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Biomecânica dos tecidos: osso Apresentação Nesta Unidade de Aprendizagem serão tratados tópicos relacionados ao osso, sua função, morfologia e as propriedades mecânicas, bem como as principais respostas adaptativas às demandas impostas. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer o que é um osso, sua morfologia e suas funções.• Definir como se comporta a relação carga x deformação de um osso.• Identificar as propriedades mecânicas de um osso a partir de diferentes demandas empregadas. • Infográfico A partir deste infográfico, são ilustradas as funções de um osso, sua relação stress-strain (carga x deformação relativa) e questões importantes quanto ao comportamento desta relação em um osso. Conteúdo do livro Para que seja possível dar mais atenção a aspectos importantes sobre a função e mecânica do tecido ósseo, acompanhe os trechos do livro-base Estrutura e Função do Sistema Musculoesquelético, de James Watkins. Para tanto, leia os textos a partir do seguinte subtítulo: Osso. Sobre o Autor James Watkins, PhD, leciona anatomia funcional e biomecânica na Scottish School of Sports Studies, na University of Strathclyde, em Glasgow, Escócia, onde trabalhou como chefe de departamento de 1989 a 1994. Suas publicações contabilizam mais de 70 trabalhos em revis- tas acadêmicas e quatro livros. É membro do conselho consultivo do Journal of Sports Sciences e do conselho editorial do European Journal of Physical Education e do British Journal of Physical Education. Perten- ceu ao conselho da seção de Biomecânica da British Association of Sport and Exercise Sciences de 1993 a 1996. Seu PhD em biomecânica foi conferido pela University of Leeds, Inglaterra, em 1975. Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 W336e Watkins, James. Estrutura e função do sistema musculoesquelético [recurso eletrônico] / James Watkins ; tradução: Jacques Vissoky ; revisão técnica: Aylton José Figueira Júnior. – Porto Alegre : Artmed, 2014. Editado também como livro impresso em 2001. ISBN 978-85-8271-141-5 1. Anatomia – Músculos. 2. Articulação. 3. Biomecânica. I. Título. CDU 611.73 ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 117 Cartilagem Elástica Na cartilagem elástica, ou cartilagem elástica amarela, a matriz é dominada por uma densa rede de fibras de elastina (Figura 4.18). A cartilagem elástica provê suporte com um grau de moderado a alto de elasticidade. É encontrada principalmente na laringe, na parte externa da orelha e no tubo que leva da parte média do ouvido à garganta (tuba de Eustáquio ou auditi- va). Existem três principais tipos de cartilagem: cartilagem hialina, fibrocartilagem e cartila- gem elástica. Osso O mais forte e mais rígido de todos os tecidos conjuntivos é o osso. A matriz do osso consiste de uma rede regular, densa e em camadas de fibras de colágeno mergulhadas em uma substância basal dura e sólida. A substância basal é chamada de sal ósseo e consiste de uma combinação de pirofosfato de cálcio e carbonato de cálcio, com quantidades menores de magnésio, sódio e cloro (Alexander, 1975). No osso maduro, o sal ósseo perfaz aproximadamente 70% do peso total do osso, com o colágeno respondendo pelos 30% remanescentes. O sal ósseo é mais denso que o colágeno, de forma que ambos ocupam aproximadamente 50% do volume total. O mate- rial composto feito de sal ósseo e colágeno produz uma estrutura endurecida e bastante rígida. Em relação ao ferro fundido, o osso tem a mesma força tênsil, é apenas um terço de seu peso e é muito mais elástico (Ascenzi e Bell, 1971). A elasticidade do osso, embora levemente relativa à da cartilagem, é mesmo assim importante para permitir a absorção de um impacto súbito sem a quebra. A capacidade das extremidades dos ossos, junto com a cartilagem articular, de se deformar em resposta às pressões é também importante na manutenção da transmissão nor- mal de pressões através das articulações. A matriz do osso consiste de uma rede densa, em camadas e regular de fibras de colágeno, em meio a uma substância basal chamada de sal ósseo. Em combinação com cada um, o sal ósseo e o colágeno produzem um material endurecido com pouca elasticidade. Figura 4.17. Fibrocartilagem. Figura 4.18. Cartilagem elástica. 118 JAMES WATKINS Crescimento e Desenvolvimento Ósseos Ao redor da terceira semana de vida intra-uterina (dentro do útero), o esqueleto do embrião inicia seu aparecimento sob a forma de blocos e de placas de tecido. Os blocos e as placas da maior parte do esqueleto embrionário consistem de cartilagem hialina. O topo do crânio, as clavículas e partes da mandíbula, contudo, têm uma forma altamente vascular de tecido cha- mado de membrana fibrosa. Pela oitava ou nona semana de vida intra-uterina, as formas dos ossos embrionários são similares a seu formato adulto eventual (Williams et al., 1995). Ossificação A ossificação ou osteogênese é o processo pelo qual o esqueleto embrionário é transformado em osso (ósteo = osso, gênese = criação). A ossificação das membranas fibrosas é chamada de ossificação intramembranosa e a ossificação da cartilagem hialina é chamada de ossificação intracartilaginosa ou endocondral (endo = dentro de, condral = cartilagem). Ambas as formas de ossificação são similares e produzem o mesmo tipo de tecido ósseo. O processo de ossificação endocondral é descrito com referência a um osso longo típico. Crescimento em Perímetro Um osso longo embrionário consiste de um bloco de cartilagem hialina coberta em um pericôndrio fibroso (Figura 4.19a). Entre a quinta e a décima segunda semanas de vida intra- uterina, alguns fibroblastos no pericôndrio ao redor do meio da diáfise do modelo cartilaginoso são transformados em osteoblastos. Os osteoblastos são um dos três tipos de células ósseas e são responsáveis pela produção de osso. Os osteoblastos assim formados invadem a cartilagem hialina imediatamente abaixo do pericôndrio e começam a depositar cálcio e ou- tros minerais na matriz. Conseqüentemente, a cartilagem hialina é trans- formada em cartilagem calcificada. Esse processo de mineralização é cha- mado de calcificação; a cartilagem calcificada representa um estágio inter- mediário no processo de ossificação da cartilagem em osso. Conseqüente- mente, um anel ou colar ósseo é formado ao redor do meio da diáfise do modelo cartilaginoso (Figura 4.19b). Quando o pericôndrio começa a produzir osteoblastos e, por sua vez, osso, é chamado de periósteo. O primeiro local de formação óssea, o meio da diáfise do modelo cartilaginoso, é chamado de centro de ossificação primária. O processo de ossificação procede a partir do colar ósseo em duas direções: através da diáfise, de fora para o centro, e em direção das extremidades da diáfise. Por volta da 36ª semana, perto do momento do nascimento, o colar ósseo torna-se um cilindro ósseo correndo o compri- mento da diáfise, mas não progredindo para as extremidades bulbosas do osso (Figura 4.19c). O cilindro ósseo é mais espesso no meio e mais fino nas extremidades. Nesse momento, a cartilagem hialina remanescente no meio da diáfise foi transformada em cartilagem calcificada. Logo após, um segundo tipo de células ósseas, os osteoclastos, invade essa porção central da cartilagem calcificada. Enquanto os osteoblastos produzem osso novo, os osteoclastos removem osso e cartilagem calcificada. Os osteoclastos iniciam a remoção da cartilagem calcificada no meio da diáfise, criando um espaço conhecido como cavidade medular (Figura 4.19d). A cavidade medular gradualmente se alarga e se estende em direção a ambas as extremidades da diáfise. Simultaneamente, a espessura do osso na diáfise aumenta gradualmente. O desenvolvimento do esqueleto antes do nascimento, especialmente no ritmo no qual ocorre a ossificação, é parci- almente causado pela pressão exercida pelos músculos em desenvolvi- mento, o que é manifestado no movimento aumentado do feto. Ossificação intramembranosa: a ossificação das membranasfi- brosas Ossificação intracartilaginosa: a ossificação da car tilagem hialina Ossificação endocondral: o mesmo que ossificação intra- cartilaginosa Periósteo: a camada de tecido fibroso que cobre as superfícies não-articulares de um osso; o periósteo é responsável pelo crescimento em perímetro de um osso por crescimento aposicional Figura 4.19. Ossificação endocondral: estágios precoces no crescimento e desenvolvimento de um osso longo típico. Pericôndrio Periósteo d c b a Periósteo Osso Endósteo Cavidade medular Osso Cartilagem calcificada Cartilagem hialina ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 119 Eventualmente, toda a cartilagem calcificada é removida em função dos efeitos combina- dos da ossificação através da diáfise, de fora em direção ao centro, e da atividade osteoclástica, a partir do centro para fora. Nesse momento, a cavidade medular é ocupada por medula ama- rela consistindo de tecido conjuntivo frouxo contendo um grande número de vasos sangüíneos, de células adiposas e de leucócitos imaturos (Williams et al., 1995). Uma camada de tecido conjuntivo frouxo contendo muitos osteoblastos e um número menor de osteoclastos reveste a cavidade medular. Essa camada é chamada de endósteo. Os ossos longos são feitos, acima de tudo, para resistir à flexão. Para uma dada quantida- de de tecido ósseo, uma diáfise oca é mais resistente à flexão que uma sólida (Alexander, 1968). Essa é a principal razão das diáfises dos ossos longos serem ocas. O crescimento no perímetro da diáfise de um osso longo envolve a formação de novo osso na parte de fora da diáfise por osteoblastos no periósteo e a remoção de osso a partir de dentro da diáfise por osteoclastos no endósteo. O tipo de crescimento produzido pelo periósteo, que envolve a deposição de osso novo na superfície de osso mais velho, como a adição de anéis em uma árvore, é chamado de crescimento aposicional. No osso maduro, o periósteo consiste de tecido fibroso irregular. Além do crescimento de aposição, o periósteo tem três outras principais funções: 1. prover uma cobertura protetora ao redor da diáfise do osso; 2. permitir a passagem de vasos sangüíneos dentro do osso; 3. prover inserções para músculos, tendões, ligamentos e cápsulas articulares. Crescimento no Comprimento Perto do nascimento, ocorre um centro de ossificação secundário no centro de cada extremida- de de um osso longo. Esses novos centros de ossificação são responsáveis pela ossificação das extremidades dos ossos; a ossificação procede a partir do centro em direção à periferia. Depois que os centros de ossificação secundária tenham sido estabelecidos, a única cartilagem hialina remanescente a partir do modelo de cartilagem original é aquele que cobre as extremidades bulbosas do osso e as placas de cartilagem separando as extremidades do osso da diáfise (Figu- ra 4.20). Essas duas regiões de cartilagem hialina são contínuas entre si e permanecem assim até a maturidade. Parte da cobertura de cartilagem de cada extremidade de um osso forma uma superfície articular e, como tal, é referida como cartilagem articular. Cada extremidade de um osso é cha- mada de epífise, e a parte do meio é chamada de diáfise. As placas de cartilagem que separam as epífises e as diáfises são chamadas de placas epifisárias (Figura 4.20). As placas epifisárias são responsáveis pelo crescimento do comprimento ósseo. Durante o crescimento normal elas per- manecem ativas até que o osso tenha atingido seu comprimento da maturidade. Uma placa epifisária consiste de quatro camadas (Tortora e Anagnostakos, 1984) (Figu- ra 4.21). A camada adjacente à epífise é chamada de camada de reserva ou germinal. Nessa camada, que ancora a placa epifisária ao osso da epífise, os condrócitos estão distribuídos em toda a matriz como células únicas ou em pares. A segunda camada é a de proliferação. Como o nome sugere, ela é responsável pela condrogênese (produção de nova cartilagem). Os condrócitos, nessa camada, se submetem a uma divisão celular bastante rápida e, por sua vez, as células produzem nova matriz, resultando em um aumento na quantidade de cartila- gem. O crescimento no comprimento da diáfise de um osso se deve à condrogênese nas ca- madas de proliferação das placas epifisárias. Esse tipo de crescimento, no qual um novo tecido é produzido a partir da massa de tecido existente, é chamado de crescimento intersticial. A terceira camada da placa epifisária é chamada de camada hipertrófica. Nela, os condrócitos estão arranjados em colunas e gradualmente aumentam de tamanho, com as célu- las maiores e mais maduras o mais longe da epífise. A quarta camada da placa epifisária é chamada de camada calcificada. Nela, os condrócitos hipertrofiados e a matriz circundante estão substituídos por cartilagem calcificada. A cartilagem calcificada interdigita-se com o osso subjacente formando uma ligação relativamente forte (ver Figuras 4.20 e 4.21), capaz de resistir a pressões de deslizamento. Como é formada nova cartilagem na camada de proliferação, a cartilagem calcificada em contato com o osso subjacente é em si gradualmente transformada Crescimento aposicional: o tipo de crescimento no qual um novo tecido é colocado na super- fície do tecido existente Cartilagem articular: a camada de cartilagem hialina que cobre cada superfície articular de um osso (em uma ar ticulação sinovial) Epífise: a extremidade de um osso separada da diáfise por uma placa epifisária antes da maturidade Diáfise: a parte central do osso Placa epifisária: a região de um osso entre a epífise e a diáfise que é responsável pelo cresci- mento no comprimento do osso por meio de crescimento in- tersticial 120 JAMES WATKINS em osso. O resultado final desses processos é que as placas epifisárias, que permanecem com a mesma espessura, gradualmente se movem do meio da diáfise com o seu aumento no compri- mento. A metáfise é a região onde a epífise se une à diáfise; em um osso em crescimento, isso corresponde à camada calcificada da placa epifisária, junto com o osso interdigitante (ver Figu- ra 4.20). A interface entre as camadas hipertróficas e calcificadas é algumas vezes referida como “linha da maré”. O esqueleto ósseo adulto desenvolve-se a partir de um esqueleto embrionário que se forma durante o segundo mês de vida intra-uterina e consiste principalmente de cartila- gem hialina e de membrana fibrosa. O processo pelo qual a cartilagem e a membrana são transformadas em osso é chamado de ossificação. O crescimento do perímetro dos ossos ocorre por crescimento aposicional; o crescimento no comprimento dos ossos ocorre por crescimento intersticial. Quando um osso longo atingiu seu comprimento de maturidade, cessa o crescimento longitu- dinal na placa epifisária. Logo após, as placas epifisárias são substituídas por osso, de forma que as epífises são fusionadas com a diáfise. Na maioria dos ossos longos uma extremidade habitualmente se fusiona com a diáfise antes da outra extremidade. Nos ossos longos dos bra- ços e das pernas, a fusão de ambas as extremidades normalmente ocorre entre 14 e 20 anos de Figura 4.20. Seção longitudinal de uma epífise e parte da diáfise de um típico osso longo imaturo. Epífise Placa epifisária Diáfise Metáfise Periósteo Osso Endósteo Cavidade medular Cartilagem articular Crescimento intersticial: o tipo de crescimento no qual um novo tecido é produzido a partir da massa do tecido existente Metáfise: a região de um osso onde a epífise se junta à diáfise; em um osso em crescimento, isso corresponde à camada calcificada da placa epifisária junto com o osso interdigitante ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 121 idade (Williams et al., 1995). Em alguns outros ossos, como os inominados (que consistem de três ossos – ilíaco, púbis e ísquio – antes da maturidade), a fusão ocorre habitualmente entre os 20 e 25 anos de idade. Segue-se que as placas epifisárias dos diversos ossos são vulneráveis a lesões por um período relativamente longo. A lesão na placa epifisária pode,em alguns casos , resultar em um dos dois tipos de deformidade óssea (Pappas, 1983): 1. uma interrupção completa do crescimento e fusão prematura resultando em, por exem- plo, discrepância de comprimento de membros; 2. uma interrupção assimétrica do crescimento através de uma placa epifisária resultan- do em uma deformidade angular e uma incongruência articular. O grau de deformidade óssea resultante de uma lesão da placa epifisária depende dos seguin- tes fatores: 1. a maturidade física do indivíduo; quanto mais maduro, menor a probabilidade de deformidade séria; 2. a gravidade da lesão; 3. a placa epifisária lesada. Figura 4.21. Uma seção longitudinal em uma placa epifisária. Cartilagem calcificada Osso Camada de reserva Camada de proliferação Camada hipertrófica Camada calcificada 122 JAMES WATKINS As placas epifisárias em cada extremidade de um osso longo habitual- mente contribuem com diferentes quantidades para o comprimento da diáfise. Por exemplo, as placas epifisárias proximal e distal do úmero con- tribuem, respectivamente, com aproximadamente 80 e 20% do compri- mento total do osso. Em contraste, as placas epifisárias proximal e distal do fêmur contribuem, respectivamente, com aproximadamente 30 e 70% do comprimento total do osso (Pappas, 1983) (Figura 4.22). A lesão à placa epifisária que dá a maior contribuição ao comprimento total de um osso é provável de acarretar um efeito maior sobre o crescimento ósseo que a lesão à outra placa epifisária (Siffert, 1987). A vulnerabilidade das placas epifisárias à lesão é grandemente cau- sada pelo fato de as placas serem as partes mais fracas do esqueleto ima- turo. Por exemplo, os ligamentos e as cápsulas articulares são de 2 a 5 vezes mais fortes que as placas epifisárias (Larson e McMahan, 1966). Quando um ligamento que sustenta uma articulação em particular for inserido na epífise (que não seja a diáfise), uma pressão aplicada à articu- lação que tenda a estirar o ligamento é, em uma criança, mais provável de resultar em uma fratura através da placa epifisária do que uma ruptura no ligamento. Em um adulto, o mesmo tipo de pressão tenderia a causar uma ruptura ligamentar, uma vez que a epífise e a diáfise estão fusionadas (Pappas, 1983) (Figura 4.23). Figura 4.22. Contribuições das placas epifisárias proximal e distal ao crescimento no sentido do com- primento dos ossos longos dos (a) membros su- periores e dos (b) membros inferiores. Ulna Fíbula Fêmur Tíbia 25% 75% 80% 80% 20% 20% 60% 40% 30% 70% 55% 45% b a Úmero Rádio Figura 4.23. Efeito do grau de maturidade esquelética sobre o tipo de lesão; (a) aspecto anterior da articulação do joelho direito mostrando alinhamento normal do fêmur, da tíbia e da fíbula; (b e c) abdução da perna que pode resultar de um golpe no lado de fora do joelho, enquanto o pé está em contato com o solo. Em uma criança é mais provável que resulte em uma fratura através da placa epifisária distal do fêmur do que em ruptura do ligamento medial (b). Após a maturidade, a abdução excessiva do joelho certamente irá resultar em uma ruptura parcial ou completa do ligamento medial (c). Placa epifisária distal do fêmur Placa epifisária proximal da tíbia cba Ligamento lateral Placa epifisária proximal da fíbula Ligamento medial ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 123 Quando um osso atingiu seu comprimento predeterminado, as placas epifisárias são substituídas por osso de tal forma que as epífises são fundidas com a diáfise. Em geral, a fusão ocorre entre 14 e 20 anos de idade. A lesão às placas epifisárias durante o período de crescimento pode resultar em uma variedade de anormalidades esqueléticas, incluindo discrepâncias nos comprimentos dos membros e deformidades angulares nas articulações. Crescimento das Epífises Assim como as placas epifisárias são responsáveis pelo crescimento no sentido longitudinal do osso, a cartilagem hialina que cobre a extremidade de um osso é responsável pelo crescimento da epífise. Essa cartilagem consiste de uma região articular e de uma não-articular. Tal como uma placa epifisária, a cartilagem articular (e suas regiões não-articulares adjacentes; ver Figu- ra 4.20) consiste de quatro camadas. A única diferença real na estrutura entre a cartilagem articular e uma placa epifisária está no arranjo das fibras na camada de reserva. Em uma placa epifisária, as fibras de colágeno cruzam-se obli- quamente entre si, formando uma forte ligação entre o osso epifisário e a camada de reserva da placa. Em uma cartilagem articular, a ca- mada de reserva é a camada mais externa. Embora grande parte da camada seja similar em estrutura à camada de reserva de uma placa epifisária, a superfície mais externa da cartilagem articular é acelular e consiste de fibras e de fibrilas de colágeno densamente agregadas, arranjadas paralelamente à superfície articular. Esse arranjo produz uma forte superfície resistente contra o desgaste. O tipo de crescimento produzido por uma cartilagem articular é o mesmo que é produzido por uma placa epifisária – crescimento intersticial. Durante o período de crescimento, o valor da ossificação de uma epífise é maior que o valor do crescimento da epífise. Conse- qüentemente, a espessura da cartilagem articular torna-se relativa- mente mais fina com a idade (Figura 4.24). Na maturidade, a espes- sura da cartilagem articular é de aproximadamente 1 a 7 mm, ten- dendo a diminuir ainda mais com o desgaste mecânico. Embora muito do crescimento ósseo seja determinado por fatores genéticos, o estresse mecânico experimentado pela cartilagem articular e pelas placas epifisárias, com o resultado do movimento e da manutenção de uma postura ereta, também tem um efeito importante no cresci- mento ósseo (ver Capítulo 11). Em determinados ossos, como alguns dos carpais e dos tarsais, a ossificação é completada a partir de um único (primário) centro de ossificação. Em outros ossos, como os metacarpais e os metatarsais, há um centro de ossificação primária e somente um centro de ossificação secundária; existe apenas uma epífise. Em todos os ossos longos grandes – os ossos dos braços e das pernas – , centros de ossificação secundária ocorrem em ambas as extremidades do osso perto do nascimento. A cartilagem articular e as regiões não-articulares associadas de uma epífise são res- ponsáveis pelo crescimento da epífise por crescimento intersticial. Durante o cresci- mento e o desenvolvimento, a espessura relativa da cartilagem articular gradualmente diminui. Na maturidade é de aproximadamente 1 a 7 mm de espessura. Crescimento das Apófises Os centros secundários de ossificação ocorrem não apenas nas epífises dos ossos longos, mas também em algumas das tuberosidades rudimentares de alguns ossos, incluindo o fêmur, os ossos inominados e os calcâneos (Figura 4.25). Esses centros de ossificação secundária ocorrem em regiões do osso chamadas de apófises em torno de 10 a 14 meses após o nascimento. Cada Figura 4.24. Vários estágios na ossificação da epífise distal do fêmur. 4 meses 5 anos 10 anos 15 anos 20 anos 124 JAMES WATKINS apófise cresce e se ossifica da mesma maneira que uma epífise. As apófises fornecem áreas de inserção para os tendões de músculos poderosos como o quadríceps (tuberosidade tibial), os isquiotibiais (tuberosidade isquiática) e os músculos da panturrilha (tuberosidade do calcâneo) (Figura 4.26). Essa forma de inserção é diferente daquela da maioria dos tendões, que se inse- rem diretamente no periósteo. Antes da maturidade, cada apófise está separada do resto do osso por uma placa apofisária, que é muito similar em estrutura e função a uma placa epifisária. Cada placa apofisária é res- ponsável pelo crescimento do osso adjacente ao lado não-apofisário da placa. O crescimento da apófise em si devido à camada de cartilagem (mistura de cartilagem hialina e fibrocartilagem) de fora da apófise para dentro das fibras da inserção tendinosa (ver Figura 4.25c). Na maturi- dade, as apófises se fusionam com o resto do osso.As apófises fornecem áreas de inserção para músculos poderosos. Antes da maturida- de, cada apófise está separada do resto do osso por uma placa apofisária, que é similar em estrutura e função a uma placa epifisária. Na maturidade, as apófises se fusionam com o resto do osso. As epífises, especialmente aquelas que formam as articulações de pressão, estão mais sujeitas a pressões compressivas e, por conseguinte, são referidas freqüentemente como epífises de pres- são. Em contraste, as apófises são mais submetidas a pressões de tensão, sendo com freqüência referidas como epífises de tração. Embora as placas apofisárias não afetem o crescimento do comprimento ósseo, elas afetam o alinhamento e a força dos tendões nelas inseridos. Conse- Figura 4.25. Apófises do fêmur: o grande e o pequeno trocanter; (a) ocorrência de centros de ossifica- ção secundária em saliências ósseas; (b) placas apofisária e epifisária do fêmur; (c) áreas de cresci- mento da cabeça do fêmur e do grande e pequeno trocanteres. Cartilagem articular Placa epifisária Camada de cartilagem na inserção do tendão Placa epifisária Placas apofisárias Placa epifisária Centros de ossificação secundária c ba Placa apofisária Apófise: uma tuberosidade se- parada do resto do osso antes da maturidade por uma placa apofisária Placa apofisária: uma região cartilaginosa de um osso que se- para uma apófise do resto do osso antes da maturidade; uma placa apofisária é responsável pelo crescimento do osso adja- cente ao lado não-apofisário da placa ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 125 qüentemente, a lesão nas placas apofisárias pode afetar as características mecânicas dos mús- culos associados que, por sua vez, podem afetar a função articular normal. Os estudos de lesões ligadas aos esportes em crianças mostram que a proporção de lesões envolvendo as placas de crescimento (epifisárias e apofisárias) está entre 6 e 18% do número total de lesões (Speer e Braun, 1985; Krueger-Franke, Siebert e Pfoerringer, 1992; Gross, Flynn e Sonzogni, 1994). Aproximadamente 5% dessas lesões em placas de crescimen- to resultam em algum tipo de deformidade óssea (Larson, 1973). Com base nessas figuras, o número de lesões da placa de crescimento resultando em deformidade óssea está na ordem de 3 a 9 por mil. Entretanto, essa estimativa é conservadora, uma vez que muitas lesões que ocorrem durante jogos e esportes não são relatadas ou são incorretamente diagnosticadas (Combs, 1994). Figura 4.26. Principais epífises e apófises do membro inferior. Tuberosidade tibial Maléolo medial Cabeça do fêmur Grande trocanter Tuberosidade isquiática Côndilos femorais Côndilos tibiais Cabeça da fíbula Maléolo lateral Tuberosidade do calcâneo Espinha ilíaca ântero-superior Espinha ilíaca ântero-inferior 126 JAMES WATKINS Estrutura do Osso Maduro Durante o período de crescimento e de desenvolvimento de um osso longo, o tecido ósseo é depositado de uma forma que maximiza a resistência do osso como um todo. O desenvolvi- mento de uma diáfise oca é apenas um exemplo desse processo. Diferentes regiões do osso estão sujeitas a diferentes tipos e magnitudes de pressão. Por exemplo, as epífises estão sujeitas principalmente a cargas de compressão, enquanto a diáfise está sujeita principalmente a car- gas de inclinação e de torção. Por essa razão, a diáfise não é apenas oca, mas também a densi- dade e a espessura do osso na diáfise são maiores do que nas epífises, uma vez que a diáfise está sujeita a maiores pressões de inclinação e torção. O osso denso é chamado de osso compacto. A espessura do osso compacto na diáfise gradualmente diminui do meio em direção às epífises (Figura 4.27). Em cada epífise, a camada calcificada da cartilagem articular gradualmente se funde com o osso subjacente. Essa região transicional é referida como osso subcondral; ela encerra uma massa de osso de baixa densidade que perfaz o remanescente da epífise. O osso de baixa den- sidade está na forma de uma colméia ou treliça, consistindo de finas barras curvas de osso unidas umas às outras por barras de conexão óssea. As barras do osso são chamadas de trabéculas, e a treliça formada pelas trabéculas é chamada de osso trabecular ou, mais freqüentemente, osso esponjoso pelo grande número de espaços entre as trabéculas. A maioria das trabéculas se cruza em ângulos retos; esse ar- ranjo maximiza a força do osso trabecular. Os espaços entre as trabéculas estão preenchidos por medula vermelha – tecido conjuntivo frouxo con- tendo um grande número de vasos sangüíneos, alguns glóbulos brancos e células adiposas e um grande número de células chamadas de eritroblastos, responsáveis pela produção de glóbulos vermelhos. Os espaços no osso esponjoso são contínuos com a cavidade medular e, assim, a medula ver- melha é contínua com a medula amarela. Na maioria das articulações, especialmente nas de sustentação, a pressão nas epífises é diferente nas diversas posições articulares. A mu- dança na pressão pode ser em termos de tipo, magnitude ou direção da pressão ou uma combinação dessas características. As trabéculas estão arranjadas para minimizar o estresse experimentado pelas epífises em to- das as posições da articulação durante os movimentos habituais. A única diferença estrutural real entre osso compacto e osso esponjo- so é a densidade. O osso compacto é muito mais denso e, por conseguinte, muito menos elástico que o osso esponjoso. A elasticidade do osso espon- joso é muito importante para garantir a congruência nas articulações du- rante a transmissão de pressões, minimizando assim o estresse dentro das epífises e sobre as cartilagens articulares (Ascenzi e Bell, 1971; Radin, 1984). Osso Compacto e Osso Esponjoso O osso compacto consiste de colunas completas e incompletas de osso firmemente agrupado (Figura 4.28). Cada coluna de osso é chamada de ósteon ou sistema haversiano. Nos ossos longos, os ósteons correm parale- los ao eixo longo do osso. Cada ósteon consiste de 3 a 9 anéis concêntricos (ou camadas) de osso circundando um canal central aberto. Os anéis con- cêntricos de osso são chamados de lamelas, e o canal central é chamado de canal haversiano. Cada lamela basicamente consiste de uma única ca- mada de fibras de colágeno firmemente agrupadas e paralelas entre si, com sal ósseo entre as fibras. Embora as fibras de colágeno em cada lamela estejam paralelas entre si, a orientação das fibras em lamelas adjacentes é diferente (Figura 4.29). Esse arranjo, similar ao das camadas de fibras de colágeno em uma cápsula articular, permite que o osso resista firmemente à deformação em qualquer direção. Além das lamelas nos ósteons, a su- Osso compacto: o osso no qual os ósteons estão firmemente agrupados com pouco ou ne- nhum espaço entre si Osso esponjoso: o osso no qual os ósteons estão frouxamente agrupados com os espaços en- tre eles preenchidos com medu- la vermelha; os ósteons estão ha- bitualmente arranjados na forma de trabéculas Ósteon: uma coluna de osso consistindo de 3 a 9 camadas concêntricas de osso, circundan- do um canal haversiano Figura 4.27. A estrutura de um osso longo madu- ro: uma seção longitudinal através do terço proxi- mal do fêmur. Cartilagem articular Osso esponjoso Periósteo Osso compacto Endósteo Cavidade medular ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 127 perfície externa do osso compacto consiste de um número de lamelas circunferenciais ou de superfície que circulam o osso e tendem a se unir aos ósteons (Figura 4.28b). Entre as lamelas estão numerosos osteócitos. Os osteócitos são basicamente osteoblastos que se tornaram aprisionados no osso. Eles são responsáveis pela reparação no dano ósseo e estão também envolvidos na regulação do nível de minerais, especialmente do cálcio e do fósforo, no sangue (Bailey et al., 1986). Cada osteócito fica em uma lacuna, um pequeno espaço, e as lacunas estão unidas por pequenos canais, chamados de canalículos. Os canalículos cor- rem entre as lamelas e através dessas, de um lado aoutro. Esse sistema de canalículos permite que os osteócitos se comuniquem entre si tanto fisicamente, por meio de projeções dos corpos celulares dentro dos canalículos, como quimicamente, por meio de secreções das células (ver Figura 4.29; Figura 4.30). A comunicação entre os osteócitos é importante para coordenar o crescimento, o desenvolvimento e o reparo das lamelas e para facilitar a troca intercelular entre os osteócitos e entre esses e os vasos sangüíneos. Lamelas Periósteo Osteócitos Ósteons Canal haversiano b a Figura 4.28. Estrutura de um osso compacto. Ósteons agrupados firmemente entre si Periósteo Endósteo Lamelas circunferenciais Canal haversiano Canal de Volkmann 128 JAMES WATKINS O canal haversiano no centro de cada ósteon contém vasos sangüíneos e nervos sustenta- dos por tecido conjuntivo frouxo. Os canalículos estão ligados aos canais haversianos, facili- tando assim a troca intercelular entre os vasos sangüíneos e os osteócitos. Além da ligação pelos canalículos, os canais haversianos dos ósteons adjacentes estão ligados também por um sistema chamado canais de Volkmann, que são similares em tamanho aos canais haversianos. Os canais de Volkmann, assim como os canais haversianos, contêm vasos sangüíneos e nervos sustentados por tecido conjuntivo frouxo; eles formam um sistema de canais que cor- rem de fora do osso para a cavidade medular, unindo o periósteo, os canais haversianos e o endósteo (ver Figura 4.28a). O sistema de canais haversianos e de Volkman permite que os vasos sangüíneos e os nervos passem ao longo, ao redor e através do osso. No osso compacto, os ósteons estão firmemente agrupados com pouco ou nenhum espa- ço entre eles. No osso esponjoso, os ósteons estão frouxamente agrupados, com os espaços entre eles preenchidos com medula vermelha; os ósteons estão habitualmente arranjados em pequenos grupos que formam trabéculas. Muitas das trabéculas não contêm canais haversianos e consistem de várias lamelas na forma de uma tira estreita. Conseqüentemente, o osso espon- joso consiste de uma mistura de osso osteonal e não-osteonal. Em um osso maduro, a diáfise consiste de um cilindro de osso compacto, mais espesso no meio e mais afilado em direção às extremidades. Cada epífise consiste de uma camada externa relativamente fina de osso subcondral, envolvendo uma massa de osso esponjoso. O osso esponjoso estende-se para dentro da diáfise e desaparece em dire- ção ao meio. As superfícies articulares são cobertas por cartilagem articular. Modelação e Remodelação Óssea Os processos de crescimento, de desenvolvimento e de manutenção dos ossos do esqueleto são executados pela interação de três subprocessos: a expressão do genótipo esquelético, a modelação e a remodelação. A expressão do genótipo esquelético refere-se ao processo de mudança geneti- camente programado na forma externa (tamanho e formato) e à arquitetura interna dos ossos. A modelação refere-se às alterações na expressão do genótipo esquelético que ocorrem como resultado de fatores ambientais, como a nutrição, e, em particular, às pressões mecânicas im- postas pela atividade habitual normal. A remodelação refere-se à coordenação da atividade osteoblástica e osteoclástica responsável pelas alterações reais na forma externa e na arquitetu- ra interna dos ossos, incluindo o seu reparo (Figura 4.31). Uma vez que o osso está continua- mente sendo absorvido em alguns locais (pelos osteoclastos) e depositado em outros (pelos osteoblastos), o processo de remodelação é algumas vezes referido como turnover. Antes da Figura 4.29. Estrutura de um ósteon. Osteócitos Vasos sangüíneos no canal haversiano Lamelas Genótipo esquelético: o pro- cesso de alteração geneticamen- te programada na arquitetura da forma externa (tamanho e forma- to) e interna dos ossos Modelação: as alterações na ex- pressão do genótipo esquelético que ocorrem como um resultado das influências ambientais Remodelação: a coordenação de atividade osteoblástica e osteoclástica resultando em al- terações na forma externa e na arquitetura interna dos ossos, in- cluindo o seu reparo ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 129 maturidade, todos os ossos estão em um contínuo estado de mudança na forma externa e na arquitetura interna. Após a maturidade esquelética ser alcançada (aproximadamente 20 a 25 anos de idade), a modelação da forma externa diminui a proporções insignificantes, mas a modelação da arquitetura interna continua durante toda a vida (Frost, 1979; Bailey, 1995). O crescimento, o desenvolvimento e a manutenção dos ossos do esqueleto são deter- minados pela interação de três processos: a expressão do genótipo esquelético, a modelação e a remodelação. Porosidade, Osteopenia e Osteoporose Devido aos vários canais e espaços dentro do osso compacto e esponjoso, qualquer região do osso consiste de certas quantidades de tecido ósseo e não-ósseo. O termo porosidade descreve a proporção de tecido não-ósseo. Na maturidade esquelética, a porosidade do osso compacto e a do esponjoso são, respectivamente, por volta de 2 e 50%; a densidade (quantidade de tecido ósseo por unidade de volume) de osso compacto é aproximadamente o dobro do osso esponjo- so (Radin, 1984). A densidade de tecido ósseo depende do grau de mineralização. Durante a ossificação, o grau de mineralização do tecido ósseo aumenta gradualmente e alcança um nível máximo na maturidade esquelética (Bailey et al., 1986). Entretanto, a quantidade de osso den- tro do esqueleto pode continuar a aumentar por 5 a 10 anos após a maturidade esquelética, especialmente em indivíduos fisicamente ativos (Stillman et al., 1986; Talmage e Anderson, OsteócitoCanalículos Lamelas ba Figura 4.31. Relação entre genótipo esquelético, modelação e remodelação no crescimento, desenvol- vimento e manutenção óssea. Modelação Remodelação Canal haversianoVasos sangüíneos Alterações na forma externa e na arquitetura interna do osso Figura 4.30. Osteócitos e canalículos; (a) seção transversal de um ósteon; (b) osteócito dentro de uma lacuna mostrando projeções a partir do corpo celular para dentro dos canalículos. Porosidade: a proporção de te- cido não-ósseo em um osso ou região óssea Genótipo esquelético 130 JAMES WATKINS 1984). Conseqüentemente, a massa óssea tem seu pico em homens e mulheres entre os 25 e 30 anos de idade. Em termos de turnover, isso significa que da maturidade esquelética até a idade na qual ocorre o pico da massa óssea, mais osso novo é formado do que osso lesado é absorvi- do. Seguindo-se o pico da massa óssea, existe habitualmente um período estável no qual a quantidade de osso no esqueleto permanece a mesma; ocorre um equilíbrio entre a absorção e a formação do osso. Esse período estável é seguido por uma diminuição gradual na massa óssea para o resto da vida do indivíduo; o ritmo de absorção óssea excede o ritmo de formação óssea. A massa óssea é o produto do volume ósseo e a densidade do osso. A perda na massa óssea que ocorre com a idade, após o pico de massa, é o resultado das diminuições no volume e na densidade óssea. A osteopenia refere-se a um nível de densidade óssea abaixo do nível normal para a idade e o sexo do indivíduo (Bailey, 1995). A massa óssea começa a diminuir mais cedo e em um ritmo maior em mulheres do que em homens. Nos homens, a perda óssea normalmente começa a ocorrer entre 45 e 50 anos de idade e procede a uma taxa de 0,4 a 0,75% por ano (Bailey et al., 1986; Smith, 1982). Em mulhe- res, a perda óssea tem três fases. A primeira fase inicia em torno dos 30 a 35 anos de idade e procede a uma taxa de 0,75 a 1% por ano até a menopausa. A partir da menopausa até aproxi- madamente cinco anos após, a perda de massa óssea aumenta entre 2 e 3% ao ano. Nessas condições, as mulheres podem perder 40% de seu pico de massa óssea por volta dos 80 anos. Em contraste, os homens podem perder 20% do seu pico de massa óssea em torno dos 80 anos de idade (Figura 4.32). Mesmo que o peso corporal tenda a diminuir com a idade, o ritmo deperda óssea é habi- tualmente muito maior que o ritmo no qual o peso corporal diminui. Conseqüentemente, o efeito de perda óssea é que os ossos, especialmente aqueles que sustentam pressão, tornam-se progressivamente mais fracos em relação ao peso do resto do corpo. Além de uma diminuição gradual na força, os ossos também perdem gradualmente a sua elasticidade e, como resultado, tornam-se mais duros. Em alguns indivíduos, especialmente no sexo feminino, uma perda da massa óssea e da elasticidade é eventualmente alcançada quando alguns ossos não são mais capazes de suportar as sobrecargas impostas pela atividade habitual normal. Conseqüente- Figura 4.32. Efeito da idade sobre a massa óssea. Idade (anos) % de Massa óssea Homem Mulher Osteopenia: a densidade óssea abaixo do nível normal para a idade e o sexo do indivíduo ESTRUTURA E FUNÇÃO DO SISTEMA MUSCULOESQUELÉTICO 131 mente, esses ossos tornam-se muito suscetíveis a fraturas. Essa condição, a desordem óssea mais comum em idosos, é chamada de osteoporose (Bailey et al., 1986). A osteoporose pode cau- sar grave desfiguramento, especialmente do tronco, por causa de vértebras fraturadas ou esmagadas. Muitas mortes em idosos são causadas por complicações originárias das fraturas de ossos que ocorrem como resultado de osteoporose (Kaplan, 1983). A perda óssea tende a ocorrer mais cedo e a proceder em um ritmo mais acelerado no osso esponjoso do que no osso compacto (Bailey et al., 1986). Conseqüentemente, as regiões dos ossos com uma alta proporção de osso esponjoso, como os corpos das vértebras, a cabeça e o colo do fêmur e a extremidade distal do rádio, são particularmente vulneráveis à osteoporose e, por conseguinte, a fraturas em pessoas idosas. Essa vulnerabilidade está refletida nos estu- dos indicando um rápido aumento na incidência de fraturas ósseas com a idade, especialmen- te em mulheres. Por exemplo, os resultados de um estudo mostraram que a incidência de fra- turas na extremidade distal do rádio era sete vezes maior em mulheres com 54 anos de idade do que em mulheres com 40 anos de idade (Bauer, 1960). Em outro estudo, a incidência de fratura do colo do fêmur foi 50 vezes mais alta em mulheres com 70 anos do que em mulheres com 40 anos (Chalmers e Ho, 1970). Quanto ao osso compacto, a perda óssea ocorre principal- mente na superfície endosteal, de tal forma que a largura óssea permanece relativamente imu- tável até a idade mais avançada (Smith, 1982). Embora a causa da osteoporose ainda não esteja clara, existe uma concordância geral de que quatro variáveis são as principais responsáveis: fatores genéticos, estado endócrino, fato- res nutricionais e atividade física (Bailey et al., 1986; MacKinnon, 1988). A contribuição relativa dessas variáveis ainda não foi estabelecida, mas o nível de atividade física parece ser o mais importante. Na ausência de atividade com sobrecarga, nenhuma intervenção endócrina ou nutricional irá prevenir a rápida perda óssea; deve haver estresse mecânico (Bailey et al., 1986). A pesquisa sugere que a atividade física regular durante a vida, dentro da amplitude de sobre- carga moderada (ver Capítulo 11), pode ajudar a prevenir a osteoporose de três maneiras (Bailey et al., 1986; Stillman et al., 1986; Talmage e Anderson, 1984; Smith e Gilligan, 1987): 1. O pico da massa óssea está diretamente relacionado com o nível de atividade física antes dele; quanto maior o pico da massa óssea, menor o risco de osteoporose. 2. Um nível acima da média de atividade física após o pico da massa óssea irá retardar o aparecimento da perda óssea. 3. Um nível acima da média de atividade física após o pico da massa óssea irá reduzir o ritmo de perda óssea. Aproximadamente a partir dos 30 anos em mulheres e 45 anos em homens, ocorre uma diminuição gradual na massa óssea e na elasticidade dos ossos. Muitos indivíduos, especialmente mulheres, desenvolvem osteoporose, que pode causar desfiguração e, em alguns casos, morte por complicações originárias das fraturas nos ossos osteoporóticos. Embora a causa de osteoporose ainda não esteja clara, as pesquisas sugerem que um dos principais fatores é a falta de estresse mecânico. A atividade física regular durante toda vida parece ser a melhor maneira de prevenir a osteoporose. RESUMO Este capítulo descreveu a estrutura e as funções dos vários tecidos conjuntivos. A característica estrutural dominante de todos os tecidos conjuntivos é uma grande massa de matriz acelular; as características físicas da matriz de cada tecido conjuntivo determinam sua função. Os teci- dos conjuntivos fornecem a sustentação mecânica em todos os níveis de organização celular e facilitam a troca intercelular. A função mecânica dos tecidos conjuntivos fica claramente evi- dente no próximo capítulo, que descreve o sistema articular. Osteoporose: a perda de mas- sa óssea e de elasticidade a pon- to de os ossos não mais agüen- tarem as pressões impostas pela atividade habitual resulta em uma alta suscetibilidade a fratu- ras Dica do professor Neste vídeo com conteúdo visual-informativo é possível ver, de forma mais dinâmica, os conceitos trabalhados nesta Unidade de Aprendizagem. Alguns exemplos têm como objetivo auxiliar na compreensão das funções e morfologia óssea, bem como nas respostas mecânicas e adaptativas do osso. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/3f20698c1c866072ced9de15ba8d9d7b Na prática A fratura por estresse é um caso indesejado de lesão traumato-ortopédica muito relacionada com o aumento significativo da prática de exercício físico regular. Um dos locais anatômicos de maior ocorrência é na região da tíbia, principalmente em participantes de esportes ou atividades de alto impacto. Assim, podemos observar o fenômeno da histerese, em que a energia acumulada pelo exercício e o intervalo reduzido entre as sessões impede a dissipação dessa energia, o que causa deformação tecidual até atingir o ponto de falha. A etiologia da fratura por estresse pode ser melhor descrita como uma acelerada remodelação óssea em resposta a um repetitivo estresse submáximo. O osso responde e forma um novo osso periosteal como um reforço extra. Contudo, se a atividade osteoclástica continuar a exceder a média dos osteoblastos para nova formação óssea, eventualmente uma fratura na cortical pode ocorrer. Esse tipo de ocorrência pode não ser apontado por exames de imagem, mas somente por um diagnóstico clínico. Assim, o repouso adequado e o fortalecimento da musculatura da região tibial são estratégias que auxiliam na redução da ocorrência, bem como dos sintomas. Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Mechanical finder - analysis example. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Tensile Mechanical Properties of Swine Cortical Mandibular Bone. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Whole Bone Mechanics and Bone Quality. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/watch?v=neWVuoM-368 http://www.plosone.org/article/fetchObject.action?uri=info:doi/10.1371/journal.pone.0113229&representation=PDF http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3126947/pdf/11999_2011_Article_1784.pdf