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Dedicatória Dedico este livro ao amigo e irmão Arival Dias Casimiro, pastor da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, com quem tenho o privilégio de servir ao Senhor Jesus na lida pastoral. Arival é um homem de fé, um servo humilde, um pregador ungido, um homem segundo o coração de Deus. Sumário Prefácio 1. Davi, o candidato improvável 2. Davi, o vencedor de gigantes 3. Davi, o cortesão do palácio 4. Davi, o afamado guerreiro 5. Davi, o amigo sincero 6. Davi, o fugitivo 7. Davi, o misericordioso 8. Davi, o pacificado 9. Davi, o incrédulo 10. Davi, o dissimulado 11. Davi, o homem de lágrimas 12. Davi, o rei de Israel 13. Davi, o adorador 14. Davi, o rei pactual 15. Davi, o vitorioso nas batalhas 16. Davi, o homem bondoso 17. Davi, o adúltero 18. Davi, o homem confrontado pela graça 19. Davi, o pai de uma família disfuncional 20. Davi, o rei destronado 21. Davi, o rei odiado 22. Davi, o rei atacado 23. Davi, o rei enlutado 24. Davi, o rei reentronizado 25. Davi, o rei soberbo 26. Davi, o rei sucedido Bibliografia D Prefácio avi é apresentado nas Escrituras Sagradas como o homem segundo o coração de Deus (Atos 13:22). Não porque ele era um varão perfeito, mas porque tinha o coração quebrantado. Viveu intensamente. Teve arroubos de devoção e, também, quedas vertiginosas. Foi às alturas excelsas da intimidade com Deus, mas também caiu nas profundezas do pecado. Ao mesmo tempo que teve pulso firme no enfrentamento das guerras de Israel, demonstrou ruidosa fraqueza nas lutas dentro de seu lar. Foi um rei exponencial e um pai nanico. Davi foi um pastor de ovelhas, um músico extraordinário, um compositor renomado, um guerreiro valente, um amigo leal, um político experiente, um estadista elogiável, um adorador fervoroso. Davi foi escolhido por Deus, capacitado por Deus, instrumentalizado por Deus, elevado por Deus e disciplinado por Deus. Com ele, Deus fez uma aliança eterna. A ele Deus prometeu um descendente, cujo reino é eterno e cujo trono jamais passará. Dele procedeu o Messias, o Salvador do mundo. Jesus é chamado nas Escrituras de o Filho de Davi (Romanos 1:3). Davi foi o maior rei de Israel. Ele triunfou sobre os históricos inimigos de seu povo e ampliou seu reino, acumulando fortunas colossais e riquezas sem conta. Sua fama transcendeu o seu tempo e espraiou-se por todas as nações da terra. Ainda hoje sua vida inspira, seu legado abençoa, seus Salmos enlevam, suas lágrimas quebrantam e sua esperança messiânica alimenta a verdadeira fé. Davi foi treinado por Deus na escola do deserto. Por mais de dez anos precisou fugir do rei Saul por cidades, desertos, vales e cavernas. O treinamento pesado tinha como propósito prová-lo para aprová-lo. As tempestades que desabaram sobre sua cabeça não o destruíram, mas tonificaram as musculaturas de sua alma. Suas experiências com Deus e seus milagrosos livramentos brotaram das provas mais duras, das dores mais atrozes, das angústias mais pungentes. Toda essa providência carrancuda foi transformada em cânticos de louvor e em salmos de lamento e penitência pelo Deus que inspira canções de louvor nas noites escuras. Davi foi um adorador de coração generoso. Ele trouxe a arca da aliança para Jerusalém e providenciou todos os recursos para que o templo fosse edificado. Chegou a dizer: “E ainda, porque amo a casa de meu Deus, o ouro e a prata particulares que tenho dou para a casa do meu Deus” (1Crônicas 29:3). Deu instruções a Salomão para ser zeloso na edificação do templo e não deixou faltar ao novo rei seus sábios conselhos. Davi foi um homem abençoador. O apóstolo Paulo disse a respeito dele em Antioquia de Pisídia: “Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus...” (Atos 13:36). Davi foi um rei-servo. Ele ascendeu ao poder não para explorar o povo, mas para servi-lo. Davi foi o mavioso salmista de Israel (2Samuel 23:1). Dos cento e cinquenta salmos do saltério, ele escreveu setenta e dois. Esses salmos são lidos semanalmente no mundo inteiro. Recorremos a eles nos dias de alegria e nos tempos de choro, nas celebrações festivas e nos dias de luto. Davi tinha o pulso firme do guerreiro e a alma sensível do poeta. Tinha destreza com a espada e habilidade em tanger as cordas da harpa. Os salmos de Davi tornaram-se o cancioneiro do povo de Deus. Lemos, declamamos e cantamos os salmos de Davi. São bálsamo para o ferido, tônico para os fracos, renovo para os cansados, terapia para os enfermos. Ah, que delícia é mergulhar nessa poesia divina, nessas canções inspiradas, nessas músicas que vieram de Deus e retornam para Deus! Os salmos de Davi são oráculos divinos, inspirados pelo Espírito Santo, que restauram a alma, dão sabedoria aos símplices, alegram o coração e iluminam os olhos! Minha oração é que esta obra ilumine sua mente e inflame seu coração. Que você fique não apenas desafiado pelo legado de Davi, mas sobretudo, que você seja transformado pelo Deus de Davi. Boa leitura! D Capítulo 1 Davi, o candidato improvável avi é bisneto de Boaz, neto de Obede, filho de Jessé, rei de Israel. Ele é o filho caçula entre oito irmãos. Não procede de uma família aristocrática. Não é oriundo de uma escola de profetas nem mesmo de uma família sacerdotal. Seu pai é apenas um homem belemita, sem qualquer projeção na sociedade de seu tempo. Davi, sendo o filho caçula, cuidava das ovelhas de seu pai, nos montes e valados de Belém. O rebanho era pequeno e a região era desértica (1Samuel 17:28). O jovem belemita, da descendência da tribo de Judá, inobstante a pouca reputação que os pastores desfrutavam em seu tempo, tinha um caráter impoluto, uma piedade profunda e uma coragem invejável. Protegeu as ovelhas dos lobos vorazes e dos leões esfaimados. Com sua funda nas mãos era uma ameaça aos predadores. Chegou a matar um urso e um leão, em defesa de seu rebanho. Sua destreza era proverbial. Sua força era invejável. Sua ousadia era notória. Davi aproveitou os dias quentes de Belém e as noites gélidas do deserto para desenvolver sua vida devocional. Suas experiências da juventude, suas lutas na escola do quebrantamento, suas fugas do rei Saul e suas dores mais profundas enquanto ostentava a coroa tornaram-se combustível para seus salmos mais profundos. Músico de qualidades superlativas, tangia sua harpa na solidão do deserto. Compositor excelente escreveu a maioria dos salmos. Jovem valoroso tonificou as musculaturas de sua alma, nas montanhas toscas de Belém, velando os rebanhos de seu pai. Quando Deus decidiu prover para si um rei, em todo o Israel, e mesmo entre as famílias mais ricas, mais nobres, mais conceituadas, Deus não encontrou ninguém semelhante a Davi. Mesmo na família de Jessé, embora tivesse irmãos mais fortes, mais apessoados, mais credenciados aos olhos humanos, nenhum deles foi escolhido, exceto Davi. O jovem belemita, o caçula da família, era o candidato improvável para o trono, mas foi o escolhido de Deus. O Senhor permanece escolhendo os que não são para envergonhar os que são. Os critérios divinos são diferentes dos nossos. Olhamos a aparência, mas Deus vê o coração. Somos impressionados pela performance, mas Deus observa a motivação. Em 1Samuel 16 encontramos uma espécie de prefácio para as narrativas restantes pertinentes à vida de Davi. Essa passagem começa com a jornada de Davi rumo ao trono, primeiro com a sua unção por Samuel, e depois, com a sua introdução à corte de Saul. Deus dá uma missão secreta ao profeta Samuel para ir à casa de Jessé e ungir um de seus filhos para proporcionar uma dinastia duradoura. Diz a Escritura que o mesmo Deus que rejeitou Saul, “escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas; tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança” (Salmos 78:70,71). Deus escolhe Davi O capítulo 16 de 1Samuel fala da cidade de Davi (16:1-5); da família de Davi (16:6-10); da profissão de Davi (16:11); da aparência de Davi (16:12a);e da unção de Davi (16:12,13).1 Destacamos, aqui, algumas lições importantes: 1. Pare de olhar para trás, Deus está fazendo algo novo (1Samuel 16:1). O capítulo 15 de 1Samuel se encerra com o rompimento de Samuel com Saul e destaca o sentimento de pena e de tristeza profunda, como um pranto pelos mortos, que dominou o coração do velho profeta pelo rei que Deus havia rejeitado. Agora, Deus repreende Samuel por continuar sentindo pena de Saul, orientando-o a tirar os olhos do passado para colocá-los no futuro, uma vez que está fazendo alvo novo. A tristeza de Samuel devido à rejeição de Saul foi interrompida por uma nova missão. A dinastia de Saul não podia mais continuar. O profeta precisava afastar-se do passado e de suas situações, e olhar para frente, onde se cumpririam os próximos planos de Deus.2 Deus ordena Samuel a encher um chifre de azeite e envia-o a Belém, para ungir um dos filhos de Jessé como o novo rei de Israel. Com isso, uma página está sendo virada não só na história de Israel como também na história da redenção. 2. Pare de temer os homens, confie em Deus (1Samuel 16:2). Samuel, o destemido profeta, confessa, agora, o medo que sentia de Saul, imaginando que essa missão secreta lhe custaria a própria vida. Ele sabia que se o rei Saul, já com fortes sinais de descontrole, desconfiasse do propósito de sua viagem, aquilo poderia soar como uma traição, fazendo com que o rei explodisse em um ataque assassino. Deus, porém, não só ordena Samuel a ir a Jessé, mas também lhe dá uma estratégia para não causar desconfiança em Saul e nos seus aliados. O Senhor o instrui a organizar um sacrifício e um banquete que fossem relacionados à sua visita em Belém. 3. Pare de esperar o pior, Deus está fazendo o melhor (1Samuel 16:3-5). Se Samuel estava com medo de ir à casa de Jessé, em Belém, com mais medo ficaram os anciãos de Belém quando viram Samuel chegando, pois não sabiam quais eram as suas intenções. Belém era uma vila muito pequena e não fazia parte da rota costumeira do profeta. Os dias eram tensos, e o temor deles era que Samuel estivesse trazendo, da parte de Deus, alguma palavra de juízo. No entanto, Samuel acalmou o coração deles dizendo que sua vinda era de paz e convida-os a se purificarem para o sacrifício que estava prestes a oferecer. O próprio Samuel purificou a Jessé e seus filhos. Não raro, ficamos apavorados, com medo daquilo que pode ser a porta da nossa esperança. A missão de Samuel era ungir um belemita rei de Israel, colocando a pequena cidade no topo da fama mundial. 4. Pare de olhar para a aparência, Deus vê o coração (1Samuel 16:6-10). Ao entrar na casa de Jessé, Samuel viu Eliabe, o filho primogênito. Imediatamente, julgando pela aparência, pensou que estava na presença do ungido do Senhor, no que foi imediatamente repreendido pelo próprio Deus: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém, o Senhor, o coração” (1Samuel 16:7). Jessé fez passar diante de Samuel todos os seus sete filhos, mas Samuel declarou: a nenhum deles Deus escolheu. Deus não procura semblantes formosos (1Samuel 16:7); estatura física (1Samuel 16:7); idade (1Samuel 16:11); posição (1Samuel 16:11). O Senhor olha para o coração (1Samuel 16:7); e derrama o seu Espírito sobre aqueles que ele aceita (1Samuel 16:13). 5. Pare de descartar os improváveis, Deus é especialista em escolhê-los e capacitá-los (1Samuel 16:11-13). Foi nesse momento que Samuel perguntou a Jessé: “Acabaram-se os teus filhos?” (1Samuel 16:11a). Jessé respondeu: “...ainda falta o mais moço, que está apascentando as ovelhas” (1Samuel 16:11b). É digno de nota que no Antigo Testamento, os reis e seus oficiais eram considerados “pastores” do povo ( Jeremias 23; Ezequiel 34). Ainda vale a pena ressaltar que Deus, geralmente, chama pessoas ocupadas para o seu serviço. Sem titubear, Samuel disse a Jessé: “Manda chamá-lo, pois não nos assentaremos à mesa sem que ele venha” (16:11c). O caçula da família era o improvável. Era jovem demais. Vivia tangendo sua harpa nas montanhas desérticas de Belém, enquanto apascentava as ovelhas, protegendo-as de bestas-feras. Joyce Baldwin diz que o mais jovem foi considerado tão improvável que julgaram não ser necessário chamá-lo do trabalho com as ovelhas. Ele, porém, era quem o Senhor havia escolhido.3 Richard Phillips corrobora: “No lugar mais improvável e humilde, Deus havia encontrado o rei de sua própria escolha: o jovem a quem o próprio Deus havia moldado para seu propósito gracioso”.4 Davi chegou e foi introduzido à casa. Era ruivo, de belos olhos e boa aparência. O Senhor ordenou a Samuel: “Levanta-te e unge-o, pois este é ele” (1Samuel 16:12). O óleo da unção simbolizava tanto o Espírito Santo como a concessão de seu poder. Davi foi ungido por Samuel no meio de seus irmãos e, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou dele. O fato de Davi ser o oitavo filho de Jessé é emblemático, pois nas Escrituras esse número é, com frequência, a representação de um novo começo. De fato, Deus usou Davi para promover um recomeço em Israel, tanto em termos políticos quanto espirituais.5 Deus fez do filho de Jessé o emblema do ofício real que somente Cristo cumpriria mais gloriosamente. Richard Phillips diz que podemos aprender cinco lições com a unção de Davi: 1. Uma repreensão da parte de Deus ao princípio que está no cerne da idolatria: o foco na aparência exterior. 2. Chamados importantes exigem preparação prévia. 3. O prazer de Deus em elevar servos a partir de lugares humildes. 4. As qualidades mais importantes são aquelas que nos recomendam a Deus. 5. A qualidades que Deus deseja em seus servos são aquelas que Ele concede pelo envio do seu Espírito Santo.6 Saul escolhe Davi A situação de Saul ia de mal a pior. O rei estava em total decadência mental e espiritual. Nessa conjuntura, Saul, por indicação de seus servos, escolhe Davi para assisti-lo no palácio, adotando-o como seu filho. Mais tarde, Davi se torna o genro de Saul. Ele chama Davi de “meu filho” (1Samuel 24:16; 26:17), e Davi o chama de “meu pai” (1Samuel 24:11). Destacamos, aqui, quatro fatos solenes. 1. Um contraste profundo (1Samuel 16:13,14). Na mesma medida que o Espírito Santo se apossou de Davi, um espírito maligno, da parte do Senhor, começou a atormentar Saul (1Samuel 16:14,23; 18:10; 19:9), como parte de sua disciplina. 2. Um tormento profundo (1Samuel 16:14). A vida de Saul foi se deteriorando à medida que ele se rebelava contra Deus e ainda tentava justificar suas transgressões. Samuel se afastou dele. O Senhor o rejeitou. Agora, um espírito maligno enviado pelo Senhor o atormenta. Sendo Deus soberano, até os espíritos malignos estão debaixo de suas ordens e cumprem seus propósitos. Desse modo, os acessos de ira de Saul, seu transtorno psicológico e sua perturbação mental não eram apenas uma doença de ordem psicoemocional, mas consequência da ação perturbadora de um espírito maligno. A causa era o espírito maligno, a consequência era a perturbação mental. Antônio Neves de Mesquita lança luz sobre o tema, ao escrever: É sempre assim: quando Deus não ocupa o lugar devido na vida humana, o demônio se aproveita da vaga e toma conta. O mais grave de tudo é que este espírito maligno veio da parte do Senhor. Deus manda tanto nos espíritos bons como nos maus. Nada escapa ao governo divino, e os demônios são usados para perseguir os que estão desviados [...]. Deus tem sob seu domínio anjos e demônios, como tem os homens, e usa-os no seu governo providencial, do modo que quer.7 3. Um diagnóstico certo, mas um tratamento insuficiente (1Samuel 16:15,16). Os servos de Saul apresentaram um diagnóstico correto ao declararem que o rei estava atormentado por um espírito maligno. No entanto, eles adotaram medidas superficiais e insuficientes para resolver as crises intermitentes de perturbação mental. O problema de Saul era a sua alienação de Deus, a sua rebeldia contra o Senhor e sua desobediência às ordensdivinas. A solução para Saul era o arrependimento sincero, e não apenas terapia musical. A música era apenas um paliativo para seus acessos de loucura e perturbação. Richard Phillips tem razão em escrever: Conselheiros de mentalidade bíblica parecem ter estado ausentes da corte de Saul, e seus conselheiros só conseguiram pensar num modo de tratar os sintomas psicológicos do que era um problema fundamentalmente espiritual. A solução oferecida por eles foi superficial. Saul precisava de uma cirurgia e eles lhe deram apenas paliativos.8 4. Um propósito divino (1Samuel 16:17-23). O Deus da providência age nas circunstâncias, ainda que desafiadoras, para colocar o recém-ungido rei de Israel dentro do palácio para relacionar-se com Saul. Assim, o novo rei torna-se servo do velho rei. Um dos moços de Saul forneceu um relatório preciso sobre o jovem belemita: “...sabe tocar e é forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o Senhor é com ele” (1Samuel 16:18). A chave para o sucesso de Davi era esta: “O Senhor era com ele” (1Samuel 16:18; 18:12,14,28). Saul, então, envia uma mensagem a Jessé: “Deixa estar Davi perante mim, pois me caiu em graça” (1Samuel 16:22). Quando o espírito maligno da parte de Deus vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a dedilhava. Assim, Saul se acalmava, o espírito se retirava dele e o rei sentia-se melhor (1Samuel 16:23). 1. WIERSBE, W. W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 242-244. ↵ 2. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 207. ↵ 3. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel. 2006, p. 137. ↵ 4. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 253. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 244. ↵ 6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 253-356. ↵ 7. MESQUITA, Antônio Neves. Estudo nos livros de 1 e 2Samuel. 1979, p. 72. ↵ 8. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 262. ↵ A Capítulo 2 Davi, o vencedor de gigantes unção de Davi não o colocou no trono, mas o matriculou na escola do quebrantamento. Antes de ascender ao trono, ele foi preparado para ocupá-lo. Ele foi provado para ser aprovado. Como barro nas mãos do oleiro, Davi foi amassado, prensado e moldado. Finalmente, passou pela fornalha para ser temperado e, então, usado como vaso de honra nas mãos de Deus. O capítulo 17 de 1Samuel retrata uma história épica, uma espécie de divisor de águas na vida de Davi. O jovem belemita, na contramão do exército de Israel, dispõe-se a enfrentar e vencer um guerreiro duelista, que era um gigante insolente e inimigo aterrador. Essa fascinante história de fé e de coragem de Davi é uma das narrativas clássicas mais apreciadas e conhecidas da Bíblia. Em 1Samuel 16:1-13, Davi emerge com a unção do profeta Samuel, nos versículos 14-24, ele aparece como o músico da corte de Saul, já no capítulo 17, ele surge como o campeão militar de Israel. Embora esse episódio tenha ocorrido há mais de três mil anos, é oportuno dizer que os gigantes ainda existem. Eles são numerosos e arrogantes. Gigante é tudo aquilo que parece ser maior do que você. Pode ser uma pessoa, uma circunstância ou um sentimento. Há gigantes tanto fora como dentro de nós. Alguns gigantes são criados no laboratório do nosso próprio medo, e eles se levantam como fantasmas para nos assustar. Deus, porém, não nos chamou para contar os gigantes nem mesmo para temê-los ou fugir deles. Ele nos chamou para vencê-los. John Milton venceu o gigante da cegueira ao escrever o grande clássico Paraíso Perdido depois de ficar completamente cego. Ludwig Beethoven, músico de qualidades superlativas, venceu o gigante da surdez ao compor suas sinfonias mais excelentes depois de ficar completamente surdo. John Bunyan venceu o gigante da prisão ao escrever o clássico O Peregrino, nas horas mais sombrias de sua saga prisional. Quais são os seus gigantes? O texto bíblico sobre a batalha de Israel com os filisteus oportuniza algumas lições importantes. Um inimigo insistente Os filisteus foram os inimigos mais insistentes que Israel enfrentou (1Samuel 17:1-3). Considerados “o povo do mar”, eram piratas invasores. Quando os filisteus migraram para o litoral de Israel, trouxeram com eles sua cultura e suas táticas de guerra. Mais uma vez, avançando sobre o território de Judá, esse inimigo ajunta suas tropas para guerrear contra Israel, acampando entre Socó e Azeca, em Efes-Damim. A expressão enfática Socó, que está em Judá (v. 1) mostra os filisteus indo além dos limites. Saul, então, convoca os soldados de Israel, e eles acampam no vale de Elá. É preciso ressaltar que os filisteus tinham armamento superior e um número mais elevado de soldados. Um duelista insolente O narrador bíblico, ao descrever Golias, faz cinco registros a respeito dele: Sua altura (1Samuel 17:4). O texto bíblico não chama Golias de gigante, porém sua altura era de 2,90 metros. Mesmo Saul sendo o homem mais alto de Israel, Golias, o gadita, o superava em altura. Golias era a mais recente inovação militar inimiga, um gladiador campeão de proporções gigantesca, uma montanha humana que ficava muito acima da cabeça de qualquer guerreiro israelita. Sua armadura (1Samuel 17:5,6). Golias estava coberto da cabeça aos pés. Usava capacete, couraça e caneleiras de bronze. Sua indumentária de proteção pesava cerca de cem quilos. A descrição da armadura de Golias parte progressivamente da cabeça para os pés; de cima para baixo. Tratava-se de uma armadura intimidadora. Suas armas (1Samuel 17:6b,7). Golias usava um dardo de bronze, lança e espada (17:51). Além disso, ia adiante dele um escudeiro. Golias era mais que um espetáculo assustador; era também um especialista em combate corpo a corpo, pois era um guerreiro (17:4). Seu desafio (1Samuel 17:8,9,16). Golias desafiou o exército de Israel, propondo um duelo em vez de uma batalha. Queria um homem para lutar com ele. Caso o duelista o vencesse, os filisteus serviriam a Israel. Do contrário, Israel serviria aos filisteus. Golias está tão seguro de sua vitória que promete entregar seus compatriotas à escravidão. Esse desafio foi feito durante quarenta dias, duas vezes por dia. Sua afronta (1Samuel 17:10,11). Golias não apenas desafiou os soldados de Israel, mas também afrontou as tropas de Israel ao convocar um homem para lutar contra ele. Saul era o homem mais alto de Israel e, embora tivesse sido escolhido para liderar Israel nas guerras, ele se acovardou assim como todos os seus soldados. Todo o Israel espantou-se com as afrontas de Golias e temeu muito. Um guerreiro valente Depois de apresentar a família de Davi (17:12-14), o narrador oferece dez lições dignas de destaque a respeito das atitudes desse jovem promissor. Vejamos: 1. Não olhe para suas limitações, veja as oportunidades (1Samuel 17:12-16). Jessé, o belemita, já estava velho, e Davi, sendo o caçula de oito irmãos, não tinha sequer vinte anos, a idade adequada para ser um soldado. Seus três irmãos mais velhos estavam no campo de batalha, lutando pela nação, mas ele foi subestimado, pois era considerado jovem demais para esse tipo de confronto. Cabia-lhe apenas ser o músico particular do rei nos seus acessos de loucura e voltar a Belém para apascentar um punhado de ovelhas no deserto. Davi, porém, não ficou frustrado nem complexado por causa de suas limitações. Na verdade, ele era o único homem em toda a nação com coragem para enfrentar Golias. À semelhança de Davi, não fique lamentando as dificuldades da vida. Tenha a visão do farol alto e olhe as oportunidades que Deus coloca diante de você hoje. Deus havia conduzido Davi até o acampamento de guerra para essa ocasião, e o rapaz estava pronto a aceitar o desafio. 2. Não despreze as pequenas tarefas, elas abrem portas para grandes oportunidades (1Samuel 17:17-23). Davi é um homem humilde e um filho obediente. Seu pai o convoca para levar trigo tostado e pães para seus irmãos e queijos ao comandante da milícia. O propósito de Jessé não é apenas enviar provisão para os filhos e o comandante,mas, sobretudo, saber notícias do andamento da guerra. Mesmo depois de ter sido ungido rei de Israel por Samuel e de frequentar o palácio real, Davi não se sentiu diminuído ao realizar esse trabalho doméstico e humilde. No dia seguinte, deixando as ovelhas sob o cuidado de um guarda, partiu de madrugada para o vale de Elá com a provisão. Davi chega ao destino no exato momento em que as tropas de Israel saíam para formar-se em ordem de batalha. Deixando o que trouxera com o guarda da bagagem, correu à batalha; ao se aproximar, perguntou a seus irmãos se estavam bem. Enquanto Davi falava com eles, Golias, o duelista, pelo quadragésimo dia e pela octogésima vez afrontou as tropas de Israel. 3. Não escute a voz dos pessimistas, eles apostam na derrota (1Samuel 17:24- 27). Davi ouviu as afrontas e testemunhou como todos os israelitas, com as pernas bambas de medo, fugiram de diante do gigante (1Samuel 17:24), argumentando: “Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu para afrontar a Israel” (1Samuel 17:25). Diante do espanto de Davi com a pusilanimidade dos soldados de Israel, ouviu ainda que o rei Saul estava oferecendo robusta recompensa para quem o vencesse: 1) grandes riquezas; 2) membresia na família real, com oferta de casamento com a filha do rei; 3) isenção vitalícia de impostos. A promessa de liberdade e a mão da filha de Saul em casamento não foram suficientes para animar alguém a confrontar o guerreiro filisteu. Davi, porém, demonstra interesse na proposta do rei e declara: “Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?” (1Samuel 17:26). Porque Davi humildemente sujeitou-se a seu velho pai, cumprindo um papel tão secundário, Deus deu-lhe a oportunidade de vencer o gigante e tornar-se um herói nacional. A voz do povo, no entanto, estava repleta de pessimismo e fracasso. Todos apostavam na derrota de Davi. Ainda hoje as pessoas comentam a crise. Elas só olham para a altura dos gigantes, mas é no tempo de crise que os verdadeiros heróis são revelados. É do ventre da crise que nascem os vencedores. Não escute a voz dos pessimistas. Não dê atenção aos medrosos. Como Davi, você também pode derrubar os seus gigantes. Isaque cavou poços no deserto. Semeou em tempo de fome e colheu cem por um. Franklin Delano Roosevelt queria ser presidente dos Estados Unidos da América. Ele nasceu em 30 de janeiro 1882 em Nova York. Estudou na Universidade de Harvard e Columbia. Exerceu a advocacia por um tempo, mas deixou-a para se dedicar à política. Aos trinta e nove anos foi vítima de poliomielite, tornando-se paralítico da cintura para baixo. Apesar disso, ele não desistiu de enfrentar seus gigantes. A multidão dizia que ele jamais poderia ser presidente dos Estados Unidos da América numa cadeira de rodas. Mesmo assim Roosevelt foi o único homem eleito e reeleito quatro vezes consecutivamente presidente dos EUA. 4. Não perca tempo com os críticos, eles querem tirar o seu foco (1Samuel 17:28-30). Davi teve de lidar com a crítica de Eliabe, seu irmão mais velho, com a desconfiança de Saul e com a afronta de Golias, mas nunca perdeu o foco. As críticas costumam doer, mas doem ainda mais: 1. Quando vêm daqueles que deveriam estar do nosso lado, mas estão contra nós. Eliabe era o irmão mais velho de Davi, sangue do seu sangue. Quanto mais íntima é a relação, mais dolorosa é a crítica. 2. Quando vêm daqueles que nos conhecem a muito tempo e são testemunhas de nossa integridade. Se Eliabe era o primogênito de oito irmãos e Davi era o caçula, Eliabe conhecia o caráter provado de Davi, mas, em que pese as virtudes de Davi, ele o critica. 3. Quando são contínuas. Eliabe era um crítico contumaz. Davi lhe pergunta: “Que fiz eu agora? Fiz somente uma pergunta” (1Samuel 17:29). 4. Quando vêm envelopadas em destempero emocional, ardendo em ira. Eliabe ficou irado com Davi quando este se dispôs a enfrentar Golias. 5. Quando elas tentam desvendar até nossas motivações. Eliabe acusou Davi de estar ali com presunção, como um bisbilhoteiro, apenas para ver a peleja. A verdade dos fatos é que Davi era humilde, pois poderia ter recusado o pedido do pai em virtude da nova posição que ocupa depois de ser ungido por Samuel. 6. Quando elas tentam nos humilhar em público. Eliabe tenta desmoralizar seu irmão caçula diante dos soldados de Israel, perguntando: “[...] e a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto?” (1Samuel 17:28). Não deixe as críticas colocarem medo em seu coração. Fuja dos críticos; enfrente e vença os gigantes. Como Davi triunfou sobre as críticas de Eliabe? Desviando-se dele (17:30)! Não perca tempo com os críticos. Concentre-se naquilo que Deus lhe chamou para fazer. 5. Apresente-se para os grandes desafios do presente com base nas vitórias e experiências do passado (1Samuel 17:31-37). A postura varonil de Davi, não aceitando as afrontas de Golias, é contrastada com a covardia de Saul e do exército israelita. Matthew Henry enfatiza: “Um pequeno pastor que chegou de manhã diretamente do cuidado com as ovelhas tem mais coragem que todos os homens poderosos de Israel”.1 As notícias animadoras acerca da coragem e disposição de Davi para duelar com Golias logo chegaram aos ouvidos do rei Saul, que prontamente mandou chamá-lo. O jovem Davi apresentou-se ao rei, dizendo-lhe: “Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá e pelejará contra o filisteu” (1Samuel 17:32). Saul ao ouvir a bravura do jovem belemita, deu logo o diagnóstico: “Contra o filisteu não poderás ir para pelejar” (1Samuel 17:33a) e justificou: “[...] pois tu és ainda moço, e ele, guerreiro desde a sua mocidade” (1Samuel 17:33b). Saul, como Golias, confiava na aparência e na força do braço da carne. Davi, porém, respondeu a Saul, informando-o de suas experiências no labor pastoril. Para livrar suas ovelhas, já havia lutado vitoriosamente com um urso e com um leão e matado a ambos. Deus pode usar as nossas experiências passadas para nos preparar para as missões futuras. Davi então arremata: “[...] este incircunciso filisteu será como um deles, porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo” (1Samuel 17:36). O filisteu selou seu próprio destino ao desafiar os exércitos do Deus vivo. As vitórias do passado deram a Davi a convicção de que Deus daria êxito também no presente. É claro que essas não são bravatas de um fanfarrão, mas o testemunho de um homem de fé. Assim, Davi garantiu ao rei: “[...] o Senhor me livrará das mãos deste filisteu” (1Samuel 17:38). Antônio Neves de Mesquita foi feliz ao afirmar: “Com Deus se pode tudo e contra Deus nada se pode”.2 Dale Ralph Davis comenta: “Olhar para trás com fé nos capacita a seguir adiante em fé. O que o Senhor fez no deserto de Judá, Ele fará no vale de Elá”.3 Saul, com base no testemunho de Davi, deu permissão a ele para enfrentar o duelista e rogou sobre ele a bênção de Deus: “[...] o Senhor seja contigo” (1Samuel 17:38b). 6. Não tente imitar os outros, use as armas que Deus lhe deu (1Samuel 17:38- 40). Antes de enviar Davi para duelar com Golias, Saul vestiu-o com sua armadura, pôs sobre a cabeça dele um capacete de bronze e o vestiu com uma couraça. Davi cingiu a espada sobre a armadura, mas não conseguiu andar com toda aquela parafernália. Saul era o homem mais alto de Israel e certamente sua armadura não poderia cair bem em Davi. Davi disse: “Não posso andar com isto” e “Davi tirou aquilo de sobre si” (1Samuel 17:38,39, grifo nosso). Não podemos enfrentar gigantes com armas alheias. O que o texto ensina é que não adianta usar armadura de rei sem ser rei. Usar armadura alheia não é equipar-se para a batalha. Aquela indumentária de guerra era um estorvo para Davi. Então o jovem belemita se desfez de tudo aquilo para lutar com suas próprias armas. Davi tomou o cajado na mão, pegou cinco pedras lisas do ribeiro e as pôs no alforje de pastor; e, lançando mão de sua funda, foi se chegando ao filisteu. Uma funda nas mãos de Davi era uma arma poderosa. Nas mãos de um guerreiro habilidoso, as fundas eram mortalmente precisas ( Juízes20:16). Ele poderia acertar um fio de cabelo, quanto mais a testa de um gigante. Davi era um especialista. Não tinha apenas coragem, mas também preparo. Preparo sem coragem é covardia; coragem sem preparo é loucura. Warren Wiersbe está correto em dizer que, apesar das críticas e dos conselhos desanimadores e inapropriados, Davi confiou no Senhor, seu Deus, e o Senhor recompensou sua fé.4 7. Tenha preparo e coragem, mas saiba que a vitória vem de Deus (1Samuel 17:41-47). Davi estava preparado para enfrentar Golias e tinha coragem para triunfar sobre o gigante insolente e blasfemador. Mais do que isto, Davi tinha as motivações certas para entrar nessa guerra, quais sejam o zelo pela glória de Deus e o amor pelo povo de Deus. De igual modo, revestido com o poder do Espírito, Davi tinha as armas certas e poderosas em Deus para destruir fortalezas e anular sofismas (2Coríntios 10:4). Davi sabia que a vitória vem de Deus e que o mérito da vitória também pertence a Deus. Golias havia blasfemado contra Deus e afrontado o exército do Deus vivo e agora ele escarnece e amaldiçoa Davi em nome de seus deuses. Golias tenta intimidar Davi, dizendo que daria sua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo, Davi responde às afrontas de Golias dizendo que está indo contra ele em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem o filisteu estava afrontando. Davi declara que Golias será degolado e seu exército, aniquilado, a fim de que toda a Terra saiba que há Deus em Israel. E mais, a multidão que já estava em suspense há quarenta dias saberia que o Senhor salva não com espada nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e os filisteus seriam entregues nas mãos do exército de Israel. Não vencemos por causa de nossa sabedoria, força ou estratégias. Podemos nos sentir como aquele camundongo que estava atravessando uma ponte nas costas de um elefante. No meio do trajeto sobre o abismo, a frágil ponte balançou na sua estrutura. Quando eles chegaram do outro lado, o camundongo olhou para o seu grande companheiro e lhe disse: “Rapaz, nós chacoalhamos aquela ponte, hein?”. Quando andamos com Deus é assim que nos sentimos: um camundongo com a força de um elefante; e depois de atravessarmos as águas turbulentas da vida, vencendo nossos gigantes, poderemos dizer: “Deus, nós chacoalhamos aquela ponte, hein?”. Saul e seu exército fugiram porque olharam para o tamanho do gigante. Davi venceu porque olhou para a grandeza de Deus. Quem olha para os gigantes se intimida e, como os espias de Israel, passa a sofrer a síndrome de gafanhoto. No entanto, quando nossos olhos estão postos em Deus, podemos dizer: “Se o Senhor se agradar de nós, então, nos fará entrar nessa terra e no-la dará, terra que mana leite e mel” (Números 14:8). 8. Não retarde a luta, tenha pressa para vencer (1Samuel 17:48-51a). Se por um lado Saul e seus soldados bateram em retirada (1Samuel 17:24), Davi por outro lado correu em direção ao gigante Golias (1Samuel 17:48). Em vez de andar para a linha de batalha, Davi correu, pois estava ansioso pela vitória. Ele era um homem determinado com pressa para vencer. Warren Wiersbe escreve: “Há os que fazem as coisas acontecerem, há os que assistem enquanto as coisas acontecem e há quem nem sequer sabe que algo está acontecendo”.5 Davi era do tipo que faz as coisas acontecerem. Ele não precisou usar todo o seu arsenal de guerra. A primeira pedra que atirou cravou na testa de Golias, que caiu desamparado com o rosto em terra, como um fardo atirado ao chão. Apenas com uma pedra e sua funda, Davi prevaleceu sobre o gigante. Davi tomou-lhe a espada e o matou, cortando a cabeça dele. Não desista de lutar e vencer. O maior presidente americano de todos os tempos foi Abraham Lincoln. Ele nasceu numa região rural e trabalhou na lavoura para pagar seus livros. Estudava à noite, até às primeiras horas da madrugada. Hoje em dia, seu nome é famoso no mundo inteiro, sendo usado para nomear ruas, avenidas, bancos, universidades e até carros. Lincoln era um homem determinado a vencer apesar das sucessivas derrotas. Aos 22 anos, fracassou em seus negócios. Aos 23 anos, foi derrotado em sua tentativa de tornar-se um legislador. Aos 24 anos, novamente fracassou em seus negócios. Aos 25 anos, foi eleito para a legislatura. Aos 27 anos, foi vítima de um colapso nervoso. Aos 29 anos, foi derrotado em sua candidatura à presidência da câmara. Aos 31 anos, foi derrotado no Colégio Eleitoral. Aos 39 anos, foi derrotado em sua candidatura ao Congresso. Aos 46 anos, foi derrotado para o Senado. Aos 47 anos, foi derrotado em sua candidatura à vice-presidência. Aos 49 anos, foi derrotado em sua candidatura ao Senado. Aos 51 anos, foi eleito presidente dos Estados Unidos. Não se contente com nada menos do que a vitória. Tenha pressa para vencer. 9. Não faça carreira solo, ajude outros a vencerem (1Samuel 17:51b-54). Davi mostrou ser um grande líder ao assumir riscos e abrir caminho para que outros pudessem participar da vitória.6 Quando os filisteus viram que seu herói estava morto, fugiram. Os homens de Israel e Judá, até então acuados de medo, levantaram-se, jubilaram e perseguiram os filisteus até Gate e Ecrom, impondo-lhes grande derrota. Depois de ferirem os filisteus, os soldados de Israel voltaram despojando os acampamentos deles. Davi, por sua vez, tomou a cabeça de Golias e a trouxe para Jerusalém, deixando as armas em sua tenda. Nas palavras de Purkiser, vimos aqui, “a supremacia do exército do Senhor sobre os poderes do mal”.7 Davi enfrentou a luta sozinho, mas celebrou com os soldados de Israel. Não basta vencer, é preciso encorajar outros a vencerem. Precisamos motivar e inspirar aqueles que estão abatidos a entrar na peleja e vencerem. 10. Mantenha seu coração humilde, pois no tempo certo Deus o exaltará (1Samuel 17:55-58). Diante da façanha de Davi e da vantajosa promessa de Saul ao herói de guerra (riqueza, casamento e isenção de impostos para a família), Saul tem um interesse pessoal em conhecer a família do provável genro. Nem Saul, nem seu comandante Abner sabem (de forma exaustiva) quem é o pai de Davi. Quando Davi chegou da batalha com a cabeça de Golias na mão, Abner o levou à presença de Saul. Este lhe perguntou de quem era filho. Davi respondeu: “Filho de teu servo Jessé, belemita” (1Samuel 17:58). Davi não estadeou diante do rei sua coragem nem mesmo fez qualquer exigência quanto ao cumprimento das promessas que recebera. Postou-se com humildade, aguardando o tempo certo e oportuno de Deus para seu reconhecimento. Temos de concordar com John Delancey quando ele afirma: “Saul e Abner não sabiam quem era Davi, mas Deus sabia”.8 Concluo com as palavras de Bill Arnold, quando diz que a história de Davi e Golias ilustra três princípios espirituais importantes: 1. Devemos nos preocupar mais com a glória de Deus do que com nossa própria honra. 2. A fidelidade de Deus em nossa vida no passado deve nos encorajar a tomar mais passos de fé. 3. Quando estamos diante de batalhas que parecem impossíveis, precisamos nos lembrar de que a batalha é do Senhor.9 1. HENRY, Matthew. Commentary on the whole Bible. Vol. 6. 1992, p. 293. ↵ 2. MESQUITA, Antônio Neves. Estudo nos livros de 1 e 2Samuel. 1979, p. 77. ↵ 3. DAVIS, Dale Ralph. 1Samuel: Looking on the Heart. 2000, p. 150,151. ↵ 4. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 247. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 249. ↵ 6. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 248. ↵ 7. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 211. ↵ 8. DELANCEY, John. Connecting the Dots. 2021, p. 121. ↵ 9. ARNOLD, Bill T; BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. 2001, p. 202, 203. ↵ A Capítulo 3 Davi, o cortesão do palácio fama de Davi o precedeu no palácio. Na mesma medida que o Espírito de Deus se apossou dele desde o dia em que Samuel o ungiu, um espírito maligno atormentava Saul. O rei ficou louco. Seus auxiliares,fazendo um diagnóstico correto, recomendaram-lhe, entretanto, medidas paliativas. O tormento de Saul deveria ser enfrentado com arrependimento e não com musicoterapia. O tratamento eficaz seria uma volta para Deus, e não uma calma temporária produzida pelos sons da harpa. Destacaremos, aqui, alguns aspectos da vida de Davi como cortesão do palácio. Davi, o músico palaciano Davi tinha muitos dotes musicais. Na verdade, era um músico completo. Compositor e instrumentista de qualidades excelentes, suas canções são salmos inspirados. Ele transformou suas experiências em teologia cantada, sendo considerado o mavioso salmista de Israel (2Samuel 23:1). Foi o maior compositor de Salmos. No saltério, são registrados mais de setenta Salmos de Davi. Suas alegrias tornaram-se salmos de louvor, suas quedas, salmos de penitência, e suas dores, salmos de lamento. As injustiças que sofreu tornaram-se salmos imprecatórios e suas expectativas tornaram-se Salmos messiânicos. Davi foi, outrossim, um harpista extraordinário. Foi na solidão dos planaltos de Belém que desenvolveu essa arte sublime. Os sons agradáveis de sua harpa ecoavam pelos montes de Belém, e sua música enchia os campos marchetados de ovelhas. O músico solitário, que cantava e tocava para agradar aos ouvidos de Deus, agora é reconhecido no palácio do rei. Os servos de Saul já tinham ouvido falar de sua fama. O sucesso da solidão agora se torna público. A música abriu as portas do palácio para Davi, pavimentando o caminho que o conduzia ao convívio palaciano. Davi tornou-se o músico particular do rei. A música entoada por ele era um lenitivo para o rei atormentado. Quando o espírito maligno afligia Saul, Davi dedilhava sua harpa, e o rei se acalmava. Sua música não trazia angústia; ao contrário, trazia alívio. Ela não alimentava a ação dos demônios, mas, sim, era uma arma poderosa contra eles. A música de Davi agradava os ouvidos de Deus e serenava o coração perturbado do rei. Davi, o escudeiro do rei Davi não era apenas um músico de qualidades notáveis. Era também um valente destemido, um soldado de honra, o escudeiro do rei. Saul viu em Davi um homem digno de confiança e constituiu-o seu escudeiro pessoal. Assim, Davi não apenas acalmava o rei como também o protegia. Como escudeiro do rei, Davi foi leal a Saul, protegendo-o dos aleivosos ataques dos inimigos. Davi oferecia seu peito varonil para proteger o rei de qualquer ataque do inimigo. O escudeiro do rei ocupava um posto de alta responsabilidade e de total confiança. Cabia a ele o dever de ser o guardião do monarca. A vida do rei estava em suas mãos. Antes de alguém chegar ao rei, era necessário passar por ele. Antes de alguém atentar contra o rei, precisava enfrentar as armas de seu escudeiro. Davi, o guerreiro vitorioso Além de músico do palácio e escudeiro do rei, Davi foi também um guerreiro no campo aberto das mais renhidas batalhas de Israel. Tornou-se um guerreiro afamado e vitorioso em todas as pelejas que travou. Seu vigor espiritual era a fonte de sua coragem. Suas guerras foram travadas em nome de Deus e sob a orientação dele. Diante de sua bravura, os inimigos tombavam. Diante de suas armas afiadas, os inimigos batiam em retirada. Davi foi forjado nos desertos de Belém, onde aprendeu a defender os rebanhos de seu pai das bestas-feras do campo. Ao terçar sua adaga, fazia-o em nome do Senhor. Não confiava em sua própria destreza nem no poder de suas armas. Muito embora fosse um homem preparado para a batalha, sua confiança estava no Senhor. Sua força não vinha dele mesmo, mas de Deus. Por isso, lutou as guerras do Senhor, derrotou os inimigos do Senhor e conquistou as vitórias do Senhor. Sua biografia está carimbada como sendo a de um homem de guerra. Diante dele os inimigos foram desbaratados. As nações inimigas foram por ele subjugadas. Davi foi, de fato, um guerreiro vitorioso. Davi, o candidato a genro do rei O rei Saul havia prometido que o soldado que vencesse o duelista Golias, o gadita, receberia a mão de sua filha em casamento. Saul tinha duas filhas, Merabe e Mical. Em virtude da fama de Davi agigantar-se em Israel, transcendendo à própria fama do rei, Saul passou a odiar Davi e a persegui- lo sem trégua, tentando matá-lo Davi, usando suas filhas. Saul tentou fazer de Davi um genro morto, dessa forma, em vez de um casamento, Saul planejou um funeral para Davi. Sua proposta ao oferecer Merabe a Davi não passava de uma armadilha e Davi evadiu-se dessa cilada. Mical amava Davi e Saul viu nisso a possibilidade de matá-lo, requerendo dele cem prepúcios de filisteus como dote. Essa seria uma missão impossível. Mesmo sendo os filisteus a maior ameaça a Israel, Saul estava mais interessado em matar Davi do que em ver os filisteus derrotados. Deus livrou Davi de todas essas armadilhas. Davi trouxe não apenas cem, mas duzentos prepúcios a Saul. Então, Davi casou-se com Mical, mas não desfrutou do casamento. Mesmo sendo oficialmente genro do rei, nunca conseguiu conviver com o rei. A Capítulo 4 Davi, o afamado guerreiro música tem o poder de despertar os mais nobres sentimentos e também os piores presságios. A música abriu o palácio para Davi, mas também lhe fechou as portas. Uma música explodiu como sucesso em toda a nação, e essa música exaltava as vitórias de Davi dez vezes mais do que as vitórias de Saul. As mulheres cantaram a música e adoeceram o rei. A música levou as mulheres às ruas e o rei Saul ao calabouço emocional. Davi não deixou seu ego inflar com a música, mas Saul deixou seu espírito se abater com a canção, pois era orgulhoso demais para ouvir que alguém estava sendo mais honrado do que ele. Ele não suportava a ideia de dividir sua glória com outra pessoa. A partir desse dia, o rei passou a ver Davi com maus olhos. Todo amor se converteu em ódio. Toda a admiração foi transformada em perseguição. Quanto mais Davi era admirado, tanto mais Saul o odiava. Saul não só rejeitou Davi em seu coração, mas também, passou a temê-lo. Davi tornou-se uma ameaça para ele. Doravante, o principal projeto de poder de Saul foi eliminar Davi e afastá-lo de seu caminho. O amor de todo o Israel e Judá a Davi, em virtude de suas vitórias retumbantes no campo de batalha, aumentavam ainda mais a insegurança de Saul. A música das mulheres provocou três reações desastrosas em Saul: Uma inveja indignada Destacamos dois fatos aqui: 1. Uma música inconsequente (1Samuel 18:6,7). O sossego de Davi acabou, e a alma de Saul se definhou em ciúmes por causa de uma música, acompanhada de danças e instrumentos musicais, entoada pelas mulheres de todas as cidades de Israel. O refrão da música dizia: “Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares” (1Samuel 18:7). Essa música foi inconsequente, pois cavou abismos nos relacionamentos em vez de construir pontes. Além disso, ela atribuía a vitória aos heróis de guerra e não ao Senhor da guerra, como deveria ser (Êxodo 15:21). A música das mulheres não afetou Davi, mas enfureceu Saul, causando dor em vez de trazer refrigério. O rei, que já estava descompensado, ficou completamente perturbado. Richard Phillips nessa mesma linha de pensamento escreve: “A canção das mulheres revela mais do que incompetência política. Expõe de igual modo o baixo estado espiritual de Israel, no fato de que nenhum louvor foi dado a Deus, apenas a homens”.1 2. Um ciúme doentio (1Samuel 18:8,9). Doravante, Saul não via mais Davi com bons olhos e, por ciúme e inveja, lutou até o final de sua vida para afastar Davi do trono e matá-lo. O ciúme é uma doença com três sintomas: vê o que não existe, aumenta o que existe e procura o que não quer achar. Antônio Neves de Mesquita diz, corretamente, que a inveja é a ferrugem da alma, e, quando ela se apodera de uma pessoa, esta fica cega e incapaz de avaliar a medida das coisas e dos fatos.2 Uma ação maligna perigosa A música das mulheres provoca em Saul duas atitudes: 1. Uma crise de raiva (1Samuel 18:10). Guardar rancor no coraçãoé abrir uma fresta para o diabo entrar (Efésios 4:26,27). No dia seguinte, um espírito maligno se apossou de Saul, que teve um acesso de raiva em casa. Davi, então, começou a dedilhar a harpa; Saul, porém, arrojou sua lança em Davi para encravá-lo na parede. Saul não está apenas mal-humorado pela ação do espírito maligno. Agora, o espírito maligno quer levar Saul à ação, pelo que o inspirou a assassinar Davi. Gene Edwards diz que Saul fez o que todos os reis loucos fazem. Atirou lanças contra Davi. Podia fazê-lo. Ele era o rei. Os reis podem fazer coisas assim. Quase sempre as fazem. Os reis arrogam a si o direito de atirar lanças. Mas ainda que um rei seja um ungido do Senhor e que se sinta no direito de arremessar lanças contra alguém, então há algumas coisas que você pode saber, e saber com segurança: esse rei está completamente louco. É um rei segundo a ordem do rei Saul.3 2. Uma tentativa de assassinato (1Samuel 18:11). Essa é a primeira de muitas tentativas de assassinato do rei louco. Saul já tinha perdido a comunhão com Deus, a dinastia, a coroa, a assistência espiritual de Samuel, a credibilidade com o filho, o respeito do povo e, agora, a confiança de Davi. Um temor infundado O narrador bíblico destaca três fatos no texto em apreço: 1. A causa do temor de Saul (1Samuel 18:12). O temor de Saul em relação a Davi tinha uma causa dupla. Primeiro, o Senhor era com Davi (1Samuel 18:12,14,28); segundo, o Senhor havia se retirado dele. Saul estava em conflito, ele não aceitou a vontade de Deus nem se quebrantou. Queria lutar contra Deus e contra o ungido dele. 2. Uma estratégia malograda (1Samuel 18:13). Saul, com sua mente perturbada e sob o ataque de espíritos malignos não apenas tenta matar Davi com suas próprias mãos, mas traiçoeiramente, o afasta de si e o constitui chefe de mil soldados. A intenção de Saul não era ver o exército de Israel vitorioso, mas ver Davi sendo alvejado pelos inimigos na linha de frente da batalha. As ciladas de Saul foram desarmadas pela destreza de Davi e pela providência divina. 3. Uma frustração crescente (1Samuel 18:14-16). Ao perceber que Davi se fortalecia ainda mais, tanto no campo de luta como na estima entre o povo, Saul sentiu um medo ainda maior de Davi. Cada centímetro de Saul, o homem mais alto de Israel, estava tomado de medo. Ele era a maquete do assombro, o painel do temor, o retrato do fracasso. Concordo com Gene quando ele questiona por que são poucos os alunos na santa e divina escola de submissão e quebrantamento? É porque todos os que se encontram nessa escola têm de sofrer muita dor. Davi foi aluno nessa escola, e Saul foi o instrumento escolhido por Deus para esmigalhar Davi.4 1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 313,314. ↵ 2. MESQUITA, Antônio Neves. Estudo nos livros de Samuel. 1979, p. 79. ↵ 3. EDWARDS, Gene. Perfil de três reis, p. 23. ↵ 4. EDWARDS, Gene. Perfil de três reis. 1991, p. 25,26. ↵ A Capítulo 5 Davi, o amigo sincero família de Saul era um canteiro onde florescia amor e ódio, amizade e traição, cuidado e perseguição. Na mesma medida que Saul odiava Davi, Jônatas, seu filho, amava Davi. A amizade de Jônatas e Davi é proverbial. O primogênito de Saul, mesmo sendo testemunha das inúmeras vezes que seu pai atentou contra a vida de Davi para matá-lo, não poupou esforços para proteger, orientar e augurar o sucesso do amigo. 1Samuel 18:1-5 apresenta a sanha de amor e ódio em uma mesma família. Houve um tempo em que Saul “amou muito” Davi (1Samuel 16:21), mas a atitude do rei transformou-se em inveja doentia e, depois, em ódio consumado. Ao mesmo tempo é odiado por Saul, Davi é amado por Jônatas e Mical, filhos de Saul. Enquanto o reino de Saul está ruindo, Davi está se fortalecendo. Enquanto um espírito maligno atormenta Saul, o Senhor era com Davi. Kevin Mellish coloca essa triste realidade assim: “Enquanto Davi desfrutava de sucesso entre o povo e no campo de batalha, a vida pessoal de Saul continuava a se desfiar. A vida de Davi seguiu uma trajetória para cima, enquanto a vida de Saul se desmoronava. Saul estava paranoico com Davi, e a obsessão de Saul em matar Davi foi um dos fatores que levaram à sua queda”.1 O conflito que vem à tona no capítulo 18 de 1Samuel tomará conta da narrativa até a morte de Saul e, mesmo depois disso, não será completamente resolvido. Uma aliança de amor Depois da retumbante vitória de Davi em Elá, o jovem belemita torna-se residente permanente no palácio de Saul. Davi já era o músico da corte, agora é também o escudeiro do rei prestes a se tornar genro do rei. Assim, o jovem pastor passa a fazer parte definitivamente da família real. Destacamos aqui três pontos importantes: 1. Uma aliança de amor (1Samuel 18:1-3). Jônatas, o primogênito de Saul, embora bem mais velho do que Davi, ama-o como a sua própria alma e faz aliança com ele. O verbo “amar” nesse contexto tem a conotação de “ser leal a” (1Samuel 20:16,17; 2Samuel 1:26).2 Russel Norman Champlin diz que a alma dos dois guerreiros foi costurada uma à outra, como exemplo de uma amizade clássica.3 Tim Chester esclarece esse ponto da seguinte forma: É fácil imaginar que Davi e Jônatas tinham a mesma idade — mas não tinham. Davi tinha trinta anos quando se tornou rei (2Samuel 5:4). Saul reinou durante quarenta anos (Atos 13:21). Portanto, Davi deve ter nascido no décimo ano do reinado de Saul. Jônatas já estava lutando com Saul durante o terceiro ano do reinado de seu pai (13:1), e um soldado israelita precisava ter pelo menos vinte anos (Números 1:3). Assim, no décimo ano do reinado de Saul, quando Davi nasceu, Jônatas deveria ter no mínimo vinte e sete anos. Isso significa que Jônatas é velho o suficiente para ser o pai de Davi.4 A aliança de amor entre Jônatas e Davi perdura até o fim, apesar das turbulências que surgirão no caminho em virtude do ciúme doentio de Saul, pai de Jônatas. A mesma expressão é usada para descrever o relacionamento de Jacó e seu filho caçula, Benjamim. A alma de Jacó estava ligada à alma de Benjamim (Gênesis 44:30). A insinuação de alguns de que havia um relacionamento homoafetivo entre Jônatas e Davi não tem qualquer credibilidade. A lei de Deus claramente proibia a prática homossexual (Levítico 18:22; 20:13). Essa perspectiva, como diz Tim Chester, revela mais sobre a sexualização de nossa cultura do que sobre o relacionamento deles. A realidade é que homens podem ter um relacionamento íntimo e afetuoso sem que ele se torne sexual, especialmente quando os envolvidos são companheiros de armas.5 Richard Phillips, nessa mesma toada, escreve: O amor entre esses homens era de companheirismo e fraternidade: tentativas recentes feitas por estudiosos liberais de dar tons sexuais a essa passagem são perversas e absurdas. Há diferentes tipos de amor, com diferentes níveis de intensidade e diferentes tipos de expressão: o amor de um homem e uma mulher no casamento, o amor cristão entre os irmãos e o amor de fortes amizades.6 2. Reconhecimento oficial (1Samuel 18:4). O amor de Jônatas por Davi não era apenas um sentimento, mas sobretudo um reconhecimento de que o filho de Jessé seria o novo rei. Jônatas despoja-se de sua indumentária de guerra e as entrega a Davi em uma clara transferência de poder, uma vez que, legalmente, ele seria o sucessor de seu pai. Era uma demonstração da lealdade política de Jônatas a Davi. Nas palavras de Kevin Mellish, “os itens que Jônatas legou a Davi simbolizavam os atavios do poder real. Em essência, Jônatas simbolicamente renunciou sua posição como legítimo herdeiro do reino de Saul em favor de Davi”.7 O ato de Jônatas foi um ato de fé, pois só a fé nos impulsiona a ser humildes para honrar a quem amamos. Onde o pecado teria feito inimigos, a fé fez amigos mais chegados que irmãos. 3. Uma liderança notória (1Samuel 18:5). Davi estava sob a autoridade de Saul, mas agia com prudência, pois tinha consciência da instabilidade emocional do rei. Davi, sendo colocado pelo rei sobre tropas de seu exército, ganhava a olhos vistos a simpatia do povo e dos servosde Saul por causa de sua destacada liderança. Nas palavras de R. N. Champlin, “a estrela de Davi subia, enquanto a de Saul se punha”.8 Deus livra Davi por intermédio de Jônatas Quanto ao livramento alcançado por Davi por intermédio de Jônatas, alguns pontos merecem destaque: 1. Uma intenção declarada (1Samuel 19:1). Em um comunicado oficial, Saul torna público para seu filho Jônatas e para todos os seus servos o plano de matar Davi. Mesmo sabendo que Jônatas amava a Davi, Saul esperava contar com a participação dele para eliminar seu desafeto. Warren Wiersbe corrobora com essa perspectiva, dizendo: “Saul havia passado do estágio de conspirar nos bastidores e estava determinado a destruir Davi de maneira mais rápida possível, ordenando que Jônatas e os cortesãos se juntassem a ele nessa campanha”.9 2. Um alerta feito (1Samuel 19:2,3). Jônatas, de forma prudente, silencia- se diante do pai e alerta Davi acerca das intenções assassinas que vêm do palácio. Recomenda-o a ter cautela e se esconder, enquanto tentaria defender a causa de Davi diante do rei. Davi não podia mais dormir no próprio leito conjugal, mas devia permanecer no campo ou mesmo nas cavernas. 3. Uma defesa honesta (1Samuel 19:4,5). Jônatas assume o papel de advogado de Davi diante de seu pai, deixando claro que Davi é inocente e, ainda, tem trabalhado com afinco para defender Israel dos filisteus. Portanto, matá-lo é pecar contra sangue inocente. A comovente eloquência de Jônatas moveu temporariamente o coração de Saul. 4. Uma promessa firmada (1Samuel 19:6). Em um momento de equilíbrio mental e lucidez, Saul acatou a defesa de Jônatas em favor de Davi e jurou em nome do Senhor que Davi não morreria. No entanto, Saul já havia quebrado promessas anteriores (1Samuel 14:44) e mais uma vez não cumpriria sua palavra. Concordo com Warren Wiersbe, quando ele diz que Satanás é um mentiroso e um homicida ( João 8:44) e, uma vez que Saul estava sob controle do maligno, quebrou seu juramento e atirou sua lança no ungido de Deus.10 A decadência de Saul chega a tal ponto que o Senhor o considera seu inimigo (1Samuel 28:16-18). Nas palavras de R. N. Champlin “Saul já havia degenerado a um ponto sem retorno”.11 5. Uma reconciliação passageira (1Samuel 19:7). Jônatas, contou a Davi a promessa de seu pai e levou-o de volta a Saul, como músico do palácio. A reconciliação parecia ter aplacado a tempestade do coração de Saul. Apesar disso, outra tempestade já se formava no horizonte. O breve período de paz seria interrompido por um novo acesso de ciúme de Saul. O encontro dos dois amigos No capítulo 19 de 1Samuel, Saul está no centro dos acontecimentos; no capítulo 20, Jônatas é o protagonista da ação. A narrativa bíblica segue a mesma toada da insana perseguição de Saul a Davi, seu genro. Concordo com Purkiser quando ele escreve: “O capítulo 20 é uma das mais tocantes narrativas de amizade e lealdade pessoal de toda a literatura”.12 Davi aproveita o estado de êxtase de Saul, na casa dos profetas, em Ramá, para escapar das mãos e buscar a ajuda de Jônatas. Destacamos aqui quatro pontos importantes: 1. O apelo desesperado de Davi (1Samuel 20:1). Não aguentando mais a hostilidade de Saul, Davi questiona Jônatas, perguntando-lhe: “Que fiz eu? Qual é a minha culpa? E qual é o meu pecado diante do teu pai, que procura tirar-me a vida?”. Davi fornece mais uma vez uma prova de sua inocência e da culpa de Saul. Em um desabafo cheio de dor, Davi busca uma nesga de esperança, recorrendo a Jônatas. 2. A resposta ingênua de Jônatas (1Samuel 20:2). A resposta de Jônatas mostra sua ingenuidade e dá a entender que ele não tinha conhecimento de todas as atrocidades do pai nas diversas tentativas de matar Davi. Nas palavras de Tim Chester, “Jônatas está cego para a extensão do ódio do pai”.13 Jônatas promete a Davi que ele não morrerá, uma promessa que não pode cumprir, e justifica dizendo que seu pai não faria nada contra Davi sem antes consultá-lo. 3. A explicação convincente de Davi (1Samuel 20:3,4). Davi refuta enfaticamente as palavras de Jônatas, argumentando que Saul ocultava dele suas investidas para matá-lo. Saul era conhecedor do amor de Jônatas por Davi e, por isso, não queria entristecer o filho. O alerta de Davi é soleníssimo: “Tão certo como vive o Senhor, e tu vives, Jônatas, apenas há um passo entre mim e a morte”. Jônatas, então, se prontifica a ajudar Davi e a fazer o que fosse necessário para impedir seu pai de cometer esse crime horrendo. 4. O plano diagnóstico de Davi (1Samuel 20:5-11). Davi informa a Jônatas que no dia seguinte acontecerá a Festa da Lua Nova, ocasião em que a família real fará um banquete sagrado. Desse modo, sua presença como genro de Saul e músico do palácio será necessariamente requerida. Então, o plano de Davi é ausentar-se e ao mesmo tempo auscultar o clima no banquete. Se Saul não der nenhum sinal de aborrecimento com a ausência de Davi, é porque o ambiente está favorável para uma reconciliação. Porém, se Saul ficar enraivecido e indignado com sua ausência é porque o ambiente é hostil e irreconciliável. Jônatas deveria justificar a ausência de Davi, mentindo para o pai, falando que ele tinha recebido uma convocação da família para ir a Belém. Davi está pronto para morrer caso seja considerado culpado. Aliás, pede ao próprio Jônatas para matá-lo em vez de levá-lo a seu pai. Jônatas reafirma a inocência de Davi e parte para Gibeá para colocar em prática o plano. Seja qual for a reação de Saul, Davi deve ser informado por Jônatas. A aliança entre os dois amigos Três fatos relevantes são postos em relevo: 1. O compromisso juramentado de Jônatas (1Samuel 20:12,13). Jônatas assume o compromisso de mandar avisar Davi, caso Saul demonstre uma atitude favorável a ele. Porém, se Saul demonstrasse qualquer disposição para fazer mal a Davi, o próprio Jônatas iria comunicá-lo, a fim de que Davi pudesse fugir e escapar em paz. 2. A aliança mútua de proteção (1Samuel 20:14-17). Jônatas, mesmo sendo o legítimo herdeiro do trono de seu pai e, nesse sentido, o superior de Davi, tinha consciência de que Davi era o escolhido de Deus e orou para que o Senhor abençoasse seu reinado. Outrossim, Jônatas roga a Davi para que ao ascender ao trono o trate com bondade e não o mate, preservando também a sua descendência. Nas palavras de Robert Chisholm Jr., “Jônatas pede a Davi que mostre lealdade pactual (hesed) a ele e a seus descendentes”.14 Na cultura daquele tempo, quando uma nova dinastia subia ao poder, eliminava todos os descendentes da dinastia anterior, como Richard Phillips observou, no mundo antigo, quando havia uma mudança de dinastia, a prática universal exigia a eliminação total da antiga dinastia. Então, Jônatas apelou a Davi para poupar sua vida e a dos seus filhos quando Deus limpasse o caminho para o seu reinado.15 Davi, porém, não era um aspirante a usurpador nem um traidor. Então, Jônatas fez Davi jurar que cumpriria essa promessa. Assim, o filho de Saul fez aliança com a casa de Davi. Tim Chester chama a atenção para o fato de que o capítulo 20 começa com Davi sob a ameaça da casa de Saul. Porém, em todo o restante do capítulo, Jônatas reconhece que na realidade é a casa de Saul que está sob a ameaça de Davi. Ele percebe que é da vontade de Deus que Davi se torne rei e triunfe sobre seus inimigos (1Samuel 20:15). É por isso que ele faz Davi prometer que poupará os descendentes dele (1Samuel 20:16,17,23).16 Antônio Neves de Mesquita diz que essa era uma aliança de vida e morte, feita entre dois homens de valor.17 3. A estratégia testada (1Samuel 20:18-23). A hora de colocar o plano em ação e ver qual seria a reação de Saul havia chegado. No terceiro dia, Davi deveria sair do esconderijo e ficar junto à pedra de Ezel. Jônatas atiraria três flechas para aquele lado e levaria seu moço para apanhar as flechas de volta. Se Jônatas falasse para o moço “as flechas estão para cá de ti, traze-as”, então Davi poderia vir, porque teria paz e nenhum motivo para ter medo. Se Jônatas, porém, dissesse ao moço “Olhaque as flechas estão para lá de ti”, Davi deveria entender que era hora de ir embora, porque isso era aviso do próprio Senhor. Jônatas diz a Davi: “Quanto àquilo de que eu e tu falamos, eis que o Senhor está entre mim e ti, para sempre” (1Samuel 20:23). Essa é uma expressão que faz lembrar o juramento entre Labão e Jacó (Gênesis 31:48- 53) e significa que ninguém menos do que o próprio Senhor vingará qualquer rompimento da aliança da qual o Senhor é testemunha. Mais tarde, em sua aliança, ambos concordaram que Jônatas governaria juntamente com Davi, como o segundo no poder (1Samuel 23:16-18). Davi, porém, nunca teve um corregente, pois Jônatas foi morto em combate antes de Davi tomar posse (1Samuel 31:1,2). Além disso, Davi rejeitou Mical como esposa, e ela morreu sem filhos (2Samuel 6:16-23). Qualquer filho, ao qual Mical tivesse dado à luz teria causado confusão na linhagem real. A família real à mesa Depois do acordo firmado entre Jônatas e Davi, na presença de Deus, tendo Deus como juiz entre eles, Davi esconde-se no campo e Jônatas vai para a Festa da Lua Nova. Destacamos aqui alguns pontos importantes: 1. A ocasião da cerimônia (1Samuel 20:24). A Festa da Lua Nova era uma comemoração muito especial, uma festa religiosa mensal descrita em Números 10:10; 28:11-15. Nela, ofereciam-se sacrifícios em holocausto pelo pecado. As famílias se reuniam para comer e agradecer a Deus, sendo este dia considerado um momento oportuno para ofertas de paz ao Senhor (Números 10:10) e um tempo para buscar a direção especial de Deus, particularmente por intermédio do profeta (2Reis 4:23).18 2. A composição da mesa (1Samuel 20:25). Saul assentou-se na cadeira real, junto à parede; Jônatas, seu filho, assentou-se defronte dele; e o comandante Abner assentou-se ao lado de Saul, porém a cadeira de Davi estava desocupada. Davi propositadamente se dispensou da festa e escondeu-se por três dias. 3. A ausência possivelmente justificada (1Samuel 20:26). Saul nada falou sobre a ausência de Davi, supondo estar ele impuro para participar desse banquete sagrado. Como era uma festa religiosa, as regras para a limpeza cerimonial prevaleciam. 4. A ausência injustificada (1Samuel 20:27). Como a cadeira de Davi estava ainda desocupada no segundo dia da Festa, Saul disse a Jônatas, seu filho: “Por que não veio a comer o filho de Jessé, nem ontem nem hoje?”. Saul, de forma pejorativa, refere-se duas vezes a Davi como “o filho de Jessé” (20:27,30), uma expressão usada para rebaixá-lo. Ele não é capaz de proferir o nome de Davi e dá a entender, em vez disso, que Davi é filho de um zé- ninguém (em contraste, talvez, com Jônatas, o filho de um rei). 5. A justificativa de Jônatas (1Samuel 20:28,29). Jônatas faz a defesa de Davi, dizendo que sua ausência se devia ao fato do pedido encarecido de Davi a ele para ir a Belém, para um sacrifício da família na cidade. A expressão traduzida por “peço-te que me deixes partir” (1Samuel 20:29) é traduzida por “escapar” ou “fugir” em 1Samuel 19:10,12,17,18, e por “salvar sua vida” em 1Samuel 19:11. A razão verdadeira para a ausência de Davi está exatamente ali na desculpa de Jônatas. 6. A ira devastadora de Saul (1Samuel 20:30-33). Saul percebeu que Jônatas estava acobertando Davi e tomou isto como uma deslealdade contra si. |Então, de forma destemperada, volta-se contra seu filho Jônatas, proferindo palavras chulas, atingindo tanto sua honra como a honra de sua mãe. Em sua ira, Saul chama Jônatas de “filho de uma mulher perversa e rebelde”. A ironia, obviamente, é que Jônatas é na verdade o filho de um homem perverso e rebelde. Saul vê em Davi alguém perigoso, que usurpará o trono, trazendo instabilidade para o reino e para Jônatas, seu legítimo sucessor. A ordem de Saul é: “[...] manda buscá-lo, agora, porque deve morrer” (1Samuel 20:31). Jônatas não apenas informou sobre as escusas de Davi, mas também o defendeu, dizendo ao rei: “Por que ele há de morrer? Que fez ele?” (1Samuel 20:32). Saul, que já havia tentado atingir Davi com sua lança, atira-a, agora, contra o próprio filho. Na verdade, essa foi a segunda vez que Saul tenta matar o seu próprio filho. Se antes Saul via Davi como inimigo, agora trata o próprio filho como um inimigo. Saul considera inimigo quem trata seus inimigos como amigos. Nas palavras de Robert Chisholm Jr., “daqui em diante, Saul se mostrará hostil àqueles que apoiam Davi”.19 Richard Phillips diz que a ira de Saul é governada por vergonha, culpa e cobiça. Assim, Saul descreve uma alma depravada pela sua rebelião contra Deus: ele vê vergonha numa conduta justa, aplica falsa culpa para motivar outros a pecar e sua visão é guiada pela cobiça do que ele mesmo ou sua família pode possuir.20 7. A ira justificável de Jônatas (1Samuel 20:34). Se a ira de Saul era pecaminosa, a ira de Jônatas era justificável. Ele conclui que seu pai estava determinado a matar Davi e, muito aborrecido, levantou-se da mesa antes da refeição, deixando a mesa sem participar do banquete. Ele entendeu que não havia mais alternativa de pacificação e com isso teria de escolher entre seu pai e Davi. Jônatas escolheu o lado de Davi. Tim Chester diz que temos uma escolha a fazer, exatamente como Jônatas tinha. Precisamos escolher entre, de um lado, paz com Cristo e, de outro, paz com nossa família, paz com nossos amigos, paz com nossa cultura (Mateus 10:37). Posicionar-se a favor de Jesus pode significar ir contra nossa própria família. Escolher Jesus sempre acarretará decisões difíceis.21 Robert Chisholm Jr. tem razão em dizer que o compromisso com o plano de Deus e com seu servo escolhido requer abnegação e, por vezes, coloca a pessoa em situação de perigo.22 A despedida dos dois amigos Destacamos aqui três pontos para nossa reflexão: 1. O alerta de Jônatas (1Samuel 20:35-40). Ao amanhecer, Jônatas saiu ao campo, conforme havia combinado com Davi, para passar a ele as informações. Levou o seu rapaz e disse para ele correr para apanhar as flechas que lançaria. Lançou a primeira além do rapaz e gritou: “Não está a flecha mais para lá de ti? Apressa-te, não te demores” (1Samuel 20:37,38). O rapaz, sem entender o que estava acontecendo, trouxe as flechas a Jônatas e este entregou suas armas a ele e ordenou-o que as levasse à cidade. 2. As lágrimas de despedida (1Samuel 20:41). Davi então saiu de seu esconderijo, do lado do sul, e prostrou-se com o rosto em terra três vezes e beijaram-se um ao outro e choraram juntos; porém, Davi chorou muito mais, sabendo que seus caminhos, provavelmente, não se cruzariam novamente. 3. A paz ultra circunstancial da aliança de amor (1Samuel 20:42,43). Jônatas despediu-se de Davi, cumprindo a aliança de mútua proteção que firmaram, dizendo-lhe: “Vai-te em paz”. Davi se levantou e se foi, já Jônatas voltou para a cidade de Gibeá. Nas palavras de Robert Chisholm Jr., vemos aqui “a proteção divina se manifestando por meio de um amigo fiel”.23 Concordo com Richard Phillips, quando diz que a paz deles estava baseada nas promessas pactuais de Deus e na fidelidade de Deus em cumprir seu juramento. É aí que nossa alma também encontra paz. O profeta Isaías falou daqueles que são como Jônatas: “Tu, Senhor, conservarás em perfeita paz aquele cujo propósito é firme; porque ele confia em ti” (Isaías 26:3). Jesus promete ao seu povo da aliança: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” ( João 14:27).24 Davi é fortalecido por Jônatas Ao mesmo tempo em que Saul buscava, sem trégua, matar Davi, Jônatas buscava aproximar-se de Davi. Os dois amigos se encontraram, e a confissão de Jônatas é a mais nobre e a mais altruísta que se pode encontrar em toda a literatura humana. Jônatas também declara que Davi será o rei de Israel e que ele seria o segundo no reino. Ambos reafirmaram a sua velha aliança de amizade e auxílio perante o Senhor. Destacamos três verdades nesse ponto: 1. Uma palavra de encorajamento (1Samuel 23:15,16). Jônatas vai a Horesa, no deserto de Zife, onde Davi estava escondido,em uma demonstração clássica de amizade para fortalecer sua confiança em Deus. Jônatas era um encorajador. Ele sabia das muitas investidas de seu pai para matar Davi e por isso decidiu reanimar o amigo e fortalecer a fé dele. Jônatas se expôs ao perigo que Davi estava vivenciando. Nas palavras de Richard Phillips, Jônatas, do conforto da provisão real, foi para a privação do deserto em busca do seu amigo. Mas isso é o que amizade exige. Um amigo que não está disposto, e até mesmo ansioso a sacrificar tempo, trabalho e privilégios não é digno desse nome.25 Concordo com Joyce Baldwin quando ele diz que não foi apenas o calor da amizade humana que fortaleceu Davi, porém, muito mais a certeza de Jônatas quanto ao propósito de Deus para o futuro.26 Nessa mesma direção, Richard Phillips escreve: A intervenção de Jônatas foi um ponto de virada para Davi. Jônatas ajudou seu amigo fortalecendo sua confiança em Deus para que não fosse tomado pelo medo. Jônatas ajudou Davi a perseverar na fé. Davi precisava não apenas crer na salvação do Senhor, mas também continuar crendo e agindo com base nessa fé.27 2. Uma atitude de abnegação (1Samuel 23:17). Jônatas fala para Davi não ter medo porque a mão de Saul não vai achá-lo. E mais, reafirma que Davi vai reinar sobre Israel. Confirma, com inabalável confiança, que Davi reinará, garantindo-lhe sua lealdade. Como herdeiro do trono, Jônatas de forma abnegada, abre mão da sucessão, contentando-se em ser o segundo no reino. 3. Uma aliança renovada (1Samuel 23:18). Jônatas e Davi fizeram aliança perante o Senhor e se despedem para não mais se encontrarem. Essa foi a terceira vez que eles firmaram uma aliança. Robert Chisholm lança luz sobre o tema ao escrever: Essa é a terceira aliança entre Davi e Jônatas. Na primeira ocasião, Jônatas tomou a iniciativa de fazer o acordo (1Samuel 20:8). Ele jurou ser leal a Davi e prometeu protegê-lo (1Samuel 18:3; 20:8,9). Na segunda ocasião, Jônatas reafirmou sua lealdade à “casa” de Davi, e Davi jurou lealdade a Jônatas e a seus descendentes (1Samuel 20:16,17,42). Os termos dessa terceira aliança (1Samuel 23:18) não são fornecidos, mas podemos supor com segurança que ela reafirma os compromissos anteriores. Talvez se refira à afirmação de Jônatas de que ele será o segundo no reino de Davi (1Samuel 23:17). Isso implicaria uma garantia por parte de Davi de dar a Jônatas esse cargo na corte e uma reafirmação por parte de Jônatas de sua lealdade a Davi.28 Davi fala de seu amor a Jônatas, seu amigo Jônatas morre no monte Gilboa, e Davi presta-lhe uma homenagem póstuma. Enquanto Davi havia convocado outros a chorar pela morte de Saul, ele se consumia de tristeza pela morte de Jônatas, o herdeiro do trono, que por amor a Davi, não havia se apegado a seus direitos, mas voluntariamente renunciara a eles em favor de Davi, a quem havia protegido e encorajado ao longo dos anos. Destacamos dois fatos importantes: 1. Davi destaca a morte de Jônatas (2Samuel 1:25). Davi destaca que Jônatas estava entre os valentes que caíram nos montes Gilboa. Ele foi morto sobre os montes. Jônatas, ao longo de sua vida, foi um soldado corajoso, um líder destacado, um homem de fé que conquistou grandes vitórias para Israel. Agora, esse herói nacional tomba vencido nos montes Gilboa. 2. Davi destaca seu acendrado amor por Jônatas (2Samuel 1:26). A morte de Jônatas deixou Davi muito angustiado. Quanto maior é o amor, maior é a dor do luto. O sofrimento será mais pesado, quanto mais profundo for o amor. Jônatas e Davi tinham uma aliança de mútua cooperação. Jônatas havia compreendido que Davi seria o rei, e Jônatas ocuparia o lugar de vice regente no reino. Sempre leal a Davi, buscou protegê-lo da fúria de seu pai. Davi ressalta que Jônatas era amabilíssimo com ele e destaca seu amor excepcional, o qual ultrapassa o amor de mulheres. Concordo com Kevin Mellish quando ele escreve: Davi não quer que pensemos sobre seu amor por Jônatas em termos de um relacionamento homoafetivo, mas, ao contrário, ele enfatizava a grande aliança, a fidelidade incondicional, o concerto de lealdade que Jônatas lhe demonstrou no decorrer da amizade. O tipo de fidelidade que Jônatas exibia para com Davi no decurso dos destinos inconstantes de seu relacionamento ultrapassava a dedicação de uma mulher pelo marido.29 Dale Ralph Davis traz uma interpretação assertiva ao afirmar: “A comparação entre o amor de Jônatas e o amor das mulheres não tem a ver com sexualidade, mas com fidelidade”.30 1. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 155. ↵ 2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 122. ↵ 3. CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 2. 2018, p. 528. ↵ 4. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 143. ↵ 5. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 143. ↵ 6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 307. ↵ 7. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 157. ↵ 8. CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 2. 2019, p. 528. ↵ 9. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 253. ↵ 10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 253. ↵ 11. CHAMPLIN, R. N. Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 2. 2018, p. 533. ↵ 12. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 214. ↵ 13. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 151. ↵ 14. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 135. ↵ 15. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 339. ↵ 16. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 152. ↵ 17. MESQUITA, Antônio Neves. Estudos nos livros de 1 e 2Samuel. 1979, p. 83. ↵ 18. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 166. ↵ 19. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 137. ↵ 20. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 341. ↵ 21. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 154. ↵ 22. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 138, ↵ 23. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 134. ↵ 24. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 344,345. ↵ 25. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 382. ↵ 26. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 161. ↵ 27. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 385. ↵ 28. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 154,155. ↵ 29. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 223. ↵ 30. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 29. ↵ O Capítulo 6 Davi, o fugitivo rei Saul era uma gangorra emocional, oscilando entre o amor e o ódio. Desde a música entoada pelas mulheres de Israel, destacando as vitórias de Davi como sendo mais expressivas do que as suas próprias é que Saul não via mais Davi com bons olhos (1Samuel 18:9). Na verdade, Saul temia Davi (1Samuel 18:12). Quanto mais Davi demonstrava sua valentia, derrotando os inimigos de Israel, mas Saul sentia-se inseguro e intensificava seus ataques a Davi. Covardemente, Saul intentou matar Davi pelas mãos dos filisteus (1Samuel 18:17), usando sem qualquer escrúpulo suas próprias filhas Merabe e Mical para esse fim. A despeito de suas artimanhas, por intercessão de Jônatas, Davi ainda voltou ao palácio do rei como músico da corte, mas Saul intentou assassiná-lo com uma lança por duas vezes. Por cerca de dez anos, Davi precisou viver como fugitivo por cidades, desertos, vales e cavernas, pois Saul e seu exército estavam no seu encalço para matá-lo. Com a ajuda de Mical, Davi conseguiu fugir de um cerco dos soldados de Saul e escapar ileso. Davi fugiu para Ramá, onde estava Samuel e onde havia uma escola de profetas. Saul, sabendo que Davi estava em Ramá, enviou três pelotões de soldados mensageiros para capturá-lo, mas ao chegarem os mensageiros passavam a profetizar em vez de prenderem Davi. O próprio Saul foi a Ramá e, ao chegar à casa dos profetas, também passou um dia e uma noite inteira profetizando, prostrado ao chão, dando chance de Davi escapar e ir ao encontrode Jônatas para pedir ajuda. Davi, em uma espécie de desabafo, disse a Jônatas que estava apenas a um passo da morte (1Samuel 20:3). Não acreditando ou não querendo ver toda a malignidade de seu pai, Jônatas disse a Davi que Saul jamais faria mal algum a ele sem que antes seu pai lhe fizesse saber. Nesse encontro, Davi e Jônatas elaboraram um plano para verificar as disposições do coração de Saul. No dia seguinte seria a festa da Lua Nova, e Davi, como genro do rei, deveria assentar-se à mesa real. Contudo, Davi ausentou-se da festa com o argumento de que teria de fazer uma visita emergencial à sua família, em Belém. Se Saul ao constatar a ausência de Davi não ficasse irado, esse seria um sinal de benevolência; se Saul se exasperasse, essa seria uma evidência de que o coração do rei estava fechado para qualquer possibilidade de reconciliação. Não deu outra, no segundo dia da festa, ao notar a cadeira de Davi vazia, Saul quis saber os motivos da ausência de Davi, perguntando a Jônatas: “Por que não veio a comer o filho de Jessé, nem ontem nem hoje?” (1Samuel 20:27). Jônatas respondeu: “Davi me pediu, encarecidamente, que o deixasse ir a Belém” (1Samuel 20:28). Depois de esclarecer as razões elencadas por Davi para fazer o pedido para sua viagem a Belém, Saul ficou extremamente irado contra Jônatas e assacou contra ele as mais pesadas acusações, chamando seu próprio primogênito de “filho de mulher perversa e rebelde”. Disse ainda que a escolha que Jônatas fizera por Davi era uma vergonha para ele mesmo e para o recato de sua mãe (1Samuel 20:30). Saul foi enfático: “Pois, enquanto o filho de Jessé viver, nem tu estarás seguro, nem seguro o teu reino” (1Samuel 20:31a) e arrematou: “manda buscá-lo, agora, porque deve morrer” (1Samuel 20:31b). Jônatas tentou defender Davi, dizendo que ele não merecia morrer, porque nada fizera. Mas Saul, em um acesso de loucura, atirou a lança contra Jônatas para o ferir. Estava claro, todo esforço de Jônatas para reverter a situação e pacificar seu pai estava terminado. De fato, a disposição de Saul era mesmo matar Davi. Irado, Jônatas se levanta da mesa real no segundo dia da festa da Lua Nova sem comer pão, profundamente sentido por causa de Davi, a quem seu pai havia ultrajado (1Samuel 20:32-34). Depois de comunicar Davi do doloroso episódio, os dois amigos se despedem com lágrimas e beijos (1Samuel 20:41), relembrando as palavras pactuais: “Disse Jônatas a Davi: Vai-te em paz, porquanto juramos ambos em nome do Senhor, dizendo: O Senhor seja para sempre entre mim e ti e entre a minha descendência e a tua” (1Samuel 20:42). A despedida de Davi e Jônatas dá início a um longo período de fuga do filho de Jessé. Na verdade, a fuga de Davi para Nobe marcou o início de seu exílio, que durou cerca de dez anos (1Samuel 21:1-29:11). Saul está determinado a matá-lo, mas Davi não levanta uma palha sequer para revidar. Davi já havia buscado refúgio no profeta Samuel (1Samuel 19) e em Jônatas, filho do rei (1Samuel 20). Por fim, ele busca ajuda no sumo sacerdote Aimeleque (1Samuel 21). Porém, nem o profeta Samuel, nem Jônatas, nem o sumo sacerdote Aimeleque puderam livrá-lo das mãos do ensandecido Saul. No texto em pauta, Davi, o guerreiro destemido, claudica, teme e vacila em sua fé. Faz sentido o que William MacDonald diz: “Até mesmo os grandes homens têm os pés de barro”.1 Davi não é uma exceção. Esse triste capítulo destaca suas mentiras diante do tabernáculo, em Nobe (1Samuel 21:1-9), sua pretensa doidice diante dos filisteus, em Gate (1Samuel 21:10- 15) e sua confiança nos moabitas, para proteger seus pais (1Samuel 22:3-5). Robert Chisholm diz que, quando a fé vacila, pode acontecer de o indivíduo perder Deus de vista e agir de forma contrária a suas crenças e a suas experiências pessoais.2 Vejamos: Davi foge para Nobe Davi foge para Nobe, cidade levítica, cerca de cinco quilômetros ao sul de Gibeá. Nessa cidade ficava o tabernáculo. Em função da amizade de Davi com Samuel, o filho de Jessé sabia que poderia encontrar refúgio e ajuda no meio dos sacerdotes.3 Destacamos, aqui, cinco pontos: 1. Um encontro cheio de tensão (1Samuel 21:1). Logo que Davi se separa de Jônatas, ele vai a Nobe, cidade que ocupa o lugar de Siló, onde estava a classe sacerdotal. Quando Aimeleque, sumo sacerdote, irmão de Aías e neto de Eli, vê Davi chegando sozinho, fica alarmado, pois tinha conhecimento dos atentados de Saul contra Davi e da insana perseguição do rei ao filho de Jessé. O temor de Aimeleque explica o medo de Davi, agora um homem foragido e procurado pela soldadesca de Saul. 2. Uma dissimulação evidente (1Samuel 21:2). Davi dissimula, inventa uma história, dizendo ao sumo sacerdote que estava cumprindo uma missão secreta da parte do rei, por isso, tinha deixado seus homens em um lugar que não podia revelar. Quando a fé claudica, a mentira aparece. Certamente com essa mentira intencional, Davi não está confiando, mas tramando. A. W. Pink tem razão em dizer: “Embora mentiras bem planejadas possam parecer promover segurança no momento, elas asseguram desgraça futura”.4 3. Um pedido de provisão (1Samuel 21:3-6). Davi expõe sua necessidade básica de provisão. Ele precisa de alimento. Precisa de pão, para seu sustento e o sustento dos homens que o acompanham. O sumo sacerdote, depois de certificar-se que os homens de Davi estavam cerimonialmente puros, oferece a ele os pães sagrados do tabernáculo, reservados somente aos sacerdotes (Levítico 24:5-9). Essa atitude de Aimeleque foi endossada pelo próprio Senhor Jesus (Mateus 12:3,4), pois a lei que proíbe o profano uso dos pães da proposição não tinha a intenção de proibir a obra de misericórdia por meio deles. O intento da lei foi cumprido pelo ato de misericórdia. 4. Um denunciante perigoso (1Samuel 21:7). Ao informar que um dos servos de Saul estava ali, o narrador intensifica deliberadamente a dramaticidade da narrativa. Estava em Nobe, detido na presença do Senhor, um edomita, servo de Saul, maioral de seus pastores, chamado Doegue. Joyce Baldwin diz que a palavra “maioral” (abbîr) significa “poderoso, violento e obstinado”.5 A presença desse homem em Nobe era ameaçadora. Ele naturalmente observou a colaboração de Aimeleque com Davi e, mais tarde, informou tudo a Saul. É digno de nota que Davi sabia que Doegue contaria a Saul o que havia visto em Nobe e que isso traria sérios problemas (1Samuel 22:9-23). 5. Um pedido de armas (1Samuel 21:8,9). Além de provisão, Davi também pediu alguma lança ou espada ao sacerdote, justificando que a ordem do rei era urgente e não deu tempo para apanhar suas armas. Mais uma vez Davi lança mão da mentira para obter alguma arma na casa dos sacerdotes. Informado de que a espada de Golias, com a qual o próprio Davi tinha matado o gigante, estava ali, guardada envolta num pano atrás da estola sacerdotal, Davi a toma. Tendo levado consigo alimentos para fortificá-lo e uma espada para protegê-lo, Davi saiu de Nobe. Ele parece considerar a espada não apenas um troféu, mas a fonte de sua defesa. A ironia continua no versículo seguinte, no qual Davi foge para a cidade natal de Golias em busca de asilo. Infelizmente, Davi nega seu próprio credo teológico e caminha de acordo com o que vê, e não pela fé. Em vez de confiar em Deus, como fizera outrora (1Samuel 17:45-47), ele confia em sua própria capacidade. O mesmo Davi que havia se recusado a usar a armadura do rei de Israel quando estava cheio do Espírito para a batalha contra Golias agora se alegra em usar a espada do seu antigo inimigo pagão. Não mais confiando na força de Deus, exultou pela espada, dizendo: “Não há outra semelhante; dá-ma” (1Samuel 21:9). A passagem de Davi por Nobe tornou-se para ele um marco em que o medo deu lugar ao pecado, à incredulidade e à impiedade. Em Nobe, Davi tentou se proteger com uma mentira, permitiu que seu comportamento colocasse outras pessoas em perigo e se alegrou com as armas carnais que adquiriu.6 Davi foge para Gate O melhor comentário sobre a passagem incrédula de Davi por Nobe é o destinoao qual isso o levou. A fuga medrosa de Davi o levou a um lugar de refúgio que se mostrou ainda mais ameaçador que o louco rei Saul. O mesmo Davi que mentiu em Nobe, agora tenta se esconder em Gate, em uma tentativa ousada de ser aceito em um país inimigo. Essa havia sido uma escolha estranha, pois Gate era uma cidade filisteia. Além do mais, Davi havia acabado de adquirir a espada de Golias (1Samuel 21:8,9), e Gate era a cidade natal do gigante. Se isso não bastasse, Davi era o grande terror dos filisteus. Ele impusera as mais humilhantes derrotas aos filisteus, matando seus soldados. É certo que, por um tempo, Davi não foi impelido por sua fé em Deus, mas sim pelo medo de Saul. Momentaneamente Davi deixou de crer que o lugar mais seguro do mundo é no centro da vontade de Deus. A cidade de Gate estava a trinta e seis quilômetros de Nobe. Por certo, quando viu Doegue em Nobe e pressentiu que Saul seria informado, Davi pensou que o lugar mais seguro para fugir do sogro seria na Filístia, e não em qualquer outro lugar de Israel. A ida de Davi a Gate era um movimento tático motivado pelo desespero: fugir de Saul para encontrar proteção entre os inimigos de Saul. Destacamos aqui quatro pontos: 1. Davi entre os inimigos filisteus (1Samuel 21:10). De Nobe, Davi foge de Saul e vai a Aquis, rei de Gate, cidade-Estado dos filisteus e cidade natal de Golias. O problema é que os filisteus não são apenas inimigos de Saul, eles também são inimigos de Davi. É como se Davi caísse na armadilha de Saul, que desejava o genro morto exatamente nas mãos dos filisteus. 2. Davi desmascarado (1Samuel 21:11). Ao tentar permanecer incógnito entre os filisteus, Davi descobre que sua fama o procedeu. Ele foi desmascarado e chamado de “rei da sua terra”. Os filisteus já tinham escutado sobre o sucesso estrondoso da música das mulheres israelitas que fizeram de Davi um herói entre o povo e o desafeto do rei Saul. O rei e seus conselheiros não viram com bons olhos sua presença na cidade. 3. Davi amedrontado (1Samuel 21:12). Quando Davi percebeu que os gaditas tinham descoberto sua identidade e que estava no quartel general dos arqui-inimigos de Israel, preso sob custódia, ficou com muito medo de Aquis, rei de Gate. As tentativas de Davi de proteger a si mesmo — que incluem mentir para um sacerdote, confiar na arma de um inimigo derrotado e procurar um lugar no exército de um governante filisteu — saíram pela culatra. 4. Davi fingindo-se de doido (1Samuel 21:13-15). Para livrar-se das mãos dos filisteus e escapar ileso, Davi teve a presença de espírito de fingir insanidade. Ao ser levado a Aquis, fingiu-se de doido, esgravatando nos postigos das portas e deixando correr saliva pela barba. Davi desempenhou seu papel de ator de modo convincente. Diante daquela cena grotesca, Aquis o considerou louco, inofensivo e não se vingou dele. Fazendo uma oportuna aplicação dessa passagem, Richard Phillips diz que podemos encontrar quatro advertências proveitosas para os crentes na conduta de Davi: 1. Nossos pecados de incredulidade têm consequências reais. 2. Todo cristão é susceptível a cair em pecado ao dar ouvidos ao conselho do medo, da incredulidade e da autopiedade. 3. Não apenas qualquer um de nós pode cair, mas também quão profundamente e com surpreendente rapidez podemos cair. 4. Até mesmo pessoas muito piedosas enfrentam dúvidas, medos, ressentimentos e corações partidos.7 Davi foge para a caverna de Adulão Não encontrando lugar seguro no santuário nem na Filístia, Davi se esconde na caverna de Adulão, cujo significado é “refúgio”. Esse lugar era bastante conhecido em Judá e ficava A cerca de dezesseis quilômetros de Gate e vinte e quatro quilômetros de Belém. Perto dali havia uma colina fortificada e famosa por suas cavernas, as quais serviam de abrigo natural para o desamparado. Dois pontos merecem destaque aqui: 1. Davi tornou-se o porto seguro de sua família (1Samuel 22:1). Livre de Gate, Davi fugiu para a caverna de Adulão, onde seus irmãos e toda a casa de seu pai, depois de deixarem Belém, certamente já sabendo de toda a fúria de Saul, foram dar apoio a Davi bem como buscar refúgio nele. Fica patente que os irmãos de Davi desertaram do exército de Saul e também se tornaram fugitivos. Eles sabiam que Davi era o rei ungido de Deus, de modo que se ligaram ao futuro de sua nação. Assim, enquanto a família de Saul se afasta de Saul, a de Davi junta-se a Davi. 2. Davi tornou-se porto seguro dos amargurados de espírito (1Samuel 22:2). A família belemita vai até Davi e ajunta-se a ele na caverna de Adulão. Do mesmo modo, todos os homens que se achavam em apuros, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito assim o fizeram, e Davi se fez chefe deles. Eram ao todo uns quatrocentos homens. Posteriormente, esse número subiu para seiscentos homens (1Samuel 23:13). Todos esses homens viram em Davi a única esperança de um reino bem-sucedido. Nas palavras de Paul Gardner, “ali Davi liderou um bando de foras da lei”.8 Os verdadeiros líderes atraem as melhores pessoas, que veem neles as qualidades de caráter que mais admiram. Davi tornou-se um ímã social e político. Os dons de liderança de Davi foram desenvolvidos à medida que ele e sua força “subterrânea” de quatrocentos homens preparavam-se para a ação. Davi já havia sido comandante do exército de Saul (1Samuel 18:13), agora havia se tornado comandante de um grupo desordenado de párias, os quais tornaram-se leais e valentes guarda-costas de Davi durante seus longos anos de exílio, até que ele ascendesse ao trono como rei de Israel. Sob a influência de Davi, esses seguidores formaram o núcleo inicial do que se tornaria um grande e glorioso reinado, cujo legado literalmente duraria para sempre. Davi foge para Moabe Davi agora protege não apenas sua própria vida das insanas perseguições de Saul, como também a vida de sua família. Os pais de Davi precisam de um lugar seguro para residir; daí a viagem pela região do mar Morto para o território de Moabe. Davi pede ao rei de Moabe para dar abrigo aos seus pais até o final do exílio. Destacamos aqui dois pontos: 1. Davi pede proteção para seus pais (1Samuel 22:3,4). Da caverna de Adulão, Davi foge para o território de Moabe, terra de sua bisavó Rute (Rute 4:17-22), e pede proteção para seus pais, até entender melhor o que Deus haveria de fazer por meio dele nesse tempo de fuga. Davi e seus pais moraram com o rei de Moabe. Por ser um território estrangeiro, ali era um lugar seguro para sua família. Obviamente, a confiança de Davi nos moabitas, inimigos do povo de Deus, era uma atitude errada que sinalizava sua falta de confiança em Deus. Os moabitas eram descendentes de Ló, fruto de sua relação incestuosa com sua filha mais velha (Gênesis 19:30-38). Nos dias de Moisés, os moabitas não eram um povo estimado pelos israelitas (Deuteronômio 23:3-6). 2. Davi é orientado a voltar a Judá (22:5). O profeta Gade vai, portanto, a Moabe e diz a Davi para não permanecer naquele lugar seguro, pois ele deveria voltar para a terra de Judá. Davi, então, saiu de Moabe e foi para o bosque de Herete, cujo significado é “mata fechada”. Davi, o fugitivo no deserto de Zife Depois de libertar Queila dos filisteus, Davi recebeu a ingratidão dos moradores da cidade, os quais estavam dispostos a entregá-lo nas mãos de Saul. Davi e seus seiscentos homens saíram de Queila e partiram sem rumo certo. Davi permaneceu no deserto, nos lugares seguros, na região montanhosa de Zife, enquanto Saul buscava-o todos os dias. Davi não escapou das mãos de Saul apenas por sua destreza, mas sobretudo porque Deus não o entregou nas mãos do rei. É digno de destaque que os habitantes de Queila pagaram com o mal o bem que Davi havia feito. Com medo de que as atrocidades de Nobe acontecessem também em Queila, foram ingratos ao herói que os livrou das mãos dos filisteus e denunciaram Davi a Saul. Vejamos: 1. Os informantes de Saul (1Samuel 23:7a). Foi anunciado a Saul que Davi, conhecido como fora da lei, tinha ido a Queila. A informação nadadeclara sobre o grande livramento das mãos dos filisteus. Saul tinha seus informantes e espias por todo lado. Eram asseclas que tentavam tirar vantagem dessas informaçoes. 2. As maquinações de Saul (1Samuel 23:7b,8). Saul tem a ilusão de que suas guerras são as guerras de Deus. Vê nesse ato de traição dos moradores de Queila, uma providência divina para encurralar a sua presa ali e capturar Davi. O rei convocou o povo para a guerra, ostensivamente contra os filisteus, mas na verdade, queria mesmo era sitiar Queila e matar Davi. Nas palavras de Robert Chisholm, “Saul afirma contar com o auxílio divino (1Samuel 23:7), mas fica evidente que, na verdade, Deus está ajudando Davi. O Senhor entrega os filisteus nas mãos de Davi, mas também faz uso deles para desviar Saul de seu propósito e proteger Davi”.9 O fato é que o pecado cegou de tal modo a Saul que ele estava iludido, imaginando que Deus estava a seu favor, mas na verdade Deus estava protegendo Davi de suas mãos. 3. Os informantes de Davi (1Samuel 23:9). Não apenas Saul tem informantes; Davi também os tem. Davi fica sabendo da maquinação de Saul contra ele. Essas informações possibilitaram a Davi consultar o Senhor e criar um plano de fuga. 4. Davi consulta o Senhor (1Samuel 23:10-12). Davi não convoca uma guerra santa contra Saul, mas, em vez disso, ora ao Senhor, perguntando se os moradores de Queila o entregariam nas mãos de Saul e se Saul desceria contra ele. Enquanto Saul, em suas atividades, havia afastado os profetas e matado os sacerdotes, Deus havia dado a Davi todo o aparato necessário para o reinado. Davi contava com um profeta fiel e um verdadeiro sacerdote, que o guiaram e ajudaram em seu papel real. 5. Davi foge para o deserto de Zife (1Samuel 23:13,14). Diante da resposta afirmativa de Deus à sua oração, Davi e seus seicentos homens saíram de Queila e partiram sem rumo certo. Ao ser informado que Davi tinha fugido de Queila, Saul cessou de persegui-lo. Davi, então, permaneceu no deserto de Zife, nos lugares seguros. Saul buscava-o todos os dias, porém Deus não o entregou em suas mãos. Essa foi a quinta vez que Davi “escapou” (1Samuel 19:10,12,18; 22:1; 23:13). Davi é traído duas vezes (em Queila e em Zife). No entanto, embora seja rejeitado pelo povo, não é rejeitado por Deus, que o defende. Saul, o rei de fato, está louco; Davi, o rei de direito, está em rota de fuga para poupar a própria vida. Dominado pelo ciúme, Saul não cessa de perseguir Davi; mas Davi, o escolhido de Deus, não se deixa vencer pelo ódio e continua fugindo de Saul. Logo depois que Saul retornou da perseguição aos filisteus, voltou à carga, com toda força, para matar Davi. Muitas foram as fugas de Davi, enaquanto tentava escapar da insana caçada de Saul: Naiote em Ramá (1Samuel 19:18). Essa era a cidade de Samuel. Gibeá (1Samuel 20:1). Essa era cidade de Jônatas. Nobe (1Samuel 21:1). Esta era a cidade dos sacerdotes. Adulão (1Samuel 22:1). Essa era a caverna do Vale de Elá. Mispá em Moabe (1Samuel 22:3). Essa cidade ficava do outro lado do mar Morto. A fortaleza (1Samuel 22:4). Talvez Massada. Queila (1Samuel 23:1). A cidade onde Davi lutou contra os filisteus. Deserto de Zife (1Samuel 23:14). No sul de Hebrom. Deserto de Maom (1Samuel 23:24). Sul de Zife. En-Gedi (1Samuel 24:1). Parte ocidental do mar Morto. Fortaleza (1Samuel 24:22). Talvez Massada. Deserto de Maom (1Samuel 25:1). Onde Davi se casou com Abigail. Deserto de Zife (1Samuel 26:2). Ele encontra Saul novamente. Gate (1Samuel 27:2). Davi retorna à cidade dos filisteus. Ziclague (1Samuel 27:5-7). Davi permanece aqui por quatro meses. Ao perseguir Davi por todos os lados, Saul escolheu o caminho da sua própria vontade em vez da vontade de Deus. A despeito de sua loucura, Saul possuia cortesãos bajuladores que lhe traziam informações sobre o paradeiro de Davi. Esses informantes disseram a Saul que Davi estava no deserto de En-Gedi, nos arredores do mar Morto (1Samuel 24:1,2). Essa era uma área pontilhada de despenhadeiros e cavernas. Essa região de rochas de xisto tinha inúmeras cavernas e uma fonte perene de água fresca, o que a tornava um lugar excelente para o descanso de pastores e seus rebanhos. Saul reuniu três mil homens, escolhidos a dedo, e partiu para os penhascos conhecidos como as penhas das cabras montesas com o propósito de matar Davi. Richard Phillips diz que assim como Faraó persistiu em oposição a Deus depois de sucessivas pragas sobre o Egito, Saul persistiu nos seus esforços assassinos contra Davi.10 Vejamos: 1. Uma armadilha fatal (1Samuel 24:3). En-Gedi é um deserto cheio de cavernas. Saul precisando aliviar o ventre, distancia-se de seus soldados e entra sozinho exatamente na caverna onde estavam escondidos Davi e seus homens. Agachado e sem guarda-costas, Saul estava completamente vulnerável, em uma armadilha fatal. Se Davi fosse um homem do mesmo estofo moral de Saul, o rei estaria morto. 2. Uma sugestão tentadora (1Samuel 24:4a). Os homens de Davi tentaram induzi-lo a matar Saul. Viram nas circunstâncias uma providência divina. Disseram que era Deus quem estava entregando Saul nas mãos de Davi. Os homens de Davi o incriminaram por não ter liquidado o seu inimigo, mas Davi tinha outra cartilha. Ele não cedeu ao impulso da vingança, mas se levantou acima da tentação de se vingar. Se por um lado os homens de Davi consideraram a situação uma oportunidade de vingança, Davi, por outro, considerou a mesma situação uma oportunidade de demonstrar misericórdia e provar que não havia dolo em seu coração. 3. Uma ação precipitada (1Samuel 24:4b,5). Davi não deu ouvidos aos seus homens, porém, furtivamente, chegou por trás de Saul e cortou a orla de seu manto. Esse gesto em vez de lhe trazer um senso de superioridade, pesou- lhe no coração. Sua consciência o perturbou, pois esse era um ato simbólico que representava a tomada do reino. Davi sabia que o manto real era um símbolo da autoridade de Saul como rei de Israel. Nas palavras de Robert Bergen, “O confisco feito por Davi de uma porção do manto real significava a transferência de poder da casa de Saul para a casa de Davi”.11 Davi não queria subir ao trono pelo caminho dos homens, usurpando o poder, mas conduzido por Deus, no tempo de Deus. Naquela caverna, Davi teve a oportunidade de superar sua vida de sofrimento para chegar ao trono. Mas esse não era o caminho de Deus. Não era o plano de Deus. Portanto, não era o dele. A. W. Pink comenta: Um golpe de sua espada e Davi sobe ao trono. Adeus, pobreza! Adeus vida de animal perseguido. Reprovações, desprezo e derrotas cessariam; adulações, triunfos e riquezas seriam seus. Mas ele faz o sacrifício da fé, o sacrifício de uma vontade humilde, sempre esperando o tempo de Deus; o sacrifício de mil experiências preciosas do cuidado de Deus, da provisão de Deus, da orientação de Deus, da ternura de Deus. Não, até mesmo um trono a esse preço é caro demais. A fé espera.12 Tim Chester explica por que Davi sentiu seu coração pesado ao cortar a orla do manto de Saul. Por que Davi sente o coração bater de remorso quanto a cortar um pedaço do manto de Saul? Quando Deus rejeita Saul no capítulo 15, Saul agarra o manto de Samuel. Quando ele se rasga, Samuel lhe diz que o reino dele também será rasgado dele e dado a alguém melhor do que ele (15:28). Depois, em 18:4, Jônatas dá o seu manto a Davi como sinal da entrega do reino. Em 20:15, Jônatas suplica a Davi: “Nem tampouco cortarás jamais da minha casa a tua bondade; nem ainda quando o Senhor desarraigar da terra todos os inimigos de Davi”. Agora Davi corta a ponta do manto de Saul, cortando simbolicamente o reino dele. Davi, no entanto, sente sua consciência pesada porque se recusa a tomar o reino. Ele está disposto a viver às margens até Deus lhe entregar o reino. Nesse sentido, repreendeu seus homens por sugerirem que ele deveria arrancar o reino de Saul.13 3. Uma decisão sensata (1Samuel 24:6). A atitude de Davi causou uma espécie de decepção em seus homens, porém, ele justificou sua decisão, dizendo que não atentou contraa vida de Saul, porque ele era o ungido do Senhor. Portanto, lutar contra o rei era lutar contra Deus. Certo dessa convicção, Davi não apenas se explicou aos homens, mas insistiu com eles para impedi-los de causar dano a Saul. Davi deu provas de sua inocência, como se vê: 1. A sabedoria evita desastres (1Samuel 24:7a). As palavras e as atitudes sábias de Davi foram um freio para impedir o ímpeto de seus homens. O verdadeiro líder inspira com seu exemplo. A postura sensata de Davi evitou uma tragédia dentro daquela caverna. Davi não está rebelando contra o rei; pelo contrário, não permite sequer que seus homens se levantem contra ele. 2. A humildade é prova da inocência (1Samuel 24:7b,8). Saindo ambos da caverna, Saul e Davi, este gritou ao rei, chamando-o de “meu Senhor” e inclinando-se até ao chão, prestou-lhe reverência, demonstrando respeito e submissão. Em vez de cair sobre Saul em um ataque assassino, Davi lançou- se sobre o solo, falando com o rei pacificamente e com o devido respeito. A humildade de Davi era uma prova eloquente de sua inocência. Ele não estava buscando o trono de Saul. 3. A verdade coerente é a melhor defesa (1Samuel 24:9-11). Davi acusa o rei de ouvir os falsos rumores de seus cortesãos bajuladores, que incitam o rei contra ele para o matar sem causa. Nas palavras A. W. Pink, “muito graciosamente Davi lançou a culpa sobre os cortesãos de Saul, não sobre o próprio rei”.14 Davi dá provas de que não tem má intenção, pois teve a vida do rei em suas mãos e mesmo assim, não atentou contra ela, por saber que o rei é o ungido do Senhor. Davi, depois de chamar Saul de “meu pai”, dá a prova cabal de sua inocência ao mostrar-lhe a orla de manto. Se Davi, não o matou, essa era uma prova cabal de sua inocência e a sua defesa mais robusta. Davi faz todo o esforço possível para expressar a autoridade de Saul sobre si. Dirige-se a ele como “meu senhor” três vezes (1Samuel 24:6,8,10), “rei” uma vez (1Samuel 24:8), “rei de Israel” uma vez (1Samuel 24:14) e “ungido do Senhor” três vezes (1Samuel 24:6,10). Aqui, usa ainda outro título, “meu pai” que sugere sua dependência do rei. Davi ainda reivindica a justiça divina (1Samuel 14:12-15). Em seu discurso de autodefesa, ele evoca a justiça divina e apela para Deus, o justo juiz, vingar-se dele, caso haja em seu coração alguma intenção má contra o rei. Davi ainda cita para Saul um provérbio conhecido: “Dos perversos procede a perversidade”. Ou seja, o caráter determina a conduta. O que o homem é, isso ele faz. Nas palavras de Jesus: “Por seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:16). Davi desce ao mais profundo estágio da humildade quando se compara a um cão morto e uma pulga. O cão já era um animal desprezível naquele tempo e um cão morto era absolutamente sem valor. A pulga vive pulando de um lugar para o outro sem qualquer descanso; é difícil de ser apanhada, mas não tem valor algum quando capturada. Assim Davi se via diante das campanhas militares de Saul com o propósito de caçá-lo por cidades, desertos e cavernas. Davi conclui sua defesa, apelando mais uma vez para Deus ser o seu juiz, pleitear sua causa, fazer-lhe justiça e livrá-lo das mãos de Saul. Nas palavras de Joyce Baldwin, “o raciocínio de Davi é que, em última instância, Saul se opôs ao Senhor, que mostrará que Davi está correto”.15 Concordo com Robert Chisholm, quando diz que a determinação de Davi de deixar a vingança nas mãos de Deus (1Samuel 24:12) contrasta com o retrato anterior de Saul, que se mostra obcecado em vingar-se de seus inimigos (1Samuel 14:24; 18:25).16 Diante do discurso eloquente e convincente de Davi, Saul dá a mão à palmatória e reconhece que Davi é inocente e mais justo do que ele, confessando que Davi ascenderá ao trono e fará um reinado firme. Saul, por fim, pede a Davi para poupar sua família ao chegar ao trono. Vejamos: 1. Um choro sem arrependimento (1Samuel 24:16). Saul está como que dopado pelo ódio e cego pelo ciúme. Mesmo conhecendo Davi e chamando-o de “meu filho”, ele duvida se a voz que ouve relamente é a de Davi. Então desata a chorar, no entanto, esse choro não é um sinal de arrependimento sincero. Saul não passou por nenhuma transformação; ele está destinado a persistir em intentar contra a vida de Davi. 2. Um reconhecimento sem consistência (1Samuel 24:17-19). Saul forçosamente precisa admitir que Davi é mais justo do que ele, pois recompensou-lhe o mal com o bem, e roga a bênção do Senhor sobre ele, dizendo: “O Senhor, pois, te pague com bem, pelo que hoje, me fizeste”. 3. Uma convicção sem atitude (1Samuel 24:20). Jônatas havia dito a Davi que Saul tinha consciência de que Davi reinaria (1Samuel 23:17). Agora, pela primeira vez, Saul reconhece publicamente que Davi está destinado a reinar sobre Israel e chega a afirmar essa convicção de modo enfático. Ele confessa ter certeza de que Davi será rei e estabelecerá sua dinastia, e que o reino de Israel será firme em suas mãos. 4. Um pedido cheio de temor (1Samuel 24:21). Com base nessa convicção, só resta a Saul pedir a Davi, para jurar-lhe pelo Senhor, que não elimine sua descendência nem desfaça seu nome da casa de seu pai quando assumir o trono. Davi assume o compromisso, com juramento, de proteger a família da Saul ao ascender ao trono de Israel (1Samuel 24:22). Se Davi tivesse planos de depor Saul e tomar o trono, não haveria concordado com aquele pedido. Usurpadores costumam matar os descendentes do rei anterior a fim de consolidar seu poder. É oportuno trazer à memória Provérbios 16:32: “Melhor é o longânimo do que o herói de guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade”. Na caverna de En-Gedi, observamos Davi em um dos mais elevados pináculos espirituais de toda a sua vida. Fez uma grande diferença para seu futuro que ele tivesse honrado o Senhor durante seu tempo de provação. A passagem bíblica termina dizendo que Saul voltou para sua casa em Gibeá, e Davi procurou um lugar mais seguro. São dois homens e dois polos. Um desvairado e um sensato. O apreço que Saul mostrou naquele instante não convenceu Davi de que era para valer, e Davi tinha razão. A invocação a Deus para que pagasse a Davi segundo a generosidade que havia praticado não perdurou. Nem Saul, nem Davi esperavam que a reconciliação restabelecesse o relacionamento perdido; então cada um seguiu seu próprio caminho. 1. MACDONALD, William. Believer’s Bible Commentary. 1995, p. 313. ↵ 2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 143. ↵ 3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 259. ↵ 4. PINK, A. W. A life of David. Vol. 2, p. 176. ↵ 5. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 155. ↵ 6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 350. ↵ 7. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 352,353. ↵ 8. GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada, p. 130. ↵ 9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 152. ↵ 10. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 392. ↵ 11. BERGEN, Robert D. 1, 2Samuel, New American Commentary, p. 239. ↵ 12. PINK, A. W. A life of David. Vol. 2, p. 114. ↵ 13. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 181,182. ↵ 14. PINK, A. W. Life of David. Vol. 2. 1981, p. 120. ↵ 15. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 164. ↵ 16. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 160. ↵ 1S Capítulo 7 Davi, o misericordioso amuel 26 trata de traição, coragem, confissão e reconhecimento. Mais uma vez os zifeus se mostram traidores. Mais uma vez Saul reúne sua seleta tropa para matar Davi. Mais uma vez o Senhor coloca Saul nas mãos de Davi. Mais uma vez Davi, sendo misericordioso, poupa a vida de Saul. Mais uma vez Saul admite sua culpa e enaltece Davi. Mais uma vez Saul e Davi seguem caminhos diferentes. Nos dois incidentes, o narrador revela a inocência de Davi e a culpa de Saul. Alguns críticos desmerecem esse texto, afirmando que se trata do mesmo episódio relatado no capítulo 23:19-29. Contudo, como diz Richard Phillips, “temos boa razão para aceitar os acontecimentos de 1Samuel 26 nãoapenas como verdadeiros, mas também como instrutivos para nossa fé”.1 Warren Wiersbe corrobora, dizendo que as evidências se mostram contrárias à interpretação de que o relato desse capítulo não passa de uma adaptação da narrativa encontrada nos capítulos 23 e 24. Há diferenças em termos de localização, de hora, de atividades, de reação de Davi e das palavras de Davi.2 Uma traição reincidente Os zifeus entraram para a história como um povo traidor. Por interesses escusos, para receber benesses de um rei decadente, dispuseram-se a exercer o papel de informantes, traindo Davi mais uma vez. Três fatos merecem destaque aqui: 1. Uma denúncia maldosa (1Samuel 26:1). Os zifeus foram novamente a Gibeá para informar a Saul que Davi estava escondido no outeiro de Haquilá, defronte de Jesimom. Na primeira denúncia, estavam dispostos a entregar Davi (1Samuel 23:19,20). Vendo o plano deles malogrado, reincidem na mesma maldade e, novamente denunciam Davi, informando a Saul o esconderijo de seu desafeto. 2. Uma caçada implacável (1Samuel 26:2). Saul, que tivera sua vida poupada na caverna, em En-Gedi, e reconhecera a inocência de Davi, mais uma vez se rende ao ciúme doentio e, com força total, marcha com três mil homens para buscar Davi. Trata-se de uma caçada implacável. Davi sente-se como um cão morto sem valor ou uma pulga, que pula de um lado para o outro para poupar sua vida (1Samuel 24:14). Agora, Davi sente-se novamente como uma pulga ou como uma perdiz, que não consegue alçar voos altos (1Samuel 26:20). 3. Um acampamento estratégico (1Samuel 26:3,4). Saul deixa Gibeá com seus três mil homens escolhidos a dedo e acampa no estreito de Haquilá, defronte de Jesimom. Por ter chegado à noite, horário impróprio para uma caçada humana no deserto, todos puseram-se a dormir, cercados de carros e bagagens, inclusive Saul e seu comandante Abner. Todos dormiam, mas Davi estava vigiando e monitorando o lugar. Então Davi envia espias, e esses o informam que Saul já estava acampado com seu exército nas mediações. Uma atitude destemida Davi, mesmo chamando a si mesmo de cão morto, pulga e perdiz, é um guerreiro experimentado. É valente e muito corajoso. Ele se levanta e vai ao acampamento do rei e, com precisão, investiga o lugar onde Saul e Abner estavam deitados. O povo, entregue ao sono, estava ao redor deles no acampamento. Destacamos seis fatos aqui: 1. Uma investigação ousada (1Samuel 26:5). Davi demonstra robusta galhardia ao se levantar e ir até ao acampamento onde seus desafetos estavam reunidos. Davi era um estrategista e precisava tirar proveito de algum ponto falho do inimigo. Ele então descobre que Saul, seu comandante e o povo estavam dormindo. 2. Uma consulta oportuna (1Samuel 26:6). Davi volta do acampamento e pergunta a Aimeleque, o heteu, e a Abisai, seu sobrinho (1Crônicas 2:13- 16), filho de sua irmã Zeruia e irmão de Joabe, seu futuro comandante, quem desceria com ele a Saul, no arraial. Abisai se prontificou a ir com Davi. Essa era uma missão impossível. Uma investida arriscada. Uma ação audaciosa. 3. Uma prontidão corajosa (1Samuel 26:7). À noite, quando Davi e Abisai chegaram ao acampamento, perceberam que Saul estava dormindo ao lado de sua lança, fincada na terra à sua cabeceira; Abner e o povo estavam deitados ao redor de Saul. Esses três mil homens, comandados por Saul e Abner sentiam-se donos da situação, seguros, invulneráveis. 4. Uma proposta ímpia (1Samuel 26:8). Abisai, sobrinho de Davi, agindo de forma ímpia, viu nesse cenário, uma providência divina. Disse a Davi que Deus estava entregando em suas mãos o seu inimigo. Pediu, inclusive, a oportunidade de matar Saul com sua própria lança, de uma só tacada. Alexander Maclaren interpreta essa cena assim: “Abisai representa o impulso natural de todos nós — golpear nossos inimigos quando pudermos, pagar ódio com ódio e fazer ao outro o mal que ele queria fazer a nós”.3 5. Uma resposta firme (26:9-11). Enquanto Abisai via Saul como inimigo que deveria ser morto, Davi o via como o ungido do Senhor que devia ser protegido com misericórdia. Conforme diz Warren Wiersbe, “a decisão de Davi era baseada em princípios e não em circunstâncias”.4 Davi não só impediu Abisai de matar Saul, mas declarou que estender a mão contra o ungido do Senhor era tornar-se culpado. Davi acrescentou que não precisaria mover sua mão para matar Saul, pois Deus, no tempo certo, poderia matá-lo de uma das três maneiras: 1) Deus mesmo o feriria; 2) o dia da sua morte chegaria de forma natural; 3) ele morreria no campo de batalha, pelas mãos do inimigo. Nas palavras de Tim Chester, “Deus tem muitas opções para alcançar seus propósitos e fazer justiça. Não cabe a Abisai ou a Davi escolher a opção e buscar forçar a mão de Deus”.5 Davi rogou ao Senhor para guardá-lo de cometer esse desatino, todavia, tomou a lança e a bilha da água de Saul. Elas representavam a capacidade de Saul de se sustentar e de se proteger (1Samuel 26:12). A provisão e a proteção de Saul tinham terminado. Assim, simbolicamente, Davi desarma Saul. Vale destacar que a lança de Saul já usada duas vezes para matar Davi, simbolizava a hostilidade do rei contra ele. Quando Davi cortou a orla do manto de Saul na caverna, lembrou-o de que seu reino seria separado dele, mas ao tomar-lhe a lança, humilhou o rei e tirou dele o símbolo de sua autoridade. 6. Uma providência divina (1Samuel 26:12). Davi só conseguiu entrar no acampamento de Saul e tomar às escondidas sua espada e sua bilha da água porque todos estavam rendidos a um sono profundo que certamente provinha do Senhor. Se não faltou a Davi e a Abisai coragem, a investida deles no território do inimigo só foi possível e só logrou êxito por causa da providência divina. De fato, o sono pesado de três mil homens, num acampamento a céu aberto foi obra divina. O mais poderoso aliado de Davi para conduzi-lo ao trono era o próprio Senhor. Um confronto necessário Estando Davi, em lugar distante e seguro do acampamento de Saul, ergueu sua voz para acusar Abner e os soldados do rei. Vejamos: 1. Davi confronta Abner (1Samuel 26:13,14). Depois que Davi ganhou longa distância, estando no cume da outra banda do monte, bradou ao povo e a Abner, dizendo: “Não respondes, Abner? Então, Abner acudiu e disse: Quem és tu, que bradas ao rei?” (26:14). Davi tem um trunfo na mão, a lança de Saul e a bilha da água. O confronto tem a finalidade de mostrar a incompetência dos aliados de Saul de protegê-lo, ao mesmo tempo que tem o propósito de destacar sua inocência diante dos olhos do rei. 2. Davi acusa Abner e os soldados de Saul (1Samuel 26:15,16). Davi humilha Abner, o comandante de Saul, mostrando que ele sequer protegeu o rei, a campo aberto, mesmo tendo ao seu dispor três mil homens preparados para a batalha. Davi diz a Abner que ele deve morrer, pois não guardou o rei, seu senhor, o ungido do Senhor. Como prova da acusação, Davi mostra a lança do rei e a bilha da água, que estavam à sua cabeceira. Uma defesa irrefutável Davi se esforça para expressar lealdade e submissão a Saul. Ele se dirige a Saul como “meu senhor” três vezes (26:17-19), chama-o “rei” seis vezes (1Samuel 26:15-17,19,20,22), refere-se a ele como “ungido” do Senhor duas vezes na presença de Saul (1Samuel 26:16,23) e descreve a si mesmo como “servo” de Saul duas vezes (1Samuel 26:18,19).6 Destacamos cinco pontos importantes aqui: 1. Davi defende sua inocência (1Samuel 26:17-20). Saul reconheceu a voz de Davi e o chamou de filho, porém, Davi não o chamou de pai, mas apenas, “rei, meu senhor”. Mais uma vez Davi pleiteia sua causa e defende sua inocência, mostrando que não havia maldade em suas mãos. Davi declara que só há duas possibilidades de Saul estar contra ele: o Senhor estaria incitando-o contra Davi ou os filhos dos homens. No primeiro caso, a ira de Deus poderia ser aplacada com uma oferta de manjares. No segundo caso, esses promotores da discórdia deveriam ser considerados malditos perante o Senhor, pois estavam eliminando Davi da comunidade da aliança e empurrando-o paraterritório pagão, onde outros deuses eram servidos. Davi não quer ver seu sangue derramado longe de sua terra, por isso pergunta a Saul por que o perseguia como se ele fosse uma perdiz nos montes? Hipoteco apoio ao que diz Kevin Mellish: “A vingança pessoal não realiza os propósitos redentores de Deus no mundo. O desejo de acertar as contas com aqueles que nos causaram dor, angústia ou sofrimento é um sintoma da condição humana, mas não de um indivíduo pio”.7 O Novo Testamento ensina que devemos vencer o mal com golpes de bondade e buscar ativamente não pagar o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem (Romanos 12:21). 2. Saul admite sua própria culpa (1Samuel 26:21). Saul admite sua culpa e confessa seu pecado. Pediu para Davi voltar e prometeu não lhe fazer mal novamente, uma vez que Davi havia poupado sua vida. Saul faz uma pungente confissão: “[...] eis que tenho procedido como um louco e errado excessivamente” (1Samuel 26:21b). Robert Chisholm diz que esta declaração de Saul, “Pequei”, e aquela feita em 24:17 constituem as provas mais importantes da inocência de Davi em toda a narrativa, pois juntas formam a base para a defesa de Davi pelo narrador. Saul acusou Davi de traí-lo e de tramar contra ele, mas essas duas confissões desmentem essas acusações falsas. Pela terceira vez na história, a palavra “pequei” sai da boca de Saul. Quando confrontado por Samuel por não ter exterminado os amalequitas, ele admitiu duas vezes que havia pecado (1Samuel 15:24:30). Seu filho Jônatas o advertiu de que tirar a vida de Davi seria pecado (1Samuel 19:4,5), e agora Saul reconhece que isso é verdade.8 3. Davi interpreta os acontecimentos (1Samuel 26:22-24). Davi não volta a Saul. Era tarde demais para se restabelecer a confiança. As promessas de Saul não eram confiáveis. Davi diz a Saul para enviar um de seus moços para buscar sua lança, o símbolo das intenções de Saul para matar Davi. Não sabemos se Saul mandou buscar a lança. Se de fato tivesse se arrependido, deveria ter dito para Davi destruí-la. Davi aproveita o ensejo para recorrer à justiça divina, uma vez que só Deus pode aplicar a vingança com justiça. Assim como Davi tinha poupado a vida de Saul, ele esperava que Deus poupasse sua vida e o livrasse de toda tribulação. 4. Saul reconhece a legitimidade do reinado de Davi (1Samuel 26:25a). Diante do discurso eloquente de Davi, Saul passou a bendizer Davi e a reconhecer seu reino vitorioso com palavras vívidas: “Bendito sejas tu, meu filho Davi; pois grandes coisas farás e, de fato, prevalecerás”. 5. Saul e Davi seguem caminhos diferentes (1Samuel 26:25b). Essas foram as últimas palavras de Saul dirigidas a Davi e os dois se separaram para nunca mais se encontrarem. Cada um seguiu o seu caminho. Saul desceu a ladeira do fracasso e mergulhou nas sombras da morte, mas Davi escalou um caminho ascendente de glória rumo ao trono de Israel. Duas aplicações, segundo Robert Chisholm, podem ser extraídas da passagem em apreço: 1. Quando o cumprimento da promessa de Deus é postergado, os servos escolhidos por Deus precisam resistir à tentação de apressar os acontecimentos; antes, devem fazer o que é certo e esperar pelo tempo de Deus. 2. Quando os servos de Deus sofrem opressão enquanto esperam sua promessa se concretizar, eles devem voltar-se para o Senhor em busca de justiça.9 1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 427. ↵ 2. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2006, p. 275. ↵ 3. MACLAREN, Alexander. Expositions of Holy Scripture. Vol. 17, p. 369. ↵ 4. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 276. ↵ 5. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 188. ↵ 6. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 171. ↵ 7. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 195. ↵ 8. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 172. ↵ 9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 174. ↵ 1S Capítulo 8 Davi, o pacificado amuel 25 pode ser sintetizado em quatro frases: 1. A morte de um profeta. 2. A loucura de um homem. 3. A fúria de um rei. 4. A sabedoria de uma mulher. Ao examinarmos estas quatro biografias: Samuel, Nabal, Davi e Abigail, navegamos entre a loucura e a sensatez. A morte de Samuel A morte e o sepultamento de Samuel são registrados sem nenhum aparato em 1Samuel 25:1. Era o fim de uma era, o epílogo do reinado de Saul e o alvorecer da ascensão de Davi. Samuel foi o maior líder de Israel depois do comandante Josué, sucessor de Moisés. Sua morte selou uma transição decisiva no governo divinamente designado de Israel, dos juízes capacitados pelo Espírito para as dinastias reais.1 Samuel foi o último e o maior de todos os juízes de Israel. Também foi o fundador da escola de profetas, cabendo a ele ungir Saul e Davi, os dois primeiros reis de Israel. A passagem de 1Samuel 24 se conclui com Saul admitindo Davi: “Tenho certeza de que serás rei e de que o reino de Israel há de ser firme na tua mão (1Samuel 24:20). Somente depois disso lemos “Faleceu Samuel” (1Samuel 25:1). A loucura de Nabal Nabal vivia em Maom. Esse fazendeiro tinha tudo para ser um homem bem-aventurado. Ele tinha riqueza, o bom nome da família calebita, uma linda e sábia esposa, mas não tinha caráter. Em relação ao dinheiro, Nabal era o que Saul era em relação ao poder. Nabal vive para defender sua propriedade e morre numa orgia, desfrutando de sua propriedade. Era um homem egoísta, avarento, incomunicável, beberrão e farrista. Nabal era da família de Calebe. Esse foi um grande homem, um grande líder e um grande exemplo para sua nação. Nabal, porém, era um ramo podre de um tronco saudável. Ele procedia de uma família piedosa, mas desprezou sua herança e o legado recebido de sua família. Seguiu um caminho de trevas, mesmo tendo um exemplo de luz na família. Deixou o exemplo dos pais e enveredou-se pelos atalhos do erro. Nabal era casado com uma mulher maravilhosa (1Samuel 25:3). Abigail era uma mulher sensata e formosa. Era bela por fora e por dentro. Tinha beleza e caráter, conhecimento e piedade, mas seu marido não a valorizou. Nabal era um homem rico (1Samuel 25:2), ele tinha o privilégio de ser o homem mais rico da sua região. Era um grande fazendeiro. Tinha três mil ovelhas e mil cabras. Vivia no conforto e no luxo. Inobstante todos esses privilégios, a vida desse homem foi uma verdadeira tragédia. Ele, tendo tantos motivos para ser grato a Deus e viver feliz, estragou tudo com suas próprias mãos. Era um homem rude na comunicação (1Samuel 25:3,17), sendo duro e maligno em todo o seu trato. Ele era filho de Belial, e ninguém podia falar-lhe. Era, também, um homem avarento, egoísta e ingrato (1Samuel 25:11,14,21). Davi e seus homens protegeram os pastores de Nabal, impedindo que os terroristas do deserto invadissem suas propriedades e roubassem suas ovelhas. Porém, quando Davi precisou de uma ajuda para o sustento de seus homens, Nabal negou ajuda e disparatou os mensageiros de Davi, pagando o bem com o mal. As palavras “eu” e “meu” ocorrem com frequência no discurso de Nabal (1Samuel 25:11). Nabal, ainda, empilha falsas acusações contra Davi — denunciando-o como um bandido qualquer, um desertor rebelde. Nabal tinha mania de grandeza (1Samuel 25:36). Além de não oferecer qualquer ajuda a Davi e seus homens, de forma egoísta, mesmo não sendo rei, fez um banquete real em sua casa para seu próprio deleite, mas privou Davi, que era rei, do sustento. Não apenas Nabal se via como um rei, mas também nos lembra de um rei específico: o rei Saul. Nabal era um beberrão (1Samuel 25:36) e sua alegria era apenas etílica, pois decorria de sua embriaguez. Esse homem usava todos os seus bens para si mesmo, entregando-se aos excessos da comilança e da bebedeira. Nabal festeja, à semelhança do rei Belsazar (Daniel 5:1-31), enquanto o julgamento estava prestes a lhe sobrevir. Esse fazendeiro fanfarrão nos lembra o homem rico da parábola de Jesus, que “todos os dias, se regalava esplendidamente”, enquanto se recusava a dar até mesmo as migalhas da sua mesaao pobre Lázaro, que mendigava à sua porta (Lucas 16:19-21). A. W. Pink é oportuno em seu alerta: “O insensato Nabal retrata vividamente o caso de multidões ao nosso redor. A maldição da quebra da lei de Deus está sobre eles; no entanto, festejam como se tudo estivesse bem com sua alma pela eternidade”.2 A ingratidão, a injustiça e a avareza de Nabal pavimentaram o caminho de seu desastre (1Samuel 25:14,21). Davi e seus seiscentos homens haviam abençoado a Nabal protegendo seus homens e seus rebanhos (1Samuel 25:7,15,16). Haviam sido muros de proteção para seus homens e suas ovelhas. Agora, Davi gentilmente lhe pede ajuda (1Samuel 25:8). Nabal trata os emissários de Davi com grosseria, humilhando-os (1Samuel 25:10,11). Nabal tem prazer de denegrir a imagem das outras pessoas. Apesar de ter recebido o bem de Davi, ele aproveita a ocasião para humilhar Davi e jogar lama em seu rosto. Nabal é um homem ingrato. Ele paga o bem com o mal (1Samuel 25:21). Nabal é um homem injusto. Ele disparatou, destratou e humilhou os homens de Davi (1Samuel 25:14). O fim de Nabal foi trágico (1Samuel 25:36-39). A notícia de que Davi estava vindo com quatrocentos homens armados para matá-lo e eliminar os homens de sua casa deixou-o aturdido, a ponto de sofrer um ataque do coração. Mesmo assim, ele não se arrependeu. Então, Deus o matou. O pecado de Nabal havia sido cometido pessoalmente contra Deus, e seu juízo havia sido executado pessoalmente por Deus contra ele.3 Nabal colheu o que plantou. Diferentemente de Samuel (1Samuel 25:1), ninguém chorou sua morte (1Samuel 25:38,39). Tudo aquilo que ele ajuntou de nada lhe valeu. Ele não levou sequer uma ovelha. Ele negou dar a Davi uma refeição, mas agora toda a sua riqueza pertence a Davi, pois este se casou com Abigail, a viúva de Nabal. O ímpio acumula para o justo. Reter mais do que é justo é perda de tempo. A avareza empobrece, mas a alma generosa prosperará. A fúria de Davi Davi vive há vários anos como um fugitivo. Precisa fugir de um lado para o outro, entre montes e cavernas, cidades e desertos para livrar-se das mãos de Saul. Eles e seus seiscentos homens, com as respectivas famílias estão, agora, em Maom, enfrentando grandes problemas de logística, sobretudo de alimentação para tanta gente. É nessa conjuntura que Davi encontra os servos de Nabal, um homem abastado, que possuía três mil ovelhas e mil cabras (1Samuel 25:2). Como um bom vizinho, Davi e seus homens protegeram os pastores de Nabal. Davi se torna um benfeitor de Nabal (1Samuel 25:4-9,15,16). Enquanto Davi e seus homens estiveram em Maom, foram os protetores dos servos de Nabal, o fazendeiro mais rico da região. Naquele tempo, os invasores filisteus e os amalequitas, terroristas do deserto, espalhavam terror na região. Porém, Davi e seus valentes, como tutores do próximo, protegeram os pastores de Nabal, impedindo que tivessem qualquer agravo ou falta. Davi e seus homens fizeram bem aos servidores de Nabal, serviram de muro ao redor deles, protegendo-os e oferecendo-lhes ampla segurança. Nas palavras de Richard Phillips, “a propriedade de Nabal foi extraordinariamente preservada, de modo que seu lucro aumentou”.4 Davi, porém, foi injustiçado por Nabal (1Samuel 25:10,11,14,21). Sabendo Davi, no deserto, que Nabal tosquiava suas ovelhas e sabendo que esse era um tempo de generosidade, enviou dez de seus homens ao fazendeiro, com palavras elogiosas e com súplicas humildes, pedindo alguma provisão para seus soldados. Nabal, mesmo tomando conhecimento do bem recebido das mãos de Davi, disparatou seus mensageiros com um discurso preconceituoso e hostil: “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos são, hoje em dia, os servos que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, e minha água, e a carne das minhas reses que degolei para os meus tosquiadores e o daria a homens que eu não sei donde vêm?” (1Samuel 25:10,11). Nabal pagou o bem com mal (1Samuel 25:21). Não tardou para que o Davi benfeitor se tornasse o Davi vingador (1Samuel 25:13,17,22,26). Quando os moços de Davi o informaram acerca do tratamento hostil de Nabal e de sua recusa em atender ao seu pedido, Davi ordenou que quatrocentos de seus homens cingissem a espada e marchassem com ele para uma vingança sangrenta contra a casa de Nabal. A intenção de Davi era fazer vingança com as próprias mãos, derramar sangue e eliminar até ao amanhecer todos os membros do sexo masculino da casa de Nabal. Fica patente que Davi não reagiu bem aos insultos de Nabal. Sua decisão de eliminar a casa de Nabal assemelha-se à atitude de Saul, que eliminou os sacerdotes de Nobe. A atitude de Davi, esperando reconhecimento foi muito diferente da atitude de Jesus, que não revidou ultraje com ultraje (1Pedro 2:21-23). Sobre isso, Warren Wiersbe escreve: “Se Davi tivesse levado a cabo o que intentava, teria cometido um pecado terrível e causado grande estrago em seu caráter e em sua carreira, mas, em sua misericórdia, o Senhor o deteve”.5 Davi é sabiamente aconselhado por Abigail, mulher de Nabal (1Samuel 25:24-26,28-31). Sendo uma mulher prudente, Abigail ao saber da decretação de morte sobre sua casa, prepara farta provisão e se apressa a encontrar-se com Davi. Ao encontrá-lo, apeia do jumento e se prostra diante dele, proferindo um dos mais sublimes discursos registrados nas Escrituras (1Samuel 25:24-31). Ela chama a culpa para si, admite a loucura de seu marido, presenteia Davi, exorta-o a não manchar suas mãos com o sangue da vingança, roga perdão para sua casa e declara profeticamente que o Senhor fará firme a casa de Davi, pois será estabelecido príncipe sobre Israel. Abigail se apresenta como conselheira de Davi, para livrá-lo de um crime de sangue. Davi chegou a fazer voto de destruir a casa de Nabal (1Samuel 25:22), mas é advertido por Abigail a não reagir a Nabal, tornando-se como ele. A prudência daquela mulher aplaca a ira de um homem furioso e de um exército fortemente armado, evitando, assim, uma chacina sangrenta. Nas palavras de Richard Phillips, “em vez de Davi agir como o ímpio Nabal, Davi deveria agir como o servo do Senhor que era e, especialmente, exibir as características graciosas daquele que é marcado e favorecido pelo Senhor”.6 A. W. Pink resume: “Abigail pediu a Davi que deixasse sua glória futura regular suas ações presentes, de modo que, naquele dia, sua consciência não o reprovaria por tolices anteriores”.7 O próprio Davi, ao acolher os conselhos de Abigail, reconhece que ela é uma mulher de Deus. Assim declara Davi: “Bendito o Senhor, Deus de Israel, que, hoje, te enviou ao meu encontro. Bendita seja a tua prudência, e bendita sejas tu mesma, que hoje me tolheste de derramar sangue e de que por minha própria mão me vingasse” (1Samuel 25:32,33). Davi é pacificado por Abigail (1Samuel 25:32-35), que com suas palavras sábias não só edificou a sua casa, como também evitou que a casa de Davi fosse manchada de sangue. Davi bendisse ao Senhor, Deus de Israel, por ter enviado Abigail ao seu encontro e bendisse a prudência dela e a ela mesma, por desviá-lo de um caminho sangrento de vingança pessoal. Davi recebeu a provisão das mãos de Abigail, atendeu ao seu pleito e, pacificado, ordenou-a a voltar em paz para sua casa. Davi foi recompensado (1Samuel 25:39-42), pois a morte de Nabal, diferente da morte de Samuel não trouxe nenhuma lágrima. Ao contrário, Davi bendisse ao Senhor ao saber que ele estava morto e enviou mensageiros a Abigail, revelando seu desejo de tomá-la como esposa. Aquele que não deu sequer uma ovelha para saciar a fome de Davi agora está morto e toda sua riqueza é transferida para Davi, pois este tomou Abigail como esposa. Abigail, que era viúva de um fazendeiro rude, avarento e fanfarrão, casa-se com Davi, o maior rei de Israel, saindo do anonimato para ser mãe de príncipes. Davi recebe a riqueza de Abigail e Abigail recebe a projeção multimilenar de Davi. 1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 403. ↵ 2. PINK, A. W. A life of David. Vol. 2. 1981, p. 152. ↵ 3. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p.420. ↵ 4. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 405. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 273. ↵ 6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 412. ↵ 7. PINK, A. W. A life of David. 1981, p. 147. ↵ 1S Capítulo 9 Davi, o incrédulo amuel 27:1-12 revela o temor de Davi e sua decisão precipitada de fugir de Israel para buscar abrigo debaixo das asas dos filisteus. Na contramão de todas as promessas de Deus, Davi toma seu destino nas próprias mãos e age como um incrédulo. O pecado de Davi com Bate-Seba mostra a sua fraqueza no período de força e poder, enquanto esse capítulo mostra sua fraqueza em um período de ansiedade e aflição. Por causa de seu desespero, Davi estava pronto a considerar a hipótese de abordar os próprios inimigos que, com sucesso, havia combatido em nome de Israel, oferecendo-lhes agora seus préstimos. Não que ele tivesse qualquer intenção de se tornar um traidor de sua amada Judá, mas precisava dar essa impressão a fim de tranquilizar seus aliados filisteus. Davi tinha motivos de sobra para continuar em Israel e confiar que Deus iria protegê-lo e suprir suas necessidades (1Samuel 25:27-31; 26:25). O exílio político de Davi A decisão de Davi de deixar sua terra e unir-se aos ímpios filisteus, inimigos de Israel, ultrapassou todos os limites do bom senso e cruzou uma linha que nunca deveria ter sido cruzada. Nas palavras de John Woodhouse, “naquele dia Davi cruzou uma fronteira que não era apenas geográfica. Ele passou para o outro lado”.1 Tim Chester chama a atenção para o fato de que o exílio era a punição suprema pela infidelidade à aliança.2 Certamente o exílio foi algo pesaroso para Davi (1Samuel 26:19,20). Davi era conhecido pelos filisteus como o assassino do seu povo (1Samuel 21:11), mas agora ele era famoso como o fugitivo do rei de Israel, Saul. Além disso, Davi agora apareceu com uma formidável força de combate para aumentar a força de Aquis. Provavelmente por essas razões Davi foi bem recebido em Gate, e seu estabelecimento na antiga cidade natal de Golias logo teve o resultado desejado: “Avisado Saul que Davi tinha fugido para Gate, desistiu de o perseguir” (1Samuel 27:4). Davi havia conseguido, finalmente, se livrar das perseguições de Saul — mas a que preço? Destacamos quatro lições aqui: 1. O coração é um mau conselheiro (1Samuel 27:1a). Davi não ouviu as palavras sábias endereçadas a ele por meio de Samuel, Jônatas e Abigail. Não ouviu nem mesmo as últimas palavras de Saul. Cansado de fugir e achando que sua proteção provinha de seus próprios recursos, ausculta seu próprio coração e, em vez de renovar sua fé nas promessas, foge para a Filístia, para buscar abrigo político entre os inimigos de Israel. Richard Phillips esclarece esse ponto assim: No capítulo 23, Saul estava prestes a estender a mão e agarrar Davi quando um ataque repentino dos filisteus fez com que o exército fosse desviado (23:27,28). No capítulo 24, quando Saul estava caçando Davi, o Senhor o colocou à mercê de Davi na caverna de En-Gedi. Pouco antes, Deus fez cair um profundo sono sobre todo o exército de Saul para que Davi pudesse entrar no acampamento e apanhar a lança de Saul. Tudo isso era forte evidência da impotência de Saul contra a promessa de Deus de elevar Davi ao trono. Quando Abigail interveio para afastar Davi dos seus planos contra seu marido, Nabal, ela falou dessas coisas como sendo de conhecimento comum: “Se um homem se levantar para te perseguir e buscar a tua vida, então, a tua vida será atada no feixe dos que vivem com o Senhor, teu Deus” (25:29). Como, então, Davi agora conclui “pode ser que algum dia venha eu a perecer nas mãos de Saul”? (27:1). O capítulo começa dizendo que Davi “disse [...] consigo mesmo”. Davi aconselhou seu coração com palavras incrédulas, de modo que não é de admirar que ele tenha respondido não com fé, mas com insensatez e incredulidade.3 2. A falta de fé desconfia do cuidado divino (1Samuel 27:1b). Davi, que experimentara diversos livramentos divinos, está esgotado, como um animal encurralado e, por um momento, imagina que não escapará de uma nova investida de Saul. Por isso, rendendo-se à incredulidade, foge de Israel para o território do inimigo. Repentinamente, Davi deixou de crer nas promessas de Deus e agiu como um incrédulo. Davi já havia fugido para os filisteus no começo da perseguição de Saul e o resultado havia sido desastroso (21:10- 15). Naquela época, Davi se salvou fingindo-se de louco. Como agora pode pensar que encontrará segurança entre os arqui-inimigos de seu povo? Tim Chester nessa mesma linha de pensamento escreve: Em 1Samuel 26:10, Davi disse a Abisai que Saul poderia ser morto em batalha; literalmente, “ser varrido”. Agora, usa a mesma palavra para se referir a seu próprio destino: “Algum dia serei morto [varrido] por Saul” (1Samuel 27:1). Davi parece vacilar em sua fé em que Deus por fim lhe dará o reino. O diálogo de Davi consigo mesmo é revelador; o estado do nosso coração é muitas vezes moldado pelo que dizemos ao nosso coração. Aqui, o que Davi diz ao seu coração enfraquece sua confiança em Deus, pois se opõe à palavra de Deus como à sua experiência com ele.4 É em vão que pesquisamos a Bíblia em busca de um exemplo de israelitas buscando salvação fora da terra da promessa, recorrendo ao cuidado dos ímpios, que não os enrede em pecado e nas maldições da desobediência. Quando Abraão buscou refúgio no Egito, rapidamente caiu em pecado e perigo (Gênesis 12:10-20). Ló destruiu sua família ao levá-la para Sodoma (Gênesis 12:10-13), assim como o marido de Noemi, quando levou sua família para Moabe no tempo da fome (Rute 1:2,3). Considerando esses exemplos bíblicos, não podemos esperar que a fuga de Davi de Israel para a Filístia resultasse em bênção. Os filhos de Deus devem ter o cuidado de não se entregar ao desalento. Moisés ficou desanimado com o peso de seu trabalho e quis morrer (Números 11:15), e Elias fugiu do dever por causa do medo e do desânimo (1Reis 19). Quando começamos a olhar para Deus a partir de nossas circunstâncias em vez de olhar para nossas circunstâncias com os olhos de Deus, perdemos a fé, a paciência e a coragem e damos a vitória ao inimigo.5 3. Unanimidade nem sempre é sinal de que a decisão é certa (1Samuel 27:2). Davi consegue a adesão de todos os seiscentos homens que o acompanham, com suas respectivas famílias. Nenhuma voz discordante. Nenhuma oposição. Todos estão alinhados com a decisão de Davi, e prontos a fugirem de Israel, ainda que para o território filisteu. É claro que Davi tem preocupações com sua família e com as famílias de seus valentes. A prudência lhe mostrava que não tinha mais lugares seguros nos desertos e nas cavernas para se esconder de Saul e de seus asseclas. A fé não requer fanatismo suicida, porém os fins não justificam os meios. Ao passar para o lado dos filisteus, Davi acabou cruzando uma linha divisória que comprometeu sua honra e sua fé. 4. O término das perseguições de Saul não significa o fim dos problemas de Davi (1Samuel 27:4). Quando Saul ouviu que Davi havia fugido para Gate, desistiu de o perseguir. Contudo, outros problemas surgiram no caminho de Davi. Nas palavras do apóstolo Paulo: Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Efésios 6:12). Richard Phillips afirma que Davi cruzou a linha da deslealdade quando partiu de Israel para Gate. Por isso, não lemos sobre orações a Deus pedindo sabedoria, nem sobre consulta à Palavra de Deus, nem pedido de conselho a amigos piedosos.6 O controle de Ziclague Não há sequer a menção do nome de Deus no capítulo 27 de 1Samuel. Davi está articulando e tramando o tempo todo. Ao chegar em Gate, mesmo desfrutando da hospitalidade do rei Aquis, percebe que não pode ficar no centro nevrálgico do poder filisteu sem ser desmascarado. Sua intenção não era virar de lado, abandonar seus projetos e aliar-se aos inimigosde Israel. ele não tinha qualquer intenção de trair seu povo nem mesmo de tramar a morte de Saul. Seu propósito é continuar lutando as guerras do Senhor, mas para isso, precisará dissimular, disfarçar-se, enganar e mentir. Davi precisará negociar princípios e valores. Sua ética ficará abalada, seu caráter ficará manchado e sua imagem, arranhada. Destacaremos aqui alguns pontos: 1. Um pedido estratégico (1Samuel 27:5). O pedido de Davi ao rei Aquis tem aparência de bom senso. Ele usa de grande diplomacia ao elaborar seu pedido. O grupo que o acompanha gira em torno de duas mil pessoas. É muita gente para ser cuidada sob os auspícios do rei filisteu. Davi pede uma cidade refúgio, um quartel general, onde pudesse viver e realizar, com seus valentes, suas incursões. Nas palavras de Joyce Baldwin, “Davi precisava de liberdade, a fim de realizar seus próprios planos independentes, sem ser observado muito de perto”.7 2. Uma dádiva favorável (1Samuel 27:6). Aquis lhe deu a cidade de Ziclague, cerca de quarenta quilômetros a sudoeste de Gate, na fronteira com a tribo de Simeão, que passou a pertencer aos reis de Judá até o tempo em que o livro de 1Samuel foi escrito. Longe dos espiões de Aquis e sem qualquer interferência estrangeira, Davi usou essa cidade como cabeça de ponte para suas investidas contra os inimigos de Israel. Ziclague tinha a vantagem de estar bem afastada do território de Saul e isolada das cinco cidades filisteias. Sua principal desvantagem era que tendia a ser o alvo de bandos saqueadores vindos do deserto, especialmente os amalequitas. 3. Uma temporada no exílio político (1Samuel 27:7). Ao todo, foram dezesseis meses o tempo que Davi permaneceu na terra dos filisteus. Todo esse tempo que Davi permaneceu em Ziclague foi suficiente para ele estabelecer relações com israelitas que viviam no extremo sul de Judá (1Samuel 30:26-31). Por causa de sua habilidade de ir a Aquis e voltar, o rei filisteu jamais desconfiou de Davi. As incursões de Davi contra os inimigos de Israel Davi dirigiu seus ataques contra os saqueadores que despojavam cidades, tanto de Judá quanto da Filístia. Sua política de extermínio protegia-o de informantes que poderiam ter dito a Aquis que Davi estava jogando dos dois lados. Vejamos: 1. Davi ataca os inimigos de Israel (1Samuel 27:8). Davi conduz ataques contra os inimigos tradicionais do povo de Deus (1Samuel 27:8), mas diz a Aquis que está atacando Israel (1Samuel 27:10). Davi subia com seus homens em ataques contra os gesuritas, os gersitas e os amalequitas, todos inimigos de Israel que deveriam ter sido eliminados quando da conquista de Canaã. Davi está fazendo o papel de um novo Josué, fazendo o que Saul deixou de fazer com os amalequitas. Apesar de estar em território filisteu, Davi cuida da agenda de um israelita. Aquis imagina que Davi está guerreando as guerras filisteias, como um desertado de Israel. Davi, porém, estava cumprindo a guerra santa que Saul havia sido punido por não ter realizado (1Samuel 15:3). Aquis confiava em Davi, crendo que este estava se afastando de seu próprio povo por lealdade aos filisteus, de quem ele parecia ser vassalo (Deuteronômio 15:17), porém Davi ainda estava comprometido com a agenda de Israel. 2. Davi extermina os inimigos de Israel (1Samuel 27:9). Davi em suas incursões militares era impiedoso. Por onde passava, deixava um rastro de mortes e rapinagem. Por meio de um genocídio sistemático, Davi foi engenhosamente bem-sucedido em fazer seu povo prosperar, ganhando a aprovação de Aquis e evitando a traição formal ao seu país. Matava homens e mulheres, saqueando campos e cidades, tomando ovelhas, bois, jumentos, camelos e vestes. Ele apresentava todo o saldo de suas conquistas a Aquis, numa forma de prestar relatório de suas façanhas. Davi era totalmente eficaz em eliminar seus inimigos e encobrir seus rastros. A dissimulação de Davi Davi torna-se um homem dissimulado. Vejamos: 1. Davi mente ao rei Aquis (1Samuel 27:10). Quando Aquis perguntou a Davi: “Contra quem deste hoje?”, Davi dissimulou e mentiu para o rei filisteu, afirmando que tinha atacado o Sul de Judá, e o Sul dos jerameelitas, e o Sul dos queneus. Ele faltou com a verdade, ocultando de Aquis as suas campanhas sangrentas contra os inimigos de Israel. Tendo se mudado para o território filisteu e afirmado para o rei Aquis que havia matado judaítas e queneus, Davi, na verdade, estava matando os inimigos de Israel. Embora Davi permaneça leal a Israel e seu ardil seja bem-sucedido, sua identidade havia sido comprometida. Aquis acreditava que Davi estava se tornando odioso para com o povo de Israel, mas como uma raposa astuta, Davi estava avultando sua posição enquanto enganava o rei filisteu. É conhecida a expressão: “Crer é viver sem tramar”. Contudo, Davi continuou tramando e usando de dissimulação. Enganou Aquis em três coisas: ao pedir uma cidade, ao fazer referência aos ataques que seus homens realizaram e ao declarar seu desejo de lutar as batalhas do rei. 2. Davi elimina as provas de sua mentira (1Samuel 27:11). Além de mentir para Aquis, para eliminar possíveis provas contra si mesmo, não deixava com vida nem homem nem mulher, para trazer informação ou denúncia a Gate. Esse proceder enganoso fez parte da agenda de Davi todos os dias em que viveu entre os filisteus. O lema de Davi em Ziclague saiu direto de um filme faroeste: Homens mortos não contam histórias. 3. Davi engana ao rei Aquis (1Samuel 27:11). Aquis confiava em Davi, imaginando que ele tinha se feito odioso para os israelitas, quando na verdade, Davi estava consolidando sua base política e combatendo os inimigos de Israel. Aquis, enganado pelas mentiras de Davi, resolveu nomeá-lo seu servo para sempre. A única justificativa real para as ações de Davi é argumentar que os fins justificam os meios. Essa, porém, não é a ética proposta nos Salmos de Davi (Salmos 34:13,14). Não é de admirar que, durante todo o período em que Davi passou na Filístia, nada lemos sobre oração, adoração e ministério de sacerdotes ou Palavra de Deus. Lutando para efetuar sua própria salvação, Davi estava comprometendo os valores que havia protegido tão cuidadosamente em dias anteriores, dando um exemplo que possivelmente não serviria bem ao seu povo quando finalmente tomasse posse do seu reino. As consequências das ações enganosas de Davi As ações enganosas de Davi tiveram consequências assaz perigosas para ele. A Bíblia diz que zombar do pecado é loucura. O homem será achado pelo seu pecado. Davi não foi capaz de lidar com as consequências imprevistas de suas ações enganosas. Aquis concluiu que Davi havia se separado para sempre de seu povo; portanto, merecia a sua confiança. Aquis estava se preparando para ir à guerra e conquistar a supremacia sobre Israel. Davi se viu acuado quando Aquis incumbiu o exército de Davi a lutar contra Saul e encarregou Davi de ser sua principal guarda pessoal. A resposta de Davi, visando evitar uma resposta direta, satisfez Aquis, mas deixou Davi imaginando como sairia desse dilema. Davi está numa sinuca de bico, em um beco sem saída. Se ele se recusar a se juntar ao exército filisteu, suas alianças serão reveladas, e a aceitação e a proteção de que ele usufrui desaparecerão. Se ele se juntar a Aquis, será forçado a lutar contra seu próprio povo. Esse é um momento de suspense. Mas, antes de qualquer resolução, o autor volta nossa atenção para Saul (1Samuel 28:3-25). É digno de nota que foi nessa batalha que Saul e seus filhos morreram (1Samuel 31:1-6), e foi a mão providente do Senhor que impediu Davi e seus homens de participarem desse fatídico combate. Destacamos aqui três lições: 1. Uma convocação alarmante (1Samuel 28:1). A dissimulação de Davi volta-se contra ele mesmo. O que ele jamais podia esperar aconteceu, ou seja, os filisteus declararam guerra contra Israel, reunindo todos os seus exércitos nessa campanha militar. Aquis convoca a Davi e seus homens para se juntarem a ele nessa batalha contra Israel. A máscara caiu. O que ele escondeu um ano e quatro mesesnão pode mais se sustentar. Sua aparente lealdade aos filisteus é colocada à prova. Sendo ungido para guerrear as guerras de Israel, agora é forçado a entrar em uma peleja contra seu próprio povo. 2. Uma resposta evasiva (1Samuel 28:2). Acuado, Davi enfrenta uma situação ainda mais adversa que as perseguições de Saul. Nesse fogo cruzado, Davi dá uma resposta evasiva ao rei Aquis “[...] assim saberás quanto pode o teu servo fazer”. A única resposta adequada para Davi é o ditado destinado a advertir os filhos contra a mentira: “Tecemos uma rede emaranhada quando começamos a enganar”.8 3. Uma promoção desonrosa (1Samuel 28:2b). Sem nada desconfiar, Aquis promove Davi da posição de servo permanente do rei (1Samuel 27:12) para guarda pessoal perpétua do rei (1Samuel 28:2). Davi está preso no cipoal de suas tramas. Robert Chisholm diz que, certo da lealdade de Davi, Aquis promete nomeá-lo seu guarda-costas (em hebraico, “um guarda para minha cabeça”). A essa altura, as palavras de Aquis são repletas de ironia. Davi, que certa vez decapitou o herói de Gate e levou a cabeça dele como troféu de guerra (1Samuel 17:51,54), agora será responsável por guardar a cabeça do governante de Gate.9 1. WOODHOUSE, John. 1Samuel: Looking for a Leader, p. 500. ↵ 2. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 196. ↵ 3. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 440. ↵ 4. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 195. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 278. ↵ 6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 443. ↵ 7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 177. ↵ 8. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 446. ↵ 9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 179. ↵ D Capítulo 10 Davi, o dissimulado epois de o narrador descrever a consulta de Saul à pitonisa de En- Dor, a cena do capítulo 29 volta a Davi. A notícia da guerra resume o relato iniciado em 1Samuel 28:1,2, que foi suspenso para narrar a visita de Saul à médium (1Samuel 28:3-25). No capítulo 27, Davi busca escapar da impiedade de Saul, voltando-se para os filisteus. No capítulo 28, Saul busca salvação da rejeição de Deus, procurando uma médium ocultista. No capítulo 29, Davi é salvo dos filisteus; no capítulo 31, Saul é destruído pelos filisteus, e Davi é salvo de seu erro pela graça de Deus.1 O disfarçado Davi entre os filisteus não passou despercebido pelos príncipes filisteus. Embora desfrutasse de plena confiança do rei Aquis, os príncipes filisteus não confiavam nele e tinham motivos de sobra para não confiarem. Davi dissimulava ao passar a ideia que havia desertado Israel para aliar-se aos filisteus, sua passagem de lado era apenas estratégica. Algumas lições importantes devem ser observadas aqui: Uma guerra à vista Saul não tinha mais pique para perseguir Davi desde que este buscou abrigo entre os filisteus. O rei não tinha pulso para comandar o seu exército, orientação espiritual para enfrentar os dilemas do seu governo nem vigor espiritual para manter-se de pé. Tratava-se de um homem arruinado psicológica e espiritualmente. Deus não falava mais com ele. É nessa conjuntura que o rei Aquis prepara um ataque avassalador às tropas de Israel, em uma guerra crucial, acampando com seus milhares de homens em Afeque, situada no norte de Efraim, na planície costeira, aproximadamente sessenta e cinco quilômetros a sudoeste de Suném (28:4). Em seguida, Aquis e seu exército marcharam para o nordeste, em direção a Jezreel, ao norte do monte Gilboa (29:2,11).2 Purkiser diz que em Afeque ficava a estrada principal para o Egito a partir do nordeste, uma parada no curso para Suném e a planície do Megido, da qual eles esperavam passar rapidamente pelo território de Israel (28:4).3 Os soldados israelitas acamparam-se, por sua vez, junto à fonte que está em Jezreel, uma cidade no lado noroeste do monte Gilboa. A menção de Afeque é agourenta, porque foi nessa região que os filisteus derrotaram Israel e capturaram a arca da Aliança, depois que o sacerdote Eli morreu (4:1-22). Essa tragédia levou o povo de Israel a clamar por um rei, à semelhança das outras nações (8:20). Várias décadas depois, Saul, o primeiro rei de Israel, sofreria nessa mesma região acachapante derrota, e sua vida seria ceifada. Richard Phillips diz: “O que aconteceu em Afeque antes de Saul se tornar rei aconteceria novamente e daria fim ao seu reinado. No fim, o rei, “como todas as nações”, “fracassou”.4 Os filisteus eram um grupo de cinco cidades-Estado. Quando eles lutavam, as forças dessas cinco cidades-Estado se uniam para formar um só exército (29:1). É o que eles estão fazendo quando se reúnem em Afeque. Uma retaguarda suspeita Davi, apanhado pelas cordas de seu próprio pecado, tem seu disfarce exposto, quando Aquis o convoca, juntamente com seus homens, para engrossar as fileiras do exército filisteu. Davi estava se prestando ao papel de guardião de Aquis, indo na retaguarda da tropa filisteia. O que parecia uma boa medida para Aquis tornou-se uma suspeita radical dos príncipes filisteus. Eles perceberam que a presença de Davi não era um reforço militar, mas uma armadilha para eles. Os comandantes ficam indignados com a presença de Davi e seus homens nas fileiras do exército filisteu e não estão dispostos a lutar ao lado de alguém cuja principal reputação era ter matado dezenas de milhares de filisteus. É notório que a tentativa de Davi de resolver suas questões do seu próprio modo em vez de esperar pelo Senhor custou-lhe um alto preço. Ao afastar- se de sua confiança no Senhor, Davi havia feito seu futuro depender de suas próprias qualidades. Seu problema não era apenas ter sua vida ameaçada. Agora ele precisava ser salvo da sua aliança com os inimigos de Deus. Durante dezesseis meses, Davi passou entre os filisteus, fazendo-os pensarem que os estava ajudando contra Israel, quando na verdade, estava atacando os inimigos de Israel e não causando nenhum dano ao povo de Deus. Esse é um dos mais negativos e desventurados episódios na vida de Davi até esta época, pois ele está engrossando as fileiras daqueles que atacarão o povo de Deus; está alistado no exército inimigo; está afirmando que está disposto a lutar contra os inimigos dos filisteus, mas em seu coração deseja exatamente o contrário disso. Isso demonstra até que ponto um filho de Deus pode descer às profundezas da mentira quando se apoia sobre o braço da carne, e não sobre a mão de Deus. Ironicamente, quando aprouve a Deus livrar Davi da armadilha em que havia caído, ele usou os filisteus como instrumento para livrar seu servo dos próprios filisteus. Deus livrou Davi de si mesmo pelas mãos dos príncipes filisteus. É veraz que os verdadeiros homens de Deus podem fracassar por um momento, mas eles não se detêm nisso. Uma convicção infundada O rei Aquis saiu em defesa de Davi, julgando que durante os dezesseis meses em que Davi esteve em Ziclague, estava batalhando as suas guerras, quando na verdade Davi estava batalhando as guerras de Israel. Aquis acreditava que Davi tinha desertado de Israel e passado para o seu lado. Essa convicção, porém, era infundada. Ao mesmo tempo que fugia de Saul, Davi estava lançando as bases para o seu futuro governo, combatendo com vigor, os inimigos de Israel. Se Davi mostrasse lealdade a Aquis, estaria lutando contra seu próprio povo. Davi estava jogando dos dois lados. Nas palavras de Richard Phillips, “se Davi lutasse as guerras filisteias contra Israel seria um apóstata”.5 Uma reação contundente Os argumentos de Aquis, defendendo Davi, não convenceram os príncipes filisteus. Ao contrário, ficaram furiosos com o rei e determinaram que Davi fosse sumariamente dispensado de acompanhá-los na guerra contra Israel. Os príncipes tinham a folha corrida das façanhas de Davi. Sabiam de sua fama em Israel. Tinham a certeza de que Davi poderia se voltar contra eles, no campo de batalha, a fim de se reconciliar com Saul. Os príncipes filisteus usaram dois argumentos. O primeiro deles foi um apelo à prudência (1Samuel 29:4).A última coisa que eles queriam quando fossem para a batalha era um grupo de israelitas armados na sua retaguarda. O segundo argumento foi baseado na história (1Samuel 29:5). Davi era um afamado guerreiro em Israel. Seu nome estava nas paradas de sucesso, nas músicas entoadas pelas mulheres israelitas. Os comandantes filisteus ficaram assaz irados com Aquis, em face de sua tamanha ingenuidade. Os príncipes não engoliram Davi. Não chegaram nem mesmo a tratá-lo pelo nome (1Samuel 29:3). Eles perguntaram: “O que estes hebreus fazem aqui?”. O termo “hebreus” era usado com desprezo por parte dos filisteus. Kevin Mellish diz que provavelmente os filisteus os viam como mercenários e vagabundos que poderiam mudar de aliança a qualquer momento.6 Ao temerem uma traição, os comandantes filisteus exigiram que o rei Aquis mandasse Davi de volta. Eles concluíram que o fugitivo poderia recuperar o favor de Saul e voltar-se contra eles no calor da batalha, mudando o curso da vitória para os israelitas (1Samuel 29:4). A reputação de Davi como um guerreiro era bem conhecida (1Samuel 29:5).7 Uma defesa sem provas Tim Chester diz que Aquis adoça a pílula, afirmando que considera Davi “leal” e pessoalmente não encontrava nada culpável no israelita (1Samuel 29:6,7), mas que eles não poderiam guerrear juntos. A ironia é que Davi não estava sendo leal. Ele tinha feito uma coisa (atacar cidades gentias) e tinha dito a Aquis que estava fazendo outra (atacar cidades israelitas (1Samuel 27:8-12).8 Em face da reação tão vigorosa dos príncipes filisteus, Aquis chamou a Davi para explanar as razões da dispensa. Ainda estava convencido de que a presença de Davi e seus homens era um reforço inestimável para os filisteus na iminente batalha. Mesmo diante das suspeitas dos príncipes, fundamentou sua defesa, reafirmando sua convicção de que Davi tinha mesmo desertado e passado para seu lado. Como a decisão dos príncipes era tão forte, a contragosto, ordenou Davi voltar e voltar em paz, pois não seria prudente gerar um conflito interno com sua liderança, no aceso da conflagração. É digno de nota que a única referência a Deus neste capítulo vem de um rei filisteu (1Samuel 29:6). Tim Chester diz que, talvez você encontre poucas referências a Deus na sua vida e talvez até mesmo poucos sinais da atuação dele. Contudo, há grande chance de que ele esteja fazendo mais na nossa vida do que agora conseguimos compreender.9 Uma resposta insincera Em três ocasiões anteriores, Davi se declarou inocente com a pergunta: “O que foi que eu fiz?” (1Samuel 17:29; 20:1; 26:18). Em todas essas ocasiões, ele era de fato inocente das acusações feitas contra ele. Nesse caso, porém, a pergunta é mais um elemento de sua dissimulação.10 A pergunta de Davi não passa de um ardil. A pergunta de Davi pode ter também o propósito de suscitar a ideia de protesto, a fim de parecer que, de fato, ele é leal aos filisteus. Afinal, se concordar muito prontamente com a avaliação dos príncipes filisteus, poderá dar a impressão de que estão certos. Outrossim, Davi pode ter tido o propósito de saber se os líderes filisteus haviam descoberto suas façanhas em Ziclague e tomar então as devidas cautelas, fugindo com seus homens para um lugar seguro, enquanto os filisteus lutam contra Israel.11 A resposta de Davi, evocando suas ações em território filisteu não passa de uma defesa infundada. Se as guerras que ele travou a partir de sua base militar em Ziclague fosse do pleno conhecimento de Aquis, ele não estaria desfrutando da confiança do rei. A declaração de Davi de que estava disposto a pelejar contra o povo de Israel, os inimigos de Aquis, era uma mentira deslavada. Davi está dissimulando. Sua boca está divorciada do seu coração. Ele fala uma coisa, mas sente outra. Concordo com Richard Phillips quando ele escreve: “Davi cometeu um erro clássico ao qual todos estamos inclinados: tentar levar uma vida dupla”.12 William MacDonald corrobora, dizendo: A resposta de Davi parece indigna de um homem de Deus. Ele lamenta não ter a permissão de entrar na guerra contra os inimigos do rei Aquis, a quem chama de senhor, mesmo que esses inimigos sejam o seu próprio povo. Davi mentiu para Aquis antes e aqui, mui provavelmente, está se esforçando para enganar os filisteus novamente.13 Tim Chester diz que Davi mantém o fingimento e simula decepção (1Samuel 29:8), mas deve ter ficado imensamente aliviado. Ele precisava escolher entre trair seu próprio povo e trair o seu hospedeiro filisteu no meio de um exército filisteu fortemente armado.14 Uma dispensa pesarosa Aquis, mais uma vez, com a voz embargada de emoção, tece os mais altos elogios a Davi, a ponto de compará-lo a um anjo de Deus, mas ao mesmo tempo declara que não pode agir na contramão dos príncipes filisteus, que decisivamente não queriam Davi entre eles na peleja. Davi é ordenado a partir com seus homens no raiar do dia. A dispensa, embora pesarosa, era peremptória. Concordo com Antônio Neves de Mesquita quando ele diz: “Foi providencial a recusa dos chefes filisteus, pois assim o livraram de tremendo constrangimento: o de pelejar contra os seus irmãos ou de ser desleal ao seu amigo filisteu”.15 Uma saída honrosa Davi escapou do beco sem saída por divina providência. Ele seria considerado traidor de sua pátria se tivesse acompanhado o exército filisteu. Sua carreira estaria arruinada. Davi e seus homens se levantaram de madrugada e partiram de volta a Ziclague, enquanto o exército filisteu marchou resolutamente para impor a Saul e a seu exército uma acachapante derrota. Kevin Mellish diz que o texto percorre uma longa distância aqui para mostrar que Davi e os filisteus se dirigiram em sentidos opostos; Davi viajou para o sul, e os filisteus foram para o norte. A nota no versículo 11 convincentemente coloca Davi longe de Jezreel, o que prova incontestavelmente que ele não teve participação na morte de Saul.16 Richard Phillips diz que da insensata incredulidade de Davi em cruzar a fronteira para a Filístia e da emaranhada rede de mentiras e concessões que resultou disso, há pelos menos duas lições para nós hoje: 1. Nossa atitude de fé ou incredulidade depende, em grande parte, de quais pensamentos cultivamos e de quais sermões pregamos ao nosso coração (1Samuel 27:1). 2. O plano de Davi de fugir para a Filístia pode ser avaliado recorrendo-se a Provérbios 14:12: “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte”. A sabedoria é sempre alcançada pela submissão aos preceitos e fundamentos da Palavra de Deus.17 Concluo este capítulo com duas lições práticas mencionadas por Robert Chisholm: 1. Quando a fé vacila diante da perseguição, por vezes os servos escolhidos do Senhor comprometem sua identidade. 2. Quando a fé vacila, os servos escolhidos pelo Senhor recorrem, por vezes, a medidas imprudentes que os colocam em situações delicadas.18 Vigiemos nosso próprio coração! 1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 462. ↵ 2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 188. ↵ 3. PURKISERA, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 227. ↵ 4. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 463. ↵ 5. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 464. ↵ 6. MELLISH Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 202. ↵ 7. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 227. ↵ 8. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 213. ↵ 9. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 213. ↵ 10. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 190. ↵ 11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 190. ↵ 12. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 464. ↵ 13. MACDONALD, William. Believer’s Bible Commentary. 1995, p. 320. ↵ 14. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 213. ↵ 15. MESQUISTA, Antônio Neves. Estudo nos livros de Samuel. 1979, p. 104. ↵ 16. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 204. ↵ 17. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 446-448. ↵ 18. CHISHOLM JR., RobertB. 1 & 2Samuel. 2017, p. 179,180. ↵ D Capítulo 11 Davi, o homem de lágrimas avi foi liberto providencialmente da situação mais constrangedora de sua vida, a dispensa do exército filisteu, mas ao chegar em Ziclague enfrenta a provação mais dura de sua jornada. Ziclague, a cidade refúgio onde estava sua família e as famílias de seus leais soldados, havia sido atacada pelos terroristas do deserto, os amalequitas. Esses nômades bandoleiros tinham queimado, ferido e saqueado a cidade. Enquanto Davi e seus homens marchavam para o norte com Aquis, os amalequitas do sul invadiram aquela região, capturaram e queimaram Ziclague, levando as mulheres e as crianças cativas, para submetê-las a uma escravidão pior do que a morte.1 Os dezesseis meses que Davi passou na Filístia trouxeram-lhe muitos problemas. Ali, entre os inimigos, sua fé arrefeceu. Precisou mentir, dissimular e depender de seus ardis para não ser desmascarado pelos filisteus. Depois da dispensa do exército filisteu e de três dias de jornada de volta a Ziclague, é confrontado com a mais sombria realidade. A cidade está fumegando. O rastro de destruição deixado pelos amalequitas deixa Davi e seus homens atônitos. Estão enfrentando o pior dos pesadelos. Seus bens foram roubados e suas respectivas famílias eram prisioneiras nas mãos do inimigo. Joyce Baldwin afirma que esse foi o ápice dos ataques cruéis dos inimigos ao longo de seu período de preparação para o trono.2 O ataque dos amalequitas A distância entre Afeque, ao norte, e Ziclague, ao sul, não poderia ser percorrida rapidamente. Uma jornada de três dias separava Davi dos filisteus. Além do mais, o monte Gilboa, o cenário da última batalha de Saul, ficava a mais de cinquenta e cinco quilômetros ao nordeste de Afeque. Davi estava, portanto, bem distante dos filisteus e ainda mais longe da cena da última luta de Saul. A implicação é clara: Davi não ajudou os filisteus na batalha contra os israelitas nem teve sua mão envolvida na morte de Saul. Essa guerra é um retrato da batalha espiritual que travamos contra as forças espirituais do mal. Não vivemos em território pacificado. O mundo jaz no maligno. Hordas demoníacas nos espreitam. O ataque dos amalequitas pode ser caracterizado da seguinte forma: 1. Um ataque implacável (1Samuel 30:1). Os amalequitas, aproveitando a ausência de Davi e de seus valentes em Ziclague, entraram na cidade e atacaram-na com ímpeto. Foi um ataque repentino, fulminante e arrasador. Assim também é o ataque do diabo e de suas hostes. O inimigo é maligno, cruel e assassino. Ele vem para roubar, matar e destruir. Há muitas pessoas arrasadas pelo ataque perverso desse inimigo cruel. Certa feita, eu estava pregando em Vitória, capital do Espírito Santo. Enquanto pregava, uma mulher chorava copiosamente. Ao término da mensagem, perguntei a ela o que estava acontecendo. Respondeu-me: “O diabo destruiu a minha vida”. “O que isso significa?”, indaguei. Ela me disse: “Eu tinha uma família. Um dia acordei assustada com o grito de meus dois filhos. Ao pular da cama, percebi que meu marido não estava do meu lado. Corri para a porta do quarto dos filhos; a porta estava trancada. Bati e a porta não se abriu. Arrombei a porta e me deparei com um quadro horrível. Meu marido estava apunhalando os meus filhos. Quando entrei no quarto, ele enterrou a faca no próprio peito e caiu ensanguentado sobre os corpos de meus filhos”. Com dor na alma, ela me disse: “Pastor, eu levei toda a minha família para o cemitério”. Há muitas pessoas que, ainda hoje, sofrem esse ataque implacável do inimigo. 2. Um ataque desumano (1Samuel 30:1). Os amalequitas queimaram e feriram a cidade, deixando-a completamente arrasada e deserta. Eles queimaram edifícios e feriram pessoas. Há aqui tanto prejuízo financeiro quanto agressão física. Há muitas pessoas hoje, de igual modo, que estão sendo feridas pelo inimigo. Estão feridas no corpo, na mente, nas emoções, na alma. Eu estava pregando em um congresso, em Patrocínio, Minas Gerais, e uma jovem senhora sorridente que cuidava da recepção, depois de ouvir minha primeira palestra, me procurou. Olhando nos meus olhos, ela me perguntou: “Você está vendo este belo sorriso que eu tenho?”.: “Sim, claro! É impossível não ver”, respondi. Ela então me disse: “Este sorriso é uma mentira. Por trás deste sorriso eu escondo uma alma ferida”. Havia muitas pessoas feridas e sangrando debaixo da fumaceira provocada pelos amalequitas. 3. Um ataque à família (1Samuel 30:2,3,5). Os amalequitas atacaram principalmente a família. Este é o alvo principal do inimigo. Nenhum marido pode estar bem, sabendo que sua mulher está nas mãos do inimigo. Nenhum pai e nenhuma mãe podem estar em paz, sabendo que seus filhos estão prisioneiros nas mãos do inimigo. Quando a família é atingida, todas as outras áreas da vida são afetadas. Há muitos cônjuges prisioneiros hoje. Prisioneiros do álcool, das drogas, da pornografia, das filosofias ateístas. Há muitos filhos nas mãos do inimigo. 4. Um conflito interno (1Samuel 30:6). Uma das artimanhas do inimigo é provocar um estrago no arraial dos filhos de Deus e depois jogar uns contra os outros. Os homens de Davi estão colocando a culpa desse desastre nas costas dele, considerando-o responsável pela catástrofe. Então eles lançam contra Davi toda a raiva e indignação reprimidas. Os aliados de Davi, angustiados por causa de seus filhos e filhas, querem apedrejá-lo, assim como os israelitas quiseram apedrejar Moisés antes de uma vitória sobre os amalequitas (Êxodo 17:4). Em vez de se aliarem a Davi para enfrentarem o inimigo, estão fazendo de Davi o inimigo. Quando transformamos aliados em inimigos, fazemos dos inimigos aliados. É oportuno o destaque de Joyce Baldwin: “Em vez de culpar Deus por permitir a destruição da cidade, Davi considerou a retaliação dos amalequitas um fato da vida, em que ele poderia lançar mão dos recursos do Senhor fiel, do Deus da aliança”.3 5. Uma celebração pela vitória (1Samuel 30:16). Os amalequitas estão festejando a retumbante vitória alcançada sobre os filhos Deus. Estão comendo, bebendo e farreando. O inimigo sempre celebra quando consegue uma vantagem sobre os filhos de Deus. Isso aconteceu depois do incêndio de Ziclague e da tomada dos despojos. A reação de Davi Diante das tragédias da vida, é preciso tomar uma atitude. E quais foram as atitudes de Davi? Como ele reagiu a esse drama? 1. Davi chorou copiosamente (1Samuel 30:4). Davi havia chegado ao limite de seus recursos. Esse golpe não foi demais apenas para Davi, mas também foi a última gota para seus homens exaustos. Davi e seus homens desataram a chorar e choraram até não terem mais forças para fazê-lo. Quem chora está dizendo que algo está errado. Quem chora não se conforma com o caos. Quem chora está deixando vazar sua dor. Davi não chora escondido, mas em público, para todo mundo ver. É preciso chorar pela nossa família, pelos nossos filhos. Tim Cimbala é um reconhecido pastor batista no Brooklin, em Nova York. Seu ministério frutífero é conhecido em todos os Estados Unidos e fora dele. Certo dia, sua filha primogênita disse-lhe: “Papai, eu vou sair de casa. Quero conhecer o que o mundo tem para me oferecer. Não quero mais saber da igreja. Vou viver minha vida”. Por mais que o pai insistisse, ela saiu de casa. Um pastor amigo telefonou para ele e disse: “Pastor, esqueça essa menina. Ela não está nem aí para você. Toque a sua vida e o seu ministério”. Mas quem pode esquecer-se um filho ou uma filha? O pastor Tim Cimbala pensou até mesmo em abandonar o ministério, pois não tinha ânimo para prosseguir. No entanto, em uma das reuniões de oração da igreja, uma mulher se levantou e disse: “Pastor, a nossa igreja nunca chorou pela sua filha. Nossa igreja nunca levantou um clamor em favor de sua filha”. Naquela noite, os crentes deram as mãos e fizeram um grande círculo de oração ao redor dos bancos. O templo transformou-se em uma sala de parto, em um lugar de choro, gemidos e lágrimas. Quando o pastor voltou para casa de madrugada, disseà sua esposa: “Querida, eu não tenho dúvidas de que Deus salvou nossa filha nesta madrugada”. Três dias depois, bem cedo, a menina bateu à porta. Quando a mãe foi atender, ela entrou rapidamente, abraçou as pernas do pai em lágrimas e disse-lhe: “Papai, o que aconteceu há três dias pela madrugada? Estava dormindo, quando fui sacudida pelo poder de Deus. Escamas caíram dos meus olhos. Eu estava embrutecida, mas Jesus quebrou a dureza do meu coração. Papai, estou de volta para minha família, para a minha igreja, para o meu Deus”. Jamais devemos desistir de nossos filhos. Não geramos filhos para o cativeiro. Nossos filhos são herança de Deus. É preciso chorar e orar por eles até vê-los aos pés do Salvador. 2. Davi se angustiou (1Samuel 30:6). Davi sentiu-se amassado como o barro nas mãos do oleiro. Nas palavras de Warren Wiersbe, “o verbo angustiou significa que foi espremido contra um canto, da mesma forma que um oleiro aperta a argila dentro de um molde”.4 Sua alma foi cravejada pelas setas da angústia ao ver a cidade queimada, os rebanhos roubados, as mulheres cativas e os filhos e as filhas levados como escravos. Os dramas da vida devem também nos fazer sofrer e nos angustiar. Não podemos nos conformar com a derrota nem aceitar passivamente a decretação do fracasso em nossa família. 3. Davi se reanimou no Senhor (1Samuel 30:6). A angústia de Davi não o puxou para baixo, mas o levantou. Levou-o a buscar a Deus. A despeito das circunstâncias, ele se reanimou no Senhor, seu Deus. Richard Phillips diz que, antes de controlar seus homens, Davi tinha de controlar a si mesmo. Seu longo surto de autoconfiança o havia levado à beira da morte, então era hora de abandonar seu programa de salvar si mesmo. Nesse momento de total desespero, Davi fez uma coisa muito necessária: reanimou-se no Senhor. Se anteriormente ele havia recorrido aos seus próprios recursos, virtualmente sem orar e sem recorrer à Palavra de Deus, agora ele se afasta de sua própria força e se dedica ao Senhor.5 Davi se reanimou não porque era forte, não porque o inimigo era fraco, não porque seus soldados estavam ao seu lado, não porque tinha uma estratégia infalível; ele verdadeiramente se reanimou no Senhor, seu Deus. Do alto vem o socorro. Não se trata aqui de autoajuda, mas da ajuda do alto. Concordo com Tim Chester quando ele diz: No versículo 4, Davi não tinha mais forças por causa de sua tristeza. Mas onde a força de Davi falha, a força de Deus prevalece. [...] O resultado é que o medo se transforma em fé e a dor se transforma em louvor.6 4. Davi consultou ao Senhor (1Samuel 30:7,8). Davi não se reanimou com bravatas humanas, mas reanimou-se para conhecer a direção divina. Ele buscou a Deus, e este o atendeu. Ele orou ao Senhor, e este o ouviu. A oração que Davi fez naquela ocasião é uma das mais curtas da Bíblia. Constitui-se apenas de duas perguntas: “Perseguirei eu o bando? Alcançá- lo-ei?”. Deus respondeu à oração de modo favorável. Vemos aqui um contraste entre Saul e Davi. Saul consultou ao Senhor, mas o Senhor não lhe respondeu. Davi consultou ao Senhor, e o Senhor o atendeu. Deus não só ordenou que Davi fosse à guerra, dando-lhe o sinal verde para o ataque, mas, de forma inequívoca, garantiu-lhe o sucesso nesse empreendimento. 5. Davi agiu (1Samuel 30:9,10). Davi não só orou, mas também obedeceu. Sob a ordem do Senhor para perseguir o inimigo e tomar de volta o que ele havia levado, Davi partiu. Sua liderança reverteu a situação. Seus soldados já não querem mais apedrejá-lo. Estão todos marchando, sob a liderança de Davi, para triunfarem sobre o inimigo. O que Deus promete é vitória certa, e não ausência de luta; é chegada segura, e não caminhada fácil. Duzentos homens, de cansados e exauridos que estavam, não puderam atravessar o ribeiro de Besor e prosseguir na batalha. Então, ficaram na base, tomando conta da bagagem enquanto os demais prosseguiram com Davi rumo à vitória. 6. Davi recebeu ajuda providencial (1Samuel 30:11-16). Por divina providência, os soldados de Davi encontram um egípcio, que em virtude de sua doença, fora abandonado pelos amalequitas para morrer no deserto. O homem foi alimentado e reanimado pelos homens de Davi. Depois de assegurar para si proteção e imunidade, guiou o exército de Davi até os amalequitas. Aquele homem poderia ter morrido no deserto, mas Deus o preservou por amor a seu servo Davi. Graças ao guia egípcio, Davi e seus homens encontraram o acampamento dos amalequitas e, parados em algum ponto de observação, contemplaram a festa desenfreada, que se estendia até onde seus olhos podiam enxergar. A vitória de Davi sobre os amalequitas Destacamos dois pontos importantes aqui: 1. Davi venceu o inimigo (1Samuel 30:17). A vitória de Davi sobre os amalequitas foi arrasadora. Davi os massacrou desde a alvorada do dia até a tarde do dia seguinte. Exceto quatrocentos moços que fugiram montados em camelos, todos os demais foram mortos. Davi então recuperou todos os despojos e, o mais importante, resgatou as pessoas cativas. Deus mudou o placar do jogo. Deus virou a mesa da história. A tragédia transformou-se em triunfo. Agora a honra pertence a Davi, assim como um pouco antes ele fora obrigado a receber a culpa. Os verbos reiteram sua bravura: Feriu-os Davi... Davi salvou tudo... também salvou... tudo Davi tornou a trazer... também Davi tomou todas as ovelhas e o gado. 2. Davi tomou de volta o que o inimigo levou (1Samuel 30:18-20). Vemos aqui uma reviravolta completa. Davi salvou tudo o que os amalequitas haviam tomado. Recuperou os bois, as ovelhas, as coisas grandes, as coisas pequenas, e ainda salvou as mulheres, os filhos e as filhas. Nada ficou nas mãos do inimigo. Tudo Davi tomou de volta e tornou a trazer. A vitória não foi apenas completa, mas também lucrativa para Davi, pois tomou riquezas e despojos dos amalequitas para si. Com essa retumbante vitória, as peregrinações de Davi pelo deserto haviam terminado. A conduta graciosa de Davi A questão dos despojos domina o restante do capítulo. Vejamos: 1. O valor da cordialidade (1Samuel 30:21,22). Quando Davi chegou aos duzentos homens cansados que ficaram na base, guardando as bagagens, saudou-os com cordialidade, demonstrando amor e simpatia para com eles. Contudo, alguns de seus homens, chamados de filhos de Belial, foram hostis aos que ficaram para trás, sendo contrários à ideia de repartir com eles os despojos de guerra. Na opinião desses homens, os que ficaram na base deveriam apenas tomar suas mulheres e filhos e partirem. Davi, porém, exerceu sua prerrogativa e não permitiu que a avareza desses homens prevalecesse. 2. O reconhecimento da graça (1Samuel 30:23). Davi resistiu fortemente aos filhos de Belial e saiu em defesa dos duzentos que tinham ficado no ribeiro de Besor, dizendo que aqueles que haviam ficado na base tinham os mesmos direitos daqueles que estavam na linha de frente. Aqueles que seguram as cordas merecem o mesmo tratamento daqueles que descem ao poço. O argumento de Davi foi baseado na graça de Deus. A vitória não tinha sido resultado do esforço humano, mas da graça divina. Foi o Senhor quem os guardou. Foi o Senhor quem entregou em suas mãos os amalequitas. É digno de nota, porém, que Davi tratou os maus filhos de Belial entre os homens de seu exército (1Samuel 30:22) com brandura, chamando-os de “irmãos meus” (1Samuel 30:23). A graça de Deus produziu nele um espírito conciliador e pacificador. Davi não os repreende severamente nem os insulta, mas dirige-se a eles graciosamente como seus irmãos. Esse é o mesmo princípio ensinado pelo apóstolo Paulo: “Não repreendas ao homem idoso; antes, exorta-o como a pai; aos moços, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda pureza” (1Timóteo 5:1,2). Matthew Henry capta o sentido dessa verdade ao escrever: “Os superiores frequentemente perdem sua autoridade por arrogância, mas raramente por cortesia e condescendência”.7 3. A importância da valorização de todos (1Samuel 30:24,25). Além de Davi de ter exercido sua prerrogativade líder, ele requereu igualdade de privilégios para todos os homens, tanto os de vanguarda quanto os que ficaram na retaguarda, estabelecendo esse princípio como regra perpétua. Esse princípio tornou-se a prática comum, um precedente legal. Ao fazer isso, Davi promulgou uma regra de distribuição de despojos que faz lembrar a legislação encontrada em Deuteronômio 20:14. Embora Davi ainda não seja rei, já desempenha seu papel de líder imbuído de autoridade, e, com isso, prefigura sua ascensão ao trono. 1. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 227. ↵ 2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 187. ↵ 3. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 187. ↵ 4. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 281. ↵ 5. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 476. ↵ 6. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 214. ↵ 7. HENRY, Matthew. Commentary on the whole Bible. Vol. 6, p. 345. ↵ 2S Capítulo 12 Davi, o rei de Israel amuel 2:1-32 retrata com cores vivas o caminho de Davi rumo ao trono. No entanto, esse caminho está manchado de sangue e Davi ainda enfrentará oposição e resistência. Davi, ungido rei em Hebrom O tempo de vassalagem de Davi entre os filisteus tinha terminado com a morte de Saul. Davi não celebra a morte de Saul, mesmo sabendo que, agora, o caminho para o trono está aberto. Ele reconhece que o tempo de perseguição cessou e espera o tempo oportuno de Deus para subir ao trono. Destacamos aqui quatro fatos relevantes: 1. Davi inaugura o reino, consultando ao Senhor (2Samuel 2:1). Passados os lamentos pela morte de Saul, de seus filhos e dos soldados de Israel, Davi consulta ao Senhor acerca de sua volta para alguma das cidades de Judá. O Senhor não apenas lhe responde favoravelmente, como também lhe aponta a cidade para a qual deve voltar, a cidade de Hebrom, a mais importante cidade de Judá, onde havia morado o patriarca Abraão e onde Abraão, Sara, Isaque, Rebeca, Lia e Jacó foram sepultados. 2. Davi sobe para Hebrom (2Samuel 2:2,3). Davi volta, então, com suas duas mulheres e com todos os seus valentes e respectivas famílias para Hebrom e cidades satélites. 3. Davi é ungido rei de Judá em Hebrom (2Samuel 2:4a). Ao chegar em Hebrom, os homens de Judá vieram e ungiram Davi rei sobre a casa de Judá. Essa é a segunda vez que Davi está sendo ungido e a primeira vez que recebe o nome de rei. 4. Davi busca estender o reino com amável apelo aos valentes de Jabes-Gileade (1Samuel 2:4b-7). Ao ser ungido rei da casa de Judá, Davi é informado sobre o ato heroico dos homens de Jabes-Gileade, que, corajosamente, tiraram os corpos profanados de Saul e de seus filhos pregados no muro de Bete-Seã, dando-lhes um sepultamento digno. Três atitudes de Davi devem ser destacadas aqui: Primeira, a gratidão de Davi (2Samuel 2:5b). Davi, em um preito de gratidão, bendiz os homens valentes de Jabes-Gileade pela maneira honrosa como trataram os corpos de Saul e seus filhos. Esse gesto de Davi revela sua grandeza. Segunda, a proposta de Davi (2Samuel 2:6). Davi roga a misericórdia de Deus sobre os homens de Jabes-Gileade e promete recompensá-los pelo bem que fizeram à casa de Saul. Terceira, o convite de Davi (2Samuel 2:7). Davi convida os valentes que haviam sido fiéis a Saul para se unirem a ele, uma vez que Saul estava morto e ele, Davi, tinha acabado de ser ungido rei sobre Judá. O narrador não deixa claro qual foi a resposta dos moradores de Jabes-Gileade, mas, como eles jamais se esqueceram do bem que Saul fizera a eles no passado, é provável que tenham permanecido fiéis a Isbosete, filho de Saul e rei rival. Abner constitui Isbosete rei sobre Israel Abner, primo de Saul e comandante de seu exército, por interesse pessoal e contra o projeto de Deus que havia constituído Davi como rei, opõe-se a Davi e constitui Isbosete como rei das tribos do norte. Destacamos aqui cinco fatos: 1. Abner se opõe ao reino de Davi, estabelecendo um rei rival (2Samuel 2:8- 11). Como Jônatas, o herdeiro do trono, morreu no campo de batalha, Abner, capitão de exército de Saul, tomou Isbosete, filho de Saul, e o fez passar a Maanaim e o constituiu um rei rival a Davi. Isbosete tinha quarenta anos e reinou dois anos. Somente a casa de Judá seguia a Davi, que reinou sete anos e seis meses em Hebrom. 2. Abner desafia o exército de Davi (2Samuel 2:12-17). Abner tinha a maioria, mas não a promessa. Tinha o aval da maioria da população de Israel, mas não a bênção de Deus. Sua oposição não foi apenas a Davi, mas ao Senhor, quem constituiu Davi como rei sobre Israel. Abner saiu com os homens de Isbosete de Maanaim até Gibeom; e Joabe, comandante das tropas de Davi e filho de Zeruia, irmã de Davi, também saiu com os homens de Davi e pararam perto do açude de Gibeom. Estavam apostos os dois exércitos, um defronte do outro. Abner, então, desafia Joabe propondo um enfrentamento de dois grupos de elite, como outrora Golias desafiou o exército de Israel. Doze homens de cada lado travaram uma sangrenta peleja e o resultado foi um empate, com a morte de todos os vinte e quatro soldados. Por isso, o nome do local foi batizado de “Campo das Espadas”. Esse embate sangrento não fez cessar a guerra, pelo contrário, seguiu-se crua peleja naquele dia, sendo Abner e os homens de Israel derrotados diante dos homens de Davi. 3. Abner mata Asael, sobrinho de Davi (2Samuel 2:18-23). Os três filhos de Zeruia, Joabe, Abisai e Asael, estavam no campo de batalha. O mais jovem, Asael era ligeiro de pés, como uma gazela selvagem. Este, por ordem de Joabe ou por conta própria, perseguiu Abner com determinação inabalável. Asael tinha velocidade, mas Abner tinha a experiência. Asael tinha a agilidade dos pés, mas Abner tinha a agilidade da espada. Abner por duas vezes tentou demover Asael de acossá-lo, no que não logrou êxito. Abner sabia que ao matar Asael teria de encarar a face de Joabe, comandante das tropas de Davi. Ele sabia que isso abriria uma ferida incurável e alimentaria uma guerra. Quando Abner viu que não conseguia convencer Asael, parou repentinamente com sua espada apontada para Asael que, sem conseguir parar, foi atravessado pela espada de Abner e caiu morto. 4. Abner pede uma trégua na batalha (2Samuel 2:24-30). Longe se serem intimidados pela morte de Asael, Joabe e Abisai continuaram a perseguição. Os filhos de Benjamim, porém, ajuntaram-se atrás de Abner e, cerrados em uma tropa, puseram-se no cume de um monte. Abner do topo do outeiro gritou a Joabe, propondo uma trégua na guerra sangrenta. Joabe atendeu ao pedido de Abner, tocou a trombeta e a peleja cessou. Abner voltou com seus homens para Maanaim, e Joabe retornou a Hebrom, passando antes por Belém, onde sepultou seu irmão Asael. 5. Abner é derrotado pelo exército de Davi (2Samuel 2:31-3:1). A guerra proposta por Abner custou-lhe um alto preço. Mais tarde, Joabe matou Abner, vingando seu irmão. Enquanto apenas vinte homens de Davi, incluindo Asael, morreram no combate (2Samuel 2:30), trezentos e sessenta homens de Abner morreram no campo de batalha. A guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi durou muito tempo, porém Davi se ia fortalecendo, enquanto os da casa de Saul se iam enfraquecendo (2Samuel 3:1). Dale Ralph Davis tem razão em dizer que Abner não está longe de cada um de nós. Nós temos a mesma natureza de Abner. A estupidez do pecado de Abner também habita em nós. É possível conhecer a verdade e não a abraçar. É possível saber a verdade e atacá-la.1 Isbosete se indispõe com Abner Vale destacar que enquanto oficialmente servia a Isbosete, Abner fortalecia sua própria posição política, uma vez que via a balança pendendo para o lado da família de Davi. A desavença entre Isbosete e Abner trouxe vantagem e dividendos políticos a Davi. Destacamos aqui dois fatos: 1. A acusação de Isbosete (2Samuel 3:6,7). Abner, o comandante da casa de Isbosete, é mais forte do que o rei. Na verdade, como bem destaca Purkiser: “O domínio por trásdo trono de Isbosete era o seu comandante militar Abner”.2 Tentando se fortalecer, o jovem rei, de forma insensata, acusa Abner de ter se deitado com Rispa, concubina de Saul, seu pai. Esse não era apenas um ato de infidelidade conjugal, mas sobretudo, um ato político. Deitar-se com a mulher ou concubina de um rei sinalizava o maior gesto de conspiração para tomar-lhe a coroa e assumir o reino. A acusação de Isbosete era equivalente a dizer que Abner havia cometido um crime de traição à pátria. O narrador não esclarece se Abner era culpado dessa acusação. A julgar pela sua reação, ele parecia ser era inocente. Por essa causa, esse fato ensejou que Abner abandonasse as fileiras de Isbosete, procurando fazer aliança com Davi. Nas palavras de Kevin Mellish, “a ingratidão de Isbosete, juntamente com sua pergunta acusadora, provou ser a última gota para Abner”.3 2. A indignação de Abner (2Samuel 3:8-11). Abner ficou muito indignado com a acusação de Isbosete e insinuou que o rei das tribos do Norte devia sua posição à lealdade dele à casa de Saul. Abner sentiu-se desvalorizado pelo fraco rei e aproveitou o momento para desertar de sua casa, prometendo usar o mesmo empenho que usara para defender a casa de Saul para transferir o reino da casa de Saul e estabelecer o trono de Davi sobre Israel e Judá, desde Dã, ao norte, até Berseba, ao sul. Como represália, Abner transferiu sua lealdade da casa de Saul para a de Davi, cumprindo assim o que jurou o Senhor a Davi. O mesmo Abner que se opusera ao propósito revelado de Deus, agora vê-se engajado nesse propósito. Isbosete não pôde dizer nada a Abner, pois tinha medo dele. Na verdade, sem o apoio de Abner, Isbosete torna-se um mero fantoche, incapaz de se opor ao seu general. Abner faz aliança com Davi Robert Chisholm diz que Abner é mais um entre outros personagens da narrativa que reconheceram o destino de Davi como rei (2Samuel 3:18), ao lado de Jônatas (1Samuel 23:17), Saul (1Samuel 24:20) e Abigail (1Coríntios 25:28-30).4 Concordo, entretanto, com Dale Ralph Davis ele quando diz que Abner não toma essa decisão governado por convicções teológicas, mas sim por interesses políticos. Ele não procura expandir o reino de Davi porque sente a autoridade das promessas do Senhor; na verdade, ele procura vantagem própria.5 Usando sua influência para negociar a união das tribos do norte a Davi, Abner sairia dessa aliança fortalecido. Não era o amor ao Senhor que o motivava, mas sua própria posição dentro do crescente governo de Davi. Abner, estrategicamente, ficou do lado do vencedor. Deixou as fileiras do rei Isbosete parar engrossar as fileiras do rei Davi. Vejamos: 1. Abner propõe fazer aliança com Davi (2Samuel 3:12). Abner enviou mensageiros a Davi para propor uma aliança com ele e prometer ajudá-lo no ajuntamento de todo o Israel sob o seu reinado, desde o Norte até ao Sul. Davi aceita a proposta da aliança de Abner e estabelece uma condição (2Samuel 3:13-16). Ele quer de volta Mical, sua mulher, filha de Saul, pela qual havia lutado (1Samuel 18:27). O propósito de Davi não é romântico, mas político. Davi quer, com sua mulher de volta, fortalecer seu vínculo com a casa de Saul e reivindicar legitimamente o reino. Essa foi uma manobra política sagaz de Davi, pois a presença da filha de Saul como sua esposa o colocaria em uma posição bastante forte para postular o trono de Saul junto às tribos do norte. 2. Abner cumpriu o trato com Davi e reuniu os anciãos de Israel, trazendo à memória deles três razões pelas quais deveriam apoiar o governo de Davi. A primeira razão é que já havia um desejo dos anciãos de Israel que Davi reinasse sobre eles (2Samuel 3:17b). A segunda razão é que o motivo pelo qual Saul foi constituído rei, ou seja, libertar Israel do poder dos filisteus e de seus demais inimigos havia fracassado rotundamente. No entanto, sob o governo de Davi, os filisteus e os demais inimigos de Israel seriam completamente derrotados (2Samuel 3:18). A terceira razão é que Abner, estrategicamente, falou em particular à tribo de Benjamim, à qual Saul pertencia, demonstrando habilidade diplomática (2Samuel 3:19). Tendo obtido um acordo unânime, Abner estava pronto a ir ao encontro de Davi. Abner e uma delegação de mais vinte de seus homens foram a Hebrom falar com Davi e foram recebidos com fidalguia. Davi ofereceu-lhes hospitalidade régia, preparando-lhes um banquete. Abner, como um líder catalizador, declarou: “Eu me levantarei e irei ajuntar todo o Israel ao rei, meu senhor, para fazerem aliança com o rei. E, meu senhor, reinará sobre tudo o que quiser” (2Samuel 3:21a). É digno de nota que, nesse mesmo capítulo, Davi será chamado “o rei” em outras oito ocasiões; sete delas pelo narrador (2Samuel 3:24,31-33,36-38); no versículo 23, “o rei” aparece em uma citação indireta. O rei Davi, convencido então da lealdade de Abner, deixou que partisse em paz e segurança (2Samuel 3:21b). Abner é assassinado por Joabe Alguns membros da corte, no entanto, ficaram insatisfeitos com a aliança de Davi com Abner. Surgiu, então, um grupo de oposição liderado por Joabe. Ele não apenas buscava vingança contra Abner, eliminando um possível concorrente, mas também defendia sua liderança e posição como o homem mais forte do reino de Davi. A calorosa e amigável recepção de Abner e sua comitiva em Hebrom aconteceu quando Joabe e os servos de Davi vieram de uma investida trazendo consigo grande despojo. Quando Joabe chegou com toda a tropa e soube do tratamento real com que Abner fora recebido, tendo em seguida partido em paz, foi falar com o rei Davi, reprovando sua atitude e advertindo-o de que Abner havia vindo para enganá-lo, para bisbilhotar seus movimentos e sondar seus planos. Joabe tacitamente acusa Davi de ingênuo e simplório. Sem que Davi soubesse, traiçoeiramente, Joabe enviou mensageiros atrás de Abner e eles o trouxeram de volta a Hebrom. Então, Joabe o levou para um lado, no interior do portão da cidade, para lhe falar em segredo, e ali covardemente o feriu no abdômen e o matou a sangue frio. Ao tomar conhecimento da morte covarde e traiçoeira de Abner pelas mãos de Joabe e Abisai, Davi proclama a própria inocência e a inocência de seu reino diante do Senhor, para sempre, do sangue de Abner, filho de Ner (2Samuel 3:28). Após essa declaração pública de inocência, Davi amaldiçoa a Joabe e sua família, com as seguintes palavras: “Que este sangue caia sobre a cabeça de Joabe e sobre toda a casa de seu pai! Que nunca falte na casa de Joabe quem tenha corrimento, quem seja leproso, quem se apoie em muleta, quem caia à espada, quem necessite de pão” (2Samuel 3:29). Joyce Baldwin esclarece: A maldição que Davi invoca sobre a casa de Joabe, bem como sobre o próprio Joabe, é assustadora: quem tenha fluxo estaria perpetuamente impuro e, portanto, proibido de adorar (Levítico 15:2), como também aconteceria com o leproso. “Homens que trabalhem na roca” (BJ) implica uma deficiência física que exigia uma ocupação sedentária (veja BLH; cf. quem se apoie em muleta, ARA). Essas cinco aflições seriam sinais do justo juízo do Senhor sobre o ato de Joabe, e as gerações futuras observariam como a maldição se cumpriu.6 Davi assume o posto de chefe da nação e com autoridade ordena Joabe, o próprio assassino, e a todo o povo, a rasgar suas roupas, a vestirem-se de pano de saco e a lamentarem a morte de Abner. Nas palavras de Joyce Baldwin, “Davi colocou Joabe no seu devido lugar ao lhe dar ordens para que participasse do luto oficial por Abner”.7 Durante o cortejo fúnebre, o próprio Davi ia seguindo o caixão. Abner foi sepultado em Hebrom. No funeral desse grande comandante, Davi e todo o povo choraram. Davi, dirigindo-se a seus servos, reafirmou seu grande apreço por Abner com palavras lapidares: “Saibam que hoje caiu em Israel um príncipe e um grande homem” (2Samuel 3:38). E acrescentou: “Hoje sou fraco, embora ungido rei. Esses homens, os filhos de Zeruia, são mais fortes do que eu. Que o Senhor retribua ao que fez esse mal como ele merece” (2Samuel 3:39). A mortede Abner abalou Isbosete e todo o seu reino. Se com Abner vivo, a casa de Saul ia se enfraquecendo e a casa de Davi se fortalecendo, com Abner morto, não havia qualquer esperança de se virar esse placar. Nas palavras de Joyce Baldwin, “assim que Abner morreu, acabou rapidamente o fim da resistência ao domínio de Davi”.8 Ronald Youngblood corrobora: “A morte de Abner deixou um vácuo de poder nas tribos do norte”.9 Na verdade, Isbosete era apenas um fantoche. Por trás da pompa real, quem governava era Abner. Ele era o homem forte das tribos do norte. Sem ele, Isbosete não tinha liderança, nem força, nem estratégia para enfrentar Davi e seu exército. As mãos de Isbosete se afrouxaram, o ânimo do povo de Israel se abateu e entrou em colapso. A morte de Isbosete Não tardou para que Isbosete fosse assassinado pelos benjamitas Baaná e Recabe, dois capitães de sua tropa. Com a morte de Isbosete, o último descendente da dinastia de Saul, Mefibosete, filho de Jônatas, era jovem demais e aleijado de ambos os pés, e, portanto, um candidato improvável ao trono. Sua idade e suas incapacidades físicas o impediam de ir à guerra e de ser um candidato apto ao trono. O caminho para o trono está aberto e não foi aberto por Davi. A morte de Saul, Abner e Isbosete aconteceu à margem do conhecimento e da participação de Davi. Aliás, ele penalizou a todos quantos estiveram envolvidos nesses crimes hediondos. Davi é ungido rei sobre Israel Depois de sete anos e meio de reinado em Hebrom, sobre Judá, agora Davi ascende ao trono de Israel, como rei sobre todas as tribos de Israel. Não foi Davi quem foi às tribos do Norte, mas todas elas vieram a ele em Hebrom. As tribos do norte, provavelmente, por intermédio dos anciãos, seus legítimos representantes, vieram a Hebrom e aceitaram as condições da aliança de Davi e o ungiram rei sobre Israel. Eles usaram três argumentos para se submeterem a Davi como rei: (1) os laços de parentesco são fortes. Esse é o argumento do relacionamento (Deuteronômio 17:15). Eles disseram: “Somos do mesmo povo que és tu” (2Samuel 5:1). Assim, eles estão declarando os laços comuns de nacionalidade e parentesco; (2) Davi já havia se revelado um líder militar sob as ordens de Saul. Aqui o argumento é liderança. Disseram: “sendo Saul ainda rei sobre nós, eras tu que fazias entradas e saídas militares em Israel” (2Samuel 5:2); (3) Davi contava com a aprovação de Deus. Aqui, o argumento é a promessa de Deus. Citaram para Davi o que o Senhor havia lhe dito: “Tu apascentarás o meu povo Israel e serás chefe sobre Israel” (2Samuel 5:2b). Assim, todos os anciãos de Israel vieram a ter com o rei Davi em Hebrom, e o rei Davi fez com eles aliança. A aliança foi estabelecida com base no modelo do “pastor”, que resguardava contra a opressão comumente associada à monarquia (1Samuel 8:10-18), mas da parte do povo assegurava seu apoio leal. É digno de nota que Davi era da tribo de Judá (Gênesis 49:10), nascido e criado em Belém. Graças a isso, pôde fundar a dinastia que trouxe ao mundo Jesus Cristo, o Messias, que também nasceu em Belém.10 Firmada a aliança entre Davi e os anciãos de Israel, ele passaria a ser o rei sobre todas as tribos de Israel. Como ato simbólico, ungiram Davi rei sobre Israel. Essa é, na verdade, a terceira vez que Davi é ungido rei de Israel (2Samuel 5:3b). A primeira unção deu-se em Belém, quando o profeta Samuel ungiu Davi em lugar de Saul (1Samuel 16:1,13). A segunda unção ocorreu em Hebrom, pelos homens de Judá (2Samuel 2:4). A primeira unção não levou Davi ao trono, mas matriculou-o na escola do quebrantamento; a segunda unção, ocorreu no início de uma guerra civil, quando Davi reinou apenas sobre a tribo de Judá; mas a terceira unção ocorre quando Davi assume o trono sobre todo Israel. A terceira unção de Davi marcou o fim de uma longa e paciente espera do tempo do Senhor, bem como o início do trabalho que absorveria a vida de Davi e para o qual fora ungido muitos anos antes (1Samuel 16:6-13). Davi, como símbolo de Cristo, começa a reinar com trinta anos (a mesma idade com que Jesus deu início ao seu ministério). Reinou sete anos e meio em Hebrom e trinta e três anos em Jerusalém, perfazendo um período de quarenta anos. A conquista de Jerusalém Na conquista inicial da terra, os homens de Judá derrotaram e queimaram Jerusalém ( Juízes 1:8), mas nem os judaítas, nem os benjamitas conseguiram assumir o controle total da cidade ( Josué 15:63; Juízes 1:21). Os jebuseus, povo cananeu que os israelitas deveriam ter destruído (Deuteronômio 7:1,2; 20:17), permaneceram entrincheirados na cidade, certos de que ninguém conseguiria tomar deles sua posição altamente fortificada. A conquista de Jerusalém e a derrota dos jebuseus são um marco importante no cumprimento da promessa divina feita a Abraão (Gênesis 15:18-21). Mais de oitocentos anos se passaram desde os dias de Abraão até Davi, mas a promessa de Deus não falhou. O tempo não pode caducar as promessas de Deus. De fato, pertencemos a um reino inabalável (Hebreus 12:28). Ninguém pode anular as promessas de Deus, nem qualquer inimigo pode sabotá-las. Nas palavras de Dale Ralph Davis, “as promessas de Deus podem ser antigas ou atacadas, mas jamais falham”.11 Aclamado como rei sobre todas as tribos de Israel, o primeiro ato de Davi foi um golpe de engenhosidade política, tomar a cidade de Jerusalém e fazê- la capital de Israel. Essa cidade dos jebuseus nunca tinha sido completamente conquistada. Era uma cidade estratégica tanto geográfica quanto simbolicamente. Robert Chisholm diz que escolher Jerusalém para ser a capital faz sentido em termos políticos, pois a cidade fica perto da fronteira entre Benjamim (a tribo de Saul) e Judá (a tribo de Davi), ou seja, entre o norte e o sul da Judá.12Joyce Baldwin ainda acrescenta, dizendo que na qualidade de “cidade de Davi”, Jerusalém transcendia as rivalidades tribais e, portanto, tornou possível um novo conceito de unidade quando se tornou a capital, servindo de centro para onde convergiam as atenções. Depois de conquista a fortaleza dos jebuseus, Davi renomeou a cidade de Jerusalém, que passou a ser chamada de “cidade de Davi”. Essa cidade foi coroada de importância, pois “Deus está no meio dela: jamais será abalada [...]” (Salmos 46:5). O poder de Davi ia se consolidando rapidamente. E a razão mais eloquente para esse progresso não era tanto a destreza militar de Davi, mas a presença do Senhor, o Deus dos Exércitos com ele (2Samuel 5:10). Hirão, rei de Tiro, capital da Fenícia, reconhecendo o reinado de Davi, deu-lhe todo suporte para a construção do palácio real em Jerusalém, enviando madeira nobre, pedreiros e carpinteiros. O relacionamento político de Hirão com a casa de Davi se estendeu até o reinado de Salomão, de modo que este recebeu daquele recursos materiais e funcionários qualificados para o projeto da construção do templo. O harém de Davi Além das várias mulheres de Hebrom (2Samuel 3:2-5), Davi tomou mais concubinas e mulheres em Jerusalém. Davi usou esses casamentos para apoiar e solidificar sua própria posição na capital, seguindo não a orientação divina (Deuteronômio 17:17), mas imitando o estilo dos monarcas orientais. O número de filhos de Davi (2Samuel 5:14-16) indica sua força e poder, mas o número de suas concubinas e esposas revela sua tolice e estupidez. Com essa prática, ele estava em direta violação às prescrições divinas para o rei pactual (Deuteronômio 17:17). Sua prática foi controlada pela cultura humana, e não pela lei de Deus. Desses casamentos, nasceram-lhe filhos e filhas: Samua, Sobabe, Natã, Salomão, Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada e Elifelete. A maioria dos filhos que compõe esta lista tem pouca consequência na história de Davi e na sucessão do reino. Somente Salomão ficaria envolvido na luta pelo trono de Davi. Warren Wiersbe lista as esposas e os filhos de Davi: As Escrituras apresentam quatro listas dos filhos de Davi, que nasceram enquanto ele reinou em Hebrom (2Samuel 3:2-5) e depois que se mudou para Jerusalém (2Samuel5:13-16; 1Crônicas 3:1-9; 14:4-7). Sua primeira esposa foi Mical, filha de Saul (1Samuel 18:27), que não teve filhos (2Samuel 6:3). Em Hebrom, Ainoã, de Jezreel, deu à luz Amnon, o primogênito de Davi (2Samuel 3:2); Abigail, a viúva de Nabal, deu à luz Quiliabe ou Daniel (2Samuel 3:3); da princesa Maaca, nasceu Absalão (2Samuel 3:3) e sua irmã, Tamar (2Samuel 13:1); Hagite deu à luz Adonias (2Samuel 3:4); de Abigail nasceu Sefatias (2Samuel 3:4); e Eglá deu à luz Itreão (2Samuel 3:5). Em Jerusalém, Bate-Seba teve quatro filhos com Davi (1Crônicas 3:5): Simeia (ou Samá), Sobabe, Natã e Salomão. Suas outras esposas, cujos nomes não são mencionados (1Crônicas 3:6-9), deram à luz Ibar, Elisama, Elifelete (ou Elpelete), Nogá, Nefeque, Jafia, Elisama, Eliada ou Beeliada (1Crônicas 14:7).13 A vitória de Davi sobre os filisteus Depois de mencionar a aprovação do reinado de Davi e o reconhecimento internacional de seu governo, o narrador descreve as duas vitórias retumbantes e definitivas de Davi sobre os filisteus. Davi que fora vassalo de Aquis, rei filisteu, agora está no poder das tribos de Israel. Assim que Davi foi proclamado rei sobre todo Israel, os filisteus deixaram de tolerar suas façanhas e passaram a vê-lo como uma séria ameaça a seu poder. Na primeira investida dos filisteus contra Davi, sentindo-se ameaçados, subiram para prender Davi, mas ele desceu à fortaleza. Os filisteus se estenderam pelo vale dos Refains. Então Davi consultou ao Senhor: “Subirei contra os filisteus? Entregar-mos-ás nas mãos?” (2Samuel 5:19a). O Senhor lhe respondeu: “Sobe, porque, certamente, entregarei os filisteus nas tuas mãos” (2Samuel 5:19b). Davi veio a Baal-Perazim e ali os derrotou. O nome do local, Baal-Perazim, que significa “Senhor da invasão”, celebra o fato de que Davi conseguiu invadir as linhas inimigas de forma tão decisiva que, para ele, era como se o Senhor tivesse irrompido por aquelas linhas à sua frente, “como quem rompe as águas”. A vitória foi do próprio Deus. O Senhor revelou não apenas sua direção na batalha, mas também demonstrou seu poder. Ao fugirem, os filisteus deixaram lá os seus ídolos; e Davi e seus homens os levaram. O fato de que os filisteus abandonaram seus ídolos também indica que eles eram impotentes para auxiliá-los na batalha contra o Deus de Davi. Davi inverte a situação de Israel e humilha seus inimigos ao levar embora seus supostos deuses. Há semelhança com uma derrota humilhante anterior, quando os filisteus levaram embora a arca como troféu de guerra (1Samuel 4:11). A segunda investida dos filisteus ocorreu quando eles subiram e se estenderam pelo vale dos Refains. Davi não confiou que a estratégia que Deus lhe dera na vez anterior daria certo em uma segunda oportunidade, nem confiou em sua própria capacidade, mas voltou a consultar ao Senhor. o Senhor não o autorizou a subir contra os filisteus, mas lhe deu uma nova estratégia. Dessa vez, Davi não deveria lutar com o inimigo de frente. Ao invés disso, deveria fazer um ataque de surpresa pela retaguarda, o que teria a vantagem de bloquear o caminho de fuga dos filisteus. Mais uma vez, a vitória foi sobrenatural, ao ouvir um estrondo de marcha pelas copas das amoreiras, Davi haveria de apressar-se porque o Senhor é quem sairia diante dele, ferindo o arraial dos filisteus. Assim fez Davi como o Senhor lhe ordenara. O resultado foi uma vitória retumbante. Deus feriu os filisteus desde Geba até chegar a Gezer. O estrondo da marcha divina é um eco de Juízes 5:4, em que Débora e Baraque, na comemoração da vitória do Senhor sobre os cananeus, o descrevem marchando a partir de Edom para guerrear. Os filisteus não fizeram nenhuma outra tentativa de atrapalhar a ascensão de Davi. Essa batalha foi tão decisiva que, a partir de então, os filisteus deixaram de constituir uma séria ameaça a Israel. A eliminação da ameaça filisteia foi uma das grandes realizações de Davi, algo que Saul nunca conseguiu concretizar (1Samuel 9:16). 1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 42. ↵ 2. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 234. ↵ 3. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 231. ↵ 4. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 201,202. ↵ 5. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 43. ↵ 6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 216. ↵ 7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 216. ↵ 8. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 217. ↵ 9. YOUNGBLOOD, Ronald F. 2Samuel. In: Zondervan NIV Bible Commentary, p. 441. ↵ 10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 308. ↵ 11. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 64. ↵ 12. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 208. ↵ 13. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 310. ↵ O Capítulo 13 Davi, o adorador capítulo 6 de 2Samuel retrata Davi como adorador e retoma a história da arca que se encontra em 1Samuel 4:1-7:1. Há aqui uma grande lacuna de tempo, porém Davi constrói uma ponte sobre essa lacuna, desejando que Jerusalém fosse não só a sua capital militar e política, mas, também, o centro religioso da nação. Davi consolida seu reino, vence seus inimigos e recebe ajuda de seus aliados. As tribos de Israel fazem aliança com ele e a nação prospera a olhos vistos. Então, Davi toma a decisão de trazer a arca da aliança para Jerusalém. A arca era mais do que uma caixa de madeira revestida de ouro, abrigando em seu seio hospitaleiro as tábuas da lei, o vaso com maná e a vara seca de Arão que floresceu. A arca era um símbolo da presença de Deus, onde a glória de Deus se manifestava. A arca era um objeto sagrado que apontava para Cristo, o Deus Emanuel. O anseio pela presença de Deus em Jerusalém levou Davi a fazer uma grande expedição para buscar a arca. Riquezas, reconhecimento, poder e prosperidade não eram substitutos da presença de Deus. Mais do que coisas, Davi ansiava pela presença de Deus. Mais do que bênçãos, Davi desejava o abençoador. Davi transformou a velha fortaleza jebuseia no local onde o Deus único se agradou em se fazer conhecer, o centro da terra, o lugar de seu trono, o elo entre a terra e o céu. A arca é um símbolo de Cristo. Este preenche todos os significados da arca. Ele é o Profeta que veio revelar-nos Deus. Ele é resplendor da glória e a expressão exata do ser de Deus. Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Ele é a presença de Deus entre nós, o Deus Emanuel. Ele é o Sumo Sacerdote que ofereceu a si mesmo como oferta perfeita pelo nosso pecado. Ele veio para nos reconciliar com Deus. Ele é Rei dos reis e o Senhor dos senhores que governa a vida do seu povo. A presença de Deus deve ser a nossa maior aspiração Depois de realizar uma ampla consulta aos seus líderes, Davi escala trinta mil homens para a expedição de buscar a arca. O primeiro livro das Crônicas descreve esse fato assim: Consultou Davi os capitães de mil, e os de cem, e todos os príncipes; e disse a toda a congregação de Israel: Se bem vos parece, e se vem isso do Senhor, nosso Deus, enviemos depressa mensageiros a todos os nossos irmãos em todas as terras de Israel, e aos sacerdotes e aos levitas com eles nas cidades e nos seus arredores, para que se reúnam conosco; tornemos a trazer para nós a arca do nosso Deus; porque nos dias de Saul não nos valemos dela. Então, toda a congregação concordou em que assim se fizesse; porque isso pareceu justo aos olhos de todo o povo (1Crônicas 13:1-4). Davi tinha esperanças de que as divisões passadas e as diferenças entre as tribos fossem esquecidas, enquanto o povo se concentrava no Senhor. A presença da arca representava a presença de Deus, a qual remetia à segurança e à vitória. A arca é trazida sob o som da música e os cânticos de júbilo. Davi lidera pessoalmente a multidão que vem trazendo a arca para a cidade de Jerusalém, a capital da nação. O rei não se esquece de Deus no tempo da prosperidade. Ele não se contentacom suas conquistas e vitórias. Anseia por Deus. Busca em primeiro lugar o reino de Deus. A devoção de Davi é demonstrada no entusiasmo com que celebra junto com o povo o transporte da arca rumo à cidade da paz. O gesto de Davi deve nos levar a esse mesmo sentimento. Temos as bênçãos de Deus, mas devemos desejar a sua presença. Temos os sinais da bondade de Deus, mas devemos anelar pelos lampejos de sua glória. As dádivas de Deus não podem ser um substituto da presença de Deus. A presença de Deus é santa e requer santo temor e reverência Lamentavelmente o transporte da arca para Jerusalém seguiu o mesmo método usado pelos filisteus para devolvê-la a Israel. Davi, com sua numerosa comitiva, transportou a arca em um carro novo puxado por bois em vez de seguir as prescrições divinas. Destacamos, aqui alguns pontos: 1. O transporte da arca estava errado quanto à forma (2Samuel 6:3). A lei exigia que a arca fosse transportada pelos coatitas, e não por animais; devia ser transportada pelos seus varais, e não em um carro novo. Essa inovação dos filisteus não deveria ter sido copiada por Davi. A forma do transporte estava em desacordo com os preceitos das Escrituras. Apesar das boas intenções, a arca foi transportada sem a devida consideração pela santidade de Deus. A arca dispunha de anéis e varas, os quais indicavam a forma como devia ser transportada (Êxodo 25:12-14). O fato de todos os líderes de Israel concordarem que fosse usado um carro de boi para transportar a arca não legitimava essa prática. Unanimidade e entusiasmo não substituem a obediência. A exultação da multidão que acompanhava o transporte da arca não anulou as prescrições divinas. Davi havia quebrado esse princípio. Leis e costumes podem ser mudados, mas princípios são eternos. Deus não apenas prescreveu como a arca deveria ser feita, mas também deixou orientações claras sobre como ela deveria ser transportada. Desrespeitar esse princípio representava uma violação de um princípio inegociável. 2. O transporte da arca estava errado quanto às pessoas (2Samuel 6:4). Assim como a forma de transporte estava errada, as pessoas que a conduziam também não eram as certas. A arca devia ser transportada pelos coativas (Números 4:4-6; 7:9). Os coatitas transportavam a arca, mas não podiam tocar nas coisas santas nem podiam vê-las, para que não morressem (Números 4:15,17-20). No entanto, os responsáveis pelos bois e pelo carro novo com sua carga especial, a arca da aliança, são Uzá e Aiô, e não os coatitas. 3. A alegria do povo não evita a tragédia (2Samuel 6:5-7). Mesmo não observando os preceitos de como lidar com a arca, Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o Senhor com toda sorte de instrumentos musicais. No entanto, a celebração festiva do rei e de seu povo não puderam evitar a tragédia da irreverência de Uzá e sua morte sumária. Deus não aceita inovações na forma de ser adorado. O culto a Deus tem prescrições que dever ser observadas. O ato de Uzá, embora instintivo, constituiu uma espécie de sacrilégio, e ele foi morto devido ao contato com a santidade de Deus. Davi e o povo ultrapassaram os limites e abusaram do relacionamento com Deus quando deixaram de observar as regras estabelecidas para salvaguardar a reverência pela santidade de Deus. Dale Ralph Davis enfatiza que o erro aqui foi que as instruções específicas para Moisés e os sacerdotes acerca do transporte da arca não foram levadas em consideração. As regras eram: não toque, não veja. Os objetos da arca deviam ser cobertos pelos sacerdotes, a fim de que os coatitas a transportassem. A sentença sumária para a transgressão dessas prescrições era a morte (Números 4:15,20). Portanto, o propósito do Senhor ao dar essas instruções era evitar a morte dos coatitas.1 4. A ira de Deus se manifesta contra a irreverência de Uzá (2Samuel 6:7). Enquanto a arca estava sendo transportada, um acidente aconteceu. Os bois tropeçaram e Uzá segurou a arca para que ela não caísse. O gesto foi interpretado como um ato irreverente, e Deus ceifou ali mesmo a vida de Uzá. Deus o feriu ali por essa irreverência, e ele morreu junto à arca. A transgressão das ordenanças de Deus não é coisa de somenos. O salário do pecado é a morte. Os preceitos de Deus nos são dados para que os cumpramos à risca. A dança e a música cessaram, e todos os olhos voltaram- se para Uzá, estirado no chão, sem vida. Entusiasmo sem reverência não agrada a Deus. Fervor sem obediência aos mandamentos divinos não é aceitável a Deus. O culto a Deus sem a devida observância dos preceitos divinos não é aprovado por Deus. 5. O temor de Davi (2Samuel 6:9). Ali, Davi teve um senso profundo acerca da santidade de Deus. Ele temeu ao Senhor e questionou como a arca do Senhor poderia ir até ele. Esse episódio deixou uma lição para as futuras gerações. As coisas de Deus precisam ser tratadas com reverência e santo temor. Não podemos banalizar a presença do Deus triplamente santo. Ninguém deve se aproximar de Deus de forma irrefletida e irreverente. Ele é fogo consumidor. Diante dele até os serafins cobrem o rosto. A marcha triunfal do transporte da arca foi interrompida. O temor de Davi levou-o a abortar a missão. Ele não quis retirar a arca para junto de si, para a cidade de Davi; fê-la, porém, ser levada para a casa de um levita chamado Obede-Edom, o geteu (1Crônicas 15:18,21,24; 16:5; 26:4-8,15). Em Gate, a arca ficou três meses; e o Senhor abençoou a Obede-Edom e toda a sua casa, por amor à arca. A presença de Deus é digna de nossa mais efusiva celebração Depois de três meses, Davi então, com alegria, fez subir a arca de Deus da casa de Obede-Edom para Jerusalém, agora batizada de cidade de Davi. A alegria e o temor não são mutuamente exclusivos, mas coexistem em sacrossanta harmonia. Diz a Escritura: “Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor” (Salmos 2:11). Alegrar-se na presença de Deus e tremer diante da santidade de Deus são duas verdades solenes. Temor e alegria caminham juntos. Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor, vestido com um éfode, uma estola sacerdotal de linho. Com essa exultação exuberante, com júbilo e ao som de trombetas, Davi e todo o seu povo conduziram a arca até Jerusalém. Joyce Baldwin lança luz sobre o tema ao escrever: Davi manifestou um entusiasmo tão grande quanto na vez anterior (6:5), mas agora ele tinha aprendido que sinceridade e animação não bastavam. Ele também prestara atenção às exigências rituais que a lei de Deus havia estabelecido. Ele substituíra seus mantos reais por uma estola de linho, a vestimenta dos sacerdotes, que ele, como rei de um reino de sacerdotes, estava habilitado a vestir, sendo particularmente apropriada para a cerimônia comemorativa.2 Quando Mical, filha de Saul, olhando pela janela, viu a arca entrando triunfalmente na Cidade de Davi e o rei saltando e dançando diante do Senhor, desprezou-o em seu coração. O orgulho de Mical não a permitia ver o rei misturado com o povo na celebração festiva. Ela despreza Davi justamente naquilo que o tornava grande, ou seja, sua devoção ao Senhor e sua espontaneidade na adoração. Mical estava preocupada com dignidade real, decoro pessoal e aparência externa. Mical e Davi representam dois reinos. O antigo regime está preocupado com a forma, o novo reino celebra com alegria. Mical é como alguém que tem vinho novo em odres velhos, e isso simplesmente não funciona (Marcos 2:18-22). Longe de ficar abatido com as palavras tóxicas de Mical, Davi reafirma que fora escolhido por Deus, ao mesmo tempo que reafirma sua devoção irrestrita ao Senhor e sua alegria com o emblema da presença de Deus na capital de Israel. Davi reafirmou sua disposição de se alegrar na presença do Senhor e de se tornar desprezível e se humilhar perante o Senhor, sabendo que as servas que foram execradas por Mical, haveriam de honrá-lo. Davi está mais interessado em honrar o Senhor do que em favorecer sua própria reputação, pois não precisa estimular seu ego nem lhe falta o apoio popular. Que à semelhança de Davi, possamosdesejar Deus mais do que desejamos as suas benesses. Nossa devoção, dependência e gratidão a Deus devem ser demonstradas ao Senhor não apenas nos dias sombrios de prova, mas sobretudo nos dias ensolarados de vitórias. 1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 75. ↵ 2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 237. ↵ 2S Capítulo 14 Davi, o rei pactual amuel 7 trata da aliança de Deus com Davi. Essa passagem reveste-se de grande importância na história da redenção. Aqui está a promessa de que o Messias virá da dinastia de Davi e que sua casa, seu reino e seu trono serão firmados para sempre (2Samuel 7:16). A aliança de Deus com Davi era incondicional e centrada na garantia da dinastia davídica. Paul Gardner é oportuno quando escreve: O pacto davídico é uma administração soberana, feita pela graça, segundo a qual o Senhor ungiu Davi e sua casa para estabelecer seu reino e efetivamente trazer um reinado de paz, glória e bênção. Jesus e os apóstolos afirmaram que essas promessas encontram seu foco e recebem sua confirmação em Cristo, o Messias. Ele é o ungido que recebeu autoridade e poder (Mateus 28:20) do alto sobre toda a criação, inclusive a Igreja).1 Na aliança de Deus com Davi, Deus cumpre as promessas feitas ao patriarca Abraão ao garantir a Davi um grande nome (2Samuel 7:9; Gênesis 12:2), terra (2Samuel 7:10; Gênesis 13:14,15; 15:18-20; 17:18) e descendentes (2Samuel 7:12; Gênesis 15:5; 17:5,6). Um desejo sincero O palácio de Davi, com toda a pompa, está pronto. Enquanto ele habita em uma casa real feita de cedros, a arca da aliança ainda habita em tendas. Na mente dele isso não está certo. Como o servo de Deus tem um palácio enquanto o sinal da presença de Deus, a arca da aliança, está em uma tenda? Então, Davi compartilha com o profeta Natã seu propósito de erigir um templo ao Senhor. O templo seria um símbolo da presença de Deus com seu povo e a garantia do favor de Deus para com o rei e sua família. Natã disse ao rei: “Vai, faze tudo quanto está no teu coração, porque o Senhor é contigo” (2Samuel 7:3). Naquela mesma noite, porém, a Palavra do Senhor veio a Natã com uma mensagem expressa para Davi proibindo-o de edificar o templo, argumentando que desde o êxodo até à presente data, Deus nunca havia requerido do povo um templo, mas sempre habitou em tendas, em tabernáculo. Isso era demonstração da proximidade de Deus com seu povo (Êxodo 25:8). Isso prova que divindade e humildade não são categorias mutuamente exclusivas. 2Samuel 7:6,7 aponta para Filipenses 2:5-8. Uma proibição clara O Senhor deixa claro que ele não pode ser confinado a um templo, como disse mais tarde o apóstolo Paulo: “[...] sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas” (Atos 17:24). A proibição a Davi de construir um templo ao Senhor está posta em 1Crônicas 17:4: “Vai e dize a meu servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não edificarás casa para minha habitação”. Concordo com Dale Ralph Davis quando ele diz que a resposta do Senhor não foi um mero não, mas um não ainda.2 Davi não seria o edificador do templo, pois o tempo para a construção ainda não havia chegado. No presente caso, o plano humano (2Samuel 7:1-3) deveria ser corrigido pela revelação divina (2Samuel 7:4-17). Uma graça abundante Em vez de requerer de Davi um templo, Deus demonstra a ele sua graça abundante. Algumas verdades são aqui destacadas: 1. Um passado humilde (2Samuel 7:8a). Deus tomou Davi da malhada, de detrás das ovelhas, sendo um candidato improvável ao trono. Ele não era um guerreiro, mas um pastor de ovelhas. Não procedia de família aristocrática, mas o filho caçula de Jessé, o belemita. 2. Um propósito glorioso (2Samuel 7:8b). Deus tirou Davi de um passado humilde para um propósito elevado, ser príncipe sobre Israel, o povo de Deus. Davi não ascendeu ao trono por estratégicas políticas e militares. Ele foi escolhido por Deus para ser rei. 3. Um companheiro poderoso (2Samuel 7:9). Deus foi com Davi em todo o tempo e por todos os lugares. Além disso, eliminou os inimigos de diante dele e fez grande o seu nome, dando-lhe um nome proeminente, como só os grandes da terra têm. 4. Uma nação estável (2Samuel 7:10,11a). Deus preparou um lugar para Israel, deu-lhe uma terra, livramento dos inimigos e líderes para governá-lo. 5. Uma dinastia perpétua (2Samuel 7:11b). Enquanto Davi queria construir uma casa para Deus, foi Deus quem disse a Davi: “O Senhor te faz saber que ele, o Senhor, te fará casa” (2Samuel 7:11b). Isso significa que a dinastia de Davi permaneceria no trono até a chegada do Messias, cujo reino é eterno e cujo trono é inabalável. Kevin Mellish corrobora, dizendo: “Ao usar o termo casa, Deus não tinha a intenção de construir uma estrutura física para Davi, como um palácio, mas uma dinastia duradoura, uma família”.3 Uma promessa segura Chegamos aqui, portanto, ao âmago do pacto davídico, com as promessas do Senhor feitas a Davi. Dale Ralph Davis, ao analisar esse contexto, aponta três razões pelas quais a promessa de Deus é segura:4 1. A promessa do Senhor é segura porque a morte não pode anulá-la (2Samuel 7:12,13). Davi morrerá, mas o Senhor levantará a semente de Davi. Salomão, e não Davi, edificou o templo. Davi preparou tudo para a construção, mas coube a seu filho realizar o seu plano. A dinastia davídica, entretanto, chegaria àquele que é maior que Salomão e maior que o templo, Jesus de Nazaré! 2. A promessa do Senhor é segura porque o pecado não pode destruí-la (2Samuel 7:14,15). A dinastia davídica seria disciplinada em caso de transgressão, mas a aliança de Deus não seria cancelada. O Senhor antevê a possibilidade de rebelião, mas afirma que falhas humanas não invalidarão sua promessa a Davi. O rei de Israel é um representante do próprio Deus e é tratado como filho. Porém, se vier a transgredir, Deus o castigará com varas de homens e com açoites de filhos de homens. Todavia, a misericórdia de Deus não se apartará dele como foi retirada de Saul. De fato, os descentes de Davi rebelaram-se contra Deus e foram punidos. As dez tribos do norte foram subjugadas pela Assíria em 722 a.C. e o reino de Judá caiu nas mãos da Babilônia em 586 a.C. O Senhor, nesse meio-tempo, cumpriu sua promessa. A misericórdia do Senhor jamais se apartou do seu povo. Israel voltou à sua terra e foi restaurado por Deus. Embora a comunidade pós- exílica não tivesse um rei davídico para liderá-la, as promessas continuavam a prover esperança de que o rei davídico, o Messias, surgiria novamente. Na comunidade cristã primitiva, os crentes encontraram em Jesus o cumprimento das promessas de Deus na aliança davídica. Jesus descendia de Davi (Mateus 1:1-17), sendo chamado “filho de Davi”. Ele apresentou um reino eterno conhecido como “o reino de Deus”. Assim, os cristãos perseveram na esperança da herança de uma terra; não um espaço físico aqui na terra, mas um lar eterno no céu. Por intermédio do Messias, Davi teria uma casa para sempre (2Samuel 7:25,29), um reino para sempre (2Samuel 7:16), um trono para sempre (2Samuel 7:13,16) e glorificaria o nome de Deus para sempre (2Samuel 7:26). 3. A promessa do Senhor é segura porque o tempo não pode anulá-la (2Samuel 7:16,17). A casa e o reino de Deus serão firmados para sempre. A aliança davídica é incondicional. O Senhor garante que da dinastia de Davi surgirá aquele cujo trono será estabelecido eternamente. Essa promessa cumpriu-se em Jesus, o Cristo. O Messias, o filho de Davi, estabeleceu um reino que não passará. Nessa aliança, Deus anunciou a Davi que o Messias viria por sua família, e a profecia de Miqueias 5:2 afirma que ele nasceria em Belém, a cidade de Davi (Mateus 2:6). O Messias seria conhecido como “o Filho de Davi” (Mateus 1:1).5 Davi desejava edificar uma casa para Deus (o templo), mas Deus prometeu edificar uma casa para Davi (uma dinastia eterna). Concluo com as palavras de Joyce Baldwin: Foi assim que Davi desistiu de sua intenção de construir o templo. Embora fosse rei de Israel, ele aceitou que tinha deanuir diante de uma autoridade superior, a do Deus de Israel, a quem devia o seu chamado pelo profeta Samuel, a sua preservação em perigo mortal nas mãos de Saul e a sua ascensão ao trono por meio do consentimento geral do povo [...]. Davi, mais interessado em honrar o Senhor do que em proteger sua própria reputação, obteve a firmeza de seu reino para sempre.6 1. GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. 2015, p. 132. ↵ 2. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 84. ↵ 3. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 259. ↵ 4. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 92,93. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 317. ↵ 6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 247, 248. ↵ D Capítulo 15 Davi, o vitorioso nas batalhas avi depois que se tornou rei sobre todo o Israel, conquistou Jerusalém, a fortaleza dos jebuseus, e virou o jogo contra os filisteus. Ele trouxe a arca para Jerusalém e intentou construir uma casa (templo) para ela. No entanto, o Senhor surpreendeu Davi ao anunciar que pretendia construir uma casa (dinastia) para Davi. Deus prometeu estabelecer o trono de Davi e lhe garantiu que a promessa não seria anulada, ainda que seus descendentes fosses desobedientes. Munido da promessa animadora do Senhor de dar segurança à nação (2Samuel 7:10-12), Davi empreende novas campanhas militares, e o Senhor mostra seu compromisso com ele ao dar- lhe ainda mais vitórias. Davi, por sua vez, mostra sua lealdade ao Senhor ao aderir a algumas das prescrições deuteronômicas para o reinado e governar sobre Israel de forma justa.1 As vitórias de Davi apontam para o reino de Cristo, uma vez que Davi tipifica Cristo, e Jesus é chamado de Filho de Davi. As vitórias de Davi são uma previsão e uma profecia acerca do reino de Cristo. Assim como Davi conquistou os povos, o reino de Cristo conquistará as nações. Assim como Davi ajuntou as riquezas das nações, essas riquezas pertencerão ao Senhor (Isaías 60; Ageu 2:6-9; Apocalipse 21:24,26). Quando Davi subiu ao poder, seu reino estava ameaçado pelos povos vizinhos, que haviam se acostumado a tirar vantagem de qualquer fraqueza e invadir quando bem quisessem. Inobstante esse cenário, o Senhor deu vitória a Davi contra seus inimigos por todos os lados. Davi venceu os inimigos no Oeste (2Samuel 8:1), no Leste (2Samuel 8:2), no Norte (2Samuel 8:3-12) e no Sul (2Samuel 8:13,14). Essas vitórias cumprem as promessas de Deus feitas a Abraão (Gênesis 12-15), a Moisés (Deuteronômio 27-30) e ao próprio Davi (2Samuel 7). O Senhor havia prometido a Israel a terra que se estendia do rio do Egito até o rio Eufrates (Gênesis 15:17-21; Deuteronômio 1:6-8; 11:24; 1Reis 4:20,21). As vitórias de Davi não apenas trouxeram paz ao seu reino, mas também muitas riquezas, que mais tarde foram usadas por Salomão na construção do templo de Jerusalém (2Samuel 8:11-13; 1Crônicas 22). Vejamos, agora, as vitórias de Davi: 1. A vitória sobre os filisteus a Oeste (2Samuel 8:1). Os filisteus eram inimigos de Israel, de longa data. Os conflitos com esse povo beligerante eram frequentes. O rei Saul havia sucumbiu nas mãos dos filisteus. Agora, porém, Davi impõe uma derrota definitiva sobre eles, ferindo-os, sujeitando- os e assumindo o controle da Gate, a capital filisteia. 2. A vitória sobre os moabitas a Leste (2Samuel 8:2). Embora Rute, a bisavó de Davi, fosse moabita (Rute 4:18-22) e apesar de os moabitas terem sido amigáveis com Davi no passado (1Samuel 14:47; 22:3,4) e serem aparentados de Israel por serem descendentes de Ló, sobrinho de Abraão (Gênesis 19:30-38), esse povo sempre causou sérios problemas a Israel, por isso Davi o viu como uma potencial ameaça à segurança de Israel. No passado, os moabitas contrataram o profeta Balaão para amaldiçoar a Israel, e esse profeta avarento levou mulheres moabitas para seduzir os homens de Israel (Números 22-25). O Senhor, então, declarou guerra contra essa nação, e Davi está aqui cumprindo esse desiderato divino. Davi não chegou a exterminar o exército amonita, pois poupou um em cada três soldados, impondo tributos à nação, tornando-o um estado vassalo. Joyce Baldwin diz que o pagamento regular de tributo indicava subserviência contínua.2 3. A vitória sobre os arameus e sírios ao Norte (2Samuel 8:3-13). Davi derrotou Hadadezer, filho de Reobe, rei de Zobá. Arã, assim como Israel era uma potência em crescimento naquela época. No décimo século, existiu um vácuo de poder por todo o Oriente, e esses dois reinos procuravam preenchê-lo. Davi levou vantagem nessa luta, estabelecendo o seu domínio sobre toda a região ao norte do rio Eufrates. Warren Wiersbe diz que o controle de valiosas rotas de caravanas que passavam por esse território possibilitou Israel tributar os comerciantes que passavam por lá e, assim, aumentar sua renda. Além do mais, ao derrotar os arameus e os sírios, Davi também criou um relacionamento amigável com seus inimigos e deles recebeu tributos (2Samuel 8:6-10).3 Davi é retratado como um novo Josué e como aquele que pretende terminar o que Josué começou. O foco dos cinco primeiros versículos (2Samuel 8:1-5) estava sobre Davi e suas vitórias. Agora, porém, o narrador nos informa que o Senhor é responsável pelo êxito de Davi: “[...] e o Senhor dava vitórias a Davi, por onde quer que fosse” (2Samuel 8:6,14).4 A reputação de Davi continua a crescer na região à medida que sua conquista militar se escalava. É digno de nota que Davi não guarda para si as riquezas que adquire das nações conquistadas. Ele consagrou os despojos de guerra ao Senhor, juntamente com a prata e o ouro que já havia consagrado de todas as nações que sujeitara (2Samuel 8:11). Esses espólios constituíram o início de uma coleção que seria muito aumentada por Salomão (1Reis 10:17) e reduzida por Sisaque, rei do Egito, durante o reinado de Roboão (1Reis 14:26; 2Reis 11:10). É notório, igualmente, que Davi venceu os amalequitas, terroristas do deserto (2Samuel 8:12), tarefa que o rei Saul fracassou em cumprir (1Samuel 15). A fama de Davi cumpre a promessa do Senhor: “Agora farei teu nome grande” (2Samuel 7:9). Contudo, o escritor bíblico, longe de estimular o culto aos heróis, atribui o sucesso de Davi ao Senhor, que o chamou e o capacitou a vencer seus inimigos. 4. A vitória sobre os edomitas ao Sul (2Samuel 8:14). Os edomitas que ficavam ao sul de Israel eram parentes próximos de Israel. Eles eram descendentes de Esaú, irmão de Jacó. Entretanto, sempre foram inimigos de Israel (1Crônicas 18:12,13; 1Reis 11:14-18). Mais tarde, Deus humilhou esse povo altivo (Isaías 60:8) e os nabateus conquistaram a sua cidade (Obadias 1-21). Davi pôs guarnições em Edom e todos os edomitas tronaram-se servos de Davi, estabelecendo ali seu monopólio comercial e abrindo rotas para a comunicação com a Arábia e a África, as quais teriam um desenvolvimento significativo durante o reinado de Salomão (1Reis 9:26-28).5 Davi não é apenas um guerreiro valente, mas também um grande líder e um gestor eficaz. A expansão do império de Davi exigiu uma organização adequada e uma equipe eficiente no núcleo do reino em Jerusalém, a capital de Israel. Davi governa sobre todo o Israel com justiça e equidade, prática que Deus ama. Seu governo é marcado pela probidade administrativa e pela observância da lei. Sendo ele ao mesmo tempo o executivo e a autoridade maior dos tribunais, assegura a prática da justiça em seu governo. Tendo o poder judiciário em suas mãos, Davi era a última instância de apelação, garantindo a justiça e a equidade. Davi é como a aurora e o Sol depois da chuva. Ele representou a aurora de um novo dia a Israel depois das trevas do reinado de Saul. Deus o usou para trazer calmaria depois da tempestade (2Samuel 23:1-7). Davi não é apenas rei de Israel, mas também de um reino que inclui domínio sobre outras nações conquistadas. Seu poder transcendia os limites de Israel. As nações ao redor estão sujeitas a ele e pagam tributos a ele. Para governar com ordem e progresso, é precisomontar uma equipe qualificada, e é exatamente isso que ele faz (2Samuel 8:16-18). O reinado de Davi desfruta, agora, de prosperidade e paz. Tendo obtido consagradoras vitórias sobre as nações ao redor e ajuntado riquezas colossais, Davi, agora, está pronto a pagar o bem com o bem aos amonitas, que lhe demonstraram bondade por meio do rei Naás, quando fugia das insanas perseguições de Saul (2Samuel 10:1,2). Joyce Baldwin diz, porém, que a diplomacia bem-intencionada de Davi junto ao novo rei de Amom deu início a uma nova série de acontecimentos desfavoráveis, suscitando duas guerras.6 Ao receber a notícia da morte do rei Naás, rei dos amonitas, e de que seu filho Hanum havia assumido o trono, Davi decide usar de bondade com Hanum, enviando seus servos, como embaixadores oficiais, com expressões de condolências para consolá-lo acerca de seu pai. Assim, os servos de Davi vieram à terra dos filhos de Amom com essa missão diplomática. Os príncipes dos amonitas mediram Davi com sua própria régua e suspeitaram de suas motivações. Disseram a Hanum que Davi estava se aproveitando do seu luto para enviar seus servos como espiões, com o propósito de reconhecer, espiar e destruir a cidade. Hanum acatou a suspeita dos príncipes amonitas e, orientado por esses maus conselheiros, tomou os servos de Davi com o máximo de desprezo e, em uma ofensa pública, rapou- lhes a metade da barba e cortou-lhes a metade das vestes até às nádegas, despedindo-os. Nenhum gesto poderia ser mais traiçoeiro e humilhante. Hanum pagou o bem com o mal. Tratou com desdém e afronta os embaixadores da paz e os mensageiros da consolação. Concordo com Joyce Baldwin quando ele diz que o insulto dos amonitas era praticamente uma declaração de guerra; a provocação desse gesto exigia uma resposta à altura.7 Ao tomar conhecimento da afrontosa humilhação que seus servos sofreram nas mãos de Hanum, Davi envidou esforços para protegê-los da vergonha pública. Ele enviou mensageiros para encontrá-los no caminho e determinou que ficassem em Jericó até que a barba voltasse a crescer. Davi, assim, havia demonstrado bondade com o Hanum, o rei estrangeiro, e solidariedade aos seus próprios servos. Davi cuida tanto dos assuntos diplomáticos do reino como também daqueles que estão a serviço do reino. Com a injustificável traição a Davi, os filhos de Amom perceberam que haviam se tornado odiosos aos seus olhos. Antecipando uma severa reação de Davi e esperando represálias, buscaram aliados para guerrearem contra ele, formando uma tropa de trinta e três mil mercenários dos reinos siros do norte, contratando-os por por mil talentos de prata (1Crônicas 19:6). Além disso, mandaram mensageiros tomar a soldo vinte mil homens de pé dos siros de Bete-Reobe e dos siros de Zobá, mil homens do rei de Maaca e doze mil de Tobe, um território a leste do Jordão. Os inimigos de Davi se unem para atacá-lo. Querem destruí-lo e destroná-lo. Contudo, as guerras de Davi eram as guerras do Senhor; as vitórias de Davi eram as vitórias do Senhor. Os inimigos confederados não estavam lutando contra Davi, mas contra o Senhor dos Exércitos. Ninguém pode lutar contra o Senhor e prevalecer. Davi, o comandante-em-chefe do exército de Israel, experimentado na guerra, não se intimida nem recua. Ao contrário, ordena a batalha, mas permanece em Jerusalém. Quando Davi ouviu sobre a imensa tropa que estava congregada no território de Amom, envia contra os exércitos inimigos Joabe com todo o exército dos valentes de Israel (2Samuel 10:7). Joabe era um comandante destemido. Seu exército era composto de homens treinados e valentes. Longe de se estremeceram com a multidão que vinha contra eles, agigantaram-se ainda mais. Três exércitos, os filhos de Amom, os siros de Zobá e Reobe e os homens de Tobe, formam um batalhão de oposição contra o exército de Israel (2Samuel 10:8,9a). As forças reunidas provenientes desses países representavam um exército terrível. Os filhos de Amom ordenam a batalha, à entrada da porta da capital da cidade de Amom, que era Rabá, atacando pela frente enquanto a colisão de aliados permanecia em campo aberto, na retaguarda, encurralando, assim, os soldados de Joabe. Joabe, experimentado estrategista militar, dividiu o exército israelita em dois contingentes e escolheu dentre todos o que havia de melhor em Israel e os formou em linha contra os siros; e o resto do povo, entregou-o a Abisai, seu irmão, o qual o formou em linha contra os filhos de Amom (2Samuel 10:9b-11). A ordem do comandante Joabe ao seu irmão Abisai foi clara: “Se os siros forem mais fortes do que eu, tu me virás em socorro; e, se os filhos de Amom forem mais fortes do que tu, eu irei ao teu socorro” (2Samuel 10:11). Joabe tinha não apenas homens preparados em seu exército, mas também, uma tática inteligente de combate. A disposição dos soldados combatentes é vital para se ganhar uma guerra. A liderança firme de um comandante é necessária para manter os soldados focados na vitória. Joabe disse aos valentes de Israel: “Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o Senhor o que bem lhe parecer” (2Samuel 10:12). A exortação mostra tanto coragem como confiança na providência divina. Joabe revelou-se um homem de fé, lutando pelas cidades de Deus e orando não expressamente pela vitória, mas para que o Senhor realizasse a vontade dele.8 Joabe não está acuado (2Samuel 10:13,14). É ele quem avança com o seu povo contra os inimigos, travando a peleja contra os siros. Incapazes de prevalecer contra Joabe e seus soldados. Os siros fogem de diante deles. Do mesmo modo, quando os filhos de Amom viram os siros fugirem, também fugiram rapidamente de diante de Abisai para a sua capital fortificada. Tendo os inimigos batido em retirada, e percebendo Joabe que o inimigo estava preso na cidade, cessou o ataque e voltou com seu exército para Jerusalém. Vemos aqui a magnitude da vitória de Israel. Quatro vezes o narrador afirma que os inimigos fogem (2Samuel 10:13,14,18) e duas vezes assevera que os inimigos são aniquilados (2Samuel 10:15,19). Os siros depois de baterem em retirada diante dos valentes de Joabe se reagruparam, agora sob a liderança de seu príncipe mais poderoso Hadadezer, refizeram suas estratégias e voltaram a declarar guerra a Israel. Dessa vez, o próprio Davi liderou o exército de Israel, e a derrota dos inimigos foi total. As baixas sírias foram de setecentos carros, quarenta mil cavaleiros e Soboque, o general siro. Assim, os siros estabeleceram a paz com Israel, tornaram-se tributários e não concederam mais ajuda aos amonitas. Essa batalha vitoriosa, portanto, solidificou o poder de Davi na região, desde Israel e Transjordânia até à Síria e Aram, no Nordeste. Assim, a influência de Davi se expandiu para bem longe de Israel, até o caminho do Eufrates. Davi estendeu o império israelita do rio do Egito, no Sul, até o rio Eufrates, no Norte; no Leste, conquistou Edom, Moabe e Amom; no Norte, derrotou os arameus e sírios, inclusive Hamate. Davi conquista vitórias com a capacitação do Senhor, age conforme as prescrições deuteronômicas para o reinado, promove justiça e procura ser fiel em sua conduta com outros. 1. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 226. ↵ 2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 249. ↵ 3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 319. ↵ 4. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 228. ↵ 5. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 251. ↵ 6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 258. ↵ 7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 259. ↵ 8. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 260. ↵ A Capítulo 16 Davi, o homem bondoso bondade de Deus por intermédio de Davi é o tema principal de 2Samuel 9:1-13. Podemos ver essa verdade magna nos versículos 1, 3 e 7. Davi havia prometido tanto a Jônatas quanto a Saul que não exterminaria seus descendentesao ascender ao trono (1Samuel 20:12-17,42; 24:21). Durante uma pausa de suas guerras, Davi pensou em sua aliança com Jônatas e buscou alguém da casa de Saul a quem pudesse prestar homenagens. Ziba, mordomo do rei antecessor e ainda encarregado de suas propriedades, foi chamado. Ele contou a Davi sobre Mefibosete, o filho de Jônatas que era aleijado dos pés. Mefibosete era neto do rei Saul, filho de Jônatas e membro da família real. Nasceu em berço de ouro. Cercado de riqueza, pompa e glória. Seu avô e seu pai morreram em uma batalha. Davi assumiu o trono. Era costume dos povos orientais que quando um rei dominava um povo, ele matava todos os membros da dinastia anterior. Foi assim que os membros da família de Saul fugiram quando souberam que Davi era o novo rei. Mefibosete tinha apenas cinco anos, quando começou a sua vida de fuga, medo, dor e humilhação (2Samuel 4:4). Na pressa da fuga, ele caiu e ficou coxo pelo resto da vida. Ele era aleijado de ambos os pés. Seu nome significa “vergonha destruidora”. Esse menino viveu escondido cerca de quinze a vinte anos com dor, vergonha e conflitos. Davi não apenas preserva a vida de Mefibosete, mas o trata como filho. Conforme diz Dale Ralph Davis vemos aqui o poder do pacto (9:1-4), a provisão do pacto (9:5-8) e a pessoa que o pacto abraça (9:9-13).1 O rei encontra Mefibosete Vemos aqui a intervenção da bondade de Deus na vida de Mefibosete, manifestada por intermédio de Davi. Destacamos três pontos importantes: 1. Uma pergunta cheia de bondade. Os anos se passaram. Mefibosete agora é adulto. Davi sobe ao trono. Deus abençoa seu reinado. Ele prospera. Expande seu reino. Tem um exército poderoso e anda com Deus. Ele se lembra de Jônatas e então recorda a aliança feita com ele, de ser bondoso com a descendência de Jônatas. Davi, então, faz uma pergunta: “Resta, ainda, porventura alguém da casa de Saul, para que eu use de bondade para com ele, por amor de Jônatas?” (2Samuel 9:1). É uma pergunta de graça! Ele usa a palavra chesed, usada no Antigo Testamento para retratar a graça do Deus da aliança. Davi deseja espelhar o caráter fiel de Deus em seu modo de tratar os descendentes desse amigo (1Samuel 20:14). Davi não pergunta: Há alguém merecedor? Há alguém qualificado? Há alguém sábio que eu possa usar nos assuntos do governo? Há alguém forte que eu possa usar no exército? Não, ele simplesmente indaga: “Há alguém...?”. Trata-se de um desejo incondicional de ser gracioso. Davi lança a rede mais longe do que suas promessas exigiam, estendendo sua generosidade a qualquer filho ou neto de Saul que tivesse sobrevivido, embora seja clara sua motivação: ele não é indulgente nem fraco, mas quer mostrar bondade (hesed) por amor de Jônatas, pois recordava-se de quão grande era sua dívida para com ele. É digno de nota que hesed vai muito além do que cumprir a palavra empenhada ou cumprir um contrato firmado. Davi foi além. O pedido de Jônatas era apenas para preservar sua prole, mas Davi deseja honrá-la. Ele não apenas quer poupar da morte os descendentes de Saul, mas dar a eles segurança, provisão e honra. 2. Uma resposta cheia de preconceito. Ziba responde com preconceito: Claro que sim, rei Davi, mas é um aleijado, é um coxo, é alguém indigno, imprestável. Ele não tem nenhuma importância nem aparência real (2Samuel 9:2,3). 3. Uma informação cheia de desesperança. Ao perguntar sobre o paradeiro de Mefibosete, Davi é informado de que ele está na casa de Maquir, filho de Amiel, em Lo-Debar, do outro lado do Jordão ( Josué 13:26), logo abaixo do Jaboque, perto da região de Maanaim, a antiga capital de Isbosete (2Samuel 9:4). Lo-Debar significa “lugar árido, seco, deserto”. Amós referiu-se a essa cidade de modo depreciativo (Amós 6:13). O rei chama Mefibosete e lhe dá riquezas Movido pelo amor pactual, Davi demonstra a Mefibosete rica provisão, prometendo ao filho de Jônatas proteção (2Samuel 9:7a), provisão (2Samuel 9:7b), e posição (2Samuel 9:7c), indo muito além do que havia prometido a Jônatas. Ele não só preservou Mefibosete, mas demonstrou a ele sua bondade pactual. Não apenas tirou-o da sombra da morte, mas deu-lhe um lugar à mesa real. Destacamos aqui alguns pontos: 1. A busca (2Samuel 9:5,6). A motivação de Davi em buscar Mefibosete é o desejo de honrar Jônatas (1Samuel 20:11-17). Mefibosete estava com cinco anos quando Jônatas, seu pai, morreu em combate. Já devia estar agora com mais de vinte anos, uma vez que já tinha um filho (2Samuel 9:12). Não havia mérito em Mefibosete para ser procurado por Davi. Isso é um retrato da graça de Deus. 2. O medo (2Samuel 9:7a). Mefibosete estava com medo quando foi encontrado. Pensou que morreria, pois era o destino dos membros de famílias rivais nas monarquias orientais. Mefibosete não sabia quais eram as reais intenções de Davi. Mas o rei Davi não impõe medo nem ordena a morte de Mefibosete; ao contrário, oferece-lhe graça. Davi não queria humilhá-lo, mas exaltá-lo. 3. A bondade (2Samuel 9:7b). Davi usa de bondade para com Mefibosete por amor de Jônatas. Davi honra a aliança feita Jônatas e mantém a palavra dada. A fidelidade de Davi com os compromissos assumidos lança luz sobre a aliança da graça, quando Deus decide nos salvar. 4. A restituição (2Samuel 9:7c). Davi não apenas trouxe Mefibosete de Lo- Debar para o seu palácio, como também restituiu-lhe todas as terras de Saul. Mefibosete assentar-se-á à mesa do rei não como um mendigo, mas como alguém que tem o amor e as benesses do rei. 5. A honra (2Samuel 9:7d). Davi disse a Mefibosete: “[...] e tu comerás pão sempre à minha presença”. Assentar-se à mesa com o rei para participar da refeição diária era o mais elevado prestígio que alguém poderia receber (1Reis 2:7; 18:19; 2Reis 25:29). Era como ser membro da família real. Mais do que farta provisão, isso aponta para comunhão e intimidade. O filho de Jônatas tornou-se um membro da casa real em Jerusalém (2Samuel 9:12,13). 6. O reconhecimento (2Samuel 9:8). O bondoso gesto de Davi provocou uma reação muito humilde e imérita por parte de Mefibosete. Ele reage a essa extravagante bondade do rei com um senso de profunda humildade, inclinando-se e dizendo: “[...] quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu?”. A graça deve ser sempre recebida com um senso de humildade e gratidão. Mefibosete recebe de Davi honra, prestígio e herança (2Samuel 9:9). Davi transfere todos os bens da casa de Saul para esse neto aleijado de ambos os pés. Davi informa a Ziba, servo de Saul, que todos os bens de Saul e sua casa agora têm um novo dono, Mefibosete! Mefibosete recebe a provisão com fartura (2Samuel 9:10). Davi ordena que Ziba, seus filhos e seus servos passem a cultivar as terras de Mefibosete, para que a descendência do filho de Jônatas tenha pão com fartura. Declara também que Mefibosete estará com ele, comendo pão sempre à sua presença, na mesa real. Mefibosete recebe a honra de sentar-se à mesa com o rei. Por quatro vezes o narrador informa que Mefibosete morava em Jerusalém e tinha pleno acesso à mesa real, para assentar-se com o rei e seus filhos e para comer diante de Davi (2Samuel 9:7,10,11,13). Na verdade, Mefibosete é tratado como um filho. Mais do que chamar Mefibosete para Jerusalém, abrigar-lhe no palácio, dar-lhe herança e acesso à mesa real, Davi tratou-o como filho, adotando-o e oferecendo-lhe todos os privilégios da família real (2Samuel 9:11-13). O filho de Jônatas foi tratado como filho de Davi. Veja os filhos de Davi assentados ao redor da mesa: Amnom, Tamar, Salomão, Absalão e o comandante Joabe. Ouvem-se as batidas surdas das muletas. É Mefibosete chegando para assentar-se à mesa como um dos filhos do rei. Isso é graça, maravilhosa graça. Isso é bondade posta em ação. Isso é pura misericórdia. 1. DAVIS, Ralph Davis. 2Samuel. 2018, p. 120-126. ↵ O Capítulo 17 Davi, o adúltero capítulo 10 de 2Samuel encerrou-se com as esplêndidas vitórias de Davi, enquanto o capítulo 11 registra sua amarga derrota. O guerreiro tem vitória no campo de batalha, mas derrota fatídicano leito conjugal. A narrativa sofre uma reviravolta trágica quando Davi transgride a lei de Deus de modo ostensivo e traz o caos para sua vida, para a corte e para a nação. Dale Ralph Davis titula esse capítulo de carne e sangue. Aqui, Davi é guiado não por hesed, mas por eros.1 Aqui, vemos o homem escolhido por Deus (1Samuel 16:1-13), o homem segundo o coração de Deus (1Samuel 13:14) caindo em adultério. O mesmo homem que colocou Mefibosete em sua mesa, colocou Urias na sepultura. Quão rápida e fatalmente qualquer um de nós pode cair. Paul Gardner diz que a partir desse ponto, a história de Davi é uma mistura de tragédia e providência divina.2 A passagem retrata um “caso extraconjugal” do rei Davi. Como começa, como continua e quais são suas características, suas vítimas e suas consequências. É digno de nota que a Bíblia nunca encobre as falhas humanas. Deus não escreve biografias humanas como um “pai coruja”. As falhas, assim como os sucessos, também são descritas. Deus não encobre os pecados de seus filhos nem tem heróis prediletos. O caso de Davi e Bate- Seba é tão moderno como qualquer novela veiculada atualmente. Da ociosidade ao adultério Não havia nada de diferente naquele dia. Tudo corria normalmente. A política, o comércio, as famílias, o culto, a guerra. Davi havia conquistado a paz para o seu grande império. Muitas vitórias tinham sido alcançadas. Agora, os soldados de Israel lutam contra os amonitas. Davi envia Joabe, seu comandante, mas não vai à peleja com seus valentes. Ninguém suspeitava que algo desastroso ocorreria naquele dia comum, muito menos Davi e Bate-Seba. Nada indicava a terrível cadeia de eventos: adultério, gravidez, engano, homicídio, tragédia familiar e juízo divino. Tudo isso ocorreu em um dia como outro qualquer. Aquele caso aconteceu como uma surpresa para Davi e Bate-Seba. Nenhum dos dois planejou pecar. Não foi resultado de algo planejado. Davi era o homem segundo o coração de Deus e Bate-Seba uma esposa fiel de um soldado patriota. Deus estava abençoando Davi. Eram muitas vitórias e conquistas. Davi havia recebido a promessa de que seu descendente reinaria para sempre. Davi era um homem cheio de zelo pelo Senhor. Trouxe a arca da aliança para Jerusalém. Compunha Salmos de louvor. Era um homem de oração. Dificilmente poderia ser considerado um candidato a um desastre pessoal. Nem sempre há razões para se suspeitar de uma tragédia. A família vai bem. Os negócios vão bem. A igreja vai bem. E de repente, uma bomba! José estava bem na casa de Potifar. A casa de seu amo estava prosperando a olhos vistos. De repente, sua patroa coloca os olhos nele e o convida a ir para cama com ela. José firmemente se recusou e foi acusado de assédio sexual e foi parar na prisão. Os “casos” não começam com o piscar de luzes vermelhas de advertência. O dia não começa com nuvens plúmbeas e agourentas. Não há avisos do céu gritando: “Reforce as suas defesas, pois a tentação está chegando”. Destacamos alguns pontos importantes aqui: 1. Uma omissão notória. Quais foram os passos que Davi deu que o levaram ao adultério? Davi ficou em Jerusalém em vez de ir com seus soldados à guerra, como era seu costume e como seria o seu dever. O texto é categórico: “[...] no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, enviou Davi a Joabe, e seus servos, com ele, e a todo o Israel [...]; porém, Davi ficou em Jerusalém” (2Samuel 11:1). Uma das razões pelas quais Israel pediu um rei era esta: “[...] o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras” (1Samuel 8:20). Davi, na condição de rei, tem autoridade. Ele dá uma ordem e outros realizam seus desejos. Isso é retratado em 2Samuel 11, capítulo no qual vemos Davi exercendo sua plena autoridade (11:1,3,4). 2. Uma ociosidade perigosa. Em vez de estar no front da batalha com seus soldados, Davi estava no seu leito real à tarde, rendido ao ócio (2Samuel 11:1b,2). Enquanto outros se destacavam e arriscavam sua vida, Davi estava “matando tempo”. O leito de Davi foi uma cabeça de ponte pela qual o diabo chegou a tomar a fortaleza do seu coração. Davi ficou passeando no terraço da casa real, andando de um lado para o outro, sem ir a lugar nenhum. Ele estava no lugar errado, na hora errada. Desse ponto privilegiado, uma espécie de mirante, Davi tinha a vantagem de enxergar lá embaixo as casas próximas, tendo o controle de tudo que contempla. Muito embora Davi fosse um homem realizado sexualmente e inobstante esse passeio pelo terraço da casa real não tivesse nada de intencional, esse foi o cenário de uma avassaladora tentação. É verdade que as circunstâncias não fazem um homem, elas o revelam. À semelhança dos saquinhos de chá, a nossa verdadeira força se manifesta quando somos imersos em água quente. 3. Uma atração sedutora. “[...] daí viu uma mulher que estava tomando banho; era ela mui formosa” (2Samuel 11:2b). A Palavra de Deus diz: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz” (Tiago 1:13,14). Jesus é categórico: “Ouvites o que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mateus 5:27,28). Aqui, portanto, começa a luta de Davi. Ele viu uma mulher que estava tomando banho. Ele parou e olhou demoradamente. A visão deu lugar ao desejo, e o desejo transformou- se em cobiça. Davi conhecia bem o sétimo mandamento da lei de Deus: “Não adulterarás” (Êxodo 20:14) bem como o décimo mandamento: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo...” (Êxodo 20:17). Davi, porém, sem nenhuma hesitação, sem nenhuma espera ou ponderação, sem medir as consequências, ficou cego pela volúpia e pela paixão. Warren Wiersbe diz: “Ao se demorar e olhar, Davi tentou a si mesmo; ao enviar mensageiros, tentou Bate-Seba; e ao se entregar aos desejos da carne, tentou o Senhor”.3 4. Uma curiosidade frívola. “Davi mandou perguntar quem era [...]” (2Samuel 11:3a). O problema de Davi não foi ter visto a mulher tomando banho, mas ter alimentado a concupiscência dos olhos. Ele deu curso ao desejo e avançou a linha divisória, buscando informação sobre a identidade da mulher. Abrir a agenda para o tentador é um risco fatal. Ser guiado pela concupiscência dos olhos é pisar em um terreno escorregadio. 5. Uma informação alertadora. “[...] disseram-lhe: É Bate-Seba, filha de Eliã e mulher de Urias, o heteu” (2Samuel 11:3b). Essa informação deveria fazer Davi pisar no freio. Bate-Seba tem avô, pai e marido. Ela era neta de Aitofel, seu conselheiro predileto (2Samuel 23:34; 16:23), filha de Eliã e mulher de Urias. Bate-Seba é descrita como tendo ligações com outros homens, notadamente, seu pai e seu marido. Ela era um valioso ser humano tanto como filha como esposa. Davi a tratou a princípio apenas como um objeto de prazer. Ele a coisificou, a objetificou, ignorando seu valor como pessoa humana. 6. Uma decisão insensata. “Então, enviou Davi mensageiros que a trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela. Tendo-se ela purificado da sua imundícia, voltou para casa” (2Samuel 11:4). O mesmo Davi que mandou perguntar quem era a mulher também envia mensageiros para trazer a mulher. Se ela veio a convite ou por imperativa convocação não sabemos, mas a intenção de Davi era indubitável. Ele a trouxe para seduzi-la e deitar- se com ela. A tentação apela para o desejo. O desejo cria a fantasia. A fantasia incendeia os sentimentos, e os sentimentos clamam por ação. Depois de coabitar com a mulher de Urias, ela voltou para sua casa. A intenção dos dois era guardar segredo daquele encontro e manter sob o anonimato aquela loucura (Provérbios 6:32). Aquele “ficar” em Jerusalém, aquele “leito”, aquele “passear” pelo terraço da casa real; aqueles poucos minutos de ociosidade, cobiça e consequente pecado trouxeram para o rei e para o povo de Israel anos de penosa luta e sofrimentos atrozes. 7. Uma ocultação vergonhosa.“A mulher concebeu e mandou dizer a Davi: Estou grávida” (2Samuel 11:5). Estas são as únicas palavras de Bate-Seba registradas em todo o episódio, mas são palavras que Davi não queria ouvir. Durante várias semanas as coisas continuaram como antes — eles juraram guardar segredo daquela noite. O que havia se passado era apenas uma aventura. Era uma recordação particular deles, trancada só em dois corações. Dentro de um mês ou dois, os sinais começam a aparecer: a ausência de um período menstrual, tontura matinal, náuseas e o segredo foi exposto. Bate- Seba descobre que está grávida e Davi é o pai. Desde a época do Éden, o homem procura encobrir os seus rastros. O fato de ter vivido uma mentira por uma noite, se não for confessado completamente, requer muitas outras mentiras para encobri-lo. A pessoa que tem reputação de integridade agora recorre a todo tipo de engano para salvar sua pele. Viver uma mentira leva a outras mentiras. Um abismo chama outro abismo. Do adultério ao assassinato Para encobrir seu pecado, proteger-se e eliminar as evidências, Davi busca uma saída, forjando, mentindo e cometendo crimes. Sobrou a Davi a opção de assassinato. Então, concentra seus esforços para eliminar Urias em uma elaborada trama. Vejamos: 1. Uma ordem real. “Então, enviou Davi mensageiros a Joabe, dizendo: Manda-me Urias, o heteu. Joabe enviou Urias a Davi” (2Samuel 11:6) Por que Urias? Será que o rei tinha alguma homenagem a fazer? Alguma medalha de honra ao mérito? Alguma promoção? Davi não dá explicações a Joabe, nem Joabe questiona as motivações de Davi. Simplesmente obedece à ordem real. Davi só mandou chamar Urias porque estava preocupado em acobertar sua má conduta sexual. 2. Uma estratégia hipócrita. “Vindo, pois, Urias a Davi, perguntou este como passava Joabe, como se achava o povo e como ia a guerra” (2Samuel 11:7). Davi faz três perguntas para Urias sem qualquer conexão com o propósito de sua vinda a Jerusalém. Trata-se de uma estratégia hipócrita, de um disfarce mentiroso. A resposta de Urias não é incluída na narrativa — uma omissão importante, simbolizando que Davi simplesmente o deixa falar, sem prestar nenhuma atenção ao relato que ele apresenta. 3. Uma insistência fracassada. As palavras de Urias, “tão certo como vives, não farei tal coisa” são irônicas em dois aspectos, e, do ponto de vista do leitor, condenam Davi: 1. Urias desobedece à ordem do rei (2Samuel 11:8,9), mas sua defesa é um lembrete que a lealdade ao Senhor e à sua causa suplantam até mesmo a autoridade do rei (2Samuel 11:11). 2. Embora Urias considere errado dormir com sua própria esposa enquanto o exército luta em Amom, Davi não tem esse escrúpulo. Alias, ele até dorme com a esposa de outro homem. Davi usou dois artifícios para tentar convencer Urias a ir para casa e deitar-se com sua própria mulher. O primeiro artifício foi uma generosidade injustificada: “Depois, disse Davi a Urias: Desce à tua casa e lava os pés. Saindo Urias da casa real, logo se lhe seguiu um presente do rei” (2Samuel 11:8). Quanto cuidado! Quanta solicitude aparente! Mas requintada hipocrisia. Um presente real destina-se a incentivar Urias a se considerar especialmente favorecido e, então, descontrair-se e aproveitar a oportunidade para ir para casa e ficar com a esposa. Se Urias fosse para casa e coabitasse com sua mulher, todo mundo saberia que a criança era filho dele. Davi estaria livre de culpa e responsabilidade. Era um plano engenhoso. A verdade seria sepultada na ignorância de Urias. A esse favor incompreensível, Urias não aquiesceu. Está escrito: “Porém Urias se deitou à porta da casa real, com todos os servos do seu senhor, e não desceu para sua casa” (2Samuel 11:9). O segundo artifício foi uma preocupação exacerbada. “Fizeram-no saber a Davi, dizendo: Urias não desceu a sua casa. Então disse Davi a Urias: Não vens tu duma jornada? Por que não desceste à tua casa?” (2Samuel 11:10). A resposta de Urias deixou Davi mais apreensivo. Urias respondeu com a realeza que nessa hora faltou a Davi. “Respondeu Urias a Davi: A Arca, Israel e Judá ficam em tendas; Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor estão acampados ao ar livre; e hei de eu entrar na minha casa, para comer e beber e para me deitar com minha mulher? Tão certo como tu vives e como vive a tua alma, não farei tal coisa” (2Samuel 11:11). O plano de Davi teria funcionado sem empecilhos se Urias e Deus tivessem cooperado. Davi não contou com a integridade de Urias nem com a concordância de Deus. Concordo com Dale Ralph Davis quando ele diz que Davi conduz as ações assentado no trono, porém ele não controla Urias. Ele coloca Urias sob influência, mas não sob a sua influência. Davi está no controle: ele convoca Urias, ele escreve cartas. Ele envia Urias para a morte. Mas ele não controla Deus.4 4. Uma hospitalidade fingida. “Então, disse Davi a Urias: Demora-te aqui ainda hoje, e amanhã te despedirei. Urias, pois, ficou em Jerusalém aquele dia e o seguinte. Davi o convidou, e comeu e bebeu diante dele, e o embebedou; à tarde, saiu Urias a deitar-se na sua cama, com os servos de seu senhor; porém não desceu a sua casa” (2Samuel 11:12,13). Davi oferece um jantar a Urias, uma distinção incomum a um soldado. Sua hospitalidade fidalga não passava de fingimento. Davi tinha a intenção de alterar o juízo e as inibições de Urias. Queria com essas palavras macias e com essas atitudes amáveis enviar Urias bêbado para casa e, assim, acobertar seu adultério. Davi pensou que Urias embriagado, mesmo que não tivesse relação sexual com Bate-Seba, de nada se lembraria e tudo ficaria bem. Concordo com Kevin Mellish quando ele diz: “Urias, um soldado bêbado, foi mais justo do que Davi, um rei sóbrio”.5 5. Uma crueldade desumana (2Samuel 11:14-25). Uma vez que todos os expedientes usados por Davi não funcionaram, ele partiu para uma medida radical. Resolveu matar Urias com a espada dos amonitas e o fez com requinte de crueldade. Davi estava disposto a matar um justo, um servo leal, um caráter nobre para acobertar seu pecado. Pela manhã, Davi escreveu uma carta ao comandante Joabe e a enviou por mão de Urias. Joabe deveria colocar Urias na frente da maior força da peleja com o propósito de deixá-lo sozinho, sem proteção, para ser ferido e morto. Assim, o guerreiro heteu carregou a sua própria sentença de morte em uma carta selada destinada a Joabe. O comandante das tropas de Israel atendeu à risca a ordem de Davi e, nessa trama de guerra, alguns do povo, dos servos de Davi e Urias morreram. Urias morreu em batalha, vítima da luxúria e do medo de seu próprio monarca. Davi passa para as mãos de Joabe o assassinato de um homem inocente. Isso coloca Joabe na posição nada invejável de conflito entre a lealdade ao rei e a lealdade à sua própria consciência. Joabe, então, enviou notícias a Davi noticiando-o do ocorrido, mas alertando ao mensageiro que se Davi, ao fim do relato ficasse irado com a baixa dos soldados, havia uma senha que poderia acalmar-lhe os ânimos: a informação de que Urias, o heteu, também estava morto. Davi mais uma vez transcende sua maldade ao responder ao comandante: “Assim dirás a Joabe: Não pareça isto mal aos teus olhos, pois a espada devora tanto este como aquele; intensifica a tua peleja contra a cidade e derrota-a; e, tu anima a Joabe” (2Samuel 11:25). Davi estava disposto a cometer qualquer desatino para amordaçar a verdade. Ele enterrou o seu pecado no túmulo de Urias. Um “caso extraconjugal” que tem continuidade sempre necessita de sacrifício. O sacrifício egoístico do amor, da lealdade, dos relacionamentos, do respeito, da integridade, da consciência e da comunhão com Deus. Davi não foi apenas responsável pela morte de Urias, mas também foi culpado pela morte de outros guerreiros que, inconscientemente, se tornaram um “dano colateral” da sua conspiração. 6. Uma tapeação insuficiente (2Samuel 11:26,27). Quando Bate-Seba soube da morte de seu marido, pranteou-o. Porém, passado o luto, Davi mandou buscá-la e a trouxe para o palácio; ela tornou-se sua mulher e lhedeu um filho. Um certo alívio tomou conta do coração de Davi e de Bate- Seba. Haviam conseguido esconder o pecado deles no túmulo de Urias. A gravidez de Bate-Seba e o nascimento da criança não seriam mais um escândalo em Israel. No entanto, a noite de prazer de Davi tornou-se um pesadelo de dor. As circunstâncias pareciam tranquilas para o rei, mas o seu coração estava atormentado. Os Salmos 32, 38 e 51 retratam esse tormento de Davi. 7. Uma reprovação contundente. Davi, porém, não contou com a reprovação divina. Está escrito: “[...] porém, isto que Davi fizera foi mal aos olhos do Senhor” (2Samuel 11:27b). Davi parece ter escapado impune, mas a narrativa lembra que ele não pode esconder seus crimes do olhar atento do Senhor. Davi diz a Joabe: “Não pareça isto mal aos teus olhos” (2Samuel 11:25). O Senhor, porém, não pode ser apaziguado tão facilmente quanto Joabe. O que Davi fez desagradou ao Senhor. Nas palavras de Dale Ralph Davis, “Davi podia ter a carne da Bate-Seba e o sangue de Urias, mas não escapou dos olhos de Deus”.6 Os pecados escondidos na terra são um escândalo público no céu. O que se faz com as portas trancadas na terra acontece diante dos olhos do Deus Todo-poderoso. Davi foi açoitado pelo chicote da culpa. Ele confessou mais tarde: “Enquanto eu calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Salmos 32:3,4). Algumas lições ficam patentes: 1. Ninguém, embora escolhido, abençoado e usado por Deus, está imune a um “caso” extraconjugal. 2. Qualquer pessoa, a despeito de grandes vitórias que tenha tido, pode cair desastrosamente. 3. O ato de infidelidade é o resultado de desejos, pensamentos e fantasias descontroladas. 4. Uma noite de paixão pode desencadear anos de dor para a família. Resta claro afirmar que o pecado levará você mais longe do que gostaria de ir; reterá você mais tempo do que gostaria de ficar e lhe custará um preço mais caro do que você gostaria de pagar. 1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 139-142,145. ↵ 2. GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. 2015, p. 133. ↵ 3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 326. ↵ 4. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 143,144. ↵ 5. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 282. ↵ 6. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 147. ↵ A Capítulo 18 Davi, o homem confrontado pela graça s trapaças de Davi pareciam ter funcionado. Ele contava com o silêncio de Joabe e com a conivência de Bate-Seba. O adultério com a mulher de Urias e o assassinato desse fiel soldado já pareciam ser águas passadas. O filho do adultério já tinha nascido e ninguém suspeitava de qualquer trama engendrada pelo rei. É bem verdade que nesse tempo de silêncio Davi estava vivendo um tormento existencial. Enquanto calou seu pecado, “envelheceram seus ossos pelos seus constantes gemidos todo o dia” (Salmos 32:3). Ele alagava seu leito com suas abundantes lágrimas e era açoitado, sem pausa, pelo azorrague da culpa. A graça de Deus caça e captura Davi O Senhor, então, por graça infinita, entra em ação para confrontar Davi e tirá-lo do atoleiro em que se encontrava. As consequências, porém, são trágicas. Davi paga a restituição quádrupla que ele mesmo se autodeterminou. Ainda assim, o Senhor mantém sua aliança e preserva tanto a vida quanto a dinastia de Davi. No capítulo 11 de 2Samuel é Davi quem está no controle. Ele faz as coisas acontecerem. Ele domina a ação totalmente desde o terraço do palácio real. Ele envia mensageiros para investigar quem é a mulher que estava se banhando. Depois envia mensageiros para trazê-la à casa real. Então, envia mensageiros a Joabe para lhe enviar Urias. Depois envia Urias portando sua própria sentença de morte a Joabe. Davi ordena e as coisas acontecem. Ele dá ordens, e as pessoas se submetem ao seu comando. Mas no capítulo 12 é Deus quem envia.1 Há alguém que exerce autoridade até mesmo sobre o rei. O Senhor, descontente com as ações de Davi (2Samuel 11:27), “envia” seu profeta para confrontar Davi. Assim no capítulo 12 de 2Samuel é Deus quem está no controle. É o Senhor quem “envia” o profeta Natã a Davi. Agora, é a graça de Deus que caça Davi e o encontra no emaranhado de suas transgressões. O profeta Natã poderia ter usado o método de João Batista em relação a Herodes Antipas, dizendo: “Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão” (Marcos 6:18). No entanto, ele escolheu um caminho indireto para arrancar do rei uma clara convicção de pecado. O narrador não explica se Natã contou um dos casos hipotéticos que poderia muito bem ter ocorrido em um dos tribunais locais ou se usou uma parábola. Robert Chisholm diz que Natã emprega uma história sobre abuso de poder, e não sobre adultério e homicídio, pois esse abuso é o cerne dos crimes de Davi.2 A relato de Natã tem alguns componentes de suma importância: 1. Uma história de dois homens (2Samuel 12:1-4). Havia em uma cidade dois homens, um homem rico e outro pobre. O rico tinha ovelhas e gado em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que crescera junto com seus filhos em sua casa. A cordeirinha comia do seu bocado e bebia do seu copo. Dormia em seus braços como se fosse sua filha. Vindo um viajante ao homem rico, este não quis tomar uma das suas ovelhas e de suas muitas reses para dar de comer ao viajante; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o homem que havia chegado. Como diz Warren Wiersbe, ao que parece, Davi não se deu conta de que ele era o homem rico, Urias, o homem pobre, e Bate-Seba, a cordeirinha que havia sido roubada.3 Davi tinha um harém, com muitas mulheres, e mesmo assim resolveu tomar a mulher de Urias, matá-lo e ainda casar-se com a mulher dele. 2. Uma sentença. Ao ouvir esse relato, Davi, do topo de seu afinado senso de justiça, fica muito irado e dá a sentença com santo zelo religioso: “Tão certo como vive o Senhor, o homem que fez isso deve ser morto” (2Samuel 12:5). Na língua hebraica, Davi chama o homem rico de “um filho da morte”.4 Robert Chisholm diz, acertadamente, que “sem saber, Urias levou sua sentença de morte a Joabe; agora, também sem saber, Davi pronuncia sua própria sentença de morte sob juramento”.5 Davi julgou o homem rico sem perceber que estava julgando a si mesmo. É mais fácil ver os pecados dos outros do que os próprios pecados (Mateus 7:1-3). Davi pretende dar o veredito acerca de outro, mas o que acontece é que dá o veredito sobre si mesmo. Ele está lavrando, em nome do Senhor, sua própria sentença de morte. Ele é o rico que, com crueldade, deitou-se com a mulher de seu soldado, matou-o e casou-se com ela. 3. Uma restituição. Davi como conhecedor da lei, declara: “E pela cordeirinha restituirá quatro vezes, porque fez tal coisa e porque não se compadeceu” (2Samuel 12:6). O que diz a lei? “Se alguém furtar boi ou ovelha e o abater ou vender, por um boi pagará cinco bois, e quatro ovelhas por uma ovelha” (Êxodo 22:1). Assim, Davi estava não só lavrando a própria sentença de morte, como determinando o alto preço que teria de pagar, a quádrupla retribuição, pois o bebê de Bate-Seba morreu e seus filhos Amnom, Absalão e Adonias foram mortos (13:29; 18:14,15; 1Reis 2:25). Joabe, o mesmo comandante que cumpriu a ordem de Davi para matar Urias, o marido de Bate-Seba, é quem matará Absalão, o filho de Davi. Davi pagou a restituição pela vida de Urias com a vida de seus próprios filhos. Somente depois que a restituição fosse completada poderia haver paz. O nome de Salomão está relacionado à palavra “paz”. Logo, quando Salomão subiu ao trono houve paz porque a restituição havia sido feita pelas transgressões de Davi. Pelo resto de sua vida, Davi passou por uma sucessão de tragédias em sua família e em seu reino. 4. Uma acusação. O profeta Natã, com perícia, clareza diáfana e coragem desassombrada, diz a Davi: “Tu és o homem” (2Samuel 12:7a).Davi é apanhado pelas cordas de seu próprio pecado. É encurralado pelas suas próprias palavras e despido de seus disfarces. Nas palavras de Joyce Baldwin “todas as defesas de Davi foram destruídas com um só golpe, e ali está ele, despido perante seu juiz”.6 Por que Deus tomou a iniciativa de confrontar Davi? Primeiro, o pecado anestesia. Davi ficou cerca de dez meses usando uma máscara, mentindo, representando. Segundo, o pecado engana. Davi condena nos outros o que não consegue ver em si mesmo. Terceiro, o pecado embrutece. Mesmo tendo muitas mulheres, Davi roubou a mulher de Urias e o matou para ficar com ela. Quarto, o pecado escraviza. Davi não consegue se libertar até que Deus o liberte. A graça de Deus confronta Davi Depois de levar Davi ao conhecimento de seu próprio pecado, Natã destacou os favores da graça de Deus na vida de Davi. Vejamos: 1. O favor imerecido de Deus (2Samuel 12:7b,8). Davi se esqueceu da bondade de Deus que lhe havia concedido tantos privilégios. Quatro dádivas são mencionadas aqui: a unção divina como rei de Israel, o livramento das muitas perseguições de Saul, a casa de Saul e suas mulheres, e a casa de Israel e Judá. Se essas dádivas não fossem suficientes, Deus ainda teria acrescentado outras benesses. É mister esclarecer aqui que o costume era que o harém do monarca morto seria herdado pelo sucessor, e, de acordo com essa regra, Davi já havia ampliado sua família.7 2. A acusação aberta de Deus. “Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que era mal perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom” (2Samuel 12:9). Quanto maiores os privilégios, maiores as responsabilidades. Diante de tantos benefícios da graça, Davi é acusado de ter desprezado a Palavra do Senhor, o que significa desprezar o próprio Senhor, fazendo uma coisa má. O pecado é algo muito maligno. Viola a lei de Deus. Escarnece de Deus. Afronta a santidade de Deus. Pisa a bondade de Deus. Insulta a cruz de Cristo. Entristece o Espírito Santo. A acusação não é genérica. Davi feriu Urias, o heteu, à espada, tomou a mulher dele como mulher e depois matou-o com a espada dos filhos de Amom. Davi usou a espada do próprio inimigo, os amonitas, para matar Urias. Concordo com Dale Ralph Davis quando ele escreve: “Davi não somente cometeu iniquidade, mas também destruiu pessoas. Ele pecou contra o Senhor e arruinou pessoas”.8 Nas palavras de Joyce Baldwin, “embora Davi tivesse planejado essa morte à distância, ele era tão culpado de assassinato quanto se tivesse atravessado o homem com sua própria espada”.9 Pelo fato de Davi ter usado a espada dos amonitas para causar a morte de Urias, essa ferramenta de guerra jamais se afastaria de sua casa. 3. A retribuição justa de Deus (2Samuel 12:10-12). Deus perdoou Davi, portanto, ele não morrerá. No entanto, as consequências do pecado de Davi não foram removidas. Warren Wiersbe tem razão em dizer que o pecado de Davi com Bate-Seba havia sido um pecado passional, impulsivo, que o arrebatou, mas o pecado de mandar matar Urias havia sido um crime premeditado, deliberado e vergonhoso.10 Robert Chisholm diz que o castigo do Senhor sobre Davi é caracterizado pela justiça retributiva. Davi (e não os amonitas nem Joabe) matou Urias, e agora a espada devastará a casa de Davi. Três dos seus filhos, Amnom, Absalão e Adonias, morreram de forma violenta (2Samuel 13:28,29; 18:14; 1Reis 2:24,25): Absalão mata seu rival, Amnom; e Salomão mata seu rival, Adonias; em ambos os casos, fazem-no por meio de outros. Joabe, que providenciou a morte de Urias, mata Absalão mais adiante.11 Porque Davi desprezou a Deus e tomou a mulher de Urias, o heteu, para ser sua mulher, a espada não se apartará de sua casa. Da própria casa Davi, Deus suscitará o mal contra ele e permitirá que suas mulheres sejam dadas a seu filho Absalão, que coabitará com elas publicamente (2Samuel 16:22). O que Davi fez em oculto, Absalão fará em plena luz do sol. Há cinco tipos de consequências do pecado: 1. Consequências para nós mesmos. O prazer do pecado de Davi tornou-se em tormento. Ele chorava. Sentia seus ossos arderem. Sentia a mão de Deus pesando sobre ele de dia e de noite. Seu vigor se tornou em sequidão de estio. A alegria da salvação foi embora de sua vida. A culpa o devastava. A vergonha de ver o seu pecado oculto sendo trombeteado dos outeiros da história o humilhou. 2. Consequências para nossa família. As esposas, os filhos e os netos de Davi sofreram as consequências de seu pecado. As pessoas que ele mais amava sofreram os revezes de seu pecado. Amnom, cujo nome significa “digno de confiança”, estuprou sua irmã Tamar. Absalão, cujo nome significa “pai da paz” matou seu irmão Amnom e conspirou contra o pai. Absalão também coabitou com as concubinas de seu pai em plena luz do sol e perseguiu o próprio pai para matá-lo, morrendo nessa inglória empreitada. Salomão, a quem Davi dá o reino, mata seu irmão Adonias. Quando Amnom estuprou sua irmã Tamar, Davi lembrou-se de ter possuído indevidamente a mulher de Urias. Quando Absalão matou Amnom, Davi se lembrou de que, covardemente, mandou matar Urias. Quando Absalão, seu filho, foi morto pelas mãos de Joabe, seu general, Davi se lembrou de que Urias tinha sido morto por sua ordem. 3. Consequências para a comunidade do povo de Deus. Muita gente sofreu e foi morta como resultado do pecado de Davi. Um pecado oculto traz derrota para toda a igreja. 4. Consequências para a comunidade não cristã. As pessoas blasfemaram o nome de Deus. Muita gente se escandaliza e se afasta de Deus por causa desse tipo de pecado. 5. Consequências para o Senhor Deus. O Senhor sofreu ao ver Davi, seu filho amado, pecar premeditadamente, testemunhando a maldade de Davi ao deitar-se na cama do adultério. O Senhor Jesus chorou sobre a impenitente Jerusalém. A graça de Deus poupa Davi Diferentemente de Saul, Davi ao ser confrontado pelo profeta, não usa de evasivas, não dá desculpas nem tenta incriminar outras pessoas. Ele admite o seu pecado e o confessa. Vejamos: 1. A confissão. “Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor [...]” (2Samuel 12:13a). Davi adulterou com Bate-Seba e mandou matar o marido dela, mas reconheceu que o pecado foi cometido, em primeiro grau, contra Deus. Em vez de agir como Saul, que se opunha de forma obstinada em receber censura (1Samuel 15:13,20), Davi se arrepende e confessa o seu pecado. 2. A absolvição. “[...] disse Natã a Davi: Também o Senhor te perdoou o teu pecado; não morrerás” (2Samuel 12:13b). Davi era culpado de morte (Levítico 20:10; Deuteronômio 22:22), mas Deus o perdoou e poupou sua vida. Davi foi absolvido da própria sentença lavrada contra si mesmo. Robert Chisholm destaca que, nesse caso, o perdão divino não implica a anulação das acusações nem a eliminação de todas as consequências. Em virtude desse rico perdão, Davi escreveu vários Salmos destacando essa verdade bendita: “Se observares, Senhor, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perdão para que te temam” (Salmos 130:3,4). “O Senhor é quem perdoa todas as tuas iniquidades [...] quem da cova redime a tua vida [...]. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” (Salmos 103:3,4,12). No tempo em que guardou nos cofres do coração o pecado, Davi muito sofreu, como ele expressa nos salmos 32 e 51. 3. A substituição. “Mas, posto que com isto deste motivo a que blasfemassem os inimigos do S, também o filho que te nasceu morrerá” (2Samuel 12:14). Dale Ralph Davis diz que o Senhor perdoou a culpa do pecado, mas infligiu as consequências dele. Deus purifica a sujeira do pecado, mas continua sua disciplina. O perdão para Davi é maravilhoso e ao mesmo tempo muito caro. Davi não morreu, mas seu filho morreu em seu lugar. Davi era o culpado de morte, no entanto, Natã lhe garantiu que ele não morreria, mas uma morte deveria ocorrer. O filho recém-nascido deveria morrer. O filho de Davi foi o seu substituto.12 O inocentemorreu pelo culpado. Houve aqui uma substituição. Mil anos depois, o Filho de Davi morreu em nosso lugar, para que pudéssemos viver eternamente. A graça de Deus disciplina Davi Ao concluir a missão de confrontar o rei, Natã voltou para sua casa, e o Senhor feriu a criança que a mulher de Urias havia dado à luz a Davi. Deus aplica o remédio amargo, mas curador, da disciplina (Hebreus 12:4-13). Destacamos aqui alguns pontos: 1. Deus é o agente da disciplina (2Samuel 12:16a). Assim como Deus outrora havia ferido Nabal, agora fere a criança a ponto de ela adoecer gravemente. A doença e a consequentemente morte da criança era o braço de Deus disciplinando severamente Davi. Joyce Baldwin está correta quando escreve: “O escritor bíblico não hesita em atribuir diretamente ao Senhor a doença da criança, de conformidade com a palavra do profeta”.13 2. Davi se prostra diante de Deus (2Samuel 12:16b,17). Mesmo sabendo, da parte do profeta Natã, que a criança morreria, Davi se prostra diante de Deus em jejum e oração durante toda a noite. Davi se recusou a se levantar da terra e comer. Ele cria que Deus poderia reverter a situação e, por isso, não cessou de se humilhar e orar. 3. Davi recebe a notícia do morte do filho (2Samuel 12:18,19). No sétimo dia, a criança morreu. O bebê viveu apenas uma semana, e os pais não puderam circuncidá-lo nem dar-lhe um nome no oitavo dia. Como diz Warren Wiersbe: “Seu filho, Salomão, recebeu dois nomes (12:24,25), mas esse filho sequer teve um nome”.14 Os servos de Davi ficaram preocupados em dar a notícia a Davi e ele ficar ainda mais afligido. Percebendo, porém, o embaraço deles, Davi concluiu que a criança havia morrido. Então perguntou: “[...] é morta a criança? Eles responderam: Morreu” (12:19b). 4. Davi adora ao Senhor (2Samuel 12:20). Para espanto dos anciãos, Davi se levantou da terra, lavou-se, ungiu-se, mudou de vestes, entrou na casa do Senhor e adorou; em seguida, voltou para casa, pediu pão e comeu. Os anciãos, perplexos, lhe disseram: “Que é isto que fizeste? Pela criança viva jejuaste e choraste; porém, depois que ela morreu, te levantaste e comeste pão” (2Samuel 12:21). 5. Davi é consolado pela realidade do reencontro na vida porvir. Davi explica as razões de sua atitude. Respondeu ele: Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? (2Samuel 12:22,23a). Davi aceita a irreversibilidade da morte com fé na imortalidade,15 pois se agora a criança morta não pode voltar a ele; depois de sua morte, ele se encontrará com ela. A graça de Deus consola Davi O Deus que é rico em perdoar e tem prazer na misericórdia demonstra o seu perdão a Davi depois da morte da criança. Davi deitou-se com Bate- Seba, e ela teve um outro filho, a quem Davi deu o nome de Salomão, cujo significado é “pacífico”; e o Senhor o amou. Davi o entregou nas mãos do profeta Natã, e este lhe chamou Jedidias, cujo significado é “amado do Senhor”. Salomão ou Jedidias, entre todos os filhos que Davi teve, foi o escolhido de Deus para sucedê-lo. O fato dele ter sido escolhido só confirma a mensagem bendita de que existe um caminho de volta para a comunhão com Deus, mesmo que seja um retorno das profundezas do mal. Deus perdoa pecadores arrependidos. 1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 149. ↵ 2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 239. ↵ 3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 329. ↵ 4. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 246. ↵ 5. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 239,240. ↵ 6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 268. ↵ 7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 268. ↵ 8. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 153. ↵ 9. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 269. ↵ 10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 329. ↵ 11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 241. ↵ 12. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 156,157. ↵ 13. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 271. ↵ 14. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2, 2006, p. 331. ↵ 15. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2, 2015, p. 247. ↵ E Capítulo 19 Davi, o pai de uma família disfuncional ste capítulo é uma das páginas mais sombrias na história do rei Davi. Está encharcado de sangue. Há na casa do rei traição, omissão, estupro, ódio, assassinato e fuga. Davi está colhendo os amargos frutos da sua semeadura insensata. A espada está consumindo sua família. A dor que impôs à família de Urias está pulsando em seu próprio peito: O bebê de Bate-Seba morreu; Absalão matou Amnom; Joabe matou Absalão; e Salomão matou Adonias. Há um contraste patético entre os grandes sucessos de Davi como um soldado e general, e a rápida desintegração moral dos membros de sua própria casa. A família de Davi está desmoronando diante de seus olhos. O valente Davi nos campos de guerra é um homem acovardado dentro de casa. Ele não passa de um pai omisso que não tem controle sobre seus próprios filhos. Warren Wiersbe diz que os acontecimentos que encontramos neste capítulo desdobram-se como uma sinfonia trágica com quatro movimentos: (1) Do amor à lascívia (13:1-14); (2) da lascívia ao ódio (13:15-22); (3) do ódio ao homicídio (13:23-36); 4) do homicídio ao exílio (13:27-39).1 Eis alguns aspectos da trágica família de Davi: Amnom, paixão sem amor Davi tinha uma família disfuncional. Tinha vários filhos de mulheres diferentes, formando o que se chama de “meios-irmãos”. Davi honrava os filhos, colocando-os como ministros de Estado e dando-lhes terra para cultivar, porém não tinha comunhão com eles. Não os acompanhava na vida pessoal. Seu primogênito, Amnom, está abatido, deprimido, emagrecendo, enquanto alimentava uma paixão doentia pela própria irmã, Tamar; e Davi nada sabe do que está acontecendo. Nas palavras de Joyce Baldwin, “o rei já estava distanciado de tudo o que se passava entre os filhos de suas diferentes mulheres”.2 Vejamos: 1. Uma paixão doentia (2Samuel 13:1,2). Tamar, filha de Davi com Maaca e meio-irmã de Amnom, era uma princesa real muito formosa. Amnom, filho primogênito de Davi com Ainoã, enamorou-se dela, sentindo por ela uma paixão avassaladora. Ammom, herdeiro do trono e príncipe real, angustiou-se a ponto de adoecer. Ela era virgem, na idade de ser desposada, e Amnom não via qualquer chance de se aproximar dela e fazer alguma coisa, uma vez que era sua irmã. Robert Chisholm destaca que tanto o narrador (13:2,8,10), quanto Amnom (13:6,11, Davi (13:7), Tamar (13:12) e Absalão (13:20) se referem a Amnom como “irmão” de Tamar. No mínimo, essas repetições destacam o fato de que Amnom estuprou alguém de sua própria família.3 2. Um fingimento traidor (2Samuel 13:6). Jonadabe, sobrinho de Davi (filho de Simeia) e primo de Amnom, estava na casa de Amnom e, vendo o abatimento do primo, inquiriu dele a causa da angústia doentia. Ao tomar conhecimento, recomendou a Amnom a fingir-se de doente, pois só assim Davi viria visitá-lo. Ao visitá-lo, Davi deveria ser usado como instrumento para enviar Tamar para a casa de Amnom. Concordo com Warren Wiersbe quando ele diz: “Qualquer um que facilita o pecado em nossa vida certamente não é um amigo verdadeiro”.4 3. Uma desonra insuportável (2Samuel 13:9-14). Tamar, na boa intenção de cuidar do irmão doente, foi empurrada pelo pai para a boca do lobo, para o quarto do irmão traidor. Ali, Amnom fez uma proposta infame para deitar- se com ela. Quando ela resistiu à sua loucura, ele a forçou. Tamar fez um apelo a um código moral e espiritual que distinguia Israel das nações pagãs, mas ela não foi ouvida, antes foi agarrada à força e estuprada com violência pelo falso doente, a despeito dos rogos desesperados da irmã. Tamar tentou aconselhar seu irmão anão cometer aquela loucura, mas ele tapou os ouvidos, não escutando seu pedido de socorro nem seus conselhos; e, prevalecendo sobre ela, a violentou sexualmente. 4. Uma aversão humilhante (2Samuel 13:15-19). Depois de abusar sexualmente da irmã, Amnom sentiu grande aversão por ela. A paixão foi seguida de repulsa. Seu amor explosivo transformou-se em ódio consumado. Nas palavras de Warren Wiersbe, “antes de pecar, Amnom queria Tamar somente para si; mas depois de pecar, não viu a hora de livrar-se dela”.5 A ordem expressa de Amnom agora é “Jogue fora esta coisa”. Depois de extorquir a honra de sua irmã, Amnom deu ordens à ela para se levantar e ir embora. Tamar, mesmo depois de desonrada, aconselha seu irmão a não descartá-la como um trapo, pois não poderia conviver com essa desonra. O segundo apelo de Tamar caiu em ouvidos surdos, e ela foi deitada fora do quarto de Amnom, e a porta foi fechada atrás dela. Mesmo vestida de uma túnica peculiar às donzelas filhas do rei, Tamar foi descartada como lixo; e ao ser lançada fora, tomou cinza sobre a cabeça, rasgou a túnica talar de mangas compridas, pôs as mãos sobre a cabeça e foi-se andando e clamando. Jonadabe, sagacidade sem princípios A Palavra de Deus fala da águia que coloca o ninho de seus filhos no alto dos penhascos, longe dos predadores ( Jó 39:27,28). No ninho dos filhos do rei Davi tinha uma víbora venenosa. Jonadabe, filho de Simeia e sobrinho de Davi, era um parente perigoso, um conselheiro perverso, uma ameaça à família do rei. Vejamos: 1. Um amigo perigoso (2Samuel 13:3). Jonadabe era uma víbora peçonhenta no ninho dos filhos do rei, um homem engenhoso. Esse primo de Amnom é chamado de amigo e de um homem muito sagaz. Era astuto, ardiloso e perverso. Ele conhecia mais Amnom de que o pai e estava mais próximo dele do que Davi. Ele tinha mais acesso ao coração do filho primogênito do rei e provável sucessor ao trono do que o próprio rei. Uma pergunta é oportuna aqui: Quem são os amigos de seus filhos? Quem são as pessoas que frequentam sua casa? Quão próximo você está de seus filhos a ponto de perceber como eles se sentem? 2. Um conselheiro perverso (2Samuel 13:4,5). Quando Amnom destampou o coração para Jonadabe, este lhe deu um conselho perverso, maligno e destruidor. Orientou Amnom a mentir, a fingir, a armar uma cilada para atrair Tamar ao seu quarto. Nesse enredo diabólico, o rei Davi seria o inocente útil, a massa de manobra. Davi seria usado para trazer a jovem Tamar à casa de Amnom para fazer-lhe uma refeição especial. Mesmo sendo tão perspicaz, Davi não notou nada. Sendo um guerreiro experiente, que desvendou tantas tramas e desfez tantas armadilhas, caiu na teia do engano e entregou de bandeja a própria filha às mãos do filho traidor. Um conselho perverso foi a causa de ruína de casa do rei. Joyce Baldwin diz que Jonadabe, arguto observador, percebendo que algo estava errado com o príncipe Amnom; ao descobrir que ele estava perdido de amor, propõe um estratagema que não somente levará Tamar até ele, mas também tornará o pai deles responsável por isso.6 Amnom como primogênito do rei se tornou obcecado com a única coisa que lhe parece impossível ter: sua irmã Tamar. Já vimos esse padrão antes. Davi tem várias esposas e concubinas para satisfazer seus desejos físicos (5:13; 12:8), mas toma, cobiçosamente, uma mulher que não lhe é permitida. Amnom repetiu o pecado de se pai. 3. Um informante dissimulado (2Samuel 13:32-35). Jonadabe é um homem maligno e dissimulado. Ele foi o causador da loucura de Amnom, do estupro de Tamar, do assassinato de Amnom e agora, quando a notícia da vingança de Absalão está para chegar à casa real, estrategicamente, ele está perto de Davi para acusá-lo veladamente de omissão. Jonadabe é a mão invisível que está por trás de toda a tragédia na família de Davi. A notícia da morte de Amnom chega à casa real de forma exagerada. Davi é informado de que todos os seus filhos haviam sido assassinados por Absalão. Jonadabe está por perto para dizer a Davi que essa notícia era inverídica. Só havia morrido Amnom, pois há dois anos, as afeições de Absalão apontavam para essa tragédia. Como Jonadabe sabia disso, se não estava presente na cena do crime? É porque ele, sagazmente, foi o idealizador de toda essa trama que encharcou de sangue a família real. 4. Um acusador velado (2Samuel 13:32-35). Resta claro afirmar que a informação prestada por Jonadabe ao rei Davi tem um tom de censura e acusação. As afeições de Absalão já sinalizavam esse assassinato desde o dia em que Tamar fora forçada por Amnom. O rei Davi foi omisso em corrigir Amnom, em consolar Tamar e em advertir Absalão. As coisas estavam acontecendo debaixo do nariz de Davi, mas ele não fez nada. Davi, ira sem justiça Davi é um grande rei e um pequeno pai. Teve vitórias expressivas fora dos portões e derrota fragorosas dentro de casa. Foi um gigante no trono, mas um nanico no lar. Construiu um reino, mas perdeu a família. Vejamos: 1. Uma ingenuidade incompreensível (2Samuel 13:6-8). Davi não acompanhou o processo de adoecimento de Amnom nem questionou as razões desse emagrecimento diário de seu primogênito (2Samuel 13:3). Davi só visita o filho ao saber que está de cama (2Samuel 13:6). Ao visitá-lo, Davi não questiona o fato de Amnom só se dispor a comer se a refeição fosse preparada por Tamar. Davi mandou dizer a Tamar em sua casa: “Vai à casa de Amnom, teu irmão, e faze-lhe comida” (2Samuel 13:7). Davi não investigou atentamente os motivos desse pedido uma tanto estranho. Davi enviou Tamar como uma cordeirinha para a boca do lobo. Robert Chisholm enfatiza que o mesmo Davi que mandou (shalah) buscar Bate-Seba (11:4) e depois enviou o marido dela para ser morto (2Samuel 11:14,15) tem participação, ainda que sem saber, nos crimes de seus dois filhos. Ele envia uma mensagem com instruções para que Tamar vá à casa de Amnom, onde ela é estuprada; mais adiante, envia Amnom para a festa de Absalão, onde ele é assassinado (2Samuel 13:27). No capítulo 11, o narrador retratou Davi como um indivíduo absolutamente soberano: ele enviava pessoas para onde queria (2Samuel 11:1,3,4,12,27) e, por meio de uma simplesmente mensagem, realizava seus desejos (2Samuel 11:6,14). No entanto, ele usou o poder para satisfazer sua lascívia e encobrir seu crime. No capítulo 13, ele continua a exercer autoridade sobre outros, mas sua autoridade se volta contra ele quando o Senhor providencia para que Davi cumpra a pena que ele se autoimpôs.7 2. Uma ira sem ação (2Samuel 13:21). Quando Davi tomou conhecimento de que Amnom o havia usado para atrair Tamar à sua casa, para estuprá-la e depois a havia enxotado como um trapo, “ouvindo o rei Davi todas estas coisas, muito se lhe acendeu a ira” (v. 13). A ira de Davi, embora vulcânica, foi inócua. Não produziu os frutos de justiça. Ele nada fez para punir o filho malfeitor. Davi não contrariava seus filhos (1Reis 1:6). Obviamente, ao se recusar a castigar Amnom, Davi nega a defender os direitos de sua filha Tamar. Davi era valente com os de fora, mas fraco com os de casa. Ele não castigou Amnom nem consolou Tamar. Foi omisso tanto na correção do filho estuprador como no consolo da filha desonrada. Como um pai fraco, Davi repete o erro de Eli, de amar mais os filhos do que a Deus. É muito provável que a lembrança de seus próprios pecados tenha calado a boca de Davi e atado suas mãos. Concordo com W. T. Purkiser quando ele escreve: “A fraqueza de Davi não só lhe custaria a vida de seu filho mais velho, Amnom, mas também ao final, a lealdade e a vida de Absalão”.8 À semelhança de Eli e Samuel, Davi perdeu o controle sobre os filhos, e seu próprio mau exemplo inibiria qualquer protesto contra Amnom. Absalão, contudo, mostrou sua desaprovação, recusando-se a ter qualquer relacionamento com Amnom e, alimentando uma raiva secreta, esperou uma oportunidade de vingar o mal cometido contra a irmã. 3. Uma omissão denunciada (2Samuel 13:32-36). Jonadabe é um estrategista maligno. Ele é sagaz como uma serpente, planejando tudo diligentemente.Ele estava na casa de Amnom para empurrá-lo para o abismo do estupro e estava na casa real para espicaçar o rei com uma acusação velada de omissão. Embora estivesse ausente da cena do crime, ele sabia que só Amnom tinha sido assassinado, e não todos os filhos do rei. Ele estava ciente de tudo, mas Davi não fez nada para impedir a morte de Amnom, mesmo depois de Absalão insistir com ele para que Amnom não faltasse à sua festa. As feições de Absalão, durante dois anos, eram conhecidas de todos, exceto de Davi. A morte do primogênito de Davi é colocada em sua conta, devido à sua omissão. Tamar, ingenuidade sem proteção Destacamos, aqui, cinco fatos sobre Tamar, a bela princesa, filha de Davi com Maaca e irmã de Absalão: 1. Vítima de uma trama do irmão e do primo (2Samuel 13:1-6). Tamar tem sua vida transtornada ao ser arrastada, sem saber, para a casa de Amnom, seu irmão. Ela, de boa fé, atende à ordem de Davi, seu pai, para ir à casa de Amnom preparar-lhe uma refeição. Por que só os bolos preparados por Tamar poderiam despertar apetite no irmão enfermo? Por que Davi acreditaria nessa narrativa? Por que Davi ordena Tamar ir à casa de Amnom? Por que Tamar obedece sem questionar a ordem de seu pai? O fato é que Tamar é vítima de uma trama, orquestrada pelo primo e pelo irmão, com a colaboração ingênua do pai. 2. Vítima de uma ordem do pai (2Samuel 13:7-9). Tamar recebe em casa uma ordem do pai para ir à casa de Amnom preparar-lhe comida. Sem demora, ela atende à ordem. Foi e preparou os bolos diante de Amnom, que estava acamado. Amnom, estrategicamente, recusou-se a comer os bolos, dando ordens para que todos se retirassem da casa. Seu ato planejado não deveria ter testemunhas. 3. Vítima de um estupro violento (2Samuel 13:10-14). Amnom deu ordens à Tamar a trazer a comida à sua câmara. Quando Tamar trouxe os bolos, Amnom pegou-a e disse-lhe: “Vem, deita-te comigo, minha irmã” (2Samuel 13:11). Tamar tentou alertar seu irmão acerca da gravidade de seu pedido, dizendo-lhe: “Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em Israel; não faças tal loucura. Porque, aonde iria eu com a minha vergonha? E tu serias como um dos loucos de Israel [...]” (2Samuel 13:12,13a). De modo irônico, a loucura agora caracteriza a casa real. A casal real se tornou um lugar em que a sabedoria é pervertida juntamente com a moralidade. Tamar chegou a sugerir a seu irmão uma alternativa desesperada: “[...] agora, pois, peço-te que fales ao rei, porque não me negará a ti” (2Samuel 13:13b). Obviamente, Tamar tentou ganhar tempo sugerindo que Amnom pedisse permissão ao rei para casar-se com ela, apesar de saber que esse tipo de casamento era proibido pela lei de Moisés (Levítico 18:9-11; 20:17; Deuteronômio 27:22). Amnom, porém, não deu guarida às palavras de Tamar. Está escrito: “Porém ele não quis dar ouvidos ao que ela lhe dizia; antes, sendo mais forte do que ela, forçou-a e se deitou com ela” (2Samuel 13:14). 4. Vítima de uma rejeição humilhante (2Samuel 13:15-19). Depois de forçar Tamar, violentando-a, Amnom sentiu nojo dela. Sua aversão foi maior do que o amor que ele lhe havia votado: “Depois, Amnom sentiu por ela grande aversão, e maior era a aversão que sentiu por ela que o amor que ele lhe votara” (2Samuel 13:15a). Cumprido seu desejo compulsivo, Amnom dá ordens à sua irmã para ir embora: “[...] levanta-te, vai-te embora” (2Samuel 13:15b). A mesma Tamar que pediu para não ser desonrada, agora pede para não ser lançada fora: “Então, ela lhe disse: Não, meu irmão; porque maior é esta injúria, lançando-me fora, do que a outra que me fizeste” (2Samuel 13:16ª). Kevin Mellish diz que a reação de Tamar reflete a legislação de que o jovem era obrigado a se casar com a virgem que ele estuprasse (Êxodo 22:16; Deuteronômio 22:28,29).9 Porém, pela segunda vez, Amnom não atende ao apelo de sua irmã: “[...] porém ele não a quis ouvir” (2Samuel 13:16b). Amnom chamou a seu moço e lhe deu ordens expressas: “[...] deita fora esta e fecha a porta após ela”. Agora, Tamar já não tem mais nome nem identidade, é apenas “esta”, uma coisa, um objeto descartável. Tamar, a filha do rei, é lançada fora como lixo, e mesmo trajando roupas reais, rasga seu manto, cobre a cabeça com cinza e sai clamando e lamentando com as mãos sobre a cabeça. 5. Vítima da omissão do pai (2Samuel 13:20,21). Absalão já desconfiava das atitudes de Amnom, ao perguntar a Tamar: “[...] esteve Amnom, teu irmão, contigo?” (2Samuel 13:20a). Davi, o pai, mesmo sendo um homem tão perspicaz, nada desconfiou para, preventivamente, evitar a tragédia. Porém, depois que a tragédia aconteceu, ele apenas ficou muito irado, mas nada fez para minorar o mal já lavrado em sua família. Foi omisso no confronto a Amnom e ausente no consolo a Tamar (2Samuel 13:21). Em vez de trazer Tamar para si, Tamar encontrou abrigo na casa de Absalão, seu irmão, que lhe disse: “[...] não se angustie o teu coração por isso. Assim ficou Tamar e esteve desolada em casa de Absalão, seu irmão” (2Samuel 13:20b). Assim, Tamar refugiou-se na casa de Absalão desolada, afastada da sociedade, desqualificada para o casamento, embora não por sua própria culpa. Absalão, ódio sem restrição Absalão, pai da paz, alimenta uma guerra no coração. A ira de Absalão fervilhou por dois anos enquanto maquinou o assassinato de Amnom. Assim, Absalão toma para si a dor de sua irmã violentada por Amnom e durante dois anos planeja a vingança. Warren Wiersbe diz que, a mente astuta de Absalão já estava criando um plano para cumprir três propósitos: vingar Tamar, livrar-se Amnom e colocar-se como o próximo na linha de sucessão ao trono.10 Vejamos: 1. Ódio velado (2Samuel 13:20,22). O ódio de Absalão é sofisticado. Ele consegue se controlar para agir na hora certa. Sua vingança foi premeditada. Seu silêncio não era a voz do perdão, mas o planejamento meticuloso de um assassinato: “Porém Absalão não falou com Amnom nem mal nem bem; porque odiava a Amnom, por ter este forçado a Tamar, sua irmã” (2Samuel 13:22). 2. Assassinato planejado (2Samuel 13:23-27). Passados dois anos, Absalão tosquiava suas ovelhas em Baal-Hazor e convidou todos os filhos do rei para sua festa (2Samuel 13:23). Ele foi ao rei Davi, seu pai, para, pessoalmente, convidar a ele e a todos os seus servidores (2Samuel 13:24). Davi dá uma resposta infundada, usando um argumento tolo: “[...] não, filho meu, não vamos todos juntos, para não te sermos pesados [...]” (2Samuel 13:25). Absalão insistiu com seu pai, mas Davi não quis ir à sua festa. Então, Absalão dá a senha da tragédia a Davi: “Então, disse Absalão: Se não queres ir, pelo menos deixa ir conosco Amnom, meu irmão [...]” (2Samuel 13:26a). Davi, de forma tímida e superficial, tendo oportunidade de confrontar Absalão, apenas lhe faz uma pergunta: “[...] para que iria ele contigo?” (2Samuel 13:26b). Absalão continuou a insistir com Davi e este aquiesceu ao seu pleito e deixou ir com ele Amnom e todos os filhos do rei (2Samuel 13:27). Robert Chisholm destaca que, sem saber, Davi envia Tamar para sua destruição a pedido de Amnom (2Samuel 13:7); agora, sem saber, envia Amnom para a morte, a pedido de Absalão.11 3. Assassinato executado (2Samuel 13:28-31). A festa de Absalão era uma tocaia, uma armadilha para matar Amnom. O pai da paz deu ordem a seus moços para ficarem de olho em Amnom para que, ao estar ele com o coração alegre de vinho, insurgissem contra ele para feri-lo e matá-lo (2Samuel 13:28). De acordo com Robert Chisholm, esse é mais um eco do crime de Davi, o que deixa claro que a morte de Amnom faz parte do castigo pelo pecado de seu pai. Davi instruiu Joabe a recuar para que Urias fosse ferido e morresse (2Samuel 11:15). Esses mesmos verbos (nakah e mut) são usados nas instruções de Absalão a seus homens. Essa reverberação do crime de Davi sugere que o filho repete o crime do pai e contribui para o tema da justiça retributiva.12 Warren Wiersbe chama a atenção para o seguinte fato: Davi havia providenciado para que Urias, o heteu, fosse morto e havia sobrevivido, então, por queo mesmo não poderia se aplicar a seu filho, Absalão? Assim como o pai, Absalão usou as mãos de outros para executar o crime e o fez quando a vítima menos esperava. Davi havia embriagado Urias, mas não conseguiu colocar seu plano em prática, enquanto Absalão embriagou o irmão e fez exatamente aquilo que havia planejado. Absalão seguiu o péssimo exemplo do pai e cometeu um homicídio premeditado.13 Uma vez que Amnom, sendo o primogênito, era o primeiro na linha de sucessão de Davi e o candidato legítimo à sucessão do trono e sendo Absalão o número dois da lista, a morte de Amnom satisfez tanto a vingança de Absalão como a sua ambição política. Warren Wiersbe diz que o fato de Absalão ter sangue real nas veias tanto por parte de pai como de mãe pode tê-lo impelido em sua busca egoísta por um reino.14 Cumprindo à risca o plano, os moços de Absalão mataram Amnom e todos os filhos do rei se levantaram e fugiram (2Samuel 13:29). Enquanto os filhos de Davi fugiam ainda, a notícia chegou à casa real com um tom mais pesado: “Absalão feriu todos os filhos do rei, e nenhum deles ficou” (2Samuel 13:30). A reação de desespero é total tanto de Davi quanto de seus servos: “Então, o rei se levantou, rasgou as suas vestes e se lançou por terra; e todos os seus servos que estavam presentes rasgaram também as suas vestes” (2Samuel 13:31). Jonadabe, filho de Simeia, sobrinho de Davi, o articulador da tragédia, estava no palácio naquele dia, pois previa a tragédia e queria, em primeira mão, acusar veladamente o rei de omissão (2Samuel 13:32-36). 4. Fuga concretizada (2Samuel 13:37-39). Absalão foge de Israel, buscando asilo político sob a proteção da Talmai, filho de Amiur, rei de Gesur. Talmai, rei de Gesur, era avô de Absalão por parte de mãe. Gesur era uma cidade-estado na Síria, ao norte de Gileade (2Samuel 3:3). Nesses três anos em que Absalão esteve foragido, Davi pranteava Amnom todos os dias. O rei Davi é incapaz de castigar o ofensor; Absalão é incapaz de voltar a Israel. Depois de três anos, Davi cessou de perseguir Absalão, uma vez que já estava consolado acerca de Amnom. A volta de Absalão a Jerusalém Davi não teve discernimento necessário para ver o ódio velado no coração de Absalão durante dois anos. Não teve perspicácia suficiente para abortar o plano de Absalão para matar Amnom, mesmo quando Absalão lhe deu a senha da tragédia. Não teve a postura adequada ao perseguir Absalão por três anos, mesmo refugiado na casa do avô materno. Por engenhosidade de Abner, Absalão volta para Jerusalém, mas fica em prisão domiciliar, sem o direito de ver a face do rei. É notório que o assassinato de Amnom não foi um crime ocorrido no fragor de uma briga entre dois irmãos, mas uma morte planejada friamente durante dois anos. A volta de Absalão à sua terra natal não é um ato de Davi, mas uma jogada de Joabe. É o comandante do exército de Davi que tomou a iniciativa de trazer o jovem príncipe de volta. Parecia que o caminho estava se abrindo para o perdão. Era tempo do exilado voltar para casa. Para alcançar o seu objetivo, Joabe usou de engenhosidade singular (2Samuel 14:2,3). Assim como Natã havia confrontado Davi, o pecador, contando-lhe uma história, Joabe confrontou Davi, o pai, com um relato inventado de um problema familiar narrado por uma mulher que era não apenas sábia, mas também uma boa atriz. A história de Natã sobre a cordeirinha comoveu Davi como pastor de ovelhas, e a essa história sobre uma família em pé de guerra tocou seu coração de pai. Essa mulher sagaz deveria fingir-se de uma viúva enlutada e contar para Davi um drama semelhante ao enfrentado por Adão e Eva, quando Caim matou Abel (Gênesis 4:8). Joabe entregou o script para a mulher e lhe deu o roteiro que ela deveria seguir na conversa com o rei. A mulher conta uma história dramática de sua viuvez e de um crime fratricida em sua família (2Samuel 14:4-7). Seus dois filhos brigaram no campo e um matou o outro e agora a parentela queria que ela entregasse o filho assassino para ser morto. O problema é que a morte desse filho seria como apagar a última brasa que ficou da família, e o nome de seu marido seria varrido da história, pois não haveria mais sobrevivente na terra. Assim, seria consumido o único descendente restante da família. Davi ordena a mulher a voltar para sua casa, pois daria ordens a seu respeito (2Samuel 14:8-11). A mulher então, dá mais uma cartada e diz a Davi: “A culpa, ó rei, meu senhor, caia sobre mim e sobre a casa de meu pai; o rei, porém, e o seu trono sejam inocentes” (2Samuel 14:9). Davi, tomado por um senso de justiça, dá garantias à mulher: “Quem falar contra ti, traze- mo a mim; e nunca mais te tocará” (2Samuel 14:10). A mulher então dá a cartada final e diz ao rei: “Lembra-te, ó rei, do Senhor, teu Deus, para que os vingadores de sangue não se multipliquem a matar e exterminar meu filho” (2Samuel 14:11a). Davi dá novas garantias à mulher, dizendo: “[...] tão certo como vive o Senhor, não há de cair no chão nem um só dos cabelos de teu filho” (2Samuel 14:11b). Ao produzir este julgamento, Davi também preserva a vida de Absalão. Assim como na história de Caim e Abel, o infrator não experimentaria uma retaliação por suas ações (Gênesis 4:14,15). O enredo da mulher capturou Davi, e agora ela vai fazer a parte mais delicada de sua missão, a aplicação da mensagem: “Permite que a tua serva fale uma palavra contigo, ó rei, meu senhor” (2Samuel 14:12). Davi deu autorização para a mulher falar. Ela, então, à semelhança de Natã, no passado, disse-lhe: Por que pensas tu doutro modo contra o povo de Deus? Pois, em pronunciando o rei esse juízo, condena-se a si mesmo, visto que não quer fazer voltar o seu desterrado. Porque temos de morrer e somos como águas derramadas na terra que já não se podem juntar; pois Deus não tira a vida, mas cogita meios para que o banido não permaneça arrojado de sua presença. Se vim, agora, falar esta palavra ao rei, meu senhor, é porque o povo me atemorizou; pois dizia a tua serva: Falarei ao rei; porventura, ele fará segundo a palavra da sua serva. Porque o rei atenderá para livrar a sua serva da mão do homem que intenta destruir tanto a mim como a meu filho da herança de Deus (2Samuel 14:13-16). A mulher prosseguiu e finalizou: Seja, agora, a palavra do rei, meu senhor, para a minha tranquilidade; porque, como um anjo de Deus, assim é o rei, meu senhor, para discernir entre o bem e o mal. O Senhor, teu Deus, será contigo (2Samuel 14:17). É evidente que, ao dar o veredicto, Davi indiciou a si mesmo, sendo acusado do exílio de seu desterrado. A mulher fala em nome de todo o povo, que está na expectativa de que o rei encontre algum meio de trazer o exilado de volta.15 Davi percebe que a mulher era apenas uma atriz (2Samuel 14:18-20). Ela estava fazendo o papel de uma viúva enlutada pela morte do filho para lhe entregar uma mensagem em nome de Joabe. Davi perguntou à mulher: “Não é certo que a mão de Joabe anda contigo em tudo isto?” (2Samuel 14:19a). A mulher respondeu afirmativamente, dizendo: “[...] porque Joabe, teu servo, é quem me deu ordem e foi ele quem ditou à tua serva todas estas palavras” (2Samuel 14:19b). A mulher defende Joabe e afirma: “Para mudar o aspecto deste caso foi que o teu servo Joabe fez isto” (14:20a) e elogia a Davi, dizendo: “[...] porém sábio é meu senhor, segundo a sabedoria dum anjo de Deus, para entender o que se passa na terra” (2Samuel 14:20b). O pedido reiterado de Joabe, enfim, é atendido pelo rei (2Samuel 14:21,22). Davi sabe que foi astuciosamente conduzido em um curso de ação que agora é incapaz de evitar, porquanto isso se baseia em seu juramento, mas ele não protesta contra a audácia de Joabe; em vez disso, dá a Joabe a responsabilidade de trazer de volta a Jerusalém o jovem Absalão.16 Davi disse a Joabe: “Atendi ao teu pedido; vai, pois, e traze o jovem Absalão” (2Samuel 14:21). Joabe inclina-se diante de Davi, abençoa-o e declara: “Hoje, reconheço que achei mercê diante de ti, ó rei, meu senhor; porque o rei fez segundo a palavra do seu servo”(2Samuel 14:22). A volta de Absalão, entretanto, não resolve o problema, pois Davi não restabelece o diálogo com o filho. O silêncio gelado por mais dois anos só fez agravar o relacionamento já tenso pelos esbarros da vida. Davi impõe ao filho um exílio doméstico (2Samuel 14:23,24), impedindo-o de entrar no palácio para ver sua face. Davi é incapaz de aceitar Absalão de volta à sua presença. Ele continua a mostrar seu desfavor a Absalão, banindo-o para sua casa. Apesar de Davi ter permitido a volta de Absalão, ele estava essencialmente condenado-o ao ostracismo. Absalão permanecia inexistente para o rei. A reconciliação foi incompleta. Absalão estava de volta a Jerusalém, mas estava confinado à sua própria casa. O acesso à corte do rei lhe foi proibido. Essa atitude de Davi, em vez de atenuar o problema, agravou-o. Em vez de levar o filho ao arrependimento, conduziu-o à revolta. Estranhamente, Joabe, que lutara tanto para trazer Absalão para Jerusalém, nada mais fez para reatar o relacionamento de Davi com o filho. Cansado de seu confinamento, e uma vez que estava impedido de ver a face do rei, pediu por duas vezes a Joabe para o enviar ao rei, porém Joabe não atendeu ao seu pedido. Irritado com a situação, Absalão mandou incendiar o campo de Joabe. Joabe foi à casa de Absalão e o questionou sobre o incêndio no pedaço de seu campo. Absalão o confrontou dizendo que lhe seria melhor ter ficado em Gesur do que ter vindo para Jerusalém para ser um exilado em sua própria terra. Era melhor estar diante do avô materno em Gesur (2Samuel 3:3; 13:37,38) do que estar em Jerusalém sem ver a face do pai. Absalão sabia o que significava ser banido da presença do rei: ninguém esperaria que ele herdasse o trono. O desejo de Absalão é claramente declarado: “[...] agora, pois, quero ver a face do rei; se há em mim alguma culpa, que me mate” (2Samuel 14:32b). Jerusalém nada significava para Absalão sem ver a face do rei. Para ele, a maior de todas as prisões era viver sem ver a face do rei. É digno de destaque que Absalão não tem senso de culpa. Acha-se inocente. Acredita que fez o que deveria ter sido feito. Na mente de Absalão, a morte de Amnom foi justificada e não deveria ser razão suficiente para ficar alienado de Davi. Porém, se o pai o julgar culpado, está pronto a morrer, mas não está disposto a ficar exilado sem ver a face do rei. Ele preferia ser executado a continuar vivendo sob vergonhosa prisão domiciliar. Joabe atende ao apelo de Absalão e vai falar ao rei. Davi chamou Absalão ao palácio. Este se lhe apresentou e inclinou-se sobre o rosto em terra, diante do rei. O rei beijou a Absalão. O texto não registra qualquer conversa entre Davi e Absalão. O pai beijou o filho sem dizer-lhe uma palavra (2Samuel 14:33). Ao todo já se faziam cinco anos desde que pai e filho não se viam nem haviam trocado qualquer palavra. Muitas dores, muitas mágoas, muitas lágrimas. A reconciliação não estava completa. A ferida não estava curada. O problema não estava resolvido. Adiar a solução de um problema não é a solução. O tempo não cura mágoas. Só o perdão pode restaurar os relacionamentos quebrados. Concordo com Joyce Baldwin quando ele escreve: A descrição curta e formal é em si mesma significativa. Embora termine com o rei beijou Absalão, não há tentativa alguma de vencer o abismo entre pai e filho. Cada um vê a culpa do outro, sendo frio e não estando disposto a perdoar [...]. No caso de Absalão e do rei, o relacionamento permaneceu praticamente num impasse, e nenhum dos dois lados teve a iniciativa espiritual de rompê-lo.17 Robert Chisholm tem razão em escrever: Sem saber a extensão da amargura e das ambições de Absalão, Davi sem perceber abre a porta para uma rebelião. Pior ainda, ao reintegrar Absalão à corte, faz vista grossa para a culpa dele.18 Na verdade, conforme escreve Warren Wiersbe, “Davi estava prestes a perder o trono, a coroa, as concubinas, o conselheiro de confiança, Aitofel, e, por fim, o filho Absalão. Seria o momento mais sombrio da vida do rei”.19 1. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2, 2006, p. 334-337. ↵ 2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel. 2006, p. 278. ↵ 3. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 244. ↵ 4. WIERSBE, W. W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 335. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 335. ↵ 6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: Introdução Comentário. 2006, p. 279. ↵ 7. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 244,245. ↵ 8. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 249. ↵ 9. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 295. ↵ 10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 336. ↵ 11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 246. ↵ 12. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 246, 247. ↵ 13. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 337. ↵ 14. Idem, p. 334. ↵ 15. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 287. ↵ 16. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 288. ↵ 17. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 289,290. ↵ 18. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 252. ↵ 19. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 340. ↵ C Capítulo 20 Davi, o rei destronado onflitos não bem resolvidos são problemas potencializados. A falta de perdão e de diálogo entre Davi e Absalão recrudesceu no coração do filho uma rebelião contra o pai. O capítulo 15 de 2Samuel retrata a rebelião de Absalão para tomar o trono e assumir o poder, em um verdadeiro golpe de Estado. Absalão era bem apessoado, com um charme difícil de resistir (2Samuel 14:25,26), e tinha em suas veias sangue real tanto por parte de pai quanto de mãe. Na verdade, Absalão, o pai da paz, é um destruidor da paz e um ladrão de corações. Seu nome é uma mentira. Sua história contradiz seu nome. A truncada relação com o pai amadureceu o que estava em seu coração. Absalão, o enganador Não vendo Absalão o caminho aberto para a sucessão ao trono, resolve abri- lo com as próprias mãos. Ele é um demagogo, que promove os seus próprios interesses ao fingir profunda dedicação aos interesses do povo. Vejamos: 1. O lugar estratégico do engano (2Samuel 15:1,2). Com pompa e arrogância, Absalão aparelha um batalhão montado para ir adiante dele. Pelos padrões de sua cultura, a aquisição de um carro e de cavalos lhe confere um ar de realeza. O uso de carros, cavalos e homens correndo adiante dele significava sua reivindicação à posição real. Nas palavras de Joyce Baldwin, “Absalão lançou-se deliberadamente a minar a autoridade do pai, aumentando seu próprio prestígio”.1 Ele se posta na porta da cidade de Jerusalém para, ali, aliciar o povo e furtar o coração dos homens. Nos tempos antigos, era na porta da cidade que os juízes julgavam as causas do povo. A porta da cidade era muito mais do que um lugar de entrada e saída. Representava o local onde as atividades comerciais e judiciais aconteciam. Era o tribunal, onde as demandas do povo eram tratadas, e qualquer um que tivesse alguma disputa teria o seu caso decidido. 2. A linguagem sedutora do engano (2Samuel 15:3). Usando seu atributo de beleza física e de sua honrada posição de príncipe, filho do rei, e candidato ao trono, Absalão perquiria o povo sobre suas demandas. Aparentemente interessado na causa do povo, encobre suas motivações subterrâneas e afirma que as causas trazidas ao tribunal eram justas, porém, não havia da parte do rei, quem se interessasse por eles. 3. A promessa falsa do engano (2Samuel 15:4). Exaltando a si mesmo, Absalão afirma que se estivesse na governança e tivesse o privilégio de julgar as demandas do povo, teriam nele um juiz justo e pronto a dar-lhes o que mereciam. Ao mesmo tempo que acusa a omissão injusta do rei, ele se apresenta como a solução para a nação. Ao enfatizar as falhas do reinado de Davi, Absalão gradualmentecriava dúvidas sobre Davi na mente das pessoas, relembrando-as por que deveriam estar insatisfeitas com a liderança dele, e, assim, preparava o cenário para o seu golpe de Estado. Ao mostrar profundo interesse pelos forasteiros que entravam na cidade, Absalão estava pronto a ouvir e ávido por corrigir os erros do país. Desse modo, ele conquistava mais e mais o apoio popular. 4. A humildade falsa do engano (2Samuel 15:5). Quando o povo se curvava diante dele, prestando-lhe suas homenagens como príncipe e ícone da beleza masculina, ele erguia as pessoas e as beijava em um gesto de tocante humildade. Tudo, porém, não passava de uma humildade cênica, de um método vil para ganhar a admiração do povo. O modo como tratava aqueles que estavam buscando justiça, o gesto de amizade e o tipo de toque pessoal que o povo não estava recebendo de Davi alcançou sucesso. 5. A amplitude do engano (2Samuel 15:6). Ao se mostrar solidário às necessidades do povo, Absalão agia com demagogia com todo o Israel, e, assim, conquistava sua lealdade e furtava o coração dos homens de Israel. Absalão, o conspirador Absalão se torna um conspirador. Isso pode ser constatado pelo que se segue: 1. As palavras mentirosas do conspirador (2Samuel 15:7-9). O enganador, travestido de adorador, vai ao rei Davi, seu pai, para pedir permissão para ir a Hebrom cumprir um voto que fizera ao Senhor quando morava em Gesur. Por que Absalão esperou quatro anos para render graças por seu retorno? No que consistia o suposto voto? Se Deus lhe permitisse voltar a Jerusalém, prestaria culto ao Senhor. Absalão estava usando o nome do Senhor para ocultar seus pecados. Davi, sem percepção da trama que estava montada, permitiu a Absalão a ir a Hebrom, dizendo-lhe: “Vai-te em paz. Levantou-se, pois, e foi para Hebrom” (2Samuel 15:9). Esta é a palavra derradeira de Davi a seu filho, que ironicamente sai a fim de se preparar para a guerra contra o pai. 2. A ação golpista do conspirador (2Samuel 15:10). Absalão envia emissários secretos por todas as tribos de Israel, com uma mensagem conspiratória: “Quando ouvirdes o som das trombetas, direis: Absalão é rei em Hebrom!” (2Samuel 15:10). O golpe de Estado, anunciado quase simultaneamente a todas as tribos, faz com que toda a oposição pareça inútil. Hebrom, situada a pouco mais de trinta quilômetros a sudoeste de Jerusalém, era uma cidade murada e o ponto de partida ideal para invadir Jerusalém. Era a cidade natal de Absalão (2Samuel 3:3) e a antiga capital de Davi, onde foi ungido rei de Israel. A escolha do local para ser entronizado é irônica, pois foi em Hebrom que Davi foi proclamado rei sobre todo o Israel (2Samuel 5:1-5). 3. A postura enganadora do conspirador (2Samuel 15:11). Absalão convidou duzentos homens de Jerusalém para irem com ele para Hebrom. Esses foram enganados, sem saber quais eram as intenções do príncipe conspirador. Absalão usa a estratégia da mentira e o método do engano para aliciar pessoas. Seus discursos populistas e suas ações de humildade escondiam seu orgulho medonho, sua fúria indômita e seu projeto de poder. 4. O crescimento ameaçador da conspiração (2Samuel 15:12). Absalão conseguiu trazer para sua rebelde equipe Aitofel, o conselheiro de Davi. Muito provavelmente, Aitofel apoiava Absalão e sua rebelião à luz de como Davi havia tratado sua neta e mulher de Urias previamente (2Samuel 11:1- 27). Aitofel era avô de Bate-Seba (2Samuel 11:3; 23:34). Qualquer chance de vingança contra Davi teria sido bem-vinda. Para a aflição de Davi, toda a capacidade e a experiência de Aitofel estavam nas mãos de Absalão. Enquanto Absalão oferecia os seus sacrifícios em Hebrom, tornou-se poderosa a conspirata, e crescia em número o povo que tomava o partido de Absalão. Davi, o rei de Israel Quando a notícia da conspiração de Absalão e do amplo apoio que estava recebendo chega em Jerusalém, Davi resolve fugir da cidade imediatamente. Coloca seu destino nas mãos de Deus, ora e toma medidas práticas para criar uma rede de informantes (2Samuel 15:28,35,36; 17:15-22), recrutando Husai para neutralizar a influência de Aitofel na corte (2Samuel 15:34; 17:7-14). Alguns pontos merecem destaque: 1. A decisão do rei de fugir de Jerusalém (2Samuel 13:13-18). É intrigante o fato de Davi ter ficado passivo diante dos quatro anos em que Absalão arquitetou essa conspirata. A maneira como Davi só foi perceber esses eventos catastróficos naquele momento ainda permanece obscura. Será que isso sugere uma negligência da parte de Davi em monitorar adequadamente seus inimigos políticos? Ou será que a revolta foi escondida tão cuidadosamente que Davi só descobriu quando já era tarde demais? Joyce Baldwin escreve: A julgar pelas aparências, parece estranho que Davi tivesse deixado ocorrer toda essa subversão. Com toda aquela inconfundível movimentação na corte, é inconcebível que Davi não soubesse o que Absalão estava fazendo. Contudo, será que ele se sentia seguro quanto ao lugar que ocupava no coração do povo e julgava que poderia, com toda certeza, tolerar o comportamento fingido de seu filho presunçoso?2 A notícia da conspiração chega superdimencionada a Davi: “Todo o povo de Israel segue decididamente a Absalão” (2Samuel 15:13). Davi sabia que não dava tempo para planejar uma resistência ao iminente ataque de Absalão e dá uma ordem expressa para todos os seus homens fugirem com pressa de Jerusalém (2Samuel 15:14). O rei ordena a evacuação imediata da cidade. Davi saiu com todos os de sua casa, deixando para trás apenas dez concubinas para cuidarem da casa real (2Samuel 15:16). Robert Chisholm diz que essa observação aparentemente secundária não passa despercebida para o leitor mais atento, pois traz à memória um dos elementos da profecia de Natã (2Samuel 12:11,12; 16:21,22). Em meio a essa crise, somos lembrados mais uma vez de que todos esses acontecimentos têm como origem os crimes de Davi.3 Mesmo em fuga, Davi é o comandante-chefe. Todos que fogem, passam aos seus pés e vão adiante dele (2Samuel 15:17,18). É um verdadeiro desfile militar, uma revista de servos e tropas de grande valor, cujos anos de lealdade os faziam duplamente preciosos em uma emergência como essa. Fazemos aqui alguns destaques: 2. A lealdade de Itai (2Samuel 15:19-22). Itai, o heteu, filisteu da cidade de Gate, era uma ilha de fidelidade cercado por um mar de traição. Mais tarde, ele comandaria um terço das tropas de Davi na batalha contra Absalão (2Samuel 18:2). Itai prontificou-se a ir com Davi, dizendo: “Tão certo como vive o Senhor, e como vive o rei, meu senhor, no lugar em que estiver o rei, meu senhor, seja para morte seja para vida, lá estará também o teu servo” (2Samuel 15:21). O leal Itai é um contraste literário com o ardiloso Absalão e seu bando de rebeldes. 3. O choro do povo (2Samuel 15:23). A situação era de calamidade. Davi estava travando a mais amarga batalha de sua vida. Seu filho Absalão, a quem amava, em um levante traidor, estava marchando para Jerusalém com o propósito de tomar o trono e tirar a vida do rei. O povo leal a Davi reage a essa tragédia com choro nacional. Assim está escrito: “Toda a terra chorava em alta voz; e todo o povo e também o rei passaram o ribeiro de Cedrom, seguindo o caminho do deserto” (2Samuel 15:23). 4. A submissão do rei ao Senhor (2Samuel 15:24-29). Os sacerdotes Abiatar e Zadoque, bem como todos os levitas, também subiram, levando consigo a arca da Aliança de Deus. Puseram ali a arca até que todo o povo acabou de sair da cidade. Davi, sempre no comando da situação, orientou o sacerdote Zadoque a voltar com a arca para Jerusalém, dizendo: Se achar eu graça aos olhos do Senhor, ele me fará voltar para lá e me deixará ver assim a arca como a sua habitação. Se ele, porém, disser: Não tenho prazer em ti, eis-me aqui; faça de mim como melhor lhe parecer (2Samuel 15:25,26). Davi se recusa a usar a arca como um amuleto ou objeto mágico, como foi usada no passado, nos dias do sacerdote Eli (1Samuel 4:1-11). 5. O choro do rei (2Samuel 15:30). Dadas essas instruções, Daviseguiu pelas encostas do monte das Oliveiras, subindo e chorando; tinha a cabeça coberta e caminhava descalço. Todo o povo que subia com ele, tinha a cabeça coberta e chorava. A marcha de Davi e sua caravana é a marcha do choro, semelhante a um cortejo fúnebre, regado de lágrimas. 6. A estratégia do rei (2Samuel 15:31-37). Davi é informado que o seu sábio conselheiro Aitofel havia bandeado para o lado Absalão. Essa era uma notícia perturbadora, pois Davi sabia que as palavras de Aitofel eram como respostas de Deus (2Samuel 16:23). Davi não teve outra reação senão orar e pedir a Deus para transtornar em loucura o conselho dele a Absalão. A resposta de Deus à oração de Davi veio rápida na pessoa de Husai, o arquita, que se revelou amigo e servo leal. Ao chegar Davi ao topo do monte, onde costumava adorar a Deus, veio ao seu encontro o arquita Husai, com o manto rasgado e terra sobre a cabeça. Davi informa-o de que sua companhia seria um peso, talvez pela sua idade ou fraqueza, mas seu retorno para Jerusalém em missão especial seria estratégico. Ele seria um embaixador inigualável. O que Husai deveria fazer? Apresentar-se a Absalão, fazendo-lhe juras de fidelidade e com isso, ter a oportunidade de dissipar o conselho de Aitofel. Husai deveria colher informações da situação e enviá-las a Davi, por meio de Aimaás e Jônatas, filhos dos sacerdotes. Assim fez Husai. Ele veio para a cidade na mesma ocasião que Absalão entrou em Jerusalém. “A sugestão de Davi para que Husai frustrasse o conselho de Aitofel (2Samuel 15:34), comparada com a oração para que o Senhor transformasse em tolice o conselho de Aitofel (2Samuel 15:31), mostra que Davi entendia muito bem como a ação providencial do Senhor operava. Husai deveria ir contra as sugestões de Aitofel. Resta claro dizer, portanto, que confiar em Deus e agir com sabedoria são coisas complementares, e não antitéticas. Kevin Mellish destaca que Aitofel forneceria instruções sábias a Absalão posteriormente (2Samuel 17:1-4), mas Absalão tolamente as descartaria.4 Concordo com Warren Wiersbe, “em termos humanos, se não fosse pelo conselho de Husai a Absalão, Davi poderia ter sido morto no deserto”.5 Fica evidente que Davi, até mesmo no exílio, mostrou seu lado astuto e sagaz, como um político e estrategista. O conselho de Davi eventualmente valeu a pena, já que Husai foi quem proveu um conselho que, finalmente, levou Absalão à derrota e à morte. 1. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 290. ↵ 2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 291. ↵ 3. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 256. ↵ 4. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 306. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 347. ↵ O Capítulo 21 Davi, o rei odiado rei Davi está em fuga. Jerusalém está prestes a ser tomada pelo rei usurpador. A resistência é impossível ou, no mínimo, desaconselhável. A cidade não pode sofrer os revezes de uma guerra civil. A evacuação deve ser imediata. Davi foge descalço, chorando e com a cabeça coberta. A marcha da fuga é regada de lágrimas, mas também coberta de oração e submissão à vontade de Deus. Davi sabe que está sob a disciplina de Deus. Porém, como diz Robert Chisholm, “o Senhor vindica seus servos arrependidos quando eles se sujeitam humildemente à sua disciplina”.1 Vejamos: Ziba, um manipulador Logo que Davi chegou ao topo do monte das Oliveiras e rumou para o deserto, Ziba, servo de Mefibosete, vem ao seu encontro. Trazia nas mãos generosas ofertas e engano no coração. Seus atos eram generosos, mas sua motivação não era pura. Trazia verdade nos atos e mentira no coração. Vejamos: 1. Uma generosidade insincera (2Samuel 16:1,2). Ziba chega com dois jumentos albardados e sobre eles duzentos pães, cem cachos de passas, cem frutas de verão e um odre de vinho. Davi perguntou-o acerca do significado dessa oferta e de sua pretensão com esse gesto de generosidade. Ziba respondeu: “Os jumentos são para a casa do rei, para serem montados; o pão e as frutas de verão, para os moços comerem; o vinho, para beberem os cansados no deserto” (16:2). A verdadeira intenção de Ziba era acusar injustamente Mefibosete, enganar Davi e auferir vantagens pessoais. Ziba era um oportunista mal-intencionado. Kevin Mellish diz que a bondade e a generosidade de Ziba para com o rei deposto são contrastadas marcantemente nesta seção com a suposta deslealdade de Mefibosete com Davi.2 2. Uma mentira deslavada (2Samuel 16:3). Warren Wiersbe diz que Satanás atacou Davi, usando Ziba e Simei. Ziba contou mentiras, e Simei jogou pedras.3 Ambos são da casa de Saul. Quando Davi perguntou a Ziba acerca de Mefibosete, ele mentiu e difamou-o: “Eis que ficou em Jerusalém, pois disse: Hoje, a casa de Israel me restituirá o reino de meu pai” (16:3). Ziba acusou o filho aleijado de Jônatas, neto de Saul, de ser ingrato e desleal a Davi. Nas palavras de Kevin Mellish, “Ziba insinuou que Mifibosete viu a revolta de Absalão como uma oportunidade para o reino retornar à casa de Saul. Ao fazer essa declaração, ele retratou Mefibosete como um ingrato traidor”.4 Seu propósito era assenhorear-se dos bens de Mefibosete, no que, a princípio, logrou êxito. Davi aceitou a história de Ziba — que depois foi desmentida (2Samuel 19:24-30) — e fez um julgamento precipitado e injusto, transferindo a ele a propriedade, pertencente, por direito, a Mefibosete. 3. Um julgamento precipitado (2Samuel 16:4). Davi, precipitadamente, sem conferir a veracidade da informação de Ziba, aceitando o relato como verdadeiro, decreta que as propriedades do (supostamente desleal) Mefibosete sejam entregues ao (supostamente leal) Ziba.5 Davi diz: “Teu é tudo que pertence a Mefibosete” (16:4a). O manipulador mentiroso, responde: “[...] eu me inclino e ache eu mercê diante de ti, ó rei, meu senhor” (16:4b). Simei, um amaldiçoador Quando Davi chegou a Baurim, um vilarejo na descida oriental do monte das Oliveiras, Simei, filho de Gera, da casa de Saul, irado adversário, colocou-se sozinho contra todo o séquito real. Ele saiu e começou a amaldiçoar Davi, atirando pedras contra ele e todos os seus servos. Davi, que já havia se colocado nas mãos de Deus, submetendo-se à vontade dele, não revida a hostilidade de Simei nem permite que Abisai, irmão de Joabe, o faça em seu nome. Vejamos seis pontos importantes destacados nessa passagem: 1. Um homem amaldiçoador (2Samuel 16:5). A boca de Simei é um poço de maldição. Sendo da casa de Saul, nutria por Davi mágoas históricas e profundas. Talvez suspeitasse de que Davi estivesse por trás da morte de Saul, uma vez que Davi estava em território filisteu quando Saul e seus três filhos caíram no campo de batalha na guerra contra os filisteus. Talvez suspeitasse que Davi estivesse por trás da morte de Abner, comandante do exército de Isbosete. Talvez suspeitasse, ainda, que Davi estivesse envolvido na morte do próprio rei Isbosete, uma vez que logo após a morte deste, Davi foi proclamado rei sobre todas as tribos de Israel. Essas questões todas levaram Simei a amaldiçoar Davi. Nas palavras de W. T. Purkiser, “Simei deu vazão à ira e ao ódio que estavam reprimidos, e culpou Davi pelos infortúnios que haviam ocorrido à casa do rei antecessor”.6 Robert Chisholm enfatiza que a maldição proferida por Simei não se cumpre (o Senhor não entrega o reino a Absalão), pois sua acusação de que Davi assassinou membros da casa de Saul é falsa.7 2. Um atirador de pedras (2Samuel 16:6). A língua de Simei era ferina, e suas mãos atiraram pedras contra Davi e todos os seus servos, mesmo estando Davi escoltado pelos valentes e pelo povo por todos os flancos. Simei era um homem abusado a assaz maligno. 3. Um acusador impiedoso (2Samuel 16:7,8). A boca de Simei amaldiçoa, acusa e condena. Kevin Mellish diz que o verbo que é usado neste contexto (megallel) denota uma ação progressiva. Em outras palavras, “ele lhe falou tudo o que quis”.8 Simei chama Davi de “homem de sangue” e “filhode Belial”. Esses termos eram pejorativos da mais alta ordem. Simei joga na cara de Davi que essa fuga pelo deserto era a punição de Deus por todo o sangue da casa de Saul, cujo reino Davi havia usurpado. Simei diz a Davi que Deus o havia entregue nas mãos de seu filho Absalão e que agora estava em grande desgraça porque estava com as mãos manchadas de sangue. Robert Chisholm destaca que o narrador absolve Davi da culpa em todos esses casos. A acusação de Simei é infundada e se baseia em conjecturas falsas.9 É digno de nota que a expressão de ira de Simei contra Davi era uma transgressão da lei. Assim está escrito: “Contra Deus não blasfemarás, nem amaldiçoarás o príncipe do teu povo” (Êxodo 22:28). 4. Um rei quebrantado (2Samuel 16:9,10). Abisai, irmão de Joabe e sobrinho de Davi, guerreiro experimentado (1Samuel 21:6-8; 2Samuel 23:18,19), propõe-se a matar Simei, mas Davi refreou o ímpeto e as intenções de Abisai. Davi repreende e proibe qualquer retaliação ao acusador. Ele não revida com raiva nem busca vingança, antes submete-se à disciplina de Deus. Davi reteve o ímpeto de Abisai com o triste comentário de que se seu próprio filho procurava por sua vida, quanto mais deveria um benjamita amargurado pronunciar as suas maldições! Humildemente, Davi compreende que essa situação poderia ser a disciplina de Deus sobre ele. Concordo com Warren Wiersbe quando ele diz: “Davi estava exausto e, no entanto, jamais demonstrou tanta grandeza como quando permitiu que Simei prosseguisse com seu ataque”.10 Quando Davi recuperou o trono, perdoou Simei (19:16-23) que, posteriormente foi confinado por Salomão em Jerusalém. Quando, em um gesto de arrogância, Simei ultrapassou seus limites, foi preso e executado (1Reis 2:36-46). 5. Um rei confiante (2Samuel 16:11-13). Davi justifica a sua complacência com Simei e sua proibição de vingança ao ferino acusador, dizendo a Abisai e a todos os seus servos que se Absalão, seu próprio filho, procurava tirar sua vida, quanto mais ainda o benjamita Simei. Davi, em um ato de humildade e fé, declara: “[...] deixa-o; que amaldiçoe, pois o Senhor lhe ordenou. Talvez o Senhor olhará para a minha aflição e o Senhor me pagará com bem a sua maldição deste dia” (16:11,12). Concordo com Robert Chisholm quando ele escreve: “Quando se está debaixo da disciplina de Deus, é sábio sujeitar-se à vontade dele”.11 Dessa forma, enquanto Davi e seus homens prosseguiam seu caminho, Simei ia ao longo do monte, ao lado dele, caminhando e amaldiçoando, atirando pedras e terra contra ele. Davi, porém, com o coração quebrantado, recebe de forma humilde e submissa a disciplina de Deus. Dale Ralph Davis diz que Simei é o homem que amaldiçoa, mas Davi entende que o Senhor é o Deus que reverte a maldição em bênção e, de fato, Ele fez isso (Gálatas 3:13).12 Robert Chisholm, citando Philip Yancey, faz o seguinte registro: Qualquer um que tenha vivido durante os escândalos de Watergate e de Monica Lewinsky sabe que Davi poderia ter feito. O republicano Richard Nixon mentiu e autorizou a liberação de fundos para calar testemunhas e encobrir seus crimes; o que o derrubou foi uma gravação, e não uma confissão. O democrata Bill Clinton olhou direto para a câmera com expressão séria e enganou a nação inteira; o que levou a seu impeachment foi um vestido manchado, e não uma confissão. Nixon mal conseguiu balbuciar: “Erros foram cometidos”; Clinton reconheceu apenas o que havia sido provado e divulgado no mundo inteiro. O contraste com as primeiras palavras de Davi não poderia ser mais gritante: “Pequei contra o Senhor” (2Samuel 12:13).13 6. Um rei exausto (2Samuel 16:14). Davi e todo o povo que ia com ele chegaram exaustos ao Jordão e ali descansaram. Essa exaustão é o acúmulo de anos de problemas que se abateram sobre sua vida: o adultério com Bate- Seba, o assassinato de Urias, a morte da criança que nasceu da relação com Bate-Seba, o estupro de Tamar, o assassinato de Amnom, a rebelião de Absalão. Aitofel, um traidor O narrador descreve a entrada de Absalão em Jerusalém, acompanhado de todo o povo de Israel que apoiava a sua causa rebelde. Como trunfo maior desse golpe de Estado, Absalão entra na cidade de Davi acompanhado de Aitofel, seu fiel conselheiro político e ex-conselheiro de Davi (16:15). Nas palavras de Joyce Baldwin, “Aitofel era aquele tipo de conselheiro que jamais dava um passo em falso”.14 Porém, Aitofel entra para a história como o Judas Iscariotes do Antigo Testamento.15 Vejamos: 1. Absalão entra em Jerusalém (16:15). A revolta fora gestada em Jerusalém, durante quatro anos; nascera em Hebrom, onde Absalão se autoproclamou rei, e consumada na entrada em Jerusalém, a capital da nação. Absalão vem acompanhado do todo povo, homens de Israel e do conselheiro Aitofel. 2. Husai se apresenta a Absalão (16:16-19). Husai, cumprindo o propósito de Davi, também chega em Jerusalém, com o objetivo de, veladamente, dissipar os conselhos de Aitofel (15:34). Aqui, Husai juntou ao fingimento uma declaração que representava lealdade: “[...] viva o rei, viva o rei!” (16:16). Robert Chisholm diz que Absalão entende que a aclamação de Husai se refere a ele. Sem dúvida, é a intenção de Husai que Absalão interprete suas palavras desse modo, mas o leitor reconhece a ironia dramática presente na ambiguidade de sua declaração. Husai não diz, “viva o rei Absalão” como seria de se esperar (1Reis 1:25,31,34,39). Em vez disso, usa a forma mais curta e ambígua de aclamação (1Samuel 10:24; 2Reis 11:12). Na mente de Husai, Davi, e não Absalão, é o rei.16 Joyce Baldwin chama a atenção para o fato de que o repetido “viva o rei!” soou como música aos ouvidos do ambicioso Absalão, não despertando indagações em sua mente, a despeito da ambiguidade quanto a quem era o rei.17 Na verdade, Husai manteve sua integridade, e Absalão ficou cego devido a seu próprio egoísmo. Absalão faz uma observação penetrante sobre a aparente traição de Husai à sua amizade com Davi e questiona-o sobre o peso de sua fidelidade a Davi, ao que o velho sábio responde: “[...] àquele a quem o Senhor elegeu, e todo este povo, e todos os homens de Israel, a ele pertencerei e com ele ficarei. Ainda mais, a quem serviria eu? Porventura, não seria diante de seu filho? Como servi diante de teu pai, assim serei diante de ti” (16:18,19). Nas palavras de Dale Ralph Davis “Absalão, à semelhança de Hamã (Ester 6:6) assume que Husai referia-se a ele, mas Husai estava descrevendo Davi”.18 Resta claro afirmar, portanto, que o engodo de Husai para com Absalão faz parte do plano de Deus para “trazer ruína” sobre esse usurpador (17:14). 3. Aitofel aconselha Absalão (16:20-22). Ao chegar em Jerusalém, Absalão pediu conselho a Aitofel acerca do que deveria fazer. Aitofel dá-lhe um conselho vil e imoral: “Coabita com as concubinas de teu pai, que deixou para cuidar da casa; e, em ouvindo todo o Israel que te fizeste odioso para com teu pai, animar-se-ão todos os que estão contigo” (16:21). Deitar-se com uma concubina do rei era comparado a usurpar o trono (3:7; 16:21,22; 1Reis 2:21-24). Como diz Joyce Baldwin, “conquanto possa ter sido comum no antigo Oriente Próximo que o rei de uma nova dinastia tomasse o harém do monarca anterior, certamente não seria aceitável que um filho desrespeitasse a proibição existente contra as relações sexuais com as esposas e concubinas de seu pai (Levítico 18:7,8)”.19 O ato de coabitar com as concubinas do pai seria, do mesmo modo, não só uma admissão de autoridade real, mas tornaria a reconciliação com o rei praticamente impossível. Ciente de que o rompimento era definitivo, Aitofel pensou que a aliança dos israelitas seria mais forte.20 Nessa mesma trilha de pensamento, escreve Kevin Mellish, O símbolo do poder e prestígio do rei estava ligado ao harém de concubinas ou esposas que pertenciam ao rei (1Reis 11:1). Fazer sexo com as concubinas de Davi enviaria uma clara mensagem ao povo de Jerusalém que Absalão havia tomado as rédeas do poder. Tal ato também seria interpretado como um insulto e uma afronta a Davi, tornando,assim, Absalão e o povo aliado a ele “odiosos para com Davi”. O povo teria entendido que a possibilidade de reconciliação entre Absalão e Davi seria remota. Logo, “as mãos de todos” os que estavam com Absalão seriam fortalecidas. O povo poderia apoiar Absalão de todo o coração sem medo, sabendo que Absalão não o trairia.21 Absalão acolheu o conselho de Aitofel e, então, armaram para ele uma tenda no eirado, e ali, à vista de todo o Israel, Absalão coabitou com as concubinas de seu pai (2Samuel 16:22). Essa petulante e audaciosa manobra consolidou a reivindicação de Absalão ao trono entre o povo; estava evidente diante de todos que Davi não dominava mais o reino. O golpe de Estado estava realizado e as palavras de Natã foram cumpridas (2Samuel 12:11). Nas palavras de Robert Chisholm, “esse ato reprovável cumpre a profecia de Natã (2Samuel 12:11,12) e lembra o leitor de que a rebelião de Absalão, embora não tenha o apoio do Senhor (2Samuel 17:14), faz parte de sua disciplina providencial sobre Davi por ter pecado contra Bate-Seba”.22 4. O prestígio de Aitofel (2Samuel 16:23). O narrador termina esse capítulo ressaltando a elevada reputação de Aitofel como conselheiro. Está escrito: “O conselho que Aitofel dava, naqueles dias, era como resposta de Deus a uma consulta; tal era o conselho de Aitofel, tanto para Davi como para Absalão”. Joyce Baldwin diz: “Uma vez que tanto Davi quanto Absalão agiam baseados em seus conselhos, praticamente era Aitofel quem dirigia o país”.23 1. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 260. ↵ 2. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 307. ↵ 3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 347. ↵ 4. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 307. ↵ 5. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 261. ↵ 6. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 252. ↵ 7. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 260. ↵ 8. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 307. ↵ 9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 261. ↵ 10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 347. ↵ 11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 262. ↵ 12. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 206. ↵ 13. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 263. ↵ 14. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 297. ↵ 15. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 206. ↵ 16. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 267. ↵ 17. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 297. ↵ 18. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 206. ↵ 19. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 298. ↵ 20. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 253. ↵ 21. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 308. ↵ 22. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 268. ↵ 23. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 298,299. ↵ O Capítulo 22 Davi, o rei atacado golpe de Estado está dado. Absalão está no palácio em Jerusalém e Davi está em rota de fuga pelo deserto da Judeia. Aitofel, o sábio conselheiro de Davi que havia virado a casaca já havia aconselhado Absalão a coabitar publicamente com as concubinas de Davi. Com esse gesto, Absalão estava dizendo que a revolta era definitiva. Agora, não é Absalão que pede conselho a Aitofel, mas é este que se adianta para aconselhar Absalão. O conselho de Aitofel era assaz perigoso. Se colocado em prática, mataria o rei e dispersaria seus soldados. O perigoso conselho de Aitofel O narrador bíblico registra o perigoso conselho de Aitofel: Disse ainda Aitofel a Absalão: Deixa-me escolher doze mil homens, e me disporei, e perseguirei Davi esta noite. Assaltá-lo-ei, enquanto está cansado e frouxo de mãos; espantá-lo-ei; fugirá todo o povo que está com ele; então, matarei apenas o rei. Farei voltar a ti todo o povo; pois a volta de todos depende daquele a quem procuras matar; assim, todo o povo estará em paz. O parecer agradou a Absalão e a todos os anciãos de Israel (2Samuel 17:1-4). Destacamos aqui quatro estratégias de Aitofel para matar Davi: 1. Um ataque imediato (2Samuel 17:1). O conselho de Aitofel é escolher uma tropa de doze mil homens e pessoalmente perseguir Davi na mesma noite da fuga, quando ele estaria com as mãos frouxas. Davi e seus homens estão exaustos, emocionalmente abalados, e esse ataque avassalador e imediato não daria a Davi tempo para se articular e traçar uma ofensiva. Nas palavras de Kevin Mellish, “isto provocaria uma derrota devastadora contra quaisquer esperanças de ressurgência de Davi”.1 O conselho de Aitofel mostra uma espantosa falta de respeito pelo rei ungido por Deus, além de ser uma falta de temor ao próprio Senhor. Isso está em flagrante contraste com o respeito que Davi demonstrou por Saul, o ungido do Senhor. 2. Um ataque avassalador (2Samuel 17:2a). O propósito de Aitofel não é matar o exército de Davi, mas assaltá-lo, espantá-lo e fazê-lo fugir. Aitofel propõe uma ação cirúrgica, uma tática inteligente para matar o líder e dispersar os liderados. 3. Um ataque proposital (2Samuel 17:2b,3). O propósito é matar apenas Davi, o rei. Sem a liderança do comandante-chefe do exército de Israel, seus soldados não teriam como resistir ao golpe de Estado e devotariam sua fidelidade a Absalão. Assim, em vez de estabelecer uma guerra civil, em um ato de inteligência, apenas Davi seria eliminado e todo povo poderia voltar em paz para prestar obediência ao novo rei. W. T. Purkiser destaca que em várias versões o versículo 3 é traduzido assim: “Trarei de volta todos os homens dele para o senhor, como uma esposa que volta para o seu marido”.2 Nessa mesma linha de pensamento Kevin Mellish diz: “O plano de Aitofel presumia que se Davi fosse morto, então os aliados dele transfeririam sua aliança para Absalão. Este cenário é semelhante ao que aconteceu com Davi após a morte de Isbosete (2Samuel 5:1-3)”.3 4. Um parecer aprovado (2Samuel 17:4). “O parecer agradou a Absalão e a todos os anciãos de Israel”. As palavras de Aitofel eram consideradas como resposta de Deus a uma consulta (2Samuel 16:23). Não houve questionamento. A aprovação foi unânime, tanto do rei quanto dos anciãos. Nas palavras de Joyce Baldwin, “o plano de Aitofel convenceu o gabinete de guerra e foi aceito”.4 A decisão inusitada de Absalão Por providência divina, porém, Absalão toma uma decisão inusitada: Ele pede conselho a Husai. Deus estava respondendo a oração de Davi (2Samuel 15:31,34), pois Husai tinha sido enviado a Jerusalém para dissipar o conselho de Aitofel. Husai declara lealdade a Absalão, mas está lutando pelo reino do ungido do Senhor, e não pelo reino rebelde de Absalão. Dois pontos são dignos de destaque: 1. Absalão pede o parecer de Husai (2Samuel 17:5). Apesar da eficácia de todos os conselhos de Aitofel e das dúvidas de Absalão em relação à fidelidade de Husai, Absalão, contra todas as evidências, manda chamar Husai para ouvir o seu parecer sobre a forma de matar Davi e vencer a guerra. 2. Absalão inquire Husai sobre o conselho de Aitofel (2Samuel 17:6). Absalão demonstra falta de perspicácia ao declarar a Husai o que Aitofel havia recomendado. Quer saber se Husai acompanha o conselheiro-mor ou se tem uma outra opinião. Essa ingenuidade do rei rebelde é uma ação divina em resposta à oração de Davi. Deus fecha os olhos de Absalão e o predispõe a não lançar mão da única alternativa que poderia ter levado Davi à morte. A desconstrução do conselho de Aitofel O conselho de Aitofel foi desconstruído pelo conselho de Husai, como podemos ver: 1. Um parecer desfavorável (2Samuel 17:7). Husai, de forma habilidosa, afirma a perícia invulgar de Aitofel como conselheiro, mas declara que desta vez, seu conselho não foi bom. Sendo Deus providente, fezAbsalão detalhar para Husai o conselho de Aitofel, oportunizando a Husai desconstruir seu conselho. 2. Um apelo à lógica (2Samuel 17:8,9a). Husai, usando uma retórica irretocável e figuras de linguagem vívidas, apelou para o conhecimento que Absalão tinha de seu pai como guerreiro e de seus aliados como valentes. Eles estariam enfurecidos como uma ursa do campo roubada de seus filhos. E mais, Davi como homem de guerra, não passaria a noite com o povo, mas estaria de espreita nalguma cova ou qualquer outro lugar. Uma baixa nos combatentes de Absalão, nessa luta poderia gerar um rumor em toda a nação, o que enfraqueceria de imediato as pretensões de Absalão. 3. Um apelo à precaução (2Samuel 17:9b,10). Um boato de derrota chegando ao povo que segue a Absalão poderia ter um afeito devastador em toda a sua tropa. Até mesmo os valentes, coração de leão, desmaiariam, pois toda a nação tinha pleno conhecimento que Davi era guerreiro e seus valentes eram com ele. O prevalecimento do conselho de Husai O conselho de Husai prevaleceu sobre o conselho de Aitofel. Dale Ralph Davis diz que, talvez, o mais convincente argumento de Husai foi seu apelo à vaidade de Absalão. Aitofel conhecia como ter sucesso sobre Davi, mas Husai sabia como ter sucesso sobre Absalão.5 Se Aitofel sabia como executar vitoriosamente uma revolta, Husai sabia como alimentar um ego sedento. Se Aitofel se apresenta para liderar a força armada para matar Davi, Husai faz de Absalão o centro de todas as coisas. Se Aitofel tem estratagema para ganhar a guerra para Absalão, Husai sabe como alimentar a arrogância de Absalão. Aitofel deu um conselho melhor, mas Husai ofereceu um conselho mais convincente. Assim, tendo reduzido a pó os argumentos de Aitofel e mostrado os perigos de sua tática, Husai, agora, vai dar o seu conselho a Absalão. Que estratégia ele sugere? Husai sabe que um ataque naquela noite seria fatal para Davi. Este precisava de tempo para organizar sua estratégia de defesa. Então, Husai dá um conselho que requeria tempo para organizar e com isso, daria a Davi o tempo necessário para se refazer e planejar. Nas palavras de Kevin Mellish, “como agente secreto de Davi, Husai ofereceu um plano que beneficiasse Davi, dando-lhe tempo para escapar, revigorar e reagrupar”.6 Nessa mesma linha de pensamento, Joyce Baldwin diz: A retórica de Husai conquistou o conselho de guerra; Absalão se viu no comando de um exército imenso e vitorioso, e a demora provocada pelo recrutamento de ainda mais reforços deu a Davi oportunidade de organizar suas tropas, recuperar as forças e decidir qual o terreno que lhe seria vantajoso no combate que se avizinhava.7 Destacamos, aqui, três pontos importantes: 1. Husai apela para a vaidade de Absalão (2Samuel 17:11). Diferentemente de Aitofel que se propôs a liderar os doze mil homens na missão de matar o rei, Husai diz a Absalão que ele deve a toda pressa reunir a si todo o Israel, de norte a sul, de Dã a Berseba, uma multidão sem conta e que o rei deve ser o grande líder desse numeroso e poderoso exército. Warren Wiersbe diz, corretamente, que a resposta de Husai não é uma série de declarações em primeira pessoa, girando em torno dele mesmo, mas sim uma série de afirmações sobre o novo rei, o que, sem dúvida, estimulou a imaginação e a vaidade de Absalão. Husai usou suas palavras para montar a armadilha na qual Absalão caiu.8 2. Husai apela para a vingança (2Samuel 17:12,13). Husai, de forma sagaz, desperta em Absalão, a sede de vingança, dizendo que todos devem ir e cair contra Davi e seus aliados como o orvalho que cai sobre a terra. Nem Davi nem qualquer de seus soldados devem ficar vivos. Ainda que Davi fuja para uma cidade amuralhada, eles invadirão a cidade e não ficará pedra sobre pedra. 3. Husai tem seu parecer acolhido (2Samuel 17:14). Assim como a aprovação do plano de Aitofel tivera unanimidade, o plano de Husai alcança unanimidade, em substituição ao conselho de Aitofel. O narrador deixa claro que essa reversão tinha a mão de Deus, para a ruína de Absalão. O conselho de Husai essencialmente se resumia na sentença de morte de Absalão. Apesar dessa realidade, enquanto isso, Absalão de forma incrível e insensata concordou com essa tática. O discurso prático de Aitofel foi esquecido, à medida que o plano grandioso de Husai, entremeado de imagens vívidas, foi cativando o coração e a mente de Absalão e de seus líderes. Deus havia respondido à oração de Davi e confundido o conselho de Aitofel. Absalão cavalgaria diante de seu exército determinado a vencer. Porém, o que estaria à sua espera seria uma derrota humilhante. A rede de espionagem entra em ação Nesse momento, a rede de espionagem entrou em operação. Husai transmitiu sabiamente tanto o conselho de Aitofel quanto o seu, e recomendou a Davi que se preparasse para o pior e cruzasse o Jordão antes do anoitecer, pois Absalão poderia mudar de ideia. O aviso a Davi foi claro: “Levantai-vos e passai depressa as águas, porque assim e assim aconselhou Aitofel contra vós outros” (2Samuel 17:21). Davi acolheu imediatamente o aviso e naquela mesma noite se levantaram e passaram o Jordão; quando amanheceu, Davi e todos aqueles que estavam com ele já tinham atravessado o Jordão. Aitofel comete suicídio Aitofel ficou frustrado ao ver o seu conselho rejeitado e substituído pelo conselho de Husai (2Samuel 17:23a). Sabia que sua proposta era a única maneira de matar Davi e conduzir Absalão ao poder. Ao perceber que seu pano havia falhado e sabendo que a vitória inevitável de Davi seria o seu fim irremediável e sua condenação inexorável como o traidor da pátria e o mentor da conspiração contra o reino, Aitofel deixou Jerusalém e foi para sua cidade. Ele estava a serviço do rei errado. Por ter traído Davi, sabia que seria executado ou banido para sempre do reino. Então, entrou em um beco sem saída, atravessou uma porta que o conduziu à desesperança fatal. Sem perspectiva de futuro, preparou-se para tirar sua própria vida. Aitofel cometeu suicídio (2Samuel 17:23b). Em vez de humilhar-se e arrepender-se de sua loucura, colocou seus negócios em ordem e depois se enforcou. Sendo Aitofel o Judas Iscariotes do Antigo Testamento, teve também o mesmo destino de Judas. Ele se enforcou. Seu suicídio foi planejado. Concordo com Kevin Mellish quando ele diz que a morte de Aitofel representava o maior golpe no futuro político de Absalão. Ao seguir o conselho de Husai, Absalão começou a plantar as sementes de sua própria destruição.9 Robert Chisholm é oportuno ao escrever: Há justiça retributiva aqui: aquele que, sem piedade alguma, aconselhou seu novo senhor a matar Davi (17:2,3) agora está morto, e as cordas que pronunciaram esse conselho perverso foram esmagadas. O Senhor respondeu a oração de Davi ao frustrar o conselho de Aitofel; agora, em sua providência, o Senhor remove completamente de cena esse inimigo potencialmente perigoso. O suicídio de Aitofel prenuncia o que está para acontecer com seu novo senhor, que também morrerá dependurado (18:9- 15).10 Davi recebe cuidado dos amigos Se a mão de Deus estava contra Absalão e seus aliados, o cuidado de Deus era demonstrado a Davi. Este chega a Manaaim, “acampamento de Deus” (Gênesis 32:1,2), sede do governo de Isbosete (2Samuel 2:8-10). Essa cidade funcionou como o quartel-general temporário de Davi durante a revolta de Absalão. Foi nesse lugar que Davi chegou e recebeu presentes de Sobi, Maquir e Barzilai (2Samuel 17:27). 1. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 310. ↵ 2. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 253. ↵ 3. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 310. ↵ 4. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 299. ↵ 5. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 214. ↵ 6. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 311. ↵ 7. BALDWIN,Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 301. ↵ 8. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 351. ↵ 9. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 311. ↵ 10. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 269. ↵ O Capítulo 23 Davi, o rei enlutado capítulo 18 de 2Samuel trata da batalha entre o exército de Davi e o exército rebelde de Israel liderado por Absalão. Vemos aqui as grandes perdas dessa rebelião, a morte de Absalão e o choro de Davi. Nas palavras de Dale Ralph Davis, “esse foi um triste triunfo”.1 Nesse doloroso processo, Davi paga a terceira prestação do castigo quádruplo que ele se autompôs (2Samuel 12:6). A profecia de Natã continua a ressoar ao longo da narrativa, à medida que a espada segue causando destruição na família de Davi (2Samuel 12:10).2 A estratégia do rei É incontestável que Davi é um guerreiro experiente. Como o comandante maior do exército de Israel toma três expedientes importantes: 1. Ele avalia a força militar que tem ao seu dispor (2Samuel 18:1). Davi conta o povo que tinha consigo, reúne e inspeciona as tropas, pondo sobre elas capitães de mil e capitães de cem. Cada cidadão é um soldado e cada soldado é liderado por um capitão. No seu exército há comando claro. Hierarquia e disciplina fazem parte de seu exército. Os soldados sabem o potencial que têm e sob o comando de quem devem lutar. 2. Ele distribui seu exército em três forças militares (2Samuel 18:2a). Davi enviou o povo, distribuindo-o em três frentes de batalha. Os capitães de campo eram os irmãos Joabe e Abisai, e o heteu Itai. Um terço do povo deve estar sob o comando de Joabe, outro terço sob o comando de Abisai e o outro terço sob a liderança de Itai. Não basta um exército numeroso, é preciso ter um pelotão organizado. Não basta ter um grande líder à frente, é preciso ter uma força-tarefa bem coordenada. O estratagema de batalha de Davi dava aos seus guerreiros flexibilidade na arte de guerrilha, utilizando o terreno e táticas não convencionais contra a milícia conscrita de Absalão. 3. Ele se dispõe a ir com o exército para o campo de batalha (2Samuel 18:2b). Davi, como guerreiro experiente, apesar de sua idade avançada, propõe-se a ir com o povo ao campo de luta. Essa estratégia, porém, não foi aceita pelo povo. Os soldados de Israel sabiam que Davi era o alvo principal da batalha e sua morte colocaria tudo a perder. Assim, nas palavras de W. T. Purkiser “Davi foi dissuadido com base de que sua vida e presença valeriam uma brigada de dez mil soldados comuns, e no caso de qualquer uma das corporações tivesse que recuar, ele, como o comandante central, poderia vir em seu auxílio”.3 A estratégia do povo O povo sabe o valor da vida do rei Davi (2Samuel 18:3a) e precisa da sua liderança na base (2Samuel 18:3b). O alvo principal do exército de Israel comandado por Absalão era matar Davi. Esse havia sido o conselho de Aitofel. Os soldados do campo, precisavam da liderança segura de Davi na base. Então, Davi aquiesce à estratégia do povo e fica na cidade para enviar ajuda em caso de necessidade. A ordem do rei É importante destacar que Davi está travando a guerra mais sensível e amarga de sua carreira. Sua ordem não emana de um guerreiro experimentado, mas de um pai aflito. Davi deu ordem a Joabe, a Abisai e a Itai, dizendo: “Tratai com brandura o jovem Absalão, por amor de mim. Todo o povo ouviu quando o rei dava a ordem a todos os capitães acerca de Absalão” (2Samuel 18:5). O rei esperava que seu exército saísse vitorioso, mas não suportava a ideia de ver seu filho morto na batalha. Dale Ralph Davis diz que essa ordem poderia fazer sentido se Absalão estivesse em uma terapia em vez de em uma guerra. A ordem de Davi foi clara, pública e memorável, mas não foi sábia. Davi estava, com essa ordem, abandonando considerações militares e morais para atender aos seus próprios sentimentos. Ele está enviando o povo para arriscar a vida por ele e pelo seu trono, enquanto pede brandura para que seu filho, que é a raiz de todo o mal, não seja morto.4 Essa ordem de Davi não só desrespeitava os homens que estavam lutando por ele, mas também transmitia fraqueza diante de um adversário tão perigoso, pois por certo, não era esse o tratamento que Absalão havia reservado para seu pai. Absalão havia assassinado Amnom, expulsado Davi de Jerusalém, tomado o trono, violentado as concubinas de Davi e, agora, estava determinado a matar o pai. Absalão não era o tipo de homem que alguém gostaria de proteger, mas se Davi tinha um defeito visível, esse era o de mimar os filhos. A batalha travada O exército de Davi, liderado pelos três capitães, travou a batalha com o Israel rebelado no bosque de Efraim. Israel aparece no papel de inimigo, o que enfatiza o amplo apoio que Absalão obteve (2Samuel 15:6,13; 16:15; 17:14,24,26) e a vulnerabilidade de Davi. Não obstante a superioridade numérica dos que seguiam Absalão, o exército de Davi foi vitorioso. Vejamos três pontos: 1. O lugar da batalha (2Samuel 18:6). O bosque de Efraim era denso e, por isso, um território mais favorável ao experimentado exército de Davi, liderado pelos três capitães. Lutar contra os soldados de Absalão nessa área florestal e traiçoeira definitivamente fornecia aos homens de Davi uma ampla cobertura para lutar em um estilo de guerra não convencional. A estratégia funcionou bem, pois vinte mil homens de Israel caíram nas mãos dos servos de Davi. Os homens de Davi definitivamente usaram o terreno acidentado para sua vantagem. 2. O triunfo do exército de Davi (2Samuel 18:7). O povo de Israel que seguia o rebelde Absalão foi abatido diante dos servos de Davi. Grande foi a derrota dos aliados de Absalão, com a perda de vinte mil homens. A natureza toda conspirou para fazer prosperar a causa do rei e derrotar o rebelde, embora este contasse com o apoio de “todo o Israel”. 3. A estratégia do campo de batalha (2Samuel 18:8). Davi levou a peleja para o bosque de Efraim, sabendo que esse lugar lhe era favorável. O narrador chega a dizer que a batalha se estendeu aí por toda aquela região, composta de gargantas e desfiladeiros das montanhas; e o bosque, naquele dia, consumiu mais gente do que a espada. A morte de Absalão Warren Wiersbe diz, com razão, que Deus não precisava de uma espada para deter o rebelde Absalão; simplesmente usou o galho de uma árvore.5 Destacamos, aqui, alguns pontos importantes: 1. Absalão dependurado na árvore (2Samuel 18:9). Absalão, liderando o exército rebelde, montado em seu mulo, encontrou-se com os homens de Davi. Na tentativa de fuga, seu mulo entrou debaixo dos ramos espessos de um carvalho. Absalão ficou preso nele pela cabeça, pendurado entre o céu e a terra, pois o mulo que montava passou adiante. Sua cabeleira proverbial, símbolo de sua beleza e orgulho, tornou-se o laço de sua morte. Como Aitofel, seu conselheiro, também morreu pendurado em uma árvore. O traidor ficou pendurado, à mercê dos soldados de Davi; assim eles não precisaram lutar contra o filho do rei, mas também não o salvaram. A grande árvore, embora imóvel, revelou-se mais do que páreo para o orgulhoso Absalão. 2. O mensageiro leva a notícia a Joabe (2Samuel 18:10-13). Um homem do exército comandado por Joabe, ao ver Absalão preso pelos cabelos, dependurado no carvalho, foi comunicar o fato ao seu capitão. Este o repreendeu por não ter matado Absalão, dizendo-lhe que seria recompensado e promovido por essa façanha. 3. A morte de Absalão (2Samuel 18:14,15). O general que havia promovido a reconciliação entre Davi e Absalão ignorou as ordens de Davi e matou o rapaz. Absalão rejeitou o plano de Aitofel de “matar somente o rei”, mas Joabe comprou essa ideia. Joabe não deu mais ouvidos ao soldado, e imediatamente, tomou três dardos e traspassou com eles o coração de Absalão, estando ele ainda vivo no meio do carvalho. Então, os dez jovens que levavam as armas de Joabe, feriram Absalão e o mataram. Joabe tem consciência de que Davi só estará seguro quando Absalão estivermorto. Dale Ralph Davis diz que o ato de Joabe foi ao mesmo tempo rebelde e racional: rebelde à luz da ordem de Davi; racional para o bem-estar do regime.6 4. O fim da guerra (2Samuel 18:16). Morto Absalão, Joabe tocou a trombeta, deteve o povo e o povo voltou de perseguir a Israel, cujos soldados estavam dispersos. Estava terminada a guerra. A morte de Absalão pôs fim à batalha, evitando assim mais derramamento de sangue. 5. O sepultamento de Absalão (2Samuel 18:17). Levaram Absalão e o lançaram no bosque, em uma grande cova, e levantaram sobre ele uma grande quantidade de pedras. Uma pedra é tudo o que leva o nome de Absalão, e nada mais. A notícia da morte de Absalão ao rei Era hora de dar a notícia do fim da guerra, da morte de Absalão e da esmagadora vitória alcançada contra os inimigos ao rei Davi. Quando o inimigo, porém, se tratava do próprio filho, era difícil para Davi celebrar a vitória. Era uma notícia boa com sabor amargo (2Samuel 18:19,20). Quando Davi perguntou ao mensageiro etíope sobre a jovem Absalão, ouviu uma resposta perturbadora: “Sejam como aquele os inimigos do rei, meu senhor, e todos os que se levantam contra ti para o mal” (2Samuel 18:32). O etíope transmitiu a notícia da morte de Absalão a Davi, mas de um modo indireto, amenizando assim o golpe. O abrupto anúncio do etíope, mesmo assim, mergulhou o rei em profunda tristeza. O etíope contou toda a verdade a Davi, não apenas sobre a batalha, mas também sobre a morte de seu filho. O etíope trouxe boas e más notícias a Davi. O livramento para Davi envolvia também o desatre para Absalão. Se o reino de Deus sob o rei escolhido estava para ser salvo, então o inimigo que havia usurpado o reino deveria ser destruído. Deus não traz pleno livramento para a igreja até que traga decisivo julgamento aos seus inimigos. A permanência do reino (2Samuel 18:31) implica na destruição de seus inimigos (2Samuel 18:32). O choro do rei Fica evidente que Davi estava fora da realidade caso imaginasse que poderia ter salvo tanto o trono quanto a vida do filho rebelde. Ao saber da morte de Absalão, seu filho, Davi ficou profundamente comovido, subiu à sala que estava por cima da porta e, em uma explosão emocionada, desatou a chorar. Davi já havia chorado quando soube da morte de Saul e de Jônatas (2Samuel 1:11,12), do assassinato de Abner (2Samuel 3:32) e do assassinato de Amnom (2Samuel 13:33-36); então, por que não deveria chorar agora pela morte de seu filho amado, Absalão? Certamente as palavras do profeta Natã ainda ecoavam em seus ouvidos: “A espada não se apartará de sua casa” (2Samuel 12:10). É a culpa de Davi que alimenta sua tristeza. Absalão, embora totalmente responsável por seus atos rebeldes, está sofrendo, de igual modo, a culpa de Davi, seu pai. A dor do rei foi sem dúvida intensificada no sentido de seu próprio fracasso como pai para Absalão. O amor de um pai transcendia as ações irresponsáveis de um filho rebelde, não importa o quanto as mesmas ferissem o pai individualmente. Entretanto, a reação de Davi pode apontar para suas próprias falhas como pai. O pai que nunca havia tomado providências para corrigir o filho ambicioso e mimado está se entregando ao tormento de si mesmo, expressando o desejo de ter morrido no lugar de Absalão. Com lágrimas copiosas, Davi chora e anda de um lado para o outro, dizendo: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!”. Davi deveria ter se dado conta de que não podia ter, ao mesmo tempo, o trono e o filho. Manter um significava, de fato, perder o outro. Fica evidente que Davi se concentra na disciplina aplicada por Deus, e não no livramento concedido por ele. 1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 223. ↵ 2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 272. ↵ 3. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015, p. 254. ↵ 4. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 229. ↵ 5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 354. ↵ 6. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 229. ↵ A Capítulo 24 Davi, o rei reentronizado vitória do exército de Davi sobre o rebelde exército de Absalão teve sabor amargo para o rei pactual. Em vez de comemorar a vitória, Davi se rende a um choro convulsivo; em vez de agradecer aos seus valentes soldados, que deram a vida para salvar o rei e o reino, envergonha-os com sua atitude; em vez de falar às suas tropas em público, isola-se e tranca-se dentro de casa, rendido a uma tristeza crônica. A tristeza do rei A tristeza de Davi é agravada pela culpa. Temos aqui um rei salvo da morte e vitorioso, mas ao mesmo tempo um rei triste e abatido. O luto pelo filho rebelde fez da tristeza de Davi uma ameaça a sua própria vida e ao seu reino (2Samuel 19:1). Davi continuava chorando e lastimando a morte de Absalão, desconsiderando ou fazendo pouco caso da retumbante vitória que seu exército havia imposto aos rebeldes. Davi estava tão consumido com sua própria aflição que ele nem pensou como aquilo afetava seus guerreiros que lutaram por ele. A angústia de Davi teve um efeito devastador sobre seus soldados. Isso tornou-se um insulto ao povo que o defendeu e arriscou a vida por ele. Como diz Joyce Badwin, “para o exército vitorioso, era difícil aceitar que Davi não tivesse qualquer palavra de apreciação pela bravura deles em combate”.1 A vitória de Davi tem gosto de funeral (2Samuel 19:2). A vitória do exército de Davi tornou-se em luto para todo o povo. Nenhuma palavra de gratidão do rei aos seus valentes aliados. Nenhuma celebração pela vitória. Nenhum bandeira drapejada, festejando o triunfo sobre os rebeldes. Parecia que aquela era uma vitória com gosto de derrota. O exército fiel a Davi ficou envergonhado (2Samuel 19:3). A atitude descontrolada de Davi fez de sua soldadesca vitoriosa um bando de homens envergonhados, entrando na cidade de Manaaim, com a cara coberta de pejo, como se estivessem voltando de uma derrota humilhante. A vitória se tornou naquele dia em derrota, e a alegria do triunfo, em tristeza. Os soldados de Davi entraram em Manaaim como se tivessem sido os perdedores, e não os vencedores. Davi ficou descompensado e sem liderança. O rei perdeu completamente o controle. Perdeu a capacidade de liderar, ao cobrir o rosto e exclamar em alta voz: “Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho!” (2Samuel 19:4). Aquele foi o fracasso do triunfo. Cinco vezes Davi grita o nome de Absalão e, oito vezes, clama “meu filho” (2Samuel 18:133; 19:4). O confronto ao rei Havia somente um homem capaz de entrar na casa do rei Davi para confrontá-lo. Esse homem era Joabe, e ele não hesitou em fazê-lo. Joabe é adequadamente rude, a fim de abalar Davi e levá-lo a reconhecer a situação. Joabe acusou Davi de ter envergonhado, naquele dia, a face dos seus servos que haviam livrado sua vida, a vida de seus filhos, de suas filhas, de suas mulheres e de suas concubinas (2Samuel 19:5). Os soldados voltaram da batalha vitoriosa como se tivessem sido derrotados. Nas palavras de Joyce Baldwin, “as pessoas que salvaram a vida do rei e de suas esposas e filhos foram recompensados com desonra”.2 Joabe, em um tom exagerado, acusa Davi de amar os que lhe aborrecem e aborrecer os que lhe amam (2Samuel 19:6). Joabe acusa Davi de dar a entender que os príncipes e servos que estavam com ele não tinham qualquer valor, pois se Absalão tivesse sobrevivido, mesmo que todos os aliados de Davi tivessem morrido, o rei estaria contente. Joabe acusa Davi de priorizar as coisas erradas, ou seja, amar os que o odiavam e odiar os que o amavam. Joabe usa os termos “amar” e “odiar” com a conotação pactual de lealdade e deslealdade. Davi estava sendo mais leal ao desleal Absalão que a seus soldados fiéis. Joabe mexe com os brios do rei e ordena-lhe a levantar-se e a sair para falar ao coração do povo, engatando em seguida uma solene ameaça: Juro pelo Senhor que, se não saíres, nem um só homem ficará contigo esta noite; e maior mal te será isto do que todoo mal que tem vindo sobre ti desde a tua mocidade até agora (2Samuel 19:7). A repreensão e advertência de Joabe sugerem que Davi corre o risco de perder seus partidários. Joabe tinha o poder de animar o exército a abandonar Davi e, assim, deixar o rei sem poder. Essa situação era pior do que todas as desgraças que já haviam acontecido a Davi. As palavras de Joabe indicavam que se Davi não consertasse a situação, outra rebelião, dessa vez liderada pelo próprio Joabe, estaria no horizonte. Em seguida, Joabe passa a apresentar a atitude que Davi deveria adotar: “Levanta-te agora, sai, e fala segundo o coração dos teus servos” (2Samuel 19:7). Joabe mostra a Davi a necessidade de uma ação imediata. O juramento que fez, pelo Senhor, dava uma tom solene à sua urgente insistência com o rei. O discurso breve, porém penetrante, de Joabe, puxou o rei de volta à realidade, e Davi assumiu o seu posto, na porta da cidade (2Samuel 19:8). o rei se levantou e se assentou à porta. Sabendo-o todo o povo, veio apresentar-se perante o rei. Israel, que havia bandeado para o exército rebelde de Absalão, depois de um golpe de Estado malogrado contra seu rei legítimo, foge e volta cada um para a sua tenda. A imagem de Davi aqui não é a de um líder grato, vitorioso, que falava entusiasticamente com seus soldados. Ao contrário, sua imagem relembra o retrato de um homem abatido até o pó, que mal consegue se levantar e faz apenas o mínimo que lhe é devido ou que se espera dele. A tensão entre as tribos A fuga de Davi da cidade de Jerusalém foi regada de lágrimas, enquanto a volta a Jerusalém foi marcada por fortes tensões. Davi precisa traçar uma estratégia para reassumir o trono, uma vez que a nação estava rasgada por uma guerra civil e, agora, todas as tribos estavam altercando entre si (2Samuel 19:9,10). O povo das tribos do norte discutia acerca das perspectivas de se submeterem ao governo de Davi. A história mostrava-lhes que Davi os havia tirado das mãos de seus inimigos, e o rei rebelde a quem tinha aderido estava morto. As tribos chegaram à conclusão, que o melhor a fazer era trazer Davi de volta ao trono. A abordagem deles era utilitária e pragmática. Enquanto as tribos israelitas deliberavam sobre sua decisão, Davi buscou conquistar o favor do povo de Judá (2Samuel 19:11,12). Davi compreendeu que precisava começar com a tribo de Judá, o berço da rebelião de Absalão. Ele sabia que sua reinstalação dependia de uma reaproximação da tribo de Judá. Então, enviou seus dois leais sacerdotes Zadoque e Abiatar para agir como seus embaixadores e abrir o caminho para a reconciliação. Davi reforça seu apelo, dizendo que eles eram seus parentes mais chegados, como seus ossos e carne. Davi certamente já tinha tomado conhecimento de que seu filho Absalão tinha sido morto pelas mãos de Joabe, mesmo tendo dado uma ordem expressa para o tratarem com brandura. Davi precisava pacificar as tribos e, para livrar-se de influência cada vez maior de Joabe, resolve fazer uma troca radical de comando de suas tropas, nomeando Amasa, o comandante do exército de Absalão, no lugar de Joabe (2Samuel 19:13). Politicamente isso parecia simpático, pois com esse gesto, Davi demonstrava que estava perdoando todos os soldados rebeldes que apoiaram a causa de Absalão e dizendo que todos os judaítas que haviam dado suporte a Absalão não precisavam ter medo de vingança do regime neodavídico. A nomeação de Amasa agradou aos homens de Judá, a ponto de, unanimemente, recomendarem ao rei sua volta imediata a Jerusalém, com todos os seus servos (2Samuel 19:14,15). Davi ainda não tinha voltado para Jerusalém quando sinais de disputas entre as tribos pareciam estar fervilhando (2Samuel 19:41-43). Todos os homens de Israel vieram a Davi com uma reclamação. Mesmo depois da vitória sobre o exército rebelde, não houve sossego para Davi. Warren Wiersbe, citando Shakespeare, escreve: “Inquieta deita-se a cabeça que usa a coroa”.3 A liderança da tribo de Judá na reentronização de Davi não agradou as dez tribos do norte. Todos os homens de Israel vieram a Davi e acusaram a tribo de Judá de tê-lo sequestrado na sua passagem pelo Jordão, privando-os também desse privilégio. Os homens de Judá retrucaram, dizendo que fizeram isso por causa do parentesco com o rei, uma vez que Davi era da tribo de Judá. Os homens de Israel responderam que o rei lhes pertencia dez vezes mais, declarando, ainda, que Davi lhes pertencia mais do que pertencia à tribo de Judá. Os homens de Israel acusaram a tribo de Judá de ter feito pouco caso deles, uma vez que foram os primeiros a sugerirem a volta do rei a Jerusalém (2Samuel 19:9,10). A união das tribos pretendida por Davi corre sério perigo, apesar dos esforços dele para promover a reconciliação. Essa tensão entre as tribos não se extinguiu. Pelo contrário, cinquenta anos depois, essas tribos se separaram definitivamente, as dez tribos do norte formaram o reino do norte, sob a liderança cismática de Jeroboão I (1Reis 12:16). W. T. Purkiser reforça essa ideia: “Embora ambos os grupos professassem lealdade a Davi, uma profunda mágoa persistiu entre os homens de Judá e o povo das outras tribos de Israel, como é visto em sua rivalidade em prestar homenagens ao rei. O ciúme tribal ao longo dessas mesmas linhas de divisão mais tarde levou à divisão do reino”.4 Dale Ralph Davis é enfático em dizer que embora o rei legítimo tenha retornado, não havia paz no reino. A animosidade e a inveja entre as tribos ameaçava a estabilidade do reino. Esta situação negativa, contudo, trazia um testemunho positivo: este reino deve ser verdadeiramente o reino de Deus ou ele será destruído ao longo de sua jornada.5 O rei anistia a Simei Em seu retorno a Jerusalém como rei, Davi anistiou Simei, filho de Gera, o homem que lançara pedra sobre Davi e o amaldiçoara, quando este fugia de Absalão. Simei, vendo o triunfo das tropas de Davi sobre o exército rebelde de Absalão, com medo de que Davi exercesse vingança, reuniu mil homens de Benjamim e desceu com os homens de Judá para encontrar Davi no Jordão e o ajudarem na travessia do rio. Simei, o apedrejador, agora, prostra- se diante do rei, humildemente, quando este ia passar o Jordão, e lhe disse: Não me imputes, senhor, a minha culpa e não te lembres do que tão perversamente fez teu servo, no dia em que o rei, meu senhor, saiu de Jerusalém; não o conserves, ó rei, em teu coração. Porque eu, teu servo, deveras confesso que pequei; por isso, sou o primeiro que, de toda a casa de José, desci a encontrar-me com o rei, meu senhor (2Samuel 19:19,20). Não há dúvida de que a postura de Simei é apenas uma estratégia política para livrar-se de retaliação. Ele continua sendo uma serpente, mas uma serpente que deseja viver. Davi deixa-o viver, sabendo que não era hora de fazer qualquer enfrentamento com outros benjamitas. Davi trata Simei com clemência! O mesmo Abisai que pedira a Davi para matar Simei, quando este amaldiçoava e apedrejava o rei ao fugir de Jerusalém, agora pede novamente para vingar-se de Simei (2Samuel 19:21). O plano de Davi, porém, não incluía retaliação. Era hora de juntar os cacos em vez de derramar mais sangue. Davi repreende Abisai, reafirma sua autoridade como rei de Israel e dá anistia a Simei, jurando preservar-lhe a vida (2Samuel 19:22,23). Davi age cautelosamente, dizendo que não era hora de vingança e mais derramamento de sangue, mas momento oportuno para pacificar os ânimos e unificar o povo. O rei corrige um erro cometido contra Mefibosete Mefibosete, o filho aleijado de Jônatas, que morava no palácio do rei, em Jerusalém, também vai ao encontro de Davi em seu retorno à capital. Desde que o rei tinha saído de Jerusalém até sua volta, Mifibosete não tinha tratado dos pés, nem espontado a barba, nem lavado as vestes, em um gesto de profundo abatimento. Ele vem a Davi com uma aparência desgrenhada, mas com sinceridade no coração. Davi lhe pergunta: “Por que não foste comigo, Mefibosete?”. Essa pergunta tinha o propósito de checar a veracidade da acusação feita por Ziba, oadministrador das terras de Mefibosete. Era Mefibosete um traidor, como acusara Ziba, ou um homem leal ao rei? A resposta de Mefibosete desmascara a mentira de Ziba e aponta para a traição do acusador. A lealdade de Mefibosete também revela a decisão precipitada de Davi em transferir para o acusador os bens que administrava. Mefibosete deixa claro sua inocência diante do rei. Sua resposta é eloquente: Ó rei, meu senhor, o meu servo me enganou; porque eu, teu servo, dizia: albardarei um jumento e montarei para ir com o rei; pois o teu servo é coxo. Demais disto, ele falsamente me acusou a mim, teu servo, diante do rei, meu senhor; porém, o rei, meu senhor, é como um anjo de Deus; faze, pois, o que melhor te parecer. Porque toda a casa de meu pai não era senão homens dignos de morte diante do rei, meu senhor; contudo, puseste teu servo entre os que comem à tua mesa; que direito, pois, tenho eu de clamar ao rei? (19:26-28). Davi resolveu repartir com Ziba as terras, alterando sua decisão inicial e permitiu que ambos tivessem direito à propriedade que Davi havia concedido a Ziba anteriormente. Longe de Mefibosete demonstrar insatisfação com a resolução do rei, dá uma resposta desconcertante: “Fique ele, muito embora, com tudo, pois já voltou o rei, meu senhor, em paz à sua casa” (2Samuel 19:30). Mefibosete está satisfeito em estar na casa do rei, assentado à mesa do rei. Mefibosete ama mais o rei do que as terras. Mefibosete abriu mão de sua parte do campo, mostrando, assim, sua lealdade a Davi e sua gratidão pelo retorno do rei. Concordo com Joyce Baldwin, quando diz que, quem sai incólume do incidente é o aleijado Mefibosete, que se coloca acima das questões financeiras e sente um prazer sincero no retorno, em segurança, do rei, seu senhor.6 O rei recompensa a Barzilai Depois de lidar com Simei, Ziba e Mefibosete, Davi, agora, se despede de Barzilai, o próspero gileadita, que o sustentou no tempo de seu exílio em Manaaim. Esse ancião demonstrou sua fidelidade ao rei pactual apontado pelo Senhor. Davi não se esqueceu da bondade de Barzilai. Como gesto de sua gratidão, convidou-o a mudar-se para Jerusalém, com o compromisso de sustentá-lo na casa real. Barzilai agradeceu a generosa oferta, justificando que já era um homem muito velho para desfrutar das alegrias e venturas da vida palaciana e que, nessa idade, poderia ser até mesmo um peso para o rei. Porém, pede ao rei para levar consigo Quimã, provavelmente seu filho. Davi promete a Barzilai, seu benfeitor, levar Quimã consigo para Jerusalém. Promete ainda atender a qualquer necessidade do amigo hospitaleiro. Davi beijou e abençoou Barzilai às margens do Jordão, e este voltou para sua casa. Quando Davi atravessou o Jordão, Quimã e todo o povo de Judá foram com ele. O texto faz questão de apontar que somente “metade do povo de Israel estava presente” (2Samuel 19:40). Esta última observação insinua que nem todo o povo de Israel apoiava Davi nem queria vê-lo retornar como rei. O texto já está levantando a questão de que haveria problema adiante para a casa de Davi.7 Antes de Davi colocar os pés em Jerusalém e reassumir o trono, explode mais uma revolta. Não há nenhuma surpresa. Apenas mais rebelião, mais tragédia, mais problemas. As rivalidades entre as tribos e as dissensões que fomentaram a rebelião de Absalão não estavam completamente erradicadas. Russell Norman Champlin diz que a “revolução” de Seba desenvolveu-se das querelas entre Israel (o norte) e Judá (o sul).8 Seba, aproveitando-se da crise instalada entre as dez tribos do norte e o povo de Judá, lidera uma insurreição, induzindo as tribos do norte a abandonarem Davi. Fica patente, entretanto, que, embora Seba tenha recebido apoio para o movimento separatista, não desfrutava do respaldo político de todas as tribos do norte. Vale destacar que os anos finais do reinado de Davi foram assaz turbulentos e ele não teve mais unanimidade em seu governo. Ele teve de lidar com líderes rebeldes como Seba, a fim de reunificar o seu reino. Concordo com Robert Chisholm quando ele diz que esse incidente prefigura a divisão do reino depois da morte de Salomão. Aliás, as palavras de Seba foram repetidas pelos israelitas, posteriormente, quando se declaram independentes da dinastia davídica (1Reis 12:16).9 Uma insurreição O reino de Davi estava assegurado, mas não contava mais com o apoio de todas as tribos. A rebelião de Absalão tinha sido efetivamente reprimida e debelada, porém, uma nova revolta estava em desenvolvimento. O reino estava internamente dividido. Seba, o rebelde, é chamado de “filho de Belial” (2Samuel 20:1a). Era um homem maligno, imprestável, sedicioso. Seba não apoiava o reino davídico, e, portanto, instigou uma revolta entre as tribos de Israel com sua convocação à rebelião. Aproveitando-se do estremecimento entre as tribos do norte e as tribos do sul, autointitulou-se líder de uma nova rebelião e liderou as dez tribos do norte a desertarem das fileiras de Davi, tocando a trombeta, dizendo que não tinham herança com Davi, o filho de Jessé, e que cada um deveria ir para sua tenda (2Samuel 20:1b). O resultado dessa insurreição é que todos os homens de Israel se separaram de Davi e seguiram Seba, enquanto os homens de Judá se apegaram ao seu rei, conduzindo Davi desde o Jordão até Jerusalém (2Samuel 20:2). Um conflito pessoal Sabendo que a rebelião liderada por Seba poderia tornar-se mais perigosa do que a rebelião promovida por Absalão, Davi, como um estrategista militar, tem pressa para estancar e esmagar a nova insurreição, cortando-a pela raiz, não dando ao revoltoso a chance de tomar cidades fortificados e resistir ao seu exército. Então, ordena a Amasa a reunir as tropas em um prazo de três dias para um ataque concentrado e veloz ao insurgente. Amasa partiu para convocar os homens de Judá, porém, por motivos não revelados, demorou além do tempo aprazado (2Samuel 20:4-6). Vendo Davi que o novo comandante não tinha a destreza e o preparo para aquela grande empreitada, e sabendo do potencial do perigo à vista, convoca o leal guerreiro Abisai, irmão de Joabe, para reunir os seus servos, a fim de perseguir Seba antes que ele se aquartelasse nas cidades fortificadas. A decisão de convocar Abisai deixa claro que Joabe havia sido rebaixado. Embora Davi tenha deposto Joabe e nomeado Abisai para perseguir Seba, o exército que avança é liderado por Joabe, que comanda a guarda real e todos os valentes de Davi (2Samuel 20:7). Joabe não podia ser posto fora de ação tão facilmente e tinha seus motivos pessoais para querer eliminar Amasa, o primo promovido em seu lugar. Joabe não queria ver líder algum de Absalão ainda vivo e criando problemas para Davi. Sob o comando desses irmãos guerreiros, os homens de Judá saíram de Jerusalém para perseguirem Seba. Chegando eles à pedra grande, junto a Gibeom, Amasa veio perante eles. De forma traiçoeira, sob o pretexto de amizade, Joabe feriu o seu rival Amasa à espada e o matou. Joabe se aproximou de Amasa com palavras ternas (2Samuel 20:9a) e com gestos ternos (2Samuel 20:9b). Seu gesto, ao ter a mão direita livre, a destra da batalha, que manuseava a espada, não indicava qualquer ameaça. Isso pegou Amasa de espírito desarmado, o que possibilitou Joabe lhe aplicar um golpe fatal. Tendo matado Amasa, Joabe e Abisai se uniram e prosseguiram na perseguição a Seba. Joabe matou três homens importantes associados a Davi: Abner (2Samuel 3:27), Absalão (2Samuel 18:14), e Amasa (2Samuel 20:10). Um dos moços de Joabe parou junto ao ferido de morte, Amasa, e disse: “Quem está do lado de Joabe e é por Davi, siga Joabe” (2Samuel 20:11). Amasa com as entranhas derramadas por terra, revolvia-se em sangue. Isso retardou a marcha do povo que parava para ver o que tinha lhe acontecido. Então, um dos moços de Joabe removeu Amasa para fora do caminho e cobriu seu corpo com um manto e assim todos os homens seguiram Joabe, para perseguirem Seba. Um cerco militar Seba viajou pela região norte e chegou à cidade de Abel-Bete-Maaca (2Samuel 20:14), que