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CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS 2022 Pedro Henrique Canezin 75 CAPÍTULO II LOCAL DE CRIME NOÇÕES INTRODUTÓRIAS Para se introduzir o que vem a ser local de crime, primeira- mente é importante compreender o conceito de crime. O Direito Penal, ramo autônomo do direito público responsável por tutelar os bens jurídicos mais valiosos aos seres humanos (dentre eles a vida, o patrimônio, a dignidade sexual, etc.), por se tratar de uma ciência autônoma, tem como objeto de estudo a infração penal. Para a doutrina majoritária brasileira, entre eles Guilherme de Souza Nucci (2016) e Rogério Greco (2017), o Brasil adota a teoria dicotômica ou dualista, vale dizer, considera-se infração penal gê- nero, cujas espécies são: crime (ou delito) e contravenção. Os crimes podem ser conceituados de várias formas, dentre elas: 1) CONCEITO FORMAL: crime é um comportamento pre- visto em uma norma penal incriminadora, sob ameaça de sanção penal; 2) CONCEITO MATERIAL: comportamento humano so- cialmente reprovável que causa uma relevante lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico penalmente tutelado, passível de sanção penal; 76 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin 3) CONCEITO ANALÍTICO: leva em conta os elementos do crime, dependendo da teoria adotada. Existem várias teorias que versam a respeito do crime, mas aquela de maior repercussão a nível criminal no Brasil é a TEORIA FINALISTA TRIPARTITE, a qual afirma que o crime é um fato típico (previsto na legislação como crime), antijurí- dico (reprovável socialmente) e culpável. Essa é a verten- te de conceito de crime mais aceita hoje. Assim, finalmente é possível conceituar o que vem a ser um local de crime, o que pode ser feito de várias formas, a depender do autor, visto que o Código de Processo Penal não o fez. Para Eraldo Rabello (1968), local de crime “é a porção do espaço com- preendida num raio que, tendo por origem o ponto no qual é constatado o fato, se estenda de modo a abranger todos os lu- gares em que, aparente, necessária ou presumivelmente, hajam sido praticados, pelo criminoso, os atos materiais, preliminares ou posteriores à consumação do delito, e com este diretamente relacionados”. Segundo Alberi Espíndula (2014), local de crime pode ser de- finido, genericamente, como sendo “uma área física onde ocorreu um fato – não esclarecido até então – que apresente característi- cas e/ou configurações de um delito”. Já Jesus Antônio Velho (2017), perito criminal federal, concei- tua local de crime como sendo “o palco principal onde, em geral, inicia-se o trabalho da perícia criminal, representa o berço de ge- ração dos vestígios produzidos no fato em apuração”. O conceito de local de crime adotada por nós é mais amplo. Considera-se local de crime todo local que apresente configura- ções mínimas de um delito, sendo caracterizado pela existência de vestígios. A existência de vestígios é o que caracteriza um local como local de crime. Ora, não há local de crime sem vestígios, ain- da que sejam transitórios ou imperceptíveis. Segundo o princípio da troca, se houver alguma interação com o local, há resquícios de configuração de um delito. Após os diversos conceitos trabalhados pela doutrina brasi- leira, é possível se estabelecer primeiramente uma análise física, 77 CAPÍTULO II • LOCAL DE CRIME visto que a abordagem do local tem a ver com território em que foi praticado a conduta criminosa. No entanto, para Jesus Antônio Velho (2017), os crimes atuais não apresentam necessariamente um local físico, podendo também acontecer em meio virtual (cri- mes cibernéticos). Um segundo critério a ser levado em conta é a existência de vários tipos de vestígios, os quais norteiam também uma classifi- cação de acordo com Código Penal. Assim, é possível encontrar nos principais locais de crimes vestígios de origem biológica, en- tomológica, morfológica, químicos, físicos e microvestígios. Por fim, nota-se que, pelos conceitos doutrinários, há que se levar em conta um terceiro critério de ordem temporal, ou seja, levando em conta o iter criminis, que consiste no caminho percor- rido pelo crime. Primeiramente existe a cogitação, que trabalha com a fase interna do crime, em que o agente imagina e toma a iniciativa de cometer ou não o crime. Em segundo lugar, parte-se para a preparação, a qual ainda não marca a existência de um cri- me, salvo se constituir crime autônomo. Logo após, há o início da conduta criminosa, que pode se dar por ação ou omissão, aden- trando assim a esfera da punibilidade. Havendo a consumação, di- z-se que se cumpriu todas as fases do crime. Do contrário, fala-se em tentativa, em que o crime não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Cogitação Preparação Execução Consumação Se o crime não se consumar por circunstâncias alheias à vontade do agente tem-se o crime tentado Ainda NÃO HOUVE cometimento de crime. Esquema mostrando o iter criminis Diante disso, local de crime também abarca o local em que houve a fase preparatória, como no caso do local das reuniões da associação criminosa para cometer um furto a banco, assim como próprio local em que ocorreram os fatos principais. Com isso, o próprio Código Penal (CP) adotou a teoria da ubiquidade, a qual afirma que se considera local de crime tanto o local da ação ou 78 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin omissão criminosa quanto o local em que se produziu ou que de- veria ter sido produzido o resultado (Art. 6º, CP). CLASSIFICAÇÃO DE LOCAIS DE CRIME Como se percebe, os conceitos trazidos pela doutrina sobre local de crime são extremamente amplos. Nessa vertente, é pos- sível classificar os locais de crime de acordo com vários critérios. Uma primeira forma de se classificar o local vem a ser de acor- do com os tipos de vestígios encontrados (de acordo com VELHO – 2017 – e STUMVOLL – 2019). Por isso, é comum que se estabe- leça uma classificação de local de crime de acordo com o TIPO PENAL (ou critério legal) ou QUANTO À NATUREZA DO FATO idealizado pelo Código Penal, sendo os principais: Local de crimes contra a pessoa (Ex.: homicídio, infanticí- dio, aborto); Local de crime contra o patrimônio (Ex.: roubo, furto); Local de crime contra a fé pública (Ex.: falsificação de docu- mento, falsidade ideológica); Local de crime contra a dignidade sexual (Ex.: estupro, assé- dio sexual); Local de crime contra a incolumidade pública (Ex.: explo- são, desmoronamento); Local de crime contra honra (Ex.: calúnia, difamação, injú- ria), entre outros. Por outro lado, entrando em uma vertente mais específica, como a cena de crime também aborda o conceito físico, os locais podem ser classificados quanto à REGIÃO DE OCORRÊNCIA em: – Local imediato: é aquele abrangido pelo corpo de deli- to e o seu entorno, local em que estão também a maioria dos vestígios materiais. Em geral, todos os vestígios que servirão de base para os peritos esclarecerem os fatos concentram-se no local imediato. 79 CAPÍTULO II • LOCAL DE CRIME – Local mediato: É a área adjacente ao local imediato. Trata-se de toda a região espacialmente próxima ao lo- cal imediato e a ele geograficamente ligada, passível de conter vestígios relacionados com a perícia em execu- ção. – Local relacionado: É todo e qualquer lugar sem liga- ção geográfica direta com o local do crime e que possa conter algum vestígio ou informação que propicie ser relacionado, ou venha a auxiliar no contexto do exame pericial. Local Imediato Local Mediato Ilustração de local de crime imediato e mediato. Jesus Antônio Velho ainda sugere mais uma classificação do local, mas agora quanto à ARQUITETURA ou área: – Local Interno: é aquele coberto, com ou sem área con- finada por paredes, protegidos contra a ação de agentes atmosféricos. Exemplos são as casas comerciais, tendas etc.; – Local Externo: é aquele situado fora das habitações ou sujeito a fatores climáticos, por exemplo, terrenos bal- dios,quintais, áreas abertas em via pública; 80 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin – Local Virtual: é aquele em que não há relação direta en- tre determinado espaço físico e a presença de vestígios a serem periciados (ex.: crimes cibernéticos). ATENÇÃO! Perceba que local de crime não é apenas o local onde se encontra, por exemplo, um cadáver. O local de preparo do crime também será considerado, nessa circunstância, local de crime. Ainda existem várias outras classificações para supostos lo- cais de crime de acordo com Stumvoll (2019), sendo eles: • Ermos: locais desabitados, afastados de centros urbanos; • Concorridos: frequentados ou habitados; • Abertos: recinto ao ar livre; • Fechados: recinto fechado; • Mistos: a conduta delitiva se prolata em locais fechados e abertos; • Móveis: interior de veículos, embarcações ou aeronaves; • Imóveis: locais físicos, tais quais residências ou comércios; • Isolados: não compartilham divisórias físicas com adja- cências (inclui vias); • Contíguos: compartilham divisórias com as adjacências, como apartamentos. Em última análise, cabe classificar o local de crime de acordo com a preservação do local em: • Local idôneo ou não violado: é aquele que não sofreu a influência de terceiros, antes da chegada dos peritos, ou seja, mantiveram-se íntegros após a prática da infração penal; • Local inidôneo ou violado: neste local houve intervenção de terceiros, alterando-se o estado de conservação das coi- sas. 81 CAPÍTULO II • LOCAL DE CRIME ISOLAMENTO E PRESERVAÇÃO DO LOCAL DE CRIME Um dos grandes e graves problemas das perícias em locais onde ocorrem crimes é a quase inexistente preocupação das au- toridades em isolar e preservar adequadamente um local de in- fração penal, de maneira a garantir as condições de se realizar um exame pericial da melhor forma possível. Por isso, há que se dife- renciar isolamento de preservação. Veja: • ISOLAMENTO: consiste na individualização de determina- do local, restringindo-se o acesso somente a pessoas auto- rizadas; • PRESERVAÇÃO: diz respeito ao estado de conservação das coisas, o qual deverá ser mantido até a chegada dos peritos criminais. No Brasil, a doutrina entende que, infelizmente, não há uma cultura e nem mesmo preocupação sistemática com esse impor- tante fator, que é o correto isolamento do local do crime e respec- tiva preservação dos vestígios naquele ambiente. Essa problemá- tica abrange três fases distintas. 1ª Fase Em um local de crime convencional, é comum que as auto- ridades emergenciais cheguem primeiro, como no caso de bom- beiros e médicos socorristas. Essas pessoas, por formação técnica, devem ter noções de isolamento e preservação do local do crime, visto que já existe, em tese, um desmantelamento do local, fazen- do com que muitas vezes se percam vestígios importantes para a elucidação do crime. Neste sentido, a chegada do primeiro policial (geralmente Policial Militar) no local do crime é um ponto crucial para o suces- so da manutenção da ordem do local, inclusive na preservação de vestígios. A doutrina recomenda alguns procedimentos de segu- rança a partir da chegada do primeiro policial: 82 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin 1. Manter o controle da situação como um todo, solicitando muitas vezes apoio operacional de outros membros de po- lícia. 2. Garantir o controle do isolamento, estabelecendo um perí- metro de segurança; 3. Assegurar que não há risco no local, identificando pessoas suspeitas e garantindo a segurança das vítimas; 4. Avisar a autoridade policial da existência do crime e solici- tar apoio pericial se julgar necessário. Portanto, a primeira fase compreende o período entre a ocor- rência do crime até a chegada do primeiro policial, normalmente um policial militar. Esse período é o mais sensível de todos, pois ocorrem diversos problemas em função da curiosidade natural das pessoas em verificar de perto o ocorrido, além do total desco- nhecimento (por parte das pessoas) do dano que estão causando pelo fato de estarem se deslocando na cena do crime. Por isso, muitas vezes essa fase é crítica para a preservação dos vestígios. 2ª Fase A segunda fase compreende o período desde a chegada do primeiro policial até o comparecimento do DELEGADO DE PO- LÍCIA. Esta fase, apesar de menos grave que a anterior, também apresenta muitos problemas em razão da falta de conhecimento técnico dos policiais para a importância que representa um local de crime bem isolado e adequadamente preservado. Em razão disso, em muitas situações, deixam de observar regras primárias que poderiam colaborar decisivamente para o sucesso de uma perícia bem-feita. O primeiro policial a chegar ao local deve averiguar se de fato existe a ocorrência que lhe foi comunicada. Para tanto, deve o po- licial penetrar no local do crime e dirigir-se até o corpo de delito. A entrada no local imediato ou mediato ao corpo de delito deve ser feita pelo ponto acessível mais próximo a este, de tal forma que a trajetória até o mesmo seja uma reta. 83 CAPÍTULO II • LOCAL DE CRIME Constatado o delito, o policial deverá retornar para a periferia do local do crime, percorrendo a mesma trajetória que o levou até o corpo de delito no sentido inverso (figura abaixo). O percurso deverá ser memorizado pelo policial, visto que posteriormente deverá ser comunicado aos peritos. Toda a movimentação dos policiais para averiguar o ocorrido deve ser meticulosa e abso- lutamente nada deve ser removido das posições que ocupavam quando da configuração final do crime. Constatada a existência da ocorrência, deverá o policial comunicá-la à autoridade competente para o devido encami- nhamento. A função do primeiro policial, entretanto, ainda não acabou. Ele deverá tomar as primeiras providências para o isola- mento do local de crime com a finalidade de preservar os vestí- gios lá existentes. Portanto, não permitirá que ninguém adentre ao local da cena do crime e aguardará até a chegada de outros policiais que o substituam nesta tarefa. Observa-se que a respon- sabilidade dos policiais pela preservação dos vestígios existentes no local estende-se até a chegada da autoridade policial (leia-se: delegados de polícia). Esquema ilustrativo mostrando o deslocamento do policial na cena do crime para verificar se a vítima está com vida, utilizando a mesma rota de entrada e saída (fonte: adaptado de ESPÍNDULA et al., 2007) Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais, além de apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais (Art. 6º, I e II do CPP). Portanto, a autoridade policial, constatando a existência do fato criminoso, nada mais fará a não ser isolar a 84 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin área e preservar os vestígios do local do crime, a fim de que os pe- ritos possam examinar todo o conjunto de vestígios ali dispostos. 3ª Fase Por fim, a terceira fase, é aquela desde o momento que a autoridade policial já está no local, até a chegada dos PERITOS CRIMINAIS. Também nessa fase ocorrem diversas falhas, em fun- ção da pouca atenção e da falta de percepção ‐ em muitos casos ‐ daquela autoridade quanto à importância que representa para ele um local bem preservado, o que irá contribuir para o conjunto final das investigações, da qual a autoridade é responsável geral como presidente do inquérito. Para o efeito de exame do local onde houver sido praticada a infração, a autoridade policial providenciará imediatamente para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos (Art. 169, CPP). Os peritos registrarão, no laudo, as alterações do estado das coisas e discutirão,no relatório, as consequências dessas alterações na dinâmica dos fatos. O correto isolamento do local do crime pode ser crucial para a elucidação do crime. Não consiste apenas no local em que hou- ve o crime, mas também os arredores, como as marcas de frena- gem de um veículo, o local pelo qual capotou e a posição final. ATENÇÃO! Entende-se por isolamento a proteção do local do crime, a fim de que o local permaneça sem alteração, possibilitando, consequen- temente, um levantamento pericial eficaz. Preservação do local de crime A preservação do local do crime consiste em um conjunto de medidas a fim de resguardar a idoneidade do local. Busca- -se manter o estado de conservação das coisas de forma que os vestígios não sofram qualquer alteração capaz de impossibilitar 85 CAPÍTULO II • LOCAL DE CRIME a elucidação da dinâmica criminosa ou que possa inviabilizar a identificação do autor do crime. Nas palavras de BARACAT (2008): “[...] a preservação dos vestígios deixados pelo fato, em tese delituosa, exige a conscientização dos profis- sionais da segurança pública e de toda a sociedade de que a alteração no estado das coisas sem a devida au- torização legal do responsável pela coordenação dos trabalhos no local pode prejudicar a investigação poli- cial e, con sequentemente, a realização da justiça, visto que os peritos criminais analisam e interpretam os in- dícios materiais na forma como foram encontrados no local da ocorrência”. É claro que, a partir do correto isolamento e preservação, o registro da cena de crime atualmente pode ser feito por meio de mapeamento 3D, por meio de drones, entre outros recursos tec- nológicos disponíveis, sempre na expectativa de tornar mais fide- digna o local de crime para pessoas alheias, como o juiz. É instintivo que as pessoas queiram observar a cena de um crime, quase sempre prejudicando o trabalho de investigação po- licial ao circular pela área, manipular objetos, etc. O único caso que justifica a presença de pessoa estranha num local de crime é no caso de crime contra a vida, na prestação de socorro às víti- mas ainda com vida. A população deve colaborar com os Órgãos de Segurança Pública, informando a ocorrência de um fato de- lituoso, fornecendo informações corretas, mantendo-se afastada desses locais e evitando a locomoção na área do crime. De igual modo, a imprensa também pode prejudicar o trabalho policial, na expectativa de obter informações a respeito do ocorrido (INSTI- TUTO GERAL DE PERÍCIAS-SC, 2017). O legislador brasileiro se preocupou com o fato de popula- res alterarem dolosamente o local de crime, tipificando como cri- me de “Fraude Processual”, um crime contra a Administração da Justiça, conforme descrito no artigo 347 e seu parágrafo único, do Código Penal. Com o advento da Lei 13.964/19, ratificou-se a incidência de tal crime por expressa previsão no CPP, em seu art. 158-C, parágrafo 2º, in verbis: 86 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin Art. 158-C, § 2º É PROIBIDA A ENTRADA em locais iso- lados bem como a remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da liberação por parte do perito responsável, sendo tipificada como FRAUDE PROCES- SUAL A SUA REALIZAÇÃO. Art. 347 – Inovar artificiosamente, na pendência de pro- cesso civil ou administrativo, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, com o fim de induzir a erro o juiz ou o perito: Pena – detenção, de três meses a dois anos, e multa. Parágrafo único – Se a inovação se destina a produzir efeito em processo penal, ainda que não iniciado, as pe- nas aplicam-se EM DOBRO. Em se tratando de local de acidente de trânsito com vítima, o CTB também prevê a conduta de “Fraude Processual” (Art. 312 da lei 9.503/97 – CTB). Veja: Art. 312. Inovar artificiosamente, em caso de acidente automobilístico com vítima, na pendência do respec- tivo procedimento policial preparatório, inquérito po- licial ou processo penal, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, a fim de induzir a erro o agente policial, o perito, ou juiz: Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa. Parágrafo único. Aplica-se o disposto neste artigo, ainda que não iniciados, quando da inovação, o procedimen- to preparatório, o inquérito ou o processo aos quais se refere. FINALIDADES DOS LEVANTAMENTOS DE LOCAIS DE CRIMES Diz o Art. 158 do CPP que “quando a infração deixar vestígios, será obrigatória a realização do corpo de delito”. Assim, Galdino Siqueira define que corpo de delito é “o conjunto de elementos exteriores ou da materialidade de uma infração”. Pensando nis- so, o corpo de delito pode ser entendido como o conjunto de to- dos os vestígios materiais diretamente relacionados com o fato 115 CAPÍTULO II I PROVAS, INDÍCIOS E VESTÍGIOS PROVA Antes de adentrar o conceito de vestígios e indícios, é im- portante contextualizar a elaboração da prova técnica pericial. O perito criminal, ao atuar frente à investigação criminal, funciona como um filtro que, a partir do método científico, detecta o nexo entre os vestígios e os sinais do crime, contextualizando-os com elementos de interesse da justiça. Portanto, os vestígios são ver- dadeiros meios de prova, capazes de convencer o juiz de um fato criminoso quando devidamente analisados e legitimados, nos termos da lei. É bem verdade que algumas doutrinas, notadamente Jesus Antônio Velho, cita ainda a questão de evidências. Para alguns, evidência significa aquilo que é claro, objetivo ou cristalino. Com todo respeito à doutrina penal, processual penal e de criminalísti- ca brasileira, não se mostra razoável a adoção dessa nomenclatu- ra no Brasil. É fato que a criminalística brasileira foi intensamente influenciada pela doutrina europeia e norte americana, sendo que não se costuma utilizar essa nomenclatura na prática. A pa- lavra “evidence” é muito comum na doutrina norte americana, 116 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin havendo todo um significado nos E.U.A, o qual não é pertinente ao Brasil. Não obstante, para a doutrina de criminalística, evidên- cia significa qualquer material, objeto ou informação que esteja claramente relacionado com a ocorrência do delito no campo da materialidade. Como positivado pela ampla doutrina processual penal, PROVA é um conjunto de meios idôneos que visam afirmar a exis- tência ou não de um fato, destinado a contribuir com a convicção do juiz. A doutrina processualista em geral traça um sentido ge- nérico do que vem a ser prova, sendo “todo elemento trazido à presença do juiz na expectativa de convencê-lo ou não dos fatos”. Por outro lado, numa visão mais aguçada, Guilherme Nucci explica que de nada vale apresentar elementos de convicção ao juiz que não sejam capazes de culminar em convencimento. Se um objeto é levado ao juízo, mas não se prova que ele tem rela- ção com o fato, naturalmente não poderá ser considerado uma prova, até porque não tem capacidade de contribuir com a razão do juiz. De todo modo, para explicar o sentido de prova, Nucci as- severa haver três sentidos para a palavra prova, os quais deverão ser perpetrados ao longo do processo, e que devem resultar no convencimento do juiz. São eles: a) ATO DE PROVAR: é o processo pelo qual se verifica a exatidão ou a verdade do fato alegado pela parte no processo (ex.: fase probatória); b) MEIO: trata-se do instrumento ou pessoa pelo qual se demonstra a verdade de algo (ex.: prova testemunhal); c) RESULTADO DA AÇÃO DE PROVAR: é o produto extraí- do da análise dos instrumentos de prova oferecidos, de- monstrando a verdade sobre um fato. Esse é o momento em que o elemento cria a convicção do juiz, e o conven- ce. No processo penal, a prova deve ser revestida de LEGITIMI- DADE (cumprimento das formalidades processuais) e LEGALIDA- DE (produzida dentro da lei). São critérios norteadores da legiti- midade da prova: 117 CAPÍTULO III • PROVAS, INDÍCIOS E VESTÍGIOS • JUDICIALIDADE: a prova deve ser produzida perante o juiz; • OBSERVÂNCIAAO CONTRADITÓRIO E À AMPLA DEFE- SA: a prova deve ser submetida às partes para a oportuni- zação do contraditório e ampla defesa, além de ser produ- zida no momento adequado do processo; • LICITUDE: Por outro lado, diz respeito à legalidade da pro- va a sua produção de acordo com o ordenamento jurídico brasileiro, sem coação física ou moral, e sem o emprego de meios fraudulentos. Diante dos requisitos acima expostos, é claro notar a diferen- ça entre prova e vestígios ou evidências. Tanto um quanto outro não podem ser considerados prova, visto que não preenchem os requisitos fundamentais legais e constitucionais, já que sequer chegaram ao processo. Enquanto periciados, esses elementos se encontram na posse dos peritos, o qual prepara o vestígio, tor- nando-o evidência (se houver relação com os fatos), para que posteriormente seja submetido ao juiz. INDÍCIOS Primeiramente, a doutrina processualista aponta uma distin- ção importante: não se pode confundir presunção com indícios. PRESUNÇÃO é todo juízo de opinião emanado por pessoa me- dianamente informada dos fatos sociais. Um exemplo seria a pre- sunção de que uma mulher casada grávida está nessa condição por ato do marido. Por isso, não se confunde com indícios. INDÍCIOS, de praxe, está conceituado no artigo 239 do CPP, sendo toda circunstância CONHECIDA E PROVADA, que permita, por indução, presumir a existências de outros fatos relacionados ao crime. Há que se falar na classificação dos indícios lastreado na relação com o crime, sendo ela: • Indícios próximos: diretamente relacionados com o crime (Ex.: instrumentos do crime); 118 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin • Indícios manifestos: são os que resultam da própria natu- reza do crime (Ex.: solicitação de propina); • Indícios distantes ou remotos: são aqueles que possuem uma relação com o crime aceitável (Ex.: antecedentes, más companhias); Outra classificação apontada pela doutrina envolve duas ca- tegorias: indícios propositais, que consistem em indícios autên- ticos ou falsos; e indícios acidentais, os quais se produzem inde- pendentemente da vontade do agente (Ex.: manchas de sangue). Portanto, conclui-se que indícios e presunções não se con- fundem. Indícios, como o art. 239 deixa claro, são circunstâncias CONHECIDAS E PROVADAS das quais é possível concluir outras circunstâncias, ou seja, presumir, com segurança, algo não conhe- cido e não provado. Trata-se de uma prova indireta. Ex.: impressão digital em um carro (prova que a pessoa esteve lá, não que ele cometeu o homicídio). Segundo a doutrina processualista (Távora & Alencar), os indícios podem ser: • POSITIVO: indica a presença de um fato ou elemento que se quer provar; • NEGATIVO (CONTRAINDÍCIO): determina uma impossibi- lidade lógica do fato alegado. É o caso do álibi. Superado o tema de indícios, é o momento de finalmente adentrarmos o tema de vestígios, diferenciando-o de provas e in- dícios. VESTÍGIOS Em termos periciais, o conceito de vestígio decorre da carac- terística abrangente do vocábulo que lhe deu origem, podendo ser definido como todo e qualquer sinal, marca, objeto, situação fática ou ente concreto sensível, potencialmente relacionado a uma pessoa ou a um evento de relevância penal, e/ou presente em um local de crime, seja este mediato ou imediato, interno ou externo, direta ou indiretamente relacionado ao fato delituoso. 119 CAPÍTULO III • PROVAS, INDÍCIOS E VESTÍGIOS O Código de Processo Penal, após o advento da lei 13.964/19, conceituou vestígio como “todo objeto ou material bruto, visível ou latente, constatado ou recolhido, que se relaciona à infração penal”. Perceba que há uma divergência doutrinária e o conceito legal de vestígio. Para a lei, vestígio está necessariamente relacio- nado com o crime, enquanto para a doutrina não. Por isso, a título de provas, o posicionamento mais importante é o da lei, no art. 158-A, parágrafo 3º do CPP. Assim, a doutrina costuma classificar os vestígios de acordo com vários critérios, sendo o primeiro deles de acordo com a re- lação com o crime: 1) Vestígio verdadeiro: o vestígio verdadeiro é uma de- puração total dos elementos encontrados no local do crime. Somente são verdadeiros aqueles produzidos di- retamente pelos autores da infração e, ainda, que sejam produtos diretos das ações do cometimento do delito em si; 2) Vestígio ilusório: o vestígio ilusório é todo elemento encontrado no local do crime que não esteja relaciona- do às ações dos atores da infração e desde que a sua pro- dução não tenha ocorrido de maneira intencional; 3) Vestígio forjado: por vestígio forjado entende‐se todo elemento encontrado no local do crime, cujo autor teve a intenção de produzi‐lo, com o objetivo de modificar o conjunto dos elementos originais produzidos pelos au- tores da infração. Ainda existe uma classificação interessante abordada pela doutrina que diz respeito à detecção do vestígio: 1) Vestígios perceptíveis: são vestígios que podem ser captados diretamente pelos sentidos humanos, sem a utilização de qualquer artifício de detecção; 2) Vestígios latentes: são aqueles vestígios que não são facilmente detectados pelos sentidos humanos, tornan- do-se necessária a utilização de agentes de detecção, como o luminol e pós impregnadores. 120 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin ATENÇÃO! Doutrinas pontuais citam a existência dos vestígios ABSOLUTOS, sendo aqueles perceptíveis e que atestam uma relação direta com o fato. Por fim, mais uma classificação que diz respeito aos vestígios leva em conta a integridade, sendo ela: 1) Vestígios fugazes: são aqueles incapazes de durar mui- to tempo íntegros, por isso exigem coleta rápida e ade- quada (Ex.: frenagens, manchas de sangue); 2) Vestígios persistentes: permanecem indeléveis ao lon- go do tempo, permitindo sua análise a posteriori (Ex..: manchas de sangue em tecidos, pelos, fibras); 3) Vestígios perenes: são aqueles que não desaparecem com o tempo, mas somente por evento incomum de grande intensidade (Ex.: colisão contra objetos). ATENÇÃO! Vestígios de impressão são vestígios em que a impressão re- produz a forma do autor (instrumento que a produziu). Há ainda a classificação em vestígios materiais e imateriais. De um lado, os vestígios psíquicos ou imateriais, consubstanciados em determinados tipos de comportamentos associados à prática de ilícitos criminais, adentra o campo dos perfis criminais, os quais representam um sistema no qual os comportamentos e/ou ações manifestadas em um crime são avaliados e interpretados, a fim de compor as previsões relativas às características do provável autor do crime. As características previstas são muitas vezes referidas como um perfil criminal, cuja finalidade é ajudar os investigadores na identificação e, portanto, a detenção de criminosos. Do outro lado, um conjunto de alterações materiais (sinais, traços, manchas) relacionadas com um acontecimento criminal e que podem contribuir para o seu esclarecimento, está relacionado com a área da atuação da criminalística. Essas alterações, deixadas pelo autor no local do crime, permitem ao pessoal especializado, por meio de fontes técnicas e metodologia científica específica, a identificação dos autores e das circunstâncias envolvidas. 121 CAPÍTULO III • PROVAS, INDÍCIOS E VESTÍGIOS As alterações materiais (vestígios materiais) desdobram-se em diversos tipos de vestígios, que, a depender da doutrina se- guida, pode variar. Assim, alguns autores, dentre eles, José Brás e Jesus Antônio Velho, propõem a seguinte classificação: Vestígios Materiais Orgânicos ou Biológicos Inorgânicos ou Não Biológicos Químicos Físicos Morfológicos Entomológicos Imateriais 1. Vestígios orgânicos ou biológicos (sangue, saliva, pelos, ca- belos, sêmen etc.); 2. Vestígios inorgânicos ou não biológicos (poeiras, solos, tin- tas, explosivos, drogas); 3. Vestígios morfológicos (vestígios lofoscópicos, pegadas,rastos, marcas de objetos); 4. Vestígios entomológicos (análise de larvas, insetos adultos, putrefação, etc.); 5. Vestígios imateriais não são objeto de análise da crimi- nalística, mas é enquadrado com área de estudo da psi- cologia criminal e psiquiatria forense. Aqui o exemplo é o próprio local de crime, que pode apontar características do perfil do criminoso. Resumindo VESTÍGIO INDÍCIO EVIDÊNCIA Todo objeto ou material bruto constatado e/ou recolhido em local de crime ou presente em uma situação a ser peri- ciada e que será analisa- do posteriormente. Circunstância conhe- cida e provada, que, tendo relação com o fato, autorize, por in- dução, concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias. É o vestígio que, após as devidas análises, tem constatada, técni- ca e cientificamente, sua relação com o fato periciado. 122 CRIMINALÍSTICA PARA CONCURSOS Pedro Henrique Canezin VESTÍGIOS EM LOCAL DE CRIME CONTRA A VIDA Os crimes contra a vida, assim definidos no Código Penal Brasileiro, envolvem os crimes de homicídio, infanticídio, induzi- mento, instigação e auxílio ao suicídio e as formas de aborto. Por se tratar de crimes que envolvem a retirada da vida, é comum a presença de diversos tipos de vestígios morfológicos e biológicos. No entanto, é possível também que existam vestígios químicos (Ex.: medicamentos ou produtos de limpeza, indicando suicídio) ou físicos (Ex.: frenagens no asfalto). De acordo com a Secretaria das Nações Unidas de Crimes e Drogas (2009), juntamente com a doutrina brasileira, os vestígios mais encontrados em locais de crimes contra a vida são: VESTÍGIO VALOR FORENSE LOCAIS ASSOCIADOS Impressões papiloscópicas Permite a identificação dos envolvidos no crime, reconstrução e dinâmica dos fatos. Potencialmente em to- dos os locais de crime. Marcas pneumáticas Permite a determinação da marca e modelo do veículo, estimação de tempo e distância per- corrida, além da recons- trução do acidente de trânsito. Acidentes de trânsito, atropelamentos, homi- cídios, suicídios. Vestígios Biológicos: Saliva Sangue Cabelos e pelos Urina Permitem a detecção da autoria e reconstrução da dinâmica e materialidade do crime. Potencialmente encon- trados em todos os lo- cais de crime, em espe- cial em morte violenta. Mordidas Permite a identificação do autor pelo padrão odon- tológico e também por DNA Homicídio qualificado (feminicídio)