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B F Skinner
(H a rv a rc U n ive rs i ty i
Arion Carlos Ribeiro de Oliveira
Í L’V v /E S )
Elizen Batista Borloti
(UFES)
Fabiana Pinheiro Ramos
(UW/ES)
Grauben Jose Alves de Assis
(UFPA)
Luciano de Sousa Cunha
(UFES)
Maly Delitti
(PUC/SP)
Marcelo Galväo Baptista
(UFPA)
Mylena Pinto Lima Ribeiro
(UW/ES)
Rachcl Rodrigues Kerbauy
(USP/SP)
Silvia Grobeiman
(PUC/SP)
Sônia Regina Fiorim Enumo
(UFES)
Análise do
Comportamento:
Teorias e
Práticas
Análise do
Comportamento:
Teorias e
Práticas
Elizeu Batista Borloti
Sônia Regina Fiorim Enumo
Mylena Lima Pinto Ribeiro
Organizadores
Copyright © desta edição:
ESETec Editores Associados, Santo André, 2005.
Todos os direitos reservados
Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)
(Biblioteca Central da Universidade Federal
do Espírito Santo, ES, Brasil)
Borloti, Elizeu Batista, et al.
Análise do comportamento : teorias e práticas / Elizeu Batista
Borloti, Sônia Regina Fiorim Enumo, Mylena Lima Pinto Ribeiro,
organizadores. - Santo André: ESETec, 2005.
169 p. ; 14 x 21 cm
Inclui bibliografia.
ISBN: 85-88303-59-0
1. Skinner, B. F. (Burrhus Frederic), 1904-1990. 2. Behaviorismo
(Psicologia). 3. Comportamento humano. 4. Comportamento -
Evolução. 5. Educação especial. I. Borloti, Elizeu Batista, 1968-. II.
Enumo, Sônia Regina Fiorim. III. Ribeiro, Mylena Lima Pinto.
CDU: 159.9.019.4
Editores: ESETec Editores Associados
Capa e editoração eletrônica: ESETec Editores Associados
Revisão Gráfica: Elizeu Batista Borloti e
Luciano de Sousa Cunha
Catalogação: Silvana Vicentini
Impressão: Ecograf
Ilustração da Capa: imagem cedida pela B. F. Skinner Foundation
ESETec
Editores Associados
Solicitação de exemplares: eset@uol.com.br
Rua Santo Hilário, 36 - Vila Bastos - Santo André - SP
CEP 09040-400
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SUMÁRIO
A presentaç ão 7
A EVOLUÇÃO DO COMPORTAMENTO VERBAL 15
B. F. Skinner
O SIGNIFICADO DAS AÇÕES DECORRE DO CONTEXTO
COMPORTAMENTAL? 31
Rache/ Rodrigues Kerbauy
Sk in n er , o sen tim en to e o sentido 55
Luciano de Sousa Cunha e Elizeu Batista Borioti
Skinner e terap ia
MalyDelitti e Silvia Groberman
59
A bs tr a ç ã o , m etá fo ra , so nho e in c o n s c ie n te :
UMA INTERPREfAÇÃO sk in n er ian a 69
Elizeu Batista Borioti
A NOÇÃO DE COMPREENSÃO DE LEITURA EM B. F.
S k in n er
Marcelo Galvão Baptista
97
CONTROLE DO COMPORTAMENTO POR RELAÇÕES
ORDINAIS! QUESTÕES CONCEITUAIS E METODOLÓGICAS H7
Mylena Pinto Lima Ribeiro, Grauben José Alves de Assis e
Sônia Regina Fiorim Enumo
O TREINO EM HABILIDADES SOCIAIS E A INSERÇÃO
DE PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS NO
MERCADO DE TRABALHO 133
Arion Carlos Ribeiro de Oliveira e Fabiana Pinheiro Ramos
UM PROGRAMA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
EM PREVENÇÃO DE DEFICIÊNCIAS) DESCRIÇÃO E
ANÁLISE 145
Sônia Regina Fiorim Enumo
5
APRESENTAÇÃO
Março de 2004: data memorável, Nasceu o NACES -
Núcleo de Anáiise Comporta menta! do Espírito Santo - mais
um dos muitos grupos de profissionais e estudantes brasilei
ros que têm como objetivo a difusão da Ciência do Compor
tamento em nosso país. Essa ciência tem a contribuição de
muitos filósofos, teóricos, pesquisadores e profissionais, es
pecialmente do psicólogo B. F. Skinner (1904-1990). O NACES
não poderia ter nascido em melhor hora: em 2004 comemo
ra-se o Centenário de Nascimento de Skinner. Não faltaram
justificativas para a comemoração.
Skinner (Fred para os íntimos e B. F. para o público em
geral) foi o psicólogo americano que teve o maior impacto no
pensamento ocidental (Richelle, 1981). Sua obra, que inclui
mais de 230 publicações, é controversa (Carrara, 1992) e
essa controversão pode ser sentida no seguinte comentário
de Catania (1984): "De todos os psicólogos da atualidade, B.
F. Skinner é talvez o mais honrado e o mais amaldiçoado, o
mais amplamente reconhecido e o mais mal apresentado, o
mais citado e o mais incompreendido" (p.473). São, no míni
mo, curiosas as formas múltiplas e contraditórias com as quais
Skinner foi referenciado na sociedade americana, na produ
ção científica internacional da Psicologia (e de outras áreas
do conhecimento) e em sua historiografia.
Segundo o prefácio do biógrafo Bjork (1997), o autor foi
visto como reducionista e mecanicista e serviu como bode
expiatório da opinião pública norte-americana ao receber a crí
tica e a raiva que deveriam ser iançadas sobre si mesma. Tam
bém foi considerado fanático (Blackman, 1996, p. 108), uma
espécie de "Hitler científico do século XIX" (Bjork, 1997, p. xi),
sendo inclusive apresentado para uma de suas conferências
como "O Diabo" (Skinner, 1971/1999,p.393). O efeito dominó
desta representação foi óbvio: Julie Skinner Vargas (1993),
sua fiiha mais velha, lembrou que aqueles que não o conheci
am pessoalmente sempre o descreviam como um cientista frio.
Essa descrição parece que não comungava com a im
pressão gerada no convívio pessoal com o autor. Tanto que,
opostamente, ele foi visto como brilhante, expansivo e inova
dor (Bjork, 1997), e teve o reconhecimento de seus pares
ainda em vida, um privilégio de poucos pensadores. Oito dias
antes da sua morte, na convenção da Associação Americana
7
de Psicologia (APA) ocorrida em 10 de agosto de 1990, todas
as suas condecorações foram lembradas (Blackman, 1996):
o Prêmio de Distinção Científica, concedido pela APA (1958);
a Medalha Nacional da Ciência, ofertada pelo presidente
Johnson (1968); o Prêmio Internacional da Fundação Joseph
P. Kennedy (1971), por contribuições na área da deficiência
mental; o Título de Humanista do Ano, dado pela Sociedade
Humanista Americana (1972); o Prêmio por Contribuições
Eminentes para a Pesquisa Educacional, dado pela Associa
ção Americana de Pesquisas Educacionais (1978); o Prêmio
por Realizações Durante a Vida, dado pela APA (1990); e o
Prêmio Wiíliam James, dado também pela APA (1990). E mais:
por estas e outras razões (dentre elas, ser o psicólogo mais
citado em artigos de periódicos e em livros de introdução à
Psicologia) ocupou o topo da lista dos 100 psicólogos mais
eminentes do Século XX, ficando na frente de Piaget e de
Freud (Haggbloom, et. al, 2002).
Bem ou mal visto, Skinner destacou-se mundialmente
e tornou-se um ícone cultural (Woodward, 1996). Sua crença
nos benefícios da ciência e sua crítica às práticas sociais de
vassas e estúpidas da sua época o marcaram como um pro
vocador da cultura norte-americana. Sua utopia social - ilus
trada em Walden Two (Skinner, 1948) - transformou-o numa
espécie de visionário (Smith, 1996). Tais comportamentos
obtiveram um saldo interessante.
Como foi muito bem lembrado, "A forte dualidade da
imagem pública de Skinner - como herói e viíão, salvador e
fascista ~ sugere o conflito de ideologias da sociedade que o
produziu" (Smith, 1996, p.296). Ele mesmo (Skinner, 1974) pa
receu apontar para este conflito na postura de oposição ao
behaviorismo por parte dos psicólogos mentalistas: por qual
razão eles desperdiçariam tanta munição com um behaviorismo
que julgavam supostamente ingênuo e ultrapassado?
Essa mesma cultura conflituosa transformou-o num in
telectual polivalente. Graduado em Línguas e Letras, mante
ve o interesse por Literatura e Música, alternando atividades
como professor, cientista e poeta. Foi crítico literário e teve o
privilégio de conviver com alguns dos escritores famosos de
sua época, dentre eles Robert Frost, Robert Penn Warren,
Clifford Odets e John dos Passos. Sua intelectualidade apa
rece em muitos dos seus escritos em referências a
Shakespeare, Erasmus, Tolstoy, Dostoyevsky, Bertrand
Russell, Paviov, Darwin, IMietzsche, Kant, Freud, dentre mui
tos outros escritores, filósofos e cientistas igualmente famo
sos. O título do primeiro volume de sua autobiografia -
Particulars Of My Life (Skinner, 1976) - foi inspirado em uma
linha de Henry IV, de Shakespeare. O seu mais polêmico livro- Beyond Freedom And Dignity ~ foi derivado de Beyond Good
8
and Evilf de Nietzsche, e ds Beyond The Pleasure Principie, de
Freud (Smith, 1996).
Desde criança Skinner foi marcado pelas metacontin-
gências de sua cultura. Smith (1996) lembrou que o otimismo
utópico, o pragmatismo, o amor pela invenção e a*crença na
mudança do ser humano são todas características skinnerianas
e norte-americanas. No ensino médio, como conta uma carta
(citada por Bjork, 1997, p. 28) do diretor de sua escola, John
Ogelthorpe, recomendando-o ao reitor da concorrida Hamil
ton College, ele costumava exigir razões para tudo e negava-
se a acreditar nos professores que faziam afirmações sem
nenhuma prova. Portanto, mirem-se no exemplo.
Durante a graduação em Letras na Hamilton College ele
foi perpassado pelo criticismo cultural dos anos 20 que pene
trou as produções na Literatura e nas Artes Plásticas nos Es
tados Unidos da América. Na Hamilton ele frequentou cursos
que fizeram dele um intelectual de carteirinha (Bjork, 1996), A
literatura que o jovem Skinner produziu continha um sabor de
rebelião que marcou o início do movimento da contra-cultura,
pois registrava o desconforto do autor com as crenças e os
valores tradicionais presentes na vida puritana religiosa da
classe média norte-americana (Wiklander, 1996).
Em 1928 decidiu fazer o doutorado na Psicologia de
Harvard por querer explicar o comportamento humano, "o
grande enigma do universo", conforme ele mesmo escreveu
na justificativa exigida no ato da sua inscrição (documento
dos Arquivos da Hamilton College, citado por Bjork (1997,
p.265). Até 1936, sob influência dos ventos da Revolução
Industrial (Smith, 1996), a explicação do "grande enigma" foi
perseguida com a construção de engenhocas cientificas já
que, em Harvard, ele tinha todo o espaço para fazer coisas:
"Tudo o que eu tocava sugeria coisas novas e promissoras
para fazer" (Skinner, 1979, p.38).
Um outro interesse do autor era a Epistemologia, que
matizava de forma peculiar a sua grande produtividade cientí
fica, que lhe rendia fama. No dia em que completou 29 anos foi
entrevistado como o mais novo membro júnior da Harvard
Society of Feilows, a nata intelectual da sociedade da época.
Os jornais divulgaram-no como o mais novo membro da "aris
tocracia de cérebros" de Harvard, junto a figuras renome em
diversas áreas: Filosofia, Política, Matemática, Química, Antro
pologia, Geologia, Medicina, Sociologia, Literatura, Física, As
tronomia, Bioquímica, História e Arqueologia (Wiklander, 1996).
Em seguida, Skinner foi lecionar em Minnesota e India
na. Nessas Universidades, a natureza eclética dos departa
mentos aos quais pertenceu encorajaram-no a perseguir ou
tras linhas de pesquisa, notadamente comportamento verbal
(Bjork, 1996). Em 1945, chefiou o Departamento de Psicologia
9
da Universidade de Indiana sob as credenciais da "figura mais
original, independente e inovadora na Psicologia" (Bjork, 1996,
p. 142). A riqueza desse período é atestada pelas realizações
concretas de um "inventor social" (Bjork, 1998) afetado pelas
metacontingências econômicas e sociais dos anos 30 nos Es
tados Unidos da América, caracterizadas por graves proble
mas que clamavam por novas políticas sociais e por respostas
que poderiam vir também da Psicologia.
Skinner queria uma Psicologia que pudesse ser útil como
resposta aos problemas humanos e hipotetizou-a em Walden
Two (Skinner, 1948). Ao ser solicitado a dar parecer sobre os
rumos da pesquisa científica nas políticas sociais, apontou o
campo de estudos da linguagem. Produziu arduamente so
bre este tema ao ponto de sua fama retornar a Harvard.
Consequentemente, seu nome foi indicado para o cobiçado
Departamento de Psicologia e ele precisou passar por uma
"prova de fogo": ser mais um dos grandes nomes das famo
sas Conferências William James. Fez as conferências e foi
brilhantemente aprovado e, no ano seguinte, foi contratado
como professor, Nas conferências ele apresentou o texto que
se tornaria, anos depois, o livro sobre comportamento verbal
(Skinner, 1957), sua mais estimada e aprimorada obra.
O período em Harvard foi de relações intelectuais bas
tante enriquecedoras ao crescim ento da Psico log ia
Comportamental além das fronteiras da própria Psicologia,
influenciando especialmente a Filosofia da Linguagem
(Cerullo, 1996) e a Lingüística moderna (Andresen, 1990).
Em síntese, as razões que justificaram a comemoração
do Centenário de Nascimento de B. F. Skinner são muitas. O
legado intelectual de parte desses 100 anos fez avançar di
versas áreas aplicadas da Ciência do Comportamento, den
tre as quais destacam-se a Medicina Comportamental, o
Gerenciamento Comportamental de Organizações, a Educa
ção Especial e a Psicoterapia Funcional Analítica.
Parte desse legado serviu de fonte para a escrita dos
textos que compõem esta coletânea produzida pelos pes
quisadores que participaram desse memorável evento no
Espírito Santo, que teve o apoio do Programa de Pós-Gradu-
ação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito San
to (PPGP/UFES). O PPGP, por meio de recursos do Programa
de Apoio à Pós-Graduação da Coordenadoria de Aperfeiçoa
mento de Pessoal de Nível Superior (PROAP/CAPES/MEC),
complementados pelo Centro Universitário de Vila Velha (UVV),
efetivou esta publicação pela ESETec, Editores Associados. A
coletânea reúne textos de pesquisadores vinculados a Uni
versidades Públicas como a UFES, a USP/SP e a UFPA, e par
ticulares como a PUC/SP e a UW/ES.
10
Em homenagem ao Centenário de Nascimento de B. F.
Skinner, a Coletânea é aberta com um artigo do próprio autor
(A evolução do comportamento verbal) publicado em 1986
no Journal o f Experimental Analysis of Behavior e traduzido
pelo Professor Doutor Elizeu Batista Borfoti (UFES) ls pelo Psi
cólogo Luciano de Sousa Cunha (Mestrando do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia/UFES, bolsista da CAPES). No
artigo, ancorado nos princípios básicos do comportamento
operante estabelecidos pela pesquisa em Análise Experimen
tal do Comportamento, Skinner especula o processo
evolucionário no qual o ambiente verbal ~ ou cultura verbal -
pode ter evoluído. Sua argumentação parte da filogênese e
ontogênese do comportamento de sinalizar, chegando ao
com portam ento vocal, aos mandos, aos tatos e aos
autociíticos. Para ele, "a evolução de um ambiente social ou
cultura está ancorada na Análise Experimental do Comporta
mento" e isto permite apontar os prováveis passos da evolu
ção do ambiente verbal ou linguagem.
O texto 2 (O significado das ações decorre do con
texto comportamental?) traz uma preocupação com proble
mas que a cultura deverá enfrentar. Nele a Professora Dou
tora Rachel Rodrigues Kerbauy (USP/SP) faz uma revisão so
bre os estudos de espera e autocontrole na Análise do Com
portamento, e apresenta uma discussão provocativa aos pro
fissionais de saúde, e demais trabalhadores sociais, ao
desmembrar a discussão de Skinner sobre do autocontrole,
feita em 1948, no Walden Two, e em 1953, no Ciência e Com
portamento Humano. Há reflexões sobre problemas atuais tais
como o envelhecimento e a obesidade da população e a gra
videz e as infrações legais na adolescência.
O texto 3 (Skinner, o sentimento e o sentido), do Psi
cólogo Luciano de Sousa Cunha (Mestrando do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia/UFES, bolsista da CAPES) e do
Professor Doutor Elizeu Batista Borloti (UFES), sintetiza a aná
lise objetiva de estados subjetivos, segundo o behaviorismo
radical skinneriano. Os autores compilam da obra de Skinner
os principais argumentos da análise do sentir, retomam a dis
tinção entre o ato de sentir e o sentimento e rediscutem algu
mas das críticas a esta análise.
No texto 4 (Skinner e terapia), a Professora Doutora
Maly Delitti (PUC/SP) e a Professora Mestre Silvia Groberman
(Clínica Particular) comentam a prática ciíníca na Terapia
Comportamental partindo de citações nas obras de Skinner. As
autoras mostramque, embora Skinner não tenha sido um
terapeuta, fez muitas referências ao que ocontece quando um
terapeuta interage com um cliente. Desta forma, seu texto con
tribuiu com uma discussão sobre aspectos teóricos para a com
11
preensão dos elementos básicos da intervenção psicoterápica
em qualquer tipo de enfoque.
No texto 5 (Abstração, metáfora, sonho e inconscien
te: uma interpretação skinneriana) o Professor Doutor Elizeu
Batista Borioti (UFES) discute a perspectiva do behaviorismo
radical sobre o inconsciente/ os sonhos e as relações entre
ambos, falando de temas complexos, como abstração, metá
fora e formação do símbolo. A base desta análise está, prin
cipalmente, no O Comportamento Verbal, de Skinner, e sua
análise é feita com exemplos do cotidiano e da prática clínica
na Terapia Comportamental.
O texto 6 (A noção de compreensão de leitura em B. F.
Skinner) traz uma preocupação de aplicação da Ciência do
Comportamento à Educação. O Professor Doutor Marcelo Galvão
Baptista (UFPA), em um trabalho derivado da pesquisa que ge
rou sua tese de doutorado, orientada pelo Professor Doutor
Júlio César Coelho de Rose (UFSCar, pesquisador do CNPq) e co-
orientada pelo Professor Doutor Emmanuei Zagury Tourinho
(UFPA, pesquisador do CNPq), retoma a importância do O Com
portamento Verbal caracterizando o objeto estudado por Skinner
nesse livro. O autor parte desta caracterização e examina como
Skinner discutiu a compreensão e, especificamente, a compre
ensão da leitura, tendo como base o comportamento textual
associado à função dos demais operantes verbais.
No texto 7 (Controle do comportamento por relações
ordinais: questões conceituais e metodológicas) a Profes
sora Doutora Mylena Pinto Lima Ribeiro (UW/ES), também
partindo de sua tese de doutorado, em co-autoria com o Pro
fessor Doutor Grauben José Alves de Assis (UFPA, pesquisa
dor do CNPq) e com a Professora Doutora Sônia Regina Fio rim
Enumo (UFES, Pesquisadora do CNPq), apresenta uma revi
são das táticas de pesquisa em Análise Experimental do Com
portamento sobre o controle de estímulos no estudo da no
vidade comportamental, abordando tópicos como abstração,
formação de conceito e desempenhos seqüenciais. O texto
mostra como os dados provenientes da pesquisa experimental
confirmaram a utilidade do paradigma de equivalência de
estímulos para a compreensão das relações de significado
(semântica) e da formação de classes ordinais em desempe
nhos ordinais novos, fornecendo uma explicação alternativa
para outros aspectos do comportamento verbal, em especial
a sintaxe e a matemática.
No texto 8 (O treino em habilidades sociais e a inser
ção de portadores de necessidades especiais no mercado
de trabalho) o Professor Mestre Aríon Carlos Ribeiro de Olivei
ra e a Professora Mestre Fabiana Pinheiro Ramos (ambos da
UVV/ES) mostram como a Tecnologia Comportamental tão
12
almejada por Skinner para a Terapia Comportamental pode
ser útil aos propósitos de inclusão social de deficientes visu
ais, auditivos e físicos. Os autores relatam os ganhos e as
dificuldades da experiência do treino de habilidades sociais
com participantes do Programa Catavento na cidade de Vitó-
ria/ES, de responsabilidade social da Companhia Siderúrgica
Tubarão (CST) executado pela Ação Comunitária do Espírito
Santo (ACES), em parceria com o Serviço Social da Indústria
(SESI) e o Serviço Nacional do Comércio (SENAC).
No texto 9 (Um programa de ensino, pesquisa e ex
tensão em prevenção de deficiências: descrição e análi
se), inserido em uma das áreas aplicadas mais desenvolvi
das da Análise do Comportamento, a Professora Doutora Sônia
Regina Fiorim Enumo (UFES, pesquisadora do CNPq) descre
ve a possibilidade de integração entre atividades de ensino,
pesquisa e extensão, analisando um programa multidisciplinar
para a prevenção de deficiências, realizado no período de
1994 a 1997, no curso de Psicologia da Universidade Federal
do Espírito Santo (UFES). Seguindo os preceitos da Organi
zação Mundial de Saúde (OMS), a autora privilegia a "pre
venção primária", que visa a evitar a ocorrência do problema,
e a "prevenção secundária", que consiste no seu diagnóstico
precoce e tratamento imediato.
Em síntese, estes textos tornam pública mais uma ação
interinstitucional para a divulgação da Análise do Comporta
mento no Brasil,
Vitória, junho de 2005.
Os Organizadores.
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W. R. Woodward (Eds.). B. F. Skinner and Behaviorism in American
Culture (pp. 29-72), London: Associeted University Press.
14
A EVOLUÇÃO DO
COMPORTAMENTO VERBAL1
B. F. Skinner2
A teoria evolucionária sempre foi atormentada pela es
cassez de evidência. Nós vemos os produtos da evolução,
mas não vemos muito do processo. A maior parte da história
aconteceu há muito tempo atrás, e pouco permanece dos
estágios iniciais. Particularmente falando, poucos vestígios
do comportamento permanecem; só recentemente foram
encontrados artefatos que poderiam resistir. O comportamen
to verbal não deixou nenhum artefato até o aparecimento
da escrita, e isto aconteceu num estágio muito avançado.
Provavelmente nunca iremos saber com precisão o que acon
teceu, mas devemos ser capazes de dizer o que poderia ter
acontecido - isto é, que tipos de variações e que tipos de
contingências de seleção poderiam ter dado existência ao
comportamento verbal. A especulação sobre a seleção natu
ral está ancorada na pesquisa atual sobre a genética; a evolução de um ambiente social ou cultura está ancorada na
anáüse experimental do comportamento.
Falando de modo preciso, o comportamento verbal não
evolui. Ele é o produto de um ambiente verbal ou daquilo
que os lingüistas chamam de linguagem, e é o ambiente ver
bal que evolui. Uma vez que o ambiente verbal é composto
por ouvintes, é compreensível que os lingüistas enfatizem o
ouvinte, (Uma pergunta que é feita com freqüência, por exem
plo, é "Como é possível uma pessoa compreender um núme
ro potencialmente infinito de sentenças?" Ao contrário, uma
análise do comportamento pergunta "Como é possível uma
pessoa dizer um número potencialmente infinito de senten
ças?"). Este artigo, então, é sobre a evolução de um ambien
te verbal como a origem do comportamento do falante.
1 Artigo originalmente publicado no Journal o f The Experimenta! Analysis of
Behavior, 1986, 45, 115-122, número 1 (janeiro). O artigo foi enviado em 8 de
Julho de 1985, e sua aceitação final ocorreu em 28 de Setembro do mesmo
ano. Tradução do Professor Doutor Eiizeu Batista Borioti (ÜFESj e do Psicólogo
Luciano de Sousa Cunha (Mestrando do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia/UFES, bolsista da CAPES), autorizada pela The B. F, Skinner
Foundation.
2 Harvard University.
15
A plausibilidade de uma reconstrução depende em par
te do tamanho das variações que se assume terem ocorrido;
quanto menor as variações, mais plausível a explicação. Na
aranha, por exemplo, o fazer a teia dificilmente poderia ter
aparecido de uma só vez em sua forma atual como uma varia
ção. Uma série de pequenos passos é mais plausível. A excreção
que eventualmente torna-se a seda pode ter começado como
uma cobertura para os ovos. Isso funcionou melhor quando a
excreção tomou a forma de fibras com as quais os ovos pude
ram ser envolvidos ao invés de cobertos. As fibras ajudaram
as aranhas a se protegerem de quedas enquanto trabalha
vam, e fizeram isso de modo mais efetivo à medida que elas
cresciam mais fortes. As aranhas começaram a subir e a des
cer sozinhas com as fibras, e os fios que foram deixados para
trás podem ter capturado insetos, que as aranhas comiam.
Quanto mais fios eram deixados, mais insetos eram captura
dos. Alguns padrões de fios capturam mais do que outros. E
assim por diante. Isso pode não ser exatamente o que ocor
reu, mas é mais fácil acreditar nisto do que na aparição repen
tina do fazer teias, numa variação única. A evolução do com
portamento é algo mais plausível se considerada como o pro
duto de uma série de pequenas variações e seleções. É exa
tamente semelhante à modelagem do comportamento
operante por meio de pequenas mudanças nas contingências
de reforçamento, e o que temos aprendido sobre o processo
operante ajuda na compreensão do processo genético, a des
peito das grandes diferenças entre eles.
A " S i n a l i z a ç ã o " F i l o g e n é t i c a
A palavra "sinal" não associa seu usuário a qualquer
teoria da linguagem. Fumaça é um sinal de fogo e nuvens
escuras um sinal de chuva. O rosnar de um cão indócil é um
sinal de perigo. Os organismos respondem a sinais por meio
de processos comportamentais bem conhecidos. "Sinalizar"
é fazer um sinal; nós explicamos isso por meio da seleção de
conseqüências que teriam se seguido. Fogo e chuva não si
nalizam, mas cães sim, se o que outros animais fizeram quan
do eles rosnaram desempenhou um papel na seleção do ros
nar. Entretanto, há dificuldades na explicação da evolução,
mesmo que com exemplos relativamente simples, e outros
tipos de "sinalização" fazem surgir outros problemas.
Os organismos devem ter se beneficiado do comporta
mento uns dos outros em um estágio muito anterior por'meio
da imitação. Imitar é mais do que fazer o que um outro organis
mo está fazendo. Os pombos se alimentando em um parque
não estão de modo algum imitando uns aos outros; eles estão
agindo de forma independente sob contingências ambientais
similares. Imitar é agir como um outro organismo está agindo
16
devido às conseqüências importantes que então se seguiram.
A evolução do processo pode ser rastreada nas conseqüências
seletivas plausíveis: as contingências responsáveis peio com
portamento imitado podem afetar um outro organismo quando
ele se comporta do mesmo modo. Assim, se um de düis animais
que estão se alimentando vê um predador e corre, é mais pro
vável que o outro escape se também corre, embora não tenha
visto o predador. Correr a qualquer momento que um outro
organismo corre tem valor de sobrevivência.
Foi somente depois que uma tendência a imitar evoluiu
que passaram a existir contingências para a evolução do pro
cesso de modelação recíproca. Um filhote de pássaro que
eventualmente aprenderia a voar sem ajuda, aprende mais
rápido quando imita um pássaro voando. Seus pais podem
acelerar o processo voando de onde o filhote pode vê-los, e
por meios que são facilmente imitados. Dizer que os pais es
tão "mostrando ao seu filhote como voar" não acrescenta
nada a tal descrição, e pode sugerir mais do que está de fato
envolvido,
A evolução de outros tipos de comportamento recipro
camente úteis não é explicada assim tão facilmente. Por exem
plo, qual teria sido o valor de sobrevivência da dança da abe
lha que retorna de uma busca bem sucedida por alimento
antes das outras abelhas responderem à dança, e como po
deria a resposta à ela ter evoluído antes das abelhas dança
rem? (A questão não é respondida por meio da imitação e
modelação porque as contingências que explicam a imitação
não requerem modelação). Devemos assumir que a distância
ou a direção na qual as abelhas regressas viajaram tiveram
algum outro efeito sobre seu comportamento. Talvez sinais
de fadiga variaram com a distância, ou os movimentos foto-
trópicos variaram de acordo com a posição do sol no seu
retorno. Uma vez que o comportamento recíproco tenha evo
luído, variações adicionais puderam torná-lo mais efetivo. As
abelhas que retornaram puderam dançar de modo mais dis
tinto e outras abelhas puderam responder mais acuradamen
te às características da dança. É freqüentemente dito que as
abeihas têm uma linguagem, que elas "dizem umas às ou
tras aonde o bom alimento é encontrado", que a dança "trans
mite informação" e assim por diante. Tais expressões, bas
tante úteis no discurso cotidiano, não acrescentam nada a
uma explicação em termos de seleção natural e podem obs
curecer o processo em questão.
A " S i n a l i z a ç ã o " O n t o g e n é t i c a
As contingências de reforçamento se parecem com as
contingências de sobrevivência em muitos aspectos. Os ani
mais aprendem a imitar quando, por fazer o que os outros
17
estão fazendo, são afetados pelas mesmas contingências -
de reforçamento ao invés de sobrevivência. Uma vez que isso
aconteceu, contingências existem nas quais outros aprendem
a servir como modelo - a se comportar de modo que possam
ser facilmente imitados. Se, por exemplo, uma porta pode ser
aberta apenas deslizando-a para um lado, ao invés de em
purrando-a ou puxando-a, uma pessoa desliza-a quando vê
outra pessoa fazendo assim, embora a outra pessoa não es
teja necessariamente servindo de modelo para o comporta
mento. Neste exemplo, ambas as partes podem exibir carac
terísticas de imitação ou modelação filogenétíca, mas as con
tingências operantes seriam suficientes. Se aquele que serve
de modelo não está perto da porta, ele poderia fazer um tipo
de movimento que poderia abri-la se ele estivesse lá - como
um gesto. Dizer que ele está "mostrando ao outro como abrir
a porta" é útil no discurso cotidiano, mas, de novo, potencial
mente problemático em uma explicação científica.
Quando um gesto não é um tipo de modelação, deve
mos perguntar o que poderia tê-lo reforçado antes que al
guém respondesse apropriadamente a ele, e como alguém
poderia ter aprendido a responder antes que ele tivesse exis
tido como um gesto. Como, por exemplo, poderia o gesto com
o qual um guarda de trânsito pára um carroque se aproxima
ter sido adquirido antes que as pessoas parassem em res
posta a esse gesto, e como as pessoas poderiam ter aprendi
do a parar antes que ninguém tenha gesticulado desse modo?
Como no caso das abelhas, outras contingências relaciona
das ao parar são necessárias, e, é claro, não são difíceis de
encontrar. Uma pessoa pode parar uma outra colocando a mão
no seu ombro, e se a pessoa que é parada acha o contato
aversivo, ela irá parar nas ocasiões seguintes, antes que o
contato seja feito. O movimento do braço e da mão muda de
uma resposta prática para um gesto. Uma vez que isso tenha
acontecido, a topografia pode mudar até que e!e tenha pouco
ou nenhum efeito físico.
O gesto que significa "vem cá" é um outro exemplo. Ele
presumivelmente se originou como um puxar prático, mas tor
nou-se efetivo como um gesto quando as pessoas que foram
puxadas moveram-se rapidamente para evitar o contato físi
co. A topografia do gesto ainda varia com a distância, possi
velmente por causa de sua visibilidade, mas também como
se restasse algum trabalho prático a ser feito: quando as
partes estão distantes, o braço inteiro é movido; quando elas
estão ligeiramente próximas, somente o antebraço; e quan
do elas estão próximas, somente a mão ou apenas um dedo.
O C o m p o r t a m e n t o V o c a l
A espécie humana deu um passo crucial adiante quan
do sua musculatura vocal ficou sob controle operante na pro-
18
dução dos sons da fala. De fato, é possível que todos os
alcances distintivos da espécie possam ser traçados a partir
desta mudança genética particular. Outras espécies se com
portam vocalmente, é claro, e o comportamento 4 algumas
vezes modificado de modo sutil durante o curso da vida do
indivíduo (como no canto do pássaro, por exemplo), mas neste
caso a essência das contingências de seleção tem permane
cido fiiogenética - ou física (como na localização do eco) ou
social. Papagaios e outras poucas aves imitam a fala huma
na, mas é difícil mudar o comportamento ou trazê-lo sob con
trole de estímulos por meio do condicionamento operante.
Alguns dos órgãos envolvidos na produção dos sons da
fala já foram submetidos ao condicionamento operante. O
diafragma deve ter participado na respiração controlada, a
língua e a mandíbula no mastigar e no deglutir, a mandíbula e
os dentes no morder e no triturar, e os lábios, no sugar e no
chupar, todos os quais puderam ser mudados por meio do
condicionamento operante. Apenas as cordas vocais e a faringe
parecem não ter servido a nenhuma função operante prévia.
Elas presumivelmente evoluíram como órgãos para produção
de chamadas e choros filogenéticos. O passo crucial na evolu
ção do comportamento verbal parece, então, ter sido a mu
dança genética que os trouxe sob controle do condicionamen
to operante e tornou possível a coordenação de todos esses
sistemas na produção dos sons da fala. Visto que outros
primatas não passaram por esse passo, a mudança no ho
mem foi presumivelmente recente. A possibilidade de que isto
pode ainda não estar completo em todos os membros da es
pécie pode explicar porque existem tantos distúrbios da fala -
e talvez, até mesmo, tantas diferenças individuais no compor
tamento verbal complexo, tal como a matemática.
O comportamento vocal deve ter tido inúmeras vanta
gens na seleção natural. Os sons são efetivos no escuro, nas
esquinas, e quando os ouvintes não estão olhando, e eles
podem ser emitidos quando as mãos estão ocupadas com
outras coisas. Entretanto, há vantagens especiais nos reper
tórios operantes amplos, particularmente a enorme varieda
de disponível de sons da fala. De forma evidente, os gestos
não são tão diferentes quanto os sons da fala. E, conseqüen
temente, são em menor número, e os sons que alguém pro
duz são mais parecidos com os sons que alguém ouve, do que
os gestos são parecidos com os gestos que alguém vê (por
que eles são vistos de um ponto de vista diferente). Alguém
aprende a gesticular por meio da duplicação de um movimen
to, mas aprende a faiar por meio da duplicação de um produ
to, o que é mais preciso.
É fácil explicar a evolução do comportamento operante
se assumirmos que as primeiras contingências de reforçamento
19
tiveram uma estreita semelhança com as contingências de se
leção natural, uma vez que apenas pequenas variações são
necessárias se os contextos, as topografias e as conseqüênci
as são similares (veja Skinner, 1984), Isso poderia ter sido vá
lido para os operantes vocais. O choro de um bebê faminto, por
exemplo, presumivelmente evoluiu como um comportamento
filogenético porque alertou os pais do bebê, mas quando, por
meio de uma mudança evolucionária, a atenção dos pais pode
ria começar a agir como um reforçador, o chorar se tornaria um
operante, com vantagens adicionais para o bebê e a espécie.
Entretanto, uma vez existindo como um operante, o chorar po
deria aparecer em circunstâncias muito instáveis para atuar na
seleção natural. Um bebê que não estivesse faminto, por exem
plo, poderia chorar de uma maneira a partir da qual os pais se
esquivariam fazendo coisas que não tivessem nenhuma vanta
gem necessária para a espécie.
É claro que não é necessária uma similaridade de con
tingências filogenéticas ou ontogenéticas. Tossir, por exem
plo, presumivelmente evoluiu como um reflexo que limpou a
garganta dos irritantes, mas tão logo a musculatura vocal
ficou sob controle operante, o tossir poderia ser afetado por
uma conseqüência diferente, tal como a atenção de um ou
vinte. Se os ouvintes continuaram a responder, a topografia
poderia mudar até que ela não tivesse nenhum efeito sobre
a garganta. O tossir se tornaria o operante verbal "Aham!".
Isso teria acontecido antes que as cordas vocais ficassem
sob controle operante, e algo semelhante a isso pode ter
sido a primeira mudança do gesto para o comportamento
vocal, mas não para o vocalizado.
Embora os operantes vocais primitivos possam ter sido
"preparados" deste modo pelo comportamento filogenético, a
evolução do condicionamento operante parece ter sido acom
panhada pela evolução de um agrupamento de comportamen
tos que não desempenhou nenhum outro papel na seleção
natural, e foi, portanto, mais prontamente submetido ao
reforçamento operante (veja Skinner, 1984). üm exemplo vo
cal óbvio é o balbuciar das crianças pequenas - sons essenci
almente aleatórios que, quando selecionados por reforçadores,
tornam-se operantes. O comportamento verbal deiineado a
partir de um agrupamento de comportamentos não relaciona
dos não tem nenhuma conexão com choros e chamadas
filogenéticas e, em geral, não temos nenhuma razão para
chamá-lo uma extensão da "sinalização" vocal filogenética.
Um episódio vocal
Digamos que dois homens, A e B, estão pescando jun
tos. Uma rede do tipo tarrafa contendo iscas é lançada na
água, e quando o peixe nada para a rede ela é rapidamente
20
puxada. Digamos que A lança e recolhe a rede e B assume
uma posição da qua! ele pode vê-la mais facilmente. Qualquer
coisa que B faça quando um peixe entra na rede servirá como
um estímulo discriminativo para A, na presença do qual o pu
xar será mais freqüentemente reforçado peia aparição de um
peixe na rede. B pode mostrar a A como, se ele aprendeu a
fazer assim, mas nada mais é preciso do que o que nós pode
ríamos chamar de um sinal de "excitação" na presença do pei
xe na rede ou de "aborrecimento" ao fracasso do puxar por
parte de A. Qualquer que seja o comportamento, ele começa
a funcionar como um gesto, tão logo tenha sido reforçado pela
resposta de A (e, presumivelmente, pela partilha do peixe).
Os padrões de comportamento de ambas as partes, então,
mudam lentamente assim que seus papéis tornam-se defini
dos com mais evidência. B torna-se claramente o observador,
movendo-se para ver o peixe de uma melhor posição e gesth
culando de forma tão rápida e tão efetiva quanto possível, e A
torna-se mais claramente o ator, observando B mais de perto
e puxando maisrápido quanto possível quando B responde.
Digamos que, enquanto A e B continuem a pescar de
modo cooperativo, uma resposta vocal (talvez o indiferenciado
Uh, não requerendo nenhum controle operante das cordas
vocais) é selecionada pela sua conveniência para B, e pela
velocidade e consistência com a qual ela alcança A. Nós pode
ríamos então descrever o episódio de um modo ou de outro.
Em termos tradicionais, diríamos que "quando B diz Uh, ele
está contando a A que existe um peixe na rede" e que ele usa
Uh como uma palavra que "significa peixe ou refere-se a pei
xe". Ou, poderíamos dizer que B está "dizendo a A para puxar
a rede" neste caso Uh significa "puxe".
A pesca cooperativa sugere partilha do peixe, mas
os papéis estão mais claros se uma parte consegue o pei
xe e induz a outra a se comportar por outros meios. Se B
consegue o peixe e arranja conseqüências reforçadoras
para A, o Uh seria classificado de vários modos diferentes,
de acordo com o tipo de conseqüência arranjada. Se A puxa
porque no passado B puniu-o por não ter puxado, o LJh é
um comando. Se B pagou A, é uma ordem. Se os dois são
amigos, dispostos a ajudar um ao outro, é um pedido. Por
outro lado, se A consegue peixe e de algum modo reforça
a resposta de B, o Uh seria chamado um "relato" ou um
"anúncio" da presença do peixe na rede. Mas, embora es
tas expressões tradicionais possam ser úteis no discurso
cotidiano, elas não nos aproximam de uma explicação cien
tífica. O episódio é nada mais do que uma instância do com
portamento recíproco de duas pessoas, e as contingências
que o explicam estão claras.
21
Os tatos e os mandos
Algo mais é necessário se formos chamar o Uh de um
mando ou de um tato: as conseqüências devem ser generali
zadas. A generalização necessária presumivelmente surgiu
quando havia muitas atividades cooperativas nas quais um único
objeto (tal como um peixe) ou uma única ação (tal como o pu
xar) desempenhou um papel. Os peixes são escolhidos, carre
gados, mortos, limpos, cozidos, comidos, e assim por diante.
Embora as coisas algumas vezes tenham, como dizemos, "dife
rentes nomes de acordo com o que é feito com elas", uma for
ma única deveria emergir por meio da generalização de estímu
lo. Um tato emerge como a probabilidade de dizer peixe na pre
sença de um peixe quando diferentes instâncias são seguidas
por conseqüências reforçadoras diferentes, completamente à
parte de qualquer outra característica de um contexto particu
lar. Talvez não haja então nenhum problema específico em usar
palavras tradicionais e dizer que peixe "refere-se a um peixe"
ou "significa peixe", onde o significado ou referente é simples
mente o peixe como a variável controladora principal. Porém,
dizer que o falante usa a palavra para significar peixe ou para
referir-se a um peixe é avançar a nossa história.
Como uma mera probabilidade de resposta, a natureza
de um tato é mais dara, quando não falaríamos de significado
ou referência. Digamos que nós estamos chamando por al
guém que tenha um grande marlin azul pendurado na parede
do seu local de trabalho. Nós começamos a procurar algo em
nossa pasta e, quando perguntados sobre o que estamos
fazendo, dizemos, "I am fishing for a letter I want to show
you" ["Estou procurando uma carta que quero mostrar a você"].
O fish [peixe] na parede fortaleceu fish como um tato e teve
participação na escolha de um sinônimo. (Se, ao invés disso,
houvesse armas expostas na parede, teria sido mais provável
dizermos "I am hunting for a letter" ["Estou procurando uma
carta"]). Neste caso, nós não dizemos que a resposta "fishing"
refere-se ao físh [peixe] na parede, muito embora ela tenha
sido fortalecida por ele3.
Como uma mera probabilidade de resposta, um tato
tem o mesmo status que três tipos de operantes verbais dos
quais também não se diz significarem ou referirem-se a suas
variáveis controladoras. Um é o ecóico (teria sido mais pro
vável dizermos fishing se alguém tivesse acabado de dizer
fish). Um outro é o textual (teria sido mais provávei dizermos
3 Nota da tradução: apesar de em português se usar o verbo pescar para a
ação de procurar coisas em condições difícieis (por exemplo, "Estou vendo se
consigo pescar algum camarão nesta sopa") ou o verbo caçar para a ação de
tentar achar algo ou alguém (como em "Estou caçando minha carteira"), optou-
se por manter as sentenças em inglês, de modo a preservar o contexto de
estímulo exemplificado por Skinner.
22
fishing se tivesse havido um sinai na parede no quai se lê
FISH); e um terceiro é o intraverbal (teria sido mais provável
dizermos fishing se tivéssemos acabado de ler ou ouvir uma
palavra que freqüentemente ocorreu próxima àe^fish). Nós
não diríamos que fish significa ou refere-se a fish quando é
uma resposta ecóica, textual ou intraverbal. Se tendemos a
dizer isto quando a resposta é um tato, não é porque existe
um tipo diferente de relação controladora entre estímulo e
resposta, mas porque, ao invés disso, o ouvinte responde
de modos mais úteis em relação ao estímulo controlador.
Como uma mera probabilidade de resposta sob con
trole de um estímulo, um tato evolui como um produto de
muitas instâncias nas quais uma resposta de uma dada for
ma tem sido reforçada na presença de um dado estímulo, em
muitos estados diferentes de privação ou de estimulação
aversiva. Quando tatos são ensinados como "os nomes das
coisas" os professores usam um reforçador generalizado -
tal como Bom/ ou algum outro reforçador social.
Um mando é também um sub-produto de muitas ins
tâncias, nas quais a variável controladora é um estado de
privação ou de estimulação aversiva. O mando puxe evoluiu
quando respostas tendo esta forma foram reforçadas quan
do ouvintes puxaram coisas diferentes de formas diferentes.
É possível que mandos evoluíram primeiro, e que eles contri
buíram para a evolução do tato. Há dois tipos de mando.
Puxe é um mando-ação, reforçado quando o ouvinte faz algo.
Peixe como uma abreviação de Dê-me um peixe, por favor é
um mando-objeto reforçado pelo recebimento do peixe. Um
mando-objeto é mais provável de ocorrer na presença do
objeto porque ele tem sido mais freqüentemente reforçado
na presença desse objeto. É muito mais provável perguntar
mos pelas coisas que vemos em uma loja porque o pergun
tar por objetos disponíveis no momento tem sido mais
freqüentemente reforçado, (Esta é uma razão das lojas exi
birem as suas mercadorias). O controSe exercido pelo estímu
lo em um mando-objeto não faz da resposta um tato, contanto
que as contingências reforçadoras permaneçam aquelas de
um mando - contanto que dizer peixe seja reforçado somen
te pelo recebimento de um peixe - mas mandos-objetos po
deriam ter tido alguma contribuição na evolução de um tato
da mesma forma. (Portanto, isto não significa que um falante
que diz peixe como um tato o dirá como um mando-objeto, ou
vice-versa [veja Skinner, 1957]).
A evolução do autoclftico
Se a ocasião sobre a qual um mando ou tato tem sido
reforçados ocorre novamente sem mudanças essenciais, o
comportamento não precisa de nenhuma explicação adicional.
23
0 reforçamento teve seu efeito habituai, A questão crucial é o
que ocorre quando uma pessoa diz algo que ela nunca disse
antes. O comportamento novo ocorre em ocasiões novas, e
uma ocasião é nova no sentido em que suas características
não ocorreram juntas antes num mesmo arranjo. Algumas ca
racterísticas de uma ocasião fortalecem uma resposta, outras
fortalecem uma outra. Por exemplo, se duas pessoas estão
caminhando juntas, e uma delas sente alguns pingos de chu
va, ela pode estar inclinada a dizer Chuva. O ouvinte presen
te, ou outros como ele, tem reagido a esta resposta de mo
dos reforçadores. Ele, ou outros como ele, também tem reagi
do de outros modos a outras características do contexto -
quando, por exemplo, o falante mostrou surpresa ou desa
pontamento. Nessa ocasião, portanto, o falante pode dizer
Chuva em um tom de voz de surpresaou de desapontamento.
Algo a mais foi adicionado ao tato. Isto tem sido adicionado a
outras respostas no passado com conseqüências reforçadoras,
mas nunca antes à Chuva. A possibilidade de recombinar os
elementos das respostas vocais deste modo explica muito do
poder e do alcance do comportamento verbal.
Efeitos colaterais muito mais importantes sobre o ou
vinte nos levam à evolução do autoclítico ou, em termos tra
dicionais, da gramática. Uma consideração importante para o
ouvinte é a extensão na qual ele pode reagir à resposta-tato
de modo efetivo. O falante pode ajudar indicando a natureza
e a força do estímulo controle do seu comportamento. Se ele
sentiu apenas poucas gotas de chuva, ele pode falar em um
tom de voz transcrito com um ponto de interrogação: Chuva?
O ouvinte não está para responder ao tato sem reserva.
Outras elaborações da resposta são necessárias se o ouvin
te está, ou para responder como responderia à chuva em si
mesma, ou não responder de modo algum.
As respostas que têm tais efeitos são Sim ou Não. Elas
freqüentemente parecem como mandos tendo o efeito de Con
tinue e Pare, respectivamente. Assim, nós insistimos com o
falante que fez uma pausa dizendo Sim? ou o paramos dizen
do Não! Ouvindo Chuva? Sim!t é mais provável um ouvinte agir
como se ele próprio tivesse sentido a chuva. Ouvindo Chuva?
Não!, é menos provável que ele aja desse modo. Em termos
tradicionais o falante afirma ou nega a presença da chuva.
Uma alternativa mais comum seria Está chovendo ou
Não está chovendo. Chuva? Sim/ e Chuva? Não! não têm exa
tamente o mesmo efeito porque sugerem questões e res
postas, mas algo do impulso do Sim e do Não permanece. O
efeito do Sim pode ser procurado enfatizando a palavra Está.
O falante está dizendo, Você pode seguramente agir sobre mi
nha resposta Chuva. Por outro lado, como uma resposta que
trás algo que o ouvinte está fazendo com uma finalidade
(Como dizendo Não para alguém que está prestes a ir para o
24
caminho errado), Não é obviamente próximo de negativo4. Não
está chovendo tem o efeito de "/Yá razões porque eu tendo a
dizer Chuva, mas não agir sobre minha resposta".
Os passos através dos quais autoclíticos particulares
podem ter evoluído são geralmente mais obscuros^do que os
dos mandos e os dos tatos. Um esforço inicial feito por John
Home Tooke no Diversions of Puriey (1786) não tem sido to
talmente apreciado. O fato de que Tooke não estava sempre
certo como um etimologista não foi tão importante quanto os
seus esforços para explicar como os falantes do inglês pode
riam ter passado a dizer palavras tais como if [se], but [mas]
ou and [e]. "Podemos ir amanhã dado que não chova" é uma
dica para a origem do // [se]. Que o garoto que permaneceu
no convés em chamas deveria ser deixado de fora em respos
ta a "Whence aii (be out he) had fled" ["De onde todos (fora
ele) escaparam"] é uma dica para o but [mas]5. (Que Mrs.
Hemans escreveu ali but he ao invés de ali but him é inopor
tuno, porém irrelevante)6. E quando dizemos and [e] nós com
freqüencia estamos simplesmente adicionando:
Of shoes - add ships - add sealing wax - Of cabbages - add kings7
[De sapatos - adicione navios - adicione lacre - adicione repo
lhos - adicione reis]
Como diríamos hoje, os autoclíticos evoluíram como
instruções para o ouvinte que ajudaram-no a se comportar
de um modo mais provável de ter conseqüências reforçadoras
e, como conseqüência, mais provável de promover con
seqüências reciprocamente reforçadoras para o falante.
A evolução das sentenças
É fácil compreender a antiga visão de que o comporta
mento está dentro do organismo antes de sair. Talvez exista
4 N.T.: A sentença original é A/o is obviously dose to not". Com ela Skinner
fez referência às sentenças cio seu exemplo. No inglês há duas formas de
negação, com not e no e sua utilização depende da estrutura da sentença.
s Nota da tradução; aqui o but seria uma abreviação da forma completa be out
[fique fora], segundo a análise de Tooke, citado por Skinner. A tradução mas
não permite esta análise,
6 Nota da tradução: Mrs. Hemans é uma poetisa inglesa cujos poemas lhe
renderam extrema popularidade. Aqui Skinner faz referência ao trabalho
"Casabianca" (Merriam Webster's Encyclopedia of Literature, 1995). O poema
fala de um incidente ocorrido em 1798 durante a Batalha do Nilo a bordo do
navio francês L'Orient em que o filho mais novo do comandante Louis de
Casabianca permanceceu no seu posto e foi morto quando as chamas causaram
a explosão do navio.
7 Nota da tradução: trecho do poema de Lewis Carroll, The Walrus and The
Carpenter, publicado em 1872 no Through the Looking-Glass and What Alice
Found There. O autor é citado pela crítica literária pelo uso extravagante dos
recursos lingüísticos.
25
um toque do primitivo em dizer que o comportamento é "emi
tido", mas, como já apontei, nós falamos da emissão da luz
de um filamento quente embora a íuz não esteja no filamento.
O reforçamento que fortalece uma resposta não coloca a res
posta dentro do organismo; ele simplesmente muda o orga
nismo de maneira que é mais provável que ele responda da
quele modo. A questão pode ser posta fazendo-se a distin
ção entre um operante como uma probabilidade de respon
der e uma resposta como uma instância. É o operante que
está "no" organismo, mas somente no sentido em que a elas
ticidade está "no" elástico.
O que é reforçado, no sentido de ser seguido por um
dado tipo de conseqüência, é uma resposta; é o operante
que é reforçado num sentido bastante diferente de ser forta
lecido. Fester e eu fizemos esta distinção no glossário do
Schedules of Reinforcement (Fester & Skinner, 1957). No campo
do comportamento verbal esta distinção está próxima da dis
tinção entre o sentido do que é dito e o dizer. O sentido de um
tato é a variável controladora - tradicionalmente, o que ele
significa. O dizer é uma instância numa dada ocasião. Normal
mente, não é suficiente definir "o que é dito" pela descrição de
sua topografia, como no mando "Diga 'COMO ela, não como
ELA'"8. Uma definição deve incluir uma referência às variáveis
controladoras, como em "O que você diz para isso?"
Em termos tradicionais, a distinção está próxima àquela
entre "palavra" e "sentença". "Sentença" vem do Latin sentire,
significando "sentir, ou pensar". Nós pedimos uma sentença
quando dizemos "Como você se sente em relação a isso?" ou
"O que você pensa disso?" (Uma definição de dicionário de
sentença é "uma série de palavras que expressam um pensa
mento". Esta é uma alusão, é claro, a um outro tipo de reser
vatório. É dito que possuímos pensamentos e os trazemos à
tona ou os "expressamos" colocando-os em palavras). Como
argumentei no Verbal Behavior (1957), o pensamento pode ser
adequadamente formulado simplesmente como comportamen
to. Uma sentença não é a expressão de um pensamento; é o
pensamento. Quando dizemos "Ocorreu-me olhar na minha
escrivaninha", queremos dizer que o comportamento de olhar
na escrivaninha foi fortalecido, mesmo que ele não tenha sido
8 Nota da tradução: no original lê-se "Say haRASS, not HArass". Trata-se de
uma confusão semântica produzida pela colocação da ênfase nas sílabas da
palavra harass, que significa incomodar. O ouvinte do inglês se sente mais
incomodado se o falante utiliza a entonação na sílaba errada. (Quando, num
erro, por exemplo, a sílaba tônica é a primeira, o ouvinte entende como "her
ass" [rabo dela]). Outro exemplo próximo com topografia semelhante na
pronúncia seria "Diga CÁlice, não caLE-SE", como "o que foi dito" por Chico
Buarque. "O que foi dito" está implícito sem garantias do que exatamente
tenha sido dito. Como no exemplo original, o leitor deve colocar ênfase nas
partes escritas em maiúsculo.
26
executado. Quando dizemos "Ocorreu-me o pensamento de
que ele estava constrangido", queremos dizer que o compor
tamento verbal Ele está constrangido ocorreu-nos, talvez de
forma encoberta. Olhar na escrivaninhaé comportamento; di
zer "Ele está constrangido" é comportamento. Somos especi
almente propensos a chamá-los de pensamentos quando eles
não são executados de forma aberta.
A Ev o l u ç ã o d o s Fa t o s
Quando falamos da evolução do automóvel, não
estamos falando de qualquer coisa semelhante à evolução
do cavalo. Estamos falando da evolução de certas práticas
culturais por meio das quais novos modos de fazer automó
vel, como variações, foram selecionados por suas contribui
ções para um produto reforçador do comportamento huma
no. Alguns produtos do comportamento verbal podem ser
tratados do mesmo modo. Por exemplo, os fatos.
Um fato é uma afirmação sobre o mundo. Quando dize
mos "O fato é que, eu não estive na reunião", nós colocamos
o ouvinte na posição de alguém que esteve na reunião e
observou que o falante não estava lá. Alguém a quem foi dito
"os fatos da vida" age de modo mais efetivo em relação a
certos aspectos da vida cotidiana sem passar por uma série
de contingências instrucionais. Fatos sobre o que aconteceu
no passado (os fatos da história) podem ser úteis neste sen
tido apenas na extensão em que as condições descritas são
prováveis de ocorrer. Os fatos da ciência são mais úteis do
que aqueles da história porque as condições relevantes são
repetidas de modo mais freqüente.
Podemos falar, então, da evolução dos fatos - os fatos
da vida cotidiana, da história ou da ciência. Com freqüência
eles são chamados de conhecimento. O que está em debate
não é a evolução do conhecer ou de pessoas conhecedoras,
ou de qualquer órgão de tal pessoa, ou de qualquer condi
ção de tal órgão, mas, ao invés disso, de um ambiente verbal
ou cultura. As pessoas entram em contato com tal ambiente
quando elas ouvem os falantes ou lêem livros. Os sons que
elas ouvem ou as marcas que vêem afetam-nas como ouvin
tes ou leitores, exatamente como o comportamento dos fa
lantes e escritores originais afetou seus ouvintes ou leitores.
É dito que conhecemos um fato porque, ou já lidamos
com as contingências, ou temos "contado o fato". Dessa for
ma, dizemos "Ele deve ter sabido que a porta estava
destrancada; ele teria visto sozinho ou alguém teria dito a
ele". Mas há um outro sentido no qual podemos "conhecer"
um fato simplesmente como comportamento verbal, se ele é
ou não algo sobre o qual se agiu. O comportamento é
intraverbal. Os fatos da história são exemplos.
27
Há uma diferença importante entre os intraverbais que
resultam do uso contíguo (tipo casa-lar) e os intraverbais mais
amplos que são aprendidos como tais (fatos históricos ou
poesias memorizadas, por exemplo). Ao recitar fatos como
uma série de respostas intraverbais, avisamos ou informa
mos a nós mesmos como os falantes ou escritores originais
dirigiram-se a ou informaram seus ouvintes ou leitores.
C o m e n t á r i o s
É inevitável que de um processo contínuo como a evolu
ção devesse emergir a questão dos limites. Os sistemas para
classificação das espécies são tentativas para resolver um pro
blema deste tipo. Em que momento podemos dizer que o ho
mem apareceu pela primeira vez na Terra? Pode ser útil esco
lher um dado ponto para melhorar nosso uso do termo homo
sapiens, mas não havia presumivelmente nenhum ponto no qual
uma essência humana viesse a existir. Igualmente, é apenas
por uma razão de consistência que tentaríamos dizer quando o
comportamento tornou-se verbal pela primeira vez. Tomando o
episódio da pesca como exemplo, poderíamos dizer que a res
posta de B tornou-se verbal (1) quando ela foi pela primeira
vez fortalecida pela ação de A em puxar a rede (quando ela
tornou-se um operarite vocal), (2) quando a mesma resposta
foi feita em outros contextos com outras conseqüências e ficou
sob controle exclusivo de um peixe como um estímulo
discriminativo, independente de qualquer estado particular de
privação ou de estimulação aversiva (quando ela emergiu como
um tato), ou (3) quando ela foi modelada e mantida por um
ambiente verbal transmitido de uma geração a outra (quando
ela tornou-se parte de uma "linguagem"). Todos esses passos
são distinguíveis na evolução do comportamento verbal, e se
temos que escolher um deles, o mais útil parece ser o (3). O
comportamento verbal é o comportamento que é reforçado pela
mediação de outras pessoas, mas somente quando as outras
pessoas estão se comportando de modos que têm sido mode
lados ou mantidos por um ambiente verbal ou linguagem. No
nível 3 nós diríamos que outros primatas têm se engajado em
comportamento verbal em ambientes verbais artificiais criados
por cientistas, mas não desenvolveram um linguagem própria.
Riso e choro
Duas outras funções da musculatura vocal - rir e chorar
- são, senão exclusivamente humanas, pelo menos caracte
rísticas marcantes da espécie. Existe uma boa chance de que
elas evoluíram aproximadamente ao mesmo tempo como com
portamento vocal, mas elas não são operantes, embora pos
28
sam ser simuladas como tais ~ como no chorar para conseguir
atenção, por exemplo, ou rir educadamente numa piada sem
graça. Como comportamento filogenético, elas são eliciadas
por reforçadores positivos e negativos, respectivarçente, com
freqüência quando inesperadas, mas se há qualquer conse
qüência imediata para aqueles que choram ou riem, é obscu
ro. Rir e chorar podem ter evoluído por causa de seus efeitos
sobre os outros. Há aqueles para quem os sinais de dano
infligido modelam e mantém a agressão, não verbal (um gol
pe) ou verbal (um insulto), e também há aqueles para quem
os sinais de alívio do dano modelam o ajudar os outros. Ou
tras espécies cuidam dos seus e de qualquer outro filhote,
mas, presumivelmente, não a ponto de ser considerado como
comportamento operante. A espécie humana pode ter obtido
vantagens importantes quando a cessaçãG do choro começou
a reforçar o comportamento que chamamos de cuidar.
Rir, por outro lado, de modo bastante óbvio, reforça o
fazer as pessoas rirem e está associado ao cuidar, pois, em
geral, as pessoas riem quando as coisas vão bem. Do mes
mo modo que uma dança do acasalamento pode ter evoluído
por causa de seus efeitos sobre outros membros da espécie,
ao invés do dançarino, o rir e chorar podem ter evoluído de
vido aos seus efeitos sobre outros, mais do que diretamente
sobre aqueles que riem ou choram.
Topografia
Com freqüência os teóricos da origem da linguagem têm
tentado explicar a forma. Tem sido dito, por exemplo, que a
onomatopéia explica porque um cão é chamado de "au-au" ou
porque o toucinho defumado "silva" ou "chia" na frigideira. O
gesto para "pare" é um tipo de onomatopéia, e Sir Richard Paget
propôs que gesticular com a língua pode ter modificado as for
mas dos sons pronunciados de um modo útil (Paget, 1930). A
onomatopéia não nos leva muito longe, e pode não valer a
pena avançar nesta questão. As formas das palavras podem
ser traçadas historicamente, mas raramente às suas origens, e
as linguagens do mundo são tão diversificadas que as fontes
devem ter sido amplamente imprevisíveis. As crianças inventam
novas formas rapidamente, e quando duas ou mais estão vi
vendo em relativo isolamento, elas podem desenvolver voca
bulários idiossincráticos muito extensos. Há provavelmente uma
razão para a forma de cada palavra, como provavelmente há
uma razão para a cor de cada pássaro ou flor, mas não vale a
pena procurar nem um e nem outro como um fato em particular.
Quando as pessoas começaram a descrever as contin
gências de reforçamento do mundo ao seu redor, as palavras
teriam sido inventadas como os nomes das coisas. A sentença
Isto é chamado de rosa descreve uma contingência de
29
reforçamento em um ambiente verbai. Chame isto uma rosa é
um conselho a ser seguido se for para alguém se comportar de
modo bem sucedido em tai ambiente. As crianças logo apren
dem a perguntar peios nomes das coisas, assim como elas per
guntam pelas ferramentas necessárias para fazer as coisas, e
isto deve ter sido um pequeno passopara a invenção de um
nome (Vamos chamar isto de rosa). O passo é dado a qualquer
momento que os pais dão nome a uma criança, embora, muito
freqüentemente, a forma escolhida tenha fontes óbvias.
C o n c l u s ã o
Para repetir um alerta necessário, eu não tentei dizer
como um ambiente verbal, ou o comportamento verbal gerado
por tal ambiente, de fato evoluiu. Eu apenas tentei dizer como
ele pode ter evoluído, dados os processos comportamentais
que já devem ter sido exibidos pela espécie. O artigo é
especulativo, mas a especulação está sob o controle imposto
por um compromisso com os princípios estabelecidos por uma
análise operante. Neste aspecto, ele pode ser contrastado
com as atuais abordagens dos lingüistas. Um livro recente,
essencialmente sobre o assunto em questão, lista um número
de entidades ou princípios explicativos, dentre eles "órgãos
inatos de linguagem", "mecanismos de percepção da fala",
"competências gramaticais", "substratos neurais cognitivos"
e "descodificação e produção das funções da linguagem fala
da". É duvidoso se quaisquer destas entidades possam ser
adequadamente definidas sem apelar para as observações
que elas dizem explicar, e elas não explicam com facilidade o
comportamento verbal como tal.
Re f e r ê n c ia s
Fester, C. B., & Skinner, B. F. (1957). Schedules of
Reinforcement. New York, NY: Appleton-Century-Crofts.
Paget, R. A. S. (1930). Human Speech. New York, NY: Harcourt,
Brace.
Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York, NY: Appleton-
Century-Crofts.
Skinner, B. F. (1984). The evolution of behavior. Journal of the
Experimental Analysis of Behavior, 41, 217-222.
Tooke, J. H. (1786). The Diversions of Purley. London: J.
Johnson.
30
O SIGNIFICADO DAS AÇÕES
DECORRE DO CONTEXTO
COMPORTAMENTAL?
Rachel Rodrigues Kerbauy1
0 significado das ações pode ser descrito - pela pes
soa ou observadores - avaliando o padrão de comportamento
no decorrer do tempo. O que as pessoas fazem em quais
condições é o padrão de comportamento. Ele é construído
porque as pessoas reforçam positivamente quando demons
tram afeição, protegem, aprovam e reforçam negativamente
quando: reclamam, fazem exigências, tiram coisas, criticam.
Essas relações entre pessoas determinam, ao longo do tem
po, maneiras pessoais de lidar com o mundo e emprestam
significado às ações.
A pergunta resultante dessa análise é se essas con
tingências são eficientes mantendo o padrão de interação,
ou se a automanipulação é que permite a formação de um
padrão próprio, De fato, não se mudam as pessoas, mas o
mundo em que vivem, mudam-se as condições responsáveis
pelas ações, e isto as pessoas podem aprender a fazer.
Skinner (1989/1991) reviu suas explicações para eu e
pessoa e distingue a pessoa como o repertório de comporta
mentos que pode ser observado pelos outros e o eu como
predisposição que acompanha estados internos. O eu é ob
servado através dos sentimentos e introspecção. A partir
dessas análises, o autor deslinda inúmeras utilizações de
palavras com auto, empregadas pela Psicologia e linguagem
diária. O autocontrole estaria neste caso, pois a pessoa ma
nipula as variáveis das quais seu comportamento é função.
0 eu controlador e o eu controlado são repertórios de com
portamentos.
Sobre este tema precisamos elucidar o papel da automa
nipulação, sua função de lidar com o mundo e as dificuldades e
1 Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
31
o que significa se autocontrolar. Também, desvendar as rela
ções entre o autoconhecimento, tomada de decisão e o auto
controle ou manipulação do comportamento. Resta saber como
a terapia pode lidar com esses comportamentos e as pesqui
sas que abrem caminhos e que precisam ter um plano e, a
longo prazo, avaliação dos resultados.
AS RELAÇÕES ENTRE O AUTOCONHECIMENTO, TOMA
DA DE DECISÃO E O AUTOCONTROLE OU MANIPULA
ÇÃO DO PRÓPRIO COMPORTAMENTO.
A civilização impõe maneiras diferentes de comportar-
se através da experiência passada, da observação dos ou
tros, de comparecer à escola, à igreja e a diferentes grupos
sociais. Nessas condições, aprendemos regras verbais as quais
nos sentimos obrigados a obedecer ou sofrer as sanções re
sultantes. Pretendemos segui-las, especialmente quando as
situações que descrevem estão distantes, no futuro. No en
tanto, muitas vezes essas regras estão em conflito com aquilo
que desejamos no momento. Os obesos pretendem não co
mer doces, os alcoólicos não beber, os deprimidos pretendem
se íigar ao mundo, os procrastinadores pretendem fazer coi
sas a cada dia, sem adiar tarefas. As ações necessárias impli
cam em um padrão de comportamento de obedecer a certas
regras. Elas parecem fáceis de serem seguidas quando estão
em um futuro que não existe ainda. Não é presente e, portan
to, não há conflito.
Para não precisarmos tomar decisão em cada situação,
podemos nos comprometer antes, fazendo algo ou tendo uma
regra abstrata para nos conduzir ao invés de agir por impulso.
Podemos também emitir uma resposta de compromisso, drásti
ca, como nas cirurgias de restrição do estômago. É restrição
física para comer menos e perder peso. O padrão alimentar
tem que ser alterado: comer pouco, devagar, mastigar bem.
Casò esse novo comportamento não seja emitido, a punição
ocorre: náusea, dor de estômago, vômito.
O autocontrole é uma maneira de levar à felicidade, cri
ando um padrão de escolha e de análise das situações e com
portamentos. É a história de preferências pessoais. Teorica
mente, poderíamos dizer que se autocontrolar conduziria à
felicidade, pelo fato de propiciar reforçadores positivos, re
compensas. Em sentido amplo, as discussões sobre o homem
garantem o direito de ser livre de restrição física ou estimulação
aversiva. No entanto, em um mundo complexo como o atual,
com modificações constantes em valores e condutas,
competitividade exacerbada, é, muitas vezes, difícil detectar
as situações relevantes e o desempenho apropriado.
32
Como as regras seriam escolhidas e seguidas é o pro
blema da Psicologia, pois as contingências é que as criam e
mantém. Todas as descobertas sobre comportamentos, sua
instalação e manutenção, estão presentes para encaminhar
soluções individuais. São anos de análise de comportamento
e do estudo sistemático, quer através de experimentos quer
através de análises e interpretações do comportamento, es
pecialmente verbal. Com certeza, sabemos mais hoje que há
trinta anos sobre os efeitos do reforçamento e punição e so
bre o controle instrucional (ou por regras) e sobre as variáveis
da escolha. No entanto, especialmente na área clinica, é ne
cessário deslindar o autoconhecer-se e a tomada de decisão.
Contribuições da pesquisa básica podem esclarecer a
tomada de decisão. Indiscutivelmente, quando falamos em
autocontrole do comportamento em situação de pesquisa em
análise do comportamento, hoje, pensamos nos modelos de
escolha. São modelos, distantes das formulações de Skinner
(1953/1978) ou de Ferster, Nurenberg e Levitt (1962). Por
aquele capítulo XV (Skinner, 1953/1978), talvez não pensás
semos nesse desdobramento. De fato, ele destacava a situ
ação de conflito, ou seja, ao mesmo tempo existiria um
reforçador positivo imediato e outro maior ou negativo de
longo prazo. Destacava também os processos para explicar
autocontrole e os elucidava através dos conceitos de análise
do comportamento. Skinner analisou as contingências e sali
entou que o comportamento controlador muda.
Seria possível vislumbrar o caminho da pesquisa com
escolha, pelo capítulo XIV, em Walden Two. De fato, nesse
livro, ao ensinar autocontrole, Skinner (1948/1978) propõe
inúmeros com portam entos para fac ilita r a espera de
reforçadores: cantar, fazer piadas, falar em voz alta e depois
emiti-los internamente. Era ensinar autocontrole, geralmen
te espera e a verificação de que outras pessoas teriam prio
ridade naquela situação. Kerbauy (1991) salientou anterior
mente que, como oprimeiro trabalho de Mischeí (1966) foi
posterior a Walden Two, se não viria daí a inspiração para
fazer as suas investigações tão instigantes.
Mischel, Shoda e Rodriguez (1989), trabalhando com
crianças de diversas idades desde 3-4 anos a adolescentes,
verificaram o efeito de variáveis tais como: os intervalos de
atraso para obtenção da recompensa maior, fazer atividades
motoras ou de imaginação, enquanto o participante espera
va por recompensa preferida, manter a recompensa visível
ou escondida, e como a instrução afetava a espera. Todas as
manipulações introduzidas eram para estudar as variáveis
cognitivas existentes no autocontrole e impulsividade, e o
que influenciava na escolha dessas alternativas. Estudavam
autocontrole definido como esperar pela recompensa maior.
33
Em Mischel, Shoda e Rodriguez (1989), os resultados de anos
de pesquisa estão resumidos e demonstram que crianças
mais velhas, mais inteligentes, de pais ricos esperam pela
recompensa maior. Sua metodologia, exigente, pode permitir
a interpretação do dado além das teorias de aprendizagem
social, seu referencial teórico. Esta metodologia está sendo
repetida com variações e outras interpretações decorrentes
da abordagem teórica, por pesquisadores que estudam es
colha com o referencial de Análise do Comportamento, entre
outros.
Certamente, a Análise do Comportamento, que trata
das relações organismo-ambiente, estuda mais que só es
colher - responder a um dos vários estímulos disponíveis -
determina também quando essa escolha é feita. Alguns dos
parâmetros desvendados por Mischel (1966) podem ser es
tudados em seqüência de tentativas, de escolhas. O enfoque
neste caso não seria só a espera, mas quais condições inter
ferem e qual sua função. Esperar pelo reforçador maior pode
ser o comportamento de autocontrole necessário em inúme
ras situações. Mas, há outras em que escolher o imediato é
mais adequado e desistir pode ser o autocontrole. É um com
portamento complexo e que pode mudar nas etapas da vida,
diferenciando-se. É isto que possivelmente influiu para vári
as definições de autocontrole e confusão com traços de per
sonalidade ou características inatas dos indivíduos ou mes
mo com força-de-vontade, sem referir-se ao ambiente.
Dizer do inicio dos estudos de autocontrole é complica
do. Em pesquisa básica, se excluirmos Mischel, pelo referencial
de aprendizagem social e explicações cognitivas, daremos
nossa preferência para salientar o trabalho de Rachlin e Green
(1972), com pombos, sobre escolha com compromisso. A
ambivalência mudar a escolha é freqüente em nossas vidas;
no entanto, podemos nos comprometer com uma alternativa
e tornar a mudança muito dispendiosa ou difícil.
■ Esses autores e posteriormente outros, após a redu
ção de 80% do peso do pombo para privação, modelaram o
bicar um botão iluminado e reforçaram com uma pequena
porção de alimento. Em seguida, acrescentaram dois botões
iluminados: um verde e o outro vermelho. Se o pombo bicas
se o vermelho, recebia maior quantidade de alimento e, se
bicasse o verde, menor quantidade. Rapidamente o pombo
aprendeu a bicar o vermelho e a ignorar o verde. Outra mu
dança introduzida foi que, após bicar a chave, havia ls de
atraso para o alimento. O pombo demorava mais para bicar,
até que, por acaso, bicava o vermelho e recebia maior quan
tidade de alimento também com o atraso de ls. Passava a
ignorar o verde e mostrava com isso que valorizava a maior
quantidade de alimento.
34
Continuando, aumentou-se o atraso para 14s, para uma
maior quantidade de alimento. Portanto, o pombo tinha que
escolher 14s e mais alimento ou 10s e menos alimento. Evi
dentemente, a melhor escolha era a recompensa maior.
Outra etapa foi acrescentada, em outro experimento.
Depois de escolher o vermelho e 14s de atraso pelo reforço
maior, depois de transcorridos 10s, novamente os dois bo-
tões eram iluminados. Dava-se ao pombo uma possibilidade
de "mudar de idéia". De fato, mudou e preferiu menos ali
mento imediatamente, na chave verde. Portanto, houve uma
reversão de preferência, a qual é encontrada em pombos,
outros animais e humanos (Ainslie & Herrnstein, 1981).
Inúmeras vezes nos encontramos nessa situação, sem
prever a reversão. Só diante da recompensa é que percebe
mos como é atraente. Também há a considerar que, à medi
da que certo tempo decorreu, é que fazemos novas escolhas
e resistimos menos à tentação. Se a condição fosse mantida,
de resposta de compromisso, bicar o vermelho e esperar 14s,
sem opções posteriores, o comportamento seria mantido após
o comprometimento, pois não haveria volta e já era a alter
nativa de autocontrole. Rachlin (2000) define compromisso
como "(...) escolha num momento, para restringir a extensão
de escolhas futuras" (p.50).
Essa série de experimentos de Rachlin (1995, 2000) e
Rachlin e Green (1972) esclareu o compromisso e a reversão de
preferência e a função do desconto, que Mazur (1987) obteve
com pombos, e foi também constatada por Green, Fry e Meyerson
(1994), com crianças e adultos. Após um tempo decorrido, faze
mos outras escolhas, descontando a espera. Em um determina
do ponto da espera pela recompensa maior, há pontos nos quais
a recompensa maior e a menor se equivalem, pelos atrasos. De
fato, há indiferença pelo grau de esforço e custo envolvidos, e
pela baixa probabilidade de conseqüências negativas. A atua
ção em situação de aplicação, para redução da impulsividade,
incluiria informação sobre o ambiente e conseqüência da esco
lha e treino de comportamentos alternativos.
Kerbauy, em uma série de experimentos, com orientandos
e alunos de graduação e pós-graduação, sobre as possibilida
des que a situação de espera da recompensa preferida, no es
tudo de autocontrole, encontrou que uma das dificuldades é a
escolha de reforçadores. Observando os comportamentos du
rante a espera, em situação experimental, 12 crianças
amazonenses de 6,1 anos a 6,7 anos, que estudavam em esco
la, encontrou dificuldades na escolha entre comestíveis de pre
ferência, Bis e Sonho de Valsa (Kerbauy, 1981). Após a escolha e
determinação da preferência, o experimentador embaralhava os
reforçadores com as mãos atrás das costas, recolocando-os na
mesma posição ou trocados. Acrescentava: "Você prefere o ..."
35
(especificava-se a preferida). Em caso de inconsistência nessas
escolhas sucessivas, o experimentador, após cinco tentativas,
modificava a pergunta para "Qual você quer ganhar?" Duas cri
anças que não esperaram pela recompensa escolhida, em cinco
tentativas, após o termino do experimento, foram reconduzidos
a situação de escolha de reforçadores. Trocou-se o Bis por wafle,
para ser um chocolate e uma bolacha. Uma criança esperou e a
outra não. Após inúmeras ocorrências como essas, com recom
pensas comestíveis ou brinquedos, optou-se por trabalhar nos
experimentos subseqüentes com 3 e 6 balas; somente a quan
tidade diferia. Se a criança não gostava de balas, não era parti
cipante da pesquisa.
Com os dados obtidos com crianças de várias escolas
e Estados, foi possível verificar que a situação de espera por
recompensa escolhida em situação controlada possibilita ve
rificar comportamentos que as crianças apresentam para pre
encher a lacuna de tempo.
Kerbauy e Buzzo (1991) verificaram se a espera por
recompensa escolhida dependia do conhecimento da situa
ção, do treino anterior em autocontrole ou se a situação ex
perimental favorecia a aprendizagem de esperar por recom
pensa maior. Com 27 crianças selecionadas no fichário da
escola, de 6,7 anos a 7,10 anos, 13 dos participantes foram
entrevistados previamente e considerou-se como tendo
contacto prévio com o experimentador. Metade dos partici
pantes tinha a recompensa visível e a outra metade escondi
da, colocada em uma caixa que impedia a visão.
Os resultados mostraram que os grupos não diferiam
entre si por conhecer previamente o experimentador, ou por
ter a recompensa visível ou escondida. Os participantesapren
diam com a situação experimental e esperavam após passar
por ela. No entanto, três das crianças não esperaram mesmo
após cinco tentativas.Os resultados mostraram a necessida
de de registrar a fala das crianças durante a espera para
esclarecer variáveis, como: função do reforço e dos vários
elementos da situação experimental.
Empregando o procedimento padrão de Mischel (1966),
de esperar por recompensas, com o treino de poder interrom
per a espera pelo toque da campainha, e três ou seis balas
como recompensa, Buzzo (1991) investigou o efeito das ins
truções e da situação experimental. Os dados principais foram
as gravações dos relatos nas sessões experimentais. Dos 62
participantes, sorteou-se 25 relatos para análise.
As instruções foram divididas em gerais, que eram sobre
o gravador, e específicas, sobre a situação experimental. A uni
dade de relato era cada fala, com sentido completo e que con
tivesse informação para identificar o evento controlador. Cada
uma foi numerada. Foram divididas em referências indepen
36
dentes do experimento (Cl) e com referência à situação experi
mentai (CE). A pergunta do experimentador para análise de
dados era: "O que faiam?" Tendo identificado os eventos
controladores, detalhou-se em subclasses diante da pergunta
"Como falam?", e obtiveram-se dados como: julgamento de valor
do participante sobre a situação experimental, por exemplo.
Identificaram-se duas classes de respostas: verbal e
motora. Os comportamentos de falar e de cantar estão inclu
ídos na mesma classe de respostas verbais. Decidiu-se tratá-
los em conjunto por ter a mesma função, embora a instrução
fornecida fosse que o participante "falasse o que pensava,
para gravar".
Quando a recompensa era visível, os participantes emi
tiram freqüência maior de relatos e também falaram mais so
bre a situação experimenta! do que quando escondidas. Con
firmou-se a relevância da instrução no desempenho verbal.
Optou-se pela análise dos relatos que descrevessem:
o que o participante fala, sobre o que faia e como fala para
garantir a análise da função das falas.
A maior freqüência de falas nesse estudo de Buzzo
(1991) encontrou-se na classe CE (situação experimental).
Nesta, um maior número de participantes falou sobre a re
compensa, referindo-se à experiência consumatória, à ex
pectativa de obter a recompensa maior, ao próprio compor
tamento e dos outros diante da recompensa. Seguem-se fa
las sobre a espera, manifestam a decisão de manter-se ou
não na condição de espera, justificando a decisão e as possi
bilidades de mantê-la. O sujeito 10, na segunda sessão, fala
25: "Se eu ficá, ganho seis"; fala 26: "Eu vou espera para
ganha estas bala"; fala 27: "Se eu ganha seis, aí fica três pá
mim, três pro meu irmão"; faia 28: "Que demora"; fala 29:
"Ah! 'Vô tocá!" (sic). Observou-se que não tocou a campai
nha para chamar o experimentador e repetia, na fala 37: "Eu
'vô fica esperando prá ganhar seis"; fala 38: "Aí, eu do três
pro meu irmão e fico com três"; fala 39: "Eu espero" e fala
40: '"Tô esperando" (sic). Na classe de Cl (referências inde
pendentes da situação experimental), a maior freqüência foi
de outros comportamentos: cantando, dançando, contando
histórias e também falas sobre si mesmo.
Os participantes falaram mais na segunda sessão. No
item eventos privados, mudaram de medo e desconfiança para
alegria e tranqüilidade e avaliações da situação experimental,
identificando estímulos, descrevendo-os e apreciando. Estu
dando o autocontrole em situação de espera e analisando o
comportamento verbai, nota-se uma diversidade de temas e
o enriquecimento deles de uma sessão para outra.
A importância desses estudos de Kerbauy e colabora
dores é mostrar que a espera é controlada pela situação ex
37
perimental e pelo reforçador CAImeida & Kerbauy, 1991; Enumo
& Kerbauy, 2003; Kerbauy, 1973, 1977, 1980, 1981, 1987,
1991; Kerbauy & Buzzo, 1982, 1991; Kerbauy, Cirino &
Tomanari, 1994; Leite & Kerbauy, 1992; Sales & Kerbauy, 1992;
Scala & Kerbauy, 2000). Ainda em relação ao estudo de Buzzo
(1991), os participantes descrevem em detalhes as contin
gências existentes, do experimentador que deu as instruções
e voltaria no final da espera, ou antes, se o participante to
casse a campainha, aos outros detalhes das instruções. As
recompensas, as balas, eram valorizadas, descritas e mesmo
manipuladas durante a espera, sem serem consumidas, ape
sar do experimentador não estar presente na situação Ob
servou-se que a situação experimental ensinava a esperar e
que, ao descrever emoções da primeira para a segunda ses
são, houve mudança de receio para tranqüilidade, Como as
crianças da escola conheciam os experimentadores, por esta
rem sempre na escola, pediam para serem participantes. No
final da coleta de dados, dos experimentos com balas como
recompensa, por questão de ética, eram distribuídas três ba
las para cada criança, por classe dos participantes.
Para esclarecer as variáveis que pareciam relevantes,
como o reforço e as falas sobre si próprio, vários estudos
foram realizados. A mãe presente na situação de espera, em
internação hospitalar, mostrou que as mães davam dicas para
a criança esperar, e propunham atividades (Sales & Kerbauy,
1992). O controle da situação experimental ficou evidente
nas falas sobre o procedimento.
A reatividade dos programas de mudança de hábitos
arraigados, como o comportamento de fumar, pôde ser obser
vada em um programa instalado por uma universidade (Leite
& Kerbauy, 1992). Fazer com que as pessoas apagassem o
cigarro ou não acendesse mostrou ser controlado por inúme
ras variáveis. Agredir o fumante ou dizer que o cigarro faz mal
à saúde tende a produzir respostas agressivas. As pessoas
já ouviram essas regras e montaram argumentações lógicas
ou quase-lógicas para explicar seu comportamento. Como o
programa era da universidade e os experimentadores apro
veitaram para observar comportamentos, constatou-se que
há necessidade de cuidado com frases que empreguem
"não"ou proibição, pois seu efeito é quase sempre reverso.
Variáveis, como auto-reforçamento, auto-observação,
autom onitoram ento e avaliação, foram salientadas e
pesquisadas por Kanfer e Philips (1970), procurando ensinar
as pessoas a mudarem seu próprio comportamento e man
ter a mudança sem suporte externo imediato. Ressalvamos,
diferentemente do autor, a própria emissão do comportamen
to como reforçadora. Para investigar o procedimento de auto-
avaliação e a aplicabilidade no sistema de ensino, 23 alunos
38
da 7a série, com idade entre 12 e 14 anos, em aula de Mate
mática, submeteram-se a um procedimento de avaliação
(Almeida & Kerbauy, 1992). Na primeira avaliação, a profes
sora dava a nota, na segunda, a professora pedia ao aluno
para dar a sua nota e, na terceira avaliação, os alunos pode
riam optar em dar a nota ou a professora fazê-lo. Foram gra
vadas as falas nas situações e analisadas. Entre os resulta
dos, obteve-se que, para as professoras, a dificuldade de
instruir foi relatada. Entre os alunos, eles deram de modo
geral notas mais altas que as da professora e, quando tive
ram que optar, eles preferiram a nota da professora à auto-
avaliação. Expressaram dúvidas quanto à prática, embora
reconheçam ser uma forma de se conhecer melhor. Parece
não existir padrão de autocontrole adquirido anteriormente.
As crianças em alfabetização, com ou sem dificuldades
de alfabetização propiciaram o estudo de comportamento de
autocontrole (Enumo & Kerbauy, 2003). As falas foram grava
das em situação de espera. A criança com dificuldade de alfa
betização mostrou-se satisfeita com a tarefa, mas foi discre
pante na sua avaliação e a avaliação externa sobre a tarefa.
As duas crianças estavam na fase de saber esperar por um
reforçador maior, mas não sabiam discriminar um esquema mais
vantajoso. Sua faixa etária é compatível com esses resulta
dos de acordo com Sonuga-Baker, Lea e Wesbley (1989).
As situações emque se poderia falar em autocontrole -
que supõe escolhas e conflitos entre comportamentos e
reforçadores, necessidade de manutenção de comportamen
tos já instalados, quando as situações de controle ou que influ
enciam ficam menos evidentes - dependem da averiguação de
variáveis do ambiente e do repertório das pessoas envolvidas.
Mostraremos agora alguns exemplos de aplicação e dos
problemas e soluções existentes para cada um deles, de acor
do com nossa experiência pessoa! e dados da literatura.
Em s it u a ç õ e s de a p l ic a ç ã o , c o m o p o d e m o s l id a r
COM a l g u n s p r o b l e m a s , a s d ú v id a s , d e s a f io s e
SOLUÇÕES
Analisando a forma de trabalhar em autocontrole, atra
vés dos anos, nota-se mudanças de problemas, da maneira
de analisá-los e na forma de fazer pesquisa, isto é, na
metodologia empregada, ou pelo menos na maneira de colo
car os problemas.
Para demonstrar essa mudança, um exemplo é a aula
que costumo dar no inicio do semestre, desde 1999, quando
iniciei na USP o Curso de Especia lização em Terapia
Comportamental e Cognitiva. Essa aula também tem muda
do de nome. Este ano, 2005, quando convidada, denominei:
39
TCC: Aos cinqüenta anos, muda-se de nome, quais as con
tingências que justificam? A função da aula é situar os alunos
para que não se percam entre livros e artigos e que possam
classificar o que estudam, fazendo suas críticas e compara
ções. O papel da Universidade é produzir conhecimento, trans
mitir e organizar saberes especializados e divulgar pensa
mento critico, portanto, a aula mencionada se justifica e re
trata o que acontece.
O presente texto tem também essas funções. A defini
ção de Skinner (1953/1978) é ampla e bem-vinda. Permitiu
que se identificasse uma resposta controladora e outra con
trolada, e que o conflito entrasse na Análise do Comporta
mento. A introdução do conceito de reforços imediatos e de
longo prazo e as técnicas através das quais a pessoa mani
pula variáveis ambientais das quais seu comportamento é
função, abriu caminhos para análises e investigações. Se
guindo esses passos, Ferster, Nuremberg e Levitt (1962), com
a análise do comportamento alimentar, pensaram em pro
cesso e sugeriram maneiras de enfrentar o problema. Estas
são empregadas até hoje, mesmo sem mencioná-los e, la
mentavelmente, como panacéia, e sem as análises feitas pelos
autores e que favoreciam criatividade e novos comportamen
tos. Ensinavam a fazer análise de comportamento. As técni
cas são eficazes, para quem continua, nas sessões, a fazer
as análises que o texto sugere.
Desses estudos, desabrochou a área de estudo de obe
sidade ou como se chamava na época, comer em excesso. O
que se pesquisava era geralmente em área clinica, pois era
necessário resolver um problema. Nesses trabalhos, em uni
versidade, salientava-se o auto-reforçamento. As polêmicas
teóricas eram se o auto-reforçamento era possível. Era. Como
diz Skinner (1989/1991), as pessoas respondem sensorial-
mente ao mundo e atuam sobre ele. O ambiente atua quan
do reforça o comportamento ou quando elicia um comporta
mento. Neste caso, a auto-observação, relatar o que estamos
fazendo, pode ser um auto-reforçamento. Com contingênci
as verbais complexas, a auto-observação se multiplicou atra
vés dos anos. Ao falar sobre si, o que faz e quando, na tera
pia, a pessoa se conhece. Ao falar, para outros, se estes
aprovam, também a pessoa é reforçada. Portanto, o auto-
reforçamento é possível se emitirmos comportamentos que
sabemos, pela história de vida, serem reforçados pela cultu
ra. É auto no sentido que eu emiti um comportamento que o
ambiente aprova. Fechar a boca para não comer guloseimas
e ouvir "como você está magra", ou subir na balança e confe
rir o peso, ou dizer não ao bolo de chocolate e trocar por
uma fruta pequena, são comportamentos que podem ser re
forçados por uma frase escolhida peia pessoa e planejada
com antecedência. Será emitida nas ocasiões previstas.
40
As pesquisas sobre esses comportamentos em situação
natural continuam em menor número. Os procedimentos foram
pesquisados, o importante é analisar aquela pessoa, naquela
situação, o que faz e diz e observa, e quais são as regras que
verbaliza e como podem ser alteradas. No caso de íliminuir o
peso, emagrecer, o que se nota é a variação de dietas, a da
moda e as outras. No entanto, investigando, sabemos que a
pessoa comprometeu-se com aquela dieta e a faz. Seu com
promisso pode ser drástico, como a restrição física, no caso de
cirurgias. Se o comer inadequado ocorrer, haverá punição pela
náusea, por exemplo. Mas, casos de comprometimento total
são raros em situação natural. O que pode ser eficiente é um
controle de estímulos, planejado em detalhe, bem como au
mentar a densidade de reforçadores, construindo um repertó
rio elaborado. Uma alternativa a ser acrescida é emitir compor
tamentos, como acontece nos experimentos de esperar pela
recompensa maior escolhida. Ensina-se nas sessões uma se
qüência de comportamentos para várias situações.
O comprometimento com alternativas, no caso de per
der peso ou manter flexibilidade e corpo saudável, é contra
tar um treinador pessoal que compareça à residência ou en
contre-se em parques. Também pagar a mensalidade em aca
demia, com punição da perda do dinheiro se não comparecer, e
procurar fazer parte da turma que reforça o com pareci mento. Todas
essas alternativas dependem do repertório pessoal e de
quantos comportamentos novos precisam se instalados e do
custo da resposta. Não há receita ou técnica única. Às vezes,
a alternativa eficaz é treinar uma técnica à exaustão até o
participante perceber a eficácia ao utilizá-la e a diferença do
resultado sem ela, como se faz em esporte (Scala & Kerbauy,
2000), Essa situação é peculiar por exigir discriminação de
movimentos finos e rapidez.
Relacionado aos temas anteriores são as situações em
que é preciso manter comportamentos para doenças serem
prevenidas ou mantidas em níveis toleráveis. É o caso da hi
pertensão (Braga & Kerbauy, 1997), diabetes, problemas car
díacos e outras doenças crônicas. Há também prevenção, como
ingerir pílulas anticoncepcionais ou utilizar camisinhas. Claro
que há restrição física: amarrar as trompas ou fazer vasectomia.
No entanto, essa forma de autocontrole é rudimentar.
Quando se falava em autocontrole até o capítulo
antológico de Skinner (1953/1978), pensava-se em força inte
rior ou força de vontade. Era simples. Não se fazia por faltar
esses elementos mágicos e pouco definidos. Hoje, conceituamos
autocontrole como dependendo do ambiente, certas formas de
comportamento aprendidas e mantidas pelo ambiente atual ou
da história da pessoa. Não é mágico. Pode ser ensinado e de
pende de construirmos o algoritmo necessário. Essa constru
41
ção dependerá de levarmos em conta as descobertas da área,
algumas aqui apresentadas e de um estudo cuidadoso do com
portamento verbal, com a abertura propiciada por Skinner (1957/
1978) de fazermos análises funcionais e exercícios de interpre
tações. Essa análise incluiria os comportamentos em situações
diversas, o estudo das crenças e conceitos do senso comum,
que parecem ter sentido, parecem lógicos na linguagem cotidi
ana. Geralmente, exigem análises complexas para serem
desembaralhados e permitir novas ações. É um verdadeiro pin
gue-pongue de rebater, com exemplos e dificuldades: "Sou gor
do há muito tempo, sei tudo isso", "Eu esqueci, faz mal eu não
tomar esse remédio às vezes?", "Estou grávida, morro de von
tade de comer", "Foi sem querer, eu não sabia que ia transar,
aconteceu". Em nenhuma dessas frases está descrita a situa
ção ambiental que poderia ser planejada com antecedência, e
previstas alternativas de comportamento. Isto seria o
autocontrole. Isto pode ser ensinado. Planejar o ambiente ou
alternativas de comportamento com reforçamento, para acon
tecer o autocontrole.
Há alguns problemas que aparecem na mídia com freqüência. Geralmente, as pessoas são apresentadas como vi
timas, sem uma análise das condições e regras pessoais ou
do pequeno grupo, a que pertence. Um deles é a gravidez na
adolescência ou sem que uma família esteja constituída para
dar suporte ao desenvolvimento de uma criança. A explicação
simplista é que ser mãe dá uma posição especial, perseguida
por algumas adolescentes. No entanto, ouve-se de pessoas
"Se não tivesse mãe idiota para sustentar... não teria o filho.,
"Já está na terceira gravidez.(...)". Há a considerar que, em
muitas famílias, a adolescente fica em casa para cuidar dela e
do bebê. Acabam-se as imposições sobre sua rotina diária e
fica vulnerável a continuar o namoro ou iniciar outros. Além de
esclarecimentos, sobre educação sexual e prevenção, há de
se ensinar sua responsabilidade como mãe e educadora e
garantia de que aprendeu os comportamentos sociais para
cuidar-se e responder socialmente pelo que faz. Nesse caso,
é preciso levantar o que conduz à maternidade, pois a res
posta é mais complexa, bem como as variáveis envolvidas.
Considero exercícios de imaginação sobre como crescerá a cri
ança e vida dos pais uma tentativa eficaz.
Devido a sociedade brasileira ser diversificada, com cos-
tumes próprios em cada região, a moradia urbana muitas ve
zes precária em cidades em expansão, e a televisão entrando
nos lares com propaganda de produtos e conceitos variados,
esbarramos na visão sem crítica desse ambiente. Aceitar sem
discutir. A formação crítica advém de religião, valores familiares
ou aprendizagem escolar, bem como da aprendizagem de com
portamentos. Quanto é ensinado sobre como se livrar de situ
42
ações de risco e quanto vale responder a esquemas vantajo
sos no longo prazo, quais as regras que garantiriam esses com
portamentos e quais as conseqüências e punições programa
das. São respostas em branco para equipes profissionais.
Como resolver o problema de reabilitação de delinqüen
tes e criminosos em abrigos ou presídios. Talvez começar mu
dando o nome. Atendi senhoras idosas, que não querem ir
para asilos. Sei de alguns que chamam resort e têm programa
ção diária. Como poderiam chamar-se as FEBEM e que tama
nho deveriam ter, com pessoas de quais idades por unidade,
e quem trabalharia com ela e quais os programas a serem
instalados. Suas opções são lamentar-se sem fazer nada ou
tentar fugir aumentando a pena sem engajar-se em ativida
des variadas que seriam promovidas e recompensadas.
Nem sempre os resultados são os esperados. Trabalha
mos, três psicólogas, com grupo de oito alunos, discutindo pos
sibilidades para o futuro, em uma escola com população de três
favelas.A maioria do grupo era catadora de bola de tênis fora
do período escolar, e o sonho era ser tenista ou instrutor. Um
deles abriu a academia, para um grupo roubar, e fugiu para
outro Estado. Não previmos e não sabemos das pressões
exercidas. Mas, assistimos a vergonha e a tristeza quando os
membros do grupo explicaram a ausência de seus companhei
ros. Mostramos nossa tristeza e analisamos a situação.
Quando convidei Mahoney, em 1973, para vir dar a uni
dade sobre delinqüentes, no Curso sobre Terapia Comporta mental,
que ministrava na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Se
des Sapientiae, para dar um curso sobre terapia cognitiva que
começava, uma das razões era porque ele e sua esposa eram
componentes do casal da learning house, para crianças com
problemas legais. Todas as tarefas e ações eram especificadas
bem como as conseqüências.
Esse formato de casas, com tratamento para crianças
na comunidade, tem sido explorado, para substituir reformató-
rios. Vários artigos foram publicados no inicio do Journal Applied
Behavíor Analysis, descrevendo a rotina e programa de fichas.
São polêmicos, mas opção possível. Fica sempre o problema de
como acabar com o preconceito das pessoas que vivem próxi
mas ao locai, formar pessoas que aprendam a reforçar e es
queçam as punições, os sermões e seus próprios preconceitos.
Os resultados podem demorar, as avaliações precisam
ser freqüentes, os pais empenhar-se em novos comporta
mentos e fazerem um contrato, comparecendo as sessões e
talvez todos aprenderem, que autocontrole é aprendido e
que o controle externo é uma etapa anterior ou parte do
processo. Parece que "aprender a resistir a tentação" conti
nua o problema a ser resolvido, que, embora os experimen
tos apresentem alternativas, nenhuma em si, é suficiente.
43
Também no JABA, há artigos recentes, sobre como ins
talar comportamentos de autocontrole em crianças autistas
e com atraso de desenvolvimento. Geralmente combinam
esvanecimento do atraso, trabalham com reforçadores pre
feridos e fazem treino detalhado com delineamentos experi
mentais sofisticados, com poucos participantes. Os estudos
lembram os da primeira fase, anos sessenta, do inicio dos
trabalhos em Modificação do Comportamento, agora anali
sando reversão de preferência, por exemplo.
Além de aprender a esperar por reforçadores, emitir com
portamentos adequados durante a espera, a modelação tem
importante papel no desenvolvimento de um responder. Punir
o modelo, mostrar as conseqüências para o modelo, pode ser
fundamental. Meichenbaum e Goodman (1971) desenvolve
ram uma maneira de ensinar crianças impulsivas a dar-se ins
truções: 1) o experimentador fazia uma tarefa e a descrevia
em voz alta; 2) a criança fazia e o experimentador descrevia;
3) a criança fazia e descrevia em voz alta; 4) a criança fazia e
descrevia murmurando; e 5) a criança fazia, descrevendo sem
mover os lábios. Dessa maneira, a criança se instruía e refor
çava ou corrigia seu comportamento. Aprendia autocontrole.
No ambiente de trabalho e diversão, há freqüentemente
riscos de acidentes pelas pessoas evitarem a alternativa de
maior custo no curto prazo, mas que evitaria danos. Para
diminuir a escolha impulsiva, continua sendo necessária a
informação sobre o ambiente "o mar aqui é bravo", "dirija por
você, olhando o que o outro faz" e a clareza das conseqüên
cias da escolha: perda da saúde ou da vida.
Como conclusão, considero necessário descrever pro
gramas de intervenção e pesquisas com situações semelhan
tes à vida real. Talvez esclarecer a relação entre emitir com
portamentos mais seguros e fazer escolhas impulsivas, em
detalhes, destacando a cooperação social. Neste caso, as
relações entre autocontrole e cooperação social. Perceber o
próprio bem, como um bem social. Falando em linguagem co
loquial, diria que é comprometer-se e prestar contas à comu
nidade e diminuir a cara-de-pau.
R e f e r ê n c ia s
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46
SKINNER, O SENTIMENTO E O
SENTIDO
Luciano de Sotisa Cunha1
Elizeu Batista Borloti2
Os homens inventaram as palavras para que
pudessem esconder seus pensamentos (Aristóteles).
Nenhum relato do que está acontecendo dentro do
corpo humano, por mais completo que seja, irá
explicar as origens do comportamento humano. O que
acontece dentro do corpo não é um ponto de partida
(Skinner, 1989/2003).
Freqüentemente (e devemos dizer, erroneamente) se
imagina que a psicologia comportamental omite a existência
de sentimentos ou, pelo menos, acredita-se que os
behavioristas não os possuem. Esta crença é tão forte que às
vezes perguntavam a Skinner se ele pensava a seu respeito
da mesma forma que pensava a respeito dos organismos que
estudava. A resposta esperada era uma informação sobre ele
próprio; se ele observava seus próprios sentimentos. Obvia
mente, sua resposta era um "sim": "até onde eu sei, meu
comportamento em qualquer momento tem sido nada mais do
que o produto da minha herança genética, da minha história
pessoal e do contexto atual (Skinner, 1983, p.400)",
Ao olhar para essa história genética e ambiental, Skinner
(1983) não questionou a existência do que sentia (o que acon
tecia no nível privado da sua experiência), mas questionou o
que era sentido por ele e qual era a função desse sentir. Com
isto ele apontou a diferença básica entre o seu behaviorismo
e o de Watson e dos positivistas lógicos, definiu a função do
sentimento em seu sistema explicativo do comportamento
1 Mestrando em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia da
Universidade Federal do Espírito Santo, Bolsista da CAPES, E-mail para
correspondência: iu cia no. cunha@oi.com. br
? Doutor em Psicologia pela PUC-SP, Especialista em Terapia Comportamental
e Cognitiva pela USP e em Terapia Comportamental de Grupos pela PUC-SP.
Professor Pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo e do Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da mesma Universidade. Membro fundador
do IMACES. E-mail: borloti@hotmail.com
47
mailto:cunha@oi.com
mailto:borloti@hotmail.com
humano e não se limitou aos fenômenos que são publicamen
te observáveis, pois acreditava que o "como as pessoas se
sentem é, geralmente, tão importante quanto o que elas fa
zem". (Skinner, 1989/2003, p.3).
Das muitas afirmações sobre o behaviorismo, a de que
ele não dá valor ao sentimento é, talvez, a mais freqüente.
Esta afirmação provavelmente se deve ao fato de que há
uma tendência a acreditarmos que nos comportamos de uma
dada maneira por causa de nossos sentimentos. A lógica
parece ser coerente: se Skinner dá valor ao comportamento,
ele não valoriza o sentimento; se não valoriza o sentimento,
ignora a causa do comportamento. A linguagem do senso
comum sustenta esta aparente lógica: falamos "brigamos
porque estamos com raiva", "não vamos para o rock porque
estamos deprê", "casamos porque amamos" "transamos por
que sentimos tesão" e assim por diante. Está explícito que,
em geral, o que estamos sentindo é o determinante do nos
so comportamento. Mas este logicismo é enganoso.
Skinner (1989/2003) coloca que se estas relações cau
sais fossem verdadeiras nosso deficiente conhecimento dos
sentimentos seria desastroso, já que o sentimento seria o
fim da investigação. A Ciência do Comportamento não seria
possível. Entretanto, ela está aí, mais viva do que nunca. E
tornou-se possívelporque Skinner soube diferenciar o que é
sentido (a experiência corporal) do sentimento (a consciên
cia e o relato da experiência corporal) e explicou ambos apon
tando para outra direção. Esta distinção difere a explicação
bebaviorista da mentalista sobre os sentimentos, pois esta
última pseudo-explicação ignora os fatores ambientais úteis
ao inverter a equação comportamental. De fato, a retórica
mentalista acaba sendo uma contradição: como posso sentir
uma situação se ainda não experimentei essa situação? Uma
resposta a esta indagação se toma impossível à medida que
sabemos que o sentir está sujeito às mesmas leis às quais
os comportamentos públicos são expostos. Para Skinner
(1971) seria tolice negar a existência de um mundo privado,
mas também é tolice afirmar que, por ser privado, ele tem
natureza diferente da do mundo exterior.
Falemos primeiro do que é sentido.
Aquilo que é sentido é uma condição corporal e "não é uma
causa inicial ou iniciadora" (Skinner, 1989/2003, p. 15) do com
portamento. A condição corporal pode ser vista como uma emo
ção, que é um evento privado, sub-produto da relação ambien-
te-organismo, ou seja, do comportamento. O termo sub-produto
indica que o que é sentido (ou a emoção) acontece ao mesmo
tempo, ou um pouco antes, do comportamento operante. É por
isso que sentimos tesão enquanto (ou antes de) transamos,
que sentimos raiva enquanto brigamos. Precisamos indagar numa
outra direção: por que sentimos tesão q transamos?
48
No caso da tristeza, por exempio, esta investigação
poderia chegar à seguinte conclusão: "Não choramos por
que estamos tristes, ou sentimos tristeza porque choramos;
choramos e sentimos tristeza porque alguma coisa aconte
ceu (talvez alguém a quem amávamos tenha** morrido)"
(Skinner, 1989/2003, p. 15). Portanto, choro (comportamen
to) é o produto de um evento que aconteceu, e esse evento
também exerce função sobre a tristeza (sentimento) como
um sub-produto. O que é sentido é concomitante, paralelo
ou contíguo ao comportamento e é por esta razão que cos
tumamos confundir o que sentimos com causa. No entanto,
"os eventos que são responsáveis pelo que fazemos e, por
tanto, pelo que sentimos, permanecem num passado real
mente distante" (Skinner, 1989/2003, p. 15).
E o que é o sentimento? Sentimento é a condição cor
poral experimentada sob controle das contingências do con
texto e descrita sob controle das contingências verbais
mantidas por uma comunidade. Uma condição corporal é ex
perimentada corporalmente (sentida) e, em seguida, se apren
de a nomeá-la como um sentimento. A dor é um exemplo de
fácil compreensão desta distinção, pois os papéis dos ambi
entes passado e presente sobre ambos (o que é sentido e o
sentimento) são mais óbvios. Sabemos o que é ou foi doloro
so em nossa história (pessoal e da espécie) e sabemos o
quanto foi importante para a nossa vida aprendermos dos (e
dizermos aos) outros que estamos sentindo dor.
Em casos não tão óbvios a direção da análise permane
ce a mesma. Ao invés de procurar atribuir causas de compor
tamentos a sentimentos, a melhor estratégia é observar o
nosso comportamento e os estados do nosso corpo e as con
dições ambientais comuns dos quais ambos são função. Só
assim encontraremos algumas das razões para fazermos o
que fazemos e, portanto, para sentirmos o que sentimos: as
condições corporais que chamamos de sentimentos e estados
mentais. Como no exemplo da dor acima, essas razões devem
ser explicadas levando-se em conta os três níveis de variação
e seleção: a filogênese, a ontogênese e a cultura.
Avançando nossa análise, veremos que, num enfoque
behaviorista radical, a distinção entre o que é sentido
introspectivamente e o que é relatado como sentimento, per
mite definir o que é relatado como um tacto do evento privado
caracterizado pela condição corporal experienciada. A condição
corporal é um evento físico, um estímulo não verbal, um acon
tecimento discriminado e, portanto, está sob controle da rela
ção que define o operante verbal tacto (Skinner, 1957/2003).
Um tacto pode ser definido como um operante verbal,
no quaí uma resposta é de certa forma, evocada (ou
pelo menos reforçada) por um objeto particular ou
49
um acontecimento ou propriedade do objeto ou
acontecimento, (Skinner, 1957/1978, p,108).
O tacto é o operante que "faz contato" com o que sen
timos introspectivamente. É pela relação do tacto que forne
cemos informações sobre o ambiente passado responsável
pela condição sentida e pelo nome dado à ela, assim como
sobre algumas predisposições para nos comportarmos: "Me
sinto culpado", "Exagerei" e "Acho que devo pedir descul
pas". A relação entre estes três elementos informa que é
importante o analista do comportamento saber o que a pes
soa está sentindo, em que momentos ela sente, o que acon
teceu e o que pretende ou poderia fazer. A palavra usada
poderia ser "culpa", "mágoa" ou "vergonha". Esta variação
verbal é, portanto, útil ao analista.
Skinner (1974/2003) conta que todas as palavras usa
das para designar sentimentos começaram como metáforas,
e é significativo que o seu uso para nomear um acontecimen
to privado tenha partido de um acontecimento público. Por
tanto, nenhuma palavra parece ter sido originalmente desig
nada para denominar um sentimento, e isto explica a variabi
lidade nos relatos de pessoas expostas às mesmas contin
gências. No exemplo de Skinner (1989/2003), o acontecimento
privado "angústia".tem o mesmo nome do acontecimento pú
blico que antigamente era chamado de "sufocamento".
Voltemos à dor.
Não podemos apresentar ou apontar uma dor, mas sim,
inferir a presença dela através de algum evento público (como
ver uma criança sofrendo uma queda, por exemplo) ou falar
da dor a partir da propriedade de objetos públicos (por exem
plo, de formas pontiagudas ou de movimentos latejantes). Isto
acontece com outros exemplos, como visto no caso da angús
tia, e isto ocorre devido à dificuldade em se aprender a nome
ar sentimentos ("São tantas emoções..."). O ambiente social
cobra que devemos conhecer bem nossos corpos e o que sen
timos introspectivamente, ao mesmo tempo em que é o res
ponsável por nos ensinar a fazê-lo. Mas o acesso ao que acon
tece dentro do nosso corpo e, principalmente, o sentir o que
acontece, está dificultado. A condição corporal, o acontecimento
discriminativo para o sentimento, pode até ser acessada (quan
do, por exemplo, um cirurgião toca em uma úícera). Mas o sen
tir o acontecimento é e sempre será privado.
Podemos até dizer que "nosso estômago está embru
lhado" quando as propriedades públicas de um embrulho ser
vem para que possamos comunicar um sentimento a um ouvin
te. Entretanto, a dificuldade de transmitir o que se passa den
tro do corpo pode continuar, uma vez que os eventos "de fora"
e "de dentro" nem sempre ocorrem ao mesmo tempo. Uma
50
conclusão é relevante: palavras que designam sentimentos não
são ensinadas com tanto sucesso quanto palavras que desig
nam objetos. Talvez seja por isso que, segundo Skinner (1974/
2003), os filósofos e os psicólogos muito poucas vezes concor
dam quando falam sobre sentimentos e estados cfà mente e
isto explica a não existência de uma Ciência do Sentimento.
Esta dificuldade impõe restrições à crença no relato
verbal como sendo exatamente correspondente ao evento
relatado, sejam esses científicos ou não. A crença é fortalecida
pela correspondência. No cotidiano, dizer "eu te amo" deve
ser acompanhado de ações esperadas de um amante; no
laboratório, dizer "eu tenho medo" deve ser acompanhado
da esquiva diante da estimulação aversiva. No entanto, mes
mo com todas as restrições em relação ao acesso aos estí
mulos que antecedem uma resposta verbal, o relatar é
freqüentemente a única fonte de informação de um analista
do comportamento.
A dúvida parece ser o preço da certeza...
No seu livro Walden Two, Skinner (1948-1978) conta
que o personagem Professor Burris fez uma "investigação"
parasaber se a harmonia que acontecia naquela comunida
de planejada era algo real ou se não passava de encenação.
Definiu uma amostragem para a observação e, mesmo as
sim, sua investigação foi mal sucedida. Buscando outro meio
de responder sua questão, ele procurou estabelecer um diá
logo com uma moradora da comunidade, para avaliar o lugar.
Ao ser perguntada se ela se sentia feliz por estar ali, surge o
seguinte questionamento: "Por que a pergunta? Há muito
tempo não penso nisso. Por que você não me perguntou se
eu estou bem alimentada, ou se estamos todos sadios. Isso
seria uma pergunta a qual eu poderia responder".
Em termos específicos, alimento, saúde, sexo e outros
valores tais como amizade, conhecimento, ideologia etc, são
partes do contexto das contingências de reforçamento que
explicam tanto o comportamento produto (verbal e não ver
ba!) quanto o sentimento sub-produto. Devemos considerar
três elementos indissociáveis: o viver saudável, o sentir-se
saudável e o dizer "Me sinto tão bem."; o alimentar-se, o
sentir-se saciado e o dizer "Estou satisfeito."; o transar, o
sentir-se extasiado e o dizer "Que delícia!"; o participar de
um movimento social; o sentir-se politizado e o dizer "Tenho
consciência crítica" e assim por diante. Estes exemplos indi
cam que ao estudar sentimentos, poderíamos nos concen
trar em questões relativas às contingências de reforçamento
relacionadas ao sentir, e à função do relato do sentimento.
Para esta tarefa, a obra de Skinner apresenta inúmeras re
ferências a sentimentos como sub-produtos de contingênci
as de reforçamento. Eis algumas:
51
Tabela 1 - Referências a sentimentos como sub-produtos de contingências
de reforça mento nas principais obras de B. F. Skinner
Contingência Sentimentos
Ref orçamento
Positivo
Amor <1946/1978); Felicidade (1969); Confiança, Fé, Segurança, interesse,
Zelo, Diligência, Ambição, Determinação, Obstinação, Persistência,
Perseverança, Excitação, Entusiasmo, Dedicação. Compulsão (1974/2003);
Felicidade, Gostar, Liberdade (197S); Prazer, Amor (1989/2003)
Reforçamento
Negativo
Aversão (1961/1974); Agressividade (1971); Ansiedade, Compulsão, Alívio
(1974/2003)
Punição Positiva Medo, Raiva (1961/1974); Vergonha. Culpa Medo, Embaraço, Cautela,
Aborrecimento (1974/2003)
Punição Negativa Perda de confiança, Desinteresse, Desapontamento, Desencorajamenlo,
Impotência, Depressão, Frustração, Solidão, Saudosismo, Abandono, Inibição,
Timidez (1974/2003)
Extinção Tristeza, Tédio, Depressão (1969); Perda de confiança. Desinteresse,
Desapontamento, Desencorajamento, Impotência, Depressão, Frustração
Solidão, Saudosismo, Abandono (1974/2003)
Ao verificarmos essas referências demonstrativas sa
bendo que agimos sobre o mundo e o modificamos e, ao
mesmo tempo, somos modificados pelas conseqüências de
nossa ação (Skinner, 1957/1978) entenderemos melhor a fun
ção do relatar um sentimento enquanto um comportamento
verbal. O que nos garantiria, portanto, que um relato pode
ria estar ligado a um propósito (determinado pelo conheci
mento da função de um operante; ou da conseqüência a ser
conseguida) ou a um estado sentido? Ou, simplesmente, o
que garante que um relato é uma "verdade" sobre um senti
mento? Ou, qual é a validade desse relato?
Como exemplo podemos citar o caso de uma criança,
na época interna da FEBEM, que ouviu uma conversa de adul
tos na qual se dizia que uma pessoa tinha câncer. Ela viu que
os ouvintes passaram a chorar e a serem mais solidários com
o doente, ajudando-o com doações de alimentos e roupas,
amenizando o alto custo do tratamento. Ele infere que, para
que as pessoas tenham mais cuidado com ele, e que para
conseguir mais alimento, ele deveria dizer que estava triste,
pois estava com câncer. Ao agir conforme acreditava, ela pas
sou a dizer que estava com câncer nos dois úteros - no es
querdo e no direito - e apontava para os cotovelos. Assim,
através de suas interações com o ambiente, essa criança
descobriu no relatar sentimentos uma função diferente da
de indicar o que é sentido. Aparte o humor ou a invenção da
criança, uma função operante emergiu e ela foi capaz de
52
modificar o seu ambiente, mantendo o seu comportamento
por suas conseqüências.
O estudo dos múltiplos determinantes do comportamen
to e dos relatos dos sentimentos - o sentimento operante -
pode nos dar informações importantes sobre o ambiente do
falante, e nos indicar maneiras de agir. Isso se torna relevante
nas relações interpessoais, seja na clínica, na educação, na
política, nos relacionamentos íntimos ou em qualquer contex
to no qual "o comportamento operante é essencialmente o
exercício do poder..." (Skinner, 1974/2003, p. 139). Isto se de
veu ao fato de que com a evolução do comportamento verbal
ou linguagem a nossa espécie foi muito além da imitação e da
modelação. Além de fazer, passamos a mostrar o que faze
mos, a dizer o que fazemos e o que sentimos ao fazer.
Para finalizar, portanto, duas análises científicas
concomitantes são pertinentes. A primeira díz respeito ao que é
sentido e a segunda, ao relato sobre o que se sente. Em ambas
não podemos nos esquecer que "a singularidade do indivíduo é
incontestável" (Skinner, 1959/1999, p. 17) e determinada pelos
três níveis de variação e seleção do comportamento (Skinner,
1989/2003), responsáveis pelo organismo (o locus da condição
corporal produto da seleção natural), pela pessoa (possível pe
las contingências de reforçamento na interação com o que acon
teceu e acontece) e pelo eu (a referência ao contato com o sen
timento na interação em uma comunidade verbal).
É para estes três níveis que devemos olhar quando
analisamos o sentimento e o sentido. Uma direção mentalista,
por exemplo, geralmente nos incita a mudar as mentes e os
sentimentos dos homens e mulheres, ao invés do mundo no
qual eles vivem. Afinal, é tentador acreditar que não são ar
mas que matam, e sim mentes agressivas (Skinner, 1974/
2003). "A mente é um mito, com todos os poderes dos mitos"
(Skinner, 1980, p.34). O poder da mente é o desejo de mitificá-
la como a origem do comportamento. Um alerta final: "ciência
é a disposição para aceitar fatos, mesmo quando eles se
opõem aos desejos" (Skinner, 1953/2003, p. 12).
Uma conclusão a partir da fonte: referências sobre rela
ções entre contingências de reforçamento e nomeação de
sentimentos nas principais obras de Skinner
1. O que é amor... além de outro nome para o uso de
reforçamento positivo? (Skinner, 1948/1978, p. 282)
2. Na maioria dos casos de medo e raiva, qualquer
resposta que termine a condição excitante aumentará
de freqüência. O reforço pelo término de um estímulo
denomina-se reforço negativo. (Holland & Skinner,
1961/1974, p. 217)
53
3. Quando deixamos de receber um reforço costumeiro
dizemos que estamos frustrados. Estamos relatando
um estado emocional pela perda de um reforço usual.
(Holland & Skinner, 1961/1974, p. 217)
4. Um sinônimo de reforço negativo é estímulo aversivo.
(Holland & Skinner, 1961/1974, p. 218)
5. O 'gozador' usa de um perigoso método de controle,
porque os estímulos aversivos que ele administra podem
ser terminados por suas vítimas com uma espécie de
contra-agressão. (Holland & Skinner, 1961/1974, p. 220)
6. Agressão contra um tirano que usa de controle aversivo
será reforçada se o resultado for uma redução nos
estímulos aversivos que o tirano usa. (Holland &
Skinner, 1961/1974, p. 221)
7. Ansiedade é um nome comum para a predisposição
"em ociona l" gerada por um estím ulo aversivo
incondicionado. A ansiedade é pois gerada por um
estímulo aversivo condicionado. (Holland & Skinner,
1961/1974, p. 225)
8 .0 com portam ento reforçado positivam ente é
participação- ativa na vida, livre de tédio e depressão.
(Skinner, 1969, p. 5)
9. Nós não somos necessariamente felizes porque temos
tudo o que queremos. A palavra saciado está
relacionada à palavra triste. (Skinner, 1969, p.36)
10. Os homens são felizes em um meioambiente no qual
o comportamento ativo, produtivo e criativo é reforçado
de forma efetiva. (Skinner, 1969, p. 64)
11. As contingências de sobrevivência responsáveis pela
herança genética do homem, podem ter produzido
tendências a atuar agressivamente, não sentimentos
de agressão. (Skinner, 1971, p. 14)
12. Quando certo ato é quase sempre reforçado, diz-se
que uma pessoa tem a sensação de confiança. Um
jogador de tênis que pratica uma jogada particular até
'sentir-se confiante'; o fato básico é que a pratica até
certa proporção de suas jogadas serem bem-
sucedidas, O reforço freqüente também suscita fé. Uma
pessoa se sente segura ou certa de que será bem-
sucedida. (Skinner, 1974/2003, p.52-53)
13. O reforço freqüente também origina e mantém o
interesse por aquilo que a pessoa está fazendo.
(Skinner, 1974/2003, p.53)
54
14. Quando não há mais reforço, o comportamento se
extingue e raramente, ou nunca mais, aparece. Diz-se
então que a pessoa sofreu uma perda de confiança,
de certeza, ou de sensação de poder. Em vez disso,
seus sentimentos vão, desde a falta de interesse, o
desapontam ento, o desencorajam ento e uma
sensação de im potência, até uma depressão
possivelmente profunda. (Skinner, 1974/2003, p.53)
15. A frustração é uma condição muito diferente, que
incluía uma tendência, freqüentemente característica de
uma falta de reforço, de atacar o sistema. Assim, o
homem que dá pontapés na máquina de vender
cigarros porque esta não lhos entregou, ou que grita
com a mufher porque ela se esqueceu de comprá-los, o
faz, segundo se diz, em virtude de um sentimento de
frustração. A expressão 'expectativas frustradas' refere-
se especificamente a uma condição produzida pelo
término do reforço habitual. (Skinner, 1974/2003, p.53)
16. Uma pessoa que esteja só pode sentir-se solitária;
a condição essencial é que não há ninguém com quem
ela possa falar ou comportar-se de outra maneira
qualquer. O comportamento da pessoa saudosa do lar,
abandonada, desprezada por quem ama, ou solitária,
é comumente atribuído a sentimentos experimentados
mais do que a ausência de um ambiente familiar.
(Skinner, 1974/2003, p.53-54)
17. Quando a razão entre reforços é favorável, atribui-
se o comportamento comumente a: 1) zelo, diligência
ou ambição; 2.) determinação, obstinação, persistência
ou perseverança; 3) excitação ou entusiasmo; ou 4)-
dedicação ou compulsão. (Skinner, 1974/2003, p.54)
18. ...se um estímulo anteriormente neutro, como uma
campainha, for freqüentemente seguido, após um
intervalo, de um estímulo nocivo, ta! como um choque
elétrico, a campainha acaba por suscitar reações,
principalmente no sistema nervoso autônomo, que são
sentidas como ansiedade. (Skinner, 1974/2003, p.55)
19. Assim, uma pessoa empenhada numa conversa
animada pode começar a falar com menos vigor ou de
forma mais errática, ou pode até parar de falar à
aproxim ação de alguém que a tenha tratado
adversativamente. Por outro lado, seu comportamento
negativamente reforçado pode ser fortalecido, e ela
agir de forma mais compulsiva ou agressiva ou tentar-
se ir embora. (Skinner, 1974/2003, p.55-56)
55
20. Aquilo que uma pessoa sente quando está numa
situação em que foi punida ou quando se empenha num
comportamento que foi previamente punido é coisa que
depende do tipo de punição, o qual por sua vez,
depende freqüentemente do agente ou instituição
punitiva, Se foi punida por seus iguais, diz-se que ela
se sente envergonhada; se foi punida por uma
instituição religiosa, diz-se que se sente pecadora; se
foi punida por um órgão do governo, diz-se que ela se
sente culpada. Se age no sentido de evitar outra
punição, pode moderar a condição sentida como
vergonha, pecado ou culpa, mas não age por causa
dos seus sentimentos ou porque estes se tenham então
modificado; age em virtude das contingências punitivas
às quais foi exposta. (Skinner, 1974/2003, p.56)
21. Em muitas situações familiares, o comportamento tem
tanto conseqüências reforçadoras como punitivas. Se
o com portam ento ainda ocorre, mas de forma
enfraquecida, pode-se dizer que ele revela inibição,
timidez, embaraço, medo ou cautela. Diz-se que a
punição excessiva produz uma deficiência mais crítica
de reforço positivo e torna a pessoa 'mais vulnerável
a uma depressão severa e a desistência. (Skinner,
1974/2003, p.57)
22. Quando o nosso com portam ento é reforçado
positivamente, nós dizemos que gostamos do que
estamos fazendo; dizemos que estamos felizes.
(Skinner, 1978, p.5)
23. O sentimento de liberdade está associado com fazer
as coisas que a pessoa deseja fazer. Mas por que ela
quer fazê-las? (Skinner, 1978, p. 192)
24. Nós descrevemos o efeito interno de um reforçador
quando dizemos que ele 'nos dá prazer' ou faz com
que 'nos sintamos bem' e, nesse sentido, 'Eu te amo'
significa 'você me dá prazer ou me faz sentir bem.
(Skinner, 1989/2003, p. 16)
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56
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Comportamental. (A, L. Néri, Trad.). (4a ed). Campinas: Papirus
Editora. (Trabalho Original Publicado em 1989)
57
Skinner e Terapia
Maly Delitti1
Silvia Groberman2
Escrever sobre este assunto é muito complexo. Em pri
meiro lugar porque Skinner não foi um terapeuta. Foi um ci
entista e um pensador completo e intrigante, cujo modelo
teórico é muito maior e mais abrangente que uma análise
terapêutica ou curativa.
Sua preocupação e sua proposta eram que a Análise
do Comportamento deveria ser utilizada para planejar e
estruturar uma sociedade de modo que os indivíduos pudes
sem viver em contingências mais reforçadoras. A Ciência do
Comportamento deveria ser utilizada com objetivo de pre
venção, mais que de solução de problemas. Nesse sentido, a
Terapia Comportamental não foi a sua proposta principal.
Entretanto, como esta tem se desenvolvido muito e vem
sendo aplicada com sucesso, vale a pena, a partir do que o
próprio Skinner escreveu sobre Terapia, fazer alguns comen
tários. Para tanto, foram selecionados trechos de algumas
de suas obras, como o disposto a seguir.
Há um segundo estágio no processo terapêutico. O
aparecimento do comportamento previamente punido na
presença de uma audiência não-punitiva torna possível a
extinção de alguns efeitos da punição. Esse é o principal
resultado da terapia, Os estímulos automaticamente
gerados pelo próprio comportamento do paciente tornam-
se menos e menos aversivos e com menor probabilidade
de gerar reações emocionais. O paciente sente-se menos
errado, menos culpado ou menos pecador. Como
conseqüência direta é menosprovável que exiba as várias
formas de comportamento operante que, como vimos,
fornecem um meio de fugir desta estimulação autogerada
(Skinner, 1953/2003, p.404).
1 Doutora IPUSP e Profa. da PUC/SP
7 Mestre em Psicologia da Educação PUC/SP,
s No final de cada citação, haverá o número da página na qual se encontra e uma
sigla. Esta sigla refere-se à respectiva obra de B, F. Skinner de onde a citação
foi retirada, sendo: QR: Questões Recentes na Análise do Comportamento;
CCH: Ciência e Comportamento Humano; CV: Comportamento Verbal e SB:
Sobre o Behaviorismo.
59
Na consolidação do vínculo terapêutico, a empatia do
cliente pelo terapeuta é fundamental. Em havendo empatia,
a relação da díade terapêutica é reforçada e o terapeuta
passa a ser modelo para aprendizagem de novos comporta
mentos. Esta aprendizagem inclui a emissão de comporta
mentos que já foram punidos e, devido a este fato, extintos
do repertório do cliente. Cabe ao terapeuta, enquanto audi
ência não-punitiva, criar condições para que o cliente volte a
apresentar tais comportamentos livres de reações emocio
nais e aprenda formas de se comportar em seu ambiente
natural que gerem conseqüências reforçadoras.
O poder inicial do terapeuta como agente controlador se
origina do fato de que a condição do paciente é aversiva
e de que, portanto, qualquer promessa de alívio é
positivamente reforçadora (Skinner, 1953/2003,p.402).
Uma pessoa pode procurar terapia por diversos moti
vos; mas todos eles remetem a situações ligadas a contin
gências aversivas. O início do processo terapêutico em si tam
bém pode ser aversivo ao cliente, como demonstram algumas
verbalizações com as quais o terapeuta pode se deparar no
início da terapia: "Estou aqui porque não sei mais o que fazer,
mas não me sinto à vontade"; "Só vim porque as pessoas a mi
nha volta insistiram muito, mas na verdade não sei direito o por
quê"; "Eu não acredito muito neste negócio de terapia, mas não
tive alternativa"; "Já ouvi falar da terapia e nunca pensei que um
dia iria precisar, mas enfim, aqui estou..."; "Já vou dizendo logo
que estar aqui não me agrada..."; "Conheço pessoas que fazem
terapia e gostam muito, então vim ver o que ela pode fazer por
mim". Nota-se que em todas estas verbalizações existe al
gum grau de aversividade: pode ser em relação à própria te
rapia ou à vida do cliente. Portanto, o terapeuta deve consi
derar que estar na sessão, muitas vezes, não é fácil para o
cliente e que ser uma figura reforçadora no início do processo
terapêutico é fundamental para que o cliente volte outras ve
zes e o vínculo possa ser estabelecido e fortalecido.
O terapeuta usa qual for o poder limitado que
originalmente possui para assegurar-se de que o paciente
continuará a ter contato com ele - que o paciente voltará
para continuar o tratamento. Contudo, à medida que o
tratamento progride seu poder aumenta. Assim como
um sistema social organizado se desenvolve, o terapeuta
se torna uma importante fonte de reforço. Se tem
sucesso em fornecer alívio, o comportamento do
paciente de voltar a ele em busca de auxílio será
reforçado. A aprovação do terapeuta pode vir a ser
especialmente eficiente. (Skinner, 1953/2003,p.402)
Fortalecer o comportamento de voltar para a próxima
sessão é o primeiro desafio que o terapeuta enfrenta com
60
um novo cliente. Isto porque, procurar um terapeuta talvez
não seja tão agradável, já que é sinal de que as coisas não
vão bem e que a pessoa não está dando conta sozinha da
sua vida. Assim, em todos os sentidos, a situação é aversiva.
Partindo deste ponto de vista, o terapeuta precisa ser uma
figura reforçadora e acolher o cliente, principalmente, no iní
cio do processo terapêutico, pelo fato de muitas vezes, o
estar lá já ser aversivo para ele.
Desta forma, reforçar o comportamento do cliente de
retornar na próxima sessão é o objetivo imediato do terapeuta
para que o vínculo possa ser construído gradativamente.
Conforme as palavras de Skinner, "... a aprovação do terapeuta
pode vir a ser especialmente eficiente" uma vez que reforçará
o retorno do cliente à terapia, mesmo quando o assunto abor
dado for aversivo. Percebe-se que o poder de controle do
terapeuta é muito grande e ele deve usar esta variável como
um reforçador positivo para o seu cliente.
Do ponto de vista do paciente, o terapeuta em princípio é
apenas mais um membro de uma sociedade que tem
exercido excessivo controle. É tarefa do terapeuta colocar-
se em situação diferente (Skinner, 1953/2003, p.403).
Um analista do comportamento discordará de uma pes
soa que diga que o indivíduo é totalmente livre para fazer
opções na vida. Isto porque há agências de controle (reli
gião, governo, terapia, etc.) que, como o próprio nome diz,
controlam o comportamento do homem. Para os analistas do
comportamento, o homem é livre na medida em que é capaz
de identificar quais as variáveis que controlam o seu compor
tamento e atuar sobre elas. De certa forma, é autônomo,
mas isto não implica em dizer que é totalmente livre.
Voltando então à citação, pelo fato da psicoterapia ser
uma agência de controle,, é claro que o terapeuta é "... mais
um membro de uma sociedade que tem exercido excessivo con
trole", mas é função do terapeuta, como apontado também
pelo autor, mudar esta concepção que o cliente tem a seu
respeito e se tornar uma figura reforçadora, colocando-se
em "situação diferente". Mais uma vez, percebe-se que o
terapeuta é central para o progresso do processo terapêutico,
e que ser uma figura reforçadora permeia todos os momen
tos da terapia: desde reforçar o cliente a voltar na próxima
sessão, como aumentar cada vez mais o seu poder de con
trole sobre o cliente e, desta forma, consolidar e aprofundar
o vínculo terapêutico.
À medida que o terapeuta gradualmente se estabelece
como uma audiência não-punitiva, o comportamento
que até então foi reprimido começa a aparecer no
repertório do paciente (Skinner, 1953/2003, p.403).
61
Mais uma vez, Skinner refere-se à figura do terapeuta
como sendo fator essencial para o progresso da terapia. Con
forme discutido em citação anterior, o próprio terapeuta é mem
bro pertencente de uma sociedade com excessivo controle e
também figura controladora, já que a psicoterapia não deixa de
ser uma agência de controie. O ponto está em que o terapeuta
deve utilizar o seu poder de controle de uma forma contrária ao
que a sociedade está acostumada; deve atuar como alguém
reforçador e não punitivo, para ser visto como modelo a ser
seguido. Tal fato só aumenta o poder de controle do terapeuta
- no sentido positivo do termo - e o seu valor para o cliente.
Desta forma, o terapeuta se consolida como uma audi
ência não-punitiva e, de acordo com a citação em questão,
” o comportamento que até então foi reprimido começa a apa
recer no repertório do paciente".
O paciente também pode começar a descrever
tendências atuais para se comportar de modo punível
(Skinner, 1953/2003, p.403).
Uma vez que o terapeuta passa a ser considerado pelo
cliente como uma audiência não punitiva, surge a oportunida
de do cliente se comportar de modo punível. Isto quer dizer
que o cliente passa a emitir comportamentos que, em ambien
te natural, seriam ou já foram punidos. Levando em conta o
caráter planejado da terapia, o terapeuta deve arranjar con
tingências para que esses comportamentos passíveis de pu
nição em ambiente natural sejam emitidos na sessão, para
que possam ser discutidos com o cliente, e formas mais
adaptativas sejam ensinadas. O objetivo da terapia, neste
caso, é ensinar ao cliente comportamentos alternativos que
possam ser emitidos em contingências similares, de modo que
o cliente seja reforçado, e não punido, por apresentá-los.
Se, em face desse comportamento, o terapeuta tiver
sucesso na manutenção de sua posição como não
punidor, o processo de redução do efeito da punição
se acelera (Skinner, 1953/2003, p.403).
É de se esperar que, com o progresso do processoterapêutico, o valor reforçador da figura do terapeuta au
mente e, desta forma, generalize-se para tudo o que diz res
peito à terapia. Assim, o cliente passa a encarar as sessões
de terapia como um local relativamente "livre" de punições,
no qual pode se comportar da maneira que julgar adequada,
sem sofrer maiores conseqüências aversivas. É claro que o
terapeuta irá trabalhar com o cliente a noção de limites, sen
do esta noção determinada diretamente pelas conseqüênci
as dos seus próprios comportamentos. Tal fato remete à im
portância do processo de discriminação, isto é, o ciiente sa
ber discriminar em que situação pode ou não emitir determi
nado comportamento e qual será a sua conseqüência.
62
Portanto, se o terapeuta conseguir se manter como
uma audiência não-punitiva e gradativamente solidificar o vín
culo com o cliente, cada vez mais ele se sentirá à vontade
para emitir comportamentos antes reprimidos em^ambiente
natural. Dito de outra forma, os comportamentos aprendidos
na sessão de terapia, que foram anteriormente punidos, po
dem, a partir de uma adequada análise funcional, ser nova
mente emitidos pelo cliente em seu cotidiano e, assim, pas
sar a fazer parte de novas contingências.
Se, contudo, o terapeuta se torna crítico, ou pune de
outra forma, ou ameaça punir, ou se o comportamento
previamente punido começa a ser emitido muito
rapidamente, o processo pode cessar repentinamente.
A condição aversiva que se origina para reverter a
tendência algumas vezes se denomina resistência
(Skinner, 1953/2003, p.404).
A relação terapêutica é central para o andamento da
terapia. Nesta relação, a figura do terapeuta como estímulo
discriminativo para possíveis respostas que, se emitidas, se
rão provavelmente reforçadas, é importante para que 0 cli
ente possa apresentar comportamentos que, em outros am
bientes, já foram ou seriam punidos. Neste sentido, o
terapeuta está associado a reforçadores positivos. Contudo,
se o terapeuta se constitui numa figura punitiva, apresen
tando comportamentos de crítica e desaprovação, é associa
do à condições aversivas e torna-se sinalizador de eventos
passíveis de punição.
Assim, ser uma audiência não-punitiva e possibilitar a
emissão de comportamentos que já foram punidos em ambi
ente natural, é o segredo para o sucesso da terapia; caso
contrário, de acordo com Skinner, "o processo pode cessar re
pentinamente", gerando a "resistência", que implica na que
bra do vínculo terapêutico e, conseqüentemente, o término
da terapia.
O objetivo da psicoterapia em geral é encarado como
a liberação do comportamento reprimido e, por isso,
perturbador - de certa forma, há uma analogia com a
tarefa da remoção de um tumor, de drenagem de um
ferimento infectado ou da administração de um laxante
(Skinner, 1957/1978, p.477).
O cliente que procura terapia está passando por mo
mentos aversivos em sua vida. Para se "curar" deste "qua
dro" procura a ajuda de um profissional, que na sua concep
ção, poderá fornecer alívio imediato ao indicar formas de com
bater as situações que causam desconforto. Neste sentido, o
terapeuta pode ser comparado a um médico que tem como
tarefa remover o tumor de um paciente e melhorar as suas
63
condições de saúde. O paciente procura o médico para se "li
vrar" de algo que pode comprometer o seu estado físico; o
cliente procura o terapeuta para se "libertar" de algo que, em
princípio, é aversivo e não está sendo funcional na sua vida.
Ambos buscam no profissional apoio e esperança de melhora
na sua condição de vida atual. Conforme a citação do autor,
cabe ao terapeuta criar condições para que o cliente possa
liberar os comportamentos reprimidos, sendo necessário para
tanto, um ambiente acolhedor, livre de punições.
Novamente, fica evidente que a figura do terapeuta
como audiência não-punitiva, é uma variável importante para
o bom andamento da terapia.
A psicoterapia é particularmente importante quando as
contingências responsáveis por um informe verbal são
tão poderosas que a própria pessoa não sabe que "está
com medo". O terapeuta "a auxilia a descobrir seu
temor". Quando ela age corajosamente embora sentindo
medo, é o tipo de pessoa que é nesse momento. Não
precisamos presumir que haja uma pessoa temerosa
emboscada nas profundezas (Skinner, 1974/2003, p.403)
Na terapia, o cliente aprende a identificar que seus
medos e problemas são o resultado de sua história de apren
dizagem e não de uma entidade ou de uma personalidade
ou caráter interior, além de aprender outra forma de
experienciar seus temores e enfrentá-los.
O psicoterapeuta que tenta levar seu paciente a
compreender-se está presumivelmente salientando
relações causais de que este ainda não havia tomado
consciência (Skinner, 1974/2003, p.150).
Na situação de terapia o terapeuta cria condições para
que o cliente discrimine sob que contingências deve atuar para
chegar a mudar os padrões que considera inadequados para
sua vida. A terapia consiste não em dar a solução pronta para
o cliente, mas em mudá-lo de modo que ele seja capaz de des
cobrir qual é a solução. Neste caso, pode-se relacionar o en
contrar a solução de seu problema ao aprender por contingên
cias como mais efetivo do que aprender sob controle de regras.
Supõe-se amiúde que a terapia do comportamento é
exclusivamente uma questão de idear contingências
reforçadoras, mas ela também inclui, de forma bastante
apropriada, dar ao paciente avisos, conselhos, instruções
e regras a serem seguidas (Skinner, 1974/2003, p. 150).
Uma das tarefas importantes do terapeuta é criar con
dições para que o cliente entre em contato com as contin
gências de sua vida cotidiana e, a partir delas, formule suas
próprias regas. A regra básica que o terapeuta ensina ao
seu cliente é "dê uma chance às contingências".
64
A psicoterapia é, freqüentemente, um espaço para
aumentar a auto-observação, para "trazer à
consciência" uma parcela maior daquilo que é feito e
das razões pelas quais as coisas são feitas. Tanto na
psicoterapia como na literatura, a a-nálise da
personalidade é freqüentemente denominada "busca
do eu verdadeiro". Quando o comportamento é punido,
em geral ele é escondido, tanto da própria como de
outras pessoas. Nesse caso, "verdadeiro" pode
significar "primitivo", porque o que é sentido é devido
tanto à seleção natural como às contingências
reforça do ras - comida, sexo e agressão - similares às
que devem ter desempenhado um papel predominante
na seleção natural (Skinner, 1989/2003, p.46-47).
O cliente procura a terapia por vivenciar alguma situa
ção aversiva em sua vida e por não dar conta de resolvê-la
sozinho. Assim, espera que o terapeuta possa lhe fornecer
meios para lidar com a situação e, assim, ter uma qualidade
de vida melhor.
Partindo desta concepção, a terapia tem como objeti
vo ensinar ao cliente comportamentos que sejam adaptativos
às contingências de sua vida. Para tanto, torna-se necessá
rio iniciar esta aprendizagem pela auto-observação, com a
qual o cliente aprende a identificar as variáveis que contro
lam o seu comportamento. Neste sentido, a auto-observa-
ção é o passo iniciai para uma mudança no comportamento.
A partir do momento que o cliente está apto a se auto-obser-
var e identificar o que o controla, pode descrever a contin
gência em questão e verificar o que não está adequado; a
mudança é a etapa seguinte.
Assim, quando Skinner se refere à psicoterapia como
sendo um espaço para aumentar a auto-observação e trazer
à consciência o porquê de as coisas serem feitas, em outras
palavras, ele quer dizer que a terapia é um lugar para o cli
ente aprender a discriminar as variáveis que o controlam e,
desta forma, mudar o que julgar não ser ideal. Dito de outra
forma, o cliente aprende a fazer a análise funcional das con
tingências que vivência no cotidiano.
Os psicoterapeutas devem falar com seus clientes e, com
raras exceções, fazem-no na linguagem cotidiana, que é
fortemente marcada por referênciasa causas internas -
"Eu comi porque estava com forne", "Fiz isso porque sabia
como", e assim por diante (Skinner, 1974/2003, p. 150).
Se o terapeuta deve ser uma figura reforçadora para o
cliente, de certa forma, atua como modelo para a aprendiza
gem de novos comportamentos. No contexto de terapia, mo
delo significa uma pessoa que tem prestígio e valor para o
cliente e que, portanto, seus comportamentos poderão ser
65
seguidos e/ou imitados. Partindo deste ponto de vista, o
terapeuta deve analisar detalhadamente os comportamen
tos a serem emitidos, levando sempre em consideração o
objetivo-alvo. O terapeuta começa falando na linguagem do
cotidiano do cliente para favorecer a formação de um vínculo
e, gradualmente, vai modificando sua linguagem. Uma carac
terística da terapia comportamenta! é seu aspecto didático
ou pedagógico, como na seguinte interação verbal:
Quando o cliente diz: "Meu jeito de ser tímido é porque
na família todos são assim também...
O terapeuta pode responder: "O seu jeito de ser, isto é
o seu comportamento, foi aprendido ao longo de sua vida, na
relação com a sua família e eles devem mesmo ter comporta-
mentos como o seu".
"Tanto na instrução quanto na psicoterap ia , os
reforçadores correntes (com freqüência planejados)
são arranjados para fortalecer o comportamento que
o estudante e o cliente acharão útil" (p.97, QR).
Skinner (1968/1972) define o ensino como "um arranjo
de contingências sob as quais os alunos aprendem" (p.72). Ar
ranjar contingências, nesta perspectiva, significa planejar, pro
gramar atividades. Relacionar ensino apenas à educação for
mal é mero engano, uma vez que a terapia também tem um
caráter de ensino-aprendizagem, em que o terapeuta é o
professor e o aluno é o cliente. Assim, o sentido dado por
Skinner ao ensino relacionado à educação formal cabe à te
rapia, e deste modo, o terapeuta deve arranjar contingênci
as para promover a aprendizagem do seu cliente e o apare
cimento de comportamentos, que em ambiente natural, de
morariam a ocorrer ou não seriam adquiridos. Ao planejar, o
terapeuta deve identificar quais comportamentos devem ser
estabelecidos e com que respostas é possível contar, ou seja,
o repertório comportamental do seu cliente. Neste sentido,
conhecer o cliente é fundamental no processo terapêutico,
bem como definir os objetivos da terapia.
Observa-se nas diferentes citações de Skinner alguns
aspectos constantes: a situação terapêutica como aquela em
que há uma audiência não punitiva, o terapeuta como modelo
e fonte de reforçadores sociais, a possibilidade de aprendiza
gem de novos padrões de comportamento. Na realidade, a
Terapia Comportamental tem a característica de, justamente
por ser baseada nos princípios de aprendizagem propostos
por Skinner, ser uma terapia baseada não no mistério, na es
peculação ou em teorias mentalistas, mas em dados objetivos
e empíricos, em hipóteses testadas; isto é, na ciência.
66
Referências
Skinner, B. F. (2003) Ciência e Comportamento Humano. (J. C.
Todorov & R. Azzi, Trad.) 11a ed. São Paulo: Martins Fontes.
(Trabalho original publicado em 1953).
Skinner, B. F. (1978) O Comportamento Verbal. (M. P. Villalobos,
Trad.) São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em 1957).
Skinner, B. F. (1972) Tecnologia do Ensino. (R. Azzi, Trad.) São
Paulo, SP: Editora EPU. (Trabalho original publicado em 1968).
Skinner, B. F. (1974) Sobre o Behaviorismo. (M. P. Villalobos,
Trad.) (8a ed). São Paulo: Cultrix. (Trabalho original publicado em
1964).
Skinner, B. F. (2003) Questões Recentes na Análise
Comportamental. (A. L. Néri, Trad,). (4a ed.) Campinas: Papirus
Editora. (Trabalho original publicado em 1989).
67
ABSTRAÇÃO, METÁFORA, SONHO E
INCONSCIENTE: UMA
INTERPRETAÇÃO SKINNERIÂNA 1
Elizeu Batista Borloti2
Em 1979, Chico Buarque lançou a música "Não Sonho
Mais" que conta a história de uma mulher que sonhou que o
seu amor, o homem da sua vida, era perseguido por pessoas
humilhadas e flageladas e todas elas tinham um bom motivo
para esfolá-io. Na perseguição, o homem foi rendido, chorou
e pediu piedade e, sem receber comiseração, foi sacrificado.
Ao relatar o que sentiu ao observar de longe essa cena, ela
disse: "Olha que maldade. Me deu vontade de gargalhar". Como
se não bastasse, ela entrou na cena, escarrou na carniça
que restou do seu amor e sentiu que "tinha justiça nesse
escarrar". Ao final da vingança, da matença, todos cantaram.
Foi um "sonho medonho" que a deixou "aflita"; um sonho que
ela "quis sufocar".
É possível inferir muitos aspectos da interação entre a
sonhadora da arte do Chico e o homem que é amor da vida
dela. Seu sonho pode ser facilmente interpretado a partir de
contingências que imaginamos estar agindo na configuração
do tipo de relação entre ambos e dos sentimentos produzi
dos nessas contingências: humilhação, raiva, medo, aflição,
sufoco, culpa, prazer. Na ficção está claro que há conflitos de
sentimentos (culpa versus "realização de um desejo"). Cer
tamente, algumas das histórias contadas por nossos clien
tes confirmam que a vida imita a arte; e vice-versa.
Um cliente que busca ajuda de um psicólogo clínico, psi
canalista ou psicoterapeuta visa o alívio de atgum sofrimento
(Detitti, 1997; Baptistussi, 2000; Costa, 2003; e veja o texto de
1 Adaptação da palestra "O que o behaviorismo radical tem a dizer sobre
inconsciente e sonho" proferida no Evento Comemorativo do Centenário de
Nascimento de B. F. Skinner, promovido pelo Núcleo de Análise Com porta mental
do Espírito Santo - NACES - nos dias 19 e 20 de março de 2004.
2 Doutor em Psicologia pela PUC-SP, Especialista em Terapia Comportamental
e Cognitiva pela USP e em Terapia Comportamental de Grupos pela PUC-SP.
Professor Pesquisador da Universidade Federal do Espirito Santo e do Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da mesma Universidade. Membro fundador
do NACES. E-mail: borloti@hotmail.conn
69
Delitti e Goberman nesta coletânea). Geralmente o comporta
mento de procurar ajuda é mantido por contingências aversivas
que se incluem na causaçao múltipla das dificuldades enfrenta
das pelo cliente e é reforçado negativamente, em princípio, pela
promessa de alívio advinda do prestígio do terapeuta (Skinner,
1978). Se considerarmos que o reforço negativo que mantém a
busca só opera após algum comportamento ter sido submetido
à punição - e que o comportamento que levou à punição foi
emitido sob controle de alguma conseqüência reforçadora
(Sidman, 1995) - então, o comportamento do cliente que o
leva a buscar o alívio será acompanhado dos lamentáveis
subprodutos da punição, aos quais o terapeuta invariavelmen
te deverá ter uma "escuta diferenciada".
Em termos práticos, o terapeuta deverá discriminar um
conflito entre a resposta que leva à punição e a resposta que a
evita. Segundo Skinner (1953/1978), ambas são incompatí
veis e, mesmo que sejam fortes - no sentido de terem proba
bilidades equivalentes de emissão - a resposta que evita a
punição tem pouca vantagem sobre a resposta que leva à
punição. O analista comportamental deverá, nesse caso, bus
car aquilo que no senso comum se chamaria de um "conflito
de motivos", discriminando as vantagens de uma resposta so
bre a outra (em termos do senso comum, entender "conflito
de motivos" significa avaliar a probabilidade de emissão de
respostas que traduziriam um "desejo" em detrimento da pro
babilidade de emissão das respostas que lhe são antagôni
cas). Tal conflito não está em uma luta travada em uma arena
interna na mente; ao contrário, do ponto de vista do
behaviorismo radical, "devemos supor que o conflito está en
tre as respostas e que qualquer 'luta' se refletirá no comporta
mento" (p. 211, itálicos no original). Assim, será possível ouvir
relatos de contingências (ou observá-las diretamente) que
denunciarão conflitos entre o "querer", o "dever" e o "poder",
refletidos na experiência do "eu" do cliente (Kohlenberg & Tsai,
1991/2001). Assim, o terapeutapode escutar o "grito de aler
ta" do cliente, discriminando o que foi muito bem posto poeti
camente por Gonzaguinha: "Tem um lado carente dizendo que
sim, e essa vida da gente gritando que não".
Mais ainda: o terapeuta e o cliente deverão discriminar
emoções (medo, ansiedader "angústia", raiva e frustração)
evocadas pela força da probabilidade de emissão da resposta que
leva à punição. Como dito, a probabilidade de emissão do com
portamento punido continua forte e, mesmo que a resposta
que evita a punição seja bem sucedida, a força da resposta
que leva à punição alcança estágios de incipiência, gerando
a estimulação aversiva condicionada típica de uma "angús
tia". "Além disso, o comportamento incompatível que bloqueia
a resposta punida pode assemelhar-se à restrição física ex-
70
terna ao gerar raiva ou frustração" (Skinner, 1953/1978: p.
187); "São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo, arra
sando aos poucos o nosso ideal. São frases perdidas num mun
do de gritos e gestos, num jogo de culpa que faz tanto mal."
Obviamente que esses processos, na maioria das ve
zes, são inconscientes. Eles podem ser vistos como parte da
subjetividade do cliente que, com Skinner (1945), foi concei
tuada de forma criativa e inovadora: o mundo privado tem a
mesma natureza do público e a única característica que os
difere é que o primeiro é experimentado apenas pelo próprio
sujeito (e isto traz questões adicionais, algumas discutidas
adiante). Assim, perceber, sentir, sonhar, interpretar, intuir,
"metáfora", "pensamento analógico", "abstração", atos fa
lhos e tantos outros processos comportamentais ou "rela
ções de controle [do comportamento] ou mudança de proba
bilidade, resultantes de alterações em tais relações" (Skinner,
1957, p. 438) foram alvo de análises extensivas e complexas
na obra de Skinner.
O objetivo deste texto é discutir a perspectiva do
behaviorismo radical sobre o inconsciente, os sonhos e as re
lações entre ambos. Parte desta tarefa foi feita pelo autor em
um outro trabalho (Borloti, 2001), e ela continua sendo difícil,
uma vez que é impossível falar do insconsciente e dos sonhos
sem falar do comportamento verbal (envolvido na abstração,
na metáfora e na formação do símbolo) e da interação das
variáveis que explicam esses processos (Skinner, 1957; 1953/
1978; 1974/1982). Portanto, a discussão a seguir retoma ques
tões básicas e as articula com os processos verbais envolvi
dos nos comportamentos de sonhar e relatar sonhos.
O In co n s cien te
Diz-se com freqüência, particularmente os
psicanalistas, que o behaviorismo não pode faiar do
inconsciente. O fato é que, para começar, ele não se
avém com outra coisa (Skinner, 1974/1982, p. 133)
O comportamento humano complexo é multideterminado,
ou seja, diferentes variáveis em interação explicam o modo
como nos comportamos (Skinner, 1957, 1953/1978). No con
sultório clínico, na vida diária ou em qualquer outro contexto,
essas variáveis atuam sobre o comportamento do cliente, quer
ele fale sobre elas quer não; quer consiga falar sobre elas
quer não. Em qualquer situação, o comportamento é adquiri
do e mantido sob contingências de reforçamento, mesmo quan
do o cliente não está consciente delas. Esse comportamento
"não dito" ou "mal dito" é importante (e emitido com muita
freqüência) nas sessões de terapia comportamental uma vez
que "a maior parte do nosso comportamento não é essenciat-
71
mente racional" (Skinner, 1989/1991, p. 50). Kohlenberg &Tsai
(2001) reafirmam que o reforça mento não é um processo cons
ciente e que muitos dos nossos comportamentos foram mo
deladas antes mesmo da aquisição da fala.
Embora uma experiência consciente de prazer possa
acompanhar frequentemente uma contingência que
envolve o reforço positivo, ela não é uma parte
necessária da modelagem e do processo de
fortalecimento e não deveria ser confundida com isso.
Quase todo o nosso comportamento (...) ocorre por
causa dos efeitos fortalecedores do reforço, e esses
comportamentos foram fortalecidos, na maior parte
das vezes, sem a nossa consciência do processo"
(Kohlemberg & Tsai, 1991/2001, pp. 114-115).
A tarefa do terapeuta analítico-comportamental é, por
tanto, "trazer à consciência" o máximo do que o cliente faz e
o máximo das variáveis que controlam esse fazer (Skinner,
1989/1991). É importante que o comportamento reforçado
anteriormente na história de interações do cliente ocorra de
forma inconsciente na sessão para que seja trabalhado uma
vez que o comportamento reforçado é mudado pela experi
ência e não apenas por meio de "conversas sobre as contin
gências" (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001, p. 128). Na terapia
analítico-comportamental, portanto, o inconsciente é a regra
e o consciente é a exceção3. Dessa forma, uma análise do
comportamento, por ser uma análise das relações comporta-
mento-contexto, ou de relações de contingência, é uma "aná
lise do inconsciente" no sentido em que
Todo comportamento, efetivo ou não, é essencialmente
não racional no sentido de que as contingências
responsáveis por ele não foram analisadas. Todo
comportamento é em princípio, inconsciente, mas pode
tornar-se consciente sem se tornar racional: [um
cliente] pode saber o que está fazendo sem saber porque
o está fazendo (Skinner, 1974/1982, p. 114).
O CONTROLE DO "NÃO SABER" DO CLIENTE
Skinner (1953/1978, 1957) analisou algumas variáveis que
podem suprimir comportamentos ou atuar na causação múltipla
típica de certos fenômenos comporta mentais interessantes tais
3 Antes de prosseguir é importante esclarecer que o behaviorismo radical não
fala de uma coisa, de um substantivo com tetra maiúscula, chamado "O
Inconsciente". Não existe aJgo chamado "Inconsciente". O cliente é que é
inconsciente; não o seu comportamento. Ele se torna consciente quando o
ambiente verbal da terapia (ou outro ambiente verb2 l qualquer) fornece
contingências para a auto-observação de sentimentos ("O que você está
sentindo agora?"), de intenções ("O que você gostaria de fazer?"), de razões
("Por que você está agindo assim?”), de controle aversivo ("O que o impede de
mandar tudo para o inferno?") e asim por diante (Skinner 1989/1991, p. 88).
72
como atos falhos, fantasias, criatividade, humor, metáfora e so
nhos. Esses controles foram sintetizados por Chandra (1976) e
a maioria deles está relacionada a um controle aversivo do com
portamento, o que tradicionalmente poderia ser chamado de
"repressão", um processo que invariavelmente acompanha a
punição. Quando uma resposta existe com uma certa força no
repertório do cliente mas é impedida de ser emitida em função
de punições ao longo da sua história de vida, a punição fortalece
uma resposta incompatível. Desta forma, "A resposta 'reprimida'
continua com uma certa força; sua probabilidade não é reduzi
da" (Chandra, 1976, p. 59) e isso fortalece a emissão de com
portamentos incompatíveis com o comportamento passível de
punição, mas que produzem reforçadores semelhantes. Em ou
tras palavras de Skinner (1953/1978, p. 181), "o fato de que a
punição não reduz permanentemente uma tendência para res
ponder está de acordo com a descoberta de Freud sobre a ativi
dade sobrevivente do que chamou de desejos reprimidos". Sa
ber isso é importante, e o terapeuta deve possibilitar as contin
gências necessárias ao autoconhecimento que está faltando no
repertório do cliente: "Não quero a razão, pois eu sei o quanto
estou errado, e o quanto já fiz destruir..."
A consideração da punição é importante na análise da
ausência de autoconhecimento mas esse repertório pode es
tar faltando por outras razões. Um exemplo seria quando a
estimulação produzida pelo comportamento é fraca ao ponto
de gerar uma resposta verbal discriminativa, mesmo quando
uma forte resposta emocional é eliciada pela mesma situação.
Chandra (1976) cita como exemplo o caso em que um rosto
numa multidão elicia-nos uma reação emocional sem que te
nhamos consciência da fonte de controle da emoção.Também
na chamada "amnésia da infância" um limitado repertório ver
bal à época impede a formação da consciência (ou de compor
tamento verbal discriminativo). A criança precisa aprender a
responder de um modo que aumenta a probabilidade de que,
no futuro, responda "lembrando" do passado.
Quando o "não saber" aparece como uma questão clini
camente relevante (Kolemberg & Tsai, 1991/2001) é preciso
conduzir o trabalho da terapia com contingências verbais pro
pícias à construção do autoconhecimento que está faltando. A
construção dessas contingências verbais fica mais facilitada
quando se considera as três situações nas o quais
autoconhecimento está ausente (Skinner, 1953/1978).
P rim e ira s ituação : o c l ie n t e p o d e n ã o s a b e r q u e s e
COMPORTOU DE DETERMINADA MANEIRA
Nesse caso, também, contingências punitivas passadas
podem estar impedindo uma resposta verbal discriminativa no
presente, e isto envolve processos operantes e respondentes.
73
Como nem sempre a punição está ou esteve envolvida, é pre
ciso diferenciar as seguintes condições:
a) se as contingências não verbais formaram uma his
tória única sem nenhuma contingência verbal discriminativa;
b) se respostas verbais foram fortalecidas no passa
do, no momento de emissão do comportamento, mas não
foram emitidas e reforçadas posteriormente (nesse caso as
lembranças podem ser vagas: "a única lembrança que tenho
da casa dos meus pais é..."); e,
c) se respostas condicionadas (visuais ou emocionais,
por exemplo) foram associadas com eventos passados (nes
se caso elas podem estar sendo evocadas no presente e
podem exercer controle verbal discriminativo se respostas
verbais relevantes tornarem-se disponíveis no repertório do
cliente a partir das perguntas do terapeuta: "Então, quando
viu essa cena no supermercado você lembrou de quando viu
seus pais discutindo. O que você sentiu?").
Segundo Chandra (1976), os processos envolvidos nes
sas situações podem estar relacionados aos "desejos e memó
rias inconscientes" sob certos controles operantes e
respondentes. Do ponto de vista do behaviorismo radical, 'de
sejo' é simplesmente um modo de representar uma certa pro
babilidade de emissão de uma dada resposta (Skinner, 1953/
1978). Então, um "desejo inconsciente" existe porque existe
um comportamento possível de ser emitido a partir de um certo
estado de força e para o qual o cliente ainda não responde com
comportamento verbal discriminativo. Um desejo só se toma
"reprimido" quando há controle punitivo do comportamento re
lacionado; e deixa de ser quando as razões da não emissão
ficam sob controle de contingências verbais e a própria respos
ta tem oportunidade de emissão: "Só sinto no a ro momento em
que o copo está cheio e que já não dá mais pra engolir..."
Processo semelhante ocorre com as relações de con
trole que definem a "memória inconsciente":
Ao analisar as 'memórias inconscientes', primeiro
destacamos que uma 'memória' é um comportamento
discriminativo que pode ser verbal ou não-verbal (por
exemplo, visual). Quando esse comportamento, por
sua vez, torna-se estímulo discriminativo para uma
(possivelmente encoberta) resposta verbal, temos um
caso de memória 'consciente' (não estamos apenas
lembrando; estamos conscientes de que nós estamos
lembrando). Quando essa segunda resposta está
faltando, temos o caso de uma 'memória inconsciente'.
Novamente podemos distinguir vários casos,
dependendo do envolvimento da punição na falta da
resposta verbal discriminativa. Uma 'memória
inconsciente' (por exemplo, uma resposta discriminativa
visual inconsciente) pode evocar respostas não-verbais
74
(por exemplo, respostas emocionais) sem gerar
consciência. (Chandra, 1976, p. 61).
É importante relacionar o comportamento discriminativo
"memória" aos achados das pesquisas fisiológicas aserca da
memória e de suas relações com os sonhos. Sabe-se, por
exemplo, que a memória só funciona depois de cinco minutos
de vigília. Isto estaria relacionado ao "não lembrar" dos so
nhos, por exemplo, uma vez que tal recordação está direta
mente vinculada a um despertar prolongado durante o sono
(Araújo, Oliveira, Piccoloto, Magrinelli e Szupszynski, 2004).
Segunda situação: o c lie n te p o d e n ã o sa b er q u e está
SE COMPORTANDO DE DETERMINADA MANEIRA
A falta de discriminação da emissão de um membro de
uma classe de respostas durante uma sessão de terapia
comportamenta! tem sido analisada como um comportamen
to clinicamente relevante (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001).
Um cliente pode se sentir ameaçado ou protegido, ou pode
odiar o terapeuta durante uma sessão porque discrimina no
comportamento do terapeuta certas propriedades do com
portamento de outras pessoas de sua história ambiental.
Esse comportar-se inconscientemente tem sido chamado de
transferência e ocorre por processos de generalização (cuja
etimologia está ligada a transfer, segundo Kohlenberg & Tsai
1991/2001).
Falta de contingências verbais apropriadas, emissão de
um outro comportamento concorrente, estimulação inadequa
da do comportamento e certas condições bio-químicas (inclu
indo a ação de drogas) também reduzem a probabilidade de
respostas verbais discriminativas do cliente em relação ao
que faz. Isto diz respeito ao nível de autoconhecimento do
cliente (nesses casos, o terapeuta deve pontuar o impacto
do comportamento do cliente: "sinto como se estivesse cha
mando você do fundo de um poço e você não responde",
"Vamos falar sobre a relação entre esta sua dificuldade com
os seus empregados e o modo como está agindo agora dian
te de mim?").
Entretanto, a falta de consciência do comportamento
no aqui-e~agora devido à punição - que permite a inferência
de processos de "repressão" ou "en couraça mento" - é o
que tem chamado mais a atenção na atividade clínica que
prioriza a associação livre das memórias ou a experimenta
ção do como o corpo do cliente vivência hoje os efeitos da
sua história. Do mesmo modo, a explicação para a ausência
do autoconhecimento deverá ser uma análise funcional do
comportamento do qual se infere a "repressão". Novamente,
75
a própria resposta deve ter a oportunidade de emissão como
parte do processo da terapia analítico-comportamental. Não
basta apenas "conversar sobre as contingências".
T e rce ira s ituação : O c l ie n t e p o d e n ã o s a b e r q u e v a i
SE COMPORTAR OU QUE TENDE A SE COMPORTAR DE
DETERMINADA MANEIRA
Este "não saber" pode advir de tipos diferentes de fon
tes de controle. O cliente pode estar respondendo à proba
bilidade de emissão de um certo tipo de comportamento ou
pode estar respondendo a um outro comportamento ou à
contingências que, no passado, desempenharam um papel
importante na constituição de sua subjetividade. {"...Então
eu me rasgo, engasgo, engulo, reflito e estendo a mão.,r). De
fato, a noção de probabilidade de emissão de uma resposta
é importante, porém difícil de ser compeendida, pois envolve
os processos de condicionamento operante associados à
motivação e emoção (Skinner, 1957) atuando de forma com
binada na consciência que o cliente tem das circunstâncias
que vivência corporalmente.
Nessa condição, também, os efeitos de punição podem
afetar o autoconhecimento do cliente e só podemos falar em
"repressão" das respostas à probabilidade de se comportar
quando contingências coercitivas atuaram reforçando negati
vamente o "não saber" como resposta de esquiva do "saber".
Nesse caso, um comportamento competitivo pode se tornar
poderoso ao evitar a estimulação aversiva gerada pelo "sa
ber". O behaviorismo radical explica o processo desta maneira:
(...) a punição torna aversivos os estímulos gerados
pelo comportamento punido. Qualquer comportamento
que reduza aqueia estimulação é, em conseqüência,
automaticamente reforçado. Agora, entre os tipos de
comportamento com maior probabilidade de gerar
estímulos aversivos condicionados como resultado de
punição está o comportamento deobservar o ato
punido ou de observar a acasião para o ato ou qualquer
tendência de executá-lo. Como resultado da punição
não apenas nos empenhamos em outros
comportamentos que excluam as formas punidas, mas
empenhamo-nos também em comportamentos que
excluem o tomar conhecimento do comportamento
punido [...]. Isto pode começar simplesmente como
'não gostar de pensar sobre'o comportamento que
levou a conseqüências aversivas. Pode depois passar
ao estágio de não pensar sobre ele e finalmente
alcançar o ponto no qual o indivíduo nega ter se
comportado de uma dada forma, mesmo com provas
do contrário. (Skinner, 1953/1978, p. 278).
76
Q u a rta s itu ação : o c l ie n t e p o d e n ã o s a b e r q u a is s ã o
a s v a r iá v e is c o n t r o la d o r a s d o s e u c o m p o r t a m e n t o
Skinner (19531978) destacou este interessante efeito
da ausência de contingências verbais apropriadas, enfatizando
o papel das contingências coercitivas neste tipo de "não sa
ber":
Talvez seja mais comum o falante responder a seu
próprio comportamento do que às variáveis que o
controlam. A relação com as variáveis de controle pode
ser tênue ou obscura, ou ainda não percebida, porque
a punição recebida foi contingente. Alguém acostumado
a explicar o próprio comportamento pode expressar
sua confusão dizendo Não compreendo o que me levou
a dizer tal coisa. Mais frequentemente, entretanto, não
sente necessidade de nenhuma explicação. Muitos
lapsos freudianos envolvem o fracasso em perceber
mais a variável controladora do que o próprio
comportamento. (Skinner, 1957, p.386).
"Não quero a razão, pois eu seu o quanto estou errado".
O interesse nessa condição de ausência de autoconhecimento
está no fato de o cliente, algumas vezes, descrever "razões"
para um comportamento (ou inventar variáveis controladoras
ou, em termos mentalistas, "racionalizar"): "O relato aversivo
de uma relação funcionai pode ser reprimido por meio da co
municação de uma relação fictícia. Ao invés de 'recusar o co
nhecimento' das causas do nosso comportamento, inventa
mos causas aceitáveis" (Skinner, 1969/1980, p. 279).
No caso da linguagem usada na racionalização, Skinner
(1957) chamou atenção para alguns processos com porta menta is
que parecem "empurrar" ou "liberar" outras respostas verbais.
O que usualmente acontece é que uma resposta
incompatível desloca [displaces] uma resposta punida,
sendo o efeito claro da punição o de proporcionar o
reforço de formas incompatíveis de resposta. Esse
princípio é algumas vezes usado para explicar a força
do comportamento verbal para o qual não há outra
explicação: o comportamento é forte porque ele
desloca respostas puníveis. Essa é a explicação do
paciente que na terapia fala excessivamente de um
assunto para não falar de outro (...) (p. 379).
Claro está que a análise do comportamento focaliza as
variáveis controladoras do comportamento do cliente, que
são todas inconscientes pois não são observadas. Proces
sos de controle sem consciência podem estar presentes na
ausência de autoconhecimento, conforme discutido, e podem
ser inferidos da dificuldade em analisar os controles operan
do sobre comportamentos sob efeito de variáveis múltiplas,
77
tais como humor, fantasia, literatura e artes em geral, e so
nhos (veja, por exemplo, as explicações de Skinner sobre
lapsos verbais, humor verbal e criatividade literária, Skinner,
1957, ou sobre "mecanismos de defesa", Skinner, 1974/1982).
No caso dos atos falhos, por exemplo, Skinner (1957)
analisou os efeitos da punição na causação múltipla dos mes
mos (p. 235, por exemplo) e foi categórico em afirmar que
fontes suplementares de força também podem controlar a
emissão desses processos verbais que, acredita-se, sejam
"reveladoras do inconscente". Entretanto, há outras explica
ções, uma vez há uma multideterminação. No caso dos lap
sos auditivos, por exemplo, "o próprio estímulo pode não ser
claro, o ouvinte pode ter dificuldade para ouvir, (...) e assim
por diante. É comum ouvir-se mal um estímulo verbal" (Skinner,
1957, p.259), especialmente na velhice. Em outros casos, o
ouvir poderá estar sob controle de variáveis mais eficazes
como fontes suplementares de força a partir da palavra que
foi ouvida (por exemplo, quando o cliente ouve "sexo" quan
do o que foi dito é "sexto", a privação sexual é a variável
fonte suplementar da força do operante verbal. "Quando tais
variáveis são aparentes, dizemos que o ouvir mal é 'revelador'
no sentido freudiano" (p. 259). Skinner (1957) lembrou que,
geralmente, os psicoterapeutas freudianos ficam sob contro
le daquilo que supõem ser 'revelador' e costumam analisar
da mesma forma os erros eventuais e comuns no curso da
fala continuada.
Vejamos como a causação múltipla pode atuar no so
nho e no seu relato, mostrando a riqueza de combinações de
propriedades de objetos cujo sonhador discrimina ("revela")
com a ajuda do terapeuta analítico-comportamental.
OS SONHOS
Sonhos são fenômenos que sempre atraíram a curiosi
dade das pessoas. Desde a antigüidade, por exemplo, há
um interesse na simbologia onírica e em sua interpretação.
Segundo registros, foi Artemidoro quem primeiro afirmou que
os sonhos são únicos para o sonhador e seus símbolos refle
tem sua ocupação, nível social e saúde (Schulze, 1997; Melo
e Silva, 2000). Atualmente existem muitos modelos teóricos
de compreensão dos sonhos, alguns com origem nas propo
sições dos filósofos do período helénico, da Idade Média e do
Renascimento. Platão, por exemplo, já afirmara que os so
nhos são produtos do excesso de gratificação ou frustração
e, assim, conteúdo incestuoso ou agressivo representaria
desejos inconfessáveis (Dixon & Hayes, 1999); Artemidoro
dizia que por meio dos sonhos a psiquê repetia as coisas,
como quando fazemos ao querer dizer algo importante.
78
Sánchez, González, Antolín, Jiménez e Câmara (2001)
agruparam e resumiram os modelos interpretativos mais co
nhecidos no meio acadêmico, falando sobre as funções dos
sonhos e os métodos de interpretação propostos por çada um.
Um primeiro grupo bastante conhecido adveio das abor
dagens psicanalíticas. Freud (1987/1969) afirmou que os so
nhos expressam os desejos inconscientes de maneira sim
bólica, uma vez que são desejos reprimidos. A associação
livre e a interpretação eram os métodos que ele preferia pois,
supostamente, permitiriam ao sonhador desvendar as ca
deias de significados subjacentes ao relato onírico. Jung (Hall,
1990) também afirmou que os sonhos são expressões sim
bólicas de desejos, acrescentando que tais simbolismos são
arcaicos e comuns à humanidade, uma espécie de "inconsci
ente coletivo" sob a forma de imagens arquetípicas. "Seu
trabalho com sonhos implica no método de 'amplificação e
síntese com imagens': a captação, amplificação, diálogo e sín
tese com as imagens pessoais e arquetípicas dos sonhos"
(Sánchez e cols., 2001). Adler (1992) propôs que o sonho se
constitui em uma espécie de ensaio para o futuro. Por meio
do sonho, o inconsciente proporia, em seu estilo próprio, so
luções de problemas inacabados ou antecipados. Uma moti
vação inconsciente relacionada a um estilo de vida seria re
velado no sonho de forma metafórica e, por isso, o método
de trabalho com sonhos envolveria uma "tipificação dos so
nhos": o sonhador identificaria propriedades comuns entre
seu estilo de vida, as soluções de problemas contidas no
sonho, e o modo como percebe si mesmo, os outros e o mun
do.
Um segundo grupo pode ser identificado na aborda
gem gestáltica. Para Perls (1977) e Gendlin (1987), os so
nhos representam experiências emocionais insuficientemen
te captadas e explicadas e, por isso, não integradas em uma
gestalt. Partindo desta premissa, a técnica da gestalt-terapia
de trabalho com os sonhos envolve exercícios de focalização
das experiências eliciadas no próprio corpo do sonhador en
quanto narra as imagens e personagens do sonho. Isto per
mitiria a expressãoe a construção de experiências emocio-
nais contidas no sonho.
Um terceiro grupo de modelos interpretativos teve ori
gem na terapia cognitiva. Tanto no modelo de Ellis (1975)
quanto no de Beck (1976), os sonhos são uma construção
visual, analógica e não consciente de esquemas cognitivos e
crenças pessoais (Freeman, 1981). Dessa maneira, durante
um sonho podem aparecer as mesmas distorções cognitivas
que caracterizam a atividade em vigília. Portanto, o método
de interpretação consiste em identificar os temas que apare
79
cem em símbolos e relacioná-los a temas recorrentes em es
tado de vigília, a partir da discriminação de cognições e sen
tidos pessoais que integram esses temas. Já o modelo da
psicoterapia cognitiva narrativa (Gonçalves, 1993) defende
que os significados metafóricos tácitos dos sonhos extrapolam
o nível verbal, apresentando-se de forma imaginária e pré-
verbal (prototípica). Para trabalhá-los, o terapeuta cognitivo
narrativo usa o método da "implosão da metáfora ou narrati
va protótipo" buscando interpretar e reestruturar os guias
narrativos neles contidos e que dirigem a experiência do so
nhador.
Os postuladores de modelos biológicos vêem os so
nhos como um estágio do sono, descrito pela presença de
descargas elétricas que se relacionam à sensações visuais
ou sonoras (100% dos sonhos têm imagens e 75% têm sons,
segundo Reimao, 1996) e a um movimento ocular caracterís
tico: o REM (Rapid Eye Movement). Essas descargas elétricas
em diversas áreas cerebrais dão a "tonalidade emocionar
do sonho (Araújo et aí., 2004): "Assim, um sonho pode cau
sar medo ou riso, sem que seu conteúdo emocional esteje
associado a estas respostas" (p. 71).
A preocupação atual da abordagem neuropsicológica
dos sonhos é integrar as funções neurológicas, adaptativas
e cognitivas na explicação do fenômeno, postulando a exis
tência de sonhos "moduladores de estratégias" e ''formado
res de estratégias". Os primeiros mostram situações em que
são utilizadas estratégias que foram usadas em estado de
vigília e que precisam de reforço ou inibição; os segundos
apresentam situações de criação de estratégias cognitivas
que possibilitam ao sonhador a lidar com experiências no
vas. "Isto ocorre independente do indivíduo recordar o con
teúdo de seus sonhos, pois, no sonho, as emoções formam
um núcleo efetivo em torno do qual são feitas formulações
cognitivas, havendo uma rede de associação subliminar en
tre afeto e cognição, que pode ser resgatada quando do
surgimento de uma situação que está relacionada ao con
teúdo onírico em questão" (Araújo et ai., 2004, p.72).
É de pesquisadores de tradição neuropsicológica a
maior parte da produção de pesquisas empíricas sobre so
nhos feitas em laboratórios de estudos do sono. Sabe-se,
por exemplo, que sonhadores relatam sonhos de conteúdo
mais lógico quando acordados no decorrer do sono REM; con
teúdos "bizarros" foram relatados por sonhadores durante o
REM mais lento. Os primeiros relataram desejo de interrom
per o sonho em momentos de ansiedade e os segundos não
apresentaram críticas ao sonhar ou desejo de controlar o
sonho (Chaves, Caixeta e Machado, 1997). Segundo os au
80
tores, a logicidade dos sonhos estaria relacionada a uma os
cilação na dominância de ativação de regiões cerebrais du
rante o período do REM: o lobo frontal dominaria durante os
sonhos lógicos e as regiões límbicas dominariam durante os
ilógicos. Aliás, o sistema límbico é fortemente ativado duran
te o sono REM quando a área frontal está menos ativa do
que durante a vigília (Araújo et aí.f 2004). Ainda, substâncias
como os benzodiazepínicos e o álcool parecem, ou suprimir a
atividade onírica, ou prejudicar a memória dos sonhos (Kalra,
Natu, Deswal e Agarwal, 2000; Usher, 1991; Schredl, 1999;
apud Araújo et ai., 2004). Dependentes de heroína se vêem
consumindo a droga em sonhos, dos quais despertam ao
sentirem-se culpados e ansiosos (Colace, 2000).
A A n á lise d o So n h a r
As publicações de Guillardi (1995), de Callaghan (1996),
de Dixon & Hayes (1999) e de Bachtold (1999) parecem ter
sido as primeiras a sistematizar aspectos teóricos e clínicos
do relato de sonhos sob a perspectiva skinneriana. Antes,
Freeman (1981) e Freeman & Boyll (1992) abordaram os so
nhos na perspectiva cognitiva de Beck, e os últimos autores,
em especial, sistematizaram como a interpretação de sonhos
ocorre na prática da terapia cognitivo-comportamental. No
Brasil, há alguns outros trabalhos descrevendo aspectos te
óricos e técnicos da análise do comportamento de sonhar
(Delitti, 2000; Melo e Silva, 2000; Araújo et a/., 2004;
Vandenberghe, 2004). Apesar da existência destas fontes
de referência, a compilação de modelos teóricos subjacentes
ao trabalho com sonhos feita por Sánchez et ai. (2001), en
tretanto, não incluiu a maneira como os sonhos são con
ceituados na obra de Skinner. Portanto, as implicações da
sua conceituação na prática do terapeuta analítico-
com porta mental estão revistas neste texto.
Para Skinner (1974/1982), sonhos são comportamen
tos perceptuais encobertos, do tipo comportamento de ver
ou ouvir (ou sentir sabores, temperaturas, texturas, etc.) sob
controle da coísa (vista, ouvida ou sentida de outra forma)
que está ausente: um sonho [com estímulos visuais], não é
uma exposição de coisas vistas pelo sonhador, e sim o com
portamento de ver. Portanto, os sonhos são eventos priva
dos do tipo sentir (Baum, 1999). O mesmo processo ocorre
quando lembramos algo que vimos ou ouvimos; ou quando
nos entregamos a fantasias e devaneios. Quando falamos
sobre o que sonhamos, ou lembramos verbalmente de um
sonho, temos um reíato verbal do sonho. Se quisermos expli
car todos esses comportamentos de um cliente "devemos
81
voltar-nos para a sua história ambiental à procura de uma
resposta" (Skinner, 1974/1982, pp. 72-73).
Nesse sentido, o relato do sonho permite o acesso a
uma história. Por meio dele o cliente dá pistas também sobre
as contingências às quais respondeu emocionalmente (quan
do sentiu), perceptualmente (quando sonhou) e, agora, ver
balmente (quando relata). Assim, o relato de um sonho entra
na formulação do caso do cliente em atendimento, integrado
em sua funcionalidade. A análise funcional é, dessa maneira,
a ferramenta básica do terapeuta comportamental. A discri
minação de comportamentos encobertos e de seus
determinantes não conscientes é a condição para a aquisi
ção do autoconhecimento; dessa forma, o relato do sonho e
a análise de como o sonho se integra a outros comporta
mentos abertos e/ou encobertos faz parte de uma interven
ção comportamental eficaz (Guiilardi, 1995; Delitti, 2000).
Isto permite afirmar que a interpretação de um sonho
sob a ótica skinneriana depende do conhecimento da histó
ria de vida do sonhador - as contingências as quais respon
deu e responde - e é feita a partir do comportamento verbal
(o relato) e das condições que o controlam na sessão de
terapia, bem como das emoções associadas ao lembrar e
relatar (Callaghan, 1996). Trata-se, portanto, de um compor
tamento verbal autodescritivo de lembranças de eventos pri
vados ou de emoções geradas pelo lembrar e relatar o so
nho, sob controle também da relação terapêutica. Entendido
o relato de sonhos desta forma, o terapeuta, por ter tido um
treino em discriminações sutis ("ter uma escuta diferencia
da"), pode criar condições para que o cliente discrimine, por
exemplo, o desejo e a ameaça em contingências descritas como
culpa, reforçando tatos mais precisos, de acordo com as con
tingências em vigor.
A Interpretação do relato do sonho é, de fato, uma in
terpretação da linguagem. Ao abordar a linguagem, Skinner
(1957) falou de várias relações verbais primárias e secundá
rias. Dentre essas, há os intraverbais, que são comportamen
tos verbais sob controle de estímulos verbais a partir de uma
relação temática (por exemplo, o cliente está falando de "di
ficuldades com mulheres" e resolve contar umsonho que teve
com a sua mãe). Skinner também falou dos tatos: respostas
verbais sob controle de estímulos discriminativos não ver
bais (por exemplo, um cliente dizer que está se sentindo "con
fiante" diante da condição corporal modificada ao fazer no
vas coisas)'’.
4 Para uma análise mais detalhada desses operantes, veja o artigo didático
de Borloti (2004).
82
Quando um cliente relata um sonho, é importante lem
brar que ele está combinando elementos intraverbais com
tatos de eventos privados e de contingências do contexto,
podendo ou não recorrer à extensão metafórica do tato ("Esta
noite eu sonhei que estava numa guerra" e "uma''guerra"
pode ser uma metáfora para propriedades de dificuldade
sendo enfrentada). Na maioria das vezes o faz; e ele pode
estar relatando discriminações tácitas (inconscientes) ou não.
É por isso que, segundo Skinner (1957), o sonho vem com
símbolos; o sonho pode ser uma metáfora e "A metáfora as
sim definida aproxima-se do 'símbolo' freudiano. As proprie
dades ou condições em virtude das quais algo pode servir
como símbolo de outra coisa são precisamente as proprieda
des ou condições responsáveis pela extensão metafórica"
(p. 97). Hübner (1999) destacou a importância da compreen
são da extensão metafórica do tato na terapia
comportamental e esta compreensão pode ser transposta
para a análise do relato do sonho.
Ao relatar um sonho o cliente está sob controle da lem
brança do sonho, da audiência do terapeuta e da auto-audi-
ência (ele ouvindo o que ele mesmo está dizendo). O lembrar
do sonho é também uma forma de ver na ausência do sonho
(Skinner, 1982; Guillardi, 1995; Callaghan, 1996; Dixon &
Hayes, 1999; Kohlenberg & Tsai, 2001) e os processos que
explicam o sonho se somam aos processos que explicam o
relato. Delitti (2000) ilustrou o modo como as propriedades
de estímulos no sonho podem ser comparadas às proprieda
des da vida do cliente, tateadas por meio de extensões me
tafóricas. Eis mais um exemplo de relato de sonho com mui
tos símbolos gerados a partir da percepção das proprieda
des das contingências da vida da sonhadora:
Eu estava na frente da casa do meu orientador [de
dissertação de mestrado]. Era uma casa de praia com
um gramado após o muro baixo. A casa era simples e
típica das praias da nossa região [Vitória], com varanda
lateral, rede, etc. Eu tinha uma tarefa a cumprir:
construir a minha casa na calçada da casa defe. O
terreno já demarcado, a terra fofa ... aparentemente
estava tudo pronto para que eu começasse a
construção, mas aigo me impedia. Eu dizia: ’professor,
tem um bicho nesta terra' Ele: 'Vai fazendo, que depois
a gente vê’. Eu: 'Mas como eu vou fazer uma casa em
um terreno com um bicho dentro? A casa não vai ficar
de pé!'. Ele: 'Vai fazendo...'. Eu estava incomodada com
aquilo e não conseguia me fazer compreender e ele só
dizendo que não havia problema algum em começar a
casa. Neste sonho estavam uma colega do mestrado e
dois filhos do meu orientador, porém todos continuavam
conversando e se preparando para irem à praia. A cada
83
vez que eu olhava para o terreno para começar a
construção o bicho aparecia e sumia e também se
transformava, crescia. Eu desesperada e sozinha, que
agonia! Daí o bicho mais uma vez apareceu e com um
golpe certeiro, com a chave do meu carro, consegui
matá-lo. Que alívio! Para mim, é claro, porque os outros
personagens do sonho não estavam nem aí.
Este relato mostra o modo como a extensão metafóri
ca torna possível que a sonhadora emita comportamento
verbal de tato de sentimentos produzidos na relação com o
seu orientador, antes sentida de forma tácita (sem consciên
cia). Os símbolos são tatos metafóricos de propriedades de
objetos (no caso, as relações com o orientador e com os es
tímulos circunscritos a ele) que combinam-se com respostas
emocionais. Para entender este sonho é preciso explicar os
recursos subjetivos à formação do sonho, volvendo as con
tingências responsáveis por eles. Skinner (1957) explica nes
tes termos a formação do símbolo, nos dando pistas para
entender o que ocorre durante o "trabalho onírico":
Embora 'uma imagem valha mais do que dez mil
palavras' para certos propósitos, não é fácil formar
imagens de certas propriedades de objetos, e essas,
com frequência, são exatamente as propriedades
tratadas com sucesso pela extensão metafórica. (...).
A extensão do tato liberta as propriedades dos objetos
umas das outras e torna assim possível uma
recombinação que não é restringida pelas exigências
do mundo físico (p. 97-98).
Possivelmente isto explica as combinações de imagens
feitas durante os sonhos que, quando comparados às possi
bilidades do mundo real, são tidos como absurdos ou bizar
ros. Uma vez que não é fácil formar imagens de certos objetos
mais abstratos (sentimentos e afetos, por exemplo) combina
mos imagens menos abstratas para eliminar a restrição impos
ta pela realidade. Seja como for, no início da década de 50
Skinner (1953/1978) já havia lançado aos behavioristas o
desafio de analisar o comportamento de simbolizar:
A possibilidade de auto-identificação com animais ou
mesmo com objetos inanimados oferece uma
oportunidade interessante para o estudo das
propriedades formais do comportamento. De que mocfo
o comportamento de um homem pode se assemelhar
ao comportamento de uma nuvem, ou de uma onda,
ou de uma árvore caída, de forma que a resposta
imitativa some-se com outras partes do seu
comportamento? (p. 210).
Por esta razão, talvez seja interessante solicitar à so
nhadora que pense sobre semelhanças entre as proprieda
des formais de comportamentos e emoções e as de certos
84
símbolos em seu sonho perguntando-a: Para que serve uma
chave? O que é um bicho? e assim por diante. Respostas ver
bais a estas questões serão abstrações que evocarão inter
pretações dos estímulos chave e bicho como metáforas. Seja
como for, as respostas metafóricas sempre falarão^mais so
bre o sonhador, refletindo os tipos de estímulos que contro
lam seu comportamento com mais freqüência. Porém, a com
binação de várias propriedades em metáforas revelarão cir
cunstâncias outras, das quais o sonhador não está consci
ente porque certas combinações não são tipicamente refor
çadas pela comunidade verbal. É por isso que as metáforas
permitem a interpretação das condições de vida de quem as
emitiu (Skinner, 1957; Hübner, 1999).
Entendendo melhor: respostas abstratas são origina
das no fato de o controle do tato não ser preciso. "Qualquer
propriedade de um estímulo, presente quando uma resposta
verbal é reforçada, adquire algum grau de controle sobre essa
resposta, e esse controle continua a ser exercido quando a
propriedade aparece em outras combinações" (Skinner, 1957,
p. 107). Exemplo de propriedades em outras combinações:
diante de uma imagem da pele humana ampliada ao micros
cópio uma aluna respondeu "casco de tartaruga". Seu tato
estava sob controle da propriedade "aspereza", presente no
casco da tartaruga, quando ela esteve exposta ao animal, e
na imagem da pele projetada na parede, quando ela esteve
exposta à projeção.
Assim, se combinações de diferentes propriedades abs
tratas exerceram controle sobre respostas perceptivas quan
do respostas verbais foram reforçadas, elas formariam res
postas metafóricas perceptuais em um sonho, combinando-se
em percepções menos abstratas que contém aquelas propri
edades. Isto acontece porque uma abstração é uma resposta
sob controle de uma única propriedade encontrada na natu
reza somente em combinação com outras propriedades ("as
pereza" não existe sozinha e sim apenas como propriedade
combinada a outras propriedades como forma, movimento,
cor etc). Por esta razão, a imagem ampliada da pele humana
restringe nossas respostas verbais a uma série de abstra
ções possíveis (aspereza, secura, forma [de placas] etc) que,
então, emerge em tatos menos abstratos que já foram refor
çados pela comunidade. "Dependendo da restrição impostasobre a resposta, uma 'hierarquia' de abstrações pode ser
definida, de modo que uma resposta menos abstrata é con
trolada por um conjunto mais amplo de propriedades do que
uma resposta mais abstrata" (Chandra, 1976, p.68). No caso
da pele humana, a ampliação ao microscópio expôs a propri
edade abstrata da imagem, reforçada apenas na combina-
85
ção com outras propriedades menos abstratas ("terra seca",
"casco de tartaruga", "idoso" etc).
Sabe-se que respostas mais abstratas são reforçadas
com menos frequência pela comunidade verbal do que as res
postas menos abstratas (Skinner, 1957) e isto poderia explicar
porque num sonho propriedades mais abstratas tendem a ser
transformadas em imagens menos abstratas. Segundo Chandra
(1976) isto ocasiona aquilo que experienciamos ao sonhar: as
imagens que estão mais próximas ao 'objeto' estímulo original
são também prováveis de eliciar respostas condicionadas (a
visão condicionada - as imagens que se vê - e as respostas
’emocionais' condicionadas pelas imagens vistas).
Por esta razão as respostas emocionais podem ser
eliciadas pelo relato verbal de um sonho ou podem ser medi
adas pela visão condicionada quando cenas do sonho são
lembradas durante a sessão de terapia analítico-
comportamental. "A questão é que tanto a 'visão' condicio
nada quanto a resposta emocional são mais prováveis de
serem produzidas por respostas menos abstratas as quais,
devido a sua força relativa maior, tenderiam a substituir as
respostas mais abstratas sob certas condições" (Chandra,
1976, p. 69). É assim que respostas discriminativas visuais
menos abstratas podem combinar diferentes propriedades
mais abstratas formando um "símbolo" num sonho. Uma alu
na que discriminava propriedades de aversividade no com
portamento de um professor, por exemplo, sonhou com o pro
fessor segurando uma corrente presa a um cão pit buli. Da
mesma forma, um cliente que discriminava propriedades de
traição em uma relacionamento interpessoal íntimo, sonhou
estar apunhalando a parceira pelas costas; discriminou sen
timentos de cu\pa associado com aJívio.
Parafraseando Skinner (1957), assim como os subs
tantivos concretos, as imagens concretas costumam ter maior
efeito emocional do que as abstratas. As imagens concretas,
ou seja, respostas sob controle de uma combinação particu
lar de estímulos, compõem estímulos emocionais efetivos. Por
essa razão, os estímulos concretos tendem a gerar uma "vi
são condicionada", isto é, a evocar "imagens oníricas" menos
abstratas como estímulos emocionais efetivos. Uma vez que
uma abstração é controlada por uma propriedade comum a
um grande número de objetos ela "não tende a associar-se
com um estímulo apropriado a um único ato de visão" (p.
158). Isto poderia explicar as descontinuidades de tempo e
as relações entre espaços e objetos que dão o caráter ilógi
co de certas combinações de imagens concretas que formam
o sonho.
86
Para uma análise mais completa, a interpretação do
símbolo no sonho pode ser feita transpondo ao sonho a aná
lise que Skinner (1957) fez da linguagem disfarçada. Segundo
ele, a punição atuando sobre a forma da resposta pode ser
responsável pela criação de símbolos ou de combinações
como forma de evasão; o símbolo teria função de fuga-esqui-
va. Isto ocorre porque, "Em geral, o comportamento simbólico
amortece as propriedades puníveis de seu equivalente não sim
bólico, mas conserva aquelas propriedades que são positivamente
reforçadoras" (p. 377; itálicos acrescentados). Isto permite
afirmar que, se uma imagem não simbólica evoca angústia,
esse sentimento pode ser amortecido por um equivalente
simbólico num sonho. Porém, se as propriedades do objeto
simbolizado forem discriminadas de alguma forma pelo so
nhador, até mesmo o equivalente simbólico poderá evocar
angústia. O exemplo inicial de Chico Buarque ilustra este pro
cesso por incluir a combinação de muitos elementos simbóli
cos e não simbólicos; ou, menos abstratos e mais abstratos.
Em qualquer situação, quando um significado de um
sonho parecer "oculto ou profundo", são as contingências
responsáveis pelo sonho que deverão ser reveladas, pois
nelas está o significado do sonho. Como exemplo, Kohlenberg
& Tsai (1991/2001) comentaram o interessante exemplo da
famosa metáfora do escorpião, relatada por Skinner (1957) no
epílogo do Verbal Behavior, sobre uma conversa que ele
(Skinner) teve com Alfred North Whitehead, professor de
Harvard, quando conversavam sobre o behaviorismo. O pro
fessor pediu que Skinner oferecesse uma interpretação acerca
do seu próprio comportamento verbal, de dizer "Nenhum es
corpião negro está caindo sobre esta mesa". Skinner usou sua
teoria contextuai do significado da linguagem para revelar o
significado inconsciente da fala de Whitehead: o escorpião
negro, e todas as propriedades abstratas desse objeto
tateadas pelo professor ("periculosidade", talvez) simboliza
vam, para ele, o behaviorismo.
Às vezes a forma como o sonhador interage com os
símbolos é a questão importante a ser interpretada. Skinner
anotou um sonho que teve com sua filha - também citado
por Delitti (2000) - e fez a interpretação das propriedades
dos acontecimentos:
[O sonho] Eu estava em uma casa numa ilha - talvez
Monhegan. Estava olhando para um berço vazio e, de
repente, notei com profunda compaixão o quão triste
deveria ser quando Julie [minha filha] olhasse para ele,
uma vez que sua filha havia sido roubada. Olhei pela
janela e vi uma criança andando na grama e, por um
segundo, perguntei a mim mesmo se seria a criança
que havia sido roubada, trazida pelos seqüestradores,
87
mas percebi que não era. Então pensei, por que não
chamar a polícia? Subitamente, me pareceu muita
estupidez nós aceitarmos o roubo sem fazer nada. Eu
sinto agora que este último ponto - a ação não
executada - é o ponto importante no sonho (Epstein,
1980, p.238).
Se tomarmos estes exemplos como ilustrativos da re
lação entre os processos de comportamento verbal chama'
dos genericamente de "símbolo" e os relatos de sonhos, será
possível concluir que os sonhos funcionam como estímulos
mais ou menos abstratos que são tateados a partir da histó
ria de reforçamento verbal do sonhador; o sonhador é quem
significa o sonho. Skinner (1957) interpretou a resposta es
corpião negro como uma metáfora às propriedades do tópico
da discussão com o professor ou do comportamento do pro
fessor em relação ao tópico, da mesma forma que clientes
interpretam os símbolos dos seus sonhos: Skinner usou a
sua história para fazer isso e os nossos clientes usam suas
histórias. No segundo sonho citado acima, o do roubo da
criança, fica evidente a simbolização da propriedade discrimi
nada na interpretação: a ação não executada. Entretanto, a
ação executada pelo sonhador, ou pelos outros no sonho,
pode ser o alvo da interpretação. Veja a seguinte interação
com uma cliente que havia procurado terapia com queixa de
dificuldades nos relacionamentos interpessoais:
CLIENTE (C): (O estímulo do tópico "avanços na terapia"
controlou o comportamento de lembrar) Ah, lembrei!
Tenho um sonho para te contar.
ELIZEU (T): Você é uma das clientes que mais trazem
sonhos para a terapia. Gosto de ouvir você contar. O que
você sonhou desta vez?
C: (Lembrando e descrevendo a cena vista) Era uma área
de terra de chão, grande e vazia, sem árvores,
pedras...nada. A terra era amarela e arenosa. Estávamos
eu, meu marido, filho, minha mãe e algumas pessoas
que não me lembro quem, só sei que eram crianças. Na
frente, atrás e em todo lado de repente apareciam muitos
leões e eles pareciam muito ferozes. (Dando dicas
interpretativas) Eu tenho pavor de leão! Leão é poderoso,
com cara ameaçadora. E o mais poderoso de todos os
animais.(Continuando a lembrar e descrever a cena)
Eles eram de vários tamanhos: havia os gigantes e os de
tamanho normal que ficavam gigantes derepente. Havia
leões de juba preta e de juba beje. Os leões ameaçavam
a gente e cercavamos caminhos o tempo todo. Rugiam
muito, fazendo um barulho muito alto.(Descrevendo
comportamentos e sentimentos) Eu tinha que passar
88
por ele, se não eles me pegariam.Todo mundo tentava
fugir dos leões. Eu segui pelo caminho que tinha mais
leões. Minha mãe ficou para trás e não consegiu seguir
em frente. Parece que meu marido e meu filho foram
pelo mesmo caminho que eu, pois no fim estáva/nos nós
três juntos. Para poder passar eu tinha que empurrar
alguns leões. Outras vezes eu tinha que olhar bem dentro
dos olhos de alguns. No final eu consegui chegar a um
lugar onde não havia mais leões. Me senti aliviada e
vitoriosa. Eu consegui!
T: (Reforçando o relatar e dando pistas para a interpretação)
Que sonho legal! O que isto tem haver com sua vida e com o
que estávamos falando antes?
C: (Interpretando) Das dificuldades que tenho passado e
enfrentado. Leão branco e leão negro tem a ver com os
homens da minha família (meu filho está com uma
cabeleira danada. Parece uma juba. [Risos]). Eu era um
espelho da minha mãe. Agora eu olho e vejo que isto
está ficando para trás. Ela sempre tentou fugir das
dificuldades (até hoje tenta), mas sempre ficava. Ela
sempre foi o reflexo de mim: sempre ficava com medo.
Este sonho mostra que as interpretações de relatos de
sonhos são interpretações de quaisquer relatos de eventos
privados e devem ser feitas sob controle de dados da história
do cliente. Ao continuar a interagir com o cliente, o terapeuta
coleta informações adicionais que corroboram a interpretação
e a avaliação do nível de autoconhecimento do cliente (Guillardi,
1995; Kohlenberg & Tsai, 1991/2001). As perguntas que o
terapeuta deve fazer após um relato de sonho têm a função
básica de estímulo discriminativo para a interpretação a ser
dada pelo cliente: "Por que será que você teve este sonho esta
semana?", "O que você acha deste sonho?", "Como você relaciona
este sonho com o seu momento de vida e por que você resolveu
relatá-lo nesta sessão?" ou "O que este sonho tem a ver com você
neste momento e como se sente ao falar dele para mim?"(De[\\X\f
2000, p.207). As perguntas são feitas sob um único pressupos
to: "A teoria behaviorista sugere que os significados ocultos
(na verdade, causas ocultas e variáveis de controle) estão no
ambiente circundante [incluindo as variáveis da relação com o
terapeuta]" (Kohlenberg & Tsai, 2001, p. 54).
Em síntese, o sentido de um sonho pode surgir do seu
relato porque as lembranças das imagens funcionam como
estímulos privados - ou propriedades desses estímulos - que
dão sentido aos tatos da descrição (em geral, metafóricos)
na história de reforçamento verbal do cliente. "Esses estímu
los, por suas qualidades complexas, criam oportunidades para
a emissão de uma ampla classe de comportamentos verbais
89
que poderão facilitar o acesso do terapeuta à história passa
da do cliente" (Delitti, 2000,. 206).
Um importante aspecto do trabalho comportamenta! com
sonhos é que as respostas emocionais que podem acompa
nhar o relato de um sonho têm funções diferenciadas. O
terapeuta pode melhorar a discriminação do que é sentido pelo
cliente (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001) modelando o seu com
portamento autodescritívo e o seu contato com as variáveis de
controle do sonho ou do seu relato. Portanto, o relato de so
nhos pode 1) fornecer dados sobre a história de vida do clien
te, de eventos relevantes em sua história, de elementos de
contingências passadas e seus impactos na vida atual do clien
te que de outra forma não apareceriam; 2) servir de elemento
para o aprimoramento do repertório de autoconhecimento, in
tensificando a relação de ajuda ao constituir-se como um com
portamento clinicamente relevante (Kohlenberg & Tsai, 1991/
2001; Delitti e Meyer, 1995; Guillardi, 1995), Estas funções es
tão relacionadas às possibilidades surgidas na atividade clínica
comportamental envolvendo sonhos (Delitti, 2000):
a) o cliente relaciona adequadamente o sonho ao seu
contexto visualizando o sonho numa classe operante
integrada aos seus padrões funcionais de comportamento
(nesse caso, a interpretação dada pelo cliente é um
comportamento clinicamente relevante, indicativo de
autoconhecimento);
b) o cliente não relaciona o sonho ao contexto de sua
história (nesse caso, o terapeuta deverá integrar
verbalmente os dados que obteve em muitas sessões
anteriores aumentando a probabilidade de que o cliente
emita uma interpretação contextualística do sonho)5.
c) o cliente e o terapeuta não conseguem relacionar o
sonho à história do cliente (nesse caso, o terapeuta
informará que precisa de dados adicionais, observará
as reações do cliente à informação de que o terapeuta
"não sabe" e analisará a utilidade dessa interação
como clinicamente relevante ao processo terapêutico).
Para concluir, eis mais uma citação que explica e ilustra
a integração entre o comportamento verbal (por exemplo,
um relato de sonho) e a característica inconsciente dos com
portamentos:
5 Conforme o que se pode concluir do que disseram Kohlenberg & Tsai (1991/
2001), a interpretação do sonho do cliente peio terapeuta pode ampliar o
contato do terapeuta com o contexto total do cliente. Ao invés de aceitar
imediatamente uma interpretação dada pelo cliente, o terapeuta a escuta
"como o resultado de variáveis óbvias ou sutis que refletem a história do
cliente, bem como os efeitos da relação terapeuta-cliente. Enxergar esse
'quadro maior' aumenta a sensibilidade ao comportamento clinicamente
relevante e ao papel do reforçamento nas sessões" (p. 66).
90
Causas múltiplas, mandos disfarçados e reforçadores
especiais são conceitos que explicam o que
tradicionalmente costuma chamar-se de significados
ocultos, latentes ou inconscientes. Consequentemente
temos dado uma explicação comportament^al a este
tipo de fenômeno, tais como lapsos de linguagem e o
modo como os clientes conseguem dizer uma coisa
querendo dizer outra. Em geral, os clientes não estão
conscientes dessas variáveis, mas sofrem seus efeitos
independentemente dessa consciência. Não situamos
esses efeitos em um mecanismo interno como o
inconsciente, mas, ao invés, nos referimos a eles como
efeitos de variáveis sutis. Em contraste, as variáveis
óbvias são aquelas que correspondem de fato à forma
da resposta. Uma metáfora, (...) refere-se a respostas
controladas pelas variáveis sutis. (...). O cliente não
precisa ter (e provavelmente não tem) consciência
de que a variável sutil teve efeito sobre o que ele
disse (Kohlenberg & Tsai, 1991/2001, p. 64).
Segue um resumo da teoria skinneriana dos sonhos, con
siderando o comportamento de ver, o comportamento verbal
(na abstração e na metáfora) e o controle de estímulo ope
rando sobre ambos.
a) As sensações noturnas, bem como as modificações
no sonhador produzidas pelos estímulos vistos durante
a vigília (ao longo da história de vida) comporão elos
primários para um encadeamento de respostas de ver
(ou outra forma de sentir). Como parte do pensamento
visual, as imagens podem ser vistas inicialmente sem
qualquer ordem ou lógica particular.
b) A partir da história única do sonhador, de punição e
reforçamento, o comportamento de ver adquire, sob
determinação múltipla, o caráter em série típica do
sonho; as imagens ou símbolos atuam como estímulos
discriminativos, eliciadores ou reforçadores e essa
história única determina a ligação das experiências; c
sonhador se engaja no comportamento de ver-que-
está-vendo na ausência da coisa vista. As variáveis
derivadas da história de punição podem entrar na
determinação múltipla dos símbolos e essas mesmas
variáveis, atuando sobre o nível de auto-observação
do sonhador, explicam o sonho.
Dixon & Hayes (1999) explicaram que o sonho simbólico
é um tipo de comportamento discriminativo fortalecido
por certas variáveis que diminuem a probabilidade de
punição social pelo fato de ser um evento privado. O
sonho altera a imagem suficientemente para que ocorra
a evitação daestimulação aversiva condicionada
91
estabelecida quando o comportamento ocorreu de forma
aberta .Trata-se de uma "edição" do comportamento,
explicada por fatos históricos ontogenéticos. Sonhos
ocorrem sob uma ameaça minima de punição e é por
isso que muitos dos nossos sonhos parecem ser
"realizações de desejos" ou "fantasias" (Skinner, 1957).
O termo "desejo" pode até ser usado como metáfora da
probabilidade de emissão de respostas punidas,
permitindo entender como respostas suprimidas durante
a vigília permanecem fortes e suas fontes de controle
entram poderosas em cena quando, durante o sono, as
contingências mudam.
c) O sonhar é caracterizado por um aumento na
frequência do "imaginário" visual e por uma grande
intensidade de afetos associados a ele: "a história da
pessoa e os estados resultantes de privação e emoção
têm sua oportunidade" (Skinner, 1974/1982, p.75) na
determinação ativa da percepção e do processo
comportamental verbal chamado "abstração"; e o
reforçamento de respostas menos abstratas pela
comunidade verbal explicam o comportamento de
simbolizar durante o sonho.
d) O comportamento de ver-que-está-vendo implica uma
atividade adicional por parte do sonhador: um
processo semelhante ao da produção da linguagem
pelos processos verbais autoclíticos de ordem superior
atua no comportamento perceptivo visual. O processo
autoclítico é um processo verbal secundário que atua
sobre os processos verbais primários (os tatos,
intraverbais, mandos, por exemplo) dando-lhes ordem
e coerência, e efetivando seu poder sobre o ouvinte.
Se o sonho envolve abstração - um comportamento
verbal peculiar (Skinner, 1957) - então a conclusão de
Skinner é salutar:
Ernest Jones (Freud, vol. II, p. 310): 'Freud observou
que a linguagem dos sonhos era incapaz de expressar
qualquer conceito negativo, que as palavras 'nenhum' e
'não' eram simplesmente omitidas no sonho. ..,os
'processos primários' deferem dos 'processos
secundários'. Um paralelo um tanto curioso com a
linguagem primária e secundária. Em Verbal Behavior,
eu argumento que a negação é autoclítica. Não e nenhum
são adicionados a comportamentos verbais essenciais.
"Omitido" sugere que os sonhos são brutos ao invés de
não se moverem a um segundo estágio. Sonhos são
similares a sentenças-protocolos - ainda não editadas
por um falante. (Epstein, 1980, pp.204-205).
92
Dependendo dos tipos de variáveis múltiplas atuando
sobre o processo autoclítico durante as condições relaxantes
do sono "aquelas propriedades do 'pensamento' que são de
notadas por 'coerência', 'ordem lógica' etc., variarão"’ (Chandra,
1976, p.66). Como na linguagem, a ausência do processo
autoclítico no pensamento onírico é marcada pela ausência de
lógica, e é a função autoclítica (Skinner, 1957) que tornaria o
sonho mais efetivo em sua função6. Parafraseando Skinner, o
sistema de trabalho do sonhador é semelhante ao sistema
comportamental autoclítico; "um sistema diretor, organizador,
avaliador, seletor e produtor" (p.312): o sonhador "conhece"
partes ou traços da sua história e parte desse conhecimento
atua no controle do comportamento de autoconhecer-se. O
falante pode, então, editar o sonho em uma interpretação como
a seguinte, dada pela mestranda citada anteriormente:
Este sonho mostra o processo de isolamento e solidão
que estou passando no mestrado. Há uma busca de
proximidade com o meu orientador, que é de outro
estado. Os filhos dele presentes no sonho, indicam
busca de intimidade e participação. Estamos dispersos.
O referencial teórico que estou usando não é o adotado
por ele, por isso fiquei de fora do muro dele. Eu nâo
tinha entrado... O bicho era a sustentação teórica. Eu
não estava dominando alguns conceitos e o bicho
mexia com a sustentação do meu chão. Sozinha eu
matei o bicho. Não sei porque usei a chave (será que
significa autonomia?). O sonho me deu potência.
Apesar de sozinha, eu resolvia as questões que
apareceram nele.
Esta não é a revelação do "significado profundo" ou
"oculto" do sonho. O processo de análise é o que é impor
tante, pois a boa intervenção gera suas próprias verdades:
os significados emergem como uma construção da análise das
contingências do comportamento (Kohlenberg & Tsai, 1991/
2001). O sonho é um comportamento discriminativo de con
tingências vivenciadas pelo cliente e sua análise é uma técni
ca de intervenção com o propósito de fortalecer respostas
discriminativas de autoconhecimento (Guillardi, 1995;
Callaghan, 1996; Dixon & Hayes, 1999; Delitti, 2000). Repe
tindo o alerta de Vandenberghe (2004), o terapeuta
comportamental "não deve se perder na mística dos sonhos
confundindo o instrumento com com o seu propósito. Estamos
sempre em busca de contingências e os sonhos são nada
6 A noção de autoclítico pode ser extendida ao comportamento não verbal.
"No sistema de Skinner, isto não representa problema, uma vez que processos
relevantes são comuns ao comportamento verbal e não verbal. O controle de
um conjunto de respostas por outro, o qual constitui a essência da atividade
autoclítica (Skinner, 1957) é comum a ambos (Chandra, 1976, p.67).
93
mais do que dicas que podem nos levar a elas" (p. 109).
Assim, podemos aceitar que os sonhos certamente são um
dos "caminhos até o inconsciente" somente no sentido em
que as contingências (ou relações funcionais) ambientais (his
tóricas e atuais) que determinam o comportamento são in
conscientes.
Esta afirmação faz com que valha a pena retomar os
três aspectos importantes da Nota Sobre a Interpretação dos
Sonhos, de Callaghan (1996), para finalizar este texto: 1) os
terapeutas comportamentais não estão diretamente interes
sados no que o cliente sonhou, mas no como o que foi sonha
do faz o cliente se sentir quando o sonho está sendo discuti
do durante a sessão; 2) a interpretação não é uma busca de
"significados profundos" e sim uma forma de gerar hipóteses
úteis sobre quais são os estímulos abstratos aos quais o
cliente está respondendo; 3) os sonhos permitem o acesso a
uma história de reforçamento que pode ajudar a modificar os
planos da terapia, uma vez que dão ao terapeuta a oportu
nidade de acessar diretamente os comportamentos relevan
tes ao processo de mudança comportamental.
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96
http://www.scieto.br
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A NOÇÃO DE COMPREENSÃO DE
LEITURA EM B. F. SKINNER1
Marcelo Quintino Galvão Bâptista2
Na obra de Skinner, Verbal behavior, editada original
mente em 1957, é possível extrairmos elementos importan
tes que caracterizam a noção de compreensão de leitura. Na
obra, é no âmbito da discussão dos operantes verbais defini
dos pelo autor, que esta noção é tratada, tanto em termos
gerais quanto em termos específicos, com base na análise
da interação faiante-ouvinte. Não obstante o fato de Skinner
a considerar como efeito do comportamento verbal do falan
te sobre o ouvinte, faz-se necessário construirmos a noção
de compreensão, no sentido de explicitá-la no paradigma
operante. Ou seja, esclarecermos os aspectos constitutivos
da compreensão, indicando os comportamentos pelos quais
é passível de ser evidenciada e que demonstram, ainda, sua
abrangência e sua especificidade,
A construção da noção de compreensão, em geral, e
no tocante à leitura, implica análise atenciosa de considera
ções pertinentes tecidas por Skinner a esse respeito, em Verbal
Behavlor, para a busca de respostas às seguintes questões,
dentre outras: o que o autor pretende dizer ao referir-se à
compreensão, em seu âmbito genérico, como sendo respon
der do ouvinte de "maneira apropriada" em relação ao com
portamento do falante? No caso específico de compreensão
de leitura, quais relações estão envolvidas? Ou, como se
define a resposta "de maneira apropriada" do leitor em rela
ção ao assunto de um texto? Responder as estas questões
constitui o objetivo deste trabalho.
Leituras preliminares da obra em questão assinalam
que Skinner também discute as noções de "referência" e "sig-
' Este capítulo é parte de uma pesquisa que gerou a Tese de Doutorado
intitu lada "Com preensão de Leitura na Análise do Comportamento",
desenvolvida pelo autor no âmbito do Programa de Pós-Graduação em
Educação - Área de Metodologia de Ensmo - da Universidade Federal de São
Carlos - São Paulo, com financiamento da CAPES, Tepe foi orientada pelo
Prof. Dr. Júlio de Rose (UFSCar) e co-orientada pelo Prof. Dr. Emmanuel
Tourinho (UFPA).
‘ E-maii: mQab@CDQD.ufpa.br
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mailto:mQab@CDQD.ufpa.br
nificado" ao tratar do comportamento verbal. Quanto à refe
rência, ele é bem explícito em refutá-la e parece não a relaci
onar com a "compreensão de leitura" Há indícios que levam a
tomar a noção de significado como positivamente considera
da por Skinner e relacionada, ainda que implicitamente, com
a compreensão. Porém, por uma questão de espaço, deixa
remos de examinar, neste trabalho, como é, de fato, o
posicionamento do autor quanto à referência e ao significa
do, ou seja, às críticas que ele tece a estas noções no senti
do de seu uso tradicional como explicação para o comporta
mento verbal, bem como sua proposta alternativa de lhes
conferir o status cabível no modelo de ciência em que se ba
seia. Também, omitiremos a análise skinneriana sobre os
aspectos que sustentam a relação da referência e significa
do com a compreensão de leitura, isto é, as considerações
que permitem estabelecer essa relação pelo menos em ter
mos implícitos.
Para a respostaàs questões mencionadas, faremos,
inicialmente, uma breve introdução sobre como Skinner ca
racteriza o comportamento verbal e propõe o seu estudo. A
seguir, examinaremos como ele discute a compreensão em
geral e a compreensão em termos específicos, isto é, a com
preensão de leitura, tendo como suporte o comportamento
textual e a compreensão nos demais operantes verbais. Fi
nalmente, apresentaremos uma síntese das discussões e
breves considerações finais.
O COMPORTAMENTO VERBAL
Uma das tentativas, dentre outras de vários autores e
de diferentes áreas, de explicar a interação verbal é a pro
posta de Skinner e sistematizada em Verbal behavior. Na obra,
o autor (Skinner, 1957/1992)3 é explícito em adotar para o
comportamento verbal as mesmas explicações usadas para
os comportamentos em geral, isto é, as explicações inseridas
em seu modelo de ciência com sua expressão formal na con
tingência tríplice ou de três termos.
Skinner, entretanto, confere ao comportamento verbal
um tratamento especial, dada a sua especificidade. Pontua
que nem sempre as ações de uma pessoa afetam direta
mente o ambiente físico, isto é, algumas vezes, são ações
que afetam o ambiente indiretamente, emergindo dele as con
seqüências últimas dessas ações. Em outras palavras, as
conseqüências do comportamento são, muitas vezes, gera
das primeiramente sobre outras pessoas. Com isso, Skinner
3 O primeiro ano refere-se à edição original da obra e o segundo, à edição
posterior (na língua original).
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admite a existência de mediação por parte do comportamen
to de uma outra pessoa (o ouvinte) para as conseqüências
do comportamento do falante. O autor elucida, com um exem
plo, a natureza do comportamento verbal, ao ref£rir-se à
interação entre um falante e um ouvinte, pela qual o falante
- admitindo-se ser uma pessoa sedenta - pede um "copo de
água" ao ouvinte, ao invés de dirigir-se a uma fonte, obten
do a água. O pedido é um comportamento caracterizado "por
um certo padrão sonoro", induzindo o comportamento de pro
ver a água. Tal padrão é passível de uma descrição "em ter
mos físicos", mas a conseqüência última que ele gera - a
obtenção de água - é resultado de "uma série complexa de
acontecimentos que incluem o comportamento de um ouvin
te" (Skinner, 1957/1992, p. 1-2).
Skinner apresenta alguns argumentos que sustentam
a denominação "comportamento verbal"4 para a interação fa-
lante-ouvinte, em detrimento do uso de termos como "fala",
"linguagem"5 ou do adjetivo "lingüístico" (relativo ao compor
tamento). A utilização do termo fala enfatiza o "comportamen
to vocal" e dificilmente se aplica a "situações nas quais a pes
soa mediadora é visualmente afetada"; e a palavra lingua
gem, embora "afastada de conexão origina! com o comporta
mento vocal", acabou por ficar com uma utilização relativa às
"práticas de uma comunidade lingüística", ao invés de referir-
se ao "comportamento de um dos membros" (destaque ao
falante individual). Para o autor, é essa comunidade (formada
por ouvintes) que modela e mantém o comportamento de fa
lantes. Por seu lado, a utilização do adjetivo lingüístico "sofre
das mesmas desvantagens" Como alternativa, ele propõe o
uso de "comportamento verbal", tendo em vista as vantagens
dessa expressão em relação aos termos mencionados: espe
cificar o comportamento "modelado e mantido pelas conseqü
ências mediatas"; "ser relativamente não familiar às formas
tradicionais de explicação" (Skinner, 1957/1992, p. 2). Esta
alternativa oferece uma definição operacional do comporta
mento verbal, o que pode ser visto como um possível ponto
de partida para seu estudo científico.
Têm havido tentativas de explicar o comportamento
verbal, apelando-se a eventos no organismo, como o caso
do uso de "idéias" (e "imagens"). Skinner manifesta-se con
4 Uma importante discussão sobre "linguagem" e "comportamento verbal" é
tecida por Abib no artigo 'Comportamento verbal e teoria do significado", em
Psicologia: Teoria e Pesquisa, 1999, v. 10, n. 3, pp. 474-487.
5 Segundo Abib (1997, p. 138), a linguagem pode ser definida pelas dimensões
sintática, semântica e pragmática. A primeira dimensão refere-se " ' as
relações meramente formais que as palavras mantém entre si"; a segunda,
"às relações entre palavras e coisas"; e a terceira dimensão, refere-se " 1 as
relações entre palavras e seus usuários".
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trário à explicações desse tipo. Um argumento, para isso,
segundo o autor, é o caráter mentalista de tais explicações.
Um outro argumento, relacionado ao já referido, é o fato de
essas explicações serem incompatíveis com uma análise fun
cional.6 Outro argumento, ainda, é que essas explicações não
se sustentam (as "idéias", por exemplo, não podem ser ob
servadas de modo independente).
A COMPREENSÃO EM GERAL
Skinner concebe a compreensão em geral, ou em termos
mais amplos, como um efeito que o comportamento verbal do
falante exerce sobre o ouvinte. Este, através do seu
comportamento, demonstra aquele efeito do comportamento do
falante, isto é, a sua própria compreensão. A demonstração se dá
pela ação do ouvinte ocorrer de maneira apropriada, isto é, tendo
relação ou estando em conformidade com a ação do falante
(Skinner, 1957/1992). Na interação verbal falante-ouvinte, o estímulo
que é compreendido torna-se a ocasião para a ocorrência de uma
ação apropriada do ouvinte. O autor específica a ação de maneira
apropriada como um indicativo de compreensão, num exemplo de
interação falante-ouvinte:
Pode-se dizer que o ouvinte compreende um falante
se ele simplesmente se comporta de uma maneira
apropriada. Quando, por exemplo, o ouvinte ruboriza-
se à menção de uma incorreção social, pode-se dizer
que ele compreendeu o que foi dito na medida em
que a sua reação foi apropriada ao evento original
(Skinner, 1957/1992, p. 277, itálico nosso).
O "ruborizar-se" é, neste exemplo, o comportamento
emitido de maneira apropriada em relação ao comportamen
to do falante; é neste comportamento que se deriva a noção
de compreensão, pois Skinner toma-o como o dado que re
vela a compreensão ou pelo qual esta é indicada.
O comportamento indicador de compreensão é resul
tado de controle exercido pela comunidade verbal, ou seja,
tem uma história, explicitada por Skinner:
"Estas são as formas pelas quais dizemos que
'compreendemos' uma língua; respondemos de acordo
com uma exposição anterior a certas contingências
num ambiente verbal" (Skinner, 1957/1992, p. 277,
itálico nosso).
6 £m menção aos termos "idéias" (“significado" e "informação"), Skinner
afirma: "Todos estes termos têm o mesmo efeito, de desencoraja-" uma análise
funcionai e fortalecer (...) certas práticas inicialmente associadas à doutrina
de idéias" (Skinner, 1957/1992, p. 7)
100
A COMPREENSÃO EM TERMOS ESPECÍFICOS
Compreensão no operante tex tu a l
A compreensão de leitura é específica e passível de ser
verificada no âmbito da resposta textual. Pela análise da com
preensão de leitura na resposta textual, tentaremos escla
recer o que Skinner quer dizer ao se referir à resposta de
"maneira apropriada" do ouvinte em relação ao falante ou do
leitor em relação ao que é expresso num texto, ou, em ou
tras palavras, as relações implicadas na compreensão de lei
tura; esclarecer o que, segundo o autor, está envolvido a
mais na compreensão de leitura, relativamente ao comporta
mento textual.
Antes de verificarmos a compreensão de leitura no
operante textual, convém caracterizar, primeiramente, as
variáveis envolvidas neste operante. Enfatizamos aqui a ca
racterização do operante textual em relação aos demais, pelo
fato de ser o diretamente relacionado com leitura. Skinner
usar a expressão "comportamento textual" em detrimento
do termo "ler", porque este "refere-se a muitos processos ao
mesmo tempo" (Skinner, 1957/1992, p. 65-66). Ele, entre
tanto, contempla o termo "ler" ou "leitura", pois admite um
ou outro, ao admitir usar o termo "leitor", em referência a um
"falante sobcontrole de um texto" (p. 65). O não tratamento
do operante textual como leitura, deve-se ao fato de que -
conforme assinala de Rose (1995) -, para Skinner, leitura im
plica, também, compreensão de texto, e a compreensão não
ocorre necessariamente no comportamento textual.
O operante textual pode ser subvocal, vocat ou gestual
e ocorre perante um estímulo verbal que, além de escrito ou
impresso, pode ser tátil. Neste operante, há uma "corres
pondência entre o estímulo discriminativo e o produto da res
posta. Esta correspondência envolve uma relação ponto a
ponto entre unidades de estímulo e unidades da resposta"
(de Rose, 1995, p. 4), que dependem da natureza do texto.
No comportamento textual, há um conjunto importan
te de variáveis envolvidas que controlam a sua ocorrência e
que podem interferir na compreensão. Os componentes dos
estímulos são um exemplo dessas variáveis e devem ser de
terminados. A sua determinação implica levar o leitor a res
ponder ao componente ou aspecto de estímulo que seja rele
vante. Por isso, deve ser "conhecido". Para cada caso, "a
pessoa precisa aprender a responder de algum modo a este
aspecto". O importante para o fato de um determinado as
pecto de estímulo controlar o comportamento textual é a his
tória de reforçamento. As contingências de reforçamento, "le-
101
vam as pessoas a ver determinados aspectos dos estímulos
de modo mais saliente, e a ignorar outros aspectos" (de Rose,
1995, p. 5). As contingências são estabelecidas pela comuni
dade verbal (Skinner, 1953).
"As culturas em geral, e os grupos sociais em particular,
podem estabelecer contingências que levam seus
membros a fazer contato com diferentes aspectos dos
estímulos de seu ambiente externo e interno" (de Rose,
1995, p. 5).
Outra variável a ser tida em conta é o conhecimento da
escrita. Uma variável importante, pelo fato de que, em sua
ausência, um iniciante em leitura pode, em função disso, ig
norar aspectos relevantes do texto e, dessa forma, respon
der a outros aspectos. Aqui é crucial o papel das contingênci
as sociais às quais um leitor está exposto. As alterações nes
sas contingências produzem mudanças nas respostas ao tex
to, e essas respostas constituem um reflexo do conhecimen
to que um leitor tem sobre a escrita,
Uma outra variável, ainda, é o deslocamento do controle
de estímulo na leitura. O deslocamento do controle de estímu
lo é uma expressão tecnicamente usada para indicar que "a
aprendizagem de leitura não é meramente o estabelecimento
de relações de controle de estímulo, mas a modificação de re
lações já existentes" (de Rose, 1995, p, 7, itálico nosso). Este
autor menciona o fato de que as crianças oriundas de ambien
tes onde a leitura é valorizada e freqüente (relações já
estabelecidas), têm acesso, em conseqüência disso, a condi
ções para aprenderem grande parte das habilidades neces
sárias para ler antes mesmo de seu ingresso na escola. Tais
habilidades são "resultado cumulativo de suas próprias [das
crianças] experiências de contato com estímulos textuais e
informações transmitidas pelos mais velhos" (p.8).
A integração entre unidades moleculares e unidades mo
lares é, também, uma variável que deve ser considerada na
leitura. Skinner (1957/1992) discute-a ao tratar do "tama
nho" da unidade funcional do comportamento textual, apon
tando que esta "tem sido uma questão prática há muito tem
po discutida em educação" (p. 67). Uma unidade funcional
pode ser constituída por letras isoladas ou sons, sílabas ou
palavras. As letras isoladas ou as sílabas são unidades
moleculares ou menores, em relação às palavras, que são
unidades moiares. As palavras, em relação a sílabas, são
unidades molares, mas em relação a frases e sentenças são
moleculares.
As unidades moleculares podem encadear-se e, assim,
integrar-se em unidades mais amplas, as molares. Também,
unidades molares, por sua vez, podem ser fracionadas em
102
unidades moleculares. Ao aprenderem a ler, muitas pessoas
podem estar sob controle de unidades moleculares tais como,
por exemplo, sílabas (ou grafemas), sendo capazes de integrá-
las em unidades molares, em relação às sílabas e palavras ou
conjuntos de palavras. Para outras pessoas, contudo/o inicio
da leitura pode indicar o controle de unidades molares, pas
sando depois a dividi -las em unidades moleculares; e estas,
sendo recombinadas, conduzem à leitura de palavras novas.
A disposição relativa de seqüências de letras é uma vari
ável de controle do comportamento textual relacionada com
a aquisição do repertório de unidades mínimas. A aquisição
de tal repertório implica a aprendizagem das seqüências de
letras das sílabas cuja combinação, se for deficiente, será
propensa a confusões.
Importante, também, considerar os aspectos espaciais
do texto como variáveis de controle sobre respostas de oihar
do aluno. Eis dois desses aspectos que devem ser levados
em conta: a mudança de página (nos textos em forma de
livro ou caderno) como um estímulo discriminativo para a res
posta de olhar para o canto superior esquerdo do texto, e o
olhar da esquerda para a direita até o fim da linha (este últi
mo é um estímulo discriminativo para movimentar o olhar para
o extremo esquerdo da próxima linha).
A discriminação de sons das palavras deve ser, também,
estabelecida. Citando Gibson e Levin (1975), e Roozin (1978)/
de Rose (1995), afirma que a criança, ao ser exposto a um
texto, fica mais sob controle dos aspectos semânticos do que
dos aspectos fonológicos, pelo fato de os primeiros serem
mais salientes que os segundos. Assim, para que os aspec
tos semânticos exerçam esse controle, é necessário que a
criança aprenda a discriminar os sons componentes das pa
lavras, isto é, os aspectos fonológicos dos estímulos vocais,
o que exige a realização de atividades com essa finalidade,
ou seja, relacionadas com a discriminação de sons envolven
do feedback para as respostas.
Skinner aponta outros processos comportamentais dos
quais depende a compreensão de leitura (não existentes,
necessariamente, no comportamento textual), Tendo o texto
como base, o autor relaciona o efeito deste sobre o leitor à
compreensão de leitura, descrevendo esse efeito na litera
tura (poesia), bem como na área científica e filosófica.
7 Gibson, E. J.;Levin, H. The psychology of reading. Cambridge: MIT Press,
1975; Ro7in, P. The acquisition of basic alphabetic principles: a sTutural
approach. In: Catania, A. C., Brigham, T. A. (Org.). Handbook of Applied
Behavior Analysis: social and instructional processes. New York: Irvincton,
197S, pp. 410-453 (referência não consultada e, por isso, não inserida na
lista final de referências).
103
Na literatura - poesia em particular Skinner (1957/
1992, p. 246) considera o "padrão sonoro" (um aspecto do
estímulo do texto) como "um dos elementos mais importan
tes" desse efeito (sobre o ouvinte ou leitor). Mas o autor
aponta ter sido argumentado que o padrão sonoro (a
musicalidade) á efetivo "se o som 'se encaixa ao sentido' (...)
em mostrar correspondência (...) entre a descrição e a coisa
descrita". O efeito é indicado pela apreciação da poesia, exer
cido pelo padrão sonoro: "Algumas obras, os poemas em
particular, parecem ser divertidas por causa de sua forma:
possuem belos sons e, nesse sentido, podem ser apreciadas
por alguém não conhecedor da língua" (Skinner, 1957/1992,
p. 284-285, itálico nosso).
O autor aponta que a forma pode ser aliada ao conteú
do8 (significado) como aspectos também importantes para que
essas obras sejam apreciadas (o que indica a compreensão
de leitura das mesmas): "Obras literárias são também diverti
das por causa de seus significados: elas descrevem coisas
prazerosas ou interessantes" (Skinner, 1957/1992, itálico nos
so). Ele discute que, em decorrência da conexão entre forma e
significado, algo mais está envolvido na compreensão, como
possibilidade mais provável: é aquilo que tem a ver com o
como o comportamento do leitoré preparado ou liberado por
um texto. Ser preparado ou liberado equivale, provavelmente, a
alguma mudança no leitor, produzida pelo texto.
Skinner apresenta exemplos de textos da área científi
ca e filosófica e cita o que está envolvido na compreensão de
leitura desses textos, em termos comportamentais: o fato
de sermos capazes de "apreender" ou "perceber" o que o
autor "pretende dizer", ou "o porquê de ele dizer o que diz",
isto é, responder da "mesma maneira" ou emitir respostas
"nas mesmas circunstâncias que o autor do texto" (Skinner,
1957/1992, p. 278).
Skinner cita outros exemplos em que a compreensão
de leitura de texto reflete o efeito deste sobre o leitor, mos
trando-a, assim, como algo a mais ou além do comportamen
to textual. A compreensão como algo que extrapola o com
portamento textual decorre, provavelmente, do fato de de
pender de outros processos comportamentais. O autor apon
ta processos que levam à compreensão, ao afirmar:
Suponhamos, agora, que voltarnos ao texto
novamente - como devemos proceder sempre que
temos que compreendê-lo. Que processos explicarão
as mudanças ocorridas? Seqüências intraverbais
8 Aqui, Skinner não usa a palavra "conteúdo", mas entendemos que ele
menciona o conteúdo em oposição à forma, ao tratar da compreensão de
obras literárias.
104
estabelecidas durante a primeira leitura terão,
certamente, exercido o seu efeito: o texto será agora
familiar. Em certa medida, portanto, tenderemos a
dizer as mesmas coisas. Apenas por meio desse
processo pudemos eventualmente decorar o texto. Mas
isso não seria suficiente; podemos ainda dizer que
não compreendemos o texto, embora devêssemos
provavelmente dizer que agora o compreendemos em
certa medida. Outros processos devem ocorrer se
pretendemos chegar ao ponto desejado pelo autor
(Skinner, 1957/1992, p. 278, itálico nosso).
Neste trecho, Skinner considera a familiaridade com o
texto uma condição necessária para a compreensão, por ser
indicativa de um efeito do texto sobre o leitor - capacidade
de este "dizer as mesmas coisas" ou "decorar o texto"; po
rém, não é suficiente, em razão de o efeito que ele produz
não implicar necessariamente outros efeitos (como respon
der apropriadamente sob controle de eventos que controla
ram o escritor).
Segundo Skinner, a familiaridade com o texto tem rela
ção com as respostas intraverbais estabelecidas durante a
primeira leitura. Essas respostas são reforçadas caracteristi
camente quando ocorrem em seguida a outras respostas
verbais, em seqüência. O antecedente para uma resposta
intraverbal é um estímulo verbal, e entre ambos não há qual
quer correspondência ponto a ponto. No operante intraverbal,
são irrelevantes a musculatura envolvida, a modalidade do
estímulo antecedente (que geralmente é visual ou auditivo),
os aspectos dinâmicos do estímulo ou da resposta e o fato
de a resposta ser ou não correta - por exemplo, dizer cinco
como resultado de ver ou ouvir dois mais dois é igual a
(Peterson, 1978). Também, é intraverbal, na interpretação
deste autor: "Dizer 'resposta' como resultado do
experimentador dizer 'estímulo' " Peterson, 1978, p. 65). No
caso, por exemplo, da expressão "pão e água", a palavra
"pão" funciona parcialmente como estímulo antecedente para
a resposta "água". Por meio de seqüências intraverbais
aprendemos, dentre outros comportamentos, a ''recitação de
um longo poema", a "aquisição do alfabeto", a "contagem",
etc (Skinner, 1957/1992, p. 72).q
Podemos analisar o ponto de vista de Rose (1996) so
bre a necessidade de a criança aprender a ouvir a si própria
quando lê, como um exercício que produz a familiaridade com
9 "Quando um longo poema é recitado, podemos muitas vezes expticar grande
parte dele somente pela suposição de que uma parte controla outra de uma
maneira intraverbal (...). O alfabeto é adquirido como uma série de respostas
intraverbais, assim como a contagem, a adição, a multiplicação e a reprodução
da tabuada em geral." (Skinner, 1957/1992, p. 72).
105
o texto. Segundo este autor, ouvir a si mesma possibilita à
criança detectar trechos sem sentido (palavras inexistentes,
contradições, etc) num texto e, consequentemente, funcio
nar como um exercício de compreensão. No final do trecho de
Skinner, referido na página anterior em destaque, quando o
autor afirma que "Outros processos devem ocorrer se preten
demos chegar ao ponto desejado pelo autor", ele pode estar
considerando: (1) que a compreensão de um texto é relati
va; (2) que há outros aspectos (processos) envolvidos na
compreensão, atém da familiaridade do leitor com um texto,
equivalendo isso a dizer que há vários "níveis" de compreen
são do texto, sendo a familiaridade um deles (a expressão
"compreensão crescente", de Skinner, que discutiremos adi
ante, indica que há níveis de compreensão); (3) que, por
haver vários níveis, o autor de um texto pode estabelecer
como critério de compreensão do mesmo um determinado
nível, que ele considere terminal (na nossa interpretação),
ou, conforme as palavras de Skinner, "o ponto desejado",
como critério de compreensão.
Portanto, para haver a compreensão que atenda ao
critério estabelecido pelo autor do texto, ou seja, para que o
leitor demonstre o alcance do "ponto desejado" pelo autor,
são necessários outros processos comportamentais. Em ou
tro trecho, Skinner explicita essa compreensão como devida
ao fato de o falante (escritor) e o ouvinte (leitor) estarem
sob controle das mesmas variáveis. Nesse trecho, Skinner
tece considerações sobre o comportamento verbal do falan
te. Diz ele:
Ambos, o falante e o ouvinte, estão sob controle de
variáveis que são essencialmente as mesmas (...) o
falante gera um comportamento no ouvinte, para
"tornar algo claro para e!e" [ouvinte] ou para "íevá-lo
[o ouvinte] a perceber o ponto em questão" (...), Em
vez de relatar ao ouvinte algo que só ele [falante] vê,
leva o ouvinte a "ver algo à sua maneira" [do falante].
(Skinner, 1957/1992, pp. 268-269, itálico nosso;
palavras entre colchetes acrescentadas).
Em outro trecho, Skinner usa a expressão "compreen
são crescente", indicativa de níveis de compreensão, e que
ele toma como resultado de reexposição do leitor ao texto
(leituras subseqüentes):
”0 nosso comportamento será alterado com as leituras
subseqüentes em direção a uma com preensão
crescente, pelo fato de que o nosso uso [do texto]
então estará mais próximo do uso do escritor" [que
corresponde ao ponto desejado pelo autor] (Skinner,
1957/1992, p. 278, itálico nosso; palavras entre
colchetes acrescentadas).
106
A reexposição produz uma "compreensão crescente" do
texto cuja evidência é alguma aiteração comportamental no
leitor. Este autor propõe que demonstramos compreensão
crescente na medida em que passamos a "produzir respos
tas textuais que suplementam respostas produzida^ por ou
tras (...) razões" (Skinner, 1957/1992, p. 278). Por exemplo,
quando percebemos a adequação do uso de uma metáfora
num texto ou quando entendemos uma caligrafia indecifrável
numa língua conhecida apenas em parte, como resultado da
releitura ou reexposição ao texto.
Compreensão no m a n d o
Certas respostas emitidas por um falante são aponta
das por Skinner (1957/1992, p. 35) como produtoras de de
terminadas conseqüências num ouvinte. Por exemplo, a
verbalização "Espera!'' pode fazer com que o ouvinte espere,
e a verbalização "Sh-h!" pode gerar silêncio. Esses efeitos
no ouvinte podem não ser inevitáveis.
Suponhamos um falante sob privação de alimento que
verbaliza "Pão, por favor!" na presença de um ouvinte. Este
procura pelo pão e o traz ao falante, que diz, agradecido:
"Obrigado!", seguido de "Disponha!", pelo ouvinte. Em relação
ao falante, a presença do ouvinte é a ocasião para o pedido
e o provimento do pão, garantido pelo ouvinte, funciona como
conseqüência reforçadora para o falante, assim como a res
posta "Disponha!" do ouvinte, aumentando a probabilidade
de novos pedidos no futuro.Em relação ao ouvinte, o pedido
do falante é a ocasião para o provimento do pão.
O pedido "Pão, por favor!" é um operante verbal chamado
mando por Skinner (1957/1992, p. 37). O mando é um operante
que ocorre sob controle de condições relevantes de privação
ou de estimulação aversiva. Como mando, o pedido menciona
do produz o seu efeito sobre o ouvinte, que é o prover o pão ao
falante, caracterizado como a resposta do ouvinte de procurar
pelo pão e a resposta de entregar o pão ao falante.
Há outros exemplos de mando, relacionados a situa
ções acadêmicas. Apresentaremos um deles, extraído de um
livro didático (Rodrigues, 1994). Numa página do livro, após
a apresentação da situação/contexto, caracterizada por de
senhos (de um menino e uma menina - ele empinando uma
pipa e ela segurando uma flor com pétalas evidentes; de um
porquinho e um pato, este nadando num lago), há a apre
sentação, logo abaixo, de cinco palavras impressas, das quais
quatro correspondem aos desenhos mencionados, e o se
guinte comando do exercício: "Risque só as palavras que fo
ram representadas por desenhos na cena" (p. 15). Este é
um mando. O efeito que se espera seja produzido por "Ris-
107
que", de "Risque só as palavras que foram representadas
por desenhos na cena" do professor(a), ou falante, é que o
aluno(a), como ouvinte, responda, riscando essas palavras.
No caso do primeiro exemplo, o do pão, dizemos que pro
curar pelo pão e entregá-lo ao falante são respostas "apropri
adas" do ouvinte, em relação ao mando "Pão, por favor!" e sua
ocorrência indica ter o ouvinte ficado sob controle das variáveis
relevantes na situação. Assim como no caso, também no exem
plo acadêmico, as respostas do ouvinte são, portanto, correlatas
à resposta apropriada do leitor de um texto. Essas respostas,
por serem apropriadas às verbalizações do falante, revelam
compreensão diante dos estímulos verbais correspondentes.
Compreensão no t a t o
Skinner define o tato como "um operante verbal em que
a resposta é evocada (...) por um objeto particular ou evento
ou pela propriedade de um objeto ou evento" (Skinner, 1957/
1992, pp. 81-82).
No tato, o estímulo antecedente é não-verbal (um ob
jeto, uma propriedade de um objeto ou de um acontecimen
to); contudo há, em alguns casos, operantes verbais na for
ma de mandos, fazendo parte da ocasião em que o tato ocor
re. Segundo Skinner, a emissão do tato é mantida por
reforçamento generalizado, como, por exemplo, quando en
sinamos a uma criança os nomes de objetos, cores, etc., usan
do, como conseqüência para a nomeação correta desses es
tímulos, pela criança, o estímulo verbal "Certo!"(Skinner, 1957/
1992, p. 84).10 No tato, é irrelevante a musculatura com que
a resposta é executada (esta pode ser vocal, escrita, gestual,
etc); a modalidade do estímulo (este pode ser auditivo, visu
al, gustativo, olfativo etc); se há ou não algum reforçamento
para a resposta; se a resposta é correta ou não (por exem
plo, dizer erroneamente "gato" na presença de um cão).
Um outro exemplo, de Skinner (1957/1992), elucida,
também, a noção de tato, mostrando um caso em que há um
mando como parte da ocasião para a sua ocorrência e ilus
trando melhor o controle de estímulo tanto sobre o falante
como sobre o ouvinte. O autor supõe um "objeto vermelho"
que estimula tanto o ouvinte quanto o falante. Constituem
ocasião na qual ocorre a resposta verbal "Vermelho!" do fa
lante: o objeto vermelho, a presença do ouvinte e, possivel
mente, um mando apropriado "Que cor é esta?". A resposta
verbal do falante produz, como conseqüência, o "Certo!" do
10 "São ensinados a uma criança os nomes de objetos, cores, etc quando
algum reforçamento generalizado (por exemplo, a aprovação contida no
estímulo verbal Correto!) é tornada contingente à resposta que possui um
relação com o estímulo corrente" (Skinner, 1957/1992, p. 84).
108
ouvinte. A resposta do falante torna-se um estímulo verbal
que corresponde apropriadamente à estimulação do objeto
vermelho para prover a ocasião em que o ouvinte diz "Cer
to!" (Skinner, 1957/1992, p. 84).
O mando "Que cor é esta?" tem sua probabilidade futura
de ocorrer aumentada pela conseqüência especificada na res
posta "Vermelho!". E a resposta do falante é um estímulo ver
bal que corresponde ao objeto vermelho e ambos formam a
ocasião para que ocorra a resposta "Certo!", do ouvinte. A
resposta "Vermelho!" é uma resposta "apropriada" ou que
ocorre em conformidade com a dimensão relevante do estímu
lo controlador de sua ocorrência. É uma resposta que revela
que o falante ficou sob controle das variáveis relevantes na
situação. Podemos tomá-la como correlata da resposta apro
priada do leitor de um texto. A resposta revela compreensão.
Compreensão no operante e c ó ic o
Conforme aponta Skinner, "o caso mais simples de com
portamento verbal sob controle do estímulo verbal" é o ecóico.
É um operante "que gera um padrão sonoro semelhante ao
do estímulo" (Skinner, 1957/1992, p. 55). Mas, como lembra
o autor, nem sempre o estímulo ecóico produz uma resposta
semelhante - seja por falta de clareza do estímulo, seja pela
dificuldade de sua audição, por deficiência no estabelecimen
to do repertório ecóico, ou por outras razões. Conforme
Peterson (1978), no comportamento ecóico, a resposta é
vocal, controlada por um estímulo antecedente verbal que é
auditivo; há uma correspondência ponto a ponto entre a res
posta e o estímulo, bem como similaridade formal entre o
estímulo antecedente e a resposta-produto.
Vejamos um exemplo de operante ecóico, relacionado
com uma situação acadêmica. O professor(a), falante, diz ao
aluno(a), ouvinte: "Vou 1er esta frase", apontando para a fra
se: "O apelido de Laura é Lalá." (Rodrigues, 1994, p. 31). O
professor(a) continua: "Depois, você repete". Desta manei
ra: Professor(a): "O apelido..."; Aluno(a): "O apelido..";
Professor(a): "... de Laura..."; Aluno(a): "... de Laura...";
Professor(a): "...é Lalá"; Aluno(a): "...é Lalá.”
O operante ecóico, segundo Skinner, "é quase inevita
velmente adquirido antes do textual" (Skinner, 1957/1992,
p. 190). Neste operante, está envolvida uma relação entre o
estímulo discriminativo, a resposta e a conseqüência (reforço
generalizado). A resposta é imitativa, por produzir um pa
drão sonoro que tem semelhança com o padrão do estímulo.
Desde cedo, a criança aprende a emitir esse comportamento
em casa; por exemplo, ao imitar "verbalizações do tipo ma
mãe, papai/ tia, avó, nenê" apresentadas pelos pais, sendo a
criança reforçada por estes (Neri, 1978, p. 18). Um adulto
109
também aprende num ambiente educacional a emitir repos
tas ecóicas quando, por exemplo, é corrigido por modelos
verbais adequados que ele imita, e é reforçado por aproxi
mar-se do padrão desejado de pronúncia.
Skinner discute que o operante ecóico pode ocorrer em
função de estímulos contidos em instruções. Como exemplo,
ele aponta o comportamento de seguir ordens, em que o ou
vinte repete estímulos envolvidos na ordem como uma forma
de o seguimento ser bem sucedido: "Após dizerem para nos
movermos à direita, podemos responder mais precisamente se
antes respondermos verbalmente: à direita" (Skinner, 1957/1992,
p. 56). No exemplo, conforme Skinner, ocorre uma resposta
ecóica correspondente ao padrão sonoro da instrução contida
na ordem (que pode estar expressa na forma "Virar à direita\").
O efeito sobre o ouvinte é indicado pelo seguimento da ordem
- virar à direita. Mas revela-se como produto de um controle
mais efetivo, em virtude da repetição, pelo ouvinte, de parte
("à direita") dos componentes da ordem. Assim, o virar à direita,
como efeito mais efetivo, é algo além do simples efeito produzi
do pela mera resposta ecóica "à direita" (a repetição do estí
mulo), em termos de sua correspondência com o padrão sono
ro do estímulo que a controla. No operante ecóico, o efeito pro
duzido sobre o ouvinte restringe-se, em geral, à repetição dos
estímulos que o controlam.Quando um aluno diz "casa", diante
da palavra casa falada por um professor, temos um outro exem
plo de operante ecóico. A resposta do aluno é "apropriada" à
dimensão (sonora) do estímulo que a produz. Sendo apropria
da, essa resposta indica que o aluno ficou sob controle desse
estímulo. Consideramos que a resposta ecóica "à direita", em
função de "Virar à direita!" (da ordem), e a resposta "casa" do
outro exemplo, têm correlação com a resposta apropriada de
um leitor diante de um texto; neste e nos outros exemplos, as
respostas são reveladoras de compreensão.
Compreensão nos a u t o c l í t i c o s
Skinner usa o termo "autoclítico" para referir-se a um
comportamento verbal que tem fundamento ou "depende de
outro comportamento verbal" (Skinner, 1957/1992, p. 315).
Os autoclíticos dizem algo sobre o dizer. Há vários grupos de
autoclíticos, conforme a classificação do autor, mas objetivamos
aqui analisar apenas dois: os qualificados e os quantificadores.
Autoclíticos qualificados modificam "a intensidade ou a
direção do comportamento do ouvinte" (Skinner, 1957/1992,
p. 322). Neste grupo, há os autoclíticos de negação, no qual
estão envolvidas respostas como, por exemplo, "não", de "A/ao
diga isso!". Eles podem, como seu efeito, deter o comporta
mento do ouvinte, o que depende de quem é o falante e de
quais são as circunstâncias em que ele os verbaliza; o com-
110
portamento do ouvinte indica a compreensão acerca do com
portamento verbal do falante. A verbalização "Não diga isso"
de um pai intransigente para seu filho, após este ter pronun
ciado uma palavra obscena, pode fazer com que tal compor
tamento diminua de freqüência ou mesmo cesse. O^mesmo
efeito pode não ocorrer se a verbalização for de um irmão ou
de um colega. Vejamos outros exemplos.
Os exemplos, a seguir, de autoclíticos de negação, fo
ram extraídos do jornal Folha de São Paulo e se inserem em
vários trechos de um recente depoimento do senador José
Roberto Arruda, citado por Silveira (2001, p. A5) e Alencar
(2001). O depoimento foi parte da defesa do parlamentar
das denúncias em que foi envolvido e que diziam respeito à
sua suposta participação na violação do painel eletrônico de
votação no Senado Federal, cujo indício foi uma lista de vo
tos da sessão que cassou o senador Luiz Estêvão. Além do
senador Arruda, houve outros considerados supostos envol
vidos, como a ex-diretora do Prodasen, Regina Borges, o as
sessor de Arruda, Domingos Namoglia, e o senador Antonio
Carlos Magalhães. Os autoclíticos, considerados nesses tre
chos, são as verbalizações em itálico, no contexto das frases
a que pertencem. Vejamos, primeiramente, os autoclíticos de
negação no trecho seguinte em que afirma Arruda:
Trecho 1-. "É preciso ficar claro que não pedi, muito
menos determinei, em meu nome ou no nome do
presidente [do Senado] Antonio Carlos Magalhães, que
sua senhoria [Regina] obtivesse a lista (Silveira,
2001. p. A5; palavras entre colchetes acrescentadas).
Um dentre 34 outros estudantes de graduação de uma
instituição de ensino superior, participantes de um estudo
exploratório11 sobre compreensão de leitura, foi solicitado para
dizer o efeito sobre si, exercido pelas palavras em itálico no
trecho transcrito acima. Ele, que tinha acompanhado o depo
imento do senador Arruda pela televisão, expressou esse
efeito da seguinte forma: que o efeito do "não", de "não pedi",
era equivalente ao efeito de "muito menos", sendo esse efei
to: (a) uma "discordância"; (b) uma "negação”; (c) uma "tenta
tiva de isenção"; (d) algo que "expressa total impossibilidade:
(e) uma "ação absurda de ser praticada" (itálico nosso). Esse
efeito revela a compreensão que o participante PI teve do
11 No estudo, aiém dos trechos do depoimento do senador Arruda, usamos
dois trechos do "Hino Nacionai" brasileiro; também, um trecho do poema ”Os
Escravos" de Castro Alves; dois trechos, sendo um do poema "Castro Alves
do Brasil" e outro do poema "Canto Geral" ambos de Pablo Neruda, e um
pequeno trecho do livro A insustentável ieveza do ser, de Milan Kundera. Por
uma questão de espaço e para efeito de ilustração, apenas são consideradas
neste trabalho as respostas de um dos participantes do estudo, relativas à
sua compreensão dos trechos do Hino Nacional, sendo omitidas as respostas
dele e dos demais aos outros textos.
111
"não" e do ”muito menos", desse trecho. Em dois outros tre
chos, o autoclítico "não" aparece de novo; também, seguido
do autoclítico "nem". Vejamos:
Trecho 2: "Quando o Dr. Domingos [Domingos
Lamogtia, assessor de Arruda] me entregou o envelope
de papel pardo - também é verdade -, sem saber do
que se tratava, eu o abri (...). Tinha a relação dos nomes
dos senadores com o voto ao lado. Não tirei cópia.
Guardei a lista [de votos da sessão que cassou o
senador Luiz Estêvão] no envelope e, sem seguida, fui
ao gabinete do presidente Antonio Carlos. S. Excia.
olhou o voto, e juntos fizemos alguns comentários.
Estivemos sozinhos na sala. Ainda na minha presença,
ele pediu que ligassem para a dra. Regina, e, de fato,
agradeceu a ela o envio da lista." (Silveira, 2001. p.
A5; palavras entre colchetes acrescentadas).
Trecho 3: "Não entreguei nem recebi, não vi nem sei se
existe (a lista) (...)." (Alencar, 2001. p. A6, itálico nosso).
O participante expressou sua compreensão do "Não",
de "/Vão tirei cópia" (trecho 2) e do "Não" e do "nem", de "Não
entreguei nem recebi, não vi nem sei (...)" (trecho 3), como
tentativas de o senador Arruda garantir isenção de culpa" (itá
lico nosso).
Há também os autoclíticos de asserção ou afirmativos,
que, segundo Skinner (1957/1992), levam o ouvinte a aceitar
uma dada situação, tendo, portanto, efeito contrário ao dos
autoclíticos de negação, e são constituídos, por exemplo, pela
resposta "Simr. Vejamos: "Vota em X? Sim!" (Skinner, 1957/
1992, p. 326). Este leva o ouvinte a comportar-se positiva“
mente (como indução). Ainda usando o depoimento de Arruda,
podemos apontar outros exemplos de autoclíticos de asserção:
Trecho 4: ”Vi o depoimento da Dra. Regina Borges [ex-
diretora do Prodasen]. Difícil negar-lhe veracidade.
Talvez alguns enganos, ao certo mudanças de datas,
esquecimento num ou noutro detalhe, que em nada
comprometem o fato e a verdade que ela relatou"
(Silveira, 2001. p. A5, itálico nosso; palavras entre
colchetes acrescentadas).
Como sua compreensão, o participante referido expres
sou o efeito sobre si, exercido por "Difícil", de "Difícil negar-lhe
veracidade", por "Talvez", de "Talvez alguns enganos" e por "ao
certo", de "ao certo mudanças de datas” (trecho 4), da seguinte
forma: (1) que entendia a palavra "Difícil" como sendo (a) algo
"quase impossível"; (b) algo "não fácil"; (c) uma "afirmação"; (d)
algo que se traduz por "certeza" (itálico nosso); (2) que enten
dia a palavra "Talvez" como (a) um indicativo de "dúvida"; (b)
algo que "abre outras possibilidades"; (c) um "não comprometi
mento com as informações" (itálico nosso); (3) que entendia a
112
verbalização "ao certo" como algo que "informa que Arruda dis
corda das datas citadas por Regina e informa que está sob posse
de informações mais precisas” (itálico nosso).
Trecho 5: "Fui ingênuo sim. Minimizei as conseqüências
do episódio (...)" (Silveira, 2001. p. A5, itálico nosso).
Trecho 6: "Confirmo os [encontros] que tive por
iniciativa dela [Regina] e os que o dr. Domingos
[assessor de Arruda] teve, a meu pedido - aí já
sabendo do que tinha ocorrido" (Silveira, 2001, p. A5,
itálico nosso; palavras entre colchetes acrescentadas).
O participante verbalizou sua compreensão do "s/m"
de "Fui ingênuo sim" (trecho 5), analisando que, com essa
afirmação, o falante "concorda com uma possívei critica e, ao
mesmo tempo, expressa auto-crítica" (itálico nosso). Segundo
o participante, o falante Arruda, nesse trecho, refere-se a
verbalizações anteriores, expressas na crítica que lhe foi
dirigida (falar a respeito do falar). Quanto a "Confirmo” (trecho 6), ele disse indicar "concordância em relação a alguma
afirmação prévia feita por outrem" (itálico nosso).
O efeito expresso pelas respostas do participante do
estudo, ao ser exposto aos trechos contendo esses
autoclíticos, indica a sua compreensão. O participante pôde
julgar a atitude do falante (Arruda), quando, em referência a
este, disse que tentou "garantir isenção de culpa". Este jul
gamento decorreu, provavelmente, do fato de que o partici
pante tenha tido conhecimento do depoimento de Arruda e
do evento em cujo contexto o depoimento foi pronunciado.
Nos autoclíticos, em virtude de modificarem, como seu
efeito sobre o ouvinte, a intensidade ou a direção do com
portamento deste - "aceitar" ou "rejeitar" uma dada situa
ção, por exemplo, o comportamento indicativo desse efeito é
o que revela compreensão. O comportamento resultante do
efeito de "Acho que sim" é diferente do efeito de "Estou certo
que sim". Isso tendo em vista um contexto em que o ouvinte
espera obter uma avaliação do falante acerca, por exemplo,
da possibilidade de ele passar numa prova de proficiência
em Língua Francesa. O primeiro autociítíco do falante pode
ser gerador de pouca confiabilidade no ouvinte quanto à sua
prontidão para a prova, enquanto o segundo autoclítico pode
produzir uma forte confiabilidade.
Os autoclíticos quantificadores indicam extensões em
que a resposta envolvida se aplica à situação que ela espe
cifica. Fazem parte deste grupo respostas, por exemplo, como
"todos", equivalente a "sempre" ou "é sempre possível dizer";
"algumas", de "Algumas vezes é possível dizer", etc (Skinner,
1957/1992, p. 393). Autoclíticos quantificadores produzem
compreensão cujo indicador é o comportamento do leitor
113
poder refletir o grau de intensidade dos aspectos ou dimen
sões, ou da situação mencionados nesses autoclíticos. Por
exemplo, em "Sempre que o professor entrar na sala os alu
nos devem levantar-se", o efeito provável sobre o ouvinte,
que é o levantar-se, exercido por "Sempre", é o mesmo pro
duzido por "Todas as vezes". Igualmente, há um efeito produ
zido por ”Poucos", de ''Poucos alunos passaram", que é dife
rente em relação a ”Muitos", de "Muitos alunos foram aprova
dos". Para um diretor de uma escola pública cujo interesse é
apenas estatístico ao desejar obtenção do maior número
possível de aprovações, o dizer "Poucos alunos passaram"
indica um número pequeno de aprovações e nMuitos alunos
foram aprovados" indica um número elevado de aprovações,
embora, nos dois casos, não haja uma quantificação exata.
Euforia pode ser um efeito de "Muitos" e decepção, o efeito
de "Poucos". Também, além de ficar eufórico, o diretor pode
propor uma comemoração, ou algo parecido. Em ambos os
casos, o comportamento do diretor indica sua compreensão.
Há outros exemplos de autoclíticos e de seus efeitos. O
caso de um certo apresentador de televisão que disse certa
vez preocupar-se em verificar a veracidade e a procedência de
notícias econômicas antes de as veicular, pelo fato da expecta
tiva que elas geram no mercado financeiro. Com isso, ele reve
lou o controle que boatos sobre a situação econômica noticia
dos via TV têm sobre o comportamento das pessoas, o que
depende, também, da relação que essas pessoas têm com
determinado canal de TV, com a fonte dos boatos (como um
grande especialista em economia, por exemplo) e ainda de
pende do fato de essas pessoas não serem entendedoras de
economia.
Muito provavelmente, se uma importante autoridade
governamental (falante), como um ministro da área econômi
ca considerado famoso, anunciar: "A bolsa vai subir!" ou "Te
nho certeza que a bolsa vai subir!", as pessoas (ouvintes)
pouco informadas sobre bolsa de valores poderão tomar cau
tela, não vendendo logo suas ações; poderão esperar para
ganharem mais com a venda posterior. Este é um efeito dife
rente do efeito causado pelo seguinte anúncio dessa mesma
autoridade: "Suponho que a bolsa vai subir". O "Suponho"
não indica uma avaliação segura de que a bolsa subirá. Pode
gerar certa inquietação, mas não a decisão pela espera. Em
"Tenho certeza que a bolsa vai subir!", o ”Tenho certeza" mo
difica o efeito, sobre essas pessoas, do que vem depois: "a
bolsa vai subir!" Ou seja, provavelmente, as pessoas ficarão
mais convictas de que não venderão logo suas ações. Que
remos frisar que esses efeitos dependerão ainda da história
dessas pessoas em lidar com anúncios similares. Esses efei
tos constituem a compreensão.
114
A propaganda comercial pode induzir necessidade de
consumo de um determinado produto, pela força de seus ar
tifícios verbais e pela influência de quem a realiza. Este é um
caso em que a verbalização de um falante (um artista muito
popular, por exemplo) leva milhares de pessoas às lojas mes
mo que elas não estejam precisando realmente de fazer com
pras (necessidade criada artificialmente).
Nos autoclíticos entendemos que as respostas apropria
das do ouvinte são correlatas das respostas de um leitor diante
de um texto. Assim como diante de um texto, também nesses
autoclíticos, as respostas são indicadoras de compreensão.
R es u m o
Vimos que Skinner considera a noção de "compreen
são" em geral como o efeito que o comportamento verbal do
falante exerce sobre o ouvinte. Esse efeito traduz-se em ação
apropriada do ouvinte ou em conformidade com o comporta
mento verbal do falante; e é passível de ser verificada nos
operantes verbais definidos pelo autor. Em sua relação com
a leitura, esse efeito é a probabilidade de o leitor comportar-
se de modos particulares diante de eventos relevantes que
controlaram o comportamento do escritor.
Vimos, também, que o operante textual é prestativo
para servir de base para a derivação da noção de compreen
são de leitura. Embora Skinner não identifique esse operante
com o comportamento de ler, serve a este comportamento
como um pré-requisito e é em seu âmbito que podemos con
siderar alguns aspectos geradores da compreensão.
Em Verbal Behavior há indicativos de que, para Skinner, a
noção de compreensão de leitura é algo que vai se constituindo
e, daí, revelando níveis de complexidade. Um desses indicativos
é a familiaridade do leitor com um determinado texto, propiciado
pelo contato preliminar com o mesmo. Contatos posteriores pro
piciam uma compreensão crescente da leitura do texto, ou seja,
constituem avanços em relação ao nível inicial.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho é uma contribuição no sentido de mos
trar que a "compreensão de leitura" é uma noção não estra
nha à Análise do Comportamento, na versão de Skinner; as
sim, com o trabalho, demos um passo na demonstração da
possibilidade de sua investigação à luz desse modelo de ci
ência. É uma investigação de natureza conceituai, tão im
prescindível quanto qualquer investigação empírica. O traba
lho é passível de gerar não apenas implicações em termos
teórico-metodológicos, como também em termos sócio-
educativos, concretamente, as relativas ao uso funcional de
leitura, que é uma habilidade útil para a solução de proble-
115
mas práticos do cotidiano. Segundo Mello (1998), o uso fun
cional de leitura é um indicador do domínio da língua que, por
sua vez, constitui uma necessidade premente, principalmen
te num mundo letrado como o nosso.
Tomar a compreensão de leitura como objeto de estu
do é um empreendimento importante, tendo em conta o seu
papel no chamado exercício da cidadania, ou seja, o exercí
cio de autonomia dos indivíduos em suas interações sociais,
como um reflexo não somente do grau de conhecimento de
seus direitos e deveres correspondentes, assegurados em
lei, mas também do efetivo acesso às condições que garan
tam a tomada de decisões de forma democrática no campo
econômico, sócio-educacional e cultural.
O exercício da cidadania implica a existência de condi
ções apropriadas. A garantia de parte dessas condições é
uma tarefa que cabe à Educação. Um modo concreto de con
tribuir para esse exercícioé a formação de bons leitores, ou
aqueles capazes de ler e compreender o que lêem, a qual se
insere no conjunto de atribuições educacionais, especifica
mente da instituição escolar, e deve ser contemplada no es
tabelecimento de políticas públicas.
Refer ên cia s
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Skinner, B. F. (1992). Verbal Behavior. Cambridge: Coley
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116
CONTROLE DO COMPORTAMENTO
POR RELAÇÕES ORDINAIS:
ALGUMAS QUESTÕES CONCEITl/AIS E
METODOLÓGICAS1
Mylena Pinto Lima Ribeiro2
Grauben José Alves de Assis3
Sônia Regina Fiorim Enumo4
Uma concepção analítico-comportamental dos fenôme
nos psicológicos, tradicionalmente designados pelos termos "lin
guagem" e "cognição", requer o exame dos diversos tipos de
controle de estímulos que estão subjacentes ao comportamen
to verbal. Boa parte das relações entre estímulos e entre estí
mulos e respostas observadas num repertório com porta mental
resultam do ensino direto estabelecido pela comunidade ver
bal. Muitos desempenhos, porém, estão relacionados a exten
sões de controle de estímulos e são caracterizados por tipos
especiais de discriminações e generalizações (Sidmaní1986).
A evolução de repertórios verbais complexos baseia-se
na formação de classes de estímulos simbólicos ou arbitrários,
isto é, classes de estímulos cujos membros não compartilham
propriedades físicas comuns, mas que se tornaram relaciona
dos através do estabelecimento de relações de significado e
de relações de ordinais (Sidman, 1986 Green; Stromer &
Mackay, 1993; Green, 1993). Disso decorre que a pesquisa
atual sobre o comportamento verbal e outros desempenhos
complexos, como a leitura, a escrita, a compreensão e a for
mação de seqüências complexas, enfatiza fortemente a análi
se de diversos tipos de treino discriminativo e de suas rela
ções com a transferência de controle de funções de estímulos.
Quando se trata da ampliação de repertórios comporta-
mentais, pela inclusão de habilidades acadêmicas por exem-
1 Trabalho derivado da tese de Doutorado da primeira autora - Comportamento
matemático: Relações ordinais e inferência transitiva em pré-escolares com risco
psicossocial para dificuldade de aprendizagem. Programa de Pós-Graduação
em Psicologia, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES, 2004 -
orientada pelos demais autores.
2 Centro Universitário de Vila Velha.
3 Universidade Federal do Pará
4 Universidade Federal do Espírito Santo
117
pio, a caracterização das relações de controle de estímulos
pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de
ensino com considerável valor prático. A demanda por tecno
logias que contribuam para o tratamento de problemas de
ensino e para o atendimento de populações atraso no desen
volvimento colocou em pauta a questão da "inteligência práti
ca". Justifica-se, assim, um esforço de pesquisa no sentido de
prover suporte empírico para o exame dos desempenhos com
plexos que ocorrem em situações cotidianas, e que se relacio
nam estreitamente como a noção de capacidades gerais (quo
ciente de inteligência ou QI) aquisição de habilidades básicas
em contextos de educação formal.
Skinner (1972/1968) defendeu a idéia de que a Análi
se do Comportamento dispõe de recursos metodológicos para
o desenvolvimento de tecnologias de ensino. De fato, a pes
quisa experimental muito tem contribuído para o aprimora
mento de táticas alternativas para o estudo dos desempe
nhos que requerem inferência transitiva, e que são usual
mente estudados sob o tópico "abstração". Atualmente, a
tecnologia comportamental vêm sendo largamente utilizada,
especialmente no desenvolvimento de programas de ensino
para crianças com problemas de aprendizagem (De Rose
1993; Carmo, 2002;. Ribeiro, 2004)
Eq u iv a lên c ia de es tím u lo s e o es tu d o da
NOVIDADE COMPORTAMENTAL
É comum que novos desempenhos apareçam na literatu
ra psicológica como um indício de inteligência. Para muitos au
tores cognitivistas, sua ocorrência deve ser examinada junta
mente com outros aspectos mediadores do chamado funciona
mento intelectual. Neste sentido, a novidade comportamental
estaria estreitamente relacionada aos processos designados
"metacognitivos" e "executivos" (Mackay, Stromer & Serna,
1998). Em oposição ao ponto de vista dominante na Psicologia,
a Análise do Comportamento sugere uma alternativa para o
exame de desempenhos complexos que envolvem a novidade
comportamental, enfatizando a análise funcional da formação
de classes de estímulos e da transferência de funções de con
trole de estímulo, em substituição à busca por aspectos estru
turais e outros determinantes de processos internos (Mackay e
cols., 1998; Mcllvane, Serna, Dube & Stromer, 2000; Sidman,
1994; Stromer, Mackay, Cohen & Stoddard, 1993).
Numa revisão detalhada, temos que uma classe de estí
mulos é formada pelo estabelecimento de relações condicio
nais entre estímulos. O procedimento de discriminação condici
onal conhecido como emparelhamento de acordo com o mode
lo ou (matching to sampíe) visa ao estabelecimento de relações
118
condicionais. Este procedimento consiste na apresentação de
um estímulo condicional (modelo) e dois ou mais estímulos
discriminativos (comparações). O objetivo do treino de discrimi
nação condicional é tornar muito provável a emissão . ôs de
sempenhos baseados em relações de identidade. Para isso, o
procedimento prevê que uma resposta de escolha correta seja
seguida por conseqüências diferenciais reforçadoras e que a
seleção incorreta não seja reforçada. (Sidman & Tailby, 1982).
Discriminações condicionais podem estar baseadas na se
melhança física entre os estímulos que compõem uma classe
ou no estabelecimento de relações arbitrárias entre estímulos
(arbitrary matching to sample). O segundo tipo controle envolve
o estabelecimento de relações entre estímulos que não com
partilham similaridade física. Para ilustrar, vejamos os objetos
os seus nomes: não existe qualquer semelhança física entre a
figura de um livro e seu nome falado. Mas, crianças aprendem a
comportar-se de forma adequada na presença da figura do li
vro, tanto quanto se comportam adequadamente na presença
de seu nome falado e do seu nome escrito, quando são refor
çadas por fazê-lo por sua comunidade verbal.
No procedimento de emparelhamento arbitrário com o
modelo (arbitrary matching to sample), algumas relações arbi
trárias entre estímulos fisicamente diferentes são
estabelecidas por ensino direto (discriminação). Ocorre, além
disso, a transferência de funções de estímulo sem ensino
adicional (generalização). Quando uma relação arbitrária é
estabelecida entre estímulos dessemelhantes, diz-se que taisestímulos tornaram-se membros de uma classe de estímulos
equivalentes. Assim, pode-se dizer que as relações arbitrári
as, que estão na base da formação de classe de estímulos,
são produtos de contingências que exigiram discriminações
condicionais e generalização.
O suporte empírico para a noção de equivalência entre
estímulos foi obtido por meio de testes com porta menta is in
troduzidos na área por um estudo pioneiro realizado por
Sidman (1971). Este estudo buscou verificar se emparelha-
mentos auditivos-visuais, estabelecidos entre palavras dita
das ao sujeito como modelo, e palavras escritas, apresenta
das como comparações, eram suficientes para a emergência
da leitura oral, e da leitura com compreensão, sem ensino
adicional. O participante era um jovem de 17 anos, portador
de deficiência mental severa. O resumo do procedimento utili
zado por Sidman (1971) pode ser visto na Figura 1, no qual: a
letra "A" indica o conjunto de estímulos-modelo ditados. A le
tra "B" indica o conjunto de figuras correspondentes às pala
vras apresentadas oralmente. A letra "C" indica o conjunto de
palavras impressas, correspondentes às palavras ditadas e
às figuras. A letra "D" indica o conjunto de nomes emitidos
119
pelo sujeito. As setas indicam as relações condicionais entre
os conjuntos de estímulos: a) as setas em negrito indicam
relações conhecidas antes do experimento, e avaliadas em
testes de linha-de-base; b) a setas simples indicam as rela
ções ensinadas ao sujeito, e, c) as setas descontínuas, indi
cam as relações emergentes: relações entre palavras escritas
e figuras (BC e CS), e nomeação oral de palavras (CD), testa
das após o treino da relação AC. O sentido das setas é sem
pre dos estímulos-modelo para os estímulos de comparação.
Figura 1. Diagrama esquemático das relações estudadas
por Sidman (1971).
No procedimento de discriminação condicional, inicial
mente, são estabelecidas relações condicionais entre dois
estímulos, uma relação AB, em que, por exemplo, A l é o estí
mulo modelo e BI é a comparação que deve ser selecionada.
Como ilustração, vamos imaginar um arranjo de estímulos
em que a palavra ditada "bola" é o estímulo modelo (Al) e as
figuras de uma bola (B3) e de um bolo (Bl) são os estímulos
de comparação, a resposta correta seria a resposta de esco
lha da figura de uma bola (Bl).
Para avaliar se o desempenho no contexto de empa-
relhamento com o modelo (matcbing) está baseado em equi
valência de estímulos, Sidman e Tailby (1982) propuseram o
exame das propriedades de relações de equivalência, tal
como aparecem descritas por Stevens (1959) na matemáti
ca: 1) reflexividade, 2) simetria e 3) transitividade (De Rose,
120
1993; Sidman, 1986; Sidman, Kirk & Willson-Morris, 1985),
apresentadas a seguir:
1) Reflexividade requer uma comparação por identidade
generalizada, de forma que, frente a um modelo B l+ a
comparação BI é a correta. Por exemplo, na presença
da figura de uma "bola", como estímulo modelo, a figura
de uma "bola" é o estímulo de comparação correto.
2) S im etria requer a reversão das propriedades
assumidas pelos estímulos modelo e a comparação,
por exemplo, após o estabelecimento de uma relação
condicional em que "bola" (Al) é o estímulo modelo
apresentado, e que a palavra impressa bola (Cl) é o
estímulo de comparação correto. A simetria é
confirmada na presença da seleção de A l (comparação)
condicionalmente à presença de C l (modelo). Em
outras palavras, frente à palavra impressa bola (Cl)
apresentada como estímulo modelo, o desempenho
de escolha da palavra ditada "bola" (Al), apresentada
como estímulo de comparação, deverá ocorrer.
3) Transitividade pode ser inferida se uma nova relação
condicional emergir sem que tenha sido ensinada
diretamente. Dessa forma, avalia-se a emergência da
relação BC após o estabelecimento de relações
condicionais AB e AC. Para ilustrar, tomemos um arranjo
de estímulos em que a figura de uma bola (Bl) é o
estímulo modelo apresentado, a transitividade estará
confirmada se o desempenho de escolha da palavra
impressa bola (Cl) ocorrer. Ressalte-se que os estímulos
designados como Bl e C l (no exemplo, a figura e o
nome impresso) nunca apareceram juntos em contextos
de ensino. Uma vez que a relação BC não foi diretamente
ensinada, diz-se que esta relação condicional é uma
relação emergente. A verificação da emergência de
relações de equivalência será confirmada se, sem
qualquer treino adicional um novo desempenho
envolvendo relações CB ou CD ocorrer. Isto é, se frente
à palavra impressa bola (Cl) ocorrer a seleção da figura
de uma "bola" (Bl) e, frente à palavra impressa bola
(Cl), o sujeito emitir a resposta oral "bola" (Dl).
Em resumo, após a avaliação das propriedades definidoras
de uma relação de equivalência, pode-se afirmar que os estí
mulos que estiverem condicionalmente relacionados entre si
formam uma classe de estímulos equivalentes. Essas rela
ções indicam, por exemplo, que o nome de um número e uma
quantidade têm o mesmo "significado" e que são estímulos
mutuamente substituíveis (Green, 1993; De Rose, 1993;
121
Sidman, 1986). Nesta perspectiva, assume-se que a
potencialidade de novos desempenhos pode ser avaliada por
meio do exame da formação de classes de equivalência e
que é possível uma interpretação dos desempenhos cognitivos
sem que se acrescente um novo pressuposto aos princípios
básicos do comportamento (Sidman, 1986).
A TRANSFERÊNCIA DE FUNÇÕES DE CONTROLE DE
ESTÍMULOS E A FORMAÇÃO DE CLASSES ORDINAIS
Para enfatizar a importância de certos tipos de desem
penhos verbais na evolução do comportamento complexo,
Catania (1999/1984) chama a atenção para um aspecto pe
culiar do desenvolvimento da linguagem na criança: a forma
ção do vocabulário dêitico. Dêixis são expressões que ocor
rem na presença de objetos ou eventos e que pressupõem
uma relação específica com o ouvinte ao invés de uma propri
edade intrínseca ao estímulo. Como exemplo, tem-se o uso
de vocábulos como "na frente" e "atrás"; "em cima" e "em
baixo", "aquilo" e "isto". A aquisição deste tipo de vocabulá
rio relaciona-se estreitamente com o uso de outros vocábu
los relacionais, envolvendo, por exemplo, a noção de posição
relativa e náo de posição absoluta. Considerando o princípio
da seleção pelas conseqüências, a exposição prévia às con
tingências é a chave para a evolução do repertório verbal da
criança, pois estabelece as condições para a ocorrência de
desempenhos verbais novos, isto é, não ensinados direta
mente. Isto pode ser aplicado ao aprendizado de relações
de ordem tanto quanto à ocorrência de novos desempenhos
de ordenação.
Recentemente, o termo ordenação vem sendo aplica
do a um tipo de responder seqüencial que ocorre na presen
ça de um conjunto de estímulos dispostos de forma simultâ
nea, e que estaria sob controle de propriedades sutis de
relações entre estímulos.
O problema da novidade comportamentaí suscita algu
mas questões que requererem um exame alternativo de se
qüências complexas. Como o responder ordinal pode ser con
trolado por eventos fisicamente dessemelhantes, que apa
recem em uma sucessão temporal, sem que tais estímulos
tenham sido anteriormente relacionados? Isto é, como o res
ponder ordinal pode emergir sem ensino direto?
Desse modo, além da possibilidade de examinar as re
lações condicionais a partir de contingências de quatro ter
mos, como ocorre no procedimento de discriminação condicio
nal (Sidman, 1986), os pesquisadores vêm avaliando o poten
cial de táticas de pesquisa para o exame do comportamento
122
controlado por relações ordinais em contingências de
reforçamento de três termos (Green e cols., 1993). Também
no estudo da ordenação de estímulos são enfatizadas as prin
cipais características das relações emergentes, que são a
reversibilidade funcional e a mútua substituição dos7 estímu
los. A diferença entre os dois tipos de responder relacional -
isto é, os desempenhos de discriminaçãocondicional e os de
sempenhos de ordenação de seqüências - pode ser atribuída
às funções exercidas pelos estímulos que controlam o desem
penho em questão. Pode-se examinar a emergência de clas
ses de equivalência ou a emergência de classes ordinais, pois
ambas envolvem treino discriminativo, seguido por transfe
rência de funções de controle de estímulo. Do ponto de vista
teórico-metodológico, a formação de classes de equivalência
vem sendo avaliada nos estudos sobre a formação de concei
tos (semântica). A análise de desempenhos ordinais emer
gentes, por sua vez, favorece a compreensão de seqüências
complexas, como a organização de frases e sentenças (sinta
xe), além de compor as relações entre estímulos e estímulos e
respostas envolvidas no comportamento matemático.
Nos estudos recentes sobre o comportamento
conceituai numérico (Carmo, 2000, 2002), observou-se que
o ensino da relação nome do número ditado-quantidade e
da relação nome do número ditado-numeral, forneceu a base
para a emergência dos desempenhos de escolha de acordo
com o modelo em que os estímulos quantidade-numeral e
numeral-quantidade aparecem relacionados entre si (Green,
1993; Sidman, 1971; Sidman & Cresson, 1973). Uma vez que
tais desempenhos vêm sendo obtidos com elevado índice de
acerto nos testes para a formação de classes de estímulos,
sem que tenha sido requerido ensino adicional, considera-se
que a relação estabelecida entre cada um dos estímulos nu
méricos surgiu após terem sido condicionalmente relaciona
dos a uma mesma função de estímulo. Assim, diz-se que, há
comportamento conceituai numérico quando uma quantida
de particular e um numeral estão condicionalmente relacio
nados entre si e ambos estão relacionados ao mesmo nome
ditado (Carmo & Prado, 2004).
É possível caracterizar a formação de classes ordinais
considerando a noção de transferência de funções de estí
mulos subjacente à formação de classes funcionais. Uma ilus
tração deste tipo de fenômeno comportamental pode ser
descrita tomando-se dois conjuntos de estímulos: círculos
azuis de madeira, nos tamanhos pequeno, médio e grande e
triângulos vermelhos de madeira, nos tamanhos pequeno,
médio e grande. Uma criança pode brincar de organizar os
objetos de cada um dos dois conjuntos de estímulos em or
dem crescente de tamanho. Assim, teríamos duas séries or
123
ganizadas, nas quais, cada estímulo ocuparia uma posição
dentro de uma série em particular, ou seja, cada estímulo
ocuparia uma posição ordinal. A racionalidade presente nes
te tipo de relação de controle de estímulos permite inferir
que cada círculo de madeira azul e cada triângulo vermelho
de madeira que ocuparam a mesma posição ordinal dentro
de uma série independente tornar-se-iam membros de uma
classe de estímulos, pois estariam compartilhando uma fun
ção ordinal comum.
Teríamos, "então, uma classe dos "primeiros" ou "pe
quenos", uma classe dos "segundos" ou "médios", uma clas
se de 'terceiros" ou "grandes", pelo estabelecimento de rela
ções arbitrárias entre os estímulos que formam um conjunto
em particular e entre os estímulos de cada um dos conjun
tos. Em resumo, tornam-se membros de uma classe de estí
mulos ordinais os estímulos que passam a compartilhar uma
função comum em diferentes conjuntos de estímulos, neste
caso, a posição ordinal dentro de uma série.
Na análise das relações de ordem, já foram utilizados
diferentes protocolos experimentais: a) ensino do ernpare-
Ihamento com o modelo seguido por testes de ordenação; b)
ensino da ordenação seguido por testes em contextos de
emparelhamento com o modelo; d) ensino desempenhos
ordinais e avaliação de novos desempenhos ordinais.
No ensino de desempenhos ordinais, um indivíduo é
ensinado a tocar cada um dos conjuntos de estímulos em
uma ordem específica, sem importar sua localização espacial
no arranjo de tentativas. (Lima & Assis, 2003; Stromer, Mackay,
Cohen & Stoddard, 1993). Por exemplo, se o arranjo disponí
vel de estímulos é ###, #, e ##, logo que o sujeito os toque
na ordem #>##>### ele é reforçado (o símbolo > revela
uma relação de ordem: "vem antes de"). Nas provas que
envolvem produção de seqüências, o desempenho não é
seguido por conseqüências diferenciais.
No ensino da ordenação de estímulos numéricos, por
exemplo, uma posição ordinal comum (temporal e/ou espaci
al), ocupada por uma numerosidade e um numeral, fornece a
base para o estabelecimento de relações entre estímulos, que
pode ser avaliada em contextos de matching. O suporte expe
rimental para esta possibilidade é proveniente de estudos com
adultos com capacidade intelectual normal, indivíduos com
deficits cognitivos, crianças pequenas ou menores que 5 anos
e pombos (Green e cols., 1993; Green, Sigurdardottir &
Saunders, 1991; Lazar, 1977; Maydak, Stromer, Mackay, &
Stoddard, 1995; Ribeiro, 2004; Ribeiro, Assis & Enumo, 2005;
Stromer & Mackay, 1990, 1993). No entanto, a realização de
novos experimentos é incentivada pela literatura, uma vez que
muitos aspectos ainda precisam ser esclarecidos.
124
0 estudo de Lazar (1977) foi o pioneiro na pesquisa
sobre transferência de funções de estímulos entre membros
de classes diferentes. Nesse estudo, buscou-se verificar o
estabelecimento de classes ordinais, após o ensino relações
de identidade com pareamento de acordo com o modelo. Os
sujeitos foram três adultos com capacidade intelectual nor
mal, que deveriam aprender a ordenar os estímulos, dentro
de uma ordem programada pelo experimentador. Os estímu
los utilizados foram quatro conjuntos de triângulos, arranja
dos em pares, com vértices voltados para diferentes dire
ções, e identificados por um código alfanumérico {Al>
A2},{B1>B2},{C1>C2} e {D1>D2}.
O ensino na linha-de-base estabeleceu uma classe de
estímulos de "primeiros" e uma classe de estímulos de "se
gundos". Em seguida, os estímulos de linha-de-base foram
utilizados como modelos e novos estímulos visuais serviram
como comparações em um contexto de emparelhamento com
o modelo. O protocolo básico incluiu: o ensino para a escolha
de novos estímulos de comparação quando o modelo era o
"primeiro" e outra nova comparação quando o modelo era o
"segundo" estímulo proveniente da linha-de-base.
Os resultados obtidos no pós-teste indicaram que,
quando novos estímulos eram apresentados, dois dos sujei
tos escolheram esses estímulos dentro da seqüência
estabelecida {E1 = >F2} ou {F1 = >E2>, indicando a formação
de classe de estímulos via procedimento de discriminação
condicional. Lazar (1977) concluiu que a produção de seqüên
cias novas constituía um suporte empírico para a análise do
comportamento gramatical simples.
Stromer e Mackay (1993) buscaram avaliar se a trans
ferência de controle condicional é possível, sem que os pré-
requisitos para a formação de classes de equivalência te
nham sido estabelecidos previamente. Os sujeitos foram duas
crianças e cinco adultos com capacidade intelectual normal.
Os estímulos eram dois conjuntos com cinco figuras não usu
ais {A1,A2,A3,A4,A5> e, {B1,B2,B3,B4,B5>. Foi utilizado o pro
cedimento conhecido como sobreposição de dois estímulos
(ioverllaping two-stimulus sequences) para o ensino de uma
seqüência com cinco estímulos, a partir da ordenação de pa
res estímulos {Al> A2; A2> A3; A3> A4; A4 > A5}. Assim que
as duas seqüências de estímulos eram ensinadas de modo
independente, procedia-se à avaliação dos desempenhos.
Examinava-se a ordenação de seqüências com dois termos e
com cinco termos por testes em que a substituição de estí
mulos era requerida. A tarefa consistia na ordenação dos
estímulos, na qual um dos termos era substituído por um
termo de uma seqüência diferente, ensinada previamente
{A1>A2>63>A4>A5}; em algumas tentativas, dois termos pre
125
cisavam ser substituídos {A1>B2>A3>B4>A5} e, em algu
mas tentativas, três termos deveriam ser substituídos
{&1>A2>A3>A4>B5}. Todos os estímulos que substituíam os
estímulos da seqüência original ocupavama mesma posição
ordinal. Os resultados indicaram que cada estímulo de uma
seqüência compartilhava a mesma posição ordinal com estí
mulos das demais seqüências ensinadas e, por isso, forma
vam classes ordinais.
Mais recentemente, Maydak e cols. (1995). buscaram
avaliar: a) se o treino para formação de seqüências, precedi
do por uma história recente com emparelhamento de
numerosidades com numerais correspondentes, era sufici
ente para revelar a emergência de uma seqüência numérica
{1>2>3}, e b) se desempenhos estabelecidos em tarefas de
produção de seqüências levam a desempenhos de matching.
Os autores pretendiam esclarecer se o emparelhamento
quantidade-numeral e numeral-quantidade poderia ser obti
do se um sujeito fosse previamente ensinado a ordenar
numerosidades (#>##>###) e numerais (1>2>3). O proto
colo básico contou com: a) estabelecimento de desempenhos
de matching e de ordenação; b) ensino de ordenação com
um novo conjunto de estímulos e a avaliação da emergência
de novos desempenhos de emparelhamento e c) ensino do
emparelhamento com mais um novo conjunto de estímulos e
a avaliação da emergência de nova ordenação de estímulos.
Os resultados encontrados em estudos anteriores sugeri
ram que a formação de classes de estímulos e a transferên
cia de funções ocorriam após o ensino de ordenação seguido
por testes de emparelhamento com o modelo e vice-versa
(Stromer & Mackay, 1993). Maydak e cols. (1995), no entan
to, obtiveram que o ensino de ordenação não favoreceu de
sempenhos de emparelhamento. Mas, o ensino da discrimi
nação condicional revelou emergência de desempenhos de
ordenação e esses dados fortaleceram os resultados encon
trados com crianças e adultos sem problemas de desenvolvi
mento. De modo geral, observou-se que: a) os estímulos
numéricos formaram cinco classes de três membros cada,
consistindo de um nome de numerai ditado, um numeral e
uma numerosidade, e b) houve transferência de funções de
estímulo e ampliação da classe de estímulos com a adição de
uma forma arbitrária (Sidman, 1971; Sidman & Cresson, 1973).
Os participantes apresentaram nomeação emergente, isto
é, nomearam formas arbitrárias de modo consistentemente,
por exemplo, ambos chamaram B2 e B4, para "dois" e "qua
tro", respectivamente.
A principal contribuição desse estudo relaciona-se com
o potencial transitivo das classes de estímulo, que foram ca
racterizadas pelos novos desempenhos ordinais e pelos no
vos desempenhos de escolha de acordo com o modelo; uma
126
vez que, após o treino forma-numeral, ambos os participan
tes mostraram ser capaz de produzir seqüências de modo
consistente, evidenciando a formação de classes. Entre as
propriedades da classe que cada estímulo passou p exibir,
estavam incluídas as propriedades numéricas e as proprie
dades ordinais.
Green e cois. (1993) formalizaram uma estratégia para
a análise de novos desempenhos originados de contingênci
as que prevêem a ordenação de estímulos dentro de seqüên
cias, isto é, em contingências de três termos. Este tipo de
controle de estímulos requer uma revisão da noção de cadei
as comportamentais, uma vez que não estaria correto afir
mar que uma resposta controlada por um estímulo com fun
ção discriminativa em uma cadeia seja um tipo de desempe
nho gerativo.
O conceito de encadeamento já foi largamente descrito
pela área de controle de estímulos. Entende-se por "cadeia
comportamental"5 um fluxo contínuo de comportamentos em
que uma resposta modifica a probabilidade de ocorrência da
resposta subseqüente. Este efeito deve-se à dupla função
exercida pelos membros de uma cadeia comportamental, des
crita como discriminativa, em relação à resposta subseqüente
e reforçadora para a resposta evocada. Procedimentos que
avaliam a transferência de funções de controle de estímulos
foram originalmente desenvolvidos para avaliar se a exposi
ção a um procedimento de treino seria capaz de favorecer o
estabelecimento de "algo mais" que as relações que foram
diretamente ensinadas.
Procedimentos de ensino para a formação de seqüên
cias, tradicionalmente, são iniciados pelo treino de uma se
qüência de dois termos (A1>A2), os demais estímulos são
adicionados sucessivamente um de cada vez. Os testes ava
liam a produção de seqüências que foram diretamente ensi
nados e aquelas que não foram, mas que se encontram in
cluídas nas primeiras. Para uma seqüência com um total de
cinco termos, por exemplo, temos um total de dez pares de
estímulos, quatro pares adjacentes e seis pares nao-adja-
centes; todos os pares de estímulos podem ser avaliados.
A ênfase deste tipo de exame da aprendizagem
relacional recai sobre as relações entre estímulos dentro de
uma seqüência e entre estímulos membros de seqüências
ensinadas de modo independente umas das outras. Segun
5 Uma cadeia de estím ulo-resposta consite numa seqüência de estímulos
discriminativos (SD)e respostas(R). Cada resposta produz alguma mudança
no ambiente, em que atua como um estímulo discriminativo para a resposta
seguinte. Os estímulos discriminativos de uma cadeia tornam-se reforçadores
co n d ic io n a d o s (S) para as re sp o s ta s que p ro d u ze m . As cad e ias
comportamentais são usualmente apresentadas com três termos: SD >R >Sr
(Whaley & Malott, 1981).
127
do os Green e cols. (1993), esta proposição é análoga àque
la apresentada por Sidman (1994), que visa à análise das
relações de equivalência entre estímulos. Em outros termos,
tem-se uma base empírica para o exame de como a rede de
relações entre estímulos se expande, originando repertórios
de alta complexidade.
Green e cols. (1993) propuseram que classes ordinais
constituem a principal unidade de análise no estudo das re
lações de controle de estímulos numa seqüência e em se
qüências independentes. Como no paradigma de equivalên
cia de estímulos, tais propriedades estão baseadas em sua
definição matemática, o que permite uma análise descritiva
de relações estímulo-estímuto, que ocorrem nas seqüências
de estímulos. As propriedades da relação ordinal são avalia
das através de testes comportamentais. As propriedades das
relações ordinais são: 1) irreflexividade, 2) assimetria, e 3)
transitividade e 4) conectividade, apresentadas a seguir.
1) A propriedade irreflexividade pressupõe que uma
relação ordinal nunca é reflexiva, logo, é falsa a
proposição {A1>A1>.
2) A propriedade assimetria informa que uma relação
ordinal é unidirecional, assim se {A2>A3> é verdadeiro,
então, {A3>A2> é falso.
3) Numa relação ordinal, transitividade ocorre se {A2>A3>
e {A3>A4} forem ensinados, então, {A2>A4> é possível
sem ensino adicional. Note-se que apenas pares de
estímulos não-adjacentes em séries ensinadas
permitem a inferência de transitividade.
4) A propriedade conectividade informa que, numa relação
ordinal, todos os pares de estímulos estão correlaciona
dos. Assim, se {A1>A2>A3}, então, {A1>A2>, {A1>A3>
e {A2>A3}. Logo, considera-se a presença da proprie
dade conectividade se todos os pares de estímulos, den
tro de uma série, podem ser ordenados, incluindo os
pares adjacentes e os pares não-adjacentes.
Nos testes para a avaliação das propriedades de
ordinalidade, três propriedades são diretamente avaliadas.
Tao logo sejam confirmadas, as propriedades de assimetria e
transitividade, infere-se confiável mente a irreflexividade. Já a
propriedade de conectividade é diretamente verificada.
O procedimento de treino de ordenação permite o es
tabelecimento de dicas condicionais que guiam a ordem de
escolha dos estímulos membros da seqüência ensinada, sem
que o controle condicional seja requerido diretamente. Isto
pode ser observado na produção de uma seqüência de cinco
128
termos baseado em propriedades assimétricas, por exem
plo: "se A l, selecionar A2 e nenhum outro estímulo". Dessa
forma, desempenhos de ordenação que envolvem estímulos
adjacentes indicam a presença da propriedade assimetria,
mas não constituem prova inequívocade uma relação ordinal.
Desse modo, o teste para a ordenação de pares não-adja-
centes passou a ser indicado, uma vez que esse tipo de de
sempenho ordinal {A2 = >A4} não está baseado na discrimi
nação condicional, pois, na ordenação de pares de estímulos
não-adjacentes, não temos os demais estímulos que funcio
nariam como estímulos de comparação incorretos (S-).
A relação de controle estabelecida entre termos não-
adjacentes da seqüência permite a análise da inferência tran
sitiva que é confirmada se o desempenho ordinal constitui
um desempenho novo, por exemplo, o desempenho de orde
nação {A2 = >A4>. A propriedade transitividade, no entanto,
não pode ser isolada se a fase de ensino que precedeu a
prova estiver baseada no ensino de seqüências que incluí
ram esses estímulos, isto é, {A1 = >A2 = >A3 = >A4=>A5}. Esta
evidência levou á adoção de estratégias específicas para o
exame das relações ordinais.
Classes ordinais são formadas por estímulos proveni
entes de seqüências independentes e que ocuparam a mes
ma posição ordinal. Assim, para avaliação do potencial tran
sitivo das relações ordinais, o exame da substituição de estí
mulos em provas mistas, em que estímulos provenientes de
seqüências diferentes devem ser ordenados, tornou-se a
estratégia de exame mais comum. Além disto, as provas mis
tas permitem o exame da propriedade conectividade, que im
plica que todos os pares de itens dentro de uma seqüência
estão relacionados entre si. A propriedade conectividade é
inferida se todos os pares possíveis, adjacentes e não-adja
centes, forem ordenados adequadamente.
Resumindo, com base nas estratégias descritas ante
riormente, pode-se proceder a avaliação das propriedades
de classes ordinais por meio do seguinte protocolo: a) ensi
no independente de duas ou mais seqüências, para o esta
belecimento de classes de estímulos, cujos membros são
aqueles que ocuparam a mesma posição ordinal em cada
seqüência; b) avaliação de emergência de relações de or
dem através de testes comportamentais com tentativas mis
tas (A1>B2>A3>B4>A5), isto é, que envolvam seqüências não
ensinadas.
Estudos que enfatizam o exame de desempenhos
ordinais incrementam o valor prático da abordagem de con
trole de estímulos. Esta tática de pesquisa diferencia-se da
proposta de análise do comportamento conceituai (semânti
ca), que enfatiza a emergência de significados como um pro
129
duto da formação de classes de estímulos, uma vez que cons
titui uma estratégia para o exame da aprendizagem relacional
no que concerne aos desempenhos ordinais gerativos, como
a produção de frases e sentenças (sintaxe) e alguns tipos de
desempenho matemático.
Em um exemplo cotidiano, é possível considerar que
palavras que evocadas numa mesma posição ordinal em di
ferentes frases tornar-se-iam mutuamente intercambiáveis,
isto é, membros de uma classe ordinal por sua participação
em uma seqüência. Desempenhos novos podem ocorrer atra
vés da reorganização de palavras, sugerindo porque somos
capazes de emitir frases nunca ensinadas, organizando pa
lavras dentro de uma ordem específica.
Esta área de estudo pode contribuir para esclarecer a
natureza das relações de ordem, estabelecidas entre estí
mulos membros de uma seqüência, e entre estímulos mem
bros de seqüências independentes. Este é um tópico de in
teresse da Análise do Comportamento e deve ser incluído na
abordagem comportamental do comportamento verbal e da
resolução de problemas.
Refer ên c ia s
Carmo, J. S. (2000). O conceito de número como rede de
ligações. In R. R. Kerbauy (Org.), Sobre comportamento e cognição-
vol. 5: conceitos, pesquisa e aplicação, a ênfase no ensinarr na
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132
O Treino em Habilidades Sociais e
a Inserção de Portadores de
Necessidades Especiais no
Mercado de Trabalho
Arion Carlos Ribeiro de Oliveira1
Fabiana Pinheiro Ramos2
A Inclusão Social é tema recorrente no âmbito das Ci
ências Humanas face à necessidade de uma sociedade mais
preparada para integrar indivíduos deficientes ou portado
res de necessidades específicas3. A Psicologia tem importan
te papel nesse contexto ao fornecer instrumental teórico para
analisar as diversas implicações da exclusão social e propor
ações que visem melhorar as competências dos deficientes
com vistas à sua inclusão.
Torna-se necessário proporcionar aos diversos atores
sociais espaços de reflexão do seu papel na inclusão das
pessoas portadoras de necessidades especiais e viabilizar
ações que busquem integrá-ías em diferentes contextos: na
reivindicação dos seus direitos, no mundo do trabalho, na
escola, na família, no lazer, entre outros.
A inserção profissional dos portadores de deficiências
passou a integrar a pauta de assuntos prioritários das em
presas brasileiras principalmente a partir da promulgação
da Lei 8.213, de 24 de julho de 1991 determinando que as
empresas com mais de cem funcionários devem preencher
de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários reabilitados
ou pessoas portadoras de deficiência4. Tal legislação surge
no bojo do movimento de Responsabilidade Social das em
presas, facilitando a oportunidade de acesso dessa popula
1 Centro U n ivers itário de Vila Velha - UVV. Mestre em Psicologia pela
Universidade Federal do Espírito Santo.
2 Centro U n ivers itário de Vila Velha - UVV. Mestre em Psicologia pela
Universidade Federal do Espírito Santo.
3 Existe na literatura especializada (Bueno, 1997; Am aral, 1996a, 1996b;
Oliveira, 1999) uma discussão acerca da terminologia a ser adotada quando
nos referimos a pessoas com deficiências ou portadores de necessidades
específicas. Não é nosso objetivo, neste trabalho, analisar os argumentos
favoráveis ou desfavoráveis ao uso de um ou outro termo, e, neste caso,
utilizaremos ambos os termos como intercambiáveis, ou tais como aparecem
na literatura citada.
4 O percentual obrigatório uíe vagas para deficientes é determinado pelo número
de empregados da empresa: de 100 a 200 empregados - 2%, de 201 a 500
empregados - 3%, de SOI a 1.000 empregados - 4%, de 1001 em diante - 5%.
133
ção ao mercado de trabalho e se configurando como uma
das práticas de inclusão social.
Este movimento torna-se mais uma possibilidade de
inclusão, não só por as empresas se tornarem mais
participativas nas questões sociais, mas pelo fato de que a
inclusão de pessoas com deficiência no trabalho tem sido lu
crativa para as empresas, tanto sob o aspectos das relações
de trabalho, como da imagem da empresa. (...) Em suma,
"responsabilidade social", ao mesmo tempo que é convertida
em lucro e maior produtividade para a empresa, pode favo
recer a inclusão. (Abranches, 2000, pg. 24)
A atuação conjunta de diferentes profissionais faz-se
necessária para que as pessoas com deficiência, as famílias,
as organizações e toda a sociedade sejam adequadamente
preparadas para esta nova realidade, uma vez que somente
o dispositivo legal não garante as condições necessárias para
o ingresso laborai bem-sucedido dessa população específica5.
Diversas barreiras podem dificultar a entrada e perma
nência da pessoa portadora de necessidades especiais no
mercado de trabalho: falta de qualificação profissional, re
ceio da perda do benefício do INSS por invalidez (que ocorre
obrigatoriamente em caso de contratação do deficiente), pre
conceito no ambiente de trabalho, ausência de recursos ade
quados à interação social e profissional, dentre outros.
A exclusão escolar e social que as pessoas com defici
ências geralmente sofrem, somadas a uma possível história
de vida familiar e social de privação de interações positivas
adequadas produzem, com freqüência, repertórios sociais
inadequados, dificuldades em relação à auto-estima e ao
autoconceito e baixa qualificação acadêmica e profissional.
Bueno (1997) considera que são necessárias ações em
diferentes âmbitos de atuação que garantam uma melhoria
na qualidade dos serviços ofertados a essa população. Pro
põe uma educação na qual haja uma escolarização qualifica
da, para que pessoas com deficiências não ocupem somente
postos de trabalho que caracterizam sub-emprego, e que se
discuta de forma mais ampla a construção de uma sociedade
que ofereça melhores condições de inserção social produtiva
e individualmente satisfatória a toda a população seja ela
deficiente ou não.
A educação de portadores de necessidades especiais
deve prepará-los para a vida adulta, o que inclui ocupação e
estilo de vida satisfatório. Este preparo deve compreender
5 No Estado do Espírito Santo, por exemplo, dados da Delegacia Regional do
Trabalho (DRT) de 2004 apontam 7.138 vagas disponíveis no mercado de
trabalho para deficientes e apenas 1.545 funcionários deficientes já inseridos
em empresas.
134
habilidades no campo acadêmico e de trabalho, habilidades
para desenvolver-se na vida adulta e também habilidades para
comunicação eficiente com os demais; nesse sentido, os pro
gramas educativos devem ser mais amplos e preverem ações
nestes diferentes domínios do comportamento humano.
A potencialidade de cada um para aprender e interagir
satisfatoriamente no meio familiar, escolar e social pode ser
inibida ou estimulada pelas atitudes e condutas das pessoas
envolvidas nesses contextos. A despeito de suas deficiênci
as, as pessoas têm outras qualidades em relação ao seu
desenvolvimento social, emocional e pessoal. Ao viverem si
tuações de interação interpessoal satisfatórias, terão suas
condutas modeladas nestas relações tornando-se socialmente
mais adequadas.
A habilitação e reabilitação profissional do portador de
necessidades especiais envolve o provimento de serviços e
ações multidisciplinares orientados para instalar ou restau
rar a capacidade produtiva do deficiente com vistas a integrá-
lo ou reintegrá-lo no trabalho, melhorando suas chances de
conseguir um emprego e ser bem-sucedido nele. É preciso
treinar os portadores de necessidades especiais para que
tenham as habilidades sociais necessárias à sua atuação no
mercado de trabalho.
No campo da Análise do Comportamento, o Treino em
Habilidades Sociais (THS) é um procedimento que tem se
mostrado eficaz em ensinar aos indivíduos novas formas de
se comportar tornando-os mais hábeis em produzir interações
satisfatórias e alcançar resultados benéficos nas relações
interpessoais. Tais resultados têm sido obtidos com as mais
diversas populações e em diferentes contextos. (Calballo,
1996, 2003; DeIPrette e DeIPrette, 2002, 2003a, 2003b,
2003c, 2004; Lóhr, 2001; Rodriguez e Carrillo, 1998).
As pesquisas no campo do THS têm mostrado que as
pessoas socialmente competentes tendem a apresentar
relações pessoais e profissionais mais produtivas,
satisfatórias e duradouras, além de melhor saúde física
e mental e bom funcionamento psicológico. Por outro
lado, os déficits em habilidades sociais estão geralmente
associados a dificuldades e conflitos na relação com
outras pessoas, à pior qualidade de vida e a diversos
tipos de transtornos psicológicos. (DeIPrette e DeIPrette,
2002, p. 30)
O THS consiste em um conjunto de estratégias interpes
soais que são ensinadas com a intenção de melhorar a compe
tência do indivíduo nas situações sociais através da aquisição
de novos comportamentos que incluam habilidade aumentada
para expressar pensamentos e/ou sentimentos, sejam eles
positivos (alegria, amor, elogio) ou negativos (raiva, ressenti
135
mento, crítica), iniciar e manter conversações, falarem público,
defender os próprios direitos, expressar opiniões pessoais,
dentre outros (Caballo, 1996; Faicone, 2001).
As habilidades sociais devem contemplar-se no contex
to cultural do indivíduo, sendo específicas à pessoa e i situ
ação. Embora existam dificuldades na definição do que seri
am as "habilidades sociais" ou o comportamento "socialmen
te habilidoso", encontramos em Caballo (1996) uma defini
ção satisfatória na medida em que enfatiza a funcionalidade
do comportamento no que diz respeito a sua eficácia:
O comportamento socialmente habilidoso é um
conjunto de comportamentos emitidos por um sujeito,
em um contexto interpessoal que expressa
sentimentos, atitudes, opiniões ou direitos desses
indivíduos, de um modo adequado à situação,
respeitando esses comportamentos nos demais, e que
geralmente resolve os problemas imediatos da situação
enquanto minimiza a probabilidade de problemas
futuros. (Caballo, 1996, p. 365)
As habilidades sociais envolvem diversos componen
tes comportamentais verbais e não verbais tais como: o con
tato visual, a expressão facial, a postura corporal, os gestos,
a entonação e o volume da voz, o conteúdo e a fluência da
fala, dentre outros.
O Treino em Habilidades Sociais envolve, em geral, a
identificação das áreas de dificuldades, observação e registro
do comportamento, distinção de condutas adequadas
(assertivas) e inadequadas (agressivas e passivas6), técnicas
de redução de ansiedade e ensaio comportamental (treino)
das respostas socialmente adequadas, fornecendo feedback
ao indivíduo até que alcance um desempenho satisfatório.
O THS pode ser realizado individualmente ou em gru
po, sendo que cada modalidade tem vantagens e desvanta
gens, embora os procedimentos sejam praticamente os mes
mos em ambos os casos. Como vantagens do formato em
grupo temos que o grupo proporciona diferentes tipos de
pessoas, ampliando as possibilidades de modelos
comportamentais e promovendo situações similares às da
vida real, maximizando as oportunidades de aprendizagem
observacional (Caballo, 2003; Del Prette e Del Prette, 2003b).
O THS é utilizado hoje em dia em muitos campos, inclu
sive no trabalho. Se um indivíduo não sabe se comportar de
forma hábil em seu trato com os demais, tem de aprender as
habilidades sociais que não possui ou que encontram sua
manifestação impedida por outros fatores tais como ansie-
6 Às vezes, encontramos na literatura o termo "não-assertivo" no lugar do
termo "passivo".
136
dade, pensamentos negativos, entre outros. Dada a impor
tância das habilidades sociais para a vida diária das pesso
as, parece útil aprender mais sobre o comportamento social
próprio e dos demais, e saber que este comportamento pode
ser modificado, conhecendo algumas formas de fazê-lo
(Caballo, 2003).
O presente trabalho relata uma experiência de Treino
em Habilidades Sociais realizada com indivíduos portadores
de deficiência pertencentes ao Programa Catavento na cida
de de Vitória/ES. Catavento é um dos programas de respon
sabilidade social da Companhia Siderúrgica Tubarão (CST) exe
cutado pela Ação Comunitária do Espírito Santo (ACES), em
parceria com o SESI e o SENAC, cuja principal proposta é a de
promover a inclusão social, valorizando a diversidade e a qua
lidade de vida das pessoas com necessidades especiais, atra
vés de diversas ações, dentre as quais a qualificação para o
mercado de trabalho e a geração de trabalho e renda.
O Programa Catavento desenvolve ações que visam
ampliar o acesso dessa população à educação e à formação
profissional, através de cursos de capacitação e habilitação pro
fissional, e, uma vez inseridos no mercado de trabalho, visa
assisti-los com amparo técnico, psicológico, econômico e social,
de modo a garantir que as pessoas com deficiências sejam
inseridas no mundo produtivo em condições de competitividade
e de atendimento às demandas organizacionais.
O Programa desenvolve cursos de formação profissio
nal e geração de renda em diversas áreas: auxiliar de cozi
nha, serviços administrativos, velas decorativas, camareiro,
jardinagem, informática, telefonista, massagista, confecção
de bijuterias, dos quais participam deficientes físicos, men
tais, auditivos, visuais e múltiplos encaminhados por organi
zações sociais especializadas no atendimento a essa popu
lação na cidade de Vitória/ES.
Com o decorrer das atividades dos cursos a coordena
ção do Catavento identificou a necessidade de trabalhar com
os indivíduos não apenas competências técnicas, mas tam
bém habilidades comportamentais que favorecessem a in
serção dos mesmos no mercado de trabalho.
Foi firmada então, parceira entre o Centro Universitário
Vila Velha/UW e o Programa Catavento, para que dois profes
sores do Curso de Psicologia, com formação em Análise do
Comportamento, e uma estagiária pudessem realizar treina
mento voltado para as habilidades comportamentais. O Curso
foi denominado "Desenvolvendo habilidades assertivas e
empáticas" e foi oferecido como parte da carga horária da for
mação profissional. Foram abordados os seguintes conteú
dos: habilidades assertivas e empáticas, autoconhecimento,
137
iniciativa, autonomia e aspectos comportamentais em situa
ções de entrevista de seleção e de trabalho.
A metodologia do Curso se assemelhou bastante ao
formato "tradicional" do THS, mesmo não tendo sido utiliza
das técnicas específicas de redução de ansiedade e embora
o conteúdo também englobasse habilidades específicas de
inserção no mercado de trabalho.
O Curso foi realizado em um módulo de 24 horas, com
três encontros semanais de três horas cada, durante quatro
semanas. Os encontro aconteciam de 8h às l lh , com um
pequeno intervalo para lanche, que era fornecido por uma
das instituições parceiras do Programa Catavento.
Participaram deste módulo dezenove alunos com ne
cessidades específicas: sete deficientes visuais, oito defici
entes auditivos e quatro deficientes físicos dos cursos de Ini
ciação em Informática e Massagista que estavam acontecen
do naquela ocasião e nos quais eram abordados além dos
aspectos técnicos referentes a cada uma das especifícidades,
conteúdos referentes ao mercado de trabalho, condições e
necessidades para seu acesso e conteúdos específicos para
profissionalização.
O Curso contava ainda com a participação de uma in
térprete de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) dado que os
professores responsáveis pelo módulo, a estagiária e os por
tadores de outro tipo de deficiência, que não a auditiva, não
dominavam este recurso. A participação de pessoas porta
doras de diferentes necessidades especiais era vista como
algo positivo pela coordenação do Programa, argumentan
do-se que os deficientes deveriam aprender a conviver com
outros tipos de deficiências diferentes da sua.
Do ponto de vista do Treino em Habilidades Sociais,
não existe consenso teórico no que se refere à
homogeneidade ou heterogeneidade dos participantes do
THS em grupo. Caballho (2003, p. 211) afirma que:
Há certa discussão entre terapeutas sobre se os
pacientes de um grupo de THS deveriam ser de idade,
inteligência, diagnóstico e grupo social similares e com
um tipo de dificuldade parecido, ou se é melhor
mesclar diferentes tipos de pacientes em um grupo.
Os pacientes com certas características em comum
podiam pensar que os outros membros do grupo têm
melhor compreensão de suas dificuldades e podem
proporcionar-lhes mais apoio. Porém, certa mescla
oferece variedade de modelos para a representação
de papéis e maior categoria de retroalimentação. Além
disso, o paciente pode obter melhor compreensão das
pessoas que provém de uma esfera mais ampla.
138
As atividades do Curso foram desenvolvidas através
de: exposições, debates e simulações. No primeiro encontro,
procedeu-se a apresentação dos professores e dos mem
bros do grupo. Foi solicitado que cada um se apresentasse
ao grupo e avaliasse a participação nos Cursos de Massagis
ta e Informática, buscando proporcionaro estabelecimento
de um clima de confiança e abertura entre os participantes.
Em seguida, foram explicados os objetivos do Curso, a forma
de funcionamento das atividades e o "contrato" do grupo.
No encontro seguinte, foi feito um levantamento das
dificuldades dos indivíduos em relação às habilidades soci
ais. Foi solicitado que cada um relatasse (obviamente ape
nas os que desejassem fazê-lo) situações sociais nas quais
eles próprios tenham se percebido como adequados ou ina
dequados sociaimente.
Note-se que, de início, a classificação de sucesso ou
insucesso social era do próprio sujeito, para que se pudesse
observar seus critérios de avaliação. Em seguida aos relatos,
era solicitado que descrevessem os sentimentos associados
às vivências. Os participantes, além disso, podiam relatar situ
ações positivas ou negativas de acordo com sua própria esco
lha, evitando assim que o comportamento de "falar sobre si
mesmo" ficasse apenas sob controle de estímulos aversivos.
Já nos dois primeiros encontros ficou clara a dificuldade
de boa parte do grupo em falar sobre si e relatar vivências
sociais. A partir desse ponto, introduziu-se a conceituação te
órica sobre as habilidades sociais relacionando comportamen
to, sentimento e conseqüência na situação interpessoal. Como
tarefa de casa da sessão foi solicitado que observassem seus
comportamentos durante o fim de semana, procurando identi
ficar as dificuldades na interação social (auto-observação)7.
O terceiro encontro foi iniciado com o relato da tarefa de
casa, e foi percebido que alguns não haviam realizado a tare
fa. Os que a fizeram relataram para o grupo as situações nas
quais identificaram dificuldades relacionadas à assertividade.
Em seguida procedeu-se a distinção e a explicação teórica dos
três estilos de resposta: assertivo, agressivo e passivo e foi
utilizado o Teste de Discriminação de Comportamentos
Assertivo, Agressivo e Inassertivo8 de forma coletiva. Algumas
questões do teste foram lidas para o grupo, que era solicitado
a classificá-las em um dos três estilos de resposta.
7 Caballo (2003) apresenta diversas vantagens da utilização de tarefas de
casa no contexto do THS: acessar com portam entos privados, melhorar a
eficácia do tratamento, melhorar o autocontrole e facilitar a transferência do
treinam ento.
8 O teste utilizado foi extraído de Lange, A. J. & Jakubow ski, L. (1977)
Responsible Asssertive Behavior. Cham paign (Illinois); Research Press, em
sua versão traduzida para o português por Hélio José Guilhardi e Patrícia B. P.
S. de Queiroz do Instituto de Análise dc Comportamento de Campinas.
139
Depois, a turma foi dividida em três pequenos grupos9
que tinham como tarefa escolher um dos estilos de resposta
e montar uma situação social naquele padrão escolhido. Cada
sub-grupo representava sua situação para os demais, que
tinham que julgar que estilo de resposta estava sendo apre
sentado. O objetivo era perceber se o grupo havia compre
endido as diferenças entre os estilos de resposta, e fornecer
melhor discriminação dos padrões de comportamento.
À medida que os grupos iam representando as situa
ções, os professores forneciam feedback sobre a atuação do
grupo e a classificação dos padrões de comportamento, cor
rigindo possíveis equívocos. Cabe ressaltar que essa discri
minação era prejudicada em função das próprias dificuldades
dos indivíduos: os deficientes visuais não podiam contar com
a observação dos componentes não-verbais do comporta
mento, e os deficientes auditivos não contavam com a obser
vação dos componentes verbais.
No quarto e quinto encontros, continuou-se a ativida
de de desempenho de papéis em pequenos grupos, dando
feedback aos indivíduos participantes em relação ao seu de
sempenho. Após as representações, os participantes podi
am descrever situações similares às do role playing que tives
sem vivido, como haviam se comportado e quais as conseqü
ências no âmbito interpessoal.
Observou-se que os deficientes visuais apresentavam,
em geral, um padrão de interação mais característico de pas
sividade, procurando esconder seus sentimentos ou ficar ca
lados para "resolver" a situação. Nesse momento retomou-
se a definição de comportamento assertivo, que prevê não
só a resolução imediata da situação-problema mas também
a minimização de problemas futuros.
Discutiu-se que, embora ficar calado e não-responder
nada a uma provocação por exemplo, aparentemente resol
va a situação, pois em geral coloca o comportamento agres
sivo do outro em extinção, isso acarreta problemas futuros
principalmente para o próprio indivíduo: raiva, frustração,
tensão, sentimento de ausência de controle, culpa e imagem
pobre de si mesmo (Caballo, 1996).
A partir do quarto e quinto encontros, percebeu-se
melhoria na participação dos indivíduos nos relatos frente ao
grupo. Pessoas que até então se limitavam a uma postura
de "ouvintes" passaram a interagir mais, colocar suas dificul
dades e expor sua percepção para o grupo. IMesse sentido,
acredita-se que o ambiente não era aversivo, e o comporta
mento de "falar sobre si mesmo" pode emergir com mais faci
lidade dado que era reforçado positivamente.
9 Como havia apenas uma intérprete de LIBRAS e dada a própria dificuldade
de interação em uma atividade do tipo role playing entre deficientes visuais e
auditivos, estes, ern geral, ficavam em grupos distintos.
140
0 sexto encontro foi dirigido para as questões especí
ficas relacionadas ao mercado de trabalho. Foi solicitado que
o grupo relatasse experiências sociais bem e mal-sucedidas
em ambientes de trabalho, e em seguida o grupo era. questi
onado como o participante poderia ter se comportado de
modo a resolver a situação.
No encontro seguinte foi abordada especificamente a
questão do comportamento durante uma entrevista de sele
ção, situação que, via de regra já envolve um certo nível de
ansiedade e que no caso dos deficientes era potencialmente
aversiva. De acordo com o relato dos próprios participantes
a maioria dos empregadores era desprovido de habilidades
empáticas mínimas durante a entrevista de seleção, e em
geral já começavam a entrevista perguntando sobre a defici
ência e o que o portador de necessidades especiais era ca
paz (ou não) de fazer bem como quais os problemas ele tra
ria para o ambiente de trabalho.
Foi realizado o rofe playing da entrevista de seleção,
com os professores e os estagiários desempenhando o pa
pel de entrevistador. Aqueles que quisessem se submetiam
à entrevista e seu desempenho era avaliado pelo grupo,
ressaltando os pontos positivos da entrevista e as necessi
dades de reformulação do comportamento. Neste encontro
também foram dadas algumas dicas relacionadas à elabora
ção de curriculum vitae.
No oitavo e último encontro foi realizada uma síntese
das proposições e idéias do curso, e os alunos tiveram a
oportunidade de fazer uma avaliação geral do curso. A maior
parte dos participantes avaliou a iniciativa como positiva, mas
ressaltou a necessidade de mais espaços para vivência de
situações relacionadas ao mercado de trabalho, o que no
caso só aconteceu nos dois últimos encontros. Para os próxi
mos cursos, a sugestão é ampliar o conteúdo especificamen
te relacionado à inserção no mercado de trabalho, o que pa
rece ter sido mais reforçador para os participantes.
Importa relacionar algumas dificuldades encontradas
no decorrer da aplicação do THS, que poderão ajudar futuras
abordagens em relação a essa população específica. No caso
do padrão de passividade, aparentemente predominante nos
dos deficientes visuais (conforme já relatado acima), especu
la-se que isso se relacione às próprias dificuldades da defici
ência. Dado que não têm a informação visual e precisam pres
tar mais atenção a outros componentes da interação para
evitar riscos, "ficar quieto ou calado" tem potencialmente mais
chances de fornecer informações acuradas sobre o ambiente
que permitam controlar e dirigir o própriocomportamento.
Um outro aspecto necessita ser considerado com rela
ção ao padrão de interação utilizado por pessoas com defici-
141
ência auditiva. Em decorrência dos processos de comunica
ção serem fundamentalmente motores, existe uma intensifi
cação dos padrões de expressão tanto corporais quanto
faciais. Nesse sentido, há que se ter cuidado na hora de ava
liar o padrão de interação desses indivíduos a fim de que não
se faça um julgamento prévio (inadequado) como sendo um
padrão agressivo de comportamento.
No caso de indivíduos privados de comunicação falada,
as nuances, entonações que poderiam contribuir para distin
guir aspectos importantes da comunicação, acabam sendo
compensados pelos sistemas motores corporais e de mímica
facial, que no caso dos usuários de língua de sinais, são con
siderados e ensinados como aspectos relevantes da interação
comunicativa.
Outra questão a ser considerada refere-se a carga
horária, ou número de sessões do Treino em Habilidades
Sociais com essa população. Como havia necessidade de tra
dução do que estava sendo dito para LIBRAS e vice-versa, o
conteúdo das sessões acabou levando mais tempo para acon
tecer do que o previsto. Sugere-se carga horária ampliada
para que as necessidades desse grupo possam ser melhor
atendidas, sem prejudicar o treino.
Novas investigações acerca da adequação do THS a
essa população precisam ser realizadas, considerando as
dificuldades apresentadas nesse contexto e, principalmente,
as diferenças de padrões de interação e estilos de respostas
e sua relação com as características da deficiência. Os proce
dimentos do THS também precisam ser revistos em função
da relativização de alguns critérios como, por exemplo, a to
pografia (forma) do comportamento, enfatizando-se as con
seqüências (produto) das interações em termos de evitar
problemas e alcançar objetivos de modo adequado aos par
ceiros de interação.
Conclui-se que os portadores de necessidades especi
ais podem se beneficiar de um programa como o Treino em
Habilidades Sociais, embora seja necessário realizar adapta
ções para esta população. Nesse sentido, devem ser realiza
das pesquisas futuras que busquem relacionar os padrões
de interação de deficientes visuais e auditivos com as habili
dades sociais, a fim de que haja um melhor aproveitamento
do programa por parte desta população.
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143
UM PROGRAMA DE ENSINO,
PESQUISA E EXTENSÃO
EM PREVENÇÃO DE
DEFICIÊNCIAS:
DESCRIÇÃO E ANÁLISE1
Sônia Regina Fiorim Enumo2
Registrar parte das realizações feitas durante cerca de
vinte anos junto a graduação e pós-graduação em Psicologia
da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) é uma ten
tativa de mostrar a viabilidade da proposta integradora da
universidade pública - desenvolver ensino, pesquisa e ex
tensão universitária de modo indissociável (Enumo, 1995a,
1995b, 1996a).
Mantendo o vínculo original com a disciplina de Psico
logia do Excepcional, que foi base para ingresso por concur
so público na UFES em 1986, vários projetos integrados fo
ram realizados, com produtos apresentados em congressos
e pubiicados em periódicos e livros, relacionados a: a) trei
namento de pais e paraprofissionais (Enumo, 1987, 1997a;
Enumo, Santiago & Medeiros, 1999; Enumo, Santiago et al.,
1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho "Processo de Desenvolvimento
da Pessoa com D efic iência : abordagens teóricas e m etodo lóg icas para
in te rve n çã o " - ANPEPP, G ram ad o , R S , 18-21/05/1998 , A n ais , p. 86.
F inanciam ento : UFES, PROEX; e no Encontro do Núcleo de Análise do
C o m p o rta m e n to do E sp ír ito S a n to , na m e sa -re d o n d a "A ná lise do
comportamento no contexto capixaba", em março de 2004,
2 Departam ento de Psicologia Social e do Desenvolvim ento, Programa de
Pós-Graduação em Psicologia, Centro de C iências Hum anas e Naturais,
U n iv e rs id a d e Fed era l do E sp ír ito San to - U F E S - e-rnail:
soniaenumo(S)terra.com.br / enum osrf@npd.ufes.br
145
mailto:enumosrf@npd.ufes.br
1997); b) descrição e análise da capacitação profissional
em Educação Especial (Enumo, Amaral & Batista, 1995;
Enumo, Motta et al., 1995); c) atuação em serviços de
aconselhamento genético (Enumo, Gianórdoli et al., 1997;
Lima & Enumo, 2001); d) análise do comportamento de
procrastinar em estudantes, operários e transeuntes
(Enumo & Kerbauy, 1999; Enumo, Kerbauy, Louzada,
Menezes, Batista & Amaral, 1995); e) análise de relações
entre alfabetização e autocontrole em alunos com e sem
indicação de dificuldade de aprendizagem (Enumo & Kerbauy,
2003); f) descrição e análise das ações preventivas da defi
ciência mental realizadas para gestantes e recém-nascidos,
em serviços de Saúde Pública de Campinas, SP e da Grande
Vitória, ES (Enumo, Giacomin et al., 1997, Enumo et ai., 1998;
Enumo & Kerbauy, 2000; Enumo & Trindade, 2002); g) ela
boração e adaptação de procedimentos para avaliação de
crianças com necessidades educativas especiais (deficiên
cia visual, problemas de comunicação, dificuldade de apren
dizagem, doença crônica, como o câncer infantil), com ênfa
se na avaliação assistida de habilidades cognitivas, lingüís
ticas e da narrativa (Batista & Enumo, 2000; Batista & Enumo,
2004; Dias & Enumo, 2004; Enumo& Batista, 2000, no pre
lo; Enumo & Cunha, 2001; Enumo, Cunha, Paula & Dias, 2002;
Enumo, Dias et al., 2003a; Paula, Enumo & Maia, 2004), e
nas estratégias de enfrentamento da hospitalização e do
brincar no hospital (Motta & Enumo, 2002, 2004a, 2004b;
Motta, Enumo & Ferrão, no prelo); h) criação de ambiente
computacional para avaliação psicológica (Leal, 2005;
Soprani, 2005; Soprani, Leal, Enumo & Menezes, 2005); i)
análise do processo de mediação da aprendizagem em cri
anças com necessidades especiais, e elaboração de instru
mento para avaliação de fatores afetivo-motivacionais
observáveis durante a execução de tarefas de solução de
problemas (Enumo, Dias et al., 2003b; Orlandi, Ferrão, Leite
& Enumo, 2004).
Como forma de exemplificar essa possibilidade de
integração entre as atividades, este texto descreve e anali
sa um programa multidisciplinar de ensino-extensão-pesqui-
sa sobre prevenção de deficiências, realizado no período de
1994 a 1997, no curso de Psicologia da Universidade Federal
do Espírito Santo - UFES (Enumo, 1994).
Este programa se apoiou nos conceitos de "prevenção
primária", que visa a evitar a ocorrência do problema, e de
"prevenção secundária", que consiste no diagnóstico preco
ce e no tratamento imediato, ambos propostos por Clark e
Leavell (1976/1965) para a área da Saúde. Esses conceitos
146
são também utilizados no campo das deficiências, onde a
reabilitação, ou a "prevenção terciária", é mais comum, ape
sar de menos eficiente (Batista & Enumo, 1996; Enumo, 1993,
1996; Enumo & Kerbauy, 1994, 1995; Organização., Mundial
de Saúde - OMS, 1981), A partir dessa teoria de prevenção,
considerou-se que uma medida preventiva possível, em ter
mos de intervenção psicológica precoce junto a serviços ofe
recidos pela UFES, como o Aconselhamento Genético, seria a
proposição de atividades de avaliação do desenvolvimento
infantil e de orientação familiar sobre estimulação precoce de
crianças em risco ou com deficiências.
Foi proposto, então, um programa amplo, que, em li
nhas gerais, visava ao atendimento da comunidade, caracte
rizada inicialmente como a demanda proveniente do Serviço
de Aconselhamento Genético (SAG) da UFES, e à capacitação
de alunos do curso de Psicologia, na área de prevenção se
cundária de deficiências, através de diagnóstico precoce e
tratamento imediato dos casos de atraso no desenvolvimen
to. Mais especificamente, pretendeu-se desenvolver ativida
des de ensino, pesquisa e intervenção nas áreas de: a) ava
liação de repertórios comportamentais infantil; b) planeja
mento e execução de programas de estimulação precoce para
crianças com atraso no desenvolvimento; c) treinamento de
pais e paraprofissionais em estimulação do desenvolvimento
infantil.
M éto d o
1. Participantes
Cerca de 100 pessoas da comunidade e 25 alunos de
graduação em Psicologia da UFES participaram do projeto
em questão:
a) alunos de graduação em Psicologia - o projeto foi
proposto na forma de estágio profissionalizante, com
a duração de um ano, para alunos dos dois últimos
semestres de graduação em Psicologia, estando
também aberto a outros alunos que já tivessem
cursado a disciplina de Psicologia do Excepcional
(ofertada no 6o semestre). Contou, assim, no primeiro
ano de funcionamento (agosto de 1994 a julho de
1995), com 3 estagiárias (uma delas com bolsa de
estudos da UFES) e 2 voluntárias. No segundo ano de
funcionamento (1995-96), houve a inclusão de 8 novos
147
estagiários e mais 5 voluntários, totalizando 18 alunos.
Este número diminuiu para 16 no terceiro ano de
atuação (1996-97). No total, 25 alunos participaram
deste programa, tendo aiguns deles participado de
mais de um projeto.
b)ciientela - 57 crianças e adolescentes e suas respectivas
famílias freqüentando/encaminhadas por: 1) Serviço de
Aconselhamento Genético/UFES - distúrbios genéticos,
como a síndrome de Down (0 a 3 anos) e a fibrose cística
do pâncreas (crianças e adolescentes); 2) Laboratório
de Educação Física Adaptada do Centro de Educação
Física da UFES - deficiências múltiplas (deficiência mental
e paralisia cerebral e/ou deficiência visual) e retardo
mental; 3) Centro Pedagógico da UFES, por meio de seu
Laboratório de Educação Especial e do serviço de
orientação em classes especiais do Estado e Prefeitura
Municipal de Vitória, ES - problemas de aprendizagem
escolar e/ou com atraso no desenvolvimento. Contando
também as famílias, cerca de 100 pessoas da comunidade
participaram do programa.
2. Pr o c e d im e n t o e Ma t e r ia l
Este programa foi sendo desdobrado em 6 projetos
ao longo dos 3 anos de funcionamento, conforme solicita
ções de alunos ingressantes e/ou de outros departamen
tos da UFES, que também atuavam com pessoas com ne
cessidades educacionais especiais, como o Centro Peda
gógico, com seu Laboratório de Educação Especial (LES) e
o Centro de Educação Física e Desportos, com o Laborató
rio de Educação Física Adaptada (LAEFA). Dessa forma, 6
projetos compuseram o programa geral: Projeto 1) Atendi
mento familiar a crianças com Síndrome de Down; Projeto
2) Classes especiais; Projeto 3- Laboratório de Educação
Especial do Centro Pedagógico; Projeto 4) Laboratório de
Educação Física Adaptada; Projeto 5,) Atendimento
Psicossocial a Familiares de Portadores de Fibrose Cística;
Projeto 6) Pesquisa em Educação Especial. A estrutura ge
ral de funcionamento do programa em questão está apre
sentada na Tabela 1.
148
Tabela 1. Estrutura geral dG Programa de Prevenção Secundária de Deficiências
(PPSD) do curso de Psicologia da UFES, em cada ano letivo
G: graduação; M: mestrado; LAEFA: Laboratório de Educação Física Adaptada;
SAG: Serviço de Aconselhamento Genético;
DPSD: Depto. Psicologia Social e do Desenvolvimento.
Há uma descrição das atividades realizadas na Tabela
2, que oferece uma visão global e comparativa desses dados
Tabela 2. Tipos de intervenções e atividades do Programa de Prevenção
Secundária de Deficiências - Psicologia/UFES
Na Tabela 3, estão os instrumentos utilizados em cada um
dos projetos, sendo alguns deles especialmente elaborados.
149
Tabela 3. Atividades e instrumentos de avaliação utilizados no Programa de
Prevenção Secundária de Deficiências do Curso de Psicologia da UFES
I- P rim e iro ano de funcionam ento (agosto de
1994 A ju lh o de 1995):
Durante o primeiro ano, este programa foi executado
com as atividades do Projeto 1, descrito a seguir.
Projeto l - A ten d im en to fa m ilia r a c r ia n ç a s co m
SÍNDROME DE DOWN
A Tabela 4 mostra as características gerais dos sujei
tos participantes.
150
Tabela 4. Características dos participantes do Projeto 1- Síndrome de Down do
Programa de Prevenção Secundária de Deficiências - Psicologia/UFES
Características da Clientela
Faixa etária (crianças)
Sexo (crianças)
Escola
Mães
Nível sócio-econômico das famílias
Residência
1 a 3 anos (um era filho único)
Masculino ?
APAE
35-4G anos (uma adolescente, solteira,
estudante universitária)
média
região metropolitana da Grande Vitória ___
Previu-se o período de um semestre letivo para os alu
nos adquirirem uma base teórica comum e serem capacita
dos para avaliar o desenvolvimento infantil e orientarem os
pais. Incluem-se aqui atividades de leitura e discussão de
texto, aplicação-treino dos instrumentos e elaboração de re
latórios de avaliação.
Simultaneamente, procedeu-se o levantamento e a
seleção da clientela a ser atendida. Selecionou-se, então, a
amostra, segundo três critérios: a) ser portador de síndrome
de Down, por ser a síndrome mais freqüente, geralmente
associada ao retardo mental; b) estar a criança com idade
entre 0 a 3 anos (até março de 1995), por haver material
para atendimento disponível somente para essa faixa etária;
e c) morar na capital, pois parte do atendimento seria feito
na casa do cliente. Foram selecionados assim 20 casos para
o atendimento no projeto.
Durante o primeiro semestre de 1995, foram convida
das, por carta, 20 famíliaspara participarem; e somente cin
co responderam. Após o primeiro contato, três famílias pas
saram a ser atendidas.
As atividades do Projeto 1 foram feitas em dupla de
estagiárias, em três fases descritas a seguir.
Fase I - entrevistas com pais de bebês/crianças com
atraso no desenvolvimento, para fornecimento de
informações sobre o projeto, identificação geral da
família e da criança, e levantamento de dados gerais
sobre o desenvolvimento desta. Essas entrevistas
foram realizadas no Núcleo de Psicologia Aplicada (NPA)
do curso de Psicologia.
Fase II - avaliação do desenvolvimento infantil, através
do Inventário Portage do Desenvolvimento Infantil
(Williams, 1983; Williams & Aiellc, 2001) e das Escaias
Bayley do Desenvolvimento Infantil - EBDI (Bayley,
1969). A avaliação foi feita nas dependências do
campus, com auxílio dos pais (mãe e/ou pai).
O Inventário Portage do Desenvolvimento Infantil foi
escolhido por ser usado com crianças normais até seis anos,
151
podendo ser aplicado em berçários, creches e programas de
pré-escola, e também com crianças mais velhas com suspeita
de atraso no desenvolvimento, além de ser útil em progra
mas de estimulação em instituições e escolas especiais para
crianças excepcionais. Seus resultados podem ser usados
de várias formas, fornecendo um perfil do desenvolvimento
do sujeito (Bereohff, Leppos & Freire, 1994; Williams & Ma
tos, 1984). Esse inventário (Portage Guide to Early Education),
elaborado nos Estados Unidos da América por Suzana Bluma,
Marsha Shearer, Alma Frohman, Jean Hilliard, foi aplicado ex
perimentalmente em crianças com vários tipos de distúrbios
de desenvolvimento (autismo, surdo-mudez, paralisia cere
bral, retardo mental) e suas famílias em 1981-82, em São
Carlos, SP, por Williams (1983)3; havendo, assim, uma versão
nacional, com itens operacionalizados e com critérios de exe
cução, de forma a facilitar a aplicação.
Apesar de fornecer uma visão ampla do repertório
comportamental da criança, este instrumento não foi conce
bido como uma escala de desenvolvimento, padronizada e
estatisticamente elaborada, de forma a permitir uma compa
ração com a média de desempenho de crianças da mesma
idade. Foi construído como uma relação de itens esperados
em cada faixa etária, ou um inventário, com itens indicados
por essas escalas. Por outro lado, dado o seu detalhamento
e abrangência, é bastante útil no planejamento do atendi
mento, facilitando o trabalho dos estagiários. Por esse moti
vo, foi escolhido como instrumento básico para a avaliação
do desenvolvimento, neste projeto.
Para efeitos de controle e padronização dos dados
obtidos, visando a produção de conhecimento na área, deci
dimos também aplicar uma escala de desenvolvimento atua
lizada, que resumisse os dados obtidos no Inventário Portage
e que permitisse a comparação com a norma esperada para
a idade. Este último aspecto, a diferença encontrada em re
lação à idade cronológica, é comumente solicitada pelos pais
e também pelos profissionais que atendem ao caso.
Assim, o uso da EBDI fornece uma avaliação compreen
siva do desenvolvimento da criança e um meio de compará-la
com as crianças de sua idade; ou seja, oferece uma base para
o estabelecimento do status atual da criança e a extensão de
qualquer desvio do normal esperado. Permite, assim, instituir
medidas corretivas precoces, quando a criança mostra evi
dência de desenvolvimento mental ou motor retardado.
Fase III - orientação de pais na área de estimulação do
desenvolvimento infantil, segundo os dados obtidos
1 Esse material foi publicado recentemente (Williams & Ayeilo, 2001).
152
na avaliação, que permitiram estabelecer prioridades
no programa de estimulação do desenvolvimento. Esta
fase do atendimento ocorreu em situação natural (a
própria casa do cliente), por questão metodológica e
também por falta de espaço próprio para atendimento
dentro da universidade.
Como parte dessa orientação familiar, foram progra
madas reuniões quinzenais entre os pais, intercalando-se
com reuniões de socialização entre familiares e crianças aten
didas. As estagiárias também participaram de reuniões de
integração entre todos cerca de 30 alunos de graduação e
pós-graduação envolvidos em projetos de pesquisa e/ou de
intervenção na área de Psicologia e Saúde, sob orientação
de três docentes do Departamento de Psicologia Social e do
Desenvolvimento (DPSD) e do Programa de Pós-Graduação
em Psicologia (PPGP/UFES).
II - Segundo ano de funcionam ento (agosto
de 1995 A ju lh o de 1996):
Durante esse período, manteve-se o Projeto 1- Atendi
mento Domiciliar a Crianças com síndrome de Down, que pas
sou a atender mais 2 crianças. Os dados deste projeto foram
organizados e apresentados em congressos locais, regionais,
nacionais e internacionais, publicados na forma de artigos e
capítulos. Foram criados três novos tipos de atendimentos,
descritos a seguir.
P r o jet o 2 - C lasses especia is
Em um programa multidisciplinar, que incluía dois do
centes e estagiárias do curso de Pedagogia, três alunas de
Psicologia foram responsáveis pelas avaliações psicológicas
de 8 crianças indicadas pelas professoras de classes especi
ais como aquelas que tinham mais dificuldades de aprendi
zagem escolar. Essas avaliações eram feitas por meio de ques
tionários e entrevistas com pais e professores, observações
do professor e da criança no contexto escolar (sala de aula e
recreio), aplicações de testes específicos para alfabetização
e observação da escola e do material escolar da criança. Os
dados assim obtidos eram apresentados em reuniões sema
nais da equipe multidisciplinar (Pedagogia, Psicologia, Edu
cação Física e professores das classes especiais), ajudando
na tomada de decisão sobre a intervenção a ser feita com os
alunos e professores.
As estagiárias deste projeto recebiam assim três tipos
de supervisões semanais: com a professora responsável pelo
153
projeto na Pedagogia, outra na Psicologia e uma reunião geral
com todos participantes dos projetos da área pedagógica.
Realizaram também palestras em cursos oferecidos a profes
sores de várias regiões do ES pela Pedagogia em convênio
com a Secretaria de Estado da Educação do ES.
Projeto 3 - La b o r a t ó r io d e E d u c a ç ã o Es p ec ia l do
Ce n tr o P e d a g ó g ic o
Oito crianças com dificuldades de aprendizagem esco
lar, atendidas em grupo no Laboratório de Educação Especial
pelas estagiárias de Pedagogia, foram avaliadas por três alu
nas de Psicologia de modo semelhante à descrição feita no
projeto 2, diferindo apenas em relação ao local de atendi
mento das crianças, que passou a ser dentro do próprio
campus. As atividades de supervisão também ocorreram da
maneira anteriormente descrita.
Projeto 4 - l a b o r a t ó r io d e E d u c a ç ã o Fís ica
A d a ptad a
Fizeram parte deste projeto 20 crianças com atraso no
desenvolvimento (retardo mental, autismo, paralisia cerebral,
entre outros), sendo 10 delas provenientes de convênio com
a APAE de Vitória e o restante da comunidade local, todas
elas atendidas semanalmente por estagiárias da Educação
Física, no Laboratório de Educação Física Adaptada do Cen
tro de Educação Física e Desportos.
Além das atividades de avaliação do desenvolvimento,
realizadas pelas cinco estagiárias de Psicologia, duas delas
realizaram reuniões quinzenais com as mães dessas crian
ças enquanto estas eram atendidas no LAEFA pelas estagiá
rias de Educação Física e de Psicologia. Os temas dessas
reuniões foram selecionados a partir de consulta de interes
se dos participantes e de acordo com as características dos
casos que estavam sendo atendidos.
III - Terce iro ano de funcionam ento (agosto
DE 1996 A JULHO DE 1997)
O projeto 1 - Atendimento familiar a portadores de
síndrome de Down teve suas atividades encerradas em de
zembro de 1996, em decorrência da diminuição do número
de estagiários, que se formaram nessa data. Três estagiári
as que ficaramrealizaram as atividades ligadas à produção
de relatórios e artigos sobre o estágio realizado, como se vê
a seguir: redação de relatórios sobre as atividades realiza
das durante os anos anteriores no projeto; aplicação do
154
Peabody Pictures Vocabulary Test em todos os 480 alunos da
Escola de Ensino Fundamental da UFES para padronização
em amostra da população brasileira, em trabalho conjunto
com docentes da UERJ e da USP; elaboração e apresentação
de vídeo sobre aplicação de um inventário de desenvolvi
mento infantil; elaboração de painéis e apresentações em
congressos local e nacional; elaboração de um projeto de
pesquisa sobre participação do pai no desenvolvimento de
filhos portadores de deficiência mental. Simultaneamente,
outro grupo de 13 estagiários realizaram as atividades rela
tivas aos projetos 5 e 6, descritos a seguir.
PROJETO 5 - ATENDIMENTO PSICOSSOCIAL A FAMILIARES
DE PORTADORES DE FlBROSE CÍSTICA
Realizado em co-orientação com outra docente do
DPSD4, UFES, e com o auxílio de uma monitora de pós-gradu
ação - uma enfermeira, mestranda em Psicologia/UFES, na
época, este quinto projeto teve a participação de 12 estagi
ários, que atuaram junto a 10 famílias, no SAG/UFES, entre
agosto de 1996 e julho de 1997. Realizaram as seguintes
atividades básicas: organização e condução de reuniões
mensais com os pais de crianças portadores de fibrose cística
e seus filhos; elaboração de um boletim informativo mensal
para os pais; participação em reuniões interdisciplinares se
manais do SAG/UFES; aplicação de instrumentos de avalia
ção de estresse nos familiares; leituras e discussão de tex
tos da área; participação em supervisões com docentes e
reuniões com monitora de pós-graduação em Psicologia; ela
boração de monografias individuais sobre temas da área de
saúde e comportamento; redação de relatórios de estágio;
elaboração de painéis e apresentações em congressos de
âmbito local e nacional (Tabela 5).
Projeto 6 - E s tá g io e m P es q u is a e m P r e v e n ç ã o d e
D eficiên cia s
Esta modalidade de estágio existente no curso de Psi
cologia possibilita ao aluno a elaboração de um projeto de
pesquisa sob supervisão docente, projeto este que poderá
ser apresentado em processos de seleção para mestrado.
As atividades e etapas de produção seguem modelo de pes
quisa em Ciências Humanas.
4 Professoras Zeidi Araújo Trindade e Maria Cristina Smith Menandro, a quem
agradecem os a colaboração.
155
R e s u l t a d o s
Foram considerados alguns indicadores quantitativos e
qualitativos de resultados, que estão resumidos na Tabela 55.
Tabela 5. Produção do Programa de Prevenção Secundária de Deficiências do
curso de Psicologia/UFES, por ano letivo
Em termos qualitativos, foram considerados como indi
cadores de resultados do Programa:
a) os relatos verbais dos usuários - estagiários e clientes,
classificando como positiva a participação no projeto.
Os prim eiros, .com relatos de ganhos em term os de
conhecimento e habilidades profissionais; e os clientes
através de relatos sobre melhora na interação com a
criança excepcional. No projeto 1 - Atendimento Familiar
S D , p o d e -s e o b s e r v a r a lte ra çõ e s s ig n if ic a tiva s no
repertório com portam ental das crianças, com o se vê
na Figura 1, a título de exemplo;
c r ia n ç a s
idade m édia: 13 aplicação: 2 a .3 m . 2a aplicação: 3 a .3 m .
Figura 1. Porcentagem m édia de acertos para cada sujeitos com
S ín d ro m e de D ow n no In v e n tá rio Portage, nas duas aplicações, com
intervalo de um ano.
b ) co m po rta m e n to s observáveis dos usuários - alguns
estagiários, apesar de te rm in a re m a habilitação em
Psicologia, p e rm an e ce ra m por mais um semestre no
projeto, mesmo sem nenhum vínculo formal; os clientes,
da m e s m a f o r m a , c o n t i n u a r a m p a r t ic ip a n d o das
atividades;
r" A lg u m a s produções foram publicadas após o té rm in o do Program a.
156
c) a grande procura de alunos de Psicologia para
participação no programa, mesmo como voluntários;
d) 17 apresentações em congressos locais, nacionais e
internacionais, com publicação de resumos CEnumo,
1995a, 1995b, 1997b, 1997c; Enumo, Gianórdoli et al.,
1997; Enumo, Góes et al., 1995; Enumo, Santiago, et
al, 1995, 1996, 1997; Enumo, Santiago, Motta et al.,
1997; Enumo, Santiago, Rocha et al., 1997; Enumo,
Santos et al., 1997), a publicação de 2 artigos (Enumo,
1996a; Lima & Enumo, 2001) e 2 capítulos de livros
(Enumo, 1997a; Enumo, Santiago & Medeiros, 1999),
a elaboração de um projeto de pesquisa (Afonso &
Enumo, 1997) e de um vídeo, como resultados na área
de produção de conhecimento (Tabela 5); e
e) após o término do Programa, cerca de 30% dos
estagiários (7) continuaram na carreira acadêmica,
fazendo o Mestrado em Psicologia, estando alguns
deles cursando o Doutorado atualmente, assim como
outros estão inseridos na carreira docente.
Discussão
A realização de pesquisas no contexto de ensino-apren-
dizagem universitária é tarefa que transcende o cotidiano do
docente que deseja ser professor-pesquisa dor. Oferece, con
tudo, ganhos para a qualificação profissional do aluno, cujo
desempenho melhora em rigor metodológico e ético. Tam
bém a área de conhecimento é favorecida com a produção de
um conhecimento oriundo de uma realidade localizada no
tempo e no espaço. Com essa perspectiva, tem sido ofereci
do estágio profissionalizante a alunos de graduação em Psi
cologia, na área de Educação Especial, realizando-se inter
venções na comunidade local, visando a uma maior integração
desta com a universidade,
É importante esclarecer que, quando se fala em
metodologia de pesquisa e intervenção, esta não vem
descontextualizada do processo sócio-histórico em que está
inserida. Isto significa que a instrumentação metodológica é
condição necessária, mas não suficiente, para o aprimoramento
da formação profissional e a produção de conhecimento. Nes
se sentido, ao serem propostas atividades de intervenção em
Psicologia, por exemplo, não se está visando apenas ao aten
dimento de uma clientela, através da aplicação e adequação
de técnicas e procedimentos da Psicologia. A intervenção em
Psicologia é entendida como o atendimento de uma demanda
específica concomitante à produção de conhecimento que se
157
incorporará ao saber já constituído na área. Isto implica na
preocupação com a formação ética, com a compreensão dos
fatores históricos e os problemas sociais, com os quais, a Psi
cologia pode contribuir.
Nesta perspectiva, tem-se como prática, no DPSD/UFES,
a proposição de projetos de extensão universitária com es
sas características de intervenção vinculada à produção de
conhecimento. Da mesma forma, esse caráter formativo e não
apenas instrumental também está presente nas atividades
de pesquisa.
Apesar desse enfoque facilitador para a produção si
multânea de pesquisa e extensão juntamente com o ensino,
a implantação de um programa desse porte, procurando aten
der a essas três demandas, é um processo complexo e de
pendente de uma infra-estrutura mínima de espaço físico,
material e recursos humanos habilitados. Seus resultados,
bem como a avaliação destes em termos de eficiência e eficá
cia, dependem diretamente desses aspectos.
Há grandes dificuldades para a realização de projetos
com esse caráter integrativo, com se vê a seguir.
Capacitação de Pessoal: descompasso entre as habilidades
exigidas, como saber aplicar escalas de desenvolvimento in
fantil, redigir relatórios de aplicação de testes e de síntese de
casos, ter tido alguma experiência com crianças excepcionais,
ter conduzido atendimento em Psicodiagnóstico, saber elabo
rar um projeto de pesquisa, conhecer os princípios básicos de
Análise Experimental do Comportamento e suas aplicações na
escola e na área da excepcionalidade, saber elaborar e exe
cutar uma programação de ensino (estabelecimento de obje
tivos, sua operacionalização, registroe avaliação).
Para resolver esse aspecto da capacitação dos alunos,
foi necessário ensinar a aplicação de inventários e de esca
las de desenvolvimento, a elaboração e aplicação de questi
onários, relatórios e, em alguns casos, restringir a clientela,
como no Projeto 1, aos casos de síndrome de Down, por ser
mais conhecida, além de ser a mais freqüente.
Currículo Acadêmico: a realização de estágios, que demanda
mais tempo do aluno, é concomitante à realização de outras
disciplinas teóricas, que já deveriam ter sido cursadas ante
riormente. Nesse tipo de trabalho, que inclui a intervenção
em ambiente natural (casa ou escola), há necessidade de
uma carga horária maior. Os estagiários, por sua vez, estão
em fase final do curso, que culmina com o desligamento for
mal da instituição. Isso atua como fator de dificuldade no
sentido de que, às vezes, não há condições de outras esta
giárias serem treinadas para assumirem o atendimento.
158
De outro lado, a falta de carga horária docente para o
projeto dificulta a supervisão e o atendimento das necessi
dades específicas de cada aluno.
Modelo de atendimento e ensino: fazendo-se uma ailálise de
custos e benefícios, os resultados gerais mostram benefícios
para a clientela e os alunos, mas a um alto custo (tempo e
dinheiro) para o docente responsável, dada a falta de estru
tura curricular, que pode ser particular do curso em questão.
Apoio institucional: A falta de apoio institucional em termos de
aquisição de material para o atendimento e prover um local
específico para isso, e para a supervisão em grupo. Diante
dessas dificuldades, foi necessário, por exemplo, no Projeto
1, restringir o atendimento à faixa etária de 0 a 3 anos, a
qual poderia ser avaliada com o material que estava disponí
vel. A falta de espaço físico adequado, por sua vez, apressou
a introdução de uma modalidade de atendimento, prevista
para outra fase do projeto: o atendimento em situação natu
ral, na própria casa do sujeito. Apesar das vantagens
metodológicas (maior garantia de manutenção e generaliza
ção da aprendizagem, mudanças no padrão de interação
mãe-criança, por exemplo), outras dificuldades de ordem
operacional ocorreram, como a necessidade de maior tempo
para o estágio e gastos com transporte.
Adesão Familiar: a participação da família é básica a esse tipo
de atendimento proposto e os responsáveis verbalizavam
grande interesse no trabalho. Contudo, queriam uma fórmu
la mágica que fizesse seu filho andar ou falar, de preferência
sem mais esforços pessoais. O cansaço, a falta de tempo e o
desconhecimento de sobre como lidar com a criança foram
motivos alegados para não realização das atividades. Todas
as famílias, mesmo estando os maridos desempregados, ale
garam ter pouco tempo para executar as atividades em casa
com a criança. Uma mãe, por exemplo, conseguia tempo para
trabalhar gratuitamente para as crianças da APAE, mas não
arrumava tempo para brincar com seu filho. Ainda a título de
ilustração, no Projeto 1, durante a intervenção na área de
autocuidados, tentou-se "conscientizar" os responsáveis da
necessidade de um registro diário. O planejamento em con
junto, a observação e o registro de comportamentos ficaram
comprometidos e mobilizariam um treino de comportamentos
de autocuidados mais específico e sistematizado, especial
mente porque os pais não demonstraram disponibilidade para
registrar os comportamentos em casa.
Cogitou-se, então, a realização de uma análise do pro
cesso de rejeição do filho deficiente, mas isso demandaria
um outro tipo de atendimento, com caráter mais clínico, o
159
que não era possível no momento. De outro lado, a demons
tração das aquisições da criança na forma de gráficos indivi
dualizados e a explicitação dos pequenos progressos alcan
çados pelos filhos mostraram-se importantes na adesão dos
pais. Foram necessárias também palestras sobre desenvol
vimento infantil para ajudá-los a compreender melhor o pro
cesso em que estavam envolvidos.
Impossibilidade de acompanhamento escolar, não foi possível
a realização de uma observação e sistematização de dados
junto à escola visando a identificar as necessidades de to
das as crianças, em vários projetos deste programa, devido
a um desinteresse expresso por parte da escola, e ainda
falta de carga horária das estagiárias e infra-estrutura para
levar adiante um programa tão abrangente.
Falta de atendimento multi e interdisciplinar: é mais vantajoso
para a criança um atendimento que inclua intervenções nas
áreas da Fonoaudiologia, da Terapia Ocupacional, o acompa
nhamento com neuropediatra, além de atividades extras,
como natação, jogos esportivos, visando a promover a
integração, socialização e desenvolvimento de habilidades
motoras (lateralidade, agilidade, esquema corporal, controle
postural, equilíbrio), auxiliando na aquisição de limites e re
gras impostas tanto pelos jogos como pela vida cotidiana.
Como se vê, são muitas as variáveis que devem ser
observadas quando se fala em estimulação precoce como
medida preventiva para que o atraso no desenvolvimento
não seja agravado. Devem-se considerar as questões de
ordem sócio-econômica-cultural, levando-se em conta a rea
lidade de um país subdesenvolvido como o Brasil. Além das
carências de recursos e reduzido grau de instrução, a defici
ência ainda é ignorada ou cercada por tabus e preconceitos.
Partindo da constatação dessas variáveis envolvidas,
observa-se que uma desvantagem no caso de crianças com
atraso no desenvolvimento, deve-se em parte ao fato de te
rem crescido em ambiente carente de estímulos. Em vista
disso, faz-se necessário que os programas de estimulação
sejam iniciados precocemente, dando suporte à orientação
necessária, para que a família se torne aliada no processo
de estimulação e aprendizado de habilidades. Nesse senti
do, é importante considerar a criança como um todo, respei
tando suas particularidades e necessidades específicas, evi
tando uma intervenção ineficiente ao implantar um modelo
pronto. É preciso considerar a família, o meio no qual a crian
ça está inserida e suas condições físicas e psicológicas (Enumo
& Cunha, 2001).
160
A avaliação do trabalho com a família também é impor
tante, para que sejam discutidos, em conjunto, todos os as
pectos do programa de treino, visando um melhor desempe
nho e uma maior independência, necessária à resolttção de
problemas que possam surgir.
Ao registrar uma intervenção como esta, espera-se
contribuir no sentido de promover idéias, pistas que podem
ser colocados em prática em outras intervenções; além de
destacar os cuidados que devem ser tomados num atendi
mento desse tipo, lembrando a carência de alternativas efi
cazes no atendimento das necessidades da família, de acor
do com o meio em que está inserida.
Apesar das dificuldades citadas, foi possível implantar
o programa, que continha também a proposta de exigir a
elaboração de trabalhos para serem apresentados em con
gressos, simultaneamente ao aprendizado do aluno e ao aten
dimento à comunidade.
Diante desse exemplo de tentativa de integração das
atividades de pesquisa, ensino e extensão, vê-se que, é con
dição necessária, mas não suficiente, a adoção de uma linha
teórica definida na intervenção, assim como o rigor
metodológico na condução do atendimento e da pesquisa,
se a capacitação dos alunos não corresponder às caracterís
ticas do projeto. A lacuna de conhecimentos terá que ser
suprida durante o processo, onerando o projeto em termos
de tempo e qualidade.
Do mesmo modo, a estruturação curricular não garan
te a continuidade da prestação de serviço, pois nada obriga
o aluno a optar pelo estágio, gerando uma possível
descontinuidade ou mesmo cancelamento do projeto.
A falta de carga horária oficial e real para projetos des
se porte, que exigem uma grande quantidade de tempo é um
dos fatores que também pode impedir a continuidade ou vir a
descaracterizar o tipo de intervenção. Esta condição decorredo excesso de atribuições docentes, que, por sua vez, advém
do tamanho dos departamentos; exigindo soluções em ter
mos de contratação docente, que depende de soluções locais
e nacionais (políticas internas da instituição e do governo,
política econômica, atratividade dos salários, por exemplo).
Entretanto, as dificuldades encontradas em termos
operacionais ou de infra-estrutura para funcionar não se jus
tificam se a filosofia da universidade fosse a de ser a linha-
de-ponta, ou o exemplo de excelência de qualidade no aten
dimento à comunidade. Este, aliás, deveria ser gratuito às
camadas de baixa renda, onde se localiza o grande contin
gente dos casos de deficiências em nosso país.
161
Resumindo, este projeto encerrou suas atividades três
anos após seu início enfrentando as mesmas dificuldades:
falta de espaço físico adequado para a orientação de pais e
para observação de crianças; sem apoio financeiro para a
aquisição de material psicopedagógico necessária à interven
ção com as crianças e para funcionamento do estágio; sem
infra-estrutura de funcionários e telefone; poucas bolsas de
estudo; pouco tempo para supervisão, dada a fórmula para
contagem de tempo para estágio, também por não serem
consideradas as horas de supervisão conjunta com os do
centes dos outros departamentos e nem ser possível incluir
horas para orientação de estudos teóricos; e dificuldades
para achar horário conjunto para supervisões e atividades
grupais. Mesmo sem as condições facilitadoras, às custas de
horas extras para professores e alunos e de reuniões em
horário de almoço, foi possível realizar o programa, manten
do sua tônica de produzir conhecimento na área, como se
pôde ver no item anterior.
Finalizando, fica aqui um registro das possibilidades e
dificuldades encontradas em experiências reais de propos
tas de realizai serviços de atendimento à comunidade com
qualidade, ao mesmo tempo em que se procura produzir co
nhecimento em Psicologia e capacitar os futuros profissio
nais da área.
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