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Dedicatória
Dedico este livro ao amigo e irmão Arival Dias Casimiro, pastor da Igreja
Presbiteriana de Pinheiros, com quem tenho o privilégio de servir ao Senhor
Jesus na lida pastoral. Arival é um homem de fé, um servo humilde, um
pregador ungido, um homem segundo o coração de Deus.
Sumário
Prefácio
1. Davi, o candidato improvável
2. Davi, o vencedor de gigantes
3. Davi, o cortesão do palácio
4. Davi, o afamado guerreiro
5. Davi, o amigo sincero
6. Davi, o fugitivo
7. Davi, o misericordioso
8. Davi, o pacificado
9. Davi, o incrédulo
10. Davi, o dissimulado
11. Davi, o homem de lágrimas
12. Davi, o rei de Israel
13. Davi, o adorador
14. Davi, o rei pactual
15. Davi, o vitorioso nas batalhas
16. Davi, o homem bondoso
17. Davi, o adúltero
18. Davi, o homem confrontado pela graça
19. Davi, o pai de uma família disfuncional
20. Davi, o rei destronado
21. Davi, o rei odiado
22. Davi, o rei atacado
23. Davi, o rei enlutado
24. Davi, o rei reentronizado
25. Davi, o rei soberbo
26. Davi, o rei sucedido
Bibliografia
D
Prefácio
avi é apresentado nas Escrituras Sagradas como o homem segundo o
coração de Deus (Atos 13:22). Não porque ele era um varão perfeito,
mas porque tinha o coração quebrantado. Viveu intensamente. Teve
arroubos de devoção e, também, quedas vertiginosas. Foi às alturas excelsas
da intimidade com Deus, mas também caiu nas profundezas do pecado. Ao
mesmo tempo que teve pulso firme no enfrentamento das guerras de Israel,
demonstrou ruidosa fraqueza nas lutas dentro de seu lar. Foi um rei
exponencial e um pai nanico.
Davi foi um pastor de ovelhas, um músico extraordinário, um compositor
renomado, um guerreiro valente, um amigo leal, um político experiente, um
estadista elogiável, um adorador fervoroso.
Davi foi escolhido por Deus, capacitado por Deus, instrumentalizado por
Deus, elevado por Deus e disciplinado por Deus. Com ele, Deus fez uma
aliança eterna. A ele Deus prometeu um descendente, cujo reino é eterno e
cujo trono jamais passará. Dele procedeu o Messias, o Salvador do mundo.
Jesus é chamado nas Escrituras de o Filho de Davi (Romanos 1:3).
Davi foi o maior rei de Israel. Ele triunfou sobre os históricos inimigos de
seu povo e ampliou seu reino, acumulando fortunas colossais e riquezas sem
conta. Sua fama transcendeu o seu tempo e espraiou-se por todas as nações
da terra. Ainda hoje sua vida inspira, seu legado abençoa, seus Salmos
enlevam, suas lágrimas quebrantam e sua esperança messiânica alimenta a
verdadeira fé.
Davi foi treinado por Deus na escola do deserto. Por mais de dez anos
precisou fugir do rei Saul por cidades, desertos, vales e cavernas. O
treinamento pesado tinha como propósito prová-lo para aprová-lo. As
tempestades que desabaram sobre sua cabeça não o destruíram, mas
tonificaram as musculaturas de sua alma. Suas experiências com Deus e seus
milagrosos livramentos brotaram das provas mais duras, das dores mais
atrozes, das angústias mais pungentes. Toda essa providência carrancuda foi
transformada em cânticos de louvor e em salmos de lamento e penitência
pelo Deus que inspira canções de louvor nas noites escuras.
Davi foi um adorador de coração generoso. Ele trouxe a arca da aliança
para Jerusalém e providenciou todos os recursos para que o templo fosse
edificado. Chegou a dizer: “E ainda, porque amo a casa de meu Deus, o ouro
e a prata particulares que tenho dou para a casa do meu Deus” (1Crônicas
29:3). Deu instruções a Salomão para ser zeloso na edificação do templo e
não deixou faltar ao novo rei seus sábios conselhos.
Davi foi um homem abençoador. O apóstolo Paulo disse a respeito dele
em Antioquia de Pisídia: “Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua
própria geração, conforme o desígnio de Deus...” (Atos 13:36). Davi foi um
rei-servo. Ele ascendeu ao poder não para explorar o povo, mas para servi-lo.
Davi foi o mavioso salmista de Israel (2Samuel 23:1). Dos cento e
cinquenta salmos do saltério, ele escreveu setenta e dois. Esses salmos são
lidos semanalmente no mundo inteiro. Recorremos a eles nos dias de alegria
e nos tempos de choro, nas celebrações festivas e nos dias de luto. Davi tinha
o pulso firme do guerreiro e a alma sensível do poeta. Tinha destreza com a
espada e habilidade em tanger as cordas da harpa. Os salmos de Davi
tornaram-se o cancioneiro do povo de Deus. Lemos, declamamos e
cantamos os salmos de Davi. São bálsamo para o ferido, tônico para os
fracos, renovo para os cansados, terapia para os enfermos. Ah, que delícia é
mergulhar nessa poesia divina, nessas canções inspiradas, nessas músicas que
vieram de Deus e retornam para Deus! Os salmos de Davi são oráculos
divinos, inspirados pelo Espírito Santo, que restauram a alma, dão sabedoria
aos símplices, alegram o coração e iluminam os olhos!
Minha oração é que esta obra ilumine sua mente e inflame seu coração.
Que você fique não apenas desafiado pelo legado de Davi, mas sobretudo,
que você seja transformado pelo Deus de Davi.
Boa leitura!
D
Capítulo 1
Davi, o candidato improvável
avi é bisneto de Boaz, neto de Obede, filho de Jessé, rei de Israel. Ele
é o filho caçula entre oito irmãos. Não procede de uma família
aristocrática. Não é oriundo de uma escola de profetas nem mesmo de uma
família sacerdotal. Seu pai é apenas um homem belemita, sem qualquer
projeção na sociedade de seu tempo.
Davi, sendo o filho caçula, cuidava das ovelhas de seu pai, nos montes e
valados de Belém. O rebanho era pequeno e a região era desértica (1Samuel
17:28). O jovem belemita, da descendência da tribo de Judá, inobstante a
pouca reputação que os pastores desfrutavam em seu tempo, tinha um
caráter impoluto, uma piedade profunda e uma coragem invejável. Protegeu
as ovelhas dos lobos vorazes e dos leões esfaimados. Com sua funda nas
mãos era uma ameaça aos predadores. Chegou a matar um urso e um leão,
em defesa de seu rebanho. Sua destreza era proverbial. Sua força era
invejável. Sua ousadia era notória.
Davi aproveitou os dias quentes de Belém e as noites gélidas do deserto
para desenvolver sua vida devocional. Suas experiências da juventude, suas
lutas na escola do quebrantamento, suas fugas do rei Saul e suas dores mais
profundas enquanto ostentava a coroa tornaram-se combustível para seus
salmos mais profundos. Músico de qualidades superlativas, tangia sua harpa
na solidão do deserto. Compositor excelente escreveu a maioria dos salmos.
Jovem valoroso tonificou as musculaturas de sua alma, nas montanhas toscas
de Belém, velando os rebanhos de seu pai.
Quando Deus decidiu prover para si um rei, em todo o Israel, e mesmo
entre as famílias mais ricas, mais nobres, mais conceituadas, Deus não
encontrou ninguém semelhante a Davi. Mesmo na família de Jessé, embora
tivesse irmãos mais fortes, mais apessoados, mais credenciados aos olhos
humanos, nenhum deles foi escolhido, exceto Davi.
O jovem belemita, o caçula da família, era o candidato improvável para o
trono, mas foi o escolhido de Deus. O Senhor permanece escolhendo os que
não são para envergonhar os que são. Os critérios divinos são diferentes dos
nossos. Olhamos a aparência, mas Deus vê o coração. Somos impressionados
pela performance, mas Deus observa a motivação.
Em 1Samuel 16 encontramos uma espécie de prefácio para as narrativas
restantes pertinentes à vida de Davi. Essa passagem começa com a jornada
de Davi rumo ao trono, primeiro com a sua unção por Samuel, e depois,
com a sua introdução à corte de Saul.
Deus dá uma missão secreta ao profeta Samuel para ir à casa de Jessé e
ungir um de seus filhos para proporcionar uma dinastia duradoura. Diz a
Escritura que o mesmo Deus que rejeitou Saul, “escolheu a Davi, seu servo, e
o tomou dos redis das ovelhas; tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias,
para ser o pastor de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança” (Salmos
78:70,71).
Deus escolhe Davi
O capítulo 16 de 1Samuel fala da cidade de Davi (16:1-5); da família de
Davi (16:6-10); da profissão de Davi (16:11); da aparência de Davi (16:12a);e da unção de Davi (16:12,13).1
Destacamos, aqui, algumas lições importantes:
1. Pare de olhar para trás, Deus está fazendo algo novo (1Samuel 16:1). O
capítulo 15 de 1Samuel se encerra com o rompimento de Samuel com Saul
e destaca o sentimento de pena e de tristeza profunda, como um pranto
pelos mortos, que dominou o coração do velho profeta pelo rei que Deus
havia rejeitado. Agora, Deus repreende Samuel por continuar sentindo pena
de Saul, orientando-o a tirar os olhos do passado para colocá-los no futuro,
uma vez que está fazendo alvo novo. A tristeza de Samuel devido à rejeição
de Saul foi interrompida por uma nova missão. A dinastia de Saul não podia
mais continuar. O profeta precisava afastar-se do passado e de suas
situações, e olhar para frente, onde se cumpririam os próximos planos de
Deus.2
Deus ordena Samuel a encher um chifre de azeite e envia-o a Belém, para
ungir um dos filhos de Jessé como o novo rei de Israel. Com isso, uma
página está sendo virada não só na história de Israel como também na
história da redenção.
2. Pare de temer os homens, confie em Deus (1Samuel 16:2). Samuel, o
destemido profeta, confessa, agora, o medo que sentia de Saul, imaginando
que essa missão secreta lhe custaria a própria vida. Ele sabia que se o rei
Saul, já com fortes sinais de descontrole, desconfiasse do propósito de sua
viagem, aquilo poderia soar como uma traição, fazendo com que o rei
explodisse em um ataque assassino. Deus, porém, não só ordena Samuel a ir
a Jessé, mas também lhe dá uma estratégia para não causar desconfiança em
Saul e nos seus aliados. O Senhor o instrui a organizar um sacrifício e um
banquete que fossem relacionados à sua visita em Belém.
3. Pare de esperar o pior, Deus está fazendo o melhor (1Samuel 16:3-5). Se
Samuel estava com medo de ir à casa de Jessé, em Belém, com mais medo
ficaram os anciãos de Belém quando viram Samuel chegando, pois não
sabiam quais eram as suas intenções. Belém era uma vila muito pequena e
não fazia parte da rota costumeira do profeta. Os dias eram tensos, e o
temor deles era que Samuel estivesse trazendo, da parte de Deus, alguma
palavra de juízo. No entanto, Samuel acalmou o coração deles dizendo que
sua vinda era de paz e convida-os a se purificarem para o sacrifício que
estava prestes a oferecer. O próprio Samuel purificou a Jessé e seus filhos.
Não raro, ficamos apavorados, com medo daquilo que pode ser a porta da
nossa esperança. A missão de Samuel era ungir um belemita rei de Israel,
colocando a pequena cidade no topo da fama mundial.
4. Pare de olhar para a aparência, Deus vê o coração (1Samuel 16:6-10). Ao
entrar na casa de Jessé, Samuel viu Eliabe, o filho primogênito.
Imediatamente, julgando pela aparência, pensou que estava na presença do
ungido do Senhor, no que foi imediatamente repreendido pelo próprio
Deus: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o
rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior,
porém, o Senhor, o coração” (1Samuel 16:7). Jessé fez passar diante de
Samuel todos os seus sete filhos, mas Samuel declarou: a nenhum deles
Deus escolheu. Deus não procura semblantes formosos (1Samuel 16:7);
estatura física (1Samuel 16:7); idade (1Samuel 16:11); posição (1Samuel
16:11). O Senhor olha para o coração (1Samuel 16:7); e derrama o seu
Espírito sobre aqueles que ele aceita (1Samuel 16:13).
5. Pare de descartar os improváveis, Deus é especialista em escolhê-los e
capacitá-los (1Samuel 16:11-13). Foi nesse momento que Samuel perguntou
a Jessé: “Acabaram-se os teus filhos?” (1Samuel 16:11a). Jessé respondeu:
“...ainda falta o mais moço, que está apascentando as ovelhas” (1Samuel
16:11b). É digno de nota que no Antigo Testamento, os reis e seus oficiais
eram considerados “pastores” do povo ( Jeremias 23; Ezequiel 34). Ainda
vale a pena ressaltar que Deus, geralmente, chama pessoas ocupadas para o
seu serviço. Sem titubear, Samuel disse a Jessé: “Manda chamá-lo, pois não
nos assentaremos à mesa sem que ele venha” (16:11c). O caçula da família
era o improvável. Era jovem demais. Vivia tangendo sua harpa nas
montanhas desérticas de Belém, enquanto apascentava as ovelhas,
protegendo-as de bestas-feras. Joyce Baldwin diz que o mais jovem foi
considerado tão improvável que julgaram não ser necessário chamá-lo do
trabalho com as ovelhas. Ele, porém, era quem o Senhor havia escolhido.3
Richard Phillips corrobora: “No lugar mais improvável e humilde, Deus
havia encontrado o rei de sua própria escolha: o jovem a quem o próprio
Deus havia moldado para seu propósito gracioso”.4
Davi chegou e foi introduzido à casa. Era ruivo, de belos olhos e boa
aparência. O Senhor ordenou a Samuel: “Levanta-te e unge-o, pois este é
ele” (1Samuel 16:12). O óleo da unção simbolizava tanto o Espírito Santo
como a concessão de seu poder. Davi foi ungido por Samuel no meio de seus
irmãos e, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou dele.
O fato de Davi ser o oitavo filho de Jessé é emblemático, pois nas
Escrituras esse número é, com frequência, a representação de um novo
começo. De fato, Deus usou Davi para promover um recomeço em Israel,
tanto em termos políticos quanto espirituais.5 Deus fez do filho de Jessé o
emblema do ofício real que somente Cristo cumpriria mais gloriosamente.
Richard Phillips diz que podemos aprender cinco lições com a unção de
Davi:
1. Uma repreensão da parte de Deus ao princípio que está no cerne da
idolatria: o foco na aparência exterior.
2. Chamados importantes exigem preparação prévia.
3. O prazer de Deus em elevar servos a partir de lugares humildes.
4. As qualidades mais importantes são aquelas que nos recomendam a
Deus.
5. A qualidades que Deus deseja em seus servos são aquelas que Ele
concede pelo envio do seu Espírito Santo.6
Saul escolhe Davi
A situação de Saul ia de mal a pior. O rei estava em total decadência mental
e espiritual. Nessa conjuntura, Saul, por indicação de seus servos, escolhe
Davi para assisti-lo no palácio, adotando-o como seu filho. Mais tarde, Davi
se torna o genro de Saul. Ele chama Davi de “meu filho” (1Samuel 24:16;
26:17), e Davi o chama de “meu pai” (1Samuel 24:11).
Destacamos, aqui, quatro fatos solenes.
1. Um contraste profundo (1Samuel 16:13,14). Na mesma medida que o
Espírito Santo se apossou de Davi, um espírito maligno, da parte do Senhor,
começou a atormentar Saul (1Samuel 16:14,23; 18:10; 19:9), como parte de
sua disciplina.
2. Um tormento profundo (1Samuel 16:14). A vida de Saul foi se
deteriorando à medida que ele se rebelava contra Deus e ainda tentava
justificar suas transgressões. Samuel se afastou dele. O Senhor o rejeitou.
Agora, um espírito maligno enviado pelo Senhor o atormenta. Sendo Deus
soberano, até os espíritos malignos estão debaixo de suas ordens e cumprem
seus propósitos. Desse modo, os acessos de ira de Saul, seu transtorno
psicológico e sua perturbação mental não eram apenas uma doença de
ordem psicoemocional, mas consequência da ação perturbadora de um
espírito maligno. A causa era o espírito maligno, a consequência era a
perturbação mental.
Antônio Neves de Mesquita lança luz sobre o tema, ao escrever:
É sempre assim: quando Deus não ocupa o lugar devido na vida humana,
o demônio se aproveita da vaga e toma conta. O mais grave de tudo é que
este espírito maligno veio da parte do Senhor. Deus manda tanto nos
espíritos bons como nos maus. Nada escapa ao governo divino, e os
demônios são usados para perseguir os que estão desviados [...]. Deus tem
sob seu domínio anjos e demônios, como tem os homens, e usa-os no seu
governo providencial, do modo que quer.7
3. Um diagnóstico certo, mas um tratamento insuficiente (1Samuel 16:15,16).
Os servos de Saul apresentaram um diagnóstico correto ao declararem que o
rei estava atormentado por um espírito maligno. No entanto, eles adotaram
medidas superficiais e insuficientes para resolver as crises intermitentes de
perturbação mental. O problema de Saul era a sua alienação de Deus, a sua
rebeldia contra o Senhor e sua desobediência às ordensdivinas. A solução
para Saul era o arrependimento sincero, e não apenas terapia musical. A
música era apenas um paliativo para seus acessos de loucura e perturbação.
Richard Phillips tem razão em escrever:
Conselheiros de mentalidade bíblica parecem ter estado ausentes da corte
de Saul, e seus conselheiros só conseguiram pensar num modo de tratar
os sintomas psicológicos do que era um problema fundamentalmente
espiritual. A solução oferecida por eles foi superficial. Saul precisava de
uma cirurgia e eles lhe deram apenas paliativos.8
4. Um propósito divino (1Samuel 16:17-23). O Deus da providência age
nas circunstâncias, ainda que desafiadoras, para colocar o recém-ungido rei
de Israel dentro do palácio para relacionar-se com Saul. Assim, o novo rei
torna-se servo do velho rei. Um dos moços de Saul forneceu um relatório
preciso sobre o jovem belemita: “...sabe tocar e é forte e valente, homem de
guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o Senhor é com ele”
(1Samuel 16:18). A chave para o sucesso de Davi era esta: “O Senhor era
com ele” (1Samuel 16:18; 18:12,14,28).
Saul, então, envia uma mensagem a Jessé: “Deixa estar Davi perante mim,
pois me caiu em graça” (1Samuel 16:22). Quando o espírito maligno da
parte de Deus vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a dedilhava. Assim,
Saul se acalmava, o espírito se retirava dele e o rei sentia-se melhor
(1Samuel 16:23).
1. WIERSBE, W. W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 242-244. ↵
2. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2. 2015,
p. 207. ↵
3. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel. 2006, p. 137. ↵
4. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 253. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 244. ↵
6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 253-356. ↵
7. MESQUITA, Antônio Neves. Estudo nos livros de 1 e 2Samuel. 1979, p. 72. ↵
8. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 262. ↵
A
Capítulo 2
Davi, o vencedor de gigantes
unção de Davi não o colocou no trono, mas o matriculou na escola do
quebrantamento. Antes de ascender ao trono, ele foi preparado para
ocupá-lo. Ele foi provado para ser aprovado. Como barro nas mãos do
oleiro, Davi foi amassado, prensado e moldado. Finalmente, passou pela
fornalha para ser temperado e, então, usado como vaso de honra nas mãos
de Deus.
O capítulo 17 de 1Samuel retrata uma história épica, uma espécie de
divisor de águas na vida de Davi. O jovem belemita, na contramão do
exército de Israel, dispõe-se a enfrentar e vencer um guerreiro duelista, que
era um gigante insolente e inimigo aterrador.
Essa fascinante história de fé e de coragem de Davi é uma das narrativas
clássicas mais apreciadas e conhecidas da Bíblia. Em 1Samuel 16:1-13, Davi
emerge com a unção do profeta Samuel, nos versículos 14-24, ele aparece
como o músico da corte de Saul, já no capítulo 17, ele surge como o
campeão militar de Israel.
Embora esse episódio tenha ocorrido há mais de três mil anos, é oportuno
dizer que os gigantes ainda existem. Eles são numerosos e arrogantes.
Gigante é tudo aquilo que parece ser maior do que você. Pode ser uma
pessoa, uma circunstância ou um sentimento. Há gigantes tanto fora como
dentro de nós. Alguns gigantes são criados no laboratório do nosso próprio
medo, e eles se levantam como fantasmas para nos assustar.
Deus, porém, não nos chamou para contar os gigantes nem mesmo para
temê-los ou fugir deles. Ele nos chamou para vencê-los. John Milton venceu
o gigante da cegueira ao escrever o grande clássico Paraíso Perdido depois de
ficar completamente cego. Ludwig Beethoven, músico de qualidades
superlativas, venceu o gigante da surdez ao compor suas sinfonias mais
excelentes depois de ficar completamente surdo. John Bunyan venceu o
gigante da prisão ao escrever o clássico O Peregrino, nas horas mais sombrias
de sua saga prisional. Quais são os seus gigantes? O texto bíblico sobre a
batalha de Israel com os filisteus oportuniza algumas lições importantes.
Um inimigo insistente
Os filisteus foram os inimigos mais insistentes que Israel enfrentou
(1Samuel 17:1-3). Considerados “o povo do mar”, eram piratas invasores.
Quando os filisteus migraram para o litoral de Israel, trouxeram com eles
sua cultura e suas táticas de guerra. Mais uma vez, avançando sobre o
território de Judá, esse inimigo ajunta suas tropas para guerrear contra Israel,
acampando entre Socó e Azeca, em Efes-Damim. A expressão enfática Socó,
que está em Judá (v. 1) mostra os filisteus indo além dos limites. Saul, então,
convoca os soldados de Israel, e eles acampam no vale de Elá. É preciso
ressaltar que os filisteus tinham armamento superior e um número mais
elevado de soldados.
Um duelista insolente
O narrador bíblico, ao descrever Golias, faz cinco registros a respeito dele:
Sua altura (1Samuel 17:4). O texto bíblico não chama Golias de gigante,
porém sua altura era de 2,90 metros. Mesmo Saul sendo o homem mais alto
de Israel, Golias, o gadita, o superava em altura. Golias era a mais recente
inovação militar inimiga, um gladiador campeão de proporções gigantesca,
uma montanha humana que ficava muito acima da cabeça de qualquer
guerreiro israelita.
Sua armadura (1Samuel 17:5,6). Golias estava coberto da cabeça aos pés.
Usava capacete, couraça e caneleiras de bronze. Sua indumentária de
proteção pesava cerca de cem quilos. A descrição da armadura de Golias
parte progressivamente da cabeça para os pés; de cima para baixo. Tratava-se
de uma armadura intimidadora.
Suas armas (1Samuel 17:6b,7). Golias usava um dardo de bronze, lança e
espada (17:51). Além disso, ia adiante dele um escudeiro. Golias era mais
que um espetáculo assustador; era também um especialista em combate
corpo a corpo, pois era um guerreiro (17:4).
Seu desafio (1Samuel 17:8,9,16). Golias desafiou o exército de Israel,
propondo um duelo em vez de uma batalha. Queria um homem para lutar
com ele. Caso o duelista o vencesse, os filisteus serviriam a Israel. Do
contrário, Israel serviria aos filisteus. Golias está tão seguro de sua vitória
que promete entregar seus compatriotas à escravidão. Esse desafio foi feito
durante quarenta dias, duas vezes por dia.
Sua afronta (1Samuel 17:10,11). Golias não apenas desafiou os soldados
de Israel, mas também afrontou as tropas de Israel ao convocar um homem
para lutar contra ele. Saul era o homem mais alto de Israel e, embora tivesse
sido escolhido para liderar Israel nas guerras, ele se acovardou assim como
todos os seus soldados. Todo o Israel espantou-se com as afrontas de Golias
e temeu muito.
Um guerreiro valente
Depois de apresentar a família de Davi (17:12-14), o narrador oferece dez
lições dignas de destaque a respeito das atitudes desse jovem promissor.
Vejamos:
1. Não olhe para suas limitações, veja as oportunidades (1Samuel 17:12-16).
Jessé, o belemita, já estava velho, e Davi, sendo o caçula de oito irmãos, não
tinha sequer vinte anos, a idade adequada para ser um soldado. Seus três
irmãos mais velhos estavam no campo de batalha, lutando pela nação, mas
ele foi subestimado, pois era considerado jovem demais para esse tipo de
confronto. Cabia-lhe apenas ser o músico particular do rei nos seus acessos
de loucura e voltar a Belém para apascentar um punhado de ovelhas no
deserto.
Davi, porém, não ficou frustrado nem complexado por causa de suas
limitações. Na verdade, ele era o único homem em toda a nação com
coragem para enfrentar Golias. À semelhança de Davi, não fique
lamentando as dificuldades da vida. Tenha a visão do farol alto e olhe as
oportunidades que Deus coloca diante de você hoje. Deus havia conduzido
Davi até o acampamento de guerra para essa ocasião, e o rapaz estava pronto
a aceitar o desafio.
2. Não despreze as pequenas tarefas, elas abrem portas para grandes
oportunidades (1Samuel 17:17-23). Davi é um homem humilde e um filho
obediente. Seu pai o convoca para levar trigo tostado e pães para seus irmãos
e queijos ao comandante da milícia. O propósito de Jessé não é apenas
enviar provisão para os filhos e o comandante,mas, sobretudo, saber notícias
do andamento da guerra. Mesmo depois de ter sido ungido rei de Israel por
Samuel e de frequentar o palácio real, Davi não se sentiu diminuído ao
realizar esse trabalho doméstico e humilde. No dia seguinte, deixando as
ovelhas sob o cuidado de um guarda, partiu de madrugada para o vale de Elá
com a provisão. Davi chega ao destino no exato momento em que as tropas
de Israel saíam para formar-se em ordem de batalha. Deixando o que
trouxera com o guarda da bagagem, correu à batalha; ao se aproximar,
perguntou a seus irmãos se estavam bem. Enquanto Davi falava com eles,
Golias, o duelista, pelo quadragésimo dia e pela octogésima vez afrontou as
tropas de Israel.
3. Não escute a voz dos pessimistas, eles apostam na derrota (1Samuel 17:24-
27). Davi ouviu as afrontas e testemunhou como todos os israelitas, com as
pernas bambas de medo, fugiram de diante do gigante (1Samuel 17:24),
argumentando: “Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu para afrontar a
Israel” (1Samuel 17:25). Diante do espanto de Davi com a pusilanimidade
dos soldados de Israel, ouviu ainda que o rei Saul estava oferecendo robusta
recompensa para quem o vencesse: 1) grandes riquezas; 2) membresia na
família real, com oferta de casamento com a filha do rei; 3) isenção vitalícia
de impostos. A promessa de liberdade e a mão da filha de Saul em
casamento não foram suficientes para animar alguém a confrontar o
guerreiro filisteu. Davi, porém, demonstra interesse na proposta do rei e
declara: “Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos
do Deus vivo?” (1Samuel 17:26). Porque Davi humildemente sujeitou-se a
seu velho pai, cumprindo um papel tão secundário, Deus deu-lhe a
oportunidade de vencer o gigante e tornar-se um herói nacional.
A voz do povo, no entanto, estava repleta de pessimismo e fracasso. Todos
apostavam na derrota de Davi. Ainda hoje as pessoas comentam a crise. Elas
só olham para a altura dos gigantes, mas é no tempo de crise que os
verdadeiros heróis são revelados. É do ventre da crise que nascem os
vencedores. Não escute a voz dos pessimistas. Não dê atenção aos medrosos.
Como Davi, você também pode derrubar os seus gigantes. Isaque cavou
poços no deserto. Semeou em tempo de fome e colheu cem por um.
Franklin Delano Roosevelt queria ser presidente dos Estados Unidos da
América. Ele nasceu em 30 de janeiro 1882 em Nova York. Estudou na
Universidade de Harvard e Columbia. Exerceu a advocacia por um tempo,
mas deixou-a para se dedicar à política. Aos trinta e nove anos foi vítima de
poliomielite, tornando-se paralítico da cintura para baixo. Apesar disso, ele
não desistiu de enfrentar seus gigantes. A multidão dizia que ele jamais
poderia ser presidente dos Estados Unidos da América numa cadeira de
rodas. Mesmo assim Roosevelt foi o único homem eleito e reeleito quatro
vezes consecutivamente presidente dos EUA.
4. Não perca tempo com os críticos, eles querem tirar o seu foco (1Samuel
17:28-30). Davi teve de lidar com a crítica de Eliabe, seu irmão mais velho,
com a desconfiança de Saul e com a afronta de Golias, mas nunca perdeu o
foco. As críticas costumam doer, mas doem ainda mais:
1. Quando vêm daqueles que deveriam estar do nosso lado, mas estão
contra nós. Eliabe era o irmão mais velho de Davi, sangue do seu
sangue. Quanto mais íntima é a relação, mais dolorosa é a crítica.
2. Quando vêm daqueles que nos conhecem a muito tempo e são
testemunhas de nossa integridade. Se Eliabe era o primogênito de oito
irmãos e Davi era o caçula, Eliabe conhecia o caráter provado de Davi,
mas, em que pese as virtudes de Davi, ele o critica.
3. Quando são contínuas. Eliabe era um crítico contumaz. Davi lhe
pergunta: “Que fiz eu agora? Fiz somente uma pergunta” (1Samuel
17:29).
4. Quando vêm envelopadas em destempero emocional, ardendo em ira.
Eliabe ficou irado com Davi quando este se dispôs a enfrentar Golias.
5. Quando elas tentam desvendar até nossas motivações. Eliabe acusou
Davi de estar ali com presunção, como um bisbilhoteiro, apenas para
ver a peleja. A verdade dos fatos é que Davi era humilde, pois poderia
ter recusado o pedido do pai em virtude da nova posição que ocupa
depois de ser ungido por Samuel.
6. Quando elas tentam nos humilhar em público. Eliabe tenta
desmoralizar seu irmão caçula diante dos soldados de Israel,
perguntando: “[...] e a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no
deserto?” (1Samuel 17:28).
Não deixe as críticas colocarem medo em seu coração. Fuja dos críticos;
enfrente e vença os gigantes. Como Davi triunfou sobre as críticas de
Eliabe? Desviando-se dele (17:30)! Não perca tempo com os críticos.
Concentre-se naquilo que Deus lhe chamou para fazer.
5. Apresente-se para os grandes desafios do presente com base nas vitórias e
experiências do passado (1Samuel 17:31-37). A postura varonil de Davi, não
aceitando as afrontas de Golias, é contrastada com a covardia de Saul e do
exército israelita. Matthew Henry enfatiza: “Um pequeno pastor que chegou
de manhã diretamente do cuidado com as ovelhas tem mais coragem que
todos os homens poderosos de Israel”.1
As notícias animadoras acerca da coragem e disposição de Davi para
duelar com Golias logo chegaram aos ouvidos do rei Saul, que prontamente
mandou chamá-lo. O jovem Davi apresentou-se ao rei, dizendo-lhe: “Não
desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá e pelejará
contra o filisteu” (1Samuel 17:32). Saul ao ouvir a bravura do jovem
belemita, deu logo o diagnóstico: “Contra o filisteu não poderás ir para
pelejar” (1Samuel 17:33a) e justificou: “[...] pois tu és ainda moço, e ele,
guerreiro desde a sua mocidade” (1Samuel 17:33b). Saul, como Golias,
confiava na aparência e na força do braço da carne. Davi, porém, respondeu
a Saul, informando-o de suas experiências no labor pastoril. Para livrar suas
ovelhas, já havia lutado vitoriosamente com um urso e com um leão e
matado a ambos. Deus pode usar as nossas experiências passadas para nos
preparar para as missões futuras. Davi então arremata: “[...] este incircunciso
filisteu será como um deles, porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo”
(1Samuel 17:36). O filisteu selou seu próprio destino ao desafiar os exércitos
do Deus vivo.
As vitórias do passado deram a Davi a convicção de que Deus daria êxito
também no presente. É claro que essas não são bravatas de um fanfarrão,
mas o testemunho de um homem de fé. Assim, Davi garantiu ao rei: “[...] o
Senhor me livrará das mãos deste filisteu” (1Samuel 17:38). Antônio Neves
de Mesquita foi feliz ao afirmar: “Com Deus se pode tudo e contra Deus
nada se pode”.2 Dale Ralph Davis comenta: “Olhar para trás com fé nos
capacita a seguir adiante em fé. O que o Senhor fez no deserto de Judá, Ele
fará no vale de Elá”.3 Saul, com base no testemunho de Davi, deu permissão
a ele para enfrentar o duelista e rogou sobre ele a bênção de Deus: “[...] o
Senhor seja contigo” (1Samuel 17:38b).
6. Não tente imitar os outros, use as armas que Deus lhe deu (1Samuel 17:38-
40). Antes de enviar Davi para duelar com Golias, Saul vestiu-o com sua
armadura, pôs sobre a cabeça dele um capacete de bronze e o vestiu com
uma couraça. Davi cingiu a espada sobre a armadura, mas não conseguiu
andar com toda aquela parafernália. Saul era o homem mais alto de Israel e
certamente sua armadura não poderia cair bem em Davi. Davi disse: “Não
posso andar com isto” e “Davi tirou aquilo de sobre si” (1Samuel 17:38,39,
grifo nosso). Não podemos enfrentar gigantes com armas alheias.
O que o texto ensina é que não adianta usar armadura de rei sem ser rei.
Usar armadura alheia não é equipar-se para a batalha. Aquela indumentária
de guerra era um estorvo para Davi. Então o jovem belemita se desfez de
tudo aquilo para lutar com suas próprias armas. Davi tomou o cajado na
mão, pegou cinco pedras lisas do ribeiro e as pôs no alforje de pastor; e,
lançando mão de sua funda, foi se chegando ao filisteu.
Uma funda nas mãos de Davi era uma arma poderosa. Nas mãos de um
guerreiro habilidoso, as fundas eram mortalmente precisas ( Juízes20:16).
Ele poderia acertar um fio de cabelo, quanto mais a testa de um gigante.
Davi era um especialista. Não tinha apenas coragem, mas também preparo.
Preparo sem coragem é covardia; coragem sem preparo é loucura. Warren
Wiersbe está correto em dizer que, apesar das críticas e dos conselhos
desanimadores e inapropriados, Davi confiou no Senhor, seu Deus, e o
Senhor recompensou sua fé.4
7. Tenha preparo e coragem, mas saiba que a vitória vem de Deus (1Samuel
17:41-47). Davi estava preparado para enfrentar Golias e tinha coragem
para triunfar sobre o gigante insolente e blasfemador. Mais do que isto, Davi
tinha as motivações certas para entrar nessa guerra, quais sejam o zelo pela
glória de Deus e o amor pelo povo de Deus. De igual modo, revestido com o
poder do Espírito, Davi tinha as armas certas e poderosas em Deus para
destruir fortalezas e anular sofismas (2Coríntios 10:4).
Davi sabia que a vitória vem de Deus e que o mérito da vitória também
pertence a Deus. Golias havia blasfemado contra Deus e afrontado o
exército do Deus vivo e agora ele escarnece e amaldiçoa Davi em nome de
seus deuses. Golias tenta intimidar Davi, dizendo que daria sua carne às aves
do céu e às bestas-feras do campo, Davi responde às afrontas de Golias
dizendo que está indo contra ele em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus
dos exércitos de Israel, a quem o filisteu estava afrontando. Davi declara que
Golias será degolado e seu exército, aniquilado, a fim de que toda a Terra
saiba que há Deus em Israel. E mais, a multidão que já estava em suspense
há quarenta dias saberia que o Senhor salva não com espada nem com lança;
porque do Senhor é a guerra, e os filisteus seriam entregues nas mãos do
exército de Israel.
Não vencemos por causa de nossa sabedoria, força ou estratégias.
Podemos nos sentir como aquele camundongo que estava atravessando uma
ponte nas costas de um elefante. No meio do trajeto sobre o abismo, a frágil
ponte balançou na sua estrutura. Quando eles chegaram do outro lado, o
camundongo olhou para o seu grande companheiro e lhe disse: “Rapaz, nós
chacoalhamos aquela ponte, hein?”. Quando andamos com Deus é assim
que nos sentimos: um camundongo com a força de um elefante; e depois de
atravessarmos as águas turbulentas da vida, vencendo nossos gigantes,
poderemos dizer: “Deus, nós chacoalhamos aquela ponte, hein?”.
Saul e seu exército fugiram porque olharam para o tamanho do gigante.
Davi venceu porque olhou para a grandeza de Deus. Quem olha para os
gigantes se intimida e, como os espias de Israel, passa a sofrer a síndrome de
gafanhoto. No entanto, quando nossos olhos estão postos em Deus,
podemos dizer: “Se o Senhor se agradar de nós, então, nos fará entrar nessa
terra e no-la dará, terra que mana leite e mel” (Números 14:8).
8. Não retarde a luta, tenha pressa para vencer (1Samuel 17:48-51a). Se por
um lado Saul e seus soldados bateram em retirada (1Samuel 17:24), Davi
por outro lado correu em direção ao gigante Golias (1Samuel 17:48). Em
vez de andar para a linha de batalha, Davi correu, pois estava ansioso pela
vitória. Ele era um homem determinado com pressa para vencer.
Warren Wiersbe escreve: “Há os que fazem as coisas acontecerem, há os
que assistem enquanto as coisas acontecem e há quem nem sequer sabe que
algo está acontecendo”.5 Davi era do tipo que faz as coisas acontecerem. Ele
não precisou usar todo o seu arsenal de guerra. A primeira pedra que atirou
cravou na testa de Golias, que caiu desamparado com o rosto em terra, como
um fardo atirado ao chão. Apenas com uma pedra e sua funda, Davi
prevaleceu sobre o gigante. Davi tomou-lhe a espada e o matou, cortando a
cabeça dele.
Não desista de lutar e vencer. O maior presidente americano de todos os
tempos foi Abraham Lincoln. Ele nasceu numa região rural e trabalhou na
lavoura para pagar seus livros. Estudava à noite, até às primeiras horas da
madrugada. Hoje em dia, seu nome é famoso no mundo inteiro, sendo usado
para nomear ruas, avenidas, bancos, universidades e até carros. Lincoln era
um homem determinado a vencer apesar das sucessivas derrotas. Aos 22
anos, fracassou em seus negócios. Aos 23 anos, foi derrotado em sua
tentativa de tornar-se um legislador. Aos 24 anos, novamente fracassou em
seus negócios. Aos 25 anos, foi eleito para a legislatura. Aos 27 anos, foi
vítima de um colapso nervoso. Aos 29 anos, foi derrotado em sua
candidatura à presidência da câmara. Aos 31 anos, foi derrotado no Colégio
Eleitoral. Aos 39 anos, foi derrotado em sua candidatura ao Congresso. Aos
46 anos, foi derrotado para o Senado. Aos 47 anos, foi derrotado em sua
candidatura à vice-presidência. Aos 49 anos, foi derrotado em sua
candidatura ao Senado. Aos 51 anos, foi eleito presidente dos Estados
Unidos. Não se contente com nada menos do que a vitória. Tenha pressa
para vencer.
9. Não faça carreira solo, ajude outros a vencerem (1Samuel 17:51b-54). Davi
mostrou ser um grande líder ao assumir riscos e abrir caminho para que
outros pudessem participar da vitória.6 Quando os filisteus viram que seu
herói estava morto, fugiram. Os homens de Israel e Judá, até então acuados
de medo, levantaram-se, jubilaram e perseguiram os filisteus até Gate e
Ecrom, impondo-lhes grande derrota. Depois de ferirem os filisteus, os
soldados de Israel voltaram despojando os acampamentos deles. Davi, por
sua vez, tomou a cabeça de Golias e a trouxe para Jerusalém, deixando as
armas em sua tenda. Nas palavras de Purkiser, vimos aqui, “a supremacia do
exército do Senhor sobre os poderes do mal”.7
Davi enfrentou a luta sozinho, mas celebrou com os soldados de Israel.
Não basta vencer, é preciso encorajar outros a vencerem. Precisamos motivar
e inspirar aqueles que estão abatidos a entrar na peleja e vencerem.
10. Mantenha seu coração humilde, pois no tempo certo Deus o exaltará
(1Samuel 17:55-58). Diante da façanha de Davi e da vantajosa promessa de
Saul ao herói de guerra (riqueza, casamento e isenção de impostos para a
família), Saul tem um interesse pessoal em conhecer a família do provável
genro. Nem Saul, nem seu comandante Abner sabem (de forma exaustiva)
quem é o pai de Davi. Quando Davi chegou da batalha com a cabeça de
Golias na mão, Abner o levou à presença de Saul. Este lhe perguntou de
quem era filho. Davi respondeu: “Filho de teu servo Jessé, belemita”
(1Samuel 17:58). Davi não estadeou diante do rei sua coragem nem mesmo
fez qualquer exigência quanto ao cumprimento das promessas que recebera.
Postou-se com humildade, aguardando o tempo certo e oportuno de Deus
para seu reconhecimento. Temos de concordar com John Delancey quando
ele afirma: “Saul e Abner não sabiam quem era Davi, mas Deus sabia”.8
Concluo com as palavras de Bill Arnold, quando diz que a história de
Davi e Golias ilustra três princípios espirituais importantes:
1. Devemos nos preocupar mais com a glória de Deus do que com nossa
própria honra.
2. A fidelidade de Deus em nossa vida no passado deve nos encorajar a
tomar mais passos de fé.
3. Quando estamos diante de batalhas que parecem impossíveis,
precisamos nos lembrar de que a batalha é do Senhor.9
1. HENRY, Matthew. Commentary on the whole Bible. Vol. 6. 1992, p. 293. ↵
2. MESQUITA, Antônio Neves. Estudo nos livros de 1 e 2Samuel. 1979, p. 77. ↵
3. DAVIS, Dale Ralph. 1Samuel: Looking on the Heart. 2000, p. 150,151. ↵
4. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 247. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 249. ↵
6. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 248. ↵
7. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 211. ↵
8. DELANCEY, John. Connecting the Dots. 2021, p. 121. ↵
9. ARNOLD, Bill T; BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. 2001, p. 202,
203. ↵
A
Capítulo 3
Davi, o cortesão do palácio
fama de Davi o precedeu no palácio. Na mesma medida que o Espírito
de Deus se apossou dele desde o dia em que Samuel o ungiu, um
espírito maligno atormentava Saul. O rei ficou louco. Seus auxiliares,fazendo um diagnóstico correto, recomendaram-lhe, entretanto, medidas
paliativas. O tormento de Saul deveria ser enfrentado com arrependimento
e não com musicoterapia. O tratamento eficaz seria uma volta para Deus, e
não uma calma temporária produzida pelos sons da harpa.
Destacaremos, aqui, alguns aspectos da vida de Davi como cortesão do
palácio.
Davi, o músico palaciano
Davi tinha muitos dotes musicais. Na verdade, era um músico completo.
Compositor e instrumentista de qualidades excelentes, suas canções são
salmos inspirados. Ele transformou suas experiências em teologia cantada,
sendo considerado o mavioso salmista de Israel (2Samuel 23:1). Foi o maior
compositor de Salmos. No saltério, são registrados mais de setenta Salmos
de Davi. Suas alegrias tornaram-se salmos de louvor, suas quedas, salmos de
penitência, e suas dores, salmos de lamento. As injustiças que sofreu
tornaram-se salmos imprecatórios e suas expectativas tornaram-se Salmos
messiânicos.
Davi foi, outrossim, um harpista extraordinário. Foi na solidão dos
planaltos de Belém que desenvolveu essa arte sublime. Os sons agradáveis de
sua harpa ecoavam pelos montes de Belém, e sua música enchia os campos
marchetados de ovelhas. O músico solitário, que cantava e tocava para
agradar aos ouvidos de Deus, agora é reconhecido no palácio do rei. Os
servos de Saul já tinham ouvido falar de sua fama. O sucesso da solidão
agora se torna público. A música abriu as portas do palácio para Davi,
pavimentando o caminho que o conduzia ao convívio palaciano. Davi
tornou-se o músico particular do rei.
A música entoada por ele era um lenitivo para o rei atormentado. Quando
o espírito maligno afligia Saul, Davi dedilhava sua harpa, e o rei se acalmava.
Sua música não trazia angústia; ao contrário, trazia alívio. Ela não
alimentava a ação dos demônios, mas, sim, era uma arma poderosa contra
eles. A música de Davi agradava os ouvidos de Deus e serenava o coração
perturbado do rei.
Davi, o escudeiro do rei
Davi não era apenas um músico de qualidades notáveis. Era também um
valente destemido, um soldado de honra, o escudeiro do rei. Saul viu em
Davi um homem digno de confiança e constituiu-o seu escudeiro pessoal.
Assim, Davi não apenas acalmava o rei como também o protegia. Como
escudeiro do rei, Davi foi leal a Saul, protegendo-o dos aleivosos ataques dos
inimigos. Davi oferecia seu peito varonil para proteger o rei de qualquer
ataque do inimigo.
O escudeiro do rei ocupava um posto de alta responsabilidade e de total
confiança. Cabia a ele o dever de ser o guardião do monarca. A vida do rei
estava em suas mãos. Antes de alguém chegar ao rei, era necessário passar
por ele. Antes de alguém atentar contra o rei, precisava enfrentar as armas
de seu escudeiro.
Davi, o guerreiro vitorioso
Além de músico do palácio e escudeiro do rei, Davi foi também um
guerreiro no campo aberto das mais renhidas batalhas de Israel. Tornou-se
um guerreiro afamado e vitorioso em todas as pelejas que travou. Seu vigor
espiritual era a fonte de sua coragem. Suas guerras foram travadas em nome
de Deus e sob a orientação dele. Diante de sua bravura, os inimigos
tombavam. Diante de suas armas afiadas, os inimigos batiam em retirada.
Davi foi forjado nos desertos de Belém, onde aprendeu a defender os
rebanhos de seu pai das bestas-feras do campo. Ao terçar sua adaga, fazia-o
em nome do Senhor. Não confiava em sua própria destreza nem no poder de
suas armas. Muito embora fosse um homem preparado para a batalha, sua
confiança estava no Senhor. Sua força não vinha dele mesmo, mas de Deus.
Por isso, lutou as guerras do Senhor, derrotou os inimigos do Senhor e
conquistou as vitórias do Senhor. Sua biografia está carimbada como sendo
a de um homem de guerra. Diante dele os inimigos foram desbaratados. As
nações inimigas foram por ele subjugadas. Davi foi, de fato, um guerreiro
vitorioso.
Davi, o candidato a genro do rei
O rei Saul havia prometido que o soldado que vencesse o duelista Golias, o
gadita, receberia a mão de sua filha em casamento. Saul tinha duas filhas,
Merabe e Mical. Em virtude da fama de Davi agigantar-se em Israel,
transcendendo à própria fama do rei, Saul passou a odiar Davi e a persegui-
lo sem trégua, tentando matá-lo Davi, usando suas filhas. Saul tentou fazer
de Davi um genro morto, dessa forma, em vez de um casamento, Saul
planejou um funeral para Davi. Sua proposta ao oferecer Merabe a Davi não
passava de uma armadilha e Davi evadiu-se dessa cilada. Mical amava Davi
e Saul viu nisso a possibilidade de matá-lo, requerendo dele cem prepúcios
de filisteus como dote. Essa seria uma missão impossível. Mesmo sendo os
filisteus a maior ameaça a Israel, Saul estava mais interessado em matar Davi
do que em ver os filisteus derrotados. Deus livrou Davi de todas essas
armadilhas. Davi trouxe não apenas cem, mas duzentos prepúcios a Saul.
Então, Davi casou-se com Mical, mas não desfrutou do casamento. Mesmo
sendo oficialmente genro do rei, nunca conseguiu conviver com o rei.
A
Capítulo 4
Davi, o afamado guerreiro
música tem o poder de despertar os mais nobres sentimentos e
também os piores presságios. A música abriu o palácio para Davi, mas
também lhe fechou as portas. Uma música explodiu como sucesso em toda a
nação, e essa música exaltava as vitórias de Davi dez vezes mais do que as
vitórias de Saul. As mulheres cantaram a música e adoeceram o rei. A
música levou as mulheres às ruas e o rei Saul ao calabouço emocional. Davi
não deixou seu ego inflar com a música, mas Saul deixou seu espírito se
abater com a canção, pois era orgulhoso demais para ouvir que alguém
estava sendo mais honrado do que ele. Ele não suportava a ideia de dividir
sua glória com outra pessoa. A partir desse dia, o rei passou a ver Davi com
maus olhos. Todo amor se converteu em ódio. Toda a admiração foi
transformada em perseguição. Quanto mais Davi era admirado, tanto mais
Saul o odiava.
Saul não só rejeitou Davi em seu coração, mas também, passou a temê-lo.
Davi tornou-se uma ameaça para ele. Doravante, o principal projeto de
poder de Saul foi eliminar Davi e afastá-lo de seu caminho. O amor de todo
o Israel e Judá a Davi, em virtude de suas vitórias retumbantes no campo de
batalha, aumentavam ainda mais a insegurança de Saul.
A música das mulheres provocou três reações desastrosas em Saul:
Uma inveja indignada
Destacamos dois fatos aqui:
1. Uma música inconsequente (1Samuel 18:6,7). O sossego de Davi acabou,
e a alma de Saul se definhou em ciúmes por causa de uma música,
acompanhada de danças e instrumentos musicais, entoada pelas mulheres de
todas as cidades de Israel. O refrão da música dizia: “Saul feriu os seus
milhares, porém Davi, os seus dez milhares” (1Samuel 18:7). Essa música foi
inconsequente, pois cavou abismos nos relacionamentos em vez de construir
pontes. Além disso, ela atribuía a vitória aos heróis de guerra e não ao
Senhor da guerra, como deveria ser (Êxodo 15:21). A música das mulheres
não afetou Davi, mas enfureceu Saul, causando dor em vez de trazer
refrigério. O rei, que já estava descompensado, ficou completamente
perturbado. Richard Phillips nessa mesma linha de pensamento escreve: “A
canção das mulheres revela mais do que incompetência política. Expõe de
igual modo o baixo estado espiritual de Israel, no fato de que nenhum
louvor foi dado a Deus, apenas a homens”.1
2. Um ciúme doentio (1Samuel 18:8,9). Doravante, Saul não via mais Davi
com bons olhos e, por ciúme e inveja, lutou até o final de sua vida para
afastar Davi do trono e matá-lo. O ciúme é uma doença com três sintomas:
vê o que não existe, aumenta o que existe e procura o que não quer achar.
Antônio Neves de Mesquita diz, corretamente, que a inveja é a ferrugem da
alma, e, quando ela se apodera de uma pessoa, esta fica cega e incapaz de
avaliar a medida das coisas e dos fatos.2
Uma ação maligna perigosa
A música das mulheres provoca em Saul duas atitudes:
1. Uma crise de raiva (1Samuel 18:10). Guardar rancor no coraçãoé abrir
uma fresta para o diabo entrar (Efésios 4:26,27). No dia seguinte, um
espírito maligno se apossou de Saul, que teve um acesso de raiva em casa.
Davi, então, começou a dedilhar a harpa; Saul, porém, arrojou sua lança em
Davi para encravá-lo na parede. Saul não está apenas mal-humorado pela
ação do espírito maligno. Agora, o espírito maligno quer levar Saul à ação,
pelo que o inspirou a assassinar Davi. Gene Edwards diz que Saul fez o que
todos os reis loucos fazem. Atirou lanças contra Davi. Podia fazê-lo. Ele era
o rei. Os reis podem fazer coisas assim. Quase sempre as fazem. Os reis
arrogam a si o direito de atirar lanças. Mas ainda que um rei seja um ungido
do Senhor e que se sinta no direito de arremessar lanças contra alguém,
então há algumas coisas que você pode saber, e saber com segurança: esse rei
está completamente louco. É um rei segundo a ordem do rei Saul.3
2. Uma tentativa de assassinato (1Samuel 18:11). Essa é a primeira de
muitas tentativas de assassinato do rei louco. Saul já tinha perdido a
comunhão com Deus, a dinastia, a coroa, a assistência espiritual de Samuel, a
credibilidade com o filho, o respeito do povo e, agora, a confiança de Davi.
Um temor infundado
O narrador bíblico destaca três fatos no texto em apreço:
1. A causa do temor de Saul (1Samuel 18:12). O temor de Saul em relação a
Davi tinha uma causa dupla. Primeiro, o Senhor era com Davi (1Samuel
18:12,14,28); segundo, o Senhor havia se retirado dele. Saul estava em
conflito, ele não aceitou a vontade de Deus nem se quebrantou. Queria lutar
contra Deus e contra o ungido dele.
2. Uma estratégia malograda (1Samuel 18:13). Saul, com sua mente
perturbada e sob o ataque de espíritos malignos não apenas tenta matar
Davi com suas próprias mãos, mas traiçoeiramente, o afasta de si e o
constitui chefe de mil soldados. A intenção de Saul não era ver o exército de
Israel vitorioso, mas ver Davi sendo alvejado pelos inimigos na linha de
frente da batalha. As ciladas de Saul foram desarmadas pela destreza de
Davi e pela providência divina.
3. Uma frustração crescente (1Samuel 18:14-16). Ao perceber que Davi se
fortalecia ainda mais, tanto no campo de luta como na estima entre o povo,
Saul sentiu um medo ainda maior de Davi. Cada centímetro de Saul, o
homem mais alto de Israel, estava tomado de medo. Ele era a maquete do
assombro, o painel do temor, o retrato do fracasso. Concordo com Gene
quando ele questiona por que são poucos os alunos na santa e divina escola
de submissão e quebrantamento? É porque todos os que se encontram nessa
escola têm de sofrer muita dor. Davi foi aluno nessa escola, e Saul foi o
instrumento escolhido por Deus para esmigalhar Davi.4
1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 313,314. ↵
2. MESQUITA, Antônio Neves. Estudo nos livros de Samuel. 1979, p. 79. ↵
3. EDWARDS, Gene. Perfil de três reis, p. 23. ↵
4. EDWARDS, Gene. Perfil de três reis. 1991, p. 25,26. ↵
A
Capítulo 5
Davi, o amigo sincero
família de Saul era um canteiro onde florescia amor e ódio, amizade e
traição, cuidado e perseguição. Na mesma medida que Saul odiava
Davi, Jônatas, seu filho, amava Davi. A amizade de Jônatas e Davi é
proverbial. O primogênito de Saul, mesmo sendo testemunha das inúmeras
vezes que seu pai atentou contra a vida de Davi para matá-lo, não poupou
esforços para proteger, orientar e augurar o sucesso do amigo.
1Samuel 18:1-5 apresenta a sanha de amor e ódio em uma mesma
família. Houve um tempo em que Saul “amou muito” Davi (1Samuel 16:21),
mas a atitude do rei transformou-se em inveja doentia e, depois, em ódio
consumado. Ao mesmo tempo é odiado por Saul, Davi é amado por Jônatas
e Mical, filhos de Saul. Enquanto o reino de Saul está ruindo, Davi está se
fortalecendo. Enquanto um espírito maligno atormenta Saul, o Senhor era
com Davi. Kevin Mellish coloca essa triste realidade assim: “Enquanto Davi
desfrutava de sucesso entre o povo e no campo de batalha, a vida pessoal de
Saul continuava a se desfiar. A vida de Davi seguiu uma trajetória para cima,
enquanto a vida de Saul se desmoronava. Saul estava paranoico com Davi, e
a obsessão de Saul em matar Davi foi um dos fatores que levaram à sua
queda”.1
O conflito que vem à tona no capítulo 18 de 1Samuel tomará conta da
narrativa até a morte de Saul e, mesmo depois disso, não será
completamente resolvido.
Uma aliança de amor
Depois da retumbante vitória de Davi em Elá, o jovem belemita torna-se
residente permanente no palácio de Saul. Davi já era o músico da corte,
agora é também o escudeiro do rei prestes a se tornar genro do rei. Assim, o
jovem pastor passa a fazer parte definitivamente da família real. Destacamos
aqui três pontos importantes:
1. Uma aliança de amor (1Samuel 18:1-3). Jônatas, o primogênito de Saul,
embora bem mais velho do que Davi, ama-o como a sua própria alma e faz
aliança com ele. O verbo “amar” nesse contexto tem a conotação de “ser leal
a” (1Samuel 20:16,17; 2Samuel 1:26).2 Russel Norman Champlin diz que a
alma dos dois guerreiros foi costurada uma à outra, como exemplo de uma
amizade clássica.3
Tim Chester esclarece esse ponto da seguinte forma:
É fácil imaginar que Davi e Jônatas tinham a mesma idade — mas não
tinham. Davi tinha trinta anos quando se tornou rei (2Samuel 5:4). Saul
reinou durante quarenta anos (Atos 13:21). Portanto, Davi deve ter
nascido no décimo ano do reinado de Saul. Jônatas já estava lutando com
Saul durante o terceiro ano do reinado de seu pai (13:1), e um soldado
israelita precisava ter pelo menos vinte anos (Números 1:3). Assim, no
décimo ano do reinado de Saul, quando Davi nasceu, Jônatas deveria ter
no mínimo vinte e sete anos. Isso significa que Jônatas é velho o suficiente
para ser o pai de Davi.4
A aliança de amor entre Jônatas e Davi perdura até o fim, apesar das
turbulências que surgirão no caminho em virtude do ciúme doentio de Saul,
pai de Jônatas. A mesma expressão é usada para descrever o relacionamento
de Jacó e seu filho caçula, Benjamim. A alma de Jacó estava ligada à alma de
Benjamim (Gênesis 44:30).
A insinuação de alguns de que havia um relacionamento homoafetivo
entre Jônatas e Davi não tem qualquer credibilidade. A lei de Deus
claramente proibia a prática homossexual (Levítico 18:22; 20:13). Essa
perspectiva, como diz Tim Chester, revela mais sobre a sexualização de
nossa cultura do que sobre o relacionamento deles. A realidade é que
homens podem ter um relacionamento íntimo e afetuoso sem que ele se
torne sexual, especialmente quando os envolvidos são companheiros de
armas.5
Richard Phillips, nessa mesma toada, escreve:
O amor entre esses homens era de companheirismo e fraternidade:
tentativas recentes feitas por estudiosos liberais de dar tons sexuais a essa
passagem são perversas e absurdas. Há diferentes tipos de amor, com
diferentes níveis de intensidade e diferentes tipos de expressão: o amor de
um homem e uma mulher no casamento, o amor cristão entre os irmãos e
o amor de fortes amizades.6
2. Reconhecimento oficial (1Samuel 18:4). O amor de Jônatas por Davi não
era apenas um sentimento, mas sobretudo um reconhecimento de que o
filho de Jessé seria o novo rei. Jônatas despoja-se de sua indumentária de
guerra e as entrega a Davi em uma clara transferência de poder, uma vez
que, legalmente, ele seria o sucessor de seu pai. Era uma demonstração da
lealdade política de Jônatas a Davi. Nas palavras de Kevin Mellish, “os itens
que Jônatas legou a Davi simbolizavam os atavios do poder real. Em
essência, Jônatas simbolicamente renunciou sua posição como legítimo
herdeiro do reino de Saul em favor de Davi”.7 O ato de Jônatas foi um ato
de fé, pois só a fé nos impulsiona a ser humildes para honrar a quem
amamos. Onde o pecado teria feito inimigos, a fé fez amigos mais chegados
que irmãos.
3. Uma liderança notória (1Samuel 18:5). Davi estava sob a autoridade de
Saul, mas agia com prudência, pois tinha consciência da instabilidade
emocional do rei. Davi, sendo colocado pelo rei sobre tropas de seu exército,
ganhava a olhos vistos a simpatia do povo e dos servosde Saul por causa de
sua destacada liderança. Nas palavras de R. N. Champlin, “a estrela de Davi
subia, enquanto a de Saul se punha”.8
Deus livra Davi por intermédio de
Jônatas
Quanto ao livramento alcançado por Davi por intermédio de Jônatas, alguns
pontos merecem destaque:
1. Uma intenção declarada (1Samuel 19:1). Em um comunicado oficial,
Saul torna público para seu filho Jônatas e para todos os seus servos o plano
de matar Davi. Mesmo sabendo que Jônatas amava a Davi, Saul esperava
contar com a participação dele para eliminar seu desafeto. Warren Wiersbe
corrobora com essa perspectiva, dizendo: “Saul havia passado do estágio de
conspirar nos bastidores e estava determinado a destruir Davi de maneira
mais rápida possível, ordenando que Jônatas e os cortesãos se juntassem a ele
nessa campanha”.9
2. Um alerta feito (1Samuel 19:2,3). Jônatas, de forma prudente, silencia-
se diante do pai e alerta Davi acerca das intenções assassinas que vêm do
palácio. Recomenda-o a ter cautela e se esconder, enquanto tentaria
defender a causa de Davi diante do rei. Davi não podia mais dormir no
próprio leito conjugal, mas devia permanecer no campo ou mesmo nas
cavernas.
3. Uma defesa honesta (1Samuel 19:4,5). Jônatas assume o papel de
advogado de Davi diante de seu pai, deixando claro que Davi é inocente e,
ainda, tem trabalhado com afinco para defender Israel dos filisteus.
Portanto, matá-lo é pecar contra sangue inocente. A comovente eloquência
de Jônatas moveu temporariamente o coração de Saul.
4. Uma promessa firmada (1Samuel 19:6). Em um momento de equilíbrio
mental e lucidez, Saul acatou a defesa de Jônatas em favor de Davi e jurou
em nome do Senhor que Davi não morreria. No entanto, Saul já havia
quebrado promessas anteriores (1Samuel 14:44) e mais uma vez não
cumpriria sua palavra. Concordo com Warren Wiersbe, quando ele diz que
Satanás é um mentiroso e um homicida ( João 8:44) e, uma vez que Saul
estava sob controle do maligno, quebrou seu juramento e atirou sua lança no
ungido de Deus.10 A decadência de Saul chega a tal ponto que o Senhor o
considera seu inimigo (1Samuel 28:16-18). Nas palavras de R. N. Champlin
“Saul já havia degenerado a um ponto sem retorno”.11
5. Uma reconciliação passageira (1Samuel 19:7). Jônatas, contou a Davi a
promessa de seu pai e levou-o de volta a Saul, como músico do palácio. A
reconciliação parecia ter aplacado a tempestade do coração de Saul. Apesar
disso, outra tempestade já se formava no horizonte. O breve período de paz
seria interrompido por um novo acesso de ciúme de Saul.
O encontro dos dois amigos
No capítulo 19 de 1Samuel, Saul está no centro dos acontecimentos; no
capítulo 20, Jônatas é o protagonista da ação. A narrativa bíblica segue a
mesma toada da insana perseguição de Saul a Davi, seu genro. Concordo
com Purkiser quando ele escreve: “O capítulo 20 é uma das mais tocantes
narrativas de amizade e lealdade pessoal de toda a literatura”.12
Davi aproveita o estado de êxtase de Saul, na casa dos profetas, em Ramá,
para escapar das mãos e buscar a ajuda de Jônatas. Destacamos aqui quatro
pontos importantes:
1. O apelo desesperado de Davi (1Samuel 20:1). Não aguentando mais a
hostilidade de Saul, Davi questiona Jônatas, perguntando-lhe: “Que fiz eu?
Qual é a minha culpa? E qual é o meu pecado diante do teu pai, que procura
tirar-me a vida?”. Davi fornece mais uma vez uma prova de sua inocência e
da culpa de Saul. Em um desabafo cheio de dor, Davi busca uma nesga de
esperança, recorrendo a Jônatas.
2. A resposta ingênua de Jônatas (1Samuel 20:2). A resposta de Jônatas
mostra sua ingenuidade e dá a entender que ele não tinha conhecimento de
todas as atrocidades do pai nas diversas tentativas de matar Davi. Nas
palavras de Tim Chester, “Jônatas está cego para a extensão do ódio do
pai”.13 Jônatas promete a Davi que ele não morrerá, uma promessa que não
pode cumprir, e justifica dizendo que seu pai não faria nada contra Davi sem
antes consultá-lo.
3. A explicação convincente de Davi (1Samuel 20:3,4). Davi refuta
enfaticamente as palavras de Jônatas, argumentando que Saul ocultava dele
suas investidas para matá-lo. Saul era conhecedor do amor de Jônatas por
Davi e, por isso, não queria entristecer o filho. O alerta de Davi é
soleníssimo: “Tão certo como vive o Senhor, e tu vives, Jônatas, apenas há
um passo entre mim e a morte”. Jônatas, então, se prontifica a ajudar Davi e
a fazer o que fosse necessário para impedir seu pai de cometer esse crime
horrendo.
4. O plano diagnóstico de Davi (1Samuel 20:5-11). Davi informa a Jônatas
que no dia seguinte acontecerá a Festa da Lua Nova, ocasião em que a
família real fará um banquete sagrado. Desse modo, sua presença como
genro de Saul e músico do palácio será necessariamente requerida. Então, o
plano de Davi é ausentar-se e ao mesmo tempo auscultar o clima no
banquete. Se Saul não der nenhum sinal de aborrecimento com a ausência
de Davi, é porque o ambiente está favorável para uma reconciliação. Porém,
se Saul ficar enraivecido e indignado com sua ausência é porque o ambiente
é hostil e irreconciliável. Jônatas deveria justificar a ausência de Davi,
mentindo para o pai, falando que ele tinha recebido uma convocação da
família para ir a Belém. Davi está pronto para morrer caso seja considerado
culpado. Aliás, pede ao próprio Jônatas para matá-lo em vez de levá-lo a seu
pai. Jônatas reafirma a inocência de Davi e parte para Gibeá para colocar em
prática o plano. Seja qual for a reação de Saul, Davi deve ser informado por
Jônatas.
A aliança entre os dois amigos
Três fatos relevantes são postos em relevo:
1. O compromisso juramentado de Jônatas (1Samuel 20:12,13). Jônatas
assume o compromisso de mandar avisar Davi, caso Saul demonstre uma
atitude favorável a ele. Porém, se Saul demonstrasse qualquer disposição
para fazer mal a Davi, o próprio Jônatas iria comunicá-lo, a fim de que Davi
pudesse fugir e escapar em paz.
2. A aliança mútua de proteção (1Samuel 20:14-17). Jônatas, mesmo sendo
o legítimo herdeiro do trono de seu pai e, nesse sentido, o superior de Davi,
tinha consciência de que Davi era o escolhido de Deus e orou para que o
Senhor abençoasse seu reinado. Outrossim, Jônatas roga a Davi para que ao
ascender ao trono o trate com bondade e não o mate, preservando também a
sua descendência. Nas palavras de Robert Chisholm Jr., “Jônatas pede a
Davi que mostre lealdade pactual (hesed) a ele e a seus descendentes”.14 Na
cultura daquele tempo, quando uma nova dinastia subia ao poder, eliminava
todos os descendentes da dinastia anterior, como Richard Phillips observou,
no mundo antigo, quando havia uma mudança de dinastia, a prática
universal exigia a eliminação total da antiga dinastia. Então, Jônatas
apelou a Davi para poupar sua vida e a dos seus filhos quando Deus
limpasse o caminho para o seu reinado.15
Davi, porém, não era um aspirante a usurpador nem um traidor. Então,
Jônatas fez Davi jurar que cumpriria essa promessa. Assim, o filho de Saul
fez aliança com a casa de Davi. Tim Chester chama a atenção para o fato de
que o capítulo 20 começa com Davi sob a ameaça da casa de Saul. Porém,
em todo o restante do capítulo, Jônatas reconhece que na realidade é a casa
de Saul que está sob a ameaça de Davi. Ele percebe que é da vontade de
Deus que Davi se torne rei e triunfe sobre seus inimigos (1Samuel 20:15). É
por isso que ele faz Davi prometer que poupará os descendentes dele
(1Samuel 20:16,17,23).16 Antônio Neves de Mesquita diz que essa era uma
aliança de vida e morte, feita entre dois homens de valor.17
3. A estratégia testada (1Samuel 20:18-23). A hora de colocar o plano em
ação e ver qual seria a reação de Saul havia chegado. No terceiro dia, Davi
deveria sair do esconderijo e ficar junto à pedra de Ezel. Jônatas atiraria três
flechas para aquele lado e levaria seu moço para apanhar as flechas de volta.
Se Jônatas falasse para o moço “as flechas estão para cá de ti, traze-as”, então
Davi poderia vir, porque teria paz e nenhum motivo para ter medo. Se
Jônatas, porém, dissesse ao moço “Olhaque as flechas estão para lá de ti”,
Davi deveria entender que era hora de ir embora, porque isso era aviso do
próprio Senhor.
Jônatas diz a Davi: “Quanto àquilo de que eu e tu falamos, eis que o
Senhor está entre mim e ti, para sempre” (1Samuel 20:23). Essa é uma
expressão que faz lembrar o juramento entre Labão e Jacó (Gênesis 31:48-
53) e significa que ninguém menos do que o próprio Senhor vingará
qualquer rompimento da aliança da qual o Senhor é testemunha. Mais
tarde, em sua aliança, ambos concordaram que Jônatas governaria
juntamente com Davi, como o segundo no poder (1Samuel 23:16-18). Davi,
porém, nunca teve um corregente, pois Jônatas foi morto em combate antes
de Davi tomar posse (1Samuel 31:1,2). Além disso, Davi rejeitou Mical
como esposa, e ela morreu sem filhos (2Samuel 6:16-23). Qualquer filho, ao
qual Mical tivesse dado à luz teria causado confusão na linhagem real.
A família real à mesa
Depois do acordo firmado entre Jônatas e Davi, na presença de Deus, tendo
Deus como juiz entre eles, Davi esconde-se no campo e Jônatas vai para a
Festa da Lua Nova. Destacamos aqui alguns pontos importantes:
1. A ocasião da cerimônia (1Samuel 20:24). A Festa da Lua Nova era uma
comemoração muito especial, uma festa religiosa mensal descrita em
Números 10:10; 28:11-15. Nela, ofereciam-se sacrifícios em holocausto pelo
pecado. As famílias se reuniam para comer e agradecer a Deus, sendo este
dia considerado um momento oportuno para ofertas de paz ao Senhor
(Números 10:10) e um tempo para buscar a direção especial de Deus,
particularmente por intermédio do profeta (2Reis 4:23).18
2. A composição da mesa (1Samuel 20:25). Saul assentou-se na cadeira real,
junto à parede; Jônatas, seu filho, assentou-se defronte dele; e o comandante
Abner assentou-se ao lado de Saul, porém a cadeira de Davi estava
desocupada. Davi propositadamente se dispensou da festa e escondeu-se por
três dias.
3. A ausência possivelmente justificada (1Samuel 20:26). Saul nada falou
sobre a ausência de Davi, supondo estar ele impuro para participar desse
banquete sagrado. Como era uma festa religiosa, as regras para a limpeza
cerimonial prevaleciam.
4. A ausência injustificada (1Samuel 20:27). Como a cadeira de Davi estava
ainda desocupada no segundo dia da Festa, Saul disse a Jônatas, seu filho:
“Por que não veio a comer o filho de Jessé, nem ontem nem hoje?”. Saul, de
forma pejorativa, refere-se duas vezes a Davi como “o filho de Jessé”
(20:27,30), uma expressão usada para rebaixá-lo. Ele não é capaz de proferir
o nome de Davi e dá a entender, em vez disso, que Davi é filho de um zé-
ninguém (em contraste, talvez, com Jônatas, o filho de um rei).
5. A justificativa de Jônatas (1Samuel 20:28,29). Jônatas faz a defesa de
Davi, dizendo que sua ausência se devia ao fato do pedido encarecido de
Davi a ele para ir a Belém, para um sacrifício da família na cidade. A
expressão traduzida por “peço-te que me deixes partir” (1Samuel 20:29) é
traduzida por “escapar” ou “fugir” em 1Samuel 19:10,12,17,18, e por “salvar
sua vida” em 1Samuel 19:11. A razão verdadeira para a ausência de Davi está
exatamente ali na desculpa de Jônatas.
6. A ira devastadora de Saul (1Samuel 20:30-33). Saul percebeu que
Jônatas estava acobertando Davi e tomou isto como uma deslealdade contra
si. |Então, de forma destemperada, volta-se contra seu filho Jônatas,
proferindo palavras chulas, atingindo tanto sua honra como a honra de sua
mãe. Em sua ira, Saul chama Jônatas de “filho de uma mulher perversa e
rebelde”. A ironia, obviamente, é que Jônatas é na verdade o filho de um
homem perverso e rebelde.
Saul vê em Davi alguém perigoso, que usurpará o trono, trazendo
instabilidade para o reino e para Jônatas, seu legítimo sucessor. A ordem de
Saul é: “[...] manda buscá-lo, agora, porque deve morrer” (1Samuel 20:31).
Jônatas não apenas informou sobre as escusas de Davi, mas também o
defendeu, dizendo ao rei: “Por que ele há de morrer? Que fez ele?” (1Samuel
20:32). Saul, que já havia tentado atingir Davi com sua lança, atira-a, agora,
contra o próprio filho. Na verdade, essa foi a segunda vez que Saul tenta
matar o seu próprio filho. Se antes Saul via Davi como inimigo, agora trata o
próprio filho como um inimigo. Saul considera inimigo quem trata seus
inimigos como amigos. Nas palavras de Robert Chisholm Jr., “daqui em
diante, Saul se mostrará hostil àqueles que apoiam Davi”.19
Richard Phillips diz que a ira de Saul é governada por vergonha, culpa e
cobiça. Assim, Saul descreve uma alma depravada pela sua rebelião contra
Deus: ele vê vergonha numa conduta justa, aplica falsa culpa para motivar
outros a pecar e sua visão é guiada pela cobiça do que ele mesmo ou sua
família pode possuir.20
7. A ira justificável de Jônatas (1Samuel 20:34). Se a ira de Saul era
pecaminosa, a ira de Jônatas era justificável. Ele conclui que seu pai estava
determinado a matar Davi e, muito aborrecido, levantou-se da mesa antes da
refeição, deixando a mesa sem participar do banquete. Ele entendeu que não
havia mais alternativa de pacificação e com isso teria de escolher entre seu
pai e Davi. Jônatas escolheu o lado de Davi. Tim Chester diz que temos
uma escolha a fazer, exatamente como Jônatas tinha. Precisamos escolher
entre, de um lado, paz com Cristo e, de outro, paz com nossa família, paz
com nossos amigos, paz com nossa cultura (Mateus 10:37). Posicionar-se a
favor de Jesus pode significar ir contra nossa própria família. Escolher Jesus
sempre acarretará decisões difíceis.21 Robert Chisholm Jr. tem razão em
dizer que o compromisso com o plano de Deus e com seu servo escolhido
requer abnegação e, por vezes, coloca a pessoa em situação de perigo.22
A despedida dos dois amigos
Destacamos aqui três pontos para nossa reflexão:
1. O alerta de Jônatas (1Samuel 20:35-40). Ao amanhecer, Jônatas saiu ao
campo, conforme havia combinado com Davi, para passar a ele as
informações. Levou o seu rapaz e disse para ele correr para apanhar as
flechas que lançaria. Lançou a primeira além do rapaz e gritou: “Não está a
flecha mais para lá de ti? Apressa-te, não te demores” (1Samuel 20:37,38). O
rapaz, sem entender o que estava acontecendo, trouxe as flechas a Jônatas e
este entregou suas armas a ele e ordenou-o que as levasse à cidade.
2. As lágrimas de despedida (1Samuel 20:41). Davi então saiu de seu
esconderijo, do lado do sul, e prostrou-se com o rosto em terra três vezes e
beijaram-se um ao outro e choraram juntos; porém, Davi chorou muito
mais, sabendo que seus caminhos, provavelmente, não se cruzariam
novamente.
3. A paz ultra circunstancial da aliança de amor (1Samuel 20:42,43). Jônatas
despediu-se de Davi, cumprindo a aliança de mútua proteção que firmaram,
dizendo-lhe: “Vai-te em paz”. Davi se levantou e se foi, já Jônatas voltou
para a cidade de Gibeá. Nas palavras de Robert Chisholm Jr., vemos aqui “a
proteção divina se manifestando por meio de um amigo fiel”.23 Concordo
com Richard Phillips, quando diz que a paz deles estava baseada nas
promessas pactuais de Deus e na fidelidade de Deus em cumprir seu
juramento. É aí que nossa alma também encontra paz. O profeta Isaías falou
daqueles que são como Jônatas: “Tu, Senhor, conservarás em perfeita paz
aquele cujo propósito é firme; porque ele confia em ti” (Isaías 26:3). Jesus
promete ao seu povo da aliança: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não
vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se
atemorize” ( João 14:27).24
Davi é fortalecido por Jônatas
Ao mesmo tempo em que Saul buscava, sem trégua, matar Davi, Jônatas
buscava aproximar-se de Davi. Os dois amigos se encontraram, e a confissão
de Jônatas é a mais nobre e a mais altruísta que se pode encontrar em toda a
literatura humana. Jônatas também declara que Davi será o rei de Israel e
que ele seria o segundo no reino. Ambos reafirmaram a sua velha aliança de
amizade e auxílio perante o Senhor.
Destacamos três verdades nesse ponto:
1. Uma palavra de encorajamento (1Samuel 23:15,16). Jônatas vai a
Horesa, no deserto de Zife, onde Davi estava escondido,em uma
demonstração clássica de amizade para fortalecer sua confiança em Deus.
Jônatas era um encorajador. Ele sabia das muitas investidas de seu pai para
matar Davi e por isso decidiu reanimar o amigo e fortalecer a fé dele.
Jônatas se expôs ao perigo que Davi estava vivenciando. Nas palavras de
Richard Phillips,
Jônatas, do conforto da provisão real, foi para a privação do deserto em
busca do seu amigo. Mas isso é o que amizade exige. Um amigo que não
está disposto, e até mesmo ansioso a sacrificar tempo, trabalho e
privilégios não é digno desse nome.25
Concordo com Joyce Baldwin quando ele diz que não foi apenas o calor
da amizade humana que fortaleceu Davi, porém, muito mais a certeza de
Jônatas quanto ao propósito de Deus para o futuro.26 Nessa mesma direção,
Richard Phillips escreve:
A intervenção de Jônatas foi um ponto de virada para Davi. Jônatas
ajudou seu amigo fortalecendo sua confiança em Deus para que não fosse
tomado pelo medo. Jônatas ajudou Davi a perseverar na fé. Davi precisava
não apenas crer na salvação do Senhor, mas também continuar crendo e
agindo com base nessa fé.27
2. Uma atitude de abnegação (1Samuel 23:17). Jônatas fala para Davi não
ter medo porque a mão de Saul não vai achá-lo. E mais, reafirma que Davi
vai reinar sobre Israel. Confirma, com inabalável confiança, que Davi
reinará, garantindo-lhe sua lealdade. Como herdeiro do trono, Jônatas de
forma abnegada, abre mão da sucessão, contentando-se em ser o segundo no
reino.
3. Uma aliança renovada (1Samuel 23:18). Jônatas e Davi fizeram aliança
perante o Senhor e se despedem para não mais se encontrarem. Essa foi a
terceira vez que eles firmaram uma aliança. Robert Chisholm lança luz sobre
o tema ao escrever:
Essa é a terceira aliança entre Davi e Jônatas. Na primeira ocasião, Jônatas
tomou a iniciativa de fazer o acordo (1Samuel 20:8). Ele jurou ser leal a
Davi e prometeu protegê-lo (1Samuel 18:3; 20:8,9). Na segunda ocasião,
Jônatas reafirmou sua lealdade à “casa” de Davi, e Davi jurou lealdade a
Jônatas e a seus descendentes (1Samuel 20:16,17,42). Os termos dessa
terceira aliança (1Samuel 23:18) não são fornecidos, mas podemos supor
com segurança que ela reafirma os compromissos anteriores. Talvez se
refira à afirmação de Jônatas de que ele será o segundo no reino de Davi
(1Samuel 23:17). Isso implicaria uma garantia por parte de Davi de dar a
Jônatas esse cargo na corte e uma reafirmação por parte de Jônatas de sua
lealdade a Davi.28
Davi fala de seu amor a Jônatas, seu
amigo
Jônatas morre no monte Gilboa, e Davi presta-lhe uma homenagem
póstuma. Enquanto Davi havia convocado outros a chorar pela morte de
Saul, ele se consumia de tristeza pela morte de Jônatas, o herdeiro do trono,
que por amor a Davi, não havia se apegado a seus direitos, mas
voluntariamente renunciara a eles em favor de Davi, a quem havia protegido
e encorajado ao longo dos anos. Destacamos dois fatos importantes:
1. Davi destaca a morte de Jônatas (2Samuel 1:25). Davi destaca que
Jônatas estava entre os valentes que caíram nos montes Gilboa. Ele foi
morto sobre os montes. Jônatas, ao longo de sua vida, foi um soldado
corajoso, um líder destacado, um homem de fé que conquistou grandes
vitórias para Israel. Agora, esse herói nacional tomba vencido nos montes
Gilboa.
2. Davi destaca seu acendrado amor por Jônatas (2Samuel 1:26). A morte de
Jônatas deixou Davi muito angustiado. Quanto maior é o amor, maior é a
dor do luto. O sofrimento será mais pesado, quanto mais profundo for o
amor. Jônatas e Davi tinham uma aliança de mútua cooperação. Jônatas
havia compreendido que Davi seria o rei, e Jônatas ocuparia o lugar de vice
regente no reino. Sempre leal a Davi, buscou protegê-lo da fúria de seu pai.
Davi ressalta que Jônatas era amabilíssimo com ele e destaca seu amor
excepcional, o qual ultrapassa o amor de mulheres. Concordo com Kevin
Mellish quando ele escreve:
Davi não quer que pensemos sobre seu amor por Jônatas em termos de
um relacionamento homoafetivo, mas, ao contrário, ele enfatizava a
grande aliança, a fidelidade incondicional, o concerto de lealdade que
Jônatas lhe demonstrou no decorrer da amizade. O tipo de fidelidade que
Jônatas exibia para com Davi no decurso dos destinos inconstantes de seu
relacionamento ultrapassava a dedicação de uma mulher pelo marido.29
Dale Ralph Davis traz uma interpretação assertiva ao afirmar: “A
comparação entre o amor de Jônatas e o amor das mulheres não tem a ver
com sexualidade, mas com fidelidade”.30
1. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 155. ↵
2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 122. ↵
3. CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 2.
2018, p. 528. ↵
4. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 143. ↵
5. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 143. ↵
6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 307. ↵
7. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 157. ↵
8. CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 2.
2019, p. 528. ↵
9. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 253. ↵
10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 253. ↵
11. CHAMPLIN, R. N. Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 2. 2018,
p. 533. ↵
12. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 214. ↵
13. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 151. ↵
14. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 135. ↵
15. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 339. ↵
16. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 152. ↵
17. MESQUITA, Antônio Neves. Estudos nos livros de 1 e 2Samuel. 1979, p. 83. ↵
18. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 166. ↵
19. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 137. ↵
20. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 341. ↵
21. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 154. ↵
22. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 138, ↵
23. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 134. ↵
24. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 344,345. ↵
25. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 382. ↵
26. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 161. ↵
27. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 385. ↵
28. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 154,155. ↵
29. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 223. ↵
30. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 29. ↵
O
Capítulo 6
Davi, o fugitivo
rei Saul era uma gangorra emocional, oscilando entre o amor e o
ódio. Desde a música entoada pelas mulheres de Israel, destacando as
vitórias de Davi como sendo mais expressivas do que as suas próprias é que
Saul não via mais Davi com bons olhos (1Samuel 18:9). Na verdade, Saul
temia Davi (1Samuel 18:12). Quanto mais Davi demonstrava sua valentia,
derrotando os inimigos de Israel, mas Saul sentia-se inseguro e intensificava
seus ataques a Davi. Covardemente, Saul intentou matar Davi pelas mãos
dos filisteus (1Samuel 18:17), usando sem qualquer escrúpulo suas próprias
filhas Merabe e Mical para esse fim. A despeito de suas artimanhas, por
intercessão de Jônatas, Davi ainda voltou ao palácio do rei como músico da
corte, mas Saul intentou assassiná-lo com uma lança por duas vezes.
Por cerca de dez anos, Davi precisou viver como fugitivo por cidades,
desertos, vales e cavernas, pois Saul e seu exército estavam no seu encalço
para matá-lo. Com a ajuda de Mical, Davi conseguiu fugir de um cerco dos
soldados de Saul e escapar ileso. Davi fugiu para Ramá, onde estava Samuel
e onde havia uma escola de profetas. Saul, sabendo que Davi estava em
Ramá, enviou três pelotões de soldados mensageiros para capturá-lo, mas ao
chegarem os mensageiros passavam a profetizar em vez de prenderem Davi.
O próprio Saul foi a Ramá e, ao chegar à casa dos profetas, também passou
um dia e uma noite inteira profetizando, prostrado ao chão, dando chance
de Davi escapar e ir ao encontrode Jônatas para pedir ajuda.
Davi, em uma espécie de desabafo, disse a Jônatas que estava apenas a um
passo da morte (1Samuel 20:3). Não acreditando ou não querendo ver toda
a malignidade de seu pai, Jônatas disse a Davi que Saul jamais faria mal
algum a ele sem que antes seu pai lhe fizesse saber. Nesse encontro, Davi e
Jônatas elaboraram um plano para verificar as disposições do coração de
Saul. No dia seguinte seria a festa da Lua Nova, e Davi, como genro do rei,
deveria assentar-se à mesa real. Contudo, Davi ausentou-se da festa com o
argumento de que teria de fazer uma visita emergencial à sua família, em
Belém. Se Saul ao constatar a ausência de Davi não ficasse irado, esse seria
um sinal de benevolência; se Saul se exasperasse, essa seria uma evidência de
que o coração do rei estava fechado para qualquer possibilidade de
reconciliação.
Não deu outra, no segundo dia da festa, ao notar a cadeira de Davi vazia,
Saul quis saber os motivos da ausência de Davi, perguntando a Jônatas: “Por
que não veio a comer o filho de Jessé, nem ontem nem hoje?” (1Samuel
20:27). Jônatas respondeu: “Davi me pediu, encarecidamente, que o deixasse
ir a Belém” (1Samuel 20:28). Depois de esclarecer as razões elencadas por
Davi para fazer o pedido para sua viagem a Belém, Saul ficou extremamente
irado contra Jônatas e assacou contra ele as mais pesadas acusações,
chamando seu próprio primogênito de “filho de mulher perversa e rebelde”.
Disse ainda que a escolha que Jônatas fizera por Davi era uma vergonha
para ele mesmo e para o recato de sua mãe (1Samuel 20:30). Saul foi
enfático: “Pois, enquanto o filho de Jessé viver, nem tu estarás seguro, nem
seguro o teu reino” (1Samuel 20:31a) e arrematou: “manda buscá-lo, agora,
porque deve morrer” (1Samuel 20:31b).
Jônatas tentou defender Davi, dizendo que ele não merecia morrer,
porque nada fizera. Mas Saul, em um acesso de loucura, atirou a lança contra
Jônatas para o ferir. Estava claro, todo esforço de Jônatas para reverter a
situação e pacificar seu pai estava terminado. De fato, a disposição de Saul
era mesmo matar Davi. Irado, Jônatas se levanta da mesa real no segundo
dia da festa da Lua Nova sem comer pão, profundamente sentido por causa
de Davi, a quem seu pai havia ultrajado (1Samuel 20:32-34). Depois de
comunicar Davi do doloroso episódio, os dois amigos se despedem com
lágrimas e beijos (1Samuel 20:41), relembrando as palavras pactuais: “Disse
Jônatas a Davi: Vai-te em paz, porquanto juramos ambos em nome do
Senhor, dizendo: O Senhor seja para sempre entre mim e ti e entre a minha
descendência e a tua” (1Samuel 20:42).
A despedida de Davi e Jônatas dá início a um longo período de fuga do
filho de Jessé. Na verdade, a fuga de Davi para Nobe marcou o início de seu
exílio, que durou cerca de dez anos (1Samuel 21:1-29:11). Saul está
determinado a matá-lo, mas Davi não levanta uma palha sequer para
revidar.
Davi já havia buscado refúgio no profeta Samuel (1Samuel 19) e em
Jônatas, filho do rei (1Samuel 20). Por fim, ele busca ajuda no sumo
sacerdote Aimeleque (1Samuel 21). Porém, nem o profeta Samuel, nem
Jônatas, nem o sumo sacerdote Aimeleque puderam livrá-lo das mãos do
ensandecido Saul.
No texto em pauta, Davi, o guerreiro destemido, claudica, teme e vacila
em sua fé. Faz sentido o que William MacDonald diz: “Até mesmo os
grandes homens têm os pés de barro”.1 Davi não é uma exceção. Esse triste
capítulo destaca suas mentiras diante do tabernáculo, em Nobe (1Samuel
21:1-9), sua pretensa doidice diante dos filisteus, em Gate (1Samuel 21:10-
15) e sua confiança nos moabitas, para proteger seus pais (1Samuel 22:3-5).
Robert Chisholm diz que, quando a fé vacila, pode acontecer de o indivíduo
perder Deus de vista e agir de forma contrária a suas crenças e a suas
experiências pessoais.2
Vejamos:
Davi foge para Nobe
Davi foge para Nobe, cidade levítica, cerca de cinco quilômetros ao sul de
Gibeá. Nessa cidade ficava o tabernáculo. Em função da amizade de Davi
com Samuel, o filho de Jessé sabia que poderia encontrar refúgio e ajuda no
meio dos sacerdotes.3 Destacamos, aqui, cinco pontos:
1. Um encontro cheio de tensão (1Samuel 21:1). Logo que Davi se separa de
Jônatas, ele vai a Nobe, cidade que ocupa o lugar de Siló, onde estava a classe
sacerdotal. Quando Aimeleque, sumo sacerdote, irmão de Aías e neto de
Eli, vê Davi chegando sozinho, fica alarmado, pois tinha conhecimento dos
atentados de Saul contra Davi e da insana perseguição do rei ao filho de
Jessé. O temor de Aimeleque explica o medo de Davi, agora um homem
foragido e procurado pela soldadesca de Saul.
2. Uma dissimulação evidente (1Samuel 21:2). Davi dissimula, inventa uma
história, dizendo ao sumo sacerdote que estava cumprindo uma missão
secreta da parte do rei, por isso, tinha deixado seus homens em um lugar que
não podia revelar. Quando a fé claudica, a mentira aparece. Certamente com
essa mentira intencional, Davi não está confiando, mas tramando. A. W.
Pink tem razão em dizer: “Embora mentiras bem planejadas possam parecer
promover segurança no momento, elas asseguram desgraça futura”.4
3. Um pedido de provisão (1Samuel 21:3-6). Davi expõe sua necessidade
básica de provisão. Ele precisa de alimento. Precisa de pão, para seu sustento
e o sustento dos homens que o acompanham. O sumo sacerdote, depois de
certificar-se que os homens de Davi estavam cerimonialmente puros, oferece
a ele os pães sagrados do tabernáculo, reservados somente aos sacerdotes
(Levítico 24:5-9). Essa atitude de Aimeleque foi endossada pelo próprio
Senhor Jesus (Mateus 12:3,4), pois a lei que proíbe o profano uso dos pães
da proposição não tinha a intenção de proibir a obra de misericórdia por
meio deles. O intento da lei foi cumprido pelo ato de misericórdia.
4. Um denunciante perigoso (1Samuel 21:7). Ao informar que um dos
servos de Saul estava ali, o narrador intensifica deliberadamente a
dramaticidade da narrativa. Estava em Nobe, detido na presença do Senhor,
um edomita, servo de Saul, maioral de seus pastores, chamado Doegue.
Joyce Baldwin diz que a palavra “maioral” (abbîr) significa “poderoso,
violento e obstinado”.5 A presença desse homem em Nobe era ameaçadora.
Ele naturalmente observou a colaboração de Aimeleque com Davi e, mais
tarde, informou tudo a Saul. É digno de nota que Davi sabia que Doegue
contaria a Saul o que havia visto em Nobe e que isso traria sérios problemas
(1Samuel 22:9-23).
5. Um pedido de armas (1Samuel 21:8,9). Além de provisão, Davi também
pediu alguma lança ou espada ao sacerdote, justificando que a ordem do rei
era urgente e não deu tempo para apanhar suas armas. Mais uma vez Davi
lança mão da mentira para obter alguma arma na casa dos sacerdotes.
Informado de que a espada de Golias, com a qual o próprio Davi tinha
matado o gigante, estava ali, guardada envolta num pano atrás da estola
sacerdotal, Davi a toma.
Tendo levado consigo alimentos para fortificá-lo e uma espada para
protegê-lo, Davi saiu de Nobe. Ele parece considerar a espada não apenas
um troféu, mas a fonte de sua defesa. A ironia continua no versículo
seguinte, no qual Davi foge para a cidade natal de Golias em busca de asilo.
Infelizmente, Davi nega seu próprio credo teológico e caminha de acordo
com o que vê, e não pela fé. Em vez de confiar em Deus, como fizera outrora
(1Samuel 17:45-47), ele confia em sua própria capacidade. O mesmo Davi
que havia se recusado a usar a armadura do rei de Israel quando estava cheio
do Espírito para a batalha contra Golias agora se alegra em usar a espada do
seu antigo inimigo pagão. Não mais confiando na força de Deus, exultou
pela espada, dizendo: “Não há outra semelhante; dá-ma” (1Samuel 21:9).
A passagem de Davi por Nobe tornou-se para ele um marco em que o
medo deu lugar ao pecado, à incredulidade e à impiedade. Em Nobe, Davi
tentou se proteger com uma mentira, permitiu que seu comportamento
colocasse outras pessoas em perigo e se alegrou com as armas carnais que
adquiriu.6
Davi foge para Gate
O melhor comentário sobre a passagem incrédula de Davi por Nobe é o
destinoao qual isso o levou. A fuga medrosa de Davi o levou a um lugar de
refúgio que se mostrou ainda mais ameaçador que o louco rei Saul.
O mesmo Davi que mentiu em Nobe, agora tenta se esconder em Gate,
em uma tentativa ousada de ser aceito em um país inimigo. Essa havia sido
uma escolha estranha, pois Gate era uma cidade filisteia. Além do mais,
Davi havia acabado de adquirir a espada de Golias (1Samuel 21:8,9), e Gate
era a cidade natal do gigante. Se isso não bastasse, Davi era o grande terror
dos filisteus. Ele impusera as mais humilhantes derrotas aos filisteus,
matando seus soldados.
É certo que, por um tempo, Davi não foi impelido por sua fé em Deus,
mas sim pelo medo de Saul. Momentaneamente Davi deixou de crer que o
lugar mais seguro do mundo é no centro da vontade de Deus.
A cidade de Gate estava a trinta e seis quilômetros de Nobe. Por certo,
quando viu Doegue em Nobe e pressentiu que Saul seria informado, Davi
pensou que o lugar mais seguro para fugir do sogro seria na Filístia, e não
em qualquer outro lugar de Israel. A ida de Davi a Gate era um movimento
tático motivado pelo desespero: fugir de Saul para encontrar proteção entre
os inimigos de Saul. Destacamos aqui quatro pontos:
1. Davi entre os inimigos filisteus (1Samuel 21:10). De Nobe, Davi foge de
Saul e vai a Aquis, rei de Gate, cidade-Estado dos filisteus e cidade natal de
Golias. O problema é que os filisteus não são apenas inimigos de Saul, eles
também são inimigos de Davi. É como se Davi caísse na armadilha de Saul,
que desejava o genro morto exatamente nas mãos dos filisteus.
2. Davi desmascarado (1Samuel 21:11). Ao tentar permanecer incógnito
entre os filisteus, Davi descobre que sua fama o procedeu. Ele foi
desmascarado e chamado de “rei da sua terra”. Os filisteus já tinham
escutado sobre o sucesso estrondoso da música das mulheres israelitas que
fizeram de Davi um herói entre o povo e o desafeto do rei Saul. O rei e seus
conselheiros não viram com bons olhos sua presença na cidade.
3. Davi amedrontado (1Samuel 21:12). Quando Davi percebeu que os
gaditas tinham descoberto sua identidade e que estava no quartel general
dos arqui-inimigos de Israel, preso sob custódia, ficou com muito medo de
Aquis, rei de Gate. As tentativas de Davi de proteger a si mesmo — que
incluem mentir para um sacerdote, confiar na arma de um inimigo
derrotado e procurar um lugar no exército de um governante filisteu —
saíram pela culatra.
4. Davi fingindo-se de doido (1Samuel 21:13-15). Para livrar-se das mãos
dos filisteus e escapar ileso, Davi teve a presença de espírito de fingir
insanidade. Ao ser levado a Aquis, fingiu-se de doido, esgravatando nos
postigos das portas e deixando correr saliva pela barba. Davi desempenhou
seu papel de ator de modo convincente. Diante daquela cena grotesca, Aquis
o considerou louco, inofensivo e não se vingou dele.
Fazendo uma oportuna aplicação dessa passagem, Richard Phillips diz
que podemos encontrar quatro advertências proveitosas para os crentes na
conduta de Davi:
1. Nossos pecados de incredulidade têm consequências reais.
2. Todo cristão é susceptível a cair em pecado ao dar ouvidos ao conselho
do medo, da incredulidade e da autopiedade.
3. Não apenas qualquer um de nós pode cair, mas também quão
profundamente e com surpreendente rapidez podemos cair.
4. Até mesmo pessoas muito piedosas enfrentam dúvidas, medos,
ressentimentos e corações partidos.7
Davi foge para a caverna de Adulão
Não encontrando lugar seguro no santuário nem na Filístia, Davi se esconde
na caverna de Adulão, cujo significado é “refúgio”. Esse lugar era bastante
conhecido em Judá e ficava A cerca de dezesseis quilômetros de Gate e vinte
e quatro quilômetros de Belém. Perto dali havia uma colina fortificada e
famosa por suas cavernas, as quais serviam de abrigo natural para o
desamparado. Dois pontos merecem destaque aqui:
1. Davi tornou-se o porto seguro de sua família (1Samuel 22:1). Livre de
Gate, Davi fugiu para a caverna de Adulão, onde seus irmãos e toda a casa
de seu pai, depois de deixarem Belém, certamente já sabendo de toda a fúria
de Saul, foram dar apoio a Davi bem como buscar refúgio nele. Fica patente
que os irmãos de Davi desertaram do exército de Saul e também se
tornaram fugitivos. Eles sabiam que Davi era o rei ungido de Deus, de
modo que se ligaram ao futuro de sua nação. Assim, enquanto a família de
Saul se afasta de Saul, a de Davi junta-se a Davi.
2. Davi tornou-se porto seguro dos amargurados de espírito (1Samuel 22:2). A
família belemita vai até Davi e ajunta-se a ele na caverna de Adulão. Do
mesmo modo, todos os homens que se achavam em apuros, e todo homem
endividado, e todos os amargurados de espírito assim o fizeram, e Davi se
fez chefe deles. Eram ao todo uns quatrocentos homens. Posteriormente,
esse número subiu para seiscentos homens (1Samuel 23:13). Todos esses
homens viram em Davi a única esperança de um reino bem-sucedido. Nas
palavras de Paul Gardner, “ali Davi liderou um bando de foras da lei”.8
Os verdadeiros líderes atraem as melhores pessoas, que veem neles as
qualidades de caráter que mais admiram. Davi tornou-se um ímã social e
político. Os dons de liderança de Davi foram desenvolvidos à medida que
ele e sua força “subterrânea” de quatrocentos homens preparavam-se para a
ação. Davi já havia sido comandante do exército de Saul (1Samuel 18:13),
agora havia se tornado comandante de um grupo desordenado de párias, os
quais tornaram-se leais e valentes guarda-costas de Davi durante seus longos
anos de exílio, até que ele ascendesse ao trono como rei de Israel. Sob a
influência de Davi, esses seguidores formaram o núcleo inicial do que se
tornaria um grande e glorioso reinado, cujo legado literalmente duraria para
sempre.
Davi foge para Moabe
Davi agora protege não apenas sua própria vida das insanas perseguições de
Saul, como também a vida de sua família. Os pais de Davi precisam de um
lugar seguro para residir; daí a viagem pela região do mar Morto para o
território de Moabe. Davi pede ao rei de Moabe para dar abrigo aos seus
pais até o final do exílio. Destacamos aqui dois pontos:
1. Davi pede proteção para seus pais (1Samuel 22:3,4). Da caverna de
Adulão, Davi foge para o território de Moabe, terra de sua bisavó Rute
(Rute 4:17-22), e pede proteção para seus pais, até entender melhor o que
Deus haveria de fazer por meio dele nesse tempo de fuga. Davi e seus pais
moraram com o rei de Moabe. Por ser um território estrangeiro, ali era um
lugar seguro para sua família. Obviamente, a confiança de Davi nos
moabitas, inimigos do povo de Deus, era uma atitude errada que sinalizava
sua falta de confiança em Deus. Os moabitas eram descendentes de Ló,
fruto de sua relação incestuosa com sua filha mais velha (Gênesis 19:30-38).
Nos dias de Moisés, os moabitas não eram um povo estimado pelos
israelitas (Deuteronômio 23:3-6).
2. Davi é orientado a voltar a Judá (22:5). O profeta Gade vai, portanto, a
Moabe e diz a Davi para não permanecer naquele lugar seguro, pois ele
deveria voltar para a terra de Judá. Davi, então, saiu de Moabe e foi para o
bosque de Herete, cujo significado é “mata fechada”.
Davi, o fugitivo no deserto de Zife
Depois de libertar Queila dos filisteus, Davi recebeu a ingratidão dos
moradores da cidade, os quais estavam dispostos a entregá-lo nas mãos de
Saul. Davi e seus seiscentos homens saíram de Queila e partiram sem rumo
certo. Davi permaneceu no deserto, nos lugares seguros, na região
montanhosa de Zife, enquanto Saul buscava-o todos os dias. Davi não
escapou das mãos de Saul apenas por sua destreza, mas sobretudo porque
Deus não o entregou nas mãos do rei.
É digno de destaque que os habitantes de Queila pagaram com o mal o
bem que Davi havia feito. Com medo de que as atrocidades de Nobe
acontecessem também em Queila, foram ingratos ao herói que os livrou das
mãos dos filisteus e denunciaram Davi a Saul. Vejamos:
1. Os informantes de Saul (1Samuel 23:7a). Foi anunciado a Saul que Davi,
conhecido como fora da lei, tinha ido a Queila. A informação nadadeclara
sobre o grande livramento das mãos dos filisteus. Saul tinha seus
informantes e espias por todo lado. Eram asseclas que tentavam tirar
vantagem dessas informaçoes.
2. As maquinações de Saul (1Samuel 23:7b,8). Saul tem a ilusão de que suas
guerras são as guerras de Deus. Vê nesse ato de traição dos moradores de
Queila, uma providência divina para encurralar a sua presa ali e capturar
Davi. O rei convocou o povo para a guerra, ostensivamente contra os
filisteus, mas na verdade, queria mesmo era sitiar Queila e matar Davi. Nas
palavras de Robert Chisholm, “Saul afirma contar com o auxílio divino
(1Samuel 23:7), mas fica evidente que, na verdade, Deus está ajudando
Davi. O Senhor entrega os filisteus nas mãos de Davi, mas também faz uso
deles para desviar Saul de seu propósito e proteger Davi”.9 O fato é que o
pecado cegou de tal modo a Saul que ele estava iludido, imaginando que
Deus estava a seu favor, mas na verdade Deus estava protegendo Davi de
suas mãos.
3. Os informantes de Davi (1Samuel 23:9). Não apenas Saul tem
informantes; Davi também os tem. Davi fica sabendo da maquinação de
Saul contra ele. Essas informações possibilitaram a Davi consultar o Senhor
e criar um plano de fuga.
4. Davi consulta o Senhor (1Samuel 23:10-12). Davi não convoca uma
guerra santa contra Saul, mas, em vez disso, ora ao Senhor, perguntando se
os moradores de Queila o entregariam nas mãos de Saul e se Saul desceria
contra ele. Enquanto Saul, em suas atividades, havia afastado os profetas e
matado os sacerdotes, Deus havia dado a Davi todo o aparato necessário
para o reinado. Davi contava com um profeta fiel e um verdadeiro sacerdote,
que o guiaram e ajudaram em seu papel real.
5. Davi foge para o deserto de Zife (1Samuel 23:13,14). Diante da resposta
afirmativa de Deus à sua oração, Davi e seus seicentos homens saíram de
Queila e partiram sem rumo certo. Ao ser informado que Davi tinha fugido
de Queila, Saul cessou de persegui-lo. Davi, então, permaneceu no deserto
de Zife, nos lugares seguros. Saul buscava-o todos os dias, porém Deus não
o entregou em suas mãos. Essa foi a quinta vez que Davi “escapou” (1Samuel
19:10,12,18; 22:1; 23:13).
Davi é traído duas vezes (em Queila e em Zife). No entanto, embora seja
rejeitado pelo povo, não é rejeitado por Deus, que o defende. Saul, o rei de
fato, está louco; Davi, o rei de direito, está em rota de fuga para poupar a
própria vida. Dominado pelo ciúme, Saul não cessa de perseguir Davi; mas
Davi, o escolhido de Deus, não se deixa vencer pelo ódio e continua fugindo
de Saul. Logo depois que Saul retornou da perseguição aos filisteus, voltou à
carga, com toda força, para matar Davi.
Muitas foram as fugas de Davi, enaquanto tentava escapar da insana
caçada de Saul:
Naiote em Ramá (1Samuel 19:18). Essa era a cidade de Samuel.
Gibeá (1Samuel 20:1). Essa era cidade de Jônatas.
Nobe (1Samuel 21:1). Esta era a cidade dos sacerdotes.
Adulão (1Samuel 22:1). Essa era a caverna do Vale de Elá.
Mispá em Moabe (1Samuel 22:3). Essa cidade ficava do outro lado do
mar Morto.
A fortaleza (1Samuel 22:4). Talvez Massada.
Queila (1Samuel 23:1). A cidade onde Davi lutou contra os filisteus.
Deserto de Zife (1Samuel 23:14). No sul de Hebrom.
Deserto de Maom (1Samuel 23:24). Sul de Zife.
En-Gedi (1Samuel 24:1). Parte ocidental do mar Morto.
Fortaleza (1Samuel 24:22). Talvez Massada.
Deserto de Maom (1Samuel 25:1). Onde Davi se casou com Abigail.
Deserto de Zife (1Samuel 26:2). Ele encontra Saul novamente.
Gate (1Samuel 27:2). Davi retorna à cidade dos filisteus.
Ziclague (1Samuel 27:5-7). Davi permanece aqui por quatro meses.
Ao perseguir Davi por todos os lados, Saul escolheu o caminho da sua
própria vontade em vez da vontade de Deus. A despeito de sua loucura, Saul
possuia cortesãos bajuladores que lhe traziam informações sobre o paradeiro
de Davi. Esses informantes disseram a Saul que Davi estava no deserto de
En-Gedi, nos arredores do mar Morto (1Samuel 24:1,2). Essa era uma área
pontilhada de despenhadeiros e cavernas. Essa região de rochas de xisto
tinha inúmeras cavernas e uma fonte perene de água fresca, o que a tornava
um lugar excelente para o descanso de pastores e seus rebanhos. Saul reuniu
três mil homens, escolhidos a dedo, e partiu para os penhascos conhecidos
como as penhas das cabras montesas com o propósito de matar Davi.
Richard Phillips diz que assim como Faraó persistiu em oposição a Deus
depois de sucessivas pragas sobre o Egito, Saul persistiu nos seus esforços
assassinos contra Davi.10 Vejamos:
1. Uma armadilha fatal (1Samuel 24:3). En-Gedi é um deserto cheio de
cavernas. Saul precisando aliviar o ventre, distancia-se de seus soldados e
entra sozinho exatamente na caverna onde estavam escondidos Davi e seus
homens. Agachado e sem guarda-costas, Saul estava completamente
vulnerável, em uma armadilha fatal. Se Davi fosse um homem do mesmo
estofo moral de Saul, o rei estaria morto.
2. Uma sugestão tentadora (1Samuel 24:4a). Os homens de Davi tentaram
induzi-lo a matar Saul. Viram nas circunstâncias uma providência divina.
Disseram que era Deus quem estava entregando Saul nas mãos de Davi. Os
homens de Davi o incriminaram por não ter liquidado o seu inimigo, mas
Davi tinha outra cartilha. Ele não cedeu ao impulso da vingança, mas se
levantou acima da tentação de se vingar. Se por um lado os homens de Davi
consideraram a situação uma oportunidade de vingança, Davi, por outro,
considerou a mesma situação uma oportunidade de demonstrar misericórdia
e provar que não havia dolo em seu coração.
3. Uma ação precipitada (1Samuel 24:4b,5). Davi não deu ouvidos aos seus
homens, porém, furtivamente, chegou por trás de Saul e cortou a orla de seu
manto. Esse gesto em vez de lhe trazer um senso de superioridade, pesou-
lhe no coração. Sua consciência o perturbou, pois esse era um ato simbólico
que representava a tomada do reino. Davi sabia que o manto real era um
símbolo da autoridade de Saul como rei de Israel. Nas palavras de Robert
Bergen, “O confisco feito por Davi de uma porção do manto real significava
a transferência de poder da casa de Saul para a casa de Davi”.11 Davi não
queria subir ao trono pelo caminho dos homens, usurpando o poder, mas
conduzido por Deus, no tempo de Deus.
Naquela caverna, Davi teve a oportunidade de superar sua vida de
sofrimento para chegar ao trono. Mas esse não era o caminho de Deus. Não
era o plano de Deus. Portanto, não era o dele. A. W. Pink comenta:
Um golpe de sua espada e Davi sobe ao trono. Adeus, pobreza! Adeus
vida de animal perseguido. Reprovações, desprezo e derrotas cessariam;
adulações, triunfos e riquezas seriam seus. Mas ele faz o sacrifício da fé, o
sacrifício de uma vontade humilde, sempre esperando o tempo de Deus; o
sacrifício de mil experiências preciosas do cuidado de Deus, da provisão
de Deus, da orientação de Deus, da ternura de Deus. Não, até mesmo um
trono a esse preço é caro demais. A fé espera.12
Tim Chester explica por que Davi sentiu seu coração pesado ao cortar a
orla do manto de Saul.
Por que Davi sente o coração bater de remorso quanto a cortar um
pedaço do manto de Saul? Quando Deus rejeita Saul no capítulo 15, Saul
agarra o manto de Samuel. Quando ele se rasga, Samuel lhe diz que o
reino dele também será rasgado dele e dado a alguém melhor do que ele
(15:28). Depois, em 18:4, Jônatas dá o seu manto a Davi como sinal da
entrega do reino. Em 20:15, Jônatas suplica a Davi: “Nem tampouco
cortarás jamais da minha casa a tua bondade; nem ainda quando o Senhor
desarraigar da terra todos os inimigos de Davi”. Agora Davi corta a ponta
do manto de Saul, cortando simbolicamente o reino dele. Davi, no
entanto, sente sua consciência pesada porque se recusa a tomar o reino.
Ele está disposto a viver às margens até Deus lhe entregar o reino. Nesse
sentido, repreendeu seus homens por sugerirem que ele deveria arrancar o
reino de Saul.13
3. Uma decisão sensata (1Samuel 24:6). A atitude de Davi causou uma
espécie de decepção em seus homens, porém, ele justificou sua decisão,
dizendo que não atentou contraa vida de Saul, porque ele era o ungido do
Senhor. Portanto, lutar contra o rei era lutar contra Deus. Certo dessa
convicção, Davi não apenas se explicou aos homens, mas insistiu com eles
para impedi-los de causar dano a Saul.
Davi deu provas de sua inocência, como se vê:
1. A sabedoria evita desastres (1Samuel 24:7a). As palavras e as atitudes
sábias de Davi foram um freio para impedir o ímpeto de seus homens. O
verdadeiro líder inspira com seu exemplo. A postura sensata de Davi evitou
uma tragédia dentro daquela caverna. Davi não está rebelando contra o rei;
pelo contrário, não permite sequer que seus homens se levantem contra ele.
2. A humildade é prova da inocência (1Samuel 24:7b,8). Saindo ambos da
caverna, Saul e Davi, este gritou ao rei, chamando-o de “meu Senhor” e
inclinando-se até ao chão, prestou-lhe reverência, demonstrando respeito e
submissão. Em vez de cair sobre Saul em um ataque assassino, Davi lançou-
se sobre o solo, falando com o rei pacificamente e com o devido respeito. A
humildade de Davi era uma prova eloquente de sua inocência. Ele não
estava buscando o trono de Saul.
3. A verdade coerente é a melhor defesa (1Samuel 24:9-11). Davi acusa o rei
de ouvir os falsos rumores de seus cortesãos bajuladores, que incitam o rei
contra ele para o matar sem causa. Nas palavras A. W. Pink, “muito
graciosamente Davi lançou a culpa sobre os cortesãos de Saul, não sobre o
próprio rei”.14 Davi dá provas de que não tem má intenção, pois teve a vida
do rei em suas mãos e mesmo assim, não atentou contra ela, por saber que o
rei é o ungido do Senhor. Davi, depois de chamar Saul de “meu pai”, dá a
prova cabal de sua inocência ao mostrar-lhe a orla de manto. Se Davi, não o
matou, essa era uma prova cabal de sua inocência e a sua defesa mais
robusta.
Davi faz todo o esforço possível para expressar a autoridade de Saul sobre
si. Dirige-se a ele como “meu senhor” três vezes (1Samuel 24:6,8,10), “rei”
uma vez (1Samuel 24:8), “rei de Israel” uma vez (1Samuel 24:14) e “ungido
do Senhor” três vezes (1Samuel 24:6,10). Aqui, usa ainda outro título, “meu
pai” que sugere sua dependência do rei.
Davi ainda reivindica a justiça divina (1Samuel 14:12-15). Em seu
discurso de autodefesa, ele evoca a justiça divina e apela para Deus, o justo
juiz, vingar-se dele, caso haja em seu coração alguma intenção má contra o
rei. Davi ainda cita para Saul um provérbio conhecido: “Dos perversos
procede a perversidade”. Ou seja, o caráter determina a conduta. O que o
homem é, isso ele faz. Nas palavras de Jesus: “Por seus frutos os conhecereis”
(Mateus 7:16).
Davi desce ao mais profundo estágio da humildade quando se compara a
um cão morto e uma pulga. O cão já era um animal desprezível naquele
tempo e um cão morto era absolutamente sem valor. A pulga vive pulando
de um lugar para o outro sem qualquer descanso; é difícil de ser apanhada,
mas não tem valor algum quando capturada. Assim Davi se via diante das
campanhas militares de Saul com o propósito de caçá-lo por cidades,
desertos e cavernas.
Davi conclui sua defesa, apelando mais uma vez para Deus ser o seu juiz,
pleitear sua causa, fazer-lhe justiça e livrá-lo das mãos de Saul. Nas palavras
de Joyce Baldwin, “o raciocínio de Davi é que, em última instância, Saul se
opôs ao Senhor, que mostrará que Davi está correto”.15 Concordo com
Robert Chisholm, quando diz que a determinação de Davi de deixar a
vingança nas mãos de Deus (1Samuel 24:12) contrasta com o retrato
anterior de Saul, que se mostra obcecado em vingar-se de seus inimigos
(1Samuel 14:24; 18:25).16
Diante do discurso eloquente e convincente de Davi, Saul dá a mão à
palmatória e reconhece que Davi é inocente e mais justo do que ele,
confessando que Davi ascenderá ao trono e fará um reinado firme. Saul, por
fim, pede a Davi para poupar sua família ao chegar ao trono. Vejamos:
1. Um choro sem arrependimento (1Samuel 24:16). Saul está como que
dopado pelo ódio e cego pelo ciúme. Mesmo conhecendo Davi e
chamando-o de “meu filho”, ele duvida se a voz que ouve relamente é a de
Davi. Então desata a chorar, no entanto, esse choro não é um sinal de
arrependimento sincero. Saul não passou por nenhuma transformação; ele
está destinado a persistir em intentar contra a vida de Davi.
2. Um reconhecimento sem consistência (1Samuel 24:17-19). Saul
forçosamente precisa admitir que Davi é mais justo do que ele, pois
recompensou-lhe o mal com o bem, e roga a bênção do Senhor sobre ele,
dizendo: “O Senhor, pois, te pague com bem, pelo que hoje, me fizeste”.
3. Uma convicção sem atitude (1Samuel 24:20). Jônatas havia dito a Davi
que Saul tinha consciência de que Davi reinaria (1Samuel 23:17). Agora,
pela primeira vez, Saul reconhece publicamente que Davi está destinado a
reinar sobre Israel e chega a afirmar essa convicção de modo enfático. Ele
confessa ter certeza de que Davi será rei e estabelecerá sua dinastia, e que o
reino de Israel será firme em suas mãos.
4. Um pedido cheio de temor (1Samuel 24:21). Com base nessa convicção,
só resta a Saul pedir a Davi, para jurar-lhe pelo Senhor, que não elimine sua
descendência nem desfaça seu nome da casa de seu pai quando assumir o
trono.
Davi assume o compromisso, com juramento, de proteger a família da
Saul ao ascender ao trono de Israel (1Samuel 24:22). Se Davi tivesse planos
de depor Saul e tomar o trono, não haveria concordado com aquele pedido.
Usurpadores costumam matar os descendentes do rei anterior a fim de
consolidar seu poder. É oportuno trazer à memória Provérbios 16:32:
“Melhor é o longânimo do que o herói de guerra, e o que domina o seu
espírito, do que o que toma uma cidade”. Na caverna de En-Gedi,
observamos Davi em um dos mais elevados pináculos espirituais de toda a
sua vida. Fez uma grande diferença para seu futuro que ele tivesse honrado o
Senhor durante seu tempo de provação.
A passagem bíblica termina dizendo que Saul voltou para sua casa em
Gibeá, e Davi procurou um lugar mais seguro. São dois homens e dois
polos. Um desvairado e um sensato. O apreço que Saul mostrou naquele
instante não convenceu Davi de que era para valer, e Davi tinha razão. A
invocação a Deus para que pagasse a Davi segundo a generosidade que havia
praticado não perdurou. Nem Saul, nem Davi esperavam que a reconciliação
restabelecesse o relacionamento perdido; então cada um seguiu seu próprio
caminho.
1. MACDONALD, William. Believer’s Bible Commentary. 1995, p. 313. ↵
2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 143. ↵
3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 259. ↵
4. PINK, A. W. A life of David. Vol. 2, p. 176. ↵
5. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 155. ↵
6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 350. ↵
7. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 352,353. ↵
8. GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada, p. 130. ↵
9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 152. ↵
10. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 392. ↵
11. BERGEN, Robert D. 1, 2Samuel, New American Commentary, p. 239. ↵
12. PINK, A. W. A life of David. Vol. 2, p. 114. ↵
13. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 181,182. ↵
14. PINK, A. W. Life of David. Vol. 2. 1981, p. 120. ↵
15. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 164. ↵
16. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 160. ↵
1S
Capítulo 7
Davi, o misericordioso
amuel 26 trata de traição, coragem, confissão e reconhecimento. Mais
uma vez os zifeus se mostram traidores. Mais uma vez Saul reúne sua
seleta tropa para matar Davi. Mais uma vez o Senhor coloca Saul nas mãos
de Davi. Mais uma vez Davi, sendo misericordioso, poupa a vida de Saul.
Mais uma vez Saul admite sua culpa e enaltece Davi. Mais uma vez Saul e
Davi seguem caminhos diferentes. Nos dois incidentes, o narrador revela a
inocência de Davi e a culpa de Saul.
Alguns críticos desmerecem esse texto, afirmando que se trata do mesmo
episódio relatado no capítulo 23:19-29. Contudo, como diz Richard
Phillips, “temos boa razão para aceitar os acontecimentos de 1Samuel 26
nãoapenas como verdadeiros, mas também como instrutivos para nossa fé”.1
Warren Wiersbe corrobora, dizendo que as evidências se mostram contrárias
à interpretação de que o relato desse capítulo não passa de uma adaptação
da narrativa encontrada nos capítulos 23 e 24. Há diferenças em termos de
localização, de hora, de atividades, de reação de Davi e das palavras de
Davi.2
Uma traição reincidente
Os zifeus entraram para a história como um povo traidor. Por interesses
escusos, para receber benesses de um rei decadente, dispuseram-se a exercer
o papel de informantes, traindo Davi mais uma vez. Três fatos merecem
destaque aqui:
1. Uma denúncia maldosa (1Samuel 26:1). Os zifeus foram novamente a
Gibeá para informar a Saul que Davi estava escondido no outeiro de
Haquilá, defronte de Jesimom. Na primeira denúncia, estavam dispostos a
entregar Davi (1Samuel 23:19,20). Vendo o plano deles malogrado,
reincidem na mesma maldade e, novamente denunciam Davi, informando a
Saul o esconderijo de seu desafeto.
2. Uma caçada implacável (1Samuel 26:2). Saul, que tivera sua vida
poupada na caverna, em En-Gedi, e reconhecera a inocência de Davi, mais
uma vez se rende ao ciúme doentio e, com força total, marcha com três mil
homens para buscar Davi. Trata-se de uma caçada implacável. Davi sente-se
como um cão morto sem valor ou uma pulga, que pula de um lado para o
outro para poupar sua vida (1Samuel 24:14). Agora, Davi sente-se
novamente como uma pulga ou como uma perdiz, que não consegue alçar
voos altos (1Samuel 26:20).
3. Um acampamento estratégico (1Samuel 26:3,4). Saul deixa Gibeá com
seus três mil homens escolhidos a dedo e acampa no estreito de Haquilá,
defronte de Jesimom. Por ter chegado à noite, horário impróprio para uma
caçada humana no deserto, todos puseram-se a dormir, cercados de carros e
bagagens, inclusive Saul e seu comandante Abner. Todos dormiam, mas
Davi estava vigiando e monitorando o lugar. Então Davi envia espias, e esses
o informam que Saul já estava acampado com seu exército nas mediações.
Uma atitude destemida
Davi, mesmo chamando a si mesmo de cão morto, pulga e perdiz, é um
guerreiro experimentado. É valente e muito corajoso. Ele se levanta e vai ao
acampamento do rei e, com precisão, investiga o lugar onde Saul e Abner
estavam deitados. O povo, entregue ao sono, estava ao redor deles no
acampamento. Destacamos seis fatos aqui:
1. Uma investigação ousada (1Samuel 26:5). Davi demonstra robusta
galhardia ao se levantar e ir até ao acampamento onde seus desafetos
estavam reunidos. Davi era um estrategista e precisava tirar proveito de
algum ponto falho do inimigo. Ele então descobre que Saul, seu
comandante e o povo estavam dormindo.
2. Uma consulta oportuna (1Samuel 26:6). Davi volta do acampamento e
pergunta a Aimeleque, o heteu, e a Abisai, seu sobrinho (1Crônicas 2:13-
16), filho de sua irmã Zeruia e irmão de Joabe, seu futuro comandante,
quem desceria com ele a Saul, no arraial. Abisai se prontificou a ir com
Davi. Essa era uma missão impossível. Uma investida arriscada. Uma ação
audaciosa.
3. Uma prontidão corajosa (1Samuel 26:7). À noite, quando Davi e Abisai
chegaram ao acampamento, perceberam que Saul estava dormindo ao lado
de sua lança, fincada na terra à sua cabeceira; Abner e o povo estavam
deitados ao redor de Saul. Esses três mil homens, comandados por Saul e
Abner sentiam-se donos da situação, seguros, invulneráveis.
4. Uma proposta ímpia (1Samuel 26:8). Abisai, sobrinho de Davi, agindo
de forma ímpia, viu nesse cenário, uma providência divina. Disse a Davi que
Deus estava entregando em suas mãos o seu inimigo. Pediu, inclusive, a
oportunidade de matar Saul com sua própria lança, de uma só tacada.
Alexander Maclaren interpreta essa cena assim: “Abisai representa o impulso
natural de todos nós — golpear nossos inimigos quando pudermos, pagar
ódio com ódio e fazer ao outro o mal que ele queria fazer a nós”.3
5. Uma resposta firme (26:9-11). Enquanto Abisai via Saul como inimigo
que deveria ser morto, Davi o via como o ungido do Senhor que devia ser
protegido com misericórdia. Conforme diz Warren Wiersbe, “a decisão de
Davi era baseada em princípios e não em circunstâncias”.4 Davi não só
impediu Abisai de matar Saul, mas declarou que estender a mão contra o
ungido do Senhor era tornar-se culpado. Davi acrescentou que não
precisaria mover sua mão para matar Saul, pois Deus, no tempo certo,
poderia matá-lo de uma das três maneiras: 1) Deus mesmo o feriria; 2) o dia
da sua morte chegaria de forma natural; 3) ele morreria no campo de
batalha, pelas mãos do inimigo. Nas palavras de Tim Chester, “Deus tem
muitas opções para alcançar seus propósitos e fazer justiça. Não cabe a
Abisai ou a Davi escolher a opção e buscar forçar a mão de Deus”.5
Davi rogou ao Senhor para guardá-lo de cometer esse desatino, todavia,
tomou a lança e a bilha da água de Saul. Elas representavam a capacidade de
Saul de se sustentar e de se proteger (1Samuel 26:12). A provisão e a
proteção de Saul tinham terminado. Assim, simbolicamente, Davi desarma
Saul. Vale destacar que a lança de Saul já usada duas vezes para matar Davi,
simbolizava a hostilidade do rei contra ele. Quando Davi cortou a orla do
manto de Saul na caverna, lembrou-o de que seu reino seria separado dele,
mas ao tomar-lhe a lança, humilhou o rei e tirou dele o símbolo de sua
autoridade.
6. Uma providência divina (1Samuel 26:12). Davi só conseguiu entrar no
acampamento de Saul e tomar às escondidas sua espada e sua bilha da água
porque todos estavam rendidos a um sono profundo que certamente
provinha do Senhor. Se não faltou a Davi e a Abisai coragem, a investida
deles no território do inimigo só foi possível e só logrou êxito por causa da
providência divina. De fato, o sono pesado de três mil homens, num
acampamento a céu aberto foi obra divina. O mais poderoso aliado de Davi
para conduzi-lo ao trono era o próprio Senhor.
Um confronto necessário
Estando Davi, em lugar distante e seguro do acampamento de Saul, ergueu
sua voz para acusar Abner e os soldados do rei. Vejamos:
1. Davi confronta Abner (1Samuel 26:13,14). Depois que Davi ganhou
longa distância, estando no cume da outra banda do monte, bradou ao povo
e a Abner, dizendo: “Não respondes, Abner? Então, Abner acudiu e disse:
Quem és tu, que bradas ao rei?” (26:14). Davi tem um trunfo na mão, a
lança de Saul e a bilha da água. O confronto tem a finalidade de mostrar a
incompetência dos aliados de Saul de protegê-lo, ao mesmo tempo que tem
o propósito de destacar sua inocência diante dos olhos do rei.
2. Davi acusa Abner e os soldados de Saul (1Samuel 26:15,16). Davi
humilha Abner, o comandante de Saul, mostrando que ele sequer protegeu o
rei, a campo aberto, mesmo tendo ao seu dispor três mil homens preparados
para a batalha. Davi diz a Abner que ele deve morrer, pois não guardou o rei,
seu senhor, o ungido do Senhor. Como prova da acusação, Davi mostra a
lança do rei e a bilha da água, que estavam à sua cabeceira.
Uma defesa irrefutável
Davi se esforça para expressar lealdade e submissão a Saul. Ele se dirige a
Saul como “meu senhor” três vezes (26:17-19), chama-o “rei” seis vezes
(1Samuel 26:15-17,19,20,22), refere-se a ele como “ungido” do Senhor duas
vezes na presença de Saul (1Samuel 26:16,23) e descreve a si mesmo como
“servo” de Saul duas vezes (1Samuel 26:18,19).6 Destacamos cinco pontos
importantes aqui:
1. Davi defende sua inocência (1Samuel 26:17-20). Saul reconheceu a voz
de Davi e o chamou de filho, porém, Davi não o chamou de pai, mas apenas,
“rei, meu senhor”. Mais uma vez Davi pleiteia sua causa e defende sua
inocência, mostrando que não havia maldade em suas mãos. Davi declara
que só há duas possibilidades de Saul estar contra ele: o Senhor estaria
incitando-o contra Davi ou os filhos dos homens. No primeiro caso, a ira de
Deus poderia ser aplacada com uma oferta de manjares. No segundo caso,
esses promotores da discórdia deveriam ser considerados malditos perante o
Senhor, pois estavam eliminando Davi da comunidade da aliança e
empurrando-o paraterritório pagão, onde outros deuses eram servidos. Davi
não quer ver seu sangue derramado longe de sua terra, por isso pergunta a
Saul por que o perseguia como se ele fosse uma perdiz nos montes?
Hipoteco apoio ao que diz Kevin Mellish: “A vingança pessoal não realiza
os propósitos redentores de Deus no mundo. O desejo de acertar as contas
com aqueles que nos causaram dor, angústia ou sofrimento é um sintoma da
condição humana, mas não de um indivíduo pio”.7 O Novo Testamento
ensina que devemos vencer o mal com golpes de bondade e buscar
ativamente não pagar o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem
(Romanos 12:21).
2. Saul admite sua própria culpa (1Samuel 26:21). Saul admite sua culpa e
confessa seu pecado. Pediu para Davi voltar e prometeu não lhe fazer mal
novamente, uma vez que Davi havia poupado sua vida. Saul faz uma
pungente confissão: “[...] eis que tenho procedido como um louco e errado
excessivamente” (1Samuel 26:21b). Robert Chisholm diz que esta
declaração de Saul, “Pequei”, e aquela feita em 24:17 constituem as provas
mais importantes da inocência de Davi em toda a narrativa, pois juntas
formam a base para a defesa de Davi pelo narrador. Saul acusou Davi de
traí-lo e de tramar contra ele, mas essas duas confissões desmentem essas
acusações falsas. Pela terceira vez na história, a palavra “pequei” sai da boca
de Saul. Quando confrontado por Samuel por não ter exterminado os
amalequitas, ele admitiu duas vezes que havia pecado (1Samuel 15:24:30).
Seu filho Jônatas o advertiu de que tirar a vida de Davi seria pecado
(1Samuel 19:4,5), e agora Saul reconhece que isso é verdade.8
3. Davi interpreta os acontecimentos (1Samuel 26:22-24). Davi não volta a
Saul. Era tarde demais para se restabelecer a confiança. As promessas de
Saul não eram confiáveis. Davi diz a Saul para enviar um de seus moços para
buscar sua lança, o símbolo das intenções de Saul para matar Davi. Não
sabemos se Saul mandou buscar a lança. Se de fato tivesse se arrependido,
deveria ter dito para Davi destruí-la. Davi aproveita o ensejo para recorrer à
justiça divina, uma vez que só Deus pode aplicar a vingança com justiça.
Assim como Davi tinha poupado a vida de Saul, ele esperava que Deus
poupasse sua vida e o livrasse de toda tribulação.
4. Saul reconhece a legitimidade do reinado de Davi (1Samuel 26:25a).
Diante do discurso eloquente de Davi, Saul passou a bendizer Davi e a
reconhecer seu reino vitorioso com palavras vívidas: “Bendito sejas tu, meu
filho Davi; pois grandes coisas farás e, de fato, prevalecerás”.
5. Saul e Davi seguem caminhos diferentes (1Samuel 26:25b). Essas foram
as últimas palavras de Saul dirigidas a Davi e os dois se separaram para
nunca mais se encontrarem. Cada um seguiu o seu caminho. Saul desceu a
ladeira do fracasso e mergulhou nas sombras da morte, mas Davi escalou
um caminho ascendente de glória rumo ao trono de Israel.
Duas aplicações, segundo Robert Chisholm, podem ser extraídas da
passagem em apreço:
1. Quando o cumprimento da promessa de Deus é postergado, os servos
escolhidos por Deus precisam resistir à tentação de apressar os
acontecimentos; antes, devem fazer o que é certo e esperar pelo tempo
de Deus.
2. Quando os servos de Deus sofrem opressão enquanto esperam sua
promessa se concretizar, eles devem voltar-se para o Senhor em busca
de justiça.9
1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 427. ↵
2. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2006, p. 275. ↵
3. MACLAREN, Alexander. Expositions of Holy Scripture. Vol. 17, p. 369. ↵
4. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 276. ↵
5. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 188. ↵
6. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 171. ↵
7. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 195. ↵
8. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 172. ↵
9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 174. ↵
1S
Capítulo 8
Davi, o pacificado
amuel 25 pode ser sintetizado em quatro frases:
1. A morte de um profeta.
2. A loucura de um homem.
3. A fúria de um rei.
4. A sabedoria de uma mulher.
Ao examinarmos estas quatro biografias: Samuel, Nabal, Davi e Abigail,
navegamos entre a loucura e a sensatez.
A morte de Samuel
A morte e o sepultamento de Samuel são registrados sem nenhum aparato
em 1Samuel 25:1. Era o fim de uma era, o epílogo do reinado de Saul e o
alvorecer da ascensão de Davi. Samuel foi o maior líder de Israel depois do
comandante Josué, sucessor de Moisés. Sua morte selou uma transição
decisiva no governo divinamente designado de Israel, dos juízes capacitados
pelo Espírito para as dinastias reais.1
Samuel foi o último e o maior de todos os juízes de Israel. Também foi o
fundador da escola de profetas, cabendo a ele ungir Saul e Davi, os dois
primeiros reis de Israel. A passagem de 1Samuel 24 se conclui com Saul
admitindo Davi: “Tenho certeza de que serás rei e de que o reino de Israel
há de ser firme na tua mão (1Samuel 24:20). Somente depois disso lemos
“Faleceu Samuel” (1Samuel 25:1).
A loucura de Nabal
Nabal vivia em Maom. Esse fazendeiro tinha tudo para ser um homem
bem-aventurado. Ele tinha riqueza, o bom nome da família calebita, uma
linda e sábia esposa, mas não tinha caráter. Em relação ao dinheiro, Nabal
era o que Saul era em relação ao poder. Nabal vive para defender sua
propriedade e morre numa orgia, desfrutando de sua propriedade. Era um
homem egoísta, avarento, incomunicável, beberrão e farrista.
Nabal era da família de Calebe. Esse foi um grande homem, um grande
líder e um grande exemplo para sua nação. Nabal, porém, era um ramo
podre de um tronco saudável. Ele procedia de uma família piedosa, mas
desprezou sua herança e o legado recebido de sua família. Seguiu um
caminho de trevas, mesmo tendo um exemplo de luz na família. Deixou o
exemplo dos pais e enveredou-se pelos atalhos do erro.
Nabal era casado com uma mulher maravilhosa (1Samuel 25:3). Abigail
era uma mulher sensata e formosa. Era bela por fora e por dentro. Tinha
beleza e caráter, conhecimento e piedade, mas seu marido não a valorizou.
Nabal era um homem rico (1Samuel 25:2), ele tinha o privilégio de ser o
homem mais rico da sua região. Era um grande fazendeiro. Tinha três mil
ovelhas e mil cabras. Vivia no conforto e no luxo. Inobstante todos esses
privilégios, a vida desse homem foi uma verdadeira tragédia. Ele, tendo
tantos motivos para ser grato a Deus e viver feliz, estragou tudo com suas
próprias mãos. Era um homem rude na comunicação (1Samuel 25:3,17),
sendo duro e maligno em todo o seu trato. Ele era filho de Belial, e ninguém
podia falar-lhe. Era, também, um homem avarento, egoísta e ingrato
(1Samuel 25:11,14,21). Davi e seus homens protegeram os pastores de
Nabal, impedindo que os terroristas do deserto invadissem suas
propriedades e roubassem suas ovelhas. Porém, quando Davi precisou de
uma ajuda para o sustento de seus homens, Nabal negou ajuda e disparatou
os mensageiros de Davi, pagando o bem com o mal. As palavras “eu” e “meu”
ocorrem com frequência no discurso de Nabal (1Samuel 25:11). Nabal,
ainda, empilha falsas acusações contra Davi — denunciando-o como um
bandido qualquer, um desertor rebelde.
Nabal tinha mania de grandeza (1Samuel 25:36). Além de não oferecer
qualquer ajuda a Davi e seus homens, de forma egoísta, mesmo não sendo
rei, fez um banquete real em sua casa para seu próprio deleite, mas privou
Davi, que era rei, do sustento. Não apenas Nabal se via como um rei, mas
também nos lembra de um rei específico: o rei Saul. Nabal era um beberrão
(1Samuel 25:36) e sua alegria era apenas etílica, pois decorria de sua
embriaguez. Esse homem usava todos os seus bens para si mesmo,
entregando-se aos excessos da comilança e da bebedeira. Nabal festeja, à
semelhança do rei Belsazar (Daniel 5:1-31), enquanto o julgamento estava
prestes a lhe sobrevir. Esse fazendeiro fanfarrão nos lembra o homem rico
da parábola de Jesus, que “todos os dias, se regalava esplendidamente”,
enquanto se recusava a dar até mesmo as migalhas da sua mesaao pobre
Lázaro, que mendigava à sua porta (Lucas 16:19-21). A. W. Pink é
oportuno em seu alerta: “O insensato Nabal retrata vividamente o caso de
multidões ao nosso redor. A maldição da quebra da lei de Deus está sobre
eles; no entanto, festejam como se tudo estivesse bem com sua alma pela
eternidade”.2
A ingratidão, a injustiça e a avareza de Nabal pavimentaram o caminho
de seu desastre (1Samuel 25:14,21). Davi e seus seiscentos homens haviam
abençoado a Nabal protegendo seus homens e seus rebanhos (1Samuel
25:7,15,16). Haviam sido muros de proteção para seus homens e suas
ovelhas. Agora, Davi gentilmente lhe pede ajuda (1Samuel 25:8). Nabal
trata os emissários de Davi com grosseria, humilhando-os (1Samuel
25:10,11). Nabal tem prazer de denegrir a imagem das outras pessoas.
Apesar de ter recebido o bem de Davi, ele aproveita a ocasião para humilhar
Davi e jogar lama em seu rosto. Nabal é um homem ingrato. Ele paga o bem
com o mal (1Samuel 25:21). Nabal é um homem injusto. Ele disparatou,
destratou e humilhou os homens de Davi (1Samuel 25:14).
O fim de Nabal foi trágico (1Samuel 25:36-39). A notícia de que Davi
estava vindo com quatrocentos homens armados para matá-lo e eliminar os
homens de sua casa deixou-o aturdido, a ponto de sofrer um ataque do
coração. Mesmo assim, ele não se arrependeu. Então, Deus o matou. O
pecado de Nabal havia sido cometido pessoalmente contra Deus, e seu juízo
havia sido executado pessoalmente por Deus contra ele.3
Nabal colheu o que plantou. Diferentemente de Samuel (1Samuel 25:1),
ninguém chorou sua morte (1Samuel 25:38,39). Tudo aquilo que ele ajuntou
de nada lhe valeu. Ele não levou sequer uma ovelha. Ele negou dar a Davi
uma refeição, mas agora toda a sua riqueza pertence a Davi, pois este se
casou com Abigail, a viúva de Nabal. O ímpio acumula para o justo. Reter
mais do que é justo é perda de tempo. A avareza empobrece, mas a alma
generosa prosperará.
A fúria de Davi
Davi vive há vários anos como um fugitivo. Precisa fugir de um lado para o
outro, entre montes e cavernas, cidades e desertos para livrar-se das mãos de
Saul. Eles e seus seiscentos homens, com as respectivas famílias estão, agora,
em Maom, enfrentando grandes problemas de logística, sobretudo de
alimentação para tanta gente. É nessa conjuntura que Davi encontra os
servos de Nabal, um homem abastado, que possuía três mil ovelhas e mil
cabras (1Samuel 25:2). Como um bom vizinho, Davi e seus homens
protegeram os pastores de Nabal.
Davi se torna um benfeitor de Nabal (1Samuel 25:4-9,15,16). Enquanto
Davi e seus homens estiveram em Maom, foram os protetores dos servos de
Nabal, o fazendeiro mais rico da região. Naquele tempo, os invasores filisteus
e os amalequitas, terroristas do deserto, espalhavam terror na região. Porém,
Davi e seus valentes, como tutores do próximo, protegeram os pastores de
Nabal, impedindo que tivessem qualquer agravo ou falta. Davi e seus
homens fizeram bem aos servidores de Nabal, serviram de muro ao redor
deles, protegendo-os e oferecendo-lhes ampla segurança. Nas palavras de
Richard Phillips, “a propriedade de Nabal foi extraordinariamente
preservada, de modo que seu lucro aumentou”.4
Davi, porém, foi injustiçado por Nabal (1Samuel 25:10,11,14,21).
Sabendo Davi, no deserto, que Nabal tosquiava suas ovelhas e sabendo que
esse era um tempo de generosidade, enviou dez de seus homens ao
fazendeiro, com palavras elogiosas e com súplicas humildes, pedindo alguma
provisão para seus soldados. Nabal, mesmo tomando conhecimento do bem
recebido das mãos de Davi, disparatou seus mensageiros com um discurso
preconceituoso e hostil: “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos
são, hoje em dia, os servos que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu
pão, e minha água, e a carne das minhas reses que degolei para os meus
tosquiadores e o daria a homens que eu não sei donde vêm?” (1Samuel
25:10,11). Nabal pagou o bem com mal (1Samuel 25:21).
Não tardou para que o Davi benfeitor se tornasse o Davi vingador
(1Samuel 25:13,17,22,26). Quando os moços de Davi o informaram acerca
do tratamento hostil de Nabal e de sua recusa em atender ao seu pedido,
Davi ordenou que quatrocentos de seus homens cingissem a espada e
marchassem com ele para uma vingança sangrenta contra a casa de Nabal. A
intenção de Davi era fazer vingança com as próprias mãos, derramar sangue
e eliminar até ao amanhecer todos os membros do sexo masculino da casa
de Nabal. Fica patente que Davi não reagiu bem aos insultos de Nabal. Sua
decisão de eliminar a casa de Nabal assemelha-se à atitude de Saul, que
eliminou os sacerdotes de Nobe. A atitude de Davi, esperando
reconhecimento foi muito diferente da atitude de Jesus, que não revidou
ultraje com ultraje (1Pedro 2:21-23). Sobre isso, Warren Wiersbe escreve:
“Se Davi tivesse levado a cabo o que intentava, teria cometido um pecado
terrível e causado grande estrago em seu caráter e em sua carreira, mas, em
sua misericórdia, o Senhor o deteve”.5
Davi é sabiamente aconselhado por Abigail, mulher de Nabal (1Samuel
25:24-26,28-31). Sendo uma mulher prudente, Abigail ao saber da
decretação de morte sobre sua casa, prepara farta provisão e se apressa a
encontrar-se com Davi. Ao encontrá-lo, apeia do jumento e se prostra
diante dele, proferindo um dos mais sublimes discursos registrados nas
Escrituras (1Samuel 25:24-31). Ela chama a culpa para si, admite a loucura
de seu marido, presenteia Davi, exorta-o a não manchar suas mãos com o
sangue da vingança, roga perdão para sua casa e declara profeticamente que
o Senhor fará firme a casa de Davi, pois será estabelecido príncipe sobre
Israel.
Abigail se apresenta como conselheira de Davi, para livrá-lo de um crime
de sangue. Davi chegou a fazer voto de destruir a casa de Nabal (1Samuel
25:22), mas é advertido por Abigail a não reagir a Nabal, tornando-se como
ele. A prudência daquela mulher aplaca a ira de um homem furioso e de um
exército fortemente armado, evitando, assim, uma chacina sangrenta. Nas
palavras de Richard Phillips, “em vez de Davi agir como o ímpio Nabal,
Davi deveria agir como o servo do Senhor que era e, especialmente, exibir as
características graciosas daquele que é marcado e favorecido pelo Senhor”.6
A. W. Pink resume: “Abigail pediu a Davi que deixasse sua glória futura
regular suas ações presentes, de modo que, naquele dia, sua consciência não
o reprovaria por tolices anteriores”.7 O próprio Davi, ao acolher os
conselhos de Abigail, reconhece que ela é uma mulher de Deus. Assim
declara Davi: “Bendito o Senhor, Deus de Israel, que, hoje, te enviou ao meu
encontro. Bendita seja a tua prudência, e bendita sejas tu mesma, que hoje
me tolheste de derramar sangue e de que por minha própria mão me
vingasse” (1Samuel 25:32,33).
Davi é pacificado por Abigail (1Samuel 25:32-35), que com suas palavras
sábias não só edificou a sua casa, como também evitou que a casa de Davi
fosse manchada de sangue. Davi bendisse ao Senhor, Deus de Israel, por ter
enviado Abigail ao seu encontro e bendisse a prudência dela e a ela mesma,
por desviá-lo de um caminho sangrento de vingança pessoal. Davi recebeu a
provisão das mãos de Abigail, atendeu ao seu pleito e, pacificado, ordenou-a
a voltar em paz para sua casa.
Davi foi recompensado (1Samuel 25:39-42), pois a morte de Nabal,
diferente da morte de Samuel não trouxe nenhuma lágrima. Ao contrário,
Davi bendisse ao Senhor ao saber que ele estava morto e enviou
mensageiros a Abigail, revelando seu desejo de tomá-la como esposa. Aquele
que não deu sequer uma ovelha para saciar a fome de Davi agora está morto
e toda sua riqueza é transferida para Davi, pois este tomou Abigail como
esposa. Abigail, que era viúva de um fazendeiro rude, avarento e fanfarrão,
casa-se com Davi, o maior rei de Israel, saindo do anonimato para ser mãe
de príncipes. Davi recebe a riqueza de Abigail e Abigail recebe a projeção
multimilenar de Davi.
1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 403. ↵
2. PINK, A. W. A life of David. Vol. 2. 1981, p. 152. ↵
3. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p.420. ↵
4. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 405. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 273. ↵
6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 412. ↵
7. PINK, A. W. A life of David. 1981, p. 147. ↵
1S
Capítulo 9
Davi, o incrédulo
amuel 27:1-12 revela o temor de Davi e sua decisão precipitada de
fugir de Israel para buscar abrigo debaixo das asas dos filisteus. Na
contramão de todas as promessas de Deus, Davi toma seu destino nas
próprias mãos e age como um incrédulo. O pecado de Davi com Bate-Seba
mostra a sua fraqueza no período de força e poder, enquanto esse capítulo
mostra sua fraqueza em um período de ansiedade e aflição.
Por causa de seu desespero, Davi estava pronto a considerar a hipótese de
abordar os próprios inimigos que, com sucesso, havia combatido em nome
de Israel, oferecendo-lhes agora seus préstimos. Não que ele tivesse qualquer
intenção de se tornar um traidor de sua amada Judá, mas precisava dar essa
impressão a fim de tranquilizar seus aliados filisteus.
Davi tinha motivos de sobra para continuar em Israel e confiar que Deus
iria protegê-lo e suprir suas necessidades (1Samuel 25:27-31; 26:25).
O exílio político de Davi
A decisão de Davi de deixar sua terra e unir-se aos ímpios filisteus, inimigos
de Israel, ultrapassou todos os limites do bom senso e cruzou uma linha que
nunca deveria ter sido cruzada. Nas palavras de John Woodhouse, “naquele
dia Davi cruzou uma fronteira que não era apenas geográfica. Ele passou
para o outro lado”.1 Tim Chester chama a atenção para o fato de que o
exílio era a punição suprema pela infidelidade à aliança.2 Certamente o
exílio foi algo pesaroso para Davi (1Samuel 26:19,20).
Davi era conhecido pelos filisteus como o assassino do seu povo (1Samuel
21:11), mas agora ele era famoso como o fugitivo do rei de Israel, Saul.
Além disso, Davi agora apareceu com uma formidável força de combate
para aumentar a força de Aquis. Provavelmente por essas razões Davi foi
bem recebido em Gate, e seu estabelecimento na antiga cidade natal de
Golias logo teve o resultado desejado: “Avisado Saul que Davi tinha fugido
para Gate, desistiu de o perseguir” (1Samuel 27:4). Davi havia conseguido,
finalmente, se livrar das perseguições de Saul — mas a que preço?
Destacamos quatro lições aqui:
1. O coração é um mau conselheiro (1Samuel 27:1a). Davi não ouviu as
palavras sábias endereçadas a ele por meio de Samuel, Jônatas e Abigail. Não
ouviu nem mesmo as últimas palavras de Saul. Cansado de fugir e achando
que sua proteção provinha de seus próprios recursos, ausculta seu próprio
coração e, em vez de renovar sua fé nas promessas, foge para a Filístia, para
buscar abrigo político entre os inimigos de Israel. Richard Phillips esclarece
esse ponto assim:
No capítulo 23, Saul estava prestes a estender a mão e agarrar Davi
quando um ataque repentino dos filisteus fez com que o exército fosse
desviado (23:27,28). No capítulo 24, quando Saul estava caçando Davi, o
Senhor o colocou à mercê de Davi na caverna de En-Gedi. Pouco antes,
Deus fez cair um profundo sono sobre todo o exército de Saul para que
Davi pudesse entrar no acampamento e apanhar a lança de Saul. Tudo
isso era forte evidência da impotência de Saul contra a promessa de Deus
de elevar Davi ao trono. Quando Abigail interveio para afastar Davi dos
seus planos contra seu marido, Nabal, ela falou dessas coisas como sendo
de conhecimento comum: “Se um homem se levantar para te perseguir e
buscar a tua vida, então, a tua vida será atada no feixe dos que vivem com
o Senhor, teu Deus” (25:29). Como, então, Davi agora conclui “pode ser
que algum dia venha eu a perecer nas mãos de Saul”? (27:1). O capítulo
começa dizendo que Davi “disse [...] consigo mesmo”. Davi aconselhou
seu coração com palavras incrédulas, de modo que não é de admirar que
ele tenha respondido não com fé, mas com insensatez e incredulidade.3
2. A falta de fé desconfia do cuidado divino (1Samuel 27:1b). Davi, que
experimentara diversos livramentos divinos, está esgotado, como um animal
encurralado e, por um momento, imagina que não escapará de uma nova
investida de Saul. Por isso, rendendo-se à incredulidade, foge de Israel para
o território do inimigo. Repentinamente, Davi deixou de crer nas promessas
de Deus e agiu como um incrédulo. Davi já havia fugido para os filisteus no
começo da perseguição de Saul e o resultado havia sido desastroso (21:10-
15). Naquela época, Davi se salvou fingindo-se de louco. Como agora pode
pensar que encontrará segurança entre os arqui-inimigos de seu povo? Tim
Chester nessa mesma linha de pensamento escreve:
Em 1Samuel 26:10, Davi disse a Abisai que Saul poderia ser morto em
batalha; literalmente, “ser varrido”. Agora, usa a mesma palavra para se
referir a seu próprio destino: “Algum dia serei morto [varrido] por Saul”
(1Samuel 27:1). Davi parece vacilar em sua fé em que Deus por fim lhe
dará o reino. O diálogo de Davi consigo mesmo é revelador; o estado do
nosso coração é muitas vezes moldado pelo que dizemos ao nosso
coração. Aqui, o que Davi diz ao seu coração enfraquece sua confiança em
Deus, pois se opõe à palavra de Deus como à sua experiência com ele.4
É em vão que pesquisamos a Bíblia em busca de um exemplo de israelitas
buscando salvação fora da terra da promessa, recorrendo ao cuidado dos
ímpios, que não os enrede em pecado e nas maldições da desobediência.
Quando Abraão buscou refúgio no Egito, rapidamente caiu em pecado e
perigo (Gênesis 12:10-20). Ló destruiu sua família ao levá-la para Sodoma
(Gênesis 12:10-13), assim como o marido de Noemi, quando levou sua
família para Moabe no tempo da fome (Rute 1:2,3). Considerando esses
exemplos bíblicos, não podemos esperar que a fuga de Davi de Israel para a
Filístia resultasse em bênção.
Os filhos de Deus devem ter o cuidado de não se entregar ao desalento.
Moisés ficou desanimado com o peso de seu trabalho e quis morrer
(Números 11:15), e Elias fugiu do dever por causa do medo e do desânimo
(1Reis 19). Quando começamos a olhar para Deus a partir de nossas
circunstâncias em vez de olhar para nossas circunstâncias com os olhos de
Deus, perdemos a fé, a paciência e a coragem e damos a vitória ao inimigo.5
3. Unanimidade nem sempre é sinal de que a decisão é certa (1Samuel 27:2).
Davi consegue a adesão de todos os seiscentos homens que o acompanham,
com suas respectivas famílias. Nenhuma voz discordante. Nenhuma
oposição. Todos estão alinhados com a decisão de Davi, e prontos a fugirem
de Israel, ainda que para o território filisteu. É claro que Davi tem
preocupações com sua família e com as famílias de seus valentes. A
prudência lhe mostrava que não tinha mais lugares seguros nos desertos e
nas cavernas para se esconder de Saul e de seus asseclas. A fé não requer
fanatismo suicida, porém os fins não justificam os meios. Ao passar para o
lado dos filisteus, Davi acabou cruzando uma linha divisória que
comprometeu sua honra e sua fé.
4. O término das perseguições de Saul não significa o fim dos problemas de Davi
(1Samuel 27:4). Quando Saul ouviu que Davi havia fugido para Gate,
desistiu de o perseguir. Contudo, outros problemas surgiram no caminho de
Davi. Nas palavras do apóstolo Paulo:
Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os
principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso,
contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Efésios 6:12).
Richard Phillips afirma que Davi cruzou a linha da deslealdade quando
partiu de Israel para Gate. Por isso, não lemos sobre orações a Deus pedindo
sabedoria, nem sobre consulta à Palavra de Deus, nem pedido de conselho a
amigos piedosos.6
O controle de Ziclague
Não há sequer a menção do nome de Deus no capítulo 27 de 1Samuel. Davi
está articulando e tramando o tempo todo. Ao chegar em Gate, mesmo
desfrutando da hospitalidade do rei Aquis, percebe que não pode ficar no
centro nevrálgico do poder filisteu sem ser desmascarado. Sua intenção não
era virar de lado, abandonar seus projetos e aliar-se aos inimigosde Israel.
ele não tinha qualquer intenção de trair seu povo nem mesmo de tramar a
morte de Saul. Seu propósito é continuar lutando as guerras do Senhor, mas
para isso, precisará dissimular, disfarçar-se, enganar e mentir. Davi precisará
negociar princípios e valores. Sua ética ficará abalada, seu caráter ficará
manchado e sua imagem, arranhada.
Destacaremos aqui alguns pontos:
1. Um pedido estratégico (1Samuel 27:5). O pedido de Davi ao rei Aquis
tem aparência de bom senso. Ele usa de grande diplomacia ao elaborar seu
pedido. O grupo que o acompanha gira em torno de duas mil pessoas. É
muita gente para ser cuidada sob os auspícios do rei filisteu. Davi pede uma
cidade refúgio, um quartel general, onde pudesse viver e realizar, com seus
valentes, suas incursões. Nas palavras de Joyce Baldwin, “Davi precisava de
liberdade, a fim de realizar seus próprios planos independentes, sem ser
observado muito de perto”.7
2. Uma dádiva favorável (1Samuel 27:6). Aquis lhe deu a cidade de
Ziclague, cerca de quarenta quilômetros a sudoeste de Gate, na fronteira
com a tribo de Simeão, que passou a pertencer aos reis de Judá até o tempo
em que o livro de 1Samuel foi escrito. Longe dos espiões de Aquis e sem
qualquer interferência estrangeira, Davi usou essa cidade como cabeça de
ponte para suas investidas contra os inimigos de Israel. Ziclague tinha a
vantagem de estar bem afastada do território de Saul e isolada das cinco
cidades filisteias. Sua principal desvantagem era que tendia a ser o alvo de
bandos saqueadores vindos do deserto, especialmente os amalequitas.
3. Uma temporada no exílio político (1Samuel 27:7). Ao todo, foram
dezesseis meses o tempo que Davi permaneceu na terra dos filisteus. Todo
esse tempo que Davi permaneceu em Ziclague foi suficiente para ele
estabelecer relações com israelitas que viviam no extremo sul de Judá
(1Samuel 30:26-31). Por causa de sua habilidade de ir a Aquis e voltar, o rei
filisteu jamais desconfiou de Davi.
As incursões de Davi contra os inimigos
de Israel
Davi dirigiu seus ataques contra os saqueadores que despojavam cidades,
tanto de Judá quanto da Filístia. Sua política de extermínio protegia-o de
informantes que poderiam ter dito a Aquis que Davi estava jogando dos
dois lados. Vejamos:
1. Davi ataca os inimigos de Israel (1Samuel 27:8). Davi conduz ataques
contra os inimigos tradicionais do povo de Deus (1Samuel 27:8), mas diz a
Aquis que está atacando Israel (1Samuel 27:10). Davi subia com seus
homens em ataques contra os gesuritas, os gersitas e os amalequitas, todos
inimigos de Israel que deveriam ter sido eliminados quando da conquista de
Canaã. Davi está fazendo o papel de um novo Josué, fazendo o que Saul
deixou de fazer com os amalequitas. Apesar de estar em território filisteu,
Davi cuida da agenda de um israelita. Aquis imagina que Davi está
guerreando as guerras filisteias, como um desertado de Israel. Davi, porém,
estava cumprindo a guerra santa que Saul havia sido punido por não ter
realizado (1Samuel 15:3). Aquis confiava em Davi, crendo que este estava se
afastando de seu próprio povo por lealdade aos filisteus, de quem ele parecia
ser vassalo (Deuteronômio 15:17), porém Davi ainda estava comprometido
com a agenda de Israel.
2. Davi extermina os inimigos de Israel (1Samuel 27:9). Davi em suas
incursões militares era impiedoso. Por onde passava, deixava um rastro de
mortes e rapinagem. Por meio de um genocídio sistemático, Davi foi
engenhosamente bem-sucedido em fazer seu povo prosperar, ganhando a
aprovação de Aquis e evitando a traição formal ao seu país. Matava homens
e mulheres, saqueando campos e cidades, tomando ovelhas, bois, jumentos,
camelos e vestes. Ele apresentava todo o saldo de suas conquistas a Aquis,
numa forma de prestar relatório de suas façanhas. Davi era totalmente eficaz
em eliminar seus inimigos e encobrir seus rastros.
A dissimulação de Davi
Davi torna-se um homem dissimulado. Vejamos:
1. Davi mente ao rei Aquis (1Samuel 27:10). Quando Aquis perguntou a
Davi: “Contra quem deste hoje?”, Davi dissimulou e mentiu para o rei
filisteu, afirmando que tinha atacado o Sul de Judá, e o Sul dos jerameelitas,
e o Sul dos queneus. Ele faltou com a verdade, ocultando de Aquis as suas
campanhas sangrentas contra os inimigos de Israel. Tendo se mudado para o
território filisteu e afirmado para o rei Aquis que havia matado judaítas e
queneus, Davi, na verdade, estava matando os inimigos de Israel. Embora
Davi permaneça leal a Israel e seu ardil seja bem-sucedido, sua identidade
havia sido comprometida. Aquis acreditava que Davi estava se tornando
odioso para com o povo de Israel, mas como uma raposa astuta, Davi estava
avultando sua posição enquanto enganava o rei filisteu. É conhecida a
expressão: “Crer é viver sem tramar”. Contudo, Davi continuou tramando e
usando de dissimulação. Enganou Aquis em três coisas: ao pedir uma
cidade, ao fazer referência aos ataques que seus homens realizaram e ao
declarar seu desejo de lutar as batalhas do rei.
2. Davi elimina as provas de sua mentira (1Samuel 27:11). Além de mentir
para Aquis, para eliminar possíveis provas contra si mesmo, não deixava com
vida nem homem nem mulher, para trazer informação ou denúncia a Gate.
Esse proceder enganoso fez parte da agenda de Davi todos os dias em que
viveu entre os filisteus. O lema de Davi em Ziclague saiu direto de um filme
faroeste: Homens mortos não contam histórias.
3. Davi engana ao rei Aquis (1Samuel 27:11). Aquis confiava em Davi,
imaginando que ele tinha se feito odioso para os israelitas, quando na
verdade, Davi estava consolidando sua base política e combatendo os
inimigos de Israel. Aquis, enganado pelas mentiras de Davi, resolveu
nomeá-lo seu servo para sempre. A única justificativa real para as ações de
Davi é argumentar que os fins justificam os meios. Essa, porém, não é a ética
proposta nos Salmos de Davi (Salmos 34:13,14). Não é de admirar que,
durante todo o período em que Davi passou na Filístia, nada lemos sobre
oração, adoração e ministério de sacerdotes ou Palavra de Deus. Lutando
para efetuar sua própria salvação, Davi estava comprometendo os valores
que havia protegido tão cuidadosamente em dias anteriores, dando um
exemplo que possivelmente não serviria bem ao seu povo quando finalmente
tomasse posse do seu reino.
As consequências das ações enganosas
de Davi
As ações enganosas de Davi tiveram consequências assaz perigosas para ele.
A Bíblia diz que zombar do pecado é loucura. O homem será achado pelo
seu pecado. Davi não foi capaz de lidar com as consequências imprevistas de
suas ações enganosas. Aquis concluiu que Davi havia se separado para
sempre de seu povo; portanto, merecia a sua confiança. Aquis estava se
preparando para ir à guerra e conquistar a supremacia sobre Israel. Davi se
viu acuado quando Aquis incumbiu o exército de Davi a lutar contra Saul e
encarregou Davi de ser sua principal guarda pessoal. A resposta de Davi,
visando evitar uma resposta direta, satisfez Aquis, mas deixou Davi
imaginando como sairia desse dilema.
Davi está numa sinuca de bico, em um beco sem saída. Se ele se recusar a
se juntar ao exército filisteu, suas alianças serão reveladas, e a aceitação e a
proteção de que ele usufrui desaparecerão. Se ele se juntar a Aquis, será
forçado a lutar contra seu próprio povo. Esse é um momento de suspense.
Mas, antes de qualquer resolução, o autor volta nossa atenção para Saul
(1Samuel 28:3-25). É digno de nota que foi nessa batalha que Saul e seus
filhos morreram (1Samuel 31:1-6), e foi a mão providente do Senhor que
impediu Davi e seus homens de participarem desse fatídico combate.
Destacamos aqui três lições:
1. Uma convocação alarmante (1Samuel 28:1). A dissimulação de Davi
volta-se contra ele mesmo. O que ele jamais podia esperar aconteceu, ou
seja, os filisteus declararam guerra contra Israel, reunindo todos os seus
exércitos nessa campanha militar. Aquis convoca a Davi e seus homens para
se juntarem a ele nessa batalha contra Israel. A máscara caiu. O que ele
escondeu um ano e quatro mesesnão pode mais se sustentar. Sua aparente
lealdade aos filisteus é colocada à prova. Sendo ungido para guerrear as
guerras de Israel, agora é forçado a entrar em uma peleja contra seu próprio
povo.
2. Uma resposta evasiva (1Samuel 28:2). Acuado, Davi enfrenta uma
situação ainda mais adversa que as perseguições de Saul. Nesse fogo
cruzado, Davi dá uma resposta evasiva ao rei Aquis “[...] assim saberás
quanto pode o teu servo fazer”. A única resposta adequada para Davi é o
ditado destinado a advertir os filhos contra a mentira: “Tecemos uma rede
emaranhada quando começamos a enganar”.8
3. Uma promoção desonrosa (1Samuel 28:2b). Sem nada desconfiar, Aquis
promove Davi da posição de servo permanente do rei (1Samuel 27:12) para
guarda pessoal perpétua do rei (1Samuel 28:2). Davi está preso no cipoal de
suas tramas. Robert Chisholm diz que, certo da lealdade de Davi, Aquis
promete nomeá-lo seu guarda-costas (em hebraico, “um guarda para minha
cabeça”). A essa altura, as palavras de Aquis são repletas de ironia. Davi, que
certa vez decapitou o herói de Gate e levou a cabeça dele como troféu de
guerra (1Samuel 17:51,54), agora será responsável por guardar a cabeça do
governante de Gate.9
1. WOODHOUSE, John. 1Samuel: Looking for a Leader, p. 500. ↵
2. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 196. ↵
3. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 440. ↵
4. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 195. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 278. ↵
6. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 443. ↵
7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 177. ↵
8. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 446. ↵
9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 179. ↵
D
Capítulo 10
Davi, o dissimulado
epois de o narrador descrever a consulta de Saul à pitonisa de En-
Dor, a cena do capítulo 29 volta a Davi. A notícia da guerra resume o
relato iniciado em 1Samuel 28:1,2, que foi suspenso para narrar a visita de
Saul à médium (1Samuel 28:3-25). No capítulo 27, Davi busca escapar da
impiedade de Saul, voltando-se para os filisteus. No capítulo 28, Saul busca
salvação da rejeição de Deus, procurando uma médium ocultista. No
capítulo 29, Davi é salvo dos filisteus; no capítulo 31, Saul é destruído pelos
filisteus, e Davi é salvo de seu erro pela graça de Deus.1
O disfarçado Davi entre os filisteus não passou despercebido pelos
príncipes filisteus. Embora desfrutasse de plena confiança do rei Aquis, os
príncipes filisteus não confiavam nele e tinham motivos de sobra para não
confiarem. Davi dissimulava ao passar a ideia que havia desertado Israel para
aliar-se aos filisteus, sua passagem de lado era apenas estratégica.
Algumas lições importantes devem ser observadas aqui:
Uma guerra à vista
Saul não tinha mais pique para perseguir Davi desde que este buscou abrigo
entre os filisteus. O rei não tinha pulso para comandar o seu exército,
orientação espiritual para enfrentar os dilemas do seu governo nem vigor
espiritual para manter-se de pé. Tratava-se de um homem arruinado
psicológica e espiritualmente. Deus não falava mais com ele.
É nessa conjuntura que o rei Aquis prepara um ataque avassalador às
tropas de Israel, em uma guerra crucial, acampando com seus milhares de
homens em Afeque, situada no norte de Efraim, na planície costeira,
aproximadamente sessenta e cinco quilômetros a sudoeste de Suném (28:4).
Em seguida, Aquis e seu exército marcharam para o nordeste, em direção a
Jezreel, ao norte do monte Gilboa (29:2,11).2 Purkiser diz que em Afeque
ficava a estrada principal para o Egito a partir do nordeste, uma parada no
curso para Suném e a planície do Megido, da qual eles esperavam passar
rapidamente pelo território de Israel (28:4).3
Os soldados israelitas acamparam-se, por sua vez, junto à fonte que está
em Jezreel, uma cidade no lado noroeste do monte Gilboa. A menção de
Afeque é agourenta, porque foi nessa região que os filisteus derrotaram
Israel e capturaram a arca da Aliança, depois que o sacerdote Eli morreu
(4:1-22). Essa tragédia levou o povo de Israel a clamar por um rei, à
semelhança das outras nações (8:20). Várias décadas depois, Saul, o primeiro
rei de Israel, sofreria nessa mesma região acachapante derrota, e sua vida
seria ceifada. Richard Phillips diz: “O que aconteceu em Afeque antes de
Saul se tornar rei aconteceria novamente e daria fim ao seu reinado. No fim,
o rei, “como todas as nações”, “fracassou”.4
Os filisteus eram um grupo de cinco cidades-Estado. Quando eles
lutavam, as forças dessas cinco cidades-Estado se uniam para formar um só
exército (29:1). É o que eles estão fazendo quando se reúnem em Afeque.
Uma retaguarda suspeita
Davi, apanhado pelas cordas de seu próprio pecado, tem seu disfarce
exposto, quando Aquis o convoca, juntamente com seus homens, para
engrossar as fileiras do exército filisteu. Davi estava se prestando ao papel de
guardião de Aquis, indo na retaguarda da tropa filisteia. O que parecia uma
boa medida para Aquis tornou-se uma suspeita radical dos príncipes
filisteus. Eles perceberam que a presença de Davi não era um reforço militar,
mas uma armadilha para eles. Os comandantes ficam indignados com a
presença de Davi e seus homens nas fileiras do exército filisteu e não estão
dispostos a lutar ao lado de alguém cuja principal reputação era ter matado
dezenas de milhares de filisteus.
É notório que a tentativa de Davi de resolver suas questões do seu próprio
modo em vez de esperar pelo Senhor custou-lhe um alto preço. Ao afastar-
se de sua confiança no Senhor, Davi havia feito seu futuro depender de suas
próprias qualidades. Seu problema não era apenas ter sua vida ameaçada.
Agora ele precisava ser salvo da sua aliança com os inimigos de Deus.
Durante dezesseis meses, Davi passou entre os filisteus, fazendo-os
pensarem que os estava ajudando contra Israel, quando na verdade, estava
atacando os inimigos de Israel e não causando nenhum dano ao povo de
Deus.
Esse é um dos mais negativos e desventurados episódios na vida de Davi
até esta época, pois ele está engrossando as fileiras daqueles que atacarão o
povo de Deus; está alistado no exército inimigo; está afirmando que está
disposto a lutar contra os inimigos dos filisteus, mas em seu coração deseja
exatamente o contrário disso. Isso demonstra até que ponto um filho de
Deus pode descer às profundezas da mentira quando se apoia sobre o braço
da carne, e não sobre a mão de Deus.
Ironicamente, quando aprouve a Deus livrar Davi da armadilha em que
havia caído, ele usou os filisteus como instrumento para livrar seu servo dos
próprios filisteus. Deus livrou Davi de si mesmo pelas mãos dos príncipes
filisteus. É veraz que os verdadeiros homens de Deus podem fracassar por
um momento, mas eles não se detêm nisso.
Uma convicção infundada
O rei Aquis saiu em defesa de Davi, julgando que durante os dezesseis
meses em que Davi esteve em Ziclague, estava batalhando as suas guerras,
quando na verdade Davi estava batalhando as guerras de Israel. Aquis
acreditava que Davi tinha desertado de Israel e passado para o seu lado. Essa
convicção, porém, era infundada. Ao mesmo tempo que fugia de Saul, Davi
estava lançando as bases para o seu futuro governo, combatendo com vigor,
os inimigos de Israel.
Se Davi mostrasse lealdade a Aquis, estaria lutando contra seu próprio
povo. Davi estava jogando dos dois lados. Nas palavras de Richard Phillips,
“se Davi lutasse as guerras filisteias contra Israel seria um apóstata”.5
Uma reação contundente
Os argumentos de Aquis, defendendo Davi, não convenceram os príncipes
filisteus. Ao contrário, ficaram furiosos com o rei e determinaram que Davi
fosse sumariamente dispensado de acompanhá-los na guerra contra Israel.
Os príncipes tinham a folha corrida das façanhas de Davi. Sabiam de sua
fama em Israel. Tinham a certeza de que Davi poderia se voltar contra eles,
no campo de batalha, a fim de se reconciliar com Saul. Os príncipes filisteus
usaram dois argumentos. O primeiro deles foi um apelo à prudência
(1Samuel 29:4).A última coisa que eles queriam quando fossem para a
batalha era um grupo de israelitas armados na sua retaguarda. O segundo
argumento foi baseado na história (1Samuel 29:5). Davi era um afamado
guerreiro em Israel. Seu nome estava nas paradas de sucesso, nas músicas
entoadas pelas mulheres israelitas.
Os comandantes filisteus ficaram assaz irados com Aquis, em face de sua
tamanha ingenuidade. Os príncipes não engoliram Davi. Não chegaram
nem mesmo a tratá-lo pelo nome (1Samuel 29:3). Eles perguntaram: “O
que estes hebreus fazem aqui?”. O termo “hebreus” era usado com desprezo
por parte dos filisteus. Kevin Mellish diz que provavelmente os filisteus os
viam como mercenários e vagabundos que poderiam mudar de aliança a
qualquer momento.6 Ao temerem uma traição, os comandantes filisteus
exigiram que o rei Aquis mandasse Davi de volta. Eles concluíram que o
fugitivo poderia recuperar o favor de Saul e voltar-se contra eles no calor da
batalha, mudando o curso da vitória para os israelitas (1Samuel 29:4). A
reputação de Davi como um guerreiro era bem conhecida (1Samuel 29:5).7
Uma defesa sem provas
Tim Chester diz que Aquis adoça a pílula, afirmando que considera Davi
“leal” e pessoalmente não encontrava nada culpável no israelita (1Samuel
29:6,7), mas que eles não poderiam guerrear juntos. A ironia é que Davi não
estava sendo leal. Ele tinha feito uma coisa (atacar cidades gentias) e tinha
dito a Aquis que estava fazendo outra (atacar cidades israelitas (1Samuel
27:8-12).8
Em face da reação tão vigorosa dos príncipes filisteus, Aquis chamou a
Davi para explanar as razões da dispensa. Ainda estava convencido de que a
presença de Davi e seus homens era um reforço inestimável para os filisteus
na iminente batalha. Mesmo diante das suspeitas dos príncipes,
fundamentou sua defesa, reafirmando sua convicção de que Davi tinha
mesmo desertado e passado para seu lado. Como a decisão dos príncipes era
tão forte, a contragosto, ordenou Davi voltar e voltar em paz, pois não seria
prudente gerar um conflito interno com sua liderança, no aceso da
conflagração.
É digno de nota que a única referência a Deus neste capítulo vem de um
rei filisteu (1Samuel 29:6). Tim Chester diz que, talvez você encontre
poucas referências a Deus na sua vida e talvez até mesmo poucos sinais da
atuação dele. Contudo, há grande chance de que ele esteja fazendo mais na
nossa vida do que agora conseguimos compreender.9
Uma resposta insincera
Em três ocasiões anteriores, Davi se declarou inocente com a pergunta: “O
que foi que eu fiz?” (1Samuel 17:29; 20:1; 26:18). Em todas essas ocasiões,
ele era de fato inocente das acusações feitas contra ele. Nesse caso, porém, a
pergunta é mais um elemento de sua dissimulação.10 A pergunta de Davi
não passa de um ardil.
A pergunta de Davi pode ter também o propósito de suscitar a ideia de
protesto, a fim de parecer que, de fato, ele é leal aos filisteus. Afinal, se
concordar muito prontamente com a avaliação dos príncipes filisteus, poderá
dar a impressão de que estão certos. Outrossim, Davi pode ter tido o
propósito de saber se os líderes filisteus haviam descoberto suas façanhas em
Ziclague e tomar então as devidas cautelas, fugindo com seus homens para
um lugar seguro, enquanto os filisteus lutam contra Israel.11
A resposta de Davi, evocando suas ações em território filisteu não passa
de uma defesa infundada. Se as guerras que ele travou a partir de sua base
militar em Ziclague fosse do pleno conhecimento de Aquis, ele não estaria
desfrutando da confiança do rei.
A declaração de Davi de que estava disposto a pelejar contra o povo de
Israel, os inimigos de Aquis, era uma mentira deslavada. Davi está
dissimulando. Sua boca está divorciada do seu coração. Ele fala uma coisa,
mas sente outra. Concordo com Richard Phillips quando ele escreve: “Davi
cometeu um erro clássico ao qual todos estamos inclinados: tentar levar uma
vida dupla”.12 William MacDonald corrobora, dizendo:
A resposta de Davi parece indigna de um homem de Deus. Ele lamenta
não ter a permissão de entrar na guerra contra os inimigos do rei Aquis, a
quem chama de senhor, mesmo que esses inimigos sejam o seu próprio
povo. Davi mentiu para Aquis antes e aqui, mui provavelmente, está se
esforçando para enganar os filisteus novamente.13
Tim Chester diz que Davi mantém o fingimento e simula decepção
(1Samuel 29:8), mas deve ter ficado imensamente aliviado. Ele precisava
escolher entre trair seu próprio povo e trair o seu hospedeiro filisteu no meio
de um exército filisteu fortemente armado.14
Uma dispensa pesarosa
Aquis, mais uma vez, com a voz embargada de emoção, tece os mais altos
elogios a Davi, a ponto de compará-lo a um anjo de Deus, mas ao mesmo
tempo declara que não pode agir na contramão dos príncipes filisteus, que
decisivamente não queriam Davi entre eles na peleja.
Davi é ordenado a partir com seus homens no raiar do dia. A dispensa,
embora pesarosa, era peremptória. Concordo com Antônio Neves de
Mesquita quando ele diz: “Foi providencial a recusa dos chefes filisteus, pois
assim o livraram de tremendo constrangimento: o de pelejar contra os seus
irmãos ou de ser desleal ao seu amigo filisteu”.15
Uma saída honrosa
Davi escapou do beco sem saída por divina providência. Ele seria
considerado traidor de sua pátria se tivesse acompanhado o exército filisteu.
Sua carreira estaria arruinada. Davi e seus homens se levantaram de
madrugada e partiram de volta a Ziclague, enquanto o exército filisteu
marchou resolutamente para impor a Saul e a seu exército uma acachapante
derrota. Kevin Mellish diz que o texto percorre uma longa distância aqui
para mostrar que Davi e os filisteus se dirigiram em sentidos opostos; Davi
viajou para o sul, e os filisteus foram para o norte. A nota no versículo 11
convincentemente coloca Davi longe de Jezreel, o que prova
incontestavelmente que ele não teve participação na morte de Saul.16
Richard Phillips diz que da insensata incredulidade de Davi em cruzar a
fronteira para a Filístia e da emaranhada rede de mentiras e concessões que
resultou disso, há pelos menos duas lições para nós hoje:
1. Nossa atitude de fé ou incredulidade depende, em grande parte, de
quais pensamentos cultivamos e de quais sermões pregamos ao nosso
coração (1Samuel 27:1).
2. O plano de Davi de fugir para a Filístia pode ser avaliado recorrendo-se
a Provérbios 14:12: “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao
cabo dá em caminhos de morte”. A sabedoria é sempre alcançada pela
submissão aos preceitos e fundamentos da Palavra de Deus.17
Concluo este capítulo com duas lições práticas mencionadas por Robert
Chisholm:
1. Quando a fé vacila diante da perseguição, por vezes os servos
escolhidos do Senhor comprometem sua identidade.
2. Quando a fé vacila, os servos escolhidos pelo Senhor recorrem, por
vezes, a medidas imprudentes que os colocam em situações delicadas.18
Vigiemos nosso próprio coração!
1. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 462. ↵
2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 188. ↵
3. PURKISERA, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 227. ↵
4. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 463. ↵
5. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 464. ↵
6. MELLISH Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 202. ↵
7. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 227. ↵
8. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 213. ↵
9. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 213. ↵
10. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 190. ↵
11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 190. ↵
12. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 464. ↵
13. MACDONALD, William. Believer’s Bible Commentary. 1995, p. 320. ↵
14. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 213. ↵
15. MESQUISTA, Antônio Neves. Estudo nos livros de Samuel. 1979, p. 104. ↵
16. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 204. ↵
17. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 446-448. ↵
18. CHISHOLM JR., RobertB. 1 & 2Samuel. 2017, p. 179,180. ↵
D
Capítulo 11
Davi, o homem de lágrimas
avi foi liberto providencialmente da situação mais constrangedora de
sua vida, a dispensa do exército filisteu, mas ao chegar em Ziclague
enfrenta a provação mais dura de sua jornada. Ziclague, a cidade refúgio
onde estava sua família e as famílias de seus leais soldados, havia sido
atacada pelos terroristas do deserto, os amalequitas. Esses nômades
bandoleiros tinham queimado, ferido e saqueado a cidade.
Enquanto Davi e seus homens marchavam para o norte com Aquis, os
amalequitas do sul invadiram aquela região, capturaram e queimaram
Ziclague, levando as mulheres e as crianças cativas, para submetê-las a uma
escravidão pior do que a morte.1
Os dezesseis meses que Davi passou na Filístia trouxeram-lhe muitos
problemas. Ali, entre os inimigos, sua fé arrefeceu. Precisou mentir,
dissimular e depender de seus ardis para não ser desmascarado pelos
filisteus. Depois da dispensa do exército filisteu e de três dias de jornada de
volta a Ziclague, é confrontado com a mais sombria realidade. A cidade está
fumegando. O rastro de destruição deixado pelos amalequitas deixa Davi e
seus homens atônitos. Estão enfrentando o pior dos pesadelos. Seus bens
foram roubados e suas respectivas famílias eram prisioneiras nas mãos do
inimigo. Joyce Baldwin afirma que esse foi o ápice dos ataques cruéis dos
inimigos ao longo de seu período de preparação para o trono.2
O ataque dos amalequitas
A distância entre Afeque, ao norte, e Ziclague, ao sul, não poderia ser
percorrida rapidamente. Uma jornada de três dias separava Davi dos
filisteus. Além do mais, o monte Gilboa, o cenário da última batalha de
Saul, ficava a mais de cinquenta e cinco quilômetros ao nordeste de Afeque.
Davi estava, portanto, bem distante dos filisteus e ainda mais longe da cena
da última luta de Saul. A implicação é clara: Davi não ajudou os filisteus na
batalha contra os israelitas nem teve sua mão envolvida na morte de Saul.
Essa guerra é um retrato da batalha espiritual que travamos contra as
forças espirituais do mal. Não vivemos em território pacificado. O mundo
jaz no maligno. Hordas demoníacas nos espreitam. O ataque dos
amalequitas pode ser caracterizado da seguinte forma:
1. Um ataque implacável (1Samuel 30:1). Os amalequitas, aproveitando a
ausência de Davi e de seus valentes em Ziclague, entraram na cidade e
atacaram-na com ímpeto. Foi um ataque repentino, fulminante e arrasador.
Assim também é o ataque do diabo e de suas hostes. O inimigo é maligno,
cruel e assassino. Ele vem para roubar, matar e destruir. Há muitas pessoas
arrasadas pelo ataque perverso desse inimigo cruel. Certa feita, eu estava
pregando em Vitória, capital do Espírito Santo. Enquanto pregava, uma
mulher chorava copiosamente. Ao término da mensagem, perguntei a ela o
que estava acontecendo. Respondeu-me: “O diabo destruiu a minha vida”.
“O que isso significa?”, indaguei. Ela me disse: “Eu tinha uma família. Um
dia acordei assustada com o grito de meus dois filhos. Ao pular da cama,
percebi que meu marido não estava do meu lado. Corri para a porta do
quarto dos filhos; a porta estava trancada. Bati e a porta não se abriu.
Arrombei a porta e me deparei com um quadro horrível. Meu marido estava
apunhalando os meus filhos. Quando entrei no quarto, ele enterrou a faca no
próprio peito e caiu ensanguentado sobre os corpos de meus filhos”. Com
dor na alma, ela me disse: “Pastor, eu levei toda a minha família para o
cemitério”. Há muitas pessoas que, ainda hoje, sofrem esse ataque
implacável do inimigo.
2. Um ataque desumano (1Samuel 30:1). Os amalequitas queimaram e
feriram a cidade, deixando-a completamente arrasada e deserta. Eles
queimaram edifícios e feriram pessoas. Há aqui tanto prejuízo financeiro
quanto agressão física. Há muitas pessoas hoje, de igual modo, que estão
sendo feridas pelo inimigo. Estão feridas no corpo, na mente, nas emoções,
na alma. Eu estava pregando em um congresso, em Patrocínio, Minas
Gerais, e uma jovem senhora sorridente que cuidava da recepção, depois de
ouvir minha primeira palestra, me procurou. Olhando nos meus olhos, ela
me perguntou: “Você está vendo este belo sorriso que eu tenho?”.: “Sim,
claro! É impossível não ver”, respondi. Ela então me disse: “Este sorriso é
uma mentira. Por trás deste sorriso eu escondo uma alma ferida”. Havia
muitas pessoas feridas e sangrando debaixo da fumaceira provocada pelos
amalequitas.
3. Um ataque à família (1Samuel 30:2,3,5). Os amalequitas atacaram
principalmente a família. Este é o alvo principal do inimigo. Nenhum
marido pode estar bem, sabendo que sua mulher está nas mãos do inimigo.
Nenhum pai e nenhuma mãe podem estar em paz, sabendo que seus filhos
estão prisioneiros nas mãos do inimigo. Quando a família é atingida, todas
as outras áreas da vida são afetadas. Há muitos cônjuges prisioneiros hoje.
Prisioneiros do álcool, das drogas, da pornografia, das filosofias ateístas. Há
muitos filhos nas mãos do inimigo.
4. Um conflito interno (1Samuel 30:6). Uma das artimanhas do inimigo é
provocar um estrago no arraial dos filhos de Deus e depois jogar uns contra
os outros. Os homens de Davi estão colocando a culpa desse desastre nas
costas dele, considerando-o responsável pela catástrofe. Então eles lançam
contra Davi toda a raiva e indignação reprimidas. Os aliados de Davi,
angustiados por causa de seus filhos e filhas, querem apedrejá-lo, assim
como os israelitas quiseram apedrejar Moisés antes de uma vitória sobre os
amalequitas (Êxodo 17:4). Em vez de se aliarem a Davi para enfrentarem o
inimigo, estão fazendo de Davi o inimigo. Quando transformamos aliados
em inimigos, fazemos dos inimigos aliados. É oportuno o destaque de Joyce
Baldwin: “Em vez de culpar Deus por permitir a destruição da cidade, Davi
considerou a retaliação dos amalequitas um fato da vida, em que ele poderia
lançar mão dos recursos do Senhor fiel, do Deus da aliança”.3
5. Uma celebração pela vitória (1Samuel 30:16). Os amalequitas estão
festejando a retumbante vitória alcançada sobre os filhos Deus. Estão
comendo, bebendo e farreando. O inimigo sempre celebra quando consegue
uma vantagem sobre os filhos de Deus. Isso aconteceu depois do incêndio
de Ziclague e da tomada dos despojos.
A reação de Davi
Diante das tragédias da vida, é preciso tomar uma atitude. E quais foram as
atitudes de Davi? Como ele reagiu a esse drama?
1. Davi chorou copiosamente (1Samuel 30:4). Davi havia chegado ao limite
de seus recursos. Esse golpe não foi demais apenas para Davi, mas também
foi a última gota para seus homens exaustos. Davi e seus homens desataram
a chorar e choraram até não terem mais forças para fazê-lo. Quem chora
está dizendo que algo está errado. Quem chora não se conforma com o caos.
Quem chora está deixando vazar sua dor. Davi não chora escondido, mas em
público, para todo mundo ver. É preciso chorar pela nossa família, pelos
nossos filhos.
Tim Cimbala é um reconhecido pastor batista no Brooklin, em Nova
York. Seu ministério frutífero é conhecido em todos os Estados Unidos e
fora dele. Certo dia, sua filha primogênita disse-lhe: “Papai, eu vou sair de
casa. Quero conhecer o que o mundo tem para me oferecer. Não quero mais
saber da igreja. Vou viver minha vida”. Por mais que o pai insistisse, ela saiu
de casa. Um pastor amigo telefonou para ele e disse: “Pastor, esqueça essa
menina. Ela não está nem aí para você. Toque a sua vida e o seu ministério”.
Mas quem pode esquecer-se um filho ou uma filha? O pastor Tim Cimbala
pensou até mesmo em abandonar o ministério, pois não tinha ânimo para
prosseguir.
No entanto, em uma das reuniões de oração da igreja, uma mulher se
levantou e disse: “Pastor, a nossa igreja nunca chorou pela sua filha. Nossa
igreja nunca levantou um clamor em favor de sua filha”. Naquela noite, os
crentes deram as mãos e fizeram um grande círculo de oração ao redor dos
bancos. O templo transformou-se em uma sala de parto, em um lugar de
choro, gemidos e lágrimas. Quando o pastor voltou para casa de madrugada,
disseà sua esposa: “Querida, eu não tenho dúvidas de que Deus salvou nossa
filha nesta madrugada”. Três dias depois, bem cedo, a menina bateu à porta.
Quando a mãe foi atender, ela entrou rapidamente, abraçou as pernas do pai
em lágrimas e disse-lhe: “Papai, o que aconteceu há três dias pela
madrugada? Estava dormindo, quando fui sacudida pelo poder de Deus.
Escamas caíram dos meus olhos. Eu estava embrutecida, mas Jesus quebrou
a dureza do meu coração. Papai, estou de volta para minha família, para a
minha igreja, para o meu Deus”. Jamais devemos desistir de nossos filhos.
Não geramos filhos para o cativeiro. Nossos filhos são herança de Deus. É
preciso chorar e orar por eles até vê-los aos pés do Salvador.
2. Davi se angustiou (1Samuel 30:6). Davi sentiu-se amassado como o
barro nas mãos do oleiro. Nas palavras de Warren Wiersbe, “o verbo
angustiou significa que foi espremido contra um canto, da mesma forma que
um oleiro aperta a argila dentro de um molde”.4 Sua alma foi cravejada pelas
setas da angústia ao ver a cidade queimada, os rebanhos roubados, as
mulheres cativas e os filhos e as filhas levados como escravos. Os dramas da
vida devem também nos fazer sofrer e nos angustiar. Não podemos nos
conformar com a derrota nem aceitar passivamente a decretação do fracasso
em nossa família.
3. Davi se reanimou no Senhor (1Samuel 30:6). A angústia de Davi não o
puxou para baixo, mas o levantou. Levou-o a buscar a Deus. A despeito das
circunstâncias, ele se reanimou no Senhor, seu Deus. Richard Phillips diz
que, antes de controlar seus homens, Davi tinha de controlar a si mesmo.
Seu longo surto de autoconfiança o havia levado à beira da morte, então era
hora de abandonar seu programa de salvar si mesmo. Nesse momento de
total desespero, Davi fez uma coisa muito necessária: reanimou-se no
Senhor. Se anteriormente ele havia recorrido aos seus próprios recursos,
virtualmente sem orar e sem recorrer à Palavra de Deus, agora ele se afasta
de sua própria força e se dedica ao Senhor.5
Davi se reanimou não porque era forte, não porque o inimigo era fraco,
não porque seus soldados estavam ao seu lado, não porque tinha uma
estratégia infalível; ele verdadeiramente se reanimou no Senhor, seu Deus.
Do alto vem o socorro. Não se trata aqui de autoajuda, mas da ajuda do alto.
Concordo com Tim Chester quando ele diz:
No versículo 4, Davi não tinha mais forças por causa de sua tristeza. Mas
onde a força de Davi falha, a força de Deus prevalece. [...] O resultado é que
o medo se transforma em fé e a dor se transforma em louvor.6
4. Davi consultou ao Senhor (1Samuel 30:7,8). Davi não se reanimou com
bravatas humanas, mas reanimou-se para conhecer a direção divina. Ele
buscou a Deus, e este o atendeu. Ele orou ao Senhor, e este o ouviu. A
oração que Davi fez naquela ocasião é uma das mais curtas da Bíblia.
Constitui-se apenas de duas perguntas: “Perseguirei eu o bando? Alcançá-
lo-ei?”. Deus respondeu à oração de modo favorável. Vemos aqui um
contraste entre Saul e Davi. Saul consultou ao Senhor, mas o Senhor não lhe
respondeu. Davi consultou ao Senhor, e o Senhor o atendeu. Deus não só
ordenou que Davi fosse à guerra, dando-lhe o sinal verde para o ataque, mas,
de forma inequívoca, garantiu-lhe o sucesso nesse empreendimento.
5. Davi agiu (1Samuel 30:9,10). Davi não só orou, mas também
obedeceu. Sob a ordem do Senhor para perseguir o inimigo e tomar de volta
o que ele havia levado, Davi partiu. Sua liderança reverteu a situação. Seus
soldados já não querem mais apedrejá-lo. Estão todos marchando, sob a
liderança de Davi, para triunfarem sobre o inimigo. O que Deus promete é
vitória certa, e não ausência de luta; é chegada segura, e não caminhada fácil.
Duzentos homens, de cansados e exauridos que estavam, não puderam
atravessar o ribeiro de Besor e prosseguir na batalha. Então, ficaram na base,
tomando conta da bagagem enquanto os demais prosseguiram com Davi
rumo à vitória.
6. Davi recebeu ajuda providencial (1Samuel 30:11-16). Por divina
providência, os soldados de Davi encontram um egípcio, que em virtude de
sua doença, fora abandonado pelos amalequitas para morrer no deserto. O
homem foi alimentado e reanimado pelos homens de Davi. Depois de
assegurar para si proteção e imunidade, guiou o exército de Davi até os
amalequitas. Aquele homem poderia ter morrido no deserto, mas Deus o
preservou por amor a seu servo Davi. Graças ao guia egípcio, Davi e seus
homens encontraram o acampamento dos amalequitas e, parados em algum
ponto de observação, contemplaram a festa desenfreada, que se estendia até
onde seus olhos podiam enxergar.
A vitória de Davi sobre os amalequitas
Destacamos dois pontos importantes aqui:
1. Davi venceu o inimigo (1Samuel 30:17). A vitória de Davi sobre os
amalequitas foi arrasadora. Davi os massacrou desde a alvorada do dia até a
tarde do dia seguinte. Exceto quatrocentos moços que fugiram montados
em camelos, todos os demais foram mortos. Davi então recuperou todos os
despojos e, o mais importante, resgatou as pessoas cativas. Deus mudou o
placar do jogo. Deus virou a mesa da história. A tragédia transformou-se em
triunfo. Agora a honra pertence a Davi, assim como um pouco antes ele fora
obrigado a receber a culpa. Os verbos reiteram sua bravura: Feriu-os Davi...
Davi salvou tudo... também salvou... tudo Davi tornou a trazer... também Davi
tomou todas as ovelhas e o gado.
2. Davi tomou de volta o que o inimigo levou (1Samuel 30:18-20). Vemos
aqui uma reviravolta completa. Davi salvou tudo o que os amalequitas
haviam tomado. Recuperou os bois, as ovelhas, as coisas grandes, as coisas
pequenas, e ainda salvou as mulheres, os filhos e as filhas. Nada ficou nas
mãos do inimigo. Tudo Davi tomou de volta e tornou a trazer. A vitória não
foi apenas completa, mas também lucrativa para Davi, pois tomou riquezas e
despojos dos amalequitas para si. Com essa retumbante vitória, as
peregrinações de Davi pelo deserto haviam terminado.
A conduta graciosa de Davi
A questão dos despojos domina o restante do capítulo. Vejamos:
1. O valor da cordialidade (1Samuel 30:21,22). Quando Davi chegou aos
duzentos homens cansados que ficaram na base, guardando as bagagens,
saudou-os com cordialidade, demonstrando amor e simpatia para com eles.
Contudo, alguns de seus homens, chamados de filhos de Belial, foram hostis
aos que ficaram para trás, sendo contrários à ideia de repartir com eles os
despojos de guerra. Na opinião desses homens, os que ficaram na base
deveriam apenas tomar suas mulheres e filhos e partirem. Davi, porém,
exerceu sua prerrogativa e não permitiu que a avareza desses homens
prevalecesse.
2. O reconhecimento da graça (1Samuel 30:23). Davi resistiu fortemente aos
filhos de Belial e saiu em defesa dos duzentos que tinham ficado no ribeiro
de Besor, dizendo que aqueles que haviam ficado na base tinham os mesmos
direitos daqueles que estavam na linha de frente. Aqueles que seguram as
cordas merecem o mesmo tratamento daqueles que descem ao poço. O
argumento de Davi foi baseado na graça de Deus. A vitória não tinha sido
resultado do esforço humano, mas da graça divina. Foi o Senhor quem os
guardou. Foi o Senhor quem entregou em suas mãos os amalequitas. É
digno de nota, porém, que Davi tratou os maus filhos de Belial entre os
homens de seu exército (1Samuel 30:22) com brandura, chamando-os de
“irmãos meus” (1Samuel 30:23). A graça de Deus produziu nele um espírito
conciliador e pacificador. Davi não os repreende severamente nem os insulta,
mas dirige-se a eles graciosamente como seus irmãos. Esse é o mesmo
princípio ensinado pelo apóstolo Paulo: “Não repreendas ao homem idoso;
antes, exorta-o como a pai; aos moços, como a irmãos; às mulheres idosas,
como a mães; às moças, como a irmãs, com toda pureza” (1Timóteo 5:1,2).
Matthew Henry capta o sentido dessa verdade ao escrever: “Os superiores
frequentemente perdem sua autoridade por arrogância, mas raramente por
cortesia e condescendência”.7
3. A importância da valorização de todos (1Samuel 30:24,25). Além de Davi
de ter exercido sua prerrogativade líder, ele requereu igualdade de
privilégios para todos os homens, tanto os de vanguarda quanto os que
ficaram na retaguarda, estabelecendo esse princípio como regra perpétua.
Esse princípio tornou-se a prática comum, um precedente legal. Ao fazer
isso, Davi promulgou uma regra de distribuição de despojos que faz lembrar
a legislação encontrada em Deuteronômio 20:14. Embora Davi ainda não
seja rei, já desempenha seu papel de líder imbuído de autoridade, e, com
isso, prefigura sua ascensão ao trono.
1. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 227. ↵
2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 187. ↵
3. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 187. ↵
4. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 281. ↵
5. PHILLIPS, Richard D. 1Samuel. 2016, p. 476. ↵
6. CHESTER, Tim. 1Samuel para você. 2019, p. 214. ↵
7. HENRY, Matthew. Commentary on the whole Bible. Vol. 6, p. 345. ↵
2S
Capítulo 12
Davi, o rei de Israel
amuel 2:1-32 retrata com cores vivas o caminho de Davi rumo ao
trono. No entanto, esse caminho está manchado de sangue e Davi
ainda enfrentará oposição e resistência.
Davi, ungido rei em Hebrom
O tempo de vassalagem de Davi entre os filisteus tinha terminado com a
morte de Saul. Davi não celebra a morte de Saul, mesmo sabendo que,
agora, o caminho para o trono está aberto. Ele reconhece que o tempo de
perseguição cessou e espera o tempo oportuno de Deus para subir ao trono.
Destacamos aqui quatro fatos relevantes:
1. Davi inaugura o reino, consultando ao Senhor (2Samuel 2:1). Passados os
lamentos pela morte de Saul, de seus filhos e dos soldados de Israel, Davi
consulta ao Senhor acerca de sua volta para alguma das cidades de Judá. O
Senhor não apenas lhe responde favoravelmente, como também lhe aponta a
cidade para a qual deve voltar, a cidade de Hebrom, a mais importante
cidade de Judá, onde havia morado o patriarca Abraão e onde Abraão, Sara,
Isaque, Rebeca, Lia e Jacó foram sepultados.
2. Davi sobe para Hebrom (2Samuel 2:2,3). Davi volta, então, com suas
duas mulheres e com todos os seus valentes e respectivas famílias para
Hebrom e cidades satélites.
3. Davi é ungido rei de Judá em Hebrom (2Samuel 2:4a). Ao chegar em
Hebrom, os homens de Judá vieram e ungiram Davi rei sobre a casa de Judá.
Essa é a segunda vez que Davi está sendo ungido e a primeira vez que
recebe o nome de rei.
4. Davi busca estender o reino com amável apelo aos valentes de Jabes-Gileade
(1Samuel 2:4b-7). Ao ser ungido rei da casa de Judá, Davi é informado
sobre o ato heroico dos homens de Jabes-Gileade, que, corajosamente,
tiraram os corpos profanados de Saul e de seus filhos pregados no muro de
Bete-Seã, dando-lhes um sepultamento digno. Três atitudes de Davi devem
ser destacadas aqui:
Primeira, a gratidão de Davi (2Samuel 2:5b). Davi, em um preito de
gratidão, bendiz os homens valentes de Jabes-Gileade pela maneira honrosa
como trataram os corpos de Saul e seus filhos. Esse gesto de Davi revela sua
grandeza.
Segunda, a proposta de Davi (2Samuel 2:6). Davi roga a misericórdia de
Deus sobre os homens de Jabes-Gileade e promete recompensá-los pelo
bem que fizeram à casa de Saul.
Terceira, o convite de Davi (2Samuel 2:7). Davi convida os valentes que
haviam sido fiéis a Saul para se unirem a ele, uma vez que Saul estava morto
e ele, Davi, tinha acabado de ser ungido rei sobre Judá. O narrador não deixa
claro qual foi a resposta dos moradores de Jabes-Gileade, mas, como eles
jamais se esqueceram do bem que Saul fizera a eles no passado, é provável
que tenham permanecido fiéis a Isbosete, filho de Saul e rei rival.
Abner constitui Isbosete rei sobre Israel
Abner, primo de Saul e comandante de seu exército, por interesse pessoal e
contra o projeto de Deus que havia constituído Davi como rei, opõe-se a
Davi e constitui Isbosete como rei das tribos do norte. Destacamos aqui
cinco fatos:
1. Abner se opõe ao reino de Davi, estabelecendo um rei rival (2Samuel 2:8-
11). Como Jônatas, o herdeiro do trono, morreu no campo de batalha,
Abner, capitão de exército de Saul, tomou Isbosete, filho de Saul, e o fez
passar a Maanaim e o constituiu um rei rival a Davi. Isbosete tinha quarenta
anos e reinou dois anos. Somente a casa de Judá seguia a Davi, que reinou
sete anos e seis meses em Hebrom.
2. Abner desafia o exército de Davi (2Samuel 2:12-17). Abner tinha a
maioria, mas não a promessa. Tinha o aval da maioria da população de
Israel, mas não a bênção de Deus. Sua oposição não foi apenas a Davi, mas
ao Senhor, quem constituiu Davi como rei sobre Israel.
Abner saiu com os homens de Isbosete de Maanaim até Gibeom; e Joabe,
comandante das tropas de Davi e filho de Zeruia, irmã de Davi, também
saiu com os homens de Davi e pararam perto do açude de Gibeom. Estavam
apostos os dois exércitos, um defronte do outro. Abner, então, desafia Joabe
propondo um enfrentamento de dois grupos de elite, como outrora Golias
desafiou o exército de Israel. Doze homens de cada lado travaram uma
sangrenta peleja e o resultado foi um empate, com a morte de todos os vinte
e quatro soldados. Por isso, o nome do local foi batizado de “Campo das
Espadas”. Esse embate sangrento não fez cessar a guerra, pelo contrário,
seguiu-se crua peleja naquele dia, sendo Abner e os homens de Israel
derrotados diante dos homens de Davi.
3. Abner mata Asael, sobrinho de Davi (2Samuel 2:18-23). Os três filhos de
Zeruia, Joabe, Abisai e Asael, estavam no campo de batalha. O mais jovem,
Asael era ligeiro de pés, como uma gazela selvagem. Este, por ordem de
Joabe ou por conta própria, perseguiu Abner com determinação inabalável.
Asael tinha velocidade, mas Abner tinha a experiência. Asael tinha a
agilidade dos pés, mas Abner tinha a agilidade da espada. Abner por duas
vezes tentou demover Asael de acossá-lo, no que não logrou êxito. Abner
sabia que ao matar Asael teria de encarar a face de Joabe, comandante das
tropas de Davi. Ele sabia que isso abriria uma ferida incurável e alimentaria
uma guerra. Quando Abner viu que não conseguia convencer Asael, parou
repentinamente com sua espada apontada para Asael que, sem conseguir
parar, foi atravessado pela espada de Abner e caiu morto.
4. Abner pede uma trégua na batalha (2Samuel 2:24-30). Longe se serem
intimidados pela morte de Asael, Joabe e Abisai continuaram a perseguição.
Os filhos de Benjamim, porém, ajuntaram-se atrás de Abner e, cerrados em
uma tropa, puseram-se no cume de um monte. Abner do topo do outeiro
gritou a Joabe, propondo uma trégua na guerra sangrenta. Joabe atendeu ao
pedido de Abner, tocou a trombeta e a peleja cessou. Abner voltou com seus
homens para Maanaim, e Joabe retornou a Hebrom, passando antes por
Belém, onde sepultou seu irmão Asael.
5. Abner é derrotado pelo exército de Davi (2Samuel 2:31-3:1). A guerra
proposta por Abner custou-lhe um alto preço. Mais tarde, Joabe matou
Abner, vingando seu irmão. Enquanto apenas vinte homens de Davi,
incluindo Asael, morreram no combate (2Samuel 2:30), trezentos e sessenta
homens de Abner morreram no campo de batalha. A guerra entre a casa de
Saul e a casa de Davi durou muito tempo, porém Davi se ia fortalecendo,
enquanto os da casa de Saul se iam enfraquecendo (2Samuel 3:1). Dale
Ralph Davis tem razão em dizer que Abner não está longe de cada um de
nós. Nós temos a mesma natureza de Abner. A estupidez do pecado de
Abner também habita em nós. É possível conhecer a verdade e não a
abraçar. É possível saber a verdade e atacá-la.1
Isbosete se indispõe com Abner
Vale destacar que enquanto oficialmente servia a Isbosete, Abner fortalecia
sua própria posição política, uma vez que via a balança pendendo para o lado
da família de Davi. A desavença entre Isbosete e Abner trouxe vantagem e
dividendos políticos a Davi. Destacamos aqui dois fatos:
1. A acusação de Isbosete (2Samuel 3:6,7). Abner, o comandante da casa de
Isbosete, é mais forte do que o rei. Na verdade, como bem destaca Purkiser:
“O domínio por trásdo trono de Isbosete era o seu comandante militar
Abner”.2 Tentando se fortalecer, o jovem rei, de forma insensata, acusa
Abner de ter se deitado com Rispa, concubina de Saul, seu pai. Esse não era
apenas um ato de infidelidade conjugal, mas sobretudo, um ato político.
Deitar-se com a mulher ou concubina de um rei sinalizava o maior gesto de
conspiração para tomar-lhe a coroa e assumir o reino. A acusação de
Isbosete era equivalente a dizer que Abner havia cometido um crime de
traição à pátria. O narrador não esclarece se Abner era culpado dessa
acusação. A julgar pela sua reação, ele parecia ser era inocente. Por essa
causa, esse fato ensejou que Abner abandonasse as fileiras de Isbosete,
procurando fazer aliança com Davi. Nas palavras de Kevin Mellish, “a
ingratidão de Isbosete, juntamente com sua pergunta acusadora, provou ser a
última gota para Abner”.3
2. A indignação de Abner (2Samuel 3:8-11). Abner ficou muito indignado
com a acusação de Isbosete e insinuou que o rei das tribos do Norte devia
sua posição à lealdade dele à casa de Saul. Abner sentiu-se desvalorizado
pelo fraco rei e aproveitou o momento para desertar de sua casa,
prometendo usar o mesmo empenho que usara para defender a casa de Saul
para transferir o reino da casa de Saul e estabelecer o trono de Davi sobre
Israel e Judá, desde Dã, ao norte, até Berseba, ao sul. Como represália, Abner
transferiu sua lealdade da casa de Saul para a de Davi, cumprindo assim o
que jurou o Senhor a Davi. O mesmo Abner que se opusera ao propósito
revelado de Deus, agora vê-se engajado nesse propósito. Isbosete não pôde
dizer nada a Abner, pois tinha medo dele. Na verdade, sem o apoio de
Abner, Isbosete torna-se um mero fantoche, incapaz de se opor ao seu
general.
Abner faz aliança com Davi
Robert Chisholm diz que Abner é mais um entre outros personagens da
narrativa que reconheceram o destino de Davi como rei (2Samuel 3:18), ao
lado de Jônatas (1Samuel 23:17), Saul (1Samuel 24:20) e Abigail
(1Coríntios 25:28-30).4 Concordo, entretanto, com Dale Ralph Davis ele
quando diz que Abner não toma essa decisão governado por convicções
teológicas, mas sim por interesses políticos. Ele não procura expandir o
reino de Davi porque sente a autoridade das promessas do Senhor; na
verdade, ele procura vantagem própria.5 Usando sua influência para negociar
a união das tribos do norte a Davi, Abner sairia dessa aliança fortalecido.
Não era o amor ao Senhor que o motivava, mas sua própria posição dentro
do crescente governo de Davi.
Abner, estrategicamente, ficou do lado do vencedor. Deixou as fileiras do
rei Isbosete parar engrossar as fileiras do rei Davi. Vejamos:
1. Abner propõe fazer aliança com Davi (2Samuel 3:12). Abner enviou
mensageiros a Davi para propor uma aliança com ele e prometer ajudá-lo no
ajuntamento de todo o Israel sob o seu reinado, desde o Norte até ao Sul.
Davi aceita a proposta da aliança de Abner e estabelece uma condição
(2Samuel 3:13-16). Ele quer de volta Mical, sua mulher, filha de Saul, pela
qual havia lutado (1Samuel 18:27). O propósito de Davi não é romântico,
mas político. Davi quer, com sua mulher de volta, fortalecer seu vínculo com
a casa de Saul e reivindicar legitimamente o reino. Essa foi uma manobra
política sagaz de Davi, pois a presença da filha de Saul como sua esposa o
colocaria em uma posição bastante forte para postular o trono de Saul junto
às tribos do norte.
2. Abner cumpriu o trato com Davi e reuniu os anciãos de Israel, trazendo à
memória deles três razões pelas quais deveriam apoiar o governo de Davi. A
primeira razão é que já havia um desejo dos anciãos de Israel que Davi
reinasse sobre eles (2Samuel 3:17b). A segunda razão é que o motivo pelo
qual Saul foi constituído rei, ou seja, libertar Israel do poder dos filisteus e
de seus demais inimigos havia fracassado rotundamente. No entanto, sob o
governo de Davi, os filisteus e os demais inimigos de Israel seriam
completamente derrotados (2Samuel 3:18). A terceira razão é que Abner,
estrategicamente, falou em particular à tribo de Benjamim, à qual Saul
pertencia, demonstrando habilidade diplomática (2Samuel 3:19).
Tendo obtido um acordo unânime, Abner estava pronto a ir ao encontro
de Davi. Abner e uma delegação de mais vinte de seus homens foram a
Hebrom falar com Davi e foram recebidos com fidalguia. Davi ofereceu-lhes
hospitalidade régia, preparando-lhes um banquete. Abner, como um líder
catalizador, declarou: “Eu me levantarei e irei ajuntar todo o Israel ao rei,
meu senhor, para fazerem aliança com o rei. E, meu senhor, reinará sobre
tudo o que quiser” (2Samuel 3:21a). É digno de nota que, nesse mesmo
capítulo, Davi será chamado “o rei” em outras oito ocasiões; sete delas pelo
narrador (2Samuel 3:24,31-33,36-38); no versículo 23, “o rei” aparece em
uma citação indireta. O rei Davi, convencido então da lealdade de Abner,
deixou que partisse em paz e segurança (2Samuel 3:21b).
Abner é assassinado por Joabe
Alguns membros da corte, no entanto, ficaram insatisfeitos com a aliança de
Davi com Abner. Surgiu, então, um grupo de oposição liderado por Joabe.
Ele não apenas buscava vingança contra Abner, eliminando um possível
concorrente, mas também defendia sua liderança e posição como o homem
mais forte do reino de Davi. A calorosa e amigável recepção de Abner e sua
comitiva em Hebrom aconteceu quando Joabe e os servos de Davi vieram de
uma investida trazendo consigo grande despojo. Quando Joabe chegou com
toda a tropa e soube do tratamento real com que Abner fora recebido, tendo
em seguida partido em paz, foi falar com o rei Davi, reprovando sua atitude
e advertindo-o de que Abner havia vindo para enganá-lo, para bisbilhotar
seus movimentos e sondar seus planos. Joabe tacitamente acusa Davi de
ingênuo e simplório.
Sem que Davi soubesse, traiçoeiramente, Joabe enviou mensageiros atrás
de Abner e eles o trouxeram de volta a Hebrom. Então, Joabe o levou para
um lado, no interior do portão da cidade, para lhe falar em segredo, e ali
covardemente o feriu no abdômen e o matou a sangue frio.
Ao tomar conhecimento da morte covarde e traiçoeira de Abner pelas
mãos de Joabe e Abisai, Davi proclama a própria inocência e a inocência de
seu reino diante do Senhor, para sempre, do sangue de Abner, filho de Ner
(2Samuel 3:28). Após essa declaração pública de inocência, Davi amaldiçoa
a Joabe e sua família, com as seguintes palavras: “Que este sangue caia sobre
a cabeça de Joabe e sobre toda a casa de seu pai! Que nunca falte na casa de
Joabe quem tenha corrimento, quem seja leproso, quem se apoie em muleta,
quem caia à espada, quem necessite de pão” (2Samuel 3:29). Joyce Baldwin
esclarece:
A maldição que Davi invoca sobre a casa de Joabe, bem como sobre o
próprio Joabe, é assustadora: quem tenha fluxo estaria perpetuamente
impuro e, portanto, proibido de adorar (Levítico 15:2), como também
aconteceria com o leproso. “Homens que trabalhem na roca” (BJ) implica
uma deficiência física que exigia uma ocupação sedentária (veja BLH; cf.
quem se apoie em muleta, ARA). Essas cinco aflições seriam sinais do justo
juízo do Senhor sobre o ato de Joabe, e as gerações futuras observariam
como a maldição se cumpriu.6
Davi assume o posto de chefe da nação e com autoridade ordena Joabe, o
próprio assassino, e a todo o povo, a rasgar suas roupas, a vestirem-se de
pano de saco e a lamentarem a morte de Abner. Nas palavras de Joyce
Baldwin, “Davi colocou Joabe no seu devido lugar ao lhe dar ordens para
que participasse do luto oficial por Abner”.7
Durante o cortejo fúnebre, o próprio Davi ia seguindo o caixão. Abner foi
sepultado em Hebrom. No funeral desse grande comandante, Davi e todo o
povo choraram. Davi, dirigindo-se a seus servos, reafirmou seu grande
apreço por Abner com palavras lapidares: “Saibam que hoje caiu em Israel
um príncipe e um grande homem” (2Samuel 3:38). E acrescentou: “Hoje sou
fraco, embora ungido rei. Esses homens, os filhos de Zeruia, são mais fortes
do que eu. Que o Senhor retribua ao que fez esse mal como ele merece”
(2Samuel 3:39).
A mortede Abner abalou Isbosete e todo o seu reino. Se com Abner vivo,
a casa de Saul ia se enfraquecendo e a casa de Davi se fortalecendo, com
Abner morto, não havia qualquer esperança de se virar esse placar. Nas
palavras de Joyce Baldwin, “assim que Abner morreu, acabou rapidamente o
fim da resistência ao domínio de Davi”.8 Ronald Youngblood corrobora: “A
morte de Abner deixou um vácuo de poder nas tribos do norte”.9
Na verdade, Isbosete era apenas um fantoche. Por trás da pompa real,
quem governava era Abner. Ele era o homem forte das tribos do norte. Sem
ele, Isbosete não tinha liderança, nem força, nem estratégia para enfrentar
Davi e seu exército. As mãos de Isbosete se afrouxaram, o ânimo do povo de
Israel se abateu e entrou em colapso.
A morte de Isbosete
Não tardou para que Isbosete fosse assassinado pelos benjamitas Baaná e
Recabe, dois capitães de sua tropa. Com a morte de Isbosete, o último
descendente da dinastia de Saul, Mefibosete, filho de Jônatas, era jovem
demais e aleijado de ambos os pés, e, portanto, um candidato improvável ao
trono. Sua idade e suas incapacidades físicas o impediam de ir à guerra e de
ser um candidato apto ao trono.
O caminho para o trono está aberto e não foi aberto por Davi. A morte
de Saul, Abner e Isbosete aconteceu à margem do conhecimento e da
participação de Davi. Aliás, ele penalizou a todos quantos estiveram
envolvidos nesses crimes hediondos.
Davi é ungido rei sobre Israel
Depois de sete anos e meio de reinado em Hebrom, sobre Judá, agora Davi
ascende ao trono de Israel, como rei sobre todas as tribos de Israel. Não foi
Davi quem foi às tribos do Norte, mas todas elas vieram a ele em Hebrom.
As tribos do norte, provavelmente, por intermédio dos anciãos, seus
legítimos representantes, vieram a Hebrom e aceitaram as condições da
aliança de Davi e o ungiram rei sobre Israel. Eles usaram três argumentos
para se submeterem a Davi como rei: (1) os laços de parentesco são fortes.
Esse é o argumento do relacionamento (Deuteronômio 17:15). Eles
disseram: “Somos do mesmo povo que és tu” (2Samuel 5:1). Assim, eles
estão declarando os laços comuns de nacionalidade e parentesco; (2) Davi já
havia se revelado um líder militar sob as ordens de Saul. Aqui o argumento é
liderança. Disseram: “sendo Saul ainda rei sobre nós, eras tu que fazias
entradas e saídas militares em Israel” (2Samuel 5:2); (3) Davi contava com a
aprovação de Deus. Aqui, o argumento é a promessa de Deus. Citaram para
Davi o que o Senhor havia lhe dito: “Tu apascentarás o meu povo Israel e
serás chefe sobre Israel” (2Samuel 5:2b).
Assim, todos os anciãos de Israel vieram a ter com o rei Davi em
Hebrom, e o rei Davi fez com eles aliança. A aliança foi estabelecida com
base no modelo do “pastor”, que resguardava contra a opressão comumente
associada à monarquia (1Samuel 8:10-18), mas da parte do povo assegurava
seu apoio leal. É digno de nota que Davi era da tribo de Judá (Gênesis
49:10), nascido e criado em Belém. Graças a isso, pôde fundar a dinastia que
trouxe ao mundo Jesus Cristo, o Messias, que também nasceu em Belém.10
Firmada a aliança entre Davi e os anciãos de Israel, ele passaria a ser o rei
sobre todas as tribos de Israel. Como ato simbólico, ungiram Davi rei sobre
Israel. Essa é, na verdade, a terceira vez que Davi é ungido rei de Israel
(2Samuel 5:3b). A primeira unção deu-se em Belém, quando o profeta
Samuel ungiu Davi em lugar de Saul (1Samuel 16:1,13). A segunda unção
ocorreu em Hebrom, pelos homens de Judá (2Samuel 2:4). A primeira
unção não levou Davi ao trono, mas matriculou-o na escola do
quebrantamento; a segunda unção, ocorreu no início de uma guerra civil,
quando Davi reinou apenas sobre a tribo de Judá; mas a terceira unção
ocorre quando Davi assume o trono sobre todo Israel. A terceira unção de
Davi marcou o fim de uma longa e paciente espera do tempo do Senhor,
bem como o início do trabalho que absorveria a vida de Davi e para o qual
fora ungido muitos anos antes (1Samuel 16:6-13).
Davi, como símbolo de Cristo, começa a reinar com trinta anos (a mesma
idade com que Jesus deu início ao seu ministério). Reinou sete anos e meio
em Hebrom e trinta e três anos em Jerusalém, perfazendo um período de
quarenta anos.
A conquista de Jerusalém
Na conquista inicial da terra, os homens de Judá derrotaram e queimaram
Jerusalém ( Juízes 1:8), mas nem os judaítas, nem os benjamitas conseguiram
assumir o controle total da cidade ( Josué 15:63; Juízes 1:21). Os jebuseus,
povo cananeu que os israelitas deveriam ter destruído (Deuteronômio 7:1,2;
20:17), permaneceram entrincheirados na cidade, certos de que ninguém
conseguiria tomar deles sua posição altamente fortificada. A conquista de
Jerusalém e a derrota dos jebuseus são um marco importante no
cumprimento da promessa divina feita a Abraão (Gênesis 15:18-21). Mais
de oitocentos anos se passaram desde os dias de Abraão até Davi, mas a
promessa de Deus não falhou. O tempo não pode caducar as promessas de
Deus. De fato, pertencemos a um reino inabalável (Hebreus 12:28).
Ninguém pode anular as promessas de Deus, nem qualquer inimigo pode
sabotá-las. Nas palavras de Dale Ralph Davis, “as promessas de Deus podem
ser antigas ou atacadas, mas jamais falham”.11
Aclamado como rei sobre todas as tribos de Israel, o primeiro ato de Davi
foi um golpe de engenhosidade política, tomar a cidade de Jerusalém e fazê-
la capital de Israel. Essa cidade dos jebuseus nunca tinha sido
completamente conquistada. Era uma cidade estratégica tanto geográfica
quanto simbolicamente. Robert Chisholm diz que escolher Jerusalém para
ser a capital faz sentido em termos políticos, pois a cidade fica perto da
fronteira entre Benjamim (a tribo de Saul) e Judá (a tribo de Davi), ou seja,
entre o norte e o sul da Judá.12Joyce Baldwin ainda acrescenta, dizendo que
na qualidade de “cidade de Davi”, Jerusalém transcendia as rivalidades
tribais e, portanto, tornou possível um novo conceito de unidade quando se
tornou a capital, servindo de centro para onde convergiam as atenções.
Depois de conquista a fortaleza dos jebuseus, Davi renomeou a cidade de
Jerusalém, que passou a ser chamada de “cidade de Davi”. Essa cidade foi
coroada de importância, pois “Deus está no meio dela: jamais será abalada
[...]” (Salmos 46:5). O poder de Davi ia se consolidando rapidamente. E a
razão mais eloquente para esse progresso não era tanto a destreza militar de
Davi, mas a presença do Senhor, o Deus dos Exércitos com ele (2Samuel
5:10).
Hirão, rei de Tiro, capital da Fenícia, reconhecendo o reinado de Davi,
deu-lhe todo suporte para a construção do palácio real em Jerusalém,
enviando madeira nobre, pedreiros e carpinteiros. O relacionamento político
de Hirão com a casa de Davi se estendeu até o reinado de Salomão, de
modo que este recebeu daquele recursos materiais e funcionários
qualificados para o projeto da construção do templo.
O harém de Davi
Além das várias mulheres de Hebrom (2Samuel 3:2-5), Davi tomou mais
concubinas e mulheres em Jerusalém. Davi usou esses casamentos para
apoiar e solidificar sua própria posição na capital, seguindo não a orientação
divina (Deuteronômio 17:17), mas imitando o estilo dos monarcas orientais.
O número de filhos de Davi (2Samuel 5:14-16) indica sua força e poder,
mas o número de suas concubinas e esposas revela sua tolice e estupidez.
Com essa prática, ele estava em direta violação às prescrições divinas para o
rei pactual (Deuteronômio 17:17). Sua prática foi controlada pela cultura
humana, e não pela lei de Deus.
Desses casamentos, nasceram-lhe filhos e filhas: Samua, Sobabe, Natã,
Salomão, Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada e Elifelete. A maioria
dos filhos que compõe esta lista tem pouca consequência na história de Davi
e na sucessão do reino. Somente Salomão ficaria envolvido na luta pelo
trono de Davi.
Warren Wiersbe lista as esposas e os filhos de Davi:
As Escrituras apresentam quatro listas dos filhos de Davi, que nasceram
enquanto ele reinou em Hebrom (2Samuel 3:2-5) e depois que se mudou
para Jerusalém (2Samuel5:13-16; 1Crônicas 3:1-9; 14:4-7). Sua primeira
esposa foi Mical, filha de Saul (1Samuel 18:27), que não teve filhos
(2Samuel 6:3). Em Hebrom, Ainoã, de Jezreel, deu à luz Amnon, o
primogênito de Davi (2Samuel 3:2); Abigail, a viúva de Nabal, deu à luz
Quiliabe ou Daniel (2Samuel 3:3); da princesa Maaca, nasceu Absalão
(2Samuel 3:3) e sua irmã, Tamar (2Samuel 13:1); Hagite deu à luz
Adonias (2Samuel 3:4); de Abigail nasceu Sefatias (2Samuel 3:4); e Eglá
deu à luz Itreão (2Samuel 3:5). Em Jerusalém, Bate-Seba teve quatro
filhos com Davi (1Crônicas 3:5): Simeia (ou Samá), Sobabe, Natã e
Salomão. Suas outras esposas, cujos nomes não são mencionados
(1Crônicas 3:6-9), deram à luz Ibar, Elisama, Elifelete (ou Elpelete),
Nogá, Nefeque, Jafia, Elisama, Eliada ou Beeliada (1Crônicas 14:7).13
A vitória de Davi sobre os filisteus
Depois de mencionar a aprovação do reinado de Davi e o reconhecimento
internacional de seu governo, o narrador descreve as duas vitórias
retumbantes e definitivas de Davi sobre os filisteus. Davi que fora vassalo de
Aquis, rei filisteu, agora está no poder das tribos de Israel. Assim que Davi
foi proclamado rei sobre todo Israel, os filisteus deixaram de tolerar suas
façanhas e passaram a vê-lo como uma séria ameaça a seu poder.
Na primeira investida dos filisteus contra Davi, sentindo-se ameaçados,
subiram para prender Davi, mas ele desceu à fortaleza. Os filisteus se
estenderam pelo vale dos Refains. Então Davi consultou ao Senhor: “Subirei
contra os filisteus? Entregar-mos-ás nas mãos?” (2Samuel 5:19a). O Senhor
lhe respondeu: “Sobe, porque, certamente, entregarei os filisteus nas tuas
mãos” (2Samuel 5:19b). Davi veio a Baal-Perazim e ali os derrotou. O nome
do local, Baal-Perazim, que significa “Senhor da invasão”, celebra o fato de
que Davi conseguiu invadir as linhas inimigas de forma tão decisiva que,
para ele, era como se o Senhor tivesse irrompido por aquelas linhas à sua
frente, “como quem rompe as águas”. A vitória foi do próprio Deus. O
Senhor revelou não apenas sua direção na batalha, mas também demonstrou
seu poder. Ao fugirem, os filisteus deixaram lá os seus ídolos; e Davi e seus
homens os levaram. O fato de que os filisteus abandonaram seus ídolos
também indica que eles eram impotentes para auxiliá-los na batalha contra
o Deus de Davi. Davi inverte a situação de Israel e humilha seus inimigos ao
levar embora seus supostos deuses. Há semelhança com uma derrota
humilhante anterior, quando os filisteus levaram embora a arca como troféu
de guerra (1Samuel 4:11).
A segunda investida dos filisteus ocorreu quando eles subiram e se
estenderam pelo vale dos Refains. Davi não confiou que a estratégia que
Deus lhe dera na vez anterior daria certo em uma segunda oportunidade,
nem confiou em sua própria capacidade, mas voltou a consultar ao Senhor. o
Senhor não o autorizou a subir contra os filisteus, mas lhe deu uma nova
estratégia. Dessa vez, Davi não deveria lutar com o inimigo de frente. Ao
invés disso, deveria fazer um ataque de surpresa pela retaguarda, o que teria
a vantagem de bloquear o caminho de fuga dos filisteus. Mais uma vez, a
vitória foi sobrenatural, ao ouvir um estrondo de marcha pelas copas das
amoreiras, Davi haveria de apressar-se porque o Senhor é quem sairia diante
dele, ferindo o arraial dos filisteus. Assim fez Davi como o Senhor lhe
ordenara. O resultado foi uma vitória retumbante. Deus feriu os filisteus
desde Geba até chegar a Gezer. O estrondo da marcha divina é um eco de
Juízes 5:4, em que Débora e Baraque, na comemoração da vitória do Senhor
sobre os cananeus, o descrevem marchando a partir de Edom para guerrear.
Os filisteus não fizeram nenhuma outra tentativa de atrapalhar a ascensão
de Davi. Essa batalha foi tão decisiva que, a partir de então, os filisteus
deixaram de constituir uma séria ameaça a Israel. A eliminação da ameaça
filisteia foi uma das grandes realizações de Davi, algo que Saul nunca
conseguiu concretizar (1Samuel 9:16).
1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 42. ↵
2. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 234. ↵
3. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 231. ↵
4. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 201,202. ↵
5. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 43. ↵
6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 216. ↵
7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 216. ↵
8. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 217. ↵
9. YOUNGBLOOD, Ronald F. 2Samuel. In: Zondervan NIV Bible Commentary, p. 441.
↵
10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 308. ↵
11. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 64. ↵
12. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 208. ↵
13. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 310. ↵
O
Capítulo 13
Davi, o adorador
capítulo 6 de 2Samuel retrata Davi como adorador e retoma a
história da arca que se encontra em 1Samuel 4:1-7:1. Há aqui uma
grande lacuna de tempo, porém Davi constrói uma ponte sobre essa lacuna,
desejando que Jerusalém fosse não só a sua capital militar e política, mas,
também, o centro religioso da nação.
Davi consolida seu reino, vence seus inimigos e recebe ajuda de seus
aliados. As tribos de Israel fazem aliança com ele e a nação prospera a olhos
vistos. Então, Davi toma a decisão de trazer a arca da aliança para Jerusalém.
A arca era mais do que uma caixa de madeira revestida de ouro, abrigando
em seu seio hospitaleiro as tábuas da lei, o vaso com maná e a vara seca de
Arão que floresceu. A arca era um símbolo da presença de Deus, onde a
glória de Deus se manifestava. A arca era um objeto sagrado que apontava
para Cristo, o Deus Emanuel.
O anseio pela presença de Deus em Jerusalém levou Davi a fazer uma
grande expedição para buscar a arca. Riquezas, reconhecimento, poder e
prosperidade não eram substitutos da presença de Deus. Mais do que coisas,
Davi ansiava pela presença de Deus. Mais do que bênçãos, Davi desejava o
abençoador.
Davi transformou a velha fortaleza jebuseia no local onde o Deus único se
agradou em se fazer conhecer, o centro da terra, o lugar de seu trono, o elo
entre a terra e o céu. A arca é um símbolo de Cristo. Este preenche todos os
significados da arca. Ele é o Profeta que veio revelar-nos Deus. Ele é
resplendor da glória e a expressão exata do ser de Deus. Nele habita
corporalmente toda a plenitude da divindade. Ele é a presença de Deus
entre nós, o Deus Emanuel. Ele é o Sumo Sacerdote que ofereceu a si
mesmo como oferta perfeita pelo nosso pecado. Ele veio para nos reconciliar
com Deus. Ele é Rei dos reis e o Senhor dos senhores que governa a vida do
seu povo.
A presença de Deus deve ser a nossa
maior aspiração
Depois de realizar uma ampla consulta aos seus líderes, Davi escala trinta
mil homens para a expedição de buscar a arca. O primeiro livro das Crônicas
descreve esse fato assim:
Consultou Davi os capitães de mil, e os de cem, e todos os príncipes; e
disse a toda a congregação de Israel: Se bem vos parece, e se vem isso do
Senhor, nosso Deus, enviemos depressa mensageiros a todos os nossos
irmãos em todas as terras de Israel, e aos sacerdotes e aos levitas com eles
nas cidades e nos seus arredores, para que se reúnam conosco; tornemos a
trazer para nós a arca do nosso Deus; porque nos dias de Saul não nos
valemos dela. Então, toda a congregação concordou em que assim se
fizesse; porque isso pareceu justo aos olhos de todo o povo (1Crônicas
13:1-4).
Davi tinha esperanças de que as divisões passadas e as diferenças entre as
tribos fossem esquecidas, enquanto o povo se concentrava no Senhor. A
presença da arca representava a presença de Deus, a qual remetia à
segurança e à vitória.
A arca é trazida sob o som da música e os cânticos de júbilo. Davi lidera
pessoalmente a multidão que vem trazendo a arca para a cidade de
Jerusalém, a capital da nação. O rei não se esquece de Deus no tempo da
prosperidade. Ele não se contentacom suas conquistas e vitórias. Anseia por
Deus. Busca em primeiro lugar o reino de Deus. A devoção de Davi é
demonstrada no entusiasmo com que celebra junto com o povo o transporte
da arca rumo à cidade da paz. O gesto de Davi deve nos levar a esse mesmo
sentimento. Temos as bênçãos de Deus, mas devemos desejar a sua presença.
Temos os sinais da bondade de Deus, mas devemos anelar pelos lampejos de
sua glória. As dádivas de Deus não podem ser um substituto da presença de
Deus.
A presença de Deus é santa e requer
santo temor e reverência
Lamentavelmente o transporte da arca para Jerusalém seguiu o mesmo
método usado pelos filisteus para devolvê-la a Israel. Davi, com sua
numerosa comitiva, transportou a arca em um carro novo puxado por bois
em vez de seguir as prescrições divinas. Destacamos, aqui alguns pontos:
1. O transporte da arca estava errado quanto à forma (2Samuel 6:3). A lei
exigia que a arca fosse transportada pelos coatitas, e não por animais; devia
ser transportada pelos seus varais, e não em um carro novo. Essa inovação
dos filisteus não deveria ter sido copiada por Davi. A forma do transporte
estava em desacordo com os preceitos das Escrituras. Apesar das boas
intenções, a arca foi transportada sem a devida consideração pela santidade
de Deus. A arca dispunha de anéis e varas, os quais indicavam a forma como
devia ser transportada (Êxodo 25:12-14). O fato de todos os líderes de Israel
concordarem que fosse usado um carro de boi para transportar a arca não
legitimava essa prática. Unanimidade e entusiasmo não substituem a
obediência. A exultação da multidão que acompanhava o transporte da arca
não anulou as prescrições divinas. Davi havia quebrado esse princípio. Leis e
costumes podem ser mudados, mas princípios são eternos. Deus não apenas
prescreveu como a arca deveria ser feita, mas também deixou orientações
claras sobre como ela deveria ser transportada. Desrespeitar esse princípio
representava uma violação de um princípio inegociável.
2. O transporte da arca estava errado quanto às pessoas (2Samuel 6:4). Assim
como a forma de transporte estava errada, as pessoas que a conduziam
também não eram as certas. A arca devia ser transportada pelos coativas
(Números 4:4-6; 7:9). Os coatitas transportavam a arca, mas não podiam
tocar nas coisas santas nem podiam vê-las, para que não morressem
(Números 4:15,17-20). No entanto, os responsáveis pelos bois e pelo carro
novo com sua carga especial, a arca da aliança, são Uzá e Aiô, e não os
coatitas.
3. A alegria do povo não evita a tragédia (2Samuel 6:5-7). Mesmo não
observando os preceitos de como lidar com a arca, Davi e toda a casa de
Israel alegravam-se perante o Senhor com toda sorte de instrumentos
musicais. No entanto, a celebração festiva do rei e de seu povo não puderam
evitar a tragédia da irreverência de Uzá e sua morte sumária. Deus não
aceita inovações na forma de ser adorado. O culto a Deus tem prescrições
que dever ser observadas. O ato de Uzá, embora instintivo, constituiu uma
espécie de sacrilégio, e ele foi morto devido ao contato com a santidade de
Deus. Davi e o povo ultrapassaram os limites e abusaram do relacionamento
com Deus quando deixaram de observar as regras estabelecidas para
salvaguardar a reverência pela santidade de Deus. Dale Ralph Davis enfatiza
que o erro aqui foi que as instruções específicas para Moisés e os sacerdotes
acerca do transporte da arca não foram levadas em consideração. As regras
eram: não toque, não veja. Os objetos da arca deviam ser cobertos pelos
sacerdotes, a fim de que os coatitas a transportassem. A sentença sumária
para a transgressão dessas prescrições era a morte (Números 4:15,20).
Portanto, o propósito do Senhor ao dar essas instruções era evitar a morte
dos coatitas.1
4. A ira de Deus se manifesta contra a irreverência de Uzá (2Samuel 6:7).
Enquanto a arca estava sendo transportada, um acidente aconteceu. Os bois
tropeçaram e Uzá segurou a arca para que ela não caísse. O gesto foi
interpretado como um ato irreverente, e Deus ceifou ali mesmo a vida de
Uzá. Deus o feriu ali por essa irreverência, e ele morreu junto à arca. A
transgressão das ordenanças de Deus não é coisa de somenos. O salário do
pecado é a morte. Os preceitos de Deus nos são dados para que os
cumpramos à risca. A dança e a música cessaram, e todos os olhos voltaram-
se para Uzá, estirado no chão, sem vida. Entusiasmo sem reverência não
agrada a Deus. Fervor sem obediência aos mandamentos divinos não é
aceitável a Deus. O culto a Deus sem a devida observância dos preceitos
divinos não é aprovado por Deus.
5. O temor de Davi (2Samuel 6:9). Ali, Davi teve um senso profundo
acerca da santidade de Deus. Ele temeu ao Senhor e questionou como a arca
do Senhor poderia ir até ele. Esse episódio deixou uma lição para as futuras
gerações. As coisas de Deus precisam ser tratadas com reverência e santo
temor. Não podemos banalizar a presença do Deus triplamente santo.
Ninguém deve se aproximar de Deus de forma irrefletida e irreverente. Ele é
fogo consumidor. Diante dele até os serafins cobrem o rosto.
A marcha triunfal do transporte da arca foi interrompida. O temor de
Davi levou-o a abortar a missão. Ele não quis retirar a arca para junto de si,
para a cidade de Davi; fê-la, porém, ser levada para a casa de um levita
chamado Obede-Edom, o geteu (1Crônicas 15:18,21,24; 16:5; 26:4-8,15).
Em Gate, a arca ficou três meses; e o Senhor abençoou a Obede-Edom e
toda a sua casa, por amor à arca.
A presença de Deus é digna de nossa
mais efusiva celebração
Depois de três meses, Davi então, com alegria, fez subir a arca de Deus da
casa de Obede-Edom para Jerusalém, agora batizada de cidade de Davi. A
alegria e o temor não são mutuamente exclusivos, mas coexistem em
sacrossanta harmonia. Diz a Escritura: “Servi ao Senhor com temor e
alegrai-vos nele com tremor” (Salmos 2:11). Alegrar-se na presença de Deus
e tremer diante da santidade de Deus são duas verdades solenes. Temor e
alegria caminham juntos.
Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor, vestido com um
éfode, uma estola sacerdotal de linho. Com essa exultação exuberante, com
júbilo e ao som de trombetas, Davi e todo o seu povo conduziram a arca até
Jerusalém. Joyce Baldwin lança luz sobre o tema ao escrever:
Davi manifestou um entusiasmo tão grande quanto na vez anterior (6:5),
mas agora ele tinha aprendido que sinceridade e animação não bastavam.
Ele também prestara atenção às exigências rituais que a lei de Deus havia
estabelecido. Ele substituíra seus mantos reais por uma estola de linho, a
vestimenta dos sacerdotes, que ele, como rei de um reino de sacerdotes,
estava habilitado a vestir, sendo particularmente apropriada para a
cerimônia comemorativa.2
Quando Mical, filha de Saul, olhando pela janela, viu a arca entrando
triunfalmente na Cidade de Davi e o rei saltando e dançando diante do
Senhor, desprezou-o em seu coração. O orgulho de Mical não a permitia ver
o rei misturado com o povo na celebração festiva. Ela despreza Davi
justamente naquilo que o tornava grande, ou seja, sua devoção ao Senhor e
sua espontaneidade na adoração. Mical estava preocupada com dignidade
real, decoro pessoal e aparência externa. Mical e Davi representam dois
reinos. O antigo regime está preocupado com a forma, o novo reino celebra
com alegria. Mical é como alguém que tem vinho novo em odres velhos, e
isso simplesmente não funciona (Marcos 2:18-22).
Longe de ficar abatido com as palavras tóxicas de Mical, Davi reafirma
que fora escolhido por Deus, ao mesmo tempo que reafirma sua devoção
irrestrita ao Senhor e sua alegria com o emblema da presença de Deus na
capital de Israel. Davi reafirmou sua disposição de se alegrar na presença do
Senhor e de se tornar desprezível e se humilhar perante o Senhor, sabendo
que as servas que foram execradas por Mical, haveriam de honrá-lo. Davi
está mais interessado em honrar o Senhor do que em favorecer sua própria
reputação, pois não precisa estimular seu ego nem lhe falta o apoio popular.
Que à semelhança de Davi, possamosdesejar Deus mais do que
desejamos as suas benesses. Nossa devoção, dependência e gratidão a Deus
devem ser demonstradas ao Senhor não apenas nos dias sombrios de prova,
mas sobretudo nos dias ensolarados de vitórias.
1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 75. ↵
2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 237. ↵
2S
Capítulo 14
Davi, o rei pactual
amuel 7 trata da aliança de Deus com Davi. Essa passagem reveste-se
de grande importância na história da redenção. Aqui está a promessa
de que o Messias virá da dinastia de Davi e que sua casa, seu reino e seu
trono serão firmados para sempre (2Samuel 7:16). A aliança de Deus com
Davi era incondicional e centrada na garantia da dinastia davídica. Paul
Gardner é oportuno quando escreve:
O pacto davídico é uma administração soberana, feita pela graça, segundo
a qual o Senhor ungiu Davi e sua casa para estabelecer seu reino e
efetivamente trazer um reinado de paz, glória e bênção. Jesus e os
apóstolos afirmaram que essas promessas encontram seu foco e recebem
sua confirmação em Cristo, o Messias. Ele é o ungido que recebeu
autoridade e poder (Mateus 28:20) do alto sobre toda a criação, inclusive
a Igreja).1
Na aliança de Deus com Davi, Deus cumpre as promessas feitas ao
patriarca Abraão ao garantir a Davi um grande nome (2Samuel 7:9; Gênesis
12:2), terra (2Samuel 7:10; Gênesis 13:14,15; 15:18-20; 17:18) e
descendentes (2Samuel 7:12; Gênesis 15:5; 17:5,6).
Um desejo sincero
O palácio de Davi, com toda a pompa, está pronto. Enquanto ele habita em
uma casa real feita de cedros, a arca da aliança ainda habita em tendas. Na
mente dele isso não está certo. Como o servo de Deus tem um palácio
enquanto o sinal da presença de Deus, a arca da aliança, está em uma tenda?
Então, Davi compartilha com o profeta Natã seu propósito de erigir um
templo ao Senhor. O templo seria um símbolo da presença de Deus com seu
povo e a garantia do favor de Deus para com o rei e sua família.
Natã disse ao rei: “Vai, faze tudo quanto está no teu coração, porque o
Senhor é contigo” (2Samuel 7:3). Naquela mesma noite, porém, a Palavra do
Senhor veio a Natã com uma mensagem expressa para Davi proibindo-o de
edificar o templo, argumentando que desde o êxodo até à presente data,
Deus nunca havia requerido do povo um templo, mas sempre habitou em
tendas, em tabernáculo. Isso era demonstração da proximidade de Deus com
seu povo (Êxodo 25:8). Isso prova que divindade e humildade não são
categorias mutuamente exclusivas. 2Samuel 7:6,7 aponta para Filipenses
2:5-8.
Uma proibição clara
O Senhor deixa claro que ele não pode ser confinado a um templo, como
disse mais tarde o apóstolo Paulo: “[...] sendo ele Senhor do céu e da terra,
não habita em santuários feitos por mãos humanas” (Atos 17:24). A
proibição a Davi de construir um templo ao Senhor está posta em
1Crônicas 17:4: “Vai e dize a meu servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não
edificarás casa para minha habitação”.
Concordo com Dale Ralph Davis quando ele diz que a resposta do
Senhor não foi um mero não, mas um não ainda.2 Davi não seria o
edificador do templo, pois o tempo para a construção ainda não havia
chegado. No presente caso, o plano humano (2Samuel 7:1-3) deveria ser
corrigido pela revelação divina (2Samuel 7:4-17).
Uma graça abundante
Em vez de requerer de Davi um templo, Deus demonstra a ele sua graça
abundante. Algumas verdades são aqui destacadas:
1. Um passado humilde (2Samuel 7:8a). Deus tomou Davi da malhada, de
detrás das ovelhas, sendo um candidato improvável ao trono. Ele não era um
guerreiro, mas um pastor de ovelhas. Não procedia de família aristocrática,
mas o filho caçula de Jessé, o belemita.
2. Um propósito glorioso (2Samuel 7:8b). Deus tirou Davi de um passado
humilde para um propósito elevado, ser príncipe sobre Israel, o povo de
Deus. Davi não ascendeu ao trono por estratégicas políticas e militares. Ele
foi escolhido por Deus para ser rei.
3. Um companheiro poderoso (2Samuel 7:9). Deus foi com Davi em todo o
tempo e por todos os lugares. Além disso, eliminou os inimigos de diante
dele e fez grande o seu nome, dando-lhe um nome proeminente, como só os
grandes da terra têm.
4. Uma nação estável (2Samuel 7:10,11a). Deus preparou um lugar para
Israel, deu-lhe uma terra, livramento dos inimigos e líderes para governá-lo.
5. Uma dinastia perpétua (2Samuel 7:11b). Enquanto Davi queria
construir uma casa para Deus, foi Deus quem disse a Davi: “O Senhor te faz
saber que ele, o Senhor, te fará casa” (2Samuel 7:11b). Isso significa que a
dinastia de Davi permaneceria no trono até a chegada do Messias, cujo reino
é eterno e cujo trono é inabalável. Kevin Mellish corrobora, dizendo: “Ao
usar o termo casa, Deus não tinha a intenção de construir uma estrutura
física para Davi, como um palácio, mas uma dinastia duradoura, uma
família”.3
Uma promessa segura
Chegamos aqui, portanto, ao âmago do pacto davídico, com as promessas do
Senhor feitas a Davi. Dale Ralph Davis, ao analisar esse contexto, aponta
três razões pelas quais a promessa de Deus é segura:4
1. A promessa do Senhor é segura porque a morte não pode anulá-la (2Samuel
7:12,13). Davi morrerá, mas o Senhor levantará a semente de Davi.
Salomão, e não Davi, edificou o templo. Davi preparou tudo para a
construção, mas coube a seu filho realizar o seu plano. A dinastia davídica,
entretanto, chegaria àquele que é maior que Salomão e maior que o templo,
Jesus de Nazaré!
2. A promessa do Senhor é segura porque o pecado não pode destruí-la
(2Samuel 7:14,15). A dinastia davídica seria disciplinada em caso de
transgressão, mas a aliança de Deus não seria cancelada. O Senhor antevê a
possibilidade de rebelião, mas afirma que falhas humanas não invalidarão
sua promessa a Davi. O rei de Israel é um representante do próprio Deus e é
tratado como filho. Porém, se vier a transgredir, Deus o castigará com varas
de homens e com açoites de filhos de homens. Todavia, a misericórdia de
Deus não se apartará dele como foi retirada de Saul. De fato, os descentes de
Davi rebelaram-se contra Deus e foram punidos. As dez tribos do norte
foram subjugadas pela Assíria em 722 a.C. e o reino de Judá caiu nas mãos
da Babilônia em 586 a.C. O Senhor, nesse meio-tempo, cumpriu sua
promessa. A misericórdia do Senhor jamais se apartou do seu povo. Israel
voltou à sua terra e foi restaurado por Deus. Embora a comunidade pós-
exílica não tivesse um rei davídico para liderá-la, as promessas continuavam
a prover esperança de que o rei davídico, o Messias, surgiria novamente. Na
comunidade cristã primitiva, os crentes encontraram em Jesus o
cumprimento das promessas de Deus na aliança davídica. Jesus descendia de
Davi (Mateus 1:1-17), sendo chamado “filho de Davi”. Ele apresentou um
reino eterno conhecido como “o reino de Deus”. Assim, os cristãos
perseveram na esperança da herança de uma terra; não um espaço físico aqui
na terra, mas um lar eterno no céu.
Por intermédio do Messias, Davi teria uma casa para sempre (2Samuel
7:25,29), um reino para sempre (2Samuel 7:16), um trono para sempre
(2Samuel 7:13,16) e glorificaria o nome de Deus para sempre (2Samuel
7:26).
3. A promessa do Senhor é segura porque o tempo não pode anulá-la (2Samuel
7:16,17). A casa e o reino de Deus serão firmados para sempre. A aliança
davídica é incondicional. O Senhor garante que da dinastia de Davi surgirá
aquele cujo trono será estabelecido eternamente. Essa promessa cumpriu-se
em Jesus, o Cristo. O Messias, o filho de Davi, estabeleceu um reino que não
passará. Nessa aliança, Deus anunciou a Davi que o Messias viria por sua
família, e a profecia de Miqueias 5:2 afirma que ele nasceria em Belém, a
cidade de Davi (Mateus 2:6). O Messias seria conhecido como “o Filho de
Davi” (Mateus 1:1).5 Davi desejava edificar uma casa para Deus (o templo),
mas Deus prometeu edificar uma casa para Davi (uma dinastia eterna).
Concluo com as palavras de Joyce Baldwin:
Foi assim que Davi desistiu de sua intenção de construir o templo.
Embora fosse rei de Israel, ele aceitou que tinha deanuir diante de uma
autoridade superior, a do Deus de Israel, a quem devia o seu chamado
pelo profeta Samuel, a sua preservação em perigo mortal nas mãos de
Saul e a sua ascensão ao trono por meio do consentimento geral do povo
[...]. Davi, mais interessado em honrar o Senhor do que em proteger sua
própria reputação, obteve a firmeza de seu reino para sempre.6
1. GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. 2015, p. 132. ↵
2. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 84. ↵
3. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 259. ↵
4. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 92,93. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 317. ↵
6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 247, 248. ↵
D
Capítulo 15
Davi, o vitorioso nas batalhas
avi depois que se tornou rei sobre todo o Israel, conquistou
Jerusalém, a fortaleza dos jebuseus, e virou o jogo contra os filisteus.
Ele trouxe a arca para Jerusalém e intentou construir uma casa (templo)
para ela. No entanto, o Senhor surpreendeu Davi ao anunciar que pretendia
construir uma casa (dinastia) para Davi. Deus prometeu estabelecer o trono
de Davi e lhe garantiu que a promessa não seria anulada, ainda que seus
descendentes fosses desobedientes. Munido da promessa animadora do
Senhor de dar segurança à nação (2Samuel 7:10-12), Davi empreende novas
campanhas militares, e o Senhor mostra seu compromisso com ele ao dar-
lhe ainda mais vitórias. Davi, por sua vez, mostra sua lealdade ao Senhor ao
aderir a algumas das prescrições deuteronômicas para o reinado e governar
sobre Israel de forma justa.1
As vitórias de Davi apontam para o reino de Cristo, uma vez que Davi
tipifica Cristo, e Jesus é chamado de Filho de Davi. As vitórias de Davi são
uma previsão e uma profecia acerca do reino de Cristo. Assim como Davi
conquistou os povos, o reino de Cristo conquistará as nações. Assim como
Davi ajuntou as riquezas das nações, essas riquezas pertencerão ao Senhor
(Isaías 60; Ageu 2:6-9; Apocalipse 21:24,26).
Quando Davi subiu ao poder, seu reino estava ameaçado pelos povos
vizinhos, que haviam se acostumado a tirar vantagem de qualquer fraqueza e
invadir quando bem quisessem. Inobstante esse cenário, o Senhor deu
vitória a Davi contra seus inimigos por todos os lados. Davi venceu os
inimigos no Oeste (2Samuel 8:1), no Leste (2Samuel 8:2), no Norte
(2Samuel 8:3-12) e no Sul (2Samuel 8:13,14). Essas vitórias cumprem as
promessas de Deus feitas a Abraão (Gênesis 12-15), a Moisés
(Deuteronômio 27-30) e ao próprio Davi (2Samuel 7). O Senhor havia
prometido a Israel a terra que se estendia do rio do Egito até o rio Eufrates
(Gênesis 15:17-21; Deuteronômio 1:6-8; 11:24; 1Reis 4:20,21).
As vitórias de Davi não apenas trouxeram paz ao seu reino, mas também
muitas riquezas, que mais tarde foram usadas por Salomão na construção do
templo de Jerusalém (2Samuel 8:11-13; 1Crônicas 22).
Vejamos, agora, as vitórias de Davi:
1. A vitória sobre os filisteus a Oeste (2Samuel 8:1). Os filisteus eram
inimigos de Israel, de longa data. Os conflitos com esse povo beligerante
eram frequentes. O rei Saul havia sucumbiu nas mãos dos filisteus. Agora,
porém, Davi impõe uma derrota definitiva sobre eles, ferindo-os, sujeitando-
os e assumindo o controle da Gate, a capital filisteia.
2. A vitória sobre os moabitas a Leste (2Samuel 8:2). Embora Rute, a bisavó
de Davi, fosse moabita (Rute 4:18-22) e apesar de os moabitas terem sido
amigáveis com Davi no passado (1Samuel 14:47; 22:3,4) e serem
aparentados de Israel por serem descendentes de Ló, sobrinho de Abraão
(Gênesis 19:30-38), esse povo sempre causou sérios problemas a Israel, por
isso Davi o viu como uma potencial ameaça à segurança de Israel. No
passado, os moabitas contrataram o profeta Balaão para amaldiçoar a Israel,
e esse profeta avarento levou mulheres moabitas para seduzir os homens de
Israel (Números 22-25). O Senhor, então, declarou guerra contra essa nação,
e Davi está aqui cumprindo esse desiderato divino. Davi não chegou a
exterminar o exército amonita, pois poupou um em cada três soldados,
impondo tributos à nação, tornando-o um estado vassalo. Joyce Baldwin diz
que o pagamento regular de tributo indicava subserviência contínua.2
3. A vitória sobre os arameus e sírios ao Norte (2Samuel 8:3-13). Davi
derrotou Hadadezer, filho de Reobe, rei de Zobá. Arã, assim como Israel era
uma potência em crescimento naquela época. No décimo século, existiu um
vácuo de poder por todo o Oriente, e esses dois reinos procuravam
preenchê-lo. Davi levou vantagem nessa luta, estabelecendo o seu domínio
sobre toda a região ao norte do rio Eufrates. Warren Wiersbe diz que o
controle de valiosas rotas de caravanas que passavam por esse território
possibilitou Israel tributar os comerciantes que passavam por lá e, assim,
aumentar sua renda. Além do mais, ao derrotar os arameus e os sírios, Davi
também criou um relacionamento amigável com seus inimigos e deles
recebeu tributos (2Samuel 8:6-10).3
Davi é retratado como um novo Josué e como aquele que pretende
terminar o que Josué começou. O foco dos cinco primeiros versículos
(2Samuel 8:1-5) estava sobre Davi e suas vitórias. Agora, porém, o narrador
nos informa que o Senhor é responsável pelo êxito de Davi: “[...] e o Senhor
dava vitórias a Davi, por onde quer que fosse” (2Samuel 8:6,14).4 A
reputação de Davi continua a crescer na região à medida que sua conquista
militar se escalava.
É digno de nota que Davi não guarda para si as riquezas que adquire das
nações conquistadas. Ele consagrou os despojos de guerra ao Senhor,
juntamente com a prata e o ouro que já havia consagrado de todas as nações
que sujeitara (2Samuel 8:11). Esses espólios constituíram o início de uma
coleção que seria muito aumentada por Salomão (1Reis 10:17) e reduzida
por Sisaque, rei do Egito, durante o reinado de Roboão (1Reis 14:26; 2Reis
11:10).
É notório, igualmente, que Davi venceu os amalequitas, terroristas do
deserto (2Samuel 8:12), tarefa que o rei Saul fracassou em cumprir
(1Samuel 15). A fama de Davi cumpre a promessa do Senhor: “Agora farei
teu nome grande” (2Samuel 7:9). Contudo, o escritor bíblico, longe de
estimular o culto aos heróis, atribui o sucesso de Davi ao Senhor, que o
chamou e o capacitou a vencer seus inimigos.
4. A vitória sobre os edomitas ao Sul (2Samuel 8:14). Os edomitas que
ficavam ao sul de Israel eram parentes próximos de Israel. Eles eram
descendentes de Esaú, irmão de Jacó. Entretanto, sempre foram inimigos de
Israel (1Crônicas 18:12,13; 1Reis 11:14-18). Mais tarde, Deus humilhou
esse povo altivo (Isaías 60:8) e os nabateus conquistaram a sua cidade
(Obadias 1-21). Davi pôs guarnições em Edom e todos os edomitas
tronaram-se servos de Davi, estabelecendo ali seu monopólio comercial e
abrindo rotas para a comunicação com a Arábia e a África, as quais teriam
um desenvolvimento significativo durante o reinado de Salomão (1Reis
9:26-28).5
Davi não é apenas um guerreiro valente, mas também um grande líder e
um gestor eficaz. A expansão do império de Davi exigiu uma organização
adequada e uma equipe eficiente no núcleo do reino em Jerusalém, a capital
de Israel. Davi governa sobre todo o Israel com justiça e equidade, prática
que Deus ama. Seu governo é marcado pela probidade administrativa e pela
observância da lei. Sendo ele ao mesmo tempo o executivo e a autoridade
maior dos tribunais, assegura a prática da justiça em seu governo. Tendo o
poder judiciário em suas mãos, Davi era a última instância de apelação,
garantindo a justiça e a equidade. Davi é como a aurora e o Sol depois da
chuva. Ele representou a aurora de um novo dia a Israel depois das trevas do
reinado de Saul. Deus o usou para trazer calmaria depois da tempestade
(2Samuel 23:1-7).
Davi não é apenas rei de Israel, mas também de um reino que inclui
domínio sobre outras nações conquistadas. Seu poder transcendia os limites
de Israel. As nações ao redor estão sujeitas a ele e pagam tributos a ele. Para
governar com ordem e progresso, é precisomontar uma equipe qualificada, e
é exatamente isso que ele faz (2Samuel 8:16-18).
O reinado de Davi desfruta, agora, de prosperidade e paz. Tendo obtido
consagradoras vitórias sobre as nações ao redor e ajuntado riquezas colossais,
Davi, agora, está pronto a pagar o bem com o bem aos amonitas, que lhe
demonstraram bondade por meio do rei Naás, quando fugia das insanas
perseguições de Saul (2Samuel 10:1,2). Joyce Baldwin diz, porém, que a
diplomacia bem-intencionada de Davi junto ao novo rei de Amom deu
início a uma nova série de acontecimentos desfavoráveis, suscitando duas
guerras.6
Ao receber a notícia da morte do rei Naás, rei dos amonitas, e de que seu
filho Hanum havia assumido o trono, Davi decide usar de bondade com
Hanum, enviando seus servos, como embaixadores oficiais, com expressões
de condolências para consolá-lo acerca de seu pai. Assim, os servos de Davi
vieram à terra dos filhos de Amom com essa missão diplomática.
Os príncipes dos amonitas mediram Davi com sua própria régua e
suspeitaram de suas motivações. Disseram a Hanum que Davi estava se
aproveitando do seu luto para enviar seus servos como espiões, com o
propósito de reconhecer, espiar e destruir a cidade. Hanum acatou a suspeita
dos príncipes amonitas e, orientado por esses maus conselheiros, tomou os
servos de Davi com o máximo de desprezo e, em uma ofensa pública, rapou-
lhes a metade da barba e cortou-lhes a metade das vestes até às nádegas,
despedindo-os.
Nenhum gesto poderia ser mais traiçoeiro e humilhante. Hanum pagou o
bem com o mal. Tratou com desdém e afronta os embaixadores da paz e os
mensageiros da consolação. Concordo com Joyce Baldwin quando ele diz
que o insulto dos amonitas era praticamente uma declaração de guerra; a
provocação desse gesto exigia uma resposta à altura.7
Ao tomar conhecimento da afrontosa humilhação que seus servos
sofreram nas mãos de Hanum, Davi envidou esforços para protegê-los da
vergonha pública. Ele enviou mensageiros para encontrá-los no caminho e
determinou que ficassem em Jericó até que a barba voltasse a crescer. Davi,
assim, havia demonstrado bondade com o Hanum, o rei estrangeiro, e
solidariedade aos seus próprios servos. Davi cuida tanto dos assuntos
diplomáticos do reino como também daqueles que estão a serviço do reino.
Com a injustificável traição a Davi, os filhos de Amom perceberam que
haviam se tornado odiosos aos seus olhos. Antecipando uma severa reação
de Davi e esperando represálias, buscaram aliados para guerrearem contra
ele, formando uma tropa de trinta e três mil mercenários dos reinos siros do
norte, contratando-os por por mil talentos de prata (1Crônicas 19:6). Além
disso, mandaram mensageiros tomar a soldo vinte mil homens de pé dos
siros de Bete-Reobe e dos siros de Zobá, mil homens do rei de Maaca e
doze mil de Tobe, um território a leste do Jordão. Os inimigos de Davi se
unem para atacá-lo. Querem destruí-lo e destroná-lo. Contudo, as guerras
de Davi eram as guerras do Senhor; as vitórias de Davi eram as vitórias do
Senhor. Os inimigos confederados não estavam lutando contra Davi, mas
contra o Senhor dos Exércitos. Ninguém pode lutar contra o Senhor e
prevalecer.
Davi, o comandante-em-chefe do exército de Israel, experimentado na
guerra, não se intimida nem recua. Ao contrário, ordena a batalha, mas
permanece em Jerusalém. Quando Davi ouviu sobre a imensa tropa que
estava congregada no território de Amom, envia contra os exércitos inimigos
Joabe com todo o exército dos valentes de Israel (2Samuel 10:7). Joabe era
um comandante destemido. Seu exército era composto de homens treinados
e valentes. Longe de se estremeceram com a multidão que vinha contra eles,
agigantaram-se ainda mais.
Três exércitos, os filhos de Amom, os siros de Zobá e Reobe e os homens
de Tobe, formam um batalhão de oposição contra o exército de Israel
(2Samuel 10:8,9a). As forças reunidas provenientes desses países
representavam um exército terrível. Os filhos de Amom ordenam a batalha,
à entrada da porta da capital da cidade de Amom, que era Rabá, atacando
pela frente enquanto a colisão de aliados permanecia em campo aberto, na
retaguarda, encurralando, assim, os soldados de Joabe.
Joabe, experimentado estrategista militar, dividiu o exército israelita em
dois contingentes e escolheu dentre todos o que havia de melhor em Israel e
os formou em linha contra os siros; e o resto do povo, entregou-o a Abisai,
seu irmão, o qual o formou em linha contra os filhos de Amom (2Samuel
10:9b-11). A ordem do comandante Joabe ao seu irmão Abisai foi clara: “Se
os siros forem mais fortes do que eu, tu me virás em socorro; e, se os filhos
de Amom forem mais fortes do que tu, eu irei ao teu socorro” (2Samuel
10:11). Joabe tinha não apenas homens preparados em seu exército, mas
também, uma tática inteligente de combate.
A disposição dos soldados combatentes é vital para se ganhar uma guerra.
A liderança firme de um comandante é necessária para manter os soldados
focados na vitória. Joabe disse aos valentes de Israel: “Sê forte, pois;
pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e
faça o Senhor o que bem lhe parecer” (2Samuel 10:12). A exortação mostra
tanto coragem como confiança na providência divina. Joabe revelou-se um
homem de fé, lutando pelas cidades de Deus e orando não expressamente
pela vitória, mas para que o Senhor realizasse a vontade dele.8
Joabe não está acuado (2Samuel 10:13,14). É ele quem avança com o seu
povo contra os inimigos, travando a peleja contra os siros. Incapazes de
prevalecer contra Joabe e seus soldados. Os siros fogem de diante deles. Do
mesmo modo, quando os filhos de Amom viram os siros fugirem, também
fugiram rapidamente de diante de Abisai para a sua capital fortificada.
Tendo os inimigos batido em retirada, e percebendo Joabe que o inimigo
estava preso na cidade, cessou o ataque e voltou com seu exército para
Jerusalém.
Vemos aqui a magnitude da vitória de Israel. Quatro vezes o narrador
afirma que os inimigos fogem (2Samuel 10:13,14,18) e duas vezes assevera
que os inimigos são aniquilados (2Samuel 10:15,19).
Os siros depois de baterem em retirada diante dos valentes de Joabe se
reagruparam, agora sob a liderança de seu príncipe mais poderoso
Hadadezer, refizeram suas estratégias e voltaram a declarar guerra a Israel.
Dessa vez, o próprio Davi liderou o exército de Israel, e a derrota dos
inimigos foi total. As baixas sírias foram de setecentos carros, quarenta mil
cavaleiros e Soboque, o general siro. Assim, os siros estabeleceram a paz com
Israel, tornaram-se tributários e não concederam mais ajuda aos amonitas.
Essa batalha vitoriosa, portanto, solidificou o poder de Davi na região, desde
Israel e Transjordânia até à Síria e Aram, no Nordeste. Assim, a influência
de Davi se expandiu para bem longe de Israel, até o caminho do Eufrates.
Davi estendeu o império israelita do rio do Egito, no Sul, até o rio Eufrates,
no Norte; no Leste, conquistou Edom, Moabe e Amom; no Norte, derrotou
os arameus e sírios, inclusive Hamate.
Davi conquista vitórias com a capacitação do Senhor, age conforme as
prescrições deuteronômicas para o reinado, promove justiça e procura ser fiel
em sua conduta com outros.
1. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & Samuel. 2017, p. 226. ↵
2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 249. ↵
3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 319. ↵
4. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 228. ↵
5. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 251. ↵
6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 258. ↵
7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 259. ↵
8. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 260. ↵
A
Capítulo 16
Davi, o homem bondoso
bondade de Deus por intermédio de Davi é o tema principal de
2Samuel 9:1-13. Podemos ver essa verdade magna nos versículos 1, 3 e
7. Davi havia prometido tanto a Jônatas quanto a Saul que não exterminaria
seus descendentesao ascender ao trono (1Samuel 20:12-17,42; 24:21).
Durante uma pausa de suas guerras, Davi pensou em sua aliança com
Jônatas e buscou alguém da casa de Saul a quem pudesse prestar
homenagens. Ziba, mordomo do rei antecessor e ainda encarregado de suas
propriedades, foi chamado. Ele contou a Davi sobre Mefibosete, o filho de
Jônatas que era aleijado dos pés.
Mefibosete era neto do rei Saul, filho de Jônatas e membro da família
real. Nasceu em berço de ouro. Cercado de riqueza, pompa e glória. Seu avô
e seu pai morreram em uma batalha. Davi assumiu o trono. Era costume dos
povos orientais que quando um rei dominava um povo, ele matava todos os
membros da dinastia anterior. Foi assim que os membros da família de Saul
fugiram quando souberam que Davi era o novo rei. Mefibosete tinha apenas
cinco anos, quando começou a sua vida de fuga, medo, dor e humilhação
(2Samuel 4:4).
Na pressa da fuga, ele caiu e ficou coxo pelo resto da vida. Ele era aleijado
de ambos os pés. Seu nome significa “vergonha destruidora”. Esse menino
viveu escondido cerca de quinze a vinte anos com dor, vergonha e conflitos.
Davi não apenas preserva a vida de Mefibosete, mas o trata como filho.
Conforme diz Dale Ralph Davis vemos aqui o poder do pacto (9:1-4), a
provisão do pacto (9:5-8) e a pessoa que o pacto abraça (9:9-13).1
O rei encontra Mefibosete
Vemos aqui a intervenção da bondade de Deus na vida de Mefibosete,
manifestada por intermédio de Davi. Destacamos três pontos importantes:
1. Uma pergunta cheia de bondade. Os anos se passaram. Mefibosete agora
é adulto. Davi sobe ao trono. Deus abençoa seu reinado. Ele prospera.
Expande seu reino. Tem um exército poderoso e anda com Deus. Ele se
lembra de Jônatas e então recorda a aliança feita com ele, de ser bondoso
com a descendência de Jônatas. Davi, então, faz uma pergunta: “Resta,
ainda, porventura alguém da casa de Saul, para que eu use de bondade para
com ele, por amor de Jônatas?” (2Samuel 9:1). É uma pergunta de graça! Ele
usa a palavra chesed, usada no Antigo Testamento para retratar a graça do
Deus da aliança. Davi deseja espelhar o caráter fiel de Deus em seu modo de
tratar os descendentes desse amigo (1Samuel 20:14).
Davi não pergunta: Há alguém merecedor? Há alguém qualificado? Há
alguém sábio que eu possa usar nos assuntos do governo? Há alguém forte
que eu possa usar no exército? Não, ele simplesmente indaga: “Há
alguém...?”. Trata-se de um desejo incondicional de ser gracioso. Davi lança
a rede mais longe do que suas promessas exigiam, estendendo sua
generosidade a qualquer filho ou neto de Saul que tivesse sobrevivido,
embora seja clara sua motivação: ele não é indulgente nem fraco, mas quer
mostrar bondade (hesed) por amor de Jônatas, pois recordava-se de quão
grande era sua dívida para com ele. É digno de nota que hesed vai muito
além do que cumprir a palavra empenhada ou cumprir um contrato firmado.
Davi foi além. O pedido de Jônatas era apenas para preservar sua prole, mas
Davi deseja honrá-la. Ele não apenas quer poupar da morte os descendentes
de Saul, mas dar a eles segurança, provisão e honra.
2. Uma resposta cheia de preconceito. Ziba responde com preconceito: Claro
que sim, rei Davi, mas é um aleijado, é um coxo, é alguém indigno,
imprestável. Ele não tem nenhuma importância nem aparência real
(2Samuel 9:2,3).
3. Uma informação cheia de desesperança. Ao perguntar sobre o paradeiro de
Mefibosete, Davi é informado de que ele está na casa de Maquir, filho de
Amiel, em Lo-Debar, do outro lado do Jordão ( Josué 13:26), logo abaixo do
Jaboque, perto da região de Maanaim, a antiga capital de Isbosete (2Samuel
9:4). Lo-Debar significa “lugar árido, seco, deserto”. Amós referiu-se a essa
cidade de modo depreciativo (Amós 6:13).
O rei chama Mefibosete e lhe dá
riquezas
Movido pelo amor pactual, Davi demonstra a Mefibosete rica provisão,
prometendo ao filho de Jônatas proteção (2Samuel 9:7a), provisão (2Samuel
9:7b), e posição (2Samuel 9:7c), indo muito além do que havia prometido a
Jônatas. Ele não só preservou Mefibosete, mas demonstrou a ele sua
bondade pactual. Não apenas tirou-o da sombra da morte, mas deu-lhe um
lugar à mesa real.
Destacamos aqui alguns pontos:
1. A busca (2Samuel 9:5,6). A motivação de Davi em buscar Mefibosete é
o desejo de honrar Jônatas (1Samuel 20:11-17). Mefibosete estava com
cinco anos quando Jônatas, seu pai, morreu em combate. Já devia estar agora
com mais de vinte anos, uma vez que já tinha um filho (2Samuel 9:12). Não
havia mérito em Mefibosete para ser procurado por Davi. Isso é um retrato
da graça de Deus.
2. O medo (2Samuel 9:7a). Mefibosete estava com medo quando foi
encontrado. Pensou que morreria, pois era o destino dos membros de
famílias rivais nas monarquias orientais. Mefibosete não sabia quais eram as
reais intenções de Davi. Mas o rei Davi não impõe medo nem ordena a
morte de Mefibosete; ao contrário, oferece-lhe graça. Davi não queria
humilhá-lo, mas exaltá-lo.
3. A bondade (2Samuel 9:7b). Davi usa de bondade para com Mefibosete
por amor de Jônatas. Davi honra a aliança feita Jônatas e mantém a palavra
dada. A fidelidade de Davi com os compromissos assumidos lança luz sobre
a aliança da graça, quando Deus decide nos salvar.
4. A restituição (2Samuel 9:7c). Davi não apenas trouxe Mefibosete de Lo-
Debar para o seu palácio, como também restituiu-lhe todas as terras de Saul.
Mefibosete assentar-se-á à mesa do rei não como um mendigo, mas como
alguém que tem o amor e as benesses do rei.
5. A honra (2Samuel 9:7d). Davi disse a Mefibosete: “[...] e tu comerás
pão sempre à minha presença”. Assentar-se à mesa com o rei para participar
da refeição diária era o mais elevado prestígio que alguém poderia receber
(1Reis 2:7; 18:19; 2Reis 25:29). Era como ser membro da família real. Mais
do que farta provisão, isso aponta para comunhão e intimidade. O filho de
Jônatas tornou-se um membro da casa real em Jerusalém (2Samuel 9:12,13).
6. O reconhecimento (2Samuel 9:8). O bondoso gesto de Davi provocou
uma reação muito humilde e imérita por parte de Mefibosete. Ele reage a
essa extravagante bondade do rei com um senso de profunda humildade,
inclinando-se e dizendo: “[...] quem é teu servo, para teres olhado para um
cão morto tal como eu?”. A graça deve ser sempre recebida com um senso de
humildade e gratidão.
Mefibosete recebe de Davi honra, prestígio e herança (2Samuel 9:9). Davi
transfere todos os bens da casa de Saul para esse neto aleijado de ambos os
pés. Davi informa a Ziba, servo de Saul, que todos os bens de Saul e sua casa
agora têm um novo dono, Mefibosete!
Mefibosete recebe a provisão com fartura (2Samuel 9:10). Davi ordena
que Ziba, seus filhos e seus servos passem a cultivar as terras de Mefibosete,
para que a descendência do filho de Jônatas tenha pão com fartura. Declara
também que Mefibosete estará com ele, comendo pão sempre à sua
presença, na mesa real.
Mefibosete recebe a honra de sentar-se à mesa com o rei. Por quatro
vezes o narrador informa que Mefibosete morava em Jerusalém e tinha
pleno acesso à mesa real, para assentar-se com o rei e seus filhos e para
comer diante de Davi (2Samuel 9:7,10,11,13).
Na verdade, Mefibosete é tratado como um filho. Mais do que chamar
Mefibosete para Jerusalém, abrigar-lhe no palácio, dar-lhe herança e acesso
à mesa real, Davi tratou-o como filho, adotando-o e oferecendo-lhe todos os
privilégios da família real (2Samuel 9:11-13). O filho de Jônatas foi tratado
como filho de Davi. Veja os filhos de Davi assentados ao redor da mesa:
Amnom, Tamar, Salomão, Absalão e o comandante Joabe. Ouvem-se as
batidas surdas das muletas. É Mefibosete chegando para assentar-se à mesa
como um dos filhos do rei. Isso é graça, maravilhosa graça. Isso é bondade
posta em ação. Isso é pura misericórdia.
1. DAVIS, Ralph Davis. 2Samuel. 2018, p. 120-126. ↵
O
Capítulo 17
Davi, o adúltero
capítulo 10 de 2Samuel encerrou-se com as esplêndidas vitórias de
Davi, enquanto o capítulo 11 registra sua amarga derrota. O guerreiro
tem vitória no campo de batalha, mas derrota fatídicano leito conjugal. A
narrativa sofre uma reviravolta trágica quando Davi transgride a lei de Deus
de modo ostensivo e traz o caos para sua vida, para a corte e para a nação.
Dale Ralph Davis titula esse capítulo de carne e sangue. Aqui, Davi é guiado
não por hesed, mas por eros.1
Aqui, vemos o homem escolhido por Deus (1Samuel 16:1-13), o homem
segundo o coração de Deus (1Samuel 13:14) caindo em adultério. O mesmo
homem que colocou Mefibosete em sua mesa, colocou Urias na sepultura.
Quão rápida e fatalmente qualquer um de nós pode cair. Paul Gardner diz
que a partir desse ponto, a história de Davi é uma mistura de tragédia e
providência divina.2
A passagem retrata um “caso extraconjugal” do rei Davi. Como começa,
como continua e quais são suas características, suas vítimas e suas
consequências. É digno de nota que a Bíblia nunca encobre as falhas
humanas. Deus não escreve biografias humanas como um “pai coruja”. As
falhas, assim como os sucessos, também são descritas. Deus não encobre os
pecados de seus filhos nem tem heróis prediletos. O caso de Davi e Bate-
Seba é tão moderno como qualquer novela veiculada atualmente.
Da ociosidade ao adultério
Não havia nada de diferente naquele dia. Tudo corria normalmente. A
política, o comércio, as famílias, o culto, a guerra. Davi havia conquistado a
paz para o seu grande império. Muitas vitórias tinham sido alcançadas.
Agora, os soldados de Israel lutam contra os amonitas. Davi envia Joabe, seu
comandante, mas não vai à peleja com seus valentes.
Ninguém suspeitava que algo desastroso ocorreria naquele dia comum,
muito menos Davi e Bate-Seba. Nada indicava a terrível cadeia de eventos:
adultério, gravidez, engano, homicídio, tragédia familiar e juízo divino. Tudo
isso ocorreu em um dia como outro qualquer. Aquele caso aconteceu como
uma surpresa para Davi e Bate-Seba. Nenhum dos dois planejou pecar. Não
foi resultado de algo planejado. Davi era o homem segundo o coração de
Deus e Bate-Seba uma esposa fiel de um soldado patriota. Deus estava
abençoando Davi. Eram muitas vitórias e conquistas. Davi havia recebido a
promessa de que seu descendente reinaria para sempre. Davi era um homem
cheio de zelo pelo Senhor. Trouxe a arca da aliança para Jerusalém.
Compunha Salmos de louvor. Era um homem de oração. Dificilmente
poderia ser considerado um candidato a um desastre pessoal.
Nem sempre há razões para se suspeitar de uma tragédia. A família vai
bem. Os negócios vão bem. A igreja vai bem. E de repente, uma bomba! José
estava bem na casa de Potifar. A casa de seu amo estava prosperando a olhos
vistos. De repente, sua patroa coloca os olhos nele e o convida a ir para cama
com ela. José firmemente se recusou e foi acusado de assédio sexual e foi
parar na prisão. Os “casos” não começam com o piscar de luzes vermelhas de
advertência. O dia não começa com nuvens plúmbeas e agourentas. Não há
avisos do céu gritando: “Reforce as suas defesas, pois a tentação está
chegando”. Destacamos alguns pontos importantes aqui:
1. Uma omissão notória. Quais foram os passos que Davi deu que o
levaram ao adultério? Davi ficou em Jerusalém em vez de ir com seus
soldados à guerra, como era seu costume e como seria o seu dever. O texto é
categórico: “[...] no tempo em que os reis costumam sair para a guerra,
enviou Davi a Joabe, e seus servos, com ele, e a todo o Israel [...]; porém,
Davi ficou em Jerusalém” (2Samuel 11:1). Uma das razões pelas quais Israel
pediu um rei era esta: “[...] o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de
nós e fazer as nossas guerras” (1Samuel 8:20). Davi, na condição de rei, tem
autoridade. Ele dá uma ordem e outros realizam seus desejos. Isso é
retratado em 2Samuel 11, capítulo no qual vemos Davi exercendo sua plena
autoridade (11:1,3,4).
2. Uma ociosidade perigosa. Em vez de estar no front da batalha com seus
soldados, Davi estava no seu leito real à tarde, rendido ao ócio (2Samuel
11:1b,2). Enquanto outros se destacavam e arriscavam sua vida, Davi estava
“matando tempo”. O leito de Davi foi uma cabeça de ponte pela qual o
diabo chegou a tomar a fortaleza do seu coração. Davi ficou passeando no
terraço da casa real, andando de um lado para o outro, sem ir a lugar
nenhum. Ele estava no lugar errado, na hora errada. Desse ponto
privilegiado, uma espécie de mirante, Davi tinha a vantagem de enxergar lá
embaixo as casas próximas, tendo o controle de tudo que contempla. Muito
embora Davi fosse um homem realizado sexualmente e inobstante esse
passeio pelo terraço da casa real não tivesse nada de intencional, esse foi o
cenário de uma avassaladora tentação. É verdade que as circunstâncias não
fazem um homem, elas o revelam. À semelhança dos saquinhos de chá, a
nossa verdadeira força se manifesta quando somos imersos em água quente.
3. Uma atração sedutora. “[...] daí viu uma mulher que estava tomando
banho; era ela mui formosa” (2Samuel 11:2b). A Palavra de Deus diz:
“Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não
pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada
um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz” (Tiago
1:13,14). Jesus é categórico: “Ouvites o que foi dito: Não adulterarás. Eu,
porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura,
no coração, já adulterou com ela” (Mateus 5:27,28). Aqui, portanto, começa
a luta de Davi. Ele viu uma mulher que estava tomando banho. Ele parou e
olhou demoradamente. A visão deu lugar ao desejo, e o desejo transformou-
se em cobiça. Davi conhecia bem o sétimo mandamento da lei de Deus:
“Não adulterarás” (Êxodo 20:14) bem como o décimo mandamento: “Não
cobiçarás a mulher do teu próximo...” (Êxodo 20:17). Davi, porém, sem
nenhuma hesitação, sem nenhuma espera ou ponderação, sem medir as
consequências, ficou cego pela volúpia e pela paixão. Warren Wiersbe diz:
“Ao se demorar e olhar, Davi tentou a si mesmo; ao enviar mensageiros,
tentou Bate-Seba; e ao se entregar aos desejos da carne, tentou o Senhor”.3
4. Uma curiosidade frívola. “Davi mandou perguntar quem era [...]”
(2Samuel 11:3a). O problema de Davi não foi ter visto a mulher tomando
banho, mas ter alimentado a concupiscência dos olhos. Ele deu curso ao
desejo e avançou a linha divisória, buscando informação sobre a identidade
da mulher. Abrir a agenda para o tentador é um risco fatal. Ser guiado pela
concupiscência dos olhos é pisar em um terreno escorregadio.
5. Uma informação alertadora. “[...] disseram-lhe: É Bate-Seba, filha de
Eliã e mulher de Urias, o heteu” (2Samuel 11:3b). Essa informação deveria
fazer Davi pisar no freio. Bate-Seba tem avô, pai e marido. Ela era neta de
Aitofel, seu conselheiro predileto (2Samuel 23:34; 16:23), filha de Eliã e
mulher de Urias. Bate-Seba é descrita como tendo ligações com outros
homens, notadamente, seu pai e seu marido. Ela era um valioso ser humano
tanto como filha como esposa. Davi a tratou a princípio apenas como um
objeto de prazer. Ele a coisificou, a objetificou, ignorando seu valor como
pessoa humana.
6. Uma decisão insensata. “Então, enviou Davi mensageiros que a
trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela. Tendo-se ela purificado da sua
imundícia, voltou para casa” (2Samuel 11:4). O mesmo Davi que mandou
perguntar quem era a mulher também envia mensageiros para trazer a
mulher. Se ela veio a convite ou por imperativa convocação não sabemos,
mas a intenção de Davi era indubitável. Ele a trouxe para seduzi-la e deitar-
se com ela. A tentação apela para o desejo. O desejo cria a fantasia. A
fantasia incendeia os sentimentos, e os sentimentos clamam por ação.
Depois de coabitar com a mulher de Urias, ela voltou para sua casa. A
intenção dos dois era guardar segredo daquele encontro e manter sob o
anonimato aquela loucura (Provérbios 6:32). Aquele “ficar” em Jerusalém,
aquele “leito”, aquele “passear” pelo terraço da casa real; aqueles poucos
minutos de ociosidade, cobiça e consequente pecado trouxeram para o rei e
para o povo de Israel anos de penosa luta e sofrimentos atrozes.
7. Uma ocultação vergonhosa.“A mulher concebeu e mandou dizer a Davi:
Estou grávida” (2Samuel 11:5). Estas são as únicas palavras de Bate-Seba
registradas em todo o episódio, mas são palavras que Davi não queria ouvir.
Durante várias semanas as coisas continuaram como antes — eles juraram
guardar segredo daquela noite. O que havia se passado era apenas uma
aventura. Era uma recordação particular deles, trancada só em dois corações.
Dentro de um mês ou dois, os sinais começam a aparecer: a ausência de um
período menstrual, tontura matinal, náuseas e o segredo foi exposto. Bate-
Seba descobre que está grávida e Davi é o pai. Desde a época do Éden, o
homem procura encobrir os seus rastros. O fato de ter vivido uma mentira
por uma noite, se não for confessado completamente, requer muitas outras
mentiras para encobri-lo. A pessoa que tem reputação de integridade agora
recorre a todo tipo de engano para salvar sua pele. Viver uma mentira leva a
outras mentiras. Um abismo chama outro abismo.
Do adultério ao assassinato
Para encobrir seu pecado, proteger-se e eliminar as evidências, Davi busca
uma saída, forjando, mentindo e cometendo crimes. Sobrou a Davi a opção
de assassinato. Então, concentra seus esforços para eliminar Urias em uma
elaborada trama. Vejamos:
1. Uma ordem real. “Então, enviou Davi mensageiros a Joabe, dizendo:
Manda-me Urias, o heteu. Joabe enviou Urias a Davi” (2Samuel 11:6) Por
que Urias? Será que o rei tinha alguma homenagem a fazer? Alguma
medalha de honra ao mérito? Alguma promoção? Davi não dá explicações a
Joabe, nem Joabe questiona as motivações de Davi. Simplesmente obedece à
ordem real. Davi só mandou chamar Urias porque estava preocupado em
acobertar sua má conduta sexual.
2. Uma estratégia hipócrita. “Vindo, pois, Urias a Davi, perguntou este
como passava Joabe, como se achava o povo e como ia a guerra” (2Samuel
11:7). Davi faz três perguntas para Urias sem qualquer conexão com o
propósito de sua vinda a Jerusalém. Trata-se de uma estratégia hipócrita, de
um disfarce mentiroso. A resposta de Urias não é incluída na narrativa —
uma omissão importante, simbolizando que Davi simplesmente o deixa
falar, sem prestar nenhuma atenção ao relato que ele apresenta.
3. Uma insistência fracassada. As palavras de Urias, “tão certo como vives,
não farei tal coisa” são irônicas em dois aspectos, e, do ponto de vista do
leitor, condenam Davi:
1. Urias desobedece à ordem do rei (2Samuel 11:8,9), mas sua defesa é
um lembrete que a lealdade ao Senhor e à sua causa suplantam até
mesmo a autoridade do rei (2Samuel 11:11).
2. Embora Urias considere errado dormir com sua própria esposa
enquanto o exército luta em Amom, Davi não tem esse escrúpulo.
Alias, ele até dorme com a esposa de outro homem.
Davi usou dois artifícios para tentar convencer Urias a ir para casa e
deitar-se com sua própria mulher. O primeiro artifício foi uma generosidade
injustificada: “Depois, disse Davi a Urias: Desce à tua casa e lava os pés.
Saindo Urias da casa real, logo se lhe seguiu um presente do rei” (2Samuel
11:8). Quanto cuidado! Quanta solicitude aparente! Mas requintada
hipocrisia. Um presente real destina-se a incentivar Urias a se considerar
especialmente favorecido e, então, descontrair-se e aproveitar a oportunidade
para ir para casa e ficar com a esposa. Se Urias fosse para casa e coabitasse
com sua mulher, todo mundo saberia que a criança era filho dele. Davi
estaria livre de culpa e responsabilidade. Era um plano engenhoso. A
verdade seria sepultada na ignorância de Urias. A esse favor
incompreensível, Urias não aquiesceu. Está escrito: “Porém Urias se deitou à
porta da casa real, com todos os servos do seu senhor, e não desceu para sua
casa” (2Samuel 11:9).
O segundo artifício foi uma preocupação exacerbada. “Fizeram-no saber a
Davi, dizendo: Urias não desceu a sua casa. Então disse Davi a Urias: Não
vens tu duma jornada? Por que não desceste à tua casa?” (2Samuel 11:10). A
resposta de Urias deixou Davi mais apreensivo. Urias respondeu com a
realeza que nessa hora faltou a Davi. “Respondeu Urias a Davi: A Arca,
Israel e Judá ficam em tendas; Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor
estão acampados ao ar livre; e hei de eu entrar na minha casa, para comer e
beber e para me deitar com minha mulher? Tão certo como tu vives e como
vive a tua alma, não farei tal coisa” (2Samuel 11:11). O plano de Davi teria
funcionado sem empecilhos se Urias e Deus tivessem cooperado. Davi não
contou com a integridade de Urias nem com a concordância de Deus.
Concordo com Dale Ralph Davis quando ele diz que Davi conduz as ações
assentado no trono, porém ele não controla Urias. Ele coloca Urias sob
influência, mas não sob a sua influência. Davi está no controle: ele convoca
Urias, ele escreve cartas. Ele envia Urias para a morte. Mas ele não controla
Deus.4
4. Uma hospitalidade fingida. “Então, disse Davi a Urias: Demora-te aqui
ainda hoje, e amanhã te despedirei. Urias, pois, ficou em Jerusalém aquele
dia e o seguinte. Davi o convidou, e comeu e bebeu diante dele, e o
embebedou; à tarde, saiu Urias a deitar-se na sua cama, com os servos de seu
senhor; porém não desceu a sua casa” (2Samuel 11:12,13). Davi oferece um
jantar a Urias, uma distinção incomum a um soldado. Sua hospitalidade
fidalga não passava de fingimento. Davi tinha a intenção de alterar o juízo e
as inibições de Urias. Queria com essas palavras macias e com essas atitudes
amáveis enviar Urias bêbado para casa e, assim, acobertar seu adultério. Davi
pensou que Urias embriagado, mesmo que não tivesse relação sexual com
Bate-Seba, de nada se lembraria e tudo ficaria bem. Concordo com Kevin
Mellish quando ele diz: “Urias, um soldado bêbado, foi mais justo do que
Davi, um rei sóbrio”.5
5. Uma crueldade desumana (2Samuel 11:14-25). Uma vez que todos os
expedientes usados por Davi não funcionaram, ele partiu para uma medida
radical. Resolveu matar Urias com a espada dos amonitas e o fez com
requinte de crueldade. Davi estava disposto a matar um justo, um servo leal,
um caráter nobre para acobertar seu pecado.
Pela manhã, Davi escreveu uma carta ao comandante Joabe e a enviou por
mão de Urias. Joabe deveria colocar Urias na frente da maior força da peleja
com o propósito de deixá-lo sozinho, sem proteção, para ser ferido e morto.
Assim, o guerreiro heteu carregou a sua própria sentença de morte em uma
carta selada destinada a Joabe. O comandante das tropas de Israel atendeu à
risca a ordem de Davi e, nessa trama de guerra, alguns do povo, dos servos
de Davi e Urias morreram. Urias morreu em batalha, vítima da luxúria e do
medo de seu próprio monarca. Davi passa para as mãos de Joabe o
assassinato de um homem inocente. Isso coloca Joabe na posição nada
invejável de conflito entre a lealdade ao rei e a lealdade à sua própria
consciência.
Joabe, então, enviou notícias a Davi noticiando-o do ocorrido, mas
alertando ao mensageiro que se Davi, ao fim do relato ficasse irado com a
baixa dos soldados, havia uma senha que poderia acalmar-lhe os ânimos: a
informação de que Urias, o heteu, também estava morto. Davi mais uma vez
transcende sua maldade ao responder ao comandante: “Assim dirás a Joabe:
Não pareça isto mal aos teus olhos, pois a espada devora tanto este como
aquele; intensifica a tua peleja contra a cidade e derrota-a; e, tu anima a
Joabe” (2Samuel 11:25). Davi estava disposto a cometer qualquer desatino
para amordaçar a verdade. Ele enterrou o seu pecado no túmulo de Urias.
Um “caso extraconjugal” que tem continuidade sempre necessita de
sacrifício. O sacrifício egoístico do amor, da lealdade, dos relacionamentos,
do respeito, da integridade, da consciência e da comunhão com Deus. Davi
não foi apenas responsável pela morte de Urias, mas também foi culpado
pela morte de outros guerreiros que, inconscientemente, se tornaram um
“dano colateral” da sua conspiração.
6. Uma tapeação insuficiente (2Samuel 11:26,27). Quando Bate-Seba
soube da morte de seu marido, pranteou-o. Porém, passado o luto, Davi
mandou buscá-la e a trouxe para o palácio; ela tornou-se sua mulher e lhedeu um filho. Um certo alívio tomou conta do coração de Davi e de Bate-
Seba. Haviam conseguido esconder o pecado deles no túmulo de Urias. A
gravidez de Bate-Seba e o nascimento da criança não seriam mais um
escândalo em Israel. No entanto, a noite de prazer de Davi tornou-se um
pesadelo de dor. As circunstâncias pareciam tranquilas para o rei, mas o seu
coração estava atormentado. Os Salmos 32, 38 e 51 retratam esse tormento
de Davi.
7. Uma reprovação contundente. Davi, porém, não contou com a reprovação
divina. Está escrito: “[...] porém, isto que Davi fizera foi mal aos olhos do
Senhor” (2Samuel 11:27b). Davi parece ter escapado impune, mas a
narrativa lembra que ele não pode esconder seus crimes do olhar atento do
Senhor. Davi diz a Joabe: “Não pareça isto mal aos teus olhos” (2Samuel
11:25). O Senhor, porém, não pode ser apaziguado tão facilmente quanto
Joabe. O que Davi fez desagradou ao Senhor. Nas palavras de Dale Ralph
Davis, “Davi podia ter a carne da Bate-Seba e o sangue de Urias, mas não
escapou dos olhos de Deus”.6
Os pecados escondidos na terra são um escândalo público no céu. O que
se faz com as portas trancadas na terra acontece diante dos olhos do Deus
Todo-poderoso. Davi foi açoitado pelo chicote da culpa. Ele confessou mais
tarde: “Enquanto eu calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos
pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e
noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (Salmos
32:3,4).
Algumas lições ficam patentes:
1. Ninguém, embora escolhido, abençoado e usado por Deus, está imune
a um “caso” extraconjugal.
2. Qualquer pessoa, a despeito de grandes vitórias que tenha tido, pode
cair desastrosamente.
3. O ato de infidelidade é o resultado de desejos, pensamentos e fantasias
descontroladas.
4. Uma noite de paixão pode desencadear anos de dor para a família.
Resta claro afirmar que o pecado levará você mais longe do que gostaria
de ir; reterá você mais tempo do que gostaria de ficar e lhe custará um preço
mais caro do que você gostaria de pagar.
1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 139-142,145. ↵
2. GARDNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. 2015, p. 133. ↵
3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 326. ↵
4. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 143,144. ↵
5. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 282. ↵
6. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 147. ↵
A
Capítulo 18
Davi, o homem confrontado
pela graça
s trapaças de Davi pareciam ter funcionado. Ele contava com o silêncio
de Joabe e com a conivência de Bate-Seba. O adultério com a mulher
de Urias e o assassinato desse fiel soldado já pareciam ser águas passadas. O
filho do adultério já tinha nascido e ninguém suspeitava de qualquer trama
engendrada pelo rei.
É bem verdade que nesse tempo de silêncio Davi estava vivendo um
tormento existencial. Enquanto calou seu pecado, “envelheceram seus ossos
pelos seus constantes gemidos todo o dia” (Salmos 32:3). Ele alagava seu
leito com suas abundantes lágrimas e era açoitado, sem pausa, pelo
azorrague da culpa.
A graça de Deus caça e captura Davi
O Senhor, então, por graça infinita, entra em ação para confrontar Davi e
tirá-lo do atoleiro em que se encontrava. As consequências, porém, são
trágicas. Davi paga a restituição quádrupla que ele mesmo se
autodeterminou. Ainda assim, o Senhor mantém sua aliança e preserva
tanto a vida quanto a dinastia de Davi.
No capítulo 11 de 2Samuel é Davi quem está no controle. Ele faz as
coisas acontecerem. Ele domina a ação totalmente desde o terraço do
palácio real. Ele envia mensageiros para investigar quem é a mulher que
estava se banhando. Depois envia mensageiros para trazê-la à casa real.
Então, envia mensageiros a Joabe para lhe enviar Urias. Depois envia Urias
portando sua própria sentença de morte a Joabe. Davi ordena e as coisas
acontecem. Ele dá ordens, e as pessoas se submetem ao seu comando. Mas
no capítulo 12 é Deus quem envia.1
Há alguém que exerce autoridade até mesmo sobre o rei. O Senhor,
descontente com as ações de Davi (2Samuel 11:27), “envia” seu profeta para
confrontar Davi. Assim no capítulo 12 de 2Samuel é Deus quem está no
controle. É o Senhor quem “envia” o profeta Natã a Davi. Agora, é a graça
de Deus que caça Davi e o encontra no emaranhado de suas transgressões.
O profeta Natã poderia ter usado o método de João Batista em relação a
Herodes Antipas, dizendo: “Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão”
(Marcos 6:18). No entanto, ele escolheu um caminho indireto para arrancar
do rei uma clara convicção de pecado. O narrador não explica se Natã
contou um dos casos hipotéticos que poderia muito bem ter ocorrido em
um dos tribunais locais ou se usou uma parábola. Robert Chisholm diz que
Natã emprega uma história sobre abuso de poder, e não sobre adultério e
homicídio, pois esse abuso é o cerne dos crimes de Davi.2
A relato de Natã tem alguns componentes de suma importância:
1. Uma história de dois homens (2Samuel 12:1-4). Havia em uma cidade
dois homens, um homem rico e outro pobre. O rico tinha ovelhas e gado em
grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma cordeirinha
que comprara e criara, e que crescera junto com seus filhos em sua casa. A
cordeirinha comia do seu bocado e bebia do seu copo. Dormia em seus
braços como se fosse sua filha. Vindo um viajante ao homem rico, este não
quis tomar uma das suas ovelhas e de suas muitas reses para dar de comer ao
viajante; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o
homem que havia chegado. Como diz Warren Wiersbe, ao que parece, Davi
não se deu conta de que ele era o homem rico, Urias, o homem pobre, e
Bate-Seba, a cordeirinha que havia sido roubada.3 Davi tinha um harém,
com muitas mulheres, e mesmo assim resolveu tomar a mulher de Urias,
matá-lo e ainda casar-se com a mulher dele.
2. Uma sentença. Ao ouvir esse relato, Davi, do topo de seu afinado senso
de justiça, fica muito irado e dá a sentença com santo zelo religioso: “Tão
certo como vive o Senhor, o homem que fez isso deve ser morto” (2Samuel
12:5). Na língua hebraica, Davi chama o homem rico de “um filho da
morte”.4 Robert Chisholm diz, acertadamente, que “sem saber, Urias levou
sua sentença de morte a Joabe; agora, também sem saber, Davi pronuncia
sua própria sentença de morte sob juramento”.5
Davi julgou o homem rico sem perceber que estava julgando a si mesmo.
É mais fácil ver os pecados dos outros do que os próprios pecados (Mateus
7:1-3). Davi pretende dar o veredito acerca de outro, mas o que acontece é
que dá o veredito sobre si mesmo. Ele está lavrando, em nome do Senhor,
sua própria sentença de morte. Ele é o rico que, com crueldade, deitou-se
com a mulher de seu soldado, matou-o e casou-se com ela.
3. Uma restituição. Davi como conhecedor da lei, declara: “E pela
cordeirinha restituirá quatro vezes, porque fez tal coisa e porque não se
compadeceu” (2Samuel 12:6). O que diz a lei? “Se alguém furtar boi ou
ovelha e o abater ou vender, por um boi pagará cinco bois, e quatro ovelhas
por uma ovelha” (Êxodo 22:1). Assim, Davi estava não só lavrando a própria
sentença de morte, como determinando o alto preço que teria de pagar, a
quádrupla retribuição, pois o bebê de Bate-Seba morreu e seus filhos
Amnom, Absalão e Adonias foram mortos (13:29; 18:14,15; 1Reis 2:25).
Joabe, o mesmo comandante que cumpriu a ordem de Davi para matar
Urias, o marido de Bate-Seba, é quem matará Absalão, o filho de Davi.
Davi pagou a restituição pela vida de Urias com a vida de seus próprios
filhos. Somente depois que a restituição fosse completada poderia haver paz.
O nome de Salomão está relacionado à palavra “paz”. Logo, quando
Salomão subiu ao trono houve paz porque a restituição havia sido feita pelas
transgressões de Davi. Pelo resto de sua vida, Davi passou por uma sucessão
de tragédias em sua família e em seu reino.
4. Uma acusação. O profeta Natã, com perícia, clareza diáfana e coragem
desassombrada, diz a Davi: “Tu és o homem” (2Samuel 12:7a).Davi é
apanhado pelas cordas de seu próprio pecado. É encurralado pelas suas
próprias palavras e despido de seus disfarces. Nas palavras de Joyce Baldwin
“todas as defesas de Davi foram destruídas com um só golpe, e ali está ele,
despido perante seu juiz”.6
Por que Deus tomou a iniciativa de confrontar Davi? Primeiro, o pecado
anestesia. Davi ficou cerca de dez meses usando uma máscara, mentindo,
representando. Segundo, o pecado engana. Davi condena nos outros o que não
consegue ver em si mesmo. Terceiro, o pecado embrutece. Mesmo tendo
muitas mulheres, Davi roubou a mulher de Urias e o matou para ficar com
ela. Quarto, o pecado escraviza. Davi não consegue se libertar até que Deus o
liberte.
A graça de Deus confronta Davi
Depois de levar Davi ao conhecimento de seu próprio pecado, Natã
destacou os favores da graça de Deus na vida de Davi. Vejamos:
1. O favor imerecido de Deus (2Samuel 12:7b,8). Davi se esqueceu da
bondade de Deus que lhe havia concedido tantos privilégios. Quatro dádivas
são mencionadas aqui: a unção divina como rei de Israel, o livramento das
muitas perseguições de Saul, a casa de Saul e suas mulheres, e a casa de
Israel e Judá. Se essas dádivas não fossem suficientes, Deus ainda teria
acrescentado outras benesses. É mister esclarecer aqui que o costume era que
o harém do monarca morto seria herdado pelo sucessor, e, de acordo com
essa regra, Davi já havia ampliado sua família.7
2. A acusação aberta de Deus. “Por que, pois, desprezaste a palavra do
Senhor, fazendo o que era mal perante ele? A Urias, o heteu, feriste à
espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada
dos filhos de Amom” (2Samuel 12:9). Quanto maiores os privilégios,
maiores as responsabilidades. Diante de tantos benefícios da graça, Davi é
acusado de ter desprezado a Palavra do Senhor, o que significa desprezar o
próprio Senhor, fazendo uma coisa má. O pecado é algo muito maligno.
Viola a lei de Deus. Escarnece de Deus. Afronta a santidade de Deus. Pisa a
bondade de Deus. Insulta a cruz de Cristo. Entristece o Espírito Santo. A
acusação não é genérica. Davi feriu Urias, o heteu, à espada, tomou a mulher
dele como mulher e depois matou-o com a espada dos filhos de Amom.
Davi usou a espada do próprio inimigo, os amonitas, para matar Urias.
Concordo com Dale Ralph Davis quando ele escreve: “Davi não somente
cometeu iniquidade, mas também destruiu pessoas. Ele pecou contra o
Senhor e arruinou pessoas”.8
Nas palavras de Joyce Baldwin, “embora Davi tivesse planejado essa morte
à distância, ele era tão culpado de assassinato quanto se tivesse atravessado o
homem com sua própria espada”.9 Pelo fato de Davi ter usado a espada dos
amonitas para causar a morte de Urias, essa ferramenta de guerra jamais se
afastaria de sua casa.
3. A retribuição justa de Deus (2Samuel 12:10-12). Deus perdoou Davi,
portanto, ele não morrerá. No entanto, as consequências do pecado de Davi
não foram removidas. Warren Wiersbe tem razão em dizer que o pecado de
Davi com Bate-Seba havia sido um pecado passional, impulsivo, que o
arrebatou, mas o pecado de mandar matar Urias havia sido um crime
premeditado, deliberado e vergonhoso.10 Robert Chisholm diz que o castigo
do Senhor sobre Davi é caracterizado pela justiça retributiva. Davi (e não os
amonitas nem Joabe) matou Urias, e agora a espada devastará a casa de
Davi. Três dos seus filhos, Amnom, Absalão e Adonias, morreram de forma
violenta (2Samuel 13:28,29; 18:14; 1Reis 2:24,25): Absalão mata seu rival,
Amnom; e Salomão mata seu rival, Adonias; em ambos os casos, fazem-no
por meio de outros. Joabe, que providenciou a morte de Urias, mata Absalão
mais adiante.11
Porque Davi desprezou a Deus e tomou a mulher de Urias, o heteu, para
ser sua mulher, a espada não se apartará de sua casa. Da própria casa Davi,
Deus suscitará o mal contra ele e permitirá que suas mulheres sejam dadas a
seu filho Absalão, que coabitará com elas publicamente (2Samuel 16:22). O
que Davi fez em oculto, Absalão fará em plena luz do sol.
Há cinco tipos de consequências do pecado:
1. Consequências para nós mesmos. O prazer do pecado de Davi tornou-se
em tormento. Ele chorava. Sentia seus ossos arderem. Sentia a mão de
Deus pesando sobre ele de dia e de noite. Seu vigor se tornou em
sequidão de estio. A alegria da salvação foi embora de sua vida. A culpa
o devastava. A vergonha de ver o seu pecado oculto sendo trombeteado
dos outeiros da história o humilhou.
2. Consequências para nossa família. As esposas, os filhos e os netos de Davi
sofreram as consequências de seu pecado. As pessoas que ele mais
amava sofreram os revezes de seu pecado. Amnom, cujo nome significa
“digno de confiança”, estuprou sua irmã Tamar. Absalão, cujo nome
significa “pai da paz” matou seu irmão Amnom e conspirou contra o
pai. Absalão também coabitou com as concubinas de seu pai em plena
luz do sol e perseguiu o próprio pai para matá-lo, morrendo nessa
inglória empreitada. Salomão, a quem Davi dá o reino, mata seu irmão
Adonias. Quando Amnom estuprou sua irmã Tamar, Davi lembrou-se
de ter possuído indevidamente a mulher de Urias. Quando Absalão
matou Amnom, Davi se lembrou de que, covardemente, mandou matar
Urias. Quando Absalão, seu filho, foi morto pelas mãos de Joabe, seu
general, Davi se lembrou de que Urias tinha sido morto por sua ordem.
3. Consequências para a comunidade do povo de Deus. Muita gente sofreu e
foi morta como resultado do pecado de Davi. Um pecado oculto traz
derrota para toda a igreja.
4. Consequências para a comunidade não cristã. As pessoas blasfemaram o
nome de Deus. Muita gente se escandaliza e se afasta de Deus por
causa desse tipo de pecado.
5. Consequências para o Senhor Deus. O Senhor sofreu ao ver Davi, seu
filho amado, pecar premeditadamente, testemunhando a maldade de
Davi ao deitar-se na cama do adultério. O Senhor Jesus chorou sobre a
impenitente Jerusalém.
A graça de Deus poupa Davi
Diferentemente de Saul, Davi ao ser confrontado pelo profeta, não usa de
evasivas, não dá desculpas nem tenta incriminar outras pessoas. Ele admite o
seu pecado e o confessa. Vejamos:
1. A confissão. “Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor [...]”
(2Samuel 12:13a). Davi adulterou com Bate-Seba e mandou matar o marido
dela, mas reconheceu que o pecado foi cometido, em primeiro grau, contra
Deus. Em vez de agir como Saul, que se opunha de forma obstinada em
receber censura (1Samuel 15:13,20), Davi se arrepende e confessa o seu
pecado.
2. A absolvição. “[...] disse Natã a Davi: Também o Senhor te perdoou o
teu pecado; não morrerás” (2Samuel 12:13b). Davi era culpado de morte
(Levítico 20:10; Deuteronômio 22:22), mas Deus o perdoou e poupou sua
vida. Davi foi absolvido da própria sentença lavrada contra si mesmo.
Robert Chisholm destaca que, nesse caso, o perdão divino não implica a
anulação das acusações nem a eliminação de todas as consequências. Em
virtude desse rico perdão, Davi escreveu vários Salmos destacando essa
verdade bendita: “Se observares, Senhor, iniquidades, quem, Senhor,
subsistirá? Contigo, porém, está o perdão para que te temam” (Salmos
130:3,4). “O Senhor é quem perdoa todas as tuas iniquidades [...] quem da
cova redime a tua vida [...]. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim
afasta de nós as nossas transgressões” (Salmos 103:3,4,12). No tempo em
que guardou nos cofres do coração o pecado, Davi muito sofreu, como ele
expressa nos salmos 32 e 51.
3. A substituição. “Mas, posto que com isto deste motivo a que
blasfemassem os inimigos do S, também o filho que te nasceu
morrerá” (2Samuel 12:14). Dale Ralph Davis diz que o Senhor perdoou a
culpa do pecado, mas infligiu as consequências dele. Deus purifica a sujeira
do pecado, mas continua sua disciplina. O perdão para Davi é maravilhoso e
ao mesmo tempo muito caro. Davi não morreu, mas seu filho morreu em seu
lugar. Davi era o culpado de morte, no entanto, Natã lhe garantiu que ele
não morreria, mas uma morte deveria ocorrer. O filho recém-nascido deveria
morrer. O filho de Davi foi o seu substituto.12 O inocentemorreu pelo
culpado. Houve aqui uma substituição. Mil anos depois, o Filho de Davi
morreu em nosso lugar, para que pudéssemos viver eternamente.
A graça de Deus disciplina Davi
Ao concluir a missão de confrontar o rei, Natã voltou para sua casa, e o
Senhor feriu a criança que a mulher de Urias havia dado à luz a Davi. Deus
aplica o remédio amargo, mas curador, da disciplina (Hebreus 12:4-13).
Destacamos aqui alguns pontos:
1. Deus é o agente da disciplina (2Samuel 12:16a). Assim como Deus
outrora havia ferido Nabal, agora fere a criança a ponto de ela adoecer
gravemente. A doença e a consequentemente morte da criança era o braço
de Deus disciplinando severamente Davi. Joyce Baldwin está correta quando
escreve: “O escritor bíblico não hesita em atribuir diretamente ao Senhor a
doença da criança, de conformidade com a palavra do profeta”.13
2. Davi se prostra diante de Deus (2Samuel 12:16b,17). Mesmo sabendo, da
parte do profeta Natã, que a criança morreria, Davi se prostra diante de
Deus em jejum e oração durante toda a noite. Davi se recusou a se levantar
da terra e comer. Ele cria que Deus poderia reverter a situação e, por isso,
não cessou de se humilhar e orar.
3. Davi recebe a notícia do morte do filho (2Samuel 12:18,19). No sétimo
dia, a criança morreu. O bebê viveu apenas uma semana, e os pais não
puderam circuncidá-lo nem dar-lhe um nome no oitavo dia. Como diz
Warren Wiersbe: “Seu filho, Salomão, recebeu dois nomes (12:24,25), mas
esse filho sequer teve um nome”.14 Os servos de Davi ficaram preocupados
em dar a notícia a Davi e ele ficar ainda mais afligido. Percebendo, porém, o
embaraço deles, Davi concluiu que a criança havia morrido. Então
perguntou: “[...] é morta a criança? Eles responderam: Morreu” (12:19b).
4. Davi adora ao Senhor (2Samuel 12:20). Para espanto dos anciãos, Davi
se levantou da terra, lavou-se, ungiu-se, mudou de vestes, entrou na casa do
Senhor e adorou; em seguida, voltou para casa, pediu pão e comeu. Os
anciãos, perplexos, lhe disseram: “Que é isto que fizeste? Pela criança viva
jejuaste e choraste; porém, depois que ela morreu, te levantaste e comeste
pão” (2Samuel 12:21).
5. Davi é consolado pela realidade do reencontro na vida porvir. Davi explica
as razões de sua atitude. Respondeu ele:
Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o
Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém,
agora que é morta, por que jejuaria eu? (2Samuel 12:22,23a).
Davi aceita a irreversibilidade da morte com fé na imortalidade,15 pois se
agora a criança morta não pode voltar a ele; depois de sua morte, ele se
encontrará com ela.
A graça de Deus consola Davi
O Deus que é rico em perdoar e tem prazer na misericórdia demonstra o
seu perdão a Davi depois da morte da criança. Davi deitou-se com Bate-
Seba, e ela teve um outro filho, a quem Davi deu o nome de Salomão, cujo
significado é “pacífico”; e o Senhor o amou. Davi o entregou nas mãos do
profeta Natã, e este lhe chamou Jedidias, cujo significado é “amado do
Senhor”. Salomão ou Jedidias, entre todos os filhos que Davi teve, foi o
escolhido de Deus para sucedê-lo. O fato dele ter sido escolhido só confirma
a mensagem bendita de que existe um caminho de volta para a comunhão
com Deus, mesmo que seja um retorno das profundezas do mal. Deus
perdoa pecadores arrependidos.
1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 149. ↵
2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 239. ↵
3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 329. ↵
4. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 246. ↵
5. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 239,240. ↵
6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 268. ↵
7. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 268. ↵
8. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 153. ↵
9. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 269. ↵
10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 329. ↵
11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 241. ↵
12. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 156,157. ↵
13. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 271. ↵
14. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2, 2006, p. 331. ↵
15. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2,
2015, p. 247. ↵
E
Capítulo 19
Davi, o pai de uma família
disfuncional
ste capítulo é uma das páginas mais sombrias na história do rei Davi.
Está encharcado de sangue. Há na casa do rei traição, omissão, estupro,
ódio, assassinato e fuga. Davi está colhendo os amargos frutos da sua
semeadura insensata. A espada está consumindo sua família. A dor que
impôs à família de Urias está pulsando em seu próprio peito: O bebê de
Bate-Seba morreu; Absalão matou Amnom; Joabe matou Absalão; e
Salomão matou Adonias.
Há um contraste patético entre os grandes sucessos de Davi como um
soldado e general, e a rápida desintegração moral dos membros de sua
própria casa. A família de Davi está desmoronando diante de seus olhos. O
valente Davi nos campos de guerra é um homem acovardado dentro de casa.
Ele não passa de um pai omisso que não tem controle sobre seus próprios
filhos.
Warren Wiersbe diz que os acontecimentos que encontramos neste
capítulo desdobram-se como uma sinfonia trágica com quatro movimentos:
(1) Do amor à lascívia (13:1-14); (2) da lascívia ao ódio (13:15-22); (3) do
ódio ao homicídio (13:23-36); 4) do homicídio ao exílio (13:27-39).1
Eis alguns aspectos da trágica família de Davi:
Amnom, paixão sem amor
Davi tinha uma família disfuncional. Tinha vários filhos de mulheres
diferentes, formando o que se chama de “meios-irmãos”. Davi honrava os
filhos, colocando-os como ministros de Estado e dando-lhes terra para
cultivar, porém não tinha comunhão com eles. Não os acompanhava na vida
pessoal. Seu primogênito, Amnom, está abatido, deprimido, emagrecendo,
enquanto alimentava uma paixão doentia pela própria irmã, Tamar; e Davi
nada sabe do que está acontecendo. Nas palavras de Joyce Baldwin, “o rei já
estava distanciado de tudo o que se passava entre os filhos de suas diferentes
mulheres”.2 Vejamos:
1. Uma paixão doentia (2Samuel 13:1,2). Tamar, filha de Davi com Maaca
e meio-irmã de Amnom, era uma princesa real muito formosa. Amnom,
filho primogênito de Davi com Ainoã, enamorou-se dela, sentindo por ela
uma paixão avassaladora. Ammom, herdeiro do trono e príncipe real,
angustiou-se a ponto de adoecer. Ela era virgem, na idade de ser desposada,
e Amnom não via qualquer chance de se aproximar dela e fazer alguma
coisa, uma vez que era sua irmã. Robert Chisholm destaca que tanto o
narrador (13:2,8,10), quanto Amnom (13:6,11, Davi (13:7), Tamar (13:12) e
Absalão (13:20) se referem a Amnom como “irmão” de Tamar. No mínimo,
essas repetições destacam o fato de que Amnom estuprou alguém de sua
própria família.3
2. Um fingimento traidor (2Samuel 13:6). Jonadabe, sobrinho de Davi
(filho de Simeia) e primo de Amnom, estava na casa de Amnom e, vendo o
abatimento do primo, inquiriu dele a causa da angústia doentia. Ao tomar
conhecimento, recomendou a Amnom a fingir-se de doente, pois só assim
Davi viria visitá-lo. Ao visitá-lo, Davi deveria ser usado como instrumento
para enviar Tamar para a casa de Amnom. Concordo com Warren Wiersbe
quando ele diz: “Qualquer um que facilita o pecado em nossa vida
certamente não é um amigo verdadeiro”.4
3. Uma desonra insuportável (2Samuel 13:9-14). Tamar, na boa intenção de
cuidar do irmão doente, foi empurrada pelo pai para a boca do lobo, para o
quarto do irmão traidor. Ali, Amnom fez uma proposta infame para deitar-
se com ela. Quando ela resistiu à sua loucura, ele a forçou. Tamar fez um
apelo a um código moral e espiritual que distinguia Israel das nações pagãs,
mas ela não foi ouvida, antes foi agarrada à força e estuprada com violência
pelo falso doente, a despeito dos rogos desesperados da irmã. Tamar tentou
aconselhar seu irmão anão cometer aquela loucura, mas ele tapou os
ouvidos, não escutando seu pedido de socorro nem seus conselhos; e,
prevalecendo sobre ela, a violentou sexualmente.
4. Uma aversão humilhante (2Samuel 13:15-19). Depois de abusar
sexualmente da irmã, Amnom sentiu grande aversão por ela. A paixão foi
seguida de repulsa. Seu amor explosivo transformou-se em ódio consumado.
Nas palavras de Warren Wiersbe, “antes de pecar, Amnom queria Tamar
somente para si; mas depois de pecar, não viu a hora de livrar-se dela”.5 A
ordem expressa de Amnom agora é “Jogue fora esta coisa”. Depois de
extorquir a honra de sua irmã, Amnom deu ordens à ela para se levantar e ir
embora. Tamar, mesmo depois de desonrada, aconselha seu irmão a não
descartá-la como um trapo, pois não poderia conviver com essa desonra. O
segundo apelo de Tamar caiu em ouvidos surdos, e ela foi deitada fora do
quarto de Amnom, e a porta foi fechada atrás dela. Mesmo vestida de uma
túnica peculiar às donzelas filhas do rei, Tamar foi descartada como lixo; e
ao ser lançada fora, tomou cinza sobre a cabeça, rasgou a túnica talar de
mangas compridas, pôs as mãos sobre a cabeça e foi-se andando e clamando.
Jonadabe, sagacidade sem princípios
A Palavra de Deus fala da águia que coloca o ninho de seus filhos no alto
dos penhascos, longe dos predadores ( Jó 39:27,28). No ninho dos filhos do
rei Davi tinha uma víbora venenosa. Jonadabe, filho de Simeia e sobrinho de
Davi, era um parente perigoso, um conselheiro perverso, uma ameaça à
família do rei. Vejamos:
1. Um amigo perigoso (2Samuel 13:3). Jonadabe era uma víbora
peçonhenta no ninho dos filhos do rei, um homem engenhoso. Esse primo
de Amnom é chamado de amigo e de um homem muito sagaz. Era astuto,
ardiloso e perverso. Ele conhecia mais Amnom de que o pai e estava mais
próximo dele do que Davi. Ele tinha mais acesso ao coração do filho
primogênito do rei e provável sucessor ao trono do que o próprio rei. Uma
pergunta é oportuna aqui: Quem são os amigos de seus filhos? Quem são as
pessoas que frequentam sua casa? Quão próximo você está de seus filhos a
ponto de perceber como eles se sentem?
2. Um conselheiro perverso (2Samuel 13:4,5). Quando Amnom destampou
o coração para Jonadabe, este lhe deu um conselho perverso, maligno e
destruidor. Orientou Amnom a mentir, a fingir, a armar uma cilada para
atrair Tamar ao seu quarto. Nesse enredo diabólico, o rei Davi seria o
inocente útil, a massa de manobra. Davi seria usado para trazer a jovem
Tamar à casa de Amnom para fazer-lhe uma refeição especial.
Mesmo sendo tão perspicaz, Davi não notou nada. Sendo um guerreiro
experiente, que desvendou tantas tramas e desfez tantas armadilhas, caiu na
teia do engano e entregou de bandeja a própria filha às mãos do filho
traidor. Um conselho perverso foi a causa de ruína de casa do rei. Joyce
Baldwin diz que Jonadabe, arguto observador, percebendo que algo estava
errado com o príncipe Amnom; ao descobrir que ele estava perdido de amor,
propõe um estratagema que não somente levará Tamar até ele, mas também
tornará o pai deles responsável por isso.6 Amnom como primogênito do rei
se tornou obcecado com a única coisa que lhe parece impossível ter: sua
irmã Tamar. Já vimos esse padrão antes. Davi tem várias esposas e
concubinas para satisfazer seus desejos físicos (5:13; 12:8), mas toma,
cobiçosamente, uma mulher que não lhe é permitida. Amnom repetiu o
pecado de se pai.
3. Um informante dissimulado (2Samuel 13:32-35). Jonadabe é um homem
maligno e dissimulado. Ele foi o causador da loucura de Amnom, do estupro
de Tamar, do assassinato de Amnom e agora, quando a notícia da vingança
de Absalão está para chegar à casa real, estrategicamente, ele está perto de
Davi para acusá-lo veladamente de omissão. Jonadabe é a mão invisível que
está por trás de toda a tragédia na família de Davi. A notícia da morte de
Amnom chega à casa real de forma exagerada. Davi é informado de que
todos os seus filhos haviam sido assassinados por Absalão. Jonadabe está por
perto para dizer a Davi que essa notícia era inverídica. Só havia morrido
Amnom, pois há dois anos, as afeições de Absalão apontavam para essa
tragédia. Como Jonadabe sabia disso, se não estava presente na cena do
crime? É porque ele, sagazmente, foi o idealizador de toda essa trama que
encharcou de sangue a família real.
4. Um acusador velado (2Samuel 13:32-35). Resta claro afirmar que a
informação prestada por Jonadabe ao rei Davi tem um tom de censura e
acusação. As afeições de Absalão já sinalizavam esse assassinato desde o dia
em que Tamar fora forçada por Amnom. O rei Davi foi omisso em corrigir
Amnom, em consolar Tamar e em advertir Absalão. As coisas estavam
acontecendo debaixo do nariz de Davi, mas ele não fez nada.
Davi, ira sem justiça
Davi é um grande rei e um pequeno pai. Teve vitórias expressivas fora dos
portões e derrota fragorosas dentro de casa. Foi um gigante no trono, mas
um nanico no lar. Construiu um reino, mas perdeu a família. Vejamos:
1. Uma ingenuidade incompreensível (2Samuel 13:6-8). Davi não
acompanhou o processo de adoecimento de Amnom nem questionou as
razões desse emagrecimento diário de seu primogênito (2Samuel 13:3).
Davi só visita o filho ao saber que está de cama (2Samuel 13:6). Ao visitá-lo,
Davi não questiona o fato de Amnom só se dispor a comer se a refeição
fosse preparada por Tamar. Davi mandou dizer a Tamar em sua casa: “Vai à
casa de Amnom, teu irmão, e faze-lhe comida” (2Samuel 13:7). Davi não
investigou atentamente os motivos desse pedido uma tanto estranho. Davi
enviou Tamar como uma cordeirinha para a boca do lobo. Robert Chisholm
enfatiza que o mesmo Davi que mandou (shalah) buscar Bate-Seba (11:4) e
depois enviou o marido dela para ser morto (2Samuel 11:14,15) tem
participação, ainda que sem saber, nos crimes de seus dois filhos. Ele envia
uma mensagem com instruções para que Tamar vá à casa de Amnom, onde
ela é estuprada; mais adiante, envia Amnom para a festa de Absalão, onde
ele é assassinado (2Samuel 13:27). No capítulo 11, o narrador retratou Davi
como um indivíduo absolutamente soberano: ele enviava pessoas para onde
queria (2Samuel 11:1,3,4,12,27) e, por meio de uma simplesmente
mensagem, realizava seus desejos (2Samuel 11:6,14). No entanto, ele usou o
poder para satisfazer sua lascívia e encobrir seu crime. No capítulo 13, ele
continua a exercer autoridade sobre outros, mas sua autoridade se volta
contra ele quando o Senhor providencia para que Davi cumpra a pena que
ele se autoimpôs.7
2. Uma ira sem ação (2Samuel 13:21). Quando Davi tomou conhecimento
de que Amnom o havia usado para atrair Tamar à sua casa, para estuprá-la e
depois a havia enxotado como um trapo, “ouvindo o rei Davi todas estas
coisas, muito se lhe acendeu a ira” (v. 13). A ira de Davi, embora vulcânica,
foi inócua. Não produziu os frutos de justiça. Ele nada fez para punir o filho
malfeitor. Davi não contrariava seus filhos (1Reis 1:6). Obviamente, ao se
recusar a castigar Amnom, Davi nega a defender os direitos de sua filha
Tamar. Davi era valente com os de fora, mas fraco com os de casa. Ele não
castigou Amnom nem consolou Tamar. Foi omisso tanto na correção do
filho estuprador como no consolo da filha desonrada. Como um pai fraco,
Davi repete o erro de Eli, de amar mais os filhos do que a Deus. É muito
provável que a lembrança de seus próprios pecados tenha calado a boca de
Davi e atado suas mãos.
Concordo com W. T. Purkiser quando ele escreve: “A fraqueza de Davi
não só lhe custaria a vida de seu filho mais velho, Amnom, mas também ao
final, a lealdade e a vida de Absalão”.8 À semelhança de Eli e Samuel, Davi
perdeu o controle sobre os filhos, e seu próprio mau exemplo inibiria
qualquer protesto contra Amnom. Absalão, contudo, mostrou sua
desaprovação, recusando-se a ter qualquer relacionamento com Amnom e,
alimentando uma raiva secreta, esperou uma oportunidade de vingar o mal
cometido contra a irmã.
3. Uma omissão denunciada (2Samuel 13:32-36). Jonadabe é um
estrategista maligno. Ele é sagaz como uma serpente, planejando tudo
diligentemente.Ele estava na casa de Amnom para empurrá-lo para o
abismo do estupro e estava na casa real para espicaçar o rei com uma
acusação velada de omissão. Embora estivesse ausente da cena do crime, ele
sabia que só Amnom tinha sido assassinado, e não todos os filhos do rei. Ele
estava ciente de tudo, mas Davi não fez nada para impedir a morte de
Amnom, mesmo depois de Absalão insistir com ele para que Amnom não
faltasse à sua festa. As feições de Absalão, durante dois anos, eram
conhecidas de todos, exceto de Davi. A morte do primogênito de Davi é
colocada em sua conta, devido à sua omissão.
Tamar, ingenuidade sem proteção
Destacamos, aqui, cinco fatos sobre Tamar, a bela princesa, filha de Davi
com Maaca e irmã de Absalão:
1. Vítima de uma trama do irmão e do primo (2Samuel 13:1-6). Tamar tem
sua vida transtornada ao ser arrastada, sem saber, para a casa de Amnom, seu
irmão. Ela, de boa fé, atende à ordem de Davi, seu pai, para ir à casa de
Amnom preparar-lhe uma refeição. Por que só os bolos preparados por
Tamar poderiam despertar apetite no irmão enfermo? Por que Davi
acreditaria nessa narrativa? Por que Davi ordena Tamar ir à casa de
Amnom? Por que Tamar obedece sem questionar a ordem de seu pai? O
fato é que Tamar é vítima de uma trama, orquestrada pelo primo e pelo
irmão, com a colaboração ingênua do pai.
2. Vítima de uma ordem do pai (2Samuel 13:7-9). Tamar recebe em casa
uma ordem do pai para ir à casa de Amnom preparar-lhe comida. Sem
demora, ela atende à ordem. Foi e preparou os bolos diante de Amnom, que
estava acamado. Amnom, estrategicamente, recusou-se a comer os bolos,
dando ordens para que todos se retirassem da casa. Seu ato planejado não
deveria ter testemunhas.
3. Vítima de um estupro violento (2Samuel 13:10-14). Amnom deu ordens
à Tamar a trazer a comida à sua câmara. Quando Tamar trouxe os bolos,
Amnom pegou-a e disse-lhe: “Vem, deita-te comigo, minha irmã” (2Samuel
13:11). Tamar tentou alertar seu irmão acerca da gravidade de seu pedido,
dizendo-lhe: “Não, meu irmão, não me forces, porque não se faz assim em
Israel; não faças tal loucura. Porque, aonde iria eu com a minha vergonha? E
tu serias como um dos loucos de Israel [...]” (2Samuel 13:12,13a). De modo
irônico, a loucura agora caracteriza a casa real. A casal real se tornou um
lugar em que a sabedoria é pervertida juntamente com a moralidade.
Tamar chegou a sugerir a seu irmão uma alternativa desesperada: “[...]
agora, pois, peço-te que fales ao rei, porque não me negará a ti” (2Samuel
13:13b). Obviamente, Tamar tentou ganhar tempo sugerindo que Amnom
pedisse permissão ao rei para casar-se com ela, apesar de saber que esse tipo
de casamento era proibido pela lei de Moisés (Levítico 18:9-11; 20:17;
Deuteronômio 27:22). Amnom, porém, não deu guarida às palavras de
Tamar. Está escrito: “Porém ele não quis dar ouvidos ao que ela lhe dizia;
antes, sendo mais forte do que ela, forçou-a e se deitou com ela” (2Samuel
13:14).
4. Vítima de uma rejeição humilhante (2Samuel 13:15-19). Depois de
forçar Tamar, violentando-a, Amnom sentiu nojo dela. Sua aversão foi maior
do que o amor que ele lhe havia votado: “Depois, Amnom sentiu por ela
grande aversão, e maior era a aversão que sentiu por ela que o amor que ele
lhe votara” (2Samuel 13:15a). Cumprido seu desejo compulsivo, Amnom dá
ordens à sua irmã para ir embora: “[...] levanta-te, vai-te embora” (2Samuel
13:15b). A mesma Tamar que pediu para não ser desonrada, agora pede para
não ser lançada fora: “Então, ela lhe disse: Não, meu irmão; porque maior é
esta injúria, lançando-me fora, do que a outra que me fizeste” (2Samuel
13:16ª). Kevin Mellish diz que a reação de Tamar reflete a legislação de que
o jovem era obrigado a se casar com a virgem que ele estuprasse (Êxodo
22:16; Deuteronômio 22:28,29).9 Porém, pela segunda vez, Amnom não
atende ao apelo de sua irmã: “[...] porém ele não a quis ouvir” (2Samuel
13:16b). Amnom chamou a seu moço e lhe deu ordens expressas: “[...] deita
fora esta e fecha a porta após ela”. Agora, Tamar já não tem mais nome nem
identidade, é apenas “esta”, uma coisa, um objeto descartável. Tamar, a filha
do rei, é lançada fora como lixo, e mesmo trajando roupas reais, rasga seu
manto, cobre a cabeça com cinza e sai clamando e lamentando com as mãos
sobre a cabeça.
5. Vítima da omissão do pai (2Samuel 13:20,21). Absalão já desconfiava das
atitudes de Amnom, ao perguntar a Tamar: “[...] esteve Amnom, teu irmão,
contigo?” (2Samuel 13:20a). Davi, o pai, mesmo sendo um homem tão
perspicaz, nada desconfiou para, preventivamente, evitar a tragédia. Porém,
depois que a tragédia aconteceu, ele apenas ficou muito irado, mas nada fez
para minorar o mal já lavrado em sua família. Foi omisso no confronto a
Amnom e ausente no consolo a Tamar (2Samuel 13:21). Em vez de trazer
Tamar para si, Tamar encontrou abrigo na casa de Absalão, seu irmão, que
lhe disse: “[...] não se angustie o teu coração por isso. Assim ficou Tamar e
esteve desolada em casa de Absalão, seu irmão” (2Samuel 13:20b). Assim,
Tamar refugiou-se na casa de Absalão desolada, afastada da sociedade,
desqualificada para o casamento, embora não por sua própria culpa.
Absalão, ódio sem restrição
Absalão, pai da paz, alimenta uma guerra no coração. A ira de Absalão
fervilhou por dois anos enquanto maquinou o assassinato de Amnom.
Assim, Absalão toma para si a dor de sua irmã violentada por Amnom e
durante dois anos planeja a vingança. Warren Wiersbe diz que, a mente
astuta de Absalão já estava criando um plano para cumprir três propósitos:
vingar Tamar, livrar-se Amnom e colocar-se como o próximo na linha de
sucessão ao trono.10
Vejamos:
1. Ódio velado (2Samuel 13:20,22). O ódio de Absalão é sofisticado. Ele
consegue se controlar para agir na hora certa. Sua vingança foi premeditada.
Seu silêncio não era a voz do perdão, mas o planejamento meticuloso de um
assassinato: “Porém Absalão não falou com Amnom nem mal nem bem;
porque odiava a Amnom, por ter este forçado a Tamar, sua irmã” (2Samuel
13:22).
2. Assassinato planejado (2Samuel 13:23-27). Passados dois anos, Absalão
tosquiava suas ovelhas em Baal-Hazor e convidou todos os filhos do rei para
sua festa (2Samuel 13:23). Ele foi ao rei Davi, seu pai, para, pessoalmente,
convidar a ele e a todos os seus servidores (2Samuel 13:24). Davi dá uma
resposta infundada, usando um argumento tolo: “[...] não, filho meu, não
vamos todos juntos, para não te sermos pesados [...]” (2Samuel 13:25).
Absalão insistiu com seu pai, mas Davi não quis ir à sua festa. Então,
Absalão dá a senha da tragédia a Davi: “Então, disse Absalão: Se não queres
ir, pelo menos deixa ir conosco Amnom, meu irmão [...]” (2Samuel 13:26a).
Davi, de forma tímida e superficial, tendo oportunidade de confrontar
Absalão, apenas lhe faz uma pergunta: “[...] para que iria ele contigo?”
(2Samuel 13:26b). Absalão continuou a insistir com Davi e este aquiesceu
ao seu pleito e deixou ir com ele Amnom e todos os filhos do rei (2Samuel
13:27). Robert Chisholm destaca que, sem saber, Davi envia Tamar para sua
destruição a pedido de Amnom (2Samuel 13:7); agora, sem saber, envia
Amnom para a morte, a pedido de Absalão.11
3. Assassinato executado (2Samuel 13:28-31). A festa de Absalão era uma
tocaia, uma armadilha para matar Amnom. O pai da paz deu ordem a seus
moços para ficarem de olho em Amnom para que, ao estar ele com o
coração alegre de vinho, insurgissem contra ele para feri-lo e matá-lo
(2Samuel 13:28). De acordo com Robert Chisholm, esse é mais um eco do
crime de Davi, o que deixa claro que a morte de Amnom faz parte do
castigo pelo pecado de seu pai. Davi instruiu Joabe a recuar para que Urias
fosse ferido e morresse (2Samuel 11:15). Esses mesmos verbos (nakah e
mut) são usados nas instruções de Absalão a seus homens. Essa reverberação
do crime de Davi sugere que o filho repete o crime do pai e contribui para o
tema da justiça retributiva.12
Warren Wiersbe chama a atenção para o seguinte fato:
Davi havia providenciado para que Urias, o heteu, fosse morto e havia
sobrevivido, então, por queo mesmo não poderia se aplicar a seu filho,
Absalão? Assim como o pai, Absalão usou as mãos de outros para
executar o crime e o fez quando a vítima menos esperava. Davi havia
embriagado Urias, mas não conseguiu colocar seu plano em prática,
enquanto Absalão embriagou o irmão e fez exatamente aquilo que havia
planejado. Absalão seguiu o péssimo exemplo do pai e cometeu um
homicídio premeditado.13
Uma vez que Amnom, sendo o primogênito, era o primeiro na linha de
sucessão de Davi e o candidato legítimo à sucessão do trono e sendo
Absalão o número dois da lista, a morte de Amnom satisfez tanto a
vingança de Absalão como a sua ambição política. Warren Wiersbe diz que
o fato de Absalão ter sangue real nas veias tanto por parte de pai como de
mãe pode tê-lo impelido em sua busca egoísta por um reino.14
Cumprindo à risca o plano, os moços de Absalão mataram Amnom e
todos os filhos do rei se levantaram e fugiram (2Samuel 13:29). Enquanto os
filhos de Davi fugiam ainda, a notícia chegou à casa real com um tom mais
pesado: “Absalão feriu todos os filhos do rei, e nenhum deles ficou”
(2Samuel 13:30). A reação de desespero é total tanto de Davi quanto de
seus servos: “Então, o rei se levantou, rasgou as suas vestes e se lançou por
terra; e todos os seus servos que estavam presentes rasgaram também as suas
vestes” (2Samuel 13:31). Jonadabe, filho de Simeia, sobrinho de Davi, o
articulador da tragédia, estava no palácio naquele dia, pois previa a tragédia e
queria, em primeira mão, acusar veladamente o rei de omissão (2Samuel
13:32-36).
4. Fuga concretizada (2Samuel 13:37-39). Absalão foge de Israel,
buscando asilo político sob a proteção da Talmai, filho de Amiur, rei de
Gesur. Talmai, rei de Gesur, era avô de Absalão por parte de mãe. Gesur era
uma cidade-estado na Síria, ao norte de Gileade (2Samuel 3:3). Nesses três
anos em que Absalão esteve foragido, Davi pranteava Amnom todos os dias.
O rei Davi é incapaz de castigar o ofensor; Absalão é incapaz de voltar a
Israel. Depois de três anos, Davi cessou de perseguir Absalão, uma vez que já
estava consolado acerca de Amnom.
A volta de Absalão a Jerusalém
Davi não teve discernimento necessário para ver o ódio velado no coração
de Absalão durante dois anos. Não teve perspicácia suficiente para abortar o
plano de Absalão para matar Amnom, mesmo quando Absalão lhe deu a
senha da tragédia. Não teve a postura adequada ao perseguir Absalão por
três anos, mesmo refugiado na casa do avô materno. Por engenhosidade de
Abner, Absalão volta para Jerusalém, mas fica em prisão domiciliar, sem o
direito de ver a face do rei. É notório que o assassinato de Amnom não foi
um crime ocorrido no fragor de uma briga entre dois irmãos, mas uma
morte planejada friamente durante dois anos.
A volta de Absalão à sua terra natal não é um ato de Davi, mas uma
jogada de Joabe. É o comandante do exército de Davi que tomou a iniciativa
de trazer o jovem príncipe de volta. Parecia que o caminho estava se abrindo
para o perdão. Era tempo do exilado voltar para casa. Para alcançar o seu
objetivo, Joabe usou de engenhosidade singular (2Samuel 14:2,3). Assim
como Natã havia confrontado Davi, o pecador, contando-lhe uma história,
Joabe confrontou Davi, o pai, com um relato inventado de um problema
familiar narrado por uma mulher que era não apenas sábia, mas também
uma boa atriz. A história de Natã sobre a cordeirinha comoveu Davi como
pastor de ovelhas, e a essa história sobre uma família em pé de guerra tocou
seu coração de pai. Essa mulher sagaz deveria fingir-se de uma viúva
enlutada e contar para Davi um drama semelhante ao enfrentado por Adão
e Eva, quando Caim matou Abel (Gênesis 4:8). Joabe entregou o script para
a mulher e lhe deu o roteiro que ela deveria seguir na conversa com o rei.
A mulher conta uma história dramática de sua viuvez e de um crime
fratricida em sua família (2Samuel 14:4-7). Seus dois filhos brigaram no
campo e um matou o outro e agora a parentela queria que ela entregasse o
filho assassino para ser morto. O problema é que a morte desse filho seria
como apagar a última brasa que ficou da família, e o nome de seu marido
seria varrido da história, pois não haveria mais sobrevivente na terra. Assim,
seria consumido o único descendente restante da família.
Davi ordena a mulher a voltar para sua casa, pois daria ordens a seu
respeito (2Samuel 14:8-11). A mulher então, dá mais uma cartada e diz a
Davi: “A culpa, ó rei, meu senhor, caia sobre mim e sobre a casa de meu pai;
o rei, porém, e o seu trono sejam inocentes” (2Samuel 14:9). Davi, tomado
por um senso de justiça, dá garantias à mulher: “Quem falar contra ti, traze-
mo a mim; e nunca mais te tocará” (2Samuel 14:10). A mulher então dá a
cartada final e diz ao rei: “Lembra-te, ó rei, do Senhor, teu Deus, para que os
vingadores de sangue não se multipliquem a matar e exterminar meu filho”
(2Samuel 14:11a). Davi dá novas garantias à mulher, dizendo: “[...] tão certo
como vive o Senhor, não há de cair no chão nem um só dos cabelos de teu
filho” (2Samuel 14:11b). Ao produzir este julgamento, Davi também
preserva a vida de Absalão. Assim como na história de Caim e Abel, o
infrator não experimentaria uma retaliação por suas ações (Gênesis
4:14,15).
O enredo da mulher capturou Davi, e agora ela vai fazer a parte mais
delicada de sua missão, a aplicação da mensagem: “Permite que a tua serva
fale uma palavra contigo, ó rei, meu senhor” (2Samuel 14:12). Davi deu
autorização para a mulher falar. Ela, então, à semelhança de Natã, no
passado, disse-lhe:
Por que pensas tu doutro modo contra o povo de Deus? Pois, em
pronunciando o rei esse juízo, condena-se a si mesmo, visto que não quer
fazer voltar o seu desterrado. Porque temos de morrer e somos como
águas derramadas na terra que já não se podem juntar; pois Deus não tira
a vida, mas cogita meios para que o banido não permaneça arrojado de
sua presença. Se vim, agora, falar esta palavra ao rei, meu senhor, é porque
o povo me atemorizou; pois dizia a tua serva: Falarei ao rei; porventura,
ele fará segundo a palavra da sua serva. Porque o rei atenderá para livrar a
sua serva da mão do homem que intenta destruir tanto a mim como a
meu filho da herança de Deus (2Samuel 14:13-16).
A mulher prosseguiu e finalizou:
Seja, agora, a palavra do rei, meu senhor, para a minha tranquilidade;
porque, como um anjo de Deus, assim é o rei, meu senhor, para discernir
entre o bem e o mal. O Senhor, teu Deus, será contigo (2Samuel 14:17).
É evidente que, ao dar o veredicto, Davi indiciou a si mesmo, sendo
acusado do exílio de seu desterrado. A mulher fala em nome de todo o povo,
que está na expectativa de que o rei encontre algum meio de trazer o exilado
de volta.15
Davi percebe que a mulher era apenas uma atriz (2Samuel 14:18-20). Ela
estava fazendo o papel de uma viúva enlutada pela morte do filho para lhe
entregar uma mensagem em nome de Joabe. Davi perguntou à mulher: “Não
é certo que a mão de Joabe anda contigo em tudo isto?” (2Samuel 14:19a). A
mulher respondeu afirmativamente, dizendo: “[...] porque Joabe, teu servo, é
quem me deu ordem e foi ele quem ditou à tua serva todas estas palavras”
(2Samuel 14:19b). A mulher defende Joabe e afirma: “Para mudar o aspecto
deste caso foi que o teu servo Joabe fez isto” (14:20a) e elogia a Davi,
dizendo: “[...] porém sábio é meu senhor, segundo a sabedoria dum anjo de
Deus, para entender o que se passa na terra” (2Samuel 14:20b).
O pedido reiterado de Joabe, enfim, é atendido pelo rei (2Samuel
14:21,22). Davi sabe que foi astuciosamente conduzido em um curso de
ação que agora é incapaz de evitar, porquanto isso se baseia em seu
juramento, mas ele não protesta contra a audácia de Joabe; em vez disso, dá a
Joabe a responsabilidade de trazer de volta a Jerusalém o jovem Absalão.16
Davi disse a Joabe: “Atendi ao teu pedido; vai, pois, e traze o jovem Absalão”
(2Samuel 14:21). Joabe inclina-se diante de Davi, abençoa-o e declara:
“Hoje, reconheço que achei mercê diante de ti, ó rei, meu senhor; porque o
rei fez segundo a palavra do seu servo”(2Samuel 14:22).
A volta de Absalão, entretanto, não resolve o problema, pois Davi não
restabelece o diálogo com o filho. O silêncio gelado por mais dois anos só
fez agravar o relacionamento já tenso pelos esbarros da vida. Davi impõe ao
filho um exílio doméstico (2Samuel 14:23,24), impedindo-o de entrar no
palácio para ver sua face. Davi é incapaz de aceitar Absalão de volta à sua
presença. Ele continua a mostrar seu desfavor a Absalão, banindo-o para sua
casa. Apesar de Davi ter permitido a volta de Absalão, ele estava
essencialmente condenado-o ao ostracismo. Absalão permanecia inexistente
para o rei. A reconciliação foi incompleta. Absalão estava de volta a
Jerusalém, mas estava confinado à sua própria casa. O acesso à corte do rei
lhe foi proibido. Essa atitude de Davi, em vez de atenuar o problema,
agravou-o. Em vez de levar o filho ao arrependimento, conduziu-o à revolta.
Estranhamente, Joabe, que lutara tanto para trazer Absalão para
Jerusalém, nada mais fez para reatar o relacionamento de Davi com o filho.
Cansado de seu confinamento, e uma vez que estava impedido de ver a face
do rei, pediu por duas vezes a Joabe para o enviar ao rei, porém Joabe não
atendeu ao seu pedido. Irritado com a situação, Absalão mandou incendiar o
campo de Joabe.
Joabe foi à casa de Absalão e o questionou sobre o incêndio no pedaço de
seu campo. Absalão o confrontou dizendo que lhe seria melhor ter ficado
em Gesur do que ter vindo para Jerusalém para ser um exilado em sua
própria terra. Era melhor estar diante do avô materno em Gesur (2Samuel
3:3; 13:37,38) do que estar em Jerusalém sem ver a face do pai. Absalão
sabia o que significava ser banido da presença do rei: ninguém esperaria que
ele herdasse o trono.
O desejo de Absalão é claramente declarado: “[...] agora, pois, quero ver a
face do rei; se há em mim alguma culpa, que me mate” (2Samuel 14:32b).
Jerusalém nada significava para Absalão sem ver a face do rei. Para ele, a
maior de todas as prisões era viver sem ver a face do rei.
É digno de destaque que Absalão não tem senso de culpa. Acha-se
inocente. Acredita que fez o que deveria ter sido feito. Na mente de
Absalão, a morte de Amnom foi justificada e não deveria ser razão suficiente
para ficar alienado de Davi. Porém, se o pai o julgar culpado, está pronto a
morrer, mas não está disposto a ficar exilado sem ver a face do rei. Ele
preferia ser executado a continuar vivendo sob vergonhosa prisão domiciliar.
Joabe atende ao apelo de Absalão e vai falar ao rei. Davi chamou Absalão
ao palácio. Este se lhe apresentou e inclinou-se sobre o rosto em terra,
diante do rei. O rei beijou a Absalão. O texto não registra qualquer conversa
entre Davi e Absalão. O pai beijou o filho sem dizer-lhe uma palavra
(2Samuel 14:33). Ao todo já se faziam cinco anos desde que pai e filho não
se viam nem haviam trocado qualquer palavra. Muitas dores, muitas mágoas,
muitas lágrimas. A reconciliação não estava completa. A ferida não estava
curada. O problema não estava resolvido. Adiar a solução de um problema
não é a solução. O tempo não cura mágoas. Só o perdão pode restaurar os
relacionamentos quebrados.
Concordo com Joyce Baldwin quando ele escreve:
A descrição curta e formal é em si mesma significativa. Embora termine
com o rei beijou Absalão, não há tentativa alguma de vencer o abismo entre
pai e filho. Cada um vê a culpa do outro, sendo frio e não estando
disposto a perdoar [...]. No caso de Absalão e do rei, o relacionamento
permaneceu praticamente num impasse, e nenhum dos dois lados teve a
iniciativa espiritual de rompê-lo.17
Robert Chisholm tem razão em escrever:
Sem saber a extensão da amargura e das ambições de Absalão, Davi sem
perceber abre a porta para uma rebelião. Pior ainda, ao reintegrar Absalão
à corte, faz vista grossa para a culpa dele.18
Na verdade, conforme escreve Warren Wiersbe, “Davi estava prestes a
perder o trono, a coroa, as concubinas, o conselheiro de confiança, Aitofel, e,
por fim, o filho Absalão. Seria o momento mais sombrio da vida do rei”.19
1. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2, 2006, p. 334-337. ↵
2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel. 2006, p. 278. ↵
3. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 244. ↵
4. WIERSBE, W. W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 335. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 335. ↵
6. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: Introdução Comentário. 2006, p. 279. ↵
7. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 244,245. ↵
8. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 249. ↵
9. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 295. ↵
10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 336. ↵
11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 246. ↵
12. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 246, 247. ↵
13. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 337. ↵
14. Idem, p. 334. ↵
15. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 287. ↵
16. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 288. ↵
17. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 289,290. ↵
18. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 252. ↵
19. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 340. ↵
C
Capítulo 20
Davi, o rei destronado
onflitos não bem resolvidos são problemas potencializados. A falta de
perdão e de diálogo entre Davi e Absalão recrudesceu no coração do
filho uma rebelião contra o pai. O capítulo 15 de 2Samuel retrata a rebelião
de Absalão para tomar o trono e assumir o poder, em um verdadeiro golpe
de Estado. Absalão era bem apessoado, com um charme difícil de resistir
(2Samuel 14:25,26), e tinha em suas veias sangue real tanto por parte de pai
quanto de mãe.
Na verdade, Absalão, o pai da paz, é um destruidor da paz e um ladrão de
corações. Seu nome é uma mentira. Sua história contradiz seu nome. A
truncada relação com o pai amadureceu o que estava em seu coração.
Absalão, o enganador
Não vendo Absalão o caminho aberto para a sucessão ao trono, resolve abri-
lo com as próprias mãos. Ele é um demagogo, que promove os seus próprios
interesses ao fingir profunda dedicação aos interesses do povo. Vejamos:
1. O lugar estratégico do engano (2Samuel 15:1,2). Com pompa e
arrogância, Absalão aparelha um batalhão montado para ir adiante dele.
Pelos padrões de sua cultura, a aquisição de um carro e de cavalos lhe
confere um ar de realeza. O uso de carros, cavalos e homens correndo
adiante dele significava sua reivindicação à posição real. Nas palavras de
Joyce Baldwin, “Absalão lançou-se deliberadamente a minar a autoridade do
pai, aumentando seu próprio prestígio”.1
Ele se posta na porta da cidade de Jerusalém para, ali, aliciar o povo e
furtar o coração dos homens. Nos tempos antigos, era na porta da cidade
que os juízes julgavam as causas do povo. A porta da cidade era muito mais
do que um lugar de entrada e saída. Representava o local onde as atividades
comerciais e judiciais aconteciam. Era o tribunal, onde as demandas do povo
eram tratadas, e qualquer um que tivesse alguma disputa teria o seu caso
decidido.
2. A linguagem sedutora do engano (2Samuel 15:3). Usando seu atributo de
beleza física e de sua honrada posição de príncipe, filho do rei, e candidato
ao trono, Absalão perquiria o povo sobre suas demandas. Aparentemente
interessado na causa do povo, encobre suas motivações subterrâneas e afirma
que as causas trazidas ao tribunal eram justas, porém, não havia da parte do
rei, quem se interessasse por eles.
3. A promessa falsa do engano (2Samuel 15:4). Exaltando a si mesmo,
Absalão afirma que se estivesse na governança e tivesse o privilégio de julgar
as demandas do povo, teriam nele um juiz justo e pronto a dar-lhes o que
mereciam. Ao mesmo tempo que acusa a omissão injusta do rei, ele se
apresenta como a solução para a nação. Ao enfatizar as falhas do reinado de
Davi, Absalão gradualmentecriava dúvidas sobre Davi na mente das
pessoas, relembrando-as por que deveriam estar insatisfeitas com a liderança
dele, e, assim, preparava o cenário para o seu golpe de Estado. Ao mostrar
profundo interesse pelos forasteiros que entravam na cidade, Absalão estava
pronto a ouvir e ávido por corrigir os erros do país. Desse modo, ele
conquistava mais e mais o apoio popular.
4. A humildade falsa do engano (2Samuel 15:5). Quando o povo se curvava
diante dele, prestando-lhe suas homenagens como príncipe e ícone da beleza
masculina, ele erguia as pessoas e as beijava em um gesto de tocante
humildade. Tudo, porém, não passava de uma humildade cênica, de um
método vil para ganhar a admiração do povo. O modo como tratava aqueles
que estavam buscando justiça, o gesto de amizade e o tipo de toque pessoal
que o povo não estava recebendo de Davi alcançou sucesso.
5. A amplitude do engano (2Samuel 15:6). Ao se mostrar solidário às
necessidades do povo, Absalão agia com demagogia com todo o Israel, e,
assim, conquistava sua lealdade e furtava o coração dos homens de Israel.
Absalão, o conspirador
Absalão se torna um conspirador. Isso pode ser constatado pelo que se
segue:
1. As palavras mentirosas do conspirador (2Samuel 15:7-9). O enganador,
travestido de adorador, vai ao rei Davi, seu pai, para pedir permissão para ir a
Hebrom cumprir um voto que fizera ao Senhor quando morava em Gesur.
Por que Absalão esperou quatro anos para render graças por seu retorno?
No que consistia o suposto voto? Se Deus lhe permitisse voltar a Jerusalém,
prestaria culto ao Senhor. Absalão estava usando o nome do Senhor para
ocultar seus pecados.
Davi, sem percepção da trama que estava montada, permitiu a Absalão a
ir a Hebrom, dizendo-lhe: “Vai-te em paz. Levantou-se, pois, e foi para
Hebrom” (2Samuel 15:9). Esta é a palavra derradeira de Davi a seu filho,
que ironicamente sai a fim de se preparar para a guerra contra o pai.
2. A ação golpista do conspirador (2Samuel 15:10). Absalão envia emissários
secretos por todas as tribos de Israel, com uma mensagem conspiratória:
“Quando ouvirdes o som das trombetas, direis: Absalão é rei em Hebrom!”
(2Samuel 15:10). O golpe de Estado, anunciado quase simultaneamente a
todas as tribos, faz com que toda a oposição pareça inútil. Hebrom, situada a
pouco mais de trinta quilômetros a sudoeste de Jerusalém, era uma cidade
murada e o ponto de partida ideal para invadir Jerusalém. Era a cidade natal
de Absalão (2Samuel 3:3) e a antiga capital de Davi, onde foi ungido rei de
Israel. A escolha do local para ser entronizado é irônica, pois foi em Hebrom
que Davi foi proclamado rei sobre todo o Israel (2Samuel 5:1-5).
3. A postura enganadora do conspirador (2Samuel 15:11). Absalão convidou
duzentos homens de Jerusalém para irem com ele para Hebrom. Esses
foram enganados, sem saber quais eram as intenções do príncipe
conspirador. Absalão usa a estratégia da mentira e o método do engano para
aliciar pessoas. Seus discursos populistas e suas ações de humildade
escondiam seu orgulho medonho, sua fúria indômita e seu projeto de poder.
4. O crescimento ameaçador da conspiração (2Samuel 15:12). Absalão
conseguiu trazer para sua rebelde equipe Aitofel, o conselheiro de Davi.
Muito provavelmente, Aitofel apoiava Absalão e sua rebelião à luz de como
Davi havia tratado sua neta e mulher de Urias previamente (2Samuel 11:1-
27). Aitofel era avô de Bate-Seba (2Samuel 11:3; 23:34). Qualquer chance
de vingança contra Davi teria sido bem-vinda. Para a aflição de Davi, toda a
capacidade e a experiência de Aitofel estavam nas mãos de Absalão.
Enquanto Absalão oferecia os seus sacrifícios em Hebrom, tornou-se
poderosa a conspirata, e crescia em número o povo que tomava o partido de
Absalão.
Davi, o rei de Israel
Quando a notícia da conspiração de Absalão e do amplo apoio que estava
recebendo chega em Jerusalém, Davi resolve fugir da cidade imediatamente.
Coloca seu destino nas mãos de Deus, ora e toma medidas práticas para
criar uma rede de informantes (2Samuel 15:28,35,36; 17:15-22), recrutando
Husai para neutralizar a influência de Aitofel na corte (2Samuel 15:34;
17:7-14). Alguns pontos merecem destaque:
1. A decisão do rei de fugir de Jerusalém (2Samuel 13:13-18). É intrigante o
fato de Davi ter ficado passivo diante dos quatro anos em que Absalão
arquitetou essa conspirata. A maneira como Davi só foi perceber esses
eventos catastróficos naquele momento ainda permanece obscura. Será que
isso sugere uma negligência da parte de Davi em monitorar adequadamente
seus inimigos políticos? Ou será que a revolta foi escondida tão
cuidadosamente que Davi só descobriu quando já era tarde demais? Joyce
Baldwin escreve:
A julgar pelas aparências, parece estranho que Davi tivesse deixado
ocorrer toda essa subversão. Com toda aquela inconfundível
movimentação na corte, é inconcebível que Davi não soubesse o que
Absalão estava fazendo. Contudo, será que ele se sentia seguro quanto ao
lugar que ocupava no coração do povo e julgava que poderia, com toda
certeza, tolerar o comportamento fingido de seu filho presunçoso?2
A notícia da conspiração chega superdimencionada a Davi: “Todo o povo
de Israel segue decididamente a Absalão” (2Samuel 15:13). Davi sabia que
não dava tempo para planejar uma resistência ao iminente ataque de
Absalão e dá uma ordem expressa para todos os seus homens fugirem com
pressa de Jerusalém (2Samuel 15:14). O rei ordena a evacuação imediata da
cidade.
Davi saiu com todos os de sua casa, deixando para trás apenas dez
concubinas para cuidarem da casa real (2Samuel 15:16). Robert Chisholm
diz que essa observação aparentemente secundária não passa despercebida
para o leitor mais atento, pois traz à memória um dos elementos da profecia
de Natã (2Samuel 12:11,12; 16:21,22). Em meio a essa crise, somos
lembrados mais uma vez de que todos esses acontecimentos têm como
origem os crimes de Davi.3
Mesmo em fuga, Davi é o comandante-chefe. Todos que fogem, passam
aos seus pés e vão adiante dele (2Samuel 15:17,18). É um verdadeiro desfile
militar, uma revista de servos e tropas de grande valor, cujos anos de lealdade
os faziam duplamente preciosos em uma emergência como essa. Fazemos
aqui alguns destaques:
2. A lealdade de Itai (2Samuel 15:19-22). Itai, o heteu, filisteu da cidade de
Gate, era uma ilha de fidelidade cercado por um mar de traição. Mais tarde,
ele comandaria um terço das tropas de Davi na batalha contra Absalão
(2Samuel 18:2). Itai prontificou-se a ir com Davi, dizendo: “Tão certo como
vive o Senhor, e como vive o rei, meu senhor, no lugar em que estiver o rei,
meu senhor, seja para morte seja para vida, lá estará também o teu servo”
(2Samuel 15:21). O leal Itai é um contraste literário com o ardiloso Absalão
e seu bando de rebeldes.
3. O choro do povo (2Samuel 15:23). A situação era de calamidade. Davi
estava travando a mais amarga batalha de sua vida. Seu filho Absalão, a
quem amava, em um levante traidor, estava marchando para Jerusalém com
o propósito de tomar o trono e tirar a vida do rei. O povo leal a Davi reage a
essa tragédia com choro nacional. Assim está escrito: “Toda a terra chorava
em alta voz; e todo o povo e também o rei passaram o ribeiro de Cedrom,
seguindo o caminho do deserto” (2Samuel 15:23).
4. A submissão do rei ao Senhor (2Samuel 15:24-29). Os sacerdotes Abiatar
e Zadoque, bem como todos os levitas, também subiram, levando consigo a
arca da Aliança de Deus. Puseram ali a arca até que todo o povo acabou de
sair da cidade. Davi, sempre no comando da situação, orientou o sacerdote
Zadoque a voltar com a arca para Jerusalém, dizendo:
Se achar eu graça aos olhos do Senhor, ele me fará voltar para lá e me
deixará ver assim a arca como a sua habitação. Se ele, porém, disser: Não
tenho prazer em ti, eis-me aqui; faça de mim como melhor lhe parecer
(2Samuel 15:25,26).
Davi se recusa a usar a arca como um amuleto ou objeto mágico, como foi
usada no passado, nos dias do sacerdote Eli (1Samuel 4:1-11).
5. O choro do rei (2Samuel 15:30). Dadas essas instruções, Daviseguiu
pelas encostas do monte das Oliveiras, subindo e chorando; tinha a cabeça
coberta e caminhava descalço. Todo o povo que subia com ele, tinha a
cabeça coberta e chorava. A marcha de Davi e sua caravana é a marcha do
choro, semelhante a um cortejo fúnebre, regado de lágrimas.
6. A estratégia do rei (2Samuel 15:31-37). Davi é informado que o seu
sábio conselheiro Aitofel havia bandeado para o lado Absalão. Essa era uma
notícia perturbadora, pois Davi sabia que as palavras de Aitofel eram como
respostas de Deus (2Samuel 16:23). Davi não teve outra reação senão orar e
pedir a Deus para transtornar em loucura o conselho dele a Absalão.
A resposta de Deus à oração de Davi veio rápida na pessoa de Husai, o
arquita, que se revelou amigo e servo leal. Ao chegar Davi ao topo do
monte, onde costumava adorar a Deus, veio ao seu encontro o arquita
Husai, com o manto rasgado e terra sobre a cabeça. Davi informa-o de que
sua companhia seria um peso, talvez pela sua idade ou fraqueza, mas seu
retorno para Jerusalém em missão especial seria estratégico. Ele seria um
embaixador inigualável.
O que Husai deveria fazer? Apresentar-se a Absalão, fazendo-lhe juras de
fidelidade e com isso, ter a oportunidade de dissipar o conselho de Aitofel.
Husai deveria colher informações da situação e enviá-las a Davi, por meio
de Aimaás e Jônatas, filhos dos sacerdotes. Assim fez Husai. Ele veio para a
cidade na mesma ocasião que Absalão entrou em Jerusalém. “A sugestão de
Davi para que Husai frustrasse o conselho de Aitofel (2Samuel 15:34),
comparada com a oração para que o Senhor transformasse em tolice o
conselho de Aitofel (2Samuel 15:31), mostra que Davi entendia muito bem
como a ação providencial do Senhor operava. Husai deveria ir contra as
sugestões de Aitofel. Resta claro dizer, portanto, que confiar em Deus e agir
com sabedoria são coisas complementares, e não antitéticas. Kevin Mellish
destaca que Aitofel forneceria instruções sábias a Absalão posteriormente
(2Samuel 17:1-4), mas Absalão tolamente as descartaria.4 Concordo com
Warren Wiersbe, “em termos humanos, se não fosse pelo conselho de Husai
a Absalão, Davi poderia ter sido morto no deserto”.5
Fica evidente que Davi, até mesmo no exílio, mostrou seu lado astuto e
sagaz, como um político e estrategista. O conselho de Davi eventualmente
valeu a pena, já que Husai foi quem proveu um conselho que, finalmente,
levou Absalão à derrota e à morte.
1. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 290. ↵
2. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 291. ↵
3. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 256. ↵
4. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 306. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 347. ↵
O
Capítulo 21
Davi, o rei odiado
rei Davi está em fuga. Jerusalém está prestes a ser tomada pelo rei
usurpador. A resistência é impossível ou, no mínimo, desaconselhável.
A cidade não pode sofrer os revezes de uma guerra civil. A evacuação deve
ser imediata. Davi foge descalço, chorando e com a cabeça coberta. A
marcha da fuga é regada de lágrimas, mas também coberta de oração e
submissão à vontade de Deus. Davi sabe que está sob a disciplina de Deus.
Porém, como diz Robert Chisholm, “o Senhor vindica seus servos
arrependidos quando eles se sujeitam humildemente à sua disciplina”.1
Vejamos:
Ziba, um manipulador
Logo que Davi chegou ao topo do monte das Oliveiras e rumou para o
deserto, Ziba, servo de Mefibosete, vem ao seu encontro. Trazia nas mãos
generosas ofertas e engano no coração. Seus atos eram generosos, mas sua
motivação não era pura. Trazia verdade nos atos e mentira no coração.
Vejamos:
1. Uma generosidade insincera (2Samuel 16:1,2). Ziba chega com dois
jumentos albardados e sobre eles duzentos pães, cem cachos de passas, cem
frutas de verão e um odre de vinho. Davi perguntou-o acerca do significado
dessa oferta e de sua pretensão com esse gesto de generosidade. Ziba
respondeu: “Os jumentos são para a casa do rei, para serem montados; o pão
e as frutas de verão, para os moços comerem; o vinho, para beberem os
cansados no deserto” (16:2). A verdadeira intenção de Ziba era acusar
injustamente Mefibosete, enganar Davi e auferir vantagens pessoais. Ziba
era um oportunista mal-intencionado. Kevin Mellish diz que a bondade e a
generosidade de Ziba para com o rei deposto são contrastadas
marcantemente nesta seção com a suposta deslealdade de Mefibosete com
Davi.2
2. Uma mentira deslavada (2Samuel 16:3). Warren Wiersbe diz que
Satanás atacou Davi, usando Ziba e Simei. Ziba contou mentiras, e Simei
jogou pedras.3 Ambos são da casa de Saul. Quando Davi perguntou a Ziba
acerca de Mefibosete, ele mentiu e difamou-o: “Eis que ficou em Jerusalém,
pois disse: Hoje, a casa de Israel me restituirá o reino de meu pai” (16:3).
Ziba acusou o filho aleijado de Jônatas, neto de Saul, de ser ingrato e desleal
a Davi. Nas palavras de Kevin Mellish, “Ziba insinuou que Mifibosete viu a
revolta de Absalão como uma oportunidade para o reino retornar à casa de
Saul. Ao fazer essa declaração, ele retratou Mefibosete como um ingrato
traidor”.4 Seu propósito era assenhorear-se dos bens de Mefibosete, no que,
a princípio, logrou êxito. Davi aceitou a história de Ziba — que depois foi
desmentida (2Samuel 19:24-30) — e fez um julgamento precipitado e
injusto, transferindo a ele a propriedade, pertencente, por direito, a
Mefibosete.
3. Um julgamento precipitado (2Samuel 16:4). Davi, precipitadamente, sem
conferir a veracidade da informação de Ziba, aceitando o relato como
verdadeiro, decreta que as propriedades do (supostamente desleal)
Mefibosete sejam entregues ao (supostamente leal) Ziba.5 Davi diz: “Teu é
tudo que pertence a Mefibosete” (16:4a). O manipulador mentiroso,
responde: “[...] eu me inclino e ache eu mercê diante de ti, ó rei, meu
senhor” (16:4b).
Simei, um amaldiçoador
Quando Davi chegou a Baurim, um vilarejo na descida oriental do monte
das Oliveiras, Simei, filho de Gera, da casa de Saul, irado adversário,
colocou-se sozinho contra todo o séquito real. Ele saiu e começou a
amaldiçoar Davi, atirando pedras contra ele e todos os seus servos. Davi, que
já havia se colocado nas mãos de Deus, submetendo-se à vontade dele, não
revida a hostilidade de Simei nem permite que Abisai, irmão de Joabe, o
faça em seu nome.
Vejamos seis pontos importantes destacados nessa passagem:
1. Um homem amaldiçoador (2Samuel 16:5). A boca de Simei é um poço
de maldição. Sendo da casa de Saul, nutria por Davi mágoas históricas e
profundas. Talvez suspeitasse de que Davi estivesse por trás da morte de
Saul, uma vez que Davi estava em território filisteu quando Saul e seus três
filhos caíram no campo de batalha na guerra contra os filisteus. Talvez
suspeitasse que Davi estivesse por trás da morte de Abner, comandante do
exército de Isbosete. Talvez suspeitasse, ainda, que Davi estivesse envolvido
na morte do próprio rei Isbosete, uma vez que logo após a morte deste, Davi
foi proclamado rei sobre todas as tribos de Israel. Essas questões todas
levaram Simei a amaldiçoar Davi. Nas palavras de W. T. Purkiser, “Simei
deu vazão à ira e ao ódio que estavam reprimidos, e culpou Davi pelos
infortúnios que haviam ocorrido à casa do rei antecessor”.6 Robert
Chisholm enfatiza que a maldição proferida por Simei não se cumpre (o
Senhor não entrega o reino a Absalão), pois sua acusação de que Davi
assassinou membros da casa de Saul é falsa.7
2. Um atirador de pedras (2Samuel 16:6). A língua de Simei era ferina, e
suas mãos atiraram pedras contra Davi e todos os seus servos, mesmo
estando Davi escoltado pelos valentes e pelo povo por todos os flancos.
Simei era um homem abusado a assaz maligno.
3. Um acusador impiedoso (2Samuel 16:7,8). A boca de Simei amaldiçoa,
acusa e condena. Kevin Mellish diz que o verbo que é usado neste contexto
(megallel) denota uma ação progressiva. Em outras palavras, “ele lhe falou
tudo o que quis”.8 Simei chama Davi de “homem de sangue” e “filhode
Belial”. Esses termos eram pejorativos da mais alta ordem.
Simei joga na cara de Davi que essa fuga pelo deserto era a punição de
Deus por todo o sangue da casa de Saul, cujo reino Davi havia usurpado.
Simei diz a Davi que Deus o havia entregue nas mãos de seu filho Absalão e
que agora estava em grande desgraça porque estava com as mãos manchadas
de sangue. Robert Chisholm destaca que o narrador absolve Davi da culpa
em todos esses casos. A acusação de Simei é infundada e se baseia em
conjecturas falsas.9
É digno de nota que a expressão de ira de Simei contra Davi era uma
transgressão da lei. Assim está escrito: “Contra Deus não blasfemarás, nem
amaldiçoarás o príncipe do teu povo” (Êxodo 22:28).
4. Um rei quebrantado (2Samuel 16:9,10). Abisai, irmão de Joabe e
sobrinho de Davi, guerreiro experimentado (1Samuel 21:6-8; 2Samuel
23:18,19), propõe-se a matar Simei, mas Davi refreou o ímpeto e as
intenções de Abisai. Davi repreende e proibe qualquer retaliação ao
acusador. Ele não revida com raiva nem busca vingança, antes submete-se à
disciplina de Deus. Davi reteve o ímpeto de Abisai com o triste comentário
de que se seu próprio filho procurava por sua vida, quanto mais deveria um
benjamita amargurado pronunciar as suas maldições! Humildemente, Davi
compreende que essa situação poderia ser a disciplina de Deus sobre ele.
Concordo com Warren Wiersbe quando ele diz: “Davi estava exausto e, no
entanto, jamais demonstrou tanta grandeza como quando permitiu que
Simei prosseguisse com seu ataque”.10 Quando Davi recuperou o trono,
perdoou Simei (19:16-23) que, posteriormente foi confinado por Salomão
em Jerusalém. Quando, em um gesto de arrogância, Simei ultrapassou seus
limites, foi preso e executado (1Reis 2:36-46).
5. Um rei confiante (2Samuel 16:11-13). Davi justifica a sua complacência
com Simei e sua proibição de vingança ao ferino acusador, dizendo a Abisai
e a todos os seus servos que se Absalão, seu próprio filho, procurava tirar sua
vida, quanto mais ainda o benjamita Simei. Davi, em um ato de humildade e
fé, declara: “[...] deixa-o; que amaldiçoe, pois o Senhor lhe ordenou. Talvez o
Senhor olhará para a minha aflição e o Senhor me pagará com bem a sua
maldição deste dia” (16:11,12). Concordo com Robert Chisholm quando ele
escreve: “Quando se está debaixo da disciplina de Deus, é sábio sujeitar-se à
vontade dele”.11 Dessa forma, enquanto Davi e seus homens prosseguiam
seu caminho, Simei ia ao longo do monte, ao lado dele, caminhando e
amaldiçoando, atirando pedras e terra contra ele. Davi, porém, com o
coração quebrantado, recebe de forma humilde e submissa a disciplina de
Deus. Dale Ralph Davis diz que Simei é o homem que amaldiçoa, mas Davi
entende que o Senhor é o Deus que reverte a maldição em bênção e, de fato,
Ele fez isso (Gálatas 3:13).12
Robert Chisholm, citando Philip Yancey, faz o seguinte registro:
Qualquer um que tenha vivido durante os escândalos de Watergate e de
Monica Lewinsky sabe que Davi poderia ter feito. O republicano Richard
Nixon mentiu e autorizou a liberação de fundos para calar testemunhas e
encobrir seus crimes; o que o derrubou foi uma gravação, e não uma
confissão. O democrata Bill Clinton olhou direto para a câmera com
expressão séria e enganou a nação inteira; o que levou a seu impeachment
foi um vestido manchado, e não uma confissão. Nixon mal conseguiu
balbuciar: “Erros foram cometidos”; Clinton reconheceu apenas o que
havia sido provado e divulgado no mundo inteiro. O contraste com as
primeiras palavras de Davi não poderia ser mais gritante: “Pequei contra o
Senhor” (2Samuel 12:13).13
6. Um rei exausto (2Samuel 16:14). Davi e todo o povo que ia com ele
chegaram exaustos ao Jordão e ali descansaram. Essa exaustão é o acúmulo
de anos de problemas que se abateram sobre sua vida: o adultério com Bate-
Seba, o assassinato de Urias, a morte da criança que nasceu da relação com
Bate-Seba, o estupro de Tamar, o assassinato de Amnom, a rebelião de
Absalão.
Aitofel, um traidor
O narrador descreve a entrada de Absalão em Jerusalém, acompanhado de
todo o povo de Israel que apoiava a sua causa rebelde. Como trunfo maior
desse golpe de Estado, Absalão entra na cidade de Davi acompanhado de
Aitofel, seu fiel conselheiro político e ex-conselheiro de Davi (16:15). Nas
palavras de Joyce Baldwin, “Aitofel era aquele tipo de conselheiro que jamais
dava um passo em falso”.14 Porém, Aitofel entra para a história como o
Judas Iscariotes do Antigo Testamento.15 Vejamos:
1. Absalão entra em Jerusalém (16:15). A revolta fora gestada em Jerusalém,
durante quatro anos; nascera em Hebrom, onde Absalão se autoproclamou
rei, e consumada na entrada em Jerusalém, a capital da nação. Absalão vem
acompanhado do todo povo, homens de Israel e do conselheiro Aitofel.
2. Husai se apresenta a Absalão (16:16-19). Husai, cumprindo o propósito
de Davi, também chega em Jerusalém, com o objetivo de, veladamente,
dissipar os conselhos de Aitofel (15:34). Aqui, Husai juntou ao fingimento
uma declaração que representava lealdade: “[...] viva o rei, viva o rei!”
(16:16). Robert Chisholm diz que Absalão entende que a aclamação de
Husai se refere a ele. Sem dúvida, é a intenção de Husai que Absalão
interprete suas palavras desse modo, mas o leitor reconhece a ironia
dramática presente na ambiguidade de sua declaração. Husai não diz, “viva o
rei Absalão” como seria de se esperar (1Reis 1:25,31,34,39). Em vez disso,
usa a forma mais curta e ambígua de aclamação (1Samuel 10:24; 2Reis
11:12). Na mente de Husai, Davi, e não Absalão, é o rei.16 Joyce Baldwin
chama a atenção para o fato de que o repetido “viva o rei!” soou como
música aos ouvidos do ambicioso Absalão, não despertando indagações em
sua mente, a despeito da ambiguidade quanto a quem era o rei.17 Na
verdade, Husai manteve sua integridade, e Absalão ficou cego devido a seu
próprio egoísmo.
Absalão faz uma observação penetrante sobre a aparente traição de Husai
à sua amizade com Davi e questiona-o sobre o peso de sua fidelidade a
Davi, ao que o velho sábio responde: “[...] àquele a quem o Senhor elegeu, e
todo este povo, e todos os homens de Israel, a ele pertencerei e com ele
ficarei. Ainda mais, a quem serviria eu? Porventura, não seria diante de seu
filho? Como servi diante de teu pai, assim serei diante de ti” (16:18,19). Nas
palavras de Dale Ralph Davis “Absalão, à semelhança de Hamã (Ester 6:6)
assume que Husai referia-se a ele, mas Husai estava descrevendo Davi”.18
Resta claro afirmar, portanto, que o engodo de Husai para com Absalão faz
parte do plano de Deus para “trazer ruína” sobre esse usurpador (17:14).
3. Aitofel aconselha Absalão (16:20-22). Ao chegar em Jerusalém, Absalão
pediu conselho a Aitofel acerca do que deveria fazer. Aitofel dá-lhe um
conselho vil e imoral: “Coabita com as concubinas de teu pai, que deixou
para cuidar da casa; e, em ouvindo todo o Israel que te fizeste odioso para
com teu pai, animar-se-ão todos os que estão contigo” (16:21). Deitar-se
com uma concubina do rei era comparado a usurpar o trono (3:7; 16:21,22;
1Reis 2:21-24). Como diz Joyce Baldwin, “conquanto possa ter sido comum
no antigo Oriente Próximo que o rei de uma nova dinastia tomasse o harém
do monarca anterior, certamente não seria aceitável que um filho
desrespeitasse a proibição existente contra as relações sexuais com as esposas
e concubinas de seu pai (Levítico 18:7,8)”.19
O ato de coabitar com as concubinas do pai seria, do mesmo modo, não
só uma admissão de autoridade real, mas tornaria a reconciliação com o rei
praticamente impossível. Ciente de que o rompimento era definitivo, Aitofel
pensou que a aliança dos israelitas seria mais forte.20 Nessa mesma trilha de
pensamento, escreve Kevin Mellish,
O símbolo do poder e prestígio do rei estava ligado ao harém de
concubinas ou esposas que pertenciam ao rei (1Reis 11:1). Fazer sexo com
as concubinas de Davi enviaria uma clara mensagem ao povo de
Jerusalém que Absalão havia tomado as rédeas do poder. Tal ato também
seria interpretado como um insulto e uma afronta a Davi, tornando,assim, Absalão e o povo aliado a ele “odiosos para com Davi”. O povo
teria entendido que a possibilidade de reconciliação entre Absalão e Davi
seria remota. Logo, “as mãos de todos” os que estavam com Absalão
seriam fortalecidas. O povo poderia apoiar Absalão de todo o coração sem
medo, sabendo que Absalão não o trairia.21
Absalão acolheu o conselho de Aitofel e, então, armaram para ele uma
tenda no eirado, e ali, à vista de todo o Israel, Absalão coabitou com as
concubinas de seu pai (2Samuel 16:22). Essa petulante e audaciosa manobra
consolidou a reivindicação de Absalão ao trono entre o povo; estava evidente
diante de todos que Davi não dominava mais o reino. O golpe de Estado
estava realizado e as palavras de Natã foram cumpridas (2Samuel 12:11).
Nas palavras de Robert Chisholm, “esse ato reprovável cumpre a profecia de
Natã (2Samuel 12:11,12) e lembra o leitor de que a rebelião de Absalão,
embora não tenha o apoio do Senhor (2Samuel 17:14), faz parte de sua
disciplina providencial sobre Davi por ter pecado contra Bate-Seba”.22
4. O prestígio de Aitofel (2Samuel 16:23). O narrador termina esse capítulo
ressaltando a elevada reputação de Aitofel como conselheiro. Está escrito:
“O conselho que Aitofel dava, naqueles dias, era como resposta de Deus a
uma consulta; tal era o conselho de Aitofel, tanto para Davi como para
Absalão”. Joyce Baldwin diz: “Uma vez que tanto Davi quanto Absalão
agiam baseados em seus conselhos, praticamente era Aitofel quem dirigia o
país”.23
1. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 260. ↵
2. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 307. ↵
3. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 347. ↵
4. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 307. ↵
5. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 261. ↵
6. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 252. ↵
7. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 260. ↵
8. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 307. ↵
9. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 261. ↵
10. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 347. ↵
11. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 262. ↵
12. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 206. ↵
13. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 263. ↵
14. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 297. ↵
15. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 206. ↵
16. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 267. ↵
17. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 297. ↵
18. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 206. ↵
19. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 298. ↵
20. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 253. ↵
21. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 308. ↵
22. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 268. ↵
23. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 298,299. ↵
O
Capítulo 22
Davi, o rei atacado
golpe de Estado está dado. Absalão está no palácio em Jerusalém e
Davi está em rota de fuga pelo deserto da Judeia. Aitofel, o sábio
conselheiro de Davi que havia virado a casaca já havia aconselhado Absalão
a coabitar publicamente com as concubinas de Davi. Com esse gesto,
Absalão estava dizendo que a revolta era definitiva. Agora, não é Absalão
que pede conselho a Aitofel, mas é este que se adianta para aconselhar
Absalão. O conselho de Aitofel era assaz perigoso. Se colocado em prática,
mataria o rei e dispersaria seus soldados.
O perigoso conselho de Aitofel
O narrador bíblico registra o perigoso conselho de Aitofel:
Disse ainda Aitofel a Absalão: Deixa-me escolher doze mil homens, e me
disporei, e perseguirei Davi esta noite. Assaltá-lo-ei, enquanto está
cansado e frouxo de mãos; espantá-lo-ei; fugirá todo o povo que está com
ele; então, matarei apenas o rei. Farei voltar a ti todo o povo; pois a volta
de todos depende daquele a quem procuras matar; assim, todo o povo
estará em paz. O parecer agradou a Absalão e a todos os anciãos de Israel
(2Samuel 17:1-4).
Destacamos aqui quatro estratégias de Aitofel para matar Davi:
1. Um ataque imediato (2Samuel 17:1). O conselho de Aitofel é escolher
uma tropa de doze mil homens e pessoalmente perseguir Davi na mesma
noite da fuga, quando ele estaria com as mãos frouxas. Davi e seus homens
estão exaustos, emocionalmente abalados, e esse ataque avassalador e
imediato não daria a Davi tempo para se articular e traçar uma ofensiva. Nas
palavras de Kevin Mellish, “isto provocaria uma derrota devastadora contra
quaisquer esperanças de ressurgência de Davi”.1 O conselho de Aitofel
mostra uma espantosa falta de respeito pelo rei ungido por Deus, além de
ser uma falta de temor ao próprio Senhor. Isso está em flagrante contraste
com o respeito que Davi demonstrou por Saul, o ungido do Senhor.
2. Um ataque avassalador (2Samuel 17:2a). O propósito de Aitofel não é
matar o exército de Davi, mas assaltá-lo, espantá-lo e fazê-lo fugir. Aitofel
propõe uma ação cirúrgica, uma tática inteligente para matar o líder e
dispersar os liderados.
3. Um ataque proposital (2Samuel 17:2b,3). O propósito é matar apenas
Davi, o rei. Sem a liderança do comandante-chefe do exército de Israel, seus
soldados não teriam como resistir ao golpe de Estado e devotariam sua
fidelidade a Absalão. Assim, em vez de estabelecer uma guerra civil, em um
ato de inteligência, apenas Davi seria eliminado e todo povo poderia voltar
em paz para prestar obediência ao novo rei. W. T. Purkiser destaca que em
várias versões o versículo 3 é traduzido assim: “Trarei de volta todos os
homens dele para o senhor, como uma esposa que volta para o seu marido”.2
Nessa mesma linha de pensamento Kevin Mellish diz: “O plano de Aitofel
presumia que se Davi fosse morto, então os aliados dele transfeririam sua
aliança para Absalão. Este cenário é semelhante ao que aconteceu com Davi
após a morte de Isbosete (2Samuel 5:1-3)”.3
4. Um parecer aprovado (2Samuel 17:4). “O parecer agradou a Absalão e a
todos os anciãos de Israel”. As palavras de Aitofel eram consideradas como
resposta de Deus a uma consulta (2Samuel 16:23). Não houve
questionamento. A aprovação foi unânime, tanto do rei quanto dos anciãos.
Nas palavras de Joyce Baldwin, “o plano de Aitofel convenceu o gabinete de
guerra e foi aceito”.4
A decisão inusitada de Absalão
Por providência divina, porém, Absalão toma uma decisão inusitada: Ele
pede conselho a Husai. Deus estava respondendo a oração de Davi
(2Samuel 15:31,34), pois Husai tinha sido enviado a Jerusalém para dissipar
o conselho de Aitofel. Husai declara lealdade a Absalão, mas está lutando
pelo reino do ungido do Senhor, e não pelo reino rebelde de Absalão. Dois
pontos são dignos de destaque:
1. Absalão pede o parecer de Husai (2Samuel 17:5). Apesar da eficácia de
todos os conselhos de Aitofel e das dúvidas de Absalão em relação à
fidelidade de Husai, Absalão, contra todas as evidências, manda chamar
Husai para ouvir o seu parecer sobre a forma de matar Davi e vencer a
guerra.
2. Absalão inquire Husai sobre o conselho de Aitofel (2Samuel 17:6). Absalão
demonstra falta de perspicácia ao declarar a Husai o que Aitofel havia
recomendado. Quer saber se Husai acompanha o conselheiro-mor ou se tem
uma outra opinião. Essa ingenuidade do rei rebelde é uma ação divina em
resposta à oração de Davi. Deus fecha os olhos de Absalão e o predispõe a
não lançar mão da única alternativa que poderia ter levado Davi à morte.
A desconstrução do conselho de
Aitofel
O conselho de Aitofel foi desconstruído pelo conselho de Husai, como
podemos ver:
1. Um parecer desfavorável (2Samuel 17:7). Husai, de forma habilidosa,
afirma a perícia invulgar de Aitofel como conselheiro, mas declara que desta
vez, seu conselho não foi bom. Sendo Deus providente, fezAbsalão detalhar
para Husai o conselho de Aitofel, oportunizando a Husai desconstruir seu
conselho.
2. Um apelo à lógica (2Samuel 17:8,9a). Husai, usando uma retórica
irretocável e figuras de linguagem vívidas, apelou para o conhecimento que
Absalão tinha de seu pai como guerreiro e de seus aliados como valentes.
Eles estariam enfurecidos como uma ursa do campo roubada de seus filhos.
E mais, Davi como homem de guerra, não passaria a noite com o povo, mas
estaria de espreita nalguma cova ou qualquer outro lugar. Uma baixa nos
combatentes de Absalão, nessa luta poderia gerar um rumor em toda a
nação, o que enfraqueceria de imediato as pretensões de Absalão.
3. Um apelo à precaução (2Samuel 17:9b,10). Um boato de derrota
chegando ao povo que segue a Absalão poderia ter um afeito devastador em
toda a sua tropa. Até mesmo os valentes, coração de leão, desmaiariam, pois
toda a nação tinha pleno conhecimento que Davi era guerreiro e seus
valentes eram com ele.
O prevalecimento do conselho de Husai
O conselho de Husai prevaleceu sobre o conselho de Aitofel. Dale Ralph
Davis diz que, talvez, o mais convincente argumento de Husai foi seu apelo
à vaidade de Absalão. Aitofel conhecia como ter sucesso sobre Davi, mas
Husai sabia como ter sucesso sobre Absalão.5 Se Aitofel sabia como
executar vitoriosamente uma revolta, Husai sabia como alimentar um ego
sedento. Se Aitofel se apresenta para liderar a força armada para matar Davi,
Husai faz de Absalão o centro de todas as coisas. Se Aitofel tem estratagema
para ganhar a guerra para Absalão, Husai sabe como alimentar a arrogância
de Absalão. Aitofel deu um conselho melhor, mas Husai ofereceu um
conselho mais convincente. Assim, tendo reduzido a pó os argumentos de
Aitofel e mostrado os perigos de sua tática, Husai, agora, vai dar o seu
conselho a Absalão.
Que estratégia ele sugere? Husai sabe que um ataque naquela noite seria
fatal para Davi. Este precisava de tempo para organizar sua estratégia de
defesa. Então, Husai dá um conselho que requeria tempo para organizar e
com isso, daria a Davi o tempo necessário para se refazer e planejar. Nas
palavras de Kevin Mellish, “como agente secreto de Davi, Husai ofereceu
um plano que beneficiasse Davi, dando-lhe tempo para escapar, revigorar e
reagrupar”.6 Nessa mesma linha de pensamento, Joyce Baldwin diz:
A retórica de Husai conquistou o conselho de guerra; Absalão se viu no
comando de um exército imenso e vitorioso, e a demora provocada pelo
recrutamento de ainda mais reforços deu a Davi oportunidade de
organizar suas tropas, recuperar as forças e decidir qual o terreno que lhe
seria vantajoso no combate que se avizinhava.7
Destacamos, aqui, três pontos importantes:
1. Husai apela para a vaidade de Absalão (2Samuel 17:11). Diferentemente
de Aitofel que se propôs a liderar os doze mil homens na missão de matar o
rei, Husai diz a Absalão que ele deve a toda pressa reunir a si todo o Israel,
de norte a sul, de Dã a Berseba, uma multidão sem conta e que o rei deve ser
o grande líder desse numeroso e poderoso exército. Warren Wiersbe diz,
corretamente, que a resposta de Husai não é uma série de declarações em
primeira pessoa, girando em torno dele mesmo, mas sim uma série de
afirmações sobre o novo rei, o que, sem dúvida, estimulou a imaginação e a
vaidade de Absalão. Husai usou suas palavras para montar a armadilha na
qual Absalão caiu.8
2. Husai apela para a vingança (2Samuel 17:12,13). Husai, de forma sagaz,
desperta em Absalão, a sede de vingança, dizendo que todos devem ir e cair
contra Davi e seus aliados como o orvalho que cai sobre a terra. Nem Davi
nem qualquer de seus soldados devem ficar vivos. Ainda que Davi fuja para
uma cidade amuralhada, eles invadirão a cidade e não ficará pedra sobre
pedra.
3. Husai tem seu parecer acolhido (2Samuel 17:14). Assim como a
aprovação do plano de Aitofel tivera unanimidade, o plano de Husai alcança
unanimidade, em substituição ao conselho de Aitofel. O narrador deixa
claro que essa reversão tinha a mão de Deus, para a ruína de Absalão. O
conselho de Husai essencialmente se resumia na sentença de morte de
Absalão. Apesar dessa realidade, enquanto isso, Absalão de forma incrível e
insensata concordou com essa tática. O discurso prático de Aitofel foi
esquecido, à medida que o plano grandioso de Husai, entremeado de
imagens vívidas, foi cativando o coração e a mente de Absalão e de seus
líderes. Deus havia respondido à oração de Davi e confundido o conselho de
Aitofel. Absalão cavalgaria diante de seu exército determinado a vencer.
Porém, o que estaria à sua espera seria uma derrota humilhante.
A rede de espionagem entra em ação
Nesse momento, a rede de espionagem entrou em operação. Husai
transmitiu sabiamente tanto o conselho de Aitofel quanto o seu, e
recomendou a Davi que se preparasse para o pior e cruzasse o Jordão antes
do anoitecer, pois Absalão poderia mudar de ideia. O aviso a Davi foi claro:
“Levantai-vos e passai depressa as águas, porque assim e assim aconselhou
Aitofel contra vós outros” (2Samuel 17:21). Davi acolheu imediatamente o
aviso e naquela mesma noite se levantaram e passaram o Jordão; quando
amanheceu, Davi e todos aqueles que estavam com ele já tinham atravessado
o Jordão.
Aitofel comete suicídio
Aitofel ficou frustrado ao ver o seu conselho rejeitado e substituído pelo
conselho de Husai (2Samuel 17:23a). Sabia que sua proposta era a única
maneira de matar Davi e conduzir Absalão ao poder. Ao perceber que seu
pano havia falhado e sabendo que a vitória inevitável de Davi seria o seu fim
irremediável e sua condenação inexorável como o traidor da pátria e o
mentor da conspiração contra o reino, Aitofel deixou Jerusalém e foi para
sua cidade. Ele estava a serviço do rei errado. Por ter traído Davi, sabia que
seria executado ou banido para sempre do reino. Então, entrou em um beco
sem saída, atravessou uma porta que o conduziu à desesperança fatal. Sem
perspectiva de futuro, preparou-se para tirar sua própria vida.
Aitofel cometeu suicídio (2Samuel 17:23b). Em vez de humilhar-se e
arrepender-se de sua loucura, colocou seus negócios em ordem e depois se
enforcou. Sendo Aitofel o Judas Iscariotes do Antigo Testamento, teve
também o mesmo destino de Judas. Ele se enforcou. Seu suicídio foi
planejado. Concordo com Kevin Mellish quando ele diz que a morte de
Aitofel representava o maior golpe no futuro político de Absalão. Ao seguir
o conselho de Husai, Absalão começou a plantar as sementes de sua própria
destruição.9 Robert Chisholm é oportuno ao escrever:
Há justiça retributiva aqui: aquele que, sem piedade alguma, aconselhou
seu novo senhor a matar Davi (17:2,3) agora está morto, e as cordas que
pronunciaram esse conselho perverso foram esmagadas. O Senhor
respondeu a oração de Davi ao frustrar o conselho de Aitofel; agora, em
sua providência, o Senhor remove completamente de cena esse inimigo
potencialmente perigoso. O suicídio de Aitofel prenuncia o que está para
acontecer com seu novo senhor, que também morrerá dependurado (18:9-
15).10
Davi recebe cuidado dos amigos
Se a mão de Deus estava contra Absalão e seus aliados, o cuidado de Deus
era demonstrado a Davi. Este chega a Manaaim, “acampamento de Deus”
(Gênesis 32:1,2), sede do governo de Isbosete (2Samuel 2:8-10). Essa
cidade funcionou como o quartel-general temporário de Davi durante a
revolta de Absalão. Foi nesse lugar que Davi chegou e recebeu presentes de
Sobi, Maquir e Barzilai (2Samuel 17:27).
1. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 310. ↵
2. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 253. ↵
3. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 310. ↵
4. BALDWIN, Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 299. ↵
5. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 214. ↵
6. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 311. ↵
7. BALDWIN,Joyce G. I e II Samuel: introdução e comentário. 2006, p. 301. ↵
8. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 351. ↵
9. MELLISH, Kevin J. Novo comentário bíblico Beacon – 1 e 2Samuel. 2015, p. 311. ↵
10. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 269. ↵
O
Capítulo 23
Davi, o rei enlutado
capítulo 18 de 2Samuel trata da batalha entre o exército de Davi e o
exército rebelde de Israel liderado por Absalão. Vemos aqui as
grandes perdas dessa rebelião, a morte de Absalão e o choro de Davi. Nas
palavras de Dale Ralph Davis, “esse foi um triste triunfo”.1 Nesse doloroso
processo, Davi paga a terceira prestação do castigo quádruplo que ele se
autompôs (2Samuel 12:6). A profecia de Natã continua a ressoar ao longo
da narrativa, à medida que a espada segue causando destruição na família de
Davi (2Samuel 12:10).2
A estratégia do rei
É incontestável que Davi é um guerreiro experiente. Como o comandante
maior do exército de Israel toma três expedientes importantes:
1. Ele avalia a força militar que tem ao seu dispor (2Samuel 18:1). Davi
conta o povo que tinha consigo, reúne e inspeciona as tropas, pondo sobre
elas capitães de mil e capitães de cem. Cada cidadão é um soldado e cada
soldado é liderado por um capitão. No seu exército há comando claro.
Hierarquia e disciplina fazem parte de seu exército. Os soldados sabem o
potencial que têm e sob o comando de quem devem lutar.
2. Ele distribui seu exército em três forças militares (2Samuel 18:2a). Davi
enviou o povo, distribuindo-o em três frentes de batalha. Os capitães de
campo eram os irmãos Joabe e Abisai, e o heteu Itai. Um terço do povo deve
estar sob o comando de Joabe, outro terço sob o comando de Abisai e o
outro terço sob a liderança de Itai. Não basta um exército numeroso, é
preciso ter um pelotão organizado. Não basta ter um grande líder à frente, é
preciso ter uma força-tarefa bem coordenada. O estratagema de batalha de
Davi dava aos seus guerreiros flexibilidade na arte de guerrilha, utilizando o
terreno e táticas não convencionais contra a milícia conscrita de Absalão.
3. Ele se dispõe a ir com o exército para o campo de batalha (2Samuel 18:2b).
Davi, como guerreiro experiente, apesar de sua idade avançada, propõe-se a
ir com o povo ao campo de luta. Essa estratégia, porém, não foi aceita pelo
povo. Os soldados de Israel sabiam que Davi era o alvo principal da batalha
e sua morte colocaria tudo a perder. Assim, nas palavras de W. T. Purkiser
“Davi foi dissuadido com base de que sua vida e presença valeriam uma
brigada de dez mil soldados comuns, e no caso de qualquer uma das
corporações tivesse que recuar, ele, como o comandante central, poderia vir
em seu auxílio”.3
A estratégia do povo
O povo sabe o valor da vida do rei Davi (2Samuel 18:3a) e precisa da sua
liderança na base (2Samuel 18:3b). O alvo principal do exército de Israel
comandado por Absalão era matar Davi. Esse havia sido o conselho de
Aitofel. Os soldados do campo, precisavam da liderança segura de Davi na
base. Então, Davi aquiesce à estratégia do povo e fica na cidade para enviar
ajuda em caso de necessidade.
A ordem do rei
É importante destacar que Davi está travando a guerra mais sensível e
amarga de sua carreira. Sua ordem não emana de um guerreiro
experimentado, mas de um pai aflito. Davi deu ordem a Joabe, a Abisai e a
Itai, dizendo: “Tratai com brandura o jovem Absalão, por amor de mim.
Todo o povo ouviu quando o rei dava a ordem a todos os capitães acerca de
Absalão” (2Samuel 18:5). O rei esperava que seu exército saísse vitorioso,
mas não suportava a ideia de ver seu filho morto na batalha.
Dale Ralph Davis diz que essa ordem poderia fazer sentido se Absalão
estivesse em uma terapia em vez de em uma guerra. A ordem de Davi foi
clara, pública e memorável, mas não foi sábia. Davi estava, com essa ordem,
abandonando considerações militares e morais para atender aos seus
próprios sentimentos. Ele está enviando o povo para arriscar a vida por ele e
pelo seu trono, enquanto pede brandura para que seu filho, que é a raiz de
todo o mal, não seja morto.4
Essa ordem de Davi não só desrespeitava os homens que estavam lutando
por ele, mas também transmitia fraqueza diante de um adversário tão
perigoso, pois por certo, não era esse o tratamento que Absalão havia
reservado para seu pai. Absalão havia assassinado Amnom, expulsado Davi
de Jerusalém, tomado o trono, violentado as concubinas de Davi e, agora,
estava determinado a matar o pai. Absalão não era o tipo de homem que
alguém gostaria de proteger, mas se Davi tinha um defeito visível, esse era o
de mimar os filhos.
A batalha travada
O exército de Davi, liderado pelos três capitães, travou a batalha com o
Israel rebelado no bosque de Efraim. Israel aparece no papel de inimigo, o
que enfatiza o amplo apoio que Absalão obteve (2Samuel 15:6,13; 16:15;
17:14,24,26) e a vulnerabilidade de Davi. Não obstante a superioridade
numérica dos que seguiam Absalão, o exército de Davi foi vitorioso.
Vejamos três pontos:
1. O lugar da batalha (2Samuel 18:6). O bosque de Efraim era denso e,
por isso, um território mais favorável ao experimentado exército de Davi,
liderado pelos três capitães. Lutar contra os soldados de Absalão nessa área
florestal e traiçoeira definitivamente fornecia aos homens de Davi uma
ampla cobertura para lutar em um estilo de guerra não convencional. A
estratégia funcionou bem, pois vinte mil homens de Israel caíram nas mãos
dos servos de Davi. Os homens de Davi definitivamente usaram o terreno
acidentado para sua vantagem.
2. O triunfo do exército de Davi (2Samuel 18:7). O povo de Israel que
seguia o rebelde Absalão foi abatido diante dos servos de Davi. Grande foi a
derrota dos aliados de Absalão, com a perda de vinte mil homens. A
natureza toda conspirou para fazer prosperar a causa do rei e derrotar o
rebelde, embora este contasse com o apoio de “todo o Israel”.
3. A estratégia do campo de batalha (2Samuel 18:8). Davi levou a peleja para
o bosque de Efraim, sabendo que esse lugar lhe era favorável. O narrador
chega a dizer que a batalha se estendeu aí por toda aquela região, composta
de gargantas e desfiladeiros das montanhas; e o bosque, naquele dia,
consumiu mais gente do que a espada.
A morte de Absalão
Warren Wiersbe diz, com razão, que Deus não precisava de uma espada para
deter o rebelde Absalão; simplesmente usou o galho de uma árvore.5
Destacamos, aqui, alguns pontos importantes:
1. Absalão dependurado na árvore (2Samuel 18:9). Absalão, liderando o
exército rebelde, montado em seu mulo, encontrou-se com os homens de
Davi. Na tentativa de fuga, seu mulo entrou debaixo dos ramos espessos de
um carvalho. Absalão ficou preso nele pela cabeça, pendurado entre o céu e a
terra, pois o mulo que montava passou adiante. Sua cabeleira proverbial,
símbolo de sua beleza e orgulho, tornou-se o laço de sua morte. Como
Aitofel, seu conselheiro, também morreu pendurado em uma árvore. O
traidor ficou pendurado, à mercê dos soldados de Davi; assim eles não
precisaram lutar contra o filho do rei, mas também não o salvaram. A
grande árvore, embora imóvel, revelou-se mais do que páreo para o
orgulhoso Absalão.
2. O mensageiro leva a notícia a Joabe (2Samuel 18:10-13). Um homem do
exército comandado por Joabe, ao ver Absalão preso pelos cabelos,
dependurado no carvalho, foi comunicar o fato ao seu capitão. Este o
repreendeu por não ter matado Absalão, dizendo-lhe que seria
recompensado e promovido por essa façanha.
3. A morte de Absalão (2Samuel 18:14,15). O general que havia promovido
a reconciliação entre Davi e Absalão ignorou as ordens de Davi e matou o
rapaz. Absalão rejeitou o plano de Aitofel de “matar somente o rei”, mas
Joabe comprou essa ideia. Joabe não deu mais ouvidos ao soldado, e
imediatamente, tomou três dardos e traspassou com eles o coração de
Absalão, estando ele ainda vivo no meio do carvalho. Então, os dez jovens
que levavam as armas de Joabe, feriram Absalão e o mataram. Joabe tem
consciência de que Davi só estará seguro quando Absalão estivermorto.
Dale Ralph Davis diz que o ato de Joabe foi ao mesmo tempo rebelde e
racional: rebelde à luz da ordem de Davi; racional para o bem-estar do
regime.6
4. O fim da guerra (2Samuel 18:16). Morto Absalão, Joabe tocou a
trombeta, deteve o povo e o povo voltou de perseguir a Israel, cujos soldados
estavam dispersos. Estava terminada a guerra. A morte de Absalão pôs fim à
batalha, evitando assim mais derramamento de sangue.
5. O sepultamento de Absalão (2Samuel 18:17). Levaram Absalão e o
lançaram no bosque, em uma grande cova, e levantaram sobre ele uma
grande quantidade de pedras. Uma pedra é tudo o que leva o nome de
Absalão, e nada mais.
A notícia da morte de Absalão ao rei
Era hora de dar a notícia do fim da guerra, da morte de Absalão e da
esmagadora vitória alcançada contra os inimigos ao rei Davi. Quando o
inimigo, porém, se tratava do próprio filho, era difícil para Davi celebrar a
vitória. Era uma notícia boa com sabor amargo (2Samuel 18:19,20).
Quando Davi perguntou ao mensageiro etíope sobre a jovem Absalão, ouviu
uma resposta perturbadora: “Sejam como aquele os inimigos do rei, meu
senhor, e todos os que se levantam contra ti para o mal” (2Samuel 18:32). O
etíope transmitiu a notícia da morte de Absalão a Davi, mas de um modo
indireto, amenizando assim o golpe. O abrupto anúncio do etíope, mesmo
assim, mergulhou o rei em profunda tristeza. O etíope contou toda a
verdade a Davi, não apenas sobre a batalha, mas também sobre a morte de
seu filho.
O etíope trouxe boas e más notícias a Davi. O livramento para Davi
envolvia também o desatre para Absalão. Se o reino de Deus sob o rei
escolhido estava para ser salvo, então o inimigo que havia usurpado o reino
deveria ser destruído. Deus não traz pleno livramento para a igreja até que
traga decisivo julgamento aos seus inimigos. A permanência do reino
(2Samuel 18:31) implica na destruição de seus inimigos (2Samuel 18:32).
O choro do rei
Fica evidente que Davi estava fora da realidade caso imaginasse que poderia
ter salvo tanto o trono quanto a vida do filho rebelde. Ao saber da morte de
Absalão, seu filho, Davi ficou profundamente comovido, subiu à sala que
estava por cima da porta e, em uma explosão emocionada, desatou a chorar.
Davi já havia chorado quando soube da morte de Saul e de Jônatas
(2Samuel 1:11,12), do assassinato de Abner (2Samuel 3:32) e do assassinato
de Amnom (2Samuel 13:33-36); então, por que não deveria chorar agora
pela morte de seu filho amado, Absalão?
Certamente as palavras do profeta Natã ainda ecoavam em seus ouvidos:
“A espada não se apartará de sua casa” (2Samuel 12:10). É a culpa de Davi
que alimenta sua tristeza. Absalão, embora totalmente responsável por seus
atos rebeldes, está sofrendo, de igual modo, a culpa de Davi, seu pai.
A dor do rei foi sem dúvida intensificada no sentido de seu próprio
fracasso como pai para Absalão. O amor de um pai transcendia as ações
irresponsáveis de um filho rebelde, não importa o quanto as mesmas
ferissem o pai individualmente. Entretanto, a reação de Davi pode apontar
para suas próprias falhas como pai. O pai que nunca havia tomado
providências para corrigir o filho ambicioso e mimado está se entregando ao
tormento de si mesmo, expressando o desejo de ter morrido no lugar de
Absalão.
Com lágrimas copiosas, Davi chora e anda de um lado para o outro,
dizendo: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera
que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!”. Davi deveria ter se
dado conta de que não podia ter, ao mesmo tempo, o trono e o filho. Manter
um significava, de fato, perder o outro. Fica evidente que Davi se concentra
na disciplina aplicada por Deus, e não no livramento concedido por ele.
1. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 223. ↵
2. CHISHOLM JR., Robert B. 1 & 2Samuel. 2017, p. 272. ↵
3. PURKISER, W. T. Os livros de 1 e 2Samuel. In: Comentário bíblico Beacon. Vol. 2.
2015, p. 254. ↵
4. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 229. ↵
5. WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo. Vol. 2. 2006, p. 354. ↵
6. DAVIS, Dale Ralph. 2Samuel. 2018, p. 229. ↵
A
Capítulo 24
Davi, o rei reentronizado
vitória do exército de Davi sobre o rebelde exército de Absalão teve
sabor amargo para o rei pactual. Em vez de comemorar a vitória, Davi
se rende a um choro convulsivo; em vez de agradecer aos seus valentes
soldados, que deram a vida para salvar o rei e o reino, envergonha-os com
sua atitude; em vez de falar às suas tropas em público, isola-se e tranca-se
dentro de casa, rendido a uma tristeza crônica.
A tristeza do rei
A tristeza de Davi é agravada pela culpa. Temos aqui um rei salvo da morte
e vitorioso, mas ao mesmo tempo um rei triste e abatido. O luto pelo filho
rebelde fez da tristeza de Davi uma ameaça a sua própria vida e ao seu reino
(2Samuel 19:1). Davi continuava chorando e lastimando a morte de
Absalão, desconsiderando ou fazendo pouco caso da retumbante vitória que
seu exército havia imposto aos rebeldes. Davi estava tão consumido com sua
própria aflição que ele nem pensou como aquilo afetava seus guerreiros que
lutaram por ele. A angústia de Davi teve um efeito devastador sobre seus
soldados. Isso tornou-se um insulto ao povo que o defendeu e arriscou a
vida por ele. Como diz Joyce Badwin, “para o exército vitorioso, era difícil
aceitar que Davi não tivesse qualquer palavra de apreciação pela bravura
deles em combate”.1
A vitória de Davi tem gosto de funeral (2Samuel 19:2). A vitória do
exército de Davi tornou-se em luto para todo o povo. Nenhuma palavra de
gratidão do rei aos seus valentes aliados. Nenhuma celebração pela vitória.
Nenhum bandeira drapejada, festejando o triunfo sobre os rebeldes. Parecia
que aquela era uma vitória com gosto de derrota.
O exército fiel a Davi ficou envergonhado (2Samuel 19:3). A atitude
descontrolada de Davi fez de sua soldadesca vitoriosa um bando de homens
envergonhados, entrando na cidade de Manaaim, com a cara coberta de
pejo, como se estivessem voltando de uma derrota humilhante. A vitória se
tornou naquele dia em derrota, e a alegria do triunfo, em tristeza. Os
soldados de Davi entraram em Manaaim como se tivessem sido os
perdedores, e não os vencedores.
Davi ficou descompensado e sem liderança. O rei perdeu completamente
o controle. Perdeu a capacidade de liderar, ao cobrir o rosto e exclamar em
alta voz: “Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho!” (2Samuel
19:4). Aquele foi o fracasso do triunfo. Cinco vezes Davi grita o nome de
Absalão e, oito vezes, clama “meu filho” (2Samuel 18:133; 19:4).
O confronto ao rei
Havia somente um homem capaz de entrar na casa do rei Davi para
confrontá-lo. Esse homem era Joabe, e ele não hesitou em fazê-lo. Joabe é
adequadamente rude, a fim de abalar Davi e levá-lo a reconhecer a situação.
Joabe acusou Davi de ter envergonhado, naquele dia, a face dos seus servos
que haviam livrado sua vida, a vida de seus filhos, de suas filhas, de suas
mulheres e de suas concubinas (2Samuel 19:5). Os soldados voltaram da
batalha vitoriosa como se tivessem sido derrotados. Nas palavras de Joyce
Baldwin, “as pessoas que salvaram a vida do rei e de suas esposas e filhos
foram recompensados com desonra”.2
Joabe, em um tom exagerado, acusa Davi de amar os que lhe aborrecem e
aborrecer os que lhe amam (2Samuel 19:6). Joabe acusa Davi de dar a
entender que os príncipes e servos que estavam com ele não tinham
qualquer valor, pois se Absalão tivesse sobrevivido, mesmo que todos os
aliados de Davi tivessem morrido, o rei estaria contente. Joabe acusa Davi de
priorizar as coisas erradas, ou seja, amar os que o odiavam e odiar os que o
amavam. Joabe usa os termos “amar” e “odiar” com a conotação pactual de
lealdade e deslealdade. Davi estava sendo mais leal ao desleal Absalão que a
seus soldados fiéis.
Joabe mexe com os brios do rei e ordena-lhe a levantar-se e a sair para
falar ao coração do povo, engatando em seguida uma solene ameaça:
Juro pelo Senhor que, se não saíres, nem um só homem ficará contigo esta
noite; e maior mal te será isto do que todoo mal que tem vindo sobre ti
desde a tua mocidade até agora (2Samuel 19:7).
A repreensão e advertência de Joabe sugerem que Davi corre o risco de
perder seus partidários. Joabe tinha o poder de animar o exército a
abandonar Davi e, assim, deixar o rei sem poder. Essa situação era pior do
que todas as desgraças que já haviam acontecido a Davi. As palavras de
Joabe indicavam que se Davi não consertasse a situação, outra rebelião, dessa
vez liderada pelo próprio Joabe, estaria no horizonte. Em seguida, Joabe
passa a apresentar a atitude que Davi deveria adotar: “Levanta-te agora, sai,
e fala segundo o coração dos teus servos” (2Samuel 19:7). Joabe mostra a
Davi a necessidade de uma ação imediata. O juramento que fez, pelo
Senhor, dava uma tom solene à sua urgente insistência com o rei.
O discurso breve, porém penetrante, de Joabe, puxou o rei de volta à
realidade, e Davi assumiu o seu posto, na porta da cidade (2Samuel 19:8). o
rei se levantou e se assentou à porta. Sabendo-o todo o povo, veio
apresentar-se perante o rei. Israel, que havia bandeado para o exército
rebelde de Absalão, depois de um golpe de Estado malogrado contra seu rei
legítimo, foge e volta cada um para a sua tenda. A imagem de Davi aqui não
é a de um líder grato, vitorioso, que falava entusiasticamente com seus
soldados. Ao contrário, sua imagem relembra o retrato de um homem
abatido até o pó, que mal consegue se levantar e faz apenas o mínimo que
lhe é devido ou que se espera dele.
A tensão entre as tribos
A fuga de Davi da cidade de Jerusalém foi regada de lágrimas, enquanto a
volta a Jerusalém foi marcada por fortes tensões. Davi precisa traçar uma
estratégia para reassumir o trono, uma vez que a nação estava rasgada por
uma guerra civil e, agora, todas as tribos estavam altercando entre si
(2Samuel 19:9,10). O povo das tribos do norte discutia acerca das
perspectivas de se submeterem ao governo de Davi. A história mostrava-lhes
que Davi os havia tirado das mãos de seus inimigos, e o rei rebelde a quem
tinha aderido estava morto. As tribos chegaram à conclusão, que o melhor a
fazer era trazer Davi de volta ao trono. A abordagem deles era utilitária e
pragmática.
Enquanto as tribos israelitas deliberavam sobre sua decisão, Davi buscou
conquistar o favor do povo de Judá (2Samuel 19:11,12). Davi compreendeu
que precisava começar com a tribo de Judá, o berço da rebelião de Absalão.
Ele sabia que sua reinstalação dependia de uma reaproximação da tribo de
Judá. Então, enviou seus dois leais sacerdotes Zadoque e Abiatar para agir
como seus embaixadores e abrir o caminho para a reconciliação. Davi reforça
seu apelo, dizendo que eles eram seus parentes mais chegados, como seus
ossos e carne.
Davi certamente já tinha tomado conhecimento de que seu filho Absalão
tinha sido morto pelas mãos de Joabe, mesmo tendo dado uma ordem
expressa para o tratarem com brandura. Davi precisava pacificar as tribos e,
para livrar-se de influência cada vez maior de Joabe, resolve fazer uma troca
radical de comando de suas tropas, nomeando Amasa, o comandante do
exército de Absalão, no lugar de Joabe (2Samuel 19:13). Politicamente isso
parecia simpático, pois com esse gesto, Davi demonstrava que estava
perdoando todos os soldados rebeldes que apoiaram a causa de Absalão e
dizendo que todos os judaítas que haviam dado suporte a Absalão não
precisavam ter medo de vingança do regime neodavídico.
A nomeação de Amasa agradou aos homens de Judá, a ponto de,
unanimemente, recomendarem ao rei sua volta imediata a Jerusalém, com
todos os seus servos (2Samuel 19:14,15).
Davi ainda não tinha voltado para Jerusalém quando sinais de disputas
entre as tribos pareciam estar fervilhando (2Samuel 19:41-43). Todos os
homens de Israel vieram a Davi com uma reclamação. Mesmo depois da
vitória sobre o exército rebelde, não houve sossego para Davi. Warren
Wiersbe, citando Shakespeare, escreve: “Inquieta deita-se a cabeça que usa a
coroa”.3
A liderança da tribo de Judá na reentronização de Davi não agradou as
dez tribos do norte. Todos os homens de Israel vieram a Davi e acusaram a
tribo de Judá de tê-lo sequestrado na sua passagem pelo Jordão, privando-os
também desse privilégio. Os homens de Judá retrucaram, dizendo que
fizeram isso por causa do parentesco com o rei, uma vez que Davi era da
tribo de Judá. Os homens de Israel responderam que o rei lhes pertencia dez
vezes mais, declarando, ainda, que Davi lhes pertencia mais do que pertencia
à tribo de Judá. Os homens de Israel acusaram a tribo de Judá de ter feito
pouco caso deles, uma vez que foram os primeiros a sugerirem a volta do rei
a Jerusalém (2Samuel 19:9,10).
A união das tribos pretendida por Davi corre sério perigo, apesar dos
esforços dele para promover a reconciliação. Essa tensão entre as tribos não
se extinguiu. Pelo contrário, cinquenta anos depois, essas tribos se separaram
definitivamente, as dez tribos do norte formaram o reino do norte, sob a
liderança cismática de Jeroboão I (1Reis 12:16). W. T. Purkiser reforça essa
ideia: “Embora ambos os grupos professassem lealdade a Davi, uma
profunda mágoa persistiu entre os homens de Judá e o povo das outras
tribos de Israel, como é visto em sua rivalidade em prestar homenagens ao
rei. O ciúme tribal ao longo dessas mesmas linhas de divisão mais tarde
levou à divisão do reino”.4
Dale Ralph Davis é enfático em dizer que embora o rei legítimo tenha
retornado, não havia paz no reino. A animosidade e a inveja entre as tribos
ameaçava a estabilidade do reino. Esta situação negativa, contudo, trazia um
testemunho positivo: este reino deve ser verdadeiramente o reino de Deus
ou ele será destruído ao longo de sua jornada.5
O rei anistia a Simei
Em seu retorno a Jerusalém como rei, Davi anistiou Simei, filho de Gera, o
homem que lançara pedra sobre Davi e o amaldiçoara, quando este fugia de
Absalão. Simei, vendo o triunfo das tropas de Davi sobre o exército rebelde
de Absalão, com medo de que Davi exercesse vingança, reuniu mil homens
de Benjamim e desceu com os homens de Judá para encontrar Davi no
Jordão e o ajudarem na travessia do rio. Simei, o apedrejador, agora, prostra-
se diante do rei, humildemente, quando este ia passar o Jordão, e lhe disse:
Não me imputes, senhor, a minha culpa e não te lembres do que tão
perversamente fez teu servo, no dia em que o rei, meu senhor, saiu de
Jerusalém; não o conserves, ó rei, em teu coração. Porque eu, teu servo,
deveras confesso que pequei; por isso, sou o primeiro que, de toda a casa
de José, desci a encontrar-me com o rei, meu senhor (2Samuel 19:19,20).
Não há dúvida de que a postura de Simei é apenas uma estratégia política
para livrar-se de retaliação. Ele continua sendo uma serpente, mas uma
serpente que deseja viver. Davi deixa-o viver, sabendo que não era hora de
fazer qualquer enfrentamento com outros benjamitas. Davi trata Simei com
clemência!
O mesmo Abisai que pedira a Davi para matar Simei, quando este
amaldiçoava e apedrejava o rei ao fugir de Jerusalém, agora pede novamente
para vingar-se de Simei (2Samuel 19:21). O plano de Davi, porém, não
incluía retaliação. Era hora de juntar os cacos em vez de derramar mais
sangue.
Davi repreende Abisai, reafirma sua autoridade como rei de Israel e dá
anistia a Simei, jurando preservar-lhe a vida (2Samuel 19:22,23). Davi age
cautelosamente, dizendo que não era hora de vingança e mais
derramamento de sangue, mas momento oportuno para pacificar os ânimos
e unificar o povo.
O rei corrige um erro cometido contra
Mefibosete
Mefibosete, o filho aleijado de Jônatas, que morava no palácio do rei, em
Jerusalém, também vai ao encontro de Davi em seu retorno à capital. Desde
que o rei tinha saído de Jerusalém até sua volta, Mifibosete não tinha
tratado dos pés, nem espontado a barba, nem lavado as vestes, em um gesto
de profundo abatimento. Ele vem a Davi com uma aparência desgrenhada,
mas com sinceridade no coração. Davi lhe pergunta: “Por que não foste
comigo, Mefibosete?”. Essa pergunta tinha o propósito de checar a
veracidade da acusação feita por Ziba, oadministrador das terras de
Mefibosete. Era Mefibosete um traidor, como acusara Ziba, ou um homem
leal ao rei?
A resposta de Mefibosete desmascara a mentira de Ziba e aponta para a
traição do acusador. A lealdade de Mefibosete também revela a decisão
precipitada de Davi em transferir para o acusador os bens que administrava.
Mefibosete deixa claro sua inocência diante do rei. Sua resposta é eloquente:
Ó rei, meu senhor, o meu servo me enganou; porque eu, teu servo, dizia:
albardarei um jumento e montarei para ir com o rei; pois o teu servo é
coxo. Demais disto, ele falsamente me acusou a mim, teu servo, diante do
rei, meu senhor; porém, o rei, meu senhor, é como um anjo de Deus; faze,
pois, o que melhor te parecer. Porque toda a casa de meu pai não era
senão homens dignos de morte diante do rei, meu senhor; contudo,
puseste teu servo entre os que comem à tua mesa; que direito, pois, tenho
eu de clamar ao rei? (19:26-28).
Davi resolveu repartir com Ziba as terras, alterando sua decisão inicial e
permitiu que ambos tivessem direito à propriedade que Davi havia
concedido a Ziba anteriormente. Longe de Mefibosete demonstrar
insatisfação com a resolução do rei, dá uma resposta desconcertante: “Fique
ele, muito embora, com tudo, pois já voltou o rei, meu senhor, em paz à sua
casa” (2Samuel 19:30). Mefibosete está satisfeito em estar na casa do rei,
assentado à mesa do rei. Mefibosete ama mais o rei do que as terras.
Mefibosete abriu mão de sua parte do campo, mostrando, assim, sua
lealdade a Davi e sua gratidão pelo retorno do rei. Concordo com Joyce
Baldwin, quando diz que, quem sai incólume do incidente é o aleijado
Mefibosete, que se coloca acima das questões financeiras e sente um prazer
sincero no retorno, em segurança, do rei, seu senhor.6
O rei recompensa a Barzilai
Depois de lidar com Simei, Ziba e Mefibosete, Davi, agora, se despede de
Barzilai, o próspero gileadita, que o sustentou no tempo de seu exílio em
Manaaim. Esse ancião demonstrou sua fidelidade ao rei pactual apontado
pelo Senhor. Davi não se esqueceu da bondade de Barzilai. Como gesto de
sua gratidão, convidou-o a mudar-se para Jerusalém, com o compromisso de
sustentá-lo na casa real. Barzilai agradeceu a generosa oferta, justificando
que já era um homem muito velho para desfrutar das alegrias e venturas da
vida palaciana e que, nessa idade, poderia ser até mesmo um peso para o rei.
Porém, pede ao rei para levar consigo Quimã, provavelmente seu filho.
Davi promete a Barzilai, seu benfeitor, levar Quimã consigo para
Jerusalém. Promete ainda atender a qualquer necessidade do amigo
hospitaleiro. Davi beijou e abençoou Barzilai às margens do Jordão, e este
voltou para sua casa.
Quando Davi atravessou o Jordão, Quimã e todo o povo de Judá foram
com ele. O texto faz questão de apontar que somente “metade do povo de
Israel estava presente” (2Samuel 19:40). Esta última observação insinua que
nem todo o povo de Israel apoiava Davi nem queria vê-lo retornar como rei.
O texto já está levantando a questão de que haveria problema adiante para a
casa de Davi.7
Antes de Davi colocar os pés em Jerusalém e reassumir o trono, explode
mais uma revolta. Não há nenhuma surpresa. Apenas mais rebelião, mais
tragédia, mais problemas. As rivalidades entre as tribos e as dissensões que
fomentaram a rebelião de Absalão não estavam completamente erradicadas.
Russell Norman Champlin diz que a “revolução” de Seba desenvolveu-se das
querelas entre Israel (o norte) e Judá (o sul).8
Seba, aproveitando-se da crise instalada entre as dez tribos do norte e o
povo de Judá, lidera uma insurreição, induzindo as tribos do norte a
abandonarem Davi. Fica patente, entretanto, que, embora Seba tenha
recebido apoio para o movimento separatista, não desfrutava do respaldo
político de todas as tribos do norte.
Vale destacar que os anos finais do reinado de Davi foram assaz
turbulentos e ele não teve mais unanimidade em seu governo. Ele teve de
lidar com líderes rebeldes como Seba, a fim de reunificar o seu reino.
Concordo com Robert Chisholm quando ele diz que esse incidente
prefigura a divisão do reino depois da morte de Salomão. Aliás, as palavras
de Seba foram repetidas pelos israelitas, posteriormente, quando se declaram
independentes da dinastia davídica (1Reis 12:16).9
Uma insurreição
O reino de Davi estava assegurado, mas não contava mais com o apoio de
todas as tribos. A rebelião de Absalão tinha sido efetivamente reprimida e
debelada, porém, uma nova revolta estava em desenvolvimento. O reino
estava internamente dividido.
Seba, o rebelde, é chamado de “filho de Belial” (2Samuel 20:1a). Era um
homem maligno, imprestável, sedicioso. Seba não apoiava o reino davídico,
e, portanto, instigou uma revolta entre as tribos de Israel com sua
convocação à rebelião.
Aproveitando-se do estremecimento entre as tribos do norte e as tribos
do sul, autointitulou-se líder de uma nova rebelião e liderou as dez tribos do
norte a desertarem das fileiras de Davi, tocando a trombeta, dizendo que
não tinham herança com Davi, o filho de Jessé, e que cada um deveria ir
para sua tenda (2Samuel 20:1b).
O resultado dessa insurreição é que todos os homens de Israel se
separaram de Davi e seguiram Seba, enquanto os homens de Judá se
apegaram ao seu rei, conduzindo Davi desde o Jordão até Jerusalém
(2Samuel 20:2).
Um conflito pessoal
Sabendo que a rebelião liderada por Seba poderia tornar-se mais perigosa
do que a rebelião promovida por Absalão, Davi, como um estrategista
militar, tem pressa para estancar e esmagar a nova insurreição, cortando-a
pela raiz, não dando ao revoltoso a chance de tomar cidades fortificados e
resistir ao seu exército. Então, ordena a Amasa a reunir as tropas em um
prazo de três dias para um ataque concentrado e veloz ao insurgente. Amasa
partiu para convocar os homens de Judá, porém, por motivos não revelados,
demorou além do tempo aprazado (2Samuel 20:4-6). Vendo Davi que o
novo comandante não tinha a destreza e o preparo para aquela grande
empreitada, e sabendo do potencial do perigo à vista, convoca o leal
guerreiro Abisai, irmão de Joabe, para reunir os seus servos, a fim de
perseguir Seba antes que ele se aquartelasse nas cidades fortificadas. A
decisão de convocar Abisai deixa claro que Joabe havia sido rebaixado.
Embora Davi tenha deposto Joabe e nomeado Abisai para perseguir
Seba, o exército que avança é liderado por Joabe, que comanda a guarda real
e todos os valentes de Davi (2Samuel 20:7). Joabe não podia ser posto fora
de ação tão facilmente e tinha seus motivos pessoais para querer eliminar
Amasa, o primo promovido em seu lugar. Joabe não queria ver líder algum
de Absalão ainda vivo e criando problemas para Davi.
Sob o comando desses irmãos guerreiros, os homens de Judá saíram de
Jerusalém para perseguirem Seba. Chegando eles à pedra grande, junto a
Gibeom, Amasa veio perante eles. De forma traiçoeira, sob o pretexto de
amizade, Joabe feriu o seu rival Amasa à espada e o matou. Joabe se
aproximou de Amasa com palavras ternas (2Samuel 20:9a) e com gestos
ternos (2Samuel 20:9b). Seu gesto, ao ter a mão direita livre, a destra da
batalha, que manuseava a espada, não indicava qualquer ameaça. Isso pegou
Amasa de espírito desarmado, o que possibilitou Joabe lhe aplicar um golpe
fatal.
Tendo matado Amasa, Joabe e Abisai se uniram e prosseguiram na
perseguição a Seba. Joabe matou três homens importantes associados a
Davi: Abner (2Samuel 3:27), Absalão (2Samuel 18:14), e Amasa (2Samuel
20:10).
Um dos moços de Joabe parou junto ao ferido de morte, Amasa, e disse:
“Quem está do lado de Joabe e é por Davi, siga Joabe” (2Samuel 20:11).
Amasa com as entranhas derramadas por terra, revolvia-se em sangue. Isso
retardou a marcha do povo que parava para ver o que tinha lhe acontecido.
Então, um dos moços de Joabe removeu Amasa para fora do caminho e
cobriu seu corpo com um manto e assim todos os homens seguiram Joabe,
para perseguirem Seba.
Um cerco militar
Seba viajou pela região norte e chegou à cidade de Abel-Bete-Maaca
(2Samuel 20:14), que

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