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N º 5 CADERNO PEDAGÓGICO Nº5 CADERNO PEDAGÓGICO Nº5 FINAL_CAPA_CAD_PEDAG_2023.indd All PagesFINAL_CAPA_CAD_PEDAG_2023.indd All Pages 13/07/23 14:3113/07/23 14:31 CADERNO PEDAGÓGICO Nº5 FINAL_FRONTS_CAD_PEDAG_2023.indd 1FINAL_FRONTS_CAD_PEDAG_2023.indd 1 13/07/23 13:4413/07/23 13:44 Direção executiva: Flávia Bravin Direção de negócio: Volnei Korzenieski Gestão de planejamento: Eduardo Kruel Rodrigues Gestão editorial: Alice Ribeiro Silvestre Gestão de Assessoria Pedagógica: Renata Rossi Fiorim Siqueira Coordenação do Núcleo de Produção e Conteúdo e Formação: Helga Vanessa Assunção de Souza Cezar Coordenação da Equipe de Assessoria Pedagógica: Rosana Marcia Almeida de Matos Moura Aguiar e Wberlania Andrade Wanderley Oliveira Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação: Claudinéa de Araujo Batista, Carmem Lucia Maciel Silva, Elaine Cristina Rodrigues Gomes Vidal, Kamil Giglio, Nadiana Lima da Silva Gestão de área: Camila De Pieri Fernandes Coordenação de área: Miriam Mayumi Nakamura Edição: Andréia Szcypula e Jean Kleber Planejamento e controle de produção: Vilma Rossi e Camila Cunha Revisão: Leandra Trindade e Vanessa de Paula Santos Arte: Claudio Faustino (ger.), Erika Tiemi Yamauchi (coord.), Nilza Shizue Yoshida (edição de arte), Select Editoração (diagramação) Iconografia e tratamento de imagens: Roberto Silva (ger.), Douglas Cometti e Alice Matoso (pesquisa iconográfica), Emerson de Lima (tratamento de imagens) Licenciamento de conteúdos: Ricardo Gimenez Corridoni Design: Flávia Dutra (proj. gráfico), Tatiane Porusselli (capa) Ilustração de capa: Paula de Aguiar Todos os direitos reservados por Editora Ática S.A. Alameda Santos, 960, 4o andar, setor 1 Cerqueira César – São Paulo – SP – CEP 01418-002 Tel.: 4003-3061 www.edocente.com.br atendimento@aticascipione.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua - CRB-8/7057 2023 Código da obra CL 330553 CAE 2210331 1a edição 1a impressão Envidamos nossos melhores esforços para localizar e indicar adequadamente os créditos dos textos e imagens presentes nesta obra didática. Colocamo-nos à disposição para avaliação de eventuais irregularidades ou omissões de créditos e consequente correção nas próximas edições. As imagens e os textos constantes nesta obra que, eventualmente, reproduzam algum tipo de material de publicidade ou propaganda, ou a ele façam alusão, são aplicados para fins didáticos e não representam recomendação ou incentivo ao consumo. Impressão e acabamento Caderno Pedagógico 2023 : nº 5. -- 1. ed. -- São Paulo : Ática, 2023. ISBN 978-65-267-0034-1 1. Educação 2. Ciências sociais 3. Sustentabilidade 4. Qualidade de vida 5. Cultura e tecnologia CDD 370 23-4021 Creditos_CP23_NPCF_002.indd 2Creditos_CP23_NPCF_002.indd 2 14/07/23 16:0814/07/23 16:08 R a w p ix e l. c o m /S h u tt e rs to ck Educadoras e educadores ,AP RESENTAÇÃO DEPENDE DE NÓS [...] QUE OS VENTOS CANTEM NOS GALHOS QUE AS FOLHAS BEBAM ORVALHOS QUE O SOL DESCORTINE MAIS AS MANHÃS DEPENDE DE NÓS SE ESSE MUNDO AINDA TEM JEITO APESAR DO QUE O HOMEM TEM FEITO SE A VIDA SOBREVIVERÁ Ivan Lins É com grande prazer que apresentamos a 5a edição do Caderno Pedagó- gico, que tem como tema central o trabalho com os Objetivos de Desenvol- vimento Sustentável (ODS) da ONU na escola. Iniciamos este diálogo com um trecho da canção “Depende de nós”, de Ivan Lins, pois acreditamos que, mes- mo em um mundo repleto de desafios, a ideia de um ambiente acolhedor para a vida em sociedade nos inspira e motiva a lutar por mudanças positivas. 3 Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 3Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 3 10/07/23 09:4010/07/23 09:40 Vislumbre um mundo onde a bondade, a compaixão e a solidariedade são valores determinantes; um mun- do em que as pessoas se ajudam mutuamente e traba- lham juntas para resolver os problemas, desde aqueles do cotidiano até os de maior escala, como a mudança climática, a desigualdade social e a falta de acesso a re- cursos básicos. Um lugar onde as diferenças são cele- bradas e respeitadas, e a diversidade é vista como um pilar. As pessoas expressam suas opiniões e são incen- tivadas a propor soluções para os problemas coletivos. As cidades são projetadas para que haja vida sustentá- vel e qualidade de vida, com espaços verdes abundan- tes, transporte público acessível e moradias adequadas para todas as pessoas. As comunidades são autossu- ficientes, com produção local de alimentos e energia renovável. Nesse mundo, a tecnologia é usada de maneira res- ponsável e inovadora para melhorar a vida da popula- ção, em vez de ser usada apenas para aumentar lucros ou poder. A educação é acessível para todos, e as pes- soas são encorajadas a buscar conhecimento e seguir aprendendo ao longo da vida. Embalados por sonhos como os de John Lennon, imaginar um mundo harmô- nico é possível e pode sair do onírico para o palpável. Pois bem! Todas essas questões permeiam os ODS e se configuram em metas a serem alcançadas até 2030. E mesmo que a escola já venha promovendo esse de- bate, é sempre importante reiterá-lo, uma vez que a educação é a grande chave para transformar o mundo em um lugar mais igual, mais digno, mais humano. Sendo assim, este Caderno Pedagógico é uma fer- ramenta valiosa em sala de aula, pois ele evidencia, de forma clara e acessível, em cada capítulo, um ou mais ODS, criando a possibilidade de discussões sobre os desafios e as oportunidades para alcançar esses objetivos. Ao trabalhar com os ODS da ONU na escola, os estu- dantes podem aprender sobre a importância da sus- tentabilidade, desenvolver habilidades e valores signi- ficativos, como colaboração, empatia, responsabilidade e liderança, e se tornar cidadãos globais conscientes e ativos em suas comunidades. Os professores encon- trarão, no decorrer dos capítulos, sugestões de ativida- des curriculares e extracurriculares que direcionam os 4 Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 4Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 4 10/07/23 09:4010/07/23 09:40 estudantes a realizar pesquisas, campanhas de cons- cientização, bem como a criação de espaços de deba- tes e reflexão sobre as questões relacionadas aos ODS, promovendo a participação da comunidade escolar em ações de impacto social e ambiental. Um mundo melhor é possível e cada um de nós pre- cisa tomar para si a consciência necessária de mudança atitudinal. E a escola, espaço fundamental de humani- zação, será sempre um local para a formação de agen- tes de mudança em suas comunidades e, sobretudo, no mundo. É preciso agir conjuntamente e tomar medidas concretas para criar um mundo mais justo, sustentável e pacífico. O futuro depende de nós e o desejo em cons- truí-lo de modo que todos possam viver com dignida- de e respeito é o que nos move na esperança de que o Sol – ou a chuva – continuem descortinando as manhãs, com equilíbrio! Para encerrar esta apresentação, convi- damos você a fazer parte dessa construção: Desejamos excelentes leituras! Núcleo de Produção de Conteúdo e Formação e Assessoria Pedagógica Vamos precisar de todo mundo Um mais um é sempre mais que dois Pra melhor juntar as nossas Forças É só repartir melhor o pão Recriar o paraíso agora Para merecer quem vem depois Beto GueDes e Ronaldo Bastos 5 Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 5Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 5 10/07/23 09:4010/07/23 09:40 SUMÁRIO 1CAP . 2CAP . 3CAP . 4CAP . Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável O que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e qual é a importância deles para a sociedade? [Nadiana Lima] Com fome, não há aprendizagem [Verônica Eloi] Educação e periferia: avanços e desafios [Jaciara Gomes] Inclusão e influenciadores digitais[Viviane Louro] Primeiras palavras: 12 22 30 38 9 6 Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 6Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 6 10/07/23 09:4010/07/23 09:40 5CA P . 6CA P . 7CA P . 8CA P . 9CA P . Ilustrações: Paula de A guiar/ A rquivo da editora Era uma vez... reflexões sobre a literatura infantil [Elaine Vidal] Territórios transformadores: a promoção de vida saudável na escola [Danilo Carvalho] A valorização do multiculturalismo na EJA [Diego Domingues] Empreendedorismo nas comunidades [Niva Silva] Inteligência artificial e o futuro das produções textuais: entre a realidade e o sonho [Tiago Ribeiro] 52 60 68 76 44 777 Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 7Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 7 10/07/23 09:4010/07/23 09:40 10C A P . 1 1C A P . 12C A P . 13C A P . 14C A P . Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra O engajamento da juventude para a preservação do ecossistema [Fabrício Cruz] Cidades e comunidades sustentáveis: como a escola pode contribuir nesse processo? [Vinícius Cavichioli] Como trabalhar a igualdade de gêneros na escola? [Paloma Borba] Como despertar a consciência sobre a importância do saneamento básico e da energia limpa e acessível? [Adriana Gomes] Avaliações externas e seus impactos na melhoria da educação [Juvenal de Gouveia] 92 100 110 118 84 8 Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 8Iniciais_CP23_NPCF_001a008.indd 8 10/07/23 09:4010/07/23 09:40 Paula de Aguiar/Arquivo da editoraPaula de Aguiar/Arquivo da ediitora Sustentável PRIMEIRAS Os Objetivos de Desenvolvimento PALAVRAS Atualmente, muito se fala sobre os Objetivos de Desenvolvi- mento Sustentável, da ONU, os chamados ODS. Buscando ofe- recer uma maior qualidade de vida à população planetária, eles fazem parte de um plano de ação para que todas as pessoas do mundo possam se desenvolver, individual e coletivamente, obtendo melhores condições de vida. Vejamos, a seguir, a de- finição apresentada no próprio site da ONU acerca do assunto: [...] São 17 objetivos ambiciosos e interconectados que abor- dam os principais desafios de desenvolvimento enfrentados por pessoas no Brasil e no mundo. [...] Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio am- biente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os luga- res, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Estes são os objetivos para os quais as Nações Unidas estão contribuindo a fim de que possamos atingir a Agenda 2030 no Brasil. R e p ro d u ç ã o /O N U ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Sobre o nosso trabalho para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil. Brasília, DF: ONU Brasil, c2023. Disponível em: https://brasil. un.org/pt-br/sdgs. Acesso em: 30 maio 2023. 9 PP_CP23_NPCF_009a011.indd 9PP_CP23_NPCF_009a011.indd 9 10/07/23 09:4110/07/23 09:41 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs https://brasil.un.org/pt-br/sdgs Objetivo 13 Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos Objetivo 10 Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles Objetivo 12 Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis Objetivo 16 Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade Objetivo 15 Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável Objetivo 14 Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável Objetivo 17 Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis Objetivo 11 10 PP_CP23_NPCF_009a011.indd 10PP_CP23_NPCF_009a011.indd 10 10/07/23 09:4110/07/23 09:41 Objetivo 1 Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares Objetivo 3 Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades Objetivo 6 Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos Objetivo 4 Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação Objetivo 9 Objetivo 5 Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas Objetivo 7 Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todas e todos Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável Objetivo 2 Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todas e todos Objetivo 8 Sugestão para ampliaçãoSugestão para ampliação Para ter acesso ao texto integral de cada um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, acesse: ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Sobre o nosso trabalho para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil. Brasília, DF: ONU Brasil, c2023. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/ sdgs. Acesso em: 30 maio 2023. B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra 11 PP_CP23_NPCF_009a011.indd 11PP_CP23_NPCF_009a011.indd 11 10/07/23 09:4110/07/23 09:41 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs https://brasil.un.org/pt-br/sdgs CAPÍTULO1CAPÍTULO1 Como tudo se conecta A tessitura deste primeiro ensaio é realizada a partir das refle- xões de Nadiana Lima a respeito do filme Cafarnaum. Ao abordar o enredo e como ele se desenvolve, promovendo sensibilização acerca de questões que estão no cerne das motivações para o pacto global proposto pela ONU, a autora constrói um diálogo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), evi- denciando a natureza holística com que devem ser encarados. Partindo dessa premissa e articulando-a com a BNCC, Nadiana demonstra que é possível a produção de um projeto interdiscipli- nar que enalteça a importância de se alcançar um futuro melhor e sustentável para todos. O que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e qual é a importância deles para a sociedade? Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra 12 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 12C01_CP23_NPCF_012a021.indd 12 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 A sociedade e os “milagres” possíveis Começo as reflexões a que este ensaio se propõe tendo como base a lembrança de um filme que em mim reverbera ao pensar sobre o tema desta publicação. É um dos mais inquietantes e comoventes a que assisti em muitos anos. Refiro-me a Cafarnaum1, dirigido pela liba- nesa Nadine Labaki, única mulher entre os concorrentes na categoria de melhor filme estrangeiro na disputa do Oscar 2019. Cafarnaum, hoje sítio arqueológico em Israel, é o nome de uma cidade bíblica também conhecida como a “cidade de Jesus” que, embora tenha sido palco de grandes milagres, fora amaldiçoada como penitência aos incrédulos de Cristo e suas ações. É calcado neste último aspecto que o longa- -metragem se desenvolve. Logo nos primeiros minutos, embalados pela canção “Eye of God” (da relevante trilha composta por Khaled Mouzanar), tem-se uma visão panorâmica de uma geografia inóspita, formada por um conglomerado cru de edifícios desordenados e em ruínas. A essa apresentação do ce- nário, soma-se a dos protagonistas, enredados em situações que já se insinuam desoladoras.São eles: Zain, uma criança libanesa de 12 anos, que foi condenada a cinco anos de prisão e está movendo ação judicial contra seus próprios pais; Tigest, uma mulher etíope que está em situa- ção ilegal juntamente com outras mulheres, com quem Zain cruzará de maneira decisiva para a história de ambos; e Selim e Souad, um casal de réus sobre o qual recai a acusação de maus-tratos e negligência na criação dos filhos. Findas as apresentações, somos surpreendidos pela seguinte resposta-punhal que nos fere, enquanto espectadores, e com a qual passamos a acompanhar, em voltas no tempo, o desenrolar dos fatos que os levaram a se reunir em um tribunal: “– Por que você prestou queixa contra seus pais? – indaga o juiz. – Por eu ter nascido. – sentencia Zain.” 1. Cafarnaum. Direção: Nadine Labaki. França, 2018. Mooz Films. Duração: 103 minutos. Clas- sificação indicativa: 16 anos. Cafarnaum mostra, sobretudo, na figura do garoto de 12 anos, desamparo, indiferença e tipos de violência enfrentados, muitas vezes, por pessoas em vulnerabilidade social. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra S u n n y la n d F il m /D o h a F il m I n s ti tu te 13 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 13C01_CP23_NPCF_012a021.indd 13 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 O que faz uma criança sofrer a ponto de culpabilizar os próprios pais por ter nascido? Embora moldado pela violência, pela pobreza, pela falta de amor, o que lhe confere uma experiência imprópria para idade, Zain protagoniza uma trajetória que revela não só a importância da estrutura familiar e da sociedade na formação das pessoas, mas também como pode nascer compaixão e cuidado de quem supostamente os desco- nhecia, de quem precisou se cobrir com o manto da agressividade e da aridez, desde muito cedo, para se defender da vida que lhe impuseram. As relações afetivas que vão se estabelecendo inesperadamente ocor- rem, como é possível supor, em meio à raiva e à tristeza de ter de passar por tantas privações, de nascer para não existir. É a esperança equilibrista, que insiste em seguir na corda bamba, como nos lembra a canção de Aldir Blanc e João Bosco. As cidades-Cafarnaum do mundo e seus moradores: como modificá-los? Ultimamente, não é raro nos depararmos com julgamentos apressa- dos e propostas de soluções rápidas para problemas sistêmicos com- plexos. Para a maioria das pessoas, é um caminho fácil, por exemplo, no caso do filme Cafarnaum, condenar os pais de Zain pela precarie- dade com que mantêm a si próprios e a seus filhos, tornando-os vilões de um enredo cruel que também os fez vítimas. “Por que tantos filhos, se não podem criar?”, “Quanto mais pobre, mais filho tem”: essas e outras falas, que desconsideram o mosaico de questões que se põem como desafio para todos nós, são comumente pronunciadas por pessoas dos mais diversos estratos sociais. No entanto, há uma pergunta que sempre ocorre quando temos no- tícias de situações como as mencionadas: de quem é, então, a respon- sabilidade? O que permite que situações como as retratadas no filme – cenas de fome, de violência fruto da desigualdade social, de condições insalubres para se viver, de pessoas impedidas de ir e vir, de tráficos de pessoas, de imigrição ilegal, entre outras – ocorram na realidade e sejam tão frequentes? Como resolver ou amenizar esses problemas? Essas são algumas das tantas perguntas que Cafarnaum suscita e que mostra não haver respostas fáceis e prontas para tais indagações. São elas também que norteiam as razões pelas quais precisamos, enquanto sociedade, pactuar em prol da humanidade. Afinal, como é possível garantir educação de qualidade a quem tem fome? Como ga- rantir um trabalho decente sem que haja redução das desigualdades? Como promover uma agricultura sustentável quando não há consumo e produção responsáveis? Como conciliar inovação e crescimento eco- nômico de modo a garantir energia limpa e acessível? Como ter saúde COMO PODE NASCER COMPAIXÃO E CUIDADO DE QUEM SUPOSTAMENTE OS DESCONHECIA Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da Editora 14 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 14C01_CP23_NPCF_012a021.indd 14 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 e bem-estar sem que haja paz, justiça e instituições eficazes que garantam que os direitos serão cumpridos, sobretudo, quando não há igualdade de gêneros? Como construir cidades e comuni- dades sustentáveis, se não houver sequer água potável e saneamento básico? Como se pode entrever dos questionamentos que se avolumam – mais uma vez, sem res- postas prontas e simples –, as possíveis soluções estão entrelaçadas, demandando dos países (em um nível global) e de cada pessoa (desempenhando seus papéis sociais, em nível local) ações que considerem um olhar holístico sobre os temas. É nesse contexto de reconhecimento da necessidade de encarar esses desafios de maneira conjunta e interligada que surgem, em 2015, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU) aos seus países-membros, cujos líderes se comprometem a seguir uma agenda política global que visa ao desenvolvimento sustentável em suas três dimensões: a eco- nômica, a social e a ambiental. No entanto, promover esse tipo de desenvolvimento, conforme aponta texto que formaliza esse Pacto Global, só é possível com “a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, o combate às desigualdades dentro dos países e entre eles, a preservação do pla- neta, a criação do crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável e a promoção da inclusão social”, uma vez que “estão vinculados uns aos outros e são interdependentes” (ONU, 2015, p. 5). Para tal, têm-se o ano de 2030 como horizonte, um total de 169 metas específicas que se distribuem pelos objetivos e uma série de recomendações/propostas no que diz respei- to à sua implementação, como a promoção de parcerias multissetoriais (entre Estados-mem- bros, sociedade civil, setores privados, comunidade científica e outras partes interessadas) para disponibilização de recursos financeiros, compartilhamento de conhecimentos e investimento em tecnologia. Todas essas ações colaborativas firmadas em 2015 (e com vigência em 2016) compreendem a chamada Agenda 2030, cujo lema é “não deixar ninguém para trás” (não por acaso, muito se- melhante ao “ninguém solta a mão de ninguém”), por meio do qual se entende que, para alcançar os ODS efetivamente, é preciso atentar/analisar/rever políticas, legislações e estratégias nacio- nais referentes a pessoas que, historicamente, são “deixadas para trás”, como mulheres, indíge- nas, pessoas com deficência, idosos, negros e comunidade LGBTQIA+. Além disso, a Agenda é fundamentada em cinco princípios: * universalidade, o que pressupõe envolvimento de todos os países; * integralidade e indivisibilidade dos ODS, uma vez que, como mencionado, os objetivos estão entrelaçados e demandam soluções integradas; * enfoque inclusivo e participativo, a partir do qual todas as pessoas vulneráveis devem ser envolvidas nacional, regional e localmente na implementação, no monitoramento e na pres- tação de contas; * apropriação nacional, uma vez que são reconhecidas e respeitadas as circunstâncias e os desafios nacionais de cada país que, guiados pela ambição global, são soberanos na execu- ção de metas nacionais para implementação de políticas e estratégias para cumprir os ODS; * enfoque baseado nos Direitos Humanos, que evidencia a necessidade de os governos pri- marem pelo cumprimento de todo arcabouço da Declaração Universal dos Direitos Humanos. NÃO DEIXAR NINGUÉM PARA TRÁS 15 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 15C01_CP23_NPCF_012a021.indd 15 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Articulando os Programas de Governo com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. ONU, 2018, p. 4. Disponível em: https://brasil.un.org/sites/default/files/2020-10/Publica%C3%A7%C3%A3o%20Articulando%20os%20ODS_REQ_ID_6998.pdf. Acesso em: 27 mar. 2023. Talvez tenha vindo à sua mente, você que lê estas reflexões, justa- mente pela semelhança, os princípios que fundamentam a Educação em Direitos Humanos, conforme apregoam as Diretrizes Nacionais da Educação em Direitos Humanos (DNEDH): a) a dignidade humana; b) a democracia na educação e no ensino; c) a valorização das diversidade; d) a transformação social; e) a interdisciplinaridade; f) a sustentabilida- de. E essa possível retomada não é aleatória. Partir de uma educação que esteja alinhada com esses príncipios pressupõe uma formação ética, crítica e política dos sujeitos, tendo em vista que: [...] A formação ética se atém a preceitos subjetivos: dignidade da pessoa, liberdade, justiça, paz, igualdade e reciprocidade entre as nações são tidos como valores humanizadores. Já a formação crítica Os ODS são o ponto central da Agenda 2030 da ONU. Eles fo- ram propostos na Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, em 2012, e contemplam as cinco esferas demonstradas neste esquema. R e p ro d u ç ã o /O N U 16 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 16C01_CP23_NPCF_012a021.indd 16 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 https://brasil.un.org/sites/default/files/2020-10/Publica%C3%A7%C3%A3o%20Articulando%20os%20ODS_REQ_ID_6998.pdf https://brasil.un.org/sites/default/files/2020-10/Publica%C3%A7%C3%A3o%20Articulando%20os%20ODS_REQ_ID_6998.pdf Francisco Javier Vera Manzanares, ou Francisco Activista, como também é conhecido, atualmente com 13 anos, mas que, desde os 8 anos, vem se destacando por seu ativismo em prol do clima e, consequentemente, pela vida. implica no desenvolvimento de juízo de valores diante dos cenários cultural, político, econômico e social. Por fim, a formação política trabalha num ponto de vista transformador, promove o empodera- mento, compreendido como a emancipação dos indivíduos para que eles próprios tenham capacidade para defender os interesses da co- letividade. (BRASIL, 2013, p. 12-13). BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Caderno de Educação em Direitos Humanos. Educação em Direitos Humanos: Diretrizes Nacionais. Brasília, DF: Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_docman&view=download&alias=32131-educacao-dh -diretrizesnacionais-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 27 mar. 2023. Como se pode verificar, toda essa discussão está diretamente rela- cionada com a tese de “conscientização” que é desenvolvida por Freire (1979) – ou “empoderamento”, como é referido nas Diretrizes –, segun- do o qual não é obtida quando se está diante da realidade ou quando ela é constatada. Antes, conscientizar-se significa tomar posse da realida- de, agir criticamente com fins de intervenção, (re)construção. Cons- cientização é, portanto, um ato pragmático que é constituído pela uni- dade dialética ação-reflexão, de maneira permanente. Por isso, refletir sobre nossa realidade e transformá-la por meio de atitudes colaborativas, pelo bem comum, o que exige sempre reiterar os ODS, é uma ação constante, perene. E, como ficou salientado até aqui, é papel primordial da escola, já que, como apregoa a Base Nacional Comum Curricular, é preciso desenvolver competências gerais que se articulam entre si (e que perpassam todos os componentes curriculares e as grandes áreas de conhecimento) com vistas a uma formação integral dos estudantes. Pelo imperativo que se demanda mundialmente, não devemos nos es- quecer de que nosso papel, como profissionais da educação, é cola- borar para formar cidadãos conscientes de seu papel transformador. A Agenda 2030 também é uma carta direcionada às crianças e aos jovens, entendidos como agentes fundamentais dessa mudança que queremos no mundo. É o que aprendemos, por exemplo, com a atuação inspiradora do jovem colombiano Francisco Javier Vera Manzanares. Ele e suas ações serão meu farol, no tópico seguinte, para refletirmos juntos sobre possibilidades de trabalho docente em promoção dos ODS. Os ODS e a #ecoesperança na escola: como promovê-los? Consideremos esta afirmação: “Cada vez mais jovens estão lutando contra a emergência climática, porque somos os principais afetados por esse problema. Estamos enfrentando uma crise ‘sem futuro’ que ameaça nossa própria sobrevivência. [...] Nós, jovens, vemos como o CONSCIENTIZAR-SECONSCIENTIZAR-SE SIGNIFICA TOMAR POSSE DA REALIDADE, AGIR CRITICAMENTE COM FINS DE INTERVENÇÃO, (RE)CONSTRUÇÃO C o rt e s ía : F r a n c is c o V e r a 17 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 17C01_CP23_NPCF_012a021.indd 17 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 planeta está enfrentando essa crise ecológi- ca e, além disso, vemos também o efeito de guerras, escassez de alimentos, desigualda- des e problemas como a precariedade ou a falta de moradia, que dificultam nossas vidas. Tudo isso gera indignação. E esse sentimento é o que acaba gerando as mobilizações mas- sivas em que se reivindica a construção de um mundo melhor para todos”2. Tal declaração poderia, tranquilamente, ter sido proferida por um líder de Estado ou de al- guma instituição global, ou mesmo ter sido re- produzida de documento oficial mundial, mas não. Trata-se de uma pertinente observação feita pelo jovem colombiano Francisco, em en- trevista que concedeu ao El Periódico (RAFFIO, 2023), em março de 2023, ao ratificar a impor- tância da mobilização de crianças e jovens, do mundo todo, frente à crise climática. Para ele, que costuma criticar o que chama de “sociedade adultocêntrica” – em que a voz e os pensamentos dos mais jovens são nor- malmente deslegitimados, como se fossem leituras de teleprompters do que escrevem seus pais ou professores –, essa crise é culpa de uma geração inconsequente que passou a maior parte do século XX explorando os com- bustíveis fósseis, fato que deve impulsionar mudanças integradas, desde a educação até a economia, ou seja, que articulem políticas ambientais (o que exige voto em projetos de governo que atendam a esse chamado mun- dial) e mobilização massiva de todos. Como se observa, Francisco, assim como apregoava Freire, reflete enquanto age, 2. Tradução livre de “Cada vez somos más los jóvenes que luchamos contra la emergencia climática porque somos los principales afectados por este problema. Estamos ante una crisis de ‘no futuro’ que amenaza nuestra propia superviven- cia”, explica. “Los jóvenes vemos cómo el planeta se enfrenta a esta crisis ecológica y, además, también vemos el efecto de guerras, hambrunas, desigualdades y problemas como la precariedad o la falta de vivienda que dificultan nuestra vida. Todo esto genera rabia. Y la rabia es lo que acaba generando las movilizaciones masivas en las que se reclama construir un mundo mejor para todos” (RAFFIO, 2023). 3. Para obter mais informações sobre as atividades do movimento “Guardiões pela vida”, é possível acessar imagens e conteú- dos nas redes sociais. Disponível em: https://www.instagram.com/guardianesporlavida (em espanhol). Acesso em: 5 maio 2023. 4. Um exemplo é a 27a Conferência das Partes (do inglês Conference of the Parties), também referida como COP 27, con- siderada o maior encontro do mundo para debater as questões climáticas. Realizada em novembro de 2022, em Sharm el-Sheikh, no Egito, a conferência promoveu discussões sobre o cumprimento das regras estabelecidas no Acordo de Paris e o uso de fontes renováveis de energia, dentre outras temáticas. Na ocasião, Francisco lançou seu livro. dialeticamente. Ele também foi inspirado por outra jovem, a sueca Greta Thunberg, que, por volta de 2018 (quando o pequeno ativista ti- nha apenas 8 anos), manifestou-se contra a inércia dos adultos diante da realidade. A ima- gem da ativista, veiculada em mídias de todo o mundo, fez com queFrancisco aproveitasse os horários do recreio para, em deliberação com seus colegas de turma, fundar o movi- mento “Guardiões pela vida”3, pelo qual vem “marchando” desde então, o que lhe rendeu grande visibilidade e alguns títulos e prêmios. Atualmente, com 13 anos, além de ser funda- dor do referido movimento, é embaixador da Delegação da União Europeia na Colômbia, assessor das Nações Unidas, participante de diversos fóruns e eventos globais4, autor do livro ¿Qué es el cambio climático? e conside- rado, em 2022, um dos 100 latinos mais com- prometidos com a Ação Climática. Inspirados nesse exemplo, outras crianças e jovens podem despertar a consciência (à luz freireana, com “práxis”) para as questões sociais de apelo global, mas com implicações locais, cotidianas, o que pode se realizar por meio de projetos interdisciplinares (confira uma proposta na seção Em sala de aula des- te capítulo) que fomentem a discussão sobre o desenvolvimento sustentável representa- da pelos ODS e nutram uma “ecoesperança” (termo cunhado por Francisco) de dias futuros melhores. Quem sabe, assim, as “Cafarnauns” que ainda existem pelo mundo possam ser palco não de privações ou maldições, mas de milagres realizados à imagem e à semelhança da verdadeira humanidade. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra 18 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 18C01_CP23_NPCF_012a021.indd 18 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 https://www.instagram.com/guardianesporlavida E M SA L A DE AULA Inspirado pela trajetória do ativista Francisco Javier Vera Manzanares e pelo seu relevante papel social, que tal criar um evento escolar para pensar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável? Esse seria o momento de culminância de leituras e discussões que acontecem pe- riodicamente ao longo do ano, envolvendo cada um dos ODS e mo- bilizando grupos de estudantes de várias faixas etárias. As reflexões poderiam ser mediadas por professores das diferentes áreas de co- nhecimento, a partir de um planejamento conjunto que favoreça o de- senvolvimento das habilidades previstas para cada etapa. Nesses encontros com leituras diri gidas, é possível utilizar, entre outros, alguns dos títulos do site Coletivo Leitor, disponível em: https:// www.coletivoleitor.com.br/ (acesso em: 18 maio 2023). A seguir, algu- mas sugestões. Capa do livro Ver de novo: histórias sobre o meio ambiente, de Alberto Caeiro et al. São Paulo: Ática. Coleção Para gostar de ler. Indicação: 8o e 9o anos. Capa do livro Poesia pela cidadania, de Odete Rodrigues Baraúna. São Paulo: Scipione. Indicação: 1o e 2o anos. Ili ke /S h u tt er st o ck R ep ro d u çã o /E d it o ra Á ti ca R ep ro d u çã o /E d it o ra S ci p io n e 19 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 19C01_CP23_NPCF_012a021.indd 19 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 https://www.coletivoleitor.com.br/ https://www.coletivoleitor.com.br/ Capa do livro O cidadão de papel, de Gilberto Dimenstein. São Paulo: Ática. Indicação: 8o ano. Capa do livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. São Paulo: Ática. Indicação: 8o e 9o anos. Capa do livro “Por que proteger a natureza?”: aprendendo sobre meio ambiente, de Jen Green e Mike Gordon. São Paulo: Scipione. Indicação: 1o e 2o anos. Uma ação interessante é constituir uma comissão organizadora, for- mada por estudantes e professores, divididos em pequenas equipes dedicadas a cuidar de aspectos específicos do evento (confecção de material para o evento e sua divulgação, organização do espaço e devi- da sinalização, mobilização de colegas, etc.). Desse modo, vários serão os agrupamentos de gêneros textuais5 produzidos para o evento, dis- criminados quanto ao momento em que serão elaborados: * antes da realização: enquete para definição do nome do evento, regulamento para participação no evento, cartazes, folhetos, sina- lização dos espaços em que as atividades ocorrerão, caderno com programação do evento, crachás para os participantes inscritos (nas modalidades possíveis: ouvinte ou apresentador, o que exigiriam algum tipo de distinção), além de diversos outros que estariam re- lacionados à arrecadação de fundos, como carta de solicitação de patrocínio ou doação ou uma cartela de rifa, cujo prêmio será sor- teado no dia do evento; 5. Alternativamente, a expressão “agrupamento de gêneros” ou “constelações” também é referida como “conjuntos de gêneros” (DEVITT, 1991), “sistemas de gêneros” (BAZERMAN, 1994), “cadeias de gêneros”, “redes de gêneros” (SWALES, 2004), “gêneros disciplinares” e “colônias de gêneros” (BHATIA, 2004), conforme aponta estudo do professor Benedito Bezerra intitulado “Agrupamentos de gêneros: discutindo terminologias e conceitos”. Grosso modo, é preciso ter em mente que, para um macrogênero, como um seminário, vários outros gêneros são produzidos, por exemplo, o esquema, o resumo, o roteiro, a apresenta- ção de slides, etc. R ep ro d u çã o /E d it o ra Á ti ca R ep ro d u çã o /E d it o ra S ci p io n e R ep ro d u çã o /E d it o ra Á ti ca P au la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra 20 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 20C01_CP23_NPCF_012a021.indd 20 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA Doutora e mestra em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também cursou a graduação em Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa). Tem experiência como pesquisadora acadêmica (bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq, de mestrado pela Capes e de parte do doutoramento pelo CNPq), como professora no Ensino Básico regular e EJA (redes privada e pública) e no Ensino Superior (graduação e pós-graduação, modalidade presencial e a distância) e como revisora textual. Por vários anos, dedicou-se à atuação como assessora pedagógica, elaborando e conduzindo formações continuadas e palestras em instituições diversas no Brasil, dentre outras atribuições. Atualmente, integra o Núcleo de Produção e Formação das editoras Ática, Saraiva e Scipione (vinculado à Saber | Cogna Educação), elaborando recursos didáticos de natureza diversa para auxiliar professores da rede pública. NADIANA LIMANADIANA LIMA * durante a realização: seminário, declamação de poemas, apresenta- ção teatral ou musical, debate, relato de experiência, etc., que serão produzidos pelos estudantes previamente; * após a realização: exposição de fotografias do evento, ficha de ava- liação, reunião para autoavaliação da equipe organizadora, cartazes de agradecimento, podcast com relatos dos bastidores da produ- ção (pode ser conduzido por integrantes da comissão organizadora com a participação de outros colegas que participaram do evento), etc. O conjunto dessas ações permite o desenvolvimento de diversas habilidades, por exemplo, na área de Linguagens, em todos os campos de atuação. Ademais, também são trabalhadas estratégias de argu- mentação e colaboração, promovendo o desenvolvimento de compe- tências necessárias para o mundo do trabalho, tal qual proposto pelos ODS. Vale ainda ressaltar que, como fruto das discussões promovidas pelo evento (que pode ter outras edições ou mesmo compor o calen- dário da escola), outras ações alinhadas com a Agenda 2030 podem ser desenvolvidas, como campanhas de arrecadação de alimentos e de materiais de higiene para comunidades necessitadas, ações de preser- vação e não desperdícios nos espaços de convivência, estudo sobre as adaptações para pessoas com deficiência na estrutura escolar e no entorno, combate a violências como o bullying, etc. Além disso, o desenvolvimento desse projeto interdisciplinar favo- rece uma excelente oportunidade de contribuir para o fortalecimento das competências gerais da BNCC, que, como vimos neste capítulo, foi construída em alinhamento aos princípios que norteiam os ODS e a Agenda 2030. Paula de Aguiar/ Arquivo da EditoraR e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 21 C01_CP23_NPCF_012a021.indd 21C01_CP23_NPCF_012a021.indd 21 10/07/23 08:3410/07/23 08:34 CAPÍTULO2CAPÍTULO2 Como tudo se conecta Com fome, não há aprendizagem Como tudo se conecta Neste ensaio, a partir dos ODS 1, 2 e 10, Verônica Eloi propõe uma reflexão corajosa e necessária sobre a fome e seus impactos no desenvolvimento humano. Do ponto de vista da aprendizagem, a autora aborda as consequências fisiológicas que a carência de alimentos acarreta, sobretudo para crianças e adolescentes, ge- rando dificuldades diversas no processo de aprendizagem. Do ponto de vista social, ela faz uma análise sobre a fome enquan- to causadora e perpetuadora das desigualdades, convidando os educadores a refletirem sobre o papel da escola nesse contexto. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra 22 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 22C02_CP23_NPCF_022a029.indd 22 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 A insegurança alimentar no Brasil A insegurança alimentar no Brasil vem de longa data, ela está rela- cionada às raízes coloniais do país e só teve uma diminuição significa- tiva a partir de políticas públicas específicas adotadas na segunda me- tade do século XXI, iniciativas que chegaram a retirar o país do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas1. O geógrafo Josué de Castro (1984) chamou a atenção da comuni- dade acadêmica ao observar a fome a partir de suas causas sociais. Segundo ele, a fome é produto da apropriação desigual da abundân- cia de recursos da natureza, desmistificando assim a ideia de que a fome provinha de causas naturais, climáticas e étnicas. Castro também denunciou a desigualdade entre as regiões brasileiras e a relação de dependência que nos mantém reproduzindo o subdesenvolvimento dentro e fora do país. Nas palavras de Frei Betto (2010, p. 133), Castro “sublinhava que a desnutrição de milhões de pessoas nada tem a ver com a fatalidade, seja climática ou religiosa”. 1. Em 1990, eram 32 milhões de pessoas que viviam em insegurança alimentar (PELIANO, 1993), mas as políticas públicas elaboradas a partir dos anos 2000 diminuíram em parte as desigualdades sociais, fazendo com que a renda média dos mais pobres aumentasse mais do que a dos mais ricos (NERI, 2012). Contudo, após o desmonte das políticas públicas voltadas para a redução da pobreza e das desigualdades sociais e após a pandemia de covid-19 (CRUZ, 2021), o Brasil retorna aos índices de insegurança alimentar dos anos 1990. O artista Amaro Júnior estimula a reflexão sobre a questão da fome, mazela que assola milhares de brasileiros. A FOME É PRODUTO DA APROPRIAÇÃO DESIGUAL DA ABUNDÂNCIA DE RECURSOS DA NATUREZA A m a ro J r. /C B /D .A P re ss Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da Editora 23 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 23C02_CP23_NPCF_022a029.indd 23 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 Com fome, não há aprendizagem, isto porque uma pessoa que passa por alguma privação alimentar não dispõe de condições su- ficientes para atividades intelectuais e físicas regulares (VALENTE, 2002). Além disso, observa-se que a fome é um fator de desigualda- de entre os sujeitos, pois aqueles que se alimentam adequadamente estão em situação de vantagem em relação aos que não se alimentam (FRANÇA, 2004). A alimentação no ambiente escolar está diretamente ligada à educação. O processo mental de percepção requer do indivíduo a energia obtida única e exclusivamente pela ingestão regular de alimentos. Na imagem, estudantes em escola no povoado de Vargem Funda, Santaluz (BA), 2018. Segundo Valente (2002, p. 48), a segurança alimentar, o acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequados, é fundamental “para uma existência digna em um contexto de desenvolvimento integral da pessoa humana”. Uma pesquisa realizada por Frota et al. (2009, p. 280) sobre um gru- po de crianças que vive com insegurança alimentar revela “hipoativida- de, baixo desempenho intelectual ocasionando comprometimento do rendimento escolar, comprometimento físico relacionado a fraqueza, cansaço, desânimo, dentre outros sintomas”, que descortinam a crueza da relação entre fome e aprendizagem. Por conta da desnutrição infantil, as crianças não têm energia su- ficiente para brincar, atividade primordial para o desenvolvimento emocional, social, moral e cognitivo, que, por sua vez, facilita a apren- dizagem e contribui para o aprimoramento da noção de limites, o S e rg io P e d re ir a /P u ls a r Im a g e n s 24 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 24C02_CP23_NPCF_022a029.indd 24 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 respeito aos colegas e a cooperação (FROTA et al., 2009). Com isso, observa-se que a relação entre brincar e aprender também é com- prometida pela fome. Com fome, não há aprendizagem, pois, além de influir sobre os as- pectos físicos, a fome limita a estrutura mental e a conduta social dos indivíduos (CASTRO, 1984), e acaba contribuindo para um círculo vicio- so de perda de direitos, já que atinge um dos direitos básicos à exis- tência, o direito à alimentação (BRASIL, 1988). A fome está presente principalmente em países subdesenvolvidos. Há 33,1 milhões de pessoas que vivem em insegurança alimentar grave no Brasil, ou seja, sem acesso estável e regular a alimentos, em quanti- dade e qualidade, mas ao todo são 125 milhões de pessoas com algum nível de insegurança alimentar, mais da metade da população brasileira (REDE PENSSAN, 2022). Ainda que a insegurança alimentar faça parte da vida de seis em cada dez brasileiros, ela atinge de formas diferentes os grupos e os indiví- duos, alcançando prioritariamente as mulheres negras (REDE PENSSAN, 2022), uma vez que elas estão mais suscetíveis à informalidade, à preca- rização e ao racismo no mercado de trabalho (SOUZA-LOBO, 2021). A fome tem um fundamento político que diz respeito à distribuição de recursos na sociedade, como se observa nas palavras do geógrafo Milton Santos em entrevista para o filme Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá (2006): No caso do próprio Brasil, se há uma par- te da população que não come correta- mente, isso é culpa unicamente da for- ma como nós organizamos a sociedade, não é que não haja alimentos, não é que não se pode distribuir os alimentos, ape- nas nós decidimos que alguns não de- vem comer, acaba por ser uma decisão [...]. (SANTOS, 2006). Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá. Direção: Silvio Tendler. Produção: Ana Rosa Tendler. [Rio de Janeiro]: Caliban, 2006. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=ifZ7PNTazgY. Acesso em: 17 abr. 2023. Segundo o geógrafo Milton Santos, existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem. Fotografia de 1996. M o a c y r L o p e s J ú n io r/ F o lh a p re s s Pa ula d e A guia r/A rq uiv o d a Edito ra 25 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 25C02_CP23_NPCF_022a029.indd 25 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 https://www.youtube.com/watch?v=ifZ7PNTazgY https://www.youtube.com/watch?v=ifZ7PNTazgY Quem tem fome não tem tempo Para amenizar e, num curtíssimo espaço de tempo, acabar com a fome no país, as políticas públicas são cruciais, pois a insegurança ali- mentar é fruto das escolhas políticas e econômicas. Para enfrentar essa questão, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), ou seja, um “apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade” (ONU, 2023). Os ODS fazem parte da Agenda 2030, plano global da ONU que busca atingir um “mundo melhor para todos os povos e nações” (ONU, 2023). Ao todo são 17 ODS, e três especialmente se dedicamao tema da fome e da pobreza: ODS 1 – Erradicação da pobreza; ODS 2 – Fome Zero e agricul- tura sustentável e ODS 10 – Redução das desigualdades. Considerando que o enfrentamento da fome e da pobreza está no campo das decisões políticas (SANTOS; SILVA, 2021), é funda- mental o desenvolvimento do pensamento crítico na formação dos indivíduos através de uma educação libertadora, que contribua para a emancipação dos cidadãos (FREIRE, 1987), além das políticas públicas necessárias à distribuição de renda e à diminuição das desigualdades sociais. Segundo Paulo Freire (1987), a realidade opressora implica na exis- tência de opressores e oprimidos. A estes cabe lutar junto aos que com eles se solidarizam pela sua libertação, e o caminho é a aquisição de consciência crítica da opressão, por meio da educação, que deve se voltar à transformação da realidade social, e não à sua reprodução. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra 26 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 26C02_CP23_NPCF_022a029.indd 26 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 A educação tem um papel importante no enfrentamento das desigualdades sociais. Christian Laval (2019) chama a atenção para o fato de que os ideais do neoliberalismo estejam tomando espaço na educação, deslegiti- mando valores voltados à igualdade e à cidadania. Com isso, os estu- dantes deixam de ver os elos da cadeia produtiva do capitalismo que alimentam a fome e a pobreza, como o racismo, o machismo, a xeno- fobia e a homofobia, e se tornam mais suscetíveis à desinformação. Ao formar cidadãos, a educação pode se tornar um instrumen- to privilegiado de transformação social, passando a ter uma posi- ção importante quanto ao enfrentamento das desigualdades sociais (BUSNELLO; FONTANA; WEYH, 2020). Para os educadores, o desafio está posto, bem como a meta de criar um mundo melhor para todos os povos e nações. AO FORMAR CIDADÃOS, A EDUCAÇÃO PODE SE TORNAR UM INSTRUMENTO PRIVILEGIADO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL D ra ze n Z ig ic /S h u tt e rs to ck P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra 27 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 27C02_CP23_NPCF_022a029.indd 27 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 E M SA L A DE AULA PROPOSTAS DE ATIVIDADES 2 ATIVIDADE 1 Organize a turma em grupos, delegando a cada um deles a leitura de determinado trecho – constituído por certo número de páginas, de forma que o texto seja dividido de maneira equivalente entre os gru- pos – do livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. Cada grupo deverá elaborar um resumo e relatar suas impressões a respeito do trecho estudado, apresentando-os, poste- riormente, à turma. Determine o formato da apresentação, os recur- sos utilizados e o tempo para a realização da atividade, tanto em casa quanto em sala de aula, levando em conta as especificidades de seu local de trabalho e as condições sociais, a disposição e a disponibili- dade dos discentes. Depois da exposição de cada grupo, ou ao final da sequência de apresentações, promova uma discussão relacionando o conteúdo do livro às informações apresentadas em sala de aula sobre as questões da fome e da aprendizagem, explore as várias dimensões (sociais, filosóficas, políticas, econômicas, etc.) de tais temáticas em diálogo com a obra. Os estudantes podem ser previamente avisados a respeito da realização dessa última etapa de discussão em sala de aula e instruídos a preparar algumas reflexões antecipadamente, caso considere proveitoso. 2. As propostas aqui sugeridas podem ser adaptadas para os Anos Finais do Ensino Funda- mental ou Ensino Médio, de acordo com a realidade de cada escola. A escritora Carolina Maria de Jesus, conhecida mundialmente pela obra Quarto de despejo: diário de uma favelada, traduzido em treze idiomas, registrou o cotidiano de miséria no qual ela e outros moradores da favela do Canindé, em São Paulo, viviam. Fotografia de 1960. R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o N a c io n a l, R io d e J a n e ir o , R J . Paula de Aguiar/Arquivo da Editora 28 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 28C02_CP23_NPCF_022a029.indd 28 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA ATIVIDADE 2 Como alternativa à proposta anterior, prepare uma apresentação so- bre o livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, e inclua-a em seus planos de aula a respeito das questões da fome e da aprendizagem, promovendo, em seguida, a discussão com a turma. A realização dessa segunda proposta pode ser conveniente e/ou necessária em contextos de dificuldade de acesso à obra por parte dos discentes, escassez de recursos que viabilizem as apresen- tações dos grupos, indisponibilidade de agenda, entre outras condi- ções desfavoráveis. ATIVIDADE 3 3 Promova a escuta da canção “A carne”, de Marcelo Yuka e Seu Jorge, do álbum Do cóccix até o pescoço (2002), de Elza Soares. Em seguida, organizados em grupos, os estudantes devem separar os trechos da canção que consideraram importantes. Organize uma roda de con- versa para comentar o assunto e exponha dados estatísticos sobre a relação entre desigualdades sociais e raciais para discutir com a turma. Sugestões para ampliação Sugestões para ampliação 4 Podcast PRATO CHEIO. Fome, uma coisa horrorosa, 2020. Duração: 31 minutos. Documentários Das nuvens pra baixo. Direção: Eliska Altmann e Marco Antônio Gonçalves. Rio de Janeiro: Geringonça Filmes e Produções Artísticas, 2015. Duração: 75 minutos. Disponível em: https://www.https://www.youtube.com/watch?v=8GyRhazy7cE. Acesso em: 24 maio 2023. Classificação indicativa: 14 anos. Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá. Direção: Silvio Tendler. Produção: Ana Rosa Tendler. [Rio de Janeiro]: Caliban, 2006. Duração: 89 minutos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ifZ7PNTazgY. Acesso em: 17 abr. 2023. Classificação indicativa: 14 anos. 3. Professor, esta é uma canção cuja letra aborda muitas discussões. Recomendamos que seja trabalhada com sua mediação. 4. Professor, o podcast e o documentário Das nuvens pra baixo são indicados para o tra- balho com estudantes do Ensino Médio. O documentário com o geógrafo Milton Santos é indicado para que você tenha mais informações sobre o tema. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e docente do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), da UERJ (FFP) e do Mestrado em Novas Tecnologias Digitais na Educação, da Unicarioca-RJ. VERÔNICA ELOIVERÔNICA ELOI P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a E d it o ra R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 29 C02_CP23_NPCF_022a029.indd 29C02_CP23_NPCF_022a029.indd 29 10/07/23 08:3510/07/23 08:35 https://www.youtube.com/watch?v=ifZ7PNTazgY CAPÍTULO3CAPÍTULO3 Educação e periferia: avanços e desafios Como tudo se conecta Com base nos ODS 10 e 11, Jaciara Gomes tece, neste ensaio, um resgate histórico da formação das periferias brasileiras e faz uma análise do Brasil como país periférico e do seu silenciamento, na maioria das vezes, sobre as populações que habitam suas perife- rias. Jaciara questiona, então, o papel da escola nesse contexto, tra- zendo possibilidades de transformação e esperança por meio de ações como educação antirracista e valorização da diversidade de culturas e realidades sociais. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 30 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 30C03_CP23_NPCF_030a037.indd 30 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 ENQUANTO UM ATO DE AMOR E DE CORAGEM, A EDUCAÇÃO PRECISA ENFRENTAR O DEBATE, ANALISAR A REALIDADE, POIS DO CONTRÁRIO SERIA UMA FARSA. Educação e cidadania É possível afirmar que para alguns a escola se constituiu histori- camente como um espaço de exclusão, voltada a valores e objetivos elitistas. Como aponta Libâneo (2004), não se estranhaque, mesmo quando idealizada como pública e obrigatória para todos, essa agência social se revelou homogeneizante culturalmente, já que buscava uma cidadania nacional. Paulo Freire (1967) enfatizou que, enquan- to um ato de amor e de coragem, a educa- ção precisa enfrentar o debate, analisar a realidade, pois do contrário seria uma farsa. A partir dessas ideias, compreendemos que a relação entre educação e periferia, numa perspectiva formal do ensino, constitui-se ainda na atualidade como um desafio. No Brasil, as desigualdades e injustiças sociais são ampliadas. Em sua história, a nação brasileira carrega o peso de ter se estruturado na escravidão e no genocídio de povos indígenas. Após esse período de violências, as práticas de violação da humanidade do diferente se sofisticaram, de modo que a dizimação desses grupos ganhou outros contornos com os negros atirados à própria sorte para sua sobrevivên- cia em territórios muitas vezes hostis (favelas e periferias) e com os povos indígenas relegados a territórios mínimos e até sem direito al- gum a território frente à exploração desenfreada das riquezas naturais. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável no mundo afir- ma em seu preâmbulo que a erradicação da pobreza e da fome em todas as suas formas são imprescindíveis nesse processo. Por essa ra- zão, estabelece, em seus 17 objetivos e 169 metas, um plano de ação que articula três bases: as pessoas, o planeta e a prosperidade. Portan- to, refletir sobre a relação entre educação e periferia é fundamental, já que nessa relação identificamos os desafios que implicam as bases e, consequentemente, a busca por acabar com a pobreza e a fome. As escolas construídas nas periferias são fundamentais para a capacitação dos estudantes e, também, funcionam como polo de entretenimento para a comunidade. Na imagem, estudantes da Escola Estadual Olga Benário Prestes, no Rio de Janeiro (RJ), 2021. C h ic o F e rr e ir a /P u ls a r Im a g e n s Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 31 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 31C03_CP23_NPCF_030a037.indd 31 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 Desafios básicos Garantir que todas as pessoas possam desenvolver as suas poten- cialidades, sustentavelmente, em dignidade e em igualdade se cons- titui em um desafio ambicioso. Para tanto, faz-se necessário superar a perspectiva de escola e estudantes ideais que se contrapõe à educa- ção emancipatória e integral. Embora já em 1824, a Constituição do Império resguardasse a edu- cação a todos os cidadãos, a cidadania não era reconhecida a todos. É com a sua universalização, descrita na Constituição Democrática, de 1988, conhecida também como Constituição Cidadã, que a educação passa a ser dever da família e do Estado e direito de todos. Somente a partir desse documento que todos passam a ser iguais perante a lei. Hoje, 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Na- ção mudou. A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos poderes, mudou restaurando a Federação, mudou quando quer mudar o homem em cidadão, e só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospi- tal e remédio, lazer quando descansa. GUIMARÃES, Ulysses. Discurso de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição de 1988. Revista de Direito Administrativo, v. 249, p. 295-302. Disponível em: https://doi.org/10.12660/rda. v249.2008.4103. Acesso em: 31 maio 2023. (grifo nosso). Além dos avanços identificados na Constituição Cidadã, outras conquistas foram esta belecidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Edu- cação (LDB, Lei n. 9 394/96). Entre as quais podemos lembrar os prin- cípios basilares para o ensino, com destaque aqui para o primeiro, que determina: “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Este é um ponto fundamental no debate aqui proposto, já que o referido princípio permanece sendo um importante desafio. Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvi- mento Econômico (OCDE), houve melhoras no número de matrículas e no nível de escolaridade no Brasil. Todavia, o estudo revelou que ainda há pontos a serem superados na educação nacional. O destaque está na redução de desigualdades na educação (que, como é de conheci- mento da maioria dos profissionais da educação, foram agravadas com a pandemia de covid-19), bem como na urgência em definir com cla- reza os papéis entre os entes da Federação para fortalecer o Sistema Nacional de Educação. Para reduzir as desigualdades, é necessário não apenas identificá-las, mas reconhecê-las e combatê-las com políticas públicas que reparem injustiças historicamente construídas. Essas desigualdades são diversas e multidimensionais, revelando-se de modo interseccional entre classe, raça, gênero, localização geográfi- ca, entre outras. Vejamos alguns dados estatísticos1 desses problemas: 1. OLIVEIRA, Elida. Brasil melhora acesso à escola, mas ainda precisa superar desigualdade, aponta OCDE. G1, [s. l.], 30 jun. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/ noticia/2021/06/30/brasil-melhora-acesso-a-escola-mas-ainda-precisa-superar -desigualdade-aponta-ocde.ghtml. Acesso em: 19 maio 2023. O então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado Ulysses Guimarães, segura exemplar da Constituição Cidadã. Fotografia de 1988. A rq u iv o A B r/ A g ê n c ia S e n a d o Pau la d e A guia r/A rq uiv o d a ed ito ra 32 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 32C03_CP23_NPCF_030a037.indd 32 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 https://doi.org/10.12660/rda.v249.2008.4103 https://doi.org/10.12660/rda.v249.2008.4103 https://g1.globo.com/educacao/noticia/2021/06/30/brasil-melhora-acesso-a-escola-mas-ainda-precisa-superar-desigualdade-aponta-ocde.ghtml https://g1.globo.com/educacao/noticia/2021/06/30/brasil-melhora-acesso-a-escola-mas-ainda-precisa-superar-desigualdade-aponta-ocde.ghtml https://g1.globo.com/educacao/noticia/2021/06/30/brasil-melhora-acesso-a-escola-mas-ainda-precisa-superar-desigualdade-aponta-ocde.ghtml • Acesso ao ensino médio: Em 2018, 60% da população negra ou par- da havia concluído pelo menos o ensino médio, índice que chega a 76% entre brancos; • Acesso ao ensino superior: 36% dos brancos com idade entre 18 e 24 anos estavam na universidade ou já haviam concluído o ensino superior em 2018; entre negros e pardos, o índice era de 18%; • Exclusão: Em 2019, quase 25% de negros e pardos de 18 a 24 anos não estudavam nem trabalhavam; para brancos, o índice era de 17%; • Abandono escolar e mercado de trabalho: segundo a OCDE, os da- dos sugerem que a desigualdade leva negros e pardos a deixarem a escola para trabalhar. Dados semelhantes já estavam em relatório da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD Contínua/Educação. De acordo com a PNAD, em 2019, 71,7% das pessoas entre 14 e 29 anos que não completaram alguma etapa da Educação Básica (seja por abandono ou por nunca ter frequentado) são negras. O mesmo documento aponta que 25,3% das pessoas de 15 a 29 anos de idade que não se qualificam, nem trabalham nem estudam são negras. Ademais, a taxa de analfabe- tismo é 5,3% maior para negros e pardos. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua/Educação 2019. Biblioteca IBGE, [s. l.], 2020, p. 11. Frequência escolar. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/ liv101736_informativo.pdf. Acesso em: 19 maio 2023. A partir desses dados é possível identificar que o combate ao racis- mo é crucial para o desenvolvimento da nação, em ambiente sustentá- vel. Em termos educacionais, como posto na LDB, pensamos que outros três princípios basilares do ensino se apresentam como desafiadores. O primeiro aborda a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; o segundo trata do pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; e, porfim, o terceiro trata do respeito à liberdade e apreço à tolerância. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra R e p ro d u ç ã o /I B G E - I n s ti tu to B ra s il e ir o d e G e o g ra fi a e E s ta tí s ti c a 33 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 33C03_CP23_NPCF_030a037.indd 33 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101736_informativo.pdf https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101736_informativo.pdf Educação antirracista É na relação entre educação e periferia que reside a prática de uma educação antirracista. Vimos que a desigualdade racial é extrema no Brasil. Isso se explica de modo simples (mas nada simplório) por ser o racismo uma construção histórica e ideológica, estruturante do país nos eixos da economia, da política e da justiça. Para compreendermos melhor o racismo, apresentamos, a seguir, a definição apresentada por Silvio Luiz de Almeida: O racismo é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios para indivíduos, a depender do grupo racial ao qual per- tençam. (2020, p. 32). ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Jandaíra, 2020. Na composição, escritoras negras que em suas obras abordam as desigualdades que afligem populações historicamente discriminadas. De cima para baixo: Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo. Parece não haver dificuldades em reconhecer que a luta contra o racismo apresenta avanços no contex- to educacional. Estamos considerando isso a partir do ponto de vista também legal, já que há duas décadas foi promulgada a Lei n. 10 639/03 estabelecendo a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura africa- na e afrobrasileira na Educação Básica. Esta lei alterou a LDB e foi reformulada com a Lei n. 11 645/06 que incluiu o ensino de História e Cultura dos povos indígenas. A filósofa Djamila Ribeiro, em seu Pequeno manual antirracista, convida a todos, principalmente pesso- as brancas, a se perceberem criticamente, acordan- do para os privilégios de certos grupos na sociedade. Desse modo, a estudiosa nos desafia a de fato agir na superação das desigualdades em um sistema que nega as mazelas que ele mesmo produz. A autora lista ações que podem aqui ser retomadas para pensarmos em uma educação antirracista. Para isso, discute nos capítulos da referida obra cada ação sugerida e mo- dos de concretizá-las. Assim defende que, buscando sermos todos antirracistas, precisamos nos informar sobre o racismo, enxergar a negritude, reconhecer os privilégios da branquitude, perceber o racismo inter- nalizado em nós, apoiar políticas educacionais afirma- tivas, transformar nosso ambiente de trabalho, ler au- tores negros, questionar a cultura que consumimos, conhecer nossos desejos e afetos e por fim combater a violência racial. Temos explicitada, nessa perspectiva, uma relação entre educação, culturas e realidade social, de modo que não podemos deixar de refletir sobre cidadania, políticas públicas na cidade e inclusão. BUSCANDO SERMOS TODOS ANTIRRACISTAS, PRECISAMOS NOS INFORMAR SOBRE O RACISMO, ENXERGAR A NEGRITUDE, RECONHECER OS PRIVILÉGIOS DA BRANQUITUDE V in c e n t B o s s o n /F o to a re n a R e p ro d u ç ã o / A rq u iv o N a c io n a l, R io d e J a n e ir o , R J . A g e n c e O p a le / A la m y /F o to a re n a 34 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 34C03_CP23_NPCF_030a037.indd 34 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 Educação, culturas e realidade social Formar para o exercício da cidadania é objetivo da Educação. Essa formação cidadã é construída a partir do desenvolvimento de habilida- des e competências efetivas no jogo democrático. Entretanto, Bizelli (apud DAVID et al., 2015) nos alerta para as contradições entre o que se almeja e o que realmente se tem com um quadro que longe dos valores éticos se caracteriza cada vez mais competitivo. Nesse sentido, parece necessária uma educação que forme os jo- vens para participação política na vida em sociedade, ou seja, é preciso educar a juventude para contribuir ativamente com o desenvolvimento e bem-estar do meio em que vive. Isto somente será possível se os jovens dispuserem de conhecimentos, competências e atitudes promovidos não apenas no espaço escolar, mas também no espaço urbano, cada vez mais influenciado pelas inovações tecnológicas. Ainda de acordo com Bizelli (Ibidem, p. 30), “uma ação pedagógica, participativa e cidadã po- derá recompor a tessitura de lealdades com a finalidade de construir- mos arranjos consensuais estáveis sobre a vida pacífica para todos.”. Agentes do Ministério Público atuam em escolas de Educação Básica de vários municípios brasileiros verificando a qualidade do ensino e as condições das escolas. Fotografia de 2014. O escritor Silvio Luiz de Almeida afirma que as políticas educacio- nais refletem sobre as contradições do processo de descentralização de políticas públicas no Brasil. Almeida aponta o papel da construção de territorialidades políticas e culturais contra-hegemônicas em defe- sa da educação pública e da universalização de outras políticas sociais. Assim, as práticas sociais constroem de modo intrinsecamente contraditório sociabilidades tanto conformadas às normas do capi- tal, como possibilidades de práticas pedagógicas e civilizatórias, para emancipação humana (ALMEIDA, apud DAVID et al., 2015). E lz a F iu za /A g ê n c ia B ra s il Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 35 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 35C03_CP23_NPCF_030a037.indd 35 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 Considerações finais No “Manifesto da Antropofagia Periférica”, o poeta Sérgio Vaz (2007) ensina que um povo lindo e inteligente surge das ladeiras a galope contra o passado e a favor de um futuro limpo para todas as pessoas. Ademais, defende que “a Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que gri- ta contra o silêncio que nos pune.”. É na certeza de que esse grito existe em toda e qualquer favela, periferia, pois como afirma Mano Brown “periferia é periferia em qualquer canto”, que a desafiadora relação entre educação e periferia precisa caminhar. A escola, como toda sociedade, não pode permanecer como espaço de silenciamentos dos negros, dos povos indígenas. Em meio à pandemia de covid-19, o escritor Ailton Krenak (2020) nos provocou a pensar sobre os muitos desafios para a vida no pla- neta. Contaminados pela ideia de progresso, reinventamos modos de nos violentar, formas de esgotamentos da vida. Assim, reflete sobre a não utilidade da vida, ensinamentos e prá- ticas que os indígenas conhecem bem. Já os negros, podemos acrescentar, têm consegui- do, muitas vezes, transgredir o sistema para manutenção da própria vida, regada a afeto. São essas vivências que a relação entre edu- cação e periferia precisa enfrentar. A experiência histórica mostra as contra- dições que ocorreram no tecido urbano com o deslocamento de milhares de pessoas do campo para a cidade. O rápido crescimento dos centros urbanos contribuiu na formação de novas relações de trabalho e no surgimento de rotinas que, por sua vez, forjaram práticas de segregação socioespacial. O território é construído distintamente a partir da relação entre sujeito e espaço, como bem conceituou o geógrafo Milton Santos: O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimen- to de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residên- cia, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre as quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em território usado, utilizado por uma dada população.(2007, p. 96-97, grifo nosso). SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 14. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007. Nesse sentido, torna-se fundamental pen- sar a educação sustentável de modo holísti- co, ou seja, para além da questão ambiental, mas incorporando as (ir)reponsabilidades hu- manas, a pobreza, o respeito à diversidade, a erradicação da fome, como salienta Elisabete Maniglia (apud DAVID et al., 2015). A PERIFERIA NOS UNE PELO AMOR, PELA DOR E PELA COR. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 36 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 36C03_CP23_NPCF_030a037.indd 36 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 E M SA L A DE AULA QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA PROPOSTAS DE ATIVIDADES 2 A sala de aula pode atuar no enfrentamento das desigualdades e injustiças sociais pelo viés histórico e cultural. Com esse caminho, articulamos tanto a legislação, no caso da Lei n. 11 645/08, como o que estabelece a BNCC. O material produzido pela Cooperifa, cooperativa idealizada pelo poeta Sérgio Vaz, tem como um dos seus objetivos divulgar artistas que produzem arte popular. Os cooperados buscam le- var diversas expressões culturais das ruas de São Paulo para uma reunião que acontece men- salmente na região sul da capital. É possível obter mais informações sobre conteúdos e eventos da Cooperifa por meio das redes sociais. Além disso, para essa formação cidadã, o mercado editorial conta recentemente com importantes obras, que possibilitam a inserção de outras vozes sociais no contexto do ensino for- mal. Podemos citar a publicação em livro do mais importante álbum do grupo de rap Racionais MC’s, Sobrevivendo no infer- no, um retrato contundente do Brasil na década de 1990. Tam- bém o livro Música para o povo que não ouve, escrito pelo líder da banda de punk rock Devotos, que transformou a periferia do Recife em centro. O artista ainda realiza um trabalho de percor- rer as escolas com palestras sobre como a música mudou sua vida. Ainda em livro, podemos sugerir a obra do escritor Miró, poeta de São Paulo e do Recife, que traduz as desigualdades sociais, transitando entre o amor e a dor. O blogue do e-docente apresenta textos com importantes discussões sobre racismo e desigualdades, bem como sobre educação antirracista. 2. As propostas aqui sugeridas podem ser adaptadas para os Anos Finais do Ensino Fundamental ou Ensino Médio, de acor- do com a realidade de cada escola. Capa do livro Música para o povo que não ouve, de Cannibal. Recife: Cepe Editora. Doutora em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Professora-adjunta na UPE. Coordenadora do PROFLETRAS/CAPES e do projeto de extensão sobre culturas periféricas, o CULPERIFA, além de liderar o grupo de pesquisa em Letramentos e práticas discursivas e culturais (LEPDIC UPE/CNPq). Realiza um projeto de extensão sobre práticas culturais periféricas que conta também com uma série de lives no canal de seu grupo de pesquisa, Lepdic UPE, no Youtube. JACIARA GOMESJACIARA GOMES Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra R e p ro d u ç ã o /E d it o ra C e p e R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 37 C03_CP23_NPCF_030a037.indd 37C03_CP23_NPCF_030a037.indd 37 10/07/23 08:3610/07/23 08:36 CAPÍTULO4CAPÍTULO4 Inclusão e influenciadores digitais Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra Como tudo se conecta Neste ensaio, que faz alusão ao ODS 10, Viviane Louro mescla passado e presente, história e contemporaneidade. Começa fa- zendo um resgate histórico de como as pessoas com deficiên- cia são tratadas em nossa sociedade e aborda, então, o fenôme- no dos influenciadores digitais e sua contribuição para a inclusão dessas pessoas em diferentes contextos sociais. O ensaio é fi- nalizado com sugestões de como a escola pode trabalhar esse tema, articulando o fascínio que os influencers costumam exercer sobre diferentes públicos à necessidade de se promover a inclu- são em todas as esferas. 38 C04_CP23_NPCF_038a043.indd 38C04_CP23_NPCF_038a043.indd 38 10/07/23 08:3710/07/23 08:37 P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra Desenvolvimento sustent‡vel e inclus‹o A Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a Agenda 2030, determinando que os países de todo o mundo precisam im- plementar 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até o referido ano. O Objetivo de número 10 visa promover a redução da desigualdade e tem dentre seus objetivos específicos: 10.2 Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra 10.3 Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualda- des de resultados, inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 10: Redução das desigualdades. ONU, 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/10. Acesso em: 19 maio 2023. É nesse contexto que as ações afirmativas, para os públicos que sempre foram marginalizados, destacam-se e são, cada vez mais, incen- tivadas. Dentre a população que vive à margem social, talvez, as pessoas com deficiência e transtornos sejam, ainda, as mais invisibilizadas. Ve- mos constantemente na mídia de um modo geral falas sobre empodera- mento feminino, sobre o combate ao racismo, a gordofobia, a homofobia e a transfobia, mas essas ações ainda não inserem o discurso da maioria, falas a favor do combate ao capacitismo (preconceito com pessoas com deficiência) e a psicofobia (preconceito com pessoas com transtornos mentais). Esses termos sequer são conhecidos pela maioria da popu- lação. Por esse motivo, as iniciativas individuais de pessoas com defici- ência e transtornos em prol da diminuição do preconceito e melhoria da consciência social sobre a importância da acessibilidade universal são fundamentais, uma vez que não são multiplicadas as iniciativas coletivas e públicas para dar visibilidade a essas pessoas. É nesse “lugar” que en- tram os influenciadores digitais da inclusão. A interação sem discriminação é fundamental para a integração e o desenvolvimento da sociedade. EMPODERAR E PROMOVER A INCLUSÃO SOCIAL, ECONÔMICA E POLÍTICA DE TODOS S e v e n ty F o u r/ S h u tt e rs to ck 39 C04_CP23_NPCF_038a043.indd 39C04_CP23_NPCF_038a043.indd 39 10/07/23 08:3710/07/23 08:37 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/10 Paula de Aguiar/Arquivo da editora Os influencers da inclus‹o Os influenciadores digitais ou influencers são indivíduos que produ- zem conteúdos sistemáticos para a internet e que, na maioria das vezes, colaboram na formação de opinião, no comportamento e na tomada de decisão de seus seguidores com suas falas e ideias, modos de agir ou por meio da discussão e exposição de assuntos para um nicho específi- co. É nesse contexto que pessoas com deficiência ou transtorno produ- zem conteúdos digitais e dão voz a um contingente que, na maior parte do tempo, foi marginalizado por uma parcela significativa da sociedade. De modo geral, a trajetória das pessoas com deficiência sempre foi marcada pela exclusão, negligência, falta de informação, assisten- cialismo e violência. A visão do senso comum sempre foi a de que a deficiência é uma penitência ou erro da natureza. Com isso, a maioria das pessoas promoveu a espetacularização, ridicularizou e vitimizou os corpos e mentes “desviantes do normal”. Ao longo da história, a inserção da pessoa com deficiência na sociedade passou por três grandes paradigmas. O primeiro deles foi o de Institucionalização, que relegava a agentes específicosa única forma de convívio social das pessoas com deficiência. O segundo, de Integração, surgiu como consequência das grandes guerras - que geraram muitas pes- soas com deficiência - e transformou o mo- delo assistencialista anterior, algo insustentá- vel financeiramente, obrigando a sociedade a mudar a forma de lidar com essas pessoas. Assim, surgiu a crença de que pessoas com deficiência deveriam ser reabilitadas para po- derem ser reinseridas na sociedade. Com o passar do tempo e com a militância das pes- soas com deficiência, o modelo social de in- tegração passou a ser questionado e, então, a partir da década de 1980, o paradigma pas- sou a ser o de Inclusão. Nesta nova perspec- tiva social, a proposta é a de que as pessoas com deficiência precisam ser incluídas nos fazeres comuns da sociedade sem que sejam segregadas, ou seja, com o mesmo direito de exercer sua cidadania que as pes soas sem deficiência. Nessa perspectiva, os setores pú- blicos e privados precisam garantir a acessi- bilidade total em todos os segmentos sociais, como afirma a Lei Brasileira da Inclusão: “a pessoa com deficiência tem direito à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer em igualda- de de oportunidades com as demais pessoas” (BRASIL, 2015). d di 40 C04_CP23_NPCF_038a043.indd 40C04_CP23_NPCF_038a043.indd 40 10/07/23 08:3710/07/23 08:37 É com base no paradigma de inclusão que os influencers com deficiência ganham des- taque e contribuem, muitas vezes, para o em- poderamento das pessoas com deficiência e ajudam àqueles sem deficiências a com- preenderem as necessidades, habilidades e dificuldades sociais vivenciadas por esse pú- blico ainda marginalizado. Os influencers de inclusão tornam-se protagonistas ao contri- buir para o desenvolvimento da consciência social em relação a atuação dessa classe in- visibilizada em uma sociedade que, na maioria das vezes, excluiu aqueles que são considera- dos fora do padrão de normalidade. No Brasil, atualmente, destacam-se alguns influencers de inclusão, como Ivan Baron, jo- vem que ficou amplamente conhecido ao su- bir a rampa do Planalto na posse do Presiden- te Luiz Inácio Lula da Silva, em 2023. Ivan tem paralisia cerebral e promove nas redes sociais conteúdos politizados e instrutivos que com- batem o capacitismo e deflagram o quanto a sociedade ainda tem de amadurecer quando o assunto é inclusão. Outra influencer de des- taque é a jovem Cacai Bauer, que produz con- teúdos diversos sobre sua rotina diária como pessoa com síndrome de Down. Cacai mostra, em suas redes sociais, suas realizações, suas dificuldades e os preconceitos que enfrenta cotidianamente. Já no canal Vai uma mãozinha aí?, Mariana Torquato, que nasceu sem parte de um dos braços, expõe conteúdos informativos sobre inclusão, acessibilidade e capacitismo e mostra, de forma leve e divertida, como reali- za as atividades da vida cotidiana com apenas uma das mãos. Na mesma perspectiva, temos o canal de Willian Chimura, jovem diagnosti- cado com transtorno do espectro autista, que se dedica a explicar o autismo cientificamente, além de expor um pouco de sua vida pessoal. Todos ganham com os programas de educação física adaptados aos estudantes com deficiência e/ou com mobilidade reduzida. Iniciativas como essas são importantíssimas para a inclusão social dessas pessoas. A PESSOA COM DEFICIÊNCIA TEM DIREITO À CULTURA, AO ESPORTE, AO TURISMO E AO LAZER EM IGUALDADE DE OPORTUNIDADES COM AS DEMAIS PESSOAS F e rn a n d o F a v o re tt o /C ri a r Im a g e m 41 C04_CP23_NPCF_038a043.indd 41C04_CP23_NPCF_038a043.indd 41 10/07/23 08:3710/07/23 08:37 P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra Além de influencers com deficiência, que fazem questão de abor- dar a questão da deficiência em seus conteúdos, há aqueles com de- ficiência que não têm, em seus canais, o foco na militância da inclusão. Exemplo disso é Lorrane Silva, conhecida como Pequena Lo. Formada em Psicologia, Lorrane ficou conhecida por suas postagens cômi- cas nas redes sociais no período do isolamento social causado pela pandemia de covid-19. A humorista nasceu com uma doença rara que causa encurtamento dos membros e, atualmente, possui milhões de seguidores, estando entre as grandes celebridades do Brasil. Embora a inclusão não seja, diretamente, o foco de seu trabalho, Pequena Lo influencia outras pessoas ao mostrar que uma pessoa com defi- ciência pode ser protagonista e reconhecida pela sociedade como influenciadora digital. A ESCOLA NÃO DEVE NEGAR ESSA REALIDADE E, COM DIRECIONAMENTO PEDAGÓGICO, PODE SE MUNIR DESSES INFLUENCIADORES PARA PROMOVER DISCUSSÕES SOBRE ASSUNTOS IMPORTANTES E ATUAIS. Em suma, podemos dizer que os influenciadores digitais são uma nova modalidade profissional que, certamente, vai crescer cada vez mais na medida em que o mundo virtual invade nossa vida. Essas pes- soas têm um grande poder de influência na formação de opinião do público, seja ele infantil, seja jovem ou adulto. Desse modo, a escola não deve negar essa realidade e, com direcionamento pedagógico, pode se munir desses influenciadores para promover discussões sobre assuntos importantes e atuais. A inclusão das pessoas com deficiên- cia e transtornos é um tema urgente e pode ser trabalhado em sala de aula por meio de canais de internet, que são importantes ferramentas para a divulgação do tema e consequente conscientização social. v e n im o /S h u tt e rs to ck 42 C04_CP23_NPCF_038a043.indd 42C04_CP23_NPCF_038a043.indd 42 10/07/23 08:3710/07/23 08:37 E M SA L A DE AULA QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA PROPOSTA DE ATIVIDADE 1 Proponha aos estudantes que circulem pelas instalações da escola observando se estão adequadas para atender pes- soas com deficiência e analisando que tipo de adaptações seriam necessárias para tornar o ambiente inclusivo, por exemplo, instalação de rampas, piso tátil, elevadores, elimi- nação de barreiras físicas, etc. Se for possível, os estudantes podem fazer registros fotográficos ou em vídeo. Após a ativi- dade, organize uma roda de conversa para que os estudantes compartilhem os registros e discutam os pontos observa- dos. Promova uma reflexão sobre a importância da acessibili- dade e da inclusão em todos os espaços, incluindo o escolar. Nesse sentido, amplie a discussão para atitudes ou compor- tamentos que prejudicam a participação igualitária das pes- soas com deficiência na sociedade. Caso não haja na turma pessoas com deficiência, convide uma ou mais pessoas com deficiência para participar da discussão, de modo a enrique- cer o debate, suscitando novas ou diferentes reflexões. Assista com a turma a alguns dos vídeos dos influencers citados no capítulo e discuta com os estudantes meios para minimizar as dificuldades expostas nos conteúdos publicados e combater o preconceito. Se possível, promova uma campa- nha de inclusão na escola, mobilizando os conhecimentos ad- quiridos nas propostas sugeridas. Além disso, os estudantes podem fazer uso de outras estratégias, como realizar pesqui- sas, entrevistas, fazer leitura de textos e documentos sobre o tema, assistir a vídeos de especialistas, etc. 1. A proposta pode ser adaptada para os Anos Finais do Ensino Fundamental ou Ensino Médio, de acordo com a realidade de cada escola. Sugestões para ampliaçãoSugestões para ampliação Filmes COLEGAS. Direção: Marcelo Galvão. Brasil: Gatacine, 2013. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. COMO ESTRELAS NA TERRA. Direção: Aamir Khan. Índia: Bollywood, 2007. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. O PRIMEIRO DA CLASSE. Direção: Peter Werner. Estados Unidos: Warner Bros, 2008. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Livro DINIZ, Margareth. Inclusão de pessoas com deficiência e/ou necessidades específicas: avanços e desafios. São Paulo: Autêntica, 2012. Site CORRÊA,Luiza. A inclusão de pessoas com deficiência na educação. Nexo Políticas Públicas, São Paulo, 28 abr. 2021. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br/ linha-do-tempo/2021/A-inclusão -de-pessoas-com-deficiência-na -educação. Acesso em: 19 maio 2023. Docente do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Doutora em Neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). MESTRA em música pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP). Pós-graduada em Psicologia Investigativa e Criminal Profile (UNYLEIA). Pesquisadora da área de educação musical inclusiva, música e neurociências, música e psicomotricidade e neurocriminologia. É autora de diversos livros sobre o assunto e criadora do site Música e inclusão, que disponibiliza aos professores de música e a todos os interessados dicas sobre o tema inclusão. Disponível em: www.musicaeinclusao.wordpress.com. Acesso em: 11 abr. 2023. VIVIANE LOUROVIVIANE LOURO R e p ro d u ç ã o /G a ta c in e R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 43 C04_CP23_NPCF_038a043.indd 43C04_CP23_NPCF_038a043.indd 43 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 https://pp.nexojornal.com.br/linha-do-tempo/2021/A-inclusão-de-pessoas-com-deficiência-na-educação https://pp.nexojornal.com.br/linha-do-tempo/2021/A-inclusão-de-pessoas-com-deficiência-na-educação https://pp.nexojornal.com.br/linha-do-tempo/2021/A-inclusão-de-pessoas-com-deficiência-na-educação https://pp.nexojornal.com.br/linha-do-tempo/2021/A-inclusão-de-pessoas-com-deficiência-na-educação http://www.musicaeinclusao.wordpress.com CAPÍTULO5CAPÍTULO5 Territórios transformadores: a promoção de vida saudável na escola Como tudo se conecta Danilo Carvalho, ao abordar o ODS 3 neste ensaio, começa con- vidando o leitor a refletir sobre o conceito de “vida saudável”. Alerta, então, para o quanto o currículo escolar atrela esse conceito so- mente às áreas de Ciências da Natureza e Educação Física. Bus- cando uma ampliação, o autor relaciona a ideia de vida saudável à de qualidade de vida, evidenciando as contribuições que a escola pode e deve trazer neste sentido, seja aprofundando essa reflexão junto a toda a sua comunidade, seja garantindo condições para que os estudantes possam usufruir desses direitos. Il u st ra çõ e s: P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 44 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 44C05_CP23_NPCF_044a051.indd 44 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 A escola: espaço para o estudo, o debate e a promoção de vida saudável Não é de hoje que entendemos a escola como um local que nos convida a práticas e vivências direcionadas para a promoção de uma vida saudável. Os currículos orientadores da Educação Básica, des- de os Parâmetros Curriculares Nacionais até a Base Nacional Comum Curricular, sempre nos direcionaram para temas e conteúdos que es- timulam a promoção da saúde por meio de diversos olhares, como a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST), o consumo nocivo de álcool e outras substâncias psicoativas. Mesmo compreen- dendo que isso não é algo novo, é importante lançar luz em pautas pou- co exploradas ou mesmo negligenciadas. O início desta reflexão nos convida a algumas questões: “O que é ‘vida saudável’?”; “O que consi- deramos como parâmetros de vida saudável?”; “De que forma pode- mos potencializar os debates sobre vida saudável na escola?”; “Quais são as temáticas mais importantes no contexto atual?”; “Consideramos aspectos sociais que reiteram desigualdades e priorizam a condição de existência de vida saudável para determinadas pessoas?”; “Que abordagem pode ser mais significativa para os estudantes?”; “Como podemos incluir as famílias nesse debate?”; “Que olhar a equipe peda- gógica precisa ter para promover, em parceria com toda a comunidade escolar, um ambiente que estimule uma vida saudável?”. As práticas esportivas tendem a contribuir com o desenvolvimento intelectual do indivíduo. Na imagem, estudantes em aula de Educação Física em escola de Cristalândia do Piauí (PI), em 2022. L u c ia n a W h it a k e r/ P u ls a r Im a g e n s Ilustrações: Paula de Aguiar/ Arquivo da editora 45 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 45C05_CP23_NPCF_044a051.indd 45 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 Essas e outras questões permeiam constantemente este texto, em diálogo com um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas (ONU), que visam, com base na Agen- da 2030, por meio de uma ação mundial, acabar com a pobreza, dire- cionar ações para a proteção do meio ambiente e clima, bem como ga- rantir a todas as pessoas que vivam em um mundo pacífico e próspero. O recorte deste ensaio será no Objetivo 3: Saúde e bem-estar, que tem como foco “assegurar uma vida saudável e promover o bem- -estar para todas e todos, em todas as idades”1. Tendo como base os seus nove objetivos específicos, diversas pautas importantíssimas são abordadas e podem emergir na escola como temas de trabalho co- letivo na perspectiva inter, multi e transdisciplinar, envolvendo toda a comunidade escolar e seu entorno. Em uma pesquisa com colegas professores da Educação Básica, estudantes e profissionais da equipe pedagógica sobre o que vinha à mente deles quando perguntei sobre o termo “vida saudável”, obtive respostas relacionadas, prioritariamente, à alimentação e a práticas de exercícios. Isso se justifica, em grande medida, pela perspectiva do trabalho orientado pelo currículo escolar, que segmenta essas duas temáticas especialmente em campos do ensino de Ciências da Natu- reza e da Educação Física. Porém, pensar uma vida saudável vai muito além das práticas alimentares e da promoção de saúde pela prática de exercícios. É fundamental ampliarmos nosso olhar para incluir aspectos sociais das mais diversas camadas e que envolvem debates dos cam- pos do saber das Humanidades, Linguagens, Artes e Matemática. A seguir, veja, na íntegra, os desdobramentos do Objetivo 3: Saúde e bem-estar. 1. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentá- vel. 3: Saúde e bem-estar. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/3. Acesso em: 31 mar. 2023. PENSAR UMA VIDA SAUDÁVEL VAI MUITO ALÉM DAS PRÁTICAS ALIMENTARES E DA PROMOÇÃO DE SAÚDE PELA PRÁTICA DE EXERCÍCIOS. C re a ti v a I m a g e s /S h u tt e rs to ck Creativa Images/Shutterstock Paula de Aguiar/Arquivo da editora P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 46 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 46C05_CP23_NPCF_044a051.indd 46 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/3 Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 Saúde e Bem-Estar Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades 3.1 Até 2030, reduzir a taxa de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por 100 000 nascidos vivos 3.2 Até 2030, acabar com as mortes evitá- veis de recém-nascidos e crianças me- nores de 5 anos, com todos os países objetivando reduzir a mortalidade neo- natal para pelo menos 12 por 1 000 nas- cidos vivos e a mortalidade de crianças menores de 5 anos para pelo menos 25 por 1 000 nascidos vivos 3.3 Até 2030, acabar com as epidemias de AIDS, tuberculose, malária e doenças tro- picais negligenciadas, e combater a hepa- tite, doenças transmitidas pela água, e outras doenças transmissíveis 3.4 Até 2030, reduzir em um terço a mortali- dade prematura por doenças não trans- missíveis via prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar 3.5 Reforçar a prevenção e o tratamento do abuso de substâncias, incluindo o abu- so de drogas entorpecentes e uso nocivo do álcool 3.6 Até 2020, reduzir pela metade as mortes e os ferimentos globais por acidentes em estradas 3.7 Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços de saúde sexual e reprodu- tiva, incluindo o planejamento familiar, informação e educação,bem como a inte- gração da saúde reprodutiva em estraté- gias e programas nacionais 3.8 Atingir a cobertura universal de saúde, incluindo a proteção do risco financei- ro, o acesso a serviços de saúde essen- ciais de qualidade e o acesso a medi- camentos e vacinas essenciais seguros, eficazes, de qualidade e a preços aces- síveis para todos 3.9 Até 2030, reduzir substancialmente o nú- mero de mortes e doenças por produtos químicos perigosos, contaminação e po- luição do ar e água do solo 3.a Fortalecer a implementação da Conven- ção-Quadro para o Controle do Tabaco em todos os países, conforme apropriado 3.b Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas e medicamentos para as doen- ças transmissíveis e não transmissíveis, que afetam principalmente os países em desenvolvimento, proporcionar o acesso a medicamentos e vacinas essenciais a preços acessíveis, de acordo com a Decla- ração de Doha, que afirma o direito dos países em desenvolvimento de utilizarem plenamente as disposições do acordo TRIPS sobre flexibilidades para proteger a saúde pública e, em particular, proporcio- nar o acesso a medicamentos para todos 3.c Aumentar substancialmente o financia- mento da saúde e o recrutamento, de- senvolvimento e formação, e retenção do pessoal de saúde nos países em de- senvolvimento, especialmente nos países menos desenvolvidos e nos pequenos Estados insulares em desenvolvimento 3.d Reforçar a capacidade de todos os países, particularmente os países em desenvol- vimento, para o alerta precoce, redução de riscos e gerenciamento de riscos na- cionais e globais de saúde ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 3: Saúde e bem-estar. Disponível em: https:// brasil.un.org/pt-br/sdgs/3. Acesso em: 31 mar. 2023. R e p ro d u • ‹ o /O N U 47 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 47C05_CP23_NPCF_044a051.indd 47 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/3 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/3 O chão da escola se mostra território potente para estimular, tanto na infância quanto na adolescência, uma visão de vida saudável que contemple as esferas da saúde física, mental e ambiental, articulada a uma vivência em sociedade por meio da harmonia e do respeito ao próximo, às diversidades e ao meio ambiente. Por ser a escola um espaço dedicado à formação da cidadania, os desdobramentos do objetivo 3 podem ser implementados com su- cesso, de forma crítica e participativa, aliados à temática da promoção de uma vida saudável. Nesse sentido, um universo de possibilidades se abre para o trabalho independentemente da proposta de ensino- -aprendizagem prevista nos diversos componentes curriculares. Os termos “vida saudável” e “qualidade de vida” estão intimamente relacionados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define qualidade de vida como “a percepção do indivíduo, de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive, e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. Se essa íntima relação entre vida saudável e qualidade de vida existem, como articular isso no trabalho escolar? As dimensões de alimentação saudável e a prática de exercícios físicos jamais dariam conta de abarcar a amplitude de um trabalho que, inevitavelmente, precisa contemplar questões relacionadas à esfera do bem-estar emocional, psicológico, espiritual e relacional. Além disso, o termo “qualidade de vida” envolve as dimensões do próprio acesso à educação, condições adequadas de habitação, formação para o trabalho, projetos e expectativa de vida. É necessário envolver diversos atores que compõem a escola para pensar coletivamente estratégias formadoras. M o n k e y B u s in e s s I m a g e s /S h u tt e rs to ck P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 48 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 48C05_CP23_NPCF_044a051.indd 48 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 Como exemplo para o trabalho na escola, iniciaremos com uma reflexão da forma com que se aborda o tema mais co- mum dentro da ideia de vida saudável: a alimentação saudável. Quase sempre o trabalho sobre alimentação está relacionado à análise dos alimentos, seus macros e micronutrientes, bem como a forma de preparo. Isso, quase sempre, descontextuali- zado de questões referentes à produção, consumo consciente e repertório cultural alimentar. A perspectiva biologizante im- pera ao se falar dos alimentos, abordando termos que, quase sempre, agregam pouco significado para os estudantes. Além disso, é rotineiro observar um distanciamento dos alimentos que são estudados e os alimentos que são realmente consumi- dos pelos estudantes e suas famílias. A perspectiva de trabalho dentro desse campo precisa considerar o repertório cultural e alimentar dos estudantes, bem como a forma com que se ob- têm os alimentos em casa, na escola e nos círculos sociais. Não adianta abordarmos a importância de uma alimentação com redução de açúcares e sal, quando, na merenda escolar, o olhar sobre as preparações está descontextualizado e distan- te das vivências do currículo. Adicionalmente, consideramos uma reflexão sobre a importância do trabalho com as famílias. Compreender o olhar sobre a forma com que as famílias fazem as escolhas e as preparações alimentares, entendendo, inclu- sive, as razões pelas quais sustentam determinadas decisões é fundamental. A cultura alimentar jamais deve ser negligen- ciada, devendo ser reconhecida e legitimada. Se a escola está inserida em uma comunidade rural, por exemplo, precisamos olhar de forma ampliada para esse contexto, trazendo realida- des do consumo alimentar local e das formas de produção de alimentos. Não adianta focar o trabalho em junk foods ou comi- das ultraprocessadas para estudantes que precisariam andar quilômetros para ter acesso a refeições compostas de sanduí- che, batata frita e milk-shake. O trabalho precisa fazer sentido e contemplar a vivência do estudante, da comunidade escolar e da realidade do entorno. Um trabalho sobre o correto acon- dicionamento, manuseio e preparo dos alimentos pode fazer muito mais sentido. NÃO ADIANTA ABORDARMOS A IMPORTÂNCIA DE UMA ALIMENTAÇÃO COM REDUÇÃO DE AÇÚCARES E SAL, QUANDO, NA MERENDA ESCOLAR, O OLHAR SOBRE AS PREPARAÇÕES ESTÁ DESCONTEXTUALIZADO E DISTANTE DAS VIVÊNCIAS DO CURRÍCULO. Y u z a c h /S h u tt e r s to c k 49 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 49C05_CP23_NPCF_044a051.indd 49 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 E M SA L A DE AULA Que tal trabalhar a cons- cientização sobre o poder da indústria da alimentação e como hábitos alimenta- res interferem na saúde do indivíduo e no planeta como um todo? Sugerimos um trabalho interdisciplinar que envolva a maior quan- tidade de campos do sa- ber, a exemplo de Biologia, Química, Sociologia, Filo- sofia, História, Geografia e Linguagens. PROPOSTAS DE ATIVIDADES 2 2. A atividade 1 é indicada a estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. A atividade 2 pode ser indicada para qualquer segmento escolar, desde que observadas as adaptações necessárias no que diz respeito à faixa etária dos estudantes. Para a atividade 3, é necessário que se observe a classificação indicativa das produções. ATIVIDADE 1 Com o aumento da ansiedade e a busca por corpos perfeitos que correspondam aos pa- drões de beleza atuais, diversos estudantes vêm consumindo suplementos alimentares ou fazendo terapias hormonais sem qualquer supervisão ou necessidade. Consideramos importante abordar a alimentação saudável, o consumo de suplementos alimentares e os hormônios anabolizantes sempre em articu- lação com a promoção de saúde física e men- tal. Ansiedade, autoaceitação e necessidade de corresponder aos padrões impostos pelas redes sociais podem ser trabalhados em co- laboração de docentes das diversas áreas e equipe de profissionais da Psicologia dispo- níveis na escola. ATIVIDADE2 O trabalho sobre consumo de alimentos e obesidade precisa ser levado para a escola, porém, com muito cuidado, para não fortale- cer violências ou gerar sintomas complexos no espaço escolar. A alimentação saudável e a articulação com doenças relacionadas à obe- sidade não podem estimular, jamais, a gordo- fobia. Além disso, distúrbios alimentares pre- cisam ser trabalhados com muita cautela, de forma a criar uma atmosfera positiva e um am- biente de segurança psicológica para que os estudantes possam discutir o cuidado exces- sivo com o corpo, distorções da imagem cor- poral, questões hormonais, bulimia e anorexia. ATIVIDADE 3 Sabemos que os estudantes acessam, cada vez mais, filmes e séries produzidas pelas gran- des produtoras de streaming. Propor um traba- lho por meio de filmes, documentários e séries como deflagradores de debate pode envolvê- -los e promover ricos momentos de aprendiza- gem. Sugerimos sessões de exibição de vídeos disponíveis nas plataformas atuais, com poste- rior reflexão e debate coletivo. * COOKED [série]. Criação: Alex Gibney e Michael Pollan. Estados Unidos : Netflix, 2016. (1 temporada, 4 episódios). Classificação in- dicativa: 10 anos. Aborda os alimentos e sua transformação nas diferentes culturas. T a tj a n a B a ib a k o v a /S h u tt e rs to ck 50 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 50C05_CP23_NPCF_044a051.indd 50 10/07/23 08:3810/07/23 08:38 QUEM É O AUTORQUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR * COWSPIRACY: o segredo da sustentabili- dade. Direção: Kip Andersen e Keegan Kuhn. Estados Unidos: Netflix, 2014. (1 hora e 30 mi- nutos). Classificação indicativa: 14 anos. O roteiro apresenta a produção agrope- cuária e sua relação com problemas am- bientais diversos (desmatamento, poluição dos rios, aumento de gases de efeito es- tufa, extinção de espécies e outras conse- quências). * WHAT the health. Direção: Kip Andersen e Keegan Kuhn. Estados Unidos: Netflix, 2017. (1 hora e 32 minutos). Classificação indica- tiva: 12 anos. Lança luz sobre a indústria farmacêutica, a produção agropecuária e o consumo de produtos de origem animal como poten- cializadores do aparecimento de doenças. Colocar o estudante como protagonista no processo de aprendizagem e estimular a in- vestigação é fundamental. Sugerimos orienta- ções para pesquisas sobre alimentação sau- dável em articulação com temas de interesse dos estudantes, com posterior produção de podcasts ou vídeos que podem ser publi- cados nas redes sociais (observando-se as restrições legais quanto à idade mínima per- mitida para o acesso). Não podemos descon- siderar as formas de comunicação utilizadas pelos estudantes na atualidade e a maneira como a linguagem vem se estabelecendo nesse público. A construção de roteiros para esse tipo de material pode ser articulada com docentes da área de Linguagens. ATIVIDADE 4 Seguindo na direção dos objetivos pre- vistos pela ONU, consideramos fundamental um trabalho dentro do campo do combate às doenças. A abordagem sobre as epidemias de aids, tuberculose, malária e doenças tro- picais negligenciadas, bem como o combate à hepatite, doenças transmitidas pela água e outras doenças transmissíveis, precisa ser deslocada da exclusividade do campo do sa- ber das Ciências Naturais. É urgente e impe- rativo considerar a necessidade da reflexão política e social que envolve essas temáticas. Precisamos resgatar e fortalecer a função de- mocrática e republicana da escola como um potente espaço para o debate sobre as políti- cas públicas nacionais e mundiais. Os Objeti- vos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, quando delineados, provocam no mundo todo o estímulo a ações globais para o enfrenta- mento de problemas que acometem a socie- dade global e o meio ambiente. Está na escola a potência embrionária para muitas transfor- mações a médio e longo prazos, bem como no trabalho coletivo e interdisciplinar estão os caminhos para práticas significativas com po- tência transformadora. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestre e doutor em Biologia Animal pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professor do Colégio de Aplicação da UFPE e do programa de pós-graduação em Ensino de Biologia do CAV-UFPE. Atualmente, ocupa o cargo de vice-diretor do CAp-UFPE para o quadriênio 2020-2023, tendo acumulado experiência na coordenação do Ensino Médio e na coordenação de Estágio. Atua na área de formação docente e gestão escolar, além de orientar projetos diversos na área de Educação, com foco nas metodologias e estratégias didáticas para o ensino de Ciências e Biologia. É mentor do grupo de trabalho de saúde mental da UFPE, além de atuar como pesquisador-colaborador do Departamento de Entomologia do Instituto Aggeu Magalhães, colaborando em projetos de biologia molecular de insetos vetores e interação arbovírus-mosquito. DANILO CARVALHODANILO CARVALHO R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 51 C05_CP23_NPCF_044a051.indd 51C05_CP23_NPCF_044a051.indd 51 10/07/23 08:3910/07/23 08:39 CAPÍTULO6CAPÍTULO6 Era uma vez... reflexões sobre a literatura infantil Como tudo se conecta Neste ensaio, vinculado aos ODS 4 e 16, Elaine Vidal traça um panorama histórico da literatura infantil e seu uso nos contextos escolares brasileiros, sobretudo com crianças pequenas. Fugin- do ao senso comum, que concebe a literatura como meio para se atingir um fim, ou como uma forma de modelizar comportamen- tos, a autora faz um resgate do potencial de humanidade que essa linguagem artística enseja a seus leitores. O ensaio apresenta o quanto a vivência da experiência estética literária na escola pode contribuir, entre outras coisas, para a mobilização de sentimentos de fraternidade e cooperação e para um melhor convívio social entre os diversos grupos. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 52 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 52C06_CP23_NPCF_052a059.indd 52 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 Para começo de conversa... No âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável defini- dos pela ONU, trazemos, para o presente ensaio, a discussão acerca de dois deles: o ODS de número 4, que trata da “Educação de qualidade”, e o de número 16, “Paz, justiça e instituições eficazes”. Um leitor desavisado, ao se deparar com o título deste texto e rela- cioná-lo aos dois ODS mencionados, considerando que tem em mãos uma publicação voltada a educadores, pode inferir que o ensaio abor- dará o componente educativo da literatura. Em uma sociedade onde a leitura literária é, supostamente, tida como um valor (afinal, apesar da baixa média de livros lidos por uma parcela significativa de brasileiros por ano, o senso comum estabelece uma “verdade consensual” de que ler é uma atividade importante, saudável e edificante), nada parece mais natural do que falar sobre a importância da leitura literária na escola. Uma leitura que é tida, muitas vezes, como item fundamental para se agregar qualidade à educação e que constitui uma baliza para moldar os comportamentos infantis, promovendo paz e justiça nas relações sociais, sobretudo aquelas que acontecem no ambiente escolar. Afinal, que professor nunca pensou em “ler uma historinha” que contivesse bons exemplos como forma de intervir em comportamentos inadequa- dos de seus estudantes levando-os à reflexão? Para esse leitor desavisado, cumpre informar: o objetivo deste ensaio é, justamente, descons- truir essa visão, tão arraigada pelo senso comum, de que a literatura infantil é um meio para se mo- delar o comportamento dos estudantes, atingin- do o ideal de crianças dóceis, educadas e com bom comportamento em casa e na escola. A contação de histórias é um recurso fundamental no processo de interação, aprendizagem e, sobretudo, na formação do senso crítico dos estudantes. AFINAL, QUE PROFESSOR NUNCA PENSOU EM ‘LERUMA HISTORINHA’ QUE CONTIVESSE BONS EXEMPLOS COMO FORMA DE INTERVIR EM COMPORTAMENTOS INADEQUADOS DE SEUS ESTUDANTES LEVANDO-OS À REFLEXÃO? M o n k e y B u s in e s s I m a g e s /S h u tt e rs to ck Ilustrações: Paula de Aguiar/ Arquivo da editora 53 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 53C06_CP23_NPCF_052a059.indd 53 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 Essa visão moralizante da literatura não é ingênua, tampouco re- cente. Ela foi construída ao longo das décadas e está calcada em uma concepção específica de criança, de escola e de literatura. Quem pen- sa que a leitura literária na escola serve para ensinar bons comporta- mentos e costumes às crianças parte de uma concepção de infância associada à ideia da “tábula rasa”, ou seja, a criança é alguém que nada sabe e a quem tudo deve ser ensinado, inclusive normas de condu- ta; de escola como local para transmissão de conhecimentos, onde o professor, utilizando estratégias, depositará nas mentes das crianças e adolescentes com os quais trabalha os mais variados conhecimentos, inclusive aqueles relativos aos comportamentos esperados delas; e de literatura infantil como uma forma de expressão específica, narrativas com fins pedagógicos, simplificadas, com ilustrações coloridas, con- tendo poucos e superficiais conflitos e direcionada a dar bons exem- plos e propor boas reflexões a seus leitores. Uma literatura que é o meio para se atingir algo (a aprendizagem da leitura e da escrita, o bom comportamento, entre outros), e não um fim em si mesma. Essas concepções permeiam nossa sociedade e, por essa razão, não é raro encontrar questionamentos do tipo: “A história deste livro ensina o que para as crianças?”; “Será que o comportamento deste personagem é um bom exemplo a ser mostrado para elas?”; “A história é fácil de entender?”; “As cenas e os eventos narrados são adequados para crianças, evitando sentimentos como raiva, medo, susto ou frus- tração?”. Algumas vezes, esses questionamentos vêm das famílias, que analisam o teor dos livros e questionam a escola sobre a escolha. Ou- tras vezes, vêm dos próprios professores. Só das crianças é que eles não vêm! Corroborar tais ideias implica em empobrecer, enormemente, a ati- vidade de leitura literária para crianças. Para refletir sobre isso, é pre- ciso começar resgatando Antonio Candido (2001), que apresentava a literatura como um direito humano: O professor e crítico literário Antonio Candido. Fotografia de 2006. Ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a li- teratura concebida no sentido amplo parece cor- responder a uma necessidade universal, que pre- cisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. [...] A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como talvez não haja equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humani- zação e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários escritos. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2001. J u li a M o ra e s /F o lh a p re s s N e t V e c to r/ S h u tt e rs to ck 54 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 54C06_CP23_NPCF_052a059.indd 54 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 Se a literatura é um direito humano, é de- ver de toda a sociedade garantir o acesso de seus membros a ela. Sendo a escola a insti- tuição socialmente designada para a trans- missão intergeracional do conhecimento his- toricamente acumulado, a ela também cabe a criação de oportunidades para que crianças e jovens possam ter essa “necessidade uni- versal” atendida. Em outras palavras, é preci- so ter literatura na escola! Mas de que literatura estamos falamos? Que livros devem ser lidos na escola? Cum- pre destacar que, quando Candido se refere à literatura, ele faz alusão a toda obra literá- ria, sem especificar uma literatura “adulta” ou “infantil”. Essa distinção, aliás, tende a, geral- mente, esvaziar a literatura infantil de senti- do. Isso porque, muitas vezes, o livro infantil é visto na concepção já mencionada, como uma obra “lúdica”, colorida, atraente visualmente, mas com narrativas simplificadas e empobre- cidas, sob o pretexto de “facilitar” ou “prote- ger” as crianças. Ao contrário dessa ideia, é preciso resgatar a literatura em sua essência, que, de acordo com Andruetto (2012), é uma literatura sem adjetivos, ou seja, ela não pre- cisa ser infantil, fácil ou adequada, basta que seja literatura. Mais importante que avaliar as adaptações feitas ao texto ou escolher te- mas a serem (ou não) tratados com crianças, é analisar se a leitura é capaz de propiciar uma experiência estética significativa a seus lei- tores, permitindo-lhes a fabulação, a vivência de sentimentos diversos, a experimentação e a reflexão sobre suas próprias potências e fragilidades, o contato com o que há de mais humano em si mesmo. Literatura infantil é, nas palavras de Góes (1990), “linguagem carrega- da de significado até o máximo grau possível e dirigida ou não às crianças, mas que responda às suas exigências”. E quais seriam as exigências desse leitor- -criança? Isso também depende da concep- ção que se tem sobre ele. Se a criança for vista como pessoa ainda em formação, cujas capacidades intelectual e emocional, ainda em desenvolvimento, exigem adequações, a obra literária a ser lida para elas deverá ser, necessariamente, uma narrativa simplificada e livre de conflitos que possam desestabilizá- -la. Se, por outro lado, a criança for reconhe- cida como um ser humano em sua completu- de, repleto de ideias, emoções, sentimentos e contradições; alguém que é humano, que tem dúvidas, carências, subjetividades e que se insere em um contexto sócio-histórico específico, as possibilidades se abrem. Nessa concepção, não há problemas em apresentar narrativas com temas sensíveis, por exemplo, pois se confia na capacidade infantil de refle- tir sobre eles e elaborá-los. Também não há problemas em trazer textos mais complexos, pois sabe-se que, ainda que a maioria não dê conta da leitura individual, a criança pode- rá compreendê-la mais profundamente ao trocar impressões sobre elas com seus pa- res. Os conflitos não precisam ser evitados, pois evidencia-se seu potencial de mobilizar emoções e sentimentos muitas vezes escon- didos. E os livros não precisam, obrigatoria- mente, trazer bons exemplos ou normas de conduta, pois a finalidade não é que a criança aprenda algo com eles, mas que possa fruir a experiência estética proporcionada pela arte literária. A transformação na concepção de criança e de literatura acarreta também uma mudança na percepção sobre a escola. Se, por um lado, esta pode ser vista como repositório e agente transmissor de informações, por outro, pode ser entendida como espaço de trocas, de re- lações, um ambiente multicultural e diversifi- cado, repleto de potencialidades e experiên- cias para todos que ali frequentam, sejam crianças, sejam adolescentes ou adultos. Uma escola assim compreendida jamais se furta- rá aos debates e às reflexões, pelo contrário: propiciará momentos de fruição estética com a literatura, por meio dos quais os estudantes poderão acessar sua própria humanidade, no sentido mais amplo do termo. É PRECISO TER LITERATURA NA ESCOLA! 55 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 55C06_CP23_NPCF_052a059.indd 55 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 Como trabalhar a literatura infantil na escola, então? Partindo-se das concepções de criança como um ser permanen- temente ativo e capaz; de escola como espaço de intercâmbio afetivo e cultural e de literatura como arte, como desenvolver um trabalho de leitura literária na escola, então? É possível articulá-lo aos conceitos de paz e justiça, por exemplo? O primeiro passo paraum trabalho de qualidade é o conhecimento que cada professor tem de seu grupo de estudantes. Saber suas par- ticularidades, vislumbrar seus potenciais e suas fragilidades, conhecer seus interesses e avaliar o funcionamento em maior ou em menor escala das propostas desenvolvidas são habilidades fundamentais para se fazer uma boa curadoria de títulos e um planejamento pedagógico adequado. Assim como em outros campos, para o trabalho com a leitura lite- rária, diversidade é um conceito fundamental. Apresentar um acervo com obras variadas e propor diferentes modalidades de leitura ao lon- go da rotina escolar é fundamental, pois isso diversificará, também, as possibilidades de aprendizagem dos estudantes. Ao planejar um trabalho pedagógico com a literatura, seja com crianças, seja com adolescentes, o professor não pode perder de vista a função primeira da obra literária: a fruição. Como sinaliza Delia Lerner (2002), embora a escola precise controlar as aprendizagens (a fim de garanti-las), no caso da literatura, ela precisa abrir mão desse con- trole – ainda que parcialmente –, pois o ato de ler literatura implica, A escola fomenta, entre outras coisas, a relação cordial entre as pessoas e a interação entre indivíduos e os mais variados tipos de literatura. a n e k .s o o w a n n a p h o o m /S h u tt e rs to ck N e t V e c to r/ S h u tt e rs to ck 56 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 56C06_CP23_NPCF_052a059.indd 56 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 necessariamente, na liberdade do leitor. É preciso relembrar Daniel Pennac (2008) quando ele cita os “direitos do leitor”: direito de não ler, de não completar um livro, de pular páginas, entre outros. Em algumas concepções pedagógicas, pensar nessas atitudes é quase um “crime”; mas, na concepção aqui adotada, é um requisito para a formação desse leitor literário, que é, inclusive, autônomo para fazer suas escolhas. Considerando que a leitura na escola não deve servir apenas para ensinar a ler, mas também para isso, é preciso que o professor propo- nha situações didáticas com intencionalidade e planejamento. Em al- guns casos, ele pode selecionar textos mais complexos para a chamada “leitura vertical”, ou seja, aquela leitura mais exigente, que os estudantes têm mais dificuldade para fazer sozinhos, mas que são capazes de em- preender quando têm a mediação dos colegas e do professor. E, em outros casos, a chamada “leitura horizontal”, que tem interpretações um pouco mais simples, mas que se destaca pela constância e pela varie- dade (quando as crianças leem várias obras de um mesmo autor, por exemplo, para se habituarem ao gênero e estilo usados por ele). Também é interessante que haja diversidade em outros aspectos das propostas de leitura literária na escola: na escolha dos títulos (ora o professor escolhe a obra a ser lida, ora os colegas recomendam ou cada criança escolhe o que prefere ler); na extensão dos textos (alter- nando-se livros mais longos com outros mais curtos); nos gêneros tex- tuais (é importante que os estudantes tenham contato com os mais diversos gêneros, ora para se aproximarem, ora para se apropriarem deles); nas atividades envolvidas na leitura (a decisão de fazer ou não uma interpretação conjunta, ou de fazer ou não uma recomendação li- terária do livro lido). A curadoria do professor permite que os estudantes tenham contato direto com livros adequados à sua faixa etária. Essa é mais uma iniciativa para incentivá-los a novos hábitos de leitura e pesquisa. ‘DIREITOS DO LEITOR’: DIREITO DE NÃO LER, DE NÃO COMPLETAR UM LIVRO, DE PULAR PÁGINAS, ENTRE OUTROS. F e rn a n d o F a v o re tt o /C ri a r Im a g e m N e t V e c to r/ S h u tt e rs to ck 57 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 57C06_CP23_NPCF_052a059.indd 57 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 Encerrando a conversa (ou não...) Ao se trabalhar com essa concepção, é impossível, então, que as crianças aprendam algo com a leitura literária na escola? Será que a fruição deve ser o único objetivo? De forma alguma! Ter a oportunidade de ler literatura na escola possibilita às crianças, inicialmente, aprofun- darem sua competência leitora. Além disso, embora a literatura não sir- va só para aquela educação moralizante de que falamos, ela pode – e deve! – estimular outras habilidades. Textos que tragam, além da frui- ção das narrativas ficcionais ou do prazer estético e lúdico da lingua- gem poética, outras possibilidades, como indagações sobre o contex- to em que vivemos, sobre emoções e sentimentos ou sobre convívio em grupo, por exemplo, contribuem para a formação de cidadãos crí- ticos, participativos e atuantes no meio em que vivem. Quando não se propõe a ensinar, a literatura ensina muito. Assim, garantindo essa riqueza na composição do acervo, uma diver- sidade de intencionalidades no trabalho pedagógico, somada a concep- ções coerentes de infância, escola e literatura, o professor oferecerá a seus estudantes não apenas qualidade na educação e reflexões poten- tes sobre paz, justiça e outros valores, mas também garantirá a eles esse direito humano, tão essencial para uma vida mais plena e feliz. A leitura não é algo que limita o indivíduo a um espaço ou a uma determinada postura, ela é um ato que pode ser praticado de diversas maneiras e nos mais diferentes lugares. QUANDO NÃO SE PROPÕE A ENSINAR, A LITERATURA ENSINA MUITO. P ix e l- S h o t/ S h u tt e r s to c k Anastasiia Petrenko/Shutterstock 58 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 58C06_CP23_NPCF_052a059.indd 58 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 E M SA L A DE AULA QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA PROPOSTAS DE ATIVIDADES Cultive o hábito de ler para os estudantes, mesmo quando eles já estiverem alfabetizados: ler para o outro fortalece vínculos, comunica quais e como são comportamentos leitores de um leitor experiente e enriquece o repertório literário dos ouvintes. Desenvolva atividades antes da leitura: relate sempre quem é o au- tor, a editora, o tradutor (quando houver), o ilustrador e outros profis- sionais envolvidos na produção do livro. Faça perguntas que levem os estudantes a anteciparem o texto que lerão. Em situações de leitura compartilhada em sala de aula, mais do que a fluência na leitura em voz alta, faça perguntas que permitam que os estudantes compreendam o que estão lendo. Chame a atenção deles para os recursos estilísticos, as opções feitas pelo autor em sua escrita e os efeitos que elas geralmente causam no leitor. Faça rodas de conversa após as sessões de leitura: peça aos estu- dantes que compartilhem com os colegas suas impressões, reflitam sobre o que compreenderam e confrontem sua interpretação com os demais, aprofundando sempre seu entendimento do texto lido. A literatura proporciona experiências que suscitam as mais variadas reflexões. Sugestões para ampliaçãoSugestões para ampliação Livros CANDIDO, A. O direito à literatura. In: Vários escritos. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2001. COLOMER, T. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007. GÓES, L. P. Introdução à literatura infantil e juvenil. São Paulo: Pioneira, 1990. (Manuais de Estudo). KAUFMAN, A. M.; RODRÍGUEZ, M. H. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: Artmed, 1995. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Pedagogia pela Universidade Metodista de SP. Tem especialização em “Alfabetização: relações entre o ensino e a aprendizagem” pelo ISE Vera Cruz (SP) e em “Ética, valores e cidadania na escola” pela UNIVESP. É mestra e doutora na linha de pesquisa “Linguagem, Psicologia e Educação” pela USP. Autora dos livros Projetos didáticos em salas de alfabetização (2014) e Literatura e crianças: um encontro necessário (2019). Atua como professora universitária, assessora pedagógica de escolas e redes de ensino públicas e privadas e compõe o Núcleo de Produção de Conteúdoe Formação da Saber Educação. ELAINE VIDALELAINE VIDAL S e rg e y N o v ik o v /S h u tt e rs to ck R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 59 C06_CP23_NPCF_052a059.indd 59C06_CP23_NPCF_052a059.indd 59 10/07/23 08:4010/07/23 08:40 CAPÍTULO7CAPÍTULO7 A valorização do multiculturalismo na EJA Como tudo se conecta Diego Domingues, com base nos ODS 4 e 10, propõe, neste ensaio, uma reflexão acerca do multiculturalismo presente nas turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mergulhando nas especificidades desse público que, boa parte das vezes, retorna a uma escola de onde já se evadiu, o autor demonstra como uma prática pedagógica respeitosa e eficaz tende a valorizar a singu- laridade de cada estudante, potencializando esse território multi- cultural que é a sala de aula de EJA e fugindo às práticas homoge- neizantes de neutralização das diferenças. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 60 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 60C07_CP23_NPCF_060a067.indd 60 10/07/23 08:5110/07/23 08:51 A pluralidade entre os jovens e os adultos Uma das características marcantes em turmas da educação de jo- vens e adultos é a pluralidade de perfis do público-alvo, o que impõe para o docente um grande desafio tanto no planejamento das aulas quanto na condução dos saberes mediados cotidianamente. Partin- do dessa constatação, há um termo bastante importante que pode nos ajudar a pensar melhor tal particularidade da EJA: trata-se do multiculturalismo. Por uma série de motivos, inúmeros jovens e adultos não tiveram a oportunidade de cursar regularmente o Ensino Fundamental (1o a 9o anos) e o Ensino Médio (1a à 3a séries). Para essas pessoas, a chance de iniciar ou concluir essas etapas da escolaridade é uma realização pessoal significativa. Na imagem, estudantes de EJA em Salvador (BA), 2017. O conceito de multiculturalismo ganhou popularidade no final do século passado, sendo utilizado principalmente nas reflexões que en- volvem as complexas dinâmicas oriundas da presença de diferentes culturas em um mesmo contexto social. Na discussão proposta neste texto, iremos para além das nuances que esse termo pode ter de acor- do com o referencial teórico e buscaremos uma definição mais obje- tiva a partir do que o dicionário Houaiss1 apresenta. Multiculturalismo, portanto, é a “coexistência de várias culturas num mesmo território, país, população etc.”, sendo cultura definida, pelo mesmo dicionário, acepção 5, como “conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social”. Pensando nos estudantes da EJA, tal pluralidade de culturas pode ser observada, por exemplo, nos diferentes perfis étnicos, nas múltiplas origens geográficas e nas variadas faixas etárias, que podem englobar 1. HOUAISS, Antônio. Dicion‡rio Houaiss da l’ngua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. S e rg io P e d re ir a /P u ls a r Im a g e n s Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 61 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 61C07_CP23_NPCF_060a067.indd 61 10/07/23 08:5110/07/23 08:51 desde grupos de adolescentes até grupos de idosos, todos na mesma sala de aula. É claro que a presença de tantas culturas em sala de aula não é algo exclusivo da EJA, mas é nessa modalidade que todas essas identidades se entrecruzam e se potencializam pelo fato de estarmos trabalhando com jovens e adultos trabalhadores das classes populares, ou seja, um grupo de pessoas com uma carga muito forte de experiên- cias, demandas familiares bem estabelecidas, além de, muitas vezes, recorrentes experiências de discriminação ao longo da vida, conforme podemos observar no seguinte trecho da Proposta Curricular para a educação de jovens e adultos: Em geral (infelizmente), os estudantes de EJA conhecem bem a dis- criminação social de todas as ordens. As vivências de determinadas experiências os levam a esconder sua origem e a renegar ou desva- lorizar aspectos de sua cultura, por considerá-los menores ou sem importância. (BRASIL, 2002, p. 116). BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Proposta Curricular para a educação de jovens e adultos: segundo segmento do ensino fundamental: 5a a 8a série: introdução. Brasília, DF: MEC: SEF, 2002. Em tal contexto de ensino, uma primeira reação poderia ser bus- car o desenvolvimento de uma prática pedagógica que neutralizasse tantas diferenças e uniformizasse as expectativas sobre toda a turma, uma vez que, a princípio, pode parecer impossível desenvolver algum trabalho coerente que dê conta de tantas visões distintas. De fato, pensando sem idealizações na realidade da sala de aula, sa- bemos que nem sempre é possível acolher todas as vozes do modo que elas merecem, pois o tempo de aula é sempre escasso e a rotina escolar é intensa. Entretanto, mais do que o objetivo utópico de dar conta de tudo ao mesmo tempo, abordando todas as nuances de cada identidade cultural, é importante trabalhar na construção de um am- biente acolhedor, onde os estudantes sabem que podem se expressar, questionar, duvidar e contribuir. Como Paulo Freire nos lembra: A multiculturalidade não se constitui na justaposição de culturas, muito menos no poder exacerbado de uma sobre as outras, mas na liberdade conquistada, no direito assegurado de mover-se cada cul- tura no respeito uma da outra, correndo risco livremente de ser dife- rente, sem medo de ser diferente. (FREIRE, 2013 [1992], p. 178). OS ESTUDANTES DE EJA CONHECEM BEM A DISCRIMINAÇÃO SOCIAL DE TODAS AS ORDENS. N a n z e e b a /S h u tt e r s to c k 62 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 62C07_CP23_NPCF_060a067.indd 62 10/07/23 08:5110/07/23 08:51 O multiculturalismo no cotidiano escolar A valorização do multiculturalismo na educação de jovens e adul- tos compreende, então, o reconhecimento de que todos os estu- dantes devem ser respeitados em sua diversidade, capacidade e potencialidade, o que, em outras palavras, significa dizer que não faz sentido pensar as aulas de EJA como meras reproduções das prá- ticas exercidas no ensino regular. O tempo da EJA é diferente, as demandas dos estudantes são distintas; logo, pensar a própria or- ganização curricular envolve estar atento a essas especificidades. Percepção, aliás, já presente nos documentos curriculares de EJA há pelo menos 20 anos, conforme podemos observar no seguinte tre- cho da Proposta Curricular: É ainda indispensável levar em conta que o aluno da EJA tem expe- riências de vida e também profissionais e que busca conhecimentos com intenções muito específicas – como por exemplo se inserir no mercado de trabalho, progredir na profissão, continuar os estudos. Mas isso não significa que se deva fazer uma mera adaptação de uma transposição didática realizada para alunos do chamado “ensi- no regular”. Essa transposição didática dos saberes “científicos” para saberes escolares deve ser construída tendo em mente alunos com experiências específicas de vida, como os alunos da EJA. (BRASIL, 2002, p. 118-119). BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Proposta Curricular para a educação de jovens e adultos: segundo segmento do ensino fundamental: 5a a 8a série: introdução. Brasília, DF: MEC: SEF, 2002. No planejamento das aulas, portanto, é funda- mental lembrar que a escolha de determinados temas transversais pode provocar debates que incluem, justamente, essa diversidade cultural da EJA, valorizando a história de vida dos estu- dantes e promovendo potentes oportunidades de aprendizagem. Dentre eles, podemos des- tacar temas como “infância” ou “trabalho”, pois permitem que estudantes de diferentes idades e trajetórias relatem suas experiências, enquan- to múltiplos conteúdos disciplinares podem ser trabalhados. É possível desenvolver reflexões sobre a história do país a partirdos diferentes contextos trabalhistas pelos quais a população passou; exercitar o saber matemático por meio da investigação dos di- ferentes valores monetários do Brasil, relacionando tal pesquisa com relatos sobre o valor dos primeiros salários dos estudantes mais ve- lhos; pesquisar as brincadeiras que foram mais populares na infância de cada estudante e representar artisticamente para os demais essas O TEMPO DA EJA É DIFERENTE, AS DEMANDAS DOS ESTUDANTES SÃO DISTINTAS; LOGO, PENSAR A PRÓPRIA ORGANIZAÇÃO CURRICULAR ENVOLVE ESTAR ATENTO A ESSAS ESPECIFICIDADES. lemono/Shutterstock 63 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 63C07_CP23_NPCF_060a067.indd 63 10/07/23 08:5110/07/23 08:51 preferências; estudar as representações da infância na literatura, re- correr à memória dos estudantes para resgatar parlendas e cantigas populares em suas respectivas infâncias e, partir dessas recordações, promover atividades de letramento. Nesse exercício constante de alteridade, percebemos que, em cada contexto educacional, tão importante quanto a sensibilidade para desenvolver estratégias que valorizem o multiculturalismo da turma é ter atenção para o acolhimento da voz discente, respeitando as valiosas vivências de todos e contribuindo para que novos saberes sejam conquistados. Ao longo da vida, há construção de diversas memórias, cujas lembranças – ora boas, ora ruins – podem ser mobilizadas por meio de uma mediação docente cuidadosa, sobretudo no contexto da EJA. Na imagem, estudante indígena narra sua história em aula da Universidade da Maturidade, em Tocantínia (TO), 2022. TÃO IMPORTANTE QUANTO A SENSIBILIDADE PARA DESENVOLVER ESTRATÉGIAS QUE VALORIZEM O MULTICULTURALISMO DA TURMA É TER ATENÇÃO PARA O ACOLHIMENTO DA VOZ DISCENTE C e s a r D in iz /P u ls a r Im a g e n s 64 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 64C07_CP23_NPCF_060a067.indd 64 10/07/23 08:5110/07/23 08:51 O diálogo com os ODS Vale lembrar que, além do que as discus- sões educacionais e os documentos curricu- lares em torno da EJA já afirmam, há bastan- te tempo, sobre a importância em valorizar o múltiplo repertório cultural dos estudantes, podemos encontrar nos próprios Objeti- vos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), tema deste caderno, uma perspectiva muito alinhada com o que está sendo discutido até aqui, em particular, nos Objetivos 4 e 10. Especificamente com relação à educação, lemos no Objetivo 4, dedicado à promoção da educação de qualidade, que o principal in- tuito dessa meta é “assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos”2. De modo mais amplo, o Objetivo 10 defen- de “reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles”3, que, para ser alcançado, como sabemos, depende bastante do que preconiza o Objetivo 4. Definições apresentadas, cabe, então, dedicarmos aten- ção especial ao diálogo entre essas propostas e a realidade educa- cional brasileira, com ênfase na EJA. Em primeiro lugar, a defesa de uma educação “inclusiva, equita- tiva e de qualidade” passa pelo entendimento de que a inclusão é exercida não só pela garantia do acesso à educação, mas também pela promoção de iniciativas que asseguram a permanência do es- tudante no espaço educacional; a garantia pela equidade, por sua vez, busca atender a todos do modo mais democrático possível, sempre considerando as particularidades de cada sujeito; enquanto a busca pela qualidade de ensino se reflete na promoção de práticas que não menosprezam o saber prévio do estudante, mas também não se limitam a esse saber, qualificando os discentes para que pos- sam avançar em seus objetivos pessoais, ocupando novos espaços formativos e profissionais. Em segundo lugar, entender que a educação é um direito de to- dos, e que, por isso, não deve se limitar a uma faixa etária específica, retoma a necessidade, também apontada no Objetivo 4, de promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Todos nós esta- mos suscetíveis às imprevisibilidades, ao inesperado que pode redi- recionar nossos caminhos e alterar, a qualquer momento, o percurso planejado, e com os estudantes não é diferente. 2. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 4: Educação de qualidade. ONU, 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/4. Acesso em: 11 abr. 2023. 3. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 10: Redução das desigualdades. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/10. Acesso em: 11 abr. 2023. TODOS NÓS ESTAMOS SUSCETÍVEIS ÀS IMPREVISIBILIDADES, AO INESPERADO QUE PODE REDIRECIONAR NOSSOS CAMINHOS E ALTERAR, A QUALQUER MOMENTO, O PERCURSO PLANEJADO, E COM OS ESTUDANTES NÃO É DIFERENTE. melitas/Shutterstock 65 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 65C07_CP23_NPCF_060a067.indd 65 10/07/23 08:5110/07/23 08:51 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/4 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/10 Mesmo com toda a dedicação e a força de vontade, sabemos que a vida do estudante da EJA é cercada por uma rotina muito dinâmi- ca, ou seja, hoje ele pode estar com tempo disponível para estudar, mas, amanhã, pode ser que ele tenha que dar uma longa pausa ou até mesmo abandonar os estudos; logo, é fundamental que esse estudan- te saiba que pode retomar seus estudos no momento que lhe for mais adequado, pois seu espaço estará garantido. Podemos, por fim, notar que todas essas iniciativas a favor da ga- rantia de uma educação de qualidade contribuem de maneira profunda para a já mencionada redução das desigualdades; sem dúvida, uma das maiores necessidades da sociedade brasileira. É importante afirmar que, quando é garantido que tanto homens quanto mulheres tenham direitos iguais de acesso ao ensino e de sua permanência nele, quando se investe na formação educacional e pro- fissional, reparando injustiças historicamente consolidadas, quando as múltiplas culturas presentes em sala de aula são reconhecidas e valori- zadas e quando se direciona uma atenção particular para o acolhimento das camadas marginalizadas, das quais grande parte do público da EJA faz parte, está se pensando na construção de uma sociedade menos excludente, mais justa e democrática. Objetivo este que deveria nor- tear não só as práticas de profissionais de educação, mas as ações de todos os cidadãos preocupados em contribuir para um futuro melhor. O acesso de pessoas em situação de vulnerabilidade à EJA pode diminuir e até mesmo acabar com cenas como a retratada nesta fotografia, que, infelizmente, fazem parte do cotidiano de cidades brasileiras. Salvador (BA). Fotografia de 2022. T h a le s A n to n io /S h u tt e rs to ck Andrew Rybalko/Shutterstock 66 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 66C07_CP23_NPCF_060a067.indd 66 10/07/23 08:5210/07/23 08:52 E M SA L A DE AULA QUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR PROPOSTAS DE ATIVIDADES ATIVIDADE 1 Leitura do poema “Vozes-Mulheres”, de Conceição Evaristo. Esta é uma boa oportunidade para refletir sobre a trajetória familiar dos estudantes, principalmente das mulhe- res, enfatizando as semelhanças no meio da multiplicidade de perfis. ATIVIDADE 2 Análise da canção “Mãe”, do rapper Emicida, de modo a aproximar a discussão anterior dos estudantes mais jovens, trazendo um complemento ao tema da valorização familiar, com destaque para a figura materna. ATIVIDADE 3 Leitura do poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade. Explique aos estudantes que o foco é refletir sobre a multiplicidade cultural presente nas infâncias das pessoas, sobretudo, dos estudantes. Conduza cenários para problematizar a relação entre a vida de uma criança do interior e o mundo do trabalho. ATIVIDADE 4 Exibição do filme Fora de série. Proponha aos estudantes que assistam ao filme, que aborda a pluralidade cultural da EJA a partir do relato dos próprios estudantes. FORA de série. Direção: Paulo Carrano. Rio de Janeiro:Ob- servatório Jovem – RJ/LIDE-UFF: Vimeo, 2018. 1 vídeo (90 min). Disponível em: https://vimeo.com/257750339. Acesso em: 3 abr. 2023. Classificação indicativa: 16 anos. A escritora Conceição Evaristo. Fotografia de 2022. Graduado em Letras (Português — Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com Especialização em Educação de Jovens e Adultos pela mesma instituição e Especialização em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/FFP); e Doutor em Linguística Aplicada pela UFRJ. Atualmente, é professor de Língua Portuguesa e Literatura em turmas do Ensino Médio, preceptor no Programa de Residência Pedagógica da UFRJ e integrante do grupo Práticas de Letramentos no Ensino de Línguas e Literaturas (PLELL). DIEGO DOMINGUESDIEGO DOMINGUES V in c e n t B o s s o n /F o to a re n a R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d ito ra 67 C07_CP23_NPCF_060a067.indd 67C07_CP23_NPCF_060a067.indd 67 10/07/23 08:5210/07/23 08:52 https://vimeo.com/257750339 CAPÍTULO8CAPÍTULO8 Empreendedorismo nas comunidades Como tudo se conecta Se por um lado, o empreendedorismo tem sido um tema tra- zido às escolas não apenas pela BNCC, mas também por institui- ções como a ONU, por outro, fatores como desemprego e preca- rização de mão de obra levam ao aumento do empreendedorismo nas comunidades. Partindo dessa realidade, neste ensaio, Niva Silva aborda os ODS 8 e 12, propondo uma análise da realidade das escolas públicas brasileiras e uma reflexão sobre como o em- preendedorismo aparece e pode ser trabalhado nesse contexto. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 68 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 68C08_CP23_NPCF_068a075.indd 68 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 Flexibilizar para empregar Entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) traçados pela ONU em 2015, o de número 8 trata de trabalho decente e cres- cimento econômico. Nesse objetivo, são indicadas metas que dizem respeito ao eixo social do tripé da sustentabilidade e que entendem o trabalho como origem do valor em nossas economias e do sustento e da dignidade de todos. Entre as metas previstas, estão o aumento da produtividade em se- tores de mão de obra intensiva, a proteção dos direitos trabalhistas, o emprego pleno, produtivo e decente e a promoção de políticas de desenvolvimento que apoiem a geração de emprego, o empreende- dorismo e o crescimento das micro, pequenas e médias empresas. Quem de nós, professoras e professores, nunca sonhou com esse cenário para os estudantes? Mas, infelizmente, o que vemos aconte- cer, na maior parte do Brasil, aponta no sentido oposto. À medida que as políticas de desenvolvimento flexibilizam os direitos trabalhistas e apoiam setores de pouca mão de obra, crescem o desemprego e o trabalho informal e se deterioram a remuneração e as condições de trabalho. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 69 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 69C08_CP23_NPCF_068a075.indd 69 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 Fila de pessoas em busca de postos de trabalho, em São Paulo (SP), 2022. Atualmente, a taxa de desemprego medida pelo IBGE para a faixa etária de 18 a 24 anos é a segunda maior entre os grupos de idade: 29,1%1. 1. IBGE. PNAD Cont’nua. Distribuição de pessoas desocupadas por idade, 1o trimestre 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/ trabalho/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html. Acesso em: 14 abr. 2023. NESSE CENÁRIO, SOBRETUDO PARA OS MAIS JOVENS, DESESPERANÇOSOS DO MERCADO DE TRABALHO, SURGE UMA ‘PALAVRA MÁGICA’, O EMPREENDEDORISMOEMPREENDEDORISMO Nesse cenário, sobretudo para os mais jovens, desesperançosos do mercado de trabalho, surge uma “palavra mágica”, o empreendedoris- mo, que traz consigo a promessa de ganhos ilimitados, a fuga da hu- milhação do desemprego e mesmo do emprego com péssimas condi- ções de trabalho a que tantos se sujeitam sem alternativas. Será esse um caminho válido? O que nós, educadores, devemos considerar antes de incentivar nossos jovens a segui-lo? D e lf im M a rt in s /P u ls a r Im a g e n s aquamarine painter/Shutterstock 70 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 70C08_CP23_NPCF_068a075.indd 70 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9173-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-trimestral.html Empreendedorismo Na definição clássica de Schumpeter (1985), empreender é provocar mudanças em um mercado, setor ou território a partir da inovação, seja pela introdução de um novo produto, seja pela melhoria de um proces- so. Essa visão remete à figura do empresário que utiliza seu capital para assumir riscos, inovar e, assim, expandir seus negócios e influência. Mas não é essa a figura do empreendedor no mercado em que nos- sos estudantes estão prestes a entrar. De acordo com pesquisa do Sebrae (2022), no Brasil de hoje, quase metade dos “empreendedores” têm uma renda mensal de até um salário mínimo e 90% deles não pos- suem funcionários. Esse, sim, é o retrato do empreendedor periférico, aquele que reconhecemos em nossos estudantes, ex-estudantes e suas famílias. Esse é o empreendedorismo da maioria das comunida- des de nossas escolas. A mãe que cozinha para fora, o pai que monta uma vendinha na porta de casa, a tia que revende cosméticos, a menina que vende brigadeiros na hora do intervalo, o irmão que pedala horas pela cidade fazendo entregas. Empreender, para nossas comunidades, muitas vezes não é uma oportunidade, mas a única opção em um cenário de desemprego; é o que chamamos de “empreendedorismo por necessidade”. Os peque- nos comércios de periferia são exemplos vivos da resiliência e inven- tividade do brasileiro, além de demonstração do poder de consumo das comunidades. Por intermédio do trabalho árduo dessas pessoas, famílias encontram seu sustento e fazem circular a economia local. Mas esse mesmo impulso por empreender é usado como mecanis- mo de atração para o trabalho informal. Em um processo que vem sendo chamado de “trabalho intermitente”, “autogerenciamento subordinado” ou, simplesmente, “uberização”, empresas de inovação tecnológica se posicionam como plataformas, conectando o público consumidor ao prestador de serviço, eximindo-se de responsabilidades trabalhis- tas e desviando os riscos do negócio para o trabalhador. A análise de Ludmila Abilio (2019) explica que [...] o empreendedorismo assume na atualidade usos diversos que se referem de forma obscurecedora aos processos de informaliza- ção do trabalho e transferência de riscos para o trabalhador, o qual segue subordinado como trabalhador, mas passa a ser apresentado como empreendedor. Fundamentalmente, trata-se de um emba- ralhamento entre a figura do trabalhador e a do empresário. [...] O empreendedorismo torna-se genericamente sinônimo de assumir riscos da própria atividade. Opera aí um importante deslocamento do desemprego enquanto questão social para uma atribuição ao indivíduo da responsabilização por sua sobrevivência em um con- texto de incerteza e precariedade. ABILIO, Ludmila Costhek. Uberização: do empreendedorismo para o autogerenciamento subordinado. Revista Psicoperspectivas, Valparaíso, v. 18, n. 3, nov. 2019. Disponível em: https://www.scielo.cl/pdf/psicop/v18n3/0718 -6924-psicop-18-03-41.pdf. Acesso em: 16 jun. 2023. N e t V e c to r /S h u tt e r s to c k 71 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 71C08_CP23_NPCF_068a075.indd 71 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 https://www.scielo.cl/pdf/psicop/v18n3/0718-6924-psicop-18-03-41.pdfhttps://www.scielo.cl/pdf/psicop/v18n3/0718-6924-psicop-18-03-41.pdf Esse fenômeno recente, porém veloz, cresce alimentado por gran- des investidores e corre nas estradas abertas pelas políticas liberais, espalhando-se rapidamente para todas as categorias de prestação de serviço e criando uma nova classe de trabalhadores a que chamamos de precariado, devido às suas precárias condições de trabalho e vida. Atualmente, jovens buscam seus primeiros postos de trabalhos em plataformas de aplicativos. Na imagem, jovem trabalhando como entregador na cidade de São Paulo (SP), 2022. Educa•‹o empreendedora Visto que empreender é cada vez mais a única opção de trabalho e renda de milhares de jovens, a escola, como local de formação do cida- dão e da sociedade, deve compreender os cenários futuros e trabalhar na formação individual e coletiva de seus estudantes. Nesse sentido, a reforma das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio de 2018, conhecida como Novo Ensino MŽdio, posicionou o empreendedorismo como um dos quatro eixos es- truturantes dos itinerários formativos, complementares à formação geral básica. O empreendedorismo passou a ser tema orientador e FUNDAMENTALMENTE, TRATA-SE DE UM EMBARALHAMENTO ENTRE A FIGURA DO TRABALHADOR E A DO EMPRESÁRIO. E d u a rd o K n a p p /F o lh a p re s s vertukha/Shutterstock 72 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 72C08_CP23_NPCF_068a075.indd 72 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 agregador de atividades realizadas nos componentes curriculares de aprofundamento, eletivas e projeto de vida. Como é possível, en- tão, oferecer atividades de formação em empreendedorismo para os estudantes? Chamamos de “educação empreendedora” os cursos e programas voltados à aquisição de conhecimento e ao desenvolvimento de habi- lidades e atitudes que habilitem o estudante a empreender. Iniciativas nesse sentido são conhecidas no Brasil desde o início da década de 1980 (FERNANDES, 2013). Um estudo de 2017 (SILVA; PATRUS) fez um levantamento históri- co de propostas e métodos de ensino de empreendedorismo e nos dá um panorama das principais práticas para a área. Segundo esse estudo, os programas de formação empreendedora em geral com- põem-se por (a) uma carga teórica em temas como identificação de oportunidades, avaliação de riscos, criação de novos negócios; (b) desenvolvimento de habilidades técnicas e gerenciais; (c) desen- volvimento de atitudes como autogerenciamento, persistência e orientação a assumir riscos. Você deve estar se perguntando o que um professor tem a ensinar sobre empreendedorismo. A respeito disso, o professor Paulo Freire (1997) nos diz que só ensinamos aquilo que somos, pois educar exi- ge “corporificar as palavras pelo exemplo”. Somos o que somos, e, na maioria das vezes, não podemos dar testemunhos sobre outras formas de ser. Mas, ainda assim, é possível cumprir nosso papel de interme- diadores entre o aprendiz e o mundo estimulando a curiosidade, a cri- ticidade e criando possibilidades para a construção do conhecimento. Há uma parcela de professores cuja formação permite ensinar co- nhecimentos ou habilidades próprias do empreendedorismo e de ges- tão, como matemática financeira, por exemplo. Mesmo que não seja o seu caso, é possível articular a construção de conhecimento realizando atividades que coloquem o estudante em contato com esse universo e promovam a reflexão a partir dessas experiências. E é justamente assim que a maior parte dos programas e cursos de empreendedorismo funcionam: em um modelo de prática reflexiva, al- ternando conteúdos, práticas e reflexão, sendo que os métodos de en- sino mais aplicados são: * estudo de caso: análise de casos reais de empresas, empreendi- mentos ou cenários de negócios, no qual os estudantes são convi- dados a interpretar as informações levantadas e sugerir soluções ou estratégias factíveis; * palestras com empreendedores: a partir de relatos e histórias reais de convidados, os estudantes podem construir aprendizados sobre a gestão de um empreendimento e também encontrar nessas pes- soas modelos de vida adulta a seguir; * visitas a empresas: conhecer o funcionamento de empresas e em- preendimentos ajuda o estudante a construir uma visão do que é o cotidiano de um empreendedor; S k y P ic s S tu d io /S h u tt e rs to ck 73 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 73C08_CP23_NPCF_068a075.indd 73 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 * incubação de empresas: aceleração e incubação de ideias e em- preendimentos são programas que desenvolvem habilidades, per- mitem compreender a trajetória que vai de uma ideia até o negócio concreto e ajudam a estruturar um empreendimento em potencial; * projetos de pesquisa e extensão: projetos que exigem o planeja- mento e a condução de um trabalho de maneira estruturada são uma ótima oportunidade para o desenvolvimento de habilidades de gestão. Quando envolvem o atendimento das necessidades de pú- blicos reais, também exercitam a habilidade de identificar e atender necessidades e oportunidades. Essas e outras estratégias nos apoiam na importante missão de contribuir para que os estudantes desenvolvam a capacidade de em- preender, atividade que lhes apoiará na geração de renda em um futuro em que uma oportunidade de emprego formal é incerta. Mas, além da formação individual, é imprescindível formar uma ge- ração capaz de reconhecer as diferenças entre empreendedorismo e trabalho precarizado, além de pensar em negócios sem trocar a solida- riedade pela competitividade. Imagem da Feira do Jovem Empreendedor, realizada pela Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esportes. Rio Branco (AC), 2022. É POSSÍVEL CUMPRIR NOSSO PAPEL DE INTERMEDIADORES ENTRE O APRENDIZ E O MUNDO F o to : J o rg e W il li a m /S E E /P re fe it u ra d e R io B ra n c o , A C . S k y P ic s S tu d io /S h u tt e rs to ck 74 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 74C08_CP23_NPCF_068a075.indd 74 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 E M SA L A DE AULA QUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR PROPOSTAS DE ATIVIDADES Para trabalhar com empreendedorismo na sala de aula, adote algu- mas das estratégias a seguir, buscando promover o encontro com em- preendedores locais. * Busque como referência, para os estudos de caso, empreendimen- tos e empreendedores da própria comunidade escolar. * Convide empreendedores locais para realizar apresentações para a turma, ou, se possível, leve-os para conhecer seus empreendimentos. * Procure exemplos que demonstrem o potencial de empreendimen- tos coletivos, como cooperativas e associações. Essas propostas servirão de oportunidade de aprendizado aos es- tudantes e de fonte de inspiração a partir de exemplos concretos e factíveis, além de prestigiar o empreendedor local e fortalecer vínculos que podem gerar oportunidades futuras. Designer graduado pela Universidade de Santa Catarina (UFSC), mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em Educação e Formação de Professores pela Universidade de Tampere, Finlândia. É professor na Universidade São Judas Tadeu (USJT-SP) e atua como facilitador, mentor e coordenador de programas de formação nas áreas de empreendedorismo e inovação social. NIVA SILVANIVA SILVA R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l F la s h V e c to r/ S h u tt e rs to ck 75 C08_CP23_NPCF_068a075.indd 75C08_CP23_NPCF_068a075.indd 75 10/07/23 08:5310/07/23 08:53 CAPÍTULO9CAPÍTULO9 Inteligência artificial e o futuro das produções textuais: entre a realidade e o sonho Como tudo se conecta Neste ensaio, Tiago Ribeiro tangencia o ODS 9 relatando um sonho que teve, no qual vislumbrava todos os desafios e todas as benesses trazidas pelo advento da inteligência artificial em nossa sociedade. Com uma abordagem ora bem-humorada, ora assusta- dora, ele conduz o leitorà reflexão sobre as potencialidades e os obstáculos que a convivência entre seres humanos e robôs pode trazer e apresenta alguns caminhos possíveis para se trabalhar com esse impasse na escola. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editoraçç 76 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 76C09_CP23_NPCF_076a083.indd 76 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 A fluidez da artificialidade Eu tive um sonho. Nesse sonho, conversávamos com máquinas, como se fossem nossas amigas. Algumas delas tinham até nomes que simulavam os de seres humanos. Elas estavam sempre conectadas e, apesar de toda a simulação de humanidade que tentavam passar, res- pondiam-nos com uma certeza incrível, o que as distanciavam de nós, falhos e imprecisos que somos. Era uma inteligência meio artificial. No sonho, todos nós, humanos, estávamos sempre correndo, com olhos vidrados, voltados para telas. Parecia haver uma troca de papéis. Enquanto a máquina tentava parecer gente, a gente parecia cada vez mais com uma máquina. A artificialidade vinha fluindo de um para o outro. As máquinas e suas respectivas inteligências artificiais sempre serão invenções construídas para auxiliar pessoas, jamais para substituí-las, salvo raríssimas exceções. Andando pelas ruas, percebia que escolas e universidades estavam com uma movimentação diferente. Pessoas conversavam assustadas enquanto mostravam as telas de seus smartphones umas para as ou- tras. Em frente a uma tradicional escola, resolvi me aproximar para ouvir o que estavam falando. Era sobre mais uma dessas máquinas de inte- ligência artificial, um tal de ChatGPT1. Enquanto uma professora com ar sereno citava todas as maravilhas que poderiam ser produzidas apenas por um comando – “Imagina, podemos pedir que crie tarefas 1. “O ChatGPT é um chatbot com inteligência artificial (IA) que interage com humanos e fornece soluções em texto para diferentes questionamentos e solicitações. Desenvolvido pela OpenAI, o software é capaz de criar histórias, responder a dúvidas, aconselhar, resol- ver problemas matemáticos e muito mais — tudo isso com uma linguagem fluida e natural, semelhante à humana.” FERNANDES, Flávia. ChatGPT: o que é e como usar? Veja o guia completo do chatbot da OpenAI. TechTudo, Rio de Janeiro, 24 mar. 2023. Disponível em: https://www.techtudo.com. br/guia/2023/03/chatgpt-o-que-e-e-como-usar-veja-o-guia-completo-do-chatbot-da -openai-edsoftwares.ghtml. Acesso em: 11 maio 2023. m e ta m o rw o rk s /S h u tt e rs to ck Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 77 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 77C09_CP23_NPCF_076a083.indd 77 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 https://www.techtudo.com.br/guia/2023/03/chatgpt-o-que-e-e-como-usar-veja-o-guia-completo-do-chatbot-da-openai-edsoftwares.ghtml https://www.techtudo.com.br/guia/2023/03/chatgpt-o-que-e-e-como-usar-veja-o-guia-completo-do-chatbot-da-openai-edsoftwares.ghtml https://www.techtudo.com.br/guia/2023/03/chatgpt-o-que-e-e-como-usar-veja-o-guia-completo-do-chatbot-da-openai-edsoftwares.ghtml É O FIM! AGORA NÃO HAVERÁ MAIS CRIATIVIDADE, AUTORIA! TUDO SERÁ FEITO PELAS MÁQUINAS. No final da década de 1960, a temática da inteligência artificial foi retratada em 2001: uma odisseia no espaço, longa-metragem de ficção científica, de Stanley Kubrick, tornando-se um marco no cinema. O filme revolucionou a indústria do entretenimento audiovisual. Uma das personagens icônicas da produção é o computador HAL 9000, que, em determinado momento, mostra do que é capaz, mesmo não sendo humano. A L L S T A R P IC T U R E L IB R A R Y /A la m y /F o to a re n a burocráticas, facilitando nossa vida!” –, um homem sisudo e preocupa- do alardeava para seus colegas que, agora, docentes não teriam mais serventia alguma, já que o novo robô (engraçado, esse não tinha nome de gente) escreveria todos os textos que os estudantes mandassem como se fossem deles – “É o fim! Agora não haverá mais criatividade, autoria! Tudo será feito pelas máquinas. Na minha sala de aula, ninguém mexe nem em celular! Robô nenhum vai se meter comigo!” – dizia o homem, ao mesmo tempo que carregava as avaliações que iria aplicar na turma, as mesmas provas nos últimos quinze anos. Não me assustei. Continuei andando e observando aquele mundo ao meu redor. Do nada, como se atravessasse um portal, caí dentro de uma outra escola (sonho tem dessas coisas, né? E professor, até no so- nho, está na escola. Impressionante...). Lá, havia estudantes e professo- res, brancos, negros, indígenas, trabalhando em conjunto, com ar bas- tante tranquilo. O mais curioso ali era a presença de um daqueles robôs citados lá na outra instituição. Ele apenas se movia, caso recebesse or- dens das pessoas. Todos folheavam livros, olhavam uns nos olhos dos outros, cooperavam nas atividades. Tudo muito humano. Nem parecia que, antes, na rua, eu tinha passado por pessoas quase máquinas. Querendo conhecer aquela realidade, entrei na sala de aula e co- mecei a entender as tarefas que ali aconteciam. Obras diversas eram consultadas: textos de Guimarães Rosa, Ailton Krenak, Mia Couto, Ca- rolina Maria de Jesus. Alguns estudantes escreviam em papel, outros 78 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 78C09_CP23_NPCF_076a083.indd 78 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 em tablets. Havia ainda alguns que usavam máquina de escre- ver (ah, esses sonhos...). Mas havia algo comum a todas aquelas pessoas, professores e estudantes: elas interagiam entre si ao mesmo tempo que escreviam vários textos e consultavam tanto os livros quanto o tal robô que ali estava. Lembro até que um dos estudantes, bastante esperto, perguntou ao robô se ele sabia o que significava a palavra “murmurrindo”, que o estudante acabara de ler num dos textos de Mia Couto e era atribuído à Tristereza, uma de suas personagens representativas de muitas outras mu- lheres africanas que, em meio à tristeza da guerra, mantinha sua fé e sabedoria. O robô disse que aquela palavra não existia. Nem aquela personagem. O menino riu e falou, com um sorriso maro- to nos lábios: “É, ainda sou bem mais esperto que essa máquina”. Ao perceber aquela interação, a professora propôs, então, uma tarefa em que os estudantes explicariam ao robô, por meio de co- mandos, o que significavam aquelas palavras criadas pelo autor moçambicano, até que seu cérebro eletrônico fosse capaz de en- tender e construir uma explicação correta. Saí daquela escola bem mais animado. Fui andando por diversos estabelecimentos e vendo que havia muitos robôs como aquele pelas ruas. Na casa de uma moça que vendia quentinhas, ele ajuda- va na montagem do próximo cardápio, evitando o desperdício de ingredientes; antes da batalha de slam, mostrava aos poetas diver- sos sinônimos para as palavras que utilizariam em suas rimas mais tarde; numa rua de uma comunidade carente, o robô ajudava os moradores a escrever textos formais (mesmo no sonho, eles ainda eram necessários para que as pessoas mais carentes fossem ou- vidas), denunciando o descaso dos governantes, ao mesmo tem- po que ajudava um jovem estudante negro de jornalismo a montar uma reportagem sobre um caso de racismo ocorrido recentemen- te com outro jovem; no parque natural da cidade, dava dicas com base em informações sobre o entorno a alguns adolescentes para a criação de projetos integradores com a natureza; numa escola técnica, trabalhava com os estudantes, traçando planos conjuntos que conscientizassem a população sobre a necessidade de um consumo eficiente de energia; num escritório, auxiliava mulheres a se unirem e a criarem diversos modelos de reivindicações so- bre remuneração justa e igualitária; num supermercado, mediava discussões entre pessoas surdas e ouvintes, destacando a impor- tância da cultura surda e da forma de significar o mundo através da língua de sinais; em seus laboratórios, cientistas usavam os ro- bôs para, por meio de complexos cálculos probabilísticos, prever catástrofes naturais,antecipando-se a elas e criando um melhor mundo para todos viverem. No sonho, não eram trabalhadores precarizados em países sub- desenvolvidos que construíam esses robôs; eles não estavam ali para sugar conhecimento dos humanos e gerar lucros para os do- nos das empresas que os idealizaram, ampliando abismos sociais; as pessoas mantinham a criatividade, usando esses ajudantes Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 79 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 79C09_CP23_NPCF_076a083.indd 79 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 Foi quando, de repente, acordei. Com a cabeça fervilhando, pensan- do em todas aquelas possibilidades que o sonho me trouxera. Liguei meu smartphone e vi que o tal robô já estava entre nós com todas as potencialidades do sonho, mas também com os perigos da realida- de. Fiquei bastante reflexivo e cheguei à conclusão de que, em vez de medo, precisamos ter coragem para lidar com tudo de novo que as recentes tecnologias nos trazem e com todos os conflitos que a ve- lha humanidade sempre carregou consigo. Precisamos ter em nossa mente que nem mesmo todo o acervo do planeta permitirá que o robô viva, sinta e interprete a cultura nordestina como Bráulio Bessa; ou re- flita sobre todas as relações ancestrais do povo indígena como Eliane Potiguara; muito menos escancare a vida do povo preto, escolhendo cada palavra como Conceição Evaristo. Sim, claro, a chegada desse e de outros robôs sempre trará con- sigo desafios que poderão transformar sonhos em pesadelos. Mas o livre-arbítrio também é uma carac- terística humana. O “pai” da tal máquina robótica que tenta ser gen- te não percebeu, mas nossos cérebros orgânicos nos permitem dizer que, sim, esta também tem nome de gente. O “GPT”, em vez de Generative Pre-Trained Transformer, poderia ser uma referência a Geppetto. Assim como o personagem de Carlo Collodi, o cria- dor da ferramenta tenta dar ares humanos a um produto, por mais artificial que seja. E, no caso de ambos, só se chega a um resultado realmente satis- fatório quando há a mistura entre o produto artificial e a sensibilidade humana. OS TAIS HUMANOIDES NÃO TENTAVAM PADRONIZAR IDEOLOGIAS E POSIÇÕES, ELES CONTRIBUÍAM PARA QUE CADA PESSOA DEMONSTRASSE O QUE TINHA DE MELHOR apenas como ferramentas para potencializar suas humanidades; nin- guém tentava trapacear se apropriando dos textos dos robôs como se fossem seus; toda e qualquer informação gerada por essas incríveis má- quinas traziam consigo suas fontes (humanas, claro); os tais humanoides não tentavam padronizar ideologias e posições, eles contribuíam para que cada pessoa demonstrasse o que tinha de melhor, enriquecendo e pluralizando culturas; crianças e adolescentes não eram hipnotizados por essas máquinas, e sim incentivados por elas a olharem para o que de mais importante há em seus entornos; nossos cérebros tinham suas capacidades ampliadas, e não atrofiadas pela máquina, tornando-nos cada vez mais únicos e necessários. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 80 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 80C09_CP23_NPCF_076a083.indd 80 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 Ressignificando a máquina Ao entender como a máquina funciona, o ser humano pode ampliar sua criatividade, divulgar suas dores, promover avanços sociais, ven- cendo preconceitos, utilizando até mesmo a variante linguística de seu opressor. O sonho ainda é um ato essencialmente humano e é por meio dele que criamos as condições para fazer algo que, à primei- ra vista, pode parecer contraditório: usar a máquina para recuperar a nossa humanidade. A inteligência artificial está cada dia mais presente no cotidiano das pessoas. Há grandes chances de, em um curto espaço de tempo, estarmos interagindo com robôs que irão nos auxiliar em diferentes tarefas do dia a dia. Essa interação entre humanos e algo, supostamente, hiperinteligente subverte uma das imagens mais famosas do Ocidente, a obra A criação de Adão. Encomendada pelo papa Júlio II, esse afresco, produzido pelo renascentista Michelangelo por volta de 1511, integra o conjunto de pinturas feitas no teto da Capela Sistina, no Vaticano. Nessa obra, a interação entre o divino e o humano nunca se concretizará. AO ENTENDER COMO A MÁQUINA FUNCIONA, O SER HUMANO PODE AMPLIAR SUA CRIATIVIDADE, DIVULGAR SUAS DORES, PROMOVER AVANÇOS SOCIAIS, VENCENDO PRECONCEITOS, UTILIZANDO ATÉ MESMO A VARIANTE LINGUÍSTICA DE SEU OPRESSOR. B u s b u s /r a w p ix e l. c o m /F re e p ik R e p ro d u ç ã o /C o le ç ã o p a rt ic u la r 81 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 81C09_CP23_NPCF_076a083.indd 81 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 E M SA L A DE AULA PROPOSTA DE ATIVIDADE Chegou a hora de misturarmos sonhos e realidades. Que tal colocar em prática a atuação do robô em sala de aula? G ro u n d P ic tu re /S h u tt e rs to ck A ideia é desenvolver tarefas utilizando o ChatGPT. São muitas as possibilidades. Veja algumas sugestões a seguir. * Peça aos estudantes que escrevam comandos para a ferramenta produzir textos de diferentes culturas do nosso país: nordestina, in- dígena, negra, etc. Depois compare o texto produzido pelo assisten- te virtual com textos escritos por autores dessas culturas. * Converse com os estudantes sobre tudo que é desperdiçado na escola, por exemplo, alimentos, materiais escolares, etc. Faça uma lista e peça a eles que criem comandos para o ChatGPT solicitan- do ideias de projetos para acabar com esse desperdício. Depois, converse com os estudantes sobre a viabilidade e a coerência das respostas produzidas por meio da inteligência artificial. * Aborde as inquietações dos estudantes em relação a questões do cotidiano e sobre as quais tenham reclamações, por exemplo, a se- gurança nas escolas, no entorno de casa, o mau atendimento pres- tado por uma empresa, etc. A partir dessa conversa, proponha que criem comandos ao ChatGPT para gerar cartas de reclamação, ava- liando a pertinência, recriando os comandos e revisando o texto até que se chegue ao resultado esperado. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 82 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 82C09_CP23_NPCF_076a083.indd 82 10/07/23 09:3110/07/23 09:31 QUEM É O AUTORQUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR * O ChatGPT tem se mostrado uma excelente fer- ramenta para se trabalhar com diferentes gêne- ros textuais. Desse modo, proponha aos es- tudantes que criem comandos para que ele gere textos de diferentes gêneros sobre o mesmo tema, por exemplo, criar um poema sobre o Sol, um artigo científico sobre a formação solar, um texto jorna- lístico sobre o aumento das temperatu- ras nos últimos anos, um conto sobre o Sol, etc. Dessa forma, é possível com- parar a forma e o conteúdo dos textos a respeito de um mesmo tema, que pode ser escolhido pelos próprios es- tudantes, gerando maior interesse. Faça as adaptações que considerar necessárias em cada atividade, analisando o contexto de trabalho, o ano de escolaridade dos estudan- tes e a disponibilidade de tempo. Professor do Magistério Superior no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) nas disciplinas de Língua portuguesa e Tecnologias da Informação e Comunicação. Tem experiência em turmas dos Ensinos Fundamental e Médio, além de já ter atuado na modalidade on-line como mediador, orientador de trabalhos finais de curso, desenhista educacional, professor-autor e coordenador de curso. Seu Doutorado em Letras é pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e teve como tema de trabalho o “internetês”. Recentemente, organizou, com a professora Tania Chalhub, o livro Reflexões de um mundo em pandemia: educação, comunicação e acessibilidade, publicado pela Editora Ayvu e Disponível gratuitamente em: https://www.ayvueditora. com/reflexoes-de-um-mundo-em-pandemia. Acesso em: 12 abr. 2023. TIAGO RIBEIROTIAGO RIBEIRO Re p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l M a k e r/ S h u tt e rs to ck Sugestões para ampliaçãoSugestões para ampliação Livros BESSA, Bráulio. Um carinho na alma. Rio de Janeiro: Sextante, 2019. COUTO, Mia. Chuva: a abensonhada. In: COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2016. JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 2004. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. POTIGUARA, Eliane. A cura da Terra. São Paulo: Editora do Brasil, 2015. ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 83 C09_CP23_NPCF_076a083.indd 83C09_CP23_NPCF_076a083.indd 83 10/07/23 09:3210/07/23 09:32 https://www.ayvueditora.com/reflexoes-de-um-mundo-em-pandemia https://www.ayvueditora.com/reflexoes-de-um-mundo-em-pandemia CAPÍTULO10CAPÍTULO10 O engajamento da juventude para a preservação do ecossistema Como tudo se conecta Neste ensaio, abordando os ODS 13, 14 e 15, Fabrício Cruz traz uma reflexão sobre a interdependência entre ser humano e nature- za propondo uma ruptura com a visão antropocêntrica que norteia a humanidade há séculos. Com base nisso, o autor ilustra situações in- tencionalmente planejadas na escola que propiciem aos estudantes e a toda a comunidade escolar a vivência de atitudes sustentáveis, a realização de projetos que estimulem a reflexão e o protagonismo e faz uma análise das possibilidades oferecidas pela instituição esco- lar para uma transformação social ampla. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 84 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 84C10_CP23_NPCF_084a091.indd 84 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 Os serviços ecossistêmicos A emergência para a transformação das atividades humanas em rela- ção à natureza está batendo à porta. Aliás, ela já adentrou. Comumente, deposita-se na juventude a esperança de que ela proponha maneiras de resolver a maior parte das mazelas que afligem a humanidade e que foram negligenciadas ou mal dimensionadas pelas gerações passadas. Contudo, como atribuir essa responsabilidade aos jovens quando não se tem modelos de conduta para lidar com os problemas ambientais criados pelos adultos? Na imagem, estudantes regam horta em aula de práticas agrícolas na Escola Estadual Quilombola Tereza Conceição de Arruda, em Nossa Senhora do Livramento (MT), 2020. C e s a r D in iz /P u ls a r Im a g e n s F e rn a n d o F a v o re tt o /C ri a r Im a g e m Uma das alternativas para a conscientização dos jovens é mesclar aulas práticas e teóricas. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 85 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 85C10_CP23_NPCF_084a091.indd 85 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 Quando tratamos de engajamento da juventude, é necessário lem- brar que qualquer habilidade ou competência, nesse caso para a sus- tentabilidade, possui componentes atitudinais, que a aprendizagem de atitudes depende de contextos significativos, de repetidas vivências, de bons modelos, de reflexão sobre a ação e que tudo isso deve estar vinculado a boas experiências emocionais. É por esse motivo que uma palestra sobre o tema, uma conversa pontual ou campanhas que colo- cam crianças e adolescentes em um lugar passivo ensinam pouco so- bre atitudes, algo que as pesquisas em ensino e aprendizagem desse tipo de conteúdo apontam há anos. Uma questão central de uma educação para a sustentabilidade diz respeito à mudança na forma antropocêntrica com que nós, seres hu- manos, compreendemos a relação com a natureza. É fundamental que a escola, em suas ações diárias, ensine como o ambiente natural nos beneficia com serviços essenciais para a manutenção da vida, desro- mantizando a maneira como comumente entendemos a contribuição da natureza para a humanidade, sendo altamente pretensiosos, como se os fotossintetizantes produzissem oxigênio intencionalmente para nós, ou que, da mesma forma, alguns animais produzissem ovos, leite e demais produtos exclusivamente para a nossa alimentação. Nessa perspectiva, há um conceito muito difundido atualmente, chamado de serviços ecossistêmicos, que se refere aos benefícios que os ecossistemas proporcionam em todos os âmbitos da vida hu- mana, possibilitando: 1. provisões: alimentos, água, madeira, etc.; 2. suporte à vida: decomposição e ciclagem de nutrientes, polinização e dispersão de sementes, controle de pragas e doenças, proteção contra raios ultravioleta e manutenção de biodiversidade; 3. regulação: sequestro de carbono da atmosfera, regulação climáti- ca, ciclo hidrológico, manutenção da estabilidade do solo; 4. experiências culturais: recreação, turismo, experiências estéticas e espirituais, conhecimento. Para compreender a nossa interdependência na relação com a na- tureza, é necessário entender que fazemos parte de uma teia de rela- ções em que influenciamos e somos influenciados, visto que a mínima interferência humana nessa estabilidade impacta, em maior ou menor medida e por meio de transformações cumulativas, a vida em todo o planeta. Sem contar que a alta especialidade dos organismos humanos É FUNDAMENTAL QUE A ESCOLA, EM SUAS AÇÕES DIÁRIAS, ENSINE COMO O AMBIENTE NATURAL NOS BENEFICIA COM SERVIÇOS ESSENCIAIS PARA A MANUTENÇÃO DA VIDA Ilustrações: Irina Strelnikova/Shutterstock 86 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 86C10_CP23_NPCF_084a091.indd 86 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 Nesse contexto de extrema urgência, os Objetivos de Desenvolvi- mento Sustentável (ODS) trazem um apelo global para os desafios a serem vencidos nos próximos anos e que permitirão a continuidade da vida. Os ODS 13, 14 e 15 estão diretamente relacionados à preservação de ecossistemas: 13. Ação contra a mudança global do clima: adotar medidas urgen- tes para combater as alterações climáticas e os seus impactos 14. Vida na água: conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável 15. Vida terrestre: proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, travar e reverter a degradação dos solos e travar a perda da biodiversidade ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. ONU, 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/13; https://brasil.un.org/ pt-br/sdgs/14; https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/15. Acesso em: 11 abr. 2023. A leitura dos objetivos nos permite listar uma série de ações, indi- cadas por verbos no infinitivo: “adotar medidas”, “conservar e usar de forma sustentável”, “combater as alterações climáticas”, entre outras. Considerando que tais ações constituem atitudes que são mobilizadas por valores internos, como engajar crianças e adolescentes para que se comprometam com essa tarefa? A seguir, proponho algumas ações que podem contribuir para a realização desse trabalho na escola. A valorização dos serviços ecossistêmicos pode suprir demandas profissionais e, consequentemente, financeiras. Na imagem, visitantes são conduzidos por guia turístico no Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco. B e to C e ll i/ P u ls a r Im a g e n s nos torna vulneráveis às mudanças no meio ambiente, sendo a nossa espécie uma das primeiras a ser exterminada no caso de as condições planetárias se alterarem significativamente. Paula de Aguiar/ Arquivo da editora 87 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 87C10_CP23_NPCF_084a091.indd 87 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/13 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/14 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/14 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/15 Promova situações planejadas para que os estudantes vivenciem atitudes sustentáveis A aprendizagem de atitudes necessitade intencionalidade. Então, se queremos que a juventude manifeste atitudes sustentáveis, é preciso criar um ambiente em que esses valores sejam vivenciados. Os dis- cursos sobre como preservar a natureza são facilmente identificados por eles como vazios de ação por parte dos adultos. Portanto, os jo- vens precisam de um modelo de conduta que deve ser apresentado a eles por seus responsáveis, por meio, por exemplo, da manutenção da limpeza do espaço coletivo da escola, da separação dos resíduos, do uso consciente de água e energia elétrica, da conscientização para evitar o desperdício de alimentos, entre outras ações. Essas atitudes precisam ser divididas com as crianças e os adolescentes, pois, para a aprendizagem de valores, é indispensável que eles as vivenciem. A reflexão só pode acontecer, na maioria das vezes, quando ações exis- tem e são legítimas. L u c ia n a W h it a k e r/ P u ls a r Im a g e n s 88 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 88C10_CP23_NPCF_084a091.indd 88 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 Uma sugestão é que, em algum nível, os estudantes possam moni- torar o consumo e o desperdício de água ou o destino do lixo que é produzido na escola. Eles podem buscar por evidências coletando periodicamente dados dos medidores de água ou observando, com algum critério, o volume de lixo reciclável produzido em sala de aula para mensurarem os dados e, sendo necessário, investirem juntos em uma campanha pela mudança de atitudes na comunidade escolar. Problematize o consumo de materiais por toda a comunidade escolar Na escola, a produção de lixo, de modo geral, é alta e, dependendo dos tipos de materiais descartados, deposita-se no ambiente resídu- os nada sustentáveis. É preciso repensar o uso excessivo de alguns materiais na escola, como plásticos em geral, copos descartáveis, EVA, papel celofane, isopor, papel crepom, entre outros sintéticos. É possível problematizar, tanto com o grupo de profissionais que atua na escola, entre eles os professores, quanto com os estudantes, as escolhas que são feitas em função do que se pretende com os ma- teriais, considerando quais causam o menor impacto no meio am- biente. Por estar vinculado a uma situação real, o trabalho com esse conteúdo pode resultar em uma aprendizagem mais significativa. Seja otimista no trabalho com a juventude Pesquisas realizadas após o período de isolamento social em razão da pandemia de covid-19 apontam um aumento no número de jovens que estão pessimistas em relação ao futuro. Esse dado nos alerta para o trabalho com uma perspectiva otimista, que encoraje os mais novos a acreditarem que podem contribuir para um futuro melhor para todos. A motivação é um componente fundamental para o engajamento, e boas ideias e sentimentos passam pelas expectativas que crianças e adoles- centes podem vir a ter da vida adulta. Precisamos ser uma referência positiva de comprometimento com as pautas socioambientais, incen- tivando os jovens a se envolverem em debates e ações coletivas, seja na escola, seja na comunidade, para que tenham a sensação de que a conquista de um ideal coletivo é recompensadora e gratificante. Incentive-os a colocar em prática algum projeto de transformação na comunidade No geral, a maioria das escolas são desconectadas da comunidade no entorno, sendo que, na realidade, o espaço escolar deveria ser um lu- gar de contribuição de ideias para resolver problemas reais do próprio bairro ou da cidade. Os entraves que contribuem para esse distancia- mento são, entre outros, a falta de apoio aos professores, as questões financeiras e logísticas para sair com os estudantes da escola e a falta de segurança. No entanto, não se pode perder de vista que a trans- formação da realidade global passa primeiramente por mudanças na realidade local. Visual Generation/Shutterstock 89 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 89C10_CP23_NPCF_084a091.indd 89 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 A última atualização do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em março de 20231, é de que já temos tecnologia desenvolvida para nos ajudar a frear a crise climática que poderá levar à destruição de inúmeros ecossistemas, inclusive dos seres humanos. Ou seja, nem tudo está perdido. É nessa perspectiva que deve se con- centrar a nossa atuação junto à juventude se desejarmos que os jovens contribuam com o resgate da saúde do nosso planeta, tão abalada por decisões equivocadas de governos e de empresas. Para que eles se- jam protagonistas, é a nossa vez de encorajá-los nessa direção. 1. THE INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE. IPCC, Reino Unido, mar. 2023. Disponível em: https://www.ipcc.ch/. Acesso em: 12 maio 2023. Os muros da escola também servem para transmitir informações relevantes para a comunidade do entorno. Na imagem, grafite sendo feito em muro de escola em Sorocaba (SP), 2020. NEM TUDO ESTÁ PERDIDO. É NESSA PERSPECTIVA QUE DEVE SE CONCENTRAR A NOSSA ATUAÇÃO JUNTO À JUVENTUDE SE DESEJARMOS QUE OS JOVENS CONTRIBUAM COM O RESGATE DA SAÚDE DO NOSSO PLANETA, TÃO ABALADA POR DECISÕES EQUIVOCADAS DE GOVERNOS E DE EMPRESAS. E d s o n G ra n d is o li /P u ls a r Im a g e n s 90 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 90C10_CP23_NPCF_084a091.indd 90 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 E M SA L A DE AULA QUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR PROPOSTA DE ATIVIDADE Pesquise organizações da sua comunidade ou município que tenham sucesso com práticas sustentáveis, pois elas servem de bons modelos de investigação para os estudantes. Demons- tre que, ao conhecer melhor os desafios dessas ações, eles podem se inspirar para planejar projetos originais e autorais. Selecione algumas dessas pessoas ou representantes de instituições e convide-os para uma conversa com a turma, na escola. Com os estudantes, faça atividades antes, durante e após a visita. A seguir, algumas sugestões para essa etapa. * Antes da visita: peça aos estudantes que pesquisem o trabalho da pessoa e/ou instituição, o modo como ele é desenvolvido e que benefícios traz à comunidade. A partir dos resulta- dos das pesquisas, peça que elaborem, coletivamente, uma entrevista a ser feita com o(a) convidado(a). * Durante a visita: oriente os estudantes a realizarem a entrevista do modo como foi planejada, registrando-a em áudio e/ou por escrito, sempre com o consentimento do entrevistado. * Após a visita: peça aos estudantes que, de modo coletivo, retomem o registro da entrevista e, a partir dela, desenvolvam projetos autorais que possam ser aplicados na escola e/ou na comunidade. Biólogo, especialista em Ciência e Tecnologia e mestre em Ensino e História das Ciências e Matemática pela Universidade Federal do ABC (UFABC-SP). Atua como técnico da Secretaria de Educação de Santos (SP), como professor do Ensino Médio e Ensino Superior e coordenador pedagógico. Participa e desenvolve pesquisas sobre o Ensino de Ciências na Educação Básica. Tem experiência com a formação inicial e continuada de professores e gestores de redes públicas e privadas de ensino, desenvolvendo também consultoria e assessoria para escolas de diferentes regiões do estado de São Paulo. FABRÍCIO CRUZFABRÍCIO CRUZ zu p e ri a /S h u tt e rs to ck R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 91 C10_CP23_NPCF_084a091.indd 91C10_CP23_NPCF_084a091.indd 91 10/07/23 09:2810/07/23 09:28 CAPÍTULO11CAPÍTULO11 Cidades e comunidades sustentáveis: como a escola pode contribuir nesse processo? Como tudo se conecta Neste ensaio, Vinícius Cavichioli discorre sobre o ODS 11. O autor começa fazendo uma retrospectiva das grandes transfor- mações sociais que impactaram o Homo sapiens, assim como da aceleração desse processo de transformação, o que confere um tempo cada vez menor para que os seres humanos se adaptem a mudanças. A partir dessa reflexão, Vinícius fomenta uma discus- são sobre o papel da escola na comunidade em que se insere e o quanto a educação, sobretudono espaço escolar, pode contribuir para a criação de cidades e comunidades sustentáveis. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 92 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 92C11_CP23_NPCF_092a099.indd 92 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 Uma trajetória sustentável é possível A sociedade tem se tornado cada vez mais complexa e, por uma perspectiva evolutiva, temos cada vez menos tempo para nos adap- tar às mudanças que surgem constantemente. Passamos cerca de 200 mil anos como nômades, caçadores e coletores, com poucos avanços tecnológicos ou cognitivos expressivos. Nos últimos milha- res de anos, fomos desenvolvendo a capacidade de nos organizar em sociedades cada vez mais numerosas, com construções e ferra- mentas suficientes que garantissem nossa sobrevivência ao fixarmos moradia em determinadas regiões, dependendo da agricultura e de rotas comerciais. No entanto, ao analisarmos os últimos 500 anos, a humanidade passou pelas Grandes Navegações, colonizando regiões da Terra como nunca havia sido feito; pouco tempo depois (se conside- rarmos a escala de centenas ou dezenas de milhares de anos), deu-se, por meio da exploração de novos combustíveis fósseis, a Revolução Industrial; e, no último século, observamos, um tanto alheios, o apare- cimento e o domínio da computação, da globalização e de um mundo conectado instantaneamente. No sentido cognitivo, os saltos evolutivos do Homo sapiens ocor- riam com menos frequência e com tempo de sobra, se comparado aos últimos séculos, possibilitando que a população pudesse entender, de forma mais generalista, seus papéis sociais e sua integração com o mundo. Um humano padrão de alguns milhares de anos atrás, prova- velmente, sabia caçar, construir sua moradia, onde encontrar água po- tável, como as fases da Lua e as estações do ano alteravam seu plantio e como se defender de predadores. Em um breve suspiro, passamos a nos especializar em temas reduzidos, tornando-nos engenheiros, mé- dicos, advogados e perdendo nossa integração sistêmica com o mun- do. Mesmo com as discussões freirianas quanto aos problemas de uma concepção bancária da educação e com a compreensão relativamente consensual de que é preciso promover uma aprendizagem significati- va, muitos de nós ainda guardam lembranças de aulas que não fizeram sentido no que diz respeito à sua pertinência em nossas vidas ou quan- to à sua aplicabilidade. No Ensino Superior, isso fica ainda mais evidente quando somente alguns dos assuntos referentes a certos componentes curriculares são retomados, aprofundados e ampliados com fins restritos, em muitos casos, à formação profissional. Desse modo, sem articu- lação entre os saberes, de áreas diversas, vive- mos em uma sociedade altamente dependente de tecnologia globalizada, ao passo que fomos nos tornando menos conscientes de como nos- so modo de viver afeta o planeta. EM UM BREVE SUSPIRO, PASSAMOS A NOS ESPECIALIZAR EM TEMAS REDUZIDOS, TORNANDO-NOS ENGENHEIROS, MÉDICOS, ADVOGADOS E PERDENDO A INTEGRAÇÃO SISTÊMICA COM O MUNDO. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 93 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 93C11_CP23_NPCF_092a099.indd 93 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 Tendo em vista esse cenário e consideran- do a necessidade de conceber uma educação com viés participativo, inclusivo e adaptado às novas realidades, soma-se a outras iniciativas (como a própria concepção da BNCC) o fato de a ONU ter estabelecido a Agenda 2030, com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a partir dos quais deve- mos pautar nossas ações durante os próxi- mos anos para que, em 2030, possamos ter um planeta mais sustentável e integrado. Assim sendo, abordaremos neste capítulo desafios e oportunidades para que as escolas possam participar da construção de cidades e comunidades sustentáveis, meta presente no ODS 11. Para isso, precisaremos entender o enorme potencial que os professores têm ao desenvolver as capacidades social, ambiental, econômica e cultural dos estudantes. A cria- ção de uma sociedade equilibrada e justa gera, consequentemente, cidades e comuni- dades sustentáveis, pressupõe um ambien- te na sala de aula que valorize o diálogo e a participação ativa dos discentes no processo educativo, incentivando a reflexão crítica so- bre a realidade em constante mudança. Nesse sentido, a educação tem um papel fundamen- tal na formação de cidadãos críticos e reflexi- vos, capazes de compreender e atuar sobre as questões diversas de sua comunidade. A partir dessa perspectiva, a escola deve contemplar rotinas que incentivem a reflexão crítica sobre a realidade socioambiental local e global e que proponham soluções viáveis para a promoção da sustentabilidade nas cidades e comunidades, levando em consideração as novas formas de comunicação e inte- ração disponíveis. O ODS 11 apresen- ta algumas metas importantes nesse sentido, como a redução da poluição ambiental, a promoção da acessibili- dade e segurança nos espaços pú- blicos e a valorização da diversidade cultural e étnica. Um dos papéis da escola é propiciar aos estudantes o desenvolvimento do senso crítico e de habilidades de diferentes áreas do conhecimento. O pertencimento e a sustentabilidade Despertar o desenvolvimento do senti- mento de pertencimento é crucial para que os estudantes compreendam que são parte inte- grante de um sistema de grandes proporções. Estimular reflexões nesse sentido contribui na elaboração e na prática de ações concretas e na tomada de decisões bem-sucedidas. É imprescindível que o maior número de pessoas cuide do planeta. A conscientização coletiva é determinante para nortear os rumos das políticas públicas que serão implantadas nesse sentido. T h x 4 S to ck /S h u tt e rs to ck M o n k e y B u s in e s s I m a g e s /S h u tt e rs to ck 94 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 94C11_CP23_NPCF_092a099.indd 94 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 Os estudantes devem ser instigados a debater temas urgentes, como mobilidade urbana, participação da sociedade civil na construção de planos diretores, composi- ção de espaços acolhedores, uso racional de água e consumo consciente, favorecen- do a economia local. Para isso, é essencial ressaltar o sentimento de pertencimento e o protagonismo, levando o estudante a se perceber como agente (ativo) da comuni- dade, refletindo sobre como suas escolhas (ou falta delas) são impactantes nessa cida- de insustentável. Uma das ferramentas para abordar o tema pode ser a Pegada ecológica, encontrada rapidamente em sites de pesqui- sa na internet. Em suma, a Pegada ecológica é definida a partir da quantidade de recursos naturais necessários para manter os modos de consumo de uma pessoa ou comunida- de. Entendemos que essa ferramenta não serve simplesmente como indicador de im- pacto ambiental, mas é também uma forma de apontar as desigualdades sociais e eco- nômicas presentes nas diferentes reali dades do Brasil. Por fim, ressaltamos que a Pegada ecológica não pode ser resolvida apenas por meio de ações individuais, pois deve envol- ver ações coletivas, como a luta por políticas públicas representativas e com equidade, e a construção de movimentos sociais enga- jados na transformação da perspectiva atual de insustentabilidade, reforçando a ideia de que a urgência ambiental é tema político e social, além das questões técnicas ou cien- tíficas implícitas. ambientais brasileiras. Contudo, a Agenda 2030 e o ODS 11, especificamente, apresen- tam formas acessíveis de tratar o tema, ten- do em vista o acesso a plataformas tecnoló- gicas. Não podemos, dessa forma, ignorar ou tentar barrar a presença constante das mí- dias digitais. Por vezes, uma intervenção de poucos segundos, a exemplo de vídeos pu- blicados em algumas redes sociais, écapaz de reter a atenção e despertar a curiosidade dos estudantes. Há diversas maneiras de utilizar tecnolo- gias e ferramentas de inclusão para auxiliar escolas públicas brasileiras a atingir o ODS 11, além das redes sociais populares. Algumas delas incluem: * plataformas de ensino a distância: per- mitem que as escolas ofereçam cursos e treinamentos relacionados à sustentabili- dade e outros temas a estudantes, profes- sores e comunidade em geral; * aplicativos de monitoramento ambiental: possibilitam que a comunidade monitore a qualidade do ar, da água e do solo em sua região. Esse tipo de monitoramento pode ajudar a identificar áreas que precisam de atenção e promover ações em prol da sustentabilidade; * ferramentas de gestão de resíduos: per- mitem que a comunidade realize a coleta seletiva e o gerenciamento de resíduos de forma mais eficiente e sustentável. As escolas podem utilizar essas ferramentas para engajar a comunidade em ações de coleta seletiva e gestão de resíduos; * jogos educativos: podem ser usados pelas escolas para ensinar conceitos relaciona- dos à sustentabilidade de forma lúdica e divertida, incentivando a adoção de práti- cas sustentáveis; * redes de compartilhamento: permitem que a comunidade compartilhe recursos e reduza o consumo de novos produtos. As escolas podem usar essas redes para pro- mover o consumo consciente e a econo- mia circular. A PEGADA ECOLÓGICA NÃO PODE SER RESOLVIDA APENAS POR MEIO DE AÇÕES INDIVIDUAIS, POIS DEVE ENVOLVER AÇÕES COLETIVAS Sabemos que o enfrentamento desse paradigma encontra desafios nas escolas públicas, ao considerarmos as desigual- dades econômicas, sociais, geográficas e 95 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 95C11_CP23_NPCF_092a099.indd 95 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 Existem variadas possibilidades de uso de tecnologias e ferramentas de inclusão para auxiliar escolas públicas brasileiras no traba- lho com o ODS 11. É essencial que as escolas identifiquem as necessidades e oportunida- des de sua região e usem essas ferramentas de forma estratégica e eficaz. Para além disso, caso o docente opte por ações que não dependam exclusivamente de ferramentas tecnológicas, é possível citar ou- tras formas de abordar o tema em sala de aula. Seguem algumas sugestões. * Estudos sobre a cidade e a comunidade local: realizar estudos sobre a região onde a escola está localizada, elencando suas relações diretas e indiretas, pode ser uma excelente oportunidade para identificar os problemas socioambientais existentes e promover a reflexão crítica sobre as causas e possíveis soluções. * Discussão sobre as desigualdades so- cioespaciais: discutir as desigualdades Ao serem usadas de modo consciente, as tecnologias tornam-se aliadas nos processos de ensino e de aprendizagem. socioespaciais existentes nas cidades é uma maneira de promover a reflexão crítica sobre as políticas públicas e a participação ativa dos estudantes na busca de soluções para esses problemas. * Estudos sobre os impactos ambientais das atividades humanas: estudar os im- pactos ambientais, como a poluição do ar e da água, a degradação de áreas verdes e o consumo excessivo de recursos naturais, pode promover a reflexão crítica sobre as formas de consumo e produção humanas, valorizando aquelas que são responsáveis e sustentáveis. * Estudos sobre alternativas sustentáveis de transporte: estudar alternativas de transporte, como a bicicleta e o transpor- te público, é uma maneira de promover a reflexão crítica sobre as formas de deslo- camento nas cidades e a participação ativa dos estudantes na busca de soluções. * Projetos interdisciplinares: propor ativida- des que envolvam a comunidade escolar em ações práticas de preservação am- biental. Por exemplo, os estudantes podem realizar projetos de horta escolar, compos- tagem de resíduos orgânicos ou coleta se- letiva, envolvendo desde a pesquisa sobre os temas até a execução das atividades. Essas sugestões de trabalho podem ser uma ótima oportunidade para os estudantes colocarem em prática os conceitos de sus- tentabilidade aprendidos em sala de aula, pro- movendo a conscientização e a participação da comunidade escolar em ações de preser- vação ambiental. Para concluir, é importante destacar que muitos dos acidentes ambientais recentes no Brasil estão diretamente relacionados à falta de planejamento urbano e à falta de po- líticas públicas voltadas à sustentabilidade. Por exemplo, o crescimento desordenado na Região Metropolitana de Recife resultou em mais de 130 mortes em 2022, após chuvas e deslizamentos varrerem comunidades que se assentaram em encostas periféricas da re- gião, deixando ainda milhares de pessoas de- sabrigadas. R e p ro d u ç ã o /S e c re ta ri a d e E s ta d o d a E d u c a ç ã o d e S ã o P a u lo 96 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 96C11_CP23_NPCF_092a099.indd 96 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 Outro exemplo é o deslizamento de terra que ocorreu em janeiro de 2021 em Santa Ca- tarina, que deixou ao menos 19 mortos. Esse desastre também está relacionado à falta de planejamento urbano e à ocupação irregular de encostas, assim como aconteceu em Per- nambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, no início de 2023, no litoral de São Paulo. Nesse sentido, as escolas desempenham um papel fundamental no enfrentamento des- sas questões, uma vez que têm o poder de educar e conscientizar os jovens sobre a im- portância da sustentabilidade e da preservação do meio ambiente. É necessário que as esco- las incluam em sua grade curricular conteúdos relacionados à sustentabilidade e incentivem a realização de projetos que busquem soluções para os problemas ambientais locais, estabe- lecendo parcerias com organizações locais e empresas para a implementação de projetos sustentáveis em suas comunidades. Ao educar e conscientizar os jovens sobre a importância da sustentabilidade, as escolas estão formando cidadãos responsáveis e com- prometidos com o futuro do planeta. Esses jo- vens podem se tornar agentes de mudança em suas comunidades, buscando soluções sus- tentáveis para os problemas ambientais e pres- sionando as autoridades para a implementação de políticas públicas eficientes nessa área, uma vez que eles são os catalisadores que aceleram o enfrentamento desses desafios. Para isso, é fundamental que os professo- res busquem aperfeiçoamento complemen- tar à sua formação, criando um arcabouço multidisciplinar e interdisciplinar, requerido para um maior engajamento com os estudan- tes. Professores capacitados e atualizados sobre temas como sustentabilidade, mudan- ças climáticas, urbanismo e gestão ambien- tal podem oferecer aos seus estudantes uma educação contextualizada e engajada com as questões socioambientais. Por fim, a interdisciplinaridade entre as di- versas áreas do conhecimento se mostrará es- sencial para uma compreensão sistêmica das dinâmicas das cidades e na aplicação desse conhecimento nos desafios ambientais atuais, resultando na construção de soluções efetivas a médio e longo prazos. Portanto, a busca por formação continuada e aperfeiçoamento dos professores em temas interdisciplinares e mul- tidisciplinares é necessária para que as escolas possam oferecer uma educação de qualidade e comprometida com a formação de cidadãos conscientes e engajados com a construção de cidades e comunidades sustentáveis. É IMPORTANTE DESTACAR QUE MUITOS DOS ACIDENTES AMBIENTAIS RECENTES NO BRASIL ESTÃO DIRETAMENTE RELACIONADOS À FALTA DE PLANEJAMENTO URBANO E À FALTA DE POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS À SUSTENTABILIDADE. Durante o Carnaval de 2023, parte do litoral norte de São Paulo sofreu com grandes deslizamentos de terra, resultando em mortes e centenas de desabrigados. Caso medidas de prevenção não sejam adotadas, outras tragédias como essa poderão ocorrer. São Sebastião (SP), 2023. A BUSCA POR FORMAÇÃO CONTINUADAE APERFEIÇOAMENTO DOS PROFESSORES EM TEMAS INTERDISCIPLINARES E MULTIDISCIPLINARES É NECESSÁRIA PARA QUE AS ESCOLAS POSSAM OFERECER UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE E COMPROMETIDA COM A FORMAÇÃO DE CIDADÃOS CONSCIENTES E ENGAJADOS COM A CONSTRUÇÃO DE CIDADES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS. B ru n o S a n to s /F o lh a p re s s 97 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 97C11_CP23_NPCF_092a099.indd 97 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 E M SA L A DE AULA O reúso ou reaproveitamento é uma das alternativas para o desenvolvimento sustentável. Neste espaço, você encontrará atividades, de aplicação direta em sala de aula, sobre o tema abordado neste capítulo, voltadas para o Ensino Fundamental e, em seguida, para o Ensino Médio. Etapa 1: Fale sobre a importância da econo- mia circular e sustentável. Proponha uma feira de trocas com produtos adequados (roupas, brinquedos, livros, etc.) e que estejam em bom estado de conservação para serem trocados com os colegas. Etapa 2: Comece os preparativos da fei- ra organizando os estudantes em grupos de interesse, por exemplo: divulgação da feira; organização dos espaços onde os produtos se- rão expostos; criação de regras sobre a troca dos produtos (como não haver uso de dinheiro nas negociações); arrecadação de produtos e separação por tipo, etc. Etapa 3: Avalie os produtos arrecadados, filtrando, por exemplo, itens com valores agregados que possam causar discrepância em relação aos demais. Etapa 4: Realize a feira contando ativamente com a participação dos estudantes na organi- zação, na montagem e na exposição dos itens. Durante o evento, permita que os estudantes negociem as trocas de produtos, lembrando- -os sempre de agir com respeito em relação aos colegas e aos itens em exposição. Etapa 5: Avalie, com a participação dos estu- dantes, os papéis individual e coletivo em uma comunidade sustentável. Conceba um espaço onde todos os participantes possam discutir os pontos positivos e os pontos que podem me- lhorar em uma próxima edição da feira, incenti- vando o protagonismo. A feira pode ser um espaço para promover a socialização entre os estudantes e para fixar, de forma sólida, as bases de uma comunidade colaborativa e solidária. Incentive os estudan- tes a abordar o tema e seus desdobramentos com seu círculo familiar e comunidade local, polinizando os ensinamentos, as aplicabilida- des e a alteração de panorama. ENSINO MÉDIO Fale sobre a importância de compreender e debater a implementação de planos direto- res em diversas cidades e a escolha dos par- ticipantes nos modelos de sustentabilidade e planejamento urbano. Esse trabalho é relacio- nado aos componentes curriculares Geografia, História, Ciências, Sociologia e Arte, mas pode abranger outros que você julgar pertinente. A aplicação de um plano diretor é crucial para a sustentabilidade e para o planejamento urbano. L u k a s M a v e ri ck G re y s o n /S h u tt e rs to ck ENSINO FUNDAMENTAL Após disseminar o conteúdo contido no capítulo, proponha uma atividade pedagógi- ca que servirá como exemplo de economia solidária e circular, uso sustentável de recur- sos naturais e produção local de forma justa e equitativa. C e li n e L it y o /u n s p la s h .c o m 98 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 98C11_CP23_NPCF_092a099.indd 98 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 QUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR Etapa 1: Inicie uma roda de conversa teó- rica sobre o que são políticas públicas e qual é a importância delas no planejamento e na execução de cidades e comunidades susten- táveis. Os estudantes devem ser apresenta- dos ao conceito de plano diretor, com seus objetivos e aplicações. Etapa 2: Organize os estudantes em gru- pos e oriente-os a escolher uma cidade como estudo de caso sobre plano diretor. Eles de- verão pesquisar o contexto histórico de quan- do o plano diretor foi elaborado, entender quais eram os objetivos e diretrizes principais de sua proposta e quais têm caráter de sus- tentabilidade. Etapa 3: A partir das informações levanta- das da Etapa 2, os estudantes devem fazer uma análise crítica e multidisciplinar do plano diretor escolhido, apontando como ele visa contribuir com cidades e comunidades sus- tentáveis (pontos positivos) e se há pontos que vão na contramão do ODS 11, sugerindo alternativas ou melhorias. Etapa 4: Nessa etapa, os estudantes de- verão propor um novo plano diretor para o município escolhido, com propostas lúdi- cas sobre quais são os caminhos urgentes a serem trilhados para a sustentabilidade do município. Eles não precisam ater-se a questões de orçamento ou detalhes técni- cos, desde que os conceitos e objetivos do Biólogo também formado em Jornalismo pela Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE-SP) e em Gestão Ambiental pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), além de ser Líder Climático no The Climate Reality Project. Com mais de dez anos de experiência na área ambiental, tem vivência tanto no setor público quanto no privado. Atuou como docente em cursos profissionalizantes no SENAC e na graduação de Engenharia Ambiental na Universidade de Santo Amaro (UNISA-SP), disseminando esse conhecimento e abordando temas alinhados com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, sempre com foco na temática ambiental. VINÍCIUS CAVICHIOLIVINÍCIUS CAVICHIOLI ODS 11 sobre cidades e comunidades sus- tentáveis sejam seguidos, além de propor ideias inovadoras e soluções criativas para os desafios encontrados na Etapa 3. Etapa 5: Estabeleça uma etapa final de apresentação das etapas 3 e 4 para a turma e os professores envolvidos. Aqui os estudan- tes deverão apresentar sua concepção de plano diretor como instrumento essencial nas políticas públicas para o planejamento urbano equilibrado e justo. Ressalte questões sobre prazo para execu- ção, evitando imediatismos e soluções irreais, uma vez que políticas públicas sobre urbani- zação, mobilidade urbana, desenvolvimento sustentável, entre outras, são pensadas para médio e longo prazos com efeitos duradouros. Sugestões para ampliaçãoSugestões para ampliação MOREIRA, Tereza; SANTOS, Rita Silvana Santana dos (ed.). Educação para o Desenvolvimento Sustentável na Escola: ODS 11, cidades e comunidades sustentáveis. Brasília, DF: Unesco, 2020. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ ark:/48223/pf0000375081. Acesso em: 7 abr. 2023. PIMENTEL, Gabriela Sousa Rêgo. O Brasil e os desafios da Educação e dos Educadores na Agenda 2030 da ONU. Revista Nova Paideia: Revista Interdisciplinar em Educação e Pesquisa, [s. l.], v. 1, n. 3, p. 22-33, 2019. Disponível em: https:// ojs.novapaideia.org/index.php/RIEP/article/ view/35. Acesso em: 12 maio 2023. R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 99 C11_CP23_NPCF_092a099.indd 99C11_CP23_NPCF_092a099.indd 99 10/07/23 09:3410/07/23 09:34 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000375081 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000375081 https://ojs.novapaideia.org/index.php/RIEP/article/view/35 https://ojs.novapaideia.org/index.php/RIEP/article/view/35 https://ojs.novapaideia.org/index.php/RIEP/article/view/35 CAPÍTULO12CAPÍTULO12 Como trabalhar a igualdade de gêneros na escola? Como tudo se conecta Paloma Borba reflete sobre os ODS 4 e 5 partindo de uma expe- riência pessoal, como estudante, e amplia a reflexão discutindo a (des)igualdade de gêneros em nossa sociedade e os impactos que ela gera. Este panorama social serve de contextualização para refle- tirmos acerca das ações que a escola pode promover para contribuir com uma maior igualdade de gêneros, seja no fomento às discus- sões sobre o assunto, seja na promoção de atitudes que permitam maior equidade em todos os âmbitos. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 100 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 100C12_CP23_NPCF_100a109.indd 100 10/07/23 09:3710/07/2309:37 A busca por relações de gênero igualitárias Durante o processo de planejamento para a produção deste texto, resgatei memórias sobre a minha relação com o tema, sobre como ex- periências vividas no ambiente escolar contribuíram para fomentar as minhas reflexões sobre a discussão que proponho aqui. Lembrei-me de uma situação que representa uma das primeiras vezes em que ser uma pessoa do sexo feminino significou, na escola, um constrangi- mento. Um dia, a coordenadora entrou na sala de aula, acompanhada de uma professora e uma outra moça que não conhecíamos, e anun- ciou que os meninos teriam que ir para a quadra realizar uma ativida- de esportiva, pois as colegas participariam de uma conversa apenas “para meninas”. Lembro-me da alegria dos meninos, que, aparente- mente, iriam se livrar de uma aula convencional para praticar esporte, e da desconfiança de todas nós ao acharmos que estávamos sendo castigadas por um motivo que sequer conhecíamos. A moça, que era representante de uma marca de absorventes higiênicos, se apresen- tou e anunciou que a conversa não teria participação dos meninos porque falaríamos sobre menstruação. Eu cursava, na época, a 5a ou 6a série (o que equivaleria, hoje, ao 6o ou 7o ano do Ensino Fundamen- tal), estava entrando na puberdade. A desigualdade de gênero deve ser, por meio da informação, combatida em todos os espaços, sendo o ambiente escolar crucial para tal. Os fatos que advém do machismo e de outras heranças do patriarcado precisam ser esclarecidos e superados. S e v e n ty F o u r/ S h u tt e rs to ck Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 101 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 101C12_CP23_NPCF_100a109.indd 101 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 A palestrante falou, muito rapidamente, sobre os aspectos biológi- cos que envolviam o tema – entre eles o fato de que, após a primeira menstruação, estávamos aptas a gerar bebês – e ressaltou a impor- tância de cuidarmos da higiene íntima, usando como exemplo um ab- sorvente para demonstrar como seu uso correto poderia evitar cons- trangimentos e nos garantir segurança nas atividades cotidianas. Uma das alunas presentes contou que, durante o período menstrual, tentava permanecer o mais quieta possível, pois tinha medo de que, ao se me- xer, o plástico que envolvia o absorvente fizesse barulho e denunciasse a sua condição. A palestrante garantiu que isso não aconteceria. Rimos juntas, num misto de alívio e surpresa. Ao final da atividade, recebe- mos uma amostra de absorvente, que guardamos imediatamente nas mochilas para evitar qualquer constrangimento. Estava claro para nós que aquele era um assunto que exigia discrição, que éramos cúmpli- ces umas das outras em relação à guarda daquele segredo. Hoje, trinta anos depois, já na condição de professora, reconheço os pontos posi- tivos dessa iniciativa, mas identifico inúmeros equívocos nessa ativida- de promovida na ocasião. Em primeiro lugar, ao ser planejada e conduzida na maior parte do tempo pela representante da marca de absorventes, é de se supor que a atividade atendia ao propósito da empresa, que era, obviamen- te, a promoção do produto. Ou seja, o foco do discurso era comercial, o caráter pedagógico era secundário. A professora não interferiu nem contribuiu enfaticamente com a discussão. Na maior parte do tempo, comportou-se como espectadora, como se a representante comercial tivesse mais credenciais do que ela para falar sobre o tema. Ao voltar para a sala de aula, os meninos insistiram bastante em perguntar o que havia acontecido e, diante da descrição rápida e envergonhada de uma das meninas, começaram a zombar de nós, com piadas sobre o fato de que ficaríamos “de boi” 1. Isso aconteceu em um momento em que estávamos, a turma toda, vivenciando o início da puberdade. Enquanto os meninos se gabavam e mostravam com orgulho uns aos outros os primeiros fios de bigode e de barba que apareciam no rosto, nós, me- ninas, andávamos cada vez mais curvas para disfarçar o crescimento dos nossos seios. A maior parte dos meninos percebiam nossa mudança de postura, tan- to corporal quanto comportamental, e faziam “brincadeiras” como puxar a alça do sutiã da menina sentada à frente para depois soltar ra- pidamente, causando incômodo e vergonha. Ao excluir os meninos da conversa, nossa professora e nossa coordenadora, por falta de conhecimento, assumiram que o assunto tra- tado não era do interesse deles. Pelo contrário, era uma questão a ser tratada apenas por nós, 1. Em alguns estados do Nordeste, a expressão “estar/ficar de boi” é uma forma pejorativa de referência ao ciclo menstrual. A referência ao animal ocorre em razão de o sangue mens- trual ser visto como sujo, escatológico. Em outros estados do Brasil, são usadas também as expressões “estar de bode” ou “estar de chico” (em referência ao chiqueiro de porcos). ENQUANTO OS MENINOS SE GABAVAM E MOSTRAVAM COM ORGULHO UNS AOS OUTROS OS PRIMEIROS FIOS DE BIGODE E DE BARBA QUE APARECIAM NO ROSTO, NÓS, MENINAS, ANDÁVAMOS CADA VEZ MAIS CURVAS PARA DISFARÇAR O CRESCIMENTO DOS NOSSOS SEIOS. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 102 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 102C12_CP23_NPCF_100a109.indd 102 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 meninas. Esse “segredo”, que nos acompanha há séculos, já foi usado como justificativa para que mulheres fossem classificadas como bruxas e queimadas vivas durante a Idade Média. A falta de informação sobre a questão da desigualdade de gênero definiu a abordagem proposta para a discussão de algo que não deveria ser segredo, não deveria ser moti- vo de vergonha, justamente para que não se convertesse no que ainda hoje é: um tabu. Corta para 2023. Atualmente, o tema menstrua ção é um assunto tratado abertamente por ter se tornado pauta de discussões relacionadas a direitos trabalhistas e políticas de igualdade de gênero e de saúde pública. A relação entre menstruação, acesso à educação e a busca por relações de gênero igualitárias, apesar de parecer improvável para grande parte da população – especialmente para os mais privile- giados –, tem se mostrado cada vez mais evidente. Pobreza menstrual Por conta do alto número de famílias vivendo em situação de vul- nerabilidade social, centenas de milhares de adolescentes e mulheres adultas padecem com a pobreza menstrual. Tendo como base o relató- rio Pobreza menstrual no Brasil: desigualdades e violações de direitos, que foi lançado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), é possível de- finir pobreza menstrual ao observar os seguintes aspectos: [...] • falta de acesso a produtos adequados para o cuidado da higiene menstrual tais como absorventes descartáveis, absorventes de tecido reutilizáveis, coletores menstruais descartáveis ou reutilizáveis, calcinhas menstruais, etc., além de papel higiênico e sabonete, entre outros; • questões estruturais como a ausência de banheiros seguros e em bom estado de con- servação, saneamento básico (água encana- da e esgotamento sanitário), coleta de lixo; • falta de acesso a medicamentos para admi nistrar problemas menstruais e/ou carência de serviços médicos; • insuficiência ou incorreção nas informações sobre a saúde menstrual e autoconhecimento sobre o corpo e os ciclos menstruais; • tabus e preconceitos sobre a menstruação que resultam na segrega- ção de pessoas que menstruam de diversas áreas da vida social; • questões econômicas como, por exemplo, a tributação sobre os produtos menstruais e a mercantilização dos tabus sobre a mens- truação com a finalidade de vender produtos desnecessários e que podem fazer mal à saúde; A falta de acesso ao absorvente coloca as mulheres em posição de desigualdade em relação aos homens. PeopleImages.com - Yuri A/ShutterstockPaula de Aguiar/Arquivo da editora 103 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 103C12_CP23_NPCF_100a109.indd 103 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 • efeitos deletérios da pobreza menstrual sobre a vida econômica e desenvolvimento pleno dos potenciais das pessoas que mens- truam. [...]. (SANTOS, 2021). SANTOS, Caroline Costa Moraes dos. Pobreza menstrual no Brasil: desigualdades e violações de direitos. UNFPA e Unicef, Brasil, 2021. Disponível em: https://brazil.unfpa.org/pt-br/publications/pobreza -menstrual-no-brasil. Acesso em: 12 abr. 2023. Uma pesquisa realizada em 20212, por uma marca de produtos de higiene, apontou que 1 em cada 4 mulheres já faltou à aula por não poder comprar absorventes. Além de sofrerem esse deficit educacional, que já as coloca em posição de desigualdade em relação aos estudantes do sexo masculino, a falta de acesso ao absorven- te faz com que muitas mulheres usem materiais como jornal, miolo de pão e tecidos para absor- ver o fluxo menstrual, prática que contribui para o desenvolvimento de doenças. Há registros de adolescentes que abandonam a escola por ter de passar por esse transtorno todos os meses, o que causa vergonha, sentimento de inferiori- dade e desmotivação. Sem formação adequa- da, essas mulheres sofrem para conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho. Em razão desse cenário, tramitam no Brasil projetos de lei, em âmbito estadual e federal, para que o Estado assuma a responsabilidade 2. Campanha #MeninaAjudaMenina, realizada pela P&G. In: FRANCO, Ana Carolina; AISSA, Milena. Estas são as vítimas da pobreza menstrual. Jornal Plural Curitiba, Curitiba, 26 maio 2021. Disponível em: https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/ estas-sao-as-vitimas-da-pobreza-menstrual/. Acesso em: 31 maio 2023. de distribuir absorventes para estudantes de escolas públicas como uma medida de com- bate à evasão escolar e à disseminação de doenças que afetam a saúde feminina. No âmbito das relações trabalhistas, não bastasse o fato de que, ainda hoje, mulheres que desempenham a mesma função que ho- mens em diversas empresas tenham salário inferior, há ainda que se combater uma série de convenções sociais que dificultam, para as mulheres, a conquista de cargos de lide- rança e de posições na tomada de decisões. Recentemente, a Espanha aprovou, a exemplo de países como Japão, Indonésia e Zâmbia, a licença menstrual remunerada. Tal medida encontra justificativa em uma pesquisa, publi- cada em 2019 na revista médica BMJ Journals, que aponta que, em um universo de 30 mil mulheres, 80% tiveram queda de produtivida- de no trabalho devido às dores e incômodos provocados pela menstruação. Trata-se de uma vitória relevante na luta pelos direitos das mulheres, não apenas por representar uma conquista importante, mas por combater di- versos preconceitos em torno do tema. De forma geral, os comportamentos de mulheres e homens em cargos de liderança são avalia- dos e julgados de forma distinta. Na maioria das vezes, falas contundentes, atitude obs- tinada, postura aguerrida e assertiva, quando constituem um perfil de liderança masculino, são características reconhecidas como refle- xo de força, credibilidade e segurança. Essas mesmas características, quando constituem o perfil de uma líder feminina, são vistas, tam- bém na maioria das vezes, como descontrole emocional, grosseria, e, não raro, interpreta- das como resultado de disfunção hormonal. É comum que, após uma fala ou atitude consi- derada “agressiva” por parte de uma gestora, ocorra o comentário: “Xiii, deve estar de TPM”. A busca por equidade nas relações de gê- nero na sociedade é de fundamental impor- tância, pois visa não apenas reduzir as de- sigualdades já mencionadas, mas também Votação no Congresso Nacional em prol da lei que cria o Programa de proteção e promoção da saúde menstrual (Lei n. 14 214/2021). Essa lei prevê a distribuição gratuita de absorventes higiênicos para estudantes de baixa renda, mulheres em situação de rua, entre outras. Brasília (DF), 2022. R o q u e d e S á /A g ê n c ia S e n a d o 104 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 104C12_CP23_NPCF_100a109.indd 104 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 https://brazil.unfpa.org/pt-br/publications/pobreza-menstrual-no-brasil https://brazil.unfpa.org/pt-br/publications/pobreza-menstrual-no-brasil https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/estas-sao-as-vitimas-da-pobreza-menstrual/ https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/estas-sao-as-vitimas-da-pobreza-menstrual/ DE FORMA GERAL, OS COMPORTAMENTOS DE MULHERES E HOMENS EM CARGOS DE LIDERANÇA SÃO AVALIADOS E JULGADOS DE FORMA DISTINTA. A presença de mulheres em cargos de liderança tem crescido ao longo dos anos, porém, a desigualdade de gênero ainda predomina no ambiente profissional, no Brasil e no mundo. 5.1 Acabar com todas as formas de discrimina- ção contra todas as mulheres e meninas em toda parte 5.2 Eliminar todas as formas de violência con- tra todas as mulheres e meninas nas esfe- ras públicas e privadas, incluindo o tráfico e exploração sexual e de outros tipos 5.3 Eliminar todas as práticas nocivas, como os casamentos prematuros, forçados e de crianças e mutilações genitais femininas 5.4 Reconhecer e valorizar o trabalho de assis- tência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públi- cos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsa- bilidade compartilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais 5.5 Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de to- mada de decisão na vida política, econômi- ca e pública 5.6 Assegurar o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos, como acordado em conformidade com o Programa de Ação da Conferência Interna- cional sobre População e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferên- cias de revisão 5.a Realizar reformas para dar às mulheres di- reitos iguais aos recursos econômicos, bem como o acesso a propriedade e controle so- bre a terra e outras formas de propriedade, serviços financeiros, herança e os recursos naturais, de acordo com as leis nacionais. 5.b Aumentar o uso de tecnologias de base, em particular as tecnologias de informação e comunicação, para promover o empodera- mento das mulheres. 5.c Adotar e fortalecer políticas sólidas e legisla- ção aplicável para a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas em todos os níveis. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 5: Igualdade de gênero. ONU, 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/5. Acesso em: 26 maio 2023. colaborar para o combate à violência, para a redução de desigualdades e injustiças sociais e para a erradicação da fome e da pobreza. São questões interligadas. Ao propor, como um dos Objetivos de Desenvolvimento Sus- tentável (ODS), o alcance da igualdade de gê- nero e o empoderamento das mulheres e me- ninas, a Organização das Nações Unidas (ONU) elenca metas que têm relação com o comba- te a problemas sociais como o feminicídio, a masculinidade tóxica – que gera violência (não só direcionada a mulheres, mas entre homens também), abandono e preconceito – e o de- sequilíbrio nas relações econômicas, sociais e políticas na sociedade. Trata-se de um con- junto de princípios fundamentais associados ao ODS gerador para a igualdade de gênero. Vejamos: Como é possível perceber, são princípios ambiciosos, cuja realização não depende ape- nas de ações e parcerias entre o poder público e a iniciativa privada, mas também da conscien- tização da sociedade para a percepção dos efeitos nocivos de séculos sob uma estrutura patriarcal que sempre colocou as mulheres em uma posição de inferioridade e de subser- viência.Para que essa tomada de consciência ocorra cada vez mais cedo e tenha, de fato, um poder transformador, é preciso que as estra- tégias de formação de cidadãos, homens e fi z k e s /S h u tt e r s to c k 105 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 105C12_CP23_NPCF_100a109.indd 105 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/5 Dia após dia, as mulheres lutam para conquistar direitos que, por muito tempo, foram negados a elas. O foco dessa busca permanente é a plena participação política e social que promova a equidade. Na imagem, protesto pelo fim da violência contra as mulheres, em Florianópolis (SC), 2020. mulheres, cientes das desigualdades de gê- nero e dispostos a combatê-las, encontrem reforço em estratégias pedagógicas desen- volvidas em âmbito escolar. Entre a década de 1990, período em que vivenciei a situação que usei como referência inicial para as reflexões aqui propostas, e os dias atuais, é possível afirmar que houve um hiato na maioria das es- colas, no que diz respeito à promoção de ati- vidades que discutissem temas relacionados ao universo da juventude. Além de atividades como a que relatei – e que, provavelmente, foram realizadas em formato semelhante em diversas escolas no país – contribuírem para reforçar estereótipos como o da suposta fra- gilidade e da inferioridade femininas e para fomentar a masculinidade tóxica presente na sociedade há séculos, o que ocorreu depois, em grande parte das escolas, também não contribui significativamente para o combate da desigualdade. O que se viu, durante anos, foi o silêncio da maioria. O avanço do conservadorismo em parte da sociedade, criando um ambiente propício para a vigilância e a perseguição a professores que se propunham a discutir temas conside- rados delicados e polêmicos, e o avanço das tecnologias de informação e comunicação fizeram com que muitos educadores acredi- tassem que não valia mais a pena discutir na escola uma série de assuntos, que a aborda- gem desses temas ficaria a cargo das famílias e da internet, ambiente no qual os estudantes encontrariam uma oferta maior de informa- ções. E encontram mesmo! A questão é que a escola proporciona, entre outros benefícios, pelo menos dois grandes diferenciais: meto- dologia consistente e condições propícias à socialização/interação. Embora haja muita informação de quali- dade na internet, os estudantes nem sempre têm a autonomia e a maturidade necessárias para fazer uma boa curadoria. Soma-se a isso o fato de que sites e redes sociais possuem mecanismos para a interação entre os seus usuários, mas as condições, na maioria das vezes, não são favoráveis para que isso ocorra da melhor forma. Há uma pulverização grande dos comentários, uma disposição das pessoas em expor pontos de vista, mas não para acei- tar ideias divergentes e dialogar com respei- to. Na escola, os professores podem assumir o importante papel de mediar as discussões. Além disso, há maior propensão à construção de um ambiente em que os debates ocorram com respeito à pluralidade de ideias. m a n o lo b a s to s /S h u tt e r s to c k 106 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 106C12_CP23_NPCF_100a109.indd 106 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 A ESCOLA PROPORCIONA, ENTRE OUTROS BENEFÍCIOS, PELO MENOS DOIS GRANDES DIFERENCIAIS: METODOLOGIA CONSISTENTE E CONDIÇÕES PROPÍCIAS À SOCIALIZAÇÃO/INTERAÇÃO. Considerando que acredito, de fato, no poder da educação e no alcance da escola como agente de transformação social – por meio de práticas pedagógicas direciona- das e com propósito –, gostaria de oferecer, aqui, algumas sugestões para o combate à desigualdade de gênero na sociedade, a partir de ações que podem estar relacio- nadas a objetos de ensino específicos de algumas áreas de conhecimento ou à ado- ção de práticas de linguagem que visem ao desenvolvimento da autonomia e do senso crítico dos estudantes: * É preciso reforçar o entendimento de que as práticas de linguagem das quais partici- pamos socialmente não são neutras, des- providas de ideologia. Pelo contrário. Os discursos com os quais nos relacionamos mobilizam crenças, julgamentos, juízo de valor. Sendo assim, é importante orientar os estudantes a analisar construções lin- guísticas presentes em veículos de mídia diversos, a fim de que percebam o quanto o sexismo ainda está presente na consti- tuição de diversos enunciados. Certa vez, li uma notícia sobre o desempenho de jo- vens atletas em uma competição de skate. Enquanto os atletas homens eram apre- sentados como “promessas do esporte”, “verdadeiros prodígios”, destacavam-se suas habilidades e aptidão para o esporte, para as atletas mulheres, adjetivos como “musa” faziam parte do processo de refe- renciação, o que evidencia que a aparência física dessas atletas era mais evidenciada do que suas habilidades, colocando-as em um papel meramente decorativo. É impor- tante que os estudantes percebam essas estratégias discursivas e refutem esse tipo de construção; * Ainda em conexão com o tópico anterior, reforço o papel da escola no desenvolvi- mento de hábitos saudáveis, o que envolve, naturalmente, o incentivo à prática de es- portes. Nessa seara, observa-se também como as desigualdades de gênero se im- põem e produzem resultados desastrosos. Desde a primeira infância, os meninos são encorajados a serem curiosos, destemidos, desbravadores; já das meninas, espera-se cautela, cuidado, atenção. É frequente que algumas práticas sejam consideradas mais apropriadas para as meninas, como o balé, o jazz, a ginástica artística, e outras mais apropriadas aos meninos, como as artes marciais e o futebol. Tal conduta reforça es- tereótipos e fortalece preconceitos. Outro aspecto importante a destacar é que, como consequência dessa distinção, os homens são muito mais adeptos de esportes cole- tivos do que as mulheres. Enquanto, para eles, esportes como futebol, handebol e basquetebol representam momentos de lazer e de socialização, para elas, a opção por práticas individuais conduz à percep- ção de que a prática de exercícios físicos é um sacrifício a ser feito em prol da estética, o que, muitas vezes, leva à frustração e ao distanciamento dos esportes; * Outro ponto que merece destaque é o fato de que a história que aprendemos na es- cola ainda é, muitas vezes, de raiz colonia- lista. Baseia-se nas narrativas construídas a partir da perspectiva dos opressores, e não dos oprimidos. Sendo assim, há pou- co – ou nenhum – espaço para persona- gens femininas e sua contribuição para mudanças importantes para o curso da história nacional. Mulheres importantes como Maria Quitéria, Dandara, Nísia Flo- resta e Catarina Paraguaçu assumem, em geral, papel secundário nas aulas e nas pá- ginas de grande parte dos livros didáticos e, por isso, são desconhecidas pela grande maioria dos estudantes; * A construção do Projeto de Vida, etapa importante do currículo do Novo Ensino Médio, é uma boa oportunidade para que os estudantes sejam levados a perceber 107 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 107C12_CP23_NPCF_100a109.indd 107 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 como a desigualdade de gêneros influencia o processo de escolha de profissões entre meninos e meninas. As profissões que reme- tem ao cuidado, como Pedagogia, Serviço Social, Enfermagem, são comumente vistas como femininas. Já as profissões que exigem um perfil mais pragmático são predominantemente masculinas, como é o caso das Engenharias. Também é muito comum a crença de que a inclinação às artes é um traço constitutivo da personali- dade feminina e que a curiosidade científica e o desenvolvimento tecnológico são tipicamente masculinos; por isso, é de suma im- portância o incentivo à participação tanto de meninos quanto de meninas em atividades como teatro, dança, laboratórios de inicia- ção científica e robótica. Essas sugestões são um convite à reflexão e à ação. Aconstrução de uma sociedade mais justa e igualitária começa pela autocrítica, pelo questionamento de nossas próprias atitudes, pelo reconhecimento da necessidade de transformação. A escola, ainda que continue reproduzindo muitas das estruturas e práticas da sociedade, é também um lugar de questionamento e de, sobretu- do, subversão. É, portanto, o ponto de partida para que possamos, por meio de mudanças representativas, interromper esse ciclo de subalternidade ao qual a maioria das mulheres vêm sendo submetidas ao longo da história. O ambiente escolar sempre será um espaço de questionamento e de subversão, características importantes para a manutenção da equidade e, sobretudo, da igualdade. p e o p le c re a ti o n s /F re e p ik ACREDITO, DE FATO, NO PODER DA EDUCAÇÃO E NO ALCANCE DA ESCOLA COMO AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL 108 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 108C12_CP23_NPCF_100a109.indd 108 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 E M SA L A DE AULA QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA PROPOSTA DE ATIVIDADE Para fomentar e ampliar a discussão sobre as consequências da desigualdade de gêne- ros na definição dos destinos das mulheres, um excelente recurso é a discussão, em sala de aula, das temáticas mobilizadas por meio das obras cinematográficas. O documentário curta-metragem Absorvendo o tabu, de 2018, narra a realidade da população feminina de um vilarejo rural no norte da Índia, onde o tabu em torno da menstruação ainda persiste. As mu- lheres que vivem nesse lugar enfrentam difi- culdade de acesso a absorventes higiênicos, o que lhes causa vergonha e acarreta evasão escolar de diversas estudantes. Ao tomar co- nhecimento da situação, estudantes de uma escola de Ensino Médio na Califórnia resolvem criar a ONG The Pad Project, com o objetivo de arrecadar fundos para o desenvolvimento de uma máquina de produção de absorven- tes biodegradáveis, que muda a realidade de pobreza e exclusão social dessas mu- lheres. O filme mostra como a possibilidade de redução da injustiça social e o acesso ao empreendedorismo por meio da atitude al- truísta de outras mulheres pode modificar a dura realidade delas e, consequentemente, de toda a comunidade. ABSORVENDO o tabu. Direção: Rayka Zehtabchi. Estados Unidos: Netflix, 2018. (26 min). Classificação indicativa: 10 anos. Cartaz de Absorvendo o tabu (2018), da cineasta Rayka Zehtabchi, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem, em 2019. Doutora em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É professora adjunta da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), onde atua na Unidade Acadêmica de Educação a Distância e Tecnologia, na área de Linguística, com ênfase nos estudos sobre Gêneros textuais, multimodalidade, letramentos e na Linguística aplicada ao ensino de Língua Portuguesa. É coordenadora do projeto de extensão LEDFEMME, no qual discute letramento digital como ferramenta para a emancipação de mulheres empreendedoras. PALOMA BORBAPALOMA BORBA R e p ro d u ç ã o /N e tf li x R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 109 C12_CP23_NPCF_100a109.indd 109C12_CP23_NPCF_100a109.indd 109 10/07/23 09:3710/07/23 09:37 CAPÍTULO13CAPÍTULO13 Como despertar a consciência sobre a importância do saneamento básico e da energia limpa e acessível? Como tudo se conecta Neste texto, Adriana Gomes trata das temáticas trazidas pelos ODS 6 e 7 propondo uma reflexão sobre saneamento básico, ener- gia limpa e acessível e os impactos que a presença ou ausência desses recursos pode causar em comunidades diversas. A autora dá continuidade ao ensaio refletindo sobre como a educação pode contribuir nesse sentido, conscientizando os estudantes e consti- tuindo-se, ela própria, em um espaço de renovação e transforma- ção social de seu entorno. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 110 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 110C13_CP23_NPCF_110a117.indd 110 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 Saneamento básico, energia limpa e seus impactos A dependência da água é inerente à vida na Terra. Animais, vegetais, seres humanos e nações disputam esse bem vital. Populações tradi- cionais e indivíduos que compreendem a água como um bem coletivo convivem com corporações e nações que não abrem mão do que cha- mam de “recurso estratégico”. Evitar o desperdício hídrico é proporcionar segurança alimentar e desenvolvimento sustentável. A DEPENDÊNCIA DA ÁGUA É INERENTE À VIDA NA TERRA. D a v id F a d u l/ S h u tt e rs to ck fi zk e s /S h u tt e rs to ck Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 111 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 111C13_CP23_NPCF_110a117.indd 111 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 Assim como a água, a energia elétrica é essencial a inúmeras ativida- des humanas, principalmente nas grandes cidades, e sua obtenção en- volve estratégias geopolíticas e econômicas cada vez mais poderosas. Além das fontes tradicionais, as chamadas energias limpas têm sido incentivadas no mundo todo e, no Brasil, de acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico1, compuseram, em 2022, 85% da matriz energética brasileira, destacando-se as hidrelétricas (60%), seguidas pela energia eólica (13%), biomassa (8%) e solar (4%). Mesmo proveniente de fontes renováveis, a matriz energética “lim- pa” causa impactos ambientais, sejam eles provocados por grandes obras de engenharia, sejam em razão de algumas alterações nas di- nâmicas ambientais. Tais impactos precisam ser bem dimensionados, pois podem afetar diretamente comunidades tradicionais e seus mo- dos de vida, alterar ciclos ecológicos vitais para muitos biomas e gerar danos às estruturas urbanas e à população. Para a formação dos reservatórios das hidrelétricas, as extensas áreas alagadas submergem trechos de florestas, deslocam animais, alteram ou interrompem o fluxo de peixes, interferindo no processo de desova. Parques eólicos concentram dezenas de aerogeradores que impactam seu entorno com ruídos incomuns, mortandade de pássaros, mudanças nos ventos locais e até interferências eletromagnéticas. 1. Operador Nacional do Sistema Elétrico: Evolução da capacidade instalada no SIN - maio 2023/dezembro 2027. Disponível em: https://www.ons.org.br/paginas/sobre-o-sin/o-sistema -em-numeros. Acesso em: 13 abr. 2023. 2. Fonte dos dados: ITAIPU Binacional. Geração. Disponível em: https://www.itaipu.gov.br/ energia/geracao. Acesso em: 14 abr. 2023. Vista da Usina Hidrelétrica de Itaipu, em Foz do Iguaçu (PR), a maior em produção de energia limpa e renovável do mundo. Construída em parceria com o Paraguai, a usina de Itaipu fornece 8,7% da energia consumida no Brasil e 86,4% da consumida no país vizinho.2 Fotografia de 2019. p a u lo a lb e rt o 8 2 /S h u tt e rs to ck P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 112 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 112C13_CP23_NPCF_110a117.indd 112 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 https://www.ons.org.br/paginas/sobre-o-sin/o-sistema-em-numeros https://www.ons.org.br/paginas/sobre-o-sin/o-sistema-em-numeros https://www.itaipu.gov.br/energia/geracao https://www.itaipu.gov.br/energia/geracao Além do uso de energias limpas, a extração de milhões de litros de água para a irrigação de extensas áreas agrícolas provoca a diminuição no volume de rios e reservatórios subterrâneos, impactando o abaste- cimento de muitas comunidades em áreas do Semiárido, por exemplo, além de interferir na pesca de subsistência. Por isso, é fundamental que essas intervenções sejam submetidas a estudos de impacto am- biental, acompanhadas e fiscalizadas pelo conjunto da sociedade. Assim como nas áreas rurais, os impactos ambientais – sejam pro- vocados por intervenções regionais, sejam consequência das mudan- ças climáticas globais – atingem asgrandes cidades, porém, suas con- sequências afetam os indivíduos de forma diferenciada. O baixo nível de água nos reservatórios e as decorrentes crises no abastecimento, o rompimento de barragens ou o aumento de doenças causadas pela proliferação de insetos interferem, em maior ou menor grau, na vida de todos os moradores. Entretanto, nos locais de vivência precarizados, os impactos ambientais associados à carência de serviços essenciais são drásticos e acentuam ainda mais a distinção de espaços de segregação, historicamente marginalizados. Como afirma Santos: [...] mais do que um direito à cidade, o que está em jogo é o direito a obter da sociedade aqueles bens e serviços mínimos, sem os quais a existência não é digna. Esses bens e serviços constituem um encargo da sociedade, através das instâncias do governo, e são devidos a todos. Sem isso, não se dirá que existe o cidadão. (2000, p. 129). SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 5. ed. São Paulo: Studio Nobel, 2000. Segundo a reportagem de Thais Lazzeri3, populações indígenas foram expulsas de suas terras para a construção da usina de Itaipu. Por falta de esforços por parte de Itaipu, Funai e Incra, poucas comunidades indígenas foram identificadas antes da construção da usina. Uma delas foi Ocoy. Na imagem, mulheres indígenas em reserva no distrito de Santa Rosa do Ocoy, em São Miguel do Iguaçu (PR), 2014. 3. LAZZERI, Thais. Famílias indígenas separadas por Itaipu. Rep—rter Brasil, São Paulo, 26 abr. 2019. Disponível em: https:// reporterbrasil.org.br/2019/04/familias-indigenas-separadas-por-itaipu/. Acesso em: 14 abr. 2023. A presença de parques eólicos tem se tornado uma realidade no cotidiano de diversas comunidades das regiões Norte e Nordeste do país. Na imagem, complexo eólico em Paulino Neves (MA), 2023. A n d re D ib /P u ls a r Im a g e n s M a u ri c io S im o n e tt i/ P u ls a r Im a g e n s É FUNDAMENTAL QUE ESSAS INTERVENÇÕES SEJAM SUBMETIDAS A ESTUDOS DE IMPACTO AMBIENTAL 113 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 113C13_CP23_NPCF_110a117.indd 113 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 https://reporterbrasil.org.br/2019/04/familias-indigenas-separadas-por-itaipu/ https://reporterbrasil.org.br/2019/04/familias-indigenas-separadas-por-itaipu/ Atualmente, muitos avanços tecnológicos e de políticas públicas nos aproximam de uma maior oferta de água tratada, saneamento e ener- gias limpas e renováveis, porém, ainda há grandes desafios ao acesso de todos, principalmente daquelas populações mais vulneráveis. Mui- tas comunidades no entorno das escolas brasileiras ainda carecem de muitos serviços essenciais, como abastecimento de água, esgota- mento das águas residuais não tratadas, acesso à energia elétrica do- miciliar ou iluminação pública adequada. A essas carências somam-se BRASIL. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Abastecimento de água – 2021. Brasília, DF: Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, c2022. Disponível em: https://www.gov.br/mdr/pt -br/assuntos/saneamento/snis/painel/ab. Acesso em: 4 abr. 2023. No Brasil, o enfrentamento aos danos nas dinâmicas ambientais e à consequente precarização da vida humana fez surgir, nos últimos anos, várias organizações populares, por exemplo, o Movimento dos Atingi- dos por Barragens (MAB), a Central Única das Favelas (CUFA) e o Movi- mento dos Trabalhadores sem Teto (MTST). No âmbito governamental, a Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei n. 9 433, de 1997, criou os Comitês de Bacias Hidrográficas, que incorporam a par- ticipação de membros da sociedade civil e diversos órgãos do poder público nas decisões sobre o uso sustentável da água e na implemen- tação da gestão integrada dos recursos hídricos. Além disso, a criação de Conselhos de Direitos e de Políticas Públicas, previstos na Consti- tuição Federal de 1988, aproxima a sociedade das esferas de poder mu- nicipais, estaduais e federal, atuando tanto na formulação das políticas quanto no controle dos serviços essenciais. Por isso, a defesa do acesso à água potável, ao saneamento e à ener- gia para todos até 2030, destacada nos itens 6 e 7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), instituídos pela Organização das Nações Unidas (ONU), configura-se como uma importante referência para a conscientização socioambiental, além de estímulo a novas for- mas de organização da sociedade. R e p ro d u ç ã o /M in is té ri o d a I n te g ra ç ã o e d o D e s e n v o lv im e n to R e g io n a l/ G o v e rn o F e d e ra l 114 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 114C13_CP23_NPCF_110a117.indd 114 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis/painel/ab https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis/painel/ab BRASIL. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Esgotamento sanitário – 2021. Brasília, DF: Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, c2022. Disponível em: https://www.gov.br/mdr/pt -br/assuntos/saneamento/snis/painel/es. Acesso em: 4 abr. 2023. MUITAS COMUNIDADES NO ENTORNO DAS ESCOLAS BRASILEIRAS AINDA CARECEM DE MUITOS SERVIÇOS ESSENCIAIS, COMO ABASTECIMENTO DE ÁGUA Como preconiza o item 6b dos ODS, é necessário “apoiar e fortale- cer a participação das comunidades locais, para melhorar a gestão da água e do saneamento”. Nesse sentido, a escola pode contribuir, seja como estimuladora de novos olhares para a vida em comunidade por meio de ações criativas e inovadoras, seja na valorização de suas tradi- ções e modos de vida. Entretanto, uma ação pedagógica que busque a emancipação dos sujeitos na perspectiva da organização social deve considerar que as atividades sejam protagonizadas pelos estudantes em seus locais de vivência, cabendo aos educadores a importante ta- refa de mobilização dos saberes e, sobretudo, de estímulo ao pensa- mento crítico. Estudantes bem orientados poderão identificar em suas comunidades as principais carências, compreendê-las e discuti-las, tendo em vista os objetivos previamente sugeridos pelos educadores. Assim, as atividades escolares, inseridas num contexto pedagógico maior, podem compor propostas de melhorias para a escola e para a comunidade, tendo em vista a importância do compartilhamento do saber e da socialização, sem, entretanto, desconsiderar as obrigações constitucionais atribuídas aos poderes públicos. dificuldades operacionais e de adequação aos serviços implementa- dos, como manutenção de equipamentos, hábitos de higiene ou uso adequado dos recursos, além da existência de moradias precárias em áreas de risco. R e p ro d u ç ã o /M in is té ri o d a I n te g ra ç ã o e d o D e s e n v o lv im e n to R e g io n a l/ G o v e rn o F e d e ra l M a ry D e s y /S h u tt e rs to ck 115 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 115C13_CP23_NPCF_110a117.indd 115 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis/painel/es https://www.gov.br/mdr/pt-br/assuntos/saneamento/snis/painel/es O envolvimento da escola em ações locais pode gerar discussões importantes sobre outras questões socioambientais mais complexas e despertar um maior interesse sobre diversos aspectos da sociedade global que influenciam diretamente a vida na comunidade. Além disso, contribuem para a formação do pensamento crítico, estimulam a parti- cipação na vida social, na formação intelectual e na preparação para a vida profissional. Nesse processo de aprendizagem, destacam-se áreas do conhecimento como Sociologia, Filosofia, Geografia e Histó- ria, que constituem, entre outras, uma base curricular fundamental para a formação integral dos estudantes, sem a qual não há compreensão das dinâmicas próprias da vida em sociedade. Krenak, sobre o ciclo hidrológico, afirma: [...] é fascinante pensar que o grande rio que dá nome à Bacia Amazô-nica nasce de um fiozinho de água lá das cordilheiras dos Andes para formar aquele mundo aquático. Ele carrega muitos outros rios, mas também a água que a própria floresta dá para as nuvens, e que a chu- va devolve para a terra, nesse ciclo maravilhoso em que as águas dos rios são as do céu, e as águas do céu são as do rio. [...]. (2022, p. 15-16). KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. Tomando emprestada a reflexão de Ailton Krenak, é fascinante pen- sar que ações locais que buscam o direito de acesso à água potável, saneamento e energia para todos e que pareçam insuficientes diante dos graves problemas da atualidade sejam justamente aquelas que in- fluenciarão outras escolhas, mais complexas e abrangentes, ligadas a causas socioambientais de alcance nacional e mundial. Sendo assim, estratégias que despertem a consciência de crianças e jovens, de forma crítica e participativa, sobre a importância da água tratada, do saneamento básico e da energia limpa são possíveis e ne- cessárias e, sobretudo, revelam o sentido do “fazer” educativo. Porém, tais atividades terão efeito multiplicador e de formação de uma cida- dania plena, se educadores e gestores se considerarem mobilizadores de novos afetos, de novas formas de ser e estar no mundo, atuando, juntos, na construção de uma sociedade mais justa e de um ambiente mais saudável para todos. O ambiente escolar é crucial para fomentar discussões em torno de diversos temas, entre eles saneamento básico e energia limpa. O ambientalista e escritor Ailton Krenak. Fotografia de 2019. D io g o M o re ir a /A 2 IM G /G o v e rn o d o E s ta d o d e S ã o P a u lo M a th il d e M is s io n e ir o /F o lh a p re s s 116 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 116C13_CP23_NPCF_110a117.indd 116 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 E M SA L A DE AULA QUEM É A AUTORAQUEM É A AUTORA PROPOSTAS DE ATIVIDADES ATIVIDADE 1 Propicie aos estudantes uma situação em que eles possam experimentar, na prática, pro cedimentos utilizados por profissionais que atuam na área de fornecimento de água e energia. Convide os responsáveis pela manu- tenção elétrica ou hidráulica na escola e pro- ponha uma atividade na qual os estudantes, orientados por esses profissionais, elaborem cálculos simples sobre vazão de água e cor- rente elétrica, desenhos que descrevam os sistemas de esgotamento sanitário, croquis representativos dos desníveis do terreno, ade- quados à instalação de caixas-d’água, além da idealização de pequenos projetos de irrigação com reúso de água. Depois de terem desenha- do, os estudantes apresentarão aos profissio- nais os resultados obtidos. Faça a mediação desse diálogo, evidenciando como o desenho e os cálculos simples vão se sofisticando, até chegarem ao nível daqueles desenvolvidos por especialistas. O objetivo é fazer com que os estudantes percebam que, em um nível mais simples, eles também são capazes de elaborar e utilizar alguns desses procedimentos. ATIVIDADE 2 Proponha aos estudantes que, com o seu acompanhamento, percorram os arredores da escola e identifiquem problemas que afetem o dia a dia dos moradores. Depois, com os dados coletados, incentive e auxilie os moradores a apresentarem suas reinvindicações aos órgãos responsáveis por melhorias na localidade. Esses dados podem estar relacionados, por exemplo, a atividades de reciclagem ou uso de produtos destinados a limpeza de caixas-d’água e de ali- mentos, visando reduzir a contaminação causa- da por transmissão hídrica. ATIVIDADE 3 Demonstre aos estudantes que todas as discussões e pesquisas desenvolvidas em sala de aula sobre energias limpas e saneamento básico seguem o princípio da transversalidade do conhecimento. Cite que o registro de todo o processo (do que aprenderam em sala de aula, do que conversaram com os profissionais ou do que pesquisaram) e a avaliação de todos os trabalhos desenvolvidos sobre o assunto podem gerar artigos jornalísticos e vídeos de divulgação para a comunidade e redes sociais, além de contribuir na formação do repertório cultural e humanístico dos estudantes. Sugestões para ampliaçãoSugestões para ampliação Livros ALCÂNTARA, Gustavo Kenner et al. Avá-Guarani: a construção de Itaipu e os direitos territoriais. Brasília, DF: ESMPU, 2019. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 5. ed. São Paulo: Studio Nobel, 2000. Filme O MENINO que descobriu o vento. Direção: Chiwetel Ejiofor. Estados Unidos, Malauí, França, Reino Unido, 2019. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Possui Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela UNISANTOS-SP e Mestrado em Geociências e Meio Ambiente pela UNESP-SP. Atua na formação de professores desde 1995, com maior dedicação às disciplinas de Metodologia do Ensino de Geografia e História, sobretudo no Ensino Superior, desde 2001. Participa de consultorias em Estudos de Impacto Ambiental e na organização de materiais pedagógicos nas áreas de Geografia, Educação Ambiental e Sustentabilidade. ADRIANA GOMESADRIANA GOMES R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l 117 C13_CP23_NPCF_110a117.indd 117C13_CP23_NPCF_110a117.indd 117 10/07/23 09:3810/07/23 09:38 CAPÍTULO14CAPÍTULO14 Avaliações externas e seus impactos na melhoria da educação Como tudo se conecta Partindo do ODS 4, Juvenal de Gouveia aborda as avaliações externas e os modos como elas podem contribuir para promo- ver melhorias na educação. Explicando detalhadamente os modos como as avaliações externas são concebidas, suas métricas e referenciais, o presente ensaio enfoca o potencial de uso desse modelo de avaliação por gestores e professores para tentar ga- rantir, cada vez mais, a aprendizagem dos estudantes. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 118 C14_CP23_NPCF_118a123.indd 118C14_CP23_NPCF_118a123.indd 118 10/07/23 09:3910/07/23 09:39 A chegada das avaliações externas ao cenário educacional As avaliações externas tiveram um crescimento intenso na déca- da de 1990, impulsionado, principalmente, pela Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada na Tailândia e organizada pelo Banco Mundial, pela Unesco, pelo Unicef, entre outros órgãos multila- terais (CONCEIÇÃO et al., 2022), que cobravam, entre outros pontos, a universalização do acesso à educação, promovendo sua equidade e a melhora em sua qualidade. Imbuídos dessa necessidade e devido às cobranças impostas pelos órgãos internacionais, os países precisavam demonstrar que as ações por eles planejadas obteriam bons resultados, garantindo, dessa forma, mais investimentos internacionais. Uma maneira de demonstrar esse êxito seria por meio de avaliações externas. O Brasil, que já possuía estudos para um sistema de avaliação desde o final da década de 1980, no início da década de 1990 cria o Siste- ma Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que, atualmen- te, é aplicado a cada dois anos nas turmas de 5o e 9o anos do Ensino Fundamental e da 3a série do Ensino Médio, para aferir o desempenho dos sistemas de ensino. De lá para cá, muitos estados têm criado seus próprios sistemas de avaliação, compreendendo que, para desenvol- ver uma política pública na educação é preciso, primeiro, conhecer o sistema, pois, segundo Hoffman (2003), sabendo as causas e sabendo operar com elas, é possível modificar os efeitos. SABENDO AS CAUSAS E SABENDO OPERAR COM ELAS, É POSSÍVEL MODIFICAR OS EFEITOS. Portanto, há um consenso entre grande parte dos gestores e edu- cadores de que as avaliações externas são um dos meios pelo qual se permite mensurar um sistema educacional e, assim, tomar decisões eficientes, fazer planos e estipular metas para alcançar a tão desejada educação de qualidade, como orientado pelo Objetivo de Desenvolvi-mento Sustentável de número 4. Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 119 C14_CP23_NPCF_118a123.indd 119C14_CP23_NPCF_118a123.indd 119 10/07/23 09:3910/07/23 09:39 A contribuição das avaliações externas na elevação da qualidade da educação se dá ao mostrar a toda a comunidade escolar o que está dando certo e o que precisa ser melhorado. Partindo do princípio de que é na escola que o saber sistematizado e constituído historicamente deve ser apropriado pelo estudante de forma crítica e equitativa, onde ele vai substituindo seu senso comum pelo saber científico por meio do desenvolvimento de habilidades, é preciso saber se a escola está propiciando ao estudante o trabalho com as habilidades necessárias ao seu desenvolvimento. É importante que os docentes tenham clareza se o processo de desenvolvimento de habilidades escolares está ocorrendo ou quanto dele está defasa- do. E para saber se houve ou se está ocorrendo esse desenvolvimento e em que velocidade, com a clareza necessária, é preciso mensurar de forma objetiva e segura, utilizando um instrumento padronizado e construído com base científica, com questões aferidas e metrificadas. Um instrumento que não esteja desconectado da prática do docente e que meça o que é preciso medir, ou seja, aponte aquilo que a escola precisa fazer para o desenvolvimento do estudante. Logo, realizar avaliações externas permite obter resultados fidedig- nos, garantindo aos educadores uma visão confiável sobre o desenvol- vimento de seus educandos e da educação em nível geral ou particular, podendo, assim, adequar os métodos utilizados no ensino, atualizan- do-os e empregando-os de forma objetiva, de modo que possam con- tribuir com a equidade na aprendizagem. As avaliações externas são aquelas elaboradas fora da escola por uma instituição ou órgão de governo. O seu planejamento, a corre ção e a análise dos resultados são realizados por esse órgão ou instituição, salvo alguns casos em que a correção se dá pelos professores da es- cola, o que não é uma prática apropriada, uma vez que isso pode criar um viés no resultado. Além disso, o sigilo das questões é um ponto importante para a equalização da avaliação, já que a possibilidade de comparação entre os resultados de uma edição com edições anterio- res - ou com outras avaliações - depende dele. A escola deve propiciar aos estudantes o desenvolvimento de habilidades e competências das diferentes áreas do conhecimento, importantes ao seu desenvolvimento integral. Na imagem, estudantes em sala de aula de escola em Coruripe (AL), 2021. As avaliações são um dos recursos possíveis para mensurar o nível de aproveitamento e proficiência dos estudantes a respeito dos conteúdos abordados em sala de aula. Na imagem, estudante realiza prova em escola de Fortaleza (CE), 2013. R e p ro d u ç ã o /P re fe it u ra d e C o ru ri p e , A L . E d u a rd o Z a p p ia /P u ls a r Im a g e n s 120 C14_CP23_NPCF_118a123.indd 120C14_CP23_NPCF_118a123.indd 120 10/07/23 09:3910/07/23 09:39 Apesar de todo o processo das avaliações externas ser realizado por uma instituição ou por um órgão do governo, as informações for- necidas pelas análises podem (e devem) ser utilizadas também no in- terior da escola, no cotidiano escolar. Para isso, é preciso conhecer a concepção desse tipo de avaliação. Normalmente, as avaliações externas são aplicadas para as discipli- nas de Língua Portuguesa e Matemática e para as turmas de final de ciclo, mas isso não significa que elas avaliem somente as habilidades da etapa final e que sirvam somente para essas disciplinas. As habi- lidades aferidas compreendem, inclusive, aquelas intermediárias e consideradas essenciais, além de servir de base às demais disciplinas. Como são muitas as habilidades a serem aferidas, normalmente, ela- boram-se blocos contendo diferentes questões que são distribuídos entre os estudantes, de maneira que cada estudante faça um menor número de questões, mas que todas as habilidades da matriz de avalia- ção sejam contempladas. Além das questões das disciplinas examinadas, é comum aplicar questionário socioeconômico para os estudantes e questionário de contexto para os gestores escolares. Ao final do processo, têm-se informações completas sobre o de- sempenho dos estudantes e as correlações com as variáveis sociais, econômicas e de gestão. Dessa forma, é possível traçar um perfil da capacidade de aprender dos discentes frente a essas variáveis. Estudos recentes em estatísticas, chamados de modelos multiní- veis, têm apresentado resultados sobre fatores associados ao desem- penho escolar. Coelho (2017) verificou por meio dos resultados do Saeb e utilizando modelos multiníveis que o desempenho de estudantes do 9o ano do Ensino Fundamental em Matemática é influenciado pelo grau de instrução da mãe, frequência de leitura de livros, tempo de recrea- ção em dia de aula, gosto pela disciplina de Matemática e gosto pela disciplina de Língua Portuguesa. Andrade e Laros (2001), também por meio desse modelo, mostraram que as escolas que oferecem melhor infraestrutura e fornecem acesso a equipamentos se destacam nos re- sultados de aprendizagem. A realidade da maior parte das famílias brasileiras dificulta a realização das tarefas escolares no ambiente doméstico. No entanto, a comunidade escolar deve fomentar essa prática, pois se trata de uma aliada importante na aprendizagem. w a v e b r e a k m e d ia /S h u tt e r s to c k 121 C14_CP23_NPCF_118a123.indd 121C14_CP23_NPCF_118a123.indd 121 10/07/23 09:3910/07/23 09:39 Os estudos sobre fatores associados con- firmam algumas relações observadas natural- mente, além de apontar e quantificar outras relações e seus graus de influência, sendo importantes nas possíveis adequações meto- dológicas dos educadores. Outra prática que acompanha as avalia- ções externas é a utilização de um indicador de aprendizagem que coaduna os resultados de desempenho dos es- tudantes com as taxas de aprovação em um único índice. Se a escola tem uma elevada taxa de reprovação, isto se reflete negativamente no indicador. Da mesma forma, se a escola aprova todos os estudantes sem que todos tenham habilidades desenvolvidas a contento, refletirá negativamente no indicador. As avaliações do Saeb, por exemplo, permitem o cálculo do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Os resultados gerais e das macrorregiões das avaliações externas, juntamente com a série histórica de outras edições, permitem aos gestores de políticas públicas de educação avaliar os planos, as metas, traçar novos rumos, repensar os investimentos, entre outras ações. Para as escolas, normalmente são elaborados boletins com as mé- dias de desempenho de seus estudantes, fornecidos em intervalos de proficiência ou níveis, além de informações sobre indicadores contex- tuais. Baseada nesses boletins, a escola adequa ou elabora seu pla- nejamento. No entanto, os resultados das avaliações externas, apesar de necessários, não são suficientes para esse trabalho, mesmo por- que não há notas ou resultados de proficiências individuais. Portanto, a escola precisa juntar resultados de avaliações internas que, somados aos indicadores externos, auxiliarão na reflexão e tomadas de decisão sobre o desenvolvimento educacional das turmas. Para o professor, essa reflexão é totalmente necessária, pois, segundo Luckesi (2011), os resultados das avaliações são um recurso pedagógico por meio do qual é possível reconhecer a eficácia ou ineficácia de seus atos e dos recursos pedagógicos, assim como proceder a intervenção e a corre- ção de rumos. Nesse sentido, as avaliações externas são uma ferramenta de diagnóstico da educação e está a serviço da melhoria de sua qualidade e, portanto, não se trata de um objeto de controle exerci- do no sentido vertical, sobre escolas, professores e alunos.Ao compreen- der os objetivos desse instrumento, dá-se um passo à frente no apoio a todos os eixos dos Objeti- vos de Desenvolvimento Sustentável. OS RESULTADOS DAS AVALIAÇÕES SÃO UM RECURSO PEDAGÓGICO POR MEIO DO QUAL É POSSÍVEL RECONHECER A EFICÁCIA OU INEFICÁCIA DE SEUS ATOS E DOS RECURSOS PEDAGÓGICOS N a k ig it s u n e -s a m a /S h u tt e rs to ck 122 C14_CP23_NPCF_118a123.indd 122C14_CP23_NPCF_118a123.indd 122 10/07/23 09:3910/07/23 09:39 E M SA L A DE AULA QUEM É O AUTORQUEM É O AUTOR PROPOSTAS DE ATIVIDADES ATIVIDADE 1 A partir do sistema de avaliação externa utilizado em sua escola, ana- lise os tópicos nos quais os estudantes apresentaram mais dificuldades. Os boletins apresentam uma seção que indica que tarefas os estu- dantes conseguem ou não realizar estando em uma determinada faixa ou nível de proficiência. A partir dessa lista de tarefas, analise quais ha- bilidades se relacionam a elas. ATIVIDADE 2 Planeje atividades que intensifiquem o desenvolvimento das habili- dades que não foram desenvolvidas satisfatoriamente. Caso determinadas habilidades não tenham sido plenamente de- senvolvidas, o trabalho com as atividades voltadas para o desenvolvi- mento delas vai fornecer subsídios para a identificação das causas e fortalecer seu desenvolvimento. Realize avaliações processuais para identificar as causas, sejam elas no ensino, sejam na aprendizagem, para, desse modo, resolvê-las pontualmente. ATIVIDADE 3 Converse com os estudantes sobre a importância de realizar as ava- liações e os tranquilize nas datas próximas. Crie um ambiente favorável para o dia da aplicação. Promova a realização de questões-modelo das avaliações externas. É importante que o estudante conheça o modelo de prova que irá encon- trar no dia da avaliação. Realizar simulados pode ajudar nesse quesito. Existem modelos da Prova Brasil disponíveis em: http://portal.mec.gov. br/prova-brasil/simulado-prova-brasil-2011. Acesso em: 4 abr. 2023. Promova um ambiente acolhedor e incentive os estudantes a reali- zarem as questões com tranquilidade. Graduado em Licenciatura em Matemática pela USP (1995). Mestre em Ensino de Matemática pela Universidade Cruzeiro do Sul (2007). Doutor em Educação Matemática pela Universidade Anhanguera (2014). Atuou como Técnico da Equipe Curricular de Matemática e Diretor Técnico em Avaliação na SEDUC-SP. Participou na elaboração de questões para a avaliação do SAEB e na elaboração das provas do SARESP. Atualmente é Técnico da Educação de Jovens e Adultos na SEDUC-SP e Professor do Ensino Superior em Cálculo e Estatística. JUVENAL DE GOUVEIAJUVENAL DE GOUVEIA R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 123 C14_CP23_NPCF_118a123.indd 123C14_CP23_NPCF_118a123.indd 123 10/07/23 09:3910/07/23 09:39 http://portal.mec.gov.br/prova-brasil/simulado-prova-brasil-2011 http://portal.mec.gov.br/prova-brasil/simulado-prova-brasil-2011 SEQUÊNCIA DE PAUTAS FORMATIVAS PARA REUNIÃO PEDAGÓGICA Recompor, remediar, recuperar, retomar. Esses foram alguns dos verbos recorrentes nas discus- sões no âmbito educacional nos últimos três anos. A emergência (tanto no sentido de emergir, quan- to no de urgir) de ações pedagógicas que dessem conta dos desafios engendrados pela pandemia de covid-19 que enfrentamos foi notável. E exaustiva também. Há um sem-número de relatos de expe- riências de docentes que, em meio a luto, medos e inseguranças, tiveram que se reinventar para recon- figurar práticas com o intento de que as aprendiza- gens esperadas de estudantes em cada etapa da escolarização fossem alcançadas. No entanto, nem sempre foi possível garantir essa aprendizagem. Os motivos são bastante co- nhecidos por nós: indisponibilidade de dispositi- vos conectados à internet, problemas de conexão, falta de familiaridade com ensino a distância, pro- blemas relacionados à atenção nas aulas remotas, entre tantos outros. Ressalta-se, entretanto, um dos principais: a impossibilidade de criar contex- tos necessários para certas aprendizagens que exigem a interação interpessoal sem intermédio P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 124 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 124PF_CP23_NPCF_124a139.indd 124 12/07/23 15:1712/07/23 15:17 de telas. Todos esses aspectos ocasionaram defasagens de aprendizagens que impacta- ram fortemente o currículo escolar, sobretudo quando as aulas presenciais foram retomadas após a contenção do vírus. Por essa razão, a preocupação geral que permeou o contexto educacional pode ser re- sumida na seguinte inquietação: como ajustar esse descompasso, se os objetivos de apren- dizagens não foram alcançados pela maior par- te dos estudantes? Contudo, a rigor, essa não é uma preocupação recente, nem se limita às consequências da pandemia. Embora tenham se agravado por causa dela, as reflexões sobre os meios para se garantir que todos possam avançar as etapas satisfatoriamente são pere- nes. Precisam estar em pauta. Diante disso, é compreensível que as pau- tas formativas desta edição girem em torno da temática “Recomposição das aprendiza- gens”, partindo-se do pressuposto de que esse é um processo que deve ser contínuo. A decisão por adotá-la, especialmente nes- te Caderno que se dedica aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também não é aleatória. Assim como o isolamento social, em contexto pandêmico, desencadeou uma série de desafios educacionais, visando ga- rantir educação de qualidade para todos (ODS 4), os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável foram criados em decorrência da situação alarmante em que nos encontramos quanto à sustentabilidade social, econômica e ambiental; trata-se, fundamentalmente, de preocupações antigas e que não se esgotam em 2030. São, igualmente, temas que devem pautar constantemente o fazer docente. Considerando o exposto, vale destacar que as pautas formativas que você encontrará nas próximas páginas foram pensadas para serem desenvolvidas, preferencialmente, ao longo de duas horas, mas são perfeitamente adap- táveis quanto ao tempo e ao público. Cada uma delas foi construída a partir de um tópico 1 As pautas foram construídas, predominantemente, com base em vídeos publicados em redes sociais diversas. Por essa razão, há a possibilidade de que alguns deles saiam do ar ou não estejam mais disponíveis para exibição no momento do acesso. Além disso, pode ser necessária, de acordo com a política dessas redes sociais, uma conta ativa para acessá-los. concernente ao tema geral e é formada por quatro momentos1, que podem ser discrimina- dos da seguinte maneira: › momento de fruição, em que um texto, de várias configurações, é sugerido para apreciação do grupo, não necessariamente ligado à discussão que se iniciará; › momento de reflexão, em que outro texto, também constituído por diversas lingua- gens, é ponto de partida para reflexão mais direcionada ao tema da pauta; › momento de construção/socialização, nor- malmente de caráter prático, em que há um convite à produção e ao aprofundamento dos aspectos construídos no momento de reflexão; › momento de finalização, em que há uma re- tomada do que foi discutido, visando a um alinhamento entre os participantes quanto às expectativas da instituição acerca do trabalho docente, além de um encaminha- mento para a discussão que será pauta do próximo encontro. As pautas também estarão disponíveis para download, no site do E-docente (https:// edocente.com.br/), reconfiguradas para apre- sentação em slides para eventuais projeções. Por fim, desejamos um excelente trabalho e esperamos que elas sejam produtivas para guiar reflexões imprescindíveis para as ações pedagógicas. R a w p ix e l. c o m /S h u tt e rs to ck 125 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 125PF_CP23_NPCF_124a139.indd125 12/07/23 15:1712/07/23 15:17 https://edocente.com.br/ https://edocente.com.br/ PAUTA 1 Objetivo: refletir sobre os processos de ensino e aprendi- zagem atentando para os percursos dos estudantes, os instru- mentos avaliativos e a intervenção pedagógica. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor de vídeo conec- tado à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esferográficas; bloco de papel ou similar. UM OLHAR A RESPEITO DOS PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do poema “Não sei fazer poemas sobre gatos”, de Ana Martins Marques. Promova entre os participantes a leitura do poema “Não sei fazer poemas sobre gatos”, de Ana Martins Marques, publica- do em O livro das semelhan•as, da Companhia das Letras. Os participantes podem ser incentivados a trocar rapida- mente impressões a respeito do poema lido ou, se preferi- rem, utilizar o momento para reflexão e apreciação individual do texto. R e p ro d u ç ã o /E d it o ra C o m p a n h ia d a s L e tr a s Ilu stra çõ e s: P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d ito ra 126 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 126PF_CP23_NPCF_124a139.indd 126 12/07/23 15:1712/07/23 15:17 Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição do vídeo “Desafio de salto em distância”. Disponível em: https://www.tiktok.com/@ mmeowmmia/video/7128352605620735238. Acesso em: 15 jun. 2023. No vídeo, é possível observar uma espécie de desafio estabelecido: dois gatos devem atravessar o corredor sem derrubar ou deslocar os copos organizados no chão. Pouco a pouco, a quantidade de copos aumenta e, consequentemente, maior fica a distância a ser vencida por eles, e maior também será o impulso que eles precisam dar para saltar sobre o obstáculo. É importante perceber, a partir do vídeo, a construção da habilidade no decorrer das fases, que foram ficando mais complexas com o tem- po. E o resultado é surpreendente: o primeiro gato consegue cumprir o desafio perfeitamente e resolver a situação-problema. E é, então, que aparece “o pulo do gato” para refletir sobre aspectos relacionados à remediação das aprendizagens, reforçando a analogia entre o vídeo e os processos dos estudantes no trabalho realizado em sala de aula. Proponha as seguintes questões para fomentar as reflexões: A De que maneira o processo de aprendizagem é ilustrado no vídeo? B Embora o desafio tenha sido o mesmo para ambos os gatos, como as particularidades de cada um revelam percursos distintos no processo de aprendizagem? C O que o vídeo poderia nos dizer quanto aos processos de avaliação e de intervenção pedagógica? R e p ro d u ç ã o /t ik to k .c o m /@ m m e o w m m ia Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 127 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 127PF_CP23_NPCF_124a139.indd 127 12/07/23 15:1712/07/23 15:17 https://www.tiktok.com/@mmeowmmia/video/7128352605620735238 https://www.tiktok.com/@mmeowmmia/video/7128352605620735238 P a s u w a n /S h u tt e rs to ck Durante as contribuições do grupo, é importante salientar que aprender é um processo multifacetado, complexo e não linear. Embora tenhamos algumas habilidades específicas que se espera serem de- senvolvidas em um dado período, nem sempre isso ocorre, o que não quer dizer que também não haja sucesso, esse conceito muitas vezes tão deturpado. E como isso é ilustrado no vídeo? O gato branco, assim como o anterior, consegue vencer o desafio adequadamente, mas de outra maneira. Ele é mais esperto por causa disso, pelo fato de ter “cor- tado caminho”? Essas facetas também poderiam ser realizadas com os professores. Também é interessante, gestora/gestor, refletir com o grupo a res- peito de outras possíveis leituras que poderiam ser feitas a partir do vídeo: o gato branco, por talvez não ter desenvolvido a habilidade de impulso necessária para fazer o mesmo que o primeiro gato (justa- mente porque não participou de todas as etapas previstas), precisou ser mais observador, aprender com as estratégias do colega, ponderar sobre que outros caminhos seriam possíveis para cumprir com “a ativi- dade”, com as habilidades que ele teria. Neste caso, de equilíbrio, foco, por exemplo. Neste ponto da reflexão, vale destacar a importância da colaboração no processo de aprendizagem. Em um caso real, em sala de aula, são os docentes que, por meio de atividades diagnósticas e observações, percebem as habilidades que os estudantes já têm construídas e quais precisam desenvolver. Além disso, traçam as melhores estratégias di- dáticas necessárias para haver uma aprendizagem mais colaborativa e, portanto, mais significativa para toda a turma, tendo em vista que cada estudante tem o seu modo e o seu tempo de aprender. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 128 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 128PF_CP23_NPCF_124a139.indd 128 12/07/23 15:1712/07/23 15:17 Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Depois da conversa sobre o vídeo promovida no momento anterior, ressalte que perceber as singularidades dos estudantes leva um certo tempo. Além disso, é preciso, continuamente, retomar algumas apren- dizagens para garantir o avanço nos objetos de conhecimento. Com a pandemia, que ainda nos deixa sequelas, muitos estudantes ficaram sem frequentar a sala de aula, com as escolas fechadas, sem o olhar atento dos docentes, sem a interação com os colegas, as lacunas na aprendizagem foram inevitáveis e, por isso, propor alternativas para a recomposição de defasagens da aprendizagem tornou-se algo urgente e necessário. Tendo isso em vista, oriente os professores a elencarem as estra- tégias que utilizaram ao longo do último ano ou que gostariam de ter colocado em prática, com a retomada das aulas presenciais, para con- tornar os problemas relacionados às lacunas de aprendizagens. Essa atividade deve ser realizada em duas etapas: 1 Nos vinte minutos iniciais, cada participante deve anotar a(s) estratégia(s) em um bloco de notas ou caderno; 2 Nos vinte minutos seguintes, as respostas devem ser apresentadas oralmente e reproduzidas no quadro, na lousa, no flip-chart ou em outro meio disponível para exibição. Momento de finalização | Duração: 35 minutos Depois de listadas as principais estratégias utilizadas ou desejadas pe- los professores, todo o grupo deve ponderar sobre os seguintes pontos: * De que maneira elas se articulam? * Como elas poderiam ser categorizadas? * As estratégias utilizadas são comuns a todos? * Todos almejam os mesmos objetivos? O propósito desse momento é cons- truir um quadro geral do que pode ser incorporado no fazer docente de ma- neira contínua e anunciar as reflexões que serão desenvolvidas no próximo en- contro, a respeito da recomposição das aprendizagens. É importante que se faça o registro desse quadro geral para o mo- mento seguinte (por meio de uma foto- grafia, por exemplo). G r o u n d P ic tu r e /S h u tt e r s to c k 129 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 129PF_CP23_NPCF_124a139.indd 129 12/07/23 15:1712/07/23 15:17 Objetivo: contextualizar o processo de recomposição das defasagens de aprendizagens, diferenciando-o de ações pon- tuais como a recuperação e o reforço escolar. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor de vídeo conec- tado à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esferográficas; bloco de papel ou similar. PAUTA 2 O CONTEXTO PÓS-PANDÊMICO E O PROCESSO DE RECOMPOSIÇÃO DAS APRENDIZAGENS Momento de fruição | Duração: 5 minutos Exibição de animação do ilustrador Pina para a canção “Amanhã”, de Guilherme Arantes. Disponível em: https://www.instagram.com/p/ CkYCzuKDfBr/. Acesso em: 17 abr. 2023. P h e li p p e P in a /A c e rv o d o a rt is ta P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 130 PF_CP23_NPCF_124a139.indd130PF_CP23_NPCF_124a139.indd 130 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 https://www.instagram.com/p/CkYCzuKDfBr/ https://www.instagram.com/p/CkYCzuKDfBr/ Antes da exibição do vídeo, retome com os participantes as estra- tégias docentes utilizadas no acolhimento dos estudantes no retorno à sala de aula presencial e na mediação dos estudos frente às lacunas de aprendizagens que o grupo elencou na Pauta 1. Exiba o vídeo “O que é recomposição de aprendizagens?”, orientando o grupo a atentar para as várias ações que constituem esse processo. Em seguida, peça aos participantes que se organizem em sete gru- pos, classifiquem as estratégias citadas anteriormente e adicionem outras que acharem pertinentes, organizando-as conforme as catego- rias abaixo, oriundas do vídeo-expositivo: * Acolhimento * Priorização curricular * Avaliação diagnóstica e contínua * Adaptação das práticas pedagógicas * Formação de professores * Acesso a materiais pedagógicos adequados * Adaptação do tempo de instrução Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição do vídeo “O que é recomposição de aprendizagens?”, Nova escola. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=L1lD9wa9Z9Y. Acesso em: 17 abr. 2023. R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l N o v a E s c o la P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 131 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 131PF_CP23_NPCF_124a139.indd 131 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 https://www.youtube.com/watch?v=L1lD9wa9Z9Y O objetivo dessa atividade é perceber que a recomposição das aprendizagens é um conjunto de ações pedagógicas sistemicamen- te organizadas para diminuir os impactos que o contexto da pandemia trouxe para a aprendizagem. Para tal, várias instâncias precisam colaborar: coordenadores, ges- tores e professores. No que tange ao trabalho dos professores, é pre- ciso ter em mente que as novas aprendizagens devem ser construí- das, trabalhando-as em conjunto com as aprendizagens defasadas por toda turma ou por grande parte dela. Essas ações não devem se pautar pelas simples retomadas de conteúdos, mas em um planejamento cui- dadoso que privilegie os objetivos de aprendizagem que precisam ser alcançados durante o ano letivo. Com essa compreensão construída, promova um balanço das ações que já foram realizadas, ponderando conjuntamente sobre o que pode ser desenvolvido nos meses seguintes. w a v e b re a k m e d ia /S h u tt e rs to ck R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l N o v a E s c o la 132 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 132PF_CP23_NPCF_124a139.indd 132 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 Momento de construção/socialização | Duração: 35 minutos Exibição do vídeo “Qual é a diferença entre recuperação, reforço e recomposição de aprendizagens?”, Nova Escola. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=r-y1KtYVjRA. Acesso em: 17 abr. 2023. Depois que estiver estabelecida a compreensão de todos sobre o processo de recomposição das defasagens de aprendizagens, apresente o quadro, discriminado da seguinte maneira (os itens do quadro podem ser apresentados no flip-chart ou no slide exibido em um projetor): Recomposição Recuperação Reforço Apresentado o quadro, proponha ao grupo que defina os três con- ceitos com base nos conhecimentos prévios oriundos de experiências docentes. Em seguida, exiba o vídeo “Qual é a diferença entre recupe- ração, reforço e recomposição de aprendizagens?” e faça a compara- ção entre as definições apresentadas pelo grupo. Espera-se que o grupo compartilhe a compreensão de que a prática da recuperação (também referida como “retomada” ou “remediação”) é voltada para os estudantes que não obtiveram o desempenho espe- rado quanto à apreensão de um dado assunto e ao desenvolvimento de uma dada habilidade, sendo bastante frequente nos finais dos anos letivos. No entanto, esse processo precisa ser contínuo e figurar em vários momentos ao longo do ano. Além disso, há um relativo consenso de que essa não é a maneira mais efetiva de recompor aprendizagens (embora também seja parte dela), uma vez que se objetiva mais espe- cificamente, nas recuperações, alinhar a performance dos estudantes e as expectativas de aprendizagem de um determinado ano escolar. Já no que diz respeito ao reforço escolar, é desejável que o grupo tenha em mente que é uma prática que pressupõe um aprofundamen- to de um dado assunto e que é voltada para os estudantes que este- jam com maior dificuldade no desenvolvimento de uma dada habilida- de. Normalmente, essa prática ocorre no contraturno escolar, por meio de uma mediação que privilegie estratégias didáticas diferentes das usadas em sala de aula em período regular. Para isso, recomenda-se a utilização de metodologias ativas e a promoção de trabalho colabora- tivo, sendo, portanto, um incentivo às aprendizagens (e não uma ação direcionada a estudantes “fracos” em relação aos demais). A partir disso, converse com os participantes a respeito das ações desenvolvidas atualmente e que serão realizadas futuramente na insti- tuição e de que tipo elas são. u p k ly a k /F re e p ik 133 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 133PF_CP23_NPCF_124a139.indd 133 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 https://www.youtube.com/watch?v=r-y1KtYVjRA Momento de finalização | Duração: 40 minutos Leitura do texto “Seção dois: Iniciativas de recomposição das aprendizagens”. In : Recomposição das aprendizagens em contextos de crise, Vozes da Educação. Disponível em: https://www.institutonatura.org/wp -content/uploads/2021/08/Levantamento_Internacional___ Estrate%CC%81gias_de_Recomposic%CC%A7a%CC%83o_das_ Aprendizagens_VF_1.pdf, junho 2021. Acesso em: 20 maio 2023. Leitura do texto “Os caminhos para a recomposição de aprendizagens pós-pandemia”, de Rachel Bonino para o canal Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/21368/os-caminhos -para-a-recomposicao-de-aprendizagens-no-pos-pandemia, 13 out. 2022. Acesso em: 20 maio 2023. Neste momento de finalização, oriente os professores a se orga- nizarem em seis grupos, cada grupo deve se dedicar a um dos itens que compõem a segunda seção do estudo intitulado “Recomposição das aprendizagens em contextos de crise”: Grupo 1 Grupo 2 Grupo 3 Adaptação do currículo Adaptação do tempo de instrução Adaptação de práticas pedagógicas Grupo 4 Grupo 5 Grupo 6 Formação docente específica Avaliação diagnóstica Material didático apropriado Em seguida, solicite a cada grupo que faça considerações sobre as iniciativas tomadas em outros países e pondere sobre a possibi- lidade ou a inviabilidade de serem ajustadas à realidade brasileira e, mais especificamente, à realidade vivida por eles. Por fim, indique a leitura do texto “Os caminhos para a recom- posição de aprendizagens pós-pandemia”, de Rachel Bonino, para que haja uma ampliação das reflexões sobre os possíveis passos a se- guir. Caso não haja tempo para a leitura conjun- ta, uma alternativa produtiva é que ela seja feita por você, gestora/gestor, e os pontos princi- pais abordados no texto sejam apresentados ao grupo como encerramento desta pauta. R o b e rt K n e s c h k e /S h u tt e r s to c k 134 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 134PF_CP23_NPCF_124a139.indd 134 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 https://www.institutonatura.org/wp-content/uploads/2021/08/Levantamento_Internacional___Estrate%CC%81gias_de_Recomposic%CC%A7a%CC%83o_das_Aprendizagens_VF_1.pdf https://www.institutonatura.org/wp-content/uploads/2021/08/Levantamento_Internacional___Estrate%CC%81gias_de_Recomposic%CC%A7a%CC%83o_das_Aprendizagens_VF_1.pdf https://www.institutonatura.org/wp-content/uploads/2021/08/Levantamento_Internacional___Estrate%CC%81gias_de_Recomposic%CC%A7a%CC%83o_das_Aprendizagens_VF_1.pdf https://www.institutonatura.org/wp-content/uploads/2021/08/Levantamento_Internacional___Estrate%CC%81gias_de_Recomposic%CC%A7a%CC%83o_das_Aprendizagens_VF_1.pdfhttps://novaescola.org.br/conteudo/21368/os-caminhos-para-a-recomposicao-de-aprendizagens-no-pos-pandemia https://novaescola.org.br/conteudo/21368/os-caminhos-para-a-recomposicao-de-aprendizagens-no-pos-pandemia Objetivo: trabalhar os Mapas de Foco da BNCC, a fim de orientar a flexibilização curri- cular e a escolha dos objetos de conhecimento indispensáveis para a recomposição das defasagens de aprendizagens. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor de vídeo conectado à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esferográficas; bloco de papel ou similar; cópias impressas dos Mapas de Foco da BNCC por área de conhecimento ou arquivos digitais, nesse caso, smartphone, tablet ou notebook para acesso aos arquivos. PAUTA 3 A PRIORIZAÇÃO CURRICULAR PARA RECOMPOSIÇÃO DE APRENDIZAGENS Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do poema “A rua”, de Cassiano Ricardo. A rua Bem sei que, muitas vezes, o único remédio é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, a dívida, o divertimento, o pedido de emprego, ou a própria alegria. A esperança é também uma forma de contínuo adiamento. Sei que é preciso prestigiar a esperança, numa sala de espera. Mas sei também que espera significa luta [e não, apenas, esperança sentada. Não abdicação diante da vida. A esperança nunca é a forma burguesa, sentada e [tranquila da espera. Nunca é a figura de mulher do quadro antigo. Sentada, dando milho aos pombos. RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p. 26. 135 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 135PF_CP23_NPCF_124a139.indd 135 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição do vídeo “Foco é tudo!”. Disponível em: https://www.tiktok.com/@ reidopisoibitinga/video/7209728429711691014. Acesso em: 17 mar. 2023. Exibição do vídeo “Foco não é prestar atenção em tudo”, de Pedro Calabrez para o canal da Casa do Saber. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=yILOsgQXHjg&t=70s. Acesso em: 17 mar. 2023. Após a exibição do vídeo “Foco é tudo!”, procure sondar com os pro- fessores o que pode ser inferido e como é possível relacioná-lo ao co- tidiano deles. Uma leitura possível é a de que, para se ter foco, também é preciso ignorar outras demandas. São ações interdependentes. Es- pera-se que o grupo observe que, diante de tantas informações dispo- níveis, de tantas orientações, recomendações, atribuições, é comum nos sentirmos angustiados, confusos e, em muitos casos, paralisados, estagnados, em virtude da dificuldade em fazer triagens, em direcionar esforços e atenção. Também é possível enviesar parte da dis- cussão para mudanças de hábitos que podem ser prejudiciais, como evitar distrações decor- rentes de notificações de interações em redes sociais, que pode levar à procrastinação ou à falta de atenção. A esse respeito, recomenda- mos o vídeo “Foco não é prestar atenção em tudo”, do doutor em Ciências em Psiquiatria e Psicologia Médica, Pedro Calabrez. p ix e lr a in /S h u tt e rs to ck R e p ro d u ç ã o /t ik to k .c o m /@ re id o p is o ib it in g a 136 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 136PF_CP23_NPCF_124a139.indd 136 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 https://www.tiktok.com/@reidopisoibitinga/video/7209728429711691014 https://www.tiktok.com/@reidopisoibitinga/video/7209728429711691014 https://www.youtube.com/watch?v=yILOsgQXHjg&t=70s https://www.youtube.com/watch?v=yILOsgQXHjg&t=70s Depois das considerações do grupo, resgate as discussões da pauta anterior e conduza as do momento atual para a priorização das habilida- des da BNCC em função da necessidade de promover a recomposição das aprendizagens. Questione os participantes sobre como eles refletem sobre esse processo, por meio da questão proposta no quadro ao lado. Ouça as contribuições referentes a experiências passadas, prin- cipalmente em função da retomada das aulas presenciais em 2022, e procure encaminhar o momento em direção à apresentação dos “Ma- pas de Foco da BNCC”, elaborados pelo Instituto Reúna, em 2020. Se, porventura, esses materiais já forem de conhecimento do grupo ou já estiverem incorporados ao planejamento da instituição, reitere sua re- levância e engaje os participantes a compartilhar suas experiências e conhecimentos durante a proposta desta pauta. Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Com tantas habilidades a serem desenvolvidas em cada componente curricular, como decidir quais delas são imprescindíveis para avançar adequadamente? Exibição do vídeo “Entendendo os Mapas de Foco da BNCC”, Instituto Reúna. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=BPYq7C42V_w. Acesso em: 17 abr. 2023. Leitura do texto “Mapas de Foco da BNCC”, Instituto Reúna. Disponível em: https://o. institutoreuna.org.br/projeto/ mapas-de-foco-bncc/. Acesso em: 17 abr. 2023. Reprodução da página 5 dos Mapas de Foco da BNCC, no site do Instituto Reúna. R e p ro d u ç ã o /M a p a s d e F o c o d a B N C C R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l In s ti tu to R e ú n a 137 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 137PF_CP23_NPCF_124a139.indd 137 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 https://www.youtube.com/watch?v=BPYq7C42V_w https://www.youtube.com/watch?v=BPYq7C42V_w https://o.institutoreuna.org.br/projeto/mapas-de-foco-bncc/ https://o.institutoreuna.org.br/projeto/mapas-de-foco-bncc/ https://o.institutoreuna.org.br/projeto/mapas-de-foco-bncc/ Constatando a necessidade de promover um trabalho para recompor as aprendiza- gens relacionadas às habilidades EF04CI04 e EF04CI05, a professora resolveu consul- tar o Mapas de Foco referente à Ciências da Natureza, conforme demonstra a imagem a seguir: Solicite aos professores que tomem nota dos aspectos menciona- dos a seguir enquanto assistem ao vídeo “Entendendo os Mapas de Foco da BNCC”. * Objetivo principal dos Mapas de Foco. * Princípios da BNCC que foram observados na construção dos mapas. * Categorização que foi adotada para agrupar as habilidades da BNCC. * Relevância dos Mapas para o trabalho docente. Após assistirem à explicação da diretora do Instituto Reúna, peça aos professores que socializem suas anotações e ponderações a res- peito das informações do vídeo. Em seguida, proponha a formação de grupos e distribua a cada um deles uma cópia impressa dos Mapas de Foco ou, caso haja disponi- bilidade, cada grupo pode acessar o site por meio de um smartphone, tablet ou notebook para consulta do arquivo digital. Depois de reunidos em grupos, apresente a seguinte situação e proponha a eles que criem um breve plano de ação relacionado a ela. Para elaborar seu planejamento anual, uma professora de Ciências do 5o ano reali- zou uma avaliação diagnóstica considerando as habilidades da BNCC previstas para o 4o ano. Levando em conta as cinco primeiras, que perpassam as unidades temáticas “Matéria e energia” e “Vida e evolução”, ela verificou o seguinte: HABILIDADES DESEMPENHO (EF04CI01) Identificar misturas na vida diária, com base em suas proprie- dades físicas observáveis, reconhecendo sua composição. 100% (EF04CI02) Testar e relatar transformações nos materiais do dia a dia quando expostos a diferentes condições (aquecimento, resfriamento, luz e umidade). 100% (EF04CI03) Concluir que algumas mudanças causadas por aquecimento ou resfriamento são reversíveis (como as mudanças de estado físico da água) e outras não (como o cozimento do ovo, a queima do papel etc.). 90% (EF04CI04) Analisar e construir cadeias alimentares simples, reconhe- cendo a posição ocupada pelos seres vivos nessas cadeias e o papel do Sol como fonte primária de energia na produção de alimentos. 40% (EF04CI05) Descrever e destacar semelhanças e diferenças entre o ciclo da matéria e o fluxo de energia entre os componentes vivos e não vivos de um ecossistema. 50% 138 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 138PF_CP23_NPCF_124a139.indd138 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 Você pode exibir a página pelo proje- tor e/ou solicitar aos grupos de professo- res que acessem o arquivo na página 40. O objetivo é que explorem o mapa e obser- vem como as informações podem ser úteis para as tomadas de decisão. O primeiro passo é analisar do que tratam as habilidades do 5o ano que serão impactadas pela aprendizagem focal do 4o ano, com o intuito de ponderar quais ações poderiam ser articuladas para a recomposição. É possível perceber, por exemplo, que também são indicados, em alguns momentos, quais são os Objetivos de Desenvolvimen- to Sustentável mais evidenciados quando se trabalha o desenvolvimento de uma dada ha- bilidade (ODS 15, na habilidade EF04CI04 ou ODS 2 e 3, na habilidade EF05CI08). Isso pode ser explorado no processo de promover a re- composição. Momento de finalização | Duração: 35 minutos Neste momento de finalização, proponha aos professores que se dividam de acordo com suas áreas de atuação. Cada grupo deverá explorar os Mapas de Foco de suas áreas visando à de- finição dos melhores caminhos para promover a recomposição de aprendizagens essenciais. Após a conversa por áreas, peça aos gru- pos que exponham brevemente suas contri- buições para os outros grupos, para estabe- lecer as semelhanças e as diferenças entre as áreas, além de possíveis desafios que, even- tualmente, podem surgir durante o processo. Verifique de que modo as avaliações diag- nósticas são apresentadas nessa etapa do tra- balho e a importância dada a elas. Exponha que a próxima pauta trará esse tema para debate. Reprodução da página 40 dos Mapas de Foco da BNCC, Ciências da Natureza, no site do Instituto Reúna. R e p ro d u ç ã o /M a p a s d e F o c o d a B N C C Nessa consulta, ela observa que a habilidade EF04CI04 é considerada uma apren- dizagem focal (AF) e é pré-requisito para duas habilidades do 5o ano, EF05CI06 e EF05CI08, como é possível verificar na linha de progressão entre anos. Considerando essas informações, quais estratégias você recomendaria para essa professora? Como ela pode proceder com esse diagnóstico a partir da constatação dada pelo mapa? 139 PF_CP23_NPCF_124a139.indd 139PF_CP23_NPCF_124a139.indd 139 12/07/23 15:1812/07/23 15:18 Objetivo: Fomentar a discussão acerca do papel da mediação docente durante a aplicação de instrumentos avaliativos e, so- bretudo, após sua realização. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor de vídeo conec- tado à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esferográficas; bloco de papel ou similar. PAUTA 4 A MEDIAÇÃO VOLTADA AOS INSTRUMENTOS AVALIATIVOS Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do poema “Sujeito indireto”, de Paulo Leminski. Para este momento, leia com os professores o poema “Sujeito indireto”, de Paulo Leminski, publicado no livro Toda poesia, da Companhia das Letras. Abra espaço, caso alguns dos participantes queiram comentar o texto e dividir im- pressões sobre ele. R e p ro d u ç ã o /E d it o ra C o m p a n h ia d a s L e tr a s D ie g o C ru z/ In s ta g ra m d o i n fl u e n c ia d o r d ig it a l Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição de vídeo 1. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CktF25JDnXx/. Acesso em: 17 abr. 2023. 140 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 140PF_CP23_NPCF_140a153.indd 140 12/07/23 11:0112/07/23 11:01 https://www.instagram.com/p/CktF25JDnXx/ Exibição de vídeo 2. Disponível em: https://www.instagram.com/p/Cj5m_Txj8P1/. Acesso em: 17 abr. 2023. Exibição de vídeo 3. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CjEgCn4DdrH/. Acesso em: 17 abr. 2023. Os vídeos que serão apresentados são paródias do ambiente es- colar e representam de maneira bem-humorada o comportamento de professores em sala de aula. Antes da exibição deles, relembre o que foi discutido e construído no encontro anterior. Essa retomada favore- ce o desenvolvimento desta pauta. É interessante ressaltar que a avaliação é uma ferramenta utilizada de várias maneiras por nós, professores, com diferentes propósitos, como: * diagnosticar lacunas de aprendizagem; * analisar como as aprendizagens vão sendo construídas ao longo do processo; * aferir resultados, etc. Esta pauta, portanto, vai oportunizar momentos para refletir sobre o papel da mediação docente durante a aplicação dos instrumentos avaliativos e, sobretudo, após sua realização. Considerando isso, solicite aos professores que avaliem a postura da personagem que é representada no vídeo pro- tagonizando algumas situações facilmente reconhecidas por boa parte das pessoas (basta considerar os comentá- rios de identificação no contexto real de publicação deles). M o n k e y B u s in e s s I m a g e s /S h u tt e rs to ck D ie g o C ru z/ In s ta g ra m d o i n fl u e n c ia d o r d ig it a l D ie g o C ru z/ In s ta g ra m d o i n fl u e n c ia d o r d ig it a l 141 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 141PF_CP23_NPCF_140a153.indd 141 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.instagram.com/p/Cj5m_Txj8P1/ https://www.instagram.com/p/CjEgCn4DdrH/ Para guiar o momento, estas perguntas podem ajudar. 1 A correção de instrumentos avaliativos durante horário de aula é uma prática adequada, como ocorre no primeiro vídeo? Quais motivos podem ter levado a isso? Reflitam. 2 Qual é a importância da diversidade de instrumentos avaliativos, como os momentos de apresentação de trabalho/exposição oral? Quais são as intervenções docentes necessárias nesses momentos (direcionadas a quem apresenta e a quem a acompanha)? Qual é a pertinência da observação feita pela personagem da professora no segundo vídeo? 3 Como vocês definiriam as “pegadinhas” em uma avaliação escrita? Qual é a contribuição que essa prática pode trazer? Justifiquem. A ideia deste momento não é a de recriminar práticas docentes, mas ponderar sobre os contextos e as situações que as promoveram, que as tornaram, em muitos casos, uma cultura. A partir dessas discussões, o importante é alinhar as expectativas da instituição, guiadas pelas re- comendações dos documentos de referência, quanto às práticas pe- dagógicas mais relevantes e adequadas. Quanto às formulações de questões que são consideradas “pega- dinhas”, sobretudo às objetivas, vale ressaltar com o grupo que as ava- liações externas são pensadas de modo a valorizar os conhecimentos construídos, mesmo quando não há o “acerto” esperado, com escolha do gabarito. As alternativas que se constituem como distratores pre- cisam ser alternativas possíveis, respaldadas em prováveis etapas de construção do conhecimento. Assim, tem-se instrumentos mais rele- vantes para diagnosticar as possíveis lacunas de aprendizagem e nor- tear intervenções pedagógicas satisfatórias. S O M K K U /S h u tt e rs to ck Paula de Aguiar/Arquivo da editora 142 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 142PF_CP23_NPCF_140a153.indd 142 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Comece com a afirmação de Luckesi (1996): “epistemologicamente a avaliação não existe por si, mas para a atividade a qual serve, e ganha as conotações filosóficas, políticas e técnicas da atividade que subsi- dia”, ou seja, a avaliação existe para orientar os professores na tomada de decisões, contribuindo para o aprimoramento de respostas ade- quadas às necessidades dos estudantes. De acordo com a BNCC, as avaliações objetivam uma análise global e integral do estudante, por meio de uma avaliação formativa. Tendo isso em mente: * Convide o grupo a refletir sobre a questão: De que maneira a BNCC pode contribuir no processo avaliativo dos estudantes e, conse- quentemente, em seu protagonismo no processo de ensino-apren- dizagem? * Solicite ao grupo que exponha exemplos de práticas pedagógicas que colaborem para a promoção do protagonismo dos estudantesem suas práticas avaliativas. * Liste os exemplos de práticas pedagógicas avaliativas mencionados pelos docentes e, em seguida, promova uma conversa, levando em conta os seguintes pontos: 1 Quais dessas práticas já são utilizadas pela equipe? 2 Quais delas podem ser incorporadas? 3 Quais práticas precisam ser ajustadas, levando em consideração o perfil dos estudantes? Após o apanhado das informações, converse com a equipe sobre a importância da incorporação dessas práticas no planejamento tendo como premissa o desenvolvimento integral dos estudantes por meio de práticas avaliativas que, de fato, contribuam para aprendizagem. Momento de finalização | Duração: 35 minutos Leitura do texto “Mapas de Foco da BNCC”, Instituto Reúna. Disponível em: https://o.institutoreuna.org.br/projeto/mapas-de-foco -bncc/. Acesso em: 19 jun. 2023. Neste momento, caminhamos para a finalização desta pauta e, para isso, vamos concluir as ideias construídas até aqui e destacar a impor- tância de manter vivas as trocas compartilhadas a respeito do papel da mediação docente durante a aplicação de instrumentos avaliativos e, sobretudo, após sua realização. Também é o momento de pensarmos em avaliações que estejam alinhadas à BNCC e, mais que isso, pensar Pa ula d e A guia r/ A rq uiv o d a ed ito ra 143 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 143PF_CP23_NPCF_140a153.indd 143 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://o.institutoreuna.org.br/projeto/mapas-de-foco-bncc/ https://o.institutoreuna.org.br/projeto/mapas-de-foco-bncc/ Diante da situação apresentada, proponha a dois grupos que cons- truam uma avaliação diagnóstica para o 6o ano e aos outros dois grupos que construam uma avaliação diagnóstica para o 9o ano. Elas devem contemplar objetos de conhecimento de um componente curricular que faça parte da área de conhecimento do grupo. Para isso, os pro- fessores devem se basear na priorização curricular focada na Pauta 3. Depois de realizadas as avaliações diagnósticas, solicite a cada grupo que as apresente para os demais explicitando as razões que fundamen- taram aquela construção (escolha de habilidades focais, quantidade e diversidade de questões, expectativas de aprendizagem, etc.). Finda- das as apresentações, encaminhe o encerramento desta pauta para o reforço do papel das demais avaliações durante o decorrer do proces- so de ensino e aprendizagem, ao longo do ano letivo. Assim, espera-se que os professores vislumbrem possibilidades de avaliação processual e de resultados que levem em consideração esses diagnósticos. naquelas que valorizam o que se aprende e como se aprende, sem que haja terreno fértil para temores ou angústias quanto ao que precisa ser apreendido, evitando-se estigmas quanto à dificuldade de atingir objetivos de aprendizagens referente a certas áreas, por exemplo. Esse encaminhamento será muito importante para darmos início ao nosso próximo encontro. Tendo isso em mente, solicite aos professores que formem quatro grupos, um para cada área de conhecimento, e apresente a eles o se- guinte cenário: A instituição em que você trabalha está recebendo um grupo de estudantes depois que as aulas do 1o semestre letivo já foram ini- ciadas. Parte deles está pleiteando o ingresso em turma do 6o ano, enquanto outra parte objetiva uma vaga em turma do 9o ano do Ensino Fundamental – Anos Finais. Considerando os impactos que a pandemia pode ter causado, a necessidade de compreender o percurso que eles trilharam até então e as melhores estratégias didáticas para mediação pedagógica, como proceder quanto à avaliação diagnóstica tendo em vista que as aulas estão em curso? G o ro d e n k o ff /S h u tt e rs to ck Paula de Aguiar/Arquivo da editora 144 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 144PF_CP23_NPCF_140a153.indd 144 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 Objetivo: repensar o imaginário coletivo acerca de uma su- posta dificuldade associada a certos componentes curriculares, o que pode ser prejudicial para o processo de aprendizagem. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor de vídeo conecta- do à internet; pincel atômico para quadro/lousa; canetas esferográ- ficas; bloco de papel ou similar; Base Nacional Comum Curricular. PAUTA 5 Momento de fruição | Duração: 5 minutos Exibição do vídeo “Clássicos da Literatura reduzidos para caber no reels: Dom Casmurro”. Disponível em: https://www.instagram.com/p/ Co7fuqBjFUd/. Acesso em: 18 abr. 2023. A ESTIGMATIZAÇÃO DE COMPONENTES CURRICULARES P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra R e p ro d u ç ã o /I n s ta g ra m A ff T h e H y p e 145 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 145PF_CP23_NPCF_140a153.indd 145 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.instagram.com/p/Co7fuqBjFUd/ https://www.instagram.com/p/Co7fuqBjFUd/ Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição do vídeo “Reagindo à Matemática”. Disponível em: https:// www.instagram.com/p/ Csj0dQ2MrSq/. Acesso em: 18 abr. 2023. É comum encontrarmos nas redes so- ciais produções audiovisuais cujo conteúdo é constituído de comentários avaliativos a respeito de publicações de terceiros. O ví- deo em questão é um exemplo dessa prática. Neste caso, observa-se a reação perplexa e indignada de um rapaz (Maik Ferreira, criador de conteúdo digital) diante da resolução de um problema matemático. É possível inferir que essa reação se dá pela surpresa diante da resposta correta, uma vez que ela contraria a suposta obviedade da questão que aponta- va para outra alternativa, que é incorreta. Na condução do professor do vídeo origi- nal, o percurso de resolução é realizado pelo estabelecimento de um conjunto linear formado por duas equações, a partir das quais se chega a um resultado inesperado não só pelo criador de conteúdos, mas também por diversos seguido- res do perfil na rede social que, ao responderem à publicação, fazem comentários como: R e p ro d u ç ã o /I n s ta g ra m m a ik c c o s tt a Comentários disponíves em: https://www.instagram. com/p/Csj0dQ2MrSq/. Acesso em: 18 abr. 2023. 146 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 146PF_CP23_NPCF_140a153.indd 146 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.instagram.com/p/Csj0dQ2MrSq/ https://www.instagram.com/p/Csj0dQ2MrSq/ https://www.instagram.com/p/Csj0dQ2MrSq/ https://www.instagram.com/p/Csj0dQ2MrSq/ https://www.instagram.com/p/Csj0dQ2MrSq/ questão e dos percursos possíveis para sua resolução, o que também diz respeito a com- petências que se deseja desenvolver não só no âmbito da matemática. Ainda cabe resgatar, neste momento da re- flexão, o seguinte trecho de um dos estudos de Jean Piaget, a obra Seis estudos de Psico- logia, segundo o qual o ato de aprender: [...] é uma construção contínua, compará- vel à edificação de um grande prédio que, na medida em que se acrescenta algo, fica- rá mais sólido, ou à montagem de um me- canismo delicado, cujas fases gradativas de ajustamento conduziriam a uma flexi- bilidade e uma mobilidade das peças tanto maiores quanto mais estável se tornasse o equilíbrio. [...]. (PIAGET, 1990, p. 12). Nesse sentido, ancorados em Piaget, é preciso reiterar com os professores que cada estudante aprende do seu jeito, no seu ritmo, e que são as estratégias pensadas para tra- balhar determinado objeto de conhecimento que o ajudarão a construir sentido ao que está sendo aprendido. Para desfazer convicções sobre o que significa, por exemplo, “apren- der Matemática”, é preciso que o estudante se perceba como um ser que pensa e produz seu próprio conhecimento. O estudante pre- cisa saber que vale a pena pensar, envolver-se com a situação que o desafia, que o desesta- biliza, porque é por meio dos desafios venci- dos que boa parte da satisfação em aprender, em saber, reside (basta associarmos ao con- texto dos jogos eletrônicos que mais envol- vem quanto mais desafiadores forem). Diante desses comentários e do vídeo que deu origem a eles,reflita com os professores a partir dos seguintes apontamentos. * Como é possível relacionar os dois primei- ros comentários a aspectos associados à autonomia, aos percursos na resolução de problemas, ao raciocínio lógico? * Quanto ao terceiro comentário especifica- mente, de que maneira poderíamos rela- cioná-lo à importância da abordagem inter- disciplinar dos objetos de conhecimento? * O que pode ser inferido a partir dos três últimos comentários quanto às aprendiza- gens significativas? O que pode ter gerado tanta identificação das pessoas? É relevante pontuar, diante das contribui- ções do grupo, que é preciso atentar para a maneira como os objetos de conhecimento são explorados e para como isso condicio- na a relação que construímos com os com- ponentes curriculares. A promoção da inter- disciplinaridade, por exemplo, é um caminho importante para diminuir as barreiras entre os componentes curriculares (o que ainda vigo- ra, mesmo com as prerrogativas da BNCC), já que elas normalmente reforçam convicções equivocadas de que aprender determinados objetos de conhecimento de uma área não faz sentido, se houver predileção por outro cami- nho profissional, de área diversa (é o que re- vela, por exemplo, o comentário da estudante de Direito que não esperava ter de lidar com conceitos matemáticos no curso superior). Espera-se que o grupo também sinalize para as possibilidades de leitura do enunciado da V G s to ck s tu d io /S h u tt e rs to ck Il u st ra çõ e s: P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 147 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 147PF_CP23_NPCF_140a153.indd 147 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Leitura do texto “A área de Matemática”. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ abase/#fundamental/a-area-de-matematica. Acesso em: 20 abr. 2023. Para este momento, vamos revisitar a BNCC para ampliar a compre- ensão das competências e habilidades da área de Matemática e suas Tecno logias. Após uma leitura conduzida com todo o grupo, independen- temente da área específica em que atuem, solicite aos participantes que se reúnam em pequenos grupos (no máximo 4 pessoas) e respondam às seguintes perguntas: * Considerando o conceito de “letramento matemático”, o que pode- ria ser afirmado quanto aos comentários dos vídeos que vimos no momento anterior? * De que maneira poderíamos associar as competências específicas de Matemática para o Ensino Fundamental com o que revelou o ví- deo e os comentários referentes a ele? * Como você se enxerga nesse contexto? Procure mobilizar a maneira como você mesmo se sentia em época escolar ou como você ob- serva a postura de seus estudantes e/ou de seus filhos (se os tiver). * Procure refletir sobre sua relação com outros componentes curricula- res: Qual é a sua postura diante deles? Que aspectos poderiam estar relacionados à predileção de um dado componente curricular? Em seguida, peça a um representante de cada grupo que compar- tilhe as respostas dele e dos colegas. Então, solicite a todos que, cole- tivamente, identifiquem pontos em comum e/ou complementares para que sejam elencados no quadro ou no flip-chart. COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE MATEMÁTICA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL 1. Reconhecer que a Matemática é uma ciência humana, fruto das necessidades e preocupações de diferentes culturas, em diferentes momentos históricos, e é uma ciência viva, que contribui para solu- cionar problemas científicos e tecnológicos e para alicerçar desco- bertas e construções, inclusive com impactos no mundo do trabalho. 2. Desenvolver o raciocínio lógico, o espírito de investigação e a ca- pacidade de produzir argumentos convincentes, recorrendo aos co- nhecimentos matemáticos para compreender e atuar no mundo. 3. Compreender as relações entre conceitos e procedimentos dos diferentes campos da Matemática (Aritmética, Álgebra, Geometria, Estatística e Probabilidade) e de outras áreas do conhecimento, sen- tindo segurança quanto à própria capacidade de construir e aplicar conhecimentos matemáticos, desenvolvendo a autoestima e a per- severança na busca de soluções. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 148 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 148PF_CP23_NPCF_140a153.indd 148 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#fundamental/a-area-de-matematica http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#fundamental/a-area-de-matematica 4. Fazer observações sistemáticas de aspectos quantitativos e qua- litativos presentes nas práticas sociais e culturais, de modo a in- vestigar, organizar, representar e comunicar informações relevan- tes, para interpretá-las e avaliá-las crítica e eticamente, produzindo argumentos convincentes. 5. Utilizar processos e ferramentas matemáticas, inclusive tecnolo- gias digitais disponíveis, para modelar e resolver problemas cotidia- nos, sociais e de outras áreas de conhecimento, validando estraté- gias e resultados. 6. Enfrentar situações-problema em múltiplos contextos, incluindo- -se situações imaginadas, não diretamente relacionadas com o as- pecto prático-utilitário, expressar suas respostas e sintetizar conclu- sões, utilizando diferentes registros e linguagens (gráficos, tabelas, esquemas, além de texto escrito na língua materna e outras lingua- gens para descrever algoritmos, como fluxogramas, e dados). 7. Desenvolver e/ou discutir projetos que abordem, sobretudo, ques- tões de urgência social, com base em princípios éticos, democráticos, sustentáveis e solidários, valorizando a diversidade de opiniões de in- divíduos e de grupos sociais, sem preconceitos de qualquer natureza. 8. Interagir com seus pares de forma cooperativa, trabalhando cole- tivamente no planejamento e desenvolvimento de pesquisas para responder a questionamentos e na busca de soluções para proble- mas, de modo a identificar aspectos consensuais ou não na discus- são de uma determinada questão, respeitando o modo de pensar dos colegas e aprendendo com eles. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. p. 267. Momento de finalização | Duração: 35 minutos Exibição do vídeo “Compreensão de conceitos físicos”, de Idelfranio Moreira. Disponível em: https://www. instagram.com/tv/CAwFiclAkrk/?id= 2319378165476248292_25251020. Acesso em: 20 maio 2023. R e p ro d u ç ã o /i n s ta g ra m P ro f. I d e lf ra n io M o re ir a 149 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 149PF_CP23_NPCF_140a153.indd 149 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.instagram.com/tv/CAwFiclAkrk/?id=2319378165476248292_25251020 https://www.instagram.com/tv/CAwFiclAkrk/?id=2319378165476248292_25251020 https://www.instagram.com/tv/CAwFiclAkrk/?id=2319378165476248292_25251020 Para finalizar esta pauta, exiba o vídeo do professor Idelfranio Moreira, que costuma discutir conceitos e fenômenos de Física a partir da premis- sa: “Você sabe Física. Só não sabe que sabe!”. Assim, demonstra que há conhecimentos construídos em diversos momentos de nossa formação que são fundamentados em conceitos de várias áreas, mais especifica- mente, neste caso, em Física. No vídeo em questão, é relatada uma situação em que estudantes rei- vindicam a revisão/anulação de uma dada questão de vestibular que abor- da o objeto de conhecimento relacionado à frequência de luzes de cores e ao espectro visível por julgarem se tratar de uma situação-problema im- possível de ser resolvida com os dados fornecidos no enunciado. No entanto, o professor demonstra que, recuperando o conhecimento sobre a ordem com que os lápis de cor são dispostos em um caixa (a mesma ordem observada no arco-íris) e ressaltando os sentidos de termos como “infravermelho” e “ultravioleta” (que se relacionam, por exemplo, com o obje- to de conhecimento de Língua Portuguesa “formação de palavras”, uma vez que é evidenciado os significados dos prefixosinfra- e ultra-1), é possível concluir que a cor verde tem frequência maior que a cor amarela, que era justamente o objeto da situação-problema da questão que serviu de exem- plo para a reflexão que ele propõe. Tendo isso em mente, pergunte ao grupo como a situação narrada no vídeo e as reflexões que são incitadas pelo professor dialogam com a te- mática desta pauta acerca da estigmatização de certos componentes curriculares (e mesmo acerca dos processos avaliativos sobre os quais tratou a pauta anterior). Algumas perguntas podem nortear este momento: * Você já havia realizado a associação entre as cores dos lápis de cor ou as do arco-íris com o conceito de frequência? Como sua resposta se rela- ciona com seu processo de aprendizagem no tempo escolar e sua relação com o componente curricular Física/Ciências? * Como você avalia essa estratégia didática baseada na analogia? Como recuperar conhecimentos sobre o cotidiano pode ser produtivo para a promoção de aprendizagens significativas? * Como você relacionaria esse vídeo e as discussões mais específicas desta pauta ao processo de recomposição de aprendizagens? O objetivo desse momento é que os professores compartilhem do en- tendimento de que, assim como ocorre em Matemática, outros compo- nentes curriculares, também foram, historicamente, se associando à ideia de dificuldade, em boa medida, pela cristalização de práticas que não se valem de estratégias para didatização adequada de conhecimentos. Além disso, espera-se que concluam que abordar assuntos promovendo a ob- servação da realidade dos estudantes e a mobilização de seus conheci- mentos prévios é crucial para a aprendizagem e para a recomposição dela, quando for necessário. 1 Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esses prefixos são definidos, respectiva- mente, da seguinte maneira: “infra-: Exprime a noção de posição inferior” e “ultra-: Elemento que significa além de, extremamente, excessivamente”. Disponível em: https://dicionario.priberam. org/infra e https://dicionario.priberam.org/ultra. Acesso em: 19 jun. 2023. Il u s tr a ç õ e s : P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 150 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 150PF_CP23_NPCF_140a153.indd 150 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://dicionario.priberam.org/infra https://dicionario.priberam.org/infra https://dicionario.priberam.org/ultra Objetivo: evidenciar a relevância de apreciações docentes acerca do desempenho dos estudantes no desenvolvimento das atividades propostas. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor com acesso à internet, pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esfero- gráficas; bloco de papel ou similar. PAUTA 6 AÇÕES DOCENTES EM PROL DO ENCORAJAMENTO DOS ESTUDANTES Momento de fruição | Duração: 5 minutos Exibição do vídeo “Milágrimas”, de Itamar Assumpção. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bDZef_GzqZ4. Acesso em: 22 jun. 2023. Reproduza o vídeo com a canção “Milágrimas”, de Itamar Assumpção, e incentive os participantes a compartilhar sucintamente suas impres- sões e sensações a respeito da canção. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l fi lo s c a r 151 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 151PF_CP23_NPCF_140a153.indd 151 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.youtube.com/watch?v=bDZef_GzqZ4 Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição de cena do filme Como estrelas na Terra. Direção de Aamir Khan. Índia: Bollywood, 2007. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=YamaG0LebWQ. Acesso em: 19 jun. 2023. Reprodução/Aamir Khan Productions Antes da exibição da cena do filme indiano, procure contextuali- zar o grupo a respeito do enredo do filme e em que altura da trama a cena selecionada ocorre. Uma estratégia interessante seria fazer uso da metodologia ativa de sala invertida, propondo aos professores que assistam ao filme antes do encontro. O filme pode ser encontrado em plataformas de streaming e de vídeos. Após a exibição da cena, promova reflexões guiadas pelas seguintes questões: * Em que consiste a abordagem do professor, em sala de aula, para chamar a atenção do estudante com dificuldade de aprendizagem? Qual é a pertinência dela? É importante salientar que o foco do vídeo é a desestabilização de uma concepção equivocada de que um estudante com necessidades específicas tem menos capacidade de aprender (neste caso, o estu- dante tem dislexia), o que é, muitas vezes, internalizado pela criança, inviabilizando aprendizagens pelo sentimento de inferioridade ou pela incompreensão do que ocorre. Também é necessário ressaltar que, para desfazer essa ideia, a prática docente precisa ser pautada pela atenção, pelo cuidado e pela preocupação com o outro. No filme, o professor, preocupado com os sinais de apatia/tristeza do estudante, adota ações em prol da melhoria da situação. O próximo momento fo- cará esse aspecto. 152 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 152PF_CP23_NPCF_140a153.indd 152 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.youtube.com/watch?v=YamaG0LebWQ https://www.youtube.com/watch?v=YamaG0LebWQ Momento de finalização | Duração: 35 minutos Embora tenhamos, no caso do filme, um exemplo de dificuldade de aprendizagem pontual, que demanda intervenções pedagó- gicas específicas, o paralelo com a recompo- sição das aprendizagens (que pressupõe o olhar voltado para todo um grupo com lacu- nas) é de suma importância, porque as ações conjuntas são imprescindíveis em todos os casos. Na socialização, recomenda-se resga- tar as ações pedagógicas promovidas pelo professor e como elas foram essenciais para o sucesso da recuperação das aprendizagens do estudante em questão, observando que seriam também pertinentes caso fossem vol- tadas para a recomposição de aprendizagens de um grupo. A saber, o professor: 1 revisitou o desempenho do estudante nas avaliações anteriores; 2 verificou que os “erros” eram recorrentes e da mesma natureza (o que apontava para um padrão); 3 conversou com os familiares do estudante e explicou as razões que justificam o baixo desempenho em leitura e escrita; 4 deixou os diretores da instituição a par da situação, propondo aulas de reforço no contraturno escolar; 5 conduziu aulas particulares com o estudante, que incluíam saídas pedagógicas; 6 promoveu um concurso de pinturas, de modo a favorecer outras habilidades do estudante. Momento de construção/ socialização | Duração: 40 minutos Exibição de cenas do filme Como estrelas na Terra. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=5OIu3ldeaTA. Acesso em: 19 abr. 2023. Depois da reflexão sobre a mediação do professor em sala de aula, solicite aos pro- fessores que se reúnam em grupo, analisem outras ações do personagem fora de sala de aula e listem-nas em um bloco de papel. Para este momento, escolha e exiba outros trechos do filme. Oriente-os a associar cada ação do profes- sor com aquelas previstas para a recomposi- ção de aprendizagens trabalhadas na Pauta 2. Se achar necessário, promova um momento de resgate delas, que devem ser relembradas pelo grupo e registradas no quadro para início da atividade. P e o p le Im a g e s .c o m - Y u ri A /S h u tt e rs to ck 153 PF_CP23_NPCF_140a153.indd 153PF_CP23_NPCF_140a153.indd 153 12/07/23 09:1912/07/23 09:19 https://www.youtube.com/watch?v=5OIu3ldeaTA https://www.youtube.com/watch?v=5OIu3ldeaTA Objetivo: discutir os desafios da mediação docente, a fim de não só despertar o interesse dos estudantes pelos objetos de conhecimento que estão sendo estudados, mas também de co- laborar para formação de agentes de transformação no mundo. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor com acesso à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esferográficas;bloco de papel ou similar; cópias impressas do formulário “Igualdade de gênero: um mapeamento”. PAUTA 7 A MEDIAÇÃO DOCENTE A RESPEITO DE TEMAS POLÊMICOS Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do poema “Eu-mulher”, de Conceição Evaristo. Eu-Mulher Uma gota de leite me escorre entre os seios. Uma mancha de sangue me enfeita entre as pernas. Meia palavra mordida me foge da boca. Vagos desejos insinuam esperanças. Eu-mulher em rios vermelhos inauguro a vida. Em baixa voz violento os tímpanos do mundo. Antevejo. Antecipo. Antes-vivo Antes – agora – o que há de vir. Eu fêmea-matriz. Eu força-motriz. Eu-mulher abrigo da semente moto-contínuo do mundo. EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2017, p. 23. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 154 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 154PF_CP23_NPCF_154a171.indd 154 12/07/23 10:3912/07/23 10:39 Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Leitura de quadrinhos, de Savron. Antes da leitura dos quadrinhos, resgate a seguinte definição do gê- nero textual roda de conversa, que faz parte do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: A roda de conversa é o momento privilegiado de diálogo e intercâm- bio de ideias. Por meio desse exercício cotidiano as crianças podem ampliar suas capacidades comunicativas, como a fluência para fa- lar, perguntar, expor suas ideias, dúvidas e descobertas, ampliar seu vocabulário e aprender a valorizar o grupo como instância de tro- ca e aprendizagem. A participação na roda permite que as crianças aprendam a olhar e a ouvir os amigos, trocando experiências. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. Considerando essa definição e as inferências que a leitura dos quadri- nhos pode gerar, conduza a discussão a partir das seguintes questões: S a v r o n /I n s ti tu to P o r v ir 155 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 155PF_CP23_NPCF_154a171.indd 155 12/07/23 10:3912/07/23 10:39 * Amplamente utilizada na Educação Infantil, as rodas de conversa são também de suma importância para todos os demais seg- mentos da escolarização. Por quê? Procure apoiar-se na BNCC para respaldar sua res- posta. * O que se espera de uma mediação docen- te durante uma roda de conversa? * Há temas interditos, que não devem ser tra- balhos na escola? Justifique. * Como as equipes gestora e docente po- dem se preparar, em colaboração, para uma realização satisfatória de rodas de conver- sa, principalmente quando o tema é consi- derado polêmico ou sensível? O intuito deste momento é refletir sobre as potencialidades das rodas de conversas a fim de contribuir para o desenvolvimento da autonomia dos estudantes, dentre outros aspectos, exigin- do-se que a mediação docente, por sua vez, seja pertinente, respeitosa, acolhedora e firme. Momento de construção/ socialização | Duração: 40 minutos Leitura do texto “Gestores: como trabalhar igualdade de gênero na escola”, Nova Escola. Disponível em: https://box.novaescola.org.br/ etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/ gestores-como-trabalhar-igualdade-de -genero-na-escola. Acesso em: 20 abr. 2023. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra Leitura do texto “Para baixar: modelo para o diagnóstico do que a equipe docente pensa sobre igualdade de gênero”, de Daniele Pechi, e preenchimento do formulário “Igualdade gênero: um mapeamento”, Nova Escola. Disponível em: https://box.novaescola.org.br/ etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/ gestores-como-trabalhar-igualdade-de -genero-na-escola/conteudo/21148. Acesso em: 20 abr. 2023. Depois das reflexões sobre a relevância das rodas de conversa e sobre a existência de temas importantes que demandam uma abordagem docente adequada, sugerimos retomar o tema do quadrinho de Savron e de- monstrar como “igualdade de gêneros” po- deria ser debatido entre a equipe. Para isso, recomendamos a leitura prévia do material publicado pela Nova Escola. Nos primeiros 15 minutos deste momen- to, solicite aos professores que preencham o formulário, que visa mapear o que pensa o grupo a respeito da igualdade de gênero e está disponível para download no link indi- cado ao final do texto de Daniele Pechi. Re- comenda-se distribuir cópias impressas aos participantes. Depois de concluído o preenchimento do formulário, peça aos professores que se reú- nam em grupos de, no mínimo, quatro pesso- as para compartilharem suas respostas e con- siderações sobre as questões propostas nele. Oriente-os a escolher uma pessoa que fará o papel de mediador da roda. Durante esse mo- mento, circule pelos grupos e observe como as conversas se desenrolam. Participe delas, brevemente, se julgar necessário. 156 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 156PF_CP23_NPCF_154a171.indd 156 12/07/23 10:3912/07/23 10:39 https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola/conteudo/21148 https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola/conteudo/21148 https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola/conteudo/21148 https://box.novaescola.org.br/etapa/3/educacao-fundamental-2/caixa/390/gestores-como-trabalhar-igualdade-de-genero-na-escola/conteudo/21148 Momento de finalização Duração: 35 minutos Leitura do texto “Questões de gênero: caminhos para abordar o assunto em sala de aula”, de Paula Salas para a Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/ conteudo/21183/questoes-de-genero -caminhos-para-abordar-o-assunto-em -sala-de-aula. Acesso em: 20 abr. 2023. Finalizado o momento anterior, solicite ao mediador de cada grupo que socialize com todos como as conversas ocorreram: * Todos chegaram a algum acordo? * Houve opiniões divergentes no grupo? * Todos tiveram seu momento de fala e fo- ram ouvidos? * Todos respeitaram o momento do colega apresentar sua fala? * Foram estabelecidas regras no grupo, como o tempo que cada um poderia falar ou como solicitar o turno de fala? * Houve alguma tensão que precisou ser contornada? Ao final, faça um apanhado geral das obser- vações e oriente os docentes a ponderar sobre esses aspectos e os pontos da avaliação ao rea- lizarem rodas de conversa com os estudantes, principalmente, sobre a questão 11 do formu- lário preenchido por eles (“De que modo você acredita que podemos promover a igualdade de gênero na nossa escola?”), apresentando uma orientação geral de como a instituição es- pera que as mediações ocorram nesse sentido. Sugira a leitura de “Questões de gênero: ca- minhos para abordar o assunto em sala de aula” para aqueles que desejam promover o debate com seus estudantes de forma complemen- tar ao Capítulo 12 deste Caderno Pedagógico, que enfoca o ODS 5 – Igualdade de gênero. S e v e n ty F o u r/ S h u tt e rs to ck 157 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 157PF_CP23_NPCF_154a171.indd 157 12/07/23 10:3912/07/23 10:39 https://novaescola.org.br/conteudo/21183/questoes-de-genero-caminhos-para-abordar-o-assunto-em-sala-de-aula https://novaescola.org.br/conteudo/21183/questoes-de-genero-caminhos-para-abordar-o-assunto-em-sala-de-aulahttps://novaescola.org.br/conteudo/21183/questoes-de-genero-caminhos-para-abordar-o-assunto-em-sala-de-aula https://novaescola.org.br/conteudo/21183/questoes-de-genero-caminhos-para-abordar-o-assunto-em-sala-de-aula Objetivo: ponderar a respeito de práticas docentes que oportunizem o desenvolvimento da autonomia na resolução de situações-problema, desde os Anos iniciais. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor com acesso à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esfero- gráficas; bloco de papel ou similar; arquivo digital da Base Nacio- nal Comum Curricular, acesso ao site Mentimeter. PAUTA 8 REFLEXÕES ACERCA DAS INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS NOS ANOS INICIAIS Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do poema “Verbo Ser”, de Carlos Drummond de Andrade. Promova para os professores a leitura do poe- ma “Verbo Ser”, que pode ser encontrado na obra Boitempo-Menino Antigo, da Companhia das Letras. Abra espaço para os professores exporem o que sentiram e acharam a respeito do poema. R e p ro d u ç ã o /E d it o ra C o m p a n h ia d a s L e tr a s Ilustrações: Paula de Aguiar/Arquivo da editora 158 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 158PF_CP23_NPCF_154a171.indd 158 12/07/23 10:3912/07/23 10:39 Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição de vídeo. Disponível em: https://www.instagram. com/p/CiyEkj7jpvn/. Acesso em: 21 abr. 2023. Acesso ao site Mentimeter. Disponível em: https://www.mentimeter. com/pt-BR. Acesso em: 21 abr. 2023. No vídeo, observamos como uma criança procede diante da demanda que se impõe a ela a partir de um brinquedo educativo. Com a mediação silenciosa de uma pessoa adulta, a criança procura encaixar cinco pinos cilíndricos nos respectivos espaços vazios da caixa, o que é realizado, principalmente, pela observação do tamanho do diâmetro desses espa- ços e das diferenças de largura dos pinos, o que é reforçado pela sensa- ção promovida ao manuseá-los. No entanto, nesse empreendimento, nem sempre o encaixe se dá perfeitamente nas primeiras tentativas, o que leva a criança a reconsi- derar sua ação, ponderando outras possibilidades, como trocar um pino que havia encaixado com alguma sobra, por perceber que outro maior não coube em nenhum dos outros espaços que restavam. Essa atenção ao seu próprio desempenho no decorrer de toda a atividade ocorre até que haja o cumprimento do objetivo, em que todas as cinco peças são adequadamente encaixadas – o que resulta em demonstração de feli- cidade pela conclusão satisfatória (além da possibilidade de repeti-la). Isso ocorre, sobretudo, pela autorregulação da aprendizagem que está sendo desenvolvida e que será primordial para a construção de co- nhecimentos em outras etapas da escolarização, promovida em parte pela intervenção pedagógica que se dá pela observação e pelo respeito ao tempo do outro. Para fins de discussão, considere a seguinte defini- ção de autorregulação extraída de Linhares e Martins. Os processos regulatórios no desenvolvimento ocorrem de forma hie- rarquizada, a fim de atingir uma maior organização, complexidade e intencionalidade (Feldman, 2009; Klein, Gaspardo & Linhares, 2011; Klein, Gaspardo, Martinez, Grunau & Linhares, 2009; Olson, Sameroff, R e p ro d u ç ã o /I n s ta g ra m G i S a in t- C la ir 159 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 159PF_CP23_NPCF_154a171.indd 159 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.instagram.com/p/CiyEkj7jpvn/ https://www.instagram.com/p/CiyEkj7jpvn/ https://www.mentimeter.com/pt-BR https://www.mentimeter.com/pt-BR Lunkenheimer & Kerr, 2009; Rothbart & Bates, 2006; Sameroff, 2009). De acordo com esses autores, nos processos regulatórios iniciais, du- rante a fase neonatal, ocorre predominantemente a regulação fisioló- gica, que inclui, por exemplo, o ciclo de vigília e sono, e o controle de temperatura corporal. Em seguida, até 24 meses de idade, a criança adquire a regulação emocional, na qual é importante atingir o con- trole de emoções básicas, como o medo e a raiva. Entre 3 e 4 anos de idade, com os avanços dos processos de atenção (focalização e trans- ferência da atenção, por exemplo) no desenvolvimento da criança, emerge a regulação do comportamento. Esta pode ser identificada na inibição de impulsos e pela habilidade de adiar gratificações. Portan- to, nesta trajetória de organização, nota-se que, na fase pré-escolar, ocorre o surgimento do processo autorregulatório no desenvolvimen- to das crianças. Este integra diferentes processos regulatórios, que vão favorecer sua adaptação emocional e comportamental, conside- rando as demandas internas e externas ao organismo. Define-se, assim, a autorregulação como a habilidade de monitorar e modular a emoção, a cognição e o comportamento, para atingir um objetivo e/ou adaptar às demandas cognitivas e sociais para situações específicas (Sroufe, 1995). Do controle externo passa a haver uma re- gulação interna, decorrente do processo de internalização e controle voluntário mediado pelo próprio indivíduo. De modo interessante, ve- rifica-se que, desde muito cedo no desenvolvimento, as crianças pro- tegem-se do excesso de ativação ou estimulação (Kopp, 1982). Como exemplo, pode-se identificar a busca por regulação do organismo nos seguintes indicadores: pegar a chupeta ou sugar o dedo para se acal- mar, desviar o olhar, virar cabeça, fechar os olhos ou distrair-se, a fim de proteger-se da fonte de estresse ou de um estímulo novo/estranho; buscar colo ou consolo (aconchego). (2015, p. 283). Tendo isso em vista, procure refletir junto ao grupo a partir dos se- guintes questionamentos: * Em que medida a atitude de quem assiste à criança nas tentativas de acertos e ajustes de rotas nos faz pensar sobre as inúmeras ve- zes que a nossa atitude carregada de “boa intenção” limitou a apren- dizagem dos estudantes? Como são as nossas práticas docentes quanto a esse aspecto? * Como você vê o incentivo da autonomia da criança a par- tir do vídeo e do conceito de autorregulação da aprendi- zagem? Cite, como exemplo, uma situação em que esse processo foi promovido ou presenciado por você. Após a reflexão, pergunte aos professores como eles carac- terizariam a cena reproduzida. Peça-lhes que utilizem apenas uma palavra para defini-la. Registre no quadro ou no flip-chart tudo que adjetiva o vídeo, criando uma nuvem de palavras. Se houver disponibilidade e familiaridade com o recurso, isso pode ser feito por meio do site Mentimeter. Proponha a ob- servação dessa “nuvem” e reflitam conjuntamente sobre o que pode ser inferido quanto à leitura do grupo em relação à cena. M r B o ik o O le g /S h u tt e rs to ck Paula d e A guia r/A rq uiv o d a e dito ra 160 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 160PF_CP23_NPCF_154a171.indd 160 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Leitura do texto “O processo da autorregulação no desenvolvimento de crianças”, de Maria Beatriz Martins Linhares e Carolina Beatriz Savegnago Martins. Disponível em: https://www.scielo.br/j/estpsi/a/ HGWM5kyQb744C3YkT6YgKGp/?lang=pt. Acesso em: 19 jun. 2023. Leitura do texto “Saiba o que é e como desenvolver a autorregulação da aprendizagem”, Saraiva Educação. Disponível em: https://blog.saraivaeducacao.com.br/autorregulacao -da-aprendizagem/. Acesso em: 20 maio 2023. Neste momento, solicite aos professores que se organizem em quatro grupos e se dediquem à leitura dos textos indicados da seguinte maneira: Grupo 1 – Leitura do item “Regulação Cognitiva”, do texto “O processo da autorregulação no desenvolvimento de crianças”. Grupo 2 – Leitura do item “Regulação Emocional”, do texto “O processo da autorregulação no desenvolvimento de crianças”. Grupo 3 – Leitura do item “Regulação Comportamental”, do texto “O pro- cesso da autorregulação no desenvolvimento de crianças”. Grupo 4 – Leitura do texto “Saiba o que é e como desenvolvera autorre- gulação da aprendizagem”. Oriente os professores a construírem coletivamente uma topicalização dos pontos mais importantes dos textos li- dos. Em seguida, peça a um represen- tante de cada grupo que exponha aos demais o que foi apreendido durante a leitura e a discussão. É importante que esse movimento de socialização seja pautado pela compreensão de que a construção da autonomia, uma das com- petências gerais da BNCC, é tributária do desenvolvimento da autorregulação da aprendizagem, que pressupõe um processo de autorreflexão e autoavalia- ção que os estudantes precisam fazer ao monitorar sua própria aprendizagem. Isso ocorre, como ficará evidenciado na discussão, também pela regulação de aspectos emocionais, o que é primordial para a manutenção do foco, da atenção, da persistência, etc. D e a n D r o b o t/ S h u tt e r s to c k 161 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 161PF_CP23_NPCF_154a171.indd 161 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.scielo.br/j/estpsi/a/HGWM5kyQb744C3YkT6YgKGp/?lang=pt https://www.scielo.br/j/estpsi/a/HGWM5kyQb744C3YkT6YgKGp/?lang=pt https://blog.saraivaeducacao.com.br/autorregulacao-da-aprendizagem/ https://blog.saraivaeducacao.com.br/autorregulacao-da-aprendizagem/ Momento de finalização Duração: 35 minutos Exibição de vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/ shorts/8eMZhzwJnLk/. Acesso em: 21 maio 2023. Leitura do texto “Os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para a Educação Infantil”, da BNCC Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ abase/#infantil/os-objetivos-de-aprendizagem-e-desenvolvimento -para-a-educacao-infantil. Acesso em: 21 maio 2023. Neste momento de finalização, proponha aos professores que as- sistam ao vídeo e observem o comportamento da criança ao tentar inserir um canudo no orifício de um copo. Diante de tentativas frus- tradas de atingir esse objetivo, ela demonstra impaciência e desiste de continuar nessa tarefa, o que gera risos de quem assiste à cena in loco e possivelmente de quem a assiste por meio dos diversos com- partilhamentos do vídeo, se considerarmos as dinâmicas das redes. A reação dessa criança, ilustrada no vídeo, é bastante comum e pode ser um convite à intervenção pedagógica. Levando em conta o que foi discutido nos momentos anteriores, so- licite aos professores que retomem o texto da BNCC quanto aos ob- jetivos de aprendizagem e desenvolvimento para a Educação Infantil e ao incentivo ao desenvolvimento da autonomia, de modo a pensarem em possibilidades de intervenção pedagógica nessa situação. É inte- ressante que eles se reúnam em grupos, discutam entre si e, posterior- mente, compartilhem com os colegas. Na mediação dessa discussão, é importante ressaltar a importância de se pensar estratégias didáticas que ajudem a criança a desenvolver autoconfiança em suas potencialidades para enfrentar desafios e ter segurança para comunicar seus sentimentos a colegas e adultos, o que é imprescindível para a ampliação das interações em prol da atitude cooperativa. Assim, a criança, diante de entraves, precisa se sentir con- fortável para pedir ajuda, para sinalizar dificuldades, porque sabe que, assim, poderá realizar o que deseja. w e e d e zi g n /S h u tt e rs to ck R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l T u d o A q u i 162 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 162PF_CP23_NPCF_154a171.indd 162 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.youtube.com/shorts/8eMZhzwJnLk/ https://www.youtube.com/shorts/8eMZhzwJnLk/ http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil/os-objetivos-de-aprendizagem-e-desenvolvimento-para-a-educacao-infantil http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil/os-objetivos-de-aprendizagem-e-desenvolvimento-para-a-educacao-infantil http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil/os-objetivos-de-aprendizagem-e-desenvolvimento-para-a-educacao-infantil Objetivo: ressaltar a necessidade de valorizar os caminhos percorridos pelos estudantes na construção de conhecimentos, contribuindo para uma aprendizagem colaborativa. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor com acesso à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esfero- gráficas; bloco de papel, post-it ou similar. PAUTA 9 OS POSSÍVEIS PERCURSOS NO DESENVOLVIMENTO DA APRENDIZAGEM Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do poema “O menino que carregava água na peneira”, de Manoel de Barros. O menino que carregava água na peneira Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio, do que do cheio. Falava que vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito, porque gostava de carregar água na peneira. P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 163 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 163PF_CP23_NPCF_154a171.indd 163 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as [palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de modificar a tarde botando [uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor. A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens, e algumas pessoas vão te amar por seus [despropósitos! BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 469-470. Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição de vídeo. Disponível em: https://www.instagram.com/p/ CiXUrvvDHAf/. Acesso em: 21 abr. 2023. Para esse momento, vamos iniciar relem- brando o que Vygotski nos fala sobre a ação de mediar. [...] as crianças resolvem suas tarefas prá- ticas com a ajuda da fala, assim como dos olhos e das mãos. Essa unidade de percep- ção, fala e ação, que, em última instância, provoca a internalização do campo visual, constitui o objeto central de qualquer análi- se da origem das formas caracteristicamen- te humanas de comportamento. (1991, p. 32). R e p ro d u ç ã o /I n s ta g ra m P e q u e ñ o s P la c e re s 164 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 164PF_CP23_NPCF_154a171.indd 164 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.instagram.com/p/CiXUrvvDHAf/ https://www.instagram.com/p/CiXUrvvDHAf/ Dessa forma, é possível constatar que as crianças realizam suas atividades práticas por meio da combinação entre fala, visão e ação manual. Essa interação entre percepção, ex- pressão verbal e ações executadas é funda- mental para assimilação do campo visual e representa o elemento central de qualquer análise acerca das origens dos comporta- mentos típicos do ser humano. É essencial estabelecer relações de inte- ração e mediação com as crianças, evitando o distanciamento, com o propósito de fo- mentar suas vivências e experiências pré- vias, assim como proteger tudo aquilo que a criança traz consigo do ambiente fora da es- cola. Esses elementos podem ser fundamen- tais para que a criança desenvolva e construa novos significados e aprendizados dentro do contexto escolar. No nosso momento de reflexão, é possí- vel perceber como a criança é favorecida por participar de uma construção em colaboração com um adulto, apresentando um percurso de multiplicidades de aprendizagem. No vídeo proposto, temos ilustrada uma si- tuação comunicativa, em seio familiar, em que um adulto (possivelmente a avó, o que também conferesegurança e confiança, um campo fér- til para aprendizagens) propõe à criança que tente assoprar um apito, valendo-se de uma demonstração de como fazê-lo. É importante ressaltar que a criança ainda não sabe utilizar adequadamente o apito, mas já demonstra ter construído, ao menos, dois conhecimen- tos bastante relevantes: sabe qual é a função do objeto e sabe que é preciso acioná-lo pela boca por meio de um sopro. A criança, então, utiliza-se de algumas es- tratégias, fruto de um pensamento reflexivo, para “resolver o desafio”, realizar a atividade a que foi convidada. Como a ação de assoprar não é bem-sucedida, ou seja, não ativa o apito como viu demonstrado pela mulher, recorre a uma alternativa: faz um barulho que se asse- melha ao som (que ela também sabe) que é próprio de um apito. Muito mais do que não sabe, o vídeo demons- tra o tanto que a criança já sabe. Além de também evidenciar a importância das atividades de cooperação. Considerando isso, proponha reflexões com o grupo sobre a valoriza- ção dessas construções, fruto de colaborações, que podem ser diversas em uma turma. Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Exibição do vídeo “Badulaque + Barbatuques – Tum Pá”, do canal Duo Badulaque. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=jcLAGhhU4NI. Acesso em: 21 abr. 2023. Early Spring/Shutterstock R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l D u o B a d u la q u e 165 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 165PF_CP23_NPCF_154a171.indd 165 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.youtube.com/watch?v=jcLAGhhU4NI https://www.youtube.com/watch?v=jcLAGhhU4NI Exibição do vídeo “Tum Pá (1/3) – Percussão Corporal” – Barbatuques”, do canal Música em pauta. Disponível: https://www.youtube.com/ watch?v=xCti6Le0v4A. Acesso em: 21 abr. 2023. Considerando as reflexões sobre a importância das construções de co- nhecimento decorrentes de cooperações favorecidas pela mediação do- cente, solicite ao grupo que assista aos dois vídeos relacionados à canção “Tum Pá”, do grupo Barbatuques. No primeiro, há uma apresentação do gru- po, em que há demonstração dos movimentos corporais que se associam à música. No segundo, há uma aula assíncrona, em que uma professora ensina esses movimentos referentes à primeira parte da música. O propósito dessa comparação é observar a maneira como as estra- tégias didáticas são utilizadas para beneficiar a colaboração dos estu- dantes e favorecer a aprendizagem. Tendo isso em vista, proponha ao grupo que elabore uma lista dos recursos a que a professora recorre para realizar a mediação. Espera-se que os professores apontem aspec- tos, como: * o uso de etiquetas para identificar a parte do corpo que será movi- mentada; * a distinção de cores para diferenciar o tipo de som e de movimento a ser apreendido; * o ritmo com que as informações são fornecidas; * a repetição de instrução para melhor memorização; * a complexificação paulatina dos movimentos; * a sinalização pelo silêncio de que é a vez de o estudante cantar. Momento de finalização | Duração: 35 minutos Para a finalização desta pauta, peça aos professores que elenquem oral- mente o que foi observado nos momentos anteriores, de modo a construir um mapa conceitual associado à prática docente. Para tal, tenha em mãos folhas de cartolina ou outro tipo de papel semelhante, de preferência com cores diferentes, para compor uma categorização dessas práticas. R e p ro d u ç ã o /Y o u tu b e ; c a n a l M ú s ic a e m P a u ta 166 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 166PF_CP23_NPCF_154a171.indd 166 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.youtube.com/watch?v=xCti6Le0v4A https://www.youtube.com/watch?v=xCti6Le0v4A Por exemplo: uma professora ou um professor pode mudar a en- tonação do enunciado para sinalizar aos estudantes que alguma ação deve ser realizada ou que alguma informação é bem importante, dan- do ênfase em um dado momento; pode se valer de recursos visuais para discriminar elementos ou para indicar etapas de um processo, por meio de etiquetas ou rótulos com cores, formatos e materiais distintos; ainda pode usar aspectos relacionados à oralidade, como a gesticu- lação ou o silêncio em momentos específicos, para promover deter- minados sentidos que levem à ação dos estudantes e favoreçam as aprendizagens. Assim, é possível agrupar algumas dessas estratégias em categorias (como “Recursos visuais” ou “Prosódia”, por exemplo), que seriam construídas coletivamente. Alternativamente, essa atividade pode ser realizada como registro no quadro ou no flip-chart. É importante que os professores também procurem incluir outras estratégias didáticas (além daquelas observa- das nos vídeos dos momentos anteriores) que costumam utilizar em suas mediações em sala de aula e possam, diante das categorias esta- belecidas, refletir sobre as potencialidades de cada uma delas. Exemplo de como o mapa conceitual pode ser produzido. CATEGORIA 4 ESTRATÉGIA 1 ESTRATÉGIA 2 CATEGORIA 5 ESTRATÉGIA 1 ESTRATÉGIA 2 CATEGORIA 1 ESTRATÉGIA 1 ESTRATÉGIA 2 CATEGORIA 2 ESTRATÉGIA 1 ESTRATÉGIA 2 CATEGORIA 3 ESTRATÉGIA 1 ESTRATÉGIA 2 Recursos visuais Uso de etiquetas ou rótulos Uso de cores distintas Gesticulação ESTRATÉGIAS DIDÁTICAÉ ESTRATÉGIAS DIDÁTICAÉ Prosódia Mudança de ritÉo do enunciado Pausas e sçlêncios retórçcos F re e p ik /A rq u iv o d a e d it o ra 167 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 167PF_CP23_NPCF_154a171.indd 167 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 Objetivo: refletir sobre as estratégias de organização da rotina escolar, tendo em vista algumas etapas de desenvolvimento so- ciocognitivo recorrentes. Material: quadro, lousa ou flip-chart; projetor com acesso à internet; pincel atômico/giz para quadro/lousa; canetas esferográ- ficas; bloco de papel ou similar; arquivo digital da Base Nacional Comum Curricular. PAUTA 10 A IMPORTÂNCIA DA ROTINA ESCOLAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL Momento de fruição | Duração: 5 minutos Leitura do texto “A função da Arte/1”, de Eduardo Galeano. Promova para os professores a leitura do texto “A função da Arte/1”, de Eduardo Galeano. O texto pode ser encontrado na obra O livro dos abraços, publicado pela L&PM. Incentive os professores a comentarem brevemente o que acharam e sentiram a respeito do texto. R e p ro d u ç ã o /E d it o ra L & P M P a u la d e A g u ia r/ A rq u iv o d a e d it o ra 168 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 168PF_CP23_NPCF_154a171.indd 168 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 Momento de reflexão | Duração: 40 minutos Exibição de vídeo. Disponível em: https://www.instagram.com/p/ CgkicHUDb3d/. Acesso em: 21 abr. 2023. Após a exibição do vídeo, ressalte que a Educação Infantil, por ser o primeiro segmen- to da escolarização, tem um papel importan- te para que a criança tenha um convívio social além do meio familiar. É por isso que falar sobre rotina na Educação Infantil é tão importante. Nesta pauta formativa, queremos evidenciar que a rotina nesta etapa busca uma personali- zação, de acordo com a turma que está sendo trabalhada, com atividades que estimulam o desenvolvimento das crianças. Procure retomar os desafios enfrentados durante a pandemia, pois como boa parte dos estudantes que ingressou no Ensino Fundamental pode não ter tido uma rotina escolar adequada, pode se mostrar neces- sária a recomposição de aprendizagens também nos Anos iniciais. Ter um olhar atento para a maneira como os estudantes estão se relacio- nando com as pessoas em sua volta cotidianamente é imprescindível. Além disso, faz-se necessário observar como ocorreu a sua apren- dizagem no período de isolamento. O que leram? Assistiram a quê? O que ouviram? O que jogaram? Com quem conviveram? Todos esses indícios são importantes para a introdução de novos conhecimentos e para as possíveis adaptações no ambiente escolar e fora dele. Vale mencionar que essa observância deve ser periódica e o seuregistro é crucial para os momentos de planejamento. Momento de construção/socialização | Duração: 40 minutos Leitura do texto “Direitos de aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil”, BNCC. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil. Acesso em: 20 abr. 2023. R e p ro d u ç ã o /I n s ta g ra m R a fa e ll a T u m a 169 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 169PF_CP23_NPCF_154a171.indd 169 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 https://www.instagram.com/p/CgkicHUDb3d/ https://www.instagram.com/p/CgkicHUDb3d/ http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#infantil Depois das reflexões do momento anterior, solicite aos professores que se organizem em grupos menores para uma participação mais efe- tiva nas discussões, tomando como norte os seguintes apontamentos: * Qual é a importância das atividades de rotina no planejamento esco- lar? Como podemos planejá-las? * Quais são as principais rotinas trazidas para o contexto de sala de aula da Educação Infantil? Qual é a relevância delas para a constru- ção da identidade e da subjetividade das crianças? * Como aproveitar os ambientes ao ar livre para realizar atividades roti- neiras? (É interessante salientar, neste ponto, que realizar atividades em ambientes ao ar livre pode ser uma excelente alternativa para que os estudantes compreendam que a aprendizagem ocorre em vários contextos e ambientes, bem como auxiliar aqueles que ainda apre- sentam alguma dificuldade de socialização decorrente do período de isolamento social). * Algumas atividades do cotidiano escolar possibilitam momentos significativos de rotina escolar. Discutam sobre quais são as ativi- dades-base da rotina escolar e por que elas são indispensáveis às crianças da Educação Infantil. Em seguida, peça a um representante de cada grupo que compar- tilhe suas respostas oralmente, e em seguida as registre no quadro ou no flip-chart. Depois da socialização de todas as respostas, peça aos professores que relembrem os seis direitos de aprendizagens e de- senvolvimento e os relacionem às respostas fornecidas. DIREITOS DE APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL • Conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conheci- mento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às dife- renças entre as pessoas. • Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimen- tos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais. • Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambien- tes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conheci- mentos, decidindo e se posicionando. • Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, pala- vras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, obje- tos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia. Paula de Aguiar/Arquivo da editora 170 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 170PF_CP23_NPCF_154a171.indd 170 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 • Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas neces- sidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens. • Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de per- tencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Para melhor correlacionar os direitos de aprendizagem pontuados pela BNCC com as respostas fornecidas pelos professores, sugerimos a reflexão do boxe ao lado. Momento de finalização | Duração: 35 minutos Após o momento de construção, procure ressaltar com o grupo que as rotinas escolares promovem senso de segurança, coletivida- de e responsabilidade e colaboram para a construção da autonomia, dentre outros aspectos. Tendo isso em vista, para finalizar esta pauta, apresente aos professores o seguinte quadro (ele pode ser projetado, reproduzido na lousa, no flip-chart, etc.) com os seis Direitos de apren- dizagem e desenvolvimento na Educação Infantil. CONVIVER BRINCAR PARTICIPAR EXPLORAR EXPRESSAR CONHECER-SE Solicite-lhes que, conjuntamente, listem possíveis atividades de ro- tina que contribuam para a garantia desses direitos e que possam ser incorporadas no planejamento escolar. De que modo as atividades de rotina podem auxiliar na garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes? M o n k e y B u s in e s s /S h u tt e rs to ck 171 PF_CP23_NPCF_154a171.indd 171PF_CP23_NPCF_154a171.indd 171 12/07/23 10:4012/07/23 10:40 R E F E R Ê N C I AS B I B L I O G R Á F I CAS Capítulo 1 BAZERMAN, Charles. Systems of genre and the enactment of social intentions. In: FREEDMAN, Aviva; MEDWAY, Peter (ed.). Genre and the new rethoric. London: Taylor & Francis, 1994. p. 79-101. BHATIA, Vijay K. Worlds of written discourse: a genre-based view. London: Continuum, 2004. BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Caderno de Educação em Direitos Humanos – Educação em Direitos Humanos: Diretrizes Nacionais. Brasília, DF: Coordenação Geral de Educação em SDH/PR, Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, 2013. Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=32131 -educacao-dh-diretrizesnacionais -pdf&Itemid=30192. Acesso em: 27 mar. 2023. DEVITT, Amy. 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