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Usos afetivos dos pronomes demonstrativos O texto que leremos a seguir ilustra a possibilidade de fazermos um uso conotativo dos pronomes. Além de construírem o sistema de refe- rência e manter a coesão textual, os pronomes também podem oferecer “pistas” para o leitor sobre como os referentes que eles substituem são “vistos” por quem os utiliza. Observe como o escritor Luis Fernando Ve- rissimo faz um uso claramente afetivo dos pronomes demonstrativos. Inimigos O apelido de Maria Teresa, para o Norberto, era “Quequinha”. Depois do casamento, sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Norberto pegava sua mão, carinhosamente, e começava: — Pois a Quequinha… E a Quequinha, dengosa, protestava: — Ora, Beto! Com o passar do tempo, o Norberto deixou de chamar a Maria Teresa de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia: — A mulher aqui… Ou, às vezes: — Esta mulherzinha… Mas nunca mais Quequinha. A piada a seguir, em circulação na internet, serve de base para a questão 5. Os pronomes A certa altura da aula, a professora de português ouve um zum-zum-zum no fundo da classe e dispara: — Joãozinho, me diz dois pronomes! — Quem? Eu? — diz ele, levantando-se. — Muito bem! Pode sentar! Disponível em: http://humortadela.uol.com.br/piadas/ piadas joaozinho 33.html . Acesso em: 15 fev. 2006. 5. Na piada, a professora parabeniza o aluno por ter respondido corre- tamente à pergunta feita. Quais foram os dois pronomes utilizados por Joãozinho? Classifique-os. A professora não deveria ter parabenizado o garoto por sua resposta. f Explique por quê. 240 U n id ad e 4 • C la ss es d e pa la vr as R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_gramatica_cap15_C.indd 240 2/12/10 2:52:38 PM (O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca em silêncio. O tempo usa armas químicas.) Com o tempo, Norberto passou a tratar a mulher por “Ela”. — Ela odeia o Charles Bronson. — Ah, não gosto mesmo. Deve-se dizer que o Norberto, a esta altura, embora a chamasse de Ela, ainda usava um vago gesto de mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer “essa aí” e a apontar com o queixo. — Essa aí… E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém. (O tempo, o tempo. O tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois outra…) Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, o Norberto nem olha na sua direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz: — Aquilo… VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 70-71. No texto, à medida que o tempo passa, a relação entre as personagens Norberto e Maria Teresa vai se transformando. O que, no início, era um grande caso de amor (marcado pelos apelidos carinhosos utilizados pelos dois) sofre os efeitos da passagem do tempo e, aos poucos, torna-se um casamento de acomodação, em que, no fim, os sinais de afeto são substituídos por referências depreciativas. Os pronomes utilizados, ao longo da narrativa, são as pistas que evidenciam o processo de afasta- mento vivido pelo casal. Primeiro, a forma diminutiva e carinhosa, Quequinha, é substituída pela expressão esta mulherzinha. Nesse caso, a combinação entre o pronome demonstrativo e o diminutivo mantém o caráter afetuoso, mas dá início ao processo de im- pessoalização no modo como Quequinha é tratada por Beto. A substituição do pronome demonstrativo (esta) pelo pessoal (ela) aumenta o grau de afastamento, porque generaliza a referência. Esta indica um refe- rente próximo. Ela pode se referir a qualquer mulher, inclusive a Quequinha. O fato de o pronome pessoal aparecer em maiúscula (“Deve-se dizer que o Nor- berto, a esta altura, embora a chamasse de Ela,...”) sugere que ele é empregado como um nome, e não como um pronome, o que torna ainda mais evidente a despersonalização da mulher. Na sequência, Beto muda novamente de pronome e passa a fazer um uso depreciativo do demonstrativo essa (essa aí). Nessa altura, o afastamento entre as personagens é muito grande e as atitudes de Norberto indicam que faz uma imagem negativa da esposa (“apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém”). O texto chega ao fim com o uso de um outro pronome demonstrativo (aquilo) para identificar Quequinha. Nesse ponto, ela foi transformada em um objeto desprezível. Isso fica evidente na esco- lha de um pronome neutro, que apaga até o gênero feminino da personagem. É a depreciação total. O texto de Luis Fernando Verissimo constrói um retrato significativo da evolução do relacionamento entre duas personagens — Norberto e Maria Teresa — ao longo de anos. Depois de conhecer a perspectiva de Norberto (e de ver como os pronomes foram utilizados para explicitá-la), sua tarefa será criar um texto narrativo em que a relação seja apresentada sob o ponto de vista de Quequinha. Em seu texto, você também deverá se valer dos pronomes para marcar o modo como Quequinha vê Norberto com o passar dos anos. Imagine uma situação em que um narrador em 3a pessoa recrie, da perspectiva de Quequinha, um pequeno histórico do relacionamento entre essas personagens, desde o momento em que começaram a namorar, até o presente, vinte anos mais tarde. Pratique 241 C ap ít u lo 1 5 • P ro no m e II R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_gramatica_cap15_C.indd 241 2/12/10 2:52:38 PM Coesão e coerência: a articulação textual A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo parecido a uma feitiçaria evocatória: as palavras ressuscitam revestidas de carne e osso, o substantivo, em sua majestade substancial, o adjetivo, roupa transparente que o veste e colore como um verniz, e o verbo, anjo do movimento que dá impulso à frase. Charles Baudelaire (poeta francês, 1821-1867). In: BARELLI, Ettore; PENACCHIETTI, Sergio. Dicionário das citações. Tradução de Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 314. Escrever um bom texto exige de nós a capacidade de estabelecer rela- ções claras entre as várias ideias a serem apresentadas. O desafio a ser enfrentado é descobrir a melhor maneira de construir essas relações com os recursos que a língua nos oferece. Pense, por exemplo, na construção de uma casa. As paredes são essen- ciais para a sua sustentação. No texto, as ideias, informações e argumentos equivalem aos tijolos que, dispostos lado a lado, permitem que as paredes de uma casa sejam erguidas. Mas, assim como os tijolos precisam de argamassa para mantê-los unidos, o texto precisa de elementos que estabeleçam uma ligação entre ideias, informações e argumentos. A “argamassa” textual se define em dois níveis diferentes. O primeiro deles é o aspecto formal, linguístico, alcançado pela escolha de palavras (elementos linguís ticos específicos) cuja função é justamente a de estabe- lecer referências e relações, articulando entre si as várias partes do texto. A isso chamamos de coesão textual. O segundo nível da “argamassa” textual é o da significação. Somente a seleção e a articulação de ideias, informações, argumentos e conceitos compatíveis entre si produzirão como resultado um texto claro. Nesse caso, como a articulação textual promove a construção do sentido, ela é chamada de coerência textual. Coerência: a construção do sentido A falta de coerência fica clara quando o leitor não é capaz de perceber de que modo as informações apresentadas em um texto se articulam. Observe a tira. MINDUIM Charles M. Schulz Depois de receber uma preocupante informação sobre seu cachorro e ser indagado sobre o que pretende fazer a respeito, Charlie Brown, sem sa- ber o que dizer, dá uma resposta absurda: “Não estou ouvindo... está muito escuro lá fora!”.Para o leitor da tira, fica evidente que Charlie pretende estabelecer uma relação causal entre “não ouvir” e “estar escuro”. O problema é que tal SCHULZ, Charles M. Minduim. Jornal da Tarde. São Paulo, 4 set. 2003. 242 U n id ad e 4 • C la ss es d e pa la vr as R ep ro du •‹ o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C —d ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_gramatica_cap15_C.indd 242 12/6/10 4:30 PM