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www.medicinaatual.com.br Ansiedade Autor(es) Antonio Egidio Nardi1 Marcelo Queiroz Hoexter2 Set-2011 1 - O que é ansiedade? A ansiedade é um sinal de alerta que permite ao indivíduo ficar atento a um perigo iminente e tomar as medidas necessárias para lidar com a ameaça. Em outras palavras, é um sentimento útil. Sem ela estaríamos vulneráveis aos perigos e ao desconhecido. É algo que está presente no desenvolvimento normal, nas mudanças e nas experiências novas e inéditas. A ansiedade normal é uma sensação difusa e desagradável de apreensão, acompanhada por vários sintomas físicos: mal estar epigástrico, precordialgia, taquicardia, sudorese excessiva, cefaleia, súbita necessidade de evacuar, inquietação etc. Os padrões individuais físicos de ansiedade variam amplamente. Alguns indivíduos apresentam apenas sintomas cardiovasculares, outros, sintomas gastrintestinais, há aqueles que apresentam principalmente sudorese excessiva. A sensação de ansiedade pode ser dividida em dois componentes: • a consciência de sensações físicas; • a consciência de estar nervoso ou amedrontado. 2 - Qual a diferença entre ansiedade normal e a patológica? A ansiedade normal é útil porque pelo desconforto que ocasiona nos leva atuar de forma eficaz quando temos um perigo – seja um compromisso social, uma prova ou um primeiro encontro com uma pessoa. Uma vez que é útil responder com ansiedade a certas situações ameaçadoras, podemos diferenciar a ansiedade normal da anormal ou patológica. A ansiedade torna-se patológica quando ela é muito intensa e prejudica o indivíduo. Por exemplo, a ansiedade em relação a uma prova é tão intensa que a pessoa não consegue se concentrar nos estudos, ou a ansiedade a um compromisso só nos faz pensar na desculpa para faltar ao mesmo. A ansiedade patológica é uma resposta inadequada a determinado estímulo, em virtude de sua intensidade ou duração. Diferentemente da ansiedade normal, a patológica paralisa o indivíduo, traz prejuízo ao seu bem estar e ao seu desempenho e não permite que ele se prepare e enfrente as situações ameaçadoras. A figura 1 representa a relação entre os níveis de ansiedade e o desempenho de um indivíduo. 1 Livre-docente e Professor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Coordenador do Laboratório de Pânico e Respiração da UFRJ. 2 Psiquiatra; Doutorado em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Membro e colaborador do Laboratório Interdisciplinar de Neurociências Clínicas (LiNC) da Unifesp e do Projeto Transtornos do Espectro Obsessivo-compulsivo (PROTOC) da Universidade de São Paulo. www.medicinaatual.com.br Figura 1. Uma maior ansiedade inicialmente melhora o desempenho, mas a partir de um determinado ponto ela passa a comprometer o mesmo. 3 - Quais são os transtornos de ansiedade? A ansiedade patológica pode ser descrita e estudada por meio de diferentes quadros clínicos denominados de transtornos de ansiedade. Os principais transtornos de ansiedade são: o transtorno de pânico com e sem agorafobia, o transtorno de ansiedade generalizada e a fobia social. Temos ainda as fobias específicas, o transtorno obsessivo compulsivo e o transtorno de estresse pós-traumático. Estes dois últimos, apesar de classificados como transtornos de ansiedade, apresentam alterações de pensamento e do humor, o que os coloca como diferentes ao grupo. As fobias específicas formam um grupo heterogêneo caracterizado por várias fobias a objetos ou situações, como medo de altura, de escuro, de pequenos animais, de sangue, de injeções, entre outras. 4 - Qual a epidemiologia dos transtornos de ansiedade? O transtorno de pânico tem prevalência de 1,5% a 2% na população. A proporção entre os sexos é de 2 mulheres para 1 homem. Desenvolve-se mais frequentemente em adultos jovens, com a idade média de apresentação em torno dos 25 anos de idade, podendo iniciar-se em qualquer idade. A agorafobia ocorre aproximadamente em 0,6% da população em algum período da vida. Quase a totalidade desses pacientes terá transtorno de pânico associado. O início da agorafobia pode ocorrer na terceira década de vida, mas usualmente se dá no começo da vida adulta. É mais frequente nas mulheres. A prevalência do transtorno de ansiedade generalizada é estimada entre 2% a 5% da população. É mais comum nas mulheres, na proporção de 2 para 1. Inicia-se, em geral, na segunda década de vida. Seu curso é flutuante e crônico. A fobia social é o mais prevalente dos transtornos de ansiedade. Estima-se que 3% a 5% da população tenha sintomas fóbicos sociais que resultam diferentes graus de incapacitação e limitações sociais e ocupacionais. Parece ser igualmente frequente em homens e mulheres na população geral, mas os homens procuram mais o tratamento. 5 - Quais as possíveis etiologias para os transtornos de ansiedade? As duas principais hipóteses para a etiologia dos transtornos de ansiedade são: Teorias biológicas Ao se definir a ansiedade como uma função mental, criam-se hipóteses para sua www.medicinaatual.com.br representação cerebral. É possível que certas pessoas sejam mais suscetíveis (possível fator hereditário) ao desenvolvimento de um transtorno de ansiedade, com base em uma sensibilidade biológica. Os três principais neurotransmissores associados à ansiedade são a noradrenalina, o ácido gama-aminobutírico (GABA) e a serotonina. Os transtornos de ansiedade seriam o resultado de uma ação inadequada destes neurotransmissores nos receptores de membrana neuronal de núcleos cerebrais específicos, com a amígdala, o locus coeruleus, o córtex préfrontal, entre outros. O desequilíbrio destes neurotransmissores desregularia o funcionamento de determinados circuitos cerebrais envolvidos nos processamentos de apreensão de estímulos ameaçadores e respostas de medo como mostrado esquematicamente na figura 2. Teorias comportamentais Sugerem que a ansiedade é uma resposta condicionada a estímulos ambientais específicos. Uma pessoa pode aprender a ter uma resposta interna de ansiedade após uma experiência negativa ou imitando respostas ansiosas de seu meio social. A teoria cognitiva da ansiedade patológica sugere que padrões de pensamento incorretos, distorcidos, incapacitantes ou contra-producentes acompanham ou precedem os comportamentos não adaptados. Os pacientes que sofrem de transtornos de ansiedade tendem a superestimar o grau e a probabilidade de perigo em uma determinada situação e a subestimar suas capacidades para lidarem com ameaças percebidas ao seu bem-estar físico ou psicológico. Figura 2. Circuitos cerebrais envolvidos nos processamentos de apreensão de estímulos ameaçadores e respostas de medo. 6 - O fator hereditário é importante na etiologia dos transtornos de ansiedade? Sim, é muito importante. No transtorno de pânico, parentes de primeiro grau têm uma chance entre 15% a 17% de apresentar o transtorno. A taxa de concordância para gêmeos monozigóticos ultrapassa os 80% e em gêmeos dizigóticos é de 15%, o que também sugere a importância da hereditariedade. Há evidências de que fatores genéticos fazem parte da etiologia da ansiedade generalizada. Aproximadamente 25% dos parentes de primeiro grau são afetados, principalmente de sexo feminino. Os parentes de sexo masculino são mais propensos a transtornos com álcool. A concordância para gêmeos monozigóticos é de 50%, contra 15% para os dizigóticos. A fobia social parece ter um componente hereditário associado a disfunções em circuitos dopaminérgicos e serotoninérgicos, que são atualmente considerados como possíveis responsáveis pelo comportamento de esquiva social. Aproximadamente 20% dos parentes de www.medicinaatual.com.br primeiro grau são afetados. A taxa de concordância para gêmeos monozigóticos ultrapassa os 75%, o que também é demonstra a importância dos fatores genéticos.7 - Existem exames complementares que podem auxiliar no diagnóstico de algum transtorno de ansiedade? Não. Os exames complementares são importantes para auxílio no diagnóstico diferencial. São úteis para excluirmos a presença de alteração endócrina (por exemplo, hipertireoidismo ou feocromocitoma), doenças neurológicas (por exemplo, doença de Parkinson ou epilepsia do lobo temporal), ou doenças cardiológicas (por exemplo, arritmias ou isquemia do miocárdio). Enfim, toda e qualquer doença que esteja no diagnóstico diferencial pode ter no exame complementar um auxílio ao seu esclarecimento. Exames de imagem têm evoluído muito, mas não têm ainda a capacidade de dar um diagnóstico de transtorno de ansiedade. O diagnóstico de transtorno de ansiedade é realizado após excluirmos outras hipóteses prováveis e é baseado apenas no exame psiquiátrico. 8 - Qual o quadro clínico do transtorno de pânico? O transtorno começa com ataques de pânico. São episódios de ansiedade aguda, nos quais o paciente sente inúmeros sintomas físicos e cognitivos. O primeiro ataque de pânico é sempre espontâneo, inesperado. Os sintomas começam de forma crescente, atingindo um máximo em torno de 10 minutos. Raramente ultrapassam os 30 minutos. Os sintomas mais comuns são: dispneia, sensação de sufocação ou de asfixia, vertigem, sensação de instabilidade ou de desmaio, palpitações, tremores, sudorese, náusea ou desconforto abdominal, despersonalização ou desrealização, parestesias, ondas de calor ou de frio, dor ou desconforto no peito, medo de morrer, medo de enlouquecer. Durante o ataque o paciente pode se sentir confuso, ter dificuldade de concentração, necessidade de abandonar o local para procurar ajuda ou ir para outro lugar melhor ventilado. Preocupações com os sintomas físicos, principalmente relativos à morte por problema cardíaco ou respiratório podem ser o foco principal de atenção durante um ataque de pânico. A agorafobia (que será abordada a seguir), a hipocondria e o abuso de drogas podem ser compreendidos como uma consequência dos sintomas físicos intensos que os pacientes apresentam. 9 - Quais as co-morbidades mais frequentes no transtorno de pânico? A ocorrência de múltiplos diagnósticos psiquiátricos em pacientes com transtorno de pânico tem sido mais a regra do que a exceção. Mais de dois terços dos indivíduos com transtorno de pânico têm dados para mais de um diagnóstico psiquiátrico, dos quais o transtorno de ansiedade generalizada e a fobia social são os mais encontrados. Os pacientes com transtorno de pânico, com ou sem agorafobia, quase sempre apresentam pelo menos um outro transtorno de ansiedade associado. Uma das complicações da associação com a fobia social é o maior risco de depressão ao longo da vida. Os transtornos de ansiedade e depressão co-ocorrem com grande frequência e a grande parte dos casos de depressão é secundária a um transtorno de ansiedade (67,9%), especialmente transtorno de pânico. Um outro fator de risco no transtorno de pânico é o desenvolvimento dos transtornos por uso de substância, particularmente o abuso de álcool e de benzodiazepínicos, algumas vezes como automedicação. 10 - Qual a relação do transtorno de pânico com doenças respiratórias? Os sintomas somáticos do transtorno de pânico são muito semelhantes aos de outras doenças médicas. Os sintomas autonômicos geralmente são referidos como queixas cardio- respiratórias, como dor torácica, taquicardia, dispneia, entre outras. Ataques de pânico com sintomas respiratórios mais proeminentes (dispneia, sensação de sufocação ou asfixia, dor ou desconforto torácico) assemelham-se aos episódios agudos da asma, que podem, também, apresentar-se com altos níveis de ansiedade, medo e esquiva fóbica de certas situações, como, por exemplo, exposição à fumaça de cigarro em locais fechados e durante atividades físicas. Nos últimos anos, tem sido estudada uma possível ligação entre transtorno de pânico e doenças respiratórias. Estudos com pequenas amostras de indivíduos com asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) encontraram taxas de prevalência para transtorno de www.medicinaatual.com.br pânico variando de 8% a 24%. Por outro lado, as doenças respiratórias foram consideradas como possíveis fatores de risco ou de predisposição para o transtorno de pânico, uma vez que a prevalência, ao longo da vida, de doenças respiratórias (asma, bronquite crônica, enfisema e pneumonia) foi até três vezes maior em pacientes com transtorno de pânico do que em pacientes com outros transtornos psiquiátricos. 11 - Qual o tratamento do transtorno de pânico? O tratamento do transtorno de pânico envolve medidas na área da psicofarmacoterapia e das psicoterapias. Diversos grupos de drogas têm se mostrado úteis: antidepressivos tricíclicos, inibidores da monoamina oxidase (IMAO), inibidores seletivos da recaptação de serotonina (SSRI), inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina (SNRI) e benzodiazepínicos. Os antidepressivos tricíclicos (imipramina, clomipramina, amitriptilina e nortriptilina) foram os primeiros a serem utilizados e ainda são prescritos. Os SSRIs (fluvoxamina, paroxetina, escitalopram, sertralina, entre outros) também são eficazes no transtorno de pânico, assim como os SNRIs (venlafaxina e mirtazapina). A tolerabilidade, tanto dos SSRIs como dos SNRIs, é razoável e, apesar de efeitos colaterais, são mais seguros que os antidepressivos tricíclicos. Os benzodiazepínicos (clonazepam, alprazolam, cloxazolam, etc) são eficazes e muito utilizados, mas deve-se atentar para o risco de dependência associado a eles. As psicoterapias, comportamental e de família, têm o papel fundamental de tratar as complicações do transtorno de pânico. A terapia comportamental visa o tratamento da esquiva agorafóbica. A terapia de família deve ser dirigida à educação e apoio da família do paciente, a qual está sempre comprometida pelas dificuldades de conviver com uma pessoa com transtorno de pânico. Recentemente, o uso de medicações glutamatérgicas com ação sobre a formação de memória (D-cicloserina) tem sido proposto em combinação á terapia comportamental com o intuito de aumentar a resposta a esquiva agorafóbica e diminuir a resposta ao medo condionado. 12 - Qual o prognóstico do transtorno de pânico? O prognóstico do transtorno de pânico é bom. Fatores que favorecem o bom prognóstico são: • diagnóstico precoce; • baixo nível de ansiedade pré-mórbida; • pouco tempo de doença; • ataques de pânico de gravidade suficiente para serem diferenciados de um aumento de ansiedade ocasional; • ausência de co-morbidades importantes, principalmente depressão, abuso de substâncias e transtorno de personalidade; • início após os 40 anos de idade; • ausência de doenças somáticas limitantes ou com sintomas semelhantes aos ataques de pânico. Os fatores que pioram o prognóstico são o oposto dos anteriormente citados. 13 - O que é a agorafobia e qual o seu quadro clínico? “Agorafobia” significa medo de lugares abertos. Na prática clínica designa medo de sair de casa ou de situações onde o socorro imediato não é possível. O termo, portanto, refere-se a um grupamento inter-relacionado e frequentemente sobreposto de fobias que abrangem o medo de sair de casa, medo de entrar em lugares fechados (aviões, elevadores, cinemas etc), de multidões, de lugares públicos, de permanecer em uma fila, de viajar de ônibus, trem ou automóvel, de se distanciar de casa e de estar só em uma destas situações. A agorafobia é a complicação mais frequente do transtorno de pânico, em que todas as situações temidas têm em comum o medo de passar mal e não ter socorro fácil ou imediato. É o mais incapacitante dos transtornos fóbicos, sendo que alguns pacientes tornam-se totalmente confinados ao lar. www.medicinaatual.com.br 14 - Quais as co-morbidades mais frequentes associadas à agorafobia? A agorafobia frequentemente está associada ao transtorno de pânico ou a um outrotranstorno de ansiedade ou à depressão. A agorafobia geralmente inicia-se no começo da vida adulta. Além dos sintomas do transtorno de pânico, sintomas depressivos, obsessivos e fóbicos sociais podem estar presentes, mas não dominam o quadro. A agorafobia deve ser diferenciada dos outros transtornos fóbicos. A presença de outros sintomas tais como depressão, despersonalização, sintomas obsessivos e fobia social não invalidam o diagnóstico. 15 - Qual a diferença de agorafobia para o medo de sair de casa devido à violência nas grandes cidades? A agorafobia é um transtorno fóbico grave e que compromete a qualidade de vida dos pacientes. Alguns pacientes com transtorno de pânico apresentam ataques de pânico leves e ocasionais, mas a gravidade da agorafobia associada impede que saiam de casa, tornando o quadro de importante comprometimento à vida dos indivíduos. A agorafobia está muitas vezes associada ao medo de passar mal e não ter um socorro imediato. Ela é incapacitante. A violência das grandes cidades torna a todos nós vítimas de um encarceramento involuntário. Ficamos mais em casa por insegurança de sair a qualquer hora ou para qualquer lugar. A violência não nos traz medo de passar mal, de não termos um socorro imediato ou de viajarmos. A violência muda a vida de todos, mas não incapacita para o novo cotidiano criado por ela. 16 - Qual o tratamento da agorafobia? O tratamento da agorafobia é o mesmo do transtorno de pânico, envolvendo a utilização de psicofármacos e de psicoterapia. O uso apenas de psicofármacos controlando a ansiedade pode fazer com que uma agorafobia leve desapareça. Quando ela é moderada ou grave, é necessária a utilização de psicoterapia cognitivo-comportamental, com técnicas de relaxamento, dessensibilização sistemática, exposição gradual, modelagem gradual e reforço positivo, identificação e correção de distorções, desenvolvimento de auto-controle de pensamentos e comportamento. 17 - Qual o prognóstico da agorafobia? O prognóstico é bom quando o tratamento é iniciado precocemente. Uma longa duração da agorafobia está associada a pior prognóstico. Diferentemente dos ataques de pânico, que podem desaparecer espontaneamente após alguns anos, a agorafobia não. Ela pode, inclusive, piorar com o passar dos anos, se não tratada. Entretanto, muitas vezes quando o transtorno de pânico é tratado de forma eficaz, a agorafobia desaparece progressivamente, em poucos meses. 18 - Qual o quadro clínico do transtorno de ansiedade generalizada? O transtorno de ansiedade generalizada é um transtorno crônico de ansiedade, caracterizado por preocupações irrealistas ou excessivas, com diversos sintomas somáticos. O aspecto essencial é a ansiedade generalizada e persistente associada a preocupações constantes. Essa ansiedade patológica crônica não é restrita a uma situação ambiental ou objeto específico, ela é “livremente flutuante”. Como em outros transtornos de ansiedade, o sentimento de nervosismo é acompanhado de queixas somáticas, como tremores, tensão muscular, sudorese excessiva, sensação de cabeça leve, palpitações, tonturas e desconforto digestivo. Alguns receios podem estar presentes, como o medo de adoecer, de que alguma coisa negativa aconteça com familiares, problemas econômicos etc. Os sintomas envolvem três áreas principais: • Tensão motora: tremor, abalos, sensação de balanço, tensão muscular, dores, edema muscular, inquietação, fadiga fácil; • Hiperatividade autonômica: sensações de asfixia, palpitações, sudorese excessiva, mãos frias e úmidas, boca seca, vertigem, sensação de cabeça leve, náuseas, diarreia, desconforto abdominal, ondas de calor ou calafrios, micção frequente, dificuldade de deglutir ou “nó na garganta”; • Vigilância: sensação de incapacidade, impaciência, sobressaltos, dificuldade de concentração, “brancos de memória”, insônia, irritabilidade. www.medicinaatual.com.br 19 - Quais as co-morbidades mais frequentes no transtorno de ansiedade generalizada? O transtorno de ansiedade generalizada é crônico, dura muitos anos. Assim, existe uma grande possibilidade dos pacientes com transtorno de ansiedade generalizada apresentarem outro transtorno mental ou físico. O mais frequente é a depressão. Aproximadamente 70% dos pacientes com transtorno de ansiedade generalizada terão um episódio depressivo durante a vida. O transtorno de pânico também é frequente (36%). Outros transtornos co-mórbidos são o alcoolismo (18%), abuso de drogas (13%), fobia social (10%) e transtorno bipolar (5%). Pacientes com transtorno de ansiedade generalizada também têm um risco elevado para doenças como intestino irritado (17%), asma (14%), distúrbios do labirinto (10%) e hipertensão arterial (8%). 20 - Qual a relação do transtorno de ansiedade generalizada com os vários problemas do cotidiano que todos vivenciam? Uma característica marcante na descrição do transtorno de ansiedade generalizada é a preocupação excessiva e constante a inúmeros fatores do cotidiano do paciente. O limite entre as preocupações naturais e o sintoma do transtorno não é claro em muitas vezes. Talvez a diferença fique na cronicidade do transtorno de ansiedade generalizada, na dificuldade do paciente em imaginar soluções favoráveis aos problemas, na capacidade exagerada de ver todas as situações como problemas sérios e insolúveis, na facilidade de tornar qualquer pequeno problema em uma catástofre futura e na impossibilidade de visualizar a situação agradável. O paciente com transtorno de ansiedade generalizada está sempre sobressaltado e “pronto para o pior”. Uma pessoa preocupada com os problemas do cotidiano pode relaxar em determinados momentos, sabe diferenciar os problemas de uma outra situação agradável, não apresenta sintomas crônicos de tensão, hiperatividade e vigilância e procura soluções que possam atenuar os problemas. 21 - Qual o tratamento do transtorno de ansiedade generalizada? O tratamento de escolha é a associação de psicoterapia e medicamentos ansiolíticos. As dificuldades do paciente envolvem aspectos de personalidade, exigem psicoterapia psicanalítica ou formas prolongadas de tratamento. Se o problema for circunscrito e estiver relacionado a situações externas específicas, formas breves de terapia são efetivas. As abordagens comportamentais envolvem técnicas de enfrentamento, relaxamento e biofeedback. A prescrição de uma droga ansiolítica visa a remissão ou alívio parcial da sintomatologia, permitindo que o paciente melhore seu desempenho na vida social e laborativa e se adapte mais eficazmente ao tratamento psicoterápico. No tratamento do transtorno de ansiedade generalizada, damos preferência aos benzodiazepínicos de meia-vida média e longa. Entre eles estão o cloxazolam (dose entre 2 e 4 mg/dia), o bromazepam (dose entre 3 e 9 mg/dia), o clorazepato (dose entre 15 e 45 mg/dia), o clordiazepóxido (dose entre 15 e 45 mg/dia) e o diazepam (dose entre 5 e 20 mg/dia). Os principais efeitos indesejáveis são sonolência, dificuldades de concentração e de memória. Antidepressivos tricíclicos (por ex., amitriptilina), antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (por ex., fluvoxamina, paroxetina, sertralina, escitalopram) e antidepressivos que atuam na recaptação de serotonina e noradrenalina (por ex., venlafaxina) são eficazes no tratamento do transtorno de ansiedade generalizada e podem ser utilizados com segurança. Os efeitos colaterais mais frequentes são sonolência, cefaleia, aumento de peso e efeitos adversos sexuais. 22 - Qual o prognóstico do transtorno de ansiedade generalizada? O prognóstico é bom quando o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento eficaz é logo instituído. A associação de psicoterapia e medicamento facilita a resposta terapêutica e os resultados são observados com mais rapidez. Muitos pacientes procuram médicos de diferentes especialidades, mas não psiquiatras, com queixas somáticas ou queixas vagas. Caso este paciente não sejadiagnosticado e tratado corretamente, com emprego de uma medicação com eficácia parcial ou pequena, o quadro pode tornar-se crônico e mais grave. www.medicinaatual.com.br 23 - Qual o quadro clínico da fobia social? A ansiedade social é uma sensação difusa de apreensão, desagradável, que precede qualquer compromisso social. Todos temos algum grau de ansiedade social quando nos defrontamos com situações sociais novas ou formais. A fobia social ou transtorno de ansiedade social é o medo patológico de comer, beber, tremer, enrubescer, falar, escrever, enfim, de agir de forma ridícula ou inadequada na presença de outras pessoas. A ansiedade que surge em situações de interação social é usualmente acompanhada por sintomas somáticos agudos. Pacientes podem relatar sintomas comuns de ansiedade tais como palpitações, tremores, sudorese, tensão muscular, boca seca, náusea, ou dor de cabeça. Outros sintomas que são mais específicos à fobia social incluem rubor, que é significativamente mais frequente do que em outros transtornos de ansiedade, tremor e urgência urinária. Para alguns pacientes, entretanto, a queixa primária é o medo e a autoconsciência aguda, uma atenção exagerada ao próprio comportamento, que os impedem de funcionar. A fobia social apresenta-se em dois tipos básicos: Circunscrito O medo é restrito a apenas um tipo de situação social. A pessoa teme, por exemplo, escrever na frente de outros, mas no restante das situações sociais não apresenta qualquer tipo de inibição exagerada. Generalizada Caracteriza-se pelo temor a todas ou quase todas as situações sociais. É comum o paciente temer paquerar, dar ordens, telefonar em público, usar banheiro público, trabalhar na frente de outras pessoas, encontrar estranhos, expressar desacordo, resistir a um vendedor insistente, entre outras situações sociais comuns. A esquiva é importante para o diagnóstico e, em casos extremos, pode resultar em um total isolamento social. 24 - Quais as co-morbidades mais frequentes da fobia social? A fobia social generalizada, com frequência, tem sua idade de início mais cedo e pode subsequentemente levar a um maior comprometimento no funcionamento normal. Há diferenças em condições co-mórbidas. Por exemplo, depressão e abuso de álcool são mais comuns na fobia social generalizada. São também co-morbidades frequentes nos fóbicos sociais: transtorno de ansiedade generalizada, transtornos de pânico, abuso de drogas e transtornos de personalidade. 25 - Qual a relação da fobia social com a timidez? Todos temos um pouco de timidez ou ansiedade social. Esta ansiedade é útil e nos prepara para enfrentar novas situações sociais ou situações de maior formalidade. Assim, um artista ao ensaiar uma apresentação ou um aluno ao estudar para apresentar um trabalho, não apenas desejam um reconhecimento pelo desempenho, mas também sabem que ensaiando ou estudando diminuem a ansiedade para o desempenho. A fobia social é o transtorno de ansiedade caracterizado por uma ansiedade social tão intensa que ela passa a ser prejudicial. Então, em vez de ensaiar, o fóbico social pensa em evitar ou fugir. A ansiedade é grande e a certeza de um desempenho catastrófico leva o fóbico social a se isolar, evitar contato com público. O fóbico social evita todas ou quase todas as situações em que é o centro das atenções. 26 - Qual o tratamento da fobia social? O tratamento da fobia social, assim como dos demais transtornos de ansiedade, envolve o uso de psicofármacos e de terapia cognitivo-comportamental. A fobia social é um transtorno de ansiedade com clara associação ao sistema psico-neuroendocrinológico, com alterações do sistema dopaminérgico na região amígdala-sistema límbico. Os medicamentos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (como a paroxetina, fluvoxamina, sertralina), benzodiazepínicos (como o clonazepam), antidepressivos de ação dual (como a venlafaxina) e os antidepressivos IMAOs (como a tranilcipromina) são opções seguras e eficazes. Na psicoterapia cognitivo-comportamental, os métodos de dessensibilização sistemática, exposição gradual, modelagem gradual e reforço positivo são muito eficazes. 27 - Qual o prognóstico da fobia social? O prognóstico da fobia social generalizada é um pouco mais sombrio do que o do transtorno de pânico ou de ansiedade generalizada. Na fobia social, apesar do paciente melhorar muito e www.medicinaatual.com.br poder inclusive transformar sua vida para melhor, não se torna totalmente assintomático. No transtorno de pânico ou transtorno de ansiedade generalizada, o indivíduo volta a ser o que era antes, assintomático. 28 - No tratamento dos transtornos de ansiedade devemos priorizar o uso de benzodiazepínicos ou de antidepressivos? Os dois grupos de drogas são eficazes, seguros e trazem efeitos adversos que podem ser manejados sem maiores problemas. As vantagens dos benzodiazepínicos são: efeito terapêutico rápido, poucas interações medicamentosas, segurança cardiovascular, segurança em caso de intoxicação, preço baixo e várias opções no mercado (clonazepam, cloxazolam, lorazepam, alprazolam etc). As desvantagens com os benzodiazepínicos são: efeito sedativo, déficit mnêmico temporário e síndrome de abstinência em interrupção abrupta, que caracteriza a dependência. Os antidepressivos mais indicados para o tratamento dos transtornos de ansiedade são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Apresentam como vantagem a segurança cardiovascular, a ausência de efeitos cognitivos graves, a segurança em caso de intoxicação, não causam dependência e existem várias opções no mercado (fluvoxamina, escitalopram, paroxetina, sertralina etc). Como desvantagem apresentam um período de latência para o início dos efeitos terapêuticos, efeitos adversos desagradáveis em longo prazo, como aumento do apetite ou comprometimento da função sexual, interações medicamentosas, preço mais elevado e síndrome de retirada em caso de interrupção abrupta. 29 - Qual o mecanismo de ação dos benzodiazepínicos? A estrutura básica de todos benzodiazepínicos é a 2-aminobenzodiazepína-4-oxidato. Além de competirem com a glicina pelos seus receptores cerebrais, os benzodiazepínicos exercem ações específicas envolvendo o ácido gama-amino-butírico (GABA). O GABA é um neurotransmissor com propriedades inibitórias que atua em todo o sistema nervoso central (SNC), principalmente no sistema límbico. O sistema límbico é a estrutura responsável pela modulação dos mecanismos de ansiedade adaptativa e, juntamente com o lobo temporal, pela sua expressão afetivo-comportamental. Uma vez que ocorra um estímulo necessário e suficiente ou um somatório de estímulos subliminares, o sistema límbico é acionado e uma resposta ansiosa se estabelece. Cessada a causa, os receptores GABA-érgicos são ativados pela liberação de GABA e a resposta ansiosa se extingue. O GABA exerce seus efeitos pela abertura dos canais de cloro que resultará em hiperpolarização neuronal e conseqüente interrupção de função. Na ansiedade patológica, esta função frenadora está ausente ou grandemente prejudicada e, mesmo com a cessação da causa, o indivíduo continua ansioso: a liberação de GABA não é mais suficiente para interromper o ciclo ansioso. Os benzodiazepínicos são agonistas GABA-érgicos dotados de maior afinidade por estes receptores e que possuem maior atividade intrínseca, isto é, são mais potentes em promover a abertura dos canais aniônicos que o próprio GABA. Os benzodiazepínicos mudam a conformação estrutural do receptor GABA - potencialização alostérica - e o efeito ansiolítico é obtido. 30 - Quais as doses usuais de benzodiazepínicos? Os benzodiazepínicos diferem entre si em relação à meia-vida de eliminação e à potência. Existem benzodiazepínicos com potência elevada – por exemplo, o clonazepam, em que com 1 mg diário se obtém o efeito ansiolítico; e outros de baixa potência – como o clordiazepóxido, em que até60 mg diários podem ser necessários para obtenção de efeito de igual intensidade. As doses terapêuticas dos benzodiazepínicos e hipnóticos mais utilizados estão na tabela 1. www.medicinaatual.com.br Tabela 1. Doses terapêuticas dos benzodiazepínicos mais utilizados Medicamento Dose mínima diária (mg) Dose máxima diária (mg) Benzodiazepínicos ansiolíticos Lorazepam Cloxazolam Clordiazepóxido Diazepam Oxazepam Medazepam Clobazam Bromazepam Alprazolam Clorazepato Clonazepam 0,5 1 5 2,5 50 10 10 1,5 0,25 5 0,5 6 8 75 30 150 60 60 20 3 60 8 Benzodiazepínicos hipnóticos Nitrazepam Flurazepam Nitroflurazepam Estazolam Midazolam 5 30 1 1 7,5 10 60 4 4 30 As doses de benzodiazepínicos devem ser individualizadas e mantidas baixas, desde que eficazes. O uso ocasional de benzodiazepínicos, além de eficaz para o controle de sintomas ansiosos, parece diminuir o risco de dependência. 31 - Quais os benzodiazepínicos mais indicados para os transtornos de ansiedade? Há evidências de que certos benzodiazepínicos (clonazepam, cloxazolam, alprazolam, lorazepam) são mais eficazes no tratamento dos transtornos de ansiedade. Outro aspecto da escolha diz respeito à meia-vida plasmática. Quanto maior a meia-vida, menor o problema de sintomas de abstinência e mais fácil o esquema de tomada do medicamento. O alprazolam, por exemplo, de meia-vida curta, tem de ser tomado quatro vezes ao dia (manhã, almoço, jantar e ao deitar). Os benzodiazepínicos de efeito mais prolongado, como o clonazepam, o clorazepato e o lorazepam, induzem um efeito terapêutico mais “homogêneo” ao longo do tempo. Contudo, algumas vezes, mesmos esses benzodiazepínicos necessitam ser utilizados pelo menos duas vezes ao dia. Os efeitos clínicos nem sempre podem ser previstos pela meia-vida plasmática. 32 - Qual o risco de uso indevido e dependência com os benzodiazepínicos? O uso indevido vincula-se ao fenômeno de auto-medicação, comumente observado em nosso meio. Este uso indevido pode ser iatrogênico e se prende à crença de serem os benzodiazepínicos dotados de "ação profilática" sobre a ansiedade cotidiana. Isto é absolutamente inverídico: estas substâncias diminuem a ansiedade existente, mas não podem preveni-la. Cabe ao médico evitar possível iatrogenia deixando de prescrever "profilaticamente" tais medicamentos. O abuso de benzodiazepínicos, observadas as condições descritas no parágrafo anterior, raramente é iatrogênico. Este abuso é comumente associado com outros abusos: álcool, hipno- indutores, hipno-analgésicos, tetrahidrocanabinol. Devido à tolerância cruzada observada com o uso concomitante de depressores do sistema nervoso central, estes indivíduos podem ingerir centenas de miligramas de benzodiazepínicos durante o dia, aumentando a letalidade entre estes poli-usuários de substâncias depressoras. A prevenção da dependência está relacionada a uma boa relação médico-paciente, sendo estes advertidos dos riscos existentes para obedecer a um plano de tratamento adequado às necessidades clínicas de eliminação de sintomas do transtorno de ansiedade generalizada. Em geral, na dependência aos benzodiazepínicos não ocorre aumento progressivo da dose, mas o usuário não consegue deixar de utilizar o benzodiazepínico, seja por ansiedade exacerbada na ausência do medicamento, seja pelo surgimento de sintomas adicionais, como a insônia. Em ambas as situações, a interrupção de uso desencadeia uma série de efeitos desagradáveis, www.medicinaatual.com.br variando desde ansiedade de "rebote" a tremores, ataxia, lentificação do curso do pensamento, sudorese, desconforto epigástrico, hipertensão sistólica, irritabilidade, delirium e convulsões. Este quadro de abstinência é mais comumente observado com os benzodiazepínicos de curta duração de efeito ou com a utilização de doses elevadas de qualquer dos representantes do grupo e, geralmente, aparecem após o segundo dia da interrupção de uso. 33 - Quais os efeitos colaterais mais frequentes com os benzodiazepínicos? O mais comum destes efeitos é a sedação, que pode ou não vir acompanhada de tonteiras no início do tratamento. Em alguns casos a sedação é bem-vinda, principalmente quando o sintoma-alvo, a ansiedade, é acompanhado de insônia inicial. No que diz respeito à diminuição das funções psicomotoras, a avaliação é prejudicada, confundindo-se tal efeito como conseqüência do próprio quadro ansioso. Pacientes que utilizam benzodiazepínicos devem ser advertidos dos possíveis riscos existentes para o surgimento de ataxia ou disartria e prejuízo na execução de tarefas, como dirigir carros ou executar ações que exijam coordenação motora fina. Lentificação do curso do pensamento e déficit intelectivo-cognitivo são também observados. Ao EEG, registra-se aumento de atividade beta: ondas lentas e de baixa voltagem. Um efeito colateral temido dos benzodiazepínicos se assesta sobre as funções cognitivas, principalmente a redução na capacidade de concentração e prejuízo mnêmico. O primeiro é a amnésia lacunar, de duração variável, mais comum quando se utilizam substâncias de curta duração de efeito (triazolam, midazolam). Esta amnésia lacunar pode se tornar mais preocupante quando se ingere álcool concomitantemente. O segundo efeito é sobre a memória de fixação, vinculado ao uso prolongado e/ou de doses elevadas destas substâncias, independente da duração de seus efeitos. A intoxicação aguda por benzodiazepínicos, que leva ao coma, pode ser prontamente tratada com o emprego de flumazenil, antagonista dos efeitos dos benzodiazepínicos, e que encontra disponível em nosso meio para uso hospitalar. 34 - Os benzodiazepínicos podem ser utilizados para o tratamento da insônia? A ansiedade é geralmente acompanhada de dificuldade para se conciliar o sono (insônia inicial), enquanto depressões são atingidas não apenas por insônia inicial, mas principalmente por vários despertares entre um e outro ciclo de sono (a chamada insônia intermediária). Cada vez que o indivíduo acorda, tem grande dificuldade em reconciliar o sono. Os benzodiazepínicos são correntemente utilizados na insônia. A insônia, independente de sua etiologia, exige tratamento por interferir drasticamente no cotidiano e na qualidade de vida dos indivíduos. Os transtornos do sono são muito frequentes. A prevalência anual de insônia está em torno de 30% a 35% da população, e mais da metade desse grupo considera a insônia o seu maior problema. A insônia crônica afeta mais as mulheres que os homens (2x1) e as queixas aumentam com a idade. Os pacientes com insônia muitas vezes são atendidos por clínicos gerais; destes, 25% recebem um benzodiazepínico-hipnótico e 40% um benzodiazepínico- ansiolítico, em geral por longos períodos. O tratamento dos transtornos de sono envolve medidas de higiene do sono e o uso de medicamentos, principalmente os hipno-indutores ou hipnóticos, por tempo limitado, enquanto se pesquisa o transtorno primário. São poucas as opções para o emprego de hipnóticos. Sua indicação é para o tratamento breve de insônias. O risco de dependência e outros efeitos colaterais fazem que o uso em longo prazo seja indesejável. Deve-se sempre tratar o transtorno primário que provoca o transtorno de sono. Quando o paciente não dorme com um comprimido de determinado hipnótico, podemos aumentar a dose para no máximo dois comprimidos ao deitar. Caso a refratariedade persista, devemos reavaliar o diagnóstico, mudar o hipnótico e tratar o transtorno primário. O aumento indiscriminado da dose do hipnótico provoca grave efeito iatrogênico, com risco de intoxicação e dependência. As contra-indicações para o uso de hipnóticos incluem a apnéia do sono, a miastenia gravis e situações onde a depressão do sistema nervoso central seja indesejável. 35 - Qual o mecanismo de ação dos antidepressivos? A ação dos antidepressivos ocorre por meio do aumento de monoaminas (noradrenalina, serotonina e dopamina)que ativam a ligação do neurotransmissor ao receptor de membrana www.medicinaatual.com.br pós-sináptica. Esta ativação estimula um transdutor de membrana (p.ex. proteína G) que forma com um agente primário (ex. adenilciclase) um complexo capaz de produzir um mensageiro secundário (AMP cíclico). O mensageiro secundário ativa um agente secundário (uma proteína quinase) que pode atuar de modo direto, fosforilando canais de membrana (e com isso modulando sua abertura), ou fosforilando (e assim ativando) proteínas reguladoras da transmissão genética, capazes de fazer com que certos genes se expressem, levando à produção de proteínas que modificam a atividade de canais de membrana, alterando de forma mais duradoura o funcionamento neural. Diferentemente do que se acreditava há alguns anos, ocorre um estímulo à neurogênese, com a formação de novas sinapses, novos receptores de membrana e maior comunicação inter-neuronal. A ação primordial dos antidepressivos é a estimulação da expressão gênica dos receptores para corticóides com uma resultante diminuição da atividade do eixo hipotálamo-hipófise- adrenal – estímulo à função adaptativa neuronal aos estímulos do organismo e ambientais. 36 - Quais as doses usuais dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)? As dose dos principais antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) utilizados nos transtornos de ansiedade estão descritas na tabela 2. Tabela 2. Doses dos principais antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina Dose mínima diária (mg) Dose máxima diária (mg) Fluvoxamina Paroxetina Escitaloptam Sertralina 100 20 10 50 300 40 20 200 37 - Quais os efeitos colaterais mais freqüentes com os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)? Estes antidepressivos são, atualmente, os mais utilizados na prática clínica nas diferentes formas de ansiedade e depressão. Apesar de vários efeitos adversos, são substâncias seguras em relação à cardiotoxidade e superdosagem. Os efeitos colaterais mais frequentes são náuseas e vômitos, inapetência com perda de até 5% do peso corporal, agitação, inquietação, insônia, tremor, diminuição da libido, taquicardia, tonteiras e nistagmo. Há relatos de ganho de peso com tempo prolongado de uso. Os efeitos mais raros são hipertensão, hipomania e convulsões. A intoxicação aguda exige terapia intensiva, manutenção das funções vitais e manuseio sintomático dos sintomas que surgirem. 38 - Quais as doses usuais dos antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)? A venlafaxina é o principal representante dos antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) utilizado para o tratamento dos transtornos de ansiedade. Embora existam evidências da utilidade a mirtazapina no tratamento dos transtornos de ansiedade, os estudos ainda precisam ser replicados. As dose dos principais antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) utilizados nos transtornos de ansiedade estão descritas na tabela 3. Tabela 3. Doses dos principais antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina Dose mínima diária (mg) Dose máxima diária (mg) Venlafaxina Mirtazapina 75 15 225 45 www.medicinaatual.com.br 39 - Quais os efeitos colaterais mais frequentes com os antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)? Os antidepressivos IRSN são substâncias seguras em relação à cardiotoxidade e superdosagem e apresentam perfil de efeitos colaterais muito semelhantes aos antidepressivos ISRS. É recomendável a monitorização da pressão arterial em pacientes que façam uso de venlafaxina dado que este medicamento pode causar aumentos pressóricos e alertar sobre os efeitos sedativos da mirtazapina. 40 - A buspirona pode ser utilizada no tratamento dos transtornos de ansiedade? A buspirona é uma azospirona. A buspirona não se relaciona quimicamente com os benzodiazepínicos e seu efeito ansiolítico é exercido sem interferir diretamente com mecanismos ou receptores GABA-érgicos. Os efeitos ansiolíticos decorrentes de seu uso não são acompanhados de sedação, relaxamento muscular, hipno-indução ou potencialização dos efeitos do álcool e de outros depressores do sistema nervoso central. Entre outras características de seus efeitos estão a ausência de ação anticonvulsivante, de déficit cognitivo ou de potencial para desenvolver dependência. A substância é apenas indicada para o transtorno de ansiedade generalizada. Apresenta atividade clínica ainda não corretamente avaliada sobre o transtorno obsessivo-compulsivo e como coadjuvante em depressões. A buspirona parece não ser eficaz no transtorno de pânico ou na fobia social. 41 - Qual o mecanismo de ação da buspirona? O mecanismo de ação da buspirona não é ainda corretamente conhecido: a substância é um agonista parcial de receptores serotoninérgicos do tipo 5-HT1A, além de interferir com os receptores 5-HT2. Secundariamente, a substância interage com receptores dopaminérgicos do tipo D2. O significado clínico destas interações é de difícil avaliação e parece apontar para um papel neuro-modulador da serotonina sobre diferentes neurotransmissores. 42 - Quais as doses habituais da buspirona? Quais são os seus efeitos colaterais mais importantes? As doses clinicamente eficazes variam entre 5 e 30 mg por dia. O único problema que cerca a utilização clínica da buspirona é o período de latência entre o início do tratamento e a aparição dos efeitos terapêuticos, que pode variar de dias até duas semanas. A maneira prática de se ultrapassar este senão reside na combinação medicamentosa de um benzodiazepínico de longa duração de efeito administrado à noite e de doses crescentes de buspirona. Após o período de latência, retira-se gradualmente o benzodiazepínico. Nas doses habituais, ela praticamente não interfere com as funções cardiovasculares, respiratórias, com a musculatura lisa ou com o sistema de coagulação. Os efeitos colaterais mais observados são: cefaleia, náusea, tonteiras e insônia ocasional. 43 - Os betabloqueadores têm lugar no tratamento dos transtornos de ansiedade? Sim, podem ser utilizados no controle de alguns sintomas como taquicardia, tremores e sudorese excessiva. Parece que o efeito terapêutico na sensação subjetiva de ansiedade é pequeno ou ausente. Alguns pacientes com fobia social de desempenho usam um betabloqueador ocasionalmente, quando têm que se apresentar para um público ou um exame. Por exemplo, um paciente que é pianista utiliza 20 mg de propranolol sempre que tem uma apresentação importante ou um executivo que utiliza sempre a mesma dose de betabloqueador em dias de reuniões com maior estresse. As vantagens são o efeito terapêutico rápido, dose única, sem sedação e poucas contra-indicações. 44 - Quais os principais tipos de psicoterapia para os transtornos de ansiedade? O termo psicoterapia significa tratamento da mente. Nesse sentido amplo pode ser aplicado a qualquer das modalidades de tratamento dos transtornos mentais. No uso habitual, o termo restringe-se aos métodos que procuram se valer da influência que um terapeuta possa exercer, através da palavra, para ajudar pessoas com qualquer tipo de sofrimento mental a voltar a ter uma vida mais satisfatória. www.medicinaatual.com.br É importante ter presente que a compreensão dos fatores psíquicos existentes em qualquer enfermidade humana não é causal. As relações de compreensão existem em todas as doenças humanas. Isso não significa, entretanto, que possamos curá-las somente com psicoterapia. Indica sim, que qualquer enfermidade humana será mais bem tratada se cuidarmos dos problemas psicológicos que a envolvem. Para o tratamento psicoterápico dos transtornos de ansiedade temos dois modelos principais de psicoterapia: a psicoterapia cognitivo-comportamentale a psicoterapia psicanalítica. 45 - Em que se baseia a psicoterapia cognitivo-comportamental? A psicoterapia cognitivo-comportamental é uma abordagem psicoterápica que se propõe a tratar uma série de problemas psicológicos, com base em alguns pressupostos teóricos oriundos de estudos que utilizam o método científico para o seu desenvolvimento. Um dos pressupostos básicos é o de que os nossos sentimentos e comportamentos são em grande parte determinados pela forma como pensamos, ou seja, a nossa interpretação dos fatos tem um papel preponderante na formação e/ou manutenção dos vários transtornos psicológicos. A forma como interpretamos as variadas situações está relacionada à visão que temos de nós mesmos, do mundo e do futuro, às nossas crenças centrais. A terapia cognitivo- comportamental tem como um de seus objetivos identificar as crenças centrais do paciente e submetê-las ao teste de validade, ou seja, contrastá-las com a realidade e verificar até que ponto são verídicas ou não. Além de identificar as crenças do paciente, é preciso avaliar todos os problemas por ele apresentados e verificar como se relacionam entre si, tentando desenvolver uma teoria que se proponha a explicar o funcionamento daquele paciente. A essa teoria damos o nome de formulação de caso. A teoria é então testada por meio de experimentos elaborados junto com o paciente e um plano de tratamento é traçado. 46 - Em que se baseia a psicoterapia psicanalítica? A psicoterapia psicanalítica desenvolvida inicialmente por Sigmund Freud, no início do século XX, trouxe à tona novos conhecimentos e significados para o mundo psíquico do ser humano. O centro do tratamento psicanalítico gira em torno de dois conceitos : a repressão e a transferência. Classicamente é uma psicoterapia não diretiva em que o terapeuta assume atitude de não envolvimento com os problemas do paciente; realiza-se dentro de uma perspectiva de entrevistas frequentes e um período de tempo longo. O material usado não é constituído apenas de histórias expressas em arranjo lógico, mas ao contrário, é estimulada a livre associação de fatos objetivos, sonhos, atos falhos, dentro da lógica das associações livres. Os conceitos de regressão, transferência, resistência são usados para instrumentar as interpretações, cujo objetivo é dar ao paciente um conhecimento mais adequado de si mesmo. 47 - Todos os pacientes com transtorno de ansiedade devem fazer psicoterapia? Não. Os pacientes com quadros leves podem melhorar apenas com o uso de medicação e mudança de certos comportamentos que agravam a ansiedade. Os quadros de moderados a grave certamente irão necessitar de medicamentos e psicoterapia. As vantagens desta associação são uma resposta terapêutica mais rápida, período menor de uso de medicamentos e menor chance de recidiva de sintomas. 48 - Quanto tempo deve durar o tratamento dos transtornos de ansiedade? O tratamento pode durar de dois anos (tempo considerado mínimo), até toda a vida. Após este período, alguns pacientes com quadros leves conseguem interromper a medicação e a psicoterapia já está em fase muito avançada, trazendo como resultado mudanças no comportamento do paciente. Outros pacientes recairão com a diminuição ou interrupção do medicamento e podem necessitar de psicoterapia por períodos maiores. Nos casos mais graves, o tratamento de manutenção poderá permanecer por toda a vida. Entretanto, mesmo com o tratamento de manutenção de longa duração, o paciente estará bem, com controle dos sintomas e da ansiedade. Nestes casos, mais importante do que a duração do tratamento é o bem estar do paciente, com sua capacidade de agir e liberdade preservadas. Estes dois pontos – capacidade de agir e liberdade – são sempre prejudicados pelos transtornos de ansiedade e não pelo tratamento. www.medicinaatual.com.br 49 - Quais atividades podem ser úteis para o controle da ansiedade? Várias atividades saudáveis melhoram a qualidade de vida e podem colaborar no controle da ansiedade além dos medicamentos e da psicoterapia. Podemos citar: atividade física moderada e regular (principalmente caminhadas, yoga, natação etc), evitar atividades estressantes, evitar o uso de cafeína, nicotina, álcool e drogas ilícitas, alimentação saudável, atividade intelectual regular, estar com pessoas queridas periodicamente. 50 - Leitura recomendada Cordás TA. Uma breve história dos transtornos ansiosos. São Paulo: Lemos Editorial, 2004. Hetem LAB, Graeff FG. Transtornos de ansiedade. São Paulo: Atheneu, 2004. Kapczinski F e col. Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos – 2ª. Edição. Porto Alegre: ArtMed, 2004. Nardi AE. Transtorno de ansiedade social. Fobia social – a timidez patológica. Rio de Janeiro: MEDSI, 2000. Nardi AE, Valença AM. Transtorno de pânico: diagnóstico e tratamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. Schatzberg AF e Nemeroff CB. Fundamentos de psicofarmacologia clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.