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PSICOBIOLOGIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Descrever o sistema de recompensa do cérebro. • Explicar uso e abuso de substâncias. • Distinguir drogas depressoras das estimulantes da atividade mental. Introdução Como as drogas de abuso são um frequente problema de saúde pública, é im- portante compreender os motivos pelos quais determinado indivíduo não apenas procura uma droga, como também pode ficar dependente dela. As drogas de abuso apresentam diferentes efeitos e mecanismos de ação, que precisam ser bem compreendidos para determinar como as diferentes ferramentas farmacológicas e não farmacológicas podem auxiliar no tratamento da adição a drogas. Neste capítulo, você vai estudar o papel do circuito de recompensa no desen- volvimento da dependência a drogas, assim como os fenômenos de tolerância e síndrome de abstinência associados ao uso abusivo de substâncias. Além disso, você verá exemplos das principais drogas de abuso de acordo com seus efeitos e mecanismos de ação. A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro Pietro Maria Chagas O circuito mesolímbico e a recompensa As drogas de abuso são, a princípio, consumidas devido a suas propriedades hedônicas, ou seja, de causarem prazer ou euforia. Seu uso muitas vezes apresenta potencial aditivo, ou seja, capacidade de produzir dependência fisiológica e/ou psicológica no usuário (RANG et al., 2016). Enquanto a dependência fisiológica está relacionada à adaptação do organismo aos efeitos farmacológicos da droga, a dependência psicológica parece estar relacionada à necessidade do usuário reexperimentar os efeitos recompensadores associados ao uso da substância aditiva. Esses efeitos recompensadores parecem estar extensamente associados ao sistema lím- bico, e mais precisamente a regiões associadas a neurônios mesolímbicos dopaminérgicos, conhecidas como sistema de recompensa (RANG et al., 2016; PINEL, 2005). Todas as drogas de abuso apresentam em comum o fato de ativarem diretamente o sistema de recompensa, que está envolvido no reforço de comportamentos e na produção de memórias. Muitas vezes, essa ativação do sistema de recompensa é intensa a ponto de fazer atividades normais serem negligenciadas (RANG et al., 2016; PINEL, 2005). Sistema límbico O sistema límbico abrange um grupo de estruturas que circunda a parte superior do tronco encefálico e do copo caloso, localizadas na borda medial de cada hemisfério cerebral e do diencéfalo, como representado na Figura 1. Seus componentes incluem partes do rinencéfalo e do diencéfalo e a amígdala (MARIEB; HOEHN, 2009; VANPUTTE; REGAN; RUSSO, 2016) A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro2 Figura 1. Sistema límbico e estruturas associas do hemisfério cerebral direito. Fonte: Vanputte, Regan e Russo (2016, p. 442). O sistema límbico exerce um papel central em funções básicas de so- brevivência, como a memória, a reprodução e a nutrição, e muitas vezes é conhecido como cérebro emocional ou afetivo. O processamento das emoções é complexo: primeiramente, os estímulos sensoriais chegam ao córtex cerebral, onde cria-se uma percepção do mundo; em seguida, a informação é integrada por áreas de associação e passada para o sistema límbico, o qual gera a emoção e comportamentos associados. Quando esse sistema é estimulado, as reações podem ir de dor intensa a prazer extremo (SILVERTHORN, 2017). Sendo assim, o sistema límbico é bastante associado à motivação, ou seja, aos sinais internos que determinam comportamentos voluntários. Entre esses comportamentos, podemos mencionar os hábitos e necessidades como comer, beber e ter relações sexuais. Alguns desses estados motivacionais são conhecidos como impulsos, e geralmente cessam quando se atinge um certo nível de satisfação ou saciedade, ainda que isso não seja uma regra (SILVERTHORN, 2017). O prazer, por outro lado, é um estado motivacional muitas vezes relacio- nado ao comportamento aditivo, associado ao uso abusivo de drogas. Drogas aditivas apresentam potencial de ativar regiões do encéfalo associadas a sensação de prazer. Outros comportamentos aditivos que podem também ser citados incluem jogos de azar, redes sociais e até mesmo comportamentos compulsivos que envolvem a automutilação (SILVERTHORN, 2017). A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 3 Sistema de recompensa A via mesolímbica, mais conhecida como sistema de recompensa, é formada por um circuito de neurônios dopaminérgicos envolvido na modulação de respostas a estímulos relacionados a sensações de prazer. Os neurônios que compõem esse sistema têm seus corpos celulares na área tegmental ventral do mesencéfalo e projetam seus axônios ao nucleus accumbens (NAc), entre outras regiões, como o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo (PINEL, 2005). Uma característica comum a vários tipos de substâncias psicoativas é sua capacidade de produzir uma experiência recompensadora, ou seja, causar sensações prazerosas como melhora do humor ou sentimentos de euforia ou calma. Segundo Pinel (2005), Katzung e Trevor (2017) e Rang et al. (2016), todas as drogas com potencial aditivo testadas até hoje ativam o sistema de recompensa cerebral, elevando os níveis de dopamina no NAc. A ativação do sistema de recompensa pode acontecer por diferentes mecanismos diretos ou indiretos, que acabam servindo de critério para a divisão das drogas em três classes, conforme apresentado na Figura 2. A primeira classe, que contém opioides, canabinoides e alucinógenos, exercem sua ação por meio de receptores acoplados à proteína Gio. A segunda classe compreende a nicotina, o álcool e os benzodiazepínicos, que interagem com receptores ionotrópicos e canais iônicos. A última classe, constituída pela cocaína, pelas anfetaminas e pelo ecstasy, liga-se a transportadores de monoaminas (KATZUNG; TREVOR, 2017). Figura 2. Drogas de abuso atuando sobre o circuito de recompensa. Fonte: Katzung e Trevor (2017, p. 556). A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro4 Estudos em animais concluem que a liberação de dopamina pelo sistema de recompensa pode ser desencadeada tanto pela droga de abuso em si quanto pelos estímulos e ambientes associados. Especula-se que a via meso- límbica desempenha um papel relacionado à predição de um comportamento recompensador e que os sistemas de aprendizagem e memória têm grande importância no desenvolvimento da adição a drogas. Mesmo comportamentos que não dependem de substâncias químicas, como a compulsão por compras, jogos de azar ou comportamentos de automutilação, compartilham muitas características clínicas da adição (PINEL, 2005; KATZUNG; TREVOR, 2017; SIL- VERTHORN, 2017). Após ter experimentado os efeitos recompensadores de uma droga de abuso, a tendência é que o indivíduo deseje repetir a experiência, exibindo comportamento de recaídas constantes e fissura intensa por drogas. Uma ca- racterística extremamente importante dos transtornos por uso de substâncias é que a alteração dos circuitos cerebrais geralmente persiste mesmo após o processo de desintoxicação. Uma abordagem de longo prazo muitas vezes é aconselhada para o tratamento dos efeitos persistentes da droga, podendo muitas vezes exigir apoio de uma equipe multidisciplinar especializada para o tratamento (PINEL, 2005; KATZUNG; TREVOR, 2017). Uso e abuso de substâncias O critério pelo qual uma substância específica deve ser considerada uma droga de abuso é uma questão ampla e complexa. Nesse contexto, são muitas vezes consideradas como drogas de abuso as substâncias com características psicoativas, ou seja, que influenciam as emoções, percepções e comporta- mentos do usuário (FELDMAN, 2015; RANG et al., 2016). No bloco de F10-F19 (Transtornos Mentais e de Comportamento Decorrente do Uso de Substâncias Psicoativas), a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) aborda uma série de transtornos induzidos por diferentes substâncias químicas. Nesse âmbito,podemos citar fármacos tradicionalmente usados para fins medicinais (como benzodiazepínicos e opioides), substâncias não terapêuticas legais em muitos países (como nicotina e álcool) e muitas drogas ilegais (como cocaína e ecstasy) (DALGALARRONDO, 2019). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (AME- RICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014), descreve os seguintes critérios para diagnóstico de transtornos relacionados ao uso recorrente de substâncias e transtornos aditivos (DALGALARRONDO, 2019). A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 5 � Baixo controle sobre o uso: ■ uso em quantidades maiores ou ao longo de um período maior de tempo; ■ desejo persistente de reduzir ou regular o uso ou vários esforços malsucedidos; ■ o indivíduo pode gastar muito tempo para obter, usar ou se recuperar; ■ a fissura. � Prejuízo social associado: ■ fracasso nas obrigações no trabalho, na escola ou no lar; ■ uso da substância apesar de apresentar problemas sociais ou interpessoais; ■ atividades de natureza social, profissional ou recreativa podem ser reduzidas. � Uso de risco da substância: ■ uso contínuo em situações de risco físico; ■ uso a despeito de conhecimento de risco físico. � Fenômenos farmacológicos: ■ tolerância; ■ síndrome de abstinência. No mesmo capítulo, “Transtornos Induzidos por Substâncias”, o DSM-5 ainda aborda questões como intoxicação, abstinência e outros transtornos mentais, como transtornos psicóticos e transtornos depressivos, induzidos por substância ou medicamento (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014; DALGALARRONDO, 2019). Seja como for, é preciso ressaltar que os mecanismos farmacológicos não são os únicos determinantes no abuso de substâncias, pois outros fatores podem contribuir para levar à drogadição. Dentre esses componentes, pode-se mencionar características de personalidade, comportamentos de risco, idade em que a droga é usada pela primeira vez, experiência com outras drogas, estado nutricional e diversos fatores sociais (RANG et al., 2016). A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro6 Numa série de estudos mundialmente conhecidos como rat park, o professor emérito Bruce Alexander e seus colegas da Simon Fraser University, no Canadá, conduziram diversos experimentos sobre o uso de drogas por ratos quando em ambientes com diferentes características (GAGE; SUM- NALL, 2019). Nesses experimentos, observou-se que ratos em ambientes com liberdade e entretenimento (verdadeiros parques, como sugere o apelido dos estudos) consumiam menos uma solução contendo morfina do que aqueles em confinamento isolado, sem liberdade nem entretenimento, incluindo ratos que já haviam sido pré-expostos à solução anteriormente. Os pesquisadores buscaram quebrar paradigmas de que, uma vez em contato com drogas, os animais tornam-se incapazes de viver sem elas em todo e qualquer contexto. Os resultados desse estudo também buscaram trazer visibilidade ao fato de diversos problemas sociais no ambiente em que o sujeito está inserido. Sendo assim, variáveis ambientais como redes de apoio e contatos sociais, disponi- bilidade e custo da droga, programas educacionais e atitudes da sociedade relativas ao uso de drogas e a existência de alternativas podem influenciar consideravelmente a probabilidade de uso e adição. Danos causados pelo abuso drogas Todas as drogas de uso abusivo podem ser danosas em extensão variável. Os danos podem estar diretamente relacionados à dose administrada, principal- mente a sobredosagem (vide depressão respiratória relacionada a opioides); aos efeitos em outras locais que não o sistema nervoso (como necrose do septo nasal associada ao uso crônico de cocaína); ao aumento de risco de infecções associadas à via de administração (incluindo a transmissão do vírus da hepatite B e da imunodeficiência humana); e a outras doenças não relacionadas com as ações específicas da drogas (como aumento do risco de câncer associado ao alcatrão presente na fumaça do tabaco). Ademais, pode- mos citar o dado advindo de susceptibilidade a doenças psicóticas (psicose associada ao uso de substâncias), bem como sinais e sintomas relacionados a dependência fisiológica e psicológica (KATZUNG; TREVOR, 2017). A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 7 Uma questão complexa relacionada ao uso e abuso de substâncias é a relativização dos danos associados a drogas lícitas e a estigma- tização de drogas ilícitas, o que muitas vezes é estimulado pela legislação. Um estudo de 2010 realizado pelo Comitê Científico Independente para Drogas na Grã-Bretanha elaborou uma escala que abordava danos induzidos por drogas tanto aos usuários quanto à sociedade. Nesse estudo, o álcool apareceu em primeiro lugar como droga mais nociva, superando até mesmo o crack e a heroína, enquanto drogas como ecstasy e LSD ficaram, respectivamente, em 17º e 18º entre 20 drogas avaliadas (NUTT; KING; PHILLIPS, 2010). Estudos estimam que, apenas no Brasil, drogas legalizadas como o álcool e o tabaco podem custar aos cofres públicos respectivamente na faixa de R$ 372 bilhões e R$ 57 bilhões em gastos anuais diretos e indiretos. Em contrapartida, drogas por muito tempo estereotipadas estão sendo estudadas devido ao seu potencial terapêutico, incluindo a maconha e seus compostos, que possuem propriedades antieméticas e anticonvulsivantes, e o LSD e a psilocibina, no tratamento de doenças psiquiátricas (BRASIL, 2021; UNIFESP, 2017). Tolerância e síndrome de abstinência A tolerância, nesse contexto, diz respeito à diminuição no efeito farmacoló- gico com a administração repetida de uma droga, a qual se desenvolve ao longo do tempo. A tolerância está profundamente relacionada à síndrome de abstinência na retirada abrupta de uma droga, embora não seja observada em todas as drogas (RANG et al., 2016). Alguns indivíduos podem apresentar tolerância inata a certas drogas, observada desde o primeiro uso e descrita como uma sensibilidade menor aos seus efeitos. Já a tolerância adquirida à exposição à droga pode estar relacio- nada a diversos mecanismos, como a farmacocinética e a farmacodinâmica da droga. Enquanto a tolerância farmacocinética envolve alterações na dis- tribuição e metabolismo, e consequentemente diminuição nas concentrações sanguíneas da droga, a tolerância farmacodinâmica envolve modificações nos sítios de ação, como na quantidade ou afinidade de receptores, resultando numa resposta atenuada (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012). Nem todos os efeitos de determinada substância desenvolvem tolerância ao mesmo tempo — a tolerância aos efeitos euforigênicos instala-se de forma geralmente rápida, enquanto a tolerância a efeitos relacionados a funções vitais, como respiração e pressão arterial, tende a se desenvolver de forma mais lenta. Por isso, a busca de usuários crônicos em reexperimentar a euforia A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro8 de experiências prévias pode levar à administração de doses potencialmente fatais (RANG et al., 2016; BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012). Cabe mencionar que substâncias químicas podem apresentar tolerância cruzada com drogas que apresentem mecanismos de ação semelhantes. Sendo assim, duas abordagens podem ser tentadas em processos de desintoxicação de indivíduos que apresentem sintomas de dependência: a administração de doses progressivamente menores da droga para evitar os sintomas de abstinência ou o uso de fármacos de mesma categoria farmacológica, mas com menos efeitos adversos (como o uso de metadona para o tratamento da dependência de heroína) (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012). A síndrome de retirada ou abstinência é uma condição em que são expe- rimentados efeitos fisiológicos adversos após a cessação do uso contínuo de uma droga, assim como a administração de um antagonista. Esses sintomas de retirada são característicos de cada tipo de droga utilizada e tendem a ser contrários aos efeitos originais produzidos porcada droga. Como exemplo, a interrupção súbita de um agonista opioide, o qual produz normalmente constrição pupilar e diminuição da frequência cardíaca, leva a dilatação da pupila e taquicardia (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012). Ao passo que algumas síndromes de abstinência podem ser leves (Canna- bis e cafeína), outras podem ser extremamente desagradáveis (heroína) ou até potencialmente fatais (delirium tremens associado à retirada do álcool). Os efeitos da retirada podem persistir por dias e a retirada abrupta muitas vezes é desaconselhada, pois pode dificultar a adesão ao tratamento da dependência (RANG et al., 2016). Classificação de drogas de abuso quanto a seus efeitos As drogas de abuso abrangem um grupo bastante heterogêneo quanto aos alvos farmacológicos em que atuam. Diversas são as maneiras como essas substâncias podem ser classificadas. Uma delas se dá pelo critério do poten- cial de causar dependência, enquanto outra classificação se baseia nos tipos de efeitos observados, podendo ser divididas em estimulantes do sistema nervoso central (SNC), depressores do SNC (o que inclui os narcóticos) e alucinógenos ou psicomiméticos (Figura 3) (WHALEN; FINKEL; PANAVELIL, 2016). A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 9 Figura 3. O tamanho de cada seta azul representa o potencial relativo de dependência física de substâncias comumente abusadas, classificadas horizontalmente pelos tipos de efeitos observados. Fonte: Whalen, Finkel e Panavelil (2016, p. 206). Estimulantes do SNC Substâncias estimulantes apresentam efeitos de excitação do SNC e geral- mente causam sintomas como aumento da pressão arterial e da tensão mus- cular. Dentre elas, o tabaco e sua substância ativa, a nicotina, sobressaem-se quanto ao número de usuários. Extraído das folhas de Nicotiana tabacum, o tabaco é fumado principalmente em cigarros, embora também existam outras apresentações. A nicotina também pode ser administrada na forma de adesivos transdérmicos ou chicletes como terapia de substituição para cessar o tabagismo. A nicotina atua sobre receptores nicotínicos de acetilcolina neuronais (nAChR), os quais aumentam a liberação de neurotransmissores e causam excitação neuronal. Essa substância apresenta um elevado potencial aditivo, e mesmo indivíduos com desejo de parar de fumar apresentam baixa taxa de sucesso em largar o hábito (FELDMAN, 2015; KATZUNG; TREVOR, 2017). Dentre seus efeitos no SNC, o tabaco causa sensação de acordar quando o indivíduo está sonolento, de calma quando está tenso e de relaxamento muscular. Sua síndrome de abstinência é caracterizada por irritabilidade e A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro10 ansiedade, dificuldade de concentração, aumento do apetite, entre outros sintomas. Medicamentos como vareniciclina (agonista parcial de nAChR) e bupropiona (antagonista de nAChR) são alternativas no tratamento da de- pendência (KATZUNG; TREVOR, 2017; RANG et al., 2016). Cabe salientar também que o tabaco apresenta outros efeitos danosos, relacionados ao alcatrão, à nicotina e a outras substâncias tóxicas presentes. Por esse motivo, o taba- gismo é considerado uma das causas de morte mais passíveis de prevenção (RANG et al., 2016). Por sua vez, o cloridrato de cocaína é um alcaloide extraído das folhas da coca (Erythroxylum coca), geralmente administrado pela via nasal. Já o crack é a base livre da cocaína, administrado através do fumo ou injetado, levando a efeitos mais rápidos e intensos. A cocaína causa anestesia local, redução do apetite e estimulação do SNC, devido principalmente à inibição dos transportadores de dopamina. Essa substância apresenta como efeitos psicológicos a melhora da atenção e a sensação de autoconfiança e bem-estar, acompanhados de comportamento estereotipado, paranoia e irritabilidade. Apresenta síndrome de abstinência branda, ainda que seja relacionada a intenso risco de drogadição (KATZUNG; TREVOR, 2017; RANG et al., 2016). Os derivados anfetamínicos são substâncias químicas que interferem principalmente no transportador vesicular de monoaminas. Nesse âmbito, podem ser citados fármacos prescritos para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, assim como substâncias proscritas como a metanfetamina, de elevado poder aditivo (RANG et al., 2016; BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012). Por último, dentre os estimulantes do SNC não podemos esquecer da cafeína, uma das substâncias psicoativas mais amplamente utilizadas no mundo. A cafeína apresenta como principal mecanismo de ação o antago- nismo de receptores de adenosina, diminuindo o sono e o cansaço. Embora a tolerância à cafeína desenvolva-se rapidamente, ela apresenta uma síndrome de abstinência branda e poucos usuários relatam perda do controle no uso da substância (RANG et al., 2016). Depressores do SNC As substâncias conhecidas como depressores apresentam efeitos relacionados a inibição do SNC, levando a euforia e alegria devido à desinibição de certos centros nervosos, assim como relaxamento e alívio de dor e ansiedade. Nesse contexto, o etanol presente em bebidas alcoólicas excede de longe o consumo de qualquer outra droga, com teores que variam de 2,5 a 55%, A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 11 O receptor GABAA é um dos dois canais iônicos ativado por ligante, responsável por mediar os efeitos do ácido gama-aminobutírico (GABA), o principal neurotransmissor inibidor no cérebro. Além do sítio de ligação para o GABA, o complexo receptor GABAA parece ter sítio de ligação alostéricos distintos para benzodiazepinas, barbitúricos, etanol,[4] anestésicos inalatórios, furosemida, kavalactonas, esteróides neuroativos (ex: alopregnanolona), e picrotoxina.[5] dependendo da bebida. Quando se expressa a ingestão de álcool em unidades de 8 g, recomenda-se uma dose semanal não superior a 21–28 unidades para homens e 14–21 unidades para mulheres (RANG et al., 2016). O álcool apresenta um mecanismo de ação complexo, envolvendo di- versos sítios de ação, como os receptores GABAA, NMDA, 5-HT3 e de glicina, mecanismos que culminam em seu efeito depressor geral. Em doses baixas, o álcool apresenta um efeito paradoxal de aumento de atividade neuronal e ativação de vias de recompensa. Com níveis mais elevados, entretanto, seus efeitos depressores são exacerbados e o desempenho intelectual e motor são prejudicados. Sobredoses ou associações com outras drogas depressoras podem levar a coma ou morte por insuficiência respiratória (KATZUNG; TREVOR, 2017). Além dos efeitos agudos, o uso contínuo de álcool pode apresentar efeitos adversos crônicos, como dano hepático, deficiência de vitaminas e nutricional, aumento do risco de diversos cânceres e impotência e feminilização em ho- mens. Além disso, a síndrome de abstinência alcoólica é uma das mais graves dentre as drogas de abuso, podendo chegar inclusive a convulsões e delirium tremens, condição associada a sintomas como agitação, confusão mental e alucinações (RANG et al., 2016; BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012). As abordagens farmacológicas experimentadas no tratamento da depen- dência alcoólica envolvem principalmente o uso de fármacos depressores, como benzodiazepínicos ou barbitúricos para o alívio da síndrome de retirada, e terapia de aversão ao álcool com dissulfiram (fármaco responsável inibir o metabolismo do etanol, causando sintomas extremamente desagradáveis) (RANG et al., 2016). Por sua vez, os benzodiazepínicos costumam ser usados para o tratamento de ansiedade e insônia, em que atuam modulando receptores GABAA. Mesmo em doses usuais, estão relacionados ao desenvolvimento de tolerância e síndrome de abstinência, ainda que seu uso clínico, quando bem orientado, retarde muitos desses fenômenos. Alguns indivíduos fazem uso abusivo de benzodiazepínicos devido a seus efeitos euforizantes, muitas vezes também associados a outras drogas (KATZUNG; TREVOR, 2017). Por fim, os narcóticos opioides também são substâncias prescritasdes- viadas para fins não clínicos. Historicamente, os opioides são derivados de substâncias extraídas do ópio da papoula (Papaver somniferum), podendo hoje em dia serem de origem natural, semissintética ou sintética. Além deles, a heroína é um exemplo de opioide semissintético de uso proscrito, mas que apresenta efeito aditivo importante. Geralmente o tratamento da síndrome de abstinência dessas substâncias é feito com opioides de ação longa, como A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro12 O Receptor NMDA é um detector de coincidência. O glutamato é capitado por transportadores astrocíticos e é reciclado como glutamina para os terminais axonais. -Aumento na afinidade. -Diminuição da velocidde de desativação. a metadona, enquanto as sobredoses tentam ser contornadas com o uso de naloxona, um antagonista opioide (BRUNTON; CHABNER; KNOLLMANN, 2012; RANG et al., 2016). Psicomiméticos As drogas psicomiméticas, também conhecidas como alucinógenos, são aquelas que apresentam como efeito primário, em doses usuais, alterações da percepção, do pensamento e do humor. Muitas são usadas como drogas recreacionais, em ambientes como festas ou encontros entre amigos. Nesse âmbito, podemos citar os derivados da Cannabis (maconha e haxixe), a me- tilenodioximetanfetamina (MDMA, também conhecido como ecstasy) e a dietilamina do ácido lisérgico (LSD) (RANG et al., 2016). As plantas do gênero Cannabis têm sido cultivadas há séculos tanto pelas suas propriedades psicoativas quanto para obtenção da fibra de cânhamo. As variedades mais conhecidas, a C. sativa e a C. indica, diferem principalmente nos teores dos principais constituintes, o Δ9-tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). O THC é considerado um dos principais responsáveis pelas suas propriedades psicoativas, levando a alterações de humor e percepção e semiembriaguez, relacionados à ação sobre o receptor CB1. Os efeitos adversos incluem vermelhidão dos olhos, tontura, fome exagerada, esqueci- mento e o aparecimento de pânico ou psicose. Embora essa droga apresente tolerância, os sintomas de abstinência e dependência psicológica raramente são reportados na prática clínica (RANG et al., 2016). A Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nº 327, de 9 de dezembro de 2019, dis- põe sobre os procedimentos para a concessão da autorização sanitária para fabricação e importação, bem como estabelece requisitos para comercialização, prescrição, dispensação, monitoramento e fiscalização de produtos de Cannabis para fins medicinais. O MDMA, ecstasy ou “bala” é uma droga sintética usada principalmente por causar sensação de vigor, experiências sensoriais agradáveis e ampliação da percepção. Seus efeitos são relacionados a um aumento extremamente pronunciado de liberação de monoaminas, levando a esgotamento dos es- toques intracelulares de serotonina em um período de 24h após uma única dose. Seus efeitos adversos incluem taquicardia, boca seca e contração de maxilares, e em doses elevadas produz alucinações, agitação, hipertermia, A drogadição e o circuito de recompensa do cérebro 13 consumo excessivo de água e síndrome serotoninérgica. Os dados sobre abstinência e danos irreversíveis ainda são escassos e controversos no que diz respeito a essa droga (KATZUNG; TREVOR, 2017). O LSD, também apelidado de “doce” ou “ácido”, é uma substância sintética, derivada dos alcaloides do fundo ergot (Claviceps purpurea), reconhecida como um dos alucinógenos mais potentes conhecidos, atuando como agonista de receptores de serotonina 5-HT2A. Essa droga está relacionada à distorção da percepção e a alucinações, as quais podem ser extremamente intensas, acompanhada de sinais como pupilas dilatadas, elevação da pressão e ru- borização. Não há relatos de mortes por sobredose, apenas mortes indiretas por suicídios ou acidentes (KATZUNG; TREVOR, 2017). Cabe mencionar também alucinógenos como a mescalina (derivado do cacto peiote, ou Lophophora williamsii) e a psilocibina (derivada dos cogu- melos Psilocybe cubensis), que são menos potentes que o LSD, bem como a fenciclidina (PCP) e a cetamina, substâncias prescritas sujeitas a controle especial, mas que muitas vezes têm sua aplicação desviada para uso como drogas de boate (RANG et al., 2016). Todos esses conhecimentos são fundamentais para se compreender as bases psicobiológicas relacionadas ao desenvolvimento da adição a drogas. Esses conhecimentos são de extrema importância para auxiliar nos processos de desintoxicação e acompanhamento a longo prazo de pacientes dependentes do uso de substâncias químicas. Referências AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. BRASIL. Instituto Nacional do Câncer. Custos atribuíveis ao tabagismo. Brasília: INCA, 2021. 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Dispõe sobre os procedimentos para a concessão da Autorização Sanitária para a fabricação e a importação, bem como estabelece requisitos para a comercialização, prescrição, a dispensação, o monitoramento e a fiscalização de produtos de Cannabis para fins medicinais, e dá outras providências. Brasília: ANVISA, 2019. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-da-diretoria- -colegiada-rdc-n-327-de-9-de-dezembro-de-2019-232669072. Acesso em: 26 jul. 2021. KAPCZINSKI, F.; IZQUIERDO, I.; QUEVEDO, J. Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. LENT, R. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais a neurociência. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2010. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. 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