Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

PSICOBIOLOGIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
• Descrever o sistema de recompensa do cérebro.
• Explicar uso e abuso de substâncias.
• Distinguir drogas depressoras das estimulantes da atividade mental.
Introdução
Como as drogas de abuso são um frequente problema de saúde pública, é im-
portante compreender os motivos pelos quais determinado indivíduo não apenas 
procura uma droga, como também pode ficar dependente dela. As drogas de 
abuso apresentam diferentes efeitos e mecanismos de ação, que precisam ser bem 
compreendidos para determinar como as diferentes ferramentas farmacológicas 
e não farmacológicas podem auxiliar no tratamento da adição a drogas.
Neste capítulo, você vai estudar o papel do circuito de recompensa no desen-
volvimento da dependência a drogas, assim como os fenômenos de tolerância e 
síndrome de abstinência associados ao uso abusivo de substâncias. Além disso, 
você verá exemplos das principais drogas de abuso de acordo com seus efeitos 
e mecanismos de ação.
A drogadição 
e o circuito de 
recompensa 
do cérebro
Pietro Maria Chagas
O circuito mesolímbico e a recompensa
As drogas de abuso são, a princípio, consumidas devido a suas propriedades 
hedônicas, ou seja, de causarem prazer ou euforia. Seu uso muitas vezes 
apresenta potencial aditivo, ou seja, capacidade de produzir dependência 
fisiológica e/ou psicológica no usuário (RANG et al., 2016).
Enquanto a dependência fisiológica está relacionada à adaptação do 
organismo aos efeitos farmacológicos da droga, a dependência psicológica 
parece estar relacionada à necessidade do usuário reexperimentar os efeitos 
recompensadores associados ao uso da substância aditiva. Esses efeitos 
recompensadores parecem estar extensamente associados ao sistema lím-
bico, e mais precisamente a regiões associadas a neurônios mesolímbicos 
dopaminérgicos, conhecidas como sistema de recompensa (RANG et al., 2016; 
PINEL, 2005).
Todas as drogas de abuso apresentam em comum o fato de ativarem 
diretamente o sistema de recompensa, que está envolvido no reforço de 
comportamentos e na produção de memórias. Muitas vezes, essa ativação 
do sistema de recompensa é intensa a ponto de fazer atividades normais 
serem negligenciadas (RANG et al., 2016; PINEL, 2005).
Sistema límbico
O sistema límbico abrange um grupo de estruturas que circunda a parte 
superior do tronco encefálico e do copo caloso, localizadas na borda medial 
de cada hemisfério cerebral e do diencéfalo, como representado na Figura 1. 
Seus componentes incluem partes do rinencéfalo e do diencéfalo e a amígdala 
(MARIEB; HOEHN, 2009; VANPUTTE; REGAN; RUSSO, 2016)
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro2
Figura 1. Sistema límbico e estruturas associas do hemisfério cerebral direito.
Fonte: Vanputte, Regan e Russo (2016, p. 442).
O sistema límbico exerce um papel central em funções básicas de so-
brevivência, como a memória, a reprodução e a nutrição, e muitas vezes é 
conhecido como cérebro emocional ou afetivo. O processamento das emoções 
é complexo: primeiramente, os estímulos sensoriais chegam ao córtex cerebral, 
onde cria-se uma percepção do mundo; em seguida, a informação é integrada 
por áreas de associação e passada para o sistema límbico, o qual gera a 
emoção e comportamentos associados. Quando esse sistema é estimulado, 
as reações podem ir de dor intensa a prazer extremo (SILVERTHORN, 2017).
Sendo assim, o sistema límbico é bastante associado à motivação, ou 
seja, aos sinais internos que determinam comportamentos voluntários. Entre 
esses comportamentos, podemos mencionar os hábitos e necessidades como 
comer, beber e ter relações sexuais. Alguns desses estados motivacionais 
são conhecidos como impulsos, e geralmente cessam quando se atinge um 
certo nível de satisfação ou saciedade, ainda que isso não seja uma regra 
(SILVERTHORN, 2017). 
O prazer, por outro lado, é um estado motivacional muitas vezes relacio-
nado ao comportamento aditivo, associado ao uso abusivo de drogas. Drogas 
aditivas apresentam potencial de ativar regiões do encéfalo associadas a 
sensação de prazer. Outros comportamentos aditivos que podem também ser 
citados incluem jogos de azar, redes sociais e até mesmo comportamentos 
compulsivos que envolvem a automutilação (SILVERTHORN, 2017). 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 3
Sistema de recompensa
A via mesolímbica, mais conhecida como sistema de recompensa, é formada 
por um circuito de neurônios dopaminérgicos envolvido na modulação de 
respostas a estímulos relacionados a sensações de prazer. Os neurônios que 
compõem esse sistema têm seus corpos celulares na área tegmental ventral do 
mesencéfalo e projetam seus axônios ao nucleus accumbens (NAc), entre outras 
regiões, como o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo (PINEL, 2005).
Uma característica comum a vários tipos de substâncias psicoativas é sua 
capacidade de produzir uma experiência recompensadora, ou seja, causar 
sensações prazerosas como melhora do humor ou sentimentos de euforia 
ou calma. Segundo Pinel (2005), Katzung e Trevor (2017) e Rang et al. (2016), 
todas as drogas com potencial aditivo testadas até hoje ativam o sistema de 
recompensa cerebral, elevando os níveis de dopamina no NAc.
A ativação do sistema de recompensa pode acontecer por diferentes 
mecanismos diretos ou indiretos, que acabam servindo de critério para a 
divisão das drogas em três classes, conforme apresentado na Figura 2. A 
primeira classe, que contém opioides, canabinoides e alucinógenos, exercem 
sua ação por meio de receptores acoplados à proteína Gio. A segunda classe 
compreende a nicotina, o álcool e os benzodiazepínicos, que interagem com 
receptores ionotrópicos e canais iônicos. A última classe, constituída pela 
cocaína, pelas anfetaminas e pelo ecstasy, liga-se a transportadores de 
monoaminas (KATZUNG; TREVOR, 2017).
Figura 2. Drogas de abuso atuando sobre o circuito de recompensa.
Fonte: Katzung e Trevor (2017, p. 556).
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro4
Estudos em animais concluem que a liberação de dopamina pelo sistema 
de recompensa pode ser desencadeada tanto pela droga de abuso em si 
quanto pelos estímulos e ambientes associados. Especula-se que a via meso-
límbica desempenha um papel relacionado à predição de um comportamento 
recompensador e que os sistemas de aprendizagem e memória têm grande 
importância no desenvolvimento da adição a drogas. Mesmo comportamentos 
que não dependem de substâncias químicas, como a compulsão por compras, 
jogos de azar ou comportamentos de automutilação, compartilham muitas 
características clínicas da adição (PINEL, 2005; KATZUNG; TREVOR, 2017; SIL-
VERTHORN, 2017).
Após ter experimentado os efeitos recompensadores de uma droga de 
abuso, a tendência é que o indivíduo deseje repetir a experiência, exibindo 
comportamento de recaídas constantes e fissura intensa por drogas. Uma ca-
racterística extremamente importante dos transtornos por uso de substâncias 
é que a alteração dos circuitos cerebrais geralmente persiste mesmo após o 
processo de desintoxicação. Uma abordagem de longo prazo muitas vezes é 
aconselhada para o tratamento dos efeitos persistentes da droga, podendo 
muitas vezes exigir apoio de uma equipe multidisciplinar especializada para 
o tratamento (PINEL, 2005; KATZUNG; TREVOR, 2017).
Uso e abuso de substâncias
O critério pelo qual uma substância específica deve ser considerada uma 
droga de abuso é uma questão ampla e complexa. Nesse contexto, são muitas 
vezes consideradas como drogas de abuso as substâncias com características 
psicoativas, ou seja, que influenciam as emoções, percepções e comporta-
mentos do usuário (FELDMAN, 2015; RANG et al., 2016). 
No bloco de F10-F19 (Transtornos Mentais e de Comportamento Decorrente 
do Uso de Substâncias Psicoativas), a Classificação Estatística Internacional 
de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) aborda uma 
série de transtornos induzidos por diferentes substâncias químicas. Nesse 
âmbito,podemos citar fármacos tradicionalmente usados para fins medicinais 
(como benzodiazepínicos e opioides), substâncias não terapêuticas legais em 
muitos países (como nicotina e álcool) e muitas drogas ilegais (como cocaína 
e ecstasy) (DALGALARRONDO, 2019).
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (AME-
RICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014), descreve os seguintes critérios para 
diagnóstico de transtornos relacionados ao uso recorrente de substâncias e 
transtornos aditivos (DALGALARRONDO, 2019).
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 5
 � Baixo controle sobre o uso:
 ■ uso em quantidades maiores ou ao longo de um período maior de 
tempo;
 ■ desejo persistente de reduzir ou regular o uso ou vários esforços 
malsucedidos;
 ■ o indivíduo pode gastar muito tempo para obter, usar ou se recuperar;
 ■ a fissura.
 � Prejuízo social associado:
 ■ fracasso nas obrigações no trabalho, na escola ou no lar;
 ■ uso da substância apesar de apresentar problemas sociais ou 
interpessoais;
 ■ atividades de natureza social, profissional ou recreativa podem 
ser reduzidas.
 � Uso de risco da substância:
 ■ uso contínuo em situações de risco físico;
 ■ uso a despeito de conhecimento de risco físico.
 � Fenômenos farmacológicos:
 ■ tolerância;
 ■ síndrome de abstinência.
No mesmo capítulo, “Transtornos Induzidos por Substâncias”, o DSM-5 
ainda aborda questões como intoxicação, abstinência e outros transtornos 
mentais, como transtornos psicóticos e transtornos depressivos, induzidos 
por substância ou medicamento (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014; 
DALGALARRONDO, 2019).
Seja como for, é preciso ressaltar que os mecanismos farmacológicos não 
são os únicos determinantes no abuso de substâncias, pois outros fatores 
podem contribuir para levar à drogadição. Dentre esses componentes, pode-se 
mencionar características de personalidade, comportamentos de risco, idade 
em que a droga é usada pela primeira vez, experiência com outras drogas, 
estado nutricional e diversos fatores sociais (RANG et al., 2016).
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro6
Numa série de estudos mundialmente conhecidos como rat park, o 
professor emérito Bruce Alexander e seus colegas da Simon Fraser 
University, no Canadá, conduziram diversos experimentos sobre o uso de drogas 
por ratos quando em ambientes com diferentes características (GAGE; SUM-
NALL, 2019). Nesses experimentos, observou-se que ratos em ambientes com 
liberdade e entretenimento (verdadeiros parques, como sugere o apelido dos 
estudos) consumiam menos uma solução contendo morfina do que aqueles 
em confinamento isolado, sem liberdade nem entretenimento, incluindo ratos 
que já haviam sido pré-expostos à solução anteriormente. Os pesquisadores 
buscaram quebrar paradigmas de que, uma vez em contato com drogas, os 
animais tornam-se incapazes de viver sem elas em todo e qualquer contexto.
Os resultados desse estudo também buscaram trazer visibilidade ao fato de 
diversos problemas sociais no ambiente em que o sujeito está inserido. Sendo 
assim, variáveis ambientais como redes de apoio e contatos sociais, disponi-
bilidade e custo da droga, programas educacionais e atitudes da sociedade 
relativas ao uso de drogas e a existência de alternativas podem influenciar 
consideravelmente a probabilidade de uso e adição.
Danos causados pelo abuso drogas
Todas as drogas de uso abusivo podem ser danosas em extensão variável. Os 
danos podem estar diretamente relacionados à dose administrada, principal-
mente a sobredosagem (vide depressão respiratória relacionada a opioides); 
aos efeitos em outras locais que não o sistema nervoso (como necrose do 
septo nasal associada ao uso crônico de cocaína); ao aumento de risco de 
infecções associadas à via de administração (incluindo a transmissão do 
vírus da hepatite B e da imunodeficiência humana); e a outras doenças não 
relacionadas com as ações específicas da drogas (como aumento do risco de 
câncer associado ao alcatrão presente na fumaça do tabaco). Ademais, pode-
mos citar o dado advindo de susceptibilidade a doenças psicóticas (psicose 
associada ao uso de substâncias), bem como sinais e sintomas relacionados 
a dependência fisiológica e psicológica (KATZUNG; TREVOR, 2017).
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 7
Uma questão complexa relacionada ao uso e abuso de substâncias 
é a relativização dos danos associados a drogas lícitas e a estigma-
tização de drogas ilícitas, o que muitas vezes é estimulado pela legislação. Um 
estudo de 2010 realizado pelo Comitê Científico Independente para Drogas na 
Grã-Bretanha elaborou uma escala que abordava danos induzidos por drogas 
tanto aos usuários quanto à sociedade. Nesse estudo, o álcool apareceu em 
primeiro lugar como droga mais nociva, superando até mesmo o crack e a 
heroína, enquanto drogas como ecstasy e LSD ficaram, respectivamente, em 
17º e 18º entre 20 drogas avaliadas (NUTT; KING; PHILLIPS, 2010).
Estudos estimam que, apenas no Brasil, drogas legalizadas como o álcool e 
o tabaco podem custar aos cofres públicos respectivamente na faixa de R$ 372 
bilhões e R$ 57 bilhões em gastos anuais diretos e indiretos. Em contrapartida, 
drogas por muito tempo estereotipadas estão sendo estudadas devido ao seu 
potencial terapêutico, incluindo a maconha e seus compostos, que possuem 
propriedades antieméticas e anticonvulsivantes, e o LSD e a psilocibina, no 
tratamento de doenças psiquiátricas (BRASIL, 2021; UNIFESP, 2017).
Tolerância e síndrome de abstinência
A tolerância, nesse contexto, diz respeito à diminuição no efeito farmacoló-
gico com a administração repetida de uma droga, a qual se desenvolve ao 
longo do tempo. A tolerância está profundamente relacionada à síndrome de 
abstinência na retirada abrupta de uma droga, embora não seja observada 
em todas as drogas (RANG et al., 2016).
Alguns indivíduos podem apresentar tolerância inata a certas drogas, 
observada desde o primeiro uso e descrita como uma sensibilidade menor aos 
seus efeitos. Já a tolerância adquirida à exposição à droga pode estar relacio-
nada a diversos mecanismos, como a farmacocinética e a farmacodinâmica 
da droga. Enquanto a tolerância farmacocinética envolve alterações na dis-
tribuição e metabolismo, e consequentemente diminuição nas concentrações 
sanguíneas da droga, a tolerância farmacodinâmica envolve modificações nos 
sítios de ação, como na quantidade ou afinidade de receptores, resultando 
numa resposta atenuada (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012).
Nem todos os efeitos de determinada substância desenvolvem tolerância 
ao mesmo tempo — a tolerância aos efeitos euforigênicos instala-se de forma 
geralmente rápida, enquanto a tolerância a efeitos relacionados a funções 
vitais, como respiração e pressão arterial, tende a se desenvolver de forma 
mais lenta. Por isso, a busca de usuários crônicos em reexperimentar a euforia 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro8
de experiências prévias pode levar à administração de doses potencialmente 
fatais (RANG et al., 2016; BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012).
Cabe mencionar que substâncias químicas podem apresentar tolerância 
cruzada com drogas que apresentem mecanismos de ação semelhantes. Sendo 
assim, duas abordagens podem ser tentadas em processos de desintoxicação 
de indivíduos que apresentem sintomas de dependência: a administração 
de doses progressivamente menores da droga para evitar os sintomas de 
abstinência ou o uso de fármacos de mesma categoria farmacológica, mas 
com menos efeitos adversos (como o uso de metadona para o tratamento da 
dependência de heroína) (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012).
A síndrome de retirada ou abstinência é uma condição em que são expe-
rimentados efeitos fisiológicos adversos após a cessação do uso contínuo de 
uma droga, assim como a administração de um antagonista. Esses sintomas 
de retirada são característicos de cada tipo de droga utilizada e tendem a ser 
contrários aos efeitos originais produzidos porcada droga. Como exemplo, 
a interrupção súbita de um agonista opioide, o qual produz normalmente 
constrição pupilar e diminuição da frequência cardíaca, leva a dilatação da 
pupila e taquicardia (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012).
Ao passo que algumas síndromes de abstinência podem ser leves (Canna-
bis e cafeína), outras podem ser extremamente desagradáveis (heroína) ou 
até potencialmente fatais (delirium tremens associado à retirada do álcool). 
Os efeitos da retirada podem persistir por dias e a retirada abrupta muitas 
vezes é desaconselhada, pois pode dificultar a adesão ao tratamento da 
dependência (RANG et al., 2016).
Classificação de drogas de abuso quanto a 
seus efeitos
As drogas de abuso abrangem um grupo bastante heterogêneo quanto aos 
alvos farmacológicos em que atuam. Diversas são as maneiras como essas 
substâncias podem ser classificadas. Uma delas se dá pelo critério do poten-
cial de causar dependência, enquanto outra classificação se baseia nos tipos 
de efeitos observados, podendo ser divididas em estimulantes do sistema 
nervoso central (SNC), depressores do SNC (o que inclui os narcóticos) e 
alucinógenos ou psicomiméticos (Figura 3) (WHALEN; FINKEL; PANAVELIL, 2016).
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 9
Figura 3. O tamanho de cada seta azul representa o potencial relativo de dependência física 
de substâncias comumente abusadas, classificadas horizontalmente pelos tipos de efeitos 
observados.
Fonte: Whalen, Finkel e Panavelil (2016, p. 206).
Estimulantes do SNC
Substâncias estimulantes apresentam efeitos de excitação do SNC e geral-
mente causam sintomas como aumento da pressão arterial e da tensão mus-
cular. Dentre elas, o tabaco e sua substância ativa, a nicotina, sobressaem-se 
quanto ao número de usuários. Extraído das folhas de Nicotiana tabacum, 
o tabaco é fumado principalmente em cigarros, embora também existam 
outras apresentações. A nicotina também pode ser administrada na forma 
de adesivos transdérmicos ou chicletes como terapia de substituição para 
cessar o tabagismo. A nicotina atua sobre receptores nicotínicos de acetilcolina 
neuronais (nAChR), os quais aumentam a liberação de neurotransmissores e 
causam excitação neuronal. Essa substância apresenta um elevado potencial 
aditivo, e mesmo indivíduos com desejo de parar de fumar apresentam baixa 
taxa de sucesso em largar o hábito (FELDMAN, 2015; KATZUNG; TREVOR, 2017).
Dentre seus efeitos no SNC, o tabaco causa sensação de acordar quando 
o indivíduo está sonolento, de calma quando está tenso e de relaxamento 
muscular. Sua síndrome de abstinência é caracterizada por irritabilidade e 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro10
ansiedade, dificuldade de concentração, aumento do apetite, entre outros 
sintomas. Medicamentos como vareniciclina (agonista parcial de nAChR) e 
bupropiona (antagonista de nAChR) são alternativas no tratamento da de-
pendência (KATZUNG; TREVOR, 2017; RANG et al., 2016). Cabe salientar também 
que o tabaco apresenta outros efeitos danosos, relacionados ao alcatrão, à 
nicotina e a outras substâncias tóxicas presentes. Por esse motivo, o taba-
gismo é considerado uma das causas de morte mais passíveis de prevenção 
(RANG et al., 2016).
Por sua vez, o cloridrato de cocaína é um alcaloide extraído das folhas 
da coca (Erythroxylum coca), geralmente administrado pela via nasal. Já o 
crack é a base livre da cocaína, administrado através do fumo ou injetado, 
levando a efeitos mais rápidos e intensos. A cocaína causa anestesia local, 
redução do apetite e estimulação do SNC, devido principalmente à inibição 
dos transportadores de dopamina. Essa substância apresenta como efeitos 
psicológicos a melhora da atenção e a sensação de autoconfiança e bem-estar, 
acompanhados de comportamento estereotipado, paranoia e irritabilidade. 
Apresenta síndrome de abstinência branda, ainda que seja relacionada a 
intenso risco de drogadição (KATZUNG; TREVOR, 2017; RANG et al., 2016).
Os derivados anfetamínicos são substâncias químicas que interferem 
principalmente no transportador vesicular de monoaminas. Nesse âmbito, 
podem ser citados fármacos prescritos para o tratamento do transtorno de 
déficit de atenção e hiperatividade, assim como substâncias proscritas como 
a metanfetamina, de elevado poder aditivo (RANG et al., 2016; BRUNTON; 
CHABNER; KNOLLMANN, 2012).
Por último, dentre os estimulantes do SNC não podemos esquecer da 
cafeína, uma das substâncias psicoativas mais amplamente utilizadas no 
mundo. A cafeína apresenta como principal mecanismo de ação o antago-
nismo de receptores de adenosina, diminuindo o sono e o cansaço. Embora a 
tolerância à cafeína desenvolva-se rapidamente, ela apresenta uma síndrome 
de abstinência branda e poucos usuários relatam perda do controle no uso 
da substância (RANG et al., 2016).
Depressores do SNC
As substâncias conhecidas como depressores apresentam efeitos relacionados 
a inibição do SNC, levando a euforia e alegria devido à desinibição de certos 
centros nervosos, assim como relaxamento e alívio de dor e ansiedade. 
Nesse contexto, o etanol presente em bebidas alcoólicas excede de longe 
o consumo de qualquer outra droga, com teores que variam de 2,5 a 55%, 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 11
O receptor GABAA é um dos dois canais iônicos ativado por ligante, responsável por mediar os efeitos do ácido gama-aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibidor no cérebro. Além do sítio de ligação para o GABA, o complexo receptor GABAA parece ter sítio de ligação alostéricos distintos para benzodiazepinas, barbitúricos, etanol,[4] anestésicos inalatórios, furosemida, kavalactonas, esteróides neuroativos (ex: alopregnanolona), e picrotoxina.[5]
dependendo da bebida. Quando se expressa a ingestão de álcool em unidades 
de 8 g, recomenda-se uma dose semanal não superior a 21–28 unidades para 
homens e 14–21 unidades para mulheres (RANG et al., 2016).
O álcool apresenta um mecanismo de ação complexo, envolvendo di-
versos sítios de ação, como os receptores GABAA, NMDA, 5-HT3 e de glicina, 
mecanismos que culminam em seu efeito depressor geral. Em doses baixas, 
o álcool apresenta um efeito paradoxal de aumento de atividade neuronal 
e ativação de vias de recompensa. Com níveis mais elevados, entretanto, 
seus efeitos depressores são exacerbados e o desempenho intelectual e 
motor são prejudicados. Sobredoses ou associações com outras drogas 
depressoras podem levar a coma ou morte por insuficiência respiratória 
(KATZUNG; TREVOR, 2017).
Além dos efeitos agudos, o uso contínuo de álcool pode apresentar efeitos 
adversos crônicos, como dano hepático, deficiência de vitaminas e nutricional, 
aumento do risco de diversos cânceres e impotência e feminilização em ho-
mens. Além disso, a síndrome de abstinência alcoólica é uma das mais graves 
dentre as drogas de abuso, podendo chegar inclusive a convulsões e delirium 
tremens, condição associada a sintomas como agitação, confusão mental e 
alucinações (RANG et al., 2016; BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012).
As abordagens farmacológicas experimentadas no tratamento da depen-
dência alcoólica envolvem principalmente o uso de fármacos depressores, 
como benzodiazepínicos ou barbitúricos para o alívio da síndrome de retirada, 
e terapia de aversão ao álcool com dissulfiram (fármaco responsável inibir o 
metabolismo do etanol, causando sintomas extremamente desagradáveis) 
(RANG et al., 2016).
Por sua vez, os benzodiazepínicos costumam ser usados para o tratamento 
de ansiedade e insônia, em que atuam modulando receptores GABAA. Mesmo 
em doses usuais, estão relacionados ao desenvolvimento de tolerância e 
síndrome de abstinência, ainda que seu uso clínico, quando bem orientado, 
retarde muitos desses fenômenos. Alguns indivíduos fazem uso abusivo de 
benzodiazepínicos devido a seus efeitos euforizantes, muitas vezes também 
associados a outras drogas (KATZUNG; TREVOR, 2017).
Por fim, os narcóticos opioides também são substâncias prescritasdes-
viadas para fins não clínicos. Historicamente, os opioides são derivados de 
substâncias extraídas do ópio da papoula (Papaver somniferum), podendo 
hoje em dia serem de origem natural, semissintética ou sintética. Além deles, 
a heroína é um exemplo de opioide semissintético de uso proscrito, mas que 
apresenta efeito aditivo importante. Geralmente o tratamento da síndrome 
de abstinência dessas substâncias é feito com opioides de ação longa, como 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro12
O Receptor NMDA é um detector de coincidência. O glutamato é capitado por transportadores astrocíticos e é reciclado como glutamina para os terminais axonais. -Aumento na afinidade. -Diminuição da velocidde de desativação.
a metadona, enquanto as sobredoses tentam ser contornadas com o uso de 
naloxona, um antagonista opioide (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012; 
RANG et al., 2016).
Psicomiméticos
As drogas psicomiméticas, também conhecidas como alucinógenos, são 
aquelas que apresentam como efeito primário, em doses usuais, alterações 
da percepção, do pensamento e do humor. Muitas são usadas como drogas 
recreacionais, em ambientes como festas ou encontros entre amigos. Nesse 
âmbito, podemos citar os derivados da Cannabis (maconha e haxixe), a me-
tilenodioximetanfetamina (MDMA, também conhecido como ecstasy) e a 
dietilamina do ácido lisérgico (LSD) (RANG et al., 2016).
As plantas do gênero Cannabis têm sido cultivadas há séculos tanto pelas 
suas propriedades psicoativas quanto para obtenção da fibra de cânhamo. As 
variedades mais conhecidas, a C. sativa e a C. indica, diferem principalmente 
nos teores dos principais constituintes, o Δ9-tetraidrocanabinol (THC) e o 
canabidiol (CBD). O THC é considerado um dos principais responsáveis pelas 
suas propriedades psicoativas, levando a alterações de humor e percepção 
e semiembriaguez, relacionados à ação sobre o receptor CB1. Os efeitos 
adversos incluem vermelhidão dos olhos, tontura, fome exagerada, esqueci-
mento e o aparecimento de pânico ou psicose. Embora essa droga apresente 
tolerância, os sintomas de abstinência e dependência psicológica raramente 
são reportados na prática clínica (RANG et al., 2016).
A Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de 
Vigilância Sanitária (Anvisa) nº 327, de 9 de dezembro de 2019, dis-
põe sobre os procedimentos para a concessão da autorização sanitária para 
fabricação e importação, bem como estabelece requisitos para comercialização, 
prescrição, dispensação, monitoramento e fiscalização de produtos de Cannabis 
para fins medicinais.
O MDMA, ecstasy ou “bala” é uma droga sintética usada principalmente 
por causar sensação de vigor, experiências sensoriais agradáveis e ampliação 
da percepção. Seus efeitos são relacionados a um aumento extremamente 
pronunciado de liberação de monoaminas, levando a esgotamento dos es-
toques intracelulares de serotonina em um período de 24h após uma única 
dose. Seus efeitos adversos incluem taquicardia, boca seca e contração de 
maxilares, e em doses elevadas produz alucinações, agitação, hipertermia, 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 13
consumo excessivo de água e síndrome serotoninérgica. Os dados sobre 
abstinência e danos irreversíveis ainda são escassos e controversos no que 
diz respeito a essa droga (KATZUNG; TREVOR, 2017).
O LSD, também apelidado de “doce” ou “ácido”, é uma substância sintética, 
derivada dos alcaloides do fundo ergot (Claviceps purpurea), reconhecida como 
um dos alucinógenos mais potentes conhecidos, atuando como agonista de 
receptores de serotonina 5-HT2A. Essa droga está relacionada à distorção 
da percepção e a alucinações, as quais podem ser extremamente intensas, 
acompanhada de sinais como pupilas dilatadas, elevação da pressão e ru-
borização. Não há relatos de mortes por sobredose, apenas mortes indiretas 
por suicídios ou acidentes (KATZUNG; TREVOR, 2017).
Cabe mencionar também alucinógenos como a mescalina (derivado do 
cacto peiote, ou Lophophora williamsii) e a psilocibina (derivada dos cogu-
melos Psilocybe cubensis), que são menos potentes que o LSD, bem como 
a fenciclidina (PCP) e a cetamina, substâncias prescritas sujeitas a controle 
especial, mas que muitas vezes têm sua aplicação desviada para uso como 
drogas de boate (RANG et al., 2016).
Todos esses conhecimentos são fundamentais para se compreender as 
bases psicobiológicas relacionadas ao desenvolvimento da adição a drogas. 
Esses conhecimentos são de extrema importância para auxiliar nos processos 
de desintoxicação e acompanhamento a longo prazo de pacientes dependentes 
do uso de substâncias químicas.
Referências 
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos 
mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BRASIL. Instituto Nacional do Câncer. Custos atribuíveis ao tabagismo. Brasília: INCA, 
2021. Disponível: https://www.inca.gov.br/observatorio-da-politica-nacional-de-
-controle-do-tabaco/custos-atribuiveis-ao-tabagismo. Acesso: 26 jul. 2021.
BRUNTON, L. L.; CHABNER, B. A.; KNOLLMANN, B. C. As bases farmacológicas da tera-
pêutica de Goodman e Gilman. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto 
Alegre: Artmed, 2019. 
FELDMAN, R. S. Introdução à psicologia. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. 
GAGE, S. H.; SUMNALL, H. R.  Rat Park: How a rat paradise changed the narrative of 
addiction. Addiction, v. 114, n. 5, p. 917–922, 2019. DOI: 10.1111/add.14481.
KATZUNG, B. G.; TREVOR, A. J. Farmacologia básica e clínica. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 
2017. (Lange).
MARIEB, E. N.; HOEHN, K. Anatomia e fisiologia. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. 
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro14
NUTT, D. J.; KING, L. A.; PHILLIPS, L. D. Independent scientific committee on drugs: drug 
harms in the UK: a multicriteria decision analysis. Lancet, v. 376, n. 9752, p. 1558–1565, 
6 nov. 2010.
PINEL, J. P. J. Biopsicologia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
RANG, H. P. et al. Rang & Dale Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
SILVERTHORN, D. U. Fisiologia humana: uma abordagem integrada. 7. ed. Porto Alegre: 
Artmed, 2017. 
UNIFESP. Problemas causados pelo consumo custam 7,3% do PIB. São Paulo: UNIFESP, 
2017. Disponível em: https://www.unifesp.br/reitoria/dci/publicacoes/entreteses/
item/2196-problemas-causados-pelo-consumo-custam-7-3-do-pib. Acesso em: 25 
jul. 2021.
VANPUTTE, C.; REGAN, J.; RUSSO, A. Anatomia e Fisiologia de Seeley. 10. ed. Porto Alegre: 
AMGH, 2016. 
WHALEN, K.; FINKEL, R.; PANAVELIL, T. A. Farmacologia ilustrada. 6. ed. Porto Alegre: 
Artmed, 2016.
Leituras recomendadas
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC 
Nº 327, de 9 de dezembro de 2019. Dispõe sobre os procedimentos para a concessão da 
Autorização Sanitária para a fabricação e a importação, bem como estabelece requisitos 
para a comercialização, prescrição, a dispensação, o monitoramento e a fiscalização de 
produtos de Cannabis para fins medicinais, e dá outras providências. Brasília: ANVISA, 
2019. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-da-diretoria-
-colegiada-rdc-n-327-de-9-de-dezembro-de-2019-232669072. Acesso em: 26 jul. 2021.
KAPCZINSKI, F.; IZQUIERDO, I.; QUEVEDO, J. Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos. 
3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.
LENT, R. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais a neurociência. 2. ed. São 
Paulo: Atheneu, 2010.
Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos 
testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da 
publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas 
páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores 
declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou 
integralidade das informações referidas em tais links.
A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 15

Mais conteúdos dessa disciplina