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2019 Título: Sistema Renal Editor: Diana Cruz Projeto gráfico: Bruno Brum Coordenador: Diego Barros Edição de texto: Editorando Birô Diagramação: caixadedesign.com Capa: Fabrício Sawczen e Wesley Azevedo Conselho Editorial: Caio Vinicius Menezes Nunes, Itaciara Larroza Nunes, Paulo Costa Lima, Sandra de Quadros Uzêda e Silvio José Albergaria da Silva Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fábio Andrade Gomes - CRB-5/1513 J58m Jesus, Vinicius Santos Moura de Medicina resumida: sistema renal / Vinicius Santos Moura de Jesus. – Salvador : 2B, 2019. 252 p. : il. ; 16x23 cm. – (Medicina Resumida ; 4). ISBN 978-85-5462-127-8 1. Rins - Fisiologia. 2. Medicina. I. Título. II. Título: Sistema renal. III. Série. CDU: 612.46 ÍNDICE PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO 1. Medicina. 2. Medicina. Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário Fábio Andrade Gomes - CRB-5/1513 Editora Sanar Ltda. Rua Alceu Amoroso Lima, 172 Caminho das Árvores Edf. Salvador Office e Pool, 3º andar. CEP: 41820-770 – Salvador/BA Telefone: 0800 337 6262 sanarsaude.com atendimento@sanar.com Sumário 1. Sistema Renal: Visão Geral e Anatomia 1. Caso clínico 2. Visão geral 3. Anatomia Referências Mapa mental 2. Histologia do Sistema Renal 1. Caso clínico 2. Introdução 3. O néfron 4. Os túbulos e ductos coletores 5. O interstício renal 6. As vias urinárias Referências Mapa mental 3. Manutenção do Volume dos Líquidos Corporais 1. Caso clínico 2. Entendimento inicial sobre os líquidos corporais 3. A troca de líquidos em condições normais 4. Controle hídrico através do rim 5. Compartimento dos líquidos corporais 6. Regulação da troca de líquidos entre os compartimentos Referências Mapa mental 4. Filtração Glomerular 1. Caso clínico 2. Introdução 3. Visão geral da formação da urina 4. A primeira etapa de formação da urina 5. Determinantes da filtração glomerular 6. Fluxo sanguíneo renal 7. Controle fisiológico da fg e do fluxo sanguíneo renal 8. Autorregulação da fg e do fluxo renal Referências Mapa mental 5. Reabsorção e Secreção Tubular 1. Caso clínico 2. Introdução 3. A reabsorção tubular e seus mecanismos ativos e passivos de transporte 4. Os mecanismos de reabsorção e secreção tubular ao longo do néfron 5. Mecanismos de regulação da reabsorção e secreção Referências Mapa mental 6. Concentração e diluição da urina 1. Caso clínico 2. Introdução 3. Excreção renal de H2O vs urina diluída 4. Conservação renal de H2O vs urina concentrada 5. Controle da osmolaridade do sódio no líquido extracelular Referências Mapa mental 7. Regulação renal dos demais íons (K+, CA2+, PO4 3-, MG2+) 1. Caso clínico 2. Regulação da concentração do potássio extracelular e sua excreção 3. Mecanismo de excreção renal do potássio 4. Regulação da concentração do cálcio extracelular e sua excreção 5. Controle da excreção renal do cálcio 6. Regulação da excreção renal de fosfato 7. Concentração e excreção do magnésio extracelular Referências Mapa mental 8. Equilíbrio acidobásico 1. Caso clínico 2. Introdução 3. Conceitos elementares – ácidos e bases 4. Regulação da concentração do íon H+ 5. Mecanismos corporais de defesa: pulmões, tampões e rins 6. Secreção tubular de H+ e reabsorção tubular de HCO3- 7. Produção de “novo” HCO3- pela ação dos sistemas-tampões fosfato e amônia 8. Como os rins corrigem a acidose 9. Como os rins corrigem a alcalose Referências Mapa mental AUTORES VINICIUS SANTOS MOURA DE JESUS Interno do Curso de Medicina da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), membro do canal Medicina Resumida e professor do projeto SanarFlix, da Editora Sanar. MARCELO AUGUSTO DUARTE SILVEIRA Professor da Sanar Residência Médica (Clínica Médica e Nefrologia). Doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), especialista em Nefrologia pelo Hospital das Clínicas da FMUSP, Membro da Diretoria de Fisiologia e Fisiopatologia Renal da Sociedade de Nefrologia (Biênio 2019-2020), Médico Assistente do Serviço de Nefrologia (Grupo de Injúria Renal Aguda e Ambulatório de Tubulopatias) do HCFMUSP, Professor Colaborador da Disciplina de Nefrologia da FMUSP [entre 2016 e maio de 2019], Médico Assistente do Serviço de Nefrologia do Hospital São Rafael (Salvador, BA), especialista em Clínica Médica pelo Hospital Santa Marcelina-SP, Graduado em Medicina pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). AGRADECIMENTOS Escrever esse livro partiu da vontade de desmistificar o sistema renal/urinário humano, de que ele é complexo, difícil de entender e, por isso, precisa ser decorado com bastante detalhes. É justamente o caminho oposto da grande maioria dos livros-texto que procurei trilhar e fazê-lo, buscando facilitar ao máximo o seu entendimento. Essa coletânea, como um todo, traduz um intenso e dedicado trabalho para entregar o melhor e o mais prático conteúdo ao estudante da área de saúde, cujo tempo é bastante escasso e o volume de informações que precisa lidar e absorver é enorme ao longo de sua vida acadêmica. Nesse sentido, sinto-me profundamente feliz e realizado ao entregar essa obra a vocês. Muito obrigado pelos feedbacks, pelo apoio contínuo, paciência e motivação diária, o que, de fato, foi imprescindível para tudo isso se tornar realidade. Agradeço imensamente à valiosíssima contribuição e upgrades do coautor dessa obra, Prof. Dr. Marcelo Silveira, cujos entusiasmo, seriedade e precisão cirúrgica foram fundamentais ao fomento e execução dessa obra. Sua bagagem de conhecimento, vivências e comprometimento com a educação continuada em saúde agregaram uma qualidade sem igual a este trabalho. Gratidão! Não poderia deixar de agradecer também à Editora Sanar, que tem sido minha segunda casa há alguns anos, acolhendo e revolucionando a mente de quem aqui passa. Obrigado pela confiança e por acreditar num projeto inovador e facilitador de conhecimento que, sem sombra de dúvidas, irá ajudar muitas pessoas. Em especial, agradeço à Mau Mau (Maurício Lima) pelo convite, à Diana Cruz (pela dedicação, paciência e organização), à Isabela Ribeiro e ao Geisel Alves. Vocês são sensacionais! Ao Medicina Resumida, em especial à figura de Diego Barros (Stark), um irmão que a vida e a medicina me deram de presente. Obrigado pela confiança, perseverança e dedicação, irmão! Estaremos sempre juntos! À Alana Rodrigues (Laninha), Kevin Gomes (Kevito) e Evelyn Assis (Eve) pela companhia, força e parceria ao trilhar esse caminho juntos. Muito Obrigado! À minha família, em especial ao meu filhinho Theo (que, mesmo pequenino, me inspira e motiva diariamente a fazer o meu melhor, cada vez mais), às minhas amadas mãe e avó. Vocês são o meu maior exemplo de vida, de luta, de perseverança e me deram todas as ferramentas possíveis para que eu pudesse chegar até aqui, me ensinando que “[...] tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para os homens” (Colossenses 3:23). Gratidão! – Vinicius Jesus A vida acadêmica requer paciência, humildade e perseverança; estes elementos são essenciais para que se alcance o esperado: a transmissão do saber. Aos meus Pais (Braz e Sandra) e meus irmãos (Maciel e Milla), vocês são minha inspiração. A Renata, meu amor, companheira e fonte de muita força, acompanhada de um coração imenso. Aos mestres que me transmitiram o melhor de si. – Marcelo Augusto Duarte Silveira APRENDER PODE SER MAIS FÁCIL E aí, preparada(o) para dominar o conhecimento acerca do Sistema Renal? Sim, é possível! Nós sabemos o quanto pode ser difícil compreender alguns temas nesse universo. Seja devido à linguagem demasiadamente rebuscada de algumas literaturas clássicas ou o excesso de detalhes que facilmente se perdem em sua memória. Por isso, desde já, queremos estabelecer um compromisso: nosso objetivo ao longo deste livro é fazer você absorver os principais pontosque são premissas para a formação de seu raciocínio clínico e, consequentemente, para a sua prática profissional futura. Assim, acreditamos estar direcionando seu tempo e energia, o que permitirá o aumento da sua eficiência no processo de aprendizado. Como bônus, estaremos abordando os pontos que, provavelmente, serão cobrados em suas avaliações. Justamente por terem mais relevância para a prática clínica. Entretanto, isso é um bônus. Nosso objetivo é fazer você se tornar um melhor profissional. E para isto, é imprescindível um conhecimento integrado. Conhecimento decorado para a prova é facilmente esquecido, já o que é verdadeiramente compreendido, fica para a vida. Com isso, entramos em uma outra preocupação que tivemos: a integração dos três pilares básicos de cada sistema orgânico (a anatomia, a histologia e a fisiologia). Apesar de termos momentos destinados a cada pilar neste livro, estaremos frequentemente correlacionando-os e permitindo que você obtenha uma visão mais global do processo. Algo que já é amplamente defendido por metodologias de ensinos mais modernas e que, mais uma vez, possui um bônus: a economia. Adquirir um livro para cada pilar costuma pesar no orçamento financeiro. Sendo assim, se você possuir um atlas de anatomia para associar a este livro texto, será o suficiente para um ótimo aprendizado. E vale ressaltar que boas imagens de anatomia não faltam na internet. Deixando mais uma vez o bônus de lado, vamos ao maior diferencial deste livro que é a sua metodologia. Você provavelmente deve saber que há duas metodologias principais nos cursos de saúde: a tradicional e o PBL (Problem Based Learning - “Aprendizado baseado em problemas”). Sendo que ainda há alguns cursos que adotam um modelo misto em que se mesclam as duas opções. A metodologia tradicional é o modelo que nos acostumamos durante o período escolar. Professor é detentor do conhecimento, realiza aulas expositivas abordando cada assunto e em alguns momentos são aplicadas avaliações para tentar mensurar o quanto foi aprendido pelo aluno. A metodologia PBL, em uma explicação simplificada, apresenta inicialmente um problema (geralmente um caso clínico), permite a discussão em um grupo utilizando os conhecimentos prévios e motiva o estudante a buscar as respostas para que em um segundo momento, os alunos possam compartilhar os seus aprendizados e construam conjuntamente o conhecimento. Desta forma, o professor pode avaliar diversos pontos além do conhecimento adquirido: a capacidade de ser parte de um grupo, a organização do raciocínio, a exposição do mesmo, dentre outras questões. Contudo, desta forma que apresentamos, deixa-se a entender que a metodologia PBL apenas possui vantagens, porém esta está longe de ser a absoluta verdade. Primeiro que é muito frequente se deparar com professores que não foram treinados para a metodologia, o que permite que os alunos fiquem sem um guia ou indevidamente orientados. Outra queixa comum entre os estudantes é que algumas instituições optam por um curto período entre a apresentação do problema e a discussão sobre o mesmo, não permitindo um tempo adequado de estudo para os estudantes absorverem o conteúdo necessário. E dentre diversos outros pontos frequentes, o principal é a insegurança. Os estudantes por não terem recebido o conhecimento do professor, fonte confiável, não conseguem sozinhos estabelecer quais informações são importantes em um oceano de referências possíveis. As consequências disso são inúmeras para o aprendizado e saúde mental dos estudantes. Por isso, talvez a resposta mais adequada seja o modelo misto, associado a professores devidamente capacitados. Neste, além das discussões, ocorrem aulas expositivas dos professores, quando são contemplados os principais pontos e/ou complementado o conhecimento exposto nas discussões. Mas afinal, e o livro? A coletânea Medicina Resumida foi concebida a partir da análise das principais vantagens e falhas de cada metodologia. Sendo assim, em cada capítulo você será inicialmente apresentado a um caso clínico, quando gostaríamos que você tentasse reconhecer os principais pontos e palavras chaves a serem estudadas. Este exercício mínimo irá aumentar o seu vínculo com o tema e, consequentemente, irá consolidar melhor em sua memória quando obter as respostas. E não se preocupe que ao virar a página, você irá encontrar o que consideramos importante e o(s) objetivo(s) do capítulo. O próximo passo então é a entrega do conteúdo. Essa é feita em cada capítulo com as características que defendemos ser importantes até aqui: uma abordagem integrada dos três pilares, utilizando uma linguagem adequada e focando nos pontos principais para a sua formação. Por fim, você ainda terá a sua disposição um mapa mental simplificado com os pontos principais que você precisa recordar em uma revisão rápida. Portanto, seja você de uma instituição com a metodologia tradicional ou PBL, esperamos te oferecer um recorte da experiência do que há de melhor nos dois mundos. Faça um ótimo proveito! O MEDICINA RESUMIDA O Medicina Resumida é um canal do Youtube fundado em março de 2014 por Diego Barros, quando estava nas férias para o 3º semestre do curso de medicina da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A proposta desde o início foi compartilhar o conhecimento e as experiências adquiridas com os demais estudantes dos cursos de saúde em uma época em que aulas em vídeos para o nicho ainda eram muito escassas. Após dois anos de crescimento, a demanda dos seguidores só aumentava e havia o desejo de contemplar todos os pedidos. Entretanto, a rotina densa de estudos era impeditiva. A solução foi definida em 2016, quando o canal contou com a sua primeira grande mudança. Foram convidados ao projeto mais cinco estudantes e amigos (Alana Rodrigues, Evelyn Assis, Gabriel Araponga, Kevin Gomes e Vinicius Jesus) que além de competentes, se alinhavam com a filosofia do projeto. Desde então, todos os esforços foram voltados à contemplar os conhecimentos do tripé básico dos sistemas orgânicos: a anatomia, a histologia e a fisiologia. Porém, não se limitando apenas a estes temas. O primeiro contato com a Editora Sanar ocorreu ainda em 2015 com a concepção da obra “100 Casos Clínicos Comentados em Medicina”, lançada em 2016 e amplamente requisitada ainda nos dias de hoje. O vínculo se fortaleceu em 2017 com a concepção da Coletânea Medicina Resumida e a união de esforços para o desenvolvimento de uma plataforma de educação médica que complementasse integralmente toda a faculdade de medicina: o SanarFlix. Projeto este que foi lançado no segundo semestre de 2017 e possui uma completa sintonia com esta coletânea lançada em 2018. Ambos frutos de um grupo alinhado em inovar a educação médica, utilizando como premissas a qualidade e a acessibilidade de seus projetos. E o Medicina Resumida? Apenas ganhou com essa união de esforços. Evoluiu em quantidade e qualidade para os seus seguidores. Pois a estrutura disponibilizada para o SanarFlix, também se estende ao Medicina Resumida e isso permitiu garantir uma maior qualidade técnica dos conteúdos (áudio e vídeo), assim como uma maior entrega na quantidade dos vídeos, inclusive com a participação de outros professores. Ainda não conhece? Confira como nos encontrar: • Canal Medicina Resumida: www.youtube.com/medicinaresumida • Instagram Medicina Resumida: @medresumida • SanarFlix: www.sanarflix.com.br • Instagram SanarFlix: @sanarflix.med Capítulo 1 SISTEMA RENAL: VISÃO GERAL E ANATOMIA 1. CASO CLÍNICO Dona Tereza, paciente do sexo feminino, 74 anos de idade, trabalhadora rural, compareceu ao Centro de Saúde do bairro onde mora com queixa de dor lombar de forte intensidade do lado direito, em cólica, associada à disúria, polaciúria e hematúria há 4 dias. Entretanto, há 2 dias, refere astenia e calafrios, que julgou ser resultante do calor que estava fazendo em sua cidade. Assim que entrou no consultório, onde foi atendida pelo Dr. Theo, sentou-se e mostrava-se agitada e incomodada; relatou que “éa pior dor que já sentiu na vida”. O jovem médico tentou tranquilizá-la e começou a fazer a anamnese. Dona Tereza, além de contar-lhe sua queixa principal, alegou também ser diabética, hipertensa e beber pouca água; e relatou dois episódios anteriores de infecção urinária tratada em casa com antibióticos orais. Após realizar exame físico, o Dr. Theo explicou para Dona Tereza que ela precisaria fazer um sumário de urina e uma ultrassonografia de rins e vias urinárias. Ele ainda explicou que, provavelmente, a Dona Tereza teve um episódio de nefrolitíase, e que esses exames ajudariam a confirmar sua hipótese diagnóstica, para que pudesse iniciar o seu tratamento. Dona Tereza, bastante questionadora, indagou o jovem médico: “Doutor, o que é isso? É uma doença? É grave? Tem cura?”. Prontamente, o médico explicou que a nefrolitíase era conhecida popularmente como “pedra nos rins” ou cálculos renais. Disse ainda que, provavelmente, ela iria expelir alguns cálculos pela urina, os quais seriam a causa da dor e do quadro clínico apresentado. Também a tranquilizou, dizendo que não é tão grave, mas requeria cuidado, e que ela poderia ser tratada e viver com uma boa qualidade de vida. Mostrou ainda a localização anatômica dos rins e explicou que eles eram os órgãos responsáveis pela filtração do sangue. Dona Tereza ficou bastante surpresa, uma vez que não sabia que tinha dois rins (e não apenas um, como supunha). Também não sabia onde exatamente eles ficavam; sabia apenas que tinha “formato de feijão”. Então, resolveu perguntar ao seu médico: “Se essas pedras são feitas nos rins, como eu vou botar pra fora essas pedras, meu filho?” Então, o Dr. Theo sanou as dúvidas de sua paciente, explicou o trajeto que os cálculos renais deveriam fazer até serem expelidos, explicando a anatomia do sistema renal e esclarecendo as dúvidas da Dona Tereza. Então, ela foi medicada com analgésicos e saiu do consultório com as requisições para realizar os exames complementares, além de estar menos preocupada e ansiosa como antes. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Disúria; polaciúria; hematúria; astenia; calafrios; ultrassonografia; nefrolitíase; analgésico. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Dor lombar; cólica; agitada; hipertensa; diabética; beber pouca água; infecções urinárias prévias; rins; vias urinárias. 2. VISÃO GERAL Os rins filtram, diariamente, cerca de 170 litros de sangue, sendo que cerca de 20% do débito cardíaco diretamente são filtrados pelos rins. Nós, seres humanos, nos adaptamos de tal forma no curso evolutivo que adquirimos diversas habilidades, e uma delas, que é vital à nossa existência, é a capacidade de obter energia de maneira eficiente e abundante. Obtemos essa energia, no entanto, dos alimentos que ingerimos diariamente através da nutrição e de processos metabólicos celulares. Entretanto, o nosso metabolismo celular é exotérmico – que libera energia a partir da degradação de moléculas orgânicas energéticas – e, em consequência disso, produzimos diversas outras substâncias que são inúteis, e algumas delas até tóxicas, que comprometem a nossa homeostasia orgânica. Essas substâncias derivam da oxidação dos carboidratos (açúcares), dos lipídios (gorduras) e das proteínas. Quando nossas células oxidam os carboidratos e lipídios, há obtenção de energia metabólica na forma de ATP e liberação de CO2 (gás carbônico) e H2O (água). Esse gás carbônico será eliminado, evidentemente, através dos alvéolos pulmonares pelas trocas gasosas. Já a oxidação das proteínas, aminoácidos e demais substâncias nitrogenadas faz liberar como subproduto o H2O, mas também são liberadas excretas nitrogenadas, sobretudo o NH3 (amônia), que é relativamente tóxico ao organismo fisiológico. Além da amônia, outros resíduos metabólicos são produzidos com certa frequência, tais como: o ácido úrico (derivado da metabolização dos ácidos nucleicos, como DNA e RNA); a creatinina (derivada da metabolização da creatina presente nos músculos); os produtos terminais de hormônios (modulando a concentração desses hormônios na corrente sanguínea) e da hemoglobina das hemácias (quando essas são destruídas no baço pelo processo denominado hemocaterese). Portanto, a natureza sabiamente percebeu que se fazia necessário ter alguma estrutura capaz de eliminar esses rejeitos do nosso organismo, e assim se fez. Mas essas substâncias inúteis não apenas derivam das moléculas orgânicas que delas nos utilizamos para benefício próprio. Constantemente, ingerimos substâncias estranhas ao nosso corpo e que em algum dado momento será necessário excretá-la. Por exemplo, quando um indivíduo tem uma amigdalite bacteriana e febre associada, por vezes é necessário tomar antibiótico, antitérmico e, às vezes, anti-inflamatórios para tentar resolver de maneira mais rápida e eficaz essa infecção. Após realizar seus respectivos mecanismos de ação e extinguir o processo infeccioso, esses fármacos – que são substâncias químicas de estrutura química bem definida, cujos efeitos são conhecidos, podendo ser benéficos ou não – são modificados e se transformam em substâncias inúteis que precisam ser eliminadas. Daí emerge a importância do sistema renal em eliminar tais substâncias químicas. Em resumo, o sistema renal se constitui como a principal via de eliminação de fármacos; no entanto, não é a única. Vários fármacos são eliminados por via biliar, sendo excretado nas fezes; outros têm menor eliminação através de secreções, tais como no leite materno, glândulas salivares, lágrima etc. Para além disso, também entramos em contato com substâncias nocivas sem percebermos; por exemplo, quando comemos aquela deliciosa salada e, às vezes, nos sentimos mal depois. Com o advento dos agrotóxicos e pesticidas, muitos legumes, verduras e hortaliças são contaminados por essas substâncias tóxicas, e o sistema renal, às vezes, é a única via de eliminação dessas substâncias. Então, já imaginaram o que seria de nós se não fosse esse papel vital dos rins? Os rins são responsáveis por filtrar e eliminar outras diversas substâncias (por exemplo, toxinas exógenas e endógenas, frutos do metabolismo celular), porém existem outras funções desempenhadas pelos rins que são essenciais para a homeostase. São órgãos bastante polifuncionais e, há um bom tempo, já se sabe que os rins realizam mais processos reguladores do que excretórios. E aí, você pode se questionar: os rins regulam o quê? Os rins regulam: (1) o volume dos líquidos corporais, sua concentração e o balanço e concentração de eletrólitos no corpo, (2) o balanço ácido-base e a (3) produção de alguns hormônios que serão secretados na corrente sanguínea. (1) Nosso corpo é formado predominantemente por líquidos, que em sua maioria são constituídos de H2O e eletrólitos (sais minerais). Um indivíduo jovem, do sexo masculino, e que pesa 70 Kg, por exemplo, possui cerca de 42 litros de água corporal total. Esse líquido corporal total está distribuído dentro e fora das células, assim como dentro dos vasos sanguíneos e em algumas cavidades do nosso corpo, porém a maior parte encontra-se no compartimento intracelular. Para que haja manutenção adequada do volume celular e tecidual normal, assim como a função do sistema cardiovascular precisa se manter estável, é necessário que os rins estejam controlando esses volumes e concentrações para que não ocorra desequilíbrio à condição vital celular. O número total de partículas dos solutos das soluções corporais é rotineiramente medido em miliosmol (mOsm). A partir daí, surgem as definições que expressam as concentrações dos líquidos celulares, que são a osmolalidade – quando a concentração é expressa em osmóis do soluto em questão por quilograma de água (mOsm/Kg de H2O); e a osmolaridade – que é a concentração de um soluto expressa em osmóis por litro de solução (mOsm/L de solução). Entretanto, em sistemas biológicos, costuma-se usar esses dois conceitos como sinônimos. O principal determinante da osmolalidade ou osmolaridade plasmática é o sódio, o qual é regulado, mantendo concentrações sanguíneas normais,graças aos rins. Vamos abordar essa discussão com mais detalhes no capítulo 6. A água é o solvente dos líquidos corporais, que, por sua vez, são soluções muito diluídas (os líquidos corporais possuem solvente em grande quantidade e uma quantidade muito baixa de solutos). Portanto, os volumes da solução e do solvente acabam sendo muito próximos. Além disso, a água tem densidade de 1 kg/L, e isso significa que cada litro de água “pesa” 1 kg. Então, concluímos que o volume do solvente é praticamente o mesmo da solução, permitindo, dessa forma, que possamos utilizar ambos conceitos – osmolalidade e osmolaridade – como sinônimos. É importante destacar, ainda, que é mais comum que a maioria das expressões de concentração dos líquidos corporais seja baseada muito mais na osmolaridade do que na osmolalidade. Ou seja, de maneira prática, quando você ler que quanto mais concentrado é um meio, entenda que maior será a sua osmolaridade. Além do mais, os rins, através do hormônio antidiurético (ADH), são os principais responsáveis pela manutenção da água, evitando, em situações normais, do fenômeno da desidratação. Além dos líquidos, os rins fazem a regulação da quantidade de eletrólitos, que são de vital importância para as funções celulares – p.ex., contração muscular, propagação do impulso nervoso, formação de energia metabólica celular na forma de ATP etc. – em todo o organismo, tais como o sódio (Na+), o potássio (K+), o cálcio (Ca2+), o magnésio (Mg2+), cloreto (Cl-), o íon hidrogênio (H+), o fosfato (PO4 3-) e o bicarbonato (HCO3 -). Para que a quantidade desses eletrólitos em nosso organismo se mantenha estável, com um balanço favorável à homeostase, a ingestão diária deve ser relativamente igual à excreção. Imagine que esse mecanismo funcione da seguinte maneira: você tem uma balança antiga de 2 bandejas, sendo que uma representa a ingestão e a outra a excreção. Na medida em que você vai ingerindo mais eletrólitos (por meio da água e dos alimentos) do que os excretando, a bandeja da ingestão vai se prevalecendo e essa bandeja desce; assim, quando a ingestão supera a excreção, há aumento na quantidade de eletrólitos no organismo e haverá um balanço positivo desses íons. Dessa maneira, algum sistema deve existir para garantir a eliminação do excesso. Em oposição, quando a excreção supera a ingestão, essa bandeja agora penderá no sentido da excreção e se prevalecendo sobre a ingestão; então, quando a excreção dos eletrólitos (principalmente por meio da urina) for maior que a ingestão destes, as quantidades no organismo irão reduzir e haverá um balanço negativo desses eletrólitos. Esse mecanismo é crucial, pois o sistema renal é a principal e, em muitas ocasiões, a única via de eliminação de muitos eletrólitos. (2) Diversos processos celulares metabólicos (conjunto de reações químicas que a célula realiza para obter produtos úteis e energia) são bastante sensíveis às variações bruscas do potencial hidrogeniônico (pH). Dessa forma, o sistema renal “desenvolveu” a capacidade de manter os líquidos corporais em níveis toleráveis de pH, a fim de que se evitem bruscas variações desse potencial. Não podemos esquecer, no entanto, que esse pH mede a concentração de íons H+ no organismo; quanto mais íons H+ tem em um meio, mais ácido ele fica, e menor será o seu pH. Como os rins fazem isso? Existe um mecanismo bastante eficiente e preciso para regular essas reações que são os tampões – proteínas plasmáticas produzidas no fígado que circulam na corrente sanguínea e nos fluidos corporais, as quais têm por objetivo principal evitar essas variações bruscas de pH, capturando os íons H+ e OH-. Além dos tampões, os rins e os pulmões possuem também uma enorme contribuição para a manutenção de um ambiente sem grandes perturbações que sejam danosas ao organismo. Como o rim ajuda a equilibrar esse balanço? Os aminoácidos são produzidos diariamente, de forma fixa (cerca 1 mmol de [H+]/Kg de peso), fruto do nosso metabolismo de proteínas. Os rins ajudam no balanço ácido-base através da eliminação desse H+, principalmente na forma de amônio (NH4) e reabsorvem todo o bicarbonato (HCO3 -) filtrado. (3) Os rins possuem ainda uma capacidade endócrina, por serem capazes de produzir hormônios (hormônio – substância química produzida por um grupo de células especializadas que será transportada pela corrente sanguínea, a fim de induzir uma resposta específica em outros tecidos). Dentre essas substâncias estão: a renina, que ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), responsável por participar ativamente no controle da pressão sanguínea arterial e no balanço do Na+ e K+ ao nível dos túbulos distais dos néfrons (vamos abordar esse tema no capítulo de reabsorção e secreção tubulares); o calcitriol, que é a vitamina D ativa, a qual possui atividade biológica, crucial para que o trato gastrointestinal absorva o Ca2+ de maneira adequada, além de contribuir posteriormente para a deposição desse íon no tecido ósseo; e a eritropoietina, um hormônio responsável por estimular a medula óssea vermelha a produzir a série eritroide, que dará origem aos eritrócitos (hemácias adultas), em diversas condições fisiológicas e patológicas. 3. ANATOMIA 3.1 OS RINS Anatomicamente, de acordo com a imagem 1, o sistema renal é composto pelos rins, ureteres, bexiga urinária e uretra. Quando se faz uma descrição macroscópica, os rins (direito e esquerdo) se assemelham a grãos de feijão e têm um diâmetro médio de 12 cm longitudinalmente (de “cima” para “baixo”), pesam aproximadamente 160 g em um homem adulto e estão situados na porção dorsal do abdome – denominado retroperitônio –, um de cada lado da coluna vertebral, entre a 12ª vértebra torácica (T12) e a 3ª vértebra lombar (L3). Imagem 1: Anatomia macroscópica do sistema renal (ou urinário humano) e seus órgãos constituintes. Se fizermos um corte longitudinal no rim, perceberemos que o seu tecido funcional, ou parênquima renal, é formado por 2 camadas visivelmente distintas entre si: a cortical e a medular. Envolvendo a camada cortical, externamente, há um revestimento de tecido conjuntivo, que é a cápsula renal, que por sua vez é revestida pela gordura perirrenal, conforme ilustra a imagem 2. Além disso, os rins possuem 2 bordas (ou faces): a borda convexa e a borda côncava, sendo esta denominada hilo renal – local por onde chegam os vasos sanguíneos, vasos linfáticos e fibras nervosas e de onde saem as pelves renais, que darão origem aos ureteres. Imagem 2: Estruturas que fazem parte da anatomia macroscópica dos rins. Note também a presença de estruturas microscópicas, como os glomérulos, túbulos e pequenos vasos sanguíneos. A córtex renal (ou camada cortical) – camada mais externa do parênquima renal – mede aproximadamente 1 cm (até aproximadamente 2 cm é o normal) de espessura em um homem adulto e contém estruturas microscópicas denominadas glomérulos renais, responsáveis pelo clearance (limpeza, depuração ou filtração) do sangue que chega aos rins, dando início à formação do filtrado glomerular, que é o precursor da urina. Depois que a urina é formada no parênquima, ela é ejetada em uma rede de cavidades: os cálices renais (cálices maiores, cálices menores) e a pelve renal, conforme mostra a imagem 3. Cerca de 3 a 4 cálices menores formam 1 cálice maior, e estes, quando se juntam em número de 2 ou 3, formam a pelve renal, que é contínua com o ureter e conduzirá a urina até a bexiga urinária. imagem 3: Cálices renais (cálices maiores, cálices menores), a pelve renal e o início do ureter, que conduzirá a urina até a bexiga urinária. Já a medula renal (ou camada medular) – camada mais interna do parênquima – é dividida em porção interna e externa, além de ser formada por 14 a 18 estruturas cônicas: as pirâmides de Malpighi, sendo que, entre uma pirâmide e outra, existe tecido cortical adjacente, denominado colunas de Bertin. As bases dessas pirâmides estão em contato com a camada cortical e os seus vértices estão em contato com os cálices menores por meio de saliências.Essas saliências das pirâmides são as papilas renais, as quais possuem, aproximadamente, 18 a 25 orifícios minúsculos para a passagem da urina recém-formada. Cada grupo de papilas renais acaba se abrindo para um cálice menor. Na porção final das papilas renais existe uma irregularidade epitelial (conhecida como placas de Randall) que facilita a calcificação e precipitação de microcristais, favorecendo assim a formação de cálculos renais (imagem 4). Imagem 4: ilustração esquemática da teoria que visa explicar a formação de alguns cálculos renais a partir das placas de Randall. Do ponto de vista didático, há uma outra classificação do tecido renal: por meio de lobos, sendo cada um formado por uma pirâmide de Malpighi e tecido cortical periadjacente, que será bastante útil para descrever posteriormente a complexa vascularização sanguínea renal. Destaco ainda que o entendimento claro da vascularização renal lhe será muito útil para compreender de forma mais fácil os mecanismos fisiológicos abordados nos próximos capítulos, os quais descreverão a formação da urina. As artérias renais são responsáveis por perfundir, ou seja, por nutrir o parênquima renal e derivam diretamente da artéria aorta abdominal. Elas se bifurcam de maneira progressiva até formar as artérias interlobares; dessas artérias se originam as artérias arqueadas que contornam perto do limite entre as camadas cortical e medular. Das artérias arqueadas surgem as artérias interlobulares que fazem o sangue fluir no sentido perpendicular e em direção à cápsula renal, ou seja, de modo ascendente, atravessando a córtex renal. Das artérias interlobulares se originam as tão famosas arteríolas aferentes, as quais darão origem às alças capilares glomerulares, que por sua vez se apresentam como um emaranhado de capilares dentro de uma estrutura coletora denominada cápsula de Bowman (a cápsula de Bowman será abordada com maiores detalhes no capítulo seguinte) (imagem 5). Da união dessas alças capilares vão surgir as arteríolas eferentes, que continuam seu trajeto para nutrir o restante da camada cortical renal com sangue arterial. Quando dizemos que o sangue é arterial, entende-se que ele tem alta pressão parcial de O2, ou simplesmente, “rico” em O2. Dessas arteríolas irão se formar os vasos peritubulares (fundamentais para o mecanismo de reabsorção tubular) e, posteriormente, originarão as arteríolas secundárias que se projetam agora no sentido medular para haver a perfusão dessa região. Estas arteríolas são conhecidas como vasos retos. Imagem 5: Ilustração da complexa vascularização renal. Note que da artéria renal surgem várias ramificações importantes (artérias interlobares, artérias arqueadas, artérias lobulares e, a partir destas, as arteríolas aferentes, capilares glomerulares e arteríolas eferentes). Entretanto, a vascularização da região medular realizada, sobretudo, pelos vasos retos é muito pobre, o que torna essa região bastante sensível a alterações de perfusão, por menores que sejam. Uma vez que o sangue arterial nutriu o parênquima renal e teve suas impurezas depuradas nos glomérulos, ele retornará, agora venoso, à circulação sistêmica por meio das veias (o sangue é dito venoso quando tem baixa pressão parcial de O2, ou simplesmente, “pobre” em O2). Portanto, os vasos do sistema venoso renal farão essa função. Esses vasos são paralelos às artérias, formando progressivamente as veias interlobulares, as veias arqueadas, as veias interlobares e as veias renais, que irão se inserir na veia cava inferior. 3.2 AS VIAS URINÁRIAS São formadas a partir dos cálices renais, que darão origem aos ureteres (direito e esquerdo). Os ureteres são ductos musculares derivados das pelves renais com cerca de 26 a 30 cm de comprimento em um indivíduo adulto e contêm lumens estreitos responsáveis por conduzir a urina formada até a bexiga urinária. A perfusão dessas estruturas tubulares é realizada por ramos diretos da aorta abdominal, das artérias renais (também da artéria polar inferior) e das artérias testiculares (ou ováricas nas mulheres) (imagem 6). Imagem 6: Vascularização do ureter esquerdo, em uma vista anterior da aorta abdominal (e ramos renais e bifurcação das artérias ilíacas comuns). Note os ramos arteriais abdominais e pélvicos que irrigarão este ureter. Já a drenagem venosa desses órgãos (ou seja, o sangue que retornará à circulação sistêmica após perfundir um órgão ou tecido) é realizada por veias que se unirão progressivamente e irão se ligar às veias renais e testiculares (ou ováricas, nas mulheres). A inervação responsável por controlar e possibilitar a contração e relaxamento dos ureteres é derivada dos plexos nervoso aórtico, renal e hipogástrico, que contêm fibras nervosas aferentes viscerais, responsáveis por conduzir a sensação dolorosa quando há algum estímulo (tal qual ocorreu com D. Tereza, com seu quadro de nefrolitíase) (imagem 7). Imagem 7: Ilustração da inervação do ureter, em uma vista anterior da aorta abdominal (e ramos renais e bifurcação das artérias ilíacas comuns). Note em destaque as fibras nervosas dos plexos renal, aórtico e hipogástricos, com seus ramos para o ureter direito. Essas fibras conduzem estímulos através das aferências viscerais e simpáticas para os gânglios sensitivos de nervos espinhais e segmentos medulares toracolombares (T10-L2/L3). 3.3 A BEXIGA URINÁRIA A bexiga urinária tem seu formato e tamanho modificados a depender se está cheia ou vazia. É uma víscera oca, com tecidos musculomembranosos, está em contato com as demais vísceras pélvicas vizinhas, funciona como reservatório temporário para a urina e se caracteriza por sua capacidade de distensibilidade na medida em que vai se enchendo de urina. A (imagem 8) ilustra uma pelve feminina em corte sagital mediano, na qual temos uma bexiga quando está vazia. Está situada na pelve menor, em relação direta com os ossos do púbis e tem o formato semelhante a um tetraedro achatado com o vértice voltado para frente. Possui um vértice (ou ápice), um fundo (ou base), um corpo, um colo e uma úvula. Quando a bexiga está cheia, seu formato é mais ou menos oval, como mostra a (imagem 9), que ilustra uma pelve masculina também em corte sagital mediano. • Ápice – aponta para a margem superior da sínfise púbica; • Fundo – formado pela parede posterior; é um tanto convexa e com íntimo contato com o peritônio (camada serosa que reveste as vísceras abdominais) • Corpo – parte entre o ápice e o fundo; • Colo – formado pelo encontro das faces laterais inferiores com o fundo; • Úvula – pequena projeção do trígono da bexiga (local onde se encontram os óstios, ou orifícios, dos ureteres e o óstio interno da uretra). Imagem 8: Corte sagital mediano de uma pelve feminina. Note a conformação da bexiga quando está vazia. Imagem 9: Corte sagital mediano de uma pelve masculina. Note a conformação da bexiga quando está cheia. A bexiga urinária das mulheres está em contato íntimo com o útero e a parte superior da vagina, na porção dorsal (ou posterior). Já a bexiga urinária dos homens tem sua porção posterior em contato íntimo com a ampola retal e a região inferior da próstata. A perfusão sanguínea vesical (da bexiga) é realizada por artérias derivadas dos ramos das artérias ilíacas internas, vesicais superior e inferior, obturatórias e glúteas inferiores. As veias que fazem a drenagem venosa desse órgão têm os mesmos nomes das respectivas artérias, e todas irão convergir e se inserir nas veias ilíacas internas. A inervação vesical é constituída pelos nervos esplâncnicos (viscerais) pélvicos, que contêm fibras nervosas que medeiam sua contração, efetuada pelo músculo detrusor da bexiga. 3.4 A URETRA MASCULINA A uretra masculina é um tubo muscular tem uma dupla função: conduzir a urina armazenada na bexiga urinária para o meio ambiente no ato da micção e conduzir o esperma proveniente dos testículos durante o ato sexual. Possui em sua extensão cerca de 20 cm de comprimento e inicia-se do óstio interno da uretra e termina no óstio externo dauretra, situado na glande peniana (imagem 10). Imagem 10: Corte sagital da anatomia descritiva da uretra masculina, que está dividida didaticamente em quatro partes. Anatomicamente, a uretra masculina é dividida em 4 partes: • Porção pré-prostática – ou porção intramural, é um segmento curto, tem mais ou menos 1 cm de comprimento e está compreendida entre o colo da bexiga urinária até a parte superior da próstata; • Porção prostática – é um segmento mais largo e dilatável, possui cerca de 3 cm de comprimento; nela, há vários orifícios (ductos ejaculatórios) por onde irão passar o esperma antes/durante a ejaculação; • Porção membranácea – é um segmento curto, com mais ou menos 2 cm de comprimento, é a menos dilatável e contém as glândulas bulbouretrais, responsáveis pela secreção do fluido pré- ejaculatório; • Porção esponjosa – é o segmento mais longo de todos, com cerca de 15 cm de comprimento e está contida no corpo esponjoso peniano; A perfusão arterial dessa estrutura é realizada por meio de ramos prostáticos das artérias vesicais inferiores, retais médias, e a drenagem venosa é realizada por meio de veias que obedecem a mesma nomenclatura das respectivas artérias (imagem 11). A inervação é realizada por fibras nervosas do plexo prostático, nervo pudendo e demais fibras que conduzirão as aferências para os nervos esplâncnicos pélvicos. Imagem 11: Ilustração, em uma vista posterior, artérias importantes que irrigarão a uretra masculina e estruturas próximas (parte pélvica dos ureteres, bexiga urinária, glândulas seminais, parte terminal do ducto deferente e próstata). 3.5 A URETRA FEMININA Em comparação com a uretra masculina, de acordo com a imagem 12, é relativamente menor e tem apenas a função excretora do conteúdo armazenado na bexiga urinária. Possui aproximadamente 4 cm de comprimento, 6 mm de diâmetro luminal e conduz a urina de um orifício interno de saída (óstio interno) até um orifício externo de saída da urina para o meio ambiente (óstio externo da uretra) – sendo este último situado no vestíbulo da vagina. Imagem 12: A ilustração, além de evidenciar a uretra feminina (e seu tamanho menor em comparação com a uretra masculina), ilustra a pelve feminina em um corte sagital mediano e as estruturas dos órgãos aí contidos. A uretra feminina é perfundida por sangue arterial, que chega pelas artérias pudenda interna e vaginal, e o recolhimento do sangue venoso é realizado pelas veias de mesmo nome das respectivas artérias (imagem 13). A inervação é realizada pelas fibras nervosas do nervo pudendo e outras fibras que irão conduzir as aferências para os nervos esplâncnicos pélvicos, à semelhança do que ocorre nos homens. Imagem 13: Irrigação arterial das estruturas uterinas, ovário, vagina e outros ramos arteriais importantes que irrigam a uretra feminina. REFERÊNCIAS IMAGENS 1. GOOGLE IMAGENS. Acesso em: 28 abril. 2019. 2. GOOGLE IMAGENS. Acesso em: 28 abril. 2019. 3. BERNE; LEVY. Fisiologia. Editora Elsevier, Rio de Janeiro, 2009. 4. GOOGLE IMAGENS (adaptada). Acesso em: 28 abril. 2019. 5. GOOGLE IMAGENS (modificada). Acesso em: 28 abril. 2019. 6. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 7. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 8. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 9. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 10. GOOGLE IMAGENS. Disponível em <https://www.lucasnicolau.com/img/postagem/4/uretra.jpg.>. Acesso em: 28 abril. 2019. 11. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 12. GOOGLE IMAGENS (modificada). Acesso em: 28 abril. 2019. 13. GOOGLE IMAGENS (adaptada). Acesso em: 28 abril. 2019. REFERÊNCIAS 1. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 2. STANDRING, S. Grays Anatomia. A base anatômica da prática clínica. 40a Ed. Elsevier Editora Ltda: Rio de Janeiro: 2010. 3. DANGELO, J. G. et al. Anatomia humana sistêmica e segmentar. Rio de janeiro: Livraria Atheneu, 2007. 4. BERNE; LEVY. Fisiologia. Editora Elsevier, Rio de Janeiro, 2009. 5. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12 ed. Rio de Janeiro; Editora Elsevier, Rio de Janeiro. 2011. 6. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4 Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2012. 7. SILVERTHORN, Dee U.; Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 8. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. https://pt.dreamstime.com/foto-de-stock-sistema-urin%C3%A1rio-f%C3%AAmea-image5564010 http://www.bibliomed.com.br/bibliomed/bmbooks/anatomia/livro2/cap/fig05-41.htm https://jasn.asnjournals.org/content/jnephrol/28/1/333/F9.medium.gif https://ruadaconstituicao.files.wordpress.com/2015/01/2015010601.png https://www.auladeanatomia.com/genitais/bexiga2.jpg https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ae/Gray1170.png 9. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 2 HISTOLOGIA DO SISTEMA RENAL 1. CASO CLÍNICO Diego, um jovem menino de 7 anos, foi trazido à Unidade Básica (UBS) do bairro onde mora por seu pai, seu Bira, com queixa de otalgia à esquerda com saída de secreção amarelada, há doze dias. Nesse período, não apresentou nenhum outro sintoma e foi iniciado o tratamento com amoxicilina com clavulanato. Dez dias após este episódio, evoluiu com um edema periorbital e, após dois dias, abriu um quadro febril de 39,5° C. Dessa vez, foi levado por seu genitor a uma unidade de pronto-atendimento (UPA) anexa a um hospital geral, onde foi medicado com cetoprofeno. No dia seguinte, Diego evoluiu com tosse, dispneia e alteração na coloração urinária. Tendo em vista o quadro apresentado, prontamente o médico plantonista entrou em contato com a regulação e achou prudente encaminhá-lo ao hospital ao lado para uma investigação mais detalhada do quadro. Seu pai referiu que as demais crianças que têm contato com ele na escola e na rua onde moram apresentam “inflamação de garganta” constantemente. Na admissão, Diego encontrava-se com regular estado geral, taquidispneico, anictérico, acianótico, hidratado, febril e descorado (+/IV). O exame físico evidenciou como achados relevantes uma redução do murmúrio vesicular em base pulmonar do hemitórax esquerdo. Preocupado, o Dr. Maurício solicitou um hemograma completo, com contagem diferencial, PCR, ASLO, testes laboratoriais de função renal, como ureia e creatinina, além de um sumário de urina. Enquanto aguardava o resultado dos exames laboratoriais, pensou em algumas hipóteses diagnósticas e as discutiu com seu colega plantonista, o residente em nefrologia Dr. Léo, com quem dividia o plantão, e os internos de medicina da UPA. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Otalgia; edema; amoxicilina com clavulanato; cetoprofeno; murmúrio vesicular; taquidispneia; hemograma; PCR; ASLO. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Otalgia com saída de secreção amarelada; edema periorbital; febre; tosse; dispneia; alteração na coloração urinária; “inflamação de garganta” constante; testes de função renal; sumário de urina. 2. INTRODUÇÃO É muito provável, quando você está estudando um tema interessante ou que já tenha alguma bagagem prévia, que tenda a pular as partes mais introdutórias ou assuntos que julga ser menos importantes, para que possa chegar logo aos “finalmente”. Realmente, acontece que essa tática pode, em alguns casos, até dar certo e não comprometer significativamente o seu entendimento de todo um conteúdo. No entanto, quando estamos estudando sistema renal, pular esse capítulo de histologia pode trazer complicações ao seu entendimento da fisiologia e aos mecanismos patológicos desse sistema. Talvez pelo não entendimento correto desse sistema, muitos estudantes acabam decorandoos processos e, dessa forma, torna-se uma temática chata e bastante penosa de decorar tantas características. É fácil, no entanto, visualizar a importância fundamental que a histologia renal tem para fornecer subsídios a fim de que compreendamos aspectos mais complexos. Por exemplo, como é possível compreender as glomerulonefrites se não soubermos o que é um glomérulo, o que o constitui, suas funções e quais células formam essa estrutura? Como é possível entender as nefropatias mesangiais sem saber o que são células mesangiais e as suas funções? Como também é possível entender as síndromes nefrótica e nefrítica sem conhecer os componentes da barreira de filtração? Como é possível entender os processos fisiológicos de filtração, secreção e reabsorção ao longo dos néfrons sem saber do que são constituídos e o que fazem os néfrons? Talvez, tenha ao menos te convencido um pouco a não perder essa oportunidade de entender esse tema de uma vez por todas. Então, ao longo desse capítulo, vamos tentar desfazer essa impressão de assunto difícil de entender e tentar eliminar possíveis aversões que possam existir. 3. O NÉFRON Já sabemos que o sistema renal possui a função de depuração, ou seja, é responsável por remover as toxinas e demais substâncias inúteis derivadas do metabolismo celular, as quais circulam no sangue, e as eliminam do corpo por meio da urina. Além disso, esse sistema tem a capacidade de manter a constância na concentração de vários eletrólitos – que são os sais minerais presentes nos líquidos corporais –, da glicose, de proteínas, do volume da água corporal e de outras substâncias químicas contidas no organismo. Sabemos também que esse sistema exerce papel fundamental na regulação da pressão sanguínea arterial e no equilíbrio ácido-básico, devido à capacidade de produzir, conservar e eliminar determinadas substâncias químicas no organismo. A compreensão da histologia renal está intimamente relacionada com os aspectos microscópicos da estrutura funcional desse sistema – responsável pela função de depuração e regulação –, que são os néfrons. Se alguma vez nós já ouvimos a célebre frase que “os rins são os filtros do nosso corpo”, isso se deve aos néfrons, pois se os rins são comparados aos filtros, os néfrons seriam as velas desse filtro, realizando assim o papel de limpeza do sangue. Os néfrons são estruturas tortuosas, contorcidas (ou convolutas), que fazem a modificação do líquido filtrado (derivado do plasma sanguíneo) que passa por eles, cujas substâncias, tais como água e os eletrólitos, serão eliminadas na forma urina, que é o produto final formado na excreção. Em cada rim humano podem existir até 1,5 milhão de néfrons. Esses diversos néfrons drenam o conteúdo líquido para um único túbulo coletor e vários túbulos coletores vão se confluindo até formar ductos cada vez maiores. Estes ductos maiores, denominados ductos de Bellini, perfuram a papila renal até escoar a urina até os cálices renais menores, conforme ilustra a imagem 1. Imagem 1: Anatomia microscópica do rim, evidenciando a anatomia descritiva do néfron. Nos rins da espécie humana há basicamente dois tipos de néfrons: os néfrons corticais – que são generosamente mais curtos –, e os néfrons justamedulares – que são mais longos, cujos corpúsculos renais estão na região do córtex renal e as porções tubulares estão na região da medula renal. À propósito, a região medular renal pode ser dividida – usando como critérios o tipo de células que a constitui e a localização dos dois tipos de néfrons – em zona interna e zona externa. A região glomerular renal recebe sua irrigação sanguínea por meio de alças capilares derivadas, por sua vez, da arteríola glomerular aferente e o sangue é drenado pela arteríola glomerular eferente. Ou seja, no que se refere à vascularização sanguínea glomerular, o sangue chega e sai dos glomérulos por meio de arteríolas que conduzem sangue arterial (sangue com alta pressão parcial em O2). Os néfrons, contudo, possuem várias adaptações celulares ao longo de sua extensão para desempenhar suas funções. Por isso esse formato tão característico. Cada néfron possui em sua porção inicial uma estrutura denominada corpúsculo renal (ou corpúsculo de Malpighi). Cada corpúsculo é constituído pela cápsula de Bowman e por um tufo de capilares glomerulares (ou simplesmente glomérulo), que tem a função de formar o líquido filtrado derivado do sangue (filtrado glomerular). Na continuidade do néfron, as porções tubulares – que são o túbulo proximal, os ramos da alça de Henle (ramos descendente fino, ascendente fino e ascendente espesso), túbulo distal, túbulo de conexão e túbulo coletor – são responsáveis por modificar o filtrado através de processos de reabsorção ao longo do túbulo e elaborar a urina. Ou seja, desde a chegada de sangue em arteríola aferente até a formação da urina, existem os seguintes mecanismos: filtração (a nível glomerular), reabsorção (a nível tubular) e excreção (processo final de eliminação da urina). Cada parte dos néfrons será descrita separadamente. 3.1 O Corpúsculo Renal Antes conhecido como corpúsculo de Malpighi, o corpúsculo renal está na extremidade proximal do néfron e tem um aspecto de bolsa oval dilatada. É formado pelo tufo de alças capilares – o glomérulo –, que está inserido dentro da cápsula de Bowman, localizado mais especificamente no espaço de Bowman. O glomérulo está separado da cápsula de Bowman pelo espaço de Bowman (ou espaço capsular), responsável por receber o filtrado glomerular advindo dos capilares glomerulares. Fazendo parte dos capilares glomerulares, formando a barreira de filtração glomerular, existem o endotélio fenestrado, membrana basal glomerular e podócitos – que iremos descrever suas funções logo mais adiante, separadamente. 3.1.1 O Glomérulo O glomérulo é uma estrutura vascular formada por um novelo de alças capilares fenestradas e anastomosadas entre si, cujos ramos formadores derivam da arteríola aferente e, posteriormente, irão se juntar até formar a arteríola eferente, responsável pela drenagem do sangue que percorreu os capilares. Os capilares glomerulares formam a Barreira de Filtração Glomerular. Essa barreira é formada por três estruturas: endotélio fenestrado, membrana basal glomerular (MBG) e as fenestrações (ou fendas dos podócitos). Essa barreira possibilita a passagem do filtrado e dos eletrólitos, mas impede a passagem dos elementos figurados sanguíneos (leucócitos, hemácias, plaquetas, albumina etc.), que são relativamente grandes. Esse impedimento é tanto mecânico quanto elétrico. Cada elemento dessa barreira possui uma função: O endotélio fenestrado possui diversos poros (fenestrações) com a função de permitir o trânsito livre de água e moléculas pequenas (Na+, glicose etc.) e de impedir que elementos grandes – como células sanguíneas e algumas proteínas plasmáticas – atravessem livremente; nesse sentido, funcionam como uma barreira mecânica. A membrana basal glomerular é formada por colágeno tipo IV e outras proteínas, como a laminina, a fibronectina e um proteoglicano polianiônico (que possui carga elétrica negativa) – que repele várias substâncias de carga negativa, impossibilitando de serem filtradas; portanto, funcionam como uma barreira elétrica. Os podócitos possuem processos denominados pedicelos que se interdigitam (cobrindo a membrana basal glomerular) e formam espaços visíveis separados chamados de fendas de filtração. Cada fenda de filtração é recoberta por um fino diafragma que contém poros muito pequenos e é constituído por várias proteínas (nefrina, NEPH-1 e podocina) (imagem 2). A função dessas fendas é filtrar e selecionar as moléculas pelos seus tamanhos, impedindo que proteínas e outras macromoléculas, ao cruzarem a membrana basal, adentrem o espaço de Bowman. Imagem 2: Anatomia dos processos podais dos podócitos, ilustrando as proteínas (nefrina, NEPH-1, podocina etc.) que formam o diafragma da fenda, situado entre dois processos podais adjacentes. Importante ainda destacar que os podócitosestão situados no folheto visceral da cápsula de Bowman (imagem 3) e são grandes células epiteliais especializadas. Elas possuem adaptações importantes para a realização da filtração, que são os longos e vários prolongamentos citoplasmáticos semelhantes a tentáculos ou pés (daí o seu nome; podócitos = células que têm pés), conhecidos como prolongamentos primários (os maiores) e os prolongamentos secundários (os menores) – que são ramificações menores daqueles, como mostra a imagem 4. Imagem 3: Esquematização dos podócitos, da membrana basal glomerular, do endotélio fenestrado e do transporte de algumas moléculas através dessa barreira. Imagem 4: Outra ilustração dos podócitos, da membrana basal glomerular e do endotélio fenestrado. Notem os prolongamentos primários e secundários dos podócitos. Além disso, em íntimo contato com o glomérulo, dentro da cápsula de Bowman, existe um tipo celular especial, denominado célula mesangial. As funções das células mesangiais (ou simplesmente mesângio) ainda não estão totalmente esclarecidas, elas possuem uma capacidade fagocitária, participando do sistema imune a nível renal, contribuindo para a defesa contra infecções, deposição de complexos de antígenos e/ou anticorpos e demais injúrias. Ou seja, é como se fosse o “carro do lixo”, que recolhe todas as impurezas filtradas. Outra função atribuída ao mesângio é que as células possuem uma atividade contrátil pelo fato de possuírem alguns receptores para a angiotensina II (uma substância de potente ação vasoconstritora), possibilitando que, após a contração, o fluxo sanguíneo que chega ao glomérulo seja reduzido. Fazem também algum grau de sustentação dos capilares glomerulares, além de possuírem receptores para o peptídeo natriurético atrial (PNA) – um hormônio de ação vasodilatadora que promove o relaxamento dessas células, possibilitando o aumento do aporte sanguíneo nos capilares e da taxa de filtração, ao contrário do que a angiotensina realiza. 3.1.2 A Cápsula de Bowman A cápsula de Bowman possui dois folhetos distintos: o folheto visceral e o folheto parietal, tendo entre eles uma região que é o espaço de Bowman. O folheto mais interno é o folheto visceral da cápsula de Bowman, formado pelos podócitos, ao passo que o folheto mais externo da cápsula, denominado folheto parietal, é constituído por células epiteliais simples. 3.2 O Túbulo Proximal Na continuidade do néfron, surge o túbulo proximal, que é constituído de duas regiões distintas: o túbulo contorcido proximal e a parte reta do túbulo proximal. Na medida em que se afasta do folheto parietal da cápsula de Bowman e se aproxima do túbulo proximal, há uma mudança histológica nessa parte do néfron, em que o epitélio pavimentoso simples começa a dar lugar ao epitélio cuboide simples. O túbulo proximal é constituído por uma região altamente contorcida, denominada túbulo contorcido proximal, cuja localização é mais proximal ao corpúsculo renal, e uma parte reta denominada ramo descendente espesso da alça de Henle – que desce pelo córtex em direção à medula e é contínua com a alça de Henle propriamente dita. O túbulo proximal é dividido em porções S1, S2 e S3. A porção S1 compreende 2/3 do segmento convoluto, o S2 compreende o final da porção convoluta e início da porção renal, e o S3 compreende-se na maior parte do segmento reto. As células localizadas em túbulo proximal possuem muitas mitocôndrias, o que reflete numa alta intensidade metabólica e gasto energético para realizar intensas taxas de reabsorção de água, eletrólitos e glicose, e possuem também a modificações na membrana plasmática apical com função de otimizar a reabsorção dessas substâncias, que são as bordas em escova. Nessa porção proximal do túbulo, as células aí presentes fazem uma intensa reabsorção (até cerca de 65-70%) de sódio, cloreto, água e outras substâncias presentes no ultrafiltrado glomerular. Além disso, nesta porção existe a secreção de substâncias (por exemplo, creatinina e alguns fármacos), bem como o processo de amoniogêse renal – produção de amônia e bicarbonato de sódio a partir do aminoácido glutamina (imagem 5). Imagem 5: Esquematização das células do túbulo proximal, das substâncias as quais serão reabsorvidas (sódio, cloreto, água etc.) e serão secretadas (creatinina e alguns fármacos). 3.3 A Alça de Henle É uma região tubular contínua, com o túbulo proximal no formato da letra U, possuindo quatro regiões diferentes: (1) o ramo descendente delgado, (2) a alça de Henle propriamente dita, (3) o ramo ascendente delgado e (4) o ramo ascendente espesso (imagem 6). Imagem 6: Esquematização do néfron como um todo e suas principais porções tubulares. Observe o destaque para a alça de Henle com formato da letra U e sua divisão em quatro regiões diferentes: (1) ramo descendente delgado, (2) alça de Henle propriamente dita, (3) ramo ascendente delgado e (4) ramo ascendente espesso. Como já descrito anteriormente, a porção reta do túbulo proximal é contínua com o ramo delgado da alça de Henle. Essa porção delgada da parte ascendente da alça de Henle é formada, histologicamente, por células epiteliais pavimentosas. Nos néfrons corticais, esse segmento delgado é bastante curto; já os néfrons justamedulares, que são maiores, têm ramos delgados descendentes mais compridos, os quais descem profundamente em direção à medula até a região da papila renal. Em seguida, há uma região contínua da alça que forma uma curva fechada em forma de U, é a alça de Henle (propriamente dita) e, posteriormente, a região que se segue após essa curva é o ramo ascendente delgado da alça de Henle, que se liga ao ramo ascendente espesso e, logo adiante, à parte reta do túbulo distal. O ramo descendente delgado é bastante permeável à água e pouco permeável à ureia, cloreto de sódio e outros eletrólitos. Não perca de vista que a principal diferença entre os ramos ascendente delgado e descendente delgado é que a porção ascendente é muito menos permeável à água, porém mais permeável a solutos, tais como os eletrólitos. A porção descendente fina sendo permeável a água e a porção ascendente fina sendo impermeável a água e permeável a eletrólitos permite um mecanismo conhecido como contracorrente, no qual, devido à porção ascendente, faz a osmolaridade intersticial aumentar à medida que a alça desce em direção a medula renal. 3.4. O Túbulo Distal Depois da alça de Henle vem o túbulo distal, e ele possui três segmentos principais: a parte reta – que é contínua com o ramo ascendente espesso da alça de Henle –, a mácula densa e a região contorcida – chamada de túbulo contorcido distal. A mácula densa nada mais é do que um segmento modificado do túbulo distal, com função de monitorar a chegada ou não de sódio nesse segmento, estando localizada entre o ramo ascendente espesso e o túbulo contorcido distal, como mostra a imagem 7. Imagem 7: Cápsula de Bowman, os glomérulos, as arteríolas (aferente e eferente) e células especializadas do ramo ascendente espesso e túbulo contorcido distal – formadoras da mácula densa. Histologicamente, o ramo ascendente espesso é formado por células epiteliais cuboides baixas, que possuem bastante microvilosidades, as quais serão importantes no processo de secreção e reabsorção tubulares. Do ponto de vista funcional, esse segmento é impermeável à água e à ureia, além de suas células possuírem bombas de cloreto e sódio, auxiliando no transporte ativo desses íons para fora da luz do túbulo. Essa característica permite que o filtrado que chega ao túbulo distal, sobretudo, ao nível do córtex renal, tenha concentração iônica baixa e concentração alta de ureia. NOTA – O Aparelho Justaglomerular O aparelho justaglomerular é uma estrutura formada pela mácula densa do ramo ascendente espesso e do túbulo distal, por células justaglomerulares – majoritariamente da arteríola aferente adjacente, e poucas da arteríola eferente – e células mesangiais extraglomerulares, como ilustra essa imagem 8. Imagem 8: Aparelho justaglomerular – estrutura formadapor células da mácula densa, por células justaglomerulares e células mesangiais extraglomerulares. A mácula densa possui células com diversas modificações já descritas, apresentando células altas, estreitas e com núcleos bastante corados. Já as células justaglomerulares são células musculares lisas, com algumas modificações estruturais que permitem sintetizar e secretar a Renina – importante substância na ação do sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona – e estão situadas na túnica média das arteríolas aferentes; e as células mesangiais estão entre a arteríola aferente, mácula densa, arteríola eferente e os capilares glomerulares. Quando uma quantidade excessiva de líquido é filtrada pelo glomérulo para o sistema tubular, sinais de feedback da mácula densa – cujas células são sensíveis às alterações do cloreto de sódio tubular – provocam a constrição das arteríolas aferentes, reduzindo assim o fluxo sanguíneo renal e a filtração glomerular para níveis normais ou próximos a eles. Dessa forma, o aparelho justaglomerular protege essas estruturas vasculares e regulam a pressão arterial sanguínea sistêmica. 4. OS TÚBULOS E DUCTOS COLETORES Embora suas estruturas sejam contínuas com os segmentos do néfron, eles não fazem parte do néfron propriamente dito apenas porque têm uma origem embriológica distinta. Descritivamente, tanto os túbulos quanto os ductos coletores são retilíneos. A urina, após sofrer várias modificações de composição e concentração ao longo do néfron, é drenada dos túbulos contorcidos distais até os túbulos coletores, que irão se unir progressivamente até formar tubos mais calibrosos denominados ductos coletores. Vale reiterar que a urina é derivada da modificação do ultrafiltrado glomerular, e o túbulo coletor possui um papel-chave na determinação da composição e concentração final da urina que será conduzida até a papila renal (situada na medula renal). Do ponto de vista histológico, os túbulos coletores são formados por epitélio cuboide simples e sua função é modificar e transportar a urina recém-formada do néfron até os cálices menores. Portanto, destacaremos os dois tipos de células que não podem ser esquecidas: As Células Principais – possuem núcleos centralizados e ovais, além de curtas bordas em escova. Sua membrana basal possui bastante invaginações, sua membrana lateral é lisa e a sua função ainda não está esclarecida; As Células Intercaladas (Intercalares) – têm muitas vesículas na face apical da membrana, núcleos centralizados e redondos. Sua principal função é transportar e secretar ativamente o H+ contra o gradiente de concentração, ajudando a regular o equilíbrio ácido-básico corporal. Em contrapartida, os túbulos coletores medulares são mais calibrosos, devido ao fato de serem formados pela junção de vários túbulos coletores corticais. As células principais e intercalares estão nos túbulos da zona externa da medula. Já os túbulos coletores papilares – conhecidos como ductos de Bellini – contêm apenas células principais, são grandes e formados pela união sucessiva dos túbulos coletores medulares. Do ponto de vista funcional, os túbulos coletores são normalmente impermeáveis à água. No entanto, quando o hormônio antidiurético (ADH) está presente, eles se tornam permeáveis à água e garantem a concentração urinária final (a fisiologia do ADH sobre esses túbulos e mecanismo da diluição e concentração da urina serão abordados detalhadamente no capítulo 6). 5. O INTERSTÍCIO RENAL O interstício renal – ou tecido renal – é constituído, basicamente, de tecido conjuntivo entremeado por fibroblastos, macrófagos e células intersticiais. O tecido que envolve externamente os rins é formado por tecido conjuntivo denso não modelado, com fibras colágenas e elásticas. O interstício renal tem sua importância na funcionalidade desses órgãos, pois são responsáveis por produzir e liberar a eritropoietina. A despeito de ainda ser uma hipótese (sim, porque os mecanismos envolvidos ainda não são bem estabelecidos), acredita-se que sua síntese e secreção devam ser realizadas provavelmente pelas células endoteliais da rede capilar peritubular, ou das células do tecido conjuntivo cortical e da medula renal externa. 6. AS VIAS URINÁRIAS Realmente, fica mais fácil compreender as estruturas das vias urinárias quando imaginamos que a sua formação nada mais é do que a união de estruturas menores entre si até formar estruturas cada vez maiores, de modo que a urina possa ser conduzida ao seu destino final. Do ponto de vista macroscópico, cada ápice de uma pirâmide renal se encaixa em um cálice menor, que se une uns aos outros até formar um cálice maior, o qual irá se juntar com os demais cálices maiores até convergir e formar a pelve renal, que é contínua com os ureteres e considerada o início das vias urinárias, como descrevemos no capítulo 1. Microscopicamente, o ápice da pirâmide renal que se projeta no cálice menor é formada em parte por epitélio de transição. Sob a lâmina própria desse epitélio, há uma delgada túnica muscular composta totalmente de células musculares lisas e sua função básica é impulsionar a urina para as partes posteriores das vias urinárias, até que a urina alcançar a bexiga urinária. 6.1 Os Ureteres Os ureteres são tubos musculares ocos condutores de urina, medindo cerca de 26 a 30 cm de comprimento cada e se inserem na base da bexiga. Sua estratificação histológica é bem definida em: 1. Túnica mucosa – responsável por revestir internamente o lúmen tubular. Possui um epitélio de transição, uma camada de tecido conjuntivo fibroelástico não modelado e uma lâmina basal, que a separa da lâmina própria; 2. Túnica muscular – possui duas camadas de músculo liso sobrepostas entre si: uma camada longitudinal interna e uma circular externa (ou seja, a disposição tecidual é oposta à encontrada no trato gastrointestinal). Na região do terço distal do ureter, mais próximo à bexiga, uma terceira camada muscular é encontrada mais externamente, com disposição longitudinal. Ou seja, nessa porção distal do ureter a disposição tecidual muscular é: longitudinal externa, circular média e longitudinal interna; 3. Cobertura fibrosa de tecido conjuntivo – reveste as vias urinárias externamente. 6.2 A Bexiga Urinária A bexiga urinária é um órgão armazenador de urina. O seu esvaziamento ocorre a partir do aumento progressivo da pressão interna até que se torne alta o suficiente para induzir o mecanismo neuromuscular da micção (esvaziamento da bexiga). A bexiga também possui uma túnica mucosa que apresenta várias dobras que desaparecem após a distensão da bexiga pelo seu enchimento com urina. Na realidade, esse “desaparecimento” das pregas é devido ao achatamento do epitélio de transição aí contido após o processo de distensão da bexiga, e não pela mudança de epitélio. A zona triangular da bexiga, cujos ápices são os orifícios dos dois ureteres e da uretra, é denominada trígono vesical. A mucosa do trígono é lisa e não forma dobras e a camada muscular da bexiga também é constituída de três túnicas de músculo liso. Na região do colo da bexiga, as túnicas musculares são dispostas em: camada longitudinal interna, camada circular média e camada longitudinal externa, sendo as camadas longitudinais finas e a camada circular mais robusta. É justamente essa camada circular média que forma o músculo do esfíncter interno em torno do óstio interno da uretra. Já a túnica adventícia (túnica mais externa) da bexiga é formada por tecido conjuntivo denso e, em algumas regiões, é coberta externamente por peritônio. 6.3 As Uretras A uretra nada mais é do que um tubo muscular oco responsável por conduzir a urina armazenada na bexiga até meio externo, tornando assim possível a sua eliminação. Pelo fato de conter o músculo do esfíncter externo que envolve a uretra, o controle voluntário da micção é possível em indivíduos saudáveis e com maturidade neuromuscular. A uretra feminina é menor que a masculina, como já descrito no capítulo 1, e contém um epitélio de transição, próximo à bexiga, e,no restante da sua extensão, possui um epitélio pavimentoso estratificado não queratinizado. Além disso, possui uma lâmina própria fibroelástica e glândulas de Littré secretoras de muco, que irá lubrificar o revestimento interno. Já a uretra masculina tem uma função dupla (urinária e reprodutora) e possui uma divisão em 3 segmentos (e alguns autores até consideram 4 segmentos, sendo adicionada a uretra pré-prostática ou porção intramural da uretra, que está entre a bexiga urinária e a uretra prostática): 1. Uretra prostática – tem cerca de 3-5 cm de comprimento, é revestida por epitélio de transição e nela se abrem diversos pequenos ductos da próstata, o utrículo prostático e o par de ductos ejaculadores; 2. Uretra membranosa – tem cerca de 1,5-3 cm de comprimento, é revestida predominantemente por epitélio colunar estratificado; 3. Uretra esponjosa – ou uretra peniana, é a porção mais longa da uretra (15- 18 cm de comprimento) passa por toda a extensão do pênis, terminando na ponta da glande peniana no orifício externo da uretra; possui epitélio colunar estratificado e pseudoestratificado, além de pavimentoso estratificado não queratinizado. Há também em toda a extensão uretral masculina a lâmina própria fibroelástica e glândulas de Littré, produtoras e secretoras de muco que lubrifica a luz uretral. REFERÊNCIAS IMAGENS 1. GOOGLE IMAGENS. https://somepomed.org/articulos/contents/images/f15/2/15403.myextj? title=Nephron+anatomy+PI>M>. Acesso em: 28 abril. 2019. 2. BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. (modificada) 3. GOOGLE IMAGENS (modificada). http://2.bp.blogspot.com/_j7jgM0dyPPY/S_yP5lUx- 8I/AAAAAAAAACU/VeEIXGmnpJ4/s320/membrana+de+filtracion.png>. Acesso em: 28 abril. 2019. 4. GOOGLE IMAGENS (modificada). http://professor.ufrgs.br/simonemarcuzzo/files/sistema_urinario_0.pdf>. Acesso em: 28 abril. 2019. 5. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 6. GOOGLE IMAGENS (modificada). https://d1yboe6750e2cu.cloudfront.net/i/151edcccea08fe50de8a2eebc7183cce808295ba https://www.memorangapp.com/flashcards/162088/The+Excretory+System%3A+Functional+A natomy/>. Acesso em: 28 abril. 2019. 7. GOOGLE IMAGENS. https://qph.fs.quoracdn.net/main-qimg- d6a9e63cd9c3256a54a976548c9cc40d-c https://www.quora.com/What-is-the-function-of-the- macula-densa-cells-of-the-juxtaglomerular-complex>. Acesso em: 28 abril. 2019. 8. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. REFERÊNCIAS 1. BERNE; LEVY. Fisiologia. Editora Elsevier, Rio de Janeiro, 2009. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL. Tratado de Fisiologia Médica. 12 ed. Rio de Janeiro; Rio de Janeiro; Editora Elsevier. 2011. 3. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2012. 4. SILVERTHORN, Dee U. Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 5. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 6. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. 7. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J.; ABRAHAMSOHN, P. Histologia básica: texto e atlas. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 8. GARTNER, L. P. & HIATT, J. L. Tratado de Histologia em Cores. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. 9. KIERSZENBAUM, Abraham L. Histologia e Biologia Celular: uma introdução à patologia. 2ª edição, Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. 10. ROSS, M. H.; PAWLINA, W. Histologia: texto e atlas em correlação com a biologia celular e molecular. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 3 MANUTENÇÃO DO VOLUME DOS LÍQUIDOS CORPORAIS 1. CASO CLÍNICO Seu Jorge, um jovem e preocupado pai, trouxe seu filho Iago, uma criança de 3 anos e 7 meses, à Unidade Básica de Saúde (UBS), onde são realizadas suas consultas de puericultura, apresentando um quadro de diarreia aquosa há 4 dias, sendo que apresentou cinco episódios no dia da consulta. O pai da criança referiu ainda que, após 24 horas do início do quadro diarreico, começou a apresentar vômitos alimentares. Alegou que, por conta própria, desde o início da diarreia, fez uma mudança na alimentação do filho, que passou a ter uma dieta mais branda e administrou Metoclopramida, na tentativa de cessarem os episódios de vômitos. Em paralelo, administrou também Sulfametoxazol-Trimetoprim em xarope, “por imaginar que a criança estivesse com alguma infecção intestinal”, admitiu o pai. À inspeção geral, a criança falava com dificuldade, apresentando agitação, irritabilidade, movimentos involuntários com o pescoço e membros superiores, além de a criança ter pedido água ao pai pelo menos 5 vezes no momento da consulta. Seu Jorge também relatou que o filho, desde o dia anterior, tem bebido mais água que o de costume. Ao exame físico, constatou-se desidratação, discreta rigidez de nuca, leve hipertonia muscular e movimentos clônicos e involuntários no pescoço e membros superiores. Após examinar a criança, a médica plantonista Dra. Lorrane, enquanto levantava suas hipóteses diagnósticas, entrou em contato com um colega pediatra e solicitou encaminhamento urgente para o hospital pediátrico, para que pudesse realizar exames laboratoriais mais específicos e dosagem rápida de eletrólitos e anticorpos para Rotavírus. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Puericultura; diarreia; Metoclopramida; Sulfametoxazol-Trimetoprim; hipertonia muscular; movimentos clônicos; eletrólitos; Rotavírus. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Criança; diarreia aquosa; vômitos alimentares; infecção intestinal; agitação; irritabilidade; desidratação; movimentos involuntários com o pescoço e membros superiores; sede. 2. ENTENDIMENTO INICIAL SOBRE OS LÍQUIDOS CORPORAIS Para compreender a importância dos líquidos corporais, bem como a manutenção do seu volume e composição, é necessário que relembremos que a primeira célula se originou no meio aquoso, ou, mais especificamente, na “sopa primordial” (ou oceano primitivo) da terra primitiva, há cerca de 4,5 bilhões de anos. Isso nos traz à tona, de acordo com a teoria da evolução das espécies, que as nossas células se especializaram e se adaptaram a realizar suas funções num ambiente aquoso, só que não mais externamente no tal oceano, mas internamente, no processo de formação e continuidade de espécies mais complexas, como a espécie humana. Ou seja, adquirimos nesse processo evolutivo o nosso próprio oceano (interno) e, invariavelmente, manter o equilíbrio desse ambiente aquoso interno é essencial para a nossa condição vital. Seja quando um neurônio gera e propaga um impulso nervoso, ou uma célula do miocárdio realiza contração e relaxamento no ciclo cardíaco, um hepatócito inativa uma substância tóxica, um enterócito produz e secreta alguma enzima, enfim, diversas são as situações que envolvem necessariamente o controle dos volumes dos líquidos, bem como da concentração de eletrólitos dispersos neles. Outras situações que evidenciam a importância da manutenção dos líquidos corporais são nas condições de excesso e escassez de água, para as quais o organismo desenvolveu, ao longo da sua história evolutiva, diversos mecanismos compensatórios para que o equilíbrio corporal não venha a ser prejudicado. Manter esse ambiente interno – seja o compartimento intra ou extracelular – com seus volumes mais ou menos constantes é fundamental para a homeostasia orgânica. Entende-se, no entanto, por homeostasia “a condição de relativa estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo”. 3. A TROCA DE LÍQUIDOS EM CONDIÇÕES NORMAIS É perfeitamente razoável aceitar o fato de que a ingestão e a excreção de água são bastante variáveis nos indivíduos (assim como alguns eletrólitos) e, nesse sentido, o organismo precisa dispor de alguns mecanismos que visem atenuar variaçõesbruscas dos volumes dos líquidos corporais, seja para mais ou para menos, a depender da situação em que o indivíduo esteja sujeito. Em paralelo, sabe-se também que a quantidade de água corporal e concentração dos eletrólitos também são variáveis nos indivíduos, e há uma relação direta com a idade e o sexo do indivíduo. Por exemplo, um recém-nascido tem cerca de 80% de água corporal total contra cerca de 50% de um idoso, assim como um homem adulto tem maior quantidade de água total do que as mulheres, devido a estas, na população em geral, possuírem maior percentual de gordura corporal (sim, quanto maior é o percentual de gordura corporal, menor o percentual de água corporal, e vice- versa). A água corporal total encontra-se majoritariamente parte no espaço intracelular (75%) e a menor parte está no espaço extracelular (p.ex., cavidades, vasos sanguíneos e linfáticos etc.). Assim, a manutenção do volume relativamente constante dos líquidos corporais é realizada de modo preciso, por meio de constantes trocas de líquidos e solutos entre o meio interno e o externo, à semelhança do ocorrido entre os diferentes compartimentos corporais (intracelular e extracelular). Contudo, a água pode ser integrada ao organismo sob duas formas básicas: (1) pela ingestão, na forma de bebidas líquidas ou pela água contida nos alimentos – o que corresponde a cerca de 2L/dia –, e (2) pela produção corporal de água que, por sua vez, deriva dos processos metabólicos de oxidação de moléculas orgânicas (como carboidratos) – adicionando cerca de 200 mL/dia de água aos líquidos corporais. Por outro lado, há perdas de quantidades significativas de água todos os dias nos indivíduos, mas são consideradas perdas fisiológicas, claro, dentro dos limites aceitáveis pelo corpo. Sabemos que o trato respiratório é responsável pela perda de certa quantidade de água por evaporação; a pele perde uma pequena quantidade de água por difusão; no trato gastrointestinal, há uma perda livre de água através das fezes. Ou seja, através desses sistemas, haveria uma perda que corresponderia a mais ou menos 1.000 mL/dia, em situações de normalidade. Como não há a percepção objetiva dessa perda de água pelos indivíduos, convencionou-se chamar esse fenômeno de “perda insensível de água”. Vale salientar que esse tipo de perda de água através da pele ocorre independentemente da sudorese, que é um mecanismo termorregulador nos mamíferos em geral. Isoladamente, a perda de água por difusão através da pele responde por cerca de 350 a 500 mL/dia. Essa perda, entretanto, é atenuada devido à estratificação da pele, que contém diversas camadas, com destaque para a camada cornificada, responsáveis por formar uma efetiva barreira contra a perda excessiva de água por difusão. Para termos uma noção, quando essa camada cornificada é danificada, como, por exemplo, em indivíduos com grandes queimaduras, a taxa dessa perda de água por evaporação pode aumentar em até 10 vezes – o que corresponderia a uma perda de aproximadamente 3,5 a 5L/dia. Daí a necessidade de realizar reposições volêmicas vigorosas em indivíduos com extensas queimaduras, para compensar a perda de fluidos. Já a perda insensível de água pelo trato respiratório chega até 500 mL/dia. Esse fenômeno ocorre devido à entrada do ar no trato respiratório, quando ele passa a ficar saturado pela umidade antes de ser expelido. Por causa da pressão do vapor do ar inspirado ser costumeiramente menor do que a pressão de vapor no trato respiratório, a água é continuamente perdida pelos pulmões durante a respiração, devido ao gradiente de pressão. É justamente por causa desse fenômeno que quando se está em locais de temperaturas mais baixas, a pressão do vapor atmosférico diminui até próximo a zero. Ora. Quanto maior for o gradiente de pressão, maior será a intensidade dessa perda, ou seja, quanto mais frio for um local, maior será a perda de água pelos pulmões. Isso explica o porquê do desconforto causado pela sensação de ressecamento das vias respiratórias superiores durante o frio. A quantidade de água perdida pelo fenômeno da sudorese, no entanto, é bem variável, e depende basicamente das condições de temperatura do ambiente, se o indivíduo realizou atividade física, se está doente etc. Em geral, perdemos cerca de 100 mL/dia de líquidos pelo suor, mas, a depender das condições climáticas ambientais ou de exercícios físicos intensos, essa quantidade pode chegar a 2L/h e o indivíduo realizar uma depleção importante de volume. Pelas fezes, normalmente, perdemos cerca de 200 mL/dia de líquidos, mas também essa taxa pode ser aumentada na vigência, por exemplo, de um quadro de diarreia, na qual é possível perder até vários litros de água por dia. Tal fenômeno explica porque a diarreia pode ser ameaçadora à homeostasia e à vida também – sobretudo em neonatos e crianças –, a depender da intensidade e caso não haja uma reversão do quadro. Portanto, evolutivamente o surgimento de um sistema que pudesse manter o equilíbrio do ambiente interno, por meio do ganho e perda de líquidos foi fundamental para a continuidade da vida em organismos mais complexos como os mamíferos e, nesse sentido, os rins se consolidaram como os órgãos reguladores corporais responsáveis por conservar e/ou eliminar quantidades de líquidos e solutos dispersos. Vários são os mecanismos que o sistema renal possui para controlar a intensidade da excreção urinária. Definitivamente, o método mais importante para o corpo manter o equilíbrio entre ganho e perda de água e eletrólitos é pelo controle da intensidade, composição, concentração e excreção da urina realizada pelos rins. A depender da condição que o organismo se encontre, os rins podem excretar urina concentrada ou diluída. Por exemplo, o volume urinário pode ser muito baixo em pessoas desidratadas, com cerca de até 0,5L/dia, mas também pode ser muito alto em pessoas que vêm ingerindo grandes quantidades de água, sendo que o volume urinário pode chegar até 20L/dia. O que vai determinar a urina final a ser excretada é justamente a necessidade e condição corporais e, dessa forma, os rins contrabalançam de maneira muito eficiente a intensidade de excreção da água e eletrólitos com a ingestão destas substâncias. 4. CONTROLE HÍDRICO ATRAVÉS DO RIM Como já vimos, existe uma perda natural de água que é inerente aos processos metabólicos do organismo, tida como insensível, que corresponde a aproximadamente 1.000 mL/dia, assim como uma produção endógena de água de cerca de 200mL/dia. Em suma, perdemos mais água do que somos capazes de produzir. Notamos claramente então que, se não houvesse mecanismos fisiológicos para a manutenção e a regulação da água corporal, seria impossível existir a vida. Os principais mecanismos de preservação da água são: (1) a sede e; (2) o rim. O centro da sede está situado no sistema nervoso central, especificamente nas porções anterior e ventromedial do hipotálamo. É composto por células nervosas especializadas e por osmorreceptores – células sensíveis às variações da osmolalidade plasmática. Sendo assim, quando a osmolalidade do sangue aumenta (por exemplo, após uma atividade física sob forte calor), o centro da sede é ativado, fazendo o indivíduo sentir apetite por água. A sensação de sede é essencial para o balanço de água, por garantir a entrada de água nova no organismo. Em situações extremas, o rim ajuda a manter a homeostase da água corporal através da capacidade de diluição e concentração urinária. Imagine uma situação de anormalidade onde existe a ingestão de grande quantidade de água (hiperhidratação); se o excesso não for eliminado, acabará comprometendo o funcionamento normal do organismo. Agora imagine a situação inversa, com impossibilidade de ingestão de líquido (desidratação severa), a capacidade de preservação da água no meio interno é fundamental para manter o indivíduo vivo. O principal hormônio para preservação de água corporal, atuando principalmente a nível renal, é o hormônio antidiurético (ADH). Trata-se de um pequeno peptídeo produzido nosnúcleos supraóptico e paraventricular do hipotálamo (imagem 1) e armazenados na neuro-hipófise. Possui uma meia-vida pequena (de até 18min) e é liberado na circulação sanguínea principalmente com o aumento da osmolalidade plasmática. É um sistema tão sensível que, geralmente, quando a osmolalidade plasmática atinge valores acima de 280 mOsm/Kg de H2O é suficiente para a neuro-hipófise deflagrar a secreção do ADH. Imagem 1: Núcleos supraóptico e paraventricular do hipotálamo, que são neurônios especializados responsáveis pela produção do ADH, o qual será armazenado posteriormente na neuro-hipófise (hipófise posterior). O ADH atua no túbulo coletor (imagem 2), que é a última porção tubular renal, proporcionando a incorporação de vários canais de água, denominados Aquaporinas (imagem 3), tornando assim os rins permeáveis à água, garantindo sua reabsorção e consequentemente sua preservação dentro do organismo. Imagem 2: Estruturas envolvidas no mecanismo de produção e secreção do ADH, até sua chegada nos túbulos coletores e promover o aumento da permeabilidade dessa região tubular à água, permitindo assim sua reabsorção. Imagem 3: Célula do túbulo coletor e o mecanismo de ação do ADH nessa célula, promovendo a formação de canais transportadores de água – aquaporinas –, tornando os túbulos coletores permeáveis à água. 5. COMPARTIMENTO DOS LÍQUIDOS CORPORAIS Nós seres humanos somos dotados de diversos compartimentos corporais, os quais o líquido corporal total está distribuído, mas ganham destaque dois compartimentos principais: o compartimento extracelular e o compartimento intracelular, que abrigam o líquido extracelular e o intracelular, respectivamente. O líquido extracelular está presente no líquido intersticial e no plasma sanguíneo. Há também um compartimento menor, que é o espaço transcelular, responsável por abrigar, logicamente, o líquido transcelular. Esse compartimento está distribuído nos espaços que contêm os líquidos sinoviais, pleurais, pericárdicos, peritoneais, intraoculares e o líquido cefalorraquidiano (LCR). Vale destacar que, pelo fato de esses espaços poderem abrigar grande quantidade de líquido e gerar edema, eles são considerados “espaços potenciais”. Muitos autores, no entanto, classificam o líquido transcelular como sendo um tipo específico de líquido extracelular, corresponde a aproximadamente 1 a 2L. Para determinarmos a quantidade e distribuição dos líquidos corporais e entendermos alguns aspectos, tomaremos como base um homem adulto com peso médio de 70 kg. É sabido que a quantidade corporal de água total gira em torno de 60% do peso total do indivíduo, o que corresponde a cerca de 42 litros. Entretanto, como já mencionado no início desse capítulo, esse percentual de água muda de acordo com a idade, sexo e porcentagem de gordura corporal de uma pessoa. Com o processo natural de envelhecimento, o percentual de água do corpo tende a diminuir gradualmente. Uma explicação razoável consiste de o envelhecimento geralmente estar associado a aumentos consideráveis no percentual de tecido adiposo corporal, o que contribui para reduzir o percentual de água. Nessa mesma linha de raciocínio, entende-se por que as mulheres tendem a apresentar um percentual de água menor que o dos homens (a água corporal total nas mulheres é de aproximadamente 55% do peso corporal). O mesmo vale para recém-nascidos e crianças menores, cujo percentual de água corporal varia de 75% a 80% do peso total (imagem 4). Imagem 4: Compartimentos e líquidos corporais, além da distribuição da água corporal. 5.1. Compartimento do Líquido Intracelular De maneira objetiva, consiste no espaço intracelular que contém o líquido intracelular. Se pegássemos todas as células do nosso corpo e fôssemos medir o volume do líquido contido no meio intracelular, obteríamos cerca de 75% da água corporal total. Em termos práticos, em um indivíduo adulto de 70 Kg de peso, dos seus 42L de água corporal total, 2/3 (cerca de 28L) encontram-se no compartimento intracelular e 1/3 (cerca de 14L) encontra-se no compartimento extracelular. 5.2. Compartimento do Líquido Extracelular De maneira análoga, trata-se do espaço extracelular que contém o líquido extracelular; então, todos os líquidos que estão fora das células são considerados líquidos extracelulares. O líquido extracelular corresponde a 20% do peso corporal, o que significa cerca de 14L em termos absolutos. Dentro do universo do compartimento do líquido extracelular, há dois compartimentos do líquido extracelular que são os mais expressivos, sendo eles: (1) o líquido intersticial, que corresponde a mais de três quartos – ou aproximadamente 11 litros do líquido extracelular –, e (2) o plasma sanguíneo, responsável pelo um quarto restante – algo em torno de 3L. Logicamente que, a depender do indivíduo, esses números podem sofrer variações, mas o volume sanguíneo médio é de mais ou menos 7% do peso corporal (ou aproximadamente 5L). Vale ainda ressaltar que o plasma é a parte líquida (ou não celular) do sangue e é constantemente submetido a trocas constantes de substâncias com o líquido intersticial, por meio das membranas capilares dotadas de poros. O fato de o plasma e os líquidos intersticiais terem basicamente a mesma composição prova que há constante troca de substâncias entre os referidos fluidos. O sangue, por sua vez, contém tanto o líquido extracelular (na forma de plasma) quanto o líquido intracelular (na forma de líquido dentro das hemácias). Entretanto, pelo fato de o sangue ter um compartimento exclusivo para seu armazenamento e circulação – o sistema circulatório –, muitos autores consideram-no como um compartimento líquido separado. Em termos percentuais e quantitativos, cerca de 60% do sangue é constituído de plasma e os 40% restantes correspondem aos elementos figurados (hemácias, leucócitos, plaquetas etc.). Embora as composições iônicas do plasma e do líquido intersticial sejam basicamente as mesmas, há uma barreira que os separa: a membrana plasmática celular de natureza lipoproteica. Ainda assim, devido à sua permeabilidade seletiva – intrínseca às membranas plasmáticas de um modo geral –, a membrana permite com relativa facilidade o trânsito de água, mas o trânsito da maioria dos eletrólitos existentes no corpo é dificultado. Em oposição ao líquido extracelular, o líquido intracelular possui uma quantidade pequena de íons sódio e cloreto e quantidades menores de íons cálcio. Por outro lado, o líquido intracelular possui uma grande quantidade de íons potássio, magnésio, fosfato e sulfato, que estão em baixas concentrações no líquido extracelular, em condições normais. As proteínas, por sua vez, estão mais concentradas dentro das células do que no plasma (aproximadamente cinco vezes mais). 6. REGULAÇÃO DA TROCA DE LÍQUIDOS ENTRE OS COMPARTIMENTOS No fim das contas, o fator mais importante para a determinação da quantidade do líquido extracelular, que está distribuído no plasma e nos líquidos intersticiais, é o somatório das forças hidrostáticas e oncóticas através das membranas capilares (alguns autores podem usar o termo oncótico como sinônimo de coloidosmótico). Por outro lado, o que determina como os líquidos transitarão através da membrana celular e irão se distribuir entre os compartimentos intra e extracelular é, sobretudo, o efeito osmótico de alguns eletrólitos – sobretudo o sódio, cloreto e demais solutos. Entende-se por osmose como sendo “a difusão efetiva de água através de membrana semipermeável, de região de maior concentração de água (hipotônico) para outra região de menor concentração de água (hipertônico)”. Ou seja, se um meio é muito concentrado em solutos – ou pouco concentrado em água – ele é denominado meio hipertônico; em oposição, se um meio é pouco concentrado em solutos – ou muito concentrado em água – ele é denominado meio hipotônico. Entretanto, não se pode perder de vista que a membrana plasmática celular é mais permeável à água do que às substâncias dotadas de carga elétrica (tais como osíons sódio e cloreto), devido à resistência elétrica da membrana, o que a torna impermeável a esses solutos. Essa tese explica o porquê de a água se mover rapidamente através da membrana plasmática e o líquido intracelular permanecer isotônico em relação ao líquido extracelular. REFERÊNCIAS DAS IMAGENS 1. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 3. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 4. GOOGLE IMAGENS. http://faqbio.blogspot.com/2013/09/ficha-resumo-fisiologia- compartimentos.html http://3.bp.blogspot.com/-EF3Eri- 6Q9w/UkQyaM6dyoI/AAAAAAAAB0Q/yu16Kgn6elA/s400/fisiologia+humana+- +os+compartimentos+e+l%C3%ADquidos+corporais.jpg.>. Acesso em: 28 abr. 2019. REFERÊNCIAS 1. BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL. Tratado de Fisiologia Médica. 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2011. 3. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4 Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2012. 4. SILVERTHORN, Dee U. Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 5. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 6. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. 7. SOUZA, M.H.L. Elias, D.O. Fundamentos da Circulação Extracorpórea. 2 ed. Centro Editorial Alfa Rio, Rio de Janeiro, 2006. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 4 FILTRAÇÃO GLOMERULAR 1. CASO CLÍNICO Taís, uma paciente de 27 anos, compareceu ao Centro de Saúde do bairro em que morava com um frasco coletor contendo uma amostra da sua urina. Assim que adentrou o consultório do Dra. Telma, indagou “que espuma é essa, Doutora?”. Além da urina espumosa, também se queixou que estava “inchada” há pelo menos 20 dias. Após detalhado exame físico, solicitação de exames laboratoriais e confirmação do quadro de edema, evidenciou-se proteinúria maciça, hipoproteinemia e dislipidemia. A Dra. Telma elaborou uma lista de problemas da sua paciente e, como suspeitou de Síndrome Nefrótica como principal diagnóstico sindrômico, solicitou uma biópsia renal. Taís, bastante preocupada com seu quadro clínico, assustou-se com a solicitação da biópsia renal. Embora seja uma paciente bem informada e tenha um bom grau de informação, não sabia que os rins tinham diversas funções. Sabia apenas que os rins funcionavam como os “filtros do corpo” e que “estavam na região lombar”. Então, Dra. Telma, médica generalista bastante atenciosa e didática com seus pacientes, mostrou-lhe a localização anatômica dos rins e explicou porque essa fama de “filtros do corpo” lhes faz jus, pois são órgãos bastante vascularizados. Eles possuem a capacidade de realizar a filtração do fluxo sanguíneo que chega aos glomérulos renais, um enovelado de capilares sanguíneos responsáveis por realizar a depuração sanguínea, disse ela. Ainda completou dizendo que o fluxo sanguíneo renal era muito bem regulado e, que além da função depuradora dos rins, eles tinham função endócrina. Tranquilizada pela médica, a jovem paciente foi então pesquisar mais sobre o que seria essa tal de Síndrome Nefrótica; descobriu que essa doença alterava justamente a barreira de filtração glomerular e, por isso, concluiu que os seus rins estavam com a função de filtração prejudicada. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Edema; proteinúria; hipoproteinemia; dislipidemia; síndrome nefrótica; biópsia renal; lista de problemas; diagnóstico sindrômico; glomérulo renal. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Urina espumosa; filtração glomerular; barreira de filtração; depuração; filtros do corpo; fluxo sanguíneo renal; regulação do fluxo. 2. INTRODUÇÃO É inegável que, ao perguntarmos a qualquer pessoa pelas ruas sobre qual é o principal papel do sistema renal (urinário ou excretor, como queiram denominar), muito provavelmente ela irá te responder que é “filtrar as impurezas do sangue”. Essa noção primitiva contida no imaginário popular está correta, embora saibamos que os rins fazem muito mais coisas do que apenas filtrar o fluxo sanguíneo e depurar substâncias. Nesse sentido, sabemos que essa função depuradora é justificada pelo mecanismo renal de formação da urina, pois a sua gênese resulta, basicamente, do somatório de três processos: (1) filtração glomerular, (2) reabsorção de substâncias dos túbulos renais para o sangue e (3) secreção de substâncias do sangue para os túbulos renais. 3. VISÃO GERAL DA FORMAÇÃO DA URINA Como dito anteriormente, para que os metabólitos e demais substâncias circulantes sejam depurados, a urina é formada na medida em que o plasma sanguíneo é filtrado ao nível dos capilares glomerulares para o interior da cápsula de Bowman e, posteriormente, percorre todo o trajeto tubular dos néfrons (formando o precursor direto da urina) até ser drenado para as papilas renais para, finalmente, ser eliminado. Esse líquido plasmático, trazido pelo fluxo sanguíneo renal, é o que dará origem ao filtrado glomerular. No entanto, nem tudo é filtrado. A maioria das substâncias contidas no plasma é filtrada pela membrana de filtração, exceto as proteínas em condições fisiológicas, e isso garante que a concentração dessas substâncias no filtrado glomerular da cápsula de Bowman seja a mesma do plasma, uma vez que as proteínas – assim como os eletrólitos –, possuem a capacidade de tornar uma solução mais ou menos concentrada. Então, na medida em que o líquido filtrado flui pelos túbulos, sua composição é modificada, devido tanto ao processo de reabsorção de água e solutos de volta para os capilares peritubulares, quanto pela secreção de outras substâncias dos capilares peritubulares para os túbulos. Sabemos também, mediante diversos estudos, que a reabsorção tubular assume um papel de grande destaque, do ponto de vista quantitativo, no processo de formação da urina, embora a secreção seja qualitativamente fundamental para determinar as quantidades finais de alguns íons presentes da urina (p.ex., potássio, hidrogênio, dentre outros). Boa parte das substâncias depuradas do sangue pelos glomérulos, principalmente metabólitos como o ácido úrico, ureia e creatinina, são pouco reabsorvidos e, portanto, excretados em grandes quantidades na urina. Na verdade, são substâncias tóxicas que precisam ser eliminadas e, por isso, o corpo não vê muita vantagem em reabsorver em grandes intensidades essas substâncias, embora elas tenham um papel notável no processo de concentração da urina, como veremos no capítulo 6. Por outro lado, outras substâncias nocivas e alguns fármacos também são pouco reabsorvidos. Na prática, além de filtrados, eles são secretados dos capilares para o interior dos túbulos, fazendo com que sua eliminação na urina seja elevada. Se imaginarmos que o corpo procura alguma forma de eliminar o que lhe é inútil ou nocivo, é razoável concluir que as substâncias que lhes são úteis sejam reabsorvidas. Dito isso, diversos íons (p.ex., sódio, cloreto e bicarbonato) são reabsorvidos intensamente ao longo do trajeto tubular do néfron e, por isso, espera-se que sua concentração urinária final seja baixa, pelo menos em situações em que não haja injúria renal ou nenhum mecanismo compensatório frente às perturbações. Além dos eletrólitos e demais substâncias que já falamos, a glicose e os aminoácidos também são filtrados, porém são completamente reabsorvidas dos túbulos para os capilares, de modo que não aparecem na urina em condições de normalidade orgânica. Ou seja, o que acontece mesmo na prática é que, para a grande maioria das substâncias que passam pelos glomérulos, a filtração e a reabsorção são mais intensas com relação à excreção. Portanto, percebemos que o corpo procura manter sua homeostase equilibrando esses três processos: filtração,reabsorção e secreção. Para tal, qualquer que seja este processo, ele irá ser regulado pelas necessidades orgânicas momentâneas do indivíduo. Isso fica evidente quando imaginamos um indivíduo com excesso de sódio no corpo – como em uma desidratação –, pois, nesse exemplo, a intensidade com que os seus rins filtram o sódio aumenta, só que ocorrerá pouca reabsorção, para que o sódio em excesso seja eliminado na urina e assim se mantenha a homeostase orgânica do sódio. 4. A PRIMEIRA ETAPA DE FORMAÇÃO DA URINA Do ponto de vista evolutivo, o sistema renal desenvolveu alguns mecanismos que possibilitem ter uma alta precisão em eliminar substâncias que potencialmente ameacem a homeostase corporal. Para cumprir tal função, o sistema vascular renal, que é bastante complexo, possibilita que o fluxo sanguíneo que passa pelos rins seja alto, a fim de garantir que tais impurezas sejam depuradas do organismo. Em termos quantitativos, a taxa de filtração glomerular (TFG) – que é a quantidade de plasma filtrado nos glomérulos – é de mais ou menos 180L/dia, mas a quantidade de urina formada diariamente é de cerca de 1,5L. Realmente pode parecer um trabalho descomunal dos rins ao realizar toda essa filtração para gerar um pequeno volume de urina por dia, mas, ainda assim, há uma vantagem. Essa vantagem consiste no fato de os rins poderem fazer a rápida eliminação dessas substâncias inúteis que passem pelos glomérulos a qualquer momento, cuja excreção dependa tão somente da filtração, como no caso da creatinina. Ou seja, as porções tubulares dos néfrons possuem características próprias que possibilitam boa parte dessas substâncias indesejáveis ser eliminada, sobretudo, pela elevada filtração sem que haja muita (ou nenhuma) reabsorção. Além disso, vale destacar outro benefício em se realizar altas taxas de filtração. A vantagem é garantir que todos os líquidos corporais sejam filtrados e processados pelos rins diversas vezes (cerca de 60 vezes) durante um único dia. Essa elevada filtração permite aos rins controlar de modo cirúrgico o volume e a composição total dos líquidos corporais, além de, como já explicado, eliminar efetivamente as substâncias tóxicas, inúteis ou nocivas da circulação corpórea. 4.1 Composição do Filtrado Glomerular A filtração glomerular consiste, basicamente, do processo de passagem do plasma sanguíneo do capilar glomerular para dentro do espaço de Bowman. Essa filtração ocorre devido ao balanço de forças que facilitam e se opõem a esse processo. Tais forças, que iremos explorar com maiores detalhes mais adiante neste capítulo, são as forças hidrostáticas e coloidosmóticas (ou oncóticas), que atuam através da membrana capilar glomerular. Vale destacar que no processo de filtração, de modo simplista e resumido, pode-se entender essas forças (hidrostática e oncótica) como pressões. No entanto, acontece que a maioria desses capilares é relativamente impermeável às proteínas plasmáticas, de modo que o líquido filtrado resultante – agora denominado de filtrado glomerular – seja desprovido de proteínas, de células e elementos sanguíneos, como hemácias, leucócitos, plaquetas etc. Quanto à composição e concentrações das diversas substâncias contidas no filtrado glomerular, como a maioria dos eletrólitos e moléculas orgânicas, são muito semelhantes ao plasma. Vale ainda ressaltar que essa afirmação se trata de uma generalização, para compreender melhor o processo, pois algumas situações são uma exceção a essa regra. Um grande exemplo é o cálcio, o magnésio e alguns ácidos graxos, substâncias que, embora tenham um baixo peso molecular, não são livremente filtradas, porque estão parcialmente ligadas às proteínas plasmáticas. Cerca de 50% do cálcio, 30% do magnésio e a maior parte dos ácidos graxos circulam na corrente sanguínea ligada às proteínas plasmáticas e essa fração conjugada não é filtrada pelos capilares glomerulares. 4.2 Membrana Capilar Glomerular Observe essa (imagem 1), pois ela ilustra como se constitui a membrana capilar glomerular. Embora já esteja totalmente descrita no capítulo 2, é importante não perder de vista que a membrana capilar do glomérulo possui três camadas celulares principais: (1) o endotélio capilar, (2) a membrana basal e (3) a camada de células epiteliais (podócitos), que é mais externa à membrana basal capilar. Essas camadas celulares quando juntas são as responsáveis por formar a barreira de filtração glomerular que, a despeito dessas três camadas, filtra muito mais água e eletrólitos do que uma membrana capilar normal. Ou seja, se os rins têm a fama de ser o “filtro do nosso corpo”, é graças à capacidade dessa barreira de realizar filtração de modo tão intenso. Imagem 1: Anatomia microscópica dos capilares glomerulares, além de uma ampliação das estruturas envolvidas na filtração glomerular, como o endotélio capilar fenestrado, a membrana basal glomerular e o epitélio (formado pelos podócitos). Ainda que essa barreira realize altas intensidades de filtração, a membrana capilar glomerular não filtra proteínas plasmáticas, em condições fisiológicas. O que permite a membrana capilar glomerular filtrar com tal intensidade é devido, em partes, aos milhares de micro-orifícios presentes no endotélio capilar, que são as fenestrações, semelhantes aos capilares fenestrados presentes nos lóbulos hepáticos. Mesmo com essa barreira mecânica, que são as fenestrações, elas não são pequenas o suficiente para barrar a passagem de algumas proteínas menores e, para “reforçar” a barreira, as células endoteliais são ricamente dotadas de substâncias com cargas elétricas negativas que, por sua vez, impedem a passagem das proteínas plasmáticas carregadas negativamente, por repulsão eletrostática. Quando observamos o endotélio à microscopia, há uma membrana basal que o reveste, a qual é formada por colágeno e uma malha de fibras de proteoglicanos, cujos espaços entre suas fibras possibilitam que uma grande quantidade de água e solutos possam ser livremente filtrados. Essa membrana basal, por sua vez, é bastante eficaz ao realizar sua função de barreira evitando as proteínas plasmáticas de serem filtradas, uma vez que algumas estruturas dos proteoglicanos possuem carga elétrica negativa e, assim, repilam as proteínas aniônicas. Já a última camada da membrana glomerular, formada por uma camada epitelial de células, recobre externamente a superfície dos capilares glomerulares. Estas células são os podócitos (“células com pés” ou “pedicelos”). Os podócitos são células de aparência bastante peculiar, pois o seu citoesqueleto permite que possuam modificações importantes na membrana plasmática, dando origem a prolongamentos que se assemelham a pés, como mostra a (imagem 2). Imagem 2: Outra ilustração dos podócitos, da membrana basal glomerular e do endotélio fenestrado. Essas células podocitárias são separadas umas das outras por lacunas, que são as famosas fendas de filtração, região pela qual o filtrado glomerular irá se deslocar do glomérulo para dentro da cápsula de Bowman. Essas fendas de filtração podocitárias possuem diversas proteínas, as quais são responsáveis pela estabilidade da fenda, desempenhando um papel fundamental na barreira de filtração. Dentre as proteínas temos: podocina, nefrina, neph 1 e 2 etc (imagem 3 e imagem 4). Vale ressaltar também que, além das características morfológicas, essas células epiteliais têm cargas elétricas negativas, o que promove maior dificuldade à filtração das proteínas plasmáticas. Assim, toda essa combinação de camadas celulares formam barreiras – tanto elétrica quanto mecânica – à filtração de proteínas plasmáticas. Imagem 3: Anatomia dos processos podais dos podócitos, ilustrando as proteínas (nefrina, NEPH-1, podocina etc.) que formam o diafragma da fenda, situado entre dois processos podais adjacentes. Imagem 4: Principais proteínas que formam o diafragma da fenda. Note a nefrina (em vermelho), responsável pela coesão dos processos podais adjacentes, situada no centro da fenda de filtração. Em consequência dessas particularidades,é razoável concluir que quanto maior for um soluto e quanto mais carga elétrica negativa ele tiver, menor será sua capacidade de ser filtrado. A membrana do glomérulo normalmente é mais porosa e espessa que os outros capilares, filtra líquidos com muita facilidade e em alta intensidade, embora seja muito seletiva na determinação de quais moléculas serão filtradas, com base no seu tamanho e em sua carga elétrica. Por exemplo. A albumina, que é uma das proteínas plasmáticas mais abundantes que temos, possui um diâmetro molecular médio da mesma ordem de grandeza dos poros da membrana glomerular. Então, teoricamente, a albumina poderia ser filtrada, uma vez que mecanicamente não teria restrições ao passar pelas fenestrações, certo? Pois é... estaríamos corretos se não fosse um detalhe: a sua carga elétrica. A albumina é uma proteína aniônica e, por isso, tem sua filtração barrada por repulsão eletrostática exercida pelas cargas negativas contidas nas paredes dos capilares glomerulares. Talvez você tenha percebido que estamos enfatizando bastante essa questão da barreira de filtração, das particularidades moleculares e celulares que fazem a barreira de filtração ter tal seletividade etc., e há um motivo para isso. A importância de saber essas características advém da existência de algumas doenças renais que acometem a membrana basal, fazendo com que suas cargas negativas sejam perdidas. Em termos práticos, caso a membrana basal perca suas cargas elétricas (como ocorre em algumas doenças glomerulares – ou glomerulopatias), a albumina (que é uma proteína de baixo peso molecular) será filtrada e começará a ser detectada na urina – condição clínica denominada de albuminúria (presença de albumina na urina). 5. DETERMINANTES DA FILTRAÇÃO GLOMERULAR (FG) No início deste capítulo, vimos que a FG é determinada pela soma das pressões hidrostáticas e oncóticas através da membrana glomerular. Esse somatório gera uma pressão efetiva de filtração que é a grande responsável pela ocorrência de maior ou menor intensidade da filtração glomerular do plasma sanguíneo. Observando a (imagem 5), percebemos que essa pressão efetiva de filtração nada mais é do que o resultado das pressões que favorecem ou as que se opõem à filtração através da membrana capilar glomerular. Estamos falando da (1) pressão hidrostática nos capilares glomerulares – pressão hidrostática glomerular que favorece a filtração; (2) da pressão hidrostática na cápsula de Bowman – por fora dos capilares que se opõem à filtração; (3) da pressão oncótica das proteínas plasmáticas que se opõe à filtração e (4) da pressão oncótica das proteínas na cápsula de Bowman, que favorece a ocorrência da filtração. Como em condições fisiológicas o filtrado glomerular na cápsula de Bowman é isento de proteínas plasmáticas (e as proteínas têm um poder osmótico), na prática, a pressão oncótica desse líquido é praticamente nula. Imagem 5: Ilustração do resumo das forças que causam a filtração através dos capilares glomerulares. Por questões didáticas e para facilitar o seu entendimento, iremos utilizar essa (imagem 6) com exemplos numéricos, a fim de compreender a dinâmica “favorecimento vs oposição” à filtração glomerular. Imagem 6: Esquematização das pressões que favorecem a filtração glomerular e as pressões que se opõem à filtração glomerular, através dos capilares glomerulares, gerando a pressão efetiva de filtração. 5.1 Forças que são favoráveis à filtração (medidas em mmHg): Pressão Hidrostática glomerular – que nessa imagem vale 60 mmHg – e a Pressão Oncótica na cápsula de Bowman – que vale 0 pelo motivo acima. Ou seja, resumidamente, essas forças irão “empurrar” o plasma de dentro do capilar glomerular para dentro da cápsula de Bowman, formando o filtrado glomerular; 5.2 Forças que se opõem à filtração (também medidas em mmHg): Pressão Hidrostática na cápsula de Bowman – que vale 18 mmHg – e a Pressão Oncótica nos capilares glomerulares – que vale 32 mmHg. Usando o mesmo raciocínio, percebemos que essas forças, em contrapartida, serão responsáveis por “empurrar” o filtrado da cápsula de Bowman para os capilares glomerulares. Finalmente, com esses valores de pressão, será formada uma pressão efetiva de filtração = 60-18-32 = +10 mmHg, portanto, o líquido filtrado flui em direção à cápsula de Bowman. Então, esse somatório de forças (a favor ou contra à filtração) traz consigo a mesma ideia do “cabo de guerra”: aquele que for mais “forte” vence essa disputa. Entretanto, é fundamental não esquecer que esses valores podem ser distintos nos indivíduos ou em algumas situações (fisiológicas ou patológicas). Um grande exemplo dessa potencial mudança são as doenças que acabam aumentando as forças de oposição à filtração, como a nefropatia diabética e a insuficiência renal em pessoas cuja hipertensão está descompensada. Entendendo cada uma das pressões... • Pressão Hidrostática na Cápsula de Bowman Essa pressão tem o objetivo de se opor à filtração. Quando, por algum motivo, ocorre o aumento dessa pressão no interior da cápsula, a FG diminui, na medida em que se a pressão no interior da cápsula reduzir, a FG aumenta. Entretanto, o que acontece na prática é que as alterações na pressão da cápsula de Bowman não costumam regular bem a FG, embora algumas doenças obstrutivas do trato urinário possam fazer aumentar a pressão na cápsula de Bowman – por estase urinária e, por consequência, estase do filtrado ao longo dos túbulos do néfron – e causar uma grave redução da FG. Essas condições, a exemplo da precipitação de cálcio ou ácido úrico responsáveis por formar “cálculos” que se alojam no trato urinário, comumente obstruem a eliminação da urina, aumentam a pressão na cápsula de Bowman e reduzem a FG. Essa sucessão de eventos pode, num indivíduo suscetível, causar hidronefrose, uma situação na qual há distensão e dilatação de pelve e cálices renais e lesão de parênquima renal. • Pressão Oncótica Capilar Glomerular Em oposição, a pressão oncótica no capilar glomerular se opõe à filtração glomerular. Ela surge devido ao poder osmótico das proteínas plasmáticas, ou seja, do poder de atrair moléculas de água. Na medida em que o sangue chega aos rins por meio das artérias renais até alcançar as arteríolas aferentes, capilares glomerulares e arteríolas eferentes, a quantidade de proteínas plasmáticas nesses vasos aumenta, portanto, faz com que sua concentração aumente e, em consequência, aumente assim a pressão oncótica nos capilares. Tal evento acontece porque cerca de um quinto do líquido que chega aos capilares é filtrado para dentro da cápsula de Bowman e isso aumenta a concentração das proteínas plasmáticas nos glomérulos, uma vez que não são filtradas. Então, concluímos finalmente que dois fatores exercem influência na pressão oncótica nos capilares glomerulares: (1) a pressão oncótica das proteínas plasmáticas e (2) a fração de plasma filtrada pelos capilares glomerulares – conhecida como fração de filtração. Isto é, se algum evento promover um aumento da pressão oncótica no plasma arterial, a pressão oncótica nos capilares glomerulares será aumentada, o que contribui para diminuir a FG. Na prática, é possível aumentar a fração de filtração seja aumentando a FG ou reduzindo o fluxo plasmático que chega aos glomérulos. É muito simples de entender o porquê. Quando aumentamos a fração de filtração, mais líquido será filtrado, mais proteínas plasmáticas serão concentradas nos glomérulos e assim a pressão oncótica glomerular se eleva, reduzindo consequentemente a FG. Por outro lado, se alguma situação causar redução do fluxo plasmático glomerular – como alterações na perfusão renal –, haverá um aumento na fração de filtração, pois as proteínas plasmáticas irão inicialmente se concentrar nos glomérulos e, no decorrer desse processo, a pressão oncótica nos capilares irá aumentar, contribuindo para diminuir a FG. • Pressão Hidrostática Glomerular Trata-se da pressão mais intensa nesse somatório de pressões que determinam a FG e, na prática, é a única pressãoque favorece à FG. Tanto que, se a pressão hidrostática glomerular aumentar, a FG se elevará proporcionalmente em intensidade e a recíproca também é verdadeira. Essa pressão hidrostática glomerular, por sua vez, é determinada, em sua essência, por três fatores: (1) pressão arterial, (2) resistência arteriolar aferente e (3) resistência arteriolar eferente. Quando a pressão arterial de um indivíduo se eleva, diversas modificações sistêmicas irão acontecer e, a nível renal, a pressão hidrostática nos glomérulos se eleva, causando um aumento da FG. Ou seja, quanto maior for a pressão sanguínea, mais líquido plasmático chegará aos glomérulos e maior será a FG. No entanto, se a pressão arterial se elevasse muito, poderia causar lesão glomerular. Então, se fez necessário que os rins possuíssem mecanismos autorregulatórios adaptativos, a fim de proteger os glomérulos (pois estes são estruturas bastante delicadas), e manter a pressão glomerular mais ou menos constante durante as flutuações da pressão arterial. Por outro lado, os outros dois fatores funcionam com vistas a garantir que a FG aumente ou diminua, a depender das perturbações que possam acometer o fluxo sanguíneo renal. As arteríolas aferentes, quando têm sua resistência aumentada (quando esses vasos sanguíneos se contraem), o fluxo sanguíneo nos capilares glomerulares é reduzido e, consequentemente, a pressão hidrostática glomerular e a FG diminuem também. O oposto também é verdadeiro, na medida em que as arteríolas aferentes se dilatam, tanto a pressão hidrostática glomerular quando a FG irão aumentar. Com a arteríola eferente acontecem eventos semelhantes. Quando acontece a constrição dessas arteríolas, inevitavelmente haverá um maior impedimento à saída do fluxo plasmático advindo dos capilares glomerulares. Então, esse líquido represado faz com que a pressão hidrostática glomerular se eleve e, enquanto essa resistência arteriolar eferente não reduzir, a FG permanecerá elevada. O problema é que, por consequência, a constrição da arteríola eferente também faz reduzir o fluxo sanguíneo renal e a fração de filtração, além de aumentar a pressão oncótica glomerular. 6. FLUXO SANGUÍNEO RENAL Já tivemos a oportunidade de discutir em capítulos anteriores que o sistema de vasos sanguíneos dos rins é bastante especial e complexo. Ele, além de garantir o suprimento nutricional do parênquima renal como um todo, possibilita que os metabólitos e demais substância químicas inúteis presentes na circulação sanguínea sejam removidos. O grande objetivo da complexidade dessa circulação renal é garantir um fluxo sanguíneo adicional, a fim de que seja oferecido plasma suficiente para se realizar altas intensidades de filtração glomerular, extremamente necessárias para a regulação precisa das concentrações de solutos e dos volumes dos líquidos corporais. 6.1 Fluxo Sanguíneo Renal x Consumo de O2 Os rins consomem bastante oxigênio, pois alguns processos renais – como a reabsorção e secreção – exigem que as células tubulares dos néfrons reabsorvam e secretem ativamente o sódio e demais eletrólitos em altas intensidades. A pressão parcial de oxigênio (PaO2) também é variável e possui seus maiores valores a nível de córtex renal; à medida que iremos em direção à medula renal, a PaO2 reduz. Da mesma forma, caso o fluxo sanguíneo renal e a FG sejam reduzidos, menos sódio será filtrado e menor será a reabsorção de sódio – bem como de outros eletrólitos –, devido ao baixo consumo de oxigênio pelos néfrons. Ou seja, o consumo de oxigênio pelas células tubulares varia diretamente à intensidade de reabsorção de sódio e demais solutos nos túbulos renais, além de ter relação direta com a FG. 6.2 Determinantes do Fluxo Sanguíneo Renal O fluxo sanguíneo renal é determinado, em partes, pelas pressões hidrostáticas nos vasos sanguíneos renais e com sua resistência vascular. Sem dúvidas, a maior parte da resistência vascular renal está distribuída principalmente em três leitos: nas artérias interlobulares, arteríolas aferentes e arteríolas eferentes. A importância disso é que essa resistência vascular é regulada pelo sistema nervoso autonômico adrenérgico, por alguns hormônios e pelos mecanismos renais de controle local. Existem diversas situações, sejam fisiológicas ou patológicas, que fazem a pressão arterial de um indivíduo sofrer alterações consideráveis, mas, como já discutimos, os rins têm a capacidade de manter seu fluxo sanguíneo e a FG relativamente constantes, embora – é importante que se ressalte – as alterações da pressão arterial exerçam influência significativa sobre o fluxo sanguíneo renal. 7. CONTROLE FISIOLÓGICO DA FG E DO FLUXO SANGUÍNEO RENAL Tanto o sistema nervoso simpático, as substâncias vasoativas renais locais e alguns hormônios são fundamentais para a modulação precisa da FG, da pressão hidrostática glomerular e a pressão oncótica no glomérulo. A ação do sistema nervoso simpático se faz presente na inervação de vasos sanguíneos renais importantes, tais como as arteríolas aferentes e eferentes, cujas estruturas são bastante ricas em fibras nervosas adrenérgicas. Com a deflagração de impulsos nervosos nessas fibras, ocorre a forte ativação desses nervos simpáticos renais e promove a vasoconstrição das arteríolas renais e, dessa forma, alterar o fluxo sanguíneo renal e a FG, mas na prática esse tônus simpático tem baixa influência sobre o fluxo sanguíneo renal. Os hormônios também exercem algum grau de influência sobre a FG e o fluxo sanguíneo renal. Nesse caso, os hormônios mais importantes são a epinefrina e norepinefrina (liberadas pela medula da glândula suprarrenal) e endotelina (polipeptídeo liberado pelo endotélio vascular renal). Todos eles provocam vasoconstricção das arteríolas aferente e eferente e, desse modo, promovem a diminuição da FG. Entretanto, a substância de maior poder vasoconstrictor nesse mecanismo regulador é a Angiotensina II, que age, sobretudo, nas arteríolas eferentes. A Angiotensina II é uma substância essencial para a efetividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), cuja principal função é regular a pressão arterial, em oposição às flutuações da mesma. As arteríolas eferentes são bastante sensíveis à ação da angiotensina II, tanto que um aumento nos níveis de angiotensina II causa constrição eferente e elevação da pressão hidrostática glomerular, na medida em que reduz o fluxo sanguíneo renal. A angiotensina II, por sua vez, se eleva na circulação quando ocorre redução da pressão arterial, perda de volume (p.ex., diarreia, hemorragia) ou demais situações que possam diminuir a FG. Em paralelo, quando o fluxo sanguíneo renal reduz devido à constrição arteriolar eferente promovida pela angiotensina II, o fluxo sanguíneo nos capilares peritubulares diminui, o que contribui para o aumento da reabsorção de água e de sódio. Além dos hormônios, as substâncias teciduais do endotélio vascular renal promovem vasodilatação local. Ganham destaque o Óxido Nítrico, Prostaglandina e a Bradicinina, cujo mecanismo de ação inclui a diminuição da resistência vascular renal e aumento da FG. 8. AUTORREGULAÇÃO DA FG E DO FLUXO RENAL Os rins possuem um mecanismo interessante de autorregulação, cujas propriedades são fundamentais para controlar o fluxo sanguíneo renal e a FG. Esse mecanismo é denominado feedback tubuloglomerular, realizado pelo aparelho justaglomerular (imagem 7). A ocorrência do feedback tubuloglomerular depende basicamente de dois mecanismos: (1) da quantidade de sódio “percebida” na mácula densa e (2) resposta miogênica. A reposta miogênica consiste em um equilíbrio entre os mediadores vasoconstrictores e vasodilatadores em nível de arteríolas aferentes (principalmente) e eferentes, para garantir o fluxo sanguíneo renal. Imagem 7: Aparelho justaglomerular – estrutura formada por células da mácula densa, por células justaglomerulares e células mesangiais extraglomerulares. A mácula densa – situada na região inicial do túbulo distal –, e por células justaglomerulares – presentes no entorno dasarteríolas aferentes e eferentes. A mácula densa, já descrita no capítulo 2, é um conjunto de células especializadas dos túbulos distais que está em contato direto com as arteríolas aferentes e eferentes, cuja sensibilidade a cloreto de sódio é bastante elevada. Acontece que, se essas células perceberem que houve redução na concentração tubular de NaCl, elas induzem à vasodilatação das arteríolas aferentes (reduzem a resistência ao fluxo sanguíneo) e isso faz aumentar a pressão hidrostática glomerular, ajudando a retornar a FG ao normal, além de fazer com que haja liberação de renina. A renina, por sua vez, funciona como enzima que converte o angiotensinogênio (produzido pelo fígado) em angiotensina I. Esta será posteriormente convertida em angiotensina II no leito vascular pulmonar e é justamente essa angiotensina II que promove a contração das arteríolas eferentes, ajudando a elevar a pressão hidrostática glomerular e a FG. REFERÊNCIAS IMAGENS 1. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 2. GOOGLE IMAGENS (modificada). http://professor.ufrgs.br/simonemarcuzzo/files/sistema_urinario_0.pdf>. Acesso em 28 abr. 2019. 3. BERNE; LEVY. Fisiologia. Editora Elsevier, Rio de Janeiro, 2009. 4. BERNE; LEVY. Fisiologia. Editora Elsevier, Rio de Janeiro, 2009. 5. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica. 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 6. GOOGLE IMAGENS (modificada). https://slideplayer.com.br/slide/3518841/11/images/20/Os+fatores+determinantes+da+Filtra%C3%A7%C3%A3o+Glom erular%3A.jpg>. Acesso em 28 abr. 2019. 7. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica. 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. REFERÊNCIAS 1. MOORE, K. L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Koogan, 2014. 2. STANDRING, S. Grays Anatomia: A base anatômica da prática clínica. 40 Ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora. 2010. 3. BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. 4. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica. 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 5. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4 Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2012. 6. SILVERTHORN, Dee U. Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 7. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 8. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. 9. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J.; ABRAHAMSOHN, P. Histologia básica: texto e atlas. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 5 REABSORÇÃO E SECREÇÃO TUBULAR 1. CASO CLÍNICO Karine, uma paciente de 26 anos, deu à luz a uma criança nascida a termo na maternidade de seu município – interior do estado da Bahia –, de parto normal, com peso adequado, tendo eliminado mecônio e diurese, e ambas tiveram alta hospitalar cerca de 36h após o parto. Não houve intercorrências durante o parto nem no alojamento conjunto, estando o recém-nascido (RN) em aleitamento materno exclusivo – exceto pelo fato de a criança ter sido caracterizada como portadora de genitália ambígua e sendo do sexo masculino. Não realizou teste do pezinho (teste de triagem neonatal). Cerca de 20 dias após a alta, o RN passou a apresentar perda de peso, recusa alimentar, vômitos e sinais de desidratação. Deu entrada na emergência da mesma maternidade, onde foi examinado pelo Dr. Sérgio – um jovem médico residente de pediatria –, quem estava de plantão neste dia. Dr. Sérgio, após colher anamnese minuciosa, realizou o exame físico do neonato e, à inspeção, percebeu dois sinais que o ajudaram a pensar em sua hipótese diagnóstica: (1) sinais de desidratação moderada e (2) “criptorquidia bilateral”. Imediatamente, Dr. Sérgio lembrou de um caso semelhante visto no hospital onde faz residência médica e, imediatamente, solicitou exames laboratoriais, que constataram: Na+ 121mEq/L, K+ 6,0mEq/L e glicemia de 46mg/dL. Voltou a questionar sobre a história obstétrica-neonatal e se o neonato ainda estava em aleitamento materno exclusivo, o que a mãe confirmou. Então, prescreveu uma venóclise e corrigiu a hipoglicemia do RN, o que reverteu os sinais e sintomas apresentados. No entanto, precisou dar a notícia à mãe de que o seu filho não era um menino, mas sim uma menina. Explicou a doença que a criança tinha, um pouco da fisiopatologia da doença, que justificou a sintomatologia apresentada, além do motivo pelo qual ela foi caracterizada como sendo do sexo masculino. A genitora foi tranquilizada após o susto, a criança teve alta da emergência e com a orientação de manter o seguimento ambulatorial. Então, teve seguimento ambulatorial, em que foi realizada a reposição de glicocorticoides e mineralocorticoides, além de ter sido feito o exame do cariótipo – que constatou que o sexo do RN era feminino – e ratificado o diagnóstico pensado pelo Dr. Sérgio, que foi a hiperplasia adrenal congênita. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Peso ao nascer adequado; mecônio; alojamento conjunto; aleitamento materno exclusivo; testes de triagem neonatal; sinais de desidratação; anamnese minuciosa e história obstétrica-neonatal; venóclise; fisiopatologia da doença; reposição de glicocorticoides e mineralocorticoides; exame do cariótipo; hiperplasia adrenal congênita. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Recém-nascida a termo; criptorquidia bilateral; “genitália ambígua”; teste do pezinho não realizado; desidratação moderada; hiponatremia; hipercalemia; hipoglicemia; hiperplasia adrenal congênita. 2. introdução O filtrado glomerular é um líquido derivado do plasma sanguíneo e precursor direto da urina. Após ser filtrado pelos glomérulos, flui ao longo do trajeto dos túbulos renais – túbulo proximal, alça de Henle, túbulo distal, túbulo coletor e ducto coletor – e sofrerá variadas modificações, a fim de que as diversas substâncias nele presentes sejam reabsorvidas e secretadas, até que se forme a urina propriamente dita e seja eliminada. Do ponto de vista evolutivo e adaptativo de nossa espécie, se fez necessário que diversas substâncias químicas (eletrólitos como o sódio, potássio, cloreto etc.) – indispensáveis para realização de diversos processos celulares – fossem reabsorvidas e preservadas nos líquidos corporais após sofrer intensa filtração. Portanto, a partir desse raciocínio, entendemos que a urina total formada é representada, basicamente, pelo somatório de três processos renais básicos: filtração glomerular, reabsorção tubular e secreção tubular. A depender da substância em questão, a reabsorção pode ter um papel de maior ou menor destaque que o da secreção para determinar a sua quantidade final na urina. Por exemplo, algumas substâncias como o sódio, o cloreto, o bicarbonato e a glicose, embora sejam bastante filtradas nos glomérulos, também serão intensamente reabsorvidas ao longo dos túbulos renais e serão muito pouco secretadas na luz tubular (para ser eliminada). Por outro lado, o processo de secreção se sobressai à reabsorção quando se trata de outras substâncias, como os metabólitos derivados de fármacos, além do potássio e do hidrogênio. No capítulo anterior, vimos que a filtração glomerular não costuma ser altamente seletiva (lembrem que praticamente todos os solutos plasmáticos são filtrados, exceto as grandes proteínas plasmáticas ou substâncias ligadas a elas). Já a reabsorção tubular, em oposição ao processo de filtração, normalmente é muito seletiva. São grandes exemplos dessa particularidade a glicose e os aminoácidos. Quase 100% desses solutos são reabsorvidos pelos túbulos após a filtração, e isso faz com que a sua concentração final na urina seja praticamente nula. Esse processo é fisiológico e pode ter variações mínimas de indivíduo para indivíduo, sem haver nenhum prejuízo à homeostase. No entanto, algumas condições patológicas fazem com que a glicose e algumasproteínas possam estar presentes na urina, que, por sua vez, podem ser decorrentes de falhas nesse mecanismo de reabsorção, fazendo com que haja a glicosúria – eliminação de glicose na urina – e albuminúria – eliminação de albumina na urina. Como mencionado anteriormente, vários íons – como o sódio, o cloreto e o bicarbonato – são reabsorvidos abundantemente, porém a intensidade com que ocorrerá essa reabsorção, além da quantidade que estarão presentes na urina, vai depender basicamente das necessidades corpóreas individuais. Desta forma, se houver situações de deficiência ou excesso de eletrólitos (por exemplo, potássio, magnésio), os túbulos renais trabalharão no sentido de reabsorver ou eliminar uma maior quantidade, fazendo com que seus níveis estejam dentro de faixas fisiológicas. Esta é uma capacidade de adaptação tubular renal, essencial para a manutenção da homeostase. 3. A REABSORÇÃO TUBULAR E SEUS MECANISMOS ATIVOS E PASSIVOS DE TRANSPORTE O mecanismo de reabsorção acontece, fundamentalmente, por meio do transporte das substâncias de um meio para outro através das membranas do epitélio tubular; isto é, de dentro da luz tubular para o líquido intersticial renal e, após atravessar a membrana dos capilares peritubulares, chegar à circulação sanguínea (imagem 1). Quase a totalidade desse processo é mediada por transporte ativo e/ou passivo. Importante observar que na célula há a membrana luminal (voltada para a luz tubular) e a membrana basolateral (voltada para o interstício). Imagem 1: Essa imagem ilustra o processo resumido de reabsorção de água e solutos filtrados (via paracelular e transcelular), do lúmen tubular, através das células epiteliais tubulares, para o interstício renal e posteriormente de volta ao sangue. No caso da água e de alguns solutos, serão transportados tanto através das próprias membranas plasmáticas das células tubulares (via transcelular) quanto através dos espaços intercelulares entre suas junções laterais (via paracelular). Uma vez ocorrida a absorção – que ocorre no sentido túbulo-líquido intersticial –, a água e os solutos serão posteriormente transportados para o sangue por meio de ultrafiltração através das paredes dos capilares peritubulares, que consiste num processo de trânsito de moléculas devido ao balanço das forças hidrostáticas e oncóticas (semelhantes às forças ocorridas nos glomérulos durante a filtração). 3.1 Transporte Ativo e Passivo Caso não se lembre dos conceitos de transportes ativo e passivo, não tem problema. Nós relembraremos aqui nesse capítulo, pois será de fundamental importância para compreender os mecanismos que envolvem a reabsorção e a secreção tubular. O transporte ativo é aquele que ocorre contra o gradiente de concentração, mediado por gasto de ATP da célula (energia metabólica). Isso faz com que o soluto seja deslocado do meio menos concentrado para o meio mais concentrado desse soluto através de uma proteína transportadora de membrana. O transporte ativo pode, ainda, ser classificado como transporte ativo primário ou secundário. Quando o transporte ocorre por meio da proteína cuja fonte de energia está diretamente acoplada a ela, é denominado transporte ativo primário. Um grande exemplo é a ATPase (ou bomba) sódio- potássio, cujo mecanismo de ação inclui a hidrólise do ATP para transportar o sódio e o potássio contra os seus respectivos gradientes de concentração. Já o transporte ativo secundário depende indiretamente da fonte de energia primária para acontecer. Esse processo pode ocorrer quando uma fonte de energia promove um gradiente iônico que seja energético o suficiente para tornar possível o transporte de substâncias contra o gradiente de concentração (daí ele ser chamado de secundário, porque ocorre posteriormente a um evento primário). O processo de reabsorção da glicose pelo túbulo proximal é um exemplo clássico de transporte ativo secundário. Por outro lado, o transporte da água entre os compartimentos corporais será sempre por transporte passivo, do tipo osmose. A osmose é um tipo de transporte em que não há gasto de energia da célula sob a forma de ATP e, portanto, a água se difundirá do meio em que tenha baixa concentração de soluto (ou alta concentração de água) para um meio de alta concentração de soluto (ou baixa concentração de água). 3.1.1 Transporte Ativo Primário na Membrana Tubular por meio das ATPases A energia responsável por promover esse transporte deriva da hidrólise do ATP, processo que ocorre acoplado à ATPase presente na membrana basal das células tubulares. Essa ATPase, como já descrito, é uma proteína transportadora da membrana e permite que alguns solutos se movam através dela. É importante destacar que cada ATPase tem uma relação de especificidade com os eletrólitos que irá transportar, tendo, ao longo das porções tubulares renais, diversas ATPases: ATPase sódio-potássio, ATPase de hidrogênio, ATPase hidrogênio-potássio e ATPase de cálcio. A presença destas ATPases garante que o epitélio tubular esteja polarizado, ou seja, com um gradiente eletroquímico que favorece as reabsorções e trocas aniônicas. O processo de reabsorção de íons sódio na porção tubular proximal, cujo mecanismo é por transporte ativo primário, é ilustrado na figura a seguir (imagem 2). A região basolateral da célula epitelial tubular é rica em ATPase sódio-potássio – que hidrolisa o ATP e usa essa energia liberada para transportar os íons sódio para fora da célula, em direção ao interstício. Ao mesmo tempo, o potássio é transportado no sentido oposto, ou seja, do interstício para o interior da célula. Imagem 2: Essa imagem é evidencia o mecanismo básico de transporte ativo de sódio através da célula epitelial tubular. A Na+/K+ ATPase transporta o sódio do interior da célula, através da membrana basolateral, criando uma baixa concentração intracelular de sódio e um potencial elétrico negativo dentro da célula. Essa baixa concentração e o potencial elétrico negativo fazem com que os íons sódio se difundam do lúmen tubular para a célula através da borda em escova. Cada ATPase sódio-potássio é capaz de transportar 3 íons sódio para o meio extracelular e captar 2 íons potássio para dentro da célula. Esse mecanismo de ação mantém baixa a concentração intracelular de sódio e alta a concentração intracelular de potássio. Devido ao fato de mais cargas positivas estarem sendo transportadas para fora do que as que estão sendo captadas para dentro, o meio intracelular fica menos positivo do que o meio extracelular. Então, por convenção, adota-se que, após esse processo, o meio intracelular tem carga “negativa” e o meio extracelular tem carga “positiva”. Notem que é uma situação relativa quando se comparam os dois meios em questão pelo simples fato de ter menos carga positiva dentro da célula e não por ter muitas cargas negativas. Esse trânsito de cargas através da membrana cria um potencial elétrico com carga efetiva de mais ou menos -70mV dentro da célula. Além disso, a ação da ATPase sódio-potássio cria um gradiente de concentração e faz com que o sódio tenda a passar por difusão do lúmen tubular para dentro da célula, além do potencial intracelular negativo de -70mV atrair os íons sódio (Na+) para dentro da célula. Na maioria das porções tubulares renais ocorre bastante reabsorção ativa de sódio pela ATPase sódio- potássio. Além da presença numerosa dessas ATPases, boa parte das células tubulares possuem diferenciações da membrana plasmática – borda em escova – que aumentam a capacidade reabsortiva de sódio em sua porção luminal (face membranar voltada para o lúmen tubular) em mais de 10 vezes. Além disso, o sódio pode também ser transportado passivamente da luz tubular para dentro da célula, através de canais iônicos por difusão facilitada. Esses canais – proteínas integrais da membrana – são responsáveis por transportar o sódio junto com outras substâncias, tais como a glicose e aminoácidos. 3.1.2 Reabsorção Ativa Secundária na Membrana Tubular Partindo da explicação anterior sobre o mecanismo de transporteativo secundário, a reabsorção ativa secundária ocorrerá quando uma proteína transmembranar específica interagir com dois ou mais solutos, transportando-os através desta membrana. Um grande exemplo prático é o que ocorre quando o sódio se difunde por seu gradiente eletroquímico; isso causa liberação de energia suficiente para mediar o transporte de outra substância, como a glicose e aminoácidos, contra seu gradiente de concentração. Então, notem que o transporte ativo secundário não necessita do ATP celular de forma direta, mas utiliza a energia liberada que derivou da difusão facilitada que ocorreu quando outra substância foi transportada a favor de seu gradiente de concentração (observe a dinâmica da imagem 3). Isso ocorre tanto para o transporte da glicose quanto para os aminoácidos e, como se trata de um processo bastante eficiente por intermédio das proteínas transportadoras específicas, mais de 95% de toda a glicose e aminoácidos filtrados são reabsorvidos. Uma vez que essa glicose e os aminoácidos entrem nas células tubulares, eles serão transportados em direção ao interstício renal e capilares peritubulares, devido às suas altas concentrações intracelulares. Imagem 3: essa imagem ilustra as células tubulares proximais e o mecanismo de transporte ativo secundário. A célula da parte superior mostra o cotransporte (transporte conjugado no mesmo sentido) de glicose e de aminoácidos juntamente com os íons Na+, ao passo que a célula da porção inferior mostra o contratransporte (transporte conjugado no sentido contrário) dos íons H+ da célula para o lúmen com os íons Na+. As proteínas que medeiam esse tipo de transporte da glicose são as proteínas SGLT1 e SGLT2, presentes na borda em escova e que fazem o cotransporte (transporte em conjunto no mesmo sentido) com o sódio. Quase a totalidade da glicose filtrada será reabsorvida pela SGLT2 na porção proximal e o restante na porção inicial do tubo coletor pela SGLT1. Além das SGLTs, existem também os transportadores específicos de glicose, que são os GLUTs, presentes na porção basolateral da célula tubular e que auxiliam a glicose a transitar do meio intracelular para o espaço intersticial. 3.1.3 Secreção Ativa Secundária nos Túbulos Renais Conforme já visto, no decorrer do processo de formação da urina, diversas substâncias serão secretadas nos túbulos, inclusive por transporte ativo secundário. Essa secreção é realizada por contratransporte (transporte de substâncias em sentidos opostos) de alguns solutos com os íons sódio. Nesse tipo de transporte na secreção tubular, o movimento do sódio em um sentido faz liberar energia suficiente para tornar possível o transporte ativo de outra substância, mas no sentido oposto ao do sódio. A (imagem 4) ilustra esse contratransporte (sódio-hidrogênio) que mostra a reabsorção de sódio conjugada à secreção ativa de íons H+, realizado pela proteína específica chamada trocador de sódio- hidrogênio na membrana luminal tubular. Imagem 4: essa imagem mostra uma célula tubular proximal que realiza o contratransporte (transporte conjugado no sentido contrário) dos íons H+ de dentro da célula para o lúmen com os íons Na+, que serão transportados do lúmen tubular para dentro da célula e, posteriormente, para o interstício renal. 3.1.4 Endocitose Acontece que nem todas as substâncias conseguem ser transportadas mediante a ação de proteínas transmembranares (como a maioria dos eletrólitos), devido ao seu tamanho. Nesse sentido, os túbulos renais desenvolveram uma estratégia para reabsorver as substâncias relativamente grandes que foram filtradas no glomérulo, cujo processo é a endocitose. Quando um soluto relativamente grande, normalmente uma proteína que precisa ser reabsorvida, passa pela luz tubular, ela se adere à borda em escova da célula tubular, e essa porção da membrana luminal irá se invaginar, fazendo com que se forme uma vesícula endocítica que contém no seu interior essa proteína. Uma vez endocitada, a proteína será digerida aos aminoácidos, e estes serão direcionados pela membrana basolateral até os capilares peritubulares. Como esse processo consome ATP celular – por envolver as fibras proteicas do citoesqueleto na invaginação e na formação das vesículas endocíticas – é considerado um transporte ativo. 3.1.5 Transporte Máximo de Algumas Substâncias Para nossa sorte (ou azar), existe um limite para os néfrons mediarem o transporte de solutos através das membranas celulares e permitir a ocorrência da reabsorção e secreção. A razão para isso é bastante simples, pois as células tubulares não têm transportadores suficientes para uma quantidade extra de solutos que porventura cheguem à luz tubular. Então, quando ocorre essa sobrecarga de solutos, as proteínas transportadoras ficam ocupadas e não conseguem transportar os solutos excedentes de um meio para o outro, comprometendo assim a reabsorção tubular. Esse processo limitado é conhecido como transporte máximo (TM). O mecanismo do TM fica mais evidente de perceber quando um indivíduo é portador do Diabetes Mellitus e, por algum motivo, sua condição clínica descompensa. Já sabemos que, em condições fisiológicas, a glicose não é detectável na urina e sua quantidade chega a ser desprezível, isso porque praticamente toda a glicose filtrada será reabsorvida ao nível do túbulo proximal. Quando esse indivíduo, no entanto, cursa com hiperglicemia persistente, a quantidade de glicose filtrada é maior que a capacidade de reabsorção dos túbulos. Consequentemente, ocorrerá a glicosúria; ou seja, nesses indivíduos, o sistema de transporte da glicose, no túbulo proximal, atingiu sua capacidade máxima de reabsorção da glicose, pelo fato de a glicemia estar persistentemente elevada. 3.1.6 Reabsorção de Água por Osmose vs Reabsorção de Sódio Existe uma máxima que fala “para onde o sal vai, a água vai atrás”. Sabendo disso, os solutos, ao serem reabsorvidos do lúmen tubular (por transporte ativo primário e secundário, como já abordado), criam um gradiente que faz com que suas concentrações tubulares diminuam, ao passo que suas concentrações no interstício renal aumentam. Esse evento faz com que aconteça a osmose da água no mesmo sentido no qual os solutos foram transportados, isto é, de dentro do túbulo para o líquido intersticial renal. Algumas regiões do túbulo renal, como o túbulo proximal, são bastante permeáveis à água, sendo que a sua reabsorção ocorrerá prontamente nessa região tubular. Grande parte da água reabsorvida por osmose nessa região ocorre nas junções oclusivas que ficam entre as células epiteliais. Essas junções não fazem com que as células fiquem muito coesas, o que acaba não causando resistência à passagem de água e pequenos íons – tais como o sódio, o potássio, o cloreto, o magnésio e o cálcio – e permitem que sejam reabsorvidos em direção ao interstício. Outra parte da água atravessa a célula (via transporte transcelular) através de canais denominados aquaporinas (AQ). Ao longo do túbulo existe a presença de dois tipos principais de aquaporinas, que são as AQ2 e AQ3, tornando as células que a possuem permeáveis à água. 3.1.7 Reabsorção de Cloreto, Ureia e de Outros SolutoS por Difusão Devido à atração eletrostática e ao potencial elétrico criado na membrana devido à ação bombeadora da ATPase sódio-potássio descrita anteriormente, os íons negativos (por exemplo, o cloreto) serão transportados passivamente juntos com sódio, na medida em que o sódio for reabsorvido tanto por difusão (pela via paracelular) quanto por transporte ativo (através da proteína cotransportadora sódio- cloreto). A ureia – metabólito nitrogenado derivado da amônia e da degradação de aminoácidos – também é reabsorvida por difusão (transporte passivo) no túbulo. Entretanto, como boa parte das zonas tubulares não são tão permeáveis à ureia como são ao cloreto e a água, as zonas tubulares distais do néfron auxiliam no processo de reabsorção da ureia por intermédio das proteínas específicas transportadoras de ureia. No capítulo 6 iremos abordar melhor porque os néfronsacabam reabsorvendo cerca de mais ou menos 50% da ureia filtrada. Outro metabólito nitrogenado produzido a partir da degradação da creatina muscular é a creatinina. Trata-se de uma molécula grande o bastante para não ter seu trânsito facilitado pela membrana das células tubulares, ou seja, são regiões impermeáveis a essa substância. Então, logo após a filtração da creatinina, ela não é reabsorvida, e isso faz com que praticamente toda a quantidade filtrada seja eliminada na urina. Portanto, a partir desse conhecimento sobre a sua filtração, passou-se a utilizar a creatinina como marcador da função renal na prática clínica, pois ela acaba traduzindo o próprio clearance da creatinina – ou taxa de filtração glomerular (TFG). 4. OS MECANISMOS DE REABSORÇÃO E SECREÇÃO TUBULAR AO LONGO DO NÉFRON 4.1 Reabsorção no Túbulo Proximal Quando o organismo de um indivíduo saudável não está sobrecarregado de volume nem de eletrólitos, cerca de 65-70% da água, do sódio, potássio, fósforo e do cloreto são reabsorvidos no túbulo contorcido proximal (imagem 5). Isso acontece porque as células dessa região têm alta demanda metabólica, possuindo inclusive muitas mitocôndrias que irão fornecer uma grande quantidade de energia metabólica sob a forma de ATP, a fim de que ocorra o transporte ativo de substâncias nessa região tubular. Imagem 5: essa imagem ilustra a reabsorção do Na+, Cl- e H2O do lúmen tubular, através da célula tubular proximal, em direção ao capilar peritubular. Outra característica favorecedora da reabsorção é que essas células tubulares proximais possuem diversas de bordas em escova – as invaginações da membrana plasmática que discutimos anteriormente – situadas na porção luminal (ou ápice) da membrana. Essas bordas em escova são extensas e também possuem muitas proteínas transportadoras que permitem a passagem dos íons sódio através da membrana luminal, por cotransporte, junto à glicose e aos aminoácidos. Já o sódio excedente será transportado do lúmen tubular para dentro da célula por meio de contratransporte, reabsorvendo o sódio adicional em troca com outros íons presentes no lúmen tubular. Além disso, há diversos canais intercelulares nessa região que facilitam o trânsito dos diversos eletrólitos. A maior parte do sódio e de outras substâncias é reabsorvida no túbulo proximal, devido à ação da ATPase sódio-potássio, embora essas substâncias sejam reabsorvidas de formas diferentes ao longo dessa porção tubular (imagem 6). Imagem 6: essa imagem ilustra a reabsorção do Na+, K+, e os mecanismos básicos envolvidos na reabsorção do HCO3 - do lúmen tubular, através da célula tubular proximal, em direção ao capilar peritubular. Na primeira metade, o sódio é reabsorvido junto com a glicose, aminoácidos e outras substâncias por meio de cotransporte. Como o cloreto não é reabsorvido na primeira metade, o líquido tubular resultante fica bastante concentrado em íons cloreto, o que faz com que o sódio seja reabsorvido junto com íons cloreto na segunda metade. Portanto, na segunda metade, essa alta concentração de cloreto favorece sua difusão do lúmen tubular pelas junções intercelulares para o líquido intersticial renal. Os canais de cloreto aí presentes também realizam a reabsorção de uma pequena quantidade de cloreto (imagem 7). Imagem 7: essa imagem é uma esquematização das células do túbulo proximal, das substâncias as quais serão reabsorvidas (sódio, cloreto, água etc.) e serão secretadas (creatinina e alguns fármacos). Tanto o sódio quanto a água são bastante reabsorvidos no túbulo proximal, pois é uma região com alta permeabilidade a tais substâncias. Isso faz com que a osmolaridade total do sódio quase não seja alterada. Entretanto, outras substâncias (por exemplo, glicose, aminoácidos e íons bicarbonato) têm suas concentrações tubulares reduzidas por serem mais reabsorvidas que a água no túbulo proximal. Em contrapartida, outras substâncias, como a ureia e a creatinina, são pouco reabsorvidas nessa porção, e isso faz com que suas concentrações tubulares fiquem aumentadas. Embora aconteça essa dinâmica de reabsorção das substâncias, o resultado final é que a osmolaridade total do fluido tubular seja basicamente a mesma ao longo da extensão túbulo proximal. Além da reabsorção, no túbulo contorcido proximal também ocorre secreção de substâncias orgânicas, como sais biliares e catecolaminas. Como algumas dessas substâncias são resíduos metabólicos, necessitam ser eliminadas. Dito isso, a secreção dessas substâncias no túbulo proximal, a sua filtração, que ocorre dos capilares peritubulares para o túbulo proximal, somadas à ausência de sua reabsorção, favorecem a ocorrência da excreção urinária desses resíduos. O mesmo raciocínio aplicado para os resíduos metabólicos também vale para outras substâncias, como alguns fármacos e toxinas, que serão eliminados na urina. 4.2 Reabsorção na Alça de Henle A alça de Henle é formada, basicamente, por três porções distintas: o ramo descendente delgado, o ramo ascendente delgado e o ramo ascendente espesso. Cada porção dessas possui um aspecto funcional peculiar. Os ramos descendente e ascendente delgado são assim denominados porque contêm células com membranas epiteliais finas (imagem 8), além de não possuírem bordas em escova em suas membranas plasmáticas. Também não possuem muitas mitocôndrias, o que reflete sua baixa atividade metabólica. Imagem 8: essa imagem ilustra uma célula do segmento descendente fino da alça de Henle. Esse segmento é bastante permeável à água e moderadamente permeável à maioria dos solutos, possui poucas mitocôndrias e pouca (ou nenhuma) reabsorção ativa. A porção descendente do ramo delgado é bastante permeável à água e tem uma permeabilidade reduzida à maioria dos solutos (sódio, potássio, ureia etc.). A função dessa porção tubular do néfron é permitir a difusão simples de substâncias que serão reabsorvidas através de suas paredes, sobretudo a água. Cerca de 20% da água filtrada nos glomérulos serão reabsorvidas na alça de Henle e quase 100% dessa água será reabsorvida na porção descendente delgada. Tanto a porção ascendente delgada quanto a espessa são praticamente impermeáveis à água. Guardem muito bem essa informação, pois é justamente essa particularidade que vai nos ajudar a entender a dinâmica do mecanismo de contracorrente – responsável por produzir urina concentrada ou diluída, a depender da necessidade corpórea. O ramo espesso da alça de Henle – que se inicia logo após o ramo ascendente delgado –, possui diversas células com membranas epiteliais espessas, com grande quantidade interna de mitocôndrias para fornecer energia metabólica necessária para reabsorção ativa de alguns eletrólitos (imagem 9). Nessa porção, cerca de 25% da carga filtrada pelos glomérulos de sódio, potássio, cloreto, cálcio e bicarbonato são reabsorvidos, sendo a maior parte na porção ascendente espessa. Imagem 9: essa imagem ilustra uma célula do segmento ascendente espesso da alça de Henle. Esse segmento reabsorve cerca de 25% das cargas filtradas de sódio, cloreto e potássio, além de quantidades de cálcio, bicarbonato e magnésio. Esse segmento também secreta íons hidrogênio para o lúmen tubular. Nessa porção espessa ascendente ocorre a reabsorção de cerca de 70% do magnésio. O transporte desse íon é diferenciado, pois sua reabsorção ocorre por via paracelular (entre uma célula e outra) através de canais denominados claudinas (sendo as claudinas 16 e 19 as mais abundantes nesta porção). Em resumo, a porção descendente fina reabsorve água ao passo que as porções ascendentes fina e espessa (principalmente espessa) reabsorvem os eletrólitos (imagem 10). Veja que essa imagem ilustra bem o transporte do cálcio e do magnésio nessa porção tubular. Imagem 10: essa imagem ilustra uma célula da porção espessa ascendente, a qual faz a reabsorção de cerca de 70% do magnésio por via paracelular por meio das claudinas, evidenciadas na imagem entre uma célula e outra. À semelhança do que ocorre no túbulo proximal, a reabsorção de solutosna porção ascendente espessa da alça de Henle depende da ATPase sódio-potássio, sendo que esta proteína mantém a concentração intracelular de sódio baixa, por meio de transporte ativo. Essa baixa concentração intracelular de sódio gera um gradiente de concentração que favorece a movimentação do sódio do líquido tubular para dentro da célula. Já na porção ascendente espessa o transporte do sódio, através da membrana celular luminal, é garantido pela proteína cotransportadora sódio/potássio/2-cloreto (imagem 11). Essa proteína usa a energia potencial liberada pela difusão do sódio para a célula, para impulsionar a reabsorção de potássio para a célula, contra o gradiente de concentração. Imagem 11: essa imagem ilustra uma célula da porção ascendente espessa da alça de Henle, a qual possui o cotransportador Na+/K+/2Cl- na membrana luminal, transportando esses três íons do lúmen tubular para dentro das células. É justamente esse cotransportador que será inibido por fármacos diuréticos de alça (por exemplo, Furosemida). A compreensão do mecanismo dessas proteínas transportadoras ajudou a conhecer a ação de alguns fármacos, como os diuréticos de alça (por exemplo, a furosemida). Esses fármacos inibem justamente a proteína sódio/potássio/2-cloreto (que é responsável por grande parte da reabsorção desses eletrólitos na porção espessa da alça de Henle), promovendo uma expressiva redução na reabsorção desses eletrólitos. Além disso, o que justifica a furosemida ser o diurético mais potente é que essa porção tubular na qual age é a principal região diluidora do túbulo, que é impermeável à água. Vamos descrever com mais detalhes essa característica diluidora no capítulo 6. Além das vias de transporte iônico descritas, ocorre também a reabsorção de cálcio, magnésio, sódio e potássio por via paracelular na porção ascendente espessa, devido ao lúmen tubular ficar com carga ligeiramente positiva em relação ao interstício, por repulsão eletrostática. Essa carga positiva é criada pelo discreto refluxo dos íons potássio de volta ao lúmen tubular após reabsorção realizada pela cotransportadora sódio/potássio/2-cloreto (imagem 11). 4.3 Túbulo Distal Essa porção tubular é contínua com a porção ascendente espessa da alça de Henle e, apenas por questões didáticas, se inicia logo após ela. Sua função é receber o fluido tubular que veio da alça. A primeira parte do túbulo distal forma a mácula densa (abordada no capítulo 2). A mácula densa é um conjunto de células do epitélio do túbulo distal que possui modificações funcionais e faz parte do aparelho justaglomerular. Sua função é controlar a FG por meio do feedback tubuloglomerular, o que controla efetivamente o fluxo sanguíneo renal. A parte que vem em seguida é a contorcida e se assemelha com a porção ascendente espessa quanto à intensidade de reabsorção de solutos e relativa impermeabilidade à água. Tal propriedade denota a essa região um caráter diluidor, haja vista que quase não reabsorve a água presente no líquido tubular. Em oposição, essa parte reabsorve bastante sódio, potássio e cloreto, porém com intensidade menor que o ramo ascendente espesso. (imagem 12) Imagem 12: essa imagem ilustra uma célula do túbulo distal inicial, a qual tem muitas características das células do ramo ascendente espesso da alça de Henle. Reabsorve Na+, Cl-, Ca2+ e Mg2+, sendo praticamente impermeável à água. Um total de 5% do cloreto de sódio são reabsorvidos no início do túbulo distal devido à ação da cotransportadora sódio-cloreto. Essa proteína transmembrana é o sítio de ação dos diuréticos tiazídicos (por exemplo, a hidroclorotiazida) – fármacos de ação diurética e anti-hipertensiva utilizados para reduzir a pressão arterial, edema etc. –, a qual sofre inibição. Os eventos ocorridos nessa parte tubular incluem a absorção do cloreto de sódio para dentro da célula a partir do lúmen tubular, ao passo que a ATPase sódio-potássio transporta o sódio para fora da célula (imagem 13) e o cloreto se difunde de dentro da célula tubular até o interstício renal por meio dos canais de cloreto. Imagem 13: essa imagem mostra o transporte de cloreto de sódio na célula do início do túbulo distal. O Na+ e o Cl- são transportados do lúmen tubular para dentro da célula por cotransportador, que é inibido por diuréticos tiazídicos (por exemplo, hidroclorotiazida). Vimos que o magnésio tem 70% da sua reabsorção realizada no ramo espesso ascendente da alça de Henle, por via paracelular. Já nas células do túbulo distal existe um canal transportador na membrana luminal em que é específico para o magnésio, denominado TRPM. Esse canal é responsável pela reabsorção de cerca dos 20% restantes do magnésio (imagem 14). Imagem 14: essa imagem ilustra uma célula do túbulo contorcido distal e, em destaque, a reabsorção do magnésio, que é realizada por um canal transportador na membrana luminal específico para o magnésio, denominado TRPM. 4.4 Porção Final do Túbulo Distal e Túbulo Coletor Cortical Na continuidade das partes tubulares dos néfrons, surgem a segunda metade do túbulo distal e a porção cortical do túbulo coletor. Essas regiões são semelhantes, pois, além de serem bastante impermeáveis à ureia, possuem dois tipos celulares importantes (células principais e células intercaladas), que refletem as atribuições fisiológicas dessa região tubular (imagem 15). Imagem 15: essa imagem ilustra um corte do túbulo distal final e do túbulo coletor cortical, que possuem dois tipos distintos de célula: as células principais e as células intercaladas. 4.4.1 Células Principais As células principais reabsorvem sódio através do canal denominado ENaC e secretam potássio através do canal específico para potássio denominado ROMK, ambos presentes na membrana luminal. Esse transporte de reabsorção de sódio e secreção de potássio é possível graças à atividade das ATPases sódio-potássio presentes nas membranas basolaterais (imagem 16). Imagem 16: essa imagem ilustra uma célula do final dos túbulos distais e dos túbulos coletores corticais, além de ilustrar a reabsorção do Na+ e a secreção do K+. Note que a imagem evidencia também onde alguns fármacos agem, tais como os antagonistas da aldosterona (no meio intracelular, inibindo a sua ação) e os bloqueadores do canal de sódio (que inibem diretamente a entrada do Na+ nos canais de Na+). Além das atividades das ATPases sódio-potássio, existe um hormônio que é essencial para esse processo: a aldosterona. A aldosterona promove um estímulo nas ATPases sódio-potássio, as quais promovem a reabsorção de sódio e eliminação de potássio para o lúmen tubular (imagem 17). Este hormônio é produzido na zona glomerulosa da glândula adrenal. Existem situações que podem perturbar essa dinâmica, como, por exemplo, a hiperplasia adrenal congênita, na qual, por uma falha na adrenal, o indivíduo portador fica predisposto à hiponatremia (redução dos níveis sanguíneos de sódio) e hiperpotassemia (elevação dos níveis sanguíneos de potássio). Imagem 17: essa imagem evidencia o mecanismo de ação da aldosterona e os seus efeitos sobre a célula do túbulo distal, que irá reabsorver Na+ e secretar K+. De modo semelhante, ocorre a secreção de potássio do interstício para o lúmen tubular, que envolve necessariamente duas etapas: (1) o potássio entra na célula pela ATPase sódio-potássio – responsável por manter a concentração intracelular de potássio elevada. Já dentro da célula (2), o potássio transita pela membrana luminal por meio de canais iônicos a favor do seu gradiente de concentração, ou seja, em direção ao líquido tubular (no sentido oposto ao transporte do sódio). Alguns desses canais iônicos são os alvos de alguns fármacos anti-hipertensivos, pois diminuem a reabsorção de íons, como o sódio e o potássio, para assim reduzir a pressão arterial. São os denominados diuréticos poupadores de potássio, cujo principal representante é a Espironolactona. 4.4.2 Células Intercaladas Existem dois tipos células intercaladas no túbulo coletor: as células intercaladas alfa e beta. Ascélulas intercaladas alfa fazem secreção de íons hidrogênio para o interior do túbulo renal através dos transportadores hidrogênio-ATPase na membrana luminal. A saída de H+ para a luz do túbulo faz com que haja sua junção com a amônia (NH3), formando o íon amônio (NH4 +). A formação do íon amônio é a principal forma de eliminação de H+ pela urina, sendo o mecanismo responsável pelo processo final de acidificação urinária. Já na membrana basolateral da célula intercalada alfa há o trocador cloro- bicarbonato (Cl-/HCO3 -), que reabsorve o bicarbonato para o interstício e o cloro para o interior da célula. Posteriormente, esse cloro sai para a luz do túbulo e é eliminado junto com o amônio na forma de cloreto de amônio (ClNH4) (imagem 18). Imagem 18: essa imagem ilustra esquematicamente uma célula intercalada alfa. Note a presença do trocador cloro-bicarbonato (Cl-/HCO3 -), que reabsorve o bicarbonato para o interstício e o cloro para o interior da célula e, posteriormente, esse cloro sairá em direção ao lúmen tubular, sendo eliminado conjugado com o amônio, sob a forma de cloreto de amônio (ClNH4). Os íons hidrogênio são formados a partir da ionização do ácido carbônico (juntamente com os íons bicarbonato) – os quais derivaram da reação entre a água e o gás carbônico, expressa na reação química: CO2 + H2O ⇔ H2CO3 ⇔ H+ + HCO3 -. Esses íons hidrogênio serão secretados no túbulo e, para cada íon hidrogênio secretado, um íon bicarbonato fica disponível para a reabsorção, para que haja um equilíbrio de cargas (positivas e negativas) (imagem 19). Imagem 19: essa imagem evidencia esquematicamente uma célula principal e uma célula intercalada alfa, a qual secreta para o lúmen tubular o H+ e reabsorve o HCO3 -, bem como a secreção e reabsorção de outros íons. Já as células intercaladas beta funcionam como se fossem um “espelho” da célula intercalada alfa. Existe um trocador cloro-bicarbonato na membrana luminal (Cl-/HCO3 -), responsável por jogar o bicarbonato de dentro da célula para o lúmen tubular coletor, para ser excretado pela urina. Este mecanismo é importante em situações de alcalose metabólica, pois é uma forma de eliminar essa substância alcalina do organismo. Existe ainda um canal H+/ATPase na membrana basolateral (imagem 20). Imagem 20: essa imagem ilustra esquematicamente uma célula intercalada beta, com a presença trocador cloro-bicarbonato na membrana luminal (Cl-/HCO3 -) e o canal H+/ATPase na membrana basolateral. 4.5 Ducto Coletor Medular Essa região é responsável por reabsorver cerca de 10% da água e do sódio filtrados no glomérulo, sendo este o último local que irá processar a urina – no sentido de concentrá-la ou diluí-la. Assim, os ductos coletores medulares têm a função de determinar a quantidade final de água e solutos presentes na urina excretada. Algumas características dessa porção tubular merecem destaque: 1. Trata-se uma região permeável à água, mas essa permeabilidade é dependente e regulada mediante a presença do ADH (ou vasopressina) – hormônio antidiurético. O ADH é responsável por possibilitar a reabsorção de água do ducto coletor para dentro das células; isto é, se os níveis de ADH se elevam, a água será reabsorvida mais avidamente para o interstício medular, o que causa a diminuição do volume urinário final e, consequentemente, aumenta a concentração da urina com diversos solutos. Essa reabsorção de água por estímulo do ADH é realizada através dos canais de aquaporina. 2. Ao contrário do que ocorre no túbulo coletor cortical, o ducto coletor medular é permeável à ureia. Uma parcela dessa ureia será reabsorvida para o interstício, e isso é importante para que haja a elevação da osmolaridade na medula renal – o que auxilia no mecanismo de contracorrente e a formação de urina concentrada; 3. É uma região também capaz de secretar íons hidrogênio ativamente – contra o gradiente de concentração – à semelhança do túbulo coletor cortical, tendo assim um papel relevante no controle do equilíbrio ácido-básico. Em resumo, o que define se um soluto estará mais ou menos concentrado no líquido tubular é a intensidade que os néfrons irão reabsorver os solutos em questão em paralelo à reabsorção de água. Ou seja, se as porções tubulares dos néfrons reabsorverem maior quantidade de água e menor quantidade de soluto, este ficará mais concentrado na urina, na medida em que o oposto também é verdadeiro (imagem 21). Imagem 21: essa imagem ilustra esquematicamente um corte transversal do ducto coletor medular. Os ductos coletores medulares reabsorvem ativamente Na+, secretam H+ e são permeáveis à ureia. A reabsorção de água nessa região tubular é controlada pela concentração do ADH. Uma vez evidenciadas todas essas particularidades de cada porção tubular, percebemos a complexidade dos processos de reabsorção e secreção tubulares. Nesse sentido, como todo e qualquer processo fisiológico complexo, que requer etapas precisamente controladas, se faz necessário um sistema de modulação que regule tais processos. Tanto a filtração glomerular quanto a reabsorção tubular sofrem ação regulatória de diversos fatores nervosos, hormonais e locais. 5. MECANISMOS DE REGULAÇÃO DA REABSORÇÃO E SECREÇÃO 5.1 BALANÇO GLOMERULOTUBULAR Os túbulos renais têm a capacidade de controlar sua própria intensidade de reabsorção. Quanto maior for a quantidade de filtrado que chega aos túbulos, maior será a sua reabsorção – até um certo limite (devido ao transporte máximo). Esse fenômeno refere-se tanto ao aumento simultâneo na reabsorção de Na+ e água, bem como pelo aumento na TFG e na carga filtrada de Na+. Esse balanço é muito útil, pois ele evita que uma sobrecarga de volume chegue à porção tubular distal, caso porventura haja um aumento da FG. Portanto, pode-se considerar que o mecanismo do balanço glomerulotubular atua como uma “segunda linha de defesa” para tentar minimizar os efeitos das flutuações na FG sobre o débito urinário. Lembrem que a “primeira linha de defesa” para evitar sobrecargas de volume são os mecanismos autorregulatórios renais, sobretudo, o feedback tubuloglomerular realizado pelo aparelho justaglomerular, abordado no capítulo 4. Tanto a primeira quanto a segunda linha de defesa atuam juntas para evitar alterações bruscas na carga de filtrado que chega aos túbulos distais, como acontece na alteração da pressão arterial. 5.2 BALANÇO DE FORÇAS: CAPILAR VS INTERSTÍCIO O balanço entre as forças hidrostáticas e oncóticas ao longo dos capilares peritubulares são determinantes na intensidade e regulação da reabsorção tubular, ocorrendo de forma semelhante ao ocorrido com a FG ao nível dos glomérulos. Algumas mudanças na reabsorção capilar peritubular, como a alteração no trânsito de solutos e solvente, podem influenciar as pressões hidrostáticas e oncóticas do interstício renal e, dessa forma, alterar a intensidade de reabsorção da água e de demais solutos pelos túbulos renais. Na prática, ocorre que o balanço de favorecimento e oposição à reabsorção peritubular – fruto do somatório das forças hidrostáticas e oncóticas – cria uma pressão efetiva resultante de 10 mmHg, que é a pressão de reabsorção (imagem 22). A pressão hidrostática dos capilares peritubulares é influenciada por dois fatores: a pressão arterial e pelas resistências das arteríolas aferentes e eferentes, de modo que: Imagem 22: essa ilustração esquemática mostra um resumo das forças hidrostáticas e oncóticas que determinam a reabsorção de líquido pelos capilares peritubulares. 1. A pressão arterial sistêmica, quando aumentada, faz subir a pressão sanguínea renal e, por consequência, tende a elevar também a pressão hidrostática dos capilares peritubulares e a diminuir a intensidade da reabsorção. Esse efeito é minimizado pelos mecanismos autorregulatórios, responsáveis por manter o fluxo sanguíneo renal e as pressões hidrostáticas nos vasos sanguíneos renais mais ou menos constantes; 2. Quando ocorre um aumento da resistência vascular nas arteríolas aferentes ou eferentes, reduz a pressão hidrostáticados capilares peritubulares e tende a aumentar a intensidade de reabsorção, ainda que a constrição das arteríolas eferentes inicialmente aumente a pressão hidrostática capilar glomerular e faça aumentar a FG. Outro fator determinante da reabsorção capilar peritubular é a pressão oncótica do plasma nesses capilares, pois ela favorece a reabsorção dos capilares peritubulares. A pressão oncótica dos capilares peritubulares, por sua vez, pode ser determinada pela pressão oncótica plasmática sistêmica e pela fração de filtração. O aumento da concentração de proteínas no plasma sanguíneo faz crescer a pressão oncótica nos capilares peritubulares, o que contribui para aumentar a reabsorção, uma vez que as proteínas têm poder hidrofílico. Já pela fração de filtração ocorre o seguinte: quanto mais intensa é a FG, mais água e eletrólitos passam dos capilares glomerulares para a cápsula de Bowman e para os túbulos; consequentemente, as proteínas plasmáticas dentro dos capilares ficarão mais concentradas, pois não são livremente filtradas. Assim, o aumento da fração de filtração contribui para aumentar a intensidade de reabsorção dos capilares peritubulares. 5.3 EFEITOS DA PRESSÃO ARTERIAL E DÉBITO URINÁRIO Uma das formas dos néfrons regularem a quantidade e composição dos líquidos corporais é fazer variar o débito urinário, causando, dessa forma, um reflexo direto na pressão arterial (PA). Ou seja, fazendo variar a quantidade final de urina produzida, os rins acabam regulando os valores de PA. Tais mecanismos incluem justamente a natriurese e a diurese pressóricas – que consistem na excreção de sódio na urina e eliminação urinária de água para realizar depleção de volume, respectivamente –, tanto que, se houver qualquer discreta elevação na PA, os rins automaticamente trabalham no sentido de aumentar a excreção urinária de sódio e água na tentativa de reduzir esse aumento da pressão. Se a pressão arterial for aumentada, a pressão nas artérias renais se eleva e, consequentemente, eleva o débito urinário. Esse aumento do débito urinário faz com que a proporção de água e sódio filtrados que seriam reabsorvidos diminua. Tal sucessão de eventos acontece porque a pressão arterial elevada faz aumentar a pressão hidrostática nos capilares peritubulares, o que, por sua vez, aumenta a pressão hidrostática do líquido intersticial renal. Essa elevação de pressão intensifica o retorno do sódio para dentro do túbulo, fazendo com que a reabsorção efetiva de sódio e água seja reduzida e, assim, aumente ainda mais o débito urinário. Outro fator que contribui para a ocorrência da natriurese e diurese pressóricas é a redução da produção da angiotensina II. Essa substância é um peptídeo com potente ação vasoconstritora, cuja produção ocorre na circulação pulmonar, onde será convertida – por meio da enzima conversora de angiotensina (ECA) – a partir da angiotensina I. A angiotensina II tem também a função de aumentar a reabsorção de sódio pelos túbulos e estimular a secreção de aldosterona pela zona glomerulosa da córtex adrenal – cuja função é aumentar ainda mais a reabsorção de sódio. Ou seja, tanto a angiotensina II quanto a aldosterona são substâncias que fazem a PA se elevar. Portanto, quando a formação de angiotensina II for reduzida, haverá menos reabsorção tubular de sódio, que ocorre quando a pressão arterial está alta. 5.4 CONTROLE HORMONAL DA REABSORÇÃO E SECREÇÃO A ação hormonal de controle da reabsorção e secreção tubulares trabalha no sentido de garantir que ocorra uma precisa regulação dos volumes dos líquidos corporais e das concentrações dos solutos neles contidos. Os hormônios envolvidos em tal processo regulatório permitem que os rins reabsorvam e excretem maior ou menor quantidade de solutos e água, a depender, logicamente, das condições fisiológicas momentâneas de um indivíduo. Por exemplo, se um indivíduo tem uma quantidade elevada de sódio em seus líquidos corporais, o sistema renal trabalha no sentido de aumentar a excreção do sódio excedente, sem, no entanto, alterar a excreção normal dos demais eletrólitos, desde que estes não estejam com suas concentrações alteradas para mais ou para menos. 5.4.1 A Aldosterona Conforme abordado há pouco, a aldosterona é um hormônio produzido pela zona glomerulosa cortical adrenal. Esse hormônio age sobre as células principais dos túbulos coletores corticais e estimula as bombas (ou ATPases) sódio-potássio, na face basolateral da membrana do túbulo coletor cortical, fazendo com que haja a reabsorção de sódio em troca da secreção de potássio (imagem 19). Dois são os fatores que fazem a aldosterona ser secretada: (1) o aumento da concentração de potássio extracelular – pois as células secretoras de aldosterona no córtex adrenal são muito sensíveis às alterações do potássio extracelular –, e (2) o aumento da concentração da angiotensina II – situação que ocorre, por exemplo, quando um indivíduo está hipotenso, ou seja, quando sofre depleção de sódio ou de volume. 5.4.2 A Angiotensina II A angiotensina II, conforme também já abordado, é uma substância que promove a intensa retenção de água e sódio no organismo, fazendo, dessa forma, que ela tenha a capacidade de elevar a pressão arterial. Tal sucessão de eventos ocorre devido a alguns mecanismos: (A) a angiotensina II estimula a secreção de aldosterona pelo córtex renal e este, por sua vez, tem a capacidade de promover diretamente o aumento da reabsorção tubular de sódio; (B) a angiotensina II induz a contração das arteríolas eferentes, o que causa dois efeitos importantes para a reabsorção de água e sódio ao nível dos capilares peritubulares: (1º) a contração da arteríola eferente reduz a pressão hidrostática dos capilares peritubulares devido ao menor fluxo que passará por eles, e isso aumenta a reabsorção tubular efetiva, pois como este fluxo estará reduzido, o néfron “entenderá” que precisa aumentar o volume nesses capilares. Como ele irá aumentar esse volume dentro dos capilares? Aumentando a reabsorção de sódio de água. (2º) a contração da arteríola eferente também eleva a FG. Com esse aumento, as proteínas nos capilares ficarão mais concentradas, porque muito solvente foi filtrado. Em consequência, haverá um aumento na pressão oncótica nos capilares peritubulares, devido à retenção dessas proteínas, fazendo com que a força de reabsorção nos capilares peritubulares se eleve e aumente, assim, a reabsorção tubular de sódio e água; (C) a angiotensina II estimula diretamente a reabsorção de sódio nos túbulos proximais, alças de Henle, túbulos distais e coletores. Isso acontece devido ao seu estímulo direto sobre a sódio-potássio ATPase das células tubulares (imagem 23). Além disso, estimula a permuta entre o sódio e o hidrogênio – mediado pela bomba sódio-hidrogênio na membrana luminal do túbulo proximal –, bem como o cotransporte de sódio e bicarbonato através do epitélio tubular. Imagem 23: essa imagem ilustra como a angiotensina II estimula diretamente a reabsorção de sódio nos túbulos proximais, alças de Henle, túbulos distais e coletores. 5.4.3 O ADH O ADH tem a função de aumentar a reabsorção de água nos túbulos distais e coletores, fazendo com que essa região se torne mais permeável à água. Esse mecanismo de ação do ADH é indispensável para que o organismo não desidrate, ou seja, para que a depleção intensa de água na urina seja evitada (por exemplo, na desidratação). Caso algum evento faça reduzir a secreção desse hormônio, a permeabilidade dessas regiões tubulares à água também é reduzida, e isso permite que uma grande quantidade de água seja perdida por meio da urina diluída. O ADH age se ligando aos receptores V2 – presentes nas membranas das células da porção final dos túbulos distais, túbulos coletores e ductos coletores –, aumentando a formação de AMPc, o que leva à ativação de uma cascata enzimática. Essa ativação estimula o transporte de uma proteína intracelular, a aquaporina 2 (AQP-2), para o lado luminal das membranas celulares. Por fim, as AQP-2 se fundem à membranaplasmática celular e formam canais transportadores das moléculas de água, o que permite sua rápida difusão dos túbulos para dentro das células (imagem 24). Imagem 24: essa imagem ilustra uma célula do túbulo coletor e o mecanismo de ação do ADH nessa célula, promovendo a formação de canais transportadores de água – aquaporinas –, tornando os túbulos coletores à água. 5.4.4 O Peptídeo Natriurético Atrial (PNA) O PNA é uma substância produzida por células dos átrios cardíacos quando ocorre expansão do volume sanguíneo e, consequentemente, os átrios se distendem. Quando a volemia se eleva e promove a distensão atrial, a concentração sérica desse peptídeo aumenta e faz com que a reabsorção de sódio e água pelos túbulos renais, principalmente nos ductos coletores, seja diretamente inibida. Esse peptídeo também promove a inibição da secreção da renina. Com menos renina, a formação de angiotensina II fica comprometida, o que por sua vez também contribui para a redução da reabsorção tubular renal. Ou seja, uma vez reduzida a reabsorção de água e sódio, o volume sanguíneo retorna aos níveis normais e a quantidade final dessas substâncias presentes na urina será maior. 5.5 CONTROLE PELO SISTEMA NERVOSO SIMPÁTICO A ativação do sistema nervoso autonômico simpático não costuma, na prática, ser tão proeminente, mas caso seja intensa o suficiente, pode promover uma série de eventos que resultem no aumento da PA. Para isso, o sistema renal irá realizar mecanismos que tornem esse aumento possível. Basta pensar da seguinte forma: para causar o aumento da PA, é necessário aumentar a reabsorção de água e eletrólitos e reduzir a FG. Então, o sistema nervoso simpático irá ajudar os rins a fazer isso por três vias básicas: (1) contração das arteríolas renais, (2) redução da excreção de água e sódio e (3) aumentar a reabsorção de sódio no túbulo proximal e no ramo ascendente espesso da alça de Henle. A ação do sistema nervoso simpático sobre os túbulos renais é possível graças à ação dos hormônios adrenérgicos, que fazem ativação nos receptores α-adrenérgicos presentes nas células epiteliais dos túbulos renais. Essa ativação também aumenta a liberação de renina e, consequentemente, a formação de angiotensina II, levando basicamente ao aumento da reabsorção tubular de solutos. REFERÊNCIAS IMAGENS 1. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 3. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 4. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 5. GOOGLE IMAGENS. Disponível em (adaptado): <https://slidex.tips/download/mecanismos-renais-de-absorao-e- equilibrio-acido-basico https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQwjRH-6rZviSo8AVUwuayrvb83oy- QZz8-w9TpabLaEIut2na5Hw>. Acesso em: 02 abr. 2019. 6. GOOGLE IMAGENS. Disponível em (adaptado): <http://www.medicinanet.com.br/imagens/20131018163921.jpg>. Acesso em: 02 abr. 2019. 7. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 8. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 9. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 10. GOOGLE IMAGENS. https://multimedia.elsevier.es/PublicationsMultimediaV1/item/multimedia/thumbnail/X201325141405371X:12230_160 25_54593_en_f112230.jpg>. 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BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. 4. HALL, J. E; GUYTON & HALL. Tratado de Fisiologia Médica, 12 ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2011. 5. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2012. 6. SILVERTHORN, Dee U.; Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 7. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 8. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. 9. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J.; ABRAHAMSOHN, P. Histologia básica: texto e atlas. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 6 CONCENTRAÇÃO E DILUIÇÃO DA URINA 1. CASO CLÍNICO Tais é uma paciente do sexo feminino, 14 anos de idade, que comparece ao hospital regional do município onde reside acompanhada da sua mãe, dona Alana, com queixa de poliúria, polidipsia, incluindo noctúria há cerca de 7 meses. A mãe relata que “depois de grande, essa menina deu pra voltar a fazer xixi na cama, Doutora”, afirmando que a mesma “deixou fazer xixi na cama quando tinha 6 anos de idade”. A Dra. Esther questionou a Tais e a sua mãe se houve perda de peso associada ou se alguém na família era portadora de diabetes mellitus (DM), o que foi negado por ambas. Negou também polifagia, alterações do nível de consciência. Referiu que tem bebido, em média, cerca de 7 L de água diariamente, porém não soube quantificar a diurese, embora tenha relatado que “nunca fez tanto xixi na vida”. Negou quaisquer outras queixas e no interrogatório sistemático não havia nenhuma informação digna de nota, à exceção dos sinais e sintomas apresentados. Dra. Esther realizou o exame físico na paciente, que apresentava P: 42Kg, H: 1,55m (IMC: 17,5Kg/m²), PA: 88x56 mmHg. O exame físico segmentar não apresentou quaisquer alterações. O estadiamento de Tanner estava adequado para idade. Então, a médica plantonista solicitou alguns exames laboratoriais e uma ultrassonografia (USG) de rins e vias urinárias. Após algumas horas, teve acesso aos resultados: hemograma (Hb: 12,3mg/dL, Ht: 38%, Leucócitos: 5,900, sem desvios). Glicemia capilar: 106 mg/dL, Ureia: 14mg/dL, Creatinina: 0,7 mg/dL, Na+: 140 mEq/L, K+: 3,6 mEq/L. Gasometria venosa (pH: 7,362; pCO2: 52; HCO3 -: 30,2;BE: +5,2). Exame de urina normal e uma USG de rins e vias urinárias que evidenciou: rins com volume e contornos habituais, normais para a idade e de ausência de sinais de cálculos. Após chegada dos exames, a Dra. Esther pensou na possibilidade de estar diante de um quadro de diabetes insipidus e, por isso, preferiu encaminhar a paciente para uma unidade de referência em nefrologia que ficava na capital do seu Estado, para que lá fosse dado o seguimento do caso. Explicou tanto à dona Alana quanto à Tais que poderia se tratar de uma doença causada por deficiência de um hormônio que o encéfalo produzia, mas que pode ter parado de produzir por algum motivo e seria necessário realizar alguns exames, tais como dosagem de vasopressina e da osmolaridade plasmática, bem como uma tomografia computadorizada (TC) de crânio, além do teste de privação hídrica. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Poliúria; Polidipsia; Noctúria; Polifagia; Diabetes mellitus; Diurese; Sinais e Sintomas; Interrogatório sistemático; Estadiamento de Tanner; Gasometria venosa; USG de rins e vias urinárias; Diabetes insipidus; Vasopressina; Osmolaridade plasmática; TC de crânio; Teste de privação hídrica. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Poliúria; Polidipsia; Noctúria há ± 7 meses; Sem perda de peso; Polifagia associada; Sem história familiar de DM; PA: 88x56 mmHg; Gasometria venosa alterada; Diabetes insipidus. 2. INTRODUÇÃO Um dos eventos evolutivos mais incríveis no reino animal que já ocorreu no nosso planeta, sem sombra de dúvidas, foi a conquista do ambiente terrestre. Foi um evento fundamental para a continuidade de diversas espécies animais e para permitir um aumento no grau de complexidade e organização estrutural desses seres vivos. Acontece que, para conquistar essas terras emersas, foi necessário um desafio imenso – uma vez que dentro do ambiente aquático a “preocupação” do organismo com a desidratação, por exemplo, era mínima –, partindo do princípio de que, provavelmente, a vida em nosso planeta se originou no ambiente aquático. Por isso, para conquistar ambientes com menos disponibilidade de água, era necessário que surgisse um mecanismo que evitasse a desidratação desse organismo. Então, surgiu um sistema de regulação bastante preciso que conferiu equilíbrio à concentração e ao volume dos líquidos corporais – que passou a ser nosso ambiente aquático interno. É justamente neste ponto que o sistema renal ganha mais esse papel de destaque: a capacidade dos rins concentrarem ou diluírem a urina antes de excretá-la – conforme à necessidade corpórea em uma dada situação. Ou seja, a depender de o organismo estar desidratado ou hiper-hidratado, os rins permitem ao corpo adaptar-se frente a essas situações, modificando a concentração da urina que será eliminada, sem alterar bruscamente a osmolaridade dos líquidos corporais. Mas como assim? Muito simples de entender. Na prática, esses eventos acontecem devido a quatro mecanismos adaptativos básicos: (1) os rins são capazes de excretar uma urina mais diluída, como forma de eliminar a água que está em excesso nos compartimentos corporais; (2) os rins são capazes de excretar uma urina mais concentrada, como forma de preservar a água que está em escassez nos compartimentos corporais; (3) os rins são capazes de se autorregular (através de mecanismos renais de feedback), fazendo com que a osmolalidade do sódio extracelular seja ajustada; (4) o corpo humano é dotado de reflexos da sede e do apetite por sal. Esses reflexos permitem o organismo a, instintivamente, ter apetite por sais e/ou ter vontade de beber água, o que ajuda a controlar a osmolalidade extracelulares e o volume dos líquidos corporais. 3. EXCREÇÃO RENAL DE H2O vs URINA DILUÍDA Algumas condições clínicas fazem com que os compartimentos corporais estejam com alto volume de líquidos – por exemplo, estados de hiper-hidratação que acontecem em pacientes em que se realiza hidratação parenteral excessiva ou pacientes portadores de doença renal que não conseguem eliminar a sobrecarga de volume da maneira apropriada. Esse excesso de volume causa uma diluição dos líquidos corporais e uma redução da sua osmolaridade. O oposto também é verdade. Quando um paciente está desidratado, seus líquidos corporais estarão com a osmolaridade aumentada. Portanto, é necessária uma capacidade adaptativa dos rins frente a essas variações de volume e osmolaridade dos líquidos corporais, seja produzindo urina concentrada ou diluída, a depender do evento adverso o qual o organismo esteja submetido. Na prática, funciona da seguinte forma: como a osmolaridade do plasma – que é igual à do filtrado glomerular – é de 300 mOsm/L, quando um paciente está desidratado, os rins tentam preservar o máximo de água possível, aumentando a osmolaridade do líquido extracelular. Dessa forma, haverá a produção e eliminação de uma urina bastante concentrada em solutos, cuja osmolaridade máxima final pode variar entre 1.200-1.500 mOsm/L (cerca de 5 vezes mais concentrado do que o plasma sanguíneo). Aí você pode até se perguntar: “não seria mais fácil eliminar os solutos para reduzir a osmolaridade dos líquidos corporais”? Acontece que os solutos (ou eletrólitos) – Na+, K+, Ca2+ e PO4 3- – são importantes demais às diversas funções celulares para serem eliminados, conforme serão também descritas no capítulo 7. Por isso que a melhor estratégia nesse sentido é eliminar uma urina de pequeno volume e bastante concentrada. O mesmo raciocínio de preservação dos eletrólitos valerá quando os rins eliminarem urina diluída devido à hiper-hidratação – ou seja, o corpo prioriza eliminar ou conservar o solvente, não o soluto! Portanto, nesses casos, os rins conseguem formar um grande volume de urina e com osmolaridade final baixa – para valores de até 50 mOsm/L (cerca de 6 vezes mais diluído do que o plasma sanguíneo) –, o que representa uma urina bastante diluída. 3.1 O ADH e Seu Papel Sobre a Concentração Urinária O processo de diluição da urina sofre grande influência da ação do hormônio antidiurético (ADH) – ou vasopressina. É uma substância orgânica produzida no hipotálamo, secretada pela hipófise posterior na corrente sanguínea e sua função é possibilitar a reabsorção da água nos túbulos distais e ductos coletores (porções distais dos néfrons). Seu mecanismo de ação já foi detalhado no capítulo 5. Já vimos que o hipotálamo, através dos núcleos supraóptico e paraventricular, produz o ADH e, posteriormente, será armazenamento na hipófise posterior e secretado em maior ou menor grau, a depender da condição apresentada pelo indivíduo. Por exemplo, quando um paciente está desidratado – a osmolaridade dos seus líquidos corporais está elevada, ou seja, quando os eletrólitos do líquido extracelular estão bastante concentrados –, a hipófise posterior responde a esse evento secretando mais ADH do que o normal até que chegue nas células dos túbulos distais e ductos coletores, via corrente sanguínea, e aumente a permeabilidade dessa zona tubular do néfron à água. Isso irá favorecer a reabsorção da água e, consequentemente, reduzir o volume final da urina (sem alterar a concentração e excreção dos íons). Em oposição, quando o corpo estiver hiper-hidratado, com sobrecarga de volume nos compartimentos corporais, a osmolaridade do líquido extracelular é reduzida, e a hipófise posterior, em resposta a esse evento, secreta menos ADH. Uma vez que o ADH seja pouco secretado, a permeabilidade dos túbulos distais e ductos coletores à água será reduzida, o que faz os rins eliminarem um grande volume de urina. 3.2. Processo de Formação e Excreção da Urina Diluída Os rins podem chegar a eliminar, diariamente, até 20 L de urina diluída quando os compartimentos corporais estão com água em excesso. Basicamente, os rins deixam de reabsorver uma quantidade considerável de água nas porções finais dos néfrons (porção final do túbulo distal e os ductos coletores) – sendo que essa região sofre bastante influência da ação do ADH – e continuam reabsorvendo normalmente os íons. Após o plasma chegaraos glomérulos, haverá a filtração glomerular e a formação do filtrado glomerular, cuja osmolaridade é idêntica à do plasma (300 mOsm/L). Então, o filtrado irá transitar por toda extensão dos túbulos renais e sua concentração será modificada ao longo de todo esse trajeto, devido à reabsorção dos eletrólitos. Esse processo de reabsorção é responsável por ajudar no processo de diluição do filtrado glomerular, fazendo com que a água que estava em excesso nos compartimentos corporais seja eliminada por meio da urina diluída (imagem 1). Imagem 1: essa imagem ilustra um néfron e a formação da urina diluída quando os níveis do ADH estão muito baixos. Os valores numéricos na imagem estão em mOsm/L. Note que o líquido tubular do ramo ascendente da alça de Henle fica bastante diluído. Nos túbulos distais e nos túbulos coletores, o líquido tubular fica ainda mais diluído pela reabsorção contínua do NaCl e pela ineficiência na reabsorção de água quando os níveis do ADH estão muito baixos, fazendo com que a urina final produzida seja de grande volume e muito diluída. 1. Túbulo Proximal – Líquido Tubular Permanece Isosmótico • No túbulo proximal, a água e os íons filtrados serão reabsorvidos em proporções diferentes, de forma que, no final desse processo, a osmolaridade final do líquido tubular na parte final do túbulo proximal continue a mesma do plasma sanguíneo: 300 mOsm/L. 2. Ramo Descendente da Alça de Henle – Líquido Tubular será Concentrado • Devido à alta permeabilidade à água dessa região, a água contida no líquido tubular será reabsorvida por osmose. Esse evento ajuda a aumentar a concentração do líquido tubular resultante, sendo que esse aumento é suficiente para torná-lo isosmótico com o interstício local – ou seja, o líquido tubular e o líquido intersticial próximo à medula renal entram em equilíbrio osmótico. • Como a medula renal é bastante hipertônica (com a osmolaridade elevada), na medida em que o líquido tubular transita por essa região, ele irá se tornar cada vez mais concentrado – pelo fato de a água ser bastante reabsorvida nesse ramo. 3. Ramo Ascendente da Alça de Henle – Diluição do Líquido Tubular • Diferentemente do ramo descendente, o ramo ascendente (em especial, o segmento espesso) é impermeável à água e bastante permeável aos íons. Por isso, os íons serão reabsorvidos nessa região tubular e, na medida em que o líquido tubular flui em direção às porções mais distais do néfron, vai ficando cada vez mais diluído e sua osmolaridade se torna cada vez menor. Perceba que é a situação oposta à que vimos no ramo anterior, ou seja, quanto mais os íons forem reabsorvidos, mais água e menos íons ficam no líquido tubular resultante e, portanto, mais diluído ele será. A porção espessa ascendente da Alça de Henle é a principal porção diluidora do túbulo renal. Essa informação é crucial para entender o mecanismo de contracorrente que vamos abordar mais adiante. • A impermeabilidade desse ramo não depende da presença do ADH (diferente das porções distais do néfrons), pois é uma região na qual suas células não sofrem o mecanismo de ação desse hormônio. Isso significa que, o ADH esteja presente ou ausente, o líquido tubular que chega ao túbulo distal sempre será hiposmótico (com osmolaridade baixa). 4. Túbulos Distais e Ductos Coletores – Diluição do Líquido Tubular na Ausência do ADH • Ao passo que o líquido tubular chega no início do túbulo distal, região contorcida distal e ductos coletores, mais íons serão reabsorvidos (em especial o NaCl) devido à presença de vários carreadores nas membranas das células tubulares dessas regiões, fazendo com que o líquido tubular se torne ainda mais diluído do que quando chegou – o que ainda pode ser potencializado na ausência do ADH. • Acontece que algumas situações inibem a neurohipófise de secretar o ADH (por exemplo, quando um indivíduo bebe uma quantidade considerável de bebida alcoólica) e, uma vez ausente, essas regiões tubulares permanecerão impermeáveis à água. Além de não haver essa reabsorção de água, os eletrólitos serão reabsorvidos, o que faz com que o líquido tubular fique ainda mais diluído. 4. CONSERVAÇÃO RENAL DE H2O vs URINA CONCENTRADA Vamos imaginar agora a situação oposta. Um indivíduo que está privado de ingerir água pelo motivo que for, ou quando estiver desidratado, o seu sistema renal trabalha no sentido de conservar o máximo de água possível nos compartimentos corporais e excretar o máximo de solutos e íons possível, produzindo urina concentrada. Lembrem que, quando dizemos que a urina produzida será concentrada ou diluída, a comparação está sendo feita com a osmolaridade plasmática. Essa estratégia do sistema renal garante que o organismo se adapte às perturbações que aumentem a osmolaridade dos líquidos corporais. Ou seja, o objetivo final é garantir que a concentração e o volume dos líquidos corporais não sofram alterações drásticas com o evento perturbador que, nesse caso, é a privação hídrica ou uma desidratação. A todo instante estamos perdendo água por vários meios (suor, urina, fezes, trocas gasosas ao nível dos alvéolos pulmonares etc.). Inclusive já falamos disso no capítulo 3. Contudo, isso nos faz pensar que temos um sistema regulatório bastante eficiente e constante para garantir que não desidratemos com facilidade – mantendo o equilíbrio entre a perda e o ganho de H2O. Além disso, ingerimos água sob variadas formas (alimentos, água propriamente dita e diversos outros líquidos) para tentar equilibrar esse déficit hídrico diário. Na prática, quando um indivíduo está desidratado, os rins aumentam a excreção de solutos e a reabsorção de água – gerando, no fim do processo, uma urina concentrada e de pouco volume. Essa urina produzida pode alcançar a osmolaridade máxima final de aproximadamente 1.500 mOsm/L (5 vezes mais concentrado que o plasma e os líquidos teciduais). 4.1 Níveis de ADH vs Medula Renal Hiperosmolar Já sabemos que o ADH promove a reabsorção de água nas porções distais do néfron, contribuindo para a produção de urina concentrada – por aumentar a permeabilidade dessa região tubular à água –, além do líquido intersticial da medula renal estar bastante concentrado em solutos (íons e outras substâncias osmolares). Esse interstício medular precisa necessariamente estar bastante osmolar (com alta concentração de solutos), pois isso garante o surgimento de um gradiente osmótico entre o interstício e o lúmen tubular, o que contribui para a água ser ainda mais reabsorvida, associado à presença do ADH. Então, a água é reabsorvida da luz tubular para o interstício renal por osmose através da membrana das células tubulares, devido à presença do ADH, e posteriormente do interstício renal até os vasos retos. Lembrem que o interstício medular renal bastante concentrado está ao redor dos ductos coletores. Nunca se esqueça que os solutos têm o poder de atrair a água, e isso permite que o trânsito do solvente aconteça nesse sentido descrito. A característica hiperosmolar da medula renal é devida ao mecanismo de contracorrente, que será melhor abordado logo em seguida. No entanto, esse processo basicamente tem como objetivo reabsorver intensamente os solutos para o interstício medular renal, para que o mesmo permaneça constantemente hiperosmolar. Algumas características dos túbulos renais ajudam na eficácia do mecanismo de contracorrente em manter o ambiente medular hiperosmolar: 1. Ocorre o transporte ativo de Na+ e cotransporte de íons K+, Cl- e outros íons na porção espessa do ramo ascendente da alça de Henle para o interstício medular. Essa região é permeável aos íons e impermeável à água, lembram?; 2. Ocorre o transporte ativo de íons de dentro dos ductos coletores para o interstício medular; 3. Ocorre a difusão facilitada de grande quantidade de ureia dos ductos coletores para o interstício medular (notem que, até este item, apenas os solutos estão sendo reabsorvidos, o que faz aumentar a osmolaridade do interstício medular renal); 4. Ocorre a difusão de uma discreta quantidade de água dostúbulos medulares para o interstício medular (devido ao gradiente osmótico criado), porém em uma quantidade muito menor do que os solutos reabsorvidos para o interstício medular. 4.2 Importância da Alça de Henle para o Mecanismo de Contracorrente A alça de Henle tem um papel fundamental para o mecanismo de contracorrente, porque boa parte da sua porção ascendente é muito permeável aos solutos, permitindo assim uma intensa reabsorção de solutos para o interstício medular. A reabsorção do túbulo para o interstício irá acontecer por transporte ativo de Na+, por cotransporte de K+, Cl- e alguns outros íons (em especial no ramo ascendente espesso), que é a causa mais importante da elevada osmolaridade medular. Essa dinâmica inicial é responsável por criar um gradiente osmótico entre o túbulo e o líquido intersticial de aproximadamente 200 mOsm/L. Como o ramo ascendente espesso é quase totalmente impermeável à água, haverá muito mais solutos reabsorvidos do que água reabsorvida proporcionalmente, o que também contribui para a hiperosmolaridade medular. Além disso, a porção delgada ascendente também é impermeável à água, na qual ocorre a reabsorção do NaCl, promovendo mais elevação da osmolaridade do interstício medular renal. Em oposição, o ramo descendente da alça de Henle é bastante permeável à água, o que faz a água ser reabsorvida para o interstício medular hiperosmolar. Então, nesse segmento tubular, a osmolaridade do líquido tubular se torna rapidamente igual à osmolaridade da medula renal. Isso faz com que, na medida em que o líquido tubular flui pelo ramo descendente da alça de Henle, a água vá se difundindo do túbulo para o interstício, aumentando gradativamente a osmolaridade do líquido tubular. 4.3 Etapas do Sistema Multiplicador de Contracorrente Como se trata de um mecanismo complexo e dinâmico, nós dividiremos didaticamente em sucessivas etapas para o seu melhor entendimento. A (imagem 2) vai nos guiar durante a explicação das etapas, então esteja atento a ela. Imagem 2: essa imagem esquematiza o sistema multiplicador de contracorrente na alça de Henle, responsável por produzir a medula renal hiperosmótica, sendo que os valores numéricos destacados estão em mOsm/L. O interstício medular renal hiperosmótico é gerado através do sistema multiplicador de contracorrente e logo mais vocês entenderão o porquê de ser um sistema “multiplicador”. Você já sabe que o líquido tubular que chega à alça de Henle (derivado do filtrado glomerular) possui a osmolaridade média de 300 mOsm/L. O início do processo que faz o líquido tubular ficar com a mesma osmolaridade que o interstício medular renal, de cerca de 300 mOsm/L, é justamente a etapa 1. Em seguida, os íons do líquido tubular sofrerão bombeamento ativo no segmento ascendente espesso da alça de Henle, levando ao aumento da osmolaridade do interstício medular e à diminuição da osmolaridade do líquido tubular. Esse bombeamento cria um gradiente de concentração de aproximadamente 200 mOsm/L entre o líquido tubular e o líquido intersticial, como mostra a etapa 2 na (imagem 3). Imagem 3: essa imagem ilustra as etapas 1 e 2 do sistema multiplicador de contracorrente. Na etapa 3 irá ocorrer um rápido equilíbrio osmótico entre o líquido tubular e o líquido intersticial (devido à osmose da água em direção ao interstício hiperosmolar, na parte descendente da alça de Henle). Em paralelo, a osmolaridade intersticial ficará sendo mantida em torno de 400 mOsm/L, através do transporte iônico contínuo para o interstício medular na parte espessa ascendente da alça de Henle, associado ao transporte ativo do NaCl para o interstício – criando um gradiente de concentração de 200 mOsm/L (imagem 4). Imagem 4: essa imagem mostra a etapa 3 adicionada ao sistema multiplicador de contracorrente. Na etapa 4 ocorre a chegada de um fluxo adicional de líquido tubular proximal para a alça de Henle, empurrando o líquido da porção descendente para a porção ascendente da alça. Em outras palavras, o líquido hiperosmótico recém-formado no ramo descendente será drenado para o ramo ascendente. Uma vez chegado no ramo ascendente, os íons do líquido tubular sofrerão bombeamento adicional em direção ao interstício e a água será retida no túbulo até que o gradiente osmolar entre o túbulo e o interstício permaneça em torno de 200 mOsm/L, porém note que o líquido intersticial agora teve sua osmolaridade aumentada para 500 mOsm/L, como mostra a etapa 5 (imagem 5). Imagem 5: essa imagem mostra as etapas 4 e 5 adicionada ao sistema multiplicador de contracorrente. Novamente ocorrerá um equilíbrio osmótico entre o líquido tubular no ramo descendente com o líquido intersticial medular hiperosmótico (devido à osmose da água em direção ao interstício), o que mostra a etapa 6 (imagem 6). Vale destacar que esse equilíbrio acontece em paralelo ao bombeamento ativo dos íons para o interstício na região ascendente da alça de Henle, exatamente como na etapa 3. Ou seja, enquanto esse líquido tubular hiperosmótico flui do ramo descendente para o ascendente da alça de Henle, mais solutos serão bombeados em direção ao interstício medular, contribuindo para o aumento progressivo da osmolaridade do interstício medular. Imagem 6: essa imagem mostra a etapa 6 adicionada ao sistema multiplicador de contracorrente. Então, essas etapas de 4 a 6 ocorrerão sucessivas vezes, fazendo com que cada vez mais solutos sejam transferidos para interstício medular e essa quantidade seja proporcionalmente muito maior que a água adicionada ao interstício medular (imagem 7). Com essa grande quantidade de solutos adicionados à medula, é criada uma multiplicação do gradiente de concentração – sobretudo pelo bombeamento iônico em direção ao interstício medular adjacente à alça de Henle – aumentando a osmolaridade do líquido intersticial para cerca de 1.200 até 1.500 mOsm/L, como mostra a etapa 7. Imagem 7: essa imagem mostra o resultado final da osmolaridade medular, após as etapas de 4 a 6 ocorrerem sucessivas vezes, fazendo com que cada vez mais solutos sejam transferidos para o interstício medular. Na medida em que essas etapas vão acontecendo, o NaCl será sucessivamente reabsorvido no ramo ascendente espesso da alça de Henle (permeável aos íons) e cada vez mais NaCl chegará, através do líquido tubular adicional e contínuo, do túbulo proximal para a alça de Henle. Esse processo é denominado multiplicador de contracorrente, justamente porque o NaCl, além de ser reabsorvido para o interstício medular, é somado constantemente ao NaCl adicional que veio do túbulo proximal e, dessa forma, “multiplica” sua concentração no interstício medular (imagem 8) Imagem 8: essa imagem evidencia o interstício medular hiperosmolar, após as etapas de 4 a 6 ocorrerem sucessivas vezes, e o NaCl ser sucessivamente reabsorvido no ramo ascendente espesso da alça de Henle, potencializando a hiperosmolaridade medular, causando uma multiplicação do sistema de contracorrente. 4.4 Importância do Túbulo Distal e dos Ductos Coletores Após o líquido tubular sair da alça de Henle e alcançar o túbulo contorcido distal, já ao nível do córtex renal (imagem 9), ele chega bastante diluído, cuja osmolaridade é de mais ou menos 100 mOsm/L, devido ao mecanismo de hiperconcentração do interstício medular renal. Acontece que a porção inicial do túbulo distal dilui ainda mais esse líquido tubular, devido ao bombeamento ativo do NaCl para fora do túbulo, além de ser muito impermeável à água. Imagem 9: essa imagem ilustra um néfron e a formação da urina concentrada quando os níveis do ADH estão elevados. Note que o líquido que sai da alça de Henle está diluído, mas vai ficando concentrado na medida em que a água é reabsorvida nos túbulos distais e coletores. Quando o ADH está elevado, a osmolaridade final da urina é tão alta quanto o líquido intersticial medular (cerca de 1.200 mOsm/L). Após o líquido tubular chegar aos túbulos e ductos coletores, duas situações distintas podem acontecer, a depender da presença ou ausência do ADH: (1)Quando o ADH está ausente, o túbulo coletor fica impermeável à água e é incapaz de realizar sua reabsorção, porém a reabsorção dos solutos continua ocorrendo – o que contribui para diluir ainda mais a urina; (2) Quando o ADH está presente, o túbulo coletor fica com alta permeabilidade à água. Assim, ela passa a ser reabsorvida intensamente do túbulo para o interstício cortical e, posteriormente, reabsorvida rapidamente pelos capilares peritubulares. Avaliando os aspectos vistos até agora, percebemos que, como uma grande quantidade de água é reabsorvida no córtex (e não na medula renal), a manutenção do interstício medular hiperosmolar é garantida. Por outro lado, como o ADH promove o aumento da permeabilidade à água nos ductos coletores medulares, haverá uma rápida reabsorção da água para o interstício e, em seguida, para os vasos retos, sendo que a urina produzida tenha uma osmolaridade semelhante ao interstício medular – cerca de 1.200 mOsm/L. Ou seja, quem “decide” se a urina final produzida será concentrada (de alta osmolaridade) ou diluída (de baixa osmolaridade) é o ADH. 4.5 Papel da Ureia para Formação do Interstício Medular Hiperosmótico Além da importância que o Na+ tem na formação da medula renal hiperosmolar, a ureia também tem seu papel de destaque nesse processo. A ureia é fornecida ao corpo a partir do metabolismo proteico celular e também pela ingesta diária de proteínas. Ela é capaz de fornecer até 600 mOsm/L de concentração a mais para o interstício medular renal durante o processo de formação da urina maximamente concentrada. A ureia é reabsorvida passivamente pelos túbulos, em oposição ao sódio e outros íons, cujos transportes são ativos. Sua intensa reabsorção passiva nos ductos coletores medulares também sofre dependência da presença do ADH e acontece da seguinte maneira: (1) A ureia é muito pouco reabsorvida, à medida que o líquido tubular flui do segmento espesso ascendente até os túbulos distais e coletores corticais, devido à considerável impermeabilidade desses segmentos tubulares à ureia. Como já sabemos, quando o ADH está presente em altas concentrações, a água é reabsorvida de forma intensa nos túbulos coletores corticais, fazendo com que o líquido tubular resultante fique muito concentrado em ureia; (2) O líquido tubular então drena para os ductos coletores medulares internos e mais reabsorção de água irá ocorrer, o que faz a concentração da ureia no líquido tubular aumentar ainda mais. Acontece que, quando chega um determinado ponto, a osmolaridade da ureia fica tão elevada, mais tão elevada no líquido tubular, que ela começa a se difundir para fora do túbulo, a favor do gradiente de concentração – ou seja, do meio mais concentrado (líquido tubular) para o menos concentrado (interstício renal); (3) A ureia tem trânsito facilitado através das células tubulares e o seu transporte é realizado por difusão facilitada, por meio de transportadores específicos de ureia. Um desses transportadores de ureia (UT-A3) é ativado pelo ADH e, quando presente, aumenta o transporte da ureia para fora do ducto coletor medular interno em direção ao interstício. Em resumo, a ureia tem a função de ajudar no processo de concentração da urina, pois quanto mais ureia presente em um indivíduo, mais eficaz é a sua capacidade em concentrar a urina. (4) A ureia (como parte importante dos osmóis eliminados pela urina) também tem um papel importante na eliminação de água livre. Quanto mais catabólico é um indivíduo ou quanto maior a sua ingesta proteica, mais osmóis serão fornecidos, mais estarão presentes no túbulo renal e mais água livre será eliminada. 4.6 A Recirculação da Ureia x Hiperosmolaridade Medular Renal Para além dos processos descritos até aqui, a ureia também contribui de outra forma para promover a hiperconcentração da medula renal. Essa potencialização da hiperosmolaridade acontece pela recirculação da ureia, que ocorre do ducto coletor em direção à alça de Henle. Cerca de 20-50% da ureia filtrada pelo glomérulo é excretada em um indivíduo saudável, sendo que, no túbulo proximal, ocorre a reabsorção de até 50% da ureia filtrada (imagem 10). Na medida em que a ureia flui em direção às porções mais distais do néfron, sua concentração no líquido tubular tende a aumentar porque essa região não é tão permeável à ureia quanto é à água. Então, quando a ureia chega ao segmento delgado da alça de Henle, sua concentração aumenta ainda mais, porque a água será reabsorvida e será pouco secretada no interstício medular dessa região. Imagem 10: essa imagem esquematiza a recirculação da ureia, que é reabsorvida pelo ducto coletor medular em direção ao líquido intersticial, se difundindo para a porção delgada da alça de Henle, passando pelos túbulos distais até retornar ao ducto coletor. Tanto o segmento espesso da alça de Henle quanto as porções distais do néfron (túbulo distal e túbulo coletor cortical) são muito pouco permeáveis à ureia – o que impossibilita sua maior reabsorção nessa região. E, a depender da presença do ADH, a concentração da ureia no líquido tubular pode se tornar ainda maior, pois esse hormônio aumenta a permeabilidade dessa região à água. Após esses processos, a sua concentração no líquido tubular fica tão elevada que o seu transporte começa a acontecer à favor do gradiente de concentração criado (entre o líquido tubular e o interstício medular renal) por transporte passivo. No entanto, uma parcela da ureia contida no interstício se difunde para os ramos delgados da alça de Henle e volta a percorrer todo o trajeto descrito antes de ser eliminada na urina. Por isso, denominamos esse processo como “recirculação da ureia”. 4.7 Troca por Contracorrente nos Vasos Retos x Hiperosmolaridade Medular Renal Vimos diversas vezes que, para a formação do interstício medular renal hiperosmolar, é imprescindível a ocorrência do transporte ativo iônico, o que requer alto gasto de energia metabólica (ATP). Para isso, há o suporte às necessidades metabólicas por parte do sistema sanguíneo da região medular renal, sendo que, se não houvesse esse fluxo sanguíneo, os solutos bombeados para dentro do interstício medular renal pelo sistema multiplicador de contracorrente seriam rapidamente dissipados de volta para os túbulos. Dois fatores desse sistema sanguíneo fazem essa região conservar os solutos na região medular renal de modo eficaz: (1) O fluxo sanguíneo medular renal é muito baixo (apenas 3% do fluxo sanguíneo renal total passa por essa região). Esse baixo fluxo é lento o suficiente para conseguir suprir metabolicamente essa região e a preservar os solutos no interstício medular renal; (2) Os vasos retos ajudam a reduzir a perda dos solutos no interstício medular renal e servem como trocadores por contracorrente. A (imagem 11) ilustra bem o mecanismo de trocador por contracorrente. Já vimos que o sangue entra e sai da medula renal pelos vasos retos, que estão situados no limite entre o córtex e a medula renal. Acontece que os vasos retos são bastante permeáveis a uma grande diversidade de solutos que circulam no sangue (assim como muitos outros capilares sanguíneos) – o que permite o trânsito de substâncias como água e solutos. Ou seja, enquanto o sangue é drenado em direção à medula e às papilas renais, ele vai ficando cada vez mais concentrado, devido à hiperosmolaridade dessa região (quanto mais profunda é a região medular, maior será osmolaridade, que é de mais ou menos 1.200 mOsm/L). Quando ele sobe em direção ao córtex, vai ficando cada vez menos concentrado, pois os solutos se difundem de volta para o interstício medular e a água se difunde de volta para os vasos retos. Imagem 11: essa imagem ilustra os vasos retos e como eles ajudam a reduzir a perda dos solutos no interstício medular renal, servindo como trocadores por contracorrente. O formato em “U” dos vasos retos, como evidencia a imagem, permite que ajam como trocadores por contracorrente, justamente por evitar a perda dos solutos do interstício medular renal (criada pelos mecanismos tubularese intersticiais que formam a hiperosmolaridade dessa região. 5. CONTROLE DA OSMOLARIDADE DO SÓDIO NO LÍQUIDO EXTRACELULAR Sem dúvidas, a manutenção da homeostase dos líquidos corporais não é uma tarefa simples. É preciso um sistema regulatório bastante preciso para que o organismo não fique sujeito às perturbações que alterem bruscamente a osmolaridade dos líquidos corporais. Nesse sentido, ganha importância os mecanismos de controle da concentração do sódio presente no líquido extracelular e da osmolaridade desse líquido. Além deste, há o sistema de feedback osmorreceptor-ADH, cujo funcionamento objetiva também manter a homeostase dos líquidos corporais, assim como o mecanismo da sede. Como já vimos, regular a osmolaridade dos líquidos extracelulares depende de os rins formarem e excretarem urina concentrada ou diluída. Só que para promover essas alterações urinárias, depende necessariamente de evitar que a concentração do Na+ extracelular flutue muito (lembre-se que o Na+ é o principal íon extracelular, além da grande presença dos íons HCO3 - e Cl-). Portanto, é de se imaginar que a osmolaridade do Na+ precise ser bem regulada, já que o controle da osmolaridade do líquido extracelular e a formação da urina concentrada ou diluída dependem diretamente disso. Paralelamente, tanto o sistema osmorreceptor-ADH quanto o mecanismo da sede são imprescindíveis para a regulação da concentração de sódio e da osmolaridade do líquido extracelular. 5.1 Sistema de Feedback Osmorreceptor-ADH É um mecanismo dinâmico que, apenas para facilitar o seu entendimento, resolvi dividi-lo em cinco etapas básicas: (1) Quando um indivíduo está desidratado ou privado de ingerir água, a concentração plasmática do sódio aumenta (que é o próprio aumento da osmolaridade do líquido extracelular) e, em resposta a esse insulto, esse sistema de feedback é ativado. O aumento da osmolaridade plasmática desidrata alguns neurônios especializados – que são células osmorreceptoras (sensíveis às variações da osmolaridade) –, localizadas no hipotálamo anterior, próximo aos núcleos supraópticos (imagem 12); Imagem 12: essa imagem ilustra as estruturas envolvidas no mecanismo de produção e secreção do ADH, até sua chegada nos túbulos coletores, promovendo o aumento da permeabilidade dessa região tubular à água, permitindo assim sua reabsorção. (2) A desidratação desses neurônios faz eles dispararem impulsos nervosos aos neurônios dos núcleos supraóptico e paraventricular. Na sequência, estes neurônios disparam esses impulsos para a hipófise posterior, através do pedículo da glândula hipófise; (3) Esses potenciais de ação são suficientes para fazer a hipófise posterior liberar o ADH – que fica armazenado nas vesículas de secreção das terminações nervosas dos neurônios dessa região hipofisária; (4) Uma vez secretado na corrente sanguínea, o ADH alcança as porções distais dos néfrons (porção final dos túbulos distais, nos túbulos coletores corticais e nos ductos coletores medulares), onde provoca o aumento da permeabilidade à água; (5) Esse aumento da permeabilidade à água aumenta a sua reabsorção e, consequentemente, faz a urina ficar com um baixo volume final e alta concentração em solutos. Essa ilustração (imagem 13) esquematiza bem como o sistema de feedback osmorreceptor-ADH controla a osmolaridade do Na+ no líquido extracelular. Imagem 13: essa imagem esquematiza o mecanismo de feedback osmorreceptor-ADH para regular a osmolaridade do líquido extracelular em resposta ao déficit hídrico. Então, fica fácil pensar a condição clínica oposta à desidratação. A sequência das etapas do sistema de feedback osmorreceptor-ADH será exatamente oposta a qual acabamos de descrever. Quando um indivíduo está hiper-hidratado ou bebe bastante água, o líquido extracelular tem sua osmolaridade reduzida e, portanto, menos ADH será secretado. Com o ADH em baixa concentração no plasma, a permeabilidade tubular e a reabsorção de água serão bastante reduzidas – o que faz a osmolaridade do líquido tubular reduzir ainda mais. Como resposta, a água em excesso permanecerá no líquido tubular até produzir um volume urinário elevado e muito pouco concentrado. Então, eliminando a água em excesso, o corpo consegue aumentar a osmolaridade plasmática e contrabalancear o evento perturbador inicial. 5.1.1 Estimulação Reflexa da Liberação do ADH pela Pressão Arterial e/ou Volume Sanguíneo Além das alterações na osmolaridade no líquido extracelular, alguns reflexos cardiovasculares sensíveis às reduções na pressão arterial e/ou no volume sanguíneo também influenciam a liberação do ADH. Os reflexos incluem os reflexos barorreceptores arteriais e os reflexos cardiopulmonares, que estão presentes em zonas vasculares de elevada pressão sanguínea (arco aórtico e o seio carotídeo), mas também em zonas de baixa pressão (átrios cardíacos). Os potenciais de ação emitidos pelos neurônios especializados/barorreceptores (sensíveis à variações de pressão) através das aferências dos nervos vago e glossofaríngeo presentes nas referidasestruturas vasculares e cardíacas, até serem conduzidas aos núcleos supraóptico e paraventricular hipotalâmicos – os quais possuem os neurônios responsáveis pela produção e secreção do ADH. Em resumo, tanto a queda da pressão arterial quanto a redução da volemia – além da alta osmolaridade no líquido extracelular – estimulam uma maior secreção do ADH. 5.1.2 Outros Estímulos para a Secreção de ADH Outros elementos também podem estimular uma maior ou menor secreção do ADH. A (tabela 1) ilustra alguns desses elementos. Alguns fármacos (nicotina e morfina) agem estimulando a secreção do ADH, ao passo que outras substâncias químicas (álcool etílico), inibem a sua liberação – aumento a diurese, por conseguinte. Tabela 1: essa tabela mostra os principais efeitos da presença ou da ausência do ADH, além de alguns fármacos que aumentam e que inibem a sua secreção. Alguns sintomas também podem estimular fortemente a secreção desse hormônio, como, por exemplo, a náusea sucedida do vômito – situação que promove depleção de volume. Ou seja, nada mais é do que uma tentativa do organismo garantir a conservação da água, promovendo sua maior reabsorção renal, após a secreção do ADH. 4.2 Mecanismo da Sede no Controle da Osmolaridade Além do sistema de feedback osmorreceptor-ADH, cujo objetivo é minimizar a perda de líquidos durante as situações de desidratação ou privação hídrica por meio da reabsorção renal de água, o corpo é dotado do mecanismo da sede. Esse mecanismo faz com que o indivíduo tenha apetite por água, no sentido de contrabalancear suas perdas líquidas (por sudorese, pela respiração e pelo trato gastrointestinal). Ou seja, o mecanismo da sede ajuda no equilíbrio entre a quantidade de água perdida e a quantidade de água ingerida, por meio do desejo consciente pela ingestão hídrica. 4.2.1 Centros da Sede no Sistema Nervoso Central A maioria dos fatores que estimulam a secreção do ADH também causam o aumento a sede, com o objetivo de conservar o máximo de água possível nos compartimentos corporais. Essa “coincidência” acontece porque a região hipotalâmica responsável por secretar o ADH é a mesma que estimula a sede. Essa região é denominada centro da sede. Quando os neurônios dessa região (sensíveis às alterações de osmolaridade) recebem os impulsos nervosos, provocam a reação de sede imediata no indivíduo, e ela irá durar enquanto também durar a estimulação nervosa – enquanto a osmolaridade do líquido extracelular estiver elevada. 4.2.2 Estímulos que Deflagram o Mecanismo da Sede Além da elevada osmolaridade do líquido extracelular – responsável por desidratar as células osmossensíveis do centro da sede –, da redução na pressão sanguínea ou do volume do líquido extracelular, outras situações como desidratação intensa por diarreia ou perda volêmica por hemorragia faz com que o indivíduo tenha aumento da sede, devido à estimulação constante do centro da sede. Quando o indivíduo está com ressecamento da boca ou da mucosa esofagiana(o que por si só já causa sensação de sede), surge o reflexo da sede, o qual o leva a tentar aliviar rapidamente essa sensação aumentando sua ingestão de água, mesmo que ela não tenha ainda sido absorvida pelo trato gastrointestinal nem tenha reduzido a osmolaridade do líquido extracelular. Esse breve alívio serve como uma proteção, pois se ele não existisse, também não haveria o bloqueio temporário da sensação de sede, o que poderia fazer o indivíduo beber quantidades muito grandes de água até ficarem hiper-hidratados (causando a situação oposta que já abordamos). Outro estímulo para a sede é a ação da angiotensina II – uma substância de potente ação vasoconstritora estimulada pela redução da volemia e da pressão sanguínea. No entanto, seu efeito sobre a sede é mais ajudando o restabelecimento da pressão e do volume sanguíneos pela sua ação vasoconstritora e hipertensiva, fazendo com que o indivíduo sinta maior apetite por água, com o objetivo de elevar a pressão sanguínea. O aumento da temperatura central do organismo também pode ativar o centro da sede, fazendo com que o indivíduo aumente sua ingesta de água. REFERÊNCIAS DAS IMAGENS 1. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 3. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 4. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 5. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 6. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 1. Todas de: HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. REFERÊNCIAS 1. BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL. Tratado de Fisiologia Médica. 12 ed. Rio de Janeiro; Editora Elsevier. 2011. 3. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2012. 4. SILVERTHORN, Dee U.; Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 5. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 6. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 7 REGULAÇÃO RENAL DOS DEMAIS ÍONS (K+, CA2+, PO4 3-, MG2+) 1. CASO CLÍNICO Selton é um paciente de 52 anos, marceneiro, que deu entrada na unidade de pronto-atendimento (UPA) do bairro onde mora com quadro de diarreia aquosa há 5 dias. Negou quaisquer outros sinais e sintomas. Ao ser atendido pelo Dr. César, relatou não ter uma alimentação saudável e que gosta de comer “besteiras” pela rua. Referiu ser hipertenso de longa data em uso regular de fármacos anti-hipertensivos (Hidroclorotiazida e Enalapril), tabagista (20 maços/ano) e etilista “social” (ingere 5 cervejas aos fins de semana). Relatou, no momento da consulta, que no mês anterior teve um quadro semelhante após comer uma coxinha que julgou achar “que estava estragada”, mas que resolveu espontaneamente e não teve maiores repercussões no seu dia a dia. No entanto, o atencioso médico plantonista realizou um exame físico direcionado e solicitou exames laboratoriais e um eletrocardiograma (ECG). Ao exame, o paciente estava em bom estado geral, com sinais de desidratação leve, eupneico, anictérico e acianótico. FC: 132 bpm, FR: 19 irpm, PA: 128x74 mmHg. Os resultados dos exames solicitados evidenciaram uma ureia de 132mg/dL, creatinina de 1,8mg/dL (tendo trazido exame anterior que constatou uma creatinina de 0,6mg/dL), um potássio de 6,8 mEq/L e um bicarbonato de 18 mEq/L. Além disso, o ECG evidenciou ondas T apiculadas, prolongamento do intervalo PR e discreto alargamento do complexo QRS. Dr. César, então, prontamente explicou o significado das alterações laboratoriais e o quadro clínico apresentado ao paciente e familiares, o qual se tratava de um distúrbio hidroeletrolítico importante e que o Selton iria ser medicado e ficaria em observação na UPA. Esclareceu que é um distúrbio que, caso não seja revertido, é potencialmente grave e pode levar a desfechos ruins, como arritmias cardíacas que podem até ser fatais. Então, iniciou medidas de reversão da hipercalemia apresentada pelo paciente, tais como hidratação parenteral, administração de solução de gluconato de cálcio, suspensão do Enalapril, além de administrar solução glicosada intravenosa e insulina. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Anti-hipertensivos (Hidroclorotiazida e Enalapril); tabagismo (20 maços/ano); valores de normalidade de frequência cardíaca, respiratória e pressão arterial; valores de normalidade da ureia, creatinina, potássio e bicarbonato; ECG; arritmias cardíacas. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Paciente hipertenso; uso de Enalapril e Hidroclorotiazida; desidratação, taquicardia; alterações eletrocardiográficas; elevação da ureia e creatinina; bicarbonato sérico baixo; hipercalemia; medidas de reversão da hipercalemia. 2. REGULAÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DO POTÁSSIO EXTRACELULAR E SUA EXCREÇÃO A grande maioria do potássio corporal está dentro do compartimento intracelular – cerca de 98% do potássio corporal estão dentro da célula e os 2% restante no compartimento extracelular. Por isso, o potássio é considerado como o principal íon intracelular. Sua osmolaridade plasmática (ou concentração média nos líquidos extracelular) é de aproximadamente 4,2 mEq/L, sendo regulada de tal forma que haja algumas oscilações de até 0,3 mEq/L, para mais ou para menos. O mecanismo de controle da concentração do potássio extracelular é necessário para homeostase corporal, além de ser muito preciso. Várias funções celulares e orgânicas são sensíveis às alterações da concentração extracelular de potássio. Caso ocorra um aumento de 3 a 4 mEq/L na concentração plasmática de potássio, arritmias cardíacas podem ser deflagradas, com risco de morte súbita. Admitamos a seguinte situação: um homem adulto de 70 Kg possui cerca de 60% do seu peso composto por água, o equivalente a 42 litros de água. Deste total, cerca de 2/3 estão distribuídos no compartimento intracelular – mais ou menos 28 litros de líquido intracelular – e 1/3 no compartimento extracelular – mais ou menos 14 litros de líquido extracelular. Traduzindo esses valores em concentrações, cerca de 3.920 mEq de potássio estão dentro das células e cerca de 60 mEq estão no líquido extracelular. Além disso, serão somados diariamente a esses valores cerca de 50 a 200 mEq diários de potássio, que vêm da ingestão dos alimentos. Caso exista alguma desordem que impeça o corpo de remover rapidamente alguma sobrecarga de potássio ingerido, pode surgir a hipercalemia – ou hiperpotassemia (que se caracteriza quando a concentração plasmática de potássio está elevada) –, o que pode causar sérios riscos ao indivíduo e até leva-lo ao óbito. Consideramos hipercalemia quando a concentração plasmática de potássio ([K+] plasmática) é maior do que 5,0 mEq/L. Por outro lado, algumas desordens podem fazer com que o organismo perca o potássio do líquido extracelular, o que pode fazer surgir uma outra condição, que é a hipocalemia – ou hipopotassemia (que se caracteriza quando a concentração plasmática do potássio está baixa). Iremos considerar hipocalemia quando: [K+] plasmática < 3,5 mEq/L. Já sabemos que cerca de 98% do potássio corporal total está dentro das células – o que as torna o maior reservatório corporal de potássio, armazenando esse íon em situações que estejam em excesso no líquido extracelular. O raciocínio inverso também é verdadeiro, pois quando alguma condição clínica faz com que o corpo perca potássio do compartimento extracelular – quando um paciente, por exemplo, faz uso de altasdoses de diuréticos de alça –, as células passam a funcionar como doadoras de potássio, para que sua concentração plasmática não caia abaixo do limite aceitável. Em resumo, a depender da situação apresentada em um indivíduo, o potássio fica se redistribuindo entre os compartimentos intra e extracelular, funcionando como um mecanismo de defesa bastante preciso para evitar tanto a hiper ou a hipocalemia. Vamos descrever os principais mecanismos separadamente, bem como as situações que alteram as concentrações do potássio intra e extracelular. 2.1 MECANISMOS FACILITADORES DA ENTRADA DE POTÁSSIO NA CÉLULA 2.1.1 Papel da Insulina no Estímulo da Captação Celular de Potássio Algumas substâncias químicas corporais (sobretudo, os hormônios) têm a capacidade de fazer o potássio se distribuir por entre os compartimentos intra e extracelular. Um desses principais hormônios é a insulina, cujo mecanismo de ação envolve a mobilização do potássio extracelular para o ambiente intracelular, para que promova a entrada de glicose nas células. A insulina é importante nesse processo e fica muito claro quando os pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 1, quando fazem uma refeição rica em K+, ocorre um aumento da [K+] plasmática maior do que em pessoas normais. Nesse caso, a insulina é o hormônio mais importante para deslocar o K+ em excesso para dentro das células após a ingestão de K+ numa refeição. Além disso, para se corrigir quadros de hipercalemia, pode-se administrar insulina e glicose para impedir a hipoglicemia induzida pela insulina – devido ao mecanismo de ação da insulina descrito anteriormente. 2.1.2 Aumento da Captação Celular de Potássio pela Estimulação B- Adrenérgica Várias situações fisiológicas fazem com que o organismo secrete catecolaminas, sobretudo, o estresse. Não o estresse diário, cotidiano como a jornada de trabalho ou de estudos, mas estresses mais fortes, como um assalto, ou quando você se depara com um tigre raivoso no meio da rua. Quando tais situações acontecem, bastante catecolaminas são secretadas, o que faz ativar os receptores β2- adrenérgicos, causando o deslocamento do potássio do meio extracelular para o meio intracelular. O raciocínio inverso também é válido. Por exemplo, em um paciente que esteja em uso de betabloqueadores (por exemplo, Propranolol) – antagonista dos receptores β-adrenérgicos –, o potássio sai do compartimento intracelular para o extracelular, podendo até causar um quadro de hipercalemia. 2.1.3 Alcalose Metabólica O pH sanguíneo fisiológico encontra-se na faixa entre 7,35-7,45. Condições que fazem o pH encontrar- se acima de 7,45 são denominadas genericamente alcalemia. Nessa situação, existe estímulo para eliminação de H+ pela célula e incorporação de K+. Isto é, a alcalose facilita a entrada de potássio na célula. 2.2 MECANISMOS FACILITADORES DA EXCREÇÃO CORPORAL DE POTÁSSIO 2.2.1 A Aldosterona Caso a sobrecarga de potássio seja cada vez maior, a aldosterona também será mais secretada pela zona glomerulosa da córtex adrenal, o que faz aumentar a excreção do potássio. A aldosterona aumenta a reabsorção de sódio pelos túbulos coletores em contrapartida da secreção de potássio para o lúmen tubular. Na prática, quando houver um estímulo ao aumento da produção da aldosterona, o organismo tenderá à hipocalemia e, na medida em que a síntese e a secreção de aldosterona forem ineficientes (por exemplo, na doença de Addison ou insuficiência adrenal), um quadro significativo de hipercalemia pode ser instalado – devido ao acúmulo de potássio no líquido extracelular e sua reduzida excreção renal. 2.3 MECANISMOS ASSOCADOS AO AUMENTO DE CONCENTRAÇÃO SANGUÍNEA DE POTÁSSIO 2.3.1 Aumento da Concentração Extracelular de Potássio Causada por Lise Celular Esse ponto é muito fácil de entender. Já sabemos que quase a totalidade do potássio está dentro das células, não é mesmo? Por isso, as situações que levem à lesão ou morte celular fazem com que uma grande quantidade de potássio contida no meio intracelular extravase para o meio extracelular. Isso tende a fazer uma hipercalemia significativa, que pode ser evidenciada quando um indivíduo sofre extensa destruição tecidual (por exemplo, queimaduras), graves lesões osteomioarticulares e hemólise. O entendimento do tópico seguinte é dependente desse raciocínio aqui explicado. 2.3.2 Hipercalemia Causada por Exercícios Físicos Extenuantes Ao realizar exercícios físicos extenuantes, um indivíduo faz com que suas células musculares esqueléticas sofram lise, promovendo assim o extravasamento do potássio intracelular para o meio extracelular, o que gera hipercalemia. Essa hipercalemia não costuma ser grave nem gerar maiores implicações orgânicas, a não ser que o exercício praticado seja intenso e prolongado o suficiente para justificar uma maior gravidade da hipercalemia por lise celular, a ponto de causar quadros mais sérios, como, por exemplo, arritmias cardíacas potencialmente graves. 2.3.3 Acidose Metabólica Já vimos que o pH sanguíneo fisiológico se encontra na faixa entre 7,35-7,45. Condições que fazem o pH encontrar-se abaixo de 7,35 são denominadas genericamente como acidemia. Nesta situação existe estímulo para incorporação de H+ pela célula e eliminação de K+. Ou seja, dessa forma, a acidose facilita a saída de potássio na célula 2.3.4 Redistribuição do Potássio pelo Aumento da Osmolaridade do Líquido Extracelular Quando um paciente apresenta um quadro de desidratação ou de hiperglicemia, a água transita do meio intracelular para o meio extracelular por osmose e, posteriormente, será perdida para o meio externo, o que promove o aumento da osmolaridade do líquido extracelular. Então, com a desidratação celular, a concentração intracelular do potássio aumenta, sendo responsável por gerar um gradiente de concentração entre os meios intra e extracelular. Esse gradiente é fundamental para promover a difusão do potássio para fora das células, causando um aumento da concentração do potássio no líquido extracelular. 3. Mecanismo de Excreção Renal do Potássio A excreção renal de potássio (assim como qualquer outra substância) é determinada pelo somatório dos três processos básicos: (1) filtração, (2) reabsorção tubular e (3) secreção tubular. A imagem (imagem 1) ilustra a dinâmica global da excreção do potássio, em que aproximadamente 65-70% do potássio filtrado pelos glomérulos são reabsorvidos no túbulo proximal em situações fisiológicas. Em seguida, cerca de 25% a 30% do potássio filtrado serão reabsorvidos no ramo ascendente espesso da alça de Henle – pois essa região é rica em cotransportadores Na+/K+/2Cl-. Vale a pena destacar aqui um detalhe de que, tanto no túbulo proximal quanto na alça de Henle, essas taxas de reabsorção do potássio filtrado são relativamente constantes. Imagem 1: essa imagem ilustra um néfron e, de forma global, os principais locais nos quais ocorrem a reabsorção e a excreção de K+ ao longo do dos túbulos renais. Na continuidade do néfron, há os túbulos coletores corticais, responsáveis por controlar intensamente a regulação diária da excreção de potássio. É nessa região do néfron que o potássio pode ser variavelmente mais reabsorvido ou secretado, a depender da necessidade do organismo em questão. Essa propriedade dos túbulos coletores corticais é conferida pelas células principais, cujas ações permitem que o potássio seja reabsorvido ou secretado. 3.1 Secreção de Potássio pelas Células Principais dos Túbulos Coletores Corticais Distais Finais Cerca de 90% da massa celular dos túbulos coletores corticais e distais finais são formadas pelas células principais, responsáveis, conforme já explicado, por secretar potássio no lúmen tubular. Esse processo de secreção que ocorre do interstício em direção ao lúmen tubular ocorre em duas etapas sucessivas: (1) a primeira etapa tem início com a captação de potássio do interstício para dentro da célula principal através da ATPase Na+/K+ (via transporte ativo), que coloca 2 íons K+ para o interior da célula ao passo que coloca 3 íonsNa+ para o interstício – sendo que, em contrapartida à captação do potássio, a bomba transfere o sódio da célula principal para o interstício, cuja dinâmica é ilustrada na (imagem 2); Imagem 2: essa imagem mostra o mecanismo básico de secreção de potássio e de reabsorção de sódio pelas células principais dos túbulos distais e coletores finais. (2) a segunda etapa acontece com a difusão facilitada do potássio de dentro da célula para o líquido tubular. Mas por que essa difusão acontece? Enquanto a bomba de sódio-potássio vai transferindo o potássio para dentro da célula, a sua concentração intracelular fica alta, o que gera um gradiente de concentração e, consequentemente, uma espécie de força motriz, a qual transporta passivamente o potássio para o lúmen tubular através de poros de efluxo presentes na membrana luminal da célula principal. 3.1.1 Controle da Secreção de Potássio pelas Células Principais A secreção de potássio pelas células principais depende basicamente de quatro fatores que controlam tal processo: (1) da atividade da ATPase Na+/K+ na membrana basolateral, (2) do gradiente de concentração do potássio criado com o seu transporte do interstício para dentro da célula através da bomba de sódio-potássio, (3) da quantidade de Na+ que chega em túbulo coletor e é absorvido pelo canal ENaC em membrana luminal e (4) da permeabilidade da membrana luminal pelos poros de efluxo com o potássio. 3.1.2 As Células Intercaladas e a Reabsorção de Potássio durante a Depleção de Potássio Quando alguma situação clínica faz um paciente hipersecretar a aldosterona, o seu potássio intracelular será perdido para o líquido extracelular e, a partir daí, será eliminado para o meio externo. Nesse sentido, haverá uma resposta compensatória do corpo para pôr um fim à sua perda e poupar o máximo de potássio possível, por meio de um aumento na sua reabsorção nos túbulos coletores distais finais. As células intercaladas presentes nessa região são as responsáveis por essa reabsorção compensatória, devido à presença importante da hidrogênio-potássio ATPase (cujo mecanismo básico é reabsorver o potássio e secretar ativamente os íons H+ para o lúmen tubular), situadas na face luminal de sua membrana plasmática. Posteriormente, o potássio reabsorvido será destinado ao interstício. 3.2 Fatores Que Regulam a Secreção de Potássio A regulação da secreção do potássio pelas células principais age no sentido de estimular ou inibir a sua secreção. Os principais fatores estimuladores da secreção do potássio são: (1) a alta concentração de potássio no líquido extracelular (por exemplo: ingesta de potássio); (2) a alta concentração plasmática da aldosterona e; (3) o aumento do fluxo de líquido tubular. Já o principal fator que reduz a secreção do potássio é a acidose, já detalhada anteriormente neste mesmo capítulo. 3.2.1 Efeito da Concentração Plasmática de Potássio Elevada Quando a concentração extracelular do potássio está elevada, a sua secreção também será aumentada, na tentativa de reduzir sua concentração plasmática. Isso acontece basicamente devido a três mecanismos: (1) A concentração extracelular de potássio, quando está elevada, estimula a ATPase sódio-potássio a captar mais potássio para dentro das células principais e, posteriormente, movê-lo em direção ao lúmen tubular; (2) A concentração extracelular do potássio, quando está elevada, faz aumentar o seu gradiente eletroquímico entre o meio interno da célula principal e o líquido intersticial. Essa diferença de concentração faz o potássio ser transportado para o meio intracelular; (3) A concentração extracelular do potássio, quando está elevada, estimula a zona glomerulosa da córtex adrenal a sintetizar e secretar mais aldosterona, o que estimula ainda mais a excreção do potássio, como também já foi descrito neste capítulo. 3.2.2 A Aldosterona Estimula a Secreção de Potássio No capítulo 5, tivemos a oportunidade de discutir aspectos fundamentais acerca da aldosterona. Já sabemos que é um hormônio que agirá nas células principais dos túbulos e dos ductos coletores, cuja função é promover a reabsorção ativa dos íons Na+ – através da bomba de sódio-potássio. Essa ATPase transporta o sódio de dentro da célula para o interstício e depois para os capilares sanguíneos peritubulares, na medida em que faz o bombeamento do potássio no sentido oposto ao sódio, isto é, do interstício para a célula e, posteriormente, para o lúmen tubular. 3.2.3 O Aumento do Fluxo Tubular Distal Estimula a Secreção de Potássio Quando o túbulo distal recebe um fluxo de líquido filtrado após um indivíduo ingerir uma quantidade maior de sódio, ou quando ele sofrer uma expansão de volume (por exemplo, terapia de hidratação parenteral) ou quando estiver usando continuamente diuréticos, o organismo irá trabalhar no sentido de estimular a secreção de potássio. Em oposição, caso haja uma redução do fluxo tubular distal, a secreção de potássio será reduzida. Esses eventos acontecem porque quando o potássio é secretado da célula para o líquido tubular, a sua concentração no túbulo aumenta, e isso diminui o seu gradiente eletroquímico, fazendo com que haja uma força motriz de difusão menor e, consequentemente, menos potássio atravesse a membrana celular em direção ao túbulo. Então, quando ocorre o aumento do fluxo tubular, o potássio secretado flui continuamente pelo túbulo como se estivesse sendo “lavado” de dentro do lúmen, fato que minimiza o aumento inicial da sua concentração no líquido tubular. 3.2.4 Acidose vs Secreção de Potássio Essa parte é mais a título de revisão e fixação, porque já vimos anteriormente neste capítulo a influência que a concentração de H+ exerce sobre a concentração de K+. Condições como a acidose e alcalose metabólica são capazes de afetar a concentração de potássio extracelular. Um aumento na concentração dos íons H+ no líquido extracelular (acidose) reduz a secreção tubular de potássio (contribuindo para hiperpotassemia), ao passo que a redução da concentração de íons H+ (alcalose) faz aumentar a secreção tubular de potássio (contribuindo com hipopotassemia). 4. REGULAÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DO CÁLCIO EXTRACELULAR E SUA EXCREÇÃO A concentração extracelular média dos íons Ca2+ é de, aproximadamente, 2,4 mEq/L, porém, quando sua concentração plasmática estiver reduzida, se instala uma condição denominada hipocalcemia. Essa redução é capaz de aumentar a capacidade de excitação de células musculares e nervosas – cujas funções de contração e geração de potenciais de ação, respectivamente, são dependentes do cálcio –, podendo causar contrações espásticas da musculatura esquelética, manifestação conhecida como tetania hipocalcêmica. Tome cuidado para não confundir tetania com tétano (doença infecciosa causa pela bactéria Clostridium tetani, causadora de várias manifestações neuromusculares). Já quando a concentração do cálcio estiver elevada, chamaremos essa condição de hipercalcemia – que é capaz de gerar uma importante depressão na excitação neuromuscular, até mesmo arritmias cardíacas mais severas. Quase a totalidade do cálcio (aproximadamente 99%) está armazenada na matriz óssea. O 1% restante está distribuído no líquido extracelular (cerca de 0,1%) e no meio intracelular (0,9%). Em resumo, o esqueleto ósseo é o grande reservatório corporal de cálcio e disponibiliza o cálcio para a periferia corpórea quando sua concentração extracelular está baixa. Além disso, metade do cálcio plasmático está na forma iônica (Ca2+) – que é a forma biologicamente ativa nas membranas celulares (que o corpo efetivamente usa para diversas funções) – e os 50% restantes estão ligados às proteínas plasmáticas (por exemplo, albumina). O processo de mobilização do cálcio e seu direcionamento do centro (matriz óssea) para a periferia (tecidos periféricos que estão porventura necessitando do cálcio) é regulado por hormônios fundamentais à homeostase desse íon – tanto pela captação quanto pela sua liberação pela matriz óssea –, sendo um dos mais importantes o paratormônio (PTH). Essehormônio é produzido pelas glândulas paratireoides e sua ação é aumentar a reabsorção óssea e liberar o cálcio na circulação sanguínea e no líquido extracelular. Ou seja, o PTH trabalha para reverter a hipocalcemia. A recíproca também é verdadeira, pois quando a concentração extracelular de cálcio está elevada, as paratireoides secretam menos PTH e, sendo assim, ocorre pouca ou nenhuma reabsorção óssea. Então, esse cálcio excedente será depositado na matriz óssea pelo processo de neoformação óssea. Basicamente, o PTH regula a concentração plasmática do cálcio por três vias paralelas: (1) estimulando a reabsorção óssea; (2) promovendo a ativação da vitamina D e ajudando a aumentar a reabsorção intestinal de cálcio proveniente da dieta; e (3) aumento diretamente a reabsorção de cálcio nos túbulos renais (imagem 3). Imagem 3: essa imagem ilustra as respostas compensatórias à queda da concentração plasmática de Ca2+ mediadas pelo paratormônio (PTH) e pela vitamina D. Vale ressaltar o fato de que uma parte significativa da modulação da concentração de íons Ca2+, além da regulação hormonal realizada através da calcitonina e do PTH, está melhor descrita no livro de sistema endócrino desta mesma coletânea Medicina Resumida. 5. CONTROLE DA EXCREÇÃO RENAL DO CÁLCIO Já vimos que cerca de 50% do cálcio plasmático está ionizado (não ligado às proteínas plasmáticas) e é justamente essa mesma quantidade de cálcio que será filtrada pelos glomérulos. Em indivíduos sadios, cerca de 99% do cálcio filtrado é reabsorvido ao longo dos túbulos, ocorrendo a eliminação urinária do 1% restante. Mais ou menos 65% do cálcio filtrado é reabsorvido logo no túbulo proximal. Por volta 25-30% é reabsorvido na alça de Henle e 4-9% nos túbulos distais e coletores. Vale destacar que a sua excreção renal acontece em maior ou menor grau para atender às necessidades corporais quanto à demanda desse íon (situações de excesso ou escassez). 5.1 Reabsorção do Cálcio no Túbulo Proximal Uma grande parte do cálcio é reabsorvida nessa região por via paracelular, junto com a água que é reabsorvida por entre as células desse ramo tubular, como ilustra a (imagem 4). O restante do cálcio é reabsorvido por via transcelular. Nessa última via o cálcio se difunde do lúmen tubular em direção à célula – devido a sua alta concentração no lúmen tubular em relação ao interior da célula –, além do fato de a face interna da membrana plasmática da célula ter carga relativa negativa, o que favorece a sua entrada. A ação da bomba de cálcio-ATPase e do contratransportador de sódio-cálcio também são importantes no trânsito do cálcio nessa região. Imagem 4: essa imagem mostra uma célula do túbulo proximal e os mecanismos de reabsorção de Ca2+, tanto pela via paracelular quanto pela via transcelular. 5.2 Alça de Henle e Reabsorção de Cálcio no Túbulo Distal Apenas no ramo ascendente espesso de toda extensão da alça de Henle o cálcio será reabsorvido. Metade do cálcio será reabsorvido pela via paracelular (por difusão passiva) e a outra metade restante ocorre por via transcelular – sofrendo ação do PTH. O PTH controla a reabsorção tubular renal de cálcio, porque estimula a reabsorção de cálcio no ramo ascendente espesso de Henle e nos túbulos distais, o que diminui consideravelmente a excreção urinária de cálcio. O oposto também é verdadeiro, pois quanto menor for a concentração plasmática do PTH, maior será a excreção urinária de cálcio. O calcitriol e a calcitonina também participam dessa dinâmica estimulando a reabsorção de cálcio, porém são menos importantes na regulação da reabsorção do cálcio do que o PTH. Já no túbulo distal acontece o contrário do que foi descrito anteriormente: a reabsorção de cálcio ocorre quase totalmente por transporte ativo, através da cálcio-ATPase e pelo contratransporte de sódio- cálcio. Aqui também o PTH estimula a reabsorção de cálcio, à semelhança da alça de Henle. Outro fator digno de nota que influencia a reabsorção do cálcio é a concentração plasmática de íon fosfato. Mas por quê? Porque o fosfato plasmático, quando está elevado, estimula as paratireoides a sintetizarem e secretarem mais PTH, o que aumenta a reabsorção do cálcio pelos túbulos renais, diminuindo a fração do cálcio excretado na urina. O oposto também é verdadeiro, na medida em que a diminuição da concentração plasmática de fosfato faz com que menos PTH seja secretado pelas paratireoides, o que diminui a reabsorção de cálcio. 6. REGULAÇÃO DA EXCREÇÃO RENAL DE FOSFATO O fosfato inorgânico (Pi) – também por vezes denominado simplesmente de fósforo – é um eletrólito imprescindível para várias funções vitais (por exemplo, formação de moléculas de ATP, fosfolipídios das membranas biológicas, constituição da matriz óssea etc.) e sua concentração costuma ser mantida em níveis tais para que a homeostase orgânica seja garantida, sobretudo, na geração de moléculas energéticas (ATP), que conferem energia metabólica para o trabalho celular. Cerca de 80% da carga de fosfato filtrada é reabsorvida no túbulo proximal. A reabsorção ocorrerá, nessa região tubular, sobretudo pela via transcelular através do cotransportador sódio-fósforo (NaPi) (imagem 5). Isto é, o influxo celular de fosfato (fluxo para dentro) ocorre através do cotransportador de sódio-fosfato e o efluxo de fosfato (fluxo para fora) pela membrana basolateral. O túbulo distal, por sua vez, reabsorve cerca de 10% e uma menor parte será reabsorvida na alça de Henle, túbulos e ductos coletores. Somando as frações reabsorvidas, sobram em torno de 7-10% do fosfato filtrado, que será eliminado na urina e pode ser detectado para investigação de alguma condição hiperfosfatúrica. Imagem 5: essa imagem ilustra os mecanismos celulares de reabsorção de fosfato inorgânico (Pi) pelo túbulo proximal, por meio da proteína cotransportadora 3Na+/1Pi. O PTH também tem a capacidade de ter influência na regulação da concentração plasmática de fosfato, justamente por mediar como os osteoclastos irão realizar a reabsorção óssea e fazer com que certa quantidade de fosfato (derivado da matriz óssea) seja mobilizada para o líquido extracelular. O PTH faz reduzir o transporte de fosfato pelos túbulos renais e faz com que seja menos reabsorvido do túbulo renal, causando um aumento considerável da eliminação urinária de fosfato (fato que faz o PTH é ser considerado um hormônio fosfatúrico). Em resumo, quando o PTH está aumentado, a reabsorção tubular de fosfato é reduzida e sua excreção urinária é aumentada. 7. CONCENTRAÇÃO E EXCREÇÃO DO MAGNÉSIO EXTRACELULAR O magnésio também possui funções orgânicas de fundamental importância (à semelhança do sódio, potássio, cálcio e fosfato), pois participa de diversos processos bioquímicos corporais. Por exemplo, funcionam como cofatores enzimáticos, ativando algumas cascatas de reações metabólicas. Entre 50-60% do magnésio corporal total estão armazenados na matriz óssea e o restante no interior das demais células. A sua concentração no líquido extracelular é extremamente baixa, além do fato de cerca de 30% do magnésio extracelular estarem conjugados às proteínas plasmáticas (fração biologicamente não ativa), o que acaba justificando sua baixa concentração no compartimento extracelular – cuja denominação é fração livre, ionizada ou biologicamente ativa, que é de apenas 0,8 mEq/L. A maior parte da carga filtrada de magnésio é reabsorvida, sendo que mais ou menos 2-5% serão eliminados pela urina. Diferentemente do que foi descrito para os demais eletrólitos, o magnésio é principalmente reabsorvido na porção espessa da Alça de Henle, via paracelular – em que ocorre a reabsorção de quase 70% da carga filtrada de magnésio. Uma parte menor, correspondente à 15-20%, é reabsorvida no túbulo proximal, e outra parte, 10-15%, em túbulos distal e coletor. REFERÊNCIAS DAS IMAGENS 1. De 1 a 4: HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 5. 5: BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. REFERÊNCIAS 1. BERNE;LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 3. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan. 2012. 4. SILVERTHORN, Dee U. Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 5. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 6. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! Capítulo 8 EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO 1. CASO CLÍNICO Wilker é um jovem garoto de 15 anos que foi trazido desmaiado à UPA do bairro onde mora por familiares. A sua mãe, dona Ana, bastante apreensiva, relatou à médica plantonista, Dra. Telma, que o encontrou desacordado em casa assim que chegou do trabalho. Wikinho, como é chamado pelos familiares, deu entrada no pronto-atendimento com rebaixamento do nível de consciência, taquicardia e dispneia. Enquanto tomava as primeiras medidas de urgência – como solicitar ao enfermeiro que pegasse um acesso venoso do paciente, medisse o seu HGT etc. –, a médica percebeu que o padrão respiratório do jovem era bastante característico, o qual achou familiar, pois já tinha o visto anteriormente em sua época de internato: tratava-se da respiração de Kusmaull. Prosseguindo com sua investigação, chegou mais perto do seu paciente e notou que seu hálito era cetônico. Prontamente, a médica perguntou: “senhora, seu filho é diabético? Tem alguém diabético na família? Ele já tinha tido isso antes? Você percebeu alguma mudança no comportamento dele recentemente?” A mãe negou sobre o diabetes, embora tenha contado que, nos últimos 4 dias, seu filho estava bastante febril, letárgico e não queria ir para a rua jogar bola, como lhe era de costume. Além disso, nos últimos 3 meses, notou que seu filho estava perdendo peso e tinha poliúria, polidipsia, polifagia, irritabilidade e uma considerável astenia. Ao exame, paciente apresentou-se em ruim estado geral, febril, com rebaixamento do nível de consciência, hálito cetônico e desidratado. FC 104bpm e FR: 26irpm. Foi identificado um abscesso periungueal em hálux direito, que a mãe relatou ter sido uma “unha encravada que não sarava por nada”. Os exames laboratoriais iniciais evidenciaram a presença de cetoacidose diabética e hiperglicemia (HGT: 572 mg/dL). Então, o tratamento com insulinoterapia, hidratação venosa e antibioticoterapia foi realizado e, após a estabilização do seu paciente, a plantonista recomendou alguns cuidados gerais com a saúde do jovem garoto e requisitou um acompanhamento com o endocrinologista. 1.1 POSSÍVEIS PALAVRAS DESCONHECIDAS Rebaixamento do nível de consciência; Respiração de Kusmaull; Hálito cetônico; Cetoacidose diabética; HGT. 1.2 PALAVRAS-CHAVES Jovem de 15 anos; Rebaixamento do nível de consciência; Respiração de Kusmaull; Hálito cetônico; História familiar negativa para diabetes; Febril e letárgico há 4 dias; Perda de peso, poliúria, polidipsia, polifagia, irritabilidade e astenia há 3 meses; Desidratação; Taquicárdico e taquipneico; Abscesso periungueal; Ferida de difícil cicatrização e prolongada; Cetoacidose diabética e hiperglicemia; Insulinoterapia; Hidratação venosa e antibioticoterapia; Acompanhamento com endocrinologista. 2. INTRODUÇÃO Ao realizar suas atividades metabólicas para manter a homeostase corporal, as células produzem diversos resíduos metabólicos. Dentre os vários resíduos, estão os íons hidrogênio (H+) e as espécies reativas do metabolismo do oxigênio – também conhecidas como radicais livres. Esse íon é o grande responsável por deixar um ambiente mais ácido e causar alguns distúrbios à célula, além de ter a capacidade de reagir com diversas estruturas internas da célula e poder gerar diversos danos. Assim como os rins regulam as quantidades dos demais eletrólitos do organismo (abordados nos capítulos anteriores), eles também possuem a capacidade de regular a quantidade de íons H+. À semelhança do que descrevemos para os outros íons, o equilíbrio da quantidade corporal de H+ depende do equilíbrio entre a ingestão (ou produção) e a eliminação do H+. O sistema renal regula a excreção corporal de H+ e mantém o pH dos líquidos corporais dentro de uma faixa estreita aceitável, a fim de não comprometer as funções celulares e teciduais. 3. CONCEITOS ELEMENTARES – ÁCIDOS E BASES O íon hidrogênio é derivado de várias reações metabólicas, nas quais as moléculas, em grande parte das vezes, sofrem desidrogenação (quando uma molécula perde um hidrogênio na forma ionizada – H+). Toda molécula que perder íons H+ em uma reação química será classificada como ácida, como, por exemplo, o ácido carbônico (H2CO3), cuja ionização em meio aquoso libera íons H+ e íons bicarbonato (HCO3 -) – o processo de ionização em nosso organismo acontece sempre em meio aquoso, assim como toda e qualquer reação enzimática que acontece dentro das células. A propósito, esse íon bicarbonato será fundamental quando discutirmos equilíbrio acidobásico e correções dos distúrbios acidobásicos mais à frente neste capítulo. Por outro lado, quando uma molécula receber os íons H+ em uma reação química, será definida como base. Um grande exemplo é o íon HCO3 -. Ele consegue captar o H+ do meio em questão e formar o H2CO3. Além do bicarbonato, o corpo é dotado de outras substâncias básicas, como o HPO4 2- – que ao reagir com o H+ forma o H2PO4 - –, algumas proteínas plasmáticas e até mesmo a hemoglobina, devido à carga elétrica negativa contida em seus aminoácidos, atraindo e reagindo assim com os íons H+. Uma vez relembrados os conceitos de ácido e base, fica mais fácil entendermos o que é acidose e alcalose – que vamos falar bastante ao longo desse capítulo. A acidose é uma condição em que os líquidos corporais estão bastante concentrados em íons H+ ou quando ele é adicionado excessivamente em um meio. Em oposição, a alcalose é a condição na qual os líquidos corporais estão carregados de bases ou quando os íons H+ são retirados intensamente de um meio. Só a título de nomenclatura, o termo álcali pode ser entendido, para alguns autores, como sinônimo de base. 4. REGULAÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DO ÍON H+ Como descrito anteriormente, o balanço entre a ingestão/produção e a excreção renal de H+ não consegue dar conta sozinho de regular a quantidade de H+ nos líquidos corporais, sendo necessário outros mecanismos para controlar a concentração do H+. Outras estruturas corporais irão participar dessa regulação, tais como o sangue, alguns elementos celulares, o sistema respiratório e o sistema renal. O objetivo principal é realizar um efeito tampão. O que é isso? Um sistema tampão serve para evitar que as concentrações dos íons H+ variem bruscamente nos líquidos corporais e comprometam as funções celulares e teciduais (por exemplo, inativações enzimáticas, desnaturação proteica etc.). Todas essas estruturas envolvidas fazem parte de uma estratégia, cujo objetivo principal é regular de modo bastante preciso a quantidade de íons H+ nos líquidos corporais e evitar danos severos que atentem contra a vida. Na prática, as alterações do pH plasmático nos fornecem informações preciosas acerca da condição clínica e gravidade do quadro de um paciente – desordens metabólicas e distúrbios acidobásicos causados por variações importantes da concentração do H+ plasmático. O pH normal do sangue arterial (sangue “rico” em O2) é de aproximadamente 7,4, na medida em que o pH do sangue venoso (sangue “pobre” em O2) e dos tecidos é de mais ou menos 7,35, devido à maior presença tecidual de gás carbônico (CO2) que, ao reagir com a água, corrobora para a maior formação de H2CO3. Admitimos como variação normal do pH sanguíneo entre 7,35 e 7,45. Caso o pH normal do sangue arterial esteja abaixo de 7,35, o indivíduo terá uma acidose; na medida em que o pH estiver acima de 7,45, o indivíduo terá umaalcalose. Simples assim! No entanto, a depender do compartimento corporal, os valores de pH mudam. Por exemplo, o pH intracelular é mais baixo que o pH plasmático, devido à maior produção de H2CO3 intracelular. Já a urina tem um pH na faixa entre 4,5 e 8,0, a depender das condições do equilíbrio acidobásico de um indivíduo. 5. MECANISMOS CORPORAIS DE DEFESA: PULMÕES, TAMPÕES E RINS O corpo humano possui três sistemas de proteção contra as variações das concentrações do H+ nos líquidos corporais, com o objetivo de evitar acidose ou alcalose: (i) Os pulmões têm como ação regulatória a eliminação do CO2 e, consequentemente, do H2CO3 do líquido intersticial; (ii) Os sistemas-tampão – que são substâncias químicas presentes nos líquidos corporais – reagem com o H+ e evitam alterações bruscas em suas concentrações; (iii) Os rins reajustam a concentração do H+ eliminando urina ácida ou alcalina, a depender de o corpo apresentar acidose ou alcalose mais persistente. Cada um desses três mecanismos age em um tempo diferente e com uma velocidade diferente, a depender do distúrbio acidobásico apresentado. Por exemplo, quando um paciente apresenta uma acidose, a primeira linha de defesa a agir são os pulmões – cuja resposta é imediata, sendo sua ação bastante rápida e, em questão de segundos, é capaz de atenuar as perturbações iniciais, sem alterar a quantidade corporal total de íons H+. Por exemplo, resumidamente, em condições como acidose, os pulmões (através da dinâmica ventilatória) são capazes de eliminar o CO2 e, por consequência, o H2CO3, reduzindo assim a acidose. Caso o distúrbio persista, entra em ação a segunda linha de defesa, que é feita pelos tampões dos líquidos corporais, que começam a agir em minutos. Caso, ainda assim, o distúrbio seja persistente ou intenso o suficiente, as duas linhas iniciais de defesa deixam de ser capazes de regular precisamente a concentração do H+. Então, ganha destaque a terceira linha de defesa, realizada pelo sistema renal, cuja resposta inicial é mais lenta, porém é muito potente e evita o aumento contínuo e progressivo da concentração de H+. Essa terceira e última linha de defesa tem uma duração mais longa, que pode chegar até a vários dias, até que a homeostase corporal seja restabelecida. 5.1 Regulação Respiratória do Equilíbrio Acidobásico O sistema respiratório e sua regulação do equilíbrio ácidobásico ajustam a concentração do CO2 extracelular (através da pCO2), fazendo com que seja eliminado em maior ou menor grau pela mecânica respiratória. Se alguma condição clínica aumentar a frequência respiratória do indivíduo, a concentração do CO2 será reduzida no líquido extracelular, o que contribui para deslocar o equilíbrio da reação CO2 + H2O ↔ H2CO3 ↔ H+ + HCO3 - para a esquerda, no sentido de reduzir a concentração de H+. O contrário também é verdadeiro. Quando um indivíduo tem sua frequência respiratória reduzida, a quantidade do CO2 do líquido extracelular aumenta e, pelo Princípio de Le Chatelier, o equilíbrio da reação o desloca para a direita, fazendo aumentar a concentração do íon H+ no líquido extracelular. Fique tranquilo caso você não tenha lembrado desse princípio. Eu explico melhor para você logo adiante. É necessário também entender a dinâmica da produção até a eliminação pulmonar do CO2, assim como seu papel na regulação da concentração desse gás nos líquidos corporais. O CO2 é continuamente produzido pelos tecidos como subproduto das reações metabólicas, se difunde pelos líquidos tissulares até chegar à corrente sanguínea e daí até os alvéolos pulmonares para ser eliminado pelo processo de hematose. Na medida em que o CO2 for sendo mais produzido, a pCO2 do líquido extracelular também aumenta, ao passo que uma produção reduzida do CO2 faz reduzir a pCO2. Em outras palavras, a pCO2 depende diretamente da concentração do CO2. Então, como a produção tecidual de CO2 é constante no tempo, o único fator que consegue alterar a pCO2 no líquido extracelular é a ventilação nos alvéolos pulmonares. Ou seja, quanto maior for a frequência respiratória do indivíduo, maior será a “lavagem” do CO2, mais CO2 será eliminado e menor será a pCO2. A recíproca também é verdadeira, pois quanto menos ventilação alveolar, maior será retenção do CO2 e, consequentemente, maior será a pCO2 do líquido extracelular. Novamente analisando a reação CO2 + H2O ↔ H2CO3 ↔ H+ + HCO3 -, percebemos que quanto maior for a concentração de CO2, o equilíbrio da reação se desloca para a direita, fazendo aumentar a concentração do H2CO3 e do H+, reduzindo o pH do líquido extracelular. Acontece que a alta concentração do H+ também afeta a ventilação alveolar, porque as alterações no pH alteram a quantidade de O2 sanguíneo (e, consequentemente, a sua pressão parcial – pO2). Na prática, o sistema respiratório regula a concentração do H+ como um sistema de feedback negativo. Quando a concentração do íon H+ aumenta, o sistema respiratório trabalha no sentido de aumentar a ventilação alveolar (aumentando a frequência respiratória) para diminuir a pCO2 do líquido extracelular e, por fim, a concentração do H+. Caso a concentração do H+ diminua, o centro respiratório é inibido, e a ventilação alveolar diminui até que a concentração do H+ aumente. A regulação respiratória do equilíbrio acidobásico atua como um sistema-tampão – evitando que a concentração do H+ varie bruscamente – até que a resposta renal (mais lenta) consiga reverter o distúrbio acidobásico. Esse é o sistema regulatório pulmonar, cujos mecanismos ocorrem perfeitamente em indivíduos saudáveis. No entanto, alguns problemas pulmonares podem comprometer esse sistema protetor, como o enfisema pulmonar grave. Nesses indivíduos, a função pulmonar está comprometida e a eliminação do CO2 não é suficiente, fazendo com que este se concentre no líquido extracelular e promova uma acidose respiratória. 5.2 Sistema de Tampões dos Líquidos Corporais e Regulação do Equilíbrio Acidobásico Já sabemos que uma substância é caracterizada como tampão quando possui a capacidade de se ligar reversivelmente aos íons H+ e, dessa forma, reduzir a sua concentração no meio em que esteja elevado. O corpo humano tem várias substâncias com o poder de tamponar esses íons H+. Quimicamente, a reação genérica de tamponamento é expressa por: Recordar é viver, não é mesmo? Então, para entender como os tampões contribuem para evitar as alterações da concentração dos íons H+, te relembro aqui uma definição química que você viu no ensino médio, que é o Princípio de Le Chatelier. Esse princípio diz que “quando um agente externo perturba um sistema em equilíbrio, a reação química tende a se deslocar no sentido de minimizar o efeito da perturbação inicial”. Isso significa que, se um soluto for adicionado a um sistema em equilíbrio, a reação química se desloca para tentar diminuir quantidade desse soluto. A situação contrária também é verdadeira: se um soluto for retirado de um sistema em equilíbrio, a reação química irá se deslocar para tentar aumentar a sua quantidade. Visto isso, fica fácil entender porque a concentração de H+, quando está elevada nos líquidos corporais (por exemplo, acidose), faz com que a reação química se desloque para a direita e mais íons H+ se liguem ao tampão (vide reação acima). Em contrapartida, na medida em que a concentração de H+ diminui em um meio (p.ex., alcalose), a reação química agora irá se deslocar para a esquerda e os íons H+ se separam do tampão. 5.2.1 Sistema-Tampão do Íon Bicarbonato É o sistema-tampão extracelular mais potente do corpo humano e é formado por uma solução aquosa de: H2CO3(aq) – ácido carbônico, que é um ácido fraco – e NaHCO3(aq) – bicarbonato de sódio, que é um sal derivado desse ácido. Como abordado anteriormente, o H2CO3 é formado a partir da reação do H2O com o CO2 – produzido pelos tecidos como subproduto das reações metabólicas – como mostra esta expressão: Na prática, seria uma reação química bastante lenta, por isso é catalisada pela enzima anidrase carbônica – que acelera a velocidadedessa reação –, a qual está presente em grandes quantidades nos alvéolos pulmonares, nos quais o CO2 transita o tempo inteiro. Além dos alvéolos, a anidrase carbônica está presente também nas células tubulares renais, nas quais também ocorre essa reação química. Acontece que, como o H2CO3 é um ácido fraco, ele se ioniza muito pouco, isto é, libera poucos íons H+ em solução aquosa e por isso forma pequenas quantidades de íon HCO3 -. Observe a próxima reação química e note que a seta de baixo (que aponta para sua esquerda) está maior. Isso significa que a reação inversa está sendo favorecida, porque está havendo pouca formação dos íons (H+ e HCO3 -) pelo fato do ácido carbônico ser fraco. Lembra que a outra substância constituinte desse sistema-tampão é o bicarbonato de sódio (NaHCO3)? Ele se dissocia completamente em meio aquoso, como mostra a proxima reação química: Juntando as duas reações químicas anteriores e, a partir das informações descritas, podemos representar o sistema-tampão do bicarbonato pela seguinte expressão: A partir dessa expressão global do sistema-tampão do bicarbonato, podemos entender o passo a passo do seu comportamento diante da acidose ou da alcalose. Por exemplo, quando o indivíduo está em acidose, a quantidade em excesso de íons H+ é tamponada pelo HCO3 -. Isso desloca a reação para a esquerda (de acordo com o Princípio de Le Chatelier), fazendo com que mais H2CO3 seja formado e, consequentemente, mais CO2 e H2O sejam formados. Na medida em que o CO2 é bastante formado, haverá o estímulo ao centro respiratório no tronco encefálico para que aumente a frequência respiratória e assim elimine o CO2 em excesso do líquido extracelular (que é justamente o caso do garoto Wilker, do início deste capítulo). Quando o indivíduo manifesta um quadro de acidose metabólica, como no caso do diabetes (cetoacidose diabética), o sistema compensatório orgânico tenta jogar para fora o excesso de CO2 formado aumentando a frequência respiratória. Em contrapartida, quando um indivíduo apresenta uma alcalose, as hidroxilas (OH-) irão se acumular nos líquidos corporais e, na medida em que vai reagindo com o H2CO3, vai formando mais HCO3 -. Dessa forma, a concentração de H2CO3 diminui (justamente pelo fato de a reação química se deslocar para a direita), pois haverá sua reação com as hidroxilas, o que faz o CO2 se combinar cada vez mais com a H2O na tentativa de repor o H2CO3, como mostra a expressão a seguir: Portanto, a quantidade de CO2 dos líquidos corporais diminui, e esse evento faz o centro respiratório reduzir a frequência respiratória pulmonar, diminuindo a eliminação de CO2. Já o aumento da quantidade de HCO3 - plasmático é minimizado pelo aumento da excreção renal de HCO3 -. Vamos abordar melhor esses conceitos mais adiante, porém guarde esta informação crucial para entender os mecanismos compensatórios dos distúrbios acidobásico. Os rins são os responsáveis por regular a concentração do íon HCO3 -, na medida em que os pulmões, com sua mecânica respiratória, regulam a quantidade de CO2 do líquido extracelular – traduzida na prática pela sua pressão parcial (pCO2). Por isso que quando ocorre um distúrbio do equilíbrio acidobásico – que altere a concentração do íon HCO3 - ou da pCO2 –, ele deve ser classificado como metabólico ou respiratório. Caso haja alterações na concentração do íon HCO3 - no líquido extracelular, o distúrbio acidobásico será classificado como metabólico. Quando a concentração do HCO3 - extracelular for reduzida, haverá uma acidose (porque o corpo perdeu base) denominada acidose metabólica, na medida em que o aumento da quantidade do HCO3 - extracelular leva a uma alcalose (porque o corpo ganhou base) denominada alcalose metabólica. Por outro lado, caso a acidose seja provocada pelo aumento da pCO2, ela será classificada como acidose respiratória, na medida em que a alcalose causada pela redução da pCO2 será classificada como alcalose respiratória. 5.2.2 Sistema-Tampão dos Íons Fosfato Não é um sistema de grande destaque no tamponamento do líquido extracelular, porém a sua relevância é pelo fato de realizar o tamponamento do líquido tubular renal. É um sistema formado pelos íons H2PO4 - e HPO4 2- e sua capacidade de tamponar os líquidos tubulares renais é devido à: (i) os íons fosfatos estão em altas concentrações no lúmen tubular, o que por si só aumenta o poder de tamponamento desse sistema-tampão; (ii) o líquido tubular tem um pH mais baixo (mais ácido) que o líquido extracelular, fato que contribui para os íons H+ em excesso se ligarem à base HPO4 2- e se converta em H2PO4 -, minimizando a elevada acidez desse meio. 5.2.3 O Sistema-Tampão das Proteínas As proteínas também têm a capacidade de realizar o tamponamento nos compartimentos em que estão presentes, sobretudo no compartimento intracelular. São uma das substâncias com efeito tampão mais abundantes do corpo humano. Por exemplo, dentro das hemácias, existe a hemoglobina (Hb), cuja função principal é carrear os gases (O2 e CO2), porém tem uma função importante de tampão intracelular (H+ + Hb ↔ HHb). 5.3 Regulação Renal do Equilíbrio Acidobásico Os rins corrigem os distúrbios do equilíbrio acidobásico por meio da eliminação de urina ácida ou básica. O raciocínio é simples: quando a urina ácida é eliminada, a quantidade de ácido no líquido extracelular diminui, ao passo que a urina básica será eliminada (excretando o HCO3 -) quando o líquido extracelular estiver com bases em excesso. O íon HCO3 - tem característica alcalina, é filtrado continuamente e em elevadas quantidades pelos glomérulos. Na medida em que é eliminado na urina, o líquido extracelular (assim como o sangue) fica mais ácido (pela remoção de uma substância básica do sangue). Por outro lado, quando o íon H+ é secretado intensamente no lúmen tubular pelas células epiteliais, o líquido extracelular (e o sangue) fica mais alcalino (pela remoção de uma substância ácida do sangue). Então, o balanço renal dos ácidos e das bases é representado como uma balança de dois pratos que precisa ficar em equilíbrio: quando a secreção renal do H+ for maior que a conservação do HCO3 -, ocorrerá a eliminação de ácido do líquido extracelular, ao passo que, se a conservação do HCO3 - for maior que secreção do H+, ocorrerá a eliminação de base do líquido extracelular. No entanto, os rins possuem a capacidade de eliminar os chamados ácidos não voláteis – ácidos não derivados do H2CO3, que não podem ser eliminados pela ventilação pulmonar. Esses ácidos surgem do metabolismo das proteínas, e a eliminação renal é o único mecanismo de sua eliminação, o que evita de o organismo entrar constantemente em estados de acidose metabólica. Além disso, os rins também evitam a perda de íons bicarbonato na urina. Em indivíduos saudáveis, cerca de 4.320 mEq de HCO3 - são reabsorvidos diariamente quase totalmente pelos túbulos renais, contribuindo assim para a manutenção do sistema-tampão do líquido extracelular (sistema-tampão bicarbonato). A reabsorção tubular do HCO3 - possibilita que esse processo aconteça conjuntamente à secreção tubular do H+, justamente porque o HCO3 - filtrado pelos glomérulos reage com o H+ secretado pelas células tubulares, em uma proporção equimolar (proporção de 1:1), para formar o H2CO3. A fim de garantir essa reabsorção conjunta, são necessários cerca de 4.320 mEq de H+ a serem secretados diariamente na luz tubular para reagir com a mesma quantidade filtrada de HCO3 -. Quando um indivíduo está em acidose, os rins reabsorvem todo o HCO3 - filtrado do líquido tubular, deixam de excretá-lo na urina e produzem mais bicarbonato, o qual será deslocado para o líquido extracelular. Isso faz com que a concentração de H+ do líquido extracelular diminua proporcionalmente. Já na alcalose, os rins não conseguem reabsorver todo o HCO3 - filtrado e então passam a excretá-lo na urina. Uma vez eliminados os íons HCO3 -, os íons H+ ficam livres e aumentam proporcionalmente no líquido extracelular. Em outras palavras, a açãode excretar o HCO3 - do líquido extracelular é o mesmo que aumentar a concentração de H+, ao passo que conservar o HCO3 - no líquido extracelular é o mesmo que reduzir a concentração do H+. Portanto, os rins revertem a acidose ou alcalose a partir de três processos: secretando o H+, reabsorvendo o HCO3 - filtrado e/ou produzindo mais íons HCO3 -. Por isso, vamos estudar cada processo separadamente. 6. SECREÇÃO TUBULAR DE H+ E REABSORÇÃO TUBULAR DE HCO3 - A secreção do íon H+ e a reabsorção do HCO3 - ocorrem devido à ação das células epiteliais tubulares. Por exemplo, no túbulo proximal, no segmento ascendente espesso da alça Henle e na porção inicial do túbulo distal, a secreção do H+ ocorre através da ação da proteína contratransportadora sódio- hidrogênio. Essa proteína secreta o H+ para o lúmen tubular por transporte ativo secundário, em troca da absorção do Na+ para dentro da célula. Esse transporte acontece porque, na medida em que o Na+ é transportado para dentro da célula a favor do seu gradiente de concentração, a energia metabólica é gerada de forma suficiente para garantir a secreção do H+ contra o seu gradiente de concentração (de dentro da célula para o lúmen tubular). A (imagem 1) ilustra o referido mecanismo, além da forma como a maior parte do HCO3 - é reabsorvido, estando intimamente relacionada com a secreção tubular diária de H+. Uma vez produzido no interior da célula, o HCO3 - – produzido no interior da célula a partir da ionização do H2CO3 – se move em direção ao interstício renal e, posteriormente, para os capilares sanguíneos peritubulares, na medida em que os íons H+ são secretados no lúmen tubular. Imagem 1: essa imagem ilustra globalmente os mecanismos celulares da (1) secreção ativa de H+ pelos túbulos renais; (2) reabsorção tubular de íons e o HCO3 -, após combinação com o H+ até formar ácido carbônico (H2CO3), que se dissocia formando dióxido de carbono e água; e (3) reabsorção do Na+ em troca dos H+ secretados. Esse mecanismo descrito acontece nas células do túbulo proximal, segmento ascendente espesso da alça de Henle e no início do túbulo distal. 6.1 Filtração do HCO3 - e sua Reabsorção pela Interação Tubular com o H+ Como a membrana plasmática das células têm resistência elétrica, o HCO3 - (assim como outros íons) não transitam livremente através delas. Por isso, se faz necessário que o HCO3 - filtrado reaja com o H+ presente no lúmen tubular até formar o H2CO3 e, a partir daí, formar CO2 e H2O (imagem 1). O CO2 é uma molécula pequena, sem carga elétrica e apolar; por isso consegue transitar livremente através das membranas. Dentro desta célula, o CO2 reage com o H2O por meio da anidrase carbônica e produz uma nova molécula de H2CO3 intracelular. Esse H2CO3 se ioniza e produz HCO3 - e H+ no líquido intracelular, sendo que o HCO3 - se difunde para o líquido intersticial e os capilares peritubulares – por cotransporte Na+/HCO3 - (no túbulo proximal) e pelo trocador Cl-/HCO3 - (em porções medianas e distais do néfron). 6.2 Células Intercaladas e Seu Papel na Secreção de H+ As células intercaladas estão na porção final do túbulo distal e no túbulo coletor. Elas secretam o íon H+ para o lúmen tubular, através de transporte ativo primário promovido pela ação da ATPase de hidrogênio. O mecanismo de ação ocorrido nesses segmentos tubulares é o seguinte: a secreção do H+ acontece a partir da reação do CO2 do líquido intracelular com o H2O até produzir o H2CO3 – diferentemente de como acontece no túbulo proximal, na alça de Henle e no início do túbulo distal. Uma vez produzido, o H2CO3 se ioniza e em HCO3 - – que será reabsorvido para o interstício e, posteriormente, capilares peritubulares – e o H+ – que será secretado no lúmen tubular pela ATPase de hidrogênio (imagem 2). Imagem 2: essa imagem ilustra a secreção ativa primária de H+ através da membrana luminal das células intercaladas dos túbulos distais e coletores finais. 7. PRODUÇÃO DE “NOVO” HCO3 - PELA AÇÃO DOS SISTEMAS-TAMPÕES FOSFATO E AMÔNIA Embora já tenhamos comentado sobre os sistemas-tampões principais do corpo humano, é necessário discuti-los aqui nessa sessão, para que você entenda como eles geram “novo” HCO3 -. O (1) tampão fosfato e o (2) tampão amônia são os responsáveis por essa nova produção adicional de HCO3 -. 7.1 O Sistema-Tampão dos Íons Fosfato Já sabemos que esse sistema é formado pelos íons HPO4 2- e H2PO4 - e estão em grande concentração no líquido tubular. Seu objetivo principal é tamponar de maneira eficaz o líquido tubular. Acontece que, quando o HCO3 - é filtrado e se faz presente no líquido tubular, assim como o H+ secretado, tenderá a acontecer a reabsorção de ambos os íons. No entanto, como o líquido tubular também tem grandes quantidades de HPO4 2- e H2PO4 -, o H+ em excesso (além do Na+ presente no líquido tubular) irá se combinar com esses íons fosfato até formar o NaH2PO4. Com isso, o HCO3 - produzido dentro das células tubulares será direcionado, posteriormente, ao interstício renal e aos capilares peritubulares, o que significa, na prática, um ganho efetivo do HCO3 - para a corrente sanguínea (imagem 3). Imagem 3: essa imagem ilustra como acontece o tamponamento dos H+ secretados pelo íon fosfatado (NaHPO4 -) filtrado. Note que novo íon HCO3 - é reabsorvido em direção ao interstício para cada NaHPO4 - que reage com um H+ secretado. 7.2 O Sistema-Tampão Amônia Embora não tenhamos abordado anteriormente esse sistema-tampão, fica mais fácil entender a sua função principal aqui nesta sessão. O sistema-tampão amônia também está presente no líquido tubular e é formado pela amônia (NH3) e pelo íon amônio (NH4 +) – sendo este último derivado da metabolização da glutamina (aminoácido essencial presente em nosso organismo). Seu objetivo é: tamponar grande parte do H+ excedente no líquido tubular e eliminar os ácidos não voláteis que estão em grande quantidade do líquido extracelular. A glutamina é filtrada pelos glomérulos e depois é reabsorvida pelas células epiteliais de algumas porções tubulares do néfron (túbulos proximais, ramo ascendente espesso da alça de Henle e dos túbulos distais). Uma vez dentro dessas células, cada molécula de glutamina será metabolizada até formar dois íons NH4 + e dois íons HCO3 -. O NH4 + será secretado no lúmen tubular em troca da reabsorção tubular do Na+ por meio de proteínas contratransportadoras. Por outro lado, o HCO3 - será reabsorvido para o líquido intersticial e, posteriormente, para os capilares peritubulares. Justamente por isso que o sistema-tampão amônia contribui para formar “novo” HCO3 -, a partir do metabolismo tubular da glutamina (imagem 4). Imagem 4: essa imagem ilustra a como acontece a produção e secreção do íon amônio (NH4 +) pelas células tubulares proximais. A glutamina é metabolizada no interior da célula, produzindo NH4 + e HCO3 -, sendo que o NH4 + é secretado para o lúmen tubular em troca da reabsorção do Na+. Nos túbulos coletores, o tamponamento acontece de uma forma um pouco diferente. Nessa região, o H+ é secretado ativamente para dentro do túbulo, onde irá reagir com NH3 para formar o íon NH4 +, que será eliminado na urina. Ou seja, para cada NH4 + formado para que seja eliminado na urina, um “novo” HCO3 - é formado dentro da célula e reabsorvido para os capilares peritubulares, como você pode ver na (imagem 5). Imagem 5: essa imagem ilustra como acontece o tamponamento da secreção do H+ pela amônia (NH3) nos túbulos coletores. O NH3 se difunde do lúmen tubular – onde reage com o H+ secretado –, formando o NH4 +, que é então excretado. Note que para cada NH4 + excretado, um novo HCO3 - é formado dentro das células tubulares. Ou seja, todas as vezes que o H+ secretado no túbulo se combinar com uma substância de um sistema-tampão (seja ele do fosfato ou da amônia), que não seja o HCO3 - , o resultado final será a formação de “novo” HCO3 -. Isso mostra como os rins são capazes de produzir e recompor as reservas de íons HCO3 - extracelular para atenuar distúrbiosacidobásicos. 7.3 Regulação da Secreção Tubular Renal de H+ A principal forma de eliminação de H+ pelo rim é na forma de amônio. Em condições orgânicas e metabólicas normais (sem acidose ou alcalose), os túbulos renais secretam o H+ em quantidade suficiente para que quase todo o HCO3 - filtrado seja reabsorvido, além de secretar H+ suficiente para que seja eliminado na forma de NH4 + ou na forma de outros ácidos. Durante a acidose, a secreção tubular do H+ é estimulada o suficiente para que haja reabsorção de todo o HCO3 - filtrado e formar H+ suficiente para poder excretar grandes quantidades de NH4 +. Já vimos que esses eventos geram grandes quantidades de “novo” HCO3 - para ser adicionado ao interstício renal e corrente sanguínea, atenuando a acidose. Já durante a alcalose, ocorre a redução da secreção tubular do H+, para que ocorra uma mínima reabsorção de HCO3 -, favorecendo sua maior excreção urinária. Vale destacar que os maiores estímulos para aumentar a secreção tubular de H+ na acidose são o aumento da pCO2 extracelular (que ocorre na acidose respiratória) e o aumento da concentração do H+ extracelular (que acontece tanto na acidose respiratória quanto na acidose metabólica). Algumas outras condições podem contribuir para o aumento da secreção do íon H+. Um exemplo clássico é quando a aldosterona é hipersecretada, o que estimula a secreção tubular de íons H+ pelas células intercaladas no ducto coletor, aumentando a quantidade de HCO3 - reabsorvido para o interstício (e capilares peritubulares), fazendo o organismo desenvolver um quadro de alcalose. Então, as células tubulares reduzem a secreção de H+ na tentativa de compensar a redução da concentração de H+ . 8. COMO OS RINS CORRIGEM A ACIDOSE Você já sabe que a acidose (metabólica ou respiratória) é uma condição cujo pH do líquido extracelular é reduzido, devido à redução proporcional do HCO3 - em relação ao CO2 (e, consequentemente, aos íons H+). A diferença básica entre o distúrbio metabólico e respiratório é: caso a acidose aconteça pela diminuição do HCO3 -, será uma acidose metabólica; caso a acidose aconteça por causa do aumento na pCO2, será uma acidose respiratória. Então, como tal situação provoca também uma redução na quantidade proporcional de HCO3 - em relação ao H+ no líquido tubular, um excesso de íons H+ se estabelecerá nos túbulos renais, o que causa a reabsorção completa do HCO3 -, deixando mais íons H+ disponíveis para serem tamponados pelo NH4 + e pelo HPO4 2-. Ou seja, o efeito prático da acidose é fazer com que os rins reabsorvam todo o HCO3 - filtrado pelos glomérulos, além de formar “novo” HCO3 - através da formação de NH4 + e demais substâncias. Na acidose metabólica, o que acontece é o seguinte: o íon H+ fica em excesso em relação ao HCO3 - presente no líquido tubular, porque esse HCO3 - é menos filtrado pelos glomérulos. Em resposta a esse distúrbio, portanto, ocorrerá o aumento da taxa de ventilação que reduz a pCO2, além da compensação renal, que consistirá na diminuição da filtração do HCO3 - devido à queda da concentração do HCO3 - extracelular. Isso acontece porque o corpo “entende” que precisa conservar base (HCO3 -) e eliminar substâncias ácidas em situações de acidose. Já na acidose respiratória, o excesso do íon H+ no líquido tubular ocorre devido ao aumento na pCO2 do líquido extracelular, o que contribui para a estimular as células tubulares a secretarem o H+. Então, a resposta compensatória consiste em aumentar o HCO3 - plasmático por meio da adição de “novo” HCO3 - no líquido extracelular. Esse aumento compensatório do HCO3 - é suficiente para fazer retornar o pH plasmático ao normal, em oposição à elevação inicial da pCO2. 9. COMO OS RINS CORRIGEM A ALCALOSE Uma vez entendidos os mecanismos compensatórios ocorridos na acidose, entender as respostas compensatórias à alcalose se torna mais prático, tendo em vista que são basicamente opostas entre si. Como na acidose o que acontecia era a redução na quantidade proporcional de HCO3 - em relação ao CO2 (e, consequentemente, aos íons H+), na alcalose, a proporção de HCO3 - em relação ao CO2 no líquido extracelular aumenta, o que causa uma queda na concentração do H+ e consequente elevação no pH plasmático. A alcalose – seja metabólica ou respiratória – cursa com aumento na proporção de HCO3 - em relação ao íon H+ presente no líquido tubular. Esse distúrbio faz com que o excesso de HCO3 - seja eliminado na urina, uma vez que não pode ser reabsorvido pelas células tubulares. Ou seja, na medida em que o HCO3 - é eliminado, o efeito resultante é o mesmo de se acrescentar íons H+ no líquido extracelular, fazendo com que o distúrbio inicial seja atenuado e a concentração de H+ e o pH do líquido extracelular voltem ao normal. O que causa a alcalose respiratória é a queda da pCO2 do líquido extracelular motivada por hiperventilação (aumento das incursões respiratórias). Essa redução da pCO2 gera um efeito em cascata, fazendo com que a secreção tubular de H+ seja diminuída, causando, por sua vez, a redução da quantidade de H+ no túbulo. Uma vez que não haja íons H+ suficientes no túbulo para reagir com todo o HCO3 - filtrado, menos HCO3 - será reabsorvido e, desse modo, passa a ser eliminado na urina. Ou seja, a resposta compensatória da alcalose respiratória (causada pela redução da pCO2) é a redução da concentração plasmática de HCO3 - devido à excreção aumentada de HCO3 -. Já a alcalose metabólica é causada pelo aumento da concentração extracelular de HCO3 -. Esse aumento causa maior filtração de HCO3 -, o que contribui para gerar um excesso de HCO3 - tubular em relação ao H+ secretado no túbulo. O excesso de HCO3 - faz com que este íon acabe não sendo reabsorvido, justamente porque a quantidade de íon H+ disponível para reagir com ele é insuficiente e, portanto, o HCO3 - será eliminado na urina. No entanto, o efeito desse distúrbio pode ser atenuado com respostas compensatórias que incluem a redução da ventilação (pela redução da frequência respiratória), que faz com que a pCO2 aumente e o pH do líquido extracelular diminua, retornando aos níveis normais. As células intercaladas beta, através do trocador cloro-bicarbonato (Cl-/HCO3 -), são as principais eliminadoras de HCO3 - do sistema tubular, protegendo, dessa forma, o organismo de situações de alcalose (imagem 6). Esse processo não é imediato e, como já citado, o rim demora alguns dias (cerca de 2-4 dias) para controlar o processo. Imagem 6: essa imagem ilustra esquematicamente uma célula intercalada beta, com a presença trocador cloro-bicarbonato na membrana luminal (Cl-/HCO3 -) e o canal H+/ATPase na membrana basolateral. REFERÊNCIAS DAS IMAGENS 1. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 3. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 4. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 5. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 6. GOOGLE IMAGENS (adaptada). Acesso em: 04 abr. 2019. 7. Expressões químicas usadas no início deste capítulo: Elaboração própria. Informação retiradas de HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. REFERÊNCIAS 1. BERNE; LEVY. Fisiologia. Rio de Janeiro: Editora Elsevier. 2009. 2. HALL, J. E; GUYTON & HALL: Tratado de Fisiologia Médica, 12ª ed. Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2011. 3. AIRES, Margarida de Mello. Fisiologia. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan. 2012. 4. SILVERTHORN, Dee U. Fisiologia Humana: Uma abordagem integrada. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. 5. BARRET, Kim E. et al. Fisiologia médica de Ganong. 24. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. 6. COSTANZO, Linda S. Fisiologia. 5.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. CONFERÊNCIAS Confira aqui a aula dinâmica do Medicina Resumida sobre os assuntos abordados nesse capítulo! https://www.researchgate.net/profile/Francisco_Gainza/publication/11876929/figure/fig2/AS:720386509504513@1548764936142/Celula-intercalada-tipo-B-del-tubulo-colector-Interviene-en-el-transporte-de.png Sumário Capa Rosto Créditos Autores AGRADECIMENTOS APRENDER PODE SER MAIS FÁCIL O MEDICINA RESUMIDA Mapa Conceitual 1. Sistema Renal: Visão Geral e Anatomia 2. Histologia do Sistema Renal 3. Manutenção do Volume dos Líquidos Corporais 4. Filtração Glomerular 5. Reabsorção e Secreção Tubular 6. Concentração e diluição da urina 7. Regulação renal dos demais íons (K+, CA2+, PO43-, MG2+) 8. Equilíbrio acidobásico Capa Rosto Créditos Autores AGRADECIMENTOS APRENDER PODE SER MAIS FÁCIL O MEDICINA RESUMIDA Mapa Conceitual 1. Sistema Renal: Visão Geral e Anatomia 2. Histologia do Sistema Renal 3. Manutenção do Volume dos Líquidos Corporais 4. Filtração Glomerular 5. Reabsorção e Secreção Tubular 6. Concentração e diluição da urina 7. Regulação renal dos demais íons (K+, CA2+, PO43-, MG2+) 8. Equilíbrio acidobásico