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CNU Concurso Nacional Unificado Bloco 8 - Nível Intermediário Realidade Brasileira PIRATARIA É CRIME! Todos os direitos autorais deste material são reservados e protegidos pela Lei nº 9.610/1998. É proibida a reprodução parcial ou total, por qualquer meio, sem autorização prévia expressa por escrito da Nova Concursos. Pirataria é crime e está previsto no art. 184 do Código Penal, com pena de até quatro anos de prisão, além do pagamento de multa. Já para aquele que compra o produto pirateado sabendo desta qualidade, pratica o delito de receptação, punido com pena de até um ano de prisão, além de multa (art. 180 do CP). Não seja prejudicado com essa prática. Denuncie aqui: sac@novaconcursos.com.br SUMÁRIO REALIDADE BRASILEIRA ...................................................................................................6 FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO .................................................................................... 6 DA INDEPENDÊNCIA À REPÚBLICA ..................................................................................................................6 PRIMEIRA REPÚBLICA: ELITE AGRÁRIA E A POLÍTICA DA ECONOMIA CAFEEIRA ....................................12 O ESTADO GETULISTA .....................................................................................................................................13 DEMOCRACIA E RUPTURAS DEMOCRÁTICAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX .............................16 A Redemocratização e a Busca Pela Estabilidade Econômica .................................................................... 20 HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL: LUTA ANTIRRACISTA, CONQUISTAS LEGAIS E DESAFIOS ATUAIS .......................................................................................................................... 27 HISTÓRIA DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL: LUTA POR DIREITOS E DESAFIOS ATUAIS ............................................................................................................................. 30 DINÂMICA SOCIAL NO BRASIL: ESTRATIFICAÇÃO, DESIGUALDADE E EXCLUSÃO SOCIAL .... 33 MANIFESTAÇÕES CULTURAIS, MOVIMENTOS SOCIAIS E GARANTIA DE DIRETOS DAS MINORIAS ........................................................................................................................................... 34 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CONCENTRAÇÃO DA RENDA E RIQUEZA ........................... 45 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E MEIO AMBIENTE .............................................................. 47 BIOMAS BRASILEIROS: USO RACIONAL, CONSERVAÇÃO E RECUPERAÇÃO ............................. 48 MATRIZ ENERGÉTICA........................................................................................................................ 49 FONTES RENOVÁVEIS E NÃO RENOVÁVEIS ...................................................................................................49 MUDANÇA CLIMÁTICA ....................................................................................................................................50 TRANSIÇÃO ENERGÉTICA ...............................................................................................................................58 POPULAÇÃO: ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E DINÂMICA .............................................................. 61 DESENVOLVIMENTO URBANO BRASILEIRO: REDES URBANAS ................................................... 67 METROPOLIZAÇÃO, INFRAESTRUTURA URBANA E SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL ...............................68 CRESCIMENTO DAS CIDADES E PROBLEMAS URBANOS .............................................................................69 DESENVOLVIMENTO RURAL BRASILEIRO: ESTRUTURA E CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA - RELAÇÃO DE TRABALHO NO CAMPO ............................................................................................. 73 SISTEMAS PRODUTIVOS .................................................................................................................. 74 A INSERÇÃO DO BRASIL NO SISTEMA INTERNACIONAL ............................................................. 79 ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO: A CONSTITUIÇÃO DE 1988 E A AFIRMAÇÃO DA CIDADANIA ......................................................................................................................................... 81 6 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. REALIDADE BRASILEIRA FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO DA INDEPENDÊNCIA À REPÚBLICA Período Joanino Quando a corte portuguesa embarcou, fugindo estrategicamente de Lisboa em novembro de 1807, o fez porque tinha consciência dos acontecimentos recentes na Europa, em um momento em que o expansionismo de Napoleão Bonaparte parecia irrefreável. Uma experiência ainda mais próxima de Portugal acendeu para a monarquia o sinal ver- melho e mostrou que os prognósticos eram corretos: o rei espanhol, Fernando VII, foi deposto do trono por Napoleão, em maio de 1808. A fuga da corte portuguesa foi um sucesso em curto prazo; contudo, a longo prazo oca- sionou uma quebra de legitimidade do Império português em um momento em que os ares eram revolucionários. A presença da corte no Brasil causava incômodo em algumas parcelas da população; o exemplo mais evidente desse desconforto foi a Revolução Pernambucana, que estourou na província de Pernambuco, em 1817. Antes da chegada da corte, em 1808, essa província ligava seu comércio diretamente a Portugal, posto que as dificuldades logísticas – como rotas terrestres ou fluviais – impediam o estabelecimento de relações com o Rio de Janeiro. Soma- va-se ao fim desses benefícios concedidos ao comércio pernambucano um período de graves secas e crises de abastecimento. O movimento revolucionário pautava a necessidade de se combater a crise e recuperar os benefícios comerciais, assim como a possibilidade de se romper com a monarquia. Em partes, e por um curto período, os revoltosos – homens livres, escravizados, ricos e pobres – saíram vitoriosos, uma vez que conseguiram destituir o governo de Pernambuco e instalar brevemente uma república; entretanto, foram violentamente reprimidos com prisões e condenações em pra- ça pública. Na Europa, cessada a agitação política entre portugueses e franceses, a soberania lusa conseguiu, enfim, gozar de certa estabilidade, e um forte movimento de pressões pôde ecoar a fim de que D. João retornasse a Portugal. A relutância do rei em retornar causava indigna- ção na população lusa, em um momento no qual a metrópole passava por uma grave crise de produção agrícola e de desvalorização do papel moeda. Essa agitação culminou na chamada Revolução Liberal do Porto, também conhecida como Regeneração de 1820. O prolongamento da ausência régia na metrópole evidenciou que o “exer- cício da exclusiva vontade do rei” não era mais cabível. Assim, profissionais liberais, advogados, médicos e comerciantes reuniram-se na cidade do Porto a fim de redigirem uma Constituição que, embora conservadora, propunha a limitação do poder do monarca e sua submissão à carta constitucional. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 7 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A Regeneração também inovava ao propor a transferência da soberania – antes circuns- crita ao rei – às chamadas Cortes. As pressões exercidas pelas Cortes constituídas fizeram com que D. João retornasse com sua família a Portugal, em abril de 1821, deixando, entretan- to, seu filho D. Pedro de Alcântara no Brasil. A promulgação da Constituição proposta pela Assembleia Constituinte de 1820 teria vali- dade para todos os portugueses, o que incluía os habitantes das colônias portuguesas, inclu- sive na América. Algumas medidas, no entanto, causaram profundo desconforto nos grandes comerciantes do Brasil que já estavam acomodados sob os privilégios concedidos pela pre- sença da corte na colônia. A presença da corte no Brasil (1808-1820) foi moldando as consciências dos colonos a respeito da possibilidade de se constituir um governo realque permanecesse no Brasil. Assim, a ideia de independência começa a ganhar força por volta de 1821, como uma reação à Regeneração de 1820, uma vez que esta era entendida como uma revolução contrária ao Brasil. Com o conflito de interesses latente, os colonos que ganharam com a presença da corte reivindicavam um governo no Brasil; a percepção da necessidade de um Estado Nacional brasileiro evoluiu, o que foi a grande novidade revolucionária. Foi nessa configuração que entrou a figura do príncipe regente, futuro D. Pedro I. Outra determinação polêmica das Cortes era que as províncias do Brasil se transformas- sem em províncias portuguesas, o que gerou, segundo comenta D. Pedro em carta a seu pai, “um choque mui grande nos brasileiros”. O que o príncipe regente precisava fazer era equi- librar-se em um cenário instável, no qual havia a necessidade de se cumprir os decretos das Cortes ao mesmo tempo em que era necessário corresponder os interesses do povo do terri- tório no qual ele se encontrava. Enquanto as Cortes foram convocadas com a finalidade de reorganizar o Império Portu- guês dentro da dinâmica colonial, os colonos agrupavam-se cada vez mais em torno da ideia de separação. Já em 1822, o príncipe regente também recebia pressões a fim de que retornasse a Portu- gal, o que gerou um episódio bastante curioso no dia 9 de janeiro de 1822, o “Dia do Fico”. Naquele dia, D. Pedro recebeu um requerimento que continha 8 mil assinaturas solicitando-o que ficasse no Brasil. Não se sabe quais foram as verdadeiras palavras proferidas pelo jovem príncipe regente; contudo, consagrou-se na memória social a perspectiva de que ele ficaria a fim de preservar os interesses da população brasileira. Um governo foi organizado por D. Pedro logo após esse evento, tendo figuras proeminentes, como José Bonifácio de Andrada e Silva, um moderado que fazia campanhas por maior auto- nomia da colônia, mas não reivindicava uma separação radical. Foram convocados represen- tantes de todas as províncias e, mais tarde, uma assembleia legislativa e constituinte. Já a politização da sociedade colonial, com a chegada da corte em 1808, deu-se em conteú- dos bastante inovadores. Aspectos da ainda recente Revolução Francesa (1779) estavam em alta, sobretudo na crítica ao modelo estamental de sociedade, procurando novas formas organização da sociedade, e também na crítica aos privilégios da nobreza e dos corpos sociais mais altos. Depois da revolução de independência do Haiti (1804), esses conteúdos se tornaram ines- capáveis. Era preciso apropriar-se de alguns elementos e fazer uma revolução menos radical que a francesa e bem menos radical que a de São Domingos, que fora liderada por escravos que, em alguns dias, dizimaram os senhores de engenho e suas famílias para formar um governo antiescravista, consolidado em 1804. 8 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Esse movimento era muito temido na perspectiva das elites coloniais brasileiras. A escra- vidão foi um elemento importante: a dimensão do escravismo na América Portuguesa era tão grande que foi capaz de influenciar todos os outros aspectos da vida social, como valores, formas de pensar, comportamento e práticas políticas. A independência, nesse sentido, mudou a forma de compreender a sociedade: não era mais uma sociedade estamental legitimada por Deus, embora o rico ainda fosse rico, mas agora havia um parlamento; assim, a escravidão tornou-se uma escravidão nacional, e não mais portuguesa. A chegada da corte também dinamizou fluxos econômicos internos, graças à necessidade de abastecimento. Em verdade, essa dinâmica e a diversificação da produção era anterior à chegada da corte, mas se intensificou a partir de 1808. O Rio de Janeiro foi um epicentro que conectou São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande de São Pedro (atualmente Rio Grande do Sul), tanto é que essas foram as primeiras regiões a encamparem o projeto de independência cen- trada na figura de Pedro I, justamente por esses auspícios econômicos, mas também políticos. Independência ou morte, Pedro Américo. Fonte: Wikimedia Commons. Durante 1822, houve diversos movimentos de oposição a Portugal, principalmente no Grão- -Pará e na Bahia. Entre diversas tendências, venceu aquela que defendeu a construção de um Estado independente que mantivesse a escravidão e o poder das elites econômicas. Assim, a liderança de D. Pedro em 7 de setembro de 1822 era a garantia mais próxima da unidade em uma imensa porção de terra marcada por regionalismos e profundas diferenças sociais, pois as elites temiam que uma agitação social incluísse pobres e escravizados (que somavam 80% da população). Primeiro Reinado Entre 1822 e 1831, tem-se a primeira fase administrativa do Império, conhecida como Pri- meiro Reinado. A Assembleia Constituinte eleita em 1823 desejava a limitação dos poderes de D. Pedro I. Durante a “Noite da Agonia”, o imperador cassou os deputados opositores, impugnou as proposições constitucionais e outorgou a Primeira Constituição Brasileira, em 1824. Ela estabe- lecia, entre outras coisas: R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 9 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. z Existência do poder moderador, que poderia suspender os poderes legislativo, executivo e judiciário; z Poder hereditário; z Voto censitário, calculado pela renda. Em reação ao autoritarismo, eclodiu, em Pernambuco, a Confederação do Equador, que exi- gia uma república liberal, a abolição da escravidão e a ampliação dos direitos sociais. Esse movimento teve como principal líder Frei Caneca, mas acabou sendo reprimida. O fuzilamento de Frei Caneca. Fonte: Meio Norte. Entre 1825 e 1828, ocorreu a Guerra da Cisplatina entre o Império do Brasil e as Provín- cias Unidas do Rio da Prata. Após um desgastante e custoso conflito (o Banco do Brasil chegou a falir), a independência do Uruguai foi reconhecida. A instabilidade política também podia ser verificada em episódios como a Noite das Gar- rafadas, demonstrando a grande divergência entre brasileiros e portugueses. Juntava-se a isso a crise econômica e a disputa pela sucessão do trono em Portugal, levando D. Pedro I à abdicação do trono em 7 de abril de 1831. Período Regencial Segundo a Constituição de 1824, a abdicação de D. Pedro I levaria ao trono seu filho D. Pedro II. No entanto, ele tinha apenas cinco anos de idade naquela ocasião. Então, o Parlamento buscou uma alternativa: a regência. O período regencial durou de 1831 até 1840 e foi marcado por grandes conflitos regionais. Os grupos políticos dividiam-se em: z Restauradores: Defendiam o retorno de D. Pedro I e, posteriormente, a coroação de D. Pedro II; z Liberais moderados: Exigiam poderes monárquicos com restrições; z Liberais exaltados: Favoráveis ao federalismo, com maior autonomia das províncias. Durante o período, foram criados: o Código de Processo Criminal, a Guarda Nacional, o Ato Adicional (dando poder às assembleias regionais) e a Lei Feijó (que abolia o tráfico no papel, mas fazia “vista grossa” para que ele ainda existisse na prática). 10 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A instabilidade política acentuou-se com a eclosão de diversos movimentos separatistas nas províncias do país. Entre eles, destacam-se: z Cabanada (1832-34, Pernambuco): Lutou pela restauração da monarquia sob comando de D. Pedro I e pelo fim da escravidão; z Cabanagem (1835-40, Grão-Pará): Exigiu melhores condições de vida para a população da região. Vitimou cerca de 30 mil pessoas; z Revolução Farroupilha (1835-45, Rio Grande do Sul): Pregou a independência do estado e o desejo de melhores condições para os criadores de gado; z Sabinada (1837-38, Bahia): Lutou pela independência da Bahia e pelo fim da escravidão; z Balaiada (1838-41, Maranhão): Colocou-se contra a desigualdade social e contra as injus- tiças cometidas pelas elites. Preocupando-se em garantir a unidade do território, liberais e conservadores (antigos res- tauradores)fizeram uma manobra constitucional e aclamaram D. Pedro II por meio do golpe da maioridade (1840). Segundo Reinado (1840-1889) D. Pedro II em 1876. Fonte: Wikimedia Commons. Com o golpe da maioridade, teve início o período conhecido como Segundo Reinado, que se estendeu até 1889. Por meio de uma manobra conhecida como “parlamentarismo às aves- sas”, D. Pedro II exercia poder sobre a Chefia de Gabinete e sobre o Parlamento. Embora o legislativo fosse dividido entre o Partido Conservador (saquaremas) e o Partido Liberal (luzias), ambos tinham posições semelhantes, como a manutenção da escravidão e a centralização de poder pelo imperador. O Segundo Reinado foi marcado também por uma fase de desenvolvimento econômico. O sucesso do ciclo do café (1830-1950) foi possível pelo fortalecimento da Inglaterra e dos Estados Unidos como mercados consumidores, além de algumas condições internas: R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 11 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. z Abertura de caminhos que ligavam o litoral ao interior passando pelo Vale do Paraíba; z Disponibilidade de terras herdadas da política de vigilância na época do ouro; z Sistema de transporte modernizado com a instalação das ferrovias a partir de 1860. O Império começou a sofrer com a legislação internacional inglesa para a proibição do trá- fico, o que o levou a aprovar duas medidas: a Lei Eusébio de Queirós (que extinguia o tráfico atlântico de escravos) e a Lei de Terras (que postulava que a terra só poderia ser adquirida por meio de compra, excluindo futuros escravizados libertos e os imigrantes europeus que começaram a vir para o país). Em 1864, teve início a Guerra do Paraguai, iniciada a partir da intervenção brasileira sobre os governos do Uruguai e da Argentina, o que foi contra os interesses paraguaios na Bacia Platina. Em resposta, os paraguaios invadiram o atual Mato Grosso do Sul. A guerra opôs os paraguaios, liderados pelo ditador Solano Lopez, à Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai. No entanto, o Brasil acabou indo bem mais além que os outros dois países, arrastando a guerra até o assassinato de Lopez em 1870. Mesmo vitorioso, o Brasil passou a enfrentar um processo de crise. Representação feita, em 1882, por Victor Meirelles sobre a Batalha do Riachuelo travada durante a Guerra do Paraguai. Fonte: Wikimedia Commons. Crise da Monarquia e Proclamação da República O conflito levou ao surgimento da Questão Militar, envolvendo os direitos sociais e políticos dos militares. Com o surgimento do Partido Republicano, em 1873, uma ala mais radical do Par- tido Liberal passou a contestar a centralização monárquica. O movimento abolicionista ganha- va cada vez maior repercussão em busca da aprovação de leis que dessem fim à escravidão. Ademais, houve uma quebra no elo com os conservadores, quando o Império passou a recusar as intervenções do Vaticano sobre a Igreja no Brasil, episódio conhecido como Ques- tão Religiosa. O rompimento definitivo viria com o fim da escravidão. A partir da Lei do Ventre Livre, em 1871, e da Lei dos Sexagenários, em 1883, a abolição pareceu inevitável. No entanto, os escravocratas radicalizaram sua oposição aos abolicionistas a partir de 1885, proibindo seus eventos e organizando ataques. Diante da iminência de uma guerra civil, o Império decidiu mediar o fim da escravidão com a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, o que fez com que perdesse o apoio dos cafeicultores do 12 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Vale do Paraíba, que ficaram conhecidos como “republicanos de última hora”. Por fim, um golpe militar com o apoio de setores civis realizou a Proclamação da República, em 1889. PRIMEIRA REPÚBLICA: ELITE AGRÁRIA E A POLÍTICA DA ECONOMIA CAFEEIRA Com a Revolução Industrial, a Inglaterra tornou-se uma importante consumidora de café, que era utilizado como estimulante para os seus trabalhadores. Até o século XVIII, a principal produto- ra da bebida era a colônia francesa de São Domingo. Com o processo revolucionário que culminou na independência do Haiti, em 1804, e a consequente retirada do principal produtor, houve um impacto nas demais zonas produtoras mundiais. O deslanche cafeeiro, no Brasil, a partir do final da década de 1820, aconteceu por alguns legados da economia aurífera. Dentre estes, destacam-se: z um volumoso tráfico negreiro transatlântico entre os portos da África Central e o Rio de Janeiro (controlado pelos negociantes); z a abertura de vias que cruzavam o Vale do Paraíba; z a grande disponibilidade de terras virgens, derivada da “política das zonas proibidas” (ordenação que buscava evitar o extravio de ouro ao impossibilitar a abertura de novos caminhos ou o povoamento em áreas onde inexistissem registros, passagens e vigilância); z sistema de transporte baseado em tropas de mulas (eficiente para a topografia acidentada do Centro-Sul). Com a vinda da Família Real Portuguesa, em 1808, houve um crescimento vertiginoso da produção de café, chegando a 67 mil toneladas em 1833, o que representava o valor total da produção mundial nas portas da Revolução Haitiana em 1790. A produção do Vale do Paraíba dominou o mercado mundial do café, com larga vantagem, até a década de 1870, quando foi superado pelo Oeste Paulista e pela Zona da Mata Mineira. O crescimento cafeeiro dependeu de acordos políticos internos que dessem segurança ao elo entre cafeicultura e tráfico negreiro: mesmo com a aprovação da Lei Feijó (7 de novembro de 1831) e com a proibição do tráfico (imposta pela pressão inglesa), a coalizão entre conser- vadores (saquaremas), liberais moderados (luzias) e fazendeiros do Vale do Paraíba levou à revogação prática (não formal) da legislação, o que a fez entrar para a história como a “Lei para inglês ver”. Após uma queda, entre 1831 e 1835, o tráfico foi praticado, sistematicamen- te, até 1850, ano em que a Lei Eusébio de Queirós foi criada. Mesmo assim, a legislação não impediu o crescimento do tráfico interno para abastecer as lavouras de café do sudeste. O plantio realizado em modo vertical objetivava o aumento da exploração de trabalho escravo, pois contava, em média, com 6 mil pés por escravo (em Cuba, a média era de 2 mil pés por escravo). Os escravos eram organizados em ternos (turmas) e alocados em fileiras de arbustos sob o comando de um capataz. A partir da década de 1850, a elasticidade da produção brasileira ganhou um aliado fun- damental: a ferrovia. Com empréstimos ingleses, investimentos de grandes cafeicultores e de empresários, à exemplo do Barão de Mauá, várias foram as ferrovias surgidas com a intenção de ligar os portos do Rio de Janeiro às regiões produtoras, como o Vale do Paraíba, o Oeste Paulista, a Zona da Mata Mineira e o Sul de Minas. A imagem abaixo retrata a colheita de café no início do século XX no interior paulista. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 13 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Fonte: E. M. Newman/Wikimedia Commons. Na década de 1870, durante os períodos da “expansão para o Oeste” e da “reconstrução”, os Estados Unidos tiveram importante papel enquanto consumidores de café, facilitados por meio de tarifas de importação mais baixas e barateamento nos custos do produto, de modo semelhante ao que ocorreu nos países do norte da Europa em processo de industrialização, urbanização e aumento demográfico. Interessa destacar, ainda, a passagem do café de um mercado restrito e de luxo, no século XVIII, para um mercado de massa industrial, no século XIX. A consequência do modo de exploração vertical, que priorizava a exploração do trabalho, levou ao esgotamento dos solos e ao envelhecimento rápido dos pés, exigindo constantes uti- lizações de mata virgem. Nesse processo, o Oeste Paulista, a Zona da Mata Mineira e o Sul de Minas ofereciam solos melhores, modo de plantio menos destrutivo (plantação em curva de nível) e novas formas de empreendimento (por meio do trabalho assalariadode imigrantes). Com isso, o ciclo do café teve um novo impulso e declinou apenas na década de 1920 com a crise de superprodução e queda vertiginosa nos preços mundiais do café. O ESTADO GETULISTA Washington Luís foi presidente do Brasil até outubro de 1930. Durante seu mandato, ocorreu uma série de eventos que levaram a uma transição política tumultuada. Em comparação a seu antecessor, Arthur Bernardes, o governo de Washington Luís foi relativamente tranquilo. No entanto, ninguém poderia prever os conflitos que surgiriam durante a transição de poder. Os problemas começaram quando Washington Luís insistiu em apoiar o candidato paulista, Júlio Prestes, como seu possível sucessor (Fausto, B., 2019; Pandolfi, 2010). Nas eleições anteriores, os mineiros haviam aceitado que Washington Luís, representante dos interesses paulistas, fosse o candidato em 1926. Para equilibrar a chapa, o mineiro Fer- nando de Melo Viana foi escolhido como vice-presidente. No entanto, os mineiros não esta- vam dispostos a permitir que um representante dos interesses paulistas assumisse o poder novamente. Em busca de apoio, os mineiros uniram-se aos gaúchos, que até então mantinham uma boa relação com o governo federal. Para garantir a participação dos gaúchos na disputa, os mineiros concordaram em permitir a candidatura de oposição de Getúlio Vargas, com João Pessoa como vice (Schwarcz; Starling, 2018; Fausto, B., 2019). 14 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. No dia 1º de março de 1930, um sábado de Carnaval, os brasileiros que sabiam ler e escrever saíram de casa para eleger o próximo presidente da República — e escolher uma nova banca- da de deputados federais. Essa seria a 12ª eleição presidencial da República brasileira. O pequeno número de eleitores — votava o brasileiro adulto, do sexo masculino e alfabetizado, correspondente a 5,6% da população [...]. (Schwarcz; Starling, 2018, p. 351) Após a apuração das eleições, Júlio Prestes foi declarado vencedor em 1º de maio de 1930. Para Getúlio Vargas, não restava outra opção senão aceitar a derrota e reassumir o governo do Rio Grande do Sul. No entanto, nem todos compartilhavam desse pensamento. Surgiu um movimento, conhe- cido como “tenentes civis”, que defendia uma resposta armada. Embora o movimento tenha recebido muitas adesões, inicialmente não possuía grande força. Entretanto, em 26 de julho, João Pessoa, vice na chapa de Vargas, foi assassinado por João Dantas, um adversário político. Esse evento se tornou um marco, sendo o estopim para a revolução que se iniciou em 3 de outubro de 1930 em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. O presidente eleito, Júlio Prestes, foi deposto, e uma junta provisória foi estabelecida. Porém, a junta não conseguiu resistir às pressões. Getúlio Vargas dirigiu-se a São Paulo e depois ao Rio de Janeiro, acompanhado por 3 mil soldados. Em 3 de novembro de 1930, ele assumiu a presidência do país. Com isso, terminava a Primeira República brasileira (Schwarcz; Starling, 2018; Fausto, B., 2019). Após conquistar o poder, Getúlio Vargas decidiu manter-se no cargo, e não foram reali- zadas novas eleições; ele permaneceu como presidente do país por 15 anos. Durante esse período, ele implementou diversas medidas que tiveram impacto significativo, como afirma Boris Fausto (2019): z Centralização: pouco tempo após assumir o Executivo, Vargas dissolveu o Congresso e assumiu também o Legislativo. Ele demitiu todos os governadores eleitos, com exceção do de Minas Gerais, e nomeou interventores federais em seus lugares. Em 1931, foi criado o Código dos Interventores, que estabelecia as normas de subordinação ao governo federal. Essa centralização não se limitou apenas à esfera política, mas também se estendeu à eco- nomia, com o controle da Política do Café sendo assumido por Vargas; z Educação: os líderes políticos vitoriosos em 1930 tinham preocupação em formar uma elite intelectual mais bem preparada. Neste sentido, um marco importante foi a criação do Ministério da Educação e Saúde. Como ditador, Vargas também teve influência na área educacional; z Tenentismo: os “tenentes”, que apoiavam Vargas, passaram a fazer parte de seu governo, defendendo a continuidade de sua ditadura. Eles foram utilizados para combater as oli- garquias estaduais. No ano de 1932, as lideranças políticas começaram a suspeitar de que Vargas tinha a inten- ção de prolongar o seu governo provisório, o que levou à mobilização para exigir eleições imediatas. Os paulistas estavam cada vez mais insatisfeitos com o governo de Vargas, que havia retirado deles o controle sobre a produção de café e também a autonomia do Estado, ao nomear interventores. As tensões intensificaram-se quando Vargas indicou um nordestino como interventor em São Paulo, pois havia um grande preconceito contra a população nordestina na época. Em 1932, os paulistas passaram a exigir a convocação imediata de uma Assembleia Nacional R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 15 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Constituinte. Além disso, havia um sentimento evidente de que São Paulo estava “carregando o peso” do restante do Brasil, e alguns chegaram a pregar o separatismo caso suas demandas não fossem atendidas (Schwarcz; Starling, 2018). No dia 9 de julho de 1932, estourou em São Paulo a revolução contra o governo federal. Os paulistas esperavam contar com o apoio dos mineiros e rio-grandenses, porém esse apoio não veio. Na verdade, o interventor do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, apoiou Vargas e enviou tropas para combater os paulistas. São Paulo viu-se sozinho em meio ao conflito com o governo federal, contando apenas com a Força Pública e a mobilização popular. O plano dos paulistas era atacar a capital da República e colocar o governo “contra a parede”, buscando negociar ou forçar uma capitulação. No entanto, eles falharam em seu plano, uma vez que o governo federal possuía uma enorme superioridade militar (Fausto, B., 2019). Em 1º de outubro de 1932, São Paulo assinou a rendição. Num gesto característico, Vargas primeiro acertou as contas: prendeu os rebeldes, expulsou os oficiais do exército, cassou os direitos civis dos principais implicados no levante, despachou para o exílio as lideranças polí- ticas e militares do estado, mandou reorganizar a Força Pública e reduzi-la ao status de órgão policial. A elite paulista estava derrotada. (Schwarcz; Starling, 2018) O ano de 1934 foi marcado pela promulgação da Constituição em 14 de julho, que colocava fim no Governo Provisório de Vargas. Importante! Essa nova constituição estabelecia o sistema de República Federativa no Brasil. No dia seguinte, em 15 de julho de 1934, Getúlio Vargas foi eleito pelo voto indireto da Assembleia Nacional Constituinte como presidente. Seu mandato estava previsto para termi- nar em 3 de maio de 1938. Segundo a nova Constituição, a partir do fim do mandato do presidente Vargas, as eleições para a presidência da República deveriam ser diretas, ou seja, o povo teria o direito de esco- lher diretamente o próximo presidente. Mas o golpe no Novo Estado frustrou as expectativas democráticas (Fausto, B., 2019; Vianna, 2010). No dia 10 de novembro de 1937, tropas da polícia militar cercaram o Congresso e impediram a entrada dos congressistas. O ministro da Guerra — general Dutra — se opusera a que a operação fosse realizada por forças do exército. À noite, Getúlio anunciou uma nova fase da política e a entrada em vigor de uma Carta constitucional elaborada por Francisco Campos. Era o início do Estado Novo. (Fausto, B., 2019, p. 311) Vargas foi o único civil a comandar uma ditadura no Brasil. Esse regime, que tocava as orlas do fascismo europeu1, teve como base a leitura de alguns pensadores conservadores, como Alberto Torres, que defendia a ideia de que era responsabilidade do Estado organizar a sociedade, realizar mudanças no país e dar um propósito à nação (Schwarcz; Starling, 2018). Uma das sugestões apresentadasconsistia na implementação de controle social por meio da 1 Apesar disso, não deve ser considerado um regime fascista. 16 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. presença de um Estado poderoso liderado por um indivíduo carismático, com a habilidade de guiar as massas em direção à estabilidade (Capelato, 2010). Durante o período do Estado Novo de Vargas, que ocorreu entre 1937 e 1945, houve uma forte presença de autoritarismo, centralização de poder, restrição das liberdades civis e polí- ticas, censura à imprensa e perseguição política. Vargas também implementou princípios trabalhistas, com políticas voltadas para os direi- tos dos trabalhadores. Um exemplo disso foi a criação da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, que estabeleceu direitos e garantias para os empregados, refletindo sua tentativa de conciliar o controle estatal com uma abordagem favorável aos interesses trabalhistas. Além disso, Vargas impulsionou a industrialização e exerceu controle sobre a economia, buscando consolidar um Estado forte com base em sua liderança carismática. Após enfrentar intensa pressão, em 28 de fevereiro Getúlio Vargas anunciou que eleições seriam realizadas em um prazo de 90 dias. Em 2 de dezembro de 1945, ocorreriam as eleições para a presidência da República, e em 6 de maio de 1946, para os governos estaduais. Vargas declarou que não seria candidato, mas foi durante seu governo que surgiu a candidatura de Dutra, então ministro da Guerra. O principal opositor seria Eduardo Gomes (Schwarcz; Star- ling, 2018; Fausto, B., 2019). DEMOCRACIA E RUPTURAS DEMOCRÁTICAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX Ditadura Militar z Castelo Branco Cumprindo o rito institucional, o Congresso Nacional elegeu, no dia 9 de abril de 1964, o Mare- chal Humberto de Alencar Castelo Branco, com 361 votos, à presidência da república. O dis- curso oficial afirmava, com apoio de importantes lideranças como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, que os militares permaneceriam no poder apenas por um período curto, até que a cor- rupção fosse extinta e o crescimento econômico fosse retomado, gozando, assim, de grande legi- timidade. Contudo, logo descobriu-se que a intervenção de 1964 seria muito diferente das demais intervenções militares. No dia 9 de abril de 1964, o primeiro Ato Institucional (AI-1) foi baixado, tendo sido elabo- rado por Francisco Campos, simpatizante do fascismo e idealizador do Estado Novo, e pos- suía validade de 2 dois anos. Esse ato previa a cassação dos direitos políticos dos cidadãos, o controle do Congresso Nacional, o decreto do estado de sítio, assim como marcava as eleições presidenciais para o dia 3 de outubro de 1965, o que, evidentemente, não aconteceu. Esse ato marcou as primeiras dissidências dos liberais que apoiaram inicialmente o golpe como Lacerda e Kubitschek. A vitória da oposição liberal nas eleições de 1965 fez com que o governo planejasse, tam- bém, o controle do sistema eleitoral. Assim, o segundo Ato Institucional (AI-2) tinha como finalidade evitar que a oposição ascendesse ao governo estadual de 9 estados nas eleições do ano seguinte, ao mesmo tempo que almejava criar uma fachada democrática. A manobra foi a seguinte: o multipartidarismo foi substituído pelo bipartidarismo, a ARE- NA (Aliança Renovadora Nacional), partido governista, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido oposicionista. Esse mesmo ato estabelecia eleições indiretas para presi- dente, realizadas via Colégio Eleitoral. Já o terceiro Ato Institucional (AI-3) previa eleições R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 17 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. indiretas para os governos estaduais. A Lei da Imprensa e a Lei de Segurança Nacional, de 1967, solaparam de vez a liberdade de expressão e quarto Ato Institucional (AI-4) foi baixado para garantir a aprovação da nova Constituição Federal. Na intenção de erradicar a elite política e intelectual reformista do coração do Estado, o governo de Marechal Castelo Branco apelou ao uso irrestrito de Inquéritos Policiais Militares (IPMs), sendo mais de 700 processos tocados. Além disso, outras 3644 pessoas receberam san- ções políticas baseadas nos Atos Institucionais, o que correspondeu a 65% de todo o ocorrido dessa natureza nos 21 anos de ditadura, e 90% das 1230 punições aos militares oposicionistas ao longo de todo o regime foram efetuadas sob seu mando. A economia ficou a cargo de Roberto Campos, e suas principais medidas estavam sintetiza- das no Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), cujas prioridades eram a contenção da inflação, o retorno da capacidade do Estado em investir em infraestrutura produtiva, a reorgani- zação das finanças públicas mediante um novo sistema tributário e, por fim, a renegociação da dívida externa a fim de alcançar novos empréstimos. No que se refere à nova política salarial, os salários eram reajustados baseados em um cálculo que considerava não somente a inflação dos últimos doze meses, como também a previsão de inflação dos próximos doze meses. Assim, “como a inflação era sistematicamente subestimada, a nova legislação provocou perda salarial sistemática, com perversos efeitos distributivos” (LUNA; KLEIN, 2014, p. 94). Esse arrocho salarial era visto pelo governo como um fator para a insatisfação popular e para a consequente instabilidade do novo regime; assim, em 1964, foi criado o Banco Nacio- nal da Habitação (BNH), mais tarde incrementado pela criação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), formando uma política de financiamento para a construção de casas populares e um fundo para o trabalhador demitido sem justa causa. Por fim, o proje- to de modernização autoritária pressupunha o controle das organizações de trabalhadores urbanos e rurais pelo Estado, assim como a perseguição de líderes sindicais. z Costa e Silva O Marechal Artur da Costa e Silva foi o segundo militar a ocupar a presidência e, empos- sado em 15 de março de 1967, pertencia ao grupo conhecido como “linha dura”, diferente- mente de seu antecessor. Além disso, implementou uma política externa mais nacionalista e menos alinhada aos Estados Unidos. Seu breve governo ficou marcado pela implementação do quinto Ato Institucional (AI- 5), cujo conteúdo viabilizou o terrorismo de Estado. Esse ato estabelecia a cassação ampla e irrestrita de políticos e cidadãos, suspendia o habeas corpus de presos políticos, permitia a decretação de estado de sítio sem autorização prévia mediante a centralização excessiva do poder Executivo Federal e, por fim, a censura prévia sob todos os meios de comunicação e sob os produtos culturais. z Médici O terceiro presidente da ditadura foi Emílio Garrastazu Médici, o general de maior patente entre os pré-candidatos e que também pertencia à “linha dura” palaciana. Seu gover- no ficou conhecido como os “anos de chumbo”, dada à violação sistemática dos direitos 18 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. humanos. Todo cidadão era passível de ser acusado de subversivo, baseado em uma simples suspeita, e ficando sujeito à detenção, à tortura e à morte. Seu governo coincidiu, ainda, com o período do “milagre econômico”, cuja taxa de cresci- mento médio foi de 10% ao ano. A maior expansão industrial ficou concentrada — e susten- tada pelos juros baixos — no setor de bens de consumo duráveis, além de um crescimento exponencial no setor automobilístico. No campo social, contudo, a situação não era favorável, uma vez que o arrocho salarial e a concentração de renda não permitiram a transformação dos ganhos de produtividade dos trabalhadores. O endividamento externo é, também, marca desse período, agravado ainda mais pela pri- meira crise do petróleo, em 1971, quando os preços e os juros internacionais cresceram ver- tiginosamente. O maior problema estava no financiamento das indústrias estatais mediante crédito de bancos privados internacionais, que, por sua vez, possuíam taxas de juros altíssi- mas e flutuantes. O endividamentoexterno saltou de menos de 5 bilhões de dólares em 1964 para mais de 90 bilhões de dólares em 1983; ao mesmo tempo em que o Brasil ascendeu à condição de 10ª potência do mundo, os indicadores de qualidade de vida o alocavam entre os últimos. z Geisel Ernesto Beckmann Geisel firmou-se como sucessor de Médici, tornando-se o quarto pre- sidente da ditadura. O novo presidente ficou responsável por uma nova fase de institucio- nalização do regime, conhecida como “lenta, gradual e segura” até transição para um poder civil. Geisel propôs quatro objetivos estratégicos: o primeiro diz respeito ao restabelecimento da profissionalização dos quadros das Forças Armadas e à redução do poder dos “linha duras”; o segundo propunha a manutenção do controle da oposição de centro e de esquerda, além daqueles indivíduos considerados “subversivos”; o terceiro planejava a construção de uma democracia restrita e controlada; e o quarto previa a manutenção das elevadas taxas de cresci- mento, uma vez que era o principal mecanismo que atribuía legitimidade ao regime frente às classes médias e empresariais. Somava-se a isso a aproximação do governo à grande imprensa liberal. Contudo, alguns acontecimentos provam que a tendência autoritária do regime ainda estava em voga: com a vitória do MDB nas eleições parlamentares de 1974 e com as previsões de que a oposição ganharia ainda mais espaço nas eleições de 1978, órgãos do governo passaram a disseminar a tese de que o Partido Comunista havia se infiltrado no partido de modo a ampliar o número de votos. Além disso, militares de extrema direita responderam violentamente às medidas propos- tas por Geisel, participando de diversos ataques terroristas, ao mesmo tempo em que orga- nizações anticomunistas tornavam a ganhar fôlego. Ainda em seu governo, 39 opositores desapareceram e 42 foram mortos pela repressão, o Congresso foi fechado por 15 dias e a censura foi largamente utilizada até 1976. Em outubro de 1975, o comando do II Exército, com sede em São Paulo, noticiou que o renomado diretor jornalístico da TV Cultura, Wladimir Herzog, havia suicidado. A notícia repercutiu negativamente, uma vez que setores importantes da sociedade descreditavam o comunicado oficial. Diante do ocorrido, o presidente, tido como moderado, nada fez senão advertir o comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Melo. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 19 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Em 1976, outra morte tornou-se pública e comoveu a sociedade: o sindicalista Manoel Fiel Filho apareceu morto após ser interrogado pelas forças da repressão. Somente após forte pressão houve a demissão de D’Avila Melo pelo presidente. É importante destacar que embora somente esses dois casos tenham repercutido de forma mais ampla, outras centenas de denúncias eram feitas em relação às torturas. Já em abril de 1977, o governo, prevendo a derrota do partido governista nas eleições do ano seguinte, fechou o Congresso por 15 dias e editou um conjunto de medidas autoritárias conhecido como “Pacote de Abril”. Esse pacote, em síntese, previa a extensão do mandato do presidente, de cinco para seis anos, eleições indiretas para governadores de Estado e a nomeação de um terço do Senado pelo presidente. A “Lei Falcão” foi promulgada na esteira do pacote, inviabilizando o acesso da oposição à televisão. O governo Geisel, por fim, marcou um avanço na industrialização pesada, sobretudo no setor elétrico, nuclear, petroquímico e de equipamentos industriais, promovendo, ademais, a estatização da economia. Embora tenha conseguido, em 1974, manter o crescimento econômico, dependendo cada vez mais de quantidade vultuosa de investimentos exteriores, é possível afirmar que a crise econômica efetivamente havia se iniciado em seu governo, intercalada com períodos de cresci- mento, que seguiriam até o início do governo Figueiredo. z Figueiredo O último presidente da ditadura foi João Baptista Figueiredo, cuja promessa ao tomar posse foi a consolidação da abertura. O último presidente não possuía a mesma expertise política de seu antecessor e não conseguiu manter o controle do processo de abertura. Seu governo ficou marcado pela maior crise econômica vivida pelo país e pelo fim do AI-5. Uma série de protestos e a emersão de novos movimentos sociais ocorreram sob sua governança, assim como violentos ataques terroristas praticados pela extrema direita mili- tar, intencionando parar o processo de abertura. z Reforma Agrária A questão agrária, que há tempos vinha se arrastando no Brasil e foi fator importante na queda de Jango, também começou a ser rediscutida ainda no começo do governo militar. Assim, o ministro Roberto Campos apresentou uma proposta do Estatuto da Terra baseada em três aspectos: primeiro, a tributação progressiva da propriedade, levando-se em consideração seu tamanho e produtividade; o segundo previa a desapropriação mediante indenização para o caso de terras improdutivas; terceiro, a colonização de terras ociosas. Em outubro de 1964, o texto foi enviado para a apreciação do Congresso. Contudo, tratava-se de um texto bastante diferente do que fora apresentado ao público dias antes, o que refletia conflitos de interesses. A principal alteração estava relacionada à descentralização do aspecto fiscal da reforma agrária proposta pelo governo, uma vez que o mecanismo de tributação progressiva ficaria a cargo dos governos estaduais. Nesse sentido, o conflito mais claro era entre a perspectiva modernizante defendida pelos militares, em detrimento à perspectiva conservadora dos gran- des proprietários e por membros da UDN. A queda de braço entre o governo e as elites regio- nais resultou na derrota do primeiro e na impossibilidade de se implementar o projeto de modernização do campo. 20 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A Redemocratização e a Busca Pela Estabilidade Econômica Com a redemocratização e o fim do Estado Novo, nove siglas partidárias foram criadas, sendo as principais a União Democrática Nacional (UDN), de caráter liberal e antigetulista; o Partido Social Democrático (PSD), que uniu correntes diversas entre liberais e desenvolvi- mentistas e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), herdeiro do Varguismo. Com o insucesso do movimento queremista e a deposição de Vargas, o ex-presidente apoiou-se – sem muita empolgação – no ex-ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra (PSD), que veio a se eleger. A Constituição de 1946 previa: � A autonomia entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, tendo o Congresso o poder de inspecionar o governo federal, inclusive de sancionar qualquer medida eco- nômica empreendida pelo Executivo (medida que não sobreviveu na prática); � A restauração do princípio federalista; � A fixação do mandato em cinco anos, sem direito à reeleição; � O direito de voto às mulheres; � O direito de greve; � O imposto sindical, visando à continuidade da hegemonia do Estado nas relações entre trabalhadores e empregadores. z Governo Sarney A morte de Tancredo havia abatido enormemente o país, levando a uma comoção que há bastante tempo não se via em um cortejo fúnebre: seu caixão subiu a rampa do Planalto em um gesto bastante simbólico, pois se tratava do primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura. De todo modo, José Sarney, seu vice, assumiu a presidência no dia 15 de março de 1985, e, mesmo que fosse um aliado histórico da ditadura, as expectativas da população não dimi- nuíram. Pelos próximos 10 anos, diferentes governos tentariam, sem sucesso, organizar uma economia que herdava da ditadura dívida externa e inflação monstruosas. Ainda em 1985, a equipe econômica de Sarney decretou o congelamento dos preços, ten- tando diminuir a inflação; estabeleceu um corte de 10% do orçamento e proibiu a contra- tação de funcionários públicos. Além disso, o cálculo da correção monetária passou a ser determinado pela inflação dos três últimos meses. Essas medidas reduzirama inflação para 7,2% em abril, mas diversas questões, sobretudo agrícolas, elevaram-na a 14% em agosto. Em fevereiro, o governo apresentou o Plano Cruzado, substituindo a antiga moeda, o cru- zeiro, pelo cruzado. A nova moeda perdeu três zeros; assim, a conversão dos depósitos em bancos estabeleceu que cada mil cruzeiros equivaleriam a um cruzado. O plano previa, ain- da, o congelamento de tarifas, preços e serviços, além de basear o salário na média do poder de compra dos seis meses anteriores. O resultado foi a diminuição da inflação e um boom consumista, que rendeu boa popu- laridade ao presidente naquele momento. Esse consumismo, contudo, levou a uma crise de desabastecimento, fazendo com que faltasse uma série de produtos na prateleira; mesmo que o governo tentasse importar esses gêneros, não conseguia, pois, a burocracia herdada da ditadura impossibilitava. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 21 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O Cruzado II foi anunciado em novembro de 1986, e previa o descongelamento dos pre- ços, há muito exigido pelos empresários, e o aumento das tarifas dos serviços públicos. A inflação, que estava contida, passou de 3% nesse mês para 16% em menos de três meses. Em 1987, o presidente foi em cadeia nacional de televisão para anunciar a moratória da dívida externa do Brasil. A crise parecia não ter fim. Em 1988, o governo apresentou o Plano Verão, criando a moeda “cruzado novo”, mas o plano foi um completo fiasco, pois, àquela altura, o governo já havia perdido toda a sustenta- ção política e se tornara extremamente impopular. A partir desse momento, o país caminhou à hiperinflação, chegando a 83% em março de 1990. Preços de supermercado eram reajustados todos os dias e filas aconteciam em supermercados e postos de gasolina toda vez que surgia o menor indício de aumento dos preços. Ainda em 1987, iniciou-se o importante processo da Constituinte, transformando os pró- prios congressistas eleitos em 1986 no Congresso Constituinte, com ampla maioria do PMDB. Os debates foram acalorados e algumas propostas do PMDB foram consideradas radicais demais, mas, de fato, muitos avanços se tornaram constitucionais. Há que se dizer, por fim, que até o final do governo Sarney, nenhuma ruptura significativa em relação à ditadura havia acontecido (a começar pelo próprio presidente, como dissemos), e também porque nenhum julgamento havia acontecido para punir militares envolvidos em cri- mes contra a humanidade. As esperanças se voltaram, enfim, para a primeira eleição direta que escolheria um presidente da república em 21 anos. z Governo Collor e Itamar Franco As eleições de 1989 tiveram 22 candidaturas e foram vividas como a possibilidade real de mudanças. Por parte da esquerda, Lula encabeçava a chapa pelo Partido dos Trabalhado- res (PT), advogando um programa radical, como a supressão da dívida externa, considerada demasiadamente onerosa à classe trabalhadora. Do outro lado, estava o governador de Ala- goas, Fernando Collor de Mello, até então desconhecido do grande público, mas que trans- mitia a imagem de ousado, jovem e vigoroso para cumprir sua fama de “caçador de marajás”. Ambos eram promessa de novidade, mas Lula parecia radical demais, o que fez com que a grande mídia, políticos conservadores, empresários e militares, temerosos de que o petis- ta levasse a cabo julgamentos e punições, se aglutinassem em torno de Collor. Durante o segundo turno, Lula receberia apoio do PDT de Leonel Brizola, do PMDB e do novato PSDB. A disputa foi dura. Enquanto Lula crescia nas pesquisas de opinião e estouravam casos de corrupção em Ala- goas, Collor passou a atacar seu adversário dizendo que o petista confiscaria poupanças e apartamentos da classe média, além de ser incentivador do aborto. As emissoras de televisão tiveram papel fundamental para o declínio do candidato esquerdista, transmitindo com fre- quência os “alarmes” de Collor, em especial a Rede Globo, durante seu principal telejornal. Collor, assim, foi eleito presidente pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN), mas possuía desde o início quase nenhum apoio da estrutura partidária. No dia 16 de março de 1990, foi apresentado o Plano Collor, que estipulava o bloqueio de todas as aplicações em bancos e depósitos em contas correntes, além da abertura comercial e do congelamento dos preços. Cerca de 95 bilhões de dólares foram confiscados para blo- quear a liquidez, a fim de conter a inflação, fazendo exatamente aquilo que supostamente seu adversário faria caso chegasse à presidência. 22 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Ao fracasso de sua estratégia para economia, somaram-se denúncias de corrupção no seu governo, sendo a mais evidente a de seu irmão, Pedro Collor, em maio de 1992. Pedro denun- ciou a existência de um amplo esquema liderado pelo tesoureiro da campanha de Fernando Collor, conhecido como “PC Farias”. Em seguida, o Congresso instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar as denúncias, descobrindo contas bancárias associadas a “laranjas” para o financia- mento da campanha; descobriram-se também “contas-fantasma” que financiavam reformas na casa do presidente, mas que logo descobriu-se tratar de restos dos fundos da campanha, além da compra de um carro para sua esposa com dinheiro ilegal proveniente dos esquemas de PC Farias. Uma série de protestos tomou conta do país: a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) apresentou ao Congresso um pedido de impeachment do presidente; surgiu o Movimento pela Ética na Política, cuja organização reunia cerca de 900 entidades; os estudantes tive- ram papel importante e simbólico nos protestos: por conta dos rostos pintados com as cores nacionais, ficaram conhecidos como “cara-pintadas”. Em 29 de setembro de 1992, a Câmara autorizou a abertura do processo de impedimento e, no final desse ano, Collor foi condenado no Senado por 76 votos favoráveis contra apenas 3. Antes disso, é preciso dizer, ele havia tentado manobrar a situação tentando renunciar; o que não deu certo. Perdeu, assim, o mandato, e se tornou inelegível por 8 anos. Quem assumiu em seu lugar foi o vice-presidente, Itamar Franco, e foi em seu governo que finalmente houve o controle da inflação. O Ministério da Fazenda foi ocupado por Fer- nando Henrique Cardoso, em 1993, e logo no início anunciou cortes de despesas e privatiza- ções de empresas estatais, além de dar sequência à abertura comercial. O ministro também criou um padrão de valor monetário, conhecido como Unidade Real de Valor (URV), de modo a mostrar a equivalência entre uma URV — 647,50 cruzeiros em sua primeira aparição, em março de 1994 — e o cruzeiro real. Além disso, os salários foram estabelecidos a partir de uma média da inflação dos últimos quatro meses. Após sucessivos testes, acompanhados pelo valor da URV que permanecia fixo, a equipe econômica finalmente apresentou a nova moeda em julho de 1994: o real, um sucesso que logo se converteu em inflação baixa. Ainda durante o governo de Itamar, foi possível chegar a um arguto acordo de renego- ciação da dívida, após os norte-americanos finalmente aceitarem a proposta de Luiz Carlos Bresser Pereira de conceder descontos para os montantes. Mas foi o sucesso do plano real que marcou seu breve período à frente da presidência, sucesso esse que impulsionou seu ministro ao executivo federal. z Governo FHC Fernando Henrique Cardoso tomou posse em 1995; é importante comentarmos que em seu governo foi aprovada uma emenda constitucional que permitia a reeleição de prefeitos, governadores e presidente da república. A votação foi permeada de acusações de compra de votos, que nunca foram devidamente apuradas, e permitiu que FHC se reelegesse em 1998. A ampla mobilização popular reivindicando melhorias nas condições de vida, desde os movimentos organizados no final da ditadura, começou a frutificar nos governos de FHC. Em 1995, foi criado o programa Bolsa Escola, em Campinas, cujaproposta era a transferência de uma renda mínima a famílias pobres com a condição de manterem suas crianças frequentes R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 23 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. nas escolas; em 2001, foi adotado pelo governo federal, que foi capaz de estender o programa a mais de 5 milhões de famílias. É do seu governo, também, o Bolsa Alimentação. Contudo, há que se dizer que as primeiras mudanças no modelo de proteção social tive- ram início com o primeiro governo civil após a ditadura e registradas na Constituição de 1988, que pretendia garantir o acesso à saúde, à seguridade e à educação básica. Ao longo dos anos 1990, essas diretrizes começaram a se desenvolver, exigindo uma lenta descentralização de responsabilidades e recursos. Além da descentralização e colaboração entre os níveis governamentais, o Plano Real foi importante ao tornar possível maior fluxo de recursos para a área social, o que produziu, por exemplo, a municipalização da assistência social e da rede básica de saúde. Os acessos à educação e à saúde se tornaram quase univer- sais, e a assistência social foi consideravelmente dilatada mediante programas de garantia de renda para idosos e pessoas com deficiência. No governo FHC também foram criados programas que formavam uma rede de prote- ção social, como a previdência rural, e ainda programas não contributivos de assistência social: Bolsa-Escola, Erradicação do Trabalho Infantil, Bolsa-Alimentação, Auxílio Gás, Agen- te Jovem, Programa de Saúde da Família, Programa de apoio à Agricultura Familiar. Nesses programas, houve uma opção pela transferência direta da renda monetária, distanciando-se de programas como os de distribuição de cestas básicas, que muitas vezes valiam à manipu- lação clientelista, tão comum na política brasileira. O governo de FHC também foi pioneiro no enfrentamento de algumas heranças da dita- dura, no campo da justiça de transição. Em 1995, foi instituída a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos, cuja proposta era reconhecer os mortos e desaparecidos durante os anos repressivos, ritual bastante simbólico para aqueles que perderam alguém e nunca chegaram a ter sequer um atestado de óbito. Tempos depois, em 2001, surgiu a Comissão da Anistia, concedendo indenizações às vítimas da ditadura. z Governo Lula Em 1º de janeiro de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva, representante do Partido dos Tra- balhadores (PT), assumiu a presidência do Brasil. Sua eleição significou, para muitos, a pri- meira grande mudança das elites governantes desde a redemocratização, ainda que esse novo governo se sustentasse em uma coalização, o que significa a inclusão de partidos que já haviam estado no poder nos últimos dezenove anos. As propostas de políticas sociais do Partido dos Trabalhadores indicam uma reunião de con- tinuidades e mudanças da forma de gestão, continuidade na política econômica e algumas mudanças no âmbito social. No que se refere à transferência de renda, que foi a caraterística mais marcante do gover- no de Lula, ela indica uma movimentação caraterística de proteção social, o que se afastava das expectativas reformistas que pairavam sobre o Partido dos Trabalhadores. Com a redemocratização, como vimos, passou-se a identificar a necessidade de redirecio- nar as ações de políticas sociais como descentralização, participação dos beneficiários nas tomadas de decisões, racionalização dos gastos e maior isonomia na prestação de serviços e benefícios. Além disso, constatou-se ser necessário políticas emergenciais voltadas para a população mais vulnerável economicamente. O percurso feito até aqui indica que, quando o Partido dos Trabalhadores assumiu o gover- no em 2003, já haviam sido tomadas algumas ações visando a reforma do sistema de proteção 24 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. social herdado da ditadura, além do êxito razoável na luta contra a pobreza, principalmente no que toca ao acesso à educação e saúde; entretanto, pouco tinha sido feito para a redução das desigualdades notáveis entre ricos e pobres, brancos e negros. E essa é uma questão fundamental. Durante as eleições, a campanha de Lula ignorava esses avanços, condicionando a reso- lução desses problemas à sua vitória, e foi assim que Lula ganhou as eleições, insistindo na redução da pobreza e das desigualdades, embora sem propostas que embasassem concreta- mente tal propósito. O governo Lula teve início com dois projetos para a área social: o Fome Zero, uma propos- ta de política de segurança alimentar para o Brasil; e Política Econômica e Reformas Estru- turais. O primeiro foi fruto do trabalho de 45 pesquisadores orientados por José Graziano da Silva, e consistia em uma combinação de políticas assistenciais com ações extensivas de incentivo à agricultura familiar. O segundo documento, que foi preparado por economistas de orientação liberal, focali- zava a política econômica e incluía um capítulo de propostas de política social. Assim, ele pretendia: recompor o equilíbrio da previdência pública, garantindo sua sobrevivência a longo prazo; diminuir a pressão sobre os recursos, permitindo o resgate da capacidade de gastos públicos; e aumentar a equidade, reduzindo as distorções nas transferências de renda realizadas pelo Estado. O governo petista optou, então, por iniciativas de forte impacto simbólico, no ambiente nacional e internacional. Nos primeiros dias da nova administração, lançou-se o já menciona- do programa Fome Zero e uma reforma da previdência social. Com a reforma da previdência, procurava-se reparar privilégios vigentes, estabelecendo o mesmo teto para as aposentado- rias dos empregados do setor público e privado. Essa foi uma medida bem recebida pelas agências internacionais, que esperavam que o novo governo demonstrasse moderação polí- tica e se mantivesse dentro dos parâmetros de austeridade fiscal. No que se refere ao Fome Zero, faltava consistência, pois muitas ações precisavam ser realizadas, e se carecia de articulação de vários setores. A fragilidade do programa foi se evidenciando e, ainda em 2003, o Ministério de Segurança Alimentar, que havia sido criado para mobilizar as ações necessárias para o funcionamento do programa, foi fundido com o Ministério da Assistência Social. Assim, engendrou um novo programa de transferência de renda, o Bolsa Família, que unificou três programas criados na administração de FHC: Bolsa-Escola, Bolsa-Alimentação e Auxílio Gás. Também foram realizadas iniciativas que priorizaram a ação governamental na área da educação; além disso, propôs-se a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvi- mento do Ensino Fundamental e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), o que incluía o ensino médio no sistema de incentivos que vinham sendo realizados pela adminis- tração anterior. Alguns autores argumentam que, embora de um ponto de vista de classe, o PT continua sendo um partido dos trabalhadores, principalmente no que se refere à sua origem, pois é inegável que o PT foi criado por e para trabalhadores. Houve um claro rompimento com os interesses desse grupo; após assumir o poder, as ideias, discursos e ações resguardadas pela direção do partido apresentaram semelhanças embaraçosas com as dos representantes da grande burguesia. De todo modo, as multidões continuaram indicando, em momentos cru- ciais, o Partido dos Trabalhadores como seu representante. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 25 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O governo Lula reuniu em seus quadros administrativos tanto líderes sindicais e intelec- tuais do PT, quanto convictos neoliberais, o que o tornou, em uma análise mais sóbria, um governo muito pouco afeito aos interesses da classe que dizia representar. Lula cumpriu sua promessa de moderar as propostas mais radicais do programa petista antes do lançamento da “Carta ao povo brasileiro”, de 2002. Um evidente exemplo foi a preocupação com o pagamento da dívida externa, mesmo exis- tindoproblemas sociais evidentes, como rodovias danificadas e insuficientes, adversidades nas redes elétricas, de saúde, saneamento, entre outros. Essa foi uma escolha impensável para o Lula do século anterior. Assim, sua administração deu prosseguimento à política eco- nômica de FHC, elevou o superávit, prometeu a flexibilização do mercado de trabalho e a reforma sindical. Dica Superávit é o resultado positivo de todas as receitas e despesas do governo, ou seja, é o equivalente ao que o governo consegue economizar para o pagamento de juros da dívida pública. FMI é a sigla do Fundo Monetário Internacional, organização financeira que pode oferecer ajuda financeira pontual e temporária aos países membros. As limitações das administrações de Lula são evidentes, embora seja difícil negligenciar os avanços no campo social. Por exemplo, a reforma agrária — pauta importante para esquerda —, não foi considerada; e a reforma tributária apenas aumentou a carga tributária, evitando pro- postas como a taxação de grandes fortunas. Outra crítica é que os programas sociais não se constituíram enquanto direito, ou seja, não foram incorporados enquanto emendas à Constituição, o que significa que podiam ser retira- dos a qualquer momento. z Governo Dilma Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente do Brasil, foi eleita em 2010, em um contexto de otimismo no qual a economia se recuperava dos efeitos da crise financeira global de 2008. Embora Dilma não tenha explicitado seu objetivo em campanha, logo ficou evidente o que pre- tendia: questionar o poder estrutural do capital financeiro na determinação de taxas de juros e câmbio, o que significava se afastar do caminho das políticas econômicas conservadoras do governo Lula. Todavia, o governo não se preparou para lidar com as óbvias reações que vieram dos grupos que tiveram seus interesses recolocados. Esses grupos possuíam, ainda, o poder sobre os meios de comunicação, manipulando as informações e não tardando a acusar o governo de “irresponsável tecnicamente” e “politicamente populista”. O governo de Dilma não conseguiu sustentar a pretensão inicial, recuando diante da rea- ção dos interesses rentistas, que foram atingidos pela guerra dos juros; assim, em abril de 2013, o Banco Central iniciou um novo ciclo de elevação das taxas de juros, que era apenas o início da retratação. Os regimes de metas de inflação e de metas de superávit primária concediam enorme poder estrutural ao capital financeiro, de modo que, se hipoteticamente a inflação subisse e o Banco 26 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Central não subisse também as taxas de juros, provavelmente se veria bombardeado por acu- sações de que sua autonomia estava comprometida pela interferência política. Se, por outro lado, a arrecadação tributária diminuísse e o gasto primário não trilhasse a mesma direção, o governo era atacado, acusado de não cuidar da credibilidade da trajetória da dívida pública, tampouco da inflação. Para conseguir pôr em prática suas intenções de mudanças estruturais, o governo teria que se apoiar em ampla campanha pública que expusesse suas intenções e motivações. Isso, contudo, não ocorreu, e o capital financeiro, por sua vez, reagiu rapidamente, mobilizando a opinião públi- ca e deslegitimando os discursos de Dilma, que tencionavam defender seu projeto econômico. A recuada do governo, traduzida pelo aumento dos juros, foi uma tentativa de abrandar os ataques realizados pelos representantes ideológicos dos interesses rentistas, procurando recompor o bloco de poder político mobilizado pela administração de Lula, tática que seria reforçada em 2015. A estratégia, no entanto, não foi bem sucedida, pois, na busca pela governabilidade, Dilma perdeu bastante popularidade, dado que se voltava cada vez mais à uma política econômica que primava pela ortodoxia, sobretudo na austeridade fiscal e salarial, pondo à parte os inte- resses populares, que representavam o grosso de seu eleitorado. A opinião empresarial era a de que o Bolsa Família reduzia a procura por empregos e difi- cultava a contratação; esse argumento é difícil de ser sustentado, tendo em vista que o valor do benefício sempre foi muito inferior ao do salário-mínimo, que foi ganhando cada vez mais encorpo. Além disso, figuras públicas reconhecidas usavam os meios de comunicação para apontar que os gastos sociais e aumentos salariais eram responsáveis pela desaceleração do investimento privado e da redução dos lucros. Quanto aos projetos sociais, Dilma tinha um grande desafio, considerando que seu prede- cessor, Lula, conquistara popularidade amparando-se justamente nesse tipo de programa. No primeiro mandato de Dilma, o desemprego diminuiu, o salário-mínimo aumentou e a presidente deu sequência aos programas de transferência de renda. Na questão dos avanços da legislação trabalhista, é possível apontar, por exemplo, a regu- lamentação do trabalho doméstico, que embora tenha incomodado os setores mais conserva- dores da população brasileira, foi um movimento muito importante para os trabalhadores da área, pois assegurava direitos básicos como jornada de trabalho regulamentada, férias e piso salarial. Em sua administração, uma das ações mais importantes talvez tenha sido a ampliação do Minha Casa Minha Vida, programa habitacional que assegurou moradia para 1,7 milhões de famílias apenas em seu primeiro mandato. O programa oferecia subsídio para o financiamen- to de moradias à população de baixa renda, tornando possível o sonho da casa própria para famílias que teriam bastante dificuldade em adquirir um imóvel em outras circunstâncias. No âmbito da saúde, Dilma lançou o programa Mais Médicos, que atendeu seis mil municí- pios e estendeu o acesso a médicos a cerca de cinquenta milhões de pessoas que residiam em municípios do interior e em áreas periféricas. Foram inauguradas 144 de Unidades de Pronto Atendimento, e a Farmácia Popular distribuiu remédios a mais de dez milhões de pessoas. No setor educacional, Dilma lançou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que tinha como objetivo expandir e interiorizar as ofertas a cursos téc- nicos, além da formação inicial e continuada. Houve, ainda, a criação do Ciência sem Fron- teiras, que visava a formação acadêmica de pesquisadores em programas de intercâmbio, oferecendo bolsas de estudos e financiando projetos. Além disso, até 2014, as matrículas em R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 27 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. cursos superiores aumentaram em 122%, evidenciando uma expansão do acesso ao ensino superior. Além de todos esses programas, foi no governo Dilma que a chamada Lei do Feminicídio foi sancionada. Com a lei, o assassinato de mulheres, decorrente de violência doméstica ou discri- minação de gênero, passou a ser considerado crime hediondo. Foi uma grande conquista, levando em consideração que o Brasil possui a 5° taxa mais alta de feminicídios do mundo: no ano de 2010, eram registrados cinco espancamento a cada dois minutos; em 2013, se reportava um feminicídio a cada noventa minutos; e em 2015, o serviço de denúncia registrou 179 casos de agressão por dia. Foi também no mandato de Dilma que se inaugurou a Casa da Mulher, programa que integra no mesmo espaço serviços especializados de apoio aos diversos tipos de violências sofridas por mulheres. Nesse espaço, têm-se acesso ao acolhimento e à triagem, apoio psicos- social, juizado especializado em violência doméstica e familiar contra mulher, defesa públi- ca, serviço de promoção de autonomia econômica, espaço de cuidado às crianças, alojamento de passagem, entre outras ações de apoio. HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL: LUTA ANTIRRACISTA, CONQUISTAS LEGAIS E DESAFIOS ATUAIS Lilian Moritz Schwarcz, antropóloga brasileira, ressalta, em suas obras, importantes aspec- tos do racismo no Brasil. Segundo a autora, em um primeiro momento, é imprescindível a desconstrução do mito da denominada“democracia racial”. O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL Em meados de 1930, o Estado brasileiro, à procura da concretização de uma identidade nacional, fomentou o surgimento de uma perspectiva distinta em relação à questão racial. Neste contexto, houve a difusão de que a sociedade brasileira possuía uma harmoniosa con- vivência entre as “raças”, em vista do fenômeno da miscigenação. Logo, o Brasil seria livre de segregação e preconceito em vista da “democracia racial” (SILVA, 2016). Dica Gilberto Freyre, autor da obra “Casa-Grande & Senzala”, é notável defensor da existência de uma democracia racial no Brasil. Não obstante, hodiernamente, a teoria está ultrapassada e é compreendida como um verdadeiro mito. A partir dos estudos do sociólogo Florestan Fernandes, entretanto, a ideia de “democracia racial” desmantelou-se, uma vez que, estudando as particularidades do Brasil, o professor compreendeu que esta não passa de uma imagem idealizada. Na verdade, a perpetuação do mito acentua a segregação e a posição inferior do negro na sociedade. Schwarcz aponta que a escravidão no Brasil foi marcada pela violência física e simbólica dos corpos negros e, neste cenário, é contundente afirmar que, apesar da miscigenação cul- tural, não há uma democracia racial. 28 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. RACISMO Conforme esclarece o filósofo Silvio Almeida, o racismo não se caracteriza apenas pela vio- lência direta contra indivíduos de determinado grupo racial ou étnico, uma vez que se trata de um fenômeno conjuntural. Neste sentido, Almeida (TV Boitempo, 2016) afirma que “o racismo é uma forma de norma- lização e de compreensão das relações”, na qual não há perplexidade por parte da população acerca de relevantes questões sociais, tais como: a pouca (ou nenhuma) representatividade de pessoas negras em posições de destaque e, também, a desigualdade no sistema tributário, que faz com que as mulheres negras paguem mais impostos. Portanto, em vista do elencado, compreende-se que a sociedade atual, fruto do colonialis- mo e do sistema escravocrata, naturaliza as diversas formas de violência contra as pessoas negras. O sistema escravocrata, hodiernamente, se converteu em uma linguagem com graves con- sequências. Segundo Schwarcz (2019), esse modelo enraizado moldou condutas, definiu desi- gualdades sociais, fez da raça um marcador social de classe e instalou uma etiqueta de quem manda e quem obedece. Logo, herdou-se uma sociedade paternalista e hierarquizada. RACISMO ESTRUTURAL O racismo é estrutural porque se trata de um fenômeno que abarca além da política e da economia, a subjetividade do indivíduo. Neste contexto, há uma normalização das relações sociais que reproduzem as condições de desigualdade. Por consequência, o racismo não só constitui as relações denominadas “conscientes”, mas também está presente no inconsciente coletivo e, dessa forma, de acordo com Almeida (TV Boitempo, 2016), “mais do que um fenô- meno produzido por indivíduos, o racismo produz sujeitos”. Outrossim, o racismo é estrutural e estruturante porque não há qualquer política pública efetiva que se volte contra este cenário, nem mesmo por parte das pessoas que, explicita- mente, se posicionam contra o impasse. Logo, é contundente afirmar que o racismo não é visto como uma patologia na sociedade brasileira e, na verdade, constitui as relações em seu padrão de normalidade. Neste cenário, o sistema social/econômico de racismo estrutural contribuiu para com os privilégios de poucos em detrimento de muitos, bem como aprofundou as desigualdades sociais. Devido às desigualdades sociais, por exemplo, muitas pessoas são capazes de indicar espaços que podem ser ocupados por determinadas raças (ideologia de senso comum). AVANÇOS E CONQUISTAS CONSOLIDADOS PELO MOVIMENTO NEGRO Abaixo, vejamos alguns exemplos de conquistas do Movimento Negro. z Racismo como crime inafiançável e imprescritível: atualmente, o crime de racismo tipifi- cado pela Lei nº 7.716, de 1989, é inafiançável e imprescritível. Neste sentido, a denúncia do crime pode ser feita pela vítima a qualquer tempo; R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 29 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Dica Em casos de racismo ou injúria racial, procure a Delegacia de Polícia e registre a ocorrên- cia. Também é possível realizar a denúncia através do Disque 100. z Cotas raciais nas universidades: as cotas raciais nas universidades geram impactos extre- mamente positivos na educação brasileira, que repercutem, principalmente, nas classes sociais menos favorecidas. z Valorização da cultura negra: Zumbi dos Palmares foi reconhecido como herói nacional e a História afro-brasileira tornou-se obrigatória nas grades escolares. Alterações Legislativas Em janeiro de 2023, foi sancionada a Lei nº. 14.532, que tipifica como crime de racismo a injúria racial. O racismo é compreendido como um crime contra a coletividade e, anterior- mente à referida lei, a injúria era percebida como um crime contra o indivíduo (SENADO NOTÍCIAS, 2023). A Lei nº. 7.716 de 1989, que aborda crimes raciais, não havia englobado a injúria racial, que permaneceu apenas no Código Penal. Neste cenário, com a nova alteração, as penalida- des também foram modificadas. A pena para injúria racial, antes da modificação legislativa, consistia em um a três anos e, após a mudança, passou para de três a cinco anos (SENADO NOTÍCIAS, 2023). Desafios Atuais Apesar dos avanços, os negros ainda enfrentam diversos desafios. A desigualdade racial continua sendo uma realidade no Brasil. Os negros têm menor escolaridade, menor renda e maior taxa de desemprego do que os brancos. Segundo o IBGE, a taxa de analfabetismo entre negros é de 10,3%, enquanto entre brancos é de 4,3%. A renda média mensal dos negros é de R$ 1.772, enquanto a dos brancos é de R$ 2.400. A taxa de desemprego entre negros é de 13,4%, enquanto a dos brancos é de 10,2%. z Racismo O racismo é um desafio enfrentado pelos negros. O racismo é a discriminação contra alguém por causa de sua raça ou etnia. Ele pode se manifestar de diversas formas, como a violência física, a violência psicológica e a discriminação no mercado de trabalho. De acordo com o Atlas da Violência 2022, os negros são as principais vítimas de homicídios no Brasil. Em 2021, a taxa de homicídios de negros foi de 23,5%, enquanto a de brancos foi de 7,2%. z Violência A violência é outro desafio enfrentado pelos negros. Os negros são mais propensos a serem vítimas de violência policial, violência urbana e violência doméstica. 30 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. De acordo com o relatório “Violência contra a população negra no Brasil: 2022”, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a taxa de homicídios por intervenção policial entre negros é duas vezes maior do que entre brancos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022. Rio de Janei- ro: IBGE, 2022. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Violência contra a população negra no Brasil: 2022. Brasília: IPEA, 2022. Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR). Brasília: SEPPIR, 2022. HISTÓRIA DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL: LUTA POR DIREITOS E DESAFIOS ATUAIS Os povos indígenas que ocupavam o território do Brasil podem ser classificados em quatro grandes troncos linguísticos, a saber: z Tupi: viviam no litoral e foram os primeiros a entrar em contato com os portugueses. Uti- lizavam-se da pesca, caça e coleta na mata. Eram considerados desse tronco os tamoios, os guaranis, os tupinambás, os tabajaras, entre outros; z Macro-Jê: algumas comunidades viviam na Serra do Mar, mas se localizavam, principal- mente, no Planalto Central. Apenas no século XVII, foi que os grupos macro-jê passaram a ser atacados, por conta da escravização indígena. Eram consideradosdesse tronco os timbiras, os aimorés, os Goitacazes, os carijós, os carajás, os bororós, os botocudos, entre outros; z Karib: ocupavam a região da Planície Amazônica, além dos atuais Amapá e Roraima. Bas- tante hostis aos invasores, praticavam, inclusive, a antropofagia. Assim como os macro-jê, entraram em contato com os brancos no século XVII, por conta dos aldeamentos religiosos e das fortificações militares. Eram considerados desse tronco os atroari e os uaimiri; z Aruak: estabeleciam-se na região amazônica e na Ilha de Marajó, com destaque para seus utensílios em cerâmica. Eram considerados desse tronco os aruá, pareci, cunibó, guaná e terena. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 31 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Fonte: Atlas Histórico Escolar. 8ª ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 12. BRASIL ANTES DA CHEGADA DOS EUROPEUS Os tupis, por habitarem o litoral e terem sido os primeiros a entrarem em contato com os colonizadores, são os mais conhecidos e descritos nos documentos da época. Sobre eles, temos conhecimento graças às descrições feitas por padres, viajantes e funcionários da Coroa portuguesa que resultaram em uma imagem dos povos pré-cabralinos, como se todos fossem iguais. O que sabemos sobre eles serve de base para o entendimento das demais sociedades tribais. A organização social básica era a tribo, que se subdividia em aldeias ou tabas, cada uma delas com um chefe. A aldeia era formada por um conjunto de quatro a sete ocas, dispostas de forma circular, delimitando uma praça central — a ocara — onde eram realizadas as cerimô- nias religiosas, as festas e a reunião dos líderes para decidir uma guerra ou migração. Geral- mente, em torno da aldeia, era levantada uma cerca de troncos — a caiçara — com a finalidade de defendê-la. As aldeias ligadas entre si por parentesco, costumes e tradição formavam uma tribo. O parentesco garantia a manutenção do modo de ser do grupo e perpetuava-se através de uniões obrigatórias com pessoas de fora. A relação de parentesco criava a relação de aliança 32 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. grupal, na qual o casamento significava uma possibilidade de reforço do poderio do grupo. A família era patriarcal e o casamento poligâmico em algumas comunidades e monogâmico em outras. A chefia realizava a organização interna da aldeia. Entre os tupis, a chefia era exercida pelos homens mais velhos e os líderes guerreiros. Eles tomavam as decisões sobre a guerra, a migração, as grandes caçadas e o sacrifício dos inimigos. Para prover a sua alimentação, os povos indígenas caçavam, pescavam e coletavam crus- táceos, frutos e raízes. A divisão do trabalho nas aldeias obedecia a dois critérios: sexo e idade. Os homens derrubavam as matas, preparavam o terreno para o plantio, caçavam, pes- cavam, guerreavam e confeccionavam canoas, arcos, flechas e adornos. As mulheres plan- tavam, colhiam, faziam cestaria e cerâmica. Quanto às crianças, a divisão entre meninos e meninas ocorria a partir dos cinco anos de idade, quando as meninas brincavam e ajuda- vam as mulheres em seus trabalhos e os meninos seguiam o exemplo dos homens, buscando aprender sobre a caça e a pesca. Quando os recursos próximos à aldeia se esgotavam, migravam para outro lugar. O noma- dismo da população indígena também ocorria pela procura de um lugar ideal e quase utópi- co, chamado “terra sem mal”, onde teriam prosperidade constante. Os indígenas procuravam lugares próximos aos rios e lagos, para ter acesso mais fácil à caça e, eventualmente, à agri- cultura. A chegada em um território ocupado por outra comunidade podia gerar guerras. Os povos indígenas estavam muito envolvidos com a natureza e tinham uma maneira peculiar de entendê-la, por meio de uma concepção mítica de mundo. A própria natureza era tida como uma dádiva das divindades ou transformava-se na própria divindade, como a mãe-terra. Portanto, a religião indígena pode ser classificada como politeísta. Nas épocas de plantio, de colheita, de caça, ou nas estações de chuva ou de seca, os mem- bros da aldeia se reuniam e os pajés, líderes religiosos, relatavam as lendas e os mitos de cul- tuar. O pajé, preocupado em manter vivas as tradições tribais, usava vestimentas especiais, como mantos, plumas coladas ao corpo, máscaras de madeira, visando à transmissão de sua mensagem. Também bebia o cauim, fumava o tabaco, cantava, dançava e invocava os mitos. O ambiente revestia-se dessa atmosfera mágica e religiosa, a fim de agradecer a chuva, uma boa colheita ou a decisão do conselho de chefes para migração. Atualidade Atualmente, os povos indígenas representam cerca de 0,5% da população brasileira. Eles ainda enfrentam diversos desafios, como a perda de territórios, a violência e a discriminação. z Perda de territórios Os povos indígenas têm seus territórios reconhecidos pela Constituição Federal de 1988. No entanto, esses territórios estão constantemente sendo invadidos por madeireiros, garim- peiros e fazendeiros. z Violência Os povos indígenas são vítimas de violência física, psicológica e simbólica. Eles são alvo de assassinatos, ameaças e discriminação. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 33 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. z Discriminação Os indígenas ainda enfrentam discriminação na educação, na saúde e no mercado de tra- balho. Eles são frequentemente tratados como “inferiores” ou “atrasados”. z Exemplos De acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), entre 2019 e 2022, foram registra- dos 1.051 ataques a povos indígenas no Brasil. Em 2022, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) registrou 180 assassinatos de indíge- nas no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de analfabetismo entre indígenas é de 26,2%, enquanto a média nacional é de 9,5%. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil 2022. Brasília: FUNAI, 2022. Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil 2022. Brasília: CIMI, 2022. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022. Rio de Janei- ro: IBGE, 2022 DINÂMICA SOCIAL NO BRASIL: ESTRATIFICAÇÃO, DESIGUALDADE E EXCLUSÃO SOCIAL SOCIEDADES ESTRATIFICADAS As denominadas “sociedades estratificadas” são aquelas divididas em estratos sociais. Isto significa que os indivíduos que a compõem ocupam classes e camadas distintas. A estratifica- ção pode ocorrer em âmbito econômico (há distribuição de riquezas e bens de forma distinta), em âmbito político (há desigual distribuição do poder de comandar a sociedade) e, por fim, em âmbito profissional — nesta hipótese, há valorização de algumas profissões em detrimen- to de outras. DIFERENÇAS CULTURAIS E DESIGUALDADES Embora se tenha elaborado a ideia de uma cultura nacional, como forma de preservar a uni- dade do Estado-Nação, as sociedades nacionais e as sociedades em geral se caracterizam por serem multiculturais. Quando o debate da cultura ou das culturas se torna central para pensar a realidade, seja ela nacional ou local, portanto, também é necessário se atentar às diversidades e diferenças nos modos de pensar, de se organizar, nas crenças, costumes e línguas presentes nessas sociedades. E como o contato constante entre diferentes culturas, seja nas relações de 34 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. tolerância ou conflito, pensar uma sociedade multicultural é compreender que esses contatos entre culturas produzem seus desdobramentos. Se, por um lado, a coexistência de uma enorme diversidade de grupos e povos dentro de uma mesma sociedade implica uma pluralidade de formas de ver, perceber e se relacionar com o mundo de maneiras mais diversas e complexas pode ser um grande desafio. Todavia, essa relação entre diferentes culturas nem sempre é de tolerância e respeito, tendo como desdobramentos relações intolerantese discriminatórias, a partir de marcado- res como gênero, sexualidade, raça e etnia, assim como também em diferenças regionais e a discriminação à pessoas com deficiência. O que até então representa a diversidade humana, a partir das diferenças étnico-culturais e raciais, se converte em formas de classificar e discriminar. Essas diferenças são classifi- cadas por grupos política, economicamente e/ou culturalmente dominantes. Nesse sentido, a produção da ideia culturalmente dominante de normalidade também proporciona uma classificação de anormalidade para os grupos culturalmente diversos. As diferenças sociais, portanto, se convertem em instrumento de produção e reprodução de desigualdades sociais pelos grupos dominantes que definem o que é social e culturalmente aceitável Se a cultura é o todo que constitui a vida humana, a negação da diversidade cultural nas mais distintas formas de discriminação se caracteriza também como instrumento de desu- manização do outro. O reconhecimento da diversidade cultural também perpassa pelo reco- nhecimento do outro em sua humanidade, uma vez que a cultura é aquilo que dá sentido a sua vida, que o humaniza e cria laços de pertencimento para se viver em sociedade. DESIGUALDADES E EXCLUSÕES VIVENCIADAS CONTEMPORANEAMENTE NO BRASIL Atualmente, a exclusão e a ausência de direitos sociais para pessoas negras ainda se perpe- tua, uma vez que a troca de regime não anula a desigualdade social. Neste sentido, as práticas, os costumes e as crenças sociais continuam impregnadas pela cruel história escravocrata, produzindo novas formas de racismo e discriminação. São exemplos destas condutas: z a mortalidade precoce da população negra (genocídio negro); z o encarceramento; e z constante violência e os atos discriminatórios estatais. Outrossim, é importante apontar os retrocessos sociais recentes presentes na sociedade, tais como os discursos que afirmam “não existir racismo no Brasil”, que abarcam os discur- sos reivindicatórios como um “coitadismo” exacerbado. Segundo Schwarcz, é contundente afirmar que, enquanto persistir o racismo, não poderemos falar em democracia consolidada. MANIFESTAÇÕES CULTURAIS, MOVIMENTOS SOCIAIS E GARANTIA DE DIRETOS DAS MINORIAS PATRIMÔNIO E DIVERSIDADE CULTURAL NO BRASIL R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 35 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Devido a suas dimensões continentais e, principalmente, à história de sua formação, o Brasil é um país que possui enorme diversidade cultural. De outro modo, podemos dizer que, em virtude da colonização, a “cultura brasileira”, para além dos povos originários, sofreu grande influência dos colonizadores portugueses, dos africanos escravizados, dos imigrantes europeus e japoneses, entre outros. Dito isso, estudaremos, agora, algumas das principais manifestações culturais de cada região do Brasil. Região Nordeste Dentre as manifestações culturais da região, podemos citar as danças e festas, tais como a festa do “bumba meu boi”, o maracatu, a dança dos caboclinhos, o carnaval, a ciranda, o coco, o ter- no de zabumba, a marujada, o reisado, o frevo, a cavalhada e capoeira. Além destas, podemos mencionar, ainda, algumas festas de caráter eminentemente religioso, tais como a celebração de Iemanjá e a lavagem das escadarias do Bonfim. Outrossim, a literatura de cordel também configura elemento forte da cultura nordestina, assim como o artesanato, representado, principalmente, pelos trabalhos com e de rendas. No que tange à cultura culinária, são exemplos de pratos típicos a buchada de bode, o acarajé, o vatapá, a canjica, a cocada, a tapioca, o pé de moleque, entre outros. Região Norte Na região Norte, as duas maiores festas são o Círio de Nazaré, que acontece em Belém, Pará, e o Festival de Parintins, no estado do Amazonas. A influência de traços culturais característicos dos povos indígenas faz-se muito presente na culinária do Norte, marcada pela forte presença de ingredientes como a mandioca e os peixes. Além destes, podemos citar outros alimentos típicos da região. São exemplos: z a carne de sol; z o tucupi (caldo da mandioca cozida); z o tacacá (espécie de sopa quente feita com tucupi); z o jambu (um tipo de erva); z o camarão seco; e z a pimenta-de-cheiro. Região Centro-Oeste As manifestações culturais mais conhecidas do Centro-Oeste são a cavalhada e o fogaréu, em Goiás, e o cururu, típico do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Na culinária, se destacam o arroz com pequi, a sopa paraguaia, o arroz carreteiro, a Maria Isabel, a pamonha, o angu, o curau, além dos peixes comuns nos rios da região, como o pintado, o pacu, o dourado, entre outros. Região Sul 36 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A região sul, historicamente, devido à imigração, sofreu muita influência de alemães e italianos. Dentre suas manifestações culturais, provavelmente a Festa da Uva (italiana) e a Oktoberfest (alemã) são as mais conhecidas. Além destas, compõem a o patrimônio cultural imaterial da região o fandango, de influência portuguesa, a tirana e o anuo, de origem espa- nhola, a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, a congada, o boi de mamão, a dança de fitas e o boi na vara. A cozinha sulista é famosa pelo churrasco, pelo chimarrão, pelo barreado (cozido de carne em uma panela de barro), pelo vinho, entre outros. Região Sudeste Na região Sudeste, historicamente formada pelos chamados “caipiras”, tal como aponta Darcy Ribeiro (“O Povo Brasileiro”, 1995), as festas mais conhecidas são a do Divino, dos fes- tejos da Páscoa e dos Santos Padroeiros, a congada, o carnaval, as festas de peão de boiadeiro e a Folia de Reis. Dentre os pratos típicos, os mais conhecidos são o pão de queijo, o feijão tropeiro, a carne de porco, a feijoada, o bolinho de bacalhau, o virado à paulista, a farofa etc. MOVIMENTOS SOCIAIS Todos nós ouvimos, em algum momento da nossa rotina, noticiários a respeito de ações realizadas por movimentos sociais, seja para reivindicação, seja para contestação de algo. Mas o que de fato significa um movimento social? Ora, ele nada mais é do que uma ação social coletiva, de caráter sociopolítico e cultural, constituída por elementos comuns aos indi- víduos que o constroem e que compartilham de uma mesma causa. Um movimento social pode cumprir tanto o papel de manter alguma situação quanto de mudá-la. Na prática cotidiana, os movimentos sociais podem assumir diversas formas de ação, que, por sua vez, vão desde a realização de denúncias e passeatas até mobilizações e ocupações de espaços públicos ou privados. O intuito é a reivindicação ou contestação de alguma ordem. É importante destacar que, ao longo da história, os movimentos sociais foram encara- dos e interpretados de diferentes formas por autores das ciências sociais. Algumas correntes interpretavam ações, a exemplo de greves, passeatas e manifestações, como causadoras de conflitos na ordem social. Em última instância, como anômalas, prejudiciais e perturbadoras do funcionamento da sociedade. Podemos considerar, aqui, alguns autores expoentes dessa linha de pensamento, como Émile Durkheim (1858-1917) e Talcott Parsons (1902-1979). Entretanto, outras correntes interpretavam os movimentos sociais a partir de conceitos oriundos da teoria marxista, como o de luta de classes e da oposição burguesia versus pro- letariado, considerando as ações coletivas como práticas fundamentais para o desenvolvi- mento da consciência da classe trabalhadora para pôr fim às mazelas sociais, enfim, para a realização da transformação social. Para Gohn (2011, p. 336), os movimentos sociais sempre existiram na história porque representam forças sociais organizadas, envolvendo as pessoas como um campo de ativida- des e de experimentação social, sendo essas atividades importantes “[...] fontes geradoras de criatividade e inovações socioculturais”. Os movimentos sociais, portanto, demonstram o quão viva está a sociedade e como ela caminha, realizandoum “diagnóstico da realidade social”, apontando as fissuras estrutu- rais e os problemas que precisam ser solucionados. Para isso, elaboram estudos, propostas R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 37 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. e atividades que visam contribuir para a realização do seu objetivo. Os movimentos sociais não necessariamente se contrapõem ao governo vigente, podendo tanto se opor à política desenvolvida por este quanto colidir e apoiá-lo. Ainda de acordo com Gohn (2011), existem elementos que caracterizam os movimentos sociais, como: z possuir uma identidade; z ter um opositor; z fundamentar-se em um projeto de vida e sociedade. Integra as pautas gerais de grande parte dos movimentos sociais a luta contra a exclusão, a pobreza, a fome e a desigualdade social, bem como a batalha por mais direitos, podendo, aqui, ser elencada a reivindicação pelos direitos da juventude, de negros e negras, das mulhe- res e dos trabalhadores. Os movimentos sociais não são apenas reativos. Eles podem, inclusive, levantar para deba- te temas importantes e apresentar alguma luta que considerem importante ser do conheci- mento do conjunto da sociedade. Pode-se encontrar quem defenda que os movimentos sociais têm ciclos de existência, os quais podem ser observados no esquema abaixo: Começam com uma efervescência social, algum aconteci- mento que gera comoção ou revolta. No entanto, nesta fase o movimento não tem, ainda, nenhuma organização, com as manifestações sendo uma reação diante de um fato No segundo ciclo, há o clamor popular, isto é, as pautas ficam mais delineadas No terceiro ciclo, aparecem organizações que dão direção ao movimento; surgem, também, lideranças, e as lutas come- çam a ter eficácia Por fim, no último ciclo, o movimento social se institucionaliza 38 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Para a insurgência de movimentos sociais, há quem defenda que alguns aspectos devem aparecer: z é necessário que haja um contexto social que dê sentido e justifique seu surgimento; z deve haver uma contradição entre a realidade social e as aspirações dos participantes do movimento. Em outras palavras, um choque entre as expectativas dos atores sociais e a realidade em que estão inseridos; z crenças, valores e ideias que são entendidos como importantes e acerca dos quais tem-se certeza da importância da propagação; z a ocorrência de um fato gerador de insatisfação social e, consequentemente, do movimen- to social — um estopim. Os movimentos sociais, dependendo do contexto histórico e social, das pautas que defen- dem e dos atores sociais envolvidos no processo, podem ter vida longa ou curta. A Efervescência De Movimentos Sociais No Século Xx No século XX, ocorria uma série de mudanças e transformações em várias partes do mun- do, sendo a década de 1960 considerada um marco para a história. A partir de revoltas estu- dantis na França, o mundo entrou em “colapso” e rebeliões se desenrolaram por todo o globo. Nos Estados Unidos, os movimentos pelos direitos civis tornaram-se mais fortes e intensos contra a segregação racial e a violência praticada contra negros e negras, que reivindicavam a igualdade racial e direitos civis básicos, como o acesso à educação. Nesse período, destacaram-se como exemplos de desobediência civil e contestação da ordem vigente (segregação entre brancos e negros) o pastor Martin Luther King e Rosa Parks, que, mais tarde, viriam a se tornar símbolos de luta pelos direitos civis no país. As manifesta- ções nas ruas dos Estados Unidos conformavam, assim, uma identidade, uma causa, bem como a resistência do povo negro contra a lógica que operava para excluí-los e marginalizá-los. Marcha sobre Washington por Emprego e Liberdade — 28 de agosto de 1963. Fonte: Revista Galileu. Foto: R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 39 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Wikimedia Commons2. Também nesse período, destacam-se movimentos de contracultura, que questionavam o consumismo, as regras socialmente estabelecidas e os papéis tradicionais de gênero histo- ricamente desempenhados, além da presença de movimentos nas ruas para contestarem o massacre que ocorreu contra o povo vietnamita pelas forças americanas. Aqui, destacam-se, em especial, as lutas da população LGBTQIAPN+ e das mulheres, que acionaram o discurso da igualdade e liberdade. Um marco desse período foi a produção da pílula anticoncepcional. Destacam-se, aqui, também, os movimentos de libertação nacional, que eclodiram no con- tinente africano, contra o colonialismo e pela independência política, econômica e cultural de países como Moçambique e Argélia. Ainda na segunda metade do século XX, países euro- peus, como França e Portugal, possuíam colônias na África, sob grande repressão, violência e massacre de seus povos. Os movimentos sociais de luta pela libertação, apoiados por movi- mentos de outras nações, realizaram levantes e ações contra as forças de ocupação colonial, lançando mão da revolta armada e da convocação do povo em defesa da soberania nacional. Povo na rua pela libertação e contra o domínio português em Moçambique. Fonte: DW. Foto: picture-alliance/ dpa3. Na América Latina, os movimentos sociais tomaram as ruas contra os governos autoritá- rios que assumiram o poder através de golpes militares. As movimentações iam desde ocu- pação das ruas com faixas e cartazes até atos culturais em frente a teatros e cinemas. No Brasil, com as prisões, perseguições, desaparecimentos e assassinatos de lideranças políticas, os movimentos intensificaram-se contra a ditadura militar, aglutinando diversos setores da sociedade em torno da luta pela redemocratização. 2 Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2020/08/6-eventos-que- precederam-marcha-sobre-washington-por-direitos-civis.html. Acesso em: 5 abr. 2023. 3 Disponível em: https://www.dw.com/pt-002/cronologia-1974-2002-das-independ%C3%AAncias-ao-fim-da-guerra-em- mo%C3%A7ambique-e-angola/a-17280940. Acesso em: 5 abr. 2023. 40 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Marcha dos cem mil. Fonte: Jornalistas Livres. Foto: Evandro Teixeira4. Em 28 de março de 1968, o estudante secundarista Edson Luís foi assassinado pela polícia militar no restaurante da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conhecido como “Calabou- ço”, quando alunos se organizaram para protestar contra o aumento do preço da comida. Esse episódio despertou grandes manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo, protagoniza- das, principalmente, pelo movimento estudantil. Destacam-se, nesse período, os movimentos secundarista e universitário, que estiveram massivamente nas ruas contra as privatizações, por melhores condições das estruturas de ensino, pela justiça social e em defesa das liberda- des democráticas. Os movimentos sociais desse período, através das mobilizações massivas e das pressões políticas para melhores condições de vida, acesso amplo e irrestrito à saúde, educação e defe- sa do patrimônio nacional, foram decisivos para a conquista de direitos sociais, incorpora- dos, posteriormente, pela nova Constituição Federal, de 1988. 1990: Surgimento E Novas Demandas Dos Movimentos Sociais De acordo com Gohn (2011), na década de 1990 surgem novas formas de organização popu- lar mais institucionalizadas, diferentes dos movimentos que vinham ocorrendo em anos ante- riores. Nesse período, ergueram-se os fóruns, como o Fórum Nacional por Moradia e o Fórum Nacional de Participação Popular, que estabeleceram a dinâmica de encontros e reuniões nacionais, com a definição de metas, análise de conjuntura nacional e articulação de estraté- gias. Gohn (2011) indica que o ano de 1990 tem como um dos marcos a criação da Central dos Movimentos Populares, que gera um saltO a nível de organização dos movimentos populares 4 Disponível em: https://jornalistaslivres.org/democracia-sem-povo-tem-nome-ditadura/. Acesso em: 5 abr. 2023.R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 41 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. de diversos segmentos e uma maior aproximação da sociedade civil organizada com o setor público, através da concepção de programas como o Bolsa-Escola e a Renda Mínima. Essa década também se destaca pela implementação da política neoliberal no Brasil, com maior arrocho e desemprego, carestia de vida e grande desigualdade social. Junto a isso, eclo- dem ações de movimentos que levantam pautas a favor do emprego, contra as flexibilizações dos contratos e pela moradia digna. A autora também destaca mais três movimentos sociais que cresceram nesse período: o do funcionalismo público, o dos ecologistas e o dos povos indígenas, este último com pauta central sendo a demarcação das suas terras. Nesse período, cresce o que viria a ser um dos maiores movimentos sociais da América Latina: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Com a expansão da frontei- ra agrícola, maior concentração fundiária e mecanização do campo — que contribuíram de modo significativo para o êxodo rural no Brasil —, o MST surge com o propósito de organizar os trabalhadores do campo, que viviam em grande situação de pobreza, sem meios de pro- dução, a lutarem por um pedaço de terra para continuarem no campo, produzindo e criando seus filhos com melhores condições de vida. A tática realizada pelo MST consistiu nas ocupa- ções de terras, que se tornaram conhecidas em todo o país e que geraram grandes conflitos no campo. Ao ocupar terras improdutivas e levantar acampamento, o movimento tinha como principal objetivo pressionar o governo a desapropriar a terra e destiná-la para a reforma agrária. Ao longo dos anos, muitos acampamentos transformaram-se em assentamentos, sen- do construídos, pelo movimento, escolas e cooperativas. Marcha do MST até Brasília. Fonte: Agência Brasil. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil5. O MST torna-se, assim, o principal movimento que protagoniza o conflito social no Brasil. No fim dos anos 1990, o país era marcado pela recessão, pelas reformas administrativas rea- lizadas e pelo aumento das taxas de desemprego. Nesse período, novos atores sociais surgem e os movimentos sociais de rua voltaram a crescer, como a greve, o movimento estudantil e os protestos dos profissionais de educação, bem como as manifestações indígenas. 5 Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-02/dilma-vai-receber-mst-nesta-quinta- feira. Acesso em: 6 abr. 2023. 42 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. No Brasil, o Movimento Diretas Já tomou as ruas. Com o intuito de pedir a volta da demo- cracia, as mobilizações aconteceram no início dos anos 1980, quando, nos principais estados brasileiros, foram eleitos governadores de oposição ao regime militar. Em São Paulo, venceu as eleições de 1982 Franco Montoro; em Minas Gerais, Tancredo Neves, e, no Rio de Janeiro, Leonel de Moura Brizola. Milhares de pessoas saíram às ruas exigindo o fim da ditadura e eleições democráticas para presidente. Esse movimento culminou com o deputado federal Dante de Oliveira apresentando a proposta de Emenda Constitucional nº 5, devolvendo ao povo o direito de escolher seu presidente, no dia 2 de março de 1983. Essa emenda foi rejei- tada, o que fez com que as eleições presidenciais de 1985 transcorressem de forma indireta, com Tancredo Neves vencendo Paulo Maluf. Somente em 1989 voltamos a escolher, através do voto, nossos presidentes, com a Câmara Federal restituindo o voto popular nas eleições presidenciais. O primeiro presidente eleito após a ditadura militar foi Fernando Collor de Mello, que assumiu a chefia do país em 1990 e sofreu um processo de impeachment em 1992. O gover- no Collor começou com o confisco da poupança dos brasileiros. Na década de 1980, um dos maiores problemas nacionais era a inflação alta. Isso minava o poder de compra dos salários, ocasionando, entre inúmeras outras adversidades, o baixo crescimento econômico do Brasil. Como uma medida para tentar abaixar a inflação, a equipe econômica da gestão Collor fez um plano que bloqueou o dinheiro dos cidadãos depositado nas cadernetas de poupança. Tal providência reduziu de vez o poder de compra dos brasileiros e gerou um desgaste muito grande para o governo, que passou a ser visto com desconfiança pela população. Somados a esse desgaste, começaram a aparecer escândalos de corrupção envolvendo o tesoureiro da campanha de Collor, Paulo César Farias. Com o desdobramento da cobertura jornalística sobre os acontecimentos, surgiu um clamor popular pela destituição de Collor da presidência. Liderados pela União Nacional dos Estudantes (UNE), jovens de todo o país saíram às ruas exigindo a saída do presidente, mobilização que ficou conhecida como “movi- mento dos Caras Pintadas”. Todas essas movimentações foram decisivas para a alteração do cenário político e para a consideração e incorporação de elementos políticos e sociais oriun- dos da demanda popular. Protesto dos sem-teto por moradias no vão do MASP, em São Paulo. Fonte: Wikimedia Commons6. 6 Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:MTST_-_ABr-Masp_2014.jpg. Acesso em: 6 abr. 2023. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 43 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Outro movimento social surgido nos finais da década de 1990 foi o Movimento dos Traba- lhadores Sem Teto (MTST), cujo objetivo é a luta pela moradia. O MTST tem sua atuação nos grandes centros urbanos, organizando a luta pelo cumprimento do art. 6º da Constituição Brasileira, que diz: Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. A forma de luta utilizada pelo MTST para chamar a atenção dos poderes públicos para o problema do déficit habitacional é a ocupação de imóveis em situação irregular, ato gerador das maiores críticas ao MTST. Importante ressaltar que o direito à propriedade é garantido em nossa constituição, porém o direito à propriedade é assegurado desde de que ela tenha função social. Por “imóvel em situação irregular” entende-se os que foram abandonados e que estão ociosos. Os ativistas do movimento são: pessoas que não conseguiram mais arcar com os preços dos aluguéis; famílias que moravam em áreas consideradas de risco, e pessoas despejadas de suas casas. Um dos maiores problemas brasileiros é o déficit habitacional. Dados de 2019 da Fundação João Pinheiro apontavam que a deficiência de habitação brasileira era de 5,8 milhões de casas. Aqui, entram pessoas que não tem casa, bem como casas em que moram mais de uma família. A moradia é um direito fundamental. Nos últimos anos, nas principais cidades do país, o número de pessoas morando debaixo de viadutos e marquises aumentou muito. Além disso, famílias inteiras nas ruas pela falta de oportunidades de emprego foi outra situação consta- tada, assim como a insuficiência de políticas públicas governamentais para solucionar essa realidade, vivida por milhares de pessoas. A moradia é um direito fundamental, assim como educação e saúde, e é uma pauta urgente que precisa de atenção especial dos governos. Observamos, portanto, que, ao longo de toda a história, os movimentos sociais tiveram um importante papel no desenvolvimento das forças coletivas em torno de alguma bandeira, sen- do a principal delas a luta contra a exclusão e a desigualdade social. No entanto, observamos também que nenhum movimento é estático, mas são, sim, forças que se modificam, incorpo- rando novos elementos ao longo de sua trajetória e de suas experiências sociais e políticas, podendo lançar mão de greves, passeatas, protestos, ocupações e negociações, dependendo de cada situação. Assim, os movimentos sociais foram fundamentais para pôr fim à situação de extrema desigualdade e violência, comovimos nas lutas pela libertação nacional, ou para a reivindi- cação de algo, como a contenda pela moradia e pela terra. GRUPOS VULNERÁVEIS E MINORIAS Os direitos humanos têm como a universalidade, ou seja, tratam-se de direitos previstos para qualquer pessoa independentemente de qualquer característica, origem ou local em que viva. Entretanto, os direitos humanos são de extrema relevância para a proteção de grupos vul- neráveis e minorias que são vítimas constantes de violação de direitos humanos. 44 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Porém, é necessário tomar cuidado com este assunto porque os grupos vulneráveis podem surgir em sua prova. Isso porque os grupos vulneráveis e minorias necessitam de medidas específicas de acor- do com as peculiaridades de suas necessidades. Por essa razão, existem diversos tratados que são estabelecidos entre os Estados, seja no âmbito do sistema global, seja no âmbito do sistema interamericano, que têm como premissa a proteção destas pessoas que fazem parte destes grupos. São considerados grupos vulneráveis as mulheres; as crianças e os adolescentes; os idosos; a população em situação de rua; as pessoas com deficiência ou sofrimento mental e comuni- dade LGBT (lésbicas; gays; bissexuais; travestis e transexuais). Os grupos vulneráveis merecem atenção especial do Estado em virtude de serem cons- tantemente vítimas de violações de direitos humanos. Inclusive, os sistemas de proteção estabeleceram tratados específico com normativa destinada à proteção destes grupos como: Convenção sobre os Direitos da Criança; Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Defi- ciência; Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher. Sobre as minorias, há que se esclarecer que decorrem das pessoas que em razão de sua origem, etnia ou religião não ocupam uma posição dominante no Estado. E assim, por esta- rem à margem, são vítimas constantes de violações de direitos humanos, razão pela qual necessitam de proteção especial e da concretização de medidas necessárias para que possam, de fato, gozar da igualdade. Em relação a estes grupos, de forma a garantir que se efetive a igualdade em seu favor, são estabelecidas algumas medidas concretas. Dentre elas, devem ser mencionadas as ações afirmativas. Ações afirmativas são as são medidas pontuais e que devem ser adotadas por certo perío- do de tempo, com o objetivo de amenizar ou mesmo cessar as diferenças históricas havidas entre os indivíduos. Essas ações estão previstas na Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discri- minação contra a mulher, inserida no ordenamento jurídico brasileiro por força do Decreto n.º 4.377, de 2002 e também no Estatuto da Igualdade Racial que foi expressamente trazido pela Lei 12.288, de 2010. Grupos vulneráveis e o sistema prisional Dentre as pessoas que fazem parte de grupos vulneráveis, não se pode perder de vista as pessoas que se encontram no sistema prisional. Os indivíduos que estão em situação de encarceramento são potenciais vítimas de violações de direitos humanos. No Brasil, já há alguns anos, o sistema prisional não tem a estrutura necessária para que todas as pessoas que cumprem penas de privação de liberdade, sejam elas decorrentes de medidas provisórias ou de condenações definitivas, tenham respeitadas as condições míni- mas necessárias para a observância dos direitos humanos. Em decorrência disso, que não é um problema apenas no Brasil, foram previstos tratados para a proteção de grupos vulneráveis no âmbito do sistema prisional. Dentre elas, há que se mencionar o tratado das Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de pessoas presas a seguir comentado. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 45 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CONCENTRAÇÃO DA RENDA E RIQUEZA Conforme preceitua o site das Organização das Nações Unidas de Portugal: A pobreza envolve mais do que a falta de recursos e de rendimento que garantam meios de subsistência sustentáveis. A pobreza manifesta-se através da fome e da mal nutrição, do aces- so limitado à educação e a outros serviços básicos, à discriminação e à exclusão social, bem como à falta de participação na tomada de decisões. (ONU Portugal, s.d.) Neste sentido, um forte indicador de pobreza absoluta são as pessoas que vivem com ren- da abaixo do Limiar Internacional de Pobreza que, hodiernamente, corresponde a 1,90 dólar por dia (Silva, 2016, p. 230). Segundo os dados das Nações Unidas, aproximadamente 780 milhões de pessoas vivem nessas circunstâncias, totalizando 11% da população mundial. Dica Também existem pessoas que vivem em contexto de pobreza relativa, ou seja, possuem o mínimo para a subsistência e, neste sentido, não têm acesso a bens desejáveis pela sociedade. Apesar dos números alarmantes, ao longo dos anos houve um significativo progresso acer- ca do objetivo de erradicação da pobreza. Enquanto, em 2013, cerca de 11% da população mundial encontrava-se abaixo do Limiar Internacional de Pobreza, em 1981, cerca de 44% da população encontrava-se nessas condições. Esse avanço está intrinsecamente ligado às iniciativas globais para a erradicação da pobre- za, tal como a promoção da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável. Esta corresponde a um plano adotado pela ONU (Organizações das Nações Unidas) em setembro de 2015, o qual foi elaborado em conjunto por diversos líderes mundiais e representantes da esfera civil. Nesta reunião, foram desenvolvidos 17 objetivos e 69 metas de desenvolvimento sustentável que deverão ser aplicados até 2030 (ECAM, 2020). Portanto, a erradicação da pobreza em todos os seus âmbitos é um desafio de todas as sociedades contemporâneas. Para atingir esse objetivo é imprescindível a articulação entre os governos, as instituições internacionais e a sociedade civil. PAÍSES POBRES Os países pobres são compreendidos como aqueles que enfrentam significativos impasses em áreas de distribuição de renda, educação, saúde e infraestrutura. Segundo os dados da ONU Portugal, a maioria dos indivíduos que vivem abaixo do Limiar Internacional de Pobre- za — ou seja, com menos de 1,90 dólar por dia — encontram-se nas regiões da Ásia meridio- nal e África subsaariana Outrossim, em vista dos impasses ocasionados — como a falta de emprego e suprimentos — pela pandemia da covid-19, as dívidas dos países pobres bateram recorde em 2020 (ONU News, 2021). 46 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Neste sentido, a ajuda financeira e o planejamento internacional das organizações e países ricos podem ajudar a mitigar as consequências da pobreza. DESIGUALDADES SOCIAIS Segundo dados do relatório “Tempo de cuidar — O trabalho de cuidado mal remunerado e não pago e a crise global da desigualdade” da Oxfam que foram divulgados em janeiro de 2020, os 2.153 bilionários do mundo possuem mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas — que correspondem a aproximadamente 60% da população mundial (Diário do Nordeste, s.d.). A desigualdade, entretanto, não se limita apenas à esfera econômica. Existem desigualdades de gênero, escolar, racial, regional, dentre outras e, por consequên- cia, é possível compreender que ao abordar a temática, na verdade, abordam-se distintas desigualdades sociais. Outrossim, as desigualdades sociais são interseccionais, ou seja, as comunidades podem ser atingidas por uma ou mais formas ao mesmo tempo. Desigualdade Econômica A desigualdade econômica corresponde a uma disparidade de renda e acesso a recursos entre grupos e regiões que resultam em diversos impasses sociais, tais como a instabilidade política e o aumento da criminalidade. A origem da distribuição desigual de renda, por sua vez, depende de diversos fatores, den- tre eles: a falta de acesso à educação de qualidade; as diferenças salariais e as discriminações. Desigualdade de Gênero A desigualdade de gênero, por sua vez, corresponde ao tratamento distintoque a sociedade atribui a homens e mulheres que se manifesta de diversas formas, como na disparidade salarial e na violência de gênero. Desigualdade Racial A desigualdade racial — que no Brasil atinge majoritariamente a população negra e indí- gena em vista do histórico de exclusão e discriminação — reflete em distintas áreas, tais como educação, saúde, trabalho, dentre outras. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO O desenvolvimento econômico pode ser definido como o: […] processo de sistemática acumulação de capital e de incorporação do progresso técnico ao trabalho e ao capital que leva ao aumento sustentado da produtividade ou da renda por habitante e, em consequência, dos salários e dos padrões de bem-estar de uma determinada sociedade. (Pereira, 2008, p. 1) R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 47 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Logo, indicadores diversos apontam para o avanço econômico de um país, tais como: o PIB (Produto Interno Bruto), nível de investimento e emprego — além do acesso a serviços básicos como educação, saúde e moradia (IBGE, s. d.). Outrossim, a política adotada pelos governantes exerce grande influência no desenvolvi- mento econômico de uma nação, uma vez que estes podem estabelecer políticas públicas, estimular a geração de emprego, realizar uma maior redistribuição de renda, investir em inovações tecnológicas, dentre outras medidas. REFERÊNCIAS BILIONÁRIOS têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas, mais da metade da popu- lação mundial. Diário do Nordeste, s. d. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ ultima-hora/mundo/bilionarios-tem-mais-riqueza-do-que-4-6-bilhoes-de-pessoas-mais-da-metade-da-populacao- -mundial-1.2200666. Acesso em: 20 jan. 2023. DÍVIDA de países pobres bateu recorde em 2020. ONU News, 2021. Disponível em: https://news. un.org/pt/story/2021/10/1766702. Acesso em: 22 fev. 2023 O que é a Agenda 2030 e quais os seus objetivos. ECAM, 2020. Disponível em: http://ecam. org.br/blog/o-que-e-a-agenda-2030-e-quais-os-seus-objetivos/. Acesso em: 16 mar. 2023. PAINEL de Indicadores. IBGE, s. d. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/indicadores. Acesso em: 23 fev. 2023. PEREIRA, L. C. B. O conceito histórico de desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: FGV, 2008. Pobreza. POBREZA. ONU Portugal, s. d. Disponível em: https://unric.org/pt/eliminar-a-pobreza/. Acesso em: 07 jan. 2023. SILVA, A. e col. Sociologia em movimento. São Paulo: Editora Moderna, 2016. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E MEIO AMBIENTE MEIO AMBIENTE A preservação ambiental é um dos assuntos que mais preocupam o mundo atualmen- te. São nítidas as consequências da ação dos seres humanos no ecossistema, alterando seu equilíbrio. O desenvolvimento econômico, bem como a aceleração da urbanização, acarreta- ram problemas sérios que afetam, inclusive, o próprio desenvolvimento econômico. Um dos maiores problemas que os grandes centros urbanos têm é a poluição, o crescimento do efeito estufa com o consequente aquecimento global. Entretanto, a preocupação com a preservação ganhou espaço no período Pós-Segunda Guerra Mundial, ou seja, é uma discussão recente e de importância central para o nosso futuro. Da mesma forma que temos o meio empresarial, o meio econômico, o meio político, tem-se, nas discussões sociológicas, o meio natural (GIDDENS; SUTTON, 2017). A produção econômica é uma relação entre tecnologia e natureza. A natureza é a fornecedora das maté- rias-primas, que, por meio da transformação industrial, tornam-se bem útil ao ser humano. Portanto, no entendimento das relações humano/meio ambiente, deve haver conhecimen- tos sobre como essa relação afeta a nossa vida social e como podemos fazer para estabelecer 48 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. um relacionamento mais equilibrado possível. Esse é o x da questão. Todo desenvolvimento econômico pressupõe consumo de energia. Sem a ampliação desse desenvolvimento, não criamos postos de trabalho para incorporar as novas pessoas que chegam a cada ano no mer- cado de trabalho. Entretanto, quanto mais nos desenvolvemos, mais precisamos de energia e mais extraímos da natureza a energia necessária. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Desenvolvimento sustentável combina crescimento econômico com a preservação ambiental. Não é uma equação fácil de ser resolvida. Os países que hoje são considerados ricos e desenvol- vidos utilizaram de forma destrutiva seus recursos naturais. Como salientado na seção anterior, quando se falou sobre o meio ambiente, não existe crescimento econômico sem um aumento per- manente de utilização de matérias-primas. Os países em desenvolvimento, que precisam incre- mentar sua indústria, fomentar a criação de tecnologias e diversificar sua estrutura de produção necessitam cada vez mais dos recursos presentes na natureza. Além de o desenvolvimento sustentável buscar o equilíbrio entre produção econômica e preservação do meio ambiente, busca também o desenvolvimento social da população. No Brasil as contradições sociais são enormes e as desigualdades estão aumentando, principal- mente nesses tempos pós-pandemia. A pandemia provocou um decréscimo da atividade econômica em todo o mundo. Os países que mais sofreram foram os menos desenvolvidos. Ofertar educação pública de qualidade, ampliar os serviços de saúde para população, investir em ciência e pesquisa, exigem cada vez mais recursos que só podem ser aumentados com desenvolvimento produtivo. Como vimos, este é um problema que deve ser olhado sob várias perspectivas. Não pode- mos olhar para ele somente através da ótica econômica. Se assim fizermos, vamos a passos largos destruir nosso meio ambiente. Todavia, não podemos só olhar pela preservação, assim iremos paralisar o desenvolvimento. Chegamos a um estágio de desenvolvimento tecnológico que permite a otimização da uti- lização da natureza reflorestando e recompondo, em parte, o que foi usado. Todos os países exportadores de produtos primários, que geralmente são os mais pobres, precisam cumprir uma série de exigências impostas pelos países importadores desses produtos. Entre essas exigências, uma das principais é se o produto é produzido respeitando as leis ambientais do país. BIOMAS BRASILEIROS: USO RACIONAL, CONSERVAÇÃO E RECUPERAÇÃO Ecossistemas que não têm mais capacidade de recuperação natural são considerados ambientes degradados. Considera-se, neste caso, que eles perdem a capacidade de adaptação às mudanças ocorridas. As florestas costumam ser degradadas devido a um alto consumo de madeira, alimento e água, por parte do ser humano. E os recursos degradados são a flora, a fauna, a água e o solo. As atividades realizadas nestes locais que resultam na degradação da área são: R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 49 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. z construção de rodovias e ferrovias; z construção de empresas: represas e hidrelétricas, por exemplo; z prática de atividades agropecuárias; z mineração; z exploração florestal; z caça e pesca; z construção civil; z urbanização; z queima de combustíveis. Sendo assim, para recuperar o ecossistema é necessário inserir uma certa quantidade de biodiversidade nele. É possível que seja um número mínimo de espécies, levando em conta a variabilidade estrutural e funcional dos processos ecológicos que ali ocorrem. MATRIZ ENERGÉTICA FONTES RENOVÁVEIS E NÃO RENOVÁVEIS As fontes de energia são as matérias-primas utilizadas para a produção de energia, que movimentam máquinas de maneira direta ou indireta. São extraídas da natureza e precisam passar por processos de transformação para gerar energia. As fontes de energia são classificadas como: z Renováveis: hidrelétricas, energia solar, produção eólica (ventos) e geotérmica (do calor proveniente do interior da Terra), biomassa (produzida a partir da utilização de matérias- -orgânicas), energia das marés (força das ondas) e do hidrogênio (por meio do processo de reação químicaentre oxigênio e hidrogênio que acaba por liberar energia); z Não renováveis: combustíveis fósseis como o petróleo, carvão mineral, gás natural e gás de xisto, além da energia nuclear, produzida por meio do processo de fissão (quebra) nuclear dos átomos de urânio e tório. O mundo contemporâneo está diante do desafio de utilizar cada vez mais energias não poluentes e renováveis, com o objetivo de reduzir os impactos da matriz energética sobre o meio ambiente. No Brasil já temos programas de produção de energia com o objetivo de reduzir os impactos ambientais, como, por exemplo, a produção de etanol para combustível veicular; ele foi inserido no país nos anos 70 a partir do Programa do Álcool Brasileiro, principalmente a partir do 1º choque do petróleo, ocorrido em 1973, que provocou aumentos consideráveis no valor de barril. O Brasil destaca-se também pela produção de energia a partir de usinas hidrelétricas, com destaque para as Usinas de Itaipu, Ilha Solteira, Belo Monte, Cachoeira Dourada e Furnas. Em relação à energia eólica, merece destaque o crescimento apresentado na região Nor- deste na interface continente-oceano (litoral), especialmente a Usina de Prainha, no Ceará. 50 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A produção da energia solar, em especial no cinturão do sol, localizado no Nordeste, e em várias usinas na região Sul, também aumenta cada vez mais. Como evidência da biomassa, temos o processamento de cana-de-açúcar e a produção de etanol. Em relação às fontes de energia não renováveis, destacamos a utilização de gás natural, que é importado da Bolívia. As poucas reservas de carvão mineral estão localizadas em esta- dos da região Sul, principalmente Santa Catarina. O processo de extração e refino de petróleo é realizado pela Petrobras desde os anos 50, quando ocorreu sua inauguração e, nesse quesito, podemos destacar as reservas localizadas nas Bacias de Campos e Santos. Existem dois tipos básicos de produção de produção de petróleo: o onshore e o offshore. O primeiro está relacionado à produção do petróleo em solo, ou seja, dentro do continente. As principais bacias produtoras de petróleo onshore são a: Potiguar (situada no Rio Grande do Norte) e do Recôncavo Baiano. Já o petróleo offshore é aquele produzido fora do continente, ou seja, em mar; a maior produção deste tipo está localizada na área do pré-sal. Também é importante destacar a presença das reservas de petróleo no pré-sal, localizado entre os estados de Santa Catarina e Espírito Santo (dando destaque para a Bacia de Santos), totalizando uma área de mais de 800 km de extensão. Essa reserva de petróleo está localizada a uma profundidade superior a 7 mil metros abaixo do nível do mar, por baixo de uma cama- da de sal com espessura de 2 km, o que durante muito tempo inviabilizou a sua exploração. Com o desenvolvimento tecnológico, a Petrobras já extrai grandes quantidades de petróleo na região. Estima-se que as reservas no pré-sal ultrapassem 200 milhões de barris e, por conta dessas reservas encontradas, o Brasil passou a ser autossuficiente na produção de petróleo. Em relação à energia nuclear, merecem destaque as Usinas de Angra I e II, construídas nos anos 70, porém sem muita representatividade na matriz energética brasileira, que atualmente se divide da seguinte forma: Carvão 5,7% Nuclear 1,4% Lenha e carvão vegetal 1,4% Outras não renováveis 1,4% Lixívia e outras renováveis 1,4% Gás natural 13,0% Petróleo e derivados 36,4% Hidráulica 12,0% Derivados da cana 12,0% Fonte: epe.gov.br MUDANÇA CLIMÁTICA R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 51 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. As mudanças climáticas ocorrem devido a causas naturais ou mediante atividades huma- nas. De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão das Nações Unidas responsável por produzir informações científicas, é certo que o aumento da temperatura na Terra tem sido causado pela ação do homem. Estima-se que, a partir da Revolução Industrial, a temperatura global média tenha aumen- tado cerca de 0,8 °C, sendo a maior parte desse aumento causada pela atividade de queima de combustíveis fósseis (gasolina, carvão mineral e outros) e desmatamento. Tais atos são responsáveis pelo crescimento da concentração atmosférica de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa. A fim de amenizar o problema, a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima prevê a contenção das concentrações de gases de efeito estufa, buscando evitar inter- ferências antrópicas perigosas no sistema climático. Além disso, estudos apontam que, para impedir danos maiores à natureza, à humanidade e à economia global, é preciso limitar o aquecimento a menos de 2 °C acima do nível pré-Revolução Industrial. Quanto ao efeito estufa, ele corresponde a uma camada composta, principalmente, por gás carbônico (CO2), metano (CH4), N2O (óxido nitroso) e vapor d’água, gases que cobrem a superfície da Terra. Esse fenômeno natural é imprescindível para a manutenção da vida na Terra, pois, em sua ausência, o planeta pode tornar-se muito frio, o que inviabilizaria a sobre- vivência de diversas espécies. Importante! Naturalmente, parte da radiação solar que chega à Terra é refletida, retornando para o espaço, enquanto a outra parte é absorvida pelos oceanos e pela superfície terrestre devi- do à camada de gases em torno dela. A parte retida é a causa do chamado Efeito Estufa (Figura 20). À medida que a camada de gases estufa fica mais espessa, mais calor é retido na Terra e, consequentemente, maior é a temperatura da atmosfera terrestre e dos ocea- nos, ocasionando o chamado aquecimento global. Figura 20: Efeito Estufa7 As Consequências do Aquecimento Global 7 APROBIO, 2019. Disponível em: https://aprobio.com.br/noticia/voce-sabe-o-que-e-o-efeito-estufa. Acesso em: 11 maio 2021. 52 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. São várias as consequências do Aquecimento Global e algumas delas já podem ser sentidas em diferentes partes do planeta. Os efeitos provenientes das mudanças climáticas são proble- mas mundiais e atingem todos os ecossistemas. Estudos revelam que o significativo aumento da temperatura média do planeta tem ele- vado o nível do mar, devido ao derretimento das calotas polares. Tal fato pode ocasionar o desaparecimento de ilhas e cidades litorâneas densamente povoadas, alteração no clima global e nas correntes oceânicas (Figura 21). Figura 21: Efeitos do aquecimento global8 Ainda, pode-se citar, como consequências do Aquecimento Global, a ocorrência de eventos climáticos extremos, como tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, nevascas, furacões, tornados e tsunamis, os quais podem causar a extinção de espécies de animais e de plantas. No Brasil, acredita-se que a elevação do nível do mar pode afetar regiões costeiras. Dentre os principais desequilíbrios que as alterações climáticas podem causar, destacam-se o aumen- to da frequência e intensidade de enchentes e secas, expansão de vetores de doenças endê- micas, mudança do regime hidrológico, perdas na agricultura e ameaças à biodiversidade. Entre as atividades humanas que favorecem o aumento do aquecimento, por emitirem ampla quantidade de CO2 e de gases formadores do Efeito Estufa, estão a queima de combus- tíveis fósseis para a geração de energia, atividades industriais e transportes, conversão do uso do solo, agropecuária, descarte de resíduos sólidos e o desmatamento. O Brasil é um dos líderes mundiais em emissões de gases de efeito estufa (GEE) em decorrência das mudanças do uso do solo e do desmatamento. Vale destacar que as áreas de florestas e os ecossistemas naturais são grandes reservató- rios e sumidouros de carbono, os quais absorvem e estocam CO2. No entanto, quando ocorre um incêndio florestal ou uma área é desmatada, esse carbono é liberado para a atmosfera, contribuindo para o efeito estufa e o aquecimentoglobal. Além disso, as emissões de GEE pela agropecuária e geração de energia vêm aumentando ao longo dos anos (Figura 22). 8 SBMT, 2019. Disponível em: https://www.sbmt.org.br/portal/relacao-explosiva-aquecimento-global-e-doencas-tropicais/. Acesso em: 11 maio 2021. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 53 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Fotossíntese Água + Minerais Água Água Lenha Vapor de água Resíduos de combustão Calor O2 CO2 Figura 22: Ciclo do carbono9 Conforme citado, os principais GEE são o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso. O CO2 constitui mais de 70% das emissões de GEE, permanecendo ao redor da superfície terrestre por, no mínimo, cem anos, causando, assim, impactos no clima ao longo de séculos. Já o CH4, embora emitido em menor quantidade, seu potencial de aquecimento é vinte vezes superior ao do CO2. Quanto ao óxido nitroso e aos clorofluorcarbonos (CFCs), suas concentrações na atmosfera são menores, mas o seu poder de reter calor é de 310 a 7.100 vezes maior do que o CO2 (NAHUR; GUIDO; SANTOS, 2015; WWF, 2021). Como vimos, a partir da Revolução Industrial, tanto os países desenvolvidos quanto os países em desenvolvimento têm elevado, consideravelmente, suas emissões de GEE. Segundo dados mais recentes, em 2020, a China ocupava o primeiro lugar do ranking, em seguida, pelos Estados Unidos; o Brasil aparecia em décimo segundo lugar. Juntos, os 15 principais países geradores de poluição emitiam 73% de todas as emissões de CO2 do planeta. Quadro 2: Os 15 países mais poluentes do planeta em 2020 POSIÇÃO PAÍSES EMISSÕES EM 2017(MTCO2) % DE EMISSÃO GLOBAL 1º China 10.668 30,2 % 2º Estados Unidos 4.713 13,4% 3º Índia 2.442 6,9% 4º Rússia 1.577 4,5% 5º Japão 1.031 2,9% 6º Irã 745 2,1% 9 Blogspot, 2010. Disponível em: http://portalcienciaecultura.blogspot.com/2010/08/o-ciclo-do-carbono.html. Acesso em: 11 maio 2021. 54 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. POSIÇÃO PAÍSES EMISSÕES EM 2017(MTCO2) % DE EMISSÃO GLOBAL 7º Alemanha 644 1,8% 8º Arábia Saudita 626 1,8% 9º Coreia do Sul 598 1,7% 10º Indonésia 590 1,7% 11º Canadá 536 1,5% 12º Brasil 467 1,3% 13º África do Sul 452 1,3% 14º Turquia 393 1,1% 15º Austrália 392 1,1% TOP 15 25.874 73,3% RESTANTE DO MUNDO 9.390 26,7% Fonte: Global Carbon Atlas, 202010 Aqui, cabe um questionamento: o que se pode fazer para combater o Aquecimento Global? Existem inúmeras maneiras de diminuir as emissões dos gases de Efeito Estufa e, con- sequentemente, o aumento do Aquecimento Global. Para isso, é necessário que ocorra, em caráter de urgência, a redução do desmatamento, o investimento em reflorestamento e a conservação de áreas naturais, o incentivo ao uso de energias renováveis, a utilização de bio- combustíveis, a redução e o reaproveitamento de materiais, o investimento em tecnologias de baixo carbono, entre outros. Tais medidas podem ser estabelecidas através de políticas nacionais e internacionais de clima (ANELLI, 2011; WWF, 2021). Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) Os países membros da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (United Nations Framework Convention on Climate Change — UNFCCC), base de cooperação internacional, buscam estabelecer políticas para reduzir e estabilizar as emissões de gases de efeito estufa em um nível no qual as atividades humanas não interfiram seriamente nos processos climáticos. Vale ressaltar que a primeira reunião aconteceu em 1992 durante a Eco 92, Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro. O texto da Con- venção foi assinado e ratificado por 175 países, os quais reconheceram a necessidade de um empenho global para o enfrentamento das questões climáticas. Após seu estabelecimento e entrada em vigor, os representantes dos diferentes países pas- saram a se reunir anualmente, a fim de discutir a sua implementação. Tais reuniões são cha- madas de Conferências das Partes (COPs). Desta forma, os países desenvolvidos, por serem responsáveis históricos das emissões e por terem mais condições econômicas para arcar com os custos, seriam os primeiros a assu- mir as metas de redução até 2012 (NAHUR; GUIDO; SANTOS, 2015; MMA, 2021; WWF, 2021). No ano de 2012, durante a COP 18, em Doha, estava prevista a finalização do Protocolo de 10 Disponível em: http://www.globalcarbonatlas.org/en/CO2-emissions. Acesso em: 28 nov. 2022. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 55 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Quioto. Porém, observou-se que diversos países não atingiram as metas e o Protocolo foi prorrogado até 2020. Atenção: o Protocolo de Quioto constituiu um tratado internacional que estipulou as metas de reduções obrigatórias dos principais gases de efeito estufa para o período de 2008 a 2012. Embora tenha havido resistência por parte de alguns países desenvolvidos, foi acordado o princípio da responsabilidade comum. Essa é uma ferramenta de mercado que possibilita, aos países que tenham a obrigatorie- dade de reduzir suas emissões, a compra de créditos de carbono de um país que já tenha atingido a sua meta e, portanto, possui créditos excedentes para vender. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) é um instrumento que integra o Protoco- lo de Quioto e permite que os países desenvolvidos invistam em projetos para a redução de emissões de gases em países em desenvolvimento. As emissões reduzidas são contabilizadas e geram créditos de carbono, que podem ser comercializadas no comércio de emissões. O MDL inclui, ainda, a implantação de atividades para a redução dos gases do Efeito Estufa. Cabe ressaltar que esses projetos são baseados em fontes renováveis e alternativas de energia, eficiência e conservação de energia ou reflorestamento. Todos com o foco nas redu- ções de emissões adicionais àquelas que ocorreriam na ausência do projeto, garantindo benefícios reais, mensuráveis e de longo prazo para a mitigação da mudança do clima. A Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) é um plano de incentivo desenvolvido no âmbito da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em 2013, durante a Conferência das Partes em Bali, na Indonésia. Seu principal objetivo é indenizar os países em desenvolvimento pela redução de emissões dos GEE pro- venientes do desmatamento e da degradação florestal. Ou seja, a cada ano, caso o país dimi- nua significativamente suas emissões relativas a desmatamentos e degradações florestais, ele terá o direito de receber uma indenização da UNCCC. Além disso, leva-se em consideração o papel da conservação de estoques de carbono flo- restal, manejo sustentável de florestas e aumento de estoques de carbono florestal denomi- nado REED+ (REED plus, em inglês) (MMA, 2016). Felizmente, existe uma série de iniciativas sendo aplicadas tendo em vista tais meca- nismos. No Brasil, o World Wide Fund for Nature (WWF), organização não governamental internacional que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental, em parceria com o governo do Acre, vem apoiando a construção do REDD no âmbito do progra- ma de pagamentos por serviços ambientais. Neste sentido, pode-se concluir que o REDD é uma importante ferramenta para os países com florestas nativas, a qual busca contribuir para a conservação, redução do desmatamento e das emissões de gases de efeito estufa (Figura 23). 56 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Comissão Nacional para REDD+ UNFCCC GCF Outras fontes Estados Fundo Amazônia Políticas e iniciativas Internacional Pagamentos por resultados de REDD+ (USD/tCO2e) Benefícios (recursos, investimentos, direitos de captação etc Informação, metas institucionais, desembolso etc Compensação por resultados nacionaisResultados (tCO2e) Distribuição de benefícios de acordo com regras definidas nacionalmente Nacional Doméstico Figura 23: Distribuição de benefíciosREDD+11 Em suma, a distribuição de benefícios do REDD+ tem início assim que o país em desenvol- vimento apresenta à UNFCCC todos os elementos para a obtenção do reconhecimento de seus resultados de REDD+. Quando o processo é finalizado, os resultados de REDD+ medidos em tCO2 serão inseridos no Lima Information Hub. Na decisão 9, da CP 19, a COP decidiu estabelecer o Lima REDD+ Information Hub na REDD+ Web Platform, como um meio para publicar informações sobre os resultados das atividades de REDD+ e os correspondentes pagamentos baseados em resultados. O Lima REDD+ Infor- mation Hub visa aumentar a transparência das informações sobre ações baseadas em resul- tados de REDD+. Assim, quando o país está apto a captar recursos de pagamentos por resultados, os paga- mentos são efetuados por diversas fontes internacionais, em particular do Fundo Verde para o Clima (GCF na sigla em inglês). A distribuição de benefícios, portanto, ocorre de acordo com regras definidas nacional- mente. Não há regras e/ou exigências quanto ao uso desse recurso, uma vez que o pagamento se deu por ações executadas no passado (MMA, 2016). A Resposta à Emergência Climática Em novembro de 2021, os representantes dos países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) estiveram reunidos por 12 dias com o intuito de estabelecer novas metas e estratégias capazes de frear o avanço de um inimigo comum: a emergência climática. Ocor- reu, portanto, na Escócia, a 26ª Conferência das Partes sobre a Mudança Climática (COP 26). A reunião foi marcada pelo terceiro encontro entre os 195 países signatários do Acordo de Paris. Após cinco anos desde a assinatura do Acordo climático, chegara, então, a hora de fazer um balanço do que foi realizado nesse tempo em prol da redução de emissão de GEE. Até o final de 2020, 75 signatários, que representam 30% das emissões, submeteram à ONU suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs na sigla em inglês), por meio de docu- mentos que especificam as metas e medidas que serão implementadas a curto, médio e longo prazo, para diminuir as emissões. 11 MMA, 2016. Disponível em: https://www.bio3consultoria.com.br/o-que-e-redd/. Acesso em: 11 maio 2021. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 57 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A percepção geral foi de que as iniciativas apresentadas pelos países foram insuficientes para frear o aumento da temperatura do planeta. “Os governos estão longe do nível de ambi- ção necessário para limitar as mudanças climáticas a 1,5 °C e cumprir os objetivos do Acordo de Paris”, analisa o secretário-geral da ONU, António Guterres, em comunicado publicado no dia 26 de fevereiro de 2021. Neste sentido, a orientação dada a esses países foi de que, até a realização da COP 26, suas metas fossem refeitas, a fim de que contribuam, verdadeiramente, com o controle da emer- gência climática (Figura 24). Para o secretário-geral, “a ciência é clara: para limitar o aumento da temperatura global em 1,5 °C, devemos cortar as emissões globais em 45% até 2030, em relação aos níveis de 2010” (LOPES, 2021). Figura 24: Retrato da emergência climática12 Assim, esperava-se que 2021 fosse um ano decisivo para o cumprimento do Acordo de Paris em prol da prevenção de uma verdadeira catástrofe, conforme prevê o Fórum Econô- mico Mundial. Nesse sentido, ao final da COP 26 ficaram acordados dois principais pontos: z que os países desenvolvidos criariam um fundo de pelo menos US$ 100 bilhões para ajudar os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos a lidarem com os efeitos das mudanças que sentem em seus territórios, bem como tentar diminuir o aumento da temperatura; z a facilitação e regulamentação do mercado de compra de carbono, visando a diminuir as emissões. No entanto, ambos os pontos têm sido criticados desde a assinatura do comprometimento entre os quase 200 países signatários da conferência. O primeiro, porque vários detalhes e prazos ficaram em aberto, deixando margem para o não cumprimento do compromisso (total ou parcialmente), além do valor de 100 bilhões de dólares ser visto como insuficiente para seus objetivos — cientistas especialistas da área falam que o mínimo necessário seria um valor na casa do trilhão. Já o segundo ponto recebe críticas não necessariamente pelas regras desenhadas na COP 26, mas pelo fato de ser uma compensação de poluição que parece ser contraditória. Isso 12 Globo, 2021. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Um-So-Planeta/noticia/2021/04/por-que-2021-e-um-ano-decisivo-para-o-cumpri- mento-do-acordo-de-paris.html. Acesso em: 11 maio 2021. 58 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. porque permite que um país muito poluente compre parte do “direito de poluir” de um país menos poluente. Ou seja, em outras palavras, é como se o planeta não fosse integrado e as populações não sofressem com os prejuízos locais por conta de negociações financeiras. Por outro lado, existia uma expectativa alta em relação à COP 27 para rever e repensar alguns pontos e ser mais propositiva e eficiente do que a COP 26. Na COP 27, ocorrida no segundo semestre de 2022, no Egito, foram conversados e/ou pré-decididos alguns pontos principais: z a criação do Fundo de Perdas e Danos, o qual deve ser alimentado pelos países mais ricos para ser destinado e utilizado aos países mais pobres que sofrem com os desastres conse- quentes das mudanças climáticas; z manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC, no máximo; z o acordo de reduzir as emissões de metano, apoiado por quase 150 países; z a discussão sobre os protestos ambientais e suas lideranças; z e a discussão sobre as regras para facilitação e maior viabilização para o comércio de carbono (que acabou não saindo muito do lugar devido à insatisfação dos que querem sua facilitação e à pressão de ambientalistas sobre aspectos pouco transparentes e muito arriscados ambientalmente). TRANSIÇÃO ENERGÉTICA Energia alternativa pode também ser pensada como energia renovável ou sustentável; recebe essa terminologia pois é uma alternativa às fontes de energia tradicionais, os combus- tíveis fósseis, como o gás natural, carvão e petróleo. É considerada sustentável porque sua utilização causa um menor impacto ambiental, e normalmente não traz tantos problemas climáticos (Freitas; Dathein, 2013). O aumento populacional mundial é uma crescente que tem trazido preocupações em rela- ção às fontes de energias tradicionais, por conta do impacto ambiental dessas fontes e pelo fato de não serem infinitas. O aumento populacional aumenta a demanda por energia. É por esses motivos que as energias alternativas têm se destacado. Dentre essas energias, pode-se destacar a biomassa, energia eólica, energia geotérmica, ener- gia hidráulica, energia do mar e energia solar (Nascimento; Alves, 2017; Freitas; Dathein, 2013). Veremos algumas delas em detalhes a seguir. Energia Eólica A ideia de energia gerada a partir da força dos ventos iniciou-se durante o século XIX; naquele período, era usada em moinhos para moer grãos, navegar em barcos a vela e bom- bear água. Essa energia consiste em aproveitar a força eólica (dos ventos) para gerar energia. Os danos ambientais dessa energia, quando comparados aos das fontes de energias tradicionais, são inexistentes. Mas, pensando fora da régua da queima de carvão ou petróleo, existem alguns impactos ambientais, pois modifica as paisagens com grandes torres e hélices, amea- çando pássaros quando instaladas em região de migração desses animais. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 59 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Em relação aos humanos, a geração dessa energia pode emitir ruídos incômodos e causar interferências em aparelhos como TVs. De modo geral, no Brasil, existem perspectivas para o aumento da utilização da energia gerada pelos ventos (Camisa; Hernandes, 2020). Parque eólico no Texas, Estados Unidos. Fonte: Wikimedia Commons, 200413. Energia Solar A energiasolar é gerada quando a luz do sol causa um desequilíbrio na atmosfera, resul- tando no ciclo da água e no movimento do ar. Essa energia pode ser aproveitada em parques eólicos e armazenada em represas para produzir energia hidroelétrica no futuro. Existem duas maneiras principais de aproveitar a energia solar: usando coletores solares ou sistemas de alta temperatura. Um método direto é usar células fotovoltaicas feitas de silí- cio. Essas células convertem a luz solar em eletricidade quando a luz incide sobre elas. No entanto, essas células podem ser caras. O processo de conversão da luz solar em eletricidade ocorre quando os raios de sol interagem com os átomos nas células fotovoltaicas, liberando elétrons e gerando uma corrente elétrica (Santana et al., 2020). No Brasil, temos uma grande vantagem quando se trata de energia solar. O país possui uma exposição solar abundante em todo o território, e reservas de quartzo, essenciais para a fabricação do silício, um material fundamental nas células solares. Isso traz diversos benefí- cios, como a geração de energia limpa, sem emissão de gases poluentes em comparação com outras fontes de energia. Além disso, as instalações solares requerem pouca manutenção e podem ser utilizadas em locais remotos ou de difícil acesso. Os sistemas solares também têm uma vida útil longa. No entanto, é importante mencionar que ainda existem algumas consequências ambien- tais associadas à energia solar. Durante a produção dos materiais utilizados nos painéis sola- res, podem ser emitidas substâncias tóxicas. Além disso, os sistemas solares não funcionam durante períodos de chuva ou à noite, pois dependem da luz solar para gerar eletricidade (Nascimento; Alves, 2017). 13 GREEN Mountain Wind Farm Fluvanna 2004. Wikimedia Commons, 2004. Disponível em: https://tinyurl.com/3jdjbawe. Acesso em: 21 ago. 2023. 60 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Painéis solares em Cariñena, Espanha. Fonte: Wikimedia Commons, 201514. Biomassa A biomassa engloba os recursos renováveis provenientes de matéria orgânica de origem animal ou vegetal. Esses recursos podem ser utilizados para gerar energia elétrica. No entan- to, apenas uma parte desse material é aproveitada como biomassa, considerando as necessi- dades do próprio ecossistema. Assim como outras fontes de energia renovável, a biomassa é uma forma indireta de aproveitar a energia solar. Importante! Na definição de biomassa para a produção de energia elétrica, os combustíveis fósseis são excluídos (Nascimento; Alves, 2017). A biomassa é uma das fontes que tem crescido muito no Brasil com sistemas de co-geração do setor industrial e de serviços e possivelmente tende a crescer muito mais aos longos dos anos. Vários são os fatores para esse crescimento sendo os principais deles a capacidade já instalada até agora e o aumento do potencial da produção de cana-de-açúcar, motivado pelo consumo crescente do etanol [...]. (Nascimento; Alves, 2017, p. 2) Energia Hidráulica A construção de uma central hidroelétrica envolve uma abordagem abrangente e coorde- nada, que inclui vários elementos essenciais. Estes elementos são: z o sistema de coleta e transporte de água; z a barragem; z a estação geradora; z o dispositivo extravasor. A principal função da barragem é interceptar a água e criar um reservatório para arma- zenamento hídrico. Além de servir como reserva, o reservatório desempenha um papel cru- cial na regulação do fluxo do rio, tanto em períodos chuvosos quanto na estação seca. Essa 14 PANELES solares en Cariñena, España. Wikimedia Commons, 2015. Disponível em: https://tinyurl.com/389k4834. Acesso em: 21 ago. 2023. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 61 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. regulação permite captar eficientemente as chuvas em volumes adequados e criar diferenças de elevação necessárias para a geração de energia hidroelétrica (Nascimento; Alves, 2017). Apesar dos custos substanciais associados à construção de usinas hidroelétricas, a uti- lização do recurso hídrico como fonte de energia renovável e ambientalmente benigna é valorizada, uma vez que não emite poluentes atmosféricos prejudiciais. Isso contribui para os esforços na luta contra o aquecimento global. No entanto, é importante considerar os impactos significativos, tanto ambientais quan- to sociais, resultantes da instalação dessas usinas. Esses impactos incluem a degradação da vegetação nativa, o acúmulo de sedimentos nos rios, o risco de colapso das estruturas de contenção e a ameaça à sobrevivência de espécies aquáticas, além das implicações sociais relacionadas à realocação das comunidades locais (Nascimento; Alves, 2017). O Brasil hoje desfruta das hidroelétricas como sendo sua principal fonte de energia, compos- to atualmente por 1220 usinas hidroelétricas com capacidade total de 92.415MW instalada correspondendo a 61,34% na matriz elétrica brasileira, e esses números tendo a subir nos pró- ximos anos com mais sete empreendimentos em construção e seis para iniciar. (Nascimento; Alves, 2017, p. 2) POPULAÇÃO: ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E DINÂMICA DEMOGRAFIA Teorias Demográficas A questão do crescimento demográfico acelerado tem sido um dos assuntos mais polêmicos no campo das ciências humanas. Entre os fatos que determinaram o acirramento dessas con- trovérsias, especialmente no século XIX, está a publicação, em 1798, de uma das mais célebres obras sobre o assunto: “Ensaio sobre o princípio da população”, de autoria do pastor anglicano e economista inglês Thomas Robert Malthus. z Teoria de Malthus Em 1798, Malthus publicou uma teoria demográfica, apresentando, basicamente, dois pos- tulados, quais sejam: � O crescimento da população em progressão geométrica – PG, o qual era duplicado a cada 25 anos; � O crescimento da produção de alimentos em progressão aritmética – PA. O economista previa a fome em consequência da falta de alimentos para abastecer as necessidades de consumo do planeta. 62 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Por ser um pastor anglicano, contrário aos métodos anticoncepcionais, propunha que as famílias só tivessem filhos se possuíssem terras cultiváveis para poder alimentá-los. Ele não levou em conta o progresso técnico na agricultura, por meio do qual uma área que, hoje, produz X¹ de gêneros agrícolas poderia, daqui a alguns anos, produzir X² ou X³, desde que se modernizem as técnicas de plantio. Numa reunião de cientistas, realizada em 1952, calculou-se que a capacidade de produção era capaz de satisfazer as necessidades de 13,5 bilhões de pessoas. No entanto, em 1974, em outro congresso científico, chegou-se à conclusão de que, com a aplicação dos recursos técni- cos existentes, poderiam viver tranquilamente na terra cerca de 30 bilhões de pessoas. É evidente que o espaço territorial do nosso planeta possui um limite e, por isso, o cres- cimento populacional não poderá ser elevado eternamente. Todavia esse limite depende menos do número de pessoas que da forma mais ou menos racional com que se produz e do que é produzido. z Teoria Neomalthusiana Em 1945, após a 2ª Guerra Mundial, em São Francisco EUA, os neomalthusianos, preocu- pados com o “excesso de gente” na terra, defenderam uma política de controle, em especial para os países subdesenvolvidos, baseada em dois argumentos: � Um rápido crescimento populacional seria um obstáculo ao desenvolvimento econômi- co e, portanto, à melhoria das condições de vida da população. Até porque grande parte desses investimentos são direcionados, obrigatoriamente, aos atendimentos sociais dos novos contingentes populacionais que surgem a cada ano; � Existem áreas superpovoadas nas quais os problemas de fome, miséria e pobreza esta- riam diretamente ligados às elevadas taxas de natalidade. As mazelas sociais existentes nos países subdesenvolvidos têm raízes bem mais profundas que as geradas pelo crescimento demográfico acelerado. Neste sentido, acobertaros efeitos devastadores dos baixos salários e das péssimas condições de vida que vigoram nos países subdesenvolvidos a partir de um argumento demográfico ou, ainda, dizer que os países sub- desenvolvidos desviaram dinheiro do setor produtivo para os investimentos sociais é, no mínimo, hipocrisia. z Teoria Reformista Os estudiosos desta teoria defendem a ideia de que os miseráveis não são responsáveis por sua miséria, por terem muitos filhos, como querem demonstrar os neomalthusianos. Para eles, a origem da miséria, nos países subdesenvolvidos, tem raízes históricas na política social e econômica direcionada para atender à maioria da população. Neste sentido, a misé- ria não seria um fenômeno decorrente da falta de recursos financeiros, mas, sim, de fatores estruturais crônicos, como a distribuição desigual da renda interna. O que deve ser controlado não é a natalidade, mas o consumismo supérfluo. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 63 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Estrutura da População A população da Terra está distribuída de forma irregular pelo globo. Ocorrem maiores concentrações populacionais em algumas regiões e vazios demográficos em outras. Fatores naturais, como o relevo, o clima, a vegetação e os rios contribuem para que ocorra essa dis- tribuição desigual dos grupos humanos pelos territórios. As regiões que oferecem as melhores condições de ocupação pelo homem são denomina- das ecúmenas. Os vazios demográficos chamamos de regiões anecúmenas, isto é, a ocupação humana se torna mais difícil. As regiões de montanhas, as regiões polares e as áreas de desertos são as que mais difi- cultam o processo de ocupação humana, sendo bons exemplos de regiões anecúmenas. No entanto, existem algumas regiões na Terra nas quais as densidades demográficas são eleva- das, causando problemas por falta de espaço. É o caso da Ásia, em especial as porções sul, leste e sudeste do continente. Nessas áreas, estão concentradas mais da metade da população do globo e, por isso, essa região é denominada um “formigueiro humano”. Pela distribuição da população nos continentes, notamos que a Ásia é o continente mais populoso, com 59% do total mundial. Além disso, é, também, o continente mais povoado, com quase 80 habitantes/km² de densidade demográfica. A Oceania é o continente menos populoso e menos povoado. A Antártida é o continente não habitado (despovoado). Já a Europa vem passando por um processo de redução da sua população, por conta das baixas taxas de natalidade. A população do continente africano, por sua vez, vem passando por um processo de crescimento nas últimas décadas. Crescimento Demográfico O crescimento demográfico no mundo é caracterizado pelo aumento do número de habitantes no planeta. Esse fenômeno é consequência do crescimento vegetativo ou cresci- mento natural da população, resultado do saldo entre as taxas de natalidade (nascimentos) e de mortalidade (mortes). Quando as taxas de natalidade são superiores às taxas de mortali- dade, ocorre um crescimento vegetativo positivo, caso contrário, o crescimento vegetativo é negativo – as taxas de mortalidade maiores que as taxas de natalidade. As taxas de crescimento da população no mundo intensificaram-se apenas no final do século XVII e início do século XVIII, já que, antes desse período, a expectativa de vida era muito baixa, fato que aumentava as taxas de mortalidade. Em 1930, a população da Terra já era superior a 2 bilhões de pessoas e, em 1960, atingiu o número de 3 bilhões de pessoas, com as taxas de crescimento médio populacional de 2% ao ano. Durante a década de 1980, a população mundial ultrapassou a marca de 5 bilhões de pessoas. Atualmente, a taxa de crescimento da população mundial é menor que de 1% ao ano e é considerada baixa. 64 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. No entanto, a expectativa de vida está aumentando em virtude de avanços na medicina, melhorias no saneamento básico, maiores investimentos na saúde, entre outros fatores. Por- tanto, o número de habitantes do mundo continua aumentando, porém em um ritmo menos acelerado que em outros momentos da nossa história. De acordo com dados divulgados, em 2021, pelo Fundo de População das Nações Unidas (FNUAP), a população mundial é de 7,874 bilhões de habitantes. Segundo as estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), a população total do planeta atingirá a marca de 9 bilhões de habitantes em 2050, ou seja, haverá um acréscimo de pouco mais de 1,2 bilhão de habitantes, elevando a taxa de crescimento de 0,33% ao ano. Vale ressaltar que o aumento populacional ocorre de maneiras diferentes em cada um dos continentes do planeta. No continente africano, por exemplo, registram-se índices de cres- cimento populacional em torno de 2,3% ao ano. Já a Europa, por sua vez, apresenta taxa de 0,1% ao ano. A taxa de crescimento na América e na Ásia gira em torno de 1,1% ao ano e, na Oceania, 1,3% ao ano. Transição Demográfica O processo de transição demográfica faz parte de estudos realizados pelo demógrafo estadunidense Frank Notestein, durante a primeira metade do século XX. O estudioso preten- dia confrontar, através de números e dados, a teoria malthusiana, que, como vimos, afirmava que o crescimento demográfico mundial ocorria em ritmo exponencial, através de progres- são geométrica (P.G). Na transição demográfica, é possível verificar que existem tendências que comprovam que as populações, em diferentes espaços e diferentes momentos históricos, tendem a cres- cer de acordo com questões e ciclos que se intensificam, alcançando o auge e, depois, passam por um processo de redução pelos mais variados motivos. A teoria da transição demográfica afirma que o crescimento populacional não é um pro- cesso único e constante, podendo ocorrer variações de acordo com o período histórico e as condições socioeconômicas dos locais. Afirma-se que a tendência é de que ocorra uma esta- bilização em relação ao crescimento demográfico, por conta das sucessivas alterações nas taxas de natalidade e mortalidade. As principais consequências do processo de transição demográfica são o aumento na expectativa de vida, o envelhecimento populacional e a redu- ção nas taxas de natalidade. As migrações Populacionais no Mundo Segundo a ONU, migração é uma forma de mobilidade espacial entre uma unidade geo- gráfica e outra. Há tipos diferenciados de movimentos populacionais. Vejamos: z Espontâneos: quando o movimento é livre; z Forçados: correspondem aos deslocamentos que são realizados involuntariamente, como nos casos de escravidão, de perseguição religiosa, étnica ou política e de guerras; z Controlados: quando o Estado controla, numericamente ou ideologicamente, a entrada de imigrantes. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 65 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Com relação às migrações externas, pode-se citar dois tipos: z Migração intercontinental; z Migração intracontinental. A cada dia, cresce o número de imigrantes no mundo. Esse fenômeno nunca afetou tantas pessoas e tantos países na história da humanidade. As repercussões tornam-se cada vez mais complexas, principalmente, nos planos político e econômico. No plano internacional, o principal motivo das migrações é o econômico, que decorre das diferenças existentes entre os crescimentos econômico e populacional. O deslocamento humano, nesse caso, está relacionado à busca de oportunidades de trabalho e de melhores condições de vida. Os países ou regiões que apresentam um crescimento populacional superior às suas capa- cidades de crescimento econômico costumam apresentar o fenômeno da emigração. Já os países ou regiões em que o crescimento econômico é superior ao populacional, o movimento é inverso. Os EUA e a Alemanha, por exemplo, são os países desenvolvidos que mais recebem imi- grantes de acordo com a ONU. Em 1997, os dois países, juntos, receberam 1,4 milhões de pes- soas, seguidos por Japão, ReinoUnido e Canadá. A ONU calcula que mais de 2% da população mundial vive longe de seu país de ori- gem. Entre refugiados, imigrantes legais e ilegais, são, no total, 175 milhões de pessoas que deixaram a terra natal. Em sua maioria, chegaram ao país de destino por canais estritamente regulamentados, sobretudo aos países ocidentais. Os refugiados representam de 20 a 25% deste total. Os demais são, primordialmente, pessoas que se reuniram a um ou vários mem- bros de suas famílias ou trabalhadores temporários em situação irregular. A taxa anual do crescimento da população migrante, que era de 1,2% entre 1965 a 1975, hoje, atinge 2,6% no período de 1985 a 1995 segundo a ONU. As migrações internacionais adquiriram dimensão mundial. Em consequência disso, atualmente, é essencial fazer um balanço da magnitude e do significado desse fenômeno. Se, por um lado, para os países do Hemisfério Sul, essas migrações são sumamente importantes, na medida em que dependem cada vez mais delas, por outro, os países do Hemisfério Norte adotam medidas que convergem para um maior controle da imigração e desembocam na exclusão. URBANIZAÇÃO Processo de Urbanização Nem sempre o homem habitou em cidades. Os primeiros habitantes eram nômades, por- tanto, não tinham residência fixa e viviam da caça, pesca e coleta. Posteriormente, deixaram essa condição para se tornarem produtores. A partir de então, o homem foi se aglomerando em centros urbanos e desenvolvendo atividades econômicas. Sendo assim, o processo de urbanização tem duas fases marcantes. A primeira ocorreu com a Revolução Industrial, no fim do século XVIII, que provocou uma enorme migração (pessoas que habitavam áreas rurais saíram rumo às cidades). Cabe ressaltar que isso acon- teceu somente nos países envolvidos na Revolução e, não, em escala planetária. A segunda 66 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. aconteceu após a 2ª Guerra Mundial, época em que houve êxodo rural em massa, desenca- deado pelo fascínio urbano, pela busca por melhores condições de vida e oportunidades de estudo e trabalho. O processo de urbanização ocorreu essencialmente pelo deslocamento de pessoas oriun- das das zonas rurais em direção às cidades. Esse fenômeno é caracterizado pela aglomeração de pessoas em uma área delimitada, pela atividade produtiva – a qual deixa de ser agrícola para se tornar industrial e comercial – e também pela realização de prestação de serviços. Esse processo não sucedeu simultaneamente no mundo, haja vista que os países indus- trializados já haviam atravessado esse período. No caso dos países em desenvolvimento e de industrialização tardia, o crescimento urbano acontece, atualmente, de forma acelerada e desordenada. A falta de planejamento urbano tem favorecido a proliferação de graves pro- blemas, tais como a favelização, a falta de infraestrutura, a violência, a poluição (em todas as modalidades), o desemprego e muitos outros. Os índices de pessoas que vivem em cidades oscilam de acordo com o continente, país e áreas internas. A África, por exemplo, possui 38% de seus habitantes vivendo em cidades; na Ásia, são 39,8%; na América Latina, 77,4%; na América do Norte, 80,7%; na Europa, 72,2% e, na Oceania, 70,8%. Em outra abordagem, tomando como princípio os países ricos e pobres, existe uma enor- me disparidade quanto ao percentual de população urbana e rural. Na Bélgica, por exemplo, 97% das pessoas vivem em centros urbanos, enquanto que, em Ruanda, esse índice cai para 17%. O fenômeno da urbanização produziu cidades cujo número de habitantes supera os 10 milhões. Essas recebem o nome de megacidades ou megalópoles, como, por exemplo, Tóquio (Japão), com 35,2 milhões de habitantes; Cidade do México (México), com 19,4 milhões; Nova Iorque (Estados Unidos), com 18,7 milhões e mais tantas outras cidades espalhadas pelo mundo. Espaço Urbano e Problemas Urbanos O processo de urbanização ocorreu de forma desigual em todo o mundo. O fenômeno ocorre, primeiro, nos chamados “países centrais”, mesmo com evidências de que as civiliza- ções mais antigas também apresentaram um processo de formação de espaço urbano. Nos países periféricos, os quais foram, em sua maioria, colonizados, o processo de urbanização ocorreu de forma tardia, em meados do século XX, o qual acompanhou as revoluções indus- triais tardias dos países pobres. Nos dois grupos de países, o processo de urbanização está ligado ao processo de indus- trialização e, no caso dos países periféricos, a urbanização acelerada e desigual veio acom- panhada de problemas sociais, estruturais, econômicos, dentre outros. Esses problemas, que ocorrem nos espaços urbanos, estão ligados não somente à questão da falta de planejamento, mas também do processo de desigualdade socioeconômica presente nas cidades em âmbito mundial. Os problemas estruturais, a desigualdade socioeconômica, violência urbana, segregação socioespacial, o inchaço das cidades, a macrocefalia urbana, precariedade de serviços públi- cos, como saúde, educação e transporte público, falta de mobilidade nos grandes centros urbanos está entre os problemas decorrentes desse processo desestruturado. Principais Indicadores Socioeconômicos R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 67 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Para compreender a realidade socioeconômica das populações e dos países ao redor do mundo, foram criados, ao longo dos tempos, importantes indicadores socioeconômicos, a saber: z PIB (Produto Interno Bruto): Corresponde à soma das rendas internas e das riquezas produzidas em um determinado local e em um espaço de tempo estabelecido; z PNB (Produto Nacional Bruto): É o resultado da soma do PIB com a renda que chega do exterior, subtraído da renda que vai para fora do país; z PPC (Paridade de Poder de Compra): Serve para avaliar o valor da moeda local, bem como o custo de vida (normalmente essa comparação é realizada com o dólar); z Índice de Gini: É o cálculo que mede a concentração de riquezas de um país cujo resultado varia entre 0 (menor concentração de renda) e 1 (maior concentração de renda); z Renda per capita: Compreende à renda por pessoa, que é dada pela razão entre o PIB e a população; z IDH (Índice de Desenvolvimento Humano): Estuda a qualidade de vida das populações e é estabelecido através do estudo de três situações – renda per capita, expectativa de vida e nível de escolaridade. O IDH varia entre 0 e 1, sendo que, quanto mais próximo a zero, piores são as condições de vida das populações e, quanto mais próximo a 1 (um), melhores são as condições de vida das populações. DESENVOLVIMENTO URBANO BRASILEIRO: REDES URBANAS O processo de interligação entre as cidades possibilita a formação de uma rede urbana. Neste processo, cada cidade vai se especializando em atividades, constituindo assim certa hierarquia entre os municípios. Podemos citar o caso da cidade de Santos, onde está localizado o Porto, que possui uma função específica na rede urbana no Estado de São Paulo. Dessa forma, ocorre uma interação entre as atividades realizadas no interior do Estado e a cidade de Santos, em decorrência da dinâmica do seu porto. Existem, assim, cidades com outras funções centrais, como podemos citar logo abaixo: z Função religiosa: Juazeiro do Norte (CE), Aparecida do Norte (SP); z Função histórica e cultural: Ouro Preto (MG), Goiás (GO), Paraty (RJ); z Função turística: Campos do Jordão (SP), Porto Seguro (BA), Bonito (MS); z Função industrial: Contagem (MG), Cubatão (SP), Volta Redonda (RJ), Camaçari (BA), Suape (PE). De acordo com o nível de importância histórica, algumas cidades podem exercer várias funções dentro de uma rede urbana, como é o caso da cidade de São Paulo. Com o passar do tempo, as cidades podem desenvolver outras funções dentro da rede urbana, aumentando assim os seus contatos com um número cada vez maior de lugares. Dessa forma, as cidades assumem o papel de dar dinâmica aos fluxos nos territórios, assu-mindo papéis para comandar as políticas comerciais regionais, nacionais e, em alguns casos, internacionais. 68 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O acúmulo de funções por uma determinada cidade permite que esta possua um maior poder territorial, e essas funções são determinadas pela presença de grandes empresas, bancos nacio- nais e internacionais, e também servirá para atrair populações das mais diversas localidades em busca de melhores condições de vida. As cidades, quando crescem, não permitem só o surgimento e o crescimento de redes urba- nas, mas também contribuem para o surgimento de redes territoriais (transportes, telecomu- nicações, eletricidade). Isso ocorre devido ao fato de que quanto maior for o crescimento de uma cidade, maior será a dinâmica de produção e distribuição de alimentos, assim como o deslocamento de cargas, mercadorias e pessoas por várias regiões do território. A densidade e o tamanho das redes urbanas, assim como os nós difusores dos fluxos de informações, mercadorias, bens, serviços e capitais, fazem da rede urbana um fator importan- te na organização do território. Do final do século XIX até por volta da década de 1970, as cidades eram classificadas atra- vés de um sistema de pirâmide. Ocorria entre as cidades um processo de dependência da cidade A com as cidades vizinhas e, posteriormente, para se relacionar com a cidade mais importante nessa hierarquia. Cada cidade ocupava um papel dentro dessa hierarquia, e para ocorrer uma mudança no papel e na importância de cada cidade, deveriam passar por um processo com vários degraus e etapas, mudando assim a classificação das cidades de acordo com a sua importância na rede urbana. Subir esses degraus e passar por várias etapas significava ascender na hierar- quia urbana. Com o desenvolvimento dos sistemas de transportes e telecomunicações, ocorreram alte- rações e surgiu uma nova hierarquia urbana. O desenvolvimento das redes permitiu a inte- gração de localidades mais distantes aos grandes centros, através do deslocamento dos fluxos globais de informação, mercadorias e capital de forma cada vez mais intensa. METROPOLIZAÇÃO, INFRAESTRUTURA URBANA E SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL A Rede urbana é o conjunto da malha urbana de um país e se constitui pela articulação e pela influência das metrópoles nas cidades médias e pequenas. Para definir os centros da rede urbana brasileira, buscam-se informações de subordinação administrativa no setor público federal, no caso da gestão federal, e de localização das sedes e filiais de empresas para estabelecer a gestão empresarial. A oferta de equipamentos e serviços também identifica que esses centros possuem infor- mações de ligações aéreas, deslocamentos para internações hospitalares, áreas de cobertura das emissoras de televisão, oferta de ensino superior, diversidade de atividades comerciais, oferta de serviços bancários, entre outros. Existem, no Brasil, doze grandes redes de influência: z a rede centralizada por São Paulo, que também abrange parte de Minas Gerais, Mato Gros- so do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre; z a rede do Rio de Janeiro, que também abrange o Espírito Santo, o sul da Bahia e na Zona da Mata mineira; z a rede de Brasília influi no oeste da Bahia, em alguns municípios de Goiás e no noroeste de Minas Gerais; z as outras nove redes de influência são centralizadas por Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Sal- vador, Goiânia, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 69 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O termo “metrópole” é empregado, atualmente, para designar as cidades centrais de áreas urbanas que assumem importante papel polarizador (influência econômica, política, cultu- ral etc.) dentro de suas redes. Assim, as cidades são classificadas segundo uma hierarquia a partir de seus graus de influência e importância, começando por aquelas de importância global e indo até às de importância local apenas. A emblemática fotografia abaixo, de Tuca Vieira (2007) retrata o Edifício Penthouse e a comunidade de Paraisópolis, ambos no bairro Morumbi, em São Paulo, uma cidade global. Fonte: Globo, 202015. Em grandes metrópoles, regiões metropolitanas ou, ainda, megalópoles, é comum que ocorram muitos problemas sociais, como a criminalidade, os congestionamentos de veículos e a economia informal. São Paulo, o maior dos polos metropolitanos, ocupa a desconfortável primeira posição no ranking das cidades brasileiras com mais favelas – no total, abriga 2018. O Rio de Janeiro também tem problemas agravantes sob esse aspecto, abrigando a maior favela do país e uma das maiores do mundo: a Rocinha. A influência do narcotráfico e do crime organizado são problemas que causam muito impacto. Outro problema típico das grandes metrópoles é a mobilidade urbana. Os grandes congestiona- mentos nas avenidas desses polos representam uma das maiores adversidades, que, atualmente, também atingem as cidades de médio porte. Por fim, vale ressaltar que inúmeras atividades eco- nômicas envolvem ações à margem da formalidade, ou seja, trabalhos que não possuem firma registrada, não emitem notas fiscais, não possuem empregados com carteira assinada e, principal- mente, não recolhem impostos para o governo. CRESCIMENTO DAS CIDADES E PROBLEMAS URBANOS Processo de Urbanização Até quase a metade do século XX (por volta de 1940), o Brasil ainda era classificado como um país que possuía atividades econômicas concentradas, em sua totalidade, no meio rural; a maioria da população vivia no campo. De acordo com o geógrafo Milton Santos, o processo 15 BBC NEWS MUNDO. Quem mora em Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, vive em média 10 anos menos do que os moradores do Morumbi. Globo, 2020. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2020/02/por-que-america-latina-e-regiao-mais-desi- gual-do-planeta.html. Acesso em: 18 Jan. 2023. 70 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. de urbanização brasileiro foi rápido, intenso, violento e heterogêneo no século XX, diferente- mente de vários outros países do mundo. Tal processo provocou um conjunto de mudanças entre as regiões do nosso país. O modelo agrário e exportador foi importante para a estruturação urbana e territorial do país. Algumas cidades, como, por exemplo: São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte organizaram suas atividades comerciais voltadas para a exportação. No final do século XIX e início do XX, o processo de urbanização do nosso país ocorria de forma lenta e gradual, em especial cen- tralizados nas cidades administrativas do setor agrário exportador. No ano de 1872, cerca de 10% da população brasileira vivia em áreas urbanas. Nesse contexto, destacamos as três principais cidades da época: Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e Recife (PE). No período entre 1940 e 1980, há menos de 40 anos, a localidade de residência de uma gran- de parcela da população se inverteu. De acordo com o Censo demográfico de 2010, no ano de 1940 o índice de urbanização do país era de 31,24%. No ano de 1980, esse índice atingiu o per- centual de 67,59. A população total do país triplicou durante essas quatro décadas; já a popula- ção urbana multiplicou-se por mais de sete vezes nesse mesmo período. Em 2010, a população brasileira, nas áreas urbanas, representava cerca de 84,36% da população total do país, com um número de habitantes maior que toda a população do país em 1991. Já no ano de 2020, de acordo com dados do IBGE, a população residente em áreas urbanas está em torno de 84,4%, apresentando, assim, certa estabilização em relação aos grandes deslocamentos populacionais. O êxodo rural, por sua vez, vem apresentando quedas signifi- cativas nas últimas décadas. É importante destacar que o crescimento urbano ocorreu de forma paralela ao processo de industrialização e esteve concentrado em algumas áreas no país, em especial no Sudeste, com destaque para o estado de São Paulo e para ascidades industriais de seu entorno. O pro- cesso de industrialização serviu como incentivo para um processo acelerado de migrações internas para as regiões citadas. Neste contexto, as pessoas migravam em busca de empregos e melhores condições de vida. Porém, vale destacar que, como é uma lógica do próprio sistema capitalista, o crescimento populacional dos centros urbanos de forma acelerada e desordenada, foi superior à oferta total de vagas no mercado de trabalho para toda a população. Tal fato gerou uma maior com- petitividade por empregos, moradias nas áreas mais centralizadas e alimentos, acirrando a segregação espacial. Os valores dos terrenos em áreas urbanas não possibilitaram o acesso de grande parte dos trabalhadores à casa própria e acabou por expulsar das áreas centrais das cidades os trabalhadores mais pobres que se deslocaram à procura de moradia em áreas inadequadas, degradadas ou distantes dos centros das grandes cidades, gerando uma ocupa- ção desordenada do espaço e provocando o processo de formação de periferias e, posterior- mente, da favelização. Como as cidades são lugares de segregação e exclusão a dinâmica de construção de imóveis e de ocupação de territórios atende ao interesse do capital (por vezes especulativo), fazendo com que dentro de uma mesma área estejam, lado a lado, prédios verticais de alto padrão e condomínios horizontais, além do que, em áreas não tão distantes, uma grande quantidade de pessoas vive em condições extremamente precárias, em barracos, embaixo de viadutos e, até mesmo, em caixas de papelão. No contexto atual, esses fatores continuam ocorrendo, tendo em vista que o processo de desigualdade e exclusão são cada vez mais perceptíveis na sociedade brasileira. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 71 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A geografia urbana tem, como principal objetivo, o estudo do espaço geográfico das cidades, metrópoles e megalópoles. Esse estudo ocorre a partir da observação da produção do espaço e das atividades econômicas, políticas e sociais, além da preocupação com a origem, crescimen- to, desenvolvimento e com as relações de dependência e influência que uma cidade estabelece com todas as outras que estão em seu entorno. Também, é objeto de estudo da geografia humana a dinâmica de crescimento da popula- ção das cidades, a forma como ocorre o processo de organização territorial, o modo como se deram os diversos processos de urbanização e quais foram os papéis desempenhados pelas cidades para a ocorrência do fenômeno, conhecido como êxodo rural. A geografia urbana tra- balha em linhas diferentes da geografia rural, pois o objeto de estudo da segunda é a análise e a compreensão dos espaços rurais e agrícolas que foram se transformando com o passar dos anos, mesmo estando separados fisicamente (em alguns casos, não mais). O espaço urbano e o espaço rural estão interligados, sendo que um acaba por exercer os processos de influência e dependência para com o outro. A geografia urbana tem vários conceitos que proporcionam o estudo e a compreensão do espaço geográfico nas cidades, como seus processos de alteração e transformação. Dentre os principais conceitos dessa área de conhecimento, podemos destacar: z Espaço ou meio urbano: compreende-se como espaço geográfico ou meio urbano as ati- vidades, políticas públicas e práticas sociais que são responsáveis pela formação da paisa- gem de um determinado território; nesse espaço, encontramos, em sua composição, habi- tações (algumas organizadas e bem estruturadas) e outras cidades, pontos de comércio e os complexos de indústrias. No espaço urbano, a produção de atividades econômicas e to- da essa mega estrutura proporcionam hábitos que caracterizam o modo de vida do ser hu- mano; z Cidade: o conceito de cidade está ligado ao processo estabelecido de acordo com o número de habitantes; nesse espaço, caracterizado como cidade, ocorre a produção de diversas e variadas atividades econômicas. De acordo com os critérios do IBGE, são consideradas cidades rurais todas as cidades com população inferior a vinte mil habitantes. Assim, as cidades podem ser divididas em cidades rurais e cidades urbanas, sendo que as cidades rurais podem se formar em áreas que pos- suem as características do espaço urbano; z Metrópole: a metrópole é uma capital do estado ou é uma cidade com altas taxas de desenvolvimento; promove impactos, influência e dependência em relação às outras cida- des, sendo que tais influências são nos campos social, político e econômico; As metrópoles são classificadas da seguinte maneira: � Metrópole Regional: exerce influência em níveis e esferas locais e, como exercem in- fluência, são de extrema importância para uma determinada região; � Metrópoles Nacionais: formada pelo conjunto de grandes cidades do país, realiza o processo de impacto em diversas localidades e diversas regiões. 72 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. z Macrorregião, Megalópoles e Conurbação: compreende-se como macrorregião todos os municípios que estão localizados em seus limites territoriais e que se influenciam de forma mútua. As megalópoles são formadas pelo conjunto de metrópoles que estão interligadas e próximas do ponto de vista geográfico. O processo de delimitação e demarcação das divisas e limites fica quase impossível de ser determinado. O processo de conurbação pode ser com- preendido como a junção entre dois ou mais municípios os quais se unem devido ao rápido processo de crescimento de ambos e não é possível identificar as áreas de limite de cada um. Podemos destacar, também, outros objetos de estudo da geografia urbana, a qual não se limita em somente compreender, entender e analisar os processos de urbanização em todo o mundo. Ocorre uma correlação com outras áreas, como a história das cidades, as suas prin- cipais características, os modos de produção que foram e são estabelecidos ali e com todo o processo de relação que existe no meio urbano. Os outros assuntos que são desenvolvidos e estudados pela geografia urbana são: z o processo de urbanização que ocorre em uma cidade; z os problemas que são gerados pelo fato de as cidades crescerem de forma não organizada e não estruturada e quais são as consequências geradas por esses processos; z a questão da dinâmica de circulação de pessoas, os desafios da implantação e da solução para os problemas de mobilidade urbana, o fluxo e a logística no setor de transportes; z os modelos e modos de produção que são reproduzidos nas cidades, bem como quais os tipos de trabalho que são oferecidos naquela localidade específica; z como a população residente naquele fragmento do espaço geográfico se relaciona com os espaços públicos e privados e quais são os modos de vida estabelecidos ali; z como as cidades são caracterizadas e de que forma seus bairros e /ou distritos são distribuídos; z os problemas sociais enfrentados pelos habitantes, em especial, a questão da desigualdade social, a concentração de renda; z como a dinâmica do êxodo rural contribuiu para o processo de surgimento e formação das favelas; z como ocorreu o processo de industrialização e o estabelecimento de centros industriais; z quais são os impactos gerados pelo processo de industrialização nos centros urbanos, como a formação de ilhas de calor, ocorrência de chuvas ácidas e o processo de inversão térmica. Nesse contexto, a geografia urbana tem extrema importância e nos ajuda a compreender o processo de produção do espaço urbano, as relações que ocorrem entre os seres humanos e esse meio, além de compreender o crescimento das grandes cidades e como ocorre o pro- cesso de influência dessas cidades com outras localidades e territorialidades a partir da ótica geopolítica. Também é possível compreender, através da geografia urbana, como os proces- sos de organização das cidades, as políticas habitacionais deficitárias que causam problemas habitacionais que são impulsionadospelo crescimento das populações de forma rápida e desorganizada. A partir desses estudos é possível a criação e o estabelecimento de políticas públicas que sejam eficientes e suficientes para a cidade se reestruturar e continuar crescendo, porém, a partir deste momento, de forma organizada e planejada. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 73 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Problemas Urbanos As RIDEs foram criadas com o intuito de proporcionar o desenvolvimento econômico e social. A ideia é promover investimentos em áreas de extrema importância para o cidadão, como: saneamento ambiental, educação, turismo, segurança pública, saúde, habitação, gera- ção de empregos, proteção ao meio ambiente, serviços de telecomunicação, infraestrutura, entre outros fatores. Vale destacar, que as RIDEs da região do Entorno de Brasília — atende à demanda das cida- des satélites, sendo que algumas funcionam como cidades-dormitórios, na qual o cidadão só vai para dormir, pois trabalha em outro município; a RIDE de Juazeiro e Petrolina e, por último, a RIDE localizada na região da Grande Teresina no Piauí. DESENVOLVIMENTO RURAL BRASILEIRO: ESTRUTURA E CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA - RELAÇÃO DE TRABALHO NO CAMPO A estrutura da terra do Brasil é caracterizada pela concentração: os grandes proprietários de terras têm o controle da maior parte das terras agricultáveis do país. Este processo ocorre desde o período colonial, e com o passar dos anos se agravou. A organização fundiária de um país pode ser compreendida de acordo com a dimensão das terras agricultáveis e distribui- ção das propriedades. No caso do Brasil, os dados relacionados à questão mostram extrema desigualdade entre o número de pequenos e médios agricultores e o tamanho das proprieda- des rurais e suas respectivas posses. Para melhor compreender a estrutura fundiária brasileira, o IBGE dividiu as propriedades em duas modalidades: z Agricultura Familiar: nela, o tamanho das propriedades é menor que 4 módulos fiscais por família; z Agricultura patronal: o tamanho das propriedades é superior a 4 módulos fiscais. Importante! Compreende-se como módulo fiscal o espaço mínimo necessário para a viabilidade da exploração econômica de uma propriedade rural. O tamanho estipulado para um módulo fiscal varia segundo o município e a região do Brasil (podendo variar entre 5 e 115 hectares – lembrando que cada hectare tem 10 mil m²), dessa forma é possível diferentes classifi- cações para o mesmo espaço. Para conhecer melhor a realidade do campo brasileiro, o IBGE faz levantamentos esta- tísticos, como o Censo Agropecuário, o último foi realizado em 2017 e apurou que 90% das propriedades do país se enquadram na modalidade da agricultura familiar. Todas essas propriedades somadas, no entanto, representam apenas 27% das terras agri- cultáveis brasileiras. Essas fazendas podem ser classificadas como minifúndios (imóveis 74 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. rurais menores que o módulo fiscal estabelecido para o município) ou pequenas proprieda- des (de 1 a 4 módulos fiscais). Por seu turno, as propriedades que se enquadram na modalidade não familiar ou patronal são as médias (com tamanho de 4 a 15 módulos fiscais). Como pode-se perceber, o Brasil tem propriedades ainda muito maiores, com várias dessas ultrapassando a marca de 600 módulos fiscais, o que, de acordo com o Estatuto da Terra, criado pelo Governo Federal nos anos 60, representa o que se chama de latifúndio – grande propriedade. SISTEMAS PRODUTIVOS No período histórico que convencionou-se chamar de Período Colonial, a orientação eco- nômica do território que viria a ser o Brasil estava voltada para o papel de colônia destinada a prover o comércio europeu com mercadorias como açúcar, algodão e ouro (Caio Prado Júnior, 2004). Embora houvesse uma diversidade de produtos, alguns se destacavam devido à sua significativa importância histórica (Boris Fausto, 2019). A agricultura do açúcar assumiu uma posição proeminente ao representar o principal núcleo de colonização e urbanização no “novo mundo”, manifestando-se principalmente na faixa litorânea, notadamente no Nordeste brasileiro. A introdução do açúcar no Brasil é atri- buída aos portugueses, cujo estabelecimento da produção açucareira ocorreu entre as déca- das de 1530 e 1540. Espelhando o que já haviam realizado na Ilha da Madeira, os portugueses plantaram cana- -de-açúcar e construíram engenhos nas capitanias de São Vicente e Pernambuco. Ao longo do período colonial, o açúcar desempenhou um papel central na economia brasileira, manten- do-se como o produto mais crucial, mesmo durante o auge da exploração aurífera. Essa relevância destaca a importância duradoura da produção açucareira na formação econômica e social do Brasil como colônia (Boris Fausto, 2019). Outro produto agrícola com destinação exportadora no período colonial foi o fumo; embo- ra não rivalizasse em importância econômica com o açúcar, ocupava um lugar significativo. A principal região de produção do fumo encontrava-se no Recôncavo Baiano. Diversos tipos de fumo eram cultivados, abrangendo desde os mais refinados, destinados à exportação para a Europa, até os mais rústicos, utilizados como meio de troca na costa da África. A viabilidade da produção de fumo em pequena escala contribuiu para a formação de um setor composto por pequenos proprietários, constituído por pequenos produtores de mandioca ou imigran- tes portugueses, conforme destacado por Boris Fausto (2019). Outro setor econômico associado ao ambiente rural, embora não diretamente vinculado à agricultura, foi a pecuária, cuja influência perdura até os dias atuais. O início da criação de gado ocorreu nas proximidades dos engenhos, mas a expansão das plantações de cana-de-açú- car levou os rebanhos para o interior. A pecuária desempenhou um papel crucial no desbrava- mento do “grande sertão”, sendo responsável por impulsionar a ocupação de vastas extensões territoriais. As atividades de criação de gado estenderam-se para regiões como Piauí, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. No final do século XVII, as propriedades pecuaristas no sertão baiano chegaram a superar em tamanho o território de Portugal, evidenciando a R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 75 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. magnitude e a importância desse setor na ocupação e desenvolvimento do território colonial (Boris Fausto, 2019). Caio Prado Júnior (2004) aponta que a estrutura agrícola desse período se fundamentava em três pilares: z extensas propriedades rurais, conhecidas como grandes latifúndios; z a prática da monocultura, direcionando a produção para um único cultivo; z e a utilização predominante de mão de obra escravizada. Os elementos citados compõem a base econômica que moldou a dinâmica agrícola no con- texto colonial brasileiro. Esse paradigma estava centrado na produção em larga escala, em contraste com os modelos agrários de cunho camponês. De acordo com a análise de Caio Prado Júnior (2004, p. 119), os elementos determinantes da estrutura agrária no Brasil-Colônia foram: [...] o caráter tropical da terra, os objetivos que animam os colonizadores, as condições gerais desta nova ordem econômica do mundo que se inaugura com os grandes descobrimentos ultramarinos, e na qual a Europa temperada figurará no centro de um vasto sistema que se estende para os trópicos a fim de ir buscar neles os gêneros que aquele centro reclama e que só eles podem fornecer. As três características fundamentais sobre as quais a agricultura se fundamentava, ao se combinarem e complementarem, surgiram como consequências necessárias dos fatores deli- neados acima (Caio Prado Júnior, 2004). O mundo rural representou o ponto de partida econômico no território verde e amarelo: desconsiderando a irrisória extração de pau-brasil — embora economicamente insignifican- te, seu impacto ambiental foi devastador —, outro componenteeconômico relevante, embora limitado temporalmente, foi a exploração aurífera. De toda maneira, o mundo rural, em especial a atividade agrícola, dominou a cena econômica nos dois primeiros séculos do perío- do colonial (Caio Prado Júnior, 2004). Num estágio subsequente, durante o denominado Período Imperial, uma inovação signifi- cativa nas primeiras décadas do século XIX foi a emergência da produção de café para expor- tação, evidenciando a longa trajetória de vínculo do mundo rural brasileiro com a exportação ao longo da história nacional. As primeiras sementes da planta foram introduzidas no Pará em 1727 por Francisco de Melo Palheta, e, por volta de 1760, o café já havia alcançado a então capital, Rio de Janeiro (Boris Fausto, 2019). Contudo, foi no Vale do Paraíba que as condições propícias para a expansão comercial em larga escala foram encontradas. Ao longo da maior parte do período monárquico, o cultivo do café ocorreu mediante técnicas relativamente simples, algumas das quais, como a utiliza- ção ou degradação do solo, persistem até os dias atuais (Boris Fausto, 2019). Uma característica recorrente é a dependência do mercado externo, visto que, embora o consumo de café seja um hábito enraizado no Brasil, o mercado interno não conseguia, e ain- da não consegue, absorver a produção em grande escala, destacando a necessidade contínua de buscar mercados externos. Do fim do período monárquico — últimas décadas do século XIX — até 1930, o Brasil seguiu sendo um país de predominância agrícola. O censo de 1920 aponta que havia 9,1 milhões de pessoas em atividade, sendo 6,3 milhões, ou seja, 69,7%, os 76 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. que se dedicavam à agricultura. A economia continuou a ter, como seu eixo, o café (Boris Fausto, 2019). Essa conjuntura passou por alterações significativas no decorrer do século XX, notada- mente com o processo de industrialização que se desenrolou no cenário brasileiro. Nos pri- meiros anos do referido século, a sociedade — anteriormente voltada para a exportação de produtos agrícolas — enfrentou mudanças substanciais e desafios complexos (Scarlato, 1996; Mariano et. al., 2018). Nas regiões de maior concentração de riqueza no Brasil, observou-se um aumento na deman- da por produtos manufaturados, ao mesmo tempo em que as importações encontravam obstá- culos em decorrência de fatores internacionais, tais como a desvalorização da moeda nacional, crises e conflitos armados. Este contexto propiciou o surgimento do processo de substituição de importações no país, caracterizado pela adaptação da produção industrial para atender à cres- cente demanda interna e pelo estabelecimento de parques industriais nacionais (Scarlato, 1996; Mariano et. al., 2018). No intervalo entre 1933 e 1939, a indústria experimentou um notável crescimento anual de 7,2%. No que concerne à efetivação do processo de industrialização brasileira, dados de 2016 indicam que 14,2% da população brasileira estavam empregados no setor industrial (Scarlato, 1996; Mariano et. al., 2018). Como mencionado anteriormente, o setor agropecuário exerceu impacto significativo no território brasileiro desde o período de colonização. E mesmo após o processo de industria- lização, seu impacto continuou. A produção agrícola e pecuária, por exemplo, desempenhou um papel significativo na composição do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) — ESALQ/USP, em 21 de dezembro de 2023, apesar de uma queda acumulada nos primeiros nove meses do ano, atingindo 0,91%, estima-se que o PIB do setor poderia ter alcançado a marca de R$2,62 trilhões em 2023, correspondendo a 24,1% do PIB total do país; ou seja, quase um quarto do PIB nacional provém do setor do agronegócio. Este cenário evidencia a contínua relevância do setor agropecuário na economia brasileira. Ainda conforme relatórios do Cepea, o desempenho do agronegócio foi impactado no ter- ceiro trimestre de 2023 devido à diminuição dos preços em todos os segmentos. Contudo, o resultado foi parcialmente mitigado devido à safra recorde no campo e ao crescimento na produção pecuária, laticínios e volume de abates. Esses fatores impulsionaram um aumen- to na demanda por insumos e serviços relacionados ao setor agrícola. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada também ressalta os produtos primários que se destaca- ram nas reduções de preços, incluindo algodão, café, milho, soja, trigo, além de boi gordo, frango vivo e leite. No âmbito das agroindústrias de base agrícola, observa-se uma queda nos biocombustí- veis, produtos de madeira, óleos vegetais e na indústria do café. Já no setor pecuário, as indús- trias de laticínios e de abate e preparação de carnes e pescados destacam-se pelos declínios significativos (Cepea, 2023). Este panorama reflete a complexidade e a dinâmica do agronegó- cio, em que diversos fatores influenciam tanto as áreas primárias quanto as agroindustriais, moldando o cenário econômico do setor no período analisado. Dos setores mencionados, cabe um olhar sobre cada um. z A agricultura é um dos setores mais proeminentes no setor rural brasileiro. O destaque do setor está na exportação, na produção de milho, cana-de-açúcar, café, soja e algodão; R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 77 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. z A pecuária está relacionada à criação de gado bovino, suíno e aves, também é uma ativi- dade econômica essencial. Sendo o Brasil um dos maiores exportadores de carne bovina e de frango do mundo, fator fundamental para impulsionamento da economia e geração de empregos; z Por fim, a agroindústria desempenha um papel estratégico ao transformar produtos agrícolas in natura em produtos industrializados. Essa etapa é crucial para agregar valor aos produtos primários, promovendo maior diversificação na oferta de produtos agrope- cuários no mercado, além de contribuir para o desenvolvimento econômico regional e nacional. Esses três pilares (agricultura, pecuária e agroindústria) constituem uma tríade essencial para a sustentabilidade e o dinamismo do setor agropecuário brasileiro. Atenção! z A soja é um dos principais produtos agrícolas do Brasil; suas extensas plantações e sua ver- satilidade tornaram essa commodity um produto essencial para a indústria alimentícia bra- sileira, para produção de ração animal e para as exportações do país; z O café, produto que remonta ao período imperial, é reconhecido no exterior pela sua qua- lidade. O produto constitui uma importante fonte de receita para o setor agrícola do país. O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores globais de café; z A cana-de-açúcar tem forte presença na região centro-sul do país. É a principal matéria- -prima para a produção de açúcar e etanol em território verde e amarelo, desempenhando um importante papel na matriz energética brasileira Diante desse contexto, uma questão crucial é a denominada “Revolução Verde”, um processo que remonta ao século XX, no período pós-Segunda Guerra Mundial. Este período ganhou notoriedade por sua natureza revolucionária, pois testemunhou o ápice do desen- volvimento agrícola. Essa transformação foi alcançada por meio de uma série de medidas que promoveram técnicas baseadas na melhoria genética das plantas, visando aumentar a produção de alimentos. A evolução das práticas durante a revolução efetivamente impulsionou a produção, espe- cialmente de grãos e cereais. Apesar dos benefícios evidentes na época, o processo enfrentou críticas contemporâneas devido aos seus impactos ambientais e ao processo de concentração de terras em poucas mãos, marcantes nessa evolução. As críticas destacavam as preocupações relacionadas ao uso excessivo de insumos quí- micos, à perda de biodiversidade e aos problemas associados à monocultura. Além disso, a concentração de grandes propriedades de terras nas mãos de poucos proprietários pode ter efeitos negativosna equidade e na distribuição de recursos, tornando-se um ponto de debate relevante no cenário atual. Em suma, a Revolução Verde deixou suas marcas em termos do volume de produção agrí- cola, e as reflexões sobre modelos mais sustentáveis e equitativos no âmbito social também devem ser observadas. Pode-se notar a questão sendo levantada por exemplo na pesquisa de Pozzetti et. al. (2021, p. 1-2), ao afirmarem: 78 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. A conclusão a que se chegou foi a de que o uso de agrotóxicos, de forma indiscriminada tem trazido inúmeros prejuízos ao meio ambiente, causando desequilíbrio ambiental e o surgimen- to de inúmeras mazelas aos seres que habitam o planeta terra; dessa forma, a revolução ver- de, da forma como está concebida no Brasil, está em desacordo com o Princípio da proibição de Retrocesso Ambiental. Os efeitos adversos da Revolução Verde sobre o meio ambiente abrangem a redução da fer- tilidade do solo, a poluição dos recursos hídricos e impactos prejudiciais sobre a fauna e flora, agravados pela crescente dependência dos agricultores em relação a sementes patenteadas. Este paradigma agrícola, caracterizado pela intensiva aplicação de agrotóxicos, acarreta uma multiplicidade de questões, sendo notável o elevado consumo desses produtos no Brasil, o que o coloca como o principal consumidor global. Os méritos associados ao uso indiscriminado de agrotóxicos suscitam dúvidas, pois resultam em prejuízos para a saúde humana, degradação ambiental e a manutenção de um sistema agrícola insustentável (Pozzetti et. al., 2021). A origem dessa Revolução foi motivada pela apreensão relacionada à iminente ameaça de uma significativa crise alimentar global, agravada pelo crescimento populacional desproporcio- nal em relação à produção de alimentos. Para abordar esse desafio, foi proposta a adoção de técnicas avançadas, caracterizadas pelo emprego de “tecnologias de ponta” (Pozzetti et. al., 2021). Inicialmente, durante a Guerra do Vietnã, a empresa Monsanto, originalmente uma fabrican- te de produtos químicos bélicos, desenvolveu o “agente laranja”, cuja aplicação foi posteriormen- te redirecionada para a produção de agrotóxicos após o término do conflito. Com o intuito de preservar seus ganhos financeiros, a Monsanto efetuou uma transição para o setor alimentício, concentrando-se na fabricação de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas (Pozzetti et. al., 2021). Essa estratégia envolveu uma reconfiguração da imagem corporativa, juntamente com a propagação da concepção de que a produção em larga escala, com a aplicação desses produ- tos, era essencial para mitigar a ameaça da fome global. No entanto, críticos sustentam que, apesar de estudos indicarem que a produção orgânica seria suficiente para suprir as necessi- dades alimentares da população mundial, a Monsanto, por meio de estratégias de marketing, enfatizou a suposta imprescindibilidade de agrotóxicos e biotecnologia (Pozzetti et. al., 2021). A agricultura familiar desempenha um papel essencial no Brasil, não apenas assegu- rando a disponibilidade de alimentos, mas também impulsionando o desenvolvimento rural sustentável — uma alternativa aos processos insustentáveis. No entanto, a realidade enfren- tada pelos agricultores familiares é marcada por desafios, como a limitação de área e o bai- xo valor bruto de produção, levando a uma significativa parcela desses produtores vivendo em condições de extrema pobreza. Nesse contexto, a inovação tecnológica mostra-se crucial, embora a falta de acesso a informações e à infraestrutura inadequada representem obstácu- los significativos (Bittencourt, 2020). A necessidade de inserção nos mercados destaca-se como uma estratégia vital, mesmo diante das adversidades competitivas. A bioeconomia, o Programa Nacional de Proteção da Agricultura Familiar (Pronaf) e a exploração de mercados alternativos, como produtos tra- dicionais e o “mercado verde”, surgem como oportunidades promissoras (Bittencourt, 2020). Em última análise, a promoção do empreendedorismo, a busca pela modernização e o aces- so a mercados emergentes são elementos fundamentais para viabilizar a inclusão produtiva da agricultura familiar, superando os desafios estruturais e contribuindo para a transformação sus- tentável desse setor (Bittencourt, 2020). R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 79 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. REFERÊNCIAS FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2019. BITTENCOURT, D. M. C. Agricultura familiar, desafios e oportunidades rumo à inovação. In. ______ (ed.) Estratégias para a Agricultura Familiar: visão de futuro rumo à inovação. Brasí- lia: Embrapa, 2020. MARIANO, M. F.; Gigliotti, M. S.; DOS SANTOS, A. L. Geografia do Brasil. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A, 2018. POZZETTI, V. C.; MAGNANI, M. C. B. F.; ZAMBRANO, V. Revolução verde e retrocesso ambien- tal. Revista Catalana de Dret Ambiental, Tarragona, v. 12, n. 1, 2021. DOI: 10.17345/ rcda3013. Disponível em: https://revistes.urv.cat/index.php/rcda/article/view/3013. Acesso em: 16 jan. 2024. PRADO JUNIOR, C. Formação do Brasil Contemporâneo. 23. ed. São Paulo: Editora Brasi- liense, 2004. SCARLATO, F. C. Ética e globalização: a nova pedagogia do cidadão. 1996, Anais.. São Paulo: GE/FFLCH/USP, 1996. Acesso em: 16 jan. 2024. A INSERÇÃO DO BRASIL NO SISTEMA INTERNACIONAL O BRASIL E O MERCADO MUNDIAL O Brasil foi influenciado pelo Consenso de Washington (1989) e adotou uma mudança significativa em sua política de comércio exterior no final do século XX, transitando de uma abordagem intervencionista para uma postura de abertura comercial. Essa transição foi acompanhada por programas de incentivo à exportação, como o “Avança Brasil” e a imple- mentação do SISCOMEX (Mariano; Gigliotti; Santos, 2018). Inicialmente gerou instabilidade devido à entrada de produtos estrangeiros, provocando uma reorganização de diversos setores produtivos nacionais em busca de uma maior com- petitividade. No entanto, na primeira década do século XX, o comércio exterior brasileiro experimentou um notável aumento quantitativo (Mariano; Gigliotti; Santos, 2018). Apesar dos desafios econômicos, a balança comercial brasileira apresentou um saldo posi- tivo em 2016, com exportações dominadas por produtos primários, como soja, açúcar, carne, minério de ferro e petróleo. Os destinos principais dessas exportações foram países desenvol- vidos, como Estados Unidos, China (maior parceiro comercial brasileiro) e os países da União Europeia (Mariano; Gigliotti; Santos, 2018). Essa pauta de exportação ressaltou o papel significativo do Brasil como fornecedor de matéria-prima para os centros industriais globais, levantando questões sobre a dependência em relação aos países industrializados e a necessidade de medidas para mitigar potenciais problemas, enfatizando a importância de políticas que fortaleçam a diversificação econômi- ca e a competitividade do Brasil no cenário global (Mariano; Gigliotti; Santos, 2018). O desenvolvimento expressivo do setor agropecuário nas últimas décadas está intrinse- camente ligado à modernização, refletida na expansão das áreas agricultáveis e na adoção de novas técnicas e insumos agrícolas. Essa modernização, impulsionada pela vinculação da 80 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. agropecuária ao capital, resultou em um considerável aumento da produtividade, destacan- do o Brasil como líder mundial nesse aspecto (Mariano; Gigliotti; Santos, 2018). A concentração da modernização nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, focada na produ- ção de commodities como soja e cana-de-açúcar, contribuiu para que o Brasil se tornasse um dos maiores exportadores de grãos do mundo. Dados do Ministério da Agricultura indicam um crescimento significativo na produção de grãos na safra de 2016/2017, com estimativa de 219.142,6 milhões de toneladas em uma área de 59.536,2 mil hectares (Mariano; Gigliotti; Santos, 2018).POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA Com os ajustes do cenário internacional, a política externa brasileira parece encaminhar- -se para uma reconfiguração sob a liderança de Lula III. Ao passo que o governo anterior, comandado por Jair Bolsonaro, alinhava-se aos Estados Unidos de Donald Trump, adotando posturas conservadoras e desvinculando-se de compromissos ambientais e regionais, a tran- sição agora sugere um retorno aos princípios que marcaram a Nova República. A retórica “O Brasil está de volta”, proferida por Lula em um evento internacional, como a Conferência do Clima da ONU (COP-27), aponta para uma mudança de paradigma (Carvalho, 2023). Sobre a agenda ambiental, Luiz Inácio participou da COP-27; antes mesmo de tomar posse, foi ovacionado pela plateia e prometeu o fortalecimento dos compromissos ambientais inter- nacionais. No primeiro dia de seu governo acenou positivamente para esse compromisso e assinou o decreto que reativou o Fundo Amazônia, desbloqueando R$ 3,3 bilhões em doações internacionais (Carvalho, 2023). Outra medida do governo Lula III foi o envio da ministra Marina Silva para dialogar com as elites econômicas internacionais no Fórum Econômico Mundial, em Davos; a ministra res- saltou o papel do meio ambiente na busca do desenvolvimento do país. Além disso, o atual presidente, mais recentemente, articulou para que a COP-30 seja realizada em Belém, na Amazônia brasileira. Já em relação aos países vizinhos, existe uma direção nas negociações para que o patrulhamento da Amazônia seja reforçado (Carvalho, 2023). É possível observar certo pragmatismo nas relações do atual governo, por exemplo, ao visitar tanto os Estados Unidos quanto a China, países rivais. E em relação à guerra na Ucrâ- nia, evita tecer críticas à Rússia, visando manter as boas relações com Putin (presidente da Rússia) (Carvalho, 2023). Essa característica diplomática se estende aos países do Sul Global: Lula alocou no primei- ro ano de governo mais diplomatas em todas as regiões do Sul Global do que o ex-presiden- te Jair Bolsonaro. O discurso do governo também aponta nessa direção, principalmente na busca por uma reaproximação com países africanos, tendo inclusive, assinado um acordo de cooperação com Angola (Carvalho, 2023). Ademais, acerca da rivalidade Estados Unidos e China/Rússia, declarou que: China e Rússia, parceiros brasileiros nos BRICS, são hoje vistas como potências rivais aos Estados Unidos e países europeus. Mais do que disputas econômicas e comerciais, essa rivali- dade já se manifesta por meio de conflitos militares, seja por meio do apoio às partes belige- rantes no conflito sírio, seja no mais recente embate na Ucrânia. Isso soma-se à disputa desses atores por influência na Ásia, África ou, até mesmo, na América Latina, limitando a capacida- de de ação brasileira nessas regiões. (Carvalho, 2023, p. 138) R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 81 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O governo também destaca medidas voltadas para o campo dos direitos humanos; no pri- meiro mês do governo Lula III, o país se retirou do Consenso de Genebra, devido ao seu caráter conservador, e aderiu ao Compromisso de Santiago e à Declaração do Panamá, que tem como objetivo maior igualdade de gênero. Também adotou uma postura mais ativa no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH) (Carvalho, 2023). Dica Anteriormente citado, o BRICS, é um grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O objetivo do grupo é promover a cooperação econômica e política entre as nações emergentes. A participação brasileira no grupo tem destaque em áreas como o comércio internacional e cooperação em desenvolvimento sustentável REFERÊNCIAS CARVALHO, T. Uma política mais estratégica? Perspectivas para a política externa de Lula III. Conjuntura Austral, [s. l.], v. 14, n. 68, p. 135-149, 2023. DOI: 10.22456/2178-8839.133369. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/ConjunturaAustral/ article/view/133369. Acesso em: 14 jan. 2024. SCARLATO, F. C. O espaço industrial brasileiro. In: ROSS, J. L. Geografia do Brasil. 4ª ed. São Paulo: Edusp, 1996. MARIANO, M. F; GIGLIOTTI, M. S.; SANTOS, A. L. Geografia do Brasil. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2018. CEPEA, 2023. Disponível em: http://tinyurl.com/42phkhxr. Acesso em: 12 jan. 2023. ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO: A CONSTITUIÇÃO DE 1988 E A AFIRMAÇÃO DA CIDADANIA ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO O Estado, para ser um Estado constitucional, deve ser um Estado democrático de direito. O Estado brasileiro é democrático porque é regido por normas democráticas, pela soberania da vontade popular, com eleições livres, periódicas e pelo povo, e de direito porque pauta-se pelo respeito das autoridades públicas aos direitos e garantias fundamentais, refletindo a afirmação dos direitos humanos. O Estado de direito caracteriza-se pela legalidade, pelo seu sistema de normas pautado na preservação da segurança jurídica, pela separação dos poderes e pelo reconhecimento e garantia dos direitos fundamentais, bem como pela necessidade do direito ser respeitoso com as liberdades individuais tuteladas pelo poder público. Para Moraes (2018), existirá o Estado de direito onde houver a supremacia da legalidade. Ademais, o princípio democrático exprime fundamentalmente a exigência da integral par- ticipação de todos e de cada uma das pessoas na vida política do país, a fim de garantir o respeito à soberania popular. 82 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O Estado constitucional, portanto, é mais do que o Estado de direito: é, também, o Estado demo- crático, introduzido no constitucionalismo como garantia de legitimação e limitação do poder (MORAES, 2018, p. 41). CONSTITUIÇÃO DE 1988 — ESTADO DO BEM-ESTAR SOCIAL A constituição promulgada em 05 de outubro de 1988 foi um divisor de águas no sentido de assegurar Direitos e Garantias Fundamentais em relação ao ponto de vista constitucional. Já do ponto de vista da Gestão Pública, a Constituição de 1988 é considerada um verdadei- ro retrocesso burocrático. Vamos entender o porquê dessa expressão. Após a redemocratização, o governo Sarney — diante de uma democracia incipiente e frágil — e aliado com seu fraco apoio político, promoveu uma distribuição de cargos públicos entre os seus aliados, como forma de garantir sustentação política e governabilidade, mini- mizando assim a transição da ditadura para a democracia. Para combater esse loteamento dos cargos públicos, a Constituição de 1988 promoveu um surpreendente engessamento do aparelho estatal, ao estender para toda Administração Pública (Administração Direta e Administração Indireta) as mesmas regras burocráticas, tais como: necessidade de concurso público para contratação de novos servidores e empregados, obrigatoriedade de licitação e centralização administrativa. Neste sentido, a nova constituição é considerada um retrocesso burocrático sem preceden- tes, muito devido aos seguintes fatores: z perda da autonomia do poder executivo para tratar da estruturação dos órgãos públicos; z retirou a flexibilidade operacional da Administração Indireta; z instituiu a obrigatoriedade do Regime Jurídico Único para os servidores civis; z abandonou o caminho rumo a uma Administração Pública Gerencial. Na figura abaixo, percebemos que a Constituição de 1988 centralizou as atividades admi- nistrativas na esfera federal e, por outro lado, descentralizou o poder político e a arrecadação de recursos. Constituição 1988 Centralização Política e de recursos Administrativa Descentralização Outro ponto também criticado pela literatura especializada é em relação ao seu conteúdo, extenso e minucioso, abrangendo assuntos que seriam mais bem tratados em legislação de nível inferior (Leis complementares e Leis ordinárias). No mapa mental abaixo sintetizamos as principais palavras-chave que você deve levar para a sua prova: R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 83 Todos os direitossão reservados à Nova Concursos. Centralização administrativa Descentralização política Regime único dos servidores Perda da autonomia do poder Executivo Engessamento estatal Retrocesso burocrático Constituição de 1988 Em relação ao retrocesso burocrático, a Constituição Federal de 1988 pode ser considerada um grande marco na busca pelo Estado do bem-estar social, assegurando a todos os cidadãos os famosos direitos e garantias fundamentais. O Estado Brasileiro através de uma constitui- ção moderna e pragmática evolui para uma implantação de políticas públicas que garantisse o mínimo existencial para cada Brasileiro. Assim, muitas dessas previsões iniciais da Constituição foram alvo da tentativa de mudan- ças impulsionada pela reforma da década de 90, cujos alicerces se encontram no Plano Dire- tor da Reforma do Aparelho do Estado. HORA DE PRATICAR! 1. (CESGRANRIO — 2016) Disponível em: <http://www.atlassocioeconomico.rs.gov.br/upload/mapa_popula%C3%A7%C3%A3o_absoluta_ brasil_2010.gif>. Acesso em: 31 maio 2016 84 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. O estado do Sudeste com menor população absoluta é a) Rio Grande do Sul b) São Paulo c) Rio de Janeiro d) Minas Gerais e) Espírito Santo 2. (CESGRANRIO — 2013) Em janeiro de 2013, o governo do Estado de São Paulo sancionou proje- to que fecha empresas que submetem trabalhadores a condições análogas à escravidão. Essa medida do governo cassa a inscrição no cadastro do ICMS dos estabelecimentos comerciais envolvidos na prática desse crime, seja diretamente, seja no processo de produção, ou ainda como nos casos de terceirização ilegal. Além disso, os autuados ficarão impedidos por dez anos de exercer o mesmo ramo de atividade econômica. BONDUKI, A. Combate ao trabalho escravo. Conhecimento Prático Geografia, n. 50. São Paulo: EBR, 2013. p. 20- 21. Adaptado No contexto mencionado, o ramo de atividade econômica com a maior ocorrência de trabalho degradante análogo à escravidão é o a) naval b) têxtil c) aeronáutico d) farmacêutico e) automobilístico 3. (CESGRANRIO — 2013) A logística empresarial veio fornecer insumos de inteligência para racio- nalizar os círculos de cooperação no espaço, ou seja, para racionalizar o conjunto de uma série de fases e escalões correspondentes aos distintos processos de transformação por que pas- sa o produto principal da atividade até chegar ao consumo final, segundo Sonia Barrios. Por outro ângulo, de acordo com Bertha Becker, no Brasil da década de 1990, a logística empresarial ganhou estatuto de planejamento territorial, na medida em que a política das grandes empresas tornou-se mais autônoma em relação às políticas do Estado. CASTILLO, R. e TREVISAN, L. Racionalidade e controle dos fluxos materiais no território brasileiro: o sistema de monitoramento de veículos por satélite no transporte rodoviário de carga. In: Dias, L. e Silveira, L. (Org.). Redes, sociedades e territórios. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, p.207. Adaptado. Esse conjunto de fases e escalões referido à logística do território é conceitualmente denominado a) localidade central b) difusão de inovações c) hinterlândia metropolitana d) zona de influência urbana e) circuito espacial da produção R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 85 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. 4. (CESGRANRIO — 2011) Estabelecendo-se uma relação entre espaço urbano/industrial e proble- mas ambientais, um dos desafios a ser enfrentado no mundo é gerar cada vez mais energia, ampliando a participação de fontes renováveis e limpas. Sobre a matriz energética brasileira, reconhece-se que, comparada à matriz energética mundial, ela apresenta a) mais equilíbrio, apesar de a participação do petróleo ultrapassar a média mundial. b) muito desequilíbrio, por ser mais dependente do petróleo que a maioria dos países. c) pouca expressão do setor renovável em relação ao setor não renovável. d) menor representação das fontes de energia limpa. e) participação inexpressiva do álcool combustível. 5. (CESGRANRIO — 2016) Participação do setor informal na Economia Brasileira - 1950 a 2008 - em % do PIB Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/-E1HPciAYDno/T7WAFVC8qqI/AAAAAAAALyU/NlsyZ52Rhfw/s1600/ informal.png>. Acesso em: 30 maio 2016 De acordo com o gráfico acima, a evolução do setor informal da economia brasileira apresenta o seguinte comportamento: a) arrefecimento na década de 1990 b) aumento na década de 1950 c) estabilização na década de 1980 d) estagnação na década de 1960 e) crescimento na década de 1970 6. (CESGRANRIO — 2016) O Atlas Geográfico Escolar do IBGE de 2002 apresenta uma classificação de cidades no Brasil, tais como: centros regionais, metrópoles regionais, metrópoles nacionais e metrópoles globais. Sendo assim, com base nesse Atlas, Rio de Janeiro e Belo Horizonte são cidades classificadas, respectivamente, como: a) metrópole global e metrópole regional 86 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. b) metrópole nacional e metrópole regional c) metrópole global e metrópole nacional d) metrópole nacional e centro regional e) metrópole global e centro regional 7. (CESGRANRIO — 2016) Disponível em: <http://i216.photobucket.com/albums/cc225/faelsim/RMNordeste.jpg>. Acesso em: 30 maio 2016 Na Figura, as áreas urbanas destacadas nos estados do Nordeste correspondem, exclusivamen- te, a a) regiões administrativas b) centros regionais c) regiões metropolitanas d) capitais estaduais e) regiões de integração 8. (CESGRANRIO — 2013) A economia brasileira cresceu com força no segundo trimestre. Com a ajuda da safra recorde, a agropecuária foi um dos principais destaques do PIB, com a soja à frente desse desempenho. A previsão do IBGE é de aumento de 23,7% na quantidade produzida em 2013, para um crescimento de 10,8% da área plantada. Somente de soja, foram exportadas 17,5 bilhões de toneladas no início do ano. A soja, sozinha, respondeu por 12,6% das exportações totais. ALMEIDA, C., CARNEIRO, L. e VIEIRA, S. PIB surpreende e cresce 1,5% O Globo, 31 ago. 2013. p. 29. Adaptado Na fronteira agrícola brasileira, o desempenho dessa produção para a exportação está mais con- solidado na agricultura modernizada da região a) Sul R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 87 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. b) Norte c) Sudeste d) Nordeste e) Centro-Oeste 9. (CESGRANRIO — 2014) Os portugueses introduziram, pioneiramente, na África e no Brasil, um tipo de agricultura apoiada na monocultura açucareira em grandes propriedades, com mão de obra constituída predominantemente de escravos. Toda a produção era embarcada em navios com destino à Europa. Esse tipo de agricultura persiste até hoje no Brasil, com o protagonismo das exportações de produtos tropicais. MAGNOLI, D. e ARAUJO, R. Geografi a geral e do Brasil. São Paulo: Moderna, 1997, p. 239. Adaptado. A atividade agrícola descrita acima é denominada agricultura de a) jardinagem b) regadio c) subsistência d) precisão e) plantation 10. (CESGRANRIO — 2012) Um aspecto fundamental da territorialidade humana é que ela tem uma multiplicidade de expressões, referentes a vários tipos de territórios, com suas particula- ridades socioculturais. Assim, demandam-se abordagens etnográficas. No intuito de entender a relação particular que um grupo social mantém com seu território, uso um conceito definido como os saberes ambientais, ideologias e identidades – coletivamente criados e historicamente situados – que um grupo social utiliza para estabelecer e manter seu território. LITTLE, P. Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma antropologia da territorialidade. Série Antropologia, n. 322, 2002, p. 4. Adaptado. No texto acima, a definição apresentada por Paul Little corresponde ao seguinte conceito: a) topofilia b) topolatria c) cosmografia d) regionalidade e) racionalidade 11. (CESGRANRIO — 2008) O gráfico abaixo compara a quantidade de CO2 emitida entre 1990 e 2006 nos Estados Unidos da América(EUA), China e Europa, além do CO2 acumulado entre 1900 e 2006. 88 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Nature, 2007. (adaptado) Quais foram as unidades geográficas que mais contribuíram para o efeito estufa per capita no ano 1990, total no ano de 2006, e total entre 1900 e 2006, respectivamente? Maiores contribuições para o efeito estufa Per capita em 1990 Total em 2006 Acumulado entre 1900 e 2006 a) EUA China EUA b) EUA EUA Europa c) Europa EUA China d) China Europa EUA e) China China EUA R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 89 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. 12. (CESGRANRIO — 2011) Durante os mais de trezentos anos de colonização, a América Portu- guesa passou por diversas alterações em sua estrutura político-administrativa. Qual das associações abaixo apresenta a relação entre o evento e a sua causa direta? a) Criação do Vice-Reino do Brasil – Tratado de Santo Ildefonso b) Fim das Capitanias Hereditárias – domínio espanhol durante a União Ibérica c) Criação do Estado do Maranhão – ameaças estrangeiras à região amazônica d) Mudança da capital para o Rio de Janeiro – ocupação holandesa do Nordeste e) Subordinação do Vice-Rei ao Conselho Ultramarino – Insurreição Pernambucana 13. (CESGRANRIO — 2010) A consciência do viver em colônias manifestou-se em um conjunto de episódios de revolta ou de tentativa de sublevação – Inconfidência Mineira, Conjuração Baia- na, Conspiração do Rio de Janeiro – os quais, a despeito de suas particularidades, explicitaram o crescimento de tensões e confrontos entre colonos, colonizadores e colonizados, em finais do século XVIII.A consciência do viver em colônias manifestou-se em um conjunto de episódios de revolta ou de tentativa de sublevação – Inconfidência Mineira, Conjuração Baiana, Conspiração do Rio de Janeiro – os quais, a despeito de suas particularidades, explicitaram o crescimento de tensões e confrontos entre colonos, colonizadores e colonizados, em finais do século XVIII. PORQUE A conjuntura de crise que afetara a economia mineradora gerou a estagnação do mercado inter- no colonial de tal forma que a Coroa portuguesa, tendo em vista a compensação de sua receita, ampliou a carga tributária sobre a agroexportação. Analisando as afirmações acima, conclui-se que a) as duas afirmativas são verdadeiras, e a segunda justifica a primeira. b) as duas afirmativas são verdadeiras, e a segunda não justifica a primeira. c) a primeira afirmativa é verdadeira, e a segunda falsa. d) a primeira afirmativa é falsa, e a segunda verdadeira. e) as duas afirmativas são falsas. 14. (CESGRANRIO — 2011) A prosperidade da produção açucareira no Brasil chamou a atenção dos holandeses que, em 1630, invadiram Pernambuco, maior produtor de açúcar da época. Os flamengos passaram então a trabalhar no local, adquirindo a experiência necessária do cultivo da cana-de-açúcar para, após sua expulsão, poderem utilizar este aprendizado, e foi o que aconteceu. Após a expulsão, foram para as Antilhas, onde prosseguiram com a cultura do açúcar, passando a ser durante os séculos XVII e XVIII, concorrentes do Brasil no abastecimento do mercado europeu. Disponível em: <http://www.infoescola.com/historia/ciclo-da-cana-de-acucar/>. Acesso em 11 out. 2011. Quando o açúcar brasileiro perdeu força no mercado internacional, uma nova etapa da economia brasileira vem a se consolidar. Essa etapa é marcada, especialmente, pela expansão rumo 90 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. a) ao Centro-Oeste, em busca de campos férteis, o que constituiu o ciclo do café. b) ao litoral do Sul, em busca de ouro e pérolas, o que constituiu o ciclo do ouro. c) ao Centro-Norte do país, em busca de pasto, o que constituiu o ciclo do gado. d) à região Nordeste, em busca de plantas para extrativismo, o que constituiu o ciclo do pau-brasil. e) às áreas interioranas, em busca de ouro e pedras preciosas, o que constituiu o ciclo da mineração. 15. (CESGRANRIO — 2010) “Em agosto de 1820, irrompeu em Portugal uma revolução liberal inspirada nas ideias ilustradas. Os revolucionários procuravam enfrentar o momento de pro- funda crise na vida portuguesa. Crise política (...); crise econômica (...); crise militar (...). Basta lembrar que, na ausência de D. João, Portugal foi governado por um conselho de regência presi- dido pelo marechal inglês Beresford.” FAUSTO, Boris. História do Brasil. Edusp. 1994. A Revolução do Porto de 1820 tinha aspectos contraditórios no que se refere ao Brasil e Portugal. Se, para Portugal, ela podia ser definida como liberal, condenando a monarquia absoluta e defen- dendo a elaboração de uma Constituição para o país, no que se referia ao Brasil, as Cortes de Lisboa adotaram medidas de caráter recolonizador que acabaram acelerando a Independência do Brasil. Dentre as medidas recolonizadoras das Cortes de Lisboa que conduziram ao crescimento da ideia separatista, aponta-se a(o) a) aliança das Cortes de Lisboa com o chamado “partido brasileiro” que, por temer uma revolução popular, defendia a manutenção da subordinação do Brasil à Metrópole. b) anulação das medidas liberais adotadas no Brasil, no Período Joanino, que, se, por um lado, pre- judicaram a burguesia lusa ao romperem o monopólio comercial, por outro, beneficiaram tanto os ingleses quanto os grandes proprietários rurais brasileiros. c) neutralização, pelas Cortes de Lisboa, da pressão inglesa contra a recolonização, através do compromisso de manter os privilégios comerciais obtidos pela Inglaterra no Brasil, entre 1808 e 1821. d) envio das forças militares da Santa Aliança para conduzir a Família Real de volta a Portugal, inde- pendente do desejo contrário dos brasileiros. e) envio de um representante direto das Cortes de Lisboa para o Rio de Janeiro, que obrigava os representantes das províncias brasileiras a responderem somente a ele. 16. (CESGRANRIO — 2011) A segunda viagem ao interior do país, rumo a São Paulo, começou no dia 14 de agosto, três semanas antes do Grito do Ipiranga. O objetivo, como na vez anterior, era apaziguar os ânimos na província, dividida entre dois grupos políticos, um ligado à família do ministro José Bonifácio e outro, ao coronel Francisco Inácio, comandante da força pública e aliado da João Carlos Oeynhausen, presidente da junta provisória local. GOMES, Laurentino. 1822. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. Sobre o período da história do Brasil referido no texto, analise as afirmações a seguir. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 91 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. I – Os movimentos revoltosos tinham o objetivo de efetivar a Proclamação da República. II – As viagens foram realizadas por D. Pedro I como parte do processo que levou à Independência do Brasil. III – As mudanças nos regimes políticos no Brasil foram feitas à custa de embates, gerados, muitas vezes, pela contradição de interesses entre grupos sociais. É correto o que se afirma em a) I, apenas. b) II, apenas. c) I e III, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III. 17. (CESGRANRIO — 2013) Falar da vida privada das pessoas atrai público. Como jornalista de longa data, Laurentino Gomes conhecia bem esse fato, mas não poderia calcular aonde isso o levaria. Em 2007, nas vésperas de sua aposentadoria, ao lançar 1808, o primeiro volume da série que fecha agora com 1889, última e melhor narrativa da trilogia que percorre o período da che- gada da Corte portuguesa até o governo Campos Salles, Gomes alcançou o feito inédito: manter por dois anos consecutivos um livro sobre a História do Brasil no topo dos mais vendidos do País. Revista Isto É. São Paulo: Abril. 23 ago. 2013. n. 2.284, p.96. Adaptado Esse último livro da trilogia traz a sinopse no subtítulo: Como um imperador cansado, um mare- chal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República. Não restando dúvidas de que o imperador cansado é D. Pedro II e que o marechal vaidoso que proclamoua República é Deodoro da Fonseca, resta identificar o professor, que também era militar, considerado injustiçado por ter sido, segundo estudiosos, o cérebro e o idea- lizador de maior expressão da Proclamação. Esse professor injustiçado é a) Benjamim Constant b) Floriano Peixoto c) Lauro Sodré d) Quintino Bocaiuva e) Rui Barbosa 18. (CESGRANRIO — 2011) A federação de 1891 abriu as portas do paraíso para o coronel. [...] Sur- giu o coronelismo como sistema [...]. O coronel municipal apoiava o coronel estadual que apoiava o coronel nacional, também chamado de presidente da República, que apoiava o coronel estadual, que apoiava o coronel municipal. [...] Aumentou também o dá-cá-toma-lá entre coronéis e governo. As nomeações de funcionários se faziam sob consulta aos chefes locais. Surgiram o “juiz nosso” e o “delegado nosso”, para aplicar a lei contra os inimigos e proteger os amigos. O clientelismo, isto é, a troca de favores com o uso de bens públicos, sobretudo empregos, tornou-se a moeda de troca do 92 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. coronelismo. [...] O coronelismo, como sistema nacional de poder, acabou em 1930, mais precisa- mente [...] em 1937. CARVALHO, José Murilo de. Metamorfoses do coronel. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 maio 2001. Adaptado. De acordo com o texto acima, ainda há clientelismo e coronéis no Brasil, mas o coronelismo, como sistema político nacional, já deixou de existir há décadas. Ele surgiu na Primeira República e não sobreviveu à Era Vargas. Com base na definição apresentada no texto acima, que mecanismo político, presente na “fede- ração de 1891” e extinto em 1937, era responsável por articular os três níveis de governo do país num sistema coronelista? a) Clientelismo b) Voto censitário c) Política do café com leite d) Economia agroexportadora e) Eleição dos governadores estaduais 19. (CESGRANRIO — 2010) Após o término da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram a hegemonia econômica em escala planetária, passando de país devedor a potência credora no mercado internacional, pois fizeram vultosos empréstimos aos países envolvidos no conflito, tanto a vencedores quanto a vencidos. Dessa forma, contribuíram para a recuperação econômica da Europa, ao mesmo tempo em que financiavam as próprias exportações, mantendo elevados os índices de produtividade interna através dos empréstimos aos países necessitados. A sensação de segurança absoluta impediu a correta avaliação das tendências econômicas. O crédito fácil alimentava a continuidade da produção. A busca do enriquecimento rápido superva- lorizou as ações das empresas. Em 1929, tudo veio abaixo. Com o crack da Bolsa de Nova York, a crise se generalizou, provocando um cataclismo em todo o mundo, devido à interdependência entre a economia americana e os países do mundo capitalista. Analise as afirmativas abaixo sobre as repercussões econômicas da crise de 1929 no Brasil. I - O Brasil, país de economia socialista e planificada, não fora atingido pela crise; fato este que abalou a confiança brasileira no sistema capitalista e propagou a ideia de superioridade do siste- ma socialista. II - Ao Brasil restou a opção de empreender uma mudança de rumo no capitalismo liberal, inau- gurando a fase intervencionista, na qual o governo passou a ter papel exclusivo e decisivo no processo econômico. III - No Brasil, a crise afetou o café e todos os produtos primários, que tiveram seus preços rebaixa- dos, agravando o deficit da balança comercial e aprofundando a depressão. IV - No Brasil, ampliou-se o sistema de previdência social, passando a ser responsabilidade do gover- no o bem-estar dos trabalhadores em caso de invalidez, de velhice e mesmo de desemprego. Está correto APENAS o que se afirma em R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 93 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. a) I. b) III. c) IV. d) I e III. e) II e IV. 20. (CESGRANRIO — 2010) A implantação do regime republicano não modificou a situação das famílias de trabalhadores do campo, que representavam, naquela época, mais de dois terços da população nacional. As grandes propriedades continuavam imperando tanto no litoral quanto no interior do país, onde predominavam os latifúndios improdutivos. Eram elas a razão principal da miséria e da submissão da massa rural. Necessidades mínimas, como remuneração justa do trabalho, boa alimentação e saúde, estavam longe de ser atendidas, o que gerava insegurança e insatisfação, além de poder resultar, em cer- tas condições, em fatores de revoltas violentas contra o poder oligárquico. Foi o que aconteceu em diferentes regiões entre as últimas décadas do Império e as primeiras décadas da República. Bandos de cangaceiros irrompiam no sertão, assaltando propriedades dos coronéis, enquanto milhares de sertanejos, solidários na miséria comum, organizaram movimentos religiosos, que, em certo nível, chegaram a contestar a ordem social. Contra a fome e a miséria que aumentavam com a seca, houve reações da parte dos pobres do campo. Dentre os movimentos sociais abaixo, aquele que se caracteriza como um movimento NÃO reli- gioso é o a) da Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, incentivado pela insatisfação da população. b) de Canudos, em Belo Monte, na Bahia, liderado por Antonio Conselheiro. c) de Juazeiro, liderado por Cícero Romão Batista. d) do Cangaço, liderado por Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. e) do Contestado, ocorrido em Santa Catarina, liderado por José Maria. 21. (CESGRANRIO — 2014) Desde que o jornal integralista A Offensiva estampara as primeiras convocações para o evento na praça da Sé, esquerdistas dos mais variados matizes idealiza- ram uma contramanifestação, combinada propositadamente para o mesmo dia (7 de outubro de 1934), horário e local. “És amigo da liberdade? Queres que o Brasil marche para a paz e o progres- so? Repugna-te o crime e a bandalheira? És amante da arte, da ciência e da filosofia? Pois, então, guerra ao integralismo com todas as suas energias”, incitava um panfleto da Federação Operária de São Paulo, de orientação anarquista. NETO, Lira. [ ] Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo (1930 -1945). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p.193. O embate previamente anunciado entre esquerdistas e integralistas foi fatal e ocorreu no gover- no do presidente a) Café Filho 94 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. b) Getúlio Vargas c) Jânio Quadros d) Washington Luís e) Juscelino Kubitschek 22. (CESGRANRIO — 2010) Ao longo da república, na sociedade brasileira, o exercício da cida- dania sofreu transformações associadas a ações estatais promotoras de maior inclusão política e social, dentre as quais cita-se o(a) a) voto feminino, a partir de 1934. b) seguro desemprego, por meio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). c) direito de voto para os analfabetos, a partir de 1946. d) reconhecimento da liberdade sindical, a partir de 1937. e) proteção dos direitos indígenas, a partir de 1891. 23. (CESGRANRIO — 2011) O ano de 1961 marcou para o movimento sindical nacional, segundo líde- res operários, uma transformação sensível, principalmente pelo aprofundamento das divergências exis- tentes entre os dirigentes sindicais de esquerda (comunistas e não comunistas) e do chamado grupo democrata, com resultados mais favoráveis para os primeiros pela falta de penetração que os do grupo ‘democrata’ tem na massa de trabalhadores. Diário Carioca, Rio de Janeiro, 3 jan.1962. O início da década de 1960 foi extremamente conturbado para a política no Brasil. Do ponto de vista do movimento sindical, a transformação citada na reportagem foi resultado da a) morte do presidente Getúlio Vargas b) campanha pela legalização do Partido Comunista c) articulação para a criação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) d) tentativa de impedir a posse do presidente Juscelino Kubitschek e) organização de greves e mobilizações conhecidas como “Panela Vazia” 24. (CESGRANRIO — 2014) Juscelino Kubitschekchegou à Presidência da República do Brasil com a promessa de realizar nos 5 anos de mandato aquilo que, segundo ele, outros governan- tes levariam 50 anos para realizar. Para isso, ele instituiu um conjunto de medidas destinado a promover, a partir de vultosos investimentos, a dinamização da economia nas áreas de energia, transporte, indústria, educação e alimentos. Esse conjunto de medidas consta do a) Plano Trienal, que se construiu com base numa visão marxista. b) Plano Real, que se construiu com base numa visão neoliberal. c) Plano de Metas, que se construiu com base numa visão desenvolvimentista. d) Plano de Integração Nacional, que se construiu com base numa visão liberal. e) Programa de Aceleração do Crescimento, que se construiu com base numa visão estruturalista. R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 95 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. 25. (CESGRANRIO — 2011) Analise o depoimento do general Osvaldo Cordeiro de Farias, que foi ministro do Governo Castelo Branco, acerca das causas do golpe civil-militar de 1964. Havia uma mentalidade revolucionária! Jango, nos últimos dias de seu governo, fez tudo o que era preciso para levantar o Exército contra ele, com as atitudes que tomou. Em primeiro lugar, a rebel- dia dos marinheiros. Oficiais da Marinha, naquele dia, procuraram-me em prantos, chocados com a subversão hierárquica. Em seguida, o Comício da Central e a reunião de Jango com os sargentos, no Automóvel Clube. [...] A indignação militar era enorme! [...] Quem fez a revolução militar não fomos nós, foi Jango, com sua política, com suas atitudes. Não há exagero nenhum nisso. Ele colocou o Exército num dilema trágico: rendição à anarquia ou reação! CAMARGO, Aspásia; GÓES, Walder de (orgs.). Meio século de combate: diálogo com Cordeiro de Farias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Adaptado. De acordo com a interpretação reproduzida acima, o principal motivo da mobilização dos milita- res brasileiros para destituir o presidente João Goulart em 1964 teria sido a percepção de que a a) corrupção no Poder Executivo atingira um nível alarmante. b) quebra da hierarquia militar era estimulada pelo presidente. c) solidez da família cristã estava sob ameaça de dissolução pelo ateísmo. d) articulação de uma revolução comunista tinha apoio do governo federal. e) mobilização popular contra Jango dava respaldo a uma intervenção militar. 26. (CESGRANRIO — 2014) A ditadura militar teve a duração de 21 anos, de 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985. [...] Foi o mais longo período de supressão das liberdades políticas na história republicana do Brasil. Revista Atualidades. São Paulo: Abril, edição 18, 2o sem. 2013, p.110. O ano de 1968 foi um ano emblemático desse período porque nesse ano aconteceu o seguinte conjunto de episódios: a) a extinção dos partidos políticos, a decretação do AI-1 e a posse de Castelo Branco b) a posse do presidente Costa e Silva, a decretação do AI-2 e o sequestro do embaixador dos EUA c) a posse do general Geisel, o início da abertura lenta e gradual e o atentado ao Riocentro d) a Marcha dos Cem Mil, o fechamento do Congresso e a decretação do AI-5 e) o fim do milagre econômico brasileiro, a posse do General Médici e a decretação do AI-5 27. (CESGRANRIO — 2012) A vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial fez a democracia retornar a muitos governos derrotados, incluindo a Alemanha Ocidental e o Japão. O começo do fim do domínio colonial levou a democracia a algumas nações da África e de outros luga- res. Alguns países latino-americanos, inclusive o Brasil, com o fim da era Vargas, constituíram democracias limitadas e instáveis. Nessa onda democrática, o Brasil passou por um período de grandes transformações. 96 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Embora não se possa falar de uma liberdade plena, houve intensa efervescência política entre 1946 e 1964. Multiplicaram-se os movimentos sociais e a participação organizada de diferentes setores da sociedade passou a ecoar na atividade política. BRYM, Robert J. et al. Sociologia: sua bússola para um novo mundo São Paulo: Thomson Learning, 2006, p.342. Adaptado Alguns cientistas sociais consideram a existência de algumas “ondas democráticas” importan- tes na história mundial. Uma dessas “ondas” inicia-se com o fim da Segunda Guerra Mundial, conforme apresentado no texto. Um exemplo marcante desse contexto no Brasil é representado por a) greves de metalúrgicos na região industrial chamada “ABC paulista” b) movimento pela reforma agrária no Sudeste, chamado de “Ligas Camponesas” c) campanha em defesa da nacionalização do petróleo, chamada “O petróleo é nosso” d) criação de novos partidos políticos, inclusive o chamado “Partido dos Trabalhadores” e) manifestação em defesa do ensino de horário integral, chamada “Pelo horário integral no ensino público” 28. (CESGRANRIO — 2011) HENFIL. A volta da Graúna. São Paulo: Geração Editorial, 1993, p. 48. A charge do cartunista Henfil retrata, com muita ironia, o processo de abertura política vivido pelo Brasil na década de 1980. O diálogo entre Graúna e Zeferino faz uma referência crítica a qual das características da política brasileira da época? R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 97 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. a) À força do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), vitorioso nas eleições para o governo de São Paulo em 1982. b) À comoção do povo brasileiro em função da morte de Tancredo Neves, presidente eleito que encerraria a transição à democracia. c) À força da Aliança Democrática nas eleições de 1985, contando com votos da dissidência do PDS nas eleições indiretas para presidente. d) Ao apoio popular ao governo Sarney, principalmente como “fiscais do presidente” após o anúncio do Plano Cruzado. e) Ao controle dos setores políticos dominantes sobre o processo de abertura, responsável pela derrota da emenda Dante de Oliveira em 1984. 29. (CESGRANRIO — 2010) Nas cidades gregas da Antiguidade, a democracia limitava-se à minoria da população. Os escravos e as mulheres não tinham direitos políticos. Além disso, só aqueles que nasciam na cidade de Atenas podiam ser cidadãos. De acordo com a Constituição Brasileira de1988, quem NÃO pode votar no Brasil atualmente são os a) maiores de 70 anos. b) maiores de dezesseis anos. c) estrangeiros naturalizados. d) analfabetos. e) que estão cumprindo o serviço militar obrigatório. 30. (CESGRANRIO — 2009) A Diplomacia dos Gramados “Não há tese ou relação causal que explique a conexão do sucesso do país com o sucesso da bola, mas certamente há conexão que serve de gancho para professores fazerem seus alunos memorizarem e entenderem um pouco da história da República. (...) Na Copa do México, em 1970, enquanto Pelé, Carlos Alberto, Gérson, Tostão e Rivellino venciam a Itália por 4 a 1 na final, o regime autoritário celebrava crescimento na economia de mais de 10% ao ano (....). Na Espanha, em 1982, a ótima seleção nacional não foi capaz de vencer a Itália de Paolo Rossi (...). Os anos 1980 foram então a década perdida, tanto na economia como no futebol. Ficamos sem rumo no México, em 1986. Zico perdia o Pênalti contra a França de Michel Platini enquanto o governo perdia a capacidade de pagar a dívida externa (...). Em 1990, o Brasil teve uma de suas piores participações (...). Mas não é que em 1994 o país recuperava o caminho do gol?”. ALMEIDA, João Daniel Lima de e SANTORO, Maurício. A diplomacia dos gramados. Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 1. no 7. pp. 36-40, janeiro 2006, passim. Admita-se que a conexão entre economia e futebol proposta no texto seja mobilizada como estratégia didática válida.Neste caso, qual, dentre os resultados obtidos pela seleção brasileira em Copas do Mundo, pode ser coerentemente associado aos eventos econômicos indicados? 98 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. Desempenho do Brasil na Copa doMundo Desempenho do Brasil na eco- nomiaa) 1970 – Tricampeão “Crise do milagre” e arrocho salarial. b) 1982 – Eliminação contra a Itália 1o choque do petróleo e “estagflação”. c) 1986 – Eliminação contra a França Confisco da poupança e moratória da dívida. d) 1990 – Eliminação contra a Argentina Plano Cruzado II e hiperinflação. e) 1994 – Tetracampeão Plano Real e estabilização da moeda.GABARITO 1 E 2 B 3 E 4 A 5 C 6 C 7 C 8 E 9 E 10 C 11 A 12 C 13 C 14 E 15 B 16 D 17 A 18 E 19 B 20 D 21 B 22 A 23 C 24 C 25 B 26 D 27 C 28 E 29 E 30 E R EA LI D A D E B R A SI LE IR A 99 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos. ANOTAÇÕES 100 Todos os direitos são reservados à Nova Concursos.