de Deus. E explica: “Pois sua ira é momentânea; seu favor dura a vida toda” (kî rege‘ be’apô hayyiym birtsônô). O salmista vê Deus, como disciplinador, trazer desconforto ao servo até que mude novamente sua sorte, dando-lhe descanso. O que Davi ensina faz eco às palavras do profeta Jeremias que, depois de testemunhar a disciplina de Deus sobre Israel, reconhece sua graça como a razão pela qual o Senhor retém a disciplina antes de ela dar cabo das pessoas: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a sua fidelidade” (Lm 3.22,23). A graça de Deus concede perdão e misericórdia e, frequentemente, faz com que o sofrimento seja seguido de alívio. A segunda lição é que a paz vinda da prosperidade é frágil e aparente. Nesse ponto Davi é muito honesto ao confessar seu arrogante erro (v.6): “Mas eu dizia: no meu bem-estar jamais serei abalado” (wa’anî ’amartî beshalwî bal-’emmôt le‘ôlam). Uma das palavras hebraicas usadas por Davi nessa frase – le‘ôlam – significa “para sempre” e é muito forte ao transmitir a sensação de onipotência que Davi sentia quando tudo ia bem. Para ele “nunca” haveria nada que pudesse afligi-lo, como se tivesse, ele mesmo, poder para controlar tudo à sua volta e garantir, por seus próprios meios, o sucesso e a felicidade. Entretanto, tamanha arrogância foi quebrada por Deus por meio da demonstração de quem é o soberano e quem é o alvo das mãos do soberano – Deus e os homens, respectivamente. O salmista evidencia tal verdade ao dizer resignado (v.7): “Tu ocultaste teu rosto e eu passei a viver em pânico” (histarta paneyka hayiytî nivhal). Davi, que imaginava controlar seu destino por meio do assento real e das riquezas que possuía, viu Deus simplesmente desampará-lo e tudo que parecia seguro ruiu. Sem a mão protetora de Deus, nenhum bem, posição, acordo ou exército pode garantir a paz de quem quer que seja. Não é em tais coisas que o servo de Deus deve confiar. Todas elas podem falhar e tolo é o homem que, orgulhosamente, põe nelas a sua alegria e delas espera a paz. A terceira lição é que a verdadeira alegria vem por meio da atuação de Deus. A guinada na vida de Davi fez com que ele, munido de uma nova postura, buscasse o Senhor. Como é fato que, diante de uma situação segura, costumamos nos sentir poderosos e dominadores do nosso destino, é certo também que, quando as circunstâncias mudam para pior, nos lembramos que é Deus quem controla tudo e corremos para ele. Assim fez Davi (vv.8-10) e isso em nada nos impressiona. O que surpreende, mesmo, é a disposição constante de Deus de perdoar e restaurar. Por isso mesmo, depois de receber a atuação benéfica de Deus, o salmista testemunha (v.11): “Tu transformaste o meu lamento em festejos; retiraste meu pano de saco e me vestiste de alegria” (hapakta mispedî lemahôl li pittahta saqqî wate’azzerenî simhâ). Que transformação: o choro vira riso; as vestes de luto viram vestes de comemoração. Somente Deus pode causar tamanha mudança. Mas essa transformação tem um propósito. Se antes o nome do Senhor fora deixado em segundo plano, Deus quer que, agora, ele volte a ter primazia na vida do servo. Por isso, Davi explica o motivo do favor de Deus nos seguintes termos (v.12): “Para que eu cante a ti e não emudeça” (lema‘an yezammerka kavôd welo’ yiddom). Diante disso, o resultado é: “Louvar-te-ei para sempre, ó Senhor, Deus meu” (yehwâ ’elohay le‘ôlam ’ôdeka). Essa lição marcante deve ter acompanhado Davi durante toda sua vida. O mesmo deve acontecer conosco. Pode ser que tenhamos vivido experiências do mesmo tipo ou pode ser que ouvimos histórias de pessoas que viram sua autossuficiência desmantelada por um chacoalhão de Deus, vulcões que abalaram suas vidas. De qualquer modo, o conhecimento, seja por experiência própria ou de ouvir relatos como esse, deve nos fazer refletir sobre a condição humana, a potência divina e o que realmente é valioso na vida dos servos de Deus. Que isso nos impeça de menosprezar o nosso Senhorcomo guia de nossas vidas e nos livre de parecermos estátuas mortas com dinheiro preso aos dedos. SALMO 31 Os Olhos Atentos de quem Ora Uma revista científica, certa vez, citou um acontecimento interessante na vida de Albert Einstein. De acordo com a publicação, desejoso de entender melhor os terremotos, Einstein visitou, na Califórnia (EUA), um famoso professor chamado Geno Gutemberg, chefe da cadeira de Sismologia de uma universidade. Einstein fez ao professor muitas perguntas sobre a ciência dos terremotos enquanto caminhavam pelo campus do California Institute of Technology (Instituto de Tecnologia da Califórnia). A conversa prosseguiu até que outro professor interrompeu os estudiosos e eles perceberam que havia pessoas correndo para longe dos prédios por causa de um forte terremoto. Por incrível que pareça, a conversa sobre as teorias dos terremotos estava tão animada que os cientistas não notaram, sob seus pés, um dos maiores terremotos que já ocorreram em Los Angeles. Quisera eu dizer que acontecimentos como esse estão apenas nas publicações sobre personalidades. Na verdade, eu mesmo, muitas vezes, deixo passar despercebidas coisas importantes que deveriam ter minha máxima atenção. Muitos de nós, de fato, com os olhos fixados em um gosto, um afeto, uma prioridade, uma situação, uma notícia ou um sofrimento, deixamos de notar fatos gritantes à nossa volta e acabamos por ser penalizados pela desatenção. O que acontece no nosso dia a dia também ocorre, por vezes, nas nossas orações. Prestamos atenção a cada dificuldade que temos a fim de levá-las, em oração, ao Senhor. Mas, diante das respostas divinas, deixamos de notar sua graça e nem sequer agradecemos ao livramento que, com muito amor, nos concede. Nesse aspecto, um bom exemplo a ser perseguido e imitado é o de Davi. Sua atenção à graça de Deus, exposta no Salmo 31, deve nos ajudar a valorizar as benesses de Deus e louvá-lo sempre pelo bem que nos faz. O salmo em questão parece ser dividido em duas partes. A primeira (vv.1-18), que faz coro com a maioria dos salmos anteriores, trata de pedidos a Deus devido aos problemas enfrentados pelo salmista. Entre eles, Davi pede a Deus proteção contra homens que lhe armam ciladas, contra a tristeza que lhe invadiu o coração e contra o sentimento de ser desprezado pelos homens, incluindo alguns dos seus próprios amigos. Entretanto, apesar de situação tão triste e opressora, os vv.19-24 parecem demonstrar que a oração dos vv.1-18 foi atendida por Deus. O Senhor o ouviu e, agora, o salmista, que notou a mão de Deus agindo, o agradece efusivamente. Desse modo, podemos observar, nos vv.19-24, cinco livramentos do Senhor. O primeiro livramento é dos opressores. O v.19 é uma virada de tom no salmo. Enquanto na primeira parte Davi está desanimado e preocupado com os rumos da sua vida, esse verso é uma explosão de alegria: “Quão grande é a tua bondade que tu reservaste para os que temem a ti” (mâ rav-tôveka ’asher- tsafanta lîre’eyka). Na sequência, o v.20 não deixa sem explicação tamanha exultação: “Das armadilhas dos homens, tu os ocultas no esconderijo da tua presença; de línguas briguentas, os escondes em um refúgio,” (tastîrem beseter paneyka meruksê ’îsh titspenem besukâ merîv leshonôt). Davi insiste na figura do “esconderijo”. É como se seus perseguidores o procurassem para matar e Deus ocultasse Davi dos olhos deles. Se aplicarmos essa figura ao reino animal, surge-nos a imagem de uma ave escondendo debaixo de suas asas seus filhotinhos indefesos (ver Sl 17.8; 57.1; Mt 23.37). Essa é a comparação do que Deus fez a Davi guardando-o dos opressores, motivo pelo qual o salmista o louva. O segundo livramento é do desespero. O v.21 fala da ação de Deus para com Davi “em uma cidade sitiada” (be‘îr matsôr). Essa é uma ocorrência difícil de reconhecer na história de Davi, pois não há relatos que apontem nessa direção. Enquanto alguns estudiosos propõem se tratar do ataque amalequita a Ziclague, cidade refúgio de Davi quando Saul ainda era rei, outros sugerem a cidade de Maanaim, para onde Davi fugiu de Absalão – lembramos que Davi não estava em Ziclague quando foi atacada (1Sm 30.1- 3) e que a batalha de Maanaim se deu no campo, sem que a cidade fosse cercada (2Sm 17.24-26; 18.6-8). De qualquer modo, tendo experimentado Davi um cerco ou não – talvez, ele apenas compare sua situação à de uma cidade sitiada –, a ideia do cerco está presente e nos transmite os sentimentos de quem está dentro dele. Uma cidade sitiada era um lugar de onde ninguém saía e em que não chegavam alimentos, água ou reforços; ali, as pessoas que estavam refugiadas aguardavam a morte pelas espadas do exército invasor ou pela inanição quando acabavam os alimentos. Era uma situação desesperadora. As pessoas costumavam perder a esperança e fazer coisas terríveis como matar e comer seus próprios filhos (2Rs 6.24-30) ou tirar suas vidas. Diante de uma situação desesperadora como essa, Davi afirma: “Ele engrandeceu a sua misericórdia para comigo” (hiflî’ hasdô lîî). Independente de que circunstâncias retumbem na memória do salmista, ele, quando esteve sem esperanças, viu a mão misericordiosa do Senhor o consolar, fazer-lhe suportar a dor e dar-lhe paciência até que viesse o alívio do sofrimento. Em terceiro lugar, Deus livrou Davi do engano. Houve um tempo em que Davi, diante de tantos problemas e sem refletir muito (v.22), chegou a uma conclusão errada: “E, na minha precipitação, eu disse: fui excluído de diante dos teus olhos” (wa’nî ’amartî behaftî nigraztî minneged ‘êneyka). Essa é, de fato, uma conclusão equivocada que é fruto da precipitação muito comum dos momentos de crise. Frequentemente, nesses casos, tiramos conclusões erradas. Entretanto, Deus trouxe à tona a realidade a fim de tranquilizar Davi, não o deixando perecer diante do que nem sequer existia. Assim, depois de relatar sua conclusão temerária, Davi revela: “Certamente ouviste a minha voz suplicante durante meu grito a ti por socorro” (’aken shama‘ta qôl tahanûnay beshû‘î ’eleyka). Essa é a demonstração de que Deus nem tinha abandonado Davi, nem ignorava suas orações, nem tampouco desejava que ele guardasse tal sentimento. O quarto livramento é da injustiça. O sofrimento de Davi, ao ser perseguido, era intenso. Porém, havia uma característica dessa perseguição que a tornava ainda pior: o fato de ela ser injusta, ou seja, sem que Davi tivesse feito nada que merecesse ser perseguido. O ciúme de Saul e a ganância de Absalão foram as causas de Davi ter de fugir do seu próprio povo, das próprias pessoas a quem ele amava. Receber ataques imerecidos é algo que nos entristece e nos deixa indignados. Entretanto, o salmista parece ter percebido que havia um juiz maior que os homens que traria à luz a verdade e puniria o que realmente era mal, sem dar ouvidos a acusações infundadas e falsas. Por isso, Davi descansa ao dizer (v.23): “O Senhor protege os fiéis, mas retribui com juros os que agem soberbamente” (’emûnîm no‘er yehwâ ûmeshallem ‘al-yeter ‘oseh ga’awâ). Portanto, ainda que os ímpios nesse mundo acabem por tirar vantagem dos outros e oprimir os aflitos, o Senhor não permitirá que tal situação seja permanente. Finalmente, o Senhor livra seus servos do desânimo. Algo sempre presente em situações problemáticas é o cansaço. Para algumas pessoas ele vem logo, enquanto, para outras, demora um pouco mais. Contudo, cedo ou tarde, todos os que são perseguidos, que passam por lutas e que se veem desamparados, acabam por sentir um forte desânimo e o desejo de desistir da luta. Entretanto, a esperança em Deus age como um revigorante. Seu amor sustenta seus filhos e lhes dá um novo ânimo que é estranho aos que andam longe do Senhor. Davi deve ter sentido tal ação vinda do alto e a proclama aos que estão ao seu redor, dizendo (v.24): “Fortalecei-vos e animai o vosso coração” (hizqû weya’amets levavkem). Essa ação está além dos conselhos dos livros de auto-ajuda, pois é dito a um grupo bem definido: “Todos os que confiam no Senhor” (kol-hamyahalîm layhwâ). As mãosdo Senhor são as promotoras desse livramento. Que lição para nós! Em meio a tantos problemas e a tanto sofrimento, Davi conseguiu ver a mão de Deus agindo a seu favor e o livrando do mal. Seus olhos estavam atentos a isso porque seu coração estava ligado ao Senhor. Ele orava a Deus e permanecia atento às respostas do seu Senhor. Que o nosso mais profundo anseio seja o de sempre notar a atuação e a bondade do nosso Deus, ainda que os “terremotos” da vida estejam sob nossos pés! E que, fruto dessa visão, sejamos fortalecidos e consolados por andarmos sob as asas daquele que é o Senhor do universo e o protetor dos que o buscam! SALMO 32 A Restauração que Vem do Perdão Um dos grandes tesouros da literatura mundial é a obra Os miseráveis, de Victor Hugo, escrita no século 19. Nela, há um personagem, um ex- condenado chamado Jean Valjean, que é acolhido por um bispo que o recebe em casa e lhe trata com dignidade. Em pagamento a tão bondoso tratamento, Valjean rouba alguns talheres de prata e foge. Algum tempo depois, a polícia vem à casa do bispo, com o ladrão sob custódia, a fim de conferir a versão de que os utensílios valiosos em seu poder lhe tinham sido presenteados pelo clérigo. Este, para surpresa do leitor, confirma o que foi dito por Valjean e lhe diz, diante dos guardas: “Você se esqueceu de levar os candelabros”. Ocorre, então, algo que muda a vida do ladrão. O bispo lhe entrega os candelabros e diz: “Use esse dinheiro para se tornar um homem honesto. Você já não pertence ao mal, mas sim ao bem. É a sua alma que acabo de comprar”. O perdão e a generosidade do bispo foram algo tão marcante na vida daquele homem que ele realmente mudou sua vida. Ele se torna um homem honrado e altruísta, a ponto de ajudar outras pessoas necessitadas e até de correr o risco de ser preso ou morto para fazer o bem a uma moça órfã de quem ele acaba cuidando como se fosse sua própria filha. Davi, o grande salmista, também foi um homem marcado pelo perdão e benevolência que recebeu. Mas não o recebeu de outro homem e sim de Deus. O Salmo 32 é um testemunho de Davi do perdão que recebeu mediante sua confissão de pecados e dos efeitos que o perdão divino teve sobre ele. Junto com o Salmo 51, o Salmo 32 é um lembrete e um encorajamento para que os servos de Deus não se acostumem ou escondam seu pecado, mas confessem-no ao Senhor e o abandonem a fim de que a comunhão com Deus e tudo que decorre dela seja restaurado. Há, nesse salmo, pelo menos três restaurações feitas por Deus aos homens que, contritos, lhe confessam os pecados. A primeira é a restauração do bem-estar. Os dois primeiros versículos mostram a condição do homem que é perdoado por Deus. Segundo Davi, trata-se de um homem feliz (v.1): “Felizes são aqueles cuja transgressão foi retirada, cujo pecado foi coberto” (’asrê nesûy-pesha‘ kesûy hat’â). O motivo de tal homem ser bendito é apresentado, na sequência, por meio da experiência do próprio escritor (vv.3-5). “Bem-estar” é a última expressão que pode ser aplicada para descrever a condição de Davi enquanto ele escondia seu pecado. O texto revela que ele vivia aflito. Até mesmo seu corpo – talvez, devido a sintomas psicossomáticos da culpa que carregava – sentia os efeitos do seu mau procedimento escondido (v.3): “Quando eu permaneci em silêncio, os meus ossos se consumiram pelo meu clamor diário” (kî-heherashtî balû ‘atsamay besha’agatî kol-hayyôm). Esse silêncio significa ausência de confissão do pecado. Entretanto, se Davi guardou silêncio sobre o pecado, o próprio pecado, por sua vez, gritava em seu interior e o fazia sofrer diariamente por evidenciar sua vida tomando um rumo tão distante do que deveria. Parece que ele chorava e se lamentava “todos os dias” (kol-hayyôm) a ponto de sentir seu corpo fraco e debilitado – o que ele descreve como se seus ossos sofressem um desgaste. É um preço muito alto para esconder a iniquidade. Talvez alguém diga se tratar de uma consciência fraca que sucumbe ao menor sinal de culpa. Entretanto, Davi oferece um fator externo para o seu mal-estar e pesar (v.4): “Pois dia e noite a tua mão pesa sobre mim” (kî yômam walaylâ tikbad ’alay yadeka). A simples consciência da santidade do Senhor, além da sua disciplina, consumia Davi, não porque Deus seja cruel ou incompassivo, mas porque Davi relutava em lhe confessar o seu pecado. Aconteceu assim até que a situação ficou insustentável e Davi deu uma guinada em sua atitude. Ele conta (v.5): “Confessei a ti o meu pecado” (hatta’tî ’ôdî‘aka). Diante disso, Deus não respondeu tal confissão com algo do tipo “agora é tarde”. Na verdade, o salmista foi realmente perdoado, pelo que diz: “E tu retiraste a culpa do meu pecado” (we’attâ nasa’ta ‘aôn hatta’tî). Pelo jeito, não foi apenas a culpa que Deus levou, mas os próprios efeitos dela sobre a vida de Davi, fazendo com que, junto com o perdão, viessem também o alívio e o bem-estar. É terrível andar longe de Deus, mas voltar à plena comunhão com ele é uma restauração abençoada que se dá pelo perdão. A segunda é a restauração da alegria. Se o perdão retira da vida do homem contrito o que havia de negativo como a tristeza, ele também produz efeitos positivos como a alegria. Por isso, no v.7, o salmista afirma: “Tu me cercas de aclamações de livramento” (rannê pallet tesôvevenî). Trata-se de uma atitude de produzir cantos alegres em louvor a Deus por uma obra de libertação – nesse caso, não de inimigos, mas do pecado. Davi passou da lamúria à exultação. Ele não se sente mais como um servo ingrato e rebelde, mas como um filho amado pelo Pai e grato por isso. Seus ossos não se consomem mais. Seu vigor retornou. O que é consumida, agora, é a tinta usada para escrever novos cânticos de alegria e de agradecimento a Deus por tê-lo perdoado e restaurado. É o extremo oposto do que Davi vinha enfrentando diante da relutância em confessar a Deus o mal que fez. A terceira é a restauração do caminho. Os vv.8,9 que parecem vir de outra fonte, como se outro escritor tivesse participado da composição do salmo. Aqui é o Senhor quem dirige sua voz ao salmista e não o contrário – um recurso literário e poético para expressar a atuação de Deus na vida de Davi. Assim, o Senhor compassivo e perdoador diz ao servo (v.8): “Eu te ensinarei e te guiarei no caminho em que tu andarás” (’askîleka we’ôreka bederek-zû telek). Se a ausência de conhecimento da Palavra de Deus, sem falar na desobediência a ela, é a razão de o homem se afastar do Senhor e de fazer o que é mau, a instrução divina é quem promove o processo de santificação revertendo a condição anterior (Jo 17.17). Esse conceito é expresso várias vezes nas Escrituras, várias delas pelo próprio rei Davi: “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra [...] Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Sl 119.9,11). E o mais surpreendente nesse processo é que a ação de instruir e guiar, fator fundamental para a santificação da vida do pecador, é uma iniciativa do próprio Deus. Ele é quem, tomando o servo pela mão, o conduz no caminho correto dando-lhe como mapa as Escrituras. Davi, como poucas pessoas, conhecia os “dois lados da moeda”. Sabia o que é sofrer na rebeldia e na atitude impenitente. Conhecia também os efeitos restauradores do perdão de Deus na vida do homem arrependido e contrito de coração. Ele não cala tal experiência a fim de instruir os leitores a fugirem do erro e a buscarem o perdão. Em uma postura que revela uma grande sabedoria adquirida ao longo da vida, ele diz (v.10): “Muito pesar há para o ímpio, mas a misericórdia cerca aquele que confia no Senhor” (ravvîm mak’ôbim larasha‘ wehavvôteah bayhwâ hesed yesovevenû). Ele mostra aos pecadores impenitentes dois caminhos e o faz de modo que fique fácil – e óbvio – decidir pelo segundo: o da misericórdia. Não há motivos para que aquele que peca procure desculpas para amainar a consciência sem se curvar arrependido diante de Deus. Desculpas, como “todos fazem a mesma coisa” ou “Deus sabe que sou pecador”, somentetrazem, para quem as utiliza, “muito pesar”. Não é algo que compense ou que faça o homem feliz. Diante de tanta experiência e sabedoria do salmista e de tanto favor e misericórdia do Senhor, chega a ser uma grande tolice sofrer os danos de reter a confissão de pecados e de permanecer no mal. É grande insensatez sofrer as perdas dessa condição enquanto se deixa de lado a restauração plena que há no perdão que Deus concede aos seus. Não há razão para o cristão passar por isso sem voltar atrás, para os braços do Senhor. Se um personagem fictício de um livro muda o rumo da sua vida ao ter “figuradamente” sua alma comprada para o bem, quanto mais os servos de Deus que foram, em realidade, comprados por Cristo a custo do seu sangue (At 20.28) para lhe pertencerem para sempre. Que a nossa luta seja contra o pecado e contra a dureza do coração que teima em não se arrepender! Que o nosso prêmio seja o perdão, a restauração e a comunhão com aquele que nos ama de um modo incomparável! E que a nossa motivação para prosseguir seja o sacrifício e o exemplo do nosso santo Mestre a quem servimos! SALMO 33 As Credenciais do Senhor Todo-poderoso Um fato curioso faz parte da história de um museu de arte de Viena (Áustria), o Vienna’s Museum of Fine Arts. Trata-se de um personagem curioso que era costumeiramente conhecido como “O Faraó”. Esse senhor frequentou o museu por, aproximadamente, trinta anos, atuando como uma espécie de guia. Sua especialidade era arte egípcia. Ele aguardava visitantes a fim de lhes apresentar, com informações detalhadas, as obras egípcias do museu. Seu conhecimento do assunto era tão profundo que poucas pessoas se deram conta de que ele não tinha qualquer ligação com o próprio museu. Até mesmo egiptólogos profissionais consultavam-no para dirimir dúvidas que tinham em relação às obras egípcias e ao próprio Egito. Contudo, apesar dos dotes singulares desse senhor, o fato mais curioso só foi conhecido depois da sua morte: o maior especialista em Egito, de fato, jamais havia ido ao Egito. Isso espantou muita gente que pensava que aquele homem conhecia o Egito como ninguém, quando, na verdade, ele conhecia – e muito bem – apenas as informações registradas sobre o país. Apesar do seu exímio e singular conhecimento de egiptologia, ele era como um leigo que estuda livros de medicina a ponto de conhecer a teoria médica melhor que os próprios médicos, mas que nunca fez um exame físico em um paciente ou lhe aferiu a pressão arterial. A bem da verdade, “O Faraó” não foi o único a dar a impressão de ser quem não é. Quantas pessoas não se esforçam para transmitir uma imagem irreal a fim de serem admiradas? Por outro lado, há alguém que, em contraste a essa realidade, é tudo o que diz ser: o Senhor Deus. As Escrituras atestam que Deus é Todo-poderoso (2Co 6.18), conhecedor de todas as coisas (Sl 139.16) e soberano (Ef 1.11). Alguém inigualável que pode fazer tudo que desejar (Sl 135.6) sem que ninguém lhe possa impedir (Jó 42.2) ou instruir (Is 40.14). Entretanto, esses atributos têm sido cada vez mais depreciados no mundo ateísta e até mesmo em igrejas ditas cristãs, visto tratarem-no como se fosse um garçom, exigindo dele bênçãos ao gosto do freguês. Entretanto, o rei Davi apresenta as credenciais divinas para os títulos que as Escrituras lhe conferem. O Salmo 33 é um chamado público de louvor a Deus (vv.1-5) e as razões para tal louvor são apresentadas por meio de quatro credenciais que somente um Deus ilimitado e onipotente, merecedor de toda adoração, poderia ter. A primeira credencial é a criação do universo (vv.6-9). Davi diz, no v.6, que a magnífica obra da criação teve como fonte a vontade e a iniciativa divina: “Pela palavra do Senhor os céus foram feitos e, pelo sopro da sua boca, todo o seu exército” (bidvar yehwâ shamayim ûberûah pîw kol- tseva’am). A expressão “todo o seu exército” é uma referência às estrelas do céu (Gn 2.1). Em resumo, o universo mapeado e até as partes mais longínquas e desconhecidas dos homens vieram a existir quando Deus as ordenou. Se os céus são obras das mãos do criador, nosso planeta também é. Nesse aspecto, o salmista recorda (v.7), pelo relato de Moisés (Gn 1.9,10), de quando Deus fez a separação entre as águas e a terra seca: “Ele é quem reúne as águas do mar como se faz em uma represa; quem lança os oceanos em odres” (kones kanned me hayyam noten be’otsarôt tehômôt). É perceptível o desejo do escritor de tornar a imensidão do mar um mero copo d’água diante do seu criador. A partir daí, não é mais necessário versar sobre outros aspectos magníficos da criação como as montanhas, as plantas, os animais e a diversidade de tudo que existe. Pela demonstração do poder de Deus diante dos mares – que englobam a maior parte da superfície do planeta –, o salmista atingiu seu propósito de apresentar tal credencial. Ele apenas completa a ideia apontando, agora, para o criador como fonte de toda a existência (v.9): “Pois ele falou e as coisas passaram a existir; ele ordenou e elas surgiram” (kî hû’ ’amar wayyehî hû’-tsiwwâ wayya‘amod). A segunda é o controle da história (vv.10-12,16-17). Se o poder dos mares e o tamanho do universo não são nada comparados ao poder dos decretos de Deus, o poder político e militar das nações – conceitos mais próximos e conhecidos dos leitores – também sucumbem diante da onipotência divina (v.10): “O Senhor frustrou o desígnio das nações; anulou as maquinações dos povos” (yehwâ hepîr ‘atsat-gôyim henî’ mahshevôt ‘ammîm). Essa realidade fazia parte da história dos israelitas, tantas vezes atacados pelas nações ao redor, tantas vezes protegidos pelo Senhor. Eles aprenderam (v.16), por experiência própria, que “nenhum rei é salvo pelo poderio militar” (’ên- hamelek nôsha‘ berav-hayil gibôr). Deus, por sua vez, a despeito da ineficácia dos intentos das nações e do poder dos seus exércitos, faz cumprir perfeitamente tudo que planejou como só um Deus ilimitado e soberano pode fazer (v.11): “O desígnio do Senhor dura para sempre” (‘atsat ‘atsat le‘ôlam). A terceira credencial é o conhecimento de tudo (vv.13-15). Se Deus tudo pode, também tudo vê. A falta de limites do Senhor é ampla e abrange os mais diversos aspectos. Nesse sentido (v.13), Davi afirma que “dos céus o Senhor observa; ele vê todos os filhos do homem” (mishamayim hivvîm yehwâ ra’â ’et-kol-benê há’adam). Ninguém foge dos seus olhos penetrantes. Nada passa despercebido por Deus. O v.15, que completa a ideia inicial, é muito parecido com alguns aspectos expostos no Salmo 139, visto que diz: “Ele é o formador de cada coração; é o conhecedor de todas as obras deles” (hayyotser yahad livvam hammebîn ’el-kol-ma‘asêhem). Por “cada coração” entenda-se “cada homem”. Deus, que criou a humanidade e planejou a vida de cada ser humano, conhece tudo que cada um faz, pensa ou sente. Ninguém mais no universo pode apresentar uma credencial como essa. A última credencial é o cuidado dos fiéis (vv.18-22). O motivo pelo qual Davi escreve o salmo é apresentado, nesse ponto, a fim de produzir segurança nos servos de Deus e, consequentemente, louvor ao seu nome. Ele afirma novamente o conhecimento pleno de Deus, mas, dessa vez, trazendo à luz o motivo do olhar constante do Senhor (v.19): “A fim de livrar a alma deles da morte e preservar suas vidas durante a fome” (lehatsîl mimawet nafsham ûlehayyôtam bara‘av). Deve-se notar que a palavra “alma” nesse texto não tem como intenção se referir ao espírito dos servos de Deus, mas a eles como pessoas. Significa que Deus cuida de cada um dos que lhe pertencem. Lembra também o cerco de uma cidade, onde os habitantes são privados de suprimento e são oprimidos pela fome. É nesse contexto que os israelitas, mais de uma vez, testemunharam o cuidado que Deus tinha com eles. Por isso mesmo (v.20) Davi o chama de “nosso auxílio e nosso escudo” (‘ezerenû ûmaginnenû). Deus não é um charlatão que diz ser quem não é. Não são poucas as credencias que comprovam o seu caráter e poder para que confiemos nas coisas que sua Palavra nos ensina e para queesperemos pacientemente pela sua proteção. Não há ninguém a quem possamos recorrer que nos trate como o Senhor. O salmista também parece notar que os atributos de Deus não pertencem apenas ao campo da teologia, mas ao campo das vidas práticas daqueles que o buscam. O que a teologia defende, o servo de Deus sente e testemunha no seu dia a dia. Assim, a conclusão que Davi tira dessas verdades não poderia ser outra (v.12): “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor” (’ashrê haggôy ’asher-yehwâ ’elohayw). Que mensagem seria mais apropriada para uma época em que profetas da prosperidade e milagreiros ditos cristãos clamam para si a autoridade de dar paz e alegria para quem os segue? Que lição seria mais necessária diante da atitude moderna – ou pós-moderna – de ignorar a revelação de Deus e de moldá-lo conforme a cobiça humana? Que exortação seria mais propícia para lembrar a igreja de Deus de que métodos que anulem a confiança e a obediência ao Senhor são como querer represar os mares com gravetos? Que, como o salmista, nossa confiança esteja sobre aquele que tem todas as credenciais para ser nosso protetor e que, como resultado dessa realidade, nosso louvor e adoração só sejam menores que o tamanho e o poder daquele que não pode ser contido por nada, nem por ninguém. SALMO 34 Um Relacionamento de Duas Vias Sempre gostei muito de bichos. Durante toda minha vida convivi com as mais diversas espécies de animais. Apesar do meu gosto especial por gatos, pássaros e peixes, nenhum deles se compara ao meu gosto pelos cães. Tenho dois cães da raça rottweiller, o macho chamado Tímios e a fêmea, Malcah. Apesar do terror que os cães dessa raça causam nos visitantes e nas pessoas que passam na rua – esse é um dos propósitos deles –, essa não é toda a verdade sobre os rottweillers. Trata-se de cães extremamente obedientes, inteligentes e, acredite, dóceis – pelo menos com os donos. Não costumam ser traiçoeiros e, a meu ver, são os cães mais bonitos que eu já vi, com um porte inigualável. Apesar dessas qualidades, há algo que me surpreende todas as vezes em que penso nisso: a amizade que os cães mantêm com seus donos. Meus cães, principalmente o macho, por ser mais velho, age com extrema fidelidade e carinho para comigo. Faz de tudo para me agradar e para estar sempre por perto. Mesmo quando estou dentro de casa, ele procura, ao redor da casa, o lugar mais próximo de mim e só se levanta dali quando vou para outro cômodo. Ele me protege e me faz companhia o tempo todo. Por outro lado, eu o alimento, dou banho, zelo pela sua saúde e procuro passar tempo com ele. Nesses momentos, tenho a impressão de fazê-lo muito feliz. No final das contas, é um ótimo relacionamento, bom para ambas as partes. Eu chamaria tal convivência de “relacionamento de duas vias”, pois cada um supre necessidades do outro. Há um outro tipo de relacionamento bilateral que supera qualquer outro e é, de fato, inigualável: o relacionamento entre Deus e seus servos. Uma diferença marcante desse relacionamento é que Deus não tem qualquer necessidade a ser suprida pelos homens. Se ele se relaciona conosco, não é porque precise de nós, mas porque decidiu fazê-lo. Apesar disso, como um relacionamento bilateral, está presente a atuação de cada parte conforme suas responsabilidades e capacidades. O que não pode – ou não deve – ser realizado de um lado, encontra no outro alguém que faz o que lhe cabe no convívio mútuo. O Salmo 34, escrito por Davi, apresenta atividades realizadas tanto por Deus como por seus servos no relacionamento que mantêm mediante a graça divina. Pelo lado de Deus, a primeira das atividades voltadas aos servos é atender as orações. Ao notar que o início do salmo o situa depois de uma libertação do escritor em uma circunstância em que fica clara a atuação de Deus, compreende-se melhor o ponto em questão. Quando era provável e quase inevitável que Davi morresse nas mãos dos filisteus, ele diz (v.4): “Busquei o Senhor e ele me atendeu” (darashtî ’et-yehwâ we‘ananî). Enquanto os filisteus mantinham uma posição de cautela em relação a Davi, o rei acreditou realmente, contra as expectativas, que se tratava de um homem louco e poupou-lhe a vida. Diante do histórico guerreiro e vitorioso do salmista, a credulidade do rei filisteu ou nos parece tolice, ou nos convence da atuação divina na proteção do servo. Em outras palavras, a resposta de oração garantiu a vida do salmista quando o máximo que ele podia fazer era fingir ser doido diante dos inimigos. A segunda atividade é proteger os servos. O v.7, muito conhecido e pouco compreendido pelos cristãos, diz: “O anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem” (honeh mal’ak- yehwâ saviv lîre’ayw). Não se trata de “anjos”, mas do próprio Senhor em pessoa protegendo os servos como uma sentinela que marcha em volta daquilo que está a proteger. A expressão “anjo do Senhor” frequentemente se refere à pessoa de Deus (Gn 16.10; Ex 3.2). Ainda que os anjos sirvam, sob as ordens do Senhor, aos homens que temem a Deus (Sl 91.11; Hb 1.14), o soberano não se tolhe de guardá-los pessoalmente. A terceira atividade é opor-se aos injustos. Boa parte do sofrimento dos servos de Deus tem como fonte homens que, em sua injustiça, os exploram e oprimem. Ainda que o julgamento definitivo da maldade venha a ocorrer somente no final da história terrena, Deus costuma intervir a favor dos seus filhos quando sofrem diante dos maus. Enquanto protege os seus, o v.16 revela que “a face do Senhor está contra os que praticam o mal” (penê yehwâ be‘osê ra‘). O Senhor toma as dores dos servos e se posta contra os ímpios. A última é manter comunhão. Diferente do pensamento agnóstico que postula que Deus se afastou da criação, Davi afirma que Deus permanece junto aos seus (v.18): “O Senhor é próximo dos quebrantados de coração” (qarov yehwâ lenishberê-lev). Tal proximidade é o que mantém a comunhão entre eles. Deus não apenas se deixa encontrar como se faz sentir ao redor dos que, arrependidos dos pecados e dependentes da graça e misericórdia do Senhor, entregam-lhe o coração. Já, pelo lado dos servos, a primeira das atividades visando ao bom relacionamento com o Senhor é louvar a Deus. Em agradecimento a tamanha bondade, Davi – que havia sido poupado milagrosamente dos inimigos – diz (v.1): “Com a minha boca continuamente o louvarei” (tamîd tehillatô bepî). Ele se propõe não apenas a adorar a Deus, mas fazê-lo publicamente. Esse é o sentido de dizer que “com a boca” louvaria a Deus. Ele testemunharia todo o tempo, em dias bons e ruins, que o Senhor é digno de ser adorado pelos homens que o amam. Essa não é apenas uma atitude dos servos para com Deus, mas o sentido da sua existência (1Pe 2.9). A segunda atividade humana é desfrutar da bondade divina. O v.8 contém uma ordem aos homens: “Provem e vejam que o Senhor é bom” (ta‘amû ûre’û kî-tov yehwâ). A palavra hebraica usada por Davi traduzida por “provar” não é a mesma usada pelo profeta Malaquias em um texto muito conhecido (Ml 3.10). Enquanto Malaquias propõe um “teste”, a palavra que Davi utiliza propõe o ato de “experimentar” algo, assim como “provar” uma comida ou “degustar” um vinho. Desse modo, o servo de Deus se “deleita” no Senhor aceitando as bênçãos que, pela graça, lhe são oferecidas. Ele não mendiga um pouco de alegria no meio do pecado. Ele se deleita nas palavras, na companhia e na bondade do seu Senhor. A terceira atividade é a exortação dos irmãos. Como testemunha dos atos misericordiosos de Deus, Davi age também como transmissor dessa verdade e doutrinador de outras pessoas. Ele se propõe a fazer o seguinte (v.11): “Eu ensinarei a vocês o temor do Senhor” (yir’at yehwâ ’alammedkem). Temer a Deus não é ter medo dele. É certo que o servo de Deus deve temer, sim, desrespeitar o Senhor e ser por ele disciplinado. Mas o conceito presente no temor do Senhor é maior que isso. Envolve reverência, obediência, respeito e adoração. Davi, como homem temente a Deus, exorta seus conservos a terem a mesma disposição e se oferece para ensiná-los e encorajá-losnesse sentido. A última atividade é a santificação de vida. Lutar contra o pecado e se deixar dirigir pelo Espírito de Deus é fundamental no convívio diário com o Senhor. Por isso, o salmista ainda orienta (v.14): “Aparte-se do mal e faça o bem” (sûr mera‘ wa‘aseh-tôv). A santificação é um esforço em dois sentidos. Em primeiro lugar, lutar para abandonar o pecado em forma de pensamentos, disposições e, obviamente, ações. Significa se empenhar para não fazer as coisas que ofendem a santidade do Senhor. E, na sequência, manter o esforço para fazer o que é correto obedecendo as instruções de Deus expostas nas Escrituras. Nenhum desses aspectos se perfaz sem o outro. Não existe vitória contra o pecado quando não há obediência; nem há santificação sem negação pessoal a fim de sujeitar os impulsos pecaminosos. O servo de Deus, mesmo diante de toda a dificuldade dessa batalha, luta para ser cada dia mais santo. Com esse relacionamento de duas vias em ação, tanto a bondade de Deus como a submissão voluntária do servo se completam e produzem um clima de amizade, interação e união. Esse, sim, é um bom relacionamento cheio de bênçãos para os homens e repleto de honras ao Senhor. Pela graça de Jesus e seu sacrifício da cruz, podemos ser considerados, agora, por meio da fé, amigos de Deus. E não há nada mais magnífico que isso na vida de um cristão. Ou você, depois de refletir sobre tudo isso, ainda acha que é o cão o melhor amigo do homem? SALMO 35 A Dor de quem Espera O primeiro de semestre de 2010 foi um tempo muito difícil para mim. No final de janeiro, comecei a sentir certo formigamento na perna direita e, alguns dias depois, dores nas costas. Como esses sintomas não melhoravam, procurei o pronto-socorro de um hospital e ali foi diagnosticado meu problema: hérnia de disco. Eu nem sabia que doença era essa até então. Enquanto eu aguardava o dia da consulta com um neurologista, as dores aumentaram abruptamente fazendo-me sofrer demais. Eu nunca havia sentido dores tão lancinantes. Mesmo deitado e sob o efeito das medicações, o sofrimento era enorme. Em poucos dias, tive de ser internado. Mesmo nos melhores dias, era com o auxílio de uma bengala que eu caminhava. Nos maus momentos, era inevitável terminar o dia no hospital. Na pior ocorrência da dor, fui atendido e transportado pelo corpo de bombeiros, recebendo, no hospital, uma das medicações mais fortes que existem. Foram cerca de três meses de dores intensas e visitas ao hospital. Hoje, apenas administro um problema que já não me aflige tanto. O interessante é que, bem no começo, um amigo, que sofreu do mesmo mal, me disse: “Tenha paciência! As dores fortes vão passar, mas demora um pouco para que isso ocorra. Mas, não desanime, pois a crise vai passar”. Ele tinha razão e eu sabia disso desde a primeira vez em que me falou tais palavras. Não duvidei dele em nenhum momento. Entretanto, a espera, apesar da certeza, foi dolorida e me trouxe um enorme sofrimento. Davi, o grande salmista, atravessou uma situação parecida, não exatamente de doença, mas em termos de sofrimento incessante. O Salmo 35, diferente do anterior, nos mostra Davi em um momento de angústia, sem, contudo, ver a resposta de Deus às suas orações. O problema não era a falta de esperança do salmista. Ele, na verdade, demonstra ter certeza de que Deus o livrará. Entretanto, não havia chegado o momento de ser aliviado da tristeza e do perigo. Isso fez com que o salmo apresentasse três situações de sofrimento duradouro e o devido encorajamento aos servos de Deus por meio da esperança do livramento no momento correto, escolhido assim pelo Senhor. A primeira das situações que são frequentemente duradouras e que causam pesar nos servos de Deus é a oposição dos adversários (vv.1-10). Nos vv.1-3 Davi pede a Deus que lhe proteja dos inimigos na medida necessária a fim de livrá-lo e de punir os que lhe atacam sem motivo. Uma pergunta importante de se fazer diante disso é “quem são eles?”. Davi não cita seus nomes ou títulos. Em vez disso, Davi descreve-os em sua atividade opositora. A confiança do salmista no v.4 dá início a tal descrição. Diz ele: “Baterão em retirada e serão derrotados aqueles que planejam o meu mal” (yissogû ’ahor weyahperû hoshvê ra‘atî). Trata-se de pessoas que arquitetavam modos de prejudicar Davi. A sutileza e a periculosidade de tais projetos são transmitidas pelo salmista (v.7) ao escrever sobre o objetivo dos adversários contra ele: “Pois sem motivos esconderam armadilhas para mim” (kî-hinnam tamnû-lî). Traiçoeiramente, os adversários de Davi pensavam em modos de fazê-lo cair em uma armadilha. É a figura de uma caçada em que os opositores fazem o papel de predadores. Assim como caçadores de verdade, eles armam emboscadas para pegar de surpresa a vítima indefesa. É uma atitude desonesta e maldosa. A vítima, além de não poder se defender da armadilha, nem imagina que ela existe, pois tudo é feito às escuras, já que Davi, falando do inimigo (v.8), se refere às “suas redes às quais esconderam” (rishtô ’asher-taman). É a mesma ideia da caça, com ênfase na traição oculta. A segunda situação é a falsidade das pessoas próximas (vv.11-18). Quem dera os inimigos fossem seus únicos motivos de desgosto! Davi, agora, apresenta o sofrimento pessoal que teve como fonte pessoas a quem ele chamou (v.11) de “testemunhas da injustiça” ou de “testemunhas da violência” (‘edê hamas). Até aí, não há surpresas. Contudo, o v.12 introduz um elemento que, sim, nos surpreende. Tratava-se de pessoas a quem Davi havia beneficiado. Em troca, eles foram traidores e malévolos: “Eles me retribuem o mal em lugar do bem” (yeshallemûnî ra‘â tahat tôvâ). É revoltante! Davi foi bondoso com tais homens que, agora, são testemunhas mentirosas e malvadas contra ele. Isso piora quando Davi explica melhor seu procedimento bondoso para com eles no passado (v.14): “Eu agia como se eles fossem amigos ou irmãos para mim” (kereah-ke’â lî hithallaktî). Muita gente tem companheiros tão chegados que são como familiares. Assim eram tais homens para Davi. Apesar disso, diz o salmista (v.15): “Mas, na minha queda, eles se alegraram e se ajuntaram; se ajuntaram contra mim” (ûbetsal‘î samhû wene’esafû ne’esfû ‘alay). Dá até para ouvir o grupo reunido rindo de Davi e expondo como cada um trabalhou em prol da sua queda quando ele de nada desconfiava. São risos que dão nojo nos homens justos. Olhar para esse tipo de ajuntamento injusto e traidor realmente desanima qualquer um. A terceira é a provocação arrogante (vv.19-28). Nesse ponto, Davi ora ao Senhor pedindo que os impeça de agir conforme o mal que pretendem. É sob esse prisma que percebemos suas atitudes. Davi diz (v.19) que tais homens “piscam os olhos” (yiqretsû-‘ayin). A palavra traduzida por “piscar” tem uma forte conotação de uma atitude maliciosa. Trata-se de um sinal com os olhos que transmite arrogância e maldade contra seu alvo. Eles também zombavam e tripudiavam a respeito da situação difícil de Davi (v.21): “Alargam suas bocas contra mim dizendo: Aha! Aha!” (wayyarhîvû ‘alay pîhem ’omrû he’â he’â). A interjeição aha é uma onomatopeia – figura de linguagem que expressa sons como “pocotó” ou tique-taque – que simboliza “risos” ou “gargalhadas”. Representa a exultação aberta por verem o mal do salmista. O sonho desses homens era ver chegar o dia em que pudessem alegremente dizer (v.25): “Nós o aniquilamos” (billa‘anûhû). Temos de ser sinceros: é difícil conviver com uma situação como essa. Quanto tempo suportaríamos maus tratos e provocações assim? Em quanto tempo desistiríamos de tudo ou abandonaríamos o bem partindo para a briga com homens maus, ingratos e arrogantes como os tais? Entretanto, apesar do estado duradouro desses males, Davi revela seu sofrimento, mas não seu abandono da esperança de ver dias melhores modelados pelas mãos do Senhor eterno. O salmista, que ainda não viu seu livramento, nem a derrocada dos inimigos, não tem dúvida de que ocorrerão. Ele conhece o Senhor e sabe que tipo de cuidado amoroso ele tem para com osseus. Assim, mesmo que o tempo de Deus não coincida sempre com a pressa do servo de se ver imediatamente livre das pressões, Davi sabe que chegará o dia em que o Senhor o livrará e lhe dará a alegria que se esvaiu diante das circunstâncias. Essa esperança faz com que o salmista declare, do meio do turbilhão, como será seu regozijo naquele dia (v.9): “E a minha alma se alegrará no Senhor e regozijará na sua salvação” (wenafshî tagîl bayhwâ tasîs bîshû‘atô). É muito interessante ver como, ao mesmo tempo, tal certeza produz uma esperança futura e um consolo presente. Por causa dessa esperança é que, depois de sofrer por tanto tempo, Davi persiste em se manter na justiça e no serviço do Senhor, inclusive, louvando-o por meio desse salmo. Como Davi não foi o único a carregar problemas duradouros, essa mensagem é de especial aplicação e atualidade para nós mesmos. Nós também nos cansamos de sofrer injustiça. Também ficamos desanimados ao tratar bem pessoas que nos retribuem com o mal. Infelizmente, também somos, por vezes, alvo das chacotas e das provocações arrogantes de outros. Pois é exatamente nesses momentos que nossa fé no Senhor deve ser redobrada e nos fazer lembrar de tudo que ele nos fez e das coisas que ainda nos fará. É nessas horas que a esperança cristã nos deve dar novo fôlego e, por pura fé, nos fazer regozijar no Senhor pela libertação que ele ainda não produziu. Independente dos detalhes dos planos de Deus para nós, sabemos que o resumo deles é que ele cuidará dos nossos dias com todo seu amor até nos receber no eterno lar, onde jamais sofreremos injustiça ou qualquer outro tipo de mal. Portanto, lembre-se: “Tenha paciência! As dores fortes vão passar. E mesmo que demorem um pouco para que isso ocorra, não desanime, pois a crise vai passar”. SALMO 36 O Maior de Todos os Contrastes Em minha família, somos três irmãos: dois homens e uma mulher. Meu irmão mais novo é alguém muito alegre e animado, assim como eu mesmo costumo ser. Mas há um fator interessante entre nós: somos, no geral, extremamente diferentes. Nossos gostos são diferentes. Nossos hábitos nem sequer se parecem. Nossas habilidades são distintas. Fizemos cursos superiores de áreas opostas. Nossas amizades nunca se dariam bem entre si. Até nossa aparência difere, de modo que as pessoas que nos conhecem há pouco tempo nem imaginam que somos irmãos. É difícil acreditar que fomos gerados no mesmo ventre e educados no mesmo lar. Apesar de tanta diferença, nos damos bem porque ainda guardamos muitas semelhanças e compartilhamos de muitos valores. Por maiores que sejam os contrastes entre meu irmão e mim, há um muito maior. No Salmo 36, o rei Davi evidencia os contrastes entre o homem ímpio e o Deus santo. Muitos são os contrastes nesse texto e eles podem ser identificados sob diversas ópticas. Um deles é o disparate entre a ausência de bem no injusto e a fartura das qualidades divinas e das bênçãos vindas de Deus. Se precisássemos traduzir isso em termos de metragem, mediríamos o pecador na escala de milímetros, enquanto o Senhor seria representado na escala dos quilômetros. O primeiro desses contrastes se dá no campo da confiabilidade. O homem que não segue Deus não é alguém em quem se possa confiar. Seus padrões morais e éticos não são guiados pela verdade e pela retidão. Há nele ausência de um caráter justo (v.1), pois “não há temor de Deus diante dos seus olhos” (’ên-pahad ’elohîm leneged ‘ênayw). Assim, não há limites nem escrúpulos naquilo que faz, visto não ter medo de ser julgado por alguém superior aos homens. Diante de tal ausência, Deus superabunda em termos de confiança para os que o seguem (v.6), pois “aos céus chegam a tua fidelidade, ó Senhor; a tua confiabilidade chega até as estrelas” (yehwâ behashamayim hasdeka ’emûnateka ‘ad-shehaqîm). Se pensarmos bem, não há como medir os atributos do Deus ilimitado. Assim, quando o salmista cita os céus e as estrelas, não é para oferecer uma medida ou um alcance exato, mas para exaltar a “fartura” de tais atributos. É a comparação entre a ausência de veracidade no homem amigo do pecado e a abundância da confiabilidade do Senhor. É uma imagem que vislumbra a pequena estatura de um homem comparado à distância entre o chão e as estrelas. É um contraste e tanto! O segundo contraste está na área da justiça. O ímpio se sente bem com seus procedimentos injustos. O v.2 diz que “ele lisonjeia a si mesmo aos seus olhos” (hehelîq ’elayw be‘ênayw). Significa que ele se parabeniza ao contemplar o seu pecado, a sua culpa e a sua ausência de justiça. Destilar sua maldade sobre os outros não lhe causa rubor nem lhe afeta a consciência. Antes, faz com que se vanglorie disso. Por outro lado, Deus transborda de justiça (v.6): “A tua justiça é como as montanhas de Deus; o teu juízo é como um oceano muito profundo” (tsidqateka keharrê-’el mishpateka tehôm ravvâ). Mais uma vez, a grande dimensão das montanhas e a profundidade e tamanho dos mares representam o proceder justo do Senhor. Aliás, não há ninguém mais justo que ele. Sua justiça nem sequer pode ser mensurada. O terceiro se dá no relacionamento. Relacionar-se com os injustos é difícil e perigoso pela ausência da benignidade, ou seja, a disposição de promover o bem alheio. Falando do homem ímpio, Davi afirma que (v.3) “as palavras da sua boca são falsidade e traição” (divrê-pîn ’awen ûmirmâ). Conviver com pessoas assim é um grande risco, pois, não somente não são confiáveis, como também tramam males contra o próximo. Enquanto apertam as mãos das pessoas, pensam em como causar-lhes dano para promover o benefício pessoal. Suas palavras são boas aos ouvidos, mas suas tramas abrem uma cova para quem os acolhe. Os homens ao redor devem se afastar dos injustos a fim de se protegerem. De modo diametralmente oposto, a proximidade do Senhor é o que protege seus filhos. Sobre Deus, diz o salmista (v.7): “Os filhos do homem se protegem à sombra das tuas asas” (benê adam betsel kenafeika yehesayûn). Como um grande pássaro, mais forte e poderoso que os predadores, o Senhor protege aqueles que o buscam. Essa proteção é efetiva e tem como razão a “benignidade” do Senhor. Ele não vira o rosto para quem o busca. Antes, se relaciona com eles em meio à bondade. Ele oferece um relacionamento extremamente saudável para seus servos, assim como um pai ao se relacionar com os filhos ou como uma ave que abraça e protege seus filhotes. O quarto contraste surge na área do auxílio. Se pensarmos em termos de ações positivas e benéficas em relação a outras pessoas, nosso modelo nunca pode ser o homem injusto, pois (v.3) “ele renunciou ao entendimento e à prática do bem” (hadal lehaskîl lehêtîv). O senso comum do bem não está nesse homem. Ele age como se ignorasse os conceitos relacionados a fazer o bem aos outros. Ninguém pode esperar dele um auxílio verdadeiro e desinteressado, pois tais atos são desconhecidos para ele. Por outro lado, se os servos do Senhor necessitam do auxílio divino (v.8), “eles se saciam de gordura da tua casa” (yirweyun middeshen). Essa é a imagem de um homem faminto sendo alimentado por um anfitrião generoso. O benfeitor oferece comida em abundância; nada falta. Além disso, trata-se de uma comida nutritiva que sustenta o faminto – deve-se levar em consideração que, nos dias do salmista, a gordura, diferente de hoje, não era vista sob uma óptica negativa, como produtora de doenças, mas como uma parte importante da alimentação. Assim, Deus age como um benfeitor que supre as necessidades dos aflitos de modo generoso e abundante. Esse fato é corroborado na sequência do texto: “Tu lhes dá de beber da torrente das tuas delícias” (nahal ‘adaneyka tashqem). O auxílio divino é farto e fruto da sua bondade. O último contraste está no caráter. O v.4 diz que o perverso “trama o mal” (’awen yahshov). Entretanto, essa não é a causa do seu caráter perverso, mas o efeito dele. O motivo de esse homem agir assim é que “ele não recusa a maldade” (ra‘ lo’ yim’am). A perversidade faz parte dele. Seu caráter é assim e, por isso, ele nuncase tolhe das más ações, nem se refreia. Tal homem vive escravizado nas trevas do pecado. Deus é o oposto disso, pois, segundo o salmista (v.9), “em ti está a fonte da vida; na tua luz nós vemos a luz” (‘immeka meqôr hayyiym be’ôreka nir’eh-’ôr). O caráter de Deus é santo, justo e amoroso, o que é representado, pelo salmista, por meio da ideia de “luz”. Pela observação da natureza divina relevada nas Escrituras, o servo do Senhor tem seu caminho iluminado e sabe por onde andar com segurança. Ele, mirando no Deus santo e vivo, é preenchido com a verdadeira vida. Tudo isso com sobra e abundância. A aplicação desses tão grandes contrastes vem na forma de uma oração do salmista ao Senhor. Ele, que parece ter desistido de confiar na força e na sabedoria humana, talvez cansado de sofrer tantas decepções, roga a Deus (v.10): “Alongue a tua bondade aos que te conhecem e a tua justiça aos que são retos de coração” (meshok hasdeka leyode‘eyka wetsidqotka leyishrê-lev). A confiança de Davi está na manutenção diária e abundante da bondade do Senhor para com seus servos. Não poderia haver um contraste mais vantajoso para os que creem em Deus e lhe são seguidores. Se o homem não é confiável, o Senhor é a fonte de toda a confiança. Se o homem trama armadilhas, Deus protege seus filhos delas. Se os pecadores são maus, Deus é o exemplo máximo da bondade. A pergunta que fica é: “O que você quer? Seguir os caminhos secos e tortos dos incrédulos, ou saborear a vida e a santidade que vem de Deus a da sua Palavra?” SALMO 37 Pequenas Brechas que Crescem Havia um homem, em Nova Jersey (EUA), que morava ao lado de uma rodovia. Todos os dias ele via milhares de carros passarem diante da sua porta. Imagino que fosse uma casa muito barulhenta. Certo dia, esse homem, olhando pela janela, notou o surgimento de um pequeno buraco no asfalto da rodovia. Imediatamente, ele se propôs a deixar o conforto do seu lar e tampar aquele buraco. O interessante foi o que ele disse após fazer esse pequeno, mas importante gesto: “Me custou apenas um minuto. E eu, provavelmente, economizei centenas de dólares de motoristas que passam por aqui. Isso precisava ser feito e eu não estava ocupado”. Que lição inspiradora sobre responsabilidade pessoal, abnegação e consideração pelos outros! Há mais uma importante lição nessa história que não tem relação direta com o benfeitor, mas com o buraco em si. Não houve maiores danos aos motoristas e aos seus veículos porque o buraco foi fechado a tempo. Entretanto, aquela pequena e, até então, inofensiva brecha no asfalto, certamente continuaria a crescer e faria o que o homem de Nova Jersey previu e evitou. Pequenas brechas, quando não reparadas, sempre crescem e causam danos. Sempre! Um campo fértil para problemas desse tipo é o coração do homem. E, talvez, nenhuma outra brecha cresça mais que os sentimentos ruins e pecaminosos. É provável que nenhum outro problema cause mais sofrimentos e conflitos que corações magoados, enraivecidos e cobiçosos. Davi percebeu algumas brechas nos corações dos servos de Deus e ensinou, no Salmo 37, a importância de evitar que cresçam. Podemos identificar, nesse salmo, pelo menos cinco sentimentos que os justos devem evitar. O primeiro é a inveja. O contexto do salmo coloca os servos de Deus, pessoas a quem Davi se dirige, diante de ímpios que, em lugar de sofrerem o castigo de Deus por sua maldade, estavam prosperando com ela. Os justos, por sua vez, não viam dias tão bons, nem desfrutavam de uma alegria como “aparentemente” desfrutavam os ímpios. Essa situação revoltante fazia com que os justos os invejassem, pelo que Davi lhes diz (v.1): “Não sinta inveja daqueles que praticam a injustiça” (’al-teqanne’ be‘osê ‘awlâ). Podemos até entender tal sentimento. Não é fácil lutar contra as dificuldades da vida para ser uma boa pessoa e suprir sua família, enquanto se vêm homens desonestos prosperando com a maldade. É certo que, um dia, todos os injustos serão punidos pelo mal que cometeram (v.6). Mas, por hora, o pesar recai sobre o justo que os vê, incólumes, praticar o mal. Por um lado há o sentimento de revolta; por outro, a inveja e o desejo de também prosperar seguindo os mesmo expedientes. Tal sentimento, ao crescer no coração do justo, traz a ele corrupção e desvio. A receita de Davi para evitar esse mal é confiar no Senhor (vv.3a,5): “Confie no Senhor e faça o bem [...] Entregue ao Senhor o teu caminho e confie nele, pois ele agirá” (betah bayhwâ wa‘aseh-tov [...] gôl ‘al-yehwâ darkeka ûbetah ‘alayw wehû’ ya‘aseh). O segundo é a ira. Davi aconselha os justos (v.7) da seguinte maneira: “Não se exaspere por causa daquele que faz prosperar o seu caminho, o homem que costuma fazer ardis” (’al-tithar bematslîah darkô be’îsh ‘oseh mezimmôt). Apesar de o conselho ser claro, Davi não se contentou apenas com ele. Tudo indica que a ira no coração dos justos, ao ver os ardis bem sucedidos dos ímpios, os fazia arder sobremaneira. Portanto, Davi repete o ensino de maneira mais séria e grave (v.8): “Abandone a ira; deixe a indignação” (heref me’af wa‘azov hemâ). A preocupação primária de Davi não é diretamente com os injustos ou com o que os justos possam, em sua ira, fazer a eles. Davi olha para os servos de Deus e teme pelo que a ira pode lhes causar, já que completa: “Certamente, isso serve para causar danos” (’ak- lehareah). Como remédio a esse sentimento crescente e destrutivo, o salmista oferece a esperança futura para os que agem da forma oposta (v.11): “Mas os mansos herdarão a terra e desfrutarão de fartura de paz” (wa‘anawîm yiyrshû-’arets wehit‘annegû ‘al-rov shalôm). Tal esperança é tão viva que Jesus a incentivou no sermão do monte (Mt 5.5). O terceiro sentimento a ser evitado é a ganância. O salmista deixa transparecer o receio de ver seus irmãos imersos nesse sentimento ao graduar o valor das riquezas usando a escala da justiça e da honestidade (v.16): “Bom é o pouco para o justo mais que a riqueza de muitos ímpios” (tôv-me‘at latsaddiq mehamôn resha‘îm ravvîm). Certamente seus leitores não invejavam apenas os lucros das ações corrompidas, mas as riquezas que tais ações acumulavam. Por outro lado, é possível que tivesse surgido neles uma grande insatisfação com suas posses humildes, sem falar na ingratidão a Deus pelo suprimento diário. Dá para entender a preocupação do salmista. Para sanar esse tão grave desvio do coração, Davi oferece uma certeza mais que confortante: o cuidado que o Senhor tem pelos seus servos. Diz ele, no v.19: “Não serão envergonhados em tempos de calamidade, mas se saciarão nos dias de fome” (lo’-yevoshû be‘et ra‘â ûbîmê re‘avôn yisba‘û). Não importa se o servo de Deus não tem os recursos financeiros que garantem sua paz, pois Deus, que é o dono de tudo, supre a necessidade dos seus filhos. A esperança nos bens é passageira e inexata, enquanto, conforme revela o salmista, a esperança em Deus é segura e fundamentada em um amor que nunca passa. O quarto é o egoísmo. A ganância nem sempre é egoísta, mas o egoísmo sempre é ganancioso. Por isso, diz o salmista (v.21), “o ímpio toma emprestado e não restitui” (loweh rasha‘ welo’ yeshallem). A ganância do ímpio não deixa que ele se incomode com o fato de prejudicar o outro. Nesse ponto, seu egoísmo se revela: ele tem lucro sobre o prejuízo alheio, como se somente o seu bem-estar e os seus interesses importassem. Esse é um sentimento contra o qual o servo de Deus deve lutar o tempo todo, já que, depois do pecado, o homem desenvolveu naturalmente uma disposição egoísta. O objetivo do crente deve ser agir de forma contrária: “O justo, contudo, tem compaixão e dá” (wetsadîq honen wenoten). É impressionante a diferença! Em lugar de usurpar, como fazem os ímpios, o justo dá sem esperar ser restituído. É o contrário do sentimento egoísta. Note bem: não se trata de esbanjar, mas de auxiliar amorosamente. É um sentimento que faz jus ao ensino de Paulo em Romanos 13.8: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros”. Para encorajar talatitude, Davi lembra que, apesar da frequente escassez de posses nessa vida, os servos de Deus serão possuidores de uma herança inigualável no futuro (v.22): “Pois aqueles que são abençoados [pelo Senhor] herdarão a terra” (kî meboracayw yiyrshû ’arets). Por fim, o quinto sentimento a ser evitado é a malícia. Como importante orientação, Davi ordena (v.27): “Afaste-se do mal e faça o que é bom” (sûr mera‘ wa‘aseh-tov). Trata-se das ações malignas cujas motivações são da mesma natureza. É um sentimento malicioso o responsável pelas más ações. Por isso, o salmista oferece, em lugar da maldade, as boas ações como padrão de vida para o servo de Deus. É um movimento duplo: se afastar do mal e se apegar ao bem. O apóstolo Paulo ensinou o mesmo aos efésios: “No sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.22-24). Entretanto, devemos nos lembrar que essa batalha deve ser travada, em primeiro lugar, no coração, já que Jesus afirmou que é dele que vêm as ações que contaminam o homem: “Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19). Por isso, o remédio que Davi oferece para impedir que a malícia cresça no coração dos filhos de Deus é a transformação que ele sofreu na sua conversão e a adoção da Palavra do Senhor onde antes só havia malícia e corrupção (v.31): “Ele tem, no seu coração, a instrução do seu Deus” (tôrat ’elohayw belivvô). Inveja, ira, ganância, egoísmo e malícia são sentimentos que têm muito em comum. Eles acometem os servos do Senhor, causam destruição e crescem se não forem impedidos a tempo. Isso faz com que seja primordial tanto a atenção a eles como a decisão de abandoná-los e vencê-los. Muitas vidas santas se deterioraram na história da igreja de Cristo por descuido e autoconfiança em relação ao combate a esses males. Em um aspecto, são muito parecidos com aquele buraco na rodovia da Nova Jersey: eles crescem se ninguém os combater. Por outro lado, diferem daquele buraco em relação à gravidade, pois não há dólares suficientes em termos de prejuízo que tornem qualquer buraco mais destrutivo que os sentimentos pecaminosos florescendo no coração do justo. Tampe esses buracos a fim de ter uma viagem feliz e segura, sendo guiado e protegido pelo do nosso Senhor. SALMO 38 Há Esperança para Mim? No dia 17 de dezembro de 1927, um submarino da classe S-4 sofreu uma colisão acidental com um navio da guarda costeira americana na costa de Massachusetts (EUA). Avariado, o submarino, com 38 tripulantes, afundou rapidamente até tocar o fundo do oceano, pouco mais de trinta metros abaixo da superfície. Um grande número de navios com equipes especializadas se uniu para tentar o resgate dos tripulantes. Apesar de todo o aparato utilizado, a dificuldade não se resumia a um procedimento delicado em um lugar de difícil acesso, mas a fazê-lo movido pela extrema urgência que a situação exigia. Nenhum esforço teria êxito se os marinheiros morressem por falta de oxigênio. Tanto as equipes de resgate como os marinheiros no submarino sabiam disso. Um mergulhador, se aproximando do submarino, encostou seu capacete no casco e ouviu batidas vindas de dentro. Rapidamente, percebeu tratar-se de uma mensagem em código Morse. Ela vinha de seis sobreviventes alojados na sala de torpedos dianteira. Depois de estimarem que o suprimento de oxigênio acabaria em cerca de 48 horas, a pergunta codificada que retumbava dentro do enorme sepulcro de aço era: “Há alguma esperança?”. Às vezes, a única coisa que resta ao homem é a esperança. Se há alguém que soube o que é andar na corda bamba da vida apoiado apenas pela vara da esperança, esse alguém foi Davi. A diferença, entretanto, entre o rei de Israel e os marinheiros naufragados do S-4 é que os marinheiros foram vítimas de um infeliz acidente, enquanto Davi foi vítima das consequências do seu pecado. O Salmo 38 revela, em meio ao pedido de perdão do salmista, a gravidade das consequências dos seus atos, ao passo que frisa a esperança que tinha de ser perdoado e aliviado do fardo por meio da bondade do Deus a quem servia. O início do salmo mostra que o escritor, que bem conhecia seus atos, interpretava o intenso sofrimento que atravessava como uma dura – e merecida – punição por parte do Senhor (v.2): “Pois tuas flechas se fincam em mim e cai sobre mim a tua mão” (kî-hitseyka nihatû bî watinhat ‘alay yadeka). Por isso mesmo, seu pedido a Deus é (v.1): “Ao repreender-me, ó Senhor, não o faças na tua ira, nem me castigues na tua irritação” (yehwâ ’al- beqetspeka tôkîhenî ûbahamateka teyasserenî). Esse pedido visa a que Deus limite seu castigo a fim de não destruir o salmista. Apesar da dureza com que Deus o tratava nesse momento, Davi não culpa o Senhor nem lhe acusa de injustiça. Na verdade, ele declara saber que o que sofre vem da sua própria iniquidade (vv.3,4): “Não há bem-estar nos meus ossos por causa do meu pecado, pois as minhas iniquidades ultrapassaram a altura da minha cabeça” (’ên-shalôm ba‘atsamay mipenê hatta’tî kî ‘aônotay ‘ovrû ro’shî). Diante disso, a atitude de Davi é exatamente aquela ensinada nas Escrituras. Ele busca o Senhor e confessa a ele seu pecado, dizendo (v.18): “De modo que eu confesso a minha culpa; estou inquieto devido ao meu pecado” (kî-‘aônî ’agîd ’ed’ag mehatta’tî). A situação caótica enfrentada pelo escritor, descrita ao longo de todo o salmo, não o fez desistir. É comum ver homens cometendo loucuras ao se verem abatidos pelas reviravoltas da vida. Talvez Davi tivesse mais razões para isso que a maioria dos que passam por duras provas. É certo que não era a primeira vez que sofria perseguição de inimigos. Nelas, Davi sempre mostrou forte convicção de que Deus olhava para a injustiça dos adversários e o livrava das suas mãos. Mas essa situação era diferente. Quem o perseguia dessa vez era a mão do Senhor punindo-lhe o pecado. O protetor divino, nessa ocasião, era a fonte da dura disciplina. Mesmo assim, Davi permaneceu de pé e, mesmo manco por causa dos golpes, prosseguiu sua jornada. O motivo foi a esperança que tinha no próprio Senhor Deus. Podem-se notar, ao longo do salmo, pelo menos quatro razões para a esperança de Davi na situação desesperadora em que vivia. A primeira razão para a esperança era a certeza de ser ouvido em oração. As esperanças de Davi se revelam nos seus pedidos. Ele orava porque acreditava que Deus o atenderia e isso o enchia de esperanças. Por isso ele se dirige ao Senhor dizendo (v.9): “Diante de ti, ó Senhor, está todo o meu lamento e a minha ansiedade não é oculta a ti” (’adonay negdeka kol-ta’awatî we’anhatî mimmeka lo’-nistarâ). Davi sabia que não estava tratando com um juiz impiedoso diante de quem não se pode pedir clemência. Conhecedor do caráter divino, o salmista olha com esperança para a oração. Ele tem a certeza de que Deus a ouvia e não se endurecia diante dela, além de notar, dentro do coração do pedinte, a veracidade do seu quebrantamento. O escritor se aquecia ao saber que Deus reagiria de modo compatível com seu caráter diante do filho que implora o perdão do pai e que se derrama em lágrimas com suas dores à vista. A segunda razão para esperança era o relacionamento inquebrável com Deus. Davi sabia da capacidade do Senhor no que tange ao conhecimento de tudo e de todos, conforme demonstra no Salmo 139. Tal capacidade fazia com que Deus conhecesse os pontos positivos do salmista, ao mesmo tempo em que conhecia todo o seu pecado e impureza. Se Davi sabia que estava sendo disciplinado, sabia também que Deus tinha ciência da sua iniquidade. Ainda assim, ele revela confiança de isso não faria com que o Senhor o rejeitasse definitivamente. Logo (v.15), ao dizer “em ti eu espero, ó Senhor” (leka yehwâ hôhaletî), ele chama o mesmo Senhor de “meu Deus” (’elohay). Para Davi,o Senhor continuava sendo o “seu” Deus. Tal relacionamento não pode se quebrar porque a fidelidade do Senhor, e não a do homem, o mantém nas situações adversas. No pecado, o Senhor disciplina o filho, mas não o deserda. A terceira razão é a presença constante do Senhor. O próximo pedido do rei de Israel, ao qual tem esperanças de ver atendido pelo bom Deus, é (v.21): “Não me abandone, ó Senhor meu Deus; não se afaste de mim”. Davi certamente se lembrava de como o Senhor tratou Saul, retirando dele seu Espírito e entregando-o aos tormentos do maligno (1Sm 16.14). Entretanto, Saul, diferente de Davi, nunca demonstrou a disposição de servir de fato a Deus, de crer nele e de se deixar guiar pelo soberano Senhor. Com o passar do tempo, foi se endurecendo cada vez mais e terminou a vida em rebeldia. O salmista não era assim e sua esperança era receber um tratamento diferente do que foi dado ao antigo rei. Desse modo, sua esperança está no fato de que sabia ser muito razoável pedir a Deus que não se afastasse dele e permanecesse junto dele, mantendo também a comunhão. O Pai nunca abandona seus filhos, mas permanece sempre ao seu lado. A quarta razão para esperança era a confiança na sabedoria divina. Davi, ao ver a situação de urgente necessidade que atravessava, faz uma ressalva interessante em seu pedido (v.22): “Se apresse em socorrer-me, ó Senhor” (hûshâ le‘ezratî ’adonay). Digo se tratar de uma ressalva interessante, pois ela não está sempre presente nas orações davídicas. Enquanto a confiança na bondade de Deus sempre transparece, a urgência nem sempre se faz perceber nas poesias desse salmista. Contudo, esse é um caso diferente. A perseguição dos inimigos parece ser tão feroz que o livramento urgente é necessário para que Davi não pereça na mão deles. E, ao que parece, ao orar pedindo que Deus se apresse ao socorrê-lo, Davi transmite a esperança de que a sabedoria de Deus é capaz de avaliar cada situação e tratá-la de maneira individual, não como uma força impessoal e mecânica, mas como um sábio que conhece as peculiaridades das pessoas e das circunstâncias. Caso contrário, seria inútil orar desse modo. Infelizmente, a esperança dos marinheiros do S-4 foi inútil. Uma forte tempestade atrasou o resgate e as opções escolhidas para o salvamento se mostraram equivocadas. Todos morreram e a esperança dos marinheiros pereceu com eles. Por decepções como essa, talvez muitos crentes, ao pecarem, se afastam de Deus não somente pela iniquidade dos seus atos, mas pela falta de esperança de continuarem a ser amados por ele. Desse modo, já que a comunhão foi ferida pelo pecado, eles terminam de matá-la se entregando ainda mais ao descaso e à falta de arrependimento. O ensino desse salmo é que tais posturas são erradas e inúteis, visto que Deus está pronto a perdoar o pecador arrependido. Essa é a melhor esperança que o pecador contrito pode ter: a de que será recebido nos braços do Pai quando volta para casa. Portanto, abandone seu pecado e busque o Senhor. Nele, a esperança dos cristãos nunca naufraga. SALMO 39 Como Agir no Meio da Crise? O mês de março de 2011 ficará marcado na história da humanidade como a ocasião em que o mundo viu uma grande tragédia: o tsunami no Norte do Japão. Até antes de dezembro de 2004, quando um incidente da mesma natureza deu-se na Indonésia, quase ninguém tinha ouvido falar do termo tsunami. De lá para cá, duas terríveis ocorrências fizeram o mundo não apenas conhecer o termo, mas também os fatores que causam os tsunamis e sua capacidade tremendamente destrutiva. Nesse período, o mundo também lamentou terremotos, guerras civis, ciclones, enchentes e grandes deslizamentos de terra. Quando eventos catastróficos ocorrem, as pessoas, ainda que distantes, sentem um enorme pesar e são incomodadas com questões relativas às “razões de acontecerem coisas ruins perante os olhos de um Deus bom”. Diante disso, as reações das pessoas são as mais diversas. Uns dizem que Deus não existe. Outros, que ele não ama de verdade as pessoas e, por isso, não deve ser servido ou adorado. Há até quem, desejando justificar o Senhor – como se ele necessitasse de advogados –, diz que essas infelicidades são ocorrências alheias ao divino controle. Seriam apenas más sortes na esfera do acaso. Alguns desses “defensores” chegam a dizer, de modo absurdamente antibíblico, que Deus nem sequer sabia que tais catástrofes aconteceriam. Apesar da tolice de tais afirmações, uma pergunta permanece: “Como os cristãos de verdade devem se comportar diante de tragédias e situações de crise?”. O Salmo 39 ajuda a responder, do ponto de vista do servo desejoso de honrar a Deus, como reagir quando o mundo parece desabar. O tema é tão importante para aqueles que pertencem a Deus, que Davi, autor do salmo, dirigiu a recém-escrita obra aos cuidados de Jedutum, um dos homens responsáveis pelo louvor a Deus no tabernáculo israelita (1Cr 25.1,3). Assim, o salmo seria repetidamente cantado e serviria de testemunho a todos os que adoravam, no tabernáculo, o Deus verdadeiro. A utilidade do salmo vem de ele apresentar quatro reações necessárias ao servo de Deus em tempos de crise. A primeira reação é abster-se de murmurar contra Deus. O texto não revela a situação específica de Davi, mas é claro em informar que não se tratava de um problema qualquer. Davi atravessava uma grave crise. O v.13 deixa transparecer que ele corria risco iminente de morte, já que pede por livramento, dizendo: “Antes que eu parta e já não exista” (beterem ’elek we’ênenî). Essa é uma situação em que é comum se ver discípulos do Senhor se sentirem no direito de murmurar até mesmo contra Deus. É como se tais pessoas imaginassem que Deus, ao não evitar o mal, dá permissão para que se digam absurdos, de modo irresponsável, sem que ele leve em conta. O salmista, talvez conhecedor dessa tendência humana, tomou providências para não incorrer nesse tipo de desvio. Ele propõe a si o seguinte (v.1): “Guardarei os meus caminhos de pecar com a minha língua” (’eshmerâ derakay mehatô’ bilshônî). A tentação de falar o que era indevido era tão grande que Davi usa uma palavra forte para dizer como evitaria o mal. O verbo hebraico “guardar” (shamar), na forma do particípio, é o termo usado para se referir a um guarda, uma sentinela, um vigia. Além de não querer pecar contra Deus, o salmista também estava preocupado com seu testemunho perante o mundo. Assim, quando põe freios na língua, o faz especialmente diante dos incrédulos – “que eu coloque uma mordaça na minha boca sempre que o ímpio estiver na minha presença” (’asîmâ lepî mahsôm be‘od rasha‘ lenegdî). O interesse dos incrédulos não é, via de regra, meditar sobre a atuação de Deus diante do sofrimento e analisar o ensino bíblico que trata o assunto. Seu primeiro impulso é atacar o Senhor e justificar a postura humana de rebeldia e de incredulidade em relação a Deus. Davi, ainda que acometido pelo sofrimento, não queria injetar combustível na acusação pérfida dos pecadores. Resumindo, o salmista não acha que a situação difícil que vive é um passe livre para pecar falando coisas injustas, nem tampouco demonstrar ingratidão por todo o bem que Deus já lhe tinha feito. A segunda reação é reconhecer a transitoriedade do homem. Uma dificuldade que os homens têm de atravessar as tragédias que os assolam é que eles, às vezes, colocam nessa vida sua esperança e seus objetivos finais. Essa é uma característica da vida de quem não tem a esperança da vida eterna. Contudo, os próprios servos de Deus podem se esquecer de onde está seu verdadeiro tesouro (Mt 6.19,20) e quanto tempo passarão na presença do Senhor na pátria celestial (1Ts 4.17). Quando isso acontece, o mundo presente passa a ser fator fundamental para dar sentido às suas vidas e ser fonte de felicidade. É natural, para quem vê a vida sob esse prisma falho, que ela perca o sentido quando as circunstâncias são dramáticas. O salmista parece não sofrer desse mal. Diante do sofrimento, ele olha para o caráter passageiro dessa vida a fim de aguçar sua esperançana vida futura. Diz ele ao Senhor (v.5): “A minha longevidade é como nada diante de ti. É certo que todo homem, incluindo aquele que é firme, não é mais que um sopro” (heldî ke’ayin negdeka ’ak kol-hevel kol-’adam nitsav). Essa visão da fragilidade do homem e do breve limite da vida faz com que o salmista não se surpreenda demais ao ver o sofrimento ao seu redor e o faça esperar pelo alívio da vida com Deus (Ap 21.4). A terceira reação é buscar a purificação da vida. Davi, ao olhar para seu sofrimento, não acha que ele é uma má sorte de um curso cego. Ele sabe que Deus é soberano e que comanda o rumo da vida de cada ser humano (Sl 139.16). Sendo assim, o escritor vê, na sua situação, o propósito e a ação do Senhor, visto que declara (v.9): “Fico em silêncio e não abro minha boca, pois tu fizeste isso” (ne’elamtî lo’ ’eftah-pî kî ’attâ ‘asîta). A conclusão a que Davi chega, conhecendo suas próprias ações, é que, entre os desígnios insondáveis do soberano, está presente uma ação disciplinar. Portanto, sem perder mais tempo, ele roga (v.8): “Livra-me de todos os meus pecados” (mikal-pesha‘ay hatsîlenî). Isso não quer dizer que todo sofrimento da vida seja uma disciplina de Deus. Mas, certamente, cada um conhece seu próprio andar e tem bases para avaliar o modo de Deus tratá-lo. De qualquer forma, o sofrimento é sempre uma oportunidade e um convite ao arrependimento e à conversão, já que o homem se depara com sua fraqueza diante do poder do Todo-poderoso que é santo. A última reação necessária ao servo de Deus que atravessa uma crise é dobrar-se em oração ao soberano. Essa reação pode parecer óbvia, mas, em muitos casos, custa muito a ser efetivada. O homem, diante da crise, tem muito mais inclinação para a murmuração e para busca das próprias soluções do que a disposição de depender de Deus e orar pedindo alívio e direção. Muitas vezes, por arrogância e autossuficiência do homem, essas atitudes tipicamente cristãs são aplicadas somente quando não há mais recursos. Davi não apresentou essa postura. Ao ver o perigo se acercando dele, curvou-se diante de Deus e pediu (v.12): “Ouve a minha oração, ó Senhor, e dá ouvidos à minha súplica” (shim‘â-tefillatî yehwâ weshaw‘atî ha’azînâ). Independente das circunstâncias, Deus sempre quer que seus servos levem a ele suas petições e lhe apresentem, com atitude de submissão, seus sofrimentos e tristezas (Fp 4.6) – principalmente em momentos como esse. As notícias de tragédias continuarão a ocupar os noticiários. Por mais que a humanidade desenvolva novas tecnologias de previsão e de prevenção de catástrofes, é certo que ainda veremos muito sofrimento acometer a humanidade. Nessas horas, em lugar de tentar definir o que se não pode esquadrinhar (Rm 11.33-35), a igreja de Cristo deve se portar como um servo de um bom rei e não como um cliente mal-atendido de um restaurante. Os discípulos de Cristo, em lugar de questionar a sabedoria e a bondade do Senhor, devem aproveitar para divulgar a mensagem da cruz de Cristo ao mundo perdido. Devem, também, deixar de rebaixar o Senhor a um espectador impotente diante dos eventos do mundo com a finalidade de protegê-lo de críticas. Em lugar disso, devem proclamar sua soberania, pela qual ele guiará a história da humanidade até o “Dia do Senhor” – o juízo do mundo –, quando separará os que lhe pertencem daqueles que receberão a punição por rejeitarem a Cristo. Devem os servos de Deus, em todo momento, testemunhar que o Senhor, em lugar de produzir um céu na Terra, ou as bênçãos do futuro no tempo presente, é aquele que, em “verdadeiro amor”, enviou seu Filho para dar a vida pelos pecadores (Jo 3.16; 1Jo 4.10) a fim de conduzi-os à eterna pátria onde nada mais os abalará. SALMO 40 Atividades que Marcam a Verdadeira Religião Desde pequeno, me acostumei a notar, em diversas casas, alguns artefatos que revelavam certa religiosidade – ou superstição – de pessoas conhecidas da minha família. Budas, elefantes virados com a tromba para a parede, pequenas estátuas pousadas sobre notas de dólar, velas dispostas em pequenos altares nos cantos dos cômodos, cristais coloridos sobre as mesas, livros de meditação, cartas de adivinhação, quadros com temas religiosos, vasinhos com arruda e uma série de outros objetos dos quais nem consigo me lembrar. Apesar dessa variedade, um item me parecia ser unanimidade entre os possuidores de tais hábitos: uma Bíblia aberta. Embora poucas dessas pessoas tenham o hábito de ler a Bíblia, a maioria supõe que a presença dela, com as páginas à vista, transmite uma espécie de “energia positiva” ou de “bons fluidos”, protegendo a casa de forças negativas. E mesmo com o desconhecimento grotesco do uso das Escrituras, tais pessoas sabem onde estão alguns textos que falam de proteção divina. Nesse sentido, o Salmo 40 – quase tanto quanto o 91 – é um dos textos mais utilizados para, segundo essa visão supersticiosa, proteger a casa e abençoar seus moradores. O que tais pessoas ignoram é que a proteção presente nesse texto é a que o Senhor – e não uma página de livro – aplicou ao seu servo Davi. Trata-se de uma oração por livramento que apresenta, no seu corpo, diversas atividades que marcam a verdadeira adoração ao Senhor. Longe daquela religiosidade popular e intuitiva, esse salmo apresenta cinco atividades presentes na verdadeira religião, ou seja, no relacionamento entre o homem salvo e seu Deus salvador. A primeira atividade que marca a verdadeira adoração é recordar com gratidão das bênçãos divinas. Diz-se que “brasileiro tem memória curta”. Mas quando o assunto é o relacionamento com o Senhor, pessoas de todas as nações, igualmente, tendem a olhar para o presente e se esquecer do que Deus fez no passado. O salmista tinha o passado vívido em sua mente. Ele diz (v.1): “Confiei plenamente no Senhor e ele se inclinou para mim” (qawwoh qiwwîtî yehwâ wayyet ’elay). Nem mesmo as preocupações que invadiam o coração do salmista o faziam esquecer as coisas que Deus lhe fez no passado, nem as respostas de oração que ele testemunhou. Esse “inclinar” de Deus, aproximando-se do servo, era algo vivo na memória de Davi lembrando-o de que Deus tinha e mantinha com ele um relacionamento amoroso e interessado. O resultado é a inevitável gratidão do salmista expressa no v.3: “Ele pôs na minha boca um cântico novo, louvor ao nosso Deus” (wayyitten bepî shîr hadash tehillâ le’lohênû). A gratidão vinda das recordações dos atos divinos explodia no salmista em forma de louvores e cânticos. A segunda atividade é priorizar a confiança no Senhor. Sempre que algo complicado recai sobre alguém, é necessário buscar ajuda. Há duas opções: recorrer a Deus ou recorrer aos homens. Nesse aspecto, o v.4 traz uma importante lição para o verdadeiro servo de Deus: “Feliz é o homem que põe no Senhor a sua confiança e não se volta para os presunçosos, nem para os mentirosos” (’asrê hageber ’asher-sam yehwâ mivtahô welo’-panâ ’el- rehavîm wesatê kazav). Apesar da nítida vantagem de buscar a Deus nas dificuldades, a incredulidade humana faz com que o homem tenda a procurar ajuda em braços que ele pode ver com seus olhos. Um exemplo disso foi o rei Acaz, descendente de Deus e rei de Judá. Ao saber de uma coligação entre o reino do Norte e a Síria, entrou em pânico (Is 7.2) e resolveu comprar a ajuda do rei da Assíria (2Rs 16.7-9) em lugar de confiar na promessa de Deus de livramento (Is 7.3-7). O resultado foi que, quando o rei de Judá se viu novamente em apuros e lançou mão do mesmo expediente, o arrogante rei da Assíria também se mostrou mentiroso e, em vez de ajudá-lo, o oprimiu como faz um inimigo e não um aliado (2Cr 28.20,21). O verdadeiro servo de Deus faz o oposto do que fez Acaz. Entre a opção de confiar em Deus e a opção de confiar nos homens fortes, ele prioriza a confiança no seu Deus libertador. A terceira é desenvolver uma atitude de obediência. Davi faz uma curiosa afirmação sobre Deus (v.6): “Não desejaste sacrifício, nem oferta [...] não pediste holocausto, nem oferta pelo pecado” (zevah ûminhâ lo’-hapatsta[...] ‘ôlâ wahata’â lo’ sha’alta). Tal afirmação é curiosa porque Deus, de fato, ordenou tais sacrifícios e ofertas, de modo que o texto parece contraditório. Entretanto, conclui-se, Davi recordou das palavras de Samuel a Saul, às quais, sem abolir os sacrifícios e ofertas, mostraram que Deus não preferia os sacrifícios à obediência devida a ele: “Porém, Samuel disse: tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22). Tentar convencer o Senhor com atitudes de religiosidade externa em meio à desobediência, não consegue comover seu coração, nem torná-lo devedor ao homem. O que Deus quer, em lugar de atos religiosos, é que seus servos o obedeçam como um filho obedece e honra ao pai. A quarta atividade é louvar a Deus publicamente. Ainda que Davi estivesse angustiado, o louvor a Deus não perdia seu lugar porque, na verdade, não estava subordinado às condições em que se encontrava o salmista, mas à eterna glória do Senhor. Por isso, escreve (v.9): “Anunciarei as boas-novas de justiça na numerosa congregação. Eu não fecharei os meus lábios” (bissartî tsedeq beqahal rav hinneh sefatay lo’ ’ekla’ yehwâ). Essa é a expressão de um testemunho público a todas as pessoas ao redor. O salmista não deseja guardar para si os santos ensinos sobre a justiça do soberano. Nem tampouco se envergonha de se submeter à direção e correção do Senhor. Seu desejo é expor tais fatos diante da multidão a fim de proclamar a justiça, não própria, mas daquele que é justo sobre todos. Por intermédio do louvor público, Davi quer, também, encorajar outros servos de Deus a fazer o mesmo, pelo que os conclama (v.16): “Digam continuamente aqueles que amam a tua salvação: engrandecido seja o Senhor” (yo’merû tamîd yigdal yehwâ ’ohavê teshû‘ateka). A última atividade da religião verdadeira é apresentar a Deus uma oração humilde. Nesse salmo, Davi faz vários pedidos a Deus, especialmente concentrados entre os vv.11-15: “Senhor, não retenhas de mim a tua compaixão” (’attâ yehwâ lo’-tikla’ rahameyka mimmennî); “seja favorável a me livrar, Senhor” (retseh yehwâ lehatsîlenî); “sejam envergonhados e derrotados juntamente aqueles que buscam tirar minha vida” (yevôshû weyahperû yahad mevaqshê nafshî lispôtah). Entretanto, ao expor seus pedidos, expõe a Deus, também, suas fraquezas (v.12): “Pois as minhas maldades se acercaram de mim” (kî ’affô-‘alay ra‘ôt). Ao apresentar a Deus sua pecaminosidade e imperfeição, Davi abre mão de tentar obter qualquer vantagem de Deus que se baseasse nos méritos. Ele se posta como um pecador que nada merece, humilhado em sua condição, e, assim, suplica ao Senhor que lhe tenha compaixão. Essa é a atitude correta da oração do verdadeiro servo de Deus, que sabe ser ele mesmo homem limitado e pecador diante de um Senhor que ocupa a posição de onipotente e santo. Tais atividades, pela fé em Cristo, inevitavelmente revelam o afastamento do homem da religiosidade vazia e mostram sua proximidade do Deus vivo e verdadeiro. Livram o homem da escravidão produzida pela superstição e pelos conceitos intuitivos da divindade e o tornam livre para andar em comunhão com seu redentor. E mais: esvaziam as prateleiras dos servos de Deus de objetos que, no passado, pretendiam ser o alvo da sua fé. Afinal, o melhor livro aberto é a própria vida do crente, de cujas páginas reluz o verdadeiro brilho de Cristo. SALMO 41 Quando Alguém Parece Descartável Todos aqueles que já assistiram a filmes de guerra, de um modo ou de outro passaram a admirar os soldados. Não porque alguns filmes retratam certos guerreiros que, sozinhos, conseguem vencer todo um exército. Não! Refiro-me à admiração que cultivamos por eles quando, pelos filmes, vislumbramos o comprometimento dos soldados diante dos horrores da guerra. Nesse sentido, algo encorajador é ver como os soldados se importam uns com os outros e têm a meta de nunca deixar ninguém para trás. Mesmo feridos, aqueles que foram alvejados no campo de batalha são o alvo do esforço de todos os companheiros que se arriscam para resgatá-los e levá-los bem para casa. Cenas como essas, ao mesmo tempo que nos encorajam, nos chamam a atenção para o fato de que nem sempre é assim fora dos conflitos militares. No dia a dia, notamos pessoas que, mesmo sem ferimentos de guerra, têm limitações que as impede de produzir tudo que queriam ou deveriam. Nesse momento, quando elas necessitam de ajuda, é comum as vermos relegadas ao segundo plano. Exemplos disso são pessoas idosas e doentes. Ainda que tenham sido muito queridas e solicitadas no passado, ao chegarem a uma situação debilitante, pouca gente as procura ou tem paciência de estar ao seu lado. Certamente, em momentos como esse é que se conhecem os verdadeiros amigos. O fato é que, quando debilitados, recebemos um tratamento diferente por parte das pessoas. O Salmo 41 é um relato do tratamento que o rei Davi recebeu quando esteve à beira da morte. Apesar de não haver um título no salmo que dê com precisão o contexto em que foi escrito – assim como nos salmos 3, 34 ou 51 – em seu corpo é possível notar algumas características da situação vivida pelo salmista. Ele estava doente, de cama (vv.3,8), e correndo risco de morte (v.5). Talvez, o último versículo do salmo indique que a situação já tinha passado, mas, ainda que seja assim, Davi faz uma análise de como se comportaram os homens diante da sua debilidade e, também, como agiu o Senhor a quem ele servia. Tal análise nos fornece três contrastes entre o tratamento humano e o divino quando estamos debilitados. O primeiro contraste está no campo da valorização da vida daquele que está perecendo. Ainda que tal regra não valha para os amigos de verdade – esses são poucos –, os homens tendem a desvalorizar a vida de quem não tem mais as mesmas capacidades que antes, nem pode contribuir da mesma forma. Por causa disso, não se importam se a pessoa vive ou morre. E quando morre, parece que a perda é apenas motivo de conversas vãs. O v.5 indica que quem está perecendo é descartado pelos homens ao redor: “Os meus inimigos dizem coisas ruins a meu respeito: ‘Quando ele morrerá e perecerá o seu nome?’” (’ôyevay yo’merû ra‘ lî matay yamût we’avad shemô). Com essas palavras, tais homens demonstram não ver qualquer valor no debilitado, além da ausência do sentimento de perda ao vê-lo partir. Por outro lado, Deus age de modo contrário. Não abandona o que está fraco, mas, vendo o valor que possui – não em si mesmo, mas como alvo do amor divino – age em seu favor. Nesse sentido (v.2), “o Senhor o guarda e lhe mantém a vida” (yehwâ yishmerehû wîhayyehû). Entretanto, Deus não quer que o servo apenas tenha seu coração batendo e seus pulmões respirando. Ele tem para aquele a quem ama mais do que a simples sobrevivência. Quer lhe dar uma vida completa e, por isso, “o faz feliz na Terra” (wî’asherehû ba’arets). É certo que todos nós partiremos desse mundo e Deus, que ama os filhos, os toma para si por meio da morte. Contudo, quando não é chegada a hora de tal encontro, Deus não desvaloriza o servo pela suas debilidades. Para Deus, os homens que o buscam nunca são descartáveis. Por isso os preserva e lhes dá consolo e alegria apesar das circunstâncias contrárias. O segundo contraste se dá na veracidade do relacionamento. A incapacidade de alguém pode criar nas pessoas ao redor um relacionamento puramente superficial e não genuíno. Davi recebeu muitas visitas em seu leito de dor. Nem todas foram expressões autênticas do que sentiam as pessoas que o visitavam. Diz o salmista (v.6): “Se alguém entra para me ver, diz coisas fingidas” (we’im-ba’ lir’ôt shawe’ yedaber). Essa descrição me lembra de conversas quando não se tem assunto, nem há interesse pelas pessoas com quem se fala. Trata-se daquela conversa sobre “nada”, mais para se desincumbir do dever de visitar o doente que para saber como ele está e como pode ser ajudado de verdade. Entretanto,quando a visita acaba, o coração expõe as verdadeiras intenções: “No coração ele ajunta perversidades para si; quando sai, ele fala mal de mim” (livvô yiqbats-’awen lô yetse’ lahûts yedaber). É o retrato da falsidade posta em prática. O Senhor, por sua vez, não apenas age do modo oposto como intervém na maldade dos falsos companheiros (v.2): “Tu não o entregas ao desejo dos seus inimigos” (welo’-tittenehû benefesh ’oyevayw). Enquanto os homens usam de falsidade, Deus confirma sua fidelidade no relacionamento com aqueles que lhe pertencem. Por isso, não abandona o servo. Por isso, continua protegendo-o daqueles que lhe querem fazer mal. Se as circunstâncias mudaram, o amor de Deus não muda. Ele permanece sempre o mesmo. O terceiro contraste se pode ver na manutenção da amizade. Davi, como rei, ajudava muita gente a quem mostrava seu favor. Sustentava muitos, recebia-os em seu palácio, separava-lhes lugar à sua mesa. Como não poderia deixar de ser, muitos desses não frequentavam a mesa do rei por simples amizade, mas por interesse, quer financeiro, quer político. Para obter seus intentos, estendiam ao rei seus braços de amizade. Contudo, diante da virada da situação, deixaram de ter interesse na manutenção dessa “amizade”. Por isso, Davi se queixa (v.9): “Também o meu amigo em quem eu confiava, aquele que comia o meu pão, levantou o calcanhar contra mim” (gam-’îsh shelômî ’asher-batahtî bô ’okel lahmî higdîl ‘alay ‘aqev). A expressão “levantar o calcanhar” produz a ideia de uma traição, pelo que é aplicada a Judas que, sendo “amigo” de Jesus, mudou de atitude e o entregou aos adversários (Jo 13.18). Talvez uma boa tradução, com outra expressão figurada, para “levantar o calcanhar”, seja “passar uma rasteira”. Os antigos “amigos”, diante da debilidade do salmista, lhe “passaram uma rasteira”, mostrando a fragilidade da sua relação. O Senhor não é um amigo desse tipo, nem permanece ao lado dos servos apenas quando seus interesses são beneficiados. Ele permanece mesmo nos piores momentos, mostrando-se um amigo verdadeiro. Por isso, diz o texto (v.3): “O Senhor o sustenta sobre o leito de doença” (yehwâ yis’adenû ‘al-‘eres deway). Ou seja, quando uma doença abate o servo de Deus a ponto de ele ficar acamado, sofrendo e incerto de seu futuro, o Senhor não o abandona. Na verdade, faz de modo exímio o que fazem os amigos que se assentam ao lado do doente para ajudá-lo a atravessar aquele duro momento, dividindo um pouco da dor e da tristeza. Essa ação de consolo, prova da verdadeira amizade, ajuda o abatido a transpor a dor com coragem, sentido um grande alívio, como se o leito fosse mais confortável do que é, visto que está escrito: “Na sua doença transforma toda a sua cama” (kol-mishkavô hafakta beholyô). A ideia parece ser a de alguém que remexe o leito a fim de não se tornar duro e desconfortável. Resumindo, o Senhor faz com que as agruras de uma situação como a de Davi seja atravessada com mais conforto, consolo e coragem. É, de fato, a atitude de um verdadeiro amigo. Esse salmo é uma lição para nós. Em primeiro lugar, nos ajuda a diferenciar os verdadeiros amigos daqueles que assim falsamente se dizem. Em segundo lugar, nos ensina o quanto é incerta a confiança que temos nas pessoas. Finalmente, o quanto precisamos cultivar nosso relacionamento com Deus, o verdadeiro amigo. Tais momentos de luta e de dor, além de nos revelar a verdade sobre as pessoas ao redor, devem nos lançar de tal modo nos braços do Senhor que jamais desejemos nos afastar dele. No final das contas, está mais do que comprovada a veracidade do texto que diz que “na angústia se faz o irmão” (Pv 17.17). Principalmente, se esse for o Deus eterno. SALMO 42 Os Altos e Baixos da Vida A história da humanidade contém trechos marcantes devido a grandes feitos de homens que, ainda hoje, são considerados singulares. Entretanto, poucos feitos podem ser comparados ao de Pedro, discípulo de Jesus, ao andar por sobre as águas do lago Tiberíades, também conhecido como mar da Galileia. Entretanto, além de singular, é um episódio curioso por mostrar nuances tão marcantes quanto contraditórias na pessoa de Pedro. O mesmo relato que o mostra como um homem de fé no poder de Jesus também o pinta como um homem de pouca fé diante da força das ondas. Enquanto Pedro tinha seus olhos fixos em Jesus, mantinha-se, também, sobre as águas. Mas quando voltou seus olhos para as vagas, começou a afundar e teve de clamar por socorro ao Senhor a fim de não perecer. O Salmo 42, abertura do segundo livro dos cinco que formam a coletânea de salmos que temos na Bíblia, mostra a dinâmica da vida dos servos de Deus que lembra muito a experiência de Pedro. Os autores do salmo são os filhos de Corá, os quais assinam outros dez salmos. Eram de uma família da tribo de Levi, da linhagem de Asafe (1Cr 26.1), cuja função no Templo era louvar a Deus por meio de cânticos (2Cr 20.19), além de trabalhar como porteiros do Templo (1Cr 9.17-19). A ligação dessa família com o ministério no Templo torna a lição do Salmo 42 de especial relevância para aqueles que querem servir ao Senhor, mas que, vez por outra, desanimam diante das lutas que enfrentam. O salmo começa em um ponto alto. O salmista tem um grande anseio de estar na presença do Senhor. Diz ele (v.1): “Como uma corça anseia por um canal de águas, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus” (ke’ayyal ta‘arog ‘al-’afîqê-mayim ken nafshî ta‘arog ’eleyka ’elohîm). Essa é uma comparação interessante. A constante necessidade que uma corça tem de água, principalmente em uma região seca e montanhosa, é a situação à que o salmista compara sua necessidade constante de andar em comunhão com o Senhor e seu prazer nessa presença. Ele olha para Deus e se sente refrigerado e suprido. A figura continua mostrando que ele deseja cada dia ter mais comunhão com Deus, dizendo (v.2): “Minha alma tem sede de Deus” (tsam’â nafshî le’lohîm). A expressão “minha alma” não quer dizer, aqui, apenas a parte espiritual do escritor. É uma figura usada para representar o homem todo. Assim, ele anseia por Deus de todo coração, com todas as forças. E não se satisfaz com o que tem. Deseja sempre mais – por isso, seu desejo será coroado no encontro futuro com Deus: “Quando irei e me verei diante de Deus?” (matay ’bô’ we’era’eh penê ’elohîm). Ele olha para o futuro e vive um ponto alto da sua vida. Entretanto, ele também olha para as circunstâncias problemáticas ao seu redor e atravessa um ponto baixo da vida, pelo que diz (v.3): “As minhas lágrimas se tornaram pão para mim dia e noite” (hoytâ-lî dim‘atî lehem yômam walaylâ). Essa é uma descrição terrível. Em primeiro lugar, revela a intensa tristeza do autor do salmo, a ponto de se desfazer em lágrimas. Em segundo lugar, ele não conseguia se alimentar direito, tamanha sua tristeza. Era como se seu pranto fosse o alimento dos seus dias. Que aflição profunda! E o que causaria tamanho desgosto? O próprio texto dá uma forte indicação do motivo: “Em dizerem para mim o dia todo: ‘Onde está o teu Deus?’” (be’emor ’elay kol-hayyôm ’ayyeh ’eloheyka). O texto não revela o problema em si, mas mostra o efeito. O escritor do salmo era zombado pelos outros por algum sofrimento que perdurava. Tudo leva a crer que era, também, acusado de ter sido abandonado pelo Deus a quem servia. Isso, pelo visto, o abateu sobremaneira. Mas o salmo dá outra virada ao apresentar um clima diferente quando o salmista volta seus olhos novamente para o Senhor. Só que, em lugar de olhar para o futuro, ele olha para o passado e se lembra do quanto já serviu a Deus e com que prazer (v.4): “Lembro-me disso: [...] Caminhei com a multidão; eu conduzi a multidão festiva até a casa de Deus em meio a brados de alegria e gratidão” (’elleh ’ezkerâ [...] ’e‘evor bassak ’edadem ‘ad-bêt ’elohîm beqôl- rinnâ wetôdâ hamôn hôgeg). A recordação do louvor a Deus, do culto no Templo, da alegria da multidão por servir ao Senhor e do papel que exercia de promotor de um culto verdadeiro fez com que o salmista, mais uma vez, fosse transportado aum ponto alto da sua vida. Apesar do bom momento, seus olhos voltam para o presente e o que ele contempla é um homem abatido pelo peso das circunstâncias. Ele se pergunta (v.5): “Por que a minha alma se encurva?” (mah-tishtôhahî nafshî). Ele se sente sobrecarregado a ponto de encurvar-se diante das agruras que enfrenta. O v.7 dá conta de que, apesar de tentar por todos os meios se livrar do mal, ele sente que está caminhando “de abismo em abismo” (tehôm-’el- tehôm), como se fosse atropelado pelas correntezas destruidoras de um tsunami: “Todas as tuas vagas e tuas ondas passaram sobre mim” (kol-mishbareyka wegalleyka ‘alay ‘avarû). É como se estivesse se afogando sem forças para resistir por mais tempo. Porém, mais uma vez o humor do salmista sai do fundo do poço de tristeza e sobe até o céu de esperanças. Se há pouco ele declarou chorar dia e noite, agora afirma (v.8): “De dia o Senhor estabelece a sua fidelidade e de noite eu canto uma oração ao Deus da minha vida” (yômam yetsawweh yehwâ hasdô ûballaylâ shîroh ‘immî tefillâ le’el hayyay). Que transformação! As lágrimas que alimentam o salmista são convertidas em estrofes de cânticos de louvor e em declarações de confiança e esperança naquele que é poderoso acima de todos os males que afligem seus servos. A impressão que se tem desse ponto do salmo é que, não importa o que aconteça, o salmista está pronto para enfrentar todas as lutas tendo à mão a fidelidade do Senhor para protegê-lo como um escudo. Entretanto, uma nova linha do salmo é escrita. Por meio dela percebemos o escritor novamente abatido, escrevendo do fundo do vale da tristeza. Ele pergunta a Deus (v.9): “Por que se esqueceste de mim?” (lamâ shekahtanî). É de surpreender que ele faça tal pergunta à pessoa sobre a qual declarou ser fiel todos os dias. Não é, claro, gratuita a mudança de ânimo. Ele se vê ainda sobrecarregado, conforme diz, “com a opressão dos meus inimigos” (belahats ’ôivay). O efeito da perseguição por parte de tais homens é a que ele declara no v.10: “opressores me injuriaram com um alarido em meus ossos” (beretsah be‘atsmôtay herefûnî tsôreray). Essa frase misteriosa parece indicar que as zombarias e ataques por parte dos homens que o perseguem o atingiram profundamente como se, com um barulho ensurdecedor, lhe abalassem os ossos e lhe tirassem a capacidade de permanecer de pé. Sua conclusão é a de um homem dividido entre a opressão que sente e a confiança que tem. Ele escreve (v.11): “Por que a minha alma se encurva? E por que se agita contra mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o meu salvador pessoal e meu Deus” (mah-tishtôhahî nafshî ûmah-tehamî ‘alay hôhîlî le’lohîm kî-‘ôd ’ôdennû yeshû‘ot panay we’lohay). O salmista sofre, mas também confia. À primeira vista, parece se tratar de um salmo cheio de contradições. Ou melhor, que o próprio salmista é contraditório e, talvez, uma pessoa instável. Mas, na verdade, não há contradições. Deus não era fiel em um dia e infiel no outro. Também a situação não era boa em um dia e ruim no seguinte. O que parece mudar ao longo da experiência do salmista é a perspectiva com que ele vê os acontecimentos. Quando ele olha para os problemas, deixa-se abater e vive um momento baixo da vida, em meio à angústia e às incertezas. Mas, quando olha para Deus, vive um ponto alto por saber que Deus é maior que as circunstâncias, que é fiel apesar das nossas falhas e que tem um amor que nunca acaba. Por isso, ele se enche de esperança e de alegria. Os altos e baixos da vida do salmista, afinal de contas, não vêm das circunstâncias em si, mas da sua perspectiva pessoal quando olha para os problemas ou de quando olha para Deus. Por fim, de certo modo, todos os que já fomos redimidos por Cristo compartilhamos algo com esse salmista e com Pedro quando estava diante de Jesus no mar da Galileia. Ao olharmos para o Senhor, somos elevados e sustentados sobre as águas dos problemas desse mundo. Mas quando desviamos o olhar do nosso Senhor e, em falta de fé, atentamos somente para o tamanho das ondas ao nosso redor, começamos a afundar. Não há encorajamento melhor que esse para que mantenhamos nossos olhos, pela fé, no Senhor Jesus Cristo, aguardando aquele dia em que olharemos diretamente em sua face. SALMO 43 O Desejo de Retornar ao Lar Um dos filmes mais famosos e queridos da história do cinema é ET, de Steven Spielberg (1982). Ele conta a aventura fictícia de um extraterrestre feio – há quem discorde –, mas extremamente simpático, que é deixado na Terra. Enquanto ele demonstra um gosto ímpar pela flora terrestre, acumula conhecimentos sobre a cultura humana e desenvolve uma amizade especial com um garoto. Porém, seu objetivo é retornar ao seu lar. Um número incrível de crianças, hoje adultos, cresceu brincando de esticar o dedo indicador e falar a famosa frase que o pequeno E.T. repetia na versão dublada para o português: “Minha casa”. Seu desejo de retornar ao lar é alcançado no final do filme depois de uma incrível aventura vivida por ele e pela família do seu amigo, um garoto que, enganando as autoridades, o conduz de bicicleta à sua espaçonave. O sonho de estar em casa não é exclusividade do personagem do filme ET. Muita gente, por diversas razões, é forçada a se afastar do lar e anseia pelo retorno. O escritor do Salmo 43 parece ser um deles. O contexto dos salmos 42 e 43 é o mesmo. Na verdade, eles fazem parte da mesma poesia e devem ser lidos juntos – muitos manuscritos hebraicos antigos apresentam os dois salmos como uma única obra. Eles até compartilham certa frase em três locais, marcando o término de cada divisão da poesia (Sl 42.5,11; 43.5), que diz: “Por que a minha alma se encurva? E por que se agita contra mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o meu salvador pessoal e meu Deus” (mah-tishtôhahî nafshî ûmah-tehamî ‘alay hôhîlî le’lohîm kî-‘ôd ’ôdennû yeshû‘ot panay we’lohay). Compartilhando o mesmo contexto, o Salmo 42.6 oferece, possivelmente, o local da composição dos dois salmos ou dos fatos que os inspiraram. O texto em questão diz que o salmista se lembra de Deus em três referências geográficas: as terras do Jordão, o monte Hermom e o monte Mitsar. O último não é conhecido, mas os dois primeiros sim. O monte Hermom fica no Extremo Norte de Israel, local de onde brota o rio Jordão. O monte Mitsar deve ficar na mesma região. É estranho ver o salmista, que servia no Templo em Jerusalém, tão longe de casa. Uma sugestão, que condiz com o estado de tristeza do escritor (Sl 42.3) e a referência à opressão dos inimigos (Sl 42.9,10; 43.2), é que se trata de um tipo de exílio, talvez devido a uma derrota militar como exemplificado em 2Rs 14.14. Isso explica muito bem o fato de que aquele que era imbuído do louvor no Templo dizer, vislumbrando um tempo futuro, que irá ao altar de Deus e o louvará (Sl 42.5,11; 43.4,5). Por isso, também, as lembranças do trabalho que fez no passado (Sl 42.4). E ainda o seu desejo de ser conduzido de volta ao “monte santo” (Sl 43.3) – um modo frequente de se referir a Jerusalém, local do Templo. A fim de obter o esperado retorno ao lar, o salmista faz alguns pedidos ao Senhor no Salmo 43. Seu anseio é que Deus lhe forneça o necessário para atravessar esse momento duro e o conduza à sua pátria e à plena atividade cultual como no passado. São três pedidos por atuações divinas, sem as quais seu retorno não será possível. O primeiro desses pedidos é justiça (v.1). Seu clamor é direto: “Julga-me, ó Deus” ou “faça-me justiça, ó Deus” (shaftenî ’elohîm). É um pedido corajoso. Digo isso porque há mais implicações nele que simplesmente dizer “livra-me, Senhor”. Apesar de o objetivo final ser o mesmo, o meio que o salmista utiliza para recorrer a Deus não é um simples clamor por misericórdia, mas a efetivação da justiça. O salmista pede que Deus aja como um juiz que decide sobre uma demanda. O reclamante é o escritor do salmo; o reclamado é a nação que o privou do lar e o conduziu para as terras do Norte, visto dizer: “Leve a julgamento a minha causa contra o povo infiel” (rîvârîvî miggôy lo’-hasîd). O peso desse pedido está no fato de o salmista se colocar nesse tribunal junto com seus opressores. Ele quer ser escrutinado junto com eles na confiança de que sua justiça, em comparação com a dos inimigos, lhe trará um veredicto favorável e uma atuação benéfica da parte de Deus. É claro que o salmista não imagina ser perfeito ou inculpável, mas sabe que sua disposição de buscar a Deus e de manter uma vida compatível com a de um servo do Senhor o faz estar longe do caráter daquele que lhe oprime, a quem descreve como “homem mentiroso e injusto” (’îsh-mirmâ we‘awlâ). O segundo pedido do salmista é receber de Deus força (v.2). À primeira vista, não parece uma solicitação, mas apenas uma declaração: “Pois tu és o Deus da minha fortaleza” (kî-’attâ ’elohê ma‘ûzzî). Essa aparente declaração muda de função quando vemos os questionamentos levantados na segunda parte do verso: “Por que me rejeitaste? Por que eu perambulo obscurecido pela opressão dos meus inimigos?” (lamâ zenahtanî lammâ-qoder ’ethallek belahats ’ôyev). Tais perguntas são mais do que a tentativa de entender os fatos. O salmista está comparando duas realidades: o fato de Deus ser a sua fortaleza e a situação deplorável que vive. O escritor do salmo, ao demonstrar que tais realidades são contraditórias, o faz na intenção de ver Deus fazer valer seu caráter protetor em relação aos seus servos a fim de afastar a opressão dos inimigos. É uma maneira poética, compatível com o estilo e com a época da composição do livro de Salmos, de pedir a Deus que intervenha. Nesse caso, o que o salmista tem em mente é que o Senhor atue fornecendo-lhe o que uma fortaleza, ou seja, uma cidade fortificada, fornece às pessoas que nela se refugiam: condições de resistir aos ataques dos inimigos. O salmista quer ser protegido dos inimigos e resistir quanto tempo for necessário até que volte para casa. O terceiro pedido é consciência (v.3). Isso o salmista pede sob duas ópticas: “Envia a tua luz e a tua verdade” (shelah-’ôreka wa’amitteka). “Luz” e “verdade” são duas palavras que, cada uma ao seu modo, podem apontar para a mesma coisa. Nas Escrituras, a palavra “luz” é frequentemente utilizada de forma figurada para se referir ao que é verdadeiro, justo e que representa o bem, como é o exemplo do dito de Jesus aos discípulos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5.14). Assim, é olhando para os justos preceitos de Deus que o salmista espera ser beneficiado. O objetivo a ser alcançado pela luz e pela verdade, nesse caso, é: “Elas me guiarão; conduzir-me-ão ao teu monte santo e ao lugar da tua habitação” (hemmâ yanhûnî yebî’ûnî ’el-har- qadsheka we’el-mishkenôteyka). A pergunta é: “Como a verdade de Deus, ou seus preceitos santos, poderia levar o salmista de volta a Jerusalém?”. Isso não fica claro no texto. Entretanto, a julgar pelas queixas do salmista a respeito da injustiça com que é tratado por homens iníquos, é possível que ele tivesse esperança de que seus opressores fossem convencidos da sua maldade e do modo insensato de proceder. Munidos, então, de tal consciência, recobrariam o proceder reto e permitiriam ao salmista retornar à sua terra e às sua funções no Templo em Jerusalém. Justiça, força e consciência são as necessidades do escritor dos Salmos 42 e 43 para que possa retornar ao lar. Entretanto, também são as necessidades de muitos crentes que, aprisionados pelo pecado e zombados pelo diabo, anseiam retornar ao lar, à presença e à comunhão com seu Deus e salvador. Eles necessitam que a justiça de Deus mais uma vez corra em suas veias, fazendo-os lembrar de quem são e recordar quem lhes dirige a vida. Precisam de força para abandonar o mal, para se afastar dos falsos amigos e para enfrentar os custos de andar com Cristo. E precisam de consciência para distinguir as ciladas do inimigo, por pequenas e camufladas que sejam. Eles precisam voltar para o lar. Devem ansiar por ver novamente o monte santo do amor de Deus. Precisam sentir saudade da segurança do seu recanto. Resumindo, eles devem apontar o dedo para os céus e dizer esperançosos: “Minha casa”. SALMO 44 O Conhecimento que Passa de Pai para Filho Meu avô era um homem interessante. Seu mau humor nos últimos anos de vida, devido à sua debilitada condição de saúde, não conseguiu apagar as memórias que tenho de vê-lo trabalhando em hortas que sempre produziam uma quantidade impressionante de alimentos com qualidade tal que nunca vi em outro lugar. Contudo, algo de que recordo atônito, ainda hoje, é de ele me contar a história da Europa, do mundo antigo e das colonizações como se fosse um professor. As histórias não eram apenas interessantes, mas verdadeiras, visto que as confirmava nas minhas aulas de História. Meu pai, mais que meu avô, me ensinou muita coisa. Mas ele era um homem estudado, aprendeu na escola o que me ensinou. Já, meu avô, sabia apenas ler. Isso é o que me deixava atônito. Diante de tal espanto, certa vez lhe perguntei como é que ele sabia todas aquelas coisas. Ele me contou que seu pai lhe havia ensinado tudo aquilo. Dizia que se sentava com ele e o ouvia falar por horas. Em parte, essa resposta me satisfez. Contudo, a dúvida que nunca tirei é: “Como meu bisavô sabia tudo aquilo?”. O fato é que o ensino de pai para filho e de uma pessoa experiente para alguém que está começando a vida é algo marcante e produtivo. Quem dera tivéssemos mais tempo, no meio da pressa dos nossos dias, para exercitarmos essas aulas informais ao redor da mesa da cozinha e da garrafa de café! O Salmo 44 dá mostras da validade e da importância desse ensino de uma geração para a outra. O salmista, descendente de Corá e membro de uma família dedicada ao serviço do Senhor no Templo, se vê em uma situação complicada que parece envolver uma derrota militar (vv.9,10) e suas naturais consequências como exílio (vv.11,12) e desprezo das nações vizinhas (vv.13,14). O próprio salmista pode ser um dos que estão exilados, conforme demonstram os salmos 42 e 43. Nesse contexto de sofrimento e desânimo, percebe-se a importância do ensino passado pela geração anterior. O salmo começa com a seguinte declaração (v.1): “Ó Deus, com os nossos ouvidos ouvimos nossos pais nos relatarem o que tu fizeste nos dias deles, em dias remotos” (’elohîm be’oznênû shama‘nû ’avôtênû sifferû-lanû po‘al pa‘alta bîmêhem bîmê qedem). Com esse conhecimento em mãos, o salmista obtém quatro benefícios para sua vida. O primeiro benefício é conhecer o caráter de Deus. As gerações passadas de israelitas se esmeraram em guardar e transmitir as memórias dos atos de Deus em seu benefício. Por isso, o salmista podia falar a Deus (v.2): “Por tuas mãos tu expulsaste as nações e os [pais] assentaste; trouxeste dano aos povos e os [pais] enviaste no lugar” (’attâ yadka gôyim horashta wattitta‘em tara‘ le’ummîm watteshalehem). Quando o salmista diz “os assentaste” e “os enviaste” está se referindo aos pais que lhe contaram a história (v.1), apesar de não aparecer a palavra “pais”, mas sim, um sufixo que aponta para eles. Em resumo, trata-se da conquista de Canaã promovida por Deus para dar a terra aos israelitas conforme a promessa feita a Abraão (Gn 13.14-17; 15.18- 20). Com isso, o salmista aprendeu que Deus é poderoso e, acima de tudo, fiel para cumprir o prometido. Essa lição produziu no autor dois sentimentos: confiança e gratidão. A confiança é expressa no v.6: “Não confio no meu arco e não é minha espada quem me salva” (lo’ beqashtî ’evtah weharbî lo’ hôshî‘enî). A gratidão, no v.8: “Nós louvamos a Deus todos os dias e celebraremos o teu nome para sempre” (be’lohîm hillalnû kol-hayyôm weshimka le‘ôlam nôdeh). Que aprendizado melhor que esse para se obter por meio da história daquilo que Deus fez por meio do seu caráter santo? O segundo benefício é reconhecer a provação divina. Acontecimentos ruins sobrevieram ao exército de Judá. Perderam batalhas e fugiram derrotados pelos inimigos. Alguém poderia dizer “que má sorte!” ou “a culpa é do general!”. Entretanto, o salmista parece conhecer o procedimento deDeus pelo que ouviu dos antepassados. Com base nisso, soube que se tratava de uma atuação deliberada de Deus (v.9): “Mas tu nos rejeitaste, nos humilhaste e não sais com nossos exércitos” (’af-zenahtanû wataklîmenû welo’a-tetse’ betsiv’ôteynû). Há nesse versículo uma mudança muito grande no tipo de atuação de Deus. Antes (vv.1-8) o Senhor se mostrou um Deus guerreiro ao lado de Israel e protetor do seu povo, enquanto, agora, deixa-o marchar sozinho e não lhe favorece com a vitória. Aliás, Deus foi o autor da desgraça militar de Judá nessa ocasião, já que o salmista diz, entre os vv.10- 14, “tu nos fizeste voltar atrás fugindo do inimigo” (teshîvenû ’ahôd minnî- tsar), “tu nos entregaste como ovelhas de corte” (tittenenû ketso’n ma’akal), “tu vendeste o teu povo por preço barato” (timkor-‘ammeka belo’-hôn), “tu nos transformaste em objeto de escárnio para os nossos vizinhos” (tesîmenû herpâ lishkenênû) e “tu nos transformaste em um provérbio entre as nações” (tesîmenû mashal baggôyim). Para o salmista, é muita clara a participação de Deus nos eventos que os assolam. O que esse salmo tem de diferente dos vistos até aqui é que, diferente de Davi que via em tais situações uma disciplina de Deus, esse salmista vê a mão do Senhor trazendo-lhes uma provação apesar da fidelidade que ele e um remanescente fiel mantinham (vv.17-22), apesar de o restante do povo ser possivelmente merecedor da disciplina – e, talvez, para eles o fosse mesmo. Entretanto, o remanescente, mesmo diante da provação, não se rebela contra Deus, nem desiste de servi- lo. O terceiro é manter-se fiel a Deus. Como dito acima, o escritor do salmo olha para sua vida e se vê fiel a Deus (v.17): “Tudo isso veio a nós, mas não nos esquecemos de ti, nem violamos a tua aliança” (kol-zo’t ba’atnû welo’ shekahanûka welo’-shiqqarnû bibrîteka). É uma frase realmente encorajadora quando olhamo-la diante da situação em que vive o salmista. O conhecimento que ele e seus pares receberam dos antepassados os ensinaram o suficiente sobre o modo de Deus agir com suas ordens e com as circunstâncias para que soubessem não se tratar de uma punição injusta (vv.18-21). Eles, certamente, não conheciam os detalhes dos propósitos de Deus, mas sabiam quem Deus era. Por isso, o escritor do salmo termina esse trecho afirmando sua desventura, mas não com amargura. Na verdade, o faz em um tom que glorifica a Deus e encoraja o leitor a ser fiel nos revezes e nas perseguições que sofre por amor e fidelidade a Deus (v.22): “Assim, por ti somos mortos todos os dias; somos tidos como ovelhas a serem executadas” (kî-‘aleyka horagnû kol-hayyôm nehshavnû ketso’n tivhâ). É claro que o salmista não fora morto até então, de modo que a figuração “ser morto todos os dias” expõe as condições deploráveis em que eles viviam sob reais ameaças de morte. E tudo isso eles passavam, segundo diz o texto, “por ti”, ou seja, por amor a Deus e por se manterem fiéis a ele. O quarto benefício é manter a esperança na provação. Uma lição importantíssima que o conhecimento que veio das gerações anteriores certamente transmitiu foi o valor e a importância da oração. Por isso, esse salmo não poderia, depois de expor tanto sofrimento, terminar sem uma oração esperançosa por socorro (v.23): “Desperta! Por que estás dormindo, Senhor? Acorda! Não nos rejeite perpetuamente!” (‘ûrâ lammâ tîshan ’adonay haqîtsâ ’al-tiznah lanetsah). Dificilmente o salmista quer dizer, por meio da figura do “sono de Deus”, que o Senhor está alheio à situação, ou incapacitado, já que afirmou que ele é o responsável pela provação. Assim, o salmista, figuradamente, refere-se à espera de Deus até o momento de libertá- los. Apesar do silêncio divino em tal ação, o salmista aprendeu com os antepassados que Deus é misericordioso e tem prazer em restaurar os seus – vide o livro de Juízes, por exemplo. Portanto, é cheia de esperança a frase que encerra a oração e o salmo (v.26): “Faça surgir socorro para nós e resgata-nos por causa da tua fidelidade” (qûmâ ‘ezratâ lanû ûpedenû lema‘an hasdeka). Depois disso tudo, quem, em sã consciência, ainda pode desprezar o estudo das Escrituras ou lhe criar nomes que transmitam sentidos pejorativos? Quem menosprezará a pregação bíblica nos cultos de adoração ao Deus que nos deu sua palavra de modo tão maravilhoso? Quem poderá, insensivelmente, desprezar as santas orientações para a vida cristã e para o serviço de Deus? “Pois tudo”, afirmou o apóstolo, “quanto, outrora, foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4). E mais: quem se omitirá em transmitir à próxima geração a mensagem que temos agora aprendido? Afinal, chegará o dia em que será a vez de os nossos filhos dizerem: “Ó Deus, com os nossos ouvidos ouvimos nossos pais nos relatarem o que tu fizeste nos dias deles, em dias remotos”. SALMO 45 O Casamento dos Sonhos Tenho um grande amigo que é pastor. Quando solteiro, ele pastoreava um grupo de jovens em uma igreja batista. Era um grupo muito animado. Como pastor e ovelhas se davam muito bem, foram efusivas as comemorações por ocasião do casamento do meu amigo. O grupo de jovens começou a demonstrar sua alegria por ver seu pastor feliz com o casamento dando-lhe dois pinguins de geladeira que rendem risos até hoje. Entretanto, o mais interessante foi, durante a cerimônia, o estouro de uma quantidade enorme de fogos bem no momento em que a noiva disse “sim”. Foi um momento de descontração. O tom solene exigido pela cerimônia foi, indubitavelmente, marcado pela demonstração de alegria verdadeira dos jovens da igreja por causa do seu pastor. Na verdade, toda a igreja estava feliz naquele momento. Esse não foi o único casamento da história que gerou grande alegria nas pessoas ao redor. O Salmo 45 é uma poesia cantada em homenagem a um rei magnífico que desposaria uma mulher privilegiada. Ele é, conforme diz seu título, “uma canção de amor” (sir-yedîdot). O escritor dedica o salmo ao rei (v.1) e se declara um “escriba habilidoso”, ou um “hábil escritor” (sofer mahîr). Quando alguém faz a si mesmo um elogio desse tipo, ou se trata de alguém vaidoso, que não conhece suas limitações, ou de alguém cujo reconhecimento amplo lhe dá o direito de falar assim sobre si. A julgar pela qualidade do poema, ele é, sim, muito habilidoso e podemos esperar de sua pena o uso de todos os recursos da retórica a fim de alcançar seu objetivo que, nesse caso, é engrandecer o rei de Judá e a ocasião do seu casamento. Devido à sua grande capacidade – e da supervisão de Deus sobre o escrito em si –, temos nesse salmo um dos trechos mais bonitos da Bíblia e, também, mais difíceis de serem compreendidos devido à aplicação que o Novo Testamento faz do salmo à pessoa do Messias, o Senhor Jesus Cristo. O rei em questão não é identificado, nem tampouco a rainha. Entretanto, o rei parece ser um homem tremendamente respeitado pelo seu procedimento (v.2) e um guerreiro com vitórias incontestáveis, dignas de um herói nacional (v.3) que mantém o domínio sobre seu povo e sobre nações conquistadas (vv.4,5). Ele parece exercer sobre o povo uma boa influência por ser exemplo de justiça a ponto de, “figuradamente”, ser chamado de Deus pelo salmista (v.6) – nesse caso, o salmista não tem a intenção de compará-lo ao Deus eterno, mas lançar mão de um recurso utilizado outras vezes nas Escrituras para exaltar uma qualidade ou uma função, nesse caso, a justiça; outros exemplos desse uso são a função de Moisés na sua relação com Arão e com o Faraó (Ex 4.16; 7.1) e o caso dito por Jesus em que homens foram chamados de deuses (Jo 10.34 cf. Sl 82.6). O rei que está para se casar é um homem de Deus, um homem reto, um bom governante, uma pessoa magnífica e honrada (vv.7-9). A noiva, por sua vez, pertencia a outro povo, o qual deixava para trás (v.10), muito amada pelo seu noivo, a quem ela respeita (v.11). Ela era estrangeira e seria honrada por pessoas de outras nações (v.12). Na presença do seu rei, sua beleza é adornada e elase torna ainda mais bela (vv.13-15). Para completar o quadro glorioso, sua descendência, em conjunto com o rei, seria distinta e numerosa, a qual traria grandes honras ao governante justo (vv.16,17). Que quadro lindo! Que romance belo! Quanta alegria! Quantas promessas! Toda essa alegria faz desse cântico um lindo salmo. Entretanto, o Novo Testamento demonstra que Deus, movendo os escritores bíblicos (2Pe 1.21) a fim de registrarem sua palavra inspirada (2Tm 3.16), tinha aplicações ainda mais profundas e abrangentes para esse salmo, ainda que seu escritor não o soubesse ou que ignorasse certos detalhes das suas implicações futuras. O fato é que, quando Hebreus 1.8,9 aplica a Jesus o texto do Salmo 45.6,7, este assume um novo significado e cumprimento. Na verdade, o salmo parece se cumprir melhor no próprio Cristo que no rei que está prestes a se casar. Pensando assim, o salmo apresenta algumas características do reinado de Jesus, o Messias. A primeira delas é a eternidade. O reinado de Jesus tem caráter permanente. Sua singularidade será perpetuada sem que haja fim. O v.2 diz: “Tu foste adornado mais que os filhos dos homens; a graça se derramou nos teus lábios; por isso, Deus te abençoou para sempre” (yofyafîta mibbenê ’adam hûtsaq hen besiftôteika ‘al-ken berakka ’elohîm le‘ôlam). O mais esplendoroso dos reis manterá seu caráter e seu trono perpetuamente porque Deus assim o quis e instituiu. Nada nem ninguém podem impedi-lo. A segunda característica é a soberania. O rei messiânico não é alguém que pede favores, nem que torce para que seus planos se cumpram. Com poder (v.3), aquele que é chamado de “forte” ou “valente” (gibôr) subjuga os adversários e faz valer sua decisão. O resultado é um só e nem poderia ser outro (v.5): “Os povos caem sob ti” (‘ammîm tahteyka yifflô). Ninguém é mais poderoso que o rei eterno, de modo que os povos se lhe submetem ou caem por sua espada. O fato é que não se deve resistir ao rei divino nem contradizê-lo. Apesar do receio que uma figura soberana possa causar, o rei Jesus não é um déspota, visto que reina com poder, mas também com retidão. Isso porque a terceira característica do Messias é a justiça. O v.6, citado em Hebreus 1, diz: “Ó Deus, o teu trono é eterno e perpétuo; cetro de retidão é o cetro do teu reino” (kis’aka ’elohîm ‘ôlam wa‘ed shevet mîshor shevet malkûteka). Esse rei não abusa do poder que tem, mas não deixa de usá-lo na promoção do bem, da justiça e da disciplina. São dirigidas a ele as palavras (v.7): “Tu amas a justiça e odeias a perversidade” (’ahavta tsedek wattisna’ resha‘). Tais características de onipotência e glória são expostas diante da presença de uma pessoa que tanto é favorecida pelo rei, como lhe é motivo de alegria: uma noiva. Sobre ela fala o v.9: “Uma consorte real está junto à tua mão direita” (nitsvâ shegal lîmîneka). A rainha em questão é a esposa do rei de Judá que estava para se casar na ocasião da composição do salmo. Entretanto, a figura da igreja como “noiva de Cristo” (Ef 5.25) faz com que ela possa ser comparada à rainha do Salmo 45 – ainda que identificá-la como tal é fazer o texto dizer mais do que realmente pretende. Assim, como igreja de Cristo, podemos olhar para a rainha israelita e entender como devemos nos portar hoje a fim de honrar a pessoa e a posição do noivo, nosso rei Jesus Cristo. A igreja, como noiva do rei salvador, deve deixar a velha vida para trás. À rainha israelita foi ordenado (v.10): “Esquece o teu povo e a casa do teu pai” (shikhî ‘ammeka ûbêt ’avîk). A igreja, resgatada do mundo perdido, deve também se esquecer dele e se afastar do seu modo de vida pervertido e egoísta, fugindo do pecado (Gl 1.4; Ef 4.22-24). Deve, também, ter uma postura reverente e submissa, apesar de amorosa, que honre seu salvador (v.11): “Ele é o teu Senhor; portanto, prosta-te diante dele” (hû’ ’adonayik wehishtahawî-lô). A obediência a Deus deve ser uma marca distinta da igreja que faz com que a luz de Cristo seja vista pelo mundo (Ef 5.8,9). Finalmente, deve manter um caráter glorioso, compatível com o do noivo, visto que a rainha é assim descrita no v.13: “A filha do rei é completamente bela” (kol- kevudâ bat-melek). Cristo deve ser visto através da igreja (2Co 3.18). Às vezes, penso que a igreja deixa de viver como uma rainha porque se esqueceu que está casada com um rei. O que se espera de uma noiva tão gloriosa, não por seu próprio caráter, mas pela dignidade do noivo, é que ela seja um exemplo para os de fora; uma embaixatriz das qualidades do seu Senhor. No âmbito do relacionamento com seu redentor, ela deve amá-lo e cumprir sua vontade. Deve ser fonte de regozijo para aquele que governa soberanamente sobre tudo. As pessoas devem olhar para esse casamento e ver a alegria e o amor que transbordam dele. Por fim, o estilo de vida dos crentes e seu contato íntimo com o Senhor Jesus devem ser, a exemplo do salmo, uma viva “canção de amor”. SALMO 46 Segurança no Meio do Caos Sou um motorista bastante cauteloso. Não costumo correr, nem me arriscar nas estradas. Isso não quer dizer que eu não goste de velocidade. Na verdade, tenho certa predileção por competições em que a velocidade é o astro principal. Gosto de ver corridas de carros, motos, caminhões e até aquelas competições malucas de aviões traçando um percurso perigoso no menor tempo possível. Infelizmente, sempre que há velocidade, há junto acidentes, muitos dos quais têm desfechos fatais. A fim de diminuir as mortes em tais acidentes, os engenheiros têm desenvolvido sistemas de segurança cada vez mais sofisticados e resistentes. Um deles é a “célula de sobrevivência”. Trata-se de um invólucro que envolve o assento do piloto e seu próprio ocupante, cuja função é, em caso de acidente, manter intacto seu conteúdo, ainda que todo o exterior do veículo seja completamente destruído. Certa vez, assistindo a uma corrida de lanchas, vi uma delas se despedaçar no mar a cerca de 400 km por hora. Os restos da lancha viravam e reviravam batendo com força impressionante na superfície da água a ponto de me fazer perder as esperanças de ver o piloto vivo. Contudo, na imagem em câmara lenta, deu para notar que, apesar de toda a “turbulência” do impacto, a célula de sobrevivência fora destacada do veículo e, mesmo indo ao fundo d’água, manteve a vida do piloto. Uma equipe de resgate içou a cápsula do fundo do mar e o piloto saiu dela andando e acenando. Que susto! Uma situação de “turbulência” intensa parece ser o pano de fundo do Salmo 46. Ao que tudo indica, a cidade em que o salmista estava permanecia sitiada e sob violentos ataques de um exército invasor. A iminência do rompimento da muralha principal era o que aterrorizava os defensores da cidade e os moradores indefesos. Sua maior necessidade era a manutenção dos reforços da muralha e um refúgio dentro da cidade, caso o pior ocorresse. Apesar da situação caótica, o salmo é tremendamente encorajador. Na verdade, ele é um grito de confiança e esperança no poder de Deus que, para o salmista, é indubitavelmente superior aos mais poderosos exércitos dos homens. Enquanto o salmista parece viver uma situação que nos faria esperar um salmo de lamento e de desespero, o que encontramos é uma ode à fé no Deus que abriga os que lhe pertencem durante os piores males. Mesmo com a subjetividade da fé, ela se torna bastante palpável e mensurável quando olhamos as circunstâncias nas quais ela floresce. O v.1 traz a primeira declaração da fé do salmista: “Deus, para nós, é refúgio e fortaleza” (’elohîm lanû mahaseh wa‘oz). A escolha de palavras não é casual. A necessidade do escritor era uma cidade que lhe servisse de refúgio por meio de um muro forte. Entretanto, a ineficácia da cidade, para promover sua segurança a longo prazo, faz com que ele compare Deus a uma cidade que nunca sofreria o que seu refúgio atual vinha sofrendo. A razão de tal necessidade é, possivelmente, um violento ataque que recebem de um forte inimigo, a julgar pelas circunstâncias vislumbradas pelo escritor nas quais Deus ainda lhe seriao protetor. Os vv.2,3 trazem quatro situações nas quais o salmista afirma que não teria medo por causa da presença e do cuidado de Deus: “Na alteração de terra” (behamîr ’arets); “no agito dos montes no coração dos mares” (bemôt harîm belev yammîm); “ao se agitarem e espumarem as águas” (yehemû yehmerû mêmayw); e “tremerem furiosamente os montes” (yir‘ashô-harîm bega’awatô). Trata-se de calamidades naturais como terremotos, tsunamis e enchentes, todos com potencial destrutivo ilimitado. A “ênfase” faz parte dessa descrição caótica. Ataques militares muito violentos devem ter motivado tais figuras. Por isso, a confiança do salmista é expressa em termos de fortificações da cidade e da capacidade de ela proteger seus moradores. É desse modo que o confiante escritor vê o Senhor. O v.4 parece oferecer outra nuance do sofrimento do salmista e do seu povo: falta de água. Era comum, como tática de cerco, cortar o suprimento de água da cidade sitiada, às vezes até mesmo mudando o curso do rio. Com isso, ou a cidade se rendia ou morria de sede. Em ambos os casos, o exército invasor vencia. A menção de um rio, pelo salmista, é bastante sugestiva nesse sentido (v.4): “Há um rio cujo canal alegra a cidade de Deus” (nahar pelagayw yesammehû ‘îr-’elohîm). Ao comparar a presença e a proteção de Deus com uma cidade atravessada por um rio, o salmo pode revelar a privação e a necessidade de água por parte dos sitiados, além do seu enorme sofrimento e tristeza pela sede que os consome. Nesse caso, a confiança do salmista está na atuação de Deus sobre as nações, fazendo-as tremer diante do seu poder (v.6): “Os povos se agitam, os reinos tremem, ele levanta a sua voz, a terra estremece” (hamû gôyim matû mamlakôt natan beqôlô tamûg ’arets). A partir daí (v.7), o salmista produz uma declaração que é repetida no final do salmo: “O Senhor dos exércitos está conosco; refúgio para nós é o Deus de Jacó” (yehwâ tseva’ôt ‘immanû misgav-lanû ’elohê ya‘aqov). Parece ser um tipo de eco do primeiro versículo. Mas, enquanto a palavra traduzida por “refúgio” no v.1 (mahaseh) é sinônimo de “fortaleza” e pode, também, significar “defesa”, “guarida” e “amparo”, a palavra traduzida por “refúgio” presente nos vv.7,11 (misgav) significa “abrigo alto”, ou seja, uma cidadela. Esta nada mais é que uma fortaleza dentro da fortaleza. Assim, caso a cidade fosse invadida, havia outra muralha em uma posição mais alta para proteger os moradores que perderam a primeira muralha. Para o escritor do Salmo 46, Deus é como uma dessas cidadelas que, mesmo diante da queda dos muros da cidade, continua protegendo o seu povo. Ataques violentos, sede, medo, tristeza e caos não conseguem tirar a confiança do salmista. Em lugar disso, ele passa a encorajar seus pares por meio da lembrança de quem Deus é e das coisas que fez no passado. Ele faz um convite aos aflitos (v.8): “Venham e vejam” (lekû-hazû). Outras vezes, convites como esse são feitos na Bíblia. Apesar de usarem palavras diferentes – e até idiomas diferentes –, o convite normalmente tem como pano de fundo a manifestação de Deus, como, por exemplo: “Vinde e vede as obras de Deus: tremendos feitos para com os filhos dos homens!” (Sl 66.5; ver também Jo 1.39; 4.29). O Salmo 46 não é diferente. Nesse caso, o que deve ser observado pelos homens é “a obra do Senhor, pela qual trouxe desolações à Terra” (mif‘alôt yehwâ ’asher-sam shammôt ba’arets). Tendo isso em mente, o salmista usa seu melhor argumento para trazer paz ao coração dos israelitas em tempos de uma guerra atroz. Ele diz que nenhuma guerra há quando Deus ordena que ela cesse (v.9): “Ele é aquele que faz pararem as guerras até a extremidade da Terra, que quebra o arco e destrói as lanças e que queima no fogo os carros” (mashbît milhamôt ‘ad- qetseh há’arets qeshet yeshavver weqitsets hanît ‘agalôt yisrof ba’esh). Isso é tudo que o povo sob ataque desejava e que somente Deus podia conceder. Sabendo disso, o v.10 é escrito na forma de um alento vindo diretamente de Deus, aquele que pode e quer proteger os seus: “Descansem e saibam que eu sou Deus” (harpû ûde‘û kî-’anokî ’elohîm). Diante da situação tão aterradora em que o salmista vivia e da confiança inabalável que declarava, somente duas situações são compatíveis: a existência de homem inconsequente ou iludido, que não liga para o que está prestes a ocorrer, ou a presença de um Deus Todo-poderoso que ama tanto seus filhos que se importa com seus destinos e com o sofrimento que atravessam. Na verdade, é esse o Deus que a Escritura toda apresenta: o redentor e protetor daqueles a quem ama e recebe como filhos. Por isso, a confiança nele não é ilusória; nunca é inútil; jamais é infundada. Na pior situação de caos que possamos atravessar, ele é o refúgio, ele é a cidadela, ele é nossa célula de sobrevivência. SALMO 47 O Monopólio Sobre as Nações Uma das grandes facilidades dos dias modernos se chama “cartão de crédito”. Curiosamente, é ele quem cria as maiores dificuldades financeiras das famílias de hoje em dia. Entretanto, utilizado com sabedoria e parcimônia, é uma ferramenta muito útil na administração dos gastos. Eu possuía dois cartões de crédito, cada um deles de um banco diferente. Com o tempo, um deles foi comprado por certo banco de destaque e, sem querer, virei cliente dele. Passaram-se mais alguns meses e meu outro cartão também foi comprado pelo mesmo banco. Hoje, meus dois cartões me fazem cliente de um banco que eu nunca procurei. É desse modo que os monopólios crescem e formam conglomerados comerciais e financeiros que chegam a ser mais poderosos que muitos países pequenos. O Salmo 47 revela um tipo de monopólio mundial. É um monopólio bem amplo que não se limita ao segmento comercial, industrial ou financeiro. Ele engloba tudo o que existe em todas as nações. O dono desse monopólio não é uma empresa multinacional, nem um banco poderoso, mas o Deus Todo- poderoso, criador de tudo o que existe. A ele pertence toda a Terra (1Co 10.26), todas as riquezas (Ag 2.8) e todas as pessoas (Sl 24.1). Ele, que tem todo o poder (Jó 25.2), detém o controle sobre tudo e, por esse motivo, o salmista conclama pessoas do mundo inteiro para exaltar o dono de tudo (v.1): “Batam palmas, todos os povos; aclamem a Deus com gritos de exaltação” (kol-ha‘ammîm tiq‘û-kaf harî‘û le’lohîm beqôl rinnâ). A razão de tal convite vem a seguir (v.2): “Pois o Senhor altíssimo é tremendo, grande rei sobre toda a Terra” (kî-yehwâ ‘elyôn nôra’ melek gadôl ‘al-kol-ha'arets). O convite ao louvor é efusivo e enfático, tanto quanto é poderoso aquele que deve ser louvado por todos (v.6): “Façam músicas a Deus, cantem louvores; façam canções ao nosso Rei, cantem louvores” (zammerû ‘elohîm zammerû zammerû lemalkenû zammerû). Apesar de, na Língua Portuguesa, por uma questão de estilo, a mesma palavra ser traduzida de formas sinônimas, mas diferentes, o v.6, no texto hebraico, possui quatro ordens idênticas: “Cantem louvores” (zammerû – vide transliteração acima referente ao v.6). Essa intensa repetição não revela pobreza de estilo, mas uma ênfase na necessidade de os servos de Deus glorificarem seu nome publicamente. É para isso que o salmista convida seus leitores e ouvintes. A primeira esfera do domínio do “grande rei sobre toda a Terra” é a nação de Israel. O Senhor, em sua soberania, elegeu Israel a fim de lhe dar um privilégio especial entre os outros povos do mundo (v.4): “Ele escolheu para nós a nossa herança, a exaltação de Jacó, a quem ama” (yivhar-lanû ’et- nahalatenû ’et ge’ôn ya‘aqôv ’asher-’ahev). O resultado de tal eleição foi que ele deu a Israel uma terra de onde, para tanto, foram desarraigadas outras nações. Além disso, colocou Israel, nos dias do salmista, em uma função de liderança política, conforme revela o salmo (v.3): “Ele nos submeteu os povos e colocou as nações sob os nossos pés” (yadber ‘ammîm tahtênû ûle’ummîm tahat raglênû). Eis a razão pela qual todos os israelitas são chamados a louvar a Deus com todos os seus recursos. E foi de um modo compatível com essas inegáveisvantagens que eles responderam à bênção dada por Deus (v.5): “Deus se elevou entre gritos de vitória; o Senhor, com som de trombeta” (‘alâ ’elohîm bitrû‘â yehwâ beqôl shôfar). “Elevar-se” aqui faz alusão a uma entronização. É a figura de um rei assumindo seu trono em meio à ruidosa e efusiva comemoração popular. Dá para entender muito bem a alegria e o louvor dos israelitas. Entretanto, as nações, sob essa primeira óptica, parecem ser relegadas a um plano inferior nos decretos e nos cuidados de Deus. Que motivos, então, elas teriam para louvar o Senhor? Se Deus tratou Israel de modo especial, por que os outros povos deveriam cantar louvores àquele a quem os israelitas chamam (v.6) de “nosso rei” (malkenû)? Porém, vale lembrar que o Salmo 47 não apresenta como foco do louvor o “Deus de Israel”, mas o “grande rei sobre toda a Terra”. Isso é enfatizado na segunda parte do salmo. Aliás, a parte que se dirige em especial às nações do mundo, começa dizendo (v.7): “Pois Deus é rei de toda a Terra” (kî melek kol-ha’arets ’elohîm). Assim, o salmista reforça seu convite aos povos que não são israelitas, dizendo: “Cantem poemas contemplativos” (zammerû maskîl). Como bom rei (v.8), “Deus reina sobre os povos” (malak ’elohîm ’al- gôyim). Por essa causa, tais povos se relacionam com ele como seu rei pessoal. Deus não é, para eles, um déspota tirano. Na verdade, Deus é tão rei das nações do mundo quanto o é em relação à nação de Israel. A submissão a Deus, tanto dos povos, como dos israelitas, os torna, juntos, súditos do mesmo rei. O resultado é que pessoas de todas as nações participam do louvor que Israel encabeça (v.9): “Os nobres das nações se ajuntam, povo do Deus de Abraão, visto que os escudos da Terra pertencem a Deus” (nedîbê ‘ammîm ne’esafû ‘am ’elohê ’avraham kî le’lohîm maginneh-’erets). Tal ajuntamento de nações, nomeadas também de “escudos”, a fim de louvar a Deus, reúne um grupo chamado pelo salmista de “povo do Deus de Abraão”. A primeira notoriedade é ver nações de todo mundo, ao se submeterem a Deus, serem chamados de “povo de Deus”. Entretanto, precisamos notar a menção a Abraão a fim de identificar o Senhor. O Deus das nações é o “Deus de Abraão”, o pai da nação israelita. Essa aparente contradição se revolve diante da aliança que Deus fez com o patriarca. Ao lhe prometer uma descendência numerosa (Gn 12.1-3) e uma terra onde seus descendentes habitariam (Gn 13.14,15; 15.18,19), Deus também prometeu benção, por meio de Abraão, não somente para Israel, mas para pessoas de todas as nações: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da Terra” (Gn 12.3). Essa aliança, chamada “abraâmica”, previu bênçãos para todos os povos, israelitas e gentios, por meio de Abraão, ao que Paulo assim ressalta: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3.8,9). É claro que se pode perguntar o que Abraão teria de especial para abençoar tanta gente. A isso, Paulo responde identificando a fonte da bênção como o descendente ilustre de Abraão, o Senhor Jesus: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo” (Gl 3.16). A obra de salvação realizada por Jesus na cruz beneficia, independente da nação e da etnia (Cl 3.11), todos os que nele crêem: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). Deste modo, rei sobre toda a Terra, o Senhor dispõe a história como lhe apraz (Ef 1.11). Escolheu Israel para ser seu povo particular, por meio de quem traria à humanidade o Deus eterno, Jesus Cristo (Rm 9.4,5). Aprouve-lhe, diante da incredulidade dos israelitas, afastá-los do foco da mediação da sua graça na Terra, fazendo com que crentes de outros povos assumissem tal função e recepção da graça (Rm 11.11; 1Pe 2.9 cf. Ex 19.5,6) – apesar de reservar uma parte dos israelitas para continuar neles, nesse tempo, sua atividade graciosa (Rm 11.2-5). E, um dia, aproximará novamente Israel a si e cumprirá todas as promessas que fez aos seus pais (Rm 11.15,24). Eis aí um motivo para pessoas de todas as nações louvarem a Deus. Ele é rei, não apenas de direito, mas também de fato. Ele controla a história, tanto em relação aos grandes rumos das nações, como em termos de detalhes da vida particular de cada pessoa. Tamanho controle, poder e majestade, deve nos tocar como pessoas que observam tais qualidades em meio a grande admiração e reverência. Tal visão da glória divina nos faz, sem dúvida, ouvir e atender ao convite do salmista, ainda que o tenha feito há tanto tempo atrás. Para nós, que servimos a Deus e nos admiramos de ver seu poder nos rodear, o contive é tremendamente atual e relevante. A visão do monopólio de Deus sobre o controle das nações assim nos chama (v.7): “Pois Deus é rei de toda a Terra; cantem poemas contemplativos” (kî melek kol-ha’arets ’elohîm zammerû maskîl). SALMO 48 O Exército de Um Só Soldado Uma das grandes diversões do brasileiro – e de pessoas de muitos países ao redor do mundo – é o futebol. Um dos pontos positivos do futebol que o faz tão aceito em todo mundo é o fato de ser bem flexível: pode ser jogado tanto em um campo especialmente preparado, com dois times de onze jogadores vestidos com uniformes próprios para o jogo, como pode ser jogado no meio da rua por meninos descalços que chutam uma bola de meia para dentro de um espaço demarcado por dois chinelos velhos. Eu mesmo já fui adepto desse esporte em uma versão intermediária entre o sofisticado e o rústico: o futebol em quadras disputado por times de garotos “com” e “sem” camisa. Certa vez, em um grupo de meninos que formavam oito times, joguei contra uma equipe que, em menos de dois minutos, vencia e tirava o adversário. Isso era chato, pois eu jogava dois minutos e tinha de esperar mais seis times jogarem. Alguns times eram vencidos em menos de um minuto. Isso aconteceu à noite toda, até que, formando um tipo de “seleção”, reunimos os melhores jogadores dos “times-de-fora” para conseguir vencer aquele oponente tão duro e normalizar as partidas. Somente um tipo de dream team conseguiu salvar nossa noite de diversão. O escritor do Salmo 48 testemunhou algo parecido, mas não no campo esportivo e, sim, no militar. O contexto parece nos levar a Judá, com sua capital, Jerusalém, liberta de uma coligação militar entre nações agressoras. Ao que tudo indica, houve uma virada no cenário das batalhas, pela mão protetora do Senhor, e o exército estrangeiro teve de bater em retirada. O resultado é que os israelitas não apenas comemoraram o desfecho vantajoso, como olharam para Deus como o responsável pela bênção. Diante de tal realidade, não haveria melhor modo de iniciar o salmo do que dizendo (v.1): “O Senhor é grande e digno de louvor na cidade do nosso Deus, seu monte santo” (gadôl yehwâ ûmehullal me’od be‘îr ’elohênû har- qadshô). A “cidade do nosso Deus” é o mesmo lugar citado no v.2 como “monte Sião” (har-tsiyyôn) e “cidade do grande rei” (qiryat melek rav). Trata-se de Jerusalém, capital de Israel no tempo do reino unido sob as lideranças de Davi e de Salomão e, também, capital de Judá (reino do Sul), quando Israel foi divido em dois reinos (931 a.C.). Tal cidade foi protegida pelo Senhor de um ataque estrangeiro. Por isso, o salmista associa Deus com uma cidadela, uma fortaleza no interior de uma cidade fortificada que servia de refúgio quando as muralhas eram invadidas (v.3): “Deus, nos palácios dela, se faz conhecer como um refúgio no alto da cidade” (’elohîm be’armenôteiha nôda‘ lemisgav). O resultado da proteção de Deus pode ser visto entre os vv.4-8. Em primeiro lugar (v.4), “os reis se reuniram e juntos partiram” (hammelakîm nô‘adû ‘avrû yahdaw). Percebendo que não eram páreo parao Senhor, os exércitos agressores desistiram da campanha militar e retornaram às suas terras. A proteção de Deus à sua cidade e ao seu povo foi superior ao poderio militar da liga de nações que declarou guerra a Judá. E, segundo expressa o salmista, tal retirada não foi tranquila, mas se deu às pressas, de modo que percebemos, pelo texto, as nações em fuga (v.5): “Assim que elas viram a situação, se desconcertaram, ficaram aterrorizadas e fugiram apressadamente” (hemmâ ra’û ken tamahû nivhalû nehpazû). O motivo da fuga desenfreada foi, em primeiro lugar (v.6), que “o tremor ali os tomou” (re‘adâ ’ahazatam sham) e, ainda, porque tiveram grandes prejuízos (v.7): “Com um vento oriental ele destroçou os navios de Társis” (berûah qadîm teshavver ’oniyyôt tarshîsh). Antes que haja má compreensão, deve ser dito que não houve uma batalha naval. Aqui, o salmista fala de forma figurada, utilizando a ideia do naufrágio de navios vindos de Társis com grandes somas monetárias, a fim de representar as perdas que teve a coligação militar que atacou Judá – Társis era um local distante no litoral do mar Mediterrâneo (Jn 1.3; Sl 72.10; Is 23.6), possivelmente na Espanha, que era fonte de grandes riquezas, dentre elas metais preciosos como ouro e prata (1Rs 10.22; Is 60.9). Assim, os inimigos foram derrotados e fugiram com grandes perdas. Quanto a Jerusalém, foi protegida de forma espetacular, visto que (v.8) “Deus a estabelece para sempre” (’elohîm yekôneneha ‘ad-‘ôlam). Este é o contexto em que o salmo foi escrito: o medo dos moradores de Jerusalém, diante de um forte ataque estrangeiro, cede lugar à exultação devido à incrível libertação vinda do Senhor. É claro que não há como ficar indiferente diante de uma situação como essa. Por isso, vemos que a atuação de Deus na proteção do seu povo produziu três reações nos seus servos, reações estas que costumam – e devem mesmo – se repetir em situações parecidas. A primeira reação é contemplar a fidelidade de Deus. O salmista declara ao Senhor (v.9): “Meditamos, ó Deus, sobre a tua fidelidade no interior do teu Templo” (dimmînû ’elohîm hasdeka beqerev hêkaleka). A demonstração da fidelidade do Senhor que, indubitavelmente, já era conhecida do salmista em termos conceituais, leva-o a uma ação que ele chama de “meditação”. Longe de ter qualquer nuança transcendental moderna, trata-se de um ato em um contexto cultual, já que há a menção ao interior do Templo, representando os sacrifícios e ofertas feitas a Deus nesse local. Assim, a reflexão sobre a fidelidade do Senhor para com seu povo deve levar seus servos à reverente contemplação do Senhor, que, por sua vez, deve conduzi-lo à adoração pública e ao desejo de um conhecimento amplo e de um relacionamento pessoal. A segunda reação é louvar a Deus por sua justiça. Segundo o escritor do salmo (v.10), “o teu louvor vai até os confins da Terra” (tehillateka ‘al- qatswê-’erets). Isso não acontece sem motivo. A razão para tanto é que, agindo Deus, “a tua mão direita é plena de justiça” (tsedeq mol’â yemîneka). Ao dizer “mão direita”, o escritor se refere não a um órgão anatômico, mas à atuação de Deus. O que ele quer dizer, de fato, é que tudo que o Senhor faz é justo e isso se dá por todo o mundo. A consequência natural é a constatação do louvor motivado pela justiça divina por parte dos seus beneficiários (v.11): “O monte Sião se alegra; as filhas de Judá rejubilam por causa das tuas justas decisões” (yismah har-tsiyyôn tagelenâ benôt yehûdâ lema‘an mishpateika). E a terceira reação, por parte dos servos de Deus, é dar testemunho da grandeza de Deus. O salmista, então, convida os moradores de Jerusalém para fazer uma revista na cidade. Ele diz (v.12): “Rodeiem Sião” (sobû tsiyyôn). A razão é fazer um tipo de inventário (vv.12,13): “Contem as suas torres; prestem atenção na sua muralha; examinem o seu refúgio no alto da cidade” (sifrû migdaleiha shîtû livvekem lehêlâ passegû ’armenôteiha). Como não se sabe exatamente a época da composição do salmo, também é impossível saber as condições das fortificações de Jerusalém. Assim, dentre duas possibilidades, o salmista quer que tal inventário seja feito ou para notar o modo pelo qual o Senhor fortificou a cidade para protegê-la, ou para que se note que, apesar de fracas instalações, a libertação aconteceu – sem dúvida – pelas mãos do Senhor. A intenção é bem definida (vv.13,14): “A fim de relatar à geração seguinte que este é Deus, o nosso Deus eterno” (lema‘an tesafferû ledôr ’aharôn kî zeh ’elohîm ’elohênû ‘ôlam). O Senhor protegeu Israel e o livrou de exércitos poderosos. Não é sem razão que é chamado, no v.8, de “Senhor dos exércitos” (yehwâ tseva’ôt). Entretanto, diferente da liga militar formada para combater Judá, com seus numerosos regimentos, o Senhor forma um exército de um só soldado que, contudo, prevalece contra tudo e contra todos. Ninguém tem mais motivos que seus servos para se alegrar e render a ele culto. O Senhor Todo-poderoso, em quem confiam seus servos, é um dream team de uma pessoa só. Louvemos e anunciemos pelo mundo o seu santo nome! SALMO 49 A Visão do Outro Lado da Vida Em 1991, fui convidado, junto com um amigo, a integrar a equipe de voleibol de Jundiaí. Eu na posição de levantador e meu amigo como atacante. Íamos três vezes por semana para lá a fim de participar dos treinos. Mas os poucos horários de ônibus entre Atibaia e Jundiaí fizeram com que o tempo que permanecemos nessa rotina fosse uma aventura muito cansativa. Tal aventura começou no primeiro dia de treino. Não havia transporte de Jundiaí para Atibaia depois das 17 horas. Como o treino terminava por volta das 21 horas, planejamos ir de ônibus até a cidade de Itatiba e, de lá, pegar outro “suposto” ônibus para casa. Ao chegarmos em Itatiba, descobrimos que nossa pesquisa foi falha e que não havia qualquer condução naquele horário. Sem ter o que fazer, resolvemos esperar na rodoviária até o dia amanhecer a fim de pegar o primeiro ônibus para casa. Nossa paciência durou apenas até meia-noite. Não aguentávamos mais ficar ali sentados e, assim, tivemos uma brilhante ideia: caminhar até Atibaia. Imaginamos que os cerca de trinta quilômetros não seriam difíceis de serem transpostos já que estávamos juntos, éramos atletas e iríamos conversando. Só percebemos que a sede e o treino físico que fizemos em Jundiaí nos fariam sofrer por todo o caminho quando já não dava para voltar. Andamos a noite toda e chegamos em Atibaia às 7 horas. O cansaço era inacreditável; as dores, também. Entretanto, não me arrependo hoje de ter feito aquela horrível jornada, visto que já descansei dela e que não sinto mais dor alguma. Agora que tudo já terminou, tenho apenas uma história engraçada para contar. O Salmo 49 trata de um conceito parecido. Ele fala de “valores passageiros”. Segundo o texto, depois de esses valores ficarem para trás, nenhum benefício trarão aos homens. Por outro lado, apresenta um valor superior que perdurará para sempre, tornando-o caro ao homem e alvo de uma busca séria e sábia. Na verdade, o Salmo 49 é, em certo aspecto, muito diferente dos outros salmos, sendo mais parecido com o conteúdo de Eclesiastes e de Provérbios. Podemos, com toda propriedade, chamar esse capítulo de “salmo de sabedoria”. O salmo inicia com um chamado geral (v.1): “Que todos os povos ouçam isto; Que todos os moradores da Terra deem ouvidos” (shim‘û-zo’t kol- ha‘ammîm ha’azînû kol-yoshvê haled). É importante notar que esse chamado é mesmo para todas as pessoas, independente da situação de cada um, o que inclui (v.2) o “rico” (‘ashîr) e o “pobre” (’evyôn). O que será dito no salmo vale para todos igualmente. Poucas realidades são iguais para os ricos e os pobres, a não ser aquelas ligadas à vida humana, em termos biológicos, e ao destino eterno definido pelo relacionamento que se tem, em vida, com o Senhor. Nessas áreas há duas certezas: todos morrem e todos são julgados por Deus. Tratando assuntos nesse campo, o escritor explica o teor do seu discurso, que, na verdade, é uma aula para todos oshomens (v.3): “A minha boca falará de sabedoria e a minha reflexão será de prudência” (pî yedaber hokmôt wehagût livvî tevûnôt). Ninguém deve duvidar da sabedoria que o salmista afirma ter, pois o teor do seu ensino, em consonância com as Escrituras, prova que ele fala o que é verdadeiro. Por isso, continua (v.4): “Inclinarei meus ouvidos a um provérbio; exporei o meu enigma com uma harpa” (’atteh lemashal ’oznî ’eftah bekinnôr hîdatî). Essa combinação das palavras “provérbio” e “enigma” ocorre outras vezes no Antigo Testamento (Sl 78.2; Pv 1.6; Ez 17.2; Hc 2.6) e está sempre ligada à exposição de um tipo de literatura de sabedoria. Assim, a que o salmista se propõe é expor conceitos que afetam de maneira fundamental a vida das pessoas. Aprender com sua mensagem é ser sábio, ao passo que ignorá-lo é a típica ação das pessoas tolas. Tendo dito isso, o assunto é introduzido, a saber, o futuro inevitável de todos os homens na morte (v.10): “Pois se vê que os sábios, sem exceção, morrem, assim como sucumbem o tolo e o néscio” (kî yir’eh hakamîm yamûtû yahad kesîl waba‘ar yo’vedû). Tal futuro, segundo o texto, não pode de modo algum ser evitado (vv.7,9): “Um homem não pode remir o irmão, nem pagar a Deus pelo seu resgate... para que continue a viver perpetuamente e não veja o túmulo” (’â lo’-padoh yifdeh ’îsh lo’-yitten le’lohîm kafrô... wîhî-‘ôd lanetsah lo’ yir’eh hashahat). “Remir”, nesse contexto, significa “livrar da morte”. Ou seja, não há o que se faça para que os homens vivam para sempre sem morrer. Quem se rende a lutar por essa finalidade, diz o texto (v.8), “desiste” (hadal). Isso, certamente, torna os problemas presentes menores aos nossos olhos e, por isso, o próprio escritor não supervalorizava os problemas que atravessava na vida, pelo que diz (v.5): “Por que eu terei medo, nos dias maus, quando me acercar a iniquidade dos meus perseguidores?” (lammâ ’îra’ bîmê ra‘ ‘aôn ‘aqevay yesûvvenî). Afinal, no final da vida, depois de tudo ter passado, que importa se a vida foi mais ou menos difícil? O texto revela que os homens, na esperança de superar o tempo e a morte (v.11), tolamente “chamaram as suas terras com seus próprios nomes” (qar’û bishmôtam ‘alê ’adamôt). Entretanto, o que têm de volta é o mesmo fim de todo ser vivo (v.12): “Eles perecem como os animais” (kabbehemôt nidmû). Inúteis são as riquezas, os feitos, as posses, as glórias e os elogios (vv.16-20). É uma visão bastante pessimista da vida. Se o salmo terminasse aqui, só seria fonte de tristeza e depressão. Entretanto, o salmista vê mais longe que isso. Sua visão não é a de quem olha a vida encerrar em um velório, mas de alguém que, de uma posição superior, além da vida, a vê depois da morte. Surpreendentemente – para o contexto do Antigo Testamento, segundo o conceito da revelação progressiva –, o salmista tem conceitos muito definidos da vida eterna e do modo pelo qual o homem pode ter acesso a ela (v.15): “Deus, porém, livrará a minha alma das mãos da morte, pois me tomará para si” (’ak-’elohîm yifdeh nafshî miyyad-she’ôl kî yiqqahenî). Davi também usou, com os mesmos termos, a ideia de ter liberta “a sua alma da morte” (Sl 16.10). No seu contexto – do Salmo 16 –, isso significava ser protegido da morte que intentavam os inimigos. Mas, no Salmo 49, o contexto aponta para a inevitabilidade da morte. Aqui, o significado do v.15 não é que Deus impede o servo de morrer, mas que, quando ele morre, Deus não deixa seu servo sob os horrendos efeitos da morte, nem, tampouco, que se perca dele. O Senhor o livra da morte e o recebe para si. O Novo Testamento, como porção final do que Deus revelou e, por isso mesmo, portador de pontos específicos e aprofundados da doutrina bíblica, concorda em todos os sentidos com o escritor do salmo. Jesus também disse que as riquezas são transitórias diante do poder da morte, de modo que chamou de “louco” aquele que coloca nos bens a sua alegria e não busca a verdadeira riqueza do relacionamento com Deus (Lc 12.19-21 cf. Mt 16.26). Na verdade, Jesus frisou a total incapacidade do homem perante a morte, dizendo: “Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” (Lc 12.25). Mas a Bíblia não se ocupa apenas dos efeitos físicos da morte e, assim como o próprio autor do Salmo 49, olha para a morte sob um prisma mais amplo e se preocupa com o modo de reverter os seus efeitos espirituais, ou seja, a separação de Deus. Paulo escreveu aos romanos que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a). Imediatamente, completa: “Mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23b). Dizendo isso, ele tanto demonstra estarem na morte as consequências eternas do pecado, como estar em Jesus a fonte da vida. Se o salmista afirmou que o homem não pode promover o livramento dos efeitos da morte e, também, que tinha a esperança de ver Deus atuando como redentor, temos no Novo Testamento o perfeito paralelo. Paulo escreveu que “o homem não é justificado pelas obras da lei” (Gl 2.16a), mas que, por outro lado, é justificado “mediante a fé em Jesus Cristo” (Gl 2.16b). Jesus, como Deus que é, cumpre a esperança do salmista de redimir a alma do servo para que não permaneça na morte, segundo diz: “Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28). Para alegria do salmista – e de todos os que creem em Jesus como seu Deus e salvador –, o resultado final de tal obra é que viveremos para sempre na presença de Deus, sem sofrer os danos e a condenação contidos na morte: “Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte, eternamente” (Jo 8.51). O efeito que essa verdade teve sobre o escritor do salmo é que ele mantinha a tranquilidade nas provações e aguardava com esperança a redenção completa da sua alma na vida eterna. E nós, temos tido essa mesma esperança? Temos lançado as nossas preocupações na conta da certeza da redenção divina? Ou, à semelhança da minha cansativa jornada noturna, temos carregado um fardo por quilômetros e mais quilômetros sem fim? SALMO 50 O Culto Verdadeiro e o Culto Inútil Na cidade de Evanston, Illinois (Estados Unidos), certa vez se viu um anúncio, no mínimo, curioso. Ele dizia: “Nós queremos que você se junte à nossa fé como um ministro ordenado com o grau de doutor em divindades”. No anúncio, eles explicavam se tratar de uma denominação de rápido crescimento, que estava à procura de novos membros que acreditavam, como eles, que todo homem deveria procurar a verdade da sua própria maneira, por quaisquer meios que considerem corretos. Como vantagens oferecidas para o cargo de ministro ordenado, o anúncio afirmava que os portadores do título poderiam iniciar suas próprias igrejas e obter isenção de impostos; poderiam realizar casamentos e ter todas as prerrogativas eclesiásticas. Além do mais, dizia o texto, se os candidatos desejassem ser missionários daquela denominação, obteriam grandes lucros, além de confortos como transportes, hotéis e presença em teatros. Tudo isso pela “bagatela” de cem dólares pelo curso que, segundo se afirmava, era válido e reconhecido em qualquer lugar dos Estados Unidos. Infelizmente, esse tipo de anúncio não é exclusividade do Estado americano de Illinois. Eu mesmo já vi algo parecido no Brasil. Nesses casos, a ousadia de afirmar que o curso confere o grau de doutor em divindades demonstra, logo de cara, o caráter enganoso da proposta. Eu conheço algumas pessoas que têm o grau de doutorado em Teologia e posso afirmar que não o obtiveram por meio de um cursinho de cem dólares, mas passando décadas das suas vidas em seminários e bibliotecas e, também, debruçados sobre suas escrivaninhas, lendo e escrevendo milhares de páginas por ano. Posso também dizer, conhecendo verdadeiros doutores, que é muito fácil distingui-los dos falsos. Esse falso curso de doutorado, em Evanston, não consegue resistir a uma breve conversa entre seus “falsos doutores” e os verdadeiros estudantes dasEscrituras que possuem, de fato, o referido grau de ensino. O Salmo 50, de autoria de Asafe, também traça uma nítida distinção entre o “verdadeiro” e o “falso”. Nesse caso, o objeto de avaliação não é um título educacional, mas o coração das pessoas que se dizem adoradores de Deus. O próprio Senhor é quem, no salmo, os distingue e se manifesta diante da falsidade dos seguidores nominais. O salmo parece ter sido escrito em um contexto da manutenção de uma religião ritualista, por parte de alguns, que consideravam a forma externa do culto como tudo que importava oferecer a Deus. Não há como negar que, guardadas as devidas proporções, é uma situação que nos lembra o ritualismo seco e morto dos dias do profeta Malaquias: sacrifícios oferecidos diante de Deus por corações distantes, tanto quanto possível, do Senhor digno de todo louvor. Nesse sentido, os vv.1-6 tratam de uma convocação geral de Israel (v.1) a fim de comparecer diante do tribunal de Deus. O tom sério e grave com que tal convocação é feita é de “arrepiar” e fazer temer – e tremer. Diz o v.3: “Vem o nosso Deus e não se cala; diante dele há um fogo que consome e, ao seu redor, se abate uma enorme tempestade” (yabo’ ’elohênû we’al-yeherash ’esh-lepanayw to’kel ûsevîvayw nis‘arâ me’od). Tanto pela figura do fogo como pela da água, a ideia é de uma inevitável destruição para aqueles que forem apanhados por Deus. O motivo de Deus fazer a convocação é (v.4) “para julgar o seu povo” (ladîn ‘ammô). Quanto ao juiz da questão (v.6), “Deus é aquele que julga” (’elohîm shofet hû’). Como que em uma grande assembleia, o Senhor se pronuncia contrário àqueles que o desagradam (v.7): “Eu testemunharei contra ti” (’a‘îdâ bak). Nessa ação, antes que haja qualquer mal-entendido, Deus já avisa os réus que o motivo do seu juízo não se devia à natureza, em si, dos sacrifícios que lhe ofereciam no Templo (v.8): “Eu não te reprovo devido aos teus sacrifícios e aos teus holocaustos” (lo’ ‘al-zevaheyka ’ôkîheka we‘ôloteyka). Apesar disso, o Senhor decreta (v.9): “Não aceitarei bezerro da tua casa, nem bodes do teu cercado” (lo’-’eqqah mibbêteka par mimmikle’oteyka attûdîm). A pergunta natural é: se o problema não era o sacrifício em si, tanto nas disposições técnicas como na qualidade dos animais, qual, então, era o motivo da repreensão? Depois de o Senhor dizer que não precisa dos sacrifícios oferecidos a ele, no sentido de não ter necessidades que possam ser supridas por ofertas (vv.10-13), ele, então, toca no ponto sensível da questão: a motivação dos ofertantes. Eles participavam dos rituais ditados pelo Senhor, mas seu coração não acolhia nem seus ensinos, nem tampouco o amor por aquele a quem sacrificavam. A triste situação de uma religião apenas nominal e ritualista é exposta nos vv.16,17: “Mas Deus disse ao ímpio: que vantagem tens em repetir os meus preceitos e em carregar a minha aliança na tua boca, quando tu odeias o ensino e lanças fora as minhas palavras?” (welarasha‘ ’amar ’elohîm mah-leka lesaffer huqqay watissa’ berîtî ‘alê-pîka we’attâ sane’ta mûsar watashlek devaray ’ahareyka). Deus, que viu tais defeitos no coração dos ímpios, deu-lhes prova, também, do conhecimento a respeito dos efeitos externos da sua desobediência e da sua insubmissão. Deus lhes acusa de aprovar a desonestidade e a imoralidade (v.18), de serem maldosos e trapaceiros (v.19), de trair seus próprios irmãos (v.20) e de menosprezar a santidade do Senhor (v.21). Eis os motivos pelos quais Deus rejeitou os ímpios e os sacrifícios deles, a exemplo de Caim. Quando o Senhor rejeitou a oferta de Caim, não foi pelo seu conteúdo, mas devido à maldade do ofertante. Por isso, disse a Caim: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito?” (Gn 4.7a) – há quem diga que a oferta de Abel foi aceita por ser “oferta de sangue”, mas a Bíblia não dá subsídios para tal visão extemporânea e confere à fé de Abel o motivo pelo qual ele e sua oferta foram aceitos (Hb 11.4). Assim como Deus instruiu Caim sobre o modo de ser aceito, fez o mesmo aos ímpios a quem se dirige, no Salmo 50, em tom reprobatório. Fazendo isso, aponta três traços do culto verdadeiro. O primeiro deles é um coração genuíno. A primeira parte do v.14 diz: “Ofereça sacrifícios de gratidão a Deus” (zevah le’lohîm tôdâ). Apesar de os servos nominais do Senhor, pelo que diz o próprio texto, apresentarem a Deus suas ofertas – aquelas que Deus passou a recusar no v.9 –, Deus orienta o modo como deveriam ocorrer: com gratidão. Parece redundante: “Sacrifícios de gratidão com gratidão”. Entretanto, o que Deus quer ressaltar, por meio do salmista, é que a oferta exterior deve corresponder à devoção interior. Nesse aspecto, a oferta deve vir de um coração genuíno e, assim, fazer sentido e ser verdadeira. E isso vale para todas as áreas pelas quais os cultos são prestados ao Senhor. O segundo traço é a fidelidade a Deus. A sequência do v.14 diz: “E mantenha os seus votos para com o Altíssimo” (weshallem le‘elyôn nedareyka). O texto não explica que votos são esses, mas, quaisquer que fossem, com fidelidade deveriam ser cumpridos. Independente de haver votos pessoais e pontuais, cada geração de israelitas renovava com Deus a aliança mosaica. Ela tinha um caráter bilateral. Diferente de outras alianças, tanto Deus como os homens se comprometiam com especificações de deveres e direitos. Do seu lado, Deus sempre foi fiel. Da parte dos servos, a ordem é que ajam do mesmo modo. Finalmente, o terceiro traço é a submissão dependente. Diferente dos homens que desprezavam as palavras do Senhor (v.17) e, na verdade, o próprio Senhor (v.21), o servo verdadeiro conhece sua posição e a posição de Deus. Sabendo disso e obedecendo as orientações divinas, o v.15 revela um dever do servo. Diz-lhe o Senhor: “E clame a mim no dia do perigo” (ûqera’enî beyôm tsarâ). A dependência demonstrada nessa atitude revela a submissão do servo ao Senhor por saber que somente Deus tem poder para cuidar do homem que lhe pertence. E quando isso acontece, a atitude do verdadeiro servo é assim descrita por Deus: “Você me honrará” ou “você me glorificará” (tekavvedenî). Tal é a distinção entre o servo verdadeiro e o servo falso; e a distinção entre o culto verdadeiro e o culto falso; entre aquilo que Deus aceita e aquilo que ele rejeita. Não há espaços para demonstrações vazias. Não há lugar para ritualismos que não refletem a adoração viva vinda do íntimo dos adoradores. Não quando Deus conhece tudo, incluindo o coração das pessoas. Nem tampouco, quando se sabe que ele não se comove com as aparências, mas que rejeita abertamente a adoração falsa. Com isso em mente, inevitavelmente temos de trabalhar os nossos corações para nos arrepender de pecados, para dedicarmos nosso tempo e nossos esforços a Deus e para sermos autênticos quando declararmos nossa adoração ao nosso criador e salvador. Caso contrário, ofereceremos a Deus um culto tão inútil quanto diplomas de cem dólares que trazem, risivelmente, o título de “doutor em divindades”. SALMO 51 A Mudança Necessária ao Servo de Deus Recentemente, assisti com minha filha, na televisão, ao filme Free Willy 3: O Resgate (Warner Bros.: 1997). Assim como nos filmes precedentes, o enredo expõe o bom relacionamento entre Willy, uma baleia orca, e o menino Jesse – nesse filme, já rapaz. Uma diferença, porém, no tema do terceiro filme da série é que, enquanto no primeiro se defende a liberdade desses grandes animais que vivem em cativeiro, o filme mais recente denuncia a crueldade da caça ilegal das baleias. Para tanto, há um “vilão”, caracterizado na forma de um caçador de baleias, que tenta, com insucesso, fazer com que seu pequeno filho tome gosto pelo ofício familiar. Mas a amizade que o filho cria com Willy e com Jesse, associado ao fato de o caçador ter sua vida salva pela baleia orca, faz com que, no final, o vilão mude radicalmente seu modo de ver os animais e abandone sua profissão. O objetivo do filme é promover uma mudança de atitude nas pessoas para que ajudem a preservar as baleias. O Salmo 51, um dossete salmos penitenciais (6, 32, 38, 51, 102, 130, 143) – provavelmente o mais famoso deles –, é um exemplo ideal do que significa “mudança de atitude”. Seu escritor, o rei Davi, sofre uma grande transformação que merece ser observada com atenção. A mudança pode ser percebida não apenas no corpo do texto, mas no contexto indicado pelo título do salmo: “Ao dirigente: Cântico de Davi, em vindo a ele Natã, o profeta, depois de ter [Davi] se deitado com Bate-Seba” (lamnatseah mizmôr ledawid bebô’-’elayw natan hannavî’ ca’asher-ba’ ’el-bat-shava‘). Essa introdução nos remete a 2Samuel 11 e 12, onde são narradas as atitudes de Davi como pecados singulares em sua vida. Esses capítulos mostram uma sequência drástica de pecados cada vez piores que começam com a cobiça da mulher de um amigo, seguido pelo adultério ao tomá-la em seu leito. O que já era trágico, piora com a notícia de que a mulher, Bate-Seba, ficou grávida. Davi, então, chama Urias, o marido, do campo de batalha e tenta fazê-lo ir para sua casa a fim de parecer que era dele o filho que a mulher esperava. Urias não atendeu à sugestão do rei que, em uma nova tentativa, o embriagou a fim de convencê-lo. A falta de sucesso fez Davi lançar mão de uma opção extrema, pela qual, deliberadamente, causou a morte do marido traído. Com sua morte, Davi desposou a mulher gestante e acreditou que tudo permaneceria em segredo. A farsa só teve fim quando o profeta Natã, usando de um estratagema, fez o rei pronunciar uma condenação sobre si mesmo e o repreendeu duramente pelo pecado. Em outras ocasiões narradas nas Escrituras, como em 1Samuel 15.10-31, repreender um pecado do rei promoveu reações raivosas do monarca. Mas, com Davi, o resultado foi bem diferente. Houve “mudança de atitude” por parte do rei pecador. Isso torna o episódio – e esse salmo – um material importante a fim de aprendermos sobre o arrependimento e o perdão de pecados. O Salmo 51, nesse sentido, nos mostra cinco implicações do pecado na vida do homem que quebranta seu coração diante de Deus. A primeira implicação é a consciência da condição pecadora do homem. Davi, logo após ser admoestado por Natã, fez o que cabe a todo homem que busca o Senhor ao se ver em pecado: reconhecer seu erro em lugar de racionalizar a situação ou inventar desculpas para fingir que não pecou. Davi diz (v.4): “Contra ti, contra ti somente, eu pequei e fiz o que é mal aos teus olhos” (leka levaddeka hata’tî be‘êneyka ‘asîtî). Ao dizer que pecou somente contra Deus, a ideia não é sugerir que não pecou contra Bate-Seba ou, pior, contra Urias. A intenção é mostrar que seus atos de pecado feriram, primeiro, o seu relacionamento com Deus. O pecado é pecado porque Deus é santo e contrário ao mal. Isso, obviamente, desarma qualquer pessoa que peque contra outrem ou que mantenha mágoas dos irmãos, que, ao mesmo tempo, queira afirmar que mantém sua comunhão com Deus. Davi desiste de se defender desse modo falso porque, ao ser acusado de pecado, ele se lembra que sua pecaminosidade não pode ser negada, visto que a tem desde o nascimento (v.5): “Eis que eu nasci com iniquidade e minha mãe me concebeu com pecado” (hen-be‘awon hôlaletî ûbehete’ yehematnî ’immî). Tal afirmação levanta a questão da transmissão do pecado. Segundo afirma o salmista, o pecado não está presente no homem apenas quando, conscientemente, ele realiza um ato de pecado, como diz a linha doutrinária conhecida pelo termo “pelagianismo”. Segundo diz o texto, desde a concepção, o pecado já está presente nos seres humanos. Essa realidade se perfaz desde os nascimentos dos filhos do primeiro casal e, a partir de então, aos filhos de todos os casais, visto que todos são pecadores e ninguém há sem iniquidade (Rm 3.10-12; 5.12). Enquanto as Escrituras dizem que Adão e Eva foram feitos “à imagem de Deus” (Gn 5.1,2), seu pecado provocou uma transformação tão profunda em sua natureza que seus filhos, a partir de então, não nasceram à imagem de Deus, mas à imagem de Adão, homem pecador que era (Gn 5.3). A segunda implicação é a necessidade do perdão e da restauração. Vendo sua condição pecaminosa, o homem olha para seus atos de pecados e não os acha naturais, mas transgressões que ofendem o santo Deus. Por isso, busca o perdão divino e uma mudança que o faça, novamente, ter comunhão plena com o Senhor. A exemplo de Davi, ele roga (vv.1,2): “Apaga as minhas culpas, lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado” (meheh pesha‘ay harbeh kabbesenî me‘aônî ûmehatta’tî taharenî). A terceira implicação é o sofrimento como consequência do pecado. Para o servo de Deus o pecado é fonte de dor por dois motivos. O primeiro é porque ele causa consequências que fazem sofrer (Tg 1.15). O segundo, porque o pecador perde seu contato próximo com o Senhor, o qual não suporta o pecado e não fica alheio a ele (Is 59.1,2). No caso de Davi, por ocasião do pecado com Bate-Seba e a triste sequência de pecados que resultou na morte de Urias, o sofrimento não foi diferente, mesmo antes de ser Davi repreendido pelo profeta Natã. Podemos notar essa realidade pelo modo como Davi diz se sentir antes de confessar sua maldade (v.8): “Faze- me ouvir regozijo e alegria e, assim, se alegrarão os ossos que tu trituraste” (tashmî‘enî sasôn wesimhâ tagelenâ ‘atsamôt dikîta). Davi não teve fraturas múltiplas. Ao dizer que teve seus ossos triturados ou moídos, ele se refere ao sofrimento que sentia por ter pecado. A tristeza pelo pecado era tanta que lhe parecia que seus ossos estavam esmigalhados. Por isso o pedido pela restauração da alegria. O fato é que o pecado causa sofrimento a quem quer seguir a Deus. A quarta é a certeza de restauração para quem se arrepende. Apesar de conhecer seu pecado (v.3), Davi sabia que, com o coração contrito, podia recorrer a Deus a fim de ser perdoado e restaurado. Ele conhecia o caráter transformador do Deus a quem servia. Assim, demonstra confiança em sua oração quando pede que Deus lhe execute uma mudança profunda (vv.10,12): “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova no meu íntimo um espírito estável... Recobra em mim a alegria da tua salvação e mantém em mim um espírito enobrecido” (lev tahôr bera’-lî ’elohîm werûah nakôn hadesh beqirbî... hashîvâ lî sesôn yish‘eka weruah nedîvâ tismekenî). Com os benefícios das respostas da oração que dirige a Deus, o salmista não apenas é perdoado, mas volta à ativa como um servo útil na obra de Deus. A última implicação é a possibilidade de adorar ao Deus perdoador. Ninguém deve buscar o pecado para, perdoado pelo Senhor, mostrar a todos a graça de Deus que supera a maldade do servo (Rm 6.1,2). Entretanto, o fato de sermos perdoados deve, sim, ser motivo tanto de louvor a Deus como de testemunho público do amor do Senhor pelos que lhe pertencem. É por isso que Davi, mesmo sabendo do seu pecado e da necessidade que tinha de perdão e restauração que só podiam vir de Deus, se antecipa e anuncia o que fará (v.13): “Eu ensinarei aos rebeldes os teus caminhos e os pecadores se voltarão para ti” (’alammedâ posh‘îm derakeyka wehatta’îm ’eleyka yashûvû). O efeito de tal anúncio parece encontrar seu par na vida dos israelitas de aí por diante (vv.18,19). Apesar da antiguidade do salmo, sua atualidade e utilidade não podem ser, de modo algum, desprezadas. O pecado, tanto no mundo antigo como no moderno, quebra a comunhão do servo com seu Deus e causa sofrimento ao que peca e a quem é alvo do ato do pecado. Temos de, como igreja de Deus, recorrer sempre à promessa de perdão e de purificação por meio da obra redentora do Senhor Jesus Cristo (1Jo 1.9). Ninguém sabe tão bem o valor de tal promessa como aquele que quer ser fiel a Deus. De coração ele busca o perdão, já que (v.17) “sacrifícios a Deus são o espírito quebrantado; Deus não despreza um coração quebrantado e abatido” (zivhê ’elohîm rûah nishbarâ lev-nishbar wenidkeh ’elohîm lo’ tivzeh). SALMO 52 A Obra e o Destino dos Ímpios Todo o País ficou chocado com o massacre promovido por um atirador que atingiu e matou várias crianças emuma escola em Realengo, Rio de Janeiro, tirando sua própria vida após o crime. Além do choque de saber que muitas crianças inocentes e indefesas foram feridas, enquanto outras foram mortas, foi tenebroso ver os vídeos gravados pelo próprio assassino falando sobre o que faria. Pelas gravações, é possível ver claramente a premeditação do ato e os motivos fúteis dados pelo criminoso para a barbárie. Para mim, contudo, houve algo mais marcante. Entre as explicações confusas e sem nexo do assassino e as recomendações de como tratar seu corpo morto – como se fosse um tipo de herói –, o que me atingiu foi vê-lo desfrutar da ideia do que viria a fazer. Como não notar a vanglória com que explicava suas intenções? E como é possível, para nós, não nos enojarmos e não nos revoltarmos vendo algo desse tipo? Há, na mídia, muitos outros casos de criminosos maldosos que se vangloriavam das perversidades que cometeram. Conheço um assassino, porém, que nunca apareceu na televisão. Seu nome era Doegue e ele é o assunto do Salmo 52, escrito pela pena de Davi, antes de ser rei em Israel. Davi, na verdade, estava fugindo de Saul para não ser morto devido ao ciúme que o rei tinha dele. Nessa fuga, Davi, sem explicar a razão verdadeira, se hospedou na casa do sumo sacerdote Aimeleque, em Nobe – local do tabernáculo na época – e, conseguindo provisões, partiu para um tipo de exílio. Nessa ocasião, um oportunista, empregado como pastor de ovelhas a serviço de Saul (1Sm 21.7), aproveitou para tentar subir de posto diante do rei. O que ele fez, descrito em 1Samuel 22.9,10, é também expresso no título do salmo: “Quando Doegue, o edomita, relatou a Saul dizendo-lhe: Davi esteve na casa de Aimeleque” (bebô’ dô’eg ha’adomî wayyagged lesha’ûl wayyo’mer lô ba’ dawid ’el-bêt ’ahîmelek). O resultado foi que Saul, já enfurecido e fora do bom uso da razão, quis vingança contra Aimeleque e toda a sua casa. Ordenou que sua guarda os matasse, mas eles se negaram a fazê-lo. Desse modo, o autor da chacina, sob as ordens do rei, foi o próprio Doegue (1Sm 22.11-19). O único sobrevivente da casa de Aimeleque foi Abiatar, o qual fugiu para Davi e foi por ele acolhido e protegido (1Sm 22.20-23). Por meio dele Davi tomou conhecimento do ocorrido e, posteriormente, escreveu o salmo em questão. Nele, temos a oportunidade de notar certas características do homem que se vangloria do mal que faz. A primeira delas é a completa falta de temor a Deus. O início do salmo é endereçado ao próprio Doegue. Davi lhe pergunta (v.1): “Por que te vanglorias na maldade, ó poderoso?” (mah-tithallel bera‘â haggibôr). A referência a Doegue como um homem poderoso pode tanto ser uma referência ao prestígio que ele agora tinha na corte de Saul por causa do seu ato traiçoeiro, como – o que é mais provável – ser uma acusação da tolice de Doegue se achar alguém grande por fazer o mal à vista de Deus. Essa segunda possibilidade fica mais clara quando olhamos a frase pela qual Davi contrapõe sua pergunta: “A fidelidade de Deus está presente todos os dias” (hesed ’el kol-hayyôm). O propósito desse contraste é evidenciar a loucura da ação de Doegue movida pela completa falta de temor ao justo e soberano Senhor. Em outras palavras, seria Davi perguntando ao malfeitor: “Como é que você age assim e ainda se orgulha disso, sabendo que Deus é fiel para sempre e que vai puni-lo por isso?”. Entretanto, tal raciocínio nem sequer fazia sentido para o ambicioso e maldoso pastor do rei. A segunda característica é a promoção do prejuízo alheio. Para um homem assim, ninguém pode ser obstáculo para a concretização dos seus desejos. Sob esse modo de ver a vida, as pessoas são descartáveis e, assim, podem ser prejudicadas sem que o homem perverso se sinta constrangido por suas ações. Por isso, Davi se dirige a Doegue mais uma vez e diz (v.2): “Como uma navalha afiada, a maldade habita na tua língua, ó mentiroso” (hawwôt tahshov leshôneka keta‘ar meluttash ‘oseh remiyyâ). Certamente, Davi tem em mente o mal que Doegue produziu a Aimeleque e à sua família sem sentir qualquer remorso. O relato do livro de 1Samuel mostra que Davi não informou Aimeleque as suas reais condições diante de Saul. Para o sacerdote, Davi estava em uma missão real (1Sm 21.2), de modo que, ajudar Davi era servir à coroa. Aimeleque realmente não fez conscientemente nada que fosse contrário a Saul. Entretanto, não foi isso que Doegue fez Saul saber. Ele, que foi testemunha do que ocorreu em Nobe (1Sm 21.7), escolheu que verdades contar – ou manipular – a fim de demonstrar ao rei sua utilidade, mesmo que isso custasse a vida de homens inocentes. A terceira característica é o apego natural à maldade. A atitude destruidora de Doegue parece não ter sido apenas um fruto de uma oportunidade, mas o ato de externar algo que se dava em seu íntimo. Davi não apenas acusa seu ato pernicioso e assassino; não somente aponta para sua consciência entorpecida. Davi denuncia o que passa no próprio coração de Doegue. Utilizando-se do verbo “amar” (’ahav) para se referir às escolhas feitas pelo traidor, Davi nos desvenda o apego daquele homem ao mal, pelo qual agiu naturalmente ao fazer suas péssimas escolhas (vv.3,4): “Tu amaste o mal mais que o bem; a mentira mais que as palavras justas; amaste todas as palavras de destruição, ó língua enganosa” (’ahavta ra‘ mittôv sheqer middaber tsedeq selâ ’ahavta kol-divrê-bala‘ leshôn mirmâ). Para Doegue não foi grande coisa mentir sobre a atuação do sumo sacerdote no episódio com Davi, nem, tampouco, fazer o que nem mesmo a guarda de Saul quis fazer, a saber, assassinar os sacerdotes do tabernáculo de Deus. O assassino naturalmente preferia o que era mal. Depois de descrever o tipo de homem que Doegue era, Davi passa a falar sobre as consequências de agir como ele (v.5): “Também Deus te derrubará para sempre” (gam-’el yittatseka lanetsah). Se o que o traidor queria era ascender à corte de Saul, o resultado seria o movimento contrário. A ascensão temporária se tornaria uma queda permanente. E mais: “[Deus] te arrastará e te arrancará da [tua] tenda e te desarraigará da terra dos vivos” (yahteka weyissahaka me’ohel weshereshka me’erets hayyiym). Deus faz recair sobre o malfeitor seus próprios atos, pois, assim como os sacerdotes foram tirados da “tenda” do Senhor – o tabernáculo em que serviam – e foram mortos, o mesmo aconteceria com Doegue. E, finalmente, o desejo de ser respeitado pelas pessoas por causa dos favores do rei seria também frustrado pelo resultado diametralmente oposto (v.6): “E os justos verão e temerão e dele zombarão” (weyir’û tsadîqîm weyiyra’û we‘alayw yishaqû). Na verdade, o texto não diz apenas que os justos zombarão, mas que também dirão dele na sua queda (v.7): “Eis o homem que não faz de Deus seu protetor, mas que confia nas suas muitas riquezas e que é forte na sua maldade” (hinneh haggever lo’ yashîm ’elohîm ma‘ûzzô wayyivtah berov ‘oshrô ya‘oz behawwatô). Antes de encerrar o salmo, Davi se apresenta como um contraste em relação à Doegue. Enquanto este é como uma planta que será “desarraigada da terra dos vivos” (v.7), Davi diz de si mesmo (v.8): “Mas eu sou como uma oliveira vigorosa na casa de Deus” (wa’anî kezayit ra‘anan bebêt ’elohîm). Além de se comparar a uma planta em plena produção de frutos, Davi se refere a uma planta que pertence a Deus e que, desse modo, é cuidada por ele e dá fruto para ele. Esse é o modo de o salmista se distanciar da figura horrenda do homem mal e de demonstrar que é um servo de Deus pela graça que dele recebe. Tal sentido de dependência do Senhor em seu benefício se vê nas palavras subsequentes: “Eu confio na fidelidade de Deus para todo o sempre” (batahtî behesed-’elohîm ‘ôlam wa‘ed). Por isso, diferente do malfeitor que buscava a alegria em uma busca inescrupulosa, Davi se mostra agradecido a Deus, mesmo na situação de fuga em que vivia, confiado no caráter divino (v.9): “Eu confiarei no teu nome, pois és bondoso perante os teus fiéis” (’aqawweh shimka kî-tôv neged hasîdeyka). Realmente, os ímpios agem como loucos, sem temora Deus e sem escrúpulos na busca do que desejam. Usam sua boca como armas mortais e não se importam com os prejuízos que causarão nas pessoas ao redor. Quanto a nós, que fomos retirados desse mundo perdido e desse sistema egoísta, devemos, tanto quanto pudermos, nos afastar de tudo que nos faça parecer com homens como Doegue. E, chocados com atuações malévolas como à do assassino do Rio de Janeiro, devemos espalhar a mensagem do evangelho de Jesus Cristo, sabendo que somente ele pode transformar pessoas assim em “oliveiras vigorosas da casa de Deus”. Caso contrário, serão como o próprio atirador do Rio de Janeiro que tinha o arrogante sonho de ser sepultado como herói, conduzido, segundo disse, por mãos “puras” e com um lençol branco, mas que, no final, foi enterrado em uma cova rasa, com autorização judicial, sem a presença de nenhum parente, amigo ou qualquer outro acompanhante. SALMO 53 Os Pontos Comuns da Iniquidade e da Justiça Como cirurgião-dentista em tempo parcial, ainda atendo pacientes em meu consultório. Além de utilizá-lo como um tipo de gabinete pastoral, o contato com as pessoas cria sempre boas oportunidades. Dentre os pacientes que atendo, há dois que me confundem. São dois gêmeos muito parecidos. No começo, eu não sabia diferenciá-los. Mesmo depois de atendê-los, eu me confundia vendo-os na sala de espera. Entretanto, com o passar do tempo e com o decorrer das sessões, comecei a notar algumas diferenças físicas neles, daquelas que só é possível ver depois de conviver certo tempo. Mas as diferenças que realmente me ajudam a diferenciá-los têm relação com a personalidade de cada um. Apesar de serem quase idênticos, eles me cumprimentam de modo diferente e têm o humor completamente adverso. Um deles é animado, engraçado e gozador, enquanto o outro é mais introspectivo, sério e atento. Quando presto atenção a essas características, fica mais fácil diferenciá-los. O livro de Salmos também tem irmãos gêmeos. Mas, como todos os gêmeos, eles guardam características singulares. Refiro-me aos salmos 14 e 53. A primeira semelhança entre eles é a autoria: ambos foram compostos por Davi. Mas essa está longe de ser a única coisa que os aproxima. Na verdade, o texto deles é extremamente parecido. As semelhanças entre os quatro primeiros versículos do Salmo 14 e os cinco primeiros versículos do Salmo 53 são tão grandes que nos parecem ser o mesmo salmo. Uma diferença mais substancial se dá apenas no final de cada um. Eles podem, com toda razão, ser chamados de “salmos gêmeos”. Porém, não são tão parecidos a ponto de ser inútil a presença dos dois no saltério. Certamente, se um fosse mera cópia do outro, poderíamos ter apenas 149 capítulos no livro de Salmos ou ter, até mesmo, um salmo a mais que não foi incluído no cânon. Mas o Deus soberano que nos deu seu ensino por meio das Escrituras não fez nada disso. Ele, munido da sabedoria sem limites que somente Deus tem, nos deu os dois salmos, cada um com seu próprio propósito, cada um com seu próprio benefício. Portanto, para não repetir o que já foi dito a respeito do Salmo 14, ao comentarmos o Salmo 53 daremos especial atenção a algumas diferenças entre ele e seu irmão gêmeo. A primeira diferença notável, excetuando o título mais longo do Salmo 53, está presente no v.1 de cada salmo, na palavra utilizada para se referir ao pecado do homem tolo. Enquanto o Salmo 14 diz que ele pratica a “má conduta” (‘alîlâ), o 53 chama tais atitudes de “iniquidade” ou “injustiça” (‘awel). A qualificação mais rigorosa da conduta ruim do ímpio demonstra que Deus vê todo pecado como uma ofensa capital à sua própria santidade. Tais palavras, associadas ao verbo que as precede em ambos os casos (ta‘av), cujo significado no grau em que se encontra (hiphil) é “proceder de modo abominável”, atesta o fato de que Deus não fica indiferente ou impassível diante do mal. O pecado causa uma reação em Deus que o move, no devido tempo, a promover a vingança contra o mal. Toda iniquidade que não for tratada pela graça e pelo perdão de Deus, por meio da obra de seu filho Jesus Cristo, será inevitavelmente julgada e punida no tribunal daquele que não suporta a maldade, nem convive com pecadores endurecidos. Algo que cuja forma difere nos dois salmos é que o Senhor é sempre chamado de Deus (’elohîm) no Salmo 53, enquanto, na maioria das vezes, é chamado no 14 de Javé (yehwâ). Apesar disso e de uma pequena diferença de palavras na introdução do texto do Salmo 14.3 e do 53.3, onde o sentido permanece inalterado, a próxima diferença notável se dá realmente no Salmo 14.4 e na primeira metade do 53.5. O primeiro diz: “Então eles temerão de pavor, pois Deus está com gente justa” (sham pahadû pahad kî-’elohîm bedôr tsadîq). Seu par, no capítulo 53, completa dizendo: “Então eles temerão de pavor de coisas que não são temíveis, pois Deus esparrama dos ossos daquele que te cerca” (sham pahadû pahad lo’-hayâ pahad kî-’elohîm pizzar ‘atsmôt honak). Ambos predizem um terrível temor por parte dos injustos, mas cada um dá uma razão para tanto. Uma delas é a indiscutível predileção de Deus pelas pessoas cujas atitudes são justas devido à ligação que têm com o Senhor. Tal predileção toma forma de ações práticas quando os que pertencem a Deus são perseguidos – ou cercados, conforme diz o texto – pelos perversos. Esse realmente é um motivo de terror para os inimigos de Deus. O desenrolar é que o pânico, no momento em que Deus se levanta para defender os seus, é tamanho que seus inimigos temem até as coisas inofensivas. O motivo não é nenhum tipo de paranoia, mas saber pela triste experiência o que acontece com aqueles contra quem Deus se levanta. O texto traz uma figura muito forte ao dizer que esses serão destroçados e seus ossos serão espalhados. A sequência – o Salmo 14.6 e a segunda parte de 53.5 – contém mais diferenças que se complementam na mensagem transmitida pelos salmos gêmeos. No primeiro desses textos, o salmista se dirige aos injustos e lhes diz: “Vocês envergonham o conselho dos humildes, entretanto o Senhor é o refúgio deles” (‘atsat-‘anî tabîshû kî yehwâ mahsehû). A zombaria que os injustos promovem volta para eles no Salmo 53.5, pois é dito ao justo: “Tu os envergonharás, pois Deus os rejeitará” (hebishotâ kî-’elohîm me’asam). O paralelismo é muito claro. Os perversos, que causavam vergonha nos humildes, serão, como castigo, envergonhados. E isso porque Deus, que é o refúgio dos humildes e os protege, rejeita os ímpios. Ao olhar como as diferenças entre os Salmos 14 e 53 complementam a ideia de que Deus é o protetor dos que lhe pertencem e é o vingador do mal dos perseguidores injustos, entendemos porque esses dois salmos coexistem no saltério. O resultado prático também não poderia ser mais claro: a necessidade de submissão e contrição dos rebeldes diante do soberano Senhor e de adoração e gratidão por parte daqueles por quem o Senhor luta. E que ninguém se deixe enganar por ditos que fazem crer que todos os homens são iguais para Deus. Mesmo parecidos por fora, até mesmo como pessoas gêmeas, por dentro seus corações são diferentes e o Senhor os conhece, sabendo quem, dentre eles, tem Jesus como seu refúgio e salvação. SALMO 54 Como Agir Diante da Traição Li na Internet uma história que me chamou a atenção. Ela contava que, em 1948, um dentista carioca viajou até uma pequena cidade do interior de Minas Gerais a fim de colocar em ordem negócios familiares. O caso é que sua irmã havia passado um tempo naquela cidade, onde fora seduzida pelo clérigo local. A intenção do jovem dentista era dar uma solução ao estado desonroso da irmã, convencendo o prelado a se casar com a moça. Como isso não aconteceu, o dentista executou o sedutor. Ele, obviamente, foi preso e houve grande comoção local. Percebendo a temperatura dos ânimos e como isso poderia influenciar o julgamento, a defesa conseguiu transferir o processo judicial para outro foro, onde alegou inocência do réu com base na tese de “legítima defesa da honra”. Esse argumento, hoje rejeitado pelamaioria dos juristas, conseguiu livrar o assassino da devida condenação que merecia em duas instâncias judiciais. Os jurados, na época, acharam que o réu, desonrado como foi, tinha o direito de matar a vítima. Apesar de surpreendente, esse não é um exemplo único de tal decisão. Esse absurdo foi efetivado vezes e mais vezes na história do Direito no Brasil, principalmente em casos de maridos traídos pelas esposas. Sob a desculpa de defender a honra ferida pela traição, muitos maridos, no passado, assassinaram suas esposas e saíram impunes. A Bíblia também narra casos de traição. Um deles é pano de fundo da composição do Salmo 54. Nesse caso, a traição não foi entre cônjuges, mas entre israelitas da mesma tribo. Davi, o escritor do salmo, foi o alvo da traição e sua reação foi – e ainda é – um modelo para os servos de Deus. O contexto é apontado no título do salmo: “Quando vieram os zifeus e disseram a Saul: acaso não está Davi conosco?” (bebô’ hazzîfîm wayyo’merû lesha’ûl halo’ dawid mistater ‘immanû). Com essa menção fica fácil associar o salmo aos episódios narrados em 1Samuel 23 e 26. Davi, nessa ocasião, estava fugindo de Saul para não ser morto. Enquanto fugia, ficou sabendo de uma invasão filisteia à cidade de Queila, no território de Judá, tribo de Davi. Apesar do risco e do medo de serem pegos, Davi e seus homens foram a Queila e a libertaram dos inimigos. Com a notícia de que Saul vinha para cercá-los, fugiram da cidade e rumaram para o deserto de Zife, a sudeste de Hebrom. A distância e a falta de informações do rei mantinham Davi e seus soldados seguros. Porém, os homens de Zife, israelitas que, como Davi, pertenciam à tribo de Judá (Js 15.24), quiseram aproveitar a oportunidade para, traindo seu irmão, obterem vantagens do rei (1Sm 23.19,20). A traição dos zifeus quase custou a cabeça de Davi (1Sm 23.25-28). O pior só não aconteceu porque os filisteus lançaram outro ataque e Saul teve de abandonar a caçada para combater os invasores. Ao reagir à traição dos seus irmãos, Davi exemplifica quatro reações que o servo de Deus deve ter ao ser traído pelos homens. Em lugar de buscar vingança por causa da traição, a primeira reação de Davi o faz buscar a Deus por meio da oração humilde. Sem qualquer tipo de bravata ou juramento de ser capaz, por si mesmo, de se livrar dos inimigos, Davi recorre ao Senhor como alguém necessitado. A correta noção da sua situação e o conhecimento do poder de Deus dão o tom humilde da oração davídica (vv.1,2): “Salva-me pelo teu nome, ó Deus, e faça-me justiça com a tua força. Ouve a minha oração, ó Deus, e atenta para as palavras da minha boca” (’elohîm beshimka hôshî‘enî ûbigvôrotka tedînenî ’elohîm shema‘ tefillatî ha’azîâ le’imrê-pî). A insistência na súplica é um traço marcante da humildade de Davi por causa da incapacidade de lidar com os perigos que o cercavam. As rimas e os paralelismos fáceis de notar tornam essa oração um singular cântico que exalta o poder de Deus e ressalta a humildade do servo. A segunda reação é o resultado coerente da primeira: a dependência de Deus. Entretanto, nesse aspecto, Davi não faz segredos. O que, normalmente, seria uma vergonha para alguns homens, visto ser a própria declaração de impotência, para Davi a dependência parece ser um ato cultual. Desse modo, ele demonstra com hombridade ter, de Deus, uma dependência pública. O salmista não quer orar em secreto e fingir diante de todos que consegue lidar com o peso das circunstâncias. Ele compõe um canto e nele declara a todos (v.4): “Eis que Deus é o meu protetor. O Senhor é o sustentador da minha alma” (hinneh ’elohîm ‘ozer lî ’adonay besomekê nafshî). Levando em conta que “minha alma”, nesse contexto, é uma sinédoque que aponta para Davi como um todo – a total dependência que Davi sente e declara ter em Deus é motivo de encorajamento para os servos de Deus terem menos coragem em si mesmos e mais confiança no Todo-poderoso. A terceira reação, talvez a mais difícil delas, é manter a atitude justa. Seguindo a lógica dos antigos tribunais brasileiros, Davi podia se dizer ferido e traído, sentindo-se livre para agir como seu ímpeto mandasse. Poderia buscar vingança por meio de um ataque violento aos zifeus, com seu pequeno exército particular, explicando que ficou muito magoado com a traição. Podia até dizer que sua honra foi ferida. Mas ele não fez nada disso. Mesmo se sentindo traído por seu próprio povo a quem ele defendia com risco pessoal, Davi entregou o caso ao Senhor, o justo e sábio juiz capaz de julgar situações como essa. Por isso, afirma (v.5): “[Deus] fará o mal voltar aos meus inimigos. Faze-os calar por meio da tua fidelidade” (yashiwb hara‘ leshoreray ba’amitteka hatsmîtem). Na verdade, esse é um traço marcante de Davi. Mesmo quando os homens eram desleais com ele, ele não era desleal com os traidores. Outro exemplo dessa atitude é a postura de Davi quando teve oportunidade de matar Saul, acabar com a perseguição injusta e, como prêmio adicional, ser feito rei sobre Israel. Nessa ocasião, Davi fez o que ninguém esperava. Quando seus amigos lhe sugeriram um ataque mortal a Saul, Davi lhes explicou que cabia ao Senhor vingar o mal: “Davi, porém, respondeu a Abisai: não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor e fique inocente? Acrescentou Davi: tão certo como vive o Senhor, este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, seja morto” (1Sm 26.9,10). O próprio Jesus apresentou a mesma disposição de manter a justiça entregando os desmandos a Deus: “Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2.23). Tanto Davi como Jesus rejeitariam a tese da “legítima defesa da honra” utilizada para acobertar uma vingança. A quarta reação é a adoração voluntária ao Senhor. Ainda que o momento fosse delicado para o salmista e ele tivesse inúmeras preocupações e afazeres para manter a própria segurança e a dos seus homens, ele não deixa de pensar na devida adoração que deve a Deus. Diz ele (v.6): “Que eu te ofereça sacrifícios por iniciativa própria” (bindavâ ’ezbehâ-lak). Enquanto uma acusação frequente aos israelitas, principalmente aos sacerdotes, era a religiosidade vazia por meio de sacrifícios externos que não refletiam o íntimo dos ofertantes, Davi se apresenta com uma disposição totalmente diferente. Voluntariamente, ou “por iniciativa própria”, ainda que passasse por problemas, ele adoraria ao Senhor e lhe ofereceria o fruto do seu louvor. Nessa atitude ele deixa de fora qualquer tipo de barganha para tentar se beneficiar do poder de Deus. Exime-se, também, de cumprir mecanicamente preceitos que não traduzem seu desejo pessoal. Na verdade, ele não precisa de tais expedientes uma vez que realmente confia no Senhor e depende da sua bondade. Quando ele adora ao Senhor, o faz de coração, de todo coração. Quem já passou dissabores e decepções com pessoas próximas, sabe o que significa o exemplo que Davi deixou. Quem conhece o ardor da indignação e da fúria que acomete aqueles que são trapaceados por pessoas em quem confiam, sabem o alento obtido pelo exemplo de um homem que agiu corretamente provando ser possível, pela graça de Deus, suportar a dor de uma situação como essa. E quem quer, de fato, servir a Cristo, certamente concorda que ver seu próprio mestre sendo exemplo de uma atitude tão radicalmente contrária ao mundo é um encorajamento incomparável. Que em momentos assim, palavras como “honra” nos lembrem do nosso dever para com Deus e não do nosso orgulho ferido. E, lembrando disso, que sejamos nós, discípulos de Jesus, aqueles que realmente promovem a “legítima defesa da honra”, a saber, a “honra” do nome do nosso Deus. SALMO 55 Nos Limites da Angústia Os ingleses, certa vez, ficaram perplexos com a notícia de que um senhor de 65 anos havia tirado sua própria vida em circunstâncias inusitadas. Ele, que perdera a mulher, tinha uma vida solitária desde então. Essa é, contudo, a história de muita