Prévia do material em texto
COLECISTITE O termo colecistite aguda define o desenvolvimento de um processo de inflamação da vesícula, que resulta, na imensa maioria das vezes, da obstrução do ducto cístico por um cálculo que, em 95% dos casos, ocorre em associação à colelitíase. As mulheres são mais acometidas, com relação de 3:1 quando são considerados os pacientes com até 50 anos. a dor biliar característica da colelitíase sintomática crônica, resulta da obstrução intermitente do ducto cístico por um cálculo. Se este cálculo se impacta determinando obstrução persistente, entretanto, a estase da bile pode resultar em dano à mucosa vesicular. Geralmente a colecistite aguda se inicia com a implantação de um cálculo no ducto cístico, que leva a um aumento da pressão intraluminal da vesícula, obstrução venosa e linfática, edema, isquemia, ulceração da sua parede e, finalmente, infecção bacteriana secundária. Todo esse processo pode evoluir para perfuração da vesícula, mais comumente em seu fundo, uma vez que esta é a porção fisiologicamente menos perfundida, portanto, mais sensível à isquemia. As perfurações podem seguir três cursos: (1) coleperitônio, com peritonite difusa, ou (2) bloqueio do processo inflamatório com formação de abscesso pericolecístico ou (3) extensão do processo inflamatório para uma víscera próxima, formando uma fístula (especialmente o duodeno). Nem sempre a obstrução do ducto cístico por cálculo resultará em colecistite! Aliás, na maioria das pessoas, ela não acontece Em muitos casos (65%), achados histopatológicos de colecistite crônica – fibrose da parede, infiltrado inflamatório crônico e seios de Rokitansky-Aschoff (que nada mais são do que invaginações do epitélio da mucosa para o interior da camada muscular) – coexistem com os sinais de colecistite aguda. Se o cálculo ultrapassar o ducto cístico ou retornar para a vesícula, a cadeia de eventos se interrompe, e não ocorre colecistite aguda... A bile nas vesículas normais é estéril, mas as bactérias são um achado comum quando os cálculos estão presentes. Na ausência de inflamação aguda, as culturas são positivas em: − 15% dos pacientes com colelitíase; − 60% dos pacientes com coledocolitíase; − 75% dos pacientes com icterícia associada. Quando há inflamação (colecistite aguda), podem ser encontradas bactérias em até 50% dos pacientes. A E.coli é a bactéria mais frequentemente isolada, seguida por Klebsiella, Enterococcus faecalis, Proteus e Clostridium – ou seja, a “flora” microbiana típica de uma colecistite aguda consiste de bastonetes Gram-negativos, enterococo e anaeróbios. Apesar da infecção ser um evento secundário, uma complicação, ela acaba sendo responsável pelas sequelas mais sérias da colecistite aguda: − Empiema; − Perfuração; − Abscesso pericolecístico; − Fístula bilioentérica. O termo empiema descreve uma vesícula biliar cheia de pus, caracterizada clinicamente por um quadro de colecistite aguda acompanhada de sepse/choque séptico. A colecistite acalculosa ocorre em 5% dos casos. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS: O paciente típico é uma mulher de meia-idade, sabidamente portadora de cálculos biliares e que já havia experimentado surtos de dor biliar. Uma crise de colecistite aguda começa com dor abdominal, que aumenta paulatinamente de intensidade, e se localiza, desde o início, debaixo do gradil costal direito. a dor da colecistite aguda pode iniciar no epigástrio, e, com o passar das horas, quando o processo se estende para a superfície peritoneal da vesícula, a dor torna-se localizada tipicamente no QSD. a dor da colecistite aguda persiste por mais de seis horas o atraso diagnóstico-terapêutico aumenta o risco de complicações, como gangrena e perfuração da vesícula. É comum a irradiação da dor para a região infraescapular. Anorexia, náuseas e vômitos são muito frequentes, mas o vômito raramente é grave como na pancreatite ou obstrução intestinal. É também comum a presença de febre baixa a moderada. Febre com calafrios sugere colecistite supurativa ou colangite associada (ver adiante). A região subcostal direita está hipersensível à palpação, com defesa muscular e, ocasionalmente, contratura involuntária local. O exame físico revela o sinal de Murphy em metade dos pacientes. O que é o sinal de Murphy? Pede-se ao paciente que inspire profundamente, e palpa-se a região subcostal direita – se o paciente interromper uma inspiração profunda quando da palpação, o sinal é positivo, sendo fortemente preditivo de colecistite aguda. Só existe massa palpável, correspondente à vesícula distendida e hipersensível, em 15% dos pacientes – entretanto, este achado é muito importante e confirma a suspeita diagnóstica. A vesícula biliar, no geral, é pouco percebida, em virtude de vários fatores: contração da parede abdominal, obesidade, localização sub-hepática profunda, ou mesmo por apresentar-se muito pequena e contraída em função de inflamação prévia. Deve-se ter em mente, entretanto, as outras condições que podem determinar massa hipersensível em QSD, como abscesso pericolecístico, carcinoma da vesícula biliar e distensão vesicular na colangite obstrutiva. EXAMES COMPLEMENTARES: Laboratório O laboratório da colecistite aguda costuma revelar: (1) 12.000-15.000 leucócitos/mm3 (se leucometria muito alta, suspeitar de perfuração); (2) Aumento discreto de bilirrubina (se mais que 4 mg/dl, suspeitar de coledocolitíase associada); (3) Aumento discreto de FA e AST (TGO); (4) Aumento da amilase sérica, que não necessariamente indica pancreatite aguda. Ultrassonografia A US é o primeiro exame a ser solicitado na suspeita de colecistite aguda, pois é de fácil realização, é excelente na detecção de cálculos biliares e ainda permite a avaliação de órgãos vizinhos. Possui sensibilidade e especificidade em torno de 95% para o diagnóstico de colecistite. Pacientes com clínica típica de colecistite aguda, que apresentem cálculos à US, sem, no entanto, outros sinais radiológicos de colecistite, devem receber o diagnóstico presuntivo de colecistite aguda, se outras justificativas para a dor não forem identificadas. Cintilografia das Vias Biliares A cintilografia é o exame mais acurado para se confirmar a suspeita clínica de uma colecistite aguda calculosa, possuindo sensibilidade e especificidade de 97% e 90%, respectivamente. Na maioria das vezes, não precisa ser realizada, pois a US, muito mais acessível, é um excelente exame. O tecnécio 99 é injetado EV, e 85% dele é captado pelo fígado e excretado na bile. Se houver o enchimento da vesícula, o diagnóstico de colecistite aguda torna-se bastante improvável. Em caso de enchimento dos ductos biliares, porém não da vesícula, passa a haver um poderoso apoio a favor do diagnóstico. Tomografia Computadorizada Muito comumente solicitada em casos de dor abdominal aguda, a TC também pode identificar cálculos, espessamento da parede vesicular e líquido pericolecístico, embora com precisão inferior à da US. TRATAMENTO: Os primeiros passos perante um caso de colecistite aguda se fundamentam em medidas de suporte clínico: (1) Internação hospitalar; (2) Hidratação venosa; (3) Analgesia; (4) Dieta zero; (5) Antibioticoterapia parenteral. Em relação à antibioticoterapia: sabemos que os agentes mais frequentemente envolvidos são E. coli, Enterococcus, Klebsiella e outros bastonetes Gram-negativos, além de anaeróbios (ex.: Bacteroides fragilis). Assim, o esquema antimicrobiano empírico inicial deve contemplar todos esses germes. Entre os mais utilizados temos a monoterapia com drogas de amplo espectro, como betalactâmicos + inibidores de betalactamase (ex.: amoxicilina-clavulanato, ampicilina-sulbactam) ou a combinação de uma cefalosporina de 3ª geração (ex.: ceftriaxone) ou uma quinolona (ex.: ciprofloxacina, levofloxacina) com metronidazol. A duração do tratamento é controversa, sendo classicamente recomendada por 7-10 dias.O tratamento definitivo é cirúrgico, através de colecistectomia. A via preferencial é a laparoscópica. As contraindicações absolutas à colecistectomia laparoscópica são: coagulopatia não controlada e cirrose hepática terminal. A morbimortalidade da colecistectomia para o tratamento da colecistite aguda é baixíssima, com mortalidade em torno de 0,1%, o que mostra a segurança do procedimento. Os pacientes que se apresentam com mais de 3-4 dias de evolução normalmente têm inúmeras aderências nas vias biliares, o que dificulta a ressecção. Em tais casos é preferível “esfriar” inicialmente o processo com antibioticoterapia parenteral (associada ou não a uma colecistostomia percutânea), e, 6-10 semanas após, proceder à colecistectomia semieletiva. Cerca de 20% dos doentes não respondem a esta abordagem conservadora e acabam necessitando de colecistectomia de urgência ainda na fase aguda. Uma opção de exceção é a colecistostomia, na qual a vesícula distendida é drenada com um cateter pigtail após punção percutânea guiada por imagem. COMPLICAÇÕES: 1 - Perfurações e Fístulas A perfuração normalmente se apresenta com um quadro geral mais exacerbado, principalmente com relação aos achados abdominais. 1- Perfuração livre para a cavidade peritoneal, com peritonite generalizada; 2- Perfuração localizada (contida por aderências), formando um abscesso pericolecístico; 3- Perfuração para dentro de uma víscera oca, através de uma fístula. A perfuração livre tem mortalidade de 25% e é o tipo menos comum – ocorre mais frequentemente no início do episódio agudo, em geral dentro dos três primeiros dias de evolução. Clinicamente, a perfuração livre se manifesta com febre alta, leucocitose importante, sinais de toxicidade proeminente e um quadro abdominal de peritonite difusa (defesa, irritação peritoneal etc.). O abdome é cirúrgico, e o tratamento para esta complicação consiste de antibioticoterapia venosa e colecistectomia de emergência. A perfuração localizada costuma aparecer na segunda semana e deve ser suspeitada por um aumento dos sinais locais, especialmente se aparecer uma massa que não existia quando do início do episódio agudo. 2 - Íleo Biliar É a obstrução do delgado por um cálculo biliar volumoso (mais de 2,5 cm) que foi parar no intestino através de uma fístula. Quando penetra no intestino, o cálculo desce até achar uma região suficientemente estreita para se impactar, e isso se dá mais comumente no íleo terminal. O cólon só será acometido caso esteja estenosado por alguma outra doença. O diagnóstico é dado na radiografia de abdome, pela associação de estigmas de obstrução intestinal (alças de delgado distendidas + níveis hidroaéreos) à presença de ar nas vias biliares (aerobilia) ou cálculo na luz intestinal. O tratamento inclui enterotomia proximal, com retirada do cálculo impactado. É recomendada a realização de uma colecistectomia no mesmo procedimento; Em pacientes muito idosos ou de risco cirúrgico elevado, pode ser recomendada enterotomia isolada e acompanhamento de eventuais sintomas biliares, em uma tentativa inicial de não realizar a colecistectomia. O íleo biliar é mais comum do que pode parecer, representando cerca de 25% dos casos de obstrução intestinal em pacientes com mais de 65 anos. 3 - Síndrome Álgica Pós-Colecistectomia Após uma colecistectomia, 10% dos pacientes continuam tendo sintomas significativos. Deve--se entender que, nestes pacientes, a doença calculosa não era a causa (ou pelo menos a causa única) de suas queixas pré-cirúrgicas. Ou seja, os pacientes tinham realmente colelitíase, mas tinham também outra condição associada que era a verdadeira responsável pelos sintomas. “Os pacientes com dor biliar típica são aliviados mais frequentemente por colecistectomia do que aqueles com dor atípica e sintomas vagos, como intolerância aos alimentos gordurosos, dispepsias ou flatulência”. Com demasiada frequência, as queixas pós- -colecistectomia podem ser atribuídas a uma doença que passara despercebida, como: coledocolitíase, pancreatite, úlcera péptica, síndrome do cólon irritável e doenças do esôfago. Aqueles que continuam com sintomas típicos de dor biliar, mesmo após a colecistectomia, podem estar apresentando uma patologia do esfíncter de Oddi, como discinesia e estenose. Entretanto, os clínicos devem continuar céticos quanto ao diagnóstico de estenose ampular, ou de discinesia, quando o principal achado consistir apenas de dor abdominal. O diagnóstico deve ser feito pela exclusão das causas mais comuns, e manometria do esfíncter de Oddi durante uma CPRE. Caso se comprove uma discinesia do esfíncter, o tratamento pode ser realizado com antiespasmódicos, anticolinérgicos, nitratos e bloqueadores dos canais de cálcio. Se este esquema falha, pode--se pensar em esfincterotomia endoscópica. APENDICITE AGUDA É considerada a mais comum de abdome agudo não traumático. Mais encontrada entre os 10 e 30 anos de idade, com discreto predomínio no sexo masculino. ANATOMIA: O apêndice vermiforme é composto por uma estrutura tubular, alongada, de aproximadamente 2 a 20 cm de comprimento [média de 9 cm em adultos]. Tem origem na parede posteromedial do ceco, no local onde ocorre a confluência das tênias cólicas. Apresenta um mesoapêndice que lhe confere mobilidade e no qual encontramos a artéria e a veia apendiculares, ramos dos vasos ileocólicos Embora sua base, seja fixa, a ponta do apêndice pode ser encontrada em diversas localizações: Anterior: pélvico ou préileal Posterior: retrocecal ascendente e/ou subseroso; ou ainda Retroileal A localização mais comum é retrocecal, no interior da cavidade do peritônio. FISIOPATOLOGIA: A patogênese se correlaciona com a obstrução do lúmen apendicular, sendo a causa mais comum e a presença de um fecálito (pequeno agregado de fezes endurecidas). Hiperplasia dos folículos linfoides (de origem infecciosa) e outras condições como obstrução por áscaris, bário e corpos estranhos [ex: sementes e restos de vegetais], além de tumores [ex: carcinoide], são outras causas para a obstrução do lúmen apendicular e surgimento de apendicite. Devido a sua configuração anatômica, a obstrução apendicular evolui rapidamente para obstrução em alça fechada. A secreção luminal que se acumula leva à estase, fenômeno que tem como consequência supercrescimento bacteriano, com E. coli e B. fragilis os principais microrganismos identificados. O aumento da pressão intraluminal e a distensão do órgão comprometem não só o retorno venoso, mas também o suprimento arterial. Estes eventos resultam em um estado de isquemia que pode evoluir para necrose e perfuração. Na ausência de intervenção, a perfuração do apêndice gangrenado ocorre por volta de 48h do início dos sintomas. O intestino delgado e o omento podem bloquear a perfuração do órgão, formando um abcesso localizado [periapendicular]. Mas raramente, encontramos perfuração livre para a cavidade peritoneal e consequentemente peritonite difusa, com formação de múltiplos abcessos intraperitoneais [pelve, sub-hepático, subdiafragmático e entre alças], e choque séptico. Como explicar a dor da apendicite aguda? A distensão do órgão estimula fibras aferentes viscerais e produz dor periumbilical ou epigástrica mal definida (dor visceral), característica da fase inicial da apendicite. Algumas horas após, a dor torna-se referida no metâmero de origem embriológica comum (fossa ilíaca direita). Entretanto, somente quando o processo inflamatório ultrapassar a serosa e entrar em contato com o peritônio parietal ocorrerá estimulação da inervação aferente parietal, com a característica mudança do padrão da dor, agora bem localizada no quadrante inferior direito, intensa e acompanhada de descompressão dolorosa à palpação. QUADRO CLÍNICO: A apresentação característica da apendicite aguda inicia-se com um quadro de dor abdominalinespecífica, inicialmente em epigástrio ou mesogástrio, de moderada intensidade (às vezes com cólicas abdominais sobrepostas), que logo em seguida é tipicamente acompanhada por anorexia e náuseas. Aproximadamente 12 horas após o início dos sintomas, a dor passa a se localizar em fossa ilíaca direita, no ponto de McBurney. Este padrão clássico de migração da dor é o sintoma mais confiável para diagnosticarmos apendicite aguda. Acompanhando o quadro álgico, temos alteração do hábito intestinal (constipação mais frequente do que diarreia), vômitos e febre, que na ausência de complicações (como perfuração e formação de abscessos), raramente ultrapassa 38,3ºC. São descritas variações na apresentação clínica, “fugindo” dos sintomas clássicos já descritos. Alguns adultos não apresentam anorexia e podem até queixar-se de fome. Dependendo da posição da ponta do apêndice inflamado, sintomas atípicos podem ocorrer: quando próximo à bexiga ou ao ureter, por exemplo, podemos encontrar manifestações urinárias e hematúria microscópica. A apendicite pélvica, além dos sintomas urinários descritos, pode vir acompanhada de toque retal e exame ginecológico dolorosos. PERFURAÇÃO A perfuração do apêndice apresenta-se com dois quadros clínicos distintos: perfuração bloqueada, com formação de abscesso periapendicular, ou perfuração para o peritônio livre, com peritonite generalizada. No primeiro caso, o paciente pode se encontrar oligossintomático, queixando-se de algum desconforto em fossa ilíaca direita. Pode haver massa palpável (plastrão). No segundo caso, a dor abdominal é de grande intensidade e difusa, com presença de abdome em tábua (rigidez generalizada). Nestes casos a temperatura encontra-se muito elevada (39°C a 40°C), e o paciente pode evoluir para sepse. No exame físico, encontramos um paciente com doença aguda e geralmente imóvel no leito. Acha-se febril, com temperatura em torno de 38°C; no exame do abdome, notamos hipersensibilidade à palpação, sobretudo no ponto de McBurney, com defesa abdominal inicialmente voluntária e depois involuntária. Um dos achados mais precoces é a hipersensibilidade cutânea no quadrante inferior direito, percebida quando realizamos pinçamento da pele com o polegar e o indicador. 1. Blumberg – descompressão dolorosa indicando irritação peritoneal. 2. Rovsing – dor na fossa ilíaca direita quando se comprime a fossa ilíaca esquerda. 3. Lapinsky – dor à compressão da fossa ilíaca direita enquanto o paciente eleva o membro inferior esticado. 4. Lenander – diferencial das temperaturas axilar e retal maior do que um grau (isto é, a temperatura retal encontra-se mais elevada do que comumente é, quando comparada com a axilar). 5. Sinal do psoas – dor à extensão da coxa direita seguida de sua abdução, com o paciente deitado sobre o seu lado esquerdo. 6. Sinal do obturador – dor em região hipogástrica ao realizar a rotação interna e passiva da coxa direita flexionada com o paciente em decúbito dorsal. 7. Sinal de Dunphy – dor na fossa ilíaca direita que piora com a tosse. Apendicite em Situações Especiais A apendicite aguda tem uma apresentação clínica variável de acordo com a faixa etária acometida e condições subjacentes, como gravidez e imunossupressão. - Na criança, o quadro muitas vezes é atípico, sendo caracterizado por febre alta, letargia, vômitos mais intensos e episódios diarreicos mais frequentes. Por vezes, o diagnóstico é tardio, principalmente nas menores de dois anos, quando a apendicite é incomum. A progressão do processo inflamatório nessa faixa etária é mais rápida, ocorrendo uma taxa de perfuração maior do que nos jovens e nos adultos (entre 15 e 65%). O omento maior ainda é imaturo e incapaz de conter a perfuração, sendo a peritonite generalizada mais frequente. Estes fatores explicam a maior morbimortalidade neste grupo. - No idoso, assim como na criança, a doença é mais grave. A apresentação clínica é também atípica. A temperatura é menos elevada e a dor abdominal é mais insidiosa, ocasionando um diagnóstico tardio, com maior incidência de perfuração (maior ainda do que na criança) e, consequentemente, maior mortalidade. - Na gestante, é a emergência cirúrgica extrauterina mais comum, ocorrendo com maior frequência nos dois primeiros trimestres. O diagnóstico de apendicite, principalmente após o quinto mês de gravidez, apresenta dificuldades, decorrentes tanto do deslocamento do apêndice pelo útero gravídico (superior e lateralmente) como pelos próprios sintomas da gestação como náuseas, vômitos e dor abdominal. A avaliação do leucograma também não tem grande valor, já que é comum leucocitose em grávidas. O aumento da VHS também é considerado uma alteração fisiológica em gestantes. Sendo assim, uma grávida com apendicite aguda pode apresentar dor em hipocôndrio direito, por exemplo. As alterações laboratoriais da apendicite podem ser creditadas a modificações laboratoriais que ocorrem com a gravidez. Com isso, o diagnóstico se faz de forma tardia e o resultado é uma maior probabilidade do surgimento de complicações... A apendicectomia videolaparoscópica é mais bem indicada no segundo trimestre. Caso a apendicite ocorra em outros períodos da gestação, ainda se recomenda a abordagem aberta. - Nos pacientes com AIDS, hiperplasia linfoide e fecalito continuam sendo as condições mais frequentemente envolvidas com apendicite aguda. Apendicite Crônica ou Recorrente A apendicite crônica é representada por surtos de dor abdominal em fossa ilíaca direita, recorrentes, sem presença de irritação peritoneal. Os critérios diagnósticos incluem: a) História de mais de um mês com ataques recorrentes (três ou mais) de dor abdominal em quadrante inferior direito; b) Sensibilidade à palpação no quadrante inferior direito sem evidências de irritação peritoneal; c) Achados radiológicos no estudo baritado, que variam de preenchimento incompleto até a não visualização do apêndice após 24h do uso do contraste. O não esvaziamento de contraste do apêndice preenchido após 72h também é um importante sinal diagnóstico. Nesses casos, o aspecto tomográfico do apêndice é igual ao da apendicite aguda. O tratamento cirúrgico (apendicectomia) desta condição parece aliviar os sintomas da maioria dos pacientes. DIAGNÓSTICO: Tem como base história e exame físico somado ao uso eventual de alguns exames complementares, que não devem adiar de forma alguma intervenção cirúrgica oportuna. No exame clínico, em geral, observamos a seguinte cronologia no aparecimento dos sintomas: dor abdominal difusa – anorexia/náuseas/vômitos – migração da dor abdominal para a fossa ilíaca direita. Irritação peritoneal associada à dor em FID em paciente do sexo masculino traz forte suspeita clínica para o diagnóstico de apendicite, principalmente na presença de massa palpável (plastrão). Os exames laboratoriais demonstram leucocitose moderada (10.000 a 15.000 células/mm3) com neutrofilia e desvio à esquerda, presente em 75% dos casos. Contagens superiores a 20.000 células se relacionam a gangrena e perfuração. A sedimentoscopia eventualmente se encontra alterada, nos casos em que o apêndice se localiza próximo ao ureter ou à bexiga, ocorrendo hematúria e/ou piúria, mas sem bacteriúria. A radiografia simples pode ser útil na exclusão de algumas condições como litíase urinária por cálculo ureteral, obstrução intestinal de delgado e úlcera perfurada; todavia estas desordens raramente são confundidas com apendicite aguda. A Ultrassonografia (US) tem limitações se houver grande distensão abdominal ou o paciente for obeso. É um exame bastante útil em pacientes com diagnóstico duvidoso de apendicite aguda. Os critérios sonográficos incluem um apêndice não compressível (compressão exercida pelo transdutor) com 7 mm ou mais de diâmetro anteroposterior, presença de apendicolito, interrupçãoda ecogenicidade da submucosa e massa ou líquido periapendicular. Uma imagem ultrassonográfica que eventualmente é observada, conhecida como imagem em alvo, é altamente sugestiva de apendicite aguda. A Tomografia Computadorizada (TC) é o método de maior acurácia diagnóstica na apendicite aguda. Os achados sugestivos incluem inflamação periapendicular (abscesso, coleção líquida, edema, fleimão), espessamento do apêndice e distensão do órgão, com diâmetro anteroposterior maior do que 7 mm. O borramento da gordura mesentérica é achado tomográfico que traduz inflamação. Fecalitos podem ser identificados em até 50% dos casos. A TC possui sensibilidade de 90% e especificidade de 80% a 90% para o diagnóstico. Muitos autores recomendam a TC somente em casos duvidosos, sobretudo em idosos, onde o número de diagnósticos diferenciais é muito grande e uma apendicectomia não é isenta de complicações. Embora possuam sensibilidade e especificidade elevadas, os exames de imagem devem ser solicitados somente na presença de quadros clínicos duvidosos ou na suspeita de que outras condições possam justificar as manifestações apresentadas. Frente a um quadro clínico clássico, o diagnóstico de apendicite aguda continua sendo clínico. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: Diversas doenças podem mimetizar o quadro de abdome agudo por apendicite. As condições mais frequentes incluem: Linfadenite mesentérica Doença inflamatória pélvica (DIP) Ruptura de folículo ovariano Cisto ovariano torcido Gastroenterite aguda. A linfadenite mesentérica é a afecção mais frequentemente confundida com apendicite em crianças, sobretudo naquelas em idade escolar. Esta condição ocorre após episódio de infecção do trato respiratório superior ou seguindo-se a uma gastroenterite. O paciente geralmente apresenta dor abdominal em FID, com discreta defesa voluntária. Náuseas e vômitos são menos intensos do que na apendicite. Em aproximadamente 20% dos casos, a linfadenite mesentérica pode estar acompanhada de linfadenopatia generalizada. A US de abdome identifica linfonodos aumentados no mesentério do íleo, além de espessamento da parede ileal, com apêndice sem anormalidades. Em pré-escolares, doenças como a intussuscepção intestinal, a diverticulite de Meckel e as gastroenterites fazem diagnóstico diferencial com apendicite aguda. Na intussuscepção, a dor é em cólica, tem caráter intermitente e raramente encontramos sinais de peritonite. Muitas vezes eliminação de fezes sanguinolentas e oclusão intestinal se fazem presentes, o que facilita o diagnóstico. O divertículo de Meckel é a anomalia congênita mais comum do intestino delgado, estando localizado no íleo. Embora seja encontrado em poucas crianças, o sangramento ainda é sua complicação mais comum. Na inflamação aguda do divertículo, devido ao quadro clínico ser muito semelhante com a apendicite aguda, muitos cirurgiões dispensam exames complementares de imagem e realizam laparotomia acreditando se tratar de um quadro de inflamação apendicular aguda. Nas gastroenterites, náuseas e vômitos são mais precoces e intensos do que na apendicite aguda. A dor abdominal não costuma ser focal e não há sinais de irritação do peritônio. É importante lembrarmos que a presença de diarreia não afasta apendicite nesta faixa etária. Se uma criança com suspeita de gastroenterite evolui com piora de sua dor abdominal dentro de 12 a 24h do início do quadro, ela deve ser reavaliada por um cirurgião. Doenças ginecológicas e obstétricas em muitas situações impõem grandes dificuldades para o diagnóstico diferencial. A Doença Inflamatória Pélvica (DIP) é a mais frequente, sobretudo quando complicada por abscesso tubo-ovariano e salpingite. A diferenciação entre apendicite aguda e DIP pode ser bastante difícil, particularmente em mulheres sexualmente ativas, nas quais o diagnóstico correto é muitas vezes firmado somente após videolaparoscopia. Alguns dados clínicos podem sugerir a etiologia do quadro álgico. Na DIP, a dor é tipicamente bilateral e, geralmente, há história prévia de contato sexual recente ou uso de dispositivo intrauterino. Via de regra, a dor possui mais de dois dias de evolução e já se inicia difusamente no abdome inferior, sem a migração epigástrio – fossa ilíaca direita, típica da apendicite. Febre alta (> 38oC) é característica da DIP, enquanto os vômitos ocorrem com maior frequência na apendicite. Dor durante a mobilização do colo uterino é um dado que não nos auxilia, uma vez que pode ser encontrada em alguns casos de apendicite; todavia, a presença de leucorreia e o esfregaço revelando diplococos Gram-negativos selam praticamente o diagnóstico de DIP. Na rotura de folículo ovariano (de Graaf), a dor ocorre na metade do ciclo menstrual (mittelschmerz), em geral sem leucocitose e sem febre. A história clínica associada aos achados na US geralmente faz o diagnóstico. A torção de cisto ovariano provoca dor abdominal baixa intensa, apresentação que pode nos confundir com apendicite aguda. Todavia, a presença de massa anexial e as alterações observadas na US confirmam o diagnóstico. A prenhez tubária rota comprometendo a tuba direita se manifesta com dor intensa em FID, normalmente acompanhada de distensão abdominal. Um dado que nos fala a favor desta complicação é a apresentação clínica, que é subaguda na maioria dos casos. A paciente costuma estar descorada, devido à anemia, e eventualmente apresenta lipotímia. A dosagem de beta--HCG somada à US selam o diagnóstico. Em adolescentes e adultos, algumas desordens inflamatórias do aparelho digestivo fazem diagnóstico diferencial com apendicite aguda. A ileíte da doença de Crohn cursa com dor em FID, febre e raramente causa diarreia. Muitas vezes o caráter recorrente dos sintomas e a perda ponderal que alguns pacientes apresentam, nos ajudam a diferenciar esta condição da apendicite. A diverticulite aguda à direita (cólon direito) complicando a doença diverticular do cólon não é um achado comum, mas quando se encontra presente pode mimetizar a apendicite. O início insidioso, com piora da dor ao longo de dias, além do envolvimento de uma região mais extensa do quadrante inferior direito, nos fala a favor de diverticulite. Todavia é a TC de abdome que confirmará o diagnóstico. Úlcera péptica perfurada raramente faz diagnóstico diferencial com apendicite; contudo, alguns pacientes apresentam dor em FID pela drenagem postural de suco gástrico pela goteira parietocólica direita. O início súbito, em minutos, e a TC confirmando o pneumoperitônio facilmente nos orientam para o diagnóstico correto de úlcera perfurada. Pielonefrite aguda e litíase urinária entram também no rol dos diagnósticos diferenciais de apendicite aguda. No primeiro caso, febre alta e calafrios e percussão lombar dolorosa geralmente não nos deixam dúvidas. Os pacientes com infecção urinária alta usualmente não possuem a sequência de manifestações da apendicite. Em pacientes com cálculos urinários sintomáticos, não observamos também o caráter migratório da dor e, além disso, não há descompressão dolorosa à palpação do abdome. A TC é o padrão-ouro para o diagnóstico de litíase. TRATAMENTO: É sempre cirúrgico e deve ser o mais precoce possível, respeitando-se o tempo necessário para administração de líquidos parenterais. Em pacientes com quadros não complicados, uma pequena quantidade de solução cristaloide é suficiente para corrigirmos um déficit discreto de volume antes da anestesia geral. Nos casos de apendicite perfurada, uma grande quantidade de líquidos é infundida antes do ato anestésico. Em casos onde não houve perfuração do apêndice, antibióticos com cobertura para germes Gram-negativos e anaeróbios são administrados em apenas uma dose. Esta medida é suficiente para prevenção de infecção de sítio cirúrgico. Na presença de gangrena ou perfuração, a administração de antimicrobianos deve continuar no pós-operatório até o paciente ficar afebril. Podemos optar tanto pela cirurgia convencional, aberta, quanto pela videolaparoscopia. Contudo, alguns estudos têm demonstrado que a videolaparoscopia é um método mais aceitável em indivíduos obesos, reduzindo dor pós-operatória e tempo de internação, e também em casos de apendicite perfurada (com bloqueio), com menor probabilidade de infecção de sítio cirúrgico. Não podemos esquecer que este método é o de escolha quando existe dúvida diagnóstica. Embora ambos os métodos sejam aceitáveis, muitos serviços optam pela videolaparoscopia em casos de apendicite aguda acometendo mulheres jovens em idade fértil, obesos e em situações de dúvida diagnóstica. Em casos de perfuração não bloqueada do apêndice, com peritonite difusa, a laparotomia é a incisão recomendada. Esses pacientes graves requerem antes da cirurgia grande quantidade de solução cristaloide para ressuscitação volêmica. A conduta operatória inclui lavagem exaustiva da cavidade somada à antibioticoterapia sistêmica. Em aproximadamente 2% a 5% dos casos de apendicite, os pacientes se apresentam à sala de emergência tardiamente, com início dos sintomas há mais de cinco dias. Encontramos no exame físico massa abdominal palpável, o que sugere a formação de plastrão; este pode ser tanto fleimão (inflamação supurativa de tecido celular subcutâneo profundo) quanto abscesso. Os abscessos ocorrem quando a perfuração do apêndice é bloqueada pelo epíplon ou estruturas próximas; as coleções grandes costumam se manifestar também com febre alta e calafrios. A conduta inclui internação hospitalar e realização de TC ou US para confirmação de nossa suspeita. Após início de antibioticoterapia sistêmica, caso a lesão seja maior do que a 4 a 6 cm (abscessos grandes) ou o paciente apresente febre alta, a drenagem do abscesso guiada por método de imagem deve ser empreendida. Em abscessos menores e na presença de fleimão, a conduta pode ser inicialmente apenas a antibioticoterapia, com reavaliações frequentes. O tratamento clínico com antimicrobianos deve ser mantido por, pelo menos, uma a duas semanas. Apendicectomia Incidental A apendicectomia incidental representa a ressecção de um apêndice de aspecto saudável durante cirurgia aberta ou mediante videolaparoscopia. Existem determinadas situações, principalmente quando a laparotomia é realizada para esclarecimento de um abdome agudo, em que a ressecção de um apêndice não comprometido é aconselhável. Mulheres com dor pélvica crônica devem ter seu apêndice ressecado caso elas se submetam a um procedimento cirúrgico diagnóstico ou terapêutico para alguma outra condição. Com essa conduta, novos episódios álgicos não poderão ser atribuídos a uma apendicite aguda. A mesma conduta se aplica para casos de intussuscepção intestinal. A apendicectomia incidental é recomendada para pacientes com doença de Crohn que se submetem à laparotomia (geralmente por complicações da doença). Nesses pacientes, a ausência do apêndice afastará com segurança uma apendicite aguda como causa de dor em quadrante inferior direito do abdome que estes indivíduos possam vir a apresentar no futuro. COMPLICAÇÕES: Infecção de sítio cirúrgico manifesta como abscesso de parede, representa a complicação pós-operatória mais frequente da apendicectomia; sua incidência é elevada quando há gangrena ou perfuração apendicular. Na técnica videolaparoscópica, observamos uma menor incidência desta condição. Devemos suspeitar de abscesso intracavitário na presença de febre acompanhada de ferida operatória de aspecto normal. Nesta situação, TC de abdome deve ser solicitada. Outras complicações encontradas incluem deiscências de planos da parede abdominal, com evisceração ou eventração, hérnias incisionais, fístulas (enterocutâneas e enterovesi-cais) e pileflebite. A pileflebite é definida como uma tromboflebite séptica da veia porta (ou de uma de suas tributárias), geralmente secundária a uma supuração localizada em território de drenagem do sistema portal (mais comumente uma diverticulite ou uma apendicite). Os pacientes se apresentam com febre alta, calafrios e icterícia; evidências de hipertensão porta por trombose portal eventualmente são encontradas. DIVERTICULITE AGUDA Diverticulite é um termo utilizado para designar a macro ou microperfuração de um divertículo, que tanto pode ter repercussões clinicas limitadas, quanto potencialmente levar a abscesso, obstrução, formação de fistulas e peritonite. A causa provável da inflamação diverticular do cólon é, como já dito, mecânica: restos do conteúdo luminal se alojam em seu interior endurecem, formando fecalitos que acabam comprometendo o suprimento sanguíneo da frágil parede do divertículo [composta apenas de mucosa e serosa]. Surgem com isso as perfurações, que geram um processo inflamatório pericolônico, na maioria das vezes bloqueado por deflexões do peritônio (peridiverticulite). Apesar do curso normalmente benigno, a infecção e o processo inflamatório podem levar a: Extensão local do processo infeccioso e formação de abscessos mesentéricos e pericólicos; Adesão a órgãos adjacentes, gerando fístulas; Macro-perfuração livre para a cavidade peritoneal, determinando peritonite generalizada; Com a inflamação repetida a parede intestinal se espessa, gerando obstrução progressiva. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS: Nos casos graves, a diverticulite aguda se caracteriza por febre, leucocitose, dor abdominal baixa (sigmoide), que piora com defecação, e sinais de irritação peritoneal: defesa e dor à descompressão. A dor e a hipersensibilidade local ocorrem mais comumente no quadrante inferior esquerdo, pois os divertículos são mais numerosos neste local. Entretanto elas podem ocorrer à direita, simulando apendicite aguda. Dor em cólica com distensão abdominal sugere obstrução intestinal (por aderências). A dor associada à micção e à pneumatúria sugere fístula vesical. A fístula mais comumente encontrada na diverticulite se estabelece com a bexiga (colovesical). Ao exame, frequentemente pode ser palpada uma massa no quadrante inferior esquerdo. Se a diverticulite for próxima ao reto, o toque retal pode demonstrar uma massa dolorosa. Em resumo: A diverticulite deve ser suspeitada em todo paciente que desenvolva dor em QIE, que piora com defecação, e que eventualmente está associada com sinais de irritação peritoneal e alterações do trânsito intestinal. Ao exame, o paciente pode estar com febre, e pode haver massa palpável no local da dor. O laboratório mostra leucocitose neutrofílica e aumento de marcadores de fase aguda, como a proteína C reativa. DIAGNÓSTICO: A dor e a hipersensibilidade em baixo ventre, associadas a distúrbios da função intestinal, levam a três hipóteses diagnósticas: carcinoma de cólon, doença intestinal inflamatória e diverticulite. Nesta situação, é fundamental a realização de uma endoscopia baixa para exclusão dos diagnósticos diferenciais. Quando o quadro é mais pronunciado e se suspeita especificamente de diverticulite aguda, o procedimento diagnóstico ideal é a Tomografia Computadorizada de Abdome e Pelve com Contraste IV. Esta demonstra o sigmoide com paredes espessadas (> 4 mm) e revela a presença de abscessos peridiverticulares, fístulas e coleções líquidas intra- abdominais. O clister opaco e, principalmente, a endoscopia digestiva baixa podem levar à macroperfuração livre de um divertículo, com consequências catastróficas. Logo, tais métodos devem ser evitados na suspeita de diverticulite aguda! Eles deverão ser feitos, no entanto, 4-6 semanas após resolução do processo inflamatório, a fim de excluir, como vimos, os principaisdiagnósticos diferenciais (Ca de cólon, DII). A ultrassonografia tem eficácia reduzida pela frequente presença de distensão de alças de delgado e pequeno volume de alguns abscessos. Em muitos pacientes, a distorção causada pela inflamação impede a diferenciação correta entre o câncer e a diverticulite, podendo ser necessária a extração cirúrgica para o diagnóstico correto. Conduta na Diverticulite Não Complicada A severidade do processo inflamatório é que vai determinar o tratamento da diverticulite. Pacientes com sintomas mínimos e poucos sinais de inflamação podem ser tratados no domicílio. Uma dieta líquida sem resíduos e um esquema antibiótico oral, com espectro para bastonetes Gram-negativos e anaeróbios, é recomendado por sete a dez dias (ex.: amoxicilina + clavulanato; ciprofloxacina + metronidazol). Doentes que exibem sinais de inflamação exuberante, com febre, leucocitose com desvio, descompressão dolorosa em flanco e fossa ilíaca esquerda e região suprapúbica merecem ser internados. Nestes, o tratamento consiste em dieta zero com repouso intestinal, hidratação venosa e antibioticoterapia parenteral. O emprego de meperidina como analgesia pode ser útil devido a seu efeito em relaxar a musculatura lisa do cólon (a morfina é contraindicada por aumentar a pressão intracolônica). Em pacientes que não complicam, notamos uma melhora das manifestações em 48 a 72h. estes podem receber alta e completar o esquema antibiótico com fármacos orais em casa. Após 4-6 semanas do término de tratamento, torna-se necessária uma avaliação do intestino grosso, cujo objetivo é excluir neoplasia colorretal. Essa avaliação se faz, preferencialmente, através de uma colonoscopia. Após o primeiro episódio de diverticulite no qual não houve necessidade de tratamento cirúrgico, a grande maioria dos pacientes pode ser acompanhada clinicamente. Devemos prescrever uma dieta rica em fibras (pelo menos 30 g/dia), podendo associar suplementos (ex.: Psyllium, metilcelulose). Como a incidência de complicações da doença diverticular parece estar aumentada em tabagistas, recomenda-se abstenção do cigarro em todos os casos. Em geral, cerca de 1/3 dos pacientes que tiveram um episódio de diverticulite aguda não complicada apresentarão um segundo episódio no futuro e, destes, cerca de 1/3 terá um terceiro episódio. Até pouco tempo atrás se acreditava que tais indivíduos (que fazem diverticulite não complicada “de repetição”) estariam sob risco progressivamente maior de desenvolver complicações da doença a cada novo episódio, porém, estudos recentes mostraram que isso não é verdade. RESUMO DAS INDICAÇÕES DE TTO CIRÚRGICO São indicações de tratamento cirúrgico DE URGÊNCIA na diverticulite: 1 - Peritonite generalizada por ruptura de abscesso ou divertículo; 2 - Obstrução intestinal total refratária. Os demais pacientes com diverticulite irão receber algum tipo de tratamento clinico antes de uma colectomia. SÃO INDICAÇÕES DE TRATAMENTO CIRÚRGICO ELETIVO NA DIVERTICULITE: 1 - Falha da terapêutica clínica na diverticulite não complicada; 2 - Após um primeiro episódio de diverticulite complicada com abscesso; 3 - Doença diverticular complicada com fístula colovesical; 4 - Doença diverticular complicada com obstrução parcial persistente; 5 - Impossibilidade de excluir carcinoma de cólon; 6 - Após primeiro episódio de diverticulite em imunodeprimidos (ex.: DRC, câncer, doenças autoimunes em uso de drogas imunossupressoras). Conduta na Diverticulite Complicada Existem quatro complicações possíveis na evolução de uma diverticulite: abscesso, obstrução, formação de fístulas e perfuração livre com peritonite generalizada. Repare que não se espera a ocorrência de sangramento na vigência de diverticulite aguda. Todas deverão ser abordadas cirurgicamente, independentemente de ser o primeiro episódio ou não da doença. A classificação tomográfica de Hinchey estratifica o estágio evolutivo (e a gravidade) das diverticulites complicadas. Os abscessos pericólicos e intramesentéricos localizados são acompanhados de sinais clínicos de irritação peritoneal restrita. Taquicardia e leucocitose encontram-se presentes e possuem correlação direta com o grau de inflamação. A detecção da coleção purulenta pela tomografia computadorizada, seguida de sua drenagem percutânea guiada pelo próprio método, veio transformar esta situação de uma condição cirúrgica, antigamente emergencial, em semieletiva. Abscessos pequenos (< 2-3 cm) respondem à antibioticoterapia isolada, sem necessidade de drenagem. Após cerca de seis semanas da drenagem (abscessos grandes) ou resolução com tratamento clínico (abscessos pequenos), um procedimento cirúrgico definitivo é realizado. A peritonite purulenta (decorrente da ruptura de um abscesso pericólico) e a peritonite fecal (macroperfuração livre do divertículo), são as complicações mais graves, e demandam ressuscitação volêmica, antibioticoterapia e cirurgia de urgência. A conduta ideal consiste na ressecção cirúrgica do segmento doente associado à lavagem da cavidade abdominal, o que pode ser feito por meio de laparotomia ou (se possível) laparoscopia. As fístulas colovesicais (mais comuns) manifestam-se com infecção urinária associada à pneumatúria. O achado de espessamento colônico + divertículos + ar na bexiga à TC corroboram o diagnóstico. É importante termos em mente que, nesses casos, a intervenção cirúrgica, embora necessária, não é emergencial. Devemos primeiro controlar o quadro infeccioso e em seguida preparar adequadamente o sigmoide. A obstrução acomete mais comumente o intestino delgado, por aderências ao abscesso, e quando isso ocorre a melhor abordagem é drenagem nasogástrica descompressiva + antibioticoterapia. A indicação cirúrgica fica reservada às obstruções totais refratárias. Quais são as cirurgias empregadas no tratamento da diverticulite? Em situações que nos permitam indicar uma intervenção eletiva, o procedimento de escolha é a ressecção do sigmoide com anastomose primária terminoterminal por sutura manual ou com auxílio do grampeador cirúrgico. As ressecções em situações emergenciais são geralmente realizadas em dois tempos. Em caso de necessidade de ressecção em dois tempos dispomos de três modalidades: 1- Sigmoidectomia com colostomia terminal e fístula mucosa; 2- Sigmoidectomia com colostomia terminal e fechamento do coto retal (cirurgia de Hartmann); 3- Anastomose primária com proteção desta anastomose (derivação protetora) feita através de uma ileostomia ou transversostomia. A opção mais usada é a de Hartmann. Um tema que vem ganhando destaque é a lavagem laparoscópica do peritônio em pacientes que se apresentam com diverticulite Hinchey III (peritonite purulenta). Nesta situação o colo do divertículo perfurado encontra-se fechado, isto é, o que ocorre é a ruptura de um abscesso previamente formado, disseminando pus pela cavidade peritoneal sem que haja vazamento contínuo de material fecal. Assim, teoricamente, não é preciso ressecar o segmento colônico doente com urgência, podendo-se apenas “lavar a cavidade”, removendo o pus extravasado, seguido da colocação de dreno na loja do abscesso inicial (um procedimento mais rápido e de menor morbimortalidade perioperatória do que a cirurgia de Hartmann). A sigmoidectomia seria realizada num segundo momento, com o paciente clinicamente estabilizado! Na diverticulite Hinchey IV não tem jeito: como se trata de macroperfuração livre do divertículo (com vazamento ininterrupto de material fecal para o peritônio), o tratamento envolve ressecção emergencial do segmento acometido, aliado à lavagem exaustiva da cavidade. PANCREATITE AGUDA A pancreatite aguda é definida como uma condição inflamatória aguda do pâncreas, com acometimento variável das estruturas peripancreáticas e órgãos à distância, cuja gênesedepende da autodigestão tecidual pelas próprias enzimas pancreáticas. Nos casos mais graves, a pancreatite aguda se comporta como uma doença multissistêmica e leva à Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS), com alta letalidade. A pancreatite aguda caracteristicamente não deixa sequelas pancreáticas – morfológicas ou funcionais – após a resolução do quadro. Cerca de 80-90% dos casos de pancreatite aguda cursam apenas com edema do pâncreas, sem áreas extensas de necrose, sem complicações locais ou sistêmicas e de curso autolimitado em 3-7 dias. Esta é a pancreatite aguda edematosa ou intersticial, ou ainda, pancreatite aguda “leve”. Os 10-20% restantes cursam com extensa necrose parenquimatosa, hemorragia retroperitoneal, um quadro sistêmico grave e uma evolução de 3-6 semanas. Esta é a pancreatite aguda necrosante ou necrohemorrágica, ou ainda, pancreatite aguda “grave”. Enquanto a letalidade da pancreatite aguda edematosa aproxima-se a 1%, na pancreatite aguda necrosante ela chega a 30-60%. ANATOLOGIA, PATOGÊNESE E ETIOLOGIA: Na pancreatite aguda, o patologista detecta uma reação inflamatória aguda difusa do pâncreas, associada a áreas de necrose gordurosa (marco da doença), tanto ao longo do parênquima do órgão quanto nos tecidos peripancreáticos, incluindo o mesentério e o omento. Nos casos mais graves, formam-se extensas áreas de necrose glandular, com ruptura vascular e focos de hemorragia. Os achados patológicos indicam um processo “autodigestivo” do pâncreas. O pâncreas funciona como uma grande glândula exócrina e endócrina: suas células acinares são responsáveis pela função exócrina, sintetizando e secretando as enzimas pancreáticas, fundamentais para a digestão dos alimentos no tubo digestivo. As células das Ilhotas de Langerhans têm função endócrina, sintetizando e secretando hormônios como a insulina, o glucagon e a somatostatina. Com exceção da amilase e da lipase, as demais enzimas pancreáticas são armazenadas e secretadas como pró- enzimas inativas – os zimogênios. Os principais exemplos são: tripsinogênio, quimotripsinogênio, pró-elastase, pró-fosfolipase A. Ao chegar ao duodeno, o tripsinogênio é convertido em tripsina pela enteroquinase, uma enzima proteolítica existente na “borda em escova” do epitélio intestinal. A tripsina é o “gatilho” para o restante do processo digestivo, pois é capaz de ativar todas as outras enzimas pancreáticas, incluindo o próprio tripsinogênio. Nesse momento, forma-se uma grande quantidade de tripsina, quimotripsina, elastase e fosfolipase A (entre outras enzimas). O que acontece na pancreatite aguda? Ainda não se tem certeza do mecanismo patogênico inicial da pancreatite aguda, embora existam algumas hipóteses aceitas – sabemos que o processo inflamatório se inicia pela lesão das células acinares, que passam a liberar enzimas pancreáticas ativas para o interstício. A teoria mais aceita atualmente, um estímulo lesivo à célula acinar provoca a fusão dos grânulos contendo zimogênio com as vesículas lisossomais, que contêm a enzima catepsina B. Esta hidrolase é capaz de converter o tripsinogênio em tripsina dentro da célula acinar, culminando na ativação de todos os zimogênios. As vesículas de fusão, em vez de migrarem para a borda luminal da célula, migram para a borda intersticial, sendo liberadas no estado ativo no interstício pancreático, dando início ao processo autodigestivo. Essa hipótese é denominada “teoria da colocalização lisossomal”. Tal mecanismo é reproduzível no laboratório, em animais. Um aumento na concentração intracelular de cálcio também parece capaz de promover a autoativação do tripsinogênio em tripsina, participando na gênese da pancreatite. As enzimas fosfolipase A e lipase são as responsáveis pela autodigestão da gordura pancreática e peripancreática. Os ácidos graxos liberados neste processo formam complexos com o cálcio (saponificação), contribuindo para a hipocalcemia da pancreatite. A enzima elastase é a responsável pela lesão do tecido intersticial e pela ruptura da parede vascular. Hoje em dia, sabe-se que a lesão enzima-induzida é apenas o evento inicial de uma cascata de fatores. A tripsina converte a pré-calicreína em calicraína, ativando o sistema de cininas, e o fator XII (fator de Hageman) em fator XIIa, ativando o sistema da coagulação pela via intrínseca (responsável pela formação de microtrombos nos vasos pancreáticos, que podem contribuir para a necrose). Por ser interligado ao sistema de cininas e o fator XII, o sistema complemento também é ativado, atraindo para o local neutrófilos e macrófagos, que, por sua vez, produzem novos mediadores inflamatórios, como o PAF (Fator Ativador Plaquetário) e diversas citocinas, como IL-1, TNF-alfa, IL-6 e IL-8. Um exagero neste processo leva à SIRS (Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica). DANO À MICROCIRCULAÇÃO – A liberação de enzimas ativadas no interstício do pâncreas acaba lesando o endotélio vascular assim como as células acinares. Alterações microcirculatórias, como microtrombose, vasoconstrição, estase capilar, redução da saturação de oxigênio e isquemia progressiva ocorrem. Tais fenômenos produzem um aumento na permeabilidade capilar e edema da glândula. A lesão vascular pode levar à insuficiência microcirculatória e amplificação do dano ao tecido pancreático. TRANSLOCAÇÃO BACTERIANA – A translocação bacteriana é fenômeno que ocorre na pancreatite aguda. A quebra da barreira intestinal é ocasionada pela hipovolemia (e isquemia) e por shunts arteriovenosos induzidos pela pancreatite. A principal via de translocação bacteriana é através do cólon transverso, uma vez que este segmento intestinal está próximo ao pâncreas e pode ser afetado pelo processo inflamatório peripancreático. As consequências da translocação bacteriana podem ser letais. A infecção de tecido pancreático e peripancreático ocorre em cerca de 30-40% dos casos de pancreatite aguda grave e traz uma letalidade altíssima, quando não tratada adequadamente. As causas mais comuns de pancreatite aguda são a litíase biliar e o álcool, responsáveis por cerca de 75% dos casos. Embora não se conheça exatamente o mecanismo pelo qual esses dois fatores desencadeiam pancreatite aguda, algumas hipóteses foram aventadas. PANCREATITE AGUDA BILIAR: A passagem de cálculos biliares através da ampola de Vater parece ser a causa mais comum de pancreatite aguda. Estes cálculos geralmente são pequenos (< 5 mm), sendo menores do que aqueles que causam coledocolitíase e colangite, embora estas complicações possam coexistir com a pancreatite. Cerca de 25-50% dos pacientes com pancreatite aguda biliar apresentam coledocolitíase associada, na maioria das vezes assintomática. A hipótese mais aceita atualmente é de que a obstrução transitória da ampola de Vater por um pequeno cálculo ou pelo edema gerado por sua passagem aumente subitamente a pressão intraductal e estimule a fusão lisossomal aos grânulos de zimogênio, ativando a tripsina. Isso provocaria a liberação de enzimas digestivas pancreáticas ativadas no parênquima. Outra hipótese aventada é que essa obstrução proporcionaria a ocorrência de refluxo biliar para o ducto pancreático, desencadeando o processo de ativação enzimática. Ao contrário da pancreatite alcoólica, a pancreatite biliar não se associa à pancreatite crônica. A colecistectomia previne as frequentes recidivas de pancreatite aguda nesses pacientes. A pancreatite biliar é mais comum: No sexo feminino (2:1); Obesos e na faixa etária entre 50-70 anos, dados próprios da doença litiásica biliar em geral. Entretanto, pode ocorrer em qualquer idade e em qualquer tipo físico. A pancreatite aguda complica 3-7% dos indivíduos com colelitíase. PANCREATITE AGUDA ALCOÓLICA: A pancreatite aguda é observada em 5-10% dos alcoólatras, competindo com a pancreatitebiliar pelo primeiro lugar entre as causas de pancreatite aguda. Em geral, o indivíduo já é etilista inveterado (> 25 g etanol/dia segundo estudos recentes e > 100 g/dia classicamente) há pelo menos uns cinco anos (média de 15 anos) e já existe um acometimento crônico do pâncreas, mesmo que subclínico. A pancreatite alcoólica crônica é marcada por vários episódios recorrentes de pancreatite aguda, em geral, desencadeados após libação alcoólica. A patogênese da pancreatite aguda alcoólica é desconhecida, mas diversos fatores são implicados: 1 - Estímulo direto à liberação de grandes quantidades de enzimas pancreáticas ativadas; 2 - Contração transitória do esfíncter de Oddi; 3 - Lesão tóxica acinar direta do etanol ou de um metabólito; 4 - Formação de cilindros proteináceos que obstruem os dúctulos (ver pancreatite crônica). Além da litíase biliar e do alcoolismo, existem diversas outras causas de pancreatite aguda, responsáveis pelos 25% restantes. Dentro desse grupo merece destaque a “pancreatite aguda idiopática” que, na realidade, em grande parte das vezes está relacionada à microlitíase biliar. HIPERTRIGLICERIDEMIA: A hipertrigliceridemia é responsável por < 4% das pancreatites agudas. A maioria dos casos ocorre em pacientes diabéticos mal controlados e/ou com hipertrigliceridemia familiar e em alcoolistas. Acredita-se que a lipase pancreática metabolize os triglicérides em ácidos graxos livres que, por sua vez, seriam diretamente nocivos ao tecido pancreático. Outras causas de hipertrigliceridemia são: Uso de estrogênio Nutrição parenteral Uso de propofol Hipotireoidismo Síndrome nefrótica Os níveis exatos de triglicérides necessários para induzir PA não são conhecidos. Geralmente níveis maiores que 1.000 mg/dl são necessários, mas há relatos de pancreatite com 500-1.000 mg/dl. OBS.: A hipertrigliceridemia acentuada pode falsear o resultado da amilase sérica, pois uma substância inibidora da atividade da amilase se eleva junto com os triglicerídeos. A diluição da amostra pode revelar a hiperamilasemia nesses casos. HIPERCALCEMIA O hiperparatireoidismo primário é causa rara de pancreatite (menos que 0,5%). Cerca de 2% dos pacientes com esta síndrome endócrina podem evoluir com tal complicação. Outras causas de hipercalcemia podem determinar pancreatite, até mesmo a infusão excessiva de gluconato de cálcio. O mecanismo é desconhecido. PÓS-OPERATÓRIO A pancreatite aguda pode ocorrer no pós-operatório de cirurgias abdominais e cirurgias cardíacas (pelo efeito da CEC). A incidência depende do tempo de cirurgia e do grau de proximidade entre o pâncreas e o local operado. Nas cirurgias abdominais, o mecanismo é o trauma direto, sendo o prognóstico muito ruim quando comparado com outras causas de pancreatite. O diagnóstico é difícil, pois a dor abdominal é comum no pós- operatório. INDUZIDA POR FÁRMACOS A pancreatite causada por medicamentos é um evento incomum. A patogenia pode estar relacionada à hipersensibilidade ou a um efeito tóxico direto. O diagnóstico depende de alto grau de suspeição e anamnese detalhada. A classe de drogas mais associada com a pancreatite aguda são os imunossupressores, incluindo a azatioprina, 6- mercaptopurina, ciclosporina e tacrolimus. Nos pacientes HIV positivos, a principal causa de pancreatite é a induzida por medicamentos, principalmente a didanosina (DDI) e a pentamidina. Outras drogas envolvidas são: antibióticos (metronidazol, SMZ-TMP, tetraciclina), diuréticos (tiazídicos, furosemida), drogas usadas nas doenças inflamatórias intestinais (sulfasalazina, 5-ASA), anticonvulsivantes (ácido valproico), anti-inflamatórios (sulindac), anti- -hipertensivos (metildopa, IECA, clonidina), cálcio, estrógenos e tamoxifeno. Litíase biliar e álcool são as principais causas de pancreatite aguda, respondendo por cerca de 75% dos casos. Contudo, enquanto o álcool também pode provocar pancreatite crônica, o mesmo não acontece com os cálculos biliares, que causam exclusivamente doença aguda! Outras Causas 1- Trauma Abdominal: principal causa de pancreatite aguda em pacientes pediátricos. 2- Pancreatite Aguda Hereditária. 3- Fibrose Cística. 4- Colangiopancreatografia Endoscópica Retrógrada (CPER). 5- Viroses: caxumba, coxsackie, hepatite B, citomegalovírus, varicela-zóster, herpes simples. 6- Bacterianas (micoplasma, legionela, leptospira, salmonela, tuberculose, brucelose, etc.) e Fúngicas (Aspergillus sp., Candida sp.) 7- Infestações Parasitárias: o destaque em nosso meio é o Ascaris lumbricoides, que pode obstruir transitoriamente a ampola de Vater, causando pancreatite aguda. Outros parasitas implicados são: T. gondii, Cryptosporidium. 8- Obstrução Ductal Crônica (cisto de colédoco, divertículo, pancreatite crônica, Ca pâncreas, adenoma viloso, doença de Crohn e outros). 9- Vasculite (PAN, LES), outras causas de isquemia pancreática. 10- Pancreas Divisum, Pâncreas Anular. 11- Envenenamento por escorpião (Titius sp., o “escorpião brasileiro”). “PANCREATITE AGUDA IDIOPÁTICA” Cerca de 20% dos pacientes com pancreatite aguda encontram-se neste grupo. Hoje em dia, são descritas duas entidades que parecem ser responsáveis por grande parte das pancreatites agudas neste grupo: (1) Microlitíase Biliar – 2/3 dos casos; (2) Disfunção do Esfíncter de Oddi – 1/3 dos casos. MICROLITÍASE BILIAR (“LAMA BILIAR”): “lama biliar” é uma suspensão viscosa na vesícula biliar que pode conter cálculos microscópicos. Na USG, parece como um agrupamento de ecos de baixa amplitude, sem sombra acústica, “repousando” no fundo da vesícula e mudando de local conforme a posição do paciente. Alguns estudos sugeriram que até 75% dos casos de pancreatite aguda “idiopática” podem ser ocasionados, na realidade, pela lama biliar. O uso de ácido ursodesoxicólico reduz a recorrência desses episódios. Outras opções são a papilotomia endoscópica e a colecistectomia. DISFUNÇÃO DO ESFÍNCTER DE ODDI: pode ser diagnosticada pela mensuração da pressão intraesfincteriana, através da canulização da Papila de Vater (guiada pela endoscopia). A pressão do esfíncter, que normalmente fica em torno de 15 mmHg, costuma ser flagrada em níveis próximos a 40 mmHg. O tratamento preconizado é a papilotomia endoscópica ou a esfincteroplastia cirúrgica, com resultados razoáveis. Reveja mais uma vez as causas de pancreatite aguda, agora reunidas na Tabela 1. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS: Pancreatite aguda é uma importante causa de dor abdominal aguda associada a vômitos. Uma vez que a clínica da doença pode ser similar à de numerosas outras patologias agudas, é difícil o diagnóstico basear-se somente em sintomas e sinais clínicos. A doença varia em severidade e o diagnóstico é, muitas vezes, falho nos extremos da apresentação. Os principais sintomas da pancreatite aguda são a DOR ABDOMINAL, as NÁUSEAS e os VÔMITOS. Quase todos os pacientes experimentam dor abdominal aguda em andar superior de abdome. A dor é contínua e pode se localizar em mesogástrio, quadrante superior direito, ser difusa ou, raramente, à esquerda. Uma característica da dor, que está presente em metade dos pacientes e que sugere origem pancreática, é a disposição em barra e a irradiação para o dorso. Normalmente precisa de analgésicos opiáceos para o seu controle. Ao contrário da dor biliar que permanece, no máximo, de 6 a 8 horas, a dor pancreática se mantém por dias. A progressão da dor é rápida (mas não tão abrupta quanto aquela da perfuração visceral), atingindo intensidade máxima dentro de 10 a 20 minutos. Pancreatite aguda com ausência de dor não é comum (5- - 10%), mas pode ser complicada e fatal. Um aspecto interessante é o fato de os sintomas na pancreatite aguda relacionada ao álcool frequentemente aparecerem após um ou três dias de uma libação alcoólica intensa.A dor abdominal é tipicamente acompanhada (cerca de 90%) de náuseas e vômitos que podem persistir por várias horas. Os vômitos podem ser incoercíveis e, em geral, não aliviam a dor; podem estar relacionados à dor intensa ou a alterações inflamatórias envolvendo a parede posterior do estômago. Inquietação, agitação e alívio da dor em posição de flexão anterior do tórax (genupeitoral) são outros sintomas notados. Pacientes com ataque fulminante podem apresentar-se em estado de choque ou coma. O exame físico varia na dependência da gravidade da doença. Achados sistêmicos incluem febre, sinais de desidratação, taquicardia e, em casos mais graves, choque e coma. Na pancreatite necrosante, o paciente pode se apresentar em mau estado geral, toxêmico, pálido, hipotenso, taquicárdico (100-150 bpm), taquipneico (pela dor ou pelo acometimento pulmonar), febril (38,5-39ºC) e com o sensório deprimido (confusão mental, torpor ou coma). Existe um espectro de gravidade na pancreatite aguda, e os sinais acima podem estar presentes em maior ou menor grau. O derrame pleural à esquerda é comum (pela extensão da inflamação para a hemicúpulas diafragmática esquerda) e pode contribuir para a dispneia. O abdome na pancreatite aguda geralmente mostra achados inferiores aos esperados pelo quadro álgico do paciente. O exame físico revela desde dor leve à palpação até sinais de irritação peritoneal com descompressão dolorosa (Blumberg) nos casos mais graves. Distensão abdominal, devido ao “íleo paralítico” em consequência à inflamação intra-abdominal, é um achado comum, especialmente nos casos mais graves. Na radiografia, a distensão pode ser de delgado e/ou de cólon. Obstrução do ducto biliar principal em razão de coledocolitíase ou edema da cabeça do pâncreas pode ocasionar icterícia (geralmente leve). A icterícia ocorre em cerca de 10% dos casos e não necessariamente indica, como vimos, pancreatite aguda biliar. Alguns sinais cutâneos podem acontecer na pancreatite aguda, de forma incomum: (a) Equimose em flancos – Sinal de Grey--Turner (FIGURA 3); (b) Equimose periumbilical – Sinal de Cullen; (c) Necrose gordurosa subcutânea – Paniculite (FIGURA 4); (d) Equimose na base do pênis – Sinal de Fox. Os primeiros dois sinais ocorrem em 1% dos casos. São característicos, mas não patognomônicos. São causados pela extensão do exsudato hemorrágico pancreático retroperitonial através do tecido subcutâneo e estão associados com mau prognóstico. Já a necrose gordurosa subcutânea (paniculite) é um evento raro, se caracterizando pela presença de nódulos subcutâneos dolorosos de 0,5-2 cm e eritema na pele adjacente (semelhantes ao eritema nodoso). Geralmente, se localizam nas extremidades, podendo ser justarticulares, mas podem ocorrer em outros locais, como nádegas, tronco e escalpo. Podem preceder, ou não, os sintomas da pancreatite e tendem a melhorar junto com o quadro clínico. A retinopatia de Purtscher é uma rara complicação da pancreatite aguda. Manifesta-se como escotomas e perda súbita da visão. A fundoscopia demonstra exsudatos algodonosos e hemorragias confinadas à mácula e à papila óptica. O comprometimento respiratório pode piorar após os primeiros dias, se instalando derrame pleural (com preferência pelo lado esquerdo), atelectasia (pela dor ou obesidade) ou mesmo a Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) – esta é uma das complicações sistêmicas mais temíveis da pancreatite aguda e se caracteriza pela hipoxemia refratária à administração de altos fluxos de O2, associado a infiltrado pulmonar bilateral, em geral assimétrico. O principal diagnóstico diferencial da SDRA é o edema pulmonar cardiogênico. O paciente pode chegar “chocado” ou evoluir para o choque após os primeiros dias – o choque na maioria dos casos tem dois componentes: (1) Hipovolêmico – estima-se a perda de 6-10 litros para o retroperitônio ou para o peritônio nos pacientes com pancreatite grave; (2) Vasodilatação sistêmica (choque distributivo) – exatamente a mesma fisiopatologia do choque séptico, porém, sem haver infecção. Podemos chamar de “choque sirético” (SIRS = Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica). Neste choque, temos uma queda acentuada da resistência vascular periférica (causando grave hipotensão arterial), venodilatação e um aumento do débito cardíaco (estimulado pela baixíssima pós-carga). A insuficiência renal é comum na pancreatite grave, manifestando-se como azotemia no exame laboratorial (aumento de ureia e creatinina). A causa na maioria das vezes é pré-renal, devido à hipovolemia (perda para o 3º espaço), portanto, é reversível com a reposição volêmica agressiva. No entanto, em alguns casos, os rins são lesados pela reação inflamatória sistêmica (enzimas ativadas e mediadores liberados por leucócitos) ou pela isquemia prolongada, evoluindo para um quadro de necrose tubular aguda – neste caso, a azotemia não reverte com a reposição volêmica e pode vir a ser grave a ponto de causar síndrome urêmica e distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos indicativos de diálise. LABORATÓRIO INESPECÍFICO A leucocitose é comum, principalmente nos casos graves, onde pode chegar até 30.000/mm3 refletindo o grau de inflamação sistêmica (por isso é um importante critério prognóstico). O aumento de proteína C reativa é outro marco laboratorial de gravidade, já que mede a intensidade da resposta inflamatória. A hiperglicemia é uma alteração comum, e no início do quadro é devida à SIRS mas, posteriormente, pode ser secundária a uma destruição maciça das ilhotas de Langerhans, na pancreatite necrosante extensa... Hipocalcemia também é achado frequente, e decorre da saponificação do cálcio circulante pela gordura peripancreática necrosada – por este motivo também possui relação direta com a gravidade do quadro (quanto mais necrose, mais hipocalcemia). Outros marcos que indicam gravidade são o aumento das escórias nitrogenadas e as alterações nas provas de coagulação (ex.: alargamento do TAP e PTTa). As provas hepáticas também podem estar alteradas, revelando aumento das aminotransferases, fosfatase alcalina e bilirrubina. O aumento das aminotransferases, além de ter valor prognóstico, pode sugerir o diagnóstico etiológico da pancreatite... Uma TGP (ALT) > 150 U/L tem especificidade de 96% para pancreatite biliar!!! Porém, a TGP (ALT) < 150 U/L não afasta pancreatite biliar, já que a sensibilidade é baixa (48%). DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL As doenças que se manifestam com intensa dor abdominal aguda devem ser afastadas, entre elas: (1) Doença péptica / Úlcera perfurada; (2) Colelitíase, Coledocolitíase, Colecistite aguda; (3) Isquemia mesentérica; (4) Obstrução intestinal aguda; (5) IAM inferior / Dissecção aórtica abdominal; (6) Gravidez ectópica. Na colelitíase e na doença péptica a dor costuma ter menor duração. A dor da colecistite aguda pode ser muito semelhante a dor da pancreatite. A isquemia mesentérica aguda pode ser facilmente confundida com pancreatite aguda – um histórico de fibrilação atrial, pós-IAM, a ausência de vômitos incoercíveis, a presença de diarreia ou sangue no toque retal e uma acidose metabólica proeminente, são dados que sugerem o diagnóstico de isquemia mesentérica. Na úlcera perfurada, o exame abdominal em geral mostra irritação peritoneal proeminente (às vezes, “abdome em tábua”), achados não esperados na pancreatite aguda, que é uma causa de inflamação predominantemente retroperitonial. Há casos em que os critérios clínicos e laboratoriais não são capazes de diferenciar com certeza a pancreatite aguda de seus diagnósticos diferenciais; nestes, está indicada a laparotomia exploradora! CONFIRMAÇÃO DIAGNÓSTICA O diagnóstico de pancreatite aguda pode ser facilmente estabelecido diante de um caso clínico típico com o auxílio da dosagem sérica de amilase e lipase (que estarão > 3x o LSN). Métodosde imagem, como a Tomografia Computadorizada de Abdome, são úteis nos casos duvidosos, podendo confirmar o diagnóstico de pancreatite ao demonstrarem a presença de edema/necrose do parênquima pancreático. Cumpre ressaltar, no entanto, que os exames de imagem não são obrigatórios para o diagnóstico em todos os casos, existindo indicações específicas para sua realização (ver adiante). 1- AMILASE SÉRICA Esta enzima pancreática costuma se elevar já no primeiro dia do quadro clínico (2-12h após o início dos sintomas), mantendo-se alta por 3-5 dias. Sua sensibilidade é de 85-90% entre 2-5 dias. Sua especificidade é de 70-75%. O normal da amilase sérica geralmente é abaixo de 160 U/L. A especificidade aumenta muito quando considerados níveis acima de 500 U/L e principalmente 1.000 U/L! A amilase pode estar normal nos casos de pancreatite crônica avançada agudizada (como na pancreatite alcoólica), pois o parênquima pancreático já está destruído, exaurido de suas enzimas. Como já citado anteriormente, os níveis de amilase podem estar falsamente reduzidos na hipertrigliceridemia (quando os triglicerídeos aumentam, aumenta também um fator solúvel que inibe a amilase...). Uma amilase colhida após o quinto dia dos sintomas frequentemente é negativa. A especificidade da amilase é comprometida por 4 fatos: (1) Amilase Salivar: a maior parte da amilase existente no organismo não é pancreática, mas sim salivar (55-60% da amilase). (2) Absorção Intestinal: existe amilase pancreática na luz intestinal, podendo haver absorção luminal pelo intestino inflamado ou obstruído. (3) Macroamilasemia: uma entidade caracterizada pela ligação de uma proteína sérica à amilase plasmática, impedindo que ela seja normalmente filtrada pelos rins. (4) Insuficiência Renal: uma parte da amilase é eliminada pelos rins, logo, a insuficiência renal grave cursa com hiperamilasemia. Neste momento, reveja a tabela de “causas de hiperamilasemia” no capítulo inicial desta apostila. Doenças da glândula salivar e outras doenças intra- abdominais agudas podem cursar com aumento da amilase... Ex.: colecistite aguda, coledocolitíase, perfuração de qualquer víscera oca (ex.: úlcera perfurada), isquemia mesentérica, obstrução intestinal aguda, apendicite aguda, salpingite aguda, gravidez ectópica. Entretanto, apesar de existirem diversas causas de hiperamilasemia, raramente elas elevam a amilase acima de 3-5 vezes o limite da normalidade (> 500 UI/L). Elevações dessa magnitude possuem ESPECIFICIDADE para pancreatite!!! A determinação da isoforma pancreática da amilase não é específica da pancreatite, visto também estar aumentada nas lesões intestinais e na insuficiência renal. 2- LIPASE SÉRICA Esta outra enzima pancreática se eleva junto com a amilase na pancreatite aguda, porém, permanece alta por um período mais prolongado (7-10 dias). Possui sensibilidade igual à da amilase (85%), sendo mais específica (80%). A lipase também existe dentro do lúmen intestinal e as mesmas condições abdominais que fazem aumentar a amilase também podem fazer aumentar a lipase – Em geral, essas condições também não aumentam mais que 3 vezes o limite da normalidade (normal: até 140 U/L; 3x o normal: > 450 U/L, variando conforme o método laboratorial usado). 3- AMILASE + LIPASE SÉRICAS Tanto a amilase quanto a lipase, se acima de 3 vezes o limite superior da normalidade, são altamente específicas para pancreatite aguda – logo, na prática devemos dosá-las em conjunto para confirmar o diagnóstico de pancreatite! Se as duas estiverem aumentadas, a especificidade é de 95%. A sensibilidade das duas juntas é de 95%, ou seja, em apenas 5% dos casos de pancreatite aguda as duas enzimas são normais (provavelmente casos de “pancreatite crônica agudizada”). 4- OUTRAS DOSAGENS LABORATORIAIS Diversos fatores vêm sendo estudados como substitutos da amilase e lipase para o diagnóstico de pancreatite aguda, por exemplo: peptídeo ativador do tripsinogênio, tripsinogênio 2 e tripsinogênio urinário. Tais exames, no entanto, ainda precisam ser consagrados com grandes estudos para ganharem real aplicação prática. 5- TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA CONTRASTADA A Tomografia Computadorizada (TC) com contraste venoso é o melhor método de imagem para avaliar a presença de complicações locorregionais num quadro de pancreatite aguda, sendo indicada nos casos classificados como “graves” por critérios que serão explicados adiante... Como a TC pode ser normal em 15--30% dos casos de pancreatite “leve”, sua realização não se justifica nestes pacientes, até porque a probabilidade de complicações é baixa em tal contexto... A TC pode mostrar aumento focal ou difuso do pâncreas, borramento da gordura peripancreática e perirrenal, coleções líquidas peripancreáticas, pseudocistos (ver adiante) e áreas não captantes de contraste indicativas de necrose – FIGURA 5. Possui elevada sensibilidade e especificidade, e pode, como vimos, esclarecer os casos de dúvida diagnóstica (aqueles em que a clínica é sugestiva mas a dosagem de amilase e lipase não é confirmatória). Como já dissemos, nem todos os pacientes necessitam de TC... As indicações para sua realização na PA são mostradas na Tabela 2. Os critérios prognósticos de Ranson e APA-CHE-II serão comentados adiante, quando falarmos em prognóstico da pancreatite aguda... Vale relembrar: na pancreatite “leve” (edematosa), a TC não é necessária!!! O exame ideal é a TC helicoidal, que é capaz de revelar imagens com maior definição da captação do contraste endovenoso. O melhor momento para a realização de TC na pancreatite aguda grave é após o terceiro dia do início do quadro (isto é, após as primeiras 72h, que é quando as complicações como a necrose costumam estar bem estabelecidas, sendo mais fácil observá-las). Deve-se evitar a TC contrastada em pacientes que evoluem com injúria renal aguda pela pancreatite grave (evitar um componente de “nefropatia induzida por contraste”). Nestes casos, a RNM torna-se preferencial... Tab. 2 6- ULTRASSONOGRAFIA O pâncreas pode ser visualizado, mostrando sinais ecogênicos clássicos de pancreatite aguda. Contudo, a frequente interposição de alças intestinais repletas de gás torna a ultrassonografia de abdome um exame de baixa sensibilidade tanto para o diagnóstico de PA quanto para a detecção de necrose pancreática. Por outro lado, a USG abdominal é o método de escolha para o diagnóstico da litíase biliar, a causa mais comum de pancreatite aguda, podendo assim orientar a conduta posterior. Por isso, está sempre indicada. 7- RADIOGRAFIA SIMPLES É um importante exame a ser pedido nos pacientes com quadro de “abdome agudo”, principalmente na dúvida entre um abdome cirúrgico ou não. O RX de tórax pode revelar derrame pleural à esquerda ou atelectasia em bases pulmonares; em casos mais graves pode haver um infiltrado bilateral compatível com SDRA. A pancreatite aguda pode determinar várias alterações no RX de abdome, assim como outras causas de abdome agudo inflamatório – são elas: 1- Alça sentinela (íleo localizado). 2- Sinal do cólon amputado: paucidade de ar no cólon distal à flexura esplênica, devido a um espasmo do cólon descendente. 3- Dilatação das alças (íleo paralítico inflamatório). 4- Aumento da curvatura duodenal (aumento da cabeça do pâncreas). 5- Irregularidades nas haustrações do transverso, devido ao espasmo difuso. As alterações intestinais da pancreatite aguda são decorrentes da extensão do exsudato inflamatório pancreático para o mesentério, mesocólon transverso e peritônio. 8- RESSONÂNCIA NUCLEAR MAGNÉTICA A RNM é provavelmente equivalente à TC em termos de acurácia para o diagnóstico de pancreatite aguda, porém, possui duas importantes vantagens: (1) na suspeita de pancreatite biliar, a colangiorressonância pode identificar mais de 90% dos cálculos na via biliar; (2) no paciente que evolui com IRA no contexto da PA“grave”, a RNM evita a exposição ao contraste iodado endovenoso. Suas limitações continuam sendo o elevado custo e a menor disponibilidade... A RNM é superior à TC na análise de coleções líquidas, com maior poder de diferenciação entre pseudocistos, abscessos, necrose... PROGNÓSTICO Na abordagem da pancreatite aguda, é fundamental realizarmos o quanto antes uma avaliação formal do prognóstico. Assim, poderemos guiar melhor nossa conduta terapêutica... Esta avaliação deve ser feita através de critérios clínicos e laboratoriais validados, classificando a pancreatite como “leve”, “moderada” ou “grave”. No caso da pancreatite “grave” é mandatório realizar uma TC abdominal com contraste endovenoso após as primeiras 72h do início do quadro, a fim de detectar a presença ou não de necrose (pancreatite necrosante) bem como outras complicações locorregionais. O fato é que diferentes escores foram validados com o intuito de estratificar o prognóstico da pancreatite aguda... A seguir, apresentaremos os principais. Critérios de Ranson Apesar de serem muito antigos e cada vez menos utilizados na prática, os critérios de Ranson são os mais cobrados nas provas de residência... São 11 os critérios estudados por Ranson, em 1974. Destes, cinco são avaliados na admissão do paciente e refletem a gravidade e a extensão do processo inflamatório, assim como a idade. Os outros seis critérios são avaliados ao longo das 48 horas iniciais e refletem o desenvolvimento das complicações sistêmicas e o grau de perda volêmica para o “terceiro espaço”. Devemos saber que a maioria dos pacientes com pancreatite aguda tem a forma leve da doença, e o número médio de critérios de Ranson positivos é de 1,6. A minoria com a forma grave tem uma média não muito alta (2,4). A média nos casos fatais é de 5,6. Deve-se salientar que os 11 critérios devem ser buscados, pois caso contrário reduz-se a sensibilidade do escore – tais critérios predizem 60-85% e omitem 15-30% das pancreatites graves. Escore APACHE-II O APACHE II é outro escore validado para estimativa do prognóstico. Foi criado para a avaliação de pacientes graves em geral e, portanto, pode muito bem ser utilizado na pancreatite (considera-se como “grave” a pancreatite que soma 8 ou mais pontos). O APACHE-II consta de 14 parâmetros (sendo 12 variáveis fisiológicas), que levam em conta diversas funções orgânicas (circulatória, pulmonar, renal, cerebral, hematológica etc.) e sua interpretação não é simples. Para torná-lo prático, o cálculo pode ser feito online ou com programas de computador. O APACHE II possui a vantagem de poder ser calculado já nas primeiras 24 horas da admissão, diferentemente do Ranson, que requer 48h para ser concluído... Escore “BISAP” O BISAP é um escore de fácil aplicação à beira do leito, consistindo de cinco parâmetros importantes para a definição de pancreatite aguda “grave”. Tais parâmetros são memorizados como um acrônimo das letras que compõem seu nome... Curiosamente, a palavra “BISAP” não tem como único propósito servir de mnemônico: na realidade, trata-se também de uma sigla em inglês (Bedside Index for Severity in Acute Pancreatitis). Observe a composição do “BISAP”: (B) Blood urea (ureia sérica) > 44 mg/ml; (I) Impaired Mental Status ou “alteração do estado mental”; (S) SIRS (Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica); (A) Age ou “idade” > 60 anos; (P) Derrame Pleural. Escore de Atlanta Este é um dos escores mais utilizados na prática atual. Preconiza que a pancreatite aguda pode ser classificada em 3 subtipos, dependendo da gravidade. Ele ressalta o conceito mais importante acerca da estratificação de gravidade dessa doença: o que define se a pancreatite aguda é “grave” ou não é a presença da Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) desencadeada pela inflamação pancreática (isto é, a inflamação se origina no pâncreas, porém, todos os órgãos e tecidos do corpo podem acabar sofrendo consequências). Evidentemente, quanto mais intensa a inflamação sistêmica maior a chance de falência orgânica múltipla e, por conseguinte, pior o prognóstico do paciente... Tomografia Computadorizada Contrastada A TC de abdome com reforço de contraste é o “padrão-ouro” no diagnóstico de necrose pancreática, com uma acurácia superior a 90% quando há mais de 30% de necrose glandular e uma sensibilidade próxima a 100% entre o 4º e o 10º dia do início da doença. É fundamental sabermos se estamos diante de uma pancreatite intersticial ou de uma pancreatite necrosante, pois mudam o prognóstico e a conduta. A presença de necrose pancreática radiologicamente detectada (ausência focal de captação após reforço de contraste) eleva substancialmente a morbimortalidade associada à doença: a mortalidade geral na pancreatite edematosa é menor que 1% enquanto na presença de necrose pancreática este índice situa- -se entre 10-25%, atingindo patamares ainda mais elevados na presença de infecção pancreática e outras complicações. O processo inflamatório também pode causar o aparecimento de Coleções Líquidas Agudas, isoladas ou múltiplas e de tamanhos variados – podem ser muito bem visualizadas na TC e, como têm duração inferior a quatro semanas, não podem ser chamadas de Pseudocistos (ver adiante). A extensão do processo inflamatório também pode ser bem estimada pela TC, que identifica o acometimento do espaço peripancreático, a invasão do retroperitônio, do espaço perirrenal anterior e dos órgãos adjacentes. Existe um escore prognóstico feito pela TC contrastada, que contempla a extensão da inflamação (o fleimão pancreático) para os tecidos peripancreáticos, a presença de coleções líquidas e a extensão da área de necrose. Um escore total maior ou igual a 6 pontos indica mau prognóstico... Veja a Tabela 3. Marcadores Sorológicos Proteína C Reativa (PCR) ou Interleucina 6 (IL-6): níveis de PCR superiores a 150 mg/L indicam mau prognóstico, bem como níveis elevados de IL-6. A IL-6 é a citocina que estimula a produção e liberação hepática dos reagentes de fase aguda, especialmente a Proteína C Reativa. Desse modo, a IL-6 é um marcador prognóstico mais precoce do que a PCR, sendo a PCR de maior valor apenas a partir do 2º dia de internação. Outros O SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) e a escala de Marshall modificada são outros escores que avaliam o grau de comprometimento multiorgânico, podendo ser aplicados na pancreatite aguda grave a fim de estimar o prognóstico. Curiosamente, existe também um escore para avaliar BOM PROGNÓSTICO. Trata-se do HAPS (Harmless Acute Pancreatitis Score), que é composto por: (1) ausência de defesa ou descompressão dolorosa do abdome; (2) hematócrito normal; (3) ausência de azotemia. O HAPS prevê, com 98% de acurácia, que a pancreatite aguda é “leve”... TRATAMENTO Só para relembrar as definições, pois estas influenciam totalmente a abordagem terapêutica da pancreatite aguda... Forma Leve: - Menos do que três critérios de Ranson positivos e APACHE II < 8; - Ausência de complicações orgânicas sistêmicas. Forma Grave: - Escore de Ranson ≥ 3; - APACHE ≥ 8; - Presença de complicações orgânicas sistêmicas; - Presença de complicações locais como necrose, abscesso e pseudocisto. Como abordar inicialmente um quadro de pancreatite aguda? 1- Reposição volêmica, analgesia e dieta zero. 2- Definir se é a forma leve ou a forma grave de doença (só é possível após 48 horas). 3- Na forma grave, orientar a conduta posterior pelo resultado da TC contrastada (observar se existe necrose > 30% do pâncreas). 4- Observar o surgimento de complicações tardias. 5- Recomeçar a dieta enteral no momento adequado. 1- TRATAMENTO DA FORMA LEVE A forma leve não indica internação em serviço de Terapia Intensiva – O paciente pode ser internado em uma unidade intermediária, permanecer em dieta zero até a melhora do quadro clínico (principalmente a dor)e até que haja peristalse audível. A realimentação oral em geral é possível com 3-5 dias de evolução na forma leve. Os melhores critérios para iniciarmos dieta são a melhora da dor abdominal, o retorno da peristalse, a ausência de vômitos e o paciente manifestar desejo de alimentar-se. O tratamento de suporte nesses casos se resume a: (1) Analgesia – meperidina ou outros opiáceos. Algumas referências mais antigas recomendam evitar o uso de morfina pelo fato desta medicação poder aumentar o tônus do esfíncter de Oddi... No entanto, a última edição do Sabiston ressalta que – apesar de tal efeito realmente poder ocorrer – até hoje nunca foi confirmado que o controle álgico com morfina exerce impacto efetivamente negativo na evolução da pancreatite aguda. Logo, se necessário, PODE-MOS usar morfina no paciente! (2) Hidratação venosa para reposição volêmica (perdas para o terceiro espaço e pelos vômitos). (3) Controle eletrolítico e ácido-básico (ex.: hipocalemia e alcalose metabólica devido aos vômitos, hipocalcemia, hipomagnesemia, esta última comum na pancreatite alcoólica...). A forma leve geralmente é a manifestação da pancreatite intersticial (edematosa) e nesses casos a TC não é necessária (exceto se houver alguma complicação tardia). 2- TRATAMENTO CLÍNICO DA FORMA GRAVE Os casos graves podem evoluir com complicações orgânicas sistêmicas importantes, como choque misto, insuficiência renal, queda do sensório, insuficiência cardíaca congestiva e SDRA. Estas devem ser agressivamente tratadas. Às vezes, é necessária intubação traqueal com ventilação mecânica e a monitorização hemodinâmica completa (cateter de PAM e cateter de Swan-Ganz). Vamos descrever alguns tópicos especiais no tratamento da pancreatite aguda grave: Analgesia Deve ser feita com opiáceos, pois a dor em geral é de forte intensidade. Se for possível o controle com a Meperidina, essa deve ser o opiáceo de escolha, devido a uma vantagem teórica sobre a morfina (a morfina pode aumentar o tônus do esfíncter de Oddi). Caso ainda assim a dor seja de forte intensidade, já vimos que é possível o uso de morfina... O grande problema da Meperidina é que pode haver acúmulo de metabólitos tóxicos, com irritação neuromuscular e, raramente, convulsões. Ressuscitação Volêmica (A medida mais importante!!!) Deve ser feita uma reposição volêmica vigorosa, com os objetivos principais de normalizar a diurese, a pressão arterial, a frequência cardíaca e a pressão venosa central. Estes pacientes perdem uma grande quantidade de líquido para o retroperitônio. Na pancreatite grave, pelo menos 6 litros de cristaloide devem ser repostos nas primeiras 24h. O fluido de escolha pode ser o Ringer lactato ou o soro fisiológico, com alguns autores preferindo o primeiro, devido ao fato de conter cálcio. Coloides sintéticos devem ser evitados, pois podem aumentar o risco de SDRA na PA grave. A estimativa da perda volêmica é feita pelo exame clínico, pelo hematócrito inicial (na admissão pode estar aumentado pela hemoconcentração), pela queda do hematócrito após 48h de reposição volêmica (uma queda maior que 10% indica uma grande hemoconcentração prévia) e pelo balanço hídrico (quando muito positivo nas primeiras 48h, significa que o organismo precisou de mais líquido para repor as perdas). Nos casos graves ou refratários ou nos pacientes com problema cardíaco prévio devemos guiar a nossa reposição volêmica pela PCP (Pressão Capilar Pulmonar), estimada pelo cateter de Swan-Ganz. Devemos mantê-la em torno de 18 mmHg. Suporte Nutricional Estes pacientes ficarão em dieta oral zero por períodos prolongados, tornando necessário outro tipo de suporte nutricional, que deve ser iniciado de preferência nas primeiras 48h, devido ao estado hipercatabólico da pancreatite grave. A nutrição enteral (por cateter nasojejunal ou nasogástrico, a literatura atual não mostra diferenças significativas em relação ao posicionamento do cateter no tubo digestivo) é a mais indicada atualmente. A dieta deve ser rica em proteínas e pobre em lipídeos. Estudos demonstraram que essa alimentação é segura e pode reduzir o risco de infecção pancreática por diminuir a translocação bacteriana pela mucosa intestinal. A Nutrição Parenteral Total (NPT) é indicada nos poucos pacientes que não toleram a dieta enteral ou naqueles em que as necessidades calóricas não são atingidas após o segundo ao quarto dia de dieta. Esta dieta possui risco de sepse pelo cateter venoso profundo, além de ser mais cara e menos efetiva que a enteral. Aminas Vasopressoras A noradrenalina (associada ou não à dobutamina), em veia profunda, deve ser utilizada nos casos de choque refratário à reposição volêmica vigorosa. Quando necessária, isso indica que o paciente tem forte componente de choque “sirético” ou mesmo séptico. Seu uso deve ser guiado pelos parâmetros da monitorização hemodinâmica. Antibiótico Profilático Até pouco tempo atrás, recomendava-se anti- bioticoprofilaxia para portadores de pancreatite aguda grave com > 30% de necrose do pâncreas... No entanto, estudos recentes sugeriram NÃO haver qualquer benefício com essa conduta, pelo contrário: ela parece aumentar a incidência de superinfecções fúngicas (candidíase sistêmica)!!! Importantes livros de referência (ex.: Harrison e Cecil) afirmam que NÃO HÁ LUGAR para a antibioticoprofilaxia em pancreatite aguda, seja ela grave (necro-hemorrágica) ou não... O fato é que alguns autores ainda defendem este procedimento (ex.: Associação Italiana para o Estudo do Pâncreas) enquanto outros ainda não o descartaram por completo, pelo menos em casos selecionados (ex.: a AGA, ou Associação Americana de Gastroenterologia, aceita seu uso em portadores de necroses extensas, desde que o ATB não seja mantido por mais de 14 dias). Que orientação devo guardar para o dia da prova??? Em vista das recomendações das principais referências de prova, sugerimos acatar suas orientações claramente expressas e NÃO INDICAR ATB PROFILÁ-TICO EM CASOS DE NECROSE PAN-CREÁTICA ESTÉRIL (isto é, só se deve fazer ATB se a necrose estiver comprovadamente infectada). Medidas sem Eficácia Confirmada Lavagem peritoneal (diálise peritoneal): era recomendada (por alguns autores) a pacientes com critérios de gravidade que evoluem mal a despeito dos cuidados intensivos. O princípio da lavagem peritoneal consistia na depuração das enzimas e toxinas extravasadas do pâncreas inflamado para a cavidade peritoneal, evitando que estas substâncias fossem novamente absorvidas para a corrente sanguínea. Devido a resultados controversos, essa terapia caiu em desuso... Outras medidas estudadas no tratamento da pancreatite aguda não tiveram benefício em humanos: octreotídeo, somatostatina (drogas que inibem a secreção enzimática acinar), aprotinina, plasma fresco congelado, etc. Um inibidor do PAF (Fator Ativador Plaquetário), chamado lexipafante, administrado dentro das primeiras 72h do início dos sintomas na pancreatite aguda grave, demonstrou algum benefício prognóstico num estudo piloto, mas isso não foi confirmado em estudos randomizados. O uso de probióticos parece aumentar a mortalidade. A indometacina via retal, comprovadamente, reduz a chance de pancreatite aguda pós-CPER, sendo utilizada de rotina. A colocação de um stent no ducto pancreático após o procedimento também é preconizada por muitos autores. 3- NECROSE PANCREÁTICA INFECTADA - DIAGNÓSTICO E CONDUTA – A pancreatite aguda com mais de 30% de necrose na TC contrastada tem uma chance de 40% de infecção do tecido necrosado. Por isso, estes pacientes, quando apresentam uma piora clínica após uma melhora inicial ou aparece um quadro novo de febre, leucocitose ou qualquer outro sinal de sepse, devem ser submetidos à investigação de infecção pancreática. Geralmente a infecção ocorre após 10 dias do início da pancreatite... Se a TC mostrar gás no pâncreas ou tecido peripancreático (sinalda bolha de sabão), isso é bastante indicativo de infecção. Caso contrário, o diagnóstico é feito pela punção do tecido necrótico guiada por TC (FIGURA 6). Neste contexto, na realidade, qualquer coleção de líquido também deve ser puncionada. O exame bacteriológico possui ótima acurácia diagnóstica (90% de sensibilidade): se mostrar bactérias coráveis pelo Gram ou crescimento positivo em culturas para germes comuns, o diagnóstico de necrose pancreática infectada (ou coleções infectadas) está confirmado. O resultado fica pronto em 2 dias. Os germes mais comuns são os Gram- -negativos entéricos (Escherichia coli, Klebsiella sp,...), Staphylococcus aureus, anaeróbios e Candida sp. Em 80% dos casos cresce apenas uma bactéria. As bactérias chegam até o pâncreas por translocação pela quebra da integridade da barreira intestinal. Toda pancreatite com necrose infectada deve indicar a necrosectomia, que reduz substancialmente a letalidade desses pacientes. Trata-se de uma cirurgia de alto risco que é feita deixando-se a cavidade aberta ou fechada, com revisões posteriores programadas a cada 2-3 dias, no intuito de completar a necrosectomia. Deve-se postergar a necrosectomia, se a condição clínica permitir, para após 12 dias do início do quadro, quando o pâncreas já está mais estruturado. Estudos mostraram um melhor prognóstico nesses pacientes quando comparados aos submetidos à intervenção precoce. Existe uma tendência crescente para a realização dessa cirurgia através da técnica videolaparoscópica, porém, a literatura ainda não validou tal estratégia. Logo, até o momento ainda não é possível recomendar a necrosectomia videolaparoscópica com base em evidências científicas, mas muitos serviços têm adotado essa conduta. Devemos lembrar que a necrosectomia na ausência de infecção não traz benefício prognóstico e pode até aumentar a mortalidade da pancreatite necrosante. 4- COLANGIOPANCREATOGRAFIA RETRÓGRADA ENDOSCÓPICA (CPRE) E PAPILOTOMIA É empregada nas primeiras 72h da pancreatite aguda biliar, na presença de colangite e/ou icterícia progressiva moderada a grave (ex.: bilirrubina total > 5 mg/dl). Logo, a CPRE + papilotomia não está indicada de rotina em todos os casos de pancreatite aguda biliar! Durante a CPRE, a papilotomia ou esfincterotomia endoscópica é capaz de permitir a saída dos cálculos impactados ou acumulados no colédoco. 5- COLECISTECTOMIA SEMIELETIVA A colecistectomia de urgência deve ser evitada na pancreatite aguda biliar, por ter maior morbimortalidade. Entretanto não deve ser postergada por muito tempo, pois o índice de recidiva é relativamente alto (20-25%) e precoce. Todos os pacientes com pancreatite aguda biliar devem ser submetidos à colecistectomia laparoscópica antes da alta hospitalar (semieletiva), porém, somente após a resolução do quadro clínico agudo. Deve ser complementada pela CPRE pós-operatória com papilotomia, caso existam cálculos no colédoco ou pela colangiografia e exploração do colédoco peroperatória. PSEUDOCISTO DE PÂNCREAS Definimos pseudocisto como uma coleção líquida intra ou peripancreática não infectada, envolvida por uma cápsula de fibrose e tecido de granulação, que se manteve ou se instalou após quatro semanas do início do quadro de pancreatite aguda – coleções líquidas que aparecem na fase aguda geralmente são transitórias, ocorrem em 30-50% dos casos de pancreatite aguda e são chamadas de coleções líquidas agudas, e não de pseudocisto. Se o pseudocisto evoluir para infecção de sua cavidade, passa a ser chamado de abscesso pancreático. Os pseudocistos complicam 10% das pancreatites agudas, sendo causados pela evolução das coleções líquidas agudas ou de áreas de necrose do pâncreas, em comunicação com a árvore ductal pancreática. Na maioria das vezes se comunicam com o ducto pancreático principal, sendo continuamente alimentados por ele. O contraste da CPRE geralmente preenche o pseudocisto... O termo pseudocisto se deve ao fato da cápsula não ser revestida por epitélio, como nos cistos verdadeiros, sendo composta por tecido de granulação, fibrose e debris. Seu interior contém suco pancreático, riquíssimo em enzimas, como a amilase. Atenção: coleções líquidas com menos de quatro semanas de duração não são pseudocistos! Apenas após esse período estas podem ser definidas como tal, visto que a maioria dessas coleções regredirá espontaneamente. Quando suspeitar e como diagnosticar? Deve ser suspeitado quando há recorrência de uma dor epigástrica moderada e/ou uma massa palpável no epigástrio, podendo ser responsável por um novo aumento da amilase e lipase (ou quando essas enzimas não normalizam seus níveis séricos). Eventualmente, a massa palpável não é um pseudocisto, mas um fleimão pancreático (massa inflamatória do pâncreas). A TC contrastada é o melhor exame para o diagnóstico do pseudocisto e para verificar a maturação de sua cápsula. A USG é mais indicada na indisponibilidade da TC ou no acompanhamento seriado do pseudocisto. Quais são as suas complicações? - Obstrução gastroduodenal: pela compressão extrínseca do estômago ou do duodeno, os pseudocistos grandes podem obstruí-los, provocando vômitos recorrentes. - Obstrução biliar: o pseudocisto pode comprimir o colédoco, causando icterícia obstrutiva (colestática). - Hemorragia e Pseudoaneurisma: complicação mais temível. Uma artéria adjacente ao pseudocisto (ex.: a. esplânica, aa. pancreato-duodenais) pode ser invadida e ter a sua parede corroída, provocando a formação de um pseudo-aneurisma. Ao sangrar para o interior do pseudocisto, o transforma num pseudocisto hemorrágico (Hemosuccus Pancreaticus). Este, por sua vez, pode ser a causa de hemorragia digestiva alta (o sangue sai pela papila de Vater), de ascite hemorrágica e de choque hemorrágico, com elevado êxito letal! - Rotura aguda para a cavidade peritoneal: o paciente apresenta um quadro súbito de peritonite generalizada e instabilidade hemodinâmica, com alta letalidade. - Fístula pancreática: Ascite pancreática e Derrame pleural pancreático (crônico): um lento vazamento do pseudocisto comunicante (com o ducto) para o peritônio ou para a pleura, pode causar ascite e derrame pleural à esquerda, respectivamente. A punção do líquido revela um material com dosagem muito elevada de amilase (> 1.000 U/L). O uso de NPT e do análogo da somatostatina octreotide 50 mcg SC 8/8h contribui para o fechamento da fístula. - Infecção do pseudocisto: ver abscesso pancreático adiante. Como tratar? Você está diante de um paciente com pseudocisto como complicação da pancreatite aguda. A conduta inicial, caso não haja nenhuma complicação do pseudocisto (abscesso, hemorragia, obstrução intestinal ou biliar), é esperar completar seis semanas de evolução. Boa parte dos pseudocistos regride neste ínterim. Após este período, a cápsula do pseudocisto já está bem formada e ele estabilizou o seu tamanho. Pseudocistos acima de 5-6 cm possuem maior chance de complicações e de não regredir espontaneamente. Antigamente, este critério de tamanho era por si só indicação de conduta intervencionista... Estudos recentes mostraram que a maioria dos grandes pseudocistos (entre 6-12 cm) regridem ao longo de semanas ou meses, sem evoluir com complicações. Portanto as indicações atuais de intervir num pseudocisto de pâncreas são: (1) expansão do pseudocisto; (2) presença de sintomas (ex.: dor, vômitos); e (3) presença de complicações (pseudocisto complicado). Muita atenção: alguns livros-texto ainda usam o critério do tamanho!!Avalie com cuidado essas questões... Os três tipos de intervenção para drenagem do pseudocisto são: (1) Cirúrgico; (2) Punção guiada pela TC ou US; (3) Descompressão endoscópica ou por CPRE. A cirurgia de escolha para os pseudocistos pancreáticos é a drenagem cirúrgica interna. Dependendo da sua localização e relação anatômica, podem ser drenados para o estômago (cistogastrostomia),duodeno (cistoduodenostomia) ou para o jejuno (cistojejunostomia e Y de Roux). Esta última geralmente é reservada para os pseudocistos distantes do estômago e duodeno. Nos pseudocistos da cauda do pâncreas, a cirurgia mais indicada é a pancreatectomia distal. Na maioria das vezes, o baço pode ser poupado no procedimento... A drenagem cirúrgica externa é indicada nos pseudocistos complicados, quando ainda não houve tempo de maturação da sua cápsula fibrosa. Está associada a um alto índice de fístula pancreática cutânea. A descompressão endoscópica ou por CPRE se tornou um importante método para o tratamento intervencionista dos pseudocistos pancreáticos. Pseudocistos que abaulam a parede gástrica ou duodenal são facilmente tratados por via endoscópica, uma vez afastado o pseudoaneurisma. Pseudocistos comunicantes podem ser tratados com a colocação de um stent no ducto pancreático principal, pela CPRE. Quando realizado por profissionais experientes, os resultados são muito bons, análogos aos da cirurgia... O pseudoaneurisma deve ser abordado por angiografia intervencionista, seguida do tratamento cirúrgico do pseudocisto. ABSCESSO PANCREÁTICO É uma coleção líquida infectada, geralmente se desenvolvendo mais de quatro semanas após o início do quadro clínico. Em outras palavras, é um pseudocisto infectado. Pode ser responsável por manutenção da febre diária de um paciente que já melhorou do quadro clínico geral. Sem tratamento intervencionista, a letalidade chega a 100%. O tratamento, além da antibioticoterapia, deve visar sempre a drenagem. Esta pode ser realizada pela punção guiada pela TC, de forma a estabilizar o paciente para uma cirurgia mais definitiva de drenagem. COLANGITE O termo colangite define a infecção bacteriana do trato biliar, quase sempre associada a uma síndrome obstrutiva. O primeiro a descrevê-la foi Charcot, e por isso seus sintomas cardinais (febre, icterícia e dor abdominal) receberam a denominação de tríade de Charcot. O termo colangite aguda é aplicado para designar os sinais e sintomas produzidos por uma inflamação biliar, sem se ater muito à presença ou não de alterações patológicas na parede dos ductos biliares ou parênquima hepático. ETIOLOGIA E PATOGÊNESE: O desenvolvimento de colangite necessita de duas condições: 1- Presença de bactérias no trato biliar 2- Obstrução biliar parcial ou completa. A origem das bactérias que colonizam o trato biliar é incerta. A teoria mais aceita é a de que algumas bactérias, vindas do intestino, ganham o sistema porta e alcançam o trato biliar passando pelo fígado. Quando existe uma lesão, ou mesmo um corpo estranho no trato biliar, é frequente a contaminação bacteriana. O que se presume é que a lesão obstrutiva ou o corpo estranho predispõem à colonização e ao crescimento bacteriano. Uma colangite clínica ocorre quando as bactérias, liberadas do trato biliar, ganham a circulação sistêmica, o que ocorre quando a pressão do trato biliar está alta. É como se a bile (junto com as bactérias) extravasasse dos canalículos biliares, que percorrem os lóbulos, e caísse nos sinusoides hepáticos. A causa mais comum de colangite é a coledocolitíase, que responde por 60% dos casos. Assim, a presença de cálculos biliares (sejam primários ou secundários) muitas vezes é diagnosticada quando da avaliação de um episódio de colangite. Estreitamentos não malignos dos ductos são também frequentemente diagnosticados quando da avaliação de uma colangite. Muitos destes estrangulamentos resultam de trauma iatrogênico durante uma colecistectomia. Outra causa de estenose do trato biliar é a pancreatite crônica. Esta estenose, localizada na porção intrapancreática do ducto biliar comum, pode se manifestar inicialmente como um episódio de colangite. As anastomoses bilioentéricas são fatores de risco bacterbilia (por refluxo do conteúdo intestinal para o interior da via biliar). Procedimentos invasivos como a colangiografia são causas relativamente frequentes de colangite, tanto pela via alta (Colangiografia Transhepática Percutânea – CTP) quanto pela via baixa (Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica – CPRE). Por fim, parasitos também podem ser causa de colangite e estenoses biliares – é o exemplo do Trichuristrichiura e Ascaris lumbricoides. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS: Como já dito, a descrição original da colangite foi feita por Charcot, numa referência à presença de febre e calafrios intermitentes, associada à icterícia e dor abdominal. A descrição original faz menção à presença de pus misturado à bile estagnada, numa importante condição conhecida hoje como colangite supurativa. Reynold descreveu pacientes que, junto com a tríade de Charcot, apresentavam também hipotensão e depressão do sistema nervoso central. Foi notado que essa combinação de sintomas ocorria quando da presença de obstrução completa de um sistema biliar supurado (“pus sob alta pressão”). A associação da tríade de Charcot com choque e depressão do sistema nervoso central é conhecida como pêntade de Reynold, e representa o quadro clínico de uma colangite supurativa (pus sob alta pressão na via biliar). A importância da colangite supurativa, ou seja, a importância da pêntade de Reynold vem do fato de que esta síndrome é progressiva e fatal, caso não se realize uma intervenção cirúrgica imediata. A tríade de Charcot, apesar de aguda, NÃO necessita de cirurgia emergencial. COLANGITE AGUDA: A maior incidência de colangite aguda ocorre entre os 55 e 70 anos, refletindo, na verdade, a incidência das doenças associadas (e também a maior propensão à bacterbilia que ocorre naturalmente com a idade). Uma boa anamnese é essencial para o diagnóstico. Os relatos de “problemas” biliares prévios ou “operações” devem ser melhor investigados, sempre à procura de cálculos primários no ducto comum, lesão cirúrgica, anastomose biliodigestiva etc. Episódios recorrentes de pancreatite podem sugerir uma estenose distal comum. A tríade de Charcot completa, com febre, icterícia e dor abdominal, ocorre em 60% dos pacientes com colangite. O sintoma mais frequente é a febre (90%). A dor abdominal costuma ser apenas moderada e se localiza principalmente no quadrante superior direito. Dor abdominal severa é muito rara, não sendo comum o achado de irritação peritoneal. A peristalse não costuma ser alterada. A icterícia está presente em 80% dos pacientes com colangite aguda. As características-chave no diagnóstico de colangite aguda são a história detalhada, tendo em mente que apenas um ou dois elementos da síndrome de Charcot podem estar presentes e o exame físico, fora a icterícia, pode estar inalterado. LABORATÓRIO Os achados laboratoriais da colangite aguda refletem: 1- A natureza infecciosa e inflamatória da doença; 2- A obstrução biliar associada. Assim, devemos esperar uma leucocitose com desvio, associada à hiperbilirrubinemia (presente em 90% dos casos, com predomínio da bilirrubina direta), e aumento da fosfatase alcalina, GGT, AST e ALT. As hemoculturas frequentemente são positivas em um paciente com colangite aguda e devem ser sempre solicitadas. Os organismos mais encontrados são, em ordem de frequência: 1- E. coli; 2- Klebsiella; 3- Enterococcus faecalis; 4- B. fragilis. COLANGITE TÓXICA AGUDA Esta forma de colangite é mais grave, rapidamente fatal caso a terapia não seja iniciada de forma emergencial. A presunção é que este tipo de colangite esteja associado a um processo de “sepse contínua”, devido ao fenômeno de “pus sob alta pressão” no trato biliar. De todos os pacientes que desenvolvem colangite, 15% apresentam esta forma tóxica ou supurativa, com sintomas proeminentes de choque e depressão do sistema nervoso central aliados à tríade de Charcot (pêntade de Reynold). Clinicamente se observa confusão mental, comportamento inadequado, desorientação e coma, não diferindodos estados mentais associados a qualquer outra patologia grave (como sepse). Em última análise, a pêntade de Reynold descreve um paciente com colangite que evolui com sinais de sepse, com instabilidade hemodinâmica e alterações do estado de consciência. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL A condição mais comumente confundida com colangite é a colecistite, já que os sintomas de febre, dor abdominal em Quadrante Superior Direito (QSD) e leucocitose são comuns a ambas. Os únicos achados clínicos que tendem a diferenciar as duas condições são o grau e as características da dor do QSD e a presença de icterícia colestática intensa. Na colecistite aguda, a dor é persistente e está presente em quase todos os casos – na colangite, a dor não costuma ser forte e pode estar ausente em até 20% dos casos. Da mesma forma, hiperestesia abdominal está presente invariavelmente na colecistite aguda, mas pode estar ausente em 20% dos casos de colangite aguda. Sinais de irritação peritoneal, ausentes na colangite, são bastante frequentes na colecistite (ex.: sinal de Murphy). Abscesso hepático piogênico deve ser considerado no diagnóstico diferencial de colangite aguda. Os sintomas de ambas as condições podem ser idênticos, e o abscesso de fígado ainda pode ser uma complicação da própria colangite. O abscesso de fígado pode ser identificado por US, TC ou cintigrafia. As hepatites se manifestam por dor e hipersensibilidade no QSD, febre e icterícia, completando também os critérios para a tríade de Charcot. Entretanto, a diferenciação entre colangite e hepatite se faz prontamente com as provas de função hepática (padrão de “lesão hepatocelular” na hepatite x padrão de “colestase” na colangite) e os marcadores virais. Uma pancreatite aguda pode se manifestar com febre e aumento das bilirrubinas, mas a dor e a hipersensibilidade são muito mais proeminentes do que na colangite. Apesar de os níveis séricos de amilase estarem aumentados em ambas as condições, eles são muito mais altos na pancreatite, fora o fato de que apenas nesta última ocorre aumento da lipase. Uma úlcera duodenal perfurada pode ser associada à dor abdominal, febre e elevação das bilirrubinas e até de amilase. Contudo, nesta condição espera-se franca irritação peritoneal, a qual está ausente nas colangites... Patologias menos comumente confundidas com colangite são pielonefrite, apendicite, pneumonia do lobo inferior direito ou infarto pulmonar e sepse de qualquer causa. DIAGNÓSTICO DA CONDIÇÃO SUBJACENTE Quando o diagnóstico de colangite aguda é feito, torna-se fundamental a pesquisa de uma anormalidade do trato biliar. A colangiografia é o teste definitivo e necessário para que se possa planejar o tratamento, entretanto, não deve ser feita até que o processo agudo esteja sob controle. Pode ser transhepática percutânea ou endoscópica retrógrada. A injeção de contraste sob pressão dentro do trato biliar pode exacerbar a colangite e a sepse, a menos que se tenha controlado a infecção com antibioticoterapia. Pacientes com colangite aguda devem ser inicialmente avaliados por ultrassonografia, que deve dar especial atenção à presença de colelitíase, coledocolitíase, dilatação dos ductos biliares e massas na cabeça do pâncreas. A US é altamente sensível para detectar a presença de cálculos na vesícula e de dilatação dos ductos biliares (embora seja menos sensível no diagnóstico de um cálculo no ducto comum). Uma vez que a colangite esteja sob controle, testes posteriores podem ser utilizados mantendo a US como guia. Se houver suspeita de massa no fígado, pâncreas ou sistema porta, o exame de escolha é TC. Uma cintigrafia hepática também pode ser útil por detectar cistos, abscessos ou outras lesões intra-hepáticas que podem estar associadas à colangite. Da mesma forma, a colangiorressonância tem excelente sensibilidade para lesões obstrutivas da árvore biliar. TRATAMENTO: Os princípios da terapia da colangite são: 1- Controlar o processo séptico (antibioticoterapia); 2- Corrigir a condição subjacente (desobstrução biliar). Todos os pacientes com sintomas de colangite aguda ou colangite tóxica devem receber antibioticoterapia. Não existe um esquema ideal, e a escolha dos antibióticos deve se basear nos organismos mais comumente isolados das hemoculturas de pacientes com colangite, em especial, E. coli, Klebsiella, Enterococcus e B. fragilis. Ora, estes são os germes que também costumam estar presentes na colecistite aguda, isto é, o esquema antimicrobiano empírico no tratamento inicial da colangite aguda é idêntico ao que já estudamos no tratamento da colecistite aguda (espectro de ação contra enterobactérias Gram--negativas e anaeróbios). Vamos relembrar? Pode-se optar pela monoterapia com drogas de amplo espectro, como betalactâmicos + inibidores de betalactamase (ex.: amoxicilina + clavulanato, ampicilina + sulbactam), ou pela associação de cefalosporina de terceira geração (ex.: ceftriaxone) ou quinolona (ex.: ciprofloxacina, levofloxacina) com metronidazol. Em pacientes hospitalizados ou com fatores de risco para infecção por germes multirresistentes, a monoterapia com ticarcilina-clavulanato, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmicos como imipeném também são opções. Na colangite aguda não complicada, devemos iniciar o esquema antibioticoterápico empírico e aguardar a evolução. A melhora do quadro infeccioso costuma ser dramática, e o paciente, em menos de 48h de tratamento, já mostra sinais clínicos como resgate do estado geral e queda da febre. A desobstrução da árvore biliar deve ser retardada até que a infecção biliar tenha sido completamente controlada, o que deve ser observado especialmente pelo estado de apirexia e pelo hemograma. A partir de então, programa-se uma desobstrução eletiva, cirúrgica ou endoscópica. Na colangite tóxica (“pus sob pressão”), quando o paciente se apresenta já com sinais de sepse (instabilidade hemodinâmica e alterações do estado de consciência), a conduta é outra – iniciamos a antibioticoterapia empírica, mas não podemos retardar a desobstrução, que deve ser feita o mais rápido possível. Nestes pacientes, a antibioticoterapia isolada não resolve o problema e o prognóstico depende do alívio imediato da obstrução. Se a colangite sabidamente se deve à colelitíase complicada por coledocolitíase, um método para a descompressão do trato biliar pode ser a papilotomia endoscópica (CPRE), com extração dos cálculos que estão obstruindo os ductos. Esta abordagem combina tanto a descompressão emergencial quanto à terapia definitiva para a doença associada (no caso coledocolitíase) em até 60% dos pacientes. A drenagem biliar transhepática percutânea (CTP) também é uma forma de desobstrução biliar, simples e relativamente segura. A CTP será preferida na suspeita de obstruções mais proximais das vias biliares. Na impossibilidade de se conseguir uma descompressão endoscópica (CPRE) ou transhepática percutânea (CTP), deve- se optar pela cirurgia (coledocotomia) sem demora. Os pacientes com episódios de colangite brandos, associados a um distúrbio do trato biliar (como estenose), que não podem ser operados por causa de outras condições clínicas, têm sido manejados com antibioticoterapia crônica (ampicilina, cefalosporina ou SMZ-TMP). Entretanto, deve-se ter em mente que a decisão de não corrigir cirurgicamente uma condição benigna subjacente pode resultar no desenvolvimento de cirrose biliar secundária. Nas malignidades incuráveis do trato biliar, o tratamento deve ser conservador, com a implantação de stent por CPRE (de preferência metálico, cuja patência é mais duradoura que a do stent plástico) ou pela drenagem biliar percutânea (CTP). PROGNÓSTICO E COMPLICAÇÕES O prognóstico de uma colangite aguda branda é excelente, e a morbidade se relaciona mais à cirurgia realizada para a condição de base. A colangitetóxica aguda, entretanto, tem um índice de mortalidade muito alto – 100% para os pacientes não tratados com ATB + desobstrução e cerca de 25% para os que tiveram a descompressão biliar aliada ao tratamento antimicrobiano. De todas as complicações possíveis, a mais temida é o abscesso hepático. “Metade dos casos de abscesso hepático é devido a doenças do trato biliar, incluindo colangite”. Como um abscesso hepático se desenvolve dentro do quadro da colangite, ele é frequentemente subdiagnosticado. Devemos sempre suspeitar de sua presença quando um paciente com colangite não responde ao tratamento. Os abscessos são tratados pela drenagem percutânea e antibioticoterapia, mas, se forem múltiplos, estão relacionados a maiores índices de mortalidade. Abdome agudo perfurativo Resulta da peritonite secundaria a uma perfuração de víscera oca com extravasamento de material na cavidade abdominal. Em perfurações gástricas, a etiologia mais comum é a ulcera péptica perfurada [geralmente é comum o relato de uso de AINEs ou de AAS]. Perfurações do delgado são raras e devem alertar para a ingestão de corpos estranhos. As perfurações colônicas normalmente estão associadas a patologias de base, como divertículos ou tumores. Podem ser classificadas como altas ou baixas, tendo como referencia o ligamento de Treitz. Perfurações altas inicia por uma peritonite química [liberação de sucos digestivos] que ocasiona proliferação bacteriana e posterior processo infeccioso. Perfurações baixas inicio por peritonite infecciosa de região já colonizada com evolução para um quadro sistêmico, podendo manifestar sinais de septicemia. EPIDEMIOLOGIA: A taxa de mortalidade varia entre 8 a 10% se não tratada. Dentre as principais etiologias, a ulcera péptica evolui com perfuração em 10% dos casos. Prevalência do duodeno em relação ao estomago [14:1] FISIOPATOLOGIA: Geralmente, a evolução se dá da seguinte forma: 1º Extravasamento de secreção luminal na cavidade 2º Inflamação peritoneal [natureza química de intensidade variável] 3º Invasão bacteriana secundaria e progressivo processo infeccioso, com repercussões locais e sistêmicas. Bactérias comuns: Pseudomonas aeruginosa; Klebsiella sp; E. colli. No estomago e duodeno as etiologias mais comuns são: Ulceras agudas e crônicas – sendo essa perfuração geralmente associada a ingestão de álcool, corticoides e AINEs. No intestino delgado: As perfurações proximais geram peritonite química inicialmente, já que há extravasamento de enzimas ativas; As perfurações mais distais são acompanhadas de peritonite bacteriana. Principais causas são: Progressão de outros processos inflamatórios [diverticulite e apendicite]; Volvos de ceco e sigmoide; Megacólon tóxico; Neoplasias; Síndrome de Ogilvie; Doença Inflamatória Intestinal. Divertículo de Meckel é uma anormalidade congênita comum no TGI por uma falha na obliteração durante o desenvolvimento embrionário, gerando um divertículo curto próximo à válvula ileocecal. Uma das principais complicações que podem ocorrer a partir dele é a perfuração levando a um quadro de Abdome Agudo Perfurativo. No intestino grosso: Peritonite é bacteriana desde o início. Perfuração no cólon direito é mais grave que a do esquerdo [devido à alta virulência dos germes e pela consistência liquida das fezes]. Possíveis causas no intestino grosso: Divertículo de Meckel; Infecção; Corpo estranho; Doença inflamatória intestinal; abdome agudo obstrutivo com necrose intestinal. Nas obstruções mecânicas pode ocorrer o fenômeno de alça fechada, quando a válvula ileocecal é competente (em 80% dos casos), ou seja, não permite refluxo do conteúdo cecal para o íleo, gerando distensão progressiva do ceco até sua perfuração. Síndrome de Ogilve, também é conhecida como pseudo-obstrução intestinal aguda e caracteriza-se pela dilatação das alças de cólon, podendo se estender até o reto, sem causas dinâmicas. Diverticulite, pode confundir com quadro perfurativo e obstrutivo. Uma das causas é que a diverticulite pode ser uma etiologia do AAP, mas pelo conceito básico dessa síndrome, sabemos que ocorre por perfuração desses divertículos após processo inflamatório. QUADRO CLÍNICO: Independente da etiologia, o quadro clinico costuma ser semelhante. De modo geral temos: Evolução rápida Sinais de peritonite Abdome em tábua Dor súbita, intensa e difusa A clinica pode ser acompanhada de sinais de sepse, hipotensão ou choque [a depender da gravidade do caso]. A difusão precoce da dor traduz a disseminação de gás e liquido gastrintestinal, que são intensamente ‘irritantes’ ao peritônio. A queixa de dor no ombro e no pescoço é do tipo irradiada, causada pela irritação do nervo frênico [o acumulo de gás pode comprometer a musculatura diafragmática resultando em desconforto respiratório]. Quando a perfuração é bloqueada ou tamponada, pode existir dor localizada, sendo flácido o restante do abdome. Evoluções arrastadas cursam com sinais evidentes de septicemia. No exame físico: Abdome em tábua – com contratura generalizada Sinal de Jobert – som timpânico a percussão devido a perda da macicez hepática do hipocôndrio direito pela interposição gasosa. Exames laboratoriais podem ser solicitados, mas não alteram a hipótese diagnostica. O pneumoperitônio é classicamente observado nos RX de tórax com o paciente em pé. O ar ficará contido abaixo das cúpulas diafragmáticas Caso o paciente não consiga ficar em pé, podem-se realizar RX de abdome com o paciente deitado em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais. Desse modo, o ar será deslocado para a porção superior e será identificado no exame. Sinal de Rigler – refere a visualização, no RX de abdome, da parede gástrica ou intestinal pela presença de gás na cavidade abdominal (pneumoperitônio). Sinal do ligamento falciforme – delineamento das estruturas que normalmente não são vistas (ligamento falciforme, ligamentos umbilicais) pelo gás, permitindo que o ligamento se torne radiopaco. Normalmente, grandes pneumoperitônios se associam a perfurações colônicas. DIAGNÓSTICO: Anamnese + Exame Físico + Exames de Imagens Exames laboratoriais são inespecíficos, podendo apenas detectar processos inflamatórios e infecciosos prévios. Para confirmar a perfuração, métodos de imagem são mais adequados. A característica principal é a presença de ar e/ou liquido na cavidade peritoneal, retroperitônio ou na parede dos órgãos. 75-80% dos casos há pneumoperitônio Nos demais é esperado bloqueio no local da perfuração Radiografia simples – exame inicial de escolha. Mostra com facilidade o melhor indicador de perfuração: pneumoperitônio. Quadrante superior direito é onde mais frequentemente vemos ar livre. A incidência em ortostase é ideal para identificar ar entre o diafragma e o fígado ou estomago. Em decúbito lateral, temos boa visualização do ar entre o fígado e a parede abdominal. Sinal de Chilaiditi – corresponde a interposição do cólon ou intestino delgado entre o fígado e o diafragma, podendo confundir-se com o pneumoperitônio. Tomografia computadorizada Permite uma localização precisa da perfuração e distribuição do gás, além de possibilitar a visualização de abscessos, sinais sugestivos de obstrução e isquemia. Para confirmar se o gás está no espaço intraperitoneal ou retroperitoneal, basta mudar o paciente de decúbito. O gás retroperitoneal migra muito pouco e fica confinado nos planos fasciais. Videolaparoscopia Pode ser útil principalmente nos pacientes não há os parâmetros dos sinais e sintomas clínicos. DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO: Úlcera péptica perfurada: São ulceras perfuradas que se estendem através da parede muscular serosa, permitindo a comunicação entre a luz da víscera e a cavidade abdominal, com extravasamento de conteúdo. As perfurações geralmente ocorrempor desequilíbrio entre secreção de ácidos e a barreira mucosa gástrica. Esse conteúdo gástrico e duodenal na cavidade abdominal resulta em peritonite química. Uma possível evolução do quadro é o Choque hipovolêmico. Divertículos: A perfuração espontânea de um divertículo em peritônio livre com consequente peritonite é rara, porém grave, podendo levar a óbito por sepse e falência de múltiplos órgãos. Surge por atividade cólica anormal, modificações da dieta ou fatores predisponentes constitucionais. Modificações na estrutura muscular dificultam o esvaziamento do conteúdo fecal, provocando erosões da mucosa e processos inflamatórios. Além disso, se houver comprometimento da perfusão sanguínea dos divertículos, pode haver necrose e perfuração intramural. A pressão colônica força fezes e bactérias através da perfuração para dentro da cavidade abdominal, levando à peritonite generalizada e sepse. Manifesta-se com: Dor em fossa ilíaca esquerda [pode haver irradiação para as costas, flanco, região inguinal ou todo o abdome] Febre Sinais de peritonite Náuseas e vômitos Corpos estranhos: O esôfago costuma ser o local mais acometido por sua anatomia e localização, mas só a partir da cárdia, a perfuração começa a manifestar sintomas abdominais. Outros locais acometidos são locais de estreitamento, como piloro, angulações duodenais e flexura duodenojejunal. Manifesta-se com: Dor intensa e difusa [região epigástrica com irradiação para dorso] dor em faixa Íleo paralitico Náuseas e vômitos precoces e volumosos TRATAMENTO: Suporte clinico + Antibioticoterapia + Cirurgia Abordagem inicial consiste em medidas de suporte com monitorização e manejo inicial dos casos de hipotensão e choque. A antibioticoterapia de amplo espectro pode ser feita antes do tratamento definitivo ou no intra-operatório, podendo manter-se posteriormente. Em infecções comunitárias intra-abdominais, deve cobrir Gram-negativos aeróbios entéricos, bacilos facultativos e cocos Gram positivos betalactâmicos suscetíveis. Betalactâmicos + inibidores de betalactamase [ex: amoxicilina + clavulanato, ampicilina + sulbactam) ou cefalosporina de 3ª geração [ex: ceftriaxone] ou quinolona [ex: ciprofloxacino, levofloxacina] com metronidazol. O tratamento cirúrgico tem como objetivo a rafia da perfuração Ulceras perfuradas – sutura Perfurações de delgado – suturadas ou enterectomias segmentares Após a correção da perfuração, orientar o tto da causa base. Ulceras pépticas – usar inibidores da bomba de prótons e suspensão imediata de AINEs logo no pós-operatório. Patologias neoplásicas -procurar tto especializado assim que se recuperar da cirurgia. Abdome agudo obstrutivo Um quadro de obstrução intestinal se encontra presente sempre que o conteúdo luminal do intestino é impedido de progredir distalmente de maneira habitual. Principais causas: obstruções mecânicas e obstruções funcionais. OBSTRUÇÃO MECÂNICA: É considerada mecânica quando existe uma barreira física (anatômica) dificultando a passagem do conteúdo luminal do intestino. Podem ser classificadas como: Obstruções completas e incompletas Obstruções simples e estranguladas – [simples – não há comprometimento do suprimento sanguíneo arterial / estranguladas – há comprometimento da vasculatura esplâncnica com consequente isquemia e necrose do segmento intestinal Ex: Volvo, Intussuscepção e Obstruções em alça fechada]. Obstruções em alça fechada – o segmento intestinal encontra-se ocluído nas suas duas extremidades [ex: obstrução colônica com válvula ileocecal competente]. Uma outra forma de classificarmos as obstruções intestinais mecânicas diz respeito a localização do processo patológico responsável: Intraluminal – se localizado na própria parede do intestino (causas intrínsecas) Extraintestinal – causas extrínsecas Lesões intraluminais: As neoplasias são as causas clássicas. O adenocarcinoma do cólon é a principal causa de obstrução do intestino grosso. O ílio biliar [condição rara decorrente de uma fistula colecistoentérica – vesícula bilioduodenal] pode causar obstrução intestinal Quando o calculo ganha o tubo digestivo, migra distalmente e se impacta em regiões de menor diâmetro ao longo do tubo digestivo. Os dois pontos mais comuns são o ângulo de Treitz [junção duodenojejunal] e a válvula ileocecal. Outras causas importantes incluem: Infestação por Ascaris Lumbricoides em crianças, os bezoares (acúmulo hermético de material parcialmente ou não digerido que ocorre mais comumente no estômago) e outros corpos estanhos [crianças e pcts com retardo mental] Obstrução por mecônio (neonatos) Fezes endurecidas [enterolitos ou fecalomas] – [pct idosos e acamados] Lesões intrínsecas da parede intestinal: A intussuscepção se caracteriza pela invaginação de um segmento intestinal (proximal), para o interior de uma porção de uma alça localizada imediatamente distal. Natural que a peristalse acentue esse movimento Alça invaginada diminui muito o diâmetro luminal Em adultos, os tumores, pólipos e o divertículo de Meckel estão quase sempre presentes em casos de invaginação. Em crianças, as alterações da parede intestinal que levam a obstrução são de um modo geral congênitas Atresia intestinal Duplicações Estenoses A doença de Crohn e a enterocolite actínica, por promoverem estenoses, também podem ser, eventualmente, responsáveis por quadros obstrutivos. Lesões extrínsecas a parede intestinal: As bridas ou adesões, decorrentes de manipulações cirúrgicas prévias do abdome, são a principal causa de obstrução intestinal do adulto. Geralmente a brida obstrui por angulação ou forma verdadeira faixa que comprime a alça intestinal. São fatores de risco para o desenvolvimento de aderências pós- operatórias: infecções intra-abdominais, isquemia tissular e corpos estranhos intra-abdominais. As hérnias externas, como as inguinais, as femorais, as incisionais e, mais raramente, as umbilicais, também podem levar à obstrução intestinal. O reparo eletivo das hérnias tem como principal indicação a prevenção deste quadro. As obstruções intestinais completas são mais frequentemente causadas por hérnias. Da mesma forma, as obstruções com estrangulamento de alças são mais comumente associadas a hérnias, notadamente as hérnias femorais. Pacientes com obstrução de intestino delgado, sem história de cirurgia prévia e sem evidências de hérnias externas, devem levantar suspeita clínica de hérnia interna, sendo as mais comuns as hérnias paraduodenais e obturatórias. Outra anormalidade envolvida é o vôlvulo intestinal. Nesta condição, o intestino gira sobre si mesmo, provocando angulação e obstrução “em alça fechada”. Há comprometimento da vasculatura intestinal se faz de maneira muito precoce (estrangulamento). Volvos que devemos memorizar: Delgado, considerados do intestino médio embrionário e decorrentes de má rotação intestinal Cólon, sendo o sigmoide o local mais comum, seguido pelo ceco. Os vôlvulos cecais tendem a surgir em pacientes mais jovens. Abscessos intra-abdominais podem se formar usando uma alça intestinal como uma de suas paredes. À medida que o abscesso se expande, comprime a luz intestinal, dificultando a passagem do seu conteúdo. As neoplasias malignas primárias de intestino delgado são raras. As obstruções neoplásicas de intestino delgado são mais comumente originárias de invasão local de neoplasias intra-abdominais adjacentes (por exemplo, neoplasias ginecológicas) ou de metástases hematogênicas de melanomas ou câncer de mama. As neoplasias malignas constituem a principal causa de obstrução colônica, sendo responsáveis por mais de 50% dos casos. Maioria representada por adenocarcinoma. Principais causas de obstrução intestinal de acordo com a faixa etária: Lactentese crianças - intussuscepção, Hérnias Externas e o “bolo” de Ascaris. Adultos - Aderências (causa mais comum de obstrução intestinal do adulto), Hérnias e Neoplasia Maligna do Cólon (causa mais comum de obstrução do intestino grosso). PATOGÊNESE: Obstrução mecânica simples do intestino delgado: A obstrução mecânica do intestino invariavelmente causa acúmulo de secreções e gás proximal ao sítio de oclusão. Gases intestinais são provenientes da deglutição (68%) e fermentação a partir de bactérias (22%). Os gases deglutidos possuem um elevado teor de nitrogênio que não é absorvido pela mucosa intestinal, o que pode agravar a situação. A peristalse de luta das alças inicialmente sobrevém, porém, após cerca de 10 a 12 horas, ela é seguida por atonia e distensão abdominal. Normalmente, o jejuno e o íleo proximal são praticamente estéreis (livres de bactérias). Com a obstrução, há um supercrescimento bacteriano no intestino delgado, o que gera a hipersecreção de líquidos pela parede intestinal através de um mecanismo ainda desconhecido. A ação do grande número de bactérias sobre o conteúdo intraluminal torna-o de aspecto fecaloide. O aumento da pressão intraluminal ocasiona certa compressão das veias da parede, levando à dificuldade do retorno venoso e extravasamento de líquidos localmente, explicando o edema de alça visto nas radiografias. Esses micro-organismos em excesso, mesmo na ausência de necrose e isquemia de parede, podem eventualmente sofrer translocação, processo responsável pelas manifestações sépticas que eventualmente surgem durante os quadros de obstrução intestinal. O conteúdo luminal excessivo leva à desidratação e hipovolemia de graus variados. A distensão intestinal provoca vômitos reflexos que agravam as perdas volêmicas. Nas obstruções altas (acima do ângulo de Treitz), predominam distúrbios eletrolíticos (alcalose metabólica hipoclorêmica) e volêmicos, porém notamos um aumento mais discreto da circunferência abdominal. A obstrução de porções distais do delgado está envolvida com uma maior perda de líquidos para o interior da alça distendida, o que pode levar à hemoconcentração, azotemia pré-renal e, ocasionalmente, choque. Entretanto as anormalidades dos eletrólitos séricos se fazem de maneira menos intensa devido à menor perda de ácido clorídrico. Obstruções estranguladas: As obstruções em alça fechada, o vôlvulo e a intussuscepção intestinal são condições que mais comumente favorecem o aparecimento desta variedade de obstrução. Ocorre rápido comprometimento da circulação arterial associada à trombose de veias da parede das alças intestinais. Com isso, ocorre um intenso extravasamento de plasma e sangue para o interior do lúmen do segmento obstruído, levando à hipovolemia, choque e azotemia. Se a obstrução se tornar suficientemente prolongada, poderá haver sofrimento das alças, necrose e até mesmo perfuração. A proliferação bacteriana torna-se intensa, o que, somada à necrose da parede intestinal, favorece o surgimento de peritonite com exsudação intensa e sepse, tornando o quadro clínico de extrema gravidade. Obstruções do cólon: A obstrução intestinal costuma cursar com menor perda volêmica e menor incidência de distúrbios hidroeletrolíticos graves. Entretanto a obstrução colônica com uma válvula ileocecal competente (85% dos indivíduos) nada mais é que uma obstrução “em alça fechada”, com grande risco de se tornar uma obstrução estrangulada quando a pressão intraluminal supera a pressão capilar. Nos casos de obstrução do intestino grosso, o ceco, que possui um maior diâmetro (lei de Laplace: Pressão = Tensão x Diâmetro), é um local de risco para a ruptura, provocando manifestações graves de peritonite bacteriana. A necessidade de cirurgia de urgência é determinada pela presença de obstrução colônica completa e não pela mensuração do diâmetro cecal”. O adenocarcinoma de cólon constitui-se na causa mais frequente de obstrução do cólon. O sítio mais comum de perfuração localiza-se em áreas próximas ao tumor, e não no ceco. QUADRO CLÍNICO: Obstrução mecânica do delgado: Dor abdominal em cólica na região media do abdome, que tem caráter reincidente [assintomático nos períodos intercrise]. Quando existe estrangulamento, a dor pode ser contínua e localizada. Borborigmo audível é quase sempre relatado pelo próprio paciente, simultaneamente com o episódio de cólica. Cólicas tendem a se tornar menos graves à medida que progride a distensão. Conclui-se que a dor em cólica da obstrução não tem origem na distensão, mas nas vigorosas contrações que tentam vencê-la (no íleo adinâmico não é esperada a dor em cólica). Vômitos quase sempre presentes Precoces quanto mais alto for a obstrução Obstrução ileal alta, os vômitos incialmente contem bile e muco. Obstrução ileal baixa, os vômitos tendem a ser fecaloides [traduz obstrução tardia e estabelecida]. Soluços também são comuns. Gases Nos casos de obstrução mecânica completa, é esperada a constipação e a parada na eliminação de gases. Na obstrução parcial, entretanto, podemos encontrar um quadro de diarreia, conhecido como diarreia paradoxal, que encontra justificativa na intensa hiperproliferação bacteriana. É raro o aparecimento de sangue nas fezes, mesmo no paciente com obstrução completa (podendo ocorrer, entretanto, nos casos de intussuscepção). Embora na prática exista grande dificuldade no diagnóstico diferencial entre obstruções simples e obstruções estranguladas, a refratariedade de certos sinais e sintomas ao tratamento clínico faz suspeitar-se prontamente de estrangulamento: Taquicardia e taquipneia; Alterações do nível de consciência; Oligúria; Febre; Leucocitose. Obstrução mecânica do cólon: Dor abdominal e distensão são os sintomas mais frequentes, qualquer que seja a causa da obstrução. A obstrução mecânica do cólon pode produzir os mesmos sintomas da obstrução mecânica do delgado, porém com uma intensidade mais variável – em pacientes idosos e estoicos, ocasionalmente não há queixas de dor. A presença de dor intensa e persistente, bem como outros sinais e sintomas sistêmicos já descritos, sugere a presença de estrangulamento. Os sintomas da fase aguda podem se desenvolver ao longo de uma semana. Os vômitos surgem mais tardiamente ou mesmo não ocorrem, principalmente se houver competência da válvula ileocecal. Os vômitos fecaloides são bastante raros. Como o carcinoma é a causa mais comum de obstrução do cólon, são frequentes nestes casos o início insidioso dos sintomas: Hiporexia Perda de peso imotivados História de sangramento retal Alterações dos hábitos intestinais (constipação progressiva, tenesmo e fezes em fitas). Na obstrução colônica, a constipação tem caráter progressivo e desenvolve-se junto com a incapacidade de eliminar gases. Por outro lado, o vôlvulo de sigmoide se apresenta de forma aguda, lembrando muito a obstrução do delgado, com dor, distensão abdominal importante e constipação. Exame físico: Durante a inspeção, é interessante procurarmos evidências de cicatrizes antigas. Em alguns casos, a peristalse de luta pode ser visualizada. A presença de febre muitas vezes indica a possibilidade de estrangulamento. O surgimento de hipotensão e taquicardia nos faz pensar em desidratação, peritonite ou em ambas condições. A ausculta abdominal nos revela períodos de peristalse exacerbada intercalados com silêncio abdominal. Nas fases iniciais, podemos identificar até mesmo borborigmos (ruídos intestinais audíveis sem o auxílio do estetoscópio). À medida que a distensão progride, a peristalse tende a diminuir. A distensão abdominal geralmente se encontra presente e tende a ser tanto maior quanto mais proximal for a obstrução. Quando identificamos descompressão dolorosa e defesa localizada, a possibilidadede estrangulamento com peritonite mais uma vez nos vem à mente. O toque retal obrigatoriamente deve ser realizado na busca de massas intraluminais. Uma ampola retal totalmente livre de fezes (sinal de Hochemberg) aumenta a suspeita de obstrução. A presença de sangue na luva nos faz suspeitar de carcinoma ou intussuscepção. DIAGNÓSTICO: Anamnese + Exame Físico + Exames Complementares RX de abdome: Rotina radiológica de abdome agudo [tórax, abdome em ortostase e decúbito dorsal]. O RX em decúbito lateral, com raios horizontais, também é útil nessa avaliação. Nas obstruções do delgado, as alças distendidas tendem a ocupar uma posição mais central. O desenho das válvulas coniventes ocupa quase todo o diâmetro da alça. Os níveis hidroaéreos múltiplos são comuns em decúbito lateral e na posição ortostática, em que adquirem, muitas vezes, formato de degraus. Ausência de ar no cólon pode ser observada. Este achado caracteriza uma obstrução completa de delgado. Nas obstruções do cólon com válvula ileocecal competente, notamos distensão deste segmento, que ocupa a periferia das radiografias de abdome. A ausência de gás na ampola retal pode ser notada em casos de oclusão completa desse segmento. O íleo paralítico apresenta-se com distensão gasosa uniforme do estômago, intestino delgado e cólon. Existem casos duvidosos quanto à localização do processo obstrutivo. Nesta situação, exames contrastados poderão ser utilizados: Trânsito de delgado Enteróclise com sulfato de bário Enema baritado ou com contraste hidrossolúvel Tomografia computadorizada: Pode ser útil para diagnosticar a obstrução do intestino delgado, muitas vezes determinando a causa com precisão. Útil nos pacientes com história de neoplasia prévia, nas obstruções pós-operatórias e naqueles pacientes obstruídos sem passado de cirurgias. A TC diagnostica com precisão o estrangulamento de alça decorrente de um vôlvulo. Exames endoscópicos: Todo paciente com suspeita de obstrução colônica deve ser submetido a uma proctossigmoidoscopia. A colonoscopia é contraindicada, pois a insuflação de ar para a realização do procedimento pode levar à perfuração intestinal. Resumindo, as radiografias simples de abdome são diagnósticas em mais de 60% dos casos. Entretanto, em 20% a 30% dos casos, torna-se necessária a complementação propedêutica com TC e/ou estudos baritados. TRATAMENTO: A abordagem terapêutica das obstruções intestinais mecânicas deve obedecer a uma sequência de questionamentos que auxiliam na tomada de decisões: 1º Obstrução tem sede no intestino delgado ou no intestino grosso? Dicas: analise a presença e o grau de vômitos, a distensão abdominal e o padrão da distribuição de gases nas radiografias simples de abdome. 2º A obstrução é parcial ou total? Dicas: a ausência de flatos e de evacuações sugere obstrução total, assim como a ausência de gases na ampola retal. Lembrar que a presença de diarreia no início do quadro pode significar esvaziamento do conteúdo intestinal distal à obstrução ou uma diarreia paradoxal. A presença de flatos ou fezes com mais de 6-12h do início da dor fala a favor de obstrução parcial. 3º A obstrução é simples ou há evidencias de estrangulamento? Dicas: o achado de taquicardia, taquipneia, alteração de consciência, oligúria, febre, leucocitose e/ou dor persistente e intensa, a despeito de sondagem nasogástrica e hidratação venosa adequada, sugere estrangulamento. Procure por sinais radiográficos de sofrimento de alças (edema de parede, perda de pregueado/haustrações, pneumatosis intestinalis etc.). Tratamento clinico: Na maioria das vezes, o tto da obstrução intestinal é cirúrgico. É importante que os pacientes depletados em volume e com distúrbios hidroeletrolíticos (hipocalemia, hipocloremia) sejam tratados clinicamente por um período de cerca de 12 a 24 horas antes da operação. Os indivíduos com obstrução do delgado que possuem uma história de vômitos repetidos, envolve: Sucção nasogástrica Hidratação venosa utilizando soro fisiológico com o intuito de elevar a pressão venosa central a níveis normais. A diurese obviamente deve também ser monitorizada. Com a presença de débito urinário, podemos iniciar reposição de cloreto de potássio. Antibioticoterapia com cobertura para bactérias Gram-negativas e anaeróbios deve ser iniciada, sobretudo na existência de sinais indicando estrangulamento. É importante termos em mente que indivíduos que se apresentam com hérnias externas encarceradas, evidências de estrangulamento (dor contínua, febre, taquicardia, leucocitose) e com sinais de irritação peritoneal devem ser operados de imediato. Por outro lado, existem algumas condições que podem ser tratadas inicialmente apenas com medidas clínicas de suporte. Um exemplo é a obstrução intestinal por brida. A grande maioria destes pacientes responde à dieta zero, sucção nasogástrica e hidratação venosa. A divisão cirúrgica das adesões pode ser feita em um segundo tempo. Outras condições que respondem à terapêutica clínica incluem: Obstruções intestinais em pós-operatórios de cirurgias abdominais Oclusões intestinais decorrentes de doença de Crohn em atividade Alguns casos de obstrução associada à malignidade. A intussuscepção ileocecal em crianças responde à redução hidrostática com contraste baritado. Tratamento cirúrgico: É importante ter em mente que, sempre que o estado clínico do paciente permitir, deve-se tentar tornar eletivos ou semieletivos os casos de tratamento cirúrgico. Isso é particularmente viável nos casos de obstrução parcial simples de intestino delgado. A conduta operatória vai depender da etiologia e da localização da obstrução. Em uma hérnia encarcerada sem maiores problemas, o procedimento envolve redução e reparo da hérnia. A intussuscepção do adulto é sempre cirúrgica uma vez que, na grande maioria dos casos, existe doença na parede intestinal. As estenoses refratárias decorrentes de doença de Crohn podem ser ressecadas ou, de preferência, submetidas à estricturoplastia (procedimento que preserva o comprimento do tubo digestivo, evitando a síndrome do intestino curto). O manejo operatório das bridas constitui-se de divisão cirúrgica das adesões e, durante o ato operatório, o cirurgião deve propelir manualmente o conteúdo luminal até o ceco, com o objetivo de identificar outros possíveis sítios de oclusão. Independentemente da etiologia, a viabilidade da alça deve ser sempre determinada. Em casos de obstrução do cólon esquerdo, o cirurgião realiza uma colostomia (geralmente transversostomia), resseca a porção do intestino acometida pelo tumor e, no mesmo procedimento, anastomosa os segmentos colônico proximal e distal à alça intestinal ressecada. Nesses casos, a colostomia tem a função de “proteger” a anastomose. Em um segundo tempo cirúrgico, a colostomia é fechada quando a anastomose cicatriza. OBSTRUÇÕES FUNCIONAIS: Íleo paralitico: Caracterizado pela parada de eliminação de gases e fezes na ausência de obstrução intestinal mecânica. Associam-se ao quadro náuseas, vômitos e distensão abdominal. A dor é imprecisa e não tipo cólica, como ocorre nas obstruções mecânicas. E os ruídos hidroaéreos encontram-se diminuídos desde o início do quadro, ao contrário dos borborigmos das obstruções mecânicas. Caso haja dificuldade em distinguir íleo paralítico de obstrução mecânica, pode-se recorrer ao estudo contrastado do tubo digestivo. O tratamento envolve jejum oral, drenagem nasogástrica, hidratação e correção de distúrbios eletrolíticos quando presentes. Medicamentos predisponentes devem ser substituídos. Se os sintomas perdurarem por mais de cinco dias, deve ser realizada propedêutica mais pormenorizada no sentido de tentar identificar fatores causais tais como abscessos intra-abdominais. A TC é bastanteútil nestes casos. Pseudo-obstrução intestinal: Caracterizada por uma severa dismotilidade de todo o tubo digestivo. Pode ser classificada como aguda ou crônica e primária (relacionada a distúrbios neuromusculares) ou secundária à doença sistêmica. Acredita-se que a pseudo-obstrução intestinal decorra de uma hiperatividade simpática, o que explicaria a resposta fantástica à neostigmina (veremos adiante) e à anestesia geral. Entre as causas secundárias, destacamos a esclerodermia, o mixedema, o diabetes mellitus, a doença de Parkinson e os acidentes vasculares encefálicos. A sintomatologia é amplamente variável, conforme a região predominantemente atingida. Entretanto os sintomas são geralmente crônicos (mais de 3 meses de evolução) e baseiam-se em distensão abdominal e dor abdominal de intensidade e características diversas. Casos graves podem cursar com náuseas e vômitos (raramente fecaloides). Pode haver diarreia, constipação ou alternância entre ambos. Os princípios que regem o manejo da pseudo--obstrução intestinal são: 1° Estabeleça a suspeita diagnóstica com bases clínicas; 2° Exclua uma obstrução mecânica com estudos baritados, CT e/ou laparoscopia; 3° Diferencie as formas primárias das secundárias; 4° Realize uma avaliação fisiológica com estudos manométricos; 5° Desenhe um plano terapêutico escalonado baseado em: - Correção de distúrbios hidroeletrolíticos; - Manutenção do estado nutricional; - Suporte psicoterápico; - Suspensão de fármacos agravantes: antidepressivos, opiáceos e anticolinérgicos; - Uso racional de fármacos procinéticos: domperidona, cisaprida, bromoprida, eritromicina, octreotide, misoprostol etc. 6° Reconheça e trate o supercrescimento bacteriano e a má absorção (com esteatorreia e desnutrição): testes respiratórios e antibioticoterapia intermitente são as medidas indicadas. O tratamento com dietas elementares pobres em resíduos e suporte nutricional na maioria das vezes não é bem sucedido; 7° Casos graves e refratários podem requerer ressecções cirúrgicas. A pseudo-obstrução colônica aguda, também conhecida como síndrome de Ogilvie, tem como apresentação clínica uma dilatação marcante do cólon. As condições associadas incluem ventilação mecânica, infarto agudo do miocárdio e sepse. O tratamento envolve medidas de suporte (descompressão nasogástrica, correção hidroeletrolítica, suspensão de drogas que diminuam a motilidade intestinal). Caso não haja melhora com essas medidas, está indicada a colonoscopia descompressiva (deve ser realizada por mãos experientes devido ao risco de perfuração colônica) ou o uso de neostigmina (agente parassimpaticomimético), com preferência atual para esta última. Antes de tratar a síndrome de Ogilvie, é fundamental excluir obstrução mecânica do cólon, com exame contrastado ou endoscópico. A pseudo-obstrução intestinal idiopática é caracterizada por episódios recorrentes de dor abdominal e distensão. Estes indivíduos geralmente possuem uma evolução desfavorável. Abdome agudo hemorrágico Inúmeras são as causas de hemorragia intra-abdominal. Possui etiologias variadas abrangendo desde traumatismo abdominal, ruptura de aneurismas da aorta ou de alguma artéria visceral, neoplasias malignas até processos inflamatórios erosivos. EPIDEMIOLOGIA: Apesar de incomum, estando presente em apenas 2% dos pacientes que procuram atendimento de emergência com dor abdominal. Sangramento abdominal pode ocorrer em qualquer idade, embora esteja mais presente entre 50 e 60 anos de idade. É mais frequente em homens, na proporção de 2:1. Em idoso é mais comum ruptura de tumores e aneurisma de aorta abdominal. Acomete mais o sexo masculino Maior entre a 5ª e a 6ª décadas de vida. Em mulheres está mais associado a origem ginecológica e obstétrica. Em jovens é mais comum ruptura de aneurisma de artérias viscerais. ETIOLOGIAS: ABDOME AGUDO HEMORRÁGICO VASCULAR: Ruptura de aneurisma de aorta abdominal: O aneurisma da aorta abdominal (AAA) está presente em 5-7% dos indivíduos acima dos 60 anos de idade, predominando mais no sexo masculino. Principais fatores de risco para essa categoria: Idade > 65 anos Hipertensão arterial (HAS) Tabagismo Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) Aterosclerose Síndrome de Marfam Síndrome de Ehlers-Danlos Antecedente familiar da doença. Muitos pacientes com AAA são assintomáticos e o diagnóstico é suspeitado no exame físico pela palpação de massa pulsátil, distensão abdominal e dor à palpação. Nesses pacientes, o ultrassom ou a tomografia computadorizada confirma o diagnóstico. Em metade dos pacientes com AAA, a manifestação clínica inicial é apenas referida como desconforto ou dor abdominal mal caracterizada, podendo apresentar também dor na região dorsal. Os sintomas associados à dor são vários, predominando náuseas e vômitos. Poucos pacientes, cerca de 12%, com ruptura de aneurisma sabem ser portadores de AAA. Quando ocorre ruptura, a hipotensão arterial está presente em 25% dos casos no atendimento inicial. O tratamento inicial é direcionado para estabilização hemodinâmica do paciente, sendo o grau desse acometimento definidor da urgência necessária na avaliação radiológica e na indicação cirúrgica. Nos doentes instáveis hemodinamicamente, o diagnóstico da ruptura do AAA pode ser confirmado pelo ultrassom na sala de emergência, exame que detecta tanto a presença do AAA como de líquido livre na cavidade peritoneal. Ao médico que atender o doente cabe iniciar a estabilização e, assim que suspeitar de AAA roto, solicitar imediata avaliação do cirurgião vascular, mesmo antes do resultado dos exames, independentemente da condição hemodinâmica do paciente. Ruptura de aneurisma das artérias viscerais abdominais: Aneurisma da artéria esplênica: São mais comuns no sexo feminino e é o aneurisma mais comum entre os vasos viscerais abdominais, correspondendo a cerca de 60% de todos os aneurismas de artérias viscerais. Tem como fatores de risco para ruptura desse aneurisma: Hipertensão venosa portal Fibrodisplasia arterial Gravidez. O tratamento do paciente que é admitido no hospital com choque hipovolêmico em decorrência de sangramento por ruptura do aneurisma é a laparotomia exploradora imediata associada à reposição agressiva da volemia com soluções cristaloides e, quando necessário, com hemoderivados. Quando o aneurisma se situa distalmente, nas proximidades do baço, o tratamento consiste na ligadura proximal da artéria, seguida de esplenectomia. Aneurisma da artéria hepática: É predominante em homens acima de 60 anos de idade e corresponde ao segundo aneurisma de arterial visceral mais comum. Atualmente, cerca de 38% ocorrem em decorrência de arteriosclerose, 21%, de degeneração da camada média, 18%, de traumatismo e apenas 16% são de origem micótica. Habitualmente é assintomático. Ao romper-se, manifesta dor no quadrante superior direito ou no epigástrio e mimetiza a colecistite e a pancreatite agudas. Dependendo da localização, o sangramento pode exteriorizar-se por hematêmese ou melena, por erosão dos ductos biliares ou do tubo digestivo. A ressecção, ou a obliteração, dos aneurismas da artéria hepática está indicada em todos os pacientes. Aneurisma da artéria mesentérica superior: É o terceiro mais comum. Ocorre em indivíduos abaixo de 50 anos e distribui-se igualmente entre os homens e as mulheres. Os fatores de risco são a endocardite, os traumatismos e a arteriosclerose. A maioria dos aneurismas da artéria mesentérica superior ocorrem em consequência de endocardite bacteriana. Os sintomas variam muito. Quando o aneurisma compromete a irrigação das alças intestinais, podem ocorrer cólicas abdominais após as refeições, sugestivas de claudicação intestinal. Quando há ruptura, a dor é intensa, difundida para todo o abdome eos sinais de choque tornam-se mais evidentes. Pode ser acompanhada de náuseas. O tratamento dessas lesões é muito variável, dependendo da localização do aneurisma, da condição de irrigação e de vitalidade das alças intestinais e da condição clínica do doente. Ruptura de Gravidez Ectópica CONCEITO: Toda gravidez com implantação e desenvolvimento fora da cavidade endometrial. A gravidez ectópica (GE) ocorre entre 1-2% das gestações e corresponde a 10-15% das mortes maternas no 1º trimestre. Tem como principais fatores de risco: Cirurgias tubárias Gravidez ectópica prévia Uso de Dispositivo Intrauterino (DIU) Tabagismo ≥ 20 cigarros por dia Técnicas de reprodução assistida Endometriose. Quando forma da cavidade endometrial, o lugar mais frequente são as trompas, representando cerca de 95% dos casos. Contudo, também pode ocorrer nos ovários e na cavidade abdominal. Os sintomas de uma GE rota pode se apresentar como: Atraso menstrual Geralmente o útero é menor do que o esperado Dor abdominal intensa súbita, inicialmente em baixo ventre, que pode irradiar para ombro (Sinal de Lafond). Instabilidade hemodinâmica, hipotensão, taquicardia e choque hipovolêmico. Durante o exame físico há presença de: Dor à palpação abdominal Dor aguda ao toque do fundo de saco de Douglas. Além disso, pode apresentar sinal de Cullen. Os sintomas da gravidez inicial normal também estão presentes: aumento da sensibilidade mamária, náuseas e polaciúria. RELEMBRANDO: Sinal de Lafond: dor referida no ombro por sangue acumulado em região subdiafragmática devido irritação do nervo frênico. O tratamento da GE rota consiste em avaliação da volemia materna, bem como reposição volêmica e tratamento do choque hipovolêmico. A abordagem cirúrgica de urgência, sendo realizado muitas vezes laparotomia exploratória com salpingectomia. Em casos eventuais admite-se a salpingostomia com microcuretagem tubária e reconstituição da trompa atingida. É conduta alternativa reservada a paciente em boas condições, que deseja filhos e que possui a outra trompa comprometida. DIAGNÓSTICO: A dor abdominal costuma ser súbita, porem de localização difusa. Entre as alterações hemodinâmicas: Taquicardia [sinal mais precoce] Queda da pressão arterial Palidez Sudorese fria Agitação. Sinais de hemorragia retroperitoneal – Cullen e Grey Turner – podem estar presentes, a semelhança de quadros de pancreatite aguda grave. O sinal de Kehr é um sinal de ocorrência de dor aguda no ombro devido a presença de sangue ou outros irritantes na cavidade peritoneal homolateral, quando uma pessoa esta deitada e com as pernas elevadas. O sinal de Kerh no ombro esquerdo é considerado um sinal clássico de ruptura de baço. Exames laboratoriais são inespecíficos. Se a hemorragia for em quantidade considerável e se houver tempo suficiente para que se instalem os mecanismos compensatórios desencadeados pela hipovolemia, os valores da hemoglobina e a do hematócrito estarão reduzidos. A leucocitose é usual e decorre da irritação peritoneal provocada pela hemoglobina e da própria resposta homeostática à hipovolemia. O número de leucócitos pode variar, dependendo do tempo de instalação do hemoperitônio. A contagem do número de plaquetas é obrigatória. O estudo global da coagulação é útil para o diagnóstico e orienta o tratamento. A atividade da protrombina, a tromboplastina parcial ativada e a trombina são os mais utilizados. A reposição volêmica não se deve basear nos valores de hemoglobina e hematócrito na fase inicial do atendimento. Toda mulher com hipótese diagnostica de abdome agudo hemorrágico e em idade fértil admitida na emergência deve ser submetida a dosagem de beta-HCG e teste qualitativo. Esses exames podem confirmar a suspeita de gravidez ectópica. Entre os pacientes estáveis hemodinamicamente, os exames de imagem podem colaborar para a confirmação diagnostica. A USG abdominal pode diagnosticar as 2 principais causas de AAH. Na suspeita de aneurisma da aorta abdominal, a TC pode oferecer dados, como altura do aneurisma e comprometimento das camadas da parede arterial. A videolaparoscopia encontra sua indicação nos doentes com dor abdominal aguda cuja indicação cirúrgica é duvidosa e nas afecções cuja correção cirúrgica é viável por esse método de acesso. Na dúvida diagnóstica, a videolaparoscopia pode reduzir a realização de laparotomia desnecessária de 19% para 0%. Nas doenças ginecológicas agudas, a videolaparoscopia é capaz de confirmar o diagnóstico em 82% dos casos com cisto de ovário e em 80% das doentes com hemorragia do corpo lúteo. As contraindicações da videolaparoscopia são insuficiência respiratória grave, choque hipovolêmico, obesidade mórbida, múltiplas intervenções abdominais prévias e coagulopatias TRATAMENTO: A primeira conduta no abdome agudo hemorrágico, independente da etiologia, compreende a reposição volêmica de acordo com a perda sanguínea estimada. Nenhum exame complementar deve ser realizado em pacientes instáveis hemodinamicamente. Na gravidez ectópica, o tto é cirúrgico e pode variar de anexectomia unilateral a histerectomia total, dependendo da origem do sangramento. O sangramento de miomas subserosos pode ser tratado da mesma maneira. O tto de aneurismas rotos pode ser feito por via intravascular, desde que rapidamente disponível. Entre as opções cirúrgicas, é possível a colocação de próteses ou derivações vasculares, dependendo da altura do aneurisma. Abdome agudo vascular Síndrome clínica caracterizada por dor abdominal, não traumática, de início súbito ou intermitente, de intensidade variável, representado pela isquemia mesentérica ou intestinal por fornecimento inadequado de oxigênio para o intestino, que necessita de intervenção médica imediata por ser potencialmente fatal. A isquemia mesentérica pode ser aguda ou crônica, mesentérica (intestino delgado) ou colônica (intestino grosso). Idosos – aterosclerose Mulheres – isquemia mesentérica crônica A rapidez do diagnóstico está intrinsecamente ligada ao sucesso do tratamento e prognóstico. A taxa de mortalidade é elevada, com cerca de 30% nos casos de trombose e 75-80% nos casos de obstrução arterial atribuído ao diagnóstico tardio. A insuficiência vascular intestinal, pode ser dividida em aguda [infarto intestinal] ou crônica [angina abdominal]. A artéria mesentérica superior [AMS] é um ramo direito da aorta de onde saem ramos jejunais, ileais, artéria ileocecocólica, artéria cólica direita e artéria cólica media. É responsável pela irrigação de todo o intestino delgado, ceco e cólons ascendente e transverso, até o ângulo esplênico, por meio das anastomoses marginais. A artéria mesentérica inferior [AMI] também é ramo direito da aorta e emite a artéria cólica esquerda, 3 ou 4 artérias sigmoidianas e a artéria retal superior. Irrigando o cólon esquerdo e o reto. A chamada arcada de Riolano consiste em um arco anastomótico que comunica as artérias mesentéricas superior e inferior no nível do ângulo esplênico, área de maior suscetibilidade a isquemia nas ressecções colônicas. FISIOPATOLOGIA: Como dito, a isquemia mesentérica pode ser classificada pelo tempo de instalação em aguda ou crônica, e por localização como mesentérica e colônica. As três principais síndromes de isquemia intestinal são: Isquemia colônica (70-75%) Isquemia mesentérica aguda (20-25%) Isquemia mesentérica crônica (5%) Na isquemia mesentérica aguda, temos também as três principais: Oclusão da artéria mesentérica superior [AMS] por embolo (50%) ou trombo (15-25%) Trombose da veia mesentérica superior [VMS] (5%) Isquemia mesentérica não-oclusiva (20-30%) Como esperado, as regiões mais propensas à isquemia são as áreas pobres em circulação colateral, por dificuldade de compensara perfusão em caso de obstrução na circulação principal, são áreas como a flexura esplênica e junção retossigmoide. Essa lesão intestinal pode se dar por dois mecanismos: Hipoperfusão com hipoxia Reperfusão Na hipoperfusão, o comprometimento da oferta de oxigênio se dá com uma redução do fluxo intestinal maior que 50%. De forma geral, o intestino consegue compensar até 75% de hipoperfusão por até 12h sem danos substancial, pelo aumento da extração de oxigênio e circulação colateral. Se houver manutenção da hipoperfusão, teremos vasoconstrição e redução do fluxo colateral. Em alguns casos, mesmo após restauração do fluxo, a vasoconstrição é mantida. Na reperfusão a lesão se dá por ação de espécies reativas de oxigênio. Hipoperfusão Aumento da extração de O2 + circulação colateral Sem danos substanciais Hipoperfusão prolongada vasoconstricção + diminuição do fluxo pelas colaterais Necrose e infarto transmural Perfuração Principais fatores de risco: Doenças crônicas Má formação arteriovenosa Medicações vasoconstritoras Cirurgia cardiovascular Doença cardíaca [especialmente IAM] Hemodiálise Trombofilias DAOP SÍNDROME INTESTINAL ISQUÊMICA CRÔNICA “ANGINA ABDOMINAL” Esta rara síndrome ocorre quando pelo menos duas das principais artérias que irrigam os intestinos estão comprometidas por grave aterosclerose. A principal manifestação é uma dor perigástrica intermitente, que caracteristicamente surge 15 a 30min após as refeições, e dura por 1-3h (período no qual o consumo de oxigênio é aumentado pela digestão). Como a dor se relaciona à alimentação, os pacientes podem apresentar perda de peso por “medo” de ingerir alimentos. Perceber que a localização da dor fica em função do segmento intestinal afetado: Dor mesogástrica típica – quando o cólon é acometido Isso se dá mais frequentemente nas regiões ditas “divisoras das águas”, que correspondem à flexura esplênica e ao retossigmoide, ficando a dor localizada nos quadrantes inferiores (principalmente retal ou sacra), associada comumente à incontinência fecal. A angina abdominal mesogástrica sugere: Comprometimento da mesentérica superior Angina dos quadrantes inferiores, retal ou sacra, sugere: Comprometimento da mesentérica inferior (que irriga o cólon). A presença de aterosclerose documentada em outros sítios vasculares (coronariano, cerebral) nos faz pensar com mais “carinho” nesse diagnóstico. Diagnóstico: Dado pela angiografia mesentérica mostrando: Oclusão de mais de 50% de pelo menos duas das três artérias principais, na presença de história clínica compatível com angina mesentérica. O simples achado angiográfico, na ausência de sintomas, não autoriza o tratamento, pois um número imenso de portadores de aterosclerose, assintomáticos do ponto de vista abdominal, apresenta graus variáveis de obstrução vascular neste território. O Doppler de vasos abdominais também é utilizado nos casos em que há dificuldade em se realizar a angiografia, mas com menor acurácia diagnóstica, servindo como triagem, apenas. Um Doppler negativo praticamente afasta o diagnóstico de isquemia mesentérica crônica. A Angio TC e Angio RNM também vêm sendo empregadas como métodos iniciais no diagnóstico das síndromes anginosas intestinais. Todos esses métodos requerem confirmação angiográfica em caso de positividade. Tratamento: Cerca de metade dos pacientes com infarto intestinal agudo relata alterações prévias sugestivas de angina abdominal, de modo bastante análogo ao que ocorre no coração (angina pectoris e IAM). Os sintomas vão se tornando mais frequentes e intensos, culminando em isquemia mesentérica aguda trombótica. Isso torna imperativo o tratamento nos pacientes com diagnóstico de angina mesentérica. Novos métodos estão tendo acurácia e papel testados no diagnóstico da isquemia mesentérica crônica: A Angio RNM tridimensional otimizada por contraste apresenta alta sensibilidade para detecção de obstruções proximais, embora não seja um grande exame na detecção de obstruções mais distais. A falta de experiência com esse método ainda limita seu uso a experimentos. A tonometria intestinal, ainda em caráter experimental, detecta uma queda do pH intraluminal no período pós-prandial, e pode vir a se tornar o grande método no diagnóstico da angina mesentérica. Desvantagem: não identifica com precisão o sítio vascular obstruído. Um princípio parecido está aplicado no uso de um oxímetro de espectroscopia, instalado por via endoscópica, que mostra a queda da saturação de O2 na mucosa intestinal proximal. O tratamento dos pacientes jovens e sem comorbidades é a revascularização cirúrgica (por meio de bypass, endarterectomia ou reimplante vascular). Nos pacientes idosos ou com comorbidades, cujo risco cirúrgico é elevado, está indicada a angioplastia percutânea ou o uso de stents, não havendo até o momento comprovação de superioridade de um sobre o outro. A preferência pelo método cirúrgico se deve à menor taxa de reoclusão. SÍNDROMES INTESTINAIS ISQUÊMICAS AGUDAS 1- INFARTO AGUDO DO INTESTINO: INFARTO ENTEROMESENTÉRICO As várias causas de isquemia intestinal mesentérica aguda apresentam-se com quadros clínicos bastante diferentes, podendo ser separadas, etiológica e clinicamente, nas quatro seguintes síndromes principais: Trombose de artéria mesentérica; Embolia de artéria mesentérica; Infarto mesentérico não oclusivo; Colite isquêmica; Trombose venosa mesentérica. As quatro maiores causas de isquemia mesentérica aguda do intestino delgado são: Embolia da artéria mesentérica superior: 50%; Isquemia mesentérica não oclusiva: 20 a 30%; Trombose da artéria mesentérica superior: 15 a 25%; Trombose da veia mesentérica: 5%. OBS.: A vasculite mesentérica é uma outra causa de isquemia mesentérica aguda do intestino delgado, embora rara. O comentário a seguir serve para qualquer destas síndromes intestinais e deve ficar bem memorizado, de forma a ser sempre cogitado diante de um paciente com “abdome agudo”: Como existem outras causas muito mais comuns de “abdome agudo”, não se suspeita inicialmente de infarto intestinal (principalmente se for embólico). Nas palavras de Bergan, “O paciente é tratado conservadoramente, enquanto o intestino morre”. 1.1- Trombose de Artéria Mesentérica A oclusão gradual de uma (ou até duas) das três artérias mesentéricas principais pode não produzir sintomas, em virtude do desenvolvimento de uma rede colateral adequada. Entretanto, quando o fluxo sanguíneo intestinal cai abaixo de determinado valor, pode haver necrose isquêmica das áreas irrigadas. A aterosclerose avançada de 2 dos principais ramos abdominais da aorta é a principal causa de trombose arterial mesentérica aguda – as outras causas são: Trauma abdominal; Sepse; Aneurisma dissecante da aorta; Displasia fibromuscular; Vasculites sistêmicas. OBS.: 1. Não parece haver associação entre trombose mesentérica aguda e coagulopatias hereditárias. 2. Pelo fato de a trombose mesentérica aguda geralmente acometer as origens da artéria mesentérica superior ou do tronco celíaco e, considerando que pelo menos 2 artérias esplâncnicas maiores estão geralmente envolvidas, a revascularização na trombose mesentérica aguda torna-se particularmente difícil. Manifestações Clínicas: O sintoma mais importante é a dor abdominal intensa, que inicialmente tende a ser em cólica e se localizar na região periumbilical, mas que, com a progressão da isquemia, pode se tornar mal localizada (difusa) e constante. A partir de então, as manifestações sistêmicas tornam-se proeminentes e intensas, incluindo: Taquicardia Hipotensão Febre Leucocitose Presença de sangue no aspirado gástrico Vômitos ou fezes. As queixas álgicas são frequentemente desproporcionais aos achados no exame físico e de laboratório,e sintomas gastrointestinais inespecíficos também podem fazer parte do quadro, como: Anorexia Náuseas Vômitos Diarreia Constipação. Ao contrário do que se espera, a peristalse está normal (podendo até estar aumentada), mesmo na presença de infarto grave!!! Entretanto, no geral, isso acontece somente no início do processo isquêmico (a hipóxia das camadas musculares intestinais manifesta-se inicialmente por aumento do peristaltismo e esvaziamento intestinal). Com o avançar do processo, sobrevêm paralisia e dilatação das alças. O abdome pode revelar-se hipersensível e distendido, e o quadro clínico pode simular uma obstrução intestinal aguda. Caso haja necrose isquêmica transmural, surgem sinais de: Peritonite, frequentemente acompanhada de líquido peritoneal sanguinolento (nesta fase, a peristalse está ausente e o prognóstico é extremamente sombrio). Abordagem Inicial: É difícil fazer um diagnóstico precoce de infarto mesentérico agudo, já que a história não costuma ajudar muito (a não ser quando revela evidências prévias de angina abdominal), e o quadro clínico, como já visto, geralmente é inespecífico. Como a aterosclerose é a principal causa da trombose aguda, os pacientes com esta síndrome costumam ser mais idosos e apresentar evidências de aterosclerose em outros locais (coronárias, cerebrais e membros inferiores). Como também é um processo crônico, cerca de metade dos pacientes apresenta uma história prévia de angina mesentérica. O diagnóstico de infarto intestinal depende da exclusão de outras afecções intra-abdominais que podem se manifestar de modo idêntico, como pancreatite aguda, perfuração de víscera oca e obstrução intestinal. Lembrar o que foi dito anteriormente: como existem outras causas muito mais comuns de “abdome agudo”, não se suspeita inicialmente de infarto intestinal agudo, e “o paciente é tratado conservadoramente, enquanto o intestino morre”. Uma dica importante para diferenciação das outras causas de abdome agudo (principalmente as condições inflamatórias intestinais) é a medida da temperatura retal: ao contrário destas condições, o infarto enteromesentérico cursa com temperatura retal menor que a axilar. Os exames laboratoriais costumam mostrar uma: leucocitose importante (até 25.000) com desvio para esquerda hematócrito pode estar elevado devido à perda de plasma pelo intestino isquêmico (leucocitose + hemoconcentração). A amilase sérica está elevada em 50% dos casos, mas nunca em níveis tão altos quanto os esperados para uma pancreatite. A lipase sérica também pode se elevar minimamente. As enzimas que refletem uma destruição tecidual (TGO, TGP, LDH e creatinofosfoquinase) só se elevam nas fases tardias do processo, quando sobrevém a necrose intestinal. A fosfatase alcalina também se eleva à custa da isoenzima de origem intestinal. Uma máxima de grande valia para o diagnóstico precoce de isquemia mesentérica aguda é que “qualquer abdome agudo que evolua com acidose metabólica significa isquemia intestinal, até que se prove o contrário”. Sugeriu-se que uma elevação da concentração de fosfatos no plasma e líquido peritoneal poderia ser um indicador sensível de infarto intestinal. Na fase inicial da isquemia mesentérica, as radiografias simples de abdome são úteis apenas para ajudar a confirmar ou excluir outras causas de abdome agudo. Raramente, podem ser observadas pequenas calcificações arteriais que sugerem aterosclerose mesentérica avançada, o principal fator de risco para isquemia aguda. Em fases mais tardias, quando já existe necrose tecidual, as radiografias podem mostrar distensão acentuada e edema das alças, assim como a presença de gás na parede intestinal, peritônio ou em ramos do sistema porta. A TC mostrou-se um meio rápido e não invasivo para investigação inicial da isquemia intestinal. Os achados incluem dilatação colônica, espessamento da parede intestinal, falhas de enchimento da vasculatura, oclusão, pneumatose intestinal e gás no sistema porto- mesentérico. A angiotomografia e a angiorressonância têm boa sensibilidade na detecção de tromboses proximais. Confirmação Diagnóstica: A angiografia mesentérica é o método mais importante para diagnóstico precoce de pacientes com suspeita de isquemia mesentérica aguda: “Todo paciente com suspeita clínica de isquemia mesentérica aguda deve ser submetido a uma angiografia de emergência, antes da laparotomia exploradora”. O principal achado angiográfico é a oclusão na artéria mesentérica em sua origem, oclusão de outras artérias e circulação colateral pobre. Entretanto, é válido o seguinte comentário: em pacientes com suspeita de infarto intestinal, a decisão de realizar minuciosos estudos radiográficos (como angiografia) tem que ser individualizada. Por exemplo, para aqueles que estão com hipotensão, acidose e sinais de peritonite (sugerindo que já tenha ocorrido a perfuração), para que realizá-los? A cirurgia está indicada de qualquer forma e não pode ser adiada. Quando em estágios não tão avançados, a angiografia pode ser útil tanto para confirmar um diagnóstico quanto para avaliar a extensão da oclusão. Entretanto sua interpretação é frequentemente difícil, e o julgamento clínico deve-se basear apenas em parte neste exame. Tratamento: O tratamento deve ser cirúrgico, mas são fundamentais medidas como: 1) Aspiração nasogástrica; 2) Reposição hidroeletrolítica; 3) Antibioticoterapia de largo espectro. Durante a cirurgia, o principal objetivo é a remoção da porção intestinal necrosada, e, caso o paciente tolere uma cirurgia mais prolongada, deve ser realizada a revascularização, e trombectomia associada. O cirurgião frequentemente enfrenta uma situação de duas faces: Por um lado, tentar não deixar no paciente nenhuma parte de intestino necrosada. Por outro, evitar a “síndrome do intestino curto”. Para a definição da quantidade de alça a ser ressecada, existem alguns sinais clínicos a serem observados. As alças isquêmicas devem ser colocadas em uma compressa esterilizada com soro morno e deixadas por cerca de dez minutos. Neste segmento intestinal deve ser observado sua coloração (alças de cor púrpura indicam um prognóstico ruim), peristalse, presença de pulsação arterial e sangramento nas superfícies de corte (se positivo o sangramento, bom sinal). Estando presentes sinais de irritação peritoneal, enchimento ruim da artéria mesentérica superior, ou colaterais insuficientes, está indicada a infusão contínua de papaverina, em associação às medidas descritas, desde que o paciente esteja hemodinamicamente estável – o objetivo é diminuir o vasoespasmo frequentemente observado num paciente com isquemia intestinal. Costuma ser necessário realizar uma cirurgia de revisão 24-48h após, no sentido de identificar segmentos que, neste período, se definiram como inviáveis. Sem cirurgia, o índice de mortalidade de um infarto intestinal extenso é de 100%, e, mesmo com a cirurgia, o índice de mortalidade ainda é superior a 50%. As vasculites, como as que ocorrem no LES, PAN, vasculite reumatoide e outras, podem causar infartos intestinais segmentares que não se relacionam com a distribuição das grandes artérias (lembrar o comprometimento das artérias retas). Quando apenas as artérias e arteríolas intramurais estão acometidas, a angiografia pode não mostrar oclusão vascular. Perfurações são raras nas doenças oclusivas das grandes artérias mesentéricas. Como em alguns casos a doença melhora espontaneamente, o paciente pode desenvolver estenose segmentar, demonstrável por estudos baritados. Após a recuperação do episódio agudo, indica-se o uso crônico de antiagregantes plaquetários, como a aspirina, os quais reduzem o risco de isquemia recorrente. 1.2- Embolia de Artéria Mesentérica O paciente com esta condição sempre tem uma cardiopatiaemboligênica, como: a) IAM recente (trombos murais); b) Arritmias cardíacas (em particular a fibrilação atrial); c) Miocardiopatias (chagas); d) Doença valvular esquerda (sopros); e) Vegetações de uma endocardite bacteriana esquerda; f) Placas ateroscleróticas da aorta (torácica ou abdominal alta). A artéria mais acometida pela embolia é a mesentérica superior, tanto em função do seu calibre, quanto em função da obliquidade com que se origina da aorta. Mais de 20% das isquemias mesentéricas embólicas são múltiplas. Além da embolia arterial, há geralmente também uma vasoconstrição arteriolar associada que piora em muito a oferta de sangue ao segmento entérico acometido. Os pacientes podem apresentar uma história pregressa de embolia, ou apresentarem sinais de embolia periférica em associação ao quadro abdominal. Tipicamente, os pacientes descrevem súbita e intensa dor mesogástrica em cólicas, acompanhada de vômitos e diarreia. Quando o diagnóstico não é feito e o tratamento não instituído imediatamente, a embolia mesentérica leva ao infarto intestinal – perceber que a embolia é um fenômeno oclusivo agudo, e, apesar da existência de um plexo alternativo potencial, a velocidade do processo obstrutivo pode inviabilizar o desenvolvimento eficaz dos colaterais. As considerações diagnósticas são parecidas com as da trombose intestinal aguda, já que a embolia mesentérica não deixa de ser uma forma de oclusão aguda: Angiografia revela a oclusão da artéria mesentérica superior e a ausência de colaterais (que evidenciam a natureza aguda do processo) A TC pode sugerir o diagnóstico numa fase precoce da evolução da doença. A Angio TC e Angio RNM não têm boa sensibilidade na detecção de êmbolos, que são mais distais que as tromboses. O surgimento abrupto de um quadro abdominal caracterizado por intensa dor em cólicas, num paciente com circunstâncias clínicas que predispõem ao embolismo, são os principais indícios para suspeição de embolia mesentérica. O tratamento é cirúrgico, com embolectomia + remoção dos segmentos infartados, e posterior revisão dos tecidos viáveis. Uma abordagem alternativa, nos pacientes com oito ou menos horas de evolução e sem necrose de alça, consiste na infusão intra- arterial de trombolíticos, associada à papaverina. 1.3- Infarto Intestinal Não Embólico Em alguns pacientes, achados clínicos sugestivos de oclusão arterial mesentérica (ou de embolia mesentérica) ocorrem sem que se consiga demonstrar uma obstrução do fluxo arterial. Nestes pacientes, o distúrbio básico consiste na vasoconstrição funcional das pequenas artérias do mesentério, que pode ocorrer como resultado de diversos estímulos. As principais condições relacionadas à vasoconstrição arteriolar mesentérica são: Choque ICC Hipóxia grave Uso de determinadas drogas como diuréticos, a cocaína, e, principalmente, o digital. “Quase todos os pacientes com infarto intestinal não oclusivo estão recebendo altas doses de digital, que é uma droga que causa vasoconstrição esplâncnica”. A dor abdominal não costuma ser intensa e geralmente não é sintoma inicial. Não raramente uma isquemia intestinal não oclusiva se inicia com melena ou hematoquezia. O quadro clínico tende a evoluir mais lentamente do que nos processos oclusivos, e o prognóstico é pior em função da doença de base. A angiografia é, ao mesmo tempo, diagnóstica (ausência de êmbolos e trombos + áreas alternadas de vasoespasmo e dilatação) e terapêutica, pois o tratamento de escolha consiste na infusão intra-arterial de papaverina (30 a 60 mg/h) por cateter angiográfico, colocado diretamente na artéria mesentérica superior. Simultaneamente ao uso de papaverina, procura-se melhorar as condições cardíacas do paciente e suspender todos os digitálicos e vasopressores. A laparotomia só estará indicada se: 1 - Aparecerem sinais de irritação peritoneal; 2 - Existirem sinais angiográficos de infarto intestinal (ausência de contraste em determinado segmento); 3 - Houver dúvida quanto ao diagnóstico. No passado, a isquemia não oclusiva era quase invariavelmente fatal. Atualmente, o uso da papaverina tem melhorado bastante o prognóstico desta condição. Da mesma forma que na trombose arterial mesentérica, alguns autores recomendam o uso crônico profilático de aspirina, após a recuperação do quadro agudo – não está no guideline da AGA (American Gastroenterology Association). 1.4 - Trombose de Veia Mesentérica A TVM é responsável por 5% dos casos de isquemia intestinal, quase sempre envolvendo a mesentérica superior. O mecanismo de necrose intestinal se explica pela congestão vascular intensa do segmento drenado pela veia ocluída. Isso gera grande edema da parede do segmento acometido e efluxo de líquidos para o lúmen intestinal, levando à hipotensão sistêmica e aumento da viscosidade sanguínea e diminuindo o aporte de sangue para aquele segmento. Embora em alguns pacientes não se consiga evidenciar nenhum fator predisponente, as principais causas de trombose venosa mesentérica estão associadas aos estados de hipercoagulabilidade: 1) Hipercoagulabilidades hereditárias: presente em cerca de 40 a 50% dos pacientes com trombose mesentérica aguda, sendo a mais comum a deficiência de fator V de Leiden, responsável por 20 a 40% dos pacientes. Outras condições incluem: deficiências de antitrombina III, proteína S e proteína C (8 a 10% dos casos), anticorpos antifosfolípides (4%), mutação no gene da protrombina e policitemia vera, entre outros. 2) Hipercoagulabilidades adquiridas: várias condições estão associadas, sendo as mais comuns a hemoglobinúria paroxística noturna e as síndromes mieloproliferativas. Além das causas mais frequentes já citadas, diversas outras condições também podem estar associadas ao desenvolvimento de trombose no leito esplênico: Estase no leito venoso mesentérico (como hipertensão porta, ICC); Neoplasias intra-abdominais; Processos inflamatórios intra-abdominais (peritonite, abscesso, doenças intestinais inflamatórias, pancreatite); Cirurgias e traumatismos abdominais; Uso de anticoncepcionais orais. Na sua forma de apresentação mais típica, os sintomas se iniciam gradualmente, com desconforto abdominal progressivo ao longo de semanas, às vezes acompanhado por diarreia e distensão abdominal. O surgimento abrupto de sintomas ou a presença de sangramento digestivo falam a favor de infarto intestinal agudo. Os achados ao exame físico são inconsistentes, embora possa haver sinais de irritação peritoneal sobre a alça infartada. A punção de um pequeno volume de líquido peritoneal sanguinolento é típica, sendo um importante indício diagnóstico em pacientes com uma evolução clínica subaguda. A tomografia pode revelar, com mais de 90% de sensibilidade, a trombose da veia mesentérica, com ou sem trombose portal e esplênica associadas. Raramente é necessário recorrer à angiografia mesentérica. O tratamento de escolha é a heparinização sistêmica. Nos pacientes com evidências clínicas ou tomográficas de necrose intestinal, está indicada a laparotomia de emergência, com ressecção do segmento afetado. Nesses casos, adia-se o início da anticoagulação até o início da cirurgia. A anticoagulação deve ser, depois, mantida por seis meses, com cumarínicos. De modo geral, o prognóstico é mais favorável do que o dos pacientes com doença arterial mesentérica, sendo de apenas 20% a mortalidade relatada (ainda alta!). ISQUEMIA COLÔNICA É a forma mais comum de isquemia intestinal (70-75% de todos os casos), afetando mais frequentemente idosos, em virtude da maior incidência das doenças vasculares (como aterosclerose) nesta população. Assim como nas doenças arteriais do delgado, o quadro clínico varia em função da extensão do comprometimento e da velocidade de sua instalação. Nessamodalidade de isquemia, o defeito primário não é dos grandes vasos, mas dos pequenos vasos e microcirculação. Como você bem sabe, a circulação esplâncnica é uma das menos privilegiadas em estados de Hipofluxo sistêmico (em que ocorre direcionamento do fluxo para áreas “nobres”, como cérebro e coração). Embora na maioria das vezes esteja relacionada à hipoperfusão sistêmica, diversas são as causas de isquemia colônica, como veremos no QUADRO I. Como já visto, as regiões do cólon mais atingidas pela isquemia são as ditas “divisoras das águas”: flexura esplênica e retossigmoide. Quadro Clínico: Quando a isquemia é aguda, os sintomas são: Dores abdominais baixas de início súbito, em cólica, Associada a sangramento retal Vômitos Febre Hipotensão. Ao exame físico, o paciente pode apresentar: 1- Dor à palpação do lado esquerdo do abdome, associada à irritação peritoneal local 2- Evidências de aterosclerose sistêmica. Quando atendidos pela primeira vez, os pacientes podem relatar episódios anteriores semelhantes, que vinham ocorrendo de modo intermitente. A colite isquêmica típica cursa com: Dor nos quadrantes inferiores, especialmente no esquerdo, Diarreia mucossanguinolenta; sendo que, nos casos graves, evolui para dilatação do cólon (megacólon tóxico) e o risco de perfuração, o que resultaria em abdome agudo típico. Se o quadro agudo cessar espontaneamente, pode haver recuperação completa, ou graus variáveis de fibrose e estenose. O laboratório revela leucocitose ou, na presença de necrose do cólon, achados similares aos do infarto enteromesentérico. Diagnóstico: O clister opaco costuma mostrar um quadro característico de edema e hemorragias intramurais, incluindo o sinal das “impressões digitais” ou thumbprinting, estreitamento tubular e irregularidade “em dentes de serra” – entretanto este exame pode ser prejudicial na condição aguda, já que existe o risco de perfuração. A radiografia simples e a TC de abdome podem ter utilidade na exclusão de outros diagnósticos diferenciais. O melhor método diagnóstico: colonoscopia. Como os vasos diretamente implicados na perfusão intestinal (artérias retas) caminham da serosa para a mucosa, as alterações mais precoces na isquemia colônica acontecem na mucosa e podem ser detectadas pela via endoscópica. A retossigmoidoscopia tanto pode revelar alterações do cólon como úlceras etc., quanto pode ser normal. A colonoscopia, embora seja mais completa, nem sempre é necessária, já que na maioria das vezes as lesões estão do lado esquerdo. A angiografia não tem utilidade na maioria destes pacientes. Pode ser muito difícil diferenciar a colite isquêmica das outras doenças do cólon que também determinam colite, como as doenças intestinais inflamatórias, colite infecciosa, diverticulite etc. Conduta: O tratamento, na maioria dos casos, deve ser clínico, no sentido de corrigir os fatores “desencadeantes”, como choque, uso de digital, correção do diabetes, hidratação venosa, antibioticoterapia etc... Existem, contudo, algumas situações para as quais está indicada a colectomia parcial ou total: Fase aguda: peritonite, hemorragia maciça ou colite fulminante universal; Após 2-3 semanas: caso haja episódios recorrentes de dor abdominal, diarreia, sepse ou sangramento; Fase crônica: estenose/obstrução crônica. Os pacientes jovens e os com isquemias recorrentes deverão ser avaliados para estados de hipercoagulabilidade. Com muita pouca frequência, a isquemia colônica pode se apresentar à direita (cólon ascendente). Nestes casos, está indicada a arteriografia da artéria mesentérica superior. Caso se comprove hipofluxo, deve-se injetar papaverina ou outro vasodilatador. Esses pacientes podem evoluir com necrose do íleo terminal e requerem atenção no acompanhamento. PENDENCIAS: Estimativa para perda de líquidos: Variações da arvore biliar: