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Fome por Deus © 2006, Editora Cultura Cristã. Traduzido de A hunger for God © 1997 by John Piper, publicado por Crossway Books, uma divisão da Good News Publishers. Wheaton, Illinois 60187, USA. Edição em português autorizada por Good News Publishers. Todos os direitos são reservados. 1ª edição – 2006 2ª edição – 2013 1ª reimpressão – 2018 Conselho Editorial Cláudio Marra (Presidente) Christian Brially Tavares de Medeiros Filipe Fontes Heber Carlos de Campos Jr Hermisten Maia Pereira da Costa Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes Produção Editorial Tradução Neuza Batista da Silva Revisão Assisnet Design Claudete Água Wilton Lima Mauro Filgueiras Editoração Lidia de Oliveira Dutra Capa Osíris C. R. Rodrigues Livro digital Lucas Camargo P665f Piper, John 1946 Fome por Deus / John Piper; traduzido por Neuza Batista da Silva_São Paulo: Cultura Cristã, 2ª ed. 2013. ePub3. Tradução de A hunger for God: desiring God through fasting and prayer ISBN 978-65-5989-161-0 1. Vida cristã 2. Jejum e oração I. John Piper II. Título CDD 248-47 A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora oficial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denominação e pela Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé. Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP: 01540-040 – São Paulo – SP Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 – Whatsapp (11) 97133-5653 www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br http://www.editoraculturacrista.com.br/ Superintendente: Clodoaldo Waldemar Furlan Editor: Cláudio Antônio Batista Marra Para os meus colegas presbíteros da Bethlehem Baptist Church que, como eu, anseiam pela plenitude de Deus e, juntos, nos deleitamos à mesa da graça. Sumário Prefácio Introdução: Saudades de Deus 1. O jejum é cristão? Jejum novo para o vinho novo 2. Não só de pão viverá o homem O banquete no deserto do jejum 3. Jejuar pela recompensa do Pai A orientação radical de Jesus acerca do jejum 4. Jejuar pela volta do Rei Até que ponto nós sentimos sua falta? 5. O jejum e o curso da História Um chamado por discernimento e anseio 6. Encontro com Deus no jardim da dor Um jejum diferente por amor aos pobres 7. Jejuar pelas crianças O aborto e a soberania de Deus sobre as falsas cosmovisões Conclusão: Por que Deus recompensa o jejum? Apêndice: Citações e experiências Bibliografia Notas Prefácio Cuidado com livros a respeito do jejum. A Bíblia é muito cuidadosa em nos advertir acerca de pessoas que “exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade” (1Tm 4.3). O apóstolo Paulo pergunta, admirado: “por que… vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isso, não proves aquilo, não toques aquiloutro…?” (Cl 2.20-21). Ele estava zelando pelo completo gozo da liberdade cristã. Como uma grande declaração de liberdade sobre cada livro a respeito de jejum, desfralda-se a insígnia: “Não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos” (1Co 8.8). Havia, certa vez, dois homens. Um disse: “jejuo duas vezes por semana”; o outro disse: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador”. Apenas um deles desceu para sua casa justificado (Lc 18.12-14). A disciplina da abnegação é repleta de perigos – talvez somente sobrepujada pelos perigos da indulgência. A respeito destes também somos advertidos: “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). Aquilo que nos domina se torna o nosso deus; e Paulo nos adverte acerca daqueles cujo “deus… é o ventre” (Fp 3.19). O apetite dita a direção da vida deles. O estômago é soberano. Isso tem duas expressões: uma religiosa e outra não religiosa. A religiosa: “Pois certos indivíduos… transformam em libertinagem a graça de nosso Deus” (Jd 4) e marqueteiam o lema: “Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos” (1Co 6.13). A não religiosa: sem a desculpa da graça perdoadora, as pessoas simplesmente cedem às “demais ambições [por outras coisas, que], concorrendo, sufocam a palavra” (Mc 4.19). As “demais ambições [o desejo por outras coisas]” – é aí que está o inimigo. E a única arma triunfante é uma profunda fome por Deus. A debilidade da nossa fome por Deus não é porque ele seja insosso, mas porque nós nos mantemos abarrotados de outras coisas. Talvez, então, a rejeição do apetite do nosso estômago ao alimento possa expressar ou mesmo aumentar o apetite da nossa alma por Deus. O que está em jogo aqui não é apenas o bem da nossa alma, mas também a glória de Deus. Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos com ele. A luta da fé é para nos deleitar em tudo o que Deus é para nós em Cristo. O que mais almejamos é o que adoramos. Sua bondade reluz com os mais brilhantes raios Quando nos deleitamos em todas as suas veredas. Sua glória transborda Quando nele nos saciamos. Seu resplendor enche toda a terra Quando o povo se deleita na sua excelência. A formosura do fogo santo de Deus Arde com mais radiância no anelo do coração. Entre os perigos da abnegação e da autoindulgência há um caminho de dor aprazível. Não é o prazer patológico do masoquista, mas a paixão da busca de quem ama: “deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.8). Esse é o caminho que nós nos esforçaremos por seguir neste livro. O simples fato de que me tenha sido permitido pelo menos tentar empreender a jornada é mérito da graça de Deus, pela qual vivo todos os dias. Ela veio a mim em Jesus, que me amou e se entregou por mim. Ela veio a mim em minha esposa, Nöel, que me apoia no trabalho de pregar, escrever e pastorear o rebanho. Eu amo você, Nöel, e lhe sou muito agradecido por sua parceria na grande obra. Deus tem sido bom para nós. A graça veio novamente a mim no fiel labor de Carol Steinbach, cuja leitura cuidadosa deixou suas marcas, e cuja diligência organizou os índices. E a graça chegou a mim por meio dos meus colegas presbíteros da Bethlehem Baptist Church. Eles criaram um lema para missões para a nossa igreja que adotei como a missão da minha vida. Eles me deram a incumbência e o tempo para escrever este livro e torná-lo parte dessa missão: “Nós existimos para propagar a paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas para a alegria de todos os povos”. Essa é a minha oração por este livro. Quando Deus é o supremo anelo do nosso coração ele será supremo em tudo o mais. John Piper 1º de maio de 1997 Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre. Salmo 73.25-26 Quase em todos os lugares e em todos os tempos, o jejum sempre ocupou um lugar de grande importância visto que ele se encontra estreitamente relacionado com o profundo senso religioso. Talvez isso explique a negligência do jejum no nosso tempo. Quando o significado de Deus diminui, o jejum desaparece.Edward Farrell[1] Introdução: Saudades de Deus A terra natal do jejum cristão é a saudade de Deus. No verão de 1967 completava um ano inteiro que eu estava apaixonado por Nöel. Se na ocasião alguém me dissesse que teria de esperar mais um ano e meio para me casar, eu teria protestado com veemência. Para nós, parecia que quanto mais depressa melhor. Aconteceu no verão antes do meu último ano na universidade. Estava trabalhando como instrutor de segurança na água num acampamento cristão na Carolina do Sul. Ela estava a centenas de quilômetros longe dali, trabalhando como garçonete. Nunca antes eu havia sentido tamanha dor. Tinha sentido saudades de casa antes, mas dessa maneira jamais. Todos os dias escrevia a ela e falava dessa saudade. Nossas cartas eram entregues no final da manhã, um pouco antes da hora do almoço. Quando ouvia meu nome e via o envelope cor de alfazema, meu apetite desaparecia. Ou, mais precisamente, minha fome de comida era substituída pela fome do meu coração. Muitas vezes, em vez de almoçar junto com os outros acampantes, eu pegava a carta e ia para um lugar tranquilo no meio da mata onde me sentava sobre as folhas para degustar um tipo diferente de refeição. Não era a coisa real. Mas a cor, o cheiro, as letras, a mensagem e a assinatura eram antegostos. E com eles, semana após semana, minha esperança era fortalecida, e a realidade, além do horizonte, era mantida viva no meu coração. O romance e a resistência ao jejum O jejum cristão, em última instância, é a fome que brota da saudade de Deus. Mas a história da fome do meu coração por estar junto de Nöel pode ser enganadora. Ela conta somente a metade da história do jejum cristão. Metade do jejum cristão é que a perda do nosso apetite físico é pelo fato de a nossa saudade de Deus ser muito intensa. A outra metade é que nossa saudade de Deus é ameaçada porque nossos apetites físicos são muito intensos. Na primeira metade, há a perda do apetite. Na segunda, o apetite é resistido. Na primeira, nós cedemos à fome maior que existe. Na segunda, lutamos pela fome maior que não existe. O jejum cristão não é apenas o efeito espontâneo de uma satisfação mais elevada em Deus; é também uma arma escolhida contra toda força do mundo que poderia nos tirar essa satisfação. Os maiores adversários de Deus são suas dádivas O maior inimigo da fome por Deus não é o veneno, mas a torta de maçã. Não é o banquete dos perversos que enfastia o nosso apetite pelo céu, mas o infindável beliscar à mesa do mundo. Não é a obscenidade num filme, mas os chuviscos da trivialidade do horário nobre que sorvemos todas as noites. Isso porque todo mal que Satanás pode fazer, quando Deus descreve o que nos impede de banquetear à mesa do seu amor, é um pedaço de terra, uma junta de bois e uma esposa (Lc 14.18-20). O maior adversário do amor de Deus não são seus inimigos, mas suas dádivas. E os apetites mais mortais não são pelo veneno do mal, mas pelos simples prazeres da terra. Isso porque quando estes tomam o lugar do apetite pelo próprio Deus, dificilmente a idolatria é identificável e torna-se quase incurável. Jesus disse que algumas pessoas ouvem a Palavra de Deus e têm um desejo por Deus despertado no coração. Mas então: “no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida” (Lc 8.14). Em outro ponto ele disse: “mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera” (Mc 4.19). Os deleites da vida e a fascinação… [pelas demais ambições] – essas coisas não são más em si mesmas. Não são vícios. São dádivas de Deus. São a carne, a batata e o café, e a jardinagem, a decoração, as viagens, os investimentos, assistir TV, navegar na internet, fazer compras, exercícios, coleções e bate-papo essenciais. E todas elas podem se tornar substitutos mortais de Deus. Os efeitos mortais dos prazeres inocentes Portanto, quando digo que a raiz do jejum cristão é a fome da saudade de Deus, quero dizer que faremos qualquer coisa e passaremos sem nenhuma delas se, de alguma maneira, pudermos nos proteger dos efeitos mortais dos prazeres inocentes e preservar a doçura dos anseios da nossa saudade de Deus. Não apenas alimento, mas qualquer coisa. Há vários anos, conclamei a minha igreja para um jejum de 24 horas, uma vez por semana (café da manhã e almoço nas quartas-feiras, se possível), durante o mês de janeiro. Estávamos enfrentando enormes dificuldades de autoavaliação e direção, e precisávamos da plenitude da presença de Deus com toda sua sabedoria e poder purificador. Uns poucos dias depois recebi a seguinte nota pelo correio: Apoio totalmente essa ideia. Acho que Deus tem algo a ver com isso. Para mim nunca dá certo nas quartas-feiras. Todos os dias tenho de almoçar com pessoas. Então, pensei numas coisas, que creio serem do Espírito, que para alguns poderiam configurar mais um jejum do que o alimento. Pensei, por exemplo, em deixar de assistir televisão por uma semana, ou por um mês, ou uma noite da semana, quando eu em geral faço isso, que poderia vir a ser um jejum melhor do que de alimento. Em vez de assistir o meu programa preferido, eu poderia investir o tempo em conversar com Deus e ouvi-lo. Gostaria de saber se existem outras pessoas que consideram isso jejum e um tempo separado para oração. No domingo seguinte, eu disse à congregação: “Amém. Se você disser: ‘jejum nas quartas-feiras não funciona para mim’, então está bem. Se seu coração for reto e você for sincero para com o Senhor e você lhe pedir: ‘Senhor, conduza-me ao espírito do despertamento pelo jejum’, ele lhe fará saber. Ele lhe mostrará quando e como. Se sua saúde não lhe permite, se o médico disser: ‘você não pode jejuar’, então está bem. O Grande Médico sabe tudo a seu respeito e alguma outra coisa haverá de fazer o mesmo efeito para você”. A questão não é o alimento em si. A questão engloba qualquer coisa e todas as coisas que poderiam ser um substituto para Deus. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981), o pastor da Capela de Westminster em Londres, fez um importante sermão acerca do jejum quando pregou sobre o sermão do monte, em 1959-1960. Nele, ele disse: Se nós realmente compreendemos o jejum, devemos saber que… não deve ser confinado à questão de comida e bebida; o jejum deve, na verdade, incluir a abstinência de qualquer coisa, que seja legítima em si e por si, em favor de algum propósito espiritual especial. Existem muitas funções corporais que são corretas, normais e perfeitamente legítimas, mas que por razões peculiares especiais, em certas circunstâncias, devem ser controladas. Isso é jejum. [2] Até aqui, minha hipótese é que coisas boas podem causar grandes males. Bois, campos e casamento podem deixar uma pessoa fora do reino dos céus. É por isso que Jesus disse: “Nenhum de vocês que não se despede de todos os seus bens pode ser meu discípulo” (Lc 14.33; tradução do autor[3]). Qualquer coisa pode atrapalhar o verdadeiro discipulado – não apenas o mal, não apenas o alimento, mas qualquer coisa. Nem deveria ser surpreendente que os maiores competidores pela nossa devoção a Deus e afeição por ele são as suas mais preciosas dádivas. Quando Abraão preferiu Deus à vida do seu filho Como é que o jejum nos ajuda a não transformar as dádivas divinas em deuses? Pense no quase sacrifício de Isaque pelo seu pai Abraão. Quando Abraão estendeu a mão para matar seu filho e herdeiro da promessa de Deus, “do céu lhe bradou o Anjo do Senhor: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui! Então, lhe disse: Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho” (Gn 22.11-12). Então, nesse caso, temos um tipo de jejum altamente radical: o sacrifício de um filho. Deus não ordenou esse sacrifício porque Isaque fosse mau. Ao contrário, foi porqueaos olhos de Abraão ele era muito bom. Na verdade, ele parecia indispensável para o cumprimento da promessa de Deus. Jejum não é a perda do mau, mas do bom. Mas por que Deus ordenaria esse tipo de coisa? Porque se tratava de uma prova. Porventura Abraão se deleitava mais no temor do Senhor (Is 11.3) do que se deleitava no seu próprio filho? Deus falou por meio do anjo: “agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho”. Estas palavras: “agora sei” – o que significam? Por acaso Deus desconhecia o fato de que Abraão era um homem temente a Deus e que ele prezava a Deus acima do seu filho? A Bíblia ensina que Deus é “conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1Rs 8.39; At 1.24); na verdade ele “forma o coração de todos eles” (Sl 33.15); então, por que a prova? Aqui está como C. S. Lewis respondeu a essa pergunta: [Estou preocupado com a pergunta] “Se Deus é onisciente, ele devia saber o que Abraão iria fazer sem prova alguma; por que, então, essa tortura desnecessária?” Porém, como Agostinho ressalta, independentemente do que Deus soubesse, Abraão não sabia de modo algum que essa obediência iria suportar tal ordem até que a consumação lho provasse; e a obediência que ele não sabia que escolheria, ele não poderia dizer ter escolhido. A realidade da obediência de Abraão era o ato em si; e o que Deus sabia em saber que Abraão “obedeceria” era a obediência de fato de Abraão no topo daquela montanha naquele momento. Dizer que Deus “não tinha necessidade de fazer a prova” é dizer que, porque Deus sabe, a coisa conhecida por Deus não precisa existir.[4] Deus quer conhecer a realidade vivida, concreta, da nossa preferência por ele acima de todas as outras coisas. E ele quer saber que nós temos o testemunho da nossa própria autenticidade por meio de atos concretos de preferência por Deus acima das suas dádivas. Lewis está correto em dizer que Deus poderia muito bem não ter criado o mundo, mas apenas tê-lo imaginado, se o fato de ele saber que “seria” fosse tão bom quanto saber isso no ato em si. Deus quer ter um conhecimento experimental, um conhecimento concreto pela vista, um conhecimento pelo assistir. Um ato humano real vivido da preferência por Deus acima de suas dádivas é a glorificação vivida concreta da excelência de Deus para a qual ele criou o mundo. O jejum não é o único modo, ou o modo principal, pelo qual nós glorificamos a Deus pelo fato de preferi-lo acima das suas dádivas. Mas é um modo. E é um modo que pode auxiliar todos os outros. Comer para anestesiar a tristeza Lewis citou Agostinho. O que Agostinho disse foi isto: “Geralmente a mente humana não pode alcançar o autoconhecimento a não ser pela prova dos seus poderes por meio da tentação, por meio de algum tipo de autointerrogação experimental e não meramente verbal”.[5] Em outras palavras, facilmente nos enganamos quando dizemos que amamos a Deus a menos que o nosso amor seja frequentemente colocado à prova, e nós devemos mostrar nossas preferências não meramente com palavras, mas com sacrifício. Não há dúvida alguma de que o sacrifício de um filho diz muito mais do que o sacrifício de um sanduíche. Mas o princípio é o mesmo. E a soma de muitos atos pequenos da preferência da comunhão e contentamento com Deus acima do alimento pode formar um hábito de comunhão e contentamento que prepara a pessoa para o sacrifício máximo. Essa é uma maneira pela qual o jejum ajuda a todos os outros atos de amor a Deus. Ele mantém as faculdades que determinam as preferências em alerta e aguçadas. Ele não deixa a questão ficar inativa. Ele nos força a perguntar repetidamente: eu realmente anseio por Deus? Eu sinto falta dele? Sinto saudades dele? Ou comecei a me sentir satisfeito com suas dádivas? O jejum cristão é uma prova para ver qual é o desejo que nos controla. Quais são as nossas paixões fundamentais? No capítulo sobre o jejum no seu livro The celebration of discipline (A celebração da disciplina), Richard Foster disse: “Mais do que qualquer outra disciplina, o jejum revela as coisas que nos controlam. Esse é um benefício maravilhoso para aqueles que anseiam ser transformados à imagem de Jesus Cristo. Nós soterramos o que está dentro de nós com comida e outras coisas”.[6] Psicologicamente, esse tipo de coisa é muito citado hoje em dia, especialmente em relação a pessoas que têm uma vida de muito sofrimento. Diríamos que elas “medicam” suas dores com comida. Anestesiam a si mesmas com comida para não sentirem as dores que têm no seu interior. No entanto, essa não é uma síndrome técnica rara. Todos nós fazemos isso. Todo mundo. Sem exceções. Nós todos aliviamos nosso desconforto usando comida e cobrindo a nossa infelicidade fixando os nossos olhos na hora do jantar. É por isso que o jejum nos expõe por inteiro – nossa dor, nosso orgulho, nossa raiva. Foster continua: Se o orgulho nos controla, ele será revelado quase que imediatamente. Davi disse: “eu afligia a minha alma com jejum” (Sl 35.13). Raiva, amargura, inveja, contenda, medo – se eles estiverem dentro de nós, virão à superfície durante o jejum. No início, iremos raciocinar que nossa raiva é por causa da nossa fome. Porém, depois vamos saber que estamos com raiva porque o espírito da raiva está dentro de nós. Podemos nos regozijar nesse conhecimento porque sabemos que a cura está disponível por meio do poder de Cristo.[7] Uma das razões para jejuar é para saber o que está dentro de nós – do mesmo modo que Abraão mostrou o que estava dentro dele. No jejum, isso se revelará. Você o verá. E você terá de lidar com isso ou rapidamente abafá-lo de novo. Quando estiver no meio da manhã e desejar tanto comer que o pensamento de almoço se torne tão doce quanto umas férias de verão, então de repente você se dará conta: “Ai, esqueci que fiz um voto. Não posso ter esse prazer. Estou jejuando do almoço também”. Então, o que vai fazer com toda a infelicidade que tem dentro de você? Anteriormente, você a bloqueava com a esperança de um almoço gostoso. A esperança de comida lhe dava bons sentimentos para equilibrar os maus sentimentos. Mas agora você não tem esse equilíbrio. Tem de encontrar outra maneira de lidar com o problema. Fome, a serva da fé Nesses momentos realmente começamos a descobrir quais são os nossos recursos espirituais. As coisas que descubro acerca da minha alma são muito valiosas para a luta da fé. Eu quase dei a este livro o subtítulo de Jejum – a serva faminta da fé. E ela é uma boa serva. Humilde e calmamente, quase imóvel, ela traz para fora dos lugares mais escuros da minha alma as insatisfações em relacionamentos, as frustrações do ministério, os medos dos fracassos, o vazio do tempo desperdiçado. E exatamente quando meu coração começa a se retirar para a deliciosa esperança de jantar com meus amigos na pizzaria, ela tranquilamente me lembra: esta noite não. No início, essa pode ser uma experiência devastadora. Será que vou encontrar a comunhão com Deus doce o suficiente e esperança em suas promessas profundas o suficiente, não apenas para aguentar, mas para prosperar e me alegrar nele? Ou vou racionalizar minha necessidade de jejum e recorrer à medicação com comida? O apóstolo Paulo disse: “eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). O jejum revela a medida do domínio da comida sobre nós – ou da televisão ou dos computadores, ou seja lá o que for a que nós nos submetemos sem cessar para esconder a debilidade da nossa fome por Deus. Por que Deus criou pão e fome? Uma das razões pelas quais a comida tem esse poder espantoso é que ela é essencial para a nossa existência. Mas por quê? Quero dizer, por que Deus criou pão e projetou os seres humanos para precisar dele para viver? Ele poderia ter criado vida que não tivesse necessidade de alimento. Ele é Deus. Ele poderia tê-lo feito de qualquer maneira que desejasse. Por que pão? E por que fome e sede?Minha resposta é simples: ele criou para que tivéssemos alguma ideia do que o Filho de Deus é quando disse: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.35). E ele criou a cadência da sede e da satisfação para que nós tivéssemos uma ideia do que a fé em Cristo é quando Jesus disse: “o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35). Deus não precisava criar seres humanos que tivessem necessidade de alimento e água e a faculdade de sentirem sabores agradáveis. Porém, o homem não é o centro do universo, Deus é. E todas as coisas são, disse Paulo, “dele, e por meio dele, e para ele” (Rm 11.36). “Para ele” significa que tudo existe para chamar a atenção para ele e suscitar admiração por ele. Em Colossenses 1.16, Paulo diz mais especificamente que “tudo foi criado por meio dele [de Cristo] e para ele [Cristo]”. Portanto, o pão foi criado para a glória de Cristo. A fome e a sede foram criadas para a glória de Cristo. E o jejum foi criado para a glória de Cristo. Isso quer dizer que o pão exalta Cristo de duas maneiras: ao ser comido com gratidão pela sua bondade, e quando nos abstemos dele em favor da fome por Deus. Quando comemos, experimentamos o símbolo do nosso alimento celeste – o Pão da Vida. E quando jejuamos, dizemos: “Eu amo a Realidade mais do que amo o símbolo”. No coração do santo, tanto comer quanto jejuar são atos de adoração. Ambos exaltam a Cristo. Ambos dirigem o coração – grato e desejoso – para o Doador. Cada um tem o seu lugar designado e cada um tem o seu perigo. O perigo de comer é que nos apaixonamos pela dádiva; o perigo do jejum é que substimamos a dádiva e a glória na nossa força de vontade. Como o livro foi organizado Não há nenhum caminho seguro e fácil para os céus. O caminho difícil e apertado é repleto de obstáculos e muitos atalhos fatais de prazeres inocentes. Há uma guerra a ser travada dentro e fora de nós. E uma das armas ao longo do caminho é o jejum. Portanto, este livro tem um impulso interior e um exterior. É sobre a guerra interior com nossos apetites que competem com a fome por Deus. É sobre a guerra exterior do reavivamento, da reforma, da evangelização do mundo, da justiça social e do envolvimento cultural. Embora estejam profundamente entrelaçados, os primeiros três capítulos são mais interiores e os últimos três mais exteriores. E o do meio é um capítulo passarela porque o anseio e o jejum pela vinda de Cristo são intensamente pessoais, mas exigem envolvimento global até que ele venha. Por que escrevi este livro Meu objetivo e minha oração ao escrever este livro é que ele possa despertar a fome pela supremacia de Deus em todas as coisas para alegria de todos os povos. Jejuar prova a presença, e abana a chama, dessa fome. É um intensificador do desejo espiritual. É um inimigo fiel da servidão fatal a coisas inocentes. É o ponto de exclamação físico no final da sentença: “Intensamente, ó Deus, eu anelo por ti e pela manifestação da tua glória no mundo!” Alguém poderia pensar que aqueles que se deleitam com mais frequência na comunhão com Deus seriam os menos famintos. Eles abandonam os prazeres inocentes do mundo com mais frequência para se deixarem ficar mais diretamente na presença de Deus por meio da revelação da sua Palavra. E ali eles comem do Pão dos Céus e bebem da Água Viva pela meditação e fé. No entanto, paradoxalmente, não é desse modo que eles se tornam os santos menos famintos. É o contrário disso. Os cristãos mais fortes e mais maduros que já encontrei são sempre os que sentem mais fome de Deus. Poderia parecer que aqueles que mais comem fossem os menos famintos. Porém, esse não é o modo como isso funciona com uma fonte inexaurível, uma festa infinita e um Senhor glorioso. Quando você se firma na obra consumada de Deus em Cristo e começa a beber do Rio da Vida e a comer do Pão dos Céus, e sabe que encontrou a meta final de todos os seus anseios, você só fica mais e mais faminto por Deus. Quanto mais satisfação você sente vinda de Deus, enquanto ainda está neste mundo, maior seu desejo pela seguinte. Isso porque, como disse C. S. Lewis: “O que temos de melhor é o que nos falta”.[8] Quanto mais profundamente você anda com Cristo, mais faminto fica por ele… mais saudoso do lar nos céus… mais você quer “toda a plenitude de Deus”… mais você deseja acabar com o pecado… mais quer que o Noivo retorne… mais quer que a igreja seja reavivada e purificada com a beleza de Jesus… mais quer um grande despertamento para a realidade de Deus nas cidades… mais quer ver a luz do evangelho da glória de Cristo penetrar na escuridão de todos os povos não alcançados do mundo… mais quer ver os pontos de vista falsos do mundo cederem à força da verdade… mais quer ver a dor aliviada e as lágrimas enxugadas e a morte destruída… mais você almeja que todo erro seja corrigido e a justiça e a graça de Deus encham a terra como as águas cobrem o mar. Se você não sente desejos fortes pela manifestação da glória de Deus não é porque tenha bebido muito e esteja satisfeito. Ao contrário, é porque você tem petiscado à mesa do mundo. Sua alma está recheada com coisas insignificantes, e não há espaço para as importantes.[9] Deus não criou você para isso. Há um apetite por Deus. E ele pode ser despertado. Eu o convido a abandonar os efeitos entorpecedores da comida e dos perigos da idolatria e a dizer com um simples jejum: “Intensamente, ó Deus, eu desejo a ti”. Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Mateus 9.15 Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isso, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas essas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. Colossenses 2.20-23 1 O jejum é cristão? Jejum novo para o vinho novo Existe um pequeno documento chamado Didaquê, que foi escrito perto do final do século 1o. Nele se encontra uma seção acerca do jejum. Um versículo diz o seguinte: “Não jejuem como os hipócritas, pois eles jejuam nas segundas e quintas-feiras, mas jejuem nas quartas e sextas-feiras”.[1] Ora, isso soa estranho. Por que a mudança dos dias faz tanta diferença? Acho que a ideia da igreja primitiva era a seguinte: o costume judaico era celebrar seu sabá no sábado. Isso era o que ordenava a antiga aliança. Então, para mostrar que temos tanto continuidade quanto descontinuidade em relação ao judaísmo, nós, cristãos, celebramos o sabá, mas num dia diferente. Nós o celebramos no domingo, o dia que o Senhor ressuscitou de entre os mortos e criou outro povo. Do mesmo modo que os judeus faziam seu jejum nas segundas e nas quartas-feiras, nós fazemos o nosso, mas em dias diferentes. Por quê? Pela mesma razão: para mostrar que há tanto continuidade como descontinuidade. Sim, nós adotamos o jejum; mas não, não da maneira como o encontramos. Há algo novo acerca do jejum cristão. Nós o aceitamos, porém antes o mudamos. Não, não queremos dizer que jejuar em dias diferentes é o que o torna cristão. Isso é apenas um indicador. Mas o jejum cristão é novo. Isso é certo. O tema deste capítulo trata de como é que ele é novo. Com relação a isso, a palavra mais importante da Bíblia acerca de jejum encontra-se em Mateus 9.14-17.[2] Sei que fazer essa alegação é algo muito radical da minha parte. Mas digo isso porque essas palavras de Jesus falam de modo mais direto e profundo ao problema central do jejum – ou seja, o jejum é uma prática tipicamente cristã? Em caso positivo, como?” Não é óbvio que jejuar é cristão Essa é uma questão crucial por, pelo menos, quatro razões. Em primeiro lugar, o jejum como uma abstinência de alimento por razões religiosas, culturais, políticas ou desaúde é “uma prática encontrada em todas as sociedades, culturas e séculos”.[3] Virtualmente, todas as religiões no mundo praticam o jejum. E mesmo povos não religiosos jejuam por motivos de política e de saúde. Então, por que os cristãos deveriam se juntar a essa parada pagã de ascetismo? Segundo, mesmo que o jejum fosse praticado extensivamente pelo povo de Deus no Antigo Testamento, porventura a chegada do reino de Deus, no ministério de Jesus, não torna essa prática obsoleta? Você pode colocar o vinho novo do reino nos barris velhos da forma e do ritual externos? Terceiro, o triunfo consumado de Cristo na cruz e a presença perene do Espírito Santo na igreja não significam que o Cristo vitorioso se encontra tão poderosamente entre nós que o espírito dominante da vida exigiria comemoração em vez de mortificação? E, além dessas três objeções, porventura o triunfo do jejum sobre os apetites do corpo não leva ao orgulho e à confiança em si mesmo, que são ainda piores do que a glutonaria? Então, não é óbvio que o jejum seja uma prática tipicamente cristã. Se for, nós precisamos considerar como ele se relaciona com o centro. E o centro é o triunfo de Cristo no fato de ele ter morrido, ressuscitado e ter obtido o domínio sobre a História para a salvação do seu povo e a glória do seu Pai. O jejum é uma prática religiosa universal Ninguém sabe como ou onde o jejum teve seu início.[4] Aonde quer que se vá, há costumes e tradições de jejuar. A maioria das pessoas sabe que os jejuns judaicos incluem o Yom Kipur, ou o dia de Expiação (Lv 16.29-31),[5] que os muçulmanos jejuam durante o Ramadã e conhece os severos jejuns da alta casta hindu dos brâmanes.[6] Mas a extensão da prática é mundial. Por exemplo, Os insulanos das Ilhas Andaman… se abstêm de certas frutas, raízes comestíveis, etc. em certas épocas do ano, porque o deus Puluga… exige isso deles, e enviaria uma inundação se o tabu fosse quebrado… Entre os koita da Nova Guiné, durante a gravidez uma mulher não deve comer bandicota, équidna, alguns peixes e iguana; e o marido deve observar os mesmos tabus alimentares… Dentre os iorubas [quando da morte do marido], as viúvas e filhas ficam confinadas e devem recusar qualquer tipo de alimento por 24 horas…. Na Colúmbia Britânica, os stlatlumh (Lillooet) passam quatro dias depois do banquete do funeral em jejum, lamentações e abluções cerimoniais… Antes de matar uma águia, um pássaro sagrado, o profissional matador de águias dos cherokees tem de passar por uma longa vigília de oração e jejum… [Outros] índios americanos jovens [frequentemente praticam longas abstenções] a fim de que, por meio de uma visão, [eles] possam ver o espírito guardião que será deles pelo restante de suas vidas… Dentre as tribos de Nova Gales do Sul, os meninos, nas cerimônias “bora”, passam dois dias sem comer e tomam apenas uma pequena quantidade de água. [7] O jejum é uma arma política Além dos jejuns religiosos em todo o mundo, há também os jejuns políticos ou de protesto. Um dos exemplos mais famosos é o de Mahatma Gandhi, que viveu de 1869 a 1948 e passou mais de trinta anos empreendendo cruzadas pacíficas pela independência da Índia. Sua família e sua cultura hindu nutriam paixão pelo jejum como uma arma política. Sua mãe era uma hindu devota, que excedia os deveres exigidos de jejum anuais e acrescentava muitos outros jejuns mais rigorosos durante a estação chuvosa. Ghandi relembra: Ela fazia os votos mais duros e os cumpria sem vacilar. Passar com uma única refeição ao dia durante as Chaturmas era um hábito dela. Não satisfeita com isso, ela jejuava em dias alternados durante uma Chaturmas. Durante outra Chaturmas ela jurava nada comer até que visse o sol. Nesse dia, nós, as crianças, ficávamos parados, com os olhos fitos no céu, esperando para anunciar o aparecimento do sol à nossa mãe. Toda pessoa sabe que no alto da estação chuvosa o sol não condescende com frequência em mostrar sua cara. E eu me lembro de dias em que, ao seu súbito aparecimento, nós corríamos para avisá-la. Ela então corria lá fora para vê-lo com seus próprios olhos, mas quando lá saía o sol fugaz já havia desaparecido e dessa maneira a privava da sua refeição. “Não tem importância”, ela dizia alegremente, “Deus não quis que eu comesse hoje”. E então retomava seus afazeres.[8] Não é de admirar que Gandhi fizesse do jejum uma parte essencial da sua carreira política. Pelas antigas leis de Manu, um credor só recebia um dinheiro que lhe era devido se envergonhasse o devedor. Ele se sentava, por exemplo, diante da casa do devedor sem comer dia após dia até que o devedor ficasse envergonhado e lhe pagava o que estava devendo. Eric Rogers observa que “justamente essa técnica indiana funcionava para Gandhi… Seu jejum indubitavelmente tocava mais corações do que qualquer outra coisa podia fazê-lo. Não apenas na Índia, mas praticamente em todas as partes, os homens eram assombrados pela imagem de um homenzinho franzino alegremente suportando privações por amor a um princípio”.[9] O jejum é uma dieta para a saúde Então, além do jejum religioso e político, há também o jejum por questões de saúde, com ou sem associações religiosas. Uma breve busca na internet sob o tópico “jejum” revela centenas de organizações e publicações dedicadas ao jejum por motivo de saúde. Por exemplo, um dos sites preeminentes é o Fasting Center International (Centro internacional do jejum). O anúncio extravagante da página deles na internet é o seguinte: Sentindo-se fora de forma, constrangido, sem energia, ou completamente enfermo? Deseja melhorar sua saúde física enquanto ao mesmo tempo aumenta a sua clareza de percepção, bem como sua espiritualidade? Os sucos científicos para jejum o capacitarão a realizar todos esses objetivos, rapidamente e sem qualquer interrupção do seu trabalho, vida, rotinas de exercício ou estudo. O fato é que você sentirá mais energia do que tem agora, tanto durante quanto depois do seu jejum! Relances desses tipos de jejum religioso, político e de saúde, nos libertam da noção de que o jejum, em si e de si mesmo, é peculiarmente cristão. Ele pode, na verdade, ser enfaticamente anticristão, como já o era no Novo Testamento, quando quarenta homens “estão pactuados entre si, sob anátema, de não comer, nem beber, enquanto não o matarem [o apóstolo Paulo]” (At 23.21). E pode ser distorcido mesmo entre os cristãos, não apenas em técnicas legalistas (como veremos), mas também numa servidão destrutiva como na anorexia nervosa.[10] Tudo isso faz as pessoas perguntarem por que um cristão iria dar tanto valor a um ritual tão amplamente usado com propósitos religiosos não cristãos, políticos e de forma física. O jejum faz parte do reino de Deus? Não apenas isso, a prevalência de jejum no Antigo Testamento levanta a questão de se a prática tem validade permanente para as pessoas que estão vivendo antes da vinda do Messias e da manifestação do reino de Deus. Jesus disse: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente, é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). E quando os fariseus perguntaram acerca da vinda do reino, ele disse: “o reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.21). Então, há um sentido profundo no qual o longamente esperado reino de Deus já tinha chegado com a vida e o ministério de Jesus. Esse é o “mistério do reino” que Jesus tinha em mente quando disse aos seus discípulos: “A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas” (Mc 4.11). Essa era uma realidade nova e espantosa no mundo. “A nova verdade, agora dada aos homens por revelação na pessoa e missão de Jesus, é que o Reino, que deve vir de modo completo em poder apocalíptico, como previsto no livro de Daniel, de fato entrou no mundo adiantadamente de uma maneira oculta para operar secretamente dentro dos homens e entreeles.”[11] Então, a questão é premente: o jejum faz parte da igreja – o novo povo do reino que Deus está reunindo dentre todos os povos do mundo? Alguns acham que não. Por exemplo, no seu livro, Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church (Oração e jejum: um estudo a respeito da vida devocional da igreja primitiva), Keith Main argumenta que o raiar do reino de Deus no ministério de Jesus mudou radicalmente a importância do jejum. “Até aqui”, disse ele: “sugerimos que a alegria e as ações de graças que marcam a vida de oração do Novo Testamento é um sinal do raiar do Reino de Deus. O jejum não é mais consistente com a atitude jubilosa e agradecida que marca a comunhão.”[12] Paulo revogou o jejum? O ponto de vista de Keith Main ganha mais credibilidade quando consideramos o restante do Novo Testamento fora dos evangelhos. O jejum quase não aparece.[13] Main insiste no seu argumento: [O jejum] deixa de ser uma questão crucial na igreja… Paulo, seguindo a orientação de Jesus, deliberadamente desviou a atenção dos discípulos do jejum e de qualquer forma de ascetismo alimentar para a oração, o serviço e o labor em favor do Reino. A obra missionária servia como um corretivo e contrapeso não apenas ao sonho apocalíptico, mas também para o obsoleto e desgastado costume de jejuar… Um senso de vida eterna está sempre rompendo sobre nós. O crente marcha ao som da música de um mundo diferente! E é difícil conciliar o Cristo ressurreto com as formas de jejum.[14] Porventura a escassez de jejum nas epístolas do Novo Testamento e a alegre presença do reino e o ministério glorioso do Espírito de Cristo anulam a relevância do jejum na igreja cristã? A premência desta questão é o que torna as palavras de Jesus acerca do jejum em Mateus 9.14-17 tão importantes – as mais importantes acerca do assunto na Bíblia, na minha opinião. A premência é aumentada quando consideramos que nas cartas de Paulo o alimento é celebrado como algo bom, o ascetismo é tratado como uma arma fraca contra a indulgência da carne, e práticas de comer e beber são consideradas como não essenciais, exceto na medida em que elas expressam amor e contentamento em Cristo. A excelência do alimento Em 1Timóteo 4.1-5, Paulo adverte que no fim dos tempos “alguns apostatarão da fé… e exigem abstinência de alimentos”. Ele responde a essa atitude para com o alimento dizendo que “Deus criou [os alimentos] para serem recebidos, com ação de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ação de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado”. Portanto, Paulo está ansioso para advertir contra um tipo de ascetismo que exalta o jejum de maneira tal que a bondade de Deus no dom do alimento é negligenciada ou distorcida. Mesmo durante os dias santos do compartilhar da Ceia do Senhor, Paulo não desaconselhou comer, mas disse aos coríntios que “coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo” (1Co 11.34). A fraqueza do ascetismo E quando Paulo ponderou acerca das medidas severas para o corpo, ele advertiu os colossenses de que essas disciplinas são de valor limitado e podem levar ao orgulho carnal enquanto subjugam o apetite carnal. Ele temia que os colossenses tivessem se desviado da fé profunda e simples em Cristo para rituais externos como um meio de santificação: “Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isso, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas essas coisas, com o uso, se destroem” (Cl 2.20-22). O que há de errado com essas “doutrinas dos homens” que ele nos admoesta a não provar? Ele responde: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). Essa é uma forte advertência contra qualquer visão simplista do jejum que pensa que automaticamente ele fará algum bem espiritual à pessoa. Não é tão simples assim. O “rigor ascético” em relação ao corpo pode apenas alimentar a carne da pessoa com mais autoconfiança. C. S. Lewis enxergou isso claramente e fez soar o alarme: O jejum afirma a vontade contra o apetite – a recompensa sendo o domínio próprio e o perigo do orgulho: a fome involuntária sujeita os apetites e a vontade à vontade divina, e propicia uma oportunidade para submissão e exposição ao perigo de rebelião. Mas o efeito redentor do sofrimento reside principalmente na sua tendência de reduzir a vontade rebelde. As práticas ascéticas que, por elas mesmas, fortalecem a vontade são úteis apenas na medida em que capacitam a vontade a colocar sua casa (as paixões) em ordem, como preparo para oferecer o homem inteiro a Deus. Elas são necessárias como meios; no entanto, como um fim elas seriam abomináveis, pois ao substituir o apetite pela vontade e aí parar, elas meramente trocam o ego diabólico pelo ego animal. É, portanto, verdadeiro o que foi dito: “somente Deus pode mortificar”. [15] A verdadeira mortificação da nossa natureza carnal não é uma simples questão de abnegação e disciplina. É uma questão espiritual interior de encontrar mais contentamento em Cristo do que no alimento. Comer e não comer não é essencial Paulo considera comer ou não comer como uma questão que não é essencial em si, mas que ganha valor na medida em que expressa amor e maior satisfação em Deus. Portanto, ele diz à igreja de Roma: quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus. (Rm 14.3-6) Essas palavras de Romanos 14 não são dirigidas à situação do jejum. A situação tem a ver com comer o alimento que alguns nas igrejas consideravam tabu por causa de suas associações. No entanto, isso não muda o princípio. Comer ou não comer – jejuar ou não jejuar – ambos podem ser feitos “para o Senhor” com “ações de graças a Deus”. Portanto, “cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente”. E como Paulo disse em Colossenses 2.16: “Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados”, pois “não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos” (1Co 8.8). Isso porque “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). A palavra mais importante acerca do jejum, na Bíblia Portanto, a questão exige a nossa atenção: jejuar é cristão? Se for, de que maneira? Isso é o que as palavras de Jesus em Mateus 9.14-17 fundamentalmente abordam. Por isso é que elas são as mais importantes palavras acerca de jejum na Bíblia. Vamos examiná-las: Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por que jejuamos nós, e os fariseus [muitas vezes], e teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem acaso estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo tira parte do vestido, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe- sevinho novo em odres novos, e ambos se conservam. Os discípulos de João Batista foram até Jesus e lhe perguntaram por que os seus discípulos não jejuavam. Então, evidentemente, os discípulos de Jesus não estavam jejuando enquanto ele estava com eles. Na verdade, Jesus tinha lhes dado um exemplo que lhe rendeu reputação de ser qualquer coisa menos asceta. Quando elogiou o ministério de João Batista ele disse às multidões: “Pois veio João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” (Lc 7.33-35). Em outras palavras, João praticava muito jejum e Jesus praticava pouco ou nenhum (à parte do seu jejum inicial de quarenta dias). Por que os discípulos de Jesus não jejuavam? Então, os discípulos de João foram até Jesus e perguntaram o porquê disso. “Por que jejuamos nós, e os fariseus [muitas vezes], e teus discípulos não jejuam?” Jesus responde com uma ilustração. Ele disse: “Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles?” Com essas palavras, Jesus nos ensina duas coisas. Uma é que, naqueles dias, o jejum era, em geral, associado com a tristeza. Era uma expressão de quebrantamento e desespero, geralmente por causa do pecado ou acerca de algum perigo ou alguma bênção profundamente desejada. Era algo que a pessoa fazia quando as coisas não estavam saindo da maneira que ela queria. No entanto, essa não era a situação dos discípulos de Jesus. Esta é a segunda coisa que ele ensina: o Messias tinha vindo, e sua vinda é como a vinda de um noivo para uma festa de casamento. Isso, ele diz, é bom demais para misturar com jejum. Nesse caso, Jesus estava fazendo uma tremenda afirmação a respeito de si mesmo. No Antigo Testamento, Deus tinha se apresentado como o marido do seu povo, Israel. “Porque, como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposarão a ti; como o noivo se alegra da noiva, assim de ti se alegrará o teu Deus” (Is 62.5). “Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto e cobri a tua nudez; dei-te juramento e entrei em aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha” (Ez 16.8). “Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te- ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao Senhor” (Os 2.19-20). E então o Filho de Deus, o Messias, o longamente aguardado Príncipe e Rei em Israel, veio, e ele diz ser o Noivo – isto é, o marido do seu povo – que será o verdadeiro Israel. João Batista já havia reconhecido isso. Quando seus discípulos lhe perguntaram acerca de quem era Jesus ele disse: “Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois essa alegria já se cumpriu em mim” (Jo 3.28-29). A afirmação parcialmente velada de João é do tipo que Jesus fazia acerca da sua identidade com Deus. Se você tiver ouvidos para ouvir, ouça. Deus, aquele que se comprometeu com Israel em aliança de amor, veio. Isso é tão formidável, tão glorioso e tão inesperado nessa maneira que Jesus disse que vocês simplesmente não podem jejuar agora, na presente situação. É alegria demais, e espetacular demais. Jejum é para os tempos de anseio, anelo e desejo ardente. Mas o noivo de Israel está aqui. Depois de mil anos de sonho, anelo, esperança e espera, ele está aqui. A ausência de jejum no grupo dos discípulos era um testemunho da presença de Deus no meio deles. Quando os discípulos irão jejuar? Mas então Jesus disse: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Essa é a sentença-chave: “nesses dias hão de jejuar”. A que tempo ele se refere? Alguns têm sugerido que ele estava se referindo apenas aos vários dias entre sua morte e ressurreição. Em outras palavras, o Noivo seria levado da sexta-feira santa até o domingo de Páscoa. Durante esses três dias os discípulos jejuariam. Mas depois ele estaria com eles novamente, e eles não jejuariam mais. Há apoio para esse ponto de vista em João 16.22-23 quando Jesus prediz sua morte e ressurreição com estas palavras: “Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome”. Em outras palavras, depois da ressurreição, durante a era da igreja, haveria alegria indestrutível entre os discípulos de Cristo. Isso significa, portanto, que o jejum estaria excluído? Estaria Jesus profetizando que seus discípulos jejuariam somente entre a sexta-feira santa e o domingo da Páscoa? Isso é bastante improvável por diversas razões. Uma é que, a despeito de toda sua alegria, a igreja primitiva jejuou em diversas ocasiões (At 13.1-3; 14.23; 2Co 6.5; 11.27). Portanto, os primeiros cristãos não tomaram as palavras de Jesus como significando que o jejum seria excluído depois da ressurreição. O quê, então, Jesus quis dizer quando disse: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”? Ele quis dizer que depois de sua morte e ressurreição retornaria para o Pai no céu, e durante esse tempo os discípulos jejuariam. Robert Gundry está certo quando diz: “A totalidade da era da igreja constitui os ‘dias’ que ‘lhes será tirado o noivo’”.[16] Na minha opinião, a razão mais forte para esse ponto de vista é que a única parte em Mateus que Jesus usa esse termo “noivo” é para se referir a si mesmo voltando no final da era da igreja. Em Mateus 25.1-13 Jesus retrata sua segunda vinda como a chegada do noivo. “Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25.6). Então, claramente Jesus fala de si como o noivo que partiu, não apenas por três dias entre a sexta-feira santa e o domingo da Páscoa, mas por todo o tempo até a segunda vinda. Com razão, Arthur Wallis deu ao sexto capítulo do seu livro, God’s chosen fast (O jejum escolhido por Deus), o título de “The time is now”[17] (O tempo é agora). Agora é quando Jesus disse que seus discípulos jejuariam. Ele está dizendo: agora, enquanto eu estou aqui no meio de vocês como o noivo, vocês não podem jejuar, mas eu não vou permanecer com vocês. Vai haver um tempo em que vou retornar para o meu Pai no céu. E durante esse tempo vocês irão jejuar. Esse tempo é agora. É verdade que em sua ausência Jesus nos deu o Espírito Santo, e que o Espírito Santo é “o Espírito de Jesus” (At 16.7; 2Co 3.17). Então, num sentido profundo e maravilhoso, ele ainda está conosco. Ele disse, falando do “Consolador”, o Espírito: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18). No entanto, há um grau de intimidade muito maior que gozaremos com Cristo no céu quando esta era findar. Então, em outro sentido, Cristo não está conosco, mas longe de nós. É por essa razão que Paulo diz em 2Coríntios 5.8: “Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor”. E em Filipenses 1.23: “Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”. Em outras palavras, nesta era cada cristão sente uma dor no seu interior porque Jesus não está aqui inteiramente, intimamente, tão poderosamente e gloriosamente como gostaríamos que ele estivesse. Nós ansiamos por muito mais. É por isso que jejuamos. O jejum é o velho odre que tem de ser descartado? Mas então Jesus diz algo muito crucial em Mateus 9.16-17. Ele coloca lado a lado duas imagens, uma acerca de roupas rasgadas e outra acerca de odres gastos: “Ninguém põeremendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam”. O remendo de pano novo e o vinho novo representam a nova realidade que tinha vindo com Jesus – o Reino de Deus está aqui. O Noivo veio e o Messias está em nosso meio. E isso não é temporário. Ele não veio e depois se foi. O reino de Deus não veio em Jesus e depois desapareceu do mundo. Jesus morreu pelos nossos pecados uma vez por todas. Ele ressuscitou de entre os mortos definitivamente. O Espírito foi enviado ao mundo como a presença real de Jesus entre nós. O reino de Deus é o presente poder reinante de Cristo no mundo, subjugando corações ao Rei e criando um povo que crê nele e o serve em fé e santidade. O Espírito do noivo está reunindo e purificando uma noiva para Cristo. Esse é o evangelho de Cristo e “o mistério do reino” que já foi citado.[18] Esse é o vinho novo. E Jesus disse que os odres velhos não podem contê-lo. Alguma coisa tem de mudar. O que é o velho odre? No contexto, não podemos fugir da conexão com o jejum. Não há interrupção no pensamento de Jesus. Acompanhe-o do versículo 15 ao 16: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho…”. Não há interrupção. E isso aparece desse mesmo modo em todos os três relatos dessas palavras nos evangelhos. O remendo de pano velho gasto e os odres velhos quebradiços se relacionam diretamente com o jejum como um velho costume judaico. O jejum fora herdado do Antigo Testamento e tinha sido usado como parte do sistema judaico de se relacionar com Deus. Em Lucas 18.11-12 obtemos um lampejo dessa antiga prática na oração do fariseu: “O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, dessa forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como esse publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”. Esse jejum tradicional é o odre velho. E Jesus diz que ele não pode conter o vinho novo do reino que ele estava trazendo. Ora, isso nos confronta com um problema. Em Mateus 9.15 Jesus diz que iremos jejuar quando o Noivo tiver partido. E dois versículos depois ele diz que o antigo jejum não pode conter o novo vinho do reino. Em outras palavras, os discípulos de Jesus jejuarão; no entanto, o jejum que eles conheciam não era apropriado para a nova realidade da sua presença e nem para o alvorecer do reino de Deus. Vinho novo pede jejum novo O que diremos então? Como cristãos, devemos jejuar ou não? É o jejum cristão ou não é? Creio que a resposta é que o novo vinho da presença de Cristo não exige que não se faça jejum, mas sim um novo jejum. Anos atrás escrevi na margem do meu Testamento em grego, ao lado de Mateus 9.17: “O novo jejum é baseado no mistério de que o noivo veio, não apenas que virá. O novo vinho da sua presença pede por jejum novo”. Em outras palavras, o anseio, anelo e desejo ardente do antigo jejum não eram baseados na verdade gloriosa de que o Messias tinha vindo. A tristeza pelo pecado e o anseio pela libertação do perigo e o anelo por Deus, que inspiraram o antigo jejum, não eram baseados na grande obra consumada do Redentor e na grande revelação da sua verdade e graça na História. Essas coisas estavam ainda no futuro. Mas agora o Noivo veio. E na vinda ele desferiu o golpe decisivo contra o pecado, Satanás e a morte. O que distingue o cristianismo do judaísmo é que o reino longamente esperado de Deus é agora tanto presente quanto futuro. O Rei veio. “É chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc 11.20). “O reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17.21). É fato que o reino de Deus ainda não está completamente consumado. Ele ainda virá em plenitude gloriosa e poder. Na última Ceia Jesus disse: “pois vos digo que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus” (Lc 22.18). Então, é evidente que o reino de Deus é ainda uma realidade futura por vir, embora Jesus tivesse dito que “É chegado o reino de Deus sobre vós” e que ele “está dentro de vós” (razão pela qual George Ladd deu ao seu livro o título The presence of the future[19] [A presença do futuro]). Esse é o centro a que anteriormente me referi, com o qual o jejum tem de se relacionar para que seja cristão. O centro é o decisivo triunfo do Filho de Deus, o Messias entrando na História, morrendo, ressuscitando de entre os mortos e reinando sobre a História para a salvação do seu povo e a glória do seu Pai. Os cristãos são um povo conquistado por uma grande esperança que um dia eles verão e serão subjugados pela glória de Deus em Cristo. Mas o que é decisivamente cristão nisso é que nossa esperança está enraizada no triunfo histórico passado desse mesmo Deus sobre o pecado, a morte e o inferno pela morte e ressurreição de Jesus.[20] O cristianismo é uma esperança vibrante pela consumação da História na manifestação universal da glória de Deus em Cristo – uma esperança que está enraizada firmemente na encarnação passada de Cristo que se ofereceu a si mesmo como um sacrifício pelo pecado e se assentou à destra de Deus (Hb 10.12). Esse é o vinho novo. O ato grandioso, central e decisivo da salvação para nós hoje é passado, não futuro. E com base na obra passada do Noivo, nada pode jamais ser o mesmo outra vez. O Cordeiro foi imolado. O sangue derramado. A punição pelos nossos pecados foi executada. A morte foi derrotada. O Espírito foi enviado. O vinho é novo. E a antiga atitude acerca do jejum simplesmente não serve mais. A novidade do novo jejum Então, o que é novo a respeito do jejum cristão? É o fato de que o jejum cristão se apoia em toda essa obra consumada do Noivo. Ele assume isso. Ele crê nisso. Ele se deleita nisso. O anseio, anelo e desejo ardente por Cristo e seu poder que nos move ao jejum não são expressões de vazio. Necessidade, sim. Dor, sim. Fome por Deus, sim. Mas não vazio. As primícias do que nós ansiávamos já vieram. A primeira prestação do que desejávamos já foi paga. A plenitude daquilo que estamos desejando ardentemente e pelo que estamos jejuando já apareceu na História, e nós contemplamos sua glória. Não é meramente futuro. Não jejuamos por causa de vazio. Cristo já é em nós a esperança da glória (Cl 1.27). Fomos “selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é [dado agora] o penhor da nossa herança” (Ef 1.13-14; veja também 2Co 1.22; 5.5). Nós provamos os poderes da era por vir, e o nosso jejum não é porque temos fome de alguma coisa que ainda não experimentamos, mas porque o vinho novo da presença de Cristo é muito real e muito satisfatório. Devemos ter tudo o que for possível ter. A novidade do nosso jejum é esta: sua intensidade vem, não do fato de que nunca tenhamos provado do vinho da presença de Cristo, mas porque o provamos de modo tão maravilhoso pelo seu Espírito que não podemos nos satisfazer até a chegada da consumação da alegria. O novo jejum, o jejum cristão, é uma fome de toda a plenitude de Deus (Ef 3.19), provocada pelo aroma do amor de Jesus e pelo gosto da bondade de Deus no evangelho de Cristo (1Pe 2.2-3). O jejum que é banquete Outra maneira de dizer isso é que o novo jejum é o jejum da fé. A fé se firma na obra consumada de Cristo e, nesse alicerce, torna-se “a certeza de coisas que se esperam” (Hb 11.1). A fé é um banquete espiritual em Cristo com vistas a estar tão satisfeito nele que o poder de todos os encantamentos é quebrado.[21] Esse banquete começa com a recepção da graça já disponível da morte e ressurreição de Cristo e, depois, com a posse de tudo o que Deus promete ser para nós nele. Enquanto formos finitos e caídos, a fé cristã significará tanto deleite na encarnação (passada) quanto anelopela consumação (futura). Será tanto contentamento quanto insatisfação. E a insatisfação aumentará diretamente na proporção do contentamento que conhecemos em Cristo. O jejum faz parte do reino de Deus Esse entendimento do jejum cristão responde a todas as preocupações anteriormente levantadas por Keith Main. Ele disse que “a vida de oração do Novo Testamento é um sinal do raiar do reino de Deus. O jejum não é mais consistente com a atitude alegre e grata que marca a comunhão”.[22] Vemos agora que isso é um exagero. Sim, o reino irrompeu. Sim, existe um beber profundo, mesmo agora, da glória do fim dos tempos manifesta em Cristo e experimentada pelo seu Espírito. Mas não, isso não é tão pleno e ininterrupto que o anseio, o anelo e o desejo ardente já tenham sido completamente superados. Até mesmo o próprio Main volta atrás e admite isso quando diz: A verdade é que a crise e a tragédia existem como uma amarga realidade. O Reino não está plenamente instalado. Pelo fato de que o Noivo está presente, então agora não seria o momento apropriado para lamentar. Contudo, isso não é totalmente verdadeiro, pois ainda estamos na carne e fracos na fé… No meio dessa “amarga peleja”, o crente, na sua vida devocional, pode concebivelmente encontrar ensejo para jejuar. O jejum seria apenas um dentre muitos ingredientes que contribuem para compor a vida do homem em Cristo.[23] Isso é correto. A presença do Noivo por meio do seu Espírito no triunfo do perdão e da comunhão não torna o jejum insignificante, mas o torna novo. O jejum como uma expressão de contentamento insatisfeito Como um ato de fé, o jejum cristão é uma expressão de contentamento insatisfeito na inteira suficiência de Cristo. É uma expressão de anelo confiante e feliz pela plenitude toda satisfatória de Cristo. O jejum cristão não vacila na esperança de obter qualquer coisa de Cristo. Ele olha para longe de si, para o pagamento final no Calvário por cada bênção que eternamente receberá. O jejum cristão não é disciplina auto-operada que tenta merecer mais de Deus. É uma fome por Deus despertada pela gustação de Deus dada gratuitamente no evangelho. O jejum cristão afirma a excelência do alimento É por essa razão que as advertências nas cartas de Paulo, para as quais já chamamos a atenção, não são objeções de fato contra o jejum cristão, mas apenas contra suas distorções. “Deus criou [os alimentos] para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado” (1Tm 4.3-5). O elogio de Paulo à excelência do alimento e à liberdade que os cristãos têm de desfrutar dele, não é uma contradição ao jejum cristão. O cristão diz sim a toda boa dádiva e a todo dom perfeito que são lá do alto, descendo do Pai das luzes (Tg 1.17). O jejum não é uma negação da excelência do alimento ou da generosidade de Deus em fornecê-lo. Ao contrário, é uma maneira de dizer, de tempos em tempos, que ter mais do Doador é mais valioso do que ter a dádiva. Se marido e mulher decidem se abster de relações sexuais por um tempo para tratar seriamente de um problema que os está mantendo em conflito, isso não é uma condenação do sexo mas uma exaltação do amor. O alimento é bom. Mas Deus é melhor. Normalmente, encontramos Deus nas suas boas dádivas e transformamos toda apreciação em adoração com ações de graças. No entanto, de tempos em tempos, precisamos nos testar para ver se, porventura, não começamos a amar mais as dádivas divinas do que a Deus. O jejum cristão não é “religião de força de vontade” O grande perigo que Paulo via no jejum feito pelo jejum em si, e que exaltava aquele que o praticava, não anula o novo jejum cristão. Paulo adverte que existem jejuns que “têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). Em outras palavras, esse jejum é uma “religião de força de vontade”[24] que na verdade incita o orgulho espiritual da carne ao mesmo tempo em que doma seus apetites físicos. Porém, isso é exatamente o oposto do jejum cristão. O jejum cristão se move de uma pobreza de espírito contrita e quebrantada para a doce satisfação na misericórdia gratuita de Cristo, para desejos e gozo cada vez maiores da graça inexaurível de Deus. O jejum cristão não incentiva o orgulho porque ele descansa com o contentamento de uma criança na justificação firmemente consumada de Deus em Cristo, mesmo quando ansiando por toda a plenitude possível de Deus nesta vida. O jejum cristão é o efeito do que Cristo já fez por nós e em nós. Não é façanha nossa, mas o fruto do Espírito. Lembre-se de que o fruto do Espírito mencionado por último é “domínio próprio”[25] (Gl 5.23). Todo alimento é lícito, mas nem tudo é útil O que tudo isso significa para a prática de Paulo é que ele era livre para jejuar ou não jejuar. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). A razão para isso é que o ato de jejuar não era a coisa essencial. Fazê-lo – ou não fazê-lo – para a glória de Deus era a coisa essencial: “Quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus” (Rm 14.6). O jejum dá glória a Deus quando ele é vivenciado como uma dádiva de Deus que tem o objetivo de conhecer mais a Deus e deleitar-se mais nele. Deus é glorificado em nós quando o nosso objetivo é que as nossas ações demonstrem que estamos completamente satisfeitos nele. Podemos fazer isso comendo de modo agradecido ou jejuando de modo agradecido. Suas dádivas deixam uma fome dele que vai além delas, e jejuar para obter essas dádivas coloca essa fome em teste. Um cristão deve esbofetear o corpo? É enganoso, sem consideração cuidadosa, dizer (como faz Keith Main) que “Paulo… deliberadamente desviou a atenção dos seus discípulos do jejum e qualquer forma de ascetismo para a oração, o serviço e a labuta em favor do reino”.[26] Concordo com a segunda metade positiva dessa afirmação, não com a primeira metade negativa. Eu diria que Paulo dirigiu nossa atenção para o jejum e inúmeros outros tipos de abnegação – não como rituais religiosos meritórios, e não como fins neles mesmos, mas como uma arma na luta da fé. Duas vezes, quando Paulo estava sendo julgado, ele mencionou o jejum. Ele esteve “em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns,[27] muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.27; veja também 6.5). Isso está de acordo com o que ele disse acerca de como administrava os apetites do seu corpo. “Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1Co 9.26-27). Tomo isso como dizendo que Paulo considerava algumas disciplinas ascéticas como armas úteis na luta da fé. Apegar-se com firmeza a Cristo pela fé é a chave para não ser “desqualificado”. Isso é claro, por exemplo, em Colossenses 1.23, “[Cristo vos apresentará santos e inculpáveis a Deus] se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho…”. Perseverar na fé é a chave para permanecer aceitável perante Deus no último dia. Paulo diz que uma arma nessa luta permanente da fé é a prática de “esbofetear o corpo”. Ele estava bem ciente de que os desejos do corpo são tão enganosos quanto prazerosos. Ele disse que o “velho homem… se corrompe segundo as concupiscências do engano” (Ef 4.22). A natureza desse engano é nos seduzir a uma vida de “prazeres fugazes” do corpo e da mente, em vez dos prazeres espirituais de conhecer e servir a Deus.Esses prazeres começam com deleites inocentes com comida, leitura, descanso e diversões, mas depois se tornam fins neles mesmos e sufocam a fome espiritual por Deus. Paulo esbofeteia seu corpo para testá-lo. Porventura ele tem fome por Deus? A sua fé é verdadeira? Ou ele está se tornando escravo do conforto e dos prazeres carnais? Você pode sentir a paixão do coração dele em 1Coríntios 6.12: “eu não me deixarei dominar por nenhuma delas”. Isso não é o orgulho da autoexaltação estoica. É a resolução apaixonada de resistir a qualquer coisa que seduz o coração para longe de uma satisfação toda controladora em Deus. Quando eu estava pregando acerca de jejum e oração alguns anos atrás, um rapaz me procurou depois de uma das mensagens e me contou uma história que ilustra o tipo de esbofeteio do corpo em oração que prepara uma pessoa para o céu. Eu tinha citado a igreja da Coreia do Sul como uma referência quanto a isso. Isso estimulou o jovem a ir conversar comigo depois do culto. Cresci no campo missionário na Coreia. Lembro-me de uma experiência que enaltece a dedicação sacrificial à oração e ao jejum na Coreia. Meu pai trabalhava com uma colônia de leprosos e eles tinham uma reunião de oração às quatro horas da manhã. Eu era criança, mas meu pai me levou com ele, tendo me acordado às três e meia para chegar lá na hora marcada. Ele me sentou na parte de trás, de onde eu podia ver o lado de fora do templo. E eu nunca vou me esquecer de um homem que não tinha pernas, nem muletas, e estava usando as próprias mãos para rastejar pelo chão, arrastando seu corpo para ir orar às quatro horas da manhã. Nunca vou me esquecer disso. Levantar-se cedo é um tipo de jejum. E ir orar quando é difícil chegar lá é outro tipo de jejum. Quando fazemos esses tipos de escolha, estamos fazendo guerra contra os enganos dos nossos desejos e declarando a preciosidade da oração e o valor inestimável de Deus. O jejum é cristão? Jejuar é cristão? É como se ele viesse da confiança em Cristo, fosse sustentado pelo poder de Cristo e tivesse como objetivo a glória de Cristo. A respeito de todo jejum cristão deveriam ser escritas estas palavras: “O que, para mim, era lucro, isso considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.7-8). No jejum, bem como em todas as outras privações, toda perda é por amor a “ganhar a Cristo”. Mas isso não significa que buscamos ganhar um Cristo que não temos. Nem significa que o nosso progresso depende de nós mesmos. Quatro versículos depois Paulo deixa claro as dinâmicas de toda a vida cristã, incluindo o jejum: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12). Esta é a essência do jejum cristão: desejamos ansiosa e vivamente – e jejuamos por isso – conhecer mais e mais de tudo o que Deus é por nós em Jesus. Mas isso apenas porque ele já nos tomou para si e está sempre nos atraindo para toda a “plenitude de Deus”. Minha oração pela igreja cristã é que Deus possa despertar em nós uma nova fome por ele – um novo jejum. Não porque não tenhamos provado do vinho novo da presença de Cristo, mas porque o degustamos e ansiamos, com uma dor profunda e alegre na alma, por conhecer mais e mais da sua presença e do seu poder em nosso meio. Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Senhor , teu Deus, te guiou no deserto esses quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem. Deuteronômio 8.2-3 A debilidade da fome que leva à morte revela a bondade e o poder de Deus que desejam vida. Aqui não tem exortação, nenhuma tentativa mágica de forçar a vontade de Deus. Nós meramente olhamos com confiança para o nosso Pai celestial e, por meio do jejum, dizemos suavemente no nosso coração: “Pai, sem ti eu morrerei; vem em meu auxílio, apressa-te em me ajudar”. - Joseph Wimmer Fasting in the New Testament[1] 2 Não só de pão viverá o homem O banquete no deserto do jejum O Filho de Deus começou seu ministério terreno com um jejum de quarenta dias. Isso deveria nos fazer pensar. Especialmente se – nós, que não somos Deus – tivermos mergulhado de cabeça no ministério, incautos da batalha que podemos ter de lutar. Por que Jesus fez isso? Por que Deus o conduziu a isso? E o que tem isso a ver conosco? Será que conseguimos enfrentar os perigos sobre-humanos da vida e do ministério sem caminhar com Jesus pelo deserto do jejum? Acho que devemos caminhar por ali para, no mínimo, aprender dele, se não para imitar o seu triunfo. Ele era o Filho de Deus, e nós não somos. Mas ele disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). A salvação do mundo pode não depender do nosso sucesso, visto que somos anos-luz menos do que Jesus. Mas isso pode aumentar mais do que diminuir a necessidade do jejum na nossa vida. A importância da minha batalha é menor para o mundo, mas minha fraqueza é maior. Por que ele jejuou ao iniciar seu grande ministério? O que podemos aprender a respeito do nosso? Fome de toda a plenitude de Deus Meu coração tem fome de “toda a plenitude de Deus”. Eu anseio por uma operação mais profunda de Deus no meio do seu povo. Anelo por uma poderosa enchente de zelo missionário espalhando uma paixão pela supremacia de Cristo em todas as coisas para a alegria de todos os povos. Anseio por ver o novo nascimento sobrenatural e genuíno ocorrendo semana após semana continuamente, por meio do testemunho convincente do povo de Deus, transformando pessoas por toda parte onde seu nome seja falado. O ministério de Jesus foi, e sempre será, sem paralelo. Em alguma medida, ele é um modelo para nós. Mas na sua plenitude ele dá testemunho da sua absoluta singularidade divina. No entanto, como podemos deixar de nos perguntar se esse jejum extraordinário, no início do seu ministério, não foi intencionado a mais do que a sua própria obra? Charles Spurgeon, o pastor de Londres de um século atrás, disse: “Nossa temporada de jejum e oração no Tabernáculo tem sido muito profícua nestes dias; os portões do céu nunca estiveram tão escancarados; nunca antes nossos corações estiveram tão perto da fonte da Glória”.[2] Aproximar-se da glória de Deus é sem dúvida a chave para queimar com luz e calor inextinguível. E não é esta a necessidade da hora – toda hora – de que os cegos possam ver, e sair das trevas para a luz, e dar glória ao nosso Pai no céu (At 26.18; Mt 5.16)? Se aquele que era a Luz do mundo lutou pelo seu fogo com jejum, não haverá algum ensinamento aqui para as nossas mechas bruxuleantes? O Espírito desceu sobre Jesus como uma pomba Eu acho que há. Vamos voltar, então, e aprender com ele. Segundo Mateus 3.16, depois de ser batizado, Jesus saiu da água e os céus se abriram e o Espírito Santo desceu sobre ele como uma pomba. O que isso significa? O Espírito Santo tinha estado sempre com Jesus. Ele foi concebido pelo Espírito Santo no ventre de sua mãe virgem (Lc 1.35). E por toda a eternidade antes disso, o Filho de Deus e o Espírito de Deus tinham sido um, como Paulo disse tão claramente: “o Senhor é o Espírito” (2Co 3.17). O quê, então, Mateus quis dizer quando relata que “se lhe abriram os céus, e [Jesus] viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele” (Mt 3.16)? Ele quis dizer que Deus, o Pai, amou seu Filho de tal maneira que o preparou publicamente e poderosamente dessa maneira especial para oministério que tinha diante de si. Ele lhe assegurava o seu favor, direção e auxílio sustentador. Enquanto o Espírito descia sobre Jesus, Deus, o Pai, disse (no v. 17): “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Em outras palavras, essa manifestação especial do Espírito foi uma demonstração do infinito amor do Pai pelo seu Filho (“Este é o meu Filho amado”), e o importante endosso da pessoa e do ministério dele pelo Pai (“em quem me comprazo”). Ninguém jamais aventurara tal coisa, e ninguém o conseguiria O que Jesus estava por empreender era único na História do mundo. Nenhum outro homem antes tinha se proposto viver e morrer como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Jesus sabia que sua tarefa como Filho de Deus era “dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45), e que ele “veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). Ele sabia, com base em Isaías 53, que era a vontade de Deus moê-lo (v. 10), fazer “cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (v. 6) e, por meio da sua morte, justificar muitos pecadores (v. 6, 10-11). Ele sabia que Deus tinha “deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” e que a vindicação da justiça de Deus estava em jogo na sua vida e no seu ministério (Rm 3.25-26). Ele sabia que a fidelidade de Deus, em todas as suas promessas, dependia do cumprimento fiel e obediente de cada palavra dita no Antigo Testamento (Rm 15.8). Ele sabia que tudo isso lhe custaria a vida e que a tortura seria indizivelmente vergonhosa e dolorida (Mc 10.33-34). O Pai sabia que isso ia acontecer, e o Filho sabia também. Assim sendo, o Pai comissiona o Espírito para voar como uma pomba sobre o Filho para assegurar-lhe o amor do Pai e tornar manifesto, para além de toda dúvida, a aprovação do Pai. Um dos efeitos maravilhosos das palavras do Pai, “o meu Filho amado, em quem me comprazo”, era assegurar a Jesus – e a nós – que o fogo do sofrimento no qual Jesus estava adentrando não era em razão do desfavor do Pai. O Pai já estava preparando Jesus – e a nós – para saber que o clamor desesperado: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34), não seria a última palavra. O Espírito leva Jesus à prova e ao jejum E é de importância especial ver, quando observamos no versículo seguinte (Mt 4.1), qual foi o primeiro ato do Espírito depois de vir sobre Jesus daquela maneira. Ele diz: “A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”. O primeiro ato do Espírito no ministério de Jesus foi conduzi-lo ao deserto e expô-lo às tentações de Satanás. Sob a direção do Espírito, Jesus se preparou para essa prova pelo jejum. “A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites…” (Mt 4.1-2). O Espírito de Deus desejava que o Filho de Deus fosse provado a caminho do seu ministério, e ele desejava que Jesus saísse vitorioso dessa prova, por meio do jejum. Não deve passar despercebido que Jesus triunfou sobre o grande inimigo da sua alma e de nossa salvação por meio do jejum. Parece-me que essa história deveria nos sacudir. Aqui está Jesus, pisando o limiar do mais importante ministério da História do mundo. De sua obediência e justiça depende a salvação do mundo. Ninguém escapará da destruição sem esse ministério de sofrimento obediente, morte e ressurreição. E aprouve a Deus que, justamente no princípio, esse ministério fosse ameaçado de destruição – a saber, as tentações de Satanás para abandonar o caminho da humildade, do sofrimento e da obediência. E de todas as centenas de coisas que Jesus poderia ter feito para rechaçar essa tremenda ameaça à salvação, ele foi conduzido, no Espírito, a jejuar. Se Satanás tivesse sido bem-sucedido em dissuadir Jesus do caminho da obediência humilde e sacrificial, então não haveria salvação. Nós ainda estaríamos em nossos pecados e sem esperança. Portanto, devemos a nossa salvação, em certa medida (não exagerando), ao jejum de Jesus. Esse é um tributo admirável ao jejum. Não passe depressa demais por essa informação. Pondere a esse respeito. Jesus começou seu ministério com jejum. E ele triunfou sobre seu inimigo por meio do jejum. E a nossa salvação foi cumprida por meio da perseverança no jejum. A reencenação da prova de Israel no deserto E então, para ver o sentido mais pleno disso, precisamos considerar o livro de Deuteronômio. Todas as respostas que Jesus deu às três tentações do diabo no deserto foram tiradas de Deuteronômio. “não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem” (Dt 8.3); “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt 6.16); “O Senhor, teu Deus, temerás, a ele servirás” (Dt 6.13). Isso é muito significativo. Aqui Jesus é levado pelo Espírito ao deserto – preste bem atenção, ao deserto – e, para opor- se às tentações de Satanás, Jesus cita passagens de Deuteronômio, todas as quais foram ditas por Moisés ao povo de Israel, por ocasião da prova deles no deserto. Mateus 4.3-4 diz: “Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que essas pedras se transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. Agora, compare com Deuteronômio 8.2-3, e observe os paralelos entre essa situação no deserto e a situação de Jesus no deserto. Moisés disse ao povo: Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Senhor , teu Deus, te guiou no deserto [nota: da mesma maneira Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto] esses quarenta anos [nota: da mesma maneira Jesus ficou ali por quarenta dias], para te humilhar, para te provar [nota: da mesma maneira Jesus foi provado], para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te deixou ter fome [nota: do mesmo modo Jesus teve fome por causa do jejum], e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem [observe: exatamente como Jesus respondeu a Satanás]. Há semelhanças demais entre o que estava acontecendo com Jesus nessa ocasião no deserto e o que aconteceu com o povo de Israel para se pensar que se trata de mera coincidência. Deus está nos ensinando algo aqui. O Espírito de Deus conduziu Jesus ao deserto. O que isso significa? Significa que as sombras do Antigo Testamento estavam sendo substituídas pela realidade do Novo Testamento. Significa que algo maior do que Moisés, o deserto e a Lei e Josué e a Terra Prometida estava em jogo aqui. Significa que a hora do cumprimento estava chegando. A promessa a Moisés estava sendo cumprida. “O Senhor, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás” (Dt 18.15). Significa que Deus estava, nesse momento, com a encarnação do seu Filho, preparando-se para libertar seu povo – o novo Israel – da escravidão egípcia do pecado para a Terra Prometida do perdão, da justiça e da vida eterna. Para fazer isso, ele enviou um novo Moisés, ou nesse caso, um novo Josué (Jesus reencena ambos os papéis, e o nome “Jesus” é idêntico a “Josué” no Novo Testamento grego). Esse novo Josué ocupa a posição de cabeça e representante de todo o novo povo que Jesus iria reunir de entre os judeus e os gentios. Em favor deles, Jesus seria nesse momento conduzido ao deserto pelo Espírito. Ele ficaria quarenta dias para representar quarenta anos. Seria testado como também Israel o foi. E passaria fome como também Israel passou. E se triunfar, ele e todo o seu povo entrarão salvos na Terra Prometida do perdão e da vida eterna. Seu jejum foi tanto guerra quanto arma, tanto prova quanto triunfo Agora podemos ver o sentido do jejum de Jesus mais claramente. Não foi uma escolha arbitrária de algo para se fazer em face datentação satânica. Foi um ato voluntário de identificação com o povo de Deus na privação e provação deles no deserto. Jesus estava, com efeito, dizendo: “Fui enviado para conduzir o povo de Deus para fora da escravidão do pecado e levá-lo para a Terra Prometida da salvação. Para fazer isso, tenho de ser um deles. Foi por isso que nasci. Por isso fui batizado. Portanto, vou passar pelo teste que eles passaram. Vou representá- los no deserto e permitir que o meu coração seja provado com o jejum para ver onde reside a minha obediência e quem é o meu Deus. E, com a ajuda do Espírito, vou vencer por meio do jejum. Vou vencer o diabo e conduzir a todos que confiam em mim para a Terra Prometida da glória eterna”. Em outras palavras, o jejum de Jesus não foi apenas um preparo para a prova; era parte de sua prova, da mesma maneira que a fome foi um teste de fé para o povo de Israel no deserto. Moisés disse: “Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto esses quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos” (Dt 8.2). E assim foi também com Jesus. O Espírito o conduziu ao deserto e deixou que ele passasse fome para testá-lo, para ver o que estava no seu coração. Ele amava a Deus ou amava o pão? No entanto, isso não significa que seu jejum não fosse também – ao mesmo tempo – uma arma na luta contra Satanás. O jejum sonda para ver onde o coração está. E quando ele revela que o coração está com Deus e não com o mundo, um golpe fatal é desferido contra Satanás. Isso porque nesse caso Satanás não tem o ponto de apoio que teria se o nosso coração estivesse apaixonado por coisas terrenas como o pão. Jejum como uma privação reveladora do coração Com frequência, o povo de Deus é chamado a passar sem seus meios normais de vida. “Muitas são as aflições do justo” (Sl 34.19); “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22); “igualmente gememos em nosso íntimo… a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). O jejum é uma experiência voluntária e breve dessa privação. Quando vivenciamos essa privação voluntária, o Senhor revela o que está no nosso coração. O que é que nos controla? O que valorizamos e em quem confiamos? Já vimos isso na Introdução e citamos o comentário de Richard Foster em The celebration of discipline que “mais do que qualquer outra disciplina, o jejum revela as coisas que nos controlam”.[3] A quê estamos escravizados? Do que temos mais fome – de comida ou de Deus? O jejum é o terreno de provas de Deus – e terreno de cura. Porventura iremos murmurar da mesma maneira que os israelitas murmuraram pela falta de pão? Para Jesus, a pergunta foi: ele deixaria o caminho da obediência sacrificial e transformaria pedras em pão? Ou viveria “de toda palavra que procede da boca de Deus”? O jejum é uma maneira de nos revelar a nós mesmos e confessar ao nosso Deus o que está no nosso coração. Onde encontramos nossa satisfação mais profunda – em Deus ou nas suas dádivas? E o objetivo do jejum é que passemos a depender menos do alimento e mais de Deus. Esse é o significado das palavras em Mateus 4.4: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. Todas as vezes que jejuamos, dizemos junto com Jesus: “Não apenas de pão, Senhor, mas de ti. Não apenas de pão, Senhor, mas de ti”. Jejuando por Deus e não pelo seu pão milagroso Deixe-me tentar mostrar-lhes por que penso que foi isso o que Jesus quis dizer quando repeliu Satanás com as palavras: “o homem [viverá]… de toda palavra que procede da boca de Deus”. Por que vocês acham que Jesus está dizendo: “Confie em Deus e não no pão”? A resposta é encontrada no contexto de Deuteronômio 8.3 de onde Jesus tira a palavra em Mateus 4.4: “[Deus] te sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam [observe o argumento], para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o homem”. Considere cuidadosamente. Nesse caso, ele está dizendo que ter dado o maná foi um teste. Não a privação do alimento, mas a doação do alimento – para ensiná-los que o homem não vive apenas de pão. Deus lhes deu o maná, um alimento absolutamente desconhecido que caía do céu. Por quê? Para que eles aprendessem, disse Moisés, a viver de tudo que procede da boca de Deus. E como é isso? Como é que dar o maná milagroso pode ensinar isso? Porque o maná é uma das maneiras incríveis pelas quais Deus pode, com uma mera palavra, satisfazer suas necessidades quando tudo o mais parece inútil. Então, o argumento de Moisés é que precisamos aprender a depender de Deus e não de nós mesmos. Devemos confiar nele para toda bênção totalmente inesperada que é ordenada para nós pela boca de Deus. E, então, veja o que Satanás faz com essa verdade quando se intromete com Jesus. Satanás diz a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que essas pedras se transformem em pães” (Mt 4.3). Em outras palavras: “Faça maná para você mesmo, como seu Pai fez no deserto”. Satanás é extremamente engenhoso. Ele é um hábil exegeta das Escrituras. Conhece a matéria-prima das Escrituras. Ele havia visto que o maná tivera o propósito de mostrar o poder de Deus em operar milagres para satisfazer as necessidades do seu povo em aflição. Assim sendo, argumenta com Jesus: “A razão de seu Pai ter dado o maná no deserto foi para ensinar ao povo a esperar por milagres nas dificuldades; então, regale-se com um pão milagroso e você estará obedecendo as Escrituras”. A isso Jesus responde: “Satanás, você está tão perto e, no entanto, tão distante. Você sempre manipulou a Palavra de Deus dessa maneira, com tanta sutileza e ao mesmo tempo tão enganosamente. Você dá a entender que aprova, mas volta cada palavra contra Deus. A essência do maná era esta, Satanás: não confie no pão – tampouco no pão milagroso – confie em Deus. Não tire sua maior satisfação da vida do alimento – nem mesmo do alimento que resultou do milagre divino – mas de Deus. Toda Palavra que sai da boca de Deus revela Deus. E é dessa autorrevelação que nós nos alimentamos mais profundamente. Isso durará para sempre. Isso é vida eterna. Arreda-te Satanás, Deus é a minha porção. Eu não vou me desviar do caminho dele e da sua comunhão, nem mesmo por causa de maná milagroso”. Essa é a lição mais profunda do jejum de Jesus no deserto. Era uma arma na guerra contra o engano satânico porque foi uma demonstração de que Jesus tinha mais fome de Deus e da vontade de Deus do que tinha das maravilhas de Deus. Ele poderia ter racionalizado que transformar pedras em pão era exatamente o que o Filho de Deus deveria fazer para reencenar a experiência do povo de Deus no deserto. Eles receberam maná. Ele também deveria ter maná. Nesse caso, o jejum seria um prelúdio religioso a uma provisão milagrosa. No entanto, não foi desse modo que Jesus raciocinou. E isso não é o que o jejum significava. Em vez disso, o raciocínio de Jesus foi o seguinte: “Fui enviado para sofrer e morrer pelo meu povo. A única esperança de poder realizar isso é amando a Deus, meu Pai, pois ele é mais precioso para mim, muito mais do que as demonstrações do seu poder milagroso para me aliviar dos meus sofrimentos. Eu sei que é vontade dele me moer e me fazer sofrer por amor do seu povo. Li isso em Isaías 53.10. Não vou usar o jejum como uma tentativa de escapar dessa missão. Isso é o que Satanás quer que eu faça – um prelúdio para a provisão divina milagrosa de pão, exatamente como em Deuteronômio. Mas eis a diferença. Eles foram provados um pouco; eu, porém, serei provado muito. Isso porque muitíssimo mais depende da minha prova do que da deles”. O triunfo da fome por Deus E o que foi, então, o jejum para Jesus? Foi tanto prova quanto triunfo. Foi o teste do seu apetite mais profundo e do triunfo da sua fome por Deus acima de tudo.E, portanto, foi também um triunfo sobre Satanás. A estrada do calvário foi o caminho para a sua própria morte e a derrota do diabo. Jesus, “despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.15). A estrada que conduziu a essa derrota começou com os quarenta dias de jejum. E nesse jejum Jesus demonstrou o poder que o capacitou a ferir a cabeça da serpente no Gólgota. Foi o poder da fé, ou seja, o poder de uma satisfação superior em Deus acima de tudo, mesmo das dádivas miraculosas de Deus. Essa confiança e contentamento profundos em Deus sustentaram Cristo ao longo de toda a sua trajetória até o final. “Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2). O jejum é uma declaração periódica – e algumas vezes decisiva – de que nós preferimos nos banquetear à mesa de Deus no reino dos céus do que nos alimentar das iguarias mais finas deste mundo. Jesus sabia o que tinha deixado nos céus. E sabia para o quê estava retornando. Essa era sua grande esperança e alegria. Certa vez ele disse aos seus discípulos: “Ouvistes que eu vos disse: vou e volto para junto de vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” (Jo 14.28). Voltar para o Pai com “o fruto do penoso trabalho de sua alma” – a igreja (Is 53.11) – era o grande desejo de Jesus. Nisso sua alma festejou, e isso foi o que o sustentou no jejum e na morte. Podemos passar sem a serva faminta da fé? A questão não é tanto se jejuamos, mas se ansiamos por Deus dessa maneira. A natureza da nossa fé é esta: estamos satisfeitos com tudo o que Deus promete ser para nós em Jesus? Tão satisfeitos que podemos tomar a nossa cruz e segui-lo na estrada do calvário? Tão famintos somente por ele que nem as maravilhas e os milagres da sua provisão são suficientes para satisfazer a nossa alma? E se essa for a questão, então devemos perguntar: podemos passar sem a serva faminta da fé chamada jejum? A questão não é ganhar ou merecer qualquer coisa de Deus, ou coagi-lo a nos dar. A questão é: tendo experimentado a bondade de Deus no evangelho, como é que eu posso maximizar meu deleite nele quando em cada momento da minha vida sou tentado a fazer de cada uma de suas boas dádivas um deus? Por meio de quais armas devo lutar a luta da fé e guardar meu coração das afeições estranhas e dos apetites traiçoeiros? É certo que tomo a espada do Espírito, a Palavra de Deus, e oro. Mas vou tomar também a serva faminta da fé como minha auxiliadora. Na sua fraqueza ela é forte. Sua vacuidade aumenta minha necessidade e torna a perfeição de Deus mais preciosa. A debilidade da fome que leva à morte revela a bondade e o poder de Deus que desejam vida. Aqui não há exortação, nenhuma tentativa mágica de forçar a vontade de Deus. Nós meramente olhamos com confiança para o nosso Pai celestial e, por meio do jejum, dizemos suavemente em nosso coração: “Pai, sem ti eu morrerei; vem em meu auxílio, apressa-te em me ajudar”.[4] Como podemos sustentar uma visão de Deus que satisfaça a alma? A assistência de que precisamos, acima de toda cura física, de toda segurança financeira, de todos os sucessos de empregos, de toda orientação de carreira e de toda harmonia relacional é a assistência divina para ver e saborear a glória de Deus em Cristo. Contemplando a glória de Deus no evangelho, somos salvos (2Co 4.4, 6). Contemplando a glória de Cristo em suas promessas, estamos sendo santificados (2Co 3.18). Há apenas uma maneira de terminar nossa carreira de guardar a fé e perseverar até o fim, e é “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12.2; veja também 3.1), e não olhando para as “coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2Co 4.18), e colocando o nosso pensamento “nas coisas lá do alto” (Cl 3.2). Essa é a vontade de Deus para nós e a obra de Deus em nós (Hb 13.20-21). No entanto, somos constituídos de tal maneira como seres humanos caídos, Jesus diz, que “os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições [mesmo coisas inocentes, como o alimento], concorrendo, sufocam a palavra” (Mc 4.19), que é destinada a nos revelar a glória de Deus (Mc 4.19). Portanto, a luta do jejum e a batalha para contemplar a glória do Senhor dia após dia são travadas não apenas alimentando a alma com a verdade, mas jejuando para colocar nossos apetites em teste e, se necessário, à morte. Dietrich Bonhoeffer pelejou energicamente com The cost of discipleship (O custo do discipulado). Ele ponderou seriamente acerca do custo da estrada do calvário. Da maneira como o entendia, para ele, significava resistir a Adolf Hitler cabalmente, pelo que ele foi enforcado em Flossenburg, Alemanha, em 9 de abril de 1945, com apenas 39 anos de idade. Ele viu claramente o engano da nossa carne e a necessidade de lutar em toda a linha de frente a batalha da fé dia após dia com alegria e humildade. A carne resiste a essa humilhação diária, primeiro por um ataque frontal, e depois se escondendo sob as palavras do Espírito (isto é, em nome da “liberdade evangélica”). Nós alegamos liberdade de toda compulsão legal, de todo automartírio e mortificação e colocamos isso contra o uso evangélico apropriado da disciplina e do ascetismo; assim, desculpamos nossa autoindulgência e irregularidade na oração, na meditação e na nossa vida corporal. Mas o contraste entre o nosso comportamento e a palavra de Jesus é também demasiadamente, dolorosamente, evidente. Nos esquecemos de que o discipulado significa alienação do mundo, e nos esquecemos da alegria real e liberdade que são o resultado de um modo de vida devoto. [5] Alegria em Deus é a coragem de andar com o Jesus do deserto até a cruz e para a vida eterna. No entanto, manter essa alegria contra seus rivais mais sutis e inocentes é uma batalha de uma vida inteira. E nessa luta, o jejum – a humilde serva faminta da fé – é um emissário da graça. Ela vem com todo jejum com as mesmas palavras: Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor , exulto no Deus da minha salvação. Habacuque 3.17-18 Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. Mateus 6.16-18 Muito pouco ama a ti aquele que ama alguma coisa ao mesmo tempo que ama a ti, que ele não ama por amor a ti. Agostinho Confissões[1] Aprendamos das instruções do nosso Senhor acerca do jejum, a grande importância do contentamento em nossa religião. As palavras “unge a cabeça e lava o rosto”, são cheias de profundo significado… Porventura estamos insatisfeitos com o salário de Cristo e com o serviço dele? Claro que não! Então, não vamos parecer como se estivéssemos. J. C. Ryle Expository thoughts on the gospels[2] 3 Jejuar pela recompensa do Pai A orientação radical de Jesus acerca do jejum Carl Lundquist foi reitor da Bethel College and Seminary por quase trinta anos. Ele morreu em 1991 de câncer de pele. Na última década da sua vida, ele dedicou uma enorme quantidade de energia ao estudo e à promoção da devoção espiritual pessoal e às disciplinas da vida cristã. Ele até mesmo estabeleceu o que chamava de “Evangelical order of the burning heart” (“Ordem evangélica do coraçãoardente”) e começou a enviar cartas periódicas de inspiração e encorajamento. Na carta de setembro de 1989, ele contou a história de como começou a levar o jejum a sério. Minhas próprias considerações sérias acerca do jejum como uma disciplina espiritual começaram com uma visita ao Dr. Joon Gon Kim em Seul, Coreia. “É verdade”, eu perguntei a ele, “que você passou quarenta dias em jejum antes da cruzada de evangelismo em 1980?” “Sim”, ele respondeu, “é verdade”. O Dr. Kim era o presidente da cruzada que se esperava levar um milhão de pessoas ao Yoido Plaza. Porém, seis meses antes da reunião, a polícia informou que estava revogando a permissão para a cruzada. A Coreia naquela época estava num tumulto político, e Seul estava sob lei marcial. Os policiais decidiram que não podiam correr o risco de ter tantas pessoas reunidas num só lugar. Então, o Dr. Kim e alguns auxiliares foram para uma montanha de oração e ali passaram quarenta dias diante de Deus em oração e jejum pela cruzada. Depois, eles retornaram e se dirigiram à delegacia de polícia. “Ah!”, disse o policial quando viu o Dr. Kim, “nós mudamos de ideia e vocês podem fazer a reunião”. Enquanto voltava para o hotel, eu refletia sobre como nunca tinha jejuado dessa maneira. Talvez nunca tivesse desejado uma obra de Deus com tanta intensidade… Ele tem o corpo marcado por muitos jejuns de quarenta dias durante sua longa liderança espiritual da obra de Deus na Ásia. E também, no entanto, nunca vi os milagres que o Dr. Kim viu. O Dr. Lundquist me contou acerca de um dos retiros do “coração ardente” que estava liderando quando viu um seminarista sênior que não estava comendo. Ao perguntar- lhe se ele estava bem, ficou sabendo que o aluno estava perto de completar 21 dias de jejum como parte da busca pela liderança de Deus para o próximo capítulo de sua vida. O Dr. Lundquist disse que nos últimos anos do seu ministério ele descobriu uma variação de jejum que foi muito útil na sua vida e trabalho. Em vez de tirar uma hora para o almoço, eu aproveito o tempo para ir a uma sala de oração, geralmente a Sala Lume no Bethel Theological Seminary, que fica ali perto. Ali passo meu intervalo de almoço em comunhão com Deus e em oração. E aprendi uma dimensão muito pessoal das palavras de Jesus quando declarou: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” (Jo 4.32). Assumo que isso significa que a privação do alimento pelo jejum provou ser de grande benefício para o Dr. Lundquist. Ao desistir da sua refeição do meio-dia para se encontrar com Deus de outra maneira, ele encontrou alimento para se nutrir na comunhão com Jesus. “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” (Jo 4.32). Parece que, na Sala Lume, Carl Lundquist vivenciou pessoalmente o cumprimento de Apocalipse 3.20: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”. Ao se privar do alimento físico, o Dr. Lundquist encontrou outro tipo de banquete na comunhão com Jesus. Ele vai para o seu gabinete, longe dos elogios que sua posição atrai e o Pai o recompensa. Não se você jejua, mas quando você jejua Uma das passagens que comoveram o Dr. Lundquist naqueles últimos anos da sua vida foi a que consideraremos neste capítulo: Mateus 6.16-18. Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. O que chamou a atenção dele nessa passagem foram as palavras no versículo 16: “Quando jejuardes…”. Como muitos outros, o Dr. Lundquist observou que a passagem não diz: “Se jejuares”; em vez disso: “quando jejuardes”. Ele concluiu, como eu também concluo, e a maioria dos comentaristas o faz, que “Jesus tomou por certo que seus discípulos observariam esse costume piedoso do jejum”.[3] Jesus assumiu que o jejum era uma coisa boa e que seria praticada pelos seus discípulos. Foi isso o que vimos no Capítulo 1. É o que Jesus sublinha nas suas palavras em Mateus 9.15: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Então, em Mateus 6.16- 18 Jesus não está ensinando a respeito da conveniência ou não de se jejuar. Ele está assumindo que iremos jejuar e nos ensina como fazê-lo e, especialmente, como não fazê-lo. Como não jejuar Se o jejum cristão deve se tornar uma parte da nossa vida, como um meio de buscar “toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19), então temos de saber como não fazê-lo. Isso não significa principalmente estar informado sobre como evitar dores de cabeça, mas sim de estar ciente dos riscos espirituais que assediam o espaço de cada ato santo. A Bíblia quase nada diz acerca dos riscos físicos do jejum. Ela deixa essa questão secundária ao nosso discernimento e inspeção. No entanto, ela tem grande preocupação quanto aos perigos espirituais desse ato sagrado. Em Mateus 6.16 Jesus nos adverte a não sermos como os hipócritas: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa”. Então os hipócritas são as pessoas que praticam as disciplinas espirituais para serem vistas pelos homens. Essa é a recompensa que os hipócritas desejam. E quem de nós nunca se sentiu recompensado de fato quando admirado pela disciplina, zelo, ou devoção? Essa é uma recompensa que tem grande valor entre os homens. Poucas coisas fazem mais bem ao coração do homem caído do que ser admirado por nossas realizações, especialmente pelas nossas realizações morais e religiosas. Esse anseio pelo reconhecimento tinha infectado os líderes religiosos dos dias de Jesus em grande medida. Com respeito aos escribas e fariseus, Jesus advertiu as pessoas que eles “gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; esses sofrerão juízo muito mais severo” (Mc 12.38-40). O amor pelo elogio dos homens é muito intenso. Nós nos aprontamos para isso (“com vestes talares”), e nos pavoneamos nas praças, nos dispomos para isso nas festas, e assumimos uma pose importante na igreja, e até mesmo encompridamos nossas orações para disfarçar nosso amor desapiedado pelo dinheiro com uma camuflagem religiosa. Tudo isso somos propensos a fazer por causa do nosso apetite aparentemente insaciável pelos elogios dos homens. Queremos reconhecimento. Queremos que as pessoas gostem de nós, nos admirem e falem bem de nós. É uma tendência mortal. Jesus nos advertiu: “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mt 23.12). Em Mateus 6.16 Jesus disse que se essa recompensa de outras pessoas é o que você deseja, isso é o que receberá. “Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.” Em outras palavras, o perigo da hipocrisia é que ela é muito bem-sucedida. Ela almeja o elogio dos homens. E o consegue. Porém, isso é tudo. Por que é hipocrisia as pessoas ficarem sabendo o que você está fazendo? Mas há um problema aqui. Por que é hipocrisia? Essas são pessoas religiosas. Elas decidem jejuar. Em vez de esconder que estão jejuando, demonstram isso claramente. Por que isso é hipocrisia? Parece ser o oposto da hipocrisia. Por que não é hipocrisia jejuar, mas ungir sua cabeça e lavar seu rosto e não deixar ninguém saber que você está jejuando? Porventura a definição de hipocrisia não é: tentar parecer diferente na aparência exterior do que se é no interior? Então, essas pessoas religiosas estão mostrando arealidade, certo? Por que elas não são o oposto dos hipócritas? Elas jejuam, e se mostram como quem está jejuando. Não finja. Seja verdadeiro. Se você está jejuando, demonstre isso. No entanto, Jesus as chama de hipócritas. Por quê? Porque supõe-se que o coração que motiva o jejum é um coração que ama a Deus. O jejum, como Jesus o vê, é um anelo por Deus, ou então é pior do que nada. Mas o coração que motiva o jejum deles é um anseio pela admiração humana. Então, eles estão sendo abertos e transparentes acerca do que estão fazendo, sim, mas justamente essa abertura é enganosa a respeito do que está no coração deles. Se de fato quisessem ser abertos, eles deveriam usar um sinal pendurado no pescoço dizendo: “O objetivo básico do meu jejum é o elogio dos homens”. Nesse caso, eles não seriam hipócritas. Estariam sendo vaidosos de maneira aberta, transparente e sem hipocrisia. Porém, nessas circunstâncias, eles estão escondendo a própria vaidade debaixo do manto do jejum. Essa é a hipocrisia deles. Portanto, há dois perigos aos quais esses homens que jejuam estão incorrendo. Um é que eles estão buscando a recompensa errada ao jejuar, ou seja, a estima das outras pessoas. Eles amam o elogio dos homens. E o outro é que eles escondem isso com um falso amor por Deus. Jejum significa amor por Deus – fome de Deus. Então, com suas ações, eles estão dizendo que têm amor por Deus. Porém, interiormente, estão desesperados para serem admirados e aprovados pelas pessoas. Então, como devemos jejuar? Em Mateus 6.17-18 Jesus fornece uma alternativa para essa maneira de jejuar – ele descreve o modo como deseja que o jejum seja feito. Ele diz: “Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. O jejum coletivo contradiz a Palavra de Jesus? Na Bíblia, incluindo o Novo Testamento, encontramos diversos tipos de jejum público. Por exemplo, em Atos 13.1- 3 e 14.23, Paulo e Barnabé jejuaram de um modo que não podia ser mantido em segredo. Eles desobedeceram o mandamento de Jesus nesses casos? Jesus quis dizer que o único tipo de jejum que é permitido é o secreto, que ninguém mais pode ficar sabendo? Praticamente isso quase tornaria o jejum impraticável, visto que até mesmo o jejum individual é quase impossível de ser mantido secreto se a pessoa for casada ou se geralmente faz suas refeições junto com outras pessoas. No entanto, há diversas razões contextuais para se pensar que Jesus não estava excluindo o jejum coletivo. Uma é que a igreja primitiva, incluindo os apóstolos, praticava o jejum público (por exemplo, At 13.3). Outra é que essa seção de Mateus 6.1-18 começa com a advertência: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”. A questão de toda a seção não é que essa justiça pública “diante dos homens” seja ruim, mas que fazer isso “com o fim de serdes vistos por eles” é ruim. Isso é confirmado pelo fato que embora ele tenha dito: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”, no entanto ele próprio praticava a oração pública (Lc 3.21; 11.1; Jo 11.41). A motivação para a oração e o jejum é o que importa, não se os atos são públicos ou privados. Outra confirmação de que nem todo jejum público é errado e que o que importa é o motivo, é o que Jesus disse em Mateus 5.16: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”. Aqui ele vai mais além ao dizer que alguns tipos de justiça que são públicos não podem ser ocultados (como no caso do ministério do bom samaritano), mas em vez disso ele diz que os discípulos deveriam querer que o mundo visse essa prática de justiça de modo que Deus fosse glorificado. “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras.” Então, o motivo em jogo não é simplesmente se você quer que seus atos sejam conhecidos pelos outros, mas a razão pela qual você quer que eles sejam conhecidos – para que Deus seja glorificado, ou para que você seja admirado. Concluo, então, que o fato de alguém descobrir que você está jejuando não significa necessariamente que você pecou. O valor do seu jejum não é destruído se alguém notar que você deixou de almoçar. É possível jejuar com outras pessoas – digamos, a liderança pastoral da nossa igreja jejuando num retiro planejado para buscar o Senhor juntos – e, no entanto, nesse jejum coletivo, não fazê-lo para ser visto pelos homens. Ser visto jejuando e jejuar para ser visto não são a mesma coisa. Ser visto jejuando é um mero acontecimento externo. Jejuar para ser visto pelos homens, como Jesus quis dizer, é um motivo de autoexaltação do coração. Como de costume, Jesus está testando nosso coração, não apenas regulando nosso comportamento. Ele diz que, quando jejuamos, não devemos ter um coração que deseja que os homens observem essa disciplina e nos admirem. De fato, ele vai além disso quando diz que deveríamos empreender alguns esforços no sentido oposto, ou seja, não sermos vistos jejuando. Penteie seu cabelo, lave seu rosto para que, na medida do possível, as pessoas nem ao menos se deem conta de que você está jejuando. Jejuar para ser visto pelo Pai E então ele acrescenta a contrapartida positiva: “e teu Pai, que vê em secreto”. Em outras palavras, jejue para ser visto por Deus. Jejue com a clara intenção de ser visto por Deus. Como Jesus ensina, jejuar é um ato intensamente dirigido para Deus. Faça-o na direção de Deus, que vê quando outros não veem. Jesus está testando a realidade de Deus na nossa vida. Será que temos realmente uma fome pelo próprio Deus, ou uma fome de admiração humana? É muito fácil fazer coisas religiosas se outras pessoas estiverem olhando. Pregar, orar, frequentar a igreja, ler a Bíblia, praticar atos de caridade e bondade – todas essas atividades ficam revestidas de certa medida de satisfação para o ego se soubermos que os outros irão descobrir o que estamos fazendo e pensarão bem de nós. É um vício mortal que temos pela estima. A terrível horizontalização das coisas sagradas Porém, esse não é o único defeito no motivo de querer que outros vejam. Há algo que agride a Deus ainda mais diretamente. É aquele senso sutil que cresce dentro de nós, geralmente de maneira inconsciente, de que a eficácia real dos nossos atos espirituais está no nível horizontal entre as pessoas, não diante da face de Deus. Em outras palavras, se meus filhos me virem orando à hora da refeição isso lhes fará bem. Se os empregados me virem jejuando eles podem ser inspirados a jejuar. Se meu colega de quarto me vir lendo a Bíblia ele poderá ser inspirado a ler a dele também. E assim por diante. Porém, isso não é de todo ruim. As orações públicas de Jesus certamente inspiraram seus discípulos (Lc 11.1). Mas o perigo é que toda a nossa vida – incluindo nossa vida espiritual – começa a ser justificada e entendida simplesmente no nível horizontal pelos efeitos que ela pode exercer, porque os outros veem o que está acontecendo. E, assim, de modo sutil e vagaroso, Deus pode se tornar uma pessoa secundária no viver da nossa vida. Podemos pensar que ele é importante para nós porque todas essas coisas que estamos fazendo são os tipos de coisa que ele quer que façamos. No entanto, na verdade, ele próprio está ficando fora de cena como o foco disso tudo. E isso fica registrado nos motivos do nosso coração de modo que nos sentimos satisfeitos quando os outros estão olhando, mas nos sentimos desmotivados se ninguém sabe o que estamos fazendo – ninguém a não ser Deus. Com essas palavras de Mateus 6, o que Jesus está fazendo é testar o nosso coração para ver se Deus é mesmo o nosso tesouro. Ele está mudandoo jejum de uma forma exterior para uma forma radicalmente interior, e tornando-o um sinal da nossa verdadeira piedade. “Para o judaísmo, o jejum era um sinal exterior de uma condição interior. Para Jesus, o jejum era um sinal interior de uma condição interior.”[4] Ele está testando para ver se a admiração de outras pessoas ou até mesmo o efeito espiritual da nossa piedade sobre os outros se tornou o alimento que suplantou Deus e seduziu a nossa alma. Como nos sentimos quando mais ninguém sabe o que estamos fazendo? Como nos sentimos quando ninguém diz: “E aí, como vai o jejum?” Ficamos contentes em Deus, quando ninguém, a não ser Deus, sabe que fizemos o que devíamos ter feito? Jesus está nos conclamando a uma orientação radical para o próprio Deus. Ele está nos convocando para uma relação pessoal real, totalmente autêntica com Deus. Se Deus não for real para nós – pessoalmente, vitalmente real para nós – então será terrivelmente difícil suportar alguma dificuldade com Deus sendo o único que sabe. Tudo poderá parecer sem sentido porque toda a gama de possibilidades horizontais será anulada visto que ninguém sabe o que está se passando. Tudo o que importa é Deus, e quem ele é, e o que ele pensa, e o que ele irá fazer. Que recompensa devemos buscar com nosso jejum? Isso nos leva à última parte do versículo 18 e à promessa que Jesus faz acerca do que Deus irá fazer por aqueles cujo foco vertical encontra-se nele e que não precisam do elogio dos homens para fazer que sua devoção tenha valor. Ele disse: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. É bom e correto querer e buscar a recompensa de Deus no jejum. Jesus não a ofereceria para nós se fosse inadequado almejá-la. Tenho argumentado por décadas que buscar a recompensa do Pai não é ser subcristão, não amoroso ou contrário à verdadeira virtude.[5] Como C. S. Lewis disse: Existem recompensas que não maculam os motivos. O amor de um homem por uma mulher não é mercenário porque ele deseja casar-se com ela, nem seu amor por poesia é mercenário porque ele quer lê-la, tampouco seu amor pelo exercício físico é menos digno porque ele tem vontade de correr, pular e andar. O amor, por definição, busca desfrutar do seu objeto.[6] Fazer o que é certo “só porque é correto” não é um ideal cristão. Fazer o certo para aumentar nosso deleite em Deus é. Então, aqui novamente a questão se apresenta: devemos atentar para o que Jesus disse e aprender, ou devemos aduzir a nossa filosofia de fora da Bíblia e silenciá-lo novamente? Jesus disse: “[Não jejue para ser visto pelos homens] e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.18). A palavra na nossa língua “recompensará” [ou “restituirá”, na versão da Bíblia (NASB) que o autor está usando] é provavelmente uma tradução incorreta por causa das conotações mercenárias da palavra. Ela parece sugerir que o jejum é um tipo de desempenho que fazemos para Deus que depois o obriga a nos pagar salário ou algum honorário. Mas a palavra grega (apodwsei) não tem necessariamente essa conotação. Ela pode se referir ao pagamento de débito financeiro (por exemplo, Mt 5.26), mas nem sempre. Foi a palavra usada por Pilatos ao dar o corpo de Jesus a José de Arimateia (Mt 27.58), por Jesus ao entregar o rolo de volta ao líder da sinagoga depois da sua leitura (Lc 4.20), por Jesus ao devolver o menino curado ao seu pai (Lc 9.42), pelos apóstolos quando deram testemunho da ressurreição (At 4.33) e por Deus ao dar a Paulo uma coroa da justiça (1Tm 4.8). A palavra em si não sugere uma transação de negócios de trabalho ou salário. Como, então, devemos pensar acerca da recompensa de Deus àqueles que jejuam sem o objetivo de serem vistos pelos homens, mas vistos por Deus? Deus nos vê jejuando. Ele vê que temos um profundo anseio que está nos afastando dos usos costumeiros do mundo a fim de jejuar. Ele vê que o nosso coração não está buscando os prazeres comuns da admiração e dos aplausos humanos. Ele vê que estamos agindo não movidos pela intenção de impressionar os outros com a nossa disciplina, ou mesmo pelo desejo de influenciar os outros a imitar a nossa devoção. Mas nós nos achegamos a Deus movidos pela nossa fraqueza, a fim de expressar a ele a nossa necessidade e o nosso anseio de que ele se manifeste mais plenamente na nossa vida para o gozo da nossa alma e glória do seu nome. Como fazer de Deus um marido enganado pelo jejum E quando Deus vê isso, responde. Age. Recompensa. O que é a “restituição” ou a “recompensa” que Jesus promete do Pai nesses versículos? De uma maneira perversa a pessoa poderia mesmo pensar se a recompensa que Deus promete não seria “o elogio dos homens” – como se Deus dissesse: “Visto que você não buscou jejum público, mas procurou a mim, vou lhe dar esse tão esperado reconhecimento humano”. Se esperássemos por isso, o nosso jejum faria de Deus um marido enganado. É isso que Tiago 4.3-4 deixa claro. Tiago retrata a oração como uma petição ao nosso marido celestial. Depois, ele pondera a possibilidade de estarmos, na verdade, pedindo ao nosso marido que pague pela nossa visita à prostituta. “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” A palavra “infiéis” é a chave aqui. Por que somos chamados de “infiéis” ao orar por algo a ser gasto em nossos prazeres? Porque Deus é o nosso marido e o “mundo” é uma prostituta nos seduzindo para lhe dar afetos que pertencem somente a Deus. Esse é o nível de sutileza ao qual chega o pecado do mundanismo. Ele pode emergir não contra a oração, mas na oração – e no jejum. Nós começamos a orar e jejuar – mesmo intensamente – não por Deus como nosso marido todo-suficiente, mas apenas por suas dádivas no mundo para que possamos fazer amor com elas. Não, a recompensa que devemos buscar do Pai no jejum não é em primeiro lugar ou principalmente as dádivas de Deus, mas o próprio Deus. Onde, no contexto, podemos procurar pela recompensa que o Pai nos incentiva a buscar? Acho que um guia fidedigno seria a oração que Jesus nos ensinou a orar em Mateus 6.9-13. Ela começa com os três desejos principais cujos cumprimentos devemos esperar da parte de Deus. Primeiro, que o nome de Deus seja santificado ou honrado; segundo, que o reino de Deus venha; terceiro, que sua vontade seja feita na terra como no céu. Essa é a primeira e principal recompensa que Jesus nos diz para buscar na nossa oração e no nosso jejum. Jejuamos movidos pelo anseio de que o nome de Deus seja conhecido, estimado e honrado, movidos pelo anseio de que seu reino seja estendido e depois consumado na História, movidos pelo anseio de que sua vontade seja feita em todas as partes com a mesma devoção e energia que os anjos infatigáveis fazem sem cessar no céu para todo o sempre. Desejando o que não é Deus por amor a Deus Na verdade, Deus nos dá nosso pão diário – e muitas outras coisas por meio da oração e do jejum. E não é errado buscar especificamente por sua ajuda em todas as áreas da nossa vida. Mas estas três petições – que seu nome seja santificado, que venha o seu reino e que sua vontade seja feita – testam e provam se todas as outras coisas que desejamos são expressões da nossa fome por Deus, ou se suas dádivas estão disputando o lugar de supremacia e preciosidade que ele tem na nossa vida. A supremacia de Deus em todas as coisas é a grande recompensa pela qual ansiamos no jejum. Sua supremacia em nossos afetos e em todas as nossas escolhas da vida. Sua supremacia na pureza da igreja. Sua supremacia na salvação dos perdidos. Sua supremacia no estabelecimento da justiça e do juízo. E sua supremacia para a alegria de todos os povos na evangelização do mundo. Buscando de Deus a recompensa da supremacia todo- suficiente dele temos todos os nossosoutros desejos à prova. São eles por amor a Deus? Essa é a razão última pela qual Jesus nos chama a jejuar sem querer ser vistos pelos outros. Certamente não para que possamos obter de Deus a satisfação dos nossos desejos em vez de obtê-la dos homens (e assim tornar Deus cúmplice do nosso adultério espiritual), mas também para que possamos incluir o próprio Deus como o nosso desejo, e tudo o mais como um benefício subordinado da sua cativante glória. Dessa maneira, será que pedimos, enquanto jejuamos e oramos: queremos dominar os maus hábitos e antigas servidões, remover cada obstáculo para poder desfrutar de Deus de modo mais pleno, para que as pessoas possam ver e dar glórias a ele? Queremos que nossos filhos pródigos e filhas teimosas voltem para casa porque isso honraria o nome de Deus? Queremos o crescimento da igreja porque a exaltação do nome de Cristo está em jogo entre os incrédulos? Queremos que a China, a Coreia do Norte, a Arábia Saudita, o Iraque e a Líbia abram as suas portas para o evangelho por amor ao avanço do reino de Jesus? Queremos líderes honestos no governo porque este mundo se destina a magnificar a bondade e a justiça de Deus? É para fazer isso que Jesus está nos chamando – uma vida radicalmente orientada para Deus em oração e jejum. Então, por amor de sua alma, e em resposta a Jesus, e para o avanço da supremacia de Deus em todas as coisas para alegria de todos os povos, penteie seu cabelo e lave o seu rosto, e deixe que seu Pai, que vê em secreto, observe quanto você está faminto por ele com o jejum. O Pai que vê em secreto está transbordando de recompensas para a sua alegria e glória nele. Havia uma profetisa, chamada Ana… Esta não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações. E, chegando naquela hora, dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. Lucas 2.36-38 Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda. … Amém! Vem, Senhor Jesus! 2Timóteo 4.8; Apocalipse 22.20 Você ama a vinda do Senhor? Então, você envidará todos os esforços para levar o evangelho para o mundo todo. Preocupa-me, à luz do claro ensino da Palavra de Deus, à luz da definição explícita do nosso Senhor da nossa tarefa na Grande Comissão, que nós a tomemos de modo tão leviano… O reino é dele; ele reina no céu, e manifesta seu reino na terra e na igreja e por meio dela. Quando tivermos completado a nossa missão, ele retornará e estabelecerá seu reino em glória. A nós compete não apenas esperar, mas também apressar a vinda do dia de Deus. George Ladd The gospel of the kingdom[1] 4 Jejuar pela volta do Rei Até que ponto nós sentimos sua falta? O jejum é uma expressão física do desejo ardente do coração pela volta de Jesus. Vimos em Mateus 9.15 (Capítulo 1) que Jesus representou a si mesmo como o Noivo da igreja. Ele explicou que seus discípulos não estavam jejuando porque o Noivo estava presente. Mas depois ele disse: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Desse modo, Jesus relaciona o jejum cristão com o nosso anelo pelo retorno do Noivo. Portanto, um dos significados mais importantes do jejum cristão é expressar o anseio do nosso coração pela volta do nosso Rei. O jejum e a Ceia do Senhor O jejum é uma contrapartida orientada para o futuro da celebração orientada para o passado da Ceia do Senhor. Jesus disse: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19). Ao participar da ceia, relembramos o passado e dizemos que Jesus veio. Ele morreu pelos nossos pecados. Ressuscitou dos mortos. Nossa culpa foi removida. Nosso pecado foi perdoado. Nossa condenação e punição foram transferidas para Cristo. Nossa absolvição foi selada. Nossa reconciliação com Deus foi cumprida. Nossa servidão ao pecado foi quebrada. Nosso inimigo foi reduzido a nada. O aguilhão da morte foi removido. O destino do inferno foi desviado. Vida eterna foi dada. O Senhor veio! Vamos nos regalar nessas grandes realidades e assentar nossa alma no grande fundamento da graça de Deus e na morte e ressurreição de Cristo. É isso que dizemos quando participamos da Ceia do Senhor. Mas ao não comer – pelo jejum – olhamos para o futuro com uma dor no coração, dizendo: “Sim, ele veio. E sim, o que ele fez por nós é glorioso. Mas precisamente por causa do que vimos e provamos, sentimos agudamente tanto a sua ausência quanto a sua presença. O Noivo partiu. Ele não está aqui. Ele estava aqui, e nos amou ao máximo. E nós podemos comer e até celebrar com um banquete porque ele veio. Mas também sabemos disto: ele não está aqui da maneira que estava antes. Como Paulo disse: “enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor” (2Co 5.6). E a ausência dele é dolorosa. O pecado e a miséria do mundo são dolorosos. O povo de Cristo é pequeno e desprezado – como ovelhas no meio de lobos (Mt 10.16). Estamos ansiosos pela sua volta, para que assuma seu trono, reine em nosso meio, vindique seu povo, sua verdade e sua glória. Não quero dizer que o Senhor instituiu o jejum com a mesma formalidade e finalidade com que instituiu a sua Ceia. Ele nunca disse a respeito do jejum: “Fazei isto até que eu venha”. No entanto, ele disse: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9.15). Não é um mandamento ou uma ordenança instituída, mas uma predição. É uma afirmação daquilo que pareceria normal para aqueles que amam o Noivo e sentem saudades dele. Clamando por ele dia e noite O jejum faz a pergunta: nós sentimos falta dele? Quão ansiosos estamos pela sua volta? A quase universal ausência de jejum pela volta do Senhor é um testemunho da nossa satisfação com a presença do mundo e a ausência do Senhor. Isso não deveria ser assim. Em Lucas 18.7-8 Jesus disse: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” O ponto central nesses versículos é que o Filho do Homem virá novamente. Quando ele vier, fará justiça para seus eleitos. Eles não mais serão “considerados lixo do mundo, escória de todos” (1Co 4.13), mas “resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mt 13.43). Enquanto a fé de muitos deixará de existir e “o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.12), o Filho do Homem, quando vier, encontrará os eleitos perseverando com fé e amor até o fim (Mc 13.13). Mas observe a condição desses eleitos que serão vindicados quando ele voltar. Jesus disse que eles “clamam dia e noite”. É isso que está faltando na confortável igreja cristã do mundo atual. Onde, no mundo ocidental, os cristãos estão clamando por Cristo dia e noite para que ele venha e faça justiça para seus eleitos? Onde está esse tipo de anseio e desejo pela consumação do reino? Não é de admirar, então, que a pergunta sobre o jejum pela vinda do Noivo seja raramente feita. Se o clamor em si não existe, por que alguém chegaria pelo menos a pensar em expressá-lo com jejum? Vem, Senhor Jesus! Qual é o clamor? Qual era o clamor da igreja primitiva? Era o seguinte: “Vem, Senhor Jesus!” Não é mera coincidência que as últimas palavras da Bíblia sejam as primeiras do Senhor: “Certamente, venho sem demora”, e depois a resposta da igreja: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20). Esse é o clamor que a Bíblia inteira deveria deixar no coração dos eleitos. Uma das poucas palavras em aramaico que a igreja de fala grega do século 1o preservou da amada língua de Jesus e dos seus primeiros seguidores, foi a palavra Maranata. Em 1Coríntios 16.22, Paulo conclui sua carta dizendo: “Se alguém não ama o Senhor, seja anátema. Maranata!”. A palavra significa “nosso Senhor, vem!” Há pouca dúvida de que a palavrafoi preservada em aramaico original pela mesma razão que “amém” foi preservado em sua forma hebraica sem mudança em quase todas as línguas do mundo: ela era uma forma constantemente usada. “Maranata” era o incessante clamor do coração da igreja primitiva. “Ó, Senhor, vem!” Jesus tinha ensinado seus discípulos a orar: “Venha o teu reino” (Mt 6.10). E ele os tinha ensinado que o reino viria na sua plenitude quando ele próprio viesse novamente “na glória de seu Pai, com os seus anjos” (Mt 16.27). Portanto, a oração: “Venha o teu reino” era virtualmente idêntica à oração “Maranata!” “Vem, Senhor Jesus!” Podemos ver quanto esse clamor era central para a igreja primitiva. Não era uma preocupação periférica. Eles eram fiéis ao espírito unificador completo do corpo de Cristo. O Noivo partiu numa jornada um pouco antes do casamento, e a Noiva não podia agir como se tudo estivesse normal. Se ela o ama, desejará ansiosamente que ele volte. Nós amamos a vinda do Senhor? De fato Paulo fala do amor à vinda do Senhor e faz disso um autêntico teste de fé. Ele disse no final da sua vida: “Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4.8). A coroa da justiça não é uma recompensa somente para alguns que dividem os eleitos entre justos e injustos. É a coroa que todo o povo de Deus receberá. É a coroa da vida, que o “Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.12) e que são fiéis “até à morte” (Ap 2.10). Portanto, amar a vinda do Senhor não é um ato cristão opcional que pode render muitas recompensas. É o que a genuína fé cristã faz: ela ama a Cristo e anseia pela vinda do Noivo. A fé salvadora diz: “Venha o teu reino! Volte, ó amado Noivo. Venha, reine como Rei. Venha, vindique seu povo. Venha, case-se com sua Noiva”. O que Ana nos ensina acerca desse anseio Ao prever que a Noiva iria jejuar pela vinda do Noivo (Mt 15.9), Jesus não estava imaginando algo a respeito do qual não havia sido ouvido. O precedente para o jejum pelo reino de Deus era conhecido entre os santos do seu tempo. Lucas nos dá um relance disso em Lucas 2.36-38. Havia uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, avançada em dias, que vivera com seu marido sete anos desde que se casara e que era viúva de oitenta e quatro anos. Essa não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações. E, chegando naquela hora, dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém. Maria e José tinham acabado de entrar no templo com o bebê. Lucas nos conta sobre duas pessoas muito idosas – Simeão e Ana – que reconheceram quem era ele. O que distingue essas duas pessoas é que elas estavam anelantes e desejosas pela vinda do Messias. No versículo 25 Lucas diz que Simeão “esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele”. No versículo 37 ele nos diz que Ana virtualmente nunca deixava o templo e adorava o Senhor “em jejuns e orações”. Em outras palavras, ela era exatamente como Simeão – estava ansiosa pela vinda do Messias; jejuava e orava dia e noite porque estava esperando a redenção de Jerusalém. No versículo 38, ela chega justamente no momento de ver o Messias-menino, dá graças a Deus e fala “a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”. Em outras palavras, Deus deu uma visão especial da glória do Rei àqueles que estavam almejando, ansiando e esperando “a redenção de Jerusalém”. Para Ana, esse anseio significou uma vida de jejum e oração, década após década – provavelmente sessenta anos desde que o seu marido morrera – enquanto ela ministrava no templo. Penso que Lucas nos conta sobre Simeão e Ana para ilustrar como as pessoas santas e devotas se sentiam a respeito da promessa da vinda de Cristo, e como Deus respondeu aos anseios delas. Elas viram mais do que os outros. Elas podem não ter entendido completamente todos os detalhes de como o Messias viria – Simeão e Ana certamente não os entendiam – mas Deus misericordiosamente lhes deu, antes de morrerem, um vislumbre do que eles tão apaixonadamente queriam ver. Deveríamos almejá-lo menos? Nós, agora, vivemos na era depois da vinda do Rei. Ele veio e foi embora novamente. Ele nos revelou a sua glória. Derramou seu sangue pelos nossos pecados. Ressuscitou de entre os mortos. Ascendeu aos céus para sentar-se à mão direita do Pai até que ele ponha seus inimigos sob seus pés. Enviou seu Espírito Santo para nos regenerar, nos santificar e habitar em nós. Comissionou sua igreja a discipular as nações. E prometeu em João 14.3: “[Eu] voltarei”. Como a nossa situação pode ser comparada com a de Ana? As esperanças dela eram baseadas nas promessas de Deus, como também as nossas. No entanto, nós vimos muito mais do que ela viu. Sabemos muito mais a respeito do Messias e, por isso, nosso anseio por vê-lo é maior. Ela nunca chegou a ver os anos de compaixão e poder como nós vimos. Ela nunca ouviu as palavras de autoridade, sabedoria e amor que nós ouvimos. Ela nunca viu os cegos recuperarem a visão, os aleijados andarem, os leprosos serem purificados, os surdos ouvirem, os mortos ressuscitarem e os pobres evangelizados da maneira que Jesus fez. Ela nunca o viu se consagrar no Getsêmani, ou ser crucificado por amor a nós no Gólgota. Ela nunca ouviu as palavras misericordiosas: “hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43) ou as palavras triunfantes: “Está consumado!” (Jo 19.30). Ela nunca o viu ressuscitado de entre os mortos, depois de triunfar sobre o pecado, a morte e o inferno. E, no entanto, do que sabia dele com base no Antigo Testamento, ansiava por ele e jejuava com orações noite e dia esperando a “redenção de Israel”. Mas nós vimos todas essas coisas. Conhecemos o Salvador cem vezes melhor do que Ana conhecia. E agora esse, a quem conhecemos tão bem, foi embora. Nós andamos por fé e não por vista. O Noivo a quem amamos foi levado. A festa de casamento foi suspensa. É como se a marcha nupcial tivesse começado e tivéssemos começado a andar com ele rumo ao altar e, no último instante, ele tivesse desaparecido. Devemos ansiar por ele menos do que Ana ansiava? Porventura, o fato de o termos visto viver e amar por três anos e mesmo agora ter o seu Espírito nos faz sentir menos ou mais o anseio que Ana sentia? Se a resposta for menos, isso será uma acusação de cegueira e de embotamento da nossa parte. O jejum é a libertação da sensualização da alma Um dos grandes efeitos do jejum é que ele auxilia o que expressa. Quero dizer que o jejum é principalmente uma expressão do anseio da alma por Deus. Não é um meio inventado para nos fazer amar a Deus. Nós o amamos e anelamos por ele. E então o jejum se levanta como um meio de dizer fervorosamente com todo o nosso corpo o que o nosso coração sente: eu anelo por ti, ó Deus. O jejum expressa, mais do que cria, a fome por Deus. No entanto, é também verdade que justamente a natureza do jejum o torna um assistente desse anseio por Deus. A razão é que o anseio por Deus é espiritual, não físico. E nós somos menos sensíveis aos apetites espirituais quando estamos em servidão aos apetites físicos. Isso significa que o jejum é uma maneira de despertar em nós apetites espirituais latentes ao expulsar o domínio das forças físicas do centro da nossa vida. John Wesley expressou isso tão bem quanto nenhum outro que eu tenha lido. O que ele chama de “sensualização” da alma é um grande empecilho ao nosso anseio pela volta de Jesus. Portanto, o jejum auxilia justamente a própria experiência da fome por Deus que ele também expressa. A plenitude de pão [aumenta] não apenas a negligência e a leviandade do espírito, mas também os desejos frívolos e impuros; sim, os sentimentos corruptos e vis… Mesmo uma sensualidade bem-educada e normal está continuamente sensualizando a alma, e a afunda atéo nível das bestas que perecem. Não se pode expressar que efeito uma variedade e delicadeza de alimentos têm na mente bem como no corpo ao torná-lo pronto para todos os prazeres dos sentidos, tão logo uma oportunidade apareça. Portanto, baseado nisso também, todo homem sábio irá refrear sua alma, e mantê-la subjugada; e a afastará mais e mais de todas essas indulgências dos apetites inferiores, que naturalmente tendem a acorrentá-la à terra, a poluí-la, bem como a degradá-la. Aqui está outra razão perpétua para jejuar; retirar o alimento da luxúria e da sensualidade, afastar-se dos incentivos dos desejos insensatos e danosos, dos sentimentos vis e vãos.[2] Não tenho a intenção de fazer pouco das boas dádivas de Deus, como se comer fosse um impedimento maligno para a sensibilidade espiritual. Juntamente com Wesley eu simplesmente quero dizer que a maioria de nós corre o risco de ser excessivamente “sensualizado” simplesmente por ter todo desejo satisfeito e raramente parar num momento de abnegação para descobrir se existem vivos dentro de nós apetites que poderiam nos satisfazer em níveis mais profundos do que o alimento, e que são designados para a honra de Deus. Esse é o apetite pela vinda do Rei Jesus. O Senhor veio para servir Considere como o Novo Testamento descreve os corações dos crentes quando eles viviam à sombra da vinda do Senhor. Eles relembravam as palavras do Senhor Jesus, de uma das parábolas mais extraordinárias: “Sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamento; para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram” (Lc 12.36). Cito essa surpreendente parábola porque ela retrata a volta de Cristo como um “Senhor” que, no entanto, “há de cingir-se, dar- lhes [a seus servos] lugar à mesa e, aproximando-se, os servirá” (Lc 12.37). Isso é de tirar o fôlego. Aquele por quem esperamos, que virá nas nuvens com os santos anjos e a glória do seu Pai e aterrorizará as nações – esse mesmo irá magnificar sua grandeza em misericórdia e serviço e fazer- se servo do nosso regozijo para sempre. Nem mesmo depois da sua segunda vinda ele será “servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25). Assim, os primeiros cristãos recordavam as palavras de Jesus de que nós devemos ser “semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor” – e que Servo-Senhor ele é! É uma imagem diferente da do Noivo, mas não menos evocativa de alegria. Então, eles acreditavam que a segunda vinda de Jesus, independentemente do sofrimento que eles tinham de suportar, seria uma experiência totalmente compensadora de alegria e exultação. “Alegrai- vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13). As paixões de um exilado Essa esperança era tão dominante para os primeiros cristãos que toda a vida era vivida como a vida de um exilado. Isso não significa que eles não tivessem nenhuma preocupação para com o bem-estar dos seus próximos. Pelo contrário, era a pródiga independência do amor pelas coisas que lhes dava a liberdade de amar seus próximos com desprendimento. E essa independência vinha da esperança que tinham do mundo espiritual. O amor sacrificial dos crentes pelos seus próximos era a evidência de que a esperança deles vinha de fora da ordem deste mundo (Cl 1.4-5; Hb 10.32-34). A confissão comum deles era: “não temos aqui cidade permanente” (Hb 13.14). Somos “peregrinos e forasteiros” (1Pe 2.11). E isso quer dizer que a esperança grande, jubilosa, sustentadora do amor, era a vinda do seu rei: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). Essa “espera ansiosa” permeia todo o Novo Testamento e define o que significa pertencer a Cristo. “Cristo, tendo sido oferecido uma vez para sempre para suportar os pecados de muitos, aparecerá uma segunda vez, não para lidar com o pecado, mas para salvar aqueles que estão esperando ansiosamente por ele” (Hb 9.28; RSV). “De maneira que não vos falte nenhum dom, aguardando vós [ansiosamente] a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.7). “Aguardando [ansiosamente] a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tt 2.13). “Guardai-vos no amor de Deus, esperando ansiosamente pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Jd 21; NASB). A “espera ansiosa” da igreja primitiva pelo seu Noivo por vir explica por que ela orava da maneira como orava. Ninguém pode realmente desejar algo tão intensamente quanto ela desejava a Cristo, sem clamar a Deus. Então, ela clamava e orava: “Senhor, venha o teu reino!” “Maranata!” “Vem, Senhor Jesus!” Não há dúvida de que esse anelo por Cristo precisa ser restaurado na confortável igreja do próspero Ocidente. A ausência de jejum é indicativa da nossa satisfação com a maneira como as coisas estão. Ninguém jejua para expressar seu contentamento. As pessoas jejuam apenas quando estão insatisfeitas. “Podem, acaso, estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9.15). A ausência de jejum é a medida de nosso contentamento com a ausência de Cristo. O jejum pelo Rei não é uma disciplina pacifista No entanto, seria um grande erro pensar que o despertar do anseio pelo Noivo produzisse uma onda de retiro monástico para jejum e oração de uma espera passiva. Isso não é o que o despertar do desejo por Cristo produziria. Ele produziria um compromisso novo, radical, para completar a tarefa de evangelização do mundo a qualquer custo. E o jejum não se tornaria uma disciplina pacifista por esperanças particulares, mas uma arma missionária poderosa na defesa da fé. A razão pela qual digo isso é simples. Se realmente ansiamos pela volta de Cristo e pela vinda do reino, então iremos gastar nossa vida para completar os pré-requisitos para sua vinda, a saber, Mateus 24.14 – “E será pregado esse evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim”. O fim não virá até que todas as nações (todos os grupos de pessoas) [3] recebam um testemunho crível do evangelho de Cristo. “Devemos admitir humildemente que somente Deus saberá quando esse sinal tiver se cumprido totalmente.”[4] Que será cumprido tem base na palavra dele, que disse: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt 24.35). Ele não voltará antes que o trabalho esteja completo George Ladd foi um dos meus professores no seminário e eu ficava impressionado pelo fato de que poucas coisas mexiam com ele mais profundamente do que o fato de a igreja não conseguir ver a relação entre a evangelização do mundo e a volta do Senhor. Só Deus, que nos disse que esse evangelho será pregado em todo o mundo para testemunho a todas as nações, saberá quando esse objetivo se cumpriu. Porém, eu não tenho necessidade de saber. Apenas sei uma coisa: Cristo não voltou ainda; portanto, a tarefa ainda não está terminada. Quando estiver terminada, Cristo virá. Nossa responsabilidade não é insistir na definição dos termos da nossa tarefa; nossa responsabilidade é completá-la. Enquanto Cristo não voltar, nossa tarefa não terá terminado. Vamos nos mexer e completar a nossa missão… Você ama a vinda do Senhor? Então aplicará todo o empenho para levar o evangelho ao mundo todo. Preocupa-me, à luz do ensinamento claro da Palavra de Deus, à luz da definição explícita do nosso Senhor de nossa tarefa na Grande Comissão (Mt 28.18-20), que a encaremos de modo tão leviano… O reino é dele; ele reina no céu e manifesta seu reino na terra na sua igreja e por meio dela. Quando tivermos cumprido a nossa missão, ele retornará e estabelecerá seu reino emglória. A nós compete não apenas esperar, mas também apressar a vinda do dia de Deus (2Pe 3.12).[5] Em outras palavras, há uma correlação direta entre amar a vinda do Senhor e trabalhar sem cessar pela causa da evangelização do mundo. Isso simplesmente aprofunda a relação entre o jejum e a vinda de Cristo. No Capítulo 5, veremos como o jejum inverteu o curso da História precisamente ao liberar a primeira grande leva de missionários em Atos 13.1-4. Isso está de acordo com as palavras de Jesus de que os discípulos iriam jejuar em virtude da saudade do Noivo. Isso porque o Noivo não virá até que o evangelho seja pregado às nações, e as nações sejam alcançadas por meio das brechas espirituais que são abertas pelo jejum e pela oração. Oração e pregação, intensificadas pelo jejum Então, há pelo menos estes dois modos pelos quais a igreja – a Noiva – deve expressar seu anseio pelo Noivo: primeiro pela oração (“Venha o teu reino… Maranata… Vem, Senhor Jesus!”) e segundo pela evangelização do mundo (“Esse evangelho será pregado a todas as nações… então o fim [o Senhor!] virá”). E, visto que Jesus disse: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9.15), não é de admirar que no Novo Testamento o jejum esteja ligado com precisamente dois elementos: a oração (Lc 2.37; Mt 6.6-18) e a evangelização mundial (At 13.1-4). O jejum é o ponto de exclamação no final de “Maranata, vem, Senhor Jesus!” É a aceitação modesta e voluntária do que irá custar para terminar a Grande Comissão: dor. Por meio dela vamos – ou nos juntamos com aqueles que vão – e dizemos: “Ó Senhor, faça de mim um meio de sua conquista das nações e da sua volta!” Vamos ansiar por ele e buscá-lo com mais intensidade do que Ana e Simeão. Deveríamos ter menos devoção do que esses santos pré-cristãos? Nós contemplamos sua glória, a glória do Unigênito do Pai, e deveríamos ansiar menos pela sua vinda? Estamos tão bem instalados no mundo que o pensamento de jejuar pelo final da História é impensável? Façamos isso pelo Rei! E o que dizem as pessoas mais idosas? Vocês conseguem sentir melhor o gosto da presença do Rei porque estão mais próximos? Vocês recorrem ao jejum pela volta do Rei? E vocês, jovens? Amam a Jesus a ponto de a volta dele ser a coisa mais importante que conseguem imaginar? Ou ele é algum tipo de conversa religiosa dos fins de semana que algumas vezes os ajuda a aliviar uma consciência culpada, mas não é alguém por quem vocês iriam querer interromper suas vidas? E o que pensam as pessoas de meia-idade entre nós? Como se sentem quando ouvem dizer que o jejum pela volta do Rei pode refletir a intensidade do desejo que sentem pela vinda do Noivo? Os projetos para uma aposentadoria há muito esperada enchem vocês com desejos mais fortes do que a perspectiva da vinda de Cristo? Porventura a paixão de Ana pelo Messias exerce algum tipo de atração sobre algum de nós? Almejamos o retorno de Jesus mais do que desejamos terminar nossa carreira profissional e concretizar os planos familiares? Ou a nossa próxima refeição? Não devemos jejuar pela volta do Rei? Não se trata de alguma prática devocional nova e estranha. É simplesmente dizer com nossa fome: com todo o nosso ser, ó Senhor, queremos que sua obra seja completada e seu reino venha. Com todo o nosso ser, ó Senhor, queremos a sua volta! Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Atos 13.1-3 A situação dos tempos requer com grande urgência uma plenitude do divino Espírito nos ministros, e não devemos nos dar nenhum descanso até que o tenhamos obtido. E, para [fazer] isso, acho que os ministros, acima de todas as pessoas, devem estar em oração e jejum em separado, como também em muita oração e jejum em companhia de outros. Parece-me que seria adequado, nas circunstâncias atuais, que os ministros de áreas vizinhas se reunissem com frequência e passassem dias em jejum e oração fervorosa entre si, diligentemente, buscando obter aqueles suprimentos extraordinários da graça divina dos céus de que precisamos neste tempo. Jonathan Edwards Some thoughts concerning the revival[1] 5 O jejum e o curso da História Um chamado por discernimento e anseio É perigoso apresentar uma pessoa, ou ministro, ou igreja como um modelo de jejum. Tão logo o fazemos, os pés de barro ficam visíveis. Com frequência, a desilusão se segue à admiração ingênua. Não há ninguém sem pecado, e todos os triunfos são misturados com imperfeições. Fazemos bem em equilibrar nosso apreço com o reconhecimento de que existem defeitos ocultos em todo santo, e a vitória de hoje não é segurança alguma de santidade amanhã. Não conseguimos nem mesmo adivinhar o coração por trás do triunfo de hoje. Nem o coração de outros nem o nosso próprio (1Co 4.4). Além disso, as histórias tocantes que ouvimos acerca do jejum muitas vezes têm passado por muitas mentes e muitas bocas de pessoas tão falíveis quanto nós. Que o seu prazer esteja na Palavra de Deus Tudo isso eu digo simplesmente para nos advertir a não transferir a raiz da nossa exultação da histórica Palavra de Deus escrita para a obra contemporânea de Deus relatada. Somente Deus nunca muda, mas os derramamentos de suas bênçãos fluem e refluem de maneiras por demais misteriosas, para que nossa pequena mente possa julgar. Tão logo pensamos que a justiça domina firmemente, alguma calamidade pecaminosa está se espalhando no meio. E justamente quando pensamos que as trevas estão tão espessas que tudo está perdido, alguém segura uma corda que toca um sino e traz um exército com tochas. Somente seremos capazes de manter a nossa estabilidade e confiança inabalável se conservarmos nosso foco no Deus imutável, e tomar cada maré enchente ou vazante como uma obra da sabedoria infinita para o cumprimento dos santos propósitos de Deus. No entanto, Deus ordena na sua Palavra que sejamos imitadores daqueles que conheceram a sua graça antes de nós. “Não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas” (Hb 6.12); “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (Hb 13.7). Se nos recusarmos a ser inspirados e guiados pelos santos comuns que receberam bênçãos extraordinárias, isso indica mais orgulho em nós do que pecado neles. O mesmo ocorre com o jejum. A Bíblia e a história da igreja são recheadas de relatos de notáveis feitos de Deus em resposta misericordiosa ao jejum e à oração do seu povo. Essas histórias não estão ali para serem ignoradas. Tampouco elas estão ali como uma panaceia para toda estação morna na vida da fé. Somos rápidos demais em julgar, com base na misericórdia de Deus na vida de um santo que jejua, que esse padrão em particular de piedade é a chave para a vida espiritual vital. O jejum e as imperfeições de Finney Por exemplo, muitos já leram a história da conversão de Charles Finney (1792-1875) e sua experiência subsequente de jejum, e a tomam como uma maneira normativa de manter um estado reavivado. Para a honra de Deus somente, contarei um pouco acerca da minha própria experiência nessa questão. Fui poderosamente convertido na manhã do dia 10 de outubro. Na tarde daquele mesmo dia e na manhã do dia seguinte, recebi batismos extraordinários do Espírito Santo, que passaram através de mim, como me pareceu, corpo e alma. Imediatamente me achei investido com tal poder de cima, que umas poucas palavras ditas aqui e ali a pessoas foram os meios da conversão imediata delas. Minhas palavras pareciam se prender como setas de arame farpado na alma dos homens.Elas cortavam como uma espada. Elas quebravam o coração como um martelo. Multidões podem testemunhar o fato. Muitas vezes, saía uma palavra sem que eu me lembrasse dela, produzia convicção e resultava quase que em imediata conversão. Algumas vezes me encontrava, em grande medida, vazio desse poder. Eu saía e fazia visitas e achava que não tinha causado nenhuma impressão salvadora. Eu exortava e orava com o mesmo resultado. Então, separava um dia para jejum e oração em particular, temendo que esse poder me abandonasse, e inquiria ansiosamente qual era a razão dessa aparente vacuidade. Depois de me humilhar e clamar por socorro, o poder retornava sobre mim com todo o seu frescor. Essa tem sido a experiência da minha vida.[2] O que devemos pensar de um testemunho como esse? Devemos concluir que dias repetidos de oração e jejum são a chave para um reavivamento contínuo? Devemos desprezar sua relevância porque se trata apenas de uma experiência ímpar de um homem com Deus? Não há dúvida de que, em algum lugar entre esses dois extremos, encontra-se a resposta humilde e moderada. Não somos sábios e experientes nas coisas de Deus o suficiente que não possamos aprender com a luta da fé de outrem. Deus pode, de fato, nos inspirar a separar um dia de jejum como lemos nesse caso, e ele pode nos encontrar ali com grande poder reavivador. Porém, ele pode não fazer isso. Outros buscaram e encontraram um despertamento sem jejum. Outros ainda jejuaram e oraram por duas, três, quatro ou mais semanas antes que uma vitória viesse. É um erro pensar que a maneira de Deus lidar com um dos seus filhos será a mesma com todos. Outro erro que podemos cometer ao admirar a obra de Deus na vida de pessoas que jejuam é pensar que as bênçãos de Deus implicam sua aprovação do comportamento e da doutrina delas. Porém, esse não é necessariamente o caso. Achamos difícil imaginar a razão pela qual Deus abençoa o ministério de uma pessoa se a doutrina dela é defeituosa e se pecados evidentes infectam o seu coração. Contudo, Deus pareceu estar usando Apolo, por exemplo, que era “homem eloquente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24), a quem Priscila e Áquila tiveram de tomar consigo e “com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus” (At 18.26). E Jesus adverte que no julgamento alguns irão dizer: “Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?” Mas ele lhes dirá: “nunca vos conheci” (Mt 7.22-23). Em outras palavras, o teste da verdade e justiça não é se há poder no ministério da pessoa. Charles Finney, por exemplo, aceitava uma teologia que era profundamente oposta à do seu contemporâneo calvinista Asahel Nettleton (1812-1844). No entanto, ambos foram usados por Deus no evangelismo.[3] De modo semelhante, John Wesley (o arminiano) e George Whitefield (o calvinista) foram usados por Deus para levar milhares de pessoas ao reino de Cristo. A conclusão disso não deve ser que a doutrina é uma questão indiferente. O mal duradouro de sustentar pontos de vista falsos acerca de Deus e da salvação não é anulado pelas evidências a curto termo das bênçãos de Deus não merecidas. De fato, no caso de Finney, há boa evidência de que ele mesmo se arrependeu de algumas de suas táticas espirituais, senão de seus pontos de vista incorretos sobre a soberania de Deus.[4] O fato extraordinário é que Deus tem seus propósitos sábios e soberanos para usar pessoas com defeitos e teologia incorreta para salvar os pecadores. Isso não é uma bênção sobre um erro, mas a graça apesar dele. O estandarte sobre cada bênção de Deus, sobre vidas e doutrinas defeituosas, encontra-se em Romanos 2.4 – “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?”. Portanto, nenhuma experiência de jejum é suficiente para merecer que a imitemos sem outras considerações associadas. Mediremos tudo pelas Escrituras. Não nos deixaremos levar pelos “sucessos” ou “bênçãos” que acompanham qualquer padrão particular de disciplina espiritual. Entendemos que Deus é soberano na dispensação de suas misericórdias: “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33.19). E nos humilharemos para aprender da experiência dos outros, mesmo daqueles dos quais discordamos, visto que Deus tem misericórdia e dá lições nos lugares mais inusitados. O jejum e o curso da história coreana Portanto, com a devida cautela, vamos agora observar, sem medo de sermos levados ao entusiasmo, que o curso da História mudou repetidas vezes por meio do jejum e da oração. Muitos exemplos podem ser dados. Nos últimos anos do século 20, o jejum e a oração se tornaram quase que sinônimos de igrejas na Coreia do Sul. E há uma boa razão para isso. A primeira igreja protestante foi plantada na Coreia em 1884. Cem anos depois, havia trinta mil igrejas. Isso é uma média de trezentas igrejas novas por ano em cem anos. No fim do século 20, os evangélicos compreendiam 30 por cento da população. Deus tem usado muitos meios para fazer essa grande obra. Um deles é uma recuperação não apenas da oração dinâmica, mas do jejum- oração. Por exemplo, somente nas igrejas da OMS (Overseas Missionary Society) mais de vinte mil pessoas completaram um jejum de quarenta dias – geralmente numa de suas “casas de oração” nas montanhas.[5] Para toda pessoa que tenha paixão pela supremacia de Deus, uma história como esta não pode passar sem despertar alguns fortes desejos. Aqui nos Estados Unidos da América, no final do século 20, a maioria das denominações está estagnada, exercendo muitíssimo menos impacto sobre as nossas culturas pagãs do que gostaríamos. Na Europa, os países nos quais ocorreu a flamejante Reforma são agora considerados “pós-cristãos” e friamente resistentes ao evangelismo transformador de vidas. Como é que podemos agora nos levantar e perguntar: poderia o Senhor determinar uma nova temporada de jejum e oração como um meio para fazer o reino avançar nos nossos dias? O jejum e a Palavra que marcou época na Antioquia Um dos mais claros incentivos bíblicos para se considerar o jejum como ato que modelou a História é encontrado em Atos 13.1-4: Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram. Enviados, pois, pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. A situação é que Saulo (Paulo) e Barnabé e mais alguns dos outros líderes da igreja da Antioquia estavam cultuando a Deus – “servindo eles ao Senhor” – e jejuando (v. 2). A julgar pelo que aconteceu, podemos deduzir, penso, que o encargo que eles tinham como uma equipe de liderança da igreja era este: “Para onde iremos a partir daqui como igreja?” Eles estavam jejuando para buscar a orientação do Espírito Santo para a missão deles. O desfecho foi mais magnífico do que qualquer planejamento magistral que uma igreja tenha empreendido. Eles estavam tão ansiosos pela orientação de Deus que queriam mostrar isso com a fome do corpo e não apenas com fome do coração. “Nós queremos a ti e queremos a tua liderança, ó Deus! Ó Espírito Santo, qual é a tua vontade para a missão desta igreja? Queremos ver-te e seguir-te mais do que queremos comer.” Perguntas que a Bíblia não responde Uma das coisas que incomodam a minha mente acerca de planejamentos na igreja local, a qual tenho servido agora por mais de dezessete anos, é que muitas perguntas a que precisamos responder não são respondidas na Bíblia, pelo menos não diretamente. Elas são do tipo das perguntas que os líderes em Antioquiaestavam fazendo: “Senhor, devemos começar um programa missionário? Devemos fazê-lo agora? Devemos enviar alguns dos nossos professores como os primeiros missionários? Devemos enviar Saulo, ou Simeão, ou Níger, ou Lúcio, ou Barnabé? Devemos enviar dois, três ou quatro? De que modo devemos enviá-los: por terra ou por mar? Devemos financiar o trabalho deles integralmente ou eles devem trabalhar para sustento próprio, ou esperar que haja ‘filhos da paz’ nas cidades em que eles forem que os sustentarão? Outras igrejas deverão se juntar a nós?”, etc. A maioria das perguntas que as equipes de planejamento de igrejas têm de responder é desse tipo. Onde vamos obter as respostas? Não minimizo o ensinamento bíblico sólido e básico: “transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). Mas esse “experimentar” da vontade de Deus em questões não morais (deveríamos enviar Saulo e Barnabé ou Lúcio e Simeão?) não é algo mecânico. Paulo orou fervorosamente para que os crentes transbordassem “de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual… frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.9-10). É algo espiritual discernir quais boas obras, dentre as dez mil possíveis, estão entre “toda boa obra” que pertence à minha vida e à minha igreja. Quem de nós pode dizer que chegamos a uma solução quando se refere a essa questão de discernir as melhores decisões quanto ao ministério? E então eu pergunto, com muita seriedade, não temos alguma coisa a aprender do fato de que esses profetas e mestres profundamente espirituais cultuaram e jejuaram enquanto buscavam a direção do Senhor? Considere quatro simples observações a respeito dessa história de Atos 13.1-4. Primeira, esse jejum foi feito depois da vinda de Cristo. Chamo a atenção para esse fato para que ninguém diga que esse jejum era parte da espiritualidade do Antigo Testamento e não do Novo Testamento. Argumentamos no Capítulo 1, com base em Mateus 9.15, que Jesus esperava que seus discípulos jejuassem quando ele tivesse voltado para o céu. Não é, portanto, de admirar que eles estivessem fazendo exatamente isso. Evidentemente, Saulo e Barnabé e os outros da Antioquia não criam que o jejum tivesse acabado como um odre velho com a vinda do evangelho e o ministério da nova aliança do Espírito. Segunda, o jejum de Atos 13 era comunitário. Pelo menos cinco deles estavam reunidos nessa devoção ao Senhor. Menciono isso porque outra preocupação com o jejum é que Jesus advertiu contra o jejum ser visto pelos homens. Ele disse: “Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.17-18). No entanto, é impossível jejuar em grupo e não ser visto pelos homens. Então, a pergunta que se faz é se o jejum comunitário contradiz o ensinamento de Jesus. Argumentei no Capítulo 3 que não. E isso é confirmado nesse caso pela prática dos apóstolos e mestres da igreja. Saulo e Barnabé evidentemente não entenderam que Jesus tivesse dito que o jejum comunitário é errado. A questão crucial não é se as pessoas sabem que você está jejuando, mas se você deseja que elas saibam que você está jejuando e assim se deleitar com a admiração delas. Terceira, esse jejum em Atos 13 provou ser uma ocasião de orientação especial do Espírito Santo. No versículo 2 diz: “E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. E “então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.3). Ao relatar isso dessa maneira, Lucas claramente quer que vejamos uma relação entre a adoração, a oração e o jejum de um lado, e a direção decisiva do Espírito Santo de outro: enquanto eles estavam “jejuando, disse o Espírito Santo”. Esse é um precedente bíblico importante para o envolvimento em adoração-jejum-oração na busca ardente da vontade de Deus para a nossa vida e a vida da igreja. Quarta, o jejum de Atos 13 mudou o curso da História. É quase impossível exagerar a importância histórica desse momento para o mundo. Antes dessa palavra do Espírito Santo, não parece ter existido nenhuma missão organizada da igreja para além da margem oriental do Mediterrâneo. Antes disso, Paulo não tinha feito nenhuma viagem missionária na direção do Ocidente, para a Ásia Menor, a Grécia, Roma, ou a Espanha. Antes disso, Paulo não tinha escrito nenhuma de suas cartas, que foram o resultado de suas viagens missionárias que começaram nesse ponto. Esse momento de oração e jejum resultou em movimentos missionários que arremessaram o cristianismo de uma posição de obscuridade à posição de religião dominante no Império Romano no período de dois séculos e meio, e que iria produzir 1,3 bilhão de adeptos da religião cristã atual, com um testemunho cristão em virtualmente todos os países do mundo. E treze em 27 dos livros do Novo Testamento (as cartas de Paulo) foram o resultado do ministério que foi lançado nesse momento histórico de oração e jejum. Então, penso que é justo dizer que Deus se agradou em tornar a adoração, a oração e o jejum a alavanca lançadora de uma missão que mudaria o curso da História do mundo. Haverá aqui alguma lição para nós? Deus tinha se movido pelo jejum muitas vezes antes disso Isso já havia acontecido, e aconteceria novamente repetidas vezes na História. Por exemplo, em 2Crônicas 20 os moabitas, os amonitas e meunitas marcharam contra Josafá, o rei de Judá. Eles formavam uma horda medonha de gente violenta marchando contra o povo de Deus. O que o povo poderia fazer? Que direção eles deveriam tomar? Os versículos 3 e 4 dizem: “Então, Josafá teve medo e se pôs a buscar ao Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá. Judá se congregou para pedir socorro ao Senhor; também de todas as cidades de Judá veio gente para buscar ao Senhor”. Então, houve um grande jejum nacional por orientação divina e livramento. Conforme relatam os versículos 14 e 15: “Então, veio o Espírito do Senhor no meio da congregação, sobre Jaaziel [o sacerdote]… e disse: Dai ouvidos, todo o Judá e vós, moradores de Jerusalém, e tu, ó rei Josafá, ao que vos diz o Senhor. Não temais, nem vos assusteis por causa dessa grande multidão, pois a peleja não é vossa, mas de Deus”. No dia seguinte, quando o povo de Judá saiu, eles viram que os povos de Moabe e de Amon tinham se destruído um ao outro e Judá levou três dias para recolher os despojos. O curso da História foi mudado pelo jejum do povo de Deus. As histórias da poderosa graça de Deus por meio do jejum são muitas. Poderíamos contar a história de Moisés jejuando por quarenta dias no monte Sinai quando recebeu a Lei de Deus, que iria não apenas guiar Israel por mais de três mil anos, mas que também se tornaria a base da cultura ocidental como a conhecemos (Êx 24.18; 34.28). Ou, poderíamos contar a história de como os judeus jejuaram por Ester quando ela arriscou a vida diante do rei Xerxes e fez que o plano contra Israel caísse sobre a cabeça de Hamã (Et 4.16). Ou poderíamos contar a história do jejum de Neemias pelo seu povo e pela cidade de Deus em ruínas, de modo que o rei Artaxerxes garantiu a ele toda a ajuda de que necessitava para voltar para Jerusalém e reconstruir seus muros (Ne 1.4). O curso da História foi mudado por muitos outros fatores além do jejum. Não estou aqui fazendo a apologia do jejum como se fosse a única disciplina. Apenas observo que Deus, de tempos em tempos, ordenou que esse fosse o meio de mudar o curso dos acontecimentos para o bem do seu povo. Um jejum nacional na Grã-Bretanha por livramento E então isso continuou a acontecer depois dos tempos bíblicos. John Wesley nos conta no seu diário de um tipo semelhante de livramento “bíblico” em1756. O rei da Grã- Bretanha conclamou um dia solene de oração e jejum por causa de uma ameaça de invasão por parte da França. Wesley escreveu, O dia de jejum foi um dia glorioso, como em Londres dificilmente se viu desde a Restauração. Todas as igrejas da cidade estavam mais do que cheias, e uma seriedade solene se via em todas as faces. Sem dúvida, Deus deu ouvidos à oração e haverá um prolongamento da nossa tranquilidade. E, então, numa nota de rodapé que ele acrescentou posteriormente: “A humilhação se tornou em júbilo nacional, pois a ameaça de invasão pelos franceses foi afastada”.[6] A redescoberta do jejum no nosso tempo Há em nossos dias um senso crescente entre muitos de que a redescoberta do jejum como um clamor do coração penitente a Deus por reavivamento possa ser o meio que Deus usaria para despertar e reformar sua igreja. Alguns observaram que em Atos 13.1-4 havia três atividades acontecendo: aqueles mestres e profetas estavam adorando, orando e jejuando. Dessas três atividades, duas estão vivenciando um ressurgimento mundial nos nossos dias. Quando consideramos o mundo todo, da nossa posição do final do século 20, vemos um despertamento notável na adoração. Nem todos concordam que a dimensão musical do despertamento seja uma bênção pura em qualidade lírica ou excelência musical. No entanto, quem pode negar que existem milhares de igrejas e movimentos adorando o Senhor com vitalidade e o foco centrado em Deus que 25 anos atrás não estimulavam o compromisso com Deus na adoração como fazem atualmente? Não apenas isso, há um extraordinário movimento de oração nos nossos dias. David Bryant documenta esse movimento em The hope at hand (A esperança ao nosso alcance), mostrando com dezenas de ilustrações que “Deus está movendo seu povo a orar especificamente, crescentemente e persistentemente por um reavivamento mundial”.[7] No entanto, das três atividades citadas em Atos 13.1-4 (adoração, oração e jejum), o jejum não tem experimentado esse despertamento, a não ser talvez em uns poucos lugares como na Coreia do Sul. Isso nos leva a perguntar: não poderia Deus ordenar que suas bênçãos plenas venham sobre a igreja quando prevalecemos em oração com a intensidade do jejum? Esse tipo de intensificação da oração é o que o jejum é. É um ponto de exclamação físico no final da sentença: “Nós ansiamos que o Senhor, ó Deus, venha em poder”. É um clamor com nosso corpo, não apenas com a alma: “Eu estou falando sério, Senhor! De tal magnitude é a fome que sinto de ti. Anseio pela tua manifestação mais do que anseio pelo alimento”. O chamado de Jonathan Edwards para o jejum no primeiro grande despertamento Que essa fome por Deus deve despertar um interesse renovado pelo jejum não é novo nem surpreendente. Isso já ocorreu nas épocas de avivamento. Enquanto os ventos do primeiro grande despertamento na América ainda sopravam em 1742, Jonathan Edwards, seu mais forte defensor e analista mais perspicaz, ansiava para que Deus desse continuidade à bênção e a aumentasse ao redor do mundo. Um dos meios que ele defendeu foi o jejum: A situação dos tempos requer com urgência a plenitude do Espírito divino nos ministros, e não devemos nos dar nenhum descanso até que o tenhamos obtido. E para [fazer] isso, acho que os ministros, acima de todas as pessoas, devem passar muito tempo em oração e jejum secretos, bem como também em muita oração e jejum em companhia de outros. Parece-me que seria benéfico, para as circunstâncias do tempo presente, se os ministros das áreas vizinhas se reunissem frequentemente, e passassem alguns dias em jejum e oração fervorosa entre si, zelosamente buscando aqueles suprimentos extraordinários da graça divina dos céus de que precisamos neste tempo.[8] Uma coisa a mais que eu mencionaria acerca do jejum e da oração é que acho que tem havido muita negligência por parte dos ministros; e que embora nas suas pregações eles recomendem e insistam muito no dever da oração secreta, muito pouco é dito acerca do jejum secreto. É um dever recomendado pelo nosso Salvador aos seus seguidores, da mesma maneira que a oração secreta é… Embora não suponha que o jejum secreto deva ser praticado numa maneira determinada e num curso constante como a oração secreta, contudo parece-me que esse é um dever que todos os que professam ser cristãos deveriam praticar e praticar com frequência. Há muitas ocasiões tanto de natureza espiritual quanto temporal que o requerem distintamente; e existem muitas misericórdias particulares que desejamos para nós mesmos e nossos amigos que seria adequado, dessa maneira, buscar a Deus.[9] Acredito que o povo de Deus nesta terra, numa época como esta, deveria cumprir o seu dever de jejuar e orar três vezes mais do que faz.[10] Nos nossos dias, vozes estão se levantando com um chamado semelhante pelo jejum e oração por reavivamento. No entanto, nem todos são tão biblicamente zelosos e cuidadosos como Edwards o foi na sua luta com as realidades do reavivamento, em vista das lições da História, da liberdade e da soberania de Deus e da autoridade da Escritura sobre as impressões subjetivas. As recomendações de Edwards quanto ao nosso chamado contemporâneo para jejuar Edwards esperava que esse grande despertamento fosse o último movimento do Espírito de Deus ao redor do mundo que traria a idade dourada do triunfo do evangelho antes da vinda de Cristo. Ele disse: “Não é improvável que essa obra do Espírito de Deus, que é tão extraordinária e maravilhosa, seja o alvorecer, ou pelo menos um prelúdio, dessa obra gloriosa de Deus, tantas vezes predita na Escritura, cujo progresso e instalação deverão renovar o mundo da humanidade”.[11] Isso não seria assim. Edwards estava enganado. Mas o ponto de vista dele acerca da liberdade e da soberania de Deus não lhe permitiu predizer a amplitude do reavivamento, nem a data da sua chegada, e nem a sua extensão global. Tampouco o fato de que não aconteceu do modo como ele esperava o levou a ficar desiludido com Deus ou a desanimar na causa da verdade. Houve aqueles que nos dias dele foram além da sua própria esperança e suas expressões mais cuidadosas do que era provável ocorrer. Eles falaram com base em revelações especiais e impressões subjetivas particulares do Espírito de Deus. Com respeito a essas impressões acerca do reavivamento, Edwards fez uma advertência que é relevante para os nossos dias. Rogo ao povo de Deus que seja muito cauteloso quanto a como dar atenção a essas coisas. Eu os tenho visto errar em muitíssimos casos; e sei, por experiência, que impressões têm sido feitas com grande poder e sobre a mente de verdadeiros santos, sim, santos ilustres; mas que, logo depois, sim, no meio de exercícios de graça extraordinários e doce comunhão com Deus, e amparados por passagens da Escritura que fortemente impressionaram as mentes, não são sinais seguros de que suas revelações sejam do céu: pois tenho visto tais impressões desapontarem, se provarem falsas pelo acontecimento, em alguns casos acompanhado por todas essas circunstâncias.[12] O que torna essa advertência tão crucial não é apenas que impressões subjetivas são correntes hoje com relação a possível reavivamento iminente, mas também que Atos 13.1-4 parece nos dar um modelo para buscar a direção de Deus que envolve impressões subjetivas. Lembre-se de que o versículo 2 diz: “E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Como foi que o Espírito Santo “disse” isso? Bem, nós não sabemos. Mas esse não foi o único caso em Atos em que o Espírito deu esse tipo de orientação direta. Por exemplo, em Atos 8.29 lemos: “Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse carro e acompanha-o”. E Atos 10.19-20 diz: “Enquanto meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão aí dois homens que te procuram. Levanta-te,pois, desce e vai com eles”. Há diretrizes no Novo Testamento para nos ajudar a discernir se essas alegações de ter ouvido o Espírito nos nossos dias vieram verdadeiramente do Senhor? Não é uma simples questão de se a pessoa adota ou não os pontos de vista carismáticos. Até mesmo evangélicos que pertencem às denominações tradicionais afirmam ter sido “impressionados pelo Espírito” ou “ter um senso da orientação de Deus”, ou pensar que “Deus colocou no coração deles” para fazer algo. A questão é: como devemos testar essas afirmações, especialmente quando elas podem envolver uma previsão acerca de um reavivamento ou um chamado para a igreja jejuar? Como testamos as impressões subjetivas? Eu sugiro algumas diretrizes. Primeira, observamos que em Atos 13.2 o Espírito falou a cinco mestres e profetas como um grupo. É claro que o Espírito poderia falar a uma pessoa apenas. No entanto, parece que seria sensato dizer que, quando mais pessoas são favorecidas por uma palavra do Espírito, um número maior de pessoas é informado acerca disso pelo Espírito. No Novo Testamento, não parece ser a maneira usada pelo Espírito obrigar a consciência dos cristãos por meio de impressões subjetivas dadas a outros. A autoridade apostólica obriga a nossa consciência à obediência completa (Gl 1.12; 1Co 14.37-38; 2Co 10.8; 13.10; 1Ts 2.13; 2Ts 3.6; 2Pe 3.1-2, 15-16). No entanto, outras alegações quanto à direção divina devem ser “testadas” (1Ts 5.21). Esse chamado por prova está de acordo com a sugestão de que quando mais pessoas são obrigadas a seguir, mais pessoas serão levadas a seguir. Não é o indivíduo solitário que sujeita o corpo de Cristo. Segunda, a orientação normativa no Novo Testamento segue o padrão de Romanos 12.2: “transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Isso não precisa eliminar impulsos incomuns e impressões que vêm do Senhor, mas sugere que a renovada “mente de Cristo” (1Co 2.16), modelada pela palavra de Cristo e permeada pelo Espírito de Cristo, manterá o equilíbrio na interação da impressão subjetiva versus a reflexão espiritual. Terceira, a alegação de ter uma impressão vinda do Senhor precisa estar de acordo com o ensinamento da Escritura, seja de passagens específicas, caso alguma seja de relevância imediata, ou com o caráter, o espírito e a trajetória do todo. Quarta, o uso incorreto da Escritura para apoiar impressões bíblicas dará aos cristãos sensatos um motivo para hesitação. Algumas vezes, a revelação particular é afirmada quanto a um chamado específico de Deus para a igreja que não é necessariamente antibíblico, mas para a qual a Escritura é usada para uma função que nunca foi dela. É improvável que o Espírito faça isso. Ele inspirou as Escrituras e iria, ao que parece, manejá-las de acordo com o significado que ele deu a elas em primeiro lugar. Portanto, quando é feita a afirmação de que o Espírito trouxe essa ou outra passagem à mente, que é então mal usada, pode-se duvidar de que a orientação do Espírito esteja sendo corretamente percebida. Quinta, a reputação da pessoa que está falando é relevante. Com que nível de precisão e utilidade ele ou ela anteriormente discerniu esses tipos de impressão? A experiência tem demonstrado que Deus confiou a essa pessoa uma comunicação antecipada sobre seus atos em outras ocasiões? A pessoa é estável e de confiança no geral? Há uma base bíblica doutrinária ampla a partir da qual a pessoa possa esperar estar discernindo os pensamentos verdadeiros ou falsos que competem pela convicção na mente de todos? Testando o uso de 2Crônicas 7.14 Este é o meu esforço para dar atenção à exortação de Edwards de que “sejamos muito cautelosos” com impressões subjetivas nos nossos dias. Por exemplo, devemos ser cuidadosos com as predições de que em nossos dias os Estados Unidos irão experimentar um grande despertamento espiritual numa data específica. Esse tipo de predição, tão frequentemente repetido na história da igreja, pode levar a grande desilusão se Deus tiver um plano diferente. Mais relevante para a nossa preocupação imediata é o perigo de que impressões subjetivas possam também, de tempos em tempos, ditar à igreja que essa ou aquela disciplina espiritual, como jejum, é a chave bíblica para o reavivamento. Edwards nos alertou dizendo que “passagens das Escrituras fortemente impressas na mente” de “santos ilustres” não são sinais seguros de que o uso dessas passagens está correto. Uma das passagens mais comumente citadas na esperança de reavivamento iminente é de 2Crônicas 7.14: “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra”. Usos incorretos desse versículo diminuem a nossa confiança nas previsões que alguns fazem com respeito a um reavivamento iminente. Em primeiro lugar, no contexto original em que Deus diz essas palavras a Salomão, o termo “meu povo” se refere ao povo de Israel, e, portanto, o termo “sua terra” se refere à terra que é realmente “deles” no sentido que Deus lhes deu como uma bênção pactual, a saber, a terra de Israel. No entanto, se aplicarmos essa passagem à nossa situação contemporânea, “meu povo” se referiria à igreja cristã que não pode dizer, seja qual for o país em que seus membros residam, que esse país é a “terra deles”. A igreja não tem terra no sentido em que Israel tinha uma terra. A igreja cristã é um povo peregrino. Nós somos “peregrinos e forasteiros” (1Pe 2.11). Portanto, a aplicação correta de 2Crônicas 7.14 seria, talvez, que se a igreja se humilhar, orar e buscar a face de Deus e se desviar de seus maus caminhos, então Deus se inclinará e sarará a igreja. Mas seria extrapolar a passagem se dissermos que qualquer país em que a igreja cristã se humilhar irá vivenciar um grande despertamento. Outro erro seria elevar qualquer disciplina espiritual como a chave decisiva para um despertamento desse tipo. Precedentes bíblicos e históricos nos incentivariam a buscar reavivamento e despertamento por meio da oração e do jejum. No entanto, esses mesmos precedentes nos desencorajariam de fazer de qualquer atividade espiritual a chave que deve abrir o despertamento que buscamos. Seria especialmente enganoso ligar o jejum, por exemplo, a 2Crônicas 7.14 como uma maneira segura de cumprir esse versículo – por pelo menos três razões. Uma das razões é que 2Crônicas 7.14 não menciona o jejum. Uma segunda razão é que nem todas as outras referências em 2Crônicas, nas quais Deus abençoa aqueles que se humilham de acordo com 2Crônicas 7.14, envolvem o jejum (12.6-7, 12; 32.26; 33.12-13, 19; 34.27). Isso absolutamente não nega que o jejum seja um meio legítimo de nos humilhar diante do Senhor, mas simplesmente diz que não existe nenhuma garantia bíblica para se pensar que esse versículo é um chamado para jejuar. A terceira razão para não associar o jejum com 2Crônicas 7.14, como a chave para esse versículo, é que é possível fazer jejuns extraordinários e ainda assim não nos humilhar, orar, buscar a Deus e se converter dos maus caminhos. Isso é claro em inúmeras passagens. Por exemplo: Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando trouxerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, pela fome e pela peste. Jeremias 14.12 Fala a todo o povo dessa terra e aos sacerdotes: Quando jejuastes e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante esses setenta anos, acaso, foi para mim que jejuastes, com efeito, para mim? Zacarias 7.5 Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta? Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho. Isaías 58.3 A ambiguidade do jejum Todasessas passagens são designadas para nos advertir a não elevar qualquer ritual externo, como o jejum, até o nível de uma chave certa para iniciar um reavivamento. Deus é livre para enviar reavivamento com ou sem jejum. Jonathan Edwards ansiava por um reavivamento tanto quanto outra pessoa, e ele clamou por oração e jejum alto e em bom som. No entanto, também descobriu algo profundo na sua própria experiência acerca da liberdade da soberania de Deus. Ele escreveu: Com quanta frequência nós temos zombado de Deus com pretextos hipócritas de humilhação, como nos nossos dias anuais de jejum público e outras coisas, enquanto em vez de nos reformar, apenas pioramos cada vez mais; como esse tempo era morto em toda parte antes desse trabalho começar. Se atentarmos para essas coisas, seremos os imbecis mais ingratos se não reconhecermos a visitação de Deus a nós, como ele tem feito, como um exemplo de triunfo glorioso da graça gratuita e soberana.[13] Nesse caso, o argumento dele é que o jejum público e outras austeridades foram feitos por um tempo muito longo, porém eram cheios de fingimento e indiferença. As pessoas não estavam “abandonando seus maus caminhos” enquanto jejuavam. Elas não estavam “buscando a face do Senhor” de coração enquanto jejuavam. No entanto, subitamente como o vento que sopra onde ele quer (Jo 3.8), o reavivamento veio. Disso Edwards conclui que o reavivamento é “um exemplo do triunfo glorioso da graça gratuita e soberana”. Que isso é o que foi então, e o que também será quando e se ele vier hoje. E possa Deus nos conceder que venha! A paixão de Edwards e de Brainerd Apesar de todas as advertências de Jonathan Edwards acerca do mau uso das impressões subjetivas ao promover o jejum (ou qualquer outra coisa), ele não hesitava em elogiar a importância dele para a missão e o ministério da igreja. Além do chamado para orar e jejuar anteriormente citado, existe um relato longo e doloroso do seu amigo, o jovem missionário entre os indianos, David Brainerd. David Brainerd nasceu no dia 20 de abril de 1718, em Haddam, Connecticut. Nesse ano, John Wesley e Jonathan Edwards completaram 14 anos de idade. Benjamim Franklin completou 12 e George Whitefield, 3. O grande despertamento estava logo além do horizonte e Brainerd iria passar pelas duas ondas dele, entre os anos de 1730 e o início de 1740, e depois morreria de tuberculose na casa de Jonathan Edwards com a idade de 29 anos, em 9 de outubro de 1747. Jonathan tinha tal estima por esse jovem que se esforçou por preservar e editar seus periódicos e seu diário. E é neste que vemos os pontos de vista de Brainerd e de Edwards a respeito da importância do jejum. Por exemplo, baseado na analogia de Atos 13.1-4, Brainerd buscava a orientação do Senhor para seu ministério por meio de jejuns periódicos. Segunda-feira, 19 de abril. Reservei este dia para jejuar e orar a Deus pela sua graça, especialmente para me preparar para a obra do ministério, me dar divino auxílio e direção em meus preparativos para essa grande obra, e no seu tempo oportuno “me enviar para a sua colheita”. Consequentemente, na parte da manhã, empenhei-me em rogar pela sua presença divina para o dia, e não sem alguma animação. À tarde, senti uma energia para interceder pelas preciosas almas imortais, pelo progresso do reino do meu querido Senhor e Salvador do mundo; e, ao mesmo tempo, uma resignação muitíssimo doce e mesmo um consolo e alegria nos pensamentos de sofrer dificuldades, aflições e até a morte, ao promovê-lo; e senti- me especialmente engrandecido ao rogar pela iluminação e conversão dos pobres pagãos.[14] Para Edwards, esse uso do jejum não era apenas louvável para missionários como Brainerd, mas também para “ministros e cristãos individuais”. Era de fato um meio de bênçãos contínuas na vida de Brainerd e poder nas nossas também. Seu exemplo e sucesso com relação a um dever em especial podem ser de grande utilidade tanto para os ministros quanto para os cristãos individuais; quero dizer, o dever do jejum secreto. O leitor viu quanto o senhor Brainerd elogia esse dever, e com que frequência ele próprio o praticava; tampouco se pode deixar de observar quanto ele era fortalecido e abençoado nele, bem como isso era evidentemente um grande benefício para sua alma. Dentre todos os muitos dias que ele passou em jejum secreto e oração, que ele registra no seu diário, dificilmente há um caso no qual ou ele não fosse atendido ou imediatamente seguido de sucesso evidente e uma extraordinária bênção em produtividade especial e consolo do Espírito de Deus; e isso muito frequentemente antes que o dia terminasse.[15] É por essa razão que Edwards insistia com pastores e pessoas leigas do seu tempo para que se entregassem com diligência triplicada (veja linhas atrás) à disciplina da oração e do jejum. Tinha sido provado para Brainerd e centenas de outros na história da igreja ser um meio de “sucesso evidente e uma extraordinária bênção em produtividade especial e consolo do Espírito de Deus”. Em outras palavras, o jejum provou ser um caminho para o despertamento e reavivamento. Um apelo aos pastores de um puritano — Shepard Outra ilustração desse forte compromisso com o jejum como o caminho para o cristianismo vital vem de um século antes de Jonathan Edwards, na Nova Inglaterra. Thomas Shepard nasceu na Inglaterra em 1605 e veio para os Estados Unidos em 1635. Como um pastor na Nova Inglaterra, ele pregou uma série de mensagens que foram publicadas como The parable of the ten virgins (A parábola das dez virgens), o que é significativo porque Jonathan Edwards citou esse livro mais do que qualquer outro ao escrever sua obra-prima intitulada Treatise concerning the religious affections (Tratado a respeito dos sentimentos religiosos). Cotton Mather, que viveu de 1663 a 1727, preservou as histórias de muitos ministros do início da Nova Inglaterra incluindo a vida de Thomas Shepard. Suas memórias revelam algumas das raízes do profundo compromisso de Edwards com o jejum como parte da vida ministerial e um caminho para o reavivamento. Mather convida-nos a entrar no gabinete de Thomas Shepard: Se o seguirmos até o seu querido gabinete, ali o encontraremos dando-se ao luxo de um exemplo ainda mais notável e eminente de uma caminhada santa. Ali, além de suas súplicas diárias, ele fazia algo que tinha uma tendência poderosa de manter seu próprio espírito num humor saudável, vigoroso e vicejante, e de atrair as múltiplas bênçãos de Deus sobre todas as pesadas responsabilidades que ele tinha em suas mãos; e era algo que, sem o qual, ele pensava que nunca poderia demonstrar ser um cristão zeloso ou um ministro muito útil; isso era que ele dificilmente se permitia passar um mês sem pelo menos um dia nos exercícios de jejum secreto diante do Senhor. É extraordinário que cada um daqueles que são conhecidos no livro de Deus por jejuns milagrosos [Moisés, Elias, Jesus] foram honrados por Deus com a alimentação milagrosa de outros homens. Nosso [rev.] Shepard achava que nunca realizaria grandes coisas na alimentação do seu rebanho se ele mesmo não fizesse grandes coisas sozinho no jejum.[16] O próprio Mather claramente aprovava esse compromisso com o jejum e ansiava por um grande despertamento no seu próprio tempo. É interessante observar que a escatologia de Mather era diferente da de Edwards, mas ambos ansiavam e oravam por um despertamento. Edwards era um pós-milenarista, e Mather era um pré-milenarista. Edwards orava por um grande despertamento que estabeleceria uma era dourada de dominação cristã no mundo antes do retorno de Cristo. “Mather estava convencido de que a volta iminente de Cristo seria precedida tanto por um declínio espiritual que ele viu na Nova Inglaterra e no protestantismo europeu, quanto por extraordinários derramamentos do Espírito Santo produzindo pontos brilhantes de reavivamento e missõesmundiais, e especialmente a reunião dos judeus convertidos.”[17] Hoje, isso é duplamente encorajador. Aponta o caminho para cruzar as diferenças doutrinárias de relativamente pouca importância na direção da união em oração e jejum por amor do reavivamento e reforma do povo de Deus, bem como para o despertamento do nosso panorama americano espiritualmente morto. Aponta até mesmo para o caminho de uma oração de esperança comum, mesmo se não concordarmos com o cenário preciso do fim dos tempos. O mais encorajador de tudo E talvez o mais útil do que tudo é isto: Cotton Mather morreu em 1727, um pouco antes dos ventos do primeiro grande reavivamento nos Estados Unidos terem começado a soprar. Richard Lovelace ressalta que a esperança de Mather por um despertamento amplo arrefeceu justamente no final da sua vida.[18] Se ele pelo menos tivesse visto o que uma década traria! Que o Senhor conceda que essa paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas para a alegria de todos os povos não enfraqueça, mas somente cresça e se intensifique por meio da oração e do jejum. E possa Deus de fato levantar milhões que estão tão famintos por ele, de modo que não possam deixar de clamar de corpo e alma: “É assim, ó Deus, nesta intensidade, que ansiamos pela vossa plenitude na igreja e vossa glória no mundo!” Porventura, não é esse o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Isaías 58.6-8 Cerca de um bilhão de pessoas vivem em condições de pobreza absoluta sem contar nem mesmo com os recursos essenciais – sem alimentação, vestuário, abrigo, ou cuidados médicos adequados. Quatrocentos milhões são severamente desnutridos, incluindo mais de duzentos milhões de crianças. Larry Libby The cry of the poor[1] 6 Encontro com Deus no jardim da dor Um jejum diferente por amor aos pobres Um dos maiores pregadores do primeiro milênio da igreja cristã foi João Crisóstomo, o bispo de Constantinopla, no século 4o. Ele nos legou uma das mais arrebatadoras afirmações que eu jamais conheci acerca do valor do jejum. Ele era conhecido como um asceta na era do luxo em Constantinopla. O seu estilo de vida de tal modo ofendia o imperador Arcádio e sua esposa Eudóxia, que ele foi finalmente expulso e morreu em 407 d.C. Portanto, Crisóstomo incorporava, ao que parece, não apenas a disciplina do jejum, mas também os votos de uma vida santa que, como veremos a seguir, vão ainda mais longe do que privar-se de alimento. Jejuar é, no que diz respeito a nós, uma imitação dos anjos, uma desconsideração pelas coisas presentes, uma escola de oração, um alimento para a alma, um freio para a boca, uma anulação da concupiscência: ele abranda a raiva, mitiga a ira, acalma a agitação da natureza, estimula a razão, clareia a mente, alivia a carne, afugenta as contaminações da noite, liberta da dor de cabeça. Pelo jejum, um homem obtém comportamento sereno, livre expressão vocal e corretas percepções da sua mente.[2] Entendo que Crisóstomo quis dizer que o jejum tinha esses efeitos positivos sobre ele e nos outros de tempos em tempos, não que sempre o tenha, nem que auxilie a todos com todos esses benefícios. Por exemplo, para algumas pessoas o jejum causa dor de cabeça (pelo menos temporária) em vez de tirá-la. Não obstante, milhares já ouviram a Palavra do Senhor em Mateus 9.15 que “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias [seus discípulos] hão de jejuar”, e elas já provaram seu imenso valor espiritual. Quanto mais você lê a respeito do jejum na História, mais variados aparecem os testemunhos dos seus benefícios. (Veja o Apêndice: “Citações e experiências”.) Os riscos do jejum Entretanto, o que já vimos e veremos agora novamente é que existem riscos em jejuar. Não estou me referindo a riscos físicos. Estes você pode evitar se seguir diretrizes simples.[3] Estou me referindo a riscos espirituais. É possível jejuar de uma maneira que será muito desagradável ao Senhor e espiritualmente destrutiva para você mesmo. Se jejuar, por exemplo, para ser visto pelas outras pessoas, Jesus disse que você recebe delas a sua recompensa, e não será respondido pelo seu Pai (Mt 6.16). Para testar suas razões, ele disse que você deve seguir certos passos para não ser visto pelos outros, mas somente por Deus: penteie seu cabelo, lave o seu rosto, e não mostre semblante do tipo: “coitado de mim”. Então – se os seus motivos forem puros – seu Pai que vê em secreto lhe recompensará. O jejum e o sofrimento da cidade Mas essa não é a única advertência acerca de jejum na Bíblia. O profeta Isaías entregou uma palavra muito forte que tem tremenda relevância para os nossos dias. Para mim, como para os outros, ela tem demonstrado ser uma palavra muito pessoal. Eu vivo e ministro na cidade. Estou rodeado pelo tipo de calamidade humana que se amontoa nos centros urbanos. Vivo continuamente com a questão de como a minha fé – incluindo o jejum – se relaciona com essas realidades. Isaías 58 despertou em mim, e em muitos na minha igreja, uma paixão de gastar e ser gasto para o bem daqueles em maior necessidade. Já funcionou mais de uma vez dar os nossos bens como igreja quando ponderamos acerca do que significa espalhar uma paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas no centro da cidade. Clama a plenos pulmões, não te detenhas, ergue a voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados. Mesmo nesse estado, ainda me procuram dia a dia, têm prazer em saber os meus caminhos; como povo que pratica a justiça e não deixa o direito do seu Deus, perguntam-me pelos direitos da justiça, têm prazer em se chegar a Deus, dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta? Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho. Eis que jejuais para contendas e rixas e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje, não se fará ouvir a vossa voz no alto. Seria esse o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isso jejum e dia aceitável ao Senhor ? Porventura, não é esse o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda; então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso; se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas jamais faltam. Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações e serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne habitável. Bill Leslie descobre o jardim regado Na nossa igreja, nãosomos os únicos que ouvimos uma palavra pessoal de Deus em Isaías 58. Eu me lembro de um testemunho de Bill Leslie, o antigo pastor da LaSalle Street Church em Chicago, que havia tido um longo e profícuo ministério na cidade, semelhante ao descrito em Isaías 58. Ele esteve em Minneapolis uma vez e contou de um quase colapso nervoso que teve e como um mentor espiritual o direcionou a esse capítulo. Ele disse que foi o versículo 11 que o salvou de um beco sem saída de exaustão e desgaste. ¹⁰ se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia. ¹¹ O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos [como a cidade de Chicago] e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas jamais faltam. O que deixou o pastor Leslie tão perplexo foi o fato das promessas de Deus de nos fazer como um jardim regado (não apenas um ministério regador, mas um ministério regado). Ou seja, iremos receber a água de que ‐ necessitamos para nos revigorar, e nos tornaremos “um manancial cujas águas jamais faltam” – para os outros – para o ministério exigente, exaustivo e extenuante do serviço urbano. Isso lhe deu um modelo de vida divina que o tirou da crise e o manteve trabalhando por muitos anos mais. A coisa extraordinária que precisamos ver aqui é que Isaías chama essa experiência, de ser regado como um jardim para os outros, de um tipo de jejum. Divida o seu pão com o faminto mesmo quando você está com câncer Há pelo menos outra experiência que tive com essa passagem que a tornou tão pessoalmente atraente. Doug Nichols é atualmente o presidente da Action International Ministries [Ministérios de ação internacional], uma missão que se concentra especialmente nos milhões de crianças de rua nas cidades grandes do mundo. Ele é o tipo de homem que telefona aos obreiros da nossa igreja durante uma crise internacional e sugere que aluguemos um jato para levar umas centenas do nosso povo a Ruanda para ajudar a enterrar os mortos para que os médicos e enfermeiras possam fazer o que eles foram enviados para fazer. Ele se concentra de maneira incansável em derramar sua vida pelos desamparados que necessitam de Cristo. Por exemplo, ele me escreve de vez em quando e quase sempre inclui alguma “facada” como esta num P. S. no final de sua carta: “Neste último minuto que talvez você tenha gasto lendo esta carta, 28 crianças morreram de desnutrição e enfermidades que poderiam ter sido facilmente evitadas. 1.667 morrem a cada hora, quarenta mil crianças morrem diariamente! Por favor, ore com AÇÃO por mais missionários que levem o evangelho a essas crianças”. Doug foi diagnosticado com câncer de cólon em abril de 1993. Depois da cirurgia, da colostomia e dos tratamentos com radiação, os médicos lhe deram uma chance de 30 por cento de vida. Durante a horrenda guerra civil entre os Hutus e Tutsis, ele entrou num avião e foi para Ruanda com uma equipe de pessoas, incluindo alguns da nossa igreja. Seu oncologista não cristão disse que ele iria morrer em Ruanda. Doug disse que isso não seria problema porque ele estaria no céu. O oncologista ficou aflito e telefonou para o cirurgião de Doug para pedir-lhe que o ajudasse a fazer Doug desistir de ir a Ruanda. O cirurgião, que é um cristão, disse que Doug estava preparado para morrer e ir para o céu. Quando ficamos sabendo que Doug iria – com seu câncer e sua colostomia – a Ruanda, alguns de nós, da equipe administrativa, nos reunimos na sala de oração para orar por ele. Eu me lembro de ter sido conduzido especificamente a Isaías 58.7-8, então oramos por Doug. Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Então, romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda; Oramos muito especificamente para que a alimentação dos famintos e a acomodação dos desabrigados em Ruanda não matassem Doug Nichols, mas o curassem. De Ruanda, Doug ligou para seu oncologista e lhe disse que não estava morto. Quando voltou, ele fez uma bateria de exames que resultaram no seguinte resultado: NED: nenhuma evidência de doença. Somente Deus sabe do futuro de Doug Nichols e sua fé e seu ministério extraordinários, mas por ora Isaías 58 vive em carne e osso na vida de Doug enquanto ele se gasta pelas crianças. Assim, você pode ver que na minha vida Isaías 58 tem algumas associações muito significativas. O jejum que ele proclama não é do tipo comum. E estou orando para que as histórias do seu poder transformador de vidas sejam multiplicadas por meio deste livro. Jesus amava esse profeta Há algo muito querido ao coração de Jesus em Isaías 58. Dá para ouvir o eco disso nas palavras de Jesus em Lucas 4.18 (“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos”), em Mateus 25.35 (“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes”) e em João 7.38 (“Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”). O tema de Isaías 58 permeia o ministério de Jesus – e cada vez mais ele deveria permear o nosso ministério também. Jejum como um verniz para o vício Nos três primeiros versículos, Deus faz uma acusação contra seu povo. Ele diz a Isaías para clamar com altos gritos e declarar à casa de Jacó os pecados deles. Mas os pecados deles estão mascarados com um surpreendente verniz de fervor religioso. Isso é que é tão chocante e sério, especialmente para nós que somos religiosos e que praticamos as disciplinas religiosas como o jejum. Preste atenção à acusação: “Mesmo nesse estado, ainda me procuram dia a dia, têm prazer em saber os meus caminhos; como [ou seja, como se eles fossem] povo que pratica a justiça e não deixa o direito do seu Deus, perguntam-me pelos direitos da justiça, têm prazer em se chegar a Deus” (v. 2). Em outras palavras, eles agem como se fossem uma nação reta e obediente. E se convencem de que realmente querem Deus e seus caminhos. É terrível viver nesse tipo de ilusão. Ele prossegue no final do versículo 2: “perguntam-me pelos direitos da justiça, têm prazer em se chegar a Deus”. No entanto, eles não são sinceros. Querem que Deus intervenha em favor deles com julgamentos justos, porque as coisas não estão indo bem, como veremos logo a seguir. No entanto, não veem o problema real. Gostam de ir cultuar. Falam a linguagem da intimidade com Deus. Eles podem até mesmo ter experiências religiosas comoventes e ascéticas nos seus esforços para se achegar a Deus. Mas algo está errado. Cuidado com amar amar a Deus em vez de amar a Deus Essa é uma advertência muito relevante para nós em dias de grande renovação de culto. Muitas pessoas estão descobrindo a alegria de ter um encontro com Deus em períodos extensos de cânticos carregados de sentimentos pelo Senhor. Pessoalmente, acho que tais sessões de deixar- se ficar diante do Senhor são uma comunhão muito rica com ele. Porém, vejo um perigo. O perigo é que sutilmente passamos de amar a Deus nesses momentos para amar amar a Deus. Esse foi o modo que um dos meus colegas expressou recentemente. Em outras palavras, começamos a saborear não a glória de Deus, mas a atmosfera criada pela adoração. Quando isso acontece, nos abrimos para a hipocrisia. E sob um manto de grande fervor religioso, inconsistências mortais podem emergir na nossa vida. Tudo parecia tão bom Em Isaías 58, algo está errado no culto. No versículo 3, o povo expressa a frustração que sente, mas não sabe o que está errado. Eles dizem:“Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta?” De fato, os versículos 2 e 3 mencionam cinco atividades religiosas que eles estavam fazendo em vão. No versículo 2 diz que (1) eles estão procurando a Deus; (2) têm prazer em saber os meus caminhos; (3) pedem a Deus decisões justas; (4) têm prazer em se achegar a Deus. E, então, no versículo 3, eles estão (5) jejuando e se afligindo. No entanto, apesar de tudo isso, Deus diz a Isaías: “Clama a plenos pulmões [não baixinho, não suavemente, mas grita alto]… anuncia ao meu povo a sua transgressão” (v. 1). Eles estavam jejuando. Estavam buscando a face de Deus. Estavam orando. Estavam fazendo um tipo de humilhação exterior de si mesmos. Tudo isso soa exatamente como o que se espera que façamos, de acordo com 2Crônicas 7.14. Contudo, esse jejum e esse culto não são agradáveis ao Senhor. É o tipo de jejum e culto que nós não queremos. E, no entanto, perguntamos: o que há de errado em buscar a Deus e se deleitar em conhecer os seus caminhos, e pedir- lhe decisões justas, e se deleitar com a proximidade dele, e jejuar e nos humilhar diante dele? O que há de errado nisso? Tudo isso parece ser tão exatamente do jeito que falamos acerca do culto no seu melhor. Porventura não é isso racional? Não nos faz tremer? Não nos faz querer ser tão autênticos com Deus de modo que nunca fôssemos atemorizados pelo Senhor dessa maneira – com nossas práticas religiosas mais zelosas e desejos expostos como um impostor? O que há de errado com o culto deles? Deus responde: Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho. Eis que jejuais para contendas e rixas e para ferirdes com punho iníquo; jejuando assim como hoje, não se fará ouvir a vossa voz no alto. Seria esse o jejum que escolhi, que o homem um dia aflija a sua alma, incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si pano de saco e cinza? Chamarias tu a isso jejum e dia aceitável ao Senhor ? (v. 3b-5) Então, esse é o problema. Os acompanhamentos éticos, práticos e relacionais do jejum são o teste real da autenticidade do jejum. Deus lista as formas religiosas externas do jejum: humilhação e aflição de si próprio (privação de alimento), curvar a cabeça como um junco, estender panos de saco e cinzas. Depois, ele lista os acompanhamentos antiéticos do jejum: vocês continuam a buscar seus próprios prazeres (de outra maneira que não seja comida), fazem todos os seus empregados trabalhar duro, tornam-se irritáveis ou contenciosos e promovem rixas; e chegam a ponto de entrar em brigas. E Deus pergunta: “seria este o jejum que escolhi?” A resposta é não. O paradoxo do jejum autoindulgente Desse modo, temos nesse caso outro teste para saber se o jejum é autêntico ou não. Jesus disse: se você estiver jejuando para ser visto pelos outros, já ganhou a sua recompensa. Isaías disse: se o seu jejum o torna indulgente em outras áreas, duro com os empregados, irritável e contencioso, então seu jejum não é aceitável a Deus. Assim, Deus está misericordiosamente nos advertindo contra os perigos de substituir o viver reto pelas disciplinas religiosas. Precisamos, com extrema urgência, avaliar essas questões. A hipocrisia é uma praga terrível no culto de adoração a Deus. Devemos ser zelosos no que diz respeito às implicações de longo alcance da adoração na nossa vida e na nossa igreja. Nenhum culto – nenhuma pregação, nenhum louvor, nenhuma oração, nenhum jejum, independentemente do quanto intenso ou belo ele seja – que nos torne exigentes demais com os trabalhadores na segunda-feira, ou contenciosos com nosso cônjuge em casa, ou autoindulgentes em outras áreas da nossa vida, ou irritados o suficiente para bater em alguém, é culto genuíno e agradável a Deus. Não se engane quanto a isto: o jejum verdadeiro pode ser um meio abençoado por Deus de vencer a dureza no trabalho, a briga em casa, e autoindulgência e a ira. No entanto, se o jejum se tornar um disfarce religioso para minimizar essas coisas e deixá-las continuar indefinidamente, então ele se torna hipócrita e ofensivo a Deus. O trabalho da segunda-feira autentica o culto de domingo A maneira como você trata o seu pessoal na segunda-feira é o teste da autenticidade do seu jejum no domingo. O jejum que deixa nossa vida sem mudança no pecado é alvo da zombaria de Deus: “Seria esse o jejum que escolhi, que… incline a sua cabeça como o junco?” (v. 5). Em outras palavras, os gestos desse tipo de jejum não são mais espirituais do que um junco encurvado num pântano. Ai do jejum que deixa o pecado na nossa vida intacto. O único jejum autêntico é o jejum que inclui um ataque espiritual contra o nosso próprio pecado. Seria o nosso jejum realmente uma fome por Deus? Testamos isso examinando se ansiamos pela nossa própria santidade. Querer Deus é odiar o pecado. Isso porque Deus é santo, e não podemos amar a Deus e amar o pecado. O jejum que não se destina a matar de fome o pecado enquanto se banqueteia em Deus é enganar-se a si próprio. Não é realmente de Deus que temos fome nesse tipo de jejum. A fome do jejum é uma fome por Deus, e o teste dessa fome é examinar para ver se ela inclui uma fome por santidade. O jejum se destina a matar de fome o pecado, não a nós Se houver um foco de pecado não resolvido na nossa vida e, em vez de jejuar por isso, estivermos jejuando por alguma outra coisa, Deus vai vir a nós e dizer: “O jejum que eu quero é para que esse pecado morra”. No versículo 5, Isaías disse que eles estavam jejuando e “afligindo a sua alma”. No original, a palavra “afligir” tem também o significado de “humilhar”. Então, eles estavam se afligindo com fome. Mas Deus diz que esse não era o jejum que ele escolhera. A seguir, no versículo 10, ele pega essas palavras e diz que existem algumas pessoas “famintas” e “aflitas” com as quais estava realmente preocupado – a saber, aquelas que não tinham escolha a não ser estar famintas e aflitas porque seus concidadãos que estavam jejuando as oprimiam em vez de alimentá-las: “se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita…”. Em outras palavras, Deus diz: o jejum e a autoaflição de vocês não é realmente um ataque ao seu próprio pecado de injustiça e dureza de coração. Se fosse, as ações de vocês seriam para aliviar a fome e a aflição dos seus trabalhadores. Há aqui uma grande ironia que Deus quer que vejamos. Os pobres e famintos são afligidos, diz o versículo 10. Essas pessoas abastadas estão também famintas e aflitas – pelo jejum. Mas pelo quê eles estão jejuando? É o jejum deles primeiramente uma batalha contra o próprio pecado deles – o pecado de oprimir seus trabalhadores? O pecado de colocar um jugo pesado nas costas dos pobres? O pecado de negligenciar as necessidades de roupas e de moradia deles? Não, não é por isso que eles estão jejuando. O comportamento deles comprova isso. Então Deus vai a eles e diz: o jejum que eu escolho não é que vocês religiosamente passem fome e se aflijam, mas que façam com que os pobres fiquem menos famintos e aflitos. Se vocês quiserem lutar contra o pecado tirando o pão da sua própria boca, então coloque-o na boca dos pobres. Aí então vocês verão se realmente estão jejuando pelo motivo correto. Quando estamos vivendo em pecado, o jejum que Deus escolhe não é um disfarce religioso, mas um ataque direto e frontal a esse pecado. Para essas pessoas, o jejum não é uma luta contra o pecado constante em suas vidas; é uma camuflagem. Se elas passarem um pouco de fome e se afligirem um pouco, talvez não importe tanto que sejam indiferentes aos famintos e às aflições dos pobres. Então, Deus vem e diz: eu testo os corações de vocês. Passem fome por amor aos pobres. Esse é o jejum que eu escolho. O consumismo e a criança da cidade americana Jejuar, nos Estados Unidos e em outras nações prósperas,é algo quase incompreensível porque a cultura do consumismo fez uma lavagem cerebral em nós. Somos ensinados a experimentar a boa vida consumindo e não renunciando ao consumo. Como Rodney Clapp coloca: “O consumidor é treinado em insaciabilidade… O consumidor é ensinado que as pessoas basicamente consistem de necessidades não satisfeitas que precisam ser mitigadas por bens e experiências consumíveis. Portanto, o consumidor deve pensar primeiro e principalmente em si mesmo e em satisfazer suas necessidades criadas artificialmente”.[4] Que possa ser “mais bem-aventurado… dar do que receber” (At 20.35) é quase inconcebível. Portanto, o jejum é dificilmente imaginável a não ser como uma moda passageira para perder peso ou para obter um estado de consciência mais elevado segundo os ditames do movimento Nova Era – ambos os quais estão embutidos numa cultura de consumo. A penetração do consumismo é manifesta claramente quando nos damos conta do quanto ele permeia profundamente todos os níveis sociais, mesmo naqueles que dificilmente têm condições de consumir. A marca da cultura consumista é a redução de “ser” para “ter”. E essa redução é alimentada diariamente pela televisão. Mesmo no centro da cidade, entre os pobres que não têm condições de gastar muito, os adolescentes, são especialistas em cultura popular, prontamente receptivos a jingles e às imagens pulverizadas da televisão. A fala deles é carregada de fragmentos verbais dos programas de televisão… Na rua, ser uma pessoa de “substância” é definido ironicamente como tendo certa aparência ou imagem…. [Um adolescente] rapidamente desiste do seu emprego de verão como empacotador de supermercado quando descobre que esse trabalho ameaça sua imagem. Ele gasta os primeiros 75 dólares que ganha em outro trabalho num beeper, em parte porque faz que pareça ser um traficante de drogas [mesmo que ele não tenha] nada a ver com drogas… [Ele] também de vez em quando carrega uma arma e barganha mercadorias roubadas: tais atos provam que ele não é um “fracote”, mas uma pessoa de “substância”… [Ele] e seus amigos chamam a si mesmos de “LoLifes” (diminutivo de “Polo Lifes”, porque usam somente a marca Polo de roupas para homens, a maior parte das quais roubadas das lojas de departamentos do centro da cidade… [Ele] acredita que “as roupas é que fazem o homem”. Tragicamente, no seu caso, a máxima é deprimentemente exata… Quando as roupas de marca são tiradas, praticamente não encontramos nenhuma substância por trás da aparência. [Ele] se reduz a um mero comprador de mercadorias e consumidor de produtos… [Ele e seus amigos] “acreditam no que lhes foi dito acerca de imagem, status, competição, hierarquia e a prioridade da autogratificação. A crença deles é letal, principalmente para eles mesmos”.[5] Esse menino de centro de cidade e seus amigos são a dura imagem da tendência atual nos Estados Unidos, menos os efeitos mitigadores da riqueza. A maioria dos americanos de hoje tem uma fé idólatra no materialismo, mas ela é equilibrada pelas oportunidades que eles têm (educacional e vocacionalmente) de construir suas identidades sobre algo além das aparências. Conquanto eles sejam também consumidores, têm a oportunidade de se tornar mais do que meros consumidores. Em contraste [o nosso menino de centro de cidade] e seus amigos não conseguem essas oportunidades, ou não têm acesso a elas. Consequentemente, o “significado” é retirado do mundo deles e substituído pela “imagem”. Nessa existência tacanha, os meninos literalmente matam uns aos outros por correntes de ouro e jaquetas de couro… A fé cega do menino no consumismo é fatal.[6] Contra esse pano de fundo do consumismo americano contemporâneo difundido, o jejum de Isaías 58 começa a ter uma importância mais aguda. Que um estilo de vida de servir ao pobre em vez do consumo de outra mercadoria deva ser chamado de “jejum” não é tão estranho no final das contas. A maior parte da nossa vida é a satisfação de um apetite artificialmente criado após o outro. Qualquer alteração desse padrão por amor do ministério é um “jejum” – e um jejum que agrada mais a Deus do que deixar de almoçar com vistas a mais pizza no jantar. O jejum vivo do amor não negociável O que Deus faz em Isaías 58.6-12 é descrever o que se encontra envolvido na prática desse jejum, quais são as recompensas espetaculares para aqueles que o praticam dessa maneira – e que de fato é mais abençoado dar do que receber, de maneira tal que nem podemos imaginar de dentro do nosso vício pelo consumo. Você lembra do que Jesus disse: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. Bem, aqui estão alguns tipos de recompensa que Deus promete àqueles que fazem esse tipo de jejum. Primeiramente, vamos considerar a descrição do jejum em si. Depois falaremos sobre as promessas de Deus àqueles que vivem dessa maneira. Não cometa o erro de pensar que essa é uma descrição das funções de um trabalho que Deus deu ao seu povo para mostrar-lhes como receber pagamento dele. Não há nenhum merecimento envolvido aqui. Não se pode negociar com o Deus de Isaías. Ele é soberano e livre e dá misericordiosamente àqueles que confiam nele. Isaías 30.15 diz: “Porque assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa força”. A força de fazer o que Deus nos chama para fazer não vem de nós. Ela vem de Deus e vem por meio da confiança nele. Esse jejum é a receita do médico Quando Deus diz ao povo o que fazer, isso não é uma descrição de obrigações, mas uma receita de médico. Ele não está nos dizendo para ganhar um salário trabalhando para um chefe, mas para ficarmos bem confiando no nosso Médico. Você pode ver isso no versículo 8 em que ele diz que, se seguir a Palavra de Deus: “a tua cura brotará sem detença”. Se você confiar no médico, e demonstrar essa confiança obedecendo as instruções dele, vai se recuperar da sua enfermidade do pecado. Então, não pense que vai fazer por merecer qualquer coisa de Deus. Isso é impossível, e tentar é fatal. Confie na graça soberana dele e siga o seu conselho e será poderosamente abençoado. Mas nunca deverá pensar que você fez por merecer ou que conquistou alguma coisa. Então, vamos considerar a receita de Deus aqui – o jejum que Deus escolhe. Começando no versículo 6: Porventura, não é esse o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? A seguir, nos versículos 8 e 9a vêm as promessas do que irá nos acontecer se confiarmos na receita do médico sobre como jejuar. Mas passe por cima disso por um momento enquanto lemos o restante da receita nos versículos 9b-10a. Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso; se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita… Essa é a receita do médico. Esse é o jejum que o médico prescreveu para o paciente Israel, que estava enfermo com a enfermidade da hipocrisia e dureza de coração – e para o próspero americano de hoje que está enfermo com os vícios do consumismo. Há treze componentes, mas eles parecem cair em sete categorias. Tomo cada uma delas como um chamado pessoal para minha vida e um mandado para a igreja. Esse é o jejum que devo aprender e apreciar. Esse é o remédio para a pseudoliberdade das escolhas sem-fim de mercadorias que abarrotam meu coração com coisas – como trinta mil produtos no supermercado médio americano em 1996 em contrapartida a nove mil em 1975, ou um novo periódico para cada dia do ano, ou trinta canais de televisão entre os quais escolher todas as noites.[7] Primeiramente, Deus prescreve que nós libertemos as pessoas.que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo… (v. 6) Se tirares do meio de ti o jugo, o dedo que ameaça, o falar injurioso… (v. 9) Ligaduras, ataduras, servidão, jugo… A questão aqui é esta: vamos libertar as pessoas, não colocar fardo sobre elas. Jesus disse em Lucas 11.46: “Ai de vós também, intérpretes da lei! Porque sobrecarregais os homens com fardos superiores às suas forças, mas vós mesmos nem com um dedo os tocais”. Há um fardo e um jugo que devemos oferecer às pessoas, mas é um fardo leve e suave. Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30). Jesus nos chama a nos juntarmos a ele na libertação das pessoas dos fardos pesados e duros jugos. O que torna seu fardo leve é a realidade do novo nascimento que muda o que amamos fazer, de dentro para fora (como 1Jo 5.3-4 diz): “Porque esse é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos, porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e essa é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. Ser nascido de Deus triunfa sobre os desejos mundanos que tornam os mandamentos de Deus pesados. Assim, o jejum prescrito começa com o novo nascimento e gera novos valores e desejos que produzem fruto em liberdade e alegria. Esse é o jejum que Deus prescreve. Recebi um e-mail de um amigo missionário num país de acesso restrito, cuja presença figura em parte como “assistência humanitária” que ele presta. No entanto, ele está observando pessoalmente a necessidade de uma transformação espiritual antes que uma transformação humanitária possa ocorrer. Ele escreve: Em poucas palavras, [o governo] decidiu cortar todos os recursos para o centro de negócios e canalizá-los para o “orfanato”. Isso soa muito bem, exceto por uma coisa. Eles tornaram os fundos do orfanato dependentes da mudança de sua clientela. Eles estão exigindo que a escola comece não apenas para órfãos, mas que funcione como uma escola de inglês para órfãos e mais uns poucos alunos “talentosos” que não são órfãos. É claro, em poucas palavras, que eles querem que voluntários americanos lecionem nessa escola. Os poucos alunos “talentosos” por acaso são filhos dos oficiais do governo que estão provendo os fundos! ‐ Desanimador, não é? Essa é exatamente a razão pela qual a reforma de uma cultura precisa começar do lado espiritual (plantação de igrejas) e não com “assistência humanitária”. Segundo, Deus prescreve que alimentemos os famintos: “Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto…?” (v. 7a) O nosso jejum não é meramente negarmos a nós mesmos, mas suprir as necessidades dos outros. Cerca de quarenta mil crianças morrem por dia de fome e de doenças facilmente evitáveis. “Cerca de um bilhão de pessoas no mundo vivem em condições de pobreza absoluta sem nem mesmo os recursos mais básicos – sem alimentação, roupas, abrigo, ou cuidados médicos adequados… quatrocentos milhões são extremamente desnutridos – incluindo mais de duzentos milhões de crianças.”[8] Esses fatos, mais aqueles imediatamente fora da minha porta, são relevantes para o modo como jejuo. Deus não permitirá que eu me contente com uma disciplina severa que não ataque a indiferença na qual a maioria das famílias de classe média americana vive. Ele diz que o jejum é destinado a nos despertar para a fome que há no mundo, não apenas para a nossa própria fome. E diz que é um clamor do coração não apenas provar as bondades de Deus na nossa própria generosidade, mas no poder do amor para viver por amor aos outros. Não se deixe paralisar pelas estatísticas. Não somos responsáveis pelo que não podemos fazer, mas sim pelo que podemos fazer. E existem centenas de coisas possíveis de serem feitas por aqueles que levam seu jejum seriamente. Um exemplo simples é o de Manila. “Smokey Mountain” é a bem conhecida cidade do lixo onde o lixo de Manila é jogado, e onde quinze mil favelados e suas famílias vivem catando os restos da cidade. Trabalhadores de saúde de cuidados básicos da Youth With a Mission (YWAM – Jovens com uma missão) começaram a trabalhar na Smokey Mountain em 1985 e descobriram, tragicamente, que as famílias frequentemente perdiam crianças por causa do sarampo. Trabalhando em parceria com as autoridades locais, uma clínica de vacinação começou a funcionar em Smokey Mountain em 1986. A primeira quarta-feira de todo mês tornou-se conhecida como o dia da vacinação infantil, no centro de multipropósitos da YWAM. As crianças eram vacinadas gratuitamente contra tétano, tifo, coqueluche (tosse comprida), pólio, sarampo e BCG (tuberculose). As famílias se reuniam no lado de fora do prédio de blocos de cor verde enquanto os trabalhadores pesavam as crianças e administravam injeções e gotas de vacinas. Isso estava fazendo a diferença. Em 1986, os trabalhadores de saúde básica ali observaram que mais de 45 crianças haviam morrido de sarampo. Em 1987, foram relatados apenas dezoito casos. Em 1988 não houve registros de nenhuma morte em razão do sarampo, infecções ou complicações. As vacinações claramente fizeram uma diferença e ofereceram esperança para a comunidade favelada.[9] Terceiro, Deus prescreve que abriguemos os desabrigados: “E recolhas em casa os pobres desabrigados” (v. 7b). Com frequência, deixamos de ministrar aos desabrigados por medo e pela ideia pré-concebida de que o governo tem programas para esse tipo de coisa. As promessas de Deus (que veremos a seguir) devem acabar com esses medos. E o fato de que o governo está disposto a ajudar não deve reger os nossos atos de amor. Existem maneiras estruturais e espontâneas de ministrar aos pobres. Espontaneamente, corremos os riscos e não nos preocupamos que os efeitos a longo tempo possam ser pequenos. O amor não avalia as coisas dessa maneira. O bom samaritano não disse: “Um dia interrompido vai fazer bem pouca diferença no problema de violência crônica nessa região”. Ele viu a necessidade e fez algo. O mesmo ocorre com aqueles que veem o desabrigado e executam seu jejum. Era um dezembro extremamente frio no Oregon. Um vento oriental cortante fazia as pessoas saírem correndo dos edifícios de escritórios para entrar no carro que estava no estacionamento e viajar de volta para casa. Mas Les e Kathy não podiam ignorar os homens e mulheres que não tinham um lar aquecido esperando por eles – que não tinham lar algum… Os escudos defensivos foram acionados. Bem, elas raciocinaram, havia missões que tinham o dever de ajudar. Eles eram os “profissionais”… Mas “eles” não estavam fazendo o que deviam fazer. Ainda havia gente nas ruas – que Les e Kathy podiam ver muito bem enquanto iam para casa – que estava sofrendo na temperatura enregelante. Pessoas de carne e osso sentindo dor de verdade. Elas viram até mesmo uma mulher que estava descalça… “Conversamos acerca disso”, Kathy recorda. “E nos lembramos de que tínhamos três sacos de dormir sobrando, cobertores em quantidade muito além do que precisávamos e uma gaveta cheia de luvas. Dissemos: ‘Isso é algo que podemos fazer’, e então fizemos. Fomos até o centro da cidade e distribuímos as coisas”… Entregaram tudo o que tinham? Não… Mudaram de profissão e se devotaram em tempo integral ao povo de rua? Não… Simplesmente se depararam com uma necessidade à frente e perceberam que podiam ajudar e fizeram isso.[10] Estou ciente do fato que a passagem na verdade diz: “E recolhas em casa os pobres desabrigados”. E creio que quanto mais relacional for o nosso cuidado pelo pobre, melhor. Mas seria insensível e não cristão dizer que todo o cuidado que não seja trazer os desabrigados para dentro da nossa casa é hipócrita.Isso pode ser o que devemos fazer em alguns casos, mas não necessariamente em todos. E é esta atitude de “tudo ou nada” que com frequência paralisa o povo de Deus. E como eu disse, existem maneiras estruturais de fazer esse jejum diferente pelos pobres, bem como maneiras individuais espontâneas. A ilustração mais próxima disso está localizada a alguns quarteirões da minha casa – um ministério chamado Masterworks, criado por Tim Glader para ajudar os desempregados crônicos dos bairros próximos a desenvolver habilidades, disciplina e esperança, trabalhando, por exemplo, em simples rotinas de montagens e participando de relacionamentos de discipulado cristão. Tim vendeu sua companhia de serviços de ar condicionado e aquecedores que tinha no subúrbio para dar início ao negócio no centro da cidade em 1991. Ele também se mudou para o centro da cidade com sua esposa e filhos. A nossa igreja disponibilizou o edifício, e Tim faz todo o restante necessário. Ele planeja magnificar a grandeza do amor e do poder de Cristo oferecendo a essas pessoas, para as quais é quase impossível encontrar um emprego, um trabalho seguro, de tempo integral, que as ajude a desenvolver habilidades profissionais, ao mesmo tempo em que fornece também o apoio necessário para preparar os trabalhadores para sair da situação de beneficiários do serviço social para a autossuficiência. Esse empreendimento arriscado tem sido para Tim e sua família um “jejum” longe de ser pequeno. Seria muito mais fácil, seguro e confortável o “banquete” da abundância sem ter de se preocupar com a existência dos pobres. Quarto, Deus prescreve que vistamos os que estão nus: “E, se vires o nu, o cubras” (v. 7c). Quinto, ele prescreve que sejamos solidários, que sintamos o que os outros sentem porque eles também são feitos de carne e osso como nós: “E não te escondas do teu semelhante” (v. 7d). O pensamento parece ser o mesmo de Hebreus 13.3: “Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus-tratos, como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados”. Somos feitos da mesma carne que eles. Portanto, coloque-se no lugar deles e sinta o que eles sentem. Uma das implicações disso parece ser que não devemos evitar os lugares de dificuldades e miséria. Longe dos olhos geralmente significa longe da mente. E longe da mente geralmente significa longe do coração. Todos nós sabemos que um passeio pelas ruas de Calcutá, na Índia, nos leva a uma mudança de valores e prioridades muito maior do que muitas estatísticas o fariam. E viver no centro da cidade ou se mudar para mais perto de onde as necessidades dos pobres são mais evidentes, nos ajuda a evitar que essa exposição seja uma mera experiência de compaixão intermitente. Isso não é uma garantia. A pessoa pode se tornar insensível em qualquer lugar. E uma pessoa pode fazer muito bem de longe. Mas o jejum que Deus prescreve é este: não se esconda dos seres humanos necessitados. Sexto, Deus prescreve que abandonemos os gestos e palavras que mostram desprezo pelas outras pessoas: “Se tirares do meio… o dedo que ameaça, o falar injurioso” (v. 9b). Literalmente, o hebraico significa “jogar” o dedo, que pode ser uma expressão mais próxima do nosso grosseiro “mostrar o dedo” do que simplesmente apontar para alguém. Portanto, não fale e gesticule de maneiras que demonstrem desprezo pelos outros. É muito fácil nos tornarmos fartos dos pobres arrogantes. O jejum que Deus prescreve para nós é renunciar a essa atitude e passar sem ela. Isso não é fácil. Eu costumava pensar que viver entre os pobres me sensibilizaria para as necessidades e quebrantaria o nosso coração. Contudo, as coisas não são tão simples assim. Isso pode ter justamente o efeito contrário. Pode tornar você duro, sarcástico e preconceituoso. Os prazeres de “comer” esse tipo de cinismo são tragicamente doces. E desses nós devemos jejuar. Finalmente, o Senhor prescreve que devemos dar não apenas alimento, mas dar a nós mesmos – a nossa alma – e não apenas satisfazer o estômago dos pobres, mas também a alma dos aflitos: “se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita” (v. 10a). Observe que a palavra “alma” é usada em ambas as partes do versículo. O ministério é de alma para alma. Um dos esforços mais recentes da nossa igreja na cidade é uma parceria com um ministério urbano chamado InnerChange. Uma das grandes ênfases que estamos aprendendo nessa parceria é que o ministério aos pobres não é meramente dar coisas. É dar-se a si mesmo. Não é apenas alívio. É relacionamento. Essa é uma parte essencial da prescrição de Deus para o jejum em Isaías 58. As promessas todo-satisfatórias de Deus E então, se confiarmos em Deus, o nosso Grande Médico, o suficiente para segui-lo neste jejum de sete pontos, o que irá acontecer na nossa vida e na nossa igreja? Novamente há sete categorias de promessas – recompensas do Pai que vê o nosso jejum. Elas não correspondem necessariamente a cada uma das categorias anteriores da prescrição. No entanto, tomadas juntas, retratam uma vida que muitos de nós estamos ansiosos para ter. Que não fiquemos desanimados pelo paradoxo de que derramar a nossa vida é o caminho para a plenitude. Deus daria ele mesmo para nós, mas ele quer nos fazer saber que fica mais plenamente satisfeito quando nós o compartilhamos mais livremente. A primeira promessa é que as trevas da sua vida se tornarão luz: “Então, romperá a tua luz como a alva… (v. 8a)… então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” (v. 10b). É um dos muitos paradoxos de Deus que há mais luz nos lugares sombrios do mundo para aqueles que vão lá para servir. E há trevas mais intensas no brilho dos grandes shoppings centers para aqueles que vão lá para fugir. Jesus é a Luz do mundo. Viver perto dele é viver no lugar mais iluminado do universo. Descobrir onde ele vive, ler os evangelhos e seguir o caminho dele. Como está o coeficiente de escuridão na sua vida? Você está triste? Sua igreja está melancólica? Sua classe da escola dominical está melancólica? O grupo pequeno ao qual você pertence está debaixo de uma nuvem de melancolia? Talvez você devesse tomar posição e dizer: “se há uma nuvem negra sobre nós talvez devamos encontrar algum projeto para os famintos”. É isso o que a passagem diz. Se você quiser que as nuvens recuem, comece a derramar sua vida pelas outras pessoas. Talvez você esteja demasiadamente encravado como pessoa, ou como uma igreja, ou como uma família. Talvez sua família tenha se tornado tão autocentrada que ninguém nunca os visita. Você não conhece nenhum dos seus vizinhos. Não há nenhum ministério familiar. E você fica sem entender por que há uma nuvem sobre a sua família. Tome essa promessa e ore seriamente acerca do coeficiente de trevas e luz na sua vida, e veja se há uma receita aqui para você – não uma lista de afazeres para merecer alguma coisa, mas uma receita do Médico que ama você e quer vê-lo livre da escuridão. Ele quer que a luz brilhe sobre você, e ele conhece o caminho que leva à claridade. Segundo, Deus promete que lhe dará o fortalecimento físico: “a tua cura brotará sem detença… (v. 8b)… e fortificará os teus ossos” (v. 11c). Quem sabe quanta fraqueza se encontra em nós individualmente e na igreja corporativamente porque não estamos derramando a nossa energia na fraqueza dos outros? Passamos nossas noites assistindo televisão porque estamos cansados demais para fazer qualquer outra coisa. Talvez. Entretanto, Deus promete nos fortalecer não apenas de nossas solitárias noites tranquilas, mas de jejuar de coisas como a televisão para levar uma refeição para uma família mergulhada numa crise de enfermidades. Há uma dinâmica espiritual aqui que não entendemos até que a experimentemos. Fomos feitos para servir de mediador da glória da graça de Deus aos outros. Para isso existe força quando pensamos que tudo já foi gasto. Terceiro,Deus irá adiante de nós, atrás de nós e no meio de nós com justiça e glória: “a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda” (v. 8c, d). Então, Deus irá adiante de você com justiça e atrás de você com sua glória. E não apenas isso, mas ele estará lá quando você o chamar: “então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui” (v. 9a, b). Sempre que você fizer a chamada dos auxiliares, Deus sempre responderá “presente”. Quando estamos ocupados fazendo o mesmo que seu Filho fez, a saber: “se fez pobre por amor de vós, para que… vos tornásseis ricos” (2Co 8.9), e fazendo isso “na força que Deus supre” (1Pe 4.11), então Deus se move na nossa retaguarda, adiante de nós e nos rodeia completamente com seu amor, auxílio, proteção e cuidado onipotentes. Por muitos anos tenho argumentado que a oração é designada por Deus para ser um walkie-talkie de tempo de guerra e não um interfone doméstico. Deus quer que recorramos a ele por ajuda porque estamos dando nossa vida para difundir uma paixão por sua supremacia em todas as coisas, para alegria de todos os povos. A oração não é para o aumento do nosso conforto pessoal, mas para o avanço do reino de Cristo. Quando Isaías 58.9 diz: “então, clamarás, e o Senhor te responderá”, “então” se refere ao versículo anterior, o 7. Quando? “Então” – a saber, quando você se juntar às forças do amor para ministrar àqueles que não têm alimento, abrigo e roupas. Essa é a hora quando o Senhor ouvirá o walkie-talkie de guerra e responderá. Ele tem frequências muito especiais distribuídas entre os territórios do amor de alto risco. Isso não quer dizer que você não possa orar pela cura da garganta inflamada do seu filho ou para que seu carro não quebre. Mas significa que, se você não tem motivos que exaltem a Deus e promovem o avanço do reino para essas orações, finalmente elas irão danificar o seu aparelho de walkie-talkie. Tampouco significa que não há lugar para deixar-se ficar com Deus na comunhão do louvor e companheirismo. Mas significa que a consumação da alegria na comunhão com Deus é uma alegria compartilhada. E o louvor que não visa à inclusão dos outros se corrompe. Quarto, Deus promete nos guiar continuamente: “O Senhor te guiará continuamente” (v. 11a). Essa é uma promessa preciosa para nós na perplexidade da vida e do ministério. Pergunto a mim mesmo quanta confusão e incerteza na nossa vida vêm da negligência do ministério aos pobres. Parece que o Senhor dá sua direção mais íntima àqueles propensos a se darem às necessidades dos outros – especialmente aos pobres. A direção de Deus não é destinada aos caminhos brilhantes do jardim do ócio, mas para os lugares sombrios da dor onde temos poucas respostas e trilhas que nunca foram abertas. Quantas vezes no ministério pastoral fui chamado para atender a uma crise e enquanto estou a caminho, digo: “Senhor, não sei qual é a solução neste caso. Ajude-me. Por favor, dá-me orientação. Traga à minha mente o que pode ser mais útil”. E repetidas vezes ele tem respondido. Torne-se disponível até mesmo para situações de necessidade além da sua capacidade, e “O Senhor te guiará continuamente”. Quinto, ele satisfará sua alma: “fartará a tua alma até em lugares áridos” (v. 11b). Nossa alma é destinada a se satisfazer em Deus. Mas temos aprendido repetidas vezes que essa satisfação em Deus é consumada quando estendemos a nossa satisfação nele a outros. Derramar-nos pelos pobres é o caminho da mais profunda satisfação. E repare bem que isso acontecerá “até em lugares áridos”. Em outras palavras, no serviço aos outros, sua alma se tornará cada vez menos dependente das circunstâncias externas por satisfação. Mais e mais você será capaz de dizer como o salmista no salmo 73.25-26: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre”. Sexto, Deus fará de você um jardim regado com fontes perenes: “serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas jamais faltam” (v. 11c). Esse foi o versículo que despertou Bill Leslie para a preciosidade do “jejum” de Isaías 58. Ele, juntamente com muitos outros pastores, estava passando por uma estação seca. Mas eis que num versículo estava o que todos nós precisamos saber e querer – tanto ser regado quanto o poder de regar outros: “um jardim regado” e “um manancial cujas águas jamais faltam”. É um princípio espiritual paradoxal nas Escrituras: na medida em que se derrama você se torna cheio. Quanto mais você dá, mais recebe. Mas há a suposição de que o poço foi cavado e está sendo mantido desimpedido. Só podemos permanecer viçosos e úteis para os outros se houver, por assim dizer, uma fonte na nossa alma. E qual é? Essa promessa tem seu cumprimento no Novo Testamento por meio do que Jesus revelou em João 7.38: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva [um manancial cujas águas jamais faltam]”. Mas “Isso ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem” (v. 39a). Em outras palavras, confiar em Jesus para todas as nossas necessidades é abrir a fonte do poder do Espírito. E ele se põe em movimento mais plenamente quando, pela fé, nos gastamos no caminho do amor por causa dos que perecem e dos pobres. Finalmente, se nos entregarmos pelos pobres, Deus irá restaurar as ruínas da sua cidade – e seu povo: “Os teus filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os fundamentos de muitas gerações e serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne habitável” (v. 12). Quantas coisas arruinadas podem ser reparadas pelo jejum do povo de Deus por amor dos pobres! Quem sabe que sofrimentos, que disfunções, que brechas, que aflições e opressões podem ser curadas e restauradas pelo belo jejum de Isaías 58! Não nos cabe predizer como a cidade, ou igreja, ou família, ou sociedade deve ser. Cabe-nos confiar e obedecer. Então, vamos confiar no Médico dos médicos, o Senhor, aquele que nos cura. Vamos aceitar o jejum que ele prescreveu para nós. Ele significará luz, cura, direção, alívio, restauração e desembaraço – e tudo isso com o próprio Deus adiante de nós, atrás de nós e no nosso meio. E visto que é por nossas boas obras que as pessoas verão a luz e darão glórias ao nosso Pai no céu (Mt 5.16), então esse jejum também espalhará o evangelho do reino e apressará o dia do Senhor. Se estivermos realmente famintos por toda a plenitude de Deus, aqui está o jejum que nos saciará. Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos perante o nosso Deus, para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos e para tudo o que era nosso. Esdras 8.21 Judge not the Lord by feeble sense, But trust him for his grace, Behinde a frowning providence He hides a smiling face. His purposes will ripen fast, Unfolding ev´ry hour; The bud may have a bitter taste, But sweet will be the flower.* William Cowper God moves in a mysterious way[1] * Não julgue a Deus com senso de fraqueza / Mas confie nele pela sua graça, / Por trás de uma providência carrancuda / Ele esconde uma face sorridente./ Logo seus propósitos amadurecerão, / Desenvolvendo-se a cada hora; / O botão pode ter um sabor amargo, / Mas doce será sua flor (NR). 7 Jejuar pelas crianças O aborto e a soberania de Deus sobre as falsas cosmovisões Nosso anseio por Deus é por demais limitado. Isso porque não somente nossas capacidades de desejar estão atrofiadas – como um músculo que levanta somente plumas –, mas também porque a nossa capacidade de ver o desejado não está treinada no uso do telescópio da Palavra de Deus. Em quê exercitamos o músculo do desejo? Fomos feitos para desejar o Grande com grande anelo. Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eume compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre. Salmo 73.25-26 Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus? Salmo 42.1-2 Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Salmo 63.1 Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo. Filipenses 3.8 Porém, nos dobramos aos nossos desejos por coisas insignificantes em vez de por Deus. E, sendo assim, até o potencial pelo desejo diminui. Qual é o tamanho das estrelinhas? E não colocamos nosso olho com frequência no telescópio da Palavra de Deus, onde as estrelinhas de Deus, piscando no nosso céu noturno revolto, revelam-se como maravilhas indizivelmente grandes. Com que frequência oramos como o salmista: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18)? E, se não o virmos na sua grandeza, não o desejaremos na sua plenitude. Contemplar a glória de Deus não é apenas uma experiência solitária numa montanha enquanto ele passa. É também uma experiência pública na medida em que ele multiplica as pragas na terra do Egito, divide o mar Vermelho, engole terra adentro a família de Coré, transforma água em vinho, ressuscita os mortos, leva homens egoístas a entregarem suas vidas por amor e inclina o coração de reis à causa da verdade. Há uma fome por Deus que vai além do desejo por experiência pessoal. Ela anela pela manifestação pública da sua glória no mundo. Ela anela para que as grandes ofensas contra o nosso Deus sejam vindicadas. Não se contenta em desejar revelações particulares do seu auxílio salvador, por mais preciosas que sejam. Ela anseia pelo triunfo aberto da sua mão no estabelecimento das engrandecedoras verdade e justiça de Deus – nas universidades, nos tribunais de justiça, nas agências de propaganda e nos debates políticos e em toda a mídia da televisão, rádio, jornais, revistas, filmes e internet. É movida pela paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas para a alegria de todos os povos. O jejum pela glória pública de Deus Se o jejum é um ponto de exclamação no final de uma sentença do coração, “Ó Deus, mostre-nos sua glória!”, então ele não é também meramente um assunto pessoal. Tem a ver com as demonstrações mundiais públicas, históricas e culturais da glória de Deus que nosso coração deseja. Este capítulo fala acerca disso. Considerando o aborto como uma manifestação de uma grande impiedade na nossa cultura, como devemos, então, orar e jejuar? A vindicação de Francis Schaeffer Francis Schaeffer morreu no dia 5 de maio de 1984. Treze anos depois, a revista Christianity Today trazia o retrato dele na sua capa tendo embaixo as palavras: “Nosso Santo Francis”. No artigo escrito por Michael Hamilton lemos o tributo que nos últimos vinte anos de sua vida talvez nenhum intelectual, com exceção de C. S. Lewis, tenha afetado o pensamento dos evangélicos mais profundamente; talvez nenhum líder do período, a não ser Billy Graham, tenha deixado uma marca mais profunda no movimento [do evangelismo americano] como um todo. Juntos, o casal Schaeffer colocou em voga a ideia de comunidade cristã intencional, incentivou os evangélicos a saírem do seu gueto cultural, inspirou um exército de evangélicos a se tornarem estudiosos dedicados, incentivou mulheres que haviam escolhido os papéis de mãe e dona de casa, foi mentor dos líderes do Novo Direito Cristão e solidificou a oposição evangélica popular ao aborto.[2] Quase vinte anos haviam se passado desde que Schaeffer, juntamente com C. Everett Koop, lançou seu míssil contra o aborto, Whatever happened to the human race? (O que aconteceu com a raça humana?; 1979) – um livro, uma série de filmes e um circuito de palestras. O mais extraordinário é que no final do século 20 ele ainda soava muito atual, e tem se provado muito profético. No seu artigo de 1997, Michael Hamilton reconhece que “alguns críticos têm recentemente admitido que o grande quadro traçado [por Schaeffer] tem se provado duradouro… Em particular ele parece ter sido presciente quanto à questão da vida humana”.[3] Quando me volto para as palavras de Schaeffer há duas décadas, vejo que elas têm um tom profético de durabilidade e verdade. Na maré da perda do humanitarismo no nosso tempo – incluindo a inundação da prática do aborto a pedido até o infanticídio e a eutanásia – a única coisa que pode estancar essa enchente é a certeza da absoluta singularidade e valor das pessoas. E a única coisa que nos dá isso é o conhecimento de que as pessoas são feitas à imagem de Deus. Não temos nenhuma outra proteção definitiva. E a única maneira de ficarmos sabendo que as pessoas são feitas à imagem de Deus é por meio da Bíblia e da encarnação de Cristo, que também conhecemos pela Bíblia. Se as pessoas não são feitas à imagem de Deus, o humanista pessimista e realista está certo: a raça humana é uma protuberância anormal na face lisa de um universo silencioso e sem sentido. Nesse contexto, o aborto, o infanticídio e a eutanásia (incluindo a morte de criminosos mentalmente perturbados, dos portadores de deficiências físicas graves ou dos idosos que são um peso econômico) são todos completamente lógicos… Sem a Bíblia, e sem a revelação em Cristo (que somente encontramos na Bíblia) não há nada para servir de obstáculo entre nós e os nossos filhos e a aceitação final das desumanidades monstruosas do nosso tempo.[4] Michael Hamilton comenta que “a visão desoladora de Schaeffer é nos dias de hoje notícia diária”. “Cadáver Jack” Kevorkian já matou mais gente do que Ted Bundy, mas o Estado de Michigan não consegue reunir determinação política para fazê-lo parar. Um tribunal federal proibiu o Estado de Washington de emitir leis que proíbam os médicos de matar seus pacientes, enquanto a University of Washington tem permissão de procurar e vender partes dos corpos de milhares de crianças abortadas a cada ano. [5] A democracia do aborto mais permissiva do mundo Francis Schaeffer não se surpreenderia se soubesse que os Estados Unidos se tornaram a mais permissiva de todas as sociedades democráticas do mundo atual no que diz respeito ao aborto. Mary Ann Glendon, da Havard Law School, é a autoridade em lei sobre o aborto no mundo ocidental. Ela observa que, de todas as sociedades democráticas, os Estados Unidos são de longe a nação mais permissiva quando se trata do aborto… Ela observa que a Alemanha, agora unida, adotou uma nova lei acerca de aborto que dá proteções significativas ao não nascido. Como no caso de toda democracia, exceto os Estados Unidos, a lei foi adotada por meio de política legislativa. Mas o Supremo Tribunal, com efeito, declarou que o povo americano, que outrora pensava ser o mestre do mundo em questão de democracia, é peculiarmente incapaz de governar-se a si mesmo.[6] Esse estranho poder do Supremo Tribunal simboliza quanto parece ser intratável a posição americana. Sua lógica é que 1,6 milhão de vidas por ano são o preço que deve ser pago para não interferir com os estilos de vida que pressupõe o aborto a pedido. Essa é a sentença imposta por decreto judicial sobre uma sociedade na qual 75 por cento do povo dizem que abortos não deveriam ser permitidos pelas razões que 95 por cento são de fato realizados.[7] Há uma espécie de desespero que começa a tomar conta de um povo que não é regido por legisladores, mas por juízes que declaram que a Constituição diz o que eles querem fazê-la dizer. Esse desespero leva a se falar emmedidas desesperadas. Nós já tivemos a matança. Isso também não surpreenderia Francis Schaeffer, que “definiu aborto como sendo a questão principal da sociedade americana, chamou os cristãos à desobediência civil, e até mesmo mencionou a ideia de resistir ao governo pela força”.[8] Ele concluiu um dos seus últimos livros, A christian manifesto (Um manifesto cristão), em 1981, com as palavras: “Se não há lugar final para a desobediência civil, então o governo se tornou autônomo, e como tal, ele se colocou no lugar do Deus vivo”.[9] A legitimidade do regime norte-americano? Novamente, para comprovar as advertências de Francis Schaeffer, tem havido surpreendentes discussões públicas recentes a respeito da possível ilegitimidade do atual regime norte-americano. Em 1996 e 1997, um simpósio que incluiu, entre outros, William Bennett, Robert Bork, Charles Colson, James Dobson e Richard John Neuhaus debateu a questão. “A questão aqui explorada, com total consciência de suas consequências de longo alcance, é se já chegamos ou estamos chegando a um ponto em que os cidadãos conscienciosos não podem mais dar apoio moral ao regime em vigor.”[10] Nesse caso não há nenhum endosso para matar os que praticam o aborto. No entanto, há um sério parecer de que “uma civilização não pode tolerar execuções privadas, do mesmo modo que uma civilização não pode sobreviver por muito tempo à autorização para matar seres humanos indesejáveis”.[11] Quanto tempo – essa é a questão. Richard Neuhaus observa que “os efeitos destrutivos da anomia e da raiva já se evidenciaram como um resultado da lei divorciada do texto constitucional, argumento moral e processo democrático. Os elos sempre frágeis da civilidade são desenredados na medida em que as políticas se tornam, para parafrasear Clausewitz, guerra que prossegue por outros meios. A lei ilegal é um convite à ilegalidade”.[12] O que o aborto ensina a uma nação Enquanto isso, a autorização para o aborto destrói uma coisa preciosa atrás da outra. As crianças são as primeiras vítimas. As mulheres são as próximas, com a culpa e o desgosto e os prejuízos físicos e os efeitos múltiplos da síndrome pós-aborto.[13] Depois vêm os pais com algum remorso e raiva e grandes quantidades de “comportamento masculino irresponsável e predatório” incentivados pela pressuposição de que há uma solução simples para qualquer gravidez indesejada. A seguir vem a erosão do panorama moral que tanto depende das virtudes e dos valores e compromissos que vão além de meras liberdades individuais autônomas. Em fevereiro de 1995, diante do Presidente dos Estados Unidos no National Prayer Breakfast (Café da manhã nacional de oração), Madre Tereza falou com coragem e franqueza a respeito desse efeito erosivo do aborto. Sinto que o maior destruidor da paz atualmente é o aborto, porque é uma guerra contra a criança – uma matança direta da criança inocente – assassinada pela própria mãe. E se aceitarmos que uma mãe pode matar até mesmo seu próprio filho, como podemos dizer a outras pessoas que não matem umas às outras?… Pelo aborto, a mãe não aprende a amar; antes, mata até mesmo seu próprio filho para resolver seus problemas pessoais. E, pelo aborto, é dito ao pai que não precisa assumir nenhuma responsabilidade pela criança que ele trouxe ao mundo. É provável que esse pai coloque outras mulheres na mesma situação. Então, o aborto leva apenas a mais aborto. Qualquer país que aceita o aborto em vez de ensinar seu povo a amar, o ensina a usar qualquer tipo de violência para obter o que deseja. É por essa razão que o maior destruidor do amor e da paz é o aborto.[14] Foi isso o que Francis Schaeffer quis dizer quando disse: “A compaixão… está sendo gradualmente arruinada. E não são apenas os bebês que estão sendo mortos; é o humanitarismo que a cosmovisão humanista está espancando até a morte”.[15] Acerca de não se enxergar as coisas em partes e fragmentos Aqui é onde Francis Schaeffer se mostrou na sua melhor forma – no nível das cosmovisões. E esse é certamente o nível no qual as batalhas mais importantes do universo são travadas. Schaeffer disse que “o problema básico dos cristãos neste país nos últimos oitenta anos ou por aí… é que eles têm visto as coisas em partes e fragmentos em vez de como um todo”.[16] Ele quis dizer que a cosmovisão que está por trás das partes e dos fragmentos – como o aborto – não tem sido entendida e nem resistida. Ele chama essa cosmovisão que sustenta, enquanto pode, o Ocidente atual, incluindo o aborto, de “visão da realidade última como energia material modelada pelo acaso”. Devemos tentar fazer voltar para o nível anterior os resultados da cosmovisão total que considera a energia- matéria, modelada pelo acaso, como a realidade última. Devemos perceber que essa visão irá com certeza inevitável sempre produzir resultados que não são apenas relativistas, e nem apenas errados, mas que serão desumanos, não apenas para as outras pessoas, mas para os nossos filhos e netos, e nossos filhos espirituais. Produzirá sempre o que é desumano, pois com seu ponto de vista falso da realidade total ela não apenas não tem uma base para singularidade e dignidade da pessoa individual, mas é totalmente ignorante quanto ao que e quem o homem é.[17] Deus, e não a energia material, é a realidade última. E é ele, e não o acaso, que modela todas as coisas. A restauração desta base – a supremacia de Deus em todas as coisas – é o grande desafio do mundo ocidental. Uma cosmovisão construída a partir da matéria e do acaso “não deixa espaço para significado, propósito ou valores no universo e não dá base para a lei… Seu controle do consenso tem se tornado esmagadoramente dominante por volta dos últimos quarenta anos”.[18] Uma cosmovisão de guerra a respeito do aborto Esse é o contexto para a nossa oposição ao aborto. Então, Schaeffer recomenda não apenas que resistamos às “partes e fragmentos”, mas à cosmovisão como um todo na maneira que oramos, lutamos e trabalhamos. “Não há dúvida de que todo cristão deve orar e trabalhar para anular a lei abominável do aborto. Porém, enquanto oramos e trabalhamos devemos ter em mente não apenas essa importante questão como se ela existisse isoladamente. Antes, devemos lutar e orar para que a totalidade desta outra entidade – a visão da realidade última como energia material modelada pelo acaso – possa ser desmantelada com todos os seus resultados em todas as áreas da vida.”[19] Os esforços pró-vida mais convincentes atualmente abrangem esse objetivo. O ponto de vista de David Reardon é um exemplo que se liga explicitamente à abordagem da cosmovisão de Schaeffer. Reardon, um eticista biomédico, faz eco às preocupações de Schaeffer na sua estratégia específica: O objetivo político de tornar o aborto ilegal tem sido sempre uma visão truncada. Nosso desejo real tem sido sempre criar uma cultura na qual o aborto não seja apenas ilegal, mas impensável. Nesse tipo de cultura, os riscos físicos, psicológicos e espirituais do aborto serão do conhecimento de todos. Nesse tipo de cultura, o compromisso, a compaixão e um senso de dever de ajudar e proteger tanto a mãe quanto a criança será universal.[20] A palavra-chave é “impensável”. E foi Schaeffer quem disse, dezessete anos atrás: “Em todas as eras, há um ‘pensável’ e um ‘impensável’”.[21] E é a cosmovisão subjacente que governa tanto o que é pensável quanto o impensável. Portanto, Reardon e Schaeffer, e as pessoas mais sérias de hoje, se dão conta de que a batalha acerca do aborto é mais profunda para a alma da cultura e sua cosmovisão.[22] O lugar da oração e do jejum Como, então, devemos resistir e reformar? Nos últimos anos da sua vida, Schaeffer estava cada vez mais orientado para a arena política e cada vez mais desencantado com a piedade estreita do evangelicalismo – a “maioria da maioria silenciosa” que tinha “dois valoresfalidos – paz pessoal e abundância”.[23] A ênfase dele era um chamado profético e oportuno. Mas eu me pergunto se muitos dos jovens eruditos e ativistas (agora em seus 40 e 50 anos de idade) que ele inspirou, não precisariam ouvir uma palavra equilibrada acerca do poder da oração e do jejum, não como uma alternativa para o pensamento e a ação, mas como uma base radical que diz: “O cavalo prepara-se para o dia da batalha, mas a vitória vem do Senhor” (Pv 21.31). Atentem para os livros que clamam por renovação e reforma evangélica na vida da mente, pela restauração da verdade no lugar da técnica, pela recuperação da compaixão social da igreja da impotência governamental, pela tomada do terreno elevado da moral na causa ambientalista, e muitas outras causas. Há um sentido em cada um desses pontos que as questões básicas são tão intratáveis à persuasão humana que o chamado para o jejum e a oração não seria apenas oportuno, mas desesperadamente necessário? Eu estou recomendando esse chamado. Jejuar e orar por brechas na cosmovisão Esse não foi o chamado principal de Schaeffer no fim da sua vida, e para alguns hoje, isso não faz parte do horizonte – que o jejum e a oração poderiam trazer as brechas sobre as quais eles escrevem e trabalham de modo tão ardente. Schaeffer disse: “Todo cristão deveria estar orando e trabalhando para anular a lei abominável do aborto… Deveríamos estar lutando e orando para que a totalidade desta outra entidade – a cosmovisão da realidade última como energia material modelada pelo acaso – possa ser desmantelada”.[24] Fico pensando se os estudiosos e os ativistas no mínimo levam isso a sério. Confesso que minha própria oração por brechas na cosmovisão não é o que deveria ser. Muito facilmente me acomodo num estado mental fatalista e resignado quando se trata de questões de mentalidade secular, teologias incorretas, corrupção institucional, instituições corruptas, falsidade filosófica e tendências culturais pervasivas. Porém, essa não é a hora para resignação ou fatalismo. É tempo para oração e jejum radicais, para que todo o nosso pensamento, toda a nossa pregação, todos os nossos escritos e todas as nossas ações sociais e missões tenham neles o aroma de Deus e sejam portadores de um golpe transformador muito além de qualquer coisa que o mero homem possa fazer. Então, que possa ser dito, além de toda expectativa e possibilidade humanas: “Cinco de vós perseguirão a cem, e cem dentre vós perseguirão a dez mil; e os vossos inimigos cairão à espada diante de vós” (Lv 26.8). Evitando uma mentalidade de cerco na Babilônia Onde haveremos de encontrar a confiança e a coragem para jejuar e orar por tais questões de alcance geral na cosmovisão? Sugiro que consideremos a história bíblica de Esdras, especialmente Esdras 8.21-23. Deixe-me dar alguma informação quanto ao contexto formador de fé dessa passagem para que você possa considerá-la com toda a força que Esdras coloca nela, e com toda a sua relevância para as nossas preocupações quanto à cosmovisão. Israel tinha sido levado cativo para a Babilônia. Eles tinham ali estado por três décadas. Agora era chegada a hora, segundo o cálculo de Deus, para a restauração deles. Mas como isso poderia ser feito? Eles eram uma minúscula minoria étnica no imenso império persa. A resposta é que Deus domina sobre os impérios. E quando sua hora é chegada para seu povo se mover, ele move os impérios. Esse é o ponto principal dos primeiros oito capítulos desse livro de Esdras. E ele é poderosamente gerador de esperança para o povo de Deus toda vez que deslizamos para uma mentalidade de cerco. Consideremos, primeiro, Esdras 1.1-2. No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor , por boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor , Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém de Judá. Não deixe de observar o governo soberano de Deus sobre a mente e a vontade de Ciro, o rei mais poderoso do mundo na época. Deus havia profetizado por meio de Jeremias que o povo voltaria para a sua própria terra: “Assim diz o Senhor: Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta anos, atentarei para vós outros e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para esse lugar” (Jr 29.10). Deus nunca deixa as suas profecias pendentes da vontade incerta do homem. Ele não prediz simplesmente; ele age para cumprir as predições que faz. É por essa razão que suas predições são tão certas quanto ele é poderoso. E então Esdras disse: “despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia” (Ed 1.1). Ciro não vivenciou meramente de modo inexplicável o cumprimento de uma profecia; ele vivenciou o próprio Deus trabalhando soberanamente para cumprir essa profecia. Aí está a resposta. Quando Deus está pronto para fazer algo importante no mundo, ele pode fazê- lo – seja por meio de um rei persa, ou de um profeta, ou de um livro científico, ou de um trabalhador cristão pró-vida. A chave é a absoluta soberania de Deus sobre os impérios do mundo, sobre as mentes e sobre as vontades de reis, estudiosos, políticos e reitores de universidades. Até mesmo os reveses são destinados a benefícios maiores Eis o que acontece. Uma primeira onda de refugiados retorna a Israel, vindos da Babilônia – mais de 42 mil deles. Eles começam a construir o templo. Porém, seus inimigos em Judá se lhes opõem e escrevem ao novo imperador, Artaxerxes, dizendo a ele que uma cidade rebelde está sendo reconstruída (4.12). Então, Artaxerxes paralisa as obras do templo e fica parecendo que os planos de Deus foram frustrados. Essa é a maneira que as coisas acontecem com frequência – um grande movimento da igreja, ou da cidade, ou da cultura como um todo na direção certa, e então um revés. Isso quase sempre leva os pessimistas, que pensam pouco de Deus, a reclamarem. Mas essa história é destinada a nos manter esperançosos. Deus tinha um plano diferente e melhor que não era apenas a despeito da oposição e do revés, mas que os incluía. Que possamos aprender que os anos magros, cheios de problemas, são preparativos para as bênçãos de Deus. Mais cedo ou mais tarde ele transforma tudo para o bem. Ele é Deus. Nesse caso, eis como ele faz isso. Segundo Esdras 5.1, Deus enviou dois profetas, Ageu e Zacarias, que inspiraram o povo a recomeçar a obra de reconstrução. Sê forte, Zorobabel, diz o Senhor , e sê forte, Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, e tu, todo o povo da terra, sê forte, diz o Senhor , e trabalhai, porque eu sou convosco, diz o Senhor dos Exércitos… Minha é a prata, meu é o ouro, diz o Senhor dos Exércitos… A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o Senhor dos Exércitos. Ageu 2.4, 8-9 Porém, como frequentemente acontece, uma nova manifestação de energia e progresso desencadeia nova oposição. É o que ocorre nesse caso: os inimigos tentam a mesma tática de antes. Dessa vez, eles escrevem uma carta a Dario, o novo imperador, na esperança de paralisar as obras em Jerusalém. Só que dessa vez o tiro sai pela culatra, e podemos ver a razão pela qual Deus tinha permitido cessar a construção temporariamente em primeiro lugar. Dario faz uma pesquisa antes de responder aos inimigos de Israel. Ele pesquisa os arquivos e encontra o decreto original de Ciro, autorizando a construção do templo. Então, em Esdras 6.7-8 ele escreve de volta as surpreendentes notícias – muito além do que os maltrapilhos israelitas poderiam pedir ou pensar. Dario diz aos inimigos de Judá: Não interrompais a obra dessa Casa de Deus, para que o governador dos judeus e os seus anciãos reedifiquem a Casa de Deus no seulugar. Também por mim se decreta o que haveis de fazer a esses anciãos dos judeus, para que reedifiquem essa Casa de Deus, a saber, que da tesouraria real, isso é, dos tributos dalém do rio, se pague, pontualmente, a despesa a esses homens, para que não se interrompa a obra. Um revés extraordinário. Que grande Deus! Os judeus pensaram que os inimigos tinham triunfado. No entanto, Deus estava simplesmente trabalhando a História para que os inimigos não apenas permitissem a construção do templo, mas também pagassem por ela. Esdras 6.22 afirma claramente o grande fato: “porque o Senhor os tinha alegrado, mudando o coração do rei da Assíria a favor deles, para lhes fortalecer as mãos na obra da Casa de Deus, o Deus de Israel”. Deus governa os corações de reis, imperadores, cientistas, estudiosos, juízes, governadores e prefeitos. Este é o grande fundamento para o jejum e oração por interesses de âmbito mundial – Deus pode converter as pessoas, e pode moldar o pensamento delas mesmo quando elas não são convertidas. Portanto, nesse acontecimento, aprendemos importantes lições para a nossa luta de fazer a verdade prevalecer na igreja e na cultura. Não julgue o Senhor por um sentido fraco Mas confie nele pela sua graça Por trás de uma providência carrancuda Ele esconde uma face sorridente.[25] Há nesse caso lições importantes para nós. Cite seu revés desalentador – pessoal, político, científico, eclesiástico, cultural ou global. Que cristão se atreveria a dizer que Deus não está nele pelo bem do seu povo e da glória do seu nome? Não se o nosso Deus é o Deus de Esdras. Você pensa que esses reveses estão destituídos de algum propósito maior de justiça e mais extraordinário do que qualquer um de nós poderia imaginar? O coração do rei é uma corrente de água nas mãos de Deus Então, Esdras entra no cenário com um retrospecto do reinado de Artaxerxes. O rei envia Esdras com um grupo de pessoas de volta a Jerusalém. De acordo com Esdras 7.6 o rei lhe dá tudo o que ele quer para a jornada. E então, por que o mesmo rei que parara a construção do templo faria uma coisa dessas? Esdras dá a resposta na sua oração em 7.27: “Bendito seja o Senhor, Deus de nossos pais, que desse modo moveu o coração do rei”. Deus fez isso. Deus colocou isso no coração do rei. Ele fez isso com Ciro (1.1); ele fez com Dario (6.22); e ele fez com Artaxerxes (7.27): “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina” (Pv 21.1). Deus está governando o mundo. Ele está no comando da História. “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.33). Não podemos entender a sabedoria infinita de seus caminhos. Cabe-nos confiar, obedecer e orar – e, como veremos, jejuar. Jejuando diante de um Deus que é soberano no mundo Isso nos leva ao que Esdras fez quando deixou o cativeiro em sua jornada de volta a Jerusalém. Ele recusou uma escolta do exército para que pudesse testemunhar a Artaxerxes acerca do poder e da fidelidade de Deus em proteger o seu grupo de pessoas. Em vez da ajuda do rei, ele buscou a ajuda de Deus, e a buscou com jejum. Esdras 8.21-23 registra: Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos perante o nosso Deus, para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos [aqui temos a associação com salvar das crianças do aborto] e para tudo o que era nosso. Porque tive vergonha de pedir ao rei exército e cavaleiros para nos defenderem do inimigo no caminho, porquanto já lhe havíamos dito: A boa mão do nosso Deus é sobre todos os que o buscam, para o bem deles; mas a sua força e a sua ira, contra todos os que o abandonam. Nós, pois, jejuamos e pedimos isso ao nosso Deus, e ele nos atendeu. No versículo 21, o jejum é uma expressão de humildade – ou seja, o nosso senso de dependência desesperada e total de Deus para o que precisamos. “Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos.” E se qualquer coisa está clara a partir da análise de Francis Schaeffer dos fundamentos do aborto, é que a cosmovisão humanista do aborto que permeia a cultura norte-americana é tão refratária a qualquer tentativa de mudança que somos totalmente dependentes de Deus para resistir a isso e transformar a situação. Argumentação fiel, escritos persuasivos, ativismo social e envolvimento político – tudo isso tem o seu lugar. No entanto, a menos que o soberano Deus mova as mentes obscurecidas (como ele fez com Ciro, Dario e Artaxerxes), o melhor raciocínio e ação serão tomados cativos e virados de cabeça para baixo. Para Esdras, porém, o jejum não era apenas uma expressão de humildade e desespero; era uma expressão de desejar a Deus com a seriedade de uma questão de vida e morte. “Nós, pois, jejuamos e pedimos isso ao nosso Deus.” O jejum anda junto com a oração com toda a sua fome por Deus e diz: “Não somos capazes, por nós mesmos, de vencer essa batalha. Não somos capazes de mudar corações e mentes. Não somos capazes de mudar cosmovisões, transformar a cultura e salvar 1,6 milhão de crianças. Não somos capazes de reformar o poder judiciário ou incentivar a legislatura ou mobilizar a população inativa. Não somos capazes de curar as intermináveis feridas de ideologias impiedosas e suas ações sangrentas. Mas, ó Deus, tu és capaz! E deixamos de confiar em nós mesmos para confiar no Senhor. E nós clamamos a ti, e rogamos que, por amor do teu nome, e por amor de tua glória, e para o progresso do teu propósito salvador no mundo, e para demonstração da tua sabedoria, do teu poder e autoridade sobre todas as coisas, e para domínio da tua verdade e o alívio dos pobres e desamparados, age, ó Deus. Estamos, assim, famintos pela revelação do teu poder. Com todo o nosso pensar, todos os nossos escritos e todas as nossas ações, oramos e jejuamos. Vem. Manifesta a tua glória”. O resultado misericordioso do jejum e da oração é mencionado no final de Esdras 8.23: “e ele nos atendeu”. As crianças foram poupadas. O coração do rei foi inclinado. Os inimigos foram desviados. Isto é uma coisa extraordinária – que um Deus que inclina as mentes dos reis ordene que ele seja inclinado pelos fracos para enviar seu poder soberano em favor deles. “Negociai até que eu volte” Eu faço a você um apelo para que busque o Senhor comigo com relação ao lugar do jejum e da oração pelas brechas nas mentes obscurecidas que subjugam o mundo moderno, com respeito ao aborto e uma centena de outros males. Esse não é um chamado para um acesso de fúria coletivo que grita às pessoas más: “Devolva-me o meu país”. É, antes, um chamado para os forasteiros e peregrinos na terra, cuja cidadania está no céu e que esperam a vinda do Rei deles, que disse: “Negociai até que eu volte” (Lc 19.13). E os grandes negócios do cristão são “fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31), e para orar para que o nome de Deus seja santificado e seu reino venha e sua vontade seja feita na terra (Mt 6.9-10). E para ansiar, trabalhar, orar e jejuar não apenas pela revelação final do Filho do Homem, mas enquanto isso, pela demonstração do seu Espírito e poder em alcançar todos os povos, e o resgate dos que perecem, e a purificação da igreja, e o acertar de tantas coisas erradas quantas Deus permitir. É verdade que encontrar o equilíbrio bíblico para trabalhar entre tarefas dessa magnitude não é fácil. Mas isso também pode ser fruto do jejum fiel. Possa o Senhor conceder que a grandeza do nosso chamado não paralise os nossos desejos. Mas possa a nossa fome por demonstrações públicas e particulares da glória do nosso grande Deus encontrar alívio no jejum e na oração e em toda boa obra. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Lucas 6.21 Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! Romanos 11.35-36 Deus se agradou em instituir a oração como antecedente da concessão de misericórdia; e ele se agrada em conceder misericórdia em consequência de oração, como se ele fosse persuadido somente pela oração. Quando o povo de Deus é levado a orar, isso é o efeito da sua intenção de mostrar misericórdia; portanto, ele derrama o espírito da graça e súplica. Jonathan Edwards The most high a prayer-hearing God[1] Conclusão Por que Deus recompensa o jejum? Uma pergunta crucial permanece: por que Deus responde ao jejum? Por que ele nos recompensa quando jejuamos? Que ele faz isso é evidente pelas numerosas ocorrências nas páginas da Bíblia e na História. E Jesus prometeu que ele faria isso: “e teu Pai, que vê [seu jejum] em secreto, te recompensará” (Mt 6.18). A pergunta é urgente porque uma resposta incorreta pode desonrar a Deus e nos causar grande dano. Uma resposta que desonra a Deus e nos causa dano Por exemplo, suponha que digamos que jejuar gera recompensas de Deus porque elas são alcançadas porque demonstram os méritos daquele que jejua. Isso desonraria a Deus porque estaria transformando sua graça gratuita numa transação comercial. Implicaria que o jejum provém, em última instância, da própria vontade de cada um, e que essa disciplina autocriada é então oferecida a Deus em troca de recompensa. Isso é uma ofensa a Deus porque afirma ser nosso o que pertence somente a ele, a saber, a iniciativa suprema da oração e do jejum. Desse modo nos colocamos no lugar de Deus e invalidamos a gratuidade da sua graça. Isso causa grande dano também para nós. Se escolhermos nos relacionar com Deus dessa maneira, no fim não seremos os beneficiários da graça, mas somente da justiça distribuitiva. Isso significará que recebemos de Deus o que merecemos, em vez do “dom gratuito” da vida eterna (Rm 6.23). Fazendo uso dos termos do apóstolo Paulo, essa maneira de ver a resposta de Deus ao jejum se torna em “obras”. Vemos isso em Romanos 4.4: “Ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida”. Traduzido literalmente: “Para aquele que trabalha, a recompensa não é contada segundo a graça, mas de acordo com o débito”. Se dissermos que Deus recompensa o jejum pelo pagamento de “salário” ou acertando “débitos” com aqueles que ganharam ou mereceram sua recompensa pelo jejum, então agimos como se “a recompensa não é contada segundo a graça”. E essa é uma maneira fatal de nos relacionarmos com Deus. Isso porque a única alternativa à graça gratuita é a condenação. Deus não nos salva “pela graça… mediante a fé” (Ef 2.8) e depois recompensa nosso jejum “pela justiça… pelas obras”. A recompensa da justificação e cada recompensa subsequente chegam a nós nos mesmos termos e pelos mesmos meios: com base na obra de Deus em Cristo, a saber, sua morte expiatória (Rm 3.24), e por meio das obras de Deus em nós, a saber, nossa fé transformadora de vida (Ef 2.8; Gl 5.6). A tentativa de merecer ou obter qualquer coisa de Deus é maligna e fatal antes e depois da nossa conversão. Um ato que anula a graça é maligno e fatal seja quando for que você o pratique. Portanto, uma resposta errada à pergunta de por que Deus recompensa o jejum pode desonrar a Deus e nos causar grandes males. É extremamente importante que respondamos corretamente a essa pergunta. Estão em jogo tanto a glória de Deus quanto o nosso bem. O jejum é “dele e por meio dele e para ele” Deus não responde ao jejum porque ele lhe revela um novo conhecimento sobre a nossa fé ou a nossa devoção. Ele conhece o nosso coração melhor do que nós mesmos. De fato, nosso novo coração nascido da fé é a obra das mãos do próprio Deus. Ele nos conhece porque conhece suas próprias obras. “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). E ele não apenas nos criou como criaturas de fé, mas ainda continua trabalhando em nós “operando em vós o que é agradável diante dele” (Hb 13.21). É nosso dever e deleite escolher obedecer-lhe todo o tempo, mas nunca devemos nos esquecer de que “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). A razão mais fundamental pela qual o jejum não pode merecer coisa alguma de Deus é que ele é um dom de Deus. É algo que Deus está “operando em nós”. Você não pode esperar que Deus pague pelo que já é dele. Isso é o que Paulo quis dizer em Romanos 11.35-36: “Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”. Isso inclui o jejum. Porque dele, por meio dele, e para ele são todas as coisas. Não é primeiramente oferecido a Deus para que possamos receber pagamento por causa disso. É primeiramente dado por Deus para que possamos nos beneficiar do que foi dado e para que ele possa ser glorificado por meio disso. A origem última do sacrifício Quando o rei Salomão viu seu povo renunciando às suas riquezas em favor da construção do templo, da mesma maneira que alguém poderia renunciar ao alimento no jejum, ele não se envaideceu por causa da virtude auto- operada do seu povo; ele sentiu-se humilde pelo fato de Deus ter dado tal graça de generosidade. Ele disse: “Porque quem sou eu, e quem é o meu povo para que pudéssemos dar voluntariamente estas coisas? Porque tudo vem de ti, e das tuas mãos to damos” (1Cr 29.14). É dessa maneira que devemos falar acerca do jejum. Não há motivo para vanglória quanto a isso. Quem sou eu para ser capaz de jejuar? Ninguém. Não há nada em mim que escolheria isso para a sua glória à parte da sua graça transformadora. E quando Salomão olhou para o futuro e avaliou se esse sacrifício de coração continuaria ele orou: “Senhor… conserva para sempre no coração do teu povo estas disposições e pensamentos, inclina-lhe o coração para contigo” (1Cr 29.18). E assim, devemos orar acerca do nosso próprio jejum e do jejum da igreja cristã: Ó Senhor, conserva as intenções vivas de jejuar que vós criastes, e dirija os corações do teu povo sempre para ti como a fonte de toda alegria. A recompensa é pela impotência e esperança em Deus Bem, se Deus não recompensa o jejum porque nós o criamos e oferecemos a ele para obter a recompensa, por que ele o recompensa? Se, de fato, o próprio Deus é o Criador e Sustentador do jejum, por que designou esse ato como uma ocasião de sua recompensa? A resposta é que Deus comprometeu-se a recompensar esses atos do coração humano que exprimem a impotência humana e a esperança em Deus. Nas Escrituras, repetidas vezes Deus promete vir em auxílio daqueles que deixam de depender deles mesmos e buscam a Deus como o tesouro deles e auxílio. Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares. Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi. (Is 55.1- 3) Deus promete água, vinho, leite e vida, que o dinheiro não pode comprar, precisamente àqueles que não têm dinheiro, mas somente sede, se eles se desviarem do que o dinheiro pode comprar e se achegarem a ele. “Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida… Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 21.6; 22.17). A recompensa da vida vem não para aqueles que podem comprar ou trabalhar por ela. Ela é “de graça”. É gratuita. O “preço” é a sede que abandona as cisternasrotas do mundo e procura a fonte inesgotável em Deus. São os “pobres de espírito” que serão recompensados com o reino dos céus (Mt 5.3). São aqueles que esperam no Senhor, ou seja, “que nele espera” para os quais ele trabalha (Is 64.4). São aqueles que “confiaram no Senhor”, e não em seus cavalos ou carruagens, que triunfarão pelo seu poder (1Cr 5.20; 2Cr 13.18; Sl 20.7). São aqueles que se agradam do Senhor e confiam nele que terão os desejos dos seus corações satisfeitos (Sl 37.4-5). Os sacrifícios que são aceitáveis a Deus são o espírito quebrantado e um coração compungido e contrito; essas coisas vazias ele recompensará (Sl 51.17). A pessoa que serve a Deus não em sua própria força, mas com a “força que Deus supre” será recompensada pelo Senhor (1Pe 4.11). O compromisso maior de Deus é com sua glória Deus recompensa os atos do coração humano que expressam impotência humana e esperança em Deus. A razão para isso é que esses atos chamam a atenção para a glória de Deus. O versículo 11 de 1Pedro 4 torna isso evidente: “se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém”. Certifique-se de estar vendo a lógica do versículo: se você serve não na sua própria força, mas na força que Deus supre, então Deus recebe a glória e o doador também a recebe. Deus está comprometido em fazer tudo para a sua glória. Isso também é mostrado ao longo das Escrituras, como Jonathan Edwards demonstrou de modo tão enfático na sua obra intitulada Dissertation concerning the end for which God created the world (Dissertação a respeito do fim para o qual Deus criou o mundo). “Parece que tudo que é dito nas Escrituras como um fim último das obras de Deus se resume numa única expressão: ‘a glória de Deus’.”[2] Deus elegeu o seu povo antes da fundação do mundo para a sua glória (Ef 1.6). Ele criou a humanidade para a sua glória (Is 43.7). Escolheu Israel para a sua glória (Is 49.3). Ele os libertou do Egito para a sua glória (Sl 106.7-8). Os restaurou depois do exílio para a sua glória (Is 48.9-11). Enviou seu Filho para confirmar sua fidedignidade para que os gentios o glorificassem pela sua misericórdia (Rm 15.8-9). Mandou o seu Filho para morrer para manifestar a glória da sua justiça vindicada (Rm 3.25-26). Enviou o Espírito Santo para glorificar seu Filho (Jo 16.14). Ordenou a seu povo fazer todas as coisas para sua glória (1Co 10.31). Ele enviará seu Filho uma segunda vez para receber a glória que lhe é devida (2Ts 1.9-10). E, no fim, encherá a terra com o conhecimento da sua glória (Hc 2.14). O objetivo final de Deus em tudo o que ele faz é que sua glória possa ser demonstrada para a apreciação daqueles que a aceitam, e para a desolação daqueles que não o fazem. Portanto, ele recompensa os atos que confessam a impotência humana e que expressam esperança nele, porque esses atos chamam a atenção para a sua glória. Uma oferta de vazio para mostrar onde a plenitude pode ser encontrada A oração é explicitamente designada para esse propósito: “E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14.13). Deus responde as orações porque quando olhamos além de nós mesmos para Cristo como a nossa única esperança, isso dá ao Pai uma ocasião de magnificar a glória da sua graça na obra todo-provedora do seu Filho. Do mesmo modo, o jejum é peculiarmente apropriado para glorificar a Deus dessa maneira. É fundamentalmente uma oferta de vazio a Deus em esperança. É um sacrifício de necessidade e fome. Ele diz, pela sua própria natureza: “Pai, eu estou vazio, mas vós sois a plenitude. Estou faminto, mas sois o Pão dos Céus. Estou sedento, mas sois a Fonte da Vida. Estou fraco, mas sois forte. Estou pobre, mas sois rico. Sou tolo, mas sois sábio. Estou quebrado, mas sois completo. Estou morrendo, mas ‘a tua graça é melhor do que a vida’” (Sl 63.3). Quando Deus ouve essa confissão de necessidade e vê essa expressão de confiança, ele age, porque a glória da sua graça todo-suficiente está em jogo. A resposta final é que Deus recompensa o jejum porque o jejum expressa o clamor do coração de que nada na terra pode satisfazer a nossa alma a não ser Deus. Deus deve recompensar esse clamor porque ele é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele. Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram. Hebreus 13.7 Alguns, sob o pretexto de serem ensinados pelo Espírito de Deus, recusam-se a ser instruídos por livros ou por homens vivos. Isso não é honrar o Espírito de Deus. É um desrespeito para com ele, pois se ele dá a alguns dos seus servos mais luz do que a outros – e é óbvio que ele o faz – então, eles têm obrigação de dar essa luz aos outros, e a usá-la para o bem da igreja. Mas se a outra parte da igreja se recusa receber essa luz, com que finalidade o Espírito de Deus a daria? Isso implicaria que existe um erro em alguma parte da economia dos dons e das graças de Deus, que é administrado pelo Espírito Santo. Charles Spurgeon Words of counsel for Christian workers[1] Apêndice Citações e experiências Essas citações e experiências são uma amostragem das leituras que fiz como preparação para escrever este livro. Eu as incluo aqui para inspiração e instrução, mas sem qualquer afirmação de que concordo com tudo o que é dito. As fontes são dadas para que o leitor possa se inteirar do contexto. Algumas vezes, apenas um comentário passageiro pode causar tanto impacto em nós quanto um capítulo ou um livro inteiro. Pode ser que Deus use uma dessas breves declarações para despertar em alguém uma fome por Deus. Inácio (Bispo de Antioquia no final do século 1o) Devote-se ao jejum e à oração, mas não além da conta, para não se destruir por meio disso. Não se abstenha de todo do vinho e de carne, pois essas coisas não devem ser vistas com desdém, visto que [as Escrituras] dizem: “comereis a fartura da terra” (Gn 45.18). E novamente: “comereis a carne… e ervas” (Êx 12.8). E outra vez: “o vinho, que alegra o coração do homem, o azeite, que lhe dá brilho ao rosto, e o alimento, que lhe sustém as forças” (Sl 104.15). Mas tudo deve ser usado com moderação, como sendo dádivas de Deus. “Pois quem comerá ou quem beberá sem ele? Pois se alguma coisa bela há, é dele; e se alguma coisa boa há, é dele.” The epistle to hero, Capítulo 1 (Albany, OR: Sage Software, 1995), p. 223. Agostinho (Bispo de Hipona que viveu de 354 a 430) Ao comer e beber nós restauramos o nosso corpo dos desgastes diários, até que tu destruas tanto o estômago quanto a carne, quando tiveres destruído o meu vazio com uma plenitude maravilhosa, e vestido o corruptível com uma incorrupção eterna. Mas por ora a necessidade é doce para mim, doçura contra qual eu luto, para que não seja feito cativo; e prossigo com uma guerra diária por meio de jejuns, frequentemente obrigando o meu corpo a se sujeitar e minhas dores são eliminadas pelo prazer… Muitas vezes é incerto se devem ser os cuidados necessários com o corpo que ainda estão pedindo alimento, ou se é uma ilusão volutuosa que vem da ganância que está oferecendo seus serviços. Nessa incerteza, a alma infeliz se rejubila, e dessa maneira prepara uma desculpa para se proteger, feliz que não apareça o que é suficiente para o comedimento da saúde, para que, com a desculpa da saúde, ela possa disfarçar a questão da gratificação. A essas tentações eu me empenho diariamente para resistir, e apelo para tua mão direita, e a ti eu falo das minhas perplexidades; porque não tenho até este momento nenhum conselho seguro. The confessions (Nova York: Washington Square Press, 1962), p. 198-199. Se perguntado sobre a minha opinião acerca dessa questão, eu responderia,depois de cuidadosamente pensar sobre o assunto, que nos evangelhos e Epístolas, e em toda a coleção de livros para a nossa instrução, chamada Novo Testamento, vejo que o jejum é ordenado. No entanto, não descubro qualquer regra definitivamente traçada pelo Senhor ou pelos apóstolos quanto aos dias nos quais devemos ou não jejuar. E, por causa disso, estou persuadido de que a dispensa de jejuar no sétimo dia é mais conveniente, não na verdade para obter, mas para prefigurar aquele descanso eterno no qual o verdadeiro sabá é cumprido, e que é obtido somente pela fé, e por aquela justiça pela qual a filha do Rei é todo-gloriosa interiormente. Letter XXXVI, Capítulo 11, citado do CD ROM da Electronic Bible Society, vol. 1. Cirilo de Jerusalém (Bispo de Jerusalém que viveu de 315 a 386) Não sejas, portanto, daqui em diante uma víbora, mas como tu foste antes da linhagem de uma víbora, dispa-te, disse ele, da casca de cobra da tua antiga vida pecaminosa. Pois toda serpente se arrasta para dentro de um buraco e, tendo se livrado da pela velha, seu corpo torna-se jovem novamente. De modo semelhante, entra tu também pela porta estreita e apertada, dispa-te do teu antigo eu pelo jejum, e expulsa de ti o que está te destruindo. The catechetical lectures of our holy father, Cyril, Archbishop of Jerusalem, sermão iii, “On baptism”, parágr. 7, citado do CD ROM da Electronic Bible Society, vol. 1. Martinho Lutero (Reformador alemão que viveu de 1483 a 1546) [De um sermão sobre Mt 4.1s. em 1524.] A respeito do jejum eu digo o seguinte: é correto jejuar com frequência com a finalidade de subjugar e controlar o corpo. Isso porque quando o estômago está cheio, o corpo não é útil para pregar, orar, estudar ou para fazer qualquer outra coisa que seja boa. Sob tais circunstâncias, a Palavra de Deus não pode permanecer. Mas a pessoa não deve jejuar com vistas a merecer alguma coisa por meio disso, como se por uma boa obra. What Luther says, vol. 1, compilado por Ewald M. Plass (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), p. 506. [Acerca da sobriedade de mente da qual Pedro exorta em 1Pe 1.13, Lutero comenta sobre as necessidades variadas de diferentes pessoas.] Ele não fixa um tempo determinado, por quanto tempo devemos jejuar, como o papa fez, mas deixa ao indivíduo decidir como fazê-lo de modo a sempre permanecer sóbrio, e não sobrecarregar o corpo com glutonaria, para que ele possa permanecer de posse da razão e reflexões e a determinar quanto deve fazer para manter seu corpo sob controle. Isso porque é totalmente inútil impor uma ordem acerca disso para um grupo inteiro e uma congregação, visto que somos diferentes uns dos outros: um forte, outro fraco no corpo, de modo que um deve mortificar o corpo mais e o outro menos, para que possa permanecer são e capaz de serviço adequado… É bom jejuar. Mas só pode ser chamado jejum verdadeiro quando não damos ao corpo mais alimento do que ele precisa para manter sua saúde. Deixe o corpo trabalhar e se cansar, para que o velho asno não se torne por demais imoderado e que, indo dançar em terreno perigoso, quebre um osso. O corpo deve ser refreado e deve seguir o espírito; ele não deve agir como aqueles que, quando estão por jejuar, numa sentada se enchem de peixe e do melhor vinho até que o estômago deles fique estufado. What Luther says, vol. 1, compilado por Ewald M. Plass (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), p. 507. As Escrituras colocam diante de nós dois tipos de jejum que são bons. O primeiro tipo a pessoa aceita de boa vontade para o propósito de reprimir a carne pelo espírito. Com respeito a isso, o apóstolo Paulo disse: “… nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns…” (2Co 6.5). O segundo é o tipo de jejum que a pessoa deve suportar e ainda assim aceitar de boa vontade. Com respeito a este o apóstolo Paulo disse: “Até à presente hora, sofremos fome, e sede…” (1Co 4.11). E Cristo disse a respeito dele: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9.15). What Luther says, vol. 1, compilado por Ewald M. Plass (St. Louis: Concordia Publishing House, 1959), p. 508. João Calvino (Reformador de Genebra que viveu de 1509 a 1564) Para resumir: sempre que ocorrer uma controvérsia acerca de religião que tiver de ser resolvida por um sínodo ou tribunal eclesiástico, sempre que houver uma questão acerca da escolha de um ministro; enfim, sempre que uma questão difícil de grande importância tiver de ser discutida, ou ainda quando parece haver julgamentos da ira do Senhor (como pestes, guerra e fomes) – esta é uma ordenança santa e salutar para todos os tempos, que os pastores recomendem que as pessoas façam jejum público e orações extraordinárias. Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 14). Os jejuns santos e lícitos têm três objetivos. Nós os usamos para enfraquecer e subjugar a carne para que ela não possa agir de maneira audaciosa, ou para que estejamos mais bem preparados para orações e santas meditações, ou para que sejam um testemunho da nossa auto-humilhação diante de Deus quando quisermos confessar nossa culpa a ele. Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 15). [A palavra de Paulo acerca do jejum sexual de 1Co 7.5 mostra que o jejum auxilia a oração e não é um fim em si mesmo. Depois de se referir a Ana em Lc 2.37 e a Neemias em Ne 1.4 ele diz:] Por essa razão, Paulo diz que os crentes agem corretamente se eles se abstiverem por algum tempo do leito matrimonial, para que possam estar mais livres para orar e jejuar. Ali ele junta o jejum à oração como um auxílio a ela, e adverte que ele de si mesmo não tem nenhuma importância exceto se aplicado para esse fim [1Co 7.5]. Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 17). Ao longo de todo o seu curso, a vida das pessoas verdadeiramente piedosas deve ser equilibrada com frugalidade e sobriedade, para que tanto quanto possível tenha alguma semelhança com um jejum. No entanto, além disso, há outro tipo de jejum, temporário em caráter, quando eliminamos alguma coisa do regime normal da vida, seja por um dia ou por um tempo definido, e nos obrigamos a uma restrição mais severa na dieta do que de costume. Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 18). Matthew Henry (Pastor presbiteriano inglês e expositor da Bíblia que viveu de 1662 a 1714) Se as solenidades do nosso jejum, embora frequentes, longas e severas, não servirem para colocar um limite nos sentimentos de devoção, para avivar a oração, aumentar a tristeza piedosa e alterar a disposição da nossa mente e o curso da nossa vida na direção do aperfeiçoamento, elas não respondem de modo algum à intenção, e Deus não as aceitará como realizadas para ele. A commentary on the whole Bible, vol. 4 (Nova York: Funk and Wagnalls, s.d.), p. 1.478. William Law (Escritor espiritual inglês que viveu de 1668 a 1761) Se a religião requer de nós algumas vezes jejuar e negar os nossos apetites naturais, é para diminuir aquela luta e guerra que está na nossa natureza; é para tornar o nosso corpo um instrumento mais adequado de pureza, e mais obediente aos bons requerimentos da graça divina; é para secar as fontes das nossas paixões que guerreiam contra a alma, para esfriar o fogo do nosso sangue, e tornar a mente mais capaz de meditações divinas. De modo que, embora essas abstinências inflijam alguma dor ao corpo, contudo elas também diminuem a potência dos apetites corporais e paixões e, dessa maneira, aumentam nosso apetite pelas alegrias espirituais, que até mesmo esses rigores da religião, quando praticados com discrição, acrescentammuito à apreciação satisfatória da nossa vida. A serious call to a devout and holy life (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1966, orig. de 1728), p. 112. Jonathan Edwards (Pastor-teólogo da Nova Inglaterra que viveu de 1703 a 1758) Suponho que dificilmente haja um ministro nesta terra que não tenha o costume de orar, de sabá a sabá, para que Deus derrame seu Espírito, e opere uma reforma e reavivamento religioso no país, e nos desvie da intemperança, profanidade, impureza, impiedade, e outros pecados; e nós temos guardado ano após ano dias de jejum público e oração a Deus, para reconhecer nossas falhas, e nos humilhar pelos nossos pecados, e buscar o perdão e a reforma de Deus: e agora, quando tão grande e extensa reforma foi realizada de modo tão repentino e maravilhoso naquelas coisas pelas quais buscamos a Deus, não deveríamos reconhecer isso? Some thoughts concerning the revival, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 331. A situação dos tempos requer com urgência uma plenitude do divino Espírito nos ministros, e não devemos nos dar nenhum descanso até que a tenhamos obtido. E a fim de [fazer] isso, penso que os ministros, acima de todas as pessoas, devem estar muito mais em oração reservada e jejum, e também muito em oração e jejum em companhia de outros. Parece-me que seria favorável às circunstâncias atuais que os ministros, bem como outros das regiões vizinhas, se reunissem com frequência e passassem dias em jejum e oração fervente entre si, fervorosamente buscando aqueles suprimentos extraordinários da graça divina dos céus, dos quais necessitamos para este tempo. Some thoughts concerning the revival, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 507. Mais uma coisa que eu gostaria de mencionar acerca de jejum e oração é que penso ter havido uma negligência dos ministros; e que embora eles recomendem e insistam bastante com o dever da oração secreta em suas pregações, muito pouco é dito acerca do jejum secreto. É um dever recomendado pelo nosso Salvador aos seus seguidores, da mesma maneira que a oração secreta o é; como pode ser visto comparando-se os versículos 5 e 6 do capítulo 6 de Mateus com os versículos 16 a 18. Embora eu não suponha que o jejum secreto deva ser praticado de uma maneira prescrita e curso firme como a oração secreta, contudo me parece que esse é um dever que todos os cristãos professos devem praticar, e fazê-lo com frequência. Há muitas ocasiões, de natureza tanto espiritual quanto temporal, que convenientemente requerem isso; e há muitas misericórdias particulares que desejamos para nós mesmos ou para os nossos amigos que seria adequado, dessa maneira, buscar a Deus. Some thoughts concerning the revival, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 521. John Wesley (Evangelista inglês do grande avivamento que viveu de 1703 a 1791) O homem que nunca jejua não está mais no caminho para o céu do que o homem que nunca ora. “Causes of inefficacy of christianity”, Sermons on several occasions, org. Thomas Jackson, vol. 2 (Nova York: T. Mason and G. Lane, 1840), p. 440. [O jejum] é um auxílio à oração, particularmente quando separamos extensos períodos para a oração particular. Então, de modo especial, é que Deus frequentemente se agrada em elevar a alma dos seus servos acima de todas as coisas terrenas, e algumas vezes os arrebatar, por assim dizer, para o terceiro céu. E é principalmente como um auxílio à oração que ele tem sido tão frequentemente encontrado como um meio, na mão de Deus, de confirmar e aumentar, não uma virtude, não apenas a castidade (como alguns em vão imaginam, sem qualquer base nas Escrituras, razão ou experiência), mas também seriedade de espírito, zelo, sensibilidade e brandura de consciência, indiferença para com o mundo e, consequentemente, o amor por Deus, e todo sentimento santo e celestial. “Sermon XXVII, On our Lord’s sermon on the mount”, The works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software, 1995), p. 441. Não que haja qualquer ligação natural e necessária entre o jejum e as bênçãos que Deus comunica desse modo. Porém, ele exercerá misericórdia como a quiser exercer; irá comunicar o que quer que pareça bom a ele por qualquer meio de que se agrade designar. E ele tem, em todas as eras, designado isso como um meio de afastar sua ira e obter quaisquer bênçãos que nós, de tempos em tempos, estamos necessitados. “Sermon XXVII, On our Lord’s sermon on the mount”, The works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software, 1995), p. 441. Porém, se desejamos essa recompensa devemos tomar cuidado… para não pensar que merecemos alguma coisa de Deus pelo nosso jejum. Toda advertência quanto a isso ainda é pouca, visto que um desejo de “estabelecer nossa própria justiça”, para buscar a salvação pelas obras e não pela graça, está tão profundamente enraizado no nosso coração. O jejum é apenas um caminho que Deus ordenou pelo qual esperamos por suas misericórdias imerecidas; e pelo qual, sem qualquer mérito nosso, ele prometeu nos dar suas bênçãos gratuitamente. “Sermon XXVII, On our Lord’s sermon on the mount”, The works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software, 1995), p. 449. Andrew Fuller (Pastor e escritor batista inglês que viveu de 1754 a 1815) O jejum é entendido como sendo uma prática comum das pessoas piedosas. Cristo não fez pouco dele, mas meramente nos advertiu contra seus abusos… Ele é um apêndice da oração, e designado para ajudar sua importunidade. É humilhante, e de certo modo, nos castiga diante de Deus. O espírito dele é expresso nas seguintes passagens: “Assim me faça Deus o que lhe aprouver, se eu provar pão ou alguma coisa antes do sol posto” (2Sm 3.35). “Não entrarei na tenda em que moro, nem subirei ao leito em que repouso, não darei sono aos meus olhos, nem repouso às minhas pálpebras, até que eu encontre lugar para o Senhor, morada para o Poderoso de Jacó” (Sl 132.3- 5). Não é feita nenhuma menção de tempo, nem da frequência com que o dever deva ser cumprido… É apenas um meio, no entanto; e se alguém confiar nele como um fim, isso será apenas uma abominação à vista de Deus. The complete works of the Rev. Andrew Fuller, vol. 1 (Harrisonburg, VA: Sprinkle Publication, 1988, orig. de 1844), p. 583. Abraham Lincoln (Presidente dos Estados Unidos de 1861 a 1865) Considerando que o Senado dos Estados Unidos, reverentemente, reconhece a Suprema autoridade e o Justo Governo de Deus Todo-Poderoso em todos os negócios dos homens e das nações, pediu, mediante uma resolução, ao Presidente para designar e estabelecer um dia separado para oração nacional e humilhação: E considerando que é o dever das nações bem como dos homens reconhecerem a dependência do poder soberano de Deus, confessar seus pecados e transgressões, em humilde tristeza, porém, com esperança garantida de que arrependimento sincero conduzirá à misericórdia e ao perdão; e reconhecer a verdade sublime, anunciada nas Sagradas Escrituras e provadas ao longo de toda a História, de que somente as nações cujo Deus é o Senhor são abençoadas: E, porque sabemos que, pela sua divina lei, tanto nações como indivíduos são sujeitos à punição e aos castigos neste mundo, não devemos nós merecidamente temer que a terrível calamidade da guerra civil, que agora assola a terra, seja uma punição infligida sobre nós por causa dos nossos pecados presunçosos, tendo em vista a finalidade necessária da reforma nacional do povo como um todo? Nós temos sido os destinatários das generosidades mais seletas do céu. Temos sido preservados, estes muitos anos, em paz e prosperidade. Crescemos em número, riqueza e poder como nenhuma outra nação jamais cresceu. Porém, nos esquecemos de Deus. Nós esquecemos a mãomisericordiosa que nos preservou em paz, nos multiplicou, nos enriqueceu e nos fortaleceu; e temos imaginado em vão, no engano de nossos corações, que todas essas bênçãos foram produzidas pela nossa própria sabedoria e virtude superiores. Intoxicados pelo sucesso constante, temos nos tornado demasiadamente autossuficientes para sentir a necessidade da graça redentora e preservadora, orgulhosos demais para orar ao Deus que nos fez! É conveniente, então, nos humilhar diante do Poder ofendido, confessar nossos pecados nacionais, e orar por clemência e perdão. Agora, portanto, em conformidade com o pedido, e plenamente concordando com os pontos de vista do Senado, eu, por meio desta minha promulgação, designo e separo a quinta-feira, dia 30 de abril de 1863, como o dia nacional de humilhação, jejum e oração. E por meio deste solicito a todo o povo que se abstenha nesse dia de suas tarefas seculares ordinárias e para se unirem em seus diversos locais de adoração pública, e respectivas casas, em guardar o dia santo ao Senhor, e devotar-se ao humilde cumprimento dos deveres religiosos apropriados para essa ocasião solene. Feito tudo isso em sinceridade e verdade, deixa-nos então descansar humildemente na esperança autorizada pelos ensinamentos divinos de que o clamor unido da nação será ouvido no céu e respondido com bênçãos, nada mais nada menos que o perdão dos nossos pecados nacionais, e a restauração do nosso ora dividido e sofrido país, à sua condição antes feliz de unidade e paz. Em testemunho disso, assino o presente documento e ordeno que seja afixado o selo dos Estados Unidos. Feito na cidade de Washington no dia treze de março, no ano do nosso Senhor de um mil oitocentos e sessenta e três, e no ano octogésimo sétimo da Independência dos Estados Unidos. Abraham Lincoln. Library of Congress, Apêndice no 19, vol. 12, de United States at large, citado em Derek Prince, Shaping history through prayer and fasting (Old Tappan; NJ: Fleming H. Revell Company, 1973), p. 5-8. Para proclamações de George Washington, John Adams e James Madison, veja as p. 138-147. J. C. Ryle (Bispo evangélico de Liverpool que viveu de 1816 a 1900) Vamos aprender com as instruções dadas pelo Senhor acerca do jejum, a grande importância da alegria na nossa religião. As palavras “unge a cabeça e lava o rosto” são cheias de significado. Elas nos ensinam a deixar que os homens vejam que descobrimos que o cristianismo nos faz felizes. Não esqueçamos nunca que não há religião em parecer melancólico e triste. Estamos insatisfeitos com o salário de Cristo, e o serviço de Cristo? Certamente que não! Então, não vamos parecer como se estivéssemos. Ryle´s expository thoughts on the gospel, Matthew-Mark (Grand Rapids: Zondervan Publishing House, s.d.), p. 57. Phillips Brooks (Pastor americano, autor do hino “Pequena vila de Belém”, 1835-1893) Essa, então, é a filosofia do jejum. Ele expressa arrependimento, e desnuda a vida para Deus. “Venha abaixo, meu orgulho; para trás, minhas paixões, pois eu sou pecador, e espero em Deus para me abençoar.” “Fasting” (a sermon for Lent), em: The candle of the Lord and other sermons (Nova York: E. P. Dutton and Company, 1881), p. 207. Pastor HSI (Pastor chinês do século 19) [No seu ministério, ele tratava os chineses viciados em ópio.] Sempre que era necessário fazer um novo suprimento, ele começava com oração e jejum. Era seu hábito passar sem alimento as 24 horas do dia dedicado àquele trabalho. Algumas vezes, ele estava tão exausto no final da tarde que mal conseguia manter-se em pé. Então, saía por alguns minutos, sozinho, para fazer uma visita a Deus. “Senhor, é obra tua. Dá-me vossa força”, era sua súplica. E ele sempre voltava reanimado e revigorado, como se tivesse comido e descansado. Mrs. Howard M. Taylor, Pastor Hsi (Singapura: Overseas Missionary Fellowship, 1989, orig. de 1900), p. 131. Praying (John) Hyde* (Missionário para a Índia na virada do século 20) [Na Convenção Sialkot na Índia para missionários no final do século 19, John Hyde passou todo o tempo da convenção na sala de oração.] E como ele fazia para comer e dormir? A Convenção durava dez dias naqueles primeiros tempos, e seu “rapaz”, um moço de 16 anos, que ele tinha recebido na sua casa e coração, tinha trazido roupa de cama e cuidadosamente feito sua cama, mas esta não foi usada nem uma vez durante a Convenção. Eu o vi mais de uma vez, quando a sala de oração estava cheia, se dirigir a um canto e se estirar no chão para dormir, mas se a sala começasse a se esvaziar e a oração a esmorecer, ele, de alguma maneira, parecia saber e se levantava imediatamente e retomava seu lugar junto aos outros intercessores. Ele fazia as refeições? Acho que só o vi uma vez ou duas conosco à mesa. Algumas vezes, o “rapaz” ou Gulla, o faxineiro, ou um dos seus amigos levava um prato de curry ou arroz ou alguma outra coisa para ele na sala de oração, e se fosse conveniente ele ia para um canto e comia. Seu “rapaz” chorava muito porque ele não comia como devia e não ia para cama dormir. E. G. Carre, Praying Hyde: a challenge to prayer (South Plainfield, NJ: Bridge Publishing, Inc., s.d.), p. 92. Andrew Murray (Pastor sul-africano e estadista missionário, 1828-1916) A oração precisa do jejum para seu pleno desenvolvimento. A oração é a mão com a qual agarramos o invisível. O jejum é a outra mão, aquela com a qual soltamos o visível. Em nada o homem está mais intimamente ligado com o mundo dos sentidos do que nessa necessidade pelo alimento e apreciação dele. No Paraíso, foi com o fruto que o homem foi tentado e caiu. Foi com pão que Jesus foi tentado no deserto. Mas ele triunfou no jejum… O corpo foi redimido para ser um templo do Espírito Santo. As Escrituras dizem que tanto no corpo quanto no espírito devemos glorificar a Deus no comer e no beber. Existem muitos cristãos para quem esse comer para a glória de Deus ainda não se tornou uma realidade espiritual. O primeiro pensamento sugerido pelas palavras de Jesus com respeito ao jejum e à oração é que somente numa vida de moderação e abnegação haverá amor suficiente e força para orar muito… O jejum ajuda a expressar, aprofundar e a confirmar a resolução de que estamos prontos a sacrificar qualquer coisa, até mesmo a nós mesmos, para obter o Reino de Deus. E Jesus, que jejuou e se sacrificou, sabe valorizar, aceitar e recompensar com poder espiritual a alma que está desse modo disposta a desistir de tudo por ele e pelo seu Reino. With Christ in the school of prayer (Springdale, PA: Whitaker House, 1981), p. 100-101. Dietrich Bonhoeffer (Teólogo alemão e mártir do século 20) Jesus assumiu como certo que seus discípulos iriam observar esse costume piedoso do jejum. O exercício rigoroso do domínio próprio é uma característica essencial da vida cristã. Tais costumes têm apenas um propósito – tornar os discípulos mais dispostos e alegres para realizar as coisas que Deus teria feito. The cost of discipleship (Nova York: Collier Books / Macmillan Publishing Co., 1949), p. 188. Quando a carne está satisfeita, é difícil orar com alegria ou se dedicar a uma vida de serviço que exige muita abnegação. The cost of discipleship (Nova York: Collier Books / Macmillan Publishing Co., 1949), p. 189. Temos de praticar rígida disciplina diária; somente assim a carne pode aprender a lição dolorosa de que ela não tem direitos próprios. The cost of discipleship (Nova York: Collier Books / Macmillan Publishing Co., 1949), p. 189. C. S. Lewis (Professor de literatura e escritor cristão inglês, 1898-1963) É impossível aceitar o cristianismo visando encontrar conforto; antes, o cristão tenta se manter aberto para a vontade de Deus, fazer o que Deus quer que ele faça. Você não sabe antecipadamente se Deus irá lhe mandar fazer alguma coisa difícil ou dolorosa, ou alguma coisade que você irá gostar imensamente; e algumas pessoas de natureza heroica ficam desapontadas quando o trabalho designado a elas revela-se algo bastante agradável. No entanto, você deve estar preparado para coisas desagradáveis e os desconfortos. Eu não quero dizer jejuar e coisas do tipo. Estas são uma questão diferente. Quando soldados estão sendo treinados em manobras, eles praticam com munição de festim porque precisam praticar antes de enfrentar o inimigo real. Então, devemos praticar em nos abster dos prazeres que não são em si mesmos pecaminosos. Se você não se abstém de prazeres, não estará capacitado quando a hora chegar. Trata-se, puramente, de uma questão de prática. God in the dock (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1970), p. 53-54. Martyn Lloyd-Jones (Pregador do século 20, em Londres) O jejum, se verdadeiramente o compreendemos, não deve… ser confinado a questões de alimento e bebida; o jejum deve, na verdade, ser feito para incluir a abstinência de qualquer coisa que é legítima em si e por si mesma por causa de algum propósito espiritual. Existem muitas funções corporais que são certas e normais e perfeitamente legítimas, mas que, por razões peculiares especiais, em determinadas circunstâncias devem ser controladas. Isso é jejum. Studies in the sermon on the mount, vol. 2 (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1960), p. 38. David R. Smith (Escritor do século 20) Uma pessoa egoísta é incapaz de apreciar o evangelho; um cristão é alguém que começou a negar a si mesmo e está em processo contínuo de negação de si mesmo. Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). A autonegação não é limitada a um tipo particular de dar; ela engloba todas as disciplinas pessoais. O jejum é apenas uma disciplina; no entanto, é uma autonegação. Isso não significa que jejuar seja aceitar o legalismo; é a liberdade do evangelho que nos encoraja a negar a nós mesmos. Fasting: a neglected discipline (Fort Washington, PA: Christian Literature Crusade, 1954), p. 17. Ninguém pode manter um estado mental adequado se sua condição corporal não estiver de acordo com ele. Se um homem estiver ansioso para se dedicar às coisas espirituais, por algum tempo ele é obrigado a se certificar de que seu corpo esteja em ambiente semelhante, do contrário ele pode não ser bem-sucedido. Ele não pode ser reverente no meio de sua própria irreverência física. O jejum assegura o ambiente correto para considerações sérias e pesarosas. Asterius escreveu, no século 4o, que o papel do jejum é assegurar que o estômago não faça o corpo ferver como uma chaleira e atrapalhe a alma. Fasting: a neglected discipline (Fort Washington, PA: Christian Literature Crusade, 1954), p. 38-39. O jejum não cria fé, pois a fé cresce em nós enquanto ouvimos, lemos e meditamos na Palavra de Deus; é obra do Espírito Santo trazer fé ao povo de Deus. Entretanto, o jejum tem a capacidade de incentivar a fé naquele que está envolvido nessa disciplina. É como se a negligência de si mesmo alimentasse a fé que Deus implantou no coração dos crentes nascidos de novo. Isso não significa que aqueles que comem menos têm mais fé; essa visão não é apenas falsa, é extremista. É simplesmente que a autonegação regular tem seus benefícios, e um deles é visto num aumento pessoal da fé. Fasting: a neglected discipline (Fort Washington, PA: Christian Literature Crusade, 1954), p. 47-48. Keith Main (Escritor do século 20) Para o judaísmo, o jejum era um sinal exterior de uma condição interior. Para Jesus, o jejum era um sinal interior de uma condição interior. O primeiro, se mal usado, “uma forma peculiarmente feia de arte religiosa dramática”, o último, uma parte das devoções “privadas”. Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971), p. 37. Até aqui temos sugerido que a alegria e as ações de graças que marcam a vida de oração do Novo Testamento é um sinal do raiar do Reino de Deus. O jejum não é mais consistente com a atitude alegre e agradecida que marca a comunhão. No entanto, isso é apenas parcialmente assim… É verdade que a crise e a tragédia existem como uma dura realidade. O Reino não está completamente consumado. Desde que o Noivo esteja presente não é hora apropriada para lamento. No entanto, isso não é totalmente assim, pois ainda estamos na carne e fracos na fé… Nessa “amarga luta”, na sua vida devocional o crente pode concebivelmente encontrar ocasião para jejuar. Ele seria apenas um entre os muitos ingredientes que constituem a vida do homem em Cristo. A pessoa pode ler 2Coríntios 6.3- 10 e 11.23-29 para obter um relance do grande âmbito dos sofrimentos na “amarga luta” pela causa de Cristo. Contra esse pano de fundo, os “jejuns” mencionados em 6.5 e 11.27 são colocados na sua verdadeira perspectiva. Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971), p. 83-84. Richard J. Foster (Escritor devocional do século 20) É bom saber qual é o processo pelo qual seu corpo passa no decurso de um jejum mais prolongado. Os primeiros três dias são geralmente os mais difíceis em termos de desconforto físico e dores da fome. O corpo está começando a se livrar dos venenos tóxicos que se acumularam ao longo dos anos de hábitos alimentares inadequados, e esse não é um processo confortável. Essa é a razão para a cobertura da língua e o mau hálito. Não se perturbe por causa desses sintomas; em vez disso, sinta-se grato porque mais saúde e bem-estar será o resultado. Você poderá experimentar dores de cabeça durante esse tempo, especialmente se for um consumidor ávido de café e chá. Esses são sintomas moderados de abstinência que irão passar, embora possam ser muito desagradáveis por algum tempo. Por volta do quarto dia, as dores da fome começam a diminuir embora você sinta fraquezas e tonturas ocasionais. As tonturas são apenas temporárias e são causadas por mudanças repentinas de posição. Mova-se mais devagar e você não terá nenhuma dificuldade. A fraqueza pode chegar ao ponto de a menor tarefa exigir um grande esforço. Descansar é o melhor remédio. Muitos acham esse o período mais difícil do jejum. Pelo sexto e sétimo dia você começará a se sentir mais forte e mais alerta. As dores da fome continuarão a diminuir até que pelo nono ou décimo dia elas são apenas uma pequena irritação. O corpo terá eliminado a maior parte dos venenos tóxicos e você se sentirá bem. Seu sentido de concentração estará mais aguçado e você se sentirá como se pudesse continuar jejuando indefinidamente. Fisicamente, essa é a parte mais apreciável do jejum. Entre os dias 21 a quarenta ou mais, dependendo da pessoa, as dores da fome voltarão. Esse é o primeiro estágio de inanição e sinaliza que o corpo já usou toda sua reserva e está começando a se alimentar dos tecidos vivos. O jejum deve ser quebrado nesse momento. The celebration of discipline (Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978), p. 51-52. Dallas Willard (Escritor do século 20 sobre disciplinas espirituais) O jejum é uma disciplina difícil de praticar sem que consuma toda a sua atenção. No entanto, quando o usamos como parte da oração ou culto, não podemos permitir que ele seja assim. Quando uma pessoa escolhe jejuar como parte de uma disciplina espiritual, ele ou ela deve então praticar bem o suficiente e com frequência suficiente para se tornar experiente nele, porque somente a pessoa que está bem acostumada ao jejum sistemático como disciplina pode usá-lo eficazmente como uma parte do culto direto a Deus, como em tempos especiais de oração ou outro serviço. The spirit of the disciplines: understanding how God changes lives (São Francisco: Harper and Row, 1988), p. 168. Joseph F. Wimmer (Escritor do século 20) [Acercade Mc 2.18-22 e a presença e ausência do noivo:] O fato de eles não jejuarem tinha o objetivo de fazer uma afirmação, a saber, que a era escatológica tinha vindo em Jesus… O futuro retorno ao jejum depois de ele ter “sido levado” se refere, portanto, a Jesus, como um triste memorial do que aconteceu na odiosa sexta-feira, misturado com confiança interior e humilde confiança na sua segunda vinda e a consumação final da parousia. Esse jejum cristão era algo novo, distinto daquele do judaísmo, não apenas no que concerne ao dia do jejum, mas mais importante, em termos de sua motivação interior. Até mesmo como sinal de humilde adoração do Pai ele foi a partir daí relacionado a Jesus, por meio de quem a salvação veio, e em cuja presença nós iremos um dia nos regozijar sem reservas, na plenitude do seu Reino. Fasting in the New Testament: a biblical theology (Nova York: Paulist Press, 1982), p. 101. A fraqueza da fome que leva à morte ressalta a bondade e o poder de Deus que desejam a vida. Não há aqui nenhuma exortação, nenhuma tentativa mágica de forçar a vontade de Deus. Nós meramente olhamos com confiança para o nosso Pai celeste e por meio do nosso jejum dizemos suavemente em nosso coração: “Pai, sem ti eu morrerei; vem em meu auxílio, apressa-te em me acudir”. Fasting in the New Testament: a biblical theology (Nova York: Paulist Press, 1982), p. 119. Adalbert De Vogüé (Monge da Abadia de La Pierre-qui-Vire, França, século 20) Os resultados benéficos do jejum são sentidos primeiramente na esfera sexual. Eu facilmente verifiquei a associação estabelecida pelos antigos entre os dois “vícios principais”, a glutonaria e a luxúria, e consequentemente entre as disciplinas correspondentes: o jejum e a castidade. O jejum é o auxílio mais eficaz para um religioso que fez votos de castidade. As fantasias não mais aparecem, nem mesmo durante as horas descontraídas de liberdade fisiológica das quais falei, e no resto do tempo elas são facilmente controladas e eliminadas. To love fasting: the monastic experience (Petersham, MA: Saint Bede’s Publications, 1989), p. 10. Não hei de surpreender a ninguém se confessar que eu sou sujeito à ansiedade e irritação, tristeza e nervosismo, para não falar de vaidade, sensibilidade e inveja… O hábito de jejuar efetua uma profunda mitigação de todos esses movimentos instintivos. Penso que a causa é que certo domínio do apetite primordial, comer, permite um maior domínio das outras manifestações da libido e da agressividade. É como se o homem que jejua fosse mais ele mesmo, em posse da sua verdadeira identidade, e menos dependente dos objetos exteriores e dos impulsos que eles levantam nele… Dentre os benefícios menos importantes, podemos listar o tempo economizado em se sentar à mesa uma vez apenas em vez de três vezes. To love fasting: the monastic experience (Petersham, MA: Saint Bede’s Publications, 1989), p. 10. Gostar de jejuar não é apenas possível. À luz dos fatos, chego a ponto de dizer que o contrário é que me parece impossível, seja lá até que ponto a pessoa já tiver experimentado verdadeiramente o jejum. Experimente jejuar e você realmente gostará de fazê-lo. To love fasting: the monastic experience (Petersham, MA: Saint Bede’s Publications, 1989), p. 104. Arthur Wallis (Escritor devocional do século 20) Quase todos concordam que uma visitação do Espírito sobre a igreja se faz desesperadamente necessária. Devemos crer que a promessa a Joel não tem nada a ver com essa situação?… Será que os acontecimentos do Pentecostes exauriram a profecia de Joel? Obviamente não, ou não teria havido mais nenhum derramamento… Se, entretanto, acreditarmos que essa maravilhosa promessa é para nós – é de fato a resposta de Deus para as necessidades atuais – é vital que preenchamos as condições tanto quanto reivindiquemos a promessa. Três vezes Joel faz soar um som de trombeta, em vista da iminência do dia do Senhor, para se voltar para Deus com jejum (Jl 1.14; 2.12,15). Então ele parece ver em visão a resposta de Deus: “Então, o Senhor se mostrou zeloso da sua terra, compadeceu-se do seu povo” (Jl 2.18). God´s chosen fast: a spiritual and practical guide to fasting (Fort Washington, PA: Christian Literatures Crusade, 1968), p. 131-132. Wesley Duewel (Escritor sobre oração do século 20) Você e eu não temos mais o direito de omitir o jejum porque não sentimos nenhuma sugestão emocional especial, assim como não temos também o direito de omitir oração, a leitura da Bíblia, ou a reunião com os filhos de Deus por falta de algum estímulo emocional especial. O jejum é uma parte bíblica e normal de uma caminhada espiritual de obediência com Deus tanto quanto essas outras. Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990), p. 184. Como você toma a sua cruz? Tomar a sua cruz não significa ter alguém que a coloque sobre seus ombros. Enfermidade, perseguição e antagonismo de outras pessoas não são a sua cruz verdadeira. Tomar uma cruz é uma escolha deliberada. Nós devemos propositadamente nos humilhar [sic], nos abaixarmos e pegar a cruz por Jesus. O jejum é uma das maneiras mais bíblicas de se fazer isso. Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990), p. 184. O jejum pode fazer aprofundar a fome por Deus. A fome e o jejum espirituais têm um poder recíproco. Cada um aprofunda e fortalece o outro. Cada um torna o outro mais eficiente. Quando a sua fome espiritual se torna muito profunda, você pode até mesmo perder seu apetite por comida. Todas as formas mais intensas de oração eficaz… podem ser aprofundadas, esclarecidas e grandemente fortalecidas pelo jejum. Jejuar é natural quando você se encontra muito sobrecarregado, lutando com poderosos inimigos e guerreando em conflitos de corpo a corpo com Satanás e seus poderes das trevas. O jejum se torna doce e abençoado na medida em que a sua fome se estende na direção de Deus. Sua fome ganha tremendo poder enquanto você jejua e ora – particularmente se separar tempo, deixando tudo o mais para se entregar ao jejum e à oração. Jejuar pode se tornar um deleite espiritual. Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990), p. 188. O jejum alimenta a sua fé… Sua confiança começa a se aprofundar. Sua esperança começa a aumentar, pois você sabe que está fazendo o que agrada o Senhor. Sua disposição em negar o ego e voluntariamente tomar essa cruz adicional desperta uma alegria interior. Sua fé começa a se apegar às promessas de Deus de modo mais simples e mais firme. Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990), p. 189. J. Oswald Sanders (Estadista missionário do século 20) O jejum não é uma exigência legalista, mas uma reação espontânea sob circunstâncias especiais… Existem… pessoas devotas e piedosas que acham que o jejum é um obstáculo em vez de ajuda. Algumas pessoas têm constituição física tal que a falta da mínima quantidade de comida as torna incapazes de se concentrar na oração… Não há necessidade de elas se sujeitarem a isso. É melhor fazerem aquilo que as ajuda mais a orar. Prayer power unlimited (Chicago: Moody Press, 1977), p. 67. Edith Schaeffer (Escritora do século 20) Porventura pode o jejum, de alguma maneira, ser um meio de subornar a Deus para que ele preste mais atenção às nossas petições? Não, mil vezes não. É simplesmente uma maneira de deixar claro que justamente reverenciamos suficientemente a oportunidade extraordinária de pedir a ajuda do nosso eterno Deus, o Criador do universo, escolhendo colocar tudo o mais de lado e nos concentrar na adoração a ele, pedindo-lhe seu perdão, e apresentando-lhe nossos pedidos – considerando o seu auxílio mais importante do que qualquer coisa que nós mesmos possamos fazer por nossa própria força com nossas própriasideias. The life of prayer (Wheaton: Crossway Book, 1992), p. 75- 76. Jerry Falwell (Pastor batista do século 20) Um velho santo certa vez disse que o jejum evita que as luxúrias se transformem em necessidades. O jejum é uma proteção do espírito contra a usurpação do corpo. Quando uma pessoa jejua, ela traz seu corpo sob controle, e é capaz de fazer o trabalho do Mestre. Fasting: what the Bible teaches (Wheaton, Illinois: Tyndale House Publishers, Inc., 1981), p. 11. Bill Bright (Evangelista e fundador do Campus Crusade for Christ) Nada vai conseguir opor-se à maré de castigos que está devastando a nossa terra a não ser o sobrenatural. Acredito que não há nada que se compare com o poder sobrenatural liberado quando jejuamos e oramos. Sabemos com certeza, com base em Hebreus 11.6 e experiência pessoal, que Deus recompensa aqueles que o buscam diligentemente. The coming revival: America call to fast, pray and “seek God ´s face” (Orlando, Flórida: New Life Publications, 1995), p. 108. Cornelius Plantinga, Jr. (Teólogo do século 20) A autoindulgência é a inimiga da gratidão; e a autodisciplina, geralmente, sua amiga e geradora. É por essa razão que a glutonaria é um pecado mortal. Os pais primitivos do deserto acreditavam que os apetites de uma pessoa estão ligados: estômago cheio e paladar saturado privam de força a nossa fome e sede por justiça. Eles estragam o apetite por Deus. Citado no The reformed journal, novembro de 1988, em Donald S. Whitney, Spiritual disciplines for the Christian life (Colorado Springs: NavPress, 1991), p. 151. * O Hyde que orava. Bibliografia Os livros listados aqui são selecionados para estudos mais aprofundados. A lista não é completa nem uniformemente recomendada. “Julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1Ts 5.21). Anderson, Andy, Fasting changed my life. Nashville, TN: Broadman Press, 1977. Beall, James Lee, The adventure of fasting. Old Tappan, NJ: Fleming H. Revell Company, 1974. Benson, Bob, e Michael W. Benson, “Fasting”, Disciplines for the inner life. Waco, TX: WordBooks, 1985. Bragg, Paul C., The miracle of fasting; proven throughout history. Desert Hot Springs, CA: Health Science, 1976. Bright, Bill, The coming revival: America’s call to fast, pray, and “seek God’s face”. Orlando, FL: New Life Publications, 1995. Brooks, Phillips, “Fasting” (Sermão para a Quaresma) em: The candle of the Lord and other sermons. Nova York: E. P. Dutton and Company, 1881. Carruth, Thomas A., Forty days of fasting and prayer. Wilmore, KY: Asbury Seminary, 1974. Charles, Jerry, God´s guide to fasting: a complete and exhaustive biblical encyclopedia. Madison, NC: Power Press, 1977. Chatham, R. D., Fasting: a biblical-historical study. South Plainfield, NJ: Bridge Publishing, Inc., 1987. Cott, Allan, Fasting as a way of life. Nova York: Bantam Books, 1977. DeWelt, Don, e John E. Baird, What the Bible says about fasting. Joplin, MO: College Press Publishing Co., 1984. Duewel, Wesley L. “You can deepen your prayer by fasting”, em: Touch the world through prayer. Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1986. Duewel, Wesley L. “Jesus said they would fast” e “Fasting strengthens prayer”, em: Mighty prevailing prayer. Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990. Falwell, Jerry, Fasting: what the Bible teaches. Wheaton, IL. Tyndale House Publishers, Inc., 1981. Foster, Richard, “Fasting”, em: The celebration of discipline. Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978, p. 41-53. Lindsay, Gordon, Prayer and fasting. Dallas: Christ for the Nations, 1972. Lloyd-Jones, Martyn, “Fasting”, em: Studies in the sermon on the mount, vol. 2, Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1960, p. 33-44. Main, Keith, Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church. Nova York: Carlton Press, Inc., 1971. Maloney, George A., A return to fasting. Pecos, NM: Dove Publications, 1974. Miller, James, Systematic fasting. Indianapolis: James Miller, s.d. 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Willard, Dallas, The spirit of the disciplines: understanding how God changes lives. São Francisco: Harper and Row, 1988. Wimmer, Joseph, Fasting in the New Testament: a biblical theology. Nova York: Paulist Press, 1982. Notas Introdução: Saudades de Deus [1] Citado in Thomas Ryan, Fasting rediscovered (Nova York: Paulist Press, 1981), p. 44. [2] Martyn Lloyd-Jones, Studies in the sermon on the mount, vol. 2 (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1960), p. 38. [3] A palavra que traduzo como “se despede” é usada cinco vezes no Novo Testamento, e o significado de cada uma delas é: em Marcos 6.46 “despedido”; Lucas 9.61 “despedir- me”; Atos 18.18, 21 “despedindo-se”; 2Coríntios 2.13 “despedindo-me”. A questão é que nós apenas podemos usar nossas posses corretamente quando tivermos nos libertado delas como necessário para o nosso contentamento em Deus. [4] C. S. Lewis, The problem of pain (Nova York: The Macmillan Co., 1962), p.101-102. [5] Agostinho, The city of God, Book XVI, Seção 32 (Nova York: Random House Inc., 1950), p. 554. [6] Richard Foster, The celebration of discipline (Nova York: Harper and Row Publishers, 1978), p. 48. [7] Ibid., p. 48. [8] C. S. Lewis, Letters of C. S. Lewis, org. W. H. Lewis (Nova York: Harcourt Brace and World, Inc., 1966), p. 289. [9] De modo semelhante, Phillips Brooks disse: “Quanto mais consideramos a vida dos homens, mais vemos que uma das razões pelas quais eles não estão ocupados com grandes pensamentos e interesses é o modo pelo qual têm a vida abarrotada com coisinhas”. Phillips Brooks, “Fasting” (um sermão para Lent) em: The candle of the Lord and other sermons (Nova York: E. P. Dutton and Company, 1881), p. 207. Capítulo 1: O jejum é cristão? [1] Didache, VIII, citado em The apostolic fathers (Loeb Classical Library), trad. Kirsopp Lake (Londres: William Heinemann, Ltd., 1970), p. 321. [2] Richard Foster está quase disposto a dizer isso, mas não o faz. Ao referir-se a Mateus 9.14-17, ele diz: “Essa talvez seja a afirmação mais importante do Novo Testamento acerca da questão sobre se o cristão deve jejuar atualmente”. Richard Foster, The celebration of discipline (Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978), p. 46. Os paralelos a essa passagem se encontram em Marcos 2.18- 22 e Lucas 5.33-39. [3] “Fasting”, de Richard T. Foster, em New dictionary of christian ethics and pastoral theology, org. David J. Atkinson, David F. Field, Arthur Holmes e Oliver O’Donovan (Downers Grove: IL: InterVarsity Press, 1995), p. 376. [4] “Provavelmente não se pode alegar nenhuma causa única como sendo a origem da prática do jejum.” “Fasting”, de A. J. Maclean, em Encyclopedia of religion and ethics, org. James Hastings (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1912), p. 759. [5] A expressão idiomática hebraica em Levítico 16.29, “afligireis (ou humilhareis) a vossa alma”, foiinterpretada pelos judeus como um chamado para o jejum, e assim esse dia se tornou o jejum mais importante da história judaica. O salmo 35.13 mostra essa associação entre “afligir a alma” e o jejum: “eu afligia a minha alma com jejum”. Esse é provavelmente “o jejum” a que Lucas se referiu em Atos 27.9. [6] Eric N. Rogers escreveu um capítulo sobre cada um desses jejuns religiosos, Fasting, the phenomenon of self- denial (Nashville: Thomas Nelson Inc. Publishers, 1976), Parte II, Capítulos 4, 6, 7. [7] Encyclopedia of religion and ethics, p. 760-761. [8] Citado em The phenomenon of self-denial, p. 77-78. [9] Ibid., p. 79-80. [10] A tragédia dessa condição pode ser vista no testemunho de uma moça: “Tudo o que eu quero é me tornar cada vez mais magra, mas não quero prestar atenção a isso o tempo todo, e não quero desistir de nada. É essa tensão eterna entre querer ser magra e não querer desistir de comer que é tão exaustiva. Em todos os outros pontos sou razoável, mas sei que nesse ponto sou louca”. Citado em ibid., p. 135. [11] George Ladd, The presence of the future (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1974), p. 225 (itálicos no original). [12] Keith Main, Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971), p. 84 (itálicos acrescentados). [13] As referências ao jejum fora dos evangelhos se encontram em Atos 13.2-3; 14.23; 2Coríntios 6.5; 11.27. As referências na Versão King James de 1Coríntios 7.5 e Atos 10.30 provavelmente não se encontram nos melhores e mais antigos manuscritos gregos. [14] Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church, p. 54, 60-61. [15] C. S. Lewis, The problem of pain (Nova York: The Macmillan Co., 1962), p. 112. [16] Robert H. Gundry, Matthew: a commentary on his literary and theological art (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1982), p. 169. [17] Arthur Wallis, God’s chosen fast (Fort Washington, PA: Christian Literature Crusade, 1968), p. 28-32. [18] Veja a nota 11. [19] Veja a nota 11. [20] Tentei explicar minuciosamente essa dependência cristã singular da graça futura de Deus sobre a graça passada de Deus em The purifying power of living by faith in future grace (Sisters, OR: Multnomah Press, 1995), Capítulos 7—9. [21] Esse entendimento da fé é desenvolvido e defendido biblicamente em Future grace, Capítulos 14—16. [22] Prayer and Fasting: A Study in the Devotional Life of the Early Church, p. 83. [23] Ibid., p. 84. [24] A palavra grega rara por trás dessa expressão (ethelothrhskia) parece indicar a origem e a manutenção dessa “adoração” ou “religião” na vontade humana, e não na graça de Deus. Ela tem origem quando a pessoa não está “firmemente apoiada no cabeça”, a saber, Cristo, como a fonte de todas as coisas. [25] A palavra implica principalmente “continência” sexual. No entanto, seu uso em 1Coríntios 9.25 mostra que ela tem um significado mais amplo de disciplina em todas as áreas da vida. “Todo atleta em tudo se domina.” [26] Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church, p. 60. [27] A NASB traduz esse “em jejuns, muitas vezes”, como se referindo à fome involuntária. Mas o fato de que, um pouco antes dessa palavra, Paulo menciona “em fome e sede” sugere que alguma outra coisa além da fome comum está em vista. Além do mais, a palavra usada aqui ( nhsteiais) é sempre usada no Novo Testamento para jejum religioso, e esse é também o seu significado normal no Novo Testamento grego (cerca de trinta vezes). Capítulo 2: Não só de pão viverá o homem [1] Joseph F. Wimmer, Fasting in the New Testament: a biblical theology (Nova York: Paulist Press, 1982), p. 119. [2] Citado em Richard Foster, The celebration of discipline (Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978), p. 48. [3] Ibid., p. 48. [4] Joseph F. Wimmer, Fasting in the New Testament: a biblical theology (Nova York: Paulist Press, 1982), p. 119. [5] Dietrich Bonhoeffer, The cost of discipleship (Nova York: Collier Books Macmillan Publishing Co., 1949), p. 189-190. Capítulo 3: Jejuar pela recompensa do Pai [1] Citado de Agostinho, The confessions of St. Augustine, em Documents of the christian church, org. Henry Bettenson (Londres: Oxford University Press, 1967), p. 54. [2] J. C. Ryle, Ryle’s expository thoughts on the Gospels, Matthew-Mark (Grand Rapids: Zondervan Publishing House, s.d.), p. 57. [3] Dietrich Bonhoeffer, The cost of discipleship (Nova York: Collier Books / Macmillan Publishing Co., 1949), p. 188. [4] Keith Main, Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971), p. 37. [5] John Piper, Desiring God: meditations of a christian hedonist (Sisters, OR: Multnomah Press, 1996, edição revista), The pleasures of God: meditations on God’s delight in being God (Sisters, OR: Multnomah Press, 1991), The purifying power of living by faith in future grace (Sisters, OR: Multnomah Press, 1995). [6] C. S. Lewis, The problem of pain (Nova York: The Macmillan Co., 1962), p. 145. Capítulo 4: Jejum pela volta do Rei [1] George Ladd, “A motive for mission”, em Pray for Tibet, vol. 2, no 2, verão de 1991, p. 4-6. A citação foi tirada do livro de Ladd, The Gospel of the kingdom: popular exposition on the kingdom of God (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing, Co. 1959). [2] John Wesley, “Sermon XXVII, on our Lord’s sermon on the mount”, em: The works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software, 1995), p. 440-441. [3] Veja John Piper, Let the nations be glad: the supremacy of God in missions (Grand Rapids: Baker Book House, 1993), Capítulo 5, “The supremacy of God among ‘all nations’”. [4] Anthony Hoekema, The Bible and the future (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1979), p. 139. [5] George Ladd, “A motive for mission”, p. 4-6. Capítulo 5: O jejum e o curso da História [1] Jonathan Edwards, Some thoughts concerning the revival, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 507. [2] Charles Finney, Power from on high (Albany, OR: Sage Software, 1995), p. 9-10 (itálicos acrescentados). [3] Acerca do ministério de Asahel Nettleton e a comparação com ele e Finney, veja J. F. Thornbury, God sent revival: the story of Asahel Nettleton and the Second Great Awakening (Grand Rapids: Evangelical Press, 1977), e Bennet Tyler e Andrew Bonar, The life and labors of Asahel Nettleton (Edimburgo: The Banner of Truth, 1975, original de 1854). [4] Veja a avaliação discernente do ministério e teologia de Finney in John MacArthur, Jr., Ashamed of the Gospel (Wheaton, Il: Crossway Books, 1993), p. 227-235. “Eu era com frequência útil em levar os cristãos a grande convicção, e a um estado temporário de arrependimento e fé… [Mas] não conseguia conduzi-los até um ponto no qual eles se tornassem tão familiarizados com Cristo que permanecessem nele; eles, é claro, revertiam logo ao estado em que antes se encontravam” (p. 235). A respeito do seu ponto de vista da soberania de Deus em relação à vontade do homem, veja suas críticas a Jonathan Edwards em Charles Finney, Finney’s systematic theology (Minneapolis: Bethany Fellowship, Inc., 1976, original de 1846), p. 256-299. Com relação aos efeitos a longo prazo do ponto de vista de Finney, eu tenderia a concordar com a ideia de que conquanto conduzindo muitos a Cristo, “o legado real de Finney é o impacto desastroso que ele exerceu sobre a teologia evangélica e a metodologia evangelística americanas. A igreja da nossa geração ainda está fervendo com o fermento que Finney introduziu, e o pragmatismo evangélico moderno é prova disso” (MacArthur, p. 235). [5] Wesley Duewel, Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990), p. 192.[6] John Wesley, The journal of Rev. John Wesley (Londres: The Epworth Press, 1938), p. 147. [7] David Bryant, The hope at hand: national and world revival for the twenty-first century (Grand Rapids: Baker Book House, 1995), p. 127. Veja as p. 127-142 e 231-244. [8] Jonathan Edwards, Some thoughts concerning revival, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 507. [9] Ibid., p. 521. [10] Ibid., p. 516. Uma informação subsidiária interessante é que Jonathan Edwards observou que, no seu tempo, as pessoas se reuniam no que atualmente chamamos de “pequenos grupos”, e assim ele promovia oração e jejum entre esses grupos também: “Os habitantes de muitas das nossas cidades estão agora divididos em grupos particulares de oração; a maioria das pessoas, jovens e velhas, espontaneamente se juntou a grupos distintos para assistência mútua em culto social em casas particulares: o que eu pretendo fazer, portanto, é que esses dias de oração sejam passados parcialmente nesses grupos distintos de oração. Esse método de guardar um jejum como esse tem sido testado muitas vezes; por exemplo, de manhã depois dos deveres da família e reservados, como grupos; grupos de apenas homens e grupos apenas de mulheres; apenas homens jovens; e apenas moças; e grupos de apenas crianças em todas as partes da cidade. Tantos quantos sejam capazes de exercícios religiosos sociais; apenas os meninos, e apenas as meninas… e por volta do meio-dia, numa hora marcada, todos se encontram na casa de Deus, para oferecer orações públicas e ouvir um sermão adequado para a ocasião: e, a seguir, eles se retiram novamente da casa de Deus para os seus grupos particulares, e passam o restante do dia em oração ali, tirando apenas o tempo reservado que era necessário para os deveres familiares em suas próprias casas”. Ibid., p. 519. [11] Ibid., p. 353. [12] Jonathan Edwards, The distinguishing marks of a work of the Spirit of God, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 282. [13] Some thoughts concerning the revival, p. 345. [14] Jonathan Edwards, The life of David Brainerd, org. Norman Pettit, The works of Jonathan Edwards, vol. 7 (New Haven: Yale University Press, 1985), p. 162 (itálicos acrescentados). [15] Ibid., p. 531. [16] Cotton Mather, The great works of Christ in America, vol. 2 (Edimburgo: The Banner of Truth Trust, 1979, originalmente em 1702), p. 148 (itálicos acrescentados). [17] Richard Lovelace, “Cotton Mather”, em Eerdman’s handbook to christianity in America, org. Mark Noll, et. al. (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1983), p. 100. [18] Ibid. Capítulo 6: Encontro com Deus no jardim da dor [1] Larry Libby, The cry of the poor (Bothell, WA: Action International Ministries, 1986), p. 7-8. [2] Citado em Cotton Mather, The great works of Christ in America, vol. 2 (Edimburgo: The Banner of Truth Trust, 1979, orig. de 1702), p. 148. [3] Veja, por exemplo, Arthur Wallis, God’s chosen fast (Fort Washington, PA: Christian Literature Crusade, 1968), p. 94- 129, 142-146; Bill Bright, The coming revival (Orlando, Fl: New Life Publications, 1995), Capítulos 9 e 10. [4] Rodney Clapp, “Why the devil takes visa”, Christianity Today, 7 de outubro de 1996, vol. 40, no 2, tirado da Parte 3, Christianity Online. [5] Amy Sherman, “Hope dreams”, Books and culture, maio/junho de 1996, p. 3-4. Ela está revisando um livro de Greg Donaldson, The ville: cops and kids in urban America (1993) e citando parte dele. [6] Ibid., p .4. [7] “Why the devil takes visa” (Parte 3, Christianity Online). [8] Larry Libby, The cry of the poor (Bothell, WA: Action International Ministries, 1986), p. 7-8. [9] Janet Ditto, “Hope on the dump”, em Target earth, org. Frank Kaleb Jansen (Kailua-Kona, HI: University of the Nations, 1989), p. 156. [10] Relatado acerca de um casal real no The cry of the poor, p. 11-12. Capítulo 7: Jejuar pelas crianças [1] William Cowper, “God moves in a mysterious way”, em: Trinity hymnal (Filadélfia: Great Commission Publications, 1990), p. 128. [2] Michael Hamilton, “The dissatisfaction of Francis Schaeffer”, Christianity Today, vol. 41, no 3, 3 de março de 1997, p. 22. [3] Ibid., p. 30. [4] Francis Schaeffer, com C. Everett Koop, Whatever happened to the human race? Em: The complete works of Francis Schaeffer: a christian worldview, vol. 5, A christian view of the West (Wheaton, IL: Crossway Books, 1982, orig. de 1979), p. 405-406. [5] “The dissatisfaction of Francis Schaeffer”, p. 30. [6] Richard John Neuhaus, “Abortion and a nation at war”, First Things, no 26, outubro de 1992, p. 12. [7] Ibid., p. 12. [8] “The dissatisfaction of Francis Schaeffer”, p. 29. [9] Francis Schaeffer, A christian manifesto, em: The complete works of Francis Schaeffer: a christian worldview, vol. 5, A christian view of the West (Wheaton, IL: Crossway Books, 1982, orig. de 1981), p. 491. [10] “The end of democracy: the judicial usurpation of politics”, First Things, no 67, novembro de 1996, p. 18. O Simpósio continuou no artigo de janeiro de 1997 “The end of democracy? A discussion continued”, p. 19-32. Notavelmente, toda essa discussão sobre a usurpação do Supremo Tribunal foi introduzida por Francis Schaeffer quinze anos atrás. Ele ponderou em voz alta acerca de quem tomaria o poder caso acontecesse o colapso da ordem. Ele disse: “Quanto à minha opinião, acho que não podemos deixar de considerar os tribunais, especialmente o Supremo Tribunal, como sendo uma elite pelas seguintes razões: 1ª.) Eles já estão governando com base na lei sociológica e arbitrária. 2ª.) Eles estão fazendo muitas leis, bem como governando sobre a lei. 3ª.) Eles dominam as duas outras partes do governo”. A christian manifesto, p. 462. [11] Richard John Neuhaus, “Poor times, poor country”, First Things, no 34, junho/julho de 1993, p. 61. [12] “Abortion and a nation at war”, p. 13. [13] Veja David Reardon, Aborted women, silent no more (Chicago: Loyola University Press, 1987), com sua extensa bibliografia sobre esta questão, p. 201-202: David Reardon, Abortion malpractice (Denton, TX: Life Dynamics, 1993). [14] Citado de “Mother Teresa speaks on abortion”, tirado da internet web site, www.castletown.com/teresa2.htm. [15] A christian manifesto, p. 455. [16] Ibid., p. 423. [17] Ibid., p. 494. [18] Ibid., p. 495. [19] Ibid., p. 457. [20] David Reardon, Making abortion rare: a healing strategy for a divided nation (Springfield, IL: Acorn Books, 1996), p. XV. [21] Whatever happened to the human race?, p. 282. [22] Uma descrição das linhas de batalha nas “guerras na cultura” vem de Richard Neuhaus: “Somos duas nações: uma concentrada nos direitos e leis, a outra nos direitos e injustiças; uma radicalmente individualista e dedicada ao ego atualizado, a outra ao comunitário e invocando o bem comum; uma tem a ver com as leis como o instrumento da vontade para o poder e licença, a outra afirmando uma moral objetiva refletida na Constituição, à qual nós estamos obrigados; uma dada à satisfação pessoal, a outra à responsabilidade familiar; uma tipicamente secular, a outra tipicamente religiosa; uma elitista, a outra populista”. “Abortion and a nation at war”, p. 9. [23] A christian manifesto, p. 459. [24] Ibid., p. 457. [25] “God moves in a mysterious way.” Conclusão: Porque Deus recompensa o jejum? [1] Jonathan Edwards, “The most high a prayer-hearing God”, em The works of Jonathan Edwards, vol. 2 (Edinburgo: Banner of Truth Trust, 1974), p. 116. [2] Jonathan Edwards, Dissertation concerning the end for which God created the world, em The works of Jonathan Edwards, vol. 8, org. Paul Ramsey (New Haven: Yale University Press, 1989), p. 526. Apêndice: Citações e experiências[1] Charles Spurgeon, Words of counsel for Christian workers (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1985), p. 112-113. Cover Page Fome por Deus Prefácio Introdução: Saudades de Deus 1. O jejum é cristão?Jejum novo para o vinho novo 2. Não só de pão viverá o homemO banquete no deserto do jejum 3. Jejuar pela recompensa do PaiA orientação radical de Jesus acerca do jejum 4. Jejuar pela volta do ReiAté que ponto nós sentimos sua falta? 5. O jejum e o curso da HistóriaUm chamado por discernimento e anseio 6. Encontro com Deus no jardim da dorUm jejum diferente por amor aos pobres 7. Jejuar pelas criançasO aborto e a soberania de Deus sobre as falsas cosmovisões Conclusão: Por que Deus recompensa o jejum? Apêndice: Citações e experiências Bibliografia Notas