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Resumo: Gestão de Conflitos e Eventos Críticos Entendendo os Conflitos A evolução social x os conflitos de interesses A evolução social gera conflitos de interesses, levando à necessidade de organização em sociedade. Diferentes interesses causam choques, resultando em conflitos. O Estado intervém para gerenciar esses conflitos e evitar violência, adotando uma abordagem vertical de cima para baixo. O conflito não é necessariamente negativo, mas requer gestão para prevenir violência e crises adicionais. Conflito e seu conceito Conflitos, sejam sociais, familiares ou interpessoais, são importantes para o progresso da sociedade ou de grupos menores, pois superá-los leva à evolução dos envolvidos. A gestão e resolução adequadas determinam se o conflito terá impacto positivo ou negativo. Atividade em conjunto Podemos construir juntos o conceito de conflito através de observação, literatura atual e pesquisa online. Conflito é inerente à vida humana devido às diferenças individuais e à necessidade de escolher entre objetivos incompatíveis. Várias definições, como embate, desavença, e colisão, ilustram suas facetas. É natural na sociedade e reflete a defesa dos interesses individuais, variando em intensidade conforme a cultura e contexto social. Conceituando conflito Conflito ocorre quando duas ou mais pessoas têm opiniões divergentes sobre um assunto de interesse comum e não conseguem lidar com essas diferenças, resultando na necessidade de gestão para resolver a situação. Formas de lidar com os conflitos Existem várias formas de lidar com conflitos ao longo da história. Inicialmente, a força física ou bélica foi uma abordagem comum, seguida pelo império da lei. Atualmente, considera-se os interesses das pessoas envolvidas e a possibilidade de atendê-los. Houve uma mudança de foco do patrimonial para o indivíduo, refletida no direito pátrio, destacando-se a união estável e o princípio da dignidade da pessoa humana. As formas de lidar com conflitos evoluíram, sendo ilustradas por diferentes estilos, como competição, colaboração, evitação, concessão, assertividade e cooperação. Estilos e formas de lidar com os conflitos Existem diferentes estilos de lidar com conflitos: 1. Dominador: Prioriza seus próprios interesses e impõe sua vontade sobre os outros, buscando ganhar a qualquer custo. 2. Acomodação: Baixo interesse próprio, alta preocupação em colaborar; cede em favor dos outros, esperando reconhecimento futuro. 3. Integração: Elevado interesse próprio, mas também disposição para cooperar; busca dialogar e trocar informações para encontrar uma solução aceitável para todos. 4. Evasão: Pouca preocupação com os próprios interesses e baixa vontade de cooperação; evita o conflito e se omite. 5. Negociador: Procura um meio-termo entre os extremos, com interesse e vontade de cooperação moderados; busca equilíbrio cedendo parte de seus interesses em favor dos outros. Negociação X Integração A negociação não deve ser confundida com a integração/colaboração, pois na negociação os ânimos podem se exaltar facilmente, levando a resultados inesperados e potencialmente danosos, devido aos altos níveis de interesse envolvidos. Aspectos importantes sobre conflitos Aspectos importantes sobre conflitos: 1. Conflitos não são problemas: Os conflitos são normais e não são inerentemente bons ou maus. Problemas surgem como resultado da maneira como lidamos com os conflitos. 2. Atitudes básicas frente ao conflito: Podemos ignorar, responder violentamente ou lidar de forma não violenta através do diálogo. 3. Diferença entre conflito e briga: Briga é uma resposta ao conflito, não o conflito em si. A maneira como lidamos com o conflito pode levar a brigas crônicas ou a oportunidades de crescimento. 4. Benefícios dos conflitos: Estimulam o pensamento crítico, melhoram a tomada de decisões, promovem a conscientização das opções, incentivam diferentes perspectivas e melhoram relacionamentos. Dica: Desenvolver habilidades para transformar conflitos destrutivos em construtivos envolve harmonizar diferenças e criar soluções satisfatórias para todos através do diálogo e da criatividade. Mahatma Gandhi – o defensor do Satyagraha Mahatma Gandhi, defensor do Satyagraha, promoveu a não-violência como meio de revolução. Seus ensinamentos inspiraram ativistas como Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela. Baseava- se nos valores da verdade e não-violência. A resolução não violenta de conflitos Há diversas formas de resolver conflitos, incluindo imposição, baseada no direito, e identificação dos interesses das partes. A resolução não violenta busca retirar o aspecto numérico das pessoas envolvidas, incentivando-as a serem ativas na solução dos conflitos. Envolve permitir que cada parte expresse seus sentimentos, avalie racionalmente o processo e busque soluções. Surgem novos instrumentos para a administração de conflitos diante das necessidades humanas. Resolução alternativa de disputa A resolução alternativa de disputas (ADR) é um instrumento adicional para resolver conflitos de forma pacífica. Não substitui os métodos anteriores, mas é uma resposta às novas necessidades da sociedade, oferecendo opções adicionais para resolução eficaz e rápida, complementando as resoluções informais e o sistema judicial. Meios de Resolução de conflitos Resoluções alternativas de disputa x métodos tradicionais de resolução de disputa Os métodos tradicionais de resolução de disputas incluem a força, a lei e a identificação dos interesses das partes. No entanto, muitas vezes esses métodos não resolvem os conflitos de forma definitiva e podem levar à reincidência e aumento da violência. Isso leva à necessidade de recorrer a métodos baseados na força, criando uma barreira entre os agentes de segurança pública e a sociedade. A resolução alternativa de disputas (RAD) é destacada como uma opção benéfica, promovendo uma transformação nas relações entre agentes de segurança pública e a comunidade, pois evita a abordagem de ganhador-perdedor dos métodos tradicionais. Características históricas mundiais e a RAD A resolução alternativa de disputas (RAD) surgiu devido às dificuldades enfrentadas pelos métodos tradicionais de gestão de conflitos, refletindo os anseios da sociedade por soluções rápidas e práticas. Após a Segunda Guerra Mundial, com a bipolaridade mundial e diversos movimentos sociais, como o hippie, houve uma mudança significativa nas relações interpessoais e uma necessidade crescente de buscar alternativas para resolver conflitos sociais emergentes. A Organização das Nações Unidas estimulou a criação de métodos alternativos de resolução de conflitos, conhecidos como ADR (Alternative Dispute Resolution), promovendo a justiça restaurativa. No entanto, a RAD não substitui o poder judiciário, mas oferece uma abordagem complementar e mais ampla para resolver conflitos. Arbitragem A arbitragem não é uma prática nova em nossa sociedade, como evidenciado pelo Código de Direito Canônico de 1983, que propôs a instituição de juízo arbitral para evitar juízos. Esta prática é utilizada pela Igreja Católica há quase 100 anos. No Brasil colonial, já se observava o uso da arbitragem nas Ordenações Filipinas. Atualmente, a arbitragem é regulada por lei e pode ser utilizada para resolver litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis, onde as partes escolhem um terceiro como juiz arbitral. Existem duas modalidades de arbitragem no Brasil: cláusula compromissória e compromisso arbitral. Cláusula Compromissória A cláusula compromissória é um acordo em um contrato no qual as partes concordam em resolver quaisquer litígios relacionados ao contrato por meio de arbitragem. Ela é estabelecida antes do surgimento do conflito e deve atender aos requisitos do artigo 4º, parágrafo 1º. Compromisso Arbitral O compromisso arbitral é um acordo em que as partes submetem um litígio à arbitragem de uma ou mais pessoas, podendo ser judicial ou extrajudicial, conforme definido no artigo 9º. Osrequisitos obrigatórios são estabelecidos no artigo 10, enquanto os requisitos facultativos são detalhados no artigo 11. Sentença arbitral e vantagens da arbitragem A sentença arbitral, de acordo com o art. 31, tem os mesmos efeitos de uma sentença do Poder Judiciário e, se condenatória, pode ser executada como título extrajudicial. Vantagens da arbitragem incluem rapidez, eficiência, custo-benefício superior ao processo judicial, definitiva e constitucional, informalidade, autonomia das partes e especialização. Mediação Na mediação, a solução não é imposta pelo mediador, mas sim pelas partes envolvidas. O objetivo não é apenas um acordo, mas também promover entendimento e respeito mútuo, possibilitando que as partes percebam os limites de seus direitos em relação aos outros. O conflito é protagonizado pelas partes, mediado pelo mediador, visando uma solução duradoura e satisfatória para todos. A mediação oferece diversas abordagens, conforme destacado na apostila do Curso de Mediação de Conflitos da SENASP. Formas de mediação As formas de mediação incluem a técnica, com mediadores associados a empresas, a comunitária, realizada na própria comunidade, a forense, ligada ao judiciário, a penal, usada em questões carcerárias, e a familiar, para solucionar crises familiares com apoio profissional. Conciliação Na conciliação, o conciliador facilita o diálogo entre as partes, sugerindo soluções e elaborando propostas para a resolução do conflito. Pode ocorrer tanto no âmbito judicial quanto extrajudicial. A conciliação na Lei n.º 9.099/95 A Lei n.º 9.099/95 prioriza a conciliação ou transação penal para acelerar o processo de solução das demandas, garantindo a efetividade jurisdicional. Antes do julgamento, as partes têm a oportunidade de tentar um acordo. Se não houver conciliação, podem optar pelo juízo arbitral, conforme previsto na lei. Negociação A negociação é o processo mais comum na gestão de conflitos, sendo parte natural das interações humanas. É um diálogo bilateral com o objetivo de alcançar uma decisão conjunta. Geralmente, é a primeira abordagem para resolver um conflito, envolvendo apenas as partes diretamente. Na negociação de crises policiais, os profissionais de Segurança Pública utilizam esse método. Tabela demonstrativa de diferenças entre os meios de resolução alternativa de disputa Para comparar os métodos de resolução alternativa de disputas, usaremos tabelas adaptadas do curso de mediação de conflitos 01 (Brasil – SENASP, p. 21 e 22). Analisaremos as diferenças entre conciliação e mediação, arbitragem e mediação, e negociação em relação a conciliação, mediação e arbitragem. Sistemas de multiportas O sistema de multiportas surge como resposta à ineficácia dos métodos tradicionais de resolução de conflitos no Brasil, principalmente devido à cultura da passividade e dependência do poder judiciário. Inspirado no modelo americano, visa oferecer opções específicas para cada caso, encaminhando os interessados para a solução mais adequada. Instituído pelo Conselho Nacional de Justiça em 2010, promove a participação social na solução de conflitos, complementando os meios tradicionais com métodos consensuais e pacíficos. Negociação e Mediação de Conflitos Mediação de conflitos Apesar de entendermos o conceito de mediação, é importante destacar que os profissionais de Segurança Pública raramente a praticam em suas atividades diárias, especialmente em ocorrências menores. A falta de atenção a esses incidentes pode levar a um aumento de crimes mais graves, prejudicando a credibilidade do serviço prestado pela polícia. Outros tipos de conflito Os policiais e guardas municipais são frequentemente chamados para resolver uma variedade de conflitos, mesmo que não façam parte de suas atribuições. Esses problemas incluem questões como ruídos, estacionamento inadequado, disputas familiares e outros. Embora muitos desses casos sejam considerados menores, é importante entender as razões subjacentes para sua ocorrência, como falta de comunicação e conflitos mal gerenciados. Em algumas situações, os agentes públicos resolvem os conflitos de forma enérgica, sem mediação, utilizando seu poder de polícia. Considerações A mediação é destinada a resolver conflitos interpessoais e não situações de crise, com base nas seguintes considerações: 1. Princípio da Legalidade: Profissionais de Segurança Pública devem respeitar esse princípio constitucional, embora atualmente não haja uma lei específica sobre o assunto no Brasil. 2. Conceito e Aplicação da Mediação: O projeto de lei n.º4.827/98 define a mediação como uma atividade técnica exercida por um terceiro imparcial, com o objetivo de prevenir ou resolver conflitos de forma consensual, sem oferecer soluções. 3. Mediação x Justiça Penal: O projeto de lei prevê apenas mediação de natureza civil, o que pode gerar debates sobre sua aplicação nos juizados especiais criminais. 4. Modalidades de Mediação: Existem quatro modalidades: prévia, incidental, judicial e extrajudicial, que não fazem distinção entre ocorrer dentro ou fora do Poder Judiciário. 5. Princípios Norteadores da Mediação: Incluem autonomia da vontade das partes, imparcialidade, confidencialidade, boa-fé, celeridade, entre outros, que guiam a conduta do mediador. Essas considerações ressaltam a importância da mediação e destacam os princípios e modalidades envolvidos. Áreas de Aplicação da Mediação Além das áreas mencionadas anteriormente, como técnica, comunitária, forense, penal e familiar, o projeto de lei indica que a mediação pode ser aplicada em todas as matérias que permitem conciliação, reconciliação, transação ou acordo de qualquer tipo, exceto aquelas de natureza civil. No entanto, enquanto o projeto não for aprovado pela Câmara dos Deputados, a mediação penal continua sendo uma possibilidade. Mediação familiar Os conflitos familiares, embora naturais, podem abalar as relações familiares e são muitas vezes encarados de forma negativa pela sociedade. A mediação familiar busca abolir esse paradigma ao proporcionar um diálogo entre os envolvidos, sem a necessidade de atribuir culpa. O objetivo é promover uma solução pacífica e equilibrada, especialmente em casos de divórcio ou inexistência de relações de filiação, priorizando o bem-estar de todos os envolvidos. Vale ressaltar que a mediação familiar não se trata de terapia de casal ou tratamento psicológico. Mediação Empresarial e Organizacional Nesta forma de mediação, envolvendo pessoas jurídicas, o objetivo é evitar desperdícios de tempo, pois como disse Benjamin Franklin, "tempo é dinheiro". A mediação busca levar os envolvidos a construir relações mais maduras e pacíficas, sem interferir na administração do conflito. Muitos conflitos surgem de descumprimento de cláusulas contratuais, sendo a solução frequentemente a elaboração de um novo contrato para adequar a realidade atual às pretensões futuras das partes. Mediação Trabalhista Nessa forma de mediação, envolvendo empregados e empregadores, busca-se resolver os conflitos presentes na relação de trabalho. A Lei n.º 10.101/00 regulamentou a participação dos trabalhadores nos lucros e resultados das empresas, prevendo a mediação em caso de litígio entre as partes. No entanto, a cultura brasileira e a desconfiança mútua entre as partes muitas vezes impedem a utilização efetiva da mediação trabalhista, resultando em uma alta demanda nos tribunais trabalhistas. Mediação Ambiental O Direito Ambiental recebeu destaque constitucional em 1988, evidenciando sua importância no Capítulo VI do Título VIII da Constituição. O artigo 225 ressalta a necessidade de preservação do meio ambiente, atribuindo responsabilidade tanto ao Poder Público quanto à coletividade. A competência para legislar sobre o meio ambiente é compartilhada entre os entes federativos. O Direito Ambiental é considerado difuso, caracterizado pela indeterminação dos sujeitos e pela indivisibilidade dos interesses. A mediação de conflitosna área ambiental surge como um meio eficaz de diálogo entre as partes, visando à preservação do meio ambiente e ao cumprimento das normas constitucionais. Mediação Escolar Investimentos em educação têm sido priorizados em vários países como o melhor caminho para o desenvolvimento social. A mediação escolar é vista como uma forma eficaz de prevenir e resolver conflitos no ambiente escolar, tanto de forma preventiva quanto repressiva. Diversos órgãos públicos têm implementado programas de mediação escolar para promover uma comunicação melhor entre alunos, professores e funcionários, incluindo as rondas escolares realizadas pelas polícias militares e guardas municipais. O objetivo é envolver alunos e jovens na resolução de conflitos desde cedo, quebrando a ideia de que os adultos devem resolver tudo para eles. Esses programas facilitam a redução da violência, promovendo a comunicação constante entre todos os envolvidos. Um exemplo é a iniciativa da prefeitura de Fortaleza. Mediação Comunitária Promove o diálogo em locais onde antes não havia essa possibilidade. Há uma estreita relação entre mediação comunitária e polícia comunitária, essencial para a mudança na política de Segurança Pública no Brasil. Um exemplo disso é a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na região metropolitana do Rio de Janeiro. Inicialmente, as UPPs adotaram métodos tradicionais de policiamento ostensivo, mas ainda assim são consideradas por algumas autoridades como inovadoras. Os benefícios primários e secundários Os benefícios da mediação foram bem destacados no curso da SENASP. Os benefícios primários incluem celeridade, efetividade, preservação da autoria, alinhamento de interesses, redução de custos emocionais e financeiros, além de sigilo. Os benefícios secundários abrangem a prevenção de conflitos, a melhoria na comunicação e nos relacionamentos interpessoais. A figura do Negociador e do Mediador Características do Ambiente de Mediação É essencial considerar as características físicas e ambientais do local onde ocorrerá a mediação para garantir um ambiente propício para a resolução de conflitos. Aspectos como cores das paredes, quadros, iluminação, ventilação, música ambiente e material de leitura são importantes: - Cores neutras nas paredes para transmitir harmonia. - Quadros com imagens tranquilas e não controversas. - Iluminação balanceada para evitar excesso ou falta de luz. - Ventilação natural e artificial para conforto dos envolvidos. - Música ambiente calma na sala de espera. - Material de leitura explicativo e adequado ao público-alvo. Esses elementos contribuem para criar um ambiente acolhedor e propício ao diálogo, essencial para o sucesso da mediação. Mediador: seu papel, suas funções e características O mediador desempenha um papel crucial durante todo o processo de mediação, atuando como líder, agente transformador e facilitador do processo. Suas principais funções incluem: 1. Líder: Como interlocutor dos envolvidos, o mediador coordena e lidera o processo de mediação. 2. Agente Transformador: Ele promove condições para o diálogo e a busca por interesses comuns, prevenindo futuros conflitos e transformando comportamentos. 3. Facilitador do Processo: Serve como um canal para que os participantes expressem suas emoções e preocupações, facilitando a comunicação entre eles. O mediador deve possuir respeito pelas partes envolvidas, compreender a comunidade e ser responsável. Além disso, é importante buscar atualização constante por meio de cursos e pesquisa. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. Mediador: seu papel, suas funções e características (Continuação) O mediador deve incorporar certos princípios e características fundamentais em sua atuação na mediação: Sensibilidade: Deve compreender os conflitos sem tomar partido e ser imparcial, deixando de lado quaisquer preconceitos pré-existentes. Ética e Conhecimento dos Direitos Humanos: Deve respeitar a dignidade do outro e estar ciente das violações dos Direitos Humanos, mantendo sigilo sobre os assuntos tratados na mediação. Conhecimento Jurídico Mínimo: Deve possuir conhecimento básico da legislação brasileira relevante, como a Constituição, Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Civil e CLT. Capacidade Comunicativa: A comunicação eficaz é essencial para o sucesso da mediação, devendo o mediador equilibrar a comunicação entre os envolvidos. Capacidade de Escuta: Deve ouvir com atenção e respeito, buscando compreender as raízes dos conflitos. Sigilo: Deve manter sigilo sobre as questões discutidas na mediação, exceto em casos de condutas criminosas. Criatividade e Bom Humor: O bom humor e a criatividade são importantes para facilitar o início do diálogo entre os mediados. Estilo Cooperativo: Deve buscar soluções amistosas e de consenso entre as partes, atuando como facilitador do diálogo e não como líder das partes. Funções Funções do Mediador: Recepciona e acolhe as partes envolvidas, incluindo seus advogados, se presentes. Presta esclarecimentos claros e precisos sobre os procedimentos e objetivos da mediação. Gerencia a interação dos envolvidos, garantindo o bom andamento dos trabalhos e o respeito mútuo. Formula perguntas construtivas para estimular o diálogo. Busca a clareza das ideias envolvidas no conflito. Equilibra o poder entre as partes para garantir a autonomia de vontade. É o guardião do processo de mediação. Evita comportamentos repetitivos. Facilita a comunicação entre as partes. Orienta os mediados para prevenir futuros conflitos, baseando-se no presente e respeitando os acontecimentos passados. Proporciona condições para o cumprimento da solução pactuada, se alcançada. O que mediador não é O papel do mediador é definido em contraste com várias outras funções: 1. Não é juiz nem árbitro: O mediador não decide, mas facilita o diálogo entre as partes para que elas tomem decisões conscientes. 2. Não é advogado: Não defende nenhum dos envolvidos, mantendo-se imparcial e preocupado com todos igualmente. 3. Não é psicólogo: Não realiza análises psicológicas profundas, apenas lida com os aspectos superficiais apresentados durante a mediação. 4. Não é conselheiro: Evita dar conselhos pessoais, orientando as partes a buscar opiniões diversas. 5. Não é professor: Embora possa ter conhecimentos técnicos, o mediador não deve impor sua visão ou influenciar nas decisões das partes. 6. Não é assistente social: Não age como assistencialista, mas sim como gestor do processo de mediação. 7. Não é médico ou profissional da saúde: Não trata o conflito como uma doença, mas ajuda as partes a explorar suas relações e buscar soluções. 8. Não é administrador: Não impõe regras ou decisões, deixando que as partes cheguem a um acordo por conta própria. 9. Não é engenheiro ou profissional de exatas: Não trata as pessoas como números ou cláusulas fechadas, mas privilegia a espontaneidade e reflexão sobre os conflitos interpessoais. Como o mediador deve ser O mediador deve possuir as seguintes características: - Imparcialidade: Deve conduzir o processo de mediação sem favorecer nenhuma das partes, mantendo o equilíbrio. - Independência: Não está ligado a nenhuma das partes envolvidas no conflito. - Competência: Deve ter um profundo conhecimento dos processos de mediação para coordená-los eficazmente. - Confidencialidade: Deve ser discreto e sigiloso para preservar a privacidade das informações tratadas na mediação. - Diligência: Deve buscar ativamente maneiras de solucionar o conflito, buscando informações necessárias. - Neutralidade razoável: Tentar manter a neutralidade, embora seja difícil devido à natureza humana, evitando expressar opiniões pessoais sobre o conflito. Negociador: seu papel, suas funções e características O negociador desempenha um papel crucial na gestão de eventos críticos, atuando como intermediário entre o tomador de reféns e o gerente da crise. Ele é um profissional técnico e treinado responsável por conduziras negociações durante a crise. O gerente da crise é o responsável pelo comando da situação. Síndrome de Estocolmo Antes de discutir o papel do negociador, é importante lembrar a Síndrome de Estocolmo, que ocorre em situações de crise envolvendo tomadores de reféns, abreviados como TRs. Funções do negociador O negociador desempenha várias funções essenciais, como: ganhar tempo para reduzir a tensão, abrandar as exigências do TR, obter informações sobre o ambiente e os envolvidos e fornecer suporte tático para uma possível intervenção. Características O negociador deve possuir as seguintes características: - Especialização em Negociação e Gerenciamento de Crise, preferencialmente sendo militar, policial ou especialista. - Ser um bom ouvinte, dando espaço para que o indivíduo se expresse. - Ter habilidades de comunicação, evitando termos negativos e promovendo uma abordagem humanizada. - Possuir boa dicção, falando de forma calma para incentivar a rendição. - Manter controle emocional, não respondendo a provocações verbais do TR. - Demonstrar calma e serenidade, evitando ameaçar o TR e negociando à distância. - Transmitir credibilidade e confiança, evitando promessas vazias e sendo o mais honesto possível. - Ter agilidade mental para responder rapidamente, evitando prazos rígidos. - Ter resistência à fadiga, já que as negociações podem ser prolongadas. - Possuir um vocabulário adequado para negociar e usar estrategicamente o poder de barganha. - Manter boa saúde física e mental para garantir a qualidade da negociação ao longo do tempo. Modelos e Técnicas de Mediação Tipos de mediação Os tipos de mediação incluem a técnica, comunitária, forense, penal e familiar. Os modelos de mediação abrangem o tradicional-linear, que busca acordos cooperativos, o tranformativo, focado na transformação das relações interpessoais, e o circular-narrativo, que combina objetivos de acordo com a compreensão da história como um sistema único. Técnicas de mediação As técnicas de mediação incluem a separação das pessoas do problema, a focalização nos interesses em vez das posições, a criação de opções para benefício mútuo, a utilização de critérios objetivos e o conhecimento das chances de retirada. Essas técnicas visam melhorar a percepção, comunicação e resolução de conflitos, incentivando a busca por soluções colaborativas e imparciais. Técnicas do modelo transformativo No modelo transformativo de mediação, o mediador atua como facilitador do diálogo, visando ao restabelecimento das relações e a um possível acordo. O processo começa com a apresentação das partes e do mediador, seguida pela expressão das visões dos mediandos sobre o conflito. Questionamentos pertinentes são feitos de forma equitativa para promover uma transformação, identificando interesses comuns. Entrevistas de pré-mediação podem ser usadas para lidar com emoções intensas e evitar confrontos diretos entre as partes. Técnicas do modelo circular-narrativo, microtécnicas, minitécnicas e técnicas propriamente ditas No modelo circular-narrativo de mediação, destacam-se as microtécnicas, minitécnicas e técnicas propriamente ditas, que visam focar nas relações interpessoais e consideram o acordo como uma consequência do processo de mediação. As microtécnicas abrangem perguntas informativas e desestabilizantes, enquanto as minitécnicas incluem técnicas como externalização, resumos e equipe reflexiva. As técnicas propriamente ditas são aquelas que permitem construir uma história alternativa que desestabilize as histórias prévias, visando reatar o diálogo entre as partes. Modelos de negociação A negociação, que é por natureza cooperativa, pode ser conceitualmente vista como um dos modelos de mediação. Carlos Eduardo de Vasconcelos (2008, p. 75) destaca três modelos básicos de negociação: integrativa, distributiva e apoiada em terceiros, sendo este último equivalente ao processo de mediação, onde um terceiro auxilia os negociadores. O processo de mediação e suas etapas O processo de mediação, geralmente dividido em seis etapas, inicia-se com a pré-mediação, onde as partes são informadas sobre o processo. Na primeira etapa, há a apresentação e recomendações, seguida pela narrativa do conflito na segunda etapa, onde o mediador atua como ouvinte ativo. Na terceira etapa, os interesses comuns são identificados, podendo surgir acordos prévios. Na quarta etapa, são criadas opções para resolver o conflito, enquanto na quinta etapa, se houver acordo, este é formalizado e assinado pelas partes. Caso não haja acordo, o mediador resume o progresso e encerra o processo de mediação. Evento Crítico ou Crise e Seu Gerenciamento Introdução O gerenciamento de crises no Brasil passou por uma fase inicial de falta de atenção e improvisação devido à formação inadequada e falta de conhecimento técnico. No entanto, desde os anos 1990, houve uma mudança significativa, com a publicação de doutrinas e o envolvimento de profissionais brasileiros no assunto, como Wanderley Mascarenhas de Souza, Roberto das Chagas Monteiro e Ângelo Salignac. Atualmente, a doutrina de gerenciamento de crises está bem estabelecida nos órgãos de Segurança Pública do país. As ocorrências policiais mal gerenciadas Quando as ocorrências policiais enfrentam crises mal gerenciadas, muitas vezes isso ocorre devido ao despreparo dos agentes envolvidos, apesar de existir uma doutrina estabelecida. O uso adequado das técnicas de gerenciamento de crises evita comportamentos amadores, embora ainda haja casos de desvio desses princípios devido a questões pessoais e rivalidades profissionais. Nos Estados Unidos, o tema recebe tratamento científico há mais de vinte anos, destacando sua importância e embasamento doutrinário. Crise Existem diversos conceitos de crise na doutrina, mas, em geral, ela é descrita como uma manifestação violenta e inesperada que rompe o equilíbrio normal, exigindo uma resposta especial para garantir uma solução aceitável. As crises ameaçam a vida, nosso bem jurídico mais importante, e podem ocorrer em qualquer atividade humana. A quem cabe o gerenciamento de uma crise? Geralmente, o gerenciamento de uma crise cabe à polícia, sendo crucial em sua gestão. É inadequado envolver religiosos, psicólogos, mídia, políticos ou outros, pois isso pode ter consequências graves. O objetivo principal é alcançar uma solução socialmente aceitável, garantindo a integridade das vítimas, respeitando a lei e restaurando a paz pública. Analisando um caso Em Garanhuns, Pernambuco, houve uma tentativa de assalto a uma farmácia em março de 2011, onde um dos assaltantes fez uma atendente refém. Apesar da ausência de um atirador de elite, as negociações com o assaltante duraram cerca de duas horas, conduzidas por um promotor de justiça. O desfecho ocorreu com a morte do assaltante após ameaçar esfaquear a vítima. A conduta do promotor de justiça em negociar com o assaltante é questionável à luz do que estudamos sobre o assunto. Atuação dos órgãos de Segurança Pública As crises geralmente envolvem eventos relacionados a crimes sob a esfera penal, com risco de vida e ações intencionais de uma ou mais pessoas. Exemplos incluem roubos com reféns, rebeliões em prisões, ameaças de bombas, atos terroristas, manifestações violentas e sequestros de aeronaves. Esses eventos exigem a intervenção dos órgãos de Segurança Pública devido à sua natureza violenta, repentina e rápida. Cenário de crise ● Os órgãos de Segurança Pública devem agir em crises com foco no interesse público, respeitando os princípios constitucionais e garantindo os Direitos Humanos. Ações irresponsáveis ou sem controle comprometem a reputação da instituição. Medidas mais drásticas, como o uso de atiradores de elite, devem obedecer aos princípios da proporcionalidade e legalidade para garantir uma solução aceitável. Características da crise As características essenciais de uma crise na Segurança Pública são: - Imprevisibilidade - Urgência - Ameaça de vida - Necessidadede postura organizacional não rotineira e planejamento especial. Imprevisibilidade, compressão de tempo e ameaça de vida A imprevisibilidade, a compressão do tempo e a ameaça à vida são características essenciais das crises na Segurança Pública: - Imprevisibilidade: Crises podem ocorrer em qualquer lugar, mesmo com medidas preventivas. Embora a prevenção seja importante, não garante que as crises não ocorram. É essencial estar preparado para enfrentá-las quando surgirem. - Compressão do tempo: Crises demandam uma resposta ágil e eficiente, pois envolvem ameaças à vida ou ao patrimônio. A preparação adequada dos agentes e a disponibilidade de recursos são fundamentais para lidar com eventos de crise sem improvisação, evitando resultados inaceitáveis. - Ameaça à vida: A ameaça à vida, seja de terceiros ou do próprio perpetrador da crise, é o aspecto central de uma crise. A preservação da vida é o objetivo primordial dos órgãos de Segurança Pública, que podem tomar medidas extremas, se necessário, para proteger as pessoas e a ordem pública. Necessidades As necessidades para o gerenciamento de crises na Segurança Pública incluem: Postura organizacional não rotineira: Os órgãos de Segurança Pública precisam estar preparados para atuar em crises a qualquer momento, o que demanda custos e transtornos operacionais. No entanto, esses transtornos podem ser minimizados com preparo contínuo e treinamento dos agentes. É crucial registrar e analisar as dificuldades encontradas em operações anteriores para melhorar o desempenho futuro. Exercícios simulados também são úteis para preparar os agentes para situações reais. ● Planejamento analítico especial: Cada crise é única, exigindo um planejamento flexível e adaptável. É essencial realizar uma análise detalhada das decisões a serem tomadas e como serão implementadas para mitigar impactos negativos, considerando os fatores imprevisíveis associados à crise. Considerações legais especiais O gerenciamento de crises visa preservar o bem jurídico tutelado, que é essencial para a existência da sociedade, conforme definição de Cláudio Brandão. Crime é a violação ou exposição a perigo desse bem. A ação humana para ser crime precisa ser típica, antijurídica e culpável. No entanto, ações típicas e antijurídicas podem não ser consideradas crimes em casos de ausência de culpabilidade. Profissionais de Segurança Pública podem adotar medidas drásticas, como matar um possível tomador de refém, amparados legalmente pela legítima defesa, que inclui a defesa de terceiros. A competência para atuar no gerenciamento de uma crise deve ser definida com base em aspectos legais ou por cooperação entre os órgãos de Segurança Pública. Gerenciamento da crise O gerenciamento de crises envolve resolver problemas fundamentados em possibilidades, demandando soluções únicas e uma análise cuidadosa. É crucial para os órgãos de Segurança Pública, pois atuam em nome do Estado e são responsáveis por antecipar, prevenir e resolver crises. A presença da imprensa pode amplificar os erros durante o processo. Resumidamente, o gerenciamento de crises significa prevenir, otimizar recursos e implementar soluções, segundo Paulo César Souza Cabral. A importância de Gerenciamento de Crises O gerenciamento de crises desempenha um papel crucial para os órgãos de Segurança Pública devido à existência de uma doutrina que orienta suas ações durante crises, fornecendo proteção legal aos agentes que agem de acordo com a lei. Três razões principais destacam sua importância: a responsabilidade das organizações policiais diante de ações legais, a natureza imprevisível e não seletiva das crises e a influência da mídia, que pode amplificar tanto ações positivas quanto falhas no gerenciamento das crises. Exigências de Estudos Especiais É crucial que os órgãos de Segurança Pública estejam preparados para lidar com crises, dada sua imprevisibilidade e o estresse envolvido. O gerenciamento de crises exige uma equipe bem treinada para evitar decisões equivocadas que possam prejudicar a situação. O treinamento e estudos especiais são essenciais para todos os envolvidos, desde o escalão superior até o efetivo de campo, visando à atualização da doutrina e à preparação para situações de crise. Exemplos recentes incluem o treinamento do CPRS na Bahia e o curso de gerenciamento de crise ministrado pela PM da Paraíba para o Bope do Rio de Janeiro. Doutrina de Evento Crítico ou Crise Objetivos No gerenciamento de crises, as autoridades de Segurança Pública têm dois objetivos prioritários: preservar a vida e respeitar a lei. Esses objetivos são agora princípios constitucionais, destacados em nossa legislação. A Constituição estabelece que a vida é inviolável e que a lei deve ser seguida. Salvar vidas vem antes de cumprir a lei, mostrando que a preservação da vida humana é fundamental, mesmo acima da lei. Vivência da profissão Na área de Segurança Pública, a experiência tem mostrado que, em certas situações, é mais sensato permitir que os perpetradores de uma crise escapem do que arriscar vidas humanas. Por exemplo, em um cenário onde um refém está no porta-malas de um carro roubado e os criminosos estão atirando contra os policiais, a opção de não revidar pode ser mais eficaz e inteligente, visando preservar vidas. Essa abordagem busca o equilíbrio entre objetivos, como preservar vidas, aplicar a lei e restabelecer a ordem pública. Esses princípios são destacados na doutrina brasileira, especialmente na orientação da SENASP e do manual de gerenciamento de crise da Polícia Federal. Doutrina de gerenciamento de crises Na doutrina de gerenciamento de crises, os principais objetivos são preservar vidas e aplicar a lei. Embora a maioria das crises envolvam reféns, há outras igualmente graves. Vamos analisar esses objetivos brevemente. Preservação da vida O objetivo da preservação da vida abrange os reféns, o público em geral e os profissionais de segurança pública. Medidas são adotadas para proteger todos os envolvidos durante uma crise, incluindo a prevenção de danos aos reféns causados pelo criminoso. Aplicação da lei A aplicação da lei durante uma crise envolve a prisão dos infratores responsáveis, a proteção do patrimônio e a garantia do estado de direito. É essencial que os criminosos sejam detidos para responderem perante a justiça, minimizando danos ao patrimônio e assegurando o funcionamento das instituições legais, promovendo a segurança e o restabelecimento da ordem pública. Critérios de ação – introdução A função de gerente de crise na Segurança Pública é desafiadora, envolvendo pressão constante e a responsabilidade de tomar decisões cruciais para salvar vidas. As decisões variam desde questões simples, como fornecer água, até solicitações complexas, como veículos para os sequestradores. Cada escolha deve ser feita com cautela, pois qualquer erro pode resultar em perigo para as vítimas. Critérios de ação – propriamente ditos Os critérios de ação, conforme ensinado pela doutrina, são guias para os gerentes de crise tomarem decisões. Eles incluem a Necessidade, onde uma decisão só é tomada se for essencial para resolver a crise; a Validade do Risco, onde a decisão só é executada se os benefícios superarem os riscos; e a Aceitabilidade, considerando não apenas a legalidade, mas também a moral e a ética. Classificação dos graus de risco Na avaliação de uma crise, os profissionais de Segurança Pública consideram o grau de risco, classificando as situações em uma escala padrão. Isso permite adotar medidas apropriadas. Por exemplo, o Grau 1 representa um alto risco, como um assalto a banco sem reféns, enquanto o Grau 4 é uma ameaça exótica, como um indivíduo ameaçando com material radioativo. Níveis de resposta Os níveis de resposta, associados à classificação de riscos, determinam a abordagem adequada para cada crise. A inteligência policial é fundamental para coletar informações essenciais. A classificação influencia o nível de resposta,conforme a tabela da SENASP (2008), variando de recursos locais a apoio especializado e comando geral, dependendo da gravidade da situação. Uma avaliação precisa do risco contribui para uma resposta eficaz, evitando atrasos desnecessários. Tipologia dos causadores de eventos críticos O Capitão Frank A. Bolz Junior, do Departamento de Polícia de Nova York, classifica os causadores de eventos críticos em três tipos: criminoso comum, emocionalmente perturbado e terrorista por motivação política. O criminoso comum busca cometer delitos, podendo acidentalmente iniciar uma crise ao fazer reféns. Os emocionalmente perturbados podem agir devido a problemas mentais ou emocionais, tornando a negociação mais desafiadora. Os terroristas políticos representam a maior preocupação devido à sua meticulosidade e periculosidade, especialmente em eventos de grande porte sediados pelo Brasil. Gerenciando Eventos Críticos - Aspectos Operacionais Alternativas táticas doutrinárias Antes de discutirmos as alternativas táticas doutrinárias, é fundamental reconhecer que qualquer profissional de Segurança Pública que se depara com uma crise deve agir prontamente, pois as medidas que ele adota desempenham um papel crucial na resolução do problema. Alternativas táticas doutrinárias – continuação As primeiras ações dos profissionais de Segurança Pública são cruciais para orientar o gerente da crise quando ele chegar. De acordo com a doutrina, três verbos são essenciais nesse contexto: conter, isolar e negociar. - Conter: Uma contenção eficaz é vital para permitir que as autoridades gerenciem a crise sem interferências externas. Também impede que os perpetradores busquem mais reféns ou expandam a crise. - Isolar: O objetivo é manter o local crítico totalmente isolado, sem contato com o mundo exterior, exceto pelas autoridades responsáveis pela negociação. O isolamento é geralmente realizado com fita zebrada, estabelecendo uma linha de polícia. Primeira alternativa tática – Negociação Após realizar a contenção e o isolamento, a primeira alternativa tática é a negociação, fundamental no gerenciamento de crises. Qualquer profissional de Segurança Pública pode iniciar essa etapa, não sendo necessário ser um negociador especializado. A negociação deve começar rapidamente para evitar medidas prejudiciais durante os momentos iniciais da crise, quando tanto as autoridades quanto os perpetradores estão tensos. As informações iniciais podem ser cruciais para uma análise mais precisa da situação. Técnicas não letais Após falhar a negociação, outra abordagem doutrinária para gerenciar uma crise é o uso de técnicas não letais. Essas técnicas visam resolver conflitos ou realizar diligências policiais sem causar mortes ou danos graves. Elas incluem armas, munições e equipamentos desenvolvidos para incapacitar sem causar ferimentos graves. O uso dessas técnicas requer habilidades técnicas para garantir sua eficácia e evitar danos irreparáveis. Tiro de comprometimento O tiro de comprometimento é uma das possíveis soluções para uma crise, envolvendo o uso de força letal contra os perpetradores. No entanto, sua aplicação requer considerações meticulosas, especialmente quando há múltiplos tomadores de reféns, exigindo precisão e avaliação cuidadosa dos riscos envolvidos. Intervenção tática A intervenção tática é a última opção em um gerenciamento de crise e envolve o uso de força letal. É uma alternativa arriscada que requer extremo cuidado, pois coloca em risco tanto os tomadores de reféns quanto os profissionais de segurança. Deve ser empregada apenas quando a vida dos reféns está severamente ameaçada e não há outra alternativa para evitar mortes. Perímetros táticos do local de crise É crucial estabelecer perímetros táticos ao lidar com uma crise, começando pelo isolamento do ponto crítico. Um isolamento eficaz facilita o gerenciamento da crise e aumenta as chances de uma resolução positiva. A falta de definição dos perímetros táticos pode resultar em caos e falta de controle na situação. O perímetro tático interno O perímetro tático interno é uma área restrita, conhecida como zona estéril, onde apenas os perpetradores da crise, os reféns (se houver) e os profissionais de Segurança Pública designados podem permanecer. É crucial manter a área livre de curiosos, exigindo vigilância ostensiva dos agentes de segurança para evitar violações. O efetivo regular do órgão é responsável por essa vigilância, mas deve permanecer atento para evitar falhas que possam comprometer o gerenciamento da crise. O perímetro tático externo O perímetro tático externo é uma área que separa o perímetro interno da área acessível ao público e à mídia, conhecida como zona tampão. Nele, estão localizados o posto de comando do comandante da cena de ação, o posto de comando tático da Unidade de Intervenção Tática e outros elementos como grupo de apoio técnico, inteligência, negociadores, atendimento médico e porta-voz. Nessa área, é permitida a presença de agentes não envolvidos diretamente no gerenciamento do evento crítico. Cada evento de crise requer uma adaptação específica aos seus requisitos. Posto de comando O posto de comando é crucial para o gerenciamento de uma crise, garantindo ao gerente o conforto necessário para reuniões com a equipe. Deve estar localizado dentro do perímetro externo, separado do posto de comando tático (PCT), para evitar interferências. Apesar de não haver uma regra fixa, sua configuração deve adequar-se à complexidade da crise. Componentes de uma equipe Uma equipe de gerenciamento de crise deve ser composta por: 1. Elemento de comando - o gerente da crise. 2. Elementos operacionais - equipe de negociadores, equipe de vigilância técnica/inteligência e unidade de intervenção tática. 3. Elementos de assessoria - incluindo assessores legais e de mídia, além de outros especialistas conforme a necessidade do caso. 4. Elementos de apoio - responsáveis por fornecer suporte administrativo e atender às necessidades básicas da equipe. Ensinamentos doutrinários do FBI Após entender os componentes de uma equipe de gerenciamento de crise, é importante considerar os ensinamentos doutrinários do FBI sobre a instalação de um posto de comando (PC). O instrutor Donald A. Basset, no curso da SENASP (2008), destaca alguns princípios fundamentais: 1. Definição de um PC: uma organização com uma cadeia de comando baseada na divisão de trabalhos e tarefas pré-determinados. 2. Necessidade de instalação: ocorre quando o número de pessoas envolvidas excede a capacidade do gerente da crise em administrá-las. 3. Requisitos básicos de um PC: incluem disponibilidade de comunicação, segurança com isolamento do público externo, boas acomodações e infraestrutura, proximidade ao ponto crítico, fácil acesso para as equipes de gerenciamento e um ambiente tranquilo para o gerente da crise. Teatro de operações e suas dificuldades Durante o gerenciamento de uma crise, os órgãos de Segurança Pública enfrentam diversas dificuldades, incluindo: - A necessidade contínua de manter o isolamento do local; - Equipamentos obsoletos ou inadequados para lidar com a crise; - Dificuldade em localizar autoridades solicitadas pelos perpetradores, como juízes; - Interferências externas; - Falta de autonomia dos órgãos de Segurança Pública; - A imprensa pode ser uma aliada se bem conduzida, mas também pode representar um desafio. As Fases de Gerenciamento de um Evento Crítico Introdução A doutrina dividiu o gerenciamento de crises em fases cronológicas para melhor eficiência. As fases são: Pré-confrontação, Resposta Imediata, Plano específico, Resolução e, posteriormente, a pós-confrontação. Este estudo apresentará um caso prático ocorrido na penitenciária de Contagem, Minas Gerais, com o objetivo de fornecer subsídios instrutivos e acadêmicos, sem desrespeitar qualquer pessoa ou instituição envolvida. Pré-confrontação A fase de Pré-confrontação, que ocorre antes da crise, é dedicada à preparação, prevençãoe antecipação de crises futuras. Os órgãos de Segurança Pública se preparam com arranjos técnicos, aquisição de equipamentos atualizados e seleção de pessoal para grupos táticos. Além disso, enfatiza-se a importância de antecipar possíveis crises. Pré-confrontação – continuação Durante a fase de Pré-confrontação, destaca-se a importância da antecipação e prevenção de crises futuras. Um exemplo disso é evidenciado em uma ocorrência policial em que detentos renderam uma equipe de cinegrafistas e policiais militares desarmados dentro de um pavilhão desativado. Isso ressalta a necessidade de medidas preventivas adequadas, como ter agentes penitenciários em vez de policiais militares para garantir a segurança da equipe de reportagem. Resposta imediata Após a fase de Pré-confrontação, ocorre a Resposta Imediata, que se inicia quando o órgão de Segurança Pública toma conhecimento da crise. Nessa fase crítica, o primeiro profissional presente no local desempenha um papel crucial ao adotar medidas como conter, isolar e negociar, além de acionar o grupo especializado para lidar com a crise. Essas fases estão interligadas, destacando a importância de uma ação rápida e coordenada diante da situação estressante. Resposta imediata – continuação No desdobramento da Resposta Imediata, diversas viaturas e policiais responderam ao chamado no presídio, incluindo um coronel cuja esposa foi feita refém. O coronel, emocionalmente afetado, liderou as negociações e foi trocado pela esposa, desobedecendo ao princípio de não trocar reféns. Além disso, outros coronéis, emocionalmente influenciados, assumiram as negociações, ignorando a equipe técnica responsável, o que resultou na retirada da equipe especializada e na entrega de um carro-forte aos sequestradores em troca da libertação de civis, enquanto os militares continuavam reféns. Essas ações violaram os princípios doutrinários, já que os negociadores não deveriam ter autoridade decisória, especialmente considerando a alta patente dos coronéis envolvidos. Plano específico Não havia um plano específico de gerenciamento da crise, como evidenciado pela falta de previsão de ação pelos negociadores. Após mais de 10 horas de deslocamento até Juiz de Fora, durante o qual as viaturas ficaram sem combustível, foram cedidas armas e outros equipamentos aos sequestradores. A situação demonstrou falta de controle e desvio dos princípios doutrinários, incluindo a concessão de armamento aos criminosos. Essa história destaca a necessidade de preparo dos órgãos de Segurança Pública para situações imprevistas, como o abastecimento de viaturas em locais não previamente designados. Plano específico – continuação No plano específico, começa-se a considerar soluções para a crise. Reforçam-se as medidas de contenção e isolamento, que, no caso analisado, não foram implementadas inicialmente. Os negociadores iniciais, diante da falta de preparo, foram substituídos pela equipe técnica do COE. A decisão de resolver a crise é tomada nesta fase, intensificando o treinamento para evitar contratempos. Exemplifica-se com a retomada da embaixada do Japão em Lima, Peru. Resolução Na fase de resolução, o plano específico deve ser colocado em prática. No estudo de caso analisado, não houve execução de nenhum plano, pois os sequestradores decidiram se render inesperadamente. Após negociações, os sequestradores libertaram o coronel e se renderam, encerrando a crise. No entanto, algumas ações adotadas pelos policiais, como o sacrifício de gatos para causar desconforto aos sequestradores, levantaram questões éticas e legais. Este caso destaca a importância de adotar ações moralmente aceitas e legais durante crises. Resolução – continuação Na resolução de uma crise, devemos adotar medidas específicas dependendo do desfecho: - Em caso de rendição, é crucial agir com cautela para evitar surpresas desagradáveis. - Se for necessário o uso de força letal, as ações incluem incapacitar os sequestradores, controlar os reféns (se houver), manter o local sob controle, socorrer os reféns, evacuá-los e seus sequestradores para locais seguros e identificar com segurança todos os reféns. Pós-confrontação Após o término da crise, é essencial realizar a recomposição dos recursos utilizados e preencher a documentação necessária. Além disso, é crucial fornecer apoio, inclusive psicológico, aos profissionais de Segurança Pública afetados. Medidas padrão devem ser tomadas, e uma reunião pós-crise deve ser agendada para avaliar os pontos positivos e negativos e melhorar os procedimentos futuros. Elementos do Uso da Força O uso da força Em dezembro de 2010, a Portaria Interministerial n.º 4.226 unificou os conceitos sobre o uso da força, estabelecendo definições claras. Destacamos dois conceitos cruciais: "força", como intervenção coercitiva para preservar a ordem pública, e "uso diferenciado da força", que envolve selecionar o nível apropriado de resposta a uma ameaça, visando minimizar danos. O uso de algemas A súmula do Supremo Tribunal (súmula vinculante 11) restringe o uso de algemas em operações midiáticas, visando preservar a segurança dos envolvidos. Profissionais de Segurança Pública devem estar cientes das limitações impostas pela súmula para evitar responsabilizações caso utilizem algemas de forma inadequada. Responsabilidades Destacam-se três tipos de responsabilidades: disciplinar civil (ou militar), penal e cível. A responsabilidade disciplinar varia conforme o regulamento de cada instituição. A responsabilidade civil recai sobre o Estado, mas o agente pode ser alvo de ação regressiva. Já a responsabilidade penal requer mais atenção. O uso indevido de algemas Alguns juristas sugerem que o uso indevido de algemas pode ser considerado como crime de abuso de autoridade, conforme a lei n.º 4.898/65. No entanto, esse crime requer dolo efetivo, o que pode ser difícil de provar. Caso o termo circunstanciado de ocorrência seja elaborado indevidamente contra um profissional de Segurança Pública, qualificando-o no crime de abuso de autoridade sem dolo, quem elaborou o termo estará cometendo abuso de autoridade. Em vez disso, a opção seria encaminhar uma reclamação ao STF, conforme o art. 103-A, §3º da Constituição. Modelos de uso diferenciado da força A doutrina ao longo dos anos tem proposto diversos modelos para o uso diferenciado da força, cada um com um nome associado ao autor. Esses modelos são detalhados na apostila do curso do Uso Diferenciado da Força da SENASP (2008, p. 5, módulo 2). Modelo FLETC O Modelo FLETC, aplicado pelo Centro de Treinamento da Polícia Federal de Glynco, EUA, utiliza uma escada para determinar as medidas a serem tomadas com base na percepção do profissional de Segurança Pública durante um evento crítico. Modelo Giliespie O Modelo Gillespie, apresentado no livro "Police – use of force – A line officer’s guide" de 1998, é dividido em colunas que representam a postura do agente criminoso na parte superior e a reação do profissional de Segurança Pública na parte inferior. Modelo Remsberg O Modelo Remsberg, do livro "The tactical edge – surviving high-risk patrol" de 1999, apresenta uma gradação na postura que o profissional de Segurança Pública deve adotar, usando o equipamento correspondente ou até mesmo sem equipamento, variando do menor grau até a utilização da arma de fogo. Este modelo enfatiza a postura do agente e a possibilidade de verbalização, mas não faz análise sobre a postura do agente criminoso. Modelo canadense No Modelo Canadense, são utilizados círculos concêntricos para ilustrar a ação do profissional de Segurança Pública em relação ao agente provocador do evento crítico. As reações variam de medidas amenas até o uso da arma letal, incluindo medidas intermediárias e não letais. Modelo Nashville O Modelo Nashville, usado pela Polícia Metropolitana de Nashville, EUA, emprega um plano cartesiano da Matemática. No eixo horizontal, estão os fatores de sujeição do perpetrador da crise,enquanto no eixo vertical estão as posturas que o profissional de Segurança Pública deve adotar em resposta às ações percebidas do perpetrador da crise. Modelo Phoenix O Modelo Phoenix apresenta uma abordagem simples, com duas colunas representando a postura do profissional de Segurança Pública em relação ao agente perpetrador da crise. É crucial manter uma proporção adequada entre a ação do causador da crise e a reação do profissional de Segurança Pública, garantindo o uso moderado dos meios. É importante entender os níveis de força que um profissional de Segurança Pública pode empregar. Níveis de força Os níveis de força que um profissional de Segurança Pública pode usar são definidos de acordo com a resistência apresentada pela pessoa abordada: 1. Cooperativo: A pessoa abordada coopera e respeita as instruções do profissional. 2. Resistência passiva: A pessoa dificulta o trabalho do profissional com questionamentos ou comportamentos que não são agressivos. 3. Resistência ativa: A pessoa apresenta comportamento agressivo, podendo ser não letal (sem armas) ou letal (com armas), exigindo uma reação proporcional. Nível de resposta do profissional de Segurança Pública Os níveis de resposta do profissional de Segurança Pública são definidos de acordo com a situação apresentada: 1. Nível Primário: - Presença ostensiva do profissional, que pode inibir o delito apenas pela sua presença. - Verbalização adequada, utilizando comunicação falada de acordo com a necessidade do caso. 2. Nível Secundário: - Controle de Contato: Técnicas preliminares de defesa pessoal para iniciar o diálogo. - Controle Físico: Utilização de técnicas de dominação para salvaguardar a integridade, sem uso de armamento letal. - Controle com IMPO (instrumentos de menor potencial ofensivo): Uso de equipamentos como bastão, gás, algemas, entre outros. - Uso dissuasivo de armas de fogo: Mostrar a arma de fogo como medida dissuasória, sem necessariamente dispará-la. 3. Nível Terciário: - Uso da arma de fogo como última opção, visando proteger a integridade física do profissional ou de terceiros, quando todas as outras medidas falharam. Armas não letais (menos letais) Armas menos letais são utilizadas pelos organismos de Segurança Pública brasileiros e incluem: 1. Gás lacrimogêneo: Utilizado para controle de distúrbios civis, causa irritação na visão e na garganta. 2. Granadas de luz e som: Produzem som alto e luz intensa para dispersar multidões. 3. Arma Eletrônica de Atordoamento (taser): Causa incapacidade temporária e perda de controle muscular. 4. Projétil de borracha: Usado para conter tumultos, mas deve ser direcionado com cuidado para evitar lesões graves. 5. Spray de pimenta: Causa irritação nos olhos e nas vias respiratórias, usado como arma de defesa pessoal ou para dispersar tumultos.