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Fome por Deus - John Piper

Livro sobre jejum cristão e oração, tradução de John Piper. Reúne prefácio, introdução e capítulos que abordam se o jejum é cristão, o banquete no deserto, motivações (recompensa do Pai; volta do Rei), história, dor, jejum pelos pobres e pelas crianças, conclusão, apêndice, bibliografia e notas.

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Fome por Deus © 2006, Editora Cultura Cristã. Traduzido de
A hunger for God © 1997 by John Piper, publicado por
Crossway Books, uma divisão da Good News Publishers.
Wheaton, Illinois 60187, USA. Edição em português
autorizada por Good News Publishers.
Todos os direitos são reservados.
 
1ª edição – 2006
2ª edição – 2013
1ª reimpressão – 2018
 
Conselho Editorial
Cláudio Marra (Presidente)
Christian Brially Tavares de Medeiros
Filipe Fontes
Heber Carlos de Campos Jr
Hermisten Maia Pereira da Costa
Joel Theodoro da Fonseca Jr
Misael Batista do Nascimento
Tarcízio José de Freitas Carvalho
Victor Alexandre Nascimento Ximenes
 
Produção Editorial
Tradução
Neuza Batista da Silva
Revisão
Assisnet Design
Claudete Água
Wilton Lima
Mauro Filgueiras
Editoração
Lidia de Oliveira Dutra
Capa
Osíris C. R. Rodrigues
Livro digital
Lucas Camargo
 
 
P665f
Piper, John 1946
Fome por Deus / John Piper; traduzido por Neuza Batista da
Silva_São Paulo: Cultura Cristã, 2ª ed. 2013.
ePub3.
 
Tradução de A hunger for God: desiring God through fasting
and prayer
ISBN 978-65-5989-161-0
 
1. Vida cristã 2. Jejum e oração I. John Piper II. Título
CDD 248-47
 
 
A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é
expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo
Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São
esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus
catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora oficial de uma
denominação confessional, cuidamos para que as obras
publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a
possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou
mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria
opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora
represente endosso integral, pela denominação e pela
Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição
da denominação sobre pontos específicos porventura em
debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de
fé.
 
 
Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP: 01540-040 – São Paulo –
SP
Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 – Whatsapp (11)
97133-5653
www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br
 
http://www.editoraculturacrista.com.br/
Superintendente: Clodoaldo Waldemar Furlan
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
 
Para os meus colegas presbíteros
da Bethlehem Baptist Church
que, como eu, anseiam
pela plenitude de Deus
e, juntos, nos deleitamos
à mesa da graça.
 
 
Sumário
 
Prefácio
Introdução: Saudades de Deus
 
1. O jejum é cristão?
Jejum novo para o vinho novo
2. Não só de pão viverá o homem
O banquete no deserto do jejum
3. Jejuar pela recompensa do Pai
A orientação radical de Jesus acerca do jejum
4. Jejuar pela volta do Rei
Até que ponto nós sentimos sua falta?
5. O jejum e o curso da História
Um chamado por discernimento e anseio
6. Encontro com Deus no jardim da dor
Um jejum diferente por amor aos pobres
7. Jejuar pelas crianças
O aborto e a soberania de Deus sobre as falsas cosmovisões
 
Conclusão: Por que Deus recompensa o jejum?
Apêndice: Citações e experiências
Bibliografia
Notas
Prefácio
 
Cuidado com livros a respeito do jejum. A Bíblia é muito
cuidadosa em nos advertir acerca de pessoas que “exigem
abstinência de alimentos que Deus criou para serem
recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos
conhecem plenamente a verdade” (1Tm 4.3). O apóstolo
Paulo pergunta, admirado: “por que… vos sujeitais a
ordenanças: não manuseies isso, não proves aquilo, não
toques aquiloutro…?” (Cl 2.20-21). Ele estava zelando pelo
completo gozo da liberdade cristã. Como uma grande
declaração de liberdade sobre cada livro a respeito de
jejum, desfralda-se a insígnia: “Não é a comida que nos
recomendará a Deus, pois nada perderemos, se não
comermos, e nada ganharemos, se comermos” (1Co 8.8).
Havia, certa vez, dois homens. Um disse: “jejuo duas vezes
por semana”; o outro disse: “Ó Deus, sê propício a mim,
pecador”. Apenas um deles desceu para sua casa justificado
(Lc 18.12-14).
A disciplina da abnegação é repleta de perigos – talvez
somente sobrepujada pelos perigos da indulgência. A
respeito destes também somos advertidos: “Todas as coisas
me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por
nenhuma delas” (1Co 6.12). Aquilo que nos domina se torna
o nosso deus; e Paulo nos adverte acerca daqueles cujo
“deus… é o ventre” (Fp 3.19). O apetite dita a direção da
vida deles. O estômago é soberano. Isso tem duas
expressões: uma religiosa e outra não religiosa. A religiosa:
“Pois certos indivíduos… transformam em libertinagem a
graça de nosso Deus” (Jd 4) e marqueteiam o lema: “Os
alimentos são para o estômago, e o estômago, para os
alimentos” (1Co 6.13). A não religiosa: sem a desculpa da
graça perdoadora, as pessoas simplesmente cedem às
“demais ambições [por outras coisas, que], concorrendo,
sufocam a palavra” (Mc 4.19).
As “demais ambições [o desejo por outras coisas]” – é aí
que está o inimigo. E a única arma triunfante é uma
profunda fome por Deus. A debilidade da nossa fome por
Deus não é porque ele seja insosso, mas porque nós nos
mantemos abarrotados de outras coisas. Talvez, então, a
rejeição do apetite do nosso estômago ao alimento possa
expressar ou mesmo aumentar o apetite da nossa alma por
Deus.
O que está em jogo aqui não é apenas o bem da nossa
alma, mas também a glória de Deus. Deus é mais
glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos com
ele. A luta da fé é para nos deleitar em tudo o que Deus é
para nós em Cristo. O que mais almejamos é o que
adoramos.
 
Sua bondade reluz com os mais brilhantes raios
Quando nos deleitamos em todas as suas veredas.
Sua glória transborda
Quando nele nos saciamos.
Seu resplendor enche toda a terra
Quando o povo se deleita na sua excelência.
A formosura do fogo santo de Deus
Arde com mais radiância no anelo do coração.
 
Entre os perigos da abnegação e da autoindulgência há um
caminho de dor aprazível. Não é o prazer patológico do
masoquista, mas a paixão da busca de quem ama: “deveras
considero tudo como perda, por causa da sublimidade do
conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do
qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para
ganhar a Cristo” (Fp 3.8). Esse é o caminho que nós nos
esforçaremos por seguir neste livro.
O simples fato de que me tenha sido permitido pelo menos
tentar empreender a jornada é mérito da graça de Deus,
pela qual vivo todos os dias. Ela veio a mim em Jesus, que
me amou e se entregou por mim. Ela veio a mim em minha
esposa, Nöel, que me apoia no trabalho de pregar, escrever
e pastorear o rebanho. Eu amo você, Nöel, e lhe sou muito
agradecido por sua parceria na grande obra. Deus tem sido
bom para nós. A graça veio novamente a mim no fiel labor
de Carol Steinbach, cuja leitura cuidadosa deixou suas
marcas, e cuja diligência organizou os índices. E a graça
chegou a mim por meio dos meus colegas presbíteros da
Bethlehem Baptist Church. Eles criaram um lema para
missões para a nossa igreja que adotei como a missão da
minha vida. Eles me deram a incumbência e o tempo para
escrever este livro e torná-lo parte dessa missão: “Nós
existimos para propagar a paixão pela supremacia de Deus
em todas as coisas para a alegria de todos os povos”. Essa
é a minha oração por este livro. Quando Deus é o supremo
anelo do nosso coração ele será supremo em tudo o mais.
 
John Piper
1º de maio de 1997
 
Quem mais tenho eu no céu?
Não há outro em quem eu me compraza na terra.
Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam,
Deus é a fortaleza do meu coração
e a minha herança para sempre.
Salmo
73.25-26
 
Quase em todos os lugares e em todos os tempos, o jejum
sempre ocupou um lugar de grande importância visto que
ele se encontra estreitamente relacionado com o profundo
senso religioso. Talvez isso explique a negligência do jejum
no nosso tempo. Quando o significado de Deus diminui, o
jejum desaparece.Edward Farrell[1]
Introdução:
 
Saudades de Deus
 
A terra natal do jejum cristão é a saudade de Deus. No
verão de 1967 completava um ano inteiro que eu estava
apaixonado por Nöel. Se na ocasião alguém me dissesse
que teria de esperar mais um ano e meio para me casar, eu
teria protestado com veemência. Para nós, parecia que
quanto mais depressa melhor. Aconteceu no verão antes do
meu último ano na universidade. Estava trabalhando como
instrutor de segurança na água num acampamento cristão
na Carolina do Sul. Ela estava a centenas de quilômetros
longe dali, trabalhando como garçonete.
Nunca antes eu havia sentido tamanha dor. Tinha sentido
saudades de casa antes, mas dessa maneira jamais. Todos
os dias escrevia a ela e falava dessa saudade. Nossas cartas
eram entregues no final da manhã, um pouco antes da hora
do almoço. Quando ouvia meu nome e via o envelope cor de
alfazema, meu apetite desaparecia. Ou, mais precisamente,
minha fome de comida era substituída pela fome do meu
coração. Muitas vezes, em vez de almoçar junto com os
outros acampantes, eu pegava a carta e ia para um lugar
tranquilo no meio da mata onde me sentava sobre as folhas
para degustar um tipo diferente de refeição. Não era a coisa
real. Mas a cor, o cheiro, as letras, a mensagem e a
assinatura eram antegostos. E com eles, semana após
semana, minha esperança era fortalecida, e a realidade,
além do horizonte, era mantida viva no meu coração.
 
O romance e a resistência ao jejum
 
O jejum cristão, em última instância, é a fome que brota da
saudade de Deus. Mas a história da fome do meu coração
por estar junto de Nöel pode ser enganadora. Ela conta
somente a metade da história do jejum cristão. Metade do
jejum cristão é que a perda do nosso apetite físico é pelo
fato de a nossa saudade de Deus ser muito intensa. A outra
metade é que nossa saudade de Deus é ameaçada porque
nossos apetites físicos são muito intensos. Na primeira
metade, há a perda do apetite. Na segunda, o apetite é
resistido. Na primeira, nós cedemos à fome maior que
existe. Na segunda, lutamos pela fome maior que não
existe. O jejum cristão não é apenas o efeito espontâneo de
uma satisfação mais elevada em Deus; é também uma
arma escolhida contra toda força do mundo que poderia nos
tirar essa satisfação.
 
Os maiores adversários de Deus são suas dádivas
 
O maior inimigo da fome por Deus não é o veneno, mas a
torta de maçã. Não é o banquete dos perversos que enfastia
o nosso apetite pelo céu, mas o infindável beliscar à mesa
do mundo. Não é a obscenidade num filme, mas os
chuviscos da trivialidade do horário nobre que sorvemos
todas as noites. Isso porque todo mal que Satanás pode
fazer, quando Deus descreve o que nos impede de
banquetear à mesa do seu amor, é um pedaço de terra,
uma junta de bois e uma esposa (Lc 14.18-20). O maior
adversário do amor de Deus não são seus inimigos, mas
suas dádivas. E os apetites mais mortais não são pelo
veneno do mal, mas pelos simples prazeres da terra. Isso
porque quando estes tomam o lugar do apetite pelo próprio
Deus, dificilmente a idolatria é identificável e torna-se quase
incurável.
Jesus disse que algumas pessoas ouvem a Palavra de Deus
e têm um desejo por Deus despertado no coração. Mas
então: “no decorrer dos dias, foram sufocados com os
cuidados, riquezas e deleites da vida” (Lc 8.14). Em outro
ponto ele disse: “mas os cuidados do mundo, a fascinação
da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a
palavra, ficando ela infrutífera” (Mc 4.19). Os deleites da
vida e a fascinação… [pelas demais ambições] – essas
coisas não são más em si mesmas. Não são vícios. São
dádivas de Deus. São a carne, a batata e o café, e a
jardinagem, a decoração, as viagens, os investimentos,
assistir TV, navegar na internet, fazer compras, exercícios,
coleções e bate-papo essenciais. E todas elas podem se
tornar substitutos mortais de Deus.
 
Os efeitos mortais dos prazeres inocentes
 
Portanto, quando digo que a raiz do jejum cristão é a fome
da saudade de Deus, quero dizer que faremos qualquer
coisa e passaremos sem nenhuma delas se, de alguma
maneira, pudermos nos proteger dos efeitos mortais dos
prazeres inocentes e preservar a doçura dos anseios da
nossa saudade de Deus. Não apenas alimento, mas
qualquer coisa. Há vários anos, conclamei a minha igreja
para um jejum de 24 horas, uma vez por semana (café da
manhã e almoço nas quartas-feiras, se possível), durante o
mês de janeiro. Estávamos enfrentando enormes
dificuldades de autoavaliação e direção, e precisávamos da
plenitude da presença de Deus com toda sua sabedoria e
poder purificador. Uns poucos dias depois recebi a seguinte
nota pelo correio:
 
Apoio totalmente essa ideia. Acho que Deus tem algo a ver
com isso. Para mim nunca dá certo nas quartas-feiras. Todos
os dias tenho de almoçar com pessoas. Então, pensei
numas coisas, que creio serem do Espírito, que para alguns
poderiam configurar mais um jejum do que o alimento.
Pensei, por exemplo, em deixar de assistir televisão por
uma semana, ou por um mês, ou uma noite da semana,
quando eu em geral faço isso, que poderia vir a ser um
jejum melhor do que de alimento. Em vez de assistir o meu
programa preferido, eu poderia investir o tempo em
conversar com Deus e ouvi-lo. Gostaria de saber se existem
outras pessoas que consideram isso jejum e um tempo
separado para oração.
 
No domingo seguinte, eu disse à congregação: “Amém. Se
você disser: ‘jejum nas quartas-feiras não funciona para
mim’, então está bem. Se seu coração for reto e você for
sincero para com o Senhor e você lhe pedir: ‘Senhor,
conduza-me ao espírito do despertamento pelo jejum’, ele
lhe fará saber. Ele lhe mostrará quando e como. Se sua
saúde não lhe permite, se o médico disser: ‘você não pode
jejuar’, então está bem. O Grande Médico sabe tudo a seu
respeito e alguma outra coisa haverá de fazer o mesmo
efeito para você”.
A questão não é o alimento em si. A questão engloba
qualquer coisa e todas as coisas que poderiam ser um
substituto para Deus. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981), o
pastor da Capela de Westminster em Londres, fez um
importante sermão acerca do jejum quando pregou sobre o
sermão do monte, em 1959-1960. Nele, ele disse:
 
Se nós realmente compreendemos o jejum, devemos saber
que… não deve ser confinado à questão de comida e
bebida; o jejum deve, na verdade, incluir a abstinência de
qualquer coisa, que seja legítima em si e por si, em favor de
algum propósito espiritual especial. Existem muitas funções
corporais que são corretas, normais e perfeitamente
legítimas, mas que por razões peculiares especiais, em
certas circunstâncias, devem ser controladas. Isso é jejum.
[2]
 
Até aqui, minha hipótese é que coisas boas podem causar
grandes males. Bois, campos e casamento podem deixar
uma pessoa fora do reino dos céus. É por isso que Jesus
disse: “Nenhum de vocês que não se despede de todos os
seus bens pode ser meu discípulo” (Lc 14.33; tradução do
autor[3]). Qualquer coisa pode atrapalhar o verdadeiro
discipulado – não apenas o mal, não apenas o alimento,
mas qualquer coisa. Nem deveria ser surpreendente que os
maiores competidores pela nossa devoção a Deus e afeição
por ele são as suas mais preciosas dádivas.
 
Quando Abraão preferiu Deus à vida do seu filho
 
Como é que o jejum nos ajuda a não transformar as dádivas
divinas em deuses? Pense no quase sacrifício de Isaque pelo
seu pai Abraão. Quando Abraão estendeu a mão para matar
seu filho e herdeiro da promessa de Deus, “do céu lhe
bradou o Anjo do Senhor: Abraão! Abraão! Ele respondeu:
Eis-me aqui! Então, lhe disse: Não estendas a mão sobre o
rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus,
porquanto não me negaste o filho, o teu único filho” (Gn
22.11-12). Então, nesse caso, temos um tipo de jejum
altamente radical: o sacrifício de um filho. Deus não
ordenou esse sacrifício porque Isaque fosse mau. Ao
contrário, foi porqueaos olhos de Abraão ele era muito
bom. Na verdade, ele parecia indispensável para o
cumprimento da promessa de Deus. Jejum não é a perda do
mau, mas do bom.
Mas por que Deus ordenaria esse tipo de coisa? Porque se
tratava de uma prova. Porventura Abraão se deleitava mais
no temor do Senhor (Is 11.3) do que se deleitava no seu
próprio filho? Deus falou por meio do anjo: “agora sei que
temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu
único filho”. Estas palavras: “agora sei” – o que significam?
Por acaso Deus desconhecia o fato de que Abraão era um
homem temente a Deus e que ele prezava a Deus acima do
seu filho? A Bíblia ensina que Deus é “conhecedor do
coração de todos os filhos dos homens” (1Rs 8.39; At 1.24);
na verdade ele “forma o coração de todos eles” (Sl 33.15);
então, por que a prova? Aqui está como C. S. Lewis
respondeu a essa pergunta:
 
[Estou preocupado com a pergunta] “Se Deus é onisciente,
ele devia saber o que Abraão iria fazer sem prova alguma;
por que, então, essa tortura desnecessária?” Porém, como
Agostinho ressalta, independentemente do que Deus
soubesse, Abraão não sabia de modo algum que essa
obediência iria suportar tal ordem até que a consumação
lho provasse; e a obediência que ele não sabia que
escolheria, ele não poderia dizer ter escolhido. A realidade
da obediência de Abraão era o ato em si; e o que Deus
sabia em saber que Abraão “obedeceria” era a obediência
de fato de Abraão no topo daquela montanha naquele
momento. Dizer que Deus “não tinha necessidade de fazer a
prova” é dizer que, porque Deus sabe, a coisa conhecida
por Deus não precisa existir.[4]
 
Deus quer conhecer a realidade vivida, concreta, da nossa
preferência por ele acima de todas as outras coisas. E ele
quer saber que nós temos o testemunho da nossa própria
autenticidade por meio de atos concretos de preferência por
Deus acima das suas dádivas. Lewis está correto em dizer
que Deus poderia muito bem não ter criado o mundo, mas
apenas tê-lo imaginado, se o fato de ele saber que “seria”
fosse tão bom quanto saber isso no ato em si. Deus quer ter
um conhecimento experimental, um conhecimento concreto
pela vista, um conhecimento pelo assistir. Um ato humano
real vivido da preferência por Deus acima de suas dádivas é
a glorificação vivida concreta da excelência de Deus para a
qual ele criou o mundo. O jejum não é o único modo, ou o
modo principal, pelo qual nós glorificamos a Deus pelo fato
de preferi-lo acima das suas dádivas. Mas é um modo. E é
um modo que pode auxiliar todos os outros.
 
Comer para anestesiar a tristeza
 
Lewis citou Agostinho. O que Agostinho disse foi isto:
“Geralmente a mente humana não pode alcançar o
autoconhecimento a não ser pela prova dos seus poderes
por meio da tentação, por meio de algum tipo de
autointerrogação experimental e não meramente verbal”.[5]
Em outras palavras, facilmente nos enganamos quando
dizemos que amamos a Deus a menos que o nosso amor
seja frequentemente colocado à prova, e nós devemos
mostrar nossas preferências não meramente com palavras,
mas com sacrifício. Não há dúvida alguma de que o
sacrifício de um filho diz muito mais do que o sacrifício de
um sanduíche. Mas o princípio é o mesmo. E a soma de
muitos atos pequenos da preferência da comunhão e
contentamento com Deus acima do alimento pode formar
um hábito de comunhão e contentamento que prepara a
pessoa para o sacrifício máximo. Essa é uma maneira pela
qual o jejum ajuda a todos os outros atos de amor a Deus.
Ele mantém as faculdades que determinam as preferências
em alerta e aguçadas. Ele não deixa a questão ficar inativa.
Ele nos força a perguntar repetidamente: eu realmente
anseio por Deus? Eu sinto falta dele? Sinto saudades dele?
Ou comecei a me sentir satisfeito com suas dádivas?
O jejum cristão é uma prova para ver qual é o desejo que
nos controla. Quais são as nossas paixões fundamentais? No
capítulo sobre o jejum no seu livro The celebration of
discipline (A celebração da disciplina), Richard Foster disse:
“Mais do que qualquer outra disciplina, o jejum revela as
coisas que nos controlam. Esse é um benefício maravilhoso
para aqueles que anseiam ser transformados à imagem de
Jesus Cristo. Nós soterramos o que está dentro de nós com
comida e outras coisas”.[6]
Psicologicamente, esse tipo de coisa é muito citado hoje em
dia, especialmente em relação a pessoas que têm uma vida
de muito sofrimento. Diríamos que elas “medicam” suas
dores com comida. Anestesiam a si mesmas com comida
para não sentirem as dores que têm no seu interior. No
entanto, essa não é uma síndrome técnica rara. Todos nós
fazemos isso. Todo mundo. Sem exceções. Nós todos
aliviamos nosso desconforto usando comida e cobrindo a
nossa infelicidade fixando os nossos olhos na hora do jantar.
É por isso que o jejum nos expõe por inteiro – nossa dor,
nosso orgulho, nossa raiva. Foster continua:
 
Se o orgulho nos controla, ele será revelado quase que
imediatamente. Davi disse: “eu afligia a minha alma com
jejum” (Sl 35.13). Raiva, amargura, inveja, contenda, medo
– se eles estiverem dentro de nós, virão à superfície durante
o jejum. No início, iremos raciocinar que nossa raiva é por
causa da nossa fome. Porém, depois vamos saber que
estamos com raiva porque o espírito da raiva está dentro de
nós. Podemos nos regozijar nesse conhecimento porque
sabemos que a cura está disponível por meio do poder de
Cristo.[7]
 
Uma das razões para jejuar é para saber o que está dentro
de nós – do mesmo modo que Abraão mostrou o que estava
dentro dele. No jejum, isso se revelará. Você o verá. E você
terá de lidar com isso ou rapidamente abafá-lo de novo.
Quando estiver no meio da manhã e desejar tanto comer
que o pensamento de almoço se torne tão doce quanto
umas férias de verão, então de repente você se dará conta:
“Ai, esqueci que fiz um voto. Não posso ter esse prazer.
Estou jejuando do almoço também”. Então, o que vai fazer
com toda a infelicidade que tem dentro de você?
Anteriormente, você a bloqueava com a esperança de um
almoço gostoso. A esperança de comida lhe dava bons
sentimentos para equilibrar os maus sentimentos. Mas
agora você não tem esse equilíbrio. Tem de encontrar outra
maneira de lidar com o problema.
 
Fome, a serva da fé
 
Nesses momentos realmente começamos a descobrir quais
são os nossos recursos espirituais. As coisas que descubro
acerca da minha alma são muito valiosas para a luta da fé.
Eu quase dei a este livro o subtítulo de Jejum – a serva
faminta da fé. E ela é uma boa serva. Humilde e
calmamente, quase imóvel, ela traz para fora dos lugares
mais escuros da minha alma as insatisfações em
relacionamentos, as frustrações do ministério, os medos dos
fracassos, o vazio do tempo desperdiçado. E exatamente
quando meu coração começa a se retirar para a deliciosa
esperança de jantar com meus amigos na pizzaria, ela
tranquilamente me lembra: esta noite não. No início, essa
pode ser uma experiência devastadora. Será que vou
encontrar a comunhão com Deus doce o suficiente e
esperança em suas promessas profundas o suficiente, não
apenas para aguentar, mas para prosperar e me alegrar
nele? Ou vou racionalizar minha necessidade de jejum e
recorrer à medicação com comida? O apóstolo Paulo disse:
“eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co
6.12). O jejum revela a medida do domínio da comida sobre
nós – ou da televisão ou dos computadores, ou seja lá o que
for a que nós nos submetemos sem cessar para esconder a
debilidade da nossa fome por Deus.
 
Por que Deus criou pão e fome?
 
Uma das razões pelas quais a comida tem esse poder
espantoso é que ela é essencial para a nossa existência.
Mas por quê? Quero dizer, por que Deus criou pão e
projetou os seres humanos para precisar dele para viver?
Ele poderia ter criado vida que não tivesse necessidade de
alimento. Ele é Deus. Ele poderia tê-lo feito de qualquer
maneira que desejasse. Por que pão? E por que fome e
sede?Minha resposta é simples: ele criou para que
tivéssemos alguma ideia do que o Filho de Deus é quando
disse: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.35). E ele criou a
cadência da sede e da satisfação para que nós tivéssemos
uma ideia do que a fé em Cristo é quando Jesus disse: “o
que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35). Deus não
precisava criar seres humanos que tivessem necessidade de
alimento e água e a faculdade de sentirem sabores
agradáveis.
Porém, o homem não é o centro do universo, Deus é. E
todas as coisas são, disse Paulo, “dele, e por meio dele, e
para ele” (Rm 11.36). “Para ele” significa que tudo existe
para chamar a atenção para ele e suscitar admiração por
ele. Em Colossenses 1.16, Paulo diz mais especificamente
que “tudo foi criado por meio dele [de Cristo] e para ele
[Cristo]”. Portanto, o pão foi criado para a glória de Cristo. A
fome e a sede foram criadas para a glória de Cristo. E o
jejum foi criado para a glória de Cristo.
Isso quer dizer que o pão exalta Cristo de duas maneiras: ao
ser comido com gratidão pela sua bondade, e quando nos
abstemos dele em favor da fome por Deus. Quando
comemos, experimentamos o símbolo do nosso alimento
celeste – o Pão da Vida. E quando jejuamos, dizemos: “Eu
amo a Realidade mais do que amo o símbolo”. No coração
do santo, tanto comer quanto jejuar são atos de adoração.
Ambos exaltam a Cristo. Ambos dirigem o coração – grato e
desejoso – para o Doador. Cada um tem o seu lugar
designado e cada um tem o seu perigo. O perigo de comer é
que nos apaixonamos pela dádiva; o perigo do jejum é que
substimamos a dádiva e a glória na nossa força de vontade.
 
Como o livro foi organizado
 
Não há nenhum caminho seguro e fácil para os céus. O
caminho difícil e apertado é repleto de obstáculos e muitos
atalhos fatais de prazeres inocentes. Há uma guerra a ser
travada dentro e fora de nós. E uma das armas ao longo do
caminho é o jejum. Portanto, este livro tem um impulso
interior e um exterior. É sobre a guerra interior com nossos
apetites que competem com a fome por Deus. É sobre a
guerra exterior do reavivamento, da reforma, da
evangelização do mundo, da justiça social e do
envolvimento cultural. Embora estejam profundamente
entrelaçados, os primeiros três capítulos são mais interiores
e os últimos três mais exteriores. E o do meio é um capítulo
passarela porque o anseio e o jejum pela vinda de Cristo são
intensamente pessoais, mas exigem envolvimento global
até que ele venha.
 
Por que escrevi este livro
 
Meu objetivo e minha oração ao escrever este livro é que
ele possa despertar a fome pela supremacia de Deus em
todas as coisas para alegria de todos os povos. Jejuar prova
a presença, e abana a chama, dessa fome. É um
intensificador do desejo espiritual. É um inimigo fiel da
servidão fatal a coisas inocentes. É o ponto de exclamação
físico no final da sentença: “Intensamente, ó Deus, eu anelo
por ti e pela manifestação da tua glória no mundo!”
Alguém poderia pensar que aqueles que se deleitam com
mais frequência na comunhão com Deus seriam os menos
famintos. Eles abandonam os prazeres inocentes do mundo
com mais frequência para se deixarem ficar mais
diretamente na presença de Deus por meio da revelação da
sua Palavra. E ali eles comem do Pão dos Céus e bebem da
Água Viva pela meditação e fé. No entanto,
paradoxalmente, não é desse modo que eles se tornam os
santos menos famintos. É o contrário disso. Os cristãos mais
fortes e mais maduros que já encontrei são sempre os que
sentem mais fome de Deus. Poderia parecer que aqueles
que mais comem fossem os menos famintos. Porém, esse
não é o modo como isso funciona com uma fonte
inexaurível, uma festa infinita e um Senhor glorioso.
Quando você se firma na obra consumada de Deus em
Cristo e começa a beber do Rio da Vida e a comer do Pão
dos Céus, e sabe que encontrou a meta final de todos os
seus anseios, você só fica mais e mais faminto por Deus.
Quanto mais satisfação você sente vinda de Deus, enquanto
ainda está neste mundo, maior seu desejo pela seguinte.
Isso porque, como disse C. S. Lewis: “O que temos de
melhor é o que nos falta”.[8]
Quanto mais profundamente você anda com Cristo, mais
faminto fica por ele… mais saudoso do lar nos céus… mais
você quer “toda a plenitude de Deus”… mais você deseja
acabar com o pecado… mais quer que o Noivo retorne…
mais quer que a igreja seja reavivada e purificada com a
beleza de Jesus… mais quer um grande despertamento para
a realidade de Deus nas cidades… mais quer ver a luz do
evangelho da glória de Cristo penetrar na escuridão de
todos os povos não alcançados do mundo… mais quer ver
os pontos de vista falsos do mundo cederem à força da
verdade… mais quer ver a dor aliviada e as lágrimas
enxugadas e a morte destruída… mais você almeja que
todo erro seja corrigido e a justiça e a graça de Deus
encham a terra como as águas cobrem o mar.
Se você não sente desejos fortes pela manifestação da
glória de Deus não é porque tenha bebido muito e esteja
satisfeito. Ao contrário, é porque você tem petiscado à mesa
do mundo. Sua alma está recheada com coisas
insignificantes, e não há espaço para as importantes.[9]
Deus não criou você para isso. Há um apetite por Deus. E
ele pode ser despertado. Eu o convido a abandonar os
efeitos entorpecedores da comida e dos perigos da idolatria
e a dizer com um simples jejum: “Intensamente, ó Deus, eu
desejo a ti”.
 
Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo,
e nesses dias hão de jejuar.
Mateus
9.15
 
Se morrestes com Cristo
para os rudimentos do mundo,
por que, como se vivêsseis no mundo,
vos sujeitais a ordenanças:
não manuseies isso, não proves aquilo, não toques
aquiloutro,
segundo os preceitos e doutrinas dos homens?
Pois que todas essas coisas, com o uso, se destroem.
Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria,
como culto de si mesmo, e de falsa humildade,
e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum
contra a sensualidade.
Colossenses
2.20-23
1
O jejum é cristão?
 
Jejum novo para o vinho novo
 
Existe um pequeno documento chamado Didaquê, que foi
escrito perto do final do século 1o. Nele se encontra uma
seção acerca do jejum. Um versículo diz o seguinte: “Não
jejuem como os hipócritas, pois eles jejuam nas segundas e
quintas-feiras, mas jejuem nas quartas e sextas-feiras”.[1]
Ora, isso soa estranho. Por que a mudança dos dias faz
tanta diferença? Acho que a ideia da igreja primitiva era a
seguinte: o costume judaico era celebrar seu sabá no
sábado. Isso era o que ordenava a antiga aliança. Então,
para mostrar que temos tanto continuidade quanto
descontinuidade em relação ao judaísmo, nós, cristãos,
celebramos o sabá, mas num dia diferente. Nós o
celebramos no domingo, o dia que o Senhor ressuscitou de
entre os mortos e criou outro povo. Do mesmo modo que os
judeus faziam seu jejum nas segundas e nas quartas-feiras,
nós fazemos o nosso, mas em dias diferentes. Por quê? Pela
mesma razão: para mostrar que há tanto continuidade
como descontinuidade. Sim, nós adotamos o jejum; mas
não, não da maneira como o encontramos. Há algo novo
acerca do jejum cristão. Nós o aceitamos, porém antes o
mudamos. Não, não queremos dizer que jejuar em dias
diferentes é o que o torna cristão. Isso é apenas um
indicador. Mas o jejum cristão é novo. Isso é certo. O tema
deste capítulo trata de como é que ele é novo.
Com relação a isso, a palavra mais importante da Bíblia
acerca de jejum encontra-se em Mateus 9.14-17.[2] Sei que
fazer essa alegação é algo muito radical da minha parte.
Mas digo isso porque essas palavras de Jesus falam de
modo mais direto e profundo ao problema central do jejum –
ou seja, o jejum é uma prática tipicamente cristã? Em caso
positivo, como?”
 
Não é óbvio que jejuar é cristão
 
Essa é uma questão crucial por, pelo menos, quatro razões.
Em primeiro lugar, o jejum como uma abstinência de
alimento por razões religiosas, culturais, políticas ou desaúde é “uma prática encontrada em todas as sociedades,
culturas e séculos”.[3] Virtualmente, todas as religiões no
mundo praticam o jejum. E mesmo povos não religiosos
jejuam por motivos de política e de saúde. Então, por que os
cristãos deveriam se juntar a essa parada pagã de
ascetismo? Segundo, mesmo que o jejum fosse praticado
extensivamente pelo povo de Deus no Antigo Testamento,
porventura a chegada do reino de Deus, no ministério de
Jesus, não torna essa prática obsoleta? Você pode colocar o
vinho novo do reino nos barris velhos da forma e do ritual
externos? Terceiro, o triunfo consumado de Cristo na cruz e
a presença perene do Espírito Santo na igreja não significam
que o Cristo vitorioso se encontra tão poderosamente entre
nós que o espírito dominante da vida exigiria comemoração
em vez de mortificação? E, além dessas três objeções,
porventura o triunfo do jejum sobre os apetites do corpo
não leva ao orgulho e à confiança em si mesmo, que são
ainda piores do que a glutonaria?
Então, não é óbvio que o jejum seja uma prática
tipicamente cristã. Se for, nós precisamos considerar como
ele se relaciona com o centro. E o centro é o triunfo de
Cristo no fato de ele ter morrido, ressuscitado e ter obtido o
domínio sobre a História para a salvação do seu povo e a
glória do seu Pai.
 
O jejum é uma prática religiosa universal
 
Ninguém sabe como ou onde o jejum teve seu início.[4]
Aonde quer que se vá, há costumes e tradições de jejuar. A
maioria das pessoas sabe que os jejuns judaicos incluem o
Yom Kipur, ou o dia de Expiação (Lv 16.29-31),[5] que os
muçulmanos jejuam durante o Ramadã e conhece os
severos jejuns da alta casta hindu dos brâmanes.[6] Mas a
extensão da prática é mundial. Por exemplo,
 
Os insulanos das Ilhas Andaman… se abstêm de certas
frutas, raízes comestíveis, etc. em certas épocas do ano,
porque o deus Puluga… exige isso deles, e enviaria uma
inundação se o tabu fosse quebrado… Entre os koita da
Nova Guiné, durante a gravidez uma mulher não deve
comer bandicota, équidna, alguns peixes e iguana; e o
marido deve observar os mesmos tabus alimentares…
Dentre os iorubas [quando da morte do marido], as viúvas e
filhas ficam confinadas e devem recusar qualquer tipo de
alimento por 24 horas…. Na Colúmbia Britânica, os
stlatlumh (Lillooet) passam quatro dias depois do banquete
do funeral em jejum, lamentações e abluções cerimoniais…
Antes de matar uma águia, um pássaro sagrado, o
profissional matador de águias dos cherokees tem de passar
por uma longa vigília de oração e jejum… [Outros] índios
americanos jovens [frequentemente praticam longas
abstenções] a fim de que, por meio de uma visão, [eles]
possam ver o espírito guardião que será deles pelo restante
de suas vidas… Dentre as tribos de Nova Gales do Sul, os
meninos, nas cerimônias “bora”, passam dois dias sem
comer e tomam apenas uma pequena quantidade de água.
[7]
 
O jejum é uma arma política
 
Além dos jejuns religiosos em todo o mundo, há também os
jejuns políticos ou de protesto. Um dos exemplos mais
famosos é o de Mahatma Gandhi, que viveu de 1869 a 1948
e passou mais de trinta anos empreendendo cruzadas
pacíficas pela independência da Índia. Sua família e sua
cultura hindu nutriam paixão pelo jejum como uma arma
política. Sua mãe era uma hindu devota, que excedia os
deveres exigidos de jejum anuais e acrescentava muitos
outros jejuns mais rigorosos durante a estação chuvosa.
Ghandi relembra:
 
Ela fazia os votos mais duros e os cumpria sem vacilar.
Passar com uma única refeição ao dia durante as Chaturmas
era um hábito dela. Não satisfeita com isso, ela jejuava em
dias alternados durante uma Chaturmas. Durante outra
Chaturmas ela jurava nada comer até que visse o sol. Nesse
dia, nós, as crianças, ficávamos parados, com os olhos fitos
no céu, esperando para anunciar o aparecimento do sol à
nossa mãe. Toda pessoa sabe que no alto da estação
chuvosa o sol não condescende com frequência em mostrar
sua cara. E eu me lembro de dias em que, ao seu súbito
aparecimento, nós corríamos para avisá-la. Ela então corria
lá fora para vê-lo com seus próprios olhos, mas quando lá
saía o sol fugaz já havia desaparecido e dessa maneira a
privava da sua refeição. “Não tem importância”, ela dizia
alegremente, “Deus não quis que eu comesse hoje”. E então
retomava seus afazeres.[8]
 
Não é de admirar que Gandhi fizesse do jejum uma parte
essencial da sua carreira política. Pelas antigas leis de
Manu, um credor só recebia um dinheiro que lhe era devido
se envergonhasse o devedor. Ele se sentava, por exemplo,
diante da casa do devedor sem comer dia após dia até que
o devedor ficasse envergonhado e lhe pagava o que estava
devendo. Eric Rogers observa que “justamente essa técnica
indiana funcionava para Gandhi… Seu jejum
indubitavelmente tocava mais corações do que qualquer
outra coisa podia fazê-lo. Não apenas na Índia, mas
praticamente em todas as partes, os homens eram
assombrados pela imagem de um homenzinho franzino
alegremente suportando privações por amor a um
princípio”.[9]
 
O jejum é uma dieta para a saúde
 
Então, além do jejum religioso e político, há também o jejum
por questões de saúde, com ou sem associações religiosas.
Uma breve busca na internet sob o tópico “jejum” revela
centenas de organizações e publicações dedicadas ao jejum
por motivo de saúde. Por exemplo, um dos sites
preeminentes é o Fasting Center International (Centro
internacional do jejum). O anúncio extravagante da página
deles na internet é o seguinte:
 
Sentindo-se fora de forma, constrangido, sem energia, ou
completamente enfermo? Deseja melhorar sua saúde física
enquanto ao mesmo tempo aumenta a sua clareza de
percepção, bem como sua espiritualidade? Os sucos
científicos para jejum o capacitarão a realizar todos esses
objetivos, rapidamente e sem qualquer interrupção do seu
trabalho, vida, rotinas de exercício ou estudo. O fato é que
você sentirá mais energia do que tem agora, tanto durante
quanto depois do seu jejum!
 
Relances desses tipos de jejum religioso, político e de
saúde, nos libertam da noção de que o jejum, em si e de si
mesmo, é peculiarmente cristão. Ele pode, na verdade, ser
enfaticamente anticristão, como já o era no Novo
Testamento, quando quarenta homens “estão pactuados
entre si, sob anátema, de não comer, nem beber, enquanto
não o matarem [o apóstolo Paulo]” (At 23.21). E pode ser
distorcido mesmo entre os cristãos, não apenas em técnicas
legalistas (como veremos), mas também numa servidão
destrutiva como na anorexia nervosa.[10] Tudo isso faz as
pessoas perguntarem por que um cristão iria dar tanto valor
a um ritual tão amplamente usado com propósitos religiosos
não cristãos, políticos e de forma física.
 
O jejum faz parte do reino de Deus?
 
Não apenas isso, a prevalência de jejum no Antigo
Testamento levanta a questão de se a prática tem validade
permanente para as pessoas que estão vivendo antes da
vinda do Messias e da manifestação do reino de Deus. Jesus
disse: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de
Deus, certamente, é chegado o reino de Deus sobre vós” (Lc
11.20). E quando os fariseus perguntaram acerca da vinda
do reino, ele disse: “o reino de Deus está dentro de vós” (Lc
17.21). Então, há um sentido profundo no qual o
longamente esperado reino de Deus já tinha chegado com a
vida e o ministério de Jesus.
Esse é o “mistério do reino” que Jesus tinha em mente
quando disse aos seus discípulos: “A vós outros vos é dado
conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora,
tudo se ensina por meio de parábolas” (Mc 4.11). Essa era
uma realidade nova e espantosa no mundo. “A nova
verdade, agora dada aos homens por revelação na pessoa e
missão de Jesus, é que o Reino, que deve vir de modo
completo em poder apocalíptico, como previsto no livro de
Daniel, de fato entrou no mundo adiantadamente de uma
maneira oculta para operar secretamente dentro dos
homens e entreeles.”[11]
Então, a questão é premente: o jejum faz parte da igreja – o
novo povo do reino que Deus está reunindo dentre todos os
povos do mundo? Alguns acham que não. Por exemplo, no
seu livro, Prayer and fasting: a study in the devotional life of
the early church (Oração e jejum: um estudo a respeito da
vida devocional da igreja primitiva), Keith Main argumenta
que o raiar do reino de Deus no ministério de Jesus mudou
radicalmente a importância do jejum. “Até aqui”, disse ele:
“sugerimos que a alegria e as ações de graças que marcam
a vida de oração do Novo Testamento é um sinal do raiar do
Reino de Deus. O jejum não é mais consistente com a
atitude jubilosa e agradecida que marca a comunhão.”[12]
 
Paulo revogou o jejum?
 
O ponto de vista de Keith Main ganha mais credibilidade
quando consideramos o restante do Novo Testamento fora
dos evangelhos. O jejum quase não aparece.[13] Main
insiste no seu argumento:
 
[O jejum] deixa de ser uma questão crucial na igreja…
Paulo, seguindo a orientação de Jesus, deliberadamente
desviou a atenção dos discípulos do jejum e de qualquer
forma de ascetismo alimentar para a oração, o serviço e o
labor em favor do Reino. A obra missionária servia como um
corretivo e contrapeso não apenas ao sonho apocalíptico,
mas também para o obsoleto e desgastado costume de
jejuar… Um senso de vida eterna está sempre rompendo
sobre nós. O crente marcha ao som da música de um
mundo diferente! E é difícil conciliar o Cristo ressurreto com
as formas de jejum.[14]
 
Porventura a escassez de jejum nas epístolas do Novo
Testamento e a alegre presença do reino e o ministério
glorioso do Espírito de Cristo anulam a relevância do jejum
na igreja cristã? A premência desta questão é o que torna as
palavras de Jesus acerca do jejum em Mateus 9.14-17 tão
importantes – as mais importantes acerca do assunto na
Bíblia, na minha opinião.
A premência é aumentada quando consideramos que nas
cartas de Paulo o alimento é celebrado como algo bom, o
ascetismo é tratado como uma arma fraca contra a
indulgência da carne, e práticas de comer e beber são
consideradas como não essenciais, exceto na medida em
que elas expressam amor e contentamento em Cristo.
 
A excelência do alimento
 
Em 1Timóteo 4.1-5, Paulo adverte que no fim dos tempos
“alguns apostatarão da fé… e exigem abstinência de
alimentos”. Ele responde a essa atitude para com o
alimento dizendo que “Deus criou [os alimentos] para serem
recebidos, com ação de graças, pelos fiéis e por quantos
conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou
é bom, e, recebido com ação de graças, nada é recusável,
porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado”.
Portanto, Paulo está ansioso para advertir contra um tipo de
ascetismo que exalta o jejum de maneira tal que a bondade
de Deus no dom do alimento é negligenciada ou distorcida.
Mesmo durante os dias santos do compartilhar da Ceia do
Senhor, Paulo não desaconselhou comer, mas disse aos
coríntios que “coma em casa, a fim de não vos reunirdes
para juízo” (1Co 11.34).
 
A fraqueza do ascetismo
 
E quando Paulo ponderou acerca das medidas severas para
o corpo, ele advertiu os colossenses de que essas
disciplinas são de valor limitado e podem levar ao orgulho
carnal enquanto subjugam o apetite carnal. Ele temia que
os colossenses tivessem se desviado da fé profunda e
simples em Cristo para rituais externos como um meio de
santificação: “Se morrestes com Cristo para os rudimentos
do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos
sujeitais a ordenanças: não manuseies isso, não proves
aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e
doutrinas dos homens? Pois que todas essas coisas, com o
uso, se destroem” (Cl 2.20-22).
O que há de errado com essas “doutrinas dos homens” que
ele nos admoesta a não provar? Ele responde: “Tais coisas,
com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si
mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia,
não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). Essa
é uma forte advertência contra qualquer visão simplista do
jejum que pensa que automaticamente ele fará algum bem
espiritual à pessoa. Não é tão simples assim. O “rigor
ascético” em relação ao corpo pode apenas alimentar a
carne da pessoa com mais autoconfiança. C. S. Lewis
enxergou isso claramente e fez soar o alarme:
 
O jejum afirma a vontade contra o apetite – a recompensa
sendo o domínio próprio e o perigo do orgulho: a fome
involuntária sujeita os apetites e a vontade à vontade
divina, e propicia uma oportunidade para submissão e
exposição ao perigo de rebelião. Mas o efeito redentor do
sofrimento reside principalmente na sua tendência de
reduzir a vontade rebelde. As práticas ascéticas que, por
elas mesmas, fortalecem a vontade são úteis apenas na
medida em que capacitam a vontade a colocar sua casa (as
paixões) em ordem, como preparo para oferecer o homem
inteiro a Deus. Elas são necessárias como meios; no
entanto, como um fim elas seriam abomináveis, pois ao
substituir o apetite pela vontade e aí parar, elas meramente
trocam o ego diabólico pelo ego animal. É, portanto,
verdadeiro o que foi dito: “somente Deus pode mortificar”.
[15]
 
A verdadeira mortificação da nossa natureza carnal não é
uma simples questão de abnegação e disciplina. É uma
questão espiritual interior de encontrar mais contentamento
em Cristo do que no alimento.
 
Comer e não comer não é essencial
 
Paulo considera comer ou não comer como uma questão
que não é essencial em si, mas que ganha valor na medida
em que expressa amor e maior satisfação em Deus.
Portanto, ele diz à igreja de Roma:
 
quem come não despreze o que não come; e o que não
come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem
és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor
está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é
poderoso para o suster. Um faz diferença entre dia e dia;
outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem
definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e
dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come,
porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor
não come e dá graças a Deus. (Rm 14.3-6)
 
Essas palavras de Romanos 14 não são dirigidas à situação
do jejum. A situação tem a ver com comer o alimento que
alguns nas igrejas consideravam tabu por causa de suas
associações. No entanto, isso não muda o princípio. Comer
ou não comer – jejuar ou não jejuar – ambos podem ser
feitos “para o Senhor” com “ações de graças a Deus”.
Portanto, “cada um tenha opinião bem definida em sua
própria mente”. E como Paulo disse em Colossenses 2.16:
“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida,
ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados”, pois “não é a
comida que nos recomendará a Deus, pois nada
perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se
comermos” (1Co 8.8). Isso porque “Todas as coisas me são
lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são
lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma
delas” (1Co 6.12).
 
A palavra mais importante acerca do jejum, na Bíblia
 
Portanto, a questão exige a nossa atenção: jejuar é cristão?
Se for, de que maneira? Isso é o que as palavras de Jesus
em Mateus 9.14-17 fundamentalmente abordam. Por isso é
que elas são as mais importantes palavras acerca de jejum
na Bíblia. Vamos examiná-las:
 
Vieram, depois, os discípulos de João e lhe perguntaram: Por
que jejuamos nós, e os fariseus [muitas vezes], e teus
discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem acaso
estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o
noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será
tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe
remendo de pano novo em vestido velho; porque o remendo
tira parte do vestido, e fica maior a rotura. Nem se põe
vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os
odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-
sevinho novo em odres novos, e ambos se conservam.
 
Os discípulos de João Batista foram até Jesus e lhe
perguntaram por que os seus discípulos não jejuavam.
Então, evidentemente, os discípulos de Jesus não estavam
jejuando enquanto ele estava com eles. Na verdade, Jesus
tinha lhes dado um exemplo que lhe rendeu reputação de
ser qualquer coisa menos asceta. Quando elogiou o
ministério de João Batista ele disse às multidões: “Pois veio
João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e
dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e
bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho,
amigo de publicanos e pecadores!” (Lc 7.33-35). Em outras
palavras, João praticava muito jejum e Jesus praticava
pouco ou nenhum (à parte do seu jejum inicial de quarenta
dias).
 
Por que os discípulos de Jesus não jejuavam?
 
Então, os discípulos de João foram até Jesus e perguntaram
o porquê disso. “Por que jejuamos nós, e os fariseus [muitas
vezes], e teus discípulos não jejuam?” Jesus responde com
uma ilustração. Ele disse: “Podem, acaso, estar tristes os
convidados para o casamento, enquanto o noivo está com
eles?” Com essas palavras, Jesus nos ensina duas coisas.
Uma é que, naqueles dias, o jejum era, em geral, associado
com a tristeza. Era uma expressão de quebrantamento e
desespero, geralmente por causa do pecado ou acerca de
algum perigo ou alguma bênção profundamente desejada.
Era algo que a pessoa fazia quando as coisas não estavam
saindo da maneira que ela queria.
No entanto, essa não era a situação dos discípulos de Jesus.
Esta é a segunda coisa que ele ensina: o Messias tinha
vindo, e sua vinda é como a vinda de um noivo para uma
festa de casamento. Isso, ele diz, é bom demais para
misturar com jejum. Nesse caso, Jesus estava fazendo uma
tremenda afirmação a respeito de si mesmo. No Antigo
Testamento, Deus tinha se apresentado como o marido do
seu povo, Israel. “Porque, como o jovem desposa a donzela,
assim teus filhos te desposarão a ti; como o noivo se alegra
da noiva, assim de ti se alegrará o teu Deus” (Is 62.5).
“Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo
era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu
manto e cobri a tua nudez; dei-te juramento e entrei em
aliança contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha”
(Ez 16.8). “Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-
ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em
misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e
conhecerás ao Senhor” (Os 2.19-20).
E então o Filho de Deus, o Messias, o longamente
aguardado Príncipe e Rei em Israel, veio, e ele diz ser o
Noivo – isto é, o marido do seu povo – que será o verdadeiro
Israel. João Batista já havia reconhecido isso. Quando seus
discípulos lhe perguntaram acerca de quem era Jesus ele
disse: “Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu
não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que
tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e
o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois
essa alegria já se cumpriu em mim” (Jo 3.28-29).
A afirmação parcialmente velada de João é do tipo que Jesus
fazia acerca da sua identidade com Deus. Se você tiver
ouvidos para ouvir, ouça. Deus, aquele que se
comprometeu com Israel em aliança de amor, veio.
Isso é tão formidável, tão glorioso e tão inesperado nessa
maneira que Jesus disse que vocês simplesmente não
podem jejuar agora, na presente situação. É alegria demais,
e espetacular demais. Jejum é para os tempos de anseio,
anelo e desejo ardente. Mas o noivo de Israel está aqui.
Depois de mil anos de sonho, anelo, esperança e espera, ele
está aqui. A ausência de jejum no grupo dos discípulos era
um testemunho da presença de Deus no meio deles.
 
Quando os discípulos irão jejuar?
 
Mas então Jesus disse: “Dias virão, contudo, em que lhes
será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Essa é a
sentença-chave: “nesses dias hão de jejuar”. A que tempo
ele se refere?
Alguns têm sugerido que ele estava se referindo apenas aos
vários dias entre sua morte e ressurreição. Em outras
palavras, o Noivo seria levado da sexta-feira santa até o
domingo de Páscoa. Durante esses três dias os discípulos
jejuariam. Mas depois ele estaria com eles novamente, e
eles não jejuariam mais. Há apoio para esse ponto de vista
em João 16.22-23 quando Jesus prediz sua morte e
ressurreição com estas palavras: “Assim também agora vós
tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se
alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar. Naquele
dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos
digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá
em meu nome”. Em outras palavras, depois da ressurreição,
durante a era da igreja, haveria alegria indestrutível entre
os discípulos de Cristo. Isso significa, portanto, que o jejum
estaria excluído? Estaria Jesus profetizando que seus
discípulos jejuariam somente entre a sexta-feira santa e o
domingo da Páscoa?
Isso é bastante improvável por diversas razões. Uma é que,
a despeito de toda sua alegria, a igreja primitiva jejuou em
diversas ocasiões (At 13.1-3; 14.23; 2Co 6.5; 11.27).
Portanto, os primeiros cristãos não tomaram as palavras de
Jesus como significando que o jejum seria excluído depois
da ressurreição.
O quê, então, Jesus quis dizer quando disse: “Dias virão,
contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão
de jejuar”? Ele quis dizer que depois de sua morte e
ressurreição retornaria para o Pai no céu, e durante esse
tempo os discípulos jejuariam. Robert Gundry está certo
quando diz: “A totalidade da era da igreja constitui os ‘dias’
que ‘lhes será tirado o noivo’”.[16] Na minha opinião, a
razão mais forte para esse ponto de vista é que a única
parte em Mateus que Jesus usa esse termo “noivo” é para
se referir a si mesmo voltando no final da era da igreja. Em
Mateus 25.1-13 Jesus retrata sua segunda vinda como a
chegada do noivo. “Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis
o noivo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25.6). Então, claramente
Jesus fala de si como o noivo que partiu, não apenas por
três dias entre a sexta-feira santa e o domingo da Páscoa,
mas por todo o tempo até a segunda vinda.
Com razão, Arthur Wallis deu ao sexto capítulo do seu livro,
God’s chosen fast (O jejum escolhido por Deus), o título de
“The time is now”[17] (O tempo é agora). Agora é quando
Jesus disse que seus discípulos jejuariam. Ele está dizendo:
agora, enquanto eu estou aqui no meio de vocês como o
noivo, vocês não podem jejuar, mas eu não vou permanecer
com vocês. Vai haver um tempo em que vou retornar para o
meu Pai no céu. E durante esse tempo vocês irão jejuar.
Esse tempo é agora.
É verdade que em sua ausência Jesus nos deu o Espírito
Santo, e que o Espírito Santo é “o Espírito de Jesus” (At
16.7; 2Co 3.17). Então, num sentido profundo e
maravilhoso, ele ainda está conosco. Ele disse, falando do
“Consolador”, o Espírito: “Não vos deixarei órfãos, voltarei
para vós outros” (Jo 14.18). No entanto, há um grau de
intimidade muito maior que gozaremos com Cristo no céu
quando esta era findar. Então, em outro sentido, Cristo não
está conosco, mas longe de nós. É por essa razão que Paulo
diz em 2Coríntios 5.8: “Entretanto, estamos em plena
confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o
Senhor”. E em Filipenses 1.23: “Ora, de um e outro lado,
estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com
Cristo, o que é incomparavelmente melhor”. Em outras
palavras, nesta era cada cristão sente uma dor no seu
interior porque Jesus não está aqui inteiramente,
intimamente, tão poderosamente e gloriosamente como
gostaríamos que ele estivesse. Nós ansiamos por muito
mais. É por isso que jejuamos.
 
O jejum é o velho odre que tem de ser descartado?
 
Mas então Jesus diz algo muito crucial em Mateus 9.16-17.
Ele coloca lado a lado duas imagens, uma acerca de roupas
rasgadas e outra acerca de odres gastos: “Ninguém põeremendo de pano novo em veste velha; porque o remendo
tira parte da veste, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho
novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres,
derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se
vinho novo em odres novos, e ambos se conservam”.
O remendo de pano novo e o vinho novo representam a
nova realidade que tinha vindo com Jesus – o Reino de Deus
está aqui. O Noivo veio e o Messias está em nosso meio. E
isso não é temporário. Ele não veio e depois se foi. O reino
de Deus não veio em Jesus e depois desapareceu do mundo.
Jesus morreu pelos nossos pecados uma vez por todas. Ele
ressuscitou de entre os mortos definitivamente. O Espírito
foi enviado ao mundo como a presença real de Jesus entre
nós. O reino de Deus é o presente poder reinante de Cristo
no mundo, subjugando corações ao Rei e criando um povo
que crê nele e o serve em fé e santidade. O Espírito do
noivo está reunindo e purificando uma noiva para Cristo.
Esse é o evangelho de Cristo e “o mistério do reino” que já
foi citado.[18] Esse é o vinho novo.
E Jesus disse que os odres velhos não podem contê-lo.
Alguma coisa tem de mudar. O que é o velho odre? No
contexto, não podemos fugir da conexão com o jejum. Não
há interrupção no pensamento de Jesus. Acompanhe-o do
versículo 15 ao 16: “Dias virão, contudo, em que lhes será
tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar. Ninguém põe
remendo de pano novo em vestido velho…”. Não há
interrupção. E isso aparece desse mesmo modo em todos os
três relatos dessas palavras nos evangelhos. O remendo de
pano velho gasto e os odres velhos quebradiços se
relacionam diretamente com o jejum como um velho
costume judaico.
O jejum fora herdado do Antigo Testamento e tinha sido
usado como parte do sistema judaico de se relacionar com
Deus. Em Lucas 18.11-12 obtemos um lampejo dessa antiga
prática na oração do fariseu: “O fariseu, posto em pé, orava
de si para si mesmo, dessa forma: Ó Deus, graças te dou
porque não sou como os demais homens, roubadores,
injustos e adúlteros, nem ainda como esse publicano; jejuo
duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto
ganho”. Esse jejum tradicional é o odre velho. E Jesus diz
que ele não pode conter o vinho novo do reino que ele
estava trazendo.
Ora, isso nos confronta com um problema. Em Mateus 9.15
Jesus diz que iremos jejuar quando o Noivo tiver partido. E
dois versículos depois ele diz que o antigo jejum não pode
conter o novo vinho do reino. Em outras palavras, os
discípulos de Jesus jejuarão; no entanto, o jejum que eles
conheciam não era apropriado para a nova realidade da sua
presença e nem para o alvorecer do reino de Deus.
 
Vinho novo pede jejum novo
 
O que diremos então? Como cristãos, devemos jejuar ou
não? É o jejum cristão ou não é? Creio que a resposta é que
o novo vinho da presença de Cristo não exige que não se
faça jejum, mas sim um novo jejum. Anos atrás escrevi na
margem do meu Testamento em grego, ao lado de Mateus
9.17: “O novo jejum é baseado no mistério de que o noivo
veio, não apenas que virá. O novo vinho da sua presença
pede por jejum novo”.
Em outras palavras, o anseio, anelo e desejo ardente do
antigo jejum não eram baseados na verdade gloriosa de que
o Messias tinha vindo. A tristeza pelo pecado e o anseio pela
libertação do perigo e o anelo por Deus, que inspiraram o
antigo jejum, não eram baseados na grande obra
consumada do Redentor e na grande revelação da sua
verdade e graça na História. Essas coisas estavam ainda no
futuro. Mas agora o Noivo veio. E na vinda ele desferiu o
golpe decisivo contra o pecado, Satanás e a morte.
O que distingue o cristianismo do judaísmo é que o reino
longamente esperado de Deus é agora tanto presente
quanto futuro. O Rei veio. “É chegado o reino de Deus sobre
vós” (Lc 11.20). “O reino de Deus está dentro de vós” (Lc
17.21). É fato que o reino de Deus ainda não está
completamente consumado. Ele ainda virá em plenitude
gloriosa e poder. Na última Ceia Jesus disse: “pois vos digo
que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da
videira, até que venha o reino de Deus” (Lc 22.18). Então, é
evidente que o reino de Deus é ainda uma realidade futura
por vir, embora Jesus tivesse dito que “É chegado o reino de
Deus sobre vós” e que ele “está dentro de vós” (razão pela
qual George Ladd deu ao seu livro o título The presence of
the future[19] [A presença do futuro]).
Esse é o centro a que anteriormente me referi, com o qual o
jejum tem de se relacionar para que seja cristão. O centro é
o decisivo triunfo do Filho de Deus, o Messias entrando na
História, morrendo, ressuscitando de entre os mortos e
reinando sobre a História para a salvação do seu povo e a
glória do seu Pai. Os cristãos são um povo conquistado por
uma grande esperança que um dia eles verão e serão
subjugados pela glória de Deus em Cristo. Mas o que é
decisivamente cristão nisso é que nossa esperança está
enraizada no triunfo histórico passado desse mesmo Deus
sobre o pecado, a morte e o inferno pela morte e
ressurreição de Jesus.[20] O cristianismo é uma esperança
vibrante pela consumação da História na manifestação
universal da glória de Deus em Cristo – uma esperança que
está enraizada firmemente na encarnação passada de Cristo
que se ofereceu a si mesmo como um sacrifício pelo pecado
e se assentou à destra de Deus (Hb 10.12). Esse é o vinho
novo.
O ato grandioso, central e decisivo da salvação para nós
hoje é passado, não futuro. E com base na obra passada do
Noivo, nada pode jamais ser o mesmo outra vez. O Cordeiro
foi imolado. O sangue derramado. A punição pelos nossos
pecados foi executada. A morte foi derrotada. O Espírito foi
enviado. O vinho é novo. E a antiga atitude acerca do jejum
simplesmente não serve mais.
 
A novidade do novo jejum
 
Então, o que é novo a respeito do jejum cristão? É o fato de
que o jejum cristão se apoia em toda essa obra consumada
do Noivo. Ele assume isso. Ele crê nisso. Ele se deleita nisso.
O anseio, anelo e desejo ardente por Cristo e seu poder que
nos move ao jejum não são expressões de vazio.
Necessidade, sim. Dor, sim. Fome por Deus, sim. Mas não
vazio. As primícias do que nós ansiávamos já vieram. A
primeira prestação do que desejávamos já foi paga. A
plenitude daquilo que estamos desejando ardentemente e
pelo que estamos jejuando já apareceu na História, e nós
contemplamos sua glória. Não é meramente futuro. Não
jejuamos por causa de vazio. Cristo já é em nós a esperança
da glória (Cl 1.27). Fomos “selados com o Santo Espírito da
promessa; o qual é [dado agora] o penhor da nossa
herança” (Ef 1.13-14; veja também 2Co 1.22; 5.5).
Nós provamos os poderes da era por vir, e o nosso jejum
não é porque temos fome de alguma coisa que ainda não
experimentamos, mas porque o vinho novo da presença de
Cristo é muito real e muito satisfatório. Devemos ter tudo o
que for possível ter. A novidade do nosso jejum é esta: sua
intensidade vem, não do fato de que nunca tenhamos
provado do vinho da presença de Cristo, mas porque o
provamos de modo tão maravilhoso pelo seu Espírito que
não podemos nos satisfazer até a chegada da consumação
da alegria. O novo jejum, o jejum cristão, é uma fome de
toda a plenitude de Deus (Ef 3.19), provocada pelo aroma
do amor de Jesus e pelo gosto da bondade de Deus no
evangelho de Cristo (1Pe 2.2-3).
 
O jejum que é banquete
 
Outra maneira de dizer isso é que o novo jejum é o jejum da
fé. A fé se firma na obra consumada de Cristo e, nesse
alicerce, torna-se “a certeza de coisas que se esperam” (Hb
11.1). A fé é um banquete espiritual em Cristo com vistas a
estar tão satisfeito nele que o poder de todos os
encantamentos é quebrado.[21] Esse banquete começa
com a recepção da graça já disponível da morte e
ressurreição de Cristo e, depois, com a posse de tudo o que
Deus promete ser para nós nele. Enquanto formos finitos e
caídos, a fé cristã significará tanto deleite na encarnação
(passada) quanto anelopela consumação (futura). Será
tanto contentamento quanto insatisfação. E a insatisfação
aumentará diretamente na proporção do contentamento
que conhecemos em Cristo.
 
O jejum faz parte do reino de Deus
 
Esse entendimento do jejum cristão responde a todas as
preocupações anteriormente levantadas por Keith Main. Ele
disse que “a vida de oração do Novo Testamento é um sinal
do raiar do reino de Deus. O jejum não é mais consistente
com a atitude alegre e grata que marca a comunhão”.[22]
Vemos agora que isso é um exagero. Sim, o reino irrompeu.
Sim, existe um beber profundo, mesmo agora, da glória do
fim dos tempos manifesta em Cristo e experimentada pelo
seu Espírito. Mas não, isso não é tão pleno e ininterrupto
que o anseio, o anelo e o desejo ardente já tenham sido
completamente superados.
Até mesmo o próprio Main volta atrás e admite isso quando
diz:
 
A verdade é que a crise e a tragédia existem como uma
amarga realidade. O Reino não está plenamente instalado.
Pelo fato de que o Noivo está presente, então agora não
seria o momento apropriado para lamentar. Contudo, isso
não é totalmente verdadeiro, pois ainda estamos na carne e
fracos na fé… No meio dessa “amarga peleja”, o crente, na
sua vida devocional, pode concebivelmente encontrar
ensejo para jejuar. O jejum seria apenas um dentre muitos
ingredientes que contribuem para compor a vida do homem
em Cristo.[23]
 
Isso é correto. A presença do Noivo por meio do seu Espírito
no triunfo do perdão e da comunhão não torna o jejum
insignificante, mas o torna novo.
 
O jejum como uma expressão de contentamento
insatisfeito
 
Como um ato de fé, o jejum cristão é uma expressão de
contentamento insatisfeito na inteira suficiência de Cristo. É
uma expressão de anelo confiante e feliz pela plenitude
toda satisfatória de Cristo. O jejum cristão não vacila na
esperança de obter qualquer coisa de Cristo. Ele olha para
longe de si, para o pagamento final no Calvário por cada
bênção que eternamente receberá. O jejum cristão não é
disciplina auto-operada que tenta merecer mais de Deus. É
uma fome por Deus despertada pela gustação de Deus dada
gratuitamente no evangelho.
 
O jejum cristão afirma a excelência do alimento
 
É por essa razão que as advertências nas cartas de Paulo,
para as quais já chamamos a atenção, não são objeções de
fato contra o jejum cristão, mas apenas contra suas
distorções. “Deus criou [os alimentos] para serem
recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos
conhecem plenamente a verdade; pois tudo que Deus criou
é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável,
porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado”
(1Tm 4.3-5). O elogio de Paulo à excelência do alimento e à
liberdade que os cristãos têm de desfrutar dele, não é uma
contradição ao jejum cristão. O cristão diz sim a toda boa
dádiva e a todo dom perfeito que são lá do alto, descendo
do Pai das luzes (Tg 1.17).
O jejum não é uma negação da excelência do alimento ou
da generosidade de Deus em fornecê-lo. Ao contrário, é
uma maneira de dizer, de tempos em tempos, que ter mais
do Doador é mais valioso do que ter a dádiva. Se marido e
mulher decidem se abster de relações sexuais por um
tempo para tratar seriamente de um problema que os está
mantendo em conflito, isso não é uma condenação do sexo
mas uma exaltação do amor. O alimento é bom. Mas Deus é
melhor. Normalmente, encontramos Deus nas suas boas
dádivas e transformamos toda apreciação em adoração com
ações de graças. No entanto, de tempos em tempos,
precisamos nos testar para ver se, porventura, não
começamos a amar mais as dádivas divinas do que a Deus.
 
O jejum cristão não é “religião de força de vontade”
 
O grande perigo que Paulo via no jejum feito pelo jejum em
si, e que exaltava aquele que o praticava, não anula o novo
jejum cristão. Paulo adverte que existem jejuns que “têm
aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa
humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor
algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). Em outras palavras,
esse jejum é uma “religião de força de vontade”[24] que na
verdade incita o orgulho espiritual da carne ao mesmo
tempo em que doma seus apetites físicos.
Porém, isso é exatamente o oposto do jejum cristão. O jejum
cristão se move de uma pobreza de espírito contrita e
quebrantada para a doce satisfação na misericórdia gratuita
de Cristo, para desejos e gozo cada vez maiores da graça
inexaurível de Deus. O jejum cristão não incentiva o orgulho
porque ele descansa com o contentamento de uma criança
na justificação firmemente consumada de Deus em Cristo,
mesmo quando ansiando por toda a plenitude possível de
Deus nesta vida. O jejum cristão é o efeito do que Cristo já
fez por nós e em nós. Não é façanha nossa, mas o fruto do
Espírito. Lembre-se de que o fruto do Espírito mencionado
por último é “domínio próprio”[25] (Gl 5.23).
 
Todo alimento é lícito, mas nem tudo é útil
 
O que tudo isso significa para a prática de Paulo é que ele
era livre para jejuar ou não jejuar. “Todas as coisas me são
lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são
lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma
delas” (1Co 6.12). A razão para isso é que o ato de jejuar
não era a coisa essencial. Fazê-lo – ou não fazê-lo – para a
glória de Deus era a coisa essencial: “Quem come para o
Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come
para o Senhor não come e dá graças a Deus” (Rm 14.6). O
jejum dá glória a Deus quando ele é vivenciado como uma
dádiva de Deus que tem o objetivo de conhecer mais a
Deus e deleitar-se mais nele. Deus é glorificado em nós
quando o nosso objetivo é que as nossas ações demonstrem
que estamos completamente satisfeitos nele. Podemos
fazer isso comendo de modo agradecido ou jejuando de
modo agradecido. Suas dádivas deixam uma fome dele que
vai além delas, e jejuar para obter essas dádivas coloca
essa fome em teste.
 
Um cristão deve esbofetear o corpo?
 
É enganoso, sem consideração cuidadosa, dizer (como faz
Keith Main) que “Paulo… deliberadamente desviou a
atenção dos seus discípulos do jejum e qualquer forma de
ascetismo para a oração, o serviço e a labuta em favor do
reino”.[26] Concordo com a segunda metade positiva dessa
afirmação, não com a primeira metade negativa. Eu diria
que Paulo dirigiu nossa atenção para o jejum e inúmeros
outros tipos de abnegação – não como rituais religiosos
meritórios, e não como fins neles mesmos, mas como uma
arma na luta da fé. Duas vezes, quando Paulo estava sendo
julgado, ele mencionou o jejum. Ele esteve “em trabalhos e
fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em
jejuns,[27] muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.27; veja
também 6.5).
Isso está de acordo com o que ele disse acerca de como
administrava os apetites do seu corpo. “Assim corro
também eu, não sem meta; assim luto, não como
desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o
reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não
venha eu mesmo a ser desqualificado” (1Co 9.26-27). Tomo
isso como dizendo que Paulo considerava algumas
disciplinas ascéticas como armas úteis na luta da fé.
Apegar-se com firmeza a Cristo pela fé é a chave para não
ser “desqualificado”. Isso é claro, por exemplo, em
Colossenses 1.23, “[Cristo vos apresentará santos e
inculpáveis a Deus] se é que permaneceis na fé, alicerçados
e firmes, não vos deixando afastar da esperança do
evangelho…”. Perseverar na fé é a chave para permanecer
aceitável perante Deus no último dia.
Paulo diz que uma arma nessa luta permanente da fé é a
prática de “esbofetear o corpo”. Ele estava bem ciente de
que os desejos do corpo são tão enganosos quanto
prazerosos. Ele disse que o “velho homem… se corrompe
segundo as concupiscências do engano” (Ef 4.22). A
natureza desse engano é nos seduzir a uma vida de
“prazeres fugazes” do corpo e da mente, em vez dos
prazeres espirituais de conhecer e servir a Deus.Esses
prazeres começam com deleites inocentes com comida,
leitura, descanso e diversões, mas depois se tornam fins
neles mesmos e sufocam a fome espiritual por Deus. Paulo
esbofeteia seu corpo para testá-lo. Porventura ele tem fome
por Deus? A sua fé é verdadeira? Ou ele está se tornando
escravo do conforto e dos prazeres carnais? Você pode
sentir a paixão do coração dele em 1Coríntios 6.12: “eu não
me deixarei dominar por nenhuma delas”. Isso não é o
orgulho da autoexaltação estoica. É a resolução apaixonada
de resistir a qualquer coisa que seduz o coração para longe
de uma satisfação toda controladora em Deus.
Quando eu estava pregando acerca de jejum e oração
alguns anos atrás, um rapaz me procurou depois de uma
das mensagens e me contou uma história que ilustra o tipo
de esbofeteio do corpo em oração que prepara uma pessoa
para o céu. Eu tinha citado a igreja da Coreia do Sul como
uma referência quanto a isso. Isso estimulou o jovem a ir
conversar comigo depois do culto.
 
Cresci no campo missionário na Coreia. Lembro-me de uma
experiência que enaltece a dedicação sacrificial à oração e
ao jejum na Coreia. Meu pai trabalhava com uma colônia de
leprosos e eles tinham uma reunião de oração às quatro
horas da manhã. Eu era criança, mas meu pai me levou com
ele, tendo me acordado às três e meia para chegar lá na
hora marcada. Ele me sentou na parte de trás, de onde eu
podia ver o lado de fora do templo. E eu nunca vou me
esquecer de um homem que não tinha pernas, nem
muletas, e estava usando as próprias mãos para rastejar
pelo chão, arrastando seu corpo para ir orar às quatro horas
da manhã. Nunca vou me esquecer disso.
 
Levantar-se cedo é um tipo de jejum. E ir orar quando é
difícil chegar lá é outro tipo de jejum. Quando fazemos
esses tipos de escolha, estamos fazendo guerra contra os
enganos dos nossos desejos e declarando a preciosidade da
oração e o valor inestimável de Deus.
 
O jejum é cristão?
 
Jejuar é cristão? É como se ele viesse da confiança em
Cristo, fosse sustentado pelo poder de Cristo e tivesse como
objetivo a glória de Cristo. A respeito de todo jejum cristão
deveriam ser escritas estas palavras: “O que, para mim, era
lucro, isso considerei perda por causa de Cristo. Sim,
deveras considero tudo como perda, por causa da
sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor;
por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como
refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.7-8). No jejum, bem
como em todas as outras privações, toda perda é por amor
a “ganhar a Cristo”. Mas isso não significa que buscamos
ganhar um Cristo que não temos. Nem significa que o nosso
progresso depende de nós mesmos. Quatro versículos
depois Paulo deixa claro as dinâmicas de toda a vida cristã,
incluindo o jejum: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha
já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo
para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp
3.12).
Esta é a essência do jejum cristão: desejamos ansiosa e
vivamente – e jejuamos por isso – conhecer mais e mais de
tudo o que Deus é por nós em Jesus. Mas isso apenas
porque ele já nos tomou para si e está sempre nos atraindo
para toda a “plenitude de Deus”.
Minha oração pela igreja cristã é que Deus possa despertar
em nós uma nova fome por ele – um novo jejum. Não
porque não tenhamos provado do vinho novo da presença
de Cristo, mas porque o degustamos e ansiamos, com uma
dor profunda e alegre na alma, por conhecer mais e mais da
sua presença e do seu poder em nosso meio.
 
Recordar-te-ás de todo o caminho
pelo qual o
Senhor
, teu Deus, te guiou
no deserto esses quarenta anos,
para te humilhar, para te provar,
para saber o que estava no teu coração,
se guardarias ou não os seus mandamentos.
Ele te humilhou, e te deixou ter fome,
e te sustentou com o maná, que tu não conhecias,
nem teus pais o conheciam,
para te dar a entender que não só de pão viverá o homem,
mas de tudo o que procede da boca do
Senhor
viverá o homem.
Deuteronômio 8.2-3
 
A debilidade da fome que leva à morte revela a bondade e o
poder de Deus que desejam vida. Aqui não tem exortação,
nenhuma tentativa mágica de forçar a vontade de Deus.
Nós meramente olhamos com confiança para o nosso Pai
celestial e, por meio do jejum, dizemos suavemente no
nosso coração: “Pai, sem ti eu morrerei; vem em meu
auxílio, apressa-te em me ajudar”.
- Joseph Wimmer
Fasting in the New Testament[1]
2
Não só de pão viverá o homem
 
O banquete no deserto do jejum
 
O Filho de Deus começou seu ministério terreno com um
jejum de quarenta dias. Isso deveria nos fazer pensar.
Especialmente se – nós, que não somos Deus – tivermos
mergulhado de cabeça no ministério, incautos da batalha
que podemos ter de lutar. Por que Jesus fez isso? Por que
Deus o conduziu a isso? E o que tem isso a ver conosco?
Será que conseguimos enfrentar os perigos sobre-humanos
da vida e do ministério sem caminhar com Jesus pelo
deserto do jejum?
Acho que devemos caminhar por ali para, no mínimo,
aprender dele, se não para imitar o seu triunfo. Ele era o
Filho de Deus, e nós não somos. Mas ele disse: “Assim como
o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). A
salvação do mundo pode não depender do nosso sucesso,
visto que somos anos-luz menos do que Jesus. Mas isso
pode aumentar mais do que diminuir a necessidade do
jejum na nossa vida. A importância da minha batalha é
menor para o mundo, mas minha fraqueza é maior. Por que
ele jejuou ao iniciar seu grande ministério? O que podemos
aprender a respeito do nosso?
 
Fome de toda a plenitude de Deus
 
Meu coração tem fome de “toda a plenitude de Deus”. Eu
anseio por uma operação mais profunda de Deus no meio
do seu povo. Anelo por uma poderosa enchente de zelo
missionário espalhando uma paixão pela supremacia de
Cristo em todas as coisas para a alegria de todos os povos.
Anseio por ver o novo nascimento sobrenatural e genuíno
ocorrendo semana após semana continuamente, por meio
do testemunho convincente do povo de Deus,
transformando pessoas por toda parte onde seu nome seja
falado. O ministério de Jesus foi, e sempre será, sem
paralelo. Em alguma medida, ele é um modelo para nós.
Mas na sua plenitude ele dá testemunho da sua absoluta
singularidade divina. No entanto, como podemos deixar de
nos perguntar se esse jejum extraordinário, no início do seu
ministério, não foi intencionado a mais do que a sua própria
obra?
Charles Spurgeon, o pastor de Londres de um século atrás,
disse: “Nossa temporada de jejum e oração no Tabernáculo
tem sido muito profícua nestes dias; os portões do céu
nunca estiveram tão escancarados; nunca antes nossos
corações estiveram tão perto da fonte da Glória”.[2]
Aproximar-se da glória de Deus é sem dúvida a chave para
queimar com luz e calor inextinguível. E não é esta a
necessidade da hora – toda hora – de que os cegos possam
ver, e sair das trevas para a luz, e dar glória ao nosso Pai no
céu (At 26.18; Mt 5.16)? Se aquele que era a Luz do mundo
lutou pelo seu fogo com jejum, não haverá algum
ensinamento aqui para as nossas mechas bruxuleantes?
 
O Espírito desceu sobre Jesus como uma pomba
 
Eu acho que há. Vamos voltar, então, e aprender com ele.
Segundo Mateus 3.16, depois de ser batizado, Jesus saiu da
água e os céus se abriram e o Espírito Santo desceu sobre
ele como uma pomba. O que isso significa? O Espírito Santo
tinha estado sempre com Jesus. Ele foi concebido pelo
Espírito Santo no ventre de sua mãe virgem (Lc 1.35). E por
toda a eternidade antes disso, o Filho de Deus e o Espírito
de Deus tinham sido um, como Paulo disse tão claramente:
“o Senhor é o Espírito” (2Co 3.17). O quê, então, Mateus
quis dizer quando relata que “se lhe abriram os céus, e
[Jesus] viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo
sobre ele” (Mt 3.16)?
Ele quis dizer que Deus, o Pai, amou seu Filho de tal
maneira que o preparou publicamente e poderosamente
dessa maneira especial para oministério que tinha diante
de si. Ele lhe assegurava o seu favor, direção e auxílio
sustentador. Enquanto o Espírito descia sobre Jesus, Deus, o
Pai, disse (no v. 17): “Este é o meu Filho amado, em quem
me comprazo”. Em outras palavras, essa manifestação
especial do Espírito foi uma demonstração do infinito amor
do Pai pelo seu Filho (“Este é o meu Filho amado”), e o
importante endosso da pessoa e do ministério dele pelo Pai
(“em quem me comprazo”).
 
Ninguém jamais aventurara tal coisa, e ninguém o
conseguiria
 
O que Jesus estava por empreender era único na História do
mundo. Nenhum outro homem antes tinha se proposto viver
e morrer como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo!” (Jo 1.29). Jesus sabia que sua tarefa como Filho de
Deus era “dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc
10.45), e que ele “veio ao mundo para salvar os pecadores”
(1Tm 1.15). Ele sabia, com base em Isaías 53, que era a
vontade de Deus moê-lo (v. 10), fazer “cair sobre ele a
iniquidade de nós todos” (v. 6) e, por meio da sua morte,
justificar muitos pecadores (v. 6, 10-11). Ele sabia que Deus
tinha “deixado impunes os pecados anteriormente
cometidos” e que a vindicação da justiça de Deus estava
em jogo na sua vida e no seu ministério (Rm 3.25-26). Ele
sabia que a fidelidade de Deus, em todas as suas
promessas, dependia do cumprimento fiel e obediente de
cada palavra dita no Antigo Testamento (Rm 15.8). Ele sabia
que tudo isso lhe custaria a vida e que a tortura seria
indizivelmente vergonhosa e dolorida (Mc 10.33-34).
O Pai sabia que isso ia acontecer, e o Filho sabia também.
Assim sendo, o Pai comissiona o Espírito para voar como
uma pomba sobre o Filho para assegurar-lhe o amor do Pai e
tornar manifesto, para além de toda dúvida, a aprovação do
Pai. Um dos efeitos maravilhosos das palavras do Pai, “o
meu Filho amado, em quem me comprazo”, era assegurar a
Jesus – e a nós – que o fogo do sofrimento no qual Jesus
estava adentrando não era em razão do desfavor do Pai. O
Pai já estava preparando Jesus – e a nós – para saber que o
clamor desesperado: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” (Mc 15.34), não seria a última palavra.
 
O Espírito leva Jesus à prova e ao jejum
 
E é de importância especial ver, quando observamos no
versículo seguinte (Mt 4.1), qual foi o primeiro ato do
Espírito depois de vir sobre Jesus daquela maneira. Ele diz:
“A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser
tentado pelo diabo”. O primeiro ato do Espírito no ministério
de Jesus foi conduzi-lo ao deserto e expô-lo às tentações de
Satanás.
Sob a direção do Espírito, Jesus se preparou para essa prova
pelo jejum. “A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao
deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar
quarenta dias e quarenta noites…” (Mt 4.1-2). O Espírito de
Deus desejava que o Filho de Deus fosse provado a caminho
do seu ministério, e ele desejava que Jesus saísse vitorioso
dessa prova, por meio do jejum. Não deve passar
despercebido que Jesus triunfou sobre o grande inimigo da
sua alma e de nossa salvação por meio do jejum.
Parece-me que essa história deveria nos sacudir. Aqui está
Jesus, pisando o limiar do mais importante ministério da
História do mundo. De sua obediência e justiça depende a
salvação do mundo. Ninguém escapará da destruição sem
esse ministério de sofrimento obediente, morte e
ressurreição. E aprouve a Deus que, justamente no
princípio, esse ministério fosse ameaçado de destruição – a
saber, as tentações de Satanás para abandonar o caminho
da humildade, do sofrimento e da obediência. E de todas as
centenas de coisas que Jesus poderia ter feito para rechaçar
essa tremenda ameaça à salvação, ele foi conduzido, no
Espírito, a jejuar.
Se Satanás tivesse sido bem-sucedido em dissuadir Jesus do
caminho da obediência humilde e sacrificial, então não
haveria salvação. Nós ainda estaríamos em nossos pecados
e sem esperança. Portanto, devemos a nossa salvação, em
certa medida (não exagerando), ao jejum de Jesus. Esse é
um tributo admirável ao jejum. Não passe depressa demais
por essa informação. Pondere a esse respeito. Jesus
começou seu ministério com jejum. E ele triunfou sobre seu
inimigo por meio do jejum. E a nossa salvação foi cumprida
por meio da perseverança no jejum.
 
A reencenação da prova de Israel no deserto
 
E então, para ver o sentido mais pleno disso, precisamos
considerar o livro de Deuteronômio. Todas as respostas que
Jesus deu às três tentações do diabo no deserto foram
tiradas de Deuteronômio. “não só de pão viverá o homem,
mas de tudo o que procede da boca do Senhor viverá o
homem” (Dt 8.3); “Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Dt
6.16); “O Senhor, teu Deus, temerás, a ele servirás” (Dt
6.13).
Isso é muito significativo. Aqui Jesus é levado pelo Espírito
ao deserto – preste bem atenção, ao deserto – e, para opor-
se às tentações de Satanás, Jesus cita passagens de
Deuteronômio, todas as quais foram ditas por Moisés ao
povo de Israel, por ocasião da prova deles no deserto.
Mateus 4.3-4 diz: “Então, o tentador, aproximando-se, lhe
disse: Se és Filho de Deus, manda que essas pedras se
transformem em pães. Jesus, porém, respondeu: Está
escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda
palavra que procede da boca de Deus”. Agora, compare
com Deuteronômio 8.2-3, e observe os paralelos entre essa
situação no deserto e a situação de Jesus no deserto. Moisés
disse ao povo:
 
Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o
Senhor
, teu Deus, te guiou no deserto [nota: da mesma maneira
Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto] esses quarenta
anos [nota: da mesma maneira Jesus ficou ali por quarenta
dias], para te humilhar, para te provar [nota: da mesma
maneira Jesus foi provado], para saber o que estava no teu
coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te
humilhou, e te deixou ter fome [nota: do mesmo modo Jesus
teve fome por causa do jejum], e te sustentou com o maná,
que tu não conhecias, nem teus pais o conheciam, para te
dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de
tudo o que procede da boca do
Senhor
viverá o homem [observe: exatamente como Jesus
respondeu a Satanás].
 
Há semelhanças demais entre o que estava acontecendo
com Jesus nessa ocasião no deserto e o que aconteceu com
o povo de Israel para se pensar que se trata de mera
coincidência. Deus está nos ensinando algo aqui. O Espírito
de Deus conduziu Jesus ao deserto. O que isso significa?
Significa que as sombras do Antigo Testamento estavam
sendo substituídas pela realidade do Novo Testamento.
Significa que algo maior do que Moisés, o deserto e a Lei e
Josué e a Terra Prometida estava em jogo aqui. Significa que
a hora do cumprimento estava chegando. A promessa a
Moisés estava sendo cumprida. “O Senhor, teu Deus, te
suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos,
semelhante a mim; a ele ouvirás” (Dt 18.15). Significa que
Deus estava, nesse momento, com a encarnação do seu
Filho, preparando-se para libertar seu povo – o novo Israel –
da escravidão egípcia do pecado para a Terra Prometida do
perdão, da justiça e da vida eterna. Para fazer isso, ele
enviou um novo Moisés, ou nesse caso, um novo Josué
(Jesus reencena ambos os papéis, e o nome “Jesus” é
idêntico a “Josué” no Novo Testamento grego). Esse novo
Josué ocupa a posição de cabeça e representante de todo o
novo povo que Jesus iria reunir de entre os judeus e os
gentios. Em favor deles, Jesus seria nesse momento
conduzido ao deserto pelo Espírito. Ele ficaria quarenta dias
para representar quarenta anos. Seria testado como
também Israel o foi. E passaria fome como também Israel
passou. E se triunfar, ele e todo o seu povo entrarão salvos
na Terra Prometida do perdão e da vida eterna.
 
Seu jejum foi tanto guerra quanto arma, tanto prova
quanto triunfo
 
Agora podemos ver o sentido do jejum de Jesus mais
claramente. Não foi uma escolha arbitrária de algo para se
fazer em face datentação satânica. Foi um ato voluntário
de identificação com o povo de Deus na privação e
provação deles no deserto. Jesus estava, com efeito,
dizendo: “Fui enviado para conduzir o povo de Deus para
fora da escravidão do pecado e levá-lo para a Terra
Prometida da salvação. Para fazer isso, tenho de ser um
deles. Foi por isso que nasci. Por isso fui batizado. Portanto,
vou passar pelo teste que eles passaram. Vou representá-
los no deserto e permitir que o meu coração seja provado
com o jejum para ver onde reside a minha obediência e
quem é o meu Deus. E, com a ajuda do Espírito, vou vencer
por meio do jejum. Vou vencer o diabo e conduzir a todos
que confiam em mim para a Terra Prometida da glória
eterna”.
Em outras palavras, o jejum de Jesus não foi apenas um
preparo para a prova; era parte de sua prova, da mesma
maneira que a fome foi um teste de fé para o povo de Israel
no deserto. Moisés disse: “Recordar-te-ás de todo o caminho
pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto esses
quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber
o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus
mandamentos” (Dt 8.2). E assim foi também com Jesus. O
Espírito o conduziu ao deserto e deixou que ele passasse
fome para testá-lo, para ver o que estava no seu coração.
Ele amava a Deus ou amava o pão? No entanto, isso não
significa que seu jejum não fosse também – ao mesmo
tempo – uma arma na luta contra Satanás. O jejum sonda
para ver onde o coração está. E quando ele revela que o
coração está com Deus e não com o mundo, um golpe fatal
é desferido contra Satanás. Isso porque nesse caso Satanás
não tem o ponto de apoio que teria se o nosso coração
estivesse apaixonado por coisas terrenas como o pão.
 
Jejum como uma privação reveladora do coração
 
Com frequência, o povo de Deus é chamado a passar sem
seus meios normais de vida. “Muitas são as aflições do
justo” (Sl 34.19); “através de muitas tribulações, nos
importa entrar no reino de Deus” (At 14.22); “igualmente
gememos em nosso íntimo… a redenção do nosso corpo”
(Rm 8.23). O jejum é uma experiência voluntária e breve
dessa privação. Quando vivenciamos essa privação
voluntária, o Senhor revela o que está no nosso coração. O
que é que nos controla? O que valorizamos e em quem
confiamos? Já vimos isso na Introdução e citamos o
comentário de Richard Foster em The celebration of
discipline que “mais do que qualquer outra disciplina, o
jejum revela as coisas que nos controlam”.[3]
A quê estamos escravizados? Do que temos mais fome – de
comida ou de Deus? O jejum é o terreno de provas de Deus
– e terreno de cura. Porventura iremos murmurar da mesma
maneira que os israelitas murmuraram pela falta de pão?
Para Jesus, a pergunta foi: ele deixaria o caminho da
obediência sacrificial e transformaria pedras em pão? Ou
viveria “de toda palavra que procede da boca de Deus”? O
jejum é uma maneira de nos revelar a nós mesmos e
confessar ao nosso Deus o que está no nosso coração. Onde
encontramos nossa satisfação mais profunda – em Deus ou
nas suas dádivas?
E o objetivo do jejum é que passemos a depender menos do
alimento e mais de Deus. Esse é o significado das palavras
em Mateus 4.4: “Não só de pão viverá o homem, mas de
toda palavra que procede da boca de Deus”. Todas as vezes
que jejuamos, dizemos junto com Jesus: “Não apenas de
pão, Senhor, mas de ti. Não apenas de pão, Senhor, mas de
ti”.
 
Jejuando por Deus e não pelo seu pão milagroso
 
Deixe-me tentar mostrar-lhes por que penso que foi isso o
que Jesus quis dizer quando repeliu Satanás com as
palavras: “o homem [viverá]… de toda palavra que procede
da boca de Deus”. Por que vocês acham que Jesus está
dizendo: “Confie em Deus e não no pão”?
A resposta é encontrada no contexto de Deuteronômio 8.3
de onde Jesus tira a palavra em Mateus 4.4: “[Deus] te
sustentou com o maná, que tu não conhecias, nem teus
pais o conheciam [observe o argumento], para te dar a
entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o
que procede da boca do Senhor viverá o homem”.
Considere cuidadosamente. Nesse caso, ele está dizendo
que ter dado o maná foi um teste. Não a privação do
alimento, mas a doação do alimento – para ensiná-los que o
homem não vive apenas de pão. Deus lhes deu o maná, um
alimento absolutamente desconhecido que caía do céu. Por
quê? Para que eles aprendessem, disse Moisés, a viver de
tudo que procede da boca de Deus. E como é isso? Como é
que dar o maná milagroso pode ensinar isso? Porque o
maná é uma das maneiras incríveis pelas quais Deus pode,
com uma mera palavra, satisfazer suas necessidades
quando tudo o mais parece inútil. Então, o argumento de
Moisés é que precisamos aprender a depender de Deus e
não de nós mesmos. Devemos confiar nele para toda
bênção totalmente inesperada que é ordenada para nós
pela boca de Deus.
E, então, veja o que Satanás faz com essa verdade quando
se intromete com Jesus. Satanás diz a Jesus: “Se és Filho de
Deus, manda que essas pedras se transformem em pães”
(Mt 4.3). Em outras palavras: “Faça maná para você mesmo,
como seu Pai fez no deserto”. Satanás é extremamente
engenhoso. Ele é um hábil exegeta das Escrituras. Conhece
a matéria-prima das Escrituras. Ele havia visto que o maná
tivera o propósito de mostrar o poder de Deus em operar
milagres para satisfazer as necessidades do seu povo em
aflição. Assim sendo, argumenta com Jesus: “A razão de seu
Pai ter dado o maná no deserto foi para ensinar ao povo a
esperar por milagres nas dificuldades; então, regale-se com
um pão milagroso e você estará obedecendo as Escrituras”.
A isso Jesus responde: “Satanás, você está tão perto e, no
entanto, tão distante. Você sempre manipulou a Palavra de
Deus dessa maneira, com tanta sutileza e ao mesmo tempo
tão enganosamente. Você dá a entender que aprova, mas
volta cada palavra contra Deus. A essência do maná era
esta, Satanás: não confie no pão – tampouco no pão
milagroso – confie em Deus. Não tire sua maior satisfação
da vida do alimento – nem mesmo do alimento que resultou
do milagre divino – mas de Deus. Toda Palavra que sai da
boca de Deus revela Deus. E é dessa autorrevelação que
nós nos alimentamos mais profundamente. Isso durará para
sempre. Isso é vida eterna. Arreda-te Satanás, Deus é a
minha porção. Eu não vou me desviar do caminho dele e da
sua comunhão, nem mesmo por causa de maná milagroso”.
Essa é a lição mais profunda do jejum de Jesus no deserto.
Era uma arma na guerra contra o engano satânico porque
foi uma demonstração de que Jesus tinha mais fome de
Deus e da vontade de Deus do que tinha das maravilhas de
Deus. Ele poderia ter racionalizado que transformar pedras
em pão era exatamente o que o Filho de Deus deveria fazer
para reencenar a experiência do povo de Deus no deserto.
Eles receberam maná. Ele também deveria ter maná. Nesse
caso, o jejum seria um prelúdio religioso a uma provisão
milagrosa.
No entanto, não foi desse modo que Jesus raciocinou. E isso
não é o que o jejum significava. Em vez disso, o raciocínio
de Jesus foi o seguinte: “Fui enviado para sofrer e morrer
pelo meu povo. A única esperança de poder realizar isso é
amando a Deus, meu Pai, pois ele é mais precioso para
mim, muito mais do que as demonstrações do seu poder
milagroso para me aliviar dos meus sofrimentos. Eu sei que
é vontade dele me moer e me fazer sofrer por amor do seu
povo. Li isso em Isaías 53.10. Não vou usar o jejum como
uma tentativa de escapar dessa missão. Isso é o que
Satanás quer que eu faça – um prelúdio para a provisão
divina milagrosa de pão, exatamente como em
Deuteronômio. Mas eis a diferença. Eles foram provados um
pouco; eu, porém, serei provado muito. Isso porque
muitíssimo mais depende da minha prova do que da deles”.
 
O triunfo da fome por Deus
 
E o que foi, então, o jejum para Jesus? Foi tanto prova
quanto triunfo. Foi o teste do seu apetite mais profundo e do
triunfo da sua fome por Deus acima de tudo.E, portanto, foi
também um triunfo sobre Satanás. A estrada do calvário foi
o caminho para a sua própria morte e a derrota do diabo.
Jesus, “despojando os principados e as potestades,
publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na
cruz” (Cl 2.15). A estrada que conduziu a essa derrota
começou com os quarenta dias de jejum. E nesse jejum
Jesus demonstrou o poder que o capacitou a ferir a cabeça
da serpente no Gólgota. Foi o poder da fé, ou seja, o poder
de uma satisfação superior em Deus acima de tudo, mesmo
das dádivas miraculosas de Deus. Essa confiança e
contentamento profundos em Deus sustentaram Cristo ao
longo de toda a sua trajetória até o final. “Olhando
firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual,
em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a
cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à
destra do trono de Deus” (Hb 12.2).
O jejum é uma declaração periódica – e algumas vezes
decisiva – de que nós preferimos nos banquetear à mesa de
Deus no reino dos céus do que nos alimentar das iguarias
mais finas deste mundo. Jesus sabia o que tinha deixado
nos céus. E sabia para o quê estava retornando. Essa era
sua grande esperança e alegria. Certa vez ele disse aos
seus discípulos: “Ouvistes que eu vos disse: vou e volto
para junto de vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que
eu vá para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” (Jo 14.28).
Voltar para o Pai com “o fruto do penoso trabalho de sua
alma” – a igreja (Is 53.11) – era o grande desejo de Jesus.
Nisso sua alma festejou, e isso foi o que o sustentou no
jejum e na morte.
 
Podemos passar sem a serva faminta da fé?
 
A questão não é tanto se jejuamos, mas se ansiamos por
Deus dessa maneira. A natureza da nossa fé é esta:
estamos satisfeitos com tudo o que Deus promete ser para
nós em Jesus? Tão satisfeitos que podemos tomar a nossa
cruz e segui-lo na estrada do calvário? Tão famintos
somente por ele que nem as maravilhas e os milagres da
sua provisão são suficientes para satisfazer a nossa alma? E
se essa for a questão, então devemos perguntar: podemos
passar sem a serva faminta da fé chamada jejum?
A questão não é ganhar ou merecer qualquer coisa de Deus,
ou coagi-lo a nos dar. A questão é: tendo experimentado a
bondade de Deus no evangelho, como é que eu posso
maximizar meu deleite nele quando em cada momento da
minha vida sou tentado a fazer de cada uma de suas boas
dádivas um deus? Por meio de quais armas devo lutar a luta
da fé e guardar meu coração das afeições estranhas e dos
apetites traiçoeiros? É certo que tomo a espada do Espírito,
a Palavra de Deus, e oro. Mas vou tomar também a serva
faminta da fé como minha auxiliadora. Na sua fraqueza ela
é forte. Sua vacuidade aumenta minha necessidade e torna
a perfeição de Deus mais preciosa.
 
A debilidade da fome que leva à morte revela a bondade e o
poder de Deus que desejam vida. Aqui não há exortação,
nenhuma tentativa mágica de forçar a vontade de Deus.
Nós meramente olhamos com confiança para o nosso Pai
celestial e, por meio do jejum, dizemos suavemente em
nosso coração: “Pai, sem ti eu morrerei; vem em meu
auxílio, apressa-te em me ajudar”.[4]
 
Como podemos sustentar uma visão de Deus que
satisfaça a alma?
 
A assistência de que precisamos, acima de toda cura física,
de toda segurança financeira, de todos os sucessos de
empregos, de toda orientação de carreira e de toda
harmonia relacional é a assistência divina para ver e
saborear a glória de Deus em Cristo. Contemplando a glória
de Deus no evangelho, somos salvos (2Co 4.4, 6).
Contemplando a glória de Cristo em suas promessas,
estamos sendo santificados (2Co 3.18). Há apenas uma
maneira de terminar nossa carreira de guardar a fé e
perseverar até o fim, e é “olhando firmemente para o Autor
e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12.2; veja também 3.1), e
não olhando para as “coisas que se veem, mas nas que se
não veem; porque as que se veem são temporais, e as que
se não veem são eternas” (2Co 4.18), e colocando o nosso
pensamento “nas coisas lá do alto” (Cl 3.2). Essa é a
vontade de Deus para nós e a obra de Deus em nós (Hb
13.20-21). No entanto, somos constituídos de tal maneira
como seres humanos caídos, Jesus diz, que “os cuidados do
mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições
[mesmo coisas inocentes, como o alimento], concorrendo,
sufocam a palavra” (Mc 4.19), que é destinada a nos revelar
a glória de Deus (Mc 4.19). Portanto, a luta do jejum e a
batalha para contemplar a glória do Senhor dia após dia são
travadas não apenas alimentando a alma com a verdade,
mas jejuando para colocar nossos apetites em teste e, se
necessário, à morte.
Dietrich Bonhoeffer pelejou energicamente com The cost of
discipleship (O custo do discipulado). Ele ponderou
seriamente acerca do custo da estrada do calvário. Da
maneira como o entendia, para ele, significava resistir a
Adolf Hitler cabalmente, pelo que ele foi enforcado em
Flossenburg, Alemanha, em 9 de abril de 1945, com apenas
39 anos de idade. Ele viu claramente o engano da nossa
carne e a necessidade de lutar em toda a linha de frente a
batalha da fé dia após dia com alegria e humildade.
 
A carne resiste a essa humilhação diária, primeiro por um
ataque frontal, e depois se escondendo sob as palavras do
Espírito (isto é, em nome da “liberdade evangélica”). Nós
alegamos liberdade de toda compulsão legal, de todo
automartírio e mortificação e colocamos isso contra o uso
evangélico apropriado da disciplina e do ascetismo; assim,
desculpamos nossa autoindulgência e irregularidade na
oração, na meditação e na nossa vida corporal. Mas o
contraste entre o nosso comportamento e a palavra de
Jesus é também demasiadamente, dolorosamente,
evidente. Nos esquecemos de que o discipulado significa
alienação do mundo, e nos esquecemos da alegria real e
liberdade que são o resultado de um modo de vida devoto.
[5]
 
Alegria em Deus é a coragem de andar com o Jesus do
deserto até a cruz e para a vida eterna. No entanto, manter
essa alegria contra seus rivais mais sutis e inocentes é uma
batalha de uma vida inteira. E nessa luta, o jejum – a
humilde serva faminta da fé – é um emissário da graça. Ela
vem com todo jejum com as mesmas palavras:
 
Ainda que a figueira não floresça,
nem haja fruto na vide;
o produto da oliveira minta,
e os campos não produzam mantimento;
as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco,
e nos currais não haja gado,
todavia, eu me alegro no
Senhor
,
exulto no Deus da minha salvação.
Habacuque 3.17-18
 
Quando jejuardes, não vos mostreis contristados
como os hipócritas; porque desfiguram o rosto
com o fim de parecer aos homens que jejuam.
Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.
Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto,
com o fim de não parecer aos homens que jejuas,
e sim ao teu Pai, em secreto;
e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Mateus 6.16-18
 
Muito pouco ama a ti aquele que ama
alguma coisa ao mesmo tempo que ama a ti,
que ele não ama por amor a ti.
 
Agostinho
Confissões[1]
 
Aprendamos das instruções do nosso Senhor acerca do
jejum,
a grande importância do contentamento em nossa religião.
As palavras “unge a cabeça e lava o rosto”, são cheias de
profundo significado… Porventura estamos insatisfeitos com
o salário de Cristo e com o serviço dele? Claro que não!
Então, não vamos parecer como se estivéssemos.
 
J. C. Ryle
Expository thoughts on the gospels[2]
3
Jejuar pela recompensa do Pai
 
A orientação radical de Jesus acerca do jejum
 
Carl Lundquist foi reitor da Bethel College and Seminary por
quase trinta anos. Ele morreu em 1991 de câncer de pele.
Na última década da sua vida, ele dedicou uma enorme
quantidade de energia ao estudo e à promoção da devoção
espiritual pessoal e às disciplinas da vida cristã. Ele até
mesmo estabeleceu o que chamava de “Evangelical order of
the burning heart” (“Ordem evangélica do coraçãoardente”) e começou a enviar cartas periódicas de
inspiração e encorajamento. Na carta de setembro de 1989,
ele contou a história de como começou a levar o jejum a
sério.
 
Minhas próprias considerações sérias acerca do jejum como
uma disciplina espiritual começaram com uma visita ao Dr.
Joon Gon Kim em Seul, Coreia. “É verdade”, eu perguntei a
ele, “que você passou quarenta dias em jejum antes da
cruzada de evangelismo em 1980?” “Sim”, ele respondeu,
“é verdade”. O Dr. Kim era o presidente da cruzada que se
esperava levar um milhão de pessoas ao Yoido Plaza. Porém,
seis meses antes da reunião, a polícia informou que estava
revogando a permissão para a cruzada. A Coreia naquela
época estava num tumulto político, e Seul estava sob lei
marcial. Os policiais decidiram que não podiam correr o
risco de ter tantas pessoas reunidas num só lugar. Então, o
Dr. Kim e alguns auxiliares foram para uma montanha de
oração e ali passaram quarenta dias diante de Deus em
oração e jejum pela cruzada. Depois, eles retornaram e se
dirigiram à delegacia de polícia. “Ah!”, disse o policial
quando viu o Dr. Kim, “nós mudamos de ideia e vocês
podem fazer a reunião”.
Enquanto voltava para o hotel, eu refletia sobre como nunca
tinha jejuado dessa maneira. Talvez nunca tivesse desejado
uma obra de Deus com tanta intensidade… Ele tem o corpo
marcado por muitos jejuns de quarenta dias durante sua
longa liderança espiritual da obra de Deus na Ásia. E
também, no entanto, nunca vi os milagres que o Dr. Kim viu.
 
O Dr. Lundquist me contou acerca de um dos retiros do
“coração ardente” que estava liderando quando viu um
seminarista sênior que não estava comendo. Ao perguntar-
lhe se ele estava bem, ficou sabendo que o aluno estava
perto de completar 21 dias de jejum como parte da busca
pela liderança de Deus para o próximo capítulo de sua vida.
O Dr. Lundquist disse que nos últimos anos do seu
ministério ele descobriu uma variação de jejum que foi
muito útil na sua vida e trabalho.
 
Em vez de tirar uma hora para o almoço, eu aproveito o
tempo para ir a uma sala de oração, geralmente a Sala
Lume no Bethel Theological Seminary, que fica ali perto. Ali
passo meu intervalo de almoço em comunhão com Deus e
em oração. E aprendi uma dimensão muito pessoal das
palavras de Jesus quando declarou: “Uma comida tenho
para comer, que vós não conheceis” (Jo 4.32).
 
Assumo que isso significa que a privação do alimento pelo
jejum provou ser de grande benefício para o Dr. Lundquist.
Ao desistir da sua refeição do meio-dia para se encontrar
com Deus de outra maneira, ele encontrou alimento para se
nutrir na comunhão com Jesus. “Uma comida tenho para
comer, que vós não conheceis” (Jo 4.32). Parece que, na
Sala Lume, Carl Lundquist vivenciou pessoalmente o
cumprimento de Apocalipse 3.20: “Eis que estou à porta e
bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei
em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”. Ao se privar
do alimento físico, o Dr. Lundquist encontrou outro tipo de
banquete na comunhão com Jesus. Ele vai para o seu
gabinete, longe dos elogios que sua posição atrai e o Pai o
recompensa.
 
Não se você jejua, mas quando você jejua
 
Uma das passagens que comoveram o Dr. Lundquist
naqueles últimos anos da sua vida foi a que consideraremos
neste capítulo: Mateus 6.16-18.
 
Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os
hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer
aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já
receberam a recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge
a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos
homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará.
 
O que chamou a atenção dele nessa passagem foram as
palavras no versículo 16: “Quando jejuardes…”. Como
muitos outros, o Dr. Lundquist observou que a passagem
não diz: “Se jejuares”; em vez disso: “quando jejuardes”. Ele
concluiu, como eu também concluo, e a maioria dos
comentaristas o faz, que “Jesus tomou por certo que seus
discípulos observariam esse costume piedoso do jejum”.[3]
Jesus assumiu que o jejum era uma coisa boa e que seria
praticada pelos seus discípulos. Foi isso o que vimos no
Capítulo 1. É o que Jesus sublinha nas suas palavras em
Mateus 9.15: “Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o
noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Então, em Mateus 6.16-
18 Jesus não está ensinando a respeito da conveniência ou
não de se jejuar. Ele está assumindo que iremos jejuar e nos
ensina como fazê-lo e, especialmente, como não fazê-lo.
 
Como não jejuar
 
Se o jejum cristão deve se tornar uma parte da nossa vida,
como um meio de buscar “toda a plenitude de Deus” (Ef
3.19), então temos de saber como não fazê-lo. Isso não
significa principalmente estar informado sobre como evitar
dores de cabeça, mas sim de estar ciente dos riscos
espirituais que assediam o espaço de cada ato santo. A
Bíblia quase nada diz acerca dos riscos físicos do jejum. Ela
deixa essa questão secundária ao nosso discernimento e
inspeção. No entanto, ela tem grande preocupação quanto
aos perigos espirituais desse ato sagrado.
Em Mateus 6.16 Jesus nos adverte a não sermos como os
hipócritas: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados
como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de
parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que
eles já receberam a recompensa”. Então os hipócritas são
as pessoas que praticam as disciplinas espirituais para
serem vistas pelos homens. Essa é a recompensa que os
hipócritas desejam. E quem de nós nunca se sentiu
recompensado de fato quando admirado pela disciplina,
zelo, ou devoção? Essa é uma recompensa que tem grande
valor entre os homens. Poucas coisas fazem mais bem ao
coração do homem caído do que ser admirado por nossas
realizações, especialmente pelas nossas realizações morais
e religiosas.
Esse anseio pelo reconhecimento tinha infectado os líderes
religiosos dos dias de Jesus em grande medida. Com
respeito aos escribas e fariseus, Jesus advertiu as pessoas
que eles “gostam de andar com vestes talares e das
saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas
sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais
devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem
longas orações; esses sofrerão juízo muito mais severo” (Mc
12.38-40). O amor pelo elogio dos homens é muito intenso.
Nós nos aprontamos para isso (“com vestes talares”), e nos
pavoneamos nas praças, nos dispomos para isso nas festas,
e assumimos uma pose importante na igreja, e até mesmo
encompridamos nossas orações para disfarçar nosso amor
desapiedado pelo dinheiro com uma camuflagem religiosa.
Tudo isso somos propensos a fazer por causa do nosso
apetite aparentemente insaciável pelos elogios dos homens.
Queremos reconhecimento. Queremos que as pessoas
gostem de nós, nos admirem e falem bem de nós. É uma
tendência mortal. Jesus nos advertiu: “Quem a si mesmo se
exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar
será exaltado” (Mt 23.12).
Em Mateus 6.16 Jesus disse que se essa recompensa de
outras pessoas é o que você deseja, isso é o que receberá.
“Em verdade vos digo que eles já receberam a
recompensa.” Em outras palavras, o perigo da hipocrisia é
que ela é muito bem-sucedida. Ela almeja o elogio dos
homens. E o consegue. Porém, isso é tudo.
 
Por que é hipocrisia as pessoas ficarem sabendo o
que você está fazendo?
 
Mas há um problema aqui. Por que é hipocrisia? Essas são
pessoas religiosas. Elas decidem jejuar. Em vez de esconder
que estão jejuando, demonstram isso claramente. Por que
isso é hipocrisia? Parece ser o oposto da hipocrisia. Por que
não é hipocrisia jejuar, mas ungir sua cabeça e lavar seu
rosto e não deixar ninguém saber que você está jejuando?
Porventura a definição de hipocrisia não é: tentar parecer
diferente na aparência exterior do que se é no interior?
Então, essas pessoas religiosas estão mostrando arealidade, certo? Por que elas não são o oposto dos
hipócritas? Elas jejuam, e se mostram como quem está
jejuando. Não finja. Seja verdadeiro. Se você está jejuando,
demonstre isso.
No entanto, Jesus as chama de hipócritas. Por quê? Porque
supõe-se que o coração que motiva o jejum é um coração
que ama a Deus. O jejum, como Jesus o vê, é um anelo por
Deus, ou então é pior do que nada. Mas o coração que
motiva o jejum deles é um anseio pela admiração humana.
Então, eles estão sendo abertos e transparentes acerca do
que estão fazendo, sim, mas justamente essa abertura é
enganosa a respeito do que está no coração deles. Se de
fato quisessem ser abertos, eles deveriam usar um sinal
pendurado no pescoço dizendo: “O objetivo básico do meu
jejum é o elogio dos homens”. Nesse caso, eles não seriam
hipócritas. Estariam sendo vaidosos de maneira aberta,
transparente e sem hipocrisia. Porém, nessas
circunstâncias, eles estão escondendo a própria vaidade
debaixo do manto do jejum. Essa é a hipocrisia deles.
Portanto, há dois perigos aos quais esses homens que
jejuam estão incorrendo. Um é que eles estão buscando a
recompensa errada ao jejuar, ou seja, a estima das outras
pessoas. Eles amam o elogio dos homens. E o outro é que
eles escondem isso com um falso amor por Deus. Jejum
significa amor por Deus – fome de Deus. Então, com suas
ações, eles estão dizendo que têm amor por Deus. Porém,
interiormente, estão desesperados para serem admirados e
aprovados pelas pessoas.
 
Então, como devemos jejuar?
 
Em Mateus 6.17-18 Jesus fornece uma alternativa para essa
maneira de jejuar – ele descreve o modo como deseja que o
jejum seja feito. Ele diz: “Tu, porém, quando jejuares, unge a
cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos
homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará”.
 
O jejum coletivo contradiz a Palavra de Jesus?
 
Na Bíblia, incluindo o Novo Testamento, encontramos
diversos tipos de jejum público. Por exemplo, em Atos 13.1-
3 e 14.23, Paulo e Barnabé jejuaram de um modo que não
podia ser mantido em segredo. Eles desobedeceram o
mandamento de Jesus nesses casos? Jesus quis dizer que o
único tipo de jejum que é permitido é o secreto, que
ninguém mais pode ficar sabendo? Praticamente isso quase
tornaria o jejum impraticável, visto que até mesmo o jejum
individual é quase impossível de ser mantido secreto se a
pessoa for casada ou se geralmente faz suas refeições junto
com outras pessoas.
No entanto, há diversas razões contextuais para se pensar
que Jesus não estava excluindo o jejum coletivo. Uma é que
a igreja primitiva, incluindo os apóstolos, praticava o jejum
público (por exemplo, At 13.3). Outra é que essa seção de
Mateus 6.1-18 começa com a advertência: “Guardai-vos de
exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de
serdes vistos por eles”. A questão de toda a seção não é
que essa justiça pública “diante dos homens” seja ruim,
mas que fazer isso “com o fim de serdes vistos por eles” é
ruim. Isso é confirmado pelo fato que embora ele tenha dito:
“Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a
porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que
vê em secreto, te recompensará”, no entanto ele próprio
praticava a oração pública (Lc 3.21; 11.1; Jo 11.41). A
motivação para a oração e o jejum é o que importa, não se
os atos são públicos ou privados.
Outra confirmação de que nem todo jejum público é errado
e que o que importa é o motivo, é o que Jesus disse em
Mateus 5.16: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem
a vosso Pai que está nos céus”. Aqui ele vai mais além ao
dizer que alguns tipos de justiça que são públicos não
podem ser ocultados (como no caso do ministério do bom
samaritano), mas em vez disso ele diz que os discípulos
deveriam querer que o mundo visse essa prática de justiça
de modo que Deus fosse glorificado. “Assim brilhe também
a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas
boas obras.” Então, o motivo em jogo não é simplesmente
se você quer que seus atos sejam conhecidos pelos outros,
mas a razão pela qual você quer que eles sejam conhecidos
– para que Deus seja glorificado, ou para que você seja
admirado.
Concluo, então, que o fato de alguém descobrir que você
está jejuando não significa necessariamente que você
pecou. O valor do seu jejum não é destruído se alguém
notar que você deixou de almoçar. É possível jejuar com
outras pessoas – digamos, a liderança pastoral da nossa
igreja jejuando num retiro planejado para buscar o Senhor
juntos – e, no entanto, nesse jejum coletivo, não fazê-lo
para ser visto pelos homens. Ser visto jejuando e jejuar para
ser visto não são a mesma coisa. Ser visto jejuando é um
mero acontecimento externo. Jejuar para ser visto pelos
homens, como Jesus quis dizer, é um motivo de
autoexaltação do coração.
Como de costume, Jesus está testando nosso coração, não
apenas regulando nosso comportamento. Ele diz que,
quando jejuamos, não devemos ter um coração que deseja
que os homens observem essa disciplina e nos admirem. De
fato, ele vai além disso quando diz que deveríamos
empreender alguns esforços no sentido oposto, ou seja, não
sermos vistos jejuando. Penteie seu cabelo, lave seu rosto
para que, na medida do possível, as pessoas nem ao menos
se deem conta de que você está jejuando.
 
Jejuar para ser visto pelo Pai
 
E então ele acrescenta a contrapartida positiva: “e teu Pai,
que vê em secreto”. Em outras palavras, jejue para ser visto
por Deus. Jejue com a clara intenção de ser visto por Deus.
Como Jesus ensina, jejuar é um ato intensamente dirigido
para Deus. Faça-o na direção de Deus, que vê quando
outros não veem.
Jesus está testando a realidade de Deus na nossa vida. Será
que temos realmente uma fome pelo próprio Deus, ou uma
fome de admiração humana? É muito fácil fazer coisas
religiosas se outras pessoas estiverem olhando. Pregar,
orar, frequentar a igreja, ler a Bíblia, praticar atos de
caridade e bondade – todas essas atividades ficam
revestidas de certa medida de satisfação para o ego se
soubermos que os outros irão descobrir o que estamos
fazendo e pensarão bem de nós. É um vício mortal que
temos pela estima.
 
A terrível horizontalização das coisas sagradas
 
Porém, esse não é o único defeito no motivo de querer que
outros vejam. Há algo que agride a Deus ainda mais
diretamente. É aquele senso sutil que cresce dentro de nós,
geralmente de maneira inconsciente, de que a eficácia real
dos nossos atos espirituais está no nível horizontal entre as
pessoas, não diante da face de Deus. Em outras palavras,
se meus filhos me virem orando à hora da refeição isso lhes
fará bem. Se os empregados me virem jejuando eles podem
ser inspirados a jejuar. Se meu colega de quarto me vir
lendo a Bíblia ele poderá ser inspirado a ler a dele também.
E assim por diante.
Porém, isso não é de todo ruim. As orações públicas de
Jesus certamente inspiraram seus discípulos (Lc 11.1). Mas
o perigo é que toda a nossa vida – incluindo nossa vida
espiritual – começa a ser justificada e entendida
simplesmente no nível horizontal pelos efeitos que ela pode
exercer, porque os outros veem o que está acontecendo. E,
assim, de modo sutil e vagaroso, Deus pode se tornar uma
pessoa secundária no viver da nossa vida. Podemos pensar
que ele é importante para nós porque todas essas coisas
que estamos fazendo são os tipos de coisa que ele quer que
façamos. No entanto, na verdade, ele próprio está ficando
fora de cena como o foco disso tudo. E isso fica registrado
nos motivos do nosso coração de modo que nos sentimos
satisfeitos quando os outros estão olhando, mas nos
sentimos desmotivados se ninguém sabe o que estamos
fazendo – ninguém a não ser Deus.
Com essas palavras de Mateus 6, o que Jesus está fazendo é
testar o nosso coração para ver se Deus é mesmo o nosso
tesouro. Ele está mudandoo jejum de uma forma exterior
para uma forma radicalmente interior, e tornando-o um
sinal da nossa verdadeira piedade. “Para o judaísmo, o
jejum era um sinal exterior de uma condição interior. Para
Jesus, o jejum era um sinal interior de uma condição
interior.”[4] Ele está testando para ver se a admiração de
outras pessoas ou até mesmo o efeito espiritual da nossa
piedade sobre os outros se tornou o alimento que suplantou
Deus e seduziu a nossa alma. Como nos sentimos quando
mais ninguém sabe o que estamos fazendo? Como nos
sentimos quando ninguém diz: “E aí, como vai o jejum?”
Ficamos contentes em Deus, quando ninguém, a não ser
Deus, sabe que fizemos o que devíamos ter feito?
Jesus está nos conclamando a uma orientação radical para o
próprio Deus. Ele está nos convocando para uma relação
pessoal real, totalmente autêntica com Deus. Se Deus não
for real para nós – pessoalmente, vitalmente real para nós –
então será terrivelmente difícil suportar alguma dificuldade
com Deus sendo o único que sabe. Tudo poderá parecer
sem sentido porque toda a gama de possibilidades
horizontais será anulada visto que ninguém sabe o que está
se passando. Tudo o que importa é Deus, e quem ele é, e o
que ele pensa, e o que ele irá fazer.
 
Que recompensa devemos buscar com nosso jejum?
 
Isso nos leva à última parte do versículo 18 e à promessa
que Jesus faz acerca do que Deus irá fazer por aqueles cujo
foco vertical encontra-se nele e que não precisam do elogio
dos homens para fazer que sua devoção tenha valor. Ele
disse: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. É
bom e correto querer e buscar a recompensa de Deus no
jejum. Jesus não a ofereceria para nós se fosse inadequado
almejá-la. Tenho argumentado por décadas que buscar a
recompensa do Pai não é ser subcristão, não amoroso ou
contrário à verdadeira virtude.[5] Como C. S. Lewis disse:
 
Existem recompensas que não maculam os motivos. O amor
de um homem por uma mulher não é mercenário porque ele
deseja casar-se com ela, nem seu amor por poesia é
mercenário porque ele quer lê-la, tampouco seu amor pelo
exercício físico é menos digno porque ele tem vontade de
correr, pular e andar. O amor, por definição, busca desfrutar
do seu objeto.[6]
 
Fazer o que é certo “só porque é correto” não é um ideal
cristão. Fazer o certo para aumentar nosso deleite em Deus
é. Então, aqui novamente a questão se apresenta: devemos
atentar para o que Jesus disse e aprender, ou devemos
aduzir a nossa filosofia de fora da Bíblia e silenciá-lo
novamente?
Jesus disse: “[Não jejue para ser visto pelos homens] e sim
ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te
recompensará” (Mt 6.18). A palavra na nossa língua
“recompensará” [ou “restituirá”, na versão da Bíblia (NASB)
que o autor está usando] é provavelmente uma tradução
incorreta por causa das conotações mercenárias da palavra.
Ela parece sugerir que o jejum é um tipo de desempenho
que fazemos para Deus que depois o obriga a nos pagar
salário ou algum honorário. Mas a palavra grega (apodwsei)
não tem necessariamente essa conotação. Ela pode se
referir ao pagamento de débito financeiro (por exemplo, Mt
5.26), mas nem sempre. Foi a palavra usada por Pilatos ao
dar o corpo de Jesus a José de Arimateia (Mt 27.58), por
Jesus ao entregar o rolo de volta ao líder da sinagoga depois
da sua leitura (Lc 4.20), por Jesus ao devolver o menino
curado ao seu pai (Lc 9.42), pelos apóstolos quando deram
testemunho da ressurreição (At 4.33) e por Deus ao dar a
Paulo uma coroa da justiça (1Tm 4.8). A palavra em si não
sugere uma transação de negócios de trabalho ou salário.
Como, então, devemos pensar acerca da recompensa de
Deus àqueles que jejuam sem o objetivo de serem vistos
pelos homens, mas vistos por Deus? Deus nos vê jejuando.
Ele vê que temos um profundo anseio que está nos
afastando dos usos costumeiros do mundo a fim de jejuar.
Ele vê que o nosso coração não está buscando os prazeres
comuns da admiração e dos aplausos humanos. Ele vê que
estamos agindo não movidos pela intenção de impressionar
os outros com a nossa disciplina, ou mesmo pelo desejo de
influenciar os outros a imitar a nossa devoção. Mas nós nos
achegamos a Deus movidos pela nossa fraqueza, a fim de
expressar a ele a nossa necessidade e o nosso anseio de
que ele se manifeste mais plenamente na nossa vida para o
gozo da nossa alma e glória do seu nome.
 
Como fazer de Deus um marido enganado pelo jejum
 
E quando Deus vê isso, responde. Age. Recompensa. O que
é a “restituição” ou a “recompensa” que Jesus promete do
Pai nesses versículos? De uma maneira perversa a pessoa
poderia mesmo pensar se a recompensa que Deus promete
não seria “o elogio dos homens” – como se Deus dissesse:
“Visto que você não buscou jejum público, mas procurou a
mim, vou lhe dar esse tão esperado reconhecimento
humano”. Se esperássemos por isso, o nosso jejum faria de
Deus um marido enganado.
É isso que Tiago 4.3-4 deixa claro. Tiago retrata a oração
como uma petição ao nosso marido celestial. Depois, ele
pondera a possibilidade de estarmos, na verdade, pedindo
ao nosso marido que pague pela nossa visita à prostituta.
“Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes
em vossos prazeres. Infiéis, não compreendeis que a
amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que
quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” A
palavra “infiéis” é a chave aqui. Por que somos chamados
de “infiéis” ao orar por algo a ser gasto em nossos
prazeres? Porque Deus é o nosso marido e o “mundo” é
uma prostituta nos seduzindo para lhe dar afetos que
pertencem somente a Deus. Esse é o nível de sutileza ao
qual chega o pecado do mundanismo. Ele pode emergir não
contra a oração, mas na oração – e no jejum. Nós
começamos a orar e jejuar – mesmo intensamente – não por
Deus como nosso marido todo-suficiente, mas apenas por
suas dádivas no mundo para que possamos fazer amor com
elas.
Não, a recompensa que devemos buscar do Pai no jejum
não é em primeiro lugar ou principalmente as dádivas de
Deus, mas o próprio Deus. Onde, no contexto, podemos
procurar pela recompensa que o Pai nos incentiva a buscar?
Acho que um guia fidedigno seria a oração que Jesus nos
ensinou a orar em Mateus 6.9-13. Ela começa com os três
desejos principais cujos cumprimentos devemos esperar da
parte de Deus. Primeiro, que o nome de Deus seja
santificado ou honrado; segundo, que o reino de Deus
venha; terceiro, que sua vontade seja feita na terra como no
céu. Essa é a primeira e principal recompensa que Jesus nos
diz para buscar na nossa oração e no nosso jejum. Jejuamos
movidos pelo anseio de que o nome de Deus seja
conhecido, estimado e honrado, movidos pelo anseio de que
seu reino seja estendido e depois consumado na História,
movidos pelo anseio de que sua vontade seja feita em todas
as partes com a mesma devoção e energia que os anjos
infatigáveis fazem sem cessar no céu para todo o sempre.
 
Desejando o que não é Deus por amor a Deus
 
Na verdade, Deus nos dá nosso pão diário – e muitas outras
coisas por meio da oração e do jejum. E não é errado buscar
especificamente por sua ajuda em todas as áreas da nossa
vida. Mas estas três petições – que seu nome seja
santificado, que venha o seu reino e que sua vontade seja
feita – testam e provam se todas as outras coisas que
desejamos são expressões da nossa fome por Deus, ou se
suas dádivas estão disputando o lugar de supremacia e
preciosidade que ele tem na nossa vida. A supremacia de
Deus em todas as coisas é a grande recompensa pela qual
ansiamos no jejum. Sua supremacia em nossos afetos e em
todas as nossas escolhas da vida. Sua supremacia na
pureza da igreja. Sua supremacia na salvação dos perdidos.
Sua supremacia no estabelecimento da justiça e do juízo. E
sua supremacia para a alegria de todos os povos na
evangelização do mundo.
Buscando de Deus a recompensa da supremacia todo-
suficiente dele temos todos os nossosoutros desejos à
prova. São eles por amor a Deus? Essa é a razão última pela
qual Jesus nos chama a jejuar sem querer ser vistos pelos
outros. Certamente não para que possamos obter de Deus a
satisfação dos nossos desejos em vez de obtê-la dos
homens (e assim tornar Deus cúmplice do nosso adultério
espiritual), mas também para que possamos incluir o
próprio Deus como o nosso desejo, e tudo o mais como um
benefício subordinado da sua cativante glória.
Dessa maneira, será que pedimos, enquanto jejuamos e
oramos: queremos dominar os maus hábitos e antigas
servidões, remover cada obstáculo para poder desfrutar de
Deus de modo mais pleno, para que as pessoas possam ver
e dar glórias a ele? Queremos que nossos filhos pródigos e
filhas teimosas voltem para casa porque isso honraria o
nome de Deus? Queremos o crescimento da igreja porque a
exaltação do nome de Cristo está em jogo entre os
incrédulos? Queremos que a China, a Coreia do Norte, a
Arábia Saudita, o Iraque e a Líbia abram as suas portas para
o evangelho por amor ao avanço do reino de Jesus?
Queremos líderes honestos no governo porque este mundo
se destina a magnificar a bondade e a justiça de Deus?
É para fazer isso que Jesus está nos chamando – uma vida
radicalmente orientada para Deus em oração e jejum.
Então, por amor de sua alma, e em resposta a Jesus, e para
o avanço da supremacia de Deus em todas as coisas para
alegria de todos os povos, penteie seu cabelo e lave o seu
rosto, e deixe que seu Pai, que vê em secreto, observe
quanto você está faminto por ele com o jejum. O Pai que vê
em secreto está transbordando de recompensas para a sua
alegria e glória nele.
 
Havia uma profetisa, chamada Ana…
Esta não deixava o templo,
mas adorava noite e dia em jejuns e orações.
E, chegando naquela hora, dava graças a Deus
e falava a respeito do menino a todos
os que esperavam a redenção de Jerusalém.
Lucas 2.36-38
 
Já agora a coroa da justiça me está guardada,
a qual o Senhor, reto juiz,
me dará naquele Dia;
e não somente a mim,
mas também a todos quantos amam a sua vinda.
… Amém! Vem, Senhor Jesus!
2Timóteo 4.8; Apocalipse 22.20
 
Você ama a vinda do Senhor? Então, você envidará todos os
esforços para levar o evangelho para o mundo todo.
Preocupa-me, à luz do claro ensino da Palavra de Deus, à luz
da definição explícita do nosso Senhor da nossa tarefa na
Grande Comissão, que nós a tomemos de modo tão
leviano… O reino é dele; ele reina no céu, e manifesta seu
reino na terra e na igreja e por meio dela. Quando tivermos
completado a nossa missão, ele retornará e estabelecerá
seu reino em glória. A nós compete não apenas esperar,
mas também apressar a vinda do dia de Deus.
 
George Ladd
The gospel of the kingdom[1]
4
Jejuar pela volta do Rei
 
Até que ponto nós sentimos sua falta?
 
O jejum é uma expressão física do desejo ardente do
coração pela volta de Jesus. Vimos em Mateus 9.15
(Capítulo 1) que Jesus representou a si mesmo como o
Noivo da igreja. Ele explicou que seus discípulos não
estavam jejuando porque o Noivo estava presente. Mas
depois ele disse: “Dias virão, contudo, em que lhes será
tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”. Desse modo,
Jesus relaciona o jejum cristão com o nosso anelo pelo
retorno do Noivo. Portanto, um dos significados mais
importantes do jejum cristão é expressar o anseio do nosso
coração pela volta do nosso Rei.
 
O jejum e a Ceia do Senhor
 
O jejum é uma contrapartida orientada para o futuro da
celebração orientada para o passado da Ceia do Senhor.
Jesus disse: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19). Ao
participar da ceia, relembramos o passado e dizemos que
Jesus veio. Ele morreu pelos nossos pecados. Ressuscitou
dos mortos. Nossa culpa foi removida. Nosso pecado foi
perdoado. Nossa condenação e punição foram transferidas
para Cristo. Nossa absolvição foi selada. Nossa reconciliação
com Deus foi cumprida. Nossa servidão ao pecado foi
quebrada. Nosso inimigo foi reduzido a nada. O aguilhão da
morte foi removido. O destino do inferno foi desviado. Vida
eterna foi dada. O Senhor veio! Vamos nos regalar nessas
grandes realidades e assentar nossa alma no grande
fundamento da graça de Deus e na morte e ressurreição de
Cristo.
É isso que dizemos quando participamos da Ceia do Senhor.
Mas ao não comer – pelo jejum – olhamos para o futuro com
uma dor no coração, dizendo: “Sim, ele veio. E sim, o que
ele fez por nós é glorioso. Mas precisamente por causa do
que vimos e provamos, sentimos agudamente tanto a sua
ausência quanto a sua presença. O Noivo partiu. Ele não
está aqui. Ele estava aqui, e nos amou ao máximo. E nós
podemos comer e até celebrar com um banquete porque
ele veio. Mas também sabemos disto: ele não está aqui da
maneira que estava antes. Como Paulo disse: “enquanto no
corpo, estamos ausentes do Senhor” (2Co 5.6). E a ausência
dele é dolorosa. O pecado e a miséria do mundo são
dolorosos. O povo de Cristo é pequeno e desprezado – como
ovelhas no meio de lobos (Mt 10.16). Estamos ansiosos pela
sua volta, para que assuma seu trono, reine em nosso meio,
vindique seu povo, sua verdade e sua glória.
Não quero dizer que o Senhor instituiu o jejum com a
mesma formalidade e finalidade com que instituiu a sua
Ceia. Ele nunca disse a respeito do jejum: “Fazei isto até que
eu venha”. No entanto, ele disse: “Dias virão, contudo, em
que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar”
(Mt 9.15). Não é um mandamento ou uma ordenança
instituída, mas uma predição. É uma afirmação daquilo que
pareceria normal para aqueles que amam o Noivo e sentem
saudades dele.
 
Clamando por ele dia e noite
 
O jejum faz a pergunta: nós sentimos falta dele? Quão
ansiosos estamos pela sua volta? A quase universal
ausência de jejum pela volta do Senhor é um testemunho
da nossa satisfação com a presença do mundo e a ausência
do Senhor. Isso não deveria ser assim. Em Lucas 18.7-8
Jesus disse: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que
a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em
defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça.
Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará,
porventura, fé na terra?”
O ponto central nesses versículos é que o Filho do Homem
virá novamente. Quando ele vier, fará justiça para seus
eleitos. Eles não mais serão “considerados lixo do mundo,
escória de todos” (1Co 4.13), mas “resplandecerão como o
sol, no reino de seu Pai” (Mt 13.43). Enquanto a fé de
muitos deixará de existir e “o amor se esfriará de quase
todos” (Mt 24.12), o Filho do Homem, quando vier,
encontrará os eleitos perseverando com fé e amor até o fim
(Mc 13.13).
Mas observe a condição desses eleitos que serão vindicados
quando ele voltar. Jesus disse que eles “clamam dia e
noite”. É isso que está faltando na confortável igreja cristã
do mundo atual. Onde, no mundo ocidental, os cristãos
estão clamando por Cristo dia e noite para que ele venha e
faça justiça para seus eleitos? Onde está esse tipo de anseio
e desejo pela consumação do reino? Não é de admirar,
então, que a pergunta sobre o jejum pela vinda do Noivo
seja raramente feita. Se o clamor em si não existe, por que
alguém chegaria pelo menos a pensar em expressá-lo com
jejum?
 
Vem, Senhor Jesus!
 
Qual é o clamor? Qual era o clamor da igreja primitiva? Era
o seguinte: “Vem, Senhor Jesus!” Não é mera coincidência
que as últimas palavras da Bíblia sejam as primeiras do
Senhor: “Certamente, venho sem demora”, e depois a
resposta da igreja: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20).
Esse é o clamor que a Bíblia inteira deveria deixar no
coração dos eleitos.
Uma das poucas palavras em aramaico que a igreja de fala
grega do século 1o preservou da amada língua de Jesus e
dos seus primeiros seguidores, foi a palavra Maranata. Em
1Coríntios 16.22, Paulo conclui sua carta dizendo: “Se
alguém não ama o Senhor, seja anátema. Maranata!”. A
palavra significa “nosso Senhor, vem!” Há pouca dúvida de
que a palavrafoi preservada em aramaico original pela
mesma razão que “amém” foi preservado em sua forma
hebraica sem mudança em quase todas as línguas do
mundo: ela era uma forma constantemente usada.
“Maranata” era o incessante clamor do coração da igreja
primitiva. “Ó, Senhor, vem!”
Jesus tinha ensinado seus discípulos a orar: “Venha o teu
reino” (Mt 6.10). E ele os tinha ensinado que o reino viria na
sua plenitude quando ele próprio viesse novamente “na
glória de seu Pai, com os seus anjos” (Mt 16.27). Portanto, a
oração: “Venha o teu reino” era virtualmente idêntica à
oração “Maranata!” “Vem, Senhor Jesus!” Podemos ver
quanto esse clamor era central para a igreja primitiva. Não
era uma preocupação periférica. Eles eram fiéis ao espírito
unificador completo do corpo de Cristo. O Noivo partiu numa
jornada um pouco antes do casamento, e a Noiva não podia
agir como se tudo estivesse normal. Se ela o ama, desejará
ansiosamente que ele volte.
 
Nós amamos a vinda do Senhor?
 
De fato Paulo fala do amor à vinda do Senhor e faz disso um
autêntico teste de fé. Ele disse no final da sua vida: “Já
agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor,
reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas
também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4.8). A
coroa da justiça não é uma recompensa somente para
alguns que dividem os eleitos entre justos e injustos. É a
coroa que todo o povo de Deus receberá. É a coroa da vida,
que o “Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.12) e que
são fiéis “até à morte” (Ap 2.10). Portanto, amar a vinda do
Senhor não é um ato cristão opcional que pode render
muitas recompensas. É o que a genuína fé cristã faz: ela
ama a Cristo e anseia pela vinda do Noivo. A fé salvadora
diz: “Venha o teu reino! Volte, ó amado Noivo. Venha, reine
como Rei. Venha, vindique seu povo. Venha, case-se com
sua Noiva”.
 
O que Ana nos ensina acerca desse anseio
 
Ao prever que a Noiva iria jejuar pela vinda do Noivo (Mt
15.9), Jesus não estava imaginando algo a respeito do qual
não havia sido ouvido. O precedente para o jejum pelo reino
de Deus era conhecido entre os santos do seu tempo. Lucas
nos dá um relance disso em Lucas 2.36-38.
 
Havia uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo
de Aser, avançada em dias, que vivera com seu marido sete
anos desde que se casara e que era viúva de oitenta e
quatro anos. Essa não deixava o templo, mas adorava noite
e dia em jejuns e orações. E, chegando naquela hora, dava
graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que
esperavam a redenção de Jerusalém.
 
Maria e José tinham acabado de entrar no templo com o
bebê. Lucas nos conta sobre duas pessoas muito idosas –
Simeão e Ana – que reconheceram quem era ele. O que
distingue essas duas pessoas é que elas estavam anelantes
e desejosas pela vinda do Messias. No versículo 25 Lucas diz
que Simeão “esperava a consolação de Israel; e o Espírito
Santo estava sobre ele”.
No versículo 37 ele nos diz que Ana virtualmente nunca
deixava o templo e adorava o Senhor “em jejuns e
orações”. Em outras palavras, ela era exatamente como
Simeão – estava ansiosa pela vinda do Messias; jejuava e
orava dia e noite porque estava esperando a redenção de
Jerusalém.
No versículo 38, ela chega justamente no momento de ver o
Messias-menino, dá graças a Deus e fala “a respeito do
menino a todos os que esperavam a redenção de
Jerusalém”. Em outras palavras, Deus deu uma visão
especial da glória do Rei àqueles que estavam almejando,
ansiando e esperando “a redenção de Jerusalém”. Para Ana,
esse anseio significou uma vida de jejum e oração, década
após década – provavelmente sessenta anos desde que o
seu marido morrera – enquanto ela ministrava no templo.
Penso que Lucas nos conta sobre Simeão e Ana para ilustrar
como as pessoas santas e devotas se sentiam a respeito da
promessa da vinda de Cristo, e como Deus respondeu aos
anseios delas. Elas viram mais do que os outros. Elas podem
não ter entendido completamente todos os detalhes de
como o Messias viria – Simeão e Ana certamente não os
entendiam – mas Deus misericordiosamente lhes deu, antes
de morrerem, um vislumbre do que eles tão
apaixonadamente queriam ver.
 
Deveríamos almejá-lo menos?
 
Nós, agora, vivemos na era depois da vinda do Rei. Ele veio
e foi embora novamente. Ele nos revelou a sua glória.
Derramou seu sangue pelos nossos pecados. Ressuscitou de
entre os mortos. Ascendeu aos céus para sentar-se à mão
direita do Pai até que ele ponha seus inimigos sob seus pés.
Enviou seu Espírito Santo para nos regenerar, nos santificar
e habitar em nós. Comissionou sua igreja a discipular as
nações. E prometeu em João 14.3: “[Eu] voltarei”.
Como a nossa situação pode ser comparada com a de Ana?
As esperanças dela eram baseadas nas promessas de Deus,
como também as nossas. No entanto, nós vimos muito mais
do que ela viu. Sabemos muito mais a respeito do Messias
e, por isso, nosso anseio por vê-lo é maior. Ela nunca
chegou a ver os anos de compaixão e poder como nós
vimos. Ela nunca ouviu as palavras de autoridade, sabedoria
e amor que nós ouvimos. Ela nunca viu os cegos
recuperarem a visão, os aleijados andarem, os leprosos
serem purificados, os surdos ouvirem, os mortos
ressuscitarem e os pobres evangelizados da maneira que
Jesus fez. Ela nunca o viu se consagrar no Getsêmani, ou ser
crucificado por amor a nós no Gólgota. Ela nunca ouviu as
palavras misericordiosas: “hoje estarás comigo no paraíso”
(Lc 23.43) ou as palavras triunfantes: “Está consumado!” (Jo
19.30). Ela nunca o viu ressuscitado de entre os mortos,
depois de triunfar sobre o pecado, a morte e o inferno. E, no
entanto, do que sabia dele com base no Antigo Testamento,
ansiava por ele e jejuava com orações noite e dia esperando
a “redenção de Israel”.
Mas nós vimos todas essas coisas. Conhecemos o Salvador
cem vezes melhor do que Ana conhecia. E agora esse, a
quem conhecemos tão bem, foi embora. Nós andamos por
fé e não por vista. O Noivo a quem amamos foi levado. A
festa de casamento foi suspensa. É como se a marcha
nupcial tivesse começado e tivéssemos começado a andar
com ele rumo ao altar e, no último instante, ele tivesse
desaparecido.
Devemos ansiar por ele menos do que Ana ansiava?
Porventura, o fato de o termos visto viver e amar por três
anos e mesmo agora ter o seu Espírito nos faz sentir menos
ou mais o anseio que Ana sentia? Se a resposta for menos,
isso será uma acusação de cegueira e de embotamento da
nossa parte.
 
O jejum é a libertação da sensualização da alma
 
Um dos grandes efeitos do jejum é que ele auxilia o que
expressa. Quero dizer que o jejum é principalmente uma
expressão do anseio da alma por Deus. Não é um meio
inventado para nos fazer amar a Deus. Nós o amamos e
anelamos por ele. E então o jejum se levanta como um meio
de dizer fervorosamente com todo o nosso corpo o que o
nosso coração sente: eu anelo por ti, ó Deus. O jejum
expressa, mais do que cria, a fome por Deus.
No entanto, é também verdade que justamente a natureza
do jejum o torna um assistente desse anseio por Deus. A
razão é que o anseio por Deus é espiritual, não físico. E nós
somos menos sensíveis aos apetites espirituais quando
estamos em servidão aos apetites físicos. Isso significa que
o jejum é uma maneira de despertar em nós apetites
espirituais latentes ao expulsar o domínio das forças físicas
do centro da nossa vida. John Wesley expressou isso tão
bem quanto nenhum outro que eu tenha lido. O que ele
chama de “sensualização” da alma é um grande empecilho
ao nosso anseio pela volta de Jesus. Portanto, o jejum
auxilia justamente a própria experiência da fome por Deus
que ele também expressa.
 
A plenitude de pão [aumenta] não apenas a negligência e a
leviandade do espírito, mas também os desejos frívolos e
impuros; sim, os sentimentos corruptos e vis… Mesmo uma
sensualidade bem-educada e normal está continuamente
sensualizando a alma, e a afunda atéo nível das bestas que
perecem. Não se pode expressar que efeito uma variedade
e delicadeza de alimentos têm na mente bem como no
corpo ao torná-lo pronto para todos os prazeres dos
sentidos, tão logo uma oportunidade apareça. Portanto,
baseado nisso também, todo homem sábio irá refrear sua
alma, e mantê-la subjugada; e a afastará mais e mais de
todas essas indulgências dos apetites inferiores, que
naturalmente tendem a acorrentá-la à terra, a poluí-la, bem
como a degradá-la. Aqui está outra razão perpétua para
jejuar; retirar o alimento da luxúria e da sensualidade,
afastar-se dos incentivos dos desejos insensatos e danosos,
dos sentimentos vis e vãos.[2]
 
Não tenho a intenção de fazer pouco das boas dádivas de
Deus, como se comer fosse um impedimento maligno para
a sensibilidade espiritual. Juntamente com Wesley eu
simplesmente quero dizer que a maioria de nós corre o risco
de ser excessivamente “sensualizado” simplesmente por ter
todo desejo satisfeito e raramente parar num momento de
abnegação para descobrir se existem vivos dentro de nós
apetites que poderiam nos satisfazer em níveis mais
profundos do que o alimento, e que são designados para a
honra de Deus. Esse é o apetite pela vinda do Rei Jesus.
 
O Senhor veio para servir
 
Considere como o Novo Testamento descreve os corações
dos crentes quando eles viviam à sombra da vinda do
Senhor. Eles relembravam as palavras do Senhor Jesus, de
uma das parábolas mais extraordinárias: “Sede vós
semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao
voltar ele das festas de casamento; para que, quando vier e
bater à porta, logo lha abram” (Lc 12.36). Cito essa
surpreendente parábola porque ela retrata a volta de Cristo
como um “Senhor” que, no entanto, “há de cingir-se, dar-
lhes [a seus servos] lugar à mesa e, aproximando-se, os
servirá” (Lc 12.37). Isso é de tirar o fôlego. Aquele por quem
esperamos, que virá nas nuvens com os santos anjos e a
glória do seu Pai e aterrorizará as nações – esse mesmo irá
magnificar sua grandeza em misericórdia e serviço e fazer-
se servo do nosso regozijo para sempre. Nem mesmo depois
da sua segunda vinda ele será “servido por mãos humanas,
como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é
quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25).
Assim, os primeiros cristãos recordavam as palavras de
Jesus de que nós devemos ser “semelhantes a homens que
esperam pelo seu senhor” – e que Servo-Senhor ele é! É
uma imagem diferente da do Noivo, mas não menos
evocativa de alegria. Então, eles acreditavam que a
segunda vinda de Jesus, independentemente do sofrimento
que eles tinham de suportar, seria uma experiência
totalmente compensadora de alegria e exultação. “Alegrai-
vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos
de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos
alegreis exultando” (1Pe 4.13).
 
As paixões de um exilado
 
Essa esperança era tão dominante para os primeiros
cristãos que toda a vida era vivida como a vida de um
exilado. Isso não significa que eles não tivessem nenhuma
preocupação para com o bem-estar dos seus próximos. Pelo
contrário, era a pródiga independência do amor pelas coisas
que lhes dava a liberdade de amar seus próximos com
desprendimento. E essa independência vinha da esperança
que tinham do mundo espiritual. O amor sacrificial dos
crentes pelos seus próximos era a evidência de que a
esperança deles vinha de fora da ordem deste mundo (Cl
1.4-5; Hb 10.32-34). A confissão comum deles era: “não
temos aqui cidade permanente” (Hb 13.14). Somos
“peregrinos e forasteiros” (1Pe 2.11). E isso quer dizer que a
esperança grande, jubilosa, sustentadora do amor, era a
vinda do seu rei: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde
também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp
3.20).
Essa “espera ansiosa” permeia todo o Novo Testamento e
define o que significa pertencer a Cristo. “Cristo, tendo sido
oferecido uma vez para sempre para suportar os pecados
de muitos, aparecerá uma segunda vez, não para lidar com
o pecado, mas para salvar aqueles que estão esperando
ansiosamente por ele” (Hb 9.28; RSV). “De maneira que não
vos falte nenhum dom, aguardando vós [ansiosamente] a
revelação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.7).
“Aguardando [ansiosamente] a bendita esperança e a
manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador
Cristo Jesus” (Tt 2.13). “Guardai-vos no amor de Deus,
esperando ansiosamente pela misericórdia de nosso Senhor
Jesus Cristo para a vida eterna” (Jd 21; NASB).
A “espera ansiosa” da igreja primitiva pelo seu Noivo por vir
explica por que ela orava da maneira como orava. Ninguém
pode realmente desejar algo tão intensamente quanto ela
desejava a Cristo, sem clamar a Deus. Então, ela clamava e
orava: “Senhor, venha o teu reino!” “Maranata!” “Vem,
Senhor Jesus!” Não há dúvida de que esse anelo por Cristo
precisa ser restaurado na confortável igreja do próspero
Ocidente. A ausência de jejum é indicativa da nossa
satisfação com a maneira como as coisas estão. Ninguém
jejua para expressar seu contentamento. As pessoas jejuam
apenas quando estão insatisfeitas. “Podem, acaso, estar
tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo
está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado
o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9.15). A ausência
de jejum é a medida de nosso contentamento com a
ausência de Cristo.
 
O jejum pelo Rei não é uma disciplina pacifista
 
No entanto, seria um grande erro pensar que o despertar do
anseio pelo Noivo produzisse uma onda de retiro monástico
para jejum e oração de uma espera passiva. Isso não é o
que o despertar do desejo por Cristo produziria. Ele
produziria um compromisso novo, radical, para completar a
tarefa de evangelização do mundo a qualquer custo. E o
jejum não se tornaria uma disciplina pacifista por
esperanças particulares, mas uma arma missionária
poderosa na defesa da fé.
A razão pela qual digo isso é simples. Se realmente
ansiamos pela volta de Cristo e pela vinda do reino, então
iremos gastar nossa vida para completar os pré-requisitos
para sua vinda, a saber, Mateus 24.14 – “E será pregado
esse evangelho do reino por todo o mundo, para
testemunho a todas as nações. Então, virá o fim”. O fim não
virá até que todas as nações (todos os grupos de pessoas)
[3] recebam um testemunho crível do evangelho de Cristo.
“Devemos admitir humildemente que somente Deus saberá
quando esse sinal tiver se cumprido totalmente.”[4] Que
será cumprido tem base na palavra dele, que disse:
“Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não
passarão” (Mt 24.35).
 
Ele não voltará antes que o trabalho esteja completo
 
George Ladd foi um dos meus professores no seminário e eu
ficava impressionado pelo fato de que poucas coisas
mexiam com ele mais profundamente do que o fato de a
igreja não conseguir ver a relação entre a evangelização do
mundo e a volta do Senhor.
 
Só Deus, que nos disse que esse evangelho será pregado
em todo o mundo para testemunho a todas as nações,
saberá quando esse objetivo se cumpriu. Porém, eu não
tenho necessidade de saber. Apenas sei uma coisa: Cristo
não voltou ainda; portanto, a tarefa ainda não está
terminada. Quando estiver terminada, Cristo virá. Nossa
responsabilidade não é insistir na definição dos termos da
nossa tarefa; nossa responsabilidade é completá-la.
Enquanto Cristo não voltar, nossa tarefa não terá terminado.
Vamos nos mexer e completar a nossa missão… Você ama a
vinda do Senhor? Então aplicará todo o empenho para levar
o evangelho ao mundo todo. Preocupa-me, à luz do
ensinamento claro da Palavra de Deus, à luz da definição
explícita do nosso Senhor de nossa tarefa na Grande
Comissão (Mt 28.18-20), que a encaremos de modo tão
leviano… O reino é dele; ele reina no céu e manifesta seu
reino na terra na sua igreja e por meio dela. Quando
tivermos cumprido a nossa missão, ele retornará e
estabelecerá seu reino emglória. A nós compete não
apenas esperar, mas também apressar a vinda do dia de
Deus (2Pe 3.12).[5]
 
Em outras palavras, há uma correlação direta entre amar a
vinda do Senhor e trabalhar sem cessar pela causa da
evangelização do mundo. Isso simplesmente aprofunda a
relação entre o jejum e a vinda de Cristo. No Capítulo 5,
veremos como o jejum inverteu o curso da História
precisamente ao liberar a primeira grande leva de
missionários em Atos 13.1-4. Isso está de acordo com as
palavras de Jesus de que os discípulos iriam jejuar em
virtude da saudade do Noivo. Isso porque o Noivo não virá
até que o evangelho seja pregado às nações, e as nações
sejam alcançadas por meio das brechas espirituais que são
abertas pelo jejum e pela oração.
 
Oração e pregação, intensificadas pelo jejum
 
Então, há pelo menos estes dois modos pelos quais a igreja
– a Noiva – deve expressar seu anseio pelo Noivo: primeiro
pela oração (“Venha o teu reino… Maranata… Vem, Senhor
Jesus!”) e segundo pela evangelização do mundo (“Esse
evangelho será pregado a todas as nações… então o fim [o
Senhor!] virá”). E, visto que Jesus disse: “Dias virão,
contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão
de jejuar” (Mt 9.15), não é de admirar que no Novo
Testamento o jejum esteja ligado com precisamente dois
elementos: a oração (Lc 2.37; Mt 6.6-18) e a evangelização
mundial (At 13.1-4). O jejum é o ponto de exclamação no
final de “Maranata, vem, Senhor Jesus!” É a aceitação
modesta e voluntária do que irá custar para terminar a
Grande Comissão: dor. Por meio dela vamos – ou nos
juntamos com aqueles que vão – e dizemos: “Ó Senhor, faça
de mim um meio de sua conquista das nações e da sua
volta!”
Vamos ansiar por ele e buscá-lo com mais intensidade do
que Ana e Simeão. Deveríamos ter menos devoção do que
esses santos pré-cristãos? Nós contemplamos sua glória, a
glória do Unigênito do Pai, e deveríamos ansiar menos pela
sua vinda? Estamos tão bem instalados no mundo que o
pensamento de jejuar pelo final da História é impensável?
 
Façamos isso pelo Rei!
 
E o que dizem as pessoas mais idosas? Vocês conseguem
sentir melhor o gosto da presença do Rei porque estão mais
próximos? Vocês recorrem ao jejum pela volta do Rei? E
vocês, jovens? Amam a Jesus a ponto de a volta dele ser a
coisa mais importante que conseguem imaginar? Ou ele é
algum tipo de conversa religiosa dos fins de semana que
algumas vezes os ajuda a aliviar uma consciência culpada,
mas não é alguém por quem vocês iriam querer interromper
suas vidas? E o que pensam as pessoas de meia-idade entre
nós? Como se sentem quando ouvem dizer que o jejum pela
volta do Rei pode refletir a intensidade do desejo que
sentem pela vinda do Noivo? Os projetos para uma
aposentadoria há muito esperada enchem vocês com
desejos mais fortes do que a perspectiva da vinda de
Cristo? Porventura a paixão de Ana pelo Messias exerce
algum tipo de atração sobre algum de nós? Almejamos o
retorno de Jesus mais do que desejamos terminar nossa
carreira profissional e concretizar os planos familiares? Ou a
nossa próxima refeição?
Não devemos jejuar pela volta do Rei? Não se trata de
alguma prática devocional nova e estranha. É simplesmente
dizer com nossa fome: com todo o nosso ser, ó Senhor,
queremos que sua obra seja completada e seu reino venha.
Com todo o nosso ser, ó Senhor, queremos a sua volta!
 
Havia na igreja de Antioquia
profetas e mestres:
Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger,
Lúcio de Cirene, Manaém,
colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo.
E, servindo eles ao Senhor e jejuando,
disse o Espírito Santo:
Separai-me, agora, Barnabé e Saulo
para a obra a que os tenho chamado.
Atos 13.1-3
 
A situação dos tempos requer com grande urgência uma
plenitude do divino Espírito nos ministros, e não devemos
nos dar nenhum descanso até que o tenhamos obtido. E,
para [fazer] isso, acho que os ministros, acima de todas as
pessoas, devem estar em oração e jejum em separado,
como também em muita oração e jejum em companhia de
outros. Parece-me que seria adequado, nas circunstâncias
atuais, que os ministros de áreas vizinhas se reunissem com
frequência e passassem dias em jejum e oração fervorosa
entre si, diligentemente, buscando obter aqueles
suprimentos extraordinários da graça divina dos céus de
que precisamos neste tempo.
 
Jonathan Edwards
Some thoughts concerning the revival[1]
5
O jejum e o curso da História
 
Um chamado por discernimento e anseio
 
É perigoso apresentar uma pessoa, ou ministro, ou igreja
como um modelo de jejum. Tão logo o fazemos, os pés de
barro ficam visíveis. Com frequência, a desilusão se segue à
admiração ingênua. Não há ninguém sem pecado, e todos
os triunfos são misturados com imperfeições. Fazemos bem
em equilibrar nosso apreço com o reconhecimento de que
existem defeitos ocultos em todo santo, e a vitória de hoje
não é segurança alguma de santidade amanhã. Não
conseguimos nem mesmo adivinhar o coração por trás do
triunfo de hoje. Nem o coração de outros nem o nosso
próprio (1Co 4.4). Além disso, as histórias tocantes que
ouvimos acerca do jejum muitas vezes têm passado por
muitas mentes e muitas bocas de pessoas tão falíveis
quanto nós.
 
Que o seu prazer esteja na Palavra de Deus
 
Tudo isso eu digo simplesmente para nos advertir a não
transferir a raiz da nossa exultação da histórica Palavra de
Deus escrita para a obra contemporânea de Deus relatada.
Somente Deus nunca muda, mas os derramamentos de
suas bênçãos fluem e refluem de maneiras por demais
misteriosas, para que nossa pequena mente possa julgar.
Tão logo pensamos que a justiça domina firmemente,
alguma calamidade pecaminosa está se espalhando no
meio. E justamente quando pensamos que as trevas estão
tão espessas que tudo está perdido, alguém segura uma
corda que toca um sino e traz um exército com tochas.
Somente seremos capazes de manter a nossa estabilidade e
confiança inabalável se conservarmos nosso foco no Deus
imutável, e tomar cada maré enchente ou vazante como
uma obra da sabedoria infinita para o cumprimento dos
santos propósitos de Deus.
No entanto, Deus ordena na sua Palavra que sejamos
imitadores daqueles que conheceram a sua graça antes de
nós. “Não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles
que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas”
(Hb 6.12); “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos
pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente
o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram” (Hb 13.7). Se nos
recusarmos a ser inspirados e guiados pelos santos comuns
que receberam bênçãos extraordinárias, isso indica mais
orgulho em nós do que pecado neles. O mesmo ocorre com
o jejum. A Bíblia e a história da igreja são recheadas de
relatos de notáveis feitos de Deus em resposta
misericordiosa ao jejum e à oração do seu povo. Essas
histórias não estão ali para serem ignoradas. Tampouco elas
estão ali como uma panaceia para toda estação morna na
vida da fé. Somos rápidos demais em julgar, com base na
misericórdia de Deus na vida de um santo que jejua, que
esse padrão em particular de piedade é a chave para a vida
espiritual vital.
 
O jejum e as imperfeições de Finney
 
Por exemplo, muitos já leram a história da conversão de
Charles Finney (1792-1875) e sua experiência subsequente
de jejum, e a tomam como uma maneira normativa de
manter um estado reavivado.
 
Para a honra de Deus somente, contarei um pouco acerca
da minha própria experiência nessa questão. Fui
poderosamente convertido na manhã do dia 10 de outubro.
Na tarde daquele mesmo dia e na manhã do dia seguinte,
recebi batismos extraordinários do Espírito Santo, que
passaram através de mim, como me pareceu, corpo e alma.
Imediatamente me achei investido com tal poder de cima,
que umas poucas palavras ditas aqui e ali a pessoas foram
os meios da conversão imediata delas. Minhas palavras
pareciam se prender como setas de arame farpado na alma
dos homens.Elas cortavam como uma espada. Elas
quebravam o coração como um martelo. Multidões podem
testemunhar o fato. Muitas vezes, saía uma palavra sem
que eu me lembrasse dela, produzia convicção e resultava
quase que em imediata conversão. Algumas vezes me
encontrava, em grande medida, vazio desse poder. Eu saía
e fazia visitas e achava que não tinha causado nenhuma
impressão salvadora. Eu exortava e orava com o mesmo
resultado. Então, separava um dia para jejum e oração em
particular, temendo que esse poder me abandonasse, e
inquiria ansiosamente qual era a razão dessa aparente
vacuidade. Depois de me humilhar e clamar por socorro, o
poder retornava sobre mim com todo o seu frescor. Essa
tem sido a experiência da minha vida.[2]
 
O que devemos pensar de um testemunho como esse?
Devemos concluir que dias repetidos de oração e jejum são
a chave para um reavivamento contínuo? Devemos
desprezar sua relevância porque se trata apenas de uma
experiência ímpar de um homem com Deus? Não há dúvida
de que, em algum lugar entre esses dois extremos,
encontra-se a resposta humilde e moderada. Não somos
sábios e experientes nas coisas de Deus o suficiente que
não possamos aprender com a luta da fé de outrem. Deus
pode, de fato, nos inspirar a separar um dia de jejum como
lemos nesse caso, e ele pode nos encontrar ali com grande
poder reavivador. Porém, ele pode não fazer isso. Outros
buscaram e encontraram um despertamento sem jejum.
Outros ainda jejuaram e oraram por duas, três, quatro ou
mais semanas antes que uma vitória viesse. É um erro
pensar que a maneira de Deus lidar com um dos seus filhos
será a mesma com todos.
Outro erro que podemos cometer ao admirar a obra de Deus
na vida de pessoas que jejuam é pensar que as bênçãos de
Deus implicam sua aprovação do comportamento e da
doutrina delas. Porém, esse não é necessariamente o caso.
Achamos difícil imaginar a razão pela qual Deus abençoa o
ministério de uma pessoa se a doutrina dela é defeituosa e
se pecados evidentes infectam o seu coração. Contudo,
Deus pareceu estar usando Apolo, por exemplo, que era
“homem eloquente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24), a
quem Priscila e Áquila tiveram de tomar consigo e “com
mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus” (At
18.26). E Jesus adverte que no julgamento alguns irão dizer:
“Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em
teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não
fizemos muitos milagres?” Mas ele lhes dirá: “nunca vos
conheci” (Mt 7.22-23). Em outras palavras, o teste da
verdade e justiça não é se há poder no ministério da
pessoa.
Charles Finney, por exemplo, aceitava uma teologia que era
profundamente oposta à do seu contemporâneo calvinista
Asahel Nettleton (1812-1844). No entanto, ambos foram
usados por Deus no evangelismo.[3] De modo semelhante,
John Wesley (o arminiano) e George Whitefield (o calvinista)
foram usados por Deus para levar milhares de pessoas ao
reino de Cristo. A conclusão disso não deve ser que a
doutrina é uma questão indiferente. O mal duradouro de
sustentar pontos de vista falsos acerca de Deus e da
salvação não é anulado pelas evidências a curto termo das
bênçãos de Deus não merecidas. De fato, no caso de
Finney, há boa evidência de que ele mesmo se arrependeu
de algumas de suas táticas espirituais, senão de seus
pontos de vista incorretos sobre a soberania de Deus.[4] O
fato extraordinário é que Deus tem seus propósitos sábios e
soberanos para usar pessoas com defeitos e teologia
incorreta para salvar os pecadores. Isso não é uma bênção
sobre um erro, mas a graça apesar dele. O estandarte sobre
cada bênção de Deus, sobre vidas e doutrinas defeituosas,
encontra-se em Romanos 2.4 – “Ou desprezas a riqueza da
sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que
a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?”.
Portanto, nenhuma experiência de jejum é suficiente para
merecer que a imitemos sem outras considerações
associadas. Mediremos tudo pelas Escrituras. Não nos
deixaremos levar pelos “sucessos” ou “bênçãos” que
acompanham qualquer padrão particular de disciplina
espiritual. Entendemos que Deus é soberano na
dispensação de suas misericórdias: “terei misericórdia de
quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu
me compadecer” (Êx 33.19). E nos humilharemos para
aprender da experiência dos outros, mesmo daqueles dos
quais discordamos, visto que Deus tem misericórdia e dá
lições nos lugares mais inusitados.
 
O jejum e o curso da história coreana
 
Portanto, com a devida cautela, vamos agora observar, sem
medo de sermos levados ao entusiasmo, que o curso da
História mudou repetidas vezes por meio do jejum e da
oração. Muitos exemplos podem ser dados. Nos últimos
anos do século 20, o jejum e a oração se tornaram quase
que sinônimos de igrejas na Coreia do Sul. E há uma boa
razão para isso. A primeira igreja protestante foi plantada
na Coreia em 1884. Cem anos depois, havia trinta mil
igrejas. Isso é uma média de trezentas igrejas novas por ano
em cem anos. No fim do século 20, os evangélicos
compreendiam 30 por cento da população. Deus tem usado
muitos meios para fazer essa grande obra. Um deles é uma
recuperação não apenas da oração dinâmica, mas do jejum-
oração. Por exemplo, somente nas igrejas da OMS (Overseas
Missionary Society) mais de vinte mil pessoas completaram
um jejum de quarenta dias – geralmente numa de suas
“casas de oração” nas montanhas.[5]
Para toda pessoa que tenha paixão pela supremacia de
Deus, uma história como esta não pode passar sem
despertar alguns fortes desejos. Aqui nos Estados Unidos da
América, no final do século 20, a maioria das denominações
está estagnada, exercendo muitíssimo menos impacto sobre
as nossas culturas pagãs do que gostaríamos. Na Europa, os
países nos quais ocorreu a flamejante Reforma são agora
considerados “pós-cristãos” e friamente resistentes ao
evangelismo transformador de vidas. Como é que podemos
agora nos levantar e perguntar: poderia o Senhor
determinar uma nova temporada de jejum e oração como
um meio para fazer o reino avançar nos nossos dias?
 
O jejum e a Palavra que marcou época na Antioquia
 
Um dos mais claros incentivos bíblicos para se considerar o
jejum como ato que modelou a História é encontrado em
Atos 13.1-4:
 
Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé,
Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém,
colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao
Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me,
agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho
chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles
as mãos, os despediram. Enviados, pois, pelo Espírito Santo,
desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.
 
A situação é que Saulo (Paulo) e Barnabé e mais alguns dos
outros líderes da igreja da Antioquia estavam cultuando a
Deus – “servindo eles ao Senhor” – e jejuando (v. 2). A
julgar pelo que aconteceu, podemos deduzir, penso, que o
encargo que eles tinham como uma equipe de liderança da
igreja era este: “Para onde iremos a partir daqui como
igreja?” Eles estavam jejuando para buscar a orientação do
Espírito Santo para a missão deles. O desfecho foi mais
magnífico do que qualquer planejamento magistral que uma
igreja tenha empreendido.
Eles estavam tão ansiosos pela orientação de Deus que
queriam mostrar isso com a fome do corpo e não apenas
com fome do coração. “Nós queremos a ti e queremos a tua
liderança, ó Deus! Ó Espírito Santo, qual é a tua vontade
para a missão desta igreja? Queremos ver-te e seguir-te
mais do que queremos comer.”
 
Perguntas que a Bíblia não responde
 
Uma das coisas que incomodam a minha mente acerca de
planejamentos na igreja local, a qual tenho servido agora
por mais de dezessete anos, é que muitas perguntas a que
precisamos responder não são respondidas na Bíblia, pelo
menos não diretamente. Elas são do tipo das perguntas que
os líderes em Antioquiaestavam fazendo: “Senhor,
devemos começar um programa missionário? Devemos
fazê-lo agora? Devemos enviar alguns dos nossos
professores como os primeiros missionários? Devemos
enviar Saulo, ou Simeão, ou Níger, ou Lúcio, ou Barnabé?
Devemos enviar dois, três ou quatro? De que modo
devemos enviá-los: por terra ou por mar? Devemos financiar
o trabalho deles integralmente ou eles devem trabalhar
para sustento próprio, ou esperar que haja ‘filhos da paz’
nas cidades em que eles forem que os sustentarão? Outras
igrejas deverão se juntar a nós?”, etc.
A maioria das perguntas que as equipes de planejamento de
igrejas têm de responder é desse tipo. Onde vamos obter as
respostas? Não minimizo o ensinamento bíblico sólido e
básico: “transformai-vos pela renovação da vossa mente,
para que experimenteis qual seja a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2). Mas esse
“experimentar” da vontade de Deus em questões não
morais (deveríamos enviar Saulo e Barnabé ou Lúcio e
Simeão?) não é algo mecânico. Paulo orou fervorosamente
para que os crentes transbordassem “de pleno
conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e
entendimento espiritual… frutificando em toda boa obra e
crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.9-10). É
algo espiritual discernir quais boas obras, dentre as dez mil
possíveis, estão entre “toda boa obra” que pertence à
minha vida e à minha igreja. Quem de nós pode dizer que
chegamos a uma solução quando se refere a essa questão
de discernir as melhores decisões quanto ao ministério? E
então eu pergunto, com muita seriedade, não temos alguma
coisa a aprender do fato de que esses profetas e mestres
profundamente espirituais cultuaram e jejuaram enquanto
buscavam a direção do Senhor?
Considere quatro simples observações a respeito dessa
história de Atos 13.1-4.
Primeira, esse jejum foi feito depois da vinda de Cristo.
Chamo a atenção para esse fato para que ninguém diga que
esse jejum era parte da espiritualidade do Antigo
Testamento e não do Novo Testamento. Argumentamos no
Capítulo 1, com base em Mateus 9.15, que Jesus esperava
que seus discípulos jejuassem quando ele tivesse voltado
para o céu. Não é, portanto, de admirar que eles estivessem
fazendo exatamente isso. Evidentemente, Saulo e Barnabé
e os outros da Antioquia não criam que o jejum tivesse
acabado como um odre velho com a vinda do evangelho e o
ministério da nova aliança do Espírito.
Segunda, o jejum de Atos 13 era comunitário. Pelo menos
cinco deles estavam reunidos nessa devoção ao Senhor.
Menciono isso porque outra preocupação com o jejum é que
Jesus advertiu contra o jejum ser visto pelos homens. Ele
disse: “Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o
rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e
sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te
recompensará” (Mt 6.17-18). No entanto, é impossível jejuar
em grupo e não ser visto pelos homens. Então, a pergunta
que se faz é se o jejum comunitário contradiz o
ensinamento de Jesus. Argumentei no Capítulo 3 que não. E
isso é confirmado nesse caso pela prática dos apóstolos e
mestres da igreja. Saulo e Barnabé evidentemente não
entenderam que Jesus tivesse dito que o jejum comunitário
é errado. A questão crucial não é se as pessoas sabem que
você está jejuando, mas se você deseja que elas saibam
que você está jejuando e assim se deleitar com a admiração
delas.
Terceira, esse jejum em Atos 13 provou ser uma ocasião de
orientação especial do Espírito Santo. No versículo 2 diz: “E,
servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo:
Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os
tenho chamado”. E “então, jejuando, e orando, e impondo
sobre eles as mãos, os despediram” (At 13.3). Ao relatar
isso dessa maneira, Lucas claramente quer que vejamos
uma relação entre a adoração, a oração e o jejum de um
lado, e a direção decisiva do Espírito Santo de outro:
enquanto eles estavam “jejuando, disse o Espírito Santo”.
Esse é um precedente bíblico importante para o
envolvimento em adoração-jejum-oração na busca ardente
da vontade de Deus para a nossa vida e a vida da igreja.
Quarta, o jejum de Atos 13 mudou o curso da História. É
quase impossível exagerar a importância histórica desse
momento para o mundo. Antes dessa palavra do Espírito
Santo, não parece ter existido nenhuma missão organizada
da igreja para além da margem oriental do Mediterrâneo.
Antes disso, Paulo não tinha feito nenhuma viagem
missionária na direção do Ocidente, para a Ásia Menor, a
Grécia, Roma, ou a Espanha. Antes disso, Paulo não tinha
escrito nenhuma de suas cartas, que foram o resultado de
suas viagens missionárias que começaram nesse ponto.
Esse momento de oração e jejum resultou em movimentos
missionários que arremessaram o cristianismo de uma
posição de obscuridade à posição de religião dominante no
Império Romano no período de dois séculos e meio, e que
iria produzir 1,3 bilhão de adeptos da religião cristã atual,
com um testemunho cristão em virtualmente todos os
países do mundo. E treze em 27 dos livros do Novo
Testamento (as cartas de Paulo) foram o resultado do
ministério que foi lançado nesse momento histórico de
oração e jejum.
Então, penso que é justo dizer que Deus se agradou em
tornar a adoração, a oração e o jejum a alavanca lançadora
de uma missão que mudaria o curso da História do mundo.
Haverá aqui alguma lição para nós?
 
Deus tinha se movido pelo jejum muitas vezes antes
disso
 
Isso já havia acontecido, e aconteceria novamente repetidas
vezes na História. Por exemplo, em 2Crônicas 20 os
moabitas, os amonitas e meunitas marcharam contra Josafá,
o rei de Judá. Eles formavam uma horda medonha de gente
violenta marchando contra o povo de Deus. O que o povo
poderia fazer? Que direção eles deveriam tomar? Os
versículos 3 e 4 dizem: “Então, Josafá teve medo e se pôs a
buscar ao Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá. Judá se
congregou para pedir socorro ao Senhor; também de todas
as cidades de Judá veio gente para buscar ao Senhor”.
Então, houve um grande jejum nacional por orientação
divina e livramento. Conforme relatam os versículos 14 e
15: “Então, veio o Espírito do Senhor no meio da
congregação, sobre Jaaziel [o sacerdote]… e disse: Dai
ouvidos, todo o Judá e vós, moradores de Jerusalém, e tu, ó
rei Josafá, ao que vos diz o Senhor. Não temais, nem vos
assusteis por causa dessa grande multidão, pois a peleja
não é vossa, mas de Deus”. No dia seguinte, quando o povo
de Judá saiu, eles viram que os povos de Moabe e de Amon
tinham se destruído um ao outro e Judá levou três dias para
recolher os despojos.
O curso da História foi mudado pelo jejum do povo de Deus.
As histórias da poderosa graça de Deus por meio do jejum
são muitas. Poderíamos contar a história de Moisés jejuando
por quarenta dias no monte Sinai quando recebeu a Lei de
Deus, que iria não apenas guiar Israel por mais de três mil
anos, mas que também se tornaria a base da cultura
ocidental como a conhecemos (Êx 24.18; 34.28). Ou,
poderíamos contar a história de como os judeus jejuaram
por Ester quando ela arriscou a vida diante do rei Xerxes e
fez que o plano contra Israel caísse sobre a cabeça de Hamã
(Et 4.16). Ou poderíamos contar a história do jejum de
Neemias pelo seu povo e pela cidade de Deus em ruínas, de
modo que o rei Artaxerxes garantiu a ele toda a ajuda de
que necessitava para voltar para Jerusalém e reconstruir
seus muros (Ne 1.4). O curso da História foi mudado por
muitos outros fatores além do jejum. Não estou aqui
fazendo a apologia do jejum como se fosse a única
disciplina. Apenas observo que Deus, de tempos em
tempos, ordenou que esse fosse o meio de mudar o curso
dos acontecimentos para o bem do seu povo.
 
Um jejum nacional na Grã-Bretanha por livramento
 
E então isso continuou a acontecer depois dos tempos
bíblicos. John Wesley nos conta no seu diário de um tipo
semelhante de livramento “bíblico” em1756. O rei da Grã-
Bretanha conclamou um dia solene de oração e jejum por
causa de uma ameaça de invasão por parte da França.
Wesley escreveu,
 
O dia de jejum foi um dia glorioso, como em Londres
dificilmente se viu desde a Restauração. Todas as igrejas da
cidade estavam mais do que cheias, e uma seriedade
solene se via em todas as faces. Sem dúvida, Deus deu
ouvidos à oração e haverá um prolongamento da nossa
tranquilidade.
 
E, então, numa nota de rodapé que ele acrescentou
posteriormente: “A humilhação se tornou em júbilo nacional,
pois a ameaça de invasão pelos franceses foi afastada”.[6]
 
A redescoberta do jejum no nosso tempo
 
Há em nossos dias um senso crescente entre muitos de que
a redescoberta do jejum como um clamor do coração
penitente a Deus por reavivamento possa ser o meio que
Deus usaria para despertar e reformar sua igreja. Alguns
observaram que em Atos 13.1-4 havia três atividades
acontecendo: aqueles mestres e profetas estavam
adorando, orando e jejuando. Dessas três atividades, duas
estão vivenciando um ressurgimento mundial nos nossos
dias.
Quando consideramos o mundo todo, da nossa posição do
final do século 20, vemos um despertamento notável na
adoração. Nem todos concordam que a dimensão musical
do despertamento seja uma bênção pura em qualidade
lírica ou excelência musical. No entanto, quem pode negar
que existem milhares de igrejas e movimentos adorando o
Senhor com vitalidade e o foco centrado em Deus que 25
anos atrás não estimulavam o compromisso com Deus na
adoração como fazem atualmente? Não apenas isso, há um
extraordinário movimento de oração nos nossos dias. David
Bryant documenta esse movimento em The hope at hand (A
esperança ao nosso alcance), mostrando com dezenas de
ilustrações que “Deus está movendo seu povo a orar
especificamente, crescentemente e persistentemente por
um reavivamento mundial”.[7]
No entanto, das três atividades citadas em Atos 13.1-4
(adoração, oração e jejum), o jejum não tem experimentado
esse despertamento, a não ser talvez em uns poucos
lugares como na Coreia do Sul. Isso nos leva a perguntar:
não poderia Deus ordenar que suas bênçãos plenas venham
sobre a igreja quando prevalecemos em oração com a
intensidade do jejum? Esse tipo de intensificação da oração
é o que o jejum é. É um ponto de exclamação físico no final
da sentença: “Nós ansiamos que o Senhor, ó Deus, venha
em poder”. É um clamor com nosso corpo, não apenas com
a alma: “Eu estou falando sério, Senhor! De tal magnitude é
a fome que sinto de ti. Anseio pela tua manifestação mais
do que anseio pelo alimento”.
 
O chamado de Jonathan Edwards para o jejum no
primeiro grande despertamento
 
Que essa fome por Deus deve despertar um interesse
renovado pelo jejum não é novo nem surpreendente. Isso já
ocorreu nas épocas de avivamento. Enquanto os ventos do
primeiro grande despertamento na América ainda sopravam
em 1742, Jonathan Edwards, seu mais forte defensor e
analista mais perspicaz, ansiava para que Deus desse
continuidade à bênção e a aumentasse ao redor do mundo.
Um dos meios que ele defendeu foi o jejum:
 
A situação dos tempos requer com urgência a plenitude do
Espírito divino nos ministros, e não devemos nos dar
nenhum descanso até que o tenhamos obtido. E para [fazer]
isso, acho que os ministros, acima de todas as pessoas,
devem passar muito tempo em oração e jejum secretos,
bem como também em muita oração e jejum em companhia
de outros. Parece-me que seria benéfico, para as
circunstâncias do tempo presente, se os ministros das áreas
vizinhas se reunissem frequentemente, e passassem alguns
dias em jejum e oração fervorosa entre si, zelosamente
buscando aqueles suprimentos extraordinários da graça
divina dos céus de que precisamos neste tempo.[8]
Uma coisa a mais que eu mencionaria acerca do jejum e da
oração é que acho que tem havido muita negligência por
parte dos ministros; e que embora nas suas pregações eles
recomendem e insistam muito no dever da oração secreta,
muito pouco é dito acerca do jejum secreto. É um dever
recomendado pelo nosso Salvador aos seus seguidores, da
mesma maneira que a oração secreta é… Embora não
suponha que o jejum secreto deva ser praticado numa
maneira determinada e num curso constante como a oração
secreta, contudo parece-me que esse é um dever que todos
os que professam ser cristãos deveriam praticar e praticar
com frequência. Há muitas ocasiões tanto de natureza
espiritual quanto temporal que o requerem distintamente; e
existem muitas misericórdias particulares que desejamos
para nós mesmos e nossos amigos que seria adequado,
dessa maneira, buscar a Deus.[9]
Acredito que o povo de Deus nesta terra, numa época como
esta, deveria cumprir o seu dever de jejuar e orar três vezes
mais do que faz.[10]
 
Nos nossos dias, vozes estão se levantando com um
chamado semelhante pelo jejum e oração por
reavivamento. No entanto, nem todos são tão biblicamente
zelosos e cuidadosos como Edwards o foi na sua luta com as
realidades do reavivamento, em vista das lições da História,
da liberdade e da soberania de Deus e da autoridade da
Escritura sobre as impressões subjetivas.
 
As recomendações de Edwards quanto ao nosso
chamado contemporâneo para jejuar
 
Edwards esperava que esse grande despertamento fosse o
último movimento do Espírito de Deus ao redor do mundo
que traria a idade dourada do triunfo do evangelho antes da
vinda de Cristo. Ele disse: “Não é improvável que essa obra
do Espírito de Deus, que é tão extraordinária e maravilhosa,
seja o alvorecer, ou pelo menos um prelúdio, dessa obra
gloriosa de Deus, tantas vezes predita na Escritura, cujo
progresso e instalação deverão renovar o mundo da
humanidade”.[11] Isso não seria assim. Edwards estava
enganado. Mas o ponto de vista dele acerca da liberdade e
da soberania de Deus não lhe permitiu predizer a amplitude
do reavivamento, nem a data da sua chegada, e nem a sua
extensão global. Tampouco o fato de que não aconteceu do
modo como ele esperava o levou a ficar desiludido com
Deus ou a desanimar na causa da verdade.
Houve aqueles que nos dias dele foram além da sua própria
esperança e suas expressões mais cuidadosas do que era
provável ocorrer. Eles falaram com base em revelações
especiais e impressões subjetivas particulares do Espírito de
Deus. Com respeito a essas impressões acerca do
reavivamento, Edwards fez uma advertência que é
relevante para os nossos dias.
 
Rogo ao povo de Deus que seja muito cauteloso quanto a
como dar atenção a essas coisas. Eu os tenho visto errar em
muitíssimos casos; e sei, por experiência, que impressões
têm sido feitas com grande poder e sobre a mente de
verdadeiros santos, sim, santos ilustres; mas que, logo
depois, sim, no meio de exercícios de graça extraordinários
e doce comunhão com Deus, e amparados por passagens
da Escritura que fortemente impressionaram as mentes,
não são sinais seguros de que suas revelações sejam do
céu: pois tenho visto tais impressões desapontarem, se
provarem falsas pelo acontecimento, em alguns casos
acompanhado por todas essas circunstâncias.[12]
 
O que torna essa advertência tão crucial não é apenas que
impressões subjetivas são correntes hoje com relação a
possível reavivamento iminente, mas também que Atos
13.1-4 parece nos dar um modelo para buscar a direção de
Deus que envolve impressões subjetivas. Lembre-se de que
o versículo 2 diz: “E, servindo eles ao Senhor e jejuando,
disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo
para a obra a que os tenho chamado”. Como foi que o
Espírito Santo “disse” isso? Bem, nós não sabemos. Mas
esse não foi o único caso em Atos em que o Espírito deu
esse tipo de orientação direta. Por exemplo, em Atos 8.29
lemos: “Então, disse o Espírito a Filipe: Aproxima-te desse
carro e acompanha-o”. E Atos 10.19-20 diz: “Enquanto
meditava Pedro acerca da visão, disse-lhe o Espírito: Estão
aí dois homens que te procuram. Levanta-te,pois, desce e
vai com eles”.
Há diretrizes no Novo Testamento para nos ajudar a
discernir se essas alegações de ter ouvido o Espírito nos
nossos dias vieram verdadeiramente do Senhor? Não é uma
simples questão de se a pessoa adota ou não os pontos de
vista carismáticos. Até mesmo evangélicos que pertencem
às denominações tradicionais afirmam ter sido
“impressionados pelo Espírito” ou “ter um senso da
orientação de Deus”, ou pensar que “Deus colocou no
coração deles” para fazer algo. A questão é: como devemos
testar essas afirmações, especialmente quando elas podem
envolver uma previsão acerca de um reavivamento ou um
chamado para a igreja jejuar?
 
Como testamos as impressões subjetivas?
 
Eu sugiro algumas diretrizes. Primeira, observamos que em
Atos 13.2 o Espírito falou a cinco mestres e profetas como
um grupo. É claro que o Espírito poderia falar a uma pessoa
apenas. No entanto, parece que seria sensato dizer que,
quando mais pessoas são favorecidas por uma palavra do
Espírito, um número maior de pessoas é informado acerca
disso pelo Espírito. No Novo Testamento, não parece ser a
maneira usada pelo Espírito obrigar a consciência dos
cristãos por meio de impressões subjetivas dadas a outros.
A autoridade apostólica obriga a nossa consciência à
obediência completa (Gl 1.12; 1Co 14.37-38; 2Co 10.8;
13.10; 1Ts 2.13; 2Ts 3.6; 2Pe 3.1-2, 15-16). No entanto,
outras alegações quanto à direção divina devem ser
“testadas” (1Ts 5.21). Esse chamado por prova está de
acordo com a sugestão de que quando mais pessoas são
obrigadas a seguir, mais pessoas serão levadas a seguir.
Não é o indivíduo solitário que sujeita o corpo de Cristo.
Segunda, a orientação normativa no Novo Testamento
segue o padrão de Romanos 12.2: “transformai-vos pela
renovação da vossa mente, para que experimenteis qual
seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Isso não
precisa eliminar impulsos incomuns e impressões que vêm
do Senhor, mas sugere que a renovada “mente de Cristo”
(1Co 2.16), modelada pela palavra de Cristo e permeada
pelo Espírito de Cristo, manterá o equilíbrio na interação da
impressão subjetiva versus a reflexão espiritual.
Terceira, a alegação de ter uma impressão vinda do Senhor
precisa estar de acordo com o ensinamento da Escritura,
seja de passagens específicas, caso alguma seja de
relevância imediata, ou com o caráter, o espírito e a
trajetória do todo.
Quarta, o uso incorreto da Escritura para apoiar impressões
bíblicas dará aos cristãos sensatos um motivo para
hesitação. Algumas vezes, a revelação particular é afirmada
quanto a um chamado específico de Deus para a igreja que
não é necessariamente antibíblico, mas para a qual a
Escritura é usada para uma função que nunca foi dela. É
improvável que o Espírito faça isso. Ele inspirou as
Escrituras e iria, ao que parece, manejá-las de acordo com o
significado que ele deu a elas em primeiro lugar. Portanto,
quando é feita a afirmação de que o Espírito trouxe essa ou
outra passagem à mente, que é então mal usada, pode-se
duvidar de que a orientação do Espírito esteja sendo
corretamente percebida.
Quinta, a reputação da pessoa que está falando é relevante.
Com que nível de precisão e utilidade ele ou ela
anteriormente discerniu esses tipos de impressão? A
experiência tem demonstrado que Deus confiou a essa
pessoa uma comunicação antecipada sobre seus atos em
outras ocasiões? A pessoa é estável e de confiança no
geral? Há uma base bíblica doutrinária ampla a partir da
qual a pessoa possa esperar estar discernindo os
pensamentos verdadeiros ou falsos que competem pela
convicção na mente de todos?
 
Testando o uso de 2Crônicas 7.14
 
Este é o meu esforço para dar atenção à exortação de
Edwards de que “sejamos muito cautelosos” com
impressões subjetivas nos nossos dias. Por exemplo,
devemos ser cuidadosos com as predições de que em
nossos dias os Estados Unidos irão experimentar um grande
despertamento espiritual numa data específica. Esse tipo de
predição, tão frequentemente repetido na história da igreja,
pode levar a grande desilusão se Deus tiver um plano
diferente. Mais relevante para a nossa preocupação
imediata é o perigo de que impressões subjetivas possam
também, de tempos em tempos, ditar à igreja que essa ou
aquela disciplina espiritual, como jejum, é a chave bíblica
para o reavivamento. Edwards nos alertou dizendo que
“passagens das Escrituras fortemente impressas na mente”
de “santos ilustres” não são sinais seguros de que o uso
dessas passagens está correto.
Uma das passagens mais comumente citadas na esperança
de reavivamento iminente é de 2Crônicas 7.14: “se o meu
povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e
me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então,
eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a
sua terra”. Usos incorretos desse versículo diminuem a
nossa confiança nas previsões que alguns fazem com
respeito a um reavivamento iminente.
Em primeiro lugar, no contexto original em que Deus diz
essas palavras a Salomão, o termo “meu povo” se refere ao
povo de Israel, e, portanto, o termo “sua terra” se refere à
terra que é realmente “deles” no sentido que Deus lhes deu
como uma bênção pactual, a saber, a terra de Israel. No
entanto, se aplicarmos essa passagem à nossa situação
contemporânea, “meu povo” se referiria à igreja cristã que
não pode dizer, seja qual for o país em que seus membros
residam, que esse país é a “terra deles”. A igreja não tem
terra no sentido em que Israel tinha uma terra. A igreja
cristã é um povo peregrino. Nós somos “peregrinos e
forasteiros” (1Pe 2.11). Portanto, a aplicação correta de
2Crônicas 7.14 seria, talvez, que se a igreja se humilhar,
orar e buscar a face de Deus e se desviar de seus maus
caminhos, então Deus se inclinará e sarará a igreja. Mas
seria extrapolar a passagem se dissermos que qualquer país
em que a igreja cristã se humilhar irá vivenciar um grande
despertamento.
Outro erro seria elevar qualquer disciplina espiritual como a
chave decisiva para um despertamento desse tipo.
Precedentes bíblicos e históricos nos incentivariam a buscar
reavivamento e despertamento por meio da oração e do
jejum. No entanto, esses mesmos precedentes nos
desencorajariam de fazer de qualquer atividade espiritual a
chave que deve abrir o despertamento que buscamos. Seria
especialmente enganoso ligar o jejum, por exemplo, a
2Crônicas 7.14 como uma maneira segura de cumprir esse
versículo – por pelo menos três razões.
Uma das razões é que 2Crônicas 7.14 não menciona o
jejum. Uma segunda razão é que nem todas as outras
referências em 2Crônicas, nas quais Deus abençoa aqueles
que se humilham de acordo com 2Crônicas 7.14, envolvem
o jejum (12.6-7, 12; 32.26; 33.12-13, 19; 34.27). Isso
absolutamente não nega que o jejum seja um meio legítimo
de nos humilhar diante do Senhor, mas simplesmente diz
que não existe nenhuma garantia bíblica para se pensar que
esse versículo é um chamado para jejuar. A terceira razão
para não associar o jejum com 2Crônicas 7.14, como a
chave para esse versículo, é que é possível fazer jejuns
extraordinários e ainda assim não nos humilhar, orar,
buscar a Deus e se converter dos maus caminhos. Isso é
claro em inúmeras passagens. Por exemplo:
 
Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando
trouxerem holocaustos e ofertas de manjares, não me
agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, pela
fome e pela peste.
Jeremias 14.12
 
Fala a todo o povo dessa terra e aos sacerdotes: Quando
jejuastes e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante
esses setenta anos, acaso, foi para mim que jejuastes, com
efeito, para mim?
Zacarias 7.5
 
Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que
afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta? Eis que,
no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses
e exigis que se faça todo o vosso trabalho.
Isaías 58.3
 
A ambiguidade do jejum
 
Todasessas passagens são designadas para nos advertir a
não elevar qualquer ritual externo, como o jejum, até o nível
de uma chave certa para iniciar um reavivamento. Deus é
livre para enviar reavivamento com ou sem jejum. Jonathan
Edwards ansiava por um reavivamento tanto quanto outra
pessoa, e ele clamou por oração e jejum alto e em bom
som. No entanto, também descobriu algo profundo na sua
própria experiência acerca da liberdade da soberania de
Deus. Ele escreveu:
 
Com quanta frequência nós temos zombado de Deus com
pretextos hipócritas de humilhação, como nos nossos dias
anuais de jejum público e outras coisas, enquanto em vez
de nos reformar, apenas pioramos cada vez mais; como
esse tempo era morto em toda parte antes desse trabalho
começar. Se atentarmos para essas coisas, seremos os
imbecis mais ingratos se não reconhecermos a visitação de
Deus a nós, como ele tem feito, como um exemplo de
triunfo glorioso da graça gratuita e soberana.[13]
 
Nesse caso, o argumento dele é que o jejum público e
outras austeridades foram feitos por um tempo muito longo,
porém eram cheios de fingimento e indiferença. As pessoas
não estavam “abandonando seus maus caminhos”
enquanto jejuavam. Elas não estavam “buscando a face do
Senhor” de coração enquanto jejuavam. No entanto,
subitamente como o vento que sopra onde ele quer (Jo 3.8),
o reavivamento veio. Disso Edwards conclui que o
reavivamento é “um exemplo do triunfo glorioso da graça
gratuita e soberana”. Que isso é o que foi então, e o que
também será quando e se ele vier hoje. E possa Deus nos
conceder que venha!
 
A paixão de Edwards e de Brainerd
 
Apesar de todas as advertências de Jonathan Edwards
acerca do mau uso das impressões subjetivas ao promover
o jejum (ou qualquer outra coisa), ele não hesitava em
elogiar a importância dele para a missão e o ministério da
igreja. Além do chamado para orar e jejuar anteriormente
citado, existe um relato longo e doloroso do seu amigo, o
jovem missionário entre os indianos, David Brainerd.
David Brainerd nasceu no dia 20 de abril de 1718, em
Haddam, Connecticut. Nesse ano, John Wesley e Jonathan
Edwards completaram 14 anos de idade. Benjamim Franklin
completou 12 e George Whitefield, 3. O grande
despertamento estava logo além do horizonte e Brainerd
iria passar pelas duas ondas dele, entre os anos de 1730 e o
início de 1740, e depois morreria de tuberculose na casa de
Jonathan Edwards com a idade de 29 anos, em 9 de outubro
de 1747. Jonathan tinha tal estima por esse jovem que se
esforçou por preservar e editar seus periódicos e seu diário.
E é neste que vemos os pontos de vista de Brainerd e de
Edwards a respeito da importância do jejum.
Por exemplo, baseado na analogia de Atos 13.1-4, Brainerd
buscava a orientação do Senhor para seu ministério por
meio de jejuns periódicos.
 
Segunda-feira, 19 de abril. Reservei este dia para jejuar e
orar a Deus pela sua graça, especialmente para me
preparar para a obra do ministério, me dar divino auxílio e
direção em meus preparativos para essa grande obra, e no
seu tempo oportuno “me enviar para a sua colheita”.
Consequentemente, na parte da manhã, empenhei-me em
rogar pela sua presença divina para o dia, e não sem
alguma animação. À tarde, senti uma energia para
interceder pelas preciosas almas imortais, pelo progresso do
reino do meu querido Senhor e Salvador do mundo; e, ao
mesmo tempo, uma resignação muitíssimo doce e mesmo
um consolo e alegria nos pensamentos de sofrer
dificuldades, aflições e até a morte, ao promovê-lo; e senti-
me especialmente engrandecido ao rogar pela iluminação e
conversão dos pobres pagãos.[14]
 
Para Edwards, esse uso do jejum não era apenas louvável
para missionários como Brainerd, mas também para
“ministros e cristãos individuais”. Era de fato um meio de
bênçãos contínuas na vida de Brainerd e poder nas nossas
também.
 
Seu exemplo e sucesso com relação a um dever em especial
podem ser de grande utilidade tanto para os ministros
quanto para os cristãos individuais; quero dizer, o dever do
jejum secreto. O leitor viu quanto o senhor Brainerd elogia
esse dever, e com que frequência ele próprio o praticava;
tampouco se pode deixar de observar quanto ele era
fortalecido e abençoado nele, bem como isso era
evidentemente um grande benefício para sua alma. Dentre
todos os muitos dias que ele passou em jejum secreto e
oração, que ele registra no seu diário, dificilmente há um
caso no qual ou ele não fosse atendido ou imediatamente
seguido de sucesso evidente e uma extraordinária bênção
em produtividade especial e consolo do Espírito de Deus; e
isso muito frequentemente antes que o dia terminasse.[15]
 
É por essa razão que Edwards insistia com pastores e
pessoas leigas do seu tempo para que se entregassem com
diligência triplicada (veja linhas atrás) à disciplina da oração
e do jejum. Tinha sido provado para Brainerd e centenas de
outros na história da igreja ser um meio de “sucesso
evidente e uma extraordinária bênção em produtividade
especial e consolo do Espírito de Deus”. Em outras palavras,
o jejum provou ser um caminho para o despertamento e
reavivamento.
 
Um apelo aos pastores de um puritano — Shepard
 
Outra ilustração desse forte compromisso com o jejum como
o caminho para o cristianismo vital vem de um século antes
de Jonathan Edwards, na Nova Inglaterra. Thomas Shepard
nasceu na Inglaterra em 1605 e veio para os Estados Unidos
em 1635. Como um pastor na Nova Inglaterra, ele pregou
uma série de mensagens que foram publicadas como The
parable of the ten virgins (A parábola das dez virgens), o
que é significativo porque Jonathan Edwards citou esse livro
mais do que qualquer outro ao escrever sua obra-prima
intitulada Treatise concerning the religious affections
(Tratado a respeito dos sentimentos religiosos). Cotton
Mather, que viveu de 1663 a 1727, preservou as histórias
de muitos ministros do início da Nova Inglaterra incluindo a
vida de Thomas Shepard. Suas memórias revelam algumas
das raízes do profundo compromisso de Edwards com o
jejum como parte da vida ministerial e um caminho para o
reavivamento. Mather convida-nos a entrar no gabinete de
Thomas Shepard:
 
Se o seguirmos até o seu querido gabinete, ali o
encontraremos dando-se ao luxo de um exemplo ainda mais
notável e eminente de uma caminhada santa. Ali, além de
suas súplicas diárias, ele fazia algo que tinha uma tendência
poderosa de manter seu próprio espírito num humor
saudável, vigoroso e vicejante, e de atrair as múltiplas
bênçãos de Deus sobre todas as pesadas responsabilidades
que ele tinha em suas mãos; e era algo que, sem o qual, ele
pensava que nunca poderia demonstrar ser um cristão
zeloso ou um ministro muito útil; isso era que ele
dificilmente se permitia passar um mês sem pelo menos um
dia nos exercícios de jejum secreto diante do Senhor. É
extraordinário que cada um daqueles que são conhecidos
no livro de Deus por jejuns milagrosos [Moisés, Elias, Jesus]
foram honrados por Deus com a alimentação milagrosa de
outros homens. Nosso [rev.] Shepard achava que nunca
realizaria grandes coisas na alimentação do seu rebanho se
ele mesmo não fizesse grandes coisas sozinho no jejum.[16]
 
O próprio Mather claramente aprovava esse compromisso
com o jejum e ansiava por um grande despertamento no
seu próprio tempo. É interessante observar que a
escatologia de Mather era diferente da de Edwards, mas
ambos ansiavam e oravam por um despertamento. Edwards
era um pós-milenarista, e Mather era um pré-milenarista.
Edwards orava por um grande despertamento que
estabeleceria uma era dourada de dominação cristã no
mundo antes do retorno de Cristo. “Mather estava
convencido de que a volta iminente de Cristo seria
precedida tanto por um declínio espiritual que ele viu na
Nova Inglaterra e no protestantismo europeu, quanto por
extraordinários derramamentos do Espírito Santo
produzindo pontos brilhantes de reavivamento e missõesmundiais, e especialmente a reunião dos judeus
convertidos.”[17]
Hoje, isso é duplamente encorajador. Aponta o caminho
para cruzar as diferenças doutrinárias de relativamente
pouca importância na direção da união em oração e jejum
por amor do reavivamento e reforma do povo de Deus, bem
como para o despertamento do nosso panorama americano
espiritualmente morto. Aponta até mesmo para o caminho
de uma oração de esperança comum, mesmo se não
concordarmos com o cenário preciso do fim dos tempos.
 
O mais encorajador de tudo
 
E talvez o mais útil do que tudo é isto: Cotton Mather
morreu em 1727, um pouco antes dos ventos do primeiro
grande reavivamento nos Estados Unidos terem começado
a soprar. Richard Lovelace ressalta que a esperança de
Mather por um despertamento amplo arrefeceu justamente
no final da sua vida.[18] Se ele pelo menos tivesse visto o
que uma década traria! Que o Senhor conceda que essa
paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas para a
alegria de todos os povos não enfraqueça, mas somente
cresça e se intensifique por meio da oração e do jejum. E
possa Deus de fato levantar milhões que estão tão famintos
por ele, de modo que não possam deixar de clamar de
corpo e alma: “É assim, ó Deus, nesta intensidade, que
ansiamos pela vossa plenitude na igreja e vossa glória no
mundo!”
 
Porventura, não é esse o jejum que escolhi:
que soltes as ligaduras da impiedade,
desfaças as ataduras da servidão,
deixes livres os oprimidos
e despedaces todo jugo?
Porventura, não é também que repartas
o teu pão com o faminto,
e recolhas em casa os pobres desabrigados,
e, se vires o nu, o cubras, e não te
escondas do teu semelhante?
Então, romperá a tua luz como a alva,
a tua cura brotará sem detença,
a tua justiça irá adiante de ti,
e a glória do
Senhor
será a tua retaguarda.
Isaías 58.6-8
 
Cerca de um bilhão de pessoas vivem em condições de
pobreza absoluta sem contar nem mesmo com os recursos
essenciais – sem alimentação, vestuário, abrigo, ou
cuidados médicos adequados. Quatrocentos milhões são
severamente desnutridos, incluindo mais de duzentos
milhões de crianças.
 
Larry Libby
The cry of the poor[1]
6
Encontro com Deus no jardim da dor
 
Um jejum diferente por amor aos pobres
 
Um dos maiores pregadores do primeiro milênio da igreja
cristã foi João Crisóstomo, o bispo de Constantinopla, no
século 4o. Ele nos legou uma das mais arrebatadoras
afirmações que eu jamais conheci acerca do valor do jejum.
Ele era conhecido como um asceta na era do luxo em
Constantinopla. O seu estilo de vida de tal modo ofendia o
imperador Arcádio e sua esposa Eudóxia, que ele foi
finalmente expulso e morreu em 407 d.C. Portanto,
Crisóstomo incorporava, ao que parece, não apenas a
disciplina do jejum, mas também os votos de uma vida
santa que, como veremos a seguir, vão ainda mais longe do
que privar-se de alimento.
 
Jejuar é, no que diz respeito a nós, uma imitação dos anjos,
uma desconsideração pelas coisas presentes, uma escola de
oração, um alimento para a alma, um freio para a boca,
uma anulação da concupiscência: ele abranda a raiva,
mitiga a ira, acalma a agitação da natureza, estimula a
razão, clareia a mente, alivia a carne, afugenta as
contaminações da noite, liberta da dor de cabeça. Pelo
jejum, um homem obtém comportamento sereno, livre
expressão vocal e corretas percepções da sua mente.[2]
 
Entendo que Crisóstomo quis dizer que o jejum tinha esses
efeitos positivos sobre ele e nos outros de tempos em
tempos, não que sempre o tenha, nem que auxilie a todos
com todos esses benefícios. Por exemplo, para algumas
pessoas o jejum causa dor de cabeça (pelo menos
temporária) em vez de tirá-la. Não obstante, milhares já
ouviram a Palavra do Senhor em Mateus 9.15 que “Dias
virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses
dias [seus discípulos] hão de jejuar”, e elas já provaram seu
imenso valor espiritual. Quanto mais você lê a respeito do
jejum na História, mais variados aparecem os testemunhos
dos seus benefícios. (Veja o Apêndice: “Citações e
experiências”.)
 
Os riscos do jejum
 
Entretanto, o que já vimos e veremos agora novamente é
que existem riscos em jejuar. Não estou me referindo a
riscos físicos. Estes você pode evitar se seguir diretrizes
simples.[3] Estou me referindo a riscos espirituais. É
possível jejuar de uma maneira que será muito
desagradável ao Senhor e espiritualmente destrutiva para
você mesmo.
Se jejuar, por exemplo, para ser visto pelas outras pessoas,
Jesus disse que você recebe delas a sua recompensa, e não
será respondido pelo seu Pai (Mt 6.16). Para testar suas
razões, ele disse que você deve seguir certos passos para
não ser visto pelos outros, mas somente por Deus: penteie
seu cabelo, lave o seu rosto, e não mostre semblante do
tipo: “coitado de mim”. Então – se os seus motivos forem
puros – seu Pai que vê em secreto lhe recompensará.
 
O jejum e o sofrimento da cidade
 
Mas essa não é a única advertência acerca de jejum na
Bíblia. O profeta Isaías entregou uma palavra muito forte
que tem tremenda relevância para os nossos dias. Para
mim, como para os outros, ela tem demonstrado ser uma
palavra muito pessoal. Eu vivo e ministro na cidade. Estou
rodeado pelo tipo de calamidade humana que se amontoa
nos centros urbanos. Vivo continuamente com a questão de
como a minha fé – incluindo o jejum – se relaciona com
essas realidades. Isaías 58 despertou em mim, e em muitos
na minha igreja, uma paixão de gastar e ser gasto para o
bem daqueles em maior necessidade. Já funcionou mais de
uma vez dar os nossos bens como igreja quando
ponderamos acerca do que significa espalhar uma paixão
pela supremacia de Deus em todas as coisas no centro da
cidade.
 
Clama a plenos pulmões, não te detenhas,
ergue a voz como a trombeta
e anuncia ao meu povo a sua transgressão
e à casa de Jacó, os seus pecados.
Mesmo nesse estado, ainda me procuram dia a dia,
têm prazer em saber os meus caminhos;
como povo que pratica a justiça
e não deixa o direito do seu Deus,
perguntam-me pelos direitos da justiça,
têm prazer em se chegar a Deus,
dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso?
Por que afligimos a nossa alma,
e tu não o levas em conta?
Eis que, no dia em que jejuais,
cuidais dos vossos próprios interesses
e exigis que se faça todo o vosso trabalho.
Eis que jejuais para contendas e rixas
e para ferirdes com punho iníquo;
jejuando assim como hoje,
não se fará ouvir a vossa voz no alto.
Seria esse o jejum que escolhi,
que o homem um dia aflija a sua alma,
incline a sua cabeça como o junco
e estenda debaixo de si pano de saco e cinza?
Chamarias tu a isso jejum
e dia aceitável ao
Senhor
?
Porventura, não é esse o jejum que escolhi:
que soltes as ligaduras da impiedade,
desfaças as ataduras da servidão,
deixes livres os oprimidos
e despedaces todo jugo?
Porventura, não é também que repartas
o teu pão com o faminto,
e recolhas em casa os pobres desabrigados,
e, se vires o nu, o cubras,
e não te escondas do teu semelhante?
Então, romperá a tua luz como a alva,
a tua cura brotará sem detença,
a tua justiça irá adiante de ti,
e a glória do
Senhor
será a tua retaguarda;
então, clamarás, e o
Senhor
te responderá;
gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui.
Se tirares do meio de ti o jugo,
o dedo que ameaça, o falar injurioso;
se abrires a tua alma ao faminto
e fartares a alma aflita,
então, a tua luz nascerá nas trevas,
e a tua escuridão será como o meio-dia.
O
Senhor
te guiará continuamente,
fartará a tua alma até em lugares áridos
e fortificará os teus ossos;
serás como um jardim regado
e como um manancial cujas águas jamais faltam.
Os teus filhos edificarão as antigas ruínas;
levantarás os fundamentos de muitas gerações
e serás chamado reparador de brechas
e restaurador de veredas para que
o país se torne habitável.
 
Bill Leslie descobre o jardim regado
 
Na nossa igreja, nãosomos os únicos que ouvimos uma
palavra pessoal de Deus em Isaías 58. Eu me lembro de um
testemunho de Bill Leslie, o antigo pastor da LaSalle Street
Church em Chicago, que havia tido um longo e profícuo
ministério na cidade, semelhante ao descrito em Isaías 58.
Ele esteve em Minneapolis uma vez e contou de um quase
colapso nervoso que teve e como um mentor espiritual o
direcionou a esse capítulo. Ele disse que foi o versículo 11
que o salvou de um beco sem saída de exaustão e
desgaste.
 
¹⁰ se abrires a tua alma ao faminto
e fartares a alma aflita,
então, a tua luz nascerá nas trevas,
e a tua escuridão será como o meio-dia.
¹¹ O
Senhor
te guiará continuamente,
fartará a tua alma até em lugares áridos
[como a cidade de Chicago]
e fortificará os teus ossos;
serás como um jardim regado
e como um manancial cujas águas jamais faltam.
 
O que deixou o pastor Leslie tão perplexo foi o fato das
promessas de Deus de nos fazer como um jardim regado
(não apenas um ministério regador, mas um ministério
regado). Ou seja, iremos receber a água de que ‐
necessitamos para nos revigorar, e nos tornaremos “um
manancial cujas águas jamais faltam” – para os outros –
para o ministério exigente, exaustivo e extenuante do
serviço urbano. Isso lhe deu um modelo de vida divina que o
tirou da crise e o manteve trabalhando por muitos anos
mais. A coisa extraordinária que precisamos ver aqui é que
Isaías chama essa experiência, de ser regado como um
jardim para os outros, de um tipo de jejum.
 
Divida o seu pão com o faminto mesmo quando você
está com câncer
 
Há pelo menos outra experiência que tive com essa
passagem que a tornou tão pessoalmente atraente. Doug
Nichols é atualmente o presidente da Action International
Ministries [Ministérios de ação internacional], uma missão
que se concentra especialmente nos milhões de crianças de
rua nas cidades grandes do mundo. Ele é o tipo de homem
que telefona aos obreiros da nossa igreja durante uma crise
internacional e sugere que aluguemos um jato para levar
umas centenas do nosso povo a Ruanda para ajudar a
enterrar os mortos para que os médicos e enfermeiras
possam fazer o que eles foram enviados para fazer. Ele se
concentra de maneira incansável em derramar sua vida
pelos desamparados que necessitam de Cristo.
Por exemplo, ele me escreve de vez em quando e quase
sempre inclui alguma “facada” como esta num P. S. no final
de sua carta: “Neste último minuto que talvez você tenha
gasto lendo esta carta, 28 crianças morreram de
desnutrição e enfermidades que poderiam ter sido
facilmente evitadas. 1.667 morrem a cada hora, quarenta
mil crianças morrem diariamente! Por favor, ore com AÇÃO
por mais missionários que levem o evangelho a essas
crianças”.
Doug foi diagnosticado com câncer de cólon em abril de
1993. Depois da cirurgia, da colostomia e dos tratamentos
com radiação, os médicos lhe deram uma chance de 30 por
cento de vida. Durante a horrenda guerra civil entre os
Hutus e Tutsis, ele entrou num avião e foi para Ruanda com
uma equipe de pessoas, incluindo alguns da nossa igreja.
Seu oncologista não cristão disse que ele iria morrer em
Ruanda. Doug disse que isso não seria problema porque ele
estaria no céu. O oncologista ficou aflito e telefonou para o
cirurgião de Doug para pedir-lhe que o ajudasse a fazer
Doug desistir de ir a Ruanda. O cirurgião, que é um cristão,
disse que Doug estava preparado para morrer e ir para o
céu.
Quando ficamos sabendo que Doug iria – com seu câncer e
sua colostomia – a Ruanda, alguns de nós, da equipe
administrativa, nos reunimos na sala de oração para orar
por ele. Eu me lembro de ter sido conduzido
especificamente a Isaías 58.7-8, então oramos por Doug.
 
Porventura, não é também que repartas o
teu pão com o faminto,
e recolhas em casa os pobres desabrigados,
e, se vires o nu, o cubras,
e não te escondas do teu semelhante?
Então, romperá a tua luz como a alva,
a tua cura brotará sem detença,
a tua justiça irá adiante de ti,
e a glória do
Senhor
será a tua retaguarda;
 
Oramos muito especificamente para que a alimentação dos
famintos e a acomodação dos desabrigados em Ruanda não
matassem Doug Nichols, mas o curassem. De Ruanda, Doug
ligou para seu oncologista e lhe disse que não estava morto.
Quando voltou, ele fez uma bateria de exames que
resultaram no seguinte resultado: NED: nenhuma evidência
de doença. Somente Deus sabe do futuro de Doug Nichols e
sua fé e seu ministério extraordinários, mas por ora Isaías
58 vive em carne e osso na vida de Doug enquanto ele se
gasta pelas crianças.
Assim, você pode ver que na minha vida Isaías 58 tem
algumas associações muito significativas. O jejum que ele
proclama não é do tipo comum. E estou orando para que as
histórias do seu poder transformador de vidas sejam
multiplicadas por meio deste livro.
 
Jesus amava esse profeta
 
Há algo muito querido ao coração de Jesus em Isaías 58. Dá
para ouvir o eco disso nas palavras de Jesus em Lucas 4.18
(“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu
para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar
libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos,
para pôr em liberdade os oprimidos”), em Mateus 25.35
(“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me
destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes”) e em
João 7.38 (“Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu
interior fluirão rios de água viva”). O tema de Isaías 58
permeia o ministério de Jesus – e cada vez mais ele deveria
permear o nosso ministério também.
 
Jejum como um verniz para o vício
 
Nos três primeiros versículos, Deus faz uma acusação
contra seu povo. Ele diz a Isaías para clamar com altos
gritos e declarar à casa de Jacó os pecados deles. Mas os
pecados deles estão mascarados com um surpreendente
verniz de fervor religioso. Isso é que é tão chocante e sério,
especialmente para nós que somos religiosos e que
praticamos as disciplinas religiosas como o jejum. Preste
atenção à acusação: “Mesmo nesse estado, ainda me
procuram dia a dia, têm prazer em saber os meus
caminhos; como [ou seja, como se eles fossem] povo que
pratica a justiça e não deixa o direito do seu Deus,
perguntam-me pelos direitos da justiça, têm prazer em se
chegar a Deus” (v. 2). Em outras palavras, eles agem como
se fossem uma nação reta e obediente. E se convencem de
que realmente querem Deus e seus caminhos. É terrível
viver nesse tipo de ilusão.
Ele prossegue no final do versículo 2: “perguntam-me pelos
direitos da justiça, têm prazer em se chegar a Deus”. No
entanto, eles não são sinceros. Querem que Deus
intervenha em favor deles com julgamentos justos, porque
as coisas não estão indo bem, como veremos logo a seguir.
No entanto, não veem o problema real. Gostam de ir
cultuar. Falam a linguagem da intimidade com Deus. Eles
podem até mesmo ter experiências religiosas comoventes e
ascéticas nos seus esforços para se achegar a Deus. Mas
algo está errado.
 
Cuidado com amar amar a Deus em vez de amar a
Deus
 
Essa é uma advertência muito relevante para nós em dias
de grande renovação de culto. Muitas pessoas estão
descobrindo a alegria de ter um encontro com Deus em
períodos extensos de cânticos carregados de sentimentos
pelo Senhor. Pessoalmente, acho que tais sessões de deixar-
se ficar diante do Senhor são uma comunhão muito rica
com ele. Porém, vejo um perigo. O perigo é que sutilmente
passamos de amar a Deus nesses momentos para amar
amar a Deus. Esse foi o modo que um dos meus colegas
expressou recentemente. Em outras palavras, começamos a
saborear não a glória de Deus, mas a atmosfera criada pela
adoração. Quando isso acontece, nos abrimos para a
hipocrisia. E sob um manto de grande fervor religioso,
inconsistências mortais podem emergir na nossa vida.
 
Tudo parecia tão bom
 
Em Isaías 58, algo está errado no culto. No versículo 3, o
povo expressa a frustração que sente, mas não sabe o que
está errado. Eles dizem:“Por que jejuamos nós, e tu não
atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não
o levas em conta?” De fato, os versículos 2 e 3 mencionam
cinco atividades religiosas que eles estavam fazendo em
vão. No versículo 2 diz que (1) eles estão procurando a
Deus; (2) têm prazer em saber os meus caminhos; (3)
pedem a Deus decisões justas; (4) têm prazer em se
achegar a Deus. E, então, no versículo 3, eles estão (5)
jejuando e se afligindo. No entanto, apesar de tudo isso,
Deus diz a Isaías: “Clama a plenos pulmões [não baixinho,
não suavemente, mas grita alto]… anuncia ao meu povo a
sua transgressão” (v. 1).
Eles estavam jejuando. Estavam buscando a face de Deus.
Estavam orando. Estavam fazendo um tipo de humilhação
exterior de si mesmos. Tudo isso soa exatamente como o
que se espera que façamos, de acordo com 2Crônicas 7.14.
Contudo, esse jejum e esse culto não são agradáveis ao
Senhor. É o tipo de jejum e culto que nós não queremos. E,
no entanto, perguntamos: o que há de errado em buscar a
Deus e se deleitar em conhecer os seus caminhos, e pedir-
lhe decisões justas, e se deleitar com a proximidade dele, e
jejuar e nos humilhar diante dele? O que há de errado
nisso? Tudo isso parece ser tão exatamente do jeito que
falamos acerca do culto no seu melhor. Porventura não é
isso racional? Não nos faz tremer? Não nos faz querer ser
tão autênticos com Deus de modo que nunca fôssemos
atemorizados pelo Senhor dessa maneira – com nossas
práticas religiosas mais zelosas e desejos expostos como
um impostor?
O que há de errado com o culto deles? Deus responde:
 
Eis que, no dia em que jejuais,
cuidais dos vossos próprios interesses
e exigis que se faça todo o vosso trabalho.
Eis que jejuais para contendas e rixas
e para ferirdes com punho iníquo;
jejuando assim como hoje,
não se fará ouvir a vossa voz no alto.
Seria esse o jejum que escolhi,
que o homem um dia aflija a sua alma,
incline a sua cabeça como o junco
e estenda debaixo de si pano de saco e cinza?
Chamarias tu a isso jejum
e dia aceitável ao
Senhor
? (v. 3b-5)
 
Então, esse é o problema. Os acompanhamentos éticos,
práticos e relacionais do jejum são o teste real da
autenticidade do jejum. Deus lista as formas religiosas
externas do jejum: humilhação e aflição de si próprio
(privação de alimento), curvar a cabeça como um junco,
estender panos de saco e cinzas. Depois, ele lista os
acompanhamentos antiéticos do jejum: vocês continuam a
buscar seus próprios prazeres (de outra maneira que não
seja comida), fazem todos os seus empregados trabalhar
duro, tornam-se irritáveis ou contenciosos e promovem
rixas; e chegam a ponto de entrar em brigas. E Deus
pergunta: “seria este o jejum que escolhi?” A resposta é
não.
 
O paradoxo do jejum autoindulgente
 
Desse modo, temos nesse caso outro teste para saber se o
jejum é autêntico ou não. Jesus disse: se você estiver
jejuando para ser visto pelos outros, já ganhou a sua
recompensa. Isaías disse: se o seu jejum o torna indulgente
em outras áreas, duro com os empregados, irritável e
contencioso, então seu jejum não é aceitável a Deus. Assim,
Deus está misericordiosamente nos advertindo contra os
perigos de substituir o viver reto pelas disciplinas religiosas.
Precisamos, com extrema urgência, avaliar essas questões.
A hipocrisia é uma praga terrível no culto de adoração a
Deus. Devemos ser zelosos no que diz respeito às
implicações de longo alcance da adoração na nossa vida e
na nossa igreja. Nenhum culto – nenhuma pregação,
nenhum louvor, nenhuma oração, nenhum jejum,
independentemente do quanto intenso ou belo ele seja –
que nos torne exigentes demais com os trabalhadores na
segunda-feira, ou contenciosos com nosso cônjuge em casa,
ou autoindulgentes em outras áreas da nossa vida, ou
irritados o suficiente para bater em alguém, é culto genuíno
e agradável a Deus. Não se engane quanto a isto: o jejum
verdadeiro pode ser um meio abençoado por Deus de
vencer a dureza no trabalho, a briga em casa, e
autoindulgência e a ira. No entanto, se o jejum se tornar um
disfarce religioso para minimizar essas coisas e deixá-las
continuar indefinidamente, então ele se torna hipócrita e
ofensivo a Deus.
 
O trabalho da segunda-feira autentica o culto de
domingo
 
A maneira como você trata o seu pessoal na segunda-feira é
o teste da autenticidade do seu jejum no domingo. O jejum
que deixa nossa vida sem mudança no pecado é alvo da
zombaria de Deus: “Seria esse o jejum que escolhi, que…
incline a sua cabeça como o junco?” (v. 5). Em outras
palavras, os gestos desse tipo de jejum não são mais
espirituais do que um junco encurvado num pântano.
Ai do jejum que deixa o pecado na nossa vida intacto. O
único jejum autêntico é o jejum que inclui um ataque
espiritual contra o nosso próprio pecado. Seria o nosso
jejum realmente uma fome por Deus? Testamos isso
examinando se ansiamos pela nossa própria santidade.
Querer Deus é odiar o pecado. Isso porque Deus é santo, e
não podemos amar a Deus e amar o pecado. O jejum que
não se destina a matar de fome o pecado enquanto se
banqueteia em Deus é enganar-se a si próprio. Não é
realmente de Deus que temos fome nesse tipo de jejum. A
fome do jejum é uma fome por Deus, e o teste dessa fome é
examinar para ver se ela inclui uma fome por santidade.
 
O jejum se destina a matar de fome o pecado, não a
nós
 
Se houver um foco de pecado não resolvido na nossa vida e,
em vez de jejuar por isso, estivermos jejuando por alguma
outra coisa, Deus vai vir a nós e dizer: “O jejum que eu
quero é para que esse pecado morra”. No versículo 5, Isaías
disse que eles estavam jejuando e “afligindo a sua alma”.
No original, a palavra “afligir” tem também o significado de
“humilhar”. Então, eles estavam se afligindo com fome. Mas
Deus diz que esse não era o jejum que ele escolhera. A
seguir, no versículo 10, ele pega essas palavras e diz que
existem algumas pessoas “famintas” e “aflitas” com as
quais estava realmente preocupado – a saber, aquelas que
não tinham escolha a não ser estar famintas e aflitas porque
seus concidadãos que estavam jejuando as oprimiam em
vez de alimentá-las: “se abrires a tua alma ao faminto e
fartares a alma aflita…”.
Em outras palavras, Deus diz: o jejum e a autoaflição de
vocês não é realmente um ataque ao seu próprio pecado de
injustiça e dureza de coração. Se fosse, as ações de vocês
seriam para aliviar a fome e a aflição dos seus
trabalhadores. Há aqui uma grande ironia que Deus quer
que vejamos. Os pobres e famintos são afligidos, diz o
versículo 10. Essas pessoas abastadas estão também
famintas e aflitas – pelo jejum. Mas pelo quê eles estão
jejuando? É o jejum deles primeiramente uma batalha
contra o próprio pecado deles – o pecado de oprimir seus
trabalhadores? O pecado de colocar um jugo pesado nas
costas dos pobres? O pecado de negligenciar as
necessidades de roupas e de moradia deles? Não, não é por
isso que eles estão jejuando. O comportamento deles
comprova isso.
Então Deus vai a eles e diz: o jejum que eu escolho não é
que vocês religiosamente passem fome e se aflijam, mas
que façam com que os pobres fiquem menos famintos e
aflitos. Se vocês quiserem lutar contra o pecado tirando o
pão da sua própria boca, então coloque-o na boca dos
pobres. Aí então vocês verão se realmente estão jejuando
pelo motivo correto.
Quando estamos vivendo em pecado, o jejum que Deus
escolhe não é um disfarce religioso, mas um ataque direto e
frontal a esse pecado. Para essas pessoas, o jejum não é
uma luta contra o pecado constante em suas vidas; é uma
camuflagem. Se elas passarem um pouco de fome e se
afligirem um pouco, talvez não importe tanto que sejam
indiferentes aos famintos e às aflições dos pobres. Então,
Deus vem e diz: eu testo os corações de vocês. Passem
fome por amor aos pobres. Esse é o jejum que eu escolho.
 
O consumismo e a criança da cidade americana
 
Jejuar, nos Estados Unidos e em outras nações prósperas,é
algo quase incompreensível porque a cultura do
consumismo fez uma lavagem cerebral em nós. Somos
ensinados a experimentar a boa vida consumindo e não
renunciando ao consumo. Como Rodney Clapp coloca: “O
consumidor é treinado em insaciabilidade… O consumidor é
ensinado que as pessoas basicamente consistem de
necessidades não satisfeitas que precisam ser mitigadas por
bens e experiências consumíveis. Portanto, o consumidor
deve pensar primeiro e principalmente em si mesmo e em
satisfazer suas necessidades criadas artificialmente”.[4]
Que possa ser “mais bem-aventurado… dar do que receber”
(At 20.35) é quase inconcebível. Portanto, o jejum é
dificilmente imaginável a não ser como uma moda
passageira para perder peso ou para obter um estado de
consciência mais elevado segundo os ditames do
movimento Nova Era – ambos os quais estão embutidos
numa cultura de consumo.
A penetração do consumismo é manifesta claramente
quando nos damos conta do quanto ele permeia
profundamente todos os níveis sociais, mesmo naqueles
que dificilmente têm condições de consumir. A marca da
cultura consumista é a redução de “ser” para “ter”. E essa
redução é alimentada diariamente pela televisão. Mesmo no
centro da cidade, entre os pobres que não têm condições de
gastar muito, os adolescentes,
 
são especialistas em cultura popular, prontamente
receptivos a jingles e às imagens pulverizadas da televisão.
A fala deles é carregada de fragmentos verbais dos
programas de televisão… Na rua, ser uma pessoa de
“substância” é definido ironicamente como tendo certa
aparência ou imagem…. [Um adolescente] rapidamente
desiste do seu emprego de verão como empacotador de
supermercado quando descobre que esse trabalho ameaça
sua imagem. Ele gasta os primeiros 75 dólares que ganha
em outro trabalho num beeper, em parte porque faz que
pareça ser um traficante de drogas [mesmo que ele não
tenha] nada a ver com drogas… [Ele] também de vez em
quando carrega uma arma e barganha mercadorias
roubadas: tais atos provam que ele não é um “fracote”, mas
uma pessoa de “substância”… [Ele] e seus amigos chamam
a si mesmos de “LoLifes” (diminutivo de “Polo Lifes”, porque
usam somente a marca Polo de roupas para homens, a
maior parte das quais roubadas das lojas de departamentos
do centro da cidade… [Ele] acredita que “as roupas é que
fazem o homem”. Tragicamente, no seu caso, a máxima é
deprimentemente exata… Quando as roupas de marca são
tiradas, praticamente não encontramos nenhuma
substância por trás da aparência. [Ele] se reduz a um mero
comprador de mercadorias e consumidor de produtos… [Ele
e seus amigos] “acreditam no que lhes foi dito acerca de
imagem, status, competição, hierarquia e a prioridade da
autogratificação. A crença deles é letal, principalmente para
eles mesmos”.[5]
 
Esse menino de centro de cidade e seus amigos são a dura
imagem da tendência atual nos Estados Unidos, menos os
efeitos mitigadores da riqueza.
 
A maioria dos americanos de hoje tem uma fé idólatra no
materialismo, mas ela é equilibrada pelas oportunidades
que eles têm (educacional e vocacionalmente) de construir
suas identidades sobre algo além das aparências.
Conquanto eles sejam também consumidores, têm a
oportunidade de se tornar mais do que meros
consumidores. Em contraste [o nosso menino de centro de
cidade] e seus amigos não conseguem essas oportunidades,
ou não têm acesso a elas. Consequentemente, o
“significado” é retirado do mundo deles e substituído pela
“imagem”. Nessa existência tacanha, os meninos
literalmente matam uns aos outros por correntes de ouro e
jaquetas de couro… A fé cega do menino no consumismo é
fatal.[6]
 
Contra esse pano de fundo do consumismo americano
contemporâneo difundido, o jejum de Isaías 58 começa a ter
uma importância mais aguda. Que um estilo de vida de
servir ao pobre em vez do consumo de outra mercadoria
deva ser chamado de “jejum” não é tão estranho no final
das contas. A maior parte da nossa vida é a satisfação de
um apetite artificialmente criado após o outro. Qualquer
alteração desse padrão por amor do ministério é um “jejum”
– e um jejum que agrada mais a Deus do que deixar de
almoçar com vistas a mais pizza no jantar.
 
O jejum vivo do amor não negociável
 
O que Deus faz em Isaías 58.6-12 é descrever o que se
encontra envolvido na prática desse jejum, quais são as
recompensas espetaculares para aqueles que o praticam
dessa maneira – e que de fato é mais abençoado dar do que
receber, de maneira tal que nem podemos imaginar de
dentro do nosso vício pelo consumo. Você lembra do que
Jesus disse: “e teu Pai, que vê em secreto, te
recompensará”. Bem, aqui estão alguns tipos de
recompensa que Deus promete àqueles que fazem esse tipo
de jejum.
Primeiramente, vamos considerar a descrição do jejum em
si. Depois falaremos sobre as promessas de Deus àqueles
que vivem dessa maneira. Não cometa o erro de pensar que
essa é uma descrição das funções de um trabalho que Deus
deu ao seu povo para mostrar-lhes como receber
pagamento dele. Não há nenhum merecimento envolvido
aqui. Não se pode negociar com o Deus de Isaías. Ele é
soberano e livre e dá misericordiosamente àqueles que
confiam nele. Isaías 30.15 diz: “Porque assim diz o Senhor
Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em
sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na
confiança, a vossa força”. A força de fazer o que Deus nos
chama para fazer não vem de nós. Ela vem de Deus e vem
por meio da confiança nele.
 
Esse jejum é a receita do médico
 
Quando Deus diz ao povo o que fazer, isso não é uma
descrição de obrigações, mas uma receita de médico. Ele
não está nos dizendo para ganhar um salário trabalhando
para um chefe, mas para ficarmos bem confiando no nosso
Médico. Você pode ver isso no versículo 8 em que ele diz
que, se seguir a Palavra de Deus: “a tua cura brotará sem
detença”. Se você confiar no médico, e demonstrar essa
confiança obedecendo as instruções dele, vai se recuperar
da sua enfermidade do pecado. Então, não pense que vai
fazer por merecer qualquer coisa de Deus. Isso é impossível,
e tentar é fatal. Confie na graça soberana dele e siga o seu
conselho e será poderosamente abençoado. Mas nunca
deverá pensar que você fez por merecer ou que conquistou
alguma coisa.
Então, vamos considerar a receita de Deus aqui – o jejum
que Deus escolhe. Começando no versículo 6:
 
Porventura, não é esse o jejum que escolhi:
que soltes as ligaduras da impiedade,
desfaças as ataduras da servidão,
deixes livres os oprimidos
e despedaces todo jugo?
Porventura, não é também que repartas o
teu pão com o faminto,
e recolhas em casa os pobres desabrigados,
e, se vires o nu, o cubras,
e não te escondas do teu semelhante?
 
A seguir, nos versículos 8 e 9a vêm as promessas do que irá
nos acontecer se confiarmos na receita do médico sobre
como jejuar. Mas passe por cima disso por um momento
enquanto lemos o restante da receita nos versículos 9b-10a.
 
Se tirares do meio de ti o jugo,
o dedo que ameaça,
o falar injurioso;
se abrires a tua alma ao faminto
e fartares a alma aflita…
 
Essa é a receita do médico. Esse é o jejum que o médico
prescreveu para o paciente Israel, que estava enfermo com
a enfermidade da hipocrisia e dureza de coração – e para o
próspero americano de hoje que está enfermo com os vícios
do consumismo.
Há treze componentes, mas eles parecem cair em sete
categorias. Tomo cada uma delas como um chamado
pessoal para minha vida e um mandado para a igreja. Esse
é o jejum que devo aprender e apreciar. Esse é o remédio
para a pseudoliberdade das escolhas sem-fim de
mercadorias que abarrotam meu coração com coisas – como
trinta mil produtos no supermercado médio americano em
1996 em contrapartida a nove mil em 1975, ou um novo
periódico para cada dia do ano, ou trinta canais de televisão
entre os quais escolher todas as noites.[7]
Primeiramente, Deus prescreve que nós libertemos as
pessoas.que soltes as ligaduras da impiedade,
desfaças as ataduras da servidão,
deixes livres os oprimidos
e despedaces todo jugo… (v. 6)
Se tirares do meio de ti o jugo,
o dedo que ameaça,
o falar injurioso… (v. 9)
 
Ligaduras, ataduras, servidão, jugo… A questão aqui é esta:
vamos libertar as pessoas, não colocar fardo sobre elas.
Jesus disse em Lucas 11.46: “Ai de vós também, intérpretes
da lei! Porque sobrecarregais os homens com fardos
superiores às suas forças, mas vós mesmos nem com um
dedo os tocais”. Há um fardo e um jugo que devemos
oferecer às pessoas, mas é um fardo leve e suave. Jesus
disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu
jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de
coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o
meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30).
Jesus nos chama a nos juntarmos a ele na libertação das
pessoas dos fardos pesados e duros jugos.
O que torna seu fardo leve é a realidade do novo
nascimento que muda o que amamos fazer, de dentro para
fora (como 1Jo 5.3-4 diz): “Porque esse é o amor de Deus:
que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus
mandamentos não são penosos, porque todo o que é
nascido de Deus vence o mundo; e essa é a vitória que
vence o mundo: a nossa fé”. Ser nascido de Deus triunfa
sobre os desejos mundanos que tornam os mandamentos
de Deus pesados. Assim, o jejum prescrito começa com o
novo nascimento e gera novos valores e desejos que
produzem fruto em liberdade e alegria. Esse é o jejum que
Deus prescreve.
Recebi um e-mail de um amigo missionário num país de
acesso restrito, cuja presença figura em parte como
“assistência humanitária” que ele presta. No entanto, ele
está observando pessoalmente a necessidade de uma
transformação espiritual antes que uma transformação
humanitária possa ocorrer. Ele escreve:
 
Em poucas palavras, [o governo] decidiu cortar todos os
recursos para o centro de negócios e canalizá-los para o
“orfanato”. Isso soa muito bem, exceto por uma coisa. Eles
tornaram os fundos do orfanato dependentes da mudança
de sua clientela. Eles estão exigindo que a escola comece
não apenas para órfãos, mas que funcione como uma escola
de inglês para órfãos e mais uns poucos alunos “talentosos”
que não são órfãos. É claro, em poucas palavras, que eles
querem que voluntários americanos lecionem nessa escola.
Os poucos alunos “talentosos” por acaso são filhos dos
oficiais do governo que estão provendo os fundos! ‐
Desanimador, não é? Essa é exatamente a razão pela qual a
reforma de uma cultura precisa começar do lado espiritual
(plantação de igrejas) e não com “assistência humanitária”.
 
Segundo, Deus prescreve que alimentemos os famintos:
“Porventura, não é também que repartas o teu pão com o
faminto…?” (v. 7a)
O nosso jejum não é meramente negarmos a nós mesmos,
mas suprir as necessidades dos outros. Cerca de quarenta
mil crianças morrem por dia de fome e de doenças
facilmente evitáveis. “Cerca de um bilhão de pessoas no
mundo vivem em condições de pobreza absoluta sem nem
mesmo os recursos mais básicos – sem alimentação,
roupas, abrigo, ou cuidados médicos adequados…
quatrocentos milhões são extremamente desnutridos –
incluindo mais de duzentos milhões de crianças.”[8]
Esses fatos, mais aqueles imediatamente fora da minha
porta, são relevantes para o modo como jejuo. Deus não
permitirá que eu me contente com uma disciplina severa
que não ataque a indiferença na qual a maioria das famílias
de classe média americana vive. Ele diz que o jejum é
destinado a nos despertar para a fome que há no mundo,
não apenas para a nossa própria fome. E diz que é um
clamor do coração não apenas provar as bondades de Deus
na nossa própria generosidade, mas no poder do amor para
viver por amor aos outros.
Não se deixe paralisar pelas estatísticas. Não somos
responsáveis pelo que não podemos fazer, mas sim pelo
que podemos fazer. E existem centenas de coisas possíveis
de serem feitas por aqueles que levam seu jejum
seriamente. Um exemplo simples é o de Manila. “Smokey
Mountain” é a bem conhecida cidade do lixo onde o lixo de
Manila é jogado, e onde quinze mil favelados e suas famílias
vivem catando os restos da cidade.
 
Trabalhadores de saúde de cuidados básicos da Youth With a
Mission (YWAM – Jovens com uma missão) começaram a
trabalhar na Smokey Mountain em 1985 e descobriram,
tragicamente, que as famílias frequentemente perdiam
crianças por causa do sarampo. Trabalhando em parceria
com as autoridades locais, uma clínica de vacinação
começou a funcionar em Smokey Mountain em 1986. A
primeira quarta-feira de todo mês tornou-se conhecida
como o dia da vacinação infantil, no centro de
multipropósitos da YWAM. As crianças eram vacinadas
gratuitamente contra tétano, tifo, coqueluche (tosse
comprida), pólio, sarampo e BCG (tuberculose). As famílias
se reuniam no lado de fora do prédio de blocos de cor verde
enquanto os trabalhadores pesavam as crianças e
administravam injeções e gotas de vacinas. Isso estava
fazendo a diferença. Em 1986, os trabalhadores de saúde
básica ali observaram que mais de 45 crianças haviam
morrido de sarampo. Em 1987, foram relatados apenas
dezoito casos. Em 1988 não houve registros de nenhuma
morte em razão do sarampo, infecções ou complicações. As
vacinações claramente fizeram uma diferença e ofereceram
esperança para a comunidade favelada.[9]
 
Terceiro, Deus prescreve que abriguemos os desabrigados:
“E recolhas em casa os pobres desabrigados” (v. 7b).
Com frequência, deixamos de ministrar aos desabrigados
por medo e pela ideia pré-concebida de que o governo tem
programas para esse tipo de coisa. As promessas de Deus
(que veremos a seguir) devem acabar com esses medos. E
o fato de que o governo está disposto a ajudar não deve
reger os nossos atos de amor. Existem maneiras estruturais
e espontâneas de ministrar aos pobres. Espontaneamente,
corremos os riscos e não nos preocupamos que os efeitos a
longo tempo possam ser pequenos. O amor não avalia as
coisas dessa maneira. O bom samaritano não disse: “Um dia
interrompido vai fazer bem pouca diferença no problema de
violência crônica nessa região”. Ele viu a necessidade e fez
algo. O mesmo ocorre com aqueles que veem o desabrigado
e executam seu jejum.
 
Era um dezembro extremamente frio no Oregon. Um vento
oriental cortante fazia as pessoas saírem correndo dos
edifícios de escritórios para entrar no carro que estava no
estacionamento e viajar de volta para casa. Mas Les e Kathy
não podiam ignorar os homens e mulheres que não tinham
um lar aquecido esperando por eles – que não tinham lar
algum… Os escudos defensivos foram acionados. Bem, elas
raciocinaram, havia missões que tinham o dever de ajudar.
Eles eram os “profissionais”… Mas “eles” não estavam
fazendo o que deviam fazer. Ainda havia gente nas ruas –
que Les e Kathy podiam ver muito bem enquanto iam para
casa – que estava sofrendo na temperatura enregelante.
Pessoas de carne e osso sentindo dor de verdade. Elas
viram até mesmo uma mulher que estava descalça…
“Conversamos acerca disso”, Kathy recorda. “E nos
lembramos de que tínhamos três sacos de dormir sobrando,
cobertores em quantidade muito além do que precisávamos
e uma gaveta cheia de luvas. Dissemos: ‘Isso é algo que
podemos fazer’, e então fizemos. Fomos até o centro da
cidade e distribuímos as coisas”… Entregaram tudo o que
tinham? Não… Mudaram de profissão e se devotaram em
tempo integral ao povo de rua? Não… Simplesmente se
depararam com uma necessidade à frente e perceberam
que podiam ajudar e fizeram isso.[10]
 
Estou ciente do fato que a passagem na verdade diz: “E
recolhas em casa os pobres desabrigados”. E creio que
quanto mais relacional for o nosso cuidado pelo pobre,
melhor. Mas seria insensível e não cristão dizer que todo o
cuidado que não seja trazer os desabrigados para dentro da
nossa casa é hipócrita.Isso pode ser o que devemos fazer
em alguns casos, mas não necessariamente em todos. E é
esta atitude de “tudo ou nada” que com frequência paralisa
o povo de Deus.
E como eu disse, existem maneiras estruturais de fazer esse
jejum diferente pelos pobres, bem como maneiras
individuais espontâneas. A ilustração mais próxima disso
está localizada a alguns quarteirões da minha casa – um
ministério chamado Masterworks, criado por Tim Glader
para ajudar os desempregados crônicos dos bairros
próximos a desenvolver habilidades, disciplina e esperança,
trabalhando, por exemplo, em simples rotinas de
montagens e participando de relacionamentos de
discipulado cristão. Tim vendeu sua companhia de serviços
de ar condicionado e aquecedores que tinha no subúrbio
para dar início ao negócio no centro da cidade em 1991. Ele
também se mudou para o centro da cidade com sua esposa
e filhos. A nossa igreja disponibilizou o edifício, e Tim faz
todo o restante necessário. Ele planeja magnificar a
grandeza do amor e do poder de Cristo oferecendo a essas
pessoas, para as quais é quase impossível encontrar um
emprego, um trabalho seguro, de tempo integral, que as
ajude a desenvolver habilidades profissionais, ao mesmo
tempo em que fornece também o apoio necessário para
preparar os trabalhadores para sair da situação de
beneficiários do serviço social para a autossuficiência. Esse
empreendimento arriscado tem sido para Tim e sua família
um “jejum” longe de ser pequeno. Seria muito mais fácil,
seguro e confortável o “banquete” da abundância sem ter
de se preocupar com a existência dos pobres.
Quarto, Deus prescreve que vistamos os que estão nus: “E,
se vires o nu, o cubras” (v. 7c).
Quinto, ele prescreve que sejamos solidários, que sintamos
o que os outros sentem porque eles também são feitos de
carne e osso como nós: “E não te escondas do teu
semelhante” (v. 7d).
O pensamento parece ser o mesmo de Hebreus 13.3:
“Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles;
dos que sofrem maus-tratos, como se, com efeito, vós
mesmos em pessoa fôsseis os maltratados”. Somos feitos
da mesma carne que eles. Portanto, coloque-se no lugar
deles e sinta o que eles sentem. Uma das implicações disso
parece ser que não devemos evitar os lugares de
dificuldades e miséria. Longe dos olhos geralmente significa
longe da mente. E longe da mente geralmente significa
longe do coração. Todos nós sabemos que um passeio pelas
ruas de Calcutá, na Índia, nos leva a uma mudança de
valores e prioridades muito maior do que muitas estatísticas
o fariam. E viver no centro da cidade ou se mudar para mais
perto de onde as necessidades dos pobres são mais
evidentes, nos ajuda a evitar que essa exposição seja uma
mera experiência de compaixão intermitente. Isso não é
uma garantia. A pessoa pode se tornar insensível em
qualquer lugar. E uma pessoa pode fazer muito bem de
longe. Mas o jejum que Deus prescreve é este: não se
esconda dos seres humanos necessitados.
Sexto, Deus prescreve que abandonemos os gestos e
palavras que mostram desprezo pelas outras pessoas: “Se
tirares do meio… o dedo que ameaça, o falar injurioso” (v.
9b).
Literalmente, o hebraico significa “jogar” o dedo, que pode
ser uma expressão mais próxima do nosso grosseiro
“mostrar o dedo” do que simplesmente apontar para
alguém. Portanto, não fale e gesticule de maneiras que
demonstrem desprezo pelos outros. É muito fácil nos
tornarmos fartos dos pobres arrogantes. O jejum que Deus
prescreve para nós é renunciar a essa atitude e passar sem
ela. Isso não é fácil. Eu costumava pensar que viver entre os
pobres me sensibilizaria para as necessidades e
quebrantaria o nosso coração. Contudo, as coisas não são
tão simples assim. Isso pode ter justamente o efeito
contrário. Pode tornar você duro, sarcástico e
preconceituoso. Os prazeres de “comer” esse tipo de
cinismo são tragicamente doces. E desses nós devemos
jejuar.
Finalmente, o Senhor prescreve que devemos dar não
apenas alimento, mas dar a nós mesmos – a nossa alma – e
não apenas satisfazer o estômago dos pobres, mas também
a alma dos aflitos: “se abrires a tua alma ao faminto e
fartares a alma aflita” (v. 10a).
Observe que a palavra “alma” é usada em ambas as partes
do versículo. O ministério é de alma para alma. Um dos
esforços mais recentes da nossa igreja na cidade é uma
parceria com um ministério urbano chamado InnerChange.
Uma das grandes ênfases que estamos aprendendo nessa
parceria é que o ministério aos pobres não é meramente dar
coisas. É dar-se a si mesmo. Não é apenas alívio. É
relacionamento. Essa é uma parte essencial da prescrição
de Deus para o jejum em Isaías 58.
 
As promessas todo-satisfatórias de Deus
 
E então, se confiarmos em Deus, o nosso Grande Médico, o
suficiente para segui-lo neste jejum de sete pontos, o que
irá acontecer na nossa vida e na nossa igreja? Novamente
há sete categorias de promessas – recompensas do Pai que
vê o nosso jejum. Elas não correspondem necessariamente
a cada uma das categorias anteriores da prescrição. No
entanto, tomadas juntas, retratam uma vida que muitos de
nós estamos ansiosos para ter. Que não fiquemos
desanimados pelo paradoxo de que derramar a nossa vida é
o caminho para a plenitude. Deus daria ele mesmo para
nós, mas ele quer nos fazer saber que fica mais plenamente
satisfeito quando nós o compartilhamos mais livremente.
A primeira promessa é que as trevas da sua vida se
tornarão luz: “Então, romperá a tua luz como a alva… (v.
8a)… então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão
será como o meio-dia” (v. 10b).
É um dos muitos paradoxos de Deus que há mais luz nos
lugares sombrios do mundo para aqueles que vão lá para
servir. E há trevas mais intensas no brilho dos grandes
shoppings centers para aqueles que vão lá para fugir. Jesus
é a Luz do mundo. Viver perto dele é viver no lugar mais
iluminado do universo. Descobrir onde ele vive, ler os
evangelhos e seguir o caminho dele.
Como está o coeficiente de escuridão na sua vida? Você
está triste? Sua igreja está melancólica? Sua classe da
escola dominical está melancólica? O grupo pequeno ao
qual você pertence está debaixo de uma nuvem de
melancolia? Talvez você devesse tomar posição e dizer: “se
há uma nuvem negra sobre nós talvez devamos encontrar
algum projeto para os famintos”. É isso o que a passagem
diz. Se você quiser que as nuvens recuem, comece a
derramar sua vida pelas outras pessoas. Talvez você esteja
demasiadamente encravado como pessoa, ou como uma
igreja, ou como uma família. Talvez sua família tenha se
tornado tão autocentrada que ninguém nunca os visita.
Você não conhece nenhum dos seus vizinhos. Não há
nenhum ministério familiar. E você fica sem entender por
que há uma nuvem sobre a sua família. Tome essa
promessa e ore seriamente acerca do coeficiente de trevas
e luz na sua vida, e veja se há uma receita aqui para você –
não uma lista de afazeres para merecer alguma coisa, mas
uma receita do Médico que ama você e quer vê-lo livre da
escuridão. Ele quer que a luz brilhe sobre você, e ele
conhece o caminho que leva à claridade.
Segundo, Deus promete que lhe dará o fortalecimento
físico: “a tua cura brotará sem detença… (v. 8b)… e
fortificará os teus ossos” (v. 11c).
Quem sabe quanta fraqueza se encontra em nós
individualmente e na igreja corporativamente porque não
estamos derramando a nossa energia na fraqueza dos
outros? Passamos nossas noites assistindo televisão porque
estamos cansados demais para fazer qualquer outra coisa.
Talvez. Entretanto, Deus promete nos fortalecer não apenas
de nossas solitárias noites tranquilas, mas de jejuar de
coisas como a televisão para levar uma refeição para uma
família mergulhada numa crise de enfermidades. Há uma
dinâmica espiritual aqui que não entendemos até que a
experimentemos. Fomos feitos para servir de mediador da
glória da graça de Deus aos outros. Para isso existe força
quando pensamos que tudo já foi gasto.
Terceiro,Deus irá adiante de nós, atrás de nós e no meio de
nós com justiça e glória: “a tua justiça irá adiante de ti, e a
glória do Senhor será a tua retaguarda” (v. 8c, d).
Então, Deus irá adiante de você com justiça e atrás de você
com sua glória. E não apenas isso, mas ele estará lá quando
você o chamar: “então, clamarás, e o Senhor te responderá;
gritarás por socorro, e ele dirá: Eis-me aqui” (v. 9a, b).
Sempre que você fizer a chamada dos auxiliares, Deus
sempre responderá “presente”. Quando estamos ocupados
fazendo o mesmo que seu Filho fez, a saber: “se fez pobre
por amor de vós, para que… vos tornásseis ricos” (2Co 8.9),
e fazendo isso “na força que Deus supre” (1Pe 4.11), então
Deus se move na nossa retaguarda, adiante de nós e nos
rodeia completamente com seu amor, auxílio, proteção e
cuidado onipotentes.
Por muitos anos tenho argumentado que a oração é
designada por Deus para ser um walkie-talkie de tempo de
guerra e não um interfone doméstico. Deus quer que
recorramos a ele por ajuda porque estamos dando nossa
vida para difundir uma paixão por sua supremacia em todas
as coisas, para alegria de todos os povos. A oração não é
para o aumento do nosso conforto pessoal, mas para o
avanço do reino de Cristo. Quando Isaías 58.9 diz: “então,
clamarás, e o Senhor te responderá”, “então” se refere ao
versículo anterior, o 7. Quando? “Então” – a saber, quando
você se juntar às forças do amor para ministrar àqueles que
não têm alimento, abrigo e roupas. Essa é a hora quando o
Senhor ouvirá o walkie-talkie de guerra e responderá. Ele
tem frequências muito especiais distribuídas entre os
territórios do amor de alto risco.
Isso não quer dizer que você não possa orar pela cura da
garganta inflamada do seu filho ou para que seu carro não
quebre. Mas significa que, se você não tem motivos que
exaltem a Deus e promovem o avanço do reino para essas
orações, finalmente elas irão danificar o seu aparelho de
walkie-talkie. Tampouco significa que não há lugar para
deixar-se ficar com Deus na comunhão do louvor e
companheirismo. Mas significa que a consumação da alegria
na comunhão com Deus é uma alegria compartilhada. E o
louvor que não visa à inclusão dos outros se corrompe.
Quarto, Deus promete nos guiar continuamente: “O Senhor
te guiará continuamente” (v. 11a).
Essa é uma promessa preciosa para nós na perplexidade da
vida e do ministério. Pergunto a mim mesmo quanta
confusão e incerteza na nossa vida vêm da negligência do
ministério aos pobres. Parece que o Senhor dá sua direção
mais íntima àqueles propensos a se darem às necessidades
dos outros – especialmente aos pobres. A direção de Deus
não é destinada aos caminhos brilhantes do jardim do ócio,
mas para os lugares sombrios da dor onde temos poucas
respostas e trilhas que nunca foram abertas. Quantas vezes
no ministério pastoral fui chamado para atender a uma crise
e enquanto estou a caminho, digo: “Senhor, não sei qual é a
solução neste caso. Ajude-me. Por favor, dá-me orientação.
Traga à minha mente o que pode ser mais útil”. E repetidas
vezes ele tem respondido. Torne-se disponível até mesmo
para situações de necessidade além da sua capacidade, e
“O Senhor te guiará continuamente”.
Quinto, ele satisfará sua alma: “fartará a tua alma até em
lugares áridos” (v. 11b).
Nossa alma é destinada a se satisfazer em Deus. Mas temos
aprendido repetidas vezes que essa satisfação em Deus é
consumada quando estendemos a nossa satisfação nele a
outros. Derramar-nos pelos pobres é o caminho da mais
profunda satisfação. E repare bem que isso acontecerá “até
em lugares áridos”. Em outras palavras, no serviço aos
outros, sua alma se tornará cada vez menos dependente
das circunstâncias externas por satisfação. Mais e mais você
será capaz de dizer como o salmista no salmo 73.25-26:
“Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu
me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu
coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a
minha herança para sempre”.
Sexto, Deus fará de você um jardim regado com fontes
perenes: “serás como um jardim regado e como um
manancial cujas águas jamais faltam” (v. 11c).
Esse foi o versículo que despertou Bill Leslie para a
preciosidade do “jejum” de Isaías 58. Ele, juntamente com
muitos outros pastores, estava passando por uma estação
seca. Mas eis que num versículo estava o que todos nós
precisamos saber e querer – tanto ser regado quanto o
poder de regar outros: “um jardim regado” e “um manancial
cujas águas jamais faltam”. É um princípio espiritual
paradoxal nas Escrituras: na medida em que se derrama
você se torna cheio. Quanto mais você dá, mais recebe.
Mas há a suposição de que o poço foi cavado e está sendo
mantido desimpedido. Só podemos permanecer viçosos e
úteis para os outros se houver, por assim dizer, uma fonte
na nossa alma. E qual é? Essa promessa tem seu
cumprimento no Novo Testamento por meio do que Jesus
revelou em João 7.38: “Quem crer em mim, como diz a
Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva [um
manancial cujas águas jamais faltam]”. Mas “Isso ele disse
com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele
cressem” (v. 39a). Em outras palavras, confiar em Jesus
para todas as nossas necessidades é abrir a fonte do poder
do Espírito. E ele se põe em movimento mais plenamente
quando, pela fé, nos gastamos no caminho do amor por
causa dos que perecem e dos pobres.
Finalmente, se nos entregarmos pelos pobres, Deus irá
restaurar as ruínas da sua cidade – e seu povo: “Os teus
filhos edificarão as antigas ruínas; levantarás os
fundamentos de muitas gerações e serás chamado
reparador de brechas e restaurador de veredas para que o
país se torne habitável” (v. 12).
Quantas coisas arruinadas podem ser reparadas pelo jejum
do povo de Deus por amor dos pobres! Quem sabe que
sofrimentos, que disfunções, que brechas, que aflições e
opressões podem ser curadas e restauradas pelo belo jejum
de Isaías 58! Não nos cabe predizer como a cidade, ou
igreja, ou família, ou sociedade deve ser. Cabe-nos confiar e
obedecer.
Então, vamos confiar no Médico dos médicos, o Senhor,
aquele que nos cura. Vamos aceitar o jejum que ele
prescreveu para nós. Ele significará luz, cura, direção, alívio,
restauração e desembaraço – e tudo isso com o próprio
Deus adiante de nós, atrás de nós e no nosso meio. E visto
que é por nossas boas obras que as pessoas verão a luz e
darão glórias ao nosso Pai no céu (Mt 5.16), então esse
jejum também espalhará o evangelho do reino e apressará
o dia do Senhor. Se estivermos realmente famintos por toda
a plenitude de Deus, aqui está o jejum que nos saciará.
 
Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava,
para nos humilharmos perante o nosso Deus,
para lhe pedirmos jornada feliz para nós,
para nossos filhos
e para tudo o que era nosso.
Esdras 8.21
 
Judge not the Lord by feeble sense,
But trust him for his grace,
Behinde a frowning providence
He hides a smiling face.
 
His purposes will ripen fast,
Unfolding ev´ry hour;
The bud may have a bitter taste,
But sweet will be the flower.*
 
William Cowper
God moves in a mysterious way[1]
* Não julgue a Deus com senso de fraqueza / Mas confie
nele pela sua graça, / Por trás de uma providência
carrancuda / Ele esconde uma face sorridente./ Logo seus
propósitos amadurecerão, / Desenvolvendo-se a cada hora;
/ O botão pode ter um sabor amargo, / Mas doce será sua
flor (NR).
7
Jejuar pelas crianças
 
O aborto e a soberania de Deus sobre as falsas
cosmovisões
 
Nosso anseio por Deus é por demais limitado. Isso porque
não somente nossas capacidades de desejar estão
atrofiadas – como um músculo que levanta somente plumas
–, mas também porque a nossa capacidade de ver o
desejado não está treinada no uso do telescópio da Palavra
de Deus.
 
Em quê exercitamos o músculo do desejo?
 
Fomos feitos para desejar o Grande com grande anelo.
 
Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eume
compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu
coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a
minha herança para sempre.
Salmo 73.25-26
 
Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por
ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de
Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face
de Deus?
Salmo 42.1-2
 
Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente;
a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como
terra árida, exausta, sem água.
Salmo 63.1
 
Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da
sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor;
por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como
refugo, para ganhar a Cristo.
Filipenses 3.8
 
Porém, nos dobramos aos nossos desejos por coisas
insignificantes em vez de por Deus. E, sendo assim, até o
potencial pelo desejo diminui.
 
Qual é o tamanho das estrelinhas?
 
E não colocamos nosso olho com frequência no telescópio
da Palavra de Deus, onde as estrelinhas de Deus, piscando
no nosso céu noturno revolto, revelam-se como maravilhas
indizivelmente grandes. Com que frequência oramos como o
salmista: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple
as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18)? E, se não o virmos na
sua grandeza, não o desejaremos na sua plenitude.
Contemplar a glória de Deus não é apenas uma experiência
solitária numa montanha enquanto ele passa. É também
uma experiência pública na medida em que ele multiplica
as pragas na terra do Egito, divide o mar Vermelho, engole
terra adentro a família de Coré, transforma água em vinho,
ressuscita os mortos, leva homens egoístas a entregarem
suas vidas por amor e inclina o coração de reis à causa da
verdade. Há uma fome por Deus que vai além do desejo por
experiência pessoal. Ela anela pela manifestação pública da
sua glória no mundo. Ela anela para que as grandes ofensas
contra o nosso Deus sejam vindicadas. Não se contenta em
desejar revelações particulares do seu auxílio salvador, por
mais preciosas que sejam. Ela anseia pelo triunfo aberto da
sua mão no estabelecimento das engrandecedoras verdade
e justiça de Deus – nas universidades, nos tribunais de
justiça, nas agências de propaganda e nos debates políticos
e em toda a mídia da televisão, rádio, jornais, revistas,
filmes e internet. É movida pela paixão pela supremacia de
Deus em todas as coisas para a alegria de todos os povos.
 
O jejum pela glória pública de Deus
 
Se o jejum é um ponto de exclamação no final de uma
sentença do coração, “Ó Deus, mostre-nos sua glória!”,
então ele não é também meramente um assunto pessoal.
Tem a ver com as demonstrações mundiais públicas,
históricas e culturais da glória de Deus que nosso coração
deseja. Este capítulo fala acerca disso. Considerando o
aborto como uma manifestação de uma grande impiedade
na nossa cultura, como devemos, então, orar e jejuar?
 
A vindicação de Francis Schaeffer
 
Francis Schaeffer morreu no dia 5 de maio de 1984. Treze
anos depois, a revista Christianity Today trazia o retrato dele
na sua capa tendo embaixo as palavras: “Nosso Santo
Francis”. No artigo escrito por Michael Hamilton lemos o
tributo que nos últimos vinte anos de sua vida
 
talvez nenhum intelectual, com exceção de C. S. Lewis,
tenha afetado o pensamento dos evangélicos mais
profundamente; talvez nenhum líder do período, a não ser
Billy Graham, tenha deixado uma marca mais profunda no
movimento [do evangelismo americano] como um todo.
Juntos, o casal Schaeffer colocou em voga a ideia de
comunidade cristã intencional, incentivou os evangélicos a
saírem do seu gueto cultural, inspirou um exército de
evangélicos a se tornarem estudiosos dedicados, incentivou
mulheres que haviam escolhido os papéis de mãe e dona de
casa, foi mentor dos líderes do Novo Direito Cristão e
solidificou a oposição evangélica popular ao aborto.[2]
 
Quase vinte anos haviam se passado desde que Schaeffer,
juntamente com C. Everett Koop, lançou seu míssil contra o
aborto, Whatever happened to the human race? (O que
aconteceu com a raça humana?; 1979) – um livro, uma série
de filmes e um circuito de palestras. O mais extraordinário é
que no final do século 20 ele ainda soava muito atual, e tem
se provado muito profético. No seu artigo de 1997, Michael
Hamilton reconhece que “alguns críticos têm recentemente
admitido que o grande quadro traçado [por Schaeffer] tem
se provado duradouro… Em particular ele parece ter sido
presciente quanto à questão da vida humana”.[3]
Quando me volto para as palavras de Schaeffer há duas
décadas, vejo que elas têm um tom profético de
durabilidade e verdade.
 
Na maré da perda do humanitarismo no nosso tempo –
incluindo a inundação da prática do aborto a pedido até o
infanticídio e a eutanásia – a única coisa que pode estancar
essa enchente é a certeza da absoluta singularidade e valor
das pessoas. E a única coisa que nos dá isso é o
conhecimento de que as pessoas são feitas à imagem de
Deus. Não temos nenhuma outra proteção definitiva. E a
única maneira de ficarmos sabendo que as pessoas são
feitas à imagem de Deus é por meio da Bíblia e da
encarnação de Cristo, que também conhecemos pela Bíblia.
Se as pessoas não são feitas à imagem de Deus, o
humanista pessimista e realista está certo: a raça humana é
uma protuberância anormal na face lisa de um universo
silencioso e sem sentido. Nesse contexto, o aborto, o
infanticídio e a eutanásia (incluindo a morte de criminosos
mentalmente perturbados, dos portadores de deficiências
físicas graves ou dos idosos que são um peso econômico)
são todos completamente lógicos… Sem a Bíblia, e sem a
revelação em Cristo (que somente encontramos na Bíblia)
não há nada para servir de obstáculo entre nós e os nossos
filhos e a aceitação final das desumanidades monstruosas
do nosso tempo.[4]
 
Michael Hamilton comenta que “a visão desoladora de
Schaeffer é nos dias de hoje notícia diária”.
 
“Cadáver Jack” Kevorkian já matou mais gente do que Ted
Bundy, mas o Estado de Michigan não consegue reunir
determinação política para fazê-lo parar. Um tribunal federal
proibiu o Estado de Washington de emitir leis que proíbam
os médicos de matar seus pacientes, enquanto a University
of Washington tem permissão de procurar e vender partes
dos corpos de milhares de crianças abortadas a cada ano.
[5]
 
A democracia do aborto mais permissiva do mundo
 
Francis Schaeffer não se surpreenderia se soubesse que os
Estados Unidos se tornaram a mais permissiva de todas as
sociedades democráticas do mundo atual no que diz
respeito ao aborto.
 
Mary Ann Glendon, da Havard Law School, é a autoridade
em lei sobre o aborto no mundo ocidental. Ela observa que,
de todas as sociedades democráticas, os Estados Unidos
são de longe a nação mais permissiva quando se trata do
aborto… Ela observa que a Alemanha, agora unida, adotou
uma nova lei acerca de aborto que dá proteções
significativas ao não nascido. Como no caso de toda
democracia, exceto os Estados Unidos, a lei foi adotada por
meio de política legislativa. Mas o Supremo Tribunal, com
efeito, declarou que o povo americano, que outrora pensava
ser o mestre do mundo em questão de democracia, é
peculiarmente incapaz de governar-se a si mesmo.[6]
 
Esse estranho poder do Supremo Tribunal simboliza quanto
parece ser intratável a posição americana. Sua lógica é que
1,6 milhão de vidas por ano são
 
o preço que deve ser pago para não interferir com os estilos
de vida que pressupõe o aborto a pedido. Essa é a sentença
imposta por decreto judicial sobre uma sociedade na qual
75 por cento do povo dizem que abortos não deveriam ser
permitidos pelas razões que 95 por cento são de fato
realizados.[7]
 
Há uma espécie de desespero que começa a tomar conta de
um povo que não é regido por legisladores, mas por juízes
que declaram que a Constituição diz o que eles querem
fazê-la dizer. Esse desespero leva a se falar emmedidas
desesperadas. Nós já tivemos a matança. Isso também não
surpreenderia Francis Schaeffer, que “definiu aborto como
sendo a questão principal da sociedade americana, chamou
os cristãos à desobediência civil, e até mesmo mencionou a
ideia de resistir ao governo pela força”.[8] Ele concluiu um
dos seus últimos livros, A christian manifesto (Um manifesto
cristão), em 1981, com as palavras: “Se não há lugar final
para a desobediência civil, então o governo se tornou
autônomo, e como tal, ele se colocou no lugar do Deus
vivo”.[9]
 
A legitimidade do regime norte-americano?
 
Novamente, para comprovar as advertências de Francis
Schaeffer, tem havido surpreendentes discussões públicas
recentes a respeito da possível ilegitimidade do atual
regime norte-americano. Em 1996 e 1997, um simpósio que
incluiu, entre outros, William Bennett, Robert Bork, Charles
Colson, James Dobson e Richard John Neuhaus debateu a
questão. “A questão aqui explorada, com total consciência
de suas consequências de longo alcance, é se já chegamos
ou estamos chegando a um ponto em que os cidadãos
conscienciosos não podem mais dar apoio moral ao regime
em vigor.”[10]
Nesse caso não há nenhum endosso para matar os que
praticam o aborto. No entanto, há um sério parecer de que
“uma civilização não pode tolerar execuções privadas, do
mesmo modo que uma civilização não pode sobreviver por
muito tempo à autorização para matar seres humanos
indesejáveis”.[11] Quanto tempo – essa é a questão.
Richard Neuhaus observa que “os efeitos destrutivos da
anomia e da raiva já se evidenciaram como um resultado da
lei divorciada do texto constitucional, argumento moral e
processo democrático. Os elos sempre frágeis da civilidade
são desenredados na medida em que as políticas se tornam,
para parafrasear Clausewitz, guerra que prossegue por
outros meios. A lei ilegal é um convite à ilegalidade”.[12]
 
O que o aborto ensina a uma nação
 
Enquanto isso, a autorização para o aborto destrói uma
coisa preciosa atrás da outra. As crianças são as primeiras
vítimas. As mulheres são as próximas, com a culpa e o
desgosto e os prejuízos físicos e os efeitos múltiplos da
síndrome pós-aborto.[13] Depois vêm os pais com algum
remorso e raiva e grandes quantidades de “comportamento
masculino irresponsável e predatório” incentivados pela
pressuposição de que há uma solução simples para
qualquer gravidez indesejada. A seguir vem a erosão do
panorama moral que tanto depende das virtudes e dos
valores e compromissos que vão além de meras liberdades
individuais autônomas.
Em fevereiro de 1995, diante do Presidente dos Estados
Unidos no National Prayer Breakfast (Café da manhã
nacional de oração), Madre Tereza falou com coragem e
franqueza a respeito desse efeito erosivo do aborto.
 
Sinto que o maior destruidor da paz atualmente é o aborto,
porque é uma guerra contra a criança – uma matança direta
da criança inocente – assassinada pela própria mãe. E se
aceitarmos que uma mãe pode matar até mesmo seu
próprio filho, como podemos dizer a outras pessoas que não
matem umas às outras?…
Pelo aborto, a mãe não aprende a amar; antes, mata até
mesmo seu próprio filho para resolver seus problemas
pessoais. E, pelo aborto, é dito ao pai que não precisa
assumir nenhuma responsabilidade pela criança que ele
trouxe ao mundo. É provável que esse pai coloque outras
mulheres na mesma situação. Então, o aborto leva apenas a
mais aborto. Qualquer país que aceita o aborto em vez de
ensinar seu povo a amar, o ensina a usar qualquer tipo de
violência para obter o que deseja. É por essa razão que o
maior destruidor do amor e da paz é o aborto.[14]
 
Foi isso o que Francis Schaeffer quis dizer quando disse: “A
compaixão… está sendo gradualmente arruinada. E não são
apenas os bebês que estão sendo mortos; é o
humanitarismo que a cosmovisão humanista está
espancando até a morte”.[15]
 
Acerca de não se enxergar as coisas em partes e
fragmentos
 
Aqui é onde Francis Schaeffer se mostrou na sua melhor
forma – no nível das cosmovisões. E esse é certamente o
nível no qual as batalhas mais importantes do universo são
travadas. Schaeffer disse que “o problema básico dos
cristãos neste país nos últimos oitenta anos ou por aí… é
que eles têm visto as coisas em partes e fragmentos em vez
de como um todo”.[16] Ele quis dizer que a cosmovisão que
está por trás das partes e dos fragmentos – como o aborto –
não tem sido entendida e nem resistida. Ele chama essa
cosmovisão que sustenta, enquanto pode, o Ocidente atual,
incluindo o aborto, de “visão da realidade última como
energia material modelada pelo acaso”.
 
Devemos tentar fazer voltar para o nível anterior os
resultados da cosmovisão total que considera a energia-
matéria, modelada pelo acaso, como a realidade última.
Devemos perceber que essa visão irá com certeza inevitável
sempre produzir resultados que não são apenas relativistas,
e nem apenas errados, mas que serão desumanos, não
apenas para as outras pessoas, mas para os nossos filhos e
netos, e nossos filhos espirituais. Produzirá sempre o que é
desumano, pois com seu ponto de vista falso da realidade
total ela não apenas não tem uma base para singularidade
e dignidade da pessoa individual, mas é totalmente
ignorante quanto ao que e quem o homem é.[17]
 
Deus, e não a energia material, é a realidade última. E é ele,
e não o acaso, que modela todas as coisas. A restauração
desta base – a supremacia de Deus em todas as coisas – é o
grande desafio do mundo ocidental. Uma cosmovisão
construída a partir da matéria e do acaso “não deixa espaço
para significado, propósito ou valores no universo e não dá
base para a lei… Seu controle do consenso tem se tornado
esmagadoramente dominante por volta dos últimos
quarenta anos”.[18]
 
Uma cosmovisão de guerra a respeito do aborto
 
Esse é o contexto para a nossa oposição ao aborto. Então,
Schaeffer recomenda não apenas que resistamos às “partes
e fragmentos”, mas à cosmovisão como um todo na
maneira que oramos, lutamos e trabalhamos. “Não há
dúvida de que todo cristão deve orar e trabalhar para anular
a lei abominável do aborto. Porém, enquanto oramos e
trabalhamos devemos ter em mente não apenas essa
importante questão como se ela existisse isoladamente.
Antes, devemos lutar e orar para que a totalidade desta
outra entidade – a visão da realidade última como energia
material modelada pelo acaso – possa ser desmantelada
com todos os seus resultados em todas as áreas da
vida.”[19]
Os esforços pró-vida mais convincentes atualmente
abrangem esse objetivo. O ponto de vista de David Reardon
é um exemplo que se liga explicitamente à abordagem da
cosmovisão de Schaeffer. Reardon, um eticista biomédico,
faz eco às preocupações de Schaeffer na sua estratégia
específica:
 
O objetivo político de tornar o aborto ilegal tem sido sempre
uma visão truncada. Nosso desejo real tem sido sempre
criar uma cultura na qual o aborto não seja apenas ilegal,
mas impensável. Nesse tipo de cultura, os riscos físicos,
psicológicos e espirituais do aborto serão do conhecimento
de todos. Nesse tipo de cultura, o compromisso, a
compaixão e um senso de dever de ajudar e proteger tanto
a mãe quanto a criança será universal.[20]
 
A palavra-chave é “impensável”. E foi Schaeffer quem disse,
dezessete anos atrás: “Em todas as eras, há um ‘pensável’
e um ‘impensável’”.[21] E é a cosmovisão subjacente que
governa tanto o que é pensável quanto o impensável.
Portanto, Reardon e Schaeffer, e as pessoas mais sérias de
hoje, se dão conta de que a batalha acerca do aborto é mais
profunda para a alma da cultura e sua cosmovisão.[22]
 
O lugar da oração e do jejum
 
Como, então, devemos resistir e reformar? Nos últimos anos
da sua vida, Schaeffer estava cada vez mais orientado para
a arena política e cada vez mais desencantado com a
piedade estreita do evangelicalismo – a “maioria da maioria
silenciosa” que tinha “dois valoresfalidos – paz pessoal e
abundância”.[23] A ênfase dele era um chamado profético e
oportuno.
Mas eu me pergunto se muitos dos jovens eruditos e
ativistas (agora em seus 40 e 50 anos de idade) que ele
inspirou, não precisariam ouvir uma palavra equilibrada
acerca do poder da oração e do jejum, não como uma
alternativa para o pensamento e a ação, mas como uma
base radical que diz: “O cavalo prepara-se para o dia da
batalha, mas a vitória vem do Senhor” (Pv 21.31). Atentem
para os livros que clamam por renovação e reforma
evangélica na vida da mente, pela restauração da verdade
no lugar da técnica, pela recuperação da compaixão social
da igreja da impotência governamental, pela tomada do
terreno elevado da moral na causa ambientalista, e muitas
outras causas. Há um sentido em cada um desses pontos
que as questões básicas são tão intratáveis à persuasão
humana que o chamado para o jejum e a oração não seria
apenas oportuno, mas desesperadamente necessário? Eu
estou recomendando esse chamado.
 
Jejuar e orar por brechas na cosmovisão
 
Esse não foi o chamado principal de Schaeffer no fim da sua
vida, e para alguns hoje, isso não faz parte do horizonte –
que o jejum e a oração poderiam trazer as brechas sobre as
quais eles escrevem e trabalham de modo tão ardente.
Schaeffer disse: “Todo cristão deveria estar orando e
trabalhando para anular a lei abominável do aborto…
Deveríamos estar lutando e orando para que a totalidade
desta outra entidade – a cosmovisão da realidade última
como energia material modelada pelo acaso – possa ser
desmantelada”.[24] Fico pensando se os estudiosos e os
ativistas no mínimo levam isso a sério. Confesso que minha
própria oração por brechas na cosmovisão não é o que
deveria ser. Muito facilmente me acomodo num estado
mental fatalista e resignado quando se trata de questões de
mentalidade secular, teologias incorretas, corrupção
institucional, instituições corruptas, falsidade filosófica e
tendências culturais pervasivas.
Porém, essa não é a hora para resignação ou fatalismo. É
tempo para oração e jejum radicais, para que todo o nosso
pensamento, toda a nossa pregação, todos os nossos
escritos e todas as nossas ações sociais e missões tenham
neles o aroma de Deus e sejam portadores de um golpe
transformador muito além de qualquer coisa que o mero
homem possa fazer. Então, que possa ser dito, além de toda
expectativa e possibilidade humanas: “Cinco de vós
perseguirão a cem, e cem dentre vós perseguirão a dez mil;
e os vossos inimigos cairão à espada diante de vós” (Lv
26.8).
 
Evitando uma mentalidade de cerco na Babilônia
 
Onde haveremos de encontrar a confiança e a coragem
para jejuar e orar por tais questões de alcance geral na
cosmovisão?
Sugiro que consideremos a história bíblica de Esdras,
especialmente Esdras 8.21-23. Deixe-me dar alguma
informação quanto ao contexto formador de fé dessa
passagem para que você possa considerá-la com toda a
força que Esdras coloca nela, e com toda a sua relevância
para as nossas preocupações quanto à cosmovisão.
Israel tinha sido levado cativo para a Babilônia. Eles tinham
ali estado por três décadas. Agora era chegada a hora,
segundo o cálculo de Deus, para a restauração deles. Mas
como isso poderia ser feito? Eles eram uma minúscula
minoria étnica no imenso império persa. A resposta é que
Deus domina sobre os impérios. E quando sua hora é
chegada para seu povo se mover, ele move os impérios.
Esse é o ponto principal dos primeiros oito capítulos desse
livro de Esdras. E ele é poderosamente gerador de
esperança para o povo de Deus toda vez que deslizamos
para uma mentalidade de cerco.
Consideremos, primeiro, Esdras 1.1-2.
 
No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se
cumprisse a palavra do
Senhor
, por boca de Jeremias, despertou o
Senhor
o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por
todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim
diz Ciro, rei da Pérsia: O
Senhor
, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me
encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém de Judá.
 
Não deixe de observar o governo soberano de Deus sobre a
mente e a vontade de Ciro, o rei mais poderoso do mundo
na época. Deus havia profetizado por meio de Jeremias que
o povo voltaria para a sua própria terra: “Assim diz o
Senhor: Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta
anos, atentarei para vós outros e cumprirei para convosco a
minha boa palavra, tornando a trazer-vos para esse lugar”
(Jr 29.10). Deus nunca deixa as suas profecias pendentes da
vontade incerta do homem. Ele não prediz simplesmente;
ele age para cumprir as predições que faz. É por essa razão
que suas predições são tão certas quanto ele é poderoso.
E então Esdras disse: “despertou o Senhor o espírito de
Ciro, rei da Pérsia” (Ed 1.1). Ciro não vivenciou meramente
de modo inexplicável o cumprimento de uma profecia; ele
vivenciou o próprio Deus trabalhando soberanamente para
cumprir essa profecia. Aí está a resposta. Quando Deus está
pronto para fazer algo importante no mundo, ele pode fazê-
lo – seja por meio de um rei persa, ou de um profeta, ou de
um livro científico, ou de um trabalhador cristão pró-vida. A
chave é a absoluta soberania de Deus sobre os impérios do
mundo, sobre as mentes e sobre as vontades de reis,
estudiosos, políticos e reitores de universidades.
 
Até mesmo os reveses são destinados a benefícios
maiores
 
Eis o que acontece. Uma primeira onda de refugiados
retorna a Israel, vindos da Babilônia – mais de 42 mil deles.
Eles começam a construir o templo. Porém, seus inimigos
em Judá se lhes opõem e escrevem ao novo imperador,
Artaxerxes, dizendo a ele que uma cidade rebelde está
sendo reconstruída (4.12). Então, Artaxerxes paralisa as
obras do templo e fica parecendo que os planos de Deus
foram frustrados. Essa é a maneira que as coisas
acontecem com frequência – um grande movimento da
igreja, ou da cidade, ou da cultura como um todo na direção
certa, e então um revés. Isso quase sempre leva os
pessimistas, que pensam pouco de Deus, a reclamarem.
Mas essa história é destinada a nos manter esperançosos.
Deus tinha um plano diferente e melhor que não era apenas
a despeito da oposição e do revés, mas que os incluía. Que
possamos aprender que os anos magros, cheios de
problemas, são preparativos para as bênçãos de Deus. Mais
cedo ou mais tarde ele transforma tudo para o bem. Ele é
Deus. Nesse caso, eis como ele faz isso. Segundo Esdras
5.1, Deus enviou dois profetas, Ageu e Zacarias, que
inspiraram o povo a recomeçar a obra de reconstrução.
 
Sê forte, Zorobabel, diz o
Senhor
, e sê forte, Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, e
tu, todo o povo da terra, sê forte, diz o
Senhor
, e trabalhai, porque eu sou convosco, diz o
Senhor
dos Exércitos… Minha é a prata, meu é o ouro, diz o
Senhor
dos Exércitos… A glória desta última casa será maior do que
a da primeira, diz o
Senhor
dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o
Senhor
dos Exércitos.
Ageu 2.4, 8-9
 
Porém, como frequentemente acontece, uma nova
manifestação de energia e progresso desencadeia nova
oposição. É o que ocorre nesse caso: os inimigos tentam a
mesma tática de antes. Dessa vez, eles escrevem uma carta
a Dario, o novo imperador, na esperança de paralisar as
obras em Jerusalém. Só que dessa vez o tiro sai pela
culatra, e podemos ver a razão pela qual Deus tinha
permitido cessar a construção temporariamente em
primeiro lugar.
Dario faz uma pesquisa antes de responder aos inimigos de
Israel. Ele pesquisa os arquivos e encontra o decreto original
de Ciro, autorizando a construção do templo. Então, em
Esdras 6.7-8 ele escreve de volta as surpreendentes notícias
– muito além do que os maltrapilhos israelitas poderiam
pedir ou pensar. Dario diz aos inimigos de Judá:
 
Não interrompais a obra dessa Casa de Deus, para que o
governador dos judeus e os seus anciãos reedifiquem a
Casa de Deus no seulugar. Também por mim se decreta o
que haveis de fazer a esses anciãos dos judeus, para que
reedifiquem essa Casa de Deus, a saber, que da tesouraria
real, isso é, dos tributos dalém do rio, se pague,
pontualmente, a despesa a esses homens, para que não se
interrompa a obra.
 
Um revés extraordinário. Que grande Deus! Os judeus
pensaram que os inimigos tinham triunfado. No entanto,
Deus estava simplesmente trabalhando a História para que
os inimigos não apenas permitissem a construção do
templo, mas também pagassem por ela. Esdras 6.22 afirma
claramente o grande fato: “porque o Senhor os tinha
alegrado, mudando o coração do rei da Assíria a favor deles,
para lhes fortalecer as mãos na obra da Casa de Deus, o
Deus de Israel”. Deus governa os corações de reis,
imperadores, cientistas, estudiosos, juízes, governadores e
prefeitos. Este é o grande fundamento para o jejum e
oração por interesses de âmbito mundial – Deus pode
converter as pessoas, e pode moldar o pensamento delas
mesmo quando elas não são convertidas. Portanto, nesse
acontecimento, aprendemos importantes lições para a
nossa luta de fazer a verdade prevalecer na igreja e na
cultura.
 
Não julgue o Senhor por um sentido fraco
Mas confie nele pela sua graça
Por trás de uma providência carrancuda
Ele esconde uma face sorridente.[25]
 
Há nesse caso lições importantes para nós. Cite seu revés
desalentador – pessoal, político, científico, eclesiástico,
cultural ou global. Que cristão se atreveria a dizer que Deus
não está nele pelo bem do seu povo e da glória do seu
nome? Não se o nosso Deus é o Deus de Esdras. Você pensa
que esses reveses estão destituídos de algum propósito
maior de justiça e mais extraordinário do que qualquer um
de nós poderia imaginar?
 
O coração do rei é uma corrente de água nas mãos de
Deus
 
Então, Esdras entra no cenário com um retrospecto do
reinado de Artaxerxes. O rei envia Esdras com um grupo de
pessoas de volta a Jerusalém. De acordo com Esdras 7.6 o
rei lhe dá tudo o que ele quer para a jornada. E então, por
que o mesmo rei que parara a construção do templo faria
uma coisa dessas? Esdras dá a resposta na sua oração em
7.27: “Bendito seja o Senhor, Deus de nossos pais, que
desse modo moveu o coração do rei”. Deus fez isso. Deus
colocou isso no coração do rei.
Ele fez isso com Ciro (1.1); ele fez com Dario (6.22); e ele
fez com Artaxerxes (7.27): “Como ribeiros de águas assim é
o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu
querer, o inclina” (Pv 21.1). Deus está governando o mundo.
Ele está no comando da História. “Ó profundidade da
riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de
Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão
inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.33). Não
podemos entender a sabedoria infinita de seus caminhos.
Cabe-nos confiar, obedecer e orar – e, como veremos,
jejuar.
 
Jejuando diante de um Deus que é soberano no
mundo
 
Isso nos leva ao que Esdras fez quando deixou o cativeiro
em sua jornada de volta a Jerusalém. Ele recusou uma
escolta do exército para que pudesse testemunhar a
Artaxerxes acerca do poder e da fidelidade de Deus em
proteger o seu grupo de pessoas. Em vez da ajuda do rei,
ele buscou a ajuda de Deus, e a buscou com jejum. Esdras
8.21-23 registra:
 
Então, apregoei ali um jejum junto ao rio Aava, para nos
humilharmos perante o nosso Deus, para lhe pedirmos
jornada feliz para nós, para nossos filhos [aqui temos a
associação com salvar das crianças do aborto] e para tudo o
que era nosso. Porque tive vergonha de pedir ao rei exército
e cavaleiros para nos defenderem do inimigo no caminho,
porquanto já lhe havíamos dito: A boa mão do nosso Deus é
sobre todos os que o buscam, para o bem deles; mas a sua
força e a sua ira, contra todos os que o abandonam. Nós,
pois, jejuamos e pedimos isso ao nosso Deus, e ele nos
atendeu.
 
No versículo 21, o jejum é uma expressão de humildade –
ou seja, o nosso senso de dependência desesperada e total
de Deus para o que precisamos. “Então, apregoei ali um
jejum junto ao rio Aava, para nos humilharmos.” E se
qualquer coisa está clara a partir da análise de Francis
Schaeffer dos fundamentos do aborto, é que a cosmovisão
humanista do aborto que permeia a cultura norte-americana
é tão refratária a qualquer tentativa de mudança que somos
totalmente dependentes de Deus para resistir a isso e
transformar a situação. Argumentação fiel, escritos
persuasivos, ativismo social e envolvimento político – tudo
isso tem o seu lugar. No entanto, a menos que o soberano
Deus mova as mentes obscurecidas (como ele fez com Ciro,
Dario e Artaxerxes), o melhor raciocínio e ação serão
tomados cativos e virados de cabeça para baixo.
Para Esdras, porém, o jejum não era apenas uma expressão
de humildade e desespero; era uma expressão de desejar a
Deus com a seriedade de uma questão de vida e morte.
“Nós, pois, jejuamos e pedimos isso ao nosso Deus.” O
jejum anda junto com a oração com toda a sua fome por
Deus e diz: “Não somos capazes, por nós mesmos, de
vencer essa batalha. Não somos capazes de mudar
corações e mentes. Não somos capazes de mudar
cosmovisões, transformar a cultura e salvar 1,6 milhão de
crianças. Não somos capazes de reformar o poder judiciário
ou incentivar a legislatura ou mobilizar a população inativa.
Não somos capazes de curar as intermináveis feridas de
ideologias impiedosas e suas ações sangrentas. Mas, ó
Deus, tu és capaz! E deixamos de confiar em nós mesmos
para confiar no Senhor. E nós clamamos a ti, e rogamos que,
por amor do teu nome, e por amor de tua glória, e para o
progresso do teu propósito salvador no mundo, e para
demonstração da tua sabedoria, do teu poder e autoridade
sobre todas as coisas, e para domínio da tua verdade e o
alívio dos pobres e desamparados, age, ó Deus. Estamos,
assim, famintos pela revelação do teu poder. Com todo o
nosso pensar, todos os nossos escritos e todas as nossas
ações, oramos e jejuamos. Vem. Manifesta a tua glória”.
O resultado misericordioso do jejum e da oração é
mencionado no final de Esdras 8.23: “e ele nos atendeu”. As
crianças foram poupadas. O coração do rei foi inclinado. Os
inimigos foram desviados. Isto é uma coisa extraordinária –
que um Deus que inclina as mentes dos reis ordene que ele
seja inclinado pelos fracos para enviar seu poder soberano
em favor deles.
 
“Negociai até que eu volte”
 
Eu faço a você um apelo para que busque o Senhor comigo
com relação ao lugar do jejum e da oração pelas brechas
nas mentes obscurecidas que subjugam o mundo moderno,
com respeito ao aborto e uma centena de outros males.
Esse não é um chamado para um acesso de fúria coletivo
que grita às pessoas más: “Devolva-me o meu país”. É,
antes, um chamado para os forasteiros e peregrinos na
terra, cuja cidadania está no céu e que esperam a vinda do
Rei deles, que disse: “Negociai até que eu volte” (Lc 19.13).
E os grandes negócios do cristão são “fazei tudo para a
glória de Deus” (1Co 10.31), e para orar para que o nome
de Deus seja santificado e seu reino venha e sua vontade
seja feita na terra (Mt 6.9-10). E para ansiar, trabalhar, orar
e jejuar não apenas pela revelação final do Filho do Homem,
mas enquanto isso, pela demonstração do seu Espírito e
poder em alcançar todos os povos, e o resgate dos que
perecem, e a purificação da igreja, e o acertar de tantas
coisas erradas quantas Deus permitir.
É verdade que encontrar o equilíbrio bíblico para trabalhar
entre tarefas dessa magnitude não é fácil. Mas isso também
pode ser fruto do jejum fiel. Possa o Senhor conceder que a
grandeza do nosso chamado não paralise os nossos desejos.
Mas possa a nossa fome por demonstrações públicas e
particulares da glória do nosso grande Deus encontrar alívio
no jejum e na oração e em toda boa obra.
 
Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome,
porque sereis fartos.
Lucas 6.21
 
Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser
restituído?Porque dele, e por meio dele, e para ele são
todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!
Romanos 11.35-36
 
Deus se agradou em instituir a oração como antecedente da
concessão de misericórdia; e ele se agrada em conceder
misericórdia em consequência de oração, como se ele fosse
persuadido somente pela oração. Quando o povo de Deus é
levado a orar, isso é o efeito da sua intenção de mostrar
misericórdia; portanto, ele derrama o espírito da graça e
súplica.
 
Jonathan Edwards
The most high a prayer-hearing God[1]
Conclusão
 
Por que Deus recompensa o jejum?
 
Uma pergunta crucial permanece: por que Deus responde
ao jejum? Por que ele nos recompensa quando jejuamos?
Que ele faz isso é evidente pelas numerosas ocorrências nas
páginas da Bíblia e na História. E Jesus prometeu que ele
faria isso: “e teu Pai, que vê [seu jejum] em secreto, te
recompensará” (Mt 6.18). A pergunta é urgente porque uma
resposta incorreta pode desonrar a Deus e nos causar
grande dano.
 
Uma resposta que desonra a Deus e nos causa dano
 
Por exemplo, suponha que digamos que jejuar gera
recompensas de Deus porque elas são alcançadas porque
demonstram os méritos daquele que jejua. Isso desonraria a
Deus porque estaria transformando sua graça gratuita
numa transação comercial. Implicaria que o jejum provém,
em última instância, da própria vontade de cada um, e que
essa disciplina autocriada é então oferecida a Deus em
troca de recompensa. Isso é uma ofensa a Deus porque
afirma ser nosso o que pertence somente a ele, a saber, a
iniciativa suprema da oração e do jejum. Desse modo nos
colocamos no lugar de Deus e invalidamos a gratuidade da
sua graça.
Isso causa grande dano também para nós. Se escolhermos
nos relacionar com Deus dessa maneira, no fim não
seremos os beneficiários da graça, mas somente da justiça
distribuitiva. Isso significará que recebemos de Deus o que
merecemos, em vez do “dom gratuito” da vida eterna (Rm
6.23). Fazendo uso dos termos do apóstolo Paulo, essa
maneira de ver a resposta de Deus ao jejum se torna em
“obras”. Vemos isso em Romanos 4.4: “Ao que trabalha, o
salário não é considerado como favor, e sim como dívida”.
Traduzido literalmente: “Para aquele que trabalha, a
recompensa não é contada segundo a graça, mas de acordo
com o débito”. Se dissermos que Deus recompensa o jejum
pelo pagamento de “salário” ou acertando “débitos” com
aqueles que ganharam ou mereceram sua recompensa pelo
jejum, então agimos como se “a recompensa não é contada
segundo a graça”. E essa é uma maneira fatal de nos
relacionarmos com Deus. Isso porque a única alternativa à
graça gratuita é a condenação.
Deus não nos salva “pela graça… mediante a fé” (Ef 2.8) e
depois recompensa nosso jejum “pela justiça… pelas
obras”. A recompensa da justificação e cada recompensa
subsequente chegam a nós nos mesmos termos e pelos
mesmos meios: com base na obra de Deus em Cristo, a
saber, sua morte expiatória (Rm 3.24), e por meio das obras
de Deus em nós, a saber, nossa fé transformadora de vida
(Ef 2.8; Gl 5.6). A tentativa de merecer ou obter qualquer
coisa de Deus é maligna e fatal antes e depois da nossa
conversão. Um ato que anula a graça é maligno e fatal seja
quando for que você o pratique.
Portanto, uma resposta errada à pergunta de por que Deus
recompensa o jejum pode desonrar a Deus e nos causar
grandes males. É extremamente importante que
respondamos corretamente a essa pergunta. Estão em jogo
tanto a glória de Deus quanto o nosso bem.
 
O jejum é “dele e por meio dele e para ele”
 
Deus não responde ao jejum porque ele lhe revela um novo
conhecimento sobre a nossa fé ou a nossa devoção. Ele
conhece o nosso coração melhor do que nós mesmos. De
fato, nosso novo coração nascido da fé é a obra das mãos
do próprio Deus. Ele nos conhece porque conhece suas
próprias obras. “Pois somos feitura dele, criados em Cristo
Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou
para que andássemos nelas” (Ef 2.10). E ele não apenas nos
criou como criaturas de fé, mas ainda continua trabalhando
em nós “operando em vós o que é agradável diante dele”
(Hb 13.21). É nosso dever e deleite escolher obedecer-lhe
todo o tempo, mas nunca devemos nos esquecer de que
“Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar,
segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13).
A razão mais fundamental pela qual o jejum não pode
merecer coisa alguma de Deus é que ele é um dom de
Deus. É algo que Deus está “operando em nós”. Você não
pode esperar que Deus pague pelo que já é dele. Isso é o
que Paulo quis dizer em Romanos 11.35-36: “Ou quem
primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?
Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas.
A ele, pois, a glória eternamente. Amém”. Isso inclui o
jejum. Porque dele, por meio dele, e para ele são todas as
coisas. Não é primeiramente oferecido a Deus para que
possamos receber pagamento por causa disso. É
primeiramente dado por Deus para que possamos nos
beneficiar do que foi dado e para que ele possa ser
glorificado por meio disso.
 
A origem última do sacrifício
 
Quando o rei Salomão viu seu povo renunciando às suas
riquezas em favor da construção do templo, da mesma
maneira que alguém poderia renunciar ao alimento no
jejum, ele não se envaideceu por causa da virtude auto-
operada do seu povo; ele sentiu-se humilde pelo fato de
Deus ter dado tal graça de generosidade. Ele disse: “Porque
quem sou eu, e quem é o meu povo para que pudéssemos
dar voluntariamente estas coisas? Porque tudo vem de ti, e
das tuas mãos to damos” (1Cr 29.14). É dessa maneira que
devemos falar acerca do jejum. Não há motivo para
vanglória quanto a isso. Quem sou eu para ser capaz de
jejuar? Ninguém. Não há nada em mim que escolheria isso
para a sua glória à parte da sua graça transformadora. E
quando Salomão olhou para o futuro e avaliou se esse
sacrifício de coração continuaria ele orou: “Senhor…
conserva para sempre no coração do teu povo estas
disposições e pensamentos, inclina-lhe o coração para
contigo” (1Cr 29.18). E assim, devemos orar acerca do
nosso próprio jejum e do jejum da igreja cristã: Ó Senhor,
conserva as intenções vivas de jejuar que vós criastes, e
dirija os corações do teu povo sempre para ti como a fonte
de toda alegria.
 
A recompensa é pela impotência e esperança em
Deus
 
Bem, se Deus não recompensa o jejum porque nós o
criamos e oferecemos a ele para obter a recompensa, por
que ele o recompensa? Se, de fato, o próprio Deus é o
Criador e Sustentador do jejum, por que designou esse ato
como uma ocasião de sua recompensa? A resposta é que
Deus comprometeu-se a recompensar esses atos do
coração humano que exprimem a impotência humana e a
esperança em Deus. Nas Escrituras, repetidas vezes Deus
promete vir em auxílio daqueles que deixam de depender
deles mesmos e buscam a Deus como o tesouro deles e
auxílio.
 
Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós,
os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim,
vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.
Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso
suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente,
comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares.
Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma
viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que
consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi. (Is 55.1-
3)
 
Deus promete água, vinho, leite e vida, que o dinheiro não
pode comprar, precisamente àqueles que não têm dinheiro,
mas somente sede, se eles se desviarem do que o dinheiro
pode comprar e se achegarem a ele. “Eu, a quem tem sede,
darei de graça da fonte da água da vida… Aquele que tem
sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”
(Ap 21.6; 22.17). A recompensa da vida vem não para
aqueles que podem comprar ou trabalhar por ela. Ela é “de
graça”. É gratuita. O “preço” é a sede que abandona as
cisternasrotas do mundo e procura a fonte inesgotável em
Deus.
São os “pobres de espírito” que serão recompensados com
o reino dos céus (Mt 5.3). São aqueles que esperam no
Senhor, ou seja, “que nele espera” para os quais ele
trabalha (Is 64.4). São aqueles que “confiaram no Senhor”,
e não em seus cavalos ou carruagens, que triunfarão pelo
seu poder (1Cr 5.20; 2Cr 13.18; Sl 20.7). São aqueles que se
agradam do Senhor e confiam nele que terão os desejos dos
seus corações satisfeitos (Sl 37.4-5). Os sacrifícios que são
aceitáveis a Deus são o espírito quebrantado e um coração
compungido e contrito; essas coisas vazias ele
recompensará (Sl 51.17). A pessoa que serve a Deus não
em sua própria força, mas com a “força que Deus supre”
será recompensada pelo Senhor (1Pe 4.11).
 
O compromisso maior de Deus é com sua glória
 
Deus recompensa os atos do coração humano que
expressam impotência humana e esperança em Deus. A
razão para isso é que esses atos chamam a atenção para a
glória de Deus. O versículo 11 de 1Pedro 4 torna isso
evidente: “se alguém serve, faça-o na força que Deus supre,
para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por
meio de Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o
domínio pelos séculos dos séculos. Amém”. Certifique-se de
estar vendo a lógica do versículo: se você serve não na sua
própria força, mas na força que Deus supre, então Deus
recebe a glória e o doador também a recebe.
Deus está comprometido em fazer tudo para a sua glória.
Isso também é mostrado ao longo das Escrituras, como
Jonathan Edwards demonstrou de modo tão enfático na sua
obra intitulada Dissertation concerning the end for which
God created the world (Dissertação a respeito do fim para o
qual Deus criou o mundo). “Parece que tudo que é dito nas
Escrituras como um fim último das obras de Deus se resume
numa única expressão: ‘a glória de Deus’.”[2] Deus elegeu o
seu povo antes da fundação do mundo para a sua glória (Ef
1.6). Ele criou a humanidade para a sua glória (Is 43.7).
Escolheu Israel para a sua glória (Is 49.3). Ele os libertou do
Egito para a sua glória (Sl 106.7-8). Os restaurou depois do
exílio para a sua glória (Is 48.9-11). Enviou seu Filho para
confirmar sua fidedignidade para que os gentios o
glorificassem pela sua misericórdia (Rm 15.8-9). Mandou o
seu Filho para morrer para manifestar a glória da sua justiça
vindicada (Rm 3.25-26). Enviou o Espírito Santo para
glorificar seu Filho (Jo 16.14). Ordenou a seu povo fazer
todas as coisas para sua glória (1Co 10.31). Ele enviará seu
Filho uma segunda vez para receber a glória que lhe é
devida (2Ts 1.9-10). E, no fim, encherá a terra com o
conhecimento da sua glória (Hc 2.14).
O objetivo final de Deus em tudo o que ele faz é que sua
glória possa ser demonstrada para a apreciação daqueles
que a aceitam, e para a desolação daqueles que não o
fazem. Portanto, ele recompensa os atos que confessam a
impotência humana e que expressam esperança nele,
porque esses atos chamam a atenção para a sua glória.
 
Uma oferta de vazio para mostrar onde a plenitude
pode ser encontrada
 
A oração é explicitamente designada para esse propósito:
“E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de
que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14.13). Deus responde
as orações porque quando olhamos além de nós mesmos
para Cristo como a nossa única esperança, isso dá ao Pai
uma ocasião de magnificar a glória da sua graça na obra
todo-provedora do seu Filho.
Do mesmo modo, o jejum é peculiarmente apropriado para
glorificar a Deus dessa maneira. É fundamentalmente uma
oferta de vazio a Deus em esperança. É um sacrifício de
necessidade e fome. Ele diz, pela sua própria natureza: “Pai,
eu estou vazio, mas vós sois a plenitude. Estou faminto,
mas sois o Pão dos Céus. Estou sedento, mas sois a Fonte
da Vida. Estou fraco, mas sois forte. Estou pobre, mas sois
rico. Sou tolo, mas sois sábio. Estou quebrado, mas sois
completo. Estou morrendo, mas ‘a tua graça é melhor do
que a vida’” (Sl 63.3).
Quando Deus ouve essa confissão de necessidade e vê essa
expressão de confiança, ele age, porque a glória da sua
graça todo-suficiente está em jogo. A resposta final é que
Deus recompensa o jejum porque o jejum expressa o clamor
do coração de que nada na terra pode satisfazer a nossa
alma a não ser Deus. Deus deve recompensar esse clamor
porque ele é mais glorificado em nós quando estamos mais
satisfeitos nele.
 
Lembrai-vos dos vossos guias,
os quais vos pregaram a palavra de Deus;
e, considerando atentamente o fim da sua vida,
imitai a fé que tiveram.
Hebreus 13.7
 
Alguns, sob o pretexto de serem ensinados pelo Espírito de
Deus, recusam-se a ser instruídos por livros ou por homens
vivos. Isso não é honrar o Espírito de Deus. É um
desrespeito para com ele, pois se ele dá a alguns dos seus
servos mais luz do que a outros – e é óbvio que ele o faz –
então, eles têm obrigação de dar essa luz aos outros, e a
usá-la para o bem da igreja. Mas se a outra parte da igreja
se recusa receber essa luz, com que finalidade o Espírito de
Deus a daria? Isso implicaria que existe um erro em alguma
parte da economia dos dons e das graças de Deus, que é
administrado pelo Espírito Santo.
 
Charles Spurgeon
Words of counsel for Christian workers[1]
Apêndice
 
Citações e experiências
 
Essas citações e experiências são uma amostragem das leituras que fiz
como preparação para escrever este livro. Eu as incluo aqui para
inspiração e instrução, mas sem qualquer afirmação de que concordo
com tudo o que é dito. As fontes são dadas para que o leitor possa se
inteirar do contexto. Algumas vezes, apenas um comentário passageiro
pode causar tanto impacto em nós quanto um capítulo ou um livro
inteiro. Pode ser que Deus use uma dessas breves declarações para
despertar em alguém uma fome por Deus.
 
Inácio
(Bispo de Antioquia no final do século 1o)
 
Devote-se ao jejum e à oração, mas não além da conta,
para não se destruir por meio disso. Não se abstenha de
todo do vinho e de carne, pois essas coisas não devem ser
vistas com desdém, visto que [as Escrituras] dizem:
“comereis a fartura da terra” (Gn 45.18). E novamente:
“comereis a carne… e ervas” (Êx 12.8). E outra vez: “o
vinho, que alegra o coração do homem, o azeite, que lhe dá
brilho ao rosto, e o alimento, que lhe sustém as forças” (Sl
104.15). Mas tudo deve ser usado com moderação, como
sendo dádivas de Deus. “Pois quem comerá ou quem
beberá sem ele? Pois se alguma coisa bela há, é dele; e se
alguma coisa boa há, é dele.”
 
The epistle to hero, Capítulo 1 (Albany, OR: Sage Software,
1995), p. 223.
 
Agostinho
(Bispo de Hipona que viveu de 354 a 430)
 
Ao comer e beber nós restauramos o nosso corpo dos
desgastes diários, até que tu destruas tanto o estômago
quanto a carne, quando tiveres destruído o meu vazio com
uma plenitude maravilhosa, e vestido o corruptível com
uma incorrupção eterna. Mas por ora a necessidade é doce
para mim, doçura contra qual eu luto, para que não seja
feito cativo; e prossigo com uma guerra diária por meio de
jejuns, frequentemente obrigando o meu corpo a se sujeitar
e minhas dores são eliminadas pelo prazer… Muitas vezes é
incerto se devem ser os cuidados necessários com o corpo
que ainda estão pedindo alimento, ou se é uma ilusão
volutuosa que vem da ganância que está oferecendo seus
serviços. Nessa incerteza, a alma infeliz se rejubila, e dessa
maneira prepara uma desculpa para se proteger, feliz que
não apareça o que é suficiente para o comedimento da
saúde, para que, com a desculpa da saúde, ela possa
disfarçar a questão da gratificação. A essas tentações eu
me empenho diariamente para resistir, e apelo para tua
mão direita, e a ti eu falo das minhas perplexidades; porque
não tenho até este momento nenhum conselho seguro.
 
The confessions (Nova York: Washington Square Press,
1962), p. 198-199.
 
 
Se perguntado sobre a minha opinião acerca dessa questão,
eu responderia,depois de cuidadosamente pensar sobre o
assunto, que nos evangelhos e Epístolas, e em toda a
coleção de livros para a nossa instrução, chamada Novo
Testamento, vejo que o jejum é ordenado. No entanto, não
descubro qualquer regra definitivamente traçada pelo
Senhor ou pelos apóstolos quanto aos dias nos quais
devemos ou não jejuar. E, por causa disso, estou persuadido
de que a dispensa de jejuar no sétimo dia é mais
conveniente, não na verdade para obter, mas para
prefigurar aquele descanso eterno no qual o verdadeiro
sabá é cumprido, e que é obtido somente pela fé, e por
aquela justiça pela qual a filha do Rei é todo-gloriosa
interiormente.
 
Letter XXXVI, Capítulo 11, citado do CD ROM da Electronic
Bible Society, vol. 1.
 
Cirilo de Jerusalém
(Bispo de Jerusalém que viveu de 315 a 386)
 
Não sejas, portanto, daqui em diante uma víbora, mas como
tu foste antes da linhagem de uma víbora, dispa-te, disse
ele, da casca de cobra da tua antiga vida pecaminosa. Pois
toda serpente se arrasta para dentro de um buraco e, tendo
se livrado da pela velha, seu corpo torna-se jovem
novamente. De modo semelhante, entra tu também pela
porta estreita e apertada, dispa-te do teu antigo eu pelo
jejum, e expulsa de ti o que está te destruindo.
 
The catechetical lectures of our holy father, Cyril,
Archbishop of Jerusalem, sermão iii, “On baptism”, parágr.
7, citado do CD ROM da Electronic Bible Society, vol. 1.
 
Martinho Lutero
(Reformador alemão que viveu de 1483 a 1546)
 
[De um sermão sobre Mt 4.1s. em 1524.] A respeito do
jejum eu digo o seguinte: é correto jejuar com frequência
com a finalidade de subjugar e controlar o corpo. Isso
porque quando o estômago está cheio, o corpo não é útil
para pregar, orar, estudar ou para fazer qualquer outra
coisa que seja boa. Sob tais circunstâncias, a Palavra de
Deus não pode permanecer. Mas a pessoa não deve jejuar
com vistas a merecer alguma coisa por meio disso, como se
por uma boa obra.
 
What Luther says, vol. 1, compilado por Ewald M. Plass (St.
Louis: Concordia Publishing House, 1959), p. 506.
 
 
[Acerca da sobriedade de mente da qual Pedro exorta em
1Pe 1.13, Lutero comenta sobre as necessidades variadas
de diferentes pessoas.] Ele não fixa um tempo determinado,
por quanto tempo devemos jejuar, como o papa fez, mas
deixa ao indivíduo decidir como fazê-lo de modo a sempre
permanecer sóbrio, e não sobrecarregar o corpo com
glutonaria, para que ele possa permanecer de posse da
razão e reflexões e a determinar quanto deve fazer para
manter seu corpo sob controle. Isso porque é totalmente
inútil impor uma ordem acerca disso para um grupo inteiro
e uma congregação, visto que somos diferentes uns dos
outros: um forte, outro fraco no corpo, de modo que um
deve mortificar o corpo mais e o outro menos, para que
possa permanecer são e capaz de serviço adequado… É
bom jejuar. Mas só pode ser chamado jejum verdadeiro
quando não damos ao corpo mais alimento do que ele
precisa para manter sua saúde. Deixe o corpo trabalhar e se
cansar, para que o velho asno não se torne por demais
imoderado e que, indo dançar em terreno perigoso, quebre
um osso. O corpo deve ser refreado e deve seguir o espírito;
ele não deve agir como aqueles que, quando estão por
jejuar, numa sentada se enchem de peixe e do melhor vinho
até que o estômago deles fique estufado.
 
What Luther says, vol. 1, compilado por Ewald M. Plass (St.
Louis: Concordia Publishing House, 1959), p. 507.
 
 
As Escrituras colocam diante de nós dois tipos de jejum que
são bons. O primeiro tipo a pessoa aceita de boa vontade
para o propósito de reprimir a carne pelo espírito. Com
respeito a isso, o apóstolo Paulo disse: “… nos trabalhos,
nas vigílias, nos jejuns…” (2Co 6.5). O segundo é o tipo de
jejum que a pessoa deve suportar e ainda assim aceitar de
boa vontade. Com respeito a este o apóstolo Paulo disse:
“Até à presente hora, sofremos fome, e sede…” (1Co 4.11).
E Cristo disse a respeito dele: “Dias virão, contudo, em que
lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt
9.15).
 
What Luther says, vol. 1, compilado por Ewald M. Plass (St.
Louis: Concordia Publishing House, 1959), p. 508.
 
João Calvino
(Reformador de Genebra que viveu de 1509 a 1564)
 
Para resumir: sempre que ocorrer uma controvérsia acerca
de religião que tiver de ser resolvida por um sínodo ou
tribunal eclesiástico, sempre que houver uma questão
acerca da escolha de um ministro; enfim, sempre que uma
questão difícil de grande importância tiver de ser discutida,
ou ainda quando parece haver julgamentos da ira do Senhor
(como pestes, guerra e fomes) – esta é uma ordenança
santa e salutar para todos os tempos, que os pastores
recomendem que as pessoas façam jejum público e orações
extraordinárias.
 
Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The
Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 14).
 
 
Os jejuns santos e lícitos têm três objetivos. Nós os usamos
para enfraquecer e subjugar a carne para que ela não possa
agir de maneira audaciosa, ou para que estejamos mais
bem preparados para orações e santas meditações, ou para
que sejam um testemunho da nossa auto-humilhação diante
de Deus quando quisermos confessar nossa culpa a ele.
 
Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The
Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 15).
 
 
[A palavra de Paulo acerca do jejum sexual de 1Co 7.5
mostra que o jejum auxilia a oração e não é um fim em si
mesmo. Depois de se referir a Ana em Lc 2.37 e a Neemias
em Ne 1.4 ele diz:] Por essa razão, Paulo diz que os crentes
agem corretamente se eles se abstiverem por algum tempo
do leito matrimonial, para que possam estar mais livres
para orar e jejuar. Ali ele junta o jejum à oração como um
auxílio a ela, e adverte que ele de si mesmo não tem
nenhuma importância exceto se aplicado para esse fim [1Co
7.5].
 
Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The
Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 17).
 
 
Ao longo de todo o seu curso, a vida das pessoas
verdadeiramente piedosas deve ser equilibrada com
frugalidade e sobriedade, para que tanto quanto possível
tenha alguma semelhança com um jejum. No entanto, além
disso, há outro tipo de jejum, temporário em caráter,
quando eliminamos alguma coisa do regime normal da vida,
seja por um dia ou por um tempo definido, e nos obrigamos
a uma restrição mais severa na dieta do que de costume.
 
Institutes of the christian religion, vol. 2 (Filadélfia: The
Westminster Press, 1960), p. 1.241 (IV, xii, 18).
 
Matthew Henry
(Pastor presbiteriano inglês e expositor da Bíblia que viveu de 1662 a
1714)
 
Se as solenidades do nosso jejum, embora frequentes,
longas e severas, não servirem para colocar um limite nos
sentimentos de devoção, para avivar a oração, aumentar a
tristeza piedosa e alterar a disposição da nossa mente e o
curso da nossa vida na direção do aperfeiçoamento, elas
não respondem de modo algum à intenção, e Deus não as
aceitará como realizadas para ele.
 
A commentary on the whole Bible, vol. 4 (Nova York: Funk
and Wagnalls, s.d.), p. 1.478.
 
William Law
(Escritor espiritual inglês que viveu de 1668 a 1761)
 
Se a religião requer de nós algumas vezes jejuar e negar os
nossos apetites naturais, é para diminuir aquela luta e
guerra que está na nossa natureza; é para tornar o nosso
corpo um instrumento mais adequado de pureza, e mais
obediente aos bons requerimentos da graça divina; é para
secar as fontes das nossas paixões que guerreiam contra a
alma, para esfriar o fogo do nosso sangue, e tornar a mente
mais capaz de meditações divinas. De modo que, embora
essas abstinências inflijam alguma dor ao corpo, contudo
elas também diminuem a potência dos apetites corporais e
paixões e, dessa maneira, aumentam nosso apetite pelas
alegrias espirituais, que até mesmo esses rigores da
religião, quando praticados com discrição, acrescentammuito à apreciação satisfatória da nossa vida.
 
A serious call to a devout and holy life (Grand Rapids: Wm.
B. Eerdmans Publishing Co., 1966, orig. de 1728), p. 112.
 
Jonathan Edwards
(Pastor-teólogo da Nova Inglaterra que viveu de 1703 a 1758)
 
Suponho que dificilmente haja um ministro nesta terra que
não tenha o costume de orar, de sabá a sabá, para que
Deus derrame seu Espírito, e opere uma reforma e
reavivamento religioso no país, e nos desvie da
intemperança, profanidade, impureza, impiedade, e outros
pecados; e nós temos guardado ano após ano dias de jejum
público e oração a Deus, para reconhecer nossas falhas, e
nos humilhar pelos nossos pecados, e buscar o perdão e a
reforma de Deus: e agora, quando tão grande e extensa
reforma foi realizada de modo tão repentino e maravilhoso
naquelas coisas pelas quais buscamos a Deus, não
deveríamos reconhecer isso?
 
Some thoughts concerning the revival, em The works of
Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press,
1972), p. 331.
 
 
A situação dos tempos requer com urgência uma plenitude
do divino Espírito nos ministros, e não devemos nos dar
nenhum descanso até que a tenhamos obtido. E a fim de
[fazer] isso, penso que os ministros, acima de todas as
pessoas, devem estar muito mais em oração reservada e
jejum, e também muito em oração e jejum em companhia
de outros. Parece-me que seria favorável às circunstâncias
atuais que os ministros, bem como outros das regiões
vizinhas, se reunissem com frequência e passassem dias em
jejum e oração fervente entre si, fervorosamente buscando
aqueles suprimentos extraordinários da graça divina dos
céus, dos quais necessitamos para este tempo.
 
Some thoughts concerning the revival, em The works of
Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press,
1972), p. 507.
 
 
Mais uma coisa que eu gostaria de mencionar acerca de
jejum e oração é que penso ter havido uma negligência dos
ministros; e que embora eles recomendem e insistam
bastante com o dever da oração secreta em suas
pregações, muito pouco é dito acerca do jejum secreto. É
um dever recomendado pelo nosso Salvador aos seus
seguidores, da mesma maneira que a oração secreta o é;
como pode ser visto comparando-se os versículos 5 e 6 do
capítulo 6 de Mateus com os versículos 16 a 18. Embora eu
não suponha que o jejum secreto deva ser praticado de uma
maneira prescrita e curso firme como a oração secreta,
contudo me parece que esse é um dever que todos os
cristãos professos devem praticar, e fazê-lo com frequência.
Há muitas ocasiões, de natureza tanto espiritual quanto
temporal, que convenientemente requerem isso; e há
muitas misericórdias particulares que desejamos para nós
mesmos ou para os nossos amigos que seria adequado,
dessa maneira, buscar a Deus.
 
Some thoughts concerning the revival, em The works of
Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale University Press,
1972), p. 521.
 
John Wesley
(Evangelista inglês do grande avivamento que viveu de 1703 a 1791)
 
O homem que nunca jejua não está mais no caminho para o
céu do que o homem que nunca ora.
 
“Causes of inefficacy of christianity”, Sermons on several
occasions, org. Thomas Jackson, vol. 2 (Nova York: T. Mason
and G. Lane, 1840), p. 440.
 
 
[O jejum] é um auxílio à oração, particularmente quando
separamos extensos períodos para a oração particular.
Então, de modo especial, é que Deus frequentemente se
agrada em elevar a alma dos seus servos acima de todas as
coisas terrenas, e algumas vezes os arrebatar, por assim
dizer, para o terceiro céu. E é principalmente como um
auxílio à oração que ele tem sido tão frequentemente
encontrado como um meio, na mão de Deus, de confirmar e
aumentar, não uma virtude, não apenas a castidade (como
alguns em vão imaginam, sem qualquer base nas
Escrituras, razão ou experiência), mas também seriedade
de espírito, zelo, sensibilidade e brandura de consciência,
indiferença para com o mundo e, consequentemente, o
amor por Deus, e todo sentimento santo e celestial.
 
“Sermon XXVII, On our Lord’s sermon on the mount”, The
works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software,
1995), p. 441.
 
 
Não que haja qualquer ligação natural e necessária entre o
jejum e as bênçãos que Deus comunica desse modo. Porém,
ele exercerá misericórdia como a quiser exercer; irá
comunicar o que quer que pareça bom a ele por qualquer
meio de que se agrade designar. E ele tem, em todas as
eras, designado isso como um meio de afastar sua ira e
obter quaisquer bênçãos que nós, de tempos em tempos,
estamos necessitados.
 
“Sermon XXVII, On our Lord’s sermon on the mount”, The
works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software,
1995), p. 441.
 
 
Porém, se desejamos essa recompensa devemos tomar
cuidado… para não pensar que merecemos alguma coisa de
Deus pelo nosso jejum. Toda advertência quanto a isso
ainda é pouca, visto que um desejo de “estabelecer nossa
própria justiça”, para buscar a salvação pelas obras e não
pela graça, está tão profundamente enraizado no nosso
coração. O jejum é apenas um caminho que Deus ordenou
pelo qual esperamos por suas misericórdias imerecidas; e
pelo qual, sem qualquer mérito nosso, ele prometeu nos dar
suas bênçãos gratuitamente.
 
“Sermon XXVII, On our Lord’s sermon on the mount”, The
works of John Wesley, vol. 5 (Albany, OR: Sage Software,
1995), p. 449.
 
Andrew Fuller
(Pastor e escritor batista inglês que viveu de 1754 a 1815)
 
O jejum é entendido como sendo uma prática comum das
pessoas piedosas. Cristo não fez pouco dele, mas
meramente nos advertiu contra seus abusos… Ele é um
apêndice da oração, e designado para ajudar sua
importunidade. É humilhante, e de certo modo, nos castiga
diante de Deus. O espírito dele é expresso nas seguintes
passagens: “Assim me faça Deus o que lhe aprouver, se eu
provar pão ou alguma coisa antes do sol posto” (2Sm 3.35).
“Não entrarei na tenda em que moro, nem subirei ao leito
em que repouso, não darei sono aos meus olhos, nem
repouso às minhas pálpebras, até que eu encontre lugar
para o Senhor, morada para o Poderoso de Jacó” (Sl 132.3-
5). Não é feita nenhuma menção de tempo, nem da
frequência com que o dever deva ser cumprido… É apenas
um meio, no entanto; e se alguém confiar nele como um
fim, isso será apenas uma abominação à vista de Deus.
 
The complete works of the Rev. Andrew Fuller, vol. 1
(Harrisonburg, VA: Sprinkle Publication, 1988, orig. de
1844), p. 583.
 
Abraham Lincoln
(Presidente dos Estados Unidos de 1861 a 1865)
 
Considerando que o Senado dos Estados Unidos,
reverentemente, reconhece a Suprema autoridade e o Justo
Governo de Deus Todo-Poderoso em todos os negócios dos
homens e das nações, pediu, mediante uma resolução, ao
Presidente para designar e estabelecer um dia separado
para oração nacional e humilhação:
E considerando que é o dever das nações bem como dos
homens reconhecerem a dependência do poder soberano de
Deus, confessar seus pecados e transgressões, em humilde
tristeza, porém, com esperança garantida de que
arrependimento sincero conduzirá à misericórdia e ao
perdão; e reconhecer a verdade sublime, anunciada nas
Sagradas Escrituras e provadas ao longo de toda a História,
de que somente as nações cujo Deus é o Senhor são
abençoadas:
E, porque sabemos que, pela sua divina lei, tanto nações
como indivíduos são sujeitos à punição e aos castigos neste
mundo, não devemos nós merecidamente temer que a
terrível calamidade da guerra civil, que agora assola a terra,
seja uma punição infligida sobre nós por causa dos nossos
pecados presunçosos, tendo em vista a finalidade
necessária da reforma nacional do povo como um todo? Nós
temos sido os destinatários das generosidades mais seletas
do céu. Temos sido preservados, estes muitos anos, em paz
e prosperidade. Crescemos em número, riqueza e poder
como nenhuma outra nação jamais cresceu. Porém, nos
esquecemos de Deus. Nós esquecemos a mãomisericordiosa que nos preservou em paz, nos multiplicou,
nos enriqueceu e nos fortaleceu; e temos imaginado em
vão, no engano de nossos corações, que todas essas
bênçãos foram produzidas pela nossa própria sabedoria e
virtude superiores. Intoxicados pelo sucesso constante,
temos nos tornado demasiadamente autossuficientes para
sentir a necessidade da graça redentora e preservadora,
orgulhosos demais para orar ao Deus que nos fez! É
conveniente, então, nos humilhar diante do Poder ofendido,
confessar nossos pecados nacionais, e orar por clemência e
perdão.
Agora, portanto, em conformidade com o pedido, e
plenamente concordando com os pontos de vista do
Senado, eu, por meio desta minha promulgação, designo e
separo a quinta-feira, dia 30 de abril de 1863, como o dia
nacional de humilhação, jejum e oração. E por meio deste
solicito a todo o povo que se abstenha nesse dia de suas
tarefas seculares ordinárias e para se unirem em seus
diversos locais de adoração pública, e respectivas casas, em
guardar o dia santo ao Senhor, e devotar-se ao humilde
cumprimento dos deveres religiosos apropriados para essa
ocasião solene.
Feito tudo isso em sinceridade e verdade, deixa-nos então
descansar humildemente na esperança autorizada pelos
ensinamentos divinos de que o clamor unido da nação será
ouvido no céu e respondido com bênçãos, nada mais nada
menos que o perdão dos nossos pecados nacionais, e a
restauração do nosso ora dividido e sofrido país, à sua
condição antes feliz de unidade e paz.
Em testemunho disso, assino o presente documento e
ordeno que seja afixado o selo dos Estados Unidos. Feito na
cidade de Washington no dia treze de março, no ano do
nosso Senhor de um mil oitocentos e sessenta e três, e no
ano octogésimo sétimo da Independência dos Estados
Unidos. Abraham Lincoln.
 
Library of Congress, Apêndice no 19, vol. 12, de United
States at large, citado em Derek Prince, Shaping history
through prayer and fasting (Old Tappan; NJ: Fleming H.
Revell Company, 1973), p. 5-8. Para proclamações de
George Washington, John Adams e James Madison, veja as
p. 138-147.
 
J. C. Ryle
(Bispo evangélico de Liverpool que viveu de 1816 a 1900)
 
Vamos aprender com as instruções dadas pelo Senhor
acerca do jejum, a grande importância da alegria na nossa
religião. As palavras “unge a cabeça e lava o rosto” são
cheias de significado. Elas nos ensinam a deixar que os
homens vejam que descobrimos que o cristianismo nos faz
felizes. Não esqueçamos nunca que não há religião em
parecer melancólico e triste. Estamos insatisfeitos com o
salário de Cristo, e o serviço de Cristo? Certamente que
não! Então, não vamos parecer como se estivéssemos.
 
Ryle´s expository thoughts on the gospel, Matthew-Mark
(Grand Rapids: Zondervan Publishing House, s.d.), p. 57.
 
Phillips Brooks
(Pastor americano, autor do hino “Pequena vila de Belém”, 1835-1893)
 
Essa, então, é a filosofia do jejum. Ele expressa
arrependimento, e desnuda a vida para Deus. “Venha
abaixo, meu orgulho; para trás, minhas paixões, pois eu sou
pecador, e espero em Deus para me abençoar.”
 
“Fasting” (a sermon for Lent), em: The candle of the Lord
and other sermons (Nova York: E. P. Dutton and Company,
1881), p. 207.
 
Pastor HSI
(Pastor chinês do século 19)
 
[No seu ministério, ele tratava os chineses viciados em
ópio.] Sempre que era necessário fazer um novo
suprimento, ele começava com oração e jejum. Era seu
hábito passar sem alimento as 24 horas do dia dedicado
àquele trabalho. Algumas vezes, ele estava tão exausto no
final da tarde que mal conseguia manter-se em pé. Então,
saía por alguns minutos, sozinho, para fazer uma visita a
Deus. “Senhor, é obra tua. Dá-me vossa força”, era sua
súplica. E ele sempre voltava reanimado e revigorado, como
se tivesse comido e descansado.
 
Mrs. Howard M. Taylor, Pastor Hsi (Singapura: Overseas
Missionary Fellowship, 1989, orig. de 1900), p. 131.
 
Praying (John) Hyde*
(Missionário para a Índia na virada do século 20)
 
[Na Convenção Sialkot na Índia para missionários no final do
século 19, John Hyde passou todo o tempo da convenção na
sala de oração.] E como ele fazia para comer e dormir? A
Convenção durava dez dias naqueles primeiros tempos, e
seu “rapaz”, um moço de 16 anos, que ele tinha recebido na
sua casa e coração, tinha trazido roupa de cama e
cuidadosamente feito sua cama, mas esta não foi usada
nem uma vez durante a Convenção. Eu o vi mais de uma
vez, quando a sala de oração estava cheia, se dirigir a um
canto e se estirar no chão para dormir, mas se a sala
começasse a se esvaziar e a oração a esmorecer, ele, de
alguma maneira, parecia saber e se levantava
imediatamente e retomava seu lugar junto aos outros
intercessores. Ele fazia as refeições? Acho que só o vi uma
vez ou duas conosco à mesa. Algumas vezes, o “rapaz” ou
Gulla, o faxineiro, ou um dos seus amigos levava um prato
de curry ou arroz ou alguma outra coisa para ele na sala de
oração, e se fosse conveniente ele ia para um canto e
comia. Seu “rapaz” chorava muito porque ele não comia
como devia e não ia para cama dormir.
 
E. G. Carre, Praying Hyde: a challenge to prayer (South
Plainfield, NJ: Bridge Publishing, Inc., s.d.), p. 92.
 
Andrew Murray
(Pastor sul-africano e estadista missionário, 1828-1916)
 
A oração precisa do jejum para seu pleno desenvolvimento.
A oração é a mão com a qual agarramos o invisível. O jejum
é a outra mão, aquela com a qual soltamos o visível. Em
nada o homem está mais intimamente ligado com o mundo
dos sentidos do que nessa necessidade pelo alimento e
apreciação dele. No Paraíso, foi com o fruto que o homem
foi tentado e caiu. Foi com pão que Jesus foi tentado no
deserto. Mas ele triunfou no jejum… O corpo foi redimido
para ser um templo do Espírito Santo. As Escrituras dizem
que tanto no corpo quanto no espírito devemos glorificar a
Deus no comer e no beber. Existem muitos cristãos para
quem esse comer para a glória de Deus ainda não se tornou
uma realidade espiritual. O primeiro pensamento sugerido
pelas palavras de Jesus com respeito ao jejum e à oração é
que somente numa vida de moderação e abnegação haverá
amor suficiente e força para orar muito… O jejum ajuda a
expressar, aprofundar e a confirmar a resolução de que
estamos prontos a sacrificar qualquer coisa, até mesmo a
nós mesmos, para obter o Reino de Deus. E Jesus, que
jejuou e se sacrificou, sabe valorizar, aceitar e recompensar
com poder espiritual a alma que está desse modo disposta
a desistir de tudo por ele e pelo seu Reino.
 
With Christ in the school of prayer (Springdale, PA: Whitaker
House, 1981), p. 100-101.
 
Dietrich Bonhoeffer
(Teólogo alemão e mártir do século 20)
 
Jesus assumiu como certo que seus discípulos iriam
observar esse costume piedoso do jejum. O exercício
rigoroso do domínio próprio é uma característica essencial
da vida cristã. Tais costumes têm apenas um propósito –
tornar os discípulos mais dispostos e alegres para realizar as
coisas que Deus teria feito.
 
The cost of discipleship (Nova York: Collier Books /
Macmillan Publishing Co., 1949), p. 188.
 
 
Quando a carne está satisfeita, é difícil orar com alegria ou
se dedicar a uma vida de serviço que exige muita
abnegação.
 
The cost of discipleship (Nova York: Collier Books /
Macmillan Publishing Co., 1949), p. 189.
 
 
Temos de praticar rígida disciplina diária; somente assim a
carne pode aprender a lição dolorosa de que ela não tem
direitos próprios.
 
The cost of discipleship (Nova York: Collier Books /
Macmillan Publishing Co., 1949), p. 189.
 
C. S. Lewis
 
(Professor de literatura e escritor cristão inglês,
1898-1963)
 
É impossível aceitar o cristianismo visando encontrar
conforto; antes, o cristão tenta se manter aberto para a
vontade de Deus, fazer o que Deus quer que ele faça. Você
não sabe antecipadamente se Deus irá lhe mandar fazer
alguma coisa difícil ou dolorosa, ou alguma coisade que
você irá gostar imensamente; e algumas pessoas de
natureza heroica ficam desapontadas quando o trabalho
designado a elas revela-se algo bastante agradável. No
entanto, você deve estar preparado para coisas
desagradáveis e os desconfortos. Eu não quero dizer jejuar
e coisas do tipo. Estas são uma questão diferente. Quando
soldados estão sendo treinados em manobras, eles praticam
com munição de festim porque precisam praticar antes de
enfrentar o inimigo real. Então, devemos praticar em nos
abster dos prazeres que não são em si mesmos
pecaminosos. Se você não se abstém de prazeres, não
estará capacitado quando a hora chegar. Trata-se,
puramente, de uma questão de prática.
 
God in the dock (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing
Co., 1970), p. 53-54.
 
Martyn Lloyd-Jones
(Pregador do século 20, em Londres)
 
O jejum, se verdadeiramente o compreendemos, não deve…
ser confinado a questões de alimento e bebida; o jejum
deve, na verdade, ser feito para incluir a abstinência de
qualquer coisa que é legítima em si e por si mesma por
causa de algum propósito espiritual. Existem muitas funções
corporais que são certas e normais e perfeitamente
legítimas, mas que, por razões peculiares especiais, em
determinadas circunstâncias devem ser controladas. Isso é
jejum.
 
Studies in the sermon on the mount, vol. 2 (Grand Rapids:
Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1960), p. 38.
 
David R. Smith
(Escritor do século 20)
 
Uma pessoa egoísta é incapaz de apreciar o evangelho; um
cristão é alguém que começou a negar a si mesmo e está
em processo contínuo de negação de si mesmo. Jesus disse:
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome
a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). A autonegação não é
limitada a um tipo particular de dar; ela engloba todas as
disciplinas pessoais. O jejum é apenas uma disciplina; no
entanto, é uma autonegação. Isso não significa que jejuar
seja aceitar o legalismo; é a liberdade do evangelho que nos
encoraja a negar a nós mesmos.
 
Fasting: a neglected discipline (Fort Washington, PA:
Christian Literature Crusade, 1954), p. 17.
 
 
Ninguém pode manter um estado mental adequado se sua
condição corporal não estiver de acordo com ele. Se um
homem estiver ansioso para se dedicar às coisas espirituais,
por algum tempo ele é obrigado a se certificar de que seu
corpo esteja em ambiente semelhante, do contrário ele
pode não ser bem-sucedido. Ele não pode ser reverente no
meio de sua própria irreverência física. O jejum assegura o
ambiente correto para considerações sérias e pesarosas.
Asterius escreveu, no século 4o, que o papel do jejum é
assegurar que o estômago não faça o corpo ferver como
uma chaleira e atrapalhe a alma.
 
Fasting: a neglected discipline (Fort Washington, PA:
Christian Literature Crusade, 1954), p. 38-39.
 
 
O jejum não cria fé, pois a fé cresce em nós enquanto
ouvimos, lemos e meditamos na Palavra de Deus; é obra do
Espírito Santo trazer fé ao povo de Deus. Entretanto, o
jejum tem a capacidade de incentivar a fé naquele que está
envolvido nessa disciplina. É como se a negligência de si
mesmo alimentasse a fé que Deus implantou no coração
dos crentes nascidos de novo. Isso não significa que aqueles
que comem menos têm mais fé; essa visão não é apenas
falsa, é extremista. É simplesmente que a autonegação
regular tem seus benefícios, e um deles é visto num
aumento pessoal da fé.
 
Fasting: a neglected discipline (Fort Washington, PA:
Christian Literature Crusade, 1954), p. 47-48.
 
Keith Main
(Escritor do século 20)
 
Para o judaísmo, o jejum era um sinal exterior de uma
condição interior. Para Jesus, o jejum era um sinal interior de
uma condição interior. O primeiro, se mal usado, “uma
forma peculiarmente feia de arte religiosa dramática”, o
último, uma parte das devoções “privadas”.
 
Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early
church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971), p. 37.
 
 
Até aqui temos sugerido que a alegria e as ações de graças
que marcam a vida de oração do Novo Testamento é um
sinal do raiar do Reino de Deus. O jejum não é mais
consistente com a atitude alegre e agradecida que marca a
comunhão. No entanto, isso é apenas parcialmente assim…
É verdade que a crise e a tragédia existem como uma dura
realidade. O Reino não está completamente consumado.
Desde que o Noivo esteja presente não é hora apropriada
para lamento. No entanto, isso não é totalmente assim, pois
ainda estamos na carne e fracos na fé… Nessa “amarga
luta”, na sua vida devocional o crente pode
concebivelmente encontrar ocasião para jejuar. Ele seria
apenas um entre os muitos ingredientes que constituem a
vida do homem em Cristo. A pessoa pode ler 2Coríntios 6.3-
10 e 11.23-29 para obter um relance do grande âmbito dos
sofrimentos na “amarga luta” pela causa de Cristo. Contra
esse pano de fundo, os “jejuns” mencionados em 6.5 e
11.27 são colocados na sua verdadeira perspectiva.
 
Prayer and fasting: a study in the devotional life of the early
church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971), p. 83-84.
 
Richard J. Foster
(Escritor devocional do século 20)
 
É bom saber qual é o processo pelo qual seu corpo passa no decurso de
um jejum mais prolongado. Os primeiros três dias são geralmente os
mais difíceis em termos de desconforto físico e dores da fome. O corpo
está começando a se livrar dos venenos tóxicos que se acumularam ao
longo dos anos de hábitos alimentares inadequados, e esse não é um
processo confortável. Essa é a razão para a cobertura da língua e o
mau hálito. Não se perturbe por causa desses sintomas; em vez disso,
sinta-se grato porque mais saúde e bem-estar será o resultado. Você
poderá experimentar dores de cabeça durante esse tempo,
especialmente se for um consumidor ávido de café e chá. Esses são
sintomas moderados de abstinência que irão passar, embora possam
ser muito desagradáveis por algum tempo.
Por volta do quarto dia, as dores da fome começam a diminuir embora
você sinta fraquezas e tonturas ocasionais. As tonturas são apenas
temporárias e são causadas por mudanças repentinas de posição.
Mova-se mais devagar e você não terá nenhuma dificuldade. A
fraqueza pode chegar ao ponto de a menor tarefa exigir um grande
esforço. Descansar é o melhor remédio. Muitos acham esse o período
mais difícil do jejum.
Pelo sexto e sétimo dia você começará a se sentir mais forte e mais
alerta. As dores da fome continuarão a diminuir até que pelo nono ou
décimo dia elas são apenas uma pequena irritação. O corpo terá
eliminado a maior parte dos venenos tóxicos e você se sentirá bem.
Seu sentido de concentração estará mais aguçado e você se sentirá
como se pudesse continuar jejuando indefinidamente. Fisicamente,
essa é a parte mais apreciável do jejum.
Entre os dias 21 a quarenta ou mais, dependendo da pessoa, as dores
da fome voltarão. Esse é o primeiro estágio de inanição e sinaliza que o
corpo já usou toda sua reserva e está começando a se alimentar dos
tecidos vivos. O jejum deve ser quebrado nesse momento.
 
The celebration of discipline (Nova York: Harper and Row,
Publishers, 1978), p. 51-52.
 
Dallas Willard
(Escritor do século 20 sobre disciplinas espirituais)
 
O jejum é uma disciplina difícil de praticar sem que
consuma toda a sua atenção. No entanto, quando o usamos
como parte da oração ou culto, não podemos permitir que
ele seja assim. Quando uma pessoa escolhe jejuar como
parte de uma disciplina espiritual, ele ou ela deve então
praticar bem o suficiente e com frequência suficiente para
se tornar experiente nele, porque somente a pessoa que
está bem acostumada ao jejum sistemático como disciplina
pode usá-lo eficazmente como uma parte do culto direto a
Deus, como em tempos especiais de oração ou outro
serviço.
 
The spirit of the disciplines: understanding how God
changes lives (São Francisco: Harper and Row, 1988), p.
168.
 
Joseph F. Wimmer
(Escritor do século 20)
 
[Acercade Mc 2.18-22 e a presença e ausência do noivo:] O
fato de eles não jejuarem tinha o objetivo de fazer uma
afirmação, a saber, que a era escatológica tinha vindo em
Jesus… O futuro retorno ao jejum depois de ele ter “sido
levado” se refere, portanto, a Jesus, como um triste
memorial do que aconteceu na odiosa sexta-feira,
misturado com confiança interior e humilde confiança na
sua segunda vinda e a consumação final da parousia. Esse
jejum cristão era algo novo, distinto daquele do judaísmo,
não apenas no que concerne ao dia do jejum, mas mais
importante, em termos de sua motivação interior. Até
mesmo como sinal de humilde adoração do Pai ele foi a
partir daí relacionado a Jesus, por meio de quem a salvação
veio, e em cuja presença nós iremos um dia nos regozijar
sem reservas, na plenitude do seu Reino.
 
Fasting in the New Testament: a biblical theology (Nova
York: Paulist Press, 1982), p. 101.
 
 
A fraqueza da fome que leva à morte ressalta a bondade e o
poder de Deus que desejam a vida. Não há aqui nenhuma
exortação, nenhuma tentativa mágica de forçar a vontade
de Deus. Nós meramente olhamos com confiança para o
nosso Pai celeste e por meio do nosso jejum dizemos
suavemente em nosso coração: “Pai, sem ti eu morrerei;
vem em meu auxílio, apressa-te em me acudir”.
 
Fasting in the New Testament: a biblical theology (Nova
York: Paulist Press, 1982), p. 119.
 
Adalbert De Vogüé
(Monge da Abadia de La Pierre-qui-Vire, França, século 20)
 
Os resultados benéficos do jejum são sentidos
primeiramente na esfera sexual. Eu facilmente verifiquei a
associação estabelecida pelos antigos entre os dois “vícios
principais”, a glutonaria e a luxúria, e consequentemente
entre as disciplinas correspondentes: o jejum e a castidade.
O jejum é o auxílio mais eficaz para um religioso que fez
votos de castidade. As fantasias não mais aparecem, nem
mesmo durante as horas descontraídas de liberdade
fisiológica das quais falei, e no resto do tempo elas são
facilmente controladas e eliminadas.
 
To love fasting: the monastic experience (Petersham, MA:
Saint Bede’s Publications, 1989), p. 10.
 
 
Não hei de surpreender a ninguém se confessar que eu sou
sujeito à ansiedade e irritação, tristeza e nervosismo, para
não falar de vaidade, sensibilidade e inveja… O hábito de
jejuar efetua uma profunda mitigação de todos esses
movimentos instintivos. Penso que a causa é que certo
domínio do apetite primordial, comer, permite um maior
domínio das outras manifestações da libido e da
agressividade. É como se o homem que jejua fosse mais ele
mesmo, em posse da sua verdadeira identidade, e menos
dependente dos objetos exteriores e dos impulsos que eles
levantam nele… Dentre os benefícios menos importantes,
podemos listar o tempo economizado em se sentar à mesa
uma vez apenas em vez de três vezes.
 
To love fasting: the monastic experience (Petersham, MA:
Saint Bede’s Publications, 1989), p. 10.
 
 
Gostar de jejuar não é apenas possível. À luz dos fatos,
chego a ponto de dizer que o contrário é que me parece
impossível, seja lá até que ponto a pessoa já tiver
experimentado verdadeiramente o jejum. Experimente
jejuar e você realmente gostará de fazê-lo.
 
To love fasting: the monastic experience (Petersham, MA:
Saint Bede’s Publications, 1989), p. 104.
 
Arthur Wallis
(Escritor devocional do século 20)
 
Quase todos concordam que uma visitação do Espírito sobre
a igreja se faz desesperadamente necessária. Devemos crer
que a promessa a Joel não tem nada a ver com essa
situação?… Será que os acontecimentos do Pentecostes
exauriram a profecia de Joel? Obviamente não, ou não teria
havido mais nenhum derramamento… Se, entretanto,
acreditarmos que essa maravilhosa promessa é para nós – é
de fato a resposta de Deus para as necessidades atuais – é
vital que preenchamos as condições tanto quanto
reivindiquemos a promessa. Três vezes Joel faz soar um som
de trombeta, em vista da iminência do dia do Senhor, para
se voltar para Deus com jejum (Jl 1.14; 2.12,15). Então ele
parece ver em visão a resposta de Deus: “Então, o Senhor
se mostrou zeloso da sua terra, compadeceu-se do seu
povo” (Jl 2.18).
 
God´s chosen fast: a spiritual and practical guide to fasting
(Fort Washington, PA: Christian Literatures Crusade, 1968),
p. 131-132.
 
Wesley Duewel
(Escritor sobre oração do século 20)
 
Você e eu não temos mais o direito de omitir o jejum porque
não sentimos nenhuma sugestão emocional especial, assim
como não temos também o direito de omitir oração, a
leitura da Bíblia, ou a reunião com os filhos de Deus por
falta de algum estímulo emocional especial. O jejum é uma
parte bíblica e normal de uma caminhada espiritual de
obediência com Deus tanto quanto essas outras.
 
Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis
Asbury Press, 1990), p. 184.
 
 
Como você toma a sua cruz? Tomar a sua cruz não significa
ter alguém que a coloque sobre seus ombros. Enfermidade,
perseguição e antagonismo de outras pessoas não são a
sua cruz verdadeira. Tomar uma cruz é uma escolha
deliberada. Nós devemos propositadamente nos humilhar
[sic], nos abaixarmos e pegar a cruz por Jesus. O jejum é
uma das maneiras mais bíblicas de se fazer isso.
 
Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis
Asbury Press, 1990), p. 184.
 
 
O jejum pode fazer aprofundar a fome por Deus. A fome e o
jejum espirituais têm um poder recíproco. Cada um
aprofunda e fortalece o outro. Cada um torna o outro mais
eficiente. Quando a sua fome espiritual se torna muito
profunda, você pode até mesmo perder seu apetite por
comida. Todas as formas mais intensas de oração eficaz…
podem ser aprofundadas, esclarecidas e grandemente
fortalecidas pelo jejum.
Jejuar é natural quando você se encontra muito
sobrecarregado, lutando com poderosos inimigos e
guerreando em conflitos de corpo a corpo com Satanás e
seus poderes das trevas. O jejum se torna doce e
abençoado na medida em que a sua fome se estende na
direção de Deus. Sua fome ganha tremendo poder enquanto
você jejua e ora – particularmente se separar tempo,
deixando tudo o mais para se entregar ao jejum e à oração.
Jejuar pode se tornar um deleite espiritual.
 
Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis
Asbury Press, 1990), p. 188.
 
 
O jejum alimenta a sua fé… Sua confiança começa a se
aprofundar. Sua esperança começa a aumentar, pois você
sabe que está fazendo o que agrada o Senhor. Sua
disposição em negar o ego e voluntariamente tomar essa
cruz adicional desperta uma alegria interior. Sua fé começa
a se apegar às promessas de Deus de modo mais simples e
mais firme.
 
Mighty prevailing prayer (Grand Rapids: Zondervan/Francis
Asbury Press, 1990), p. 189.
 
J. Oswald Sanders
(Estadista missionário do século 20)
 
O jejum não é uma exigência legalista, mas uma reação espontânea
sob circunstâncias especiais… Existem… pessoas devotas e piedosas
que acham que o jejum é um obstáculo em vez de ajuda. Algumas
pessoas têm constituição física tal que a falta da mínima quantidade de
comida as torna incapazes de se concentrar na oração… Não há
necessidade de elas se sujeitarem a isso. É melhor fazerem aquilo que
as ajuda mais a orar.
 
Prayer power unlimited (Chicago: Moody Press, 1977), p. 67.
 
Edith Schaeffer
(Escritora do século 20)
 
Porventura pode o jejum, de alguma maneira, ser um meio
de subornar a Deus para que ele preste mais atenção às
nossas petições? Não, mil vezes não. É simplesmente uma
maneira de deixar claro que justamente reverenciamos
suficientemente a oportunidade extraordinária de pedir a
ajuda do nosso eterno Deus, o Criador do universo,
escolhendo colocar tudo o mais de lado e nos concentrar na
adoração a ele, pedindo-lhe seu perdão, e apresentando-lhe
nossos pedidos – considerando o seu auxílio mais
importante do que qualquer coisa que nós mesmos
possamos fazer por nossa própria força com nossas própriasideias.
 
The life of prayer (Wheaton: Crossway Book, 1992), p. 75-
76.
 
Jerry Falwell
(Pastor batista do século 20)
 
Um velho santo certa vez disse que o jejum evita que as
luxúrias se transformem em necessidades. O jejum é uma
proteção do espírito contra a usurpação do corpo. Quando
uma pessoa jejua, ela traz seu corpo sob controle, e é capaz
de fazer o trabalho do Mestre.
 
Fasting: what the Bible teaches (Wheaton, Illinois: Tyndale
House Publishers, Inc., 1981), p. 11.
 
Bill Bright
(Evangelista e fundador do Campus Crusade for Christ)
 
Nada vai conseguir opor-se à maré de castigos que está
devastando a nossa terra a não ser o sobrenatural. Acredito
que não há nada que se compare com o poder sobrenatural
liberado quando jejuamos e oramos. Sabemos com certeza,
com base em Hebreus 11.6 e experiência pessoal, que Deus
recompensa aqueles que o buscam diligentemente.
 
The coming revival: America call to fast, pray and “seek God
´s face” (Orlando, Flórida: New Life Publications, 1995), p.
108.
 
Cornelius Plantinga, Jr.
(Teólogo do século 20)
 
A autoindulgência é a inimiga da gratidão; e a
autodisciplina, geralmente, sua amiga e geradora. É por
essa razão que a glutonaria é um pecado mortal. Os pais
primitivos do deserto acreditavam que os apetites de uma
pessoa estão ligados: estômago cheio e paladar saturado
privam de força a nossa fome e sede por justiça. Eles
estragam o apetite por Deus.
 
Citado no The reformed journal, novembro de 1988, em
Donald S. Whitney, Spiritual disciplines for the Christian life
(Colorado Springs: NavPress, 1991), p. 151.
 
* O Hyde que orava.
Bibliografia
 
Os livros listados aqui são selecionados para estudos mais
aprofundados. A lista não é completa nem uniformemente
recomendada. “Julgai todas as coisas, retende o que é bom”
(1Ts 5.21).
 
Anderson, Andy, Fasting changed my life. Nashville, TN:
Broadman Press, 1977.
Beall, James Lee, The adventure of fasting. Old Tappan, NJ:
Fleming H. Revell Company, 1974.
Benson, Bob, e Michael W. Benson, “Fasting”, Disciplines for
the inner life. Waco, TX: WordBooks, 1985.
Bragg, Paul C., The miracle of fasting; proven throughout
history. Desert Hot Springs, CA: Health Science, 1976.
Bright, Bill, The coming revival: America’s call to fast, pray,
and “seek God’s face”. Orlando, FL: New Life Publications,
1995.
Brooks, Phillips, “Fasting” (Sermão para a Quaresma) em:
The candle of the Lord and other sermons. Nova York: E. P.
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Carruth, Thomas A., Forty days of fasting and prayer.
Wilmore, KY: Asbury Seminary, 1974.
Charles, Jerry, God´s guide to fasting: a complete and
exhaustive biblical encyclopedia. Madison, NC: Power Press,
1977.
Chatham, R. D., Fasting: a biblical-historical study. South
Plainfield, NJ: Bridge Publishing, Inc., 1987.
Cott, Allan, Fasting as a way of life. Nova York: Bantam
Books, 1977.
DeWelt, Don, e John E. Baird, What the Bible says about
fasting. Joplin, MO: College Press Publishing Co., 1984.
Duewel, Wesley L. “You can deepen your prayer by fasting”,
em: Touch the world through prayer. Grand Rapids:
Zondervan/Francis Asbury Press, 1986.
Duewel, Wesley L. “Jesus said they would fast” e “Fasting
strengthens prayer”, em: Mighty prevailing prayer. Grand
Rapids: Zondervan/Francis Asbury Press, 1990.
Falwell, Jerry, Fasting: what the Bible teaches. Wheaton, IL.
Tyndale House Publishers, Inc., 1981.
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Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978, p. 41-53.
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Christian Literature Crusade, 1968.
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mount”, em: The works of John Wesley, vol. 5. Albany, OR:
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Whitney, Donald, “Fasting”, em: Spiritual disciplines for the
christian life. Colorado Springs, CO: NavPress, 1991, p. 151-
172.
Willard, Dallas, The spirit of the disciplines: understanding
how God changes lives. São Francisco: Harper and Row,
1988.
Wimmer, Joseph, Fasting in the New Testament: a biblical
theology. Nova York: Paulist Press, 1982.
Notas
 
Introdução: Saudades de Deus
 
[1] Citado in Thomas Ryan, Fasting rediscovered (Nova York:
Paulist Press, 1981), p. 44.
 
[2] Martyn Lloyd-Jones, Studies in the sermon on the mount,
vol. 2 (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co.,
1960), p. 38.
 
[3] A palavra que traduzo como “se despede” é usada cinco
vezes no Novo Testamento, e o significado de cada uma
delas é: em Marcos 6.46 “despedido”; Lucas 9.61 “despedir-
me”; Atos 18.18, 21 “despedindo-se”; 2Coríntios 2.13
“despedindo-me”. A questão é que nós apenas podemos
usar nossas posses corretamente quando tivermos nos
libertado delas como necessário para o nosso
contentamento em Deus.
 
[4] C. S. Lewis, The problem of pain (Nova York: The
Macmillan Co., 1962), p.101-102.
 
[5] Agostinho, The city of God, Book XVI, Seção 32 (Nova
York: Random House Inc., 1950), p. 554.
 
[6] Richard Foster, The celebration of discipline (Nova York:
Harper and Row Publishers, 1978), p. 48.
 
[7] Ibid., p. 48.
 
[8] C. S. Lewis, Letters of C. S. Lewis, org. W. H. Lewis (Nova
York: Harcourt Brace and World, Inc., 1966), p. 289.
 
[9] De modo semelhante, Phillips Brooks disse: “Quanto
mais consideramos a vida dos homens, mais vemos que
uma das razões pelas quais eles não estão ocupados com
grandes pensamentos e interesses é o modo pelo qual têm
a vida abarrotada com coisinhas”. Phillips Brooks, “Fasting”
(um sermão para Lent) em: The candle of the Lord and other
sermons (Nova York: E. P. Dutton and Company, 1881), p.
207.
 
Capítulo 1: O jejum é cristão?
 
[1] Didache, VIII, citado em The apostolic fathers (Loeb
Classical Library), trad. Kirsopp Lake (Londres: William
Heinemann, Ltd., 1970), p. 321.
 
[2] Richard Foster está quase disposto a dizer isso, mas não
o faz. Ao referir-se a Mateus 9.14-17, ele diz: “Essa talvez
seja a afirmação mais importante do Novo Testamento
acerca da questão sobre se o cristão deve jejuar
atualmente”. Richard Foster, The celebration of discipline
(Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978), p. 46. Os
paralelos a essa passagem se encontram em Marcos 2.18-
22 e Lucas 5.33-39.
 
[3] “Fasting”, de Richard T. Foster, em New dictionary of
christian ethics and pastoral theology, org. David J.
Atkinson, David F. Field, Arthur Holmes e Oliver O’Donovan
(Downers Grove: IL: InterVarsity Press, 1995), p. 376.
 
[4] “Provavelmente não se pode alegar nenhuma causa
única como sendo a origem da prática do jejum.” “Fasting”,
de A. J. Maclean, em Encyclopedia of religion and ethics,
org. James Hastings (Nova York: Charles Scribner’s Sons,
1912), p. 759.
 
[5] A expressão idiomática hebraica em Levítico 16.29,
“afligireis (ou humilhareis) a vossa alma”, foiinterpretada
pelos judeus como um chamado para o jejum, e assim esse
dia se tornou o jejum mais importante da história judaica. O
salmo 35.13 mostra essa associação entre “afligir a alma” e
o jejum: “eu afligia a minha alma com jejum”. Esse é
provavelmente “o jejum” a que Lucas se referiu em Atos
27.9.
 
[6] Eric N. Rogers escreveu um capítulo sobre cada um
desses jejuns religiosos, Fasting, the phenomenon of self-
denial (Nashville: Thomas Nelson Inc. Publishers, 1976),
Parte II, Capítulos 4, 6, 7.
 
[7] Encyclopedia of religion and ethics, p. 760-761.
 
[8] Citado em The phenomenon of self-denial, p. 77-78.
 
[9] Ibid., p. 79-80.
 
[10] A tragédia dessa condição pode ser vista no
testemunho de uma moça: “Tudo o que eu quero é me
tornar cada vez mais magra, mas não quero prestar atenção
a isso o tempo todo, e não quero desistir de nada. É essa
tensão eterna entre querer ser magra e não querer desistir
de comer que é tão exaustiva. Em todos os outros pontos
sou razoável, mas sei que nesse ponto sou louca”. Citado
em ibid., p. 135.
 
[11] George Ladd, The presence of the future (Grand Rapids:
Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1974), p. 225 (itálicos no
original).
 
[12] Keith Main, Prayer and fasting: a study in the devotional
life of the early church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971),
p. 84 (itálicos acrescentados).
 
[13] As referências ao jejum fora dos evangelhos se
encontram em Atos 13.2-3; 14.23; 2Coríntios 6.5; 11.27. As
referências na Versão King James de 1Coríntios 7.5 e Atos
10.30 provavelmente não se encontram nos melhores e
mais antigos manuscritos gregos.
 
[14] Prayer and fasting: a study in the devotional life of the
early church, p. 54, 60-61.
 
[15] C. S. Lewis, The problem of pain (Nova York: The
Macmillan Co., 1962), p. 112.
 
[16] Robert H. Gundry, Matthew: a commentary on his
literary and theological art (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans
Publishing Co., 1982), p. 169.
 
[17] Arthur Wallis, God’s chosen fast (Fort Washington, PA:
Christian Literature Crusade, 1968), p. 28-32.
 
[18] Veja a nota 11.
 
[19] Veja a nota 11.
 
[20] Tentei explicar minuciosamente essa dependência
cristã singular da graça futura de Deus sobre a graça
passada de Deus em The purifying power of living by faith in
future grace (Sisters, OR: Multnomah Press, 1995), Capítulos
7—9.
 
[21] Esse entendimento da fé é desenvolvido e defendido
biblicamente em Future grace, Capítulos 14—16.
 
[22] Prayer and Fasting: A Study in the Devotional Life of the
Early Church, p. 83.
 
[23] Ibid., p. 84.
 
[24] A palavra grega rara por trás dessa expressão
(ethelothrhskia) parece indicar a origem e a manutenção
dessa “adoração” ou “religião” na vontade humana, e não
na graça de Deus. Ela tem origem quando a pessoa não
está “firmemente apoiada no cabeça”, a saber, Cristo, como
a fonte de todas as coisas.
 
[25] A palavra implica principalmente “continência” sexual.
No entanto, seu uso em 1Coríntios 9.25 mostra que ela tem
um significado mais amplo de disciplina em todas as áreas
da vida. “Todo atleta em tudo se domina.”
 
[26] Prayer and fasting: a study in the devotional life of the
early church, p. 60.
 
[27] A NASB traduz esse “em jejuns, muitas vezes”, como se
referindo à fome involuntária. Mas o fato de que, um pouco
antes dessa palavra, Paulo menciona “em fome e sede”
sugere que alguma outra coisa além da fome comum está
em vista. Além do mais, a palavra usada aqui ( nhsteiais) é
sempre usada no Novo Testamento para jejum religioso, e
esse é também o seu significado normal no Novo
Testamento grego (cerca de trinta vezes).
 
Capítulo 2: Não só de pão viverá o homem
 
[1] Joseph F. Wimmer, Fasting in the New Testament: a
biblical theology (Nova York: Paulist Press, 1982), p. 119.
 
[2] Citado em Richard Foster, The celebration of discipline
(Nova York: Harper and Row, Publishers, 1978), p. 48.
 
[3] Ibid., p. 48.
 
[4] Joseph F. Wimmer, Fasting in the New Testament: a
biblical theology (Nova York: Paulist Press, 1982), p. 119.
 
[5] Dietrich Bonhoeffer, The cost of discipleship (Nova York:
Collier Books Macmillan Publishing Co., 1949), p. 189-190.
 
Capítulo 3: Jejuar pela recompensa do Pai
 
[1] Citado de Agostinho, The confessions of St. Augustine,
em Documents of the christian church, org. Henry Bettenson
(Londres: Oxford University Press, 1967), p. 54.
 
[2] J. C. Ryle, Ryle’s expository thoughts on the Gospels,
Matthew-Mark (Grand Rapids: Zondervan Publishing House,
s.d.), p. 57.
 
[3] Dietrich Bonhoeffer, The cost of discipleship (Nova York:
Collier Books / Macmillan Publishing Co., 1949), p. 188.
 
[4] Keith Main, Prayer and fasting: a study in the devotional
life of the early church (Nova York: Carlton Press, Inc., 1971),
p. 37.
 
[5] John Piper, Desiring God: meditations of a christian
hedonist (Sisters, OR: Multnomah Press, 1996, edição
revista), The pleasures of God: meditations on God’s delight
in being God (Sisters, OR: Multnomah Press, 1991), The
purifying power of living by faith in future grace (Sisters, OR:
Multnomah Press, 1995).
 
[6] C. S. Lewis, The problem of pain (Nova York: The
Macmillan Co., 1962), p. 145.
 
Capítulo 4: Jejum pela volta do Rei
 
[1] George Ladd, “A motive for mission”, em Pray for Tibet,
vol. 2, no 2, verão de 1991, p. 4-6. A citação foi tirada do
livro de Ladd, The Gospel of the kingdom: popular
exposition on the kingdom of God (Grand Rapids: Wm. B.
Eerdmans Publishing, Co. 1959).
 
[2] John Wesley, “Sermon XXVII, on our Lord’s sermon on
the mount”, em: The works of John Wesley, vol. 5 (Albany,
OR: Sage Software, 1995), p. 440-441.
 
[3] Veja John Piper, Let the nations be glad: the supremacy
of God in missions (Grand Rapids: Baker Book House, 1993),
Capítulo 5, “The supremacy of God among ‘all nations’”.
 
[4] Anthony Hoekema, The Bible and the future (Grand
Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1979), p. 139.
 
[5] George Ladd, “A motive for mission”, p. 4-6.
 
Capítulo 5: O jejum e o curso da História
 
[1] Jonathan Edwards, Some thoughts concerning the
revival, em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New
Haven: Yale University Press, 1972), p. 507.
 
[2] Charles Finney, Power from on high (Albany, OR: Sage
Software, 1995), p. 9-10 (itálicos acrescentados).
 
[3] Acerca do ministério de Asahel Nettleton e a
comparação com ele e Finney, veja J. F. Thornbury, God sent
revival: the story of Asahel Nettleton and the Second Great
Awakening (Grand Rapids: Evangelical Press, 1977), e
Bennet Tyler e Andrew Bonar, The life and labors of Asahel
Nettleton (Edimburgo: The Banner of Truth, 1975, original de
1854).
 
[4] Veja a avaliação discernente do ministério e teologia de
Finney in John MacArthur, Jr., Ashamed of the Gospel
(Wheaton, Il: Crossway Books, 1993), p. 227-235. “Eu era
com frequência útil em levar os cristãos a grande convicção,
e a um estado temporário de arrependimento e fé… [Mas]
não conseguia conduzi-los até um ponto no qual eles se
tornassem tão familiarizados com Cristo que
permanecessem nele; eles, é claro, revertiam logo ao
estado em que antes se encontravam” (p. 235). A respeito
do seu ponto de vista da soberania de Deus em relação à
vontade do homem, veja suas críticas a Jonathan Edwards
em Charles Finney, Finney’s systematic theology
(Minneapolis: Bethany Fellowship, Inc., 1976, original de
1846), p. 256-299. Com relação aos efeitos a longo prazo do
ponto de vista de Finney, eu tenderia a concordar com a
ideia de que conquanto conduzindo muitos a Cristo, “o
legado real de Finney é o impacto desastroso que ele
exerceu sobre a teologia evangélica e a metodologia
evangelística americanas. A igreja da nossa geração ainda
está fervendo com o fermento que Finney introduziu, e o
pragmatismo evangélico moderno é prova disso”
(MacArthur, p. 235).
 
[5] Wesley Duewel, Mighty prevailing prayer (Grand Rapids:
Zondervan/Francis Asbury Press, 1990), p. 192.[6] John Wesley, The journal of Rev. John Wesley (Londres:
The Epworth Press, 1938), p. 147.
 
[7] David Bryant, The hope at hand: national and world
revival for the twenty-first century (Grand Rapids: Baker
Book House, 1995), p. 127. Veja as p. 127-142 e 231-244.
 
[8] Jonathan Edwards, Some thoughts concerning revival,
em The works of Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven: Yale
University Press, 1972), p. 507.
 
[9] Ibid., p. 521.
 
[10] Ibid., p. 516. Uma informação subsidiária interessante é
que Jonathan Edwards observou que, no seu tempo, as
pessoas se reuniam no que atualmente chamamos de
“pequenos grupos”, e assim ele promovia oração e jejum
entre esses grupos também: “Os habitantes de muitas das
nossas cidades estão agora divididos em grupos
particulares de oração; a maioria das pessoas, jovens e
velhas, espontaneamente se juntou a grupos distintos para
assistência mútua em culto social em casas particulares: o
que eu pretendo fazer, portanto, é que esses dias de oração
sejam passados parcialmente nesses grupos distintos de
oração. Esse método de guardar um jejum como esse tem
sido testado muitas vezes; por exemplo, de manhã depois
dos deveres da família e reservados, como grupos; grupos
de apenas homens e grupos apenas de mulheres; apenas
homens jovens; e apenas moças; e grupos de apenas
crianças em todas as partes da cidade. Tantos quantos
sejam capazes de exercícios religiosos sociais; apenas os
meninos, e apenas as meninas… e por volta do meio-dia,
numa hora marcada, todos se encontram na casa de Deus,
para oferecer orações públicas e ouvir um sermão adequado
para a ocasião: e, a seguir, eles se retiram novamente da
casa de Deus para os seus grupos particulares, e passam o
restante do dia em oração ali, tirando apenas o tempo
reservado que era necessário para os deveres familiares em
suas próprias casas”. Ibid., p. 519.
 
[11] Ibid., p. 353.
 
[12] Jonathan Edwards, The distinguishing marks of a work
of the Spirit of God, em The works of Jonathan Edwards, vol.
4 (New Haven: Yale University Press, 1972), p. 282.
 
[13] Some thoughts concerning the revival, p. 345.
 
[14] Jonathan Edwards, The life of David Brainerd, org.
Norman Pettit, The works of Jonathan Edwards, vol. 7 (New
Haven: Yale University Press, 1985), p. 162 (itálicos
acrescentados).
 
[15] Ibid., p. 531.
 
[16] Cotton Mather, The great works of Christ in America,
vol. 2 (Edimburgo: The Banner of Truth Trust, 1979,
originalmente em 1702), p. 148 (itálicos acrescentados).
 
[17] Richard Lovelace, “Cotton Mather”, em Eerdman’s
handbook to christianity in America, org. Mark Noll, et. al.
(Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1983), p.
100.
 
[18] Ibid.
 
Capítulo 6: Encontro com Deus no jardim da dor
 
[1] Larry Libby, The cry of the poor (Bothell, WA: Action
International Ministries, 1986), p. 7-8.
 
[2] Citado em Cotton Mather, The great works of Christ in
America, vol. 2 (Edimburgo: The Banner of Truth Trust, 1979,
orig. de 1702), p. 148.
 
[3] Veja, por exemplo, Arthur Wallis, God’s chosen fast (Fort
Washington, PA: Christian Literature Crusade, 1968), p. 94-
129, 142-146; Bill Bright, The coming revival (Orlando, Fl:
New Life Publications, 1995), Capítulos 9 e 10.
 
[4] Rodney Clapp, “Why the devil takes visa”, Christianity
Today, 7 de outubro de 1996, vol. 40, no 2, tirado da Parte
3, Christianity Online.
 
[5] Amy Sherman, “Hope dreams”, Books and culture,
maio/junho de 1996, p. 3-4. Ela está revisando um livro de
Greg Donaldson, The ville: cops and kids in urban America
(1993) e citando parte dele.
 
[6] Ibid., p .4.
 
[7] “Why the devil takes visa” (Parte 3, Christianity Online).
 
[8] Larry Libby, The cry of the poor (Bothell, WA: Action
International Ministries, 1986), p. 7-8.
 
[9] Janet Ditto, “Hope on the dump”, em Target earth, org.
Frank Kaleb Jansen (Kailua-Kona, HI: University of the
Nations, 1989), p. 156.
 
[10] Relatado acerca de um casal real no The cry of the
poor, p. 11-12.
 
Capítulo 7: Jejuar pelas crianças
 
[1] William Cowper, “God moves in a mysterious way”, em:
Trinity hymnal (Filadélfia: Great Commission Publications,
1990), p. 128.
 
[2] Michael Hamilton, “The dissatisfaction of Francis
Schaeffer”, Christianity Today, vol. 41, no 3, 3 de março de
1997, p. 22.
 
[3] Ibid., p. 30.
 
[4] Francis Schaeffer, com C. Everett Koop, Whatever
happened to the human race? Em: The complete works of
Francis Schaeffer: a christian worldview, vol. 5, A christian
view of the West (Wheaton, IL: Crossway Books, 1982, orig.
de 1979), p. 405-406.
 
[5] “The dissatisfaction of Francis Schaeffer”, p. 30.
 
[6] Richard John Neuhaus, “Abortion and a nation at war”,
First Things, no 26, outubro de 1992, p. 12.
 
[7] Ibid., p. 12.
 
[8] “The dissatisfaction of Francis Schaeffer”, p. 29.
 
[9] Francis Schaeffer, A christian manifesto, em: The
complete works of Francis Schaeffer: a christian worldview,
vol. 5, A christian view of the West (Wheaton, IL: Crossway
Books, 1982, orig. de 1981), p. 491.
 
[10] “The end of democracy: the judicial usurpation of
politics”, First Things, no 67, novembro de 1996, p. 18. O
Simpósio continuou no artigo de janeiro de 1997 “The end
of democracy? A discussion continued”, p. 19-32.
Notavelmente, toda essa discussão sobre a usurpação do
Supremo Tribunal foi introduzida por Francis Schaeffer
quinze anos atrás. Ele ponderou em voz alta acerca de
quem tomaria o poder caso acontecesse o colapso da
ordem. Ele disse: “Quanto à minha opinião, acho que não
podemos deixar de considerar os tribunais, especialmente o
Supremo Tribunal, como sendo uma elite pelas seguintes
razões: 1ª.) Eles já estão governando com base na lei
sociológica e arbitrária. 2ª.) Eles estão fazendo muitas leis,
bem como governando sobre a lei. 3ª.) Eles dominam as
duas outras partes do governo”. A christian manifesto, p.
462.
 
[11] Richard John Neuhaus, “Poor times, poor country”, First
Things, no 34, junho/julho de 1993, p. 61.
 
[12] “Abortion and a nation at war”, p. 13.
 
[13] Veja David Reardon, Aborted women, silent no more
(Chicago: Loyola University Press, 1987), com sua extensa
bibliografia sobre esta questão, p. 201-202: David Reardon,
Abortion malpractice (Denton, TX: Life Dynamics, 1993).
 
[14] Citado de “Mother Teresa speaks on abortion”, tirado da
internet web site, www.castletown.com/teresa2.htm.
 
[15] A christian manifesto, p. 455.
 
[16] Ibid., p. 423.
 
[17] Ibid., p. 494.
 
[18] Ibid., p. 495.
 
[19] Ibid., p. 457.
 
[20] David Reardon, Making abortion rare: a healing
strategy for a divided nation (Springfield, IL: Acorn Books,
1996), p. XV.
 
[21] Whatever happened to the human race?, p. 282.
 
[22] Uma descrição das linhas de batalha nas “guerras na
cultura” vem de Richard Neuhaus: “Somos duas nações:
uma concentrada nos direitos e leis, a outra nos direitos e
injustiças; uma radicalmente individualista e dedicada ao
ego atualizado, a outra ao comunitário e invocando o bem
comum; uma tem a ver com as leis como o instrumento da
vontade para o poder e licença, a outra afirmando uma
moral objetiva refletida na Constituição, à qual nós estamos
obrigados; uma dada à satisfação pessoal, a outra à
responsabilidade familiar; uma tipicamente secular, a outra
tipicamente religiosa; uma elitista, a outra populista”.
“Abortion and a nation at war”, p. 9.
 
[23] A christian manifesto, p. 459.
 
[24] Ibid., p. 457.
 
[25] “God moves in a mysterious way.”
 
Conclusão: Porque Deus recompensa o jejum?
 
[1] Jonathan Edwards, “The most high a prayer-hearing
God”, em The works of Jonathan Edwards, vol. 2 (Edinburgo:
Banner of Truth Trust, 1974), p. 116.
 
[2] Jonathan Edwards, Dissertation concerning the end for
which God created the world, em The works of Jonathan
Edwards, vol. 8, org. Paul Ramsey (New Haven: Yale
University Press, 1989), p. 526.
 
Apêndice: Citações e experiências[1] Charles Spurgeon, Words of counsel for Christian workers
(Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1985), p. 112-113.
	Cover Page
	Fome por Deus
	Prefácio
	Introdução: Saudades de Deus
	1. O jejum é cristão?Jejum novo para o vinho novo
	2. Não só de pão viverá o homemO banquete no deserto do jejum
	3. Jejuar pela recompensa do PaiA orientação radical de Jesus acerca do jejum
	4. Jejuar pela volta do ReiAté que ponto nós sentimos sua falta?
	5. O jejum e o curso da HistóriaUm chamado por discernimento e anseio
	6. Encontro com Deus no jardim da dorUm jejum diferente por amor aos pobres
	7. Jejuar pelas criançasO aborto e a soberania de Deus sobre as falsas cosmovisões
	Conclusão: Por que Deus recompensa o jejum?
	Apêndice: Citações e experiências
	Bibliografia
	Notas

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