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W BA 05 91 _V 2. 0 GESTÃO DE ATIVOS E CARTEIRAS 2 Renato José da Silva São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2023 GESTÃO DE ATIVOS E CARTEIRAS 1ª edição 3 2023 Platos Soluções Educacionais S.A Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César CEP: 01418-002— São Paulo — SP Homepage: https://www.platosedu.com.br/ Head de Platos Soluções Educacionais S.A Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Ana Carolina Gulelmo Staut Revisor Alexandre Gustavo Teixeira Moraes Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Silva, Renato José da Gestão de ativos e carteiras/ Renato José da Silva, – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A. 2023. 32 p. ISBN 978-65-5356-459-6 1. Ativos e Carteiras 2. Teoria das Carteiras 3. Asset Allocation I. Título. 3. Técnicas de speaking, listening e writing. I. Título. CDU 339 _____________________________________________________________________________ Raquel Torres – CRB 8/10534 S586g © 2023 por Platos Soluções Educacionais S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A. https://www.platosedu.com.br/ 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Principais Classes de Ativos __________________________________ 07 Indicadores estatísticos para mensuração do risco e o modelo CAPM ______________________________________________ 21 Diversificação de riscos e a teoria das carteiras de Markowitz_________________________________________________ 32 Asset Allocation e Avaliação de Carteiras de Investimento _________________________________________________ 46 GESTÃO DE ATIVOS E CARTEIRAS 5 Apresentação da disciplina A disciplina de Gestão de ativos e carteira tem a finalidade de proporcionar ao aluno a oportunidade de conhecer os fundamentos e a importância da gestão de ativos no mercado financeiro. Para isso, é preciso diferenciar os principais ativos que são negociados nos mercados monetários e de capitais, bem como conhecer os tipos de ativos de renda fixa e renda variável. Ainda assim, é necessário o conhecimento das medidas estatísticas para avaliação de risco de ativos, tais como variância, desvio-padrão e coeficiente de variação no qual podem apoiar o investidor no processo de avaliação de riscos. Quanto à rentabilidade dos investimentos, serão apresentados os métodos de cálculo da expectativa de retorno da carteira e do Modelo de Precificação de Ativos Financeiros (CAPM), que é um método que procura analisar a relação entre o risco e o retorno esperado de um investimento. Todas as decisões de investimentos carregam elementos de risco ou incertezas. Logo, apresentaremos na disciplina a importância da diversificação dos ativos, considerando os conceitos estatísticos de Covariância e Correlação. Ademais, será estudado a teoria do portfólio de Markowitz, no qual apresenta uma metodologia para a seleção e combinação de diferentes ativos financeiros considerando não apenas o retorno esperado dos ativos, mas também a sua volatilidade e a correção entre eles. 6 Por fim, aborda-se no material os diferentes perfis de investidor, e a sua importância para o processo de formação de carteiras, por meio do método chamado Asset Allocation. O índice de Sharpe e o índice de Modigliani são apresentados como forma de avaliação do resultado de uma carteira de investimentos. Sendo assim, ao término da leitura deste material, você será capaz de atuar no mercado financeiro por meio do entendimento conceitual e prático dos métodos relativos à gestão de carteiras de investimento. 7 Principais Classes de Ativos Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Alexandre Gustavo Teixeira Moraes Objetivos • Compreender os aspectos contextuais e conceituais acerca do conceito de ativos reais e financeiros. • Diferenciar os principais ativos que são negociados nos mercados monetários e de capitais. • Conhecer os tipos de ativos de renda fixa e renda variável. 8 1. Definindo ativos financeiros Os ativos financeiros são uma classe de investimentos essenciais para o financiamento do setor produtivo de um país. É por meio desses ativos que diversos setores da economia captam seus recursos. Mas por qual razão os agentes econômicos realizam investimentos em ativos financeiros? Para responder a essa questão é importante compreender o conceito de investimento. Segundo Bruni (2018), os investimentos podem ser conceituados como a aplicação de algum tipo de capital com o intuito de obter algum retorno futuro superior ao aplicado, ou seja, aplicação de recursos no presente com a expectativa de colher benefícios no futuro. Por exemplo, um investidor pode comprar um lote de ações com a expectativa de que no futuro o ativo se valorize e o remunere pelo tempo e o risco do qual assumiu ao realizar o investimento. Você mesmo está investindo o seu tempo (além do custo financeiro) para estudar esta disciplina, de modo que você poderia dedicar o seu tempo de estudos para atividades de lazer ou renda extra. No entanto, você renuncia a lazer ou rendimentos de trabalho, com a expectativa que sua carreira seja positivamente impactada, dado o conhecimento adquirido nos estudos (BODIE; KANE; MARCUS, 2014). Compreendido o conceito de investimentos, pode-se destacar que a riqueza material de uma sociedade pode ser determinada pela sua capacidade de produzir bens e serviços. No entanto, essa capacidade produtiva depende dos ativos reais e dos ativos financeiros. Mas o que seriam esses ativos? De acordo com Bodie, Kane e Marcus (2014), os ativos reais estão ligados a bens materiais e tangíveis, tais como imóveis, prédios, terrenos, equipamentos, fábricas, dos quais são utilizados por agentes econômicos para produzir bens e serviços. Perceba que 9 esses ativos estão ligados à economia real, nos quais são necessários para o desenvolvimento da infraestrutura de uma sociedade, como a construção de casas, prédios, estradas etc. Como são financiados os ativos reais? Os ativos reais são financiados por meio da emissão dos ativos financeiros. Segundo Bodie, Kane e Marcus (2014, p. 3), os ativos financeiros são reivindicações sobre ativos reais ou a renda gerada por eles como ações e títulos. Talvez não possamos ser proprietários de uma fábrica de automóveis (ativo real), porém, podemos comprar ações da General Motors ou da Tesla (ativos financeiros) e assim financiar sua produção e usufruir dos lucros gerados na fabricação de automóveis. Desse modo, o retorno do investimento sobre os títulos acionários provém da renda gerada pelos ativos reais que foram financiados pelas emissões dos ativos financeiros. Portanto, os ativos financeiros, como ações e títulos de dívida, são emitidos por empresas e governos com o objetivo de captar recursos dos investidores. Esses recursos, por sua vez, são utilizados para financiar a aquisição ou desenvolvimento de ativos reais, como fábricas, imóveis, terras ou outros bens físicos (PINHEIRO, 2019). Para que esse processo de financiamento ocorra, existe o sistema financeiro nacional. Segundo Sinatora (2017, p.11), o sistema financeiro nacional é o conjunto de instituições financeiras e instrumentos financeiros que visatransferir recursos dos agentes econômicos superavitários para os deficitários, conforme podemos observar na Figura 1. 10 Figura 1 – Sistema Financeiro Nacional Fonte: elaborado pelo autor. Logo, os ativos financeiros são os instrumentos utilizados no sistema financeiro nacional para transferir os recursos dos agentes superavitários para os agentes deficitários. As instituições financeiras surgem para fazer a intermediação entre os fornecedores de capital (investidores) e os demandantes de capital (empresas e governo). Tais intermediários financeiros incluem bancos, empresas de investimento, seguradoras e cooperativas de crédito (SINATORA, 2017). Os ativos financeiros podem ser classificados em diversas classes, tais como ações, títulos de renda fixa, moedas, commodities etc. Sendo assim, segundo Bodie, Kane e Marcus (2014), os investidores precisam tomar dois tipos de decisão ao construir suas carteiras de ativos financeiros: o montante de recursos para alocação em ativos financeiro e quais ativos investir, dado as diversas classes de ativos existentes. Por exemplo, imagine que um investidor possua todos os seus recursos financeiros “parados” em uma conta bancária e decida por investi- los. Primeiramente, será necessário definir a proporção dos recursos que serão alocados em ativos financeiros, tais como ações e títulos de dívida. Assim, deve-se definir os aspectos amplos da carteira, ou seja, a alocação em ativos. Posteriormente, o investidor deverá selecionar dentre as diversas classes de ativos existentes quais deve manter em carteira (BODIE, KANE, MARCUS, 2014). Segundo Pinheiro (2019, p. 26), as funções que costumeiramente pode- se atribuir aos ativos financeiros são: 11 • Transferência de recurso entre os agentes superavitários aos deficitários. • Transferência de risco do emissor ao receptor do ativo. Ainda segundo o autor, as principais características dos ativos financeiros são: • Liquidez: é a facilidade ou rapidez que o investimento pode ser convertido em moeda. • Risco: é a variabilidade ou instabilidade na rentabilidade esperada. • Rentabilidade: é o quanto o ativo consegue produzir de juros ou outros rendimentos para o investirdor dado o risco assumido e um período determinado. Em geral, a rentabilidade é uma função que depende da liquidez e do risco, ou seja: R = F(L,r) Em que: R = rentabilidade; L = liquidez; r = risco Logo, as diferentes modalidades de ativos financeiros geram-se por combinações específicas dessas características. Ainda conforme Pinheiro (2019, p. 99), os ativos financeiros ainda podem ser divididos em 3 grandes grupos: • Títulos de renda fixa: pagam rendimento fixo que podem ser taxas prefixadas ou determinado por algum tipo de indicador, ou seja, uma taxa pós-fixada. • Títulos patrimoniais: representam a participação no capital social de uma empresa, e o rendimento específico ao acionista advém 12 dos dividendos que a companhia distribui e a valorização de seus ativos. • Títulos derivativos: o rendimento é determinado ou derivado dos preços de outros ativos, como os contratos de opções e de futuros, que podem ser emitidos com base em cotações de moedas, mercadorias, ações etc. A partir de agora, vamos conhecer um pouco mais de cada classe de ativo. 2. Ativos de Renda Fixa Os ativos de renda fixa, ou títulos de dívida, são investimentos no qual o rendimento do capital aplicado é conhecido no momento da aplicação, ou seja, os investidores conhecem antecipadamente os fluxos monetários que vão obter. Na maioria dos casos, esses títulos garantem pagamentos futuros de valores específicos em datas estipuladas. Segundo Assaf Neto (2021, p. 50), os rendimentos dos títulos podem ser: • Prefixados: quando os juros totais são definidos, na emissão, por todo o período da operação, independentemente do comportamento da economia. • Pós-fixados: quando somente uma parcela dos juros é fixa (taxa real de juros) e estabelecida na emissão, sendo a outra parte definida com base num indexador de preços contratados (IGP-M, TR etc.). Ainda de acordo com Assaf Neto (2021, p. 50): “É importante avaliar que os títulos de renda fixa embutem um risco, determinado principalmente pela inadimplência do emitente do papel e flutuações nas taxas de 13 inflação e nas taxas de juros de mercado”. Para o autor, o risco da inflação é maior nos títulos prefixados, pois não acompanham a variação dos índices de preços enquanto os títulos pós-fixados podem não acompanhar possíveis aumentos dos juros quando são estabelecidos juntos a algum indexador de inflação. Já em relação às vantagens dos títulos de renda fixa, Pinheiro (2019, p. 99) argumenta que as principais são: • Retorno previamente conhecido. • Baixo risco. • Tornar-se credor da instituição emissora. • Recebimento do rendimento e do montante principal. É importante destacar que ao realizar um investimento em renda fixa, o investidor compra um título de dívida. É um ativo financeiro no qual você empresta dinheiro ao emissor da dívida, que em contrapartida, lhe paga juros regularmente até uma data específica, ou seja, a data do vencimento do ativo. Cabe destacar que no Brasil, a redução dos riscos dos títulos de renda fixa é feita pelo Fundo Garantidor de Crédito. Segundo Assaf Neto (2023): [...] O FGC foi constituído na forma de uma associação civil de direito privado, sem fins lucrativos, composta pelas instituições financeiras e associações de poupança e empréstimos participantes do Sistema Financeiro Nacional. Seu objetivo principal é o de oferecer maior garantia aos agentes de mercado (depositantes e investidores) com recursos depositados/aplicados nas instituições citadas na eventualidade de sofrerem intervenção, ser decretada a liquidação extrajudicial ou a sua falência. O Fundo garante depósitos à vista, depósitos a prazo, contas de poupança, letras de câmbio, letras imobiliárias, letras de crédito imobiliário e letras hipotecárias, entre outros. São excluídos dessas garantias as 14 aplicações em fundos de investimentos e os recursos captados no exterior, entre outros. (ASSAF NETO, 2023, p. 102) Atualmente, o valor máximo garantido pelo FGC para cada depositante de uma mesma instituição (ou contra todas em caso de conglomerado) é de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais). A partir de agora, serão apresentados os principais ativos de renda fixa. 2.1 Certificado de depósito bancário (CDB) É um dos principais ativos de renda fixa, dado sua segurança e rentabilidade. O (CDB) é um título emitido pelos bancos para captação de recursos. Ao investir no CDB, o investidor torna-se credor do banco, uma vez que o banco utiliza esse dinheiro para financiar suas atividades e emprestar para os agentes deficitários. 2.2 Letra de crédito imobiliário (LCI) É um investimento de renda fixa também emitido por bancos. A principal característica de uma LCI é a não incidência de imposto de renda. Tais títulos são emitidos para captar recursos para financiamento do setor imobiliário. 2.3 Letra de crédito do agronegócio (LCA) É um título de renda fixa emitido por instituições financeiras que visam captar recursos para financiar atividades do setor do agronegócio. Também não há incidência de imposto de renda. 2.4 Certificado de recebíveis imobiliários (CRI) São papéis de renda fixa destinado ao financiamento do setor imobiliário. Ao investir em CRI, um investidor financiará empresas do 15 setor imobiliário que buscam recursos para realizar suas construções. Em contrapartida, essas empresas oferecem como garantia o valor dos aluguéis que receberão no futuro. 2.5 Certificado de recebíveis do agronegócio (CRA) São títulos de renda fixa destinados ao financiamento do setor agrícola. Parecido com a Letra de Crédito Agrícola (LCA), porém com emissão por instituição securitizadora. Não possui proteção do fundo garantidor de crédito, mas, possuem isenção de imposto de renda. 2.6 Títulos públicos É um títulode dívida emitido pelo governo. O recurso captado é utilizado para o governo financiar suas atividades e pagar a dívida pública. É possível investir em títulos públicos emitidos pela União, por meio do programa do Tesouro Direto. Assim, o investidor pode acessar diferentes títulos prefixados, pós-fixados ou híbridos com vencimentos e características diferentes. Os principais são: Tesouro Selic, Tesouro Prefixado, Tesouro IPCA + e Tesouro renda+. 2.7 Debêntures São títulos emitidos por empresas de capital aberto com o objetivo de captar recursos de médio a longo prazo para financiar seus projetos e alongar o passivo das suas dívidas. Ao investir em debêntures, o agente econômico torna-se credor da companhia, em troca de recebimento dos juros, até a data de vencimento do título. Apesar de ser um ativo classificado em renda fixa, possui risco de inadimplência da companhia ofertante do título e não possui garantia do Fundo Garantido de Crédito (FCG). 16 3. Ativos de Renda Variável Segundo Pinheiro (2019), os ativos de renda variável são aqueles que não garantem um conhecimento prévio dos rendimentos futuros e a liquidação do ativo pode ser de valores superiores, iguais ou menores ao valor investido. As ações são os títulos de renda variável de maior destaque, popularmente conhecido pelos investidores no mercado financeiro. Mas, o que são as ações? Para Assaf Neto (2021), ações representam a menor parcela do capital social de uma empresa e o seu possuidor possui o direito de participação em seus lucros. Desse modo, o acionista é proprietário de uma pequena parte da companhia correspondente ao número de ações no qual possui. Ainda segundo o autor, as ações podem ser classificadas em: • Ações ordinárias: direito a voto em assembleias gerais e nas convocações especiais com o peso do seu voto correspondente à quantidade de ações que possui. Já os dividendos pagos, as ações ordinárias são geralmente 10% menores do que as ações preferenciais, caso não seja especificado no estatuto da companhia. • Ações preferenciais: o detentor dessas ações possui como característica a preferência no recebimento de dividendos, porém não possui direito a votos em assembleias. Conforme apresentado por Assaf Neto (2021), os ganhos com as ações podem ser oriundos dos: • Dividendos: é a parcela do lucro da empresa distribuída aos acionistas na proporção da quantidade de ações possuídas. 17 • Bonificações: recebimento de um número de ações proporcional à quantidade já possuída. • Valorização do papel: aumento do valor de face do título negociado na bolsa de valores. • Juros sobre capital próprio: são uma forma de remuneração acionista da empresa originados pelo lucro retido e períodos anteriores. • Direitos de subscrição: são direitos inerentes a todo acionista de adquirir (subscrever) todo aumento de capital na proporção das ações possuídas. Ainda na classe da renda variável, outros ativos podem se destacar como os fundos de investimentos. 3.1 Fundos de Investimentos De acordo com Filho (2019), os fundos de investimentos são: [...] entidades organizadas sob forma de condomínios destinados à aplicação em ativos financeiros sob a responsabilidade de um administrador. As aplicações feitas pelos investidores são representadas por cotas, cujo valor é apurado periodicamente conforme a rentabilidade proporcionada pelos ativos componentes da carteira. (FILHO, 2019, p. 16) Desse modo, os fundos de investimento tornam-se uma modalidade de ativos financeiros muito atrativa para os investidores, com destaque para os chamados fundos mútuos. Os fundos mútuos são uma modalidade na qual os recursos captados são alocados em um portfólio diversificado. O patrimônio do fundo é composto por recurso de diversos investidores que são aplicados em uma carteira diversificada. A administração do fundo é feita por administradores e gestores especializados no mercado (PINHEIRO, 2019). Os fundos de investimento 18 costumeiramente são classificados em diversos tipos, dado a gestão estabelecida e os fatores de riscos envolvidos. Os tipos de fundos mútuos de investimento mais conhecidos são: • Fundos de renda fixa. • Fundos de ações. • Fundos multimercado. • Fundos cambiais. Os fundos de renda fixa possuem como principal característica a estratégia de alocação dos recursos em ativos da classe de renda fixa, tais como títulos públicos, debêntures, certificado de depósito bancários (CDB), letras de crédito imobiliário, entre outros. O objetivo é minimizar o risco e conseguir rendimentos acima do CDI (Certificado de Depósito Interbancário). Os fundos de ações têm como característica a alocação de recursos em ações negociadas em mercado organizado, cotas de fundos de ações, cotas de fundos de índices, Brazilian Depositary Receipts (BDRs), entre outros. Já o fundo multimercado tem como política a aplicação dos recursos em diferentes modalidades de investimento, tais como ações, renda fixa e câmbio. O objetivo é diversificar os fatores de risco e obter rendimentos maiores que a renda fixa, porém, com menor exposição ao risco da renda variável. De acordo com Filho (2019), o fundo cambial tem como característica o investimento de no mínimo 80% da carteira em títulos com correção por variação de moeda estrangeira ou sintetizadores por via de derivativos, sendo o principal fator de risco a variação dos preços da moeda estrangeira. 19 3.2 Fundos Imobiliários Os fundos imobiliários pertencem aos chamados fundos estruturados. Tais fundos são criados com o objetivo de investir em determinados setores da economia. Os fundos imobiliários permitem o investidor a obtenção de renda e ganhos de capital de forma diversificada e com administração profissional (FILHO, 2019). Os fundos imobiliários costumam ser de três tipos: • Fundos de tijolos: geralmente investem em empreendimentos físicos, tais como shopping centers, hospitais, escritórios, galpões, entre outros. • Fundos de papel: investem em títulos de dívida do próprio segmento imobiliário. • Fundos de fundos: são compostos pelas cotas de outros fundos imobiliários disponíveis no mercado. Ao comprar uma cota em um fundo imobiliário, o investidor recebe rendimento mensal, ou seja, participação nos aluguéis ou resultados advindos do fundo. A vantagem de investir nesses fundos é a não incidência de imposto de renda sobre o capital distribuído ao investidor (FILHO, 2019), lembrando que as cotas de fundos imobiliários são negociadas em bolsa de valores. Referências ASSAF NETO, A. Mercado financeiro. 15. ed. [2ª Reimp.]. Barueri [SP]: Atlas, Instituto Assaf, 2023. ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2021. BODIE, Z; KANE, A; MARCUS, A. Fundamentos de Investimentos. 9. ed. Porto Alegre: Grupo A, 2014. BRUNI, A. L. Avaliação de Investimentos. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2018. 20 FILHO, B. G. O. Gestão de fundos de investimento: o seu guia para gestão de carteiras. São Paulo: Saint Paul Editora, 2019. PINHEIRO, J. L. Mercado de Capitais. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2019. SINATORA, J. R. P. Mercado de capitais. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. . 21 Indicadores estatísticos para mensuração do risco e o modelo CAPM Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Alexandre Gustavo Teixeira Moraes Objetivos • Conhecer as medidas estatísticas para avaliação de risco. • Compreender o cálculo da expectativa de retorno da carteira. • Aplicar o modelo de precificação de ativos (CAPM). 22 1. Medidas estatísticas de posição e dispersão A estatística é um método que permite ao usuário tomar decisões mais assertivas em ambientes de incerteza. O mercado de capitais é conhecidamente por ser um ambiente de incerteza, e não se pode negligenciar o uso de métodos estatísticos no processo de avaliação de riscos dos ativos (ASSAF NETO, 2021). Existem diversas medidas estatísticas descritivas, porém, vamos concentrar nossos estudos nas medidasde posição ou tendência central e nas medidas de dispersão. As medidas de posição visam identificar as características de concentração de uma amostra, sendo as principais medidas de posição a média, mediana, moda, quartis e decis (ASSAF NETO; LIMA, 2017). A média é a medida de tendência central mais utilizada. A média simples é calculada pela divisão entre a soma do conjunto de informações e o número de valores. A fórmula para o cálculo da média é: em que xi pode variar de 1 até n. Por exemplificar o uso da média simples, considere a rentabilidade das ações da bolsa Brasileira no período de 2018 a 2022 no Quadro 1: Quadro 1 – Retorno percentual anual do índice Ibovespa (2018-2022) Ano Retorno 2018 15% 2019 32% 2020 3% 2021 -12% 2022 5% Fonte: adaptado de https://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/indices/indices- amplos/indice-ibovespa-ibovespa-estatisticas-historicas.htm. Acesso em: fev. 2023. 23 Com base nos dados do Quadro 1, a média anual de retorno do Ibovespa foi: No entanto, devido à forte variabilidade dos dados, indo de -12% até 32%, a média aritmética não pode ser considerada como uma medida mais rigorosa, capaz de exprimir a tendência central das taxas de retorno (ASSAF NETO; LIMA, 2017). Nesse contexto, de acordo com Assaf Neto (2023), as medidas de dispersão indicam como os valores de uma amostra se distribuem em relação ao seu eixo central, ou seja, a média. Quanto maior apresentar- se o intervalo entre os valores extremos de um conjunto de dados, menor é a representatividade estatística da média, pois, os valores de observação distanciam-se desta medida central. Sendo assim, as principais medidas estatísticas de dispersão na avaliação de risco são: desvio-padrão, variância e coeficiente de variação. O desvio-padrão é representado pela letra grega “σ” (sigma) quando calculado de dados de uma população, e por “S”, quando calculado da amostra. O desvio-padrão mensura a variabilidade ou a dispersão de um conjunto de valores em relação à média (ASSAF NETO, 2021). A variância é uma medida de distribuição que indica a quantidade de variação ou de distribuição dos dados em relação à sua média. Essa medida mostra “o quão longe” em geral os seus valores se encontram do valor esperado. A variância é definida como sendo o quadrado do desvio-padrão, identificada por “ e “S²” respectivamente variância de população e variância de amostra. De outro modo, pode-se expressar que o desvio-padrão é a raiz quadrada da variância (ASSAF NETO, 2021). 24 2. Medidas estatísticas aplicadas ao estudo do risco Vamos considerar que estamos avaliando o risco de dois investimentos: X e Z. Partindo de algumas premissas e projeções econômicas, elaboramos a seguinte distribuição de probabilidade dos retornos esperados desses investimentos. Quadro 2 – Probabilidade de retorno dos investimentos X e Z Investimento X Investimento Z Retornos Esperados (R$) Probabilidade (%) Retornos Esperados (R$) Probabilidade (%) 300 10% 150 10% 325 15% 250 20% 350 50% 350 40% 375 15% 450 20% 400 10% 550 10% Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). Inicialmente, devemos calcular o valor esperado de cada distribuição de probabilidade. É uma média dos vários resultados esperados, ponderada pela probabilidade de ocorrência desses valores. De acordo com Assaf Neto (2023), esse cálculo é processado pela multiplicação das diversas estimativas, pelas respectivas porcentagens, ou seja: Em que: retorno (valor) esperado; Pk = probabilidade de ocorrência de cada resultado; Rk = valor de cada resultado esperado. Ao realizar a substituição da expressão acima com os dados do Quadro 2, temos: 25 Valor Esperado do Investimento X E (Rx) = (0,10 x 300) + (0,15 x 325) + (0,50 x 350) + (0,15 x 375) + (0,10 x 400) E (Rx) = R$ 350 Valor Esperado do Investimento Z E (Rz) = (0,10 x 150) + (0,15 x 250) + (0,50 x 350) + (0,15 x 450) + (0,10 x 550) E (Rz) = R$ 350 Perceba que as duas opções de investimentos apresentam o mesmo retorno esperado R$ 350,00. Logo, o investidor pode ser indiferente na escolha desses ativos. Porém, apesar de possuírem o mesmo retorno esperado, os investimentos X e Z apresentam graus diferentes de risco. Podemos visualizar isso, por meio de um gráfico que apresenta a relação entre as probabilidades e os resultados esperados, conforme a seguir: Figura 1 – Distribuições de probabilidades dos investimentos X e Z. Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). Ao visualizar a Figura 1, percebe-se que apesar dos retornos esperados serem iguais, os investimentos apresentam riscos diferentes. Conforme 26 a Figura 1, existe maior grau de risco no investimento “Z”, dado uma maior dispersão na distribuição de probabilidade de seus retornos. Sendo assim, podemos concluir a Esperança de Retorno, ou Valor Esperado do Investimento não apresenta o risco associado àquela proposta de investimento, sendo necessária, assim, a utilização dos indicadores de dispersão de risco como o desvio-padrão e a variância. Como estamos trabalhando com a probabilidade de retorno de um investimento, a fórmula de cálculo do desvio-padrão e da variância são dadas respectivamente pelas seguintes expressões: σ = símbolo grego (sigma) representando o desvio-padrão; VAR = variância. É o desvio-padrão elevado ao quadrado; Pk = probabilidade atribuída a cada resultado; Rk = Retorno médio do ativo K; = E(Rk) = retorno esperado do ativo k. Aplicadas essas identidades, podemos mensurar a variância e o desvio- padrão para os investimentos “X” e “Z”, nos quadros 03 e 04 a seguir: Quadro 3 – Variância e Desvio-padrão do Investimento X Probabilidade Px Retorno Esperado Rx 10% R$ 300,00 R$ 30,00 (R$ 50,00) R$ 2.500,00 R$ 250,00 15% R$ 325,00 R$ 48,75 (R$ 25,00) R$ 625,00 R$ 93,75 50% R$ 350,00 R$ 175,00 - - - 15% R$ 375,00 R$ 56,25 R$ 25,00 R$ 625,00 R$ 93,75 10% R$ 400,00 R$ 40,00 R$ 50,00 R$ 2.500,00 R$ 250,00 Desvio-padrão = Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). 27 Quadro 4 – Variância e Desvio-padrão do Investimento Z Probabilidade Pz Retorno Esperado Rz 10% R$ 150,00 R$ 15,00 (R$ 200,00) R$ 40.000,00 R$ 4.000,00 20% R$ 250,00 R$ 50,00 (R$ 100,00) R$ 10.000,00 R$ 1.000,00 40% R$ 350,00 R$ 140,00 - - - 20% R$ 450,00 R$ 90,00 R$ 100,00 R$ 10.000,00 R$ 1.000,00 10% R$ 550,00 R$ 55,00 R$ 200,00 R$ 40.000,00 R$ 4.000,00 Var = Desvio-padrão = Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). A partir dos resultados encontrados, podemos observar que confirmam as conclusões da Figura 1, logo que o investimento “Z” apresenta maior desvio-padrão, sendo este classificado como o de maior risco. Dessa forma, por apresentar o mesmo retorno esperado de “Z”, e assumir um nível mais baixo de risco, podemos considerar o investimento em “X” como mais atraente, pois, apresenta menor desvio-padrão, e consequentemente, menor risco. Outra medida estatística utilizada para mensuração do risco em gestão de ativos é o coeficiente de variação. O coeficiente de variação mostra a dispersão relativa em porcentagem, ou seja, o risco por unidade (ASSAF NETO e LIMA, 2017). Esse coeficiente é calculado pela relação entre o desvio-padrão e a média aritmética da amostra (ou população) dado por: em que: S é o desvio-padrão e é a média aritmética simples ou retorno esperado. Quanto maior se apresentar o coeficiente de variação, mais alto será o risco do ativo. Uma forma de compreender a aplicabilidade do coeficiente de variação é por meio de um exemplo em que existem duas 28 alternativas de investimento, porém, que apresentam desvio-padrão idênticos, conforme quadro abaixo: Quadro 5 – Comparativo de investimentos por meio do Coeficiente de Variação Investimento Retorno Esperado Desvio-padrão Coef. Variação A 18% 10% 0,55 B 22% 10% 0,45 Fonte: Adaptado de ASSAF NETO (2021). Perceba que o nível de risco medido pelo desvio-padrão é igual para as duas alternativas, porém, essa medida não leva em conta o cálculo do desviopor unidade de retorno esperado. Pelo critério do coeficiente de variação, a alternativa “B” é a que representa a menor dispersão, ou seja, um risco de 0,45 para cada unidade esperada de retorno, sendo inferior a 0,55 do investimento A. No Quadro 6, podemos observar o mesmo cenário de análise, porém, com os ativos possuindo desvio-padrão diferentes. Quadro 6 – Comparativo de investimentos por meio do Coeficiente de Variação Investimento Retorno Esperado Desvio-padrão Coef. Variação A 18% 10% 0,55 B 22% 17% 0,77 Fonte: adaptado de ASSAF NETO (2021). Nesse exemplo, o investimento no ativo “A” passa a ser o de menor risco, pois agora apresenta o menor coeficiente de variação e o menor retorno esperado. Sendo assim, cabe ao investidor escolher o ativo conforme o grau de risco que deseja assumir. A escolha do investimento “A” aponta menor grau de aversão ao risco; se a decisão recair sobre B, ocorre o contrário (ASSAF NETO, 2023). 29 3. Modelo de Precificação de Ativos de Capital (CAPM) Muito bem, agora vamos avançar e conhecer o modelo CAPM. CAPM é a sigla que expressa “Capital Asset Pricing Model” em português “Modelo de Precificação de Ativos de Capital”. Desenvolvido por Willian Sharpe e John Lintner o CAPM permite que se encontre o retorno mínimo exigido de um investimento baseado no risco aparente, isto é, para qualquer investimento é possível apurar pelo modelo, a taxa de retorno que remunera o risco envolvido na decisão (SINATORA, 2017). Destaca-se que na formulação matemática desse modelo duas variáveis importantes são consideradas: a taxa de juros livre de risco e o prêmio pelo risco assumido (ROSS, et al., 2022). A taxa livre de risco, também chamada de “risk free” é utilizada como medida de referência para se avaliar o prêmio pelo risco pago por um investimento. Em vez de investir em determinado projeto ou ativo, o investidor poderá aplicar seus recursos em títulos considerados “sem risco” (SINATORA, 2017). No Brasil, costuma-se adotara como taxa livre de risco a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) para títulos públicos federais. As negociações com títulos públicos no mercado monetário brasileiro são controladas por um sistema especial de custódia e liquidação conhecido por Sistema Especial de Liquidação e Custódia (SELIC). O SELIC opera basicamente com títulos emitidos pelo Tesouro Nacional, classificados como de risco zero. Conforme comentado, admite-se que é bem difícil que o Governo não pague nos respectivos vencimentos os juros e principal devidos pela colocação dos títulos, que são, por isso, classificados como ativos sem risco no mercado financeiro. (ASSAF NETO E LIMA, 2017, p. 29) Na prática, taxa livre de risco é a rentabilidade mínima que o investidor acredita que pode receber no mercado. Já o prêmio pelo risco assumido é o retorno exigido pelo investidor para compensar o risco que está assumindo em aplicar no mercado de ações, ou seja, é um retorno 30 adicional à taxa livre de risco. Nesse contexto, a fórmula do CAPM é dada por: Em que: Ke = taxa mínima de retorno requerida pelos acionistas (custo de capital próprio); Rf = taxa de retorno de ativos livres de risco; β = coeficiente beta, medida do risco sistemático; Rm = rentabilidade da carteira de mercado (índice do mercado de ações). O coeficiente beta (β) é a medida de risco que aponta o quanto o retorno de uma determinada ação pode sofrer de impacto pelo risco sistemático. O risco sistemático está ligado à economia de um modo geral, por exemplo, o aumento de desemprego, altas taxas de inflação, desvalorização de moeda e crise política. Tais fatores podem influenciar diretamente os negócios da organização e são mensurados por esse coeficiente (ROSS et al., 2022). O Beta pode assumir valores entre 0 e 1, que podem assim ser interpretados: • Beta igual a 1: o título tem seus retornos variando junto com os do mercado. • Beta menor do que 1: os retornos do título variam menos do que os do mercado. • Beta maior do que 1: os retornos do título oscilam mais do que os do mercado. A rentabilidade da carteira de mercado “Rm” representa uma carteira teórica de referência na bolsa de valores, que serve como um índice representativo do desempenho das cotações das ações da carteira (ROSS et al., 2022). No Brasil, o índice mais utilizado é o índice Bovespa da bolsa de valores de São Paulo. O prêmio de risco de mercado é dado por (Rm – Rf), ou seja, a diferença entre a rentabilidade da carteira de referência do mercado e a taxa de retorno de ativos livres de risco. Para 31 exemplificar a aplicabilidade do modelo CAPM considere o seguinte exemplo: As ações da indústria “ABC” apresentam um coeficiente beta de 1,3, ou seja, seu risco sistemático é 30% maior que o risco do mercado de um modo geral. A taxa livre de risco é de 4% ao ano e a expectativa dos investidores para a carteira de mercado gira em torno de 11% ao ano. Utilizando a fórmula temos: O retorno esperado dessa ação deve ser, no mínimo, igual a 13% ao ano, o que representa o custo do capital próprio da indústria “ABC”. Essa taxa pode ser utilizada como a Taxa Mínima de Atratividade (TMA) para os investidores. Referências ASSAF NETO, A. Mercado financeiro. 15. ed. [2ª Reimp.]. Barueri [SP]: Atlas, Instituto Assaf, 2023. ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2021. ASSAF NETO, A.; LIMA, F. G. Fundamentos de administração financeira. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2017. ROSS, S. et al. Fundamentos de administração financeira. Grupo A, 2022. SINATORA, J. R. P. Mercado de capitais. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. 32 Diversificação de riscos e a teoria das carteiras de Markowitz Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Alexandre Gustavo Teixeira Moraes Objetivos • Conhecer a importância da diversificação dos ativos. • Diferenciar os conceitos de Covariância e Correlação. • Aplicar as técnicas da teoria do portfólio de Markowitz. 33 1. Diversificação de riscos Todas as decisões de investimentos carregam elementos de risco ou incertezas. Considerando que essas decisões se voltam para expectativas de retornos futuros, e com a probabilidade de o futuro não ocorrer como o planejado, os riscos sempre vão estar presentes. Logo, a incerteza é caracterizada pela incapacidade de prever com exatidão as chances de sucesso ou fracasso decorrentes de uma decisão. O risco conceitua-se, portanto, pela incerteza, e que pode, de algum modo, ser quantificável ou mensurável (FILHO, 2019). De acordo com Assaf Neto (2021), os ativos financeiros carregam dois componentes de risco: o risco sistemático (conjuntural) e o risco não sistemático (risco específico do ativo). O risco sistemático integra todos os ativos financeiros, sendo oriundo da natureza econômica, política e social. Recessão econômica, crises políticas, guerras, pandemias, conflitos sociais são exemplos de riscos sistemáticos. Sendo assim, não existem maneiras de evitar o risco sistemático, logo a diversificação do portfólio é uma possibilidade de minimizar o impacto desse risco na carteira de investimento. Já o risco chamado não sistemático é inerente ao próprio ativo financeiro, não tendo capacidade de afetar outros ativos da carteira (ASSAF NETO, 2023). Aumento de endividamento da empresa, queda dos lucros e insolvência são exemplos de riscos não sistemáticos que podem afetar as ações de empresas listadas na bolsa de valores. A eliminação desse risco poderá acontecer pela inclusão de ativos que não tenham correlação positiva entre si (ASSAF NETO, 2021). Desse modo, o risco total dos ativos financeiros pode ser mensurado como: Risco Total = Risco Sistemático + Risco Não Sistemático (risco diversificável) Mas como minimizar o risco dos ativos financeiros? 34 Por meio da elaboração de uma carteira de investimentos, na qual seja composta por ativos diversificados, ou seja, que o retorno dos ativos não sejaperfeito e positivamente correlacionado entre si, poderá haver redução do risco da carteira, ou seja, com o menor desvio-padrão possível (ASSAF NETO; LIMA, 2017). Desse modo, o risco não sistemático pode ser total ou parcialmente minimizado pela diversificação dos ativos dentro da carteira de investimento, logo, o risco não sistemático é chamado de risco diversificável. No entanto, o risco sistemático não pode ser eliminado por meio da diversificação, estando sempre presente na estrutura da carteira. 2. Covariância e Correlação de Ativos No processo de composição de uma carteira de investimentos, no qual existem ativos financeiros de classes diferentes, e o foco é a diversificação dos ativos para reduzir o risco não sistemático, é importante calcular a correlação e a covariância desses ativos. inicialmente vamos começar pelo conceito de covariância. A covariância (COV) busca identificar como determinados ativos se inter-relacionam, ou seja, avalia como dois ativos “X” e “Y” afastam-se ao mesmo tempo dos seus valores médios (covariam) (ASSAF NETO, 2021). Por exemplo, se dois ativos possuem simetria positivas, logo a covariância é positiva (COV>0), e assim vão possuir taxas de retorno na mesma tendência. Então, se o título “X” valorizar o outro “Y” também vai valorizar, pois, são ativos diretamente relacionados. Já a covariância negativa ocorre quando dois títulos apresentam relações opostas (COV <0), ou seja, quando o ativo “X” valoriza o outro “Y” e se desvaloriza ao mesmo tempo (ASSAF NETO, 2021). A fórmula de cálculo da covariância entre dois ativos “X” e “Y” pode ser dada por: 35 em que: é o retorno de X subtraído do retorno médio de X; é o retorno de Y subtraído do retorno médio de Y; (n) é o número de elementos. Sobre a correlação Assaf Neto e Lima (2017) argumentam que é uma métrica estatística que apresenta o relacionamento no comportamento de duas ou mais variáveis, ou seja, indica a maneira como ela se move em conjunto. Por exemplo, podemos afirmar que existe uma correlação positiva entre crescimento econômico e aumento do número de empregos ou ainda uma correlação entre o aumento do endividamento das famílias e inadimplência. Sendo assim, a mensuração desse relacionamento é obtida estatisticamente por meio do coeficiente de correlação que pode variar de +1 a -1. Para apresentar o coeficiente de correlação entre, por exemplo, “X” e “Y”, apresenta-se a sigla matemática (px,y). Quando o coeficiente de correlação for igual a menos um (px,y =–1), considera-se que os ativos estão negativamente correlacionados, isto é, quando o ativo “X” diminuir o ativo “Y” tende a aumentar. Já quando o coeficiente de correlação é igual a mais um (px,y = + 1), pode-se dizer que aumentos no ativo “X” determina alterações paralela no mesmo sentido no ativo “Y”. Desse modo, o coeficiente de correlação pode variar entre: Para o foco dos nossos estudos, a expressão utilizada para o cálculo do coeficiente de correlação é: em que: é a covariância entre “X” e “Y”; é o desvio-padrão de “X”; é o desvio-padrão de “Y”. De acordo com Assaf Neto (2021), também pode-se determinar covariância de “X” e “Y” pelo produto da correlação e desvio-padrão das variáveis, ou seja: 36 em que: p x,y é o coeficiente de correlação; é o desvio-padrão de “X”; é o desvio-padrão de “Y”. Observe que a covariância e a correlação são parâmetros similares, uma vez que os dois casos indicam a maneira que duas variáveis se relacionam entre si, no entanto, a correlação assume valores padronizados entre (+1) e (-1), enquanto a covariância pode assumir qualquer valor positivo ou negativo. 3. Teoria do portfólio (teoria das carteiras de Markowitz) A teoria do portfólio de Markowitz é um modelo de análise e gestão de investimentos desenvolvido pelo economista Harry Markowitz com a publicação de “Portfolio Selection” em 1952. Essa teoria apresenta uma metodologia para a seleção e combinação de diferentes ativos financeiros com o objetivo de maximizar o retorno do investimento e minimizar o risco assumido pelo investidor. Segundo a teoria de Markowitz, a escolha de um portfólio ideal deve levar em consideração não apenas o retorno esperado dos ativos, mas também a sua volatilidade e a correção entre eles. De acordo com Markowitz (1991, p. 5, apud FILHO, 2019, p.111), “para reduzir riscos é necessário evitar um portfólio onde todos os ativos são altamente correlacionados. Cem ações cujos retornos sobem e descem ao mesmo tempo oferecem menor proteção do que o retorno incerto de uma única ação”. Sendo assim, o foco de análise da teoria de Markowitz é a correlação dos ativos e o risco da carteira. Ademais, o risco da carteira no modelo é determinado pelo desvio-padrão. Logo, de acordo com Assaf Neto e Lima (2017), o desvio-padrão de uma carteira formada por diversos ativos, conforme a teoria de Markowitz, é função do desvio-padrão 37 de cada ativo (σj); percentual da carteira aplicado em cada ativo (Wj); coeficiente de correlação dos ativos (CORRi,j ou ρi,j), ou covariância (COVi,j). Por exemplo, o risco (desvio-padrão) de uma carteira composta por dois ativos “i” e “j”, baseando-se no modelo de portfólio de Markowitz é dada por: em que: é a proporção de recursos em “i” elevado ao quadrado; é o desvio-padrão de “i” elevado ao quadrado; é a proporção de recursos em “j” elevado ao quadrado; é o desvio-padrão de “j” elevado ao quadrado; é a proporção de recursos em “i”; é a proporção de recursos em “j”, é o coeficiente de correlação; é o desvio-padrão de “i”; é o desvio-padrão de “j”. 3.1 Efeito da correlação sobre a carteira de investimentos Para compreender melhor os efeitos das correlações sobre o retorno dos ativos de um portfólio, conforme explicitado na teoria do portfólio de Markowitz, considere uma carteira formada por dois ativos (A e B) com as seguintes informações: Quadro 1– Retorno e risco esperado Portfólio (p) Retorno (E)Rp Risco σp Ação A 10% 16% Ação B 20% 23% Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). Inicialmente, adota-se a hipótese de que a carteira será formada com 80% dos recursos sendo alocados na ação “A” e 20% na ação “B”. Desse modo, o retorno esperado dessa carteira será de: 38 Ainda para essa carteira, adotando a hipótese de correlação positiva e igual a um (pA,B = + 1) entre os ativos, o risco (desvio-padrão) calculado conforme o modelo de Markowitz será de: Considere que para essa mesma composição de carteira, e assumindo a hipótese e que a correlação fosse negativa em menos um (pA,B =–1), o risco da carteira (desvio-padrão) conforme o modelo de Markowitz será de: Agora admita a hipótese que 60% dos recursos serão alocados na ação “A” e 40% na ação “B”. Logo, o retorno esperado desta carteira será de: R(E)p = (10% x 60%) + (20% x 40%) = 14% Ainda para essa carteira, o risco calculado conforme o modelo de Markowitz e adotando a hipótese de correlação positiva e igual a um (pA,B = + 1) entre os ativos, será de: Considere que para essa mesma composição de carteira e assumindo a hipótese e que a correlação fosse negativa em menos um (pA,B =–1), o risco da carteira conforme o modelo de Markowitz será de: 39 Uma vez realizados os cálculos, pode-se organizar as informações no quadro abaixo: Quadro 2 – Composição de carteira e riscos possíveis Composição da Carteira Risco da Carteira Ação A Ação B E (Rp) Correlação Correlação 80% 20% 12% 17,40% 8,2% 60% 40% 14% 18,80% 0,4% Fonte: elaborado pelo autor. Conforme pode-se visualizar no Quadro 2, quando se assume a hipótese de correlação negativa entre os ativos, o risco da carteira é menor. Quando a premissa é de correlação positiva, o risco da carteira aumenta. Logo, a essência da teoria do portfólio de Markowitz é diversificar a carteira com ativos com correlação negativa. 3.2 Risco e retorno esperado de um portfólio Considere ilustrativamente dois ativos (X e Y) que para cada cenárioeconômico considerado apresentam os seguintes retornos: Quadro 3 – Retorno dos ativos X e Y, dado cenário econômico Cenário Probabilidade Pj (E)Rx (E)Ry Recessão 10% - 4% 1% Médio 35% 8% 8% Bom 45% 20% 15% Excelente 10% 45% 20% Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). O retorno esperado de cada ativo, considerando todos os cenários é dado por: 40 Utilizando quatro casas decimais, o desvio-padrão (risco) de cada ativo é dado por: Encontrado o retorno esperado e o risco de cada ativo, apresenta-se no Quadro 4 a covariância entre os dois ativos. Quadro 4 – Cálculo da covariância entre os ativos X e Y Cenário Probabilidade (Pj) Rx Ry Pj Recessão 10% - 4% 1% -20% -11% 0,212% Médio 35% 8% 8% -8% -4% 0,101% Bom 45% 20% 15% 4% 3% 0,062% Excelente 10% 45% 20% 29% 8% 0,243% = 16% =12% COV X,Y = 0,618% Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). A covariância calculada é positiva, associando retornos no mesmo sentido na carteira composta por esses dois ativos. Já o coeficiente de correlação entre os dois ativos é dado por: A correlação entre os ativos é menor que um (0,1226). Logo, conforme a teoria do portfólio de Markowitz, poderá haver redução do risco na carteira, pois, os ativos não são altamente correlacionados. A partir de agora, pode-se calcular a formação de uma carteira (portfólio) com os ativos “X” e “Y” e aplicar a fórmula do cálculo do risco da carteira de Markowitz. Incialmente, considere uma carteira em que os recursos 41 financeiros são alocados totalmente no ativo “X” ou totalmente no ativo “Y”. Nesse caso, teríamos: Quadro 5 – Composição da carteira de investimentos sem diversificação Proporção do Ativo X no portfólio (Wx) Proporção do Ativo Y no portfólio (Wy) Retorno Esperado do portfólio E(Rp) Risco do Portfólio (σp) Carteira 01 0% 100% 12% 14% Carteira 02 100% 0% 16% 36% Fonte: elaborado pelo autor. Perceba que os dados apresentados na tabela acima correspondem aos mesmos que calculamos anteriormente, pois não estávamos considerando a diversificação dos ativos no portfólio. Porém, agora vamos considerar que tenhamos a participação dos dois ativos na carteira. Considere uma carteira que tenhamos as seguintes proporções de aplicação de recursos: 25% no Ativo X (Wx = 25%) e 75% no ativo Y (Wy=75%). Considerando a correlação de 0,1226 entre os ativos, o risco dessa carteira (σp), será de: Agora considere as seguintes possibilidades: Ativo X (Wx = 50%); Ativo Y (Wy=50%). O risco dessa carteira (σp) será de: Ativo X (Wx = 75%); Ativo Y (Wy=25%). O risco dessa carteira (σp), será de: 42 No Quadro 6 é apresentado o retorno esperado para essas combinações do portfólio. Quadro 6 – Conjuntos possíveis de carteira e retornos esperados Composição da carteira Retorno Esperado (Wx = 25%) e (Wy=75%) E (Rp) = (25% x 16%) + (75% x 12%) = 13% (Wx = 50%) e (Wy=50%) E (Rp) = (50% x 16%) + (50% x 12%) = 14% (Wx = 75%) e (Wy=25%) E (Rp) = (75% x 16%) + (25% x 12%) = 15% Fonte: elaborado pelo autor. O Quadro 7 apresenta o retorno e risco dos ativos “X” e “Y” em um conjunto de carteiras possíveis. Repare que o aumento do retorno esperado acompanha um aumento do risco, verificando-se uma correlação positiva entre risco e retorno. Quadro 7 – Risco e retorno esperado para diferentes composições de carteira Wx Wy E (Rp) Risco (σp) Carteira 01 0% 100% 12% 14,00% Carteira 02 25% 75% 13% 14,64% Carteira 03 50% 50% 14% 20,09% Carteira 04 75% 25% 15% 27,65% Carteira 05 100% 0% 16% 36,00% Fonte: adaptado de Assaf Neto (2021). Essas diversas combinações sugeridas no Quadro 7 podem descrever uma curva que retrata o conjunto possível de combinações de uma carteira. Essa representação gráfica descreve as possíveis alternativas 43 que se apresentam ao investidor de modo que possa combinar a participação dos ativos “X” e “Y” no contexto de uma carteira, conforme apresentado na Figura 1. Figura 01 – Linha de Conjunto de combinações. Fonte: adaptado de Assaf Neto (2023, p. 292). Na Figura 1 pode-se visualizar o formato de um triângulo formado pelos pontos KWZ. A curva inserida dentro do triângulo (linha laranja) apresenta os possíveis resultados de risco e retorno de carteira constituída por ativos considerados como não perfeitamente correlacionados (ASSAF NETO, 2023). A reta KW apresenta os possíveis resultados dos ativos, caso possuíssem uma correlação perfeitamente positiva (px,y = +1). A curva entre KMW (linha laranja) está à esquerda da reta KW, o que mostra o efeito da diversificação da carteira. A reta ZW apresenta uma correlação perfeitamente negativa, porém, pouco comum na prática. O ponto “M” representa uma carteira de ativos que apresenta o menor risco possível. Segundo Assaf Neto (2023), esse ponto é conhecido como a “carteira de variância mínima”. Quanto mais uma carteira se distancia desse ponto de menor desvio-padrão, maior risco que apresenta e 44 consequentemente também mais elevado é o seu retorno esperado (ASSAF NETO, 2021). Para dois ativos “X” e “Y” a carteira de variância mínima pode ser dada pela seguinte expressão: Para ilustrar a aplicabilidade do conceito, vamos utilizar os dados do exemplo anterior no qual: σ(x) = 36%; σ(y) = 14%; E(Rx) = 16%; E(Ry) = 12% e px,y = 0,1226 Substituindo esses valores na fórmula da variância mínima, têm-se: Sabendo que: Portanto, na carteira “M”, 9,8% dos recursos são alocados no ativo “X” e 90,2% em “Y”. Logo, o retorno esperado e o desvio-padrão dessa carteira é: A carteira “M”, de variância mínima, possui um retorno esperado de 12,40% e um risco (desvio-padrão) de 13,52%. Referências ASSAF NETO, A. Mercado financeiro. 15. ed. [2ª Reimp.]. Barueri [SP]: Atlas, Instituto Assaf, 2023. ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2021. 45 ASSAF NETO, A.; LIMA, F. G. Fundamentos de administração financeira. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2017 FILHO, B. G. O. Gestão de fundos de investimento: o seu guia para gestão de carteiras. São Paulo: Saint Paul Editora, 2019. PINHEIRO, J. L. Mercado de Capitais. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2019. 46 Asset Allocation e Avaliação de Carteiras de Investimento. Autoria: Renato José da Silva Leitura crítica: Alexandre Gustavo Teixeira Moraes Objetivos • Conhecer os diferentes tipos de perfil de investidor. • Compreender o modelo de formação de carteiras por meio do Asset Allocation. • Saber avaliar carteiras de investimentos. 47 1. Perfil do investidor O mercado de capitais é geralmente considerado um ambiente de risco para o investidor, pois os preços dos ativos financeiros, como ações, títulos e fundos de investimento, podem flutuar significativamente ao longo do tempo. Essas flutuações de preços podem ser causadas por diversos fatores, como mudanças nas condições econômicas mundial, políticas governamentais, desempenho da empresa, e outros fatores imprevisíveis. Nesse contexto, é essencial que os investidores façam uma análise cuidadosa dos riscos envolvidos antes de investir em qualquer ativo financeiro, diversifiquem sua carteira de investimentos e tenham uma estratégia de investimento clara e consistente para alcançar seus objetivos financeiros de longo prazo. Sendo assim, uma forma de minimizar os impactos dos riscos do mercado de capitais é o agente conhecer o seu perfil de investidor. Mas, o que vem a ser esse perfil? De acordo com Assaf Neto (2023), conhecer o perfil do investidor é fundamental para se compreender os objetivos daqueles que decidem realizar investimentos e direcionar a formação de suas carteiras de ativos. Ainda segundo o autor: [...] alguns investidores decidem investir com o intuito de realizarem grandes retornos e, talvez, fazerem grandes fortunas; outros, para ter um fluxo de renda que permita sua estabilidade financeira (aposentadoria); e outros ainda visam tão somente preservar seu patrimônio. (ASSAF NETO, 2023, p. 280) Logo, constata-se que um portfólio de investimentos deve possuir ativosfinanceiros compatíveis aos objetivos e perfil do investidor, e que atenda às suas expectativas de risco e retorno. Porém, para isso é importante 48 que se conheça o nível de tolerância do investidor perante o risco, disponibilidade de capital e seus objetivos. De acordo com Assaf Neto (2021), os investidores podem ser classificados conforme o seu grau de tolerância ao risco, conforme apresentado na Figura 1. Figura 1 – Classificação do investidor, conforme tolerância ao risco Fonte: elaborado pelo autor. A partir de agora, vamos apresentar as características de cada classificação. O investidor denominado “conservador” possui o objetivo de preservar o seu capital e assim opta por investir em ativos mais seguros, ou seja, de menor risco, mesmo que isso leve a um menor retorno da carteira de investimentos. Desse modo, os ativos financeiros mais procurados por essa classe de investidores são: • Tesouro Selic. • Certificado de Depósito Bancário (CDB). • Letras do Crédito do Agronegócio/Imobiliário (LCA, LCI). • Fundos de Renda Fixa. O investidor classificado como “moderado” possui a característica de ser um “conservador”, porém, aceita expor uma pequena parcela de seu 49 portfólio em ativos de maiores riscos com expectativa de retorno em médio e longo prazo. Logo, o investidor desse perfil procura equilibrar rentabilidade versus risco, e costumam aplicar nas seguintes classes de ativos: • Tesouro Selic. • Certificado de Depósito Bancário (CDB.) • Letras do Crédito do Agronegócio/Imobiliário (LCA, LCI). • Certificado de Recebíveis Imobiliários/Agronegócio (CRI/CRA). • Fundos de Renda Fixa. • Fundos Multimercado. • Fundos Imobiliários. • Fundos de Ações. Já o investidor classificado no perfil “agressivo” é definido como aquele que procura focar suas decisões na taxa de retorno, aceitando propostas que prometem maiores ganhos, mesmo que incorra em maiores riscos (ASSAF NETO, 2023). Mesmo sendo arrojado em seus investimentos, destaca-se que esse investidor ainda pode manter uma parcela do seu portfólio em ativos de renda fixa, principalmente para formação de reserva de emergência e formação de caixa para eventuais oportunidades de ativos de renda variável. No entanto, expressiva parcela da carteira vai estar exposta em ativos de maiores riscos (renda variável), tais como: • Fundos Multimercado. • Fundos Imobiliários. 50 • Fundos de Índices (ETFs). • Debêntures. • Fundos de Ações. • Ações. • Derivativos. • Moedas (Dólar, Euro, Libra etc.). Agora, você pode se perguntar: Qual é o meu perfil de investidor? Bom, para isso, as instituições financeiras e corretoras de valores imobiliárias aplicam um questionário ao investidor, que ao final, poderá classificá-lo segundo a tolerância ao risco e aos objetivos dos investimentos. 2. Asset Allocation (Alocação de Ativos) Asset Allocation ou Alocação de Ativos é uma estratégia de investimento utilizada no mercado financeiro para alocar recursos em diferentes classes de ativos, como ações, títulos, fundos imobiliários, commodities e outros, ajustado aos objetivos, limitações orçamentárias e tolerância ao risco do investidor (ASSAF NETO; LIMA, 2017). A alocação de ativos é baseada na premissa de que diferentes classes de ativos têm diferentes níveis de risco e retorno, e que a combinação desses ativos em um portfólio pode ajudar a reduzir o risco geral do investimento, proporcionando um retorno melhor em relação ao risco assumido. Por exemplo, se um investidor tem uma aversão ao risco mais elevado, ele pode optar por investir uma parte maior do seu capital 51 em títulos de renda fixa, que apresentam um risco menor, e uma parte menor em ações, que apresentam um risco maior. No entanto, para a realização da estratégia de Asset Allocation, alguns passos são importantes, no quais serão apresentados a partir de agora. 2.1 Análise do perfil do investidor Em primeiro lugar, para realizar o Asset Allocation, é essencial analisar o perfil do investidor. Para isso, segundo Souza (2018): [...] a partir de janeiro de 2010, as instituições financeiras passaram a aplicar um procedimento denominado análise do perfil dos investidores para os clientes interessados em adquirir produtos com maior risco, como fundos multimercado, fundos de ações e fundos com risco de crédito privado. O conceito, já adotado em economias mais desenvolvidas, determina que as instituições realizem as vendas de produtos financeiros de acordo com as necessidades, os interesses e os objetivos dos clientes. Ou seja, o banco faz uma avaliação do perfil do cliente e, com base nas respostas obtidas, faz uma recomendação de qual produto financeiro ou carteira é mais apropriada para o cliente atingir seus objetivos de investimento. (SOUZA, 2018, p. 27) 2.2 Horizonte do tempo Uma vez compreendido o perfil do investidor, é importante conhecer os objetivos financeiros e os prazos das aplicações. Se o objetivo for para investimentos a longo prazo, o portfólio será diferente de quem possui objetivos voltados para o curto prazo. 2.3 Estratégia de alocação Existem diversas estratégias de elaborar a alocação de ativos, como a diversificação, a alocação baseada em metas de longo prazo, a alocação 52 tática baseada em ciclos de mercado e a alocação estratégica de acordo com as condições atuais. Cada possibilidade é definida conforme os objetivos e o perfil do investidor a fim de oferecer os melhores resultados. A diversificação é a estratégia mais comumente utilizada na alocação de ativos, em que o investidor aloca seus recursos em diferentes classes de ativos para reduzir o risco do portfólio e obter um retorno mais estável a longo prazo. Esta estratégia é baseada no princípio de que diferentes classes de ativos têm diferentes níveis de risco e retorno, e que a combinação desses ativos em um portfólio pode ajudar a reduzir o risco geral do investimento, proporcionando um retorno melhor em relação ao risco assumido. A alocação baseada em metas de longo prazo é uma estratégia de alocação de ativos que envolve a definição de metas financeiras específicas a longo prazo e a alocação de ativos com base nessas metas. Por exemplo, um investidor pode definir uma meta de poupança para a aposentadoria e, em seguida, alocar seus recursos em diferentes classes de ativos com base nessa meta. A alocação tática baseada em ciclos de mercado envolve a alocação de ativos de acordo com as condições atuais do mercado. Por exemplo, se um investidor acredita que as ações estão sobrevalorizadas e que uma recessão pode estar a caminho, ele pode reduzir sua alocação em ações e aumentar sua alocação em títulos e outros ativos de baixo risco. A alocação estratégica de acordo com as condições econômicas atuais envolve a alocação de ativos de acordo com as condições macroeconômicas atuais, como taxas de juros enfrentadas e crescimento econômico. Por exemplo, se as taxas de juros estão baixas, um investidor pode aumentar sua alocação em ações e outros ativos de maior risco que tendem a se beneficiar de taxas de juros mais baixas. 53 3. Indicadores de Avalição de Carteira de Investimentos Sabe-se que os investimentos em fundos de investimentos têm se tornado cada vez mais populares no Brasil. Ao mesmo tempo, investidores individuais elaboram seus próprios portfólios, por meio de estratégias de asset allocation e esperam atingir a rentabilidade esperada. Nesse sentido, a avaliação do desempenho de um fundo ou de portfólios torna-se essencial. Uma das maneiras de avaliar o desempenho de uma carteira é por meio do índice de Sharpe. Esse índice foi criado por Willian Sharpe em 1966, utilizado para a avaliação do desempenho de fundos com o objetivo de que investidores ajustem o retorno ao risco na avaliação de fundos de investimentos (SINATORA, 2017). Segundo Filho (2019), esse índice mede o retorno excedente da carteira em relação à taxa livre de risco, também chamado de prêmio de risco, comparado como risco total do portfólio medido pelo seu desvio- padrão. Logo, o índice de Sharpe também é conhecido como índice de recompensa pela variabilidade, pois mensura o retorno do portfólio, relacionada ao risco, medido pelo desvio-padrão. A fórmula do índice de Sharpe é: Em que: E (Rp) é o retorno esperado do portfólio; Rf é o retorno do ativo livre de risco; σp é o desvio-padrão do retorno do portfólio O resultado apresenta o prêmio oferecido por um ativo para cada percentual adicional de risco assumido (desvio-padrão). Também pode 54 ser interpretado da seguinte forma: “Quanto maior o índice, melhor o portfólio” (SINATORA, 2017). Para compreender a aplicabilidade do índice de Sharpe vamos supor que um investidor queira avaliar o seu portfólio no qual vamos denominar de fundo (X) e comparar com a performance de outros fundos no mercado. No Quadro 1 apresenta-se os dados do retorno médio esperado pela carteira do fundo (X), bem como dos fundos (Z) e (Y). Também se apresenta o retorno livre de risco do mercado e o desvio-padrão de cada carteira. Quadro 1– Riscos e retornos dos portfólios Fundos X Z Y E(Rp) 18% 16% 20% Rf 13% 13% 13% σp 7% 8% 9,9% Fonte: Adaptado de Sinatora (2017). Cálculo do índice de Sharpe para a carteira X: O resultado indica que o ativo com risco apura 0,71% de prêmio de risco para cada 1% de risco adicional incorrido no período. Cálculo do índice de Sharpe para a carteira Z: O resultado indica que o ativo com risco apura 0,37% de prêmio de risco para cada 1% de risco adicional incorrido no período. Cálculo do índice de Sharpe para a carteira Y: 55 O resultado indica que o ativo com risco apura 0,70% de prêmio de risco para cada 1% de risco adicional incorrido no período. Agora podemos analisar o índice de Sharpe e apresentar o ranking. Quadro 2 – Classificação do Índice de Sharpe Fundo IS Classificação X 0,7142 1º Y 0,7070 2º Z 0,3750 3º Fonte: elaborado pelo autor. Conforme o Quadro 2, dentre os três fundos analisados, o fundo X apresenta a melhor avaliação, ou seja, é o que melhor remunera o investidor, dado o risco exposto. A partir de agora, vamos conhecer outro indicador alternativo para avaliar o retorno de uma carteira de investimentos. De acordo com Assaf Neto (2023), o índice de Modigliani considera também a relação entre o retorno e o risco do portfólio de investimento. Elaborado por Franco Modigliani e Leah Modigliani (1997), o índice de Modigliani, baseia-se na Linha de Mercado de Capitais e permite ajustar o risco do portfólio ao risco do benchmark, utilizando como conceito de risco o desvio-padrão (FILHO, 2019). A fórmula do índice de Modigliani (IM) é dado por: Em que: σm = Desvio-padrão da carteira de mercado; σp = Desvio-padrão do portfólio; 56 Rp = Retorno do portfólio; Rf = Retorno do ativo livre de risco. Para exemplificar o uso do índice de Modigliani, vamos considerar os mesmos dados utilizados no exemplo anterior e incluir o desvio-padrão do mercado, que será hipoteticamente de 6%. Índice de Modigliani na Carteira X: O resultado indica que se o risco da carteira X fosse igual ao risco de mercado, o fundo performaria 17,28%. Índice de Modigliani na Carteira Z: O resultado indica que se o risco da carteira X fosse igual ao risco de mercado, o fundo performaria 15,25%. Índice de Modigliani na Carteira Y: O resultado indica que se o risco da carteira Y fosse igual ao risco de mercado o fundo performaria 17,24%. Referências ASSAF NETO, A. Mercado financeiro. 15. ed. [2ª Reimp.]. Barueri [SP]: Atlas, Instituto Assaf, 2023. ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2021. 57 FILHO, B. G. O. Gestão de fundos de investimento: o seu guia para gestão de carteiras. São Paulo: Saint Paul Editora, 2019. SINATORA, J. R. P. Mercado de capitais. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2017. SOUSA, A. F. D. Planejamento financeiro pessoal e gestão do patrimônio. 2. ed. —Barueri, SP: Editora Manole, 2018. 58 BONS ESTUDOS! Sumário Apresentação da disciplina Principais Classes de Ativos Objetivos 1. Definindo ativos financeiros 2. Ativos de Renda Fixa 3. Ativos de Renda Variável Referências Indicadores estatísticos para mensuração do risco e o modelo CAPM Objetivos 1. Medidas estatísticas de posição e dispersão 2. Medidas estatísticas aplicadas ao estudo do risco 3. Modelo de Precificação de Ativos de Capital (CAPM) Referências Diversificação de riscos e a teoria das carteiras de Markowitz Objetivos 1. Diversificação de riscos 2. Covariância e Correlação de Ativos 3. Teoria do portfólio (teoria das carteiras de Markowitz) Referências Asset Allocation e Avaliação de Carteiras de Investimento. Objetivos 1. Perfil do investidor 2. Asset Allocation (Alocação de Ativos) 3. Indicadores de Avalição de Carteira de Investimentos Referências