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Elaborado pela equipe Na aula de português www.naauladeportugues.com.br Leitura e interpretação de crônica, coesão, figuras de linguagem e advérbios. Leia a crônica abaixo e responda às perguntas. Meu filho não quer ler. E agora, José? Quase ninguém está lendo, ou quase ninguém está lendo tanto quanto gostaria Há poucos anos, escrevi um texto me gabando de ter transformado minha filha em leitora. Eu contava que, tal qual o personagem de Kafka, ela havia passado por uma metamorfose, tendo se transmutado em um inseto, no caso, uma traça, com a couraça abaulada de tanto consumir livros. Na ocasião, ela tinha nove anos. Como pode se esperar de uma escritora (desculpe o clichê), eu amo ler. Adoro a possibilidade de viver uma história em completo silêncio, coisa que só a literatura oferece. Meu companheiro é dos meus. Portanto, à noite, tudo o que se ouvia na nossa casa eram páginas sendo viradas e aparelhos digestivos trabalhando, já que, antes de dormir, a tela era não apenas desincentivada como proibida para menores. Essa rotina, que um coach chamaria de estratégia, acabou funcionando. Nunca obriguei minha filha a ler, mas, não podendo usar telas, tudo o que lhe restava era desenhar, olhar as manchas da parede ou se entregar à leitura. Depois de esgotar seus lápis, foi pegando um gibi aqui, um livro ali, até o dia em que a vi acordar cercada de celulose. Poderíamos ter vivido para sempre nesse paraíso se a humanidade não tivesse mordido a maçã de Zuckerberg. Ou melhor, se ele e seus colegas do Silício não tivessem envenenado a maçã, usando diversos subterfúgios para prender a nossa atenção ou mesmo nos viciar nos aplicativos, como o botão de like, estímulo de resultado tão potente (e danoso) que chega a aparecer em tomografias na região do cérebro que ativa a dopamina. De uns anos para cá, eu, meu companheiro e minha filha deixamos de ser traças e passamos a ser baratas insatisfeitas inventando desculpas para pegar o smartphone. Depois do jantar, digo para eles que preciso resolver uma emergência do trabalho e dou uma olhada no Instagram. Meu companheiro faz o mesmo, entrando no Twitter. Ela, que ainda não usa redes sociais, diz que precisa pegar uma tarefa no WhatsApp e aproveita para ver mensagens. Sejamos honestos, quase ninguém está lendo. Ou quase ninguém está lendo tanto quanto gostaria. E se nem nós conseguimos, como cobrar isso dos nossos filhos? Se eu tivesse resposta, não estaria escrevendo esta coluna, e sim um best-seller, afinal muita gente está passando pela mesma crise. Tudo o que sei é que vale a pena praticar pequenas resistências. Nem sempre lemos à noite, mas tentamos ler todas as noites. Nem sempre lemos em viagens, mas levamos livros para todas as viagens. Sempre chega uma hora em que, como no poema "E agora, José?" a festa acabou, a luz apagou, o wifi oscilou, a mãe desplugou, e o José, ou melhor, a criança, acaba pegando um livro. http://www.naauladeportugues.com.br E que livro é esse? Aquele que dá prazer. E isso vale para todas as idades. Não conseguiremos competir com vídeos de gatinhos fofos ou com algoritmos turbinados para reter a nossa atenção se ficarmos de nariz empinado dizendo que só isto ou aquilo é boa literatura. Precisamos criar leitores livres, leves e soltos. Ou não criaremos. Como já andei dizendo por aí, se o seu filho gosta de ler horóscopo, ótimo. Quem começa com áries acaba indo para libra, para a astrologia, para a astronomia, para a filosofia, e tudo isso pode dar em Clarice Lispector. Ou nos vídeos da Madama Brona. Porque também é preciso aceitar que, desde sempre, alguns de nós se tornam leitores ávidos e outros não. Minha filha não é aquela traça que, em certo momento, aparentou ser, mas já sabe o caminho, já sabe como chegar às lombadas. E saber o caminho já é algum caminho andado. Giovana Madalosso Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-maladosso/2023/06/meu-filho-nao-quer-ler-e-agora-jose.shtml Acesso em 30 nov 2023. Glossário abaulada: arredondada dopamina: neurotransmissor sintetizado por certas células nervosas que age em regiões do cérebro e está envolvido no controle dos movimentos, da emoção, da motivação e da sensação de prazer. subterfúgio: atitude dissimulada e astuciosa para se atingir um objetivo. 1. Uma das características do gênero textual crônica é que se trata de um texto inspirado em um fato do cotidiano do(a) autor(a) ou do contexto em que ele(a) vive. No caso da crônica lida por você, o fato do cotidiano que motivou Giovana Madalosso a escrever o texto foi: a. uma notícia que alertava sobre o baixo índice de leitura dos brasileiros. b. o filho mais novo dela não gosta de ler, mesmo ela sendo escritora. c. a filha dela gostava de ler quando mais jovem, mas agora não gosta mais. d. o impacto causado pelo vício e uso excessivo das redes sociais na leitura. 2. Ao discutir o fato de que, atualmente, as pessoas não estão lendo ou estão lendo menos do que gostariam, a cronista cita algumas possíveis justificativas para esse problema. Todas as justificativas abaixo são coerentes com o texto, EXCETO: a. as pessoas preferem passar o tempo usando o celular ao invés de ler. b. os próprios pais não leem, ou seja, não dão exemplo para seus filhos. c. há muita crítica negativa em torno de quem não lê "boa literatura". d. as escolas não incentivam mais as crianças a lerem desde cedo. 3. Em uma crônica, o cronista relata um acontecimento do seu cotidiano e apresenta-o a partir de sua perspectiva, juntamente com reflexões pessoais sobre o tema, por isso trata-se de um texto subjetivo. a. Releia os dois primeiros parágrafos e transcreva deles 2 verbos e 2 pronomes que comprovam que o texto é subjetivo. b. Justifique por que a resposta anterior comprova a subjetividade do texto. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-maladosso/2023/06/meu-filho-nao-quer-ler-e-agora-jose.shtml 4. Na crônica, há a comparação entre as pessoas e dois insetos. a. Liste esses dois insetos. b. Em apenas um dos casos, a comparação é positiva. Indique qual comparação é positiva e explique o sentido dessa comparação. 5. Releia, a seguir, o 4º parágrafo do texto. Essa rotina, que um coach chamaria de estratégia, acabou funcionando. Nunca obriguei minha filha a ler, mas, não podendo usar telas, tudo o que lhe restava era desenhar, olhar as manchas da parede ou se entregar à leitura. Depois de esgotar seus lápis, foi pegando um gibi aqui, um livro ali, até o dia em que a vi acordar cercada de celulose. a. Indique a que a expressão "essa rotina" se refere. b. Indique a quem se refere os pronomes destacados no texto. c. Explique o significado da expressão "cercada de celulose". d. Com o uso dessa expressão, a autora construiu uma figura de linguagem. Indique qual seria essa figura de linguagem. e. Neste trecho, a cronista apresenta uma possível causa para a filha ter se tornado leitora. Resuma a causa apresentada por ela. 6. Releia, a seguir, mais um trecho retirado do texto. Tudo o que sei é que vale a pena praticar pequenas resistências. Nem sempre lemos à noite, mas tentamos ler todas as noites. Nem sempre lemos em viagens, mas levamos livros para todas as viagens. a. Indique a classe gramatical das palavras/expressões destacadas. b. Indique a circustância expressa por cada uma delas. c. Das palavras/expressões destacadas, liste aquelas que são importantes para construir a ideia de rotina ou hábito. d. A função de algumas das palavras destacadas é justamente romper com a ideia de que há uma rotina ou hábito de leitura na família. Liste as palavras que rompem com essa ideia. e. Resuma a reflexão apresentada pela cronista neste trecho. 7. Releia, a seguir, o último parágrafo do texto. Minha filha não é aquela traça que, em certo momento, aparentou ser, mas já sabe o caminho, já sabe como chegar às lombadas. E saber o caminho já é algum caminho andado. a. Indique a classe gramatical da expressão destacada.b. A expressão destacada pode ter dois sentidos possíveis. O sentido mais literal está relacionado ao verbo "chegar". Explique esse sentido. c. Explique o sentido da expressão destacada considerando, agora, o sentido mais amplo do texto.