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A lei do processo eletrônico

Material sobre a lei do processo eletrônico que aborda a transição do processo físico ao eletrônico, aplicação de princípios processuais ao meio digital e comunicação eletrônica; indica legislação para estudo, traz estudo de caso (colisão João x José) e questão de prova.

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A lei do processo eletrônico
Prof. Fernando Rubin
Descrição
Aspectos da lei do processo eletrônico e a transição dos processos
físicos para os processos virtuais no Brasil.
Propósito
Cada vez mais, torna-se imprescindível o reexame dogmático dos
comandos e princípios processuais face à realidade cibernética e
transformações por ela introduzidas no Direito, seja para atuação prática
seja para conhecimento teórico.
Preparação
Antes de iniciar o estudo, tenha em mãos o Código de Processo Civil, o
Código de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.078/1990), a Lei da Ação
Civil Pública (Lei n° 7.347/1985), a Lei do Mandado de Segurança (Lei n°
12.2019/2009) e, finalmente, a Lei nº 11.419/2006.
Objetivos
Módulo 1
Do processo físico ao processo
eletrônico
Reconhecer a transição dos autos físicos aos eletrônicos no âmbito
processual e seus impactos.
Módulo 2
O processo eletrônico                      
Aplicar os princípios processuais clássicos à nova realidade
cibernética.
Módulo 3
Comunicação eletrônica dos atos
processuais
Analisar a participação dos órgãos de controle e disciplina na
conformação do novo modelo processual virtual no Brasil.
Introdução
O presente conteúdo pretende resgatar o atual estado da arte
processual, em um cenário de transição do processo físico para o
processo eletrônico, discutindo-o criticamente à luz do direito
fundamental das partes litigantes ao processo justo. Defende-se

que a segurança jurídica, para além da mera previsibilidade, atue
como elemento decisivo para um processo qualificado. Salienta-
se a necessidade de ser construído modelo teórico-dogmático de
aplicação das normas de processo nessa nova plataforma. A
aludida transição não é tão simples e natural, como para alguns
pode parecer.
Nesse novo contexto, é preciso impedir que as demandas sejam
tratadas em processos que assumam a forma de um frenético
modelo fordista. Impõe-se atentar, da mesma forma, para o risco
de que os direitos das partes sejam colocados à deriva em meio
à introdução de mecanismos tecnológicos, como a inteligência
artificial.
1 - Do processo físico ao processo eletrônico
Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer a transição dos
autos físicos aos eletrônicos no âmbito processual e seus impactos.
Ligando os pontos
É por demais consabido que, na sociedade contemporânea – a
chamada sociedade da informação –, o Poder Judiciário sofreu
influências diretas destas transformações e, por conseguinte, exsurgiu a
necessidade de haver uma análise cautelosa sobre o que se conhece
por garantir direitos e princípios constitucionais do processo. Itens
técnicos e maculados de vício advindos da cibercultura para o meio
jurídico terminam por serem considerados estranhos ao ordenamento,
fazendo com que haja uma desestabilização a partir do momento em
que o sistema jurídico já não tem como abranger todos os fatos e as
possibilidades existentes naquele novo contexto.
Assim, baseando-se em conceitos tradicionais, bem como no panorama
atual quanto ao sistema oferecido e nos riscos técnicos existentes, é
possível dizer que o processo judicial eletrônico, na forma em que se
encontra hoje, não traduz a segurança jurídica esperada pelo
ordenamento jurídico brasileiro.
Imagine que João, após ter tido o seu carro colidido pelo condutor de
outro veículo (José), ingressou com uma ação judicial para buscar a
reparação civil dos danos sofridos. No estado de residência de João,
Rio de Janeiro, os processos encontram-se totalmente digitalizados.
Além disso, por causa da pandemia da covid-19, as audiências e os atos
processuais passaram a ser realizados prioritariamente por meio
eletrônico com uso de videoconferência.
Citado para a ação judicial, José contesta a ação e alega que a culpa do
acidente se deu pela imprudência de João, que, intimado para
apresentar provas, no prazo de cinco dias, informou que não teria mais
provas para produzir. José, por sua vez, peticionou informando que tinha
provas a produzir, nomeadamente prova oral de uma testemunha que
teria presenciado toda a dinâmica do acidente. Conquanto tenha
peticionado nesse sentido, o magistrado indeferiu a petição de José,
porque já havia passado o prazo para manifestação publicado no Diário
da Justiça (DJe) e, por conseguinte, julgou antecipadamente a lide.
José, procura você, que está advogando, para entender se a decisão do
magistrado fora correta, uma vez que houvera a duplicidade de
intimações eletrônicas, mais detidamente, as intimações ocorridas no
Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal Eletrônico.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos
ligar esses pontos?
Questão 1
(UNESC - 2022 - Prefeitura de Laguna - SC - Procurador Municipal).
De acordo com a Lei nº 13.105/2015, em relação à prática
eletrônica de atos processuais, assinale a alternativa correta.
Os sistemas de automação processual respeitarão a
publicidade dos atos, o acesso e a participação das
Parabéns! A alternativa A está correta.
Os sistemas de automação processual respeitarão a publicidade
dos atos, o acesso e a participação das partes e de seus
procuradores, inclusive nas audiências e sessões de julgamento,
observadas as garantias da disponibilidade, independência da
plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos
A
partes e de seus procuradores, inclusive nas
audiências e sessões de julgamento, observadas as
garantias de disponibilidade, independência da
plataforma computacional, acessibilidade e
interoperabilidade dos sistemas, serviços, dados e
informações que o Poder Judiciário administre no
exercício de suas funções.
B
O registro de ato processual eletrônico deverá ser
feito em padrões fechados, que atenderão aos
requisitos de autenticidade, integridade,
temporalidade, repúdio, conservação e, em todos os
casos, confidencialidade, observada a infraestrutura
de chaves públicas unificada nacionalmente.
C
Os tribunais divulgarão as informações constantes
de seu sistema de automação em página própria na
rede mundial de computadores, gozando o sigilo de
presunção de veracidade e confiabilidade.
D
As unidades do Poder Judiciário poderão assegurar
às pessoas com deficiência acessibilidade aos seus
sítios na rede mundial de computadores, ao meio
eletrônico de prática de atos judiciais, à
comunicação eletrônica dos atos processuais e à
assinatura eletrônica.
E
As unidades do Poder Judiciário deverão manter
onerosamente, à disposição dos interessados,
equipamentos necessários à prática de atos
processuais e à consulta e ao acesso ao sistema e
aos documentos dele constantes.
sistemas, serviços, dados e informações que o Poder Judiciário
administre no exercício de suas funções, conforme art. 194 do CPC.
Questão 2
(VUNESP - 2021 - Prefeitura de Guarujá - SP - Procurador Jurídico).
A habilitação de advogado no processo eletrônico, conforme
entendimento atual do Superior Tribunal de Justiça,
Parabéns! A alternativa E está correta.
Nos processos judiciais eletrônicos, a intimação dos atos
processuais se aperfeiçoa com a consulta eletrônica realizada pela
parte, que deve ocorrer em até dez dias corridos, contados a partir
da data de envio da comunicação. Essa previsão se aplica inclusive
às entidades que gozam da prerrogativa de notificação pessoal, tal
A
gera a presunção de ciência de todos os atos
processuais, publicados e não publicados, cujo
prazo começa a correr da habilitação.
B
gera a presunção de ciência de todos os atos
processuais já publicados, recomeçando a correr o
prazo da habitação, desprezando-se a data da
publicação.
C
gera a presunção de ciência de todos os atos
processuais não publicados, começando a correr o
prazo da habilitação, o que dispensa futura
publicação.
D
deve ser equiparada à antiga carga física dos autos,
razão pela qual todos os prazos começam a correr
após cinco dias da habilitação.
E
gera a presunção de ciência de todos os atos
processuais que foremefetivamente acessados
pelo advogado após este clicar em seu conteúdo.
como a Defensoria Pública. Caso a consulta não ocorra dentro do
prazo de dez dias corridos, será considerada intimada a parte,
automaticamente, ao término do prazo.
Questão 3
Veja que a controvérsia cinge-se a aferir o termo inicial de
contagem dos prazos processuais quando houver duplicidade
das intimações eletrônicas previstas na Lei nº 11.419/2006 (Lei
do Processo Eletrônico), mais especificamente, as intimações
ocorridas no Diário da Justiça Eletrônico (DJe) e no Portal
Eletrônico. Tendo como base os princípios fundamentais do
processo aplicados ao processo eletrônico, assim como as
recentes decisões do STJ, a decisão do magistrado foi correta?
Digite sua resposta
Chave de resposta
Não, porque a respeito desta modalidade de notificação dos
atos judiciais, estabelece o aludido art. 5º da Lei do
Processo Eletrônico que as intimações feitas por meio de
Portal Eletrônico dispensam a publicação no órgão oficial,
inclusive eletrônico.
Dito isso e partindo-se da premissa de que, diante de
procedimento do próprio Poder Judiciário que cause dúvida,
como no caso de duplicidade de intimações válidas, não
pode a parte ser prejudicada – mormente, porque, em tais
circunstâncias, cria-se uma incerteza no tocante ao exato
termo inicial para contagem dos prazos processuais.
Considera-se que a melhor exegese é a que faz prevalecer a
intimação no Portal Eletrônico em detrimento da tradicional
intimação por Diário da Justiça, ainda que atualmente esta
também seja eletrônica.
Com efeito, levando-se em consideração os princípios da
boa-fé processual, da confiança e da não surpresa,
atinentes ao Direito Processual, deve a norma ser
interpretada da forma mais favorável à parte, a fim de se
evitar prejuízo na contagem dos prazos processuais.
Se a própria Lei do Processo Eletrônico criou essa forma de
intimação, dispensando qualquer outra, e tornou este
mecanismo hábil a promover, inclusive, as intimações
pessoais dos entes que possuem tal prerrogativa, não há
como afastar a conclusão de que esta regerá o prazo
naturalmente em relação ao advogado que esteja
cadastrado no sistema eletrônico. Há, pois, uma presunção
de validade, que leva a exigir do Poder Judiciário
comportamento condizente com os ditames legais e com a
boa-fé processual.
Desse modo, entende-se que sempre que a modalidade de
intimação pelo Portal Eletrônico (art. 5º da Lei n.
11.419/2006) for prevista e aplicável em determinado
Tribunal para os advogados devidamente cadastrados, deve
esta prevalecer sobre a tradicional intimação pelo DJe.
A necessidade de
preservação da segurança
jurídica processual
Segurança jurídica
processual e modernização
do Poder Judiciário
Confira agora a modernização do Poder Judiciário e da segurança
jurídica dentro do processo.

O sistema do processo escrito, em que foi sedimentado o nosso
sistema processual pátrio, já se encontra em boa parte relativizado nos
tempos atuais. Isso em decorrência da avassaladora implementação do
processo eletrônico, que ganha cada vez mais força e espaço, em um
movimento irremediável, que acompanha o avanço cultural e
tecnológico da nossa sociedade na pós-modernidade, ainda mais
efervescente em período contemporâneo (e já relativamente longo) de
pandemia e isolamento social.
Sendo o processo fruto da cultura, é inegável admitirmos que estamos
vivendo em um momento histórico bastante diferenciado, em um
cenário incrementado especialmente a partir de meados da década de
90, em que se identificam fundamentos sociais, econômicos, políticos e
ideológicos muito diferentes daquele tempo em que se forjou a cultura
do processo físico e que se estabeleceu a própria autonomia científica
do direito processual (CALMON, 2012).
Estudo profundo e cuidadoso desse fenômeno já justificaria. Embora já
exista na doutrina comparada o reconhecimento de que o movimento é
mundial, o debate teórico sobre a justiça eletrônica ainda é muito
incipiente (FISCHER, 2012).
Conselho da Justiça Federal (CNJ).
Ocorre, no entanto, que a forma como o processo eletrônico vem sendo
utilizado, sob a supervisão e ingerência direta no Brasil do Conselho da
Justiça Federal (CNJ), acaba por demonstrar a existência de acentuada
preocupação com a efetividade da prestação jurisdicional. Como
reflexo, acabam sendo relegados, a segundo plano, não raro, os direitos
fundamentais constitucionais ao processo justo e previsível, o que
estamos abarcando, no âmbito da segurança jurídica, em duas das
acepções mais firmes que a expressão pode compreender, quais sejam:
previsibilidade das regras do jogo e maior profundidade/qualidade da
instrução a ponto de ser proferida legítima decisão final (RUBIN, 2016).
Tal movimento, salvo melhor juízo, vai em boa medida de encontro aos
preceitos previstos no CPC, relacionados a um modelo de colaboração,
que incentiva o diálogo, impondo deveres de consulta, prevenção,
esclarecimento e auxílio ao magistrado.
Certo que o problema levantado nesse estudo se faz
presente diante do rito comum, mas é verificado até
em maior escala no rito sumaríssimo dos juizados
especiais.
Seja como for, todo e qualquer procedimento, dentro do ambiente
virtual, inclusive, e por mais sumário que seja, deve respeitar os
preceitos processo-constitucionais, compatíveis com modelo de
colaboração entre o Estado-juiz e as partes, aplicando-se ao menos
supletivamente aos juizados as disposições do Código de Processo Civil
vigente. O problema é, pois, importante no âmbito da Teoria Geral do
Processo, sendo que aos jurisdicionados importa, e são beneficiados
sempre que os princípios constitucionais, em especial, os positivados
no novo códex processual, acabam sendo aplicados com parcimônia,
sem descrédito demasiado de um deles.
Ao mesmo tempo em que a nova ferramenta do processo eletrônico
proporciona benefícios, como a celeridade na prestação jurisdicional,
deve também ser capaz de atender à exigência de segurança na prática
dos atos processuais. O efetivo controle em relação à obtenção de tais
resultados, em alguns casos, foge até da esfera puramente jurídica,
reclamando o conhecimento de outras áreas, sobretudo, da informática.
Nesse panorama, tanto os operadores do direito de uma maneira geral,
como as partes no caso concreto, deverão estar conscientes de que
uma mudança de paradigma, em decorrência da alteração da
plataforma escrita para a virtual, faz-se necessária. Da mesma forma, os
sistemas de informática terão de ser adaptados/supervisionados com o
intuito de garantir o amplo acesso à justiça e à preservação de direitos
fundamentais processuais.
O CPC (Lei n° 13.105/2015), em período histórico de transição dos
processos físicos para os processos virtuais, não tratou com
profundidade o problema do processo eletrônico, sendo necessários e
urgentes avanços nesse contexto, mesmo porque, adotado agora de
forma mais explícita, o modelo colaborativo (arts. 6° e 7°), aumenta as
oportunidades de participação das partes em posição paritária diante
do Estado-juiz.
Código de Processo Civil (CPC).
Isso faz com que a preocupação com a compatibilização dos aludidos
princípios processuais se faça desde logo imperativa, em busca de um
processo eficaz (art. 8°) e de acordo com os valores e as normas
fundamentais de índole processual estabelecidas na Lei Maior (art. 1°).
O problema, revela-se em como compatibilizar, no âmbito do processo
eletrônico, o atendimento às exigências constitucionais de efetividade
(celeridade) do processo e de segurança jurídica (qualidade da
prestação de jurisdição), tomando como premissa a lógica de evidente
incremento da efetividade e mesmo impessoalidade que o
procedimento virtual projeta.
Inclusive, com eventual prejuízo ao direito fundamental das partes ao
efetivo contraditório; à ampliação robusta da produção probatória a
partir de adequada intervenção humana do agente político do Estado
apto a conduzire decidir o processo; e à fundamentação completa das
decisões judiciais, mormente em demandas com carga fática
significativa.
Os benefícios e cuidados
com a modernização do
Poder Judiciário
A maioria das cortes já possui sistemas informatizados que permitem o
peticionamento eletrônico, a consulta sobre andamento processual
através do site do Tribunal, entre outros recursos. A novidade chegou
também às instâncias inferiores, havendo movimento mais lento no
Brasil tão somente na Justiça Estadual.
Seja como for, espera-se que a informatização do Poder Judiciário seja
mais complexa do que a simples disponibilização de peças processuais
às partes através da internet. Nesse sentido, a Lei nº 11.419/2006, que
regula a informatização do processo judicial, explicitou algumas
exigências:
 As partes e seus procuradores
poderão acessar os autos virtuais
a qualquer momento.
 As petições enviadas até às 24
horas do último dia de prazo
serão consideradas tempestivas.
Sendo assim, princípios aplicáveis ao processo, como a publicidade dos
atos processuais, a lealdade processual, a oralidade, a ampla defesa,
dentre outros, devem ser analisados cuidadosamente, quiçá
repensados. Parece inegável que a informatização do sistema
processual será benéfica; todavia, é necessário cautela, a fim de evitar
que a modernização do Poder Judiciário se torne um ambiente propício
para a violação de direitos fundamentais processuais historicamente
consagrados na esfera do Estado Democrático de Direito (RUBIN, 2021).
Nesse diapasão, a lógica de um “processo justo, humano e conduzido
por uma corte independente” é uma exigência da Convenção Europeia
de Direitos Humanos (EMRK, art. 6º, Sec. 1) e precisa ser adaptada ao
processo eletrônico, à medida especialmente que se faz necessária a
intervenção humana na condução do e-justice e mesmo a estruturação
dos princípios da ampla publicidade e oralidade, com o estímulo da
realização de audiências presenciais do Estado-juiz com as partes
litigantes.
Como exposto no cenário supra, é viável identificarmos que a
transformação do processo escrito para o eletrônico não deve criar uma
completa revolução na aplicação da dogmática processual e,
principalmente, dos princípios processuais. Em verdade, a modificação
do estado da arte no cenário processual – com o aperfeiçoamento de
um modelo – exige repensarmos os institutos, mas sem que haja
desconstrução em definitivo.
De todo modo, como reconhecido pela doutrina estrangeira, a crescente
utilização da tecnologia no mundo jurídico, especialmente no Processo
Civil, demanda repensar algumas mudanças sobre os fundamentos do
Processo Civil tradicional (KAWANO, 2012).
Há espaço para buscarmos um equilíbrio do processo eletrônico, com
participação enérgica e interessada dos integrantes da relação
processual, dentro de um modelo de colaboração. Modelo esse em que
os sistemas de informática estejam adaptados a dar movimentação no
iter procedimental com eficaz supervisão humana, cenário em que a
segurança jurídica, como forma de garantir a previsibilidade e,
principalmente, o respeito ao devido processo legal (a qualidade da
prestação jurisdicional), seja passível de concretização sem que as
 Os documentos enviados
digitalmente serão considerados,
em princípio, originais.
etapas procedimentais sejam ultrapassadas, no estilo de modelo
fordista.
Assim, gerando mero procedimento eletrônico
autômato, de decisão robótica, sem controle humano e
participação ativa, especialmente, do Estado-juiz. Esse
é um cenário preocupante e que já vem sendo
visualizado no processo virtual, em maior medida nos
juizados especiais federais.
Conforta a nossa posição as felizes palavras de Sérgio Gilberto Porto
(2018), ao bem identificar o início de uma verdadeira despersonalização
das demandas no âmbito do processo eletrônico, as quais passam a ser
emolduradas em situações predefinidas. Circunstância essa que afasta
o juiz da jurisdição material, com a qual está constitucionalmente
comprometido e, portanto, deve sim ao cidadão uma resposta
personalizada.
A linha de montagem industrial, segundo Porto (2018), traz consigo a
despersonalização da demanda (cenário ainda mais grave nos
processos com carga fática significativa, acentuaríamos nós), e, por
decorrência, uma severa desumanização do conflito de interesses.
Portanto, no atual cenário de desenvolvimento da tecnologia aplicada ao
processo no mundo, bem como no contemporâneo estágio de latente
transição dos processos físicos para os processos virtuais no Brasil, é
de se admitir a necessidade de um modelo teórico para os atos
processuais que exija intensa participação humana na tomada de
posições no processo, de ofício ou a requerimento. Modelo esse capaz
de garantir a segurança jurídica independentemente do procedimento
cível adotado, sob pena de completa desestruturação (nulidade) do ato
final (fase decisória), ao passo que não perfectibilizado procedimento
em contraditório nas anteriores etapas (fase postulatória, saneadora e
instrutória).
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
A respeito da transformação do processo judicial físico ao processo
judicial eletrônico, pode-se afirmar que
Parabéns! A alternativa D está correta.
O Novo CPC colocou-se em período ainda de amadurecimento do
processo eletrônico, representando um marco dessa transição dos
processos físicos para os processos virtuais.
Questão 2
Em relação ao tema processo eletrônico, é possível afirmar que
A
a Lei nº 13.015/2015 pode ser considerada o marco
mais importante para o início da implementação do
processo eletrônico no Brasil.
B
o CPC de 2015 foi elaborado já devidamente
aperfeiçoado ao sistema do processo eletrônico.
C
há muita discussão teórica sobre o processo
eletrônico e sobre artigos acadêmicos em todo o
mundo, não apenas no Brasil.
D
no período de transição do processo físico para os
processos eletrônicos, também acabou se
sucedendo a reforma do CPC anterior e a
construção do CPC de 2015.
E
a minoria das cortes já possui sistemas
informatizados que permitem o peticionamento
eletrônico.
A
o momento cultural do desenvolvimento do
processo eletrônico coincide com o incremento do
princípio processual da efetividade.
Parabéns! A alternativa D está correta.
Todo e qualquer procedimento, dentro do ambiente virtual, inclusive,
e, por mais sumário que seja, deve respeitar os preceitos do
processo constitucional, compatíveis com o modelo de colaboração
do Estado-juiz e as partes.
B
o processo eletrônico justo exige a leitura do
sistema processual à luz da Constituição Federal,
seus valores e princípios fundamentais.
C
a exigência de duração razoável do processo
coloca-se alinhada à lógica de formação do
processo eletrônico.
D
o procedimento comum pátrio, conforme
disciplinado em lei, é o único que deve respeitar os
preceitos processo-constitucionais, compatíveis
com modelo de colaboração entre o Estado-juiz e as
partes.
E
a mudança do sistema processual físico para o
sistema processual virtual é medida irremediável.
2 - O processo eletrônico
Ao �nal deste módulo, você será capaz de aplicar os princípios
processuais clássicos à nova realidade cibernética.
Ligando os pontos
O processo eletrônico trouxe uma transformação no processo civil que
possibilita a efetivação dos princípios fundamentais da celeridade e
efetividade. Por consequência, como afirma a corregedora da Justiça do
DF, desembargadora Carmelita Brasil, em uma entrevista ao TJDF:
”[...] na atualidade, a tecnologia está presente no convívio interpessoal,
por meio do uso das redes sociais, e-mail, aplicativos de conversa,
teletrabalho. Assim, no âmbito do Poder Judiciário, ao se compreender o
caráter irreversível e as vantagens trazidas por esses avanços e em
sintonia com os preceitos legais, tem-se caminhado cada vez mais em
direção à ampliação da oferta dos serviços digitais e remotos, com o
objetivode aproximar ainda mais o cidadão da instituição e garantir
maior celeridade, segurança e economia processual mediante o uso da
tecnologia, evitando os atrasos e os custos da prática de atos físicos ou
que exijam a presença das partes nos Fóruns” (TJDF, 2021, n. p.).
Nesta senda, a catapultar eficiência e celeridade, o CNJ criou o juízo
100% digital (Resolução nº 345, de 09 outubro de 2020), no qual todos
os atos processuais serão exclusivamente praticados por meio
eletrônico e remoto por intermédio da rede mundial de computadores.
Ante esta implementação no DF, temos o autor (Carlos) de uma ação de
cobrança em face de um prestador de serviço que não o executou,
embora tenha pago por este. Conquanto nem o autor nem o réu tenham
aceitado o fato de o processo ocorrer em um juízo 100% digital, o juiz
entendeu por seguir com o procedimento dessa forma, por acreditar ser
um procedimento obrigatório. No decorrer do processo, como a
produção de uma prova não poderia ser realizada de forma virtual, o juiz
a indeferiu, pois estava diante de um procedimento 100% on-line, sendo
que se tratava de prova fundamental para o julgamento do caso.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos
ligar esses pontos?
Questão 1
Embora as partes processuais não tenham optado pela utilização
do juízo 100% digital, o juiz determinou que fosse realizado o
procedimento inteiramente digital. Você, como operador do Direito e
conhecedor da legislação, marque a opção correta acerca da
decisão do juiz.
Parabéns! A alternativa C está correta.
A escolha pelo juízo 100% digital é facultativa e será exercida pela
parte demandante no momento da distribuição da ação, podendo a
parte demandada opor-se a essa opção até o momento da
contestação, segundo o art. 3º da Resolução nº 345 de 2020.
Questão 2
Quanto à segunda parte da decisão do magistrado, inviabilizada a
produção de meios de prova ou de outros atos processuais de
forma virtual, o juiz deverá transformar o procedimento em físico?
A
A decisão do magistrado está correta, pois, como
afirmado pela corregedora do TJDF, o judiciário
compreendeu o caráter irreversível e as vantagens
trazidas por esses avanços tecnológicos.
B
A decisão está incorreta, pois ação de cobrança não
pode tramitar em um juízo 100% digital.
C
A decisão do juiz não está correta, eis que o
procedimento 100% digital não é obrigatório.
D
A decisão está incorreta, pois só haveria
implementação do juízo digital caso o réu se
manifestasse nesse sentido.
E
Em razão da necessidade de efetivação dos
princípios fundamentais da celeridade e efetividade,
há a obrigatoriedade do juízo 100% digital, logo, a
decisão do juiz está correta.
Parabéns! A alternativa A está correta.
Conforme dispõe o §2º da Resolução nº 345, de 2020: “inviabilizada
a produção de meios de prova ou de outros atos processuais de
forma virtual, a sua realização de modo presencial não impedirá a
tramitação do processo no âmbito do ‘Juízo 100% Digital’” (redação
dada pela Resolução nº 378, de 9 de março de 2021).
Questão 3
A transformação tecnológica do processo deverá respeitar e/ou
ser compatibilizada com os princípios fundamentais do Processo
Civil? Se sim, não respeitando o procedimento do juízo digital, o
juiz violou algum princípio processual? Justifique.
Digite sua resposta
Chave de resposta
A Inviabilizada a produção de meios de prova ou de
outros atos processuais de forma virtual, a sua
realização de modo presencial não impedirá a
tramitação do processo no âmbito do juízo 100%
digital.
B
Sim, porque é condição de procedibilidade do
processo as provas serem digitais.
C
Não está correta, pois há uma exceção para as
provas físicas no procedimento 100% digital: a
inspeção judicial feita pelo magistrado.
D
Não está correta, pois a parte autora é que deveria
ter realizado o pedido de indeferimento da prova.
E Sim, pois estamos perante um juízo 100% digital.
Com certeza, sim. O processo eletrônico e juízo 100% digital
não só devem respeitar os princípios fundamentais do
processo, como também compatibilizar-se com esses,
afinal, não podemos permitir qualquer violação às normas
fundamentais do processo, tanto é que o §2º da Resolução
nº 345, de 2020, dispôs que: “inviabilizada a produção de
meios de prova ou de outros atos processuais de forma
virtual, a sua realização de modo presencial não impedirá a
tramitação do processo no âmbito do ‘Juízo 100% Digital’”.
Nada obstante, o entendimento jurisprudencial de que cabe
ao magistrado apreciar a questão de acordo com o que
entender atinente à lide, em seu livre convencimento, haverá
o cerceamento de defesa quando o magistrado não
respeitar o procedimento e indeferir a produção de uma
prova necessária ao julgamento do caso concreto.
A construção do modelo de
processo virtual no Brasil
O modelo processual virtual
brasileiro
Confira agora o histórico e a criação do modelo virtual no Brasil.
Aspectos históricos introdutórios

O CPC/1973, constituído em momento histórico diverso do atual cenário
cultural e tecnológico-digital, projetava-se para a resolução exclusiva de
relações individuais, via processo escrito, preservando flagrantemente o
princípio da segurança jurídica, mesmo que em detrimento da
efetividade da prestação da jurisdição (RUBIN, 2016).
Para fins terminológicos, temos que: a expressão “segurança jurídica”
apresenta-se em caráter polissêmico. Isto é, vinculada às garantias
processual-constitucionais integralizadoras do due process, a segurança
jurídica possui sentido de uma certeza (maior) do direito a ser
confirmado ou negado; ou no sentido de uma previsibilidade (tanto
maior quanto possível) da decisão judicial de mérito a ser tomada. Essa
é uma concepção que articula segurança e devido processo, voltada ao
direito ao processo qualificado, afastando-se, a priori, da preclusão e da
efetividade.
É possível cogitarmos circunstâncias em que a efetividade se coloca a
favor da segurança, forjando-se como próprio elemento integrante deste,
quando se corporifica, por exemplo, a hipótese de antecipação de tutela
satisfativa, ainda mais no caso da tutela de evidência (art. 311, IV da Lei
nº 13.105/2015), já que, nesse contexto, concordamos que de nada
adianta certeza, confiança e calculabilidade se o direito não é passível
de realização.
Nada obstante tal cenário, buscamos dentro do
presente estudo dar o devido espaço para a
possibilidade real de precipitações na condução da
marcha processual tendente ao exame em cognição
exauriente, que, no âmbito do processo eletrônico,
pode desvirtuar a legitimidade do procedimento,
comprometendo também a legitimidade da decisão
final de mérito.
O Código Buzaid, vigendo no Brasil desde 1974, restou dividido, em
termos de esquema para tutela dos direitos, em processo de
conhecimento, execução e cautelar. A relativa autonomia dos títulos é
evidente, cabendo destaque, nesse modelo, o processo de
conhecimento, já que a execução e a própria medida cautelar mantêm
vinculação direta com o resultado esperado daquele. E dentro do
processo de conhecimento, embora previsto o rito comum sumário,
destaca-se o rito comum ordinário, especialmente projetado para
prolação de sentença de mérito pelo Estado-juiz após cognição plena e
exauriente.
Passando-se mais de vinte anos da entrada em vigor do Código Buzaid,
operou-se natural modificação da sociedade, o que, repercutindo no
processo, acabou por determinar a obrigatoriedade de retificações no
modelo originário. Embora não tenha havido ruptura dramática no
CPC/1973 com a entrada em vigor da CF/88, e nem mesmo com as
primeiras reformas ao código desenvolvidas, presenciou-se uma
importante adaptação do modelo Buzaid, com forte carga de defesa da
segurança jurídica (rectius, certeza jurídica) e das reivindicações
contemporâneas de um processo efetivo, célere.
Admitindo-se a configuração eventual de tensão entre segurança e
efetividade, ao que parece, formou-se a convicçãode que o CPC/1973
tinha um sistema processual bem-acabado/articulado, mas
demasiadamente burocrático – e que, por isso, não atingia em boa parte
dos casos os seus propósitos derradeiros em tempo útil. Assim, a
referida onda reformista voltava-se para a busca incessante da
efetividade, o que, ao fim, confirmou-se com a inclusão, já em 2004, do
inciso LXXVIII no art. 5° da CF/88 pela EC nº 45 (a tratar do direito do
cidadão brasileiro à razoável duração do processo).
As reformas estruturais no sistema processual pátrio de 1973
começaram a se definir em meados da década de 90, com o
desenvolvimento das tutelas de urgência. Vamos conferir!
1994
O ano de 1994 foi extremamente
importante pelo acolhimento da
legislação processual da tutela
antecipada de mérito.
2001
Reformas múltiplas, como as
reformas estruturais ocorridas
em 2001, especialmente na
seara recursal.
2006
R f últi l
Ademais, não podemos deixar de lembrar que, fora do âmbito do
CPC/1973, foram também construídas alterações, via legislações
esparsas. Um código com visão marcantemente individualista (voltado
à proteção dos direitos individuais), forjado para a solução de litígio de A
contra B, seguramente haveria de ser complementado com
disposições/procedimentos especiais que tratassem de processos
envolvendo a defesa de direitos coletivos e difusos. Disposições
referentes aos processos coletivos lato sensu, previstos, por exemplo,
no Código de Defesa do Consumidor (Lei n° 8.078/1990), na Ação Civil
Pública (Lei n° 7.347/1985) e, mais recentemente no mandado de
segurança (Lei n° 12.2019/2009), são exemplos expressivos desse
movimento retificador tendente a buscar uma mais célere solução do
direito material para um rol mais alargado de indivíduos.
Por fim, há de se retomar o desenvolvimento de novos ritos fora do
sistema do CPC/1973, sendo costurados os formatos dos juizados
especiais, especialmente pelas Leis n° 9.099/95, 10.259/2001 e
12.153/2009, a partir da formação de um rito denominado sumaríssimo,
que acabou por sepultar de vez o rito sumário previsto por Buzaid. O rito
dos juizados especiais constitui-se em iter direcionado ao atendimento
do jurisdicionado, propiciando rapidez no trâmite processual e
eliminação de formalidades do processo comum (por exemplo,
afastando o reexame necessário e a ação rescisória, bem como
instituindo a igualdade de prazos).
A instalação do processo eletrônico também veio nesse mesmo
diapasão, concretizando o direito à duração razoável do processo,
buscando acelerar a tramitação dos feitos, eliminando os prazos
mortos e otimizando a tramitação regular das demandas,
especialmente nos juizados especiais. A publicação da Emenda
Constitucional nº 45/2004, que introduziu de maneira mais clara o
conceito de razoável duração do processo no Brasil, a criação do
CNJ, no mesmo período e, ainda, a publicação da Lei nº
11.419/2006, que dispõe sobre a informatização do processo
judicial, são fundamentais para viabilizar o desenvolvimento e a
implantação de sistemas de processo eletrônico, dentro dessa
conjectura de busca pela efetividade da prestação jurisdicional.
Na verdade, teóricos sobre o específico assunto entendem que o início
da informatização processual brasileira se deu com a Lei nº 9.800/1999,
Reformas múltiplas, como as
reformas estruturais ocorridas
em 2006, especialmente na
execução de sentença.
que permitiu o envio de peças processuais via fac simile, e a Lei nº
10.259/2001, que disciplinou a criação dos juizados federais e permitiu
a utilização de sistemas de informática para envio de petições. A partir
de então, foram criadas outras leis que sinalizavam o avanço da
tecnologia nos tribunais. Leis essas que tratavam de assuntos como a
certificação judicial e a coleta de prova de divergência por meio de site
pela internet. Mesmo por isso, esperava-se mais do projeto do Novo
CPC (desde a primeira versão em 2010, com o n° 166), o qual não
avançou muito em alguns temas relevantes, como o processo coletivo e,
especialmente, o processo eletrônico, deixando para a legislação
ordinária específica regulamentar a questão.
Seja como for, é necessário, e mesmo indispensável, identificar no CNJ
um órgão administrativo importante dentro do Poder Judiciário para
tratar de temas caros ao processo, à administração da justiça e à
duração razoável dos processos, desde a sua criação pela Emenda
Constitucional n° 45/2004 e instalação em meados do ano seguinte.
Principal ponto da Reforma do Judiciário, instituída pela Emenda
Constitucional nº 45, foi a criação do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), em 14 de junho de 2005, que marcou o início de uma nova era
para o Judiciário brasileiro.
Se antes eram poucas as estatísticas existentes e raros os casos de
punições por desvios funcionais dos magistrados, com a promulgação
da Emenda Constitucional nº 45 e a instalação do CNJ, muitos foram os
avanços alcançados pelo Poder Judiciário. Na época, a ausência de
estatísticas nacionais confiáveis dificultava o estabelecimento e o
monitoramento de ações nacionais voltadas para a melhoria da gestão
do Poder Judiciário, como a criação de um planejamento estratégico e a
instituição de metas aos tribunais e magistrados. Exatamente nesse
período, da primeira década dos anos 2000, deu-se o início do
desenvolvimento mais acentuado do processo eletrônico e a fixação de
prazos pelo CNJ para mudança da plataforma física para a virtual de
todos os processos em andamento.
Nessa quadra, o processo judicial eletrônico pode ser
definido como o processo cujo atos processuais são
realizados por meio digital, através de programas
próprios desenvolvidos nos sites dos tribunais, onde
tudo é feito eletronicamente.
A informatização do processo, através da digitalização dos autos, teve
desde sempre como mote a maior celeridade e eficiência do processo
civil, sendo a medida inovadora àquela época, uma tentativa de
otimização dos feitos em todo o território nacional e redução dos seus
custos. Segundo o relatório analítico propositivo do CNJ, os usuários
que não gostam do processo eletrônico são principalmente magistrados
e advogados mais antigos, que mesmo assim, assumem como
importante uniformizar o tribunal, sendo estabelecido um sistema de
transição que irá melhorar com o tempo.
Processo Judicial Eletrônico (PJe).
A partir da Lei nº 11.419 de 2006 e da Resolução 185 de 2013, a qual
institui o Processo Judicial Eletrônico (PJe) como sistema de
processamento de informações e prática de atos processuais e
estabeleceu os parâmetros para sua implementação e funcionamento,
os dados do CNJ dão conta de que avanços vem sendo observados em
todas as esferas do Poder Judiciário (Justiça Estadual, Justiça Federal e
Justiça do Trabalho, essencialmente as principais). O sistema está em
amplo desenvolvimento, embora inexista programa definitivo adotado
pelo CNJ que estabeleça padrão efetivo e também justo para o e-justice.
Se da Lei nº 11.419/2006 já falamos bastante, é fundamental registrar
que a Resolução nº 185/2013 deu a sua colaboração decisiva ao avanço
do processo eletrônico no Brasil, no sentido de trazer maiores detalhes a
respeito das possibilidades de funcionamento do PJe. Após, tivemos
outras resoluções publicadas, por exemplo, a Resolução nº 281/2019, a
qual altera a Resolução CNJ no 185, de 18 de dezembro de 2013, para
instituir a opção de assinatura de documentos e registro do ato
processual em meio eletrônico no sistema do PJe.
Um olhar para o futuro
Mais recentemente, com o empossamento do Ministro Fux como
presidente do STF e do próprio CNJ, tivemos mais um passo no cenário
de virtualização do processo com o lançamento do “juízo 100% digital”,
em outubro de 2020. Assim, objetivando, mesmo que de maneira
facultativa às partes, a realização de todos os atos processuais e até de
reuniões entre os atores do processo pela via não presencial.
Desse modo, diz o art. 1º da Resolução nº 345/2020 do Conselho
Nacional de Justiçaque: “No âmbito do Juízo 100% Digital, todos os
atos processuais serão exclusivamente praticados por meio eletrônico e
remoto por intermédio da rede mundial de computadores”.
De uma maneira geral, percebe-se a vantagem do processo eletrônico
quando consideramos o recorte por assunto, destacando-se nesses
casos o ramo do direito previdenciário e administrativo, em que quase
todos os casos, segundo o CNJ, encontram muito rapidamente uma
decisão ou um despacho. Há, na verdade, uma indicação geral de
celeridade expressivamente maior nos processos que correm pelo meio
eletrônico. Vejamos!
Média de 23,85
dias para o
primeiro
pronunciamento
do juiz nos
processos
eletrônicos
Média de 147,62
dias para o
primeiro
pronunciamento
do juiz nos
processos físicos
Parece claro que o processo eletrônico ajudou decisivamente a
concretizar um direito fundamental processual relevante: é possível
afirmar que os processos que tramitam no meio virtual são mais céleres
e geram menos custos, cumprindo melhor a orientação da duração
razoável do processo.
Deixemos claro que, embora o CNJ tivesse, já de longo prazo
(especialmente período 2013-2018), o objetivo de instituir um programa
amplo e geral para o processo eletrônico pátrio, viu-se constrangido a
admitir algumas significativas exceções ao modelo, diante do sucesso
entre os operadores do direito (advogados, inclusive) que se sucedeu,
por exemplo, com o PROJUDI, o ESAJ e o EPROC – incorporados por
diversos tribunais locais ou regionais.
PROJUDI
ESAJ
EPROC
Falando em EPROC, desenvolvido pelos técnicos vinculados ao TRF4,
especialmente da parte dos operadores do direito que atuam na Justiça
Federal, já foram levantadas críticas à falta de maior regulamentação,
pelo CPC, do processo eletrônico. No espírito do novo códex, em que
ainda é previsto capítulo de restauração de autos físicos, o processo
eletrônico ainda parece ser exceção, o que vai de encontro à busca por
uma gestão administrativa profissional, ágil e de qualidade.
Sendo assim, o estudo deste relativamente novo ramo do direito
(BARROS, 2009) e dos princípios informadores do processo nesse

ambiente é de extrema importância na elaboração de uma pesquisa
sobre o processo eletrônico no atual cenário do Poder Judiciário pátrio,
a fim de que seja formada tese que proponha soluções para um sistema
virtual equilibrado.
A importância do estudo mostra-se mais evidente em se considerando
que a implementação do processo eletrônico está, no estado da arte,
como exposto, em pleno desenvolvimento, com avanços e retrocessos,
em diferentes ordens.
Reiteramos, nesse espaço, que já se vislumbram
problemas na condução dos processos e
compatibilização dos princípios da efetividade e
segurança jurídica, deixando-se o devido processo
legal e mesmo a previsibilidade do iter procedimental
em segundo plano, o que compromete o resultado da
prestação jurisdicional.
Como exemplificação mais contundente, podemos mencionar os
juizados especiais federais previdenciários, em que, a pretexto de
garantir a efetividade, comezinhos princípios constitucionais, como o do
contraditório e o do direito prioritário à prova, vêm sendo mitigados em
significativa parte, mormente ao longo de tramitação da fase instrutória.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Sobre o CNJ, indique a opção correta.
A
Trata-se de órgão de controle do Poder Judiciário,
responsável pela transparência e administração
apenas da Justiça Federal brasileira.
Parabéns! A alternativa C está correta.
O CNJ surgiu exatamente no período de desenvolvimento inicial do
processo eletrônico, com a EC nº 45/2004 e a Lei nº 11.419/2006,
tendo, portanto, atuação efetiva ainda antes do início de vigência do
CPC/2015.
Questão 2
O CNJ de longo prazo (especialmente no período de 2013-2018)
fixou o objetivo de instituir um programa amplo e geral para o
processo eletrônico pátrio, embora tenha se constrangido a admitir
algumas significativas exceções ao modelo diante do sucesso entre
os operadores do Direito (advogados, inclusive) que se sucedeu
com outros modelos incorporados por diversos tribunais locais ou
regionais.
O texto faz menção a qual programa amplo e geral do CNJ?
B
Não tomou partido da construção do processo
eletrônico no Brasil.
C
Foi criado ainda na vigência do CPC/1973, quando
se iniciou a sua atuação.
D
O CNJ é composto exclusivamente por magistrados
oriundos da Justiça Federal.
E
Segundo o relatório analítico propositivo do CNJ, os
usuários que não gostam do processo eletrônico
são principalmente magistrados e advogados mais
novos.
A PROJUDI
B ESAJ
Parabéns! A alternativa D está correta.
Os demais programas foram colocados no texto como modelos
incorporados por diversos tribunais locais ou regionais e vêm sendo
usados atualmente, não obstante a campanha de divulgação e
padronização levada pelo CNJ para implementação do PJe.
3 - Comunicação eletrônica dos atos
processuais
Ao �nal deste módulo, você será capaz de analisar a participação dos
órgãos de controle e disciplina na conformação do novo modelo
processual virtual no Brasil.
Ligando os pontos
C EPROC
D PJe
E Sistemas próprios dos tribunais
Em um momento de múltiplos desafios provocados pela pandemia da
covid-19, a realização de sessões de julgamento por videoconferência
representa a melhor experiência que o Superior Tribunal de Justiça (STJ)
viveu nos últimos tempos, confirmando a importância da modernização
tecnológica dos tribunais e abrindo a oportunidade para a construção de
novos modelos de prestação da justiça.
A afirmação foi feita pelo presidente da corte, ministro João Otávio de
Noronha, ao proferir palestra na conferência magna que encerrou o I
Congresso Digital Covid-19: Repercussões Jurídicas e Sociais da
Pandemia, promovido pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB).
Em um processo judicial, no qual as partes residem na mesma comarca,
o juiz designou audiência de conciliação, por meio de videoconferência,
para que as partes pudessem tentar a realização de uma composição
amigável do processo. Nada obstante o fato de o juiz ter designado a
audiência, apenas a parte autora fora intimada da decisão judicial que
designou a data da referida audiência e, por conseguinte, apenas esta
tinha o link de acesso à audiência. Chegado o dia para a audiência de
conciliação e mediação, ao notar o não comparecimento da parte ré à
audiência, o juiz arbitrou multa à parte ré, visto que o CPC dispõe que “o
não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de
conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será
sancionado com multa de até dois por cento da vantagem econômica
pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do
Estado” (§8 do art. 334 do CPC). Não somente, convolou o ato em
audiência de instrução e julgamento, tendo ouvido duas testemunhas da
parte autora.
Após a leitura do case, é hora de aplicar seus conhecimentos! Vamos
ligar esses pontos?
Questão 1
Após a leitura do case, no qual o magistrado condena a parte ré ao
pagamento de multa pelo não comparecimento ao processo,
aponte a alternativa correta sobre a decisão do juiz.
A
O juiz está correto em sua decisão, eis que o CPC é
expresso ao determinar a multa pelo não
comparecimento à audiência de conciliação.
Parabéns! A alternativa B está correta.
Houve ofensa à garantia constitucional da ampla defesa na vertente
da defesa técnica. Isso porque, privar o advogado que fora
regulamente constituído pelo acusado de exercer a defesa técnica
de seu cliente gera a nulidade do ato, uma vez que resta
impossibilitado de participar da audiência
Questão 2
Marque a alternativa correta acerca da audiência por
videoconferência designada no caso em tela.
B
A decisão não está correta, pois o não
comparecimento da parte não fora injustificado,
visto que não recebera o link da audiência para sua
participaçãoe, por conseguinte, tem-se a nulidade
do ato.
C
O CPC permite apenas que os depoimentos das
partes sejam realizados por meio de
videoconferência ou outro recurso tecnológico de
transmissão de sons e imagens em tempo real.
D
A audiência por videoconferência só poderá ser
designada no caso de as partes residirem em
comarcas diferentes.
E
Não pode a parte ré alegar a nulidade do ato
processual, eis que não houvera qualquer prejuízo à
sua defesa.
A
A audiência de conciliação não poderia ser
designada na modalidade virtual, visto ser
imprescindível o encontro presencial entre as
partes.
B
O Código de Processo Civil permite apenas
aplicação de multa ao não comparecimento da
Parabéns! A alternativa C está correta.
O Código de Processo Civil, em seu §3º do art. 236, autoriza a
prática de atos processuais por meio de videoconferência ou outro
recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo
real.
Questão 3
Levando em consideração o sopesamento entre os benefícios da
tecnologia no processo judicial e a importância da troca de
experiência humana nos atos processuais presenciais, disserte
sobre a possibilidade da audiência por videoconferência.
Digite sua resposta
Chave de resposta
Conquanto para alguns atos processuais seja, de fato,
necessário realizar-se fora do ambiente virtual, isto é,
presencialmente, tal ponto não afeta a audiência de
parte autora.
C
O Código de Processo Civil autoriza expressamente
a prática de atos processuais por meio de
videoconferência ou outro recurso tecnológico de
transmissão de sons e imagens em tempo real.
D
O Código de Processo Civil não permite que os atos
processuais sejam de atos processuais por meio de
videoconferência ou outro recurso tecnológico de
transmissão de sons e imagens em tempo real.
E
Não era necessária a intimação das partes para o
comparecimento na audiência.
conciliação por meio de videoconferência, posto que a
intervenção humana é preservada e valorizada no ambiente
virtual.
Os atos processuais no
processo judicial eletrônico
O estudo dos atos processuais
A partir das premissas estudadas, entendemos que deva ser examinada
com mais cuidado a forma dos atos processuais no processo judicial
eletrônico, ou seja, deva ser feito exame minudente e responsável da
forma pela qual principalmente as partes e o juiz se manifestam ao
longo de todo o processo. O estudo dos atos processuais é sempre
relevante, já que examina a disciplina do andamento regular da
demanda, ao longo do qual serão exercidas inúmeras atividades pelas
partes, em conjunto com o Estado-juiz.
A temática dos atos processuais, a partir do CPC/2015, apresentou reais
alterações, especialmente no que diz respeito aos prazos e à redução da
técnica da preclusão. Com relação ao fenômeno dos prazos, é inegável
que se trata de garantia importante a sua contagem em dias úteis, com
encaminhamento ainda da maioria dos prazos serem fixados em 15
dias, o que autoriza formalização de ato processual de maior qualidade,
melhorando a participação das partes ao longo de todo o iter
procedimental, o que também se garante mediante a técnica da
flexibilização procedimental, abrindo-se às partes a possibilidade de
formatarem calendário processual mais maleável. Isso determina,
consequentemente, a redução dos efeitos da preclusão no processo
(RUBIN, 2014).
Pela disciplina legal vigente, os atos processuais
independem de forma determinada, salvo se a lei
expressamente a exigir, e devem ser públicos, salvo se
for deferida a tramitação em segredo de justiça. Sendo
o processo público, físico ou eletrônico, deve ser
autorizada a consulta por qualquer interessado,
notadamente o advogado alheio ao feito (sem
procuração), mas que manifesta interesse em
examinar o teor da demanda ou de determinada peça
em particular.
Ainda quanto à forma do ato processual, mesmo que seja praticado
com violação da forma estabelecida em lei, pode ele ser considerado
válido se praticado de outro modo, alcançando a sua finalidade – como
se sucede, por exemplo, com relação ao fenômeno de citação do réu.
Não tendo o ato, no entanto, alcançado a sua finalidade, ele deverá ser
anulado, considerando-se de nenhum efeito todos os subsequentes que
dele dependam (art. 281). Falando em citação, é necessário salientar
que o sistema processual civil é extremamente simples no que concerne
à comunicação dos atos processuais, a qual pode se dar via:
Citação
No primeiro contato da
parte com a demanda.
Intimação
Nos demais momentos
em que a parte é
notificada pelo juízo.
Cabe ainda o acréscimo de que, pelo Novo CPC, as citações, mesmo em
execução de título extrajudicial, devem ser feitas prioritariamente por
intermédio de Carta AR – com aviso de recebimento (art. 249); já as
intimações realizam-se, sempre que possível, por meio eletrônico, pela
publicação dos atos no órgão oficial (art. 272). Além disso, o sistema
prevê um meio de comunicação entre juízos capaz de permitir que um
órgão jurisdicional solicite a outro que pratique determinado ato
processual, o que se dá por intermédio de cartas.
Os atos processuais das partes consistem em declarações unilaterais
(peça na defesa do seu específico interesse, como na manifestação
sobre a juntada de documento da parte contrária) ou bilaterais (peça em
que se manifesta comunhão de interesses, como na transação); já os
pronunciamentos do juiz se classificam em:

 Despachos
De mero impulsionamento, não
suscetível de recurso.
A sentença é o ato processual de maior envergadura do juízo de
primeiro grau, ou juízo a quo, devendo ter completa fundamentação,
conforme dicção dos relevantíssimos arts. 11 c/c 489, o que também se
espera das decisões proferidas pelas cortes superiores, tribunal ad
quem, as quais proferem, por regra, decisões colegiadas denominadas
de acórdãos (art. 204).
A bem da verdade, também se espera fundamentação adequada das
decisões judiciais de primeiro grau em cognição sumária, quando da
análise de concessão de tutela provisória, cautelar ou satisfativa, diante
da importância de tal decisão embrionária para a sequência do feito.
Lembrando que o CPC de 2015, ao lado da tutela de urgência,
desenvolve nesse cenário a figura da tutela de evidência (art. 311).
Embora de maneira ainda tímida, o CPC de 2015 inova com relação à
prática eletrônica dos atos processuais, deixando de estabelecer uma
lógica mais ampla, vinculativa dos sistemas virtuais já existentes na
Justiça Federal, Estadual e mesmo na Justiça do Trabalho. Seja como
for, resta disciplinado que os sistemas de automação processual
respeitarão a publicidade dos atos, o acesso e a participação das partes
e de seus procuradores, inclusive nas audiências e sessões de
julgamento, observadas as garantias da disponibilidade, independência
da plataforma computacional, acessibilidade e interoperabilidade dos
sistemas, serviços, dados e informações que o Poder Judiciário
administre no exercício de suas funções (art. 194).
Pilhas de processos físicos.
 Decisões interlocutórias
Sujeitas ao agravo de instrumento, nas
hipóteses do art. 1015.
 Sentença
Ato �nal da jurisdição de primeiro grau,
em que resolvida a contenda com ou sem
resolução do mérito, conforme,
respectivamente, arts. 487 e 485.
Inegável que há uma tendência natural de extinção dos processos
físicos (embora o CPC ainda preveja um capítulo sobre “restauração de
autos”), diante das vantagens do processo eletrônico, cabendo ser
destacado que (GAJARDONI; DELLORE, ROQUE; OLIVEIRA JR., 2015):
 Extingue as práticas humanas
desnecessárias no ambiente
virtual, tais como a formação
física do processo, juntada de
petições e decisões.
 Evita a formação de instrumento
para o recurso de agravo.
 Repassa ao sistema a realização
da contagem e certi�cação de
prazos, reduzindo a incidência de
erros.
 Otimiza os trabalhos no processo
judicial.
 Automatiza a sucessão de fases
processuais sem a intervenção
humana.
Além de todosesses comandos a favor da agilidade e funcionalidade do
sistema eletrônico, estima-se que representa o e-justice economia para
a gestão pública e sustentabilidade, pois dispensa o uso de papel e
insumos para a impressão.
No Direito comparado, também vem sendo destacada a própria questão
do tempo e lugar dos atos processuais, já que o peticionamento
eletrônico pode ser feito 24 horas por dia de qualquer local, reduzindo
problemas de distâncias geográficas (KAWANO, 2012).
Ainda, revela-se a necessidade de se buscar transparência no Direito
Processual, o que seria incrementado no e-justice com mecanismos que
propiciam maior facilidade de acesso e manuseio de documentos e
processos. No entanto, o processo virtual deve ser espaço de ampla
participação ativa das partes, especialmente no que toca aos atos
processuais unilaterais.
A intervenção humana, em alguma medida
substancial, precisa ser preservada e
valorizada no ambiente virtual.
Como não há mais espaço sequer para a “carga dos autos” (como se
sucedia com os processos físicos), há de ser observado o período
adequado de manifestação das partes (prazo regular – art. 218) como
também há de ser cuidado pelo magistrado com relação à eventual
requerimento de dilação de prazo na fase instrutória (art. 139, VI) ou
encaminhamento pelas partes de ato processual bilateral tendente a
produzir acordo de procedimento (art. 191) – todos esses espaços mais
amplos de relativização do fenômeno preclusivo. Por outro lado, há de
ser levar a sério a exigência de contraditório prévio, a realização de
audiências presenciais para melhor delimitação do objeto do processo e
da prova (arts. 357 e 358) e a fundamentação das decisões judiciais a
partir necessariamente do próprio contraditório perfectibilizado (arts. 10
e 11) – em resguardo à segurança jurídica e à conformação do processo
eletrônico justo.
 Possibilita a execução dos atos
processuais de forma paralela por
várias pessoas.
Nossa maior preocupação envolve repensar a teoria dos atos
processuais no ambiente virtual de processos com carga fática
significativa. Isso de forma que, em processo com matéria significativa
de direito (como o tributário), haja menor dificuldade de implementação
do uso da tecnologia.
Presidente do Supremo apresenta ferramentas de inteligência artificial em Londres.
Veja-se que, em questões não atinentes ao mérito, a tecnologia, por
meio da inteligência artificial, já vem sendo utilizada em alguns tribunais
superiores, como é o caso do sistema de inteligência artificial Victor,
utilizado no STF por ocasião do juízo de admissibilidade dos recursos
extraordinários. De fato, o Supremo Tribunal Federal possui ferramenta
de inteligência artificial para agilizar a tramitação de processos na corte.
O sistema chama-se Victor em homenagem a Victor Nunes Leal,
ministro do STF entre 1960 e 1969, e principal responsável pela
sistematização da jurisprudência da corte em súmulas. O projeto tem
funções como:
Ocorre que, nas demandas fáticas (sociais, por exemplo), dentro das
instâncias ordinárias, faz-se necessária a participação direta das partes
e procuradores para convencimento do Estado-juiz a respeito da
procedência de suas alegações, a determinar uma mais intensa
atividade processual ao longo de todo o iter. Assim, devendo ser
examinados cada um dos “eventos” do processo (como usualmente
denominada a peça processual encaminhada ao processo eletrônico)
como ato que precisa de cuidadosa intervenção humana (pelo Estado-
 Ler todos os recursos
extraordinários que chegam ao
STF.
 Identi�car quais recursos estão
vinculados aos temas de
repercussão geral, facilitando a
aplicação de precedentes
judiciais.
juiz), a ponto de ser viável uma mudança na sequência tradicional que o
sistema eletrônico encaminharia.
Nesse cenário, a utilização pelas partes de técnicas processuais abertas
e atípicas (como as previstas nos arts. 190 e 191) e o exame minudente
pelo órgão jurisdicional dessas hipóteses (a partir de todos os poderes
encaminhados, dentre outros dispositivos do códex, pelo art. 139) se
estabelecem como um cenário absolutamente distinto, levando-se em
conta as peculiaridades do caso concreto sem que o sistema eletrônico
acabe por impulsionar a demanda em ritmo fordista e automático.
Há aqui espaço para ser identificado, portanto, cenário processual em
que, mesmo em um ambiente virtual em que as partes e os
procuradores não possuem qualquer ingerência, deve possuir amplo
protagonismo na movimentação do iter e direcionamento para provar as
suas alegações de fato. Isso exige exame cuidadoso da questão pelo
Estado-juiz, a ponto de autorizar essa ampla movimentação das partes e
depois legitimar tais movimentos a partir de decisão final e de mérito
que resgate todo o contraditório havido.
Defendemos aqui em outros termos exigência de ser repensada a
questão a respeito da legitimidade do procedimento e do processo no
ambiente virtual, a partir da clássica doutrina.
Veremos adiante um exemplo importante de cenário de crise na
aplicação do processo judicial eletrônico.
Audiências por
videoconferência
Confira agora as principais regras relativas à realização de audiências
por videoconferência.
Sistema de videoconferência para oitiva de
testemunha no ambiente virtual

Embora autorizado pelo próprio Código de Processo Civil (art. 453, par.
1°), inclusive podendo ser usado para colheita da prova oral em
substituição à carta precatória, discute-se a ausência do contato mais
próximo do juiz da causa com o material probatório que pode ser
decisivo para o julgamento de uma demanda com carga fática
substanciosa no âmbito do procedimento comum.
Isso sem falar na possibilidade de o magistrado negar a própria oitiva,
proferindo decisão precipitada no ambiente virtual sem qualquer
contato direto com as partes e procuradores.
No direito estrangeiro, mesmo aqueles que defendem a utilização dos
benefícios da tecnologia, ainda mais com a concordância das partes
litigantes no processo, adverte que o uso de videoconferências, apesar
de igualar as distâncias geográficas, aumenta a distância do magistrado
com o elemento de prova, como uma testemunha por exemplo
(FISCHER, 2012).
Isso porque, o Processo Civil é um instrumento social para resolver
problemas entre pessoas. Não se pode negar, assim, que os atos
processuais, como a audiência de instrução e julgamento, por exemplo,
possui forte influência de elementos humanos (a expressão de uma
testemunha; a possibilidade de se fazer indagações em momento real,
sem ruídos ocasionados por eventuais problemas técnicos no Sistema
etc.). Tal distanciamento, aludido acima, pode acabar prejudicando a
sensibilidade do magistrado quanto a essas minúcias afetas ao
comportamento humano.
Trata-se aqui de cenário em que a presença humana e física do julgador
na condução do processo, que irá ulteriormente decidir, pode fazer a
diferença, não sendo superada, no nosso entender, a importância da
identidade física do julgador da causa, ao menos nas demandas com
carga fática-probatória significativa.
Confira o elemento a seguir:
Não exame de requerimento da parte litigante para
aprofundamento da instrução no processo eletrônico
dos juizados federais previdenciários.
Esse fenômeno vem acontecendo em número ilimitado de casos, em
que o sistema do processo virtual projeta o encaminhamento dos autos
à conclusão para sentença tão logo seja dada vista sumária às partes
sobre a prova técnica produzida (RUBIN, 2014). Nota-se aqui a ausência
completa de intervenção humana no processo, no caso do Estado-juiz,
não sendo perfectibilizado efetivo, mas tão só formal, contraditório – o
que fere o direito das partes ao processo justo. Eis aqui local em que se
visualiza clara formação de demanda em ritmo fordista e automático,
em processo com carga fática significativa que exigiria intervenção
maior Estado-juiz e protagonismo maior das partes litigantes na
tentativa de convencimentoeficaz do julgador na tomada de posição
final.
O Direito Previdenciário carece de um procedimento que proporcione
conhecimento da real situação e condições de labor do segurado,
sobretudo nos juizados especiais federais, onde a realidade costuma
passar ao largo em razão da celeridade, da redução das oportunidades
de manifestação e produção de provas e da falta de diálogo judicial,
sem falar nas dificuldades de ordem prática que comprometem a
prestação jurisdicional.
Como bem advertem outras abalizadas vozes no Direito Processual
Previdenciário, o direito à prova é fundamental também no rito
sumaríssimo, somente podendo ser restringido por lei e na medida em
que essa restrição seja proporcional. Por outro lado, a flexibilização do
procedimento é condizente com um sistema democrático de direito em
que as partes podem colaborar para a solução das demandas e também
encontra guarida nos princípios dos juizados especiais. Portanto, não se
pode correr o risco de o processo virtual acabar por trazer qualquer
prejuízo à segurança jurídica, especialmente atrelado aqui à qualidade
da prestação jurisdicional, em que a presença humana dos envolvidos
seja importante para o julgamento do processo, ainda mais quando há
requerimento expresso da parte (e do seu procurador) nesse sentido, o
que pode sim representar cerceamento de defesa, a comprometer a
legitimidade da decisão final de mérito a ser pronunciada pelo Estado-
juiz.
Assim, dos exemplos supra, extrai-se que uma concepção processo-
constitucional de segurança jurídica, no sentido de certeza maior do
direito a ser construído, coloca-se, no âmbito cultural do processo justo,
ao encontro do desejado perfil ativo das partes em colaboração com o
Estado-juiz para investigação do material fático-probatório – direito de
construção e poder de interferência das partes no desenvolvimento do
processo. Seria direito fundamental das partes atuar para dirimir
incertezas expostas ao longo do procedimento, desde a fase
postulatória até a fase instrutória, o que exige protagonismo e suficiente
tempo de manifestação aos litigantes em permanente e amplo
contraditório ao longo de todo o iter.
A presença humana, das partes envolvidas na relação
jurídico processual, não é fator que possa ser ignorado
no ambiente virtual, como já reconhecido na doutrina
alienígena. Portanto, a lógica de um “processo justo,
humano e conduzido por uma corte independente”
(EMRK, art. 6, Sec. 1) precisa ser adaptada ao processo
eletrônico, sob pena de convalidarmos sistema
robótico, autômato, que se converte em mero
procedimento eletrônico.
Tem-se forjada, a partir daí, a tese de que são diferenciados os atos
processuais no processo eletrônico em demandas fáticas
substanciosas, com respeito às peculiaridades do caso concreto –
ainda sob a perspectiva dos direitos fundamentais das partes ao
processo justo. E não sob o prisma da organização do Estado em
matéria de política judiciária, onde são ofertados não mais do que
garantias processuais formais-racionalistas, em um ambiente virtual
padronizado que favorece a efetividade/celeridade sem a necessária
relevância para a participação humana das partes envolvidas.
Resumindo
Com base nesse novo modelo teórico, presta-se a repensar o início do
funcionamento do processo eletrônico em maior escala no Brasil, em
busca de um reequilíbrio de forças e maior ingerência das partes na
tomada de posições tempestivas aptas a eficazmente convencer o
Estado-juiz nas instâncias ordinárias, a respeito de alegações de direito
e especialmente de fato, em um modelo publicístico, democrático e
justo de processo.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Sobre o sistema de videoconferência para oitiva de testemunhas no
ambiente virtual, pode dizer que
A
é procedimento autorizado pelo próprio códex,
conforme art. 453, par. 1° do CPC.
Parabéns! A alternativa E está correta.
A substituição do sistema presencial pelo sistema de vídeo pode
funcionar, mas não é uma realidade que esteja fora da crítica, tendo
em vista fatores positivos delineados na presença humana e física
do juiz na condução do ato oral de aprofundamento da instrução.
Questão 2
A respeito do que o texto denominou de “Não exame de
requerimento da parte litigante para aprofundamento da instrução
no processo eletrônico dos juizados federais previdenciários”, há
realce de que, embora esse princípio não esteja no cerne de
formação, inclusive legal, do rito sumaríssimo dos juizados
especiais, há necessidade evidente de incremento e espaço, sob
pena de infringência da disciplina processo-constitucional. Estamos
falando do
B teve amplo aumento da modalidade em razão do
fenômeno da pandemia.
C
o contato presencial dos atores envolvidos é fator
importante a ser examinado neste contexto de
produção da prova oral.
D
trata-se aqui de cenário em que a presença humana
e física do julgador na condução do processo, que
irá ulteriormente decidir, pode fazer a diferença.
E
a substituição do sistema presencial pelo sistema
de videoconferência é uma realidade necessária,
inexistindo problemas processuais a serem
explorados.
A princípio da publicidade.
B princípio da redução de formas.
Parabéns! A alternativa D está correta.
De acordo com o texto, não se pode correr o risco de o processo
virtual trazer qualquer prejuízo à segurança jurídica, especialmente
atrelado aqui à qualidade da prestação jurisdicional, em que a
presença humana dos envolvidos seja importante para o
julgamento do processo, ainda mais quando há requerimento
expresso da parte (e do seu procurador) nesse sentido – o que
pode sim representar cerceamento de defesa, a comprometer a
legitimidade da decisão final de mérito.
Considerações �nais
O processo é cultura e, como tal, acompanha os avanços da sociedade e
da sua forma de organização, sendo da pós-modernidade a busca por
maior tecnologia, que traga conforto e rapidez nos movimentos da
coletividade – e por aí se percebe que, naturalmente, tal cenário de
desenvolvimento histórico chegaria ao processo. Comprovamos ao
longo do trabalho a inexistência de uma dogmática processual que trate
das questões próprias do processo eletrônico no atual estado da arte,
sendo indevido se aplicar a disciplina histórica do processo físico, como
forjado o CPC/1973 e mesmo o CPC/2015 (com manutenção de
capítulo de restauração de autos), para tratar de situações novas
trazidas pelo processo que corre em plataforma eletrônica – com
muitas vantagens, mas também com novos problemas aos operadores
do direito.
Para além da atualidade do movimento de construção do processo
eletrônico no Brasil, sistematizado de maneira mais orgânica pelo CNJ,
a partir de sua criação em 2004 (Emenda Constitucional n° 45), tivemos
C princípio da primazia de mérito.
D princípio da segurança jurídica.
E princípio da efetividade.
um movimento anômalo de seu impulsionamento a partir da pandemia
mundial que assustou e transformou o mundo em 2020, exigindo o
distanciamento social e aprofundando a necessidade de formatação
dos atos processuais pela via não presencial. O processo civil, após o
desenvolvimento do processo eletrônico e depois da pandemia de
coronavírus, já não é mais o mesmo, sendo necessário que tratemos,
com cada vez mais cuidado, as influências da virtualização e da
tecnologia nas causas processuais que chegam ao Poder Judiciário.
A crítica lançada a respeito de uma preocupação do sistema com o
elemento qualitativo realmente é bastante significativa, sendo evidente
que o processo eletrônico projeta inúmeras vantagens, a maioria delas
ligada à efetividade processual (como o fim dos prazos mortos e uma
nova sistemática de gerenciamento de fluxo de processos). No entanto,
pouco ou nada vem sendo dito, especialmente pelos órgãos oficiais a
respeito da necessidade de construção de um processo em que a
segurança jurídica (projetando a qualidade da prestação jurisdicional)assuma realmente papel primário no sistema adjetivo,
independentemente se estamos tratando do rito comum (do CPC/2015)
ou do rito sumaríssimo (dos juizados especiais, regulamentado em
legislações especiais).
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Ouça agora as principais regras da Lei nº 11.419/2006 (Lei do Processo
Eletrônico).
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você!
Processo eletrônico, garantias constitucionais do processo e
realidade digital do Brasil, de Adriano Farias Puerari e outros
autores.
Tecnologia, resolução de conflitos e o futuro da competência
territorial, de Marco Antônio Rodrigues.
Lei n° 13.876/2019: alterações na competência delegada em
matéria previdenciária, de Marco Aurélio Serau Jr. e outros autores.
Referências
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eletrônico. Publicado em: 2009. Consultado na internet em: 10 jun.
2022.
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Technology and civil procedure: new paths to justice from around the
world. New York/London: Springer, 2012.
FISCHER, N. Electronification of civil litigation and civil justice – the
future of the traditional civil procedure facing the electronification.
Eletronic Technology and civil procedure: new paths to justice from
around the world. New York/London: Springer, 2012.
KAWANO, M. Eletronic technology and civil procedure – applicability of
eletronic technology in the course of civil procedure. Eletronic
Technology and civil procedure: new paths to justice from around the
world. New York/London: Springer, 2012.
LUHMANN, N. Legitimação pelo procedimento. Brasília: Universidade de
Brasília, 1980.
PORTO, S. G. Algoritmo jurisdicional, praxismo eletrônico,
hiperprocedimentalização e o futuro do processo civil. Ensaio que
integra a obra: Processo Civil Contemporâneo – Elementos, ideologia e
perspectivas. Salvador: Juspodivm, 2018.
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Teoria geral do processo – comentários ao CPC de 2015. São Paulo:
Método, 2015.
RUBIN, F. A preclusão na dinâmica do processo civil. 2. ed. São Paulo:
Atlas, 2014.
RUBIN, F. Direito, desenvolvimento e tecnologia: mudanças do processo
escrito para o processo eletrônico e a concretização do direito
fundamental das partes ao processo justo. 1. ed. Espanha: Instituto
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RUBIN, F. Necessárias questões atuais em processo previdenciário.
Revista Dialética de Direito Processual, RDDP n° 140, p. 45/51, 2014.
RUBIN, F. O Novo CPC: Da construção de um novo modelo processual às
principais linhas estruturantes da Lei n° 13.105/2015. Porto Alegre: Lex
Magister, 2016.
RUBIN, F. Remédios processuais em tempos de pandemia: novos
limites de utilização das tutelas provisórias de urgência perante à
COVID-19. Direito previdenciário em tempos de isolamento: reflexões a
partir do I Congresso Brasileiro Online de Direito Previdenciário do G4. 1.
ed. Porto Alegre: Paixão Editores, 2020. p. 7-21.
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. STJ. Videoconferência foi melhor
experiência recente do STJ, diz ministro Noronha em congresso digital
da OAB. Publicado em: 31 jul. 2020. Consultado na internet em: 10 jun.
2022.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS.
TJDFT. O Juízo 100% Digital faz parte de uma nova Justiça, que abre
fronteiras, traz celeridade e eficiência. Publicado em: ago. 2021.
Consultado na internet em: 10 jun. 2022.
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