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R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 22 U n id a d e A • A n at u re za d a v id a A revolução científica A chamada revolução científica foi um movimento que ocorreu na Europa durante os sécu- los XV, XVI e XVII. Nesse período a forma de encarar a natureza passou por mudanças radicais que estabeleceram as bases das concepções científicas modernas. A revolução científica está associada ao Renascimento, o amplo movimento intelectual europeu que procurou recuperar valores e modelos da Antiguidade greco-romana, renovando as artes plásticas, a arquitetura, as letras e a organização política e econômica da sociedade. O Renascimento começou na Itália, por volta do século XIV, e intensificou-se com a tomada da cidade de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453. Este evento pôs fim a 1.100 anos de existência do Império Romano Bizantino e provocou o êxodo de estudiosos de Constantinopla para o oeste europeu, particularmente a Itália. Essa migração de intelectuais bizantinos propiciou a reintrodução de muitos textos greco-romanos na Europa ocidental. Figura 1.6 Ilustração sobre uma aula de anatomia durante o Renascimento. A fé nos textos clássicos era tamanha que qualquer inconsistência entre o observado na dissecação e o descrito no livro era considerada defeito do cadáver, pois o livro é que conteria a verdade. Figura 1.7 Ilustração de uma etapa da dissecação da cavidade abdominal humana, contida no quinto volume da obra De humani corporis fabrica, publicada por Andreas Vesalius em 1543. Durante os séculos XV e XVI, a intelectualidade europeia estava des- lumbrada com a restauração do antigo conhecimento sobre a natureza e com a facilidade de disseminação das novas ideias por meio da forma de impressão que o alemão Johann Gensfleish Gutenberg (1397?-1468) inven- tara em 1440. Os textos clássicos eram, então, a mais importante fonte de conhecimento; as especulações que eles traziam sobre fenômenos naturais eram muitas vezes aceitas dogmaticamente, como se fossem verdades incontestáveis. Entretanto, essa idolatria à autoridade dos antigos logo foi questionada pelos novos estudiosos da natureza. (Fig. 1.6) Um dos primeiros a desafiar abertamente a infalibilidade dos antigos conhecimentos foi o cientista polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). Na época, a Igreja defendia as ideias de Aristóteles e de Ptolomeu sobre o universo. De acordo com essas ideias, a Terra ocupava o centro do universo (modelo geocêntrico) e, sendo a humanidade a mais importante criação de Deus, era óbvio pensar que ela devia ocupar uma posição central no universo e na criação. Copérnico formulou um modelo cósmico muito mais consis- tente, em que o Sol ocupava a posição central, com os planetas girando ao redor (modelo heliocêntrico). Essas ideias já haviam sido propostas, séculos antes, por pensadores gregos, hindus e mulçumanos. Copérnico publicou sua teoria heliocêntrica (ou heliocentrismo) no livro De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções das esferas celestes). O primeiro exemplar impresso desse livro chegou às mãos de Copérnico exatamente no dia de sua morte, em 24 de maio de 1543; ele continha um prefácio anônimo, adicionado sorrateiramente pelo teólogo luterano Andreas Osiander, alertando que a ideia de o Sol ser o centro do sistema solar, ali apresentada, não era uma verdade e sim um artifício matemático para calcular as posições dos planetas. A farsa só foi desmascarada 50 anos mais tarde pelo astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), que restabeleceu a ideia original de Copérnico. Na área da Biologia, um dos principais contestadores dos textos clás- sicos foi o anatomista belga Andreas Vesalius (1514-1564); em 1543, ele publicou uma obra em sete volumes, intitulada De humani corporis fabrica (Da organização do corpo humano), considerada uma das mais influentes obras de Anatomia Humana de todos os tempos. Ilustrada com exatidão por artistas competentes, a obra de Vesalius apresentava um exame acurado dos órgãos e de toda a estrutura do corpo humano, baseado em dissecações cuidadosas de cadáveres. Nela, Vesalius corrigiu muitos dos erros de Galeno e estabeleceu a importância da dissecação, da observação e de uma visão mecanicista da anatomia para a compreensão do funcio- namento corporal. (Fig. 1.7) R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 C a p ít u lo 1 • B io lo g ia e c iê n ci a Seção 1.2 Objetivos❱❱❱❱ Familiarizar-se CCCCCCC com conceitos e procedimentos empregados pelos cientistas e perceber a possibilidade de aplicá-los em situações do cotidiano. Reconhecer os CCCCCCC papéis da observação, da formulação de hipóteses e da experimentação nos procedimentos científicos. Distinguir fato, CCCCCCC hipótese, lei e teoria. Relacionar ciência CCCCCCC e tecnologia. Termos e conceitos❱❱❱❱ método hipotético- • -dedutivo hipótese• dedução• experimentação• teoria• lei científica• Procedimentos em ciência 1 Uma nova forma de estudar a natureza Os trabalhos de Copérnico e de Vesalius fortaleceram a revolução cientí- fica ao romper com o procedimento medieval de interpretar a natureza com base em escritos clássicos e teológicos. Por isso, esses trabalhos marcam o início da ciência moderna, que se consolidou no decorrer do século XVII e cuja característica principal foi a elaboração de novos métodos para o estudo da natureza. Esses novos métodos fundamentavam-se na evidência empírica, ou seja, naquilo que pode ser percebido por meio de nossos sentidos, aliada à importância da Matemática na descrição e interpretação dos fenômenos naturais; por outro lado, descartavam explicações baseadas nos textos clássicos e na Bíblia. Dentre os proponentes e divulgadores das novas ideias, destacam-se o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) e o físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Francis Bacon recusava-se a aceitar tanto os dogmas elaborados a partir dos escritos de Aristóteles e outros sábios antigos quanto as “verdades reveladas” contidas nos textos religiosos. A seu ver, as explicações para os fenômenos da natureza deviam basear-se na observação empírica e não nos livros clássicos. Assim, para determinar o número de dentes do cavalo, por exemplo, era melhor contá-los diretamente nesses animais, em vez de simplesmente aceitar o valor estimado por Aristóteles séculos atrás. Em resumo, Bacon propunha que o estudo da natureza devia começar pela observação dos fatos e não pela fé nos livros. (Fig. 1.8) Uma preocupação central de Francis Bacon foi a elaboração de procedi- mentos padronizados, que permitissem chegar a explicações válidas para os fenômenos naturais. Em uma série de textos publicados entre 1606 e 1626, ano de sua morte, o filósofo inglês procurou estabelecer métodos para organizar as observações da natureza. Ele afirmava que, partindo de casos particulares, era possível chegar a causas ou explicações gerais para determinado fenômeno, método conhecido como indução. Bacon difundiu o procedimento indutivo na pesquisa da natureza, embora não tenha conseguido explicar claramente como, a partir de fatos isolados, se podia obter uma explicação geral. Galileu Galilei, apesar de católico fervoroso, combateu a física aris- totélica defendida pela Igreja cristã da época. Ele discordava de alguns procedimentos utilizados por Aristóteles na interpretação dos fenôme- nos naturais e afirmava que tais fenômenos deviam ser compreendidos a partir da experimentação e da abordagem matemática. Além disso, Galileu acrescentou ao procedimento baconiano a ideia de que era pre- ciso submeter a testes a explicação para um fenômeno natural, com o objetivo de verificar se ela era falsa ou verdadeira. A ideia de testar hipó- teses aparece em diversos momentosna história da ciência; o primeiro a sugeri-la parece ter sido Francis Bacon, mas foi Galileu quem a expôs com clareza. (Fig. 1.9) Figura 1.8 Retrato de Francis Bacon, filósofo inglês que propôs a utilização de métodos rigorosos para estudar a natureza, sendo um precursor da ciência moderna. R ep ro d uç ão p ro ib id a. A rt .1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 24 U n id a d e A • A n at u re za d a v id a 2 O método hipotético-dedutivo O principal objetivo da ciência é fornecer explicações para os fenômenos da natureza. Essas explicações são formuladas e testadas por meio de procedimentos rigorosos, dentre os quais se destaca o método hipotético-dedutivo, também chamado método científico. O processo científico começa sempre com alguma observação que leva o observador a per- guntar: “Por que tal fenômeno ocorre?” ou “Qual a relação entre determinados fatos?”. Essas perguntas ocorrem quando ainda não há explicação para um fato observado, ou quando as expli- cações existentes não são consideradas satisfatórias. Em ciência, um problema é uma pergunta a que não se consegue responder diretamente com o conhecimento vigente. Como disse o filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994), “[…] cada problema surge da descoberta de que algo não está de acordo com nosso suposto conhecimento; ou, examinado em termos lógicos, da descoberta de uma contradição interna entre nosso suposto conhecimento e os fatos”. Diante do problema, o cientista passa a imaginar possíveis explicações, ou hipóteses, capazes de solucioná-lo. Um dos passos mais difíceis no procedimento científico é definir a pergunta a ser feita, identificando claramente o problema para, então, formular as hipóteses e as estraté- gias para testá-las. Embora se possa dizer que uma hipótese científica é como um palpite sobre a possível causa de um fenômeno, ela não é um palpite qualquer. Para formular a hipótese, o cientista analisa, interpreta e reúne as informações disponíveis sobre o assunto. Uma condição fundamental para a elaboração de uma hipótese científica é a existência da possibilidade de submetê-la a testes, que permitam verificar se ela é falsa ou “verdadeira”. Mais adiante explica- remos o uso de aspas na palavra “verdadeira”. Por sua preocupação em estabelecer procedimentos para estudar a natureza, Francis Bacon é considerado o fundador da Filosofia da Ciência. Galileu Galilei, por sua vez, é considerado o “pai” da Física moderna e da ciência experimental. As ideias de Bacon e de Galileu, entre outros estudiosos, foram ampliadas e modificadas no decorrer do século XVII, originando o método hipotético-dedutivo, que veremos a seguir. Figura 1.9 Folha de rosto do livro Il Saggiatore (“O ensaiador”), escrito por Galileu Galilei e publicado em 1623. A ilustração expressa, por meio de ícones, a convicção de que a ciência e a Matemática são os pilares do estudo da natureza. A ciência é representada pela imagem feminina à esquerda, cuja cabeça envolta por raios indica a mente iluminada pela luz da razão. Em uma das mãos, ela segura um livro que contém os fatos sobre o universo, representado pela esfera, na outra mão. A Matemática é representada pela figura feminina à direita, cuja coroa a qualifica como a rainha das disciplinas. Em uma das mãos ela tem um compasso, utilizado para desenhar as trajetórias dos astros, indicadas na esfera celeste, na outra mão.