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Clínica Psicanalítica:
manejo e subjetivações na contemporaneidade
Tema: 
Histeria e atuação: corpo e gozo 
De início, as primeiras histéricas escutadas por Freud mantinham um aparente distanciamento das atuações
Elas exibiam um mal-estar que, em boa medida, era veiculado pelo sintoma clássico da histeria: 
o sintoma conversivo
Isto já indicava uma abertura do corpo à escrita sintomática
Mas, havia a ideia de que enquanto uma histérica falasse do seu sofrimento, ela não atuaria
 O sintoma histérico na sua perspectiva conversiva era zeloso quanto ao corpo
Tanto que no caso de uma convulsão histérica havia um imaginário que, em certa medida, guiava a clínica:
se os desmaios e convulsões trouxessem um sério risco à integridade do corpo, estaríamos diante de uma epilepsia. 
Se o desmaio - seguido ou não de convulsões - não implicasse em danos ao corpo, estaríamos nas águas da histeria;
O que esta fórmula - de alcance duvidoso - acaba por mostrar é precisamente a forma como o corpo estava apropriado na histeria:
tratava-se ali de um corpo erótico, envolvido pela lógica libidinal;
A partir principalmente do caso da jovem homossexual (“Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”, de 1920), o modelo clínico da histeria começa a passar, em Freud, por uma transição
Trata-se de uma jovem que, em um dado momento, joga-se de uma ponte sobre os trilhos do trem
O tratamento psicanalítico foi iniciado seis meses após esse acontecimento. A adolescente já se encontrava refeita dos seus ferimentos – estes foram muito sérios, mas não deixaram sequelas físicas. 
Essa atitude da jovem paciente de Freud foi considerada mais do que uma simples encenação: 
foi tomada por Freud como uma autêntica tentativa de suicídio
Temos, pois:
Um corpo que se deixa cair
Um corpo tocado pelo sintoma
Um pouco mais do que isto, na atualidade:
Um corpo que se deixa cair, rasgar, abrir, transformar.
Um corpo tocado pelo sintoma
Como o mal-estar se inscreve, hoje, no corpo do sujeito histérico?
Fragmento clínico:
Há alguns anos, recebi em meu consultório uma jovem na faixa dos 27 anos de idade, muito vivaz e de inteligência bem afinada. 
Nascida no interior do Estado, ela vai para a capital completar o segundo grau e dar ingresso à vida universitária. Em Belo Horizonte, foi acolhida pela tia (uma executiva bem sucedida, solteira e sem filhos) e assim realizou seus estudos, desfrutando das melhores condições materiais que podia obter na época. 
Ao lado dos estudos, destacou-se como nadadora, chegando a ganhar alguns torneios e , em alguns momentos, foi uma praticante de triathlon.
Via-se como uma jovem aplicada em seus estudos e com uma vida bastante saudável.
A sua trilha universitária iniciou-se em meio a um desagrado. O seu curso superior foi, segundo ela, decidido pela tia. A tia preocupava-se muito com a futura inserção profissional de sua sobrinha e a conduziu a se decidir por fazer o mesmo curso realizado anteriormente por ela (a própria tia) e que tinha relação direta com a sua área de atuação. 
Esperava-se, assim, que a sobrinha desse continuidade à carreira da tia.
Aqui, há um detalhe acerca do vínculo bastante estreito entre esta menina e a sua tia. A relação da paciente com a sua mãe era extremamente tensa, desde os anos iniciais da infância. A mãe surgia como uma mulher descuidada acerca da maternidade e, adicionado a isto o uso de álcool, não se mostrava em condições de cuidar da filha. Neste cenário, é desde bem cedo que esta tia ocupará um lugar de referência para a paciente: uma referência feminina transversalizada por uma atitude fálica.
 Esta referência não era feita sem se acompanhar da indicação do desmerecimento da progenitora em ser mãe. 
A paciente se forma na área de atuação almejada pela tia e dá início às suas atividades profissionais.
Porém, nos locais em que ela atuou, rapidamente se embaralhou em dificuldades de relacionamento com alguns colegas e também com os gestores, aliadas a um questionamento político que ela fazia de sua atuação e da lógica do mercado que acabava influenciando diretamente sua atuação profissional.
Não tardou o aparecimento de questionamentos cada vez mais inviáveis acerca de sua carreira e a manifestação de uma grande infelicidade quanto à sua profissão. 
A permanência em Belo Horizonte e na atuação direta da profissão tornaram-se inviáveis e a paciente voltou para sua cidade, vindo a exercer um cargo burocrático junto à Prefeitura. 
Na sua nova atuação profissional, não cessava de considerar os gestores e seus chefes imediatos como pessoas sem inteligência e como legítimos burocratas de plantão. Neste cenário, ela se via desperdiçada em suas qualidades. 
um conjunto amplo de atuações com sérias repercussões para sua integridade física e saúde. Ao lado disso, havia também diversas exposições de caráter erótico que, em alguma medida, tornavam melindroso o lugar desta paciente em meio às suas relações sociais e profissionais.
Nos últimos anos, com o retorno para a sua cidade natal, esta paciente começa a notar algo que até então não fazia parte de sua vida:
Um encontro bastante intenso com vários tipos de drogas associou-se ao uso de álcool. Tornou-se cada vez mais frequente estes usos se darem em meio a uma atmosfera boêmia: a paciente passava muitas noites seguidas em bares, chegando em casa de dia.
Em alguns momentos, após diversas aventuras sexuais (tanto hetero quanto homoeróticas, algumas delas arriscadas), era tomada de forte culpabilidade. Era sobretudo nestas ocasiões que a paciente punha-se a cortar seu corpo insistentemente com um estilete. Ao lado disso, ela realizava um intenso uso de medicamentos vindo, mais de uma vez, a ser encontrada desacordada após a associação fármaco-álcool.
Em mais de uma ocasião, seja na vida profissional ou na trajetória boêmia, esta pessoa portava a indagação: ‘qual é o meu lugar?’, ‘o que sou para o Outro?’
O que, em termos de condução do tratamento, pode nos conduzir a indagar se as atuações - por mais problemáticas que possam ser - não possibilitam a este sujeito um chamado:
reapropriar-se de sua condição desejante
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