Prévia do material em texto
Estágio em Ensino de Análise Linguística Aula 01: Concepções de gramática e objetivos do ensino-aprendizagem de análise linguística Tópico 03: Concepções de gramática e tipos de ensino – Parte II: o produtivo VERSÃO TEXTUAL Vimos, no tópico anterior, dois dos três paradigmas de ensino de gramática e a respectiva visão que cada um assume sobre o que é língua/linguagem. Nas duas concepções anteriores, tanto o sujeito quanto a situação de uso foram desconsiderados. No terceiro paradigma, sobre o qual falamos a seguir, esses elementos – sujeito e situação de uso – são trazidos para o centro da discussão sobre o fenômeno da linguagem. Holofotes no uso: concepção de linguagem, concepção de gramática e tipo de ensino O foco na estrutura não foi a única resposta contestatória à hegemonia da vertente prescritiva. Já na década de 1920, o grupo intelectual comandado pelo pensador russo Mikhail Bakhtin, com o livro Marxismo e Filosofia da Linguagem (1997), mostrava que o estruturalismo saussuriano não era a proposta de investigação da linguagem mais adequada. Com isso, Bakhtin rejeita tanto o excesso prescritivista quanto a descrição estrutural pura e simples. O filósofo defende que a linguagem deve ser investigada como um processo do qual participam sujeitos reais em situações reais. Os usos, portanto, são o foco da linguagem. Bakhtin pode ser considerado um dos nomes que mais contribuíram para o que hoje se chama de perspectiva sociointeracionista-discursiva dos estudos da linguagem. Na concepção de linguagem como processo de interação, a língua é considerada como forma de atuação sobre o interlocutor. Interessa, aqui, utilizar a língua para promover efeitos de sentido nos outros sujeitos, avaliando, inclusive, a situação social em que os usuários se encontram. A língua é tida principalmente como fenômeno social da interação verbal, tendo o diálogo, em sentido amplo, como sua maior caracterização. A gramática que tem a linguagem como processo de interação é a internalizada. Consiste no conjunto de regras que o indivíduo de fato aprendeu e das quais lança mão ao utilizar a língua. Tais regras não são obtidas, a princípio, pela instrução escolar formal, mas a partir da ativação e amadurecimento progressivo da própria atividade linguística. Aqui não há o erro, mas a inadequação utilizada em uma determinada situação de interação comunicativa. Por ser de caráter essencialmente pessoal, dependendo da situação de cada indivíduo, não há gramáticas internalizadas escritas. O ensino proveniente das concepções de linguagem como interação e gramática internalizada é o produtivo, que pretende aumentar os recursos linguísticos do indivíduo, sem alterar os padrões que ele já possui. Trata-se de um trabalho que visa aumentar a gramática internalizada do indivíduo, a partir da reflexão e automatização de novos conceitos, a fim de que esse adquira maior condição de se adequar perfeitamente às mais variadas situações de interação comunicativa. 14