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A lei do processo eletrônico Prof. Fernando Rubin Descrição Aspectos da lei do processo eletrônico e a transição dos processos físicos para os processos virtuais no Brasil. Propósito Cada vez mais, torna-se imprescindível o reexame dogmático dos comandos e princípios processuais face à realidade cibernética e transformações por ela introduzidas no Direito, seja para atuação prática seja para conhecimento teórico. Preparação Antes de iniciar o estudo, tenha em mãos o Código de Processo Civil, o Código de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.078/1990), a Lei da Ação Civil Pública (Lei n° 7.347/1985), a Lei do Mandado de Segurança (Lei n° 12.2019/2009) e, finalmente, a Lei nº 11.419/2006. Objetivos Módulo 1 Do processo físico ao processo eletrônico Reconhecer a transição dos autos físicos aos eletrônicos no âmbito processual e seus impactos. Módulo 2 O processo eletrônico Aplicar os princípios processuais clássicos à nova realidade cibernética. Módulo 3 Comunicação eletrônica dos atos processuais Analisar a participação dos órgãos de controle e disciplina na conformação do novo modelo processual virtual no Brasil. Introdução O presente conteúdo pretende resgatar o atual estado da arte processual, em um cenário de transição do processo físico para o processo eletrônico, discutindo-o criticamente à luz do direito fundamental das partes litigantes ao processo justo. Defende-se que a segurança jurídica, para além da mera previsibilidade, atue como elemento decisivo para um processo qualificado. Salienta- se a necessidade de ser construído modelo teórico-dogmático de aplicação das normas de processo nessa nova plataforma. A aludida transição não é tão simples e natural, como para alguns pode parecer. Nesse novo contexto, é preciso impedir que as demandas sejam tratadas em processos que assumam a forma de um frenético modelo fordista. Impõe-se atentar, da mesma forma, para o risco de que os direitos das partes sejam colocados à deriva em meio à introdução de mecanismos tecnológicos, como a inteligência artificial. 1 - Do processo físico ao processo eletrônico Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer a transição dos autos físicos aos eletrônicos no âmbito processual e seus impactos. Ligando os pontos É por demais consabido que, na sociedade contemporânea – a chamada sociedade da informação –, o Poder Judiciário sofreu influências diretas destas transformações e, por conseguinte, exsurgiu a necessidade de haver uma análise cautelosa sobre o que se conhece por garantir direitos e princípios constitucionais do processo. Itens técnicos e maculados de vício advindos da cibercultura para o meio jurídico terminam por serem considerados estranhos ao ordenamento, fazendo com que haja uma desestabilização a partir do momento em que o sistema jurídico já não tem como abranger todos os fatos e as possibilidades existentes naquele novo contexto. Assim, baseando-se em conceitos tradicionais, bem como no panorama atual quanto ao sistema oferecido e nos riscos técnicos existentes, é possível dizer que o processo judicial eletrônico, na forma em que se encontra hoje, não traduz a segurança jurídica esperada pelo ordenamento jurídico brasileiro. Imagine que João, após ter tido o seu carro colidido pelo condutor de outro veículo (José), ingressou com uma ação judicial para buscar a reparação civil dos danos sofridos. No estado de residência de João, Rio de Janeiro, os processos encontram-se totalmente digitalizados. Além disso, por causa da pandemia da covid-19, as audiências e os atos processuais passaram a ser realizados prioritariamente por meio eletrônico com uso de videoconferência. Citado para a ação judicial, José contesta a ação e alega que a culpa do acidente se deu pela imprudência de João, que, intimado para apresentar provas, no prazo de cinco dias, informou que não teria mais provas para produzir. José, por sua vez, peticionou informando que tinha provas a produzir, nomeadamente prova oral de uma testemunha que teria presenciado toda a dinâmica do acidente. Conquanto tenha peticionado nesse sentido, o magistrado indeferiu a petição de José, porque já havia passado o prazo para manifestação publicado no Diário da Justiça (DJe) e, por conseguinte, julgou antecipadamente a lide. José, procura você, que está advogando, para entender se a decisão do magistrado fora correta, uma vez que houvera a duplicidade de intimações eletrônicas, mais detidamente, as intimações ocorridas no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal Eletrônico. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos? Questão 1 (UNESC - 2022 - Prefeitura de Laguna - SC - Procurador Municipal). De acordo com a Lei nº 13.105/2015, em relação à prática eletrônica de atos processuais, assinale a alternativa correta. Os sistemas de automação processual respeitarão a publicidade dos atos, o acesso e a participação das Parabéns! A alternativa A está correta. Os sistemas de automação processual respeitarão a publicidade dos atos, o acesso e a participação das partes e de seus procuradores, inclusive nas audiências e sessões de julgamento, observadas as garantias da disponibilidade, independência da plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos A partes e de seus procuradores, inclusive nas audiências e sessões de julgamento, observadas as garantias de disponibilidade, independência da plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos sistemas, serviços, dados e informações que o Poder Judiciário administre no exercício de suas funções. B O registro de ato processual eletrônico deverá ser feito em padrões fechados, que atenderão aos requisitos de autenticidade, integridade, temporalidade, repúdio, conservação e, em todos os casos, confidencialidade, observada a infraestrutura de chaves públicas unificada nacionalmente. C Os tribunais divulgarão as informações constantes de seu sistema de automação em página própria na rede mundial de computadores, gozando o sigilo de presunção de veracidade e confiabilidade. D As unidades do Poder Judiciário poderão assegurar às pessoas com deficiência acessibilidade aos seus sítios na rede mundial de computadores, ao meio eletrônico de prática de atos judiciais, à comunicação eletrônica dos atos processuais e à assinatura eletrônica. E As unidades do Poder Judiciário deverão manter onerosamente, à disposição dos interessados, equipamentos necessários à prática de atos processuais e à consulta e ao acesso ao sistema e aos documentos dele constantes. sistemas, serviços, dados e informações que o Poder Judiciário administre no exercício de suas funções, conforme art. 194 do CPC. Questão 2 (VUNESP - 2021 - Prefeitura de Guarujá - SP - Procurador Jurídico). A habilitação de advogado no processo eletrônico, conforme entendimento atual do Superior Tribunal de Justiça, Parabéns! A alternativa E está correta. Nos processos judiciais eletrônicos, a intimação dos atos processuais se aperfeiçoa com a consulta eletrônica realizada pela parte, que deve ocorrer em até dez dias corridos, contados a partir da data de envio da comunicação. Essa previsão se aplica inclusive às entidades que gozam da prerrogativa de notificação pessoal, tal A gera a presunção de ciência de todos os atos processuais, publicados e não publicados, cujo prazo começa a correr da habilitação. B gera a presunção de ciência de todos os atos processuais já publicados, recomeçando a correr o prazo da habitação, desprezando-se a data da publicação. C gera a presunção de ciência de todos os atos processuais não publicados, começando a correr o prazo da habilitação, o que dispensa futura publicação. D deve ser equiparada à antiga carga física dos autos, razão pela qual todos os prazos começam a correr após cinco dias da habilitação. E gera a presunção de ciência de todos os atos processuais que foremefetivamente acessados pelo advogado após este clicar em seu conteúdo. como a Defensoria Pública. Caso a consulta não ocorra dentro do prazo de dez dias corridos, será considerada intimada a parte, automaticamente, ao término do prazo. Questão 3 Veja que a controvérsia cinge-se a aferir o termo inicial de contagem dos prazos processuais quando houver duplicidade das intimações eletrônicas previstas na Lei nº 11.419/2006 (Lei do Processo Eletrônico), mais especificamente, as intimações ocorridas no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal Eletrônico. Tendo como base os princípios fundamentais do processo aplicados ao processo eletrônico, assim como as recentes decisões do STJ, a decisão do magistrado foi correta? Digite sua resposta Chave de resposta Não, porque a respeito desta modalidade de notificação dos atos judiciais, estabelece o aludido art. 5º da Lei do Processo Eletrônico que as intimações feitas por meio de Portal Eletrônico dispensam a publicação no órgão oficial, inclusive eletrônico. Dito isso e partindo-se da premissa de que, diante de procedimento do próprio Poder Judiciário que cause dúvida, como no caso de duplicidade de intimações válidas, não pode a parte ser prejudicada – mormente, porque, em tais circunstâncias, cria-se uma incerteza no tocante ao exato termo inicial para contagem dos prazos processuais. Considera-se que a melhor exegese é a que faz prevalecer a intimação no Portal Eletrônico em detrimento da tradicional intimação por Diário da Justiça, ainda que atualmente esta também seja eletrônica. Com efeito, levando-se em consideração os princípios da boa-fé processual, da confiança e da não surpresa, atinentes ao Direito Processual, deve a norma ser interpretada da forma mais favorável à parte, a fim de se evitar prejuízo na contagem dos prazos processuais. Se a própria Lei do Processo Eletrônico criou essa forma de intimação, dispensando qualquer outra, e tornou este mecanismo hábil a promover, inclusive, as intimações pessoais dos entes que possuem tal prerrogativa, não há como afastar a conclusão de que esta regerá o prazo naturalmente em relação ao advogado que esteja cadastrado no sistema eletrônico. Há, pois, uma presunção de validade, que leva a exigir do Poder Judiciário comportamento condizente com os ditames legais e com a boa-fé processual. Desse modo, entende-se que sempre que a modalidade de intimação pelo Portal Eletrônico (art. 5º da Lei n. 11.419/2006) for prevista e aplicável em determinado Tribunal para os advogados devidamente cadastrados, deve esta prevalecer sobre a tradicional intimação pelo DJe. A necessidade de preservação da segurança jurídica processual Segurança jurídica processual e modernização do Poder Judiciário Confira agora a modernização do Poder Judiciário e da segurança jurídica dentro do processo. O sistema do processo escrito, em que foi sedimentado o nosso sistema processual pátrio, já se encontra em boa parte relativizado nos tempos atuais. Isso em decorrência da avassaladora implementação do processo eletrônico, que ganha cada vez mais força e espaço, em um movimento irremediável, que acompanha o avanço cultural e tecnológico da nossa sociedade na pós-modernidade, ainda mais efervescente em período contemporâneo (e já relativamente longo) de pandemia e isolamento social. Sendo o processo fruto da cultura, é inegável admitirmos que estamos vivendo em um momento histórico bastante diferenciado, em um cenário incrementado especialmente a partir de meados da década de 90, em que se identificam fundamentos sociais, econômicos, políticos e ideológicos muito diferentes daquele tempo em que se forjou a cultura do processo físico e que se estabeleceu a própria autonomia científica do direito processual (CALMON, 2012). Estudo profundo e cuidadoso desse fenômeno já justificaria. Embora já exista na doutrina comparada o reconhecimento de que o movimento é mundial, o debate teórico sobre a justiça eletrônica ainda é muito incipiente (FISCHER, 2012). Conselho da Justiça Federal (CNJ). Ocorre, no entanto, que a forma como o processo eletrônico vem sendo utilizado, sob a supervisão e ingerência direta no Brasil do Conselho da Justiça Federal (CNJ), acaba por demonstrar a existência de acentuada preocupação com a efetividade da prestação jurisdicional. Como reflexo, acabam sendo relegados, a segundo plano, não raro, os direitos fundamentais constitucionais ao processo justo e previsível, o que estamos abarcando, no âmbito da segurança jurídica, em duas das acepções mais firmes que a expressão pode compreender, quais sejam: previsibilidade das regras do jogo e maior profundidade/qualidade da instrução a ponto de ser proferida legítima decisão final (RUBIN, 2016). Tal movimento, salvo melhor juízo, vai em boa medida de encontro aos preceitos previstos no CPC, relacionados a um modelo de colaboração, que incentiva o diálogo, impondo deveres de consulta, prevenção, esclarecimento e auxílio ao magistrado. Certo que o problema levantado nesse estudo se faz presente diante do rito comum, mas é verificado até em maior escala no rito sumaríssimo dos juizados especiais. Seja como for, todo e qualquer procedimento, dentro do ambiente virtual, inclusive, e por mais sumário que seja, deve respeitar os preceitos processo-constitucionais, compatíveis com modelo de colaboração entre o Estado-juiz e as partes, aplicando-se ao menos supletivamente aos juizados as disposições do Código de Processo Civil vigente. O problema é, pois, importante no âmbito da Teoria Geral do Processo, sendo que aos jurisdicionados importa, e são beneficiados sempre que os princípios constitucionais, em especial, os positivados no novo códex processual, acabam sendo aplicados com parcimônia, sem descrédito demasiado de um deles. Ao mesmo tempo em que a nova ferramenta do processo eletrônico proporciona benefícios, como a celeridade na prestação jurisdicional, deve também ser capaz de atender à exigência de segurança na prática dos atos processuais. O efetivo controle em relação à obtenção de tais resultados, em alguns casos, foge até da esfera puramente jurídica, reclamando o conhecimento de outras áreas, sobretudo, da informática. Nesse panorama, tanto os operadores do direito de uma maneira geral, como as partes no caso concreto, deverão estar conscientes de que uma mudança de paradigma, em decorrência da alteração da plataforma escrita para a virtual, faz-se necessária. Da mesma forma, os sistemas de informática terão de ser adaptados/supervisionados com o intuito de garantir o amplo acesso à justiça e à preservação de direitos fundamentais processuais. O CPC (Lei n° 13.105/2015), em período histórico de transição dos processos físicos para os processos virtuais, não tratou com profundidade o problema do processo eletrônico, sendo necessários e urgentes avanços nesse contexto, mesmo porque, adotado agora de forma mais explícita, o modelo colaborativo (arts. 6° e 7°), aumenta as oportunidades de participação das partes em posição paritária diante do Estado-juiz. Código de Processo Civil (CPC). Isso faz com que a preocupação com a compatibilização dos aludidos princípios processuais se faça desde logo imperativa, em busca de um processo eficaz (art. 8°) e de acordo com os valores e as normas fundamentais de índole processual estabelecidas na Lei Maior (art. 1°). O problema, revela-se em como compatibilizar, no âmbito do processo eletrônico, o atendimento às exigências constitucionais de efetividade (celeridade) do processo e de segurança jurídica (qualidade da prestação de jurisdição), tomando como premissa a lógica de evidente incremento da efetividade e mesmo impessoalidade que o procedimento virtual projeta. Inclusive, com eventual prejuízo ao direito fundamental das partes ao efetivo contraditório; à ampliação robusta da produção probatória a partir de adequada intervenção humana do agente político do Estado apto a conduzire decidir o processo; e à fundamentação completa das decisões judiciais, mormente em demandas com carga fática significativa. Os benefícios e cuidados com a modernização do Poder Judiciário A maioria das cortes já possui sistemas informatizados que permitem o peticionamento eletrônico, a consulta sobre andamento processual através do site do Tribunal, entre outros recursos. A novidade chegou também às instâncias inferiores, havendo movimento mais lento no Brasil tão somente na Justiça Estadual. Seja como for, espera-se que a informatização do Poder Judiciário seja mais complexa do que a simples disponibilização de peças processuais às partes através da internet. Nesse sentido, a Lei nº 11.419/2006, que regula a informatização do processo judicial, explicitou algumas exigências: As partes e seus procuradores poderão acessar os autos virtuais a qualquer momento. As petições enviadas até às 24 horas do último dia de prazo serão consideradas tempestivas. Sendo assim, princípios aplicáveis ao processo, como a publicidade dos atos processuais, a lealdade processual, a oralidade, a ampla defesa, dentre outros, devem ser analisados cuidadosamente, quiçá repensados. Parece inegável que a informatização do sistema processual será benéfica; todavia, é necessário cautela, a fim de evitar que a modernização do Poder Judiciário se torne um ambiente propício para a violação de direitos fundamentais processuais historicamente consagrados na esfera do Estado Democrático de Direito (RUBIN, 2021). Nesse diapasão, a lógica de um “processo justo, humano e conduzido por uma corte independente” é uma exigência da Convenção Europeia de Direitos Humanos (EMRK, art. 6º, Sec. 1) e precisa ser adaptada ao processo eletrônico, à medida especialmente que se faz necessária a intervenção humana na condução do e-justice e mesmo a estruturação dos princípios da ampla publicidade e oralidade, com o estímulo da realização de audiências presenciais do Estado-juiz com as partes litigantes. Como exposto no cenário supra, é viável identificarmos que a transformação do processo escrito para o eletrônico não deve criar uma completa revolução na aplicação da dogmática processual e, principalmente, dos princípios processuais. Em verdade, a modificação do estado da arte no cenário processual – com o aperfeiçoamento de um modelo – exige repensarmos os institutos, mas sem que haja desconstrução em definitivo. De todo modo, como reconhecido pela doutrina estrangeira, a crescente utilização da tecnologia no mundo jurídico, especialmente no Processo Civil, demanda repensar algumas mudanças sobre os fundamentos do Processo Civil tradicional (KAWANO, 2012). Há espaço para buscarmos um equilíbrio do processo eletrônico, com participação enérgica e interessada dos integrantes da relação processual, dentro de um modelo de colaboração. Modelo esse em que os sistemas de informática estejam adaptados a dar movimentação no iter procedimental com eficaz supervisão humana, cenário em que a segurança jurídica, como forma de garantir a previsibilidade e, principalmente, o respeito ao devido processo legal (a qualidade da prestação jurisdicional), seja passível de concretização sem que as Os documentos enviados digitalmente serão considerados, em princípio, originais. etapas procedimentais sejam ultrapassadas, no estilo de modelo fordista. Assim, gerando mero procedimento eletrônico autômato, de decisão robótica, sem controle humano e participação ativa, especialmente, do Estado-juiz. Esse é um cenário preocupante e que já vem sendo visualizado no processo virtual, em maior medida nos juizados especiais federais. Conforta a nossa posição as felizes palavras de Sérgio Gilberto Porto (2018), ao bem identificar o início de uma verdadeira despersonalização das demandas no âmbito do processo eletrônico, as quais passam a ser emolduradas em situações predefinidas. Circunstância essa que afasta o juiz da jurisdição material, com a qual está constitucionalmente comprometido e, portanto, deve sim ao cidadão uma resposta personalizada. A linha de montagem industrial, segundo Porto (2018), traz consigo a despersonalização da demanda (cenário ainda mais grave nos processos com carga fática significativa, acentuaríamos nós), e, por decorrência, uma severa desumanização do conflito de interesses. Portanto, no atual cenário de desenvolvimento da tecnologia aplicada ao processo no mundo, bem como no contemporâneo estágio de latente transição dos processos físicos para os processos virtuais no Brasil, é de se admitir a necessidade de um modelo teórico para os atos processuais que exija intensa participação humana na tomada de posições no processo, de ofício ou a requerimento. Modelo esse capaz de garantir a segurança jurídica independentemente do procedimento cível adotado, sob pena de completa desestruturação (nulidade) do ato final (fase decisória), ao passo que não perfectibilizado procedimento em contraditório nas anteriores etapas (fase postulatória, saneadora e instrutória). Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 A respeito da transformação do processo judicial físico ao processo judicial eletrônico, pode-se afirmar que Parabéns! A alternativa D está correta. O Novo CPC colocou-se em período ainda de amadurecimento do processo eletrônico, representando um marco dessa transição dos processos físicos para os processos virtuais. Questão 2 Em relação ao tema processo eletrônico, é possível afirmar que A a Lei nº 13.015/2015 pode ser considerada o marco mais importante para o início da implementação do processo eletrônico no Brasil. B o CPC de 2015 foi elaborado já devidamente aperfeiçoado ao sistema do processo eletrônico. C há muita discussão teórica sobre o processo eletrônico e sobre artigos acadêmicos em todo o mundo, não apenas no Brasil. D no período de transição do processo físico para os processos eletrônicos, também acabou se sucedendo a reforma do CPC anterior e a construção do CPC de 2015. E a minoria das cortes já possui sistemas informatizados que permitem o peticionamento eletrônico. A o momento cultural do desenvolvimento do processo eletrônico coincide com o incremento do princípio processual da efetividade. Parabéns! A alternativa D está correta. Todo e qualquer procedimento, dentro do ambiente virtual, inclusive, e, por mais sumário que seja, deve respeitar os preceitos do processo constitucional, compatíveis com o modelo de colaboração do Estado-juiz e as partes. B o processo eletrônico justo exige a leitura do sistema processual à luz da Constituição Federal, seus valores e princípios fundamentais. C a exigência de duração razoável do processo coloca-se alinhada à lógica de formação do processo eletrônico. D o procedimento comum pátrio, conforme disciplinado em lei, é o único que deve respeitar os preceitos processo-constitucionais, compatíveis com modelo de colaboração entre o Estado-juiz e as partes. E a mudança do sistema processual físico para o sistema processual virtual é medida irremediável. 2 - O processo eletrônico Ao �nal deste módulo, você será capaz de aplicar os princípios processuais clássicos à nova realidade cibernética. Ligando os pontos O processo eletrônico trouxe uma transformação no processo civil que possibilita a efetivação dos princípios fundamentais da celeridade e efetividade. Por consequência, como afirma a corregedora da Justiça do DF, desembargadora Carmelita Brasil, em uma entrevista ao TJDF: ”[...] na atualidade, a tecnologia está presente no convívio interpessoal, por meio do uso das redes sociais, e-mail, aplicativos de conversa, teletrabalho. Assim, no âmbito do Poder Judiciário, ao se compreender o caráter irreversível e as vantagens trazidas por esses avanços e em sintonia com os preceitos legais, tem-se caminhado cada vez mais em direção à ampliação da oferta dos serviços digitais e remotos, com o objetivode aproximar ainda mais o cidadão da instituição e garantir maior celeridade, segurança e economia processual mediante o uso da tecnologia, evitando os atrasos e os custos da prática de atos físicos ou que exijam a presença das partes nos Fóruns” (TJDF, 2021, n. p.). Nesta senda, a catapultar eficiência e celeridade, o CNJ criou o juízo 100% digital (Resolução nº 345, de 09 outubro de 2020), no qual todos os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e remoto por intermédio da rede mundial de computadores. Ante esta implementação no DF, temos o autor (Carlos) de uma ação de cobrança em face de um prestador de serviço que não o executou, embora tenha pago por este. Conquanto nem o autor nem o réu tenham aceitado o fato de o processo ocorrer em um juízo 100% digital, o juiz entendeu por seguir com o procedimento dessa forma, por acreditar ser um procedimento obrigatório. No decorrer do processo, como a produção de uma prova não poderia ser realizada de forma virtual, o juiz a indeferiu, pois estava diante de um procedimento 100% on-line, sendo que se tratava de prova fundamental para o julgamento do caso. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos? Questão 1 Embora as partes processuais não tenham optado pela utilização do juízo 100% digital, o juiz determinou que fosse realizado o procedimento inteiramente digital. Você, como operador do Direito e conhecedor da legislação, marque a opção correta acerca da decisão do juiz. Parabéns! A alternativa C está correta. A escolha pelo juízo 100% digital é facultativa e será exercida pela parte demandante no momento da distribuição da ação, podendo a parte demandada opor-se a essa opção até o momento da contestação, segundo o art. 3º da Resolução nº 345 de 2020. Questão 2 Quanto à segunda parte da decisão do magistrado, inviabilizada a produção de meios de prova ou de outros atos processuais de forma virtual, o juiz deverá transformar o procedimento em físico? A A decisão do magistrado está correta, pois, como afirmado pela corregedora do TJDF, o judiciário compreendeu o caráter irreversível e as vantagens trazidas por esses avanços tecnológicos. B A decisão está incorreta, pois ação de cobrança não pode tramitar em um juízo 100% digital. C A decisão do juiz não está correta, eis que o procedimento 100% digital não é obrigatório. D A decisão está incorreta, pois só haveria implementação do juízo digital caso o réu se manifestasse nesse sentido. E Em razão da necessidade de efetivação dos princípios fundamentais da celeridade e efetividade, há a obrigatoriedade do juízo 100% digital, logo, a decisão do juiz está correta. Parabéns! A alternativa A está correta. Conforme dispõe o §2º da Resolução nº 345, de 2020: “inviabilizada a produção de meios de prova ou de outros atos processuais de forma virtual, a sua realização de modo presencial não impedirá a tramitação do processo no âmbito do ‘Juízo 100% Digital’” (redação dada pela Resolução nº 378, de 9 de março de 2021). Questão 3 A transformação tecnológica do processo deverá respeitar e/ou ser compatibilizada com os princípios fundamentais do Processo Civil? Se sim, não respeitando o procedimento do juízo digital, o juiz violou algum princípio processual? Justifique. Digite sua resposta Chave de resposta A Inviabilizada a produção de meios de prova ou de outros atos processuais de forma virtual, a sua realização de modo presencial não impedirá a tramitação do processo no âmbito do juízo 100% digital. B Sim, porque é condição de procedibilidade do processo as provas serem digitais. C Não está correta, pois há uma exceção para as provas físicas no procedimento 100% digital: a inspeção judicial feita pelo magistrado. D Não está correta, pois a parte autora é que deveria ter realizado o pedido de indeferimento da prova. E Sim, pois estamos perante um juízo 100% digital. Com certeza, sim. O processo eletrônico e juízo 100% digital não só devem respeitar os princípios fundamentais do processo, como também compatibilizar-se com esses, afinal, não podemos permitir qualquer violação às normas fundamentais do processo, tanto é que o §2º da Resolução nº 345, de 2020, dispôs que: “inviabilizada a produção de meios de prova ou de outros atos processuais de forma virtual, a sua realização de modo presencial não impedirá a tramitação do processo no âmbito do ‘Juízo 100% Digital’”. Nada obstante, o entendimento jurisprudencial de que cabe ao magistrado apreciar a questão de acordo com o que entender atinente à lide, em seu livre convencimento, haverá o cerceamento de defesa quando o magistrado não respeitar o procedimento e indeferir a produção de uma prova necessária ao julgamento do caso concreto. A construção do modelo de processo virtual no Brasil O modelo processual virtual brasileiro Confira agora o histórico e a criação do modelo virtual no Brasil. Aspectos históricos introdutórios O CPC/1973, constituído em momento histórico diverso do atual cenário cultural e tecnológico-digital, projetava-se para a resolução exclusiva de relações individuais, via processo escrito, preservando flagrantemente o princípio da segurança jurídica, mesmo que em detrimento da efetividade da prestação da jurisdição (RUBIN, 2016). Para fins terminológicos, temos que: a expressão “segurança jurídica” apresenta-se em caráter polissêmico. Isto é, vinculada às garantias processual-constitucionais integralizadoras do due process, a segurança jurídica possui sentido de uma certeza (maior) do direito a ser confirmado ou negado; ou no sentido de uma previsibilidade (tanto maior quanto possível) da decisão judicial de mérito a ser tomada. Essa é uma concepção que articula segurança e devido processo, voltada ao direito ao processo qualificado, afastando-se, a priori, da preclusão e da efetividade. É possível cogitarmos circunstâncias em que a efetividade se coloca a favor da segurança, forjando-se como próprio elemento integrante deste, quando se corporifica, por exemplo, a hipótese de antecipação de tutela satisfativa, ainda mais no caso da tutela de evidência (art. 311, IV da Lei nº 13.105/2015), já que, nesse contexto, concordamos que de nada adianta certeza, confiança e calculabilidade se o direito não é passível de realização. Nada obstante tal cenário, buscamos dentro do presente estudo dar o devido espaço para a possibilidade real de precipitações na condução da marcha processual tendente ao exame em cognição exauriente, que, no âmbito do processo eletrônico, pode desvirtuar a legitimidade do procedimento, comprometendo também a legitimidade da decisão final de mérito. O Código Buzaid, vigendo no Brasil desde 1974, restou dividido, em termos de esquema para tutela dos direitos, em processo de conhecimento, execução e cautelar. A relativa autonomia dos títulos é evidente, cabendo destaque, nesse modelo, o processo de conhecimento, já que a execução e a própria medida cautelar mantêm vinculação direta com o resultado esperado daquele. E dentro do processo de conhecimento, embora previsto o rito comum sumário, destaca-se o rito comum ordinário, especialmente projetado para prolação de sentença de mérito pelo Estado-juiz após cognição plena e exauriente. Passando-se mais de vinte anos da entrada em vigor do Código Buzaid, operou-se natural modificação da sociedade, o que, repercutindo no processo, acabou por determinar a obrigatoriedade de retificações no modelo originário. Embora não tenha havido ruptura dramática no CPC/1973 com a entrada em vigor da CF/88, e nem mesmo com as primeiras reformas ao código desenvolvidas, presenciou-se uma importante adaptação do modelo Buzaid, com forte carga de defesa da segurança jurídica (rectius, certeza jurídica) e das reivindicações contemporâneas de um processo efetivo, célere. Admitindo-se a configuração eventual de tensão entre segurança e efetividade, ao que parece, formou-se a convicçãode que o CPC/1973 tinha um sistema processual bem-acabado/articulado, mas demasiadamente burocrático – e que, por isso, não atingia em boa parte dos casos os seus propósitos derradeiros em tempo útil. Assim, a referida onda reformista voltava-se para a busca incessante da efetividade, o que, ao fim, confirmou-se com a inclusão, já em 2004, do inciso LXXVIII no art. 5° da CF/88 pela EC nº 45 (a tratar do direito do cidadão brasileiro à razoável duração do processo). As reformas estruturais no sistema processual pátrio de 1973 começaram a se definir em meados da década de 90, com o desenvolvimento das tutelas de urgência. Vamos conferir! 1994 O ano de 1994 foi extremamente importante pelo acolhimento da legislação processual da tutela antecipada de mérito. 2001 Reformas múltiplas, como as reformas estruturais ocorridas em 2001, especialmente na seara recursal. 2006 R f últi l Ademais, não podemos deixar de lembrar que, fora do âmbito do CPC/1973, foram também construídas alterações, via legislações esparsas. Um código com visão marcantemente individualista (voltado à proteção dos direitos individuais), forjado para a solução de litígio de A contra B, seguramente haveria de ser complementado com disposições/procedimentos especiais que tratassem de processos envolvendo a defesa de direitos coletivos e difusos. Disposições referentes aos processos coletivos lato sensu, previstos, por exemplo, no Código de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.078/1990), na Ação Civil Pública (Lei n° 7.347/1985) e, mais recentemente no mandado de segurança (Lei n° 12.2019/2009), são exemplos expressivos desse movimento retificador tendente a buscar uma mais célere solução do direito material para um rol mais alargado de indivíduos. Por fim, há de se retomar o desenvolvimento de novos ritos fora do sistema do CPC/1973, sendo costurados os formatos dos juizados especiais, especialmente pelas Leis n° 9.099/95, 10.259/2001 e 12.153/2009, a partir da formação de um rito denominado sumaríssimo, que acabou por sepultar de vez o rito sumário previsto por Buzaid. O rito dos juizados especiais constitui-se em iter direcionado ao atendimento do jurisdicionado, propiciando rapidez no trâmite processual e eliminação de formalidades do processo comum (por exemplo, afastando o reexame necessário e a ação rescisória, bem como instituindo a igualdade de prazos). A instalação do processo eletrônico também veio nesse mesmo diapasão, concretizando o direito à duração razoável do processo, buscando acelerar a tramitação dos feitos, eliminando os prazos mortos e otimizando a tramitação regular das demandas, especialmente nos juizados especiais. A publicação da Emenda Constitucional nº 45/2004, que introduziu de maneira mais clara o conceito de razoável duração do processo no Brasil, a criação do CNJ, no mesmo período e, ainda, a publicação da Lei nº 11.419/2006, que dispõe sobre a informatização do processo judicial, são fundamentais para viabilizar o desenvolvimento e a implantação de sistemas de processo eletrônico, dentro dessa conjectura de busca pela efetividade da prestação jurisdicional. Na verdade, teóricos sobre o específico assunto entendem que o início da informatização processual brasileira se deu com a Lei nº 9.800/1999, Reformas múltiplas, como as reformas estruturais ocorridas em 2006, especialmente na execução de sentença. que permitiu o envio de peças processuais via fac simile, e a Lei nº 10.259/2001, que disciplinou a criação dos juizados federais e permitiu a utilização de sistemas de informática para envio de petições. A partir de então, foram criadas outras leis que sinalizavam o avanço da tecnologia nos tribunais. Leis essas que tratavam de assuntos como a certificação judicial e a coleta de prova de divergência por meio de site pela internet. Mesmo por isso, esperava-se mais do projeto do Novo CPC (desde a primeira versão em 2010, com o n° 166), o qual não avançou muito em alguns temas relevantes, como o processo coletivo e, especialmente, o processo eletrônico, deixando para a legislação ordinária específica regulamentar a questão. Seja como for, é necessário, e mesmo indispensável, identificar no CNJ um órgão administrativo importante dentro do Poder Judiciário para tratar de temas caros ao processo, à administração da justiça e à duração razoável dos processos, desde a sua criação pela Emenda Constitucional n° 45/2004 e instalação em meados do ano seguinte. Principal ponto da Reforma do Judiciário, instituída pela Emenda Constitucional nº 45, foi a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 14 de junho de 2005, que marcou o início de uma nova era para o Judiciário brasileiro. Se antes eram poucas as estatísticas existentes e raros os casos de punições por desvios funcionais dos magistrados, com a promulgação da Emenda Constitucional nº 45 e a instalação do CNJ, muitos foram os avanços alcançados pelo Poder Judiciário. Na época, a ausência de estatísticas nacionais confiáveis dificultava o estabelecimento e o monitoramento de ações nacionais voltadas para a melhoria da gestão do Poder Judiciário, como a criação de um planejamento estratégico e a instituição de metas aos tribunais e magistrados. Exatamente nesse período, da primeira década dos anos 2000, deu-se o início do desenvolvimento mais acentuado do processo eletrônico e a fixação de prazos pelo CNJ para mudança da plataforma física para a virtual de todos os processos em andamento. Nessa quadra, o processo judicial eletrônico pode ser definido como o processo cujo atos processuais são realizados por meio digital, através de programas próprios desenvolvidos nos sites dos tribunais, onde tudo é feito eletronicamente. A informatização do processo, através da digitalização dos autos, teve desde sempre como mote a maior celeridade e eficiência do processo civil, sendo a medida inovadora àquela época, uma tentativa de otimização dos feitos em todo o território nacional e redução dos seus custos. Segundo o relatório analítico propositivo do CNJ, os usuários que não gostam do processo eletrônico são principalmente magistrados e advogados mais antigos, que mesmo assim, assumem como importante uniformizar o tribunal, sendo estabelecido um sistema de transição que irá melhorar com o tempo. Processo Judicial Eletrônico (PJe). A partir da Lei nº 11.419 de 2006 e da Resolução 185 de 2013, a qual institui o Processo Judicial Eletrônico (PJe) como sistema de processamento de informações e prática de atos processuais e estabeleceu os parâmetros para sua implementação e funcionamento, os dados do CNJ dão conta de que avanços vem sendo observados em todas as esferas do Poder Judiciário (Justiça Estadual, Justiça Federal e Justiça do Trabalho, essencialmente as principais). O sistema está em amplo desenvolvimento, embora inexista programa definitivo adotado pelo CNJ que estabeleça padrão efetivo e também justo para o e-justice. Se da Lei nº 11.419/2006 já falamos bastante, é fundamental registrar que a Resolução nº 185/2013 deu a sua colaboração decisiva ao avanço do processo eletrônico no Brasil, no sentido de trazer maiores detalhes a respeito das possibilidades de funcionamento do PJe. Após, tivemos outras resoluções publicadas, por exemplo, a Resolução nº 281/2019, a qual altera a Resolução CNJ no 185, de 18 de dezembro de 2013, para instituir a opção de assinatura de documentos e registro do ato processual em meio eletrônico no sistema do PJe. Um olhar para o futuro Mais recentemente, com o empossamento do Ministro Fux como presidente do STF e do próprio CNJ, tivemos mais um passo no cenário de virtualização do processo com o lançamento do “juízo 100% digital”, em outubro de 2020. Assim, objetivando, mesmo que de maneira facultativa às partes, a realização de todos os atos processuais e até de reuniões entre os atores do processo pela via não presencial. Desse modo, diz o art. 1º da Resolução nº 345/2020 do Conselho Nacional de Justiçaque: “No âmbito do Juízo 100% Digital, todos os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e remoto por intermédio da rede mundial de computadores”. De uma maneira geral, percebe-se a vantagem do processo eletrônico quando consideramos o recorte por assunto, destacando-se nesses casos o ramo do direito previdenciário e administrativo, em que quase todos os casos, segundo o CNJ, encontram muito rapidamente uma decisão ou um despacho. Há, na verdade, uma indicação geral de celeridade expressivamente maior nos processos que correm pelo meio eletrônico. Vejamos! Média de 23,85 dias para o primeiro pronunciamento do juiz nos processos eletrônicos Média de 147,62 dias para o primeiro pronunciamento do juiz nos processos físicos Parece claro que o processo eletrônico ajudou decisivamente a concretizar um direito fundamental processual relevante: é possível afirmar que os processos que tramitam no meio virtual são mais céleres e geram menos custos, cumprindo melhor a orientação da duração razoável do processo. Deixemos claro que, embora o CNJ tivesse, já de longo prazo (especialmente período 2013-2018), o objetivo de instituir um programa amplo e geral para o processo eletrônico pátrio, viu-se constrangido a admitir algumas significativas exceções ao modelo, diante do sucesso entre os operadores do direito (advogados, inclusive) que se sucedeu, por exemplo, com o PROJUDI, o ESAJ e o EPROC – incorporados por diversos tribunais locais ou regionais. PROJUDI ESAJ EPROC Falando em EPROC, desenvolvido pelos técnicos vinculados ao TRF4, especialmente da parte dos operadores do direito que atuam na Justiça Federal, já foram levantadas críticas à falta de maior regulamentação, pelo CPC, do processo eletrônico. No espírito do novo códex, em que ainda é previsto capítulo de restauração de autos físicos, o processo eletrônico ainda parece ser exceção, o que vai de encontro à busca por uma gestão administrativa profissional, ágil e de qualidade. Sendo assim, o estudo deste relativamente novo ramo do direito (BARROS, 2009) e dos princípios informadores do processo nesse ambiente é de extrema importância na elaboração de uma pesquisa sobre o processo eletrônico no atual cenário do Poder Judiciário pátrio, a fim de que seja formada tese que proponha soluções para um sistema virtual equilibrado. A importância do estudo mostra-se mais evidente em se considerando que a implementação do processo eletrônico está, no estado da arte, como exposto, em pleno desenvolvimento, com avanços e retrocessos, em diferentes ordens. Reiteramos, nesse espaço, que já se vislumbram problemas na condução dos processos e compatibilização dos princípios da efetividade e segurança jurídica, deixando-se o devido processo legal e mesmo a previsibilidade do iter procedimental em segundo plano, o que compromete o resultado da prestação jurisdicional. Como exemplificação mais contundente, podemos mencionar os juizados especiais federais previdenciários, em que, a pretexto de garantir a efetividade, comezinhos princípios constitucionais, como o do contraditório e o do direito prioritário à prova, vêm sendo mitigados em significativa parte, mormente ao longo de tramitação da fase instrutória. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre o CNJ, indique a opção correta. A Trata-se de órgão de controle do Poder Judiciário, responsável pela transparência e administração apenas da Justiça Federal brasileira. Parabéns! A alternativa C está correta. O CNJ surgiu exatamente no período de desenvolvimento inicial do processo eletrônico, com a EC nº 45/2004 e a Lei nº 11.419/2006, tendo, portanto, atuação efetiva ainda antes do início de vigência do CPC/2015. Questão 2 O CNJ de longo prazo (especialmente no período de 2013-2018) fixou o objetivo de instituir um programa amplo e geral para o processo eletrônico pátrio, embora tenha se constrangido a admitir algumas significativas exceções ao modelo diante do sucesso entre os operadores do Direito (advogados, inclusive) que se sucedeu com outros modelos incorporados por diversos tribunais locais ou regionais. O texto faz menção a qual programa amplo e geral do CNJ? B Não tomou partido da construção do processo eletrônico no Brasil. C Foi criado ainda na vigência do CPC/1973, quando se iniciou a sua atuação. D O CNJ é composto exclusivamente por magistrados oriundos da Justiça Federal. E Segundo o relatório analítico propositivo do CNJ, os usuários que não gostam do processo eletrônico são principalmente magistrados e advogados mais novos. A PROJUDI B ESAJ Parabéns! A alternativa D está correta. Os demais programas foram colocados no texto como modelos incorporados por diversos tribunais locais ou regionais e vêm sendo usados atualmente, não obstante a campanha de divulgação e padronização levada pelo CNJ para implementação do PJe. 3 - Comunicação eletrônica dos atos processuais Ao �nal deste módulo, você será capaz de analisar a participação dos órgãos de controle e disciplina na conformação do novo modelo processual virtual no Brasil. Ligando os pontos C EPROC D PJe E Sistemas próprios dos tribunais Em um momento de múltiplos desafios provocados pela pandemia da covid-19, a realização de sessões de julgamento por videoconferência representa a melhor experiência que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) viveu nos últimos tempos, confirmando a importância da modernização tecnológica dos tribunais e abrindo a oportunidade para a construção de novos modelos de prestação da justiça. A afirmação foi feita pelo presidente da corte, ministro João Otávio de Noronha, ao proferir palestra na conferência magna que encerrou o I Congresso Digital Covid-19: Repercussões Jurídicas e Sociais da Pandemia, promovido pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Em um processo judicial, no qual as partes residem na mesma comarca, o juiz designou audiência de conciliação, por meio de videoconferência, para que as partes pudessem tentar a realização de uma composição amigável do processo. Nada obstante o fato de o juiz ter designado a audiência, apenas a parte autora fora intimada da decisão judicial que designou a data da referida audiência e, por conseguinte, apenas esta tinha o link de acesso à audiência. Chegado o dia para a audiência de conciliação e mediação, ao notar o não comparecimento da parte ré à audiência, o juiz arbitrou multa à parte ré, visto que o CPC dispõe que “o não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado” (§8 do art. 334 do CPC). Não somente, convolou o ato em audiência de instrução e julgamento, tendo ouvido duas testemunhas da parte autora. Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos ligar esses pontos? Questão 1 Após a leitura do case, no qual o magistrado condena a parte ré ao pagamento de multa pelo não comparecimento ao processo, aponte a alternativa correta sobre a decisão do juiz. A O juiz está correto em sua decisão, eis que o CPC é expresso ao determinar a multa pelo não comparecimento à audiência de conciliação. Parabéns! A alternativa B está correta. Houve ofensa à garantia constitucional da ampla defesa na vertente da defesa técnica. Isso porque, privar o advogado que fora regulamente constituído pelo acusado de exercer a defesa técnica de seu cliente gera a nulidade do ato, uma vez que resta impossibilitado de participar da audiência Questão 2 Marque a alternativa correta acerca da audiência por videoconferência designada no caso em tela. B A decisão não está correta, pois o não comparecimento da parte não fora injustificado, visto que não recebera o link da audiência para sua participaçãoe, por conseguinte, tem-se a nulidade do ato. C O CPC permite apenas que os depoimentos das partes sejam realizados por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real. D A audiência por videoconferência só poderá ser designada no caso de as partes residirem em comarcas diferentes. E Não pode a parte ré alegar a nulidade do ato processual, eis que não houvera qualquer prejuízo à sua defesa. A A audiência de conciliação não poderia ser designada na modalidade virtual, visto ser imprescindível o encontro presencial entre as partes. B O Código de Processo Civil permite apenas aplicação de multa ao não comparecimento da Parabéns! A alternativa C está correta. O Código de Processo Civil, em seu §3º do art. 236, autoriza a prática de atos processuais por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real. Questão 3 Levando em consideração o sopesamento entre os benefícios da tecnologia no processo judicial e a importância da troca de experiência humana nos atos processuais presenciais, disserte sobre a possibilidade da audiência por videoconferência. Digite sua resposta Chave de resposta Conquanto para alguns atos processuais seja, de fato, necessário realizar-se fora do ambiente virtual, isto é, presencialmente, tal ponto não afeta a audiência de parte autora. C O Código de Processo Civil autoriza expressamente a prática de atos processuais por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real. D O Código de Processo Civil não permite que os atos processuais sejam de atos processuais por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real. E Não era necessária a intimação das partes para o comparecimento na audiência. conciliação por meio de videoconferência, posto que a intervenção humana é preservada e valorizada no ambiente virtual. Os atos processuais no processo judicial eletrônico O estudo dos atos processuais A partir das premissas estudadas, entendemos que deva ser examinada com mais cuidado a forma dos atos processuais no processo judicial eletrônico, ou seja, deva ser feito exame minudente e responsável da forma pela qual principalmente as partes e o juiz se manifestam ao longo de todo o processo. O estudo dos atos processuais é sempre relevante, já que examina a disciplina do andamento regular da demanda, ao longo do qual serão exercidas inúmeras atividades pelas partes, em conjunto com o Estado-juiz. A temática dos atos processuais, a partir do CPC/2015, apresentou reais alterações, especialmente no que diz respeito aos prazos e à redução da técnica da preclusão. Com relação ao fenômeno dos prazos, é inegável que se trata de garantia importante a sua contagem em dias úteis, com encaminhamento ainda da maioria dos prazos serem fixados em 15 dias, o que autoriza formalização de ato processual de maior qualidade, melhorando a participação das partes ao longo de todo o iter procedimental, o que também se garante mediante a técnica da flexibilização procedimental, abrindo-se às partes a possibilidade de formatarem calendário processual mais maleável. Isso determina, consequentemente, a redução dos efeitos da preclusão no processo (RUBIN, 2014). Pela disciplina legal vigente, os atos processuais independem de forma determinada, salvo se a lei expressamente a exigir, e devem ser públicos, salvo se for deferida a tramitação em segredo de justiça. Sendo o processo público, físico ou eletrônico, deve ser autorizada a consulta por qualquer interessado, notadamente o advogado alheio ao feito (sem procuração), mas que manifesta interesse em examinar o teor da demanda ou de determinada peça em particular. Ainda quanto à forma do ato processual, mesmo que seja praticado com violação da forma estabelecida em lei, pode ele ser considerado válido se praticado de outro modo, alcançando a sua finalidade – como se sucede, por exemplo, com relação ao fenômeno de citação do réu. Não tendo o ato, no entanto, alcançado a sua finalidade, ele deverá ser anulado, considerando-se de nenhum efeito todos os subsequentes que dele dependam (art. 281). Falando em citação, é necessário salientar que o sistema processual civil é extremamente simples no que concerne à comunicação dos atos processuais, a qual pode se dar via: Citação No primeiro contato da parte com a demanda. Intimação Nos demais momentos em que a parte é notificada pelo juízo. Cabe ainda o acréscimo de que, pelo Novo CPC, as citações, mesmo em execução de título extrajudicial, devem ser feitas prioritariamente por intermédio de Carta AR – com aviso de recebimento (art. 249); já as intimações realizam-se, sempre que possível, por meio eletrônico, pela publicação dos atos no órgão oficial (art. 272). Além disso, o sistema prevê um meio de comunicação entre juízos capaz de permitir que um órgão jurisdicional solicite a outro que pratique determinado ato processual, o que se dá por intermédio de cartas. Os atos processuais das partes consistem em declarações unilaterais (peça na defesa do seu específico interesse, como na manifestação sobre a juntada de documento da parte contrária) ou bilaterais (peça em que se manifesta comunhão de interesses, como na transação); já os pronunciamentos do juiz se classificam em: Despachos De mero impulsionamento, não suscetível de recurso. A sentença é o ato processual de maior envergadura do juízo de primeiro grau, ou juízo a quo, devendo ter completa fundamentação, conforme dicção dos relevantíssimos arts. 11 c/c 489, o que também se espera das decisões proferidas pelas cortes superiores, tribunal ad quem, as quais proferem, por regra, decisões colegiadas denominadas de acórdãos (art. 204). A bem da verdade, também se espera fundamentação adequada das decisões judiciais de primeiro grau em cognição sumária, quando da análise de concessão de tutela provisória, cautelar ou satisfativa, diante da importância de tal decisão embrionária para a sequência do feito. Lembrando que o CPC de 2015, ao lado da tutela de urgência, desenvolve nesse cenário a figura da tutela de evidência (art. 311). Embora de maneira ainda tímida, o CPC de 2015 inova com relação à prática eletrônica dos atos processuais, deixando de estabelecer uma lógica mais ampla, vinculativa dos sistemas virtuais já existentes na Justiça Federal, Estadual e mesmo na Justiça do Trabalho. Seja como for, resta disciplinado que os sistemas de automação processual respeitarão a publicidade dos atos, o acesso e a participação das partes e de seus procuradores, inclusive nas audiências e sessões de julgamento, observadas as garantias da disponibilidade, independência da plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos sistemas, serviços, dados e informações que o Poder Judiciário administre no exercício de suas funções (art. 194). Pilhas de processos físicos. Decisões interlocutórias Sujeitas ao agravo de instrumento, nas hipóteses do art. 1015. Sentença Ato �nal da jurisdição de primeiro grau, em que resolvida a contenda com ou sem resolução do mérito, conforme, respectivamente, arts. 487 e 485. Inegável que há uma tendência natural de extinção dos processos físicos (embora o CPC ainda preveja um capítulo sobre “restauração de autos”), diante das vantagens do processo eletrônico, cabendo ser destacado que (GAJARDONI; DELLORE, ROQUE; OLIVEIRA JR., 2015): Extingue as práticas humanas desnecessárias no ambiente virtual, tais como a formação física do processo, juntada de petições e decisões. Evita a formação de instrumento para o recurso de agravo. Repassa ao sistema a realização da contagem e certi�cação de prazos, reduzindo a incidência de erros. Otimiza os trabalhos no processo judicial. Automatiza a sucessão de fases processuais sem a intervenção humana. Além de todosesses comandos a favor da agilidade e funcionalidade do sistema eletrônico, estima-se que representa o e-justice economia para a gestão pública e sustentabilidade, pois dispensa o uso de papel e insumos para a impressão. No Direito comparado, também vem sendo destacada a própria questão do tempo e lugar dos atos processuais, já que o peticionamento eletrônico pode ser feito 24 horas por dia de qualquer local, reduzindo problemas de distâncias geográficas (KAWANO, 2012). Ainda, revela-se a necessidade de se buscar transparência no Direito Processual, o que seria incrementado no e-justice com mecanismos que propiciam maior facilidade de acesso e manuseio de documentos e processos. No entanto, o processo virtual deve ser espaço de ampla participação ativa das partes, especialmente no que toca aos atos processuais unilaterais. A intervenção humana, em alguma medida substancial, precisa ser preservada e valorizada no ambiente virtual. Como não há mais espaço sequer para a “carga dos autos” (como se sucedia com os processos físicos), há de ser observado o período adequado de manifestação das partes (prazo regular – art. 218) como também há de ser cuidado pelo magistrado com relação à eventual requerimento de dilação de prazo na fase instrutória (art. 139, VI) ou encaminhamento pelas partes de ato processual bilateral tendente a produzir acordo de procedimento (art. 191) – todos esses espaços mais amplos de relativização do fenômeno preclusivo. Por outro lado, há de ser levar a sério a exigência de contraditório prévio, a realização de audiências presenciais para melhor delimitação do objeto do processo e da prova (arts. 357 e 358) e a fundamentação das decisões judiciais a partir necessariamente do próprio contraditório perfectibilizado (arts. 10 e 11) – em resguardo à segurança jurídica e à conformação do processo eletrônico justo. Possibilita a execução dos atos processuais de forma paralela por várias pessoas. Nossa maior preocupação envolve repensar a teoria dos atos processuais no ambiente virtual de processos com carga fática significativa. Isso de forma que, em processo com matéria significativa de direito (como o tributário), haja menor dificuldade de implementação do uso da tecnologia. Presidente do Supremo apresenta ferramentas de inteligência artificial em Londres. Veja-se que, em questões não atinentes ao mérito, a tecnologia, por meio da inteligência artificial, já vem sendo utilizada em alguns tribunais superiores, como é o caso do sistema de inteligência artificial Victor, utilizado no STF por ocasião do juízo de admissibilidade dos recursos extraordinários. De fato, o Supremo Tribunal Federal possui ferramenta de inteligência artificial para agilizar a tramitação de processos na corte. O sistema chama-se Victor em homenagem a Victor Nunes Leal, ministro do STF entre 1960 e 1969, e principal responsável pela sistematização da jurisprudência da corte em súmulas. O projeto tem funções como: Ocorre que, nas demandas fáticas (sociais, por exemplo), dentro das instâncias ordinárias, faz-se necessária a participação direta das partes e procuradores para convencimento do Estado-juiz a respeito da procedência de suas alegações, a determinar uma mais intensa atividade processual ao longo de todo o iter. Assim, devendo ser examinados cada um dos “eventos” do processo (como usualmente denominada a peça processual encaminhada ao processo eletrônico) como ato que precisa de cuidadosa intervenção humana (pelo Estado- Ler todos os recursos extraordinários que chegam ao STF. Identi�car quais recursos estão vinculados aos temas de repercussão geral, facilitando a aplicação de precedentes judiciais. juiz), a ponto de ser viável uma mudança na sequência tradicional que o sistema eletrônico encaminharia. Nesse cenário, a utilização pelas partes de técnicas processuais abertas e atípicas (como as previstas nos arts. 190 e 191) e o exame minudente pelo órgão jurisdicional dessas hipóteses (a partir de todos os poderes encaminhados, dentre outros dispositivos do códex, pelo art. 139) se estabelecem como um cenário absolutamente distinto, levando-se em conta as peculiaridades do caso concreto sem que o sistema eletrônico acabe por impulsionar a demanda em ritmo fordista e automático. Há aqui espaço para ser identificado, portanto, cenário processual em que, mesmo em um ambiente virtual em que as partes e os procuradores não possuem qualquer ingerência, deve possuir amplo protagonismo na movimentação do iter e direcionamento para provar as suas alegações de fato. Isso exige exame cuidadoso da questão pelo Estado-juiz, a ponto de autorizar essa ampla movimentação das partes e depois legitimar tais movimentos a partir de decisão final e de mérito que resgate todo o contraditório havido. Defendemos aqui em outros termos exigência de ser repensada a questão a respeito da legitimidade do procedimento e do processo no ambiente virtual, a partir da clássica doutrina. Veremos adiante um exemplo importante de cenário de crise na aplicação do processo judicial eletrônico. Audiências por videoconferência Confira agora as principais regras relativas à realização de audiências por videoconferência. Sistema de videoconferência para oitiva de testemunha no ambiente virtual Embora autorizado pelo próprio Código de Processo Civil (art. 453, par. 1°), inclusive podendo ser usado para colheita da prova oral em substituição à carta precatória, discute-se a ausência do contato mais próximo do juiz da causa com o material probatório que pode ser decisivo para o julgamento de uma demanda com carga fática substanciosa no âmbito do procedimento comum. Isso sem falar na possibilidade de o magistrado negar a própria oitiva, proferindo decisão precipitada no ambiente virtual sem qualquer contato direto com as partes e procuradores. No direito estrangeiro, mesmo aqueles que defendem a utilização dos benefícios da tecnologia, ainda mais com a concordância das partes litigantes no processo, adverte que o uso de videoconferências, apesar de igualar as distâncias geográficas, aumenta a distância do magistrado com o elemento de prova, como uma testemunha por exemplo (FISCHER, 2012). Isso porque, o Processo Civil é um instrumento social para resolver problemas entre pessoas. Não se pode negar, assim, que os atos processuais, como a audiência de instrução e julgamento, por exemplo, possui forte influência de elementos humanos (a expressão de uma testemunha; a possibilidade de se fazer indagações em momento real, sem ruídos ocasionados por eventuais problemas técnicos no Sistema etc.). Tal distanciamento, aludido acima, pode acabar prejudicando a sensibilidade do magistrado quanto a essas minúcias afetas ao comportamento humano. Trata-se aqui de cenário em que a presença humana e física do julgador na condução do processo, que irá ulteriormente decidir, pode fazer a diferença, não sendo superada, no nosso entender, a importância da identidade física do julgador da causa, ao menos nas demandas com carga fática-probatória significativa. Confira o elemento a seguir: Não exame de requerimento da parte litigante para aprofundamento da instrução no processo eletrônico dos juizados federais previdenciários. Esse fenômeno vem acontecendo em número ilimitado de casos, em que o sistema do processo virtual projeta o encaminhamento dos autos à conclusão para sentença tão logo seja dada vista sumária às partes sobre a prova técnica produzida (RUBIN, 2014). Nota-se aqui a ausência completa de intervenção humana no processo, no caso do Estado-juiz, não sendo perfectibilizado efetivo, mas tão só formal, contraditório – o que fere o direito das partes ao processo justo. Eis aqui local em que se visualiza clara formação de demanda em ritmo fordista e automático, em processo com carga fática significativa que exigiria intervenção maior Estado-juiz e protagonismo maior das partes litigantes na tentativa de convencimentoeficaz do julgador na tomada de posição final. O Direito Previdenciário carece de um procedimento que proporcione conhecimento da real situação e condições de labor do segurado, sobretudo nos juizados especiais federais, onde a realidade costuma passar ao largo em razão da celeridade, da redução das oportunidades de manifestação e produção de provas e da falta de diálogo judicial, sem falar nas dificuldades de ordem prática que comprometem a prestação jurisdicional. Como bem advertem outras abalizadas vozes no Direito Processual Previdenciário, o direito à prova é fundamental também no rito sumaríssimo, somente podendo ser restringido por lei e na medida em que essa restrição seja proporcional. Por outro lado, a flexibilização do procedimento é condizente com um sistema democrático de direito em que as partes podem colaborar para a solução das demandas e também encontra guarida nos princípios dos juizados especiais. Portanto, não se pode correr o risco de o processo virtual acabar por trazer qualquer prejuízo à segurança jurídica, especialmente atrelado aqui à qualidade da prestação jurisdicional, em que a presença humana dos envolvidos seja importante para o julgamento do processo, ainda mais quando há requerimento expresso da parte (e do seu procurador) nesse sentido, o que pode sim representar cerceamento de defesa, a comprometer a legitimidade da decisão final de mérito a ser pronunciada pelo Estado- juiz. Assim, dos exemplos supra, extrai-se que uma concepção processo- constitucional de segurança jurídica, no sentido de certeza maior do direito a ser construído, coloca-se, no âmbito cultural do processo justo, ao encontro do desejado perfil ativo das partes em colaboração com o Estado-juiz para investigação do material fático-probatório – direito de construção e poder de interferência das partes no desenvolvimento do processo. Seria direito fundamental das partes atuar para dirimir incertezas expostas ao longo do procedimento, desde a fase postulatória até a fase instrutória, o que exige protagonismo e suficiente tempo de manifestação aos litigantes em permanente e amplo contraditório ao longo de todo o iter. A presença humana, das partes envolvidas na relação jurídico processual, não é fator que possa ser ignorado no ambiente virtual, como já reconhecido na doutrina alienígena. Portanto, a lógica de um “processo justo, humano e conduzido por uma corte independente” (EMRK, art. 6, Sec. 1) precisa ser adaptada ao processo eletrônico, sob pena de convalidarmos sistema robótico, autômato, que se converte em mero procedimento eletrônico. Tem-se forjada, a partir daí, a tese de que são diferenciados os atos processuais no processo eletrônico em demandas fáticas substanciosas, com respeito às peculiaridades do caso concreto – ainda sob a perspectiva dos direitos fundamentais das partes ao processo justo. E não sob o prisma da organização do Estado em matéria de política judiciária, onde são ofertados não mais do que garantias processuais formais-racionalistas, em um ambiente virtual padronizado que favorece a efetividade/celeridade sem a necessária relevância para a participação humana das partes envolvidas. Resumindo Com base nesse novo modelo teórico, presta-se a repensar o início do funcionamento do processo eletrônico em maior escala no Brasil, em busca de um reequilíbrio de forças e maior ingerência das partes na tomada de posições tempestivas aptas a eficazmente convencer o Estado-juiz nas instâncias ordinárias, a respeito de alegações de direito e especialmente de fato, em um modelo publicístico, democrático e justo de processo. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre o sistema de videoconferência para oitiva de testemunhas no ambiente virtual, pode dizer que A é procedimento autorizado pelo próprio códex, conforme art. 453, par. 1° do CPC. Parabéns! A alternativa E está correta. A substituição do sistema presencial pelo sistema de vídeo pode funcionar, mas não é uma realidade que esteja fora da crítica, tendo em vista fatores positivos delineados na presença humana e física do juiz na condução do ato oral de aprofundamento da instrução. Questão 2 A respeito do que o texto denominou de “Não exame de requerimento da parte litigante para aprofundamento da instrução no processo eletrônico dos juizados federais previdenciários”, há realce de que, embora esse princípio não esteja no cerne de formação, inclusive legal, do rito sumaríssimo dos juizados especiais, há necessidade evidente de incremento e espaço, sob pena de infringência da disciplina processo-constitucional. Estamos falando do B teve amplo aumento da modalidade em razão do fenômeno da pandemia. C o contato presencial dos atores envolvidos é fator importante a ser examinado neste contexto de produção da prova oral. D trata-se aqui de cenário em que a presença humana e física do julgador na condução do processo, que irá ulteriormente decidir, pode fazer a diferença. E a substituição do sistema presencial pelo sistema de videoconferência é uma realidade necessária, inexistindo problemas processuais a serem explorados. A princípio da publicidade. B princípio da redução de formas. Parabéns! A alternativa D está correta. De acordo com o texto, não se pode correr o risco de o processo virtual trazer qualquer prejuízo à segurança jurídica, especialmente atrelado aqui à qualidade da prestação jurisdicional, em que a presença humana dos envolvidos seja importante para o julgamento do processo, ainda mais quando há requerimento expresso da parte (e do seu procurador) nesse sentido – o que pode sim representar cerceamento de defesa, a comprometer a legitimidade da decisão final de mérito. Considerações �nais O processo é cultura e, como tal, acompanha os avanços da sociedade e da sua forma de organização, sendo da pós-modernidade a busca por maior tecnologia, que traga conforto e rapidez nos movimentos da coletividade – e por aí se percebe que, naturalmente, tal cenário de desenvolvimento histórico chegaria ao processo. Comprovamos ao longo do trabalho a inexistência de uma dogmática processual que trate das questões próprias do processo eletrônico no atual estado da arte, sendo indevido se aplicar a disciplina histórica do processo físico, como forjado o CPC/1973 e mesmo o CPC/2015 (com manutenção de capítulo de restauração de autos), para tratar de situações novas trazidas pelo processo que corre em plataforma eletrônica – com muitas vantagens, mas também com novos problemas aos operadores do direito. Para além da atualidade do movimento de construção do processo eletrônico no Brasil, sistematizado de maneira mais orgânica pelo CNJ, a partir de sua criação em 2004 (Emenda Constitucional n° 45), tivemos C princípio da primazia de mérito. D princípio da segurança jurídica. E princípio da efetividade. um movimento anômalo de seu impulsionamento a partir da pandemia mundial que assustou e transformou o mundo em 2020, exigindo o distanciamento social e aprofundando a necessidade de formatação dos atos processuais pela via não presencial. O processo civil, após o desenvolvimento do processo eletrônico e depois da pandemia de coronavírus, já não é mais o mesmo, sendo necessário que tratemos, com cada vez mais cuidado, as influências da virtualização e da tecnologia nas causas processuais que chegam ao Poder Judiciário. A crítica lançada a respeito de uma preocupação do sistema com o elemento qualitativo realmente é bastante significativa, sendo evidente que o processo eletrônico projeta inúmeras vantagens, a maioria delas ligada à efetividade processual (como o fim dos prazos mortos e uma nova sistemática de gerenciamento de fluxo de processos). No entanto, pouco ou nada vem sendo dito, especialmente pelos órgãos oficiais a respeito da necessidade de construção de um processo em que a segurança jurídica (projetando a qualidade da prestação jurisdicional)assuma realmente papel primário no sistema adjetivo, independentemente se estamos tratando do rito comum (do CPC/2015) ou do rito sumaríssimo (dos juizados especiais, regulamentado em legislações especiais). Podcast Ouça agora as principais regras da Lei nº 11.419/2006 (Lei do Processo Eletrônico). Explore + Confira as indicações de leitura que separamos especialmente para você! Processo eletrônico, garantias constitucionais do processo e realidade digital do Brasil, de Adriano Farias Puerari e outros autores. Tecnologia, resolução de conflitos e o futuro da competência territorial, de Marco Antônio Rodrigues. Lei n° 13.876/2019: alterações na competência delegada em matéria previdenciária, de Marco Aurélio Serau Jr. e outros autores. Referências BARROS, M. A. de. Arquitetura preambular do processo judicial eletrônico. Publicado em: 2009. Consultado na internet em: 10 jun. 2022. CALMON, P. The future of the traditional civil procedure. Eletronic Technology and civil procedure: new paths to justice from around the world. New York/London: Springer, 2012. FISCHER, N. Electronification of civil litigation and civil justice – the future of the traditional civil procedure facing the electronification. Eletronic Technology and civil procedure: new paths to justice from around the world. New York/London: Springer, 2012. KAWANO, M. 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O Juízo 100% Digital faz parte de uma nova Justiça, que abre fronteiras, traz celeridade e eficiência. Publicado em: ago. 2021. Consultado na internet em: 10 jun. 2022. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material javascript:CriaPDF() O que você achou do conteúdo? Relatar problema