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42
D
w
ight Furrow
Segundo, não quero sugerir que todas as relações valem
a pena ou que
todas as relações suscitam
autonom
ia. Claram
ente, algum
as relações são
destrutivas ou irrelevantes, e a m
aioria das relações introduz conflitos que
são difíceis, quando não im
possíveis de resolver. U
m
aspecto significativo da
obtenção da autonom
ia é a capacidade de m
anter a integridade não obstante
um
conflito persistente. O
Capítulo 6 inclui um
a discussão deste ponto
Esta abordagem
coloca de lado a resposta restante do egoísta que po-
deria dizer que tendo em
vista que quanto m
enos dependente eu for de
outras pessoas tanto m
enos m
oral devo ser, deve-se procurar um
a vida que
seja tão independente quanto possível. Com
o tem
os visto, a própria
independência depende de relações. Assim
sendo, é im
provável conservar
aquela independência agindo som
ente em
interesse próprio. U
m
a vida
voltada a se separar dos outros para preservar a habilidade de agir som
ente
segundo seus próprios interesses, pode ser um
a vida possível para seres
hum
anos. M
as esta é um
a vida carrancuda e pobre, destituída dos bens
que a m
aioria dos seres hum
anos procura.
Finalm
ente, a autonom
ia relacional com
eça a tornar inteligíveis as ações
de Schindler, em
bora os detalhes devam
ser preenchidos posteriorm
ente,
quando já tiverm
os um
aparato conceptual m
ais elaborado à disposição. E
plausível argum
entar que a habilidade de Schindler em
responder às neces-
sidades de seus trabalhadores se baseava nas relações que tinha com
eles.
Eles eram
vulneráveis; ele era o protetor deles, e ninguém
m
ais estava em
condições de os ajudar. O
sentim
ento que Schindler tinha de sua própria
independência e controle Ihe dem
andou assum
ir o risco de os resgatar. Eu
duvido que Schindler tivesse dado a m
esm
a assistência a qualquer um
a
qualquer tem
po. Foram
aqueles trabalhadores, que naquele m
om
ento estavam
naquela situação, que provocaram
a sua resposta heroica.
Razões m
orais
objetivas
A concepção de ação m
oral desenvolvida no Capítulo 1, requer que a
razão desem
penhe um
papel significativo em
nossa habilidade de estar no
controle de nossas vidas. Tem
os de raciocinar a respeito do que nossos objetivos
deveriam
ser e raciocinar a respeito da m
elhor form
a de os realizar. .N
ém
disso, a habilidade para raciocinar criticam
ente a respeito de nossos desejos
ajuda-nos a m
anter nossa autonom
ia por m
eio do julgam
ento de nossos desejos,
à luz de valores e com
prom
etim
entos m
ais profundam
ente arraigados.
N
o entanto, as razões desem
penham
um
outro pape] tam
bém
.])m
a parti-
cipar em
um
a rede de relações que com
põe nosso sistem
a de cooperações, tem
os
de ser capazes de dar razões para nossas ações, quando solicitados a assim
fazer.
Q
uando as nossas ações afetam
os outros, é provável que as pessoas afetadas
nos solicitem
justificação de nossas açÕ
es, não som
ente no que tange suas
efetividades ou eficácia, m
as tam
bém
de um
ponto de vista m
oral. N
ossa habi-
lidade em
participar naquele sistem
a de cooperação depende de nossa habilidade
em
fornecer a justificação adequada para o que planejam
os fazer ou dizem
os.
U
m
a vez que estas serão razões que os outros deverão aceitar ou rejeita, não
será um
a razão qualquer que contará. H
á razões que são boas e outras m
ás, e
para fazer um
a triagem
entre elas, necessitam
os desenvolver padrões de aceita-
ção de nossas razões m
orais. Este capítulo fala a respeito das váüas tentativas
para desenvolver padrões de aceitabilidade para as razões m
orais.
Q
uando justificam
os as nossas ações em
contextos do cotidiano, com
â'equência fazem
os julgam
entos que são sustentados por padrões de com
porta-
m
ento am
plam
ente acentos, cham
ados de norm
as m
orais. Por exem
plo, um
a
bibliotecária pode lusti6lcar ter m
e m
ultado por não entregar o lim
o dentro do
REFERÊN
CIAS E SU
GESTÕ
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RAS APRO
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D
W
O
RKIN
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O
xford, O
xford U
niversity Press.
44
D
w
ight Furrow
Ética
45
prazo estabelecido, porque esta é um
a norm
a am
plam
ente aceita, confhm
ada
por sanções, em
que os em
préstim
os devem
ser retornados na data aprazada,
ou antes dela. N
o entanto, para que nossas ações sejam
lusti6lcadas, as norm
as
de que nos servim
os para tanto tam
bém
devem
ser justificáveis. O
fato de que
um
a norm
a seja am
plam
ente aceita não a torna corneta. O
que justifica norm
as
tais com
o roubar é errado, não se deve m
entir, etc.? U
m
a abordagem
fH
osófica
do raciocínio m
oral deve responder esta questão.
A m
aioria das abordagens tradicionais do raciocínio m
oral diz que as
razões m
orais devem
ser objetivas. Lem
bre-se que, no Capítulo 1, dissem
os
que "objetivo" significa sem
preconceitos e im
parcial. U
m
a razão objetiva
não é baseada no m
eu ou no seu ponto de vista, m
as em
considerações
independentes. Se podem
os basear julgam
entos m
orais em
razões objetivas,
então os julgam
entos m
orais serão estáveis, um
a vez que não m
udarão na
dependência do m
eu ou do seu ponto de vista. Eles representarão um
terreno
com
um
que com
partilham
os. N
o Capítulo 1, eu argum
entei que nossos
m
otivos para agir m
oralm
ente não podem
ser im
parciais. N
este capítulo
estou fazendo um
a pergunta um
pouco diferente. Podem
as nossas razões
para agir serem
im
parciais?
Em
parte, a razão para insistir sobre a objetividade das razões m
orais
surge de preocupações a respeito do relativism
o. Assim
sendo, vam
os prim
ei-
ro ver o relativism
o antes de nos voltar diretam
ente à questão da objetividade.
dentes que nos perm
itam
determ
inar qual conjunto de norm
as é correto.
U
m
a ação é certa ou errada som
ente em
relação às norm
as dos grupos sociais
particulares. Assim
sendo, dizer que um
a ação é errada é sim
plesm
ente dizer
que as norm
as dom
inantes de um
grupo particular a proíbem
.
O
relativism
o m
oral é um
a posição controversa porque m
uitas pessoas
se sentem
perturbadas pela possibilidade de que um
a ação possa ser m
oral-
m
ente errada em
um
a sociedade e perm
issível em
outra sociedade. Estas
preocupações são exacerbadas pela possibilidade de que o relativism
o possa
ser aplicado a grupos m
enores dentro da sociedade tam
bém
, assim
, aquilo
que pode ser errado para você, pode não ser para seu vizinho. Ainda m
ais
perturbador é o fato de que o relativism
o proíbe im
portantes julgam
entos
que são centrais para o sentim
ento de quem
som
os. Por exem
plo, hoje, a
m
aioria das pessoas em
nossa sociedade condena o antissem
itism
o genocida
do nazism
o, e esta condenação é essencial para o nosso ponto de vista m
oral.
N
o entanto, se o relativism
o é verdadeiro, este julgam
ento não é racional
porque não há padrão independente de justificação que m
ostre que este
julgam
ento está correto. O
relativism
o parece elim
inar a crítica de qualquer
um
que esteja fora da m
inha própria cultura ou subcultura.
Isto não quer dizer que o relativism
o elim
ine todas as form
as de crítica.
O
relativism
o é com
patível com
críticas internas, nas quais crenças ou práticas
específicas são criticadas, por serem
disfuncionais ou violarem
seus próprios
padrões internos. U
m
a sociedade pode criticar, racionalm
ente, práticas denso
de suas fronteiras, por serem
incom
patíveis com
as normas dom
inantes da-
quela sociedade. Além
disso, o relativism
o não im
plica que tudo seja perm
itido.
As norm
as sociais podem
ser bastante estritas e requerem
um
a boa dose de
conform
idade. O
problem
a com
o relativism
o não é que qualquer coisa seja
perm
itida; é que os recursos para a crítica e justificação são lim
itados.
Exam
inem
os alguns dos argum
entos do relativism
o m
oral. U
m
argu-
m
ento a favor do relativism
o é o próprio fato de que a existência de um
a tal
diversidade de crenças m
orais significa que não pode haver um
único código
m
oral que seja correto. Este argum
ento por si só não é convincente. O
bvia-
m
ente, algum
as pessoas têm
crenças falsas a respeito de todos os tipos de
coisas. Por que algum
as crenças m
orais não podem
ser falsas? O
s cientistas
discordam
veem
entem
ente sobre as causas do câncer, historiadores a respei-
to das origens das revoluções, e econom
istas discordam
em
com
o as políticas
de taxação afetam
a econom
ia. N
ão obstante, independentem
ente dessa di-
versidade de opiniões, algum
as afirm
ações vêm
a ser verdadeiras e outras
falsas. O
sim
ples fato da diversidade não im
plica coisa algum
a a respeito da
verdade de diferentes crenças. Alguns grupos sociais podem
sim
plesm
ente
estar enganados a respeito de qual código m
oral seja o correto.
F
l llul
.lill l l
RELATIVISM
O
U
m
a visão m
uito popular diz que os padrões de aceitação para um
Julga-
m
ento m
oral dependem
da cultura ou grupo social da pessoa. Esta visão é
cham
ada de relativism
o, e ganha plausibilidade a partir do fato de que culturas
ou grupos sociais parecem
ter norm
as m
uito diferentes segundo as quais vivem
.
D
o ponto devasta do islam
ism
o radical, os ataques terroristas de ll
de setem
bro
são m
oralm
ente ]usti6icados. D
o ponto de vista da m
aioria de nós na sociedade
ocidental, eles não são }usti6icados. Em
certos países ou tribos na M
aca,
a
m
utilação genital de m
eninas é um
m
eio aceitável de m
anter costum
es sexuais;
na m
aioria do resto do m
undo não o é. Através da história, em
m
uitas partes do
m
undo, era esperado que as pessoas idosas que já não fossem
m
ais produtivas
com
etessem
suicídio. N
ós pensam
os que um
a tal expectativa é cruel.
A diversidade de códigos m
orais que existe hoje, assim
com
o através da
história, indica que não há um
a única m
oralidade que governe todos os seres
hum
anos. Com
o um
fato em
pírico esta afirm
ação parece, obviam
ente, ver-
dadeira. N
o entanto, o relativism
o leva esta afirm
ação em
pírica um
passo
adiante. N
ão só grupos sociais diferentes de fato seguem
norm
as diferentes,
m
as eles devem
seguir norm
as diferentes porque não há padrões indepen-
46 D
w
ight Furrow
Ética 47
O
utro argum
ento a favor do relativism
o é o de que se o relativism
o é
verdadeiro, podem
os ser m
ais tolerantes e aceitar os outros. U
m
a vez que
vem
os que nosso próprio m
odo de vida não é m
elhor, de um
ponto de vista
m
oral, do que outros m
odos de vida, deveríam
os estar m
enos inclinados a
julga-los, m
enos inclinados a entrar em
conflito com
eles e m
ais inclinados a
ver as virtudes de m
odos alternativos de viver. U
m
problem
a com
este ponto
de vista é que se a crítica a outras culturas não é justificável, a aprovação de
outras culturas é igualm
ente sem
fundam
entação. M
as há ainda um
problem
a
m
ais profundo com
esta visão - ela produz um
a contradição prática. Suponha
que um
relativista confronte-se com
um
a cultura intolerante, cujos m
em
bros
aderem
rigidam
ente a seus pontos de vista com
convicção. O
relativista não
pode dizer que essa intolerância não é justificada -- ele não tem
nenhum
prin-
cípio fora de sua própria cultura para Justificar sua afirm
ação. Ele não pode
advogar que todos devem
ser tolerantes, um
a vez que o relativism
o nega a
possibilidade de defender este tipo de afirm
ação universal. Assim
sendo, ele
deve tolerar o intolerante. M
as se houver um
conflito real aqui, e os pontos de
vista do intolerante estão sendo forçados ao relativista ele está confrontado
com
um
dilem
a: ou não consegue defender sua posição de que o relativism
o é
verdadeiro para ele, ou viola seu princípio de tolerância e contesta o intolerante.
Em
um
m
undo no qual visões m
orais com
petitivas persistentem
ente entram
em
conflito, a posição do relativism
o não parece prom
issora.
H
á, no entanto, um
argum
ento m
ais sofisticado a favor do relativism
o.
Este argum
ento baseia-se na àH
rm
ação plausível de que o único m
eio de ad-
quirir um
conjunto de crenças m
orais é o adquirir por m
eio da socialização,
dentro de um
grupo social particular. O
s grupo sociais nos quais vivem
os
determ
inam
nossos valores e desejos, porque estes valores e desejos são, afinal
de contas, respostas às condições sob as quais vivem
os. Assim
sendo, não há
m
odo de tom
ar um
a decisão m
oral independentem
ente desta estrutura, porque
os instrum
entos de que necessitam
os para tom
ar tais decisões estão profunda-
m
ente arraigados neste m
odo de vida. N
enhum
a form
a alternativa de vida
pode, algum
a vez, parecer tão im
positiva e as razões que surgem
de m
odos
alternativos de viver não podem
ter um
a influência venal sobre nós.
Esse é um
argum
ento m
uito forte para o relativism
o, porque ele se baseia
na afirm
ação plausível de que fatos a respeito das condições sob as quais as
pessoas vivem
geram
suas crenças m
orais. A m
oralidade consiste em
norm
as
que as pessoas adoram
para superar obstáculos à sua prosperidade e preserva-
ção da ordem
social. Consequentem
ente, as crenças m
orais são adquiridas sob
um
conjunto particular de restrições físicas e condições sociais, e as razões que
elas têm
para justificar suas norm
as parecerão im
positivas som
ente àqueles
que com
partilham
um
a condição. Elas não parecerão im
positivas a alguém
que se depara com
obstáculos diferentes e é nutrida por tradições diferentes.
Em
bora esta seja um
a explicação plausível de com
o adquirim
os norm
as
m
orais, com
o um
argum
ento para o relativism
o ela está sujeita a duas objeções.
A prim
eira, é que este argum
ento assum
e que culturas e subculturas devam
ser
relativam
ente isoladas, assim
que nunca podem
os nos tornar suficientem
ente
fam
iliarizados com
os outros para fazer julgam
entos sobre suas práticas m
orais.
Isto pode ter sido o caso antes de as m
odernas form
as de com
unicação e
transporte tornarem
possível o contado entre culturas que apresentam
disparidades. Eu duvido que na m
aioria dos casos isto ainda seja verdade. U
m
a
boa dose de em
patia e de im
aginação pode ser necessária para que se adquira
com
preensão suficiente dos outros e fazer julgam
entos inform
ados a respeito
deles. M
as isto não é im
possível. A com
preensão é um
a questão de grau, e não
necessitam
os possuir um
a com
preensão com
pleta de algum
a coisa antes de
levantar questões a seu respeito. Em
um
a cultura global, a distinção entre estar
dentro de um
a cultura versus estar fora de um
a cultura é altam
ente contestada e
não fornece m
ais base estável que perm
ita elim
inar perspectivas críticas.
O
engano em
que o relativista incorre aqui é o de assum
ir que um
a
crença ou prática m
oral particular seja tão firm
em
ente ligada às condições
sob as quais surgiu, que não sejam
os capazes de vê-la sob um
outro aspecto.
D
ado o fato de que as m
udanças sociais se dão rapidam
ente, a questão de
um
a crença continuar a servir a um
propósito ou não, é sem
pre inteligível e
pode ser levantada a partir de um
a série de perspectivas internas e externas
a um
grupo social. Em
outras palavras, não estam
os tão com
pletam
ente
posicionados dentro de um
a cultura ou tradição, a ponto de não poder apõe
ender alternativas com
algum
grau de com
preensão.
Além
disso, se certas crenças adquiriam
aceitação com
baseem
fatos
que se descobre serem
falsos, então o fato de serem
parte de um
a tradição
cultural se torna irrelevante para sua avaliação. Tais crenças m
erecem
críticas,
independentem
ente de quão profundam
ente arraigadas em
um
a cultura elas
estejam
. Por exem
plo, m
uitas culturas fazem
discrim
inação contra as m
ulhe-
res com
o força de trabalho, com
base na crença de que estas são m
enos
inteligentes do que os hom
ens. Eles m
antêm
esta crença, não obstante o fato
de que a evidência científica m
ostre que ela é falsa. D
o m
esm
o m
odo, o
nazism
o se baseou em
falsas crenças a respeito da superioridade da raça
ariana, da influência dos judeus na cultura germ
ânica e das razões para o
rebaixam
ento da posição da Alem
anha no m
undo.
Q
uando as culturas entram
em
conflito no m
ercado global das ideias,
cada ideia deve ser questionada e defendida para que consiga atrair e m
anter
aderentes. Isto age com
o um
a im
posição a qualquer sistem
a m
oral que pro-
cure se isolar ao abrigo de críticas. A im
posição m
ais im
portante é a de que
afirm
ações fatuais devem
apresentar o suporte da evidência em
pírica. N
a
m
edida em
que qualquer cultura ou subcultura faz parte de um
sistem
a m
ais
H
i:
.}ti l l
.iii l i
llL
l ' ='
48
D
w
ight Furrow
Ética 49
am
plo de relações -- e, com
o sugeri, hoje a m
aioria das culturas de fato faz --
elas não podem
ignorar a dem
anda de que razões sejam
dadas para suas
práticas, caso pretendam
perm
anecer integradas àquele sistem
a. As relações
nos im
põem
estes tipos de restrições.
A segunda objeção a este argum
ento a favor do relativism
o é que, em
-
bora cada cultura, talvez, se depare com
obstáculos peculiares, os quais suas
norm
as m
orais têm
com
o função superar, todos os seres hum
anos com
parti-
lham
de um
a condição que requer um
conjunto de repostas com
uns. Todas
as culturas devem
produzir e m
anter riqueza suficiente para sua sobrevivência,
adm
inistrar a am
eaça da m
ortalidade, resolver problem
as de com
unicação e
coordenação, e criar seus filhos. Isto quer dizer que as práticas m
orais de
todas as culturas, em
alguns aspectos, serão parecidas. E difícil im
aginar
um
a cultura que não tenha regras contra o assassinato, nenhum
padrão de
honestidade, e nenhum
a regra que governe a educação das crianças. U
m
a
cultura que não as tivesse, não poderia se m
anter sequer por um
a geração.
Isto sugere que devem
os adotar um
a posição que a filósofa, N
ina
Rosenstand, cham
a de universalism
o brando. O
universalism
o brando afirm
a
que há princípios m
orais básicos que são com
partilhados por todas as cultu-
ras, em
bora cada cultura possa aplica-los de m
odo distinto. Cada cultura
pode ter regras contra o assassinato, m
as há grandes diferenças quanto a
com
o tais regras são aplicadas, a quem
se aplicam
e que tipos de exceção
perm
item
. O
fato de que haja sem
elhanças quanto aos tipos de obstáculos
com
os quais os seres hum
anos têm
de se confrontar, nos dá um
ponto de
partida para a avaliação de m
odos discordantes de superar tais obstáculos.
Podem
os falar de m
eios m
elhores ou piores de confrontar a m
ortalidade,
preservar a confiabilidade da com
unicação, etc.
N
o entanto, em
bora o relativista esteja errado em
sugerir que não há res-
paldo para criticar ou avaliar outras práticas culturais, o relativista poderia
estar correto ao negar a existência de um
único código m
oral que seja correto.
D
o fato de que todas as afirm
ações podem
ser criticadas e devem
os defendê-las
com
razões, não decorre que haja critérios claros para resolver todos os desacor-
dos m
orais. Em
bora possam
os m
osuar que alguns códigos m
orais são inferio-
res porque são incom
patíveis com
os fatos ou não conseguem
solucionar os
problem
as que deveriam
, nós podem
os não ser capazes de m
ostrar que um
a e
som
ente um
a form
a de vida é correta usando tais critérios. Consequentem
ente,
pode haver m
uitos m
odos diferentes de viver com
códigos m
orais distintos e
contrastantes, e nenhum
critério que nos perm
ita com
para-los. Em
bora possa
haver uns poucos princípios com
uns m
uito gerais que todos esses m
odos de
vida com
partilham
, as diferenças no m
odo com
o pesám
os o valor relativo dos
vários bens podem
ser tão significativas, que as norm
as que expressam
esses
püncípios podem
produzir linhas de ação am
plam
ente divergentes e incom
pa-
tíveis. Por exem
plo, em
bora todas as culturas tenham
norm
as que dim
inuem
os
conflitos e estim
ulam
a cooperação, o m
odo com
o estabelecem
os os term
os de
cooperação podem
ser am
plam
ente diferentes. N
a cultura ocidental, colocam
os
valor substancial na autonom
ia e individualidade. N
o entanto, m
uitas culturas
através do m
undo valorizam
m
uito m
ais a coesão social, a com
unidade e a
tradição. Pode ser que não haja fato na questão que dem
onstre qual deles é o
correto e nenhum
critério único que nos perm
ita com
para-los.
Isto sugere um
a alternativa ao relativism
o, cham
ada pluralism
o de valo-
res, que tem
m
uitas das virtudes do relativism
o, sem
seus vícios. D
iferente
m
ente do relativism
o, o pluralism
o de valores não afirm
a que todos os siste-
m
as de valores são igualm
ente bons ou que não podem
os criticar sistem
as de
valores. Ele é com
patível com
o ponto de vista de que algum
as pessoas podem
estar equivocadas quanto ao que tem
valor e que alguns sistem
as de valores
são sim
plesm
ente inadequados. N
o entanto, ele concede existência a um
a
variedade de sistem
as que são com
patíveis com
viver um
a boa vida hum
ana.
C) pluralism
o tam
bém
é com
patível com
o que parece ser fatos em
píricos
a respeito de diferenças m
orais. Se olharm
os a variedade de diferenças que
caracterizam
a sociabilidade hum
ana e os conflitos que surgem
por causa de
tais diferenças, é razoável concluir que há m
uitas form
as distintas de viver e
nenhum
procedim
ento racional para resolver todos os conflitos entre elas .
O
pluralism
o de valores, no entanto, nos deixa com
um
a consequência
desagradável. Um
a vez que há conflitos que não podem
ser resolvidos racio-
nalm
ente, parece que ele nos deixa com
um
a estplha rígida entre a tolerância
a pontos de vista que consideram
os ofensivos, ou o uso da força para resolver
conflitos. Isto, até o ponto em
que necessitam
os depender da razão para resol-
ver conflitos sérios, e a razão se m
ostra im
potente. M
uitos filósofos acham
que isto é inaceitável. Assim
sendo, as diH
culdades com
o relativism
o e o
pluralism
o m
oral estim
ularam
a busca de um
a teoria do raciocínio m
oral que
seja absoluta e universal. Passarem
os agora à análise de tais teorias.
IBI dii
ÊÊll
:- '"l
:ili l l
REALISM
O
M
O
RAL
Para que a razão seja suficientem
ente poderosa para resolver conflitos
entre visões discordantes de com
o viver, ela deve ser capaz de fornecer um
a
base para o raciocínio que seja independente daqueles pontos de vista
discordantes. As razões para a ação devem
ser tais que qualquer um
possa ver
o ponto delas, independentem
ente de crenças religiosas, tradições culturais
ou desejos particulares. Em
outros term
os, as razões m
orais devem
ser objetivas.
Até agora, defini um
a razão "objetiva" com
o um
a razão que é im
parcial
ou não preconceituosa. Para alguns filósofos, para que um
julgam
ento seja
não preconceituoso, ele deve referir-se a algum
a coisa que seja independente
50 D
w
ight Furrow
Ética
51
da m
ente. U
m
julgam
ento objetivo é um
julgam
ento que responde a fatores
que são externos à m
ente. M
as há m
uitos m
odos de entender o que quer dizer
ser externos à m
ente. Alguns filósofos sugeriram
um
a abordagem
cham
ada de
realism
o m
oral. D
e acordo com
ela, os fatos m
orais, que são parte do m
undo
externo, guiam
os julgam
entos m
orais objetivos. O
s julgam
entos m
orais são
julgam
entos arespeito de com
o o m
undo é e tais julgam
entos podem
ser tanto
verdadeiros quanto falsos. U
m
a vez que "com
o o m
undo é" é independente
do que pensam
os sobre o m
undo, os julgam
entos guiados por com
o o m
undo
é não são produtos de um
a perspectiva particular, m
as são objetivos.
N
o entanto, o realism
o m
oral não recebeu am
pla aceitação, porque pa-
rece haver um
a im
portante distinção entre fatos e valores. U
m
a coisa é ob-
servar que "M
anoel está m
achucando Pedra". Isto é um
fato observável. N
o
entanto, afirm
ar que "o m
odo com
o M
anoel está tratando Pedro é errado" é
afirm
ar outra coisa. Eu não só estou afirm
ando que algo está acontecendo,
m
as estou tam
bém
atribuindo um
valor a ele, dizendo que ele é m
au. N
a
prim
eira frase, estou sim
plesm
ente descrevendo um
estado de coisas e, se
m
inha descrição é verdadeira, é guiada por com
o o m
undo é. N
a segunda
frase, eu estou prescrevendo um
a ação, im
plicitam
ente recom
endando a
M
anoel que pare de m
achucar o Pedro. N
a afirm
ação "o m
odo com
o M
anoel
está tratando Pedro é errado", eu não estou som
ente percebendo a realidade,
m
as proletando um
a atitude na realidade. A m
aldade do tratam
ento de
M
anoel a Pedro não é algo observável. A projeção de m
inha atitude depende
de m
inha m
ente, um
produto de m
eu estado m
ental, portanto, não
independente da m
ente. Assim
sendo, tal julgam
ento m
oral não é objetivo.
O
realista m
oral é, algum
as vezes, acusado de com
eter a falácia natura-
lista. Cham
a-se de falácia naturalista um
engano de raciocínio que envolve a
dedução do que deve ser o caso, a partir do que é o caso. N
ão é óbvio que
todas as deduções deste tipo sejam
falácias. Presum
ivelm
ente, um
a concepção
do que os seres hum
anos devam
fazer tem
algum
a conexão com
fatos a
respeito da natureza hum
ana. N
o entanto, está claro que deduzir assertivas
de "dever",
a partir de assertivas de "ser",
envolve m
ais argum
entos, não
um
a sim
ples afirm
ação de fatos.
Este debate sobre o realism
o m
oral é com
plexo, de form
a algum
a fíaali-
zado, e faz m
uitas voltas e reviravoltas, das quais não nos ocuparem
os aqui.
Para nossos propósitos é suficiente salientar que basear a objetividade em
um
a análoga entre fatos do cotidiano e fatos m
orais não parece prom
issor.
do m
undo, m
as com
o guiadas pela força m
oralm
ente obrigatória da consistência
lógica. A ideia é que qualquer ser racional deve estar em
conform
idade com
prindpios da lógica. Assim
sendo, se podem
os m
ostrar com
o um
a questão de
lógica que certos princípios m
orais são lusti6lcados, então os princípios serão
objetivam
ente válidos para todos os seres racionais. Eles serão objetivos no sentido
de que não representam
a perspectiva desta ou daquela pessoa, m
as são
necessários a qualquer ser racional. Eles são independentes da m
ente, no sentido
de que independem
de perspectivas ou interesses particulares.
Esta abordagem
para dem
onstrar a objetividade do julgam
ento m
oral
tem
um
a variedade de form
ulações. U
m
a das m
ais acessíveis é a de Thom
as
N
agel, que afirm
a que, quando dam
os um
a resposta a m
alfeitores -- "o que
você acharia se alguém
fizesse isto a você?" -- você pode ver a base objetiva
das razões m
orais. N
agel argum
enta que faz parte da natureza hum
ana ter
ressentim
ento das pessoas que não levam
os nossos interesses em
conta.
Q
uando alguém
m
e pre)udica intencionalm
ente, eu fico zangado com
ele
por não ter consideração. Consequentem
ente, penso que as outras pessoas
têm
um
a razão para levar em
conta os m
eus interesses. M
as não sou diferen-
te dos outros que têm
interesses. Os interesses deles são tão im
portantes
para eles, com
o os m
eus são para m
im
.
É aqui que entra em
cena a força da consistência lógica. E um
princípio
básico da razão que se um
a razão se aplica a um
caso, ela se aplica a qualquer
caso que apresente um
a sem
elhança relevante. U
sar um
a razão com
o justifica-
ção para um
a ação em
um
caso, m
as depois retirar aquelas razões em
outro caso
que é sem
elhante em
todos os m
odos relevantes, seria arbitrário e sem
m
otivação
A racionalidade requer de nós que sejam
os consistentes. Portanto, se os outros
não têm
um
a razão para levar m
eus interesses em
consideração, não tenho
razão para levar os interesses deles em
consideração. Consequentem
ente, levar
os interesses de todos em
consideração é um
requisito m
oral objetivo e universal.
N
agel conclui daí que todos os se.res hum
anos são capazes de ter m
oti-
vação im
parcial. Podem
os ser m
ovidos a fazer julgam
entos m
orais a partir
de um
ponto de vista puram
ente objetivo. Certam
ente, esta m
otivação
com
pete com
outros m
otivos de natureza m
ais egoísta ou pessoal. M
as a
justificação de um
a ação particular é um
a questão de considerar as razões
pelas quais eu devo agir im
parcialm
ente, independentem
ente de m
eus m
oti-
vos pessoais, pesando-os contra os nossos outros m
otivos.
O
argum
ento de N
agel é poderoso e atraente, m
as lim
itado em
aspectos
im
portantes. Verifique que em
bora ele diga que nós sem
pre tem
os um
a razão
para levar em
consideração os interesses dos outros, não precisam
os agir
sem
pre segundo tal razão. Presum
ivelm
ente, em
qualquer situação bastante
com
plexa, tem
os um
a variedade de razões para agr -- algum
as delas podem
ser razões de interesse próprio. Se nossas ações de interesse próprio devem
@
.IÍill :ll
CO
N
SISTÊN
CIA LÓ
GICA
U
m
a abordagem
alternativa à da objetividade que tem
granjeado m
ais
suporte é a abordagem
das razões m
orais, não com
o guiadas por fatos a respeito
r
52
])w
ight
Furrow
Ética
53
passar por cim
a dos interesses dos outros em
um
a situação particular é um
a
questão que o argum
ento de N
agel não responde.
Tam
bém
, observe que, de acordo com
N
agel, ser racional é ter consis-
tência. N
o entanto, em
bora a consistência possa ser um
aspecto im
portante
da racionalidade, ela certam
ente não se resum
e a isso. E tam
bém
racional
procurar a felicidade, escolher m
eios eficazes de satisfazer desejos, etc., e
estas dim
ensões da racionalidade podem
entrar em
conflito com
os requisi-
tos da consistência. Q
uando ser consistente conflita com
esses outros
objetivos, não é óbvio que a racionalidade requeira consistência absoluta.
N
agel necessita de argum
entos adicionais para dem
onstrar a im
portância
suprem
a da consistência.
Isto nos traz um
problem
a m
ais profundo, que com
ecei a tratar no
Capítulo
1, m
as deve ser novam
ente exam
inado nesta discussão a respeito
de razões m
orais. N
agel assum
e que se tem
os um
a razão para fazer algum
a
coisa, tem
os tam
bém
um
m
otivo para fazê-la. Esta é um
a questão altam
ente
contestada em
filosofia m
oral. Podem
as razões, por si próprias, fornecer
m
otivos, ou as razões devem
ser acom
panhadas por desejos que induzam
alguém
a agir? Eu argum
entei no Capítulo l que a ação requer um
m
otivo,
desejo ou propósito. M
as devem
os explorar a questão de se a razão fornece
seus próprios m
otivos, m
ais detalhadam
ente. D
iscutirei esta questão m
ais
abaixo, assim
, lem
bre-se de que há um
a questão im
portante que deve ser
resolvida antes de achar aceitável o argum
ento de N
agel.
O
objetivo de N
agel é esclarecer o grau em
que o significado de afirm
a-
ções m
orais ordinárias requer um
com
prom
etim
ento com
um
ponto de vista
objetivo. N
o entanto, m
esm
o que endossem
os o argum
ento de N
agel, ainda
tem
os de saber com
o, com
eçando com
este ponto de vista objetivo, podem
os
raciocinar a respeito de questões m
orais. Assim
, por agora, assum
am
os que
N
agel está correto sobre a necessidade de um
ponto de vista objetivo, e
passem
os à questão de com
o um
raciocínio m
oral, a partir de um
ponto de
vista objetivo, se apresenta em
detalhes, exam
inandoas duas principais teorias
do raciocínio e justificação m
oral -- o utilitarism
o e a deontologia.
O
utilitarism
o tem
um
a linhagem
longa e ilustre. Sua elaboração deta-
lhada foi inicialm
ente feita por Jerem
y Bentham
, em
1 78 1 . D
esde então tem
sobrevivido a inúm
eras perm
utações nas m
ãos de filósofos e econom
istas
atraídos por seu potencial para reform
as sociais. O
utilitarism
o procura subs-
tituir a confiança em
D
eus, na tradição, senso com
um
ou instituições, pelo
raciocínio a respeito de fatos e suas consequências.
O
utilitarism
o com
eça com
um
a percepção sobre a natureza hum
ana --
a m
aioria dos seres hum
anos busca m
elhorar o seu bem
-estar. Portanto, nossas
ações devem
prom
over o bem
-estar. Tem
havido m
uita disputa quanto ao
que seja o bem
-estar. O
s prim
eiros utilitaristas pensavam
em
term
os de pra-
zer; hoje, m
uitos utilitaristas pensam
em
term
os de satisfação de preferências
com
o o derradeiro bem
. N
o entanto, há boa razão para pensar que nem
o
prazer nem
a satisfação de preferências capta o elenco de coisas às quais os
seres hum
anos atribuem
valor. D
iscutirem
os a ideia de bem
-estar m
ais
detalhadam
ente no Capítulo 5. Por agora, assum
irem
os que bem
-estar inclui
o tipo de coisas que a m
aioria de nós quer -- vida prolongada, boa saúde,
com
ida, abrigo, relações am
orosas, educação, etc.
Posto que tem
os interesse em
nosso próprio bem
-estar, o utilitarista
argum
enta que devem
os causar tanta existência de bem
-estar quanto possí-
vel. M
as, o bem
-estar de quem
devem
os prom
over? A sem
elhança de N
agel,
o utilitarista argum
enta que todos nós tem
os um
m
esm
o interesse em
nosso
próprio bem
-estar. D
e um
ponto de vista objetivo, devem
os considerar nosso
próprio interesse com
o igual aos interesses de todos os dem
ais. Assim
, deve-
m
os tentar produzir o m
aior bem
-estar total agregado para todos aqueles
que serão afetados por nossas ações. Isto pode ser captado em
um
único
princípio básico, cham
ado o princípio da utilidade.
O
princípio da utilidade é com
o se segue: "D
entre as linhas de ação dis-
poníveis, escolha aquela que produz o m
aior bem
-estar agregado". Em
outras
palas'as, tom
am
os os afetados por um
a ação contem
plada, determ
inam
os
com
o a ação os vai afetar, adicionam
os todos esses efeitos, subtraindo os efei-
tos negativos dos efeitos positivos, e com
param
os aquela som
a com
a som
a
dos efeitos de ações alternativas. N
ós som
os obrigados a escolher a ação que
m
axim
iza o bem
-estar geral. D
e acordo com
esta versão do utilitarism
o, deve-
m
os avaliar cada ação que contem
plam
os com
vistas a com
o ela prom
ove o
bem
-estar geral. Assim
, cham
am
os esta versão de utilitarism
o de atos.
D
e acordo com
o utilitarism
o de atos, o princípio da utilidade é a única
fonte de correção m
oral. N
enhum
a ação é correta ou boa, independente de
sua fonte, a m
enos que esteja em
conform
idade com
o princípio de utilidade.
As leis de D
eus, as m
áxim
as m
orais tradicionais, hábitos de caráter, tais
com
o a honestidade, dores de consciência, etc., produzem
ações corretas
som
ente se estão de acordo com
o princípio de utilidade.
Êjl: ' "I
.i]]:]
U
TILITARISM
O
Q
uando avaliam
os um
a ação, podem
os focalizar várias dim
ensões da ação.
Podem
os avaliar a pessoa que está agindo, sua intenção ou m
otivo, a natureza
do próprio ato, ou suas consequências. O consequencialism
o é a abordagem
segundo a qual o que faz com
que um
a ação seja certa ou errada são suas
consequências. N
o que diz respeito à avaliação de um
ato, as outras dim
ensões
da ação não são im
portantes. A teoria consequencialista m
ais am
plam
ente
difundida é o utilitarism
o.
54
D
w
ight Furrow
Ética 55
O
utilitarism
o é um
a razoável teoria do raciocínio m
oral por duas razões:
está voltada para a prom
oção do bem
com
um
,
algo que provavelm
ente não
fazem
os com
a frequência suficiente; e está claro que seguidam
ente nosso
raciocínio intuitivo é utilitarista. A teoria diz estar sim
plesm
ente acrescentando
m
ais rigor e precisão à nossa abordagem
de senso com
um
sobre o raciocínio. Em
inúm
eras situações, todos os dias contem
plam
os quais serão as consequências
de nossas ações, e escolhem
os as ações que produzirão
as m
elhores consequências.
O
utilitaüsta argum
enta que sim
plesm
ente ao esdarecer o que conta com
o a
m
elhor consequência e especificar o tipo de razão que produzirá a m
elhor
consequência, podem
os sistem
atizar todo o nosso raciocínio m
oral.
N
o entanto, se o utilitarism
o é o nosso único padrão de raciocínio m
o-
ral, incorrem
os em
problem
as. O
prim
eiro conjunto de problem
as tem
a ver
com
fazer o bem
, segundo a afirm
ação de que este é um
m
eio objetivo de
avaliar nossas ações. M
uito em
bora o utilitarista considere igualm
ente os
interesses de todos, com
o sabem
os quais são tais interesses? Com
o fazem
os
com
parações im
pessoais a respeito do que as pessoas dão valor? M
esm
o se
concordam
os a respeito das coisas que os seres hum
anos pensam
ser boas --
vida prolongada, saúde, com
ida, abrigo, educação, etc. -- o valor relativo de
cada um
irá variar de pessoa a pessoa. Assim
, com
o um
dom
ador de decisões
poderá saber quais bens um
grupo diverso de pessoas irá preferir?
Além
disso, para serm
os precisos em
nossos cálculos de bem
-estar, de-
vem
os atribuir valores num
éricos aos vários bens produzidos pelas ações
que estão sendo consideradas: M
as, com
o atribuím
os valores num
éricos com
precisão a bens que diferem
em
qualidade e não som
ente em
quantidade?
Em
nosso sistem
a económ
ico, resolvem
os am
bos os problem
as perm
i-
tindo que um
m
ercado livre decida com
o distribuir os bens. N
ós substituí-
m
os a ideia de bem
-estar pela de satisfação preferencial, e então perm
itim
os
que a quantidade de dinheiro pela qual um
a pessoa que deseja com
prar ou
vender um
produto determ
ine o valor que as coisas têm
. O
problem
a com
isto, com
o um
m
odo objetivo de determ
inar o valor relativo das consequências
das nossas ações, é que m
uitas coisas a que dam
os valor não são bens de
m
ercado e a elas não pode ser atribuído valor m
onetário. Q
ual é o preço de
um
a vida hum
ana, da am
izade, do respeito próprio, da liberdade, etc.? .Além
do m
ais, as pessoas que não têm
os recursos para entrar no m
ercado ou
conhecim
ento para fazer escolhas inteligentes, não podem
expressar suas
preferências. Consequentem
ente, ao final, um
tal sistem
a não considera os
interesses de todos igualm
ente. Econom
istas, e outros que trabalham
na
área de políticas públicas, têm
fórm
ulas com
plexas para tentar tratar com
estas questões, m
as suas resoluções perm
anecem
um
problem
a espinhoso.
U
m
segundo grupo de objeções diz respeito ao papel da Justiça e dos
direitos no interior do utilitarism
o. O
princípio de utilidade diz para
m
axim
izarm
os o bem
-estar agregado. Suponha que podem
os criar grande
riqueza para um
a sociedade por m
eio da escravização de grupos m
inoritários.
Se a sociedade, com
o um
todo, é suficientem
ente beneficiada pela escravi-
dão, isto sobrepujaria o efeito negativo sobre os escravos. Um
a tal ação,
então, seria justificada de acordo com
o princípio. N
o entanto, de acordo
com
a m
oralidade do senso com
um
, pensam
os que justiça e direitos funda-
m
entais para os indivíduos são dem
asiadam
ente im
portantes para serem
sacrificados pelo bem
com
um
. O
s indivíduos não são sim
plesm
ente m
eios
para um
fim
, m
as um
fim
em
si próprios, com
seus próprios interesses e
preocupações. Tratar as pessoas apenas com
o m
eios para um
flm
é negar o
respeito que essas pessoas m
erecem
.
O
utilitarism
o de atos pode reconhecer a im
portância dos direitos e da
justiça, m
as som
ente naqueles casos em
que esse reconhecim
ento produzm
ais bem
-estar agregado. Q
uando os direitos e a justiça não prom
ovem
o
bem
com
um
, eles deveriam
ser ignorados. N
o entanto, toda a ideia de direitos
é que ela intitula quem
tem
direito a certos tipos de tratam
ento, indepen-
dente das consequências para a sociedade. Assim
, o utilitarism
o é com
frequência criticado por ignorar a justiça e os direitos. O
problem
a funda-
m
ental é que o utilitarism
o não consegue ver seriam
ente que as pessoas são
separadas, pois ele sim
plesm
ente agrega o bem
-estar delas em
um
a som
a
total, e não se preocupa com
com
o aquele bem
-estar é distribuído.
U
m
terceiro grupo de objeções diz respeito ao papel das obrigações.
Intuitivam
ente, ações tais com
o respeitar a propriedade dos outros, dizer a
verdade e cum
prir prom
essas são princípios m
orais im
portantes. N
o entanto,
o utilitarism
o de atos os trata com
o opcionais, dependendo da questão con-
tingente de terem
eles boas consequências ou não. Suponha, por exem
plo,
que eu tom
e em
prestado R$ 1 .000,00 de um
am
igo rico com
a prom
essa de
devolvê-los em
seis m
eses. Q
uando é chegada a hora de fazer a devolução, eu
poderia doar aqueles R$1.000,00 à caridade e assim
produzir m
ais bem
-
-estar agregado. .Afinal de contas, ele está bem
de vida e não precisa realm
ente
dos R$ 1 .000,00. Intuitivam
ente, eu sou obrigado a m
anter m
inha prom
essa
e devolver-lhe o dinheiro. O
utilitarism
o
diz outra coisa.
Finalm
ente, m
uitos criticam
o utilitarism
o por ser dem
asiadam
ente exi-
gente. Ao pedir que sem
pre escolham
os o m
elhor para o bem
-estar agregado, o
utilitarism
o parece deixar pouco espaço para que possam
os dar vazão a nossos
proJetos e interesses pessoais ou nos preocupar com
nossas próprias vidas.
M
uitos advogados do utilitarism
o se recusam
a aceitar tais críticas e
sim
plesm
ente argum
entam
que nossas intuições a respeito de direitos e obri-
gações são resquícios irracionais de sistem
as m
orais desacreditados. N
ós de-
veríam
os adotar o utilitarism
o, não obstante tais resultados. N
o entanto,
outros tentaram
responder a essas objeções desenvolvendo concepções alter-
:lt l F
d H
.l I'
.H
t
l l
"I«l
;ii
l l
«,
.-
56
D
w
ight Furrow
Ética 57
nativas de utilitarism
o. A variante m
ais com
um
é o utilitarism
o de regras,
algum
as vezes referido com
o utilitarism
o indireto.
A diferença entre o utilitarism
o de fitos e o utilitarism
o de regras é a
entidade à qual aplicam
os o princípio de utilidade. O
utilitarism
o de aros
diz para aplica-lo a cada ação. O
utilitarism
o de regras diz q\le não deveríam
os
considerar cada ação em
separado, porque padrões de ações tam
bém
podem
ter consequências. Assim
, devem
os ver em
que tipo de ação estam
os enganados,
ver com
o aquele tipo de ação produz certos padrões de respostas a situações
típicas, e então, form
ular regras que descrevam
tais padrões. Então, avaliar
as consequências das regras em
vez de cada ato individual.
Consequentem
ente, um
a ação individual é justificada se ela for o tipo de
ação que a regra m
oral correta requer; e um
a regra m
oral é justificada se ela
produz tanta utilidade quanto regras alternativas, se todos a seguissem
. Q
uando
prom
eto devolver o dinheiro que tom
ei em
prestado de m
eu am
igo, verifico
que fiz um
a prom
essa, e aquele é um
tipo de ato coberto por um
a regra do tipo
quando você faz um
a prom
essa, cum
pra-a"- O
u em
vez de avaliar a ação por
si só, eu aplico o princípio de utilidade à regra que governa a ação. U
m
a vez
que pode ser plausivelm
ente argum
entado que as regras que requerem
que
cum
pram
os nossas prom
essas prom
ovem
o bem
-estar geral e, portanto,
requeridas pelo princípio de utilidade, posso concluir que devo cum
prir m
inha
prom
essa ao m
eu am
igo rico e devolver-lhe o dinheiro.
VeüH
ca-se que com
o utilitarism
o de regras os resultados obtidos são dife-
rentes. Lem
bre-se de que o utilitarism
o de atos, em
alguns casos, advogava que
eu não pagasse o em
préstim
o feito, e desse o dinheiro à caridade. O
utilitarism
o
de regras, ao advogar que devem
os seguir regras que nos dirijam
a cum
prir
prom
essas, está m
ais próxim
o da m
oralidade de senso com
um
. O
utilitarism
o
de regras produz resultados de senso com
um
sem
elhantes a esse, quanto à
questão de lustig
e direitos. As regras que proíbem
a escravatura e protegem
um
a gam
a de direitos individuais, afastam
todos nós da tirania que as m
aiorias
podem
, com
frequência, im
por a grupos m
inoritários ou a indivíduos. Assim
,
regras que garantem
os direitos individuais prom
ovem
o bem
-estar geral e são
justificáveis de acordo com
o utilitarism
o. O
utilitarista de regras argum
enta
que os resultados estanhos que afligem
o utilitarism
o de atos são o resultado
de não levarem
seriam
ente em
consideração o papel das regras no raciocínio
m
oral. U
m
a vez que vem
os a m
oralidade com
o um
a atividade essencialm
ente
governada por regras, os resultados im
plausíveis do utilitarism
o desaparecem
.
N
o entanto, o utilitarism
o de regras tem
um
a fkllha fatal. Q
ualquer pessoa
com
m
uita experiência de vida sabe que algum
as vezes tem
os de fazer exceções
às regras, especialm
ente porque as regras podem
estar em
conflito. As regras
precisam
de algum
a flexibilidade. M
as,
se o utilitarism
o de regras acrescenta
flexibilidade apresentando um
a regra tal com
o "Cum
pra sem
pre as suas pro-
m
essas, a m
enos que possam
produzir m
ás consequências", ele está essencial-
m
ente revertendo para o utilitarism
o de aios. D
ado o m
odo com
o a regra é
construída, a regra agora especiâca que avaliam
os o ato -- utilitaüsm
o de ato. O
utilitarista de atos não tem
de operar sem
regras; seu único com
prom
etim
ento é
a obrigação de pesar as consequências de seguir um
a regra, ou não, em
casos
particulares. O
fato de que há um
a regra prescrevendo um
a ação não im
porta,
som
ente as consequências im
portam
. Se as consequências de quebrar um
a regra
são negativas, então, m
esm
o o utilitaüsta de atos diria para obedecer à regra.
Consequentem
ente, com
um
a regra construída desta m
aneira não há diferença
entre o utilitarism
o de atos e o de regras.
Para preservar a diferença, o utilitarista de regras deve insistir a respeito
de regras estritas, sem
exceções, assim
que nos é interditado o exam
e de
casos particulares. N
o entanto, se a consequência de quebrar um
a regra é
positiva, o utilitarista de regras deve insistir que se siga a regra, independen-
tem
ente das consequências, um
a vez que a regra não pode adm
itir exceções.
M
as, então, ele não é m
ais um
utilitarista, porque ele não está apelando para
as consequências com
o justificação.
A questão aqui é que, m
esm
o se usualm
ente é um
a boa coisa que as
pessoas sigam
regras, é ainda m
elhor quando elas seguem
regras que produ-
zem
boas consequências, m
as que sejam
quebradas quando produzem
m
ás
consequências. Assim
sendo, qualquer utilitarista deve ser um
utilitarista de
atos, e isto sobrecarrega o utilitarism
o com
todas as dificuldades do utilita-
rism
o de atou levantadas acim
a.
N
ão há dúvida de que algum
as vezes o nosso raciocínio é, e deveria ser,
focalizado nas consequências de nossas ações e suas contribuições para o
bem
-estar com
um
. N
o entanto, dadas as sérias objeções acim
a levantadas, o
utilitarism
o falha enquanto um
a teoria abrangente do raciocínio m
oral.
{l::"i
A D
EO
N
TO
LO
GIA KAN
TIAN
A
Vim
os com
o o raciocínio m
oral que localiza exdusivam
ente as consequências
seguidam
ente sacrifica os indivíduos em
favor do bem
-estar geral. Por outro lado,
as teorias deontológicas afirm
am
que as pessoas individuais têm
um
sfafm
especial,
e devido a esse sfaM
s, lhes devem
os respeito que não deve ser violado
independentem
ente das consequências. Sob este ponto de vista, o respeitopelas
pessoas, seus direitos e obrigações são as pedras de construção do raciocínio m
oral.
Esta abordagem
da m
oralidade recebeu sua form
ulação m
ais im
pressionante no
trabalho de Im
m
anuel Kart,
que encontram
os no Capítulo l.
N
o Capítulo 1, rejeitam
os a abordagem
kantiana de autonom
ia. N
o
entanto, m
uitos defensores contem
porâneos da deontologia pensam
que a
substância da abordagem
de ]<lant sobre o raciocínio m
oral pode ser defendi-
58
D
w
ight Furrow
Ética
59
da sem
endossar a sua peculiar visão de liberdade. D
e acordo com
Kant, as
pessoas têm
sfaM
s especial porque elas têm
valor intrínseco. Algo tem
valor
intrínseco se o seu bem
faz parte de sua natureza, independentem
ente de
sua relação a algum
a outra coisa. As pessoas, de acordo com
]<lant, têm
valor
intrínseco, porque são capazes de fazer julgam
entos racionais independentes
no que respeita com
o vivem
os. (Lem
bre-se, dados os resultados do Capítulo
[, ]<ant está errado ao pensar que independente significa independente de
toda a influência causal, em
oções e desejos.)
Esta capacidade para a autonom
ia (que para l<lant, lem
bre-se, envolve
tanto a liberdade quanto a razão) nos faz trem
endam
ente diferentes de qual-
quer outra entidade. O
s artefatos e objetos naturais tais com
o anim
ais, plan-
tas, etc., têm
valor som
ente se alguém
ou algo tiver uso para eles. Eles têm
som
ente valor extrínseco, porque seu valor está na dependência de sua rela-
ção com
algum
a outra coisa que encontra valor neles. Eles não são bons por
si só, m
as por causa de algum
a outra coisa. Isto quer dizer que artefatos e
objetos naturais podem
ser som
ente a fonte do que Kart cham
a de im
pera-
tivos hipotéticos. Lem
bre-se, do Capítulo 1, que o im
perativo hipotético é
um
princípio que nos com
anda a fazer algum
a coisa som
ente se quiserm
os.
Por exem
plo, "se você tem
de viajar distâncias longas, então com
pre um
carro". U
m
carro tem
valor som
ente se as pessoas precisam
viajar. "Se você
tem
fom
e, então com
a um
pedaço de fruta". A fruta tem
valor som
ente se
alguém
a considerar desejável.
O
s seres hum
anos têm
valor extrínseco e podem
ser fonte de im
perativos
hipotéticos. M
eu m
ecânico tem
valor, porque ele pode m
anter o m
eu carro
rodando suavem
ente. N
o que diz respeito à sua habilidade com
o m
ecânico,
ele tem
valor som
ente na m
edida em
que alguém
quer os seus serviços. N
o
entanto, em
contraste com
artefatos e objetos naturais, os seres hum
anos têm
valor intrínseco em
acréscim
o ao valor extrínseco. O
s seres hum
anos não são
som
ente m
ecânicos ou m
em
bros de fam
ília ou com
panheiros agradáveis, úteis
para este ou aquele propósito. O
s seres hum
anos têm
valor m
esm
o se ninguém
se im
porta com
eles, m
esm
o se eles não têm
serventia para ninguém
, m
esm
o
se seu com
portam
ento é deplorável. Assim
sendo, eles têm
o que Kant cham
a
de valor objetivo e devem
ser tratados com
respeito especial.
D
e acordo com
]<lant, este fato a respeito de pessoas tem
um
im
pacto
substancial sobre nossa conduta m
oral porque, um
a vez que reconhecem
os
que
os seres
hum
anos
têm
valor
objetivo,
não
os podem
os
tratar
m
eram
e/zfe
com
o instrum
entos para prom
over o bem
com
um
ou qualquer outro propó-
sito. Isto quer dizer que o raciocínio m
oral deve proceder, não dos im
perativos
hipotéticos, m
as do que l<lant cham
a de um
im
perativo categórico.
U
m
im
perativo categórico é um
princípio que nos com
anda fazer algu-
m
a coisa independentem
ente do que querem
os. "Categórico" quer dizer sem
condições atreladas. U
m
im
perativo categórico é um
im
perativo segundo o
qual eu devo agir sob quaisquer condições. Q
ual é o conteúdo de um
im
pe-
rativo categórico? Estas considerações sobre o valor incondicional das pessoas
[evam
diretam
ente a um
a das três form
u]ações de ]<ant do im
perativo cate
górico. (Considerarem
os aqui som
ente duas form
ulações) 'n.ja com
o se você
tratasse a hum
anidade, seja em
sua própria pessoa ou na de um
a outra,
nunca com
o um
m
eio som
ente, m
as sem
pre ao m
esm
o tem
po com
o um
fim
em
si própria". (](ant, 1964, Cap.ll, seção 428)
Isto quer dizer que devem
os respeitar o fato de que outras pessoas têm
fins (isto é interesses, objetivos, projetos, etc.) e são capazes de raciocinar a
respeito desses fins e de agir segundo aquelas razões. Assim
sendo, qualquer
tratam
ento de outra pessoa deve ser em
basado por razões com
as quais aquela
pessoa concordaria se estivesse pensando racionalm
ente.
Se peço ao m
eu m
ecânico para consertar o m
eu carro, eu o estou usando
com
o um
instrum
ento. N
o entanto, ao paga-lo a quantia acertada, eu o estou
tratando com
o um
fim
em
si próprio, com
o alguém
com
seus próprios inte-
resses e capacidade de raciocinar, e para quem
seu tem
po tem
valor. Assum
in-
do que não o estou coagindo ou enganando, eu o estou tratando de um
m
odo
ao qual ele dá consentim
ento e, portanto, o m
eu tratam
ento é justificado. Se
cu saísse correndo sem
pagar, então eu o estaria usando com
o um
instrum
en-
to para m
eus propósitos, sem
sua anuência. Eu o estaria tratando com
o se ele
tivesse som
ente valor extrínseco ou condicional,
e isto é proibido.
A teoria de ]<ant contrasta fortem
ente com
a do utilitarism
o. A obriga-
ção de tratar todas as pessoas com
o fins, não m
eram
ente com
o m
eios, proi-
birá o sacrifício de indivíduos pela causa do bem
com
um
. A teoria de Kant
requer um
a variedade de obrigações: dizer a verdade, cum
prir prom
essas, ser
honesto e )usto, etc., que nós devem
os seguir, independente de suas
consequências.
Kant não estava interessado som
ente em
explicar porque tem
os um
a
obrigação de respeitar a hum
anidade dos outros. Ele queria tam
bém
fornecer
um
m
odo sistem
ático de determ
inar em
situações especificas, quando as
nossas ações são justificadas e quando não. Assim
, ele fornece um
a form
ulação
alternativa do im
perativo categórico que auxilia nesta tarefa. 'a.ja com
o se a
m
áxim
a de sua ação, por sua vontade, se tornasse um
a lei universal" (Kant,
1964, Cap. 11, seção 42 1 ). Kant afirm
a que esta form
ulação é equivalente à
anterior. N
ão nos preocuparem
os, aqui, se isto é o caso. N
ós nos preocupa-
rem
os com
o processo de raciocínio gerado por este princípio.
# tt il
b- '
8; P,
l
P11 : ' 'll
i::lll
1::: i: -
.h.
60
D
w
ight Furrow
Ética
61
Kant diz que quando refletim
os sobre o que este princípio significa e o
aplicam
os a situações que surgem
na vida, podem
os determ
inar se a ação é
obrigatória ou proibida. A m
áxim
a da sua ação é o princípio ao qual você deve
apelar caso alguém
Ihe peça para Justificar sua ação. Ele descreve, a partir de um
ponto de vista subjetivo, o princípio segundo o qual você age. Por exem
plo,
suponha que eu tenha que fazer um
trabalho m
onográfico de final de sem
estre
para a disciplina de ética, m
as não consigo escrevê-lo. Então, decido com
prar
um
a m
onografia pela Internet. M
inha m
áxim
a seria "Q
uando m
e for solicitado
apresentar um
a m
onografia, e eu não escrevi um
a, apresentarem
um
a m
onografia
que com
prei, com
o se fosse m
inha". M
as ]<lant, assim
com
o N
agel, argum
enta
que, com
o um
ser racional, eu devo ser consistente. Portanto, devo tratar a
m
inha m
áxim
a com
o um
a regra geral que se aplica a todos os casos sim
ilares. A
m
áxim
a então se torna: "Sem
pre que eu precisar apresentar um
a m
onografia, e
não a tiver escrito, eu com
prarei um
a e a apresentarei com
o m
inha". Verifique
que o im
perativo categórico diz: 'n.ja com
o se a m
áxim
a da sua ação, por su'z
ponfade, devesse se tornar
um
a Zeí zz7zípersaZ". A expressão com
a se e a referência
à
lei universal leva-m
e a im
aginar um
a situação hipotética na qual todos seguem
esta m
á)cim
a geral. Enquanto
a frase "porsua vontade" m
e pergunta se eu
poderia consistentem
ente desejar que esta situação se apresentasse.
Portanto, devo universalizar a m
inha m
áxim
a. Eu posso consistentem
en-
te desejar que todos os estudantes apresentem
m
onografias que eles com
pra-
ram
em
vez de tê-las eles m
esm
os escrito? Q
ualquer m
áxim
a que estabelece
um
a ação perm
issível deve sei universalizada. Kant, certam
ente, viveu m
uito
tem
po antes que alguém
pudesse com
prar m
onografias pela Internet. M
as,
dada a discussão de ]<ant de com
o lidar com
casos sem
elhantes, ele certam
en-
te teria dito não. Q
uerer que todos seguissem
este princípio seria produzir o
que ele cham
a um
a contradição da vontade. A ideia é que se todos os alunos
fossem
com
prar um
a m
onografia, os professores parariam
de pedir m
onografias
e utilizariam
outra form
a de avaliação. Assim
, eu gostaria de receber um
conceito
apresentando um
trabalho plagiado e, tam
bém
, quero criar condições sob as
quais a apresentação de trabalhos plagiados fosse im
possível. Eu quero que
condições,contraditórias existam
. U
m
a vez que o princípio, se seguido univer-
salm
ente, apresentaria um
a contradição, o princípio é irracional. Porque ele é
irracional, a ação decorrente dele seria errada. Eu tenho a obrigação de evitar
a apresentação de trabalho plagiado com
o se fosse m
eu próprio.
O
utras m
áxim
as que advogam
ações que são intuitivam
ente erradas
têm
um
destino sem
elhante. N
ão devem
os roubar, porque se todos assim
procedessem
, solaparia o sistem
a de propriedade, do qual querem
os tirar
vantagem
ao roubar. D
evem
os não m
entir, porque se todos m
entissem
,
solaparia o sistem
a de com
unicação, do qual querem
os tirar vantagem
ao
m
entir. D
evem
os não quebrar nossas prom
essas, porque se todos fizessem
isso, solaparia a prática de fazer prom
essas. D
evem
os não m
atar pessoas
inocentes, porque, se todos fizessem
isso, eu estaria sujeito a ser m
orto. A
m
ensagem
básica aqui é sem
elhante à da regra de ouro -- "faça aos outros
aquilo que gostaria que os outros fizessem
para você" -- em
bora haja um
a
diferença: a alegação do im
perativo categórico é a de estar baseada não naquilo
que quero, m
as daquilo que posso consistentem
ente ter vontade.
Ê im
portante que fique claro aqui, que Kant não está apelando para
consequências. Ele não está dizendo que se eu apresento um
trabalho plagiado,
isto fará com
que outros façam
o m
esm
o, assim
causando o colapso do sistem
a.
Esse seria um
raciocínio de esti]o uti]itarista, e ](ant é oposto a ele. Ele não
está preocupado com
as reais consequências de nossas ações. Sua preocupação
diz respeito a se o conceito incorporado no princípio é coerente ou não. As
consequências im
aginadas são puram
ente hipotéticas e servem
para elucidar
se estou pensando claram
ente a respeito do que estou em
vias de fazer. U
m
a
ação é errada, não porque tenha m
ás consequências, m
as porque ela é
irracional em
sua concepção. Assim
, a razão nos liga à m
oralidade. A
m
oralidade nos faz dem
andas que são inescapáveis, sim
plesm
ente porque
som
os racionais. A im
oralidade é oposta à razão.
A partir desta form
ulação do im
perativo categórico, Kant pensa que
tem
os um
poderoso procedim
ento de decisão para determ
inar quais são as
nossas obrigações. Se um
a ação é proibida pelo im
perativo categórico, ele
não perm
ite exceções. E errado, independente de suas consequências. Este
aspecto da teoria de ]<lant poderia parecer im
plausível à prim
eira vista. E
natural pensar que a m
oralidade diga respeito a beneficiar os outros -- fazer
a vida m
elhor para eles, evitar causar-lhes danos, etc. O
que poderia ser m
ais
benéfico do que fazer com
que boas coisas aconteçam
? Q
ual é a origem
da
reclam
ação de Kant sobre as consequências?
Com
o vim
os, um
foco exclusivam
ente sobre as consequências tende a
obscurecer o valor intrínseco das pessoas, o que Kant considera m
uito seria-
m
ente. M
as e]e tem
outras preocupações tam
bém
. ]<ant é cético quanto à
existência de um
a concordância geral sobre o que conta com
o um
a boa
consequência. O
s seres hum
anos discordam
quanto ao que conta com
o feli-
cidade e bem
-estar. Cada um
de nós tem
a sua própria concepção do que seja
bem
e Kant duvida que possam
os descobrir um
a abordagem
objetiva de
felicidade que pudesse resolver as discordâncias. Consequentem
ente, só
podem
os fazer progresso em
fi]osofia m
oral se questões sobre o que é certo
ou errado tom
arem
a precedência sobre questões a respeito do que é bom
.
Além
disso, Kant está m
uito preocupado com
a estabilidade da m
oralidade.
Se o que é certo ou errado difere de pessoa a pessoa, de cultura a cultura, ou de
rP'
'' li! l l
W
b. . '
E ll:l' il
62 D
w
ight Furrow
Ética
63
situação a situação, a vida social carecera da confiança e inteligibilidade que
nos é necessária para prosperarm
os. O
foco em
consequências não pode dar
esta estabilidade. As consequências de nossas ações são m
uito difíceis de pre-
dizer. Raram
ente podem
os ter certeza das consequências, em
longo prazo, de
nossas ações. Além
disso, um
a vez que não podem
os ter pleno controle sobre
as consequências de nossas ações, é errado louvar ou recrim
inar as pessoas por
suas ações. N
ão podem
os nos responsabilizar por elas, e, consequentem
ente,
elas não devem
fazer parte da avaliação de um
a ação.
Tendo em
vista estas preocupações sobre a instabilidade e responsabili-
dade, necessitam
os ancorar a m
oralidade em
algo que possa ser bom
em
todas as circunstâncias, sem
quaisquer qua]ificações. ]':ant acha que encon-
trou isso no que ele cham
a de "a boa vontade". A boa vontade é a única coisa
que é boa sem
qualificação. Q
ualquer outra coisa a que possam
os dar valor --
prazer, felicidade, intelecto, coragem
, lealdade, etc., -- pode ser usada para
propósitos m
alignos. A única coisa que não pode ser usada para o m
al é um
a
boa vontade -- a intenção de seguir um
a lei m
oral. O
conteúdo desta boa
vontade, a lei que devem
os seguir, é o im
perativo categórico.
Isso dá um
a estabilidade à correção ou erro das ações, e não está afetado
por nenhum
a coisa fora das estipulações do im
perativo categórico, seu valor
m
oral não é afetado pelo fato de ele atingir ou não seu objetivo -- ele perm
a-
nece obrigatório. M
esm
o que as consequências presentes sejam
desastrosas,
o valor m
oral da ação é im
utável. Além
disso, o valor m
oral de um
a ação não
tem
nada a ver com
as em
oções ou desejos subjacentes que possam
ter cau-
sado a ação. Se eu digo a verdade porque estou preocupado em
ser pego
m
entindo, m
inha ação não tem
valor m
oral, porque ela foi m
otivada pelo
m
edo. Se digo a verdade por causa da com
paixão pelas pessoas que podem
ser prejudicadas pela m
inha m
entira, m
inha ação ainda não tem
valor m
oral.
Ela foi m
otivada por um
a em
oção. O
único m
otivo m
oral adequado é o
respeito pe[a [ei m
ora]. Eu sou digno de louvor m
oral se ajo conform
e um
sentido de obrigação ao reconhecer o que é racionalm
ente requerido.
Sem
elhantem
ente, se um
a ação é proibida, seu valor m
oral não é afetado
pelo fato de o agente ter tido a intenção de, com
ela, fazer algum
bem
, ou de
ter sido um
ato de coragem
, inteligência ou ainda de ter sido m
otivado pela
lealdade. O
valor m
oral é inteiram
ente determ
inado pelo fato de o agente
ter, ou não, um
a boa vontade, e a qualidade da vontade é inteiram
ente de-
term
inada pelo fato de a form
a universalizado da m
áxim
a produzir um
a
contradição, ou não. Assim
sendo, a sorte não pode afetar o valor m
oral de
um
a ação. N
ada fora do controle do agente pode afetar o valor m
oral de um
a
ação, um
a vez que o valor m
oral está totalm
ente determ
inado pelo conteúdo
da vontade. Você só pode ser responsabilizado se sua m
áxim
a é proibida
pelo im
perativo categórico.
Em
resum
o,enquanto pessoas nós tem
os que nos ver com
o agentes
m
orais que têm
interesses, que podem
deliberar racionalm
ente sobre tais
interesses e escolher com
base naquela deliberação. U
m
a vez que eu m
e veja
desta form
a, devo ver os outros com
o possuidores das m
esm
as capacidades.
Assim
, com
o um
ser racional, a consistência requer que eu leve o valor objetivo
das pessoas seriam
ente em
conta, e isto m
e com
prom
ete a buscar ações de
acordo com
o im
perativo
categórico.
A teoria de ]<lant é brilhantem
ente colocada e repousa em
intuições
m
uito plausíveis. As pessoas são dignas de respeito e nunca devem
ser usa-
das m
eram
ente com
o m
eios para um
fim
, para o qual elas não dão seu
consentim
ento; as pessoas só são responsáveis por aquilo que está sob o
controle delas; e a m
oralidade consiste de princípios que estão em
ação para
todos em
todos os m
om
entos. Parece bastante razoável adotar esses
elem
entos da teoria de Kant.
N
o entanto, assim
com
o há dificuldades com
o utilitarism
o, aqui tam
-
bém
há problem
as profundos. Alguns dos problem
as envolvem
a m
ecânica
interna da teoria. ](ant nos dá poucas orientações sobre com
o devem
os cons-
truir nossas m
áxim
as, m
as a questão é crucial para que se possa determ
inar
se um
a ação é correta ou errada. Para ilustrar, suponha que alguém
m
e per'
gunte se vou m
e ocupar de um
a tarefa im
portante que não quero fazer e,
para evitar em
baraços, estou pensando em
m
entir a respeito disso. A m
inha
m
áxim
a seria: "M
inta quando você não quer reve]ar a verdade". Com
o ]<lant
diz, isto não passaria no teste do im
perativo categórico, porque se todos
fizessem
isto, a prática de dar crédito às afirm
ações que as pessoas fazem
colapsaria. N
o entanto, suponha que eu reescreva a m
inha m
áxim
a da se-
guinte m
aneira: "M
inta quando você não quer revelar a verdade, se você
puder fazer isto sem
que alguém
o descubra". Isto não violada o im
perativo
categórico, porque se todos assim
procedessem
, ainda haveria um
a boa razão
para que se acreditasse na m
aioria daS afirm
ações que as pessoas fazem
.
Com
um
ente, não é razoável pensar que ninguém
descobrirá as nossas m
en-
tiras, assim
, a situação não ocorrerá com
m
uita frequência. Se todos seguissem
esta m
áxim
a, nossas práticas de com
unicação não deixariam
de ter utilidade
Assim
, esta m
áxim
a passaria no teste do im
perativo categórico, m
uito em
bo-
ra seja intuitivam
ente errada. Aparentem
ente, quando colocam
os condições
e restrições às nossas m
áxim
as, quase todas as ações passarão no teste do
im
perativo categórico. Isto seria perm
issivo dem
ais.
Em
vista deste resultado, parece que as m
áxim
as devem
ser restritas às
m
uito gerais, tais com
o,"M
inta quando você não quer revelar a verdade:
U
m
a vez que isto não passaria no teste, seríam
os m
oralm
ente obrigados a
sem
pre evitar as m
entiras. M
as isto é um
a obrigação m
oral que requer m
ais
-i!
l
'
llill:ll ll!
Bt. 1 . P t'
H
all l
! l:l 1111
Élll=1- iÍI
64
D
w
ight Furrow
Ética 65
do que é plausível fazer. Intuitivam
ente, algum
as vezes dizer a verdade é a
coisa errada a fazer, se isto for ferir seriam
ente a alguém
. Assim
sendo, pare-
ce que as m
áxim
as quando são corretam
ente form
uladas produzirão obriga-
ções m
uito estritas, tais com
o, "sem
pre diga a verdade", "sem
pre cum
pra as
suas prom
essas", "nunca m
ate pessoas inocentes", "nunca tom
e a proprieda-
de de um
a pessoa sem
o consentim
ento
dela", etc. Em
bora,
enquanto diretivas
gerais, estas estejam
m
uitas boas, é claro que as com
plexidades da vida re-
querem
exceções a todas as regras. Aparentem
ente, a teoria de Kant produz
um
a m
oralidade im
possivelm
ente rígida.
Além
disso, Kant não nos dá nenhum
conselho quanto a com
o tratar de
obrigações em
conflito. Lealdades conflitantes, prom
essas m
últiplas que não
podem
todas ser cum
pridas, obrigações incom
patíveis conosco de ajudar os
outros são elem
entos constantes em
nossas vidas, e qualquer teoria viável do
raciocínio m
oral deve nos dizer algo sobre com
o resolver racionalm
ente tais
questões. M
as a teoria kantiana é m
uda quanto a isto.
Fina[m
ente, ]<ant afirm
a que cum
prir prom
essas, respeitar a proprie-
dade dos outros, etc., é necessário porque se todos os violassem
, as próprias
práticas das quais as violações dependem
cairiam
aos pedaços. M
as, suponha
que alguém
não tivesse interesse em
cum
prir prom
essas ou respeitar a pro-
priedade alheia. Suponha que alguém
não se im
porta do m
odo com
o é tra-
tado, com
quanto não tenha que se preocupar em
tratar os outros bem
. Tais
pessoas não sentiriam
a força da contradição kantiana da vontade e,
consequentem
ente, tais violEições não seriam
erradas para eles. A estabilidade
que ]<lant estava buscando desaparece. Além
disso, em
tais casos, parece que
se algum
a coisa conta com
o um
a obrigação ou não, depende de desejos e
interesses, não só da razão.
À sem
e]hança do uti]itarism
o, ]<ant não consegue fornecer um
a concep-
ção abrangente do raciocínio m
oral que possa ser aplicada a contextos práti-
cos. Para ser justo, am
bas as teorias, articuladas no século XVlll,
m
ereceram
a
atenção de m
uitas gerações de filósofos, que elaboraram
seus detalhes com
com
plexidade crescente. Versões contem
porâneas são m
uito m
ais elaboradas
e sofisticadas, do que o espaço de que eu aqui disponho para as apresentar. N
o
entanto, a m
aioria dos problem
as, acim
a m
encionados, persiste de um
m
odo
ou outro, e nenhum
a teoria alcançou algo sem
elhante a um
consenso. Após
duzentos anos, isto deve significar algum
a coisa. O
que deu errado?
tificar um
único traço que se sobressai com
o básico, que fornece um
a chave
para desaferrolhar os padrões de pensam
ento que devem
organizar esta vi-
gorosa, ruidosa confusão (para usar um
a frase tornada fam
osa por W
illiam
Jam
es) em
algo em
inentem
ente razoável. Para o utilitarism
o, é a balança
entre as boas e as m
ás consequências. Para Kant, é a dignidade da nossa
liberdade e razão. M
as, quando testam
os essas teorias, reintroduzindo aque-
la rede em
aranhada de desejos, sentim
entos e razões práticas, o que nos
resta é algo que parece bem
m
enos atraente do que a confusão vigorosa e
ruidosa, com
a qual com
eçam
os.
As teorias não parecem
responder às questões práticas que fazem
os quando
nos deparam
os com
dilem
as m
orais, ou elas as respondem
de m
odos que
parecem
trem
endam
ente incom
patíveis com
a vida com
o a conhecem
os. Po-
dem
os traçar a origem
do problem
a à dem
anda de que o raciocínio m
oral seja
objetivo. Com
o agentes m
orais, confrontam
os o m
undo com
o indivíduos-em
-
-relação, com
o indivíduos am
arrados em
relações, com
conhecim
ento lim
ita-
do e restrições substanciais quanto a recursos em
ocionais, cognitivos e de
volição. O
lham
os às coisas a partir de distintos pontos de vista, que estão
profundam
ente inform
ados pelas coisas em
nossas vidas, que nos são caras.
D
este ponto de vista, desenvolvem
os nossos hábitos de pensam
ento e de
sentim
ento. Tam
bém
desenvolvem
os um
a concepção de nossos proJetos,
objetivos, um
sentim
ento de com
o a vida deverá se prolongar no futuro. Este
ponto de vista pessoal constitui tudo o que tem
significado para nós.
Q
ualquer teoria m
oral que busque objetividade deve, im
plicitam
ente,
advogar que, ao m
enos para fins de raciocínio m
oral, deixem
os esta perspec'
uva para trás. Tanto o utí]itarism
o quanto ]<ant dem
andam
que adotem
os,
ao m
enos tem
porariam
ente, um
a posição isenta de perspectiva que, alegam
eles, nos perm
ite fazer um
levantam
ento da realidade a partir de um
ponto
de vista dos olhos de D
eus. N
o entanto, não podem
os atingir este ponto de
vista dos olhos de D
eus. N
ós estam
os inevitavelm
ente am
arrados às pers-
pectivas que tem
os e, assim, todos os confusos detalhes da vida fluem
de
volta para o quadro para rom
per o elegante sistem
a de distinções lógicas e
princípios cuidadosam
ente calibrados.
N
ós podem
os e devem
os nos afastar de nossos desejos e interesses e
pensar se querem
os ser m
otivados por eles, se eles são corretos para nós e
para os outros com
os quais nos associam
os. N
o entanto, em
bora adotem
os
esta postura de reflexão e raciocínio sobre o que fazem
os, nossos desejos e
interesses ainda são m
uito nossos. Com
o diz o filósofo Bernard W
illiam
s,
m
eram
ente por pensar o que faço, não m
e transform
o em
um
ser cujos
interesses são universais. Em
outras palavras, não adquiro a m
otivação para
a m
oralidade m
eram
ente pensando sobre este interesse universal.
#, I'
. 4. iii'
"!ii:li ll!li'
A O
BJETIVID
AD
E RECO
N
SID
ERAD
A
Verifique que am
bas as teorias inspecionam
a em
aranhada teia de dese
los, sentim
entos, e razões locais, provisórias, profundam
ente práticas, que
usam
os para Justificar nossas ações. A partir dessa teia, elas procuram
iden-
.h.
66
D
w
ight Furrow
Ética 67
Isto levanta a questão de porque desejaríam
os adotar este ponto de
vista dos olhos de D
eus, um
a vez que tudo o que é significativo está am
arrado
àquela perspectiva que o ponto de vista dos olhos de l)eus nos m
anda deixar
para trás. Se eu, de algum
a form
a, devesse deixar para trás a m
inha perspec-
tiva particular, a fim
de que não tenha m
ais em
M
ente os m
eus interesses e
projetos, o que m
e m
otivaria a fazer o que quer que fosse? Por que um
a
pessoa que se preocupa com
considerações m
orais e cotidiaham
ente age com
base em
desejos e interesses que estão relacionados à sua vida de m
odos
particulares acharia razoável deliberar a partir de um
ponto de vista que não
dispusesse daqueles recursos m
otivadores?
N
este capítulo tem
os considerado a questão de se as razões objetivas m
orais
têm
suas próprias m
otivações, independentem
ente de nossos desejos e interesses.
E difícil ver com
o tais razões poderiam
se tornar um
a razão para m
ím
. Eis aí
porque o utilitarism
o e a teoria dej<lant têm
dificuldade em
explicar a m
otivação
da m
oralidade. N
o Capítulo 1, com
ecei a exam
inar este problem
a paraj<ant.
N
este, tenho m
ais razões para suspeitar desta abordagem
da ética.
Em
resum
o, de acordo com
](ant, som
os m
otivados a agir sim
plesm
en-
te por respeito à ]ei m
ora], o que ]<ant cham
a "a jota interna"
a qual devem
os
responder com
reverência. Em
essência, agim
os por respeito a nossa
capacidade de fazer leis universais. Isto pode ser inspirador, m
as é difícil ver
porque tal reverência deve substituir as razões m
ais concretas que tem
os
para cuidar da nossa vida e das pessoas que encontram
os.
O
utilitarism
o levanta preocupações sem
elhantes. Q
uando fazem
os o
levantam
ento das im
plicações da aplicação do princípio da utilidade a cada
um
afetado pelas nossas ações, o que ele dem
anda é tanto que se torna
incom
patível com
qualquer explicação razoável da psicologia hum
ana. Lem
-
bre-se de que o utilitarism
o solicita-nos escolher a linha de ação que produz
a m
elhor consequência para todos. Suponha que quando você chega em
casa
do trabalho ou da escola, você gosta de ouvir m
úsica (ou ver televisão, brin-
car com
as crianças, etc.). H
á algum
a outra coisa que você poderia fazer do
seu tem
po e prom
over m
ais bem
-estar? Certam
ente há. Você poderia traba-
lhar no "sopão" dos pobres, levantar fundos para com
bater a fom
e, ou traba-
lhar dezesseis horas por dia e dar todo o seu dinheiro à caridade. D
e acordo
com
o princípio da utilidade, você deve escolher um
a delas e não a sua
atividade favorita, um
a vez que aquela produziria m
ais bem
-estar agregado.
N
ós estam
os sem
pre obrigados a adotar o bem
de todos os dem
ais com
o
nosso objetivo, independentem
ente de nossos próprios interesses. A cada
vez
que você
se dedicasse
a um
prom
eto pessoal,
m
esm
o
se você
estivesse
sendo produtivo, deveria estar fazendo algo que poderia ter ram
ificações
m
ais am
plas. D
ada a nossa m
elhor com
preensão atual da psicologia hum
ana,
isto não é razoável. Em
bora os seres hum
anos sejam
diversificados e algum
as
pessoas possam
viver desta m
aneira, a m
aioria de nós acharia que um
a tal
vida carece de um
a im
portante dim
ensão de significado.
Consequentem
ente, é um
a distorção grosseira da natureza hum
ana pen-
sar que podem
os abrir m
ão de nossos proJetos e objetivos próprios em
favor
de um
desejo de prom
over im
parcialm
ente o bem
-estar geral. Em
bora seja-
m
os capazes de ações altruístas, nos é im
possível ter um
a preocupação geral
com
todo o m
undo todo o tem
po. N
o fundo, tanto o utilitarism
o quanto a
teoria kantiana carecem
de levar em
consideração com
o os seres hum
anos
preocupam
-se com
o m
undo, um
tópico que explorarem
os no Capítulo 5.
N
ada disto sugere que estas abordagens das deliberações racionais não
produziram
resultados im
portantes. A inf]uência do uti]itarism
o e de ]<ant
no nosso raciocínio m
oral tem
sido substancial, e m
uitos benefícios surgiram
,
porque, por gerações, as pessoas têm
considerado estas ideias com
seriedade.
O
bem
-estar geral é um
a de nossas preocupações, m
as som
ente um
a entre
m
uitas. O
respeito por nossa liberdade e razão é im
portante, m
as não m
ais
do que a variedade de outras preocupações que com
petem
pela nossa atenção.
Verifique que até a m
odesta abordagem
de N
agel da objetividade não
pode explicar adequadam
ente nossa m
otivação para a m
oralidade. N
agel
está certo que, com
o seres racionais, quando nossas ações ou crenças são
inconsistentes, tem
os algum
m
otivo para solucionar a contradição. M
as aquele
m
otivo com
pete com
a variedade de outros m
otivos que condizem
com
o
com
portam
ento hum
ano, e nenhum
a razão nos é dada para que devam
os
sem
pre coçar m
ais aquela com
ichão do que as dem
ais. Isto não é um
a sugestão
de que a im
parcialidade não seja im
portante no raciocínio m
oral. Com
o
verem
os em
capítulos subsequentes, ela é m
uito im
portante em
certos
contextos. N
o entanto, o tipo de im
parcialidade da qual os seres hum
anos
são capazes não é o tipo aqui descrito.
Para voltar brevem
ente ao tem
a do Capítulo 1 , verifique que nenhum
a
teoria pode explicar o m
otivo de Schindler para resgatar seus trabalhadores.
D
ada a vida de Schindler de flutuantes fidelidades e de autovalorização
constante, há pouca evidência de que ele tipicam
ente respondesse a
preocupações para com
o bem
-estar geral ou com
a "jota brilhante" da lei
m
oral interna. M
ais plausivelm
ente, ele passou a odiar os nazistas e
desenvolveu laços afetivos com
seus trabalhadores, os quais ele próprio não
pôde cortar. O
m
odo com
o estas considerações m
orais se baseiam
em
perspectivas m
orais será considerado em
capítulos subsequentes.
O
objetivo de desenvolver a m
oralidade em
um
sistem
a de princípios
logicam
ente relacionados com
o suporte da autoridade de um
a posição obJetiva,
é um
objetivo válido, e o m
otivo que subjaz a esta procura, suspeito que não
68 D
w
ight Furrow
Ética
69
seja peculiar a filósofos, m
as com
partilhado pela m
aioria das pessoas. O
m
oti-
vo é atingir m
ais clareza, ser capaz de agir com
resolução, confiança e um
a
consciência clara e encontrar algum
fundam
ento com
um
que sirva de base a
todos nós. A teoria m
oral tenta encontrar dareza e fundam
entação com
um
por m
eio da dem
onstração de que a lógica im
põe a im
oralidade sobre nós.
Porque todos som
os, ao m
enos, potencialm
ente racionais, a lógica cria um
a
estrutura com
um
indisputável na qual podem
os nos am
parar, independen-
tem
ente de nossos interesses em
confronto. Assim
, se a autoridade das afirm
a-
ções m
orais é advinda do ponto de vista objetivo, isto nos perm
itiria seguir
aquelalógica desem
baraçada de preconceitos, perspectivas ou interesses parti-
E m
ais provável que os não filósofos procurem
clareza num
a perspectiva
religiosa, baseados na certeza da fé, ou aderindo a princípios tradicionais que
têm
guiado um
a com
unidade ou sociedade, e parecem
ser estáveis, porque
passaram
no teste do tem
po. N
ão está claro com
o um
lastro com
um
ou certeza
genuína em
erge desses recursos. Pode ser que a m
oralidade não sela um
a área
da prática hum
ana que jam
ais possa atingir o tipo de clareza e certeza que
buscam
os, e term
os de viver com
algo m
uito m
ais contingente e am
bíguo.
N
ossa análise da posição objetiva referente à m
oralidade salientou um
a
variedade de im
portantes considerações m
orais que devem
fazer parte de
nosso raciocínio sobre a m
oralidade. Elas incluem
o bem
com
um
, a igualdade
básica entre seres hum
anos, a consistência e reciprocidade no raciocínio, o
valor m
oral de indivíduos, nossa autocom
preensão com
o pessoas autónom
as,
a im
portância dos direitos, etc. N
ossa tradição filosófica tem
salientado essas
considerações e explicado a im
portância delas -- isto não é um
a pequena
realização. N
o entanto, a nossa análise não revela um
sistem
a suficientem
ente
forte que estabeleça um
a ligação entre essas considerações. N
ossa análise
não dem
onstra que haja prioridades naturais que determ
inem
a im
portância
relativa delas. A nós, resta um
a variedade de afirm
ações e considerações que
se disputam
entre si e, aparentem
ente, m
uitos m
odos de usá-las em
nossos
julgam
entos diários.
Isto,nos leva de volta à questão do pluralism
o. Precisam
ente, o que ele
afirm
a é um
a variedade de afirm
ações que com
petem
entre si e algum
as
vezes incom
patíveis um
as com
as outras. N
em
o utilitarism
o, nem
Kant, nos
forneceram
razões para a rejeição do pluralism
o. O
nde isto deixa o objetivo
da clareza m
oral e a busca de um
a fundam
entação com
um
? O
pluralism
o
nos deixa com
um
a dura escolha entre a tolerância de visões que encontram
os
ofensivas ou o uso da força para resolver conflitos, dadas as lim
itações das
nossas capacidades de raciocínio? A resposta a essas questões é não, em
bora
análises m
ais profundas sejam
necessárias antes que possam
os em
basar essa
culares
afirm
ação. N
o entanto, é pouco provável que clareza e fundam
entação co-
m
um
surjam
de um
questionam
ento que separa as nossas perspectivas e as
tenta reconstruir com
o um
D
eus as veria. N
o entanto, clareza e fundam
en-
tação com
um
devem
surgir do interior da form
a de vida que tem
os. Eis um
tópico que explorarem
os no próxim
o capítulo.
.k-' '
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