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Ética & a lei de Deus
Uma introdução à teonomia
 
 
William O. Einwechter
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
© 1995, de William O. Einwechter
Título do original: Ethics & God’s Law: An Introduction to Theonomy
Edição publicada pela
Preston/Speed Publications
(Mill Hall, Pensilvânia, EUA)
 
■
 
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
EDITORA  MONERGISMO
Caixa Postal 2416
Brasília, DF, Brasil - CEP 70.842-970  
Telefone: (61) 8116-7481 - Sítio: www.editoramonergismo.com.br
 
 
1
a
 edição, 2009
 
1000 exemplares
 
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto 
Revisão: Túlio César Costa Leite
Capa: Raniere Maciel Menezes
 
■
 
PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER MEIOS,
SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.
 
Todas as citações bíblicas foram extraídas da 
versão Almeida Corrigida e Fiel (ACF),
salvo indicação em contrário.
 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
 
Einwechter, William O.
 
Ética e a lei de Deus: uma introdução à teonomia / William O.
Einwechter, tradução Felipe Sabino de Araújo Neto – Brasília, DF: Editora
Monergismo, 2009.
 
Título original: Ethics & God’s Law: An Introduction to Theonomy
ISBN 978-85-62478-09-3
 
1. Ética                            2. Bíblia                            3. Teologia
 
CDD 230
             
 
 
 
 
 
 
 
 
Sumário
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
PRÓLOGO
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO 1 – TEONOMIA E ÉTICA
CAPÍTULO 2 – TEONOMIA E O ESCOPO DA LEI
CAPÍTULO 3 – TEONOMIA E AUTONOMIA
CAPÍTULO 4 – TEONOMIA E LEI NATURAL
CAPÍTULO 5 – TEONOMIA E ANTINOMIANISMO
CAPÍTULO 6 – TEONOMIA E LEGALISMO
CAPÍTULO 7 – TEONOMIA E O USO APROPRIADO DA LEI DE DEUS
CAPÍTULO 8 – TEONOMIA E HERMENÊUTICA
CAPÍTULO 8 – TEONOMIA E LEI CIVIL
CAPÍTULO 10 – TEONOMIA E RESPOSTAS
CONCLUSÃO
LISTA DE LEITURA SUGERIDA PARA O ESTUDO ADICIONAL DE TEONOMIA
SOBRE O AUTOR
Prefácio à edição brasileira
 
A lei de Deus tem valor intrínseco. A importância,
bem-aventurança e obrigatoriedade de estudá-la e
obedecê-la é contínua, a despeito das circunstâncias ao
nosso redor, ou do cenário no qual vivemos. Todavia,
quando a lei de Deus é desprezada ou rejeitada, mesmo por
aqueles que deviam honrá-la, torna-se ainda mais
imperativo que os cristãos sejam exortados a prestar à lei o
valor que lhe é devido. O que poucos parecem perceber é
que rejeitar a lei equivale a rejeitar o seu Legislador, ou
seja, o Deus que a revelou.
Ética e a lei de Deus é uma tentativa, bem sucedida
creio eu, de apresentar os principais fundamentos da ética
bíblica, bem como refutar alguns equívocos comuns sobre
ela. O termo teonomia pode parecer estranho e até
assustador para alguns, mas ele quer dizer simplesmente “a
lei de Deus”. Visto que a lei de Deus está contida na Bíblia,
quando falamos de teonomia ou ética teonômica, estamos
falando de “ética bíblica”, “ética da lei de Deus” ou
simplesmente “a ética ensinada na Bíblia”. E visto que a
Bíblia é o cetro pelo qual o Rei celestial governa a sua
criação, devemos prestar atenção a todos os seus ensinos,
incluindo aqueles sobre ética pessoal, familiar, eclesiástica
e social.
Einwechter é escritor exímio, que sempre expôs com
clareza, coerência e firmeza mesmo as doutrinas mais
difíceis da Bíblia.[1] O autor demonstra a mesma habilidade
no presente livro, e eu não hesitaria em recomendá-lo
inclusive àqueles que ainda são neófitos na fé cristã. O
crente experiente também será beneficiado, pois caso não
seja um teonomista, provavelmente verá que não lhe
apresentaram corretamente “a outra visão”, principalmente
no capítulo sobre “teonomia e lei civil”.  E com certeza os
teonomistas serão fortalecidos e encorajados com a
exposição cuidadosa de Einwechter, bem como por sua
atitude num debate por vezes muito hostil.
Boa leitura!
 
 
— Felipe Sabino de Araújo Neto 
10 de maio de 2009
Prólogo
 
O renascimento bem-vindo da ortodoxia Reformada no
Ocidente após séculos de declínio notório tem sido
necessariamente acompanhado por um interesse elevado
na lei bíblica. Isso não é surpreendente, visto que de todas
as expressões do Cristianismo ortodoxo, nenhuma dá maior
ênfase à relevância da lei escriturizada de Deus que o
Calvinismo histórico e confessional. Em seu excelente livro
Lectures in Systematic Theology, primeiramente publicado
no século XIX, o notável calvinista R. L. Dabney observou
que “a visão que tenho apresentado da Lei, como a
expressão necessária e imutável da retidão de Deus, mostra
que sua autoridade sobre as criaturas morais é inevitável”.
O crente reformado ortodoxo sempre manteve que a lei é
um reflexo do caráter imutável de Deus e, portanto, não
pode mudar, assim como ele não pode.
No volume presente, Ética e a Lei de Deus, William
Einwechter apresenta sucinta, mas potentemente a
concepção mais consistente dessa visão Reformada da lei,
hoje conhecida como teonomia. O fato que essa visão tem
ocasionado certa controvérsia não somente no
evangelicalismo moderno (que é abundante em
antinomianismo), mas também na comunidade Reformada
contemporânea, testemunha o quanto a fé Protestante se
desviou de sua rica herança.
Espero que o trabalho bem argumentado do Pastor
Einwechter reforce a fé dos calvinistas históricos na lei
escrita de Deus e convença outros da validade desta visão
que honra a Deus.
Não haverá nenhum reavivamento genuíno à parte da
disseminação do evangelho puro, e não haverá nenhuma
disseminação do evangelho puro à parte de um
reavivamento do entendimento Reformado da lei.
— Rev. Andrew Sandlin
 
Introdução
 
Se existe uma palavra que melhor descreva o estado
do mundo e da igreja com respeito à ética, teria que ser a
palavra confusão. Ora, não é difícil entender  porque o
mundo não pode encontrar nenhuma concordância sobre o
padrão ético para lidar com o caos moral da era presente,
mas é mais difícil explicar a divisão na igreja sobre a
questão da ética. Como pode a igreja de Jesus Cristo não ter
nenhuma resposta bíblica unificada à crise moral do
momento? Esse fracasso deveria ser profundamente
perturbador para todo verdadeiro filho de Deus. Essa
incapacidade de dar uma solução bíblica bem articulada à
confusão moral que nos confronta desonra a Deus, leva a
um estilo de vida perverso entre os cristãos, prejudica nosso
próximo, e atrapalha o nosso testemunho ao mundo por
contribuir à noção comum que a igreja é irrelevante. É triste
dizer, mas parece ser verdade, que “o sal da terra” perdeu
seu “sabor” e agora, em grande medida, “para nada mais
presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos
homens” (Mt 5.13).
Contudo, há razão para acreditar que essa situação
inaceitável está começando a mudar. O Senhor Deus, para a
glória do seu próprio nome e para o avanço do seu reino,
está trabalhando em sua igreja para levantar crentes que
estão plenamente comprometidos em princípio e prática à
doutrina Reformada cardinal do sola Scriptura (somente a
Escritura). Pela graça de Deus um número crescente de
cristãos estão respondendo à crise ética no mundo
aplicando a doutrina do sola Scriptura à questão da ética.
Essa aplicação fiel e consistente da Escritura somente à
questão da ética veio a ser conhecida em nossos dias como
“teonomia”.[2]
Mas, tristemente, no tempo presente há muito mal
entendido na igreja com respeito à teonomia. Alguns creem
que a teonomia é uma conspiração perigosa para destruir a
liberdade civil e escravizar os cidadãos nas algemas da lei
mosaica. Outros veem a teonomia como um retorno a um
tipo de “legalismo farisaico” que joga a liberdade do cristão
no chão. Enquanto outros simplesmente não sabem o que
pensar; para eles o termo “teonomia” soa estranho ou
mesmo misterioso. O que, então, é “teonomia”? O propósito
deste livro é fornecer uma resposta básica e direta a essa
pergunta. Espero que esta breve introdução à ética
teonômica dê ao leitor um entendimento fundamental dos
aspectosessenciais da teonomia, e também esclareça
muitos dos equívocos sobre a teonomia que estão em
circulação.  Por fim, é nossa esperança que o leitor não
somente será convencido que a teonomia é a abordagem
bíblica à ética como também será motivado a estudar mais
sobre o assunto.[3]
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UMA DEFINIÇÃO DE TEONOMIA
 
 
 
Capítulo 1 – Teonomia e ética
 
Para entender a ética teonomista devemos primeiro
definir as palavras “teonomia” e “ética”. Tendo feito isto,
seremos capazes de dar uma definição básica do sistema
ético da teonomia.
O significado essencial da palavra “teonomia” é muito
claro. Ele vem das palavras gregas theos, significando
“Deus”, e nomos, significando “lei”. Portanto, nossa palavra
portuguesa “teonomia” significa “lei de Deus”, ou “a lei de
Deus” (cf. Rm 7.22, 25; 8.7). Assim, embora a palavra
“teonomia” possa a princípio soar estranha para nós, não há
nada estranho sobre o seu significado; ela significa
simplesmente “a lei de Deus” e está relacionada à frase do
Antigo Testamento, “a lei do Senhor” (Sl 19.7). Mas para
definir a palavra teonomia, como ela é usada hoje, devemos
colocá-la em seu contexto normal. Teonomia é usada como
um título (rótulo) para designar uma abordagem particular à
ética cristã. Teonomia refere-se à visão que a lei de Deus é o
padrão para a ética cristã. Portanto, se haveremos de
entender apropriadamente o significado da “teonomia”,
devemos definir também a palavra “ética”.
Nossa palavra portuguesa “ética” é derivada do termo
grego (ethikos) para “morais”. Morais são princípios ou
padrões de conduta que fixam uma diferença entre
comportamento aceitável e inaceitável. Portanto, ética tem
a ver com conduta humana, e com o estudo dos padrões de
comportamento moral. O objetivo da ética é estabelecer
qual é a conduta moral apropriada ao fazer uma distinção
entre certo e errado. A ética lida com “dever”, isto é, ela
procura determinar o que uma pessoa deveria fazer entre
cursos alternativos de conduta. Ao estabelecer padrões
morais ela capacita uma pessoa a julgar como deveria agir.
Noah Webster fornece uma definição útil de ética: “A
doutrina da moralidade ou maneiras sociais; a ciência da
filosofia moral, que ensina aos homens seus deveres e as
razões deles. Um sistema de princípios morais; um sistema
de regras para regulamentar as ações e maneiras dos
homens na sociedade”.[4]
Portanto, ética, como uma ciência, refere-se ao
estabelecimento de princípios morais fundamentais que
servirão como uma regra para prescrever a conduta justa e
boa. O objetivo da ética é construir um sistema coerente de
moralidade que ensina ao homem o que ele deveria fazer,
como deveria agir, e porque deveria agir da maneira
prescrita. A ética procura responder três questões: “Qual é o
motivo da ação humana?”; “Qual é o padrão da ação
humana?”; e “Qual é o fim ou propósito da ação humana?”.
[5]
Porque a ética está preocupada em criar um sistema
de moralidade, a palavra é frequentemente usada em
referência ao código de conduta ensinado por uma pessoa,
filosofia ou religião em particular (e.g., ética marxista; ética
confucionista; ética grega; ética hindu, etc.). Portanto, a
expressão “ética cristã” refere-se ao sistema de moralidade
apresentado na Bíblia e ensinado pelos seguidores de Jesus
Cristo.
O que então é “teonomia”? Teonomia é aquela visão
da ética cristã que crê que a lei de Deus como revelada na
Escritura é a única regra apropriada e o único padrão
aceitável para julgar o certo ou errado de todo e qualquer
comportamento humano. Somente a lei de Deus determina
o que o homem deveria fazer e porque deveria fazê-lo. A
ética teonômica, portanto, apresenta a lei de Deus como o
padrão supremo de verdade e justiça, e procura aplicar os
preceitos da lei santa de Deus a toda ação do homem e a
cada esfera da vida. Teonomia é simplesmente a expressão
da doutrina do sola Scriptura no reino da ética.[6]
Tendo dado uma definição básica de teonomia, é
necessário que passemos agora a uma descrição mais
aprofundada das características essenciais da teonomia.
Essa descrição, que é dada nos capítulos que seguem, é
crucial para um entendimento apropriado da ética
teonômica.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UMA DESCRIÇÃO DE TEONOMIA
 
Capítulo 2 – Teonomia e o escopo da
Lei
 
A teonomia afirma que a lei revelada de Deus é o
padrão para a ética. Mas o que se quer dizer por lei
revelada de Deus e qual é o escopo dessa lei?
Quando a teonomia afirma que o padrão para a ética
é a lei de Deus, ela refere-se à lei moral revelada na
Escritura. A lei moral é aquela lei[7] que estabelece o
padrão ético de conduta para todos os homens em qualquer
lugar. Ela incorpora a vontade de Deus para todos os
homens em termos do caráter e comportamento deles. A
Pergunta 93 do Catecismo Maior de Westminster questiona,
“Que é a lei moral?”, e responde: “A lei moral é a declaração
da vontade de Deus, feita ao gênero humano, dirigindo e
obrigando todas as pessoas à conformidade e obediência
perfeita e perpétua a ela – nos apetites e disposições do
homem inteiro, alma e corpo, e no cumprimento de todos
aqueles deveres de santidade e retidão que se devem a
Deus e ao homem…”.
A lei moral é baseada na própria natureza santa de
Deus (1Pe 1.15-16), e estabelece a justiça de Deus que os
homens devem imitar em suas próprias vidas (Mt 5.48; Ef
5.1). O Senhor diz ao homem: “Porque eu sou o SENHOR vosso
Deus; portanto vós vos santificareis, e sereis santos, porque
eu sou santo” (Lv 11.44). Visto que a lei moral é um reflexo
da natureza santa do Deus soberano da criação, ela deve
ser universal (obrigatória sobre todos os homens em
qualquer lugar) e imutável (obrigatória sobre todas as
dispensações), porque o próprio Deus não pode mudar (Ml
3.6; Tg 1.17; Sl 102.25-27), e como Criador ele é rei sobre
toda a terra (Gn 1.1; Sl 47.2). A lei moral é, portanto, a
regra imutável de conduta correta para todos os homens e
para todos os tempos. Será sobre a base desta lei moral que
Deus julgará todos os povos e nações (Sl 9.7-8, 16-20;
96.10, 13; 98.2, 9; Atos 17.31; Rm 2.5-12; 3.19).
A lei moral é resumida na Escritura nos Dez
Mandamentos (Ex 20.1-17; Dt 4.13; 5.6-21). A significância
dos Dez Mandamentos é explicada para nós no Catecismo
Maior de Westminster:
A lei moral acha-se resumidamente compreendida
nos dez mandamentos, que foram dados pela voz
de Deus no monte Sinai e por ele escritos em
duas tábuas de pedra, e estão registrados no
capítulo vigésimo do Êxodo. Os quatro primeiros
mandamentos contêm os nossos deveres para
com Deus e os outros seis os nossos deveres para
com o homem. (P. 98)
Mas as palavras dos Dez Mandamentos constituem o
escopo total da lei moral revelada de Deus? Ou Deus deu
uma revelação mais detalhada da sua vontade para o
homem? E se sim, onde?
Ao responder as questões acima é útil considerar o
significado da palavra do Antigo Testamento para lei, que é
torá. Visto que tendemos a definir o conceito de lei no
sentido legal limitado de mandamentos e estatutos
explícitos, um entendimento da palavra hebraica torá é
muito útil para entender o escopo da lei moral. O termo
hebraico torá denota essencialmente os conceitos de
ensino, instrução e direção. A torá fornece aos homens
instrução sobre como viver e revela os princípios de conduta
que os homens deveriam seguir em suas relações uns com
os outros e em sua adoração a Deus. Concernente à palavra
torá, Jocz declara: “O substantivo é derivado do verbo
hebraico yarah (lançar, atirar). No uso bíblico, ele cobre
uma variedade ampla de significado: informar, instruir,
guiar, conduzir, etc. A torá existe para fornecer direção,
visando o propósito de fazer a vontade de Deus… ela nunca
é simplesmente lei no sentido legal. Ela é sabedoria, uma
expressão de devoção a Deus, um estilo de vida”.[8] É por
meio da torá que “Deus mostra seu interesse em todos os
aspectos da vida do homem, que deveser vivida sob sua
direção e cuidado. A lei de Deus permanece em paralelo à
Palavra do Senhor para significar que a lei é a revelação da
vontade de Deus (e.g., Is 1.10)”.[9] A torá dá direção
apropriada à vida do homem ao revelar ao homem a
conduta moral que Deus requer dele.
A lei (torá) de Deus  refere-se a toda a instrução moral
que Deus revelou ao homem. Sempre que Deus instrui o
homem em seus deveres morais, ali Deus dá sua lei moral.
Consequentemente, a lei de Deus não é declarada apenas
nos códigos mais formais de lei tais como os Dez
Mandamentos ou o Livro do Pacto (Ex 20.22-23.33), mas a
lei de Deus é revelada também no contexto da narrativa
histórica, profecia, salmos, provérbios e epístolas! Portanto,
a revelação da lei moral se estende além dos Dez
Mandamentos e inclui toda a Palavra de Deus. Os Dez
Mandamentos resumem os princípios essenciais da lei
moral, mas esses princípios são desenvolvidos, explicados,
ilustrados e aplicados em todo o restante da Escritura.
Consequentemente, a teonomia ensina que o padrão
de ética é o todo da Palavra de Deus, desde Gênesis a
Apocalipse. A lei do Senhor é revelada por Moisés e os
Profetas, e por Jesus e os Apóstolos. A teonomia é zelosa em
sustentar todo o conselho de Deus (Atos 20.20, 27), como
dado nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, como
sendo a lei de Deus. A teonomia evita o erro de limitar a
base para o padrão ético somente a uma porção da Palavra
de Deus. Regras obrigatórias de conduta são encontradas
em todas as partes da Escritura. A teonomia afirma que
toda a Escritura é dada por inspiração de Deus e é
proveitosa para instrução na justiça (2Tm 3.16).
A teonomia afirma também que a Palavra de Deus é
uma revelação completa da vontade de Deus para o
homem, e como tal, é suficiente para falar com autoridade
obrigatória a cada questão da vida. A lei de Deus é perfeita,
e fornece instrução para nos equipar a determinar o que é
certo e errado em cada e toda situação (Sl 19.7-10; 119.99,
104, 128). Não precisamos de outra fonte que não a
Escritura inspirada para definir justiça (2Tm 3.16-17). A
Confissão Belga fornece uma maravilhosa declaração
resumida sobre a suficiência completa da Escritura:
Cremos que esta Sagrada Escritura contém
perfeitamente a vontade de Deus e
suficientemente ensina tudo o que o homem deve
crer para ser salvo. Nela, Deus descreveu, por
extenso, toda a maneira de servi-lo. Por isso, não
é lícito aos homens, mesmo que fossem apóstolos
“ou um anjo vindo do céu”, conforme diz o
apóstolo Paulo (Gálatas 1.8), ensinarem outra
doutrina, senão aquela da Sagrada Escritura. É
proibido “acrescentar algo à Palavra de Deus ou
tirar algo dela” (Deuteronômio 12.32; Apocalipse
22.18,19). Assim se mostra claramente que sua
doutrina é perfeitíssima e, em todos os sentidos,
completa.[10]
A lei de Deus apresenta o padrão para a ética pessoal,
familiar, eclesiástica e social. De acordo com Dt 6.8-9, a lei
de Deus deve guiar todas as nossas deliberações, todas as
nossas ações, tudo o que acontece em nossos lares, e tudo
o que transpira além dos nossos lares. A lei moral é um
padrão ético abrangente que deve dirigir o indivíduo, o pai,
o presbítero e o magistrado civil. Todos devem se curvar
diante da autoridade da lei e, nisto, buscar sabedoria e
direção para toda boa obra; pois sem a lei e o testemunho
não haverá nenhuma luz em nós (Is 8.20), mas na lei de
Deus encontraremos uma luz verdadeira para o nosso
caminho (Sl 119.105, 130). Nunca devemos confiar em
nossa própria sabedoria na ética, antes, em todos os nossos
caminhos devemos reconhecer a autoridade e perfeição da
lei de Deus e permitir que ela dirija as nossas veredas (Pv
3.5-7).
A teonomia ensina que a lei de Deus como revelada
nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento é o único
padrão autoritativo de ética, e que a Bíblia é inteiramente
suficiente para nos instruir na justiça para cada esfera da
vida. O moto da teonomia poderia muito bem ser “o todo da
Bíblia para o todo da vida”.
Capítulo 3 – Teonomia e autonomia
 
A ética da teonomia é contrastada pela ética da
autonomia. O que é autonomia? A palavra “autonomia” é
derivada de duas palavras gregas, autos, significando “eu”,
e nomos, significando “lei”. Eticamente falando, autonomia
significa que o homem é uma lei para si mesmo. O homem
autônomo alega o direito de governar a si mesmo de acordo
com as normas morais que ele acha apropriado estabelecer;
ele alega a autoridade de sua própria razão independente
de ser o juiz do que é verdadeiro e falso, bom e mau.
Assim então, autonomia é claramente o oposto de
teonomia; pois, assim como a teonomia afirma o governo da
lei de Deus, a autonomia afirma o governo da lei do homem.
A ética autônoma é antropocêntrica (centrada no homem),
enquanto a ética teonômica é teocêntrica (centrada em
Deus). A essência da autonomia ética é aquela do homem
estabelecendo as normas morais do caráter e conduta
humanos por algum padrão diferente da lei revelada de
Deus; seja esse padrão a razão humana, a tradição, religião
ou filosofia. A teonomia está procurando fazer aquilo que é
correto aos olhos do Senhor (1 Reis 15.5, 11; 22.43); a
autonomia é todo homem fazendo o que “parece bem aos
seus olhos” (Juízes 17.6; 21.25; Dt 12.8). Teonomia é
alguém andando no conselho do Senhor (Sl 16.7; 32.8;
73.24); autonomia é alguém andando no seu próprio
conselho (Sl 81.12) ou no conselho do ímpio (Sl 1.1). Talvez
uma das declarações mais claras na Escritura que contrasta
o caminho da teonomia e o caminho da autonomia é
encontrada em Jeremias 7.23-24:
Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à
minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o
meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos
mandar, para que vos vá bem. Mas não ouviram,
nem inclinaram os seus ouvidos, mas andaram
nos seus próprios conselhos, no propósito do seu
coração malvado; e andaram para trás, e não
para diante (cf. também Jr 10.2-3; 11.8; 18.12;
23.17).
Qualquer sistema ético que rejeite a lei de Deus como
o único e supremo padrão de certo e errado, deve
necessariamente ser um sistema ético que é autônomo em
seu cerne, isto é, uma lei para si mesmo. Se Deus é o
criador de todas as coisas, então sua natureza santa deve
ser o padrão de santidade e justiça entre os homens que
foram criados à sua imagem (Gn 1.27; 1Pe 1.14-16; Cl 3.10;
Ef 4.24). A lei revelada de Deus, que é uma transcrição do
seu santo caráter, deve ser necessariamente a única regra
verdadeira que define para o homem o que é bom e correto,
o que o homem deveria fazer e ser. Dessa forma, rejeitar a
lei de Deus e estabelecer alguma regra rival de ética é
suprimir a verdade em injustiça e adorar e servir à criatura
antes que ao Criador (Rm 1.18-25). A promessa de
autonomia foi central na tentação da Serpente, “sereis
como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3.5). A sedução de
Satanás que levou o homem ao pecado foi a mentira que
ele não precisava depender de Deus e da sua Palavra para o
conhecimento do bem e do mal, mas que ele poderia ser o
seu próprio deus[11] e conhecer e determinar essas coisas
por si só. Autonomia na ética é o homem seguindo a
mentira de Satanás e vivendo sua rebelião contra Deus e
sua lei. É a tentativa do homem de ser o seu próprio deus.
Essa autonomia na ética é a própria essência do
humanismo.
Portanto, não pode haver tal coisa como neutralidade
ética. Eticamente falando, há somente duas opções
possíveis: teonomia ou alguma forma de autonomia. Ou
você serve ao Criador e vive pelos padrões que ele revelou,
ou serve a criatura e vive pelos padrões de sua própria
confecção ou escolha.[12] É vão para uma pessoa alegar
que está ocupando um meio termo entre teonomia e
autonomia, pois essa própria alegação é uma rejeição da
autoridade de Deus e o governo de sua lei sobre aqueles
feitos à sua imagem. A Escritura, e a Escritura somente,
deve ser a base para a nossa ética! Deus não concedeu
autonomiaa nenhuma esfera da vida. O indivíduo, a família,
a igreja, e o Estado (sim, o Estado também!) devem se
submeter  a Deus e à sua lei como a única fonte verdadeira,
infalível e autoritativa para o conhecimento do bem e do
mal. Ninguém tem liberdade para determinar para si
mesmo, ou para os outros, o que é bom e mau. Alguém
alegar tal liberdade é apenas expor a sua rebelião contra
Deus.
Uma forma enganosa de teonomia existe na igreja
cristã hoje. Esse tipo de teonomia presta serviço labial à lei
de Deus, mas então continua para determinar quais
mandamentos dessa lei moral serão mantidos. Nesse
sistema, somente aqueles mandamentos que são julgados
estar em sintonia com o tempo, que são considerados
praticáveis para hoje, ou que estão de acordo com as
noções modernas de amor, lealdade e justiça sobrevivem
como padrões de ética. Mas quando os homens ou a igreja
julgam a lei de Deus, e anulam ou alteram quaisquer dos
mandamentos de Deus sem autorização bíblica direta da
parte de Deus isso é autonomia, pois no final é a própria
sabedoria e senso moral do homem que se torna o padrão.
Muitíssimos cristãos hoje são como aqueles em Israel que
hesitavam entre duas opiniões. Numa situação a lei de Deus
é aceitável, mas em outra situação a “lei de Baal” (e.g., leis
promulgadas por um Estado humanista, ou por filósofos e
psicólogos seculares) é encontrada mais em ritmo com os
tempos e mais aplicável e racional. Mas a pessoas como
essas o Senhor ainda fala: “Até quando coxeareis entre dois
pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o, e se Baal, segui-
o” (1 Reis 18.21).
A teonomia se opõe a todas as formas de autonomia
na ética, e chama todos os homens em todo lugar a se
arrependerem de sua rebelião e abraçar a lei de Deus como
o único padrão de ética para toda esfera da vida. Os
teonomistas aplicam com ousadia as palavras de Jesus à
questão dos padrões morais e éticos: “ninguém pode servir
a dois senhores” (Mt 6.24). Autonomia é o homem servindo
a si mesmo e vivendo de acordo com sua própria lei.
Teonomia é o homem servindo a Deus e vivendo de acordo
com a lei de Deus.
 
 
Capítulo 4 – Teonomia e lei natural
 
“Lei natural” é um termo enganoso, pois significa
coisas diferentes para pessoas diferentes. Uma visão
secular da lei natural[13] diferirá radicalmente de uma visão
cristã da lei natural. E mesmo entre cristãos há diferenças
de opinião sobre muitas das questões relativas à definição e
uso da lei natural. Aqui nos limitaremos a uma discussão da
evidência bíblica.
De acordo com a Bíblia, Deus revela sua glória,
natureza santa e a lei moral através da criação, providência
e consciência do homem (Sl 19.1-6; Atos 14.17; 17.23-31;
Rm 1.19-31; 2.14-15). Chamamos essa manifestação de
“revelação natural”, pois ela é a verdade mostrada ao
homem por meio das obras de Deus no reino criado. A lei
natural é uma parte dessa revelação natural. A lei natural é,
portanto, a revelação da lei moral de Deus por meio da
criação, providência e consciência do homem.  Porque a
revelação natural está em todos os tempos e em todos os
lugares claramente apresentada diante do homem e no
homem, todos são responsáveis, e todos serão julgados por
ela (Rm 1.19-31). A teonomia reconhece plenamente a
verdade bíblica da revelação natural e da lei natural.
Contudo, a teonomia também afirma fortemente a
insuficiência da lei natural como o padrão de ética por
causa das limitações do homem como uma criatura, e por
causa de sua queda no pecado.
Sendo uma criatura, o homem precisa da Palavra do
Criador para interpretar e entender corretamente todas as
coisas. Deus, não o homem, é a medida de todas as coisas e
a fonte de todo conhecimento e verdade, incluindo o
conhecimento do bem e do mal. Portanto, mesmo no Jardim
do Éden, quando o homem ainda era perfeito e sem pecado,
ele precisava da Palavra externa de Deus para instruí-lo e
guiá-lo na santa vontade de Deus (Gn 1.28-29; 2.16-17). O
homem tinha uma consciência pura, e a criação não tinha
sido sujeita à maldição, e ainda assim a lei natural não era
suficiente. Requeria-se que a Palavra de Deus ensinasse ao
homem o caminho do dever e a vereda da justiça.
Se o homem sem pecado precisava da Palavra de
Deus e não poderia guiar-se somente pela lei natural,
quanto mais deve o homem caído necessitar da Palavra de
Deus a fim de aprender o conhecimento do bem e do mal.
Se a lei natural era insuficiente antes da queda, ela é
duplamente inadequada agora porque a capacidade do
homem de discernir a lei natural foi grandemente afetada
pela queda. Em primeiro lugar, a própria criação está agora
sob a maldição do pecado (Gn 3.17-19; Rm 8.19-22).
Portanto, embora a criação ainda testemunhe a glória e o
poder de Deus (Sl 19.1-6; Rm 1.19-20), ela não mais pode
servir como uma revelação infalível de padrão ético.[14] Em
segundo lugar, o homem é agora uma criatura pecadora e
rebelde que busca suprimir a verdade da lei natural em sua
injustiça (Rm 1.18). É certamente verdade que “a obra da
lei” foi “escrita em seus corações” (Rm 2.14-15), mas a
consciência poluída do homem não é de forma alguma um
guia confiável para discernir o que é justo, bom e correto
(Pv 16.25; 1Tm 4.2; Tito 1.15; Hb 9.14; 10.22). Podemos
confiar na consciência do homem caído, cujo “coração é
enganoso, mais do que todas as coisas, e perverso” (Jr
17.9), para ser o juiz final do que é bom e mau?
A doutrina da depravação total nos ensina que é tolo
crer que o homem em si mesmo, ou em conselho com
outros, será capaz de estabelecer um sistema ético
perfeitamente justo sobre a base da lei natural. Com
respeito a isso, Van Til disse:
Essa doutrina da depravação total do homem
deixa claro que a consciência moral do homem,
como ele é hoje, não pode ser a fonte de
informação sobre o que é o bem ideal ou sobre
qual é o padrão do bem… É nesse ponto
particularmente que o cristão precisa manter sem
qualquer apologia e sem qualquer concessão que
é à luz da Escritura, e da Escritura somente, que
todas as questões morais devem ser respondidas.
A Escritura como uma revelação externa tornou-
se necessária por causa do pecado do homem.
Nenhum ser vivo pode sequer apresentar o
problema moral como deveria, ou fazer as
perguntas morais como deveria, a menos que o
faça à luz da Escritura. O homem não pode de si
mesmo encarar verdadeiramente o problema
moral, muito menos respondê-lo.[15]
O único resultado de fazer a lei natural o padrão de
ética para o homem caído será confusão e erro.[16]
O que o homem precisa é uma declaração escrita
objetiva da lei moral de Deus. Isso é exatamente o que
Deus deu-lhe nas páginas da Sagrada Escritura. A Palavra
de Deus coloca diante do homem o padrão infalível de ética.
A Bíblia revela a lei moral com a precisão da comunicação
escrita. O homem não precisa “procurar” padrões morais na
região turva da lei natural, mas precisa apenas se voltar
para a luz radiante da Escritura para ler os mandamentos
explícitos e os princípios morais revelados nela (Sl 119.105).
A Palavra de Deus dá luz e entendimento mesmo aos
símplices (Sl 119.130).
Essa superioridade da revelação bíblica sobre a
revelação natural não significa que haja qualquer
contradição entre a lei natural como revelada na natureza, e
a lei moral como declarada na Escritura. A unidade entre a
lei natural e a lei bíblica é expressa na Confissão de Fé
Batista de Londres:
A mesma lei que uma vez foi inscrita no coração
humano continuou a ser uma regra perfeita de
justiça após a queda. E essa lei foi dada por Deus
sobre o monte Sinai e inscrita em duas tábuas de
pedra, na forma de dez mandamentos. Os quatro
primeiros mandamentos contêm nossos deveres
para com Deus, e, os outros seis mandamentos,
nossos deveres para com os homens.[17]
Há somente uma lei moral, pois há somente um Deus
verdadeiro que é a fonte de todas as coisas, incluindo a lei
moral.
Todavia, a teonomia afirma fortemente que a lei
bíblica é muito superior àlei natural como manifestação da
vontade de Deus, pois a lei bíblica é escrita, infalível,
objetiva, detalhada e abrangente. A lei bíblica excede em
muito a lei natural como revelação da lei santa de Deus.
Dessa forma, devemos “confessar que toda a regra do viver
justo, e instrução na fé também, são mais plenamente
entregues nas Escrituras Sagradas, à qual nada pode, sem
criminalidade, ser adicionado, e da qual nada pode ser
tirado”.[18]
Seria apropriado o homem rejeitar a interpretação
escrita infalível de Deus sobre a esfera moral, e substitui-lá
pela interpretação falível da sua própria razão independente
e consciência caída? Certamente não! Portanto, a lei bíblica
deveria ser reconhecida por todos como o padrão supremo
de ética. Afirmemos com Davi a perfeição completa e
desejabilidade da lei escrita de Deus acima da revelação
natural:
A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o
testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos
símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e
alegram o coração; o mandamento do SENHOR é
puro, e ilumina os olhos. O temor do SENHOR é
limpo, e permanece eternamente; os juízos do
SENHOR são verdadeiros e justos juntamente. Mais
desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito
ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos
favos. (Salmo 19.7-10)
 
Capítulo 5 – Teonomia e
antinomianismo
 
 
A palavra “antinomiano” significa “contra a lei” e,
teologicamente, refere-se àqueles na igreja que enfatizam
tanto a liberdade cristã da condenação da lei, que
minimizam ou mesmo removem a responsabilidade do
cristãos guardar a lei agora que já está justificado. O grito
do antinomiano é que o cristão “não está debaixo da lei,
mas debaixo da graça”, deixando implícito que a graça de
Deus em Cristo de alguma forma anula a obrigação que o
crente tem de guardar a lei moral. O antinomianismo “é
sintomático de um padrão de pensamento presente em
muitos círculos evangélicos que a ideia de guardar os
mandamentos de Deus não é consoante com a liberdade e
espontaneidade do cristão, que guardar a lei tem suas
afinidades com o legalismo e com o princípio das obras, e
não com o princípio da graça”.[19] Hodge declara que o
antinomianismo, “como a palavra indica, é a doutrina que
Cristo cumpriu de tal forma todas as exigências da lei moral
em favor de todos os eleitos, ou de todos os crentes, que
eles estão livres de todas as obrigações de cumprir seus
preceitos como um padrão de caráter e ação”.[20] Portanto,
o antinomista rejeita a lei de Deus como o padrão da ética
cristã.
A teonomia está em aberta oposição a todas as
formas de antinomianismo. A teonomia ensina que a lei de
Deus é o padrão de viver santo, e que todos os crentes
estão plenamente obrigados a andar de acordo com os
justos mandamentos da lei. Contrário ao que o antinomista
diz, a fé em Jesus Cristo não anula a lei para o cristão, mas
sim estabelece-a (Rm 3.31)! A Confissão de Fé de
Westminster diz corretamente:
A lei moral obriga para sempre a todos a prestar-
lhe obediência, tanto as pessoas justificadas
como as outras, e isto não somente quanto à
matéria nela contida, mas também pelo respeito
à autoridade de Deus, o Criador, que a deu.
Cristo, no Evangelho, não desfaz de modo algum
esta obrigação, antes a confirma.
Isso, contudo, não sugere que a teonomia minimiza de
alguma forma a graça de Deus ou a justiça imputada de
Cristo. A teonomia afirma plenamente a justificação pela fé
somente (Ef 2.8-9), e se gloria na cruz de Cristo (Gl 6.14) e
na graça de Deus (Gl 2.21; Rm 11.5-6; Ef 1.6). A teonomia
repudia qualquer tentativa de basear a justificação sobre as
obras da lei (Rm 3.19-20; Gl 3.10-13; Tito 3.5).
Mas aqueles que aderem à teonomia também creem
que a justificação e a santificação não podem ser
separadas; pois essas são partes da obra única de Deus em
salvar o seu povo do pecado. Na justificação o crente é
liberto da penalidade do pecado, enquanto na santificação o
crente é progressivamente liberto do poder do pecado. E o
que é pecado? “Pecado é a transgressão da lei” (1Jo 3.4,
ARA). Portanto, a santificação deve ser vista como o
processo pelo qual os crentes são trazidos crescentemente
a uma conformidade à vontade de Deus, deixando de serem
transgressores da lei e se tornando cumpridores da lei (Rm
6.1-6; 7.25; 8.4; 1Jo 2.3-8; 3.4-9). Os cristãos devem se
tornar santos assim como Deus é santo (1Pe 1.14-16), e
serem renovados à imagem da justiça de Deus (Ef 4.24; Cl
3.10). Onde a imagem da justiça de Deus é encontrada? Na
lei moral, que é um reflexo da natureza santa de Deus, e em
Jesus Cristo, que guardou perfeitamente todos os
mandamentos da lei moral! Dessa forma, o objetivo da
santificação é que os crentes sejam conformados à imagem
de Cristo (Rm 8.29) e glorifiquem a Deus guardando todos
os mandamentos da lei moral. O poder para santificação
vem por meio do dom do Espírito Santo, que escreve a lei
de Deus sobre os corações e mentes do povo de Deus (Rm
8.1-4; Hb 8.9-10).
A alegação antinomista que a graça nos livra da
responsabilidade de guardar a lei de Deus é totalmente
equivocada. Quando Paulo diz, “não estais debaixo da lei,
mas debaixo da graça” (Rm 6.14), ele não pode estar
ensinando que o cristão está agora livre da obrigação de
guardar a lei moral, como os antinomistas afirmam, pois ele
já tinha dito que os crentes não devem apresentar seus
“membros ao pecado por instrumentos de iniquidade” (Rm
6.13). Visto que “toda transgressão é pecado” (1Jo 3.4),
Paulo deve estar mandando os crentes pararem de ser
transgressores da lei. Além do mais, Paulo continua e
explica que os cristãos são agora “servos da justiça” (Rm
6.18-22). Visto que essa justiça é mais tarde identificada por
Paulo como “a justiça da lei” (Rm 8.4), Paulo deve estar
ensinando aos cristãos que a forma deles servirem a Deus é
guardando a sua santa lei.
Portanto, a frase, “não estais debaixo da lei, mas
debaixo da graça”, não pode estar ensinando o que os
antinomistas dizem que está! O ponto de Paulo é
simplesmente este: aqueles que estão em Cristo são
capazes de quebrar o domínio do pecado em suas vidas,
pois não estão mais limitados ao recurso de apenas um
código escrito de mandamentos que lhes diz o que
deveriam fazer, mas não lhes dá a capacidade para cumprir
esses mandamentos; pelo contrário, aqueles que têm a
graça de Deus operando em sua alma pelo poder do Espírito
do Cristo ressurreto são agora capazes de obedecer aos
mandamentos de Deus. Estar debaixo da lei é ter apenas os
recursos da lei. Estar debaixo da graça é ter os recursos da
graça, i.e., as riquezas de Cristo! Paulo é muito cuidadoso
em deixar certo que suas palavras sobre estar debaixo da
graça e não da lei não sejam entendidas num sentido
antinomista, ao declarar enfaticamente que ele não está
dando licença aos crentes para transgredir a lei: “Pois que?
Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo
da graça? De modo nenhum” (Rm 6.15). A graça não ensina
o cristão a negar a lei, mas sim ensina-o a guardar a lei (cf.
Tito 2.11-12)!
O antinomista também afirma que sua liberdade cristã
livra-o da responsabilidade de guardar a lei de Deus. Mas
essa visão é claramente antibíblica. A verdadeira liberdade
cristã não é liberdade para estabelecer o nosso próprio
padrão ético a despeito da lei de Deus (autonomia), mas é a
liberdade para servir a Deus e viver pelos padrões éticos de
sua santa lei (teonomia). Em Cristo, somos libertos do
pecado para nos tornarmos “servos da justiça” (Rm 6.18). A
verdadeira liberdade espiritual é andar em obediência aos
mandamentos de Deus: “E andarei em liberdade; pois busco
os teus preceitos.” (Sl 119.45). A lei de Deus é “a lei perfeita
da liberdade” para o cristão (Tg 1.25; 2.12).
Uma forma muito prevalecente de antinomianismo é a
visão que o cristão está inteiramente livre da obrigação de
obedecer à lei do Antigo Testamento porque os crentes
estão agora debaixo “da lei de Cristo”(1Co 9.21). Essa visão
permite que a lei do Antigo Testamento forneça “sabedoria”
para o cristão em suas decisões éticas, pois o Antigo
Testamento ainda é reconhecido como Escritura inspirada.
Todavia, essa sabedoria proveniente da lei do Antigo
Testamento não é considerada obrigatória para o cristão,
pois essas leis são apenas para Israel. O cristão pode
ganhar sabedoria da lei do Antigo Testamento, mas,
aparentemente, ele não está sob obrigação de obedecê-la.
Esses antinomistas têm, dessa forma, criado uma nova
categoria de revelação: a sabedoria não obrigatória da parte
de Deus![21] Essa visão permite ao homem sentar-se para
julgar a lei de Deus, e aceitar ou rejeitar sua sabedoria
moral como bem parecer a ele! Essa abordagem à lei do
Antigo Testamento mina grandemente a ética cristã, pois
anula uma das fontes primárias da lei moral: a lei revelada
por meio de Moisés e dos Profetas. Com efeito, esse ensino
cancela a autoridade de quase 4/5 da Sagrada Escritura
para estabelecer o padrão ético obrigatório para hoje!
A teonomia repudia fortemente essa visão
antinomista da lei do Antigo Testamento, e o faz pelas
seguintes razões. Em primeiro lugar, é um erro muito sério
apresentar uma diferença entre a “lei do SENHOR” (i.e., Iavé
ou Jeová) e a “lei de Cristo”, pois o “SENHOR” e “Cristo” são
um (Dt 6.4; Jo 1.1-4; 10.30; 14.8-11). Não pode haver
nenhuma diferença fundamental entre a lei do Antigo
Testamento e a lei de Cristo, pois há somente “um
legislador” (Tg 4.12; Is 33.22), e esse “legislador” é Cristo
(Gn 49.10)! O padrão moral ensinado por Moisés e o Profeta
“como” Moisés (i.e., Jesus Cristo; cf. Dt 18.15-18; Atos 3.22-
23) são igualmente a Palavra de Deus e igualmente
obrigatória sobre os homens.
Em segundo lugar, Jesus Cristo mesmo ensinou
enfaticamente a autoridade contínua dos preceitos morais
da lei do Antigo Testamento para o seu reino, quando disse:
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas:
não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em
verdade vos digo que, até que o céu e a terra
passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei,
sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que
violar um destes mandamentos, por menor que
seja, e assim ensinar aos homens, será chamado
o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os
cumprir e ensinar será chamado grande no reino
dos céus. (Mt 5.17-19)
Jesus declara aqui que os seus discípulos são
responsáveis em praticar e ensinar os princípios éticos e
morais contidos na lei e nos profetas. Como Calvino diz,
“não devemos imaginar que a vinda de Cristo nos livrou da
autoridade da lei: pois ela é a regra eterna de uma vida
santa e devota, e deve, portanto, ser tão imutável quanto a
justiça de Deus, a qual ela abrange, e que é constante e
uniforme”.[22] Cristo ensinou seus seguidores a guardar a
lei moral revelada no Antigo Testamento. A “lei de Cristo” é
que amemos a Deus e ao nosso próximo guardando a lei de
Deus (Mt 22.36-40).
Em terceiro lugar, os apóstolos de Cristo ensinam
também que a lei moral do Antigo Testamento é obrigatória
para a dispensação do Novo Testamento (Rm 3.31; 6.18;
7.12, 14, 16, 22, 25; 13.8-10; 15.4; Hb 8.10; Tg 2.8-12; 4.11;
1Jo 2.7; 5.2-3). Não há nem mesmo a mínima insinuação
que os apóstolos consideravam a lei moral revelada no
Antigo Testamento como sendo ab-rogada para o cristão.
Para eles, a lei revelada por meio de Moisés era a “lei
perfeita de liberdade” (Tg 1.25; 2.12). Paulo resumiu a visão
apostólica sobre a autoridade da lei moral do Antigo
Testamento quando escreveu que toda a Escritura (incluindo
a lei do Antigo Testamento!) é proveitosa para instrução na
justiça para os crentes do Novo Testamento (2Tm 3.16).
Quando Deus nos instrui no caminho da justiça (i.e., nos dá
sabedoria moral), ele espera que o obedeçamos!
Em quarto lugar, o propósito expresso de Deus na
Nova Aliança é escrever sua lei sobre o coração e mente dos
crentes em Jesus Cristo (Hb 8.9-10; 10.16), e dar-lhes o
Espírito Santo “para que a justiça da lei se cumprisse em
nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o
Espírito” (Rm 8.4). Ora, qual é a lei que está em vista nessas
promessas aos crentes da Nova Aliança? Não é necessário
uma graduação em teologia para perceber que deve ser a
mesma lei moral revelada na Antiga Aliança (cf. Jr 31.33); a
lei que é resumida nos Dez Mandamentos, aplicada nas
jurisprudências do Antigo Testamento, e exposta por todo o
restante da Escritura do Antigo Testamento!
A teonomia repudia o ódio antinomista pela lei de
Deus e confessa com o salmista, “Oh! quanto amo a tua lei!
É a minha meditação em todo o dia”, e, “melhor é para mim
a lei da tua boca do que milhares de ouro ou prata” (Sl
119.97, 72). O teonomista concorda com Paulo, e crê que a
lei é santa, justa, boa e espiritual (Rm 7.12, 14), busca
“servir à lei de Deus” (Rm 7.25), e declara “tenho prazer na
lei de Deus” (Rm 7.22)!
 
Capítulo 6 – Teonomia e legalismo
 
É importante entender que o legalismo não deve ser
simplesmente igualado com a lei ou uma ênfase sobre
guardar a lei. Legalismo, biblicamente falando, não é o uso
da lei, mas o uso incorreto da lei (i.e., um uso não prescrito
por Deus). Como o antinomianismo, o legalismo tem muitas
facetas e toma várias formas. Que seja claramente
conhecido de antemão que o sistema ético da teonomia
condena todos os tipos de legalismo.
O tipo mais evidente de legalismo é a visão que uma
pessoa pode ser justificada diante de Deus sobre a base de
sua própria obediência às obras da lei. Esse foi o erro dos
fariseus. É também o erro do pelagianismo. Igualmente
falsa é a visão semi-pelagiana que a justificação é uma
mistura de graça e obras (e.g., Catolicismo Romano). A
teonomia rejeita fortemente qualquer sistema de salvação
pelas obras da lei. Todos os homens são pecadores e
transgridem a lei de Deus (Rm 3.10, 23), e como tal, a lei
não pode salvá-los; ela pode apenas condená-los como
transgressores que merecem a maldição da lei (Rm 3.19-20;
Gl 3.10). Para o homem pecador, a lei que foi ordenada para
a vida (Rm 7.10) torna-se uma ministração de condenação e
morte (2Co 3.7, 9). A única esperança para os
transgressores da lei é a salvação pela graça por meio da fé
na obra consumada de Jesus Cristo (Gl 2.16; 3.11-13, 21-22;
Rm 3.22-31).
Outra faceta do legalismo é aquela de enfatizar a
obediência à lei, enquanto negligencia enfatizar também o
espírito no qual a lei deve ser guardada. Essa atitude
legalista geralmente envolve uma observância meticulosa
de detalhes pequenos da lei (que a pessoa deveria cumprir),
mas omite “o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia
e a fé” (Mt 23.23). O legalista falha em praticar a verdadeira
justiça, mostrar misericórdia aos outros, e amar a Deus
como resultado de um coração de fé. Esse era outro erro
dos fariseus.
A teonomia repudia totalmente tal legalismo, e ensina
uma abordagem à lei que, embora enfatizando a obediência
cuidadosa a todos os mandamentos de Deus, não falha em
chamar os homens a servirem a Deus de coração, no
espírito de amor e submissão. A verdadeira obediência a
Deus envolve tanto conformidade externa como submissão
interna. Devemos temer ao Senhor e amá-lo de todo o
nosso coração, alma e força (Dt 6.5). Se haveremos de
agradar a Deus, devemos abordar a lei da mesma forma
que o salmista: “Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei,
e observá-la-ei de todo o meu coração” (Sl 119.34). Uma
obediência à lei que é meramente exterior falha no teste da
verdadeira obediência (cf. Mt 5.17-6.18; 23.13-3). A
obediência autêntica busca a glória de Deus (1Co 10.31), e
é motivada pelo amor a Deus (1Jo 5.2-3). Moisés instrui o
povo de Deus no que o Senhor deseja para eles:
Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus
pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus,
que andes em todos os seus caminhos, e o ames,
e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu
coração e com toda a tua alma, que guardes os
mandamentos doSENHOR, e os seus estatutos, que
hoje te ordeno, para o teu bem? (Dt 10.12-13; cf.
Dt 11.1, 13. 22)
Jesus disse aos seus discípulos: “Se me amais, guardai
os meus mandamentos” (Jo 14.15, 21). O Senhor Jesus
também resumiu o dever do homem na lei moral em termos
de amor a Deus e amor pelo nosso próximo (Mt 22.36-40; cf.
Dt 6.5; Lv 19.18). A verdadeira obediência à lei de Deus
começa no coração e é motivada pelo amor.
Outro tipo de legalismo é aquele que falha em
enfatizar ou considerar apropriadamente a centralidade do
Espírito Santo na santificação. Nessa visão, é a própria lei
que tem o poder de santificar; tudo o que alguém tem que
fazer é aplicar-se em guardar a lei e ele se tornará justo em
todas as suas atitudes e ações. Contudo, a lei em si e de si
mesma, como um código escrito de mandamentos, não tem
o poder para santificar o crente. A lei pode ordenar o
caminho da justiça, mas não pode fornecer a motivação ou
o poder para o homem andar no caminho da justiça (2Co
3.6, 17-18; Rm 7.6-25). É o Espírito Santo, somente, que
pode capacitar o crente a cumprir os requerimentos santos
da lei (Rm 8.2-4). Deus, por meio do seu Espírito, deve
operar em nós tanto para desejarmos como para
cumprirmos a sua boa vontade (Fp 2.13). A lei é muito
importante em nossa santificação, mas somente como um
instrumento do Espírito Santo para nos reprovar, corrigir e
guiar na justiça.
Uma forma final de legalismo a ser observada é a
prática de adicionar tradições humanas à lei de Deus. Essas
tradições, que são supostamente baseadas na lei de Deus,
estabelecem padrões humanos de justiça, anulando na
verdade os padrões de Deus, e leva os homens a
transgredirem os verdadeiros mandamentos de Deus (Mt
15.1-9). Esses mandamentos de homens são usados pelos
hipócritas para se exaltarem e condenarem todos os que
não vivem por  suas tradições. Os escribas e fariseus
usaram suas tradições para condenar a Cristo e os seus
discípulos! A teonomia não tem lugar para tais pessoas ou
suas tradições! A ética da teonomia é baseada somente nos
mandamentos de Deus! As tradições humanas, quer por
negação ou por adição aos padrões justos da lei de Deus, e
toda mudança na lei de Deus, são algo estritamente
proibido (Dt 4.2; 12.32).
A teonomia rejeita todos os tipos de legalismo e
ensina que a lei de Deus não deve ser usada incorretamente
pelos homens para sua própria justificação ou exaltação. A
teonomia sustenta que a salvação é pela graça por meio da
fé, e que o desenvolvimento dessa salvação graciosa
significa que os crentes guardarão os mandamentos de
Deus pelo poder do Espírito, por amor a Deus e ao próximo.
A teonomia se opõe ao legalismo, ensinando que o motivo
da ação humana é amar aos outros, e não amar a nós
mesmos, e que o fim ou propósito da ação humana é a
glória de Deus, e não a nossa própria glória.
 
 
Capítulo 7 – Teonomia e o uso
apropriado da Lei de Deus
Tendo mencionado no capítulo anterior o uso incorreto
da lei de Deus, pode ser útil estabelecer neste capítulo o
que a teonomia professa com respeito ao uso apropriado da
lei. Paulo disse: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se
alguém dela usa legitimamente” (1Tm 1.8). Observaremos
brevemente seis usos “legais” da lei de Deus.
Primeiro, a lei de Deus informa aos homens a natureza
e vontade santa de Deus, e o dever deles andarem em
obediência aos mandamentos de Deus (1Pe 1.16; Mt 5.48;
Ec 12.13). A lei deve ser usada para ensinar a sã doutrina
com respeito a Deus e a responsabilidade do homem para
com Deus.
Em segundo lugar, a lei convence os homens do seu
pecado e justa condenação diante de Deus (Rm 3.19-20;
7.7-11; 2Co 3.9; Gl 3.10; Tg 2.8-13). A lei deve ser usada na
pregação do evangelho aos pecadores. A lei age para
convencer e condenar poderosamente o perdido.
Em terceiro lugar, a lei age para conduzir os homens à
salvação pela fé em Jesus Cristo (Gl 3.21-24; Rm 7.24-25;
3.19-26). Tendo convencido os homens de seu pecado, e
fechado a boca deles sob a maldição de Deus, a lei é usada
para direcioná-los à a sua única esperança: a graça de Deus
em Jesus Cristo! Esses três primeiros usos da lei são
declarados na resposta à Pergunta 95 do Catecismo Maior:
A lei moral é de utilidade a todos os homens, para
os instruir sobre a natureza e vontade de Deus e
sobre os seus deveres para com ele, obrigando-
os, a andar conforme a essa vontade; para os
convencer de que são incapazes de a guardar e
do estado poluto e pecaminoso da sua natureza,
corações e vidas; para os humilhar, fazendo-os
sentir o seu pecado e miséria, e assim ajudando-
os a ver melhor como precisam de Cristo e da
perfeição da sua obediência.
Em quarto lugar, a lei é um meio de graça para a
santificação do crente. Por meio da lei moral revelada na
Escritura, Deus comunica sua graça aos seus filhos (Atos
20.32). Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na tua verdade; a tua
palavra é a verdade” (Jo 17.17). Uma parte central dessa
verdade santificadora é a lei, pois como o salmista declara,
“a tua lei é a verdade” (Sl 119.142). Além do mais, Deus
resiste ao soberbo, mas dá graça ao humilde (Pv 3.34; Tg
4.6). A lei é o instrumento mais excelente para nos
humilhar!
Em quinto lugar, a lei é a regra de vida para o crente
(Sl 119.105, 133; Js 1.8). A lei ensina ao cristão a vontade
de Deus, e refreia-o do mal. A Confissão de Fé de
Westminster contém uma declaração excelente sobre o uso
da lei na vida cristã:
Embora os verdadeiros crentes não estejam
debaixo da lei como pacto de obras, para serem
por ela justificados ou condenados, contudo, ela
lhes serve de grande proveito, como aos outros;
manifestando-lhes, como regra de vida, a vontade
de Deus, e o dever que eles têm, ela os dirige e
os obriga a andar segundo a retidão; descobre-
lhes também as pecaminosas poluções da sua
natureza, dos seus corações e das suas vidas, de
maneira que eles, examinando-se por meio dela,
alcançam mais profundas convicções do pecado,
maior humilhação por causa deles e maior
aversão a eles, e ao mesmo tempo lhes dá uma
melhor apreciação da necessidade que têm de
Cristo e da perfeição da obediência dele. Ela é
também de utilidade aos regenerados, a fim de
conter a sua corrupção, pois proíbe o pecado; as
suas ameaças servem para mostrar o que
merecem os seus pecados e quais as aflições que
por causa deles devem esperar nesta vida, ainda
que sejam livres da maldição ameaçada na lei. Do
mesmo modo as suas promessas mostram que
Deus aprova a obediência deles e que bênção
podem esperar, obedecendo, ainda que essas
bênçãos não lhes sejam devidas pela lei
considerada como pacto das obras - assim o fazer
um homem o bem ou o evitar ele o mal, porque a
lei anima aquilo e proíbe isto, não é prova de
estar ele debaixo da lei e não debaixo da graça.
 
Finalmente, a lei fornece a base para uma sociedade
justa e bem ordenada (Dt 4.6-8; Sl 33.12; Pv 14.34; Rm
13.1-7). A lei de Deus, como revelada na Escritura,
apresenta o padrão perfeito de justiça civil. Quando a lei de
Deus é a base para a lei civil de uma nação, os malfeitores
serão punidos e o mal, restrito (Dt 17.12-13; 1Tm 1.8-10). O
justo será protegido e conhecerá a verdadeira liberdade civil
(Tg 1.25; Sl 119.45). Os cristãos viverão “uma vida quieta e
sossegada, em toda a piedade e honestidade” (1Tm 2.2). A
nação que honra o Senhor e age de acordo com os padrões
da lei de Deus experimentará bênção, paz e prosperidade
(Sl 2.10-12; Dt 28.1ss).
A teonomia defende esses usos “legais” da lei, e
rejeita qualquer uso da lei não prescrito por Deus em sua
Palavra. A Confissão Belga declara: “Ainda usamos os
testemunhos da Lei e dos Profetas para confirmarmo-nos no
Evangelho e, também, para regularmos nossa vida em toda
honestidade, para a glória de Deus, conforme sua vontade”.
A teonomia concorda de coração!
 
 
 
Capítulo 8 – Teonomia e
hermenêutica
 
Hermenêutica refere-se à ciência da interpretação; ela
lida com os princípios apropriadosda exegese. De modo
geral, a teonomia sustenta o princípio Protestante histórico
da interpretação histórico-gramatical. Isso indica que a
teonomia exige uma exegese cuidadosa da Escritura que
leva em conta todo dado relevante de qualquer texto
particular. Esse dado inclui os detalhes sintáticos e léxicos
juntamente com o contexto literário, histórico e teológico.
O desafio específico para a teonomia é interpretar e
aplicar a lei bíblica ao nosso dia e cultura. Essa
apresentação da abordagem teonômica para interpretar a
lei de Deus começará observando três perspectivas
fundamentais que a teonomia traz para essa tarefa. Em
primeiro lugar, a teonomia não advoga (como alguns têm
acusado) uma transferência direta simplista da lei bíblica
para os nossos dias. A teonomia não ensina que deveríamos
pegar as leis dadas a Israel, e sem uma consideração dos
fatores teológicos e culturais únicos a Israel, fazer essas leis
nossas para hoje. Em segundo lugar, a teonomia crê que o
princípio moral que informa (sustenta) cada mandamento é
universal e imutável, e que esse princípio (uma vez
confirmado por exegese cuidadosa) pode e deve ser
aplicado ao nosso dia e cultura. Em alguns casos será
relativamente fácil descobrir o postulado moral, visto que o
próprio mandamento é declarado em termos de um
princípio universal; enquanto em outros isso será mais
difícil, pois o mandamento é declarado em termos da
posição única de Israel como a nação pactual do Antigo
Testamento. Em terceiro lugar, a teonomia reconhece
plenamente a dificuldade de interpretar e aplicar a lei
bíblica. Os teonomistas não alegam ter todas as respostas
ou ter resolvido todas as perguntas sobre como entender o
texto bíblico. A tarefa de interpretar e aplicar a lei bíblica
requer humildade, diligência e habilidade.
Mais especificamente, a abordagem teonômica à
interpretação e aplicação da lei bíblica é baseada em cinco
princípios hermenêuticos. O primeiro, e talvez o mais
importante, é o princípio que somente Deus, o Legislador,
tem a autoridade de adicionar ou tirar algo daquilo que ele
ordenou: “Não acrescentareis à palavra que vos mando,
nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos
do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4.2; cf. Dt
12.32). Por causa desse princípio, deveríamos assumir a
validade e autoridade contínua de cada e todo mandamento
de Deus na Escritura, a menos que Deus mesmo indique
mais tarde na Escritura[23] que uma lei particular foi
mudada, modificada ou repelida. Deve haver uma clara
garantia bíblica antes de podermos dizer que um
mandamento de Deus não é mais obrigatório para nós hoje.
É pura presunção o homem colocar de lado qualquer lei de
Deus sem autorização escrita definida para fazê-lo,
procedente do próprio Legislador.
Além do mais, visto que a lei moral é universal e
imutável, deveríamos assumir uma continuidade entre os
requerimentos morais da lei do Antigo Testamento e os
padrões morais para a igreja do Novo Testamento.[24]
Portanto, em termos da lei do Antigo Testamento, o cristão
deveria considerar seus mandamentos específicos
obrigatórios, a menos que o Novo Testamento
explicitamente ensine outra coisa. Dessa forma, a
abordagem bíblica à lei do Antigo Testamento é baseada
sobre uma suposição de continuidade, juntamente com o
reconhecimento do status do Novo Testamento como sendo
a autoridade final sobre o uso e aplicação da lei do Antigo
Testamento nesta dispensação.
Outro princípio muito importante de interpretação é o
reconhecimento que a lei do Antigo Testamento consiste de
dois tipos de leis: cerimoniais e morais. Essa distinção dupla
é evidente em muitos textos bíblicos: “Fazer justiça e juízo é
mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” (Pv 21.3); “Ide,
porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não
sacrifício” (Mt 9.13; cf. Os 6.6; Am 5.15, 21-24; Sl 40.6-8;
50.8ss; Jr 7.22-23; Mt 12.7). As leis cerimoniais regulavam a
adoração de Israel, e forneciam meios pelos quais o pecado
poderia ser expiado através do sacerdócio e dos sacrifícios
de animais. Sob a classificação da lei cerimonial deveríamos
incluir aquelas leis que diziam respeito especificamente à
separação de Israel das nações pagãs (e.g, as leis
dietéticas, Dt 14.3-21), e sua vida na terra de Canaã (e.g.,
as leis de herança, Nm 27.8-10; o casamento levita, Dt 25.5-
10; a guerra santa contra os cananistas, Dt 20.16-18).
As leis morais do Antigo Testamento definiam os
padrões justos de conduta para o povo pactual de Deus. As
leis morais são declaradas como preceitos e máximas gerais
(e.g., “não furtarás”), ou como jurisprudências que
prescrevem a conduta num caso específico, de forma que
estabelece o dever moral para todos os casos assim
relacionados (e.g., Ex 23.4).[25] É importante entender que
as leis civis de Israel não constituem uma terceira categoria
de lei; as leis civis são na verdade um sub-sistema da lei
moral. A lei civil de Israel é a expressão da lei moral em
termos da ética social e política. Consequentemente, a lei
civil de Israel estabelece princípios universais de justiça civil
e retidão política.
Deve ser reconhecido que nem sempre é claro a qual
categoria, cerimonial ou moral, pertencem certas leis do
Antigo Testamento. Todavia, essas são as categorias
bíblicas, e devemos aderir a elas. Um fracasso em discernir
apropriadamente se uma lei do Antigo Testamento é
cerimonial ou moral levará ao uso incorreto do Antigo
Testamento nesta era da Nova Aliança. Por que? Espero que
os dois princípios a seguir deixem isso claro.
O terceiro princípio da interpretação teonômica é o
ensino do Novo Testamento que as leis cerimoniais do
Antigo Testamento eram tipológicas em natureza,
prenunciando a pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo;
consequentemente, a vinda de Cristo trouxe uma mudança
na lei e pôs um fim à observância dessas sombras do Antigo
Testamento (Cl 2.17; 1Co 5.7; Hb 9.9; 10.1; 1Tm 4.3-5; Ef
2.14-15; Gl 2.3; 5.2-6). O cumprimento da lei cerimonial em
Cristo, e o fato que essas leis não são mais obrigatórias hoje
são claramente ensinados no Novo Testamento. A Confissão
Batista de Londres dá um resumo útil da lei cerimonial e sua
relação com Cristo:
Além desta lei, comumente chamada de lei moral,
Deus houve por bem dar leis cerimoniais ao povo
de Israel, contendo diversas ordenanças
simbólicas: em parte, de adoração, prefigurando
Cristo, as suas graças, suas ações, seus
sofrimentos, e os benefícios que conferiu; e, em
parte, estabelecendo várias instruções de deveres
morais. As leis cerimoniais foram instituídas com
vigência temporária, pois mais tarde seriam ab-
rogadas por Jesus, o Messias e único Legislador,
que, vindo no poder do Pai, cumpriu e revogou
essas leis.
A vinda de Cristo e o estabelecimento da igreja do
Novo Testamento alteraram também o status do Israel do
Antigo Testamento. A membresia no povo pactual não é
mais limitada ao Israel nacional, mas está aberta a todos os
que creem em Jesus Cristo, a despeito do seu pano de fundo
ético ou nacional (Ef 2.11-22; Gl 3.16, 26-29). A circuncisão
e a identificação de uma pessoa com a nação de Israel
deixou de ser uma necessidade para o crente do Novo
Testamento (Gl 2.3-5; 5.1-6; 6.15). A igreja de Cristo não
está limitada aos palestinos e judeus, mas está expandida
em todo o mundo e abrange todas as nações (Mt 28.19-20;
Sl 2.6-9). O Israel do Antigo Testamento era um tipo da
igreja do Novo Testamento, e o reino de Israel na Palestina
prenunciava o reino mundial do Messias (Rm 4.11-13; Gl
6.16). Por conseguinte, segue-se definitivamente que as leis
do Antigo Testamento relacionadas à separação de Israel
das nações e a sua vida na terra de Canaã foram ab-
rogadas, visto que essas eram “ordenanças típicas”
designadas somente até “o tempo da reforma” em Cristo e
o estabelecimento da ordem do Novo Testamento nele.
Contudo, isso não significa que a lei cerimonial não
tenha nenhum valor ou aplicação para os crenteshoje.
Como Calvino explica: “Com respeito às cerimônias, há
alguma aparência de mudança ocorrendo; mas foi apenas o
uso delas que foi abolido, pois o seu significado foi mais
plenamente confirmado. A vinda de Cristo não tirou nada
nem mesmo das cerimônias, mas pelo contrário, confirma-
as exibindo a verdade de sombras…”.[26] Assim, quando
essas leis são estudadas à luz do seu cumprimento em
Cristo, elas retêm importância como uma ferramenta de
ensino para melhor entender a Cristo, sua obra e sua igreja.
[27] A teologia que fundamenta a lei cerimonial é a mesma
teologia que Cristo cumpre; a primeira é aquela teologia em
sombras, mas Cristo é essa teologia na substância. A
Confissão Belga expressa tal verdade assim:
Cremos que as cerimônias e figuras da lei
terminaram com a vinda de Cristo e que, assim,
todas as sombras chegaram ao fim. Por isso, os
cristãos não devem mais usá-las. Contudo, para
nós, sua verdade e substância permanecem em
Cristo Jesus, em quem têm seu cumprimento.
O quarto princípio hermenêutico é a afirmação do
Novo Testamento que as leis morais do Antigo Testamento
foram confirmadas por Cristo e os seus apóstolos como
sendo obrigatórias para hoje (Mt 5.17ss; 22.36-40; Rm 8.1-
4; 13.8-10; 1Co 7.19). O Novo Testamento confirma
plenamente a autoridade contínua da lei moral revelada nas
Escrituras do Antigo Testamento (2Tm 3.16-17).[28] Os
apóstolos falam de Cristo oferecendo um sacrifício melhor e
instituindo um sacerdócio melhor, mas nunca falam de
Cristo instituindo padrões morais melhores.[29] O Novo
Testamento aprofunda o nosso entendimento da lei moral
de Deus, mas não nos dá uma nova lei moral.[30] O Novo
Testamento completa a revelação de Deus ao homem e,
portanto, completa a revelação da lei moral de Deus.
Mas alguém procurará em vão no Novo Testamento
sequer um versículo que deprecie qualquer dos padrões
morais do Antigo Testamento. O Novo Testamento exibe
uma harmonia perfeita entre os padrões éticos revelados
por Moisés e os Profetas e aqueles revelados por Jesus e os
apóstolos. Portanto, a Escritura do Novo Testamento nos
instrui a considerar as leis morais do Antigo Testamento
como obrigatórias hoje, e a considerar as leis cerimoniais
como sendo ab-rogadas. Um fracasso em reconhecer esse
ensino abrirá a porta para o abuso da lei do Antigo
Testamento na igreja do Novo Testamento.
O princípio final para a interpretação da lei bíblica que
será observado nesta apresentação é a necessidade de
levar em consideração as diferenças culturais entre os
tempos bíblicos e os nossos dias. Se haveremos de aplicar
apropriadamente os princípios eternos da lei de Deus ao
mundo moderno, as descontinuidades culturais devem ser
entendidas e transpostas. A tarefa neste respeito é discernir
e separar o padrão obrigatório da lei moral a partir de sua
expressão cultural  no Antigo e Novo Testamento,[31] e
então aplicar esse padrão obrigatório à nossa cultura e
cenário. Como declarado anteriormente, muitos dos
mandamentos bíblicos são dados em termos de padrões
morais universais.[32] O problema para nós quando lidando
com essas leis não é interpretação ou aplicação; nosso
problema é obediência! No entanto, os mandamentos
bíblicos que declaram a lei moral em termos da cultura
bíblica requerirão de nós determinar o princípio moral que
fundamenta o mandamento.[33] É a lei moral que informa o
mandamento que é obrigatório, e não necessariamente a
expressão cultural da lei. A dimensão cultural da
interpretação bíblica é desafiante, todavia muito necessária.
Contudo, devemos nos precaver para que o elemento da
cultura não seja usado pelos inimigos da lei de Deus para
cancelar o ensino e autoridade da santa Palavra de Deus.
[34]
A abordagem teonômica à ética cristã requer o estudo
diligente e cuidadoso da lei de Deus. Os teonomistas
reconhecem plenamente que a interpretação e aplicação da
lei bíblica é um trabalho duro e difícil, e rejeitam qualquer
abordagem simplista ao assunto. Se os cristãos hão de
conhecer e entender a lei de Deus, e aplicá-la
apropriadamente a toda esfera da vida, eles devem prestar
atenção ao mandamento de Deus para meditar na lei do
Senhor dia e noite.
Capítulo 8 – Teonomia e lei civil
                
Um dos distintivos mais importantes da teonomia é
sua visão sobre a lei civil e o magistrado civil. A teonomia
ensina que a lei de Deus como revelada na Escritura
apresenta o padrão moral para tudo da vida, incluindo o
social e político. A teonomia mantém que a lei de Deus
deveria formar a base para toda lei civil, e que o magistrado
civil é um servo de Deus, e é responsável em sustentar
todos os aspectos da lei moral que se relacionam
diretamente com a ordem social, a moralidade pública e a
justiça civil. A autonomia na ética sócio-política é
simplesmente tão ofensiva a Deus como a autonomia na
ética pessoal. A discussão que segue apresentará algumas
das características básicas da abordagem teonômica à lei
civil.
Deus, que é Rei sobre toda a terra (Sl 47.2, 7-8),
estabeleceu três instituições separadas para o nosso bem e
para a ordem da sociedade humana. Essas instituições são:
a família (Gn 2.24; Cl 3.18-21), a igreja (Gn 12.1-3; Ef 1.22-
23; 2.19-22), e o Estado (Gn 9.5; Rm 13.1-7). Cada uma
recebeu autoridade de Deus para desempenhar suas
respectivas comissões. Ora, quando Deus dá autoridade aos
homens, ele sempre dá claras instruções sobre o propósito,
limites e usos dessa autoridade. A Palavra de Deus revela
essas instruções necessárias (torah, ou leis) de forma que a
família, a igreja e o Estado sejam totalmente equipados
para toda boa obra (2Tm 3.16-17). Isso tudo parece
razoavelmente claro. Todavia, muitos cristãos que creem
que a Escritura deveria estabelecer as leis de conduta para
a família e a igreja, rejeitam rapidamente o ensino da
teonomia que o Estado também é obrigado a aderir às leis
bíblicas como o padrão para todas as suas atividades e
legislação. Os teonomistas evitam tal inconsistência
evidente e mantém apropriadamente que cada instituição
estabelecida por Deus está obrigada à autoridade da lei de
Deus revelada na Escritura.
A visão teonômica da lei civil é centrada sobre o
ensino bíblico com respeito ao Estado e o magistrado civil:
Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo,
para a sua glória e para o bem público, constituiu
sobre o povo magistrados civis que lhe são
sujeitos, e a este fim, os armou com o poder da
espada para defesa e incentivo dos bons e
castigo dos malfeitores.[35]
 
A Bíblia ensina distintamente que o magistrado civil
recebe sua autoridade de Deus e que deve agir como
ministro (servo) de Deus. Que esse é o caso é visto por
declarações bíblicas diretas (Rm 13.4, 6; Is 43.28); pelo fato
que Deus é aquele que o coloca em autoridade (Dn 4.25,
32, 34-37; Jo 19.11; Rm 13.1; 1Pe 2.14); pelo fato que todos
aqueles que governam sobre homens são ordenados a
governar no temor de Deus (2Sm 23.3; 2Cr 19.6-7); pelo
fato que todos os reis e juízes da terra são ordenados a
servir ao Senhor e prestar homenagem ao seu Filho (Sl 2.10-
12); e pelo fato que Jesus Cristo, o Senhor ressurreto e
assunto ao céu, é agora Rei dos reis e Senhor dos senhores
com autoridade soberana sobre todas as nações (Sl 2.1-12; 
110.1-7; Fp 2.9-11; Ap 1.5; 17.14; 19.16).
Além do mais, a Bíblia não deixa nenhuma dúvida
com respeito ao propósito do Estado e a função do
magistrado civil. O Estado é designado por Deus para
executar sua ira sobre os malfeitores, e louvar e defender
aqueles que andam na justiça (Rm 13.1-6; Pv 17.5). Isso
significa que o Estado foi comissionado por Deus para
administrar justiça na sociedade (Dt 1.16-17; 16.18). Ao
Estado pertence o poder da justiça distributiva, que consiste
em dar a cada homem aquele julgamento e equidade,
proteção ou punição que a lei requer. Portanto, é evidente
que o magistrado civil foi designado para reforçar a lei. Mas
qual lei o magistrado deve enaltecer e reforçarsobre
aqueles sob sua jurisdição?[36] Não é clara a resposta
bíblica a essa pergunta? Se o magistrado é o servo de Deus
designado para executar a vingança de Deus sobre os
malfeitores, então deve ser a lei de Deus que o magistrado
deve administrar e reforçar![37]
Requer-se que o magistrado civil conheça a lei de
Deus e sempre mantenha a Escritura diante dele, de forma
que governará no temor de Deus e julgará de acordo com o
padrão justo da lei de Deus (Dt 17.18-20; 2Cr 19.6-7).
Nenhum outro padrão é aceitável! É por meio da sabedoria
revelada na Palavra de Deus que o governador e o juiz são
capacitados para “decretar justiça” (Pv 8.15-17). O
magistrado é chamado a imitar o justo trono de Deus ao
governar de acordo com a lei justa de Deus (Sl 47.9; 97.2;
Pv 16.12; 20.8; 25.5). A Escritura louva o governador que
sustenta a lei de Deus e protege apropriadamente o justo e
pune o ímpio (Pv 21.3; 29.2, 4, 14), mas “o que justifica o
ímpio, e o que condena o justo, tanto um como o outro são
abomináveis ao SENHOR” (Pv 17.15). A Bíblia condena “o
trono de iniquidade” como uma administração “que forja o
mal por uma lei” porque tal lei assalta o justo e condena o
sangue inocente (Sl 94.20-21). O Senhor diz, “ai dos que
decretam leis injustas, e dos escrivães que prescrevem
opressão” (Is 10.1), e “ai … dos que justificam ao ímpio por
suborno, e aos justos negam a justiça!” (Is 5.22-23). Dessa
forma, é evidente que não pode existir nenhuma
neutralidade na lei civil. Um magistrado esquecerá a lei de
Deus e louvará o ímpio, ou guardará a lei de Deus e
contenderá com eles (Pv 28.4). Uma administração civil
governará de acordo com a lei de Deus (teonomia) e será
um “trono de justiça”, ou rejeitará a lei de Deus e governará
de acordo com a lei do homem (autonomia) e será um
“trono de iniquidade”.
Tendo comissionado o governo civil para governar de
acordo com a sua lei e estabelecer a justiça na terra, o
Senhor equipa o Estado com o poder da espada (Gn 9.5-6;
Rm 13.3-4). O poder da espada é a autoridade de infligir
punição sobre aqueles que violam a lei. É esse poder de
reforçar a lei por meio de punição que é um terror para o
ímpio e dessa forma, uma força restritora sobre o mal na
sociedade (Dt 19.20; 21.21; Pv 21.11; Ec 8.11). Deus
concede ao Estado o direito de requerer o pagamento de
compensação e restituição (Ex 21.18-19, 22; 22.1, 8-9), de
infligir punição corporal (Dt 25.1-3, 21; Pv 19.29; 20.30;
26.3), e executar aqueles que são dignos de morte (Ex
21.12-17; Dt 19.12-13, 16-21).[38]
Agora a pergunta óbvia e pertinente é esta: quando o
Estado deveria usar este poder da espada? Quais ações dos
homens o Estado deveria punir, e como deveriam essas
ações (crimes) ser punidas? Essas são as questões centrais
de penologia. Todo sistema de ética deve definitivamente
abordar essas questões. Por qual padrão deveria o Estado
definir crime e a justa punição para crimes particulares? O
Estado tem autonomia para determinar essas questões por
si mesmo? A Escritura responde enfaticamente: não! O
Senhor Deus que deu ao Estado o poder da espada deu
também revelação específica na Bíblia sobre como e
quando o Estado deveria usar esse poder. Onde na Bíblia ele
revelou essas coisas? Ele as revelou nos códigos da lei civil
de Israel. Nos estatutos civis e nas jurisprudências do Antigo
Testamento, Deus revela as demandas da lei moral em
termos da justiça civil. Por toda a lei do Antigo Testamento o
magistrado civil será instruído quanto a qual pecado[39]
(mal) ele deverá punir, e como deverá puni-lo.
A lei de Deus revelada por meio de Moisés e os
Profetas apresenta os padrões de crime e punição que todas
as nações deveriam seguir (Dt 4.6; Sl 2.10-12; Pv 8.15;
28.4). Ao discernir a “equidade geral”[40] revelada na lei
civil de Israel, o Estado será instruído em como formular
suas próprias leis de acordo com a lei moral de Deus.
Rejeitar as leis do Antigo Testamento que lidam com a
justiça civil é deixar o Estado sem nenhum padrão escrito
objetivo para cumprir o seu mandato dado por Deus. Daria
Deus ao Estado o poder terrível da espada, e então falharia
em dar ao Estado instruções específicas sobre como e
quando usar essa espada? Se você rejeita a lei civil do
Antigo Testamento como o padrão, então sua resposta deve
ser sim.[41]
O fator perturbador é que muitos cristãos negam que
Deus pretenda que as nações sejam obrigadas aos
princípios de justiça revelados na lei civil de Israel. Antes,
esses cristãos substituiriam o padrão da lei escrita de Deus
pelo padrão da lei natural. Esse pode parecer a muitos ser o
padrão mais aceitável para as nações, mas a substituição
da lei bíblica pela lei natural levanta inúmeras questões
importantes que os proponentes da lei natural precisam
responder.
Em primeiro lugar, onde na Bíblia é ensinado
expressamente, ou mesmo por implicação, que o governo
civil é subordinado somente à lei natural, e não aos padrões
justos da lei bíblica? Se Deus se agradou em trazer a
revelação da sua santa Palavra a uma nação, não
considerará ele também essa nação responsável por
governar de acordo com os padrões de justiça que fez
conhecido nessa Palavra? Em segundo lugar, visto que a lei
natural e a lei bíblica são na verdade a revelação da mesma
lei moral por meio de canais diferentes, por que escolher o
canal inadequado da lei natural[42] em vez da revelação
perfeita e infalível da Escritura? Por que escolher a lei
natural que não revela nada sobre a natureza do governo
civil, ou o uso e limites do poder do Estado, em vez da
Palavra de Deus que dá essas orientações?[43] Alguns
podem responder dizendo que vivemos numa sociedade
secular que não aceita a autoridade ou os padrões éticos da
lei bíblica. Contudo, se a lei natural e a lei bíblica são a
revelação da mesma lei moral, como os padrões éticos da
lei natural serão de alguma forma mais fáceis para o
incrédulo aceitar do que os padrões éticos da Bíblia?[44] Se
não existe nenhuma esperança que uma sociedade
pluralista aceitará o padrão da lei bíblica, que base existe
para esperar que tal cultura humanista chegará a um
entendimento verdadeiro e comum sobre o que constitui a
lei natural? Em terceiro lugar, por que deveriam os cristãos
entregar a “espada” da Palavra de Deus para o conceito
esquivo da lei natural em nossa batalha para estabelecer a
justiça em nossa nação? Qual possível vantagem existe em
deixar de lado a poderosa Palavra do Deus vivo à medida
que buscamos chamar essa nação ao arrependimento e ao
seu dever de “servir ao Senhor com temor… e beijar o Filho”
(Sl 2.10-12)? Em quarto lugar, qual padrão da ética social e
política deveria um magistrado civil usar para guiá-lo nas
decisões e julgamentos que deve tomar como ministro de
Deus, a lei bíblica ou a lei natural? O magistrado civil deve
usar a Bíblia para a sua ética pessoal e ética familiar, mas
então deixar a Bíblia de lado quando diz respeito ao seu
ofício de magistrado civil? Os cristãos que propõem a lei
natural como a regra para a ética social e política precisam
fornecer as respostas bíblicas para as questões acima.
Os cristãos defensores da lei natural também
precisam fornecer uma refutação bíblica às palavras
discernidoras de Symington:
É o dever das nações, como súditos de Cristo,
tomar a Lei de Cristo como sua regra. Elas são
propensas a pensar que é suficiente que tomem,
como seu padrão de legislação e administração, a
razão humana, a consciência natural, a opinião
pública ou a conveniência política. Nenhum
desses, contudo, nem de fato todos eles juntos,
podem fornecer um guia suficiente nas questões
do Estado. Sem dúvida, as nações pagãs, que não
possuem a vontade revelada de Deus, devem ser
governadas pela lei da natureza: mas essa não é
boa razão pela qual aqueles que têm uma
revelação da vontade divina deveriam se
restringir ao uso de uma regra imperfeita. É
absurdo afirmar que, porque a sociedade civil
está fundamentada na natureza,os homens
devem ser guiados, na direção de suas questões
e na consulta de seus interesses, unicamente pela
luz da natureza… A verdade é que a revelação é
dada ao homem para suprir as imperfeições da
natureza; e nos restringir à última, e renunciar a
primeira, em todo caso no qual ela é competente
para nos guiar, é ao mesmo tempo condenar o
dom de Deus e destruir o fim para o qual foi dada.
Afirmamos, então, que a Bíblia deve ser a nossa
regra, não somente em questões de natureza
puramente religiosa, em questões relacionadas
com consciência e adoração a Deus, mas em
questões de natureza civil e política também.
Dizer que em tais questões não temos nada a ver
com a Bíblia, é manter o que é manifestadamente
impossível. Requerer que as nações, que
possuem o sagrado volume, se confinem, em
suas questões políticas, à luz turva da natureza,
não é mais absurdo do que requerer que os
homens, quando o sol está nos céus, ignorem o
seu esplendor e sigam para os seus deveres
ordinários pelos raios débeis de uma vela fina. De
fato, se as nações são súditos morais, elas estão
obrigadas a regular sua conduta pelas leis que o
seu Governador moral se agradou em lhes dar; e
como elas são súditas do Mediador, elas devem
estar sob a lei do Mediador contida nas Escrituras.
Ele não colocou seus súditos morais em
ignorância de sua vontade, nem permitiu que a
procurassem no meio das obscuridades e
imperfeições de uma lei que o pecado mutilou e
desfigurou. Nas Sagradas Escrituras da verdade,
ele lhes deu uma exibição mais legível e completa
dos princípios da justiça imutável e eterna, do que
aquela que é encontrada na lei da natureza.[45]
A teonomia rejeita a afirmação que a lei natural
deveria ser o padrão, e ensina que as nações são obrigadas
a princípios universais e imutáveis de justiça revelados na
lei civil de Israel. A lei do Antigo Testamento é um modelo
de justiça para toda esfera da vida, incluindo a esfera civil
(Dt 4.6-8). Portanto, a penologia revelada na lei civil de
Israel deveria ser a regra para a lei civil hoje. As punições
prescritas na lei perfeita do Senhor (Sl 19.7) estabelecem a
justiça perfeita. O próprio Novo Testamento declara que
todas as penalidades designadas para a violação da lei civil
de Israel eram apenas “a justa retribuição” (Hb 2.2). O
Senhor não violou o princípio de justiça lex talionis (“olho
por olho”, cf. Ex 21.24-25; Dt 19.21),[46] que ele ordenou os
juízes seguir, quando estabeleceu as sanções penais da lei
civil de Israel. As penalidades não eram muito severas, nem
muito tolerantes. Na lei de Deus a punição sempre equivale
ao crime.[47]
Não somente a lei de Deus estabelece os deveres e
funções dos magistrados civis, mas também estabelece as
qualificações necessárias para aqueles que governarão na
esfera civil: “E tu dentre todo o povo procura homens
capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que odeiem
a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil,
maiorais de cem, maiorais de cinquenta, e maiorais de dez”
(Ex 18.21). Se uma nação há de conhecer a benção da
retidão e justiça sob a lei de Deus, seus governadores
devem ser homens que abertamente temam a Deus e 
sirvam-no como seus ministros (2Sm 23.3; Rm 13.1-6),
submetendo-se à sua lei em todos os seus deveres e
decisões. Buscar estabelecer leis justas sem levar em
consideração a condição espiritual dos homens que legislam
e reforçam as leis é um exercício em futilidade. Há perfeita
harmonia, contudo, na lei do Senhor: ela insiste sobre leis
justas e homens justos. Dessa forma, assim como não
temos nenhum direito à autonomia ao fazer nossas leis
civis, da mesma forma não temos nenhum direito à
autonomia na escolha de nossos líderes civis. A lei de Deus
requer que escolhamos apenas homens que sejam sábios e
capazes, que conheçam as Escrituras, e que temam a Deus
e honrem a Jesus Cristo, confessando-o publicamente como
Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ex 18.21; Dt 1.13;
17.15; Sl 2.10-12; Ap 1.5; 19.16).
A teonomia também afirma que a verdadeira
liberdade civil pode ser conhecida somente numa nação
onde a lei de Deus seja o padrão para a lei civil. Isso porque
a verdadeira liberdade no mundo de Deus não é liberdade
para fazer o que lhe agradar (autonomia), mas liberdade
para fazer o que é certo e bom (teonomia). A lei de Deus
apresenta o caminho da justiça; dessa forma, ela é a lei
perfeita de liberdade (Tg 1.25). O salmista disse: “E andarei
em liberdade; pois busco os teus preceitos” (Sl 119.45). A
lei é a verdade de Deus, e é a verdade que nos liberta (Sl
119.142; Jo 8.31-32). A lei humanista, que é baseada na
mentira, promove a iniquidade, e esse é o caminho da
prisão e morte (Jo 8.34; Pv 14.12).
Adicionalmente, a lei de Deus promove a liberdade
civil definindo os limites do poder do Estado. O Estado não
pode controlar ou legislar onde ele não tem garantia bíblica.
[48] O magistrado deve permanecer dentro dos limites de
sua autoridade legítima. O indivíduo, a família e a igreja
devem ser livres da opressão de um Estado injusto, para
que possam cumprir suas responsabilidades diante de Deus.
Da mesma forma, a lei de Deus dá aos cidadãos um padrão
pelo qual possam julgar as ações do Estado. Se o Estado
ultrapassa os seus limites, os cidadãos estão justificados em
resistir à tirania do Estado (Atos 4.19; 5.29; Mt 22.21).[49]
Sem a medida da lei de Deus, os cidadãos nunca podem
estar seguros sobre quando o Estado deve ser resistido.
A teonomia também defende a separação da igreja e
o Estado. A igreja e o Estado são instituições distintas, cada
uma tendo o seu próprio ministério claramente definido por
Deus. O Estado é um ministro de justiça civil para assegurar
os direitos dos seus cidadãos e para punir os malfeitores (Dt
19.13; 25.1-2; Rm 13.1-4; 1Pe 2.14). A igreja é um ministro
de graça através da pregação da Palavra de Deus e a
administração dos sacramentos (Mt 28.19-21; 26.26-28;
1Tm 3.15; 4.13). O Estado não deve controlar (governar) a
igreja, nem deve a igreja controlar (governar) o Estado.
Contudo, ambos, igreja e Estado, devem agir sob a
autoridade e lei de Cristo; ambos, igreja e Estado, devem
servir ao reino de Deus cumprindo suas respectivas
comissões; ambos devem assistir um ao outro e influenciar
um ao outro para o bem. O Estado deve proteger a igreja
dos ímpios, e fornecer a tranquilidade e liberdade doméstica
que capacitará a igreja a cumprir o seu chamado sem
perturbação ou temor (1Tm 2.2; Is 49.23).[50] O Catecismo
Reformado Presbiteriano (1949) afirma: “O Estado serve ao
interesse da igreja quando, reconhecendo a independência
da Igreja, exerce sua autoridade para preservar a moral
pública e honrar a verdadeira religião.”
A igreja deve ensinar ao Estado os princípios da
Palavra de Deus pelos quais o Estado deve ser governado. A
igreja tem a função profética de repreender o Estado
quando este se aparta da lei de Deus e chamar o
magistrado civil de volta aos caminhos da justiça (Is 10.1-2;
Amós 5.10-12; 2Sm 12.1-14; Jr 1.9-10; Mc 6.18). A igreja
deve preparar homens em caráter e conhecimento para
serem magistrados eficazes e piedosos. A igreja deve
fornecer o fundamento para uma sociedade justa e livre
evangelizando e discipulando os cidadãos na fé cristã, e
ensinando-lhes a pagar seus impostos e dar todo o devido
respeito e obediência às autoridades civis sobre eles (Rm
13.1, 7; 1Pe 2.13-14; Mt 22.21).
A teonomia condena fortemente a visão secular atual
da separação da igreja e do Estado, que na verdade
promove a separação do Estado e de Deus e a autoridade
de sua lei. Essa perversão secular da doutrina bíblica da
separação institucional da Igreja e do Estado é na verdade
uma tentativa do homem autônomo deificar o Estado, e
fazer da palavra do Estado a lei da nação em lugar da
Palavra de Deus, que deveria ser a lei da nação (Sl 2.-13).
Finalmente, que seja claramente conhecido que a
teonomia não crê na salvação por meio da política. A
teonomia é umadoutrina de ética. Ela ensina o padrão ético
que deveria governar uma nação e sua lei civil. Mas a
esperança teonomista para trazer uma nação em
conformidade à lei de Deus não está na política ou nos
políticos, mas em Jesus Cristo somente! A salvação num
nível pessoal e nacional é do Senhor (Is 33.22). É somente
por meio da vontade e poder soberano do Deus trino que
um povo pode abandonar os seus pecados e se tornar uma
sociedade justa e temente a Deus, que honre ao Senhor
Jesus Cristo e guarde a sua lei. A evangelização dos
perdidos e a edificação dos crentes são essenciais para
qualquer verdadeira reforma nacional.
Além do mais, os teonomistas creem que a reforma é
necessária em todos os níveis, não apenas no governo civil.
A teonomia lança um chamado profético a indivíduos, à
família, à igreja e ao Estado para se arrependerem e
reconhecerem Cristo como senhor e sua lei como a regra
suprema de ética. A teonomia busca reformar a política,
mas não procura uma reforma por meio da política. O
humanista confia no “Estado messiânico” para salvar a ele e
a sua sociedade. O teonomista coloca a sua fé no Messias.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UMA DECISÃO POR TEONOMIA
Capítulo 10 – Teonomia e respostas
 
Os capítulos anteriores tentaram fornecer uma base,
uma definição e uma descrição não-técnica da ética
teonômica. Neste último capítulo, você,  leitor, será
desafiado a responder ao que tem sido lhe apresentado
neste livro fazendo uma decisão pela teonomia. Espero que
você já tenha sido convencido que a teonomia é o sistema
de ética ensinado na Escritura. Espero que você já tenha
visto como essa teonomia é simplesmente a extensão
consistente do sola Scriptura para a esfera da ética. Espero
que você já tenha sido induzido a abraçar a lei de Deus,
como revelada na Escritura, como sendo o padrão supremo
para determinar o certo ou errado de todo e qualquer
comportamento humano. Se você já foi convencido (ou se já
estava antes de pegar este livro) da verdade da teonomia,
então este último capítulo servirá para solidificar sua
resolução em viver de acordo com a lei de Deus e encorajar
outros a fazer o mesmo.
Mas se você ainda não foi persuadido que a teonomia
é a abordagem bíblica à ética, então espero que este
capítulo, que apresenta a teonomia a partir de uma
perspectiva um pouco diferente que os capítulos anteriores,
assegure-lhe da verdade e poder da ética teonômica e faça
com que você faça uma decisão pela teonomia. Considere
cuidadosamente as sete razões seguintes pelas quais todo
cristão e toda igreja deveria abraçar de coração a teonomia.
A teonomia glorifica a Deus
Nosso maior propósito na vida é glorificar a Deus.
Glorificamos a Deus quando pensamos e vivemos de uma
forma que ele seja honrado acima de tudo o mais e receba a
glória devida ao seu nome. A teonomia glorifica a Deus por
exaltá-lo ao seu lugar apropriado como o Criador e Rei
soberano de toda a terra. A teonomia declara que “o SENHOR
é o nosso Juiz; o SENHOR é o nosso legislador; o SENHOR é o
nosso rei” (Is 33.22)! A teonomia é uma abordagem à ética
completamente teocêntrica. Ela magnifica somente a lei de
Deus, e condena totalmente a mentira de Satanás que os
homens podem ser os seus deuses e determinar o bem e o
mal por si mesmos (autonomia).
A teonomia glorifica a Deus reconhecendo e
proclamando que a própria natureza de Deus é a fonte da
lei moral que obriga todos os homens em todos os lugares
(1Pe 1.14-16). Deus é a fonte de todas as coisas, incluindo a
lei moral. A teonomia ensina que tudo o que é justo, bom e
verdadeiro vem de Deus (Tg 1.17). Além do mais, a
teonomia glorifica a Deus exaltando sua Palavra como o
padrão de ética todo-suficiente, infalível e último. Os
teonomistas amam declarar que a lei escrita do Senhor é
perfeita! Todo outro sistema de ética de alguma forma
difama a glória de Deus, mas a teonomia glorifica
plenamente a Deus exaltando sua natureza santa,
autoridade soberana e Palavra escrita.
A teonomia apresenta o verdadeiro dever do homem
A teonomia se foca no tema bíblico central que o
homem é responsável por obedecer a Deus (Ec 12.13-14).
Ela confronta sem embaraço o homem autônomo moderno
com o chamado para obedecer à lei de Deus e adverte os
homens das consequências terríveis de falhar em assim
fazê-lo. A teonomia prega o evangelho bíblico de
arrependimento do pecado e fé no Senhor Jesus Cristo,
deixando claro a todos que seguir a Jesus Cristo significa um
comprometimento de se esforçar para andar em completa
obediência à lei de Deus. A teonomia permanece em
oposição definida ao espírito prevalecente de
antinomianismo na igreja hoje. Ela desafia uma igreja
mundana e desobediente a se arrepender, retornar à lei de
Deus como o padrão de viver santo, e pregar a lei bíblica do
púlpito. A teonomia não tem medo de confrontar o cristão
moderno com as palavras do apóstolo João: “Aquele que diz:
Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é
mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2.4).
A teonomia não permite nenhuma concessão na ética.
Sua mensagem é direta e clara: “Diligentemente guardareis
os mandamentos do SENHOR vosso Deus, como também os
seus testemunhos, e seus estatutos, que te tem mandado”
(Dt 6.17). Não é surpreendente, então, que a teonomia tem
encontrado hostilidade tanto no mundo como na igreja
antinomista. Todavia, os teonomistas não são
desencorajados por isso, pois não buscam ser populares,
mas fiéis ao Senhor Deus, confiando que ele honrará, em
seu próprio tempo e da sua forma, o ensino e pregação fiéis
da sua santa lei. Os teonomistas veem em Esdras um
homem piedoso, e buscam seguir seu exemplo digno: 
“Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a
lei do SENHOR e para cumpri-la e para ensinar em Israel os
seus estatutos e os seus juízos” (Esdras 7.10). A teonomia
não se distrai com questões inferiores, mas vai direto ao
cerne da questão, e ensina que o verdadeiro dever do
homem é obedecer a lei de Deus.
A teonomia é a verdadeira ética de amor
Muitos exaltam o amor como a virtude mais sublime,
e portanto, fazem do amor o princípio norteador de ética.
“Faça o que o amor exigir”, somos informados. Mas o que
isso significa, e como devemos determinar o que o amor
verdadeiramente exige? A ética autônoma do amor fracassa
porque não pode dar uma direção concreta quanto ao que o
amor exige, e deixa que as pessoas decidam por si mesmas.
Uma ética indefinida de “amor” é tão útil quanto um
sistema ético que meramente instrui as pessoas a serem
“boas”.
A teonomia articula a verdadeira ética do amor
porque não somente chama os homens a amarem a Deus e
o seu próximo, mas ensina também a verdadeira conduta
de amor, isto é, o verdadeiro padrão de amor. O Senhor
Jesus ensinou que os dois maiores mandamentos na lei
eram os mandamentos nos instruindo a amar a Deus de
todo o nosso coração, e amar o nosso próximo como a nós
mesmos (Mt 22.37-40). Mas como expressamos o nosso
amor a Deus e aos outros? A Bíblia diz que amamos a Deus
quando guardamos os seus mandamentos (Jo 14.15; 1Jo
5.3; Dt 10.12-13). A lei bíblica nos instrui sobre como amar
a Deus! A lei nos apresenta a natureza santa de Deus, e nos
educa sobre como adorar e servir ao Senhor da forma que
lhe agrada. Além do mais, a Palavra de Deus declara que
amamos ao nosso próximo quando o tratamos da forma que
a lei de Deus nos manda tratá-lo (Rm 13.8-10; 1Co 13.3-8;
Gl 5.13-14). O amor verdadeiro não prejudica outra pessoa,
mas faz aquelas coisas que realmente ajudam a satisfazer
as necessidades da outra pessoa. Portanto, a lei de Deus é o
padrão de amor pois a lei nos ensina como agradar a Deus,
e fazer o bem ao nosso próximo. Uma ética de amor que
não esteja fundamentada na lei bíblica é uma ética baseada
numa visão humanista de amor, que frequentemente torna-
se não mais que uma casca para a luxúria. A teonomia é a
verdadeira ética de amor pois está baseada na lei de Deus.
Como Paulo diz,“o cumprimento da lei é o amor” (Rm
13.10).
A teonomia é a resposta apropriada à graça
A Bíblia ensina claramente que a obediência a Deus é
a única resposta apropriada à sua graça. Deus nos redime
do cativeiro do pecado, de forma que possamos ser o seu
povo e servi-lo zelosamente guardando os seus
mandamentos (Ex 19.4-6; 20.1-2; Ef 2.10; Tito 2.14).
Aqueles que foram justificados pela fé devem se apresentar
totalmente a Deus como uma oferta de gratidão por sua
salvação graciosa:
Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus,
que apresenteis os vossos corpos em sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso
culto racional. E não sede conformados com este
mundo, mas sede transformados pela renovação
do vosso entendimento, para que experimenteis
qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de
Deus. (Rm 12.1-2)
Quando Paulo chama os crentes a provarem a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus, ele está exortando-os
a viver de acordo com a lei de Deus que é boa (Rm 7.12,
16), agradável (Ef 5.8-10) e perfeita (Sl 19.7).
Antes da salvação éramos os servos do pecado, mas
agora que fomos justificados pela graça, nos tornamos os
servos da justiça (Rm 6.16-23; Jo 8.34-35); isto é, devemos
servir a Deus e obedecer à sua lei que é a verdadeira regra
de justiça. Paulo proclama a resposta apropriada à graça
quando diz: “Porque a graça de Deus se há manifestado,
trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que,
renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas,
vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente”
(Tito 2.11-12). Onde devemos aprender como viver sóbria, e
justa, e piamente, senão na lei de Deus? Portanto, é
evidente que a teonomia é a única resposta apropriada à
graça.
A teonomia é o caminho da bênção
A bênção de Deus é prometida àquele que guarda a
lei de Deus. E o salmista diz: “Bem-aventurados os retos em
seus caminhos, que andam na lei do SENHOR. Bem-
aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o
buscam com todo o coração” (Sl 119.1-2); e, “Bem-
aventurado o homem que teme ao SENHOR, que em seus
mandamentos tem grande prazer” (Sl 112.1). O Senhor
Jesus ensinou, “bem-aventurados os que ouvem a palavra
de Deus e a guardam” (Lc 11.28). O apóstolo declara, “bem-
aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos”
(Ap 22.14; cf. Sl 1.1-3, 6). No sentido bíblico, uma “bênção”
é um dom da graça divina que traz alegria e conforto,
prosperidade e força. E como os textos acima ensinam, a
bênção de Deus está sobre aquele que anda na lei do
Senhor.
Demonstramos que a obediência a Deus é
acompanhada pela bênção de Deus com base em dois
fatores. Primeiro, a própria lei é um dom da graça dado para
o nosso bem (Dt 10.13). A lei é um manual para viver a
“boa vida” no mundo criado por Deus. Guardando a lei nós
andamos em harmonia com a ordem moral estabelecida por
Deus para sua criação. A lei instrui aqueles feitos à imagem
de Deus sobre como dominar apropriadamente o mundo
criado por Deus (Gn 1.27-28). Segundo, Deus está a favor
daquele que guarda a lei, e contra aquele que a transgride
(Dt 7.9-10; Ex 20.5-6). O rico favor de Deus está sobre seu
filho obediente. O poder e presença de Deus são manifestos
na vida daqueles que amam ao Senhor e sua lei. O Senhor
“conhece” o caminho do justo, mas o caminho do
transgressor é difícil, terminando em destruição e ruína (Sl
1.6; 37.38; Pv 13.15).
A bênção de Deus é também prometida à nação que
honra ao Senhor e vive por sua lei (Sl 33.12). A justiça (i.e.,
viver de acordo com os padrões morais da lei de Deus)
exalta uma nação, mas o pecado (i.e., transgressão da lei
de Deus) trará vergonha e desgraça a um povo (Pv 14.34).
Se uma nação e os seus líderes honrarem a Jesus Cristo
como seu Soberano, e servirem-no com temor piedoso,
dizendo a ele, “Seja tu nosso Governador, Guardião, Guia e
Proteção, tua Palavra nossa lei, teus caminhos nossa vereda
escolhida”, então essa nação será abençoada; mas se não,
a ira de Deus se acenderá e essa nação perecerá (Sl 2.9-
10). Como a bênção de Deus reside sobre o Estado que
segue a sua lei, assim sua maldição reside sobre o Estado
que rejeita os seus estatutos (Dt 28.1-68; Is 5.22-24). A
Escritura diz: “Os ímpios serão lançados no inferno, e todas
as nações que se esquecem de Deus” (Sl 9.17).
Devemos entender que o repúdio da lei de Deus não
somente significa a perda de sua bênção, mas também a
recepção de sua maldição:
Ai dos que puxam a iniquidade com cordas de
vaidade, e o pecado com tirantes de carro!… Ai
dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que
fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do
amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são
sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante
de si mesmos!… Por isso, como a língua de fogo
consome a palha, e o restolho se desfaz pela
chama, assim será a sua raiz como podridão, e a
sua flor se esvaecerá como pó; porquanto
rejeitaram a lei do SENHOR dos Exércitos, e
desprezaram a palavra do Santo de Israel. (Is
5.18, 20-21, 24)
Dois caminhos são postos diante de cada homem, e
cada um deve escolher que caminho tomará: “Os céus e a
terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te
tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição;
escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua
descendência” (Dt 30.19). Visto que a teonomia ensina a
obediência a toda a lei de Deus, esse certamente é o
caminho da bênção.
A teonomia é o caminho da vitória
O cristão como um indivíduo, e a igreja como o corpo
de Cristo, estão ambos em guerra com o mundo, a carne e o
diabo. A teonomia sustenta que, se haveremos de triunfar
sobre esses inimigos, devemos buscar e guardar a lei de
Deus (Lv 26.3-8, 17, 25; Dt 11.22-25; 28.7, 33, 48-52, 68). A
guerra de Israel com os cananitas para conquistar a terra e
estabelecer o reino de Deus em Canaã é um tipo da guerra
da igreja com os inimigos de Deus para conquistar o mundo
e estabelecer o reino de Cristo em toda nação. A fórmula
para a vitória que Deus revelou a Josué no dia da invasão de
Canaã dá à igreja instruções vitais para vitória sobre os
nossos inimigos hoje:
Esforça-te, e tem bom ânimo; porque tu farás a
este povo herdar a terra que jurei a seus pais lhes
daria. Tão-somente esforça-te e tem mui bom
ânimo, para teres o cuidado de fazer conforme a
toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela
não te desvies, nem para a direita nem para a
esquerda, para que prudentemente te conduzas
por onde quer que andares. Não se aparte da tua
boca o livro desta lei; antes medita nele dia e
noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme
a tudo quanto nele está escrito; porque então
farás prosperar o teu caminho, e serás bem
sucedido. Não to mandei eu? Esforça-te, e tem
bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque
o SENHOR teu Deus é contigo, por onde quer que
andares. (Js 1.6-9)
A fórmula para vitória é clara: coragem e obediência a
todos os mandamentos de Deus!
Além do mais, Paulo nos diz que devemos tomar toda
a armadura de Deus se haveremos de triunfar sobre
Satanás e os seus seguidores (Ef 6.10-18). Ora, é muito
evidente que a lei de Deus é parte dessa armadura! A lei é
verdade; a lei é justa; a lei é essencial para a pregação do
evangelho; e a lei é a Palavra de Deus! Sem a lei de Deus
nossa armadura espiritual é seriamente debilitada! Não é de
maravilhar que a igreja antinomista de hoje está seriamente
conquistada pelo mundo, a carne e o diabo!
A lei de Deus também nos faz mais sábios que os
nossos inimigos (Sl 119.98). Através da lei adquirimos a
sabedoria de Deus que nos capacita a confundir a sabedoria
do mundo, e a destruir todas as fortalezas da mentira de
Satanás que o homem é o seu próprio deus, capaz de
determinar o bem e o mal por si mesmo (2Co 10.4-5). A
obediência à lei de Deus nos assegura da presença de Deus
quando saímos para a guerra (Sl 1.2-3). A teonomia é sem
dúvida o caminho da vitória. Possa a igreja restaurar essa
parte da armadurade Deus, e levantar-se pelo poder de
Deus para conquistar todos os inimigos da verdade e
justiça!
 
A teonomia é o caminho do reavivamento e reforma
Há muita conversa hoje sobre a necessidade de um
reavivamento na igreja que levará a uma verdadeira
reforma em todos os aspectos da vida. Na discussão sobre
como acontecerá tal reavivamento, o ingrediente primário
mencionado é a oração. Ora, é absolutamente correto que a
oração é a chave para o reavivamento, mas a oração é
suficiente? Um estudo dos grandes reavivamentos no Antigo
Testamento é muito útil aqui. Nos reavivamentos do Antigo
Testamento, a oração foi um fator chave (Esdras 9.5-15;
Neemias 1.4-11). Contudo, não deve ser negligenciado que
todo grande reavivamento no Antigo Testamento estava
intimamente conectado com um retorno do povo de Deus à
lei de Deus!
O poderoso reavivamento e reforma sob Esdras e
Neemias centrou-se na restauração da lei de Deus em
Israel. Deus levantou Esdras para ensinar a lei (Esdras 7.10;
Ne 8.1-8); o povo foi humilhado e levado a se arrepender
pela lei (Esdras 10.3; Ne 8.9; 9.1-3); e o povo fez um pacto
com Deus para guardar sua lei, e começaram a andar em
obediência à lei (Esdras 10.3; Ne 8.9ss). A queda de Israel
aconteceu quando eles “se obstinaram, e se rebelaram
contra ti, e lançaram a tua lei para trás das suas costas” (Ne
9.26); portanto, o propósito de Deus no reavivamento era
restaurá-los, e trazê-los de volta à sua lei (Ne 9.29). O
resultado dessa obra maravilhosa de Deus nos dias de
Esdras e Neemias foi que o povo louvou a Deus e sua lei
dizendo: “ E sobre o monte Sinai desceste, e dos céus
falaste com eles, e deste-lhes juízos retos e leis verdadeiras,
estatutos e mandamentos bons” (Ne 9.13). Além do mais,
eles “convieram num anátema e num juramento, de que
andariam na lei de Deus, que foi dada pelo ministério de
Moisés, servo de Deus; e de que guardariam e cumpririam
todos os mandamentos do SENHOR nosso Senhor, e os seus
juízos e os seus estatutos” (Ne 10.29).
O grande reavivamento e reforma sob o Rei Josias
começou quando Hilquias o Sumo Sacerdote achou o livro
da lei no templo e fez com que fosse lido ao rei. O resultado
da redescoberta dos padrões justos da lei de Deus foi um
grande arrependimento pelo rei e o povo, e toda a nação foi
purificada da iniquidade e idolatria (2 Reis 22.8-23.25).
Josias e o povo fizeram “a aliança perante o SENHOR, para
seguirem o SENHOR, e guardarem os seus mandamentos, os
seus testemunhos e os seus estatutos, com todo o coração
e com toda a alma, confirmando as palavras desta aliança,
que estavam escritas naquele livro” (2 Reis 23.3).
Se há de haver um verdadeiro avivamento e
subsequente reforma em nossos dias, devemos orar, nos
arrepender e voltar à lei de Deus e obedecê-la de todo o
nosso coração (2Cr 7.14). É a lei de Deus que nos humilhará
e nos ensinará a andar em santidade. A reforma virá
somente quando a igreja for levada a redescobrir a lei de
Deus que está atualmente “perdida” e esquecida em nossas
igrejas. A teonomia é um chamado à igreja para se
arrepender, retornar à lei de Deus, e guardar a lei do Senhor
com um amor zeloso por Cristo e o seu Reino; dessa forma,
a teonomia é o caminho para o reavivamento e a reforma.
 
 
 
 
 
Conclusão
 
Teonomia é a visão da ética cristã que ensina que a lei
de Deus como revelada no Antigo e Novo Testamento é o
único padrão autoritativo de verdade e justiça, e que a
Escritura é inteiramente suficiente para nos instruir na
justiça em cada esfera da vida. A Palavra de Deus é o único
padrão aceitável para julgar o certo e errado de qualquer e
todo comportamento humano. A tenomia ensina que o
motivo correto da ação humana é o amor por Deus e pelo
homem; que o padrão da ação humana é a Palavra de Deus;
e que o fim ou propósito da ação humana é a glória de
Deus.
A teonomia, como um sistema de ética estritamente
bíblico, se opõe a todas as formas de autonomia ética; vê a
lei natural como uma regra de ética insuficiente; repudia
todas as formas de antinomianismo e legalismo; defende
uma interpretação e aplicação cuidadosa da lei; e sustenta
que a lei de Deus deveria ser o padrão para a vida social e
política de toda nação. Teonomia, como uma formulação
estritamente bíblica de ética, glorifica a Deus; apresenta o
verdadeiro dever do homem; é a verdadeira ética do amor;
é a resposta apropriada à graça; é a vereda da bênção; é o
caminho da vitória; e é  o caminho do reavivamento e
reforma.
Em essência, a teonomia é a aplicação consistente e
fiel do princípio da Reforma do sola Scriptura à questão da
ética.
Pode haver algumas diferenças em alguns pontos
entre aqueles que aderem à ética teonômica, mas todos os
teonomistas diriam com a Confissão de Fé Escocesa que a
lei de Deus é “a mais justa, a mais imparcial, a mais santa e
a mais perfeita”. A essência da teonomia é um amor por
Deus e sua lei, e um desejo de ordenar tudo da vida de
acordo com os mandamentos de Deus. Possa Deus
conceder a cada um de nós a graça para declarar
alegremente com o salmista, “Oh! quanto amo a tua lei!”
 
De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e
guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever
de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo
toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja
bom, quer seja mau. (Ec 12.13-14)
 
 
Lista de leitura sugerida para o
estudo adicional de teonomia
 
 
 
Bahnsen, Greg L. By This Standard: The Authority of God's
Law Today. Tyler, Tx.: Institute for Christian Economics,
1985.
Bahnsen, Greg L. No Other Standard: Theonomy and Its
Critics. Tyler, Tx.: Institute for Christian Economics, 1991.
Bahnsen, Greg L. Theonomy in Christian Ethics.
Nacogdoches, Tx: Covenant Media Press, 1977 [2002].
Bahnsen, Greg L. and Gentry, Kenneth L., Jr. House Divided:
The Breakup of Dispensational Theology. Tyler, Tx.: Institute
for Christian Economics, 1989.
Bolton, Samuel. The True Bounds of Christian Freedom.
Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1964. Reimpressão da
edição de 1645.
Calvin, John. Sermons on Deuteronomy. Trans. por Arthur
Golding. Impresso por Henry Middleton, 1583. Reimpressão
de facsimile, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1987.
Gentry, Kenneth L., Jr. A Lei de Deus no mundo moderno.
Brasília, DF: Editora Monergismo, 2009.
Kevan, Ernest. Moral Law. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and
Reformed Publishing Co., 1991.
Kevan, Ernest. The Grace of Law: A Study in Puritan
Theology. Ligonier: Soli Deo Gloria Publications, 1993.
Reimpressão de Baker Book House Edition, 1976.
North, Gary, ed. Theonomy: An Informed Response. Tyler,
TX.: Institute for Christian Economics, 1991.
North, Gary, ed. “Symposium on Puritanism and Law”.
Journal of Christian Reconstruction 5 (Winter, 1978-9).
Rushdoony, Rousas John. The Institutes of Biblical Law.
Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co.,
1973.
Rushdoony, Rousas John. The Institutes of Biblical Law
Volume II: Law and Society. Vallecito, CA: Ross House Books,
1986.
Rushdoony, Rousas John. Law and Liberty. Vallecito, CA:
Ross House Books, 1984.
Smith, Gary Scott, ed. God and Politics. Phillipsburg, NJ:
Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1989.
Strickland, Wayne G., ed. The Law, The Gospel, and The
Modern Christian. Grand Rapids: Zondervan Publishing
House, 1993.
 
Symington, William. Messiah the Prince. Edmonton: Sill
Waters Revival Books, 1990. Reimpressão da edição de
1884.
 
 
 
 
 
               Sobre o autor
 
 
 
William O. Einwechter é presbítero docente na Immanuel
Free Reformed Church em Ephrata, Pensilvânia, editor do
periódico The Christian Statesman e vice-presidente do
National Reform Association. É o autor dos livros Ethics and
God’s Law, English Bible Translations, e o editor do livro
Explicitly Christian Politics. Seus escritos têm aparecido no
Chalcedon Report, Journal of Christian Reconstrucion,
Patriarch e The Christian Statesman. Williamobteve seu
grau de Doutor em Teologia (Th.M.) no Capital Bible
Seminary em Lanham, Maryland. Ele e sua esposa Linda
moram com seus 10 filhos perto de Ephrata, Pensilvânia.
 
 
 
 
[1] Encorajo o leitor a ler o seu excelente livro Uma fé conquistadora, publicado
pela Editora Monergismo.
[2] O nome “teonomia” pode ser novo, mas o princípio da ética teonômica não.
Teonomia era o sistema ético da Igreja Reformada na Escócia, e dos Puritanos da
Inglaterra e Nova Inglaterra. E é desnecessário dizer que os teonomistas
sustentam que a “teonomia” é tão antiga quanto a Escritura.
[3] Para estudar mais sobre teonomia, por favor, veja a lista de leitura sugerida
no final do livro.
[4] Noah Webster, An American Dictionary of the English Language (New York:
S. Converse, 1828; Facsímile editado pela Fundation for American Christian
Education, 1967).
[5] Cornelius Van Til, Christian Theistic Ethics (Phillipsburg: Presbyterian and
Reformed Publishing Co., 1980), p. 3.
[6] A teonomia é com frequência equacionada com a Reconstrução Cristã. É
verdade que todos os reconstrucionistas aderiram à teonomia, mas é verdade
também que alguém poderia sustentar a teonomia sem abraçar toda a teologia
da Reconstrução Cristã. Teonomia é uma visão da ética.
[7] Em distinção à lei cerimonial, que lida com a redenção do pecado e
tipificava a pessoa e obra de Cristo.
[8] Jacob Jocz, “TORAH”, em Baker’s Dictionary of Christian Ethics, ed. Carl F. H.
Henry (Grand Rapids: Baker Book House, 1973), p. 672).
[9] John E. Hartley, “tôrâ”, em Theological Wordbook of the Old Testament, ed.
R. Laird Harris (Chicago: Moody Press, 1980), p. 404.
[10] A Confissão Belga foi escrita primariamente por Guido de Brès, que foi um
pastor na Igreja Reformada da Holanda. A data da Confissão é de 1561.
[11] Como Rushdoony apontou, “deve ser reconhecido que em qualquer
cultura a fonte da lei é o deus dessa sociedade”. Rousas John Rushdoony, The
Institutes of Biblical Law (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co.,
1873), p. 4. Visto que o homem autônomo alega que sua própria razão e senso
moral é a fonte última da lei, ele está alegando que o próprio homem é o deus
verdadeiro.
[12] Biblicamente falando, essas são as duas únicas opções (cf. Mt 6.24; 12.30;
Sl 1.1-6; Js 24.14-15)! Como cristãos, nosso ponto de partida na ética deve ser
um compromisso total de rejeitar nossa razão falível como o padrão, e
reconhecer a autoridade da Palavra infalível de Deus para interpretar a esfera
moral.
[13] Henry dá uma explicação útil dos dois principais ramos de pensamento
com respeito à lei natural na filosofia Ocidental: “Falando de forma generalizada,
duas principais tradições de especulação da lei natural têm emergido. Uma
concebe a lei natural num sentido físico e descritivo. Ela representa uma
tradição essencialmente materialista e naturalista que busca explicação
científica e tenta desenvolver conceitos de obrigação apelando às leis físicas da
natureza. Utilitarianismo, Marxismo, Darwinismo Social, e behaviorismo são
exemplos de tentativas modernas de construir a teoria ética desta maneira. A
segunda principal tradição de especulação da lei natural – que geralmente usa o
termo em distinção de ‘leis da natureza’ ou ‘leis físicas’ – representa uma
tradição essencialmente idealista e racionalista que busca explicações
normativas e tentativas de desenvolver conceitos de obrigação apelando ao
significado teológico e ordem dentro da natureza. Neste sentido, a lei natural é
concebida num sentido metafísico e prescritivo. Ela busca por meio do uso da
razão, descobrir na conduta humana princípios absolutos e universais de
obrigação que acredita-se residirem na própria natureza da psique humana e no
universo.” Paul B. Henry, “Natural Law”, em Baker’s Dictionary of Christian
Ethics, p. 448.
[14] Por exemplo, o mundo criado está agora cheio de violência e morte.
Deveríamos concluir a partir disso que a violência e morte são coisas boas?
[15] Cornelius Van Til, The Defense of Faith (Phillipsburg: Presbyterian and
Reformed Publishing Co., 1955), p. 54.
[16] Se alguém duvida desse fato, que ela reúna dez pessoas de forma
aleatória e peça que cada uma delas apresente seus julgamentos morais sobre
questões como aborto, pena de morte, redistribuição de riqueza, castidade, etc.
[17] A Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 é uma declaração
doutrinária Reformada que é baseada na Confissão de Fé de Westminster, e em
grande parte segue a transcrição exata da Confissão de Westminster. Seus
desvios da Confissão de Westminster são principalmente em áreas como a de
batismo, e a natureza do governo eclesiástico.
[18] João Calvino, Brief Confession of Faith, em Selected Works of John Calvin,
7 vols., ed. e trans. por Henry Beveridge (Grand Rapids: Baker Book House,
reprint ed., 1983), 2:133. Ênfase adicionada.
[19] John Murray, Principles of Conduct (Grand Rapids: William B. Eerdmans
Publishing Company, 1957), p. 182.
[20] A. A. Hodge, Outlines of Theology (Edinburgh: The Banner of Truth Trust,
reprint ed., 1972), p. 404.
[21] Quero agradecer ao meu irmão, John Einwechter, por esse insight.
[22] João Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew,
Mark, and Luke, 3 vols., trans. William Pringle (Grand Rapids: Baker Book House,
reprint ed., 1989), 1:277.
[23] O progresso da revelação e da história redentora leva a certas
modificações na lei. À medida que o plano de Deus na redenção encontra
cumprimento em Cristo, e à medida que os homens chegam à maturidade
espiritual nele, haverá um desenvolvimento correspondente na revelação e
aplicação da lei de Deus.
[24] Uma visão popular na igreja hoje ensina os cristãos a assumirem a
descontinuidade, dizendo que somente os mandamentos do Antigo Testamento
que são especificamente repetidos no Novo Testamento se aplicam hoje. Em
outras palavras, eles creem que o Antigo Testamento é na verdade
desnecessário como uma fonte para a ética hoje. Nesta visão, somente os
mandamentos do Novo Testamento têm autoridade obrigatória para o cristão.
[25] Os Dez Mandamentos resumem a lei moral, enquanto as jurisprudências
aplicam a lei moral a situações específicas. Rushdoony declara: “a porção maior
da lei é a jurisprudência, i.e., a ilustração dos princípios básicos em termos de
casos específicos. Esses casos específicos são frequentemente ilustrações da
extensão da aplicação da lei; isto é, citando um tipo mínimo de caso, as
jurisdições necessárias da lei são reveladas.” The Institutes of Biblical Law, p.
11. Rushdoony ainda explica a importância das jurisprudências mostrando sua
necessidade. Ele diz: “Sem a jurisprudência, a lei de Deus em breve seria
reduzida a uma área extremamente limitada de significado”; é somente
analisando as jurisprudências que podemos ver quão abrangente é o significado
da lei. Ibid., p. 12. Também, as jurisprudências devem ser de igual autoridade
aos Dez Mandamentos, pois o resumo não pode ter maior autoridade que aquilo
que é resumido.
[26] Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, 1:227-278.
[27] Por exemplo, os cristãos foram livres do requerimento de trazer sacrifícios
animais, mas o estudo do sistema sacrificial do Antigo Testamento pode nos
ajudar a entender melhor a morte substitutiva de Jesus Cristo. Ou, as leis
específicas que construíram uma parede de separação entre os judeus e gentios
foram removidas, mas o princípio de separação do mundo presente no Novo
Testamento é ilustrado nessas leis (cf. 2Co 6.14-18).
[28] Veja as págs. 29-30 para discussão adicional deste princípio.
[29] Greg Bahnsen, By This Standard (Tyler, Tx.: Institute for Christian
Economics, 1985), pp. 313-315.
[30] No Sermão do Monte Jesus não está dando uma nova interpretação da lei,
dando à lei um significado mais profundo, ou estabelecendo padrões morais que
são mais altos que a lei do Antigo Testamento revelou. Antes, Jesus está
buscando esclarecer as interpretações incorretas dos escribase restaurar o
entendimento verdadeiro dos padrões éticos que foram originalmente revelados
por meio de Moisés.
[31] Alguns têm argumentado que as leis do Antigo Testamento estão muito
distantes da cultura moderna para serem de qualquer uso hoje. Contudo, há
também um grande intervalo entre nossa cultura e a cultura da era do Novo
Testamento. Rejeitar a lei do Antigo Testamento sobre a base a descontinuidade
cultural requiriria logicamente que rejeitássemos os mandamentos do Novo
Testamento também.
[32] Por exemplo: “Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada
um com o seu próximo” (Lv 19.11); “Não admitirás falso boato, e não porás a
tua mão com o ímpio, para seres testemunha falsa” (Ex 23.1).
[33] Por exemplo: “Não se tomará em penhor ambas as mós, nem a mó de
cima nem a de baixo; pois se penhoraria assim a vida” (Dt 24.6). “Vendo
extraviado o boi ou ovelha de teu irmão, não te desviarás deles; restituí-los-ás
sem falta a teu irmão” (Dt 22.1).
[34] Os assim chamados feministas cristãos têm tentado anular o ensino
bíblico sobre o papel dos homens e mulheres ao dizer que esse ensino era
simplesmente um reflexo da cultura da época e não é mais obrigatório para nós.
Dessa forma, eles usam sua própria tradição para rejeitar a lei de Deus.
[35] Esse resumo confessional do ensino bíblico sobre o Estado e o magistrado
civil está contido na Confissão de Westminster, na Confissão Batista de Londres
de 1689, e na Declaração de Savoy (1658).
[36] Por favor, observe que a pergunta não é se haverá ou não lei no Estado.
Mas a questão é: qual lei ou que lei; a lei de Deus ou a lei do homem?
[37] Há uma frase popular hoje que diz: “você não pode legislar moralidade”.
Essa declaração é falsa ou verdadeira dependendo do que a pessoa quer dizer
com isso. É verdade que você não pode tornar uma pessoa ou sociedade justa
meramente enaltecendo certas leis. Contudo, é falso pensar que a lei civil pode
ser eticamente neutra. Toda lei legisla moralidade no sentido que prescreve
certa conduta ou permite certa conduta. A questão então é: qual moralidade
será legislada? Serão os padrões justos de Deus, como revelados em sua lei, ou
os padrões do homem autônomo rebelde? Por exemplo, não pode haver leis
neutras sobre a questão do aborto. As leis de aborto de uma nação legislarão a
vida ou morte para o feto; protegerão ou condenarão o sangue inocente.
[38] É importante observar que a lei de Deus não especifica o aprisionamento
como uma forma de punição para os criminosos. Isso tem sérias implicações
para uma nação que tem feito do encarceramento sua forma primária de
punição.
[39] Todos os crimes são pecados, mas nem todos os pecados são crimes
puníveis pelo Estado.
[40] “Equidade geral” refere-se aos princípios universais e transculturais de
justiça que formam a base para a lei civil do Antigo Testamento. Bahnsen define
a “equidade geral” como “uma expressão usada por teólogos Reformados ou
Puritanos para denotar a substância fundamental, o princípio ou ponto de uma
lei – em distinção ao caso específico ou cenário cultural mencionado por ela.” By
This Standard, p. 355.
[41] O Novo Testamento revela mui pouco sobre os específicos da lei civil e da
justiça civil. Mas sem dúvida, ele não precisa fazê-lo, pois Deus já abordou essas
questões no Antigo Testamento!
[42] Veja pp. 20-24 para a discussão sobre os limites e inadequácias da lei
natural como a base da ética.
[43] Ao descontinuar a revelação escrita de Deus sobre a lei moral, os
defensores da lei natural afirmam que as nações gentias de hoje são
responsáveis somente pelo mesmo padrão obscuro que as nações pagãs eram
responsáveis durante “os tempos da ignorância” (Atos 17.30).
[44] A menos que, sem dúvida, os defensores da lei natural realmente creiam
que há um padrão duplo de ética sócio-política: um padrão inferior revelado às
nações pela lei natural, e um superior revelado a Israel na Escritura. Tal padrão
duplo também implicaria que as nações que viveram na era de cumprimento do
Novo Testamento e do cânon completo da Escritura estão sob um padrão de
ética sócio-política inferior ao de Israel do Antigo Testamento, visto que os
proponentes da lei natural creem que as nações gentias ainda são obrigadas
somente à lei natural e não à lei bíblica.
[45] William Symington, Messiah the Prince (Edmonton: Still Waters Revival
Books, 1990, reprint of 1884 ed.), págs. 234-235.
[46] Lex talionis, ou a lei da retaliação, era uma fórmula legal para os juízes, e
não uma sanção para vingança pessoal (Mt 5.38-42). Essa prescrição legal
ensina que a punição deve ser proporcional à natureza do crime. Isso impôs
limites estritos sobre a punição que poderia ser desproporcional.
[47] Isso incluiria os crimes capitais da lei civil do Antigo Testamento. Alguns
argumentariam que a pena de morte para o adultério, estupro ou sequestro era
apropriada para Israel, mas não para os Estados Unidos. Mas por que seria justo
para o magistrado civil em Israel executar tais malfeitores, e todavia ser injusto
o magistrado civil em nosso país fazer o mesmo? Quem ousa dizer que a pena
de morte é uma punição muito severa para esses crimes, quando o próprio Deus
estabeleceu essa penalidade em sua lei revelada? Somos mais sábios que Deus?
Conhecemos uma penalidade melhor e mais justa que aquela que Deus
prescreveu? E por qual padrão estabelecemos essa punição supostamente mais
justa?
[48] O Estado, por exemplo, não tem autoridade para controlar a educação ou
a economia, nem para redistribuir a riqueza de seus cidadãos de acordo com
algum esquema de “justiça econômica” ou bem-estar social.
[49] A teonomia não prega violência ou insurreição, mas resistência de acordo
com a lei de Deus. Os teonomistas defenderiam o princípio de interposição que
é esse: quando um povo está sendo oprimido e roubado de seus direitos por um
governo ou magistrado tirano, eles não deveriam escolher o caminho da
resistência ou rebelião individual, mas deveriam buscar um magistrado ou
magistrados num nível intermediário de governo que os conduziria em sua
resistência. O magistrado ou nível de governo inferior se interporia entre o povo
e o alto poder opressor. A anarquia nunca é abençoada por Deus. Ela é o
caminho da carne e do mundo. Todos os movimentos de resistência deveriam
estar sob um magistrado apropriadamente designado. Além do mais, a
teonomia defenderia o uso dos Salmos Imprecatórios como um meio bíblico de
trazer o julgamento de Deus sobre os governadores ímpios, de forma que ou
eles se arrependam, ou sejam removidos do seu ofício e homens justos
colocados em seu lugar (cf. Sl 7; 35; 58; 59; 69; 83; 109; 137; 139; também cf. Jr
10.25; 17.18; 18.18-23).
[50] A Declaração de Savoy (1658), uma Confissão Reformada que apresenta a
“Fé e Ordem possuídas e praticadas nas Igrejas Congregacionais na Inglaterra”,
nos fornece uma declaração útil sobre a relação das autoridades civis para com
a igreja: “Embora deva o magistrado encorajar, promover e proteger aqueles
que professam o evangelho, bem como a própria profissão do mesmo, e
administrar e ordenar entidades civis conforme a subserviência devida aos
interesses de Cristo neste mundo, e, para tal, cuidar para que homens de
mentes e condutas corruptas não publiquem nem divulguem de maneira
licenciosa blasfêmia e erros, que, por natureza, subvertem a fé e destroem
inevitavelmente as almas daqueles que os recebem; contudo, naquelas
diferenças acerca das doutrinas do evangelho, ou acerca de maneiras de cultuar
a Deus, conforme pode ocorrer a homens que exerçam uma boa consciência,
manifestando a mesma em sua conduta, e retendo o fundamento sem perturbar
outros em seus costumes diferentes ou culto diferente, não há, sob o evangelho,
nenhuma autorização que permita que o magistrado os prive de sua liberdade.”
Williston Walker, ed. The Creeds And Platforms of Congregationalism (New York:
The Pilgrim Press, 1991), p. 393.
	Prefácio à edição brasileira
	PrólogoIntrodução
	Capítulo 1 – Teonomia e ética
	Capítulo 2 – Teonomia e o escopo da Lei
	Capítulo 3 – Teonomia e autonomia
	Capítulo 4 – Teonomia e lei natural
	Capítulo 5 – Teonomia e antinomianismo
	Capítulo 6 – Teonomia e legalismo
	Capítulo 7 – Teonomia e o uso apropriado da Lei de Deus
	Capítulo 8 – Teonomia e hermenêutica
	Capítulo 8 – Teonomia e lei civil
	Capítulo 10 – Teonomia e respostas
	Conclusão
	Lista de leitura sugerida para o estudo adicional de teonomia
	Sobre o autor

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