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Indaial – 2020 Instrumento: PrátIca de Flauta doce Prof.ª Pamela Lopes Nunes Prof. Welington Tavares dos Santos 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Prof.ª Pamela Lopes Nunes Prof. Welington Tavares dos Santos Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: N972i Nunes, Pamela Lopes Instrumento: prática de flauta doce. / Pamela Lopes Nunes; Welington Tavares dos Santos – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 183 p.; il. ISBN 978-85-515-0436-9 1. Flauta doce. - Brasil. I. Santos, Welington Tavares dos. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 780 III aPresentação Caro acadêmico, seja bem-vindo à disciplina de “Instrumento: Prática de Flauta Doce”. É um material de nível intermediário e, portanto, desafiador, pois exigirá que sejam mobilizados vários conhecimentos acumulados ao longo da sua experiência como ouvinte de música e teoria musical. Não é um livro que deve ser abandonado após o módulo, principalmente se você pretende mergulhar no maravilhoso mundo da música. O livro de prática de flauta doce, além de reunir peças e melodias para estudo individual ou em grupo, também tem como foco o aprimoramento da leitura em partitura, composição e performance. Foram reunidas peças musicais, além de estudos de técnica para flautas soprano e contralto, sendo que a última foi abordada de modo introdutório na expectativa de motivá-lo para estudos futuros mais aprofundados. Você perceberá que as peças musicais sugeridas neste livro terão diferentes níveis de dificuldade técnica, contudo, em ambos os casos, é importante lembrar daquela máxima: “o processo de aprendizagem, em qualquer instrumento musical, exige paciência e persistência, elementos essenciais para atingir a excelência do aprendizado musical”. A primeira unidade, intitulada Técnicas Interpretativas para Flauta Doce, terá como foco a introdução aos estudos de flauta doce contralto, também conhecida como flauta em fá. Serão apresentados elementos básicos, como digitação, postura, respiração, notas das mãos esquerda e direita etc. Nesta unidade, serão apresentadas orientações e dicas para a prática de conjunto, tendo como base um repertório com melodias de diferentes períodos históricos. Foram, portanto, selecionadas músicas europeias dos períodos medieval, renascentista e barroco, além de melodias brasileiras do cancioneiro popular. A segunda unidade, Construções Melódicas e Harmônicas com a Flauta Doce, tratará de conceitos importantes da linguagem musical e a prática de flauta doce tornará seus estudos ainda mais significativos. Nesta unidade, você terá a oportunidade de rever, suscintamente, alguns conteúdos de teoria musical referentes a escalas, acordes, tonalidades e transposição com um diferencial: praticando flauta doce. Os conteúdos da unidade avançam aprofundando informações sobre aprendizagem significativa, formas de memorização, composição e improvisação com flauta doce, apresentando, também, um repertório variado de músicas da Europa, África e Brasil. O repertório de música brasileira tem como foco melodias indígenas, canções infantis e de festas da cultura popular. IV A terceira unidade, Princípios para o Ensino de Flauta Doce, foi organizada para promover algumas reflexões sobre o processo de ensino e aprendizagem de flauta doce, seja na educação formal ou em contextos informais ou não formais de ensino. Você também conhecerá algumas propostas didáticas que podem ser usadas no aprimoramento da própria prática de flauta doce e, sobretudo, na organização e/ou projeção de futuros projetos pessoais no campo do ensino instrumental. Esta unidade selecionou e organizou, com base em pesquisas e estudos acadêmicos da última década, programas de computador, aplicativos, páginas web e inúmeras outras fontes de consulta que disponibilizam materiais gratuitos sobre música e flauta doce. A prática de flauta doce na concepção deste material não pode ser um evento solitário, mas, acima de tudo, congregador e divertido. Por esse motivo, sempre recomendamos que as atividades sejam em grupos, trios ou duetos. As melodias e estudos selecionados para as unidades têm como objetivos retomar as informações e conteúdos apresentados nos tópicos, aprofundar elementos técnicos e performáticos da flauta doce e, acima de tudo, ampliar os repertórios cultural e musical. Lembrando que, ao ler, ouvir e tocar, será muito mais fácil poder escrever e expressar-se por meio de ritmos e sons. Esse processo de aprendizagem em música será ainda mais divertido se for praticando a flauta doce. Bons estudos! Prof.ª Pamela Lopes Nunes Prof. Welington Tavares dos Santos V Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfi m, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais que possuem o código QR Code, que é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa facilidade para aprimorar seus estudos! UNI VI VII Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer teu conhecimento, construímos, além do livro que está em tuas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela terás contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar teu crescimento. Acesse o QR Code, que te levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para teu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nessa caminhada! LEMBRETE VIII IX UNIDADE 1 –TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE ......................................1 TÓPICO 1 – FLAUTA DOCE CONTRALTO........................................................................................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3 2 POSTURA, RESPIRAÇÃO E DIGITAÇÃO.......................................................................................4 2.1 POSTURA ...........................................................................................................................................42.2 RESPIRAÇÃO .....................................................................................................................................6 2.3 DIGITAÇÃO ......................................................................................................................................8 3 NOTAS DA MÃO ESQUERDA: DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL ................................................................11 4 NOTAS DA MÃO DIREITA: SI, LÁ, SOL, FÁ ................................................................................16 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................19 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................20 TÓPICO 2 – FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO ................................21 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................21 2 MÚSICA MEDIEVAL ..........................................................................................................................21 2.1 MÚSICA RENASCENTISTA ..........................................................................................................26 2.2 MÚSICA BARROCA .......................................................................................................................31 2.3 DUETOS ............................................................................................................................................34 2.3.1 Afinação....................................................................................................................................34 2.3.2 Sincronia ...................................................................................................................................35 2.3.3 Repetição ..................................................................................................................................35 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................40 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................41 TÓPICO 3 – PRÁTICA DE CONJUNTO ............................................................................................43 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................43 2 FLAUTA DOCE E PERCUSSÃO ........................................................................................................44 3 A FLAUTA DOCE NAS CANÇÕES INFANTIS .............................................................................46 3.1 MÚSICA PARA CRIANÇAS ..........................................................................................................46 3.2 SUGESTÕES PARA O TRABALHO DE REPERTÓRIO .............................................................47 4 A FLAUTA DOCE NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA .........................................................49 4.1 RAÍZES DA MPB .............................................................................................................................50 4.2 INICIATIVAS DE FLAUTA DOCE NO BRASIL .........................................................................50 5 A FLAUTA DOCE NA MÚSICA CONTEMPORÂNEA ...............................................................51 LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................................55 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................58 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................59 sumárIo X UNIDADE 2 – PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO ...................................................................................................... 61 TÓPICO 1 – EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS ................................63 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................63 2 ENTENDENDO O PROCESSO DE TRANSPOSIÇÃO ................................................................63 2.1 CONSTRUÇÃO MELÓDICA ........................................................................................................68 2.2 CONSTRUÇÃO HARMÔNICA ....................................................................................................73 2.3 ESCALAS PENTATÔNICAS ..........................................................................................................81 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................83 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................84 TÓPICO 2 – DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE .................................................................85 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................85 2 TEORIA DA APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA .......................................................................85 2.1 APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA E JOSEPH NOVAK .........................................................87 2.2 SWANWICK E O DISCURSO MUSICAL DOS ALUNOS .........................................................88 2.3 AVALIANDO A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA ..............................................................89 3 PRATICANDO A MEMORIZAÇÃO: UM PROCESSO GRADUAL E SOMATÓRIO ...........90 3.1 CHUNKS, ESTUDO E MEMORIZAÇÃO MUSICAL .................................................................91 4 IMPROVISAÇÃO MUSICAL ............................................................................................................92 4.1 PARA ALÉM DA TÉCNICA: O IMPROVISO NA GRADUAÇÃO..........................................93 4.2 PROCESSOS DE MUSICALIZAÇÃO E IMPROVISAÇÃO .......................................................94 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................97 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................98 TÓPICO 3 – REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO ........................99 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................99 2 MELODIAS TRADICIONAIS EUROPEIAS ................................................................................100 3 MELODIAS TRADICIONAIS DA ÁFRICA .................................................................................104 4 MELODIAS DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA ...............................................................109 5 MELODIAS INDÍGENAS.................................................................................................................114 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................119 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................122 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................123 UNIDADE 3 – PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DAFLAUTA DOCE ...........................................................................................................125 TÓPICO 1 – A FLAUTA DOCE EM DIFERENTES CONTEXTOS EDUCATIVOS .................127 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................127 2 A MÚSICA E OS SONS NA INFÂNCIA .......................................................................................128 3 O PODER DO IMPROVISO NA MUSICALIZAÇÃO INFANTIL - BRINCAR ....................129 4 VIVÊNCIAS MUSICAIS EM CONTEXTOS FORMAIS, NÃO FORMAIS E INFORMAIS DE ENSINO ...............................................................................................................131 4.1 CONTEXTOS FORMAIS DE ENSINO .......................................................................................131 4.2 CONTEXTOS NÃO FORMAIS DE ENSINO .............................................................................132 4.3 CONTEXTOS INFORMAIS DE ENSINO ...................................................................................133 XI 5 FLAUTA DOCE NA EDUCAÇÃO BÁSICA ..................................................................................133 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................135 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................136 TÓPICO 2 – PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE ......................................................................................................139 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................139 2 PRINCÍPIOS DIDÁTICOS PARA O ENSINO DE FLAUTA DOCE ........................................140 3 MATERIAIS DIDÁTICOS IMPRESSOS PARA FLAUTA DOCE ............................................144 4 RECURSOS DIGITAIS PARA PRÁTICA DE FLAUTA DOCE .................................................148 4.1 JOGOS ON-LINE PARA FLAUTA DOCE..................................................................................149 4.2 APLICATIVOS DE FLAUTA DOCE PARA DISPOSITIVOS MÓVEIS .................................153 4.3 PÁGINAS WEB COM CONTEÚDO ESPECÍFICO PARA FLAUTA DOCE .........................156 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................162 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................163 TÓPICO 3 – PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE ...............................................................................................................165 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................165 2 SENSIBILIZAÇÃO AO SOM ...........................................................................................................165 3 MONTAGEM DE PARTITURA .......................................................................................................168 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................175 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................177 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................178 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................179 XII 1 UNIDADE 1 TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • explorar técnicas instrumentais com base em um repertório de nível médio para flauta doce em dó (soprano) e em fá (contralto); • aprofundar conceitos referentes ao estudo de flauta doce em atividades de técnica e prática interpretativa; • conhecer as possibilidades de uso das flautas doces contralto e soprano em repertórios de diferentes contextos históricos; • refletir sobre estratégias e metodologias de estudo de flauta doce em duetos; • conhecer músicas do cancioneiro popular brasileiro. Esta unidade está dividida em três tópicos. Cada tópico, por meio de uma série de estudos melódicos e musicais, abordará os seguintes temas: TÓPICO 1 – FLAUTA DOCE CONTRALTO TÓPICO 2 – FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO TÓPICO 3 – PRÁTICA DE CONJUNTO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 FLAUTA DOCE CONTRALTO 1 INTRODUÇÃO A flauta doce contralto faz parte da família das flautas doces e recebe esse nome pelo seu timbre mais grave, encorpado e aveludado. Essa flauta, em termos de tamanho, corresponde ao dobro da flauta soprano, porém, mantém a mesma forma e, por sua vez, deve receber os mesmos cuidados de conservação e limpeza. Se fôssemos definir uma origem para a flauta doce, o nome seria flageol, ou flajolé medieval, encontrado em registros do século XIII. Com seis orifícios, embocadura de apito, tessitura de quase duas oitavas, era utilizada por jograis e menestréis popularmente. O desenvolvimento do instrumento ocasionou um formato característico da flauta doce, por volta do final do século XIV. Já no século XV, as flautas doces eram conhecidas e tocadas em toda a Europa. Era encontrada em três tamanhos principais: um descante em Sol, um tenor em Dó e um baixo em Fá. Essa variedade permitia abranger um grande repertório vocal. Ainda, no século XX, por meio do redescobrimento da flauta doce, que sua família é melhor definida e classificada de acordo com suas qualidades sonoras. A flauta doce contralto é considerada, tecnicamente, um instrumento simples para iniciar o aprendizado daqueles que nunca tocaram um instrumento musical de sopro, visto que a emissão do som e a digitação de notas são obtidas sem grandes dificuldades. Graças à sonoridade suave e grave, o estudo pode ser realizado em qualquer espaço sem provocar incômodo ou irritação, muito comum quando são utilizados instrumentos de sonoridades agudas e estridentes. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 4 FIGURA 1 – FLAUTA DOCE CONTRALTO MOLLENHAUER 5206 FONTE: <https://www.salaomusical.com>. Acesso em: 18 jul. 2019. Neste tópico, você terá a oportunidade de conhecer melhor a flauta doce contralto por meio de exercícios de respiração, postura e digitação. Os diferentes estudos propostos, dentre eles arpejos, escalas e pequenas peças musicais, foram organizados didaticamente para um avanço progressivo na técnica instrumental. Simultaneamente às indicações técnicas, serão retomadas orientações sobre o uso do instrumento, visto que a prática da flauta doce não só trata especificamente da performance instrumental, mas também aprofunda conceitos relacionados à teoria musical abordada em outras disciplinas. 2 POSTURA, RESPIRAÇÃO E DIGITAÇÃO Os procedimentos e cuidados a serem observados durante a execução da flauta doce contralto assemelham-se aos dos demais instrumentos da família da flauta doce. Considerando a importância que deve ser dada à postura, respiração e digitação, retomaremos algumas informações essenciais que devem ser observadas criteriosamente durante as atividades propostas neste livro. 2.1 POSTURA Observar a maneira correta de posicionar o corpo durante o estudo de um instrumento musical é essencial para evitar problemas lombares ou doresnas articulações. Por consequência, o processo de aprendizagem será significativamente prejudicado, haja vista que má postura impossibilita o uso correto da técnica instrumental, afeta a qualidade sonora e favorece a aquisição de vícios. TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 5 Frequentemente, estudantes de flauta doce, buscando maior estabilidade com o instrumento, tencionam exageradamente a flauta na boca, chegando, inclusive, a morder o instrumento com a intenção de segurá-lo. A ação ocorre porque os pontos de apoio estão fora do lugar, exigindo uma compensação por parte da embocadura. Boa postura na flauta doce é igual a um bom som e excelentes resultados! IMPORTANTE Mão esquerda em cima e mão direita embaixo. É assim sim! Não existe exceção! Lembramos que essas orientações devem ser adotadas para todas as flautas da família da flauta doce, ou seja, soprano contralto, tenor ou baixo. Dedos e Punhos: devem estar na posição mais natural da mão. Relaxe a mão, solte-a ao longo do corpo e traga-a para cima. Observe que todos os seus dedos relaxados ficam alinhados. Procure uma forma para as mãos como se fosse a letra C. Mãos pequenas e instrumentos grandes alteram essa forma de C, pois o corpo a todo tempo compensa mudanças. Os punhos devem estar alinhados com o antebraço. A flauta doce tem dois pontos de apoio: polegar da mão direita e lábio inferior. Então, quando estou tocando notas com a mão esquerda, o polegar da mão direita fica em seu lugar como ponto de apoio. A mão direita, em hipótese alguma, sai da flauta! FONTE: <http://quintaessentia.com.br/en/artigo/postura/>. Acesso em: 2 abr. 2019. Não existe boa postura com a mão direita segurando o pé da flauta doce. Não é possível considerar um bom trabalho com flauta doce alunos que tocam o instrumento apenas com a mão esquerda, ou ainda pior, professores que fazem isso nas aulas e apresentações. Não encostamos a flauta doce nos dentes, e fica proibido morder a flauta! Caso você esteja fazendo isso, é porque a flauta doce não está na altura correta. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 6 Altura correta do instrumento: levar a flauta até a boca, e não a boca até a flauta. Se fizer isso corretamente, você estará com o instrumento na altura correta de acordo com a anatomia, em um ângulo de aprox. 45º. Uma sugestão: procure equilibrar o instrumento apenas com os dois pontos de apoio (polegar da mão direita e lábio inferior) sem o auxílio dos outros dedos. Se a flauta estiver muito baixa, fica difícil manter o instrumento equilibrado. Procure subir o instrumento para achar o ponto ideal. Tanto em pé quanto sentado, procure deixar sua coluna reta, ombros relaxados, cotovelos levemente afastados do tronco, pés firmes no chão, paralelos e pouco abertos para que se tenha um equilíbrio maior do corpo. FONTE: <http://quintaessentia.com.br/en/artigo/postura/>. Acesso em: 2 abr. 2019. O pescoço precisa estar reto, alongado. Imagine que você está sendo puxado por um fio acima da cabeça. O pescoço dobrado prejudica diretamente a coluna de ar e, por consequência, o resultado sonoro. As dores de cabeça podem surgir daí, do pescoço em posição irregular, da mordida da flauta e dos vícios de articulação que a má postura pode trazer, causando estresse dos músculos da face e gerando uma dor contínua que o aluno interpreta como dor de cabeça. FONTE: <http://quintaessentia.com.br/en/artigo/postura/>. Acesso em: 2 abr. 2019. 2.2 RESPIRAÇÃO Para tocar um instrumento de sopro, é importante atentar-se, basicamente, aos músculos envolvidos com a respiração a fim de otimizar a utilização do ar, elemento essencial na produção de som para o instrumentista. Precisamos ressaltar que a proposta do item não é discorrer sobre a anatomia da respiração, mas apresentar os principais elementos envolvidos no processo para que, ao praticar os exercícios propostos, desenvolva-se uma maior consciência dos músculos envolvidos no ato de respirar, dividindo-se em dois grupos: os da inspiração e os da expiração. Os músculos que agem na inspiração calma ou respiração em repouso são o diafragma e os intercostais externos. A inspiração calma ocorre quando se expandem os pulmões, tornando a pressão interna inferior à pressão atmosférica, fluindo o ar para dentro dos pulmões (TORTORA, 2000). TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 7 O diafragma é classicamente descrito como um músculo que separa a cavidade torácica da cavidade abdominal. Funciona de forma involuntária e é responsável pela respiração com os intercostais – músculos situados entre as costelas. FIGURA 2 – MUSCULATURA DIAFRAGMÁTICA FONTE: <http://www.estudiodevoz.com.br/2012_05_01_archive.html>. Acesso em: 10 abr. 2019. Na expiração, utilizam-se os músculos abdominais e intercostais internos. Ela é obtida por uma diferença de pressão, mas, no caso, a diferença é inversa. A pressão nos pulmões é maior. A expiração normal, ao contrário da inspiração normal, é um processo passivo, pois não há contrações musculares envolvidas. Ela depende, parcialmente, da elasticidade dos pulmões (TORTORA, 2000). Em geral, todas as pausas ou “momentos de silêncio”, na música, devem ser aproveitadas para a inspiração, contudo, a quantidade de ar deve ser proporcional ao trecho musical que será executado. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 8 FIGURA 3 – MOVIMENTOS RESPIRATÓRIOS FONTE: <http://anatomiafacil.com.br/category/blog/>. Acesso em: 10 abr. 2019. Na maioria das vezes, o instrumentista de sopro não consegue produzir frases longas com um som relaxado porque não respira da maneira adequada, permitindo que o diafragma realize seu importante trabalho. Quando se toca um instrumento de sopro, a flauta doce, por exemplo, o ar, naturalmente, sai pela boca como no movimento de expiração. Do mesmo modo, para inspiração, ou seja, para encher os pulmões de ar, utiliza-se a boca ao invés das narinas, pois durante a execução de uma peça musical essa é a maneira mais eficaz de recuperar o fôlego rapidamente. 2.3 DIGITAÇÃO A digitação, na flauta doce contralto, segue o mesmo padrão da flauta doce soprano, devendo ser levada em conta a principal diferença entre elas: a afinação. Enquanto a soprano é em Dó, a flauta doce contralto tem sua afinação em Fá. Isto é, se você tampar todos os orifícios da flauta, a soprano soará um Dó, e a contralto uma nota Fá. Conforme a imagem a seguir, para se obter a mesma nota Dó, são fechados todos os orifícios na flauta soprano, enquanto na contralto apenas até o terceiro orifício. As notas correspondem, inclusive, a uma mesma oitava, diferenciando- se, basicamente, pelo volume sonoro. TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 9 FIGURA 4 – COMPARATIVO ENTRE AS FLAUTAS DOCE SOPRANO E CONTRALTO DÓ DÓ FONTE: Os autores Podemos dizer que, com relação à flauta doce soprano, a contralto ganha, após o Dó, quatro notas graves a mais: Si, Lá, Sol e Fá. Em contrapartida, perde algumas notas agudas. Na flauta doce, como em qualquer instrumento de sopro, o início e o fim de cada som são obtidos com a articulação, ou seja, a correta definição de sons e seu fraseado. A articulação é fundamental para a separação entre notas, permitindo a expressão da interpretação. A técnica de articulação consiste no chamado “toque de língua”, utilizando consoantes simples como “TU” ou “DU”. NOTA UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 10 FONTE: Os autores Na flauta doce contralto, é necessário haver um cuidado com o sopro nas notas graves. A emissão de ar deve ser com pouca força, porém, de forma contínua. Caso haja muita força no sopro, soará mais agudo ou como um apito desagradável. As notas da região mediana – Dó, Ré, Mi, Fá e Sol – exigirão um pouco mais de pressão do ar, mas é preciso estar atento à afinação e uso correto dos dedos sobre os orifícios. As notas mais agudas – Lá, Si, Dó, Ré, Mi e Fá – exigirão tanto controle de ar quanto o correto posicionamento do polegar da mãoesquerda no orifício posterior da flauta. O polegar esquerdo deve cobrir parcialmente o orifício até que se encontre o ponto ideal de abertura para que as notas soem limpas. Para conseguir uma boa interpretação, é necessário sincronizar o movimento dos dedos e a emissão de ar. Além disso, os dedos levemente flexionados devem cobrir completamente os orifícios indicados em cada dedilhado, usando a parte mais macia da ponta do dedo. É preciso cobrir os orifícios de maneira suave. Lembrando que o polegar da mão esquerda é fundamental, pois é responsável pelos sons agudos. O polegar direito servirá como apoio na parte de trás da flauta, na altura do quarto orifício de cima para baixo. TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 11 Para manter a flauta sempre em boas condições, é aconselhável levar em consideração as seguintes recomendações: • Quando terminar de tocar, você deve secar a umidade que fica dentro da flauta devido ao efeito da respiração. • A flauta não deve ser exposta a mudanças súbitas de temperatura, devendo ser armazenada, após o uso, em uma caixa ou estojo de pano. ATENCAO 3 NOTAS DA MÃO ESQUERDA: DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL FIGURA 5 – NOTAS DA MÃO ESQUERDA: DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL FONTE: Os autores Os exercícios da mão esquerda, além de permitirem maior controle motor, também atuam de forma a facilitar a memorização das posições para prática musical. Com essas posições iniciais, é possível tocar muitas melodias, seja individualmente ou em grupos. Para que o estudo fique ainda mais agradável, podemos sugerir o acompanhamento de outros instrumentos, como o violão, teclado ou percussão. No entanto, é necessário realizar alguns exercícios preparatórios para fixar as posições que serão utilizadas em melodias mais elaboradas. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 12 Os exercícios preparatórios também têm o objetivo de familiarizar o estudante com as novas dificuldades técnicas e musicais. Por essa razão, acreditamos que seja conveniente iniciar a prática através de um único som, concentrando a atenção na emissão do som e articulação da sílaba “DU”. Essa sílaba permite que o ataque com o golpe de língua seja suavizado, prevenindo os famosos “apitos” com o instrumento. FIGURA 6 – DÓ, RÉ E MI FONTE: Os autores TABELA 1 – ESTUDOS ´ TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 13 FONTE: Os autores UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 14 TABELA 2 – FÁ E SOL E ESTUDOS FONTE: Os autores Os próximos estudos, propositalmente, não estarão com o nome das notas na partitura. Lembre-se: cada linha e espaços da pauta têm o nome de uma nota musical. Memorizar é fundamental no processo da aprendizagem. ATENCAO TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 15 TABELA 3 – ESTUDOS FONTE: Os autores Como segurar a flauta doce contralto? • Posicione o bocal no lábio inferior e equilibre seu instrumento com o dedo polegar direito. Lembre-se: coloque sua mão esquerda no topo. Não morda o bocal, nem permita que ele toque seus dentes. ATENCAO UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 16 • Sopre suavemente com um fluxo constante. Concentre-se na respiração, imagine como ela acontece fisicamente, sem tensionar os músculos. • Ao tocar uma nota musical, você deve iniciar e parar o som com sua língua. Para fazer isso, tente dizer as sílabas “TU” ou “DU” enquanto emite o som. A técnica é chamada de tonguing e produz um começo e um fim claros para a nota. • Se a nota não sair, ou se ela guinchar, assegure-se de que seus dedos estejam cobrindo completamente os orifícios, sem demasiada força. Outra razão que pode chiar é porque você está soprando muito forte. FONTE: <https://www.wikihow.com/Play-the-Recorder>. Acesso em: 25 abr. 2019. Disponibilizando ao menos 30 minutos diários para estudos preparatórios, em poucas semanas não existirão grandes dificuldades para mudança de posição, dedilhado e sopro. Lembrando que o tempo de dedicação para os estudos e a prática instrumental são determinantes para avançar em atividades de maior complexidade. 4 NOTAS DA MÃO DIREITA: SI, LÁ, SOL, FÁ FIGURA 7 – NOTAS DA MÃO DIREITA: SI, LÁ, SOL, FÁ FONTE: Os autores TÓPICO 1 | FLAUTA DOCE CONTRALTO 17 TABELA 4 – ESTUDOS UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 18 FONTE: Os autores 19 Neste tópico, você aprendeu que: • A flauta doce, desde o século XV, era fabricada em diferentes tamanhos, porém não havia nenhuma classificação ou nomenclatura específica para distinguir umas das outras. No período, a flauta contralto era simplesmente chamada de “flauta”, contudo, para diferenciar da flauta transversal ou de outras flautas com tamanhos diferentes, era chamada de "flauta comum" ou "flauta de consorte" (LASOCKI, 2001). No século XX, com o redescobrimento da flauta doce, ela é classificada conforme suas qualidades sonoras e, a partir de então, surge o que hoje conhecemos como família da flauta doce. • Os procedimentos e cuidados a serem observados durante a execução melódica da flauta doce contralto se assemelham aos utilizados com os demais instrumentos da família da flauta doce. Portanto, um cuidado especial deve ser tomado quanto à postura, respiração e digitação. • A digitação na flauta contralto segue o mesmo padrão da flauta doce soprano, contudo, a principal diferença é a afinação. A flauta soprano é em DÓ e a contralto tem afinação em FÁ, isto é, se você tampar todos os orifícios da flauta, na soprano, você terá a nota DÓ e, na contralto, a nota FÁ. • A flauta doce contralto é considerada um instrumento simples para aqueles que nunca tocaram um instrumento musical. É uma versão maior da flauta doce soprano e tem um som mais grave, suave e agradável. A flauta doce contralto pode ser usada para tocar qualquer música desde que as notas não fiquem abaixo do FÁ, na parte inferior da Clave de Sol. Se existirem notas abaixo de FÁ, a música deve, primeiramente, ser transposta. RESUMO DO TÓPICO 1 20 1 Na flauta doce contralto, as notas da região mediana – Dó, Ré, Mi, Fá e Sol – exigirão um pouco mais de pressão do ar, mas é preciso estar atento à afinação e ao uso correto dos dedos sobre os orifícios. Monte, no diagrama a seguir, as posições da flauta doce contralto, relativas às notas que aparecem na pauta musical. AUTOATIVIDADE Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA de notas na pauta: a) ( ) sol, lá, si, do, ré, fá, mi. b) ( ) lá, si, do, ré, mi, sol, fá. c) ( ) fá, lá, dó#, mi, si, sol, ré. d) ( ) sol, si, ré, dó, lá, fá, mi. 2 Os procedimentos e cuidados a serem observados durante a execução da flauta doce contralto assemelham-se aos dos demais instrumentos da família da flauta doce. Considerando a importância que deve ser dada à postura, respiração e digitação, algumas questões essenciais devem ser observadas criteriosamente. Disserte sobre a importância de manter uma boa postura durante a execução da flauta doce contralto. 3 Que tal você criar seu próprio estudo de flauta doce contralto utilizando as notas estudadas neste tópico? Aproveite a pauta a seguir e escreva, livremente, algo para tocar com seus colegas de sala. 21 TÓPICO 2 FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, você terá a oportunidade de conhecer um pouco mais da história da música, percorrendo parte do caminho realizado pela flauta doce, com um repertório que perpassa melodias características dos períodos medieval, renascentista e barroco. Além disso, terá oportunidade para organizar duetos de pequenas peças musicais para tornar o estudo ainda mais significativo, aproveitando a aula para prática em conjunto – unindo estudo e descontração no fazer musical. Alertamos que o desempenho nas atividades de prática de flauta doce contralto depende do quanto você se apropriou dos conteúdos de teoria musical até aqui. Este tópico dará habilidade necessária para executar as peças que serão apresentadas no decorrer deste material didático.2 MÚSICA MEDIEVAL A Idade Média europeia é um período compreendido do século V ao século XV, e foi marcado pelo profundo sentimento religioso que dominava a sociedade, e também musicalmente, pelo surgimento e desenvolvimento da polifonia e das primeiras notações musicais. A grafia musical ainda estava em seus estágios iniciais durante a Idade Média e, como resultado, a maioria das composições era transmitida apenas em uma espécie de reprodução, tradição oral em vez de partituras escritas. Os registros parcos, ou a presença de letras sem melodias marcadas, dificultavam a obtenção de um conhecimento detalhado da música na Idade Média. No período, o caráter litúrgico e festivo liga a música aos ritos religiosos ou àqueles de natureza pagã, como as festas da chegada da primavera. A música, na alta Idade Média, é marcada pela estrutura modal praticada nas salmodias, no canto gregoriano, nos organuns, nas composições polifônicas da Escola de Notre- Dame, na Ars Antiqua e Ars Nova e, ainda, nas canções populares de trovadores e jograis. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 22 A música modal se caracteriza pela importância dada às combinações entre as notas, intervalos e seus resultados sonoros, tendo como fundamento a composição melódica, seja em uma monodia (uma só melodia) ou em mais de uma melodia, a polifonia. Devido à perseguição que houve aos cristãos no início do período medieval, a parte instrumental das músicas fora retirada para que as cerimônias fossem realizadas de forma discreta. Além disso, com a adoção dos costumes hebreus de salmos, a música acabou se tornando vocal. Inicialmente, a forma de se registrar esses cânticos era por meio da escrita neumática. Os neumas, embora não indicassem, de forma precisa, a altura das notas, auxiliavam os cantores a recordarem o contorno melódico. FIGURA 8 – EXEMPLO DE ESCRITA NEUMÁTICA FONTE: <http://art-musica.blogspot.com/2012/02/no-inicio-eram-os-neumascomo-surgiu.html>. Acesso em: 15 jul. 2019. A rápida expansão do cristianismo exigiu um maior rigor do Vaticano, que unificou a prática litúrgica romana no século VI. O papa Gregório I institucionaliza o canto gregoriano, que se torna modelo para a Europa católica. A notação musical sofre transformações, e os neumas são substituídos pelo sistema de notação com linhas, principalmente após os esforços do monge Guido d'Arezzo. TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 23 FIGURA 9 – ESTÁTUA NA CATEDRAL DE WINCHESTER, DE 1305 Além da música religiosa, também se destaca a atividade de se “musicar” notícias, poesias e versos por meio de artistas ambulantes: os trovadores e jograis. Instrumentos melódicos como alaúde, rabeca, pífano, além de instrumentos de percussão, como o galubé e o tamboril, representavam os precursores da música secular no período. Também podemos perceber o nascimento da flauta doce. Possuía seis furos na parte superior apenas, exigindo que o instrumentista usasse os indicadores, médios e anelares, de ambas as mãos, na posição que preferisse. Era possível ver esse instrumento sendo usado por jograis e menestréis em ornamentações e danças populares. FONTE: <http://www.recorderhomepage.net/>. Acesso em: 10 jul. 2019. Aos poucos, foram feitas modificações no flageol. Acrescentou-se um furo na parte inferior, alterando a nota mais grave ou um tom. Na mesma época, fez- se o orifício na parte traseira, para o polegar, possibilitando oitavar com mais facilidade. Pode-se ver que o que temos como a mais antiga flauta doce preservada em museu é uma evolução clara do instrumento. FIGURA 10 – FLAUTA DE DORDRECHT, COM DATA ENTRE 1335 E 1418. ENCONTRA-SE NO GEMEENSTESMUSEUM, EM HAIA FONTE: <http://www.marcomagalhaes.com/bouwer-eng>. Acesso em: 19 jul. 2019. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 24 No século XIV, tratados começaram a ser feitos sobre música, trazendo- nos registros das práticas musicais da época e esclarecendo muito sobre as flautas doces do final da Idade Média. O primeiro tratado é o Música Getutsch, de Sebastian Virdung, de 1511, em que apresentava três tamanhos de flautas (baixo em Fá, tenor em Dó e discant em Sol: todas afinadas em quintas), com tenor duplicado. FIGURA 11 – ILUSTRAÇÃO DO TRATADO DE SEBASTIAN VIRDUNG, DE 1511 FONTE: <https://miguelmorateorganologia.wordpress.com/flauta-travesera-1/>. Acesso em: 19 jul. 2019. Com o desenvolvimento de características mais estáveis, o instrumento começou a chamar atenção de instrumentistas diferentes dos jograis e menestréis que tocavam o flajolé. Nobres amadores, que buscavam interpretar o repertório polifônico que começava a surgir na época, viam, na flauta doce, elementos favoráveis. Ao contrário dos instrumentos de corda, não era preciso afiná-la, além de ser leve e portátil, adequando-se aos momentos de lazer e entretenimento dos nobres. Durante a Idade Média, a maior parte da música era vocal e desacompanhada. A igreja queria manter a música pura e solene porque era menos perturbadora. Mais tarde, instrumentos musicais, como sinos e órgãos, eram permitidos na igreja, mas eram usados principalmente para observar dias importantes do calendário litúrgico. Músicos itinerantes ou menestréis usavam instrumentos musicais nas esquinas das ruas. Os instrumentos usados incluem violinos, harpas e alaúdes. O alaúde é um instrumento de corda em forma de pera com um braço traste. A música da igreja (litúrgica ou sagrada) dominou a cena, embora algumas músicas folclóricas seculares anunciadas por trovadores tenham sido encontradas em toda a França, Espanha, Itália e Alemanha. FONTE: <https://www.liveabout.com/medieval-music-timeline-2457149>. Acesso em: 19 jul. 2019. IMPORTANTE TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 25 Vamos praticar? A peça musical referente à Idade Média selecionada para prática em conjunto ou estudo individual é a Saltarello la Regina, uma dança do final do século XIV do norte da Itália. É uma melodia alegre, cuja estrutura baseia-se em verso e coro. São quatro versos, repetidos duas vezes e seguidos pelo refrão. Saltarello, em uma tradução livre, significa “saltar”, o que se refere aos passos salteados, principal característica deste tipo de dança. Durante o século XV, a palavra saltarello também fazia referência a um ritmo musical (ternário), que aparece em muitas danças coreografadas. Essa melodia apresenta alguns “saltos” na primeira voz, que podem ser, inicialmente, de difícil execução. O importante é começar o estudo com um andamento bem lento e, aos poucos, aumentar a velocidade. FIGURA 12 – ANONIMUS SÉC. XIV FONTE: <https://historical-dance.net/node/32>. Acesso em: 15 jul. 2019 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 26 Danças inteiras, consistindo apenas no passo e no ritmo do saltoello, são descritas como danças improvisadas nos manuais de dança do século XV na Itália. Informações sobre essa dança apareceram em um tratado escrito por Antonio Cornazzano, em 1465. Durante esse tempo, o saltoello foi interpretado por grupos de cortesãs vestidas como homens em máscaras. DICAS FONTE: <https://collections.vam.ac.uk/item/O55132/saltarello-romano-print-pinelli- bartolomeo/>. Acesso em: 15 jul. 2019. Embora originalmente destinado à corte napolitana, o saltoello tornou-se a típica dança folclórica italiana da Ciociaria e uma das tradições favoritas de Roma nas festas de carnaval e colheita de Monte Testaccio. Tradicionalmente, ela também é realizada em festas de casamento após a partida do casal recém-casado da igreja. Assista ao vídeo disponível em <https://youtu.be/PWMyb1UtlzE> para conhecer melhor os passos dessa dança. 2.1 MÚSICA RENASCENTISTA No desabrochar da renascença, a flauta doce já estava estabelecida em toda a Europa. Além dos músicos populares, o instrumento já se fazia presente nas elites urbanas, nas cortes e no clero, atingindo um grau de popularidade e alcance que nenhum outro havia tido antes de 1500.TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 27 FIGURA 13 – FLAUTAS DESCRITAS POR PRAETORIUS, EM 1619 FONTE: <http://labflauta.org/conteudo/o-conjunto- renascimento/>. Acesso em: 20 jul. 2019. Com relação às evoluções ocorridas no período, percebe-se uma clara evolução dos instrumentos musicais, que passaram por intensas experimentações e mudanças. No período, a flauta doce surge em ainda mais diversos tamanhos e modelos, com agrupamentos em famílias de diferentes tamanhos, que foram chamadas de consort. Uma palavra utilizada modernamente para se referir a um grupo do mesmo instrumento com diferentes tamanhos e possibilidades (FIGUEIREDO, 2018). Michael Praetorius traz, em seu tratado, Syntagma Musicum, de 1619, nove tamanhos diferentes de flautas, diferenciando-os claramente de acordo com sua polifonia. De acordo com Figueiredo (2018, p. 3), “a prática renascentista do consort era bastante diferente da forma como a flauta doce é mais conhecida nos dias de hoje, principalmente quando falamos da afinação dos instrumentos”. O autor destaca que a afinação renascentista, em quintas, é desafiadora para os flautistas: UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 28 A afinação renascentista em quintas traz novos desafios para os flautistas: instrumentos afinados em Sol, Ré, Si bemol e outras possibilidades que a afinação em quintas permite. Não é amplamente estudada por flautistas, até no ambiente acadêmico, pois o padrão de afinação atual da flauta doce intercala quintas e quartas (Fá-Dó- Fá-Dó), ou seja, os instrumentos estão limitados a Dó e Fá. Por esse motivo, a prática e a construção adequadas de consorts de flautas doces renascentistas enfrentam certa resistência no cenário musical da flauta doce, que busca alterar as caraterísticas desses instrumentos (FIGUEIREDO, 2018, p. 5). Importante destacar que, no Brasil, há um movimento crescente no âmbito de música antiga nas últimas décadas. Dentre os grupos mais conhecidos, citamos: GReCo – Grupo de Pesquisa em Música da Renascença e Contemporânea, na UNESP; Quinta Essentia Quarteto, um dos mais importantes grupos de música de câmara da atualidade; e o Illvminata, grupo que se destina à pesquisa e performance de música antiga. Vamos praticar? Durante a Renascença, uma forte característica da produção musical do período é a escrita polifônica. A prática, restrita inicialmente à música vocal da liturgia, passou por grandes transformações que renderam uma diversidade de estilos de escrita durante o Humanismo europeu, trazendo também uma paulatina abertura para a música instrumental. FIGURA 14 – DANÇA FRANCESA DO SÉCULO XVI FONTE: Os autores TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 29 Na melodia Tourdion, você utilizará uma posição nova na flauta contralto: a nota Lá. Ela aparece no segundo compasso da música. Observe a seguir: FIGURA 15 – POSIÇÃO LÁ FONTE: Os autores FIGURA 16 – RITORNELLO, 1787 FONTE: Os autores Na melodia Ritornello, toda nota FÁ é sustenida, conforme indicação da armadura de clave. Portanto, a posição na flauta doce contralto também muda. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 30 FIGURA 17 – ARMADURA DE CLAVE: SUSTENIDO EM FÁ FONTE: Os autores A canção de natal a seguir é um bom exercício de prática. Sua extensão vai do Dó até o Sol. FIGURA 18 – MELODIA DO SÉCULO XVII FONTE: Os autores Consort renascentista Os consorts de flautas renascentistas geralmente são afinados em quintas justas. Dessa forma, a nomenclatura dos instrumentos mais usados é ligeiramente diferente dos barrocos. Os instrumentos renascentistas possuem tubo cilíndrico, com praticamente o mesmo diâmetro no bocal e no final do tubo, tornando as notas graves muito mais potentes. NOTA TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 31 FONTE: <https://quintaessentia.com.br/artigo/infinidade-de-instrumentos/>. Acesso em: 15 jul. 2019. 2.2 MÚSICA BARROCA Durante o período barroco, a música instrumental teve um despontamento, atingindo destaque em conjunto com a música vocal. A música, aqui, toma ares exuberantes: aplicam-se ritmos enérgicos, melodias com muitos ornamentos, contrastes de timbres instrumentais, sonoridades fortes com suaves e experimentações técnicas e de composição que estendiam as possibilidades sonoras. Em boa parte da Europa, a composição polifônica começa a perder espaço, enquanto o barroco italiano amplia sua cena, dando ênfase à melodia principal acompanhada por um baixo contínuo. A parte de baixo era escrita por extenso na partitura, e o instrumentista preenchia a harmonia com acordes apropriados à progressão, ou improvisava uma linha melódica contínua. Utilizava-se muito o cravo, por vezes dobrado por uma viola de gamba ou um violoncelo. O cello, por exemplo, poderia tocar a tônica de cada acorde, enquanto o cravo soaria as notas cifradas em arpejo, possibilitando até mesmo certa improvisação do cravista. Com uma base sustentando a peça, o restante da música tinha mais liberdade melódica e temática, enriquecendo a melodia. Essa prática de performance otimizou o aproveitamento dos instrumentos e dos cantores, ampliando o nível técnico dos intérpretes e das composições. Com o desenvolvimento do nível técnico, novas configurações surgiam. No período, surgem as músicas de câmara, estilo musical de conjunto variado, mas muito elaborado e destinado às cortes, contando com, no máximo, dez músicos gabaritados, nem sempre solistas. Apresentando-se em pequenas salas, para um público seleto, existiam conjuntos que iam de trios com piano, quartetos de corda e quintetos de sopro. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 32 FIGURA 19 – MÚSICOS NA CORTE DOS MEDICI, DE ANTONIO DOMENICO GABBIANI (1652-1726) FONTE: <https://revistasera.info/2016/09/a-musica-barroca-1600-1750-frederico-toscano/>. Acesso em: 19 jul. 2019. Foi na época que a flauta doce atingiu seu ápice, recebendo composições solo, várias peças de câmara, com intérpretes de renome e com uma evolução física do instrumento, tornando-a muito similar ao que conhecemos tradicionalmente. Muitas composições da época são referenciadas até hoje pela sua dificuldade técnica e quantidade de elementos. A monodia do canto medieval toma novos ares, sendo aqui acompanhada com um baixo contínuo e reverenciando a habilidade dos cantores. As passagens melódicas de maior contraste desenvolveram-se, com destaque para a escola veneziana. É na ópera de Monteverdi que percebemos a linha homófona da música barroca, deixando de lado a polifonia. A melodia vocal destaca-se no solo, exprimindo, com dramaticidade, os sentimentos humanos. A harmonia vertical, sem a rigidez que a polifonia imprime, abandona um pouco o coro, que só será retomado por Bach e Handel no começo do século XVIII. TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 33 FIGURA 20 – UNGARESCA FONTE: Mascarenhas (1978, p. 80) Entendendo a partitura A melodia ungaresca é uma melodia de dança húngara que apresenta algumas informações importantes que não podem ser desconsideradas durante a música. Barras de repetição (ritornelo) – significa que o trecho delimitado deve ser tocado mais uma vez IMPORTANTE UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 34 Significa que se deve retornar ao compasso onde está o segno e tocar a melodia até o FIM. Perceba que a melodia apresenta algumas indicações quanto ao andamento, utilizando os termos Moderato, Allegretto e Animato. Isso quer dizer que a melodia começa lenta e vai acelerando aos poucos. Por esse motivo, a indicação do tempo ideal, ou seja, a velocidade, em cada trecho da melodia: 88 para moderato, 108 para allegretto e 120 para animato. Lembrando que essas informações são pertinentes para o uso de metrônomo durante a execução musical. FIGURA 21 – ADÁGIO, SÉCULO XVI FONTE: Os autores 2.3 DUETOS Dueto é uma composição musical, ou trecho melódico, executadopor dois músicos instrumentistas ou por dois cantores. Ao longo deste livro, você deve ter observado que várias músicas apresentam duas vozes, sugerindo, desse modo, um dueto. Para dar continuidade aos estudos de peças em dueto, é importante estar atento para as seguintes características: afinação, sincronia e repetição. 2.3.1 Afinação Caso sejam utilizadas flautas de diferentes fabricantes ou modelos, é importante que você afine as flautas para que os estudos e as músicas soem de modo agradável. TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 35 A afinação pode ser obtida de várias formas e uma delas é alterando o tamanho do instrumento, abrindo ou fechando o encaixe. Dessa maneira, devemos tocar uma nota e compará-la com uma referência, auditivamente, abrindo o instrumento se estiver alto, e fechando, se estiver baixo. Outra maneira de afinar é soprar uniformemente, sem oscilações ou vibratos. Para saber se a flauta está alta ou baixa quando ainda não temos essa percepção auditiva, assopramos pouco para que a afinação esteja baixa e, gradativamente, vamos aumentando a pressão do ar até chegarmos na referência. FIGURA 22 – AFINAÇÃO DA FLAUTA DOCE FONTE: <https://quintaessentia.com.br/artigo/afinacao-a-pratica-leva-a-perfeicao/>. Acesso em: 15 jul. 2019. 2.3.2 Sincronia Outra observação importante é não fazer dos duetos uma disputa ou um estudo individual. É preciso ouvir o parceiro flautista e homogeneizar as sonoridades das flautas. Ao executar cada estudo, busque uma sincronia perfeita entre as notas, além de afinação e sonoridade. 2.3.3 Repetição Comece os estudos das melodias em um andamento lento e aumente a velocidade à medida que se sentir seguro. Nosso corpo aprende por repetições, portanto, é necessário executar com frequência os estudos propostos para obter excelente progresso. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 36 Como tocar e estudar em forma de Dueto No estudo em forma de duo, a partitura tem dois pentagramas unidos: o pentagrama de cima toca a flauta 1 e, o pentagrama de baixo, a flauta 2. IMPORTANTE FONTE: <https://sites.google.com/site/estudantesflautastransversal/>. Acesso em: 27 nov. 2019. Para o bom desenvolvimento, sugerimos que o aluno, inicialmente, toque a flauta 1 e, o professor, a flauta 2. Posteriormente, refaça com o aluno tocando a flauta 2 e, o professor, a flauta 1. FONTE: MASCOLO, N.; MASCOLO, C. Método de técnica em forma de dueto. 2019. Disponível em: https://sites.google.com/site/estudantesflautastransversal/. Acesso em: 15 jul. 2019. Vamos praticar? A melodia “O Pastorzinho” é um excelente exercício para treinar a escala de dó nas flautas soprano e contralto. TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 37 FIGURA 23 – MELODIA PASTORZINHO FONTE: Os autores FIGURA 24 – ARMADURA DE CLAVE E NOTAS SUSTENIDAS FONTE: Os autores UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 38 Pastorela é uma canção medieval trovadoresca, muito comum no norte da França. Seu conteúdo era habitualmente de caráter humorístico. Na canção, o trovador relata uma cena no campo como observador das atitudes de desconhecimento e frustração de uma pastora apaixonada. FIGURA 25 –CANÇÃO PASTORELA - SÉCULO XVI FONTE: <http://grupoflauteando.blogspot.com/2016/06/partitura-cannon-para-dueto- de-flauta.html>. Acesso em: 15 jul. 2019. Bourré é uma dança renascentista de origem francesa, normalmente realizada em pares a fim de serem executados os passos alternadamente. A melodia é construída em compasso binário com andamento relativamente rápido. Durante o período barroco, as danças Bourré também fizeram parte de sonatas e suítes orquestrais. TÓPICO 2 | FLAUTA DOCE CONTRALTO: ESTUDO DE REPERTÓRIO 39 FIGURA 26 – BOURRÉ - SÉCULO XVII FONTE: Os autores Essa melodia apresenta duas notas não estudadas: SI (Agudo) e Dó (agudo). Em relação às demais, o diferencial é a abertura de meio furo na parte posterior da flauta, onde fica o polegar. FIGURA 27 – DIAGRAMA DAS NOTAS SI, DÓ FLAUTA DOCE CONTRALTO FONTE: Os autores 40 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • Quanto ao repertório para flauta doce, na Idade Média, tanto a música religiosa ou erudita, como a popular ou profana, utilizavam a flauta doce. Contudo, a partir do século XV, na renascença, a flauta doce era amplamente utilizada tanto por músicos amadores como profissionais. Entre os profissionais, dois tipos se destacavam: aqueles que usavam a flauta doce para a música de câmera, e os músicos, que tocavam em grupos oficiais. • Durante o período barroco, a música instrumental passou a ter a mesma importância da música vocal. A música barroca é de característica exuberante: com ritmos enérgicos, melodias com muitos ornamentos, contrastes de timbres instrumentais e sonoridades fortes com suaves. 41 1 Dueto é uma composição musical, ou um trecho melódico executado por dois músicos instrumentistas, contudo, é importante estar atento aos aspectos relativos à afinação e sincronia. Com base nas informações sobre duetos apresentadas neste tópico: a. Escolha uma melodia com duas vozes (deste livro ou de outro material). b. Estude a melodia com mais um colega. c. Apresente o dueto em sala de aula. 2 Na música, o sustenido indica que a altura de determinada nota deve ser elevada em um semitom. Observe a armadura de clave a seguir, utilizada em diversas melodias para flauta doce: AUTOATIVIDADE I- A armadura de clave indica que a melodia está na tonalidade de Ré maior. II- A armadura de clave indica que a melodia está na tonalidade de Ré menor e o compasso é ternário. III- De acordo com a armadura de clave, as notas FÁ e DÓ, na flauta doce, são sustenidas. IV- A armadura de clave, apesar de apresentar alterações para as notas FÁ e DÓ, indica que essas notas podem ou não sofrer alterações na música. Depende do instrumentista. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II e IV estão corretas. b) ( ) As sentenças I e III estão corretas. c) ( ) Somente a sentença IV está correta. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Durante o período barroco, a música instrumental apresentava ritmos enérgicos, melodias com muitos ornamentos, timbres instrumentais contrastantes, além de experimentações técnicas e de composição que ampliavam as possibilidades sonoras. No período, surgem as músicas de câmara, estilo musical de conjunto variado, mas muito elaborado e destinado às cortes. Considerando esse contexto, disserte sobre a flauta doce no período barroco. 42 43 TÓPICO 3 PRÁTICA DE CONJUNTO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Há um senso comum que trata a flauta doce como um instrumento “aquém” de suas possibilidades. Assim, antes de avançar os estudos sobre a flauta doce e a prática de conjunto, é preciso referenciar esse instrumento, que tanto pode ser utilizado para a musicalização quanto para o instrumento artístico. A flauta doce é um instrumento medieval e renascentista que teve seu ápice no período barroco, mas havia sido deixada de lado ao final do século XVIII, principalmente pela ascensão das orquestras com elementos mais dinâmicos para a época. No entanto, ao final do século XIX, resgatou-se o instrumento por meio de pesquisadores e músicos interessados em obras antigas e medievais, que buscavam a máxima fidelidade das peças. Com a redescoberta de composições que remetiam, principalmente, ao estilo barroco, diversos músicos se especializaram na flauta doce. Foi na década de 1930 que o instrumento foi introduzido nas escolas por Edgar Hunt, assumindo um outro papel: o de musicalização. Hunt tocava flauta transversal e, assim que teve contato com a flauta doce, percebeu sua possibilidade educacional. De acordo com Paoliello (2007, p. 38), “antes de aprender sua técnica, ou entender o uso do diafragma para a produção de um sopro de qualidade, é possível fazer soar, de alguma forma, a flauta doce”. O fácil manuseio do instrumento e a produçãoem série de flautas de plástico possibilitaram sua difusão nas escolas, ampliando a possibilidade da prática de conjunto em salas de aula. A prática em conjunto favorece a participação de todos os alunos no fazer musical, nas partes mais simples e nas mais complexas. Deve haver a utilização da flauta doce na escola, onde a ênfase é dada no ensino da música e não no ensino do instrumento. Assim, a flauta doce se insere nas atividades de composição, apreciação e execução musical, constituindo um dos recursos do processo de aprendizagem (BEINEKE, 2008 apud BARROS, 2010, p. 53). 44 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE A prática em conjunto, além de modalidade musical, é uma grande oportunidade de aprendizagem por meio da interação. Ela possibilita a troca de ideias, o contato com o outro, a atenção a diversos elementos sendo reproduzidos simultaneamente, a concentração etc. Neste tópico, você conhecerá algumas formas da prática de conjunto com a flauta doce. 2 FLAUTA DOCE E PERCUSSÃO A mesma facilidade inicial de fazer soar a flauta doce, independentemente da técnica, pode ser aplicada à percussão. A pulsação é um elemento orgânico e inerente a todas as pessoas, podendo ser integrada à melodia, e é essa característica que torna natural a prática conjunta de flauta doce e percussão, principalmente na musicalização. Essa união remete à origem da flauta e ao contexto do seu renascimento. Para ilustrar, trazemos o trecho de um arranjo de Sérgio Vasconcellos Correa para flauta e percussão de Il Trotto, melodia anônima medieval do século XIII: FIGURA 28 – II TROTTO FONTE: Os autores A versatilidade da flauta doce, principalmente por seu timbre e extensão se assemelharem à voz humana, permite entoar praticamente qualquer estilo, ampliando sua possibilidade interpretativa em conjunto e propiciando, aos instrumentistas, professores e alunos, a pesquisa de sonoridades de acordo com o efeito desejado. De igual natureza, a percussão está presente em quase todas as canções, muito por ser orientada pelo pulso natural do corpo. A percussão corporal é uma TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 45 das formas mais conhecidas de musicalização nas escolas, pela possibilidade de criação e improviso, além do auxílio na internalização do ritmo. É possível ver, na cultura indígena brasileira, exemplos de percussão corporal aliados a melodias que podem ser adaptadas à flauta doce. Na tribo Krenak (região do Rio Doce), a canção Po Hamék é entoada em festas, reuniões e coletivamente, em cantigas de roda. Estimula a camaradagem e propicia jogos de percussão corporal aliados à melodia, que pode ser adaptada à flauta doce. FIGURA 29 – PO HAMÉK FONTE: <http://www.cantosdaterra.com.br>. Acesso em: 19 jul. 2019. Letra (pronúncia) - tradução livre Na gram tondon mûm gri (Na grantandó naum gri) - Vamos todos cantar juntos Grí erehé, gri erehé (Grirerré grirerré) - Cantar bonito, cantar bonito Po hamék, po hamék (Pauamé, pauamé) - Bater palmas, bater palmas NOTA Refletir sobre o acompanhamento percussivo pode motivar, de forma satisfatória, alunos e intérpretes, mesmo que seja só marcando o tempo. A prática em conjunto pode proporcionar o treino polifônico, ampliando as possibilidades de estudo dos elementos musicais. 46 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 3 A FLAUTA DOCE NAS CANÇÕES INFANTIS Conforme vimos, houve uma consolidação da flauta doce como instrumento musicalizador no início do século XX, principalmente devido à estrutura física e acessibilidade. Desde a década de 1970, as escolas brasileiras vêm optando pelo instrumento para a prática em conjunto e iniciação musical, além do enfoque na flauta como opção nos cursos de licenciatura em música pelo país. Para facilitar o vínculo do aprendizado das músicas pelas crianças, a familiaridade é um elemento fundamental. Dessa forma, a utilização das canções tradicionais e/ou folclóricas, que são próximas culturalmente, estimula o aprendiz, trazendo o contexto, além das suas estruturas melódicas simples e ostinatos marcantes. Na infância, essa inicialização dá-se por meio da imitação e de forma gradativa, como visto anteriormente em nossos estudos. Elementos lúdico- visuais, como bonecos, ilustrações e sombras, estimulam diferentes sentidos e proporcionam uma maior imersão do aprendiz. A utilização da flauta doce nas aulas de iniciação musical pode ser muito eficiente quando bem orientada, por proporcionar uma experiência com um instrumento melódico, contato com a leitura musical, estimular a criatividade – com atividades de criação – além de auxiliar o desenvolvimento psicomotor das crianças e trabalhar a lateralidade (com o uso da mão esquerda e da mão direita). Possibilita, ainda, a criação de conjuntos, ajudando a despertar e a desenvolver a musicalidade infantil e o gosto pela música, melhorando a capacidade de memorização e atenção e exercitando o físico, o racional e o emocional das crianças (PAOLIELLO, 2007, p. 32). Apesar da simplicidade de algumas melodias infantis, é possível acrescer complexidade incluindo outros recursos sonoros, aumentando as possibilidades de estudo em uma mesma peça para o aluno. 3.1 MÚSICA PARA CRIANÇAS É preciso ter em mente a qualidade do repertório infantil. Muitas vezes, as crianças são subestimadas, e as canções destinadas a esse público (muitas vezes dispostas pelos meios midiáticos) possuem uma harmonia fraca, com timbres muito agudos, melodias simples e pouca textura. A capacidade de absorção e aprendizado da criança é enorme, e essa janela deve ser aproveitada. Contudo, o que torna uma música “infantil”? Um dos elementos é o brincar. A qualidade recreativa é uma característica marcante na infância, pois é por meio dela que a criança experimenta a vivência com o mundo, por meio do “faz de conta”. No entanto, mais do que ser uma brincadeira em si, é importante que TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 47 os compositores, arranjadores, intérpretes e produtores imprimam as qualidades do universo infantil nas músicas e canções, sem que se diminua a exigência na composição. A linguagem musical deve abordar três esferas: produção (experimentação e imitação), apreciação (percepção das estruturas musicais) e reflexão (a organização e a criação da produção musical): [...] de modo a garantir à criança as possibilidades de vivenciar e refletir sobre questões musicais, num exercício sensível e expressivo que também oferece condições para o desenvolvimento de habilidades, de formulação de hipóteses e de elaboração de conceitos (BRASIL, 1998, p. 48). É preciso entender a criança, levar em consideração seu desenvolvimento, demandas e estabelecer uma relação com a arte, tanto para a criação de conteúdo próprio quanto para a prática de ensino, estimulando a descoberta e a autonomia no fazer musical. 3.2 SUGESTÕES PARA O TRABALHO DE REPERTÓRIO Neste subtópico, traremos alguns exemplos de peças infantis que podem ser utilizadas em classe, no histórico e reflexão acerca da composição. FIGURA 30 – MINHA CANÇÃO FONTE: Os autores 48 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE A peça “Minha Canção”, do espetáculo Os Saltimbancos, foi composta por Chico Buarque em 1977 e traz a escala de DÓ, em que cada início de frase reforça o caráter da nota que inicia o compasso. É uma ótima canção para memorizar a localização das notas na pauta. FIGURA 31 – TRENZINHO DO CAIPIRA FONTE: Os autores O “Trenzinho do Caipira”, de Villa Lobos, é uma peça marcada por seu ostinato melódico e simplicidade. A composição remete ao movimento de uma locomotiva, utilizando os sons da orquestra de forma não convencional. É possível iniciar o tema com a apreciação musical da canção original antes de praticar sua redução para a flauta doce, além de utilizar elementos percussivos para reproduzir os sons da locomotiva, assim como Villa Lobos fez. Ao escolher melodias tradicionais folclóricas, como cai, cai, balão, samba- lê-lêou ciranda-cirandinha, é possível explorar a melodia simples com jogos de mão, brincadeiras de roda pontuando o ritmo, a pulsação e a identificação com elementos da cultura brasileira. Perceber a criança como indivíduo pensante, questionador, com subjetividades, capacidades de discernimento, e aproximando-se do universo dela ao fazer e ensinar música, são ações que possibilitarão a criação de um vínculo musical forte, dando voz e desejo artístico a um potencial músico. Vamos praticar? TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 49 FIGURA 32 – CAI CAI BALÃO FONTE: Os autores FIGURA 33 – BRILHA ESTRELINHA FONTE: Os autores FIGURA 34 – MEU LIMÃO, MEU LIMOEIRO FONTE: Os autores 4 A FLAUTA DOCE NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA Pela sua versatilidade, timbre e praticidade, a flauta doce é prontamente aplicável a qualquer gênero. Explorar as possibilidades da Música Popular Brasileira – MPB – mostra-se como um caminho rico para tratar de regionalismo, inclusão, etnicidade, além do multiculturalismo que tanto representa nosso país. 50 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 4.1 RAÍZES DA MPB Peters (2013), em seu artigo “Música Popular Brasileira e o Ensino de Flauta Doce”, faz um resgate histórico do estilo aludindo que uma das referências mais antigas está na modinha e no lundu que, associados a elementos musicais europeus, deram origem a vários estilos que se consolidaram por aqui, como o samba. É preciso ir além da partitura e dos instrumentos para entender o estilo. Há todo um contexto social, econômico, cultural e político (PETERS, 2013). A música popular não é, de modo algum, oposta à música erudita. Com o desenvolvimento dos centros urbanos, foram chamadas, de música popular, as canções reproduzidas nas cidades, principalmente pela classe média trabalhadora. Os meios midiáticos endossaram o movimento, propagando as músicas e estimulando o mercado. Nessa estrutura é que surgem os ritmos que formam a MPB, desde choros até manguebeat. Trazer cada contexto ao interpretar o instrumento e contextualizar suas nuances e realidades enriquecem a prática musical e estimulam a pesquisa e domínio em relação ao próprio repertório. 4.2 INICIATIVAS DE FLAUTA DOCE NO BRASIL A redescoberta da flauta doce, inicialmente como forma de trazer autenticidade à música antiga, reflete o surgimento de grupos do mesmo estilo aqui no Brasil. Em 1970, influenciados pelo Conjunto de Música Antiga da Rádio MEC, vários grupos, por todo o país, dedicados à interpretação histórica, começaram a surgir, numa prática que se estende até os dias atuais (BARROS, 2010). Em uma transição entre a música antiga e a música regional brasileira, o grupo Música Antiga da UFF lançou, em 2004, o CD Medievo-Nordeste, aproximando as similaridades dos trovadores e jograis da Idade Média com os tocadores de viola nordestinos. No mesmo sentido, o flautista Flávio Stein e o conjunto Studium Musicae trouxeram uma proposta de contrastar aspectos da música medieval com a tradição oral nordestina, além de peças de compositores contemporâneos. Além disso, é possível ver iniciativas que saem do escopo antigo e assumem um viés mais contemporâneo da MPB. Cléa Galhano e Ricardo Kanjim interpretam, além de peças internacionais, composições barrocas e renascentistas, peças eruditas brasileiras e arranjos para MPB, como choros e música folclórica. O Duo Flusters (SP), de David Castelo e Patrícia Michelini, traz também elementos nacionais em seu programa, de Villa-Lobos a peças de choros. TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 51 Em Uberlândia, temos, no Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli, uma iniciativa chamada Mistura Boa. Desenvolvida pelos professores Ana Cláudia Curi e Sérgio Melazzo, o projeto integra MPB com flauta doce e cordas dedilhadas. O CD Mistura Boa II - Chorando, de 2008, traz também um caderno de partituras das peças. Com essas e tantas outras iniciativas, podemos observar que os profissionais dedicados à flauta doce se empenharam, principalmente, à interpretação da música antiga, no entanto, percebendo a versatilidade do instrumento e as possibilidades de se explorar a sonoridade brasileira, versando a cultura brasileira e sua diversidade na pesquisa, composição e interpretação de peças que contribuem para a identidade nacional. 5 A FLAUTA DOCE NA MÚSICA CONTEMPORÂNEA A percepção do instrumento ainda está ligada, de forma profunda, à música antiga. Sua revitalização, seguida pela rápida popularização como instrumento musicalizador, inibiu o desenvolvimento do seu caráter artístico e o proveito para composições modernas. No entanto, há gratificantes exceções que souberam da versatilidade do instrumento e o exploraram na música contemporânea, principalmente pelas vantagens intrínsecas: Facilidade de construção, possibilidades de sopro, facilidade de entoação dos quartos de tom, riqueza na produção dos harmônicos, os glissandi e os multifônicos mais fáceis devido à ausência de chaves, algumas semelhanças sonoras com os sons eletrônicos, a variedade de cores graças à manipulação do canal e o ruído branco (BARROS, 2010, p. 21). Com relação às composições contemporâneas, dois flautistas receberam o mérito por boa parte das obras contemporâneas para flauta doce: Frans Brüggen e Michael Vetter. Sentindo a dificuldade de inserção na carreira solo, embasados apenas por obras antigas, demonstraram, em sua performance, as possibilidades da flauta doce, chamando atenção de compositores. 52 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE FIGURA 35 – PRIMEIRA PÁGINA DA PARTITURA DE GESTI, DE LUCIANO BERIO. 1970 BY UNIVERSAL EDITION (LONDON) FONTE: <http://www.olandesevolante.com/index.php?CID=501&IDDOC=729>. Acesso em: 26 ago. 2019. Foi apenas em 1961 que foi produzida a primeira peça considerada de vanguarda para a flauta doce. Musiek, composta por Rob du Bois, traz elementos que nunca haviam sido explorados no instrumento. Logo em seguida, outros compositores se lançaram na tarefa de produzir um repertório moderno para a flauta, como Mutazioni, de Jürg Baur, em 1962, e Gesti, de Luciano Berio, de 1966. Essa última, Gesti, de Berio, foi composta para Frans Brüggen, e é considerada um divisor de águas no que diz respeito às composições contemporâneas para flauta doce. Com uma partitura de elementos únicos, ele “separou” a respiração, língua e dedilhados, exigindo um alto nível de técnica e capacidade física. É um trabalho que extrapola tudo que havia sido feito até então, exigindo que o músico saia do lugar comum da concepção técnica explorada, oferecendo algo novo à arte, ao instrumento e à música. Com as composições modernas, vieram inovações técnicas desenvolvidas pelos músicos: dedilhados especiais, glissandos, efeitos percussivos, ruídos brancos, vibratos, modificações no corpo para interpretação etc. Elementos que seriam impensáveis na percepção barroca da flauta doce. Algo importante para observar é a instrumentação. Enquanto a maioria das peças antigas é composta para flauta doce soprano, ou flauta doce e piano, as peças contemporâneas são mais voltadas para a flauta doce contralto. TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 53 No final da década de 1960, após uma viagem de Frans Brüggen ao Japão, várias peças modernas foram compostas lá, como Fragmente, de Makoto Shinohara, de 1968. Além de ser a primeira peça japonesa dedicada à flauta doce, é também a primeira peça de vanguarda para flauta doce tenor solo. Além dela, destacam-se Black Intention (de Maki Ishii, em 1975), Meditation (de Ryohei Hirose, em 1975) e Reeds, Twigs and Bells (por Michiharu Matsunaga, em 1970). Com a popularização dos sintetizadores na década de 1970, as possibilidades se ampliaram, com diversas composições eletroacústicas, que utilizavam desde fitas gravadas para acompanhamento, até produções que exploravam a manipulação eletrônica de som ao vivo. FIGURA 36 – CHAVES INVENTADAS POR CARL DOLMETSH FONTE: <https://www.dolmetsch.com/>. Acessoem: 19 jul. 2019. Além das composições, temos a evolução da própria flauta doce. No início do século XX, os instrumentos eram construídos, em sua maioria, seguindo os modelos barrocos encontrados em museus. Arnold Dolmetsh era o principal construtor de flautas até então. Foi apenas a partir de 1940, com a sucessão do legado por seu filho, Carl Dolmetsh, que isso mudou. Carl acreditava na necessidade de evolução, que havia sido estagnada no período barroco. Para isso, começou a construir flautas com frequência moderna (la = 440 Hz), mudando, assim, o timbre do instrumento e começando uma série de alterações, tendo inventado, também, em 1960, acessórios para a flauta doce, como a chave de eco e a chave de pavilhão. As demandas dos músicos e do próprio universo musical trazem, cada vez mais, experimentações para o instrumento. César Villavivêncio está desenvolvendo uma flauta doce contrabaixo com sistema de captação de som nas conexões de chaves, com ligação a sintetizadores sofisticados, que possibilitam um leque de sonoridades novas. Há, ainda, projetos que intentam gravar e modificar as peças ao vivo, criando uma flauta eletroacústica, além de outras tentativas de ampliar a extensão do registro grave e uma maior produção de multifônicos. 54 UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE A importância do caráter contemporâneo traz um leque de possibilidades para o instrumento, desprendendo-se do período clássico e trazendo experiências musicais inesperadas - se não inusitadas. Oferecer toda essa proposta a professores e alunos de flauta doce é um caminho para desenvolver uma visão menos estereotipada do instrumento, possibilitando explorá-lo sem conceitos predefinidos. FIGURA 37 – FLAUTA DOCE CONTRABAIXO COM COMPONENTES ELETRÔNICOS FONTE: <https://soundcloud.com/user-519752854>. Acesso em: 10 jul. 2019 TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 55 LEITURA COMPLEMENTAR FORMANDO BRAVOS COMPOSITORES Ana Rita Martins Até 1824, a palavra sinfonia indicava uma peça musical executada com um conjunto de instrumentos. Essa definição restrita poderia ter perdurado anos se não fosse Ludwig van Beethoven (1770-1827), o compositor alemão que estarreceu o público com a Sinfonia Nº 9 em Ré Menor. Ele incorporou um coral de vozes, algo inédito nesse tipo de peça clássica. Ao inserir o elemento, questionou o conceito de sinfonia e revelou que sua forma de compor estava intrinsecamente ligada à reflexão das fronteiras estabelecidas até então para a música. Em outras palavras, Beethoven ampliou o conceito musical que a humanidade tinha, deixando claro que é possível pensar criativamente sem seguir padrões. Explorar essa ideia com as turmas de 5ª e 6ª séries da EMEF São João Batista, em São Leopoldo, a 40 quilômetros de Porto Alegre, foi o principal objetivo do projeto de Áudrea da Costa Martins. Ela desafiou a garotada a criar suas próprias composições, considerando que a produção em sala, como fazer pinturas, é a etapa que, com a apreciação e a reflexão, faz parte do tripé de ensino da área de Arte. Áudrea fez por merecer o título de Educadora Nota 10 do Prêmio Victor Civita de 2009 porque impulsionou os estudantes a questionarem o que é música, a refletirem sobre sua linguagem e a experimentarem possibilidades como compositores. "A maioria dos professores se atém às atividades de apreciação e reprodução", diz Paulo Nin Ferreira, coordenador da área de Arte do Colégio I. L. Peretz, na capital paulista, e selecionador do Prêmio. Definir o que é música não é algo simples. Além de ter um conceito amplo, trata-se de um elemento tão presente no cotidiano das pessoas que suas opiniões são moldadas com base em gostos e, o que é diferente, pode ser tratado de forma preconceituosa. Saber o que o grupo pensa a esse respeito é um ponto importante a ser dissecado, principalmente para haver uma decisão com relação aos rumos do trabalho. Áudrea, por exemplo, percebeu que algumas definições dadas pelos alunos, como "música tem que ter ritmo definido", eram referentes aos padrões de experiências sonoras que eles tinham. Aprender e refletir para saber como pensar musicalmente A apreciação musical pode ser usada em sala não só para enriquecer o repertório da garotada. Atividades dessa natureza também são úteis para revelar que existem maneiras diversas de organizar os sons e usar os instrumentos e que um compositor pode manipulá-los de acordo com a sua intencionalidade. UNIDADE 1 | TÉCNICAS INTERPRETATIVAS PARA FLAUTA DOCE 56 Nessa perspectiva, a seleção musical tem de contemplar diversas categorias (como música eletrônica, erudita, concreta e aleatória) e estilos musicais (como pop, rock, jazz, funk, soul e blues) e priorizar o que os alunos não estão acostumados a ouvir. É preciso apresentar novos parâmetros para que eles façam releituras e selecionem ou modifiquem suas ideias musicais para também podê-las usar em suas composições. Áudrea investiu em músicas classificadas como aleatórias, da categoria erudita contemporânea, para mostrar ao grupo que, no caso, nem todos os elementos são controlados pelo próprio compositor. Com o repertório ampliado, a atividade de composição se torna, naturalmente, um passo possível e necessário. Ainda, é normal que os alunos sem habilidades técnicas em instrumentos se sintam acanhados na hora de compor. O mesmo se aplica aos educadores. A boa notícia é que é possível dar conta do trabalho com criatividade mesmo sem esses conhecimentos. Basta pensar que os sons não precisam se restringir às notas tiradas de instrumentos. Em vez disso, é possível propor aos estudantes que coletem sons, como o de uma flauta soprada, sem que os dedos estejam posicionados sobre os orifícios e os ruídos do ambiente (a batida de uma porta, por exemplo). Com isso, o conceito de música é ampliado e, por causa da apreciação e reflexão prévias, as crianças já saberão que compor vai muito além das formas tradicionais com que normalmente temos contato e se sentirão muito mais livres para experimentar. Composição com propriedade Mestre em Educação com Pesquisa em Educação Musical, Áudrea da Costa Martins, 35 anos, professora na EMEF São João Batista, em São Leopoldo, sabe que refletir sobre a prática cotidiana faz toda a diferença na sala de aula. Para ensinar música de verdade na escola, pesquisou como se dá o processo de composição de crianças e jovens e quais as ferramentas necessárias para que eles tenham condições reais de criar com autonomia e criatividade. Objetivo A educadora queria que os estudantes de 5º e 6ª séries ampliassem o conceito que tinham de música e o repertório, a fim de que pudessem ter o embasamento necessário para compor livres de preconceitos. Áudrea também pretendia que eles percebessem que uma composição vai além do que é veiculado pela mídia e que fizessem releituras, explorando novas ideias. Passo a passo A preocupação inicial de Áudrea foi descobrir o que os estudantes entendiam por música. Com base nas respostas, a professora problematizou o assunto, questionando as definições dadas, e propôs que compusessem, tal como fazem os profissionais. TÓPICO 3 | PRÁTICA DE CONJUNTO 57 Apresentou obras contemporâneas para a apreciação e reflexão, propôs releituras e a exploração de instrumentos musicais de maneira incomum para que os alunos percebessem que sons diferentes também podem originar músicas. Para fazer com que a turma criasse de verdade, ensinou como lidar com um software livre de edição sonora. No encerramento do projeto, um compositor local foi convidado a desenvolver uma música com os estudantes e o resultado foi apresentado para a comunidade escolar. Avaliação Depois de cada apreciação, Áudrea pedia aos alunos que escrevessem no caderno suas reflexões sobre as músicas. Ela analisou se eles conseguiam identificar os instrumentos utilizados, de que forma o ritmo mudava, as sensações provocadas e se tinham posturas críticas em relação às obras. Elafilmou todo o processo de composição realizado pelo grupo, analisando as criações, sem deixar de considerar o percurso e a evolução da garotada. Os próprios estudantes também avaliaram o material, tendo alguns critérios, como a variação de ritmo dentro da música, a intencionalidade dos autores ao produzi-la e a variedade de ideias usadas para organizar as composições. A intencionalidade é a premissa para compor É consenso entre os especialistas da área que ensinar a música na escola somente para que os alunos aprendam a tocar os instrumentos é um equívoco. É preciso enxergá-la como arte, dando importância às sensações que o autor quis provocar nas pessoas e as que elas sentiram. Então, é fundamental ajudar a turma a compreender que o processo de criação deve ser intencional: o professor deve discutir e estabelecer temas para as composições com a garotada. Se o escolhido envolver suspense, por exemplo, é importante que o grupo reflita respondendo a perguntas como "Os sons curtos dão a sensação de que algo está prestes a ocorrer?" e "O silêncio no meio da música pode provocar medo?". É essencial que o professor questione as justificativas para as escolhas e incentive os alunos a debatê-las coletivamente. No entanto, para avaliar as produções, ele jamais deve levar em consideração apenas a composição em si, como um produto isolado da aprendizagem. O desenvolvimento do pensamento musical de cada estudante e o modo como ele se apropriou da linguagem são importantes. Afinal, a escola não tem de almejar a formação de músicos, mas livrar os alunos de entraves que os impeçam de sentir as melodias. FONTE: MARTINS, Ana Rita. Formando bravos compositores. 2019. Disponível em: https:// novaescola.org.br/conteudo/1037/formando-bravos-compositores. Acesso em: 19 jul. 2019. 58 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Na contemporaneidade, a versatilidade da flauta doce, principalmente pelo timbre e extensão se assemelharem à voz humana, permite entoar, praticamente, qualquer estilo, ampliando sua possibilidade interpretativa em conjunto e propiciando, aos instrumentistas, professores e alunos, a pesquisa de sonoridades de acordo com o efeito desejado. • O acompanhamento percussivo pode motivar, de forma satisfatória, alunos e intérpretes, mesmo que só marcando o tempo. A prática de conjunto pode proporcionar o treino polifônico, ampliando as possibilidades de estudo dos elementos musicais. • Na contemporaneidade, a produção musical para flauta doce apresenta um leque de possibilidades para o instrumento, em uma linha desprendendo-se do período clássico e trazendo experiências musicais inesperadas. Oferecer isso a professores e alunos de flauta doce é um caminho para desenvolver uma visão menos estereotipada do instrumento, possibilitando explorá-lo sem conceitos predefinidos. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 59 1 Entender a criança, levando em consideração seu desenvolvimento, demandas e estabelecendo uma relação com a arte, é essencial, tanto para a criação de conteúdo próprio quanto para a prática de ensino, estimulando a descoberta e a autonomia no fazer musical. Considerando as leituras e reflexões do tópico flauta doce e canções infantis, disserte sobre as questões que devem ser levadas em consideração na definição de um repertório musical infantil. 2 Do ponto de vista didático, a melodia a seguir pode ser utilizada como uma excelente estratégia no processo inicial de prática instrumental. Algumas características da melodia justificam essa afirmação: I- As notas musicais são apresentadas nas sequências ascendente e descendente. II- É uma ótima canção para memorizar a localização das notas na pauta. III- Traz a escala de dó, em que cada início de frase reforça o caráter da nota que inicia o compasso. IV- É uma melodia composta para um espetáculo musical de flauta doce na década de 1970. AUTOATIVIDADE Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As sentenças II e III estão corretas. b) ( ) As sentenças I e IV estão corretas. c) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas. d) ( ) Somente a sentença IV está correta. 60 61 UNIDADE 2 PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • explorar diferentes possibilidades composicionais utilizando a flauta doce; • aprofundar conceitos referentes à aprendizagem significativa, à memori- zação e à improvisação; • conhecer as formas de construção de escalas melódicas e harmônicas com a flauta doce; • explorar melodias tradicionais de diferentes regiões do mundo, utilizando as flautas soprano e contralto. Esta unidade está dividida em três tópicos. Cada tópico, por meio de uma série de estudos melódicos e canções tradicionais, abordará os seguintes temas: TÓPICO 1 – EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS TÓPICO 2 – DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE TÓPICO 3 – REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 62 63 TÓPICO 1 EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Para tratar das possibilidades composicionais com flauta doce, consideramos muito importante retomar alguns conceitos fundamentais estudados em teoria musical. Com base nessas informações, a prática de flauta doce se tornará menos desafiadora e mais significativa: ao interpretar as melodias sugeridas, você fixará melhor muitos conceitos abstratos, próprios da linguagem musical. O processo de alfabetização musical só se completa quando, além de ler e tocar, você também consiga escrever. Assim, os conteúdos deste tópico apresentam um conjunto de informações que pode ajudar você e seus colegas a escreverem as próprias melodias para flauta doce. Convidamos você, caro acadêmico, para uma imersão no mundo da música por meio de estudos e pesquisas pessoais para que possamos aprofundar as informações sobre flauta doce, música e educação apresentadas neste tópico. Lembrando que muita coisa está disponível na internet por meio de sites, blogs ou portais educacionais. Aproveite a nova era de socialização do conhecimento para ampliar os seus horizontes. 2 ENTENDENDO O PROCESSO DE TRANSPOSIÇÃO Transposição, em música, é um termo utilizado para indicar que a melodia ou trecho musical será executado em uma altura diferente da proposta original. Observe o exemplo a seguir: UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 64 FIGURA 1 – MELODIA O CRAVO BRIGOU COM A ROSA FONTE: Os autores Digamos que você queira transpor essa melodia para uma Terça Maior Acima (2 TONS). Para isso, basta elevar cada uma das notas do exemplo dois tons acima, ou seja, a primeira nota da sequência é a nota SOL. Com os dois tons acima, teremos a nota SI. Fazendo o mesmo com todas as notas, haverá a seguinte sequência: FIGURA 2 – MELODIA O CRAVO BRIGOU COM A ROSA - UMA TERÇA ACIMA FONTE: Os autores Note que, pensar dessa forma, é mais trabalhoso, pois será preciso pensar em nota por nota para fazer a transposição musical de todo trecho. Com o uso da Armadura de Clave, será mais fácil e prático. Observe: FIGURA 3 – FRAGMENTO DA MELODIA O CRAVO BRIGOU COM A ROSA FONTE: Os autores TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 65 FIGURA 4 – MELODIA O CRAVO BRIGOU COM A ROSA EM MI A Figura 3 apresenta um trecho da melodia original que está na tonalidade de Dó Maior. Ao transportar uma terça maior acima (2 tons acima), a melodia irá para a tonalidade de Mi Maior, portanto, a armadura de clave apresentará quatro sustenidos: as notas FÁ, DÓ, SOL e RÉ. Assim,será mais fácil a transposição das notas, pois as modificações necessárias já estarão previstas na armadura de clave. Adquirir fluência em transposição é algo que exigirá dedicação, paciência e prática, contudo, algumas dicas poderão ajudar: comece transpondo melodias simples, depois, faça uma leitura cantada das notas na partitura ou toque-as para conferir se a melodia está correta. FONTE: Os autores Transpor uma música de uma tonalidade para outra requer uma base de teoria musical. De fato, o conhecimento dos intervalos e das armaduras de clave, ou seja, das tonalidades, constitui uma ferramenta importante. A armadura de clave indica quais notas devem ser alteradas em todas as oitavas da partitura inteira ou de um determinado trecho musical. Para saber mais sobre o assunto, que tal consultar o post “O mínimo que você precisa saber sobre armadura de clave”? FONTE: <https://teoriamusicalemfoco.com.br/ armadura-de-clave/>. Acesso em: 10 jul. 2019. DICAS O sustenido é representado pelo símbolo "#". Quando dizemos que uma nota é sustenida, significa que ela está a meio tom acima. Exemplo: RE# está meio tom acima de RE. Do mesmo modo, o bemol é a menor distância entre duas notas musicais, sendo representado pelo símbolo "b". Quando a nota é bemol, está a meio tom abaixo. Exemplo: REb está meio tom abaixo de RE, e REb também pode ser chamado de DO#. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 66 FIGURA 5 – DIAGRAMA DE DEDILHADO SUSTENIDOS E BEMÓIS – FLAUTA DOCE SOPRANO (REGISTRO GRAVE) FONTE: Os autores FIGURA 6 – SUSTENIDOS E BEMÓIS - FLAUTA DOCE SOPRANO (REGISTROS MEDIANO E AGUDO) FONTE: Os autores É importante lembrar que, para uma mesma nota, podemos dar dois nomes diferentes, ou seja, o REb também pode ser chamado de DO#. Existe, portanto, uma equivalência das notas bemóis e sustenidas. DO# pode ser chamado de REb RE# pode ser chamado de MIb FA# pode ser chamado de SOLb SOL# pode ser chamado de LAb TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 67 Para conhecer um pouco mais das equivalências entre bemóis e sustenidos, você pode consultar o site a seguir. FONTE: <https://www.joanir.com/2018/03/notas-da- flauta-doce-soprano-barroca.html>. Acesso em: 10 jul. 2019. DICAS Que tal praticar um pouco, estudando algumas melodias com bemóis e sustenidos? Na sequência, apresentaremos alguns trechos melódicos para ajudarmos você e seus colegas na memorização de novas posições na flauta doce soprano. Realize os exercícios preparatórios com calma e com certa regularidade, sempre observando a posição correta dos dedos para digitação, além da adequada postura corporal. Bons estudos! FIGURA 7 – CIRANDA, CIRANDINHA FONTE: Os autores Essa melodia, conforme a armadura de clave, está na tonalidade de FÁ maior e pode ser tocada com a flauta doce soprano. A posição de SIb ou Lá#, também conhecida como forquilha, exigirá um pouco mais de atenção durante o dedilhado para que a nota soe de maneira afinada. FIGURA 8 – DIGITAÇÃO PARA SIB FONTE: Os autores UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 68 A próxima melodia é um exercício para ser executado com duas vozes, utilizando flautas soprano. A melodia, muito conhecida, é valorizada com um arranjo dinâmico e singelo. Originalmente, o arranjo é para três vozes. Por questões didáticas, omitimos a terceira voz. Se o grupo quiser enriquecer ainda mais a melodia, pode organizar uma terceira voz (Baixo) ou um acompanhamento rítmico. Antes de tocar a melodia, recomendamos uma leitura atenta, sem o instrumento. Para maior aproveitamento do tempo, cada grupo deverá estudar sua voz separadamente. Vamos praticar? FIGURA 9 – ARRANJO PARA DUAS VOZES ATIREI O PAU NO GATO FONTE: <http://profzhezinho.blogspot.com/2013/09/>. Acesso em: 15 set. 2019. 2.1 CONSTRUÇÃO MELÓDICA Antes de tratar da construção melódica, é importante retomar um conceito básico: o de melodia. Marcondes (2018) afirma que a melodia é algo próximo entre as partes que compõem o fazer musical que um leigo reconhece como música. Contudo, podemos definir a melodia como uma sucessão de alturas, compostas ou não por ritmo, estabelecendo um sentido musical. Por associação, é possível comparar a construção melódica com a elaboração de um discurso textual. Na música, o assunto principal do “discurso” pode ser chamado de motivo, ou seja, um fragmento recorrente ou uma sucessão de notas, estas que podem ser utilizadas para construir partes da melodia. TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 69 Um bom exemplo de motivo musical pode ser observado no primeiro andamento da quinta Sinfonia de Beethoven. Note que o motivo se repete ao longo do movimento, sofrendo algumas pequenas variações, mas sem se distanciar muito da ideia principal. Beethoven compôs suas obras musicais eruditas na liberdade, quebrando velhos paradigmas. O grande gênio da música clássica erudita, Ludwig van Beethoven, nasceu na cidade de Bonn, em 1770, e faleceu em 1827, aos 56, em Viena. Um dos grandes compositores do estilo musical erudito, escrevia suas composições, abrindo novos horizontes para a música erudita. Ouça essa maravilhosa composição! FONTE: <https:// youtu.be/yes8YOQnVQQ>. Acesso em: 2 jun. 2019. DICAS Fonte: disponível em greenvillesymphony.org Quando um texto é elaborado, é preciso observar o emprego correto da língua padrão, além das regras gramaticais e de pontuação, para que a mensagem seja compreendida. Do mesmo modo, na música, devem ser unidas as notas em pequenos grupos para, então, ser formada uma ideia musical completa: a frase. A forma como as frases estão dispostas ao longo da música é chamada de fraseado. A frase musical é uma unidade desenvolvida geralmente ao longo de oito compassos, dependendo da escrita do compositor. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 70 Um exemplo interessante de fraseado musical é a melodia Ode a Alegria, de Beethoven. Note que as frases foram separadas por uma vírgula (’), colocadas no fim de cada compasso. Esse sinal também indica o momento no qual o flautista deve respirar para retomar a frase seguinte. Que tal ouvi-la e depois tocar com os colegas de sala? FONTE: <https://youtu.be/oK3iEZEUmVk>. Acesso em: 10 jul. 2019. DICAS FONTE: Os autores Ode a Alegria é o quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven e foi inspirado no poema homônimo do dramaturgo alemão Friedrich von Schiller (1759-1805), um dos precursores do romantismo na literatura. Os versos originais de Friedrich Schiller exaltavam a liberdade individual e a fraternidade universal. A opressão sofrida por Schiller na adolescência acabaria tendo influência em sua obra, repleta de protestos contra a desigualdade social e a corrupção. A continuação desses elementos, ou a repetição, é o que dará forma ao período ou à sentença, e “uma repetição imediata é a solução mais simples e mais característica da estrutura da sentença” (SCHOENBERG, 1993, p. 48). O elemento com que se inicia pode ser repetido diretamente após a exposição inicial, literal ou ligeiramente variado ou transposto, sendo o desenvolvimento seguinte o responsável por moldar a forma da sequência. Na construção melódica, é importante incorporar algum grau de repetição para que a ideia principal fique evidente para o ouvinte. Do contrário, quando cada elemento de uma melodia não tem relação, a música se torna aleatória e, às vezes, confusa, por isso, uma boa maneira de começar a compor uma melodia é criando um motivo. Assim, agrupamos certas ideias em motivos e os repetimos dentro de uma estrutura. Na canção, simplificadamente, podemos dizer que, geralmente, TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 71 a estrutura ou forma mais comum é: introdução – estrofe – refrão – estrofe – refrão. Em uma composição instrumental, via de regra, encontramos dois ou mais motivos que são repetidos com certa variação, como observado nos exemploscitados neste tópico. Na construção melódica, o motivo utilizado deve sofrer variações para que a música seja interessante ou atrativa. Essas variações podem ser rítmicas, intervalares, melódicas ou harmônicas. Rítmicas: modificando a duração das notas, repetindo algumas delas, acrescentando contratempos ou modificando a fórmula de compasso. Intervalares: modificando a ordem ou direção original das notas, acrescentando ou omitindo intervalos etc. Harmônicas: usando inversões dos acordes, ou seja, colocando a nota mais grave em notas que não sejam a tônica do acorde ou acrescentando novos acordes. Melódicas: transpondo a melodia para outros graus, por exemplo, se começa em dó, experimente fazer a mesma coisa começando em lá, mas mantendo as notas na mesma escala. O processo de construção melódica é um exercício de criatividade e paciência, portanto, somente com uma prática regular serão alcançados resultados mais efetivos. Contudo, segue uma sugestão de estudos que poderá ajudar no percurso. Na seleção, utilizaremos os intervalos de terças e os estudos podem ser executados tanto na flauta doce soprano como na contralto. Uma mesma frase pode ser executada de diferentes maneiras, ampliando, ainda mais, as variações e formas para ser obtido um bom resultado. Toque as notas, variando as articulações, ritmo e tempo. Outra dica importante é utilizar o metrônomo durante os estudos. Estudo 1 FIGURA 10 – ESTUDO DE TERÇAS FONTE: <https://ciframelodica.com.br/musicas/teoria-musical-exercicios-de-improvisacao-e- padroes-musicais-4294/>. Acesso em: 10 jul. 2019. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 72 Estudo 2 FIGURA 11 – ESTUDO DE TERÇAS FONTE: <https://ciframelodica.com.br/musicas/teoria-musical-exercicios-de-improvisacao-e- padroes-musicais-4294/>. Acesso em: 10 jul. 2019. Estudo 3 FIGURA 12 – ESTUDO DE TERÇAS FONTE: <https://ciframelodica.com.br/musicas/teoria-musical-exercicios-de-improvisacao-e- padroes-musicais-4294/>. Acesso em: 10 jul. 2019. TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 73 São inúmeras as formas para executar estes exercícios. Na sequência, apresentaremos algumas possibilidades, tomando, como referência, um fragmento do Estudo 1. Lembrando que as orientações que seguem podem ser aplicadas aos Estudos 2 e 3. 1. Execute todas as notas, de forma direta, da primeira até a última nota: do mi re, re fa mi, mi sol fa. 2. Execute todas as notas, de forma inversa, da primeira até a última nota, invertendo a ordem das notas: re mi do, mi fa re, fa sol mi. 3. Execute as notas de modo conjugado, utilizando as formas direta e inversa: do mi re (re mi do), re fa mi (mi fa re), mi sol fa (fa sol mi). 4. Execute as notas de forma livre, criando um sentido musical, combinando todas as formas, apenas seguindo uma sequência mental. FONTE: Adaptado de <https://ciframelodica.com.br/musicas/teoria-musical-exercicios-de- improvisacao-e-padroes-musicais-4294/>. Acesso em: 10 jul. 2019. IMPORTANTE É recomendável que você, na medida do possível, memorize as notas da escala. Na medida em que você se familiariza com as possibilidades de execução das notas da escala, também será fácil criar os próprios “padrões musicais” e transformá-los em frases e motivos melódicos. 2.2 CONSTRUÇÃO HARMÔNICA Estudos de harmonia fazem parte de um vasto campo que pertence à Teoria Musical. De forma geral, podemos dizer que estudar harmonia significa entender a formação dos acordes, sua relação entre si e com as escalas musicais. A harmonia pode ser comparada à “gramática“, pois graças a ela temos regras que organizam e orientam os estudos na área de música, tanto para composição como improvisação. Conhecendo a gramática de uma língua, você pode escrever diferentes tipos de textos. Ainda, ao conhecer a harmonia, poderá ler, escrever e se expressar musicalmente. A harmonia é a base de tudo. A chave para compreender a harmonia é ter uma boa base de teoria musical, principalmente de conceitos fundamentais, como intervalos, formas, ritmo e formação de acordes. Essas questões não serão tratadas neste material, por ser um conteúdo específico da disciplina de Teoria Musical, mas fica a sugestão de retomar essas informações, consultando materiais de apoio e/ou por meio de estudos e pesquisas pessoais. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 74 O ponto de partida para compreender melhor músicas do ponto de vista harmônico é ter os campos harmônicos maiores e menores bem memorizados. Existem centenas de materiais disponíveis na web que exibem essas relações de forma didática. IMPORTANTE FONTE: <https://www.humbertopiccolicom/ single-post/2016/08/03/Estudar-Harmonia>. Acesso em: 29 nov. 2019. Portanto, qualquer exercício de escala, acordes e arpejos que você faça, para facilitar o seu entendimento do campo harmônico, servirá muito bem. O campo harmônico é tudo o que você precisa saber sobre harmonia. Contudo, é preciso sabê-lo muito bem. Por isso, seu esforço deve estar focado em memorizar os acordes e intervalos de cada campo harmônico em todas as tonalidades. É um trabalho infinito, que vai ficando cada vez mais simples na medida em que você memoriza uma nota ou acorde a mais. Comece pela escala maior de Dó. Entenda os intervalos entre cada nota, e memorize cada grau da escala. Depois, monte as tríades, superpondo terças em cada grau. Toque, cante, escreva e memorize cada acorde e sua respectiva relação com o grau da tonalidade. Adicione a sétima, toque no seu instrumento, repita tudo, e memorize. FONTE: Adaptado de <https://www.humbertopiccoli.com/single-post/2016/08/03/Estudar- Harmonia>. Acesso em: 10 jul. 2019. É preciso reconhecer a importância, no estudo de flauta doce, dos exercícios relacionados aos campos harmônicos. Campos harmônicos podem ser definidos como acordes formados a partir de uma escala. Estudá-los significa “enxergar” as partituras de forma vertical, além das cifras. Estudar os campos harmônicos aplicados à flauta doce amplia os horizontes e a percepção sonora dentro das melodias e músicas. O campo harmônico tem, como finalidade, mostrar a sequência de acordes que soará perfeitamente e as escalas para aplicação, definindo a tonalidade de uma música. Ao compor uma melodia, as notas musicais não podem ser dispostas de modo aleatório, exceto se a ação for intencional. Em geral, é preciso observar algumas regras para a combinação das notas na melodia e seus acordes. TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 75 Lembrando que as escalas musicais são sequências ordenadas de notas, e um acorde é a união de duas ou mais notas tocadas simultaneamente. Alguns acordes recebem o mesmo nome das notas, que são denominados de acordes naturais, pois são baseados nas Notas Naturais, ou seja, Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si. Assim, o campo harmônico natural está relacionado com uma sequência melódica de acordes naturais dentro da escala musical natural. Esse é o princípio do campo harmônico: associar a escala ao acorde. Usando como exemplo a escala de Dó maior, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, para cada nota dessa escala, montaremos um acorde. Portanto, teremos sete acordes que serão do campo harmônico de Dó maior. Para cada nota da escala, o acorde respectivo será formado utilizando o primeiro, o terceiro e o quinto grau. Começando com a nota Dó, o primeiro grau é o próprio Dó. O terceiro grau, contando a partir de Dó, é Mi. O quinto grau, contando a partir de Dó, é Sol. O primeiro acorde do campo harmônico de dó maior é formado, então, pelas notas Dó, Mi e Sol. QUADRO 1 – ACORDES DO CAMPO HARMÔNICO DÓ MAIOR Nota da escala 1º Grau 3º Grau 5º Grau Acorde resultante Dó Dó Mi Sol Dó Maior (C) Ré Ré Fá Lá Ré menor Dm) Mi Mi Sol Si Mi menor (Em) Fá Fá Lá Dó Fá Maior (F) Sol Sol Si Ré Sol Maior (G) Lá Lá Dó Mi Lá menor (Am) Si Si Ré Fá Si menor (Bm) FONTE: Os autores Perceba que os acordes do campo harmônico foram montados pensando nas tríades,ou seja, nos acordes formados por três notas distintas e utilizando somente as notas que aparecem na escala de dó maior. O acorde que resultar da tríade pode ser maior ou menor. Assim, observa-se a terça de cada acorde, ou seja, a segunda nota do acorde. Basicamente, se uma música contém os acordes do campo harmônico maior de dó, significa que a música está em dó maior. Portanto, conhecer os campos harmônicos permite que saibamos as notas que podem ser usadas para a criação de arranjos, solos e improvisos em uma determinada música. Na sequência deste tópico, apresentaremos estudos técnicos importantes relacionados aos campos harmônicos baseados em escalas e intervalos. Convém ressaltar que os estudos de técnica são elementos fundamentais para a performance em flauta doce, tratando, sobretudo, do desenvolvimento técnico- motor do flautista. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 76 Ao executar os estudos, esteja atento à sonoridade, sopro e afinação. Cuide da postura corporal, posição correta das mãos e respiração. Inicie os estudos das escalas lentamente e, na medida em que for adquirindo mais segurança, aumente a velocidade, lembrando que o uso do metrônomo durante os estudos é sempre recomendável. FIGURA 13 – ESTUDO 01 – DÓ MAIOR (C) FONTE: Os autores FIGURA 14 – ESTUDO 02 – SOL MAIOR (G) FONTE: Os autores FIGURA 15 – ESTUDO 03 – RÉ MAIOR (D) FONTE: Os autores TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 77 Para realizar as posições sustenido e bemol indicadas na armadura de clave, consulte o quadro com as posições para flauta doce soprano. NOTA FIGURA 16 – ESTUDO 04 – FÁ MAIOR (F) FONTE: Os autores FIGURA 17 – ESTUDO 05 – INTERVALOS MAIORES FONTE: Os autores No Estudo 05, observe que a melodia muda de tonalidade a cada dois compassos. Esteja atento à indicação da armadura de clave para a execução correta das notas da melodia. Pratique com calma e, se preferir, de dois em dois compassos, quatro em quatro, e assim por diante. O mais importante é primar pela sonoridade e execução corretas das notas. A velocidade é a última coisa que deve ser trabalhada no estudo. ATENCAO UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 78 Uma estratégia interessante de estudo é selecionar um repertório para tocar com os colegas do curso. Na sequência, sugerimos uma peça cujo arranjo didático pode ajudar. Ainda, é importante visualizar os conceitos tratados neste tópico: motivos, frases, melodia, campo harmônico e acordes. Essa peça está harmonizada para duas vozes: flauta 1: flauta doce soprano e flauta 2: flauta doce contralto. No estudo, o ideal é que as vozes sejam executadas separadamente e, depois, em grupo. Primeiramente, faça uma leitura de toda a partitura sem o instrumento, apenas falando as notas, conforme o ritmo indicado. É o que chamamos de leitura métrica. Após a leitura métrica, solfeje as notas. O solfejo nada mais é que uma forma de treino que se desenvolve com o objetivo de aprender a entoar as notas musicais enquanto se lê uma partitura. Dessa forma, não só se pratica a entoação, como também se ganha destreza para ler partituras de forma mais rápida. O diagrama de notas é uma solução gráfica que facilita a compreensão das posições na flauta doce. A seguir, podemos observar as principais posições da flauta doce contralto. Utilize-as para consultar as notas quando for realizar os exercícios deste livro didático, caso seja necessário. NOTA DIAGRAMA DE DEDILHADO PARA FLAUTA DOCE CONTRALTO FIGURA 18 – DIGITAÇÃO - FLAUTA DOCE CONTRALTO TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 79 FONTE: <https://www.yamaha.com/en/musical_instrument_guide/recorder/play/play002.html>. Acesso em: 19 jul. 2019. Na melodia, é proposto um dueto para a flauta doce contralto. Note que, a partir do compasso dez (10), a flauta 2 apresenta uma melodia diferente da flauta 1. Outro ponto importante a ser observado é a nota SI, que nesta melodia é bemol. Alecrim Dourado é uma cantiga de ninar infantil muito popular em diferentes regiões do Brasil. Originalmente, Alecrim Dourado é uma versão da canção folclórica portuguesa “Alecrim aos Molhos”. A música possui estrutura simples, com apenas duas estrofes que se repetem. Para conhecer e ouvir a versão original, acesse o vídeo a seguir. FONTE: <https://youtu.be/XAQH40G5zhw>. Acesso em: 15 set. 2019. DICAS UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 80 FIGURA 19 – ALECRIM DOURADO FONTE: <http://grupoflauteando.blogspot.com/2016/11/partitura-alecrim-dourado-folclore-para.html>. Acesso em: 10 jul. 2019. TÓPICO 1 | EXPLORAÇÃO DE POSSIBILIDADES COMPOSICIONAIS 81 2.3 ESCALAS PENTATÔNICAS A escala pentatônica, como o próprio nome já diz, é formada por cinco notas musicais, por isso, o termo “penta”. A escala pentatônica pode ser maior ou menor. A pentatônica maior contém 5 notas da escala maior, e a pentatônica menor contém 5 notas da escala menor. A escala pentatônica maior, mais usada, é aquela derivada da escala maior, ou seja, para montarmos a escala pentatônica maior em Dó (C), utilizaremos somente as notas: Dó, Ré, Mi, Sol e Lá. Repare que, com as notas Fá e Si, respectivamente, o 4º e o 7º graus da escala foram suprimidos. Para melhor visualizar a formação das escalas pentatônicas maiores, observe o quadro a seguir: QUADRO 2 – CONSTRUÇÃO DA ESCALA PENTATÔNICA MAIOR I II III V VI 1 DO RE MI SOL LA 2 RE MI FA#/ SOLb LA SI 3 MI FA#/ SOLb SOL#/LAb SI DO#/ REb 4 FA SOL LA DO RE 5 SOL LA SI RE MI 6 LA SI DO#/ REb MI FA#/ SOLb 7 SI DO#/ REb RE#/ Mib FA#/ SOLb SOL#/LAb FONTE: Os autores Nas colunas horizontais, estão as notas da escala natural (sem os sustenidos ou bemóis). Nas colunas verticais, foram mantidos os graus referentes à escala pentatônica, ou seja, I, II, III, V e VI graus. O mesmo raciocínio feito para a construção da escala pentatônica maior pode ser utilizado para construir a pentatônica menor, que é baseada na escala menor natural, porém sem o 2º e o 6º graus. QUADRO 3 – CONSTRUÇÃO DA ESCALA PENTATÔNICA MENOR I III IV V VII 1 DO RE#/MIb FA SOL LA#/SIb 2 RE FA SOL LA DO 3 MI SOL LA SI RE 4 FA SOL#/LAb LA#/SIb DO RE#/MIb 5 SOL LA#/SIb DO RE FA 6 LA DO RE MI SOL 7 SI RE MI FA#/ SOLb LA FONTE: Os autores UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 82 As notas da escala pentatônica podem ser tocadas em qualquer ordem e sempre ocasionarão uma sonoridade interessante. Que tal praticar com os colegas de turma? Na sequência, apresentamos uma melodia muito bonita, que pode se enriquecida com o acréscimo de uma segunda voz ou com o acompanhamento com um instrumento harmônico, teclado, violão etc. FIGURA 20 – MELODIA CHINESA FONTE: <https://tocapartituras.org/partitura>. Acesso em: 10 jul. 2019. Quando tratamos do assunto “pentatônica”, muitas questões surgem, instigando nossa curiosidade para saber mais a respeito de sua origem, suas aplicações e, principalmente, suas transformações no decorrer dos milênios de produção musical. Nos livros de história da música, encontramos as definições tradicionais, que remetem ao mundo oriental e ao continente africano, assim como à maioria das mais remotas civilizações. Leia mais sobre o assunto, explorando o texto: GEKAS, P. D. Percorrendo o enigma dos cinco sons: o uso da escala pentatônica na música ocidental. 2019. Disponível em: <http:// www.periodicos.udesc.br/index.php/linhas/article/view/1302>. Acesso em: 15 jul. 2019. DICAS 83 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • Adquirir fluência em transposição é algo que exige dedicação, paciência e prática, contudo, algumas dicas poderão ajudar: comece transpondo melodias simples. Depois, faça uma leitura cantada das notas na partitura ou toque-as para conferir se a melodia está correta. • O sustenido é representado pelo símbolo "#". Quando dizemos que uma nota é sustenida, significa que ela está a meio tom acima. Exemplo:RE# está meio tom acima de RE. Do mesmo modo, o bemol é a menor distância entre duas notas musicais, sendo representado pelo símbolo "b". Quando uma nota é bemol, ela está meio tom abaixo. • Na música, o assunto principal do “discurso” pode ser chamado de motivo, ou seja, um fragmento recorrente ou uma sucessão de notas que pode ser utilizado para construir partes da melodia. • Na construção melódica, é importante incorporar algum grau de repetição para que a ideia principal fique evidente para o ouvinte. Do contrário, quando cada elemento de uma melodia não tem relação entre si, a música se torna aleatória e, às vezes, confusa. Assim, uma boa maneira de começar a compor uma melodia é criando um motivo. • Estudar harmonia significa entender a formação dos acordes, sua relação entre si e com as escalas musicais. A harmonia pode ser comparada à “gramática“, pois graças a ela temos regras que organizam e orientam os estudos na área de música, tanto para composição como improvisação. 84 AUTOATIVIDADE 1 Transposição, na música, é um termo utilizado para indicar que a melodia ou trecho musical será executado em uma altura diferente da proposta original. Considerando a questão, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O conhecimento de intervalos e a armadura de clave são ferramentas importantes para realizar transposição melódica com facilidade. b) ( ) Mudar a tonalidade de uma melodia ou transpor é um procedimento simples e dispensa qualquer conhecimento de música ou teoria musical. c) ( ) Ao transpor uma melodia em DÓ Maior para dois tons acima na escala musical, a melodia irá para a tonalidade de FÁ Maior. 2 Marcondes (2018) afirma que a melodia é algo próximo entre as partes que compõem o fazer musical, ou seja, podemos defini-la como uma sucessão de alturas, compostas ou não por um ritmo, estabelecendo sentido musical. Considerando os estudos pessoais e as informações do Tópico 1 deste livro, sobre construções melódicas, explique a analogia estabelecida entre construção melódica e discurso textual. 85 TÓPICO 2 DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A aprendizagem significativa tomou forma em meados da década de 1960, a partir do teórico americano David Ausubel. Na época, as técnicas comportamentais de ensino eram via de regra, sendo reforçadas por recompensa (ou punição), de acordo com os resultados apresentados pelos alunos. Na contramão do viés, Ausubel questionou a eficácia dos métodos em voga para a absorção a longo prazo do ensinamento, e afirmou que uma “teoria da aprendizagem significativa” otimizaria a aquisição do conhecimento. Outros autores contribuíram para a abordagem, rompendo a barreira da verticalização do ensino e agregando outros valores, como o sociocultural, à aprendizagem. Neste tópico, estudaremos o desenvolvimento de habilidades para a execução instrumental de memória e improvisação. No contexto, concepções de ensino precisam ser revisitadas, como a de aprendizagem significativa, verificando as possíveis contribuições para o processo de ensino e aprendizagem de flauta doce. 2 TEORIA DA APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA De acordo com Ausubel, ao utilizarmos o processo de aprendizagem significativa, procuramos introduzir as novas informações, sempre as relacionando a um conhecimento previamente existente. Desse modo, os ensinamentos serão ancorados a conceitos preexistentes, disponíveis de forma plástica ao indivíduo que está aprendendo. Além disso, a aprendizagem não é, de modo algum, estática. Os novos conhecimentos, ao serem agregados a conhecimentos anteriores (subsunçores), são modificados por eles e também os alteram, em uma interação que envolve assimilação em via de mão dupla. Esse processo é uma contraposição à UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 86 aprendizagem mecânica: os conhecimentos são apenas recebidos com pouca interpretação, processo que conhecemos como “decoreba”. Não que esse tipo de aprendizagem aconteça sem nenhum vínculo, ou que não tenha valor, pois todo processo de aprendizagem é múltiplo, mas é esse processo que caracteriza a aprendizagem mecânica. David Paul Ausubel (1918 - 2008) nasceu em Nova York. Filho de imigrantes judeus, passou por dificuldades escolares por não ter seu histórico pessoal considerado e, daí, adveio seu interesse na aprendizagem, considerando o contexto sociocultural do aluno. Formado em Psicologia (1939) e em Medicina (1943), concluiu seu mestrado e doutorado em Psicologia do Desenvolvimento no ano de 1950, pela Universidade de Columbia. FONTE: <https://novaescola.org.br/conteudo/262/david-ausubel-e-a-aprendizagem- significativa>. Acesso em: 11 jul. 2019. Há momentos em que a aprendizagem mecânica se faz necessária. Trazendo para a realidade desta unidade, ao aprender as posições das mãos na flauta, é necessário memorizá-las, sem vincular, necessariamente, a um conhecimento prévio. Pode-se inferir que o aluno já possua bagagem musical e conheça o sistema de notação, além de saber a teoria que envolve a flauta, mas é preciso memorizar o posicionamento dos dedos. Com a prática do instrumento, associação da leitura de partitura e solfejo, o aprendizado mecânico é agregado ao indivíduo, tornando-se “subsunçor” e servindo como base ao desenvolvimento do aprendizado da flauta. Assim, as aprendizagens, mesmo que tenham objetivos diferentes, complementam-se. Segundo Ausubel, há duas principais aprendizagens: por descoberta e por recepção. Na primeira, o conteúdo principal a ser aprendido deve ser desvendado, deduzido pelo aprendiz; enquanto que, na receptiva, ele o recebe em sua forma final. Contudo, nos dois modelos, é preciso levar em conta que a aprendizagem apenas será significativa se o conteúdo aprendido puder ser incorporado, de forma plástica, a um conhecimento preexistente. Dessa maneira, a nova informação deve ser potencialmente significativa (tendo um valor para o indivíduo) e, além disso, o aprendiz deve estar disposto a relacionar essa informação, de maneira não obrigatória, com seus conhecimentos subsunçores, ancorando e incorporando a nova informação. TÓPICO 2 | DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE 87 Conforme os novos conhecimentos são agregados, são modificados e evoluem em um continuum, tanto os subsunçores quanto as novas abstrações. Segundo Ausubel, é nesse momento que ocorre a assimilação. Os conhecimentos basilares e os novos conceitos se fundem, sendo cada vez mais difícil distingui- los, até que se tornem um único produto, indissociável (um novo subsunçor que servirá de base para novos aprendizados). 2.1 APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA E JOSEPH NOVAK Joseph Novak, além de ser um bem-sucedido empresário, formou-se em Ciências e Matemática, em 1952, e concluiu seu Mestrado em Ciências da Educação (1954) e sua graduação em Biologia e Ciências da Educação, também na Universidade de Minnesota, em 1958. Desde 1998, ele é também pesquisador visitante na Universidade de West Florida, no departamento Institute for Human & Machine Cognition. FONTE: <http://psicod.org/joseph-donald-novak.html>. Acesso em: 11 set. 2019. Novak trouxe elementos novos à teoria da aprendizagem significativa. Para ele, o aprendizado não é meramente cognitivo, mas uma tríade de pensamento, sentimento e ação. Ao ensinar, que é uma ação do professor para o aluno, sempre há uma troca emocional e de informações, pensamentos. Para embasar, Novak ampliou os lugares-comuns de Joseph J. Schwab (1909 - 1988), em que qualquer educação envolve quatro elementos: aprendiz, professor, matéria de ensino e matriz social (ou contexto). Novak substituiu o termo “lugares-comuns” por elementos; preferiu o termo conhecimento ao invés de “matéria de ensino”; e acrescentou um ponto fundamental: a avaliação. Novak é reconhecido pela sua teoria de mapa conceitual, em que organiza e representa o conhecimento, fornecendouma ferramenta de percepção da aprendizagem que pode ser utilizada para identificar as relações entre todas as áreas envolvidas, não apenas na relação de aprendizagem, mas em qualquer área do conhecimento. Os cinco elementos principais e interdependentes de Novak são: aprendiz, professor, conhecimento, contexto e avaliação. O ponto principal explorado por ele é a subjetividade do indivíduo, além do quanto isso deve ser levado em consideração ao ensinar. A predisposição do aluno ao fazer as relações entre conceitos é, como dito anteriormente, elemento essencial para a aprendizagem significativa. Perceber, nas bases cultural e social do aluno, um caminho para a criação de vínculos sentimentais e cognitivos, é essencial. Para Campos: UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 88 Respeitar o universo cultural dos alunos e seus conhecimentos prévios exige, antes de tudo, conhecer os elementos e experiências que compõem esse universo. Se a prática pedagógica é condicionada por esse conhecimento, torna-se necessário considerá-lo como fundamental em uma abordagem de aprendizagem significativa (CAMPOS, 2006, p. 150). O elemento “contexto” é tão importante quanto todos os outros, e é nele que pode ser observada a bagagem sociocultural do aprendiz. Mais do que mero receptor de conhecimento, o aluno traz em si uma personalidade, vivências e experiências pessoais que devem ser consideradas no processo ensino- aprendizagem. 2.2 SWANWICK E O DISCURSO MUSICAL DOS ALUNOS A aprendizagem significativa tem, em seu cerne, a importância da troca, do continuum. Ela depende da disposição do aluno para fazer as referências e ancoragem de conhecimentos. Para isso, é importante levar em consideração a experiência de vida do aluno. Com relação à música, Swanwick (2003, p. 66-67) traz uma consideração importante para o conceito abordado: Cada aluno traz consigo um domínio de compreensão musical quando chega a nossas instituições educacionais. Não os introduzimos na música: eles são bem familiarizados com ela [...]. Temos que estar conscientes do desenvolvimento e da autonomia do aluno. Ao planejar uma aula, levando em consideração os gostos pessoais, a personalidade, as referências e experiências musicais do aluno, utilizando qualquer método pedagógico que seja, a possibilidade de se criar uma relação empática do aprendiz com o novo conhecimento é muito maior. O aprendiz estará mais disposto para vincular e ancorar as novas informações, pois há uma base familiar, íntima, que dá um caráter único ao aprendizado musical. É preciso estimular a expressão pessoal do aluno, para que este traga, ao professor, a miríade de informações que apenas ele tem. Essa exteriorização também agrega aprendizado ao docente, pois amplia seu olhar sobre as manifestações culturais, possibilitando visualizar novas possibilidades de ensino em uma troca de conhecimentos. Swanwick (2003, p. 68), igualmente, reforça a importância de estender espaço para a composição musical do aprendiz (atestando o improviso como composição), pois é a libertação e a impressão dos valores pessoais nos conceitos adquiridos em sala: TÓPICO 2 | DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE 89 A composição dá, ao aluno, uma oportunidade para trazer suas próprias ideias à microcultura da sala de aula, fundindo a educação formal com a "música de fora". Os professores, então, tornam-se conscientes não somente das tendências musicais dos alunos, mas também, até certo ponto, dos seus mundos social e pessoal. Reforçando essa percepção, vemos os três princípios que norteiam a abordagem de Swanwick: a consciência da capacidade do aluno de aprender o que é proposto; observar suas experiências pessoais, e em que isso pode contribuir ao ensinamento; e tornar o ensino um diálogo fluente entre professor e aprendiz, uma troca. 2.3 AVALIANDO A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA A consolidação de uma informação com um significado real para o aprendiz com ideias e percepções já existentes é o objetivo da aprendizagem significativa. Temos, além disso, conforme Novak, a avaliação como um dos elementos essenciais a ser observado. Como, então, atestar sua eficácia? A tradição comportamental nas avaliações, mesmo atualmente, sustenta o hábito no aluno de não apenas memorizar fórmulas, mas até mesmo respostas discursivas padrões, dificultando a avaliação de um conhecimento que foi realmente agregado pelo aprendiz. Para isso, torna-se necessária uma avaliação diferenciada, principalmente no que diz respeito à música, pelo caráter subjetivo que ela assume nas suas diversas nuances de aprendizagem. Nesse sentido, Swanwick (2003) traz quatro dimensões nas quais, além da avaliação, a crítica e análise musical podem se enquadrar: ● Material: reconhece e/ou identifica distinção entre timbres, intensidade, duração e altura, textura e colorido sonoro. ● Expressão: comunica e/ou analisa o gesto musical, movimento de frases musicais. ● Forma: demonstra relações estruturais, mudanças graduais ou súbitas e coloca a música num contexto estilístico. ● Valor: inerente a cada pessoa, é a grandeza cultural e o engajamento por determinados estilos de forma crítica e sistemática. Desse modo, é possível entender, na individualidade do aprendiz, em sua subjetividade de aprendizado e na sua relação com a música, o caminho para definir a avaliação. Esta deve levar em conta o conhecimento adquirido, os subsunçores existentes antes e depois das aulas, além da percepção individual. São elementos que devem ser mensurados, servindo de base para uma avaliação diferenciada. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 90 3 PRATICANDO A MEMORIZAÇÃO: UM PROCESSO GRADUAL E SOMATÓRIO Agora que já temos a noção de aprendizagem significativa, em que o novo conhecimento integra-se a um conhecimento preexistente (subsunçor), exploraremos as técnicas de memorização musical. Antes de tudo, é importante retomar a discussão acerca do aprendizado mecânico, em que a informação é recebida sem, necessariamente, estar conectada a uma ideia existente para servir de âncora. Ainda, é preciso mencionar que esse aprendizado não é oposto, muito menos excludente, ao aprendizado significativo. O processo de evolução cognitiva é múltiplo e variado, podendo ser explorado por diversos métodos que se complementam, possibilitando a otimização do ensinamento. Perceber a memorização como algo presente na música e entender a sua necessidade são passos importantes para desmistificar a imagem negativa que ela pode possuir aos estudantes e professores de música. Não vemos os cantores de ópera segurando a partitura no palco, ou membros de uma banda consultando os acordes durante um show. Ter em mente que a memorização e o entendimento musical se integram facilitará a discussão sobre o assunto. Afinal, memória sonora pode ser desenvolvida? Quando discutimos sobre memória sonora, há sempre uma impressão em segundo plano de que é um dom sobre o ouvido absoluto nato, ou a memorização é tida como uma habilidade sobrenatural. Contudo, é importante salientar que há níveis de memorização, e que ela pode, sim, ser estimulada pelos estudantes. O estudo Auditory and visual memory in musicians and nonmusicians (Memória sonora e visual em músicos e não músicos), da Universidade de Harvard (2011), desenvolveu uma série de testes sobre as memórias auditiva e visual, dividindo a amostragem entre músicos e não músicos. Enquanto a acuidade da memória visual era praticamente a mesma entre todos os sujeitos da pesquisa, a memória auditiva dos músicos tinha um desempenho superior à dos que não estudavam ou praticavam música (COHEN et al., 2011). A menção é reforçada pela teoria da aprendizagem significativa, em que os músicos, por conta das suas erudições sonora e musical, ampliam seus conhecimentos subsunçores, estimulando a relação empática nos conceitos sonoros e desenvolvendo a memória,adaptada não apenas à música, mas à percepção de sons. Portanto, a possibilidade de desenvolver a memorização musical, principalmente se associada ao aprendizado significativo dos conceitos musicais por meio de estudos sobre a percepção, análise e crítica, propicia a ampliação da base de conhecimento musical. TÓPICO 2 | DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE 91 3.1 CHUNKS, ESTUDO E MEMORIZAÇÃO MUSICAL Chunking é um termo utilizado pela psicologia cognitiva e refere- se, basicamente, ao processo em que a informação é dividida nas menores partes possíveis e, depois, reagrupada em unidades familiares, facilitando a memorização. Assim, “um chunk pode ser entendido como um conjunto de elementos relacionado entre si, mas relacionado de modo frágil com outros elementos que não pertencem a ele” (CAREGNATO, 2017, p. 7). Essa técnica é utilizada para memorização em geral, e nosso objetivo é perceber as possibilidades de sua aplicação musical e como desenvolvê-la. No caso da música, pode-se entender o chunk como uma célula rítmica, um ostinato simples ou, dependendo do indivíduo, algo mais complexo, como uma frase, um hipercompasso ou um tema musical. Ao mencionar “dependendo do indivíduo”, intenta-se levar em consideração seu conhecimento musical anterior, pois o chunk é delimitado de modo subjetivo, de acordo com cada pessoa e, no caso da música, todo conhecimento musical prévio pode oferecer um chunk mais complexo. Ao desenvolver estudos sobre teoria musical, o aprendiz adquire mais noção sobre intervalos, acordes e cadências, percebendo sua afluência em relação aos conceitos de arpejos, harmonia e contraponto. Desse modo, ao estudar uma peça, é natural que seja possível aglomerar os trechos musicais de maneira mais fácil e natural, entendendo toda a sua essência através dos conhecimentos significativos adquiridos com o estudo e com a prática musical. Fazendo um paralelo entre a memorização sem significado e a analítica, Caregnato (2017, p. 10-11) relata: A memória bruta, como afirmam Piaget e Inhelder (s.d.), ou seja, a memória construída sem análise e pensamento, não leva a bons resultados em situações estruturadas de modo pouco previsível [...]. A memória permeada por análises, ou que conta com a interferência do pensamento, como dizíamos, pode levar a melhores resultados. Ao desenvolver os conceitos musicais, o estudante pode utilizar esses conhecimentos essenciais para definir os agrupamentos de informação de modo mais eficiente, facilitando seu acesso e reprodução natural. Um exercício que pode ser feito é procurar, nas peças estudadas, trechos que possam ser individualizados, identificando-os como chunks e desenvolvendo essa percepção. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 92 Ao estudar uma peça, ao invés de apenas repeti-la diversas vezes, procure analisar sua estrutura musical, sua tonalidade, evolução e intervalos. A familiaridade com a música estudada e com os conceitos já estabelecidos no estudante tende a favorecer o aprendizado significativo, facilitando o processo de memorização aliado ao entendimento musical. ATENCAO 4 IMPROVISAÇÃO MUSICAL Em uma perspectiva oposta à da memorização, cuja percepção vem carregada por um senso comum que a coloca num posto de educação conservadora, o improviso é, muitas vezes, visto como algo livre e inovador, que demanda um conhecimento profundo, quase um virtuosismo por parte do intérprete. O nosso objetivo aqui é desmistificar essa visão, tecendo elementos para que o intérprete, ou professor, possa estabelecer uma relação mais amistosa com o tema. Com os conhecimentos desenvolvidos anteriormente nesta unidade, mais especificamente no Tópico 1 (Exploração de Possibilidades Composicionais), é possível começar, gradualmente, os experimentos de improviso. A possibilidade de improvisação em todos as etapas do conhecimento é um estímulo à criatividade, em uma manifestação da subjetividade do aluno que, aliada aos seus conhecimentos adquiridos em sala, torna-se uma ferramenta inovadora para estimular os aprendizados teórico e instrumental. Collura (2008, p. 12) desenvolve em seu livro, Improvisação, uma abordagem para esmiuçar a técnica. O autor define o processo de improvisação como uma composição extemporânea, diferenciando-se da composição escrita por ser “[...] limitada, por exemplo, no que diz respeito à forma: quase sempre, a estrutura harmônica é dada; o número dos compassos da composição é preestabelecido; e são preestabelecidos os acordes e suas relações tonais”. Ter esses conceitos em mente ao fazer uma análise musical é elementar para o processo, pois é com base nas informações já existentes, tanto da música quanto do intérprete, que a improvisação ocorrerá. Mais do que ter uma natureza criativa, é preciso ter um conhecimento prévio referente aos acordes, escalas e intervalos, e perceber as relações entre as notas que compõem a melodia é primordial para poder incluir elementos próprios, respeitando sua evolução e adicionando um sentido individual à música. TÓPICO 2 | DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE 93 A metodologia de Collura (2008) traz três abordagens possíveis para o improviso: improvisação temática, vertical e horizontal. ● Improvisação temática: caracteriza-se pela expansão, variação e (re) elaboração do tema principal. É possível alterar a duração das notas, variando o ritmo da melodia, introduzir elementos ornamentais e retornar ao tema original quando a estrutura melódica permite. ● Improvisação vertical: é baseada na harmonia musical. Nos casos, o acorde é o principal elemento a ser levado em consideração. A partir das notas, desenvolvem-se, principalmente, arpejos, que tendem a variar de acordo com o efeito desejado, alternando entre ascendente e descendente, campo harmônico maior, sua homônima menor ou sua relativa menor, além dos graus (1°, 3° ou 5°). ● Improvisação horizontal: leva-se em conta a relação entre os acordes e a escala utilizada, acrescentando elementos ornamentais e compondo linhas melódicas variantes. Essas abordagens são divididas apenas para fins didáticos, pois, ao experimentarem, os músicos poderão variar, associando as diversas técnicas de acordo com as possibilidades desejadas. Caro acadêmico, para maior aprofundamento do tema, recomendamos o livro Improvisação: práticas criativas para composições melódicas, de Turi Collura. FONTE: <http://estudodeteoriamusical.blogspot.com/2017/11/turi-collura-improvisacao-vol-1. html>. Acesso em: 20 set. 2019. DICAS 4.1 PARA ALÉM DA TÉCNICA: O IMPROVISO NA GRADUAÇÃO Dicotomicamente ao improviso virtuoso, vemos o desenrolar da improvisação na musicalização infantil. Contudo, não percebemos, na relação, o enfoque no meio termo. É importante salientar um elemento alheio: a improvisação nos cursos de graduação em música. É relevante correlacionar o que se tem definido como técnica de improviso e, mais do que isso, perceber a importância do tema para um futuro licenciado em música. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 94 Fridman (2011), em seu artigo A prática da improvisação em ambientes híbridos e multiculturais: propostas para a formação do músico, traz questionamentos com relação à importância do improviso na graduação em música, percebendo o improviso como uma experiência integral, numa interconectividade entre a criatividade, o conhecimento, a performance e toda a vivência cultural do músico: [...] a combinação de elementos estruturais, conceituais e expressivos, de diferentes formas de improvisação, pode trazer uma contribuição relevante na formação do músico do nosso século. Com tal abordagem, pretendemos aumentar o espectro do músico para suas futuras escolhas, considerando os materiais e procedimentos musicais que ele poderá utilizar futuramente em sua vida profissional (FRIDMAN, 2011, p. 77). Entender a expressão doimproviso como algo além da performance, sendo um amálgama de elementos musicais e subjetivos, dá luz ao questionamento referente ao grau de importância da prática para todos os estudantes de música, principalmente aos de licenciatura, pois neles residem as possibilidades de estender e propagar essa percepção, ampliando para si e seus alunos o impacto do improviso na formação musical, conforme veremos a seguir. 4.2 PROCESSOS DE MUSICALIZAÇÃO E IMPROVISAÇÃO Ao apresentar os conceitos musicais em sala de aula, é possível acrescentar outras possibilidades aos elementos, não pensadas pelo professor ou pelo aluno. Estimular essa expressividade desde as primeiras aulas é essencial para desenvolver uma empatia com a música, pois: A improvisação é o momento criativo em que o aluno demonstrará suas próprias ideias musicais e os conteúdos que foram assimilados a partir da experiência. É o momento em que o aluno se torna compositor e coreógrafo, é o momento da síntese. A improvisação não acontece somente após alguns anos de aprendizagem, mas em cada aula, como consequência do trabalho realizado (MARIANI, 2012, p. 45). É preciso ter em mente o seguinte: a possibilidade de improvisação em qualquer momento do conhecimento como um estímulo à criatividade, numa manifestação de toda a subjetividade do aluno, dá ao professor uma ferramenta inovadora para avaliar e estimular o aprendizado. TÓPICO 2 | DESENVOLVIMENTO DA EXECUÇÃO DE MEMÓRIA E IMPROVISAÇÃO PARA FLAUTA DOCE 95 Jaques-Dalcroze, nascido Émile-Henri Jaques na Áustria, em 1865, teve contato com a música desde os seis anos de idade, quando iniciou seus estudos de piano. Depois de estudar com Fauré, Lavignac, Marmontel e Lussy, retorna à Suíça como pedagogo. Lá, percebendo dificuldades rítmicas em seus alunos, procura desenvolver um método para saná-las (MARIANI, 2012). Para Dalcroze, a musicalidade apenas auditiva, que não leva em consideração o corpo como um todo, é incompleta. Seus esforços foram no sentido de criar uma relação entre movimentos corporais e os sons ouvidos, trabalhando conceitos como tempo, dinamismo, energia e espaço. Trazer ao aluno a familiaridade com elementos musicais por meio da extensão corporal ancora os conhecimentos à fisiologia e auxilia a assimilação desses conceitos (MARIANI, 2012). Dalcroze produziu diversos artigos e composições próprias para sua prática pedagógica, mas não produziu, exatamente, um método a seguir. Foram seus alunos, a partir da experiência nas aulas de rítmica, que desenvolveram exercícios de acordo com as especificidades de cada grupo de aprendizes. Isso reflete um desejo do próprio Dalcroze: a adaptação dos exercícios às características de cada país, realidade e condição social, além de um cuidado com a constante renovação docente. Há três ferramentas básicas no método: a Rítmica, cerne da pedagogia dalcroziana, que traz uma percepção do corpo como um meio para vivenciar os estímulos auditivos e a mente; o Solfejo, que deriva da rítmica e traz, antes da notação, as vivências oral e corporal, movendo-se e gesticulando; e, finalmente, a Improvisação. É clara, na pedagogia, a possibilidade de o aluno iniciante, que não possui conhecimentos musicais precisos, improvisar. A percepção da música como uma expressão orgânica, a aprendizagem significativa e o contexto do aluno permitem exercícios de dança, percussão corporal e, de acordo com a capacidade e interesse do aluno, utilização de instrumentos. Essa liberdade física permite ao aluno dar um significado novo à música, ancorando seus novos conceitos em elementos extremamente familiares ao seu intelecto: os próprios movimentos corporais. UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 96 Gainza (2015) traz, no capítulo A improvisação musical como técnica pedagógica, uma percepção do improviso como algo extremamente benéfico à relação professor e aluno, podendo servir como um meio de expressão de toda a vivência. Para tanto, Gainza (2015) define três tipos de improvisação musical: a improvisação recreativa, com caráter de lazer, ligado ao músico amador; a improvisação profissional, com caráter mais formal, ligado a intérpretes de jazz ou a músicos que acompanham aulas de dança; e a improvisação educacional, que se configura na técnica a ser aplicada pelo professor no processo de ensino musical. Trazendo a abordagem educacional, temos um canal único com o aluno. A partir da liberdade oferecida pelo professor, pode-se inferir elementos essenciais para o ensino, permitindo que o aluno traga suas vivências, noção musical, gostos e, a partir disso, desenvolva regras e acordos, direcionando a aplicação do improviso: O jogo musical e a improvisação, em suas formas livres e pautadas, contribuem para a mobilização e o metabolismo das estruturas musicais internalizadas. Ao mesmo tempo, promovem a absorção de novos materiais e estruturas através da exploração e manipulação dos objetos sonoros (GAINZA, 2015, p. 67). Permitir a livre expressão do aluno de música dentro do fazer musical é um caminho indispensável ao desenvolvimento da afinidade dele com o conhecimento, numa relação que pode ser direcionada pelo professor, ao utilizar o improviso como motor da descoberta, enquanto que, dentro das suas demandas, estimula as possibilidades de ensino. Além de trazer os elementos do aluno, é possível, na improvisação educacional, oferecer conceitos novos, sejam estes de instrumentação, teoria ou sensações sonoras. O improviso permite um uso não ortodoxo das ferramentas, possibilitando um diálogo entre aluno e professor, estimulando a aprendizagem por descoberta diante das ofertas em sala. Algo que é importante, tanto para o ensino quanto para a aprendizagem, é gravar as experiências de improviso e reproduzi-las com o aluno, trazendo a discussão e análise dos elementos explorados, oferecendo, assim, a oportunidade de evolução dentro da própria técnica explorada, desenvolvendo uma linha de pensamento mais crítica dentro das possibilidades do improviso. IMPORTANTE 97 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A aprendizagem significativa, abordagem desenvolvida por David Ausubel, estabelece uma estrutura de ensino que liga novos conceitos a outros preexistentes (subsunçores), possibilitando a ancoragem de novos conhecimentos. • Há duas formas de aprendizagem: por descoberta, em que o conteúdo precisa ser desvendado pelo aprendiz; e por recepção, em que as informações são dadas de forma completa e final. • As condições para a aprendizagem significativa são: que a nova informação possa ter significado para o aluno e que ele esteja disposto a relacioná-la a conhecimentos subsunçores. • O estudo mecânico não é excludente à aprendizagem significativa. Eles são, inclusive, complementares. • Novak acrescenta novos valores à aprendizagem significativa, como as subjetividades de cada aprendiz e seu contexto sociocultural. Além dele, Swanwick, pedagogo musical, corrobora, demandando que o professor estimule a expressão do aluno em sua totalidade, imprimindo valores individuais durante o processo de aprendizado. • Swanwick traz propostas para avaliação do ensino musical, levando em consideração a subjetividade do aprendiz e seu desenvolvimento pessoal. Assim, traz quatro dimensões para englobar o processo avaliativo: material, expressão, forma e valor. • A memorização é uma técnica que pode ser aliada à aprendizagem significativa, principalmente por oferecer ferramentas para embasar novos conhecimentos, e possibilitar a fixação de convenções (como posição dos dedos na flauta ou frequência das notas). • Desenvolver os conhecimentos de percepção musical é essencial para estimular a memória sonora. 98 AUTOATIVIDADE 1 A aprendizagem significativa é uma abordagem que estimula a ancoragem de novos conhecimentos a outros preexistentes, chamados de subsunções. Acerca disso, analise as sentenças a seguir: I- Na aprendizagem por recepção,o aluno recebe as informações básicas e precisa deduzir o conhecimento a ser adquirido. II- Além dos conhecimentos existentes, é preciso levar em consideração toda a vivência anterior e elementos socioculturais do aprendiz. III- A aprendizagem mecânica deve ser evitada, por se opor à aprendizagem significativa. IV- A avaliação, na música, deve ser feita com um olhar do professor sobre o aluno, levando em consideração as competências desenvolvidas em classe. É CORRETO o que se afirma em: a) ( ) III e IV. b) ( ) II e IV. c) ( ) I e II. d) ( ) I e III. 2 Memorização é uma habilidade que pode ser desenvolvida. Sobre o exposto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A memorização não pode ser associada aos conhecimentos práticos ou teóricos do tema a ser memorizado. ( ) Estudos mostram que a memória sonora é mais aguçada em estudantes e profissionais da música. ( ) É impossível aliar a memorização à aprendizagem significativa. ( ) A técnica de chunking pode ser utilizada em música, dividindo os conceitos a serem memorizados de acordo com o conhecimento do estudante. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – F – V. b) ( ) V – F – F – V. c) ( ) F – V – F – V. d) ( ) V – V – V – F. 99 TÓPICO 3 REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Ao pensar em repertório, é muito importante levar em consideração mais do que a dificuldade técnica das músicas. Cada peça composta, traz em si, além das notas, dinâmicas e ritmo, toda uma subjetividade que precisa ser considerada, trazendo valores importantes para seu entendimento e interpretação. Uma das formas mais utilizadas para a musicalização em flauta doce é a escolha de músicas tradicionais, em parte pela familiaridade que a peça traz. O pedagogo musical Zoltán Kodály (1882-1967) é reconhecido pela importância que atribuiu às canções folclóricas. Para ele, as músicas tradicionais de cada cultura são diferentes, pois: Não são melodias compostas para atender padrões pedagógicos, mas canções que oportunizam a vivência natural de rimas, frases, formas e que estão diretamente ligadas ao idioma materno, no qual a criança cresce e se comunica. Nesse sentido, a utilização de canções folclóricas e populares apropriadas às crianças coopera na formação de valores musicais e no estabelecimento de sua identidade cultural (SILVA, 2012, p. 58). Kodály coletou, na Hungria, com outros dois pesquisadores, Kerényi e Rajeczky, mais de mil canções tradicionais infantis, peças que seriam usadas em sua pedagogia. No Brasil, o folclorista Mário de Andrade traz, em seu Ensaio sobre a Música Brasileira (1972), uma reflexão sobre a música brasileira e suas particularidades. As melodias selecionadas para a prática de flauta doce são de várias regiões do mundo, e apresentam diferentes níveis de dificuldade técnica. Para a organização do estudo de uma peça musical, algumas dicas podem ser interessantes: 100 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO • Não queira tocar todas as músicas apresentadas em um único dia. • Selecione as que você considerar mais interessante e de acordo com o nível técnico na flauta doce. • Divida a melodia em pequenos trechos, ou frases. • Leia a partitura antes de tocar e faça marcações pessoais indicando as pausas, notas com sustenido ou bemol, ritornelo etc. • Reserve sempre um horário para iniciar os estudos, de preferência em um espaço onde ninguém poderá interromper você. Concentração é tudo! • Procure ouvir a melodia antes de tocar e, se possível, tente tocar junto. A maioria das melodias está disponível para consulta na internet. • Persistência e paciência são as chaves de todo processo de estudo. • Sempre que possível, combine, com um grupo de colegas da sala, para estudar junto, tornando o processo ainda mais significativo e descontraído. 2 MELODIAS TRADICIONAIS EUROPEIAS A grande variedade de melodias tradicionais da Europa, embora revele alguns traços comuns, reflete a diversidade cultural presente nos países do continente europeu. Para este tópico, foram selecionadas melodias de diferentes países, como Rússia, Áustria, França e Inglaterra, utilizadas em contextos diversos. São melodias que podem ser executadas por grupos de flautas soprano com teclado, violão ou instrumentos de percussão. Trataremos suscintamente das origens de algumas dessas melodias. FIGURA 21 – MÚSICAS TRADICIONAIS INGLESAS FONTE: Os autores TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 101 A palavra Scarborough refere-se a uma cidade que fica na costa do Mar do Norte, no Condado de North Yorkshire, na Inglaterra. A cidade é conhecida por ter sido um ponto comercial na Idade Média, inspirando a canção Scarborough Fair. É uma canção da Idade Média que recebeu diversas versões ao longo do tempo. Geralmente interpretada em forma de dueto com as vozes masculina e feminina, trata de um homem que manda avisarem à ex-amada para ela cumprir uma série de tarefas impossíveis para que ela o tenha de volta. A ex-amada, por sua vez, também impõe uma lista de tarefas impossíveis para tê-la de volta. FIGURA 22 – CANÇÃO ANÔNIMA SÉC. XVIII FONTE: Os autores Greensleeves é uma canção tradicional composta no século XVI. Sua origem é incerta, mas existem relatos que atribuem a autoria a Henrique VIII, Rei da Inglaterra, contudo, não há comprovação de tal fato. Essa melodia, apesar de não ser ilustrativa do período barroco, tem seus primeiros registros em 1580. Quanto ao período em que foi escrita, há duas versões vigentes, sendo a primeira no Renascimento e, a segunda, no período clássico. Independentemente do período que faça parte, sendo renascentista, ou pela formação instrumental, é uma melodia de grande sucesso em diferentes contextos históricos. FIGURA 23 – CELEUMAS (MÚSICAS TRADICIONAIS DE NAVIO - SEA SHANTY) FONTE: Os autores 102 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO FIGURA 24 – CELEUMA – CANÇÃO TRADICIONAL DE NAVIOS FONTE: Os autores FIGURA 25 – CELEUMA – CANÇÃO TRADICIONAL DE NAVIOS FONTE: Os autores Blow the man douwn é uma canção representativa das tradições mais antigas do mar, conhecida como celeuma. Determinado tipo de canção era uma forma dos marinheiros unirem as forças em trabalhos pesados em um navio, uma forma agradável de marcar o ritmo para unir a força da tripulação. Ainda, uma forma de entretenimento, um antídoto para a solidão e dureza da vida a bordo. TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 103 FIGURA 26 – MELODIA RUSSA FONTE: Os autores FIGURA 27 – MELODIA AUSTRÍACA FONTE: Os autores 104 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO Ochy chyornie, ou olhos negros, é uma canção russa do gênero romântico. A letra foi escrita em 1843 e, a melodia, anos mais tarde, em 1884. A canção Ach, du lieber Augustin (Oh, meu querido Augustin) conta a lenda de Augustin, um cantor de baladas e gaiteiro que percorria as hospedarias da cidade entretendo as pessoas. Segundo a lenda, ele foi confundido com um homem morto, mas, na verdade, estava somente desacordado devido à embriaguez. Quando Augustin acordou, em uma vala comum, foi resgatado por populares. Augustin tornou-se um símbolo de esperança para o povo vienense. FIGURA 28 – CANÇÃO FRANCESA FONTE: Os autores Le Bon Roi Dagobert, o bom Rei Dagoberto, é uma paródia francesa da segunda metade do século XVIII. Ela cita duas figuras históricas: Rei Merovíngio Dagoberto e seu principal conselheiro. Essa música surgiu para ridicularizar o rei Luís XVI, conhecido por sua personalidade distraída, e a rainha Maria Antonieta. Atualmente, é considerada uma canção infantil. 3 MELODIAS TRADICIONAIS DA ÁFRICA É notória a contribuição dos negros para a música das américas. De acordo com Carvalho (2010, p. 8), os africanos, “por onde passaram, transmutaram as práticas, o pensar e o sentirdos povos, transmitindo inebriante vibração e a TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 105 vivência dinamogênica do ritmo”. A África é um continente com vários tipos das diversidades étnica, cultural e linguística, e a principal característica da música africana deriva desse contexto global, ou seja, a música da África é tão ampla e variada como as muitas regiões. A música, no norte da África, tem laços estreitos com músicas do Oriente Médio, no entanto, a África Oriental, Madagascar e ilhas do Oceano Índico apresentam traços da influência da música árabe. No entanto, nas populações indígenas, as tradições musicais são, principalmente, em sua maioria, típicas da África subsaariana de línguas nigero-congolesas. A África do Sul, Central e Ocidental também possuem influências vindas da Europa Ocidental e América do Norte. A música e as formas de dança da diáspora africana, incluindo a música afro-americana e muitos gêneros afro- caribenhos, além dos gêneros musicais latino-americanos, como a salsa, a rumba, entre outros, originaram-se com diversos graus de variação. Por sua vez, esses gêneros também influenciaram a música popular africana contemporânea (COSTA, 2015). FIGURA 29 – CANÇÃO DE GANA FONTE: Os autores As canções Che che koolay e Eh soom boo kawaya representam o trabalho da África do Sul. São muito comuns canções africanas cujos temas centrais das histórias sejam nascimentos, casamentos, funerais ou trabalho no campo. 106 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO FIGURA 30 – CANÇÃO DA NIGÉRIA FONTE: Os autores FIGURA 31 – CANÇÃO DE MARROCOS FONTE: Os autores A melodia A ram sam sam é uma canção árabe, cantada no dialeto marroquino, cuja letra não tem um significado definido. É uma canção popular para crianças marroquinas acompanhada por gestos ou percussão corporal. FIGURA 32 – CANÇÃO DO EGITO FONTE: Os autores TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 107 Ouça a melodia da canção egípcia A Ya Zain, interpretada por Tomoyan, no Violoncello solo, e acompanhe a melodia lendo a partitura O áudio está disponível a seguir. FONTE: <https://youtu.be/Gw6OUu1JGyE>. Acesso em: 15 jul. 2019. FIGURA 33 – CANÇÃO DO CONGO FONTE: Os autores FIGURA 34 – CANÇÃO DO ZIMBÁBUE FONTE: Os autores 108 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO Famba Naye DICAS É uma canção em forma de oração que diz “Estamos sobrecarregados, estamos sobrecarregados, oh pai! Nós estivemos sobrecarregados, estivemos sobrecarregados, oh Pai!”. Ouça a versão gravada no Concerto de Primavera de 2013, realizada na Igreja da Santíssima Trindade, na Turner Street, em Leicester. FONTE: <https://youtu.be/ ms73wcam9MU>. Acesso em: 16 jul. 2019. FIGURA 35 – CANÇÃO DO CONGO: OLELE MOLIBA MAKASI FONTE: Os autores Olele Moliba Makasi é uma tradicional cantiga infantil do povo que vive às margens do Rio Cassai, na República Democrática do Congo. A canção cita palavras de origem bantu, introduzidas no Brasil na época da escravidão. Na época da cheia, quando as águas do Rio Cassai sobem, quem está nas áreas baixas precisa migrar para lugares mais altos. É a hora do canto da música que dará coragem às crianças que terão que atravessar o rio. O Kala, o homem mais velho da aldeia, chama os mais novos assim: “Olelê, olelê!”. Os meninos e as meninas entendem que é para a criançada se reunir, entrar nos barcos e começar a perigosa travessia (SIMÕES, 2016). TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 109 4 MELODIAS DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA A cultura popular brasileira apresenta uma riqueza de canções populares, muitas de autores desconhecidos do interior do Brasil, transmitidas por tradição oral de geração em geração através dos tempos. Muitas melodias são usadas com objetivos lúdicos, envolvendo jogos e brincadeiras. Possuem letras simples e com muita repetição, características que facilitam a memorização. Essas melodias costumam apresentar temas relacionados às situações do cotidiano e algumas letras também envolvem personagens do folclore brasileiro. A seleção apresentada para prática de flauta doce é de músicas conhecidas que fazem parte da memória afetiva da maioria dos brasileiros. São cantigas de roda ou cirandas, de origem europeia, e estão diretamente relacionadas com as brincadeiras infantis, como escravos de Jó, na Bahia tem, peixe vivo etc. As canções possuem melodias simples, suaves e, às vezes, monótonas. Os aspectos musicais e as letras das canções evidenciam um estilo local, preservando, por um longo tempo, as características de cada cultura. Sua criação é, de modo geral, espontânea, intuitiva e destinada a ser sentida e vivenciada, é um conhecimento gerado pelo povo e para o povo. Dessa forma, a maioria das canções é considerada de domínio público, pois os autores foram esquecidos ou não são conhecidos (MEGALE, 1999). Ao conhecer as músicas da cultura popular brasileira, é possível perceber os diferentes vínculos de diversas culturas das etnias que compõem o povo brasileiro. Compreender a diversidade cultural é importante na formação da educação do ser, tendo em vista que o respeito à diversidade cultural talvez seja, atualmente, um dos maiores desafios da escola e, também, de outros setores da sociedade (ROCHA, 2015). FIGURA 36 – CANÇÃO BRASILEIRA: ESCRAVO DE JÓ FONTE: Os autores 110 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO FIGURA 37 – CANÇÃO BRASILEIRA: O MEU BOI MORREU FONTE: Os autores FIGURA 38 – CANÇÃO BRASILEIRA: PEIXE VIVO FONTE: Os autores TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 111 FIGURA 39 – CANÇÃO BRASILEIRA: NA BAHIA TEM FONTE: Os autores FIGURA 40 – CANÇÃO BRASILEIRA: ENTRADA DO BOI FONTE: Os autores FIGURA 41 – CANÇÃO BRASILEIRA: BOI BUMBÁ FONTE: Os autores 112 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO FIGURA 42 – CANÇÃO FOLCLÓRICA: JOÃO DA-RA-RÃO FONTE: Os autores FIGURA 43 – CANÇÃO FOLCLÓRICA: O PIÃO FONTE: Os autores TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 113 FIGURA 44 – CANÇÃO FOLCLÓRICA: TREM DE FERRO FONTE: Os autores FIGURA 45 – CANÇÃO FOLCLÓRICA: PEZINHO 114 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO FONTE: Os autores 5 MELODIAS INDÍGENAS Valorizar a produção musical indígena significa, acima de tudo, reconhecer as contribuições desses povos na formação da música popular brasileira. Contudo, historicamente, no processo de colonização, a música indígena foi subjugada pela cultura dominante europeia. Segundo Barros (2006), desde o primeiro momento do contato com o homem europeu, o índio foi lançado no processo de “aculturação”. Diante desse quadro, a música indígena passa a ser suprimida, e a música europeia ocupa um lugar de referência na música nacional brasileira com a rítmica da música dos africanos, que chegariam posteriormente ao Brasil. Uma introdução à escuta da música indígena deve principiar por um desmontar de preconceitos auditivos, de concepções estéticas congeladas e consideradas como únicas, de ilusões de evolucionismo cultural (BARROS, 2006, p. 160). A música indígena apresenta, em sua maioria, melodias relativamente simples que, vistas a partir do olhar ocidental, remetem ao uso do cromatismo. Outro elemento importante é a prática da repetição variada de uma mesma melodia, e diálogos entre vozes masculinas e femininas que se intercalam com base em motivos temáticos e alturas diversificadas (BARBOSA; AGUIAR, 2016). Para compreender a música indígena sem deturpá-la, devemos, primeiramente, trocar as lentes que usamos em nossas leituras atuais de música por outras, que nos permitam fazer uma nova leitura musical. Só assim poderemos assimilar a música “diferente” pelo que ela realmente é, não pelo que projetamos dela (BARBOSA; AGUIAR, 2016, p. 881). TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO115 Convém ressaltar que o fazer musical, na perspectiva dos povos indígenas, é carregado de sentidos e significados, envolvendo todos os habitantes da tribo. São canções de trabalho, de festa, de guerra ou relacionadas a um ritual de passagem, um encantamento, um exercício de memória coletiva ou qualquer evento social importante para a comunidade. As melodias selecionadas são alguns exemplos desse tesouro da cultura musical indígena, notoriamente invisível para as academias de música e, por vezes, limitada aos momentos celebrativos. FIGURA 46 – CANÇÃO INDÍGENA: PENKRI FITANCAM FONTE: <www.cantosdafloresta.com.br>. Acesso em: 16 jul. 2019. A cantiga da formiga, Pénkrig fi tynh kãme, dos índios kaingang, está relacionada às narrativas míticas que incluem cantigas de bichos para as crianças. Geralmente, são curtas e falam sobre os hábitos dos animais. A Pénkrig fi tynh kãme fala da formiga que fica feliz ao ver a moça socando milho, pois poderá comer os farelos que caem do pilão. FIGURA 47 – CANÇÃO INDÍGENA: CANTIGA DE NINAR FONTE: <www.cantosdafloresta.com.br>. Acesso em: 16 jul. 2019. 116 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO Api Aya Txuxitxuxi é uma cantiga de ninar indígena, entoada pelas mulheres da tribo para seus filhos dormirem. Entre os Jurunas, há uma crença que, depois das cinco horas da tarde, não se costuma cantar essa melodia, pois é possível levar as crianças da tribo a um sono profundo. FIGURA 48 – CANÇÃO INDÍGENA: ÍNDIOS KRAÔ FONTE: <www.cantosdafloresta.com.br>. Acesso em: 16 jul. 2019. Os Krahô vivem no nordeste do Estado do Tocantins, na Terra Indígena Kraolândia, situada nos municípios de Goiatins e Itacajá. A música vocal é um dos aspectos mais elaborados da vida ritual e artística dos Krahô. FIGURA 49 – CANÇÃO INDÍGENA: TENETEHARA FONTE: <www.cantosdafloresta.com.br>. Acesso em: 16 jul. 2019. FIGURA 50 – CANTIGA DE MOQUEADO FONTE: Os autores TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 117 Tenetehara é considerada a população indígena mais numerosa do Brasil. No aspecto musical, uma curiosidade é que os homens mais velhos sempre iniciam as músicas e as mulheres aparecem como segunda voz. A música é tocada e cantada por um grupo de homens adultos coordenados pelo Pajé e com o cacique da aldeia. O ritual da Festa do Moqueado é um rito de passagem vivenciado pelas meninas e meninos na faixa etária dos 11 aos 15 anos, fazendo referência a um preparo de nhambu e carne de porco do mato, assada em uma espécie de grelha indígena (moqueado) com farinha de mandioca. FIGURA 51 – CANÇÃO KRIKATI FONTE: <www.cantosdafloresta.com.br>. Acesso em: 16 jul. 2019. A Festa de Wyty marca uma nova fase na vida de uma menina indígena. Os festejos e cânticos começam no início da noite e só terminam ao amanhecer. Os índios passam mais de dez horas dançando e caminhando em círculo em clima de festa. Saiba mais sobre o ritual Wyty, dos povos Krikati, assistindo a uma reportagem especial sobre o assunto. FONTE: <http://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2013/08/ conheca-festa-de-wyty-uma-tradicao-dos-indios-krikatis.html>. Acesso em: 18 jul. 2019. DICAS 118 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO FIGURA 52 – PO HAMÉK FONTE: <www.cantosdafloresta.com.br>. Acesso em: 16 jul. 2019. Po Hamék é uma cantiga de saudação acompanhada de batidas de pés e mãos. A melodia é entoada por jovens e crianças dos povos Krenak durante o ritual Taru Andek. TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 119 LEITURA COMPLEMENTAR APROVEITE A RIQUEZA CULTURAL DO BRASIL EM SALA DE AULA Paula Salas Um boi colorido de papelão aparece e se ouve: “Boa noite, meu povo que veio aqui me ver, com essa brincadeira, trazendo grande prazer! Salve, grandes e pequenos! Este é meu dever. Saí para cantar boi bonito para o povo ver”. A música é Novilho Brasileiro, eternizada pelo Mestre Coxinho, um dos principais artistas do bumba meu boi, ritmo característico do Maranhão. Contudo, quem se apresenta está a mais de 2.800 km de São Luís. São crianças do 1º ao 3º ano da EMEF Marechal Eurico Gaspar Dutra, na capital paulista. Esse é o resultado de um trabalho iniciado em 2016. Após uma apresentação de congada na festa junina da escola, a professora de Arte, Marisa Pires Duarte, passou a se reunir com um grupo de alunos no contraturno para o estudo dos ritmos brasileiros. Enquanto as artes visuais dominam os currículos, a música e o teatro ficam em segundo plano. “O lugar da música na escola não é apenas na apresentação de Dia das Mães”, afirma Tiago Madalozzo, doutorando em Música na UFPR. Para mudar esse cenário, Marisa propôs trabalhar a diversidade cultural brasileira por meio da experimentação e do protagonismo criativo dos alunos, aliando musicalidade, dança, teatro e artes plásticas. “A diversidade de abordagens é o que permite conhecer a cultura”, comenta. Preparação e aproximação A professora sempre teve interesse pelos ritmos brasileiros. “Quando viajo, procuro descobrir quais são as manifestações culturais daquele lugar. Vou conhecer e recolher materiais para, depois, ‘alimentar’ meus alunos”, conta. No entanto, não é necessário sair da própria cidade, pois cada comunidade tem muito a agregar à musicalização do professor. “Todo contato cultural é formação musical”, reforça Tiago. Além de pesquisar vídeos e informações em sites dedicados aos ritmos, o professor pode recorrer a livros como Folias e Folguedos do Brasil, de Inimar dos Reis, utilizado por Marisa. É importante fazer uma curadoria dos materiais apresentados nas aulas, pois cada tradição envolve muitas variações. “A seleção deve proporcionar aos alunos uma experiência completa do ritmo”, comenta Ari Colares, percussionista e mestrando em Educação Musical na USP. “Ao apresentar cada ritmo, converso sobre sua origem, características e se ele também é realizado aqui em São Paulo”, explica Marisa. “Enquanto para uma turma talvez seja mais interessante começar contando a história do ritmo, 120 UNIDADE 2 | PRÁTICA INSTRUMENTAL COM AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO localizar no mapa, falar sobre aquela comunidade e sua religiosidade, para outra pode chamar mais a atenção conhecer o ritmo na prática antes de apresentar qualquer informação”, sugere Ari. Também é possível introduzir o tema por meio da interdisciplinaridade. Esse conteúdo pode ser usado nas aulas de Língua Portuguesa para abordar os recursos linguísticos de cada manifestação cultural; em História, é interessante trabalhar o contexto do surgimento das tradições; já em Geografia, é possível abordar os ambientes onde acontecem e como chegaram lá. “Valorizar a arte não apenas como suporte, mas em pé de igualdade com outras disciplinas, é essencial”, diz Tiago. Experimentar para aprender Após a conversa inicial, a professora exibiu vídeos que ensinavam algumas batidas. Com base nessa introdução, os pequenos puderam explorar livremente os instrumentos disponíveis, as alfaias, da família dos tambores. No entanto, não há problema se a escola não tiver esse material. Ari sugere construir um ganzá com a turma, colocando uma mistura de arroz, feijão e milho em um pote de iogurte ou latinha e vedando bem. Criar o próprio instrumento permite que o aluno entenda a origem do som. Outra possibilidade é iniciar o trabalho com os instrumentos pela vocalização sonora, criando onomatopeias que imitem as batidas. “A partitura não é escrita, ela está no corpo, na memória e na voz do aluno”, explica. A professora mostra manifestações como maculelê, frevo, coco de roda, cavalo-marinho e catira, e os alunos escolhem uma para estudar com mais afinco e apresentar no fim do ano. Com base nas informações sobre a tradição, as crianças experimentam também a dança. “Eles brincam e pulam muito”, conta Marisa. As coreografias se baseiam no repertório de movimentos construído, mas não há rigidez em relação aos passos. Na encenação, os alunos tambémimprovisam suas falas, há apenas um texto definido para o narrador manter o fio da meada. “Para ampliar a experiência cultural, é fundamental participar ativamente da prática. O aluno cria uma memória corporal para a vida inteira”, comenta Ari. A possibilidade de inovar permite que a turma perceba a cultura com algo próximo e mutável. Por isso, ao contextualizar o ritmo, é interessante comparar como ele era originalmente e como é praticado hoje. “A arte muda, pois é feita pelas pessoas. As crianças também podem criar sobre aquela manifestação”, comenta Tiago. Também praticaram as artes plásticas para montar o boi. “O corpo foi feito com uma caixa e os alunos escolheram materiais da ‘sucatoteca’ para decorá- la, como as tampinhas de garrafa”, explica Marina. “Sucatoteca” é um acervo de materiais recicláveis criado pela professora. Em 2017, a escola fez parcerias com outras instituições próximas para exibir o espetáculo do bumba meu boi para outras crianças. TÓPICO 3 | REPERTÓRIO PARA AS FLAUTAS SOPRANO E CONTRALTO 121 “É um papel ético do professor de Arte mostrar a maior variedade de repertório possível e o ritmo está na base de quase todas as culturas”, comenta Tiago. “Se a gente oferta diferentes manifestações culturais antes de as crianças desenvolverem gostos pessoais ou preconceitos, elas terão a noção de que não existe apenas um ritmo para gostar”, diz Marisa. Ainda neste ano, sua turma apresentará o maracatu. “Mesmo que não saia igual ao modo tradicional, se a brincadeira for gostosa e significativa, já vale a experiência”, afirma Ari. O que ficam, mais do que o espetáculo, é o reconhecimento e a aceitação da diversidade cultural do Brasil. FONTE: SALAS, P. Aproveite a riqueza cultural do Brasil em sala de aula. 2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/11832/ritmos-brasileiros-como-abordar-na-escola. Acesso em: 8 dez. 2019. 122 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O repertório musical traz, além de notas, dinâmicas e ritmo, uma subjetividade que precisa ser considerada, além de valores socioculturais importantes para entendimento e interpretação das melodias selecionadas. • Kodály (1882-1967) valorizou canções folclóricas e tradicionais de cada cultura no processo de ensino e aprendizagem em música. Segundo o autor, essas canções oportunizam a vivência natural de rimas, frases e formas que estão diretamente ligadas ao idioma materno, com o qual a criança cresce e se comunica. • A utilização de canções folclóricas e populares no processo de ensino e aprendizagem contribui para a formação de valores musicais e o fortalecimento da identidade cultural. • A cultura popular brasileira apresenta uma riqueza de canções populares, transmitidas por tradição oral de geração em geração através dos tempos. Muitas melodias são usadas com objetivos lúdicos, envolvendo jogos e brincadeiras. São melodias simples com repetições e de fácil memorização. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 123 1 Com base no repertório praticado no Tópico 3, e nos conhecimentos de teoria musical e improviso, abordados nos Tópicos 1 e 2, desenvolva uma segunda linha melódica para a flauta doce para o seguinte trecho da melodia africana Eh Soom Boo Kawaya. 2 Compreender a diversidade cultural é importante na formação da educação do ser, tendo em vista que o respeito à diversidade cultural talvez seja, atualmente, um dos maiores desafios da escola e também de outros setores da sociedade (ROCHA, 2015). Considerando os estudos realizados neste tópico, enumere as principais características das melodias da cultura popular brasileira. 3 A cultura popular brasileira apresenta uma riqueza de canções populares, muitas de autores desconhecidos do interior do Brasil, transmitidas por tradição oral. Descreva suas principais características. AUTOATIVIDADE 124 125 UNIDADE 3 PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer as possibilidades didáticas para o ensino de flauta doce, utilizando recursos digitais; • refletir sobre as estratégias e as metodologias de estudo de flauta doce; • realizar atividades de prática instrumental para flauta doce, utilizando programas on-line ou aplicativos para dispositivos móveis; • elencar critérios de análise para avaliação de materiais didáticos impressos ou em formato digital; • conhecer as dinâmicas e as propostas de atividades para o planejamento de aulas ou de oficinas de flauta doce. Esta unidade está dividida em três tópicos. Cada tópico, por meio de uma série de estudos e reflexões, abordará os seguintes temas: TÓPICO 1 – A FLAUTA DOCE EM DIFERENTES CONTEXTOS EDUCATIVOS TÓPICO 2 – PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE TÓPICO 3 – PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 126 127 TÓPICO 1 A FLAUTA DOCE EM DIFERENTES CONTEXTOS EDUCATIVOS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Nesta última unidade, retomaremos os conceitos das Unidades 1 e 2, direcionando a abordagem à pedagogia e oferecendo, ao licenciado, as ferramentas necessárias para o ensino da música e da flauta doce em todas as suas possibilidades. Antes de tudo, é necessário salientar a importância do ensino da música, principalmente no contexto escolar. A linguagem se traduz em formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos por meio da organização e relacionamento expressivo entre o som e o silêncio […]. É uma das formas importantes de expressão humana, justificando sua presença no contexto da educação, de um modo geral, e na educação infantil, particularmente (BRASIL, 1998, p. 44). É necessário entender a música como um elemento de expressão. É resultante de uma ação conjunta do aluno, que percebe o universo musical e suas possibilidades, e do professor, que tem, na troca de ensino, um caminho para a sua evolução como docente e descoberta da música em outra perspectiva. Um dos meios para perceber as possibilidades do ensino da música, principalmente no nosso país, é buscar embasamento nos documentos oficiais referentes à educação: o Referencial Curricular, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. É possível ver a ascensão da música na escola, fundamentando sua estrutura e a reconhecendo como uma forma de representação social em todas as culturas humanas. Dessa forma, é preciso que o licenciado em música tenha esse direcionamento em mente, ampliando as ações e a seriedade, e respeitando as demandas individuais do aluno. Entender o papel da música na Educação Infantil e possibilitar ao educando a vivência constituem os primeiros passos para a construção do fazer musical, permitindo que o canto deixe de ser uma ação mecânica, sem uma intencionalidade definida (GOHN; STRAVACAS, 2010, p. 90). UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 128 O aluno é capaz de criar, oferecendo, na música, um caminho para a representação individual, significando o aprendizado e percebendo seu impacto sobre cada um. Os professores e a escola devem trabalhar o material que cada um traz para a realidade escolar e fazer do aprendizado algo significativo. 2 A MÚSICA E OS SONS NA INFÂNCIA Relacionaremos alguns conceitos abordados nos tópicos anteriores, como as técnicas de flauta doce aliadas à escolha de repertório, percepção musical, as teorias de aprendizagem, métodos de ensino e a reflexão sobre o ensino do instrumento na infância. A música está em nosso cotidiano. Ela permeia nossas vidas desde que nascemos,está em nossas crenças, nos ambientes familiar e escolar. Como linguagem, ela expressa e é expressada de forma a significar algo, refletindo realidade, sentimentos e sensações. É como uma criança, que apreende o conhecimento na forma de exploração. A música pode ser vivenciada sem o rigor da musicalização teórica, na experimentação das possibilidades. A criança interpreta sua realidade por meio do lúdico. Inventa, imagina e desenvolve possibilidades, e a sua abstração é por meio do “brincar”: As crianças integram a música às demais brincadeiras e jogos: cantam enquanto brincam, acompanham com sons os movimentos de seus carrinhos, dançam e dramatizam situações sonoras diversas, conferindo “personalidade” e significados simbólicos aos objetos sonoros ou instrumentos musicais (BRASIL, 1998, p. 52). No contexto, a música deve ser trabalhada de forma a possibilitar a expressão de linguagem e comunicação, em que a musicalização acontece de forma intuitiva: os adultos estreitam os laços através de canções, parlendas, jogos e frases, e a criança, por meio de imitação e reconhecimento, absorve os conteúdos. Na primeira infância (do zero aos três anos de idade), as crianças já têm a capacidade de, na experimentação sonora, aprender sobre as qualidades básicas dos sons, como altura, duração, intensidade e timbre. É possível reconhecer um som longo, curto, as pausas, sons graves e agudos, diferenciar timbres e coordenar pequenas células rítmicas com o grupo. A importância do ensino musical, desde a primeira infância, de forma a democratizar a arte, é primordial. Para isso, trazer ao aluno elementos que ele consiga ancorar a informações já estabelecidas torna-se um ótimo caminho. Explorar as propriedades do som por meio de cantigas e melodias tradicionais da cultura de cada criança torna-se algo valioso, com as crianças reconhecendo no ensinamento os pais, parentes e amigos cantando, além de sons em brincadeiras e jogos. TÓPICO 1 | A FLAUTA DOCE EM DIFERENTES CONTEXTOS EDUCATIVOS 129 Canções que oportunizam a vivência de rimas, frases, formas e que estão diretamente ligadas ao idioma materno, no qual a criança cresce e se comunica. Nesse sentido, a utilização de canções folclóricas e populares apropriadas às crianças coopera na formação de valores musicais e no estabelecimento de sua identidade cultural (SILVA, 2012, p. 58). As primeiras palavras e sons reconhecidos pela criança, em seu idioma materno, normalmente, vêm acompanhados de músicas, entonadas pelos pais, professores ou cuidadores. Desse modo, utilizar melodias culturais, que resgatam sensações e aprendizados que estão presentes desde os primeiros sons percebidos pelo aluno, dá, à música, uma significância ainda maior. Da mesma forma, é importante trazer, à percepção infantil, as capacidades de aprender e imprimir conceitos musicais com seu próprio corpo, associando, às palmas, jogos de mãos, saltos e rodas, elementos como ritmo, pulso e andamento. Na maioria das vezes, esses conceitos são absorvidos de forma natural em grupos de amigos, com familiares ou na própria escola. O diferencial se encontra nas possibilidades desse caminho, como ferramenta para a musicalização, possibilitando o fazer musical. O fazer musical é uma forma de comunicação e expressão que consiste em improvisar, compor ou interpretar musicalmente. O improviso se configura como uma criação imediata, com base em critérios predefinidos, mas com grande margem criativa para intervenções criativas. Compor é criar dentro de uma estrutura determinada, com estruturas fixas e definidas, e interpretar é executar uma composição ou improviso com a participação ativa do músico. É indispensável, portanto, a capacidade da criança de abstrair os conteúdos que ela tem sobre o mundo, oferecendo a ela significado musical para elementos sonoros desde o nascimento. É preciso ter, e apresentar à criança, a noção de que o fazer musical pode estar presente no ensino desde as primeiras aulas para as primeiras idades. 3 O PODER DO IMPROVISO NA MUSICALIZAÇÃO INFANTIL - BRINCAR A descoberta dos sons é um caminho comum às crianças. É perceber a voz dos que convivem com ela, os timbres dos materiais e o ritmo. Dar continuidade a essa experimentação, oferecendo liberdade e estimulação criativa, é fundamental. Em um paralelo com as artes visuais, percebe-se, desde os primeiros rabiscos, o cuidado dos pais e professores ao interpretarem e ao estimularem a liberdade, oferecendo uma gama de cores, materiais e espaços, sem uma cobrança tão grande por modelos e reproduções fiéis. A tendência é que, musicalmente, a educação preze pela imitação fiel de modelos e pelo aspecto intelectual, gerando dificuldades nos processos criativos infantis. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 130 Violeta Gainza, em seu texto A improvisação musical como técnica pedagógica (2015), traz o protagonismo para a musicalização: O jogo musical e a improvisação, em suas formas livres e pautadas, contribuem para a mobilização e o metabolismo das estruturas musicais internalizadas. Ao mesmo tempo, promovem a absorção de novos materiais e estruturas através da exploração e manipulação dos objetos sonoros (GAINZA, 2015, p. 67). Oferecer essa liberdade às crianças e o ensino musical significativo potencializa a capacidade de aprendizagem do aluno, que constrói seu conhecimento junto ao professor, em um processo que tem mais de si, pela possibilidade interpretativa e criativa que é oferecida. Gainza (2015) destaca dois tipos de processos principais de aplicação pedagógica do improviso. O primeiro é de caráter predominantemente expressivo, comunicativo e de relaxamento do aluno: feito com uma liberdade maior, procura formas espontâneas de expressão musical, de modo a oferecer ao avaliador um panorama da bagagem musical do aluno, estabelecendo uma relação mais próxima e possibilitando que os próximos processos, os direcionados, tenham maior eficácia. O processo seguinte foca na absorção de materiais, sensações, ideias e conceitos musicais: com uma conexão e noção já formadas sobre o aluno, há um direcionamento do improviso por parte do professor, atingindo objetivos específicos ou gerais no ensino da música. Cabe, ao professor, oferecer um objeto, ritmo ou experiência sonora que será explorado pelo aluno. O professor guiará o aluno de forma que a aprendizagem ocorra por recepção e descoberta. A criança é livre para explorar, experimentar, expressar e conhecer a matéria oferecida pelo professor, e cabe a ele ditar os caminhos e estimular esse improviso de acordo com o conhecimento a ser oferecido. É importante retomar aqui o que foi apreendido na Unidade 2 sobre aprendizagem significativa. Ao estimular o improviso, é preciso ter em mente o discurso musical dos alunos, sua bagagem cultural e sua autonomia criativa. Não que o professor restrinja os assuntos e melodias culturais a serem apresentados, por exemplo, mas é essencial contextualizar e perceber as nuances que cercam a música e sua significância. O fazer musical, o improviso e a musicalização – elementos essenciais no ensino da música – podem e devem ser repensados para as crianças, principalmente ao percebê-las em toda sua potencialidade, trazendo para a aula sua bagagem musical, capacidade criativa e capacidade de aprendizagem. TÓPICO 1 | A FLAUTA DOCE EM DIFERENTES CONTEXTOS EDUCATIVOS 131 4 VIVÊNCIAS MUSICAIS EM CONTEXTOS FORMAIS, NÃO FORMAIS E INFORMAIS DE ENSINO Ao pensar em vivência musical pedagógica, a tendência é direcionar o foco ao ensino em sala de aula, ou em conservatórios e escolas de música. No entanto, ampliar a percepção sobre os diversos contextos de ensino possibilita ao professor uma maior gama de vivências musicais, valorizando os três âmbitos que podem interagir entre si no desenvolvimento da aprendizagem musical. 4.1 CONTEXTOS FORMAIS DE ENSINO A educação musical formal de ensino é comumente associada àsclasses, conservatórios e aulas particulares: o ensino infantil, o fundamental e o médio, além das escolas de música, professores particulares ou mesmo graduação. A música, como ferramenta de expressão, permeia toda a humanidade, em todas as idades e culturas, e percebe-se o cuidado com relação ao ensino atrelado a uma estrutura educacional. Contudo, ainda há certo descaso com relação à formação, seleção e aperfeiçoamento de profissionais de ensino, além de haver ainda a forma de encarar a música como objetivo, e não apenas um meio. No Brasil, o ensino musical nas escolas, apesar de todo suporte curricular, carece de profissionais capacitados. A “[...] falta de formação específica em música dificulta as ações pedagógicas do professor, fazendo com que muitos continuem a tratá-la apenas como uma atividade do dia a dia, sem maiores conotações ou expectativas” (GOHN; STRAVACAS, 2010, p. 88). É comum vermos graduados em artes plásticas, educação artística, pedagogia e licenciaturas afins darem aulas de música, sendo que, em seus cursos, tiveram pouco mais de duas disciplinas dedicadas ao tema. É necessário que o licenciado em música ocupe esses espaços, ou que ao menos esses profissionais que já estão no mercado possam se especializar, trazendo um olhar diferenciado sobre a música na educação formal. Além disso, há uma necessidade de questionar o papel do uso da música em conjunto com outras disciplinas, numa posição subordinada, secundária. As músicas para fins recreativos e/ou rotinas escolares; as canções para celebrações dos festejos, como dia das mães, dos pais, ou festas juninas; além de músicas com elementos de memorização de matéria, por mais que demonstrem o ensino musical, não tratam da música em si, mas a utilizam como ferramenta para outros fins. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 132 É preciso que haja conscientização coletiva de todas as esferas educativas no campo da educação, sobretudo, da educação formal pré-escolar, fazendo com que seja uma linguagem tão importante quanto às demais áreas do conhecimento e, portanto, fundamental para o processo de ensino-aprendizagem (GOHN; STRAVACAS, 2010, p. 101). É possível integrar todos os elementos de ensino, em uma visão mais contemporânea da aprendizagem, repensando o papel da música na pedagogia e em todos os profissionais que compõem o papel escolar, possibilitando que os alunos possam ter uma vivência musical de forma mais ampla e rica. 4.2 CONTEXTOS NÃO FORMAIS DE ENSINO Como são processos não escolarizáveis, normalmente, os contextos não formais de ensino são vistos, tanto pela mídia quanto pelo senso comum, como algo análogo à educação. É preciso, antes de tudo, perceber o que configura esses contextos e a importância dos impactos social e cultural. As práticas da educação não formal se desenvolvem usualmente extramuros escolares, nas organizações sociais, nos movimentos, nos programas de formação sobre direitos humanos, cidadania, práticas identitárias, lutas contra desigualdades e exclusões sociais. Elas estão no centro das atividades das ONGs, nos programas de inclusão social, especialmente nas Artes, Educação e Cultura (GOHN, 2009, p. 31). Essas práticas, que normalmente abordam temáticas étnico-raciais, inclusão e discussão de gênero, ou geracional, trazem uma gama de benefícios aos aprendizes envolvidos, que vão desde a percepção de direitos e deveres sociais, práticas coletivas, desenvolvimento de potencialidades, a uma percepção de mundo diferenciada. Contudo, essas iniciativas carecem de uma visão reflexiva por parte da academia e da mídia, servindo, frequentemente, como fonte estatística para projetos de parceria entre governo e sociedade civil, visando receber fundos públicos. Projetos de ensino de capoeira, formação de bandas marciais e compartilhamento de culturas indígenas são projetos que surgem na sociedade e que trazem possibilidades de ensino, manutenção cultural e alternativa profissional a professores e a outros profissionais. Com uma estrutura menos burocrática e hierárquica, há uma gama maior de inovações. A música, um dos elementos universais de comunicação e expressão, insere-se de forma acentuada. Jogos de mão, cantos para as capoeiras, músicas regionais, instrumentação, teoria para grupos musicais e músicas de escoteiros, por exemplo, podem ser uma via de ensino que agrega o fazer musical e amplia a vivência cultural extraclasse do aluno. TÓPICO 1 | A FLAUTA DOCE EM DIFERENTES CONTEXTOS EDUCATIVOS 133 Finalmente, é preciso também reafirmar o caráter não competitivo, ou mesmo complementar, da educação não formal. Como o ensino da música, que deve ser visto como meio e fim, também é preciso perceber que essa educação busca uma aprendizagem coletiva, para uma vivência cultural e social significativa. Quando a abordagem é aplicada em comunidades socioeconomicamente carentes, ela proporciona um resgate das potencialidades naquela comunidade. Além disso, essas iniciativas dão novas dimensões aos alunos, que, supostamente, não teriam espaço para esses conhecimentos em outras estruturas pedagógicas. 4.3 CONTEXTOS INFORMAIS DE ENSINO Ao pensarmos em ensino, principalmente no contexto acadêmico, tendemos a restringir nossa percepção a professores e alunos, quando, na verdade, é preciso transcender. A aprendizagem é feita a todo momento, com nossos pais, amigos, familiares, colegas de trabalho, enfim, em nosso meio social. Desde que nascemos, apreendemos o mundo de forma individual, porém, somos guiados pelo nosso meio social. Essa interação deve ser levada em conta pelos meios formais e não formais de ensino, constituindo, também, a base de aprendizagem. A educação tem função adaptadora no processo de formação do sujeito ao longo das etapas de sua vida, pois está ligada à “produção e reprodução” da vida social. Os conhecimentos, experiências e modos de ação são passados para as gerações futuras (ALMEIDA, 2014, p. 10). Sobre os estudos acerca das músicas folclóricas e tradicionais e seu caráter para a experiência musical infantil, trazem um contexto cultural que, muitas vezes, é tratado com descaso, mas que, no entanto, configura uma valorosa prática ancestral, que se revigora e se transforma com o passar do tempo. Dessa forma, não é o papel do professor direcionar o ensino informal, pois essa vivência entremeia a própria experiência de vida do aluno. 5 FLAUTA DOCE NA EDUCAÇÃO BÁSICA Foi Edgar Hunt, um flautista, que introduziu nas escolas a flauta doce como instrumento musicalizador. Ele percebeu seu potencial, principalmente por dois pontos: o custo reduzido de produção, que daria aos pais do aluno maior poder de compra do instrumento; e a facilidade do aprendiz em, desde a primeira aula, emitir sons e interpretar peças, oferecendo a oportunidade do fazer musical desde as primeiras aulas. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 134 Com o final da Segunda Guerra Mundial, percebeu-se a possibilidade de serem direcionadas as linhas de produção em série de plásticos e metais para a produção de outros itens, como as flautas doces, gerando um desenvolvimento e redução de custo, ampliando a aceitação do instrumento nas escolas e a popularização do seu ensino. No Brasil, a proposta de inserção do ensino da música nas escolas foi desenvolvida no governo Vargas e, mais atualmente, tornou-se obrigatória no currículo escolar, percebendo-se, dessa forma, o ensino da música como uma atividade que estimula uma integração entre as funções motoras, emocionais e cognitivas, otimizando o aprendizado e ampliando as possibilidades dos professores. Há a necessidade de refletir sobre as técnicas e metodologias de ensino que melhor se adequam à realidade do ensino coletivo da flauta doce. Podemos citar o início do ensino pela nota mi, que tem sido difundido por começar apresentando as duas mãos fechadas na flauta, otimizando a segurança do instrumentoe facilitando, ao professor, corrigir a postura e posição das mãos. Alguns dos principais motivos que justificam a presença da flauta doce em propostas da educação musical: • Permite uma fácil iniciação técnica de execução e memorização. • Possui modelos e manutenção acessíveis financeiramente. • Pode ser facilmente empregada junto a outros instrumentos, além de possibilitar a integração discente e prática coletiva através da formação de conjuntos instrumentais. • Possibilita o acesso a diferentes culturas, períodos históricos e gêneros musicais. • Reúne repertório de elevado valor artístico, produzido por compositores de renome e interpretado por executantes de alto nível técnico/musical. FONTE: CUERVO, L.; PEDRINI, J. Flauteando e criando: reflexões e experiências sobre criatividade na aula de música. Música na Educação Básica, Porto Alegre, v. 2, n. 2, 2010. IMPORTANTE 135 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • A aprendizagem musical na infância acontece por meio de atividades lúdicas associadas a cantigas e parlendas culturalmente difundidas. • Devemos levar em consideração a bagagem cultural, o meio onde a criança vive e tudo o que é material para ser utilizado no momento da aprendizagem. • Há dois tipos de processos principais de aplicação pedagógica do improviso: os de caráter expressivo e comunicativo e aqueles que focam na absorção de materiais, sensações, ideias e conceitos musicais. • Ampliar a percepção sobre os diversos contextos de ensino possibilita ao professor uma maior gama de vivências musicais. 136 1 A música está em nosso cotidiano. Ela permeia nossas vidas desde que nascemos, está em nossas crenças, nos ambientes familiar e escolar. Como linguagem, ela expressa e é expressada de forma a significar algo, refletindo realidade, sentimentos e sensações. Considerando os estudos e pesquisas sobre flauta doce em diferentes contextos, analise as afirmativas a seguir: I- O Referencial Curricular, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação tratam do papel da música nas escolas, fundamentando sua estrutura e a reconhecendo como uma forma de representação social em todas as culturas humanas. II- Entender o papel da música na Educação Infantil e possibilitar ao aluno a vivência dessa prática constituem os primeiros passos para a construção do fazer musical no ambiente escolar. III- A criança interpreta sua realidade por meio de estudos rígidos, porém lúdicos, para desenvolver as habilidades de abstração e criatividade. IV- Na primeira infância, as crianças têm a capacidade de, na experimentação sonora, aprender sobre as qualidades básicas dos sons, como altura, duração, intensidade e timbre. Estão CORRETAS as alternativas: a) ( ) I e III. b) ( ) II e III. c) ( ) III e IV. d) ( ) I, II e IV. 2 As primeiras palavras e sons reconhecidos pela criança, em seu idioma materno, vêm acompanhados de músicas entonadas pelos pais, professores ou cuidadores. Sobre o exposto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Jogos de mãos, saltos e rodas, além de elementos como ritmo, pulso e andamento, configuram-se como excelentes exemplos de aprendizagem significativa. ( ) Improvisar, compor ou interpretar musicalmente é uma forma de comunicação e expressão no processo de ensino e aprendizagem em música. ( ) O fazer musical pode estar presente na educação infantil a partir dos oito anos de idade. ( ) Crianças pequenas, mesmo com auxílio do professor, não têm capacidade de atribuir significado musical para elementos sonoros ao seu redor. AUTOATIVIDADE 137 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) F – V – V – F. b) V – F – V – F. c) V – V – F – F. d) F – V – V – V. 138 139 TÓPICO 2 PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO As propostas didáticas para flauta doce reunidas neste tópico são constituídas por atividades que utilizam meios tradicionais de ensino, como livro impresso, métodos e partituras, e recursos digitais, como programas para computadores e aplicativos de celular. É um conjunto de possibilidades que se conecta com o que há de mais atual no campo da pesquisa em educação musical e tecnologias digitais. No entanto, uma grande preocupação é a qualidade do processo de ensino. Portanto, o texto avança no sentido de apresentar orientações quanto à análise de materiais didáticos em formato impresso ou em meio digital. É impossível reunir tudo o que está sendo produzido em uma seção textual tão curta, mas acreditamos que os exemplos apresentados e as fontes citadas serão motivadores para você realizar suas pesquisas futuras na área. A prática de flauta doce, considerando os atuais recursos tecnológicos e as possibilidades que os meios digitais oferecem, pode ser ainda mais significativa. Portanto, neste tópico, você terá a oportunidade de refletir sobre os princípios didáticos orientadores da concepção de ensino para flauta doce adotados neste material de estudo; conhecerá alguns materiais didáticos em formato de livro para flauta doce e saberá como avaliá-los; e refletirá sobre a importância dos jogos digitais e das páginas web no processo de ensino. Dicas de como avaliar esses recursos também farão parte do texto. Aproveite! A prática de flauta doce neste tópico será diferenciada, pois contará com os suportes digitais disponíveis na web. Recomendamos que você, caro acadêmico, na medida do possível, vivencie as atividades propostas e opine sobre elas, comentando e socializando suas descobertas e conclusões. Também esperamos que você possa enriquecer este tópico com a inclusão de outras propostas de materiais didáticos para flauta doce, seja no formato 140 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE impresso ou digital. Desse modo, você, como coautor, e responsável pelo processo de ensino e aprendizagem em flauta doce, poderá ampliar cada vez mais o repertório de possibilidades didáticas para uma educação musical de qualidade. 2 PRINCÍPIOS DIDÁTICOS PARA O ENSINO DE FLAUTA DOCE FIGURA 1 – AULA DE FLAUTA - GRAVURA FONTE: <www.loc.gov/item/miller.0256/>. Acesso em: 20 jul. 2019. No decorrer do curso de Licenciatura em Música, uma questão que ocupa as discussões e reflexões diz respeito a como ensinar música. Aliada a essa questão, acrescentamos uma outra pergunta pertinente, com relação ao aprendizado da flauta doce: quais são os princípios didáticos norteadores do processo de ensino e aprendizagem? Sobre o ensino de flauta doce, Pereira (2009) afirma que a facilidade inicial que o instrumento apresenta quanto ao seu manuseio traz a falsa impressão de que é fácil ensiná-lo sem um mínimo de conhecimento prévio. Evidentemente, considerando o percurso realizado nas unidades anteriores desse livro didático, é possível constatar que tocar flauta doce não é algo tão simples. A flauta doce, antes de ser um instrumento didático, foi um instrumento artístico de grande destaque na história da música, tendo um vasto repertório com diferentes níveis de complexidade. Quando pensamos na flauta doce, não podemos deixar de lembrar que esse instrumento possui uma “família”, apesar de, intuitivamente, na maioria das vezes, termos em mente somente a imagem da flauta doce soprano. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 141 Muitas peças para flauta doce foram e são escritas para duas, três ou quatro vozes divididas entre soprano, contralto, tenor e baixo. Portanto, é necessário o aprimoramento gradativo do instrumento com estudos técnicos e repertório adequado, visando melhores resultados tanto na performance quanto na qualidade do ensino didático (PEREIRA, 2009). Educadores musicais, como Beineke (1997) e Lander (2000), consideram a flauta doce um dos instrumentos mais adequados para a iniciação musical. Por meio dela, é possível trabalhar performance,criatividade, formação de grupos e o aprendizado da teoria musical na prática. Considerar o potencial criativo desse instrumento é uma ação imperativa, e precisamos de professores empenhados na busca de materiais técnicos e informações pertinentes ao ensino. Penna (2007) traz o entendimento de que “para ensinar, não basta tocar”, o que é reforçado a seguir: Para ensinar música [...], não é suficiente somente saber música ou somente saber ensinar. Conhecimentos pedagógicos e musicológicos são igualmente necessários, não sendo possível priorizar um em detrimento do outro (DEL BEN, 2003, p. 31). Considerando tais questões, entendemos que o delineamento de princípios didáticos para ensinar flauta doce pode ser resultado da mobilização de um conjunto de conhecimentos. Conhecimentos na área musical, relativos à teoria e prática instrumental, e no campo da educação musical, relacionados à didática do ensino da música. Afinal, quais são os princípios didáticos norteadores do processo de ensino e aprendizagem em flauta doce? Existem alguns princípios gerais utilizados para o ensino de instrumentos musicais que podem nortear o ensino de flauta doce: • Qualquer pessoa pode aprender a tocar flauta doce. Todas as crianças, jovens ou adultos, sem exceção, se incentivados e influenciados positivamente, podem desenvolver excelentes habilidades musicais. • O processo de ensino e aprendizagem, em flauta, não pode ser rígido. O processo deve ser flexível o suficiente para garantir um ambiente propício ao aprendizado significativo de flauta doce. O planejamento das atividades não pode ser engessado, mas aberto às mudanças e adequações durante o percurso. • Disciplina e estudo são elementos essenciais. Disciplina, dedicação e estudo diário levam ao desenvolvimento da habilidade necessária, esta que pode garantir um aprendizado de excelência em flauta doce. • Talento é a habilidade trabalhada. Desde que existam estímulos positivos constantes e um ambiente favorável à aprendizagem, a formação musical gradativamente se consolidará. É preciso sempre valorizar cada progresso e respeitar o tempo de aprendizagem de cada um. 142 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE Esses princípios gerais foram inspirados em diferentes educadores musicais, como Suzuki, Swanwick, Koellreutter e Orff. Esses educadores tinham em comum o fato de pensarem em um processo de ensino e aprendizagem significativo, ativo, envolvente e que estimulasse a criatividade. Nessa perspectiva, o objetivo do trabalho docente não se resumiria somente ao ensino de música enquanto técnica, e sim à educação musical, um conceito mais amplo. A educação musical tem, como focos didáticos, o desenvolvimento do ser humano e a contínua construção do pensamento, através de um fazer musical abrangente, integrando prática e reflexão. Na perspectiva contemporânea, a educação musical ampliou a sua abrangência e passou a visar não somente à formação de músicos profissionais, mas à formação integral de todo ser humano. [...] A educação musical não é apenas uma atividade destinada a divertir e a entreter as pessoas, tampouco um conjunto de técnicas, métodos e atividades com o propósito de desenvolver habilidades e criar competências, embora seja uma parte importante de sua tarefa. O mais significativo na educação musical é que ela pode ser o espaço de interseção da arte na vida do ser humano, dando possibilidade de atingir outras dimensões de si mesmo e de ampliar e aprofundar seus modos de relação consigo próprio, com o outro e com o mundo. Essa é a real função da arte e deveria estar na base de toda proposta de educação musical (FONTERRADA, 2008, p. 117). Acerca dos princípios de uma educação musical contemporânea, a grande novidade vem da participação ativa do indivíduo e da integração entre diversos modos de fazer música. Segundo Campos (2000), o ideal seria que os estudantes pudessem vivenciar em suas aulas vários aspectos da música de maneira integrada, como: história da música, teoria, solfejo, percepção, criação, interpretação, escrita e leitura. A educação musical pode ampliar a própria ideia de música por incentivar a liberdade de expressão, de acordo com as possibilidades de cada um. Para que isso aconteça, é necessário partir de propostas abertas que estimulem o “ouvido para ouvir, liberdade para criar, coragem para escutar!” (KATER, 2004, p. 12). Quanto à flauta doce e seu uso em aulas de educação musical, muitas vezes, seu ensino ainda é realizado por professores com uma formação muito precária no instrumento, aliada a uma didática tradicional. As aulas tendem a ser muito direcionadas, com muitos ensaios e repetições, ao invés de promoverem uma experiência musical rica (FREIXEDAS, 2015). Diante dessa realidade, alguns flautistas doces veem a necessidade de um estudo que abra caminho para novas propostas metodológicas, tendo em vista um início sólido e atento aos recursos do instrumento, aproveitando sua facilidade inicial e viabilizando um aprofundamento posterior (PAOLIELLO, 2007, p. 28). TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 143 Borges (1997), em seus estudos sobre flauta doce, relata uma experiência pedagógica. Esse educador propõe, para o ensino, soluções lúdicas, jogos e brincadeiras, além da seleção de um repertório formado por canções tradicionais. Assim, é possível abordar conhecimentos musicais e questões do desenvolvimento de habilidades técnicas específicas da flauta doce (FREIXEDAS, 2015). A música como uma linguagem Ao enfrentar uma dificuldade no ensino de música, lembre-se de que a música é uma linguagem, e como tal, deve comunicar algo. Quando aprendemos a falar a nossa língua, nossos pais repetiam inúmeras vezes cada palavra, sempre respeitando nosso tempo de aprendizado. Além disso, primeiramente, aprendemos a falar e, anos mais tarde, a ler e a escrever. Comparando com o ensino de música, geralmente, ensinamos a ler e a escrever música, para apenas depois aprender a tocar. Ao tocar, damos prioridade pela contagem de tempos e por dedilhados corretos. Se compararmos com a fala, seria o mesmo que ensinar bebês a escreverem antes de falarem. Ao falarem, pediríamos a eles para contarem o número de sílabas e pronunciarem cada palavra sem nenhum significado. Ainda, o pior é trocar os nomes de notas por números, símbolos ou cores. É o mesmo que ensinar errado para corrigir depois. Não há razão para fazer o trabalho duas vezes. FONTE: <https://quintaessentia.com.br/artigo/flauta-doce-nas-escolas/>. Acesso em: 19 jul. 2019. IMPORTANTE As aulas de flauta doce podem possibilitar muitas descobertas para os alunos, desde o primeiro contato com o instrumento, por meio de atividades sonoras mais livres, até tocarem as primeiras melodias utilizando o cancioneiro popular brasileiro ou outros estilos. Em atividades de exploração sonora livre, várias sonoridades descobertas são muito comuns na música erudita contemporânea para flauta doce. Para Beineke (1997), também é essencial, durante as aulas de flauta, o incentivo a tocar de “ouvido”. Na perspectiva, o aluno desenvolve sua capacidade auditiva em atividades conectadas ao seu meio cultural, identificando as notas das músicas que fazem parte do seu cotidiano. 144 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE Assista ao vídeo da orquestra de flauta doce da escola primária de Taichung, em Taiwan, 2012. Note que não são alunos de escolas de música, mas de uma escola regular com aulas de música. Os alunos no vídeo chamam atenção pela postura corporal, articulação correta das notas na flauta, respiração e afinação. São elementos básicos fundamentais para uma boa performance em flauta doce. FONTE: <https://youtu.be/aQO-uFhTHMQ>. Acesso em: 19 jul. 2019. DICAS 3 MATERIAIS DIDÁTICOS IMPRESSOS PARA FLAUTA DOCE Nos últimos anos, o material didático tem sido um dos temas recorrentes nos trabalhos e nas discussõesna área de educação musical no Brasil. Contudo, no caso específico da flauta doce, apesar de existirem inúmeros métodos de ensino, pouco se avançou na produção de análises sobre tais materiais. Entendemos, por material didático, caderno de atividades, guia do aluno, guia do professor, livro-texto, livro didático, livro paradidático, folhetos ilustrativos, mapas, jogos etc. No entanto, neste item, trataremos especificamente do livro didático ou método de ensino para flauta doce. Na literatura, o livro didático é considerado um dos principais instrumentos utilizados na prática escolar. Esse material tem sido discutido sob diferentes aspectos, tais como aspectos psicológicos, linguísticos e ideológicos. Molina (1988), por exemplo, destaca que “todo livro, em princípio, presta a ser utilizado para fins didáticos, isto é, em situação deliberadamente estruturada com o objetivo de ensinar algo a alguém. Isso não significa, entretanto, que qualquer livro utilizado para fins didáticos pode ser considerado um livro didático” (OLIVEIRA, 2005, p. 17). Quanto aos materiais para o ensino de flauta doce, podem ser de duas naturezas, ou seja, podem ser métodos ou coletâneas de partituras musicais. As coletâneas reúnem peças musicais para dar suporte ao trabalho didático do professor de instrumento. Os métodos são considerados, no campo da educação musical, como livros didáticos para o ensino instrumental. Como métodos mais recentes de flauta doce, podemos citar o Sonoridades brasileiras: método para flauta doce soprano (WEILAND; SASSE; WEICHSELBAUM, 2018). É um material produzido no Brasil, por professoras especialistas e altamente qualificadas para o ensino da flauta doce. Um diferencial do material é, justamente, o fato de as autoras serem professoras de flauta atuantes em sala de aula. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 145 Quanto ao repertório Sonoridades Brasileiras, é um método que contempla as diversidades rítmica e melódica da música brasileira, além de estratégias didáticas que motivam os estudantes para a criação, improvisação e apreciação musical. Outro método muito conhecido para o ensino de flauta doce é o método de Helmut Monkemeyer (1976), que escreveu vários volumes: a flauta doce soprano, a flauta doce contralto e a flauta doce tenor. No método, o autor tem um cuidado especial com as questões de natureza técnica, tratando desde os primeiros capítulos de afinação, articulação, sopro, respiração e posição dos dedos. O conteúdo de flauta doce é abordado de forma gradativa por meio de exercícios preparatórios que antecedem as músicas propostas pelo autor. As melodias são, em sua maioria, em solo, no entanto, o autor também apresenta algumas peças para duas vozes. Vale ressaltar também que o repertório é constituído por canções folclóricas do Brasil e de outros países, além de peças barrocas e renascentistas. Quanto às coletâneas, podemos citar como exemplo o livro de Beineke e Freitas (2006), no qual foram organizadas partituras de canções brasileiras com arranjos para flauta doce e outros instrumentos. Essa coletânea não é um método de ensino, mas um recurso que pode ser utilizado pelo professor de instrumento durante o processo de aprendizagem. É importante ressaltar que a qualidade pedagógica de um material de educação musical, mais que sua forma e organização interna, está no tipo de uso. No entanto, existem alguns critérios objetivos que podem ajudar na avaliação de um livro didático para flauta doce. • O livro possui linguagem adequada para o público (criança, adolescentes, adultos)? • O conteúdo é apropriado ao nível de conhecimento dos estudantes sobre o instrumento (iniciante, intermediário, avançado)? • O(s) autor(es) tem(têm) experiência como professor(es) de flauta doce em contextos de ensino e aprendizagem? • A apresentação visual é agradável à faixa etária? • Há uma distribuição lógica de temas? • Orienta quanto aos cuidados com o instrumento (limpeza, conservação e armazenamento)? • Aborda todas as posições da flauta doce (naturais, bemóis e sustenidos)? • Apresenta indicação de posições auxiliares? • As melodias são apresentadas em notação convencional (partitura)? • As melodias são apresentadas em diagramas para flauta doce? • As melodias são apresentadas de forma não convencional? Como? • Propõe melodias musicais de diferentes estilos e períodos históricos? • Apresenta exercícios técnicos? • Apresenta propostas de atividades de improvisação? • Disponibiliza arranjos para duas vozes? 146 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE Essas informações são algumas ideias gerais que podem auxiliar no processo de avaliação e na escolha de um material didático para flauta doce. Ressaltamos que a definição de qualquer material didático em música deve ser condicionada aos objetivos da proposta pedagógica da instituição de ensino. Em geral, o tipo de material didático a ser utilizado no ensino de flauta doce também dependerá das condições de oferta e finalidades do curso, da duração, do público-alvo, da combinação possível das tecnologias, entre outras condições. A seleção de um bom material didático para flauta doce é importante, pois ajuda o estudante não somente nas aulas com o professor, mas nos estudos individuais em casa. Por esse motivo, um conteúdo bem estruturado, objetivos claros e linguagem acessível são essenciais em qualquer material para estudo. Paoliello (2007), ao tratar do papel da flauta doce, afirma que esse instrumento exerce uma dupla função: de instrumento artístico e de iniciação musical. É necessário, portanto, que o professor conheça o papel da flauta doce como instrumento artístico para também entender a segunda função, que é de iniciação musical. Silva (2012) também afirma que o professor precisa conhecer a história da flauta doce no contexto da história da música, ter domínio técnico sobre o instrumento e didática de ensino. Com isso, o trabalho docente tornará o processo de ensino e aprendizagem ainda mais significativo. Coletâneas para flauta doce Esta coleção apresenta uma seleção de obras de Antônio Lucio Vivaldi, em uma versão simplificada para iniciantes. São 10 temas fáceis e divertidos para tocar como solos, que podem ser acompanhados por piano ou guitarra. DICAS TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 147 FIGURA – COLETÂNEA DE SOLOS PARA FLAUTA DOCE FONTE: <https://www.amazon.com.br/kindle/dp/B01MSJG6BF/ref=rdr_kindle_ext_eos_ detail>. Acesso em: 19 jul. 2019. Solos clássicos fáceis para flauta doce Esta coleção apresenta uma seleção de peças clássicas dos compositores mais renomados do mundo: Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, George Frideric Handel, Wolfgang Amadeus Mozart, Antonio Lucio Vivaldi, Piotr Ilyich Tchaikovsky, Johann Strauss II, Edvard Grieg, Johann Pachelbel, Giuseppe Verdi, Edward Elgar, Richard Wagner e Johannes Brahms. Para auxílio no trabalho de análise de materiais didáticos para flauta doce, as informações apresentadas no tópico foram reunidas em um quadro. Que tal fazer uma pesquisa sobre métodos para flauta doce (escolher um), avaliá-lo e apresentar suas conclusões em sala? Marque um “X” nos itens avaliados. DICAS QUADRO – FICHA PARA AVALIAÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Nome da equipe: Título do material avaliado: FICHA PARA ANÁLISE DE MATERIAL DIDÁTICO PARA ENSINO DE FLAUTA DOCE Sim Não Em parte Não se aplica O livro possui linguagem adequada para o público (criança, adolescentes, adultos)? O conteúdo é apropriado ao nível de conhecimento dos estudantes sobre o instrumento (iniciante, intermediário, avançado)? 148 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE O(s) autor(es) tem(têm) experiência como professor(es) de flauta doce em contextos de ensino e aprendizagem? A apresentação visual é agradável à faixa etária? Há uma distribuição lógica de temas? Orientaquanto aos cuidados com o instrumento (limpeza, conservação e armazenamento)? Aborda todas as posições da flauta doce (naturais, bemóis e sustenidos)? Apresenta indicação de posições auxiliares? As melodias são apresentadas em notação convencional (partitura)? As melodias são apresentadas em diagramas para flauta doce? As melodias são apresentadas de forma não convencional? Como? Propõe melodias musicais de diferentes estilos e períodos históricos? Apresenta exercícios técnicos? Apresenta propostas de atividades de improvisação? Disponibiliza arranjos para duas vozes? Há incentivo à crítica, à reflexão e ao aprofundamento dos temas? 4 RECURSOS DIGITAIS PARA PRÁTICA DE FLAUTA DOCE É possível observar a presença de recursos digitais na educação, tendo em vista a infinidade de recursos que são capazes de potencializar o processo de ensino e aprendizagem na música. Por exemplo, a criação e edição de partituras, o uso de softwares que permitem a reprodução, a gravação e a criação de sons sampleados com os mais diversos timbres, entre tantas outras possibilidades. Assim, foram provocadas importantes mudanças quanto às formas de aprender e ensinar música, exigindo, do professor, novas posturas docentes. Quanto mais cedo o professor de música tiver contato e pensar nas alternativas tecnológicas como mediadoras na educação musical, inserindo-as em suas práticas educativas diárias, menor se torna a defasagem do conhecimento tecnológico (LEME; BELLOCHIO, 2007, p. 90). Moran, Masetto e Behrens (2000, p. 75) esclarecem que “a inovação não está restrita ao uso da tecnologia, mas à maneira como o professor se apropria desses recursos para criar projetos metodológicos que superem a reprodução do conhecimento e ocasionem a produção do conhecimento”. Existe uma grande TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 149 variedade de recursos digitais que pode ser inserida no processo de ensino, reconfigurando, assim, a própria metodologia e didática de trabalho docente. Tais recursos abrangem aplicativos em forma de jogos, páginas web, repositórios de partituras e programas com os quais o músico pode cantar e tocar acompanhado por vários instrumentos. Serão apresentadas, neste tópico, algumas possibilidades de recursos digitais disponíveis para acesso em computadores ou dispositivos móveis, como tablets e smartphones. Dentre as inúmeras possibilidades, foram selecionadas aquelas que podem contribuir para a prática de flauta doce. 4.1 JOGOS ON-LINE PARA FLAUTA DOCE Os jogos digitais são considerados recursos capazes de proporcionar experiências de aprendizagem divertidas e significativas, além de despertar o interesse e a atenção de quem joga, independentemente da faixa etária. Para Figueiredo (2003), o fator motivacional tem relação direta com o contexto desafiador. Acredita-se que, sentindo-se motivados, os alunos se engajarão mais nas atividades propostas. Para tanto, caberá à escola e ao professor trazerem os jogos para as aulas, utilizando-os como ferramenta para a aprendizagem. Dentre os jogos digitais disponíveis on-line, vários permitem que o professor trabalhe com conteúdos específicos de música, mesmo não tendo sido desenvolvidos com o objetivo educativo, e sim com o de entretenimento (VERBER; ROSA, 2012, p. 88-89). Lopes e Oliveira (2013) mostram que muitos jogos digitais exigem um conjunto de competências consideradas indispensáveis ao profissional do século XXI, como o pensamento estratégico, a capacidade de resolução de problemas, o desenvolvimento e implantação de planos de ação e a adaptação a mudanças rápidas de situação. Além disso, esses jogos digitais permitem desenvolver habilidades, como a comunicação, interpretação e utilização de símbolos, capacidade de negociação, de tomar decisões coletivas e lidar com dados, além da melhoria de competências visuais, cognitivas e espaciais. As sugestões de jogos aliam os jogos digitais à prática de flauta doce. Um dos objetivos é indicar recursos que podem aprofundar e/ou exercitar os conteúdos de técnica instrumental e de teoria musical. Flute Master é um jogo que pode ser instalado em um desktop ou notebook. A versão gratuita é limitada, porém, permite ao jogador utilizar as principais funções do programa, como a detecção em tempo real dos sons da flauta doce. Graças ao microfone do computador, o som captado é utilizado para avançar nas fases e aferir a evolução do jogador. Além disso, caso o jogador 150 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE prefira, ele poderá utilizar a flauta virtual disponível pelo programa e manuseá- la com o auxílio do mouse. O jogo é para flauta doce soprano e apresenta opção de escolha do dedilhado barroco ou germânico, além de uma lista extensa de idiomas, inclusive português. O Flute Master faz parte da série Classplash Music e concentra-se em ensinar os fundamentos da flauta doce, introduzindo, gradualmente, cada nota em um ambiente de jogo, mostrando as posições corretas e fornecendo partituras para todas as músicas. O programa resultou de um projeto mundialmente premiado, desenvolvido com a colaboração de mais de 200 alunos do ensino fundamental. Flauta virtual É um programa on-line para compor melodias interessantes e agradáveis, de modo intuitivo, utilizando o mouse. Acesse o vídeo tutorial disponível em <https://www. youtube.com/watch?v=9vHHAK5jE5I> e depois crie suas próprias melodias. FONTE: <http://flauta.onlinegratis.tv/>. Acesso em: 20 jul. 2019. DICAS No Aprendo Música, há atividades e jogos para aprender e praticar a linguagem musical. Um repositório de conteúdo, em espanhol, com vários jogos e atividades de prática instrumental e teoria musical. A página apresenta atividades para flauta doce, ritmo e notação musical. Os jogos apresentam diferentes níveis de dificuldade (básico, intermediário e avançado), e foram baseados em livros didáticos para o ensino de música. É uma proposta muito interessante que pode ser utilizada como suporte para aulas de música em diferentes ambientes: salas de aula ou de música, desde que equipadas com computador e projetor. Quanto aos conteúdos de flauta doce, o programa, dentre outros, apresenta um simulador de posições que pode sanar dúvidas frequentes durante a execução de uma melodia. A única ressalva é que o modelo de digitação utilizado é o germânico. O repertório apresentado é, basicamente, de canções populares e natalinas, mas, independentemente disso, a forma de apresentação merece um destaque especial. As melodias seguem o seguinte padrão: ouvir (escuchar) e praticar (practica). Ao clicar em “ouvir”, a melodia será executada e, simultaneamente, você verá a figura musical e o nome da nota tocada em destaque. Na opção “praticar”, você deverá clicar no nome da nota relacionada à figura musical, na sequência que aparece na partitura. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 151 FIGURA 2 – JOGO ON-LINE MELODIA JINGLES BELLS FONTE: <https://aprendomusica.com/flauta.htm>. Acesso em: 20 jul. 2019. Outra atividade igualmente interessante é o jogo de leitura de notas musicais na partitura. No jogo, você é convidado a selecionar uma das três opções: ler (leer), escrever (escribir) ou ouvir (escuchar). Há também a opção de, primeiramente, conhecer as notas da pauta, clicando na clave de sol. FIGURA 3 – JOGO NOTAS NA PAUTA FONTE: <https://aprendomusica.com/flauta.htm>. Acesso em: 20 jul. 2019. 152 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE Há, ainda, o jogo de leitura de notas para flauta doce. Está disponível em uma página, em francês, com jogos e atividades específicas para solfejo de notas musicais. O objetivo do jogo é apontar quais são as notas que estão aparecendo na partitura na velocidade em que surgem. Desse modo, o jogador, aos poucos, adquire mais fluência na leitura da partitura musical. O jogador, antes de iniciaro jogo, poderá definir algumas configurações: nível de dificuldade (dificulté): fácil, intermediário, difícil e avançado; velocidade (vitesse); cores (couleurs); sons (son); e clicar na próxima nota (click = note suivante). Após definidas as configurações do jogo, é só clicar em iniciar (démarrer). Reúna-se com mais dois colegas em sala de aula e explore os jogos sugeridos neste tópico. Se preferir, selecione outros jogos interessantes e socialize com todos da turma. O importante é testar seus conhecimentos musicais e se divertir. QUADRO 1 – URL PARA JOGOS Jogos Url Melodia para flauta doce https://aprendomusica.com/const2/05jinglebells/05jinglebells.html Notas na escala de DÓ https://aprendomusica.com/const2/27aprendonotas8/aprendonotas8. html Leitura para flauta doce https://www.apprendrelesolfege.com/lecture-de-note-pour-flutiste Posições para flauta doce soprano (digitação germânica) https://aprendomusica.com/const2/posicionesFlauta/posicionesflauta. html FONTE: Os autores TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 153 4.2 APLICATIVOS DE FLAUTA DOCE PARA DISPOSITIVOS MÓVEIS Aplicativos, ou app, uma abreviação muito utilizada para o termo, são programas elaborados para dispositivos móveis, como smartphones e tablets. A popularização do acesso a esses dispositivos gerou, em todo o mundo, profundas mudanças no modo de produção e compartilhamento de informações. Como principais potencialidades oferecidas pelos dispositivos móveis para o ensino e a aprendizagem, destacam-se a ampliação do acesso a conteúdo pedagógicos e a possibilidade de criação de comunidades de aprendizagens ativa, interativa e colaborativa (MELO; CARVALHO, 2014, p. 2). Considerando essa realidade, teóricos da educação entendem que os dispositivos móveis são ferramentas importantes para contribuir com a melhoria e a ampliação da aprendizagem. A utilização dos dispositivos móveis na educação tem sido estudada em um campo de pesquisa chamado Mobile Learning, ou m-learning. O objetivo é entender, por meio da pesquisa, quais são as contribuições das tecnologias móveis para o processo de ensino e aprendizagem (SILVA; BATISTA, 2015). Boltz e Shoemaker (2010) refletem sobre a dificuldade de escolher, dentre os diversos aplicativos educacionais disponíveis, aqueles que serão benéficos e mais bem-sucedidos em sala de aula. Os autores apresentam algumas recomendações sobre como escolher aplicativos para iPads que melhor atendam às necessidades do professor e dos alunos, como: i) ler a descrição dos aplicativos e os comentários de outros usuários; ii) conferir o site do aplicativo e verificar se os desenvolvedores atuam em uma área específica; iii) experimentar o aplicativo antes de utilizá-lo em sala de aula; iv) e utilizar o checklist proposto por Walker (SILVA; BATISTA, 2015, p. 4). Atualmente, o número de aplicativos de flauta doce para dispositivos móveis não é muito vasto, contudo, via de regra, antes de escolher qualquer app para o smartphone ou tablet, é preciso saber como avaliá-lo. Silva e Batista (2015) apresentam algumas recomendações. Em geral, muitos aplicativos são criados, mas não necessariamente avaliados por profissionais da área de educação quanto à faixa etária indicada, conteúdo, habilidades direcionadas, interesse do aluno, recursos de design, conexão com o currículo ou recursos instrucionais. O primeiro passo é avaliar para qual faixa etária é recomendado o app, se os conteúdos apresentados têm relação com a área do conhecimento e as habilidades contempladas. Normalmente, tudo isso é encontrado em comentários do próprio aplicativo no “App Store", em que são fornecidos detalhes, descrição da ferramenta e outros aplicativos relacionados. 154 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE O segundo passo é avaliar a facilidade de uso e a adequação no contexto, ou seja, uma turma inteira, um grupo menor de alunos ou individualmente. Por fim, avalia-se de que forma o app pode contribuir para a aprendizagem ou para uma melhor compreensão do conteúdo trabalhado em sala de aula. ScoreCleaner Notes – Aplicativo desenvolvido pelo KTH Royal Institute of Technology, na Suécia. Foi uma iniciativa de músicos e pesquisadores que buscavam um programa que, além de captar o som de uma melodia cantada ou tocada, a escrevesse em uma partitura musical. Disponível apenas na plataforma IOS. DICAS FONTE: <https://www.b9.com.br/37405/aplicativo-transcreve-o-que-voce-canta-ou-toca- em-partitura-musical/>. Acesso em: 20 jul. 2019. Uma rápida busca por aplicativos de flauta doce ocasiona uma série de indicações. Note que podemos categorizar os app para flauta da seguinte forma: • Aplicativos para dedilhado. • Aplicativos para prática musical. • Aplicativos simuladores de flauta doce. • Melodias para flauta doce. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 155 FIGURA 4 – APP PARA FLAUTA DOCE FONTE: <https://play.google.com/store/search?q=flauta%20doce&c=apps&hl=pt_BR>. Acesso em: 20 jul. 2019. Considerando esse universo de possibilidades, é importante avaliar, de modo criterioso, o que instalar no smartphone, para tornar o aprendizado em flauta divertido e significativo. Vamos praticar? Instale, em seu smartphone ou tablet, um dos apps a seguir: 3D Aprender flauta doce ou Flauta practica. Faça os testes dos recursos disponíveis, avaliando- os conforme critérios sugeridos neste tópico, e apresente suas conclusões em sala. Esses aplicativos estão disponíveis no sistema operacional Android ou na Play Store do próprio smartphone. 156 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE FIGURA 5 – APPS FONTE: <https://play.google.com/store>. Acesso em: 20 jul. 2019. 4.3 PÁGINAS WEB COM CONTEÚDO ESPECÍFICO PARA FLAUTA DOCE Página Web, página eletrônica ou página digital é um documento digital de natureza multimídia, ou seja, capaz de incluir áudio, vídeo, texto e suas combinações, adaptado aos padrões da World Wide Web. Na internet, há mais de um bilhão de páginas web de natureza, idiomas e conteúdos diversos. Por analogia, a internet pode ser considerada como uma grande biblioteca virtual, cuja regulamentação representa um desafio e um debate para as instituições tradicionais da humanidade. Serão apresentados alguns critérios que poderão ajudar na avaliação de páginas web. Tais critérios têm, como focos, conteúdo e aspectos técnicos. Ressaltamos, porém, que apesar dos autores citados não tratarem de páginas específicas de música, os estudos elaborados são pertinentes para o contexto da educação musical. Os itens a serem avaliados, quanto ao conteúdo, são: Público-alvo: a página web deve conter conteúdo e atividades que correspondam ao nível acadêmico do público-alvo do site. Credibilidade ou confiabilidade: deve sempre ser cuidadosamente examinada e analisada antes de considerar a página útil e benéfica para fins educacionais. Precisão: no que se refere ao conteúdo, há duas definições: as informações estão de acordo com um determinado padrão e o conteúdo preciso deve ser gramaticalmente e tipograficamente livre de erros. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 157 Os aspectos técnicos referem-se à apresentação de informações visualmente atraente, acessível e fácil de navegar. Os principais critérios são: Apelo Estético ou visual: uma das principais características de um site educacional é o apelo estético ou visual. Em outras palavras, os gráficos e as cores usadas em um site educacional devem facilitar a compreensão do conteúdo pelo usuário. Além disso, a combinação certa de texto e gráficos incentivará os usuários a permanecerem na página ou a explorarem a página mais detalhes. Navegação: refere-se à facilidade em que o usuário pode se movimentar dentro do site. A navegação, dentro de uma página web, pode ser considerada de fácil utilização se o conteúdoútil não estiver a mais de três cliques da página principal. Acessibilidade: páginas educacionais devem ser acessíveis ou utilizáveis em todos os sistemas de computadores do ambiente escolar. A expressão acessibilidade também se refere à preocupação de fazer websites que possam ser utilizados em contextos de inclusão escolar. Selecionamos, para este tópico, algumas sugestões de páginas web para flauta doce, como blogs, repositórios de conteúdo, biblioteca digital de partitura, áudio e canal de vídeo. FIGURA 6 – FLUTETUNES FONTE: <https://www.flutetunes.com/>. Acesso em: 20 jul. 2019. É uma página em inglês com material específico de flauta disponibilizado gratuitamente para download. As principais características da página são: • Postagem diária de novas partituras musicais. • Peças para diferentes níveis de aprendizagem. • Todas as partituras são acompanhadas por uma gravação em MIDI e MP3. • Peças para duetos e com acompanhamento de piano. • Disponibiliza artigos sobre temas diversos relacionados ao estudo de flauta. • Disponibiliza uma extensão de outras páginas sobre flauta e flautistas. 158 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE FIGURA 7 – BRAZIL DOCUMENT FONTE: <https://document.onl/search?q=flauta+doce>. Acesso em: 30 jul. 2019. É uma página de busca de conteúdos na internet. No Brazil Document, é possível acessar on-line livros, métodos e apostilas completas sobre flauta doce. A página permite que os arquivos sejam visualizados no browser ou compartilhados nas redes sociais. FIGURA 8 – LIVROS DIDÁTICOS PARA DOWNLOAD FONTE: <http://www.projetoguri.org.br/livros-didaticos/>. Acesso em: 20 jul. 2019. A página, apesar de não ser específica para flauta doce, faz referência a uma coleção de livros didáticos, lançada em 2012. A coleção é composta por 11 livros específicos para os cursos de baixo elétrico, bandolim, bateria, canto coral infantojuvenil, cavaco, guitarra, madeiras, metais, percussão, viola caipira, violão e um guia didático para cordas friccionadas. Todo material pode ser baixado gratuitamente do cofre. Os livros foram elaborados como material para o Projeto Guri, e são voltados para a docência em música e elaborados a partir das particularidades do ensino coletivo de música. A ideia é oferecer um material voltado à realidade do projeto, tendo em vista a diversidade de faixa etária, gostos musicais, rotina e realidade de cada curso oferecido. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 159 FIGURA 9 – VISUAL MUSICAL MINDS FONTE: <https://www.youtube.com/channel/UCjUxQg9cHiOYqaRdtZ6pfoQ/>. Acesso em: 20 jul. 2019. Essa página foi criada por Nathan Walby, professor de Música no Condado de Prince George, Maryland. O conceito principal da página é utilizar todos os recursos disponíveis para ajudar na compreensão das atividades musicais. Por esse motivo, o autor trabalha a prática instrumental de flauta doce, integrando sons, imagens e desenhos em vídeos/partituras. FIGURA 10 – PÁGINA WEB GRUPO FLAUTEANDO FONTE: <http://grupoflauteando.blogspot.com/search/label/Inicio>. Acesso em: 20 jul. 2019. É um blog específico para flauta doce, que disponibiliza grande variedade de informações sobre esse instrumento e materiais para download, como partituras, artigos e métodos, além de apresentar, para livre acesso, fotos e vídeos. O repertório disponível vai do erudito ao popular, com arranjos para grupos de flauta doce, duos, trios, quartetos ou para flauta doce solo. Os métodos e apostilas disponíveis também tratam de temas variados, relacionados à prática de flauta doce, ao ensino e à teoria musical. Esse blog, criado em 2016, é uma referência importante para quem procura materiais de suporte para as aulas de flauta doce. Para os interessados em performance, uma biblioteca virtual que merece ser explorada. 160 UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE A página web Visual Music Mind disponibiliza uma peça para flauta doce chamada Arirang, uma melodia de característica lírica muito popular na Korea. Forme um grupo de flautas com seus colegas de sala e estudem juntos essa melodia para tocá-la no Polo. Acesse o vídeo! FONTE: <https://youtu.be/yMyXSiRoMgU>. Acesso em: 4 dez. 2019. DICAS FIGURA – CANÇÃO TRADICIONAL DA KOREA FONTE: <https://musescore.com/user/668541/scores/2723896>. Acesso em: 20 jul. 2019. TÓPICO 2 | PROPOSTAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE FLAUTA DOCE 161 ARIRANG É a música folclórica tradicional da Coreia. Os fãs de k-pop já devem tê-la ouvido pelo menos uma vez: normalmente, é cantada no fim de grandes shows e eventos. É também o nome de uma famosa emissora de TV. A Arirang é considerada, por muitos, o hino nacional não oficial da Coreia, e é tão importante que foi executada no lugar do Hino Nacional durante a entrada dos atletas da Coreia do Norte e do Sul na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Verão em Sydney, em 2000. Em 2012, a música foi incluída na Representative List of Intangible Cultural Heritage of Humanity da UNESCO, tornando-se Patrimônio Mundial. Para que outros países a conheçam e com o intuito de que a Arirang não seja esquecida, a Coreia do Sul deu início a um projeto de longa data para a preservação dessa parte tão importante de sua cultura. FONTE: <http://www.brazilkorea.com.br/arirang-a-musica-tradicional-da-coreia/>. Acesso em: 20 jul. 2019. IMPORTANTE 162 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • O aprendizado musical se dá não só nos meios formais de ensino, mas em ONGs, projetos sociais, na convivência social, sendo que todas essas formas são válidas e se complementam. • A flauta doce é um excelente instrumento para ser trabalhado, coletivamente, na educação básica. É, financeiramente, de fácil acesso, e proporciona mais compreensão de teoria musical e contato com repertórios de outras nacionalidades. • A flauta doce, antes de ser um instrumento didático, foi um instrumento artístico de grande destaque na história da música, tendo um vasto repertório com diferentes níveis de complexidade. • É necessário o aprimoramento gradativo do instrumento com estudos técnicos e repertório adequado, visando melhores resultados tanto na performance quanto na qualidade do ensino didático. • Todas as pessoas podem aprender a tocar um instrumento musical. • O processo de ensino e aprendizagem em flauta doce deve ser flexível o suficiente para garantir um ambiente propício ao aprendizado significativo. O planejamento das atividades não pode ser engessado, mas aberto às mudanças e adequações durante o percurso. • Disciplina, dedicação e estudos diários levam ao desenvolvimento da habilidade necessária, esta que pode garantir um aprendizado de excelência. • Talento é a habilidade trabalhada. Desde que existam estímulos positivos constantes e um ambiente favorável à aprendizagem, a formação musical gradativamente se consolidará. • As propostas didáticas precisam se adequar à realidade de ensino, de acordo com a faixa etária, duração, espaço e objetivos propostos. • Os materiais didáticos precisam ser avaliados de acordo com requisitos predispostos. • Existem muitas possibilidades de material de apoio que complementam os tradicionais, como livros e apostilas. As alternativas digitais estão em alta e existe material de qualidade de fácil acesso na internet para o apoio ao ensino da flauta doce. 163 AUTOATIVIDADE 1 Existem alguns princípios gerais utilizados para o ensino de instrumentos musicais que podem nortear o processo de ensino e aprendizagem de flauta doce. Que princípios são esses? Explique-os. 2 Acerca dos princípios de uma educação musical contemporânea, a grande novidade vem da participação ativa do indivíduo e da integração entre diversos modos de fazer música. Considerando essa questão, analise as sentenças a seguir: I- O ideal seria que os estudantes pudessem estudar, nas aulas de música, aspectosde política, educação e cultura clássica. II- Edgar Willems propõe, para o ensino, soluções lúdicas, jogos e brincadeiras, além da seleção de um repertório formado por canções tradicionais. Assim, é possível abordar conhecimentos musicais. III- Em atividades de exploração sonora livre, várias das sonoridades descobertas, na flauta doce, são muito comuns na música erudita contemporânea escrita para flauta doce. IV- Não se deve incentivar, durante as aulas de flauta, o aluno a tocar de “ouvido”. Estão CORRETAS as alternativas: a) ( ) I, II e IV. b) ( ) II, III e IV. c) ( ) I e IV. d) ( ) II e III. 164 165 TÓPICO 3 PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, serão apresentadas algumas orientações de cunho geral sobre o planejamento de atividades para o ensino de flauta doce. Destacamos que as informações e os estudos desenvolvidos neste livro devem ser considerados como subsídios para a organização de um bom plano de aula. Ao longo deste tópico, as dinâmicas apresentadas devem ser consideradas como exemplos promotores de ideias. Desse modo, queremos motivá-lo a desenvolver sua própria maneira de ensinar e aprender música. Outra questão importante a considerar são as indicações bibliográficas, métodos, aplicativos e demais materiais citados para o ensino de flauta doce. Lembre-se: você pode incluir, no planejamento de suas atividades docentes, as estratégias que julgar necessárias para o aprendizado significativo, como visto na Unidade 2 deste livro. O importante é priorizar o aprendizado, agindo com flexibilidade, clareza de objetivos e paciência. 2 SENSIBILIZAÇÃO AO SOM Schafer (2011), em seus estudos sobre o som presente na sociedade, e em diferentes períodos históricos, desenvolveu uma interessante reflexão sobre paisagem sonora. Segundo o autor, uma paisagem sonora é composta por sons de origem natural, humana, industrial ou tecnológica. Logo, todo e qualquer ambiente, seja urbano ou rural, constitui diferentes paisagens sonoras. É a partir dos estudos de Schafer (2011) que surge a preocupação sobre a percepção do meio ambiente sonoro no qual o ser humano está inserido. Desta forma, é possível observar como os sons podem representar determinados ambientes e dotá-los de significados. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 166 Schafer (2011) acredita que a qualidade da audição é o centro de uma boa educação musical. Para ele, uma relação equilibrada entre o homem, o ambiente e as diversas possibilidades criativas do fazer musical é fundamental no processo de ensino-aprendizagem em música. As atividades de sensibilidade sonoro-musicais têm, portanto, como principal objetivo, desenvolver a consciência sobre a escuta de sons do ambiente no qual a pessoa está inserida. Essas atividades podem ser realizadas dentro da sala de aula ou em outros espaços, fora da instituição de ensino. Schafer (2011) também acredita na importância do fazer musical criativo e em uma aula de música na qual o aluno tenha espaço para expressar-se por meio dos sons e organizá-los como música. Para o autor: Na aula de música, deve haver um lugar, no currículo, para a expressão individual, porém, currículos organizados previamente não concedem a oportunidade para isso, pelo fato de seu objetivo ser o treinamento de virtuoses. O principal objetivo de meu trabalho tem sido o fazer musical criativo, e embora seja distinto das principais vertentes da educação, concentrado, sobretudo, no aperfeiçoamento das habilidades de execução de jovens músicos, nenhuma dessas atividades pode ser considerada substituta da outra. O que me interessa, realmente, é que os jovens façam a sua própria música, seguindo suas inclinações, conforme acharem melhor (SCHAFER, 1991, p. 279). No contexto, fica evidente a importância da improvisação, buscando atingir a expressividade pessoal. Uma das contribuições do pensamento está alicerçada no fazer musical criativo, livre das limitações impostas por propostas de ensino de música mais tradicionais ligadas a um rígido e inflexível programa de conteúdos curriculares. Nesse sentido, afirma o autor: Meu método de educação musical é não linear. Os exercícios que seguem não vão como ABCDEFG… Todavia, acredito que eles constituem um alfabeto. A técnica é a de mosaico – uma pedra aqui, uma pedra ali –, num modelo em constante expansão. Alguns exercícios são relacionados ao aperfeiçoamento técnico, outros, à exploração criativa de sons (SCHAFER, 2005, p. 10). O autor desenvolveu uma abordagem de ensino que rompe com os atuais formatos utilizados em academias, conservatórios ou escolas de música. Para ele, exercícios que favoreçam a atenção dos sons de um ambiente (paisagem sonora), classificando-os e selecionando-os, também facilitarão o processo de composição. No ensino tradicional de música, o objetivo é o domínio técnico de um instrumento, além de um repertório que capacitará o estudante a executar qualquer peça da música ocidental composta entre a renascença e os tempos atuais. Em oposição a essa prática: TÓPICO 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 167 Senti que minha primeira tarefa no curso seria a de abrir os ouvidos: procurei sempre levar os alunos a notarem sons que, na verdade, nunca haviam percebido, a ouvirem avidamente os sons de seu ambiente e ainda os que eles próprios injetavam nesse ambiente (SCHAFER, 1991, p. 67). Uma estratégia muito eficaz para iniciar as atividades de sensibilidade musical é definida por Schafer (2005) como Limpeza de Ouvidos. Por meio desse exercício, os alunos adquirem mais consciência de alturas, timbres, intensidades, durações, ritmos, texturas, formas, além da importância do silêncio. Um dos elementos mais importantes a ser desenvolvido na educação musical é a percepção auditiva. A importância do som emerge quando se sugere à criança imaginar o mundo sem sons e, no contexto, com o objetivo de despertar a criança para os sons a sua volta, é preciso desenvolver atividades na quais ela possa ouvir atentamente, ou seja, estimular a criança a prestar especial atenção àqueles sons não facilmente percebidos. O ouvido pensante Compositor e autor canadense, Murray Schafer desenvolve, neste livro, a noção de "paisagem sonora" (soundscape). Trata-se de dar relevância ao chamado ambiente sônico que nos envolve como fenômeno musical, ambiente cuja paleta é composta por sonoridades que vão do ruído estridente das metrópoles aos sons dos elementos primordiais − terra, fogo, água e ar. Dessa forma, abre-se um novo domínio compreensivo da música, que não deixa de dar lugar aos sons antigos já perdidos e ao silêncio dos lugares distantes e esquecidos. FONTE: <https://www.skoob.com.br/livro/7020#_=_>. Acesso em: 20 jul. 2019. DICAS Vamos praticar? Atividade 1 – Limpeza de ouvido (atividade individual) Pare por dois minutos e simplesmente ouça os sons a sua volta. Fechar os olhos pode melhorar a concentração. Anote os sons que conseguiu perceber e comente com os seus colegas. A atividade pode ser realizada em diferentes ambientes. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 168 Atividade 2 – Paisagens sonoras com a flauta doce (atividade em grupo) Explore livremente as possibilidades sonoras da flauta: interrompendo a passagem de ar na lingueta ou na parte inferior da flauta; variando a intensidade do sopro; articulando outras sílabas além do TU ou do DU; inventando posições diferentes etc. Explore as possibilidades sonoras com outros materiais, como papel, sacolas plásticas, molho de chaves e tantos outros objetos que julgar sonoramente interessantes. Selecione os sons mais interessantes e organize-os em uma sequência que tenha início, meio e fim. Dê um título para seu trabalho, grave-o e apresente para os colegas de sala. A primeira atividade funcionará como “limpeza de ouvidos”, pois exigirá que o grupopare por alguns minutos de falar e de se agitar para ouvir o que estiver em volta. Essa atividade, conforme o tempo dedicado para a escuta, também pode reduzir o ritmo cardíaco individual e promover um relaxamento corporal. A segunda atividade, contrastando com a anterior, requer do grupo uma postura mais ativa, explorando, de modo criativo e expressivo, as sonoridades da flauta doce. É um trabalho de improvisação coletiva que exige mais tempo de preparo. FONTE:<http://www.cantosdafloresta.com.br/musicas-indigenas/propostas-didaticas/ sensibilizacao-sonora-exercicio-de-escuta/>. Acesso em: 20 jul. 2019. DICAS 3 MONTAGEM DE PARTITURA Della Torre (2018) desenvolveu um importante estudo sobre iniciação à escrita e leitura musical na escola. Essa autora, ao tratar de algumas propostas metodológicas sobre escrita musical com crianças, aponta que o processo a ser percorrido até a notação tradicional, necessariamente, deveria passar por códigos, por parte dos alunos, durante o processo de iniciação musical. Assim, de acordo com a pesquisa realizada por Della Torre (2018), sobre métodos brasileiros de música, foram encontradas algumas formas de trabalhar esse conteúdo. Nesses métodos, foram observadas três formas distintas para trabalhar a notação não tradicional: escrita inventada, analógica e relativa. Escrita inventada: é uma forma livre de grafar os sons, sem nenhuma comparação prévia ou referência às maneiras convencionais de registro sonoro. O professor convencionará, com os alunos, a maneira de grafar os sons, dessa forma, se tornará mais fácil, depois, por analogia, escrever os sinais musicais propriamente ditos. TÓPICO 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 169 FIGURA 11 – ESCRITA INVENTADA - COMPOSIÇÃO COLETIVA FONTE: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/332798>. Acesso em: 21 jul. 2019. Escrita analógica ou notação gráfica: o processo de alfabetização musical pode ser comparado com o processo de alfabetização na língua portuguesa, pois a criança passa por diferentes estágios até estar totalmente alfabetizada. A escrita analógica de partituras “baseia-se na analogia entre propriedades do campo auditivo e do visual. Alto, baixo, horizontal, vertical, contorno, proporção, entre outras qualidades” (DELLA TORRE, 2018, p. 11). A notação analógica é um recurso facilitador da performance, da escuta e da compreensão musicais. Enquanto na escrita tradicional o registro das durações requer longo aprendizado (padrões rítmicos, compassos e divisão), na notação analógica ele é quase inequívoco: sons curtos são representados por pontos ou traços horizontais pequenos; sons longos, por meio de traços maiores (DELLA TORRE, 2018, p. 11). As atividades com partitura analógica podem ser introduzidas no processo de ensino e aprendizagem em música com base em diferentes estratégias. Uma delas é a utilização de uma melodia, conhecida ou não, como referência e, no caso, chama-se a atenção para os elementos de som, como altura, intensidade, duração, timbre etc. Dessa forma, o aluno é motivado a representar graficamente os sons que ouviu durante a execução da melodia: UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 170 A educação musical pode valer-se dessa disposição para a representação gráfica desde os primeiros momentos. Registrar é uma forma de se materializar e organizar o complexo processo da percepção musical. Das garatujas musicais, segue a representação de instrumentos e de outras fontes sonoras. Surgem esquemas, onomatopeias e notações alternativas (DELLA TORRE, 2018, p. 10). A criança é capaz de associar não apenas figuras, mas também gráficos a sons, desde que representem o movimento do som. Assim, alguns educadores mostram que a criança não alfabetizada pode representar o som através de figuras que não são as tradicionais. As experiências de aprendizado criativo para os alunos também podem ser facilitadas, usando as formas não tradicionais de notação musical, cultivando a imaginação musical das crianças em seu nível atual de desenvolvimento cognitivo. Os sistemas de notação musical não tradicional oferecem um método válido para medir a compreensão musical dos alunos, promovendo a aprendizagem criativa de música e abrindo novos caminhos para as formas mais relevantes atualmente e globalmente de expressão musical. FIGURA 12 – ESCRITA ANALÓGICA FONTE: <http://caixinhamusical.com.br/brincadeira-do-registro-musical/>. Acesso em: 15 jul. 2019. Contudo, é necessário que a criança veja a relação entre o que se representa e o que é representado, e a relação geralmente se dá pela estrutura gestual. Assim, a notação também será melhor entendida se tiver essa relação: um traço longo, para representar um som longo, e um traço pequeno, para representar um som curto, denotando o movimento de som. TÓPICO 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 171 Della Torre (2018) ressalta que as cores ou formas geométricas, representações muitas vezes utilizadas, pouco ou nada possuem relação com a estrutura gestual do som. Escrita relativa ou notação aproximada: estabelece uma relação direta com a notação tradicional. Por similaridade, utilizam-se sinais gráficos que representam ritmo e/ou duração das notas. Outra possibilidade é a associação das notas musicais ou dos acordes a padrões numéricos, de modo a facilitar a compreensão do aluno e fluidez na leitura. Note que, na escrita relativa, não se tem a intenção de ensinar as notas musicais, seus nomes e localização na pauta, mas correspondência entre a escrita tradicional e a progressão sonora. Para a associação, podem ser realizados alguns exercícios. FIGURA 13 – ESCRITA RELATIVA FONTE: Os autores A figura anterior apresenta a relação que é estabelecida entre a notação tradicional com a escrita relativa. As figuras de notas são representadas por traços horizontais que variam em tamanho e conforme seus respectivos valores. No exemplo, tem-se, como referência, um compasso quaternário, ou seja, a semibreve vale quatro, estabelecendo relação com um traço horizontal “longo”. Do mesmo modo, as figuras que valem metade da semibreve, as mínimas, são representadas por dois traços com tamanhos proporcionais. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 172 FIGURA 14 – PARTITURA COM ESCRITA RELATIVA FONTE: <https://www.newdirectionsmsu.org>. Acesso em: 27 jul. 2019. No outro exemplo, é apresentada, graficamente, uma pauta musical simplificada. A “pauta” possui somente uma linha e está dividida em quatro partes ou compassos. Cada parte tem a indicação numérica de um a quatro para representar a unidade de tempo do compasso. Note a indicação no início de cada linha, informando “high” (alto) e “low” (baixo), ou seja, agudo e grave. Notação alternativa e música contemporânea As formas alternativas de escrita musical atingiram altos níveis de detalhamento e sofisticação na música contemporânea, especialmente nas décadas de 1950, 1960 e 1970. A incorporação de novas sonoridades, como ruídos e sons eletrônicos, e o advento de formas de estruturação musical aleatórias e indeterminadas, demandaram uma escrita mais flexível. Assista ao vídeo Flute Drumming on Michael Jackson's Billy Jean, disponível em: <https://youtu.be/4D-zTyBaouI>. A música é uma versão com flautas doces da famosa canção Billy Jean, de Michael Jackson. Interpretada por Karel van Steenhoven, com flautas doces modernas e pouco conhecidas. DICAS Vamos praticar? Atividade 1 Forme pequenos grupos para a interpretação da partitura gráfica da música “Sons na noite”, de Beineke, Machado e Oliveira (2012). Cada grupo terá um tempo para experimentar e decidir que sons melhor representariam cada sinal gráfico da partitura. Definidos os sons, ensaiem e se apresentem em sala para os colegas. Para essa melodia, você poderá utilizar, além das flautas contralto e soprano, outros instrumentos musicaisou fontes sonoras alternativas. TÓPICO 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 173 FIGURA 15 – PARTITURA GRÁFICA SONS DA NOITE FONTE: Adaptado de Beineke (1997) Atividade 2 Outra proposta interessante para ser praticada foi desenvolvida por Ciszevski (2010), e explora a grafia musical não convencional. Essa atividade pode ser adaptada para crianças pequenas, adolescentes ou adultos. FIGURA 16 – FICHAS COM SINAIS GRÁFICOS FONTE: Os autores As cartas com os sinais gráficos apresentados na figura anterior, inspirados na proposta de Ciszevski (2010), podem ser elaboradas pelo próprio grupo de alunos, tornando a dinâmica ainda mais interessante. Existem várias possibilidades de atividades musicais a serem desenvolvidas a partir desse material, contudo, nós o utilizaremos para o contexto de prática de flauta doce. Passo 1 • Analisar os símbolos gráficos e criar um padrão sonoro, utilizando a flauta doce, para os desenhos de cada ficha. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 174 Passo 2 • Espalhar as fichas no chão, ou distribuí-las aleatoriamente entre os participantes. É preciso pedir para cada um interpretar a ficha que pegou, utilizando a flauta doce. Passo 3 • Organizar uma sequência melódica, utilizando três fichas como referência. Estude a proposta musical e toque-a para os colegas de sala. É importante compreender que a ficha 1, por exemplo, refere-se a quatro sons curtos e fortes, e a ficha 2 refere-se às articulações de sons curtos do grave para o agudo e do agudo para o grave. NOTA Ficha 1 Ficha 2 TÓPICO 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 175 LEITURA COMPLEMENTAR PRÁTICA INSTRUMENTAL E TEORIA MUSICAL: UMA DUPLA HARMONIOSA Juliana Stavizki Avaliar o desenvolvimento dos alunos é uma tarefa nada fácil, mas poder perceber seus progressos é, sem dúvida, algo muito gratificante para um educador. Cada atividade planejada e proposta em sala de aula vem acompanhada de um ou mais objetivos que visam viabilizar e estimular o desenvolvimento das habilidades musicais dos estudantes. Sabemos que a aprendizagem musical se dá de diversas maneiras e, entendendo como ela ocorre, possibilita aos educadores um olhar mais apurado, percebendo os avanços individuais dos educandos. Durante as aulas de música na escola, trabalhando com crianças do ensino fundamental entre 8 e 12 anos, percebi um significativo avanço na leitura e percepção musical dos alunos após acrescentarmos os estudos de flauta doce nas aulas. Antes de incluirmos as práticas de flauta, as aulas de música compreendiam atividades de canto coletivo, percepção rítmica através de percussão corporal ou com alguns instrumentos de percussão/objetos percussivos, apreciação musical, percepção dos sons de diversos instrumentos conhecendo seus nomes e classificações (família dos instrumentos), estrutura das canções (formas musicais), ditados rítmicos e melódicos (notação analógica) e alguns conceitos, como timbre, altura, duração, intensidade, pauta, clave e figuras musicais (mínima, semínima e colcheia), objetivando, preferencialmente, uma abordagem lúdica. De um trimestre para o outro, com alguns ajustes nos planejamentos de aula, agregando, então, as práticas de instrumento, percebi mais a participação e o interesse das turmas durante as aulas, e notei um aumento da curiosidade e do protagonismo dos alunos semana a semana. Demonstraram mais motivação durante as aulas e ficou evidente a compreensão da teoria e dos conceitos trabalhados em aulas anteriores. Foi como se desse aquele “estalo” de entendimento, sabe? Não foram poucas as vezes que a partir daí ouvi a frase: “Bah! Agora entendi, profe!”. Isso é uma das coisas que, quando acontece, dá injeções de ânimo e estímulo nos educadores, não é mesmo? E comigo não foi diferente! Perceber que eles estavam realmente concretizando o aprendizado foi muito gratificante para mim. Algumas mães e pais relataram que os filhos estavam praticando em casa. UNIDADE 3 | PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O ENSINO DA FLAUTA DOCE 176 Alguns também reclamaram dos “apitos” das flautas e eu sugeri que adquirissem protetores auriculares para usarem durante o estudo das crianças. Depois, sugeri às crianças que evitassem praticar flauta na hora da novela. Com frequência, eu via, pelos corredores da escola, as crianças reunidas em pequenos grupos praticando, estudando música, tocando na hora do intervalo ou antes de começar as aulas, ajudando os colegas que demonstravam mais dificuldade. A meu ver, isso tudo reflete a motivação, o despertar do interesse, o prazer em fazer música, desafiar-se, vencer os obstáculos e perceber por si só a sua própria evolução. Alguns alunos sentiram a necessidade de maiores desafios, então, eu incentivei a pesquisarem outros repertórios, além dos dados em aula, e assim fizeram, trouxeram para apresentar aos colegas, outros tiraram músicas de ouvido, e alguns criaram suas próprias composições. Essa proposta abriu um verdadeiro leque de oportunidades, além do fortalecimento de laços com a comunidade escolar. Ao passo que as turmas foram evoluindo no instrumento, realizamos recitais de flauta na escola e, com esses eventos, doações, rifas e ajuda do CPM da escola, conseguimos recursos para a compra de mais instrumentos musicais para a escola. Assim, passamos a desenvolver práticas em conjunto nas aulas de música. Juliana Stavizki é uma cantora, compositora e educadora musical. Graduada em Música em Porto Alegre/RS, trabalhou com a educação musical em escolas, projetos sociais e no espaço hospitalar. Atualmente, vive em Berlim, local onde desenvolve atividades musicais em português para crianças bilíngues. FONTE: STAVIZKI, J. Prática instrumental e teoria musical: uma dupla harmoniosa. 2019. Disponível em: http://musicanabagagem.com/pratica-instrumental-e-teoria-musical-uma-dupla-harmoniosa/. Acesso em: 5 dez. 2019. 177 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Para o ensino de flauta doce, é necessária a sensibilização auditiva dos alunos quanto aos sons, e Schafer (2011) traz a proposta conhecida como paisagem sonora, que auxilia a constituir essa percepção com relação aos sons ao nosso redor. • Antes do ensino da notação tradicional, existe a possibilidade de se explorar a montagem de partitura de forma gráfica, ou inventada, para que o significado dos sons se internalize antes da convenção da escrita musical. • Uma estratégia muito eficaz para iniciar as atividades de sensibilidade musical é definida por Schafer (2005) como Limpeza de Ouvidos. Por meio desse exercício, os alunos adquirem mais consciência de alturas, timbres, intensidades, durações, ritmos, texturas, formas, além, é claro, da importância do silêncio. • Della Torre (2018), ao tratar de propostas metodológicas sobre escrita musical com crianças, aponta que o processo a ser percorrido até a notação tradicional, necessariamente, deveria passar por códigos, por parte dos alunos, durante o processo de iniciação musical. • Segundo Della Torre (2008), podem ser utilizadas três formas distintas para trabalhar a notação não tradicional: escrita inventada, analógica e relativa. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 178 AUTOATIVIDADE 1 Iniciaremos o trabalho de escrita musical utilizando notação não convencional. Utilizando as informações apresentadas neste tópico, faça os seus próprios símbolos sonoros, crie uma partitura gráfica e execute a sua obra musical para toda a sala. 2 De acordo com a pesquisa realizada por Della Torre (2018), sobre os métodos brasileiros de música, foram observadas três formas distintas para trabalhar a notação não tradicional. Disserte sobre cada uma dessas formas, apresentando as suas características principais. 179 REFERÊNCIASALMEIDA, M. S. B. Educação não formal, informal e formal do conhecimento científico nos diferentes espaços de ensino e de aprendizagem. Paraná: SEED/ PR., 2014. BARBOSA, W. de S.; AGUIAR, M. L. de. Práticas musicais indígenas: do esquecimento às contribuições para educação musical. Brasília, 2016. BARROS, D. C. A flauta doce no século XX: o exemplo do Brasil. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2010. BARROS, J. D’ A. Música indígena brasileira: filtragens e apropriações históricas. São Paulo: Projeto História, 2006. BEINEKE, V. 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