Prévia do material em texto
oferece novas formas de acesso aos serviços públicos e à cidadania, com mais oportunidades de negócios, empregos, formação profissional e opções de lazer, mas, por outro, gera problemas urbanos, como assentamentos humanos precá- rios e violência. Para começarmos a estudar esse assunto, leia os trechos a seguir. Segregação socioespacial e precariedade habitacional Associado ao desequilíbrio no aproveitamen- to do solo urbano e à contraposição entre es- vaziamento do centro expandido e crescimen- to periférico, há outro desequilíbrio importan- te na cidade, que estabelece, grosso modo, uma distribuição bem definida das distintas classes sociais: os mais pobres vivendo predominante- mente nas áreas periféricas e seus assentamen- tos precários e os de maior renda, no centro ex- pandido e seu entorno, onde existe maior oferta de infraestrutura e empregos. Tal distribuição representa, para os mais pobres, maior distân- cia das oportunidades, maior tempo gasto no deslocamento casa-trabalho-casa e maior pre- cariedade habitacional e urbana. Trata-se, por- tanto, de uma condição estrutural que favorece a reprodução da pobreza ao longo das gerações e impede uma redução mais acelerada das desi- gualdades de renda. [...] SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. SP 2040: a cidade que queremos. São Paulo: SMDU, 2012. p. 32. Território e cidadania Morar na periferia é se condenar duas vezes à pobreza. À pobreza gerada pelo modelo eco- nômico, segmentador do mercado de trabalho e das classes sociais, superpõe-se a pobreza gera- da pelo modelo territorial. Este, afinal, determi- na quem deve ser mais ou menos pobre somen- te por morar neste ou naquele lugar. Onde os bens sociais existem apenas na forma mercan- til, reduz-se o número dos que potencialmente lhes têm acesso, os quais se tornam ainda mais pobres por terem de pagar o que, em condições democráticas normais, teria de lhes ser entre- gue gratuitamente pelo poder público. [...] SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 3. ed. São Paulo: Nobel, 1996. p. 115. O direito à cidade Saber que tipo de cidade queremos é uma questão que não pode ser dissociada de saber que tipo de vínculos sociais, relacionamentos com a natureza, estilos de vida, tecnologias e valores estéticos nós desejamos. O direito à ci- dade é muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. Além disso, é um direito coletivo e não individual, já que essa transformação depende do exercício de um poder coletivo para remodelar os processos de urbanização. A liberdade de fazer e refazer as nossas cidades, e a nós mesmos, é, a meu ver, um dos nossos direitos humanos mais preciosos e ao mesmo tempo mais negligenciados. [...] HARVEY, David. O direito à cidade. piauí, ed. 82, jul. 2013. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/ materia/o-direito-a-cidade/. Acesso em: 15 jun. 2020. 1. O que significa dizer que “morar na periferia é se condenar duas vezes à pobreza” ou que isso é uma “condição estrutural que favorece a re- produção da pobreza ao longo das gerações”? Pode-se dizer que o grau de cidadania de uma pessoa varia conforme sua posição no territó- rio da cidade? 2. Como as pessoas podem contribuir para rom- per esse círculo vicioso, transformando essa “condição estrutural” e modificando as condi- ções do lugar onde vivem? Como podem exer- cer seus direitos de cidadãs, independente- mente de sua localização no território? 3. Com base em sua experiência e na observa- ção da realidade, você acredita que no Brasil o direito à cidade, como propõe David Harvey, é assegurado para todos? Você conhece, em seu município, algum movimento organizado para assegurar os direitos da cidadania, entre os quais o direito à cidade? Veja as respostas no Manual do Professor. 97 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 97V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 97 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58 A cidade e o cidadão Pesquisas arqueológicas indicam que a origem das primeiras cidades remonta a aproximadamente 3000 a.C. Elas co- meçaram a se desenvolver a partir do momento em que algumas sociedades tiveram condições de produzir alimentos suficientes para garantir a subsistência dos agricultores e abastecer os mora- dores urbanos, que, assim, puderam se dedicar a outras atividades. Dessa for- ma, ocorreu uma gradativa divisão do trabalho entre o campo e a cidade. Foi na cidade que se desenvolveram o comér- cio e o artesanato, e, principalmente, ela passou a ser o centro de poder. Ur e Babilônia, duas das primeiras ci- dades do mundo, foram construídas na Mesopotâmia, no vale dos rios Tigre e Eufrates (no atual Iraque). De acordo com parâmetros atuais, seriam cidades pequenas, mas, para a época, eram grandes aglomerações. Outras cidades também foram erguidas associadas a vales fluviais: Mênfis e Tebas, no vale do Nilo; Pequim e Hang-chou, no vale do rio Amarelo, entre outras. Ainda na Antiguidade, as cidades foram se tornando cada vez maiores. Atenas, a mais importante cidade-Estado grega, em seu auge, por volta do século V a.C., che- gou a ter aproximadamente 400 mil habitantes. Portanto, desde sua origem, as cidades que mais cresceram em geral eram centros de poder, isto é, as capitais dos impérios na Antiguidade e, mais recentemente, dos Estados nacionais. Roma é um bom exemplo: a ci- dade, hoje capital da Itália, foi também a capital do Império Romano e che- gou a abrigar, em seu apogeu, no início da era cristã, entre 700 mil e 1 mi- lhão de habitantes, o que, mesmo por parâmetros atuais, seria uma cidade grande. Aliás, a própria palavra capital é derivada do latim caput, que signi- fica “cabeça”. Roma foi a cabeça do Império Romano e comandou um vasto território sob seu controle. A palavra cidade deriva do latim civitas (“cidade, reunião de cidadãos”), ci- dadão vem do latim civis (“moradores da cidade”), e o termo civil vem do latim civilis (“pertencente ao cidadão, de cidade”). A civitas romana era entendida Estima-se que, por volta de 2500 a.C., Ur chegou a ter cerca de 50 mil habitantes e Babilônia, a maior cidade da época, 80 mil moradores. Fon te: elaborado com base em DUBY, Georges. Atlas Histórico Mundial. Barcelona: Larousse, 2007. p. 16. P o rt a l d e M a p a s /A rq u iv o d a e d it o ra 40º L 40º N Rio Danúbio R io T ig re R io N ilo R io E u frates Ilha de Chipre Ilha de Creta Mar Mediterrâneo Mar Negro Mar Cáspio M a r V e rm e lh o G o lfo Pérsico Ásia Menor Assíria Egito Arábia Palestina Suméria Babilônia Mesopotâmia Grécia Sídon Mên�s Jerusalém Ur Babilônia Nínive Tiro Beirute Biblos Tebas Cáspio 0 620 1 240 km Antiguidade: as primeiras cidades Gladiador. Diretor: Ridley Scott. Estados Unidos, 2000. (2 h 51 min) O filme conta a história de Maximus (Russell Crowe), general do Exército romano que se torna escravo e então gladiador. Embora o enredo não seja estritamente fiel aos eventos históricos, o filme mostra como o Império Romano se estendia amplamente por áreas como sudoeste da Espanha e norte da África, além de trazer uma bela reconstituição da capital, Roma. Saber R e p ro d u ç ã o /C o lu m b ia P ic tu re s d o B ra s il 98 V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 98V6_CIE_HUM_Claudio_g21Sa_Cap3_094a121.indd 98 24/09/2020 10:5824/09/2020 10:58