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PROFESSOR Dr. Vinícius Pires Rincão Parasitologia Clínica ACESSE AQUI O SEU LIVRO NA VERSÃO DIGITAL! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17856 NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jd. Aclimação - Cep 87050-900 | Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 PRODUÇÃO DE MATERIAIS Coordenador de Conteúdo Sidney Edson Mella Junior Designer Educacional Lucio Carlos Ferrarese Curadoria Katia Salvato Revisão Textual Carlos Augusto Brito Oliveira Editoração Matheus Silva de Souza Ilustração Andre Luis Azevedo da Silva, Eduardo Aparecido Alves, Geison Ferreira da Silva, Wellington Vainer Realidade Aumentada Maicon Douglas Curriel Fotos Shutterstock. Pró Reitoria de Ensino EAD Unicesumar Diretoria de Design Educacional FICHA CATALOGRÁFICA Universidade Cesumar - UniCesumar. U58 Impresso por: Bibliotecária: Leila Regina do Nascimento - CRB- 9/1722. Núcleo de Educação a Distância. Ficha catalográfica elaborada de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). Parasitologia Clínica / Vinícius Pires Rincão. - Indaial, SC : Arqué, 2023. 272 p. : il. ISBN papel 978-65-5466-058-7 ISBN digital 978-65-5466-055-6 “Graduação - EaD”. 1. Parasitologia 2. Clínica 3. Parasitismo. 4. Vinícius Pires Rincão. I. Título. CDD - 616.96 02511382 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17299 Dr. Vinícius Pires Rincão Olá, prezado(a) aluno(a)! Meu nome é Vinícius, e quero contar a vocês um pouco sobre mim. Quando criança sempre estive rodeado pela natureza, pois morei em um sítio até meus quinze anos. Este contato me fez gostar muito de tudo que dizia respeito a animais e plantas, o que me levou a cursar a graduação em Ciências Biológicas. Já no curso, me apaixonei pelo mundo invisível dos microrganismos e como eles nos afetam de várias maneiras. Isto me direcionou a cursar o mestrado e o doutorado em microbiologia. Enquanto me aperfeiçoava com a pós-graduação, descobri que gosto muito de ministrar aulas e é o que tenho feito desde então, principalmente para graduação e pós-graduação. Atualmente, divido meu tempo profissional entre as aulas e a atuação como Perito Criminal, profissão que exerço há quatro anos. Quando não estou me dedicando às aulas ou exame pericial, gosto de praticar esportes, principalmente a corrida e o futebol. Embora não mais atuando diretamente como biólogo, parece que a biologia não saiu de mim pois, sempre que posso, gosto de explorar trilhas e cachoeiras, principalmente acompanhado pela minha filha Olívia. Gosto também de jogos de tabuleiro, especialmente daqueles que ocupam minha mente por horas - são fantásticos e desafiadores. A partir daqui você terá em mãos um material preparado com carinho e cuidado, pensado para você e sua atuação profissional. Busquei sem- pre direcionar seu estudo com exemplos voltados para a atuação direta com a parasitologia, e sei que vão gostar. Caso você queira conhecer um pouco mais sobre minha atuação profissional, não deixe de acessar meu currículo Lattes! Lattes: http://lattes.cnpq.br/7771858338827888 Aqui você pode conhecer um pouco mais sobre mim, além das informações do meu currículo. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13781 Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store Ao longo do livro, você será convidado(a) a refletir, questionar e transformar. Aproveite este momento. PENSANDO JUNTOS EU INDICO Enquanto estuda, você pode acessar conteúdos online que ampliaram a discussão sobre os assuntos de maneira interativa usando a tecnologia a seu favor. Sempre que encontrar esse ícone, esteja conectado à internet e inicie o aplicativo Unicesumar Experience. Aproxime seu dispositivo móvel da página indicada e veja os recursos em Realidade Aumentada. Explore as ferramentas do App para saber das possibilidades de interação de cada objeto. REALIDADE AUMENTADA Uma dose extra de conhecimento é sempre bem-vinda. Posicionando seu leitor de QRCode sobre o código, você terá acesso aos vídeos que complementam o assunto discutido PÍLULA DE APRENDIZAGEM Professores especialistas e convidados, ampliando as discussões sobre os temas. RODA DE CONVERSA EXPLORANDO IDEIAS Com este elemento, você terá a oportunidade de explorar termos e palavras-chave do assunto discutido, de forma mais objetiva. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/3881 PARASITOLOGIA CLÍNICA A parasitologia tem como sua principal característica, estudar a interação dos parasitos com o ser humano, com o ambiente e com outros animais. Caro(a) aluno(a), você já parou para pensar no que é a parasitologia e qual a importância para os seres humanos? Como a parasitologia pode ajudar a entender surtos de doenças, como o que ocorreu em Santa Isabel do Ivaí em 2001 onde, dos 9.154 habitantes, mais de quatrocentos apresentaram resultado positivo para toxoplasmose? Todos os seres vivos existentes em nosso planeta apresentam algum tipo de relação com outra espécie em algum momento de sua vida. Essa relação pode se mostrar de duas formas: positiva (benéfica) ou negativa (ad- versa). Quanto mais tempo a relação entre duas espécies dura, maior é o nível de especialização existente. Uma dessas formas de interação negativa é o parasitismo. Para que se possa pensar em métodos eficientes para o tratamento e prevenção de doenças parasitárias, é essencial que se conheça toda a ecologia dos parasitos, sua interação com o ser humano, com o ambiente e hospedeiros intermediários. Esse é o foco de estudo da parasitologia. Entre novembro de 2001 e janeiro de 2002, cerca de 600 pessoas da cidade de Santa Isabel do Ivaí, no estado do Paraná, apresentaram sintomas compatíveis com toxoplasmose. Essa é uma doença causada pelo parasito Toxoplasma gondii, que infecta principalmente felinos, e pode ser transmitida ao ser humano pelo contato com as fezes do animal contaminado e ingestão das formas infectantes. Caro(a) aluno(a), tente imaginar como uma doença com esse mecanismo de transmissão poderia infectar tantas pessoas, quais meios os profissionais da saúde usaram para identificar o parasito, e como essas análises permitiram identificar a fonte da contaminação e propor medidas de prevenção. A parasitologia estuda a interação dos parasitos com o ser humano em diversos níveis. Um dos aspectos desse estudo tenta entender como uma parasitose se distribui na população - ou seja, sua epidemiologia, permitindo que os pesquisadores, muitas vezes, possam determinar a fonte de contaminação e interrompê-la. Outro ponto de estudo está relacionado a identificação de qual parasito causa a doença examinada, um dos pontos centrais da parasitologia clínica. Para que se possa aplicar esses conhecimentos em casos reais, é preciso que os profissionais da saúde tenham o mínimo de conhecimento sobre a parasitose. Por exemplo: no caso da toxoplasmose, qual amostra deve ser examinada em busca do parasito: sangue, fezes ou as duas? Os sintomas podem ser utilizados para diagnosticar a parasitose? Neste livro você aprenderá os principais conceitos e aplicações da parasitologia, principalmente na área clínica. Na Unidade 1 você vai conhecer o conceito de parasito e parasitismo, entendendo a relação com o meio ambiente e a espécie humana, além de conhecer os principais grupos de organismos que são parasitos do ser humano. Na Unidade 2 você vai aprofundar seus conhecimentos em epidemiologia relacionada às doenças parasitárias. Na Unidade 3 aprenderá sobre os protozoários, com ênfase nas espécies de interesse da parasitologia, principal- mente do trato gastrointestinal e genital. Na Unidade 4 o estudo abordará os protozoários que parasitam a pele e os sistemas internos do corpo, especialmente o Sistema Circulatório. Na Unidade 5 conhecerá os helmintos e suas características, iniciando os estudos da parasitologia como grupo do nematódeos, aprendendo sobre os agentes etiológicos dessas parasitoses, sua biologia e métodos de diagnóstico. Na Unidade 6 o estudo será sobre os helmintos do Filo Platyhelminthes, e das duas classes principais: Cestoda e Trematoda. Na Unidade 7 você aprenderá sobre a relação dos artrópodes com a parasitologia, tanto como agente etiológico, quanto como vetor. Na Unidade 8 você conhecerá os diferentes métodos de diagnósticos direto de parasitoses. E por fim, na Unidade 9 você conhecerá os diferentes métodos de diagnóstico indireto de parasitoses. Essa é apenas nossa introdução a esse assunto fantástico que é a parasitologia. Tenho certeza que, assim como eu, você quer entender melhor sobre as parasitoses e como podem ser diagnosticadas, tratadas e prevenidas. Venha comigo conhecer esses e outros aspectos dos parasitos e doenças que eles causam. Aprofunde seus conhe- cimentos em cada um dos capítulos do livro e adquira os conhecimentos que irão auxiliá-lo(a) em sua profissão. 1 2 43 5 6 99 11 63 39 INTRODUÇÃO E CONCEITOS GERAIS EM PARASITOLOGIA 161 HELMINTOS: PLATELMINTOS PARASITOS PROTOZOÁRIOS PARASITAS ENTÉRICOS E DO TRATO GENITURINÁRIO EPIDEMIOLOGIA APLICADA À PARASITOLOGIA PROTOZOÁRIOS E PARASITAS SISTÊMICOS, DOS SISTEMAS CIRCULATÓRIO SANGUÍNEO E CUTÂNEO HELMINTOS: NEMATÓDEOS PARASITOS 131 7 8 9 189 235 215 ARTRÓPODES E A SUA RELAÇÃO COM A PARASITOLOGIA DIAGNÓSTICO DAS PARASITOSES: MÉTODOS INDIRETOS DIAGNÓSTICO DAS PARASITOSES: MÉTODOS DIRETOS 1 Nesta unidade, você vai conhecer o conceito de parasito e para- sitismo, entendendo a relação com o meio ambiente e a espécie humana. Também abordaremos os diferentes conceitos necessários para o entendimento da parasitologia e o aprofundamento nas diferentes doenças causadas por parasitos no homem, além de apresentar os principais grupos de organismos que são parasitos do ser humano. Introdução e Conceitos Gerais em Parasitologia Dr. Vinícius Pires Rincão 12 Nosso planeta é repleto de vida. Atualmente, estima-se que exista próximo de 1 trilhão de espécies entre plantas, ani- mais, fungos e microrganismos, vivendo e interagindo em diferentes habitats e condições. Caro(a) aluno(a), você já parou para pensar nas diferentes relações inte- respecíficas a que os seres humanos estão sujeitos em nosso planeta? Como estas interações afetam nossa sociedade e a nossa saúde? Muitas das espécies que existem no planeta apresentam uma relação íntima e direta entre si. Esta relação pode ser benéfica e é encontrada em toda parte, como no meio de uma floresta, onde orquídeas e bromélias vivem sobre árvores para facilitar a captação de luz e água; ou no meio do oceano, onde temos a rêmora, um peixe que vive junto ao tubarão e se aproveita dos restos de sua alimentação; no pasto em uma fazenda, onde o anu, uma ave, se alimenta de parasitos externos retirados do gado; e em você mesmo, onde bactérias da microbiota intestinal (grupo de microrganismos que habita o intestino) sintetizam vitaminas que são absorvidas pelo organismo. Por outro lado, são inúmeros os exemplos de relações entre espécies que são adversas, ou seja, trazem prejuízo para uma ou para as duas espécies, como a relação entre um leão e sua presa, ou a relação desenvolvida en- tre microrganismos e o ser humano, re- sultando em inúmeras doenças. É neste contexto que encontramos os parasi- tos. O parasitismo é um tipo de relação adversa que afeta de diversas formas a sociedade humana, desde a saúde do ser humano, passando pela economia e chegando a interferir no meio social. Neste contexto, para que você en- tenda um pouco mais sobre a importân- cias das parasitoses (doenças causadas por parasitos), proponho um desafio para você: pesquise quais as parasitoses mais comuns no Brasil, e qual a probabilidade de você já ter en- trado em contato com uma delas. UNICESUMAR UNIDADE 1 13 O Brasil, por ser um país de grande extensão e com clima variado e grande biodiversidade, possui as características necessárias para abrigar diversas espécies de parasitos. Entretanto, muitos destes pa- rasitos dependem de condições ambientais, bem como de hospedeiros específicos para desenvolver seu ciclo de vida. E é nesse ponto que surgem mui- tas questões: Como a interação com o meio am- biente e outras espécies se relacionam com as parasitoses existentes no Brasil? Como você, aluno(a), poderia entrar em contato com um parasito na região onde reside? Como os conhecimentos sobre as diferentes parasitoses, seus agentes etiológicos e sua interação com ou- tras espécies podem ser relevantes para o pro- fissional de saúde? Caro(a) aluno(a), agora é sua vez. Pense na pesquisa que você fez e nas questões que levantamos, e escreva seus resultados no seu diário de bordo a fim de que eu e você possamos analisá-las juntos no decorrer desta unidade. 14 Estudar os parasitos e suas características é fundamental para entender as doenças que podem causar. Neste aspecto, o ponto de partida do nosso estudo é definir a Parasitologia. Quando um indivíduo se encontra doente, ou seja, seu estado de saúde se encontra alterado, dois fatores principais podem estar envolvidos (REY, 2008): os genéticos e as interações homem-ambiente. Os fatores genéticos englobam diversos aspectos, muitos dos quais pouco entendidos pelo co- nhecimento científico alcançado até o momento, e para os quais não cabe nossa discussão neste livro. Já os fatores ambientais e a relação com o ser humano, estão diretamente as- sociados à nossa discussão. Você já parou para pensar quais fatores e características do meio ambiente interferem na saúde de nosso organismo? Quando batemos em uma pedra e temos uma lesão, ou quando comemos uma substância que nos é tóxica, temos os fatores físicos e químicos do ambiente in- teragindo diretamente com o organismo. Porém, como já discutimos, o planeta está repleto de vida e muita dessa vida, como vírus, bactérias, fungos, protozoários, helmintos (vermes), en- tre outros, podem diretamente interagir com nosso organismo e causar alterações fisiológi- cas e/ou físicas, resultando em doenças, e este é o fator biológico interagindo. Dentre estes orga- nismos, estão aqueles classificados como parasitos, e que são o foco de estudo da Parasitologia. Assim, podemos definir a Parasitologia como a ciência que se ocupa pelo estudo do parasito, do hospedeiro e do meio ambiente, bem como a relação entre eles. O entendimento das doenças parasitárias, bem como a determinação de metodologias de prevenção e tratamento eficientes, dependem muitas vezes do conhecimento da ecologia que envolve o parasito e seus hospedeiros definitivo e intermediários, quando existirem (REY, 2008), assim como a relação com o meio ambiente. Neste sentido, para que você compreenda como os parasitos interagem com o ser humano, e porque recebem esse nome, temos que conhecer os diferentes tipos de relação que podem existir entre as espécies, bem como a ecologia relacionada a elas. Vou trazer para você agora as principais formas de interação entres as espécies e como o pa- rasitismo se insere entre elas. Existem diferentes formas pelas quais duas espécies distintas podem interagir. Estas formas podem ser divididas em: harmônicas ou positivas, onde as espécies podem ser beneficiadas ou pelo menos não sofrem nenhum prejuízo; e desarmônicas ou negativas, onde pelo menos uma espécie é prejudicada. Exemplos de interações harmônicas incluem o mutualismo e comen- salismo, enquanto interações desarmônicas contemplam, por exemplo, o predatismo e o parasitismo. Em algumas interações harmônicas ambas as espécies se beneficiam, como no caso do mutua- lismo, que podemos citar como exemplo os liquens, que surgem da associação entre algas e fungos, onde a alga por fotossíntese supre alimento para si e para o fungo, enquanto o fungo garante abrigo e umidade para a alga. UNICESUMAR UNIDADE 1 15 Nas interaçõesdesarmônicas pelo menos uma das espécies é prejudicada, como no caso do predatismo, que pode ser entendido como a relação interespecífica em que uma espécie (predador, por exemplo um leão) caça e utiliza os membros de outra espécie (presa, por exemplo uma gazela) para sua alimentação, provocando a morte da presa (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Outra forma de abordar as relações interespecíficas diz respeito a sua proximidade, ou seja, o quanto uma espécie vai interagir fisicamente com a outra; e a sua obrigatoriedade, ou seja, o quanto a sobrevi- vência de uma espécie depende da interação com a outra. Existe entre os autores certa divergência quanto à definição de alguns termos, mas, de forma geral, podemos definir que toda associação entre espécies diferentes é uma simbiose (sin = junto; bio = vida; osis = condição) (NEVES, 2016). Com base nesta abordagem, podemos separar a relação entre as espécies em quatro tipos diferentes (REY, 2009; NEVES, 2016), como veremos a seguir: • Foresia: Neste tipo de associação, uma das espécies utilizaria a outra apenas como transporte e/ou abrigo. Um exemplo deste tipo de interação, ligada inclusive a parasitologia, é o transporte, por moscas e mosquitos – em geral hematófagos (insetos que se alimentam de sangue) – dos ovos de Dermatobia hominis, que eclodem liberando a larva sobre o hospedeiro. A larva causará uma infecção conhecida popularmente como “berne”. • Comensalismo: Comensalismo é um termo derivado de “comensal”, cujo significado direto quer dizer “aqueles que comem à mesma mesa”. Especificamente, o comensalismo engloba as relações interespecíficas em que as espécies distintas apresentam uma íntima relação, uma se beneficiando enquanto a outra não sofre nenhum efeito. Neste tipo de interação não há relação de dependência entre elas. O exemplo da natureza mais simples para entendermos essa associação é o da rêmora (peixe-piolho) e do tubarão (Imagem 1), onde a rêmora se fixa no tubarão e é transportada aprovei- tando os restos da alimentação do tubarão, mas não causa nem prejuízo nem traz benefício a este. Descrição da Imagem: Esta imagem se trata de uma foto de um tubarão nadando em alto mar. Ele ocupa o centro da foto, tem o dorso cinza e o ventre branco, e está voltado para a direita, nadando submergido no mar azul. Próximo a seu ventre e costas estão cinco peixes menores, esguios e compridos, de cor prata, com cabeças planas e enrugadas. Dois desses peixes estão grudados em seu corpo em seu dorso, um perto da barbatana direta, e o outro perto da barbatana dorsal . Imagem 1 - Rêmora e tubarão / Fonte: thewiki.kr (2022). https://thewiki.kr/w/%EB%B9%A8%ED%8C%90%EC%83%81%EC%96%B4 16 • Mutualismo: Neste tipo de interação, as duas espécies vivem em íntima associação, ambas se bene- ficiando. Porém, diferente do comensalismo, o mutualismo gera uma relação de dependência. Um exemplo deste tipo de associação ocorre entre os animais ruminantes e microrganismos que habitam o rúmen (um dos estômagos dos animais ruminantes, como a vaca) de seu trato digestivo. Enquanto o animal ingere diversos alimentos que nutrirão os microrganismos, estes digerem moléculas, como a celulose, que o animal não conseguiria digerir sozinho. • Parasitismo: Para Rey (2009, p. 7), “Parasitismo é toda relação ecológica desenvolvida entre in- divíduos de espécies diferentes, em que se observa, além de associação íntima e duradoura, uma dependência metabólica de grau variável”. Como uma regra do parasitismo, uma espécie se beneficia (o parasito) enquanto a outra sofre algum tipo de prejuízo (o hospedeiro). Entretanto, as espécies estão adaptadas à relação, e o prejuízo ocasionado não gera a morte do hospedeiro, pois esse fato não seria vantajoso para o parasito, uma vez que ele próprio também morreria. É claro que toda esta interação depende de adaptações, tanto do parasito quanto do hospedeiro, desenvolvidas por um longo período de evolução, e que dependem de condições do meio e do próprio indivíduo que serve como hospedeiro. Assim, dependendo das características em que o parasitis- mo se instale, bem como as condições físicas do hospedeiro, este pode acabar não suportando o prejuízo causado pelo parasito e morrer (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Portanto, com base nas características do parasitismo, podemos definir “parasito” como sendo o indivíduo de uma espécie que estabelece uma relação, íntima, duradoura, de dependência e benéfica para si, com outra espécie, a qual sofrerá algum tipo de prejuízo. Os parasitos ainda podem ser classifi- cados, conforme o local do hospedeiro que tomem como habitat, em: ectoparasitos, quando habitam a região externa do organismo, como por exemplo o Pediculus humanus (piolho) que parasita a cabeça do ser humano; e endoparasitas, quando habitam a região interna do organismo, como por exemplo o Ascaris lumbricoides (Imagem 2). (a) (b) Descrição da Imagem: A imagem “a” apresenta uma aproximação do couro cabeludo de uma pessoa, pele clara, com cabelos casta- nhos-claro. No centro, está um pequeno inseto fino e marrom grudado a um fio de cabelo. Na imagem “b” é observado o interior de intestino, um tubo de músculos rosa úmidos e divididos em anéis, onde se observa um verme rosa alongado e cilíndrico. Imagem 2 - O piolho como ectoparasita (a), e Ascaris lumbricoides como endoparasita (b) / Fonte: Rosa Rubicondior (2022). UNICESUMAR http://rosarubicondior.blogspot.com/2011/10/intelligently-designed-by-loving-god.html UNIDADE 1 17 É com base nesta definição de parasito e parasitismo que você vai explorar os diferentes grupos de organismo que afetam o ser humano, bem como entender como interagem com o meio ambiente e os diferentes tipos de hospedeiros, aprendendo os detalhes de sua biologia. Agora que você sabe o que é um parasito, reflita comigo: como identificar um organismo vivendo no corpo humano, que causa o mínimo de dano, e que está, na maioria das vezes adaptado para viver escondido e passar despercebido? Esse é um dos objetivos do profissional de saúde na pa- rasitologia que vamos entender juntos conforme caminharmos pelo livro. Você já estudou as diferentes relações existentes entre as espécies e como isso pode resultar em bene- fícios para uma, ambas ou nenhuma delas. Para aprofundarmos nosso estudo, vamos entender agora a ecologia destes organismos, a Ecologia Parasitária. Podemos definir ecologia como a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si, ou com o meio orgânico e inorgânico no qual vivem. Assim sendo, e observando que os parasitos estão em constante interação com o ambiente que o cerca, com outros organismos e principalmente com seus hospedeiros, podemos definir essa interação como ecologia parasitária (NEVES, 2016). Um ecossistema consiste em “uma comunidade ecológica ou um ambiente natural, onde há um estreito relacionamento entre as várias espécies de animais, vegetais e minerais” (NEVES, 2016, p. 11). Pensando nas características da vida de um parasito, podemos entender que fazemos parte de seu ecossistema e de seu ciclo de vida. Uma vez que as doenças causadas por parasitas dependem de sua interação com nosso organismo e de aspectos de seu ciclo biológico, para entender como essas doenças são causadas é importante conhecer alguns aspectos da ecologia parasitária. Habitat: O habitat de um parasito corresponde ao “lugar onde ele vive e onde pode ser encontrado” (REY, 2008, p.11). Pode ser entendido de uma forma mais ampla, como sendo o local, ecossistema ou mesmo um órgão, onde uma espécie ou população pode se alimentar e se reproduzir, possuindo um estreito relacionamento com os demais organismos e com o ambiente (NEVES, 2016). Como exemplos podemos citar o intestino delgado como habitat do Ascaris lumbricoides e o sistema circulatório sanguíneo como habitat do Schistosoma mansoni. Nicho ecológico: O nicho ecológico por outro lado caracteriza a posição que a espécie ocupa dentro do ecossistema, sendo local que possibilita o atendimentoa todas as necessidades vitais do indivíduo, e este estando perfeitamente adaptado àquele local (REY, 2008). Um exem- plo que pode ser utilizado para diferenciar o habitat de nicho ecológico engloba os parasitos Ascaris lumbricoides e Ancylostoma duodenale, onde os dois possuem o mesmo habitat, o intestino delgado, mas enquanto o Ascaris se alimenta espoliando o alimento da luz intestinal do hospedeiro, o Ancyslostoma produz lesões no intestino e se alimenta do sangue resultante. 18 Um dos conceitos mais importantes que você precisa entender para o estudo da parasitologia é o de Hospedeiro. Um hospedeiro pode ser definido como um organismo que abriga o parasito (NEVES, 2016) tanto internamente, no caso de endoparasitas, como externamente, no caso de ectoparasitas. Como já analisamos anteriormente, uma das características do parasitismo é o estabelecimento, com o tempo, de uma relação duradoura, com ínfimo prejuízo para o hospe- deiro, a fim de garantir a sobrevivência de ambas as espécies. Com base nesta característica, os hospedeiros podem ser denominados de: hospedeiro natural, correspondendo àquele em que o parasito está bem adaptado, sofrendo pouco dano e não desenvolvendo doença, e servindo como reservatório natural para o parasito; hospedeiro anormal, correspondem àqueles em que o pa- rasito ainda está em processo de adaptação, sofrendo danos e adoecendo ou morrendo durante a infecção; hospedeiro acidental ou ocasional, corresponde àquele em que raramente o parasito causa infecção (REY, 2008). Os hospedeiros podem ainda ser classificados de acordo com sua relação com o ciclo de vida do parasito em (NEVES, 2016): - Hospedeiro definitivo: é o hospedeiro que abriga o parasito na forma adulta ou repro- dutiva final. - Hospedeiro intermediário: é o hospedeiro que abriga o parasito durante o desenvol- vimento das fases jovens ou das fases assexuadas. Um exemplo de fácil compreensão, para entendermos esses dois termos é o da Taenia solium, um helminto (verme) que parasita o trato intestinal do ser humano. Este tipo de parasito, antes de se fixar no intestino delgado, onde passará o resto de sua vida se reproduzindo, deve passar por um estágio de maturação ou larval, de curto período, em um outro animal, o porco. Assim, o porco corresponde ao hospedeiro intermediário, enquanto o ser humano será seu hospedeiro definitivo. Vou te fazer uma pergunta e quero que tente responder sem ler os próximos parágrafos: como os parasitos chegam até os seres humanos? Conseguiu? Muito bom. Para aprofundar seu conhe- cimento neste aspecto, vem comigo entender o que é um Vetor. Um vetor é entendido como qualquer forma de transporte que transmitirá o parasito entre dois hospedeiros distintos. O vetor de um parasito pode ser biótico ou abiótico e, portanto, pode ser classificado da seguinte forma (NEVES, 2016): • Vetor biológico: corresponde a um organismo que servirá como transporte e constitui- rá uma das fases do ciclo de vida do parasito. Um vetor biológico consiste, geralmente, a moluscos e artrópodes. Um exemplo é do mosquito do gênero Anopheles (Imagem 3) que serve como vetor para o Plasmodium, causador da malária. UNICESUMAR UNIDADE 1 19 • Vetor mecânico: corresponde a um organismo que servirá apenas como transporte, sem que o parasito se desenvolva ou se reproduza em seu interior. Um exemplo é do transporte dos ovos e larvas da mosca Dermatobia hominis, que os deposita sobre outro inseto (geralmente hematófago) que servirá apenas para transportar a larva até o hospedeiro. • Vetor inanimado: corresponde a objetos como seringas, talheres, copos, ou substâncias, como por exemplo a água. Descrição da Imagem: A imagem se trata da foto de um mosquito. Ela apresenta uma visão aproximada de uma pele humana, de cor clara, onde se pode ver um mosquito, pousado, voltado para a direita, e se alimentando de sangue por meio do aparelho bucal picador-sugador, inserido na pele. A barriga do mosquito se encontra avermelhada e expandida. Imagem 3 - Mosquito do gênero Anopheles Título: Parasitologia Autor: Luís Rey Editora: Grupo GEN Sinopse: Neste livro serão apresentados os principais conceitos de para- sitologia, englobando as definições gerais de parasitismo e parasito, dos ciclos parasitários e abordando os principais grupos de parasitos e as parasitoses por eles causadas. Comentário: Caro(a) aluno(a), neste livro você terá acesso aos principais tópicos abordados em nossa disciplina. Ele poderá auxiliar no esclarecimento de dúvidas e ajudar a aprofundar ainda mais seus conhecimentos sobre a parasitologia. 20 Você aprendeu que a principal característica do parasitismo é que o parasita causa algum prejuízo ao hos- pedeiro. Esta ação do parasito sobre o hospedeiro pode ocorrer de diversas formas. Um parasito, após entrar no hospedeiro, pode interagir com este de diferentes formas. Como já aprendemos, o parasitismo corresponde à interação de um indivíduo, o parasito, sobre outro, o hospedeiro, onde o primeiro se beneficia e o segundo é prejudicado. Neste aspecto, o parasito pode utilizar o organismo do ser humano tanto como um abrigo como fonte de nutrientes, causando danos através de vários processos. Conhecer estes processos é o primeiro passo para entender como um parasito pode causar doenças. É importante destacar que o parasitismo é um processo dinâmico e, assim, a patogenicidade (capacidade de um agente infeccioso em causar lesões) de um parasito e a resistência do hospedeiro estão sempre buscando um equilíbrio (NEVES, 2016), o que, com o tempo, tende a eliminar a doença. Dentre as várias formas que um parasito pode causar danos no hospedeiro, as principais, segundo Neves (2016), são: a) Espoliativa – consiste na utilização de nutrientes do hospedeiro pelo parasito. É uma competição pela captura e utilização de nutrientes, que podem estar tanto na luz intestinal quanto no sistema circulatório. Um exemplo é a utilização de nutrientes da luz intestinal por tênias. b) Mecânica – consiste nas lesões causadas simplesmente pela presença do parasito em um órgão, ocupando um espaço que não foi constituído para ele, ou se locomovendo, causando obstrução ou destruição de tecidos. Um exemplo é a obstrução intestinal por Ascaris lumbricoides (Imagem 4). Descrição da Imagem: Na imagem é possível identificar um fragmento do intestino delgado humano, de cor marrom, do qual foi removido por meio de corte uma porção da parede lateral, causando uma abertura, expondo a luz intestinal. Por essa abertura lateral é possível visualizar dezenas de vermes brancos cilíndricos e alongados, obstruindo completamente a cavidade interna do intestino. Imagem 4 - Obstrução intestinal por Ascaris lumbricoides / Fonte: Wikipedia (2022). UNICESUMAR UNIDADE 1 21 c) Traumática – ocorre quando os parasitos, ao se locomoverem ou se fixarem, causam traumas (ferimentos) no hospedeiro. Um exemplo deste tipo de dano é a fixação dos ancilostomídeos na parede intestinal. d) Tóxica – consiste na produção e liberação de metabólitos (produtos do metabolismo) pelos parasi- tos, que são tóxicos para o hospedeiro. Os ovos de Schistosoma mansoni podem ser transportados para diversos órgãos, e sendo sua constituição externa tóxica para os tecidos, desencadeiam a formação de granulomas (tipo de inflamação onde ocorre a formação de um nódulo em resposta a ação de células do sistema imunológico que tenta eliminar um agente infeccioso). e) Imunogênica – corresponde a resposta imune (ação das células do sistema imunológico no com- bate a partículas e organismos estranhos) contra partículas antigênicas de parasitos que, ao sensi- bilizar tecidos, agravam a doença. Um exemplo é a ação do sistema imune contra a leishmaniose. f) Irritativa – corresponde a ação desencadeada nos tecidos, sem produzir traumas, pela simples presença do parasita, que provoca irritação tissular (tecido biológico). Por exemplo, a ação das ventosas de Taenia solium na mucosa intestinal. g) Inflamatória – correspondeao aumento de células inflamatórias em determinado tecido, ocasionado pelo parasito ou seus metabólitos, como ocorre na presença de ovos parasitos que desenvolvem granulomas. h) Enzimática – pode ser entendido como o dano tecidual ocasionado pela liberação de enzimas pelo parasito. Um exemplo deste mecanismo ocorre na penetração da larva cercária pela pele. i) Anóxia – corresponde à falta de oxigênio em tecidos, provocada pelo consumo deste nas hemácias ou pela destruição das próprias hemácias. Como exemplo, temos a ação do parasito do gênero Plasmodium. Como você pode ver, os parasitos podem causar danos ao organismo humano de diversas formas diferentes. Entretanto, o organismo também possui mecanismos para prevenir ou eliminar parasito- ses através do Sistema Imunológico. Você já parou para pensar que mesmo entrando em contato, constantemente, com parasitos, microrganismo e substâncias estranhas, são poucas as vezes que você fica doente? Isso acontece porque seu organismo está protegido por um verdadeiro exército, o Sistema Imunológico, constituído por células e moléculas dissolvidas nos líquidos corporais, responsáveis por desencadear a “resposta imunológica” (resposta imune). Esta pode ser definida, segundo Siqueira- -Batista et al. (2020, p. 10), como “o conjunto de reações do organismo à presença de um elemento identificado como não próprio (em inglês, not-self) pelo hospedeiro”. Estes componentes do Sistema Imunológico podem ser divididos com base nas características que possuem quanto à forma e velocidade de ação contra o elemento não próprio, que é também definido como antígeno. Quando estes componentes estão prontos para agir e combatem o an- tígeno no momento em que tomam conhecimento dele, classificamos como parte da imunidade natural ou inata. Quando estes componentes necessitam de um contato prévio com o antígeno e posterior ativação, classificamos como parte da imunidade adquirida ou adaptativa. É im- portante que você entenda que, embora possam ser classificados de forma separada, estes com- ponentes fazem parte de um grande emaranhado, e por vezes componentes da imunidade inata são requisitados pela imunidade adaptativa. 22 Como já discutimos, os parasitos necessitam de um hospedeiro para que possam se desenvolver. O que ainda precisamos entender é que alguns parasitos podem infectar diferentes espécies de vertebrados distantes (parasitos eurixenos), outros podem infectar diferentes espécies próximas, como os primatas (parasitos estenoxênicos), e outras são tão específicas que podem infectar apenas uma espécie. Este aspecto do parasitismo está, na maioria das vezes, relacionado à susce- tibilidade e resistência dos hospedeiros. Parasito estenoxênico é aquele que tem a capacidade de parasitar espécies de vertebrados muito próximas. Um exemplo são as espécies de Plasmodium que parasitam só primatas. Parasito eurixeno é aquele que tem a capacidade de parasitar espécies de vertebrados distantes, ou seja, diferentes entre si. Um exemplo deste tipo de parasito é o Toxoplasma gondii, que pode infectar mamíferos e aves. Fonte: Neves (2016). A suscetibilidade pode ser entendida como a capacidade de um hospedeiro sustentar o desenvol- vimento de um parasito (REY, 2008); enquanto a resistência é entendida como seu oposto, ou seja, a capacidade do hospedeiro de combater e impedir o estabelecimento do parasito em seu organismo. É exatamente com relação a resistência que o sistema imunológico apresenta maior relevância. A Resposta Imune Natural (RIN), inata ou nativa, por não necessitar de um contato prévio com o antígeno, tem a capacidade de agir muito mais rápido e, portanto, é a primeira linha de defesa contra os agentes infecciosos. Entretanto, por estas características, ela é inespecífica, o que significa que não reconhece antígenos específicos, mas sim antígenos gerais, e por isso não consegue gerar uma memó- ria imunológica (é a capacidade que o sistema imune tem de gerar células capazes de responder mais rápido e de forma mais eficiente a uma infecção que já foi combatida no passado, ou seja, é uma forma do sistema imune se lembrar de uma infecção). Existem diferentes formas de abordar o sistema imune natural. Para Siqueira-Batista, et al. (2020), a resposta imune inata pode ser dividida em três componentes: UNICESUMAR UNIDADE 1 23 Outro componente da resposta imune inata são: as células Natural-Killer (tipo de célula do sistema imune, semelhante a linfócitos T, com a capacidade de reconhecer e destruir células anormais), corres- pondendo a um tipo de linfócito que não precisa de ativação e é capaz de lisar células pela liberação moléculas que abrem poros nas membranas destas células Uma importante função do Sistema Imune Inato é levar os antígenos até as células do Sistema Imune Adaptativo (SIA). As responsáveis por esse processo são células apresentadoras de antígenos (APCs). Estas células têm a capacidade de fagocitar o organismo ou partícula estranha, destruí-lo e apresentar partes dele em sua superfície, possibilitando o reconhecimento desses antígenos pelos linfócitos do SIA. A Resposta Imune Adquirida (RIA) ou adaptativa, pode ser definida como aquela que é ativada a partir do contato do antígeno com os linfócitos T e B. Pode, portanto, ser dividida, de acordo com Siqueira-Batista et al. (2020), em: I – Barreiras físico-químicas: as barreiras físicas correspondem a pele e a mucosas que, ao permanecerem íntegras, impedem a entrada do organismo e partículas estranhas ao organismo. As barreiras químicas correspondem a moléculas naturalmente produzidas pelo organismo, e que tem a capacidade de matar ou inibir a multiplicação desses organismos, como por exemplo a lisozima, considerada um antibiótico natural. II – Ação de células fagocitárias: fagócitos são células que têm a capacidade de fagocitar (é a ação, executada por determinadas células do sistema imune, onde há projeção de partes da célula para puxar algo que esteja fora para dentro da célula) partículas e organismos estra- nhos e os destruir. Os principais fagócitos do organismo são os macrófagos e os neutrófilos. III – Ativação inicial do processo inflamatório: vários mecanismos podem agir isolados ou em conjunto para ativação do processo inflamatório, que visa aumentar o fluxo de sangue e células de defesa para o local infectado ou lesionado. Um desses elementos da resposta imune inata é o Sistema Complemento, caracterizado como um conjunto de proteínas dis- solvidas no plasma sanguíneo, que podem resultar em mediadores químicos da inflamação e lisar (ação de destruição celular pelo rompimento da membrana plasmática) células. I – Imunidade Humoral: a resposta imune humoral é mediada pelos linfócitos B. Esses linfócitos, após serem ativados, tem a capacidade de sintetizar moléculas específicas contra o antígeno, que são denominadas de Imunoglobulinas ou Anticorpos, e que são liberadas nos líquidos corporais (líquidos podem também ser denominados de humor), combatendo, portanto, a antígenos presentes nestes líquidos. II – Imunidade Celular: a resposta imune celular é mediada pelos linfócitos T. Embora a ação destas células seja ampla, sua função principal é eliminar infecções intracelulares. Existem dois tipos principais de Linfócitos T (LT): LT citotóxicos, que tem a capacidade de lisar células que estejam infectadas; e LT auxiliares, que têm a capacidade de secretar diversas citocinas (moléculas que funcionam como sinalizadores químicos, liberadas pelas células do sistema imune) que controlam as respostas imunes e ativam outras células efetoras. 24 Embora haja muitos mecanismos de ação do sistema imunológico, nem todos tem uma ação efe- tiva contra os parasitos, especialmente os helmintos. Assim, a resposta imune direcionada aos parasitos, muitas vezes evoluiu para mecanismos bastante específicos. Os dois principais tipos de parasitos internos humanos, e que acionam diretamente a resposta imunológica, são os protozoários e os helmintos.Os protozoários são parasitos unicelulares, vivendo no interior dos tecidos e líquidos corporais, e muitas vezes capazes de infectar o meio intracelular, como no caso do Plasmodium, causador da malária, que infecta o interior de diferentes células, principalmente hemácias. No controle das parasitoses onde os protozoários são os agentes infecciosos, vários mecanismos das respostas imunes podem ser ativados. Na RIN, os principais efetores são as células fagocitárias e o sistema complemento. Embora a ação destes elementos seja central no combate às parasitoses por protozoários, pacientes imunodeprimidos ou protozoários com mecanismos de escape à resposta imune conseguem burlar a ação destes mecanismos de defesa, exigindo a ação da RIA. Com a ativação da RIA através das células apresentadoras de antígenos, os linfócitos T auxi- liares começam a regular a defesa do organismo, ativando Linfócitos B e Linfócito T citotóxicos. A ação destas células, pela produção de citocinas como o Interferon-gama, ou pelos anticorpos, potencializa a ação de outras células. Um exemplo dessa potencialização são os macrófagos, que desenvolvem maior facilidade para realizar a fagocitose (processo denominado de opsonização) e produzem óxido nítrico que aumenta sua capacidade de eliminar o parasito fagocitado. No caso dos helmintos a resposta imune age de uma forma um pouco diferente. Isso porque esses animais são multicelulares, e mecanismos da resposta imune, como a fagocitose, não funcio- nam. Para estes parasitos, a Resposta Imune é baseada na produção de interleucinas, que estimulam a produção de imunoglobulina E (IgE) e, principalmente, Eosinófilos. A IgE se liga ao helminto e permite a ligação de Mastócitos, Basófilos e Eosinófilos à porção livre desse anticorpo, o que leva a degranulação (liberação dos grânulos presentes nas vesículas internas para o meio extra- celular) destas células, liberando diferentes tipos de moléculas, como por exemplo a histamina e a proteína básica principal, que medeiam a inflamação e podem provocar a lise do parasito. Muitos dos mecanismos de defesa utilizados pelo sistema imune são específicos para os para- sitos que os desencadeiam. Dessa forma, você os verá à medida que estudar os diferentes parasitos nas unidades subsequentes. Então, aluno(a), pense comigo: se nosso sistema imune é tão eficiente e possui inúmeros mecanismos para combater e eliminar parasitos, por que ainda existem tantas parasitoses? UNICESUMAR UNIDADE 1 25 Embora nosso sistema imunológico possua mecanismos efetores capazes de eliminar tanto protozoá- rios quanto helmintos, as gerações subsequentes de parasitos sofreram alterações e foram selecionadas naturalmente, ao ponto de desenvolverem mecanismos que os permitem escapar, enganar e até eliminar a resposta imunológica. Esses mecanismos são variados e presentes tanto em protozoários quanto em helmintos, como por exemplo: variação antigênica, ativação anormal de macrófagos, bloqueio da produção de anticorpos IgM, entre outros. Porém, não são constantes, pois cada espécie evoluiu de forma específica, criando os me- canismos de escape da resposta imunológica que mais se adequavam às suas características de infecção. Segundo Siqueira-Batista et al. (2020), são vários os exemplos de mecanismos de evasão da resposta imune ligados a parasitos específicos. Por exemplo, o Plasmodium falciparum, causador da malária, pode induzir a síntese de bloqueadores de anticorpos, o que impede a ligação de anticorpos inibitórios; outro exemplo é o da Leishmania spp., causadora da leishmaniose cutânea, que tem a capacidade de inibir a ligação dos vacúolos fagocíticos (são vesículas, semelhante a uma bolha, no citoplasma da célula, formadas por membranas lipídicas) com os lisossomos (organela celular capaz de digerir/ destruir organismos e partículas estranhas) impedindo a formação dos fagolisossomos, e inibem a formação de enzimas proteolíticas (que digerem proteínas) nos lisossomos, o que garante sua evasão da ação proteolítica dos macrófagos. 26 Agora que você tem um conhecimento inicial sobre o que é o parasitismo, podemos nos apro- fundar em alguns conceitos importantes para entender como esses organismos interagem com o ser humano e o meio ambiente. Um desses conceitos, e que muito utilizaremos nas próximas unidades, é o de ciclo biológico ou ciclo de vida. Ciclo biológico pode ser definido como “as diversas fases e etapas que um parasito passa durante sua vida” (NEVES, 2016, p. 13). O ciclo biológico, portanto, compreende todos os processos por que passa o parasito, como por exemplo um helminto (verme) do ovo, para o estágio larval, até atingir a vida adulta, englobando os ambientes e outros organismos a que tem contato. Para muitos parasitos o ciclo de vida é sim- ples, englobando poucas etapas e poucas formas de desenvolvimento, como no caso das amebas. Para outros, entretanto, há diversas fases, muitas formas celulares e mais de um hospedeiro. É exatamente com base no número de hospedeiros que podemos classificar o ciclo biológico dos parasitos em monoxênico e heteroxênico: • Ciclo monoxênico: Corresponde ao ciclo biológico de um parasito que possui um único hospedeiro. Este, portanto, é denominado de hospedeiro definitivo, pois é o habitat em que se desenvolverá a forma adulta, no caso dos helmintos, ou forma ativa, no caso dos proto- zoários. Por esta razão este ciclo biológico pode também ser referenciado na literatura como “ciclo direto”. Um exemplo de ciclo monoxênico é o da Entamoeba histolytica (Imagem 5), onde o único hospedeiro é o ser humano. UNICESUMAR UNIDADE 1 27 Descrição da Imagem: A imagem se trata de um infográfico do ciclo biológico da Entamoeba histolytica. No lado direito da imagem está representada a silhueta de um ser humano, com a visão dos órgãos internos, de cima para baixo, o cérebro, o tubo digestivo com esôfago, estômago, e intestinos e o fígado, além dos pulmões. Nessa silhueta estão representados: pela letra “A” o habitat do protozoário no cólon transverso do intestino grosso; pela letra “B” os locais onde ocorre a doença intestinal no cólon ascendente do intestino grosso; pela letra “C” os locais onde ocorre a doença invasiva no fígado, pulmão e cérebro. No lado esquerdo da imagem estão representadas as formas celulares em que o parasito pode ser encontrado, e como se dá seu desenvolvimento, partindo do cisto para o trofozoíto, sendo demonstrado também que o cisto é liberado para o ambiente pelo ânus e infecta o organismo pela ingestão oral. Na parte superior há o desenho de um círculo cinza com quatro núcleos em seu interior, do lado esquerdo está escrito “Cisto Maduro”, do lado direito sai uma seta azul indicando a boca, acima da seta está escrito “Ingestão”, outra seta sai desse círculo indicando para baixo outro círculo igual com um pequeno círculo se formando do lado direito onde está escrito “Excistação”, desse segundo círculo sai uma seta azul indicando para baixo uma estrutura de forma ovalar, na cor cinza do lado direito está escrito “Trofozoita”, dessa estrutura sai uma seta azul indicando para baixo, onde está escrito “Multiplicação”, de onde saem duas setas azuis, uma indicando para o lado direito uma estrutura ovalar na cor cinza abaixo dela está escrito “Trofozoítos”. Outra indicando para o lado esquerdo uma estrutura circular com um núcleo de cor cinza, ao lado está escrito “Cistos”, dessa estrutura sai uma seta azul, indicando para baixo uma estrutura circular com dois núcleos de cor cinza; dessa estrutura sai uma seta azul indicando para baixo uma estrutura circular com quatro núcleos de cor cinza. Imagem 5 - Ciclo biológico da Entamoeba histolytica / Fonte: EMSSolutions (2022). Ingerido 1 2 2 i 3 3 3 3 d d d d d d d d d i d i d Cistos maduros Desencistação Trofozoíto Cistos Trofozoítos Multiplicação Fezes C B A 4 A B C Colonização não invasiva Doença intestinal Doença extra-intestinal Estado infeccioso Estágiode diagnóstico https://emssolutionsint.blogspot.com/2019/02/amebiasis-intestinal-entamoeba.html 28 • Ciclo heteroxênico: Corresponde ao ciclo biológico de um parasito que possui pelo menos dois hospedeiros. Neste tipo de ciclo há um hospedeiro intermediário, onde ocorre parte do ciclo de vida, geralmente produzindo as formas infectantes; e um hospedeiro definitivo, onde se desenvolverá a forma adulta ou ativa. Um exemplo de ciclo heteroxênico é o da Taenia solium (Imagem 6), onde há dois hospedeiros: um suíno como o hospedeiro intermediário, e o ser humano como hospedeiro definitivo. Descrição da Imagem: A imagem apresenta um círculo formado por setas, cada uma ligando a fase anterior à próxima do ciclo de vida da Taenia. No lado direito da imagem, há o desenho da silhueta do corpo de uma pessoa mostrando os órgãos do sistema digestório, e do lado há duas ilustrações, sendo a superior a dos escólex das T. solium e da T. saginata, e a inferior a representação de um verme adulto do gênero Taenia. Na parte inferior há uma ilustração das proglótides e de um ovo de Taenia. Na sequência do ciclo, há um parágrafo dizendo que o gado ou porcos ingerem os ovos ou proglótides. Na sequência, há uma ilustração de uma vaca e de um porco, juntamente com uma ilustração de uma oncosfera, indicando que este estágio do desenvolvimento penetra a parede do intestino dos animais e se aloja nos tecidos. Em seguida a uma ilustração de um cisticerco, explicando que a oncosfera nos tecidos se desenvolverá e um cisticerco. A imagem termina com o cisticerco voltado ao corpo humano, sendo ingerido pela boca, recomeçando o ciclo. Imagem 6 - Ciclo de vida da Taenia / Fonte: Domínio Público (2022). i d Estado infeccioso Estágio de diagnóstico As Oncosferas eclodem, penetram na parede intestinal, e migram até a musculatura 3 2 O gado (T. saginata) e os porcos (T. solium) se tornam infectados pela ingestão de vegetação contaminada pelo ovos ou proglótides grávidos As Oncosferas se desenvolvem em cisticercos no músculo i Os humanos são infectados pela ingestão de carne crua ou mal cozida infectada 4 T. saginata T. solium O Scolex se fixa no intestino Adultos no intestino delgado 5 6 Ovos ou proglótides grávidos nas fezes e passam para o ambiente T. saginata T. solium d 1 O conhecimento sobre o ciclo biológico de um parasito é fundamental para entender em quais mo- mentos de uma infecção, as formas adultas, jovens, ativas ou de resistência, podem ser detectadas. Esse fato é ainda mais importante para a biomedicina, pois permite determinar o melhor método de análise para garantir um diagnóstico confiável. UNICESUMAR UNIDADE 1 29 Como você já deve ter notado, as diferentes espécies que interagem com o ser humano estabelecendo o parasitismo devem apresentar características específicas, tanto para permitir a sua reprodução, quanto para suportar ou escapar da resposta imunológica do hospedeiro. Assim, nem todos os organismos que entram em contato com o organismo humano, causando ou não uma infecção, serão considerados parasitos. Então, quais os principais parasitos do ser humano? Como você já aprendeu, os parasitos são organismos que, ao entrarem em contato com o corpo humano e atingirem seu habitat, causam algum tipo de prejuízo para o hospedeiro. Embora muitos organismos possam interagir com o ser humano, poucos são aqueles que estabelecem uma relação de parasitismo, sendo classificados em três grupos principais: helmintos, protozoários e artrópodes. Você vai estudar a fundo as características de cada um destes animais nas unidades seguintes, porém, vamos a uma introdução desses organismos. Caro(a) aluno(a), você consegue compreender a importância dos ciclos biológicos dos parasitos para sua profissão? Caso queira aprender mais, acesse minha Pílula de Aprendizagem, e saiba mais! Helminto é o termo utilizado para designar um grupo de organismos conhecidos popularmente como vermes. Dentre estes, os principais parasitos da espécie humana são encontrados nos Filos Nematoda e Platyhelminthes. O Filo Nematoda engloba um grupo de animais metazoários (pluricelulares) variados quanto a vida e o habitat. Este filo apresenta representantes “saprófitos de vida livre, aquáticos ou terrestres, até parasitos de vegetais, invertebrados e vertebrados” (NEVES, 2016, p. 220). Os animais são agrupados neste filo por apresentarem como características terem um corpo cilíndrico e alongado, com tamanho variável de alguns milímetros a muitos centímetros, terem simetria bilateral, sem segmentação verdadeira, com uma cavidade interna sem revestimento de epitélio (pseudocelomados), e com tubo digestivo completo. Um exemplo de representante deste filo é o Ascaris lumbricoides (Imagem 7). https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13758 30 O Filo Platyhelminthes engloba animais metazoários com representantes de vida livre, e ecto ou endoparasitos. Esses animais possuem simetria bilateral, achatados dorso-ventralmente, acelomados, com ou sem tubo digestivo, mas sem ânus, com uma extremidade anterior contendo órgãos sensoriais e de fixação. Um exemplo de representante deste filo é a Taenia solium (Imagem 8). Descrição da Imagem: A imagem se trata de uma foto, que apresenta dois vermes postos lado a lado contra um fundo preto. No lado esquerdo da imagem é observado um verme cilín- drico e alongado, de cor laranja ama- relado, com as extremidades afiladas e estendidas, posicionado na forma de um “C” invertido. No lado direito da imagem é observado um verme cilíndrico e alongado, de cor laranja amarelado, com as extremidades afiladas, sendo que uma, a anterior, encontra-se estendida, enquanto a posterior encontra-se enrolada ven- tralmente, posicionado na forma de um “C” invertido. Descrição da Imagem: A imagem se trata de uma foto de um tênia. Na imagem pode ser observada uma lâ- mina de vidro, comumente utilizada em microscópios, contra um fundo preto. Sobre a lâmina observa-se um verme, achatado dorso-ventralmen- te, disposto em ziguezague, com uma extremidade fina, contendo uma pe- quena cabeça (o escólex), de onde sai um curto segmento alongado (o pescoço), seguido por um longo corpo segmentado (cada segmento sendo denominado de proglote) que vai se alargando e aumentando de tamanho quanto mais distante se encontra do escólex. Imagem 7 - Ascaris lumbricoides Imagem 8 - Taenia solium UNICESUMAR UNIDADE 1 31 Os protozoários constituem um grupo de or- ganismos caracterizados por serem unicelula- res e eucariontes. Este grupo é constituído por aproximadamente 30.000 espécies, das quais aproximadamente 10.000 são parasitos, distri- buídos entre diversas espécies (NEVES, 2016). Os protozoários que apresentam interesse para os seres humanos, estão contidos em alguns poucos filos, englobando algumas dezenas de espécies. Dentre estes filos, os mais relevantes para o Brasil são: Sarcomastigophora, Cilio- phora e Apicomplexa. O Filo Sarcomastigophora é constituído por espécies de protozoários com características es- pecíficas de locomoção (uma das primeiras características utilizadas para sua classificação), que é dividido em dois Subfilos: o Mastigophora, englobando protozoários flagelados, como por exemplo o Trypanosoma cruzi (Imagem 9a); e o Sarcodina, englobando protozoários que se locomovem pela projeção de pseudópodes, como por exemplo a Naegleria fowleri (Imagem 9b). (a) (b) Descrição da Imagem: A imagem observada corresponde a junção de duas imagens de protozoários. A imagem “a” apresenta a re- produção gráfica de um protozoário, representando o Trypanosoma cruzi, formado por uma célula alongada e fusiforme, onde pode-se observar um núcleo central, um flagelo terminal e uma membrana ondulante em um dos lados do fuso. A imagem “b” corresponde a uma micrografia de um protozoário, sendo este a Naegleria fowleri, onde pode-se ver uma célula com inclusões no citoplasma e pseu- dópodes se projetando, marcados com cabeças desetas. Imagem 9 - a) Trypanossoma cruzi; b) Naegleria fowleri / Fonte: adaptado de SU et al. (2013). O Filo Ciliophora é constituído por espécies de protozoários que apresentam cílios em sua superfí- cie celular, distribuídos de forma variada entre as espécies, e que são utilizados para locomoção. Um exemplo de representante deste filo é o Balantidium coli (Imagem 10). 32 O Filo apicomplexa, diferente dos anteriores, é constituído por protozoários que não apresentam um mecanismo de locomoção específico. Entretanto, algumas espécies deste filo podem se locomover por meio de um mecanismo de deslizamento. A característica principal dos membros deste filo é a pre- sença de uma organela denominada apicoplasto e a presença de um complexo apical, que teria como função a fixação e penetração do protozoário na célula alvo. Um exemplo de representante deste filo é o Plasmodium vivax (Imagem 11). Descrição da Imagem:A imagem se trata de uma foto microscópica de um protozoário. Na imagem é possível observar, na região central, uma célula de formato oval, corada de rosa contra um fundo branco. Nesta célula é possível identificar o nú- cleo e o cílios representa- dos por projeções finas, localizadas nas laterais da célula. Descrição da Imagem:Na ima- gem é observado um desenho representativo da célula do protozoário Plasmodium vivax, no formato de uma pera, com o complexo apical no topo. No desenho são apresentadas as principais organelas internas da célula, sendo elas listadas do lado direito da imagem, com linhas indicativas ligando o nome à organela. De baixo para cima aparecem Retículo Endoplasmático, Núcleo, Api- coplasto, Complexo de Golgi, Mitocôndria, Grânulos densos, Citoplasma, Roptrias e Micro- nemas. Imagem 10 - Balantidium coli Imagem 11 - Plasmodium vivax Micronema Roptria Citoplasma Grânulos densos Mitocôndria Complexo de Golgi Apicoplasto Núcleo Retículo Endoplasmático UNICESUMAR UNIDADE 1 33 Os artrópodes constituem um grupo de animais metazoários, com simetria bilateral, caracterizados por apresentarem pés articulados (podos = pés; arthro = articulação) (NEVES, 2016), e um exoesqueleto de quitina. O Filo Arthropoda é o mais numeroso do reino animal, apresentando, aproximadamen- te 1.500.000 espécies já descritas. Dentre todas as espécies de artró- podes, duas classes englobam os principais parasitos do homem: Classe Insecta e Classe Arachnida. A Classe Insecta compreende os animais que, além das caracte- rísticas já descritas para todos os artrópodes, apresentam três pares de patas, um par de antenas, dois pares de asas e o corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen. Uma característica importante deste grupo, é que algumas espécies pos- suem forma larval no ciclo bioló- gico, sendo esta fase do desenvol- vimento a responsável por muitas parasitoses conhecidas. Um exem- plo de parasito representante da Classe Insecta é a mosca Derma- tobia hominis (Imagem 12). A Classe Arachnida, além das características já descritas para to- dos os artrópodes, apresentam qua- tro pares de patas, quelíceras, não possuem antenas, e apresentam o corpo fundido, podendo ser dividi- do em cefalotórax e abdômen. Um exemplo de parasito membro desta classe é o carrapato Amblyomma cajennense (Imagem 13). Descrição da Imagem:A imagem se trata de uma foto microscópica de um proto- zoário. Na imagem é possível observar, na região central, uma célula de formato oval, corada de rosa contra um fundo branco. Nesta célula é possível identificar o núcleo e o cílios representados por projeções finas, localizadas nas laterais da célula. Descrição da Imagem:A imagem se trata da foto de um carrapato. Na imagem pode ser observado ao centro o carrapato, de cor marrom, posicionado sobre a pele clara de um ser humano. Imagem 12 - Dermatobia hominis Imagem 13 - Amblyomma cajennense 34 O estudo da parasitologia necessita, muitas vezes, do conhecimento de termos específicos. Assim, para que possa entender corretamente os assuntos a serem abordados neste livro, se faz necessário a definição de alguns termos importantes em parasitologia: • Agente etiológico: corresponde a origem de uma doença, é o agente causador, podendo ser um organismo como uma bactéria, fungo, protozoário ou helminto, ou ainda um vírus. No caso da malária, o agente etiológico é o protozoário do gênero Plasmodium. • Antropozoonose: é a denominação dada a doenças que são primárias de animais, mas que po- dem ser transmitidas para o homem. Um exemplo dentro da parasitologia é o da toxoplasmose, cujo parasito tem os felinos como hospedeiro definitivo, mas o ser humano pode se contaminar, se tornando um hospedeiro acidental. • Patogenia: também denominada de patogênese, corresponde ao mecanismo pelo qual um agente infeccioso causa lesões no hospedeiro. • Patogenicidade: pode ser entendida como a facilidade ou habilidade que um agente infeccioso tem para causar lesões no hospedeiro. Quanto maior a patogenicidade, mais rápido e maiores os danos ao hospedeiro. • Período de incubação: é o tempo decorrente do momento em que o agente infeccioso invadiu o organismo (início da infecção) e o aparecimento dos primeiros sintomas. Por exemplo, no caso da infecção pelo Schistossoma mansoni, o período médio de incubação é 24 horas, que é o tempo decorrente da penetração da cercária até o aparecimento da dermatite cercariana (NEVES, 2016). • Período pré-patente: “é o período que decorre entre a infecção e o aparecimento das pri- meiras formas detectáveis do agente infeccioso” (NEVES, 2016, p. 5). Para que você consiga compreender, pense no caso da esquistossomose, onde as formas detectáveis são os ovos nas fezes e, portanto, o período pré-patente é o tempo entre a penetração da cercária e a detecção dos ovos, correspondente a 43 dias. • Profilaxia: é o termo utilizado amplamente como sinônimo de prevenção, porém, além disto, engloba também ações que visam a erradicação e o controle de doenças ou qualquer fato que possa ser prejudicial. • Zoonose: é o termo geral para caracterizar as doenças e infecções que são transmitidas de ani- mais para os seres humanos. Um exemplo é o da doença de chagas, onde o tripanossoma pode ser transmitido de reservatórios naturais, como animais domésticos (gato, cachorro, porco) e animais selvagens (sagui, tatu, gambá), para o ser humano através dos triatomíneos. Uma característica importante de toda ciência que tem como base o estudo de organismos, é a definição correta e identificação dos organismos estudados. Isso se faz necessário para que os conhecimentos gerados possam ser direcionados à espécie correta. A definição da espécie e sua classificação é função da Taxonomia. Porém, para que duas espécies distintas não sejam confundidas é preciso nomeá-las corretamente, é neste aspecto que se aplicam as regras da Nomenclatura Zoológica. UNICESUMAR UNIDADE 1 35 Tenho certeza que em algum momento da sua vida você já ouviu, ou já falou o nome científico do ser humano: Homo sapiens. Mas já parou para se perguntar por que este nome? Quem decidiu que deveria ser esse? Por que é escrito em Latim? Todas estas características são determinadas pelas Regras Internacionais de Nomenclatura Zoológica, formuladas e aprovadas em congressos realizados pelas principais instituições e autoridades mundiais no assunto. Antes de você entender como é determinado o nome de uma espécie, é importante diferenciar nomenclatura de classificação. Classificação corresponde ao processo de ordenar os organismos em grupos, ou classes, de acordo com suas características. Já a nomenclatura corresponde a uti- lização de termos para designar um destes grupos ou classes. Quando estudamos a classificação de uma espécie, estudamos os vários níveis em que está agrupada. Estes níveis são denominados de unidades taxonômicas ou “táxons”. Em zoologia exis- tem sete níveis principais, que na sequência do mais amplo para o mais restrito são: Reino, Filo, Classe, Ordem,Família, Gênero e Espécie (NEVES, 2016). Mas porque saber disso é importante para entender as regras de nomenclatura? Todo nome científico de uma espécie é escrito em Latim e binomial (dois nomes), sendo a primeira palavra o gênero e a segunda o epíteto. Entenda que o gênero pode ser escrito isoladamente, mas a espécie sempre será composta pelos dois nomes, mesmo que o gênero se encontre abreviado. Portanto, não podemos dizer que a segunda palavra de um nome científico é a designação da espécie. Por exemplo, o gênero do verme conhecido como lombriga é Ascaris, enquanto a espécie é Ascaris lumbricoides ou A. lumbricoides. Outra característica importante é que o nome é formado por palavras em Latim, por esta ser considerada uma língua morta e, portanto, não sofrer alterações com o tempo. Esse fato faz com que o nome designado para uma espécie permaneça constante no tempo. A forma de grafia do nome também é importante. Na nomenclatura binomial o gênero deve ser grafado com a primeira letra em maiúsculo e o epíteto todo em minúsculo. Além disso, o nome todo da espécie deve ser destacado de alguma forma, por exemplo, com itálico (Ascaris lumbri- coides), negrito (Ascaris lumbricoides) ou sublinhado (Ascaris lumbricoides). Neste podcast, você vai conhecer as principais características da Pa- rasitologia e como ela se relaciona com a área da saúde. Vou discutir e apresentar para você a importância da atuação dos profissionais de saúde para identificação e tratamento das parasitoses. Acesse o QRCode e aperte o play! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13751 36 Você deve ter notado que o estudo dos parasitos tem uma aplicação direta a várias das atividades direcio- nadas à biomedicina, farmácia e outras áreas da saúde, em especial ao diagnóstico de doenças infecciosas e parasitárias. Portanto, convido você a se aprofundar neste universo intrigante, curioso e sensacional que é a Parasitologia. Junto comigo, vamos entender como estes organismos podem ser, ao mesmo tempo, formidáveis em suas adaptações para sobreviver e se reproduzir, e perigosos ao ponto de causar milhões de mortes todos os anos no mundo. Nesta unidade, estudamos os principais conceitos de parasitologia, incluindo os de parasitismo e parasito. Caracterizamos as formas de ação do parasito sobre o hospedeiro e como o sistema imunológico tenta inibir a ação destes organismos. Entendemos os ciclos biológicos e como diferentes parasitos podem interagir com um ou mais hospedeiros. Compreendemos como a ecologia pode se relacionar com a parasitologia e conhecemos os principais grupos de parasitos do ser humano. Agora que você conhece as características e os conceitos principais sobre parasitologia, pode entender melhor o desafio e os questionamentos que foram propostos. Resgate o exercício proposto no início da unidade e tente resolvê-lo com os conhecimentos que agora possui. No Brasil, existem condições ambientais para o estabelecimento de diversas parasitoses. Porém, as mais prevalentes são aquelas denominadas como parasitoses intestinais. São infecções estabelecidas tanto por protozoários como a Entamoeba (causa a amebíase), como por helmintos como o Ascaris lubricoides (causa a ascaridíase). Essas parasitoses são transmitidas pela via fecal oral, por alimentos e água contaminados, e estão direta- mente ligadas às más condições sanitárias e falta de higiene pessoal. Assim, caro(a) aluno(a), pensando no seu entorno, você agora consegue definir ocasiões onde pode ter entrado em contato com esses parasitos. Um exemplo muito comum é a ingestão de alimentos frescos, como frutas e verduras, sem a devida higienização. UNICESUMAR 37 Caro(a) aluno(a), com base nos conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, estou certo de que é capaz de preencher o mapa mental a seguir. PARASITOLOGIA Parasitismo Hospedeiro Parasito Principais Parasitos 38 1. “O tratamento eficiente das doenças parasitárias, bem como a prevenção e o controle de cada uma delas, exige bom conhecimento dos fenômenos ecológicos que envolvem o homem, os parasitos que o invadem e, eventualmente, os hospedeiros intermediários ou vetores desses parasitos. O próprio conceito de parasitismo deve ser baseado na interpretação ecológica e bioquímica das relações parasito-hospedeiro”. REY, L. Parasitologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008, p. 46. O parasitismo é um tipo de relação interespecífica considerada negativa. Os indivíduos que estabelecem essa relação são então denominados de parasito e hospedeiro. Com base nas características do parasitismo, explique, por meio de um texto dissertativo de 3 a 5 linhas, o que é um parasito. 2. “Cada espécie de parasito tem seus próprios hospedeiros. Alguns só podem infectar uma ou poucas espécies muito próximas: são os parasitos estenoxenos. Outros podem viver em uma grande variedade deles, que infectam indistintamente: são os parasitos eurixenos”. REY, L. Bases da Parasitologia Médica. 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2009, p. 8. O ciclo de vida de um parasito corresponde a todas as fases de desenvolvimento que o orga- nismo passa durante a vida. Dependendo das características do ciclo, ele pode ser denominado de monoxênico ou heteroxênico. Explique, por meio de um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, a diferença entre ciclo monoxênico e ciclo heteroxênico. 3. “A ação do parasito sobre o hospedeiro tem grande importância na parasitologia, pois é por intermédio dela que poderá ocorrer doença no hospedeiro”. NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2016, p. 11. Uma das características do parasitismo é que o parasito causará algum prejuízo ao hospedeiro. Cite e explique, por meio de um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, pelo menos três formas pelas quais um parasito pode causar prejuízo ao ser humano. 2 Nesta unidade, você entenderá o conceito de epidemiologia e como sua aplicação tem um papel fundamental no combate e prevenção de doenças parasitárias. Você entenderá a diferença entre doen- ça e saúde, além de conhecer os indicadores de saúde utilizados para a realização de análises epidemiológicas. Por fim, entenderá o conceito e aplicação da vigilância em saúde e níveis de prevenção de doenças. Epidemiologia Aplicada à Parasitologia Dr. Vinícius Pires Rincão 40 Todos os dias nos deparamos com notícias que trazem informações de doenças, seja pelo risco de morte, ou pela sua rápida e intensa disseminação, afetando inúmeros países – ou mesmo pelo fato de mal conhecermos suas características. Muitas destas doenças, embora bem conhecidas e controladas, apresentam ainda o risco de causar danos irreparáveis para a sociedade, caso saiam do controle. Você já parou para pensar como é realizado a vigilância das doenças infecciosas e parasitárias? Como pesquisadores e autoridades sanitárias conseguem determinar que uma doença saiu do controle e causou um surto ou uma epidemia? O controle de doenças infecciosas demanda uma avaliação constante das autoridades sanitárias. Isso só é possível quando os casos das doenças são notificados e registrados, per- mitindo a avaliação por meio da ação de especialistas em epidemiologia. Independentemente da doença e de como se encontra na população, ou seja, se já estava inserida ou se é nova naquela população, os epidemiologistas buscam entender as razões que fazem algumas pessoas adoecerem enquanto outras não – ou quais fatores propiciam a manifestação da doença em áreas geográficas específicas, ou ainda os motivos para que determinadas doenças apresentem ocorrências em períodos de tempo variados. Essa abordagem, o entendimento de como a doença se distribui com relação à pessoa, lugar e tempo, permite ao epidemiologista determinar possíveis fatores de risco, as causas e agentes etiológicos das doenças, e com isso propor medidas de controle e prevenção. Caro(a) aluno(a), você provavelmente já deve ter ouvido, em algum momento, uma notícia ou umrelato do aparecimento de uma doença, todas as adversidades que causou, e como ela poderia ser prevenida evitando todo esse mal. Bem, todo esse conhecimento está direta- mente relacionado com o tema desta unidade. Um exemplo bastante comum no Brasil deste tipo de doença e da abor- dagem epidemiológica e que afeta cerca de 40% do território nacional é a Malária. Quero pro- por uma atividade prática de epidemiologia para você: determine se a região que você se encontra é en- dêmica ou não para a Malária, qual o risco de transmissão da doença, e se há ou não uma epi- demia na região. UNICESUMAR UNIDADE 2 41 A Malária, a qual você estudará com maior profundidade nas próximas unidades, é uma doença parasitária causada por um protozoário, o Plasmodium. Esse parasita depende exclusivamente de um invertebrado, o mosquito do gênero Anopheles, para ser transmitido de um indivíduo a outro e, portanto, a presença da doença em uma determinada região está, na maioria das vezes, condicionada à presença deste mosquito, determinando que a região é endêmica ou não. Com base nestes fatos, muitas questões podem ser levantadas: como as autoridades sanitárias determinam que uma região é endêmica para uma doença? Quais os parâmetros de uma população são me- didos para determinar se uma doença está ou não causando uma epidemia ou um surto? Como são determinadas ações de prevenção e controle das doenças? Agora reflita na pesquisa que você fez, e nas questões que levantamos, e escreva seus resultados no seu Diário de Bordo, a fim de que eu e você possamos analisá-las juntos no decorrer desta unidade. 42 Uma das características mais marcantes na sociedade atual é o impacto causado por doenças emer- gentes. Essas doenças aparecem rapidamente, se disseminam e causam problemas sérios, tanto de saúde como econômicos. A detecção e controle de doenças infecciosas e parasitárias depende de uma vigilância constante, e é realizada com base em dados da ocorrência destas doenças na população. É neste âmbito que age a Epidemiologia. Epidemiologia pode ser definida como “a ciência que estuda a distribuição de doenças ou en- fermidades, assim como a de seus determinantes na população humana” (NEVES, 2016, p. 15). A distribuição das doenças está diretamente relacionada à quantidade de casos na população humana em áreas determinadas, recebendo classificações diferentes conforme a extensão dessa área. Já os de- terminantes das doenças dizem respeito aos fatores de risco para o desenvolvimento de uma doença, que uma população apresenta em determinada área. Atualmente, a epidemiologia alcançou grande importância, tanto para o estudo acadêmico quanto para os órgãos de saúde pública, que buscam através dela determinar melhores formas de controle e prevenção de doenças. No entanto, como será que surgiu o estudo e o conceito de Epidemiologia? Muito do que era tratado na medicina e suas áreas correlatas pode ser relacionado à epidemiologia desde a Grécia Antiga. Hipócrates (Figura 1), conhecido como pai da medicina, um médico grego que viveu a 2500 anos, já postulava que as doenças não eram causadas de forma sobrenatural (pensamento muito difundido na época), mas sim em decorrência da interação entre o indivíduo e o ambiente (ideia muito alinhada ao que existe hoje). Ainda assim, essa ideia era superficial, sem o conhecimento por exemplo sobre microrganismos, e era baseada na ideia do Miasma, entendido como o ar de má qua- lidade que deixava as pessoas doentes. Assim, o ar exalado por uma pessoa doente passaria a doença para outra. A Malária, por exemplo, tem seu nome derivado da combinação das palavras “mal” e “ar”, derivado exatamente da premissa de transmissão pelo miasma (PEREIRA, 2018). UNICESUMAR UNIDADE 2 43 Descrição da Imagem: na imagem é possível observar o desenho representativo, em preto e branco, de um homem com barba e cabelo espessos, de comprimento médio, expressão séria, usando uma túnica longa que cobre o corpo todo, bem como luvas. Ele está de pé, voltado para a direita, e está segurando uma cabeça humana em uma mão e o que parece ser uma faca na outra, sendo que a ponta da faca encosta na cabeça. Acima do homem pode ser visto um retângulo com um nome escrito, sendo este “HIPPOCRATES”. Ao lado direito do homem, ao fundo da imagem, há outros desenhos repre- sentando quadros, com cenas indeterminadas, aparentando representarem estudiosos da me- dicina da época. Figura 1 - Hipócrates No século XIX, após diversos pesquisadores como Antony Van Leeuwenhoek (em 1674), mostrado na Figura 2, observarem seres microscópicos com microscópios rudimentares, surgiu a ideia dos germes como causadores das doenças. Essa ideia passou a disputar espaço com a teoria dos miasmas. Somente após Louis Pasteur demonstrar a existência de microrganismos e sua atuação na fermentação e Robert Koch finalmente comprovar a relação de microrganismos com as doenças (1876) que se consolidou a ideia de que as doenças transmitidas eram causadas por estes seres microscópicos. 44 (a) (b) (c) Descrição da Imagem: a imagem é composta por três imagens distintas em variados tons de preto e branco: na imagem da esquerda, a), pode ser observado a pintura de um homem (Antony Van Leeuwenhoek) com roupas pesadas e elegantes, com cabelos compridos e cacheados sem barba, e a sua frente a fotografia de um instrumento, o microscópio rudimentar de Leeuwenhoek, lembrando uma espátula larga de metal, com uma pequena lente de vidro do tamanho de uma gota no seu centro, e sobre a espátula liga-se um parafuso com uma ponta muito fina localizando-se imediatamente acima da lente de vidro; a imagem do meio, b), é uma fotografia onde se observa um homem (Louis Pasteur) de barba curta e grisalha, cabelos escuros e curtos, com roupa social, sentado com o cotovelo esquerdo apoiado sobre uma mesa e olhando diagonalmente para sua esquerda; a imagem da direita, c), é uma fotografia onde se observa o tronco de um homem (Robert Koch) com cabelos ralos quase careca, com cavanhaque e bigode espesso, usando um óculos pequeno e elíptico, com roupa social, apresentando a mão esquerda apoiada do lado esquerdo da cabeça e olhando diretamente para frente. Figura 2 - a) Antony Van Leeuwenhoek, b) Louis Pasteur e c) Robert Koch / Fonte: Creative Commons (2022a, 2022b, 2022c). No século XX, com a forte aceitação da teoria dos germes, as políticas de saúde e as pesquisas se concentraram em mudar o saneamento ambiental e promover a resistência do organismo a infecções por meio de imunizantes (vacinas) e por meio de medicamentos como os antibióticos, o que diminuiu exponencialmente a propagação de doenças, consolidando muito dos mecanis- mos atuais de prevenção. Você sabe o significado de vacina e antibiótico e como surgiram? • Vacinas – são preparados contendo parte de microrganismos ou microrganismos atenuados, ou seja, que não causam doenças e são capazes de ativar a resposta imunológica do organismo, promovendo a proteção contra uma doença. A primeira vacina cientificamente comprovada é atribuída a Edward Jenner, considerado pai da imunologia, e utilizou o vírus da varíola bovina para proteger os seres humanos contra a varíola humana. • Antibiótico – é o termo utilizado para designar compostos, de origem natural ou semissinté- ticos, capazes de inibir o crescimento de bactérias, como a Penicilina. O primeiro antibiótico foi descoberto por Alexander Fleming, em 1928. Trata-se exatamente da penicilina que era produzida pelo fungo Penicillium notatum. Fonte: Prescott, Harley, Klein (2002) UNICESUMAR UNIDADE 2 45 Tudo o que a Epidemiologia engloba enquanto disciplina científica, faz parte do estudo das doenças infecciosas desde seu início. Entretanto, a forma de abordagem e análise evoluiu muito com o tempo. O registro mais antigo da utilização da palavra “epidemiologia” está contido em um texto espanhol do século XVI (PEREIRA, 2018), porém, seu entendimento como uma ciência só ocorreu na metadedo século XX, quando os estudos da área começaram a ser incorporados em livros-texto. O termo epidemiologia (epi = sobre; demo = população; logos = tratado) pode ser entendido como o estudo do que afeta a população e, embora hoje essa ciência tenha como foco o estudo de todos os fatos rela- cionados com a saúde da população, no início ela se restringia ao estudo das epidemias das doenças transmissíveis, e somente quando estas ocorriam (PEREIRA, 2018). Entretanto, com o aprofundamento do conhecimento sobre as doenças infectocontagiosas, os especialistas perceberam que para prevenir corretamente um surto ou uma epidemia seria preciso estudar e entender como a doença se comportava também nos períodos interepidêmicos (PEREI- RA, 2018). Esta abordagem levou os estudiosos na área a continuar a execução dos estudos sobre as doenças que causavam epidemias, mesmo quando estas não ocorriam, resultando em conhecimentos extremamente importantes atualmente, o que permitiu a correlação da distribuição das doenças com diversos indicadores de saúde. A epidemiologia possui um princípio básico: as doenças não ocorrem ao acaso em uma população (PEREIRA, 2018). A partir desta premissa pode-se postular que a distribuição desigual das doenças em uma população ocorre em decorrência da presença de fatores que se distribuem de forma desigual. Assim, o conhecimento destes fatores permitiria a aplicação de medidas preventivas e curativas mais eficazes. Tomando essa ideia como base da epidemiologia, pode-se dizer que seu objetivo principal é a prevenção de doenças, promovendo assim a saúde na população humana (NEVES, 2016). Agora, pense comigo: o objetivo principal da epidemiologia é a promoção da saúde. No entanto, este não é o objetivo de toda a Medicina? Então por que há a necessidade de uma disciplina diferente para este objetivo? Embora a medicina tenha uma abordagem direcionada a promover a saúde, sua abordagem é diferente. Muitos autores consideram a epidemiologia uma parte da medicina, outros a veem como parceira no controle das doenças, mas com enfoques distintos. Quando você compara a atuação da medicina clínica com a epidemiologia, pode entender a diferença entre elas. Basicamente, a medicina clínica atua em um indivíduo, observando e tratando uma doença, enquanto a epidemiologia age em uma população para prevenir uma doença (Quadro 1). 46 Epidemiologia Medicina Clínica Objeto de estudo População Indivíduo Diagnóstico de saúde Levantamento de saúde Diagnóstico individual Objetivo do diagnóstico Prevenção de doenças Tratamento Avaliação Avaliação das ações e programas de saúde Avaliação de cura Ação Planejamento de saúde Atenção ao indivíduo Quadro 1 - Principais diferenças entre Epidemiologia e Medicina Clínica / Fonte: adaptado de Neves (2016, p.15). Agora que você já entendeu o que é a epidemiologia e quais são seus objetivos, e sabendo que estes estão diretamente focados na prevenção de doenças, é fundamental que você conheça o conceito de “doença”. É importante destacar que para se entender o que é uma doença é preciso conhecer seu oposto, ou seja, entender o conceito de “saúde”, e saber que a variação entre os dois estados é um processo constante e frágil. Estes dois conceitos são empregados constantemente no meio clínico, especificamente quando, após a realização de exames clínicos e laboratoriais, que podem indicar que um indivíduo apresenta alguma anormalidade em seu organismo, este será rotulado como doente ou sadio. Em uma abordagem simplista, o termo “saúde” pode ser entendido como a “ausência de doença”, e em contrapartida, o termo “doença” pode ser entendido como “falta ou perturbação da saúde” (PEREIRA, 2018, p. 30). Embora essa definição simplista seja amplamente usada, existem àquelas mais abrangentes e que expressam mais características destes dois estados. Neste contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 1947, define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2022, s.p.). Essa abordagem, apesar de trazer um conceito mais amplo, também o deixa mais subjetivo, pois, como podemos determinar o significado de bem-estar? Caso o bem-estar físico seja a ausência de alterações no organismo; o bem-estar mental, a ausência de preocupações e o sentimento de felicidade; e o bem-estar social, o sentimento de integração em uma sociedade com os direitos reconhecidos e respeitados, ainda assim essas seriam características que só poderiam ser determinadas por cada indivíduo (SEGRE; FERRAZ, 1997), tornando a definição da OMS pouco usual para a epidemiologia. Entretanto, por que estou trazendo toda essa abordagem para você? Isso é necessário para que você entenda que definir uma pessoa como doente não é tarefa fácil, mas é papel da epidemiologia avaliar esses parâmetros. Por essa razão, muitas vezes a definição mais simplista permite a melhor in- terpretação dos dados e aplicação em medidas de controle e prevenção. E é por esta razão que vamos adotá-la neste livro. É fato que uma doença não surge do nada e nem se manifesta abruptamente, pois são reconhecidas diversas fases de seu processo de instalação no organismo. Ao conjunto destas fases de instalação da doença, dá-se o nome de história natural da doença. Ela deve ser entendida como um processo contínuo no qual não há intervenção do ser humano. UNICESUMAR UNIDADE 2 47 Segundo Pereira (2018), a história natural de uma doença pode ser analisada a partir de dois enfoques: 1. visão a partir de serviços, onde as características da progressão de uma doença são analisadas com base em pacientes que procuram os serviços de saúde em busca de algum tratamento; 2. visão com base na comunidade, onde os pacientes são procurados na comunidade, por meio de ações de promoção de saúde ou realização de pesquisas em fontes de informação. Neste último caso, a abordagem é mais ampla, pois, mesmo indivíduos que não procuraram tratamento são analisados, permitindo o entendimento da doença mesmo em fases anteriores a sua manifestação, ou seja, quando o indivíduo se encontrava sadio. Isso permite, muitas vezes, determinar fatores de risco e agravantes para a doença examinada. A história natural de uma doença pode ser dividida em quatro fases: 1. Fase inicial ou pré-patogênese – consiste na fase onde a doença ainda não se ins- talou, mas as características manifestadas no indivíduo propiciam o seu aparecimento. 2. Fase patológica pré-clínica – consiste na fase inicial, onde a doença se instala, mas ainda não há aparecimento de sintomas. 3. Fase clínica ou patogênese – consiste na fase avançada da doença onde há mani- festação de sintomas. 4. Fase de incapacidade ou pós-clínica – consiste no período após o término das ma- nifestações dos sintomas, ou da estabilização das alterações fisiológicas e anatômicas provocadas pela doença. Nestes casos, em geral, a doença não causou a morte do paciente, porém não foi completamente curada, resultando em sequelas. Uma característica muito importante para a aplicação dos conceitos epidemiológicos e para determi- nação de medidas preventivas é a forma como um agente infeccioso passa de um indivíduo para outro, ou seja, sua disseminação. As doenças infecciosas, entre elas as parasitoses, podem se disseminar de diversas formas, e não é tarefa fácil separá-los por tipos, embora alguns autores o tenham feito. Por outro lado, algumas características da disseminação das doenças são relevantes. A forma como ocorre o transporte de um indivíduo para outro, por exemplo, é relevante na distri- buição da doença, ou seja, o veículo (o vetor) utilizado pelo agente etiológico pode limitar o seu local de ação regional, ou pode fazer com que a doença se torne global. O vetor para uma parasitose pode ser desde a água e alimentos até insetos, que podem ou não fazer parte do ciclo biológico do parasito. A maioria das parasitoses intestinais possui uma via oral-fecal, o que significa queo transporte para dentro do hospedeiro é feito por alimentos e água contaminados. Um exemplo deste tipo de dissemi- nação é a do Ascaris lumbricoides, onde a infecção de um novo indivíduo se dá pela ingestão de água e alimentos contaminados com os ovos do parasito (Figura 3). 48 Descrição da Imagem:na imagem pode ser ob- servado o contorno do tronco de um ser humano, observando os órgãos internos. Na parte superior esquerda da figura pode ser observado o desenho de um ovo de Ascaris lumbricoides, contendo a larva infecciosa e uma seta apontando para a boca do ser humano. No interior do corpo pode ser visto o ovo no esôfago e uma seta apontando para o intestino, ligando outra seta que aponta para a larva fora do ovo, ligada à outra seta que aponta para o pulmão, ligada à outra seta que aponta para o intestino. Nes- te pode ser observado, do lado direito, dois vermes adultos, o macho e a fêmea, e em seguida outra seta partindo do intestino, saindo pelo ânus e ter- minando em um ovo sobre uma área com grama, representando o ovo no ambiente. Figura 3 - Infecção por ovos de Ascaris lumbricoides UNICESUMAR UNIDADE 2 49 No caso dos parasitos, a propagação da doença pode seguir três caminhos. O primeiro, e mais comum, é aquele em que o parasito é liberado para o am- biente como um ovo (no caso de helmintos) ou como um cisto (no caso de protozoários), sendo este processo essencial para sua maturação, e em seguida é ingerido pelo hospedeiro (como, por exemplo, o Ascaris lumbricoides) ou penetra pela pele (como, por exemplo, o Schistosoma mansoni) (REY, 2008). No segundo, menos comum, mas ainda bem representado, temos o para- sito sendo transportado ao hospedeiro definitivo por um vetor, geralmente um artrópode, que pode fazer a vez de hospedeiro intermediário, como no caso da Malária, onde o Plasmodium é transportado pelo mosquito do gê- nero Anopheles (Figura 4). O terceiro caminho é raro ocorrer para parasitos, e consiste na transmissão direta de ser humano para ser humano, e depende de fatores muito específicos, como a entrada das formas ativas do parasito por meios diferentes do normal, ou o contato com partes contaminadas do hospedeiro definitivo. Um exemplo deste último caminho é o que ocorre com o Enterobios vermiculares, que pode ser transmitido pelo contato do indivíduo com a região de liberação dos ovos, a região anal do indivíduo infectado, sendo estes levados até a boca em seguida. Descrição da Imagem:na imagem pode ser observado o processo de transmissão do parasito causador da malária. Na parte direita da imagem pode ser observado o desenho de uma mão humana sendo picada por um mosquito do gênero Anopheles. O mosquito após realizar o repasto voa, demonstrado na figura por meio de uma seta que aponta para uma outra mão na porção esquerda da figura. Nesta mão o mosquito aparece picando novamente, indicando que neste momento ele inoculou o parasito junto com a saliva. A partir da mão do lado esquerdo parte uma seta até o desenho de um fígado humano, indicando que o parasito vai para lá. Em seguida uma nova seta liga o fígado a algumas hemácias contaminadas com o parasito e por fim uma nova seta liga as hemácias contaminadas ao desenho da mão lado direito, indicando que o mosquito que está ali se alimentando, está ingerindo hemácias contaminadas. Figura 4 - Transmissão da malária O mosquito infectado pica uma pessoa que se torna infectada Fígado infectado Células sanguíneas infectadas Mosquito pica uma pessoa infectada, tornando-se infectado 50 Descrição da Imagem:a imagem corresponde a uma micrografia de larvas do Schistosoma mansoni, do tipo cercária. Nesta imagem pode ser observado duas larvas com características semelhantes, sendo elas uma região anterior elíptica e mais larga correspondendo ao corpo cercariano, ligado a uma cauda mais longa que o corpo, contendo a extremidade bifurcada. Figura 5 - Larva cercária Outra forma de um parasito invadir o organismo do hospedeiro pela via cutânea, é através da sua introdução por meio da picada de um inseto, como no caso do Plasmodium vivax inoculado pelo mosquito do gênero Anopheles (Figura 6). Outro fator importante que interfere na disseminação do parasita é a porta de entrada do hospedeiro, ou seja, o local por onde o agente etiológico da doença alcançará a região interna do organismo. As principais portas de entrada do orga- nismo consistem nas aberturas naturais do corpo e os sistemas associados a elas sendo: trato respiratório, gastrointestinal e geniturinário; além desses, a via cutânea (a pele) também pode servir com porta de entrada, mas nesse caso o parasito deve ser especializado para romper a barreira da pele e atingir os tecidos internos, como no caso da larva cercária do Schistosoma mansoni (Figura 5). UNICESUMAR UNIDADE 2 51 Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado o aparelho sugador de um mosquito hematófago perfurando a pele e entrando nas camadas profundas da derme, passando através de vasos sanguíneos. Neste processo pode ser observado que o mosquito injeta uma substância, de cor amarelada (representando um anestésico natural), e juntamente com essa, pequenas partículas amarelas, representando o parasito que são inoculados junto, atingindo os tecidos internos e podendo atingir a corrente sanguínea. Figura 6 - Inoculação do Plasmodium vivax 52 Caro(a) aluno(a), com base no que você já conhece sobre as parasitoses e a forma de infecção dos parasitos, você consegue imaginar porque as doenças parasitárias, mesmo com um extenso trabalho de combate e conscientização, não são facilmente controladas? Existem, na verdade, inúmeros fatores que vão desde condições precárias de saneamento básico até a impossibilidade de eliminar o parasito do ambiente. Neste último caso, estamos falando dos reservatórios naturais dos parasitos. O reservatório de um parasito corresponde aos hospedeiros que possuem a infecção no momento avaliado, e pode servir de base para classificar uma doença em antroponose ou zoonose (NEVES, 2016). Antroponose – são doenças cujo homem é o único reservatório do agente etiológico, como a filariose bancroftiana. Zoonose – são doenças em que o homem e outros vertebrados são reservatórios do agente etio- lógico, como a Doença de Chagas. Fonte: Neves (2016). Ao nos referirmos a um reservatório natural, estamos falando dos animais, domésticos ou selvagens, que possuem o parasito que pode infectar o homem. Este aspecto é importante para a epide- miologia, pois parasitoses que possuem reservatórios naturais são mais difíceis de controlar, e podem evoluir para epi- demias com maior facilidade em áreas onde os animais que funcionam como reservatório são mais abundantes. Um exemplo de reservatório natural em pa- rasitoses é o da doença de chagas, pois esta parasitose constitui uma zoonose — onde, além do ser humano, mamíferos domésticos e silvestres, como gatos, cães, porcos, saguis, tatus, gambás (Figura 7), entre outros, podem ser infectados com o Trypanosoma cruzi, o protozoário que causa a doença. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado vários galhos de pequeno porte e muitas folhas. No centro da imagem, sobre um dos galhos, pode ser observado um Gambá-comum, apresentando uma aparência que lembra um rato muito grande, embora com diferenças, com cores marrom e preto. Figura 7 - Gambá-comum UNICESUMAR UNIDADE 2 53 Como você pode perceber, a epidemiologia depende da avaliação de dados coletados a partir da análise de uma população, e da característica do ambiente onde essa população se encontra. A interpretação destes dados, entretanto, depende do conhecimento de determinados parâmetros e termos empregados na análise dos dados. Um destes termos é o “indicador de saúde”, que caracteriza um aspecto da doença que não pode ser observado diretamente (PEREIRA, 2018). Portanto, ele indica a situação atual de uma doença com base em determinados parâmetros, como mortalidade, letalidadee morbidade, alguns dos quais não estão diretamente associados à doença em si. • Mortalidade: corresponde a todas as mortes observadas em uma população em determina- do período de tempo. Este indicador é muito utilizado, pois é objetivo na sua determinação, uma vez que a morte é facilmente caracterizada, além do fato de que todas as mortes devem ser registradas, fornecendo uma base de dados ampla e completa. No Brasil, as taxas de mortalidade são publicadas pelo Ministério da Saúde, baseadas na causa da doença, e são tabuladas em relação a região geográfica, sexo e faixa etária (NEVES, 2016). • Letalidade: corresponde ao número de mortes em uma população em decorrência de uma doença específica, em um determinado período de tempo. Veja, aluno(a), diferente da mortalidade, neste indicador são contadas apenas as mortes atribuídas à doença avaliada, permitindo determinar a gravidade da doença. • Morbidade: pode ser entendida como a medida da frequência de uma doença na população (NEVES, 2016). Este parâmetro é, sem dúvidas, o mais importante para a epidemiologia, pois, permite uma análise direta da situação de uma doença na população. A morbidade é, geralmente, determinada com base em duas taxas distintas: Incidência e Prevalência. Taxa (ou coeficiente) – corresponde uma medida matemática que expressa a razão entre duas grandezas, sendo que na parasitologia está relacionado diretamente ao número de casos pela po- pulação que pode adoecer. Por exemplo: a taxa de mortalidade em acidentes de moto – é a razão do número de pessoas que morreram em um acidente de moto, pelo número de pessoas que se acidentaram com uma moto. Fonte: Pereira (2018). A Incidência pode ser entendida como a frequência de uma doença em uma população específica, em um tempo determinado, englobando apenas os casos novos dessa doença. Assim, a taxa de incidência (Figura 8) é determinada pelo “número de casos novos (recentes) de uma doença que ocorreu em uma população em um período de tempo definido” (NEVES, 2016, p. 20). 54 Um exemplo para você entender melhor a taxa de incidência. Em uma cidade do interior, em um to- tal 600 crianças com idades entre 5 e 7 anos, no ano de 2005, 7 apresentaram amebíase. Assim, a taxa de incidência corresponde a 7/600 = 0,012 = 12 casos por 1000 crianças em 2005. Essa taxa serve de parâmetro para estipulações, ou seja, caso sejam analisadas 1000 crianças, há a probabilidade de que haja 12 casos da doença entre elas. A taxa de incidência permite que se avalie como uma doença se mantém em uma população, do ponto de vista de sua disseminação, possibilitando a detecção de surtos e epidemias — ou mesmo na determinação de grupos específicos afetados, como faixa etária ou àqueles que possuem fatores de risco como comorbi- dades ou obesidade. A incidência é reconhecida também, como uma estimativa do risco de adoecer, já que determina a probabilidade de que novos casos apareçam em uma população. Por outro lado, a Prevalência representa o número total de casos de uma doença na população em um tempo definido, contando casos novos e antigos. Portanto, a taxa de prevalência (Figura 9) pode ser definida como o “número de pessoas afetadas por uma determinada doença em uma população em um tempo específico, dividido pelo número de pessoas da população naquele mesmo período” (NEVES, 2016, p. 21). Taxa de incidência = Número de casos novos de uma determinada doença presente em uma população, em um período de tempo definido Número de pessoas, em risco de desenvolver a doença nesta população, no mesmo período de tempo definido Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado a representação da fórmula para se calcular a Taxa de incidência. À esquerda está escrito “Taxa de incidência =”. À direita, acima, está escrito “Número de casos novos de uma determinada doença presente em uma população, em um período de tempo definido”. Abaixo, está uma linha, indicando o símbolo de divisão. Abaixo desta, está escrito “Número de pessoas em risco de desenvolver a doença nesta população, no mesmo período de tempo definido”. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado a representação da fórmula para se calcular a Taxa de Prevalência. À esquerda está escrito “Taxa de prevalência =”. À direita, acima, está escrito “Número de casos novos de uma determinada doença presente em uma população, em um período de tempo definido”. Abaixo, está uma linha, indicando o símbolo de divisão. Abaixo desta, está escrito “Número de pessoas existentes na população, no mesmo período de tempo definido”. Figura 8 - Taxa de incidência / Fonte: adaptado de Neves (2016, p. 20). Figura 9 - Taxa de incidência / Fonte: adaptado de Neves (2016, p. 21). Taxa de prevalência = Número de casos novos de uma determinada doença presente em uma população, em um período de tempo definido Número de pessoas existentes na população, no mesmo período de tempo definido UNICESUMAR UNIDADE 2 55 Um exemplo para que você entenda melhor a taxa de prevalência: no ano de 1992, havia no Bra- sil 8 milhões de pessoas diagnosticadas com esquistossomose, sendo que neste ano a população brasileira era de 154,3 milhões de pessoas. A taxa de prevalência era, portanto, de 8 milhões/ 154,3 milhões = 0,051, o que significa que 5,1% da população teve esquistossomose no ano de 1992. Veja que não são avaliados apenas os casos que apareceram no ano de 1992, mas sim todos que estavam com a doença naquele ano, contando inclusive pessoas que adquiriram a doença no ano anterior. A prevalência é muito utilizada no planejamento de saúde, direcionando recursos para a pre- venção em áreas onde esta se mantém elevada. Isso ocorre principalmente em áreas endêmicas. Nesses locais, onde há presença de vetores ou reservatórios naturais, o número de casos durante os anos (ou em um período predeterminado) se mantém elevado, porém constante. Embora os conceitos de Prevalência e Incidência sejam parecidos, eles têm diferenças especí- ficas e usos característicos. Para Neves (2016) a principal diferença entre eles é que a prevalência demonstra a situação da doença na população estudada naquele período, medindo doentes e não doentes, sem se importar com o risco de adoecer, enquanto a incidência, por analisar casos novos, permite determinar qual o risco em contrair a doença analisada na população estudada. Outro parâmetro muito utilizado na epidemiologia é o Índice, que é mais utilizado para expres- sar a frequência de um evento de um certo tipo em relação a outro evento de um tipo diferente (PEREIRA, 2018), ou seja, possuem naturezas diferentes. O exemplo mais comum onde por ser observado a utilização do índice é a comparação entre duas doenças distintas, como o número de mortes de febre amarela em relação ao número de mortes por tuberculose. As doenças, de uma forma geral, têm uma distri- buição entre os indivíduos de uma população, que pode ser classificado entre: períodos epidêmicos, interepidêmicos e endêmicos (NEVES, 2016). Esta classificação é dada principalmente com base no nú- mero de casos da doença na população e, portanto, está diretamente ligado à incidência e prevalência. Além destes três períodos, podem ocorrer surtos em locais específicos. Então como podem ser entendidos surtos, epidemias, endemias e pandemias? Os períodos interepidêmicos, como o próprio nome sugere, são os períodos onde o número de casos novos é muito baixo ou inexistente. Um surto, por outro lado, pode ser definido como “uma situação epidêmica limitada a um espaço localizado” (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2010, p.14), ou seja, corresponde a ocorrência de vários casos de uma doença, em um curto período de tempo, de forma descontrolada e inesperada, excedendo a ocorrência normalmente observada em tempo similar, em um local específico, sendo que todos os casos possuem uma relação íntima, ou seja, todos os casos têm a mesma fonte de con- taminação. Um exemplo de surto de parasitologia foi o ocorrido na cidade de Santa Isabel doIvaí, no Paraná, entre novembro de 2001 e janeiro de 2002, onde 600 indivíduos, dos 9.154 habitantes da cidade, contraíram Toxoplasmose (veja o Eu Indico a seguir). 56 Uma endemia pode ser entendida como a presença constante de casos de uma doença na população de uma determinada área (NEVES, 2016), ou seja, corresponde a prevalência constante da doença na população analisada. A maioria das parasitoses, por apresentarem como característica a sobrevivência do hospedeiro, e a necessidade de determinados fatores ambientais para maturação e transmissão (muitas vezes característicos de determinadas áreas geográficas), se manifestam como endemias. Um exemplo deste tipo de distribuição ocorre com a Malária, cuja presença constante de casos pode ser observada nos estados da região norte do país (Figura 10), onde há presença em grande quantidade do vetor de transmissão e de reservatórios naturais, e por isso a transmissão entre indivíduos contaminados e sadios é constante. O que acha de aprofundar seu conhecimento no conceito de Surto? Acesse o link a seguir para conhecer um exemplo de surto, apresentado na página 91 do Módulo de Princípios Epidemiologia Para Controle de Enfermidades da Organização Pan-Americana de Saúde. Para acessar, use seu leitor de QR Code. Descrição da Imagem: na ima- gem pode ser observado o mapa do Brasil. Neste mapa estão as- sinaladas diferentes regiões com as cores, branco, amarelo, laran- ja, vermelho claro e vermelho escuro, sendo esta sequência, respectivamente, representativa das áreas sem transmissão, mui- to baixo risco, baixo risco, médio risco e alto risco de transmissão. No mapa pode ser observado que os estados do norte con- centram a maior quantidade de áreas assinaladas com as cores amarelo, laranja, vermelho cla- ro e vermelho escuro. Enquanto os estados do nordeste, centro oeste, sudeste e sul, apresentam pontos pequenos e isolados de áreas amarelas, e todo restante marcado com a cor branca. Figura 10 - Áreas endêmicas para Malária / Fonte: adaptada de Brasil (2021). UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14284 UNIDADE 2 57 Já uma epidemia tem como característica o aumento rápido do número de casos de uma doença. Para Neves (2016, p. 18) uma epidemia pode ser entendida como “a ocorrência de uma doença em uma população, que se caracteriza por uma elevação progressiva, inesperada e descontrolada, ultrapassan- do os valores endêmicos esperados”. Neste caso, o parâmetro que é utilizado para sua caracterização, diferente da endemia, e a incidência, caracterizando a epidemia como a ocorrência de casos da doença, com “uma incidência maior que a esperada para a área geográfica e períodos determinados” (ORGA- NIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2010, s.p.). Por esta definição, podemos entender que uma determinada doença pode ocorrer normalmente em uma população, sem que necessariamente seja uma epidemia, contendo um número constante de casos, todos os anos. No entanto, o seu descontrole pode gerar um evento epidêmico. Por exemplo, em 2002 houve o início de epidemia de leishmaniose visceral na cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Neste ano, os casos confirmados da doença saltaram de inexistentes ou isolados para uma média de 22 casos, e em 2003 para 97 casos confirmados, mantendo a progressão nos anos subsequentes com uma média de 140 casos anuais. Neste exemplo vemos o número de novos casos quadruplicando em curto período de tempo, de forma inesperada e descontrolada. Neste contexto, entende-se a epidemia como um problema de saúde pública, onde ocorre a propa- gação da doença excedendo a expectativa da região. Porém, para que isso possa ser claramente deter- minado, é preciso que haja uma vigilância epidemiológica constante, ou não se perceberia o aumento de novos casos, o que pode levar a determinação de epidemias em áreas que na verdade são endêmicas. Por fim, resta caracterizar a pandemia. Uma pandemia tem como característica ser uma epidemia que ocorre em vários países, em pelo menos dois continentes, ou seja, há um aumento de casos de forma rápida, inesperada e descontrolada. Um exemplo de pandemia foi a ocorrida no final de 2020 e anos subsequentes, onde um coronavírus (o Sars-Cov-2) se espalhou por todos os países do mundo, com 449,9 milhões de casos confirmados e mais de 6,01 milhões de mortes, até o início de 2022 (JOHNS HOPKINS UNIVERSITY, 2022). Embora existam parasitos com uma distribuição cosmopolita (encontrados em todos os lugares do mundo), não há registros de pandemias parasitárias, pois, como você pode constatar, a ocorrência de uma parasitose depende da interação do hospedeiro, vetores específicos e ambiente. Todas as ações da epidemiologia têm como objetivo avaliar a situação atual de uma doença na população. Agora, imagine que cada cidade ou laboratório que faça o diagnóstico de uma determinada doença, resolva fazer uma avaliação epidemiológica, você acha que os resultados poderiam ser aplicados como parâmetros para determinação de medidas de controle e prevenção? Com certeza não, pois embora os dados sejam verdadeiros, ele provavelmente englobaria apenas parte dos aspectos da ação da doença na população. Para que o objetivo de avaliar corretamente a doença seja alcançado, é preciso que os dados sejam avaliados em conjunto, ou seja, deve haver um local que receba e analise todos os dados com base nos conceitos de epidemiologia. Essa é a função da vigilância epidemiológica que faz parte da vigilância em saúde. A vigilância em saúde pode ser entendida como um conjunto de ações que visa captar informações para avaliar permanentemente a situação da saúde da população, detectando alterações, e propondo medidas para o controle e prevenção das doenças (BRASIL, 2010). A vigilância em saúde engloba diversas áreas, sendo que as principais são vigilância sanitária, vigilância em saúde ambiental e vigilância epidemiológica. 58 A vigilância sanitária é defendida como um conjunto de ações que tem como objetivo eliminar ou diminuir e prevenir riscos à saúde, além de intervir em alterações sanitárias causadas ou originadas no meio ambiente, e que estejam relacionadas a qualquer etapa da produção de bens e prestação de serviços relacionados à saúde. Já a vigilância em saúde ambiental tem como foco as ações para detecção e prevenção das mudanças que ocorram no meio ambiente, e que possam afetar a saúde humana. Está diretamente relacionada à análise e monitoramento do ar, solo e da qualidade da água para consumo. Além disso, monitora possíveis desastres naturais, substâncias químicas presentes ou descartadas no ambiente, acidentes com produtos perigosos, e até mesmo o ambiente de trabalho. Por fim, a vigilância epidemiológica é entendida como o “conjunto de ações que proporciona o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes da saúde individual ou coletiva, com a finalidade de se recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos” (BRASIL, 2010, s.p.). Com esse objetivo, a vigilância epidemiológica depende da coleta e análise dos dados referentes à ocorrência de doenças. Assim, é determinado por lei que o diagnóstico de doenças infectocontagiosas, além de outras não transmissíveis mas com importância relevante a saúde, sejam notificadas às secretarias de saúde e órgãos federais de saúde, a fim de gerar dados estatísticos que possibilitem a determinação das melhores ações preventivas. Como você pode constatar até esse momento, a epidemiologia possui diversas ferramentas para se avaliar a situação de uma doença na população. Entretanto, você consegue perceber qual a finalidade de todo esse levantamento de dados? UNICESUMAR UNIDADE 2 59 A prevenção primária é o primeiro enfoque de qualquer projeto de promoção de saúde, pois, tem como objetivo prevenir que o indivíduo contraia a doença. Suas ações são direcionadas para o controle dos fatores de risco, como saneamento ambiental, educaçãoe promoção de hábitos de higiene; além de fatores relacio- nados com as próprias doenças, como controle de reservatórios naturais e eliminação de vetores da doença. A prevenção secundária, por outro lado, é realizada após a infecção do indivíduo, ou seja, o agente etiológico da doença já está em atividade no organismo. Neste ponto, o que pode ser prevenido é o desenvolvimento de formas graves, que poderiam resultar em sequelas ou até mesmo na morte. É desenvolvida através da criação e aplicação de mecanismos de diagnósticos mais específicos e mais rápidos, além de tratamentos eficazes. No caso da prevenção terciária, a doença, na maioria das vezes, já não está presente, restando apenas suas consequências, ou seja, sequelas que podem incapacitar o indivíduo. Portanto, neste nível o que se quer prevenir é a incapacidade permanente do indivíduo, através de ações que visem a sua reabili- tação. Neves (2016, p.19) define a prevenção terciária como o “processo de reeducação e readaptação de pessoas acometidas por acidentes ou que estejam com sequelas em decorrência de alguma doença”. EXPOSIÇÃO APARECIMENTO DOS SINTOMAS Estágio de suscetibilidade Estágio da doença subclínica Estágio da doença clínica Morte ou cura ou incapacidade Prevenção Primária: Regulação de casos novos Prevenção Secundária: Redução da duração e gravidade Prevenção Terciária: Redução de complicações e incapacidades Modificações patológicas Momento do diagnóstico Período de incubação Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado, a partir do lado esquerdo, e de cima para baixo, uma linha de tempo, definindo as etapas da história natural da doença e onde iniciaria cada tipo de prevenção. A partir da esquerda tem-se: “estágio de suscetibilidade”, e abaixo desta “prevenção primária: redução de casos novos”; “exposição”; “estágio de doença subclínica”, e abaixo desta “prevenção secundária: redução da duração e gravidade”; “período de incubação”, e abaixo desta “modificações patológicas”; “aparecimento dos sintomas”; “estágio da doença clínica”, “momento do diagnóstico”, “prevenção terciária: redução de complicações e incapacidade”; e “morte ou cura ou incapacidade”. Figura 11 - História natural das doenças e medidas de prevenção / Fonte: adaptado de Neves (2016, p. 19). O objetivo principal da epidemiologia, como já discutimos, é a promoção da saúde por meio do combate e, principalmente, pela prevenção de doenças. Existem três níveis de medidas preventivas contra doenças, baseadas diretamente nas fases estabelecidas na história natural das doenças (NEVES, 2016), conforme apresentado na Figura 11, prevenção primária, prevenção secundária e prevenção terciária. 60 Quando a epidemiologia é corretamente aplicada na avaliação das doenças de uma população, é possível determinar com clareza quais medidas poderiam ser melhor empregadas para o con- trole destas enfermidades, como a aplicação de medidas de controle de insetos que agem como vetores de parasitos. O conhecimento de como a doença se propaga na população, suas taxas de incidência e prevalência, permitem ainda avaliar se projetos implementados para o controle das doenças estão, de fato, sendo efetivos. Caro(a) aluno(a), nesta unidade você pôde aprender conceitos importantes para a atuação de um biomédico, tanto a nível laboratorial quanto no planejamento de ações em saúde. Você conheceu o conceito de epidemiologia e seus objetivos. Conheceu os principais indicadores em saúde e a forma correta de calcular a prevalência e incidência. Aprendeu que as doenças se distribuem na população de diversas formas, ocasionando desde surtos até pandemias. Por fim, você pôde entender que a epi- demiologia preconiza a prevenção das doenças nos diversos níveis em que ela pode ser trabalhada. Muito bem, agora que você entendeu como a epidemiologia consegue definir critérios para avaliar as doenças, e entre estas as parasitoses, volte ao nosso desafio inicial e tente interpretar os dados que você pesquisou, com um olhar embasado nos conhecimentos de epidemiologia. A malária é uma doença causada por um protozoário, o Plasmodium sp., que é transmitido pelos mosquitos do gênero Anopheles. Essa doença afeta 40% do território brasileiro, porém sua maior concentração encontra-se na região norte, o que torna essa região endêmica. Nesta região, a prevalência dos casos da doença é alta, mas não há aumento significativo da incidência, exceto em pontos isolados. Esta en- demia ocorre pela presença do mosquito, e principalmente dos reservatórios naturais do parasito. Portanto, uma forma de você determinar se sua região é endêmica para a malária é consul- tando o site de vigilância em saúde, mais especificamente da vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde do Governo Federal, através do site https://www.gov.br/saude/pt-br/assun- tos/saude-de-a-a-z/m/malaria-1. Caro(a) aluno(a), convido você agora conhecer algumas aplicações da epidemiologia na prevenção de parasitoses. Vou discutir e apresentar a você a importância da atuação do profissional de saúde, responsável por diagnosticar essas doenças, na manutenção e formação dos dados res- ponsáveis pela vigilância epidemiológica. Acesse o QRCode e aperte o play! UNICESUMAR https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/malaria-1 https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/malaria-1 https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/malaria-1 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13773 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14308 61 Caro(a) aluno(a), diante dos conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, certamente você é capaz de preencher o mapa mental a seguir. EPIDEMIOLOGIA Incidência Surto Vigilância em Saúde 62 1. Leia o texto a seguir: “Embora algumas pesquisas epidemiológicas de excelência tenham sido conduzidas antes do século XX, um corpo sistematizado de princípios que possibilitasse o delineamento e a avaliação de estudos epidemiológicos só começou a se formar na segunda metade daquele mesmo século. Tais princípios evoluíram em conjunto com uma explosão de pesquisas epi- demiológicas, e sua evolução continua até hoje”. Fonte: ROTHMAN, K. J. Epidemiologia moderna. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011, p. 10. Muitos aspectos do controle e prevenção de doenças, na atualidade, dependem da atuação de epidemiologistas. Assim, conhecer aspectos e no que consiste a epidemiologia é fundamental para o profissional da área da saúde. Com base nestes aspectos apresentados, defina, por meio de um texto dissertativo de três a cinco linhas, o que é a epidemiologia. 2. Leia o texto a seguir: “O termo ‘frequência’, que para o leigo tem um significado muito claro — de número de vezes que um evento ocorre — necessita ser mais bem definido, em epidemiologia. Daí, a distinção que se faz entre ‘incidência’ e ‘prevalência’, com o intuito de separar determinados aspectos que, se não levados em conta, dificultam as comparações de ‘frequências’ ”. Fonte: PEREIRA, M. G. Epidemiologia: teoria e prática. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018, p. 76. Dentre os indicadores de saúde, o mais utilizado pela epidemiologia é, claramente, a morbida- de. Entre os aspectos observados neste indicador encontram-se a incidência e a prevalência. Com base neste assunto, diferencie, por meio de um texto dissertativo de três a cinco linhas, a incidência de prevalência. 3. Leia o texto a seguir: “Uma epidemia é, essencialmente, um problema de saúde pública, de grande escala, rela- cionado à ocorrência e propagação de uma doença ou evento de saúde claramente superior à expectativa normal e que usualmente transcende os limites geográficos e populacionais próprios de um surto”. Fonte: ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. Módulos de Princípios de Epidemiologia para o Controle de Enfermidades. Módulo 5: pesquisa epidemiológica de campo – aplicação ao estudo de surtos; Ministério da Saúde. Brasília : Organização Pan-Americana da Saúde, 2010. Um dos usos maisimportantes da epidemiologia é a detecção de anormalidades nas doen- ças, possibilitando detectar com rapidez o aparecimento de surtos e epidemias e, portanto, definir medidas que possam promover o seu controle. Assim, conhecer sua definição permite identificar e traçar as melhores ações de controle. Com base neste assunto, defina, por meio de um texto dissertativo de três a cinco linhas, o que é uma “epidemia”. 3 nesta unidade, você conhecerá os protozoários, diferenciando-os de outros parasitas e conhecendo as diferentes espécies de interesse da parasitologia que participam do grupo. Você aprenderá como esses seres são estruturados, como ocorre sua reprodução e quais são os seus mecanismos de infecção. Por fim, você conhecerá as principais características da Giardíase, Amebíase e Tricomoníase. Protozoários Parasitas Entéricos e do Trato Geniturinário Dr. Vinícius Pires Rincão 64 Protozoários são microrganismos unicelulares. Eles são responsáveis por inúmeras doenças e um dos principais grupos de parasitas conhecidos. Imagine que você é o(a) responsável pela dire- ção de um laboratório de análises clínicas, e que deve liberar o resultado de diversas análises de doenças do trato gastrointestinal. Como o conhe- cimento sobre as características dos protozoários e as infecções que causam no organismo humano te ajudariam a realizar o diagnóstico correto? As parasitoses causadas por protozoários, a depender da espécie, podem afetar vários sis- temas do organismo, desde o Sistema Nervoso Central, como na neu- rotoxoplasmose, até o sistema geniturinário, como no caso da tricomoníase. A maioria destas parasitoses possui um tratamento já bem de- finido, possibilitando, na maioria das vezes, a recupe- ração completa do paciente. Todavia, para que a doença possa ser corretamente tratada, é preciso identificar corretamente seu agente etiológico, uma vez que muitas pa- rasitoses possuem sintomas iniciais semelhantes, evitando-se assim tratamentos desnecessários e que podem não surtir efeito para o parasito causador da doença examinada. Conhecer as características dos principais gru- pos de parasitas, bem como das principais doenças causadas por eles, permite selecionar os proto- colos de análises clínicas mais adequados para identificação do agente etiológico. Por exemplo, uma vez que se entende que o parasito tem seu habitat restrito ao intestino, deverão ser utilizadas metodologias que analisem as fezes, buscando cis- tos do protozoário, para assim poder identificá-los com maior facilidade, eficiência e certeza. UNICESUMAR UNIDADE 3 65 As protozooses são doenças causadas por protozoários. Dentre estas, as protozooses intestinais estão entre as mais frequentes, exigindo a realização de muitos exames por dia, sendo que alguns laboratórios chegam a realizar mais de 500 exames para detecção destes protozoários em um único dia. Com base neste assunto, quero propor um desafio para você. Pesquise (em sites da internet, na sua biblioteca online): qual o nome do principal exame realizado para detecção e identificação de protozooses intestinais? Existe mais de uma metodologia para este tipo de exame? As parasitoses intestinais são doenças causadas tanto por protozoários quanto por helmintos. A grande maioria apresenta um ciclo oral fecal, porém, alguns vermes podem entrar no organismo através da pele, como por exemplo o Ancylostoma duondenale, um verme nematoide que prefe- rencialmente entra no organismo perfurando a pele do hospedeiro. As parasitoses intestinais são extremamente frequentes em áreas rurais e zonas urbanas de baixa renda, constituindo um grave problema de saúde pública e, por esta razão, seu diagnóstico, tratamento e prevenção apresentam grande importância para os órgãos e profissionais da saúde. Agora, pense no ciclo de vida destes parasitas, em especial nos protozoários. Sabendo que mui- tas dessas infecções podem ter sintomas leves ou mesmo serem assintomáticas, como poderiam ser detectados por exames parasitológicos? Quais amostras devem ser coletadas e analisadas em pacientes, para os quais há suspeita de parasitose intestinal? Escreva seus resultados e reflexões, sobre a pesquisa que você fez, e as questões que levantamos, no seu Diário de Bordo, a fim de que eu e você possamos analisá-las juntos no decorrer desta unidade. 66 Microrganismos são seres que não podem ser ob- servados a olho nu, ou seja, só podem ser ob- servados com o auxílio de um equipamen- to específico, denominado microscópio. Dentre os diferentes tipos de micror- ganismos encontramos os protozoá- rios, que podem ser definidos como organismos unicelulares, micros- cópicos e eucariotos (SIQUEIRA- -BATISTA et al., 2020). Diferente de outros grupos de organismos, onde seus membros compartilham muitas características em comum, nos protozoários, mesmo dentro do mesmo filo, existem diferenças mar- cantes. Este grupo de organismo apre- senta formas variadas, diferentes tipos de locomoção, processos de alimentação e formas de reprodução (NEVES, 2016). Os protozoários têm como característica serem uni- celulares e eucariontes e, portanto, apresentam uma estrutura celular complexa, com um núcleo bem definido e várias organelas membranosas. A estrutura celular de um protozoário varia de grupo para grupo, embora os componentes principais das células eucarióticas estejam sempre presentes, como membrana plasmática, núcleo, retículo endoplasmático, complexo de Golgi e ribossomos. Outras organelas, normalmente encontradas em células eucariotas podem estar ausentes em algumas es- pécies, como as mitocôndrias, que são responsáveis pelo metabolismo energético em organismos aeróbios, e não são encontradas em espécies anaeróbias como a Entamoeba histolytica. Existem, entretanto, organelas que são específicas de protozoários como os vacúolos contráteis ou pulsáteis (Figura 1). Estas organelas têm a capacidade de se contrair e expulsar para fora da célula o que tem em seu interior, geralmente água, funcionando como controladores da pressão osmótica interna da célula. Outra estrutura celular presente em protozoários ciliados e flagelados é o citósto- ma (Figura 1), uma abertura presente na porção lateral da célula que facilita a ingestão de partículas, agindo como uma “boca” para o organismo. O citoplasma de alguns grupos de protozoários pode se apresentar de forma diferenciada das outras células eucarióticas, onde é possível distinguir duas regiões distintas (Figura 2): o ectoplasma, com- pondo a porção mais externa e transparente; e o endoplasma, constituindo a porção mais interna, com maior concentração de água e organelas, o que o torna mais fluído (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). UNICESUMAR UNIDADE 3 67 2 1 2 1 Descrição da Imagem: na imagem podem ser observados dois protozoários ciliados. No lado esquerdo, observa-se uma micrografia do protozoário, com uma célula de forma elíptica, onde podem ser identificadas algumas estruturas internas e em sua porção lateral. Destas estruturas, são apontadas por meio de setas, o vacúolo contrátil, marcado com o número um, e o citóstoma, marcado com o número dois. No lado direito, observa-se um desenho esquemático do mesmo protozoário, caracterizando com melhor definição as mesmas estruturas mostradas na micrografia. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado, à esquerda, uma micrografia de uma ameba, com uma célula sem forma definida e com pseudópodes, além do citoplasma transparente com várias partículas inseridas; e à direita, um desenho ilustrativo de uma ameba, sem forma definida, com pseudópodes e componentes do citoplasma, mas sem serem nomeados. Entre as duas imagens foram colocadas setas numeradas: o número dois está ligado a setas que apontam para o ectoplasma nas duas imagens; o número um está ligado a setas que apontam para o endoplasma nas duas imagens. Figura 1 - Vacúolo contrátil (1) e citóstoma (2). / Fonte: o autor. Figura 2 - Ameba com endoplasma (1) e ectoplasma(2). / Fonte: o autor. 1 2 68 Outra estrutura que pode ser encontrada em alguns protozoários, inclusive utilizada para classificar os membros da Ordem Kinetoplastida, da qual o Trypanosoma cruzi faz parte, é o cinetoplasto (Figura 3). O cinetoplasto é uma estrutura formada pela condensação do DNA presente na única mitocôndria encontrada nos protozoários que o possuem. Ele é observado na base do flagelo (também presente neste grupo) e inicialmente imaginava-se que sua função seria a de movimentação do flagelo. O enten- dimento atual é que o cinetoplasto tem apenas a função de síntese de RNAs direcionados às atividades da própria mitocôndria. Para o estudo da parasitologia, em especial a dos tripanossomatídeos, a posi- ção desta estrutura na célula, serve como base para determinação da fase do ciclo de vida do parasito. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado o desenho esquemático de um Trypanosoma cruzi, observando suas organelas internas. O flagelo e citóstoma se localizam voltados para o lado esquerdo. Bem na base do flagelo pode ser observada uma estrutura na forma de bastão denominada de cinetoplasto. O restante da figura é formado por organelas, como o complexo de Golgi, o núcleo, a extensão da mitocôndria e vacúolos de reserva. Figura 3 - Estrutura esquemática do Trypanosoma cruzi. / Fonte: adaptada de Cavalcanti e Souza (2018). Complexo de Gogi Núcleo Nucléolo Reservossoma Microtúbulos subpeliculares Como você já deve ter notado, os protozoários constituem um grupo diverso e com características que os distinguem de outros eucariotos. Essa diversidade se aplica também aos seus processos me- tabólicos e de reprodução. Os protozoários podem ser autotróficos ou heterotróficos, ou ainda englobar as duas formas de nutri- ção. Podem realizar a síntese de compostos energéticos com a utilização do oxigênio, sendo denominados de aeróbicos, ou na ausência dessa molécula, sendo então denominados de anaeróbicos. Essa vasta gama de maquinarias celulares permite que encontremos os protozoários nos mais diversos tipos de ambientes. UNICESUMAR UNIDADE 3 69 Quanto à reprodução, os protozoários podem apresentar reprodução sexuada ou assexuada. A repro- dução assexuada é aquela onde não há junção de gametas ou material genético de células distintas. A principal forma de reprodução assexuada dos protozoários é por divisão binária (também denomi- nada de cissiparidade), que constitui na formação de duas células a partir de uma, por mitose (Figura 4). Um exemplo deste tipo de replicação ocorre com a Entamoeba histolytica. Descrição da Imagem: no lado esquerdo da imagem pode ser observado três desenhos esquemáticos de um protozoário ciliado, cuja célula é alongada com um formato elíptico, representando os estágios subsequentes de uma divisão celular, onde pode ser observado a célula se dividindo ao meio. No lado direito da imagem pode ser observado uma micrografia com várias células do mesmo protozoário ciliado, com foco em uma célula específica que está no último estágio da divisão celular, com sua porção central se contraindo e quase se separando em duas células distintas. Figura 4 - Fissão binária em protozoário ciliado. / Fonte: o autor. Autotróficos – são organismos capazes de sintetizar moléculas orgânicas que servem como fonte de energia para suas atividades, através da captação da energia luminosa por pigmentos especializados, como a clorofila. Heterotróficos – são organismos que dependem da ingestão e digestão de moléculas orgânicas externas, para gerar energia para suas atividades. Reprodução sexuada - corresponde ao processo onde um indivíduo dá origem a novos indi- víduos, através da junção de células especializadas denominadas gametas, ou através da troca de material genético entre células diferentes. Reprodução assexuada - corresponde ao processo onde um indivíduo dá origem a outros sem a necessidade da fusão entre células especializadas, envolvendo, geralmente, a divisão de uma célula em duas ou mais células. Fonte: Neves (2016). 70 Outra forma de reprodução assexuada observada nos parasitas é a esquizogonia. Neste tipo de re- produção, o protozoário geralmente invade uma célula do hospedeiro e realiza divisões sucessivas do núcleo seguido do citoplasma, formando várias células simultaneamente, que destroem a célula do hospedeiro e são liberadas como novos indivíduos. Um exemplo deste tipo de replicação ocorre em uma das fases do ciclo de vida do Plasmodium sp., dentro das hemácias (Figura 5). Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado a representação em imagem 3D do interior de um vaso sanguíneo, com várias estruturas arredondadas e bicôncavas, representando as hemácias, com foco em uma específica onde se observa em seu interior sete novas células do Plasmodium se formando. Figura 5 - Esquizogonia do Plasmodium. Já a reprodução sexuada dos protozoários pode ocorrer de duas formas. Na primeira ocorre a troca de material genético entre dois protozoários diferentes, em um processo denominado de conjugação, onde as células se unem por um curto período, como ocorre no filo Ciliophora. Na segunda, ocorre a junção de duas formas evolutivas do ciclo biológico do parasito, denominados de macrogameta (feminino) e microgameta (masculino), em um processo denominado de fecundação, formando uma célula única e grande, o zigoto, o qual dará origem vários esporozoítos (forma infectante). Um exemplo desta segunda forma, ocorre no filo Apicomplexa, no ciclo de vida do Plasmodium sp., no interior do mosquito do gênero Anopheles (veja o Eu Indico a seguir). UNICESUMAR UNIDADE 3 71 Você já parou para pensar quantos seres microscópicos estão espalhados em nosso planeta? Ou para deixar nossa imaginação um pouco mais ativa, mesmo em nosso entorno quando você lê este livro? Posso afirmar com certeza que existem milhões deles, entre bactérias, algas, fungos e protozoários. Embora o grupo dos protozoários não seja tão abundante quanto fungos e bactérias, já foram descritas pouco mais de 60.000 espécies destes organis- mos (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Mas, por que a parasitologia se preocupa com os protozoários? Porque destas 60.000 espécies, cerca de 30.000 são fósseis, e das 30.000 restantes, 1/3 (aproximadamente 10.000), são parasitas de muitas espécies de animais (NEVES, 2016). Dentre as espécies de parasitas, algumas dezenas são responsáveis pelas parasi- toses da espécie humana. A classificação dos protozoários é uma fonte de ex- tensa discussão, e novas classificações estão sendo propostas. Entretanto, a mais utilizada ainda hoje, é apresentada por Neves (2016, p. 35), sendo a que iremos adotar neste livro (Quadro 1). Nesta classi- ficação os protozoários estão agrupados no Reino Protista, sendo divididos em sete Filos, sendo que os três principais que afe- tam o ser humano são: Filo Sarcomastigo- phora, Filo Apicomplexa e Filo Ciliophora. Título: Ciclo de vida da malária – O mosquito hospedeiro Ano: 2012 Sinopse: o vídeo apresentará a fase do ciclo de vida do Plasmodium sp. no interior do mosquito que serve como vetor e hospedeiro intermediário. No vídeo poderá ser observado a diferenciação do parasito em macro e microgametas e processo de fecundação, dando origem às formas infectantes os esporozoítos. Comentário: Caro(a) aluno(a), neste vídeo você poderá observar uma das fases do ciclo de vida do protozoário causador da malária, especificamente, fase de reprodução sexuada, ajudando a compreender um pouco mais sobre essa forma de reprodução. Para acessar, use seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/14750 72 CLASSIFICAÇÃO DE PROTOZOÁRIOS DE IMPORTÂNCIA MÉDICA Filo Subfilo Ordem Família Gênero Espécie (exemplo) Sa rc om as tig op ho ra M as tig op ho ra Kinetoplastida Trypanosomatidae Trypanosoma Leishmania T. cruzi L. infantum Diplomonadida Hexamitidae Giardia G. lamblia Trichomonadida Trichomonadidae Trichomonas Entamoeba Acanthamoeba T vaginalis E. histolyticaA. culbertsoni Sa rc od in a Amoebida Entamoebidae Acantahamoebidae Schizopyrenida Schizopyrenidae Naegleria N. fowleri Ap ic om pl ex a Eucoccidiida Eimeridae Cyclospora C. cayetanensis Sarcocystidae Sarcosystis Toxoplasma Cystoisospora S. hominis T. gondii C. belli Cryptosporidiidae Cryptosporidium C. parvum Haemosporida Plasmodiidae Plasmodium P. falciparum Piroplasmida Babesidae Babesia B. microti Ci lio ph or a Ki ne to fr ag m in op ho re a Trichostomatida Balantidiidae Balantidium B. coli Quadro 1 - Classificação dos protozoários de interesse médico. / Fonte: adaptado de Neves (2016, p. 35). UNICESUMAR UNIDADE 3 73 Descrição da Imagem: na imagem pode ser observada a representação em figuras tridimensionais de um protozoário da espécie Trypanosoma cruzi, caracterizado por ter uma célula alongada e fusiforme, com um núcleo central evidente, uma membrana ondulante (lembrando uma barbatana dorsal de peixe) e um flagelo em uma das extremidades da célula. O protozoário parece estar flutuando em um líquido transparente, representando o plasma sanguíneo, uma vez que ao redor dele pode ser observado várias estruturas arredondadas e bicôncavas, representando as hemácias. Figura 6 - Trypanosoma cruzi. Embora as metodologias de classificação atuais busquem uma correlação genética entre os organismos, o que em parte se correlaciona com a classificação mais antiga, a classificação que adotaremos neste livro, e que a muito é empregada para protozoários, utiliza alguns critérios morfológicos, de ultraestru- tura (ou seja, de componentes intracelulares), e principalmente dos mecanismos utilizados pela célula para se locomover. Com base nestes critérios, podemos definir o Filo Sarcomastigophora como aquele que engloba espécies de protozoários que se locomovem por meio de flagelos, agrupados no Subfilo Mastigophora, como por exemplo o Trypanosoma cruzi (Figura 6). 74 Ou que se locomovem por meio de projeções da membrana plasmática e do citoplasma, constituindo pseudópodes, agrupados no Subfilo Sarcodina, como por exemplo a Entamoeba hystolitica (Figura 7). Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado a representação tridimensional de uma Entamoeba hystolitica, representada por uma célula onde pode se ver várias projeções da membrana plasmática e citoplasma, os pseudópodes, em todas as direções, englobando hemácias que circulam ao redor do protozoário. Figura 7 - Entamoeba hystolitica. No filo Apicomplexa a forma de locomoção ocorre por meio de estruturas internas complexas, for- madas principalmente por microtúbulos (Figura 8). Através dessas estruturas o parasito consegue se locomover por meio de contrações e deslizamento da célula, como ocorre no Toxoplasma gondii. UNICESUMAR UNIDADE 3 75 Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado um desenho esquemático do protozoário Toxoplasma gondii, pertencente ao Filo Apicomplexa, com uma célula formato de pera. No desenho interno da célula é possível observar suas estruturas, do lado direito estão os nomes dessas estruturas com setas indicando as mesmas, de cima para baixo, microtúbulos intraconoidais, anéis preco- noidais, conoide, anel polar apica, micronemas, roptrias, grânulos densos, microtúbulos subpelicular, sacos alveolares, esqueleto da membrana, complexo basal. Figura 8 - Toxoplasma gondii. / Fonte: adaptada de Wikiwand (2022). Microtúbulos intraconoidais Anéis preconoidais Conoide Anel polar apica Micronemas Roptrias Grânulos densos Microtúbulos subpelicular Sacos alveolares Esqueleto da membrana Complexo basal https://courses.lumenlearning.com/microbiology/chapter/unicellular-eukaryotic-parasites/ 76 Por fim temos o filo Ciliophora, onde a locomoção ocorre por meio do batimento de inúmeras estruturas da superfície celular, denominados de cílios (Figura 9), como ocorre no Balantidium coli. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observada uma micrografia de um protozoário ciliado, onde se observa centenas de pequenos filamentos laterais denominados de cílios. Figura 9 - Balantidium coli. / Fonte: adaptada de Courses Lumen Learning (2022). A morfologia dos protozoários é extremamente variada, mudando de grupo para grupo e de fase para fase dentro de um mesmo grupo. As células podem se apre- sentar alongadas, fusiformes, arredondadas e ovais, além de poderem apresentar estruturas especializadas para locomoção, como cílios e flagelos. Muitos pro- tozoários possuem as fases de seu ciclo de vida bem definidas, possibilitando a caracterização da morfologia celular dessas fases, sendo estas: trofozoíto, cisto, gameta e oocisto (NEVES, 2016). Mesmo os protozoários que possuem muitas fases apresentam, entre estas, as fases básicas do desenvolvimento. É importante destacar que as fases de gameta e oocisto não estão presentes em todas as espécies. Mas quais as características principais destas quatro fases? UNICESUMAR UNIDADE 3 77 Agora que você conhece a morfologia e as características dos protozoários, po- demos falar sobre seu ciclo de vida. Como você já deve ter imaginado, a varie- dade de tipos celulares, as diferentes adaptações para locomoção e os mecanis- mos desenvolvidos para a entrada no hospedeiro, possibilitam que protozoários apresentem ciclos de vida característicos para cada espécie. Embora as espécies intestinais apresentem um ciclo de vida bem definido, com transmissão fecal- -oral, existem espécies com formas específicas de infecção e desenvolvimento. Como já apresentado, este grupo de organismos apresenta representantes de vida livre e parasitos. E neste último caso podemos encontrar protozoários com ciclo monoxênico e outros com ciclo heteroxênico. Vamos observar casos em que o protozoário utilizará o ser humano como hospedeiro definitivo e outros onde estes farão a vez de hospedeiro intermediário, demonstrando a vasta possibilidade de infecções ligadas a estes organismos. Trofozoíto: pode ser considerado a forma ativa do protozoário. Dependendo da espé- cie esta forma pode ser facilmente identificada, como no caso da Entamoeba histolytica. Para outra, entretanto, ela será identificada em diferentes fases do ciclo biológico, sendo definida com termos específicos para a separação entre as fases. Por exemplo, no caso do Toxoplasma gondii, podemos identificar três formas distintas em seu ciclo de vida: taquizoíto, badizoíto e esporozoíto, sendo que a forma de taquizoíto corresponde a forma ativa, livre, e, portanto, a forma de trofozoíto. Cisto: é a forma de resistência do protozoário, que possuí uma parede externa extrema- mente resistente, possibilitando que o organismo sobreviva em condições impróprias, até que alcance o habitat apropriado. Na maioria das vezes é encontrado nas fezes do hos- pedeiro, por onde é liberado, como ocorre com a Giardia duodenalis; porém, em algumas espécies, em decorrência do ciclo de vida, pode ser encontrado em tecidos, como no caso do Toxoplasma gondii. Gameta: é a forma responsável pela reprodução sexuada. Esta forma aparece unicamente com o objetivo de junção de gametas e formação de um oocisto. Os gametas formados são, normalmente, denominados de macrogametas (gametas femininos) e microgametas (gametas masculinos) Oocisto: são a forma resultante da junção dos gametas. Um oocisto dá origem a vários esporozoítos que são considerados uma forma infectante. Esta forma é comumente encontrada nas fezes do hospedeiro, como ocorre no Toxoplasma gondii. No entanto, pode se alojar, amadurecer e se romper nos tecidos do hospedeiro, como ocorre na fase do ciclo do Plasmodium sp., que ocorre no interior do mosquito. 78 Como você pode perceber, os protozoários estão distribuídos nos mais diversos habitats em todo o planeta e apresentam uma enorme gama de processos metabólicos, formas e processos de desenvolvimento. No que se refere à parasitologia, podem apresentar ou não hospedeiros in- termediários nos seus ciclos bio- lógicos e, dependendo da espé- cie, podem apresentardiferentes formas de entrada no organis- mo. Assim, embora apresentem semelhanças em grupos especí- ficos, os protozoários devem ser estudados sempre com enfoque na espécie de interesse. Por esta razão, a partir deste ponto estudaremos os protozoários de maior interesse para a saúde huma- na: causadores de infecções sistêmicas, in- cluindo diferentes órgãos; ou restritas ao siste- ma circulatório sanguíneo; ou ainda presentes nos tratos gastrointestinal e geniturinário. Iniciaremos nosso estudo com os protozoários que apresentam como habitat os tratos gastrointestinal e geniturinário. Nosso estudo das protozooses vai se iniciar pela giardíase. Nada mais justo, já que o agente etiológico desta doença, a Giardia sp., foi o primeiro protozoário do trato intestinal humano descrito, em 1681, por Anton van Leeuwenhoek (NEVES, 2016). Este protozoário é um dos prin- cipais causadores de diarreia infecciosa no mundo, e encontra-se incluído na lista de Doenças Negligenciadas (doenças que afetam uma grande parcela da população, mas que não recebem a atenção devida) em países em desenvolvimento. Doenças estas que, na maioria das vezes, estão relacionadas com falta de saneamento básico, pobreza e má qualidade de vida, que se reflete prin- cipalmente na alimentação e água de consumo. A giárdia é um representante do Filo Sarcomastigophora, Subfilo Matigophora, Ordem Diplo- monadida, Família Hexamitidae do Gênero Giardia. Dentro do gênero Giardia, existem espécies que infectam mamíferos, aves, répteis e anfíbios. Destas espécies, a única que infecta o ser humano, que tem relevância para o nosso estudo, é a Giardia duodenalis (anteriormente denominada de Giardia lamblia) (NEVES, 2016). UNICESUMAR UNIDADE 3 79 O trofozoíto pode ainda ser caracterizado por apresentar simetria bilateral, quatro pares de flagelos, a superfície dorsal lisa e convexa, enquanto a superfície ventral é côncava (Figura 11), forma uma estrutura semelhante a uma ventosa, denominado de disco ventral (NEVES, 2016), a qual o parasito usa para se fixar na mucosa intestinal. Duas estruturas que podem ser observadas na célula (Figura 10) e que servem para identificação de algumas espécies são: 1) os corpos medianos, duas estruturas em forma de vírgula, cuja função ainda não é bem definida; 2) o axonema (também denominados de axóstilos), feixe de fibras longitudinal e central na célula (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). A reprodução do trofozoíto ocorre por fissão binária (REY, 2008). Descrição da Imagem: na imagem “a” podem ser observados dois desenhos esquemáticos. O desenho da esquerda representa o cisto da Giardia duodenalis, onde pode ser observado quatro núcleos, o axonema e os corpos escuros; enquanto no desenho da direita representa o trofozoíto, onde pode-se identificar o formato de pera, a presença de dois núcleos e oito flagelos. Na imagem “b”, pode ser observado uma micrografia do protozoário Giardia duodenalis, observando os mesmos elementos apresentados no desenho. Figura 10 - a) Formas de cisto e trofozoíto da Giardia duodenalis; b) Micrografia de Giardia duodenalis. Fonte: a) Paraná (2022), b) Creative Commons (2022). a) b) Como todo protozoário, a giárdia é eucarioto, com sua célula contendo a maioria das estruturas de uma célula eucariótica. Entretanto, alguns componentes comuns de eucariotos estão ausentes, tais como mitocôndrias, peroxissomos e complexo de Golgi (NEVES, 2016). A giárdia pode ser encontrada ou na forma de trofozoíto ou na forma de cisto (SIQUEIRA-BA- TISTA et al., 2020). A classificação deste parasito reflete principalmente suas características estruturais na forma de trofozoíto, destacando-se o fato de ser um protozoário flagelado e binucleado. Outra característica marcante do trofozoíto é sua forma semelhante à fruta pera (Figura 10). 80 O cisto deste protozoário, apresenta formato oval ou elipsoide, com uma parede externa formada por glicoproteínas, a parede cística, responsável pela resistência desta forma (NEVES, 2016), permitindo que o protozoário resista a variações de temperatura, umidade e determinados pro- dutos químicos. Na região do citoplasma podem ser visualizados 2 ou 4 núcleos (dependendo do estágio de maturação do cisto), o axonema ou axóstilo (fibras longitudinais) e os corpos escuros, semelhantes aos corpos medianos do trofozoíto. O ciclo biológico da Giardia é monoxeno, sendo o ser humano seu hospedeiro definitivo (Fi- gura 12). O ciclo tem início com a ingestão de água ou alimentos contaminados com os cistos do parasito. Após a ingestão o cisto passa por um processo de desencistamento, ativado pelo meio ácido do estômago, e termina na região do duodeno, onde a forma celular liberada do cisto sofre divisões nucleares, terminando com a formação de quatro células binucleadas. Estas células, os trofozoítos, se fixam à parede intestinal por meio do disco ventral, e se multiplicam por fissão binária. Eventualmente trofozoítos se desprendem e são levados pelas fezes, alguns dos quais sofrem o encistamento (transformação do trofozoíto em cisto), culminando com a liberação de cistos e trofozoítos pelas fezes do hospedeiro. Os trofozoítos não sobrevivem no ambiente, mas dependendo das condições ambientais, os cistos podem sobreviver por meses no ambiente (NE- VES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Descrição da Imagem: na imagem “a)” é observada uma micrografia de um protozoário do gênero Giardia, destacando sua superfície ventral côncava em forma de ventosa. Na imagem “b)” do lado direito é observada uma vilosidade intestinal recoberta com trofozoítos de giárdia, aderidos pelo disco ventral. Figura 11 - a) Superfície ventral da Giardia; b) Giárdias aderidas a mucosa intestinal / Fonte: adaptada de Pixnio (2022). UNICESUMAR UNIDADE 3 81 Assim podemos definir que os cistos são a forma infectante para o ser humano, e que via de transmis- são de um indivíduo para outro é a fecal-oral. É importante destacar que embora a principal forma de contaminação seja por meio de água e alimentos contaminados, em locais sem saneamento básico ade- quado, com indivíduos com pouco conhecimento sobre os cuidados com higiene pessoal, e geralmente com aglomeração de pessoas, é comum a transmissão de pessoa a pessoa pelas mãos contaminadas. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado o ciclo biológico da Giardia duodenalis. Dois ciclos são mostrados, um à esquer- da e outro à direita. Na região lateral esquerda da figura observa-se alimentos (verduras e legumes) e um copo de água, ao lado está escrito “Contaminação da água, alimentos ou mão / fómites com cistos infecciosos”, a partir do qual parte uma seta até o desenho de um cisto, abaixo está escrito “Cistos ingeridos”, de onde parte outra seta em direção a boca do desenho de um homem, onde pode ser observado seus órgãos internos. Da região do ânus da figura do homem partem duas setas, uma para a esquerda indicando o desenho de um cisto, acima está escrito “Cistos infecciosos liberados nas fezes”. Desse desenho sai uma seta indicando o copo e as verduras, finalizando o ciclo. A outra seta também indica a esquerda um pouco mais abaixo indicando o desenho de um trofozoíto, ao lado está escrito “Trofozoítas também são eliminados nas fezes, mas não sobrevivem no ambiente”. Do lado direito da figura, está o outro ciclo, há uma sequência de desenhos ligados por setas, indicando os processos pelos quais o trofozoíto passa no interior do organismo, sendo, na sequência: cisto ingerido, trofozoíto, divisão binária do trofozoíto, novo trofozoíto, novo cisto, dentro do ciclo está escrito “Giardia atinge a maturidade e se multiplica no intestino”. Figura 12 - Ciclo de vida da Giardia duodenalis. / Fonte: adaptada de Consultatii la domiciliu (2022). Cistos ingeridos Cisto Trofozoítos Giardia atinge a maturidade e se multiplica no intestino Trofoizoítos também são eliminados nas fezes, mas não sobrevivem no ambiente Cistos infecciosos liberados nas fezes Contaminação da água, alimentosou mãos/fómites com cistos infeciosos 82 A giárdia é um parasito que causa diarreia devido à má ab- sorção intestinal do organismo. Apesar de esse conhecimento ser bem definido, não se conhece ainda todos os meca- nismos envolvidos na patogênese da giardíase. Algumas alterações intestinais provocadas por esse protozoário são apontadas como as prováveis causas, sendo que as principais são alteração das microvilosidades da su- perfície dos enterócitos (células do epitélio intestinal), inflamação do intestino e a secreção de substâncias tóxicas (NEVES, 2016). Como já discutimos, as características de um parasito se baseiam na busca pelo equilíbrio com o hospedeiro. Com a giárdia essa característica não é diferente, levando a maioria das infecções a serem assintomáticas. Porém, ainda existem muitos casos em que os indivíduos apresentam sintomas de diarreia aguda e autolimitante, e para outros a infecção pode se tornar crônica. Para todas as infecções o período de incubação varia de 5 a 25 dias. Na diarreia aguda, geralmente em indivíduos que sofrem a primeira infecção (portanto sem proteção do sistema imune) pode ocorrer um quadro de diarreia aquosa, com odor fétido, com gases provocando distensão e dor abdominal, com duração de poucos dias. Já nos casos crônicos os sintomas se restringem a episódios de diarreia que podem ser contínuos, inter- mitentes ou esporádicos, resultando principalmente na má absorção de gorduras (esteatorreia – presença de gordura nas fezes) e vitaminas lipossolúveis, porém que podem persistir por anos (NEVES, 2016). Assim como para a patogênese, a imunidade desenvolvida contra a Giardia não é bem conhecida. Como você percebeu, este parasito não invade a parede do intestino e, portanto, a defesa imune do hospedeiro contra esse protozoário é direcionada ao que pode ser produzido e secretado, ou seja, aos anticorpos, e nesse caso especificamente aos dos tipos IgA e IgE (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Embora somente os anticorpos IgA possam ser eliminados para a mucosa intestinal, já foram identificados IgG e IgM antiGiardia, sugerindo que compostos antigênicos do parasito penetram no organismo. Também foi identificado a ação de Linfócitos T-CD4+, principalmente porque são células reguladoras da resposta imune; além de macrófagos e mastócitos (ativados pelos IgE produzidos) que atuariam na liberação de substâncias tóxicas ao parasito, provocando também a inflamação da mucosa. Agora, uma reflexão importante para você: como parasitas restritos ao trato intestinal, com sintomas semelhantes a outras infecções, podem ser diagnosticados? UNICESUMAR UNIDADE 3 83 O diagnóstico da giardíase pode ser clínico ou laboratorial. Entretanto o diagnóstico clínico fica praticamente restrito para crianças que apresentam um quadro típico de diarreia com esteatorreia, juntamente com dor abdominal, náuseas, vômitos e perda de apetite. O diagnóstico laboratorial é realizado pelo exame copro- parasitológico, ou seja, pelo exame das fezes. A principal análise está voltada para o exame microscópico, onde busca-se identificar a presença de cistos e trofozoítos. Porém, o profissional que irá fazer a análise deve ficar atento ao fato que o trofozoíto é mais comumente encontrado em casos sintomáticos, além do fato de que sobrevive por no máximo 20 minutos no ambiente, implicando na necessidade da utilização de fixadores (como formol 10%, MIF ou SAF) para preservação da amostra (NEVES, 2016). Apesar disso, métodos imunológicos como o ELISA (traduzido do inglês, Ensaio de Ligação Imu- noenzimático), para detecção de anticorpos nas fezes, e moleculares como PCR (Reação de em Cadeia da Polimerase) , para a detecção do DNA do parasito nas fezes, foram padronizados e são realizados como forma de comprovação da infecção. O tratamento da giardíase é realizado utilizando quimioterápicos, sendo que os principais são metro- nidazol e albendazol, com eficácia de eliminação do parasito em torno de 95%. Porém, o uso prolongado destes medicamentos pode resultar em efeitos colaterais como náuseas, vômitos e dores de cabeça. A giardíase é uma doença que tem distribuição global. Porém, sua maior prevalência é encontrada em países em desenvolvimento (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). A estimativa é que no Brasil a incidência da giardíase varie, dependendo da região e das condições sociais, entre 4,0 e 30%. Outra doença causada por protozoários e que tem importante relevância devido a grande quantidade de casos anuais é a Amebíase, com mais de 36 milhões de casos sintomáticos anuais (REY, 2008). Embora existam inúmeras espécies de amebas, das quais a maioria é de vida livre, e destas algumas podem infectar o homem eventualmente, para a área clínica apenas algumas poucas espécies apresentam interesse, e destas a mais relevante é Entamoeba histolytica (Figura 12), onde concentraremos nosso estudo. Mas para que você tenha conhecimento e possa buscar por mais informações do assunto, as outras espécies de amebas que podem infectar o ser humano são: Entamoeba coli, Entamoeba hartmanni, Entamoeba díspar, Iodamoeba butschlii, Endolimax nana, Entamoeba gengivalis e Dientamoeba fragilis. A Amebíase é uma doença que possui, como agente etiológico, a Entamoeba histolytica (NEVES, 2016), e constitui a segunda causa de morte devido a parasitoses, com mais de 100.000 mortes anuais. E. histolytica é classificada como pertencente ao Reino Protozoa, Filo Sarcomastigophora, Subfilo Sarcodina, Superclasse Rhizopoda, Classe Lobozia, Ordem Aemoebida, Família Eantamoe- bidae, Gênero Entamoeba (NEVES, 2016). Agora pense comigo: você já aprendeu que as amebas se locomovem por pseudópodes, e esse fato leva a projeção de porções de sua membrana. Ora, se isto ocorre, toda morfologia externa da célula (sua forma) não será alterada? Então como distinguir entre os diferentes tipos de amebas? 84 A caraterística mais utilizada ainda hoje para distinguir entre os di- ferentes tipos de amebas que infectam o ser humano é a morfologia, onde se inclui, o tamanho do trofozoíto e do cisto, pelas característi- cas da estrutura e pelo número de núcleos presentes nos cistos, pelas inclusões citoplasmáticas (NEVES, 2016). A morfologia da E. histolytica, é bem conhecida, uma vez que esta constitui o protozoário parasito mais estudado até o momento. A célula apresenta um metabolismo essencialmente anaeróbico, uma vez que vive principalmente no intestino grosso, além de não apre- sentar mitocôndrias (REY, 2008). Embora a literatura aponte quatro formas distintas para esse protozoário (trofozoíto, pré-cisto, metacisto e cisto), nosso estudo enfocará nas duas mais comumente observadas nos exames diagnósticos: trofozoí- to e cisto. Seu trofozoíto mede aproximadamente de 20 a 40 µm (micrômetro), com um núcleo bem visível (Figura 13). Com relação a sua morfologia exter- na, quando exa- minado a fresco, Neves (2016, p.143) a descreve como “pleomórfico, ativo, alongado, com emissão contínua e rápida de pseu- dópodes, grossos e hialinos; costuma imprimir movimentação direcional, parecendo estar deslizando na superfície, seme- lhante a uma lesma”. A forma invasiva, ou seja, o trofozoíto observado a partir de biópsias de lesões provocadas por E. histolytica, pode chegar até a 60 µm (REY, 2008). As inclusões citoplasmáticas de E. histolitica são também ca- racterísticas, e relacionadas a forma invasiva e não-invasiva. A forma invasiva (invade a parede intestinal e provoca disenteria), geralmente apresenta eritrócitos no citoplasma; enquanto na forma não-invasiva podem ser encontrados grãos de amido e bactérias. Outra característica evidente é a divisão do citoplasma em ecto- plasma e endoplasma. UNICESUMAR UNIDADE 3 85 Os cistos apresentam-se esféricos ou ovais, com tamanho variando entre 8 e 20 µm (NEVES, 2016). Cada cisto pode apresentar de um a quatro núcleos, dependendo da fase de amadurecimento. Os núcleos são quase indistinguíveis do resto do citoplasma quandoobservados a fresco (ou seja, sem qualquer fixação ou coloração), porém, tornam-se evidentes quando corados com lugol ou hematoxilina (REY, 2008). Os cistos de E. histolytica ainda apresentam corpos cromatoides, ob- servados na forma de bastonetes com pontas arredondadas (Figura 14). Descrição da Imagem: na imagem podem ser observadas três figuras distintas: Figura superior marcada com a letra a) – Desenhos esquemáticos das formas de trofozoíto de E. histolytica, a esquerda, onde observa-se uma célula alongada, com um núcleo evidente, contendo em seu interior inclusões de cor preta representando hemácias ingeridas pelo protozoário; e cisto a direita, representada por uma célula circular contendo quatro núcleos evidentes e um corpo cromatoide no centro. Figura inferior esquerda, marcada com a letra b) – micrografia de três trofozoítos de E. histolytica, corados com hematoxilina, observando células alongadas, todos com núcleos evidentes, e dois contendo hemácias em seu interior. Figura inferior direita, marcada com a letra c) – micrografia de um cisto de E. histolytica, corada com lugol, observamos uma célula arredondada, com quatro núcleos evidentes. Figura 13 - Trofozoíto e cisto de Entamoeba histolytica. a) Desenho esquemático do trofozoíto e do cisto. b) Trofozoítos de E. histolytica contendo hemácias ingeridas no interior da célula. c) Cisto de E. histolytica contendo quatro núcleos. Fonte: adaptada de a) Medical Labs, b) Wikidoc, c) Wikimedia. Trofozoíto Cisto Células vermelhas sanguíneas ingeridas Cariossoma Núcleo 10 micro Corpo cromatóide Cariossoma Núcleo a) b) c) 86 O habitat principal da Entamoeba histolytica é a luz do intestino grosso. Porém, em casos onde há invasão da mucosa, o parasito pode ser encontrado em úlceras na parede intestinal, e em órgãos como fígado, rins, pulmão, cérebro e pele. A E. histolytica apresenta um ciclo de vida monoxênico, de transmissão fecal-oral. Assim, a porta de entrada do parasito e, portanto, o local de início do seu ciclo de vida é a boca, por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados com cistos maduros do parasito. Os cistos, por apresentarem uma camada externa resistente, a parede cística, passam pelo estômago, resistindo ao suco gástrico, e che- gam ao intestino delgado onde ocorre o desencistamento. Fora da parede, ocorrem divisões celulares e nucleares simultâneas, resultando em oito trofozoítos, denominados de trofozoítos metacísticos (Figura 15). Estes trofozoítos migram para o intestino grosso, colonizando-o, onde vivem aderidos à superfície da mucosa intestinal, se alimentando de detritos e bactérias. Eventualmente, um trofozoíto se desprende, atingindo a luz intestinal, onde sofre um processo de encistamento, secretando uma pa- rede externa (parede cística), e em seguida dividindo o núcleo sucessivamente até se tornarem cistos tetranucleados (a forma infecciosa), o qual são liberados com as fezes (REY, 2008; NEVES, 2016). Embora o ciclo mais comum deste parasito se restrinja a luz do intestino grosso, em alguns casos, por mecanismos que ainda não estão bem esclarecidos, o trofozoíto invade a submucosa intestinal (denominado como ciclo patogênico), provocando úlceras, onde se multiplicam por fissão binária, se alimentando de eritrócitos. A partir desta invasão, a E. histolytica atinge a corrente sanguínea e pode colonizar outros órgãos como fígado, pulmões, rins, a pele e até mesmo o cérebro. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado uma micrografia de um cisto de Entamoeba histolytica. Nesta micrografia, tem-se materiais indefinidos de uma amostra de fezes, todos corados em azul, sendo que no centro da imagem observa-se uma célula circular, com dois núcleos arredondados com um nucléolo evidente, e duas estruturas de cor preta, em forma de bastão, os corpos cromatoides, apontado por flechas negras. Figura 14 - Cisto de Entamoeba histolytica, corado com hematoxilina, com dois núcleos e corpos cromatoides (setas). Fonte: Publics domain Files (2022). UNICESUMAR UNIDADE 3 87 Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado um desenho do ciclo de vida da Entamoeba histolytica. No centro da imagem, observa-se a porção central e superior do corpo de um ser humano, mostrando os órgãos internos, pulmão, estômago e intestino. Na parte superior desta figura, há um quadrado sobre a boca, ao lado há um retângulo, dentro dele está escrito “Ingestão em alimentos e água contaminados”. Do lado direito, tem-se o início do ciclo, com a figura de um cisto, do qual sai um seta apontando para um outro cisto, abaixo deste há um quadrado onde está escrito “Desencistamento. Um trofozoíto com quatro núcleos emerge, se divide três vezes e cada núcleo se divide uma vez para produzir oito trofozoitos por cisto. Trofozoítos migram para o intestino grosso”. Desse quadrado saem duas setas do lado esquerdo indicando o intestino grosso. Abaixo desse quadrado sai outra seta, apontando para um trofozoíto que migrou para o intestino grosso. Desse trofozoíto saí um seta apontando para uma célula que está se dividindo em duas, acima dessas células está escrito “Trofozoítos se multiplicam por fissão binária”, dessas células saem duas setas, uma indicando para a esquerda e dando continuidade ao ciclo. Essa seta indica para uma célula, abaixo está escrito “Encistamento”, dessa célula há uma seta indicando outra célula e abaixo está escrito “Cisto imaturo”, dessa célula há uma seta indicando outra célula, dessa célula há uma seta indicando para a escrita “Cisto tetranucleado” e acima há outra célula, um pouco acima dessa célula há um quadrado onde está escrito “Infecção não invasiva. Cistos saem do hospedeiro pelas fezes”, terminando o ciclo. A outra seta que sai da célula se dividindo, indica a escrita “Trofozoítos invadem a mucosa intestinal”, acima há o desenho de uma célula, acima dessa célula há um retângulo onde está escrito “Infecção Invasiva. Através da corrente sanguínea, infectam locais como fígado, cérebro e pulmões”. Acima há o desenho de uma célula e dela saem duas setas: uma indicando para o pulmão, outra indica o fígado. Figura 15 - Ciclo biológico da Entamoeba histolytica. / Fonte: adaptada de Libre Texts Biology (2022). 29/11/2022 15:26 https://textimgs.s3.amazonaws.com/boundless-microbiology/-histolytica-life-cycle-en.svg#fixme https://textimgs.s3.amazonaws.com/boundless-microbiology/-histolytica-life-cycle-en.svg#fixme 1/1 Ingestão em alimentos e água contaminados Infecção não invasiva Cistos saem do hospedeiro pelas fezes Cisto tetranucleado Cisto imaturo Encistamento Cisto Maduro Infecção invasiva Através da corrente sanguínea, infectam locais como fígado, cérebro e pulmões Trofozoítos invadem a mucosa intestinal Trofozoítos se multiplicam por fissão binária Desencistamento Um trofozoíto com quatro núcleos, emerge, se divide três vezes e cada núcleo se divide uma vez para produzir oito trofozoítos por cisto Trofozoítos migram para o intestino grosso 88 A patogenia e virulência deste parasito é variada e dependente de vários fatores do hospedeiro e do ambiente, como sexo, idade, localização geográfica, estado nutricional, alcoolismo, mi- crobiota intestinal, entre outros. Muitas infec- ções com a E. histolytica podem permanecer assintomáticas por anos. Porém, o período de incubação mais comum varia de 2 a 4 semanas (NEVES, 2016). A grande maioria das infecções é assintomática, onde o protozoário está em per- feito equilíbrio com o hospedeiro, vivendo na luz intestinal. Entretanto, para uma porcenta- gem dos casos, ocorre a invasão intestinal (pela morte dos enterócitos), desencadeada pela for- te ligação da ameba e somado à liberação de enzimas proteolíticas, resultando em diversas manifestações clínicas. Nos casos onde este equilíbrio é quebrado ocorrem as formas sintomáticas. A mais comum destas é a forma diarreica, se manifestando por duas a quatro evacuações diárias, que podem ou não ter fezes diarreicas. Nesta forma, o peristal-tismo está aumentado com leve dor abdominal. A segunda é a forma disentérica (disenteria corresponde a presença de muco e/ou sangue nas fezes) caracterizada por cólicas intensas, poden- do ocorrer até 10 evacuações diárias, com muco, sangue ou ambos os presentes nas fezes, além de sintomas como cólicas intensas, vômitos, náu- seas, calafrios e tenesmo (contrações para eva- cuação sem conteúdo para evacuar), raramente com febre (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). O caso mais grave da amebíase é a forma fulminante, que afeta mulheres durante a gestação e o puerpério, além de pacientes imu- nocomprometidos, se manifestando através de cólons com muitas úlceras, podendo ocorrer a perfuração da parede intestinal, com evacuações mucosanguinolentas, com morte após alguns dias ou semanas (REY, 2008). Por fim, a doença pode se manifestar como amebíase extraintestinal, quando o parasito, por meio da corrente sanguínea, atinge outros órgãos. O mais comum é o fígado, onde o abscesso ame- biano é a manifestação clínica mais observada. A ação da E. histolytica sobre o epitélio intes- tinal, desencadeia uma resposta imune humoral com produção de anticorpos específicos, mas pouca ou nenhuma resposta imune celular (SI- QUEIRA-BATISTA et al., 2020). A invasão dos tecidos dá início a um processo inflamatório, com recrutamento de neutrófilos e macrófagos, resul- tando na produção citocinas como há interleu- cinas e fator de necrose tumoral alfa, o que pode piorar o processo ulcerativo. Para se identificar a amebíase é utilizado principalmente o diagnóstico laboratorial. Em- bora os sintomas da doença sejam facilmen- te observáveis, eles se sobrepõem a inúmeras outras doenças intestinais, o que inviabiliza o diagnóstico clínico. O exame laboratorial mais utilizado é o exame parasitológico de fezes, onde se busca identificar a presença de cistos e trofozoítos nas fezes. Para este tipo de exame deve-se tomar alguns cuidados, como evitar o contato com a urina e principalmente com o solo, onde pode haver a presença de amebas de vida livre (NEVES, 2016). A amostra de fezes deve ser colocada em conservante o quanto antes, em uma proporção de uma parte de fezes para três de conservante. O aspecto macroscópico tam- bém é muito relevante, principalmente as fezes diarreicas e a presença de muco e sangue. Outro método bastante utilizado é o soroló- gico, onde se pesquisa a presença de anticorpos, através de metodologias como ELISA e imuno- fluorescência indireta. Em casos de amebíase ex- traintestinal, onde o exame de fezes geralmente apresenta-se negativo, os métodos sorológicos são a escolha mais eficiente. UNICESUMAR UNIDADE 3 89 O tratamento é realizado com medicamentos específicos para o tipo invasivo ou não invasivo. Quando o parasito está na luz intestinal, podem ser utilizados derivados da qui- noleína, eritromicina ou clorofenoxamida. Quando se encontra no interior dos tecidos, são utilizados medicamentos absorvidos pelo organismo, como cloridrato de emetina e cloroquina. A estimativa atual é que cerca de 650 milhões de pessoas no mundo estejam infectados com Entamoe- ba, e entre 5 e 10% sejam da forma invasiva. No Brasil, predominam as infecções assintomáticas e colites não disentéricas (forma diarreica). A prevalência é variada de região para região, variando de 2,5 a 11% no Sul e Sudeste e podendo chegar a 19% na região Amazônica (NEVES, 2016). Para finalizar nosso estudo das protozoonoses dessa unidade, vamos falar da Tricomoníase. O gênero Trichomonas, possui três espécies que podem ser encontradas no ser humano: T. tenax, que tem como habitat a boca; T. hominis, que coloniza o trato intestinal; e T. vaginalis, que pode ser encontrado na vagina da mulher ou na uretra e próstata do homem. Destes três, apenas T. vaginalis é patogênico, e o agente etiológico da Tricomoníase. O Trichomonas vaginalis é classificado no Reino Protozoa, Filo Sarcomastigophora, Subfilo Masti- gophora, Ordem Trichomonadida, Família Trichomonadidae e Gênero Trichomonas. Esta espécie foi descrita “pela primeira vez em 1836, por Donné, que a isolou de uma mulher com vaginite” (NEVES, 2016, p. 125). Embora sua identificação seja antiga, ainda hoje restam lacunas no entendimento de sua biologia e interação com o hospedeiro, o que dificulta o seu diagnóstico. A tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível e, excluindo as infecções virais deste tipo, é a mais comum do mundo, com incidência maior que 200 milhões de casos anuais (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Com relação a morfologia, T. vaginalis se apresenta, na maioria das vezes, como uma célula me- dindo entre 10 e 30 µm de comprimento e entre 5 e 12 µm de largura, com formato elipsoide (Figura 16), piriforme ou oval e, em casos isolados, esférica, portanto considerada uma célula polimorfa (SI- QUEIRA-BATISTA et al., 2020). Caro(a) aluno(a), neste podcast você poderá conhecer algumas das prin- cipais características de parasitoses intestinais causadas por protozoários e a importância do exame parasitológico de fezes para sua detecção, bem como as limitações desta técnica. Acesse o QRCode e aperte o play! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13774 90 Sua estrutura pode variar dependendo do meio ou da atividade fisiológica envolvida, sendo que foram constatados a projeções de pseudópodes para captura de alimento ou fixação (NEVES, 2016). Diferentes dos demais protozoários, o gênero Trichomonas apresenta apenas forma de trofozoíto (sem forma cística) (Figura 16), que apresenta como parte da sua morfologia típica: quatro flagelos livres, partindo de uma depressão no polo anterior (REY, 2009; NEVES, 2016); uma membrana ondulante, cuja extremidade livre consiste em um filamento de um quinto flagelo; um axonema ou axóstilo cen- tral, formado por microtúbulos que emergem como uma saliência na porção posterior, e um núcleo elipsoide (Figura 17). O T. vaginalis, não apresenta mitocôndrias. Descrição da Imagem: a imagem constitui uma micrografia de uma amostra biológica, onde pode ser observado dois T. vaginalis, corados em roxo, caracterizados por células e núcleos elípticos, contendo flagelos em seu pólo anterior. Figura 16 - Micrografia de Trichomonas vaginalis corado com hematoxilina. UNICESUMAR UNIDADE 3 91 Este parasito habita o trato geniturinário masculino e feminino, em ambientes com pH (potencial hidrogeniônico) variando de 5 a 7,5, e apresenta metabolismo anaeróbico facultativo (vive na ausên- cia de oxigênio, mas o utiliza quando estiver presente), e tem como característica não sobreviver fora destes locais (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Descrição da Imagem: a imagem apresenta dois desenhos esquemáticos. O desenho da esquerda, marcado com a letra “a)”, apresenta as características externas da célula de Trichomonas vaginalis, observando sua forma elipsoide, o núcleo elipsoide, uma membrana ondulante do lado esquerdo, quatro flagelos na porção superior, e o axóstilo saindo da célula na porção inferior. O desenho da direita, marcado com a letra “b)”, apresenta as características internas da célula de Trichomonas vaginalis, onde pode ser observado os feixes de microtúbulos formando o axóstilo central, o núcleo central e elipsoide, um complexo de Golgi a direita do núcleo junto com duas fibras parabasais, a costa à esquerda do núcleo, com vacúolos a seu redor. Figura 17 - Esquema dos componentes morfológicos de Trichomonas vaginalis. a) um desenho esquemático com foco nas estruturas externas; b) um desenho esquemático com foco nas estruturas internas, onde os flagelos e membrana ondulante aparecem seccionados. / Fonte: Rey (2008, p. 412). Flagelo Citossoma Núcleo Vacúolo Axóstilo Membrana ondulante a) b) 92 O T. vaginalis se reproduz exclusivamente por fissão binária, e é transmitido de indivíduo para indivíduo por meio de relações sexuais (doença sexualmente transmissível), com raras ocasiões onde a transmissão ocorre por meio objetos contaminados(o que explicaria a infecção em crianças), uma vez que o parasito não sobrevive fora do trato genitourinário. Assim, o ciclo biológico deste parasito é monoxênico e simples, se iniciando com a contaminação do trato genital ou urinário durante a relação sexual, onde o parasito coloniza a região, se multiplica por fissão binária, e pode ser transmitido a outro indivíduo por meio de nova relação sexual (Figura 18). Relação sexual Trofozoíto Trofozoito na urina e nas secreções vaginais e prostáticas Trofozoito na vagina ou no orifício uretral Trofozoito em fissão binária a) b) Descrição da Imagem: a imagem é dividida em duas partes. A parte superior, marcada com a letra “A”, apresenta uma figura do lado esquerdo, representando a silhueta de um corpo feminino, enquanto, de onde parte uma seta na porção inferior para uma segunda figura do lado direito, representando a silhueta de um corpo masculino, de onde parte uma segunda seta na porção superior, retornan- do à primeira figura, com uma legenda na porção superior: “Relação sexual”. No centro das duas setas, é observado um trofozoíto de Trichomonas vaginalis. A parte inferior, marcada com a letra “B”, representa o processo de divisão binária do trofozoíto, onde observa-se um trofozoíto do T. vaginalis do lado esquerdo, de onde parte uma seta para uma figura representando o trofozoíto se dividindo ao meio longitudinalmente, a partir da qual parte uma segunda seta para outro trofozoíto a direita. Figura 18 - A) Ciclo biológico do Trichomonas vaginalis; B) fissão binária do Trichomonas vaginalis. Fonte: adaptado de Siqueira-Batista et al. (2020, p. 252). UNICESUMAR UNIDADE 3 93 O T. vaginalis estabelece infecção no trato vaginal em condições específicas, diretamente ligadas ao pH. Normalmente o pH vagi- nal varia de 3,8 a 4,5, o que é impróprio para o parasito. Entretan- to, quando ocorrem alterações fisiológicas na hospedeira, incluindo alteração da microbiota com a diminuição de Lactobacillus acido- philus (NEVES, 2016), o pH tende a ficar mais alcalino, acima de 5,0, possibilitando a colonização do parasito, que se adere ao epitélio e, por mecanismos ainda não completamente com- preendidos, causa a análise (destruição da célula por ruptura da membrana) das células. O período de incubação varia de 3 a 28 dias, porém, a maio- ria das infecções é assintomática (aproximadamente 85% dos casos). Nos casos que apresentam sintomas, estes também são variados, sendo o mais grave a vaginite aguda. A tricomoníase se manifesta através de uma vaginite (inflamação da vagina), que tem como característica “um corrimento vaginal abundante de cor amarelo-esverdeada, bolhoso, de odor fétido, mais frequente no pe- ríodo pós-menstrual” (NEVES, 2016, p. 128). Juntamente com esse corrimento, podem estar associados: prurido (coceira), irritação vul- vovaginal e dores no baixo ventre. Outras manifestações incluem disúria (dor ao urinar), poliúria (aumento na frequência de micção) e dispareunia de introito (dificuldade para realizar relações sexuais) (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). No homem, os casos sintomáticos se apresentam como uretrite (inflamação da uretra), contendo fluxo leitoso e purulento, juntamente com prurido da uretra e desconforto ao urinar (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). A principal complicação do não tratamento da tricomoníase, para homens e mulheres, é a esterilidade. A resposta imune do organismo é mediada por anticorpos do tipo IgG, IgA e IgM, encontra- dos no soro e nas secreções vaginais. Além das imunoglobulinas, foi identificada a ativação do sistema complemento e a resposta de neutrófilos e macrófagos. Dentre estes, os neutrófilos são as células predominantes nas secreções, sendo responsáveis pelos processos inflamatórios. Embora o organismo possua mecanismos de defesa, o parasito desenvolveu ferramentas para eliminar essas defesas, sendo as principais: fagocitose por pseudópodes de neutrófilos e macrófagos; in- dução de apoptose (quando a própria célula ativa mecanismos internos que levarão a sua morte) em neutrófilos; secreção de cisteína proteases com efeito hemolítico e citotóxico, que degradam componentes do sistema complemento e impedem sua ativação ou degradam imunoglobulinas (IgG, IgA e IgM) (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Para a detecção e diagnóstico da tricomoníase, não podem ser considerados apenas os aspec- tos clínicos, pois as características dos sintomas apresentados na doença podem ser confundidas com outras DSTs. Assim, a análise laboratorial e, portanto, a atuação do(a) profissional da saúde, é essencial para o correto tratamento da doença. 94 O diagnóstico laboratorial é baseado no exame microscópico das amostras, que devem ser colhidas de forma específica: • Para o homem, a amostra deve ser colhida logo pela manhã, sem que ele tenha urinado antes, e desde que esteja a pelo menos 15 dias sem tomar medicação contra o tricomonas. Nestes casos a amostra é coletada por meio de Swab (haste plástica contendo uma porção de algodão na ponta, similar a um cotonete) ou alça de platina (instrumento metálico, alongado, com a extremidade anterior formada por um fio metálico, contendo um pequeno anel na ponta), direto da uretra. O sêmen tende a apresentar melhor identificação do parasito e pode ser colhido por masturbação em um recipiente estéril. • Para a mulher, a amostra deve ser colhida da vagina por meio de Swab, observando como condições para melhor observação do parasito: não realizar higiene vaginal de 18 a 24 horas anteriores à coleta; não tomar ou usar medicamentos tópicos por pelo menos 15 dias antes da coleta; e que esta seja realizada nos primeiros dias após a menstruação, quando os parasitas são mais abundantes (NEVES, 2016). Após a coleta, caso a amostra não seja examinada a fresco, ou inoculada em culturas, as amostras devem ser preservadas em soluções líquidas como o fixador álcool polivinílico (APV). Os exames microscópicos com a finalidade de observação do trofozoíto, realizados a fresco, corados ou fixados e corados (métodos de Leishman, Giemsa e hematoxilina), além de culturas em meio específicos, são os métodos mais utilizados. Para complementar o exame parasitológico, podem ser realiza- dos exames de imunodiagnóstico para detecção de anticorpos no soro (ex.: imunofluorescência indireta, ELISA e reações de aglutinação), além de PCR para detecção do DNA do parasito nas amostras e imunocromatografia para detecção de antígenos nas amostras (REY, 2008; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). O tratamento da doença é realizado diretamente, por meio de medicamentos como metroni- dazol, ornidazol, tinidazol ou nimorazol. É importante destacar que o tratamento deverá ser reali- zado pelo indivíduo infectado e seu parceiro, mesmo que este esteja assintomático, caso contrário frequentemente ocorre a reinfecção (REY, 2008). Por fim, é importante destacar a epidemiologia da tricomoníase, uma vez que ela constitui a DST não viral mais comum no mundo. A estimativa da Organização Mundial de Saúde, em 2008, foi uma incidência de 276 milhões casos de tricomoníase no mundo (NEVES,2016), com uma tendência a um crescimento anual. É importante destacar, neste aspecto, que a prevalência é maior em mulheres, com um homem infectado para cada quatro mulheres (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). UNICESUMAR UNIDADE 3 95 Muito bem, caro(a) aluno(a), agora que aprofun- dou seu conhecimento no mundo dos protozoários, vamos avaliar e responder aos questionamentos que levantamos no início da unidade? Como você viu, todo o agente etiológico de uma doença, quan- do conhecido, tem um ciclo de vida bem definido, o que permite definir onde é seu habitat e assim escolher, entre as diversas metodologias de análise, àquela que melhor poderá identificá-lo. Além disso, conhecer as características morfológicas, repro- dutivas e mesmo as metabólicas, permite que o(a) profissional de análises clínicas, com auxílio de equipamentose técnicas específicas, identifique com clareza o organismo causador de uma doença, muitas vezes até o nível de espécie. Nesta unidade, você estudou as características da infecção causada por dois organismos específi- cos do trato intestinal. Como pode perceber, para ambos, o diagnóstico principal se baseia na análise das fezes, o denominado exame parasitológico de fezes, na busca de cistos e trofozoítos. Este tipo de exame possui diferentes graus de análise macro e microscópicos, sendo que as análises microscópicas podem ser realizadas a partir de diferentes técni- cas, cada uma visando organismos com aspectos diferentes (as metodologias de análise serão abor- dadas nas Unidades posteriores). Como exemplo, podemos citar: os métodos de Hoffman, baseado na sedimentação espontânea do parasitas, aumentando sua concentração e facilitando sua identificação; ou o método Faust, que se baseia na flutuação de células em um meio com Sulfato de Zinco, após um processo de centrifugação. Independentemente do método, a ideia é facilitar a observação dos parasitas nas fezes, sua porta de saída do organismo infectado. 96 Caro(a) aluno(a), com base nos conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, estou certo de que é capaz de preencher o mapa mental a seguir. PROTOZOÁRIOS Subfilo Sarcodina Flagelos Unicelulares Cisto Sistema circulatório Estruturas especializadas 97 1. Leia o texto a seguir: Os protozoários apresentam estruturas fundamentais, como núcleo, citoplasma e mem- brana, que são comuns a todos os grupos. Suas organelas têm uma diversidade estrutural própria, conforme cada grupo, e exercem funções vitais, podendo estar relacionadas com locomoção, nutrição e proteção, dentre outras Fonte: SIQUEIRA-BATISTA, R. et al. Parasitologia – Fundamentos e Prática Clínica. Grupo GEN, 2020, p. 142. Um tipo de organismo estudado como parasito é o protozoário. Este grupo apresenta carac- terísticas próprias, muitas vezes determinando sua capacidade de estabelecer o parasitismo. Assim, defina, por meio de um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, o que é um protozoário e explique duas organelas ou estruturas presentes apenas nestes organismos. 2. Leia o texto a seguir: Quanto à morfologia, os protozoários apresentam grandes variações, conforme sua fase evo- lutiva e meio a que estejam adaptados. [...] Dependendo da sua atividade fisiológica, algumas espécies possuem fases bem definidas. Fonte: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2016, p. 33. Muitas espécies de protozoários apresentam um ciclo de vida monoxênico, o qual, geralmen- te, apresenta duas formas evolutivas, como no caso de Entamoeba histolytica ou da Giardia duodenalis. Com base neste assunto, cite e explique, por meio de um texto dissertativo de três a cinco linhas, as duas fases evolutivas que parasitas de ciclo monoxênico apresentam. 3. Leia o texto a seguir: Giardia duodenalis é um pequeno protozoário flagelado, que parasita o homem e vários animais domésticos ou silvestres. Em muitos países é o parasito intestinal mais frequente do homem, estimando-se que a incidência mundial seja da ordem de 500.000 casos por ano Fonte: REY, L. Bases da Parasitologia Médica. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2009, p. 88. O parasito G. duodenalis apresenta como habitat o trato intestinal do ser humano. Para tanto, este protozoário deve se manter fixado na parede intestinal, ou será eliminado junto com as fezes. Com base neste assunto, explique, por meio de um texto dissertativo de três a cinco linhas, como a G. duodenalis se fixa na parede intestinal. 98 4 nesta unidade você aprenderá sobre os protozoários que parasitam a pele e os sistemas internos do corpo, especialmente o Sistema Circulatório. Vamos relembrar as principais características do Sis- tema Circulatório e seus componentes, além de abordar as quatro doenças importantes para o ser humano que têm relação com esse sistema, sendo elas: Leishmaniose, Toxoplasmose, Tripanossomíase e Malária. Protozoários e Parasitas Sistêmicos, dos Sistemas Circulatório Sanguíneo e Cutâneo Dr. Vinícius Pires Rincão 100 O sistema circulatório sanguíneo é responsável pela distribuição de nutrientes e oxigênio para todo corpo, além de recolher os metabólitos celulares e o gás carbônico, que é liberado pelas células. Para isso, ele deve alcançar todas as partes do corpo, profundas e superficiais. Você já parou para pensar que os parasitas presentes no sistema circulatório têm acesso a todos os tecidos do corpo? Como esses parasitas conseguem chegar até a corrente sanguínea se o sistema circulatório é fe- chado? Como, após entrarem na corrente sanguínea, esses parasitas conseguem infectar outros indiví- duos? Quais são as consequências da presença de parasitas no sistema circulatório para o organismo? Protozoários são organismos unicelulares com potencialidade de infectar diversos sistemas do corpo humano. Uma das formas de atingir esses sistemas é através do sistema circulatório, uma vez que este é formado por um complexo e extenso conjunto de tubos, os vasos sanguíneos e linfáticos, que se espalham por todo organismo humano. Muitos desses parasitas utilizam o sistema circulatório apenas como um meio para atingir seu local de infecção, como o Toxoplas- ma gondii, outros se especializaram para utilizar as células do próprio sistema circulatório como o Plasmodium vivax. Entender como os protozoários interagem com o sistema circulatório é fundamental para o profissional da saúde que busca sua identificação, pois, o tipo de amostra, e ainda mais importante, como analisar essa amostra, vai depender da interação do parasita com os componentes do sangue ou da linfa. A análise parasitológica de amostras sanguíneas consiste em uma das práticas mais comuns realizadas em laboratórios de análises clínicas. Ela é utilizada tanto para identificação de moléculas circulantes, como anticorpos, quanto para detecção de parasitas. Para esta unidade, proponho que você tente identificar quais as parasitoses, causadas por protozoários, podem ser identificadas de forma direta através do exame parasitológico de sangue. Além disso, busque qual a situação epidemiológica das parasitoses que você identificou. UNICESUMAR UNIDADE 4 101 Embora o exame parasitológico de sangue apresente limitações, ainda é um dos principais métodos para identificar parasitoses cujos parasitas têm como habitat o sistema circulatório. Embora existam métodos moleculares e imunológicos que podem ser utilizados para indicar a presença de um parasita na corrente sanguínea, a observação direta do protozoário é a única forma de comprovar sua presença como agente etiológico da doença. Tendo em mente que esses parasitas possuem ciclos de vida variados, tempos de incubação diferentes, e alguns são capazes de formar cistos nos tecidos, você consegue identificar as limitações para este meio de diagnóstico? Como estas limitações poderiam ser contornadas? Quais as consequências dessas limitações para análise laboratorial das parasitoses do sistema circulatório? Escreva seus resultados e reflexões, sobre a pesquisa que você fez, e as questões que levantamos, no seu diário de bordo, a fim de que eu e você possamos analisá-las juntos no decorrer desta unidade. 102 Caro(a) aluno(a), você com certeza já ouviu falar de muitas parasitoses causadas por protozoários em sua região, através de pessoas conhecidas e familiares, em alertas epi- demiológicos ou mesmo em noticiários e jornais. Mas se você parar para pensar agora, conseguiria lembrar de algu- ma? Você já ouviu falar de “úl- cera de Bauru”, “ferida brava” ou “maleita”? Talvez já tenha ouvido os nomes “doença do coração crescido” e “doença do gato”? Pois bem, todos estes são nomes populares atribuídos a parasitoses causa- das por protozoários que estudaremos nesta unidade. A maioria das protozoonoses que tem como habitat os órgãos internos (ou seja, não vivem emcavidades ligadas ao meio externo como a luz do trato gastrointestinal, trato respiratório ou trato genitourinário) ou o sistema circulatório, dependem de vetores que os façam penetrar nas defesas do organismo e atingir o sistema circulatório, o qual utilizarão como meio para atingir seu habitat, ou como próprio habitat. A Leishmaniose, Tripanossomíase e a Malária, são exemplos de parasitas que possuem ciclo biológico heteroxênico, e que utilizam vetores (para as três doenças os vetores são insetos) para disseminar a infecção de um indivíduo para outro. Já a Toxoplasmose, embora possua um ciclo heteroxênico, não precisa de um vetor para sua disseminação. Todas estas doenças, entretanto, possuem em comum a necessidade de passar em algum ponto de seu ciclo biológico, pelo Sistema Circulatório. Caro(a) aluno(a), você já parou para pensar como o Sistema Circulatório é importante para o funcio- namento do nosso organismo? E a partir desta reflexão, consegue imaginar como os protozoários se utilizam desse sistema tão importante para promover sua infecção? Para compreender melhor as parasitoses que abordaremos nesta unidade, temos que relembrar alguns aspectos importantes do sistema circulatório. Primeiro, devemos definir Sistema Circulatório como o conjunto de canais e órgãos associados que têm como função o transporte de nutrientes e oxigênio, além da remoção dos produtos do metabolismo celular de cada uma das células do corpo (FOX, 2007). UNICESUMAR UNIDADE 4 103 Em seguida, devemos relembrar os principais componentes do Sistema circulatório. Para isso, vamos dividi-lo em Sistema Cardio- vascular e Sistema Linfático (Figura 1). O sistema cardiovascular é composto pelos va- sos sanguíneos, os órgãos hemopoiéticos, o coração e o sangue. O sistema linfático é composto por: capilares linfáticos, ductos linfáticos e linfonodos. Nos vídeos disponibilizados nos links a seguir, você poderá recordar os compo- nentes e funções dos sistemas cardio- vascular e linfático. Para acessar, use seu leitor de QR Code. Sistema Cardiovascular - Toda Matéria Sistema Linfático 1/4: Introdução | Anatomia e etc Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado uma ilustração simplificada do sistema circulatório. Nesta ilustração é observado o coração ao centro. Dele partem veias para os pulmões e dos pulmões voltam artérias para o coração. Nova- mente do coração partem artérias para os órgãos e tecidos do corpo, que se ramificam até o nível de capilares, e destes voltam como veias para o coração. As artérias são representadas em vermelho e as veias são representadas em azul. No lado esquer- do da imagem, são observados canais com a coloração verde, representando os vasos linfáticos. Nesses vasos são observados nódulos circulares, representando os linfonodos. Os vasos lin- fáticos partem dos órgãos e tecidos como capilares linfáticos, juntando-se e formando os vasos mais espessos, os ductos linfáticos que juntam e se ligam a veia subclávia esquerda, desta a veia cava superior e então ao coração. Figura 1 – Sistema circulatório: cardiovascular e linfático. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15752 https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15753 104 A primeira parasitose que abordaremos é a Leishmaniose, também conhecida como “úlcera de Bauru” ou “ferida brava” (referência a leishmaniose tegumentar). Esta doença é causada por várias espécies de protozoários flagelados do Gênero Leishmania (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Este gênero é classifi- cado no Filo Sarcomastigophora, Subfilo Mastigophora, Ordem Kinetoplastida e Família Trypanosomatidae. Na região das Américas, duas formas da doença podem ser encontradas: a Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) e a Leishmaniose Visceral Americana (LVA). Embora existam diversas espécies do gênero Leishmania, a forma como a doença se manifesta é semelhante para todas. Assim, mais de dez espécies do gênero Leishmania são conside- radas agentes etiológicos da doença (Ex.: L. mexicana, L. major, L. panamensis etc.). Entretanto, a distribuição das espécies ocorre de forma específica nos diferentes continentes. No Brasil, as espécies encontradas causando LTA são: L. braziliensis, L. guyanensis, L. lainsoni, L. shawi, L. naiffi e L. amazonensis. Já as espécies causadoras da LVA têm dis- tribuição mundial e incluem L. donovani e L. infantum. Como diferentes espécies dentro do gênero Leishmania podem causar, de forma similar, os tipos de infecção apresentados, vamos nos referir a eles como Leishmania sp.. O parasita causador da leishmaniose, tanto a LTA quanto a LVA, apresentam duas formas distintas durante seu ciclo de vida: amastigotas, promastigotas. A forma amastigota se caracteriza por apresentar uma forma ovoide ou esférica, sem flagelo (contém apenas um resquício de flagelo dentro da bolsa flagelar), com um único núcleo esférico, localizado em um dos lados da célula, e um cinetoplasto anterior (Figura 3). Esta forma do para- sita é encontrada parasitando as células do sistema fagocitário mononuclear (SMF), com maior incidência nos macrófagos da pele (REY, 2008) . A forma promastigota se caracteriza por ser alongada, apresentando em sua região anterior um fla- gelo livre (NEVES, 2016). O núcleo é semelhante ao da forma amastigota, e o cinetoplasto está localizado na região anterior, na base do flagelo (Figura 3). Essa forma do parasita é encontrada no trato intestinal do hospedeiro intermediário, o inseto (mosca) do gênero Lutzomyia, livre ou aderida à parede intestinal. Caro(a) aluno(a), o entendimento das características do sistema circulató- rio e suas células é importante para a compressão das parasitoses desta unidade. Você se recorda destas características? Caso queira recordar e aprofundar seus conhecimentos no assunto, acesse minha Pílula de Aprendizagem, e saiba mais! UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15754 UNIDADE 4 105 O parasita da leishmaniose apresenta um ciclo de vida heteróxeno, com dois hospedeiros: o de- finitivo, representado por um vertebrado; e o intermediário, representado por inseto da Ordem Díptera, Família Psychodite, Subfamília Phlebotominae e Gênero Lutzomyia (NEVES, 2016). Por esta classificação estes insetos são constantemente denominados de flebotomíneos e popularmente chamados de mosquito palha (Figura 4). Até o momento, são conhecidas cerca de 30 espécies de flebotomíneos que servem como vetores para a Leishmania sp.. Por apresentar dois hospedeiros, o ciclo da Leishmania sp. pode ser dividido em duas fases, a fase do vetor invertebrado (inseto) e a fase no vertebrado (como, por exemplo, o ser humano). A fase do vetor inicia-se quando a fêmea do mosquito, que é hematófaga, pica o vertebrado infectado com o parasita para realizar o repasto sanguíneo. Neste processo, o inseto ingere junto com o sangue macrófagos infectados com a forma amastigota do parasita (NEVES, 2016). Ao passar pelo trato gastrointestinal do inseto, os macrófagos se rompem e liberam as amastigotas que se diferenciam em promastigotas. Forma promastigota Forma Amastigota Complexo de Golgi Complexo de Golgi Núcleo Núcleo Cinetoplasto Cinetoplasto Flagelo Flagelo Mitocôndria Mitocôndria Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado duas figuras. A superior corresponde à forma promastigota do parasita Leishmania sp., enquanto a inferior representa a forma amastigota deste mesmo parasito. A figura superior pode ser descrita como uma célula fusi- forme, alongada, contendo um núcleo esférico e central, contendo a maioria das organelas das células eucarióticas, apresentando ainda, o cinetoplasto na região anterior, e anterior a este, se prolongando para fora da célula, encontra-se um flagelo. A figura inferior pode ser descrita como uma célula com formato entre elíptico e circular, contendo um núcleo esférico deslocado para um dos lados da célula, com a maioria das organelas de uma célula eucariótica, contendo ainda um cinetoplasto anterior e um resquício deflagelo, interno a célula. Figura 2 – Formas do protozoário Leishmania sp. 106 As promastigotas são as formas pre- dominantes encontradas no inseto. Esta forma se reproduz por fissão binária, gerando milhares de novos parasitas. Após a multiplicação, as formas promastigotas migram de volta pelo trato digestório até o esô- fago e faringe, onde se acumulam. A fase no hospedeiro vertebra- do tem início quando a fêmea do mosquito infectada realiza o repas- to sanguíneo. A infecção se dá no momento da picada, pois, o acúmu- lo de parasitas no esôfago e farin- ge do inseto atrapalha ou impede a sucção do sangue e, na tentativa de se alimentar, o inseto vetor re- gurgita os parasitas para dentro dos tecidos da pele. Nesta região há várias células do sistema mononuclear fagocítico, especialmente os macrófagos. Após os parasitas se ligarem a sua membrana plasmática, os macrófagos fagoci- tam os promastigotas formando vacúolos parasitóforos. Nestes vacúolos a forma promastigota se diferencia em amastigota que se multiplica por fissão binária. A multiplicação das amastigotas continua até não haver mais espaço na célula, que se rompe e libera os parasitas nos tecidos para infectar outros macrófagos e continuar a infecção. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado uma fotografia ampliada da pele humana, contendo um inseto da Ordem Diptera (mosquito) do gênero Lutzomyia, realizando o repasto sanguíneo. O mosquito tem como característica ter o corpo coberto por cerdas, lembrando pelos, de coloração amarela. Figura 3 – Inseto do gênero Lutzomyia. E então aluno(a), compreendeu o ciclo de vida da Leishmania sp. no ser humano? Veja o vídeo que eu indico a seguir e aprofunde ainda mais seu conhecimento. Nesta animação, você poderá entender o caminho realizado pelo parasita, no ciclo de vida no hospedeiro vertebrado, a partir do momento que inoculado pelo inseto vetor na pele. Para acessar, use seu leitor de QR Code. A evolução da leishmaniose depende de vários aspectos, como a espécie do parasita, imunidade do hospedeiro e até fatores genéticos, que podem originar quadros clínicos diversos (NEVES, 2016). Como já foi apresentado a você, dois tipos principais de desenvolvimento da doença podem ocorrer, sendo que o tempo de incubação para ambos varia entre duas semanas a três meses. UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15185 UNIDADE 4 107 O primeiro que vamos tratar é a Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA), sendo esta uma doença caracterizada como zoonose, causando infecção no ser humano e em várias espécies de ani- mais, silvestres e domésticos. A patogenia ligada a essa doença tem início com a picada do mosquito infectado, que ao atrair macrófagos para a região possibilita a infecção do parasita. Quanto mais o parasita se multiplica e destrói macrófagos, mais macrófagos são atraídos para a região, dando início a um processo inflamatório, caracterizado como um nódulo. Em decorrência dessa inflamação, forma- -se um infiltrado celular repleto de macrófagos e outras células do sistema imune, culminando com necrose e desintegração da epiderme, formando, por fim, uma úlcera (Figura 5) com bordas salientes e fundo granuloso (NEVES, 2016). Pode ocorrer, durante ou após a formação da úlcera no local da picada do mosquito, a disseminação (metástase) do parasita através do sangue ou da linfa, resultando no aparecimento de outras lesões na derme ou mucosas. Descrição da Imagem: a imagem apresenta uma fotografia, nela pode ser observada no centro a porção lateral da perna e pé direito de uma pessoa, próximo ao tornozelo há duas úlceras de forma circular com o interior rosado, características da leishmaniose. O pé está sobre um piso de cor vermelha, atrás há um tapete de formato retangular na cor verde claro, do lado esquerdo é possível visualizar parte de um pé que está calçado com uma meia branca. Figura 4 – Lesão ulcerosa resultante da infecção por Leishmania sp. 108 A LTA pode se manifes- tar clinicamente de três formas a Leishmaniose Cutânea (LC), Leishma- niose Cutânea Difusa (LCD) e a Leishmaniose Cutaneomucosa (LCM) (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). A LC se caracte- riza pelo aparecimento de úlceras únicas ou múltiplas apenas na derme, como a constatação do parasita nas bordas da lesão, que após o correto tratamento, tendem a cicatrizar. A LCD se caracteriza pela presen- ça de lesões papulares ou nodulares, não ulceradas, espalhadas na pele, geral- mente em áreas expostas do corpo, como as extre- midades. A LCM é forma clínica conhecida popular- mente como nariz de tapir ou de anta, em referência à aparência do indivíduo em decorrência da manifesta- ção da doença, pois, nesta forma, o parasita se desenvolve inicialmente como as lesões cutâneas, mas, meses ou anos após essas lesões primárias, ocorrem lesões secundárias que destroem mucosas e cartilagens (REY, 2009). Os principais locais de ação do parasita na LCM são nariz (por isso o nome nariz de tapir), faringe, boca e laringe (Figura 6). O segundo tipo de manifestação da leishmaniose é a Leishmaniose Visceral Americana (LVA) também denominada “calazar” (de origem indiana, Kala-Azar), podendo ser traduzida como “doença negra”. A LVA tem seu início semelhante a LTA, com a diferença que após o processo inflamatório na região do local da picada do mosquito pode ocorrer uma cura espontânea ou o parasita migrar, primeiro para os linfonodos próximos e depois para as vísceras (NEVES, 2016). No início da infecção os principais órgãos afetados são baço, fígado, linfonodos e medula óssea. Contudo, conforme a progressão da doença, praticamente todos os órgãos passam a apresentar o parasita. Depois de chegar às vísceras, pelas vias hematogênica ou linfática, o parasita infecta as Descrição da Imagem: na imagem podem ser observadas quatro fotos de pessoas re- presentando as diferentes formas clínicas da leishmaniose. Na foto superior esquerda, marcada com a letra A, pode ser observado um braço de pessoa, contendo várias úlceras. Na foto superior direita, marcada com a letra B, pode ser observado o rosto de uma pessoa, mostrando uma úlcera do lado esquerdo, próximo ao olho. As fotos A e B representam a forma cutânea da doença. A foto inferior esquerda mostra a face de uma pessoa, onde se observa a cartilagem do nariz destruída, representando a forma cutaneomucosa. A foto inferior direita mostra o rosto de uma pessoa contendo várias pápulas, sem úlceras, representando a forma cutâneo difusa da doença. Figura 5 – Lesões de Leishmaniose Tegumentar Americana. A e B) Leishmaniose cutâ- nea; B) Leishmaniose cutaneomucosa; D) Leishmaniose cutânea difusa. Fonte: adaptada de Dolabella e Barbosa (2022). UNICESUMAR UNIDADE 4 109 células do Sistema Mononuclear Fagocítico presente, induzindo a infiltração de mais células do mesmo tipo no local, permitindo que a infecção progrida. As principais alterações decorrentes da doença são, hepatomegalia, esplenomegalia, desregulação da hematopoiese (síntese de células sanguíneas). Diferentes quadros clínicos podem se manifestar como consequência da evolução da doença, podendo, inclusive, alterar de um para outro. As formas mais comuns são: a assintomáti- ca, com sintomas muito leves e inespecíficos, que pode culminar na cura ou evoluir para a forma sintomática; a aguda, que se desenvolve rapidamente com febre alta e contínua, anemia, emagre- cimento, com pouco aumento do baço e fígado, entre outros, sendo fatal em lactente e crianças de um ou dois anos; e a crônica, que se desenvolve lentamente, às vezes por anos, com alterações de fases de remissão e recaída, sendo comum em crianças mais velhas e adultos (REY, 2008). Quanto à resposta imune direcionada a infecção por Leishmania sp., não se conhece bem todos os mecanismos envolvidos. Sabe-se, entretanto, que a doença desencadeia uma resposta imune celular e humoral dos linfócitos. Tanto para a LTA quanto para LVA, existem indivíduos que apresentam maior resistênciaà infecção. Um dos motivos prováveis para isto é a ativação diferencial de linfócitos T helper (TH) ou T CD4+, responsáveis por secretar citocinas e regular a resposta imune. Dentre os linfócitos TH existem subpopulações de células que secretam citocinas diferentes, sendo que, quan- do são ativadas células TH1, as citocinas produzidas (como INF-γ, IL-2 e IL-12) ativam a resposta inflamatória e tendem a impedir a infecção; porém, quando são ativadas células TH2, as citocinas produzidas (como IL-4 e IL-10) aumentam a suscetibilidade a infecção, provavelmente porque essas citocinas inibem a ativação dos macrófagos, facilitando a sobrevivência das amastigotas no interior destas células, além de estimular a produção de anticorpos por ativarem linfócitos B. A resposta imune humoral está concentrada na produção de anticorpos do tipo IgG, sendo que a quantidade produzida está diretamente relacionada ao tipo de doença. Na LTA, nas forma clínicas LC e LCM os níveis de anticorpos são baixos, mas na LTA na forma LD e na LVA os níveis de anticorpos são elevados, o que aumenta a infecção de macrófagos, uma vez que a IgG facilita a fagocitose do parasita por estas células. Caro(a) aluno(a), agora que você conhece as características da leishmaniose, consegue pensar em metodologias que podem ser utilizadas para realizar o seu diagnóstico? O diagnóstico da doença é realizado por uma junção de fatores, somando-se os sintomas e aspectos clínicos da doença, características epidemiológicas, a identificação de anticorpos específicos para o parasita e, principalmente, na observação direta do parasita em amostras da medula óssea, fígado, baço e linfonodos, ou em raspados ou biópsia das lesões da pele (NEVES, 2016). 110 No que se refere ao diagnóstico laboratorial, para observação direta, as amostras são preparadas em esfregaços em lâmina e coradas pelo método de Giemsa ou Panótico Rápido. Para a detecção de anticorpos são empregadas técnicas de Imunofluorescência Indireta e Teste Imunocromatográfico e Ensaio Imunoenzimático (ELISA). A detecção do DNA do parasita através de técnicas de amplificação (PCR), estão sendo cada vez mais empregadas com alta sensibilidade e especificidade. No caso da LTA, o teste imunológico mais utilizado no Brasil (NEVES, 2016), é o teste intradérmico de Montenegro, que consiste na inoculação de antígenos do parasita (por exemplo promastigotas mortas) na região intradérmica, para analisar a reação de hipersensibilidade tardia. O teste é considerado positivo quando se forma um nódulo maior ou igual a 5 mm no local da inoculação. O tratamento da leishmaniose é realizado através de fármacos com o princípio ativo sendo um antimonial pentavalente. O fármaco de escolha no Brasil é o Glucantime (antimoniato de meglumina), cuja distribuição é gratuita na rede pública. A leishmaniose tegumentar tem uma incidência anual aproximada de 1,5 milhões de casos no mundo, sendo que a grande maioria ocorre em países em desenvolvimento. O Brasil, junto com Afe- ganistão, Argélia, Colômbia, Costa Rica, Etiópia, Irã, Peru, Sudão e Síria, correspondem a cerca de 75% da incidência global de LTA (NEVES, 2016). A distribuição da LTA depende da distribuição do inseto vetor, ligada aos reservatórios naturais. Como a doença é uma zoonose, vários mamíferos funcionam como reservatório para o parasito. Já a leishmaniose visceral é uma doença típica das áreas rurais em países de regiões tropicais e subtropicais com uma incidência estimada de 500 mil casos por ano. Na América Latina, o Brasil é responsável por 90% dos casos, que se encontram mais concentrados na Região Nordeste (NEVES, 2016). O principal reservatório da doença é um animal doméstico, o cão, relacionado a todos os focos da doença. A segunda doença que vamos conhecer nesta unidade é a Tri- panosomíase (ou Tripanosomíase Americana), mais conhecida como doença de Chagas. O agente etiológico desta doença é o Trypanosoma cruzi, um protozoário flagelado perten- cente ao Filo Sarcomastigophora, Subfilo Mastigophora, Ordem Kinetoplastida, Família Trypanosomatidae, Gênero Trypanosoma. O nome da doença vem de seu descobridor, o médico Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, que em 14 de abril de 1909, encontrou o protozoário ao examinar o sangue de uma criança de 2 anos, de nome Berenice (NEVES, 2016). Durante toda sua vida a menina carregou o parasita, sem alterações clí- nicas, em forma de doença denominada de indeterminada, e morreu aos 73 anos de idade, por causas que aparentemente não apresentavam ligação com a doença. UNICESUMAR UNIDADE 4 111 A Doença de Chagas ainda é muito presente no Brasil, desde o Maranhão até o Rio Grande do Sul, com mais de 20 milhões de pessoas expostas ao risco de terem a doença. Vamos conhecer melhor suas características? O T. cruzi apresenta três formas relevantes no seu ciclo de vida: amastigotas, epimastigotas e tripomastigotas (Imagem 7). Todas as três formas possuem o cinetoplasto próximo ao flagelo, mudando apenas sua localização. As amastigotas possuem uma forma arredondada ou oval, com flagelo interno e curto. As epimastigotas são formas alongadas com o cinetoplasto anterior mais próximo ao núcleo, com um flagelo saindo lateralmente nesta posição se dirigindo para a região anterior formando uma pequena membrana ondulante. Já nas tripomastigota, a forma é alongada, com o cinetoplasto posterior, próximo à extremidade da célula, de onde sai o flagelo que se desloca até a região anterior, formando uma extensa membrana ondulante. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado uma representação da ultraestrutura das três formas apresentadas pelo Trypa- nosoma cruzi. Do lado esquerdo, pode ser observado uma célula arredondada, com núcleo central e sem flagelo, constituindo a forma Amastigota. Na porção central, pode ser observada uma célula alongada, contendo um flagelo anterior e uma pequena membrana ondulante, constituindo a forma Epimastigota. Do lado direito, pode ser observado uma célula alongada, com um flagelo partindo da região posterior em direção a região anterior, formando uma longa membrana ondulante. Figura 6 – Formas morfológicas do Tripanosoma cruzi, observando a ultraestrutura: A – Amastigota; B – Epimastigota; C – Tripo- mastigota. As estruturas relevantes para nosso estudo estão marcadas com as letras: K – cinetoplasto; N – núcleo; F – flagelo; Mo – Membrana ondulante./ Fonte: Rey (2008, p. 299-301). O T. cruzi tem um ciclo de vida heteroxênico, sendo que o hospedeiro intermediário é um inseto, o barbeiro, nome popular de um grupo de insetos, principalmente do gênero Triatoma, sendo o seu principal representante o Triatoma infestans (Figura 8), e o hospedeiro definitivo corresponde a várias espécies de mamíferos, incluindo o ser humano. 112 O ciclo biológico do Trypanosoma cruzi é relativamente simples (Figura 9). O inseto barbeiro, a medida em que realiza o repasto sanguíneo, frequentemente na face (por isso o nome popular de barbeiro), libera suas fezes, e junto a elas, as formas tripomastigotas do parasita, que utilizam a perfuração feita pelo inseto para invadir os tecidos do hospedeiro. Nos tecidos da pele ou mucosa, os tripomastigotas interagem com as células do Sistema Mononuclear Fagocítico (SMF), onde são fagocitadas, formando o vacúolo parasitóforo. Após algumas horas, o parasita escapa para o citoplasma e se diferencia em amastigotas que se multiplicam por fissão binária simples. Em seguida, após várias divisões celulares, as amastigotas se diferenciam em tripomastigotas que rompem a célula e são liberadas nos espaços entre as células (interstício), atingindo em sequência a corrente circulatória. Na corrente circulatória os tripomastigotas podem seguir três caminhos: 1- invadir uma nova célula, em qualquer tecido do organismo, e se multiplicar novamente se diferenciando em amastigotas; 2- ser destruído pelos me- canismos imunológicos do hospedeiro; ou 3- ser ingerido pelo inseto barbeiro. Descrição da Imagem: na imagempode ser observado um inseto da espécie Triatoma infestans, com o abdômen em formato elíptico, e a cabeça alongada, com as cores preto e amarelo. Figura 7 – Triatoma infestans. / Fonte: adaptada de UNESP (2022). UNICESUMAR UNIDADE 4 113 Neste último caso, o protozoário desenvolverá a fase no hospedeiro intermediário, também denominada de fase extracelular. No interior do intestino do inseto, o parasita se diferencia em epi- mastigotas, que se multiplicam por fissão binária. Quando atingem a ampola retal, a porção terminal do tubo digestivo, os epimastigotas se diferenciam em tripomastigotas, que serão liberados com as fezes, podendo infectar um novo hospedeiro. Embora as epimastigotas também sejam liberadas nas fezes, e até mesmo sejam fagocitadas pelas células do hospedeiro, elas não conseguem prosseguir com a infecção, pois são destruídas pelas enzimas dos lisossomos nos vacúolos parasitóforos. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado o ciclo biológico do T. cruzi. No centro da imagem pode ser observado o desenho do corpo de um ser humano observando os órgãos internos. Cada fase do ciclo na figura está numerada, sendo: 1- na parte superior esquerda mostrando o tripomastigota no inseto barbeiro que está realizando o repasto sanguíneo sobre a pele do ser humano; 2- os tripomastigotas, no interior do corpo humano, infectam uma célula; 3- no lado direito, no interior da célula o tri- pomastigota se diferencia em amastigota e se multiplica, liberando em seguida, tripomastigotas que podem infectar outras células repetindo a fase 3, ou; 4- circular próximo a superfície da pele; 5- são ingeridos por um barbeiro; 6- no interior do inseto o parasita se diferencia em epimastigota; 7- já do lado esquerdo da figura, os epimastigotas se multiplicam por fissão binária; 8- os epimastigotas se diferenciam em tripomastigotas e estão prontos para recomeçar o ciclo. Figura 8 – Ciclo de vida do Trypanosoma cruzi. / Fonte: adaptado de Wikipedia. 114 • Inseto vetor – ocorre pela entrada do parasita liberado nas fezes do inseto, pela abertura da picada do triatomíneo. • Por transfusão sanguínea – ocorre quando um indivíduo recebe o sangue contaminado com tripomastigotas. • Através da placenta (Congênita) – ocorre quando as amastigotas se formam nas células da placenta, liberando tripomastigotas que podem atingir a circulação sanguínea. • Acidentes de laboratório – esse meio de transmissão possui real relevância para profissionais da saúde que têm contato com o sangue contaminado. Ocorre quando o sangue contaminado entra em contato com ferimentos aberturas na derme ou mucosas, possibilitando o contato dos tripomastigotas com células do SMF e sistema circulatório. • Pela via oral – ocorre pelo contato do parasita com a mucosa da boca, lesada ou não. Existem várias formas para que isto ocorra, desde a amamentação com parasita presente no leite materno, até o consumo por acidente dos insetos ve- tores contaminados, ou partes deles. Este último caso tem se tornado comum na Amazônia pelo consumo de produtos florestais, em especial o açaí. Ao analisarmos a história natural da Doença de Chagas, podemos dividi-la em aguda e crônica (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). A fase aguda pode apresentar sintomas ou não, dependendo principalmente do sistema imune do hospedeiro. Em geral, tem início próximo ao local de penetração do hospedeiro. Como o barbeiro pica a face, o parasita pode atingir a conjuntiva, desencadeando o primeiro sintoma o sinal de Romaña (Figura 9a), ou na pele em geral formando o chagoma de inoculação (Figura 9b). Junto a esses sinais, o parasita compro- mete os linfonodos próximos, que aumentam de tamanho. Os outros sinais dessa fase incluem: febre, edema localizado e generalizado, poliadenia, hepa- tomegalia, esplenomegalia, insuficiência cardíaca e perturbações neurológicas (NEVES, 2016). Nesta fase, que pode durar alguns meses, variando de paciente para paciente, o parasita circula pelo corpo e invade di- versos tecidos. Embora a transmissão do parasita tenha como principal via a o inseto vetor, ela pode ocorrer de outras formas. São as principais formas de transmissão: UNICESUMAR UNIDADE 4 115 A fase crônica tem início com a final da fase aguda e pode ser classificada em formas indeterminada, car- díaca e digestiva (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). A forma indeterminada é aquela onde não há sintomas, ou os sintomas são discretos, há positividade no exame sorológico, mas não são observadas alterações no esôfago, coração ou cólon, e pode se desenvolver por um período de 10 a 30 anos. A forma cardíaca (ou cardiopatia chagásica crônica – CCC) é a mais comum, e pode apresentar distúrbios de condução do coração (como arritmias e bloqueios de ramos); fenômenos tromboembólicos por mau funcionamento do coração (como acidente vascular encefálico); e insuficiência cardíaca congestiva. A forma digestiva ocorre por lesões causadas nas regiões dos tecidos internos, como por exemplo os musculares, do esôfago e cólon, podendo originar dilatações permanentes das vísceras, “megacólon” e “megaesôfago” (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). As formas cardíaca e digestiva podem ocorrer juntas, sendo denominada mista ou cardiodigestiva. A tripanossomíase americana desencadeia vários mecanismos do sistema imune na tentativa de eliminar o parasita, tanto da imunidade inata quanto da imunidade adaptativa. Isso reduz a quantidade de parasita no sistema circulatório (reduz a parasitemia) mas permite que o parasita se mantenha no interior das células nos tecidos. Quando o T. cruzi chega à corrente sanguínea, ele está suscetível a ação do sistema complemento (um conjunto de proteínas dissolvidas no sangue que destroem células de patógenos). Além deste, outros com- ponentes da imunidade são ativados, principalmente com a produção citocinas. As citocinas produzidas estimulam a imunidade adaptativa ativando os linfócitos T e B. Os linfócitos T auxiliares têm maior relevância na fase aguda da doença, pois estimulam a produção de anticorpos pelos linfócitos B e ajudam a eliminar o parasita circulante. Já os linfócitos T citotóxicos têm maior relevância na fase crônica, eliminando os parasitas no interior das células dos tecidos, o que parece estar associado à formação das lesões no coração e intestino, uma vez que as células infectadas são destruídas, os tecidos são danificados (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: na imagem podem ser observadas duas fotografias. A do lado esquerdo apresenta a face de um ser humano, com o olho esquerdo completamente fechado devido a um edema bipalpebral, denominado de Sinal de Romaña. A foto do lado direito apresenta o antebraço de um ser humano, onde pode ser observado uma área circular com vermelhidão e uma área central esbranquiçada semelhante a um furúnculo fechado, denominada de chagoma de inoculação. Figura 9 – Sinais de entrada do Trypanosoma cruzi. / Fonte: adaptada de Santos Junior (2018). 116 O diagnóstico da doença combina a análise clínica e laboratorial. Na análise clínica, são verificados o local onde o paciente se encontra ou de onde se origina (locais endêmicos), sinais de entrada (sinal de Romaña e chagoma de inoculação), junto a outros sinais da fase aguda, direcionam para a doença. Entretanto, o diagnóstico laboratorial é imprescindível. Para este diagnóstico, a fase da doença pode interferir no resultado. Na fase aguda são realizados exames parasitológicos com o objetivo de iden- tificar o protozoário, direta ou indiretamente, como: exame de sangue a fresco; esfregaço sanguíneo corado com Giemsa (Figura 10); inoculação em camundongos jovens; xenodiagnóstico. Ainda nesta fase podem ser realizados exames sorológicos e moleculares, como: imunofluorescência indireta, ensaio de imunoadsorção ligado à enzima (ELISA) e reação em cadeia da polimerase (PCR). Descrição da Imagem: na imagem pode ser observada uma microscopia de um esfregaço de sanguíneo corado pelo método de Giemsa, onde pode serobservado centenas de parasitas da espécie Trypanosoma cruzi, na forma tripomastigota, corados em roxo. Figura 10 – Tripomastigota de Trypanosoma cruzi corado com Giemsa. Na fase crônica, como há pouco parasita livre, são utilizados os exames indiretos, como: xenodiagnós- tico, hemocultura, inoculação em camundongos e PCR e exames sorológicos variados. O tratamento é realizado através de dois fármacos: benznidazol e nifurtimox, que agem principal- mente nas formas tripomastigotas. Assim, para um tratamento mais eficaz, a doença deve ser tratada na fase aguda, uma vez que o parasita pode permanecer nas células teciduais na fase crônica. Além disso, os fármacos utilizados podem apresentar alta toxicidade, o que inviabiliza o tratamento contí- nuo prolongado. Embora haja alto índice de cura na fase aguda da doença, esses valores diminuem conforme a infecção progride, sendo difícil determinar a cura em indivíduos com fase crônica já em tempo prolongado (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). UNICESUMAR UNIDADE 4 117 A epidemiologia do T. cruzi é bem conhecida e estudada. O parasita é endêmico em 22 países da América Latina, sempre associado à presença dos triatomíneos (uma vez que a transmissão pelas fezes deste inseto é a mais importante), desde o sul dos EUA até a patagônia na Argentina. Estima-se que mais de 8 milhões de pessoas estejam infectadas com o parasita, e destes, aproxi- madamente 3 milhões são brasileiros (NEVES, 2016). Caro(a) aluno(a), você já ouviu falar em paludismo, impaludismo, maleita, tremedeira ou sezão? Pois é, todos esses são nomes associados à próxima doença parasitária que vamos abordar, a Malária. O nome malária tem origem no italiano medieval “mala aire”, e significa maus ares, em alusão ao fato de que na época atribuía-se a transmissão de doenças pelo ar impuro. Essa doença é causada pelo proto- zoário do gênero Plasmodium, sendo que cinco espécies já foram encon- tradas causando a doença: P. falcipa- rum, P. vivax, P. ovale, P. malariae e P. knowlesi (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Essas espécies são classificadas no Filo Apicomplexa, Ordem Haemosporida, Família Plasmodiidae e Gênero Plasmodium, e tem como característica serem quase exclu- sivamente parasitas da espécie humana. Embora algumas delas sejam encontradas em espécies de macacos, a transmissão natural é rara. O parasita causador da malária apresenta diversas formas, relacionadas ao estágio de desen- volvimento, durante seu ciclo de vida. Como o ciclo de vida é heteroxênico, com um hospedeiro vertebrado (definitivo) e um invertebrado (intermediário), os diferentes tipos morfológicos têm como função adaptar-se às necessidades do parasita em cada hospedeiro. No hospedeiro ver- tebrado ocorre a reprodução assexuada, principalmente por esquizogonia, que pode resultar em merozoítos (Figura 12), macrogametas ou microgametas. No hospedeiro invertebrado ocorre a reprodução sexuada, com a junção dos gametas, formando o oocineto que dará origem ao oocisto. Quando o oocisto se rompe, libera centenas de esporozoítos (Figura 12), sendo que estes são capazes de infectar o hospedeiro humano. Os esporozoítos e merozoítos apresentam características comuns como o aparelho apical formado pelo anel polar e roptrias, um núcleo central e o citóstoma na região anterior situado lateralmente. As principais características das formas morfológicas, segundo Neves (2016), são apresentadas a seguir: 118 • Esporozoíto – caracteriza-se por uma forma elíptica alongada (11 micrometros de comprimento por 1 micrometro de largura), com uma membrana composta por duas camadas. • Merozoítos – células mais arredondadas (5 micrometros de comprimento por 2 mi- crometros de largura), com um ápice saliente, com uma membrana externa tripla. Esta forma só é capaz de invadir hemácias). • Microgameta – é o gameta masculino, derivado do gametócito masculino por processo denominado de exflagelação, resultando em uma célula de 20 a 25 micrometros de comprimento contendo um flagelo e um núcleo envolto por uma membrana. • Macrogameta – é o gameta feminino, derivado do gametócito feminino, contendo na superfície uma estrutura por onde ocorre a penetração do microgameta. • Oocineto – é a célula resultante da fecundação do micro e macrogameta, de formato alongado, móvel, de aspecto vermiforme, medindo entre 10 e 20 micrometros. • Oocisto – é a estrutura derivada do encistamento do oocineto na parede intestinal do inseto vetor. Tem forma esférica medindo entre 40 e 80 micrometros, onde serão formados os esporozoítos. Estima-se que um único oocisto produza, aproximadamente, 1000 esporozoítos. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado duas figuras representando a ultraestrutura das formas de esporozoí- to e merozoíto de Plasmodium sp.. Do lado esquerdo da figura, observa-se uma célula alongada contendo o complexo apical em uma das extremidades. Do lado direito da imagem, observa-se uma célula arredonda- da, com uma das extremidades mais salien- tes contendo o complexo apical. Figura 11 – A - Esporozoíto e B - Merozoíto de Plasmodium sp. Legenda: Co – conoide; R – roptrias; Mn – micronemas; Me (m) – membrana externa; Mi - membrana interna; dm – dupla membrana interna; Ci – citóstoma; N – núcleo; M – mitocôndria. Fonte: adaptado de Rey (2009, p. 127-128). UNICESUMAR UNIDADE 4 119 O ciclo de vida do Plasmodium no interior do ser humano tem início com a inoculação do proto- zoário pela picada do inseto vetor, o mosquito do gênero Anopheles (Figura 13). O anofelino inocula esporozoítos nas camadas da derme do hospedeiro. Estes esporozoítos migram pelo tecido até atingir a corrente sanguínea. Os esporozoítos na corrente sanguínea, tem tropismo (preferência por um alvo específico) pelos hepatócitos (células do fígado), e após sua invasão se multiplicam por esquizogonia formando milhares de merozoítos, que são liberados na corrente sanguínea (Figura 14). A fase que ocorre nos hepatócitos precede a multiplicação nos eritrócitos sanguíneos e por isso é chamada de exoeritrocítica, pré-eritrocítica ou tissular (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado uma fotografia contendo a imagem aproximada da superfície da pele se um ser humano, onde encontra-se pousado um mosquito do gênero Anopheles, realizando o repasto sanguíneo. O mosquito apresenta como principais características, o abdômen voltado para baixo e o corpo contendo as cores branco e preto intercaladas (listrado). Figura 12 – Mosquito do gênero Anopheles. Todos os merozoítos formados, tanto nos hepatócitos quanto nos eritrócitos, têm a capacidade de invadir outros eritrócitos, mantendo a infecção. Assim, os merozoítos produzidos nos hepatócitos são liberados na corrente sanguínea e invadem os eritrócitos (a fase de maturação do eritrócito invadido depende da espécie do parasito), se multiplicando nestes por esquizogonia e produzindo novamente merozoítos, que após liberados invadirão outros eritrócitos, realizando nova esquizogonia. O ciclo sanguíneo, denominado também de eritrocítico, se repete várias vezes a cada 48 horas para o P. falci- parum e P. vivax, e a cada 72 horas para o P. malariae. O rompimento das hemácias libera diversos metabólitos que provocam a febre característica da infecção, explicando os ciclos de aumento e dimi- nuição da febre, e seus nomes populares febre terçã (um dia com febre e dois dias sem febre) e febre quartã (um dia com febre e três dias sem febre). 120 O ciclo continua quando o inseto vetor, a fêmea do anofelino, ao realizar o repasto sanguíneo ingere hemácias infectadas com o parasita. Durante o processo de infecção das hemácias, alguns merozoítos, ao se reproduzirem por esquizogonia, formam gametas e são denominados gametócitos. Esses game- tócitos, ao serem ingeridos pelo inseto, se rompem e liberam ou microgametas (gametas masculinos) ou macrogametas (gametas femininos). No interior do intestino um microgameta e um macrogameta se fundem formandoo zigoto, denominado de oocineto, que migra para a parede do intestino do inseto, a invade e encista, passando a ser denominado de oocisto. O oocisto sofre então um processo de esquizogonia formando vários esporozoítos que, após liberados, migram através da linfa até dife- rentes tecidos do inseto. Alguns destes esporozoítos atingem a glândula salivar do mosquito e podem ser inoculados com a saliva no próximo repasto sanguíneo. Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado uma representação esquemática do ciclo biológico dos protozoários do gênero Plasmodium. O ciclo tem início na região superior esquerda da figura, onde há o desenho de um mosquito e uma seta apontando para o desenho de um ser humano, indicando a inoculação dos esporozoítos no indivíduo. Deste ponto parte uma seta até o desenho de uma célula no formato de um hexágono, representando um hepatócito, onde ocorre a infecção pelos esporozoítos. Toda sequência é ligada por setas: em seguida há outro desenho de hepatócito indicando que este está infectado; seguindo para a célula com o esquizonte, contendo vários merozoítos no citoplasma; na próxima célula o esquizonte se rompe e libera os merozoítos; os merozoítos infectam um eritrócito, se diferencia em trofozoíto no interior do eritrócito, passa a trofozoíto maduro, depois para esquizonte sanguíneo, ocorre o rompimento do eritrócito e liberação dos merozoítos que refazem esse ciclo. A partir do trofozoíto maduro no interior da hemácia, o ciclo pode seguir para a formação de gametócitos, e estes podem ser ingeridos por um mosquito no repasto sanguíneo, iniciando o ciclo do inseto no lado esquerdo da figura. Seguindo cada etapa por uma seta: no interior do inseto são formados microgametas e macrogametas, que se fundem e formam o oocineto; o oocineto dá origem ao oocisto, que após a formação de milhares de esporozoítos se rompe e libera essas formas, voltando a última seta para o inseto do início do ciclo. Figura 13 – Ciclo de vida do Plasmodium. / Fonte: adaptada de Siqueira-Batista et al. (2020). UNICESUMAR UNIDADE 4 121 Agora que você conhece o parasita e seu ciclo biológico, consegue imaginar como ele causa a doença? A patogenia da infecção pelo Plasmodium sp. está diretamente associada à destruição das hemácias e liberação dos parasitas e seus metabólitos no sangue, ou seja, ligada ao ciclo eritrocítico. Quando as hemácias são lisadas, diversos metabólitos, como o pigmento malárico (hemozoina), derivado da metabolização da hemoglobina pelo parasita, são liberados no sistema circulatório. Ao chegarem no baço, tanto as hemácias infectadas quanto os metabólitos, são fagocitados por macrófagos que se ativam e liberam grande quantidade de citocinas. Estas induzirão diversos processos inflama- tórios (resultando no ataque malárico), além da expressão de moléculas de adesão no endotélio dos capilares sanguíneos. Essas moléculas de adesão sequestram hemácias infectadas (por expressarem moléculas diferentes nas membranas), gerando microcoágulos que interrompem o fluxo sanguíneo, causam lesões nos vasos, promovendo o extravasamento de líquido para o interstício (NEVES, 2016). As alterações causadas pelo parasita resultam em dois quadros clínicos possíveis: “malária não complicada” e “malária grave e complicada” (REY, 2009; NEVES, 2016). O período de incubação da doença varia de espécie para espécie, podendo variar entre 9 dias na P. falciparum a 40 dias na P. malariae. Inicialmente, o paciente sente mal-estar, cefaleia, cansaço e mialgia (dor muscular). Em seguida ocorre a forma mais comum da doença, “malária não complicada”, comum para todas as espé- cies de Plasmodium que infectam o ser humano, se caracterizando pelo ataque paroxístico agudo ou acesso malárico (caracterizado por três fases: 1 - calafrios, com sensação de frio intenso; 2 – sensação de calor e cefaleia intensa, com a temperatura corporal podendo atingir 41º C; 3 – sudorese, caracteri- zada por transpiração intensa, diminuição da temperatura e sensação de alívio), somado à debilidade física, náuseas e vômitos, com o paciente se apresentando pálido e com o baço aumentado. A anemia é frequente, mas sua intensidade é variável dependendo do estágio da doença e da espécie do parasita. A “malária grave e complicada”, se manifesta em crianças, gestantes e adultos que vivem fora das áreas endêmicas. Esta forma da doença é associada, na maioria dos casos, ao P. falciparum, e em menor quantidade ao P. vivax. Esta forma da doença pode apresentar vários quadros clínicos que podem ser observados em conjunto ou isolados, sendo estes: malária cerebral (cefaleia, hipertermia, vômitos, sonolência e pode apresentar convulsões); insuficiência renal aguda; edema pulmonar agudo; hipogli- cemia; icterícia; hemoglobinúria (urina vermelha ou amarronzada devido a presença de hemoglobina, oriunda da hemólise intravascular aguda maciça). A resposta imune contra a malária pode ser dividida em três tipos: resistência inata, imunidade inata e imunidade adquirida (NEVES, 2016). A resistência inata é um fator inerente a cada indivíduo, e embora não se conheça bem seus mecanismos, está relacionada ao fato de que a infecção por parasitas do gênero Plasmodium que infectam outros mamíferos ou grupos de vertebrados, não conseguem produzir a doença no ser humano. Já a imunidade inata está relacionada a ação do sistema imune no primeiro contato com o parasita, provavelmente por ação de receptores inespecíficos associados a células fagocíticas e que tem função fundamental no controle da parasitemia, além da liberação de citocinas pelos macrófagos. A imunidade adquirida tem como principal agente os anticorpos IgG que agem tanto nos parasitas livre no sistema circulatório, como nas hemácias infectadas, levando a sua destruição. Além dos linfó- citos B, os linfócitos T CD4+ têm função importante na mediação da resposta imune. 122 Para que haja certeza no diagnóstico da malária, o parasita ou antígenos relacionados a este, deve ser demonstrado em amostras do sangue periférico do paciente. Portanto, para o diagnóstico desta doença, o exame laboratorial é indispensável. A técnica mais utilizada continua sendo o esfregaço (espesso ou delgado) em lâmina, corados com azul-de-metileno ou Giemsa. Entretanto, é preciso que o profissional da saúde a realizar o exame tenha experiência na sua identificação, o que não é muito comum em áreas endêmicas, devido à precariedade dos serviços de saúde. Uma solução é a utilização de testes imuno- cromatográficos. O tratamento da doença é realizado pela utilização de drogas antimaláricas, sendo as principais: quinina, mefloquina, cloroquina, derivados da artemisinina, tetraciclina e clindamicina. A malária apresenta distribuição global, com maior incidência em países tropicais. A doença encon- tra-se presente em mais de 80 países, sendo o Brasil um importante representante de sua ocorrência (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). No Brasil a doença é endêmica da região norte, onde o vetor, o mosquito do gênero Anopheles, tem presença constante. Embora haja cinco espécies principais res- ponsáveis por causar a doença, três delas P. vivax (80%), P. falciparum (20%) e P. malariae (menos de 1%) são as espécies observadas no país (SI- QUEIRA-BATISTA et al., 2020). A última parasitose, com relação com o sistema sanguíneo, que iremos abordar nesta unidade é a To- xoplasmose, popularmente conhecida como doença do gato. É causada por um protozoário, o Toxoplasma gondii, muito similar na forma ao Plasmodium. O T. gondii é classificado no Filo Apicomplexa, Ordem Eu- coccidiida, Família Sarcocystidae e Gênero Toxoplasma. A toxoplasmose é considerada uma zoonose, sendo que a infecção é comum em várias espécies de mamíferos e aves. A prin- cipal diferença neste aspecto, é que os hospedeiros definitivos são felídeos (entre eles o gato doméstico), enquanto os outros animais, inclusive o ser humano, são os hospedeiros intermediários. No ser humano, o parasita pode ser encontradoem vários tecidos, células e líquidos orgânicos, com exceção das hemácias. Hora, mas não estamos estudando os parasitas relacionados com o sistema circulatório? Sim, mas neste caso, o parasita utiliza o sistema circulatório, tanto cardiovascular como linfático, como um meio de se disseminar e atingir todos os tecidos do organismo. Nos felídeos não imunes (este critério é importante, pois, após infectado uma vez, o felídeo adquire imunidade e não mais desenvolverá a doença), o parasita tem como habitat o epitélio do intestino delgado. UNICESUMAR UNIDADE 4 123 Em todo seu desenvolvimento, tanto no hospedeiro definitivo quanto no intermediário o parasita passa por diferentes formas morfológicas, sendo estas (NEVES, 2016): Microtúbulos Núcleo Mitocôndria Apicoplasto Conóide Roptrias Grânulos densos Micronemas Membrana interna Membrana plasmática Retículo endoplasmático Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado o desenho ilustrativo da célula do T. gondii. A célula apresenta um formato alongado com uma das extremidades afiladas e a outra arredondada, delimitada por duas membranas, uma interna e a outra de- nominada de membrana plasmática mais externa. Na figura pode ser observado as organelas no interior da célula, onde o núcleo encontra-se próximo a extremidade arredondada, seguido por (em direção a extremidade afilada) um apicoplasto, uma mitocôndria, e os componentes do complexo apical: micronemas, grânulos densos, roptrias, microtúbulos e conoide. Figura 14 – Ultraestrutura do Toxoplasma gondii. O Toxoplasma gondii, apresenta em sua ultraestrutura, além das organelas características de células eucarióticas, as organelas comuns do filo Apicomplexa (Figura 15), formando o complexo apical, sendo elas: conoide, anel polar, microtúbulos subpeliculares, micronemas, roptrias e grâ- nulos densos (NEVES, 2016). 124 Das formas descritas para o parasita, os taquizoítos, bradizoítos e oocistos são as formas infectantes, podendo infectar tanto o felídeo quanto o hospedeiro intermediário. O ciclo de vida T. gondii é heteroxeno e constantemente separado em fase assexuada e fase sexuada. O ciclo do parasita (Figura 16), partindo da fase sexuada, tem início quando um felídeo, não imune, ingere cistos (contendo bradizoítos), oocistos ou taquizoítos. Quando o parasita (qualquer uma das formas) chega ao intestino, penetra na célula intestinal e se multiplica por esquizogonia, liberando merozoítos, que infectarão outras células do intestino do felídeo. Algumas destas se desenvolveram em gametócitos femininos, formando um macrogameta, outras se desenvolveram em gametócitos masculinos, formando microgametas. Os microgametas, que são móveis, saem da célula intestinal e vão fecundar um macroga- meta, formando um zigoto. Este, na própria célula que se encontra, formará um oocisto. Após alguns dias, a célula contendo o oocisto se rompe liberando este para o intestino, permitindo que seja externalizado com as fezes. No meio externo o oocisto chega a sua forma madura, contendo em seu interior oito espo- rozoítos, e se mantém viável até 18 meses (REY, 2009; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). • Taquizoíto – é considerado o trofozoíto do parasita, sua forma proliferativa, encontrada na fase aguda. Apresenta o aspecto de uma banana ou meia-lua, sendo uma das extremidades mais afilada, medindo aproximadamente dois micrometros de largura por seis micrometros de comprimento. São encontrados parasitando vários tipos celulares como SMF, células hepáticas, pulmonares, nervosas, musculares, onde se multiplicam por endodiogenia (duas células se formam dentro da célula mãe), além de líquidos corporais e excreções, porém são destruídos rapidamente em contato com o suco gástrico. • Bradizoíto – corresponde a forma que o parasita assume ao formar o cisto tecidual, en- contrado na fase crônica da doença, em diferentes tecidos como: nervoso, retina, muscular esquelético e muscular cardíaco. Sua morfologia é semelhante a do taquizoíta, porém sua multiplicação é bem mais lenta. Outra diferença é que os cistos são mais resistentes ao suco gástrico. Os cistos podem medir até 200 micrometros e conter centenas de bradizoítos. • Merozoíto – corresponde a primeira forma observada no interior do felídeo, e surge quando a forma infectante (taquizoíto, bradizoíto ou oocisto) invadem as células intestinais e se multiplicam por esquizogonia, sendo as células resultantes merozoítos. • Microgameta – corresponde ao gameta masculino e móvel, produzido quando um mero- zoíto infecta uma célula intestinal. Vários microgametas são produzidos por célula infectada. • Macrogameta – corresponde ao gameta feminino e imóvel, produzido quando um me- rozoíto infecta uma célula intestinal. Apenas um macrogameta é produzido por célula infectada. • Oocistos – são formados nas células intestinais dos felídeos quando um macrogameta é fecundado por um microgameta. Contém em seu interior esporozoítos infectantes. Pos- suem uma parede espessa que confere resistência ao ambiente externo, característica essencial, uma vez que são liberados com as fezes. • Esporozoíto – célula infectante formada no interior dos oocistos, com morfologia seme- lhante aos taquizoítos. São liberados no intestino dos hospedeiros vertebrados após a parede do cisto ser degradada no suco gástrico. UNICESUMAR UNIDADE 4 125 Descrição da Imagem: na imagem pode ser observado o ciclo de vida do Toxoplasma gondii. Na parte superior do lado direito, pode ser observado o ciclo, com fases numeradas e setas em vermelho, na seguinte sequência: 1b- o gato libera oocisto nas fezes; 2- peque- nos animais como pombos e ratos ingerem os oocistos; 3- o oocistos liberam taquizoítos; 4- os taquizoítos forma cistos nos tecidos; 5- os gatos ingerem os cistos ao se alimentarem dos animais. Do lado direito superior pode ser observado uma forma diferente de desenvolvimento do ciclo, com fases numeradas e setas pretas, na seguinte sequência: 1a- o gato libera oocisto nas fezes; 2- animais de médio porte como porcos e ovelhas ingerem os oocistos; 3- os oocistos liberam taquizoítos; 4- os taquizoítos formam cistos nos tecidos; A fase 5 não existe, pois, o gato não consegue predar esses animais; 6a- o ser humano ingere carne contendo os cistos viáveis; 6b- o ser humano ingere diretamente os oocistos liberados nas fezes do gato, por meio de água e alimentos contaminados; 7- o ser humano pode se contaminar por meio de transfusão sanguínea ou transplantes; 8- após a liberação dos taquizoítos no ser humano pode ocorrer a transmissão via placenta; 9- após a liberação dos taquizoítos no ser humano pode ocorrer a formação de cistos nos tecidos. Figura 15 – Ciclo biológico do Toxoplasma gondii. / Fonte: adaptada de Manual MSD (2022). 126 A infecção do hospedeiro intermediário, a denominada fase assexuada, ocorre pela ingestão de oocistos presentes em alimentos e água contaminados, cistos presentes na carne crua ou mal- -cozida, ou, com menos frequência, pela ingestão de taquezoítos. Neste último caso, a ingestão ocorre geralmente pela penetração do taquezoíto pela mucosa bucal, uma vez que essa forma não é resistente ao suco gástrico. Os protozoários que chegam ao intestino se diferenciam em ta- quizoítos, penetram na parede intestinal, onde podem infectar diferentes células, e sofrem rápida multiplicação. Os taquizoítos resultantes dessa multiplicação se disseminam para vários tecidos do corpo, onde infectam novas células e se multiplicaram (por endodiogenia), formando mais taquizoítos que novamente se dispersaram pelo corpo, através do sangue ou linfa, refazendo o ciclo, sendo denominada de fase proliferativa, correspondendo a fase aguda da doença. Com a ativação da resposta imune, os taquizoítos são eliminados do sistema circulatório e vísceras. Porém, alguns taquizoítos se diferenciam em bradizoítos, formando cistos nos tecidos. A formação destes cistos caracteriza a fase crônica da doença (REY, 2009; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTAet al., 2020). O T. gondii, na maioria das infecções, não gera nem sintoma no indivíduo, com o desapareci- mento dos taquizoítos e formação dos cistos teciduais em aproximadamente 10 dias. Entretanto, em alguns poucos casos, dependendo da forma de infecção, da cepa (é a denominação dada a um subtipo dentro de uma espécie) do protozoário e da resposta imune do hospedeiro, podem ocorrer complicações relacionadas, essencialmente, a necrose tecidual causada pelos taquizoítos na disseminação da fase aguda. Nestes casos, principalmente em fetos e pacientes imunocompro- metidos, pode ocorrer a morte do indivíduo, relacionada diretamente com os órgãos atingidos. Uma característica importante, relacionada aos pacientes imunocomprometidos, é a reativa- ção dos bradizoítos dos cistos, que se diferenciam novamente em taquizoítos, desencadeando as mesmas complicações da fase aguda. Por este tipo de patogenia, duas formas de toxoplasmose podem ocorrer: Toxoplasmose transplacentária ou pré-natal e Toxoplasmose adquirida ou pós- -natal (NEVES, 2016). Na toxoplasmose transplacentária, a infecção ocorre através da placenta, quando taquizoítos infectam as células da placenta, liberando os novos parasitas na circulação fetal. As consequências para o feto dependem do período da gestação, da cepa do protozoário e da capacidade da imunidade ma- terna proteger o feto. Esse tipo da doença pode resultar em: aborto, parto precoce ou a termo, resultando no nascimento de crianças, sadias, com anomalias ou mesmo mortas. Na toxoplasmose adquirida, a maioria dos ca- sos é assintomática ou leve. Para outros casos, a doença pode se manifestar de forma moderada ou até provocar a morte, gerando uma grande gama de patologias. As mais graves dentre estas são a ocular e UNICESUMAR UNIDADE 4 127 a encefalite. Na ocular os taquizoítos transportados pelo sangue, invadem as células da retina, causando necrose, que pode evoluir para uma cegueira parcial ou total, ou ainda cicatrizar. Na encefalite, que ocorre principalmente em pacientes imunocomprometidos, os parasitas invadem as células cerebrais (hemisfério cerebral, gânglio basal e cerebelo), causando vários pontos de necrose que podem resultar em: cefaleia, febre, paralisia leve, perda da capacidade de coorde- nação muscular, podendo progredir para confusão mental, convulsões, letargia, estupor, coma e morte do paciente (NEVES, 2016). A imunidade contra o T. gondii, se desenvolve tanto de forma humoral como celular. A produção de anticorpos IgG e IgM, são os principais responsáveis pela eliminação do parasita circulante. Já a ativação de linfócitos T CD8+ e células natural killer (NK), agem diretamente nas células infectadas, as destruindo. A principal forma de realização do diagnóstico da toxoplasmose é através de testes sorológicos ou imunológicos, incluindo: reação de Sabin Feldman; imunofluorescência indireta, hemaglutina- ção indireta e imunoensaio enzimático (ELISA), sendo este o último o mais utilizado. A observação do parasita pode ser realizada, mas é direcionada para suspeita de casos graves, na fase aguda da doença, como a infecção transplacentária, onde é colhido líquido amniótico, ou encefalite em pacientes imunocomprometidos, onde se coleta líquido cefalorraquidiano. Em ambos os casos se busca a observação de taquizoítos. O tratamento da toxoplasmose é realizado com fármacos, direcionados aos taquizoítos, o que significa que a doença é incurável, uma vez que os bradizoítos não são afetados e permanecem nos tecidos. Como os medicamentos são tóxicos em uso prolongado, recomenda-se a utilização em casos sintomáticos de gestantes, toxoplasmose ocular e em pacientes imunocomprometidos. Os fármacos utilizados são: pirimetamina, sulfadiazina, espiramicina, prednisona e clindamicina, que podem estar associados ou não. Com relação à epidemiologia da doença, sabe-se com clareza, que apenas os felídeos, domésticos ou selvagens, podem realizar o ciclo sexuado. O parasita pode ser encontrado em praticamente todos os países do mundo, com variação na prevalência, sendo que as mais altas são observadas na América Latina e África tropical. O maior surto da doença, ligada a contaminação hídrica, ocorreu entre 2001 e 2002, na cidade de Santa Isabel do Ivaí, no Paraná, onde 462 indivíduos (de uma po- pulação de 9000 habitantes) apresentaram resultado positivo para o teste sorológico do parasito. Neste podcast, você vai entender as principais características do exame parasitológico de sangue para detecção de protozoário, identificação de suas vantagens e problemas. Acesse o QRCode e aperte o play! https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13775 128 As parasitoses discutidas nesta unidade, apresentam grande impor- tância para a saúde pública por afetar milhares de pessoas todos os anos. O conhecimento sobre o ciclo de vida, bem como o correto diagnóstico das infecções é fundamental para estabelecer parâme- tros de controle e prevenção das doenças, que pode ser realizado pelo controle dos vetores ou pela administração de fármacos que impedem a liberação do parasita para o ambiente. Muito bem caro(a) aluno(a), como você se saiu na pesquisa que propusemos? Conseguiu identificar e responder as questões que levantamos no início da unidade? Nesta unidade destacamos os principais conceitos do sistema circulatório, caracterizando-o como composto pelo sistema cardiovascular e pelo sistema linfático. Você pode identificar as principais parasitoses causadas por protozoários que utilizam o sistema circulatório como meio para atingir outros tecidos do corpo, como por exemplo a leishmaniose e toxoplasmose, ou mesmo utilizando-o como habitat como a malária. Agora você será capaz de entender e responder nossa proposta inicial. Resgate o exercício proposto no início da unidade e tente resolvê-lo com os conhecimentos que agora possui. Como apresen- tamos nesta unidade, a leishmaniose, toxoplasmose, malária e tripa- nossomíase, são as principais parasitoses causadas por protozoários em que se pode observar o parasita direto na amostra. Entretanto, outras parasitoses também podem ser detectadas pela análise do sangue, com a diferença de que outros testes deverão ser utilizados para determinar o diagnóstico final, pois, os testes imunológicos e mesmo os moleculares são indicações indiretas do parasita, podendo representar tanto falso positivo quanto falso negativo. Um dos principais problemas dessa análise parasitológica, é que muitos parasitas apresentam em seu ciclo de vida, fases em que não estão presentes no sistema circulatório e, portanto, não são detectados, mesmo com a infecção ainda ativa. Para contornar isso, o diagnóstico dessas parasitoses deve utilizar os conhecimentos da biologia do provável parasita para determinar quando e quantas vezes coletar amostras de sangue para análise. Somando-se a isto, se deve analisar características clínicas, métodos imunológicos, mo- leculares ou outras técnicas (por exemplo a cultura em vitro) para complementar o diagnóstico. UNICESUMAR 129 Caro(a) aluno(a), com base nos conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, estou certo de que é capaz de preencher o mapa mental a seguir. SISTEMA CIRCULATÓRIO Protozoário Leishmania sp. Esporozoíto Utiliza como habitat Constituído por: 130 Muito bem, caro(a) aluno(a), agora é com você. De acordo com os conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, responda as questões a seguir. 1. Leia o texto a seguir: O complexo corpo humano compõe-se de células especializadas, que apresentam uma divisão de trabalho. As células especializadas de um organismo multicelular dependem umas das outras para as necessidades básicas de sua existência. Por essa razão, é necessário um meio altamente eficaz de transporte de materiais no organismo. O sangue serve a essa função de transporte. Aproximadamente 96,5 quilômetros de vasos através do corpo de um adulto asseguram que essa sustentação contínua atinja cada uma dos trilhões de célulasvivas. Fonte: FOX, S. I. Fisiologia Humana. 7. ed. Barueri/SP: Editora Manole, 2007, p. 366. O sistema circulatório desempenha funções essenciais para o organismo, como transportar nutrientes e oxigênio para todas as partes do corpo. Por esta razão acaba desempenhando um papel muito importante também para os parasitas. Com base neste assunto, cite, por meio de um texto dissertativo de três a cinco linhas, os componentes do sistema circulatório. 2. Leia o texto a seguir: A leishmaniose tegumentar, também denominada úlcera de Bauru ou ferida brava, é uma doença infecciosa não contagiosa, com grande impacto à saúde pública. É causada por pro- tozoários flagelados do gênero Leishmania, parasita pertencente à família Trypanosomatidae, transmitido aos humanos pela picada das fêmeas de flebotomíneos do gênero Lutzomyia, cujo nome popular é “mosquito-palha”. Fonte: SIQUEIRA-BATISTA, R. et al. Parasitologia – Fundamentos e Prática Clínica. Grupo GEN, 2020, p. 190. Explique, por meio de um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, a fase do vertebrado do ciclo de vida de Leishmania sp.. 3. Leia o texto a seguir: A malária – enfermidade parasitária de maior relevância para o Homo sapiens no planeta, em termos clínicos e de saúde pública – pode ser caracterizada como doença febril, não conta- giosa, com acometimento de múltiplos órgãos e sistemas, de evolução potencialmente grave, quando não tratada precocemente. SIQUEIRA-BATISTA, R. et al. Parasitologia – Fundamentos e Prática Clínica. Grupo GEN, 2020, p. 216. Explique, por meio de um texto dissertativo de cinco a dez linhas, a patogenia relacionada ao Plasmodium sp. 5 Caro(a) aluno(a), nesta unidade, você aprenderá sobre quem são os helmintos e suas características. Dentre os grupos de helmintos, você vai conhecer e estudar os nematódeos, especificamente os responsáveis por causar a ascaridíase, ancilostomose, enterobiose, tricuríase e filariose, aprendendo sobre os agentes etiológicos des- sas parasitoses, sua biologia e métodos de diagnóstico. Helmintos: Nematódeos Parasitos Dr. Vinícius Pires Rincão 132 A grande diversidade de espécies no mundo, ani- mais, vegetais, fungos e microrga- nismos, conferem ao ser hu- mano uma gama imensa de alimentos. Alguns desses alimentos devem ser cozidos, outros podem ou não passar por este processo, e, neste último caso, os ali- mentos consumidos cru, podem transmi- tir com maior facilida- de diversas doenças, entre elas, várias parasitoses. Caro(a) aluno(a), você deve ter o conhecimen- to, e o hábito, de que toda a fruta, verdura e legume deve ser lavado corretamente antes do consumo, e com certeza essa é uma prática muito importante. Mas você já se perguntou: contra quais doenças essa prática nos protege? Como essas doenças al- cançaram esses alimentos? Todos os parasitos do ser humano, com exceção de alguns artrópodes, precisam estar no interior do corpo humano para estabelecer o parasitismo. Para isso, uma etapa fundamental de seu ciclo de vida é a entrada no organismo. Existem diferentes for- mas pelas quais protozoários e helmintos podem entrar no corpo humano, sendo que a principal via ou porta de acesso é o sistema digestório. Para que isso ocorra, o indivíduo deverá ingerir a forma infectante do parasito, que deve estar viável, ou seja, não pode ter passado por nenhum processo que cause a morte ou inativação das células. Co- zer os alimentos, por exemplo, causa a morte da maioria das formas infectantes dos parasitos. Por esta razão, o consumo de alimentos crus, quando não higienizados corretamente, pode trazer riscos para o ser humano. UNICESUMAR UNIDADE 5 133 Como você pode perceber, muitas parasitoses são dependentes do tipo de alimento e da forma como nos alimentamos. Assim, gostaria de propor uma atividade a você: pesquise e identifique a forma infectante das principais helmintíases (doenças causadas por helmintos) que podem ocorrer em sua região, e determine por quais formas você poderia entrar em contato com esses animais durante sua alimentação. A culinária, em qualquer parte do mundo, tem como princípio criar pratos e sabores que agradem a todos os tipos de paladar. Desde a alimentação em famílias mais humildes, a restaurantes de renome, os procedimentos para o preparo e consumo dos alimentos são variados, exatamente na tentativa de alcançar esse princípio. Muitos desses procedimentos têm como característica a utilização de alimentos crus ou malcozidos, o que, mesmo quando são realizados procedimentos considerados, popularmente, corretos de higienização, podem possibilitar a sobrevivência tanto de microrganismos quanto das formas infectantes de helmintos e ocasionar a ocorrência de uma parasitose. Mas como alimentos corretamente higienizados podem provocar parasitoses? Como as formas infectantes podem sobreviver a procedimentos corretos de preparo de alimentos? Como estas formas infectantes chegaram aos alimentos? E, talvez o mais importante, como eliminar essas formas infectantes dos alimentos? Caro(a) aluno(a), agora é sua vez. Pense na pesquisa que você fez, e nas questões que levantamos, e escreva seus resultados no seu diário de bordo, a fim de que eu e você possamos analisá-las juntos no decorrer desta unidade. 134 Como já foi apresentado a você, os parasitos são encontrados entre dois grupos principais de organismos: os protozoários e os helmintos. Já estudamos os protozoários, entendendo suas características como seres unicelulares, seu ci- clo de vida e as principais doenças que causam. Vamos começar aqui o estudo dos helmintos. Caro(a) aluno(a), tenho certeza de que, em algum momento em sua vida, você já ouviu al- guém mencionar que uma determinada pessoa, ou por estar muito magra, ou por apresentar algum tipo de enfermidade, com certeza es- taria com verme. Será que essa afirmação tem algum significado? O que são vermes? Como se relacionam com os helmintos? “Os helmintos (gr. hélmins = vermes) cons- tituem um grupo muito numeroso de animais, incluindo espécies de vida livre e de vida para- sitária” (NEVES, 2016, p. 215). Constituem um grupo de animais metazoários (compostos por muitas células) com o corpo alongado, achatado ou cilíndrico (SIQUEIRA-BATIS- TA et al., 2020). Dentre todos os filos de hel- mintos, aqueles que abrigam parasitos são: Platyhelminthes, Nematoda e Acanthoce- phala. Destes, estudaremos os representantes dos dois primeiros, pois a Acanthocephala apresenta pouca representatividade para pa- rasitoses humanas (Quadro 1). UNICESUMAR UNIDADE 5 135 CL AS SI FI CA ÇÃ O D E AL G U N S H EL M IN TO S PA RA SI TO S D O S SE RE S H U M AN O S Fi lo Cl as se O rd em Fa m íli a G ên er o Es pé ci e (e xe m pl o) Pl at yh el m in th es Tr em at od a St rig ei fo rm es Sc hi st os om at id ae Sc hi st os om a S. m an so ni S. ja po ni cu m S. h ae m at ob iu m Ec hi no st om at ifo rm es Fa sc io lid ae Fa sc io la F. h ep át ic a O pi st ho rc hi fo rm es H et er op hy id ae As co co ty le A. lo ng a Ce st od a Cy cl op hy lli de a Ta en iid ae Ta en ia T. s ol iu m T. s ag in at a Ec hi no co cc us E. g ra nu lo su s H ym en ol ep id id ae H ym en ol ep is H . n an a H . d im in ut a D ip yl id iid ae D ip yl id iu m D . c an in um An op lo ce ph al id ae Be rt ie lla B. m uc ro na ta B. s tu de ri D ip hy llo bo th rid ea D ip hy llo bo th rii da e D ip hy llo bo th riu m D . l at um Sp iro m et ra Sp iro m et ra s p. 136 CLASSIFICAÇÃO D E ALG U N S H ELM IN TO S PARASITO S D O S SERES H U M AN O S Filo Classe O rdem Fam ília G ênero Espécie (exem plo) N em atoda Crom adorea Rhabditida Ascarididae Ascaris A. lum bricoides Toxocara T. canis Lagochilascaris L. m inor Angyostrongylidae Angyostrongylus A. cantonensis A. costaricensis O xyuridae Enterobius E.verm icularis Strongyloididae Strongyloides S. stercoralis Ancylostom atidae Ancylostom a A. duodenalis N ecator N . am ericanus Syngam idae M am m om onogam us M . laryngeus O nchocercidae W uchereria W . bancrofti O nchocerca O . volvulus Enoplea Trichocephalida Trichuridae Trichuris T. trichiura Trichinellidae Trichinella T. spiralis Capillariidae Calodium C. hepática Acanthocephala Archiacanthocephala M oniliform ida M oniliform idae M oniliform is M . m oniliform is O ligacanthorhynchida O ligacanthorhynchidae M acracanthorhynchus M . hirudinaceus Q uadro 1 – Classificação de helm intos parasitos dos seres hum anos. / Fonte: A daptado de N eves (20 16, p. 216) UNICESUMAR UNIDADE 5 137 Embora você provavelmente tenha familiaridade quanto ao termo verme, e mesmo consiga re- lacioná-lo a uma forma específica de animal, a diversidade morfológica dos helmintos é grande e será caracterizada com detalhes para cada um dos agentes etiológicos das parasitoses humanas que vamos discutir, principalmente porque uma das formas mais utilizadas para o diagnóstico dessas doenças, é a observação direta do parasito. Nesta unidade, você aprenderá sobre as principais parasitoses humanas causadas pelos ne- matódeos (Filo Nematoda), que são vermes com a característica principal de possuírem o corpo cilíndrico e alongado, reunindo mais de 24.000 espécies em todo mundo (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). “Dentro do filo Nematoda ou Nemata (gr. nêma ou nêmatos = fio), são encontrados representantes com os mais diversos tipos de hábitat, desde espécies saprófitas de vida livre, aquá- ticas ou terrestres, até parasitos de vegetais, invertebrados e vertebrados” (NEVES, 2016, p. 220). Esses vermes podem ter tamanho variado, dependendo da espécie, de poucos milímetros a dezenas de centímetros. Seu corpo cilíndrico não é segmentado, apresentando simetria bilateral, e cavidade interna não revestida por um epitélio, sendo esta preenchida com líquido, caracteri- zando-os como pseudocelomados (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). • Celoma: Cavidade corporal, constituindo um espaço preenchido por líquido ou ar, localizado entre o trato digestório e a parede externa do corpo, presente em animais com os três folhetos embrionários: endoderme, mesoderme e ectoderme. • Animais celomados: são aqueles onde a cavidade corporal é totalmente circundada pela mesoderme. Um exemplo desse tipo de animal é a minhoca. • Animais pseudocelomados: são aqueles onde a cavidade corporal é formada em parte pela mesoderme e em parte pela endoderme. Um exemplo desse tipo de animal é a lombriga (As- caris lumbricoides). • Animais acelomados: são aqueles onde não ocorre a formação de cavidade corporal. Um exemplo desse tipo de animal é a planária. Fonte: Reece et al. (2015). Esses vermes possuem os três folhetos embrionários (endoderme, mesoderme e ectoderme), um tubo digestório completo com a cavidade anal ou cloacal abrindo próximo a extremidade posterior do corpo; não apresentam sistema circulatório e nem ventosas (Imagem 1). 138 Os nematódeos apresentam sexos separados, ou seja, há um indivíduo macho e outro fêmea, sendo, portanto, denominados de dióicos. No filo Nematoda, o macho sempre será menor que a fêmea (Imagem 1b). O corpo destes animais é revestido por uma camada acelular e lisa, denominada de cutícula. Não apresentam sistema circulatório, sendo o líquido presente no pseudoceloma, responsável pelas funções que seriam realizadas por esse sistema. O sistema nervoso é constituído por um anel em torno do esôfago (considerado um cérebro), de onde partem nervos para a região anterior e posterior do corpo. O sistema excretor consiste em um sistema tubular, formado por dois canais que percorrem todo o corpo do verme e se abrem no poro excretor, localizado na região anterior. Possuem gônadas específicas, em geral tubulares, com testículos nos machos e ovários nas fêmeas (REY, 2008; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). O primeiro nematódeo que você vai conhecer é o Ascaris lumbricoides, popularmente conhecido como lombriga. Esse verme é encontrado em quase todos os países do mundo, porém, com uma inci- dência que varia de acordo com as mudanças climáticas, ambientais e principalmente condição social Nervo ventralCordão ventral Glândulas faríngeas Fibras musculares da faringe Lúmem da faringe Pseudocelo Cordão lateral Canal excretor Cutícula Epiderme Braços musculares Camada muscular Cordão dorsal Nervo dorsal a b d c e h f d g i A B a) b) Descrição da Imagem: A imagem apresenta dois desenhos, A e B, que ilustram os nematódeos. Do lado esquerdo está o desenho A, em que é possível observar uma estrutura cilíndrica, em um corte transversal, com três camadas, uma camada externa, “Cutícula”, uma camada média, “Epiderme”, e uma camada mais interna, “Muscular”. No interior, é possível observar gomos ao longo de toda a circunferência. No centro, há uma estrutura circular e no centro dela uma estrutura em forma de estrela, com três pontas e vários riscos que saem dela e vão até a borda da estrutura circular. Na parte superior da estrutura cilíndrica, um dos gomos está identificado como “Cordão dorsal”. Na ponta desse cordão, há uma estrutura pequena e redonda identificada como “Nervo dorsal”. Dessa estrutura, saem os braços articulares que se conectam a outros cordões. Na parte inferior, na mesma direção do cordão dorsal, está o “Cordão Ventral”, e na sua ponta está o “Nervo Ventral”. Do lado direito, está o desenho B, em que são observados dois desenhos esquemáticos do verme Enterobius vermicularis. No desenho do lado esquerdo, é possível visualizar a fêmea, um verme longo, com as extremidades afuniladas. Também é possível ver os seus órgãos, começando na parte superior: a- expansões vesiculosas; b- esôfago com bulbo esofagiano; c- intestino; d- úteros; e- vagina; f- ovários e ovidutos; g- reto e ânus. No desenho do lado direito, é possível visualizar um verme menor, o macho, com parte do corpo enrolado. Também é possível visualizar alguns órgãos: h- canal ejaculador; i- testículo. Figura 1 – a) Corte transversal de um nematódeo, b) Indivíduos adultos de Enterobius vermicularis (A - fêmea: a- expansões ve- siculosas; b- esôfago com bulbo esofagiano; c- intestino; d- úteros; e- vagina; f- ovários e ovidutos; g- reto e ânus; B - macho: h- canal ejaculador; i- testículo). / Fonte: a) Arruda (2014); b) Adaptado de Rey (2008, p. 277). UNICESUMAR https://bit.ly/3FLVu1E UNIDADE 5 139 da população (NEVES, 2016). Esta última característica demonstra ser um importante fator, uma vez que o investimento e aprimoramento dos programas de saúde pública no Brasil, tem evidenciado uma tendência na diminuição dos casos anuais. Ainda assim, as estimativas mais recentes apontam para uma prevalência de aproximadamente 1,5 bilhões de pessoas infectadas em todo o mundo. No Brasil, a doença afeta principalmente crianças em idade escolar. O Ascaris lumbricoides, pertencente ao Filo Nematoda, Classe Cromadorea, Subclasse Chromadoria, Ordem Rhabditida, Família Ascarididae e Gênero Ascaris, é o agente etiológico da Ascaridíase, uma parasitose considerada um grave problema de saúde pública, que ataca o intestino delgado humano (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Como já descrito, os nematódeos apresentam como características serem dióicos. Assim, a carac- terização da morfologia do A. lumbricoides é baseada nas características do macho, da fêmea e do ovo. Como características gerais, os adultos apresentam o corpo cilíndrico, alongado, fino e com as extremidades afiladas. O tamanho do verme é dependente da nutrição que receberá do hospedeiro, além da competição que ocorrerá contra outros parasitos dividindo o mesmo habitat. No entanto, o macho sempre será menor que a fêmea (Imagem 2). O parasito macho adulto mede entre 20 e 30 centímetros de com- primento por 2 a 4 milímetros de largura, com uma coloração leitosa. A região anteriordo verme apresen- ta uma boca formada por três lábios, contendo serrilha de dentículos (NEVES, 2016). O sistema digestó- rio se estende por todo o corpo jun- to com um testículo filiforme, sendo que ambos se abrem na cloaca, na região posterior. A região posterior apresenta dois espículos acessórios para a cópula, e encontra-se encur- vada em direção a região ventral do verme (Imagem 2). O parasito fêmea adulto mede entre 30 e 40 centímetros de com- primento por 3 a 6 milímetros de largura. Todas as características morfológicas internas do corpo da fêmea se assemelham com o macho. A exceção ocorre com os órgãos genitais que são compostos por dois ovários filiformes, que se diferenciam na sequência em úteros, os quais se fundem e se exteriorizam por uma vagina no terço anterior do corpo do verme. Por esta razão, a fêmea tem um ânus e não uma cloaca. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada a fotografia de dois vermes cilíndricos, alongados, com as extremidades afiladas, com coloração lei- tosa, sendo que o mais externo constitui a fêmea, que é maior que o do centro, que constitui o macho. O macho apresenta a extremidade posterior curvada e enrolada ventralmente. Figura 2 – Ascaris lumbricoides. 140 O ovo do Ascaris lumbricoides apresenta características específicas que permitem diferenciá-lo de outros parasitos, sendo um dos principais indicativos da infecção. Esse ovo apresenta um tama- nho entre 50 e 60 micrômetros, de formato oval, contendo três membranas, sendo a mais externa com aspecto mamilonado (ou seja, apresenta protuberância característica), com coloração branco ou castanho a fresco (Imagem 3). No interior dos ovos fertilizados ocorrerá o desenvolvimento das larvas do parasito, que em geral apresentam de duas formas, sendo que estas correspondem às fases de seu desenvolvimento: larva rabditóide (com esôfago com dilatações laterais) e larva filarióide (com esôfago com retilíneo) (ZEIBIG, 2014; NEVES, 2016). O verme causador da as- caridíase apresenta um ciclo de vida monoxênico, com uma fase no ambiente, cujo hospedeiro definitivo é o ser humano. O habitat do verme adulto é o intestino delgado, principalmente jejuno e íleo. No entanto, em infecções graves, toda a extensão do órgão pode ser ocupada. O ciclo tem início com a liberação dos ovos fertili- zados com as fezes. No am- biente, os ovos se desenvol- vem passando por três fases larvais (L), sendo que a L3 (a larva infectante) perma- nece dentro das membra- nas do ovo. Quando o ovo contendo a larva infectante é ingerido, através de água e alimentos contaminados, após chegarem no intestino delgado, as larvas eclodem, penetram na parede intestinal, atingindo o sistema circulatório sanguíneo. No sistema san- guíneo, o verme migra pela veia porta, passa pelo fígado e atinge o coração pela veia cava inferior. Do coração, o parasito vai até o pulmão, onde se desenvolve, rompe a parede pulmonar, acessa os brônquios, a traqueia e chega à faringe, de onde pode ser expectorado para fora do corpo, ou, mais comumente, ser novamente deglutido, atingindo o intestino delgado na forma de L5, onde se fixa. Os vermes se tornam adultos cerca de 30 dias após a infecção e podem viver por até dois anos, sendo que a fêmea pode colocar aproximadamente 200.000 ovos por dia (REY, 2008; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Os ovos são então liberados com as fezes, recomeçando o ciclo (Imagem 4). Descrição da Imagem: Na imagem, é apresentada uma micrografia de uma amostra de fezes, em que se encontram seis ovos de A. lumbricoies, observando a membrana externa mamilonada. Figura 3 – Ovo de Ascaris lumbricoides. UNICESUMAR UNIDADE 5 141 Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma ilustração descrevendo o ciclo de vida do Ascaris lumbricoides. No centro da imagem, está representada a silhueta de um ser humano, em que podem ser identificados seus órgãos internos, sendo estes, de cima para baixo, faringe, esôfago, pulmões, estômago, fígado, intestino delgado e intestino grosso, terminando no ânus. O ciclo começa com a imagem de um ovo contendo uma larva sendo ingerido pela boca, passando pelo estômago, chegando ao intestino e, deste, voltando ao pulmão. Continua com uma seta verde, indicando que do pulmão a larva volta ao intestino delgado, onde se instala e se desenvolve em indivíduos adultos. Os vermes adultos estão representados em um desenho no centro de um círculo no lado direito da imagem. A partir do intestino delgado, os produzidos são liberados nas fezes e vão para o ambiente, representado na imagem por uma área gramada. A partir deste ponto, os ovos não fertilizados morrem, enquanto os ovos fertilizados seguem uma sequência na porção esquerda da imagem, passando pelo estágio de duas células, estágio avançado de clivagem e volta ao ovo embrionado do começo, com uma larva dentro, e pronto para infectar um indivíduo. Figura 4 - Ciclo biológico do Ascaris lumbricoides. Estágio infeccioso 8. Vermes adultos no intestino delgado 5. A larva é liberada no intestino 2. Estágio de duas células 3. Clivagem avançada 4. Ovo embrionado 9. Ovos nas fezes 1. Ovo fertilizado Ovo não fertilizado 6-8. Migração da larva A ascaridíase é caracterizada pelas complicações causadas pelo parasito se desenvolvendo no orga- nismo enquanto realiza seu ciclo biológico. Neste ponto, a patogenia da doença é dependente da fase de desenvolvimento do verme e da quantidade desses vermes no hospedeiro. 142 As alterações no organismo causadas pelas larvas dependem da intensidade da infecção. Infecções com pouca intensidade não desenvolvem complicações, porém, quando a quantidade de larvas é grande, a migração destas pelo fígado e pulmão pode provocar lesões, desde focos hemorrágicos até quadro pneumônicos no pulmão (ZEIBIG, 2014; NEVES, 2016). As infecções com os vermes adultos seguem o mesmo princípio. Poucos vermes não causam altera- ções perceptíveis, porém, infecções médias (30 a 40 vermes) ou maciças (100 ou mais vermes) podem provocar complicações graves. As principais alterações incluem: ação espoliativa (onde os vermes consomem nutrientes ingeridos pelo indivíduo), ação tóxica (edemas, urticárias e até convulsões em decorrência da resposta imunológica a antígenos do parasito), localização ectópica (parasito em local diferentes de seu habitat normal, por exemplo, ducto pancreático) e ação mecânica (irritação na parede intestinal ou obstrução da luz intestinal). Este último tipo de complicação é o mais comum, essen- cialmente a obstrução intestinal (Imagem 5), principalmente em crianças, nas quais a luz intestinal é menor, levando à realização, em muitos casos, de cirurgias desobstrutivas. Descrição da Imagem: Na imagem, é possível identificar um mesmo fragmento de intestino humano, fotografado em dois momentos. Em “A”, do lado esquerdo, o fragmento de intestino acabará de ser removido do paciente, e pode ser observado no interior de uma vasilha cirúrgica, apresentando vermes saindo de uma das extremidades seccionada. Em “B”, do lado direito, o fragmento foi aberto e podem ser observados diversos vermes se enrolando em seu interior, obstruindo completamente a passagem das fezes. Figura 5 - Fragmento de intestino obstruído por Ascaris lumbricoides. / Fonte: adaptado de Mwenda e Ilkul (2013). Como a doença se desenvolve geralmente de modo assintomático, a ascaridíase é diagnosticada por meio do exame parasitológico de fezes, com a constatação da presença dos ovos parasito (SIQUEIRA- -BATISTA et al., 2020). Como a quantidade de ovos liberados diariamente é grande (200.000 ovos dia por fêmea), basta a realização da técnica de precipitação espontânea, sem a necessidade de concentração. Outro ponto importante a ser avaliado é a quantidade de ovos, pois, como as consequências da infecção são dependentes da intensidade, esse parâmetro se torna importante para a avaliação médica. Para esse fim, recomenda-se a técnica de Kato-Katz (quantificação dos ovos)(NEVES, 2016). O tratamento da doença é realizado por meio de anti-helmínticos, sendo que os mais indicados são o albendazol e mebendazol, que são pouco absorvidos pelo organismo, agindo principalmente a nível intestinal. Há, ainda, a ivermectina, que, embora seja absorvida pelo sangue, acaba sendo eli- minada com as fezes via fígado. UNICESUMAR UNIDADE 5 143 Embora a maioria dos parasitos discutidos nesta unidade tenham seu ciclo de vida com estágios bem distintos e característicos, uma etapa é semelhante: a maturação dos ovos no ambiente. Para estes parasitos, a etapa em que os ovos são liberados para o ambiente é fundamental, pois, no ambiente, as diferenças de temperatura e umidade levam ao processo de maturação dos ovos e formação das larvas infectantes. Como a maioria destes parasitos têm seus ovos liberados para o solo, receberam a denominação comum de “geo-helmintos” (geo, do grego “ge”, que significa terra). Outro geo-helminto de grande importância para a saúde pública é o agente causador da Ancilos- tomíase, conhecida popularmente como “amarelão” ou “mal dos mineiros” (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Neste caso, três espécies são responsáveis pela doença: Ancylostoma duodenale, Necator americanus e Ancylostoma ceylanicum. Destes, apenas os dois primeiros têm importância signifi- cativa no Brasil. Estima-se que, na região da América Latina, aproximadamente 50 milhões de pessoas estão infectadas por um destes agentes etiológicos (NEVES, 2016). Estes gêneros Ancylostoma e Necator são classificados no Filo Nematoda, Família Ancylostomatidae (Quadro 1), porém, podem ser diferenciados com base em características morfológicas. Para ambas as espé- cies, o dimorfismo sexual, em que a fêmea é maior que o macho, é característica. Além do tamanho menor, os machos também apresentam a bolsa copulatória, caracterizada como uma projeção da cutícula (Imagem 6). Descrição da Imagem: Na imagem, são observadas duas micrografias. Na micrografia da esquerda, são observados os vermes, macho (na porção inferior) e fêmea (na porção superior), do gênero Ancylostoma. Na micrografia da direita, é observado um ovo de Ancylostoma, com a casca transparente e a massa de células no centro. Figura 6 - Indivíduos adultos e ovo do gênero Ancylostoma. / Fonte: Wiktionary (2022) Muitos artigos científicos, livros ou mesmo reportagens citam infecções parasitárias causadas por geo-hel- mintos. Com base no que discutimos até agora, você consegue entender o que esse termo representa? file:///V:/Producao_de_Materiais/03_Gradua%c3%a7%c3%a3o/08_Hibridos/07_Biomedicina/2023/B3/PARASITOLOGIA%20CL%c3%8dNICA/03_Design%20Editorial/Word/%20 144 A espécie Necator americanus apresenta os indivíduos adultos com forma cilíndrica, sendo o macho com 5 a 9 milímetros de comprimento, enquanto a fêmea possui entre 9 a 11 milímetros de comprimento. A cápsula bucal (Imagem 7a) desse verme possui quatro placas cortantes (duas subventrais e duas subdorsais) (REY, 2009; NEVES, 2016). A espécie Ancylostoma duodenale apresenta indivíduos adultos com forma cilíndrica, sendo o macho com 8 a 11 milímetros de comprimento, enquanto a fêmea possui entre 10 a 18 milímetros de comprimento. A principal diferença do A. duodenale para N. americanus se encontra na cápsula bucal, pois, para esta espécie, no lugar de placas, são observados quatro dentes ventrais (Imagem 7b). Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observadas duas micrografias da extremidade anterior de dois vermes da Família Ancy- lostomatidae. Na micrografia da esquerd,a pode ser observada a extremidade anterior do Necator americanus, com duas placas cortantes visíveis. Na micrografia da direita, pode ser observada a extremidade anterior de Ancylostoma duodenale, com quatro dentes visíveis. Figura 7 - Capsula bucal de Necator americanus (a) e Ancylostoma duodenale (b). / Fonte: Fiocruz (2021). Os ancilostomídeos diferem dos demais geo-helmintos quanto ao seu ciclo biológico, por realizar a eclosão dos ovos ainda no ambiente, o que modificará em parte seu modo de infecção. O habitat deste verme é o intestino delgado do ser humano, e seu ciclo de vida é monoxênico, assim, como as larvas são liberadas no ambiente, o caminho desenvolvido pelo verme para alcançar seu habitat é diferenciado. UNICESUMAR UNIDADE 5 145 O ciclo biológico dos ancilostomídeos (Imagem 8) tem início com a liberação dos ovos com as fezes. No ambiente, os ovos se desenvolvem até o estágio de L3 (larva filarióide), em que ocorre a eclosão do ovo e liberação da larva no ambiente. A infecção do ser humano ocorre principalmente pela penetração ativa da larva L3, livre no ambiente, pela pele do hospedeiro (embora menos comum, as larvas podem ser ingeridas e gerar a doença). Após penetrarem no hospedeiro, as larvas migram pelo sistema circulatório (sanguíneo ou linfático) até os pulmões, atravessam para os alvéolos, sobem pelos brônquios, traqueia e laringe, atingindo a faringe, onde podem ser expectoradas ou deglutidas. Caso sejam deglutidas, as larvas chegam até o intestino delgado, onde se estabelecem se alimentando do sangue liberado das lesões causadas pelo próprio parasito na parede intestinal. Após um período médio de 40 dias, os vermes adultos estão aptos a se reproduzirem, ocorrendo a reprodução sexuada e liberação dos ovos pelas fêmeas na luz intestinal. Ovos são então libe- rados com as fezes, recomeçando o ciclo (REY, 2008; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Descrição da Imagem: Na imagem pode ser observado o ciclo de vida do Ancylostoma duodenale. O ciclo começa na região superior da imagem, com a larva penetrando a pele em uma figura de um pé humano. Em seguida, está ilustrado a silhueta do tronco de um ser humano, em que são observados os órgãos internos: faringe, esôfago, laringe, pulmões, coração, estômago e intestinos. Nessa silhueta, é demonstrada uma sequência de setas vermelhas, descrevendo o percurso realizado pela larva, sendo esse: saída da circu- lação sanguínea nos pulmões, migração até a faringe, deglutição pelo esôfago, passagem pelo estômago e chegada até o intestino. Em seguida, uma seta azul indica a saída dos ovos junto com as fezes, seguida por uma seta indicando que o ovo eclodiu e liberou uma larva rabditóide. Em seguida, uma nova seta liga a uma segunda larva, mais comprida e delgada, a larva filarioide, que está ligada por uma seta à ilustração inicial do pé humano. No lado direito inferior da imagem, estão representadas três bocas de três espécies do verme, que causam a doença em seres humanos, sendo eles Ancylostoma duodenale, Ancylostoma ceylanicum e Necator americanus. Figura 8 - Ciclo biológico Ancylostoma duodenale. / Fonte: CDC (2019) Estágio infeccioso Estágio de diagnóstico Larva filarióide penetra pela pele A s larvas saem da circulação nos pulmões, elas são então expectoradas e engolidas As larvas de Ancylostoma spp. podem parar o desenvolvimento e ficarem adormecidas nos tecidos. Larvas reativadas podem adentrar o intestino delgado Adultos no intestino delgado Ovos nas fezes Larva rabditóide sai do ovo Desenvolvimento para larva filarióide no ambiente Ancylostoma duodenale Ancylostoma ceylanicum Necator americanus 146 A patogenia desencadeada pelo ancilostomídeo tem início no local da penetração do parasito na pele, onde surgem erupções papulovesiculares eritomatosas. Em seguida, a migração da larva pelo organismo, especialmente os pulmões, desencadeia tosse, febre e faringite. No intestino, devido principalmente às lesões provocadas pelo parasito para se alimentar, pode-se ter dor epigástrica, cólicas, náuseas, vômito, diarreia, diminuição do apetite, colecistite e ulceração intestinal. O diagnóstico da doença é realizado por meio de análise dos sintomas e, principalmente, pelo exame parasitológico das fezes, buscando a presença de ovos do parasito que são característicos (Imagem 6), sendo ovóides ou elípticos, com a casca muito fina e transparente, possibilitandoa observação da massa embrionada de células no interior. Entre a casca e as células da massa embrio- nada, há sempre um espaço transparente (REY, 2008). O tratamento da ancilostomíase é simples, bastando a administração de uma única dose de fármacos contendo benzimidazóis. Vamos falar agora de outro geo-helminto de grande importância para a saúde pública, o Ente- robius vermicularis (Imagem 9). Este parasito é responsável por causar a enterobiose, também conhecida como oxiurose (devido ao antigo nome do verme Oxyuros vermicularis, ou, popular- mente, “oxiúros”), sendo classificado no Filo Nematoda, Ordem Rhabditida, Família Oxyuridae. Descrição da Imagem: Na imagem, é observado, no lado esquerdo, o desenho esquemático da porção interna dos vermes macho e fêmea do E. vermicularis, além da forma como o ovo desse verme é gerado. No lado direito, é apresentada uma micrografia do verme fêmea do E. vermicularis. Figura 9 - Desenho esquemático do Enterobius vermicularis macho e fêmea, na esquerda. Na direita é observado uma micro- grafia do E. vermicularis fêmea. / Fonte: Rey (2008, p. 277). A B C a b c d e h i f d g UNICESUMAR UNIDADE 5 147 O E. vermicularis é um verme que tem como característica um corpo filiforme, de cor natural branca, apresentando “asas cefálicas” (expansões da cutícula na porção lateral da boca) (NEVES, 2016). Como já dissemos, os nematódeos parasitos apresentam um dimorfismo sexual característico, com a fêmea maior que o macho, e essa característica é bastante evidenciada no E. vermicularis. As fêmeas apresentam com- primento médio de 1 centímetro e 0,4 milímetros de diâmetro, com a extremidade posterior bem afilada; possuem uma vagina no terço médio do corpo, se comunicando com dois ovários. Os machos, por sua vez, apresentam um comprimento médio de 0,4 centímetros e diâmetro de 0,3 mm, com a região posterior contendo um espículo (órgão acessório da cópula) e fortemente curvada na região ventral; possui um único testículo que se abre na cloaca (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Uma característica importante das fêmeas é que a oviposição não é um fator relevante para libe- ração dos ovos. Nas fêmeas, quando grávidas, os ovos continuam a crescer em seu interior e ocupam quase todo o espaço interno do corpo do verme, podendo conter até 16.000 ovos. No entanto, quando o corpo se rompe, ou por atingir um limite, ou por ação mecânica externa, como o ato de coçar do hospedeiro, são liberados ovos no formato de um “D” (Imagem 10), com um comprimento médio de 55 micrômetros de comprimento por 20 micrômetros de espessura, com dupla camada de revestimento e já contendo uma larva formada em seu interior (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Descrição da Imagem: A imagem apresenta uma micrografia de vários ovos do verme Enterobius vermicularis, com dupla camada e formato na forma da letra “D”. Figura 10 - Ovos de Enterobius vermicularis O habitat do E. vermicularis corresponde ao Ceco no intestino grosso. É comum, entretanto, que as fêmeas grávidas, cheias de ovos, sejam encontradas no ânus e região perianal do indivíduo infectado. O ciclo biológico é simples e monoxênico (imagem 11), e pode ser resumido como a eliminação dos ovos para o ambiente e transmissão para um indivíduo por meio de alimentos contaminados. Porém, deve-se caracterizar bem as diferentes formas de contaminação e movimentação do parasito, especialmente para que se entenda sua patologia. 148 O ciclo tem início com a contaminação, principalmente pela ingestão dos ovos contendo as larvas. Os ovos, após passarem pelo estômago, eclodem no duodeno, passam por todo intestino delgado, se fixando no ceco já como verme adulto. No ceco ocorre a cópula, sendo que os machos são eliminados com as fezes depois dessa etapa e morrem. As fêmeas grávidas, permanecem no ceco se alimentando no material fecal enquanto os ovos crescem. Em determinado momento, por motivos ainda não total- mente entendidos, as fêmeas se soltam e são arrastadas com as fezes até o ânus ou são liberadas com as fezes para o ambiente. Do ânus, os vermes podem ou não migrar para região perianal. Neste ponto pode ocorrer a postura dos ovos, ou as larvas se romperem por pressão interna dos ovos ou por ação mecânica externa (ato de coçar). Os ovos liberados, tanto no ânus e na região perianal, quanto os que foram liberados para o ambiente, podem seguir vários caminhos para causar a infecção. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o ciclo de vida do E. vermicularis. No centro da imagem, encontra-se a silhueta de um ser humano com os órgãos internos representados, em especial o sistema digestório. O ciclo começa com uma seta demonstran- do a ingestão dos ovos embrionados. Do lado direito da silhueta do ser humano, estão representadas, na parte superior, as larvas do verme, notando que eclodem no intestino delgado após a ingestão dos ovos; na parte inferior, estão representados os vermes macho e fêmea adultos, notando que a fêmea migra para a região perianal à noite para postura dos ovos. Na porção inferior, há uma seta mostrando que os ovos na região perianal possuem larvas dentro. Esses ovos são ligados por uma seta com os ovos que iniciaram o ciclo. Figura 11 - Ciclo de vida do Enterobios vermicularis. / Fonte: Siqueira-Batista et al. (2020, p. 385). UNICESUMAR UNIDADE 5 149 A transmissão dos ovos para um novo hospedeiro, ou para o mesmo hospedeiro (reinfecção), pode ocorrer, segundo Neves (2016, p.328), de acordo com os seguintes mecanismos: Heteroinfecção: quando há infecção de um novo indivíduo, que não o infectado, ocorre pela ingestão de ovos presentes em alimentos, poeira ou fômites (objetos inanimados que podem transportar organismos patogênicos). Indireta: quando há infecção do mesmo indivíduo por ovos presentes em alimentos, poeira e fômites. Autoinfecção externa (direta): quando há infecção do próprio indivíduo parasitado, após coçar a região perianal e levar os ovos até a boca. Autoinfecção interna: em casos incomuns, após as fêmeas adultas eclodirem e liberar os ovos no interior do ânus, os ovos podem eclodir e liberar as larvas que migram de volta pelo intestino grosso até o ceco, se fixam e se tornam adultos. Retroinfecção: as larvas que saíram dos ovos na região perianal migram para dentro do ânus, passam por todo o intestino grosso, se fixam no ceco e se tornam adultos. A patogenia desenvolvida pelo E. vermicularis está associada à mi- gração do parasito na região peria- nal ou a carga parasitária. Quando ocorre a migração no ânus e região perianal, o hospedeiro sente um intenso prurido (coceira), e pode lesionar a região (Imagem 12). A proximidade do ânus com a vagi- na e vulva nas mulheres pode de- sencadear a infecção do aparelho geniturinário, resultando em pru- rido vulvar, corrimento e diferentes graus de excitação sexual. Em casos mais graves, geral- mente associados à carga parasi- tária, o parasito pode escapar do trato intestinal e causar infecções ectópicas (vermes encontrados na cavidade peritoneal, fígado, baço e pulmão), resultando em infiltrado inflamatório, formação de granulomas e, em alguns casos, necrose (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: Na imagem, é observada uma fotografia ampliada da porção externa do ânus de um paciente, em que se observa várias estruturas cilíndricas, brancas e pequenas, aderidas na pele, sendo estas, vermes da espécie E. vermicularis. Figura 12 - E. vermicularis na região perianal./ Fonte: UFRGS (s. d.) 150 O diagnóstico da enterobiose ocorre pela somatória dos sintomas clínicos e análise laboratorial. Os sintomas clínicos característicos, coceira anal, insônia e irritabilidade (devido ao prurido noturno), somam-se a observação de ovos e indivíduos adultos. O exame coproparasitológico (parasitológico de fezes) pode ser utilizado, mas quando negativo, não pode ser usado para descartar a doença, uma vez que os parasitos não ovipõem na luz intestinal, limitando o número de ovos nas fezes. Poressa razão, a técnicas escolhida deve ser o “método da fita adesiva de Graham” (Imagem 13), onde um tubo de ensaio ou o próprio dedo do profissional da saúde, contendo uma fita adesiva enrolada, com a face com cola voltada para fora, é pressionada sobre a região perianal várias vezes. Em seguida, a fita deve ser colada sobre uma lâmina de vidro e observa-se no microscópio na objetiva de 40 vezes. Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observados três desenhos esquemáticos, representados por A, B e C. No “A”, está representada uma lâmina de vidro no centro, contendo em seu entorno uma fita adesiva transparente, com o lado com cola voltado para fora, e com as pontas coladas em duas tiras de papel. No “B”, está representado um paciente criança, em decúbito ventral, com a mão de um profissional de saúde realizando a coleta com a lâmina e fita na região perianal do paciente. No “C”, está representada a fita adesiva, após a coleta, fixada na lâmina de vidro, para observação no microscópio. Imagem 13 - Método da fita adesiva de Graham (A- forma como deve ser montada a fita adesiva transparente (a) e as tiras de papel (b); B- forma como deve ser feita a coleta na região perianal; C- Fita adesiva colada sobre a lâmina para leitura). Fonte: Rey (2008, p. 278). UNICESUMAR UNIDADE 5 151 O tratamento da enterobiose é realizado com os fármacos pomoato de pirantel, albendazol ou ivermectina. É de extrema importância que no tratamento desta parasitose todos os indivíduos da família sejam tratados, uma vez que a disseminação do parasito pode ser direto (pessoa a pessoa) ou através de fômites. O último geo-helminto que trataremos nesta unidade é o causador da tricuríase, o Thricuris trichiura. Esse verme é classificado no Filo Nematoda, Classe Enoplea, Ordem Trichocephalida e Família Trichuridae. Estima-se que entre 600 a 800 milhões de pessoas estejam infectadas com esse parasito no mundo (NEVES, 2016). Os vermes adultos de T. trichiura apresentam uma característica bastante distinta dos demais nematódeos: seu corpo possui a extremidade anterior afilada e a posterior alargada, lembrando um chicote (Imagem 14). A boca fica localizada na região anterior, seguida por um esôfago que ocupa aproximadamente 2/3 do comprimento total do parasito. No restante do corpo (1/3), estão localizados o intestino e o aparelho reprodutor. Assim como os demais nematódeos, o T. trichiura é dióico, com a fêmea (4 a 5 centímetros de comprimento) maior que o macho (3 a 4,5 centímetros de comprimento). O macho apresenta a região posterior curvada ventralmente com um espículo (imagem 14a) Descrição da Imagem: Na imagem, são observadas duas micrografias do verme Trichuris trichiura. A micrografia marcada com a letra “a”, do lado esquerdo, representa o verme adulto macho, onde pode ser observada a porção anterior fina e muito maior que a posterior, sendo que a extremidade da porção posterior é curvada ventralmente. A micrografia marcada com a letra “b”, do lado direito, apresenta um ovo do T. trichiura, onde pode ser observado o formato elíptico e os poros salientes. Imagem 14 - a) Trichuris trichiura macho. b) Ovo de Trichuris trichiura. a) b) Os ovos deste parasito (Imagem 14b) possuem características fáceis de diferenciar e constituem a prin- cipal característica de diagnóstico. Eles possuem entre 50 e 54 micrômetros de comprimento e entre 22 e 23 micrômetros de largura, com poros característicos, salientes e transparentes. A casca desse ovo é formada por três camadas, conferindo-lhe maior resistência aos fatores ambientais (NEVES, 2016). O T. trichiura apresenta como habitat principal o intestino grosso do hospedeiro, em especial o ceco e o cólon ascendente, porém, pode ser encontrado também no cólon distal e reto. Uma característica importante deste parasito está relacionada a forma como ele se fixa no intestino. Toda região esofageana do parasito (2/3 anteriores do corpo) penetra no epitélio intestinal, se alimentando de enterócitos e muco, ficando apenas a região posterior livre na luz intestinal para realização da reprodução. 152 Ovos embrionados são ingeridos = Estágio infeccioso = Estágio de diagnóstico Larvas eclodem no intestino delgado Adultos no ceco Ovos não embrionados saem com as fezes Estágio de 2 células Clivagem avançada O ciclo de vida do T. trichiura (Imagem 15) tem início com a ingestão dos ovos contendo uma larva. A larva é liberada do ovo, através de um dos poros, no duodeno, migrando até o ceco onde penetra no epitélio intestinal dessa região, e passa a viver entre as células, formando túneis. Com seu crescimento e desenvolvimento até o estágio adulto, a porção posterior do verme sai para luz intestinal onde pode se reproduzir. Após a reprodução sexuada, as fêmeas podem eliminar até 5.000 ovos por dia na luz intestinal. Esses ovos são liberados para o ambiente junto com as fezes do hospedeiro, ondese desenvolvem até o estágio de larva L1, infectante. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o ciclo de vida do T. trichiura. O ciclo começa com uma seta, indicando a ingestão dos embrionados por um ser humano, representado por uma silhueta, com os órgãos do sistema digestório aparentes. Do lado direito do ser humano, estão representadas as larvas na porção superior, indicando que são liberadas no intestino delgado, e, na porção inferior, os vermes adultos, indicando que seu habitat é o ceco do intestino grosso. O ciclo continua com uma seta indicando que os ovos são liberados para o ambiente com a fezes. No ambiente, há uma sequência de setas, no lado esquerdo da imagem, onde os ovos passam pelos estágios sequen- ciais de: ovos não embrionados, ovos no estágio de duas células, ovos em clivagem avançada e ovos embrionados voltando ao início do ciclo. Imagem 15 - Ciclo de vida do Trichuris trichiura./ Fonte: Pearson (2020) UNICESUMAR UNIDADE 5 153 A maioria dos casos de tricuríase é assintomática. No entanto, existem infecções onde complica- ções podem ocorrer, principalmente relacionadas a carga parasitária e a distribuição do parasito no intestino do hospedeiro. A OMS recomenda que as infecções por T. trichiura sejam classifi- cadas de acordo com a quantidade de ovos no exame coproparasitológico em: leve, menos que 1000 ovos por grama de fezes; moderadas, entre 1.000 e 9.999 ovos por grama de fezes; grave, maior que 10.000 ovos por grama de fezes (ZEIBIG, 2014; NEVES, 2016). Assim, pacientes com infecção leve, , são assintomáticos. Pacientes com infecção moderada, podem apresentar dor epigástrica, dor no baixo abdômen, diarreia, vômitos e náuseas que po- dem comprometer o estado nutricional. Pacientes com infecções graves, podem desencadear a síndrome disentérica crônica, “sendo que nestes casos se pode observar uma diarreia intermi- tente com presença abundante de muco e, algumas vezes, sangue, dor abdominal com tenesmo, anemia, desnutrição grave caracterizada por perda de peso e, algumas vezes, prolapso retal” (NEVES, 2016, p. 338) (Imagem 16). Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observadas duas fotografias de um prolapso retal. Na foto marcada com a letra “a”, do lado esquerdo, pode ser observado um prolapso retal em um paciente criança com tricuríase, em que a porção terminal do reto sai para fora do corpo. Na foto marcada com a letra “b”, do lado direito, pode ser observado um prolapso retal em um paciente com tricuríase, em uma imagem ampliada, em que pode ser observada a presença de dezenas de parasitos. Imagem 16- a) Prolapso retal em um paciente com tricurose; b) prolapso retal aproximado, observando a porção posterior T. trichiura fixado no epitélio do reto. / Fonte: UFRGS (s. d.). Para diagnosticar a infecção pelo Trichuris trichiura, o método de escolha é a observação dos ovos nas fezes. Como a gravidade da doença é determinada pela carga parasitária, o método quantitativo de Kato-Katz é muito utilizado. O tratamento para esta parasitose é realizado por fármacos anti-helmínticos, sendo os principais:albendazol, mebendazol, levamisol e pamoato de pirantel (NEVES, 2016). O último nematódeo que vamos estudar nesta unidade é o causador da Filariose Linfática, o verme Wuchereria bancrofti. Diferente dos demais nematódeos discutidos nesta unidade, o W. bancrofti é transmitido a partir de um vetor, a fêmea do mosquito Culex quinquefasciatus (Imagem 17). 154 A Filariose Linfática humana é encontrada em mais de 70 países da Ásia, África e Américas, sendo, portanto, endêmica das regiões tropical e subtropical. Estima-se que mais de 120 milhões de pessoas sejam portadoras do parasito (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). O W. bancrofti é classificado no Filo Nematoda, Classe Cromadorea, Ordem Rhabditida e Família On- chocercidae. Esses vermes são extremamente finos e delicados, além de muito pequenos, o que permite sua circulação por vasos linfáticos e sanguíneos. Uma característica importante, muito utilizada para o diagnóstico, é a produção de microfilárias em vez de ovos (como o parasito não é liberado no ambiente, não há a necessidade da formação de ovos. Assim, esse nematódeo apresenta quatro tipos de morfologias: adulto fêmea, adulto macho, micro- filária e as larvas. Os vermes adultos têm o corpo muito fino e de cor branco-leitoso. Os machos medem entre 3,5 a 4 centímetros de comprimento e 0,1 mm de largura, enquanto as fêmeas medem de 8 a 10 centímetros de comprimento e 0,3 mm de largura. Os machos apresentam sua região posterior enrolada ventralmente (REY, 2009; NEVES, 2016). As microfilárias (também chamadas de embriões) são liberadas das fêmeas com tamanho entre 250 a 300 micrometros. Estas formas apresentam, além da cutícula, uma bainha externa, que é a distensão da casca do ovo. Além disso, quando fixadas e coradas, as microfilárias apresentam núcleos celulares bem definidos, o que ajuda na distinção entre diferentes espécies de filárias (REY, 2009). As larvas correspondem à morfologia desenvolvida no interior do inseto vetor, medindo aproxima- damente, 300 micrômetros de comprimento. Elas são originadas a partir da maturação das microfilárias ingeridas no repasto sanguíneo. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma foto de um mosquito do Gênero Culex, de cor amarelada e patas pretas, fazendo o repasto sanguíneo pousado sobre a pele de um ser humano. Imagem 17 - Mosquito Culex quinquefasciatus./ Fonte: Insetisan (s. d.) UNICESUMAR https://www.cabi.org/isc/datasheet/86848 UNIDADE 5 155 Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o ciclo de vida da W. bancrofti. O ciclo tem início na porção central inferior, quando o inseto vetor realiza o repasto sanguíneo em um ser humano representado por uma silhueta, em que são visíveis os órgãos internos. No repasto, o mosquito ingere as microfilárias. A partir daí, no lado esquerdo da imagem, há uma sequência de setas que ocorrem no interior do inseto, representando a microfilária, passando paras as larvas L1, L3, migrando, em seguida, para a probóscide do mosquito. Na sequência, é representado o mosquito fazendo um novo repasto sanguíneo e a larva L3 penetrando na pele do indivíduo. A partir daí, no lado direito da imagem, ocorrem as fases no interior do ser humano, representadas, na parte superior, pelos vermes adultos no interior dos vasos linfáticos, seguido da microfilária, migrando para a circulação sanguínea, em que é ingerida pelo inseto que fez o repasto inicial. Imagem 18 - Ciclo de vida da Wuchereria bancrofti. / Fonte: Siqueira-Batista et al. (2020, p. 441). O W. bancrofti apresenta um ciclo biológico de heteroxênico (Imagem 18), com o hospedeiro interme- diário sendo representado por invertebrado, o mosquito Culex quinquefasciatus. O habitat deste parasito corresponde aos gânglios e vasos linfáticos. O ciclo tem início com o repasto sanguíneo do inseto vetor que ingere sangue contaminado com mi- crofilárias. As microfilárias se desenvolvem em larvas infectantes no interior do inseto, rompendo tecidos e migrando para os lábios do vetor, próximo ao aparelho picador/sugador. Quando o inseto realiza um novo repasto sanguíneos, as larvas abandonam o inseto rompendo o lábio, e chegam à superfície externa da pele (a larva não é inoculada pelo inseto). A entrada na pele ocorre, provavelmente, pela abertura deixada pela picada do inseto. Após atingir as camadas internas da pele, a larva penetra nos vasos linfáticos e migra até seu local de permanência final, onde se tornará um adulto em aproximadamente um ano (REY, 2009). No interior dos vasos linfáticos ocorre a reprodução sexuada dos vermes adultos e liberação das microfilárias pelas fêmeas. As microfilárias migram para a circulação sanguínea e circulam nos vasos periféricos para serem absorvidas no repasto sanguíneo do inseto vetor. 156 A filariose se manifesta de forma lenta, poden- do levar anos. A patogenia está geralmente as- sociada a resposta imune do hospedeiro e a rea- ção inflamatória, desencadeada, principalmente após a morte dos vermes adultos, provocando o extravasamento da linfa. Dentre as diversas manifestações clínicas envolvendo o sistema linfático e a resposta imune, as principais são: doença assintomática; doença aguda (inflama- ção dos vasos linfáticos e linfonodos); e doença crônica (edema linfático, hidrocele, urina com aspecto leitoso e elefantíase) (NEVES, 2016). A elefantíase (Imagem 19) é manifestação mais conhecida dessa doença, caracterizada por aco- meter, principalmente, os membros inferiores e a região escrotal, associada a inflamações re- correntes, hipertrofia do tecido conjuntivo e fibrose crônica do órgão envolvido. O diagnóstico da doença é quase exclusiva- mente laboratorial. Existem vários métodos que podem ser utilizados para esse fim: • Pesquisa de microfilárias – em que é coletado sangue de capilares periféricos, no período noturno, preparado em lâ- mina (gota espessa), fixado ou a fresco (ver eu indico a seguir), e observado em microscópio. • Pesquisa de antígenos solúveis – pode ser realizada por imunocroma- tografia rápida ou ensaio imunoenzi- mático (ELISA). • Pesquisa do DNA do parasito – pouco utilizado pelo tempo gasto e custo, mas tem alta especificidade e sensibilidade, além de permitir a identificação de es- pécies diferentes. • Pesquisa de vermes adultos – os ver- mes podem ser observados nos vasos linfáticos através de ultrassonografia. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma fotografia dos membros inferiores de um paciente com elefan- tíase em decorrência da filariose linfática. Na foto, pode-se notar que a perna esquerda encontra-se edemaciada, com tamanho muito maior que o normal. Imagem 19 - Paciente com elefantíase no membro inferior. Neste podcast, vou trazer as vantagens e desvanta- gens dos métodos de diagnóstico da Filariose Linfá- tica. Vou discutir e apresentar as características das técnicas mais usadas e quando utilizá-las. Acesse o QRCode e aperte o play! UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13776 UNIDADE 5 157 Uma característica importante das microfilárias, que influen- cia na metodologia do diagnóstico, é sua periodicidade. Durante o dia, estas formas do parasito se concentram nos vasos sanguíneos profundos, principalmente dos pulmões, e não são encontradas na circulação periférica. Durante o anoitecer, aumentando gra- dativamente até a madrugada, as microfilárias são encontradas em punções da circulação periférica, desaparecendo novamente no amanhecer (REY, 2009). Alguns autores sugerem que este fato está re- lacionado ao hábito de repasto sanguíneo do inseto vetor que ocorre durante a noite. O tratamento para a filariose pode ser separado em es- pecífico, caracterizado pelo uso do fármaco citrato de dietil- carbamazina (DEC) com a finalidade de eliminação do parasito; e inespecífico, caracterizado como o controle da morbidade, tratando o linfedema e infecções secundárias. Caro(a) aluno(a), nesta unidade, você aprendeu sobre quem são os helmintos, aprofundando seu conhecimentonas principais características dos nematódeos. Você estudou, ainda, os principais ne- matódeos causadores de parasitose em seres humanos e as consequências das infecções causadas por ele, entendendo ainda os princípios de seu diagnóstico. Agora que você conhece as características e os conceitos principais sobre os nematódeos, pode entender melhor o desafio e os questionamentos que foram propostos. Resgate o exercício proposto no início da unidade e tente resolvê-los com os conhecimentos que agora possui. Como você pode perceber, muitas parasitoses têm como via de entrada o trato gastrointestinal. Para realizar esse processo, os parasitas desenvolveram mecanismos que mantêm suas formas infectantes vivas no ambiente após serem liberadas com as fezes, possibilitando que alcancem a boca, em tipo de ciclo denominado fecal-oral. Para os nematódeos e muitos protozoários, a passagem pelo ambiente é até necessária para a maturação das formas infectantes. Assim, como você aprendeu, a principal forma infectante dos helmintos (tanto nematódeos quanto outros filos) é o ovo maduro ingerido junto com o alimento ou água contaminados. Caro(a) aluno(a), o link a seguir permitirá que você observe a motilidade das microfilárias em uma amostra de sangue, um dos principais métodos de diagnóstico. Para acessar, use seu leitor de QR Code. https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15369 158 Caro(a) aluno(a), com base nos conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, estou certo de que é capaz de preencher o mapa mental a seguir. HELMINTOS Metazoários Aconthocephala Ascaridíase Infecção oral por ovos Enterobius vermicularis 159 1. Leia o texto a seguir: O termo verme refere-se, genericamente, a um grupo de metazoários [...] capazes de existir em diferentes ambientes, tanto em vida livre – espaços aquáticos e/ou terrestres – quanto em vida parasitária (em díspares tipos de organismos, tais como plantas e animais) [...] O filo Nematoda, reúne mais de 24.000 espécies descritas em todo o mundo, apresentando formas parasitárias ou de vida livre. Fonte: SIQUEIRA-BATISTA, R. et al. Parasitologia: Fundamentos e Prática Clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Com base nas características dos helmintos, cite, por meio de um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, as características que definem um nematódeo. 2. Leia o texto a seguir: A ascaridíase – também conhecida por ascaridiose, ascaríase ou ascariose – é uma enfermi- dade provocada pelo helminto Ascaris lumbricoides... Em geral, a ascaridíase é assintomática ou oligossintomática, com evolução benigna. Porém, pode evoluir para casos mais graves e com complicações. Fonte: SIQUEIRA-BATISTA, R. et al. Parasitologia: Fundamentos e Prática Clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. Com base na patologia da ascaridíase, cite explique, por meio de um texto dissertativo de 5 a 10 linhas, um caso grave ou complicação dessa parasitose. 3. O ciclo biológico do Enterobius vermiculares é do tipo monoxênico e apresenta peculiaridades relacionadas principalmente com as características biológicas da fêmea grávida e dos ovos do parasito. Fonte: NEVES, D. P. Parasitologia humana. 13.ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2016, p. 326. Com base no ciclo de vida do Enterobius vermiculares, explique, por meio de um texto disser- tativo de 3 a 5 linhas, o que é e como ocorre a “autoinfecção interna”. 160 6 Caro(a) aluno(a), nesta unidade, você aprenderá as características dos helmintos do Filo Platyhelminthes, sua morfologia e biologia. Vai conhecer também os principais representantes das duas classes de platelmintos: Cestoda e Trematoda, causadores das doenças Esquistossomose e Teníase. Helmintos: Platelmintos Parasitos Dr. Vinícius Pires Rincão 162 Os parasitos têm como uma de suas características entrar em equilíbrio com seu hospedeiro. Essa caraterísti- ca é essencial para sua sobrevivência e manutenção da espécie. Neste as- pecto, um dos fatores mais impor- tantes é a adaptação, para possibilitar que as formas infectantes entrem no hospedeiro. Caro(a) aluno(a), você sabe qual a importância em se co- zinhar corretamente os alimentos? Qual a relação desse procedimento com a infecção causada por parasi- tos? Ou, ainda, como um caramujo pode representar um risco de se ad- quirir uma parasitose? A entrada no organismo do hos- pedeiro é a etapa fundamental que determina o sucesso ou fracasso do estabelecimento de uma para- sitose. Dentre os diferentes gru- pos de parasitos, os helmintos são aqueles que apresentam as formas mais variadas, pelas quais o está- gio infectante consegue entrar no corpo do hospedeiro e estabelecer uma infecção, sendo que estas po- dem ser resumidas em ingestão de ovos ou cistos infectantes, pene- tração da larva infectante pela pele ou mucosas, ou, ainda, podem ser transportados por insetos vetores. No que diz respeito aos platelmin- tos, especificamente aos do gênero Taenia, o cozimento da carne de suínos e bovinos significa o fim de seu ciclo de vida, uma vez que as formas infectantes, denominadas cisticercos, estão inseridas entre as fibras musculares destes animais. UNICESUMAR UNIDADE 6 163 Agora que introduzimos a importância da forma infectante para os parasitos, entre eles os platel- mintos, gostaríamos de propor uma atividade para você: pesquise em sites de vigilância epidemioló- gica se a sua região é uma área de risco para a esquistossomose mansônica. Identifique os fatores que determinam esse risco e escreva uma lista deles. A esquistossomose mansônica é uma doença causada pelo Schistosoma mansoni, sendo que a principal forma de liberação dos ovos deste parasito ocorre pelas fezes. O ciclo de vida S. mansoni é complexo e adaptado para garantir a sobrevivência da espécie, representando uma influência direta sobre quais áreas se tornam endêmicas. As características do ciclo, relacionadas a este fato, vão desde número de hospedeiros intermediários, seu habitat e biologia, até a forma como ocorre a infecção. Isso nos leva a refletir: O S. mansoni possui hospedeiros intermediários? Qual seu habitat? Qual relação deste fato com a incidência da doença e formação de áreas endêmicas? Como ocorre a contaminação do hospedeiro humano? A forma de infecção tem relação com a caracterização de áreas endêmicas? Anote suas descobertas no seu Diário de Bordo. 164 Como você já aprendeu, os helmintos correspondem a um grupo de animais metazoários conhecidos popularmente como “vermes”. Ainda na unidade 5, você viu a classi- ficação geral dos helmintos com importância para a parasitologia, sendo que dos três filos apresen- tados, os de maior relevância eram Nematoda e Platyhelminthes. Nesta unidade, o foco de seu estudo será os platelmintos, vermes que possuem como carac- terísticas serem acelomados, com simetria bila- teral, com órgãos sensoriais e de fixação (prin- cipalmente ventosas) localizados na extremidade anterior, sem aparelho respiratório, podem ou não apresentar tubo digestório, mas não apresentam ânus. Possuem, ainda, o corpo achatado dorsoventralmente, o que dá nome ao filo (do grego Platy = chato), e podem apre- sentar o corpo segmentado (NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Um exemplo típico dos platelmintos é a Fasciola hepática (Imagem 1). Caro(a) aluno(a), muitos são os representantes dos platelmin- tos, tanto de vida livre quanto parasitária. No entanto, algumas poucas espécies têm significado real para a saúde humana. Nes- te aspecto, a maioria dos autores aborda o estudo desses vermes no estudo dos principais grupos os cestódeos (Classe Cestoda) e tre- matódeos (Classe Trematoda). O primeiro parasito que você vai estudar pertencente aos platelmintos, é um cestóide conhecido popularmente como “solitária”, sendo denominado cientificamente como Taenia sp. Duas espécies dentro deste gênero são responsáveis por causar a Teníase, a T. solium e a T. saginata. Embora pertencentes ao mesmo gênero e similares quantoà estrutura geral do corpo, existem diferenças evidentes que permi- tem sua identificação correta, as quais vamos caracterizar nesta unidade. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o platelminto F. hepática. É observado com coloração alaranjada, com formato semelhante a uma folha, onde tem-se sua região ventral, com a extremidade anterior voltada para a direita da ima- gem, em que podem ser observadas duas ventosas. Imagem 1 – Fasciola hepatica UNICESUMAR UNIDADE 6 165 Os vermes do gênero Taenia, são classificados no filo Platyhelminthes, Classe Cestoda, Família Taeniidae. São considerados cosmopolitas (podem ser encontrados no mundo todo) e possuem como habitat o intestino delgado do ser humano (hospedeiro definitivo) (SIQUEIRA- -BATISTA et al., 2020). As tênias apresentam quatro estágios morfológicos distintos, o verme adulto, os ovos, o em- brião hexacanto e o cisticerco. Morfologicamente, os adultos apresentam o corpo muito longo, variando entre 1,5 a 4 metros para T. solium e de 4 a 12 metros para T. saginata (REY, 2009). O corpo do verme tem o formato que lembra uma fita, achatado dorsoventralmente, com os órgãos sensoriais e de fixação na extremidade anterior do corpo, que recebe o nome de escólex ou cabeça (Imagem 2), sendo esta muito menor que o resto do corpo que se apresenta segmentado. Por essa razão, não apresentam tubo digestório. Cada segmento do corpo é denominado de proglote. Descrição da Imagem: Na imagem pode ser observado o desenho esquemático da Taenia solium, a tênia que tem como hospedeiros intermediários os suínos. No desenho, do lado direito superior, pode ser identificada a extremidade anterior do verme, formada pelo escólex ou cabeça, onde se observa as ventosas e uma coroa de ganchos. Em seguida, continuando o corpo, observa-se o pescoço, seguido pela segmentação do corpo, onde, no desenho, é representado por uma fita formando ondulações, em que cada segmento recebe o nome de proglote. Imagem 2 – Taenia solium. A ESTRUTURA DA TÊNIA DOS SUÍNOS Rostro com ganchos quitinosos Ventosa Segmento Cabeça Pescoço Escólex As proglotes imaturasProglotes maduras 166 O escólex é caracterizado como uma pequena dilatação, sendo que na T. solium (Imagem 3) ele mede entre 0,6 e 1 mm, enquanto na T. saginata ele mede entre 1 e 2 mm. Encontra-se na extre- midade anterior do verme e tem como função fixar o parasito na parede do intestino. Para ambas as espécies, o escólex apresenta quatro ventosas de tecido muscular, arredondadas e proeminentes. A T. solium apresenta na porção central e anterior do escólex, um rostelo ou rostro, “entre as ventosas, armado com dupla fileira de acúleos ou ganchos, 25 a 50, em formato de foice” (NEVES, 2016, p. 262). A T. saginata, não apresenta rostelo. a) b) Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observadas duas micrografias. Na micrografia da esquerda, marcada com a letra a), encontra-se o escólex da T. solium, o qual contém quatro ventosas e um rostelo com gancho na parte superior. Na micrografia do lado direito, pode ser observado um escólex da T. saginata, onde pode ser observado quatro ventosas e sem rostelo. Imagem 3 – Escólex de: a) Taenia solium e de b) Taenia saginata. / Fonte: b) Wikipedia (2022a) REALIDADE AUMENTADA Caro(a) aluno(a), você gostaria de ver como são os vermes do gênero Taenia? Então, acesse o QRCode e veja! Observe a forma do corpo achatado dorsoventralmente e segmentado, além das ventosas no escólex. A partir do pescoço (ou colo) começa a seg- mentação do corpo, dando origem às proglo- tes. A todo restante do corpo, a partir do pes- coço, dá-se o nome de estróbilo (NEVES, 2016). Como as tênias são hermafroditas, cada proglote contém um aparelho reprodu- tor masculino e um feminino (SIQUEIRA- -BATISTA et al., 2020). As proglotes que são formadas perto do pescoço ainda não tem o aparelho reprodutor formado, sendo pe- quenas e denominadas proglotes imaturas. À medida que se distanciam da extremida- de anterior, aumentam muito de tamanho (Imagem 4), e quando o aparelho reprodutor encontra-se desenvolvido, as proglotes pas- sam a se chamar maduras. UNICESUMAR https://es.wikipedia.org/wiki/Cisticercosis UNIDADE 6 167 No momento em que as proglotes maduras passam a conter ovos fertilizados, são denominadas de grávidas. Outra forma de diferenciação entre T. solium e T. saginata, muito utilizado para identifica- ção da espécie, é a estrutura da proglote (Imagem 5). Enquanto em T. solium as ramificações uterinas (onde se encontram os ovos) são irregulares e pouco numerosas variando de 7 a 16, em T. saginata, elas são do tipo dicotômicas e em quantidade maior, variando de 15 a 30 (REY, 2008). Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observados desenhos esquemáticos e micrografias de proglotes de tênias. Na porção representada pela letra “a”, do lado esquerdo da imagem, observa-se uma proglote de T. saginata em uma micrografia e um desenho esquemático semelhante, de formato retangular, contendo em seu interior um ovário representado por uma linha central vertical, que se ramifica para os lados em grande quantidade, de forma dicotômica. Na porção representada pela letra “b”, do lado direito da imagem, observa-se uma proglote de T. solium em uma micrografia e um desenho esquemático semelhante, de formato retangular, contendo em seu interior um ovário representado por uma linha central vertical, que se ramifica para os lados, apresentando menor quantidade de ramificações que os vistos em “a”. Descrição da Ima- gem: Na imagem pode ser observado uma fotografia de um verme adulto, do gênero Taenia, dobra- do em zig-zag, com a extremidade anterior voltada para o lado direito. Observa-se que, à medida que se distanciam da extre- midade anterior, as proglotes aumentam de tamanho. Imagem 5 – Proglotes grávidas de a) T. saginata e b) T. solium. / Fonte: adaptado de Rey (2008, p. 517 - 519). Imagem 4 – Taenia sp. destacando a extremida- de anterior com o escólex (seta) muito menor que as proglotes finais. Fonte: Wikipedia (2022b) 168 Os ovos da Taenia são esféricos ou levemente ovalados, com uma casca externa, e o embrió- foro, uma estrutura formada por quitina, que forma uma camada espessa ao redor do ovo (Imagem 6), com aproximadamente 30 micrômetros de diâmetros, e contendo o embrião hexacanto em seu interior. Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observados cinco ovos de Taenia, com formato levemente oval, com uma camada lateral espessa, o embrióforo, e contendo o embrião hexacanto em seu interior. Imagem 6 – Ovos de Taenia sp. O embrião hexacanto (do grego hex, seis, e akantha, espinho), também denominado de oncosfera (do grego onkos, gancho), consiste na forma larval do parasito que eclode do ovo quando este chega ao intestino do hospedeiro intermediário, ou, no caso da cisticercose (ver a seguir), no intestino do ser humano. Este embrião consiste em uma pequena esfera, contendo três pares de ganchos (REY, 2008). UNICESUMAR UNIDADE 6 169 Os parasitos adultos do gênero Taenia tem como habitat o intestino delgado do ser humano, seu hospedeiro definitivo. O cisticerco, forma larval encistada, de T. solium, pode ser encontrad, com mais frequência em tecido muscular cardíaco, tecido muscular esquelético, tecido cerebral e no olho de suínos, e, acidentalmente, nos mesmos tecidos em seres humanos. O cisticerco de T. saginata é encontrado nos tecidos de bovinos (NEVES, 2016). O ciclo biológico (Imagem 8) das tênias é heteróxeno e tem início com a liberação das proglotes grávidas junto com as fezes do hospedeiro definitivo. No ambiente externo, as proglotes se rom- pem e liberam milhares de ovos no solo, onde podem ficar viáveis por meses. Esses ovos podem ser ingeridos pelo hospedeiro intermediário (suínos para T. solium e bovinos para T. saginata) junto com alimentos ou água contaminada. Descrição da Imagem: Na imagem podem ser observados três desenhos esquemáticos de cisticercos de T. solium, marcadospelas letras A, B e C, além de uma fotografia em D. Na letra “A”, está representada uma vesícula translúcida, de formato oval, possibilitando a observação do receptáculo, também de formato oval, do escólex interno; na letra “B”, está representado um cisticerco oval, em corte longitudinal, onde se observa uma estrutura interna alongada contendo pregas, retorcidas na extremidade, contendo ventosas e a coroa de ganchos, sendo que são nomeadas as estruturas: a) córtex invaginado, b) as vilosidades internas, c) pregas do tegumento do escólex e pescoço, d) líquido hialino que preenche a vesícula, e) parede do cisticerco. Na letra “C” (com “a” representando o receptáculo onde estava o escólex, “b” o escólex e “c” o pescoço ou colo), está representado o cisticerco desinvaginado, onde se observa uma estrutura alongada saindo da vesícula e terminando em uma estrutura arredondada, o escólex; na imagem marcada com a letra “D”, é observado um coração animal contendo vários cisticercos, identificados como pequenas vesículas translúcidas. Imagem 7 – Cisticerco de Taenia solium. Fonte: A, B e C – Rey (2008, p. 531) Por fim, temos a forma de cisticerco. Esta forma consiste no cisto formado pelo embrião hexacanto após penetrar na parede intestinal e migrar para os tecidos do corpo do hospedeiro. O cisticerco é constituído por uma vesícula, contendo um líquido claro, apresentando em seu interior um escólex invaginado, e pode atingir até 12 mm de comprimento (Imagem 7). 170 Estágio infeccioso Estágio de diagnóstico Ovos ou proglotes grávidos nas fezes são liberados para o ambiente Ovos embrionados e/ou proglotes grávidos ingeridos por hospedeiros intermediários normais (suínos) Oncosfera eclode, penetra na parede intestinal, e circula até a musculatura Oncosfera se desenvolve para cisticercose Humanos adquirem infecção intestinal por tênia através do consumo de carnes contendo cisticercosTeniase Escólex Adultos no intestino delgado Ovos embrionados ingeridos pelo hospedeiro humano Oncosfera eclode, penetra na parede intestinal, e circula até a musculatura Cisticercose Cisticercos podem se desenvolver em qualquer órgão, mais comumente em tecidos subcutâneos, cérebro e olhos Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o ciclo de vida da Taenia solium e sua derivação para a cisticercose. Cada fase é numerada: 1) no lado esquerdo embaixo, com as figuras de um ovo de tênia e de uma proglote, tem-se a legenda: “Ovos ou proglotes grávidos são liberados no meio ambiente pelas fezes”; 2) acima, ligada por uma seta, apresenta-se a imagem de suíno com a legenda: “Ovos fertilizados ou proglotes são ingeridos pelo hospedeiro intermediário (porco)”; 3) continuando em forma de um círculo, ligado por uma seta, está a imagem de uma estrutura circular com seis ganchos superiores, a oncosfera, com a legenda: “Oncosferas eclo- dem, penetram na parede intestinal e migram para a musculatura”; 4) ligada por uma seta, está a imagem de uma estrutura circular contendo um escólex invaginado no centro, o cisticerco, no meio de fibras musculares, com a legenda: “Oncosferas se desenvolvem em cisticercos”; 5) ligado por uma seta, está a imagem de um ser humano com os órgãos do trato gastrointestinal representados, com a legenda: “Humanos são infectados pela ingestão de cisticercos presentes na carne suína mal cozida”; 6) ligado por uma seta, está a imagem uma tênia ao intestino delgado de um ser humano, com a legenda: “Adultos no intestino delgado”; 7) ligado ao número 1 por seta, está a imagem de uma silhueta de um ser humano com órgão do sistema nervoso, respiratório e digestório, com a legenda: “Ovos fecundados ingeridos pelo hospedeiro humano”; as fases 8 e 9 estão dentro de um quadro na parte superior com o título “cisticercose” com figuras de cisticerco entre fibras musculares, com as legendas: “Oncosferas eclodem, penetram na parede intestinal e migram para a musculatura” e “Cisticercos pode se desenvolver em qualquer órgão, principalmente tecidos subcutâneos, cérebro e olhos”. Imagem 8 – Ciclo biológico da Taenia solium. / Fonte: CDC (2022) UNICESUMAR UNIDADE 6 171 No estômago do hospedeiro intermediário a casca do ovo sofre ação das enzimas gástricas e, ao chegar no intestino, se rompe liberando a oncosfera. O embrião liberado, utilizando os seis ganchos, rompe a parede do intestino, penetra nos tecidos e atinge o sistema circulatório, sendo levado a todos os tecidos do corpo. A oncosfera pode realizar a implantação em qualquer tecido mole do corpo, mas tem maior preferência pelos tecidos com maior oxigenação, como músculos, cérebro e olhos. Após implantado no tecido, a oncosfera se diferencia formando um cisticerco, que irá crescer, podendo alcançar o diâmetro de 12 milímetros de comprimento, e permanece viável de meses a anos (REY, 2008; NEVES, 2016). A infecção do ser humano (o hospedeiro definitivo) ocorre quando há a ingestão de carne crua ou malcozida que contenha cisticercos. Após a ingestão, a passagem pelo estômago ativa o cisti- cerco que evagina o colo e o escólex, fixando-se por meio deste no intestino delgado. Em alguns meses o verme já é adulto, podendo alcançar vários metros de comprimento. A partir do terceiro mês, após a ingestão dos ovos, inicia-se a liberação das proglotes com as fezes ou ativamente, pois estas apresentam contração muscular e conseguem se locomover (Veja o eu indico a seguir). As tênias têm uma longevidade grande no hospedeiro humano, sendo que T. solium pode viver por até três anos, enquanto T. saginata pode chegar permanecer por dez anos no intestino (REY, 2008; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Para ver a movimentação realizada pelas proglotes grávidas da tênia, acesse o QR Code. Para acessar, use seu leitor de QR Code. A maioria dos indivíduos parasitados por tênias são assintomáticos, mas a patologia associada à teníase está relacionada à quantidade de parasitos e ao seu tamanho no interior do intestino. Em- bora a denominação popular desse parasito como solitária passe a ideia de que o verme sempre esteja sozinho no interior do intestino, é comum que haja mais de uma tênia infectando o paciente. Esse aspecto, somando-se ao fato que esses vermes podem apresentar grande tamanho corporal e viver por muitos anos, possibilita a ocorrência lesões na mucosa intestinal pela fixação, alergias em decorrência de substâncias secretadas e excretadas, além da competição direta pelos nutrientes que o indivíduo consome. Assim, a infecção por tênia pode resultar em consequências adversas para o hospedeiro, que se manifestam com sintomas como astenia, tontura, apetite excessivo, náuseas, vômitos, dores abdominais de intensidade variada e perda de peso (NEVES, 2016). https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15684 172 Como a maioria dos pacientes é assintomático, o diagnóstico é preferencialmente laboratorial. O diagnóstico da doença depende diretamente da observação dos ovos através do recolhimento das proglotes ou concentração daqueles que já estão libera- dos nas fezes. Porém, só pela observação dos ovos não é possível diferenciar entre as espécies do gênero Taenia (REY, 2009; ZEIBIG, 2014). Quando há a necessida- de de um diagnóstico que indique a espécie, deve-se realizar a tamisação (lavagem por meio de peneiras finas) de todo bolo fecal, com a finalidade de se iso- lar as proglotes grávidas e identificá-las baseado na morfologia das ramificações uterinas (NEVES, 2016). Além do exame parasitológico de fezes convencional, a pesquisa por antígenos dos ovos ou do parasito nas fezes, através do uso de anticorpos específicos pelo teste de ensaio de adsorção imunoenzimático (ELISA), e a detecção de DNA do parasito por meio de PCR, vem sendo utilizado. O tratamento para a teníase é realizado à base de fármacos que imobilizam e matam o verme, pro- movendo sua expulsão com as fezes. Os fármacos mais utilizados são a niclosamida e o praziquantel. Caro(a) aluno, como você pode notar, na infecçãocausada pelos parasitos do gênero Taenia, o ser humano não tem contato direto com os ovos infectantes, contendo a oncosfera. Então, o que aconteceria caso o ser humano ingerisse esses ovos? Agora que você já conhece as características gerais das tênias e como elas causam infecção, podemos estudar a cisticercose. Como apresentado anteriormente, o ser humano constitui o hospedeiro definitivo no ciclo de vida da Taenia sp., participando do ciclo ao ingerir os cisticercos. No entanto, em um ambiente onde há pessoas infectadas, geralmente com uma situação sanitária precária, o contato com os ovos do parasito pode ocorrer, possibilitando sua ingestão, e ocasionando a fase acidental de hospedeiro inter- mediário no ser humano (Imagem 8). Ou seja, as mesmas etapas do ciclo de vida da tênia que ocorrem nos suínos serão desencadeadas no organismo humano (FERREIRA, 2021). Assim, a cisticercose consiste na ingestão dos ovos da Taenia solium, resultando na liberação da oncosfera no intestino, penetração da parede intestinal por esta, migração para os tecidos por meio do sistema circulatório e formação de cisticercos. Perceba que a cisticercose é atribuída a ingestão de ovos viáveis apenas de T. solium, pois, até o presente momento, não há evidências de que a T. saginata possa causar a doença. A transmissão dos ovos de Taenia solium para o ser humano, ocasionado cisticercose, pode ocorrer de três formas distintas (NEVES, 2016, p. 265): UNICESUMAR UNIDADE 6 173 • Autoinfecção externa: ocorre quando as proglotes ou ovos do parasita que infec- ta o indivíduo, após liberados, são levados a boca deste mesmo indivíduo pela mão contaminadas. • Autoinfecção interna: ocorre quando o indivíduo infectado, durante o vômito, ou por apresentar retroperistaltismo, possibilita a chegada de proglotes grávidas ou ovos ao estômago, ativando a oncosfera e causando uma autoinfecção. • Heteroinfecção: ocorre quando os ovos de T. solium, liberados para o ambiente por outro indivíduo, são ingeridos junto com água e alimentos contaminados. • Estágio vesicular: apresenta uma membrana vesicular transparente, líquido vesicular incolor e hialino e escólex normal. • Estágio coloidal: o líquido vesicular encontra-se turvo, com características de um gel esbranquiçado, e o escólex já está em degeneração. • Estágio granular: a membrana externa é espessa, e o gel vesicular já apresenta de- posição de cálcio. O escólex apresenta-se como uma estrutura de aspecto granular mineralizada. • Estágio granular calcificado: totalmente calcificado, de coloração amarelo esbran- quiçado, e com o tamanho muito reduzido. Assim como nos suínos, a oncosfera pode se implantar em qualquer tecido mole dos seres humanos. Há, entretanto, um tropismo pelo sistema nervoso central, seguido por músculos e os olhos. Esse tro- pismo, bem como a quantidade de cisticercos formados e a resposta imune do hospedeiro, determinam o grau da doença e suas complicações. Uma característica importante dos cisticercos, e que pode ser dividida em estágios, é a tendência de calcificação da estrutura após a morte da larva do parasito. Segundo Neves (2016, p. 264), todo o tempo de vida do cisticerco pode ser dividido em quatro estágios: Na cultura popular, o cisticerco é bem conhecido, porém, com outros nomes: “canjiquinha”, “pipoqui- nha”, “ladraria”, “sapinho” ou “bolha”. Devido ao aspecto que toma quando em sua forma calcificada, pequeno e esbranquiçado, um pouco amarelado, o cisticerco (quando observado em carnes para o consumo) foi popularmente comparado aos grãos de milho utilizados para o preparo da canjica. O termo “bolha” está, provavelmente, associado ao cisticerco ainda viável, quando a membrana vesi- cular ainda se encontra translúcida. Pela aparência que gera no alimento, é comumente associado a carne imprópria para o consumo. Entretanto, quando em pouca quantidade não são fáceis de localizar no meio do tecido muscular (FERREIRA, 2021). 174 Quatro tipos de cisticercoses são mais comumente observados: cisticercose muscular e subcutâ- nea; cisticercose cardíaca; cisticercose ocular e cisticercose do sistema nervoso central ou neurocisticercose. A cisticercose muscular ou a subcutânea, em ge- ral, não desenvolvem sintomas. No entanto, quan- do em grande quantidade nos músculos esqueléti- cos (Imagem 9), o indivíduo pode apresentar dor, fadiga e cãibras (REY, 2009). A cisticercose cardíaca apresenta complicações conforme o número de cisticercos. Em geral, o que se observa é o apareci- mento de palpitações, ruídos anormais ou dispneia. Os dois principais locais onde os cisticercos podem ser encontrados são os olhos e anexos, representando 46,0% dos casos analisados, e sistema nervoso, representando 40,9% dos ca- sos (REY, 2009). A cisticercose ocular (oftalmocisticercose) se manifesta quando a larva se implanta na retina, deslocando-a ou perfurando-a, chegando até o hu- mor vítreo. As consequências dessa implantação podem levar a perda parcial ou total da visão, e em alguns casos mais graves até mesmo a perda do olho (REY, 2008; NEVES, 2016). A mais grave cisticercose é, provavelmente, a neurocisticercose (imagem 10). A forma como essa doença se manifesta é variada, pois depende de diversos fatores, como o número de larvas, o grau de desenvolvimento do cisticerco, a respos- ta inflamatória do hospedeiro e principalmente o local de implantação no cérebro. Por esta razão a doença é caracterizada como pleomórfica (sem forma definida), com multiplicidade de sinais e sintomas neurológicos. Na neurocisticercose em paciente com poucos cisticercos, quando estes estão implantados no pa- rênquima cerebral, são geralmente assintomáticas, podendo ocorrer crises epilépticas em alguns in- divíduos. Nas infecções com grande quantidade Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma radiografia de uma perna humana, na região da ar- ticulação do joelho. Podem ser vistos os ossos em uma coloração branca e opaca. Os músculos também podem ser observados, mas aparecem translúcidos, demarcando apenas o seu contorno. No meio dos músculos, podem ser notadas dezenas de estruturas brancas ovaladas e opacas, sendo estas os cisticercos calcificados. Imagem 9 – Cisticercos (setas) nos músculos da perna, próximo a articulação do joelho Fonte: adaptado de Lin, Chen e Tzeng (2014). de cisticercos no parênquima cerebral, podem de- senvolver síndrome de hipertensão intracraniana, crises graves de epilepsia e apresentar déficit cogni- tivo (NEVES, 2016). Os cisticercos podem, ainda, se implantar na região das cavidades cerebrais (os ventrículos), ocasionando hipertensão intracra- niana, hidrocefalia e inflamação das meninges (meningite) podendo levar ao óbito. UNICESUMAR UNIDADE 6 175 Diferente da teníase, onde o exame laboratorial é a base do diagnóstico, para a cisticercose há uma junção de fatores clínicos, laboratoriais e epidemiológicos. Uma vez que a doença ocorre com maior frequência em locais com saneamento básico precário, e a presença de suínos pode influenciar diretamente a presença do parasito, as informações epidemiológicas são importantes para a conclusão do diagnóstico. No que diz respeito ao diagnóstico laboratorial, são realizados exames para identificar patologias anatômicas e observação do próprio cisticerco por biópsia, necrópsias e cirurgias (NEVES,2016). Para a oftalmocisticercose, pode ser realizado o diagnóstico com o exame de fundo de olho, ob- servando diretamente o parasito (Imagem 11). Para a neurocisticercose, o diagnóstico laboratorial é baseado no exame do líquido cefalorraquidiano (líquor), em neuroimagens e na detecção de anticorpos. O processo degenerativo do cisticerco apresenta como consequência a ativação de uma resposta inflamatória, desencadeando um aumento do número de leucócitos no líquor (pleocitose), com muitos eosinófilos (eosinofilorraquia). No exame do líquor, a reação positiva para a fixação do complemento também é utilizada para o diagnóstico. No examede neuroimagem, são utilizadas a tomografia computadorizada e a ressonância magnética. Para a detecção dos anticorpos são reali- zados testes de ensaio imunoenzimático (ELISA). O tratamento da cisticercose consiste no combate às larvas encistadas com fármacos, sendo o pra- ziquantel e albendazol os de escolha, que causam a morte do parasito. Além disso, é feito um controle da inflamação por meio de corticóides. Pode ser realizado ainda, o controle de sintomas como por exemplo, da epilepsia, por meio de fármacos. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o corte longitudinal de um cérebro humano, expondo sua região interna e central, em que estão dezenas de cisticercos, caracterizado por vesículas de forma arredondada, algumas translúcidas e outras opacas, inseridos no tecido neural. Imagem 10 – Cérebro humano seccionado contendo dezenas de cisticercos (setas). / Fonte: ANATPAT (2022) https://anatpat.unicamp.br/bineucisticercose.html 176 O segundo grupo de platelmintos de importân- cia para a parasitologia é aquele representado por integrantes da Classe Trematoda. Os tre- matódeos (grego trematodis = corpo com aber- turas ou ventosas) tem como característica a presença de duas ventosas na região anterior do cor- po. Esses parasitos, diferente das tê- nias, não são s e g m e n t a - dos, e apre- sentam um tubo diges- tório, porém sem ânus, sendo, portan- to, incompleto (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: Na imagem pode ser observado uma fotografia do fundo do olho de um paciente, obser- vado pela lente de um aparelho médico, onde pode-se ver a retina e os vasos sanguíneos do paciente, a ligação com o nervo óptico, e uma estrutura circular, de cor cinza avermelhada, constituindo um cisticerco. Descrição da Imagem: Na imagem, pode observada a região anterior do verme macho da espécie Schistosoma mansoni, em que se nota a ventosa oral, a ventosa ventral, o início do canal ginecóforo e a ventosa oral da fêmea, inserida no canal ginecóforo. Imagem 11 – Exame de fundo de olho, observando o cisticer- co inserido na retina, com o escólex evaginado Fonte: HOSP (2018) Imagem 12 – Porção anterior do Schistosoma mansoni, obser- vando as ventosas oral e ventral. / Fonte: Rey (2009, p. 167). A maioria das espécies de trematódeos possui os dois sexos no mesmo indivíduo, ou seja, são hermafroditos, sendo que o Schistosoma man- soni, nosso foco de estudo a partir deste ponto, é a exceção, apresentando indivíduos com sexos separados (dioicos). Dentre os trematódeos, as espécies com interes- se para a parasitologia se concentram na subclasse Digenea, que tem como característica englobar os parasitos com duas ventosas, sendo uma mais an- terior, denominada de ventosa oral (Imagem 12), quase na extremidade do verme, e a outra ventral e, ainda, na região anterior, denominada de acetábulo (ou ventosa ventral) (FERREIRA, 2021). UNICESUMAR UNIDADE 6 177 Outra característica em que o S. mansoni é uma exceção dentro dos trematódeos é a morfologia corporal dos vermes adultos. Enquanto a maioria das espécies dessa classe apresenta o corpo fortemente achatado dorsoventralmente, com aspecto de uma folha, como a Fasciola hepatica (veja a Imagem 01 desta unidade), o esquistossomo apresenta o corpo mais volumoso e dimorfismo sexual (Imagem 13), com diferenças acentuadas entre macho e fêmea. O corpo do macho, medindo aproximadamente 1,0 centímetro de comprimento, é longo, volumoso, dobrado ventralmente com o aspecto de “C”, e dividido em duas partes: a anterior, onde se encontram as ventosas e tem forma cilíndrica; e a posterior, que se inicia após o acetábulo, é achatada dorsoven- tralmente, e apresenta em sua porção ventral, um canal destinado a cópula, denominado de canal ginecóforo, formado pelo dobramento das extremidades laterais. O macho apresenta naturalmente uma coloração branca (REY, 2009; NEVES, 2016, FERREIRA, 2021). O corpo da fêmea, diferente do macho, é cilíndrico, mais fino e mais longo. Seu comprimento varia entre 1,2 e 1,6 centímetros. A fêmea tem como característica se alimentar com hemácias do hospedeiro e, devido à espessura de seu corpo, permite a visualização dos pigmentos da digestão da hemoglobina, dando-lhe a coloração acinzentada e escura (REY, 2009). Descrição da Imagem: Na imagem, são observadas três micrografias dos vermes da espécie Schistosoma mansoni. Na micrografia representada pela letra “a”, pode ser observada a fêmea do parasito, cilíndrica, delgada e mais comprida. Na micrografia repre- sentada pela letra “b”, pode ser visto o macho do parasito, que dobra ventralmente em forma de “C” e é mais robusto, observando as duas ventosas na região anterior. Na micrografia representada pela letra “c”, podem ser observados o macho e a fêmea do parasito, no processo de cópula, com a fêmea no interior do canal ginecóforo. Imagem 13 – Schistosoma mansoni: a) fêmea, b) macho, c) fêmea no interior do canal ginecóforo do macho, realizando a cópula. Fonte: adaptado de Ghaffar (2017). a) b) c) 0.5mm40µm Fêmea Schistosoma mansoni Schistosoma mansoni Macho Macho e fêmea em cópula Três espécies do gênero Schistosoma, são responsáveis por causar doenças em seres humanos. S. mansoni, S. japonicum e S. hematobium, porém com distribuição e prevalência diferenciada ao redor das áreas tropicais do mundo. Na América os relatos de esquistossomose estão relacionados diretamente com S. mansoni. A doença causada pelo S. mansoni é denominada de esquistossomose mansônica, conhecida popularmente como xistose, barriga d’água ou, ainda, como mal do caramujo. Estima-se que mais de 250 milhões de pessoas no mundo estejam infectadas com parasitos do gênero Schistosoma (GHAFFAR, 2017). Para conhecer mais sobre a epidemiologia do Schistosoma mansoni, veja o Eu Indico a seguir. 178 O S. mansoni, no decorrer de todo o seu ciclo biológico, apresenta seis estágios morfológicos distintos: adulto macho, adulto fêmea, ovo, larva miracídio, larva cercária e esquistossômulo. Além das características já descritas para os adultos, vale destacar que o macho apresenta 7 a 9 massas testiculares que se abrem, por meio de canais deferentes, no canal ginecóforo, onde os espermatozóides serão liberados para fecundar a fêmea. Já a fêmea, apresenta uma vulva que se abre após o acetábulo, seguida internamente pelo útero e ovário. O ovo deste parasito (Imagem 14) apresenta características que permitem sua fácil detecção. Apre- sentam, aproximadamente, 150 micrômetros de comprimento por 60 micrômetros de largura, com formato oval, e apresentando um espículo lateral voltado para trás (NEVES, 2016). Título: Vigilância da Esquistossomose Mansoni: Diretrizes técnicas Autor: Brasil, Ministério da Saúde Sinopse: O livro discute e apresenta as características da Esquistosso- mose e diretrizes para a vigilância epidemiológica da doença. Comentário: A obra pode ser acessada online pelo link: Descrição da Imagem: Na imagem pode ser observada uma micrografia do ovo do parasito Schistosoma mansoni, de cor amarelada e translúcida, de formato oval, disposto na imagem com seu maior diâmetro na horizontal, sendo observado também um espículo, como um espinho, localizado na região lateral esquerda inferior, a ponta voltada para trás e para baixo. Imagem 14 – Ovo do Schistosoma mansoni, observando o espículo lateral voltado para trás UNICESUMAR https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigilancia_esquistossome_mansoni_diretrizes_tecnicas.pdf https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15686 UNIDADE 6 179 O miracídio (Imagem 15) corresponde à larva que eclode do ovo após este ser liberado no ambiente e atingir um corpo de água. Apresenta uma forma cilíndrica, com as células epidérmicas com cílios, possibilitando sua movimentação na água. Apresenta o formato semelhante a uma folha e mede, apro- ximadamente, 180 micrômetros de comprimento por 64 micrômetros de largura. O miracídio tem como principal objetivo nadar até encontrar o caramujo hospedeiro. Quando atingeeste objetivo, ele deve penetrar no caramujo, se multiplicar e diferenciar em larvas do tipo Cercária. Para que realize a penetração no caramujo, o Miracídio apresenta em sua extremidade anterior, estruturas especializadas como terebratorium, glândulas adesivas e glândulas de penetração. Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observadas uma figura ilustrativa de um miracídio, marcada com a letra “a”, e uma micrografia de um miracídio, marcada com a letra “b”. Apresenta uma estrutura elíptica alongada, com as estruturas internas representadas, destacando-se na legenda, da região superior para a inferior, “Papila apical ou terebratório”, “Glândula de penetra- ção”, “Glândulas adesivas” e “Células germinativas”. Pode ser observado, ainda, a lateral recoberta por estruturas finas e curtas, os cílios. Na micrografia, pode ser observada uma larva miracídio, com formato similar ao da figura, sem distinção das estruturas internas, mas observando os cílios laterais. Imagem 15 – Schistosoma mansoni: a) desenho esquemático da larva miracídio; b) micrografia da larva miracídio. Fonte: Ferreira (2021, p. 223); USP (2022a). Papila apical ou terebratório Glândula de penetração Glândulas adesivas Células germinativas a) b) A cercária (Imagem 16) corresponde à larva liberada do caramujo para dentro do corpo d’água. Seu objetivo é nadar até encontrar o hospedeiro definitivo (o ser humano), se fixar e penetrar ativamente pela pele. Assim, sua estrutura corporal reflete esse objetivo. O corpo da larva lembra uma flecha, e está dividido em duas partes: a anterior, chamada de corpo cercariano, tem comprimento de 190 micrômetros por 70 micrômetros de largura, e possui duas ventosas (uma oral e uma ventral), além de apresentar glândulas de penetração que se abrem na ventosa oral; a parte posterior, constitui uma cauda com a extremidade bifurcada, com comprimento de 230 micrômetros por 50 micrômetros de largura. A cauda permite que a cercária nade, enquanto o corpo cercariano tem a função de fixar a larva no hospedeiro e penetrar a pele. 180 Por fim, o último estágio morfológico do S. mansoni é o esquistossômulo. Esta forma corresponde ao corpo cercariano da cercária, que ao penetrar na pele do hospedeiro, abandona a cauda. O esquistos- sômulo tem, portanto, as ventosas oral e ventral em um corpo oval alongado. O ciclo de vida do Schistosoma mansoni (Imagem 17) é heteróxeno, com o hospedeiro intermediário sendo os caramujos do gênero Biomphalaria (Imagem 18) e o hospedeiro definitivo, o ser humano. O ciclo tem início com a liberação dos ovos do parasito para o ambiente com as fezes, já com o miracídio formado em seu interior. No ambiente os ovos podem sobreviver por até cinco dias, em fezes sólidas, sem encontrar um corpo d’água. Caso consigam atingir a água, os ovos eclodem e liberam o miracídio, que nadam à procura do hospedeiro intermediário. Os miracídios conseguem perceber a presença do caramujo por meio do reconhecimento de substâncias liberadas na água (denominadas de miraxone), sendo guiados até eles, onde penetram em seu tegumento por meio do tenebratorium e da liberação do conteúdo das glândulas de adesão e de penetração. Durante o processo de penetração, o miracídio perde a maior parte de suas estruturas internas, restando apenas as paredes cuticulares em uma es- trutura em forma de saco que abriga as células germinativas (de 50 a 100 células) que darão origem a milhares de cercárias, e que passa a ser denominada de esporocisto (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado um desenho esquemático marcado com a letra “a” e uma micrografia marcada com a letra “b”, ambos pertencentes à larva do tipo cercária do parasito Schistosoma mansoni. Em ambas as imagens, pode ser observado, do lado esquerdo, uma cauda longa e fina, que termina em um bifurcação, ligada ao corpo cercariano do lado direito, com forma ovóide, contendo duas ventosas. Imagem 16 - Schistosoma mansoni: a) desenho esquemático da larva cercária; b) micrografia da larva cercária. Fonte: adaptado de Rey (2008, p. 442); USP (2022b) UNICESUMAR UNIDADE 6 181 Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado o ciclo de vida do Schistosoma mansoni. A figura está separada em duas partes interligadas: na superior, com fundo branco, observa-se a figura de um ser humano e do seu lado os órgãos: fígado, estô- mago e duodeno; na inferior, com fundo azul, representando a água, observa-se a figura de um caramujo com o nome do gênero Biomphalaria. O ciclo se desenvolve em sequência, com setas ligando cada imagem, começando na metade superior: 1- dois vermes adultos de S. mansoni acasalando com a legenda “Adultos acasalando”; 2- A imagem do ovo do parasito seguido por duas setas: na primeira aponta para os órgãos do ser humano, com a legenda “alguns ovos retornam ao fígado”, e a segunda continua o ciclo para a metade do caramujo com a legenda “ovos liberados nos vasos mesentéricos”; 3- a imagem da larva miracídio na metade inferior da figura, com a legenda “Miracídios ciliados liberados na água”; 4- imagem de um envoltório com larvas cercárias dentro, representando o esporocisto no interior do caramujo, com a legenda “Formação de numerosas cercárias por poliembrionia”; 5- imagem da larva cercária, com a legenda “Cercárias liberadas na água”; 6- cercária em contato com uma superfície que lembra a pele humana, na linha divisória entre as metades da figura, com a legenda “Penetração na pele”; 7- o desenho dos pulmões, brônquios e traqueia, com a legenda “Ciclo pulmonar” e termina com uma seta ligando ao número 1. Imagem 17 – Ciclo de vida do Schistosoma mansoni. / Fonte: Ferreira (2021, p. 221). Adultos acasalando Ovos liberados nos vasos mesentéricos Alguns ovos retornam ao fígado Miracídio ciliado liberado na água Caramujo (Biomphalaria) Formação de numerosas cercárias por poliembrionia Cercárias liberadas na água Penetração na pele Ciclo pulmonar 182 No interior do esporocisto, que se ramifica e se divide, as células ger- minativas sofrem um processo de intensa multiplicação, seguida de diferenciação, resultando, ao final de 27 a 30 dias, contados a partir da penetração do miracídio, em aproximadamen- te 300 mil cercárias que serão liberadas no corpo d’água onde o caramujo se encontra. A partir desta liberação as cercárias nadam à procura do hospedeiro definitivo, o ser humano, podendo sobreviver por até 48 horas. Quando a cercária encontra um ser humano, se adere fortemente por meio das duas ventosas do corpo cercariano. Em seguida assumem a posição vertical, fixas apenas pela ventosa oral e, por meio de secreções glandulares de ação lítica, juntamente com movimentos vibratórios, penetram na pele do hospedeiro com o corpo cercariano, deixando a cauda no exterior, em um pro- cesso com duração máxima de 15 minutos, assumindo a forma denomi- nada de esquistossômulo. As cercárias podem, ainda, ser ingeridas junto com a água, levando a duas possibilidades: chegar ao estômago e ser destruída pelo suco gástrico; ou penetrar pela mucosa oral e desenvolver a infecção normalmente (REY, 2009; NEVES, 2016; SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Com este vídeo você poderá acompanhar diretamente o ciclo biológico do Schistosoma mansoni, observando as larvas no ambiente natural e os vermes no hospedeiro. Para acessar, use seu leitor de QR Code. Após a penetração, o esquistossômulo migra pelo tecido subcutâneo até alcançar um vaso san- guíneo, penetrando-o e sendo levado passivamente até o pulmão, sendo direcionado em seguida para o sistema porta-hepático no fígado. Decorridos aproximadamente 28 dias, o esquistossômulo se torna adulto, ocorre a cópula com a fêmea no interior do canal ginecóforo, e ambos os vermes, juntos, migram contra o fluxo sanguíneo para as veias mesentéricas, com preferência para a veia mesentérica inferior, na altura do reto. Neste local, as fêmeas põem, aproximadamente, 400 ovos por dia, na parede das vênulas e capilares que, com a pressãodos ovos, pressão do parasito (pelo seu tamanho para os vasos do local) e reação inflamatória do hospedeiro, rompem o vaso e são liberados nas fezes, e, em seguida, o meio externo. Entretanto, apenas cerca de 50% dos ovos postos chegam à luz intestinal. Do restante, parte morre na parede intestinal e parte é levada pela corrente sanguínea de volta para o fígado, podendo ainda passar por este e atingir outros órgãos. UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/15687 UNIDADE 6 183 A resposta imune do hospe- deiro é de extrema importân- cia para a esquistossomose, porém, não para impedir a doença, mas por participar do processo patológico. Embora pacientes de área endêmicas apresentem maior resistência a reinfecções, demonstrando que há a formação de uma resposta imune adaptativa contra o S. mansoni, essa resposta tende a ser direcio- nada apenas para as formas jovens (esquistossômulos), e tende a ser limitada, uma vez que parte dos vermes da rein- fecção chegam à idade adulta (NEVES, 2016). Essa resposta imune está diretamente ligada à ação de linfócitos T helper 2 e IgE. Embora ocorram alterações morfológicas e fisiológicas na entrada e movimentação do parasito pelo organismo humano, essas são de pouca relevância. “A esquistossomose mansoni é basicamente uma doença decorrente da resposta inflamatória granulomatosa que ocorre em torno dos ovos vivos do parasito” (NEVES, 2016, p. 233). Os antígenos que dão origem à resposta inflamatória que resulta na formação de um granuloma são secretados pela membrana interna do ovo contendo o miracídio e ativam a resposta imune humoral e celular. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma fotografia de um cara- mujo do gênero Biomphalaria. Com coloração laranja-avermelhada, apresenta uma concha de aspecto cilíndrico, formada por uma espiral central, com uma abertura inferior do lado direito, por onde sai a extremidade anterior do molusco, sendo ob- servado a projeção de ambos os olhos em pedúnculos longos. Imagem 18 – Biomphalaria glabrata. / Fonte: adaptado de Alchetron (2022) Um Granuloma consiste em um “nódulo de tecido inflamatório composto de agregados de macrófa- gos e linfócitos T, normalmente com fibrose associada. A inflamação granulomatosa é uma forma de hipersensibilidade do tipo retardada crônica, frequentemente em resposta a microrganismos persistentes” (ABBAS; LICHTMAN; PILLAI, 2019, p. 501). Já a inflamação granulomatosa é uma forma de inflamação crônica caracterizada por coleções de ma- crófagos ativados, muitas vezes com linfócitos T, e às vezes associadas à necrose central. Os macrófagos ativados desenvolvem um citoplasma abundante e passam a se assemelhar a células epiteliais, sendo chamados células epitelióides. Alguns macrófagos ativados podem se fundir, formando células gigantes multinucleadas. A formação de granulomas é uma tentativa celular de conter um agente agressor difícil de erradicar. Nesta tentativa, frequentemente há uma forte ativação de linfócitos T que desencadeia ativação dos macrófagos, o que pode causar lesões nos tecidos normais” (KUMAR; ABBAS; ASTER, 2021, p. 85). 184 A patologia da doença é dependente de vários fatores, tanto do hospedeiro quanto do verme, porém os dois principais são a carga parasitária e a resposta imune do hospedeiro. Além desse ponto, a fase da doença e a forma do parasita podem resultar em alterações específicas no organismo humano. Uma manifestação clínica importante, muitas vezes utilizada para um diagnóstico presuntivo, diz respeito a patologia desencadeada pela penetração da cercária pela pele, sendo denominada de dermatite cercariana ou dermatite do nadador. É caracterizada pela presença de eritema, edema, dor e pequenas pápulas, nos locais onde ocorreu a penetração. A movimentação do esquistossômulo até o pulmão pode gerar manifestações clínicas, como febre, aumento do baço, linfadenia e sintomas pulmonares (NEVES, 2016). Já os vermes adultos causam pouco prejuízo quando estão vivos, restrin- gindo a espoliar os nutrientes do sangue e as próprias hemácias (em busca por ferro); porém quando morrem, podem causar lesão extensa, porém, restrita ao local onde os corpos estão, que geralmente no fígado, arrastados pela circulação porta-hepática. Resta ainda caracterizar a patogenia desenvolvida pelos ovos. Esses são, sem comparação, os princi- pais responsáveis pela patogenia da esquistossomose. O primeiro ponto de lesões ocorre na passagem dos ovos para o intestino, quando o número de ovos liberados é grande, pode acarretar hemorragias e ulcerações. Ainda assim, essas lesões são autorreparadas. Porém, a inflamação granulomatosa desen- volvida ao redor dos ovos, que são transportados pela corrente sanguínea até o fígado e outros órgãos, é o principal problema desencadeado pela doença. As lesões provocadas pelo granuloma (Imagem 19) geram diferentes quadros clínicos, dependendo da quantidade, do momento que se instalam e do local. Assim, a esquistossomose pode ser dividida em aguda e crônica. Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma micrografia do tecido hepático de hospedeiro de S. mansoni. São obser- vadas centenas de hepatócitos, corados em rosa, como as células maiores. No centro da imagem, entre os hepatócitos, podem ser observados nove orifícios, alguns dos quais contém uma massa escura no formato dos ovos de S. mansoni, sendo envolvidas por células menores de coloração rosa arroxeada, caracterizadas como macrófagos, formando um granuloma. Imagem 19 – Granuloma formado pelo ovo de S. mansoni, que se encontra calcificado (pontos pretos do centro da imagem), e reação inflamatória do hospedeiro. UNICESUMAR UNIDADE 6 185 Segundo Neves (2016) as fases da doença apresentam as seguintes características: 1. Esquistossomose Aguda • Fase pré-postural – fase anterior ao início da postura dos ovos, 10 a 35 dias após a entrada da cercária, a maioria dos pacientes é assintomática. Para alguns, pode ocorrer mal-estar, febre, tosse, dores musculares, desconforto abdominal e hepatite aguda. • Fase aguda – aparece por volta de 50 dias e podem durar até 120 dias, caracterizada pela necrose no intestino e dispersão dos ovos, dando origem aos granulomas, prin- cipalmente no fígado, resultando em: enterocolite aguda, febre, sudorese, calafrios, emagrecimento, fenômenos alérgicos, diarreia, disenteria, tenesmo, cólicas, hepatoes- plenomegalia, linfadenia e leve alteração nas funções hepáticas. 2. Esquistossomose Crônica (as características clínicas são concomitantes e podem ser isoladas). • Alterações intestinais – como o parasito pode sobreviver por muitos anos (em média 5, podendo chegar até 30), muitos sintomas podem continuar se manifestando, de forma intercalada com períodos de ausência, ou mesmo aparecer depois de meses ou anos. Os mais comuns são diarreia mucossanguinolenta, dor abdominal e tenesmo. Pode ocorrer fibrose no cólon sigmoide e reto, resultando em constipação. • Alterações hepáticas – tem início com a formação dos granulomas e progridem conforme o número de granulomas que se formam (um casal de S. mansoni pode formar até 200 granulomas por dia). Inicialmente, o fígado aumenta de tamanho e se torna doloroso ao toque, seguindo para uma diminuição e fibrosamento, formando inúmeros lobos. Essas alterações ocasionam a obstrução dos vasos intra-hepáticos da veia porta e formação de trombos, resultando na hipertensão portal (manifestação típica e mais grave da doença), ocasionando: esplenomegalia, pela obstrução da veia esplênica no sistema porta; varizes, circulação colateral para tentar compensar a obstrução da circulação portal, em vários locais, sendo um deles o esôfago (varizes esofágicas) onde podem se romper e ocasionar hemorragias, muitas vezes fatais; as- cite (extravasamento de líquido para a cavidade peritoneal – origem do termo Barriga D’água), em decorrência das alterações hemodinâmicas. O diagnóstico da esquistossomose é uma composição clínica e laboratorial.Na porção clínica, a anamnese é fundamental, principalmente o conhecimento do contato com corpos d’água, além da observação de sintomas típicos, como a dermatite cercariana. O diagnóstico laboratorial da doença pode utilizar diversas técnicas amplamente aplicadas. O exame parasitológico de fezes é o mais utilizado devido à presença dos ovos e fácil caracterização morfológica. No entanto, em cargas parasitárias baixas, pode ser necessário a coleta de várias amos- tras, pois o número de ovos pode ser pequeno. Tal fator pode ser compensado utilizando métodos de concentração das amostras. Outra técnica utilizada é a biópsia ou raspagem da mucosa retal, com a finalidade de observar os ovos. 186 Além dos exames diretos de fezes, são utilizados métodos indiretos imunológicos e moleculares buscando antígenos e DNA do parasito, ou anticorpos do hospedeiro. Os métodos mais utilizados são: intradermorreação, ensaio de adsorção imunoenzimático (ELISA), fixação do complemento e PCR. Neste podcast, você vai conhecer as principais metodologias recomen- dadas para o diagnóstico da esquistossomose mansônica. Vou discutir e diferenciar para você os métodos diretos e indiretos de diagnóstico, apresentando prós e contras de sua utilização. Acesse o QRCode e aperte o play! O tratamento para a esquistossomose mansônica é realizado por meio de quimioterápicos. Os dois principais fármacos empregados são a oxamniquina e o praziquantel. Entretanto, o tratamento deve ser bem avaliado devido ao risco de reações colaterais. Nesta unidade você aprendeu as características dos representantes do filo Platyhelminthes, conhe- cendo os principais representantes das duas classes de interesse para a parasitologia: os cestódeos e os trematódeos. Aprendeu, ainda, sobre a biologia e as parasitoses causadas pelas tênias e esquistossomos. Agora que você aprofundou seus conhecimentos nos platelmintos, pode entender e completar o desafio que foi proposto, além de responder os questionamentos levantados. Resgate o exercício pro- posto no início da unidade e tente resolvê-lo com os conhecimentos que agora possui. Como você aprendeu no decorrer desta unidade, os platelmintos da classe Cestoda, em especial as tênias, infectam o hospedeiro definitivo através de larvas encistadas no interior das fibras muscu- lares, denominadas cisticercos, que são consumidas e se desenvolvem em adultos no intestino desses hospedeiros. O cozimento correto da carne contendo cisticercos é capaz de matá-los ou torná-los inviáveis, impossibilitando o estabelecimento de uma infecção, demonstrando a grande importância desse procedimento para a prevenção da teníase. Por outro lado, os parasitos da classe Trematoda têm parte do seu ciclo biológico livre no ambien- te, na forma de larvas, sendo que a formação da larva infectante, a cercária, depende diretamente da presença dos caramujos do gênero Biomphalaria. Assim, o controle desse gênero de caramujo é uma das principais formas de prevenção da doença. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde e o Sistema de Informação do Programa de Controle da Esquistossomose (SISPCE), 1,5 milhão de pessoas encon- tram-se em áreas de risco para a doença, sendo os estados do Nordeste e Sudeste os que apresentam maior risco. Entre 2009 e 2019, foram registrados, em todo o Brasil, 423.117 casos da doença, com ocorrência relacionada a locais com a presença do caramujo. São fatores que aumentam o risco de contrair a doença, presentes em áreas endêmicas: a precariedade em saneamento básico, a presença e abundância do caramujo do gênero Biomphalaria, a proximidade e uso de corpos d`água, que contenham o caramujo, para banho, recreação e pesca. O controle destes fatores corresponde a formas utilizadas para profilaxia da doença. UNICESUMAR https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/13777 187 Caro(a) aluno(a), com base nos conhecimentos que você adquiriu nesta unidade, estou certo de que é capaz de preencher o mapa mental a seguir. PLATHELMYNTHES Cestoda Corpo Principal representante Hermafroditos ou dióicos Ciclo heteroxeno Habitat Segmentado Hermafroditos Hospedeiro intermediário Forma de infecçãoBiologia 188 1. Leia o texto a seguir: Taenia solium e Taenia saginata são parasitos que, na fase adulta, têm o homem por único hos- pedeiro. Na fase larvária, T. solium parasita obrigatoriamente o porco e T. saginata os bovídeos, sendo, portanto, parasitos estenoxenos em todas as fases de seu ciclo biológico. Fonte: REY, L. Parasitologia, 4ª edição. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2008, p. 516. A tênias são parasitos responsáveis por doenças humanas, especificamente a teníase e a cisticercose. Com base neste assunto, explique, por meio de um texto dissertativo de 3 a 5 linhas, como ocorre a cisticercose. 2. Leia o texto a seguir: As esquistossomoses são moléstias parasitárias causadas por helmintos pertencentes ao filo Platyhelminthes, classe Trematoda, subclasse Digenea e família Schistosomatidae, adquiridos por meio de contato com água doce contaminada. Fonte: SIQUEIRA-BATISTA, R. et al. Parasitologia - Fundamentos e Prática Clínica. 1ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. A infecção pelo Schistosoma mansoni tem uma relação direta com corpos de água doce. Com base neste assunto, explique, por meio de um texto dissertativo de 3 a 5 linhas, qual a relação entre a infecção pelo S. mansoni e o contato com corpos de água doce. 3. Leia o texto a seguir: A infecção por Schistosoma costuma ser assintomática ou oligossintomática na maioria dos pacientes. Todavia, é responsável por importante morbimortalidade, alterando o desenvolvi- mento dos enfermos jovens, bem como, algumas vezes, reduzindo a capacidade de trabalho dos adultos, representando, por conseguinte, um grave problema de saúde pública”. Fonte: SIQUEIRA-BATISTA, Rodrigo et al. Parasitologia - Fundamentos e Prática Clínica. 1ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. A infecção pelo Schistosoma mansoni pode acarretar graves problemas de saúde para o ser humano. Entretanto, a patogenia para essas complicações gira em torno do mesmo fator. Com base neste assunto, explique, por meio de um texto dissertativo de 3 a 5 linhas, como o S. man- soni provoca doença que acarreta diversos problemas de saúde associados à esquistossomose. 7 Caro(a) aluno(a), nesta unidade, você conhecerá os artrópodes e seus representantes. Você aprenderá suas principais características e entenderá sua importância para a parasitologia, tanto como vetor e hospedeiro de parasitos, como sendo o próprio parasito. Artrópodes e a sua Relação com a Parasitologia Dr. Vinícius Pires Rincão 190 O parasitismo pode ser entendido como uma relação íntima e duradoura entre indivíduos de espécies diferentes, na qual há uma dependência metabólica, em que o parasito se beneficia do hospedeiro, causando prejuízo. A maioria das parasitoses se estabelece quando o parasito in- vade o corpo do hospedeiro, porém, isso não é uma regra. Caro(a) aluno(a), você já parou para pensar nas diferentes formas como o parasitis- mo pode se instalar em nosso organismo? Você consegue pensar em uma parasitose que se es- tabeleça na superfície de um hospedeiro? Qual a relação destas parasitoses com os artrópodes? Dentre todos os grupos de animais que podem ser encontrados sobre o planeta terra, os artrópodes são os que apresentam o maior número de espécies e indivíduos. Dentre estes, os insetos correspondem ao maior grupo, sendo encontrados no meio terrestre e aquático, intera- gindo com praticamente todos os grupos de seres vivos de alguma forma. Durante sua vida, um ser humano entrará em contato com algum inseto, ao menos, três vezes por dia, sendo provável o estabelecimento de algum tipo de interação, como o parasitismo, pelo menos uma vez na vida. Entender esses organismos e sua relação com os seres humanos é essencial para a compressão dos diferentes papéis que desempenham na parasitologia. Neste contexto, para que você entendaum pouco mais sobre a importâncias dos artrópodes para os seres humanos e para a para- sitologia, proponho a você um desafio: pesquise quais os tipos de insetos hematófagos em sua região, principalmente mosquitos, e se estes podem apresentar relação com parasitoses. Os artrópodes, em especial os in- setos, estão adaptados a vários tipos de climas. No entanto, por serem pe- cilotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal ser dependente da tempera- tura do ambiente, seu metabolismo e atividade são afetados diretamente pelo local onde se encontram. Assim, UNICESUMAR UNIDADE 7 191 a maior diversidade de espécies para este grupo de organismos é encontrada em ambientes mais quen- tes. O Brasil, nesse aspecto, é um verdadeiro paraíso para os insetos e, portanto, encontramos em nosso país insetos com as mais variadas adaptações, inclu- sive aqueles que podem estabelecer um parasitismo. Mas como os artrópodes podem interagir com os seres humanos a ponto de causar parasitismo? Essa interação é específica para os seres humanos ou o mesmo inseto pode parasitar diferentes espécies? A importância dos insetos para a parasitologia está re- lacionada apenas ao parasitismo que podem causar ou eles podem influenciar em parasitoses de proto- zoários e helmintos? Caro(a) aluno(a), agora é sua vez. Pense na pes- quisa que você fez, e nas questões que levantei no parágrafo anterior, e escreva seus resultados no seu diário de bordo, a fim de que eu e você possamos analisá-las juntos no decorrer desta unidade. 192 Os artrópodes são um grupo de animais que apresenta, como principal característica, apêndices (ou pés) articulados, como o próprio nome sugere (grego arthro = articulado; poda = pés) (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). O filo Arthropoda é o maior grupo dentre os que constituem o Reino Animal, possuindo mais de 80% das espécies conhecidas de metazoários (FER- REIRA, 2021). Estima-se que existam mais de 10 milhões de espécies representantes deste filo, com mais de 1,5 milhões de espécies já descritas, sendo que, entre estes, os insetos são os mais numerosos, com mais de 800.000 espécies conhecidas. Este grupo de animais apresenta a maioria das espécies de vida livre, com habitats que variam desde os oceanos até regiões desérticas. Entretanto, pelo grande número de espécies, era de se esperar que existissem aquelas de interesse médico. Estas espécies podem se apresentar ou como vetores para agentes etiológicos de doenças, tais como vírus, bactérias, protozoários, e até mesmo helmintos, sendo um exemplo deste último a transmissão da Wuchereria bancrofti (agente causador da filariose) pelo Culex quinquefasciatus (Imagem 1a); ou como o próprio parasito do ser humano, como no caso das pulgas (Imagem 1b), pertencentes à Ordem Siphonaptera. Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observadas duas fotografias de insetos. Na imagem da esquerda, marcada com a letra “a”, temos o pernilongo comum, da espécie Culex quinquefasciatus, em que observamos um inseto de cor amarela, com o corpo alongado, pernas finas e longas e asas dobradas sobre o abdômen, e a extremidade anterior alongada como uma agulha. Na imagem da direita, marcada com a letra “b”, temos uma pulga, da Ordem Siphonaptera, em que observamos um inseto, de coloração amarelo alaranjado, achatado lateralmente, sem asas, com o par de pernas posterior robusto e destinado ao salto. Imagem 1 - a) Culex quinquefasciatus (pernilongo comum); b) Ordem Siphonaptera (pulga) Embora a maioria dos artrópodes de interesse para a parasitologia pertença à classe Insecta, os carra- patos e ácaros também têm representantes capazes de iniciar uma parasitose. É necessário conhecer os representantes deste grupo para entender a extensão de sua importância. UNICESUMAR UNIDADE 7 193 Descrição da Imagem: Na imagem, podem ser observadas quatro fotografias de representantes dos quatro principais tipos de artró- podes. Na porção superior esquerda, marcado com a letra “a”, pode ser observada uma aranha, representante dos aracnídeos, de cor marrom, contendo quatro pares de patas evidentes, um cefalotórax e o abdômen proeminente. Na porção superior direita, marcado com a letra “b”, pode ser observado um caranguejo, representante dos crustáceos, de cor laranja, contendo quatro pares de patas, mais duas pinças grandes na porção anterior, com o corpo formado por um único segmento. Na porção inferior esquerda, marcado com a letra “c”, pode ser observada uma mosca, representante dos insetos, de cor verde, com três pares de patas, asas, e olhos bem evidentes, contendo o corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen. Na porção inferior direita, marcado com a letra “d”, pode ser observado um piolho-de-cobra, representante dos miriápodes, de cor preta, possui o corpo alongado como um cordão, dividido em vários segmentos, sendo que em cada segmento estão presentes dois pares de patas. Imagem 2 - Principais representantes dos artrópodes: a) um aracnídeo; b) um crustáceo; c) um inseto; d) um miriápode. Caro(a) aluno(a), com certeza você já ouviu falar dos artrópodes alguma vez na sua vida. Você con- segue indicar todos os tipos de animais que pertencem a este grupo? Os artrópodes são classificados no Reino Animal, sendo que o filo Arthropoda possui dois subfilos: Arachnomorpha e Mandibulata (Imagem 2). No subfilo Arachnomorpha, temos a classe Arachnida (aranhas, escorpiões e carrapatos) e a classe Xiphosura (caranguejos pata-de-cavalo). No subfilo Madi- bulata, temos a superclasse Crustacea (camarões, lagostas e caranguejos), a superclasse Panhexapoda na qual está presente a classe Insecta (moscas, pulgas, besouros etc.), e a superclasse Myriapoda, em que se encontram as classes Chilopoda (centopeias) e Diplopoda (piolho-de-cobra). 194 Para que você possa entender melhor como os artrópodes interagem com o ser humano, será preciso conhecer suas características. Estes animais são metazoários, ou seja, são multicelulares, com a neces- sidade de ingerir seu alimento (heterotróficos) e são móveis; seu corpo apresenta simetria bilateral e um exoesqueleto (esqueleto na parte externa do corpo) formado por quitina, carbonato de cálcio e proteínas, dividido em segmentos articulados entre si (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Como regra, o corpo de um artrópode pode ser dividido em cabeça, tórax e abdômen (Imagem 3), porém, para alguns grupos dentro do filo, como a classe Arachnida, cujo os representantes mais conhecido são as aranhas, a cabeça e o tórax se fundem em uma peça única denominada cefalotórax (SIQUEIRA-BATISTA et al., 2020). Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observado um desenho ilustrativo de uma formiga, exemplificando a divisão do corpo de um artrópode em cabeça, tórax e abdômen. Cada uma das três regiões aparece sobre um retângulo de cores diferentes: a cabeça sobre um verde claro, marcado com a legenda cabeça, onde são indicados por linhas e legendas, uma antena, uma mandíbula, um olho composto e um ocelo; o tórax sobre um verde escuro, marcado com a legenda tórax, onde são indicados por linhas e legendas, as patas, um esporão tibial e as garras; o abdômen sobre um amarelo, marcado com a legenda abdômen, onde são indicados por linhas e legendas, o gáster e o ferrão. Imagem 3 - Divisão do corpo de um artrópode da classe Insecta. CABEÇA TÓRAX ABDÔMEN Antena Mandíbulas Olho composto Ocelo Garras Pernas Gaster Ferrão Esporão tibial UNICESUMAR UNIDADE 7 195 A porção interna do corpo dos artrópodes é formada por uma cavidade denominada hemocele. Nesta cavidade, encontram-se todos os órgãos dos animais e os espaços restantes são preenchidos por um líquido denominado de hemolinfa (NEVES, 2016). Dentre os grupos que compõem o filo Arthropoda, os de maior interesse para a parasitologia são: Classe Insecta e Classe Arachnida. Caro(a) aluno(a), você consegue diferenciar um inseto de um aracnídeo? Para muitas pessoas, não há diferença, mas eu garanto, e você vai compreender até o final desta unidade,que as diferenças são muitas e fáceis de entender. Vamos começar com os insetos. Os insetos podem ser caracterizados como animais que apresentam, além das características já descritas para os artrópodes, três pares de patas, dois pares de asas, um par de antenas, um par de olhos compostos (Imagem 4). O aparelho bucal é variado de espécie para espécie, sendo adaptado ao tipo de alimentação. Descrição da Imagem: Na imagem, são observados três desenhos esquemáticos de um inseto. Na porção superior, marcado com letra “A”, é observado um desenho esquemático do corpo de um inseto sem os apêndices, mas mostrando seus locais de inserção, destacando o corpo dividido em cabeça, tórax e abdômen, dois pares de asas, três pares de patas, um par de antenas, olhos e as peças bucais: labro, mandíbula maxila e lábio. Na porção inferior esquerda, marcado com a letra “B”, é observado o desenho esquemático da cabeça de um inseto observada de frente, destacando os olhos grande na porção superior e lateral, a sutura ptilineal, a lúnula, um par de antenas, os palpos maxilares, o lábio e as labelas na porção mais inferior. Na porção inferior direita, marcado com a letra “C”, é observado um desenho esquemático da asa de um inseto, com a base voltada para a esquerda, a partir da qual se destacam as estruturas: tégula, basicosta, calíptero e álula. Imagem 4 - Representação da anatomia externa dos insetos. / Fonte: Ferreira (2021, p. 263). 196 A Classe Insecta engloba aproximadamente três quartos de todas as espécies já descritas até o presente momento. Estas espécies são classificadas em 30 ordens, cada uma englobando animais com habitats e adaptações diversas e fantásticas (FRANSOZO; NEGREIROS-FRANSOZO, 2018). Dentre estas ordens, aquelas que têm interesse para a parasitologia, segundo Neves (2016), são (Imagem 5): a. Ordem Diptera – popularmente conhecidos como moscas e mosquitos, apresen- tam como característica diferencial a ausência do segundo par de asas, tendo em seu lugar uma estrutura denominada halter. Esta ordem tem importância parasitológica tanto como vetores de parasitos, por exemplo, na transmissão do Plasmodium pelo mosquito do gênero Anopheles, quanto como o próprio parasito, como nas miíases. b. Ordem Siphonaptera – popularmente conhecidos como pulgas, os representantes desta ordem apresentam como característica diferencial a ausência de asas, ter o corpo achatado lateralmente e possuir pernas traseiras adaptadas para o salto. c. Ordem Hemiptera – conhecidos popularmente como percevejos verdadeiros, os representantes desta ordem apresentam como característica diferencial o primeiro par de asas formado por hemiélitros (asas cuja metade basal e mais rígida), que se sobrepõem na parte superior do abdômen, e possuir o aparelho bucal perfurador e sugador começando anterior aos olhos e se estendendo para trás ventralmente. d. Subordem Anoplura – conhecidos popularmente como piolhos, os representan- tes desta ordem apresentam como característica diferencial a ausência de asas, serem achatados dorsoventralmente, olhos reduzidos ou ausentes, e pernas curtas adaptadas para agarrar pelos e cabelos. UNICESUMAR UNIDADE 7 197 Descrição da Imagem: Na imagem, são observadas quatro fotografias. Na porção superior esquerda, marcado com a letra “a”, é observada a fotografia de uma mosca. Na porção superior direita, marcado com a letra “b”, é observada a fotografia de uma pulga. Na porção inferior esquerda, marcado com a letra “c”, é observada a fotografia de um percevejo verdadeiro. Na porção inferior direita, marcado com a letra “d”, é observada a fotografia de um piolho. Imagem 5- Representantes das Ordens: a) Diptera; b) Siphonaptera; c) Hemiptera; d) Anoplura. O desenvolvimento dos insetos tem um papel importante no estabelecimento de parasitoses causadas por algumas espécies. A maioria das espécies de moscas, por exemplo, apresentam em seu ciclo biológico um estágio larval, sendo denominadas de holometábolas. Estas lar- vas, em algumas espécies, podem se alimentar de tecido necrosado, outras se alimentam de sangue; em ambos os casos, as larvas, ou seja, os indivíduos jovens, estabelecem o parasitismo. 198 Muitos insetos de importância para a parasitologia têm como papel principal servir como hospedeiro intermediário para parasitos. Neste papel, eles também realizam a função de vetores, ou seja, transportam o parasito de um indivíduo infec- tado para outro, disseminando o agente etiológico. Um dos vetores insetos mais estudados da parasitologia é o popularmente conhecido “Bar- beiro” (Imagem 6). Esses insetos pertencem à Ordem Hemiptera, à subfamília Triatominae. Es- tes insetos são responsáveis pela transmissão de parasitos do gêne- ro Trypanossoma para diversas espécies. Para os seres humanos, a maior importância é para o pa- rasito Trypanossoma cruzi, cau- sador da Doença de Chagas. • Ametabolia – tipo de desenvolvimento onde as formas jovens são semelhantes aos adultos, ou seja, não apresentam modificações desde a saída do ovo. Ex.: Thysanura – traças. • Parametabolia ou metamorfose gradual – tipo de desenvolvimento onde as formas jovens são parecidas, mas não iguais aos adultos, passando por um desenvolvimento gradual. Engloba as fases de ovo, ninfa e adulto. Neste tipo, as ninfas ocupam o mesmo habitat que os adultos. Ex.: Hemiptera – triatomíneos. • Hemimetabolia – tipo de desenvolvimento onde as formas jovens são parecidas, mas não iguais aos adultos, passando por um desenvolvimento gradual. Engloba as fases de ovo, ninfa e adulto. Neste tipo, as ninfas ocupam um habitat diferente dos adultos. E.: Odonata – libélulas. • Holometabolia ou metamorfose completa – tipo de desenvolvimento onde as formas jovens são completamente diferentes dos adultos. Engloba as fases de ovo, larva, pupa e adulto. Ex.: Diptera – moscas. Fonte: Neves (2016, p. 379). Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma fotografia de um exemplar do inseto Triatoma melanica. O inseto é observado por sua porção dorsal, com a cabeça voltada para cima. Tem o corpo com formato alongado, tornando-se mais espesso da cabeça ao abdômen. Na cabeça, estão marcadas as estruturas: cl – clípeo; na – antena; ta – tubér- culo antenífero; ol – olho e oc – ocelo. No tórax estão marcadas as estruturas: cr – cório; la – lobo anterior do pronoto; lp – lobo posterior do pronoto; es – escutelo. No abdômen, estão marcadas as estruturas: cm – célula da membrana; me – membrana; cn – conexivo. Imagem 6- Triatoma melanica. / Fonte: Argolo et al. (2008, p. 32). Legenda: cl – clípeo; an – antena; ta – tubérculo antenífero; ol – olho; cr – cório; cm – célula da membrana; me – membrana; oc – ocelo; la – lobo anterior do pronoto; lp – lobo posterior do pronoto; es – escutelo; cn - conexivo. UNICESUMAR UNIDADE 7 199 Os triatomíneos apresentam como principais características morfológicas a cabeça alongada e fusiforme, pescoço aparente entre a cabeça e tórax, probóscida reta, dividida em três segmentos, com a porção distal, voltada para trás, repousando sobre a porção ventral do tórax (NEVES, 2016). O barbeiro, como um membro da Ordem Hemiptera, apresenta desenvolvimento do tipo meta- morfose gradual, com cinco estágios de ninfa (Imagem 7). No desenvolvimento dos insetos, como o esqueleto é externo, para que o animal cresça, é preciso trocar o exoesqueleto por um maior, em um processo denominado de muda ou ecdise. Assim, até que o adulto atinja seu estágio adulto, ele preci- sará trocar seu exoesqueleto cinco vezes (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: Na imagem pode ser observado um desenho esquemático do ciclo de vida de um triatomíneo, representado em forma de círculo que se desenvolve em sentido horário, com cada fase ligada a outra por meio de uma seta. Na porção superior, é observado um triatomíneo adulto. Continuando o ciclo, em sentido horário tem-se, em sequência, um ovo, uma ninfa de primeiro estágio, uma ninfa de segundo estágio, uma ninfa de terceiroestágio, uma ninfa de quarto estágio, uma ninfa de quinto estágio e novamente volta ao triatomíneo adulto na porção superior. Imagem 7- Desenvolvimento dos triatomíneos. / Fonte: Argolo et al. (2008, p. 35). 200 Tanto as ninfas quanto os adultos dos triatomíneos são hematófagos, se alimentando dos mesmos in- divíduos que os adultos por ocuparem o mesmo habitat. Os triatomíneos são insetos primitivamente silvestres, mas com alta capacidade de colonizar ambientes artificiais, dependendo da espécie. Existem aproximadamente 148 espécies de triatomíneos, sendo que sua importância epidemiológica depende da capacidade de colonizar os domicílios humanos. De todas estas espécies, menos da metade têm essa capacidade (NEVES, 2016). Uma das espécies mais adaptadas à colonização de ambientes artificiais é a Triatoma infestans, sendo também uma das mais encontradas nos domicílios brasileiros. Caro(a) aluno(a), você já deve ter notado que a identificação e controle dos triatomíneos é essencial para o controle da doença de chagas, uma vez que são hospedeiros intermediários dos parasitos e seus vetores de transmissão. Mas como isso pode ser feito? A constatação da presença do inseto nas residências pode ser realizada por meio da busca por dejetos dos insetos, caracterizados por manchas escorridas nas paredes, geralmente próximas às camas, ou pela procura direta dos insetos e suas exúvias (exoesqueleto que foi trocado). Esses in- setos têm como principal esconderijo as frestas nas paredes das residências e, assim, outra forma de identificação dos insetos é a utilização de agentes desalojantes, como a pirisa, que faz os insetos saírem das frestas (NEVES, 2016). Outro grupo de insetos com importan- te papel como vetor de parasitoses é a Ordem Diptera. Muitas das espécies que compõem essa ordem são hema- tófagas, embora essa característica esteja, geralmente, associada a fê- meas que necessitam dos nutrien- tes sanguíneos para a formação e desenvolvimento dos ovos. Os ma- chos não possuem aparelhos bucais desenvolvidos para penetrar a pele e atingir a corrente sanguínea. A Ordem Diptera pode ser dividida em três subordens, segundo Rey (2009, p. 322): O controle desses insetos depende de muitos fatores, sendo o principal a melhoria das habitações, que geralmente está relacionada a condições sociais mais baixas e da popula- ção rural, eliminando os locais onde o barbeiro poderia viver, assim como a educação em saúde da população em risco. A utilização de inseticidas é ainda a opção mais rápida para o controle intradomiciliar, porém, já há relatos do desenvolvimento de resistência por parte dos insetos para alguns compostos utilizados. UNICESUMAR UNIDADE 7 201 • Nematocera – cujos membros possuem antenas longas, constituídas por seis ou mais peças articulares; palpos maxilares com até cinco segmentos; larvas eucé- falas (região cefálica desenvolvida e es- clerosada) e pupas livres. • Brachycera – cujos membros possuem antenas curtas, constituídas por três ou quatros peças articulares; palpos maxi- lares com dois segmentos; sem lúnula na cabeça (veja a Imagem 4); as pupas são livres. • Cyclorrapha – cujos membros pos- suem sutura ptilineal e lúnula na cabeça; antenas com três segmentos, larvas acé- falas (não se identifica a região cefálica); pupas no interior de pupários. A maioria dos dípteros, vetores de doen- ças, é membro das famílias pertencentes à subordem Nematocera. Dois exemplos importantes de dípteros responsáveis pela transmissão de parasitoses são o gênero Lu- tzomyia, responsável pela transmissão da leishmaniose, e o gênero Culex, responsável pela transmissão da filariose, ambos perten- centes à subordem Nematocera. O gênero Lutzomyia pertence à família Psychodidae e subfamília Phlebotominae. Os flebotomíneos do gênero Lutzomyia são pequenos, de coloração amarela e com cerdas pelo corpo. São conhecidos popular- mente como mosquitos-palha (Imagem 8). Não há muitas informações sobre o os locais onde membros desta família se desenvolvem na natureza, mas sobre sua biologia, como um díptero, seu desenvolvimento é holome- tábolo, passando por quatro estágios larvais antes de formar a pupa e eclodir como um adulto (NEVES, 2016). Descrição da Imagem: Na imagem, pode ser observada uma fotografia ampliada de um mosquito do gênero Lutzomyia, de coloração amarela, contendo inúmeras cerdas por todo o cor- po, inclusive asas, pousado sobre a pele de um ser humano, realizando o repasto sanguíneo, em que se observa o abdome transparente, túrgido, preenchido com sangue. Imagem 8 - Gênero Lutzomyia. / Fonte: WIKIMEDIA (2009) Os membros do gênero Lutzomyia são responsá- veis pela transmissão do protozoário responsável pela leishmaniose das Américas, a Leishmania spp. Nas Américas, o principal vetor da leishma- niose é a espécie Lutzomyia longipalpis. Esta espé- cie se adaptou rápido às condições domésticas, se alimentando do ser humano e animais domésti- cos, facilitando sua sobrevivência e disseminação do parasito (NEVES, 2016). O controle do vetor, segundo o Ministério da Saúde, deve ser dirigido para impedir a propa- gação da doença. Assim, é recomendado o uso de mosquiteiros, a telagem de portas e janelas, a limitação de atividades nos horários de maior atividade do mosquito (crepúsculo e noite), além do uso de controle químico (borrifação de inse- ticidas) (NEVES, 2016). 202 O gênero Culex, hospedeiros intermediários do parasito Wuchereria bancrofti e responsável pela trans- missão da doença (filariose), pertence à família Culicidae, a mesma em que estão inseridos os gêneros Anopheles e Aedes, também de grande importância para a disseminação de doenças. É a família de maior interesse médico, pois os principais insetos hematófagos transmissores de doenças são classificados nela. Os insetos membros do gênero Culex fazem parte da subordem Nematocera, e apresentam carac- terísticas morfológicas distintas (Imagem 9). Dentre este gênero, uma das espécies mais importantes é Culex quinquefasciatus, que tem como característica ser pequeno, cor de palha, tendo o dorso do tórax com escamas amarelas, com coloração pardo escuro, e com duas linhas escuras e longas, marcadas de formas longitudinal (REY, 2009). Apresenta, ainda, faixas amarelas no abdômen. A) B) Descrição da Imagem: Na imagem da esquerda, marcada com a letra “a”, pode ser observada uma fotografia ampliada de um mosquito do gênero Culex, pousado sobre uma superfície lisa. Na imagem da direita, marcada com a letra “b”, podem ser observadas duas jangadas de ovos sobre a superfície da água, e alguns ovos soltos ao seu redor. Imagem 9- a) Culex sp. pousado sobre uma superfície lisa; b) jangadas de ovos de um mosquito do gênero Culex. Fonte: WIKIMEDIA (2022a, 2022b) O C. quinquefasciatus é doméstico e antropófilo (se alimenta preferencialmente do ser humano). Esses insetos conseguem voar por longas distâncias, e podem desovar em vários tipos de ambientes. Diferente de outros gêneros, os mosquitos do gênero Culex depositam seus ovos na água agrupados como jangadas (Imagem 9) (REY, 2009). O hábito alimentar das fêmeas C. quinquefasciatus, que realizam seu repasto sanguíneo durante a noite, provavelmente levou à adaptação do ciclo de vida do Wucheriria bancrofti, uma vez que as microfilárias (larvas infectantes do parasito) migram para a circulação periférica do hospedeiro du- rante a noite, aumentando a probabilidade de serem ingeridas pelo repasto sanguíneo do mosquito. O controle dos mosquitos da família Culicidae é ainda um problema para a sociedade, pois estes insetos, principalmente do gênero Culex, conseguem utilizar diferentes fontes de água como criadouros, além de desenvolverem resistência com facilidade a inseticidas. Diferentes formas de controle podem ser empregadas, como o controle químico (inseticidas) das larvas e adultos; o controle físico das larvas, por meio da remoção dos criadouros (poças de água, lixo com água parada etc.) e até mesmo o controle