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JOHN PIPER
Não jogue sua vida fora © 2006, Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente com o título Dorít waste 
your life © 2003 by Desiring God Foundation. Publicado por Crossway Books, uma divisão da Good News 
Publishers. Wheaton, Illinois 60187, USA. Edição em português autorizada por Good News Publishers. 
Todos os direitos são reservados.
1* edição 2006 - 3.000 exemplares 
2* edição 2013 - 3.000 exemplares
Conselho Editorial
Ageu Cirilo de Magalhães Jr.
Cláudio Marra (Presidente) 
Fabiano de Almeida Oliveira 
Francisco Solano Portela Neto 
Heber Carlos de Campos Jr. 
Mauro Fernando Meister 
Tarcízio José de Freitas Carvalho 
Valdeci da Silva Santos
Produção Editorial
Tradução
Hope Gordon Silva 
Revisão
Madalena Torres 
Edna Guimarães 
Sandra Couto 
Bruna Brito 
Editoração
OM Designers Gráficos 
Capa
Osiris C. Rangel Rodrigues
P665n Piper; John 1946
Não jogue sua vida fora / John Piper. [tradução Neuza 
Batista da Silva]. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
160 p.: 16x23 cm
Tradução de Don’t waste your life 
ISBN 978-85-7622-478-5
1. Vida crista I. Piper, John II. Título
CDD 248.4
A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo 
Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus 
catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora oíicial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras 
publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo 
defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente 
endosso integral, pela denominação e pela Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação 
sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé.
811* -
s
( E D I T O R A C U L T U R A C R I S T A
Rua Miguel Teles Júnior, 394 - CEP 01540-040 - São Paulo - SP 
Caixa Postal 15.136 - CEP 01599-970 - São Paulo - SP 
Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 - Fax (11) 3209-1255 
www.editoraculturacrista.com.br - cep@cep.org.br 
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas 
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
http://www.editoraculturacrista.com.br
mailto:cep@cep.org.br
Para 
Louie Giglio 
e a paixão de seu coração 
pelo renome de Jesus Cristo 
nesta geração
Sumário
Prefácio
Para cristãos e não cristãos..............................................................................7
1 Minha busca por uma paixão única pela qual viver.............................. 9
2 Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria............................ 19
3 Gloriar-se somente na cruz, o centro flamejante
da glória de Deus........................................................................................ 33
4 Magnificar a Cristo por meio de dor e morte....................................... 45
5 O risco é certo - é melhor perder a vida
do que jogá-la fora..................................................................................... 57
6 O alvo da vida - alegremente fazer outros
alegres em Deus.......................................................................................... 73
7 Viver para provar que ele é mais precioso
do que a vida............................................................................................... 79
8 Não desperdice sua vida das 8 às 5 ........................................................ 99
9 A majestade de Cristo em missões e
misericórdia - um apelo para esta geração...........................................117
10 Minha oração - que ninguém diga, no final,
“Joguei a minha vida fora” ...................................................................... 139
Prefácio
Para cristãos e não cristãos
A Bíblia diz: “Não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por preço. 
Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (ICo 6.19-20). Eu escrevi este 
livro para ajudá-lo a sentir o gosto destas palavras como sendo doces em vez 
de amargas ou monótonas.
Você está em um de dois grupos: ou é cristão ou Deus o chama agora para 
ser. Você não teria posto a mão neste livro se Deus já não estivesse operando 
em sua vida.
Se você é cristão, seu dono não é você. Cristo o comprou com o preço de 
sua própria morte. Você pertence a Deus duplamente: ele o fez e o comprou. 
Isso significa que sua vida não lhe pertence. É de Deus. Portanto, a Bíblia lhe 
diz: “Glorificai a Deus no vosso corpo”. Foi para isso que Deus o fez. Foi para 
isso que Deus o comprou. Esse é o sentido que sua vida tem.
Se você ainda não é um cristão, é isso que Jesus Cristo oferece: pertencer 
duplamente a Deus e poder fazer aquilo para o qual você foi feito. Talvez isso 
não lhe pareça empolgante. Glorificar a Deus pode não significar nada para 
você. É por isso que eu conto minha própria história nos primeiros dois 
capítulos, que chamo de “Criado para a alegria”. Não esteve sempre claro para 
mim que buscar a glória de Deus seria praticamente igual a buscar a minha 
própria alegria. Hoje vejo que milhões de pessoas jogam fora suas vidas por­
que pensam que esses caminhos são dois, e não um.
Um aviso, primeiro. O caminho da alegria de exaltar a Deus custará sua 
vida. Jesus disse: “Quem perder a vida por causa de mim e do evangelho 
salvá-la-á” (Mc 8.35). Em outras palavras, é melhor perder sua vida do que 
desperdiçá-la. Se você viver alegremente para tornar outros alegres em Deus, 
sua vida será difícil, você arriscará muito, e sua alegria será abundante. Este 
livro não é a respeito de como evitar uma vida machucada, mas de como evi­
tar uma vida desperdiçada. Alguns de vocês morrerão no serviço de Cristo.
8 Não jogue sua vida fora
Isso não será tragédia. Ter em maior estima a vida do que Cristo é tragédia.
Saiba que eu oro por você, seja você um estudante sonhando algo radical 
para sua vida ou um aposentado, com esperança de não desperdiçar os anos 
finais. Se você está querendo saber o que eu oro, leia o capítulo 10. Essa é a 
minha oração.
Por enquanto, eu agradeço a Deus por você. Minha alegria cresce com 
cada coração, cada alma que busca a glória de Deus na face de Jesus Cristo. 
Lembre-se, você tem uma vida. E é só. Você foi feito para Deus. Não jogue 
fora a sua vida.
31 de março de 2003 
John Piper
1
Minha busca por uma paixão 
única pela qual viver
Meu pai era um evangelista. Na verdade, ele ainda é, embora não viaje 
mais. Quando eu era menino, houve ocasiões raras em que minha mãe, 
minha irmã e eu viajávamos com ele e o ouvíamos pregar. Eu tremia ao ouvir 
meu pai pregar. Apesar do previsível humor na introdução, a coisa toda me 
atingia como sendo de absoluta sinceridade jurada. Havia certo semicerrar 
dos olhos e uma tensão nos lábios quando a avalanche de textos bíblicos che­
gava a um clímax na aplicação.
"Eu desperdicei a vida. Eu a joguei fora"
Ah, como ele fazia o apelo! Crianças, adolescentes, jovens solteiros, jovens 
casais, os de meia-idade, os idosos - ele pressionava com as advertências e 
convites atraentes de Cristo o coração de cada pessoa. Ele tinha histórias, 
tantos casos, para cada faixa etária - casos de conversões gloriosas e de incre- 
dulidades terríveis, seguidas de mortes trágicas. Poucas vezes essas histórias 
vinham sem lágrimas.
Para mim quando menino, uma das ilustrações que meu pai usava que 
mais me prendia a atenção era a história de um homem convertido na velhice. 
A igreja havia orado por esse homem durante décadas. Ele era duro e resis­
tente. Mas dessa vez, por alguma razão, ele apareceu quando meu pai estava 
pregando. No fim do culto, durante um hino, para admiração de todos ele veio 
e pegou na mão de meu pai. Sentaram-se juntos no banco da frente da igreja 
enquanto as pessoas eram despedidas. Deus abriu o coração dele ao evange­
lho de Cristo, e ele foi salvo de seus pecados e foi-lhe dada a vida eterna. Mas 
isso não o fazia parar de soluçar e dizer,não joguem fora suas 
vidas em sucesso fatal.
Esse desejo ardente se transfere muito facilmente a você, especialmente 
se estiver com seus 20, 30 anos. Vejo você como se fosse meu filho ou filha, 
e nestas páginas eu apelo a você como pai - talvez um pai que o ama muitís­
simo, ou o pai que você nunca teve. Ou o pai que nunca teve para você uma 
visão como eu tenho - e que Deus tem para você. Ou o pai que tem uma visão 
para você, mas é toda a respeito de dinheiro e status. Eu olho através destas 
páginas e vejo vocês como filhos e filhas, e apelo a vocês: deseje que sua vida 
valha a pena por algo tremendo! Deseje muito que sua vida tenha importân­
cia eterna. Queira isso! Não deslize pela vida sem uma paixão.
Eu amo a visão de Louie Giglio
Uma das inspirações por trás deste livro foi minha participação nos con­
gressos para universitários e jovens adultos chamados Paixão '97, Paixão ’98,
36 Não jogue sua vida fora
Paixão ’99, UmDia (2002), e UmDia03. Abaixo de Cristo, a vela de igni­
ção atrás dessas reuniões de adoração e mobilização de missões foi Louie 
Giglio. Ele convida jovens a fazerem uma “Declaração 268”. O número vem 
de Isaías 26.8 - “Andando pelo caminho das tuas ordenanças esperamos em 
ti, Se n h o r . O teu nome e a tua lembrança são o desejo do nosso coração” 
( n v i ) . A primeira parte da “Declaração” diz: “Porque fui criado por Deus 
e para a glória dele, eu o engrandecerei à medida que respondo ao grande 
amor dele. Meu desejo é fazer com que conhecer e apreciar Deus seja a busca 
apaixonada de minha vida”.1
Essa visão de vida estende a estudantes e jovens adultos a oportunidade de 
mais que o vazio de mero sucesso ou a orgia de alguns dias de intervalo entre 
bimestres. Aqui não há só um corpo, há uma alma. Não só um desejo de ser 
apreciado, ou de jogar bola, ou colecionar conchas. Aqui há um desejo por 
algo infinitamente grande, belo e valioso que realmente satisfaz - o nome e a 
glória de Deus - “Teu nome e a tua lembrança são o desejo do nosso coração”.
Isso está de acordo com tudo que eu escrevi no capítulo anterior e é aplicá­
vel à geração que virá. Isso é o que eu vivo para conhecer e anseio por viven- 
ciar. Essa é praticamente a declaração de missão da minha vida e da igreja a 
que sirvo: “Nós existimos para difundir uma paixão pela supremacia de Deus 
em todas as coisas, para a alegria de todos os povos, por meio de Jesus Cristo”. 
Você não precisa dizer isso como eu o digo ou como Louie Giglio o diz. Mas 
seja o que for que você faça, encontre a paixão centrada em Deus, exaltadora 
de Cristo, saturada de Bíblia de sua vida, e encontre um modo de dizê-la, 
viver por ela e morrer por ela. E você fará uma diferença que perdurará. Você 
não jogará fora a sua vida.
O homem cuja paixão única transformou tudo o mais em lixo
Você será como o apóstolo Paulo, como vimos antes, quando ele disse 
que nada queria conhecer senão Jesus Cristo e ele crucificado. Ninguém teve 
uma visão mais dirigida a uma só finalidade para sua vida do que Paulo. 
Ele sabia dizer isso de muitas formas diferentes. Ele podia dizer: “Em nada 
considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha 
carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evan­
gelho da graça de Deus” (At 20.24). Uma coisa lhe era importante: “Não 
jogarei fora minha vida! Eu terminarei minha corrida e eu a terminarei bem. 
Eu demonstrarei o evangelho da graça de Deus em tudo que fizer. Correrei 
até o fim da minha corrida”.
Ou ele podia dizer: “O que, para mim, era lucro, isto considerei perda 
por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da 
sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do 
qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para conseguir Cristo”
Gloriar-se somente na cruz, o centro flamejante da glória de Deus 37
(Fp 3.7-8). Uma coisa importa: você conhecer Cristo e ganhar a Cristo. Tudo 
mais é lixo em comparação a isso.
Qual é a paixão única de sua vida que faz com que tudo mais pareça lixo 
em comparação? Que Deus o ajude a acordar em você mesmo uma única 
paixão por uma única grande realidade que o libertará de pequenos sonhos e 
o enviará, pela glória de Cristo, a entrar em todas as esferas da vida secular e 
a todos os povos da terra.
Cristo crucificado, o centro flamejante da glória de Deus
Com uma oração nesse sentido, retomo onde parei no capítulo anterior. 
Ali eu disse: “A vida é jogada fora se não captarmos a glória da cruz, se não a 
valorizarmos pelo tesouro que é, e se não nos apegarmos a ela como o preço 
mais alto em cada prazer e o consolo mais profundo em cada dor”. O que já 
foi tolice para nós - um Deus crucificado - precisa tornar-se nossa sabedoria, 
nossa força e nosso único motivo de orgulho neste mundo.
Eu defendi no capítulo 2 que Deus nos criou para viver para sua glória e 
que Deus é glorificado melhor em nós quando estamos mais satisfeitos nele. 
Nós magnificamos o valor de Deus acima de tudo quando ele se torna o único 
em que nos gloriamos. E eu concluí aquele capítulo com a reivindicação de 
que sua glória só pode ser vista e desfrutada por pecadores pela glória de 
Jesus Cristo. Qualquer outra abordagem a Deus é ilusão ou incineração. Se 
queremos engrandecer a Deus, devemos engrandecer a Cristo. A morte san­
grenta dele é o centro flamejante da glória de Deus. Se Deus for nossa glória, 
se é dele que vamos nos gabar, o que ele fez e o que ele é em Cristo precisa ser 
a nossa ostentação.
A chocante convocação para nos gloriarmos 
de uma corda de linchamento
Com respeito a isso, poucos versículos da Bíblia são mais radicais, de 
abrangência maior e de exaltação maior a Cristo do que Gálatas 6.14: “Longe 
esteja de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela 
qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo”. Ou para dizer 
isso de modo categórico: só se glorie na cruz de Jesus Cristo. Essa é uma ideia 
única. Um só alvo para a vida. Uma única paixão. Só se glorie na cruz. A pala­
vra “gloriar-se” pode ser traduzida “exultar em” ou “alegrar-se em”. Só exulte 
na cruz de Cristo. Só se regozije na cruz de Cristo. Paulo diz: seja esta sua 
única paixão, sua única ostentação, alegria e exultação. Se você me entende - 
e espero que me entenda antes que cheguemos ao fim -, você saberá por que 
isso não contradiz, e sim confirma tudo que escrevi no capítulo 2 quando oro 
por você, o leitor: Possa aquela única coisa que você ama, a única coisa em que 
você se alegra e sobre a qual exulta, ser a cruz de Jesus Cristo.
38 Não jogue sua vida fora
Paulo dizer que devemos nos gloriar somente na cruz de Cristo é chocante 
por duas razões.
Uma é que parece estar dizendo: só se glorie na cadeira elétrica. Exulte 
somente na câmara de gás. Só se regozije na injeção letal. Que seu único 
motivo de orgulho seja a corda de linchamento. “Longe esteja de mim glo­
riar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. Nenhuma forma de 
execução já inventada foi mais cruel e agonizante do que ser pregado numa 
cruz e pendurado para morrer como um pedaço de carne. Foi horrível. Você 
não teria aguentado olhá-lo - não sem gritar, arrancar o cabelo e rasgar sua 
roupa. Provavelmente teria vomitado. Deixe que isso, diz Paulo, seja a única 
paixão de sua vida. É isso que choca em suas palavras.
A outra é que ele diz que isso há de ser o único orgulho de sua vida. A 
única alegria. A única exultação. “Longe esteja de mim gloriar-me senão 
na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado 
para mim, e eu, para o mundo”. O que ele quer dizer com isso? Será que está 
falando sério? Nenhum outro motivo de orgulho? Nenhuma outra exultação? 
Nenhuma outra alegria senão a cruz de Jesus?
E como ficam as passagens onde o próprio Paulo usa a mesma palavra para 
falar em gloriar-se ou exultar em outras coisas? Por exemplo, Romanos 5.2: "... 
gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. Romanos 5.3-4: “... não somente 
isto, mas tambémnos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tri- 
bulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, 
esperança”. E 2Coríntios 12.9: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas 
fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo”. Em lTessalonicen- 
ses 2.19: “... quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, 
na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?”
"Glorie-se só nisso" significa "que todo gloriar-se 
seja gloriar-se nisso"
Então, se Paulo pode gloriar-se, exultar e alegrar-se em todas essas coisas, 
o que Paulo quer dizer - que ele não “se gloriaria senão na cruz de nosso 
Senhor Jesus Cristo”? Será que é incoerência de sentido duplo? Exultar-se em 
uma única coisa, mas dizer que você exulta em outra? Não. Há uma razão 
bem profunda para se dizer que toda exultação, todo regozijo, todo gloriar-se 
em algo deve ser um alegrar-se na cruz de Jesus Cristo.
Paulo quer dizer algo que mudará todas as partes de sua vida. Ele quer 
dizer que, para o cristão, todo outro gloriar-se também deve ser um gloriar- 
-se na cruz. Toda exultação em tudo mais deve ser exultação na cruz. Se você 
exulta na esperança da glória, você deve estar exultando na cruz de Cristo. Se 
você exultar na tribulação porque a tribulação opera a esperança, sua exulta­
ção deve ser na cruz de Cristo. Se exultar em suas fraquezas, ou no povo de 
Deus, você deve estar exultando na cruz de Cristo.
Gloriar-se somente na cruz, o centro flamejante da glória de Deus 39
Cristo comprou toda coisa boa e toda coisa ruim 
que mudou para o bem
Por que isso é assim? Porque, para pecadores remidos, toda coisa boa - e 
de fato toda coisa ruim que Deus torna em boa para o bem de seus filhos sal­
vos - foi obtida para nós pela cruz de Cristo. A não ser pela morte de Cristo, 
os pecadores nada obtêm senão o julgamento. À parte da cruz de Cristo, só há 
condenação. Portanto, tudo que você aprecia em Cristo - como cristão, como 
pessoa que confia em Cristo - se deve à morte de Cristo, e todo seu alegrar-se 
em todas as coisas, portanto, deve ser um regozijar-se na cruz onde todas as 
suas bênçãos foram compradas para você à custa da morte do Filho de Deus, 
Jesus Cristo.
Um dos motivos pelos quais nós não somos tão centrados em Cristo e tão 
saturados da cruz de Cristo como devíamos estar é que ainda não reconhe­
cemos que tudo - tudo de bom, e tudo de mau que Deus torna em bem para 
seus filhos redimidos - foi comprado pela morte de Cristo por nós. Simples­
mente aceitamos a vida, o fôlego, a saúde e os amigos como coisa normal. 
Achamos que tudo é nosso por direito. Mas o fato é que não é nosso por 
direito. Somos duplamente indignos disso. Não o merecemos.
1) Somos criaturas, e nosso Criador não é constrangido ou obrigado a 
nos dar nada - nem vida, nem saúde, nem nada. Ele dá, ele tira, e ele não faz 
injustiça nenhuma (Jó 1.21).
2) E além de sermos criaturas sem nenhum direito sobre o nosso Criador, 
somos pecadores. Carecemos ter o nível da glória de Deus (Rm 3.23). Nós o 
desconsideramos e lhe desobedecemos, e não o amamos nem confiamos nele. 
A ira de sua justiça está acesa contra nós. Tudo que merecemos dele é conde­
nação por culpas nossas (Rm 3.19). Portanto, todo fôlego que tomamos, toda 
vez que nosso coração bate, todo dia que o sol surge, todo momento em que 
vemos com nossos olhos, ouvimos com nossos ouvidos, falamos com nossa 
boca ou caminhamos com nossas pernas é, por enquanto, uma dádiva gratuita 
e imerecida a pecadores que merecem apenas serem condenados em juízo.
Misericórdia bem-vinda ou ira se acumulando?
Eu digo “por enquanto” porque, se você recusar ver Deus nas dádivas que 
vêm dele, elas deixarão de ser dádivas, e se tornarão provas de ingratidão na 
Suprema Corte. A Bíblia fala delas primeiro como “riqueza da sua bondade 
e tolerância e longanimidade” que nos apontam para o arrependimento (Rm 
2.4). Mas, quando abusamos delas e não estimamos a graça de Deus nelas 
contida, acumulamos ira “para o dia da ira e da revelação do justo juízo de 
Deus” (Rm 2.5).
Mas para aqueles que veem a mão misericordiosa de Deus em cada fôlego 
que tomam e dão crédito onde é devido, Jesus Cristo será visto e desfrutado
40 Não jogue sua vida fora
como o grande Comprador de cada fôlego imerecido. Cada batida do coração 
será recebida como dádiva de sua mão.
Nada merecendo, mas tudo herdando - por quê?
Como, então, ele as comprou? Resposta: pelo seu sangue. Se eu nada mereço 
senão condenação por causa de meu pecado, mas em vez disso recebo vida e 
fôlego nesta era e alegria eterna na era vindoura, porque Cristo morreu por 
mim, então tudo que é bom e tudo de mau que Deus torna em bem devem 
ser a recompensa do sofrimento dele (não merecimento meu). Isso inclui toda 
aquela diversidade sobre a qual discorri no início deste capítulo. Eu perguntei: 
podem trabalho, lazer, relacionamentos, comer, fazer amor e ministério, todos 
realmente fluir de uma única paixão? Existe algo suficientemente profundo, 
grande e forte para manter tudo isso junto? É possível sexo, carros, trabalho, 
guerra, trocar fraldas e calcular impostos realmente terem uma unidade que 
exalte a Deus e satisfaça a alma? Agora vemos que toda experiência da vida 
é designada a magnificar a cruz de Cristo. Ou para dizer isso de outro modo, 
toda coisa boa na vida (ou coisa ruim que graciosamente é tornada em bem) 
tem o alvo de engrandecer Cristo e este crucificado.
Cristo comprou meu Dodge totalmente destruído?
Então, por exemplo, destruímos nosso velho carro Spirit da Dodge há pou­
cos anos, mas ninguém ficou ferido. E nessa segurança eu exulto. Eu me glorio 
nisso. Por que ninguém se machucou? Pois foi um presente para mim e minha 
família que nenhum de nós mereceu. E não será sempre assim. Mas dessa vez 
foi, e nós não o merecemos. Somos pecadores e por natureza filhos da ira, 
separados de Cristo. Então como aconteceu de termos tal presente para nosso 
bem? Resposta: Cristo morreu por nossos pecados na cruz, tirou de nós a ira 
de Deus e assegurou para nós, mesmo nós não a merecendo, a graça onipo­
tente de Deus, que opera todas as coisas para nosso bem. Portanto, quando eu 
exulto em nossa segurança, estou exultando na cruz de Cristo.
Depois o seguro pagou-nos pelo carro, e minha esposa Noêl pegou esse 
dinheiro, foi a um estado vizinho, comprou-nos um Lumina da Chevrolet 
que era um ano mais novo e trouxe-o para casa na neve. E eu exulto na graça 
maravilhosa de tanta abundância. Simples assim. Você destrói seu carro. 
Saem sem ninguém se machucar. O seguro paga. Você compra outro. E vai 
em frente quase como se nada tivesse acontecido. E, cheio de gratidão, eu 
abaixo a fronte e exulto nas incontáveis misericórdias dessas coisas materiais. 
De onde vêm todas essas misericórdias? Se você é um pecador salvo, um 
crente em Jesus, elas vêm pela cruz. À parte da cruz, só existe juízo - paciên­
cia por um tempo, mas depois, se desprezado, toda essa misericórdia só serve 
para intensificar a condenação. Portanto, toda coisa boa na vida e toda coisa
Gloriar-se somente na cruz, o centro flamejante da glória de Deus 41
ruim que Deus transforma em bem são dádivas compradas com sangue. E 
todo gloriar - toda exultação - deve ser gloriar-se na cruz.
Ai de mim se eu exulto em qualquer bênção de qualquer tipo em qualquer 
hora, a não ser que minha exultação seja um exultar na cruz de Cristo.
Outra maneira de dizer isso é que o plano da cruz é a glória de Cristo. 
O alvo de Deus na cruz foi que Cristo seria honrado. Quando Paulo diz em 
Gálatas 6.14: “Longe esteja de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor 
Jesus Cristo”, ele está dizendo que a vontade de Deus é que a cruz seja sempre 
magnificada - que Cristo crucificado seja sempre nosso orgulho, exultação, 
alegria e louvor - , que Cristo receba glória, agradecimentos e honra para 
cada coisa boa em nossa vida e cada coisa má que Deus torna em boa.
Difundir uma paixão por Cristo crucificado - 
por meio de ensinoMas aqui está uma pergunta: se o objetivo de Deus na morte de Cristo - a 
saber, que “Cristo crucificado” seja honrado e glorificado por todas as coisas
- então como Cristo receberá a glória que merece? A resposta é que esta gera­
ção tem que ser ensinada que essas coisas são assim. Ou em outras palavras: 
a fonte da exultação na cruz de Cristo é a educação sobre a cruz de Cristo.
Esse é meu trabalho. Não estou sozinho, mas eu o tenho para mim mesmo 
com uma paixão. É nisso que eu creio que o Senhor me levava para fazer em 
1966, quando eu estava prostrado na cama com mononucleose, no centro de 
saúde em Wheaton, Illinois, nos EUA. É a isso que tudo esteve direcionado - 
ao mandato de Deus: viva assim, estude assim, sirva assim, pregue e escreva 
assim, para que Jesus Cristo, o Deus crucificado e ressurreto, seja o único de 
quem esta geração se glorie. E se este é o meu trabalho, o seu é o mesmo, só 
que numa forma diferente: viver e falar de tal maneira que o valor de “Cristo 
crucificado” seja visto e apreciado por mais e mais pessoas. Custará caro para 
nós como foi para ele.
O único lugar para gloriar-se na cruz é estar na cruz
Se desejarmos que não haja gloriar-se exceto na cruz, então nós precisa­
mos viver perto da cruz - de fato, precisamos viver na cruz. Isso é chocante. 
Mas é isso que Gálatas 6.14 diz: “... longe esteja de mim gloriar-me senão na 
cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para 
mim, e eu, para o mundo”. Gloriar-se na cruz acontece quando você está na 
cruz. Não é isso que Paulo diz? “O mundo está crucificado para mim, e eu [fui 
crucificado] para o mundo.” O mundo está morto para mim, e eu estou morto 
para o mundo. Por quê? Porque eu fui crucificado. Aprendemos a gloriar-nos 
na cruz e exultar na cruz quando nós estamos na cruz. E até que nosso pró­
prio “eu” esteja crucificado ali, nossa ostentação estará em nós mesmos.
42 Não jogue sua vida fora
Mas o que quer dizer isso? Quando isso aconteceu? Quando é que fomos 
crucificados? A Bíblia dá a resposta em Gálatas 2.19-20: “Estou crucificado 
com Cristo. Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E esse 
viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e 
a si mesmo se entregou por mim”. Quando Cristo morreu, nós morremos. O 
sentido glorioso da morte de Cristo é que, quando ele morreu, todos aqueles 
que são dele morreram nele. A morte que ele morreu por todos nós torna-se 
nossa morte quando somos unidos a Cristo pela fé (Rm 6.5).
Mas você diz: “Eu não estou vivo? Eu me sinto vivo”. Ora, aqui há uma 
necessidade de instrução. Nós devemos aprender o que aconteceu conosco. 
Essas coisas precisam ser ensinadas. É por isso que Gálatas 2.20 e 6.14 estão 
na Bíblia. Deus passa a ensinar-nos o que nos aconteceu, para que possamos 
conhecer a nós mesmos e sua forma de trabalhar conosco, e exultar nele, em 
seu Filho e na cruz conforme devemos.
Ligar-nos à morte e vida de Cristo crucificado
Considere Gálatas 2.19-20 novamente. Veremos que estamos mortos e 
vivos. “Estou crucificado com Cristo [portanto, estou morto]. Já não sou eu 
quem vive, mas Cristo que vive em mim. E esse viver que agora tenho na 
carne [então, sim, estou vivo, mas não é o mesmo ‘eu’ como o eu’ que mor­
reu] eu vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou 
por mim.” Em outras palavras, o “eu” que vive é o novo “eu” da fé. A nova 
criação vive. O crente vive. O velho eu morreu na cruz com Jesus.
Você pode perguntar: “Qual é a chave para ligar-me com esta realidade? 
Como pode isso ser meu? Como posso estar entre os mortos que estão vivos 
com Cristo e que veem, desfrutam e difundem a glória da cruz?” A resposta 
está implícita nas palavras sobre f é em Gálatas 2.20. “Esse viver que agora 
vivo... vivo pela f é no Filho de Deus”. Essa é a ligação. Deus liga você ao seu 
Filho pela fé. E, quando ele faz isso, há uma união com o Filho de Deus de 
modo que a morte dele se torna sua morte e a vida dele, sua vida.
Morrer, viver e gloriar-se na cruz
Agora vamos levar tudo isso lá para Gálatas 6.14 e veremos como nós 
chegamos a viver totalmente para a glória de Cristo crucificado. “Longe esteja 
de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o 
mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo.” Isto é, não se gabe de 
nada a não ser da cruz. Como nos tornaremos tão radicalmente exaltadores 
da cruz? Como podemos nos tornar a espécie de pessoas que origina toda a 
alegria na alegria em Cristo, e ele crucificado? Resposta: o velho eu que adora 
se gabar, exultar e alegrar-se em outras coisas morreu. Pela fé somos uni­
dos a Cristo. A morte dele torna-se a morte de nossa vida exaltadora de nós
Gloriar-se somente na cruz, o centro flamejante da glória de Deus 43
mesmos. Somos erguidos a ele em novidade de vida. O que vive é uma nova 
criatura cuja única paixão é exaltar Cristo e a cruz dele.
Para dizer isso de outro modo, quando você deposita sua confiança em 
Cristo, seus laços com o mundo e sua atração opressora são arrebentados. 
Você é um defunto para o mundo, e o mundo é um defunto para você. Ou, 
para colocar isso de modo categórico, segundo o versículo 15, você é “nova 
criatura”. O velho “você” está morto. Um novo “você” está vivo E o novo você 
é o você da fé. E o que a fé faz é gloriar-se não no mundo, mas sim em Cristo, 
especialmente em Cristo crucificado.
É assim que você se torna tão centrado na cruz que você diz com Paulo: 
“Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. 
O mundo não é mais nosso tesouro. Não é a origem de nossa vida, nem de 
nossa satisfação, nem de nossa alegria. Cristo é.
Valorizamos o que ele dá ou o que isso revela dele?
Mas como fica a questão de segurança no acidente de carro? E o paga­
mento do seguro que recebemos? Eu não disse que fiquei contente com isso? 
Isso não é mundano? Então eu não estou realmente morto para o mundo? 
Morto para pagamentos de seguro e carros novos?
Peço a Deus que eu esteja morto do modo certo. Eu creio que estou. Não de 
modo perfeito, tenho certeza, mas em um sentido real. Como pode ser isso? Se 
me sinto alegre sobre segurança, saúde ou qualquer coisa boa, e essas coisas são 
do mundo (o que são), então será que estou morto para o mundo? Sim, porque 
estar morto para o mundo não significa não sentir nada sobre o mundo (veja 
ljo 2.15; lTm 4.3). Significa que todo prazer legítimo no mundo torna-se uma 
evidência comprada com sangue do amor de Cristo, e uma ocasião de gloriar- 
-se na cruz. Estamos mortos ao recebermos pagamentos de seguros quando o 
dinheiro não é o que nos satisfaz, e sim Cristo crucificado, o Doador, satisfaz.
C. S. Lewis ilustra o que quero dizer com uma experiência que ele teve 
num barracão de ferramentas.
Eu estava em pé hoje no barracão escuro. O sol estava brilhando 
lá fora e através da fresta em cima da porta um raio de sol entrou.
De onde eu estava posicionado, aquele raio de luz, com as partícu­
las de pó flutuando nele, era a coisa que mais chamava a atenção lá 
dentro. Tudo mais estava quase preto como piche. Eu estava vendo
o raio, não enxergando as coisas à luz dele.
Então eu saí do lugar, de modo que o raio de luz incidia nos 
meus olhos. Instantaneamente, sumiu todo o quadro anterior. Eu 
vi o barracão, e (mais de tudo) nenhum raio. Em vez disso, eu via, 
emoldurado na abertura irregular em cima da porta, folhas verdes 
em movimento nos galhos de uma árvore lá fora e mais além, a uns
44 Não jogue sua vida fora
sessenta milhões de quilômetros de distância, o sol. Olhar dentro 
do raio e olhar para o raio são experiências muito diferentes.2
Os raios de sol de bênçãos em nossa vida são fortes em si. Também dão 
luz ao piso onde caminhamos. Mas há um propósito superior para essas bên­
çãos. Deus quer que nós façamos mais do que ficar fora deles e admirá-los 
por aquilo que são. Mais do que isso, ele tenciona que andemos e entremos 
neles e vejamos o Sol do qual vêm. Se os raios sãolindos, o Sol é mais lindo 
ainda. O alvo de Deus não é que meramente admiremos suas dádivas, mas 
que admiremos ainda mais a glória dele.
Nós morremos para o mundo inocente no fulgor 
da glória de Cristo
Ora, o importante é que a glória de Cristo, manifesta especialmente em 
sua morte e ressurreição, é a glória acima e por trás de cada bênção que apre­
ciamos. Ele comprou tudo que é bom para nós. Sua glória é onde a busca de 
nossas afeições precisa terminar. Tudo mais é um apontador - uma parábola 
dessa beleza. Quando nosso coração persegue o raio dessa bênção até sua 
fonte na glória fulgurante da cruz, ali o terreal da bênção está morto, e Cristo 
crucificado é tudo.
A única vida glorificadora de Deus
Isso não é nem um pouco diferente do alvo de magnificar a glória de Deus 
que vimos no capítulo 2. Cristo é a glória de Deus. A cruz encharcada do san­
gue dele é o centro fulgurante dessa glória. Por ela, ele comprou para nós todas 
as bênçãos - temporais e eternas. E nós não merecemos nenhuma. Ele com- 
prou-as todas. Por causa da cruz de Cristo, os eleitos de Deus são destinados a 
ser filhos de Deus. Por causa de sua cruz, a ira de Deus é tirada. Por causa de sua 
cruz, toda a culpa é removida, e os pecados são esquecidos, e a justiça perfeita é 
atribuída a nós, e o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito, 
e nós estamos sendo conformados à imagem de Cristo.
Portanto, todo deleite e prazer nesta vida e na próxima que não for ido­
latria é um tributo ao valor infinito da cruz de Cristo - o centro fulgurante 
da glória de Deus. E assim uma vida centrada na cruz, exaltadora da cruz, 
saturada pela cruz é uma vida que glorifica a Deus - a única vida que glorifica 
a Deus. Todas as outras são jogadas fora.
Notas do capítulo 3
1 Ver: www.268generation.com/268generation/268declaration.htm [aces­
sado em 15-3-03].
2 C. S. Lewis, “Meditation in a Toolshed”, em C. S. Lewis: Essay Collection 
and Other ShortPieces (Londres: Harper Collins, 2000), 607.
http://www.268generation.com/268generation/268declaration.htm
Magnificar a Cristo por meio 
de dor e morte
Viver para magnificar a Cristo custa caro. Isso não surpreende. Ele foi cru­
cificado. Ele foi tratado como sendo um diabo. E ele nos chama para segui-lo. 
“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga- 
-me” (Mc 8.34). Ele diz que provavelmente as coisas não irão melhor para nós 
do que para ele. “Se chamaram Belzebu1 ao dono da casa, quanto mais aos 
seus domésticos?” (Mt 10.25).
Mas sofrer com Jesus na estrada de amor do Calvário não é meramente 
o resultado de magnificar a Cristo; é também o meio. Ele é tornado supremo 
quando nós estamos tão satisfeitos nele que podemos “perder família, bens, 
prazer... e a morte chegar” por causa do amor. A beleza dele brilha mais lumi­
nosa quando estimada acima da saúde, da riqueza e da própria vida. Jesus 
sabia disso. Sabia que sofrimento (quer em pequenos desconfortos ou em 
terrível tortura) seria o caminho nesta era mortal para torná-lo o mais visi­
velmente supremo. É por isso que nos chama a isso. Ele nos ama. E o amor 
não significa mimar-nos ou tornar a vida fácil. Significa ele nos capacitar para 
revelar apreço e amor por ele para sempre - por maior que seja o custo.
Nós nos gloriamos mais na cruz quando a carregamos
E ela nos custa caro. A vida cristã normal é a que só se orgulha na cruz - o 
centro fulgurante da glória de Deus - e faz isso ao mesmo tempo que leva a 
cruz. “Qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu 
discípulo” (Lc 14.27). Carregar a cruz é o meio pelo qual somos cada vez 
mais liberados para gloriar-nos na cruz. Sofrer é plano de Deus nesse mundo 
encharcado de pecado (Rm 8.20). Retrata o horror do pecado para o mundo 
enxergar. Pune a culpa do pecado para aqueles que não creem em Cristo. 
Quebra o poder do pecado para aqueles que tomam sua cruz e seguem Jesus.
4
46 Não jogue sua vida fora
E porque o pecado é a depreciação da glória de Deus que a tudo satisfaz, o 
sofrimento que quebra o poder dela é uma misericórdia severa.
Aquilo que nos torna cada vez mais capazes de apreciar o gloriar-nos em 
Deus já é uma misericórdia. Pois não há maior alegria do que alegrar-nos na 
grandeza de Deus. E se precisamos sofrer para ver isso e desfrutá-lo mais pro­
fundamente, então sofrimento é uma misericórdia. E o chamado de Cristo para 
que tomemos nossa cruz e nos unamos a ele na estrada do Calvário é amor.
O livro radical de Bonhoeffer para minha geração
Dietrich Bonhoeffer foi um presente para minha geração de estudantes. 
Rogo a Deus que sua mensagem preciosa e de custo enorme seja redescoberta 
em cada geração. Mesmo ele tendo morrido com a idade de 39 anos, sua vida 
não foi jogada fora. Sua vida e morte continuam a falar com poder. Ele foi 
enforcado no campo de concentração em Flossenburgo, na Alemanha, a 9 de 
abril de 1945. Havia sido pastor, professor e líder de uma pequena escola de 
treinamento para a igreja confessional e participado no movimento de resis­
tência protestante contra os nazistas.
O livro que ateou fogo à fé de milhares da minha geração foi The Cost o f 
Discipleship [O custo do discipulado], Eu o li nas curtas férias do Natal, durante 
meu último ano na faculdade. É provável que a sentença mais famosa e orien­
tadora de vida do livro todo seja: “A cruz não é o fim terrível de uma vida que 
no restante é temente a Deus e feliz, mas ela nos encontra no princípio de nossa 
comunhão com Cristo. Quando Cristo chama um homem, ele o manda vir e 
morrer”.2 Fugir da morte é o caminho mais curto para uma vida jogada fora.
O livro de Bonhoeffer foi uma condenação maciça da “graça barata” que 
ele enxergava na Igreja cristã nos dois lados do Atlântico. Ele cria na justifi­
cação pela graça por meio da fé. Mas ele não acreditava que a fé que justifica 
pudesse algum dia deixar as pessoas sem serem mudadas pelo Cristo radi­
cal em que afirmam crer. Seria uma resposta barata ao evangelho. “O único 
homem”, Bonhoeffer disse, “que tem o direito de dizer que ele está justificado 
pela graça somente é o homem que deixou tudo para seguir a Cristo”.3
Os paradoxos da vida que exaltam a Cristo
Uma vida dedicada a magnificar a Cristo é de grande custo. E o custo é 
tanto uma conseqüência como um meio de engrandecê-lo. Se não abraçamos 
o caminho do amor carregado de alegria, do amor doloroso, desperdiçaremos 
nossa vida. Se não aprendemos com Paulo os paradoxos da vida que exaltam 
a Cristo, desperdiçaremos nossos dias perseguindo bolhas que estouram. Ele 
viveu “entristecido, mas sempre alegre; pobre, mas enriquecendo a muitos; 
nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10). A estrada do Calvário é cara e 
dolorosa, mas não lhe falta alegria.
Magnificar a Cristo por meio de dor e morte 47
Quando abraçarmos com alegria o custo de seguir a Cristo, o valor dele 
brilhará no mundo. O apóstolo Paulo tinha uma grande paixão na vida. Nós 
já o vimos dizê-la de várias formas: nada saber senão Cristo e ele crucificado 
(ICo 2.2); gloriar-se apenas na cruz (G16.14).
A paixão única de Paulo na vida e na morte
Ele falou sobre sua grande paixão de outro modo que nos mostra como o 
custo de engrandecer a Cristo é também o meio. Ele disse à igreja de Filipos: 
é “a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergo­
nhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo 
engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porquanto, 
para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.20-21). Aqui a pergunta 
é feita e respondida. Como se honra Cristo pela morte? Como pode o custo 
de perder tudo neste mundo ser um meio de exaltar a Jesus? Leiamos Paulo 
cuidadosamente. Cristo nos chamou para viver para sua glória e morrer para 
sua glória. Se soubermos como morrer bem, saberemos como viver bem. 
Esse texto mostra ambas as coisas.
Novamente vemos a paixão única de Paulo na vida - “será Cristo engran­
decido no meu corpo, quer pela vida, quer pelamorte”. Se Cristo não é 
engrandecido em nossa vida, ela é jogada fora. Nós existimos para fazê-lo 
aparecer no mundo como o que ele realmente é - magnificente. Se nossa 
vida e morte não mostram o valor e maravilha de Jesus, são desperdiçadas. 
É por isso que Paulo disse que seu alvo na vida e na morte era que Cristo 
fosse honrado.
Nossa vergonha e nosso tesouro
Note o modo incomum em que ele esclarece isso no versículo 20: é 
“minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado”. 
Pare aí um momento. Vergonha é aquele sentimento terrível de culpa ou fra­
casso quando você não corresponde, e isso diante das pessoas cuja aprovação 
você almeja fortemente. É o que a criancinha sente na apresentação do Natal 
quando esquece as frases que deve falar, e as lágrimas lhe enchem os olhos, e 
o silêncio parece eterno, e as outras crianças dão risadinhas brutalmente. Eu 
me lembro dessas vezes horríveis. Ou vergonha é o que um presidente sente 
quando as fitas secretas são finalmente tocadas, a linguagem obscena e todo o 
engano é exposto, e ele está ali desonrado e culpado diante das pessoas.
O que é, então, o oposto de vergonha? É quando a criança se lembra das 
frases e ouve o aplauso. É quando o presidente governa bem e é reeleito. O 
oposto de ser envergonhado é ser honrado. Sim, geralmente. Mas Paulo era 
uma pessoa muito fora do comum. E os cristãos devem ser pessoas bem 
fora do comum. Para Paulo, o oposto de ser envergonhado não era ele ser
48 Não jogue sua vida fora
honrado, mas Cristo ser honrado por meio dele. É “minha ardente expecta­
tiva e esperança de que em nada serei envergonhado”, mas que “será Cristo 
engrandecido no meu corpo”.
O que você ama determina o que o envergonha. Se você ama as pessoas 
o engrandecerem, você sentirá vergonha quando não o fizerem. Mas se você 
ama os homens engrandecerem Cristo, então você se envergonhará se ele é 
diminuído por sua culpa. E Paulo amava Cristo mais do que amava qualquer 
coisa ou qualquer pessoa. “O que, para mim, era lucro, isto considerei perda 
por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da 
sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.7-8).
Sempre que algo é de valor tremendo para você, e você ama sua beleza, 
força ou singularidade, você quer atrair a atenção de outros para isso e des­
pertar neles a mesma alegria. É por isso que o alvo máximo da vida de Paulo 
era Cristo ser engrandecido. Cristo tinha valor infinito para Paulo, e por isso 
ele ansiava que outros vissem e sentissem esse valor. É isso que significa mag­
nificar a Cristo - mostrar a magnitude do seu valor.
A morte não torna impossível magnificar a Deus?
Mas se alguém fizer objeção a Paulo sobre esse ponto e disser: “Paulo, nós 
vemos como Cristo é valioso para você agora - como você gosta de sua com­
panhia, como ele lhe dá um ministério frutífero e salva sua vida de naufrágio 
espiritual. Mas o que significará tudo isso na hora da morte? Onde está o 
valor de Cristo naquela hora? Se ser um cristão custar a você a sua vida, como 
isso lhe ajudará a engrandecer Cristo? Isso não vai roubar a própria vida com 
a qual você poderia magnificá-lo?”.
Então Paulo acrescenta no final do versículo 20 que sua ardente expecta­
tiva é que “Cristo seja engrandecido em meu corpo, quer pela vida quer pela 
morte”. A morte é uma ameaça só até onde frustra seus alvos principais. A 
morte é terrível até o grau em que ameaça roubar o que mais vale para você. 
Mas o tesouro maior de Paulo era Cristo, e seu alvo era magnificar a Cristo. 
E ele via a morte não como uma frustração daquele alvo, mas como uma 
ocasião para sua realização.
Vida e morte! Parecem ser opostos completos - grandes inimigos um do 
outro. Mas para Paulo - e para todos aqueles que compartilham da sua fé - há 
uma unidade, porque a mesma grande paixão é realizada em ambos - a saber, 
que Cristo seja magnificado neste corpo - nosso corpo - quer por vida quer 
por morte.
Em Filipenses 1.21, Paulo faz uma declaração que é um resumo recheado, 
explicando por que ele tem tanta esperança de que Cristo será magnificado 
em seu viver e em seu morrer: “... para mim, o viver é Cristo, e o morrer 
é lucro”. Depois, nos versículos 22-26, Paulo explica as duas metades dessa
Magnificar a Cristo por meio de dor e morte 49
afirmação para que vejamos em mais detalhe como Cristo é engrandecido 
pela vida e pela morte.
Vamos olhá-las uma por vez.
Paulo descobriu o segredo de Pedro
Primeiro: “Para mim... o morrer é lucro”. Será que Paulo em suas con­
versas com Pedro em Jerusalém tinha falado em morrer? Será que Pedro lhe 
contou daquela experiência registrada em João 21, em que Jesus, após sua 
ressurreição, disse a Pedro: “Quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo 
e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, 
e outro te cingirá e te levará para onde não queres” (Jo 21.18). Depois, João 
acrescenta esta explicação em seu evangelho: “Disse isto para significar com 
que gênero de morte Pedro haveria de glorificar a Deus” (Jo 21.19). Deus havia 
decretado que Pedro faria Deus parecer grande com a morte dele. Não duvido 
que, quando Pedro e Paulo deram um ao outro a mão direita de comunhão, 
o aperto masculino de suas mãos e o olhar forte de seus olhos comunicaram 
essa paixão que tinham em comum: magnificar a Cristo crucificado - o cen­
tro fulgurante da glória de Deus - mesmo na morte.
Mas como vamos nós magnificar a Cristo na morte? Ou em outras pala­
vras: como podemos morrer de modo que em nosso morrer o valor insupe­
rável de Cristo, a magnitude de seu valor, se torne visível? A resposta de Paulo 
aqui em Filipenses 1 se encontra primeiro na ligação entre os versículos 20 
e 21. Esses versículos são ligados pela palavra “porquanto” ou “porque”. Isso 
pode ser resumido nas palavras sobre morte: “Minha ardente expectativa é 
que Cristo seja honrado em meu corpo pela morte, pois para mim o morrer 
é lucro”. Em outras palavras, se você experiencia a morte como lucro, você 
magnífica a Cristo na morte.
De que modo morrer é lucro?
Por que isso? O versículo 23 mostra porque morrer é lucro para Paulo: 
“Tendo o desejo de partir [isto é, morrer] e estar com Cristo, o que é incompa­
ravelmente melhor”. A morte faz isso: ela nos leva a ter maior intimidade com 
Cristo. Partimos e estamos com Cristo, e isso, Paulo diz, é ganho. E quando 
você experimenta a morte assim, Paulo diz, você exalta a Cristo. Experimen­
tar Cristo como ganho em seu morrer magnífica a Cristo. É “incomparavel­
mente melhor” do que viver aqui.
De verdade? Melhor do que todos os amigos na escola? Melhor do que se 
apaixonar? Melhor do que abraçar seus filhos? Melhor do que sucesso profis­
sional? Melhor do que aposentadoria e netos? Sim, mil vezes melhor. Quando 
eu preguei meu sermão como candidato para a posição pastoral que tenho 
agora, esta passagem da Bíblia foi meu texto. Isso foi em 27 de janeiro de
50 Não jogue sua vida fora
1980. Eu quis mostrar às pessoas, a partir da Escritura, a paixão única, que a 
tudo abarca, a paixão da minha vida - magnificar a Cristo em todas as coisas 
quer por vida quer por morte.
Nessa altura da mensagem, a pergunta surgiu: a morte é melhor do que a 
vida? Partir para estar com Cristo é melhor do que ficar aqui? Eu lhes disse:
Se eu não cresse isso, como eu ousaria aspirar ao papel de pas­
tor - em qualquer lugar - para não falar na Igreja Batista Belém, 
onde 108 dos membros têm mais de 80 anos e outros 171 mais 
de 65? Mas eu creio isso e digo a cada crente de cabelos grisalhos 
desta igreja, com toda a autoridade de apóstolo de Cristo, o melhor 
está por vir! E eu não quero dizer uma pensão rechonchuda e um 
condomínio de luxo. Eu quero dizer Cristo.
Eu realizei uma média de um funeral a cada três semanas, durante o pri­
meiro ano e meio de meu ministério. E muitos mais depois disso. Foi um 
período sóbrio e doce para um pastor jovem. Uni meu coração ao de muitas 
famílias à medida que dizíamosadeus para um amigo após outro. E passar 
bem é exatamente o que cremos que eles fizeram.
Se aprendermos a morrer bem, viveremos bem
O que nós aprendemos de Filipenses 1 até aqui é que a morte (por cau­
sas naturais ou por perseguição) é um meio de engrandecer a Cristo. Se 
sofrermos ou morrermos na estrada do Calvário da obediência com Cristo, 
o custo de segui-lo não é apenas um resultado de engrandecê-lo, e sim um 
meio. A morte torna visível onde está o nosso tesouro. A maneira como 
morremos revela o valor de Cristo em nosso coração. Cristo é magnifi- 
cado em minha morte quando eu estou satisfeito com ele no meu morrer
- quando eu vivencio a morte como lucro, porque eu o ganho. Ou para 
dizê-lo de outra forma: a essência de louvar a Cristo é valorizá-lo. Cristo 
será louvado em minha morte, se em minha morte ele é valorizado acima 
da vida.
Jesus disse: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é 
digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é 
digno de mim” (Mt 10.37). Quando chegar a hora de tudo ser tirado de nós 
exceto Cristo, nós o magnificaremos dizendo: “Nele eu tenho tudo e mais 
ainda. Morrer é ganho”.
Se aprendermos a morrer assim, estaremos prontos para viver. Senão, 
jogamos fora nossa vida. A maioria de nós tem alguns anos para viver antes 
de irmos estar com Cristo. Mesmo os mais velhos entre nós precisam fazer 
a pergunta: “Se amamos Cristo, como ele pode ser magnificado em meu
Magnificar a Cristo por meio de dor e morte 51
comportamento hoje à tarde, hoje à noite, esta semana?”. Então vamos à outra 
metade de Filipenses 1.21: “Para mim, o viver é Cristo”.
Viver é Cristo
O que Paulo quer dizer: “Viver é Cristo”? Ele começa sua explicação no 
versículo 22: “se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho...”. Mas essa é 
uma explicação estranha: “Viver é Cristo” torna-se “viver é trabalho frutífero 
para mim”. Qual é o fruto que vem do trabalho de Paulo? E como “viver... 
Cristo”? As respostas vêm nos versículos 24-26.
No versículo 22, Paulo disse: “Caso continue vivendo no corpo, terei fruto 
do meu trabalho. E já não sei o que escolher!” ( n v i ) . Agora, no versículo 24, 
ele diz: “Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne”. Então, 
é evidente que o fruto que a vida de Paulo produz não é só para si, mas é 
muito necessário por causa dos crentes filipenses. A frase: “Para mim, viver é 
Cristo” agora se torna “para mim, viver é para produzir o fruto de que vocês 
todos precisam muito”. Então, o versículo 25 diz-nos qual é esse fruto de que 
a igreja precisa e que a vida de Paulo produzirá: “Estou certo de que ficarei 
e permanecerei com todos vós, para o vosso progresso e gozo da fé”. Assim 
podemos ver Paulo esclarecendo aos poucos o que ele quer dizer com “para 
mim, o viver é Cristo”.
Primeiro, significa: minha vida é dedicada a produzir fruto (v.22). Segun­
do: minha vida é devotada a produzir um fruto que é muito necessário vocês 
terem (v.24). Terceiro: minha vida é dedicada a aumentar sua fé e ajudá-la a 
transbordar de alegria (v.25).
Agora a pergunta crucial é: por que na mente de Paulo é a mesma coisa 
dizer, por um lado, “para mim, o viver é Cristo”, e, por outro lado, “minha 
vida é dedicada ao seu progresso e alegria na fé”? Acho que essas duas decla­
rações são praticamente sinônimas para Paulo nesse contexto.
Eu vivo para o seu progresso e alegria na fé
Para ver isso precisamos de uma definição de fé. Comumente fé signifi­
caria confiança que você deposita em alguém que já deu provas de confia­
bilidade, disposição e capacidade de providenciar o que você precisa. Mas 
quando Jesus Cristo é o objeto da fé há uma mudança. Ele mesmo é o que 
precisamos. Se nós confiamos em Cristo só para nos dar dádivas e não ele 
mesmo como o presente que a tudo satisfaz, então não confiamos nele de 
uma forma que o honre como nosso tesouro. Simplesmente honramos as 
dádivas. Elas são o que nós realmente queremos. Portanto a fé bíblica em 
Jesus precisa significar que nós confiamos nele para dar-nos o que mais pre­
cisamos - a saber, ele mesmo. Isso quer dizer que a própria fé precisa incluir 
em sua essência avaliar Cristo como tesouro acima de todas as coisas.
52 Não jogue sua vida fora
Agora estamos numa posição de ver por que os dois alvos de Paulo para 
sua vida são de fato um só. Conforme o versículo 20, seu alvo é magnificar a 
Cristo em vida; e, conforme o versículo 25, seu alvo é promover o progresso e 
alegria na fé dos filipenses. Seria esta a sua vida: trabalhar para o “progresso 
e alegria na fé” deles.
Mas agora vimos que fé é essencialmente ter Cristo como nosso tesouro. 
A palavra “alegria” no versículo 25 (“para vosso... gozo na fé”) é sinal que esse 
entesourar é um entesourar alegre. E, se Cristo é entesourado com alegria, ele 
é magnificado. É justamente essa a única e abarcante paixão da vida de Paulo. 
Em outras palavras, Paulo está dizendo: “Minha vida é dedicada a produzir 
em vocês aquela grande e singular experiência do coração pela qual Cristo é 
engrandecido - a saber, serem satisfeitos nele, entesourando-o alegremente 
acima de tudo mais. É isso que eu quero dizer quando digo: ‘Para mim, viver 
é Cristo’. Isto é, eu viver é para a sua fé engrandecedora de Cristo”.
A vida cristã é muitas mortes
Seria um grande erro a essa altura separarmos o como a morte honra 
a Cristo do fato de como a vida honra a Cristo. O motivo, pelo qual isso é 
erro, é que a vida do cristão inclui muitas mortes. Paulo disse: “Dia após dia, 
morro!” (ICo 15.31); Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo 
se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). A vida cristã de cada 
dia é a morte cristã de cada dia. O morrer que eu tenho em mente é o morrer 
do conforto, segurança, bom nome, saúde, família, amigos, riqueza e pátria. 
Esses podem ser tirados de nós a qualquer momento no caminho da obe­
diência de exaltar Cristo. Morrer diariamente como Paulo morreu, e tomar 
nossa cruz diariamente como Jesus mandou, é abraçar esta vida de perda por 
amor a Cristo e contar isso como ganho.
Em outras palavras, a maneira em que nós honramos Cristo na morte é 
valorizar Jesus acima do dom da vida, e a maneira em que honramos Cristo 
na vida é valorizar Jesus acima das dádivas da vida. É por isso que Paulo 
usou a mesma palavra “ganho”, “lucro”, com relação a Cristo na morte e na 
vida. Ele não só disse “morrer é lucro”, como também, “o que, para mim, era 
lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo 
como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu 
Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, 
para ganhar Cristo” (“conseguir” Cristo, Fp 3.7-8).
Dor e prazer como maneiras de engrandecer Cristo
O todo da vida para o cristão tem o propósito de magnificar a Cristo. 
Isso pode acontecer pelo prazer e pela dor. Estamos enfocando aqui a dor. 
O motivo para isso não é que mil coisas agradáveis não vêm para nós como
Magnificar a Cristo por meio de dor e morte 53
cristãos. Nem é que não devamos desfrutá-las como dádivas de Deus e glori­
ficá-lo com ações de graças. Devemos sim. É isso que a Bíblia ensina. “Tudo 
que Deus criou é bom, e recebido com ação de graças, nada é recusável, por­
que é santificado pela palavra e oração” (lTm 4.4-5). E é verdade que “o que 
me oferece sacrifício de ações de graças, esse me glorificará” (SI 50.23).
A razão pela qual eu não dou ênfase a isso é que nós já estamos programa­
dos para apreciar o lado agradável da verdade. Somos criaturas caídas, aman­
tes do conforto. Sempre estamos atentos à procura de maneiras de justificar 
as formas em que buscamos autoproteger-nos, sentir-nos seguros e felizes. Eu 
conheço isso com respeito a mim mesmo. E fico satisfeito em saber que isso 
não é totalmente ruim. Deus “...de tudo nos provê ricamente, para a nossa 
satisfação” (lTm 6.17, n v i ) .
Como lidamos com perda mostra quem é o nosso tesouro
Mas o que eu sei com mais certezaainda é que a maior alegria em Deus 
vem de doar seus presentes, não em reservá-los para nós mesmos. É bom tra­
balhar e ter. É melhor ainda trabalhar e ter para poder dar. A glória de Deus 
brilha mais quando ele nos santifica em tempos de perda do que quando ele 
provê para nós em tempos de fartura. O “evangelho” de saúde, de muitos 
bens e prosperidade engole a beleza de Cristo na beleza de seus presentes e 
transforma os presentes em ídolos. O mundo não fica impressionado quando 
os cristãos ficam ricos e dão graças a Deus. Fica impressionado quando Deus 
satisfaz tanto que doamos nossas riquezas por amor a Cristo e contamos isso 
como ganho.
Jamais alguém disse que aprendeu suas lições mais profundas da vida ou 
teve seus mais doces encontros com Deus nos dias de sol. As pessoas vão 
fundo com Deus quando a seca vem. É assim que Deus planejou. Cristo visa 
ser magnificado na vida mais claramente pela maneira em que o vivenciamos 
em nossas perdas. Paulo é nosso exemplo: “[A] tribulação que nos sobreveio 
na Ásia... foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da pró­
pria vida. Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença da morte, para 
que não confiemos em nós e sim no Deus que ressuscita os mortos” (2Co 
1.8-9). O objetivo do sofrimento de Paulo foi tornar radicalmente claro, para 
a alma dele e para a nossa, que Deus, e somente ele, é o único tesouro que 
dura. Quando tudo mais na vida é tirado exceto Deus, e nós confiamos mais 
nele por causa disto, isso é ganho, e ele é glorificado.
Jogar fora a vida fugindo da dor
Esse plano para a vida cristã é tão crucial que devemos abrir nossos olhos 
para ver quanto espaço a Bíblia dá para falar dele. Números incontáveis 
de pessoas jogam fora suas vidas tentando escapar do custo do amor. Não
54 Não jogue sua vida fora
enxergam que o amor sempre vale o custo. Há mais da glória de Deus para 
ser visto e apreciado por meio do sofrimento do que da fuga que busca servir 
a si próprio. Paulo o coloca assim: “Mesmo que o nosso homem exterior se 
corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque 
a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, 
acima de toda comparação” (2Co 4.16-17). “Momentânea” se refere a uma 
vida toda em comparação com a eternidade. “Leve” se refere a sofrimento 
e morte em comparação com o peso da alegria sempiterna na presença de 
Deus. É isso que ganhamos de nos seguramos firmes em Cristo. É isso que 
perdemos se não o fizermos.
Deus planeja que tribulações intensifiquem nossa esperança para a glória 
de Deus. Paulo diz, em Romanos 5.2, que nós temos acesso pela fé à graça e 
alegramo-nos, “gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. Depois ele nos 
diz nos dois versículos seguintes como é que aquela esperança é preservada 
e adoçada: “Não só isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, porque 
sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter 
aprovado; e o caráter aprovado, esperança” (v.3-4, n v i ) . Essa esperança que 
cresce, se aprofunda e satisfaz por meio do sofrimento é a esperança do ver­
sículo 2, “a esperança da glória de Deus”. Fomos criados para ver e desfrutar 
essa glória. E Deus, em amor, usará as tribulações que forem necessárias para 
intensificar o desfrute de sua glória.
Há uma diferença entre sacrifício e suicídio
Não é errado orar por cura, tomar remédio ou pôr fechaduras nas portas. 
A Bíblia não pede suicídio. É presunção pular de cima do templo enquanto se 
cita promessas bíblicas de que Deus vai apanhá-lo no ar. Deus tem a decisão 
final para dizer se e quando o caminho da obediência levará ao sofrimento. 
Satanás tem o lugar dele. Gosta muito de nos fazer infelizes e procura destruir 
nossa fé. Mas Deus é soberano sobre Satanás, e todos os propósitos dele para 
destruir os santos são designados por Deus para o bem de seu povo e a glória 
de seu nome.
Então é certo fugir e é certo ficar. Pode-se escapar e pode-se suportar a 
dureza. Quando fugir e quando ficar é uma pergunta agonizante para muitos 
missionários e obreiros urbanos e cristãos nos locais de trabalho secular com 
grande oportunidade e grande conflito. Uma pessoa que pensou mais sobre 
isso do que a maioria de nós foi John Bunyan, o pastor que passou 12 anos na 
prisão e escreveu O peregrino. Ele poderia ter optado por ser solto da prisão 
se tivesse concordado em não pregar. Sua esposa e filhos precisavam dele. 
Uma das filhas era cega. Foi uma decisão agonizante. “Separar-me de minha 
esposa e pobres crianças muitas vezes tem sido para mim neste lugar como o 
arrancar da Carne dos meus ossos”.4
Magnificar a Cristo por meio de dor e morte 55
Aqui está o que ele escreveu sobre a liberdade do cristão de ficar ou fugir 
de perigo:
Podemos tentar escapar? Podes fazer isso como estiver no teu 
coração. Se está no teu coração fugir, fuja; se estiver no teu coração 
ficar firme, fique. Tudo menos uma negação da verdade. Aquele 
que foge, tem autorização para fazer isso; aquele que fica firme, 
tem autorização para fazer isso. Sim, o mesmo homem pode tanto 
fugir como ficar firme, conforme for o chamado e o trabalho de 
Deus com seu coração. Moisés fugiu (Êx 2.15); Moisés ficou firme 
(Hb 11.27). Davi fugiu (ISm 19.12); Davi ficou firme (ISm 24.8). 
Jeremias fugiu (Jr 37.11-12); Jeremias ficou firme (Jr 38.17). Cristo 
se retirou (Lc 9.10); Cristo ficou firme ali (Jo 18.1-8). Paulo fugiu 
(2Co 11.33); Paulo ficou firme (At 20.22-23) [...].
Há poucas regras para esse caso. O próprio homem é mais capaz 
de julgar a respeito de suas forças na hora, e do peso que este ou 
aquele argumento tem no seu coração para ficar firme ou fugir. [...]
Não fuja por medo, como escravo, mas antes porque é ordenança de 
Deus, abrindo a porta para o escape de alguns, a porta sendo aberta 
pela providência de Deus, e o escape apoiado pela Palavra de Deus 
(Mt 10.23). [...] Se acontece, portanto, quando tu fugiste, que tu és 
pego, não se sinta ofendido com Deus ou com o homem: não com 
Deus, porque és seu servo, tua vida e tudo que tens é dele; não com 
o homem, porque ele é apenas a vara de Deus e está ordenado, nisso, 
para fazer teu bem. Escapaste? Ria. Foste pego? Ria. Quero dizer, 
fique contente com qualquer que for o seguimento em que as coisas 
vão, porque as balanças ainda estão na mão de Deus.5
A promessa e o desígnio de Deus
Mas quando tudo for dito e feito, a promessa e o desígnio de Deus para as 
pessoas que não jogam fora suas vidas é clara. “Todos quantos querem viver 
piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). E, quando a 
perseguição dá uma pausa, os gemidos desta era permanecem. “Também nós, 
que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, 
aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). Nós 
gememos de uma maneira ou outra. Como Paulo disse: “Entristecidos, mas 
sempre alegres” (2Co 6.10).
A promessa é essa. O plano é esse. Jesus disse a Paulo na dor - e a todos nós 
que valorizamos mais a ele do que a uma existência livre de dor - “A minha 
graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9a). Muitos 
cristãos que professam a fé se zangariam diante desse desígnio. Poderiam até
56 Não jogue sua vida fora
gritar: “Não me importo com seu poder ser aperfeiçoado! Eu estou com dor! 
Se o Senhor me ama, tire-me disso!” Não foi a resposta de Paulo. Ele tinha 
aprendido o que é o amor. Amor é fazer o que ele precisa fazer, a grande custo 
para ele (e, muitas vezes, para nós), para capacitar-nos a engrandecê-lo para 
sempre. Então Paulo responde ao plano de Cristo: “De boa vontade, pois, 
mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de 
Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas 
perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, 
então, é que sou forte” (2Co 12.9b-10).
Toda alegria duradoura está na estrada do Calvário
Que desperdício trágico quando as pessoas se voltam daestrada do Cal­
vário de amor e sofrimento. Todas as riquezas da glória de Deus em Cristo 
estão naquela estrada. Toda a comunhão mais doce com Jesus está lá. Todos 
os tesouros da segurança. Todos os enlevos da alegria. Todos os vislumbres 
mais claros da eternidade. Toda a camaradagem mais nobre. Todos os afetos 
mais humildes. Todos os atos mais ternos de bondade perdoadora. Todas as 
descobertas mais profundas da Palavra de Deus. Todas as orações mais sin­
ceras. Tudo está na estrada do Calvário onde Jesus caminha com seu povo. 
Tome sua cruz e siga Jesus. Nessa estrada, e só nessa estrada, a vida é Cristo e 
a morte é ganho. A vida em todas as outras estradas é jogada fora.
Notas do capítulo 4
!No tempo de Cristo, este era o nome para o príncipe dos demônios - isto 
é, Satanás ou diabo.
2 Dietrich Bonhoeífer, The Cost o f Discipleship (Nova York: Macmillan, 
1967), 99.
3 Idem, 55.
4 John Bunyan, Grace Abounding to the Chief o f Sinners (Hertfordshire, 
Inglaterra: Evangelical Press, 1978), 123.
5 Idem, Seasonable Counsels, or Advice to Sufferers, em The Works o f John 
Bunyan, vol. 2, org. George Offor (Edinburgo: Banner of Truth, 1991, orig., 
1854), 726.
5
O risco é certo - é melhor 
perder a vida do que 
jogá-la fora
Se nossa paixão única e abrangente é magnificar a Cristo na vida e na 
morte, e se a vida que mais o engrandece é a vida de amor que nos custa caro, 
então a vida é risco, e arriscar é certo. Você correr disso é jogar fora a vida.
O que é risco?
Eu defino risco muito simplesmente como uma ação que o expõe à pos­
sibilidade de perda ou dano. Se você arriscar, pode perder dinheiro, pode 
perder prestígio, pode perder sua saúde ou até a sua vida. E, o que é pior, se 
você arriscar, poderá pôr em perigo outras pessoas e não só você mesmo. A 
vida deles pode estar em jogo. Será que uma pessoa sábia e amorosa, então, 
arriscará algum dia? É sábio expor-se a perdas? É amoroso pôr outros em 
perigo? Perder a vida é a mesma coisa que jogá-la fora?
Depende. É claro que você pode jogar a vida fora de uma centena de modos 
pecaminosos e morrer como resultado. Nesse caso, perder a vida e desperdiçá- 
-la dariam na mesma. Mas perder a vida nem sempre é a mesma coisa que 
jogá-la fora. E se as circunstâncias são tais que não arriscar resulta em perda e 
dano? Pode trazer prejuízo não arriscar. E se arriscar com êxito traria grande 
benefício a muitas pessoas, e no caso de fracassar traria dano somente a você? 
Pode não demonstrar amor escolher o sossego ou a segurança quando algo 
grande pode ser alcançado para a causa de Cristo e pelo bem dos outros.
O risco é um fio que faz parte do tecido de nossa vida finita
Por que existe algo como arriscar? Porque existe algo como ignorar. Se não 
houvesse o desconhecimento não haveria risco nenhum. O risco é possível
58 Não jogue sua vida fora
porque nós desconhecemos como as coisas serão no fim. Isso quer dizer 
que Deus não pode arriscar.1 Ele sabe o resultado de todas as suas opções 
antes que aconteçam. É isso que significa ser Deus em oposição a todos os 
deuses das nações (Is 41.23; 42.8-9; 44.6-8; 45.21; 46.8-11; 48.3). E, visto 
que conhece o resultado de todas suas ações antes de acontecerem, ele 
planeja de acordo com isso. Sua onisciência exclui a própria possibilidade 
de arriscar.2
Mas não é assim conosco. Nós não somos Deus; somos ignorantes. Não 
sabemos o que há de acontecer amanhã. Deus não nos conta em detalhe o 
que pretende fazer amanhã ou daqui a cinco anos. Evidentemente Deus pre­
tende que vivamos e atuemos em desconhecimento e incerteza sobre o resul­
tado de nossas ações.
Ele nos diz, por exemplo, em Tiago 4.13-15:
Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a 
cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros.
Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, 
apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em 
vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como 
também faremos isto ou aquilo.
Você não sabe se seu coração vai parar antes de você acabar de ler esta 
página. Você não sabe se algum motorista vindo em sua direção vai sair da 
pista dele de repente e bater de frente com você na próxima semana, ou se a 
comida do restaurante vai conter algum vírus fatal, ou se um derrame vai para- 
lisá-lo antes que a semana chegue ao fim, ou se algum homem com arma vai 
atirar em você no supermercado. Não somos Deus. Não sabemos do amanhã.
Explodindo o mito da segurança
O risco, portanto, está entretecido em nossa vida finita. Não podemos 
evitar risco ainda que o queiramos. Desconhecimento e incerteza sobre o 
dia de amanhã é o próprio ar que respiramos. Todos os nossos planos para 
as atividades do amanhã podem ser estilhaçados por mil coisas desconheci­
das quer fiquemos em casa debaixo das cobertas quer saiamos andando nas 
rodovias. Um de meus alvos é destruir os mitos de segurança e de alguma 
forma livrá-lo do mito de estar seguro. Porque é uma miragem. Não existe. 
Em toda direção, para onde você se voltar, há coisas desconhecidas e além de 
seu controle.
A trágica hipocrisia é que o encantamento da segurança nos deixa arriscar 
para nós mesmos todos os dias, mas nos paralisa para arriscar pelos outros 
na estrada do amor do Calvário. Nós nos iludimos e achamos que podemos
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 59
pôr em perigo uma segurança que nem existe de fato. O modo em que eu 
espero explodir o mito da segurança e desencantá-lo da miragem da segu­
rança é simplesmente ir à Bíblia e mostrar-lhe que é certo arriscar pela causa 
de Cristo, e assim não desperdiçar a vida.
"Faça o Senhor o que bem lhe parece"
Considere o contexto de 2Samuel 10. Os amalequitas tinham envergonhado 
os mensageiros de Israel e se tornado odiosos aos olhos de Davi. Para se pro­
tegerem, tinham contratado os siros para lutar com eles contra os israelitas. 
Joabe, o comandante das forças de Israel, achou-se cercado com amalequitas 
de um lado e siros do outro. Então ele dividiu as tropas, pôs seu irmão Abisai 
para comandar uma tropa de combatentes e dirigiu a outra ele mesmo.
No versículo 11, eles prometeram ajudar um ao outro. Depois vem essa 
grande declaração no versículo 12: “Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo 
nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o Se n h o r o que bem lhe 
parecer”. O que significam essas palavras finais: “Faça o Se n h o r o que bem lhe 
parecer”? Querem dizer que Joabe tomou uma decisão estratégica para as cida­
des de Deus, e não sabia como isso iria sair. Ele não teve nenhuma revelação 
especial sobre a questão. Teve que tomar a decisão na base de sabedoria santi­
ficada. Teve que arriscar ou sair correndo. Não sabia como resultaria. Portanto 
tomou a decisão e entregou os resultados a Deus. E isso estava correto.
"Se perecer, pereci"
A rainha Ester é outro exemplo de arriscar-se corajosamente a serviço do 
amor e para a glória de Deus. Houve um judeu chamado Mordecai que viveu 
no 5a século antes de Cristo durante o exílio dos judeus. Ele tinha uma prima 
mais nova que era órfã, chamada Ester, que ele adotara como filha. Ela cres­
ceu, tornou-se linda e eventualmente foi tomada pelo rei Assuero, da Pérsia, 
para ser sua rainha. Hamã, um dos principais príncipes, odiava Mordecai e 
todos os refugiados judeus e persuadiu o rei a decretar que eles fossem exter­
minados. O rei não percebeu que sua própria rainha era judia.
Mordecai mandou recado a Ester que fosse perante o rei e rogasse a causa 
de seu povo. Mas Ester sabia que havia uma lei real que qualquer pessoa que 
se aproximasse do rei sem ser chamada seria morta, a não ser que ele erguesse 
seu cetro de ouro. Ela sabia também que as vidas de seu povo estavam em 
risco. Ester mandou sua resposta a Mordecai nestas palavras:
Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai 
por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem 
de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos.Depois, irei ter 
com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci (Et 4.16).
60 Não jogue sua vida fora
“Se perecer, pereci.” O que isso significa? Significa que Ester não sabia 
qual seria o resultado de sua ação. Ela não teve revelação especial de Deus. 
Ela tomou sua decisão com base em prudência e amor pelo seu povo e con­
fiança em Deus. Ela teve que arriscar ou correr. E não sabia como isso acaba­
ria. Então tomou a decisão e entregou os resultados para Deus. “Se perecer, 
pereci”. E foi o certo.
"Não serviremos os seus deuses"
Considere mais um exemplo do Antigo Testamento. O cenário é a Babi­
lônia. O povo judeu está no exílio. O rei é Nabucodonosor. Ele coloca uma 
imagem de ouro, então manda que, quando a trombeta soasse, todo o povo se 
curvasse à imagem. Mas Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não se curvaram. 
Eles adoravam o rei único e verdadeiro de Israel.
Então Nabucodonosor ameaçou-os e disse que, se não adorassem a ima­
gem, seriam lançados na fornalha de fogo ardente. Eles responderam:
Ó Nabucodonosor, quanto a isso não necessitamos de te res­
ponder. Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos 
livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, 
fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adorare­
mos a imagem de ouro que levantaste (Dn 3.16-18).
Isso foi puro risco. “Nós cremos que nosso Deus nos livrará. Mas, mesmo 
se não fizer isso, não serviremos seus deuses.” Eles não sabiam como resul­
taria. Disseram praticamente a mesma coisa: “Se perecermos, perecemos”. E 
entregaram o resultado a Deus do mesmo modo que Joabe e Abisai: “Faça 
o Se n h o r o que bem lhe parece”. E isso estava certo. É certo arriscar pela 
causa de Deus.
"Estou pronto para morrer pelo nome do Senhor Jesus"
O grande “arriscador” do Novo Testamento foi o apóstolo Paulo. Imagine- 
-o primeiro a caminho de Jerusalém depois de anos de sofrer por Cristo em 
quase todo lugar para onde ia. Comprometeu-se no Espírito (At 19.21) ir a 
Jerusalém. Tinha coletado dinheiro para os pobres e cuidava que fosse entre­
gue fielmente. Ele chegou até Cesareia, e um profeta chamado Ágabo des­
ceu da Judeia, atou simbolicamente suas próprias mãos e pés com o cinto de 
Paulo e disse: “Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, farão 
ao dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios” (At 21.11).
Quando os crentes ouviram isso, imploraram a Paulo que não fosse a Jeru­
salém. Ele respondeu: “Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? 
Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 61
pelo nome do Senhor Jesus” (At 21.13). Então, Lucas conta, seus amigos 
abrandaram: “Visto que não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se 
a vontade do Senhor” (At 21.14).
Em outras palavras, Paulo cria que essa viagem a Jerusalém era necessária 
para a causa de Cristo. Ele não conhecia os detalhes do que aconteceria lá 
ou qual seria o resultado. Algemas e aflições com certeza. Mas depois o quê? 
Morte? Aprisionamento? Desterro? Ninguém sabia. Então, o que disseram? 
Podiam concordar em uma coisa: “Faça-se a vontade do Senhor!” Ou como 
Joabe disse: “Faça o Se n h o r o que bem lhe parece”. E isso foi certo.
"Em cada cidade... aflições me esperam"
De fato, a vida inteira de Paulo foi de um risco estressante atrás de outro. 
Ele disse em Atos 20.23: “O Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura 
que me esperam cadeias e tribulações”. Mas ele nunca sabia em que forma 
viriam, quando viriam ou por meio de quem viriam. Paulo havia decidido 
arriscar sua vida em Jerusalém, com pleno conhecimento de como poderia 
ser. O que ele já tinha suportado não lhe deixava dúvidas do que poderia 
acontecer em Jerusalém:
Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites me­
nos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; 
em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do 
mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de 
salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, 
em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, 
em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, 
muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e 
nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diaria­
mente, a preocupação com todas as igrejas (2Co 11.24-28).
O que isso significa? Significa que Paulo nunca sabia de onde viria a pan­
cada seguinte. Arriscava a vida todos os dias pela causa de Deus. As estradas 
não eram seguras. Não eram seguros os rios. Seu próprio povo, os judeus, 
não era seguro. Os gentios não eram seguros. As cidades não eram seguras. 
O deserto não era seguro. O mar não era seguro. Nem os assim chamados 
irmãos cristãos eram seguros. A segurança era uma miragem. Não existia 
para o apóstolo Paulo.
Ele tinha duas escolhas: jogar fora a vida ou viver com risco. E ele res­
pondeu a essa escolha claramente: “... em nada considero a vida preciosa 
para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério 
que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”
62 Não jogue sua vida fora
(At 20.24). Ele nunca sabia o que o dia traria. Mas a estrada do Calvário 
acenava à sua frente. E ele arriscou a vida todos os dias. E isso era certo.
"Se perseguiram a mim, também perseguirão a vocês"
Para que não pensemos que a vida de arriscar fosse unicamente para 
Paulo, ele fez questão de dizer a novos cristãos que eles enfrentariam dificul­
dades não especificadas. Depois de estabelecer novas igrejas em sua primeira 
viagem missionária, ele retornou uns meses depois, “fortalecendo a alma dos 
discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, atra­
vés de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22). 
Quando ele escreveu à jovem igreja dos tessalonicenses, ele se preocupou 
que pudessem ter sido abalados pelas suas aflições e lhes disse: “Vós mesmos 
sabeis que estais designados para isso [isto é, para estas aflições]” (lTs 3.3). 
Em outras palavras, a vida cristã é um chamado ao risco.
Jesus tinha tornado isso bem claro. Ele disse, por exemplo, em Lucas 21.16: 
“E sereis entregues até por vossos pais, irmãos, parentes e amigos; e matarão 
alguns dentre vós”. A palavra chave aqui é alguns. “Matarão alguns dentre 
vós.” Esta palavra dá à vida dos discípulos grande incerteza. Nem todos mor­
rerão pela causa de Cristo. Mas nem todos viverão também. Alguns morre­
rão. E alguns viverão. É isso que quero dizer com a palavra risco. É a vontade 
de Deus que tenhamos incerteza sobre como a vida nesta terra será para nós. 
E, portanto, é a vontade de Deus que tomemos riscos pela causa dele.
A vida foi dura para Jesus e ele disse que seria dura para seus seguido­
res. “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que 
seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” 
(Jo 15.20). Portanto, Pedro avisou as igrejas da Ásia que maus-tratos seriam 
normais. “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, 
destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse 
acontecendo. Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipan- 
tes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos 
alegreis exultando. Se pelo nome de Cristo sois injuriados, bem-aventurados 
sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus” (lPe 4.12-14).
Tornar-se um cristão era arriscar sua vida
Os primeiros três séculos da igreja cristã definiram o modelo típico de 
crescimento sob ameaça. Stephen Neill, em History o f Christian Missions 
[História das missões cristãs], escreveu: “Sem dúvida, os cristãos sob o Impé­
rio Romano não tinham nenhum direito legal de existir e eram sujeitos à 
maior severidade da lei. [...] Todo cristão sabia que, mais cedo ou mais tarde, 
ele poderia ter que testificarde sua fé com o custo de sua vida”.3 Poderia. Aí 
estava o risco. Esteve sempre presente. Talvez sejamos mortos por sermos
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 63
cristãos. Talvez não. É um risco. Isso era normal. E tornar-se um cristão sob 
tais circunstâncias era certo.
De fato, foi o amor de exaltação a Cristo que os cristãos mostraram apesar 
do risco que estarreceu o mundo pagão. O imperador romano Juliano (332- 
363 d.C.) quis infundir nova vida na antiga religião pagã, mas via mais e mais 
pessoas atraídas ao cristianismo. Ele escreveu com frustração contra esses 
“ateístas” (que não criam nos deuses romanos, mas sim em Cristo):
Ateísmo [i.e., a fé cristã] vem avançando de modo especial por 
meio do serviço prestado com amor a estranhos, e pelo cuidado 
com o sepultamento dos mortos. É um escândalo não haver nem 
um só judeu que seja pedinte e que esses galileus ateus cuidem não 
só de seus próprios pobres, mas dos nossos também; enquanto 
aqueles que nos pertencem procuram em vão pela ajuda que nós 
deveríamos lhes prestar.4
Custa caro seguir a Cristo. Há risco em toda parte. Mas, como vimos no 
capítulo 3, o próprio risco aqui é o meio pelo qual o valor de Cristo brilha 
mais fortemente.
Como desperdiçar 40 anos e milhares de vidas
Mas o que acontece quando o povo de Deus não escapa da sedução 
enganadora da segurança? O que acontece ao tentar viver na miragem da 
segurança? A resposta é vidas jogadas fora. Você se lembra da vez em que 
isso aconteceu?
Foi menos de três anos depois que o povo de Israel saiu do Egito pelo 
poder de Deus. Agora estava nas fronteiras da Terra Prometida. O Senhor 
disse a Moisés: “Envia homens que espiem a terra de Canaã, que eu hei de 
dar aos filhos de Israel” (Nm 13.2). Então Moisés mandou Calebe, Josué 
e outros dez homens. Depois de 40 dias, eles voltaram com um cacho de 
uvas enorme pendurado numa vara entre dois homens. Calebe convocou 
seu povo com palavras de esperança: “Eia! Subamos e possuamos a terra, 
porque certamente prevaleceremos contra ela” (Nm 13.30). Mas os outros 
disseram: “Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte 
do que nós” (v.31).
Calebe foi incapaz de explodir o mito da segurança. O povo foi apanhado 
pelo encantamento tentador da segurança - a ideia de que há um jeito bem 
abrigado de viver longe do caminho da obediência que exalta a Deus. Mur­
muraram contra Moisés e Aarão e decidiram voltar ao Egito - a grande mira­
gem da segurança.
Josué tentou libertá-los de sua letargia, seu estupor:
64 Não jogue sua vida fora
A terra pelo meio da qual passamos a espiar é terra muitíssimo 
boa. Se o Se n h o r se agradar de nós, então, nos fará entrar nessa 
terra e no-la dará, terra que mana leite e mel. Tão somente não 
sejais rebeldes contra o Se n h o r . E não temais o povo dessa terra, 
porquanto, como pão os podemos devorar. Retirou-se deles o seu 
amparo; o Se n h o r é conosco; não os temais (Nm 14.7-9).
Mas nem mesmo Josué pôde detonar o mito da segurança. E tentaram 
apedrejar Calebe e Josué. O resultado foi milhares de vidas desperdiçadas e 
anos perdidos. Foi claramente errado não aceitar o risco de batalhar contra 
os gigantes da terra de Canaã. Ah, quanto é desperdiçado quando não arris­
camos pela causa de Deus!
E você?
O risco é o certo. E a razão não é porque Deus promete sucesso para todos 
os nossos empreendimentos. Não há promessa alguma de que todo esforço 
pela causa de Deus será bem-sucedido, pelo menos não no curto prazo. João 
Batista arriscou chamar o rei Herodes de adúltero quando ele se divorciou de 
sua própria esposa para tomar a esposa de seu irmão. Por isso João foi deca­
pitado. E ele tinha feito o certo em arriscar sua vida pela causa de Deus e da 
verdade. Jesus nunca o criticou, só lhe atribuiu alto louvor (Mt 11.11).
Paulo arriscou ir a Jerusalém para completar seu ministério aos pobres. 
Foi açoitado e jogado na prisão por dois anos; depois, remetido num navio 
para Roma e executado lá dois anos mais tarde. E ele fez o certo ao arris­
car sua vida pela causa de Cristo. Quantos túmulos há na África e Ásia por­
que milhares de jovens missionários foram libertados pelo Espírito Santo 
do encantamento da segurança e então arriscaram suas vidas para exaltar a 
Cristo entre os povos não alcançados do mundo!
E você? Você está hipnotizado pelo encantamento da segurança, parali­
sado de tomar qualquer risco pela causa de Deus? Ou você foi libertado pelo 
poder do Espírito Santo da miragem da segurança e conforto do Egito? Vocês, 
homens, dizem alguma vez como Joabe: “Por amor ao nome, eu tentarei! E 
faça o Senhor o que bem lhe parecer”? E vocês, mulheres, dizem alguma vez 
como Ester: “Pela causa de Cristo, eu tentarei! E se perecer, pereci”?
Arriscar pelas razões erradas
Há mais de um perigo em chamar cristãos para arriscar. Mencionei um 
no capítulo 4, a saber, que podemos ficar tão fixados em autonegação que 
somos incapazes de apreciar os prazeres apropriados desta vida que Deus nos 
deu para o nosso bem. Outro perigo, que é pior, é que podemos ser atraídos 
a uma vida de risco por razões de autoengrandecimento. Poderemos sentir
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 65
a adrenalina do heroísmo subindo. Poderemos desprezar os preguiçosos e 
covardes e nos sentirmos superiores. Poderemos pensar no risco como um 
tipo de justiça que nos torna aceitáveis a Deus. O que estaria em falta em 
todos esses erros é a fé como de criança no governo soberano de Deus no 
mundo e em seu amor triunfante.
Venho presumindo que o poder e a motivação atrás de arriscar pela causa 
de Deus não seja heroísmo, nem fascínio por aventura, nem coragem de con­
fiança em si, nem necessidade de merecer a boa vontade de Deus, e sim fé 
em Jesus Cristo, o Filho de Deus que satisfaz a tudo, que governa sobre tudo, 
que provê tudo. A força de arriscar perder posição por amor a Cristo é a fé 
em que o amor de Deus o provará certo no fim e vindicará sua causa. A força 
de arriscar ser humilhado pela causa do evangelho é a fé em que nós temos 
um tesouro no céu que não falhará. A força para arriscar perder a vida neste 
mundo é a fé na promessa de que aquele que perde a vida neste mundo a 
salvará para a era vindoura.
Isso é muito diferente de heroísmo e autoconfiança. Quando arriscamos 
perder posição, dinheiro ou a vida porque cremos que Deus sempre nos 
amparará e se utilizará de nossa perda, no final, para fazer-nos mais alegres 
na sua glória, então não somos nós que ganhamos o louvor por causa de 
nossa coragem; é Deus que recebe o louvor por causa de seu cuidado. Assim 
o risco reflete o valor de Deus, não o nosso valor.
Este fundamento para o destemor não pode ser presumido. Nós, por natu­
reza, queremos arriscar pelas razões erradas. Sem Cristo, todos nós somos 
legalistas ou libertinos no coração - desejando fazer nossas próprias coisas 
ou querendo fazer as coisas de Deus do nosso modo para provar nossa pró­
pria habilidade. Como somos programados assim, precisamos de proteção. 
Deus nos deu outro modo de buscar o risco. Faça-o “na força que Deus supre, 
para que em todas as coisas seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo” 
(lPe 4.11). E o modo que Deus supre sua força é por meio da fé em suas pro­
messas. Toda perda que arriscamos a fim de glorificar a Cristo, Deus promete 
restaurar mil vezes mais com sua comunhão que a tudo satisfaz.
O poder de arriscar está na promessa de Deus
Anteriormente, nesse capítulo, mencionei Lucas 21.16, onde Jesus diz a 
seus discípulos: “Alguns de vocês serão mortos”. Mas eu não mencionei a pro­
messa que vem em seguida: “Sereis odiados por causa do meu nome. Con­
tudo, não se perderá um só fio de cabelo da vossa cabeça” (v.17-18). Este é 
um daqueles paradoxos dolorosos da Bíblia: “Alguns de vocês serão mortos... 
Mas nem um fio de sua cabeça perecerá”! O que isso significa? O que Jesus 
procura nos dizer quando diz: “Vá em frente e arrisque obediência; alguns de 
vocês eles matarão; mascom lágrimas descendo pela face 
enrugada - e quanto impacto teve em mim ouvir meu pai dizê-lo por meio de 
suas próprias lágrimas - , “Eu desperdicei a vida! Eu a joguei fora!”.
10 Não jogue sua vida fora
Essa história me impressionou mais do que todas as histórias de jovens 
que morreram em desastres de automóvel antes de serem convertidos - a 
história de um idoso chorando que ele havia jogado fora sua vida. Naqueles 
tenros anos, Deus despertou em mim um medo e uma paixão para não des­
perdiçar minha vida. A ideia de chegar a minha velhice e dizer entre lágrimas: 
“Eu desperdicei a vida! Eu a joguei fora!” era um pensamento amedrontador 
e terrível para mim.
"Somente uma vida, logo passará!"
Outra força que me prendeu em minha vida de garoto - pequenina a 
princípio, mas, ah, tão poderosa com o passar do tempo - foi um quadri- 
nho que estava pendurado acima da pia de nossa cozinha. Nós nos muda­
mos para aquela casa quando eu tinha 6 anos. Então, suponho que olhei 
para as palavras daquela plaqueta quase todos os dias, durante 12 anos, até 
que fui para a faculdade aos 18. Era um simples pedaço de vidro pintado 
de preto atrás, com uma corrente de elos cinzas em volta como enfeite e 
também para pendurar. Na frente, em letras de estilo antigo, pintadas em 
branco, havia as palavras:
Only one life,
‘Twill soon be past;
Only what is done 
For Christ will last. *
À esquerda, ao lado dessas palavras, estava um morro pintado de verde 
com duas árvores e um caminho marrom que desaparecia por cima dele. 
Quantas vezes, como garoto, e depois como adolescente com espinhas, sus­
piros e ansiedades, olhei aquele caminho marrom (minha vida) e imaginei o 
que estaria além do morro. A mensagem estava clara. Você ganha uma passa­
gem na vida. É tudo. Uma só. E a medida duradoura dessa vida é Jesus Cristo. 
Eu tenho 57 anos ao escrever isso, e aquela mesma plaqueta está pendurada 
hoje na parede ao lado da nossa porta da frente. Eu a vejo cada vez que saio 
de casa.
O que significaria desperdiçar minha vida? Era uma pergunta abrasadora. 
Ou, em sentido mais positivo, o que significaria viver bem, mas...? Como com­
pletar essa sentença é a pergunta-chave. Eu nem tinha certeza de como colo­
car em palavras a pergunta, muito menos o que a resposta poderia ser. Qual 
é o oposto de não jogar fora minha vida? “Ser bem-sucedido numa carreira”? 
Ou “ser feliz ao máximo”? Ou “realizar algum grande feito”? Ou “encontrar
* Somente uma vida, / logo passará; / só o que é feito / para Cristo durará.
Minha busca por uma paixão única pela qual viver 11
o sentido profundo e o significado da vida”? Ou “ajudar o maior número de 
pessoas possível”? Ou “servir Cristo ao máximo”? Ou “glorificar a Deus em 
tudo que faço”? Ou haveria um objetivo, um propósito, um enfoque, uma 
essência para a vida que preencheria cada um desses sonhos?
"Os anos perdidos"
Eu tinha esquecido de como essa pergunta me pesava até que olhei minhas 
recordações daqueles anos. Justamente quando eu estava para sair de meu 
lar na Carolina do Sul, em 1964, para nunca mais voltar como morador, o 
Colégio de Wade Hampton publicou uma revista literária simples de poemas 
e histórias. Perto do final, sob o nome de Johnny Piper, estava um poema. 
Eu vou poupá-lo. Não era um bom poema. Jane, a editora, foi gentil. O que 
importa agora para mim é o título e os primeiros quatro versos. O nome era 
“Os anos perdidos”. Ao lado havia um traçado de um senhor numa cadeira de 
balanço. O poema começava:
Long I soughtfor the earths hidden meaning;
Long as a youth was my search in vain.
Now as I approach my lastyears waning,
My search I must begin again. *
Ao longo dos 40 anos que me separam daquele poema, ainda escuto o 
refrão temível: “Eu a desperdicei! Eu a joguei fora”. De alguma maneira, uma 
paixão pela essência e pelo ponto principal da vida tinha sido despertada 
em mim. A pergunta ética “se algo é permissível” perdia a cor em compa­
ração à pergunta: “qual é a coisa principal, a coisa essencial?” A ideia de 
construir uma vida em torno de uma moralidade mínima ou significância 
mínima - uma vida definida pela pergunta: “O que é permissível?” - eu 
sentia quase como repulsiva. Eu não queria uma vida mínima. Não queria 
viver na periferia da realidade. Queria compreender a coisa principal sobre 
a vida e persegui-la.
Existencialismo era o ar que respirávamos
A paixão por não perder a essência da vida, não desperdiçá-la, intensifi­
cou-se na faculdade - nos tumultuosos últimos anos da década de 60. Havia 
razões fortes para isso, razões que extrapolam muito o tumulto interno de 
um garoto que chega à maioridade. “Essência” era uma palavra atacada por 
quase todos os lados. Existencialismo era o ar que respirávamos. E o sentido
* Por longo tempo, procurei o sentido oculto da terra, / Minha busca inútil foi longa como a juventude. / 
E agora, chegando ao final de minha existência, / preciso começar minha busca outra vez.
12 Não jogue sua vida fora
do Existencialismo era que “a existência precede a essência”. Isto é, primeiro 
você existe e depois, existindo, você cria sua essência. Você faz a sua essência 
escolhendo livremente ser o que você será. Não há essência fora de você para 
buscar, com o qual agir de acordo. Chame-a de “Deus”, ou “Sentido”, ou “Pro­
pósito” - ela não está lá até que você a crie por sua própria existência corajosa. 
(Se você enrugar a testa e pensar: “Isso está estranhamente parecido com 
nosso tempo de hoje e o que chamamos de Pós-modernismo”, não se surpre­
enda. Não há nada de novo debaixo do sol. Só há infinitas reembalagens.)
Eu me lembro de estar sentado na penumbra de um teatro, assistindo ao 
progênito teatral que o Existencialismo criou, o “teatro do absurdo”. A peça 
foi Esperando Godot de Samuel Beckett. Vladimir e Estragon se encontram 
sob uma árvore e conversam enquanto esperam por Godot. Ele nunca chega. 
Perto do fim da peça um menino lhes diz que Godot não virá. Decidem 
ir embora, mas nunca se mexem. Não vão a parte alguma. A cortina cai, e 
God[ot] nunca vem.
Era essa a visão que Beckett tinha de pessoas como eu - aguardando, bus­
cando, esperando achar a Essência das coisas, em vez de criar minha própria 
essência com minha existência livre e desenfreada. Nenhum lugar - é lá que 
você vai, ele dá a entender, se você buscar algum Ponto, ou Propósito, ou 
Enfoque, ou Essência transcendente.
"O homem de nenhum-lugar"
Os Beatles lançaram seu álbum Rubber Soul [Alma de borracha] em 
dezembro de 1965 e cantaram em bom som seu existencialismo com força 
irresistível para a minha geração. Talvez isso tenha ficado mais claro na 
música de John Lennon: “Nowhere Man” [O homem de nenhum-lugar).
Hes a real nowhere man 
Sitting in his nowhere land 
Making ali his nowhere plans 
For nobody.
Doesrít have a point ofview 
Knows not where hes going to.
Isn’t he a bit likeyou and m e?*
Aqueles foram dias impetuosos, especialmente para os universitários. E, 
graças sejam dadas, Deus não ficou silencioso. Nem todo mundo cedeu à isca
* Ele é um verdadeiro homem de nenhum-lugar / sentado em sua terra de nenhum-lugar / fazendo 
todos os seus planos de nenhum-lugar / para ninguém. / Ele não tem um ponto de vista, / não sabe aonde 
está indo. / Será que ele não é um pouco igual a você e a mim?
Minha busca por uma paixão única pela qual viver 1 3
do absurdo e à sedução do vazio heroico. Nem todos cederam à convocação 
de Albert Camus e Jean-Paul Sartre. Mesmo vozes sem raízes na Verdade 
reconheceram que deve haver algo mais - algo fora de nós mesmos, algo 
maior e mais importante e pelo qual vale mais a pena viver do que por aquilo 
que nós vimos no espelho.
A resposta estava soprando no vento
Bob Dylan estava arranhando cantos com mensagens oblíquas de espe­
rança que alcançaram sucesso precisamente porque davam a entender uma 
Realidade que não nos deixaria esperando para sempre. As coisas mudariam. 
Mais cedo ou mais tarde, o lento seria rápido e o primeiro seria último. E 
não seria porque nósnem um cabelo da sua cabeça perecerá”?
66 Não jogue sua vida fora
Eu acho que o melhor comentário desses versículos é Romanos 8.35-39:
Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou an­
gústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?
Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia 
todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em 
todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio 
daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a 
morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coi­
sas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem 
a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos 
do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Compare essas palavras terríveis e maravilhosas com o que Jesus disse: 
“Alguns de vocês eles matarão... mas nem um cabelo da sua cabeça perecerá”.
Como Jesus, Paulo diz que o amor de Cristo por nós não elimina nosso 
sofrimento. Ao contrário, o próprio apego que temos a Cristo trará sofri­
mento. Qual é a resposta de Paulo à pergunta que ele mesmo faz no versículo 
35: “Tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, 
ou espada” nos separará do amor de Cristo? Sua resposta no versículo 37 é 
um sonoro não! Mas não perca o que está implicado na pergunta: a razão 
dessas coisas não nos separarem do amor de Cristo não é que não acontecem 
com pessoas que Cristo ama. Acontecem. A citação que Paulo faz do salmo 
44.22 mostra que essas coisas de fato acontecem ao povo de Cristo: “Por amor 
de ti, somos entregues à morte continuamente, somos considerados como 
ovelhas para o matadouro”. Em outras palavras, o amor de Cristo por nós não 
nos poupa esses sofrimentos. O risco é real. A vida cristã é dolorosa. Não sem 
alegria. Mas também não sem dor.
Deus realmente supre tudo de que necessitamos?
Esse é o sentido da palavrinha “em” encontrada no versículo 37: “Em 
todas essas coisas, porém, somos mais do que vencedores...” Somos mais que 
vencedores em nossas aflições, não por evitá-las. Então Paulo concorda com 
Jesus: “Alguns de vocês serão mortos”. Obediência é risco. E é certo arriscar 
pela causa de Deus. Alguns dos riscos são mencionados no versículo 35:
• “tribulação” - a dificuldade e opressão de vários tipos que Paulo diz 
que nós precisamos passar em nosso caminho para o céu (At 14.22).
• “angústia” - calamidades que trazem estresse e ameaçam quebrar-nos 
como uma vara (2Co 6.4; 12.10).
• “perseguição” - oposição ativa dos inimigos do evangelho (Mt 5.11-12).
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 67
• “perigo” - todo tipo de ameaça ao corpo, alma e família (2Co 11.26).
• “espada” - a arma que matou Tiago (At 12.2).
• “fome e nudez” - a falta de comida e roupa.
Eu coloquei “fome e nudez” por último, porque apresentam o problema 
maior. Jesus não disse:
Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de co­
mer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as ves­
tes?... não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos?
Com que nos vestiremos?... vosso Pai celeste sabe que necessitais de 
todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, 
e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6.25,31-33).
“Bem, qual é?” poderíamos perguntar. Os cristãos são sujeitos a “fome e 
nudez” ou Deus vai providenciar “todas estas coisas” quando precisarmos 
delas? Os cristãos nunca terão fome ou desnutrição por falta de comida ou 
passarão mal por falta de roupa? Alguns dos maiores santos do mundo não 
ficaram nus e famintos? E quanto a Hebreus 11.37-38? “Foram apedrejados, 
provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, 
vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltrata­
dos, (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, 
pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra.” As perdas e misérias desses 
crentes não eram devido a sua descrença. Foram fiéis - homens “dos quais o 
mundo não era digno”.
Tudo de que você precisa para fazer a vontade dele 
e ser feliz para sempre
Então, o que Jesus quer dizer com: “Todas estas coisas - toda sua comida e 
roupa - vos serão acrescentadas quando vocês buscarem o reino de Deus em 
primeiro lugar”? Ele quer dizer a mesma coisa quando disse: “Alguns de vocês 
eles matarão... Mas nem um cabelo de sua cabeça perecerá” (Lc 21.16-18). Ele 
quis dizer que você terá tudo de que precisa para fazer a vontade dele e ser 
eterna e supremamente feliz nele.
Quanta comida e roupa são necessárias? Necessárias para quê? - devemos 
perguntar. Necessárias para ficarmos confortáveis? Não, Jesus não prometeu 
conforto. Necessárias para não passarmos vergonha? Não, Jesus chamou-nos 
para suportarmos vergonha por amor de seu nome, com alegria. Necessárias 
para continuarmos vivos? Não, ele não prometeu isentar-nos da morte - de 
qualquer tipo. Perseguição e pragas consomem os santos. Os cristãos morrem
68 Não jogue sua vida fora
no patíbulo e de doenças. É por isso que Paulo escreveu: “Nós mesmos, que 
temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguar­
dando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23).
O que Jesus quis dizer foi que nosso Pai do céu nunca nos deixaria ser 
testados além do que podemos suportar (ICo 10.13). Se há um pedacinho 
de pão de que você precisa, como filho de Deus, a fim de conservar sua fé no 
calabouço do passar fome, você o terá. Deus não promete alimento suficiente 
para conforto ou vida - ele promete o suficiente para você poder confiar nele 
e fazer a vontade dele.5
Tudo posso por meio de Cristo, até passar fome
Quando Paulo prometeu: “Meu Deus há de suprir em Cristo Jesus cada 
uma de vossas necessidades”, ele tinha acabado de dizer: “Tanto sei estar 
humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstân­
cias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fom e; assim de abun­
dância como de escassez. Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.12-13, 
19). “Tudo” significa “Eu posso sofrer fome por meio daquele que me for­
talece. Eu posso ser destituído de comida e roupa por meio daquele que me 
fortalece”. É isso que Jesus promete. Ele nunca nos deixará ou abandonará 
(Hb 13.5). Se passarmos fome, ele será nosso pão eterno que dá vida. Se 
formos envergonhados com nudez, ele será nosso vestuário perfeito, de total 
retidão. Se formos torturados e nos fizerem gritar em nossa dor mortal, ele 
nos guardará de amaldiçoar seu nome e restaurará nosso corpo espancado 
à beleza sempiterna.
O outro lado de todo risco, o amor triunfante
O resultado final de consolo e segurança em todo nosso arriscar por 
Cristo é que nada jamais nos separará do amor de Cristo. Paulo pergunta: 
“Tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou 
espada nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8.35). Sua resposta é não! Em 
outras palavras, nenhum tormento que um verdadeiro cristão vivência algum 
dia é evidência de que ele foi cortado do amor de Cristo. O amor de Cristo 
triunfa sobre todo o tormento. Romanos 8.38-39 torna isso cristalino: “... eu 
estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os prin­
cipados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a 
altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos 
do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.
No outro lado de todo risco - mesmo que resulte em morte - , o amor de 
Deus triunfa. Essa é a fé que nos liberta para arriscarmos pela causa de Deus. 
Não é heroísmo, nem apetite por aventura, nem autoconfiança corajosa, nem 
esforços para merecer o favor de Deus. É a fé, como a de criança, no triunfo
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 69
do amor de Deus - que no outro lado de todos nossos riscos, pela causa da 
justiça, Deus aindanos estará segurando. Seremos eternamente satisfeitos 
nele. Nada terá sido jogado fora.
Como pode ficar melhor do que ser vencedores?
Mas há mais ainda na promessa que nos sustém em horas de risco por 
amor a Cristo. Paulo pergunta: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” 
(Rm 8.31). A resposta que ele pretende que demos é: ninguém. É o mesmo 
que dizer: “Se Deus é por nós, ninguém pode ser contra nós”. Isso parece 
simplista. É como dizer quando sua cabeça é cortada fora: “Nem um fio de 
cabelo meu pereceu”. Essas afirmações excessivas, ao que parece, têm o pro­
pósito de dizer mais do que dissemos até aqui. Pretendem dizer algo além do 
fato de que os santos que morrem não são separados de Cristo.
Este “algo mais” aparece nas palavras “mais que vencedores”. “Em todas 
estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos 
amou” (Rm 8.37). O que significa “mais que vencedores”? Como você pode 
ser mais que um conquistador quando você arrisca pela causa de Deus e sai 
ferido por isso?
Se você aventurar-se em algum ato de obediência que engrandece o valor 
supremo de Jesus Cristo e for atacado por um dos inimigos mencionados no 
versículo 35, digamos, fome ou espada, o que precisa acontecer para você ser 
chamado simplesmente “um conquistador”? Resposta: você precisa não estar 
separado do amor de Jesus Cristo. O alvo do agressor é destruí-lo, cortar 
você de Cristo e trazê-lo à ruína final sem Deus. Você é vencedor se derrotar 
este agressor e permanecer no amor de Cristo. Deus prometeu que isso há de 
acontecer. Confiando nisso, nós arriscamos.
Mas o que precisa acontecer nesse conflito com fome e espada se você 
é para ser chamado mais que vencedor? Uma resposta bíblica é que um 
vencedor derrota seu inimigo, mas um que é mais que vencedor subjuga 
seu inimigo. Um vencedor anula o propósito de seu inimigo; um que é mais 
que vencedor faz que o inimigo lhe sirva para seus próprios propósitos. Um 
vencedor abate seu inimigo; um que é mais que vencedor faz de seu inimigo 
seu escravo.
Na prática, o que isso significa? Usemos as palavras do próprio Paulo em 
2Coríntios 4.17: “A nossa leve e momentânea tribulação está preparando [efe­
tuando, trabalhando ou produzindo] para nós eterno peso de glória, acima 
de toda comparação”. Aqui poderemos dizer que “aflição” é um dos inimi­
gos atacantes. O que aconteceu no conflito de Paulo com ele? Certamente 
não o separou do amor de Cristo. Mas, mais ainda, foi capturado, por assim 
dizer. Foi escravizado e obrigado a servir à eterna alegria de Paulo. “Aflição”,
o inimigo anterior, agora está agindo a favor de Paulo. Está preparando para
70 Não jogue sua vida fora
Paulo “um eterno peso de glória”. Seu inimigo é agora seu escravo. Ele não só 
venceu seu inimigo. Ele mais do que o derrotou.
A aflição levantou sua espada para decapitar a fé de Paulo. Mas, em vez 
disso, a mão da fé agarrou o braço da aflição e forçou-a a cortar fora parte do 
mundanismo de Paulo. Aflição foi feita serva da piedade, humildade e amor. 
Satanás o intentou para o mal, mas Deus intentou que fosse para o bem. O 
inimigo tornou-se o escravo de Paulo e operou para ele um peso de glória 
ainda maior do que ele teria algum dia sem a luta. Dessa maneira, Paulo - e 
todo seguidor de Cristo - é mais do que vencedor.
A única estrada que leva à alegria duradoura
Essa é a promessa que nos capacita a tomar riscos por amor a Cristo. Não 
é o impulso do heroísmo, ou o apetite carnal por aventura, ou a coragem da 
autoconfiança, ou a necessidade de merecer o favor de Deus. É simples con­
fiança em Cristo - que nele Deus fará tudo que for necessário para que nós 
possamos apreciar magnificá-lo para sempre. Todo bem pronto a nos aben­
çoar e todo mal disposto contra nós, no fim, nos ajudarão a gloriar somente 
na cruz, magnificar Cristo e glorificar nosso Criador. Fé nessas promessas nos 
liberta para arriscar e descobrir em nossa própria experiência que é melhor 
perder nossa vida do que jogá-la fora.
Portanto: é certo arriscar pela causa de Cristo. É certo engajar o inimigo 
e dizer: “Faça o Se n h o r o que bem lhe parecer”. É certo servir o povo de 
Deus, e dizer: “Se perecer, pereci!”. É certo se pôr de pé à frente da fornalha de 
fogo da aflição e recusar se prostrar aos deuses deste mundo. Esta é a estrada 
que leva à plenitude de alegria e prazeres para todo o sempre. No final de 
todas as outras estradas - seguras e livres de riscos - , nós abaixaremos o rosto 
cobrindo-o com as mãos e diremos da nossa vida: “Eu a desperdicei”.
Notas do capítulo 5
1 Essa visão é clara e conscientemente oposta à visão chamada de teísmo 
aberto que crê que Deus assume riscos verdadeiros no sentido de que ele des­
conhece o resultado de muitos eventos que ele põe em movimento. Essa visão 
é representada, por exemplo, por John Sanders, The God Who Risks: A Theo- 
logy o f Providence (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998) e Gregory 
A. Boyd, Satan and the Problem ofEvil: Constructing a Trinitarian Watfare 
Theodicy (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001), e é criticada efi­
cientemente, creio eu, por R. K. McGregor Wright, No Place fo r Sovereignty: 
Whats Wrong with Freewill Theism? (Downers Grove, IL: InterVarsity Press,
1996); Bruce A. Ware, Gods Lesser Glory: The Diminished God ofOpen Theism 
(Wheaton, IL: Crossway Books, 2000); John M. Frame, No Other God: A Res­
ponse to Open Theism (Phillipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, 2001); e
0 risco é certo - é melhor perder a vida do que jogá-la fora 7 1
John Piper, Justin Taylor, Paul Kjoss Helseth, org., Beyond the Bounds: Open 
Theism and the Undermining òfBiblical Christianity (Wheaton, IL: Crossway 
Books, 2003) [sobre o teísmo aberto, a Editora Cultura Cristã lançou Sobera­
nia Banida, de R. K. McGregor Wright; Eu não sei mais em quem tenho crido, 
de Douglas Wilson; John MacArthur; RC Sproul; John Frame, e Não há outro 
Deus, de John Frame (NE)].
2Ver mais sobre por que Deus não pode se de arriscar, em John Piper, The 
Pleasures ofG od: Meditations on Gods Delight in Being God, 2a edição (Ses- 
ters, OR: Multnomah, 2000), 54-62.
3 Stephen Neill, A History o f Christian Missions (Middlesex, Inglaterra: 
Penguin, 1964), 42-43.
4 Idem, 42.
5 É assim que eu entenderia as muitas promessas gerais do Antigo Testa­
mento no sentido em que as necessidades dos justos serão sempre supridas. 
Por exemplo, Provérbios 10.3: “O Se n h o r não deixa ter fome o justo, mas 
rechaça a avidez dos perversos”. Eu penso que isso é (1) geralmente verdade 
na maneira de Deus governar o mundo - pessoas direitas, trabalhadoras 
prosperam e têm o suficiente; e (2) sempre e absolutamente verdade no sen­
tido que os justos nunca terão fome além do que podem suportar por causa 
de Cristo. Ver John Piper, “’No Evil Will Befall You. Really?” em A Godward 
Life, Savoring the Supremacy ofG od in Ali ofLife, Book Two (Sisters, OR: Mul­
tnomah, 1999), 53-55.
6
O alvo da vida - alegremente 
fazer outros alegres em Deus
É impossível arriscar sua vida para tornar outros alegres em Deus se 
você for uma pessoa que não perdoa. Se você está programado para enxer­
gar os defeitos, fracassos e ofensas das outras pessoas, e tratá-las aspera­
mente, você não se arriscará para a alegria delas. Essa programação - e é 
universal em todo ser humano - precisa ser desmontada. Nós não arrisca­
remos com prazer fazer as pessoas alegres se nós as detestamos, ou temos 
reservas contra elas, ou temos aversão pelos seus defeitos e pontos fracos. 
Precisamos nos tornar pessoas perdoadoras.
Não comece a levantar objeções sobre casos difíceis. Estou falando sobre 
um espírito, não uma lista de critérios para quando fazemos isso ou aquilo. 
Nem estou conversando sobre graça sem graça que não pode repreender, dis­
ciplinar nem lutar. A pergunta é: nós nos inclinamos para a misericórdia? 
Somos faltosos com a graça? Temos espírito perdoador? Sem isso, nós nos 
afastaremos de necessidades e desperdiçaremos a nossa vida.
Perdão é bom porquenos dá Deus
O motivo bíblico para ser uma pessoa perdoadora pode ser mais pro­
fundo do que ser perdoado. É verdade dizer: o motivo para ser uma pessoa 
perdoadora é que fomos perdoados por Deus quando não o merecíamos. 
“Sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns 
aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Ef 4.32). Mas a 
base desse motivo não é o perdão de Deus, e sim o que o perdão de Deus 
dá. Dá-nos Deus.
Por que amamos ser perdoados por Deus? Há respostas a essa pergunta 
que o desonrariam, porque há benefícios do perdão que uma pessoa pode 
amar sem amar Deus. Poderíamos dizer: “Eu amo ser perdoado por Deus
74 Não jogue sua vida fora
porque eu odeio a aflição de uma consciência culpada”. Ou “... porque detesto 
a perspectiva de dor no inferno”. Ou “... porque quero ir ao céu para ver os 
meus queridos e ter um novo corpo sem doença”. Onde está Deus nessas 
razões de amar o perdão? Na melhor das hipóteses, ele está lá em todas essas 
razões como o tesouro real da vida.
Se é assim, então esses deleites são realmente modos de amar o próprio 
Deus. Uma consciência liberta e limpa capacita-nos a ver mais de Deus e 
liberta para alegrarmo-nos com sua companhia. Escapar do inferno à custa 
do sangue de Cristo mostra-nos mais do comprometimento de Deus com a 
santidade misericordiosa e seu desejo para nossa felicidade. O presente de 
vermos nossos amados realça a maravilha de Deus em criar relacionamentos 
de amor. A obtenção de um novo corpo aprofunda nossa identificação com 
o Cristo glorificado. Mas se o próprio Deus não está nessas dádivas - e temo 
que não esteja mesmo para muitos cristãos professos - então não conhece­
mos para que serve o perdão.
Perdão é essencialmente a forma em que Deus remove o grande obstáculo 
para a nossa comunhão com ele. Ao cancelar nosso pecado e pagar por ele 
com a morte de seu próprio Filho, Deus abre o caminho para nós o vermos, 
conhecermos e deleitarmo-nos nele para sempre. Ver e desfrutá-lo é o alvo 
do perdão. Comunhão com o nosso Pai que satisfaça plenamente a alma é o 
alvo da cruz. Se nós amamos ser perdoados apenas por outras razões, não 
estamos perdoados, e jogamos fora a nossa vida.
Qual é, então, a motivação primária, a raiz de tudo, para ser uma pessoa 
perdoadora? “Perdoai uns aos outros, como Deus em Cristo vos perdoou.” 
É para perdoarmos “como Deus... perdoou” a nós. Deus nos perdoou de tal 
modo que alegria infinita na companhia dele se torna nossa. Deus é o alvo do 
perdão. Ele mesmo é também a base e o meio do perdão. Vem de Deus; foi 
realizado por meio de seu Filho; e leva as pessoas de volta para ele com seus 
pecados lançados no mais profundo dos mares. Portanto a motivação para 
ser uma pessoa perdoadora é a alegria de estar livre e alegremente à vontade 
com Deus. A grande custo o próprio Deus nos deu aquilo de que mais preci­
samos acima de todas as coisas: ele mesmo para nosso deleite para sempre. O 
perdão de Deus é importante por uma razão: dá-nos Deus!
O que perdoadores querem dar
Nosso impulso para ser pessoas que perdoam é a alegria que temos num 
Deus perdoador. Não só em ser perdoado, mas em nos ter sido dada ale­
gria em Deus ao sermos perdoados. Se não vemos e vivenciamos isso, pro­
vavelmente transformaremos os motivos centrados em Deus num tipo de 
benevolência que tenta exercer o bem para o homem sem saber qual é real­
mente o maior bem - a saber, prazer totalmente satisfatório em Deus. Mas,
0 alvo da vida - alegremente fazer outros alegres em Deus 75
se passamos pela experiência de ser perdoado como a dádiva gratuita e ime­
recida de Deus, então seremos conduzidos por essa alegria, com amor, para 
entrar no mundo de pecado e sofrimento. Nosso alvo ali será que outros, por 
meio de Jesus Cristo, encontrem perdão e alegria eterna em Deus.
Alegria em Deus transborda na misericórdia de um coração alegre para 
com as pessoas, pois alegria no Deus misericordioso não pode recusar ser 
misericordiosa. Você não despreza tornar-se o que mais lhe agrada sobre 
Deus. A alegria em Deus que não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o 
por amor de pecadores indignos, não pode revidar mal com mal. Essa alegria 
amará ser misericordiosa (Mq 6.8). Alegria no Deus que é tardio para se irar 
não pode coexistir com sua própria impaciência. Lutará pelo triunfo daquilo 
que admira em Deus. Alegria no Deus que passa a eternidade mostrando “a 
suprema riqueza da sua graça para conosco” (Ef 2.7) se deleita em ser gene­
rosa e procura formas de doar.
Não cristãos, porque eles não desejam dar
Robert Murray McCheyne, um pastor escocês que morreu com 29 anos, 
em 1843, falou da misericórdia e generosidade dos cristãos como evidência 
de serem realmente cristãos. Ele amava os pobres de sua paróquia e temia por 
aqueles que não procuravam meios de mostrar-lhes misericórdia.
Estou preocupado pelos pobres, porém mais ainda por vocês.
Não sei o que Cristo lhes dirá no grande dia. [...] Meu medo é que 
haja muitos me ouvindo que podem saber muito bem que eles não 
são cristãos, porque não amam dar. O dar, ampla e liberalmente, não 
de má vontade, requer um novo coração; um coração velho prefere 
desfazer-se de seu sangue vital do que desfazer-se de seu dinheiro.
Ah, meus amigos! Gozem de seu dinheiro; desfrutem-no bem; não 
deem nem um pouco dele; gozem-no depressa, pois, posso lhes afir­
mar, vocês serão pedintes através de toda a eternidade.1
O dilema em que nós não temos mais dúvida
Qual é a natureza e qual o alvo do doar alegremente do cristão? É o 
esforço - com tanta criatividade e sacrifício quanto for necessário - de dar 
a outros alegria sempiterna e sempre-crescente2 - alegria em Deus. Se Deus 
é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele, como argu­
mentamos no capítulo 2, então viver para a glória de Deus deve significar 
que vivemos para alegremente tornar outros alegres em Deus. Nossa alegria 
e a busca da alegria deles glorifica a Deus. E como alegria em Deus é a maior 
e mais duradoura felicidade, buscá-la também é amor. Visto que a mesma 
alegria em Deus tanto satisfaz o homem como glorifica a Deus, nós nunca
76 Não jogue sua vida fora
temos que escolher entre o motivo de amar as pessoas ou glorificar Deus.3 Ao 
buscarmos alegremente a alegria de outras pessoas em Deus - mesmo à custa 
de nossa vida nós amamos a elas e honramos a Deus. Isso é o contrário de 
uma vida jogada fora.
Nós não podemos tornar ninguém alegre em Deus
Como nós fazemos os outros alegres em Deus? É disso que os próximos 
capítulos tratam. Mas há dois esclarecimentos que devo fazer. O primeiro 
esclarecimento é que, naturalmente, não podemos fazer alguém alegre em 
Deus. Alegria em Deus é um fruto do Espírito Santo (G15.22). É chamado “a 
alegria do Espírito Santo” (lTs 1.6). É obra de Deus: “O Deus da esperança 
vos encha de toda alegria e paz” (Rm 15.13). É o efeito da graça de Deus: 
“Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igre­
jas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação, manifes­
taram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em 
grande riqueza da sua generosidade” (2Co 8.1-2). Alegria em Deus é desper­
tada no coração quando Deus graciosamente abre nossos olhos para ver a 
glória de Cristo no evangelho (2Co 4.4).
Não obstante, ainda que a alegria em Deus seja, no final das contas, uma 
dádiva de Deus, ele usa meios para trazer as pessoas para a plenitude dela. 
Paulo descreve seu ministério inteiro como trabalhar para a alegria de outros. 
“Não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperado- 
res de vossa alegria” i.e. “trabalhamos com vocês em favor da sua alegria” (2Co 
1.24). Ele disse à igreja de Filipos que a razão pela qual Deus o deixaria viver 
era “para o vosso progresso e alegria na fé” (Fp 1.25). Jesus disse que suas pró­
prias palavras eram o meio que Deus usaria para dar alegria a seus discípulos: 
“Tenho vos dito estas coisas para que a minha alegria esteja em vós, ea vossa 
alegria seja completa” (Jo 15.11). Ele disse também que a oração era um meio 
de alegria: “Até agora nada tendes pedido em meu nome. Pedi e recebereis, 
para que a vossa alegria seja completa” (Jo 16.24). A lista de meios poderia 
continuar. Mas o ponto importante aqui é simplesmente mostrar que há coi­
sas que podemos fazer para tornar as pessoas alegres em Deus, contanto que 
Deus abençoe nossos esforços com sua graça decisiva.
Fazer outros alegres em Deus é uma coisa maciça
O segundo esclarecimento é que alegria em Deus não é uma experiência 
religiosa periférica. Quando falo de fazer as pessoas alegres em Deus, tenho 
em mente toda a obra salvadora que Deus fez do começo ao fim. Não estou 
afirmando que a alegria é o todo da salvação. Digo que a alegria em Deus é
o alvo de toda obra salvífica e a essência experiencial daquilo que ser salvo 
significa. Sem essa alegria em Deus, não existiria a salvação.
0 alvo da vida - alegremente fazer outros alegres em Deus 77
Então quando falo em tornar alguém alegre em Deus, eu incluo a deter­
minação (plano) e graça de Deus “que nos foi dada em Cristo Jesus, antes 
dos tempos eternos” (2Tm 1.9). Eu incluo o todo-suficiente trabalho reden­
tor de Cristo na morte e ressurreição (Rm 3.24-26). Incluo a obra divina 
do novo nascimento que nos dá uma nova natureza (Jo 3.3-7; lPe 1.3,23). 
Incluo a mudança da mente que é chamada de arrependimento que se volta 
do pecado e se vira para Deus por ajuda (2Tm 2.25; At 3.19; 26.20). Incluo 
f é em Jesus Cristo que o abraça como Salvador, Senhor e supremo Tesouro 
da vida (Fp 3.7-9). Eu incluo a mudança progressiva para a semelhança de 
Cristo, chamada de santificação (Rm 6.22; 8.29). Incluo a vida inteira de 
amor que avalia ser mais abençoado dar do que receber (At 20.35). E incluo 
a renovação total de corpo, mente, coração, relacionamentos e sociedade, 
que acontece em parte nesta era, pelo irromper do reino de Deus, e depois 
completamente na consumação dos propósitos de Deus na era que está por 
vir (At 3.21; Rm 8.23).
Quando falo de alegria em Deus, portanto, falo de uma felicidade ale­
gre que tem raízes no decreto eterno de Deus, foi comprada pelo sangue de 
Cristo, surge no coração nascido de novo por causa do Espírito de Deus, 
acorda em arrependimento e fé, constitui a essência da santificação e seme­
lhança de Cristo, e dá surgimento a uma vida de amor e uma paixão por redi­
mir o mundo segundo a imagem de Deus. Alegria em Deus é uma realidade 
maciça, planejada, comprada e produzida por Deus na vida de seus eleitos 
para a glória de seu nome.
O que, então, devemos fazer?
Com esses dois esclarecimentos, pergunto, novamente, o que devemos 
fazer para tornar as pessoas alegres em Deus? Quais os caminhos de risco 
e sacrifício que devemos tomar em nossa paixão pela supremacia de Deus 
em todas as coisas e em nosso zelo para engrandecer a Cristo, bem como em 
nosso comprometimento que visa a uma só finalidade: nos gloriarmos unica­
mente na cruz? É sobre isso que falam os capítulos seguintes.
Notas do capítulo 6
1 Robert Murray M’Cheyne, Sermons ofM ’Cheyne (Edinburgo: n.p., 1848), 
482. Itálicos acrescentados. Citado em Timothy J. Keller, Ministries ofMercy: 
The Call o f the Jericho Road (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian & Reformed,
1997), 40.
2 Eu digo “sempre-crescente” não porque nós nos movemos de tristeza 
para alegria no passar do tempo no céu, mas porque vamos prosseguindo de 
uma plenitude para outra. Digo isso porque uma mente finita - e nós sempre 
seremos finitos - não pode receber o todo de Deus. Ele é infinito. Portanto,
78 Não jogue sua vida fora
ele comunica sua infinita plenitude para nós por etapas, para sempre. E sem­
pre haverá mais para uma mente finita ver de um Deus infinito. À medida 
que vemos isso, ficaremos mais e mais felizes. Pode-se ver mais pensamentos 
nesse sentido por Jonathan Edwards em A paixão de Deus por sua glória, de 
John Piper (Cultura Cristã, 2008).
3 Para um tratamento mais amplo da unidade desses dois motivos na vida 
cristã, ver o capítulo “Paixão pela supremacia de Deus e compaixão pela alma 
humana”, em Alegrem-se os povos, de John Piper (Cultura Cristã).
7
Viver para provar que ele é 
mais precioso do que a vida
Para tornar os outros alegres em Deus com uma alegria eterna, nossa 
vida precisa mostrar que ele é mais precioso do que a vida. “A tua graça é 
melhor do que a vida, os meus lábios te louvam” (SI 63.3). Para fazer isso, é 
preciso que façamos escolhas de vida sacrificiais, baseadas numa certeza de 
que o engrandecer a Cristo por meio de generosidade e misericórdia real­
mente satisfaz muito mais do que o egoísmo. Se “caímos fora” de um risco 
para ficarmos seguros e solventes, jogamos fora a nossa vida. Este capítulo é 
sobre a espécie de estilo de vida que pode evitar que isso aconteça.
Como não trair Jesus
Se Cristo é um tesouro que satisfaz totalmente e promete cuidar de todas 
nossas necessidades, então viver como se tivéssemos os mesmos valores que 
o mundo tem seria traí-lo. Estou pensando principalmente em como usamos 
nosso dinheiro e em como nos sentimos sobre nossas posses. Ouço as pala­
vras de Jesus que nos perseguem: “Não vos inquieteis, dizendo: Que come­
remos? Que beberemos? Ou: com que nos vestiremos? Porque os gentios é 
que procuram todas estas coisas” (Mt 6.31-32). Em outras palavras, se damos 
a impressão que nossa vida é dedicada a obter e manter coisas, pareceremos 
com o mundo, e isso não valorizará Cristo. Ele ficará parecendo um inte­
resse marginal religioso que poderá ser útil para escapar do inferno no final, 
mas que não faz muita diferença em nosso modo de viver e amar aqui. Ele 
não aparentará ser um tesouro que satisfaz totalmente. E isso não fará outros 
alegrarem-se em Deus.
Se somos peregrinos e forasteiros na terra (lPe 2.11), se nossa cidadania 
está no céu (Fp 3.20), se nada pode separar-nos do amor de Cristo (Rm 8.35), 
se o amor firme e constante dele é melhor do que a vida (SI 63.3) e se toda
80 Não jogue sua vida fora
tribulação está produzindo para nós um eterno peso de glória (2Co 4.17), 
então vamos entregar aos ventos nossos temores e “buscar em primeiro lugar 
o reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33). Consideraremos tudo como refugo 
em comparação com Cristo (Fp 3.7-8). Aceitaremos “com alegria o espólio 
de nossos bens” por amor a atos impopulares de misericórdia (Hb 10.34). 
Escolheremos “antes ser maltratados com o povo de Deus do que usufruir 
prazeres transitórios de pecado”, e consideraremos “o opróbrio de Cristo por 
maiores riquezas do que os tesouros do Egito” (Hb 11.25-26).
Por que as pessoas não nos perguntam 
sobre nossa esperança?
Não há dúvida de que, se nós vivêssemos mais assim, seria mais provável 
o mundo considerar saber se Jesus é um tesouro que satisfaz totalmente. Ele 
pareceria um tesouro. Quando foi a última vez que alguém lhe perguntou 
sobre “a razão da esperança que está em você”? Foi a isso que Pedro disse que 
sempre deveríamos estar prontos para dar uma resposta: “Estai sempre pre­
parado para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que 
há em vós” (lPe 3.15).
Por que as pessoas não nos perguntam pela nossa esperança? A resposta 
provavelmente é que nós parecemos esperar as mesmas coisas que elas. Nossa 
vida não parece estar na estrada do Calvário, despojada para o amor sacri- 
ficial, servindo outros com o doce certeza de que nós não precisamos ser 
recompensados nesta vida. Nossa recompensa é grande no céu (Mt 5.12)! 
“Tua recompensa tu receberás na ressurreição dos justos” (Lc 14.14). Se 
crêssemos isso mais profundamente, outros poderiam ver o valor de Deus e 
encontrar nele sua alegria.
A credibilidade de Cristo depende de como nós 
usamos nosso dinheiro
A questão de dinheiro e estilo de vida não é um assunto secundário na 
Bíblia. A credibilidade de Cristo no mundo é dependente dela. “Quinze por 
cento de tudo que Cristo disse está relacionado a esse tópico - mais do que 
seus ensinos sobre o céu eo inferno juntos.”1 Ouça este refrão que perpassa 
todos seus ensinos:
• “Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e 
terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me” (Mc 10.21).
• “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus... 
Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação” (Lc 6.20,24).
• “Todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode 
ser meu discípulo” (Lc 14.33).
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 81
• é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que 
entrar um rico no reino de Deus” (Lc 18.25).
• “A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele 
possui” (Lc 12.15).
• “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos 
serão acrescentadas” (Mt 6.33).
• “Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós bolsas que não des­
gastem... nos céus” (Lc 12.33).
• “Zaqueu... disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade 
dos meus bens... Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa” 
(Lc 19.8-9).
• “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual 
certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, 
vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13.44).
• “ [Jesus] viu certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas. E disse: 
Verdadeiramente vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos” 
(Lc 21.2-3).
• "... Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens 
preparado, para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e 
não é rico para com Deus” (Lc 12.20-21).
• “As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do 
homem não tem onde reclinar a cabeça... Segue-me” (Lc 9.58-59).
Liberalidade perigosa
Repetidamente, Jesus é implacável em seu chamado radical a um estilo de 
vida de tempo de guerra e uma liberalidade perigosa. Eu digo “perigosa” por 
causa daquela história sobre a viúva. Ela deu sua última moeda para o minis­
tério do templo. A maioria de nós a chamaria de tola ou, mais delicadamente, 
imprudente. Mas não há uma só palavra de crítica da parte de Jesus:
Vindo, porém uma viúva pobre, depositou duas pequenas moe­
das, correspondentes a um quadrante [1/64 de um denário], E, cha­
mando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta 
viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que fizeram todos os 
ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, 
porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento 
(Mc 12.42-44, grifo do autor).
O importante aqui não é que todos deveriam dar tudo o que tinham. O 
ponto importante é: Jesus ama o risco cheio de fé para a glória de Deus. Eu 
não tenho leis para dar-lhes com respeito às particularidades de como gastar
82 Não jogue sua vida fora
seu dinheiro, assim como Jesus não tinha. Eu simplesmente quero apontar 
para Jesus e deixar a palavra dele ter seu efeito chocante e salvador sobre nós.
Use dinheiro para mostrar que Deus - e não as posses - 
é nosso tesouro
A ênfase de Jesus em dinheiro e posses é assinalada em todo o Novo Tes­
tamento. Há histórias no livro de Atos (“Vendiam suas propriedades... distri­
buindo o produto... à medida que alguém tinha necessidade”, At 2.45). Há as 
palavras do apóstolo Paulo (“No meio de muita prova de tribulação, manifes­
taram abundância de alegria e a profunda pobreza deles superabundou em 
grande riqueza da sua generosidade... Deus ama a quem dá com alegria”, 2Co 
8.2; 9.7). Há as palavras de Tiago, o irmão de Jesus (“Sua flor cai, e desapa­
rece a formosura do seu aspecto; assim também se murchará o rico em seus 
caminhos”, Tg 1.11).
A questão geral, porque é crucial para o testemunho da igreja. Se queremos 
fazer as pessoas alegres em Deus, nossa vida deve deixar aparente que Deus, 
e não posses, é nossa alegria. Precisamos mostrar que usamos nossas posses 
para fazer as pessoas alegres em Deus - especialmente os mais necessitados.
Por que eu uso a frase "Estilo de vida de tempo de guerra"
Às vezes, eu uso a frase “estilo de vida de tempo de guerra” ou “mentali­
dade de tempo de guerra”. A frase ajuda - mas também é torta, assimétrica. 
Para mim, ela mais ajuda. Ela me diz que há uma guerra sendo travada no 
mundo entre Cristo e Satanás, a verdade e a mentira, a crença e a descrença. 
Diz-me que há armas para serem financiadas e usadas, mas que essas armas 
não são espadas ou armas com balas ou bombas, e sim o evangelho, oração 
e amor sacrificial (2Co 10.3-5). E me diz que os valores que estão em jogo 
nesse conflito são mais altos do que os de qualquer outra guerra da História; 
são eternos e infinitos: céu ou inferno, alegria eterna ou tormento eterno 
(Mt 25.46).
Eu preciso ouvir essa mensagem várias vezes, porque sou levado para uma 
mentalidade de tempo de paz tão certamente como a chuva cai para baixo e 
as chamas vão para cima. Sou programado por natureza a amar os mesmos 
brinquedos que o mundo ama. Começo a me encaixar direitinho. Começo a 
amar o que outras pessoas amam. Começo a chamar a terra de “meu lar”. Em 
dois tempos, estou chamando luxos de “necessidades” e usando meu dinheiro 
do mesmo modo que os incrédulos. Começo a me esquecer da guerra. Não 
penso muito nas pessoas que perecem. Missões e povos não alcançados caem 
no esquecimento. Paro de sonhar com os triunfos da graça. Eu me afundo 
numa mentalidade secular que primeiro olha para o que o homem pode 
fazer, não para o que Deus pode fazer. É uma doença terrível. E agradeço a
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 83
Deus por aqueles que sempre me forçam em direção a uma mentalidade de 
tempo de guerra.
Como parece o tempo de guerra
Sou agradecido a Deus por Ralph Winter, por exemplo, que não só escre­
veu poderosamente sobre um estilo de vida de tempo de guerra, mas viveu-o 
como missionário, professor, fundador do centro mundial U. S. Center for 
World Mission, e defensor incansável em favor dos povos não alcançados 
do mundo. Ele apresentou a seguinte ilustração vivida da diferença entre a 
mentalidade de tempo de guerra e a mentalidade de tempo de paz quanto ao 
uso de nossos bens.
Queen Mary, o vapor que repousa no porto de Long Beach, 
Califórnia, é um museu fascinante do passado. Usado tanto como 
cruzeiro de luxo em tempo de paz como transportador de tropas 
durante a Segunda Guerra Mundial, seu status atual como museu 
do comprimento de três campos de futebol oferece um contraste 
estarrecedor entre os estilos de vida apropriados na paz e na guerra.
De um lado de uma divisória, vê-se a sala de jantar reconstruída 
para mostrar a mesa disposta em tempo de paz que era apropriada 
aos clientes endinheirados da alta cultura, para quem uma brilhante 
exposição de talheres não tinha mistério. Do outro lado da divisó­
ria, as evidências de austeridades de tempo de guerra estão em forte 
contraste. Uma bandeja metálica com divisórias substitui 15 pratos 
e pires. Beliches, não só duplos, mas de oito camadas sobrepostas, 
explicam porque a tripulação completa de 3.000 pessoas em tempo 
de paz deu lugar a 15.000, a bordo em tempo de guerra. Como deve 
ter parecido horrível aos mestres do tempo de paz essa transforma­
ção toda! Fazer isso precisou de uma emergência nacional, é claro.
A sobrevivência de uma nação dependia dela. A essência da Grande 
Comissão hoje é que a sobrevivência de muitos milhões de pessoas 
depende do cumprimento dessa Grande Comissão.2
Sabendo como é vulnerável meu coração à sedução da mentalidade do 
tempo de paz, que é empurrada para minha mente todos os dias pela mídia e 
entretenimento, eu preciso dessas imagens e desses lembretes. Nós estamos em 
guerra, quer as ações da bolsa caiam quer subam; quer os terroristas ataquem 
quer se escondam; quer estejamos com saúde quer doentes. Tanto o prazer 
como a dor são guarnecidos de veneno, prontos a matar-nos com as doenças 
do orgulho ou desespero. A admoestação bíblica tão repetida para “vigiar”3 se 
ajusta à imagem dotempo de guerra. E eu preciso desse alerta todos os dias.
84 Não jogue sua vida fora
Por que não falar de um "estilo de vida simples"?
Ajuda mais pensar em um estilo de vida de tempo de guerra do que mera­
mente um estilo de vida simples. Simplicidade pode soar romântico e ter um 
apelo estético que é estranho ao serviço sujo de misericórdia nos lugares peri­
gosos do mundo. A simplicidade pode também deixar passar o fato que, em 
tempo de guerra, despesas grandes para armas complexas e treinamento de 
tropas são necessárias. Estas podem não parecer simples e podem ser muito 
caras, mas o país todo se sacrifica para fazê-las acontecer. A simplicidade 
pode ser dirigida para dentro e não beneficiar ninguém mais. Um estilo de 
vida de guerra deixa implícito que há uma causa grande e digna pela qual 
gastar e ser gasto (2Co 12.15).
Desperdiçar a vida significa perdê-la tentando salvá-la
“Ser gasto” pode ter um som triste. Não é. É revigorante quando somos 
gastos para tornar outros alegres em Deus. Jesus ensinou-nos que “quem qui­
ser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de 
mim e do evangelho salvá-la-á” (Mc 8.35). Isso se aplica a indivíduos em seu 
caminho para o céu e para culturas em seu caminho à extinção. Novamente 
Ralph Winter ilustra:
Os Estados Unidos hoje são uma sociedade “salve-se a si 
mesmo”, se é que pode existir uma sociedade assim. Mas fun­
ciona? As sociedades subdesenvolvidas sofrem de um conjunto 
de doenças: tuberculose, desnutrição, pneumonia, parasitas, 
febre tifoide, cólera, tifo, etc. O país endinheirado praticamente 
inventou todo um novo conjunto de doenças: obesidade, arte- 
riosclerose, doenças do coração, derrames, câncer pulmonar, 
doença venérea, cirrose do fígado, vício de drogas, alcoolismo, 
divórcio, crianças maltratadas, suicídio, assassinato. Escolha 
o que preferir. Máquinas de poupar trabalho acabaram sendo 
inventos de massacrar o corpo. Nossa afluência permitiu tanto 
a mobilidade quanto o isolamento da célula familiar, e como 
resultado, nossos tribunais do divórcio, nossas prisões e nossas 
instituições mentais estão cheios. Buscando salvamento próprio 
quase nos perdemos.4
Usar nossas posses de um modo que faz os mais necessitados alegrarem- 
-se em Deus nos salvaria em mais de uma maneira. Confirmaria que Cristo 
é nosso Tesoureiro e, assim, nos conservaria no caminho ao céu. E transfor­
maria nossa sociedade, que é motivada pela ânsia suicida por satisfazer-se 
sem nenhuma alegria em Cristo e nenhum amor pelos necessitados. Para
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 85
salvar-nos dessa tragédia, devemos considerar seriamente a importância de 
um estilo de vida de tempo de guerra.
Tempo de guerra no nível microbiológico
Em anos recentes, Ralph Winter agitou outra bandeira do tempo de 
guerra. Vale a pena agitá-la aqui. Deus pode usá-la para enviar alguns de 
vocês na direção de ministério que vocês nunca pensaram ser ministério. 
Winter vem chamando nossa atenção aos efeitos do pecado e de Satanás no 
nível microbiológico, onde parte da devastação mais horrenda da boa criação 
de Deus acontece.
Satanás, de forma horripilante, empregou sua liberdade rebel­
de no desenvolvimento de germes e vírus no nível microbial, que 
hoje respondem por um terço de todas as mortes no planeta. O 
que a Bíblia chama simplesmente de “pestilência” é um flagelo 
para animais e humanos igualmente. Contudo, nossa teologia 
popular não reconhece isso claramente como sendo uma obra de 
Satanás que Deus espera que combatamos como parte da missão 
do nosso Soberano.
Mas se missionários não pregam sobre um Deus que se interes­
sa em todo sofrimento, todas as distorções da obra criativa de suas 
mãos, em todos esses níveis, nós estamos simplesmente distorcen­
do o escopo completo de seu amor e preocupação universal - a 
própria natureza dele. [...]
No Vietnã, dez norte-americanos morriam todos os dias em 
média durante os dez anos inteiros que aquela guerra durou. E 
nosso governo jorrou incalculáveis bilhões naquele conflito para 
desprender nosso povo dela.
No entanto, agora não são dez, e sim 1.500 norte-americanos 
que morrem a cada dia de câncer. Contudo, nosso governo re­
almente põe só tostões naquela direção: 80% do fundo vai para 
pesquisa de HIV/AIDS, os 20% restantes, acabam em pesquisa de 
câncer, quase todo para avaliar tratamentos que não operam em di­
reção à prevenção. Pelo que sei, todos os 40 projetos com fundos do 
Instituto Nacional de Câncer são focados em tratamento de quimio 
e radiação, não em prevenção.
É como ser apanhado em 150 guerras do Vietnã ao mesmo tem­
po - quanto a número de mortes de batalha. E ainda agimos como 
se nenhuma guerra existisse! Como poderá ser despertada a cons­
ciência do país ao fato de que um terço de todas as mulheres e a 
metade de todos os homens contrairão câncer antes de morrerem?5
86 Não jogue sua vida fora
Concorda plenamente com a intenção deste livro que milhares de cristãos 
ouçam esse desafio de Dr. Winter e deem sua vida à ciência e pesquisa, bem 
como em missões médicas, para fazer guerra contra a doença e sofrimento, e 
assim mostrarem a beleza e poder de Cristo. Que tipos de sacrifício devemos 
fazer para um combate desses contra o inimigo?
Quando um grampo de cabelo importava
Nós vimos os sacrifícios que as pessoas das Forças Armadas faziam em 
tempo de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não foram só os 
militares que mudaram suas prioridades. O país inteiro também, assim como 
a igreja inteira poderia hoje. Durante a Segunda Guerra Mundial,
a nação inteira... parecia de um dia para o outro ter, de repen­
te, saído de sua letargia da era da Depressão. Todos se esforçavam 
para ajudar. Borracha era necessária para o esforço de guerra, e 
gasolina, e metal. Um jogo de basquete feminino na Universidade 
Northwestern foi parado para que o juiz e todos os dez jogado­
res pudessem fazer uma busca no piso por um grampo de cabelo 
perdido. Os norte-americanos começaram a agir para apoiar 
programas de racionamento sérios e seus garotos compareceram 
como voluntários em várias coletas. Logo, manteiga e leite foram 
limitados juntamente com enlatados e carne. Sapatos tornaram- 
-se escassos, e papel, e seda. As pessoas plantaram “hortas da 
vitória” e dirigiram na “velocidade da vitória” (cerca de 22 km/h) 
para economizar gasolina. “Use até o fim, gaste até o fim, faça dar 
ou passe sem?” tornou-se uma frase popular. Sirenes de bombar­
deios e blecautes eram obedecidos escrupulosamente. Os Estados 
Unidos sacrificaram.6
Tais imagens são para mim bastante poderosas. E, em segundo plano, 
fazem-me apreciar os benefícios de liberdade e prosperidade. Mas, antes de 
tudo, elas me chamam a atenção para minha vida frívola e me inspiram a 
fazer minha vida valer para algo mais do que conforto e sucesso terreno - 
algo que exalte a Deus e seja eterno.
Sim, sim, falar de guerra é assimétrico
Mas eu admito, como eu disse anteriormente, que a ideia “estilo de vida de 
tempo de guerra” ou “mentalidade de guerra” é desigual, assimétrica. Depois 
de um sermão no qual usei esses termos, uma pessoa me escreveu e pergun­
tou: “Quando você dá ênfase às figuras da vida em tempo de guerra, você 
deixa qualquer espaço para aspectos da vida que não façam parte da guerra,
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 87
como arte ou lazer? Não há outras imagens da vida cristã que são mais sere­
nas do que a guerra?”.
Eis a resposta que dei em minha mensagem seguinte:
A resposta é sim, claro, há outras imagens da vida cristã que 
são mais serenas. “O Se n h o r é meu Pastor; nada me faltará. Ele 
me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das 
águas de descanso” (SI 23.1-2). Essa é uma imagem muito diferente 
de bombas caindo e sangue fluindo. “Vinde a mim, todos os que 
estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28).
“Até a vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até as cãs, eu vos 
carregarei; já o tenhofeito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos 
salvarei” (Is 46.4).
E, sim, há um tempo e lugar apropriado para o cristão aprovei­
tar, avaliar e transformar toda a gama da cultura humana. De fato, 
é praticamente impossível não fazer parte de nossa cultura mo­
derna, ocidental, e se nós não pensarmos em termos de apropria­
ção comedida, avaliação bíblica e transformação bem-pensada, 
provavelmente seremos consumidos pela cultura, e nem sabere­
mos que estaremos sendo mais integrantes de nossa cultura do 
que somos cristãos.
Portanto, sim, com certeza, use todas as imagens da Escritura 
(não só a guerra) para dar forma a sua vida. E, então, deixe que sua 
vida radicalmente cristã, encantada com Deus, tendo Cristo por 
tesouro, vida orientada a doar, comprometa e formate sua cultura.
Mas minha impressão é que, no Ocidente próspero, o perigo na igreja 
não é que tenham pessoas demais que são exageradamente zelosas, que se 
importam demais com os perdidos, e que investem perigosamente na causa 
do evangelho e arruinam sua vida com misericórdia excessiva para com os 
pobres. Para cada santo descuidado que se queima e desfaz sua família com 
zelo mal dirigido, ouso dizer, há mil que vão rolando com o mundo, tratando 
Jesus como um suplemento auxiliador, mas não como um Rei que a tudo 
satisfaz, que tem toda a autoridade na causa do amor.
A ética destrutiva de meramente evitar
Uma das marcas dessa mentalidade do tempo da paz é o que chamo de 
uma ética da “evitação”. Em tempo de guerra, nós fazemos perguntas diferen­
tes sobre o que fazer com nossa vida do que fazemos em tempo de paz. Per­
guntamos: que posso fazer para avançar a causa? Que posso fazer para trazer 
a vitória? Que sacrifício posso fazer ou que risco posso tomar para assegurar
88 Não jogue sua vida fora
a alegria do triunfo? Em tempo de paz, nossa tendência é perguntar: que 
posso fazer para ficar mais confortável? Para me divertir mais? Para evitar 
problema e, possivelmente, evitar pecado?
Se vamos pagar o preço e aceitar os riscos que custará para tornarmos pes­
soas alegres em Deus, nós vamos além da ética de evitar. Esse modo de vida 
é totalmente inadequado para despertar as pessoas à beleza de Cristo. Evitar 
dificuldades terríveis e comportamentos proibidos não impressiona a quase 
ninguém. A ética da evitação sozinha não recomenda Cristo nem glorifica 
Deus. Há muitos incrédulos disciplinados que evitam os mesmos compor­
tamentos que os cristãos. Jesus nos chama para algo muito mais radical do 
que isso.
As perguntas erradas e as certas
Pessoas que se contentam com a ética de evitar geralmente fazem a per­
gunta errada sobre comportamento. Elas perguntam: o que há de errado 
nisso? O que há de errado nesse filme? Ou nessa música? Ou nesse jogo? Ou 
nesses companheiros? Ou nesse modo de relaxar? Ou nesse investimento? 
Ou nesse restaurante? Ou em fazer compras nessa loja? O que há de errado 
em ir à casa de praia todo fim de semana? Ou possuir um lugar para férias? 
Esse tipo de pergunta raramente vai resultar num estilo de vida que reco­
menda Cristo como quem satisfaz a tudo e torna as pessoas alegres em Deus. 
Simplesmente resulta numa lista de coisas para “não fazer”. Alimenta a ética 
de evitar.
As melhores perguntas para fazer sobre comportamentos possíveis são: 
como isso me ajudará a ter Cristo como tesouro mais precioso? Como isso 
me ajudará a mostrar que eu tenho Cristo como tesouro? Como me ajudará 
a conhecer Cristo ou demonstrá-lo? A Bíblia diz: “Quer comais, quer bebais 
ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (ICo 10.31). 
Então, a pergunta é principalmente positiva, não negativa. Como posso retra­
tar Deus como glorioso nessa ação? Como posso me deleitar glorificando-o 
nesse comportamento?
Narizes limpos e tempo positivo juntos 
em família não é vida
Ah, quantas vidas são jogadas fora por pessoas que acreditam que a vida 
cristã significa simplesmente evitar o mal e prover para a família. Então não 
há adultério, não há roubo, não se mata, não há fraude nem desfalque - só 
muito trabalho duro durante o dia, muita TV à noite (durante o “tempo posi­
tivo” da família) e muito divertimento no fim de semana - em volta da hora 
da igreja (na maioria das vezes). Isso é vida para milhões de pessoas. Vida 
desperdiçada. Fomos criados para mais, muito mais.
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 89
Há um velho ditado: “Ninguém nunca lamentou no leito da morte: ‘Eu 
queria ter passado mais tempo no escritório’”. O importante aí é geralmente 
que, quando você está para morrer, o dinheiro de repente parece o que ele 
realmente é, inútil para a felicidade duradoura, enquanto relacionamentos 
se tornam preciosos. É verdade. Quando minha mãe foi morta em 1974, eu 
escrevi para o chefe de meu departamento no Betei College, onde eu ensi­
nava, e reverti meu pedido de ensinar uma sobrecarga no semestre seguinte 
para ganhar mais dinheiro. Ficar de pé ao lado da sepultura de sua mãe com 
uma esposa e criança faz as coisas parecerem diferentes. O dinheiro perde 
sua atração.
Mas esse ditado sobre passar menos tempo no escritório pode ser enga­
noso. Precisamos acrescentar o seguinte - ninguém terá o desejo de dizer ao 
Senhor do universo cinco minutos após a morte: “Eu passei todas as noites 
jogando joguinhos e assistindo a programas limpos de TV com minha famí­
lia porque eu a amava muito”. Acho que o Senhor dirá: “Isso não fez com que 
eu parecesse ser um tesouro em sua cidade. Você deveria ter feito algo além 
de prover para si e sua família. E a TV, como você deveria ter sabido, não foi 
um bom modo de nutrir sua família nem sua própria alma”.
Televisão, o grande desperdiçador da vida
A televisão é um dos maiores desperdiçadores de vida da era moderna. 
E a internet, naturalmente, está correndo para se igualar no páreo, mas você 
pode também selecionar as piores coisas com só o Juiz do universo vendo. A 
TV ainda reina como o grande desperdiçador da vida. O problema principal 
com a TV não é quanta sujeira está disponível, embora isso seja também pro­
blemático. Só as propagandas são o suficiente para semear sementes férteis 
de ganância e lascívia, seja qual for o programa a que você assista. O maior 
problema é a banalidade. Uma mente alimentada todos os dias com TV dimi­
nui. Sua mente foi feita para conhecer e amar a Deus. Sua facilidade para esta 
grande vocação é arruinada por TV em excesso. O conteúdo é tão trivial e tão 
raso que a capacidade da mente para pensar pensamentos dignos murcha, 
e a capacidade do coração para sentir emoções profundas se encolhe. Neil 
Postman mostra o motivo:
O que está acontecendo nos Estados Unidos é que a televisão 
está transformando todos os negócios públicos sérios em sucata.
[...] A televisão desdenha a exposição que é séria, seqüencial, racio­
nal e complexa. Oferece em seu lugar um modelo de discurso em 
que tudo é acessível, simplista, concreto e, acima de tudo, divertido.
Como resultado, os Estados Unidos são a primeira cultura mundial 
em perigo de se divertir até morrer.7
90 Não jogue sua vida fora
Deus acaba sem peso
Visto que vivemos num mundo criado por televisão, é quase impossível 
ver o que aconteceu conosco. A única esperança é ler como as pessoas eram 
em séculos anteriores. Biografias são um grande antídoto à miopia cultural 
e esnobismo cronológico. Já nos tornamos quase incapazes de nos havermos 
com qualquer grande verdade de modo reverente e profundo. Coisas magní­
ficas, especialmente a glória de Deus, como David Wells diz, acabam com um 
tipo de “peso zero” até na igreja.
É uma das marcas que define nosso tempo o fato que Deus ago­
ra não tem peso. Não quero dizer com isso que ele seja etéreo, e 
sim que ele se tornou não importante. Ele repousa sobre a terra tão 
inconseqüentemente a ponto de não ser notado. Perdeu seu realce 
para a vida humana. Aqueles que asseguram aos pesquisadores de 
opinião pública que creem na existência de Deus, mesmo assim 
podem considerá-lo menos interessantedo que a televisão, seus co­
mandos possuidores de menos autoridade do que os apetites deles 
por bens e influência, as opiniões de Deus menos inspiradoras de 
admiração do que as notícias da noite, e sua verdade menos irre­
sistível do que a doce névoa de bajulação e mentiras dos propagan- 
distas. Isso é ter peso zero. É uma condição que nós lhe impusemos 
depois que o empurramos para a periferia de nossa vida seculari- 
zada. [...] Falta de peso não nos conta nada sobre Deus, mas muito 
sobre nós mesmos, sobre nossa condição, sobre nossa disposição 
psicológica de excluirmos Deus da nossa realidade.8
Classificando o Sudão e a meia-calça
Perdemos nossa capacidade de ver e desfrutar as complexidades da ver­
dade e as profundidades da simplicidade. Douglas Groothuis explica a liga­
ção entre essa debilidade e a televisão.
O triunfo da imagem televisiva sobre a palavra contribui para 
a falta de profundidade das sensibilidades pós-modernas. [...] Não 
se pode meditar sobre um programa de televisão como se pode 
ponderar um personagem de William Shakespeare ou C. S. Lewis, 
ou uma parábola de Blaise Pascal, ou um verso de um poema de T.
S. Elliot, tal como “Mas nossa sorte se arrasta entre costelas secas 
/ para conservar aquecida a sua metafísica”. Ninguém na televisão 
poderia citar esse verso com seriedade. Seria “televisão ruim” - 
abstrata demais, poética demais, profunda demais, não boa para 
entretenimento. [...] [Não só isso], mas as imagens aparecem e
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 91
desaparecem e reaparecem sem um contexto racional apropriado.
Uma tentativa de reportagem sobre escravidão no Sudão é seguida 
por uma propaganda movimentada da Disneyworld, seguida de 
um apelo para se comprar a meia-calça que fará qualquer mulher 
irresistível, etc., ad nauseum?
Portanto, o homem que se coloca diante de Deus com sua ética habitual 
de evitar e seu protesto de que não gastou muito tempo no escritório, mas 
veio para casa e assistiu a televisão com sua família, provavelmente não 
escapará da acusação de que jogou fora sua vida. Jesus repreendeu seus 
discípulos com palavras que se aplicam facilmente a esse homem: “Até os 
pecadores trabalham muito, evitam o pecado vulgar, assistem TV à noite, 
e se divertem nos fins de semana. Que mais você está fazendo do que os 
outros?” (ver Lc 6.32-34; Mt 5.47).
Sacrifício inspirador por causas menores
De fato, em tempo de guerra, os pecadores muitas vezes sobem a níveis 
admiráveis de sacrifício por causas que não se comparam com Cristo. A 
maior causa do mundo é alegremente salvar as pessoas do inferno, satisfa­
zendo suas necessidades materiais, tornando-as alegres em Deus, e fazendo-o 
com um prazer bondoso, sério, que faz Cristo parecer o Tesouro que ele é. 
Nenhuma guerra na terra foi travada em tempo algum por uma causa maior 
ou um rei maior.
Mas, ah, que riscos valentes e sacrifícios ousados essas causas menores já 
inspiraram! Em 19 de fevereiro de 1944, a batalha por Iwo Jima começou. Era 
uma ilha nua, com área de uns 25 quilômetros quadrados, a cerca de 315 qui­
lômetros para o sul de Tóquio, protegida por 22.000 japoneses prontos a lutar 
até a morte (o que fizeram). Estavam protegendo duas pistas de aviação de 
que os Estados Unidos precisavam no esforço estratégico de conter o avanço 
japonês, depois do ataque de Pearl Harbor, e preservar a liberdade. Foi uma 
causa importante, e o sacrifício corajoso foi admirável.
As duras estatísticas mostram o sacrifício feito pelo 2- Batalhão 
do Coronel Johnson: 1.400 rapazes [muitos ainda adolescentes] 
aportaram na ilha no Dia-D; 288 substitutos foram providenciados 
no correr da batalha, um total de 1.688. Destes 1.511 foram mortos 
ou feridos. Só 177 saíram andando da ilha. E destes 177, 91 tinham 
sido feridos pelo menos uma vez e retornaram à luta.
Foram 22 embarcações de transporte para levar a 5a Divisão 
para a ilha. Os sobreviventes couberam bem em oito navios que 
saíram dali.
92 Não jogue sua vida fora
Os rapazes dos Estados Unidos tinham matado uns 21.000 ja­
poneses, mas sofreram mais de 26.000 baixas fazendo isso. Seria a 
única batalha do Pacífico na qual os invasores sofreram mais mor­
tes do que os defensores.
Os fuzileiros navais lutaram na Segunda Grande Guerra duran­
te 43 meses. Contudo, em um mês em Iwo Jima, ocorreu um terço 
do total de mortes. Deixaram lá os maiores cemitérios do Pacífico: 
quase 6.800 túmulos, ao todo; montinhos de terra com suas cruzes 
e estrelas. Milhares de famílias não teriam o consolo de um corpo 
ao qual dizer adeus: só a informação abstrata de que o fuzileiro 
tinha “morrido no cumprimento de seu dever”. Mike estava no lote 
3, fila 3, túmulo 694; Harlon no lote 4, fila 6, túmulo 912; Franklin 
no lote 8, fila 7, túmulo 2189.
Quando penso em Mike, Harlon e Franklin ali, penso na men­
sagem que alguém esculpiu fora do cemitério:
When you go home 
Tell them for us and say 
For your tomorrow 
We gave our today *
Ó Senhor, não me deixe jogar fora a minha vida!
Fico profundamente comovido pela coragem e carnificina em Iwo Jima. 
Enquanto eu lia as páginas dessa história, tudo em mim gritava: “O Senhor, 
não me deixe jogar fora a minha vida!” Deixe-me chegar ao fim - quer cedo 
quer tarde - e poder dizer a uma família, uma igreja, uma cidade, e às pessoas 
não alcançadas da terra: “Para o seu amanhã, eu dei o meu hoje. Não só para 
seu amanhã na terra, mas para os incontáveis amanhãs de sua alegria sempre 
crescente em Deus”. Quanto mais de perto eu olhava os soldados individuais 
nesta história da Segunda Guerra Mundial, mais eu sentia a paixão para que 
minha vida valesse e para que eu pudesse morrer bem.
À medida que a manhã chuvosa ia passando para a tarde e a 
luta se atolava, os fuzileiros continuaram a ter baixas. Muitas vezes 
eram os próprios padioleiros - os que atendiam os feridos - que 
morriam quando tentavam preservar vidas. William Hoopes, de 
Chattanooga, estava abaixado perto de um padioleiro chamado 
Kelly, que ergueu sua cabeça acima de uma aresta protetora e pôs
* Quando for para casa / conte-lhes sobre nós e diga: / Pelo seu amanhã / entregamos o nosso hoje 
(Tradução livre do Editor).
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 93
binóculos - só por um instante - para achar um atirador que es­
tava castigando sua área. Naquele instante, o atirador o acertou no 
pomo de Adão. Hoopes, que era imediato de farmácia também, 
lutou muito para salvar o amigo. “Peguei meu fórceps e entrei pelo 
pescoço para tentar prender a artéria e apertá-la”, Hoopes lembrou.
“Seu sangue estava jorrando. Ele não tinha fala, mas seus olhos es- 
tavam em mim. Ele sabia que eu tentava salvar a vida dele. Tentei 
tudo no mundo. Não consegui. Tentei. O sangue era tão escorre­
gadio. Não conseguia pegar a artéria. Eu estava tentando tanto. E 
o tempo todo ele só olhava para mim. Ele olhou direto no meu 
rosto. A última coisa que ele fez quando os esguichos de sangue se 
tornavam cada vez menos foi me dar um tapinha no braço como se 
dissesse, ‘Está tudo bem’. Então ele morreu.”11
Nesse momento de cortar o coração, eu quero ser Hoopes e quero ser 
Kelly. Quero poder dizer às pessoas que estão sofrendo e perecendo: “Eu ten­
tei tudo no mundo... Eu estava tentando tanto”. E, quero poder dizer àqueles 
que estão à minha volta quando eu morrer: “Está tudo bem. Viver é Cristo, e 
morrer é lucro”.
Quando o nevoeiro da frivolidade se dissipa
Nesses momentos, quando o nevoeiro de frivolidade da vida se dissipa e 
eu vejo com clareza para que eu estou realmente no mundo, eu gemo pelas 
atividades triviais que desperdiçam tantas vidas - e tanto da minha vida. 
Pense só na magnitude dos esportes - uma seção inteira do jornal diário. 
Mas não há nenhuma seção sobre Deus. Pense nos recursos infindáveis que 
vão para fazer sua casa e jardim mais confortáveis e admirados. Pense em 
quantos milhões de reais se pode gastar para comprar mais carros do que 
você precisa. Pense no tempo, energia e conversaque se gasta em entreteni­
mento, lazer e o que chamamos de divertimento. E acrescente a isso agora o 
computador que artificialmente recria aqueles jogos que já são tão distantes 
da realidade; é como um mundo de sonhos de muitas camadas de insignifi­
cância expandindo-se no nada.
Consumidos com roupas
Ou pense em roupas. Que tragédia ver tantas pessoas jovens obcecadas 
com o que vestem e como fica sua aparência. Até jovens cristãos parecem não 
poder fazer perguntas mais importantes do que “O que tem de errado?” Como: 
“Será que estas roupas me ajudarão a engrandecer Cristo? Apontarão as pes­
soas a ele como o Tesouro manifesto da minha vida? Realçarão minha natu­
reza como pessoa criada à imagem de Deus para servir, ou realçarão minha
94 Não jogue sua vida fora
sexualidade? Ou minha preguiça?”. Creia-me, não me “amarro em roupa”. Há 
alguns motivos bastante radicais, que exaltam a Cristo, para se vestir num tom 
mais modesto. Peço a você que seja mais como um golfinho e menos como 
uma água-viva no mar da moda - e da contramoda (que é igualmente tirânica).
Vá além de uma adolescente que escreveu sua mensagem para o jornal 
Star Tribune de Minneapolis em resposta a uma carta ao editor:
Como adolescente, infelizmente o que você veste está se tornan­
do mais importante. Honestamente, até eu acho algumas das rou­
pas que eu uso ofensivas. A carta dizia de moças poderem vestir-se 
na moda e sensatamente. Mostre-me como isso é possível, que eu 
faço isso.
A maioria de minhas amigas muitas vezes não se sente confor­
tável com aquilo que é popular, mas nós o usamos assim mesmo. 
Sobressair-se nem sempre vale a briga. A sociedade nos diz que 
devemos ser diferentes, contudo seguir a tendência usual.
Como a pessoa se veste para agradar a si, a seus pais e a seus 
pares? Não dá. Adolescentes acabam comprometendo seus valores 
para se encaixar. Se pretendemos completar o Ensino Médio, ou 
mesmo os últimos anos do Fundamental, sem ser atormentadas, 
então precisamos vestir-nos para agradar aos da nossa geração.
Somos os futuros líderes ativos desta nação e precisamos ver o 
que nos tornamos e mudar.12
Onde estão os jovens radicais por Cristo?
Quando eu me coloco, como se estivesse lá, nas praias de Iwo Jima e me 
deixo reencenar aquelas horas de coragem e sacrifício, e me lembro de que eles 
eram jovens, não consigo fazer as pazes com as triviais preocupações da maior 
parte da vida nos Estados Unidos. Um deles era bem jovem mesmo. Li a his­
tória dele e queria falar a cada grupo de jovens dos Estados Unidos, dizendo: 
vocês querem ver o que é legal? Querem ver algo mil vezes mais impressio­
nante do que a mais linda jogada do ano? Ora, então ouça sobre Jacklyn Lucas.
Ele conseguiu entrar nos Fuzileiros Navais com 14 anos, enga­
nando todos com seu físico musculoso. [...] Colocado para dirigir 
um caminhão no Havaí, ele foi ficando frustrado; queria lutar. 
Embarcou como clandestino num navio transportador que saiu 
de Honolulu, sobrevivendo com comida que lhe era passada por 
fuzileiros compadecidos a bordo.
Chegou no Dia-D [em Iwo Jima] sem um rifle. Pegou um que 
achou na praia e foi para o interior lutando.
Viver para provar que ele é mais precioso do que a vida 95
Ora, no D+l, Jack e três companheiros estavam se arrastan­
do por uma trincheira quando oito japoneses pularam dentro da 
trincheira, na frente deles. Jack atirou em um: o tiro lhe atravessou 
a cabeça. Então sua arma enguiçou. Enquanto fazia esforço com 
ela, uma granada rolou até seus pés. Ele gritou um aviso para os 
outros e socou a granada no pó vulcânico. Imediatamente, outra 
rolou para ele. Jack Lucas, 17 anos, caiu em cima das duas granadas.
“Luk, você vai morrer”, ele se lembra de ter pensado.
A bordo do Samaritano, o navio hospital, os médicos quase não 
podiam crer o que viam. “Talvez ele tenha sido jovem demais e re­
sistente demais para morrer”, um disse. Ele aguentou 21 operações 
reconstrutivas e tornou-se o mais novo ganhador da Medalha de 
Honra da nação - e o único calouro do Ensino Médio a recebê-la.13
Ao ler isso, pensei em todas as coisas que os garotos do ensino médio 
acham legal. Sentado no alpendre onde eu estava lendo, pensei, Ó Deus, quem 
vai chegar na cara deles e lhes dar algo pelo qual viver? Eles jogam fora seus dias 
num transe de insignificância, tentando parecer aquela pessoa legal ou falar 
legal ou andar legal. Não têm ideia do que legal é.
Mais um caso para esclarecer o que é legal. É sobre Ray Dollins, um piloto 
de bombardeiro em Iwo Jima.
A primeira leva de amtracs* se dirigia para a praia. Os bom­
bardeiros a jato dos fuzileiros navais estavam completando suas 
primeiras passadas soltando bombas. E, quando o último piloto 
começou a puxar seu Corsair para cima, os japoneses saltaram 
para suas metralhadoras e crivaram esse avião de fogo antiaéreo.
O piloto, Major Ray Dollins, tentou ganhar altitude enquanto se 
dirigia para o lado do oceano para evitar um choque mortal em 
cima de fuzileiros que iam à praia, mas seu avião estava avariado 
demais. Tenente Keith Wells o acompanhava do trator anfíbio. [...] 
“Podíamos vê-lo na cabina”, Wells disse, “e ele estava tentando tudo.
Ele estava caindo verticalmente, rumo aos tratores anfíbios cheios 
de fuzileiros. No último segundo, ele virou o avião de cabeça para 
baixo e dirigiu-o para cair na água entre duas levas de tratores. Nós 
assistimos à água explodindo para cima no ar.”
* Trata-se de um veículo militar anfíbio empregado pelo Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, 
inicialmente para desembarque de tropas e equipamento. O nome era The Landing Vehicle Tracked 
(LVT), mas um de seus apelidos mais populares foi amtrac, de amphibio tractor [trator anfíbio] (NE).
96 Não jogue sua vida fora
O pessoal militar que ouvia em rede o rádio de comunicação de 
voos não só enxergou Dollins descendo; puderam ouvir suas últi­
mas palavras em seu microfone. Eram uma paródia desafiadora:
Oh, what a beautiful morning,
Oh, what a beautiful day,
I ’ve got a terrible feeling 
Everythings coming my way. *14
Naturalmente, não usamos a palavra legal para descrever a verdadeira 
grandeza! É uma palavra pequena. O ponto importante é esse. É barata. E é 
bem para isso que milhões de jovens vivem. Quem os confronta com urgên­
cia e lágrimas? Quem roga a eles que não joguem a vida fora? Quem os pega 
pelos colarinhos, por assim dizer, e os ama suficientemente para mostrar-lhes 
uma vida tão radical, real, valiosa e saturada de Cristo que acabem sentindo
o vazio e trivialidade de sua coleção de CDs e suas conversas sem alvo sobre 
celebridades? Quem vai acordar o que está dormindo latente em sua alma, 
sem uso - uma ansiedade por não jogar a vida fora?
O pedido do meu coração
Ó, que jovens e adultos desligassem a televisão, fizessem um passeio longo 
e sonhassem sobre feitos de coragem por uma causa dez mil vezes mais 
importante do que a democracia nos Estados Unidos - por mais preciosa que 
esta seja. Se sonhássemos e se orássemos, será que Deus não responderia? 
Será que ele reteria de nós uma vida de amor alegre, misericórdia e sacrifício 
que engrandecesse a Cristo e fizesse as pessoas vibrarem de alegria em Deus? 
Eu imploro-lhes, como oro para mim mesmo, vire seu rosto com a firmeza de 
uma pedra para se unir a Jesus na estrada do Calvário. “Saiamos, pois, a ele, 
fora do arraial, levando o seu vitupério. Na verdade, não temos aqui cidade 
permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13.13-14). Quando virem 
nosso amor sacrificial - radiante de alegria - , não dirão, com certeza: “Cristo 
é grandioso”?
* Trata-se de uma paródia de Oh, What a Beautiful Mornirí, canção dos escoteiros nos Estados Unidos 
de Richard Rodgers, letra de Oscar Hammerstein II. O coro diz: “Oh, que bela manhã, / oh, que belo dia. 
/ Tenho a maravilhosa sensação / de que tudo está saindo do meu jeito”. Os dois últimos versos foram 
alterados na paródia para dizer “Tenho a terrível sensação / de que tudo está vindo contra mim" (NE).
Viver para provar queele é mais precioso do que a vida 97
Notas do capítulo 7
1 Randy Alcorn, The Treasure Principie (Sisters, OR: Multnomah, 2001), 8.
2 Ralph Winter, “Reconsecration to a Wartime, not a Peacetime, Lifes- 
tyle”, em Perspectives on the World Christian Movement: A Reader, 2- edição, 
org. Ralph D. Winter e Steven C. Hawthorne (Pasadena, CA: William Carey 
Library, 1999), 705.
3 Mateus 24.42; 25.13; 26.41; Atos 20.31; ICoríntios 16.13; Efésios 6.18; 
Colossenses 4.2; 1 Tessalonicenses 5.6; lPedro 5.8.
4 Citado de www.verbo.org [acessado em 4-2-03]. Ralph Winter, “Recon­
secration to a Wartime, not a Peacetime, Lifestyle”, 706.
5 Citado de www.verbo.org/site/winter.htm [acessado 4-2-03]. Para escla­
recer o relacionamento entre a liberdade de Satanás e a soberania de Deus, eu 
enfatizaria que Satanás é verdadeiro, e que Deus lhe dá permissão (alongando 
a trela, como se fosse) para tirar partido da maldição divina sobre a criação 
por causa do pecado (Rm 8.20-23), mas que Deus permanece no controle do 
mundo em todas as suas partes. Não há contradição entre dizer que Deus, no 
final, controla todas as coisas e dizer que nós devermos trabalhar para triun­
far sobre a doença, resistir à injustiça e ganhar pessoas para Cristo. Nosso 
trabalho é parte de sua maneira de executar o plano soberano dele. Ver John 
Piper, “Gods Pleasure in Ali That He Does” (cap. dois), em The Pleasures o f 
God: Meditations on God’s Delight in Being God (Sisters, OR.: Multmomah,
2000), 47-76.
6 James Bradley, Flags ofO ur Fathers (Nova York: Bantam, 2000), 62.
7 Neil Postman, “Amusing Ourselves to Death”, Et Cetera (Primavera 
1985); 15, 18. Ver seu livro do mesmo título, Amusing Ourselves to Death: 
Public Discourse in the Age ofShow Business (Nova York: Viking, 1985).
8 David Wells, God in the Wasteland: The Reality o f Truth in a World o f 
FadingDreams (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1994), 88,90.
9 Douglas R. Groothuis, “How the Bombarding Images of TV Culture 
Undermine the Power of Words”, M odem Reformation, 10 (janeiro/fevereiro
2001): 35-36. Disponível on-line em: www.modernreformation.org/mr01/ 
janfeb/mrO 10 lbombardingtv.html.
10 Bradley, Flags o f Our Fathers, 246-247.0 livro é a história da batalha de 
Iwo Jima combinada com a vida de cada um dos seis soldados que ergueram 
a bandeira do famoso Memorial de Iwo Jima, contada pelo filho de John Bra­
dley, um dos soldados do Memorial.
11 Bradley, Flags ofO ur Fathers, 188.
12 Megan Heggemeir, “For Teenagers, Fashion Is Key to Fitting in”, Minne- 
apolis Star Tribune (16 de novembro, 2002): A23.
13 Bradley, Flags o f Our Fathers, 174-175.
14 Idem, 161-162.
http://www.verbo.org
http://www.verbo.org/site/winter.htm
http://www.modernreformation.org/mr01/
8
Não desperdice sua vida 
das 8 às 5
Seria erro inferir da convocação à vida de tempo de guerra no capítulo 
anterior que os cristãos devem sair do emprego e ir para a “guerra” - diga­
mos, tornando-se missionários ou pastores, ou trabalhando em obra assis- 
tencial em tempo integral. Seria não compreender onde a guerra está sendo 
travada. Naturalmente, as batalhas acontecem espiritualmente (sem bombas 
nem baionetas) entre os povos não alcançados do mundo para onde o Rei 
dos reis vem mandando suas “tropas” altruístas e de onde está colhendo 
para si um povo feliz. Esse é o trabalho glorioso de missões de fronteira. 
Vou argumentar mais adiante que isso constitui uma vocação magnífica; e 
eu oro para que milhares de vocês que leem este livro ouçam o chamado e se 
dirijam para aquelas frentes de batalha.
A guerra não é geográfica
Mas não se deixem enganar, pois a guerra que tenho em mente, quando 
falo de uma “mentalidade de tempo de guerra” ou um “estilo de vida de 
tempo de guerra”, não está sendo travada em frentes geográficas. Vem sendo 
travada na fronteira entre o bem e o mal em cada coração humano, especial­
mente no coração de cristãos em que Cristo demarcou seu direito de posse 
e pretende ser totalmente triunfante. A “guerra” está sendo travada na linha 
entre a verdade e a mentira em cada escola... entre a justiça e a injustiça em 
cada legislatura... entre a integridade e a corrupção em cada escritório... entre 
amor e ódio entre cada grupo étnico... entre orgulho e humildade em cada 
esporte... entre o belo e o feio em cada obra artística... entre doutrina certa e 
doutrina errada em cada igreja... e entre preguiça e diligência nas horas entre 
os intervalos de cafezinho. Não é desperdício lutar a batalha a favor da ver­
dade, da fé e do amor em nenhuma dessas frentes.
100 Não jogue sua vida fora
A guerra não é, em primeiro lugar, espacial ou física - embora seus suces­
sos e fracassos tenham efeitos físicos. Portanto, as vocações seculares dos 
cristãos são uma zona de guerra. Há adversários espirituais a serem derro­
tados (isto é, espíritos maus e pecados, não pessoas); e há um lindo altiplano 
moral a ser ganho para a glória de Deus. Você não joga fora sua vida por 
causa de onde você trabalha, mas sim por como e por que trabalha.
Secular não é mau, é estratégico
Por favor, não ouça na expressão “vocação secular” nenhuma compara­
ção não espiritual ou inferior a “vocação de igreja”, “vocação missionária” 
ou “vocação espiritual”. Por “vocação secular” eu simplesmente quero dizer 
vocações que não estão estruturalmente ligadas à igreja. Existe tal coisa como 
estar no mundo, mas não do mundo, como Jesus ensinou quando orou em 
João 17.15-16: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do 
maligno. Eles não são do mundo, como também eu não sou”. Portanto, a 
intenção de Jesus é que seus discípulos permaneçam no mundo (que é o que 
eu quero dizer com “trabalho secular”), mas que eles não sejam “do mundo” 
(e é por isso que eu digo que estamos em uma guerra).
Martinho Lutero retomou bem o ensino bíblico do sacerdócio de cada 
cristão e explodiu a linha espiritual entre clero e leigos. Ele concordou que há 
um chamado eclesiástico e um chamado secular. Mas sua forma de distingui- 
-los não se baseou em nenhum “estado espiritual” superior.
É pura invenção que papa, bispos, padres e monges devem ser 
chamados de “classe espiritual”; príncipes, lordes, artesãos e lavra­
dores de “classe temporal”. Isso é, na verdade, um pedacinho bonito 
de mentira e hipocrisia. [...] Todos os cristãos são verdadeiramente 
da “classe espiritual”, e não há diferença nenhuma entre eles, exceto 
a de cargo. [...] Para tornar isto ainda mais claro: se um pequeno 
grupo de leigos cristãos piedosos fosse capturado e colocado em 
um deserto, e não tivessem entre eles nenhum sacerdote consagra­
do por um bispo, e se ali no deserto fossem concordar em escolher 
um dentre eles, casado ou não casado, e lhe dessem o encargo de 
batizar, pronunciar a missa, absolver e pregar, tal homem seria 
um sacerdote tanto como se todos os bispos e papas o houvessem 
consagrado. [...] Realmente não há diferença entre leigos e padres, 
príncipes e bispos, “espirituais” e “temporais”, como são chamados, 
exceto a de cargo e trabalho. [...] Um sapateiro, um ferreiro, um la­
vrador, cada um tem o trabalho e a posição de seu negócio, e contu­
do são todos igualmente consagrados padres e bispos, e todos por 
meio de seu próprio trabalho ou posição devem beneficiar e servir
Não desperdice sua vida das 8 às 5 101
a todos os demais, para que desta maneira possam fazer muitos ti­
pos de trabalho para o bem-estar físico e espiritual da comunidade, 
assim como todos os membros do corpo servem uns aos outros.1
A Bíblia deixa claro que a vontade de Deus é que seu povo esteja espa­
lhado como sal e luz entre toda a gama de vocações seculares. Enclaves de 
cristãos morando só com cristãos e trabalhando só com cristãos não reali­
zariam o propósito todo de Deus no mundo. Isso não significa que ordens, 
ministérios ou postos missionários cristãos sejam errados. Significa que são 
excepcionais. A vasta maioria dos cristãos deve viver no mundo e trabalhar 
entre incrédulos. Esta é sua posição, seu “chamado” como Lutero diria.éramos mestres existenciais de nosso destino absurdo. 
Viria a nós. É isso que todos nós sentimos na música “The Times They Are 
A-Changin” [Os tempos estão mudando].
The line it is drawn,
The curse it is cast,
The slow one now 
Will later befast.
As the present now 
Will later be past,
The order is 
Rapidly fadirí.
And thefirst one now 
Will later be last,
For the times they are a-changirí. *
Deve ter irritado os existencialistas ouvir Dylan, talvez até sem o saber, 
varrer de vez seu relativismo de vale-tudo com o contraste dual, “A resposta... 
A resposta”na música de sucesso “Blowirí in the Wind” [Soprando no vento].
How many times must a man look up 
Before he can see the sky?
Yes, ’rí how many ears must one man have 
Before he can hear people cry?
* A linha está traçada, / a maldição foi pronunciada, / o que é lento agora / será rápido mais tarde. / 
Como o presente agora / será mais tarde o passado, / a ordem está / desaparecendo depressa. / E o que é 
primeiro agora / mais tarde será o último, / porque os tempos estão mudando (Tradução livre do Editor).
1 4 Não jogue sua vida fora
Yes, ’rí how many deaths will it take till he knows 
That too many people have died?
The answer, myfriend, is blowirí in the wind,
The answer is blowirí in the wind. *
Quantas vezes um homem pode olhar para cima e não ver o céu? Há um 
céu lá em cima para ser visto. Você pode olhar para cima dez mil vezes e dizer 
que não o vê. Mas isso não afeta a existência objetiva do céu. Ele está lá. E um 
dia você o verá. Quantas vezes você precisa olhar para cima antes de vê-lo? 
Existe uma resposta. A resposta, A resposta, meu amigo, não é sua para inven­
tar ou criar. Será decidida para você. Ela está fora de você. É real, e objetiva, e 
firme. Um dia você a ouvirá. Você não a cria. Você não a define. Ela vem até 
você, e mais cedo ou mais tarde você se adapta a ela - ou se curva diante dela.
Foi isso que eu escutei na música de Dylan, e tudo em mim disse: Sim! 
Existe uma Resposta com R maiúsculo. Deixá-la escapar significaria uma 
vida desperdiçada. Encontrá-la significaria ter uma Resposta unificadora 
para todas as minhas perguntas.
O pequeno caminho marrom por cima do morro verde subia em seu per­
curso sinuoso - ao longo de todos os anos 70 - entre as doces ciladas das 
loucuras intelectuais. Como parecia corajosa a minha geração quando saía do 
caminho e punha seu pé na armadilha! Alguns dela ainda reuniam força para 
gabar: “Eu escolhi o caminho da liberdade. Criei minha própria existência. 
Soltei-me das velhas leis. Olhe como minha perna está desatrelada!”.
O homem de cabelo comprido e calções
Mas Deus graciosamente dispunha marcos de advertência pelo caminho. 
No outono de 1965, Francis Schaeffer apresentou uma semana de conferên­
cias no Wheaton College que em 1968 ele transformou no livro The God Who 
Is There.**10 título mostra a simplicidade chocante da tese. Deus está lá. Não 
aqui dentro, definido e formatado por meus próprios desejos. Deus está lá. 
Objetivo. Realidade Absoluta. Tudo que para nós parece realidade é depen­
dente de Deus. Existe criação e Criador, nada mais. E criação obtém todo seu 
sentido e propósito de Deus.
* Quantas vezes um homem terá de olhar para cima / antes de conseguir ver o céu? / Sim, e quantos 
ouvidos precisará ter / antes de ouvir pessoas chorar? / Sim, e quantas mortes serão necessárias até que ele 
saiba / que pessoas demais já morreram? / A resposta, meu amigo, está soprando no vento, / a resposta está 
soprando no vento (Tradução livre do Editor).
” A tradução desse título pode ser “O Deus que está lá” ou “O Deus que existe”. Na primeira edição no 
Brasil pela Editora Refugio, o editor Wadislau Gomes deu a esse livro o título O Deus que intervém, que a 
Cultura Cristã manteve ao publicá-lo.
Minha busca por uma paixão única pela qual viver 15
Eis aqui um sinaleiro absolutamente irresistível do caminho. Fique na 
estrada da verdade objetiva. Será o modo de evitar perder sua vida. Fique na 
estrada que seu pai evangelista inflamado trilhava. Não esqueça a plaqueta da 
parede de sua cozinha. Aqui estava a confirmação intelectual de peso de que 
a vida seria desperdiçada nas campinas do Existencialismo. Conserve-se na 
estrada. Existe Verdade. Existe um Objetivo, Propósito e Essência para isso 
tudo. Continue a busca. Você o encontrará.
Suponho que não adianta lamentar que a pessoa precise passar os anos 
de faculdade aprendendo o óbvio - que existe Verdade, que existem o ser 
objetivo e o valor objetivo. Como um peixe indo para a escola para entender 
que existe água, ou um pássaro que existe ar, ou uma minhoca que existe 
terra. Mas parece que, durante os últimos 200 anos ou por aí, este tem sido o 
ponto mais importante de uma boa educação. E seu oposto é a essência da má 
educação. Por isso eu não lamento os anos que passei aprendendo o óbvio.
O homem que me ensinou a ver
Realmente, eu agradeço a Deus por professores e escritores que dedica­
ram tremendas energias criativas para tornar crível a existência de árvores, 
água, almas, amor e Deus. C. S. Lewis, que morreu no mesmo dia que John 
F. Kennedy (22.11.1963) e que ensinava inglês na Oxford, veio caminhando 
para aparecer no cimo do horizonte de meu caminhozinho marrom, em 
1964, com um brilho tão refulgente que é difícil exagerar o impacto que teve 
sobre a minha vida.
Alguém me apresentou a Lewis no meu ano de calouro com o livro Mere 
Christianity [Simplesmente cristianismo].2 Durante os cinco ou seis anos 
seguintes, quase nunca estava sem um livro de Lewis à mão. Acho que sem a 
influência dele eu não teria vivido minha vida com tanta alegria ou utilidade 
como vivi. Há razões para isso.
Ele me fez ter cautela quanto ao esnobismo cronológico. Isto é, ele me 
mostrou que o novo não é nenhuma virtude e o velho não é nenhum vício. 
A verdade, beleza e bondade não são avaliadas por quando existiram. Nada é 
inferior por ser velho, e nada é valioso por ser moderno. Isso me libertou da 
tirania da novidade e abriu para mim a sabedoria das eras. Até hoje eu recebo 
a maioria de meu alimento da alma de séculos passados. Agradeço a Deus 
pela demonstração convincente do óbvio que Lewis me deu.
Ele demonstrou para mim e me convenceu que a lógica rigorosa, precisa, 
penetrante não é oposta ao sentimento profundo, comovente, e à imagina­
ção viva - até brincalhona. Ele foi um “racionalista romântico”. Combinava 
coisas que quase todos hoje presumem ser mutuamente exclusivas, racio- 
nalismo e poesia, lógica fria e sentimento quente, prosa disciplinada e ima­
ginação livre. Ao estilhaçar esses velhos estereótipos, ele me libertou para
16 Não jogue sua vida fora
pensar bem e escrever poesia, argumentar pela ressurreição e compor hinos 
a Cristo, refutar um argumento e abraçar um amigo, exigir uma definição e 
usar uma metáfora.
Lewis me deu uma percepção intensa do “real” das coisas. A preciosidade 
disso é difícil comunicar. Acordar de manhã e estar ciente da firmeza do col­
chão, do calor dos raios solares, do som do tique-taque do relógio, do puro 
ser das coisas.3 Ele me ajudou a tornar-me vivo para a vida. Ajudou-me a ver
o que está aí no mundo - coisas que, se não as tivéssemos, pagaríamos um 
milhão de dólares para ter, mas, tendo-as, ignoramo-las. Ele me fez mais per- 
ceptivo para a beleza. Ele pôs minha alma de alerta para saber que há mara­
vilhas diárias que acordarão a adoração se eu abrir meus olhos. Ele sacudiu 
minha alma que dormitava e jogou a água fria da realidade no meu rosto, de 
sorte que a vida, e Deus, e o céu, e o inferno invadiram o meu mundo com 
glória e horror.
Ele expôs a oposição intelectual sofisticada ao ser objetivo e valor objetivo, 
revelando a tolice que era. O rei filosófico da minha geração não estava ves­
tido, e o escritor de livros infantis da Oxford teve a coragem de dizê-lo.
Você não pode continuar “enxergando através das coisas” para 
sempre. A importância toda de enxergar através de alguma coisa é 
ver algo através dela. É bom que a janelaVere­
mos por que essa é a vontade de Deus daqui a um momento.
Sociedade de boi e pessoas
Nem todos devem ser missionário ou pastor. O plano é haver uma parceria 
entre os que vão e os que enviam. Com respeito aos pastores na igreja, Paulo 
diz: “Não amordaces o boi, quando pisa o trigo” (lTm 5.18), significando: 
pague o seu pastor. Mas isso subentende que algumas pessoas precisam estar 
ganhando o grão para pôr na frente da boca do pobre boi. Esse é também o 
modelo para missionários no Novo Testamento. “Encaminha com diligência 
Zenas, o intérprete da lei, e Apoio; a fim de que não lhes falte coisa alguma” 
(Tt 3.13). Em outras palavras: não é todo mundo que deve ir ministrar com 
Paulo; alguns devem ficar para trás, trabalhar e suprir aqueles que vão. Seme­
lhantemente, Paulo planejou para que a igreja romana fosse sua base forne­
cedora quando ele saísse rumo à Espanha: “Espero que de passagem estarei 
convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro 
desfrutado um pouco da vossa companhia” (Rm 15.24).
Ele presumia que estariam empregando o tempo lucrativamente para que 
eles pudessem contribuir. Foi por isso que ele disse aos crentes tessalonicen- 
ses: nós “vos exortamos” a “trabalhar com as próprias mãos... de modo que 
vos porteis... e de nada venhais a precisar” para não depender de outros (lTs 
4.11-12). De fato, Paulo ficou tão irritado com os intrometidos ociosos em 
Tessalônica que escreveu uma segunda carta:
Nunca nos portamos desordenadamente entre vós, nem jamais 
comemos pão à custa de outrem; pelo contrário, em labor e fadiga, 
de noite e de dia, trabalhamos, a fim de não sermos pesados a ne­
nhum de vós... Se alguém não quer trabalhar, também não coma.
Pois, de fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que 
andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometen­
do na vida alheia (2Ts 3.7-11).
102 Não jogue sua vida fora
De forma semelhante, ele disse aos Efésios: “Aquele que furtava, não furte 
mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que 
tenha com que acudir ao necessitado” (Ef 4.28).
Permaneça na sua profissão "com Deus"
O chamado para ser um cristão não foi um chamado para sair de sua 
vocação secular. O ponto claro de ICoríntios 7.17-24 é esse. Paulo resume 
seu ensino lá com estas palavras: “Então, irmãos, cada um permaneça diante 
de Deus naquilo em que foi chamado” (v.24). Paulo tinha uma alta opinião da 
providência de Deus - que Deus havia soberanamente “atribuído” ou “cha­
mado” incrédulos a posições na vida onde sua conversão teria um impacto 
significativo para a glória dele. “Ande cada um segundo o Senhor lhe tem 
distribuído, cada um conforme Deus o tem chamado” (v. 17). Paulo não quer 
dizer que trocar de emprego é errado na vida cristã - de outra maneira nin­
guém poderia ser um pastor vocacionado ou missionário, exceto se ele fosse 
muito jovem (semelhante a Jesus que mudou de carpintaria para o minis­
tério de tempo integral quando ele estava com 30 anos, Lucas 3.23). Paulo 
quer dizer que, quando somos convertidos, não devemos tirar uma conclusão 
precipitada de que “meu trabalho” precisa mudar. Ao contrário, nosso pen­
samento deve ser: Deus me colocou aqui e agora eu devo demonstrar o valor 
dele nesse trabalho. Como diz o versículo 24, “cada um permaneça diante de 
Deus naquilo em que foi chamado”.
Portanto, a pergunta abrasadora para a maioria dos cristãos deve ser: 
como minha vida pode valer para a glória de Deus em minha vocação secu­
lar? Estou presumindo, de tudo que já foi dito neste livro até aqui, que o alvo 
da vida é o mesmo, quer numa vocação secular quer numa vocação na igreja 
ou missão. Nosso alvo é alegremente engrandecer a Cristo - fazer que ele 
apareça grande diante dos outros por tudo que nós fazemos. Gloriando-nos 
somente na cruz, nosso alvo é sentir gosto em engrandecê-lo pelo modo de 
nós fazermos nosso trabalho. A pergunta é: “comoV\ A Bíblia aponta pelo 
menos seis respostas.
1. Podemos engrandecer a Deus em nosso trabalho secular 
por meio da comunhão que gozamos com ele durante todo o dia 
em todo nosso trabalho.
Em outras palavras, nós apreciamos Deus estar lá por nós enquanto escu­
tamos a voz dele, falamos com ele, lançamos sobre ele todos os nossos far­
dos, e vivenciamos sua direção e cuidado. A seta que aponta essa verdade na 
Bíblia é ICoríntios 7.24. Ao ser convertido, fique no seu emprego e se delicie 
com a presença de Deus. “Cada um permaneça com Deus naquilo em que foi 
chamado”. Essas duas palavras grifadas são importantes. Os cristãos não vão
Não desperdice sua vida das 8 às 5 103
ao trabalho a sós. Eles vão trabalhar com Deus. Não apenas fazem o trabalho. 
Eles fazem seu trabalho “com Deus”. Deus está com eles.
Uma promessa mais pessoal
Isso não é o mesmo que as promessas feitas à igreja como um todo. Deus 
promete à igreja corporativamente: “Habitarei e andarei entre eles; serei o seu 
Deus, e eles serão o meu povo” (2Co 6.16). A promessa para você em seu tra­
balho secular é diferente. Quando os santos estão trabalhando no seu emprego 
secular, estão espalhados. Não estão juntos na igreja. Então, a ordem de “per­
manecer ali com Deus” é uma promessa de que você poderá conhecer a comu­
nhão de Deus, pessoal e individualmente, no seu emprego.
Expressando graças contínuas a Deus por todas as coisas
Um modo de apreciar a presença e comunhão de Deus é por meio da per­
cepção agradecida por sua capacidade de fazer qualquer trabalho, incluindo 
este trabalho, devido à graça dele. “Ele mesmo é quem a todos dá vida, res­
piração e tudo mais” (At 17.25). Todas as suas faculdades de visão, audição 
e tato, todas suas habilidades motoras com as mãos e as pernas, todos os 
seus atos mentais de observar, organizar e acessar, todas suas capacidades 
que o fazem bom nesse serviço em particular - todas essas coisas são dádivas 
de Deus. Saber isso pode enchê-lo de um sentimento de gratidão contínua 
oferecido a Deus em oração. “Dar-te-ei graças, Senhor, Deus meu, de todo o 
coração, e glorificarei para sempre o teu nome” (SI 86.12). Por vezes, a mara­
vilha de saber quem é Deus nos invade enquanto trabalhamos e nós sussurra­
remos seu louvor; “Bendize, ó minha alma, ao Se n h o r ! S e n h o r , Deus meu, 
como tu és magnificente” (SI 104.1).
Quando você acrescenta a isso o reconhecimento de que depende de Deus 
para cada minuto futuro da vida e por todo o auxílio de que você precisa, sua 
gratidão transborda em fé para cada momento vindouro e para o restante do 
dia, semana, mês, ano e década. Isso é fé na graça futura. Pode ser expresso 
em oração a Deus com palavras bíblicas como: “Confio em ti, Se n h o r . E u 
disse: tu és o meu Deus” (SI 31.14). Ou você pode dizer: “As misericórdias do 
Se n h o r são a causa de não sermos consumidos, ... suas misericórdias não 
têm fim; renovam-se cada manhã [e cada tarde!]. Grande é a tua fidelidade” 
(Lm 3.22-23).
Levando as promessas para o trabalho
Em apoio a essa gratidão, louvor e confiança, há as promessas de Deus que 
você pode levar para o trabalho todos os dias - escritas em sua Bíblia ou de 
cor na cabeça. É assim que Deus lhe fala durante o dia todo. Ele o anima: “Não 
temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus;
104 Não jogue sua vida fora
eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel” (Is 41.10). 
Ele lhe faz lembrar que os desafios da tarde não são difíceis demais para ele 
resolver: “Eu sou o Se n h o r , o Deus de toda a humanidade. Há alguma coisa 
difícil demais para mim?” (Jr 32.27, n v i ). Ele lhe diz para não ficar ansioso, 
mas pedir o que lhe for necessário (Fp 4.6). E diz também: “Lançando sobre 
ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (lPe 5.7). E ele 
promete guiá-lo durante todo o dia: “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho 
que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (SI 32.8).
Desta maneira, nós temos comunhão com Deus, ouvindo-o por meio de 
sua Palavra eagradecendo-lhe, louvando-o e invocando-o por tudo de que 
necessitamos. É uma honra a Deus você ficar em seu emprego secular “com 
Deus” assim. Não é uma vida desperdiçada. Dá grande prazer a Deus o con­
fiarmos e deleitarmo-nos nele. Demonstra seu valor. E, quando trazemos à 
mente que nenhuma dessas bênçãos imerecidas poderia ser nossa à parte da 
morte de Cristo em nosso lugar, cada pulsar do coração de nossa alegria em 
Deus torna-se um gloriar-nos na cruz.
2. Nós engrandecemos a Cristo em nosso trabalho secular 
pelo projeto alegre, confiante de nossa criatividade e produção, 
que exalta o nosso Deus.
É útil perguntar como os seres humanos diferem dos castores, beija-flores, 
aranhas e formigas. Ajuda chegar à essência de como os humanos honram a 
Deus com seu trabalho. Essas criaturas são trabalhadores diligentes e fazem 
coisas muito complexas e admiráveis. Portanto, em nosso trabalho que honra 
a Deus, deve haver algo mais do que criatividade e diligência - a não ser que 
estejamos dispostos a dizer que glorificamos a Deus com nosso trabalho de 
modo nada diferente do que fazem os animais.
Representantes de Deus dominando a terra para a glória dele
Qual a diferença? Considere as primeiras palavras bíblicas sobre a criação 
do homem. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus 
o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede 
fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes 
do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 
1.27-28). Nossa criação à imagem de Deus leva diretamente ao nosso privilé­
gio e dever de sujeitar a terra e dominá-la. Em outras palavras, nós devemos 
estar ocupados entendendo, moldando, designando e usando a criação de 
Deus de um modo que chame atenção ao valor dele e desperte adoração.
Ser feito à imagem de Deus significa, no mínimo, que nós devemos trans­
mitir a imagem de Deus. Devemos refletir o modo que ele realmente é. E deve­
mos fazer isso não para parecermos grandes (como refletores de imagem),
Não desperdice sua vida das 8 às 5 105
mas para fazer com que ele seja visto como grandioso (como Criador). As 
pessoas fazem imagens de homens e mulheres famosos para honrá-los. Deus 
nos fez à sua própria imagem para que ele pudesse ser visto, apreciado e hon­
rado por meio daquilo que fazemos.
Então ele disse, em primeiríssimo lugar, que aquilo que o homem faz é 
trabalho. Ele sujeita e domina a terra. Isso dá a entender que uma parte do 
que significa ser humano é exercer o senhorio sobre a criação e dar ao mundo 
a forma, ordem e plano que reflete a verdade e beleza de Deus. Ele nos fez, 
por assim dizer, seus representantes e governadores, dotando-nos de direi­
tos e capacidades semelhantes às suas próprias para subjugar a terra - para 
usá-la e dar-lhe formato para bons propósitos, especialmente o propósito de 
engrandecer o Criador.
O trabalho não é maldição, futilidade é
Então, se você volta ao passado, antes da origem do pecado, não há cono­
tações negativas sobre o trabalho secular. De acordo com Gênesis 2.2, Deus 
mesmo descansou do trabalho, da obra de sua criação, dando a ideia implí­
cita de que o trabalho é uma coisa boa, com semelhança a Deus. E o cume, o 
clímax desse trabalho divino foi o homem, uma criatura à imagem de Deus, 
projetada para continuar a desempenhar a obra de reger, formatar e projetar a 
criação. Portanto, no cerne do sentido do trabalho, está a criatividade. Se você 
é Deus, seu trabalho é criar do nada. Se você não é Deus, mas é como Deus - 
isto é, se você é humano seu trabalho é pegar o que Deus fez e moldá-lo e 
usá-lo para que ele, Deus, seja engrandecido.
Como nos diferimos dos castores
Mas é aqui que os castores entram. Um castor sujeita seu ambiente e 
forma uma represa para um bom propósito, uma casa. Ele parece gostar de 
seu trabalho; até mesmo a diligência e destreza do castor reflete a glória da 
sabedoria de Deus.
Ali things bright and beautiful,
Ali creatures great and small,
Ali things wise and wonderful,
The Lord God made them ali. *2
* Todas as coisas belas e brilhantes, / todas as criaturas, grandes e pequenas, / todas as coisas sábias e 
maravilhosas, / o Senhor Deus as fez todas.
106 Não jogue sua vida fora
E Deus é glorificado em todas essas coisas. “Os rios batem palmas... can­
tam de júbilo os montes... e os céus declaram a glória de Deus” (SI 98.8; 19.1). 
Então qual é a diferença entre um ser humano e um castor no trabalho? Ou, 
nesse mesmo sentido, uma abelha, beija-flor ou formiga? Todos trabalham 
duramente; sujeitam seus ambientes e lhes dão formas admiráveis que ser­
vem bons propósitos. A diferença é que os humanos são moralmente conhe­
cedores e fazem opções a respeito de seu trabalho, com base em motivos que 
podem honrar ou não a Deus.
Nenhum castor, abelha, beija-flor ou formiga depende conscientemente 
de Deus. Nenhum castor medita sobre o plano divino de ordem e beleza, 
e faz uma escolha moral de seguir a excelência porque Deus é excelente. 
Nenhum castor jamais ponderou a preciosidade e o propósito de Deus e 
decidiu, por amor a Deus, fazer uma represa para outro castor e não para 
si. Mas os humanos têm todos esses potenciais, porque nós somos criados 
à imagem de Deus. Somos criados para mostrar a imagem de Deus dessas 
formas. Quando Deus nos dá a missão de subjugar a terra - formatá-la e 
usá-la - , ele não quer dizer que o façamos como um castor. Ele quer que 
façamos isso como um humano, um ser moralmente autoconsciente que 
é responsável por fazer seu trabalho, intencionalmente, para a glória de 
seu Criador.
De fato, quando Deus nos envia para trabalhar como portadores de sua 
imagem, nossas valas devem ser retas, nossos encaixes de tubos não devem 
vazar, os cantos de nossos armários devem ser do mesmo nível, nossas inci­
sões cirúrgicas devem ser limpas, nosso processamento de palavras deve ser 
correto e atraente, e nossas refeições nutritivas e convidativas, porque Deus 
é um Deus de ordem, beleza e competência. Mas gatos são limpos, formi­
gas são laboriosas, e aranhas produzem trabalho ordenado e belo. E todos 
eles são dependentes de Deus. Portanto, a essência de nosso trabalho como 
humanos precisa ser feito em dependência consciente do poder de Deus e em 
busca consciente do padrão de excelência de Deus, com o alvo intencional de 
refletir a glória de Deus.
Fazer trabalho bom e dormir bem
Quando você trabalha desta maneira - seja qual for sua vocação - , você 
pode ter uma doce sensação de paz no final do dia. O dia não foi desper­
diçado, não foi jogado fora. Deus não nos criou para ficarmos à toa. Por­
tanto, aqueles que abandonam a produtividade criativa perdem a alegria do 
trabalho com propósito que dá forma ao mundo, que reflete a Deus, que 
depende dele. “Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer muito; 
mas a fartura do rico não o deixa dormir” (Ec 5.12). Jonathan Edwards 
tomou como regra que a piedade pessoal a ponto de se negligenciar deveres
Não desperdice sua vida das 8 às 5 107
seculares é hipócrita. Ele descreveu sua própria esposa (referindo-se a ela 
como “a pejssoa”) para ilustrar o oposto:
“Ah, que bom é”, disse a pessoa certa vez, “trabalhar para Deus 
de dia, e à noite deitar-se sob os seus sorrisos!”. Sublimes experiên­
cias e sentimentos religiosos nesta pessoa não se fizeram acompa­
nhar de nenhuma disposição de negligenciar a ocupação necessá­
ria de uma vocação secular, para passar tempo em leitura e oração, 
e outros exercícios de devoção; mas qualquer ocupação mundana 
foi cuidada com grande presteza, como parte do culto a Deus; a 
pessoa declarando que, quando feita assim, “se descobre ser tão boa 
quanto a oração”.3
A verdadeira piedade pessoal alimenta o trabalho com propósito das voca­
ções seculares em lugar de debilitá-lo. O ócio não cresce no solo da comu­
nhão com Deus. Portanto, as pessoas que passam sua vida principalmente 
em inatividade ou lazer frívolo raramente são tão felizes como aquelasque 
trabalham. Pessoas aposentadas que são verdadeiramente felizes já buscam 
maneiras criativas, úteis, que honram a Deus, para permanecerem ativas e 
produtivas para o bem do homem e a glória de Deus.
Na verdade, devemos ajudar uns aos outros a encontrarem e ficarem no 
trabalho. Devemos nos preocupar com o problema maior do desemprego. Não 
é em primeiro lugar um problema econômico, embora seja isto. É primeiro um 
problema teológico. Os seres humanos são criados à imagem de Deus e são 
dotados com as características de seu Criador que os capacitam para trabalho 
criativo, útil, alegre, que exalta a Deus. Então, ócio prolongado (quando se tem 
a capacidade de trabalhar) acarreta a opressão de culpa e futilidade.
Portanto, o segundo modo de engrandecer a Deus em nosso trabalho secu­
lar é louvando a Deus com o projeto alegre e confiante de nossa criatividade e 
esforço laborioso. Deus nos criou para o trabalho para que, confiando cons­
cientemente no poder dele e dando forma ao mundo de acordo com a excelên­
cia dele, nós possamos sentir-nos satisfeitos nele, e ele ser glorificado em nós. 
E, quando nos lembramos de que toda essa criatividade que exalta a Deus com 
alegria só é possível para pecadores como nós que nada merecem por causa da 
morte de Cristo, cada hora de trabalho torna-se um gloriar-se na cruz.
3. Nós engrandecemos Cristo, em nosso trabalho secular, 
quando este confirma e enaltece o retrato da glória de Cristo 
que as pessoas ouvem no evangelho falado.
Não é preciso exagerar a defesa a favor do valor do trabalho secular. Ele 
não é o evangelho. Sozinho não salva ninguém. De fato, sem palavras faladas
108 Não jogue sua vida fora
sobre Jesus Cristo, nosso trabalho secular não despertará admiração pela gló­
ria de Cristo. É por isso que o Novo Testamento modestamente chama nosso 
trabalho de adorno do evangelho. Dirigindo-se a escravos, Paulo diz que eles 
devem ser “obedientes ao seu senhor, dando-lhe motivo de satisfação; não 
sejam respondões, não furtem, deem prova de toda a fidelidade, a fim de 
ornarem, em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Salvador” (Tt 2.9-10). 
O importante aqui não é endossar a escravidão (que Paulo minou mais indi­
retamente ao chamar o escravo convertido, Onésimo, “não mais... escravo, 
mas, acima... irmão amado”, Filemon 16 [n v i ], e sim mostrar que o modo que 
fazemos nosso trabalho “orna” a doutrina de Deus.
Em outras palavras, nosso trabalho não é a bela mulher, mas é o colar que 
ela usa. A bela mulher é o evangelho - “a doutrina de Deus, nosso Salvador”. 
Então um sentido crucial de nosso trabalho secular é que o modo que o faze­
mos aumentará ou diminuirá a atração do evangelho que professamos diante 
dos descrentes. É claro que a grande suposição é que saibam que somos cris­
tãos. O fundamental do texto cai por terra se não há nada para nosso trabalho 
“ornar”. Pensar que nosso trabalho glorificará a Deus quando as pessoas não 
sabem que somos cristãos é como admirar uma propaganda eficaz na TV que 
nunca menciona o produto. As pessoas poderão se impressionar, mas não 
saberão o que comprar.
Remover pedras de tropeço para a fé
Há outro lugar onde Paulo expressa o papel modesto de nosso traba­
lho em relação ao evangelho. Em ITessalonicenses 4.11-12, ele diz à igreja: 
“Diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e traba­
lhar com as próprias mãos, como vos ordenamos; de modo que vos porteis 
com dignidade para os de fora e de nada venhais a precisar”. O importante 
aqui não é que nosso trabalho salvará alguém. O ponto é que, se vivermos 
e trabalharmos bem, os obstáculos serão removidos. Em outras palavras, 
trabalho bom, honesto, não é o evangelho salvador de Deus, mas um ven­
dedor de carros cristão fraudulento é uma mancha sobre o evangelho e põe 
um obstáculo no caminho de se ver a beleza de Cristo. E o ócio pode ser 
uma pedra de tropeço maior do que o crime. Será que os cristãos devem 
ser conhecidos em seus escritórios como aqueles que você procura se tem 
um problema, mas não os que se procura com uma questão profissional 
complexa? Não precisa ser ou um ou outro. O mandado bíblico é: “Tudo 
quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para 
homens” (Cl 3.23; cf. Ef 6.7).
Então, a terceira maneira que engrandecemos a Deus em nosso traba­
lho secular é tendo tão altos padrões de excelência e tal integridade e boa 
vontade manifesta que não colocamos obstáculos no caminho do evangelho,
Não desperdice sua vida das 8 às 5 109
mas, ao contrário, chamamos atenção à beleza de Cristo que satisfaz em tudo. 
Quando adornamos o evangelho com nosso trabalho, não estamos jogando 
fora nossa vida. E, quando relembramos que o adorno em si (nosso trabalho 
dependente de Deus, formatado por Deus, exaltador de Deus) foi comprado 
para nós pelo sangue de Cristo, e que a beleza que nós adornamos é em si o 
evangelho da morte de Cristo, então todo nosso cuidadoso adorno torna-se 
um gloriar na cruz.
4. Engrandecemos a Cristo em nosso trabalho secular ganhando 
suficiente dinheiro para evitar que dependamos de outros; ao mesmo 
tempo, focando a ajuda que nosso trabalho nos permite oferecer, 
e não no retorno financeiro que ele nos proporciona.
Deus pretendeu, desde o começo, que trabalho que satisfaz atenderia as 
nossas necessidades. Deus trabalhou no começo (Gn 2.2), e o ser humano 
que ele criou à sua imagem deveria trabalhar. Antes de o pecado entrar no 
mundo, o trabalho seria sem futilidade e frustração. Viria unir-se lindamente 
com a abundante provisão de Deus para satisfazer toda necessidade. Faria a 
terra sujeita às necessidades materiais do homem sem arruiná-la (Gn 1.28). 
No princípio, o lar do homem era um jardim de árvores frutíferas, não um 
campo duro para ser arado e plantado. “Do solo fez o Se n h o r Deus brotar 
toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento” (Gn 2.9). Não 
só isso, “saía um rio do Éden para regar o jardim” (v. 10).
Trabalho feliz antes da Queda, depois suor e preocupação
Nesse paraíso que tudo supria, Deus disse, a princípio, que “não havia 
homem para lavrar o solo” (v.5). Então, ele fez o homem da terra, e, na sua 
criação, Adão tornou-se um filho trabalhando com seu Pai como mordomo 
da criação. A essência do trabalho não era a sustentação da vida. Deus se deu 
como sustentador. O homem estava livre, não do trabalho, mas no trabalho, 
para ser criativo sem a ansiedade de prover comida e roupa.
O que mudou com a entrada do pecado no mundo não foi que o homem 
teve que trabalhar, mas que o trabalho tornou-se duro com a futilidade e 
frustração da criação caída. O Senhor disse a Adão:
Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore 
que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; 
em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela 
produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo.
No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra (Gn 3.17- 
19, ênfase acrescentada).
110 Não jogue sua vida fora
Quando o homem e a mulher escolheram ser autossuficientes e rejeitaram 
a direção e provisão paterna, Deus os sujeitou à própria coisa que eles esco­
lheram: autossuficiência. De agora em diante, ele diz, se comerem, será por­
que trabalham e suam. Então foram expulsos do jardim do trabalho feliz para 
a terra do trabalho ansioso. A maldição sob a qual vivemos hoje não é a de 
precisar trabalhar. A maldição é que, em nosso trabalho, nós lutamos contra 
canseira e frustração, calamidades e ansiedade. E tudo isso pesa duplamente, 
porque agora com essa mesma lida precisamos manter-nos vivos. “Em fadiga 
obterás dela [da terra] o sustento... No suor do rosto comerás o teu pão.”
Cristo tomou sobre si a maldição, e nós estamos sendo libertados
Mas Cristo não veio para tirar a maldição de cima de seu povo? Sim. 
“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição 
em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado 
em madeiro”(G1 3.13). No entanto, a maldição não é tirada totalmente de 
uma vez. Deus nos salva por etapas. Cristo desferiu um golpe mortal no mal 
quando ele morreu pelo pecado e ressuscitou. Mas nem todo inimigo está 
ainda posto debaixo de seus pés. Por exemplo, a morte é parte da maldição 
que ainda experimentamos. Cristo venceu a morte para os seus, o seu povo, 
mas só em parte agora. Nós ainda morremos, mas o “aguilhão” da morte, a 
desesperança, o desespero foi removido, porque nossos pecados são perdoa­
dos em Cristo e ele ressurgiu (ICo 15.54-55).
Semelhantemente, ainda precisamos trabalhar duramente para prover 
para nossas necessidades. Cristo diz: “Não andeis ansiosos pela vossa vida, 
quanto ao que haveis de comer ou beber, nem pelo vosso corpo, quanto ao 
que haveis de vestir... Vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas. 
Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas 
vos serão acrescentadas” (Mt 6.25, 32-33). Ele diz: “Vinde a mim, todos os 
que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Ele diz: 
“Sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo 
que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (ICo 15.58). Em outras palavras, 
Deus não quer que seus filhos fiquem carregados de frustração, futilidade e 
cansaço deprimente de trabalho. Essa parte da maldição ele visa tirar de sobre 
nós ainda nesta era.
O paraíso ainda não chegou
Mas, assim como a morte será uma realidade até o fim desta era, também 
precisamos trabalhar nessa era caída contra muitos obstáculos que frequen­
temente tornam o trabalho duro. Não é que já podemos retornar ao paraíso e 
apanhar frutos no jardim de outra pessoa. Foi o erro que cometeram em Tes- 
salônica. Alguns estavam deixando seus empregos e ficando no ócio porque
Não desperdice sua vida das 8 às 5 111
pensavam que Cristo viria bem logo. O paraíso estava perto. Então, Paulo 
lhes escreveu: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de 
fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desorde­
nadamente, não trabalhando; antes, se intrometendo na vida alheia. A elas, 
porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando 
tranquilamente, comam o seu próprio pão” (2Ts 3.10-12). Pessoas sadias que 
optam por viver em ociosidade e comer o fruto do suor de outrem estão em 
rebelião contra o desígnio de Deus. Se podemos, devemos ganhar a nossa 
própria subsistência.
Como, então, os cristãos engrandecem a Cristo ao trabalharem “para 
comer seu próprio pão”? Primeiro, conformando-se de boa vontade ao 
desígnio de Deus para esta era. É um ato de obediência que honra a auto­
ridade dele. Segundo, tirando os impedimentos do caminho de descrentes 
que veriam a preguiçosa dependência de cristãos “chupins” como evidência 
de que nosso Deus não é digno de ser seguido. “Trabalhe com as próprias 
mãos... de modo que vos porteis com dignidade para com os de fora e de 
nada venhais a precisar” (lTs 4.11-12). Honramos Deus ganhando nosso 
sustento porque isto desimpede o caminho para não cristãos verem Cristo 
como ele realmente é. Cristãos sem rumo, improdutivos, contradizem o 
Deus criativo, cheio de propósito, poderoso, misericordioso que nós ama­
mos. Eles jogam fora suas vidas.
Não trabalhe pelo alimento que perece
Em terceiro lugar, engrandecemos a Deus ganhando nosso próprio sus­
tento quando focamos não o lucro financeiro, mas o benefício que nosso pro­
duto ou serviço traz para a sociedade. Isso é paradoxal. Estou dizendo, sim, 
que nós precisamos ganhar suficiente dinheiro para cobrir as nossas necessi­
dades. Mas, não, nós não devemos fazer com que isso seja o motivo primário 
pelo qual nós trabalhamos. Uma das coisas mais surpreendentes que Jesus 
disse foi: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para 
a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará” (Jo 6.27). Não trabalhai 
pela comida que perece! “A comida que perece” simplesmente significa toda 
a comida e provisão comum. É por isso que é extraordinário! Parece dizer o 
exato oposto daquilo que eu estou dizendo. O que ele quer dizer?
Sabemos, por tudo que vimos até aqui, que Jesus não quer dizer que seja 
errado ganhar seu próprio sustento e comer seu próprio pão. Evidentemente, 
então, ele quer dizer que, quando trabalhamos pela comida que perece, deve 
haver um sentido significativo em que não estamos trabalhando por essa 
comida, mas por algo mais. Em outras palavras, não se enfoque em simples 
coisas materiais em seu trabalho. Não trabalhe meramente com vistas a coisas 
perecíveis que você pode comprar com seu pagamento. Trabalhe com o olho
1 1 2 Não jogue sua vida fora
não principalmente no dinheiro, e sim em como você é útil. Trabalhe com 
o pensamento em beneficiar as pessoas com aquilo que você produz ou faz.
Cristo retirou a maldição do trabalho. Ele substituiu pela lida ansiosa, pela 
confiança na promessa de Deus de suprir as nossas necessidades (Fp 4.19) e, 
assim, despertou em nós uma paixão diferente por nosso trabalho. Nós nos 
voltamos com alegria ao chamado de Jesus: buscai o reino de Deus em pri­
meiro lugar e a justiça dele, e o pão perecível de cada dia lhe será acrescentado. 
Então não trabalhe pelo alimento que perece. Trabalhe para amar as pessoas e 
honrar a Deus. Pense em novas maneiras em que seu trabalho pode abençoar 
as pessoas. Pare de pensar principalmente no lucro e foque no quanto pode se 
tornar útil para as pessoas seu produto ou seu serviço.
Faça suas transações comerciais, mas continue livre, desatrelado delas
De que maneira você se levanta de manhã e vai trabalhar não pela comida 
que perece - não principalmente pelo lucro? Essa é realmente uma descoberta 
espiritual, conseguida por meio de muita oração e desejo de alma. Minhas 
palavras de explicação não vão fazer isso acontecer. Mas talvez o Espírito Santo 
use estas palavras para dar mais força à sua busca. Paulo disse em ICoríntios 
7.30-31 que, visto que vivemos num tempo de grande urgência, “... os que 
compram [devem comprar] como se nada possuíssem, e os que se utilizam do 
mundo, como se dele não usassem”, isto é, como se não tivessem transações 
comerciais com ele. Acho que isto é outro modo de dizer, sim, trabalhe, mas 
não trabalhe pelo alimento que perece. Vá em frente e compre, mas aja como 
se você não tivesse quaisquer bens. Faça seus negócios, mas conserve-se livre 
deles. O resultado financeiro dessas transações não é a sua vida.
Digamos que você seja um corretor de ações
Suponhamos que você seja um corretor de ações cristão e veja o mercado 
despencar. O que significa para você não trabalhar pela comida que perece 
é que sua vida verdadeira não fica em perigo. Sua paz e alegria não são des­
truídas. Sua decisão de fazer o melhor que pode para seus clientes continua a 
mesma - ainda que você os aconselhe a sair do mercado e usar seu dinheiro 
de um modo diferente para a glória de Deus. Você não está trabalhando pelo 
alimento que perece. Seu alvo é ter prazer em Cristo ser exaltado pelo modo 
em que você trabalha. Jesus disse: “Uma comida tenho para comer, que vós 
não conheceis... A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que 
me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.32-34). Nenhum de nós em nossas 
vocações deve visar principalmente a comida que perece - deixe isso com o 
Senhor. Devemos visar, em vez disso, fazer a vontade daquele que nos enviou. 
E sua vontade é que nós o tratemos como nosso tesouro acima de tudo mais 
e vivamos assim.
Não desperdice sua vida das 8 às 5 1 1 3
O corretor de ações cristão dirá em face a um mercado em queda: “A 
comida principal que eu quero desse emprego ainda está lá. Tenho fome acima 
de tudo de passar neste teste da fé e ter um profundo descanso na bondade e 
poder de Cristo. Tenho fome de ter prazer em que o nome dele seja estimado 
à medida que outros veem meu comportamento e minha integridade e dão 
glória a Cristo”. E para esse fim ele trabalha pela comida que permanece atéa vida eterna. Ele trabalha, levantando-se cedo para orar, meditar e manter 
Cristo perto de seu coração o dia todo. Nessa segurança, ele pensa no bem 
dos outros e os serve. Isso é uma maravilha, e não uma vida jogada fora.
Jesus nos chama para ser forasteiros e exilados no mundo. Não tirando- 
-nos do mundo, mas mudando, na raiz, como nós vemos o mundo e como 
fazemos nosso trabalho nele. Se nós simplesmente trabalhamos para ganhar 
a vida - se trabalhamos pelo pão que perece jogamos fora nossa vida. 
Mas, se trabalhamos com a doce certeza de que Deus suprirá todas as nossas 
necessidades - que Cristo morreu para comprar cada bênção imerecida - , 
então todo nosso trabalho será um trabalho de amor e um gloriar somente 
na cruz.
5. Nós engrandecemos a Cristo em nosso trabalho secular ganhando 
dinheiro com o desejo de usá-lo para tornar outros alegres em Deus.
Tudo que eu disse no capítulo 7 presumiu que nós tínhamos dinheiro 
para usar de um modo radical para mostrar que Cristo, e não o dinheiro, 
é nosso Tesouro. Mas o dinheiro não cresce em árvores; nós trabalhamos 
para ganhá-lo. Nós prestamos algum serviço ou fazemos algum produto pelo 
qual outros pagarão. Então, meu assunto aqui é que, enquanto trabalhamos, 
devemos sonhar em como usar nosso dinheiro extra para fazer outros ale­
gres em Deus. Naturalmente, nós devemos usar todo o nosso dinheiro para 
fazer outros alegrarem-se em Deus, no sentido de que nossa vida toda tenha 
esse alvo. Mas o importante aqui é que nosso trabalho secular pode tornar-se 
uma grande bênção exaltando Deus para o mundo se nós visarmos pegar os 
ganhos de que não precisamos para nós mesmos (e nós precisamos mesmo 
de muito menos do que pensamos) e cobrirmos as necessidades de outros em 
nome de Jesus.
Os fisicamente capazes que ganham ajudam as vítimas de perdas
Deus nos diz claramente que devemos trabalhar para prover as neces­
sidades daqueles que não conseguem satisfazer suas próprias necessidades. 
É verdade que toda pessoa deve trabalhar se pode, e que no geral se você 
trabalhar bem você terá o que precisa. “O que lavra a sua terra será farto de 
pão” (Pv 12.11). Mas esta regra geral não é absoluta. A seca pode bater na 
sua lavoura, ladrões podem roubar o que você ganhou; uma incapacitação
1 1 4 Não jogue sua vida fora
física pode tirar seu poder de ganhar. Tudo isso é parte da maldição que o 
pecado trouxe para o mundo. Mas Deus, em sua misericórdia, deseja que 
o trabalho dos capazes supra as necessidades dos incapazes, especialmente 
em tempos difíceis.
Três passagens da Bíblia tornam isso claro. Em ITimóteo 5.8, Paulo fala 
com filhos e netos com respeito aos viúvos idosos. “Se alguém não tem cui­
dado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior 
do que o descrente”. Em Atos 20.35, Paulo se refere ao seu próprio trabalho 
manual e depois diz: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, 
é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor 
Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber”. Então, em Efésios 4.28, Paulo 
não fica satisfeito só em dizer: “Não roube, trabalhe!”, ele diz: “Aquele que 
furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que 
é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado”. Pode-se furtar para 
ter. Ou pode-se trabalhar para ter. Ou pode-se trabalhar para ter o que dar. 
Quando a terceira opção resulta da pessoa alegrar-se na bondade de Deus, 
isso o engrandece no mundo.
6. Nós engrandecemos Cristo em nosso trabalho secular ao 
tratarmos da rede de relacionamentos criados como um 
presente de Deus para ser amado pelo compartilhamento 
do evangelho e por atos práticos de ajuda.
Eu coloquei este como último não por ser o menos importante, e sim 
porque alguns que o põem primeiro nunca dizem nenhuma outra coisa 
sobre a importância do trabalho secular. Eu também já cometi esse erro. 
Evangelismo pessoal é tão importante que é fácil pensar nele como a única 
coisa importante na vida. Mas nós já vimos que a Bíblia põe muita ênfase 
em adornar o evangelho, não meramente anunciar o evangelho. Mas agora 
quero dizer que fa lar a boa-nova de Cristo é parte do motivo que Deus 
o colocou em seu serviço. Ele teceu a sua presença no tecido da vida dos 
outros para que você lhes conte o evangelho. Sem isso, todo nosso compor­
tamento de adornar pode mostrar a falta daquela coisa que poderia torná-la 
do adora de vida.
A vocação do cristão inclui fazer de sua boca uma fonte de vida. “A boca do 
justo é manancial de vida” (Pv 10.11). O elo com a vida eterna é a fé em Jesus 
Cristo. Nenhum sentimento bom, nenhuma opinião boa sobre você como 
um bom funcionário poderá salvar alguém. As pessoas precisam conhecer o 
evangelho, que é o poder de Deus para a vida eterna (Rm 1.16). “A fé vem pela 
pregação, e a pregação pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).
A igreja primitiva era um grupo “evangelizador” de pessoas. Elas falavam 
o evangelho. Quando os crentes foram forçados a sair de Jerusalém por causa
Não desperdice sua vida das 8 às 5 1 1 5
de perseguição depois do martírio de Estêvão, eles “iam por toda parte 
pregando a palavra” - literalmente “evangelizando ou dando boas-novas” 
(At 8.4). O evangelho estava nos seus lábios, em todos os seus novos rela­
cionamentos. Sua autoidentidade era de “proclamadores”: “Vós sois raça 
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de 
Deus, afim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas 
para a sua maravilhosa luz” (lPe 2.9). Livremente receberam. Livremente 
compartilharam.
Foram movidos pelas palavras de Jesus com respeito a quanto vale uma só 
vida humana. “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a 
sua alma? Que daria um homem em troca de sua alma?” (Mc 8.36-37). Eles 
sentiram o peso daquilo que C. S. Lewis falou 20 séculos mais tarde, quando 
ponderou o relacionamento entre ganhar uma alma para Cristo, por um lado, 
e o valor de sua própria vocação como um estudioso da Universidade de 
Oxford em Literatura Inglesa, por outro:
O cristão levará a literatura um pouco menos a sério do que o 
pagão que tem cultura. [...] O incrédulo é sempre capaz de fazer 
uma espécie de religião de suas experiências estéticas [...] e ele co- 
mumente deseja manter sua superioridade com relação à grande 
massa da humanidade que se volta a livros para mera recreação.
Mas o cristão sabe de saída que a salvação de uma única alma é 
mais importante do que a produção ou preservação de todos os épicos 
e tragédias do mundo: e quanto à superioridade, ele sabe que os 
vulgares, visto que incluem a maioria dos pobres, provavelmente 
incluem a maioria dos superiores.4
O importante não é que Lewis deixou seu trabalho e tornou-se um evan­
gelista de tempo integral, nem que você deva fazer isso. O ponto é que ele viu
o sentido de seu trabalho numa perspectiva apropriada e sabia que mais de 
uma coisa dava significância a ele. A cada um dos cinco modos que mencio­
namos anteriormente, Lewis acrescentaria que sua vocação criou uma rede 
de relacionamentos nos quais ele pôde falar o evangelho. Uma vez, quando ele 
foi criticado por simplificar demais o evangelho, ele respondeu a seu crítico:
[A pessoa] seria um crítico que ajudaria mais se aconselhas­
se uma cura além de afirmar muitas moléstias. Como ele mesmo 
faz esse trabalho? Quais os métodos e qual o sucesso que obtém 
quando tenta converter a grande massa de lojistas, advogados, cor­
retores, agentes funerários, policiais e artesãos que o rodeiam em 
sua própria cidade?5
116 Não jogue sua vida fora
Talvez outra coisa deva ser mencionada com respeito aos relacionamen­
tos criados pelo meio em que vivemos e trabalhamos. Para muitos de vocês, 
mudar a direção para missões e ações de misericórdia não será um desloca­
mento de seu trabalho, mas com seu trabalho passar a outra parte do mundo 
mais necessitada, menos alcançada. Os cristãos devem perguntar seriamente 
não apenas qual é sua vocação, mas onde deve ser vivida.Não devemos pre­
sumir que professores, marceneiros, programadores de informática, gerentes, 
contadores, médicos e pilotos devem fazer seu trabalho no país de origem. 
Essa mesma vocação poderia ser utilizada em um país que, de outra forma, 
dificilmente concede entrada ou em um lugar onde a pobreza torna acesso ao 
evangelho difícil. Assim a rede de relacionamentos criados pelo nosso traba­
lho não só é estratégica como intencional.
Conclusão
Em conclusão, o trabalho secular não é um desperdício quando nós 
engrandecemos a Cristo das 8 às 5. A vontade de Deus na época de hoje é que 
seu povo seja espalhado como sal e luz em todas as vocações legítimas. Seu 
alvo é ser conhecido, porque conhecê-lo é vida e alegria. Ele não nos chama 
para sair do mundo. Ele não tira a necessidade de trabalhar. Ele não destrói 
a sociedade e cultura. Por meio de seus santos dispersados, ele espalha uma 
paixão pela supremacia dele, em todas as coisas, para a alegria de todos os 
povos. Se você trabalha como o mundo, você joga fora sua vida, por mais 
rico que você fique. Mas, se seu trabalho cria uma rede de relacionamentos 
redentores e torna-se um adorno para o evangelho da glória de Cristo, sua 
satisfação durará para sempre e Deus será exaltado em sua alegria.
Notas do capítulo 8
1 Martinho Lutero, “An Open Letter to the Christian Nobility”, em Three 
Treatises (Filadélfia: Fortress, 1960), 14-17. Ver Gene Edward Veith, Jr„ Deus 
em ação (Cultura Cristã, 2007), para uma exposição para leigos da doutrina 
de vocação de Lutero. Ver também Os Guinness, O chamado (Cultura Cristã,
2001) e Paul Helm, Callings: The Gospel in the World (Edinburgo: Banner of 
Truth Trust, 1998).
2 Cecil F. Alexander, “Ali Things Bright and Beautiful” (1848).
3 Jonathan Edwards, “Thoughts Concerning the Revival”, em The Great 
Awakening, The Works o f Jonathan Edwards, vol. 4 (New Haven, CN: Yale 
University Press, 1972), 340.
4 C. S. Lewis, “Christianity and Literature”, em Christian Reflections (Grand 
Rapids, MI: Eerdmans, 1967), 10.
5 C. S. Lewis, “Rejoinder to Dr. Pittenger”, em God in the Dock: Essays on 
Theology and Ethics (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1970), 183.
9
A majestade de Cristo em 
missões e misericórdia - um 
apelo para esta geração
Deus está cercando alguns de vocês. Ele é como “um cão de caça do céu” 
(na figura sugestiva do poeta Francis Thompson) que tenciona fazê-lo uma 
pessoa muito mais feliz em algum trabalho perigoso e desprezível. Missio­
nários e ministros de misericórdia não aparecem do nada. Vêm de pessoas 
como você, atônitos com a glória de Deus e detidos em seu caminho. Por 
vezes, acontece quando você está indo no caminho exatamente oposto.
Como Deus pegou Adoniram Judson
Foi assim com Adoniram Judson, o primeiro missionário ultramarino dos 
Estados Unidos da América, que com 23 anos embarcou com sua esposa em
17 de fevereiro de 1812. Estavam casados há 12 dias. Ele passou o restante de 
sua vida, até 1850, “sofrendo, contudo, sempre se regozijando” para fazer com 
que a Birmânia,* no sudeste da Ásia, conhecesse o impacto de Cristo e o povo 
se alegrasse em Deus para sempre. Mas o Senhor primeiro precisou mudar de 
direção o rapaz, e ele fez isso de uma maneira que atordoou Judson, tanto que 
ele nunca se esqueceu da providência de Deus em sua conversão.
Filho de pastor, ele era um menino brilhante. Sua mãe ensinou o garoto 
a ler em uma semana, quando tinha 3 anos, para surpreender o pai quando 
chegasse de uma viagem.1 Quando tinha 16 anos, entrou no Rhode Island 
College (mais tarde, Brown University) como segundo anista e formou-se no 
topo de sua classe três anos depois, em 1807.
* Birmânia ou Burma, atualmente Mianmar.
1 1 8 Não jogue sua vida fora
O desvio de Deus
O que os pais piedosos não sabiam era que Adoniram estava sendo 
desviado da fé por um colega chamado Jacob Eames que era um deísta.2 
Tanto que, ao terminar a faculdade, Judson não tinha nenhuma fé cristã. 
Ele escondeu isso de seus pais até o dia em que completou 20 anos, dia 9 de 
agosto de 1808, quando ele partiu o coração deles anunciando que já não 
tinha fé nenhuma e queria escrever para o teatro e pretendia ir a Nova York, 
o que ele fez seis dias depois num cavalo que seu pai lhe deu como parte de 
sua herança.
Isso não provou ser a vida de seus sonhos. Ele se ligou a uns atores ambu­
lantes e, como disse mais tarde, viveu “uma vida descuidada de vagabundo, 
encontrando pouso onde podia e fraudando o senhorio quando achava opor­
tunidade”.3 A aversão que encontrou ali foi o princípio de várias providências 
admiráveis. Deus estava cercando Adoniram Judson.
Um dia foi visitar o tio Efraim, em Sheffield, mas encontrou ali em lugar 
dele “um jovem rapaz piedoso” que o espantou sendo bem firme em suas con­
vicções cristãs sem que fosse “austero e ditatorial”.4 Estranho que ele achasse 
esse moço ali em vez do tio que procurou.
A noite inesquecível
Na noite seguinte, ele se alojou numa pequena hospedaria da vila onde 
ele nunca tinha estado antes. O dono da hospedaria pediu desculpas dizendo 
que seu sono poderia ser interrompido porque havia no quarto ao lado um 
homem que estava criticamente enfermo. Durante toda a noite, Judson 
ouviu idas e vindas, vozes falando baixinho, gemidos e respiração ofegante. 
Incomodou-o pensar que o homem a seu lado não estivesse preparado para 
morrer. Ele ficou pensando em si e teve pensamentos terríveis a respeito 
dele próprio morrer. Sentiu-se tolo porque os bons deístas não eram para 
ter essas lutas.
Quando estava saindo pela manhã, ele perguntou se o homem vizinho 
estava melhor. “Ele está morto”, disse o dono da hospedaria. Na saída, Adoni­
ram perguntou: “Você sabe quem ele era?”. “Ah sim. Um moço da faculdade 
em Providence. O nome era Jacob Eames”.5
Judson quase não pôde sair do lugar. Ficou ali durante horas refletindo 
sobre a morte e a eternidade. Se seu amigo Eames estava certo, então, este 
era um evento sem sentido. Mas Judson não pôde acreditar nisso: “Que 
o inferno se abrisse naquela hospedaria rural e pegasse Jacob Eames, seu 
melhor amigo e mentor, da cama ao lado - isso não podia, simplesmente 
não podia, ser pura coincidência”.6 Deus era real. E ele estava perseguindo 
Adoniram Judson. Deus conhecia o homem que ele queria que alcançasse 
o povo birmaniano.
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 1 9
Vivo para Cristo e morto para seu país
A conversão de Judson não foi imediata. Mas agora era certeza. Deus 
estava no seu rastro, como foi com o apóstolo Paulo na estrada de Damasco, e 
não havia escape. Foram meses de luta. Ele entrou no seminário de Andover, 
em outubro de 1808, e, em dezembro, fez uma solene dedicação de si próprio 
a Deus. Em 28 de junho de 1809, Judson se apresentou aos congregacionais 
para trabalho missionário no Oriente.
Encontrou Ann naquele mesmo dia e apaixonou-se. Depois de conhecer 
Ann Hasseltine por um mês, ele declarou sua intenção de tornar-se um pre­
tendente. Sabia que a vida em que estava para embarcar seria não só perigosa 
e suja, como também distante. Nunca esperava voltar para seu país. Voltou 
somente uma vez, 33 anos mais tarde, e nunca mais. Ann foi com ele e mor­
reu na Birmânia. Aqui está a carta que Judson escreveu ao pai dela pedindo 
sua parceria em missões:
Tenho agora que pedir se o senhor poderá consentir separar-se 
de sua filha no início da próxima primavera, para não mais vê-la 
neste mundo; se pode consentir em que ela parta, e que seja sujeita 
às durezas e sofrimentos da vida missionária; se pode consentir em 
que se exponha aos perigos do oceano, à influência fatal do clima 
do sul da Índia; a todo tipo de necessidade e estresse; a degrada­
ção, insultos, perseguição e talvez uma morte violenta. Será que o 
senhor pode consentir em tudo isso, por amor àquele que deixou 
seu lar celeste, e morreu por ela e pelo senhor; por amor a almas 
imortais que perecem; por amor a Sião, e a glória de Deus? Poderá 
consentir a tudo isso, na esperança de embreve encontrar-se com 
sua filha no mundo da glória, com a coroa da justiça, polida com 
as aclamações de louvor que redundarão ao Salvador dela dos ateus 
salvos, por meio dela, do sofrimento e desespero eterno?7
Seu pai deixou que ela decidisse. Ela disse sim.
Deus não nos chama ao sossego, e sim à alegria fiel. Ele está cercando 
alguns de vocês, sorrindo e com lágrimas em seus olhos, sabendo quanto de 
si mesmo ele lhes vai mostrar - e quanto custará. Ao escrever, oro para que 
não lhe voltem as costas.
A piedade das pessoas e a paixão por Cristo são uma só coisa
Se você se apieda das pessoas que perecem e se apaixona pelo bom nome 
de Cristo, você deve se importar com missões mundiais. Um dos encargos 
deste livro é mostrar como é a vida quando você crê que não ousa esco­
lher entre as motivações de amar as pessoas e de glorificar Cristo. Não são
120 Não jogue sua vida fora
motivações separadas. Agir em função de um motivo inclui agir pelo outro. 
Portanto, se seu alvo é amar as pessoas, você entregará a vida para fazer as 
pessoas alegres em Deus eternamente. E se seu alvo é glorificar a Cristo, que 
é Deus encarnado, você também dará sua própria vida para fazer as pessoas 
eternamente felizes em Deus.
A razão disso é que qualquer alvo que venha de um coração bondoso, sem 
o desejo de dar às pessoas alegria eterna em Deus, é condenação com um 
rosto bondoso. O amor sempre quer o que é melhor para os necessitados, e 
o que é melhor é apreciar Deus de maneira completa e eterna. Semelhante­
mente, qualquer esforço para honrar a Cristo que não visa torná-lo o Tesouro 
que satisfaz plenamente aos súditos traiçoeiros de Deus é cumplicidade na 
revolta. Deus só é louvado onde é valorizado sobre tudo mais. Pagamos 
nosso tributo a ele quando ele é um Tesouro para nós. Você não pode amar 
o homem nem honrar a Deus sem fazer ambas as coisas. Essa paixão única - 
ver que Cristo seja glorificado à medida que pessoas que estão perecendo se 
tornam eternamente satisfeitas nele - impulsiona o grande empreendimento 
global que chamamos de missões mundiais.
Se você vem sem nenhum interesse ou conhecimento
Nem todo mundo chega a este capítulo com uma paixão nítida e poderosa 
pela glória de Cristo entre os povos não alcançados do mundo. Nós somos na 
maioria bastante paroquiais, etnocêntricos e restritos, e por vezes até mesmo 
egocêntricos e racistas, em nosso modo de vida. Quase nunca chegamos a 
pensar numa causa de Deus global, multinacional, multiétnica, multilíngue, 
e no que consistem a paixão de Deus e seus propósitos para Guiné, Indo­
nésia, Tanzânia, Tailândia, Casaquistão, Uzbequistão, Turquia, República 
Checa, Eslováquia, China, Sibéria, Japão, Camarões, Mianmar, Somália ou 
os Hmong, Dakota ou Ojibwa do estado de Minnesota.
Portanto, eu não imagino que você tenha vindo a este capítulo com um 
interesse claro e retumbante pelas realmente grandes notícias do mundo - 
que a mídia nunca relata - a saber, a difusão da verdade e fé cristã entre 
os povos do mundo a caminho da consumação operada por Deus, que fará 
toda a história do mundo parecer o que realmente é - um prelúdio breve ao 
reinado eterno, completamente glorioso, de Cristo. Não presumo que você 
venha com seu coração encantado com o grande propósito global de Deus. 
Então, eu simplesmente quero deixar que Deus lhe fale, em suas próprias 
palavras, sobre suas prioridades.
Lembrar-se-ão do Se n h o r e a ele se converterão os confins da 
terra, perante ele se prostrarão todas as famílias das nações. Pois 
do Se n h o r é o reino, é ele quem governa as nações (SI 22.27-28).
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 2 1
Então há orações do Antigo Testamento:
Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. 
Alegrem-se e exultem as gentes (SI 67.3-4).
Então há as ordens do Antigo Testamento:
Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, 
as suas maravilhas!... Dizei entre as nações: Reina o S e n h o r 
(SI 9 6 .3 , 10).
Então há a Grande Comissão do Novo Testamento dada pelo Cristo 
ressuscitado:
Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade 
me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de 
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do 
Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos te­
nho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consu­
mação do século (Mt 28.18-20).
Então há a grande vida do apóstolo Paulo, de total dedicação a essa missão:
[...] esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não 
onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento 
alheio, antes como está escrito: Hão de vê-lo aqueles que não tive­
ram notícia dele, e compreendê-lo os que nada tinham ouvido a 
seu respeito (Rm 15.20-21).
Então há o quadro magnífico da conseqüência final dos propósitos de Deus 
na História:
E entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro 
e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue 
compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo 
e nação, e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e 
reinarão sobre a terra (Ap 5.9-10).
Uma resumida declaração de fé sobre missões
Por estas e muitas outras citações bíblicas, fui obrigado ao longo dos anos 
a pensar, pregar e escrever sobre o grande propósito global de Cristo chamado
122 Não jogue sua vida fora
de missões. Há alguns anos, os presbíteros de nossa igreja redigiram uma 
declaração de fé para nos orientar na instrução de nossos aprendizes e na 
escolha de novos presbíteros. O parágrafo 13 daquele documento resume 
nosso sentido do que sejam missões:
Nós cremos que a comissão dada pelo Senhor Jesus para que 
se façam discípulos de todas as nações incide sobre a sua Igreja 
até o fim da era. A tarefa é proclamar o evangelho a toda tribo, 
língua, povo e nação, batizando-os, ensinando-lhes as palavras e 
caminhos do Senhor, e reunindo-os em igrejas capazes de cum­
prir sua vocação cristã entre seu próprio povo. O objetivo final de 
missões mundiais é que Deus crie, pela sua Palavra, adoradores 
que glorifiquem seu nome por meio de coração alegre na fé e na 
obediência. Missões é o que existe porque o culto inexiste. Quando 
esta era findar, e os incontáveis milhões prostrarem seu rosto em 
terra diante do trono de Deus, as missões não mais existirão. É uma 
necessidade temporária. Mas o culto sempre existirá. O culto, por­
tanto, é o combustível e o alvo de missões.8
Mesmo civis gostam imensamente de seguir 
as vitórias das fileiras da frente
Este é o grande quadro. Cristo veio, morreu e ressuscitou a fim de reu­
nir uma companhia alegre, incontável, para seu nome de todos os povos da 
terra. É sobre isso que todo cristão deve sonhar. Digo isso cuidadosamente, 
lembrando o que escrevi no capítulo 8 sobre vocações seculares. É crucial que 
milhões de cristãos realizem a vocação de sua vida em trabalhos seculares, 
assim como é crucial que durante o tempo de guerra toda a tecitura da vida 
e cultura não se desfaça. Mas, durante o tempo de guerra, mesmo os milhões 
de civis amam receber notícias das tropas na frente de batalha. Gostam muito 
de saber das vitórias das tropas. Sonham com o dia em que a guerra não mais 
exista. Assim é com os cristãos. Todos nós devemos sonhar com isso. Deve­
mos adorar ouvir notícias de como está o avanço do Rei Jesus. Devemos amar 
ouvir das vitórias do evangelho à medida que Cristo estabelece sua igreja 
entre povos presos durante séculos por poderes contrários das trevas.
Esse é o plano de Deus na história mundial - que pessoas de todas as 
nações, tribos e línguas cheguem a adorar e valorizar Cristo como seu 
tesouro acima de todas as coisas. Ou, como Paulo o colocou em Romanos 
15.9, “... que os gentios [todos os povos] glorifiquem a Deus por causa da 
sua misericórdia”. Não pode haver nenhum pedido de demissão por can­
saço, nenhuma retirada covarde e nenhum contentamento inclemente entre 
o povo de Cristo,enquanto ele ainda é rejeitado entre os milhares de pessoas
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 2 3
não alcançados. Todo cristão (que ama as pessoas e honra a Cristo) precisa 
se importar com isso.
A inadequação do ponto de vista do gandula
Alguém poderia dizer: “Mas o evangelho não tem a ver com obter perdão 
de meus pecados e a esperança da vida eterna, com ser cheio do Espírito de 
santidade e ser mudado na imagem de Jesus de modo que me torne melhor 
mãe, pai, filho ou filha, amigo, empregador ou cidadão?” A resposta, natural­
mente, é sim. Mas se isso é tudo que focamos em nosso andar com Deus, nós 
deixamos de ver o quadro maior. Nós perdemos o ponto mais importante do 
todo. Somos como os gandulas que trabalham no estádio que acham que o 
ponto crucial do campeonato é dar a bola na mão dos jogadores.
Portanto, eu insisto com você, em nome de Jesus, que acorde, alargue seu 
coração, estique sua mente e abra suas asas. Suba, ascenda acima de sua vida 
limitada - e veja o grande quadro extasiante dos propósitos globais de Deus 
para a história do mundo que não pode fracassar. “O meu conselho perma­
necerá de pé,” diz o Senhor, e “farei toda a minha vontade” (Is 46.10). “Para 
que ao nome de Jesus todo joelho se dobre, nos céus, na terra e debaixo da 
terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus 
Pai” (Fp 2.10-11). “Será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, 
para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24.14).
Não se ofenda - entre na alegre parceria
E à medida que Deus lhes dá asas para subir bem alto e ver o mundo do 
modo em que ele o vê, muitos de vocês, eu oro, serão soltos de sua situa­
ção atual - serviço, vizinhança, estado, nação, plano - e serão chamados a 
um engajamento nesse grande propósito histórico, global, de Deus como um 
que vai e não apenas um que envia. Peço que ninguém que se dedicou a um 
ministério local ou um engajamento secular crucial se ofenda diante deste 
rogo. Ao contrário, alegre-se. Você está livre para ficar ou livre para ir. Muitos 
de vocês precisam ficar. Você ficar é crucial para os propósitos de Deus onde 
você está, e é crucial para os propósitos dele onde você não está, mas aonde 
outros podem ir. Não há necessidade de sentimento de culpa ou ressenti­
mento. Há uma necessidade muito grande para uma parceria alegre.
Aqueles de vocês que ficam - os que enviam - devem guardar em mente 
este fato notável: missões estrangeiras são a validação de todos os ministérios 
de misericórdia no país de origem, porque os exporta para o exterior. Plantar 
a igreja entre um povo não alcançado significa plantar a base de operações 
para toda a misericórdia que Jesus mandou estender aos pobres. Se não dei­
xamos nossa luz brilhar diante do povo de nossa terra, “... para que vejam 
[nossas] boas obras e glorifiquem a [nosso] Pai que está no céu” (Mt 5.16),
124 Não jogue sua vida fora
que espécie de obediência vamos exportar às nações? A Grande Comissão 
inclui as palavras “ensinando-os a guardar todas as coisas que [eu, Jesus] vos 
tenho ordenado” (Mt 28.20). E o que ele ordenou? Ele contou a história do 
homem desesperadamente ferido e do bom samaritano que “usou de mise­
ricórdia para com ele”, e então disse para todos nós: “Ide, e procedei vós de 
igual modo” (Lc 10.37).
Misericórdia na pátria torna as missões críveis
As pessoas que ficam em sua terra estão rodeadas de carências. Só preci­
samos de olhos para ver e corações que não conseguem passar de largo pelo 
outro lado. Este desafio não está desvinculado do desafio de missões. Mostrar 
misericórdia prática aos pobres manifesta a beleza de Cristo aqui em nossa 
terra e torna crível a exportação da fé cristã. Somos hipócritas ao fingirmos 
que temos entusiasmo por ministérios em lugares do outro lado do oceano 
enquanto negligenciamos as situações miseráveis por perto. Algo estava errado 
com o sacerdote e o levita na história do bom samaritano, pois tinham seus 
alvos religiosos distantes, mas não se comoviam com o sofrimento por perto, 
onde teriam que sujar suas próprias mãos. Ministérios de misericórdia perto 
de casa validam a autenticidade de nossas preocupações distantes.
Missões estrangeiras e misericórdia na comunidade a que pertencemos são 
ligadas na própria natureza do evangelho que nos cabe mandar às nações. O 
cerne do evangelho é este: “[Cristo], sendo rico, se fez pobre por amor de vós, 
para que pela sua pobreza vos tornásseis ricos” (2Co 8.9). A salvação que nós 
desfrutamos para nós mesmos e mandamos para outros é um ministério da 
misericórdia de Deus para os pobres, que inclui todos nós. Devemos nossa 
vida ao compromisso de Deus com missões e misericórdia. Ele veio de uma 
grande distância para nos ajudar, e sua ajuda inclui todo tipo de ajuda de que 
necessitamos. E ele se sujou fazendo isso. O fato é que ele foi morto. Esse sofri­
mento misericordioso é a compra e o caminho de nossa salvação. Cristo sofreu 
no seu lugar, deixando um exemplo para seguir os passos dele (lPe 2.21). Mis­
sões e misericórdia são inseparáveis, porque o próprio evangelho que levamos 
às nações modela e ordena misericórdia aos pobres em casa.
A comparação devastadora de Warfield
Eu nunca li uma afirmação melhor dessa ligação do que a seguinte citação 
de B. B. Warfield, um professor no Seminário de Princeton que faleceu em 
1921. Ele responde algumas das perguntas sobre ministério aos pobres por 
meio de uma comparação com o ministério de Cristo para conosco.
Agora, queridos cristãos, alguns de vocês oram noite e dia para 
serem ramos da verdadeira Videira; vocês oram para serem feitos
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 2 5
novos à imagem de Cristo. Se é assim, vocês precisam ser como ele 
em dar [...] “embora ele fosse rico, contudo, por amor de nós, ele se 
fez pobre” [...]
Objeção rf 1. “Meu dinheiro é meu”. Resposta: Cristo poderia 
ter dito: “Meu sangue é meu, minha vida é minha” [...] e então onde 
estaríamos nós? Objeção n° 2. Os pobres são pessoas que não me­
recem”. Resposta: Cristo poderia ter dito: “Eles são rebeldes e maus 
[...] darei a vida por esses? Eu a darei aos anjos bons”. Mas não, ele 
deixou os noventa e nove, e veio atrás do perdido. Ele deu seu san­
gue pelos que não tinham mérito. Objeção nQ 3. “Os pobres podem 
abusar disso”. Resposta: Cristo poderia ter dito o mesmo; sim, e seria 
mais verdade. Cristo sabia que milhares pisariam seu sangue sob 
seus pés; que a maioria o desprezaria; que muitos fariam disso uma 
desculpa para pecar mais; não obstante, ele deu seu próprio sangue.
Ah, meus caros cristãos! Se você deseja ser como Cristo, dê muito, 
dê com frequência, dê livremente, aos vis e pobres, aos ingratos e 
desmerecedores. Cristo é glorioso e feliz e você também será. Não 
é seu dinheiro que eu quero, e sim a sua felicidade. Lembre-se da 
palavra dele mesmo: “É mais bem-aventurado dar do que receber”.9
Assim como há uma parceria entre o próprio evangelho e os pobres 
por perto, assim há uma parceria maravilhosa entre cristãos serem a igreja 
misericordiosa em sua terra, e cristãos plantarem a igreja misericordiosa no 
exterior. Nenhuma das duas coisas é uma vida jogada fora. Na verdade, a 
autenticidade de cada uma depende muito da autenticidade da outra. Não 
é nada autêntico enviarmos o que nós não temos. E não é autêntico ter um 
tesouro e não enviá-lo.
As raízes do Movimento Voluntário Estudantil
A alegre parceria entre leigos que ministram em casa e missionários que 
vão ao exterior já aconteceu antes, e pode acontecer novamente. Nas primei­
ras décadas do século 20, o Movimento Voluntário Estudantil (MVE) explo­
diu no cenário dos Estados Unidos com um impacto missionário imenso. Foi 
notável pelo número de missionários enviados e pela profundidade e ampli­
tude dos leigos que o sustentaram. Foi uma parceria magnífica.
As raízes do Movimento Voluntário Estudantil remontavam longe, à famosa 
Reunião deOração do Monte de Feno em 1806, em Massachusetts. Um des- 
pertamento espiritual agitou os estudantes do Williams College e motivou um 
pequeno grupo de rapazes a se dedicarem a oração duas vezes por semana 
junto ao Rio Hoosack. Enfocaram o bem-estar espiritual dos demais estudan­
tes. Em agosto de 1806, um temporal com relâmpagos e trovões os pegou no
126 Não jogue sua vida fora
caminho para casa e eles se abrigaram sob os beirais de um grande monte de 
feno do qual os animais já tinham comido de um lado, e formado o abrigo. 
Usaram o tempo para continuar orando. Desta vez rogaram um desperta- 
mento de interesse em missão estrangeira entre os alunos.
Um deles, Samuel Mills, instou com os moços do grupo para que consi­
derassem sua própria disposição de serem missionários. Para sentir o peso 
desse momento, temos de lembrar que, àquela altura da história dos Estados 
Unidos, nenhum só missionário tinha deixado as costas do país. Não havia 
nenhuma sociedade missionária. As igrejas, em sua maior parte, não possu­
íam nenhuma visão em favor dos povos não alcançados do outro lado dos 
oceanos perigosos. Havia, justamente como muitos dizem hoje, muito para 
fazer em sua própria terra. O que era verdade! Mas esse pequeno grupo de 
estudantes que oravam não se contentou mais com uma igreja cujo coração 
não ardia com amor pelos povos não alcançados e com zelo pela glória de 
Deus entre as nações. Não mais se satisfaziam com uma igreja que não man­
dava missionários ao estrangeiro. Contra toda essa inércia espiritual, histó­
rica e estrutural, Deus os capacitou a romper caminho.
Nasceram "Os Irmãos"
Orando debaixo do monte de feno, eles se dedicaram ao trabalho mis­
sionário. “Foi dessa reunião do monte de feno que o movimento de missio­
nários ao estrangeiro das igrejas dos Estados Unidos da América ganhou 
seu impulso inicial.”10 Naquele setembro, o grupo formou a “Society of 
the Brethren” [Sociedade dos Irmãos], para dar força a sua decisão de se 
entregarem ao serviço missionário. Samuel Mills espalhou a visão de “os 
Irmãos” ao estudar em Yale e depois no Seminário de Andover. Ele havia se 
transferido para Andover para ser parte daquilo que Deus estava fazendo ali 
sob a liderança estudantil de Adoniram Judson. Esse grupo de “irmãos” em 
Andover deu o impulso à primeira agência missionária dos Estados Unidos 
(o American Board of Commissioners for Foreign Missions); e dessa primeira 
junta missionária os primeiros missionários norte-americanos ao estrangeiro 
foram enviados em 1812.
Nasceu o Movimento Voluntário Estudantil
Em 1846, Royal Wilder foi à índia sob essa primeira Junta Missionária 
dos Estados Unidos. Ele retornou em 1877 por motivos de saúde e se 
estabeleceu em Princeton. Ali, seu filho, Robert, formou a “Princeton Foreign 
Missionary Society” [Sociedade Missionária Estrangeira de Princeton], As 
orações desse grupo levaram a uma reunião crucial convocada por D. L. 
Moody em Mount Hermon, Massachusetts, no verão de 1886. Duzentos e 
cinqüenta e um estudantes se reuniram para uma conferência bíblica que
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 127
duraria um mês todo. Depois de uma mensagem forte pelo pastor A. T. 
Pierson a favor de missões mundiais, cem desses estudantes se apresentaram 
como voluntários para trabalho além-mar. O espírito desse evento prendeu 
a atenção do mundo estudantil. Durante o ano escolar de 1886-87, Robert 
Wilder e John Forman viajaram a 167 campi para espalhar a visão. A 
organização formal do Movimento Voluntário Estudantil aconteceu dois 
anos depois com John R. Mott como presidente.
O propósito, conforme Mott o expressou, tinha cinco partes:
O objetivo quíntuplo do Movimento Voluntário Estudantil de­
verá levar estudantes a uma consideração completa das reivindica­
ções de missões estrangeiras sobre eles pessoalmente, como traba­
lho para sua vida; promover esse propósito guiando estudantes que 
se tornam voluntários em seu estudo e atividade para missões até 
que cheguem a estar sob a direção imediata das Juntas de Missões; 
unir todos os voluntários em um movimento em comum, orga­
nizado, agressivo; conseguir um número suficiente de voluntários 
bem qualificados para fazer face às necessidades das várias Juntas 
de Missões; e ainda, criar e manter um interesse inteligente, soli­
dário e ativo em missões estrangeiras por parte de estudantes que 
ficarão na pátria a fim de assegurar o sustento forte do empreendi­
mento missionário pela sua defesa, suas dádivas e suas orações."
“O crescimento do MVE nas três décadas seguintes foi nada menos que 
fenomenal.”12 O grito de convocação era: “A evangelização do mundo nesta 
geração”. Até 1891 havia 6.200 voluntários estudantis que tinham assinado 
uma declaração que dizia: “É meu propósito, se Deus o permitir, tornar-me 
um missionário ao estrangeiro”. Desses, 321 já tinham embarcado para tra­
balho além-mar. O ano de pico do MVE foi 1920, quando 2.738 estudantes 
assinaram o cartão de compromisso e 6.890 assistiram à convenção do qua- 
driênio. “Até 1945, na estimativa mais conservadora, 20.500 estudantes... que 
tinham assinado a declaração, chegaram ao campo.”13
A chama estudantil acendeu empresas e igrejas
Muitas coisas são extraordinárias sobre este movimento e cheias de ins­
trução e inspiração para nossa geração cem anos depois. Por exemplo, o 
Movimento Voluntário Estudantil acendeu não só estudantes, como também 
os leigos das igrejas. J. Campbell White, o primeiro secretário do Movimento 
Missionário de Leigos, escreveu em 1909: “Durante os últimos 20 anos o 
espírito missionário se desenvolveu maravilhosamente entre as faculdades 
dos Estados Unidos e Canadá [...] levando milhares de homens e mulheres
128 Não jogue sua vida fora
decididos a viverem com um propósito de vida missionário dominante”.14 
Atraído por esse zelo, um jovem negociante assistiu à convenção da MVE de 
1906 em Nashville. Ele pensou consigo: Se os leigos dos Estados Unidos pudes­
sem ver o mundo como esses estudantes o estão vendo, eles levantariam em sua 
força e providenciariam todos os fundos necessários para o empreendimento.15 
Numa reunião de empresários em 15 de novembro de 1906, em Nova York, o 
Movimento Missionário Leigo foi criado.
Seu alvo declarado foi “investigação, agitação e organização; a investi­
gação por leigos das condições missionárias, a agitação de leigos para uma 
política missionária adequada, e a organização de leigos para cooperar com 
os ministros e Juntas de Missões para arrolar toda a Igreja em seu trabalho 
supremo de salvar o mundo”.16
A dádiva de líderes apaixonados
Assim como Deus havia preparado liderança extraordinária para o MVE 
em Robert Wilder, Robert Speer e John R. Mott, assim ele levantou líderes 
para o Movimento Missionário de Leigos que falaram com tanto poder pro­
fético que milhares de leigos adotaram a visão para os propósitos globais de 
Deus. O líder do movimento não era um missionário e não era pastor. Foi um 
empresário. A parceria que emergiu entre estudantes, que iam, e empresários, 
que enviavam, foi profunda, porque havia líderes visionários centrados em 
Deus nos dois grupos. Ambos foram movidos pela mesma paixão de não 
jogarem fora as suas vidas. Pode-se ouvir isso em quase cada sentença que 
J. Campbell White escreveu:
A maioria dos homens não está satisfeita com o resultado per­
manente de sua vida. Nada pode satisfazer inteiramente a vida de 
Cristo dentro de seus seguidores a não ser a adoção do propósito de 
Cristo para o mundo que ele veio salvar. Fama, prazer e riquezas são 
cascas e cinzas em contraste com a alegria ilimitada e permanente 
de trabalhar com Deus para a execução completa de seus planos 
eternos. Os homens que estão colocando tudo no empreendimento 
de Cristo estão desfrutando da vida sua doçura e suas mais inesti­
máveis recompensas.17
Os enviadores não se envergonham de abraçar a causa de ir
Mais uma vez, isso não é uma contradição daquilo que escrevi sobre o 
valor do trabalhosecular no capítulo 8. O ponto importante é que, numa 
guerra, por mais valioso que o trabalho dos civis seja em si, todo mundo 
anseia por, sua vida, fazer diferença também para o esforço de guerra dis­
tante, onde as fileiras inimigas estão sendo penetradas. Leigos, pastores,
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 2 9
igrejas - todos nós que ficamos para trás - encontrarão as “doçuras e mais 
inestimáveis recompensas” à medida que ampliam o coração para abarcar 
não só as necessidades próximas de casa, mas também os lugares duros e não 
alcançados do mundo.
Esses empresários de cem anos atrás viram sua vocação secular e sua visão 
missionária como um todo integrado. A maneira que J. Campbell White arti­
culou a visão do movimento deu aos empresários categorias para a compre­
ensão da unidade de vida sob o senhorio de Cristo. Ele disse:
Este movimento faz as maiores demandas possíveis sobre os ho­
mens. O empenho dele é simplesmente fazer-lhes ouvir o chamado 
de Deus para uma vida cujo propósito dominante é estabelecer o 
reinado de Cristo nos relacionamentos humanos. [...] Recorda-lhes 
[...] que o egoísmo é suicida, enquanto o servir a outros traz à alma 
a maior satisfação possível.18
O efeito surpreendente na igreja de então, mas e hoje?
White mostrou à geração dele que uma paixão por missões não era só o 
modo de salvar o mundo; era também como salvar a igreja:
O esforço para evangelizar o mundo apresenta os métodos mais 
rápidos e seguros de salvar a Igreja. Nossos recursos materiais são 
tão enormes que estamos em perigo de chegar a confiar em rique­
zas em vez de em Deus. “Se um homem está crescendo na riqueza, 
nada senão o doar constantemente pode salvá-lo de se tornar pe­
queno na alma.” A evangelização do mundo é o único empreendi­
mento suficientemente grande e importante para prover uma saída 
adequada para a riqueza da igreja.19
Isso ainda é verdade. Missões não é crucial só para a vida do mundo. É 
crucial para a vida da igreja. Pereceremos com nossa riqueza se não nos derra­
marmos em ministérios de misericórdia na pátria e missões entre povos não 
alcançados. Somos muito abastados nos Estados Unidos. Todo o dinheiro 
necessário para enviar e sustentar um exército de embaixadores dispostos a 
se sacrificarem pessoalmente, prontos a levar a alegria de Cristo, já está na 
igreja. Mas não estamos agindo para doá-lo.
Em 1916, os protestantes estavam dando 2,9% de suas rendas às 
suas igrejas. Em 1933, no auge da Grande Depressão, era 3,2%. Em 
1955, logo depois que começou a se espalhar pelo país a afluência, 
ainda era 3,2%. Já chegando a 2000, quando os norte-americanos
130 Não jogue sua vida fora
eram 450% mais endinheirados, depois dos impostos e inflação, do 
que na Grande Depressão, os protestantes estavam dando 2,6% de 
suas rendas às suas igrejas.20
Além do mais, “se membros das igrejas cristãs tradicionais nos Estados 
Unidos estivessem dando uma média de 10% em 2000, teria havido um adi­
cional de 139 bilhões de dólares por ano passando pelos canais da igreja”.21 
Agora some a isso o fato realmente chocante que, do dinheiro dado para a 
igreja, menos de 6% vai para missões estrangeiras, e, dessa quantia, cerca de 
1% vai para financiar avanços significativos a povos não alcançados.22 Isso 
não significa dizer que devemos retrair em qualquer empreendimento. O 
importante é que há bastante para todos os avanços significativos se vivermos 
para mostrar que Cristo é nosso Tesouro.
Não o conheceremos plenamente fora de sua missão
Em favor de sua própria alma, a igreja precisa estar envolvida em mis­
sões. Não conheceremos Deus em sua majestade plena até que o conheça­
mos movendo-se triunfantemente em meio às nações. Não o admiraremos 
e louvaremos como devemos até que o vejamos juntando um grande grupo 
de adoradores para si de todos os povos da terra - incluindo todos os povos 
muçulmanos, hindus e budistas. Nada alarga nossa visão da graça triunfante 
de Deus como a extensão de sua obra salvadora na História. E que história é! 
“Recordo os feitos do Se n h o r , pois me lembro das tuas maravilhas da anti­
guidade. Considero também nas tuas obras todas e cogito dos teus prodígios” 
(SI 77.11 -12). “Louvai-o pelos seus poderosos feitos, louvai-o consoante a sua 
muita grandeza” (Sl 150.2). “Louvai ao Senhor, vós todos os gentios, e todos 
os povos o louvem” (Rm 15.11, citando o Sl 117.1).
Qual é nossa situação no mundo hoje?
Os desafios da evangelização do mundo ainda são muito grandes. Esta­
mos em melhor posição de conhecer a extensão e natureza da tarefa hoje 
do que em qualquer tempo antes. Patrick Johnstone escreve: “Pela primeira 
vez na História nós temos uma listagem razoavelmente completa dos povos 
do mundo e da extensão à qual foram evangelizados”.23 Há vários grupos 
que fazem pesquisa para ajudar a igreja a saber que grupos de pessoas em 
volta do mundo foram abraçados por uma igreja ou agência missionária 
cristã.24 O livro de Johnstone dá um bom resumo da situação na virada de 
nosso século.25
Uma forma de descrever a situação é dizer que cerca de 1,2 a 1,4 bilhões de 
pessoas nunca tiveram a chance de ouvir o evangelho;26 isto é, vivem em cul­
turas onde a pregação do evangelho de formas que lhes sejam inteligíveis não
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 3 1
é acessível. Outros analistas estimam o número de não evangelizados um 
tanto mais alto. Por exemplo, a “Tabela Estatística Anual sobre Missão Glo­
bal 2002” por David Barrett e Todd Johnson registra que há 1.645.685.000 
pessoas não evangelizadas no mundo. Isso significa que 26,5% da popula­
ção do mundo vive em grupos de pessoas que não têm igrejas evangelizado- 
ras nativas.27 Cerca de 95% destes vivem no lugar que vem sendo chamado 
a janela 10/40 (entre latitudes 10 e 40 graus para o norte do equador e entre 
os Oceanos Atlântico e Pacífico). Este é o grande desafio de nosso dia.
Johnstone o coloca numa perspectiva histórica esperançosa:
Afastando-nos um pouquinho, conseguimos ver uma configu­
ração notável emergindo dos 200 anos de crescimento [da igreja] 
à medida que tomava impulso - nos anos de 1700, no norte do 
Atlântico; nos de 1800, no Pacífico; nos de 1960, na África; nos 
de 1970, na América Latina; nos de 1980, no Leste da Ásia; nos de 
1990, na Eurásia. Este envolver do globo de uma vez e meia agora 
nos deixa com o desafio da área da Janela 10/40. O Centro e o Sul 
da Ásia e o Oriente Médio são as maiores áreas remanescentes de 
desafio. Onde haverá o romper de caminhos da [...] primeira déca­
da do [...] [novo] milênio? Será que será entre muçulmanos, hindus 
ou budistas? Essas são as últimas fortalezas mantidas pelo inimigo 
sobre as almas dos homens. A enchente da maré do evangelho está 
subindo cada vez mais em volta dessa área, e até já sentimos ante­
gostos do que pode significar um rompimento. Gostaria de ter o 
espaço e a liberdade para contar coisas admiráveis que estão ocor­
rendo nesses baluartes ideológicos aparentemente impenetráveis.28
Deus faz um chamado a esta geração: escute bem!
Há um chamado a esta geração para que obedeça ao Cristo ressuscitado e 
faça discípulos de todos os povos não alcançados do mundo. Eu oro para que 
Deus levante centenas de milhares de jovens e “terminadores” (pessoas que 
terminam uma carreira e estão dispostos a seguir uma segunda no ministério 
cristão). Oro para que esse chamado divino surja em seu coração com alegria 
e não com sentimento de culpa. Oro para que seja confirmado com os dons 
necessários, um desejo propulsor, a confirmação de sua igreja e os toques 
providenciais. Abane para que se acenda a chama de cada centelha de desejo 
com leitura de biografias, meditação na Bíblia, estudo dos povos não alcança­
dos, oração por paixão e conversação com veteranos missionários! Não fuja 
do chamado. Persiga-o.
Deixe que sua mente se fixe na perdição dos indivíduos que perecem, 
mas também em grupos inteiros de pessoas queseja transparente, porque 
a rua ou jardim mais à frente dela é opaco. E se você enxergasse 
através do jardim também? Não adianta tentar “enxergar através” 
de primeiros princípios. Se você enxergar através de tudo, então 
tudo é transparente. Mas um mundo inteiramente transparente é 
um mundo invisível. “Enxergar através” de todas as coisas é o mes­
mo que não enxergar.4
Ah, quanto mais poderia ser dito sobre um mundo como C. S. Lewis o via 
e sua maneira de falar. Ele teve seus defeitos, alguns deles sérios. Mas nunca 
cessarei de dar graças a Deus por esse homem notável que cruzou meu cami­
nho no momento exato.
Uma noiva é um fato teimosamente objetivo
Houve outra força que solidificou minha fé resoluta na existência irredutí­
vel da realidade objetiva. Seu nome era Noêl Henry. Eu me apaixonei por ela 
no verão de 1966. Muito cedo, provavelmente. Mas tudo saiu bem; eu ainda a 
amo. Nada torna sóbria uma imaginação filosófica divagante como a ideia de 
ter uma esposa e filhos para sustentar.
Casamo-nos em dezembro de 1968. É uma coisa ótima para fazer alguém 
pensar em relação a gente de verdade. Daquele momento em diante, todo
Minha busca por uma paixão única pela qual viver 17
pensamento foi um pensamento em relacionamento. Nada é meramente uma 
ideia, e sim uma ideia que incide sobre minha esposa, e depois, mais tarde, 
sobre meus cinco filhos. Agradeço a Deus a parábola de Cristo e a igreja que 
tenho vivido nesses 35 anos. Há lições na vida - na vida não desperdiçada - 
que provavelmente eu nunca teria aprendido sem esse relacionamento (assim 
como há lições no ser solteiro a vida inteira que provavelmente não serão 
aprendidas de nenhuma outra forma).
Eu a abençoo, mono, por minha vida
No outono de 1966, Deus me cercava com um caminho cada vez mais 
estreito para minha vida. Quando ele fez seu seguinte lance decisivo, Nõel 
queria saber para onde eu havia ido. Em setembro, as aulas começaram, e eu 
não aparecia nas aulas nem na capela. Finalmente, ela me encontrou, deitado 
de costas com mononucleose, no centro de saúde, onde eu fiquei estirado por 
três semanas. O plano de vida do qual eu estava tão certo quatro anos antes 
se desfiou em minhas mãos febris.
Em maio, eu estava confiantemente alegre que minha vida teria maior 
utilidade se eu fosse médico. Eu amava biologia; adorava a ideia de curar 
as pessoas. Amei saber, finalmente, porque eu estava na faculdade. Então, 
rapidamente fiz um curso de verão de química geral para me atualizar e fazer 
química orgânica naquele outono.
Agora com a mono, eu já tinha perdido três semanas de química orgânica. 
Não havia como me pôr em dia. Mas até mais importante foi o que Harold 
John Ockenga, na época pastor da Igreja de Park Street em Boston, estava 
pregando na capela a cada manhã durante a semana de ênfase espiritual. Eu 
o ouvia pela WETN, a estação de rádio da faculdade. Nunca tinha ouvido 
exposição da Bíblia como essa. De repente, toda a gloriosa objetividade da 
Realidade se centrou para mim na Palavra de Deus. Deitado ali, senti como 
se tivesse despertado de um sonho, e eu sabia, agora que estava acordado, o 
que era para eu fazer.
Noél veio me visitar, e eu disse: “O que você acharia se eu não fosse atrás 
de uma carreira médica, mas, ao contrário, fosse para o seminário?”. Como 
aconteceu em cada outra vez que eu lhe fiz esse tipo de pergunta através dos 
anos, a resposta foi: “Se é para lá que Deus o dirige, é aonde eu irei”. Daquele 
momento em diante, eu nunca duvidei que o meu chamado, a minha vocação 
na vida é ser um ministro da Palavra de Deus.
Notas do capítulo 1
1 O trabalho profético de Schaeffer continua incrivelmente relevante para 
nossa época. Incentivo cada um de meus leitores a ler pelo menos uma obra 
dele. Um bom ponto de partida é a trilogia O Deus que intervém, O Deus
18 Não jogue sua vida fora
que se revela (Cultura Cristã) e A morte da razão (a Editora Cultura Cristã 
tem também outros títulos de SchaefFer: Como viveremos, A igreja no século 
21 [coletânea de alguns títulos importantes], Morte na cidade, Poluição e a 
morte do homem, A obra consumada de Cristo, Josué e a história bíblica, Não 
há gente sem importância e Verdadeira espiritualidade).
2 C. S. Lewis, Mere Christianity (Nova York: Macmillan, 1952).
3 C. S. Lewis, Surprised by Joy (Nova York: Harcourt, Brace and World, 
1955), 199.
4 C. S. Lewis, The Abolition ofM an (Nova York: Macmillan, 1947), 91.
2
Descobrimento - a beleza 
de Cristo, minha alegria
Em 1968, eu não tinha ideia nenhuma do que ser ministro da Palavra 
significaria para mim. Ser um pastor estava tão longe de minhas expectativas 
como ser esposa de pastor estava das expectativas de Noél. E então? Seria 
ser um professor, um missionário, um escritor, talvez um professor de lite­
ratura com uma boa teologia? Tudo que eu sabia era que a Realidade básica 
de repente se centrava para mim na Palavra de Deus. O grande Objetivo, 
Propósito e Essência com o qual ansiava relacionar-me estava irredutivel- 
mente ligado à Bíblia. O mandato estava claro: “Procura apresentar-te a Deus 
aprovado como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem 
a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Para mim, isso significava seminário, com 
um enfoque em compreender e manejar direito a Bíblia.
Aprendendo a não cortar fora minha própria cabeça
A batalha para aprender o óbvio continuou. O assalto moderno con­
tra a realidade - que existe uma verdadeira realidade objetiva fora de nós 
mesmos que pode ser conhecida verdadeiramente - tinha transformado o 
estudo bíblico em um pântano de subjetividade. Podia-se ver isso na igreja 
quando pequenos grupos compartilhavam suas impressões subjetivas sobre 
o que os textos bíblicos significavam “para mim” sem âncora em qualquer 
sentido original. E via-se isso em livros acadêmicos quando estudiosos 
criativos decepavam suas próprias cabeças ao argumentarem que textos 
não têm sentido objetivo.
Se há somente uma vida para se viver neste mundo, e se não é para ser 
desperdiçada, nada me parece mais importante do que descobrir o que Deus 
realmente quis dizer na Bíblia, visto que ele inspirou homens para escrevê- 
-la. Se isso estava à mercê de qualquer um, então ninguém podia dizer qual
20 Não jogue sua vida fora
a vida que vale a pena e qual a que é jogada fora. Fiquei atônito com o brin­
car de erudição do mundo dos estudiosos quando autores usavam todos os 
seus poderes intelectuais para anular o que eles mesmos escreveram! Isto é, 
expressavam teorias sobre sentido que argumentavam que não há nenhum 
sentido único válido em textos. Pessoas comuns que estão lendo este livro 
acharão isso incrível (eu espero). E têm razão. Mas o fato permanece que até 
hoje professores bem pagos e bem instruídos usam dinheiro pago por estu­
dantes e impostos para argumentar que “visto que a literatura não transmite 
corretamente a realidade, as interpretações literárias não precisam transmi­
tir corretamente a realidade que é literatura”.1
Em outras palavras, visto que não podemos conhecer a realidade objetiva 
fora de nós mesmos, também não pode haver um sentido objetivo naquilo 
que escrevemos. Então interpretação não significa tentar descobrir qualquer 
coisa objetiva que um autor colocou num texto, mas simplesmente significa 
que nós expressamos as ideias que entram na nossa cabeça à medida que 
lemos. Coisa que não tem importância realmente, porque quando os outros 
leem o que nós escrevemos, eles também não terão acesso nenhum à nossa 
intenção. É tudo um jogo. Só que é sinistro, porque todos esses estudiosos 
(e membros de pequenos grupos de discussão) insistem que suas próprias 
cartas de amor e contratos sejam medidos por um critério, uma regra: o que 
eles tencionaram dizer. Qualquer “enrolação” sem sentido sobre ouvir cria­
tivamente “sim”, quando eu escrevi “não”, não é aceito no banco nem pelo 
conselheiro matrimonial.
E foi assim que o Existencialismo veio achar pousada na Bíblia: existência 
antecede a essência. Isto é, eu nãonão têm nenhum acesso
132 Não jogue sua vida fora
ao evangelho. Esta foi a grande ambição de Paulo: “Pregar o evangelho, 
não onde Cristo já fora anunciado” (Rm 15.20). Sempre haverá pessoas 
não convertidas para ganhar onde a igreja já está estabelecida. Essa não 
é a tarefa singular das missões de fronteira. Missões de fronteira fazem o 
que Paulo visava fazer: plantar a igreja onde não existe nenhuma possibi­
lidade de ministério. Essa é a grande necessidade do momento, não só a 
de missionários que vão para servir a igreja estabelecida em outros países 
(que é uma grande necessidade, especialmente para desenvolvimento de 
liderança), mas também a de missionários que vão aos povos e lugares onde 
não há igreja para servir.
O dia de missões não passou
Não pense que os dias de missionários estrangeiros já passaram, como 
se nacionais pudessem terminar o trabalho. Há centenas de povos e milhões 
de pessoas onde não há nenhum cristão do país para fazer evangelismo na 
própria cultura. Uma cultura precisa ser transposta. Naturalmente, pode ser 
transposta por uma pessoa não do Ocidente, visto que Deus está fazendo 
crescer sua igreja mais rapidamente no mundo não ocidental.29 Isso seria 
ótimo. Não tenho nenhum desejo de limitar a alegria do amor. Além do mais, 
pode ser que especialistas ocidentais altamente treinados, mas tateantes, não 
sejam tão frutíferos como missionários mais simples e ousados. Com respeito 
a missões para muçulmanos, Patrick Johnstone diz: “Muitas vezes os melho­
res missionários são aqueles que estudaram pouco mais do que o básico do 
islâmico, mas que têm uma paixão por compartilhar Cristo. Em sua ousadia 
por Jesus, eles mergulham em testemunhar a muçulmanos, onde um islamí- 
tico temeria entrar”.30 Mas não se engane. Uma cultura terá que ser atraves­
sada, e é isso o que é missões. Missões, e não evangelismo da mesma cultura 
feito por nacionais, levará até o fim a Grande Comissão.
Então, “rogai encarecidamente ao Senhor da seara que mande trabalha­
dores para a sua seara” (Mt 9.38), e pergunte a ele se você não deveria ser 
um. Espere que esta oração o mude. Quando Jesus mandou seus discípulos 
orarem isto, a próxima coisa que aconteceu foi que ele nomeou doze para 
serem seus apóstolos e os enviou. Ore por ceifeiros, e você poderá se tor­
nar um. Deus muitas vezes desperta o desejo, dá os dons e abre as portas 
quando nós estamos orando e ponderando as possibilidades e as neces­
sidades reais. Obtenha um exemplar do guia de oração por missionários 
chamado Operation World [que existe também em versão on-line] e ore, leia 
e medite seus passos de nação em nação, dia após dia.31 Pense nas pessoas 
em lugares como:
• Líbia com seus seis milhões de pessoas e talvez dez crentes do povo.
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 3 3
• Butão, um reino budista eremita nos Himalaias, isolado do testemu­
nho cristão por milênios, com só um punhado de crentes de seu povo 
entre seus dois e meio milhões de pessoas.
• As Maldivas, não longe da costa sudeste da índia, um dos países mais 
fechados da terra.
• Coreia do Norte, “uma nação pária que aos poucos morre de fome sob 
sua liderança comunista enlouquecida”,32 sem qualquer testemunho 
aberto ou vida de igreja durante 50 anos.
• Arábia Saudita, o centro de operações do Islã onde crentes sauditas, se 
encontrados, são executados.
• índia, talvez o maior desafio de todos, com suas vastas planícies do 
Rio Ganges que contêm “a maior concentração de pessoas não evan- 
gelizadas do mundo todo. Por exemplo, o número de pessoas em Uttar 
Pradesh, no Norte da índia, é de cerca de 180 milhões e a porcentagem 
cristã é de 0,1% e está caindo”.33
• Turquia, o país secular, principalmente muçulmano com testemunho 
cristão em progresso em apenas 15 de suas 100 províncias.
Medite sobre a anistia oferecida às nações. Faça um retiro
A importância dessa lista fragmentária é simplesmente a de ilustrar popu­
lações inteiras vivendo em rebelião contra o verdadeiro Deus e isoladas do 
Único que pode reconciliá-las com seu Criador. Isso significa destruição para 
os que não creem e desonra para Cristo. A ele pertence este mundo, e a fide­
lidade de todas as pessoas é direito dele. Cada alma e cada Estado é dele. 
Abraham Kuyper colocou isso de forma memorável: “Não há um centímetro 
quadrado em toda nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é sobe­
rano sobre tudo, não clame: ‘É meu!”’.34 Cristo chegou nesse mundo amoti­
nado, que ele fez para sua própria glória, e pagou pela anistia com seu próprio 
sangue. Toda pessoa que depõe suas armas da descrença será absolvida de 
todo crime contra o Soberano do universo. Somente pela fé os inimigos se 
tornarão súditos felizes de um reino de duração eterna de justiça e alegria. 
Avançar esta causa com Cristo vale sua vida.
Não, você não tem que ser um missionário para admirar e avançar os 
grandes propósitos de Deus para que sejam conhecidos, louvados e aprecia­
dos entre todos os povos. Mas se você deseja estar mais plenamente satisfeito 
com Deus à medida que ele vence na história da redenção, você não pode 
prosseguir com o dia a dia dos negócios de sempre - fazendo seu trabalho, 
ganhando seu dinheiro, dando seu dízimo, comendo, dormindo, distraindo- 
-se e indo à igreja. Em vez disso, você precisa parar e sair por uns dias com 
uma Bíblia e um bloquinho de papel; e orar e pensar de que modo seu próprio 
tempo e lugar na vida se encaixam no grande propósito de Deus de tornar
134 Não jogue sua vida fora
as nações alegres nele. Como você vai se unir ao grande propósito global de 
Deus expresso no salmo 67.4: “Alegrem-se e exultem as gentes”?
O sentido que tem seu descontentamento
Muitos de vocês devem ficar em seu trabalho atual e simplesmente medi­
tar sobre como podem encaixar suas habilidades, relacionamentos e recur­
sos específicos mais estrategicamente no propósito global de seu Pai celeste. 
Mas para outros que estão lendo este livro, será diferente. Muitos de vocês 
simplesmente não estão satisfeitos com aquilo que estão fazendo. Como J. 
Campbell White disse, o output, o resultado de suas vidas não está satis­
fazendo suas mais profundas ambições espirituais. Aqui precisamos tomar 
cuidado. Todo serviço tem seus desânimos e tempos de escuridão. Não 
devemos interpretar tais experiências automaticamente como um chamado 
e deixar nosso posto.
Mas se o descontentamento com sua presente situação é profundo, recor­
rente, duradouro, e se esse descontentamento cresce em solo saturado de 
Bíblia, Deus o pode estar chamando para um trabalho novo. Se, em seu des­
contentamento, você anseia por ser santo, andar para agradar ao Senhor e 
magnificar a Cristo com sua vida única, breve, então Deus pode mesmo estar 
liberando suas raízes com a finalidade de transplantá-lo a um lugar e um 
ministério onde as profundas ambições espirituais de sua alma podem ser 
satisfeitas. É verdade que Deus pode ser conhecido e apreciado em toda legí­
tima vocação; mas, quando ele organiza e prepara você de um lugar para o 
próximo, ele oferece beber da fonte da companhia dele de forma mais refres­
cante e mais funda. Deus poucas vezes nos chama a uma vida mais fácil, mas 
sempre nos chama para conhecer mais de si e para sorver mais profunda­
mente de sua graça sustentadora.
Devo continuar sendo um pastor?
Eu tento avaliar meu próprio ministério desta forma. Todo ano em 
nossa igreja nós temos uma “Semana de Missões”. Eu prego sobre missões, 
temos mensageiros visitantes. O desafio é dado. As pessoas se movem em 
direção a missões, fazem compromissos, entram no programa de nutrição 
pré-missões. E todos os anos eu reexamino minha vida como pastor nesta 
igreja. Olho o que estou fazendo à luz do propósito global de Deus, e à 
vista da incrível escuridão espiritual e da miséria dos povos não alcança­
dos desta terra. Eu me pergunto: “Será este o investimento mais estratégico 
de minha vida por amor ao propósito de Deus de tornar as nações alegres 
nele?”.Eu pergunto à minha esposa: “Nõel, você está sentindo quaisquer 
impulsos no sentido de mover-se para mais perto das fileiras da frente dos 
povos não alcançados?”.
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 1 3 5
Nossa declaração de missão da igreja põe a “difusão” mundial na posi­
ção dominante: “Nós existimos para difundir uma paixão pela supremacia 
de Deus em todas as coisas, para a alegria de todos os povos, por meio de 
Jesus Cristo”. Então pergunto: estou cumprindo essa missão melhor no papel 
que tenho agora? Quando o Senhor me chamar para prestar contas de meu 
ministério no dia final, será que poderei dizer: “Senhor, eu fiquei na Igreja 
Belém porque acreditei que eu poderia ser mais instrumental ali em realizar 
seu propósito de fazer nome para o Senhor entre as nações, e arrebanhar suas 
ovelhas de todos os povos da terra”? Quando eu não mais puder dizer sim a 
essa pergunta, então minha liderança aqui terá terminado.
E você?
E assim é com muitos de vocês. Questões grandes estão iminentes. Que 
Deus os ajude. Que Deus os liberte. Que Deus lhes dê uma visão viçosa, exal- 
tadora dele para sua vida - quer você vá a um povo não alcançado quer fique 
firme e frutificadoramente em seu atual posto. Possa você derivar o sentido 
de sua visão do grande propósito que Deus tem de fazer as nações alegrarem- 
-se nele. Que a cruz de Cristo seja seu único orgulho, e possa você dizer, com 
doce confiança, viver é Cristo, morrer é lucro.
Notas do capítulo 9
1 Courtney Anderson, To the Golden Shore: The Life o f Adoniram Judson 
(Grand Rapids, MI: Zondervan, 1956), 14.
2 Deísmo era “a crença, baseada unicamente na razão, em um Deus que 
criou o universo e depois o abandonou, não assumindo nenhum controle 
sobre a vida, não exercendo qualquer influência sobre os fenômenos naturais, 
e não dando nenhuma revelação sobrenatural”, The American Heritage 
Dictionary (www.bartleby.com/61/44/D0104400.html, acessado em 4-3-03).
3 Anderson, To the Golden Shore, 41.
4 Idem, 42.
5 Idem, 44. A fonte dessa história são registros orais de membros da 
família relatados em Francis Wayland, A Memoir o f the Life and Labors o f 
the Rev. Adoniram Judson, D. D., vol. 1 (Boston: Phillips, Sampson and Co., 
1854), 24-25.
6 Anderson, To the Golden Shore, 45.
7 Idem, 83.
8 The Bethlehem Institute Affirmation ofFaith pode ser lida por completo 
em http://desiringgod.org/library/what_we_believe/tbi_affirmation.html.
9 B. B. Warfield, The Person and Work ó f Christ (Filadélfia, PA: Presbyte- 
rian 8t Reformed, 1950), 574. Encontrei isso citado no livro de Timothy J. 
Keller, Ministries o f Mercy: The Call o f the Jericho Road (Phillipsburg, NJ:
http://www.bartleby.com/61/44/D0104400.html
http://desiringgod.org/library/what_we_believe/tbi_affirmation.html
136 Não jogue sua vida fora
Presbyterian & Reformed, 1997), 65. Desejaria que cada um de meus leitores 
lesse esse livro.
10 Kenneth Scott Latourette, These Sought a Country (Nova York: Harper 
and Brothers, 1950), 46.
11 John R. Mott, Five Decades and a Forward View (Nova York: Harper and 
Brothers, 1939), 8.
12 David Howard, “Student Power in Missions”, em Perspectives on the 
World Christian Movement: A Reader, 2S edição, org. Ralph D. Winter e Steven 
C. Hawthorne (Pasadena, CA: William Carey Library, 1999), 283. A maioria 
dos fatos que registrei aqui sobre o MVE vem desse artigo.
13 Ruth Rouse e Stephen C. Neill, A History o f the Ecumenical Movement, 
1517-1948 (Filadélfia: Westminster, 1967), 328.
14 J. Campbell White, “The Laymarís Missionary Movement”, em Ralph D. 
Winter e Steven C. Hawthorne, org., Perspectives on the World Christian Move­
ment: A Reader, Ia edição (Pasadena, CA: William Carey Library, 1981), 222.
15 Idem, 223.
16 Idem, 224.
17 Idem, 225.
18 Idem, 224.
19 Idem, 225.
20 www.emptytomb.org/research.html [acessado em 28-3-2003].
21 www.emptytomb.org/Chapter6hlites.html [acessado em 28-3-2003].
22 www.missionfrontiers.org/newslinks/statewe.htm [acessado em 28-3-2003].
23 Patrick Johnstone, The Church Is Bigger Than You Think. Ross-shire, 
Inglaterra: Christian Focus, 1998), 229.
24 Ver, por exemplo, www.ad2000.org/peoples/pllist.pdf 
www.joshuaproject.net/ 
www.calebproject.org/maps.htm
25 Johnstone, The Church is Bigger Than You Think, 225-230.
26 Idem, 215. Johnstone é mais otimista do que Barrett em seus números. 
Cerca de 20% do mundo não está evangelizado; 47% são não cristãos vivendo 
onde é provável que sejam evangelizados; e 33% são cristãos professos.
27 David B. Barrett e Todd M. Johnson, “Annual Statistical Table on Glo­
bal Mission 2002”, International Bulletin o f Missionary Research 26 (janeiro
2002): 22-23.
28 Johnstone, The Church Is Bigger Than You Think, 115-116.
29 Este crescimento no século 20 é documentado por Philip Jenkins, The 
New Christendom (Oxford: Oxford University Press, 2002).
No decorrer do século passado [...] o centro de gravidade do 
mundo cristão se deslocou inexoravelmente para o sul, à África,
http://www.emptytomb.org/research.html
http://www.emptytomb.org/Chapter6hlites.html
http://www.missionfrontiers.org/newslinks/statewe.htm
http://www.ad2000.org/peoples/pllist.pdf
http://www.joshuaproject.net/
http://www.calebproject.org/maps.htm
A majestade de Cristo em missões e misericórdia - um apelo para esta geração 137
Ásia e América Latina. Já hoje as maiores comunidades cristãs 
do planeta acham-se na África e América Latina. Se quisermos 
visualizar um cristão contemporâneo “típico”, devemos pensar 
em uma mulher que mora numa vila da Nigéria ou numa favela 
brasileira. Como observou John Mbiti, estudioso do Quênia, “os 
centros da universalidade da igreja não mais [estão] em Genebra,
Roma, Atenas, Paris, Londres, Nova York, e sim em Kinshasa, 
Buenos Aires, Adis Ababa e Manila. Seja o que for que europeus 
ou norte-americanos possam crer, o cristianismo está indo muito 
bem mesmo no Sul do globo - não só sobrevivendo, mas sim ex­
pandindo” (p. 2).
30 Johnstone, The Chuch Is Bigger Than You Think, 273.
31 Patrick Johnstone e Jason Mandryk, Operation World: When We Pray 
God Works (Waynesboro, Ga.: Paternoster USA, 2001). Ver a versão on-line 
em www.gmi.org.ow/.
32 Idem, 222.
33 Idem, 223.
34 Abraham Kuyper, “Sphere Sovereignty”, em Abraham Kuyper, A Cen- 
tennial Reader, org. James D. Bratt (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1998), 488.
http://www.gmi.org.ow/
Minha oração - que 
ninguém diga, no final, 
"Joguei a minha vida fora"
Teu amor constante, ó Senhor, é melhor do que a vida. Tu nos disseste isso 
de muitas maneiras. Com essas mesmas palavras o disseste pela boca de teu 
servo Davi: “A tua graça é melhor do que a vida, os meus lábios te louvam”. Tu 
disseste isso nas palavras de teu apóstolo Paulo, quando ele clamou na prisão: 
“Meu desejo é partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”. 
Ó Senhor, quanto melhor és do que a vida! Teu apóstolo Paulo não exagerou 
no que disse! Não diz só “melhor” e sim “incomparavelmente melhor”. Tu és 
tão melhor do que viver, que teu apóstolo diz que a morte é lucro. “O viver é 
Cristo, e o morrer é lucro”. Perder tudo que esse mundo pode oferecer e ficar 
com o Senhor somente é lucro.
Por que, ó Senhor, é melhor do que a vida o teu amor? Com certeza Davi 
nos dá a resposta pelo modo em que fala. Não diz: “Porque a tua graça é 
melhor do que a vida, meus lábios louvarão o teu amor”. O que ele diz? Diz 
que ele louvará a ti: “Porque a tua graça é melhor do que a vida, os meus 
lábios te louvarão”. Será que não é porque a coisa mais amorosa sobre o teu 
amor é que isso nos leva a estarmos à vontade, em casa, contigo - com olhos, 
coração e mente capazes de ver as riquezas de tua glória? Com toda tua ira 
removida e todo nosso pecado perdoado, para que nada tire o prazer de tua 
presença. E o amor divino não será mesmo isso - que a vontade e a obra de 
Deus seja dar a nós, pecadores, que não a merecemos, a alegria perpétua em 
Deus? Que outra coisa poderia o amor ser, já quequer ser infinito! Que prê­
mio maior do que tu mesmo poderias nos dar, se somos amados!
Ó Deus, sabes como eu tremo agora por medo de que muitos daqueles que 
te chamam “Senhor” fizeram ser eles mesmos o prêmio e glória de tua graça.
10
140 Não jogue sua vida fora
Quantos, Senhor, fizeram o teu amor ser um testemunho do valor delesl 
Como é? Então a alegria deles é um descansar no teu valor ou no valor deles 
mesmos? Tantas décadas passaram nas quais a mensagem constante que vem 
do mundo, e mesmo de alguns ministros, é esta: que o amor significa engran­
decer o homem. E, então, quando os homens com esta certeza ponderam o 
que seu amor pode significar, eles dizem o mesmo: o amor de Deus significa 
fazer muito do homem. Por prova, eles perguntam: você não se sente amado 
quando alguém chama sua atenção para quanto você tem valor?
Eu respondo: antigamente eu sentia. Quando a vida era melhor do que o 
Senhor, e não o contrário. Houve um tempo em que amor era sentido assim 
- quando eu não podia conceber qualquer alegria maior do que a honra de 
meu nome. Quando eu estava tão absorto em mim mesmo, que não podia 
conceber qualquer alegria maior do que a honra de meu nome. Quando 
estava tão concentrado em mim mesmo que era inconcebível a alegria surgir 
por eu admirar em vez de ser admirado. Ah, sim, eu já conheci como é gostar 
de chamar o louvor dos homens de ato de amor, e justificar o apetite disso 
com a prontidão para retribuir o mesmo. Como parece satisfazer esse amor 
entre nós mesmos de admiração mútua!
Mas agora (graças à sua maravilhosa graça!) eu vejo que é uma imita­
ção. Tem suas raízes no Éden há muito tempo. O grande destruidor de nosso 
amor e alegria disse à nossa mãe, Eva: “Deus sabe que no dia em que dele 
comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem 
e do mal” (Gn 3.5). Como Deus! Eva deveria ter dito: “Eu já sou como Deus”. 
Ela deveria ter visto a tramóia. Mas não viu, e, ah, quantos não a enxergam 
ainda hoje! Ela era de fato como Deus! Tu a fizeste assim - detentora de tua 
própria imagem. A vocação dela, teu alto projeto, era esse: expor a imagem da 
majestade do Criador dela, e com a alegria e a confiança dela, ela te engrande­
ceria. Mas então o pensamento mau foi semeado: “Eu poderia ser como ele de 
outro modo. Eu poderia ser alguém cuja majestade é vista, e o amor poderia 
ser definido como sendo engrandecer a mim”.
E assim entrou no mundo essa grande inversão a que chamamos de 
pecado. E o amor foi obrigado a ficar agora de ponta-cabeça. Eu me aflijo, 
Senhor, só em colocar isso em palavras, mas aqui é com vergonha: teu amor 
não significa mais que o Senhor faz o que precisa fazer a fim de tornar-se 
nossa alegria. Isso chegou a significar que o Senhor faz o que precisa fazer 
para que nós sintamos o nosso valor. Foi uma troca tristíssima. Duplamente 
assim: não só isso roubou de nossa alma aquela alegria única que tu, Senhor, 
projetaste para nos satisfazer para a eternidade, mas defraudou-te de teu 
lugar honroso de ser o Tesouro de nossa vida.
E tudo que fizeste desde aquele dia escuro no Éden é planejado para 
acertar as coisas. Ah, temos toda uma história de ações e revelações que tu
Minha oração - que ninguém diga, no final,"Joguei a minha vida fora" 1 4 1
operaste para te tornares o centro de nossa alegria e tomares de volta para ti 
mesmo o lugar de honra no mundo - para ser o Único a que teu povo desse 
mais valor do que a vida. De quantas maneiras o disseste e mostraste: “Eu 
os fiz para minha glória. Eu os fiz para o meu louvor. Eu os fiz para minha 
honra e meu nome”. E, ainda no intuito de não deixarmos de ver o ponto 
importante, acrescentaste: “Na minha presença há plenitude de alegria; à 
minha mão direita há delícias perpetuamente. Deleite-se em mim! Alegre-se 
em mim e salte de alegria; eu sou a tua recompensa certa e grandiosa! Venha 
provar e já agora alegre-se com alegria indizível e cheia de glória”.
Oh, que grande plano! Tornar a nossa alegria o eco de tua excelência. Fazer 
o nosso prazer ser prova de que tu agora deténs o lugar de Tesouro em nossa 
vida. Para tornar a alegria de nossa alma a essência de nosso culto e o espelho 
do teu valor. Fazer-te mais glorificado em nós, ó Deus, quando nós estamos 
satisfeitos em ti. Como pude eu ter sido, Senhor, tão cego a ponto de pensar 
que ser amado por ti significasse engrandecer a mim, e não a ti? Como pude 
eu colocar meu olho em algum grande telescópio, projetado para me alegrar 
com visões de galáxias, e notar na lente um pálido reflexo de meu rosto e 
dizer: “Agora estou feliz, eu sou amado”? Como pude me colocar diante do 
sol do entardecer, entre as montanhas da serra e a vastidão do mar, e pensar 
que alegria eterna viria de eu me engrandecer?
Não, Pai. Amor é o seguinte: a grande custo, tu te fizeste minha glória e 
meu orgulho. O custo foi infinito pelo qual tu te fizeste o Tesouro de minha 
vida. Tu mandaste teu Filho, o fulgurante centro de tua beleza e teu amor. 
Tu o entregaste ao escárnio, traição, espinhos, açoite, vara, punhos, pregos, 
vergonha e morte. Para quê? Para engolir tua ira, satisfazer tua justiça e 
enterrar todos os meus pecados tão longe como o Leste é do Oeste e no 
mais profundo mar, para que eu pudesse entrar no lar e ver a galáxia. Este 
é o teu amor, ó Deus, não para me engrandecer, mas para fazer o que fosse 
necessário para que eu despertasse para a alegria de engrandecer-te por 
toda a eternidade.
Como, então, Cristo não será meu único motivo de orgulho! Não foi só 
que ele te comprou para mim, ó Deus, mas que ele próprio é tua perfeita 
imagem e o centro fulgurante de teu esplendor. O que tenho que não venha 
dele? Qual dom da vida ou fôlego? Que promessa jamais feita não recebeu 
nele o seu sim? Que doçura - ou coisa difícil que logo farás doce - já recebi 
que não fosse comprada pelo seu sangue? Não mereço nenhuma coisa, senão 
o inferno. Contudo todas as coisas são minhas nele, e somente pelo sacrifício 
dele. Ó Deus, não permitas que eu jamais glorie a não ser na cruz de Cristo, 
o meu Senhor.
E agora será que nós, que temos em tão grande estima Cristo e sabemos 
que teu amor é muitíssimo melhor do que a vida, ajuntaremos, como todo
142 Não jogue sua vida fora
o mundo, nossos tesouros nesta terra? Será que não te ouviríamos dizer, 
como disseste uma vez: “Tolo, esta noite lhe pedirão a sua alma? E então 
de quem serão esses armazéns de abundância?”. Não permitas, ó Senhor, 
que, enquanto o mundo está cheio de necessidade, nós nos sentemos e 
digamos: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, 
come, bebe e regala-te”. Uma inversão terrível aguarda tal falta de amor. 
“Ai daqueles que são ricos, pois já receberam sua consolação”. Trememos 
com as palavras que disseste uma vez ao rico impiedoso: “Lembra-te de 
que recebeste os teus bens em tua vida, e aquele pobre, à sua porta, recebia 
a dor; mas agora vem a grande inversão, e ele tem consolo aqui, enquanto 
você jaz ali em tormentos”.
Ó Deus, tais riquezas são uma vida jogada fora. Protege-nos, Senhor. 
Concede que ouçamos e atendamos a outro chamado: “Não acumuleis para 
vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde 
ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde 
traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam” (Mt 
6.19-20). Mas então perguntamos: “Que tesouros, Senhor?”. O Senhor sorri. 
“Eu sou seu Tesouro e sua grande Recompensa. Eu sou seu alimento, sua 
bebida, suas roupas de festa e seu ganho eterno. Eu sou sua vida e a sua Ale­
gria que a tudo satisfaz.”
Sim, Senhor. Isso basta. Mas perguntaríamos: como vamos ajuntar esse 
tesouro? Não é colocado lá pela tua graça somente e comprado agora uma vez 
por todas pelo sangue de Jesus? Como vamos tornar esta vida - esta breve e 
única vida que agora vivemos - um ajuntar de tesouros aí no céu? Para res­
ponder isso, tu sabes, ó Deus, foi que eu escrevi este pequeno livro. E tenho 
olhado não paramim mesmo nem escutado alguma voz. Mas tenho pro­
curado sondar tua Palavra escrita e dizer o que tu disseste. É a minha única 
pretensão à verdade - que eu ecoei o que o Senhor escreveu.
A resposta é que nesta vida podemos começar a entesourar Cristo, e 
ganhar aqui, como se fora, uma aptidão para alegrar-nos nele. Um maior 
peso de glória aguarda ser desfrutado por aqueles que crescem no amor a 
Cristo. E o que é amor a Cristo? É a estima de tudo que tu és para nós nele. É 
o apreço da perfeição dele acima de todos os tesouros do mundo. É deleitar- 
-se na companhia dele mais do que em todos os seus familiares e amigos. É 
acolher todas as promessas que fez de que haverá mais prazer na presença 
dele do que nas promessas mentirosas do pecado. É uma alegria no desfrute 
presente da glória e na esperança de plenitude futura quando o veremos face 
a face. É uma paz quieta ao longo do caminho que ele escolhe para nós com a 
dor que tem. É um estar satisfeito de que nada nos vem em vão.
Há uma espécie calma de alegria, ó Senhor, por Jesus tanto ter-nos salvo 
de nosso pecado como ter-nos mostrado como viver. A vida dele, como
Minha oração - que ninguém diga, no final,"Joguei a minha vida fora" 1 4 3
disseste, foi tanto uma compra como um caminho. Ele morreu por nós e 
agora nos chama para morrer com ele. Ele tomou sobre si nossa pobreza para 
que nós, nele, possamos ter as riquezas do seu céu, e ele nos chama agora para 
usar nossas riquezas para os pobres. Sua igualdade com o Pai ele não consi­
derou como algo a que devesse se apegar, mas tornou-se de nenhum valor e 
atravessou um infindável abismo entre o céu e a terra, para que pudéssemos 
ver o que missões de fronteira significam e unir-nos a ele na tarefa final. Vê, 
não é mesmo assim o modo de colocarmos tesouro na tua casa - dar nosso 
dinheiro e nós mesmos para tornar ricos com Deus para sempre o maior 
número de pessoas que pudermos?
Uma espécie calma de alegria, eu digo, por causa de tanto sofrimento. Não 
posso superar na expressão o grande apóstolo Paulo que chamou sua vida 
de uma morte diária e colocou isso num paradoxo: “Entristecido, mas sem­
pre alegre; pobre, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo 
tudo”. Ó Pai, concede que tua igreja ame tua glória mais do que o ouro - 
que cesse seu namoro com o conforto e a segurança. Dá que busquemos o 
reino primeiro e deixemos as outras coisas virem de acordo com a tua von­
tade. Concede que possamos nos mover em direção a ver as necessidades e 
não em direção a viver na tranqüilidade. Concede que a firme finalidade de 
nossa segurança em Cristo nos liberte para arriscarmos nossos lares, saúde 
e dinheiro sobre a terra. Ajuda-nos a ver que se tentarmos proteger nossa 
riqueza, em vez de usá-la para mostrar que não é nosso deus, jogaremos fora 
nossa vida, por mais que sejamos bem-sucedidos.
Amado Senhor, eu tremo agora ao orar pelos leitores por aquilo que eu 
mesmo mal sinto. Mas já provei o que nossa vida pode ser se eu e eles puder­
mos caminhar ao longo da onipresente margem da morte e sorrir com con­
fiança total em que se caíssemos, ou possivelmente fôssemos empurrados, 
seria ganho. Oh, que entrega, que grande liberdade, que invencível decisão de 
amar seria nossa porção se andássemos assim! Que prontidão de sofrer pela 
glória de Cristo! Que entusiasmo por mostrar aos pobres que gastaríamos e 
seriamos gastos para fazê-los alegres em Deus, para toda a eternidade! Que 
humildade, mansidão e soltura da necessidade de receber louvor e recom­
pensa financeira! Todas as coisas são nossas em Cristo - o mundo, a vida, a 
morte, o presente, o futuro. Todas são nossas, e nós de Cristo. E nada disso 
por merecimento.
Sendo assim, amado Senhor, ouso orar para que tudo que escrevi neste 
livro, se for verdade, torne-se a alegria em Jesus Cristo que derrota o medo. 
Que todo coração incerto se lembre disso: tu prometeste: “Nunca os dei­
xarei nem abandonarei”. Portanto, que possamos dizer com confiança que 
desafia a morte: “O Senhor é meu ajudador; não temerei; que me pode fazer 
o homem?”
144 Não jogue sua vida fora
Não permitas, Senhor, que qualquer pessoa que lê essas palavras tenha 
que dizer algum dia: “Eu joguei a vida fora”. Mas concede, pelo teu onipotente 
Espírito e tua Palavra penetrante, que nós, que chamamos Cristo de Senhor, 
o tenhamos como tesouro acima de nossa vida e sintamos, no fimdo de nossa 
alma, que Cristo é vida, e a morte é lucro. E, assim, possamos demonstrar seu 
valor, para que todos o vejam. E, por nossa valorização dele, possa ser lou­
vado em todo o mundo. Que seja magnificado na vida e na morte. Que toda 
vizinhança e nação veja como a alegria em Jesus liberta seu povo do poder da 
cobiça e do medo.
Que o amor flua de seus santos e que possa, Senhor, ser isto: que ainda que 
custe nossa vida, as pessoas se alegrem em Deus. “Que os povos te louvem, ó 
Deus; que todos os povos te louvem! Que as nações se alegrem e cantem de 
júbilo.” Assume seu lugar de honra, ó Cristo, como o Tesouro do mundo que 
a tudo satisfaz. Com mãos trêmulas diante do trono de Deus, e total depen­
dência da graça, elevamos nossa voz e fazemos nosso este voto solene: “Como 
vive o Senhor Deus, e é tudo que hei de precisar para sempre, eu não jogarei 
fora a minha vida!”
Por Jesus Cristo, A m é m .
A m a i o r i a d a s p e s s o a s p a s s a p e l a v i d a s e m t e r 
p a i x ã o p o r D e u s , g a s t a n d o s e u t e m p o e m 
d i v e r s õ e s t r i v i a i s , v i v e n d o p a r a o c o n f o r t o e p a r a 
o p r a z e r , t a l v e z t e n t a n d o a c o b e r t a r p e c a d o s . E s t e l i v r o 
a d v e r t e v o c ê a n ã o l e v a r u m a v i d a i n ú t i l . E l e o d e s a f i a a 
v i v e r e m o r r e r g l o r i a n d o - s e n a c r u z d e C r i s t o e f a z e n d o d a 
g l ó r i a d e D e u s s u a p a i x ã o s i n g u l a r .
S e v o c ê c r ê q u e o v i v e r é C r i s t o e o m o r r e r é l u c r o , l e i a e s t e 
l i v r o . A p r e n d a a v i v e r p a r a C r i s t o . Não jogue sua vida fora.
John Piper é p a s t o r n a Bethlehem Boptist Church e m 
M i n n e a p o l i s , M i n n e s o t a ( E U A ) . E n t r e o s s e u s l i v r o s i n c l u e m - s e 
A paixão de Deus por sua glória, Casamento temporário, Fome 
por Deus, Alegrem-se os povos, A Paixão de Cristo, Quando eu 
não desejo Deus, Sexo e a supremacia de Cristo, O sofrimento e a 
soberania de Deus, Jesus o único caminho para Deus, Com Calvino 
no teatro de Deus, t o d o s p u b l i c a d o s p e l a C u l t u r a C r i s t ã .
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6DITORA CUlTURfl CRISTR
w w w .e d i t o r a c u l t u r a c r is t a . c o m . b r
V i d a c r i s t ã / E s p i r i t u a l i d a d e
í
http://www.editoraculturacrista.com.brencontro sentido - eu o crio. A Bíblia é uma 
pelota de barro, e eu sou o oleiro. Interpretação é criação. Minha existência 
como sujeito cria a “essência” do objeto. Não dê risada. Eles estavam falando 
sério. Ainda estão. Hoje isso só tem outros nomes.
Defendendo o esplendor do sol do meio-dia
Neste pântano de subjetividade, entrou um professor de Literatura da 
Universidade da Virgínia, E. D. Hirsch. Ler seu livro Valiáity in Interpreta- 
tion [Validade na interpretação] durante meus anos no seminário foi como 
de repente achar uma rocha sob meus pés na areia movediça dos concei­
tos contemporâneos sobre o sentido. Como a maioria dos guias que Deus 
mandou no meu caminho, Hirsch defendia o óbvio. Sim, ele argumentou, 
existe um sentido original que um escritor tinha em sua mente quando 
ele escreveu. E sim, a interpretação válida busca aquela intenção no texto 
e dá boas razões para o que vê. Isso me parecia tão óbvio como o sol do 
meio-dia. Era o que todo mundo presumia na vida diária quando falava 
ou escrevia.
Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria 21
Talvez ainda mais importante, parecia cortês. Nenhum de nós quer que 
nossos bilhetes, cartas e contratos sejam interpretados diferentemente do 
que pretendíamos. Portanto, a simples cortesia, ou a Regra Áurea, requer que 
nós leiamos os outros como nós queremos ser lidos. Parecia-me que muita 
conversa filosófica sobre o sentido, o significado, era puramente hipócrita. 
Na universidade, eu solapo o sentido objetivo, mas em casa (e no banco) 
insisto nele. Eu não quis nada com essa brincadeira. Parecia-me uma vida 
totalmente jogada fora. Se não existe nenhuma interpretação válida baseada 
no sentido real objetivo, imutável, original, então todo meu ser dizia: “Coma­
mos, bebamos e regozijemo-nos; mas de modo algum tratemos a erudição 
como coisa que tenha mesmo importância”.
A morte de Deus e a morte do sentido
As coisas começavam a se juntar. Numa tarde fria de outubro lá pelos idos 
de 1965, no Wheaton College, eu havia levado a revista Time nova para um 
cantinho do segundo piso da biblioteca e lido a matéria da capa: “Deus está 
morto?” (22 de outubro, 1965). “Ateístas cristãos” como Thomas J. J. Alti- 
zer responderam que sim. Não era notícia nova. Friedrich Nietzsche tinha 
escrito a notícia do falecimento cem anos antes: “Onde está Deus? [...] Eu 
lhes conto. Nós o matamos - você e eu. Todos nós somos os assassinos dele. 
[...] Deus está morto. Deus permanece morto e nós o matamos”.2 Foi uma 
confissão dispendiosa: Nietzsche passou os últimos 11 anos de sua vida num 
estado semicatatônico e morreu em 1900.
Mas os corajosos “ateístas cristãos” dos anos 60 não computavam os cus­
tos de serem os substitutos de Deus como super-homens (nome pelo qual 
Nietzsche os chamou). A bebida forte do Existencialismo soltou as línguas 
daqueles teólogos criativos. E quando Deus morreu, o sentido dos textos 
morreu. Então a afirmação suicida de que Deus está morto foi feita de novo. 
E quando Deus morreu, o sentido dos textos morreu. Se a base da realidade 
objetiva morre, então o escrito e falado sobre a realidade objetiva morre. Está 
tudo junto.
Por isso meu livramento nos últimos anos da década de 60 da loucura de 
matar Deus levou naturalmente da década de 70, durante os primeiros anos ao 
meu livramento do vazio hipócrita do subjetivismo hermenêutico - a noção 
de duas faces de que não há nenhum sentido objetivo em qualquer sentença 
(exceto essa). Agora eu estava prontinho para o trabalho real do seminário: 
descobrir o que a Bíblia dizia sobre como não desperdiçar minha vida.
Aprendendo a "disciplina severa" de ler a Bíblia
Minha dívida, a essa altura, a Daniel Fuller é incalculável. Ele ensinava 
Hermenêutica - a ciência de como interpretar a Bíblia. Ele não só me apre­
22 Não jogue sua vida fora
sentou a E. D. Hirsch e me forçou a lê-lo rigorosamente, como também me 
ensinou a ler a Bíblia com aquilo que Matthew Arnold chamava de “disciplina 
severa”. Mostrou-me o óbvio: que os versículos da Bíblia não são como péro­
las enfiadas num fio, e sim elos de uma corrente. Os escritores desenvolve­
ram configurações unificadas de pensamento. Eles arrazoaram: “Vinde, pois, 
e arrazoemos, diz o Se n h o r ” ( I s 1.18). Isso significava que, em cada pará­
grafo da Escritura, devemos perguntar como cada parte se relacionou com as 
outras a fim de dizer uma só coisa coerente. Então os parágrafos devem ser 
relacionados uns aos outros da mesma forma. E então os capítulos, depois os 
livros, e assim por diante, até que a unidade da Bíblia é descoberta em seus 
próprios termos.
Eu senti como se o meu caminhozinho cor de terra da vida tivesse entrado 
num pomar, num vinhedo, num jardim com fruto surpreendente, extasiante, 
transformador da vida, para ser apanhado em toda parte. Nunca havia visto 
tanta verdade e beleza condensadas em tão miúda esfera. A Bíblia me pareceu 
então, e parece hoje, inesgotável. Era com isso que tinha sonhado no centro 
de saúde, com a mononucleose, quando Deus me chamou para o ministério 
da Palavra. Agora a pergunta se tornou: qual é o Ponto Principal, o Propósito, 
o Enfoque, a Essência desse lindo vislumbre da Verdade divina?
Um vislumbre de por que eu e tudo o mais existimos
Em um curso após outro, as peças foram colocadas no lugar. Que belo 
presente foram aqueles três anos de seminário! Na aula final com Dr. Fuller, 
chamada “A unidade da Bíblia” (que é também um livro com esse título3) a 
bandeira unificadora foi erguida sobre a Bíblia inteira.
Deus ordenou uma história redentora cuja seqüência exibe 
completamente sua glória para que, no fim, o maior número 
possível de pessoas tenha recebido os antecedentes históricos 
necessários para gerar [o mais] fervoroso amor para com Deus.
[...] A ação una que Deus realiza em toda a história da redenção 
é mostrar claramente sua misericórdia de tal forma que o núme­
ro máximo de pessoas por toda a eternidade se deleite nele de 
todo seu coração, forças e mente. [...] Quando a terra da nova 
criação estiver cheia de tais pessoas, então o propósito de Deus 
em mostrar claramente sua misericórdia terá sido alcançado. [...]
Todos os eventos da história da redenção e seu sentido conforme 
registrado na Bíblia compõem uma unidade e nisso combinam 
para fazer acontecer esse alvo.4
Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria 23
Contidas nessas sentenças estavam as sementes de meu futuro. A paixão 
motriz de minha vida estava enraizada aqui. Uma das sementes foi a palavra 
“glória” - o alvo de Deus na História era “ostentar plenamente sua glória”. 
Outra semente estava na palavra “deleite” - “deleitarem nele de todo seu 
coração”. A paixão de minha vida vem sendo entender, viver, ensinar e pre­
gar como esses dois alvos de Deus se relacionam um ao outro - na verdade, 
como não são dois, e sim um.
Estava se tornando cada vez mais claro que se eu quisesse chegar ao fim de 
minha vida e não dizer: “Eu a joguei fora, eu a desperdicei!”, então eu preci­
saria forçar-me a entrar nisso até o fim, subir até em cima, ao propósito final 
de Deus, e unir-me a ele nisso. Se minha vida era para ter uma paixão só, que 
a tudo satisfizesse, que a tudo unificasse, teria que ser a paixão de Deus. E, se 
Daniel Fuller tivesse razão, a paixão de Deus era a exposição de sua própria 
glória e o deleite de meu coração.
Toda minha vida desde aquela descoberta foi vivida experimentando, exa­
minando e explicando essa verdade. Ela se torna mais clara, mais certa e mais 
exigente a cada ano que passa. Torna-se mais claro que Deus ser glorificado e 
Deus ser apreciado não são duas categorias distintas. São relacionadas entre 
si, não como frutas e animais, mas como frutas e maçãs. Maçãs são um tipo de 
fruta. Apreciar a Deus supremamente, desfrutá-lo para sempre, é um modo de 
glorificá-lo. Apreciar a Deus faz que ele pareça supremamente valioso.
Um pastor do século 18 selou a descoberta
Jonathan Edwards entrou em minha vida a esse tempo, com a mais pode­
rosaconfirmação dessa verdade que já vi fora da Bíblia. Foi poderosa porque 
ele mostrou que ela estava dentro da Bíblia. Enquanto escrevo isso no ano 
2003, nós assinalamos seu tricentésimo aniversário. Ele foi um pastor e teó­
logo na Nova Inglaterra, nordeste dos EUA. Para mim, ele já se tornou o mais 
importante mestre falecido fora da Bíblia. Ninguém fora da Bíblia deu forma 
à minha visão de Deus e da vida cristã mais do que Jonathan Edwards.
Sou agradecido a Deus por Edwards não ter desperdiçado sua vida, que 
terminou abruptamente por causa de uma vacina de varíola que falhou 
quando ele tinha 54 anos. Mas viveu bem. Sua vida é inspiradora por causa 
de seu zelo para não desperdiçá-la e de sua paixão pela supremacia de Deus. 
Considere algumas das decisões que tomou com seus 20 e poucos anos para 
intensificar sua vida para a glória de Deus.
• Resolução ne 5: “Resolvido nunca perder um momento de tempo; mas 
aproveitá-lo da maneira mais proveitosa que me for possível”.
• Resolução n2 6: “Resolvido viver com todas as minhas forças, enquanto 
eu viver”.
24 Não jogue sua vida fora
• Resolução na 17: “Resolvido que viverei de tal maneira como eu dese­
jarei ter feito quando chegar a morrer”.
• Resolução na 22: “Resolvido procurar obter para mim mesmo tanta 
felicidade, no outro mundo como me for possível, com todo o poder, 
força, vigor e veemência, até violência, de que for capaz, ou puder me 
obrigar a exercer, em toda maneira na qual se possa pensar”.5
Essa última resolução (na 22) pode nos parecer ser abertamente egocên­
trica, até mesmo perigosa, se não compreendermos a ligação profunda na 
mente de Edwards entre a glória de Deus e a felicidade dos cristãos. A vio­
lência que ele teve em mente era o que Jesus quis fazer entender quando 
disse, em essência: “Melhor cortar fora seu olho para matar a cobiça e ir para 
o céu do que fazer as pazes com o pecado e ir para o inferno” (Mt 5.29). E, 
com respeito a buscar sua própria felicidade, tenha em mente que Edwards 
estava absolutamente convencido de que ser feliz em Deus era o modo de 
nós o glorificarmos. Essa foi a razão pela qual fomos criados. Deleitar-nos 
em Deus não era uma mera preferência ou opção de vida; era nossa obriga­
ção alegre e deveria ser a paixão única de nossa vida. Portanto decidir maxi­
mizar sua felicidade em Deus era decidir mostrá-lo mais glorioso do que 
todas as outras fontes de felicidade. Buscar felicidade em Deus e glorificar a 
Deus eram o mesmo.
O grande entrosamento de tudo para mim
Assim, Edwards o explicou. Ele pregou um sermão quando ainda tinha 
a idade de 20 e poucos anos com o seguinte ponto central: “Os piedosos são 
designados para uma felicidade nunca conhecida e inconcebível”. Seu texto 
foi ljoão 3.2: “... ainda não se manifestou o que haveremos de ser”.
[A] glória de Deus [não] consiste meramente na criatura per­
ceber as perfeições de Deus: pois a criatura pode perceber o poder 
e sabedoria de Deus e, contudo, não se deleitar, mas ter aversão 
a isso. Aquelas criaturas que assim fazem não glorificam a Deus.
Nem a glória de Deus consiste especialmente em se falar de suas 
perfeições: pois palavras não têm outro valor senão expressar o 
sentimento da mente. Esta glória de Deus, portanto, [consiste] 
na criatura admirar e regozijar-se [e] exultar na manifestação 
de sua beleza e excelência. [...] A essência de glorificar [...] Deus 
consiste, portanto, na criatura se regozijar nas manifestações de 
sua beleza, que é a alegria e felicidade da qual falamos. Então ve­
mos que no fim chega a isso: o fim da criação é que Deus pode 
comunicar felicidade à criatura; porque se Deus criou o mundo
Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria 25
para que possa ser glorificado na criação, ele o criou para que eles 
pudessem regozijar-se em sua glória: pois já mostramos que são 
a mesma coisa.6
Este foi o grande entrosamento de tudo para mim - o descobrimento. 
Qual o sentido da vida? Para que ela serve? Por que existo? Por que estou 
aqui? Para ser feliz? Ou para glorificar a Deus? Sem que isso fosse dito durante 
anos, havia em mim o sentimento de que eram duas coisas desencontradas. 
Ou você glorifica Deus ou você busca a felicidade. Uma parecia absoluta­
mente certa; a outra parecia absolutamente inevitável. E foi por isso que eu 
estive confuso e frustrado por tanto tempo.
Tornando mais complexo o problema, muitos que pareciam enfatizar a 
glória de Deus em seu pensamento pareciam não se deleitar muito nele. E 
muitos que mais pareciam deleitar-se em Deus eram deficientes em seu pen­
samento sobre a glória dele. Mas ali estava a maior mente da América colo­
nial, Jonathan Edwards, dizendo que o propósito de Deus para minha vida 
era que eu tivesse uma paixão pela glória de Deus e que eu tivesse uma paixão 
por minha alegria naquela glória, e que as duas são uma só paixão.
Quando eu enxerguei isso, eu vi, finalmente, o que seria uma vida desper­
diçada e como evitá-la.
Deus criou-me - e criou você - para viver com uma paixão única que 
a tudo abarca, que a tudo transforma - a saber, uma paixão por glorificar 
a Deus por meio de deleitar-se nele e de demonstrar sua suprema excelên­
cia em todas as esferas da vida. Deleitar e demonstrar são cruciais. Se ten­
tarmos ostentar a excelência de Deus sem alegrarmo-nos nisso, exibiremos 
uma casca de hipocrisia e criaremos escárnio ou legalismo. Mas se afirmamos 
que nos deliciamos com sua excelência e não a mostramos para que outros a 
vejam e admirem, enganamos a nós mesmos, porque a característica da ale­
gria embevecida com Deus é transbordar e estender-se ao coração de outras 
pessoas. A vida desperdiçada é a vida sem uma paixão pela supremacia de 
Deus em todas as coisas, para a alegria de todos os povos.
A razão de viver, clara como cristal
A Bíblia é clara como cristal - Deus nos criou para a sua glória. Assim 
diz o Senhor: “Trazei meus filhos de longe e minhas filhas das extremidades 
da terra, e todos os que são chamados pelo meu nome, que eu criei para 
minha glória” (Is 43.6-7, grifos do autor). A vida é desperdiçada quando não 
vivemos para a glória de Deus. E eu quero dizer toda a vida. É tudo para sua 
glória. É por isso que a Bíblia entra nos detalhes de comer e beber. “Quer 
comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de 
Deus” (ICo 10.31, grifos do autor). Nós desperdiçamos nossa vida quando
26 Não jogue sua vida fora
não entrosamos Deus em nosso comer e beber e em todas as outras partes, 
apreciando-o e demonstrando-o.
O que significa glorificar a Deus? Aqui podemos dar uma guinada peri­
gosa se não tivermos cuidado. Glorificar é como a palavra embelezar. Mas 
embelezar geralmente tem o sentido de “fazer alguma coisa ficar mais bela do 
que é”, melhorar sua beleza. Isso não é de modo algum o que queremos dizer 
com glorificar em relação a Deus. Não se pode tornar Deus mais glorioso ou 
mais lindo do que ele já é. Ele não pode ser melhorado, “nem é servido por 
mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse” (At 17.25). Glorificar 
não significa acrescentar mais glória a Deus.
É mais como a palavra magnificar. Mas aqui também podemos ir na dire­
ção errada. Magnificar tem dois sentidos distintos. Em relação a Deus, um é 
adoração e um é maldade. Pode-se magnificar, aumentar como um telescó­
pio ou um microscópio. Quando você aumenta como um microscópio, você 
faz uma coisa minúscula parecer maior do que é. Uma partícula de pó pode 
parecer um monstro. Fingir aumentar Deus assim é iniqüidade. Mas quando 
você magnífica, amplia como um telescópio, você faz uma coisa inimagina- 
velmente grande parecer o que na verdade é. Com o telescópio espacial Hub- 
ble [e seus sucessores], galáxias que são pontinhos de luz no céu se revelam 
como os gigantes de bilhões de estrelas que são realmente. Magnificar a Deus 
desse modo é adoração.
Nós desperdiçamos nossa vida quando não oramos, pensamos, sonha­
mos, planejamos e trabalhamos na direção de magnificar Deus em todas as 
esferas davida. Deus nos criou para isso: para viver de um modo tal que o 
faça parecer mais com a grandeza, beleza e valor infinito que ele realmente é. 
No céu noturno do ambiente deste mundo, Deus parece para a maioria das 
pessoas, se é que o veem, como um pontozinho de luz num céu de trevas. Mas 
ele nos criou e chamou para fazê-lo parecer como ele realmente é. É o que 
significa ser criado à imagem de Deus. A intenção foi que em nossa imagem 
passaríamos para o mundo como ele realmente é.
Será que ser amado significa ser agradado, reconhecido?
Para muitas pessoas, isso não é de forma óbvia um ato de amor. Não se 
sentem amadas quando lhes é dito que Deus as criou para a glória dele. Elas 
se sentem usadas. Isso é compreensível tendo em vista a maneira em que o 
sentido de amor já foi distorcido quase que completamente em nosso mundo. 
Para a maioria, ser amado é ser agradado, ser reconhecido. Quase tudo em 
nossa cultura ocidental favorece essa distorção do amor. De mil modos somos 
ensinados que o amor significa aumentar a autoestima de alguém. Amor é 
ajudar alguém a sentir-se bem com respeito a si mesmo. Amor é dar a alguém 
um espelho e ajudá-lo a gostar do que vê.
Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria 27
Não é isso que a Bíblia quer dizer quando fala do amor de Deus. Amor 
é fazer o que é melhor para a pessoa. Mas tornar o “eu” o objeto de nossas 
maiores afeições não é bom para nós. Na realidade, é uma distração mortí­
fera. Fomos feitos para ver e desfrutar Deus - desfrutando-o, ser suprema­
mente satisfeitos, e assim espalhar por todo o mundo o valor da presença 
dele. Não mostrar às pessoas o Deus que a tudo satisfaz é não amá-las. Fazê- 
-las sentirem-se bem sobre si mesmas quando foram criadas para sentirem- 
-se bem sobre Deus é como levar alguém ao alto das montanhas dos Alpes e 
trancá-lo num cômodo cheio de espelhos.
Patológico no Grand Canyon
Os momentos realmente maravilhosos de alegria nesse mundo não são 
os momentos de autossatisfação, e sim os de autoesquecimento. Ficar em pé 
à beira do Grand Canyon, o imenso vale profundo e escarpado procurado 
por turistas, e ali contemplar sua própria grandeza já é patológico. Em tais 
momentos somos feitos para uma alegria magnífica que vem de fora de nós 
mesmos. E cada um desses raros e preciosos momentos da vida - ao lado do 
Canyon, diante dos Alpes, sob as estrelas - é um eco de uma excelência bem 
maior, a saber, a glória de Deus. É por isso que a Bíblia diz: “Os céus proclamam 
a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (SI 19.1).
Às vezes, as pessoas dizem que não podem crer que, no caso de existir um 
Deus, ele se interesse nessa tão minúscula partícula de realidade chamada 
humanidade no planeta Terra. O universo, dizem eles, é tão vasto, que torna 
o homem totalmente insignificante. Por que Deus teria se preocupado em 
criar uma partícula tão microscópica chamada Terra e humanidade e então 
se envolver conosco?
Por trás dessa pergunta está uma falha fundamental de ver o porquê do 
universo. Ele tem a ver com a grandeza de Deus, não com a significância do 
homem. Deus fez o homem pequeno e o universo grande para dizer algo sobre 
si. E ele o diz para aprendermos e apreciarmos com alegria - a saber, que ele é 
infinitamente grande, poderoso, sábio e belo. Quanto mais o telescópio Hub- 
ble manda de volta para nós sobre as profundezas insondáveis do espaço, tanto 
mais devemos nos postar em admiração reverente ante Deus. A desproporção 
entre nós e o universo é uma parábola sobre a desproporção entre nós e Deus. 
E até isso é um abrandamento da comparação, por não podermos expressá-la 
melhor. Mas o importante não é anular-nos e sim glorificá-lo.
Amar as pessoas significa apontá-las para o Deus 
que a tudo satisfaz
Agora voltemos ao que significa ser amado. A ideia foi quase que total­
mente distorcida. O amor tem a ver com mostrar para uma alma que está
28 Não jogue sua vida fora
morrendo a beleza doadora de vida da glória de Deus, especialmente sua 
graça. Sim, como veremos, nós mostramos a glória de Deus em uma cen­
tena de modos práticos, que incluem cuidado sobre comida, roupa, abrigo e 
saúde. É o que Jesus tencionava quando disse: “Assim brilhe a vossa luz diante 
dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai 
que está nos céus” (Mt 5.16).
Toda boa obra deve ser uma revelação da glória de Deus. O que faz uma 
boa obra ser um ato de amor não é o ato puro, e sim a paixão e o sacrifício 
de fazer o próprio Deus conhecido como glorioso. Não visar mostrar Deus é 
não amar, porque é dele que mais profundamente precisamos. E termos tudo 
sem ele é perecer no fim. A Bíblia diz que você pode dar tudo que você tem 
e entregar seu corpo para ser queimado e não ter amor (ICo 13.3). Se você 
não aponta as pessoas para Deus, para a alegria eterna, você não ama. Você 
desperdiça sua vida. Você joga fora sua vida.
A vida eterna é um céu cheio de espelhos?
Agora pense o que isso significa para o amor de Deus. Como Deus nos 
amará? Mera lógica nos daria a resposta: Deus nos ama melhor dando-nos o 
melhor para gozar para sempre, a saber, ele próprio, porque ele é o melhor. 
Mas nós não dependemos só de lógica. A Bíblia torna isso claro. “Porque 
Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que 
todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Deus nos 
ama é dando-nos vida eterna à custa de seu Filho, Jesus Cristo. Mas o que é 
a vida eterna? É autoestima eterna? É um céu cheio de espelhos? Ou tobogãs 
de água, ou campos de golfe, ou virgens de olhos negros?
Não. Jesus nos conta exatamente o que ele quer dizer: "... a vida eterna é 
esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem 
enviaste” (Jo 17.3). O que é vida eterna? É conhecer Deus e seu Filho, Jesus 
Cristo. Nenhum objeto, nenhuma coisa pode satisfazer a alma. A alma foi 
feita para ficar em reverente admiração de uma Pessoa - a única pessoa que 
é digna de reverente admiração. Todos os heróis são sombras de Cristo. Nós 
gostamos de admirar a excelência deles. Quanto mais ficaremos satisfeitos 
pela única Pessoa que concebeu toda a excelência e que encarna toda habili­
dade, todo talento, toda força e brilho, e compreensão sábia e bondade. É isso 
que eu venho tentando dizer. Deus nos ama libertando-nos das amarras do 
eu para que possamos apreciar conhecê-lo e admirá-lo para sempre.
Ou considere o modo que o apóstolo Pedro o diz: “Cristo morreu, uma 
única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus” 
(lPe 3.18). Por que Deus mandou Jesus Cristo para morrer por nós? “Para 
nos conduzir a Deus” - a ele mesmo. Deus mandou Cristo para morrer para 
que pudéssemos “voltar para casa”, para o Pai que tudo satisfaz. Isso é amor.
Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria 29
O amor de Deus por nós é Deus fazendo o que precisa fazer, com grande 
custo próprio, para que pudéssemos ter o prazer de ver e desfrutá-lo para 
sempre. Se isso é verdade, como o salmista diz para Deus: “Na tua presença 
há plenitude de alegria, na tua mão direita, delícias perpetuamente” (SI 
16.11), então o que o amor precisa fazer? Precisa salvar-nos de nosso vício 
de fixação em nós mesmos e levar-nos, mudados, para entrar na presença 
de Deus.
Você está sendo usado?
Então, aqui está a pergunta para testar se você foi absorvido pela distorção 
do amor deste mundo: você se sentiria mais amado por Deus se ele lhe agra­
dasse muito ou se ele o libertasse da escravidão da autoestima, a grande custo 
próprio, para que você ame muito apreciá-lo grandemente para sempre?
Suponhamos que você responda: “Eu quero ser livre de mim mesmo e 
cheio de alegria em Deus; quero gostar muito de apreciar a Deus grande­
mente, não a mim mesmo. E quero que a plenitude de minha alegria dure 
para sempre”. Se você responder assim, então você terá também uma resposta 
para o medo que mencionei antes, de que você só esteja sendo usado por 
Deus quandoele o criou para a glória dele. Agora vemos que em criar-nos 
para sua glória, ele está criando-nos para nossa maior alegria. Ele é glorifi- 
cado mais em nós quando estamos mais satisfeitos nele.
Deus é o único ser no universo para quem a autoexaltação é o ato de 
maior amor. Qualquer outro que se exalte a si mesmo distrai-nos daquilo que 
nós precisamos, a saber, Deus. Mas se Deus se exalta a si mesmo, ele chama 
atenção à coisa exata de que nós precisamos para nossa alegria. Se as grandes 
pinturas pudessem falar, e vissem você passando pela galeria com os olhos 
fixos no piso, clamariam: “Olhe! Olhe para mim. Eu sou o motivo de você 
estar aqui”. E, quando você olhar e exultar na beleza dos quadros com aque­
les que estão em volta de você, sua alegria seria plena. Você não reclamaria 
que as pinturas deveriam ter ficado quietas. Elas o salvaram de desperdiçar 
sua visita. Do mesmo modo nenhuma criança reclama: “Estou sendo usada”, 
quando seu pai se deleita em fazer a criança feliz com sua própria presença.
Finalmente livre para abraçar a paixão única 
pela qual eu feito
Com essas descobertas, eu agora me senti livre para afirmar o propó­
sito de Deus para minha vida revelado na Bíblia. Não tinha que sentir medo 
de que eu precisasse escolher entre o certo e o inevitável - entre perseguir 
a glória dele e perseguir a minha alegria. Eu estava livre para vivenciar a 
paixão única pela supremacia de Deus em todas as coisas para a alegria de 
todas as pessoas. Fui salvo da vida desperdiçada. Agora a vida podia ter um
30 Não jogue sua vida fora
sentido final - o mesmo sentido que a vida de Deus tem: apreciar e demons­
trar a sua grandeza.
Eu já estava livre para abraçar o final de minha velha busca: o Ponto 
Importante, o Propósito, o Enfoque e a Essência de tudo isso. Era real. Era 
objetivo. Estava lá. E estava enraizado na própria essência do que Deus é em 
si próprio. Ele é glorioso, belo e magnífico em suas perfeições múltiplas. Elas 
são infinitas, eternas e imutáveis. São Verdade, Justiça, Bondade, Sabedoria, 
Poder e Amor. Fluindo daquilo que ele é em si mesmo, vem o propósito para 
a nossa existência. A paixão de Deus por sua própria glória faz nascer a nossa. 
Esta é a razão única do ser, que a tudo abarca, a tudo transforma: uma paixão 
por gozar e exibir a supremacia de Deus em todas as coisas, para a alegria de 
todos os povos.
Deus nos criou para vivermos com a única paixão de demonstrar com 
alegria a suprema excelência dele em todas as esferas da vida. A vida desper­
diçada é a vida sem essa paixão. Deus nos chama para orar, pensar, sonhar, 
planejar e trabalhar não para ser apreciado pela nossa grandeza, mas para 
engrandecê-lo em todas as partes de nossa vida.
Agora entra a glória de Jesus Cristo
Depois de 11 de setembro de 2001, eu vi com mais clareza do que nunca 
como é essencial exultar exatamente na excelência de Cristo crucificado por 
pecadores e ressuscitado dos mortos. Cristo precisa estar expresso aberta­
mente em toda nossa conversação sobre Deus. Não serve, nessa época de 
pluralismo, falar sobre a glória de Deus de maneira vaga. Deus sem Cristo 
não é Deus nenhum. E um não Deus não pode salvar nem satisfazer a alma. 
Seguir a um não Deus - seja qual for seu nome seja qual for sua religião
- será uma vida desperdiçada. Deus-em-Cristo é o único Deus e o único 
caminho à alegria. Tudo o que eu disse até aqui deve agora ser relacionado 
a Cristo. A velha plaqueta da cozinha volta de novo: “Só o que é feito para 
Cristo durará”.
Para levar-nos ao mais alto e mais duradouro de todos os prazeres, Deus 
fez seu Filho, Jesus Cristo, um espetáculo sangrento de inculpado sofrimento 
e morte. Foi isso que custou para salvar-nos de uma vida desperdiçada, 
jogada fora. O Filho eterno de Deus “não contou [...] o ser igual a Deus” coisa 
para ser agarrada, “antes a si mesmo se esvaziou. Assumiu a forma de servo” 
e nasceu “em semelhança de homem. [...] A si mesmo se humilhou [...] até a 
morte e morte de cruz” (Fp 2.6-8).
Todas as coisas foram feitas para ele
Este Jesus foi e é um homem histórico real, em quem “habita corporal­
mente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2.9). Visto que ele é “Deus de Deus,
Descobrimento - a beleza de Cristo, minha alegria 31
Luz da Luz, vero Deus de vero Deus”, como diz o velho Credo de Niceia, e 
visto que sua morte e ressurreição são o ato central de Deus na História, não 
surpreende ouvir a Bíblia dizer: “Todas as coisas [...] foram criadas por meio 
dele e para ele” (Cl 1.16). Para elel Isso significa para sua glória. Também sig­
nifica que tudo que dissemos até agora sobre Deus criar-nos para sua glória 
também quer dizer que ele nos criou para a glória do seu Filho.
Em sua oração, em João 17, a primeira coisa que Jesus pede é: “Pai, é che­
gada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti” (Jo 17.1). 
E, desde a obra encarnada, redentora de Jesus, Deus é alegremente glorifi- 
cado por pecadores somente por meio da glorificação do Deus-Homem res- 
surreto, Jesus Cristo. Sua morte sangrenta é o centro fulgurante da glória de 
Deus. Não há caminho à glória do Pai senão pelo Filho. Todas as promessas 
de alegria na presença de Deus, e de delícias à sua mão direita, vêm até nós 
somente pela fé em Jesus Cristo.
Se nós o rejeitamos, rejeitamos a Deus
Jesus é o teste, o teste como de tornassol [indicador de ácido/base] de 
realidade para todas as pessoas e todas as religiões. Ele mesmo o disse clara­
mente: “Quem me rejeitar rejeita aquele que me enviou” (Lc 10.16). As pes­
soas e religiões que rejeitam Cristo rejeitam Deus. Outras religiões conhecem
o Deus verdadeiro? Eis aqui o teste: Elas rejeitam Jesus como o único Sal­
vador para pecadores, que foi crucificado e ressuscitado dos mortos? Se a 
resposta é sim, não conhecem Deus de um modo salvador.
É isso que Jesus quis dizer quando disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, 
e a vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14.6). Ou quando ele 
disse: “Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou” (Jo 5.23). Ou 
ainda quando disse aos fariseus: “Se Deus fosse de fato vosso Pai, certamente 
vocês me amariam” (Jo 8.42).
É o que o apóstolo João quis dizer: “Ninguém que nega o Filho tem o Pai. 
Aquele que confessa o Filho tem também o Pai (ljo 2.23). Ou quando disse: 
“Todo aquele que [...] não permanece [na doutrina de Cristo] não tem Deus” 
(2Jo 9).
Não há vantagem em romantizar outras religiões que rejeitam a deidade 
e a obra salvadora de Cristo. Elas não conhecem a Deus. E aqueles que as 
seguem desperdiçam tragicamente a sua vida.
Se nós queremos ver e desfrutar a glória de Deus, precisamos ver e des­
frutar Cristo. Pois Cristo é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Para colo­
car isso de outro modo, se desejamos abraçar a glória de Deus, precisamos 
abraçar o evangelho de Cristo. A razão disso não é unicamente porque somos 
pecadores e precisamos de um Salvador que morra por nós, mas também 
porque esse Salvador é ele mesmo a manifestação mais cheia e mais linda da
32 Não jogue sua vida fora
glória de Deus. Ele comprou nosso prazer imerecido e eterno, e ele se torna 
para nós nosso Tesouro que tudo merece, nosso Tesouro eterno.
O evangelho é a boa-nova da glória de Cristo
É assim que o evangelho é definido. Quando somos convertidos pela fé 
em Cristo, o que vemos com os olhos de nosso coração é “a luz do evangelho 
da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.4). O evangelho é a 
boa-nova de beleza-que-tudo-vence. Ou para dizer isso como Paulo faz, é a 
boa-nova “da glória de Cristo”. Quando abraçamos Cristo, abraçamos Deus. 
Vemos e desfrutamos a glória de Deus. Não há nenhum desfrutar a glória 
de Deus se não a enxergamos em Cristo. Esta é a única janela pela qual um 
pecador pode ver a face de Deus e não ser fulminado.
A Bíblia diz que, quando Deus ilumina o nosso coração na conversão, ele 
dá “a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2Co 
4.6). Ou nós vemos a glória de Deus “na face deJesus Cristo” ou não a vemos 
de forma nenhuma. E a “face de Jesus Cristo” é a beleza de Cristo chegando a 
seu clímax na cruz. O rosto sangrento de Cristo crucificado (e triunfante!) é o 
semblante da glória de Deus. O que um dia foi tolice para nós torna-se nossa 
sabedoria, nossa força e nosso gloriar (1 Co 1.18, 24).
A vida é desperdiçada se não captamos a glória da cruz, se não a valoriza­
mos pelo tesouro que é, e se não nos apegamos a ela como o preço mais alto 
de cada prazer e o consolo mais profundo em cada dor. É esse o assunto do 
próximo capítulo.
Notas do capítulo 2
1 E. D. Hirsch, Validity in Interpretation (New Haven, CT: Yale University 
Press, 1967), ix. Essa citação não reflete o que Hirsch crê, e sim o que ele 
está rebatendo.
2 A citação é do aforismo 125 entitulado “The Madman”, em Joyful Science 
citado em Damon Linker, “Nietzsches Truth”, First Things 125 (agosto/setem­
bro, 2002): 54; disponível na internet em www.firstthings.com/frissues/ 
fr0208/artigos/linker.html.
3 Daniel Fuller, The Unity o fthe Bible: Unfolding Gods P lanfor Humanity 
(Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992).
4 Idem, 453-454.
5 Jonathan Edwards, The Works o f Jonathan Edwards, vol. 1 (Edinburgo: 
Banner of Truth, 1976), xx-xxi.
6 Jonathan Edwards, “Nothing Upon Earth Can Represent .the Glories 
of Heaven”, em The Works o f Jonathan Edwards, vol. 14, org. Kenneth P. 
Minkema (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1997), 144.
http://www.firstthings.com/frissues/
3
Gloriar-se somente na cruz, 
o centro flamejante da 
glória de Deus
O oposto de jogar a vida fora é vivê-la com uma única paixão que exalte a 
Deus e satisfaça a alma. A vida bem vivida deve ser de exaltação a Deus e satis­
fação da alma porque foi mesmo por essa razão que Deus nos criou (Is 43.7; SI 
90.14). Foi esse o encargo temático do capítulo 2. E “paixão” é mesmo a palavra 
certa (ou, se preferir, zelo, fervor, ardor, intensidade sincera), porque Deus nos 
manda amá-lo com todo nosso coração (Mt 22.37), e Jesus nos lembra de que 
ele vomita pessoas da sua boca que não são nem quentes nem frias (Ap 3.16). 
O oposto de jogar a vida fora é viver de acordo com a paixão única, paixão que 
satisfaz a alma, pela supremacia de Deus em todas as coisas.
Até que ponto é séria essa palavra “única”? Será que a vida realmente pode ter 
tanta unidade de propósito? Será que trabalho, lazer, relacionamentos, comer, 
fazer amor e ministério podem todos fluir realmente de uma só paixão? Será 
que existe algo suficientemente profundo, grande e forte a ponto de manter tudo 
isso junto? Podem sexo, automóveis, guerra, trocar fraldas e calcular impostos 
realmente ter uma unidade que exalte a Deus e satisfaça à alma?
Essa pergunta nos arremete ao mesmo lugar onde terminamos o capítulo 
2, isto é, à morte de Jesus sobre a cruz. Nós terminamos lá porque viver para a 
glória de Deus precisa significar viver para a glória do Cristo crucificado. Cristo 
é a imagem de Deus. Ele é a soma da glória de Deus em forma humana. E a 
beleza dele brilha mais fortemente na hora mais escura, na hora extrema dele.
Pressionados pela Bíblia para saber uma coisa
Mas somos impelidos ao mesmo local sangrento também pela questão 
de uma única paixão. A Bíblia nos empurra nessa direção. Por exemplo, o
34 Não jogue sua vida fora
apóstolo Paulo disse que sua vida e ministério estavam concentrados em um 
único alvo: “Decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucifi­
cado” (ICo 2.2). Isso é extraordinário, quando se pensa em todas as coisas 
variadas sobre as quais ele de fato falou. Deve haver um sentido em que “Jesus 
Cristo e este crucificado” seja a base e soma de tudo mais que ele diz. Somos 
impulsionados a observar nossa vida em um só enfoque, e para a cruz de 
Cristo ser esse enfoque.
Você não precisa saber uma grande quantidade de coisas para sua vida 
fazer diferença duradoura no mundo. Mas você tem que saber as poucas coi­
sas excelentes que importam, talvez uma só, e então estar disposto a viver e 
morrer por elas. As pessoas que fazem diferença duradoura no mundo não 
são as que dominaram muitas coisas, e sim aquelas que foram dominadas por 
uma coisa grandiosa. Se você quer que sua vida tenha influência, se você quer 
o efeito de criar ondulações com as pedrinhas que você deixa cair se tornando 
ondas que chegam aos confins da terra e prosseguem até a eternidade, você 
não precisa ter um QI elevado. Você não tem que ter uma linda aparência ou 
riquezas, ou proceder de uma família fina ou ter freqüentado universidade 
distinta. Ao contrário, você precisa saber algumas coisas grandes, majestosas, 
imutáveis, óbvias, simples, gloriosas - ou mesmo uma só coisa que a tudo 
abarca - e pegar fogo por elas.
Uma tragédia em formação
Você pode não ter certeza de que quer que sua vida faça diferença. Quem 
sabe nem se importa muito se você faz diferença duradoura por amor a algo 
importante. Você só quer que as pessoas gostem de você. Se as pessoas só 
gostarem de estar perto de você, você já ficará satisfeito. Ou se você puder só 
ter um bom emprego, uma boa esposa ou um bom marido, uns dois filhos, 
um bom carro, fins de semana com alguns bons amigos, uma aposentadoria 
divertida, uma morte rápida e fácil e nenhum inferno - se você puder ter 
tudo isso (mesmo sem Deus) - , você já ficaria satisfeito. Isso é uma tragédia 
em formação. Uma vida jogada fora.
Estas vidas e mortes não foram nenhuma tragédia
Em abril de 2000, Ruby Eliason e Laura Edwards foram mortas na Repú­
blica dos Camarões, na costa ocidental da África. Ruby tinha mais de 80 anos. 
Solteira durante a vida toda, ela viveu por uma só coisa excelente: tornar Jesus 
Cristo conhecido entre os não alcançados, os pobres e os doentes. Laura era 
viúva, médica, já perto dos 80, e ministrava ao lado de Ruby, nos Camarões. 
Os freios falharam, o carro saiu da estrada, caiu no despenhadeiro e ambas 
morreram instantaneamente. Eu perguntei à minha congregação: será que isso 
foi uma tragédia? Duas vidas, impulsionadas por uma grande paixão, a saber, 
serem gastas em serviço aos pobres para a glória de Jesus Cristo - até duas
Gloriar-se somente na cruz, o centro flamejante da glória de Deus 35
décadas depois da maioria de seus pares nos Estados Unidos haver se aposen­
tado para jogar sua vida fora com ninharias. Não, isso não é uma tragédia. Isso 
é uma glória. Essas vidas não foram desperdiçadas. “Quem perder a vida por 
causa de mim e do evangelho salvá-la-á” (Mc 8.35).
Uma tragédia humana: como não terminar sua única vida
Eu lhe direi o que é uma tragédia. Vou mostrar como desperdiçar sua vida. 
Considere uma notícia da edição de fevereiro de 1998 do Readers Digest, que 
conta de um casal que “aceitou a aposentadoria antecipada de seus empregos 
no nordeste do país há cinco anos, quando ele tinha 59 e ela 51 anos. Agora 
vivem em Punta Gorda, Flórida, onde fazem cruzeiros em sua embarcação de 
uns dez metros, jogam softball [beisebol com bola macia] e colecionam con­
chas”. Em princípio pensei que fosse piada. Uma paródia do sonho norte-ame­
ricano. Mas não. Tragicamente, o sonho foi esse: chegue ao fim de sua vida - a 
única, preciosa vida que ganhou de Deus - e deixe que a última grande obra 
de sua vida, antes de prestar contas dela a seu Criador, seja isso: jogar softball e 
colecionar conchas. Imagine-os diante de Cristo no grande dia do juízo: “Olhe, 
Senhor. Veja minhas conchas”. Isso é uma tragédia. E as pessoas hoje estão gas­
tando bilhões de dólares para persuadi-lo, amigo, a abraçar esse sonho trágico. 
Contra isso, faço meu protesto: não caia nessa. Não jogue sua vida fora.
Faça de conta que eu sou seu pai
Ao escrever isso, tenho já 57 anos. À medida que os meses passam, eu 
entro em contato com mais e mais pessoas suficientemente novas para serem 
meus filhos e filhas. Você talvez esteja nessa categoria. Tenho quatro filhos e 
uma filha. Poucas coisas, se é que há, ocupam meu coração mais nesses meses 
e anos do que meu ardente desejo de que meus filhos

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