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As sociedades europeias no século XVI, por exemplo, ainda estavam submetidas às mudan- ças climáticas que impactavam a produção de alimentos, visto que a agricultura e a pecuária dependiam basicamente das condições naturais. Portanto, os grupos humanos permaneciam de- pendentes dos fenômenos meteorológicos em relação ao trabalho agrícola e pecuário. Em contrapartida, determinadas transforma- ções econômicas estavam em curso desde o início da retomada do comércio e do crescimento das cidades, no século XIV, seguidos pela expan- são marítima e pela conquista da América, nos sé- culos XV e XVI, integradas à conquista do caminho para o Oriente. As distâncias eram medidas e o tempo era contado com base na organização das redes comerciais para tais viagens. A ampliação e a acumulação da riqueza mer- cantil lentamente alteraram as relações entre os grandes comerciantes e a aristocracia da terra. Essas mudanças seriam percebidas com maior intensidade apenas nos séculos XVIII e XIX, quan- do a burguesia assumiu o controle do Estado em países como a França e a Inglaterra. Até o século XVIII, os Estados nacionais viviam um processo de centralização do poder e unifica- ção de territórios caracterizado por guerras civis, alianças monárquicas e complôs da alta aristo- cracia. Em diversos países, esses acontecimen- tos alteravam o rumo da política, promovendo ou derrubando dinastias, provocando conflitos san- guinários e curtos períodos de paz. Assim, permanências e mudanças de média e curta duração se entrelaçam no estudo das so- ciedades humanas. Por isso, é muito importante sempre levar em conta que o estudo de um tema em um livro de História implica o estudo de rup- turas e transformações históricas no tempo e no espaço relacionado a esse tema, bem como traz uma reflexão sobre o que permanece inalterado na experiência humana. Por isso, para compreender o movimento da História, é preciso compreender o ritmo das mu- danças e identificar as permanências, conhecendo a dinâmica histórica. Ao estudar uma determinada época passada ou a atualidade, pode-se verificar a presença de diferentes ritmos e durações. Sobre as mudanças e permanências de uma época, leia o texto a seguir de Georges Duby (1919-1996). Ingredientes de uma nova civilização A tradição situa no século V a passagem da Antiguidade para a Idade Média. Nesse momen- to a Europa não existe. Praticamente tudo o que o historiador é capaz de conhecer ainda se or- ganiza em torno do Mediterrâneo, no quadro do Império Romano. No entanto, um movimento em marcha há muito tempo tende a desarticular tal quadro, afastando progressivamente a parte grega de sua parte latina. De fato, é a leste que se encontram toda a vitalidade, toda a riqueza, toda a força, e ali a civilização antiga prossegue a sua história sem rupturas, ao passo que se de- sagrega a oeste – desde sempre numa posição de fraqueza –, onde o desmoronamento é precipita- do pelas migrações dos povos germânicos. Deste lado, instala-se a desordem por três séculos, du- rante os quais se misturam os ingredientes de uma nova civilização. De uma nova arte. [...] por todo lado as cidades subsistem. São, é verdade, cada vez menos numerosas à medida que nos afastamos do Mediterrâneo, mas uma rede de caminhos indestrutíveis liga-as de uma ponta à outra do Império, criando uma estrei- ta comunidade cultural. Essas cidades despo- voam-se. Os dirigentes afastam-se aos poucos, vão viver em suas casas no campo. No entanto, continuam vivas, imponentes, com suas mura- lhas, suas portas solenes, seus monumentos de pedra, estátuas, fontes, termas, o anfiteatro, o fórum onde se discutem os negócios públicos, escolas onde se formam os oradores, colônias de negociantes orientais que usam a moeda de ouro, ainda sabem onde conseguir o papiro, as especiarias, os panos importados do Oriente, e, nas vastas necrópoles que se estendem extra- muros, os mausoléus, os sarcófagos dos ricos cobertos de esculturas. Todas essas cidades se voltam para Roma, seu modelo. Roma, a cidade imensa, implantada na própria fronteira que se- para a latinidade do helenismo. [...] 125 V1_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 125V1_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 125 9/14/20 6:18 PM9/14/20 6:18 PM Ao norte, a oeste, nos pântanos e nas flo- restas onde as legiões nunca penetraram, vi- vem as tribos “bárbaras”. Essas populações dispersas, seminômades, de caçadores, cria- dores de porcos e guerreiros têm costumes e crenças muito diferentes. Também sua arte é diferente: não é a arte da pedra, mas a do metal, das contas de vidro, do bordado. Não há monumentos, apenas objetos que as pessoas transportam consigo, armas, e essas joias, esses amuletos com que os chefes se enfeitam na vida e que são postos ao lado de seus cadáveres no túmulo. Não há relevos, apenas o cinzelado. Uma decoração abstra- ta, símbolos mágicos entrelaçados em que às vezes se inserem as formas estilizadas do animal e da figura humana. Alguns desses povos, por terem se aproximado durante suas migrações dos territórios helenizados, foram evangelizados. São eles os primeiros, chefiados por seus reis, a se embre- nhar no Império do Ocidente, assaltando o poder. Outros povos os seguem, sendo estes pagãos que em seu avanço pelas antigas fronteiras apagam nos territórios que ocupam os tênues vestígios da presença de Roma. É possível perceber a que ponto a cultura “bárbara”, nesses tempos conturbados, se sobrepôs à cultura romana e a submergiu: a linha muito nítida que, curio- samente estável, cruza a Europa atual e separa a região das línguas româ- nicas e a dos outros idiomas marca os limites desse avanço. [...] Entretanto, a cultura romana conservou o seu prestígio. Fascinou os invasores. Foi para se alçarem ao seu nível, para participarem dessa es- pécie de felicidade que julgavam partilhada pelos cidadãos romanos, que os germanos atravessaram as fronteiras, que seus chefes, agora detento- res do poder, não hesitaram em se autodenominar cônsules que moravam nas cidades, que favoreciam, como Teodorico, o desabrochar das letras latinas, que arrastavam os companheiros e, como Clóvis, mergulhavam nas águas do batismo. Tinham apenas um desejo: integrar-se. Para se in- tegrarem de verdade, precisavam virar cristãos. DUBY, Georges. História artística da Europa: a Idade Média. São Paulo: Paz e Terra, 1997. v. 1. Saque de Roma pelos bárbaros, de Karl Briulov (1799-1852), 1833-1836, pintor do Romantismo russo. A obra é uma representação do ataque de Genserico dos Vândalos sobre Roma em 455. Os romanos denominavam bárbaros todos os povos que não tinham se romanizado e que não falavam o latim ou o grego. 1. Identifiquem permanências e mudanças na imagem e nos modos de vida no contexto histórico apresentado no texto e conversem sobre elas. 2. Em seguida, apresentem outros exemplos históricos de contextos em que ocorram mudanças e permanências. 3. Para finalizar, deem exemplos do dia a dia em que seja possível observar permanências e mudanças, diferenciando aquelas que são materiais, palpáveis, daquelas que são imateriais, como comportamentos e valores. Veja respostas e orientações no Manual do Professor. Interpretar NÃO ESCREVA NO LIVRO A lb u m /F o to a re n a /G a le ri a T re ty a k o v, M o s c o u , R œ s s ia . 126 V1_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 126V1_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap4_122a157.indd 126 9/14/20 6:18 PM9/14/20 6:18 PM