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S Prefácio Henry Feyerabend omente os membros da família do pastor Roberto Rabello poderiam tê-lo conhecido tão intimamente como os associados que trabalharam com ele. Cantando no quarteto da Voz da Profecia durante cinco anos (de 1962 a 1967), tive esse privilégio dado por Deus. Esses anos resultaram em algumas das mais preciosas experiências de minha vida. Viajamos juntos pela maior parte do grande território do Brasil. Muitas vezes nos hospedamos no mesmo quarto e comemos à mesma mesa. Gastamos longas horas percorrendo as estradas do Brasil, de norte a sul, de este a oeste. Nunca foi enfadonho viajar com ele. Era um profundo pensador e um sólido teólogo. Ele jamais se envolvia em frivolidades. Discutia idéias que ampliavam nosso pensamento, como se estivéssemos numa sala de aula. Muitas vezes me senti como um anãozinho ao discutir profundas verdades com esse gigante espiritual. Era comum o quarteto ouvi-lo pregar três vezes por dia. Seus sermões eram sempre importantes e valiosos. Não havia falsas teorias contaminando o alimento espiritual por ele apresentado. Não era ostentoso ou exagerado em suas apresentações. Seu poder estava no conteúdo sublime de suas mensagens, que eram sempre apresentadas de maneira calma e branda. O pastor Rabello foi um verdadeiro pioneiro. O sucesso da Voz da Profecia foi, em grande parte, o sucesso de um homem. Totalmente dedicado à pregação, era altamente respeitado pelos adventistas do sétimo dia, pelos membros de outras igrejas e até mesmo por pessoas que não tinham o compromisso cristão. Por onde quer que viajasse, ansiosas multidões formavam fila com o único propósito de conhecê-lo e apertar-lhe mão. Apesar de sua incrível popularidade, nunca ficou envaidecido ou orgulhoso. Sua personalidade calma e serena infundia confiança em todos que encontrava. Sua extraordinária e rara voz, uma marca registrada dele, era cobiçada pelos radialistas de todo o país. Descrita como uma voz aveludada, não somente era maravilhosa de ser ouvida, mas produzia um efeito calmante no auditório, adicionando autoridade às palavras que falava. Durante os anos em que trabalhamos juntos, era simplesmente um prazer gravar voz tão ideal para o microfone. O pastor Rabello soube bem usar a voz poderosa que lhe foi dada. Conhecido por sua perfeita dicção e gramática impecável, não tinha problema em atrair os intelectuais, que ouviam com prazer seus sermões. Ele sabia como obter o máximo dos talentos de seus companheiros de equipe. A música do quarteto não era apenas um acessório; ela permeava sua mensagem. Em todas as reuniões públicas, ele nunca deixou de partilhar boa parte de seu tempo com a equipe da música. Um dos grandes privilégios de minha vida foi estar ombro a ombro com indivíduos talentosos e dedicados a Deus. Ao contemplar meu passado e meu ministério, sou agradecido a Deus por aqueles cuja influência moldou minha vida de maneira tão marcante. O pastor Rabello ocupa elevada posição nos corredores de minha mente como um líder, conselheiro e amigo. Henry Feyerabend, falecido em dezembro de 2006, foi cantor dos Arautos do Rei e orador do programa Está Escrito, no Canadá E Introdução stão gravados indelevelmente em minha mente meus primeiros momentos no antigo Colégio Adventista Brasileiro (CAB), hoje Unasp, com campi em Engenheiro Coelho, Hortolândia e São Paulo. Era o ano de 1949 e toda a nossa família abraçara a mensagem adventista. Meus pais queriam voltar para Lajes, SC, e implantar uma nova igreja na cidade. Eu ficaria em São Paulo, estudando. Havia terminado o curso ginasial no Colégio Fernão Dias, no Tatuapé, em São Paulo, e necessitava de um novo colégio para continuar os estudos secundários. Ouvindo uma vibrante promoção pelos pastores S. Kümpel e Jerônimo Garcia na Igreja Central de São Paulo sobre o CAB, resolvi fazer uma visita àquela linda instituição. Ao chegar, o primeiro contato foi com o amável diretor – o pastor Dario Garcia. Cordialmente, abriu as portas para um estudante pobre, cheio de entusiasmo e amor pela nova igreja e a nova fé que vibrava no âmago de seu ser. Meus pais partiram para o sul do Brasil e fiquei no dormitório dos rapazes. Depois de alojar-me e familiarizar-me com todos os regulamentos, li no quadro de anúncios a lista de estudantes. Chamou-me atenção o número de jovens com sobrenome Rabello. Lá estavam: João, Plínio, Walter, Cláudio. Mais tarde, chegou Lucival Rabello. Recém-convertido, eu tinha imensa admiração pelo orador da Voz da Profecia, o pastor Roberto M. Rabello. Em nosso lar, não perdíamos a oportunidade de sintonizar e ouvir através do rádio as lindas mensagens de ânimo, fé e esperança que eram apresentadas nesse programa tão inspirador, que anunciava a breve volta do Senhor e Salvador Jesus Cristo. As músicas e as palestras me fascinavam, assim como fascinavam milhares de ouvintes em todo o Brasil. Eu não poderia imaginar, naquela ocasião, que um dia estaria casado com Lucila Braun Rabello, a filha do orador do programa! Não poderia compreender os desígnios do Senhor no momento em que o pastor Dario Garcia, cunhado do pastor Roberto M. Rabello, me deu oportunidade para realizar meus sonhos. Antes de meu sogro falecer, instei com ele para que escrevesse algumas linhas sobre sua vida e trabalho. Na verdade, gostaria que ele mesmo tivesse escrito sua biografia, o que seria uma grande inspiração para o público brasileiro. Muitas vezes, o pastor Enoch de Oliveira, que era seu primo-irmão, e eu o incentivamos a escrever um livro. Também pedi que gravasse toda a Bíblia em cassete para que pudesse ser ouvida através da mídia e inspirar milhões de pessoas. Mas o sonho dele era ver o número de estações da Voz da Profecia crescer em todo o Brasil. Mesmo assim, conseguimos algumas páginas escritas por ele mesmo, relatando momentos e experiências inesquecíveis de sua vida e ministério. Alguns fatos relacionados à sua vida foram mencionados num artigo publicado na Revista Adventista em novembro de 1996, por ocasião de seu funeral. Repito alguns pensamentos: Em 16 de agosto de 1996, foi silenciada uma das vozes mais famosas do Brasil. Durante a cerimônia funeral realizada no IAE, em São Paulo, no dia 17, membros do quarteto da Voz da Profecia cantaram o hino oficial da Voz da Profecia, “Breve Virá”. As pessoas presentes ouviram, naquele momento, as palavras memoráveis pronunciadas pelo orador: “Esta é a Voz da Profecia. Uma mensagem de fé e esperança que anuncia a volta do Senhor.” Naquele sábado à tarde, com a presença de líderes da igreja, irmãos e estudantes, houve um vazio muito grande, um vazio de tristeza e dor. Mas, como disseram os pastores Ruy Nagel, presidente da Divisão Sul-Americana, e Rodolpho Gorski, presidente da União Sul Brasileira: “Este é um momento de júbilo e alegria, não de dor e tristeza, pelo ministério do pastor Rabello.” A Voz, no Brasil, era a Voz da Profecia. Mas tinha igualmente um duplo significado, pois aquela “Voz” era a voz suave, penetrante, que cativou adventistas e evangélicos por quase 50 anos. Uma voz anunciando no deserto a vinda de Cristo, uma voz de admoestação e confiança para os ouvintes atribulados,uma voz de advertência para aqueles que estão longe de Deus – uma voz totalmente dedicada a Deus. Naquele artigo, mencionei o comentário de um jornal de Recife, PE, que ilustra a influência e impacto da Voz da Profecia não somente no mundo adventista, mas também entre ouvintes de todas as crenças. Em matéria de capa, a Folha da Semana, de novembro-dezembro de 1976, fazia grandes elogios à figura do orador da Voz da Profecia: A Folha da Semana, neste número especial de seu aniversário, tem a honra e a satisfação de focalizar em sua capa a figura dignificante do pastor Roberto Rabelo, pregador da Voz da Profecia no Brasil, programa de evangelização das massas, de cunho cristianizante de primeira grandeza e de extraordinária dimensão evangelizadora, que há trinta anos vem atuando em obediência aos mandamentos bíblicos consubstanciados no livro do Apocalipse, em seu capítulo 14, com todas as conotações da tríplice mensagem angelical, onde se lê a afirmação dos três anjos proclamando os juízos de Deus, para conscientização dos homens que ainda vivem distanciados das verdades bíblicas conclamantes da segunda vinda de nosso amorável Salvador Jesus Cristo, o Filho de Deus. O pastor Roberto Mendes Rabello é inegavelmente o servo fiel e consciente de sua alta responsabilidade perante Deus em proclamar as santas verdades. Trezentas e tantas emissoras de rádio em todo o território brasileiro irradiam a sublime Voz da Profecia e milhares de homens e senhoras de todas as idades, profissão e credo religioso, têm observado e assimilado, através da palavra mansa e edificante do pastor Roberto Rabello, esse admirável programa evangelístico. [...] Aconselharíamos aos nossos leitores, para seu benefício e crescimento espiritual, ouvirem cuidadosamente essas irradiações e convocarem seus amigos para igualmente ouvirem. Voltando ao nosso focalizado, esclarecemos tratar-se de homem inteiramente devotado à causa de Deus aqui em nossa pátria, ainda tão carente dos sãos ensinamentos bíblicos. O número de conversos pela Voz da Profecia nestes trinta e três anos de eficiente e santificadora atuação é estimado na casa dos 23.000. [...] A Folha da Semana, que tem na pessoa do pastor Roberto Mendes Rabello um admirável servo de Deus e um amigo a toda prova, saúda-o efusivamente pelo seu magnífico e eficiente trabalho, formulando-lhe os mais ardentes votos de ainda muitos anos de existência para o desenvolvimento do Reino de Deus na Terra; votos estes coadjuvados pelos dos prestimosos atuais diretores da grande Missão Nordeste sediada em Recife, Estado de Pernambuco. Lamento que essa voz tenha sido silenciada pela morte, mas fica a influência de sua vida e de seu ministério. Espero que este livro nos leve a uma compreensão melhor desse grande pioneiro da Igreja Adventista no Brasil. O capítulo 1, escrito pelo próprio pastor Rabello, é uma boa maneira de ter uma visão inicial dele e de seu trabalho na Voz da Profecia. N Minha História Roberto M. Rabelo asci na colônia alemã de Rolante, município de Santo Antônio da Patrulha, Estado do Rio Grande do Sul, em 15 de novembro de 1909. Meu pai era professor primário e dirigia uma escola que funcionava em ampla sala da casa em que morávamos. O método de aprender a ler era o da soletração. As letras eram pronunciadas separadamente; depois, eram juntadas em sílabas. Isso muito me atraía. Quando eu era ainda bem pequeno, me introduzia entre os meninos da escola e ouvia com vivo interesse a soletração das palavras. Como resultado, aprendi a ler antes de atingir a idade escolar. Ao chegar à idade própria, fui matriculado e tornei-me um dos mais aplicados alunos de meu pai. Fiz rápido progresso nos estudos. Talvez houvesse um pouco de parcialidade do professor para com o filho, e disso foi meu pai acusado por pelo menos um dos alunos mais adiantados. Meu prazer era brincar com os colegas na hora do recreio. Também era meu prazer brigar com qualquer deles que se dispusesse a uma luta corporal. Um dia, porém, refleti: “Tu és o filho do professor e deves ser um exemplo de bom relacionamento com os colegas.” Daquele dia em diante, tornei-me um dos mais pacíficos alunos. Certa ocasião, lá pelos onze anos, andando a cavalo, a caminho da casa de parentes, membros da Igreja Adventista de Rolante, fui alcançado por dois homens, também montando cavalos: o secretário de Obras Públicas do Estado e um ajudante. Emparelhando o seu cavalo com o meu, o secretário começou a me fazer perguntas, inclusive sobre a situação política do estado, pois notou que eu lia o Correio do Povo, então o principal diário de Porto Alegre. A certa altura, ele disse: – Vou submeter-te a um exame. – E começou: – Dois e dois, quantos são? Respondi: – Xô, mico! Ao que ele atalhou: – Não digas asneira. Colaborando, comecei: – Dois e dois são quatro. – E quatro e quatro? – continuou. E assim foi dobrando os números até chegar a 128. Depois, fez perguntas sobre a geografia do Rio Grande do Sul e do Brasil. Também algumas sobre a situação política do estado. O governo do Rio Grande era então disputado pelo Dr. Borges de Medeiros e pelo Dr. Assis Brasil. Ao chegar ao meu destino, despedi-me do bondoso viajante, que me disse: – Quando fores a Porto Alegre, procura-me no palácio e te levarei a passear de automóvel. Interesse pelo inglês Por esse mesmo tempo, meu pai me levou a Porto Alegre para assistir a uma reunião dos adventistas. Alguns pregadores norte-americanos falavam em inglês e seus sermões eram traduzidos para o português. Interessei-me vivamente pelo inglês, e duas palavras, constantemente repetidas, me ficaram gravadas na memória: The people (o povo, a gente). De volta para casa, à sombra de uma grande laranjeira que havia em frente dela, o rapazinho assumia uma pose especial, como se fosse um pregador, e trovejava: “Tu-glu-ju, to-glo-jo, da pipo” (the people). Essa última “palavra” era pronunciada em alta voz e longamente: “da piiiipooo”. Ainda bem que só as vacas do pasto ouviam a violência feita ao inglês! Com cerca de doze anos, aprendi a tocar flauta e meu pai me colocou em uma pequena orquestra que ele dirigia. As músicas eram, na maioria, valsas e marchas obtidas de maestros de origem alemã residentes na pequena cidade de Rolante. Um dos membros da orquestra era filho do principal comerciante da área e, com freqüência, dávamos concerto, à noite, na loja do pai dele. Certa vez, um amigo de meu pai, também comerciante, celebrando o seu aniversário, pediu que a orquestra fosse tocar em sua casa. Depois de apresentarmos várias músicas, ele levou à sala uma bandeja com pequenos cálices contendo bebida. Suspeitando que fosse bebida alcoólica, retive na boca o primeiro gole. Senti que o líquido “queimava” a boca e concluí que continha álcool. Disfarçadamente, fui para fora da casa e cuspi o que estava na boca. Como menino de oito anos, eu assinara um voto de temperança, prometendo não fumar nem beber. Graças a Deus pela fé cristã que meus pais já tinham quando nasci! Em toda a minha vida, nunca fumei nem fiz uso de bebidas alcoólicas. Quando eu tinha uns 13 anos, o diretor do Colégio Adventista, em São Paulo, visitou a Igreja Adventista de Campestre, da qual os meus pais eram membros, e convidou-me para ir estudar no referido colégio. O convite, aprovado pelos meus pais, criou em mim forte desejo de freqüentar o colégio. A princípio, meu pai não concordou. Era muito longe e eu era muito jovem. Minha mãe tomou o lado de meu pai. Fiquei decepcionado. Meu sonho era ir para o colégio. Tinha visto fotos e lido sobre a instituição. O colégio apresentava-se como algo irresistível para mim. Aos 14 anos de idade, meu pai me confiou o cuidado de nosso pequeno sítio. Eu tinha que trabalhar quase todo o tempo, cultivando o solo, semeando milho, feijão, trigo, batatas e vegetais. Restava-me pouco tempo para os estudos. Mas lia avidamente os livros que meu pai possuía em sua pequena biblioteca. Devorava os jornais, lendo até as propagandas. Alguns meses se passaram desde o convite para ir para o colégio.Um dia, meu tio José foi nos visitar. Havia estado no colégio e ia regressar. Falando com meu pai, disse: – Seu filho tem que ir para o colégio agora. Novamente, meu pai se opôs à idéia. – Mais um ano em casa – ele disse. Mas tio José era perseverante. Suas resoluções eram firmes. As pessoas o chamavam de “José de Ferro” por essa qualidade de caráter. – Vim aqui – prosseguiu ele – para levar seu filho para o colégio. Assumo toda a responsabilidade de levá-lo. Você tem que concordar. Finalmente, meu pai foi convencido e, virando-se para mim, disse: – Você quer ir? – Sim! – respondi. – Então, prepare-se – concluiu ele. Na hora de partir e deixar o lar, foi uma luta tremenda. Minha mãe estava consciente da longa distância que a separaria do filho. Montei meu cavalo e saí para a estação ferroviária. Chorei como uma criança durante os primeiros quilômetros. Era meio-dia e eu não havia comido nada em casa. Era impossível fazê-lo naquele dia. De repente, parei de chorar, peguei meu lanche e comi como se nada tivesse acontecido. Os preparativos tinham sido feitos e, com quase 15 anos, viajei para São Paulo na companhia de tios e outros parentes. Viajamos de navio, partindo de Porto Alegre, parando nos portos de Pelotas, Rio Grande, Paranaguá e finalmente Santos. Durante o percurso, fui acometido de paratifo e minha condição se agravou a ponto de o médico de bordo pensar seriamente em me deixar num hospital em Paranaguá. Felizmente, ele não o fez. Desembarcamos em Santos e, com certo sacrifício, suportei a viagem até o colégio. Lá, graças a Deus, recebi tratamento e sarei. Após recuperar as forças, fui, juntamente com outros alunos, limpar uma área da fazenda do colégio, onde a mata fora derrubada. O trabalho era duro, e o salário: 650 réis por metro quadrado limpo de tocos. Onde havia tocos de árvores grandes, gastávamos longas horas para remover um só toco – e ganhar... 650 réis! Porém, onde antes havia sido uma capoeira, limpava-se boa área num dia. Lembro-me de que ganhei cerca de 25 mil réis num dia, o que era muito dinheiro na época. Informei meu pai acerca dessa “proeza”, e ele respondeu: – Vejo que está ficando um gigante em ganhar a vida! Durante os primeiros seis meses no colégio, chorei cada dia de saudades de minha mãe. Naquela ocasião, seria impossível pensar que o menino tão agarrado com seus pais, através das experiências da vida, se sentiria cômodo em qualquer parte do mundo. Meu progresso como estudante foi satisfatório. Tirei boas notas. Meu comportamento foi reconhecido como excelente. Apesar do programa intenso de estudos, fiz algumas amizades e envolvi-me em pequenas travessuras, típicas de estudantes do colégio. Por exemplo, algumas camas apareciam viradas. Alguns colegas fizeram um buraco embaixo do piso do órgão e, colocando uma cordinha, tocavam o instrumento a partir do subsolo, impressionando alunos e professores com um órgão que era tocado sem mãos! Foi então que alguém teve a idéia de remover o órgão, e os autores da façanha tiveram que desaparecer rapidamente do subsolo antes de serem descobertos! Experiência na colportagem Após algum tempo de estudos, fui colportar no interior de São Paulo, juntamente com um tio. Na opinião dos líderes de colportagem, eu era muito jovem para sair com outro colega. Começamos o trabalho em Mococa, então cidade de fazendeiros. Vender livros ali foi muito difícil. Os fazendeiros não tinham interesse em adquiri-los. O livro que vendíamos, O Conflito dos Séculos, não apelava ao povo, e a pouca idade do vendedor (16 anos) não o ajudava a conseguir atenção. Passei depois à cidade de São José do Rio Pardo, onde trabalhei com o livro Vida de Jesus. As vendas também foram fracas. Casa Branca foi a cidade seguinte, mas o pouco êxito continuou. Não foi possível conseguir o necessário para voltar aos estudos. Nessa conjuntura, tendo até dívida na Associação, meus pais me socorreram, provendo o dinheiro para algum tempo de estudo. Enquanto trabalhava em Mococa, visitei um médico, a quem me apresentei como estudante em São Paulo. Ofereci-lhe o livro O Conflito dos Séculos e ele, meio zombeteiramente, disse: – Então você anda por aí revolucionando os séculos! Não encomendou o livro, mas tomou tempo para tentar dissuadir-me de me preparar para trabalhos da área religiosa. – O que você deve fazer – disse – é estudar medicina ou advocacia. Isso lhe dará futuro. Mas, com trabalhos de igreja, o que poderá vir a ser? Ouvi o médico em silêncio e, terminando ele a sua argumentação, respondi: – Doutor, eu sei o que quero. O trabalho que planejo realizar é o mais elevado da vida. – Isso encerrou a conversa. Em Casa Branca, visitei um professor da Escola Normal e ofereci-lhe o livro Vida de Jesus. Ele me ouviu atentamente e, quando terminei a oferta, perguntou: – Seu livro é protestante? Pelo modo como fez a pergunta, compreendi que o professor era católico. Se respondesse que o livro era protestante, perderia a oferta. Mas só havia uma saída, fosse qual fosse a conseqüência: dizer a verdade. Respondi: – O livro é protestante. – Para surpresa minha, ele disse: – Traga-me o livro. – E acrescentou: – Não estou interessado nele, porque sou católico, mas vou comprá-lo para incentivar você a ser sempre honesto, como foi agora. Eu vi que você compreendeu que, dizendo a verdade, perderia sua oferta. Muito bem, meu rapaz! Seja sempre honesto como você foi agora! Que sábio conselho! Espero que Deus tenha recompensado o bom professor pelo que fez por mim. O trabalho na tesouraria Ao iniciar os estudos no colégio, propus-me a completar o curso Comercial, que preparava a pessoa para trabalhos de escritório, incluindo tesouraria. Depois de estudar contabilidade, fui convidado a trabalhar no escritório do tesoureiro, à tarde. Uma colega de estudos e eu fazíamos todos os lançamentos no Diário e, então, passávamos as informações para o Razão. A colega lia os dados registrados no Diário e eu os inscrevia no Razão. Isso continuou por meses e, durante esses meses, desenvolvi forte afeição pela colega. Mas, temendo não ser correspondido, ocultei meus sentimentos. Veio, então, um convite para eu ir trabalhar como auxiliar de escritório na sede da Missão Paraná-Santa Catarina, em Curitiba. Pouco depois, um telegrama solicitava que eu seguisse para lá sem demora. Arrumei a mala. E chegou o doloroso momento de me despedir da colega de trabalho (Hedwig Braun), que não me deu base alguma para crer que era correspondido no meu amor. Estendi- lhe a mão e ela estendeu-me a sua. Apertei-lhe a mão um pouco mais do que seria próprio numa despedida comum. Ao fazê-lo, senti que ela apertou um pouco mais a minha mão. Isso me levou a apertar mais a dela e, por sua vez, ela apertou mais a minha. A essa altura, com as mãos já “estalando”, os dois olhares se encontraram e completaram a revelação. Não havia mais dúvida. O meu amor era plenamente correspondido. Quão ingrata era a idéia de me ausentar por um ano, sabendo agora que a amizade era mútua, sem ter tempo para cultivá-la! Mas uma surpresa me aguardava: chegando a Santo Amaro, na leiteria lá mantida pelo colégio, encontrei um telegrama do tesoureiro da Missão com os dizeres: “Não venha agora. Aguarde novas instruções!” Isso foi como um presente do Céu. Permaneci no colégio, trabalhando na tesouraria, por mais umas três semanas. Tive tempo para consolidar um romance que, cerca de três anos mais tarde, resultou no meu casamento com a colega de trabalho – Hedwig Braun. O lar que formamos teve a bênção de Deus e foi, por 38 anos, até o falecimento dessa preciosa esposa, um verdadeiro Céu na Terra! Em Curitiba, eu trabalhei como auxiliar de escritório durante o ano de 1929. Buscar a correspondência, fazer pacotes com livros para os colportores e membros da igreja e datilografar as faturas eram o meu trabalho. Na igreja, deram-me o cargo de diretor dos jovens e foi um prazer conduzir as atividades daqueles dedicados moços e moças. Desafio para o ministério Na segunda metade do ano, o presidente da Missão, o pastorGermano Streithorst, numa paternal conversa comigo, disse-me: – Você deve se preparar para ser um pastor, um pregador do evangelho, e não um homem de escritório. Ponderei que já estava adiantado nos estudos do Comercial. Faltava apenas um ano para concluí-lo. Seria difícil uma mudança. – Isso não é problema – disse ele. – Se quiser se preparar para ser um pregador, eu farei arranjos com o colégio [ele era membro da comissão diretora da instituição] para que eles permitam que você estude todas as matérias possíveis sobre a Bíblia. E, se fizerem isso, nós o chamaremos para nosso campo, no fim do ano, para trabalhar na obra bíblica. Aceitei o conselho amigo do presidente. E, retornando ao colégio, no começo de 1930, encontrei preparado um programa que me possibilitava estudar temas bíblicos praticamente desde o nascimento do sol até à noite. Ao se aproximar a formatura, fui, por bondade dos colegas, eleito presidente da classe de graduandos, mas o corpo docente não aprovou a decisão da classe. Motivo: com freqüência, eu era visto conversando com a moça que fora minha colega de trabalho na tesouraria e que já era minha noiva! Consentiram, porém, que eu fosse tesoureiro da turma. Após a formatura, em fins de 1930, recebi um chamado da Missão Paraná- Santa Catarina para trabalhar em Florianópolis. Viajei de navio. O encarregado do trabalho na capital catarinense era o pastor Alfredo Süssmann, nascido e educado na Alemanha. Dispondo de uma casa ampla, o pastor Süssmann bondosamente me convidou para ocupar um dos cômodos. Ele foi um excelente instrutor no que diz respeito ao trabalho em prol da salvação de pessoas. Deu-me também aulas de alemão, língua especialmente útil em Santa Catarina. Passados alguns meses, o pastor Süssmann alugou um amplo terreno, em lugar estratégico, e nele foi armado um pavilhão de lona para a realização de uma série de conferências religiosas. Fui convidado a proferir várias palestras. Bom número de pessoas foi levado a aceitar a Cristo como Salvador. Essa série evangelística foi a primeira em que tomei parte. Após as conferências, fui incumbido de visitar os moradores de Florianópolis, entregando de casa em casa um folheto sobre a segunda vinda de Cristo. Em seguida, entreguei outro folheto, sobre o dia de repouso. Assim, todas as famílias de Florianópolis receberam uma breve mensagem sobre esses dois importantes temas bíblicos. De Florianópolis, fui chamado para auxiliar num projeto evangelístico dirigido pelo pastor Henrique Stoehr, nas cidades de Rio Negro e Mafra. Como sabemos, elas são separadas pelo Rio Iguaçu, que em grande extensão divide os Estados do Paraná e Santa Catarina. Muitas pessoas assistiram às conferências, e o trabalho com elas muito contribuiu para o meu treino. Ministério do novo casal Após esse trabalho, tomei um navio e viajei ao Rio de Janeiro. De lá, fui de trem para Juiz de Fora, MG, a fim de realizar um grande sonho: o meu casamento! O pai de minha noiva, pastor Luiz Braun, fora transferido para aquela cidade. Para celebrar a cerimônia religiosa, minha noiva, Hedwig Braun, e eu convidamos o pastor H. B. Westcott, que fora nosso professor de Bíblia no Colégio Adventista, em São Paulo. Na época, ele era presidente da União Este Brasileira. Depois do casamento, viajamos para o Rio. Soubemos que, ao retornar para casa após o nosso embarque, meu sogro andou de um lado para outro da casa, chorando alto por causa da partida da filha. Quem tem filha compreende isso. Do Rio, prosseguimos viagem de navio para Paranaguá, de onde fomos para Curitiba. Lá passamos alguns dias na casa de amigos. Agora, com alguma experiência na atividade pastoral e já casado, eu deveria começar a trabalhar sozinho. Fomos enviados para Cambará, no norte do Paraná. Eram os dias da revolução de 1932, e tropas do governo federal ocupavam a região, enfrentando as forças paulistas ao longo do rio Paranapanema. No trem em que viajamos, encontramos a esposa do comandante da praça, em Cambará, e minha esposa fez amizade com ela. Chegando àquela cidade, ela nos apresentou ao marido. Ele bondosamente assegurou-nos que estávamos sob sua proteção e colocou-se à nossa disposição para nos ajudar no que precisássemos. Isso era uma coisa valiosa, pois Cambará parecia uma praça de guerra, com todas as saídas bloqueadas por pequenas trincheiras ocupadas por soldados, dia e noite. Nesse tenso ambiente, alugamos uma casa e começamos a trabalhar. Sabendo que eu era um jovem pastor, o comandante me deu um salvo-conduto, autorizando-me a viajar pelas estradas do município. Um dia, indo visitar uma família, cuja casa era a última de uma determinada rua e a qual ficava a uns cinqüenta metros do lado de dentro da trincheira, um guarda, embriagado, encontrou-nos perto da trincheira, em plena área urbana. Deu-me voz de prisão. Ele disse para minha esposa voltar e ordenou que eu o seguisse para a trincheira. Enquanto andávamos, sem nenhum motivo, sacou a baioneta e me deu dois golpes, de prancha. Chegamos à vala da trincheira, junto da qual estava outro soldado, um bom e sóbrio rapaz. O soldado que me prendera começou a vociferar contra mim e a me ameaçar: – Paulista desgraçado! – ele dizia. – Não sei por que não te mato! Uma ou duas vezes, ele chegou a levantar o fuzil, como se fosse atirar. Falei com o companheiro dele e expliquei que eu não tinha nada a ver com a revolução, que era pastor e havia ido àquela área para visitar uma família. Por sinal, a família, aflita em frente da casa, observava o que acontecia. O moço assegurou-me: – Não se preocupe. Ele ameaça, mas não faz nada. Nisso, chegou um automóvel com alguns oficiais e um caminhão com soldados. Saindo do automóvel, um dos oficiais dirigiu-se a mim e perguntou- me: – O que aconteceu? Expliquei-lhe que era pastor e ia visitar a família vizinha, mas o soldado havia me encontrado e me prendido a quase cem metros do lado de dentro da cidade. – Entre no automóvel – disse ele (ambos éramos bem moços) – e o levaremos ao comandante. Chegando lá, o comandante indagou: – Quer que mandemos um soldado para proteger você e sua esposa? No momento em que fui preso, minha esposa havia ido diretamente para o comando. – Obrigado, comandante, mas isso não é necessário. Iremos sozinhos. A propósito, o soldado que me prendeu era oriundo do Rio Grande do Sul. Não havia vindo do Exército nem da Brigada Militar. Era um trabalhador de fazenda, que se associara às forças regulares como voluntário. Pouco depois, ele atacou um homem pacato que passava em frente da pequena casa ocupada por ele e alguns companheiros. Encostou o fuzil engatilhado no peito do homem. Contando-me o ocorrido, o comandante disse: – Mandei “a fera” para a área de combates. Espero que os paulistas o matem. Após vários meses de trabalho em Cambará, fui transferido para Jaguariaíva, onde permaneci por aproximadamente um ano. Ali realizei uma série de conferências públicas no principal cinema da cidade, e construímos uma igreja. Então, fui transferido para Ponta Grossa, a Princesa dos Campos, com a incumbência de fazer rebocar e pintar o bonito templo que tínhamos ali, bem como pagar a dívida da construção do edifício. Ao mesmo tempo, fui encarregado de pastorear todos os grupos e pequenas igrejas ao longo da estrada de ferro São Paulo–Rio Grande, desde Itararé (então parte da Missão Paraná- Santa Catarina) até as cidades de União da Vitória e Porto União. Enquanto eu estava em Ponta Grossa, dois homens da União foram me ajudar em duas campanhas de recolta de donativos. O pastor J. L. Brown foi um deles. Visitamos o gerente de uma cervejaria. Ao pedir-lhe um donativo, o pastor Brown, numa atitude hábil, visando prevenir alguma possível reação contrária, observou: – O senhor sabe que os adventistas falam contra as bebidas alcoólicas. Mas, quanto mais eles falam, mais o povo bebe. O gerente deu-nos vinte mil-réis, o que era um bom donativo. Em outra campanha, tive a ajuda do pastor Manoel Margarido (sogro do pastor João Linhares). Ao entrarmos em uma fina loja,coube a mim a apresentação da obra filantrópica adventista e fazer o pedido de um donativo. O dono da loja tirou da gaveta uma moeda de dois mil-réis e me deu. Tão logo saímos, o companheiro de trabalho começou a ironizar: – Um formado do Colégio Adventista faz uma apresentação toda pomposa, pede ajuda e recebe uma moeda de dois mil-réis. Que vergonha! Suportei a zombaria calado. O apelo seguinte era dele. Entramos em outra loja. O relatório das atividades filantrópicas foi feito com entusiasmo e de modo calculado a impressionar. Então veio o apelo. O negociante pôs sobre o balcão a sua ajuda: uma moeda de dois mil-réis! Saímos à rua e o jovem obreiro começou: – Incrível! O diretor de colportagem da União, vindo especialmente de São Paulo para este trabalho, com toda a sua experiência e pose, faz forte apelo por ajuda. E recebe dois mil-réis! Praticamente uma esmola! – Cale a boca, rapaz! – atalhou ele, num misto de quem brincava e falava sério. Em Ponta Grossa, nasceu nosso primeiro filho, Cláudio, que foi um encanto para o lar paterno! Casou-se em 1956 com uma colega de estudos, Eunice Alvarenga, e tiveram três filhos: Leila, Leilanie Susie e Bob Rabello. A mudança para Curitiba Chegou o tempo para uma nova mudança. Dessa vez, era para Curitiba. Ali acabava de ser construído um bonito e espaçoso templo. O nome de pagador de dívidas vinha sendo aplicado ao jovem pastor. E fui chamado para lá a fim de pastorear a principal igreja adventista da cidade e pagar cinqüenta contos de réis, saldo das despesas com a construção do novo templo, situado à Rua Ermelino de Leão, 170. Permanecemos dois anos nessa boa cidade. Ali, em 1936, fui ordenado pastor. Também realizei com êxito, graças ao Senhor, três séries de conferências – uma na igreja e duas em pavilhão de lona. Tive a eficiente ajuda de um colega e amigo, o pastor Waldemar Ehlers. Incidentemente, enquanto estava em andamento uma das séries de conferências realizadas na grande tenda, falei uma noite sobre a luta entre o capital e o trabalho, apresentando-a como um sinal de que vivemos nos últimos dias e a volta de Cristo está próxima. No dia seguinte, um funcionário da polícia foi à tenda e me informou que o delegado pedia minha presença no seu gabinete. Dirigi-me para lá imediatamente e fui introduzido à presença da autoridade. Enquanto alguns policiais se postavam junto de mim, o delegado puxou um exemplar do convite em que eu havia anunciado o tema. – Foi o senhor quem imprimiu e distribuiu este convite e ontem abordou este tema? – indagou, apontando para o título: “O Conflito Entre o Capital e o Trabalho”. Respondi afirmativamente. – Explique-nos o que quer dizer com este tema – prosseguiu o delegado. Expliquei-lhe o significado do assunto e, para comprovar que tudo era de caráter religioso, chamei-lhe a atenção para o tema seguinte, sobre o reino celestial, creio que intitulado “A Glória do Reino de Deus”. – Qual é a sua igreja! – perguntou. – Igreja Adventista do Sétimo Dia. Sou pastor. Evidentemente, o delegado conhecia os adventistas. E, a essa altura, concluiu: – Está bem. Pode se retirar. Por que a preocupação do delegado? Na mesma noite em que abordei aquele tema, houve no Rio de Janeiro a Intentona Comunista, que visou implantar no Brasil o regime “vermelho”. Infeliz coincidência! Muitos membros da Igreja de Curitiba, como da população em geral, eram de origem alemã e preferiam expressar-se em alemão. O pouco do alemão que eu aprendera em Florianópolis foi-me muito útil no trabalho. “Guten Morgen”, “Wie geht es Ihnen” e muitas outras expressões tinham de ser usadas com freqüência. Com efeito, um moço da igreja disse-me um dia, exagerando: “Aqui em Curitiba, quem não fala alemão não tem cotação!” Finalmente, mencionarei que em Curitiba nasceu nossa filha, Lucila, que seria íntima amiga da mãe e é até hoje o “ídolo” do pai. Com cerca de 20 anos, ela se casou com o jovem Léo Ranzolin, que fora seu colega de estudos no Colégio Adventista, em São Paulo, e é hoje um dos secretários associados da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, com sede em Washington, DC, Estados Unidos. [Mais tarde, Léo se tornaria vice-presidente da organização, função que exerceu por 13 anos, até sua aposentadoria em julho de 2003. Agora, a família Ranzolin reside na Flórida.] Mudança para a Cidade Maravilhosa Chegou o tempo de dizer adeus à Cidade Sorriso. Após dois anos de trabalho em Curitiba, fui chamado para o Rio de Janeiro, onde deveria assumir o pastorado da nova Igreja Central, que acabava de ser construída, e mais três congregações (a de Olaria, a de Niterói e a de Petrópolis). Na Cidade Maravilhosa, permaneci por três anos. Cuidar de quatro congregações, visitando cada membro duas vezes por ano e realizando ainda algumas campanhas evangelísticas, não foi tarefa leve. Mas foi executada com prazer e entusiasmo. Passados três anos, fui chamado para Campos, interior do Rio de Janeiro. Como homem do Sul, apegado às coisas do sul do país, eu preferia retornar aos estados em que antes trabalhara. Falei sobre isso com o pastor N. P. Neilsen, então presidente da Divisão Sul-Americana. Expressei-lhe o desejo de voltar para o Sul e disse-lhe que me sentiria derrotado se não pudesse voltar. Ele ouviu minhas razões; então, com firmeza e bondade, disse: – A comissão votou que o irmão vá trabalhar em Campos. Seu lugar agora é em Campos. Se o irmão não for para lá, aí é que vai ficar derrotado. Sempre procurei ser obediente às decisões das comissões diretoras. Ouvindo isso do pastor Neilsen, eu me apressei em dizer-lhe: – Se a comissão me manda para Campos, para Campos irei. O assunto está encerrado. Essa conversa ocorreu à sombra de uma árvore do campus do Colégio Adventista Brasileiro, em São Paulo. Voltando ao Rio, engradei mais uma vez os meus poucos móveis, para mais uma mudança. As mudanças já haviam sido tantas que minha esposa nos comparava a um badalo de sino – ora estávamos aqui, ora lá. Abrindo um parêntesis, no decorrer dos anos em que trabalhei no Rio de Janeiro, expressei a um e outro líder da igreja meu intenso desejo de estudar num dos nossos colégios nos Estados Unidos. Pouco antes, dois ou três colegas haviam sido enviados para estudar no Pacific Union College, na Califórnia. Eu tinha grande esperança de que tal privilégio me fosse dado também. Nas palavras do pastor Neilsen (“Se o irmão não for para Campos, aí é que vai ficar derrotado”), eu quis ver uma velada promessa de que o almejado privilégio me seria estendido. Fui para Campos porque procurava ser obediente, mas também porque nutria essa esperança. Campos, capital da área açucareira do Estado do Rio, era a sede de um distrito das atividades da Igreja Adventista que se estendia de Magé, não longe de Niterói, até a divisa com o Estado do Espírito Santo. Além da boa igreja que existia na sede (Campos tem hoje um dos maiores templos adventistas do Brasil), havia grupos e até membros isolados por toda parte do vasto distrito. Porém, em harmonia com o modo de agir que eu havia cultivado, visitei cada família duas vezes no decorrer do primeiro ano de atividades. Grande parte do distrito era constituída da Baixada Fluminense, que àquele tempo não havia sido completamente saneada, e corria-se nela o perigo de contrair malária. Para me proteger da perigosa doença, eu levava comigo um mosquiteiro, que armava sobre a cama. Certa vez, visitando uma localidade em que havia malária, após pregar à noite ao grupo de membros, fui convidado a ocupar um quarto da casa. Armei o mosquiteiro e me preparava para deitar quando o dono da casa bateu à porta e entrou no quarto. – Para que isso, irmão?– indagou, olhando para o mosquiteiro. Expliquei-lhe que era para me proteger dos mosquitos da malária. – Nada disso, irmão – observou. – A malária não vem de mosquito, vem do pantano. – Ou seja, pântano pronunciado à maneira de meu bom anfitrião. Insisti com ele que a doença vem de uma variedade de mosquito que contrai a doença e, ao picar uma pessoa, injeta nela os germescausadores da malária. – Os cientistas estudaram o assunto e constataram isso – argumentei. – É coisa provada. – Qual nada, irmão! – atalhou ele. – Cientista lá entende dessas coisas? Nós aqui é que entendemos. Nós é que sabemos de onde vem a malária. A convicção dele era absoluta. E encerramos o assunto. A grande notícia Poucos meses após iniciar minhas atividades em Campos, recebi a grande notícia de que fora indicado para estudar nos Estados Unidos, no já referido Pacific Union College. [Léo Jr., neto do pastor Rabello, estudou nesse colégio e hoje é professor e diretor do curso de Teologia ali.] Minha satisfação foi imensa. E, com muito mais dedicação e alegria, continuei atendendo os irmãos do distrito e trabalhando para a conquista de novos conversos. Porém, foi com tristeza que, menos de um ano mais tarde, minha família e eu nos despedimos dos irmãos campistas, a quem aprendemos a amar. Para a viagem aos Estados Unidos, devíamos tomar um dos três navios da chamada Frota (norte-americana) da Boa Vizinhança, respectivamente chamados Brasil, Uruguai e Argentina. E quem viajaria conosco? Os pastores N. P. Neilsen e J. L. Brown, que iam assistir à sessão quadrienal da Igreja Adventista, a realizar-se em San Francisco, Califórnia. A viagem ocorreu na primeira metade de 1941, quando a Segunda Grande Guerra estava em pleno desenvolvimento. E de ambos os lados do navio havia sido pintada uma bandeira americana, iluminada a noite inteira. Os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra. Após onze ou doze dias de agradável viagem, desembarcamos em Nova York, de onde prosseguimos para Washington. Na Associação Geral, o pastor Neilsen apresentou-nos aos encarregados da hospedagem de visitantes e fomos instalados num apartamento do Hospital Adventista de Takoma Park, cidade satélite de Washington. No hospital, ao perguntarem quem pagaria as despesas do apartamento e as refeições, a resposta de quem nos levou foi: “They are General Conference guests” (eles são hóspedes da Associação Geral). Além desse gesto de bondade, providenciou-se para que a esposa de um dos líderes da igreja nos conduzisse de automóvel a lugares de grande interesse turístico da capital dos Estados Unidos, como os monumentos a Washington, a Lincoln e a Jefferson. Enquanto visitávamos esses locais, minha esposa e eu, usando o pouco de inglês aprendido no colégio, fizemos comentários a respeito de diversos personagens da história e da política do país. Isso causou admiração à senhora que nos conduzia. – Como vocês conhecem esses homens? – indagou ela. – Os Estados Unidos estão na liderança do mundo e os nossos jornais com freqüência escrevem sobre seus dirigentes – respondemos. Para a viagem transcontinental de trem, tivemos de novo o prazer da companhia do pastor Neilsen, que foi para nós qual solícito pai. A duração da viagem foi de mais ou menos quatro dias e quatro noites, mas fizemos o percurso em carro leito, por causa dos filhos ainda pequenos. Entre as curiosidades da viagem, posso destacar as vastas plantações de trigo e outros cereais, principalmente na parte central do país, o Centro-Oeste. O grande número de automóveis nas cidades e estradas (por sinal, muito bem pavimentadas) levou o visitante a cunhar a expressão “plagued country” (país vítima de praga). Hoje, o Brasil apresenta quadro semelhante. No Estado de Utah, tivemos a atenção voltada para as muitas casas com duas chaminés. – Por que isso? – perguntamos ao pastor Neilsen. – Porque o morador tem duas esposas. E cada uma tem a sua própria cozinha – ele explicou. Utah é o estado em que há muitos mórmons e eles, a princípio, eram polígamos. O professor Dario Garcia, que lá estudara e depois seria diretor do Colégio Adventista Brasileiro, em São Paulo, havia terminado os estudos e estava para retornar ao Brasil com a família. Combinamos que eu ficaria com a casa em que moravam. Como éramos concunhados (nossas esposas eram irmãs), instalamo- nos na casa antes deles viajarem. Cerca de duas semanas depois, descemos a San Francisco para assistir à assembléia da Associação Geral, pois o professor Garcia e eu havíamos sido eleitos delegados à mesma. Que festa espiritual! Por vários dias, ouvimos consagrados pregadores e relatórios que descreviam o avanço do evangelho. Que agradável experiência encontrar delegados de quase todos os países, pessoas de cores e trajes diferentes e falando línguas diferentes! Na verdade, o plano do Céu é que o evangelho seja levado a “cada nação, e tribo, e língua, e povo” (Ap 14:6). Nesse encontro, como em todas as sessões gerais, foram eleitos os dirigentes da igreja para o quadriênio [hoje qüinqüênio] seguinte. A família no Pacific Union College De San Francisco, retornamos ao colégio. Poucas semanas depois, iniciou-se o ano escolar. Eu dispunha de apenas dois anos para os estudos, e era o meu objetivo completar o curso teológico naquela instituição (os estudos do Brasil deram-me cerca de metade dos créditos necessários). Assim, assumi uma intensa carga de estudos. Isso significava longas horas diárias debruçado sobre os livros. Havia também o problema da compreensão do inglês. O que eu tinha aprendido com professores americanos no colégio em São Paulo era pouco; e o que tinha aprendido pela leitura dos livros em inglês, depois do trabalho, não era de grande ajuda. Eu conhecia o sentido das palavras escritas, mas não a sua correta pronúncia. Por isso, era necessário prestar total atenção ao que o professor dizia, especialmente nos primeiros seis meses de aulas. Tudo isso implicava grande esforço. Se, por um lado, a carga de estudos requeria longas horas diárias de preparação das matérias, por outro lado, a escassez dos recursos financeiros impunha a necessidade de trabalhar o quanto desse. A ajuda mensal recebida do Brasil era de apenas 65 dólares. Por isso, o subgerente do colégio disse um dia: “It is not enough even for the groceries” (não dá nem para os comestíveis). Minha esposa, gracejando, dizia: “Não dá nem para as grosserias.” As obrigações que eu tinha: pagar os estudos (50% do custo), adquirir livros e sustentar a família. Era imperativo reforçar essa pequena soma com dinheiro ganho pelo trabalho à tarde e aos domingos. Começamos trabalhando no setor que cuidava da instalação de água, esgotos e gás nas casas. Eu fazia o melhor, juntamente com outros estudantes, cavando valas e trabalhando nas casas, como um profissional. A diligência e o esmero com que fazia o trabalho conquistaram a confiança e a boa vontade do chefe daquele departamento. No início de um período de férias de verão, ele reuniu todos os que planejavam permanecer no colégio para trabalhar e anunciou: – Neste verão, elevaremos o máximo do salário de 25 para 35 centavos de dólar por hora. – Então acrescentou, para surpresa de todos: – Quando produzirem muito e fizerem trabalho bem-feito, como o Rabello faz, receberão o máximo. Ouvindo isso, pensei que havia compreendido mal o boss (chefe). Porém, ao sairmos da reunião, os colegas me cercaram, dizendo: – Então você é o nosso modelo de trabalho! – A consideração que me dispensava o chefe foi uma surpresa para mim, mas foi também um estímulo para eu fazer o melhor que podia. No decorrer do primeiro ano de estudos, os fiscais do governo constataram que minha esposa não estava estudando o mínimo requerido dos estudantes estrangeiros. Foram ao colégio e pediram que eu a chamasse para ser interrogada na sala do professor encarregado do controle de alunos de outros países. A ameaça foi: “Ela corre o perigo de ser deportada.” Comparecemos juntos à presença dos dois oficiais, um deles escrivão. Várias perguntas foram feitas e as respostas anotadas. Um dos pontos registrados pelo escrivão foi que tínhamos dois filhos pequenos e o cuidado deles requeria muito tempo da mãe. Ao se retirarem, acompanhei-os até perto do seu automóvel e apelei para que não deportassem minha esposa. – Não se preocupe – responderam. – Dê-nos uns dias para agirmos. Nós entendemos o seu problema. Cerca de vinte diasdepois, minha esposa recebeu um documento do Ministério da Justiça mudando o seu status de estudante para o de residente permanente. Algum tempo depois, fui designado para trabalhar na horta e numa área maior em que havia plantações diversas. Foi mandado para lá um grupo de rapazes de aproximadamente 15 anos. Parte da minha responsabilidade era mantê-los ocupados. É fácil imaginar que a preferência deles era conversar e brincar. Os esforços do “chefe” para fazê-los trabalhar eram encarados como estranhos e, em geral, resistidos. Como forma de zombar do “chefe”, o apelidaram de Sanka, nome de certa marca de café descafeinado. O sentido era que o “chefe” havia perdido 98% da razão, assim como 98% da cafeína tinham sido removidos do café. O início da Voz da Profecia no Brasil Numa tarde, enquanto eu trabalhava na horta do colégio, um auxiliar da administração me disse: – O gerente pede que você vá ao escritório dele. – Fui até lá e ouvi o seguinte: – A Associação Geral pede-lhe que vá a Glendale [cidade satélite de Los Angeles] e apresente-se à direção da Voz da Profecia. É plano da Associação Geral estender a Voz da Profecia à América Latina, e a sua ida a Glendale deve ter relação com isso. Aqui está uma quantia em dinheiro para as despesas de viagem. Chegando a Glendale, fui à sede da Voz da Profecia e me foi revelado que a minha voz e a de outro brasileiro, o pastor João Linhares, seriam testadas para a escolha de um responsável pela preparação de programas de rádio para o Brasil. O teste foi feito e a escolha, por bondade dos encarregados do teste, recaiu sobre mim. Para coordenar os trabalhos de produção de programas, achava-se em Glendale o pastor W. P. Bradley, secretário associado da Associação Geral. Ele explicou os detalhes do plano: – Deverão ser preparados 52 programas por ano. Serão programas de meia hora, um para cada semana. A princípio, os programas serão traduzidos dos programas em inglês. Você deverá vir a Glendale a cada dois ou três meses e ficar aqui duas semanas, traduzindo e gravando programas. O colégio não vai puni-lo pelas ausências de 15 dias, mas você terá de fazer tudo o que os demais alunos fazem, bem como prestar todos os exames semestrais. Isso significaria trabalhar muito de dia e estudar muito à noite. Era uma carga pesada. Sem a menor demora, coloquei mãos à obra, traduzindo sermões do pastor H. M. S. Richards, orador da Voz da Profecia nos Estados Unidos. Os cânticos a serem usados nos programas deveriam ser gravados pelo quarteto do pastor Richards, constituído, naturalmente, de norte-americanos. Exigia-se muito trabalho para levar o grupo a pronunciar aceitavelmente as palavras em português, língua de que nenhum deles tinha a menor noção! A gravação de um cântico requeria horas de treino da pronúncia. Por vezes, havia comentários zombeteiros sobre as “estranhas” pronúncias das palavras. Certa vez, um dos moços observou, num misto de queixa e zombaria: – Este português! Eles escrevem de um modo e pronunciam de outro! Não dá para entender. Procurando desarmar o rapaz, chamei sua atenção para algumas peculiaridades do inglês. Eu observei que, no caso do verbo to read (ler), o presente e o passado têm a mesma grafia, como sabem os que conhecem o inglês: I read (eu leio, no presente) e I read (eu li, no passado). Mas a pronúncia da palavra read é diferente: no presente é rid, no passado é réd! Consciente dessa discrepância da sua língua materna, o rapaz deixou a crítica de lado e continuou se esforçando por aprender a pronúncia das palavras em português. Dentro de aproximadamente um ano, foram preparados e gravados 52 programas, com cânticos bastante aceitáveis apresentados pelo quarteto. Muitos discos foram prensados e enviados para o Brasil. E, em 23 de setembro de 1943, dezessete emissoras das principais cidades do país começaram a irradiar a Voz da Profecia! Em meados de 1943, formei-me no Pacific Union College, tendo participado de uma classe de 83 graduandos. Alguns dias antes da formatura, o professor Milton E. Kern, diretor do Seminário Teológico Adventista, em Washington, visitou o colégio e me convidou para freqüentar aquela instituição. Uns quatro anos depois, os dirigentes da igreja na América do Sul me permitiram fazê-lo. Duas vezes me foi concedido estudar no seminário, seis meses de cada vez. Após a formatura no Pacific Union College, fui solicitado a permanecer em Glendale por um ano, a fim de preparar mais programas para o Brasil. Aluguei casa, matriculei ambos os filhos na escola e minha esposa recebeu trabalho na sede da Voz da Profecia. E eu dediquei meu tempo integral às traduções dos programas. Com a experiência que eu adquirira na preparação das duas primeiras séries de programas, o pastor Bradley me informou: – Agora, sinta-se livre para preparar seus próprios programas. Retorno à pátria Chegou o dia de retornarmos ao Brasil. Foi com pesar que nos despedimos da “família da Voz da Profecia”, constituída então de umas cem pessoas. A Segunda Grande Guerra ainda assolava o mundo. Não havia navios de passageiros que nos trouxessem ao Brasil. A costa atlântica das Américas era considerada zona de operação de guerra, e o governo norte-americano não permitia que aviões com famílias fizessem esse percurso. A solução era viajar em algum avião que voasse pela costa do Pacífico. Fomos de trem para a cidade de Nova Orleans, onde esperamos um avião para nos levar à capital do Panamá. Após dois dias ali, prosseguimos até Lima. Na capital peruana, permanecemos seis dias, e lá, como no Panamá, fomos alvo da bondade dos nossos irmãos, que nos dispensaram toda a atenção possível. De Lima voamos para La Paz. Para transpor a Cordilheira dos Andes, o avião subiu muito e todos nos sentimos mal pela rarefação do ar. Ao descermos em La Paz, cuja altitude é de mais de 3.600 metros, estávamos pálidos e praticamente sem forças. Voando dali para Santa Cruz de La Sierra, na baixada boliviana, o piloto convidou nossos filhos para irem à cabine de comando. Após cerca de 20 minutos, ele os levou de volta até nós. Ao entregar-nos as crianças, me perguntou: – O senhor acha que vai gostar do Brasil? Respondi: – Como não, se sou brasileiro?! – O senhor é brasileiro? Como se explica, então, que seus filhos falam inglês com perfeição? – O avião e a tripulação eram americanos. Informei-lhe que havíamos vivido cerca de três anos no seu país. E crianças aprendem uma língua estrangeira depressa. Após deixarmos Santa Cruz, notei que minha esposa estava com a fisionomia alterada, expressando grande preocupação. Perguntei-lhe: – O que há com você? – Tenho medo de que, ao chegar ao Brasil, serei presa e mandada não sei para onde. A razão de seu medo era o fato de ser cidadã da Alemanha, país em guerra com o Brasil. O passaporte, embora brasileiro, declarava ser ela alemã. Procurei animá-la, lembrando de que o passaporte dizia também que era casada com o cidadão brasileiro Roberto M. Rabello. Ela era esposa de um brasileiro e mãe de dois filhos brasileiros. Assegurei-lhe: – Eles não vão prender você. E, se a prenderem, irei com você aonde quer que for. Estarei ao seu lado o tempo todo. Mas nada de mal vai acontecer. As autoridades brasileiras não seriam capazes de praticar tal violência. Ao chegar a Corumbá, dirigimo-nos ao local de inspeção dos passaportes. Entreguei os dois passaportes ao inspetor. Ele os examinou e chamou primeiro minha esposa. Logo carimbou o passaporte dela e, entregando-lhe, disse: – Bem- vinda ao Brasil, Sra. Rabello! – Devido às circunstâncias, seria difícil uma recepção mais agradável. De Corumbá voamos para São Paulo num pequeno avião, com capacidade para uns doze passageiros. Na capital paulista, chegava ao fim nossa longa viagem – longa quanto à distância e ao tempo. Dezenove dias haviam se passado desde que partimos de Los Angeles até chegarmos a São Paulo. Tomando um táxi em São Paulo, juntamente com a família, perguntei ao motorista se ele era ouvinte do programa A Voz da Profecia. – Sim – ele respondeu. E acrescentou:– A impressão que se tem é que o orador do programa é um americano que viveu muito tempo no Brasil, ou um brasileiro que viveu muito tempo nos Estados Unidos. Sabe-se que, imperceptivelmente, a entonação da voz é afetada pelo modo de falar de um povo com o qual se convive por algum tempo. Mas que eu próprio houvesse sofrido tão grande influência do meio americano, foi-me não pequena surpresa. Visita aos familiares De São Paulo, fomos para a casa em que residia meu sogro, o pastor Luiz Braun, numa chácara junto ao Colégio Adventista Brasileiro. Ao transpormos o portão, fomos vistos pelo idoso servo do Senhor, que, acompanhado da esposa, saiu ao nosso encontro com os braços erguidos e exclamando: – Kinder! Kinder! [Crianças! Crianças!] – Era uma referência aos netos, que iam à frente e aos quais abraçaram emocionados. Abraçaram também, com muito afeto, a filha e o genro. Foi um feliz reencontro para todos. [Lucila relata que, quando seus pais voltaram para o Brasil, ela ganhou uma enorme boneca. Logo ao chegarem, foram à casa do pastor Domingos Peixoto da Silva, e sua tia Emília, a mais velha das Braun, embrulhou a boneca. A Sra. Ana Braun pensou que sua filha tivera mais um bebê. Foi correndo ao quarto, abriu o embrulho e, para sua surpresa, encontrou a linda boneca. Foi uma gargalhada geral.] Os primeiros anos da Voz Para tomar conta da correspondência dos ouvintes e das lições dos alunos da Escola Radiopostal da Voz da Profecia, fora instalado um escritório em Niterói, Estado do Rio. A irmã Ilka Reis era a pessoa encarregada do escritório, ou seja, a primeira instrutora da Escola Radiopostal. Assim, fomos para Niterói e alugamos uma casa. Isso foi em 1945. O trabalho cresceu rapidamente. Dentro de vinte anos, o número de emissoras subiu para mais de 300. O volume da correspondência aumentou muito. Alugamos, então, uma espaçosa casa de dois andares em Niterói. Ali instalamos o escritório e a Escola Radiopostal. A casa também serviu de residência para minha família e para alguns obreiros da instituição. Depois de algum tempo, começamos a sonhar com uma sede própria. A Divisão Sul-Americana, sede administrativa da Igreja Adventista para a América do Sul, aprovou o plano e passamos a angariar fundos para financiar o empreendimento. Embora gostássemos de Niterói, compreendemos que a cidade do Rio de Janeiro era o centro ideal para a nova sede. Cerca de 50 terrenos da então Capital Federal foram vistos e considerados. Por fim, optamos por um no bairro do Botafogo, onde erigimos o prédio, com a generosa ajuda financeira da Divisão Sul-Americana. Em 1962, o edifício foi inaugurado, numa cerimônia que contou com a honrosa presença do presidente da República, Dr. Juscelino Kubitscheck. A vasta dependência desse prédio, que constituiu o Auditório Guanabara, destinava-se a servir como centro evangelístico da Voz da Profecia. A Voz da Profecia foi o primeiro programa religioso de âmbito nacional transmitido pelo rádio. Isso contribuiu para seu forte impacto. Milhares tornaram-se assíduos ouvintes do mesmo. Sendo que poucas pessoas possuíam rádio naquele tempo, alguns amigos do programa instalaram alto-falantes nas fachadas de suas casas para que os vizinhos pudessem ouvi-lo. Na Bahia, uma família inteira de certa área rural se dirigia uma vez por semana a uma cidade próxima, à noite, para ouvir o programa irradiado de Salvador. Mais tarde, um membro da família me informou que todos se tornaram adventistas. Ao longo dos anos, não poucos ouvintes nos têm escrito informando que ouvem as mensagens da Voz da Profecia ajoelhados junto ao rádio! Ouvintes influentes Pessoas cultas e de elevada posição social tornaram-se apreciadoras dos programas. Após uma reunião religiosa realizada em Belo Horizonte, a que esteve presente o então governador de Minas Gerais, Dr. Magalhães Pinto, fui apresentado a ele como o orador da Voz da Profecia. O governador surpreendeu- me com as palavras: – Eu ouço o programa todos os domingos. Anos mais tarde, quando eleito presidente do Brasil, o Dr. Tancredo Neves disse ao administrador da Voz da Profecia: – Eu sou fã do programa! Após uma conferência que proferi em Mirassol d´Oeste, Mato Grosso, quatro pessoas relativamente jovens – dois homens e duas mulheres – se apresentaram a mim. Um dos homens se identificou como membro da Assembléia Legislativa do Estado e apresentou-me o companheiro como sendo o secretário da Assembléia. As duas mulheres, dando-me os respectivos nomes, eram esposas de deputados estaduais. Todos ouviam a Voz da Profecia. Calorosamente, cumprimentei os distintos visitantes, tomando nota de seus nomes para enviar cópias de nossas palestras. Uma senhora que residia em Brasília e era funcionária do Ministério do Exterior tornou-se assídua ouvinte da Voz da Profecia.Tendo perdido contato com o programa durante três anos, casualmente o localizou um dia. Pouco depois, nos disse: – Confesso que, ao encontrar de novo o programa, chorei de alegria! Houve um caso de particular interesse. Uma pessoa residente em São Paulo buscava o caminho da salvação. Orou ao Senhor pedindo orientação divina. Teve então um sonho em que lhe foi dito: “Se quer encontrar o caminho para o Céu, ouça o programa radiofônico A Voz da Profecia.” Nosso amigo fez isso e se tornou membro da Igreja Adventista. Uma firme orientação da Voz da Profecia tem sido evitar ataques a outras igrejas, nos seus programas de rádio. Cremos que Deus tem filhos em todas as ramificações da cristandade e que, se lhes pregarmos a verdade, os erros que houver entre eles cairão por si mesmos. Como resultado dessa orientação, temos sinceros amigos entre os líderes de outras igrejas. Um padre de Juiz de Fora recomendou a um amigo ouvir a Voz da Profecia, assegurando-lhe: – Você não poderá encontrar nada mais bíblico. – A irmã superiora de um convento de Santo Antônio, Rio Grande do Sul, concedeu-nos o auditório do convento para a apresentação de uma palestra religiosa. Ela própria assentou-se conosco à plataforma. Em Joinville, Santa Catarina, o padre encarregado da matriz católica da cidade cedeu a igreja para a realização de um programa pelo orador da Voz da Profecia e o nosso quarteto vocal. Muitos pastores evangélicos são amigos do nosso programa. Num encontro de radioevangelistas ocorrido em São Paulo e no qual foi constatado que sou o decano da classe, os pastores presentes referiram-se à Voz da Profecia e a mim com singular carinho e consideração. É desnecessário dizer que devemos esses triunfos do programa ao fato de que a mensagem pregada é a mensagem do Céu e de que a bênção de Deus tem acompanhado o trabalho da Voz da Profecia. Novo quarteto e novo estúdio Durante cerca de vinte anos, a gravação dos nossos programas foi feita nos estúdios da Voz da Profecia nos Estados Unidos. Os cânticos usados eram do quarteto americano e de Del Delker, solista do programa em inglês. Naquele país, eram também prensados os discos para uso no Brasil. Isso requeria que eu anualmente viajasse aos Estados Unidos. A minha esposa me acompanhava nessas viagens, pois ela era minha secretária. Mas, pouco depois da inauguração da nossa sede própria, instalamos nela um bem equipado estúdio de gravação. E organizamos um quarteto brasileiro. Os primeiros integrantes foram: Henry Feyerabend, Luiz Mota, Joel Sarli e Samuel Campos. Dessa época em diante, os programas passaram a ser gravados em nosso próprio estúdio, com música cantada pelo nosso quarteto. Os discos eram prensados no Rio de Janeiro. Promoção e datas especiais Pouco depois do início das irradiações, viu-se a conveniência de estabelecer contato pessoal com os ouvintes do programa. Comecei, então, a viajar pelo país realizando reuniões de cidade em cidade. A princípio, tive a companhia do diretor das atividades do rádio da respectiva Associação ou Missão. Em 1963, tivemos a visita do quarteto norte-americano, que se apresentou em reuniões realizadas nas principais cidades da costa brasileira, desde Belém até Porto Alegre, para celebração dos 40 anosdo programa. No Rio de Janeiro, eles cantaram no Maracanãzinho, perante uma multidão de mais de 30 mil pessoas. Calcula-se que, em toda a viagem, eles foram ouvidos por meio milhão de pessoas. Ao completarmos 25 anos, em 1968, tivemos a honrosa visita do fundador da Voz da Profecia nos Estados Unidos, pastor H. M. S. Richards, que se fez acompanhar da esposa, do organista Bradford Braley e esposa, e da cantora Del Delker. Esses visitantes também se apresentaram nas principais cidades do país e foram igualmente muito apreciados. A essa altura, já tínhamos nosso próprio quarteto, que anualmente nos tem acompanhado nas viagens, ora pelo norte, ora pelo centro, ora pelo sul do Brasil. No decorrer dos anos, mais de duas centenas de cidades, grandes e pequenas, foram visitadas, várias delas muitas vezes. Falei em lugares famosos, como o Teatro Amazonas, em Manaus; o auditório da Secretaria de Saúde, em Belo Horizonte; o Teatro Santa Isabel, em Recife; o Teatro da Paz, em Belém; o Teatro Municipal de São Paulo; o Teatro Guaíra, em Curitiba; e o Teatro São Pedro, em Porto Alegre. Visitamos Macapá, onde fomos ver o marco edificado sobre a linha do equador. Junto desse marco, pudemos colocar um pé no hemisfério sul e outro no hemisfério norte. Uma curiosidade: a Igreja Adventista de Macapá acha-se edificada sobre a linha do equador e tem o púlpito no hemisfério norte e a nave no hemisfério sul. Um grande sonho realizado Em 1966, tive o privilégio de visitar a Europa e as terras bíblicas. A viagem foi feita na companhia de diversos pastores, alguns acompanhados das respectivas esposas. Gastamos longas horas no Museu Britânico, em Londres, e no Museu do Louvre, em Paris. Em Roma, um verdadeiro museu de antiguidades, vimos as catacumbas – túneis subterrâneos de centenas de quilômetros de comprimento, abertos por exploradores de pedreira. Nelas, os cristãos sepultavam seus mortos e se abrigavam quando perseguidos. Vimos, na Basílica de São Pedro, a estátua de Moisés, esculpida por Michelangelo. Essa estátua tem acabamento tão perfeito que parece faltar-lhe apenas vida. Há uma pequena marca junto a um dos joelhos da estátua e, explicando a origem dela, nosso guia disse: “Ao completar sua obra, o artista, impressionado com a perfeição da mesma, gritou ‘Parla!’ [fala!] e bateu com o martelo onde está a marca”. Na Capela Sistina, vimos o grande quadro do Juízo Final, pintado por Michelangelo. Visitamos a Prisão Marmetina, masmorra em que, segundo a tradição, o apóstolo Paulo foi lançado, na sua segunda prisão. Igualmente segundo a tradição, ele teria sido decapitado naquele local, num ponto junto da Via Óstia, ao sul de Roma. Da capital italiana, seguimos para Atenas, onde apreciamos o Partenon e um pouco da glória da inigualável arte da antiga Grécia. Então, voamos à cidade do Cairo, onde vimos as pirâmides, a Esfinge e o Nilo. Para mim, o Egito lembra o antigo Israel, em particular Moisés. O museu do Cairo, com suas relíquias do antigo Egito, em particular as do reino de Tutankâmon, mereceu também longas horas do nosso tempo. Do Cairo, fomos para o Sinai, onde Deus pronunciou os Dez Mandamentos – santos princípios do Seu reino. Na manhã de um sábado, subimos, com emoção, ao cume do monte e, na pequena capela lá construída, realizamos um culto ao Senhor. Do Egito, seguimos para Beirute. Próximo dessa cidade, visitamos a área em que crescem os famosos cedros do Líbano. Prosseguindo de Beirute junto com alguns companheiros de viagem, fomos ao sítio da antiga Babilônia, onde é agora o Iraque. A despeito dos 1.800 anos em que ela tem estado deserta, suas ruínas testificam que Babilônia foi de fato “a jóia dos reinos” (Is 13:19). Reunindo-nos aos demais companheiros em Beirute, seguimos depois para a Palestina. De caminho, detivemo-nos em Damasco, onde visitamos a Rua Direita, em que Paulo passou algum tempo após sua conversão. Também visitamos o ponto do muro da cidade em que o apóstolo foi descido num cesto, ao fugir dos que tentavam matá-lo (At 9:11, 19, 25). Chegamos, por fim, ao que seria o ponto alto da viagem: o território que é agora o Estado de Israel, a terra em que Jesus nasceu e realizou a Sua obra maravilhosa em prol da humanidade. Na Igreja da Natividade, em Belém, visitamos o lugar onde Ele nasceu. No pavimento de uma sala, no subsolo, há uma área elevada, com os dizeres em latim: “Aqui nasceu Jesus Cristo, da Virgem Maria.” Visitamos Nazaré, onde Jesus cresceu. Na ida para lá, bebemos água do famoso Poço de Jacó, em Samaria, lembrando que o próprio Senhor certa vez bebeu água do mesmo. Visitamos o Mar ou Lago da Galiléia, cujas águas revoltas, numa tempestade, Jesus acalmou. Descemos também ao Mar Morto, que está a cerca de 400 metros abaixo do nível do mar. Vimos pessoas boiando nas águas supersalgadas do mar, permanecendo à tona sem fazer esforço. Visitamos o Jardim do Getsêmani, onde o Salvador Se angustiou ao tomar definitivamente a decisão de assumir os pecados da raça culpada e morrer em nosso lugar. Foi com reverência que pisei aquele pedaço de terra em que, num sentido, decidiu-se a luta entre o bem e o mal. Vimos igualmente a colina do Gólgota, onde Jesus foi crucificado. Também o lugar da sepultura, de onde Ele Se ergueu ao terceiro dia. Senti profunda emoção ao contemplar esses lugares em que o Filho de Deus sofreu por nós e, assim, abriu-nos as portas da salvação. De Israel, voamos para Atenas, onde deixamos os dois automóveis alugados na França. Prosseguindo viagem, passamos por Tessalônica e entramos na Iugoslávia (hoje dividida em diversos países). Depois seguimos para a Alemanha, via Itália e Suíça. Com mais quatro do grupo, fui até Berlim com o objetivo especial de ver o museu daquela cidade, onde estão muitos valiosos documentos e objetos levados das ruínas de Babilônia pelo arqueólogo Robert Koldewey. Na viagem de retorno a Paris, passamos pela Holanda e Bélgica, pernoitando ao sul de Bruxelas, em Waterloo, o local da batalha em que Napoleão foi derrotado e teve a carreira encerrada. Usando a imaginação, podíamos ouvir o troar dos canhões da grande batalha. Em Paris, tomamos o avião de regresso ao Brasil, passando por Madri e Lisboa. Ao todo, a viagem durou cerca de um mês. Para mim, do ponto de vista cultural, foi comparável a um ano de estudos numa instituição de nível superior. Mas a inspiração que recebi ao visitar os lugares relacionados com a presença de Jesus em nosso planeta foi de valor inestimável. Os anos da aposentadoria Aposentei-me em 1976, mas continuo dedicando tempo integral ao trabalho da Voz da Profecia. Muitos pregadores continuam trabalhando após a jubilação. Eles amam a obra do evangelho, e Deus aprecia abençoar seus esforços. Por falar nisso, lembro-me de uma afirmação que ouvi do pastor H. M. S. Richards, fundador da Voz da Profecia nos Estados Unidos, por ocasião de uma visita que lhe fiz, estando nós dois aposentados. Aquele fiel servo de Deus tinha então quase 90 anos de idade e me perguntou se, como aposentado, eu continuava trabalhando. Respondi que sim, e ele disse: – Não há um texto na Bíblia que diga que você deve parar de trabalhar para o Senhor. Por muitos anos, mesmo aposentado, continuei ajudando a preparar os programas da Voz da Profecia, além de viajar para fazer conferências. Era o meu prazer participar da obra do Senhor. Em 1984, após 14 anos de viuvez, contraí núpcias com Hedwig Edith Anniehs, que, por sinal, tinha o mesmo nome de minha primeira esposa. Deus me deu uma esposa cristã, muito afetuosa e excelente dona de casa. [Mais detalhes sobre essa fase serão apresentados em outro capítulo.] U Primeiro Amor O pedido de casamento e a vida ao lado da esposa ma ajudadora. Essas palavras se enquadram perfeitamente na vida da esposa do pastor Roberto Rabello – a Sra. Hetty, como era chamada por ele e pelos amigos. Ela foi uma grande ajudadora na vida e ministério do pastor Rabello. Esposa dedicada, mãe amorosa e fiel obreira do Senhor, ela era filha do pastor Luiz e Anna Braun. Seu nome completo antes de casar-seera Hedwig Braun. Nascida na cidade de Dusseldorf, Alemanha, em 26 de janeiro de 1911, chegou ao Brasil com dois anos de idade. Sua irmã mais velha, Emília Braun, nunca se casou. Mais tarde, veio ao lar do pastor Braun sua terceira e última filha, Ida Braun, nascida em Curitiba, e que se tornou esposa do falecido pastor Dario Garcia. O pastor Braun chegou ao Brasil em 1913, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. A vida não estava fácil para o Sr. Luiz Braun. Ao aceitar a mensagem do advento, sua esposa foi rejeitada pelos familiares, e ele tinha muita dificuldade em conseguir trabalho, devido à sua fé em Cristo. Assim, os dois decidiram vir para o Brasil, na esperança de conseguir alguma terra e iniciar uma nova vida. Estabeleceram residência no interior do Paraná, em 1913. Logo depois, por ser um bom pregador, Luiz Braun foi convidado a trabalhar na Igreja Adventista como obreiro. Trabalhou no Paraná e no Rio Grande do Sul (Porto Alegre e Pelotas). Depois foi chamado para São Paulo, tendo sido pastor em São João da Boa Vista e Jaú. Algo interessante ocorreu em Jaú, pois ele foi o instrumento para levar a família Sarli aos pés de Cristo. A família Sarli deu ao Brasil quatro pastores e uma professora: Wilson, Tércio, Joel, Paulo e Ester Sarli, que muito contribuíram para a obra no Brasil. Wilson foi presidente de Associação e administrador da Casa Publicadora Brasileira; Tércio foi presidente de Associação e da União Central Brasileira; Joel foi um dos membros do primeiro quarteto da Voz da Profecia e diretor associado da Associação Ministerial da Associação Geral; Paulo foi pastor e orador associado da Voz da Profecia; e Ester foi professora no IAE. O pastor Braun foi conhecido no Brasil como um homem destemido e de muito poder espiritual. Sua filha Hedwig recordava muitas experiências dele, especialmente com endemoninhados, que diziam: “Não chamem o pastor Braun, não chamem o pastor Braun!” Ele ia e enfrentava os demônios, expulsando-os com o poder da Palavra de Deus. Dona Hetty recordava seu pai dizer que o Senhor tinha sido muito misericordioso com ele, pois havia sido muito ousado com o inimigo. Relato esse fato para destacar que a Sra. Hetty viveu o ministério de seu pai. Estava acostumada com as viagens, as lutas contra o inimigo e as mudanças. Nunca imaginou que ela, sua irmã Ida e a filha Lucila enfrentariam os mesmos problemas, ou seja, que seriam esposas valorosas ao lado de seus companheiros pastores! Elas partilhavam das lutas, dos desafios, dos dissabores e das vitórias! Merecem ser reconhecidas pelos seus esforços e dedicação. Dona Ida Garcia (que, na época em que este livro foi escrito, estava com 90 anos e residia na Pensilvânia) nos contou que o pastor Braun dirigia um vasto distrito em Juiz de Fora. Ele era o único obreiro da região e tinha que viajar muito para chegar aos grupos e visitar os irmãos. Quando lembramos quão difícil era o transporte naqueles dias, podemos ter um pequeno vislumbre do pioneirismo desses obreiros do passado! Livramento espetacular Ao iniciar uma igreja no interior de São Paulo, o pastor Braun foi perseguido por muitos que eram contra as igrejas protestantes. Dona Emília contou-nos a história a seguir, que escrevi para uma revista dirigida aos jovens nos Estados Unidos, a Guide. Realmente, é uma experiência maravilhosa vivida pela jovem Hetty e sua família: – Olhe, olhe, papai! Venha depressa, mamãe! O pastor e a senhora Braun foram correndo para a janela. O sol estava baixando no horizonte, as sombras se estendiam em seu jardim, e eles puderam contemplar quatro, cinco, seis, sete – sim, sete enormes cachorros que circulavam em volta da casa, um após o outro. Mas por quê? As duas meninas nunca haviam visto algo semelhante! – Creio que esses cachorros devem estar com fome – disse a mãe. – Que tal se vocês, meninas, encontrassem algo para eles comerem? Emília e Hedwig correram para ver se encontravam algum resto de comida. Enquanto procuravam a comida, temos que rever alguns eventos que nos ajudarão a compreender esse mistério. O pastor Braun e a família eram missionários no Brasil. O pastor Braun havia deixado a Alemanha, com a esposa Anna e as duas filhas, com um grande desejo de pregar o evangelho. As meninas aprenderam o português com muita rapidez e estavam se divertindo no novo país. Havia muitas coisas para apreciarem, apesar das dificuldades que enfrentavam. O pastor Braun foi enviado para a pequena cidade de Teixeira Soares, na parte sul do Brasil. Pediram-lhe que dirigisse uma série de conferências numa pequena igreja no centro da cidade. As meninas gostavam de ouvir o pai pregar e contar histórias. Mas estavam temerosas porque haviam ouvido que muitos naquela cidade não apreciavam os alemães. Não se deram conta de que isso ocorria em 1917 e que o povo alemão estava envolvido numa guerra terrível! O outro problema era que muitos brasileiros daquela época não gostavam de protestantes. Porém, as meninas confiavam no Senhor. Sabiam que o pai não tinha medo, pois era um homem de Deus. Um dia, o delegado da cidade foi à sua casa e disse: – Sr. Braun, aqui estou para comunicar-lhe que o senhor está proibido de pregar aos domingos na igreja da praça central. O povo vai matá-lo! Não tenho poder para evitá-lo! – Senhor delegado – respondeu o pastor –, Deus tem me protegido muitas vezes e estou certo de que o fará novamente. Falarei ao povo. Não posso decepcioná-lo. Se quiser me prender, nada posso fazer. Lá estarei domingo à noite! O pastor Braun não se intimidava por qualquer coisa, e não podia parar de pregar. Havia 60 pessoas interessadas na mensagem do evangelho. Trinta estariam prontas para o batismo em mais ou menos duas semanas. Nos dias seguintes, Emília e Hedwig ficaram preocupadas! Ouviram que o delegado saíra da cidade e imaginaram o que iria ocorrer. O delegado gostava de seu pai, mas havia decidido deixar o pastor enfrentar o perigo sozinho. Na sexta-feira, o pastor Braun ficou muito doente. Não conseguia nem ficar de pé! A Sra. Braun e as filhas fizeram de tudo para ajudá-lo, mas ele passou o sábado de cama. Como as garotas oraram pelo pai! Mas o pastor não melhorou. No domingo pela manhã, ele ainda se sentia mal. Passou o dia inteiro em oração, pois sabia que a força vem somente do Senhor. Ele resolveu que iria pregar para os interessados naquela noite, mesmo que fosse a última reunião de sua vida. Enviou uma mensagem a dois jovens da igreja para que fossem à sua casa e o ajudassem a ir à igreja. Os rapazes tiveram que ajudá-lo a se vestir, pois ele estava muito fraco para colocar suas roupas. Antes de sair, ele chamou a esposa e as duas filhas e disse: – Eu não sei o que irá acontecer. Tenham fé em Deus! Ele me protegerá. Anna, cuide bem das crianças. Se você não conseguir viver neste país, pegue a Emília e a Hedwig e voltem para a Alemanha! As meninas se abraçaram à mãe e olharam o pai capengando entre os dois fortes jovens! Será que iriam rever o pai? Tudo que podiam fazer era orar, pois não poderiam ir à reunião com ele. Depois de uma caminhada de meia hora pela mata, os três homens chegaram ao centro da praça. A igreja estava superlotada de pessoas, dentro e fora, pois não queriam perder aquela reunião. Com muita dificuldade, o pastor alcançou o púlpito. As pessoas estavam bem apertadas nas cadeiras. Queriam ouvir a Palavra de Deus e ouvir esse missionário alemão que não tinha medo de ninguém! Logo após o primeiro hino, o pastor Braun ergueu a voz em oração. O povo notava que ele estava pálido e fraco. As pessoas imaginavam que ele iria desmaiar a qualquer momento! De repente, o pastor parou por alguns instantes e silenciosamente orou: “Senhor, dá-me forças para pregar novamente para estas pessoas. Por favor, Senhor, ajude-me.” Imediatamente, após esse silêncio, aqueles que estavam perto dele notaram que sua cor voltava e que sua voz se fortalecia ao ir terminando a oração. Daquele momento em diante, ele pregou por uma hora e meia para uma multidão que ouvia em silêncio. O Espírito de Deus falouatravés dele e a reunião foi um grande sucesso! Para voltar para casa, após a reunião, o pastor Braun tinha que passar novamente pela mata. Ouvira falar que seus inimigos estariam escondidos ali para matá-lo, mas nada aconteceu. Os anjos do Senhor o cobriram com suas asas. Poucas noites depois, os Braun se preparavam para dormir quando ouviram muito ruído lá fora. Ainda não eram os cachorros. Chegaremos lá mais tarde. O pastor Braun convocou a família à oração. Hedwig orou: “Senhor, cuida de nós. Estamos com medo. Ajuda-nos, Senhor!” Ao terminar de orar, ouviram homens batendo violentamente na porta e nas janelas, gritando: – Abra, abra a porta, seu pregador! O pastor Braun dirigiu-se até a porta. Com sua voz poderosa, disse: – Vocês podem entrar, mas sinto muito pelos primeiros que entrarem! Os homens retrocederam. O que significava aquilo? Será que o pastor estava armado? Eles não sabiam, mas a coragem deles sumiu. Foram intimidados por um pregador! Sim, aquele pregador estava armado com a Palavra de Deus! Enquanto eles iam embora, murmurando e xingando, Emília disse: – O Senhor nos ajudou! Os homens foram embora! Pois bem, alguns dias mais tarde, os sete cachorros caminhavam em volta da casa. De onde será que tinham vindo? Quando as meninas voltaram com um pouco de comida, a Sra. Braun a colocou nos degraus da porta da frente. Mas os cachorros nem provaram a comida! – Que coisa curiosa – disse a Sra. Braun. – Não querem comer. Provavelmente, eles gostam de nossa casa – sugeriu Hedwig. A família havia ouvido sobre um adventista chamado Felisbino, que morava a mais de um quilômetro e meio de sua casa, que possuía sete cachorros e os usava para caçar. Eram muito bons e dóceis e nunca morderam ninguém. Mas o que estariam fazendo naquela ocasião na casa dos Braun? As meninas pensaram sobre esse mistério ao fazer o culto e ir para cama. Na realidade, deram uma espiada pela janela duas ou três vezes para ver se os cachorros ainda estavam lá. – Olha – cochichou Emília. – Lá estão! Creio que vão andar em volta da casa a noite inteira! No meio da noite, a família foi despertada por barulhos esquisitos. Podiam ouvir à distância o que parecia um grupo grande de homens que se aproximava da casa. Uma multidão de homens enraivecidos tinha planejado atacar a casa e matar o pregador. Mas, que recepção eles tiveram! Ao tentarem chegar perto da casa, aqueles sete amigáveis e dóceis cachorros se tornaram ferozes. Soavam como onças rosnando. Quando os homens davam um passo em direção à casa, agiam como lobos selvagens. Um dos cachorros saiu em perseguição a um homem que procurava entrar por trás da casa. Finalmente, a multidão se dispersou, e Hedwig e Emília foram dormir, sabendo que fora o Senhor quem enviara os cachorros. Os cachorros voltaram duas vezes mais e, em ambas as noites, os homens irados haviam retornado à casa dos Braun. A família não tinha a menor idéia de quando os homens iriam, mas os cachorros sabiam! Cada vez, a família prostrava-se em oração, sabendo que vinham problemas. Os sete cachorros obedeceram fielmente às ordens do Senhor! Como resultado das reuniões do pastor Braun naquela cidade, 60 pessoas foram batizadas. Que maneira maravilhosa de terminar uma história sobre a proteção e o cuidado de Deus pelos Seus servos. Emília (já falecida), que residia no Brasil, gostava de contá-la. E meus filhos, cuja mãe é filha de Hedwig, adoram ouvi-la. Quantas vezes tive o privilégio de contar essa e outras histórias para os meus filhos, netos, desbravadores e jovens de nossa igreja! Hedwig tinha bastante experiência como filha de pastor, e assim foi um sustentáculo na vida do seu esposo, o pastor Rabello. O pastor Luiz Braun tinha problemas cardíacos que o levaram a aposentar-se e mudar para uma chácara perto do Colégio Adventista, em São Paulo. Ali teve a oportunidade, como aposentado, de ser o capelão da Casa de Saúde Liberdade (depois, Hospital Adventista de São Paulo). Ele faleceu em agosto de 1949. Nunca me esqueço de que, voltando das férias de julho, depois de ter viajado com meu pai, ao chegar ao colégio, notei que a bandeira estava a meio-pau. Perguntei a razão disso, e disseram: “Faleceu o pastor Luiz Braun.” Como poderia imaginar o entrelaçamento de sua vida com a minha e com os seus descendentes naquela ocasião? Sinto não ter tido o privilégio de conhecer o pai da Sra. Hetty. Pedido de casamento Com 14 anos, Hetty foi para o Colégio Adventista, em São Paulo. Ali fez os cursos Ginasial e Comercial, pois queria ser secretária. Ficou famosa por declamar poesias. Ida Garcia, sua irmã, conta que, no dia da formatura, ela (Hetty) declamou uma poesia de meia hora. Foi nessa época que conheceu o Roberto, como o chamava, pois trabalhavam juntos no escritório da tesouraria. Em uma carta que recebi de Carlos Rentfro, missionário e professor no colégio na década de 1920, ele diz que os dois eram excelentes obreiros, firmes e dedicados. Ali desabrochou um amor que durou quase 40 anos. Os dois se amavam realmente. No dia 3 de junho de 1930, o pastor Rabello escreveu uma carta ao pastor Braun, que morava na cidade de Jaú, Estado de São Paulo, em que, entre outras coisas, dizia: Prezado irmão Braun: Creio que o irmão achará natural que os meus sentimentos de estima para com a vossa prendada filha Edwirges [nome brasileiro dela] aumentem sempre e que, alimentando-os eu com boas intenções, seja levado a pedir-vos maiores concessões quanto a ela. Bem compreendo a significação do que desejo e sei que talvez vos pareça impensada a minha ação, por ser praticada já. O que desejo, e respeitosamente vos comunico, é que me concedas a mão da Edwirges em casamento. A este respeito falei com ela e tenho o seu consentimento. Apresento-vos agora este pedido, compenetrado da alta e santa significação do passo que dou e rogo-vos que vos digneis responder- me, fazendo-me saber da vossa resolução sobre isto. Não tenho outro motivo por vez, pedindo-vos que desculpes a minha maneira, talvez imprópria, de apresentar-vos este caso, subscrevo-me com a mais alta estima cristã! R. M. Rabello A resposta à carta do pastor Rabello foi encontrada numa caixa de correspondência muito especial do pastor Rabello. O pastor Braun estava viajando pelo interior de São Paulo e, não tendo selos ou papel de carta, rabiscou uma notinha para o seu futuro genro, que se tornou famosa na família. Lucila, a filha, recorda através dos anos os comentários feitos em volta desse pequeno bilhete – uma enorme aprovação aos desejos dos enamorados Roberto e Hetty. Pastor Braun, sendo de origem alemã, respondeu à sua maneira: Catanduva, 5/3/1930 Prezado irmão Roberto: Saudações no Senhor! Recebi a sua carta do dia 28 de fevereiro e, estando em viagem e não tendo selos, respondo neste cartão. Por hoje, neste momento, não tenho absolutamente nada contrário a esta causa. Peço, em caso de Revolução, OLHAR PARA HETTY! [Cuidar da Hetty!] Sou, com as mais cordeais saudações, seu irmão em Jesus, Luiz Braun Nesse bilhete está a frase que se tornou uma expressão de carinho e afeto entre o casal. Muitas vezes, sentados à mesa, o pastor Rabello ficava olhando para sua esposa e dizia: “O faço por ordem de seu pai, que pediu que eu sempre ‘OLHASSE PARA A HETTY’ .” Minha esposa comenta que já sabia de cor os dizeres daquele famoso cartão que aprovava o enlace de dois jovens que muito se amaram através dos anos. A carta do pastor Rabello foi redigida na ortografia antiga do português do Brasil, mas o importante é a respeitosa maneira de um noivo dirigir-se ao sogro. Por falar no assunto, peço licença para relatar aqui que, em meados de 1954, coube ao pastor Rabello ouvir o pedido de casamento de sua filha por um jovem que, em vez de escrever, dirigiu-se diretamente ao casal. Desejo salientar que foi a Sra. Hedwig, nessa ocasião, que ajudou muito o pobre moço. Eu já havia consultado a filha do pastor Rabello, Lucila, mas agora havia chegado o momento de enfrentar o casal. Como você pode imaginar, pedir em casamento a filha dopastor Roberto Rabello não foi fácil! Ao visitar o casal, conversamos sobre muitas coisas, até que chegou o momento fatal. Naturalmente, eles sabiam de nosso namoro. Para encurtar a história, fui rodeando a cidade de Jericó e nunca conseguia chegar ao ponto. Foi aí que a Sra. Hetty salvou a situação. Ela me interrompeu e disse: – Eu já sei o que você quer: noivar com nossa filha! Que alívio! Foi uma ótima ajuda que recebi daquela que seria uma sogra maravilhosa. Voltando a Hetty, ela se tornou uma verdadeira ajudadora para o seu esposo e futuro obreiro, Roberto Rabello. Casaram em 25 de julho de 1932, na cidade de Juiz de Fora, MG. A cerimônia foi oficiada pelo pastor H. B. Westcott, ex- professor de Bíblia dos noivos e então presidente da União Este Brasileira. O casal sempre teve grande estima pelos Westcott. O pastor Braun não tivera forças para oficiar o casamento da filha. O mesmo sucedeu com o pastor Rabello, que pediu ao primo Enoque de Oliveira que oficiasse o casamento da filha. Esposa, mãe e profissional dedicada Em 1934, a Sra. Hetty deu à luz seu primeiro filho, Cláudio, na cidade de Ponta Grossa. Foi um parto dificílimo e ela quase perdeu a vida. Cláudio havia crescido muito em seu ventre e, além disso, não nasceu na posição correta. A parteira gritou para que chamassem um médico, pois a mãe ia morrer. Ela havia perdido muito sangue e foi realmente um milagre conseguir vencer essa luta. O filho nasceu com um problema no pescoço, o que lhe acarretou complicações em seu crescimento e em seu convívio escolar. Foi um complexo difícil que fazia doer o coração da mãe. A última filha do casal, minha esposa Lucila, nasceu em Curitiba em 1936. As duas, mãe e filha, se tornaram grandes amigas e partilhavam sonhos e ideais. A Sra. Hetty teve a alegria também, naquele ano, de presenciar a ordenação de seu esposo ao ministério. A filha, mais tarde, assistiu à ordenação do marido na mesma cidade, em 1968. Que privilégio para a Sra. Hetty: a filha era neta de pastor, filha de pastor, esposa de pastor e tornou-se mãe de um pastor! Quando a família foi para os Estados Unidos, a Sra. Hetty estudou algumas matérias no ramo de educação. Lucila recorda que tinha que ir para as classes com a mãe, pois não podia ser deixada só em casa. Hetty lutou lado a lado com o esposo e, quando ele foi chamado para trabalhar na Voz da Profecia, ela ainda não havia terminado os estudos. O marido ficou doente, vítima do excesso de trabalho. A esposa o ajudava na tradução dos sermões e os datilografava para que pudessem ser irradiados – algo que fez para o resto da vida, ombro a ombro com o pastor Rabello. Os anos passados na sede da Voz da Profecia em Niterói e, depois, no Rio de Janeiro foram de muitas atividades. Já não era necessário traduzir os sermões do pastor H. M. S. Richards, mas Hetty pesquisava, lia livros, procurava hinos, poesias e ilustrações que pudessem realçar e melhorar as palestras preparadas por seu esposo. Ficava até altas horas da noite manuseando, escrevendo e datilografando essas palestras. Era uma mulher incansável, que merece todo o mérito, pois, como seu esposo, queria chegar ao coração dos ouvintes com uma mensagem de amor e de esperança. Naturalmente, sendo uma excelente declamadora, tinha um gosto pelas poesias. Estou certo de que apreciava as palestras do pastor Richards, pois ele sempre as terminava com pequenos versos. Ela era muito amorosa para com os familiares e amigos da Voz da Profecia. Sempre procurava ajudar os filhos e os tratava com muito carinho e amor. Por ocasião de seu 25° aniversário de casamento, o esposo escreveu as seguintes linhas, que expressam muito das qualidades da esposa: Hetty: A união de tua vida à minha há 25 anos foi-me qual sorridente aurora. E a luz desta aurora tem brilhado mais e mais durante estes anos. Neles te mostraste uma grande esposa – no afeto, na fidelidade, na prudência, na industriosidade. Dou graças a Deus por ti, e nesta nossa grande data peço ao Senhor que nos abençoe; e me conceda ter-te ao meu lado todos os dias de minha vida! Um apertado e longo abraço do Roberto. Hetty era também muito amorosa para com os ouvintes e amigos da Voz. Numa carta ao seu esposo, que estava nos Estados Unidos, em 29 de agosto de 1952, ela escreveu: Aquela moça do sanatório de tuberculosos de Fonseca, que pediu a tua visita, faleceu esta semana. Fui visitá-la um dia antes de morrer. Pobrezinha, era só pele e osso! Chamamos o pastor Adams [missionário americano] e ele a visitou e a confortou. No fim do estudo, ela disse: “Agora o Senhor pode me levar. Já falei com o pastor!” E de manhã cedo, ela morreu. Creio que estava preparada. De manhã, no dia anterior à morte, ainda ouviu o programa. Quando estive lá nesse dia, ela disse que queria tanto conhecer- te. Que ministério maravilhoso de esposo e esposa! Não há dúvida de que a Sra. Hetty se compadecia e amava os ouvintes da Voz da Profecia! Lucila costuma dizer que a mãe carregava o mundo nas costas, sempre disposta a ajudar os outros. Sua prestatividade era inigualável, fato comprovado por todos aqueles que trabalhavam ao seu lado. Foi essa compreensão que a levou a cuidar dos netos enquanto viajamos para o Congresso Mundial de Jovens em Zurique, na Suíça, em julho de 1969. Estava muito doente e fraca, mas instou para que a filha viajasse para a Europa com o marido. Ela compreendia como é importante, na vida de um casal, sair juntos, passear e aprofundar os laços de amor. Não quis que a filha a visse antes da viagem, pois, caso contrário, não viajaria com o marido. Sua saúde estava se deteriorando rapidamente. Pediu à sua irmã mais velha, Emília, que ficasse com nossos filhos, por uma semana, até que viajasse do Rio para São Paulo para cuidar dos netos. Meus filhos recordavam como lhes ensinava versículos da Bíblia e, com paciência e carinho, demonstrava sua compreensão em meio às travessuras das crianças. O drama de muitos filhos é que os pais não tomam tempo para orar, dialogar e conversar com eles. Há muitos filhos que se casam, mas nunca receberam conselho da mãe ou do pai para saber como agir no casamento, como tratar o esposo ou esposa, como enfrentar os dramas e os desafios da vida conjugal. Hetty dedicava tempo à filha e a orientou em todas as áreas, especialmente na parte da sexualidade, hoje tão negligenciada e malcompreendida pelos jovens. Durante um seminário sobre o casamento em Exeter, na Inglaterra, num congresso de jovens, enfatizei a importância dos pais como modelos para os filhos. À saída, um jovem me procurou e disse que sentia muito, mas não via casais modelos em sua igreja. Que triste realidade! Podemos afirmar com toda segurança que Roberto e Hetty foram um casal modelo para os filhos. De Ontário, no Canadá, Iracy Botelho Bravo, organista e pianista da Voz durante um bom tempo, deu um depoimento sobre o seu primeiro encontro com a Sra. Hetty, que lhe foi como mãe: Ao chegar no Rio de Janeiro, em 1° de janeiro de 1967, para fazer parte da equipe da Voz, ao me apresentar no estúdio para trabalhar, a Sra. Hetty me esperava e disse que precisava falar comigo. Era meu primeiro encontro com a Sra. Rabello, uma senhora muito bem vestida, elegante e que impunha respeito. “Mas o que será que ela tem para me dizer?”, pensei. Com um sorriso nos lábios, muito carinho e discrição, ela me levou para o escritório, fechou a porta e passou a me aconselhar. Nunca havíamos nos encontrado e, diante de uma jovem com tão pouca idade como eu, longe da família (meus pais moravam em São Paulo), ela passou a falar como se em realidade fosse minha própria mãe. Falou-me dos perigos de viver numa cidade como o Rio de Janeiro, o tipo de amigos que eu deveria ter, a importância do ministério da Voz da Profecia, quão importante era o meu exemplo, e muita coisa mais... Foi exatamente o tipo de conversa de mãe para filha, a quem ama muito. Tudo isso teve um grande impacto na minha vida, pois, como jovem criada junto com os pais, senti, apesar de longe da família, que havia pessoas que se preocupavamcomigo e estavam desejosas de me ajudar e proteger. Senti- me então em casa. Com todo o apoio que recebi da Voz da Profecia, olho para trás e sinto que Deus usou pessoas como o casal Rabello para me apoiar no início de minha carreira no trabalho para Ele. Hoje já se passaram 39 anos e continuo trabalhando para Deus. Sempre tenho em mente a influência positiva que o casal Rabello teve em minha vida. Sou grata a Deus por ter colocado em minha vida essas pessoas cristãs e amigas. Hetty era muito inteligente e trabalhadora. Além de falar alemão e português, aprendeu inglês nos Estados Unidos, o que ajudou muito seu companheiro nas traduções e preparo das palestras da Voz da Profecia. Trabalhava até altas horas da noite para terminar os artigos e palestras. Terminou o curso Comercial no Brasil e estudou educação nos Estados Unidos. Na época em que as gravações eram feitas nos Estados Unidos, o casal passava meses longe um do outro. Durante essas temporadas, as cartas se cruzavam pelo Atlântico e pelo Pacífico. Muitos não sabiam do drama e das lutas dessa separação. A Sra. Hetty tinha que atender muitas coisas na sede da Voz, em Niterói, e ao mesmo tempo cuidar dos filhos. Havia muitas responsabilidades caseiras, devido às pessoas que apareciam para ir à praia ou se hospedavam no casarão da Voz. Numa carta redigida enquanto o pastor Rabello estava nos Estados Unidos, ela diz: Querido Roberto: Saudades! Ainda faltam 14 dias para a tua volta. O tempo está custando a passar... Mas o trabalho é tanto que fica-se sempre bem ocupada. Já mimeografei a maior parte das palestras. Faltam só umas três. Farei isto no domingo, se Deus quiser. Logo ficarei em dia com todos os trabalhos. Ainda não fiz o relatório da Divisão de agosto e nem aquele que é para mandar para a GC [General Conference, isto é, Associação Geral]. As instrutoras estão em dia. O fichário também. A expedição está um pouco atrapalhada, mas vou pedir para Eunice ajudar, pois vou esta semana mandar os livros do mês e isto vai dar muito trabalho e é preciso que saiam depressa. Tudo vai indo bem. Em breve teremos mais um secretário ou secretária para a Voz... O papel do mimeógrafo já chegou. Tudo OK! Qual a conferência que devem receber os da ABI do Rio e Fortaleza? “O Século da Ciência”, ou qual? Ao saíres, me disseste que ias escrever a palestra “O Plano de Deus” e me mandar para mimeografar e até agora não recebi. Isso ilustra as atividades da Voz no Brasil enquanto o pastor Rabello gravava as palestras nos Estados Unidos. Graças à sua valorosa esposa e uma boa equipe, Deus dirigia os trabalhos. Infatigável, Hetty procurava sempre ter sua casa limpa e em ordem para a chegada do sábado. Há mulheres que negligenciam a aparência pessoal depois do casamento. Hetty vestia-se sempre com muita elegância, embora com simplicidade. Estou certo de que seu esposo tinha prazer em estar ao seu lado ao retornar de suas viagens e encontrar uma esposa que se esmerava em estar bem vestida e esbelta para o companheiro. É difícil encontrar uma mãe que não ame seus filhos. A Sra. Hetty tinha, no entanto, uma preocupação especial pelo filho Cláudio, especialmente quando ele se afastou da igreja. Ela sofria muito com a situação. Isso ajudou a levá-la prematuramente à sepultura, com apenas 59 anos de idade, no dia 5 de novembro de 1970, vítima de câncer. Foi muito triste contemplar aquela mulher bela e simpática sendo dizimada por essa doença tão cruel. Felizmente, essa mesma mulher que vivia preocupada porque o filho saíra da igreja terá a felicidade de encontrá-lo no dia da ressurreição. Ele morreu em Cristo 10 anos mais tarde, em julho de 1980. Aquele filho, um tanto rebelde, superinteligente, descansou em Cristo. Sua sepultura está no Estado de Ohio, perto da casa de sua segunda esposa, Carolyn, que ficou ao seu lado durante todos aqueles últimos momentos de vida. O filho pródigo voltou ao lar e será recebido de braços abertos por aquela mãe que o amava tanto. Será um dia de vitória e regozijo para a família. Despedida dolorosa Nos últimos dias de vida, a Sra. Hetty estava muito contente porque seu genro e filha haviam sido chamados para trabalhar na Associação Geral. O estado físico dela definhava com rapidez. Lucila permaneceu ao lado da mãe, que se preocupava por achar que estava sendo um fardo e um empecilho para a mudança da filha para os Estados Unidos. Dissemos a ela que estávamos esperando o visto. Recebemos o visto dentro de um mês, pois na época era muito mais fácil. Mas ela nunca soube disso. Foram mais de três meses de espera, e os líderes do Departamento de Jovens da Associação Geral foram muito compreensivos, pois sabiam que não poderíamos abandoná-la e ir para os Estados Unidos. O pastor Rabello insistiu com Deus para que a morte não ceifasse sua amada e querida esposa. Ele já fazia planos para mudar de casa e tinha certeza de que Deus iria curá-la. Foi um choque terrível para aquele fiel servo do Senhor, que anun- ciava através do rádio mensagens de esperança e conforto já por quase 30 anos. Voltando no tempo a 5 de novembro de 1970, recordo o carinho de nossos irmãos, as mensagens, os abraços, as palavras confortantes e a promessa de que iriam orar pelo esposo e sua família. Que bênção pertencer à família do Senhor nessas horas de crise! Há dois momentos que ficaram gravados em minha mente. O primeiro foi no cemitério, no dia seguinte. Enquanto o pastor Rabello meditava, olhando para aquele monte de terra e flores murchas, ouviu o choro de uma senhora, não muito distante da sepultura da esposa. Deixou por alguns instantes aquele lugar e foi perguntar-lhe por que ela chorava. A mulher disse que o marido havia falecido dois anos antes e que ela praticamente todas as semanas visitava a sepultura. Estava inconsolável. Naquele instante, o pastor Rabello, esquecendo- se da dolorosa ferida que lhe angustiava o coração, dirigiu palavras de conforto àquela senhora, procurando ajudá-la a enfrentar a perda do esposo. Que experiência inesquecível! O pastor Rabello havia perdido a esposa dois dias antes e estava consolando uma mulher que havia perdido o esposo havia dois anos! Qual a diferença entre os dois casos? A esperança que temos entronizada no coração faz a diferença, pois um dia iremos rever nossos queridos. Essa foi a mensagem do orador da Voz da Profecia, em seu dia de dor, a uma mulher que não tinha esperança. O pastor H. M. S. Richards, fundador da Voz da Profecia, e a esposa enviaram uma linda carta para o pastor Rabello, datada de 20 de novembro de 1970. Um trecho dizia: Mabel e eu estamos entristecidos por sua grande perda! Não quisemos escrever em seguida ao ocorrido. Esperamos um pouco até que pudéssemos pensar e orar. Esta é uma mensagem que vem de nós mesmos, pois o consideramos como um dos mais apreciados amigos. Recordamos os dias quando o irmão e a irmã Rabello estiveram aqui em Glendale conosco. Foram dias felizes juntos. Fomos, então, ao Brasil e vocês se mostraram muito amáveis e bondosos conosco. Amigos maravilhosos, cuidando de nós com muito esmero e carinho. Como gostaríamos de estar com você em sua hora de dor, mas estamos tão longe! A essa altura da carta, o grande pregador e criador da Voz da Profecia introduziu uma mensagem para que o pastor Rabello se lembrasse de que a morte não é o fim, pois aguardamos a volta de Jesus. Será que o pastor Rabello não já sabia disso? Será que seria necessário recordar ao orador e fundador da Voz no Brasil que temos uma esperança? Não importa nossa posição ou o que somos, quando a morte cruel nos acomete, como todo ser humano, necessitamos ouvir uma mensagem de esperança e paz que nos transporte e nos eleve às alturas, para que não esqueçamos que este não é o nosso lar. O pastor Rabello ficou conosco por algum tempo e, durante essa estada, respondeu ao pastor Richards, de Washington: Querido pastor Richards: Muito obrigado por sua bondosa carta de 20 de novembro. As condolências e as mensagens de esperança que o senhor incluiu têm um grande significado para mimdurante esta amarga experiência da perda de minha querida companheira. Às vezes, a realidade bruta e inexorável – o fato que ela não está mais aqui – parece insuportável! A esperança da ressurreição é o nosso consolo! A pequena mensagem de duas irmãs admiradoras de Hetty refletem o sentimento de muitos que a conheceram: Pastor Rabello: Desoladas, viemos trazer-lhe o nosso emocionado abraço pelo falecimento de sua tão amada e preciosa esposa Hetty, a quem dedicamos grande estima, considerando-a uma verdadeira serva do Senhor, pelo lindo testemunho de sua vida cristã e pelo devotamento consagrado à causa da verdade. Esposa perfeita, amiga sincera, ela é digna de nossa saudade e admiração. Sentidos abraços de Lita e Dina Coelho Netto. O pastor Rabello recebeu mensagens de condolências de muitas pessoas. Harry e Myrtie Wescott, ex-missionários no Brasil, eram amicíssimos do casal Rabello. Enviaram, de Santa Cruz, na Califórnia, uma linda e confortante carta. No último parágrafo, a Sra Myrtie dizia: Querido Roberto, ao ler esta carta, minha mente se remontou à última vez que você e Hetty estiveram em nossa casa. Tiramos uma foto de vocês! Ao olharmos no álbum, quando pensaríamos que seria a última vez! Mas a notícia maravilhosa é que para nós não haverá jamais uma última vez! O filho Cláudio, que tanto preocupava a Sra. Hetty, pois não estava andando nos caminhos do Senhor, escreveu uma linda mensagem ao pai: Querido pai: Creio que algo como a morte de uma mãe é chocante, mesmo sabendo mais de um ano antes que isso iria acontecer. Cada dia eu receava que as notícias viriam... Mas quando vieram, eu ainda não estava preparado. Creio que deve ter sido muito duro para o senhor, porque eram tão unidos e se davam maravilhosamente bem, por tanto tempo! Agora, ela já se foi... Para mim, a excelência de uma mãe se tornou ainda mais vívida. Foi uma grande perda! No Botafogo (Rio de Janeiro), o pastor Rabello teve oportunidade de refletir sobre sua enorme perda. Nós o convidamos para passar uma temporada conosco em Takoma Park, Estados Unidos, então sede da Associação Geral, para onde estávamos mudando. Tive que partir no dia 19 de novembro, e um mês depois minha esposa e filhos chegaram. Foi um grande privilégio ter o pastor Rabello conosco, pois nossos filhos sempre apreciavam a visita do vovô. De maneira marcante, eles apreciavam sua presença. Mas havia agora um vazio no coração de todos nós. A “vovó”, a “mamãe”, a “Binha”, a “Quiança”, termos carinhosos entre o casal, não estava mais ali. Um dia, felizmente, nos encontraremos com os nossos queridos. Que momento glorioso será aquele! Na correspondência do pastor Rabello, encontramos muitas cartas que circulavam de norte a sul, enquanto ele gravava as palestras em Glendale, na Califórnia. Aqui está um parágrafo que me chamou a atenção, pois a Sra. Rabello já poderia ter perdido a vida em 1949: Esqueci de te contar da penúltima vez que fui ao Sr. Matos. Quando atravessei a Getúlio Vargas, o sinal abriu enquanto eu estava no meio da avenida. Eu corri, mas um caminhão me alcançou e escapei por um triz e, quando escapo do caminhão, um ônibus veio em cima de mim e, não sei dizer como, mas ele só me raspou pela roupa. Senti uma coisa me esfregando por trás. Só porque Deus não quis, não morri naquele dia. Quando cheguei do outro lado, disse de mim para mim: “A morte está me rondando hoje.” Mas, mal saí dali e fui atravessar a Uruguaiana, um carro que vinha de outra rua e entrou na Uruguaiana, por um triz que me pega. Não sei, nunca me aconteceu tal coisa. E naquele dia aconteceu por três vezes. Quando cheguei em casa, fiquei contente, pois me parecia ter ressuscitado. Tenho cuidado mais desde aquele dia. No futuro, a Sra. Hetty e milhões de outras pessoas terão um relatório completo do cuidado do Senhor por elas na Terra. Ela verá seu querido esposo, pois ambos estão enterrados em Santo Amaro, com o casal Braun e Emília Braun. Deus salvou a vida da Sra. Rabello naquele dia fatídico e perigoso, nas ruas do Rio de Janeiro. Ela necessitava contribuir por muitos anos mais no ministério de seu esposo. E Tudo em Família Os laços familiares e o relacionamento com os filhos m 1989, enquanto eu trabalhava como secretário associado da Associação Geral, sendo responsável por todos os trâmites de missionários para a América Latina, recebi um convite do pastor João Wolff para um encontro de líderes na linda cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul. Como não estávamos muito longe de Rolante, fizemos uma visita, no sábado à tarde, à igreja adventista local. Ao lado da igreja, há um cemitério onde estão sepultados muitos parentes do pastor Rabello, inclusive o primeiro pastor ordenado no Brasil, José Amador dos Reis. Foi um momento emocionante visitar a sepultura de muitos homens e mulheres que dedicaram a vida à causa do Mestre. Os pais do pastor Rabello – Oliveiros e Izabel Mendes Rabello – lá estão aguardando a vinda de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Oliveiros era professor e, já naquele tempo, a Igreja de Rolante apoiava a educação cristã. Muitas pessoas no Brasil ficam admiradas com o grande número de pastores e obreiros que procederam daquela região do Rio Grande do Sul. Ao falar numa programação na capela do Instituto Adventista de Ensino, o professor Pedro Apolinário (falecido em 2006) disse que esse fenômeno é resultado da educação cristã. Mesmo irmãos que não tinham filhos ajudavam a encaminhar jovens da igreja às nossas instituições. Quando estávamos para encerrar o lindo dia de sábado, o pastor Wolff pediu que eu dissesse algumas palavras aos nossos irmãos reunidos para o culto de pôr- do-sol. Comecei com a seguinte pergunta: “Quantos dos irmãos aqui são parentes do meu sogro, o pastor Roberto M. Rabello? Levantem a mão, por favor.” Foi algo simplesmente incrível e motivo de riso geral. Praticamente todos levantaram a mão! Isso é muito fácil de compreender ao examinarmos um diagrama genealógico preparado pelo Dr. Gideon de Oliveira sobre a origem da família Rabello e muitas outras daquela região do Rio Grande do Sul. Tudo começou com uma mulher chamada Felicita Thompson, que veio da Inglaterra para o Brasil no século 19, com três filhos: James, John e Mary Thompson. Mary casou-se com José Lorenzo Mendes, que veio da Espanha com 14 anos de idade. O casal teve quatro filhas: Ludovina, que se casou com Rodrigo dos Reis e dessa união nasceu mais tarde o pastor José Amador dos Reis; Maria, que se casou com Manoel Cardoso; Sofia, que se casou com Bernardo Amador dos Reis; e Maria José Thompson Mendes, que se casou com Saturnino Rabello de Oliveira. Maria e Saturnino tiveram nove filhos, sendo um deles o pai do pastor Rabello: Oliveiros Mendes Rabello, casado com Izabel Dama de Souza. Eis os nomes dos 12 filhos: Casimiro, Roberto (orador da Voz da Profecia), Albertina (casada com Lauro), Cecília, Alzira, Waldemar (professor em Taquara, casado com Edy), João (casado com a professora Maria do Carmo), Leonor, Plínio (pastor e advogado, casado com Sigrid), Walter (professor de inglês, casado com a professora Marta), Nelson e Lucival (advogado, casado com Marisa). Saturnino Mendes de Oliveira era irmão de Oliveiros Mendes Rabello. Na realidade, seu nome deveria ser Saturnino Mendes Rabello, mas, devido a um erro do cartório, ficou com o nome de Oliveira em vez de Rabello. Ele se casou com a Sra. Jerônima Cerro e foi o pai do Dr. Gideon, pastor Enoque, Ruth e Rubem. Portanto, o pastor Roberto M. Rabello e o pastor Enoque de Oliveira eram primos, pois seus pais eram irmãos, mas com sobrenomes diferentes. Coisas daqueles velhos tempos! Dois primos e expoentes da Igreja Adventista no Brasil. Apresento esses detalhes da genealogia do pastor Rabello por duas razões. Primeiro, para que saibamos o parentesco tão extenso que existe entre as pessoas da região de Campestre, Rolante e Santo Antonio, entre outras cidades gaúchas. Os nomes de Mendes, Reis, Azevedo, Passos, Souza, Rosas, Rabello, Oliveira e muitos outros estão entrelaçados pela ligação coma Sra. Felicita Thompson e também pelos casamentos entre as famílias. Em segundo lugar, para compreendermos melhor a maneira de falar e agir do pastor Rabello. Para mim, ele sempre foi um britânico. Seu porte, pontualidade e maneirismos retratavam sua genealogia e grande interesse pela língua inglesa. Os irmãos Walter e Plínio também dominavam o idioma de Shakespeare. Infelizmente, poucos dias antes do lançamento de A Voz da Profecia no Brasil, o Sr. Oliveiros faleceu, com apenas 56 anos, provocando grande problema para a família. João e Plínio estavam estudando no colégio de Taquara e, naturalmente, não podiam ajudar a mãe, então viúva com três filhos adolescentes. Eles tinham que colportar para se manter nos estudos e foram sempre bem-sucedidos. Da colportagem veio o apoio financeiro do pastor Rabello à sua mãe e aos irmãos menores. Uma carta de fevereiro de 2006, redigida pelo Dr. Plínio Rabello, com a participação de seu irmão João Rabello, ao irmão Walter Rabello, professor de inglês em Campinas, diz o seguinte: O Roberto sempre foi muito econômico, mas também era muito humanitário. Quando papai morreu, eu e você, Walter, estávamos enfrentando uma fase muito difícil. Estávamos estudando no ginásio em Taquara porque Waldemar nos havia acolhido. Em decorrência da morte de papai, o Roberto, então residindo em Niterói, Rio de Janeiro, foi até Taquara e comprou uma chácara com casa, onde a mãe e todos nós menores fomos morar e continuar estudando no ginásio. Em apoio ao Roberto, à nossa querida mãe Izabel e a todos nós como irmãos, nosso mano João deixou de exercer o magistério paroquial e foi morar conosco na chácara, e voltando também a continuar seus estudos em Taquara. Essa chácara comprada pelo pastor Rabello para ajudar a mãe e os irmãos foi simplesmente maravilhosa. Walter Rabello, residente em Campinas, SP, dá mais alguns detalhes sobre ela: Com referência à maravilhosa chácara que o Beto (assim era chamado pelos irmãos) comprou para morarmos, desejo fazer um acréscimo ao que Plínio e João escreveram: A chácara foi comprada do Sr. Muller. Com um pouco mais de seis hectares de terra muito fértil, possuía um pasto muito bom. Tínhamos várias vacas leiteiras. Levantávamos às 4h da manhã, tirávamos o leite, deixando o suficiente para os quatro bezerrinhos durante o dia. O restante do leite, nós levávamos para o Sr. Braun, que media tudo de maneira muito paternal e semanalmente nos pagava. A casa tinha dois quartos, sala, cozinha, despensa, área coberta, um poço de água muito boa, um forno de tijolos (eu era o padeiro-chefe), um pomar com muitas árvores frutíferas e uma horta (que o João fez) com muita verdura. Numa das vezes que o Beto conseguiu algum tempo livre, ele ficou na casa do professor Dario Garcia (há mais ou menos 1,5 quilômetro de distância), e de lá ele ia ficar conosco. Fomos a uma casa que vendia árvores frutíferas, onde o Beto comprou mais uma dúzia de árvores bem novinhas: laranja, mexerica (bergamota), limão e vários pés de caqui. A chácara possuía ainda um estábulo onde guardávamos alimento para o gado. Além da chácara, o Beto mandava para nós, por meio da igreja, 150 mil-réis, quantia suficiente para pagarmos pelas compras que fazíamos na mercearia do ginásio. Nunca ficamos devendo um tostão a ninguém, graças ao querido mano Beto. A chácara foi como uma ponte que nos permitiu atravessar um tempo que teria sido muitíssimo mais difícil para uma mãe viúva com três adolescentes. Há mais ou menos dois anos, o Lucival e eu fomos ver a velha chácara e, com algumas lágrimas nos olhos, voltamos para a casa do Waldemar (em Taquara). Pensando bem, em realidade, o Beto foi um pai para seus irmãos mais novos, além dos filhos, Cláudio e Lucila. No sábado 11 de fevereiro de 2006, fomos, com alguns membros da nossa igreja de Sta. Genebra (onde o Léo pregou sobre a justiça humana), ouvir o velho quarteto Arautos do Rei. Foi tão bom vê-los e ouvi-los ainda cantando afinados. O pastor Feyerabend esteve lá também (estava fazendo um tratamento em nossa clínica). Foi uma reunião muito bonita, em que o nome do pastor Rabello foi mencionado muitas vezes. Isso confirma o que Walter escrevera ao seu irmão em 8 de janeiro de 1946, dando notícias “de sua fazenda e também de nós”: Graças a Deus, estamos com boa saúde e gozando paz. Sua fazenda está em bom estado. Há nela milho, aipim, batata, tomate, maçã, pêra, etc. Nossa horta já está decrepitando, mas ainda há diversas espécies de verdura. Temos um lindo viveiro de mudas de eucalipto, o qual tem perto de mil mudas. Nós as plantaremos de março em diante, se correr tudo bem. Que história maravilhosa do carinho do pastor Rabello por sua mãe e irmãos! Que lugar aprazível para aqueles jovens adolescentes aprenderem a trabalhar e preparar-se para a vida! Em correspondência encontrada nos arquivos do pastor Rabello, deparamos com uma carta dirigida à sua mãe no dia 15 de novembro de 1944 (dia do aniversário dele) para que procurassem uma chácara para plantar aipim, batatas, uma horta, um pomar e mesmo um pequeno pasto para possuir uma vaca leiteira. Esse sonho foi realizado, como prova uma carta de seu irmão Waldemar, professor no colégio em Taquara durante muitos anos, dizendo que a escritura havia sido feita no dia 31 de dezembro de 1945. Tudo isso trouxe muita alegria e paz à Sra. Izabel, pois a mãe lhe escreveu dizendo: “Agora, estamos gastando muito menos, pois já temos batata-doce, aipim, milho verde, bastante leite, abóbora, moranga, chuchu, pêra, maçã, pêssego. Temos tudo isso aqui no teu terreno!” Podemos imaginar que maravilhoso era o plano de Deus para os Seus filhos. Nada melhor que viver a vida do campo para educá-los e prepará-los para a eternidade! Carinho para com os filhos Se o casal Rabello era carinhoso com os familiares, podemos imaginar seu desvelo para com os próprios filhos. Cláudio Rabello, o primeiro filho, nasceu em Ponta Grossa em 1934. Conheci muito bem esse talentoso jovem. Fomos colegas de quarto no então CAB, e recordo que a sua biblioteca estava repleta de livros de biologia. Creio que, apesar de toda a aflição que passaram com esse filho, a maior preocupação do pastor Rabello e de sua esposa era que ele se envolvesse com teorias sobre a evolução e abandonasse a igreja. Todos nós falhamos como pais e gostaríamos de ter outra oportunidade para, com mais sabedoria, nortear a vida de nossos filhos. Creio que foi um erro da parte de meu sogro não deixar o filho seguir carreira na área de biologia ou ciência, pois aí estava o seu talento. Podemos compreender o temor que tinham, mas, quando olhamos a vida de professores como Orlando Ritter e Nevil Gorski, vemos que o Cláudio também poderia alcançar seus ideais nessa área. Quando ele foi para o CAB, em 1949, o pastor Rabello lhe escreveu a seguinte carta no dia 5 de março: Querido Cláudio: Já temos saudades de ti. Certas coisas más que aconteciam em casa não acontecem mais. Não obstante, o autor dessas coisas faz grande falta. Na noite de tua saída, mamãe chorou por meia hora, às vezes em alta voz. Ninguém estava alegre na casa, vazia do filho. Parecia que alguém havia morrido. Estou certo de que farás todo o possível para ser um bom filho. E também para ser um bom aluno aí no colégio. Os teus pais estão cortando despesas aqui e ali para te poder manter no colégio. Faze também a tua parte: comporta-te bem, estuda muito e trabalha com todo coração. Não te esqueças, meu filho, da obediência aos professores e do respeito aos mais velhos. Papai já te aconselhou quanto à necessidade de evitar as más companhias. Quando vires que um moço não teme a Deus nem respeita aos homens e mulheres, deixa a sua companhia. Há quase 25 anos, o papai e a mamãe começaram os estudos nesse mesmo lugar e mais ou menos com a tua idade; e hoje ao ver-te iniciares o mesmo caminho, o papai resume os seus conselhos a ti no seguinte: segue de coração o ensino da Santa Bíblia e jamais terás de que te envergonhares ou de que te arrependeres. Que conselhos maravilhosos de um paipara com seu filho ao sair de casa pela primeira vez! Seria maravilhoso se os filhos ouvissem a voz sábia de seus pais. Mas parece que os filhos têm que aprender muitas coisas quebrando cabeça e tropeçando. É o ciclo da vida, e a história se repete em muitos lares. Cláudio terminou seu curso no CAB, casou-se em 1956 com Eunice Alvarenga e foi, mais tarde, para os Estados Unidos. Quando estudávamos juntos no La Sierra College, na Califórnia, em 1957 e 1958, tivemos que cursar pelo menos mais um ano e meio porque nosso colégio ainda não tinha o nível de faculdade, sendo considerado Junior College. Cláudio e sua esposa, Eunice, trabalhavam na fábrica de alimentos do Hospital de Loma Linda. Minha esposa, Lucila, trabalhava no Hospital de Loma Linda e eu trabalhava como torneiro mecânico na fábrica Ace Drill Bushings, que ficava ao lado de nosso apartamento. Cláudio e eu tivemos que estudar matérias suplementares como biologia, história da América, literatura e inglês para completar nosso curso, antes de ir para o seminário. Hoje, nossas instituições de ensino no Brasil estão niveladas com as faculdades dos Estados Unidos. Recordo que o Cláudio cursou uma classe de biologia e, como sempre, não se incomodava muito com as notas, pois sabia a matéria. Além disso, colocava o professor na parede com suas perguntas astutas, no estilo de nosso querido professor S. Kümpel. Ao chegar ao fim do semestre, sua nota era C. Observemos, no entanto, a nobreza do professor. Ele disse ao Cláudio: – Sendo que você tirou notas baixas nas provas e não fez muitos dos trabalhos, sua nota deve ser C. Mas, sendo que você é o aluno que mais conhece biologia nesta classe, vou dar-lhe um A. Cláudio terminou seu curso de Teologia e fomos juntos para o seminário em Washington e, depois, para a Universidade Andrews. Cláudio e Eunice tiveram duas filhas (Leila e Leilanie Susie) e, mais tarde, um filho (Bob Rabello). Meu primeiro filho Léo Jr. nasceu em Glendale, e Luís Roberto no Michigan. Mais tarde, nasceu o último neto do pastor Rabello, Larry, também em Glendale, Califórnia. Enquanto terminava seus estudos na Andrews, Cláudio começou a trabalhar como tradutor e intérprete para o Departamento Estadual. Daí em diante, os problemas no lar extrapolaram, e o casal se separou. Mais tarde, Eunice casou-se com Dennis Fletcher, e Cláudio casou-se com Carolina Van Vickle. Diga-se de passagem, Cláudio, tempos depois, serviu de instrumento para levar sua segunda esposa para a igreja. Durante as décadas de 1970 e 1980, enquanto eu trabalhava na Associação Geral como diretor associado de jovens, recebemos, muitas vezes, a visita de Cláudio e de meu sogro. Foram momentos inesquecíveis, que lembramos com muita saudade. Infelizmente, a princípio, havia um pouco de discussão sobre religião e isso não era salutar. Conversando com minha esposa, eu disse: – Meu bem, não adianta discutir religião com Cláudio. Ele sabe tudo. Tem cursos da Andrews. É tudo uma fachada. Interiormente, ele crê nessa mensagem. Assim, resolvemos tratá-lo amigavelmente, sem tocarmos em religião. Notamos que ele gostava de ouvir o “Messias” de Handel e de sair aos sábados à tarde para passeios pelos parques e jardins, a fim de estar em contato com a natureza. Certa ocasião, minha esposa, conversando com ele, disse: – Barão [assim os dois se tratavam], estou orando para que você perca esse trabalho no Departamento do Estado e volte para a igreja. Imediatamente, ele retrucou: – Não faça isso, baroa. Pare de orar. Minha esposa respondeu: – Mas você disse que não crê mais em oração. Portanto, qual é sua preocupação? Eu não estava em casa e minha esposa me contou o olhar dele de quem havia caído em uma arapuca! Em outubro de 1977, recebemos um telefonema do Cláudio, pedindo orações, pois seus rins haviam parado de funcionar. Ligamos imediatamente para a Voz da Profecia no Brasil e nos Estados Unidos. Pedimos orações na Associação Geral. Poucos dias depois, Lucila e eu partimos para a Carolina do Norte, onde ele residia. Ao chegarmos ao hospital, notamos a Bíblia ao lado da cama. Os rins estavam funcionando novamente e o Senhor dava um pouco mais de tempo para o filho pródigo voltar ao lar. Encontrei na correspondência do pastor Rabello uma carta preciosa do filho a seu pai, datada de 16 de novembro de 1977, um dia depois do aniversário do pastor Rabello. O meu sogro escreveu em cima do envelope, em letras garrafais, a seguinte frase: “As melhores notícias que já recebi, desde que meu filho saiu da igreja.” A carta dizia: Querido pai [em inglês]: Desde que saí do hospital, nestas últimas semanas, recebi três cartas do senhor. Elas foram muito encorajadoras e ajudaram a levantar o meu espírito! Estive muito deprimido com todas estas más notícias sobre a minha saúde e foi muito boa a sua correspondência. Especialmente, agradeço sua chamada telefônica. Isso ajudou muito! Léo e Lucila estiveram aqui também e me ajudaram a me sentir melhor! O [tio] Walter ligou diversas vezes. Tudo isso me animou muito. Em outros parágrafos, Cláudio relata o drama de sua doença (diabetes) e menciona tudo que tem que fazer para controlá-la. Usa uma frase interessante: “Sinto-me razoavelmente bem (milagrosamente os rins continuaram a funcionar), pelo menos até a próxima crise. [...] Sei que Deus pode ajudar a estabilizar minha saúde, mas não estou seguro se realmente deseja fazê-lo! Bem, está tudo em Suas mãos!” Dois anos e meio mais tarde, ele faleceria. Cláudio menciona o aniversário do pai e o cumprimenta por mais um ano de vida. No entanto, a parte mais dramática dessa carta é o último parágrafo. Cláudio estava tentando voltar para a igreja, mas não sabia como fazê-lo. Muitas vezes, não compreendemos quão difícil é o retorno para alguém que abandonou os princípios e deseja voltar. A pessoa encontra enorme barreira, adversidade e incompreensão da parte de irmãos e, na realidade, não sabe como fazê-lo. Muitos, envergonhados, pedem ajuda a um amigo, pastor ou conselheiro. Foi o que Cláudio fez. Eis o parágrafo mais significativo e que proporcionou muita alegria ao pai: Qualquer desses domingos, irei até a fronteira do Estado de Carolina para consultar Wittschiebe, que mora naquela área, sobre como voltar para a igreja. Chamei-o pelo telefone (foi meu professor na Andrews) e ele me disse que teria imenso prazer em conversar comigo. Tenho que desemaranhar algumas coisas em minha mente. Deus é muito paciente com minha falta de fé. Tenho certeza de que me ajudará a pôr minha vida em ordem! Podemos imaginar a alegria do pastor Rabello ao receber essa carta de seu querido filho. Lamento que minha sogra não estivesse viva para ver o filho de volta à igreja. Que alegria será encontrá-lo no reino dos Céus! O filho pródigo voltava ao lar! Por isso, como pais e professores, temos de ter paciência com os jovens e aqueles que deixam a igreja. Sejamos amáveis e compreensivos, pois um dia eles ouvirão a voz do Espírito Santo batendo à porta do coração. Não podemos explicar todos os detalhes e a razão desses acontecimentos que tanto nos entristecem. Entretanto, a paciência e o carinho do pai ajudaram o filho pródigo a voltar para a igreja. Cláudio foi um grande talento desperdiçado. Poderia ter sido o substituto do pai, pois tinha boa voz (cantou baixo em quartetos no colégio, e Eunice tinha um excelente contralto) e talento para que pudesse fizer parte da equipe da Voz da Profecia. Minha esposa e eu lemos muitas cartas de professores e parentes sobre o comportamento de meu cunhado. Ele almejava algo que, na realidade, nunca alcançou. Mas deixou um rastro luminoso, apesar de todas as suas peripécias. Morreu em Cristo e um dia estará ao lado dos pais que o amavam tanto. Lucila, a única filha do casal Rabello, nasceu em Curitiba, onde o pai foi pastor da Igreja Central. De acordo com os familiares, ela quase nasceu na igreja, pois estavam em comissão quando minha sogra, sentindo as dores de parto, foi caminhando para casa, com muita pressa, e a filha nasceu. Lucila foi sempre muito queridapelos pais. Era dócil, quieta e compenetrada. Com quatro anos de idade, foi para os Estados Unidos com os pais. Tanto ela como Cláudio se beneficiaram dessa permanência naquele país e aprenderam a falar fluentemente o inglês. Quando os pais voltaram dos Estados Unidos, em 1944, moraram no Rio de Janeiro. Lucila estudou no Colégio Batista, onde fez amizade com Marlene, filha do famoso poeta Mário Barreto França. Até hoje, as duas amigas se comunicam, relembrando os momentos felizes da infância em Niterói. Uma inconveniência das viagens aos Estados Unidos, quando o pai tinha que gravar os programas da Voz da Profecia e a mãe precisava trabalhar como secretária dele, era não ter com quem deixar a filha no Rio de Janeiro. Enquanto os filhos eram pequenos, a mãe ficava com eles, sofrendo longos meses de separação do esposo. Foi nessa época que Lucila, com apenas 14 anos de idade, teve que deixar o Rio de Janeiro e ir estudar no Colégio Adventista Brasileiro, em São Paulo. Foi lá que a conheci. Os pais dela tinham o apoio dos avós Braun, que moravam numa chácara ao lado do colégio. A chácara era o refúgio dos netos, que, com freqüência, desciam a colina rumo ao Capão Redondo e passavam momentos agradáveis com os avós. No depoimento a seguir, vemos o sentimento e a afeição de Lucila pelo pai que ela tanto amava: Nunca esquecerei a carta que recebi de meu pai quando fui para o internato do antigo e querido CAB. Eu tinha apenas 14 anos de idade e foi tão difícil sair de casa pela primeira vez! Era muito protegida pelos meus pais e especialmente por papai. Sempre senti um carinho todo especial, quem sabe por ser a única filha! Naqueles momentos difíceis em que necessitava de conforto espiritual e afirmação, ele escreveu-me o seguinte: Meu querido Meuschen [meu ratinho, expressão carinhosa em alemão]: Escrevo esta para te dar os parabéns pelo teu aniversário depois de amanhã, dia 16. Aqui em casa vamos pensar em ti e talvez a mamãe faça um bolo à saúde dos teus anos. Não podemos agora mandar um presente, mas penso que considerarás o relógio como o presente deste aniversário. E ao completares l4 anos, minha filha, deves pensar em Deus, que te deu estes anos, e agradecer-Lhe as bênçãos dEle recebidas. Deves também consagrar- Lhe a tua vida, pedindo-Lhe que te ajude a ser uma menina cristã, fiel aos Seus santos mandamentos. O papai espera que te batizes este ano. Aqui vamos bem, graças ao Senhor. A casa está muito solitária sem o nosso Meuschen. O piano não produz mais aquelas bonitas músicas. Mas isto passará e logo havemos de ver-te outra vez. Estamos preparando as malas para a viagem aos States. Provavelmente, partiremos no dia 5 de abril. Guardo essa carta com muito carinho. Para alegria de meu pai, no verão de 1951, fui batizada por ele nas águas da Baía de Guanabara. Mas nunca esquecerei aquelas longas viagens e a ausência de meus pais. Quem sabe, o Senhor estava me preparando para aquele dia em que eu e meus filhos tivemos que enfrentar longas separações de meu esposo, que, ao trabalhar na Associação Geral, ausentava-se da família por longas semanas! Há muitas coisas que eu poderia dizer sobre minha infância e acerca do carinho de meus pais. Não quero repetir muito do que foi dito. Porém, há algo que sempre ficou gravado indelevelmente em minha vida – a paciência de meus pais para com meu irmão e comigo. Eu ficava admirada de seu trato, de sua bondade. Um dia, quando meu esposo e eu viajávamos de férias para o Brasil, resolvi fazer a pergunta: – Papai, nunca vi o senhor perder a paciência, seu controle próprio ou erguer a voz com a mamãe e conosco, seus filhos, desde que o conheço! Pode me explicar como conseguiu alcançar essa vitória em sua vida? Recordo-me de que meu pai ficou quieto. Havíamos conversado sobre muitos outros assuntos e agora estava ponderando a pergunta de sua filha. Em vez de responder, apenas levantou as calças ao nível dos joelhos e disse: – Aqui está, minha filha, o segredo: a oração! Esta foi a única maneira de controlar o meu temperamento e ter paciência com vocês, com mamãe e com aqueles com quem convivi. Observei, então, que seus joelhos estavam bem calejados! Pude recordar quantas vezes vi meu pai ajoelhado, intercedendo diante do Senhor. Eu sabia que ele e mamãe carregavam um fardo pesado com meu irmão e o comportamento dele. Mas que alegria que aquelas orações foram atendidas, pois o Cláudio, com a graça de Deus, estará presente para abraçá-los e agradecer por aquele homem de oração! Lucila terminou parte do Normal e Científico e, em 20 de fevereiro de 1956, nos casamos e partimos para os Estados Unidos para estudos avançados em nossas universidades. Tem sido sempre uma fiel companheira, mãe de três filhos: Léo Jr. (casado com Susan Longard), Luís Roberto (casado com Wilma Tubies) e Larry. São três dos seis netos do pastor Rabello. Meu sogro chegou a conhecer sua primeira bisneta, a Larissa Rachel, que, na época em que eu escrevia este livro, estava com 22 anos. Mas não conheceu os demais bisnetos: David Andrew (filho de Léo Jr. e Susan), Spencer (filho de Leila), Tristan e Valerian Jefferson (filhos de Bob e Benita) e Mason Thomas (filho de Luís Roberto e Wilma). Assim, teve seis netos e seis bisnetos. Lucila terminou o Normal em 1968, enquanto trabalhávamos na União Sul Brasileira. Ela foi professora, seguindo o exemplo de seu avô e tios. Em nossa igreja nos Estados Unidos, foi professora especializada e pioneira com crianças que sofrem dislexia. Foi a primeira em nossa igreja a ensinar o sistema de ensino para três alunos ao mesmo tempo, na Sligo School, em Takoma Park, Estados Unidos. Sua experiência e pioneirismo nessa área estão sendo duplicados no Estado do Maine. Lucila amava muito o pai e sempre teve um lindo relacionamento com ele e a mãe. Como toda filha de pastor, passou pelos problemas e críticas, o sofrimento das longas viagens dos pais e da separação dos entes queridos. Mesmo assim, permaneceu firme seguindo o exemplo de sua avó e sua mãe, desejando o mesmo para suas noras – todas esposas de pastor! U Boato de Arrebatamento Características exemplares do orador da Voz ma vez, surgiu um boato no Brasil inteiro de que o pastor Rabello havia sido trasladado para o Céu. Não entendemos por que isso ocorreu, uma vez que tal fato não se coaduna com o que os adventistas crêem e ensinam. Sabemos que a idéia de um arrebatamento secreto ao Céu não é bíblica. No entanto, compreendemos que, ao Jesus voltar, seremos arrebatados para o encontro do Senhor nos nuvens. Que momento glorioso para o povo de Deus e para a culminação da história do mundo! Quando eu residia em Silver Spring, Estados Unidos, recebi um telefonema de um pastor brasileiro perguntando se isso era verdade. Ele disse que queria falar comigo, pois o genro do pastor Rabello certamente teria a informação correta. – Não sei se ele foi arrebatado ou não, mas tive o privilégio de conversar com meu sogro esta semana e ele ainda continuava na Terra – respondi. Nessa mesma época, viemos de férias para o Brasil, e o pastor Manoel Xavier, então presidente da Associação Brasil Central, nos acolheu e, com muita cortesia e bondade, levou-nos a Caldas Novas, GO. No decorrer da pequena viagem de Goiânia a Caldas Novas, ele nos disse em tom de brincadeira: – Pastor Léo e irmã Lucila, o pastor Rabello nos tem dado muito trabalho. – Mas qual é o problema, meu nobre amigo Manoel? – Vocês não têm idéia de quantos telefonemas temos recebido de pessoas perguntando se é verdade que o pastor Rabello foi trasladado. Até dizem que, no lugar onde ele estava, só ficou o chinelinho... Ao chegarmos a Curitiba, onde o pastor Rabello residia e passou os últimos anos da vida, minha esposa mencionou o assunto. Sua resposta foi: – Que barbaridade, minha filha! Na época, ele já estava perdendo a memória, mas continuava bem lúcido quanto à sua teologia. Lamentamos que tal boato tenha se espalhado. Mas creio que os rumores demonstraram o conceito de nossos irmãos em relação ao valoroso servo do Senhor.O pastor Rabello não era perfeito, pois não existe ninguém perfeito no mundo. Somente conseguiremos alcançar a perfeição através de Cristo, nosso Salvador. Mas o pastor Rabello alcançou alto nível de consagração e dedicação a Deus. Ele era homem íntegro e reto, e procurava andar com Deus. Integridade Roberto Rabello era também homem de grande integridade moral. Muitos anos atrás, ele vendeu um carro. Não conhecemos todos os detalhes sobre a venda desse veículo. Apenas soubemos que alguém dissera que o pastor Rabello era um tolo, pois havia vendido o carro muito barato. “Ele não sabe negociar”, disse o homem. A realidade, porém, era que ele nunca se aproveitava dos outros, e sempre procurava fazer o que era correto. Além disso, ele evitava a aparência do mal. Com freqüência, eram tiradas fotos dele com irmãs e crianças, pessoas que ele havia batizado ou a quem havia casado. Algumas mulheres eram admiradoras da Voz. Ele sempre procurava estar afastado quando as fotos eram tiradas, para não dar a impressão de que estava muito perto dessas irmãs. Ele era muito cuidadoso em relação ao sexo oposto. Durante as viagens, como disse a irmã Iracy Botelho, ele sempre colocava sua pasta entre os dois! Podemos comprovar essa atitude de fidelidade através das muitas cartas que escreveu à sua esposa. Há obreiros e irmãos que se descuidam, causando dano e tristeza à família. Todo o cuidado é pouco, pois o inimigo está ao nosso derredor bramando como leão. O pastor Rabello participou de muitos programas e congressos de jovens. Na correspondência dele, encontramos inúmeras cartas de agradecimento, cartões e fotos de jovens e crianças. Com freqüência, ele era convidado para falar aos jovens e participar das reuniões JA, casamentos, festas de 15 anos, batismos, dedicação e aniversários de crianças. Entre as qualidades dele, destaca-se também a dedicação ao trabalho. Em português, há a expressão “um pé de boi para o trabalho”. Não conheço a origem dela. E há um termo em inglês, workaholic, que quer dizer uma pessoa afeiçoada ao trabalho, que trabalha incessantemente e para quem o trabalho é uma obssesão. Não creio que essas duas expressões sejam adequadas para definir o pastor Rabello, mas eu diria que ele era um homem apaixonado por sua missão e um obreiro de valor. Ouvimos sobre seu trabalho ao cavar valas no Pacific Union College. Na carta de um médico do Hospital de Santa Helena, descobrimos que o pastor Rabello contraiu tuberculose. A vida era dura e o dinheiro era escasso para enfrentar os estudos e as responsabilidades do trabalho. Enquanto ele enfrentava essas vicissitudes e problemas de saúde, recebeu o chamado da Voz da Profecia. Ele tinha que ficar deitado e ditar as palestras e os sermões para a esposa datilografá-los. Necessitava de muito repouso para restaurar a saúde. Manteve esse padrão de trabalho durante os anos que trabalhou na Voz e mesmo depois de aposentado. Era incansável em sua devoção ao Senhor. Dedicado totalmente à Voz e a Deus, sua vida se situava num patamar elevado. Muitas vezes, parentes e amigos contavam piadas e faziam brincadeiras e ele era o último a entendê-las. Alexandre Reichert, um dos ex-pianistas da Voz da Profecia, contou-nos que ele realmente não entendia as piadas. Ao ir trabalhar na Voz da Profecia, Alexandre morou por seis meses no apartamento do pastor Rabello, que na ocasião era viúvo e o convidou para que ficasse com ele até encontrar um apartamento. Certa ocasião, Alexandre perguntou: – Pastor Rabello, bicicleta tem acento? Bom conhecedor da gramática da língua portuguesa, o pastor Rabello respondeu que certas palavras em português não necessitavam de acento. Depois de toda a explicação, Alexandre disse: – Mas, pastor, como as pessoas podem sentar-se na bicicleta, se não tem acento? Depois de uns 15 minutos analisando a piada do Alexandre, o pastor respondeu: – Realmente, você tem razão, Alexandre. Nosso biografado era honesto até nos centavos. Ao falecer, juntamos muito material dele. Tínhamos agora o mesmo problema: guardar documentos, cartas, papéis, artigos. Encontramos alguns rascunhos em que ele havia anotado contas e pedidos de irmãos. Os detalhes revelavam sua preocupação com a honestidade absoluta. Por ocasião de suas viagens aos Estados Unidos, para gravação dos programas, ele recebia dezenas de pedidos de materiais e roupas. Atendia, na medida do possível, a maioria deles. Ficamos simplesmente pasmados com a variedade de solicitações que recebia. Como disse uma funcionária da Voz daquele tempo “ele nunca se aproveitou disso para lucro pessoal”. O preço de custo da roupa ou de determinada peça vinda do exterior era cobrado da pessoa pelo preço de custo – até nos centavos! Aqui está um exemplo de seu cuidado com o dinheiro do Senhor durante sua viagem do Rio de Janeiro para os Estados Unidos, a fim de gravar os programas da Voz da Profecia, pois àquela altura ainda não tinha sua própria sede: Abril 17 – Gorjetas no navio 11.25 Carregador em Nova York 1.00 Táxi para a Missão 2.00 Subway em Nova York 0.20 Livrinho 5.00 Táxi para a estação de trem 0.75 Passagem para Washington DC 6.33 Táxi em Washington .1.00 18 – Passagem para Los Angeles 83.95 Carregadores – NY para LA 1.50 Transporte da máquina de escrever 5.00 Diária (17-20) 12.00 Total 129.98 Poderíamos anotar as despesas de objetos trazidos dos Estados Unidos para instituições e pastores, e encontraríamos o mesmo cuidado. Esses fatos falam por si mesmos! Aquele que é cuidadoso com o dinheiro do Senhor deve fazer o mesmo com suas finanças e a daqueles com quem realiza permutações financeiras. Minha esposa e eu ficamos maravilhados ao vermos o quão cuidadoso ele era com seus negócios particulares. Cremos que Deus dirigiu sua vida, ao fazer o curso Comercial, pois isso o ajudou muito na liderança e administração do trabalho. Ele menciona que, em seus primeiros anos de ministério, era transferido para outras igrejas que tinham problemas financeiros. Os líderes sabiam que ele era firme e honesto nas finanças. Nunca ficava endividado e sempre tinha o suficiente para manter-se e ajudar os filhos. Momento de crise Uma das grandes crises do pastor Rabello foi sua saída da Voz da Profecia, quando assumiu a presidência da Associação Rio-Minas. Muitos obreiros ficaram preocupados, pois ouviam falar que ele era firme e “pão-duro”. Porém, aqueles que o conheciam de perto sabiam que era liberal para com a igreja, a esposa e familiares, embora não gostasse de desperdiçar dinheiro, nem gastá-lo com frivolidades. Ele preferia comprar livros para o preparo de suas palestras, e hoje esses livros estão na biblioteca do Unasp. Para surpresa dos obreiros, em meio à crise da Associação, o pastor Rabello e seu fiel tesoureiro, Max Furman, aumentaram o salário dos obreiros, que estava aquém das praxes, e colocaram as finanças da Associação em dia. Ele tinha a paciência de Jó. Em meio à tempestade e às crises, sempre foi calmo e paciente. Os filhos e parentes ficavam maravilhados de ver quão magnânimo e paciente era o pastor Rabello para com as crianças. Mas ele perdia a paciência quando ouvia que um aluno da Voz da Profecia não havia sido visitado pelos pastores e que fora parar em outra igreja. Apesar disso, não demonstrava nada àqueles que trabalhavam com ele. Era muito ponderado e controlado ao falar. Com freqüência, surgiam nas comissões problemas e assuntos administrativos polêmicos que elevavam o ânimo dos líderes da igreja. Alguns levantavam e contestavam. Soubemos de líderes que “perdiam as estribeiras”. O pastor Rabello era ponderado e nunca discutia os assuntos em público. Ia abatido para casa. Remoía o assunto, procurando a solução para o problema. No dia seguinte, ao voltar, podia discutir o caso com calma e mais entendimento. Passara uma noite estudando o assunto e orando, antes de falar algo que pudesse ofender alguém. Sua esposa ficava incomodada, pois, na Voz e na administração, dizia-se que era ela quem mandava em casa. Como as pessoas podem ser cruéis! Não compreendiama maneira de ser do pastor Rabello. Era o seu estilo: ponderação, controle e domínio próprio. Ele necessitava de um pouco mais de tempo para refletir e não proferir palavras mal pensadas. O sol sempre desponta depois da tempestade. Muito consagrado a Deus e ao ministério, ele era “um homem de oração”, como podemos ver em muitas das histórias de pessoas que o conheceram e que ouviram suas orações. Esse fato foi também comprovado por sua filha. Ele fazia orações lindas. Há algo, porém, que até hoje não podemos compreender. Nos últimos anos de sua vida, infelizmente, sua mente começou a falhar. Não sabemos se era mal de Alzheimer. Mas sempre que o visitávamos, ou alguém o visitava, pedíamos que ele fizesse oração. Os que estavam presentes ficavam simplesmente maravilhados. A oração era perfeita, seus pensamentos eram claros e expressivos. Como era possível um homem com o mal de Alzheimer fazer uma oração tão inspiradora e clara? Ele nunca perdeu seu contato com Deus. Durante uma semana de oração que realizei no Iasp, conheci Solange Alves de Oliveira, que se considerava fruto da Voz. Ela me relatou a experiência de uma faxineira de nome Maria, que limpava a casa do pastor Rabello, então viúvo, uma vez por semana. O fato revela o cuidado dele com a guarda do sábado. Foi numa sexta-feira. O pastor Rabello havia saído pela manhã para o escritório da Voz da Profecia. Era o dia de preparação e a irmã Maria começou a limpar a casa. Às 13h, o pastor Rabello voltou para o almoço. Chegou e colocou o dinheiro para o pagamento em cima da mesa e disse: – Irmã Maria, aqui está o seu dinheiro. Feliz sábado! A senhora pode ir embora. Momentos antes, ela havia desligado a geladeira para limpeza. Assim, respondeu: – Não, pastor: ainda preciso limpar a geladeira. Eram quase 14h. – Não, irmã Maria, não dá tempo, eu santifico o sábado. Se a senhora não for agora, nós vamos transgredir o sábado, pois a senhora vai demorar aqui limpando a geladeira e não vai conseguir fazer o que precisa em sua casa para a entrada do sábado. Por outro lado, ele era muito temperante e cuidadoso com sua saúde. Quando pequeno, como vimos, ele fez um voto de temperança e observou-o durante a vida inteira. Nunca teve vícios, e essa deveria ser a experiência de todos os cristãos. Exemplificava em sua vida os princípios expressos nas Sagradas Escrituras de que nosso corpo é o templo do Espírito Santo. Sua esposa ficava intrigada porque, ao ele sair de casa para compras ou trabalhos da Voz da Profecia, não comia nada fora de hora: nem pastel, pizza ou sanduíche. Passava o dia fora e não comia nada. Não ingeria alimentos que fossem prejudiciais à sua saúde. Ele era disciplinado consigo mesmo. No entanto, apreciava uma boa comida feita em casa e sempre teve bom apetite. Eu ficava admirado, às vezes, de ver meu sogro comendo comida fria, tirada diretamente da geladeira. Ele caminhava todos os dias da Voz da Profecia para casa, a fim de conservar o corpo em forma. Muitas vezes, saímos juntos para dar uma boa caminhada. Generoso e caridoso, ele procurava viver dentro do seu orçamento e das entradas que o casal recebia. Atualmente, um grande problema de muitos obreiros é que se endividam com cartões de crédito. Não tenho palavras para agradecer a ajuda financeira que recebemos dele ao longo dos anos. Sempre que ele ia nos visitar, deixava um cheque em cima da mesa para ajudar nas despesas dos alimentos. Ele foi sempre bondoso para com os filhos e netos. Quando os dois filhos se casaram, seu presente foi uma geladeira para cada um. Aqueles que o taxaram de “pão-duro”, o fizeram injustamente por não o conhecerem bem. Por ser cuidadoso com suas finanças, podia ajudar os filhos e a igreja. Por sinal, ele era muito fiel à igreja e sempre deu seus dízimos e ofertas pontual e fielmente. Estava sempre preocupado em ajudar a Voz da Profecia. Durante suas viagens de férias aos Estados Unidos (ia todos os anos depois de aposentado), ficava ao telefone muitas horas, angariando donativos para a Voz. Certa ocasião, ele conseguiu quatro mil dólares de um adventista brasileiro que morava na Califórnia. Muitas vezes, o vimos fazendo donativos e dando esmolas para os pobres. Sabemos que existem muitos trapaceiros que se aproveitam das pessoas. Mesmo assim, ele dizia que “quem julga é o Senhor”, e acrescentava: “É melhor errar por dar a quem não precisa do que deixar de dar a um necessitado.” Era muito organizado. Encontramos em sua papelada uma lista de “trabalhos”: 1. Tomar nota da quantidade exata de lições mandadas para Portugal e para os Estados Unidos, idem dos selos gastos e também do custo aproximado do papel empregado na embalagem. Guardar as anotações na pasta de INFORMAÇÕES À MÃO. Deve ser mandado o débito logo que eu chegue aí. 2. Não temos cartão da Rádio Clube deste ano. O Dr. ______ não devolveu o que lhe demos. Basta apresentar-se na Contabilidade e dizer que se deseja receber o último donativo de 1.000 cruzeiros da quantia de 5.000 doada pela Rádio Clube em 1947. O ______ talvez nos faça este favor. O dinheiro deveria ser entregue na Igreja de Niterói. Peça ao Jeremias que vá lá, pois ele é conhecido. 3. Quanto aos dias de carnaval, seria bom seguir as outras organizações nossas. Se houver muito trabalho, confio em que as moças trabalhem ao menos até meia tarde da segunda-feira. De outra maneira, seriam quatro dias de inatividade. Mande fazer os cartões para o Curso Universal na Papelaria América. Peça um preço especial ao Sr. Coutinho. Mande fazer 5.000. Há muitas outras instruções, mas essas são suficientes para demonstrar seu cuidado com os materiais e as finanças. Esse tipo de informação permite olhar através de uma janela o mundo da Voz da Profecia no fim da década de 1940. A entidade era uma colméia de atividades e, graças à organização e firmeza de seu líder, o trabalho alcançou milhares de pessoas sedentas do evangelho. Não existe uma só pessoa que não tenha passado por uma crise. Todos nós enfrentamos tempestades. Mas é uma alegria para o cristão saber que depois da tormenta vem a bonança, porque estamos imbuídos do Espírito do Senhor, que nos ajuda a enfrentar as crises e os dissabores. Em seus momentos de dificuldades, o pastor Rabello mostrava-se calmo e sereno. Naturalmente, ele também teve seus problemas, especialmente na educação de seu filho Cláudio, como vimos. O filho necessitava de muita paciência e compreensão e, graças ao Senhor, valeu a pena, pois aquele jovem morreu em Cristo. O filho pródigo voltou ao lar e o pai, calmo e sereno, ficou ao lado dele até o fim. Sua paciência e compreensão renderam dividendos. Que conforto teria sido também para sua mãe vê-lo, como vimos, passando uma lição da Escola Sabatina! Mas houve outra crise, não com os filhos ou a saúde, que realmente provou o pastor Rabello. Em 1958, ele teve que abandonar a Voz da Profecia e assumir a presidência da Associação Rio-Minas. Há muita correspondência referente a esse vazio na vida do casal Rabello, mas, com tudo isso, ele ainda manteve a dignidade, apesar do sofrimento e das penúrias causadas. Não entrarei em detalhes, mas quero mencionar algumas cartas que mostram o sentimento e a luta que o casal enfrentou. Escrevendo ao pastor W. E. Murray, em 24 de dezembro de 1957, o pastor Rabello disse: Prezado irmão Murray: Depois de refletir e orar sobre a minha situação na Voz da Profecia, cheguei à conclusão de que é melhor para mim eu passar a outra atividade na obra. Peço, pois, que seja atendida a solicitação que fiz no princípio deste ano, de que eu seja dispensado do trabalho do rádio em fins de 1957. De antemão, fico-lhe grato por isso. Seu irmão no Senhor, Roberto M. Rabello Ele escreveu cartas também aos pastores Moisés Nigri, R. Wilcox, E. R. Walde (da Associação Geral) e pastor Rodolpho Belz, que era o presidente da União Este. No dia 4 de abril de 1958, recebeu uma carta escrita à mão pelo pastor Rodolpho Belz, que dizia: Amigo Rabello Saudações: Apenas algumas palavras para lhe comunicar que a Associação Rio-Minaso chamou para ser o seu presidente. Para mim, é motivo de alegria comunicar tal fato ao prezado irmão. Não mencionarei as transações desse chamado, mas, no dia 12 de abril, o pastor Rabello escreveu ao pastor Belz que aceitava o convite. Os pastores W. Murray, da Divisão Sul-Americana, e o pastor Walde, da Associação Geral, tentaram dissuadi-lo para que ficasse, pois muito apreciavam o que ele havia feito na Voz da Profecia. Porém, ele estava irredutível em sua decisão. Durante minha estada no La Sierra College, fiquei conhecendo o pastor João Boehm e sua esposa Augusta, fundadores do Colégio Adventista Brasileiro, em Santo Amaro, em 1915, e grandes amigos do casal Rabello. No dia 11 de dezembro de 1958, ele escreveu ao pastor Rabello que o pastor Richards havia passado em sua casa para visitá-lo e “que estava muito triste que você não está mais diretamente envolvido como orador da Voz da Profecia”. Acrescentou: “Ele espera que você seja chamado de volta novamente. Seja feita a vontade de Deus [frase em português].” Há um ditado que diz “que Deus escreve direito por linhas tortas”. Não concordo. Deus sempre escreve direito e nós, infelizmente, interpretamos essas linhas erroneamente, como se fossem tortas. Essa experiência serviu para enrijecer o caráter do pastor Rabello e demonstrar aos líderes da Igreja Adventista na América do Sul os talentos dele como administrador ao dirigir a Associação Rio-Minas com firmeza, eficiência, carinho e amor. Foi uma linda experiência. Ao mesmo tempo, ele continuou preparando palestras e gravando os programas da Voz da Profecia. Sua voz nunca saiu do ar e a Voz da Profecia não sofreu interrupção. Foi uma alegria quando ele voltou para a Voz e ali no Botofago, em 1962, foi inaugurada a sede da Voz da Profecia no Brasil, com seu primeiro quarteto. Os homens podem mexer e tirar, mas um dia Deus coloca os líderes no lugar exato, na posição onde seus talentos serão usados em toda a sua amplitude. Minha esposa conta que sua mãe não queria voltar mais para a Voz da Profecia. Chorou muito. Estava contente na Associação Rio-Minas. Mas Deus tinha outro plano para o casal. Depois de passarem pela experiência de Jacó, renovaram seu espírito e, com todo coração, dedicaram os anos de sua vida à querida Voz da Profecia. A Orador Emérito Os anos de jubilação e a nova companheira aposentadoria não é fácil para algumas pessoas, especialmente quando o trabalho é desempenhado com satisfação. O pastor Rabello havia trabalhado na Voz da Profecia como orador e administrador por mais de 30 anos. Tinha mais de 40 anos como obreiro na causa do Senhor. Em 1975, passou a batuta para o pastor Roberto Conrad e continuou trabalhando na Voz, ajudando o novo orador. Continuou preparando metade das palestras, pois o pastor Conrad estava também empenhado em lançar o programa pela televisão e foi para os Estados Unidos a fim de cursar mestrado em Divindade, na Universidade Andrews. Em janeiro de 1975, a cantora Del Delker enviou uma carta ao pastor Rabello, pedindo que felicitasse o novo orador e também o pastor José Siqueira como novo administrador da Voz. Um trecho dessa carta dizia: Que o Senhor o abençoe ao assumir a bandeira de “orador emérito”. Sendo que tem boa saúde, penso que ainda terá muitos anos para servir o Senhor. Deus o tem usado de maneira maravilhosa, e tenho grande respeito e admiração pelo irmão. Creio que o irmão é um homem que a irmã White definiria como alguém “que permaneceria firme pelo que é reto, ainda que caiam os céus”. Cada dia, escuto sobre os acontecimentos, e mais me convenço de que Jesus retornará em breve para libertar-nos e tornar possível aquela feliz reunião que o irmão e todos nós anelamos. O Jornal, da União Este, publicou um artigo em junho de 1976, que bem ilustra as atividades do “orador emérito” da Voz da Profecia: Pastor Rabello visita cidades da UEB O pastor Roberto Rabello, orador da Voz da Profecia, visitou algumas cidades da UEB objetivando especialmente um contato pessoal e amigo com os ouvintes e admiradores do programa, bem como uma explanação mais ampla e direta da mensagem do advento. Acompanhado do pianista Alexandre Reichert e do cantor Eclair da Cruz, o pastor Rabello falou a mais de três mil pessoas nas cidades de Andradas, Poços de Caldas, Campestre, Pouso Alegre, Campanha, São Lourenço, Cataguases e Juiz de Fora. Foram feitas aproximadamente 480 inscrições para a Escola Radiopostal, cujos endereços ficaram de posse das respectivas igrejas para posteriores visitações. Um itinerário bem puxado para um aposentado! Esse foi o início de muitas viagens por todo o Brasil durante os anos de sua aposentadoria. As comunicações com a sua turma do Pacific Union College, onde ele se formou em 1943, revelam detalhes de sua vida de aposentado. Essa turma era composta de obreiros que brilharam na causa do Senhor por muitos anos. Alguns deles: pastor David Baasch, sub-secretário da Associação Geral; Dr. Jack Provonsha, catedrático da Universidade de Loma Linda; pastor Elman Folkenberg, tesoureiro em muitos lugares e pai do pastor Robert Folkenberg; Dr. Graham Maxwell, professor na Universidade de Loma Linda; Dr. Robert Olson, secretário executivo do Ellen G. White Estate; Dr. Carlos Taylor, nascido no Brasil, diretor de educação da Associação Geral. Essa classe tão distinta continuou através dos anos se comunicando através de um boletim anual que era enviado a todos os colegas, solicitando informações sobre o trabalho e a família. Em 1974, o redator escreveu o seguinte: Tivemos a agradável visita do pastor Rabello, enquanto visitava, aqui em Washington, sua filha e família. Léo Ranzolin, genro do pastor Rabello, é diretor associado do Departamento de Jovens da Associação Geral. O pastor Rabello contou-nos que, agora que chegou à idade da aposentadoria, continua muito ocupado desde manhã até a noite com seus deveres como orador da Voz da Profecia. Desde que a esposa faleceu, há quatro anos, está praticamente casado com seu trabalho. Pastor Rabello, foi uma alegria revê- lo. Estaremos orando pelo irmão. Em 10 de janeiro de 1979, enquanto o pastor Rabello visitava mais uma vez a filha, o genro e os netos em Takoma Park, escreveu uma nota informando sobre suas múltiplas atividades como jubilado: O ano de 1978 foi de muita atividade para mim. Celebramos no Brasil o 35° aniversário da fundação da Voz da Profecia. Grandes reuniões foram realizadas no Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades do país. Em outubro, tivemos a visita dos Arautos do Rei de Los Angeles. Cantaram para mais de 2.000 pessoas em Brasília, e numa reunião gigantesca de 12.000 pessoas em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Pelo que tudo indica, 1979 será outro ano com muita ocupação, como deveria ser para um povo que crê na iminência do fim do mundo. Planos estão sendo elaborados para avançar com a obra do rádio com todo vigor. Há um plano de lançar um programa nacional de televisão, patrocinado pela Voz da Profecia. Ao saudar meus colegas de classe através deste boletim, me vem à mente o fato de que 1978 marcou o 35° aniversário de nossa classe. Mais de um terço de século já passou desde o momento que cantamos juntos na cerimônia de formatura “Ó Jesus, prometi servir-Te até o fim!” Que promessa! Que o Senhor conceda a cada um de nós a bênção de sermos fiéis a esse propósito! Esses comentários e a comunicação com os ex-colegas nos ajudam a compreender que, mesmo depois de aposentado, o pastor Rabello dedicava-se de corpo e alma à Voz da Profecia. Era incansável, como fica evidente em outras comunicações com a classe de 1943. Por exemplo: Silver Spring, MD, 22 de janeiro de 1982 Escrevo estas linhas para saudar meus ex-colegas. É meu desejo que todos estejam com boa saúde e firmemente estabelecidos no Senhor. Quanto a mim, continuo gozando boa saúde, graças ao Pai celestial. Apesar de aposentado, dedico tempo integral à obra da pregação da mensagem que tanto amamos. Os irmãos me pediram que ficasse responsável pela metade dos programas da Vozda Profecia, de responder às cartas que viessem em meu nome e viajar de vez em quando pelo campo com o quarteto para atender compromissos. Isso me deixa muito ocupado e feliz. Escrevendo novamente de Silver Spring, no dia 15 de janeiro de 1984, ele diz: Em setembro de 1983, celebramos o 40° aniversário da Voz da Profecia no Brasil. A história de nosso ministério do rádio naquele país, como também a história de outros setores da obra, é uma das grandes vitórias. Começamos com 17 estações e agora temos 400 estações irradiando as mensagens, e 50 delas, cinco vezes por semana. De acordo com a Divisão Sul-Americana, 42% de todos os batismos, atualmente, são de pessoas cujo interesse foi iniciado pela Voz da Profecia. Agradecemos ao Senhor por este crescimento e pelos seus frutos. A próxima comunicação revela uma novidade. Depois de 14 anos como viúvo, o pastor Rabello encontrara uma companheira. Isso aparece no relatório de 8 de janeiro de 1987: Recebi seu cartão ao regressar de uma viagem pelo Estado do Rio Grande Sul. Fiquei contente com as notícias e de saber que vocês têm seis netos. Esse é o total de meus netos, mas o mais velho tem agora uma filha, minha primeira bisneta. A propósito, ela é tão ativa que minha filha em uma carta descreveu-a como um “terremotinho”. Graças ao Senhor, minha saúde vai bem e assim continuo trabalhando com a mesma intensidade que tinha antes de aposentar-me. Continuo preparando metade dos programas da Voz da Profecia e viajo bastante. Há tanto interesse despertado pela Voz da Profecia e tantas oportunidades para ajudar as pessoas! Um exemplo: na cidade de São Luís, norte do Brasil, um de nossos evangelistas inscreveu 10 mil pessoas nos cursos bíblicos e depois as convidou para assistir às suas reuniões! Mais de 1.400 já foram batizadas. Parar de trabalhar sob estas circunstâncias é impossível. E aí recordo o que me disse o pastor H. M. S. Richards quando o visitei em sua biblioteca, falando sobre a aposentadoria: “Não há texto bíblico que fale que devemos parar de trabalhar para o Senhor.” Foi um grande prazer rever David Baasch e Carlos Taylor, durante as recentes reuniões do Concílio Anual da Associação Geral, realizadas aqui no Rio de Janeiro (1986). Gostaria que todos os nossos colegas tivessem vindo. Não devo terminar sem informar os membros de minha classe que, depois de treze anos sozinho, decidi casar-me novamente. Minha nova esposa (Edith Anniehs) é brasileira, de origem alemã, mas, tendo trabalhado no Hospital de Loma Linda por mais de 20 anos como enfermeira, é também cidadã americana. Por causa disso, ela é agora, em linguajar familiar, uma brasicana. A todos os meus colegas envio um forte abraço brasileiro do calor escaldante do Rio de janeiro. Que o Senhor lhes conceda um abençoado 1987. O próximo relatório é, provavelmente, um dos últimos dirigidos aos seus ex- colegas de classe, pois logo depois sua mente começou a falhar: Depois de ler a sua carta, tomei um pouco de tempo para examinar um exemplar da “Lanterna de Diógenes” de 1943 (anuário do colégio) e ver as fotos de todos os nossos companheiros. Que pena que alguns deles já faleceram! Mas é encorajador ver que muitos continuam ativos, trabalhando para o Senhor. Quanto a mim, meu estado de saúde continua bom, graças ao Pai celestial. E, apesar de aposentado, continuo dando tempo integral à Voz da Profecia. Como muitos de meus colegas recordam, fui convidado a iniciar os programas de rádio em português, enquanto estudava no Pacific Union College em 1942. E desde então a Voz da Profecia tem sido o objeto de meu amor e apoio completo. Em setembro de 1971, a Sra. Katherine Schneider, viúva do Dr. C. Schneider, fundador do Hospital Silvestre, escreveu uma carta comunicando sua tristeza pelo falecimento da irmã Hetty. Naturalmente, todos nós estamos profundamente pesarosos porque nossa querida Edwirges descansou no Senhor. Quando perdi meu esposo, pensei que nunca mais teria um dia de felicidade. Entretanto, descobri através dos anos que a Terra não tem tristeza que o Céu não possa curar. Devemos olhar para o futuro com coragem e determinação, para tirar o melhor de nosso pesar, e fazer o sol brilhar com mais intensidade. Espero que não fique ofendido se eu fizer uma sugestão, como você e Edwirges fizeram ao irmão Wissner, alguns anos atrás. Tenho uma jovem muito cristã que mora comigo e que gostaria de ter um companheiro e um novo lar. Ela faria tudo que é possível para levar felicidade a alguém. A Edith é uma pessoa maravilhosa e não tem medo de tomar posição pelos princípios da igreja. Estamos morando juntas por algum tempo e estou certo de que sentiria falta dela. Mas onde podemos encontrar uma mulher que não almeja um companheiro para partilhar os bons e os maus dias da vida? Eu creio que vocês dois pertencem um ao outro e o tenho mencionado para ela com freqüência. Ela sorri e diz: ‘Isto seria muito bom!’ Ela não sabe que estou escrevendo e não quero que saiba, mas queria que você soubesse. A resposta do pastor Rabello foi que conhecia a família Anniehs por muitos anos e tinha muita admiração pela irmã Edith. “Mas a ferida causada pelo falecimento da Hetty ainda está muito viva para considerar o que a irmã sugere”, ele explicou. A Sra. Hetty falecera em 5 de novembro de 1970. “Aprecio o seu interesse por minha situação. Não tenho, porém, dúvida de que a irmã compreende os meus sentimentos, pois passou também por este caminho.” A dor era ainda muito forte, pois não fazia um ano que a esposa havia falecido e o pastor Rabello não estava pronto para encontrar uma nova companheira. Na realidade, ficou viúvo por quase 14 anos. Sua companheira era a Voz da Profecia e, naqueles dias em que vivia só, percorreu todos os estados do Brasil, anunciando as boas-novas da volta de nosso Senhor Jesus Cristo e promovendo sua querida Voz da Profecia. A nova esposa Foi durante uma das visitas anuais do pastor Rabello aos Estados Unidos que o Dr. Olson falou taxativa e categoricamente com seu amigo: “Roberto, deixe disso e arrume uma esposa. Você já está viúvo há muito tempo.” Por incrível que pareça, aquelas palavras foram tão convincentes que, naquela mesma noite, ele ligou para a Srta. Hedwig Edith Anniehs. Não sabemos exatamente o teor da conversa, se ele propôs casamento ou não, mas sabemos que dali em diante tudo se ajeitou para um futuro casamento. Ao longo dos anos, os dois se comunicaram, trocando idéias. A irmã Edith, que sempre fora muito generosa, contribuía para a Voz da Profecia, como fazia com Quiet Hour, nos Estados Unidos. Até hoje, a família Anniehs tem sido muito bondosa para com a igreja. Doou a sede da JAC (Juventude Adventista Curitibana), que tem sido uma bênção para os jovens da cidade de Curitiba e, além disso, ofereceu um terreno para a sede da Voz da Profecia em Vista Alegre, Curitiba. Os planos, porém, mudaram e a Voz foi para Nova Friburgo, Rio de Janeiro. O terreno onde se encontra a sede da Associação Sul-Paranaense era da família Anniehs. A casa da Sra. Edith Rabello fica ao lado, local onde o pastor Rabello passou os últimos anos de sua vida. A Sra. Olinda Anniehs, irmã de Edith Rabello, forneceu-nos alguns dados biográficos da segunda esposa do pastor Rabello. Os avós paternos de Edith Rabello vieram da Alemanha. Seu avô saiu da Alemanha em 1884 e fixou-se na cidade de Joinville, onde se casou com Ida August Panzer. Desse casamento nasceu o primeiro filho, Alberto Anniess (assim se escrevia seu sobrenome), pai da Sra. Edith. Os avós maternos, também oriundos da Alemanha, radicaram-se no Brasil entre 1880 e 1885. Casaram-se em São Bento, SC, e se transferiram para Curitiba, onde nasceram todos os filhos. Eles tiveram oito filhos, sendo a quarta filha, Martha, mãe de Edith. Alberto e Martha se casaram em Curitiba em 11 de janeiro de 1913. Eles tiveram seis filhos: Herta (falecida), casada com Crivelaro; Arnoldo, pastor por muitos anos em São Paulo; Walter; Gerda, esposa do falecido pastor Burgo, cujo filho Turíbio tem usado seu talento para a música em nossoscolégios, e Olinda. A Sra. Edith Anniehs Rabello estudou em Curitiba, no Rio de Janeiro e concluiu o curso de enfermagem na Escola Ana Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1946. Seguiu, então, para os Estados Unidos para cursar Fisioterapia na Universidade de Loma Linda, mantendo os estudos através do trabalho em enfermagem no próprio hospital. Após concluir seu curso em Loma Linda, foi chamada para trabalhar no Hospital Silvestre, no Rio de Janeiro, onde exerceu atividades em fisioterapia e enfermagem durante alguns anos. O Dr. Góis, especialista em tratamentos a pacientes portadores de seqüelas de paralisia infantil, convidou Edith para trabalhar na fisioterapia de uma clínica no Botafogo. Essa foi uma área em que a irmã Edith se especializou e prestou um maravilhoso serviço aos seus pacientes, com muita paciência e amor. A convite da Sra. Schneider, esposa do fundador do Hospital Silvestre, Edith voltou para os Estados Unidos. As duas moraram juntas em Loma Linda, e Edith voltou a trabalhar no Hospital de Loma Linda até a sua aposentadoria, época em que disse “sim” ao pastor Rabello e voltou para o Brasil. O casamento deles foi realizado no dia 15 de maio de 1984, às 19h, na cidade do Rio de Janeiro. Era o segundo casamento para o pastor Rabello e o primeiro para Edith. A cerimônia foi simples e reuniu um pequeno grupo de amigos e pastores, sendo oficiada pelo pastor Ary Gomes. O casal viveu a maior parte do tempo no Rio de Janeiro, mas durante os 12 anos em que estiveram casados viajaram pelos Estados Unidos e nos visitaram em Washington. Diga-se de passagem, logo depois do casamento, eles foram assistir à assembléia da Associação Geral realizada em Nova Orleans, em 1985. Aproveitaram para dar um giro pelos Estados Unidos, visitar amigos e familiares e, naturalmente, angariar fundos para a Voz da Profecia. O pastor Rabello continuou ativo por muitos anos até que sua memória começou a enfraquecer e o casal mudou-se para Vista Alegre, em Curitiba. Estavam bem assessorados pelos membros da família Anniehs: Sra. Gerda Anniehs Burgo, viúva do pastor Burgo; Walter Anniehs e esposa; e as duas sobrinhas, Miriam Crivelaro, e Ellen, casada com Charles Kalbermatter. A igreja de Vista Alegre fica bem perto da casa da Sra. Edith Rabello. Após o falecimento do pastor Rabello, em 1996, Edith continuou residindo na mesma casa. Como muitas pessoas idosas, apesar de gozar boa saúde física, ela está ficando esquecida. Mas não se esquece do esposo e, sempre que ligamos para ela, reconhece nossa voz. Como nunca teve filhos, suas sobrinhas e demais familiares lhe dão o apoio que necessita. O pastor Rabello gozou por muitos anos da companhia de seus parentes que também fixaram residência em Curitiba. O contato com familiares foi muito salutar para o casal. E A Última Canção O funeral e testemunhos de pastores e amigos u havia participado de um seminário sobre a oração na cidade de Denver e, ao voltar para casa, soube que minha mãe estava no hospital. Imediatamente, fiz preparativos para voar para lá, pois ela havia sido internada no Hospital de Fullerton, em Los Angeles, Califórnia. No dia 15 de agosto de 1996, embarquei para Los Angeles e, ao chegar, fui diretamente para o hospital. Meus irmãos estavam presentes e minha mãe havia sido muito bem atendida. O idioma inglês era um problema para sua comunicação com os médicos e enfermeiras, e os filhos deram toda a assistência necessária. No dia seguinte, recebi um comunicado de minha esposa informando que meu sogro havia falecido em Vista Alegre, Curitiba, às 10h da manhã (6h da manhã em Los Angeles). Era sexta-feira, dia 16. Graças à ajuda do professor Wilson Ávila, amigo da família, às 3h45 da tarde, eu consegui um vôo para São Paulo. Minha esposa, por sua vez, partiu com nosso filho, Luís Roberto, para Miami, e de lá voariam para São Paulo. O problema é que, ao chegarem a Miami, a saída de nosso filho foi interceptada porque seu passaporte não estava em dia e ele não tinha o visto para entrar no país. Pensamos que, em caso de morte, haveria mais compreensão. Porém, não deu para fazer nada. Ele queria tanto estar presente no enterro do avô, mas não foi possível. Teve que retornar para casa. Pelo menos deu apoio à mãe naquela hora tão difícil que todos nós enfrentávamos. Minha chegada a São Paulo foi às 7h55 da manhã, no sábado, dia 17, e minha esposa chegou às 8h30. Sabíamos que, de acordo com as leis brasileiras, ele deveria ser enterrado 24 horas depois da morte. Seus irmãos João e Plínio Rabello levaram o corpo na sexta-feira à noite para São Paulo, pois o túmulo da família Braun ficava no cemitério de Santo Amaro. O Dr. Jader Rabello, sobrinho do pastor Rabello, gentilmente foi nos buscar no aeroporto e nos levou para o IAE, onde o corpo estava sendo velado. O culto foi realizado na igreja do colégio e, apesar do pouco tempo para avisar o povo adventista de São Paulo, a igreja do colégio estava repleta. Homenagens A cerimônia fúnebre durou 45 minutos (das 2h10 às 2h55). Em seguida, irmãos e irmãs da igreja passaram diante do corpo do grande pioneiro do rádio para dar seu último adeus. Ele descansava no Senhor e, como sempre, com aparência calma e serena. A cerimônia contou com a participação dos Arautos do Rei. A oração foi feita pelo pastor Erlo Braun, ex-cantor dos Arautos do Rei. O pastor Rodolpho Gorski, então presidente da União Sul Brasileira, apresentou uma pequena biografia do pastor Rabello. O quarteto cantou mais uma vez e o pastor da igreja, Narciso Liedke Filho, apresentou palavras de conforto aos familiares e irmãos presentes. Tive o privilégio de apresentar o tributo da família e, mais uma vez, destacar a vida maravilhosa desse homem de Deus e sua influência na igreja e na sociedade. O pastor Ruy Nagel, então presidente da Divisão Sul-Americana, fez uma homenagem em nome da igreja, recordando o pioneirismo e a dedicação desse servo de Deus. A oração final foi pronunciada pelo pastor José Correia, presidente da União Este Brasileira. Às 15h30, o cortejo fúnebre partiu rumo à cidade de Santo Amaro. Às 16h30, o pastor Walter Boger, ex-cantor dos Arautos e então diretor do novo IAE (hoje Unasp), apresentou a mensagem diante do túmulo da família Braun. Suas palavras foram de grande conforto para todos os presentes. Ele mesmo não sabia quão perto estava de descansar no Senhor. O pastor Alcides Campolongo, pioneiro dos programas adventistas de televisão no Brasil e grande amigo do pastor Rabello, fez comentários de apreciação pelo ministério pioneiro dele. Sua oração não será esquecida. Temos ouvido muitas histórias sobre a influência do pastor Rabello e como as pessoas foram enlevadas por sua voz. Seu irmão Walter Rabello conta que um coveiro que estava participando do enterro, no momento que baixavam o caixão para dentro do túmulo, para ser colocado em prateleira ao lado de sua inesquecível esposa Hetty, perguntou-lhe se ele sabia quem era aquele homem que estava sendo sepultado. Ao tomar conhecimento de que era o pastor Rabello, o coveiro ficou simplesmente maravilhado e disse: – Sou ouvinte da Voz da Profecia e nunca vou esquecer essa voz. Mais tarde, Walter tentou fazer contato com ele, mas não conseguiu. O carinho da igreja, das instituições, dos pastores e irmãos foi revelado no enorme número de coroas de flores no colégio e no cemitério. Cartas, telegramas e telefonemas para a família chegaram de todo o Brasil e do exterior. Seria impossível publicar ou reproduzir todas as mensagens. Mas podemos destacar algumas. Em carta datada de 4 de setembro de 1996, o pastor Neal C. Wilson, ex- presidente da Associação Geral, escreveu: Estimados Léo e Lucila: Retornando a Washington alguns dias atrás, li o Communique [órgão interno da Associação Geral] e me inteirei da triste notícia de que o pai da Lucila havia falecido. Por muitos anos, fiquei impressionado com a devoção e o profundo compromisso dele com esta mensagem e o seu espírito corajoso em crer nas técnicas do radio e da televisão. Fiquei conhecendoo pastor Rabello, pela primeira vez, quando éramos companheiros de estudos, apesar dele ser dez anos mais velho que eu. Tive o privilégio de vê-lo muitas vezes na América do Sul, e de regozijar-me no tipo de liderança que ele exerceu. Sua vida foi realmente uma inspiração. Como sabem, quando Elinor ficou seriamente enferma, por ocasião do Concílio Anual realizado no Rio de Janeiro, em 1986, sua [de Lucila] madrasta [Edith Rabello], creio, durante diversos dias foi designada como enfermeira de minha esposa. Seremos sempre muito gratos pela atenção dispensada pelos médicos e enfermeiras, e pela esposa do pastor Rabello, naquele momento crítico da vida de minha esposa Elinor. Que consolação maravilhosa temos nas promessas de Deus! Confiamos nas palavras de Jesus em João 11:25: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá.” Falta pouco tempo, e Jesus logo virá. Que maravilha pensar que há ressurreição e vida eterna! Temos que confortar-nos uns aos outros e queremos assegurar-lhes: Elinor e eu estaremos orando especialmente por vocês em nossos cultos devocionais. Que o Senhor os guarde, abençoe e continue usando-os na liderança da igreja mundial! Sinceramente, seu irmão Neal C. Wilson O pastor Lonnie Melashenko, orador da Voz da Profecia nos Estados Unidos, escreveu uma carta ao pastor Erlo Braun, que na ocasião era diretor da Voz da Profecia no Brasil. A carta foi publicada na Revista Adventista de novembro de 1996. Um parágrafo dizia: Lamentamos a morte de um príncipe em Israel, o pastor Roberto Rabello. Em nome da família mundial da Voz da Profecia, envio esta mensagem ao povo do Brasil e particularmente aos fiéis obreiros da Voz da Profecia, pelo seu falecimento. O irmão Rabello sempre foi bem visto por H. M. S. Richards [fundador e orador da Voz da Profecia nos Estados Unidos] porque teve visão, coragem e força para iniciar o ministério do rádio no Brasil. O “chefe” sempre admirou o pastor Rabello e, na verdade, até o apoiou financeiramente para que pudesse iniciar seu empreendimento. A Folha de São Paulo, em seu caderno “Ilustrada”, de 19 de agosto de 1996, publicou a seguinte nota: “Roberto Rabello morre aos 84 anos [86 anos]. O radialista Roberto Mendes Rabello morreu na última sexta-feira, em Curitiba. Rabello ficou conhecido por apresentar A Voz da Profecia, primeiro programa evangélico de rádio do Brasil, criado em setembro de 1943. O radialista foi sepultado no sábado, 17, em São Paulo.” A Dra. Leona Running foi secretária do pastor Rabello e do pastor Braulio Pérez nos primórdios da Voz da Profecia em Glendale. Ao saber, através da Adventist Review, do falecimento do pastor Rabello, essa doutora em línguas bíblicas enviou-nos a seguinte nota: “Sinto-me triste com a perda de alguém com quem trabalhei muitos anos atrás. Envio minhas profundas condolências a você e aos demais membros de sua família. Ele era um homem bom e, como o irmão diz, muito amado pelo povo brasileiro. Que o Senhor conforte e sustente todos vocês!” Testemunhos Dos pastores e líderes que estiveram presentes ao funeral, queremos destacar algumas frases sobre esse grande mensageiro, que, apesar de tombado, deixou um patrimônio de fé e esperança. Alguns falaram ao vivo, participando da cerimônia, e outros gravaram seu testemunho. As palavras-chaves usadas pelos pastores e leigos foram “inspiração”, “exemplo”, “dedicação”, “consagração” e “homem de oração”. O pastor Rodolpho Gorski, então presidente da União Sul Brasileira, disse: “O pastor Roberto M. Rabello não é apenas o pioneiro da obra radiofônica no Brasil, mas também foi um símbolo de identificação, amor e total envolvimento no trabalho da pregação do evangelho. Ele tornou-se para nós não apenas aquela voz aveludada, mas um homem cheio e transbordante das mensagens divinas para o mundo, anunciando que Jesus em breve voltará.” Elias Azevedo, parente do pastor Rabello e proprietário da GBM (gravadora religiosa), afirmou: “Para mim, o pastor Rabello foi uma inspiração, um exemplo. Não tenho palavras para dizer mais nada.” O pastor Assad Bechara, ex-líder de jovens da Divisão Sul-Americana, testemunhou: “A vida do pastor Rabello foi uma voz pregando no deserto, para apresentar a fonte da água viva, que é Jesus Cristo. O servo de Deus descansa em paz, porque ele viveu em paz. Mas a mensagem continua, na esperança do advento de nosso Senhor Jesus Cristo, para que, em breve, todos nós estejamos no lar eterno. O pastor Rabello foi uma inspiração, será uma inspiração na esperança e na experiência e na vivência de uma vida cristã. Seu exemplo continua através dos registros celestiais.” O pastor José Alfredo Torres Pereira, comunicador, disse: “O pastor Rabello foi uma grande influência na decisão e experiência para o meu ministério, nos anos de 1943 a 1945. Fiz todos os cursos da Escola Radiopostal. O pastor Rabello era venerado por minha família, da qual cerca de 300 pessoas se converteram ao adventismo. E, depois, tive a sorte e a felicidade de trabalhar com ele nos escritórios da Voz da Profecia. Fui orador adjunto e diretor da Escola Radiopostal. Aguardamos revê-lo na manhã da ressurreição.” O pastor João Linhares, que lecionou no seminário do IAE, comentou: “Estudávamos no Pacific Union College, quando fomos chamados para ir até Glendale. Fui o primeiro adjunto do programa. Com a graça de Deus, a Voz da Profecia foi iniciada com o pastor Rabello e comigo, pois fui o anunciador do primeiro ano. O trabalho cresceu e progrediu, representando um grande benefício para a igreja e o mundo. Ele tinha muita facilidade para falar, pregou a verdade de todo o coração e espero que o resultado seja grandioso.” Ademar Penteado, membro do quarteto, expressou sua apreciação assim: “O pastor Rabello é o pai da Voz no Brasil e foi também um pai para mim por três meses quando morei com ele em seu apartamento. O trabalho do pastor Rabello abrangeu todo o território nacional. Trabalhei lado a lado com ele e espero que o seu trabalho dê muito fruto para a eternidade.” O pastor Wandir Mendes de Oliveira, parente do pastor Rabello e que se tornaria presidente da União Este Brasileira, comentou: “A Igreja Adventista no Brasil perdeu um de seus membros mais queridos, não só da nossa família, mas da família evangélica, que por mais de 50 anos levou a mensagem de salvação. Queira Deus que seus conselhos nos ajudem a chegar até o Céu. Ele estará lá e nós queremos encontrá-lo.” O pastor Walter Boger, então presidente do novo IAE, no interior de São Paulo, afirmou: “Durante quatro anos, tive o privilégio de trabalhar e conviver com o pastor Rabello. Uma coisa que marcou minha vida foi seu poderoso espírito de oração. Sempre que iniciávamos alguma programação, o pastor Rabello entregava a equipe nas mãos de Deus. Certamente este é um exemplo que deve ser seguido por todos aqueles que querem seguir suas pisadas. A igreja perde um grande obreiro, um grande líder. A esperança continua e temos certeza de que um dia Jesus virá buscar Seus filhos.” O pastor Boger, que foi o orador na cerimônia no cemitério, mencionou que estávamos confortados na doce esperança que o pastor Rabello pregou durante toda a sua vida e concluiu: “Vale a pena assistir ao sepultamento de uma pessoa assim.” O pastor Ivalter de Souza, ex-cantor dos Arautos e filho do falecido irmão Balduíno Souza, primo-irmão do pastor Rabello, disse: “O pastor Rabello foi realmente uma bênção para a Igreja Adventista, com sua preocupação em anunciar a volta de Jesus. Através de suas pregações, milhares de pessoas chegaram ao conhecimento de Cristo. Ele descansou crendo na ressurreição.” O pastor Eliseu Menegusso, então professor de teologia no IAE, ressaltou: “O pastor Rabello foi um exemplo de pioneirismo e iniciativa para a Igreja Adventista.” O pastor Fernando Iglesias, ex-cantor do quarteto e agora orador do programa Está Escrito, ponderou: “O pastor Rabello foi a figura mais importante da atualidade na Igreja Adventista no Brasil. Estamos hoje perdendo um homem de Deus. Sua mensagem foique Cristo irá voltar. Já voltou para ele e um dia voltará para nós.” O pastor Irajá Costa e Silva, que foi pastor da Igreja Brasileira de Nova York, afirmou: “A Igreja Adventista no Brasil está de luto e nós em Nova York também. Trabalhei durante nove anos na Voz da Profecia, e o pastor Rabello foi uma inspiração, um exemplo e um homem de oração.” O pastor Alcides Campolongo, um dos pioneiros do programa Fé Para Hoje, afirmou: “Por 30 anos trabalhamos juntos. Aprendi da paciência, perseverança e dedicação do pastor Rabello no trabalho do Senhor Deus. Roberto Rabello foi um homem que deixou um rastro luminoso na Terra. Um monumento da igreja no Brasil.” O pastor Erlo Braun, cantor do quarteto, disse: “Estamos no cemitério de Santo Amaro, vendo o pastor Rabello pela última vez. Ele pregou mais de 2.000 palestras e milhares de pessoas tiveram a vida modificada por este homem de Deus. Suas palavras cessaram, mas suas obras o acompanharão.” O pastor Josué de Castro, membro do quarteto, ressaltou: “É impossível pensar em rádio transmitindo mensagens sem pensar no pastor Rabello. Ele representa um patrimônio da igreja e do país. Ele tinha uma voz maravilhosa. Eu pude aprender do pastor Rabello em uma de nossas viagens na cidade de Paranavaí, PR, quando ele nos chamou para orar. O sucesso do homem está na proporção de quanto ele depende de Deus.” O Dr. Wilson Rossi, dentista e genro do pastor João Linhares, deu seu testemunho: “Hoje é um dia de consternação. O Brasil evangélico está de luto. O pastor Rabello implantou a mensagem do advento. A igreja perdeu um guerreiro. Ele foi um alicerce da igreja no Brasil.” O pastor Nevil Gorski, que foi educador e presidente do Unasp, destacou: “Queremos reiterar que a presença do pastor Rabello no Brasil e o seu trabalho marcaram época. Graças a Deus por seu ministério. Seu trabalho foi o pioneirismo para a comunicação do rádio e da televisão no Brasil.” O pastor Udolcy Zukowski, líder de jovens na União Central Brasileira, contou a experiência de uma mulher que lhe escrevera uma carta mostrando a influência da Voz da Profecia e do pastor Rabello em sua vida. Ela vivia um inferno em sua casa. O marido bebia e a maltratava cruelmente. Batia nela e nos filhos. Um dia, não agüentando mais, ela fechou as portas e as janelas e ligou o gás para suicidar-se. À medida que o gás ia entrando, milagrosamente, o rádio estava transmitindo o programa da Voz da Profecia. O pastor Rabello disse que havia esperança e que, apesar das lutas e dificuldades, podemos vencer pelo poder de Cristo. A mulher ficou tão impressionada que abriu as janelas, fechou o gás e escutou todo o programa. Ela e as quatro crianças foram salvas por aquela voz maravilhosa. Hoje, ela é membro da Igreja Adventista. O pastor Melchiades Soares, ex-cantor do quarteto, expressou-se assim: “Trabalhei na Voz da Profecia de 1972 a 1975. O pastor Rabello foi um modelo, um servo de Deus. Não se queixava. Nem nas viagens longas de até 800 quilômetros num dia. Mesmo com sede e fome, ele ficava sentando calmamente em sua poltrona, na Kombi.” O pastor Ruy Nagel, então presidente da Igreja Adventista na América do Sul, agora aposentado, disse: “O sonho do pastor Rabello foi realizado e transformado no que agora chamamos Sistema Adventista de Comunicação. Que o espírito com que ele criou a Voz da Profecia possa seguir em frente!” As palavras finais, naquela ocasião, vieram do novo orador da Voz, o pastor Ronaldo de Oliveira. Ele sublinhou que o pastor Rabello marcou época na igreja. “Falar sobre a Voz é falar de Roberto Rabello”, disse. “Durante os 40 anos da Voz da Profecia, cerca de 200 mil pessoas entraram para a Igreja!” Muitas vezes, as pessoas lhe perguntavam se ele ia substituir o pastor Rabello e dizia: “Não vou substituí-lo, mas vou seguir o seu exemplo e ajudar a completar a tarefa.” O último cântico A última pessoa que falou com o pastor Rabello foi o pastor Roberto Conrad, que ficou no lugar dele na Voz, ao se aposentar em 1975. Conversando pelo telefone, Conrad me contou sobre aquele dia triste e memorável em que sentiu no coração o desejo de falar com o pastor Rabello. Veja o relato: Dezesseis de agosto de 1996. Um dia inesquecível! Dia de fé e esperança para jamais ser esquecido. Eu estava em minha casa, em Petrópolis. Lembro-me bem: era sexta-feira e havia planejado ir ao Horto Municipal comprar verduras e legumes. Estava pronto para sair quando tive uma vontade forte de fazer um telefonema. – Meu bem – eu disse para Janete, minha esposa –, estou com uma vontade muito grande de telefonar para Curitiba, para o pastor Rabello e dona Edith. – Por que você vai ligar hoje, sexta-feira, em horário comercial, se você liga todo domingo e fala com ele durante uma hora? – respondeu minha esposa. Fiz, porém, a ligação, por volta das 9h30 da manhã. A conversa foi assim: Conrad: Alô, quem fala? Rabello: Aqui é Roberto Rabello. Ah! É você Roberto? Como está? E como está Janete, sua esposa? E como vão Marcelo e Márcio, seus filhos? Está ligando da sua casa ou do Rio? Conrad: Estou ligando de casa, em Petrópolis. Aqui todos bem, graças a Deus. E o senhor, como vai? Tudo bem? Dona Edith está cuidando bem do senhor? Rabello: Estou bem, graças a Deus. A Edith sempre cuida muito bem de mim. Conrad: Conte-me, o que anda fazendo por aí, em Curitiba? Muitas palestras para a Voz da Profecia? Rabello: Ora vejas, Roberto, você sabe que me aposentei e agora não produzo mais palestras. Conrad: E o senhor continua caminhando seus cinco quilômetros por dia? A saúde está boa? Rabello: A saúde está boa, mas não tenho mais caminhado. A Edith não me permite andar sozinho. Sabe, Roberto, sofri uma queda e machuquei-me no joelho. Sinto falta das minhas caminhadas. Conrad: Mas, se o senhor não está mais caminhando e nem fazendo novas palestras para a Voz da Profecia, o que o senhor faz o dia todo? Rabello: Estudo a Bíblia, oro muito e canto. Conrad: O quê? O senhor passa os dias cantando? E eu trabalhei 25 anos com o senhor e nunca o vi cantar! Que história é essa? Rabello: Ora, Roberto, como me atreveria a cantar perto de você? Só poderia calar-me e ouvir você e o quarteto com suas belas vozes. Mas agora estou só e gosto de cantar. Conrad: E quais são as músicas que o senhor mais gosta de cantar? Rabello: Há várias, Roberto. Gosto muito daquela do padre Zezinho, que o Ademar Penteado gravou para mim: “Amar como Jesus amou, viver como Jesus viveu...” Mas a que eu mais gosto mesmo é aquela do Wayne Hooper, “Oh! que esperança vibra em nosso ser!” Conrad: Pastor Rabello, posso lhe pedir um favor? Cante pelo menos uma única vez para eu ouvir! Por favor! Houve um silêncio e o pastor Rabello explicou para dona Edith o meu pedido. Ela, de longe, dizia: – Canta Roberto, canta para o pastor Conrad! Então, ele disse: – Cantarei, se comigo cantares. – E ambos nos pusemos a cantar em uníssono. O pastor Rabello, com sua voz de baixo, firme e afinada, cantou todo o cântico sem nenhum erro de palavras, sem desafinar. Era o seu cântico preferido, e cantou: Oh! que esperança, vibra em nosso ser, Pois aguardamos o Senhor! Fé possuímos, que Jesus nos dá, Fé na promessa que nos fez. Eis que o tempo logo vem, E as nações daqui e além, Bem alerta vão cantar: Aleluia! Cristo é Rei! Oh! que esperança vibra em nosso ser, Pois aguardamos o Senhor. Depois de concluir, com emoção, o cântico, ele perguntou: Rabello: Então, Roberto, você gostou? Como eu me saí no teste? Conrad: Pastor Rabello, se eu soubesse como o senhor canta tão bem, eu nem deveria ter ido trabalhar na Voz da Profecia, com os Arautos do Rei. Rabello: Deixe de bobagens. Bem, Roberto, sinto-me cansado. Agora, vou banhar-me e depois vou descansar. Fale agora com a Edith. Ela quer falar-lhe um pouco. Até domingo! A essa altura, dona Edith deixou o telefone e insistiu para o pastor Rabello tomar banho mais tarde, antes do pôr-do-sol. Mas ele estava determinado a fazê- lo naquela hora mesmo. Finalmente, concordaram, e ela voltou ao telefone. Após isso, converseimais uns dez minutos com a dona Edith. Desligamos e prometemos que iríamos “tirar os atrasos” no domingo, 18 de agosto. [Não sabemos todos os detalhes, mas, enquanto a dona Edith conversava com o pastor Conrad, o pastor Rabello foi ao banheiro e o auxiliar lhe deu um banho rápido. O quarto ficava ao lado do banheiro e, ao retornar, ficou de pé para deitar-se na cama, e foi justamente quando teve um derrame e faleceu.] Fui às compras e retornei uma hora mais tarde. Minha esposa estava pálida e disse: – Meu bem, você precisa ligar urgente para a dona Edith. Eu respondi: – Mas acabei de falar com eles há pouco e vamos conversar no domingo. É tão urgente? Janete, então, falou claramente: – O pastor Rabello acaba de falecer. Minhas reações foram as mais estranhas. Quantas coisas eu gostaria de ter dito a ele: o quanto o admirava; a inspiração que ele foi para mim e tantos outros; o quanto o amava... Mas minha última oportunidade se fora. Não haveria aquela conversa cordial no domingo. Não haveria mais nenhum telefonema para o pastor Rabello. Aquele tinha sido o último, o último de todos. Quando me recompus, liguei para dona Edith. Falamos, choramos ao telefone e oramos. Falamos sobre o último cântico do pastor Rabello. Um cântico de fé, de esperança e de vitória. Pedi que ela lhe desse um último abraço de despedida e lhe dissesse: – Roberto, o pastor Conrad, eu e todos os que crêem nesta esperança estaremos em breve juntos para sempre. Depois de chorar e orar, agradeci a Deus o privilégio múltiplo de ser amigo pessoal, íntimo, desse homem de Deus, e de ter trabalhado em harmonia com ele durante 25 anos, sem mágoas ou asperezas, sem desencontros e ressentimentos. Foi realmente uma oportunidade rara ter trabalhado sob a inspiração de um idealista, bandeirante da fé, gigante espiritual, imitador de Cristo. Agradeci a Deus o fato de ser o último a falar com ele e ouvir o pastor Rabello cantar seu último cântico. E você pode cantar com fé e esperança o último cântico de Roberto Rabello? A bendita esperança é também sua grande coluna de fé? Está você praticando essa “bendita esperança”, de tal maneira que, vivendo ou morrendo, tem a segurança da vida eterna? Apelo a você, leitor, para que sua vida hoje seja como o último cântico de Roberto Rabello: uma vida de fé, pureza, santidade e confiança em Deus, vida de preparo para a eternidade, vida de testemunho em favor do Cristo crucificado, vida plena nEle, por Ele e para Ele. Quando Roberto Rabello despertar (pois Jesus estará voltando), sobre o mar de vidro cantará um cântico novo, o cântico do Cordeiro, que será o seu novo cântico na eternidade. Estará você ali, quando o pastor Roberto Mendes Rabello cantar seu novo solo? Estarei eu? Deus permita que sim! E Encontros Especiais Depoimentos e mensagens de amigos e colegas este capítulo, vamos apresentar as impressões de alguns amigos e colegas de trabalho do pastor Rabello. O primeiro a falar é o pastor Roberto Conrad, que foi como um filho para o pastor Rabello. Eles conviveram e trabalharam juntos por muitos anos. Meu amigo Ex-cantor do quarteto Arautos do Rei e segundo orador da Voz da Profecia, Conrad conta como foi seu encontro com o pastor Rabello: Foi numa tarde de novembro de 1966 que o conheci. Não esperava encontrá-lo ou vê-lo. Ele chegou sem avisar e numa missão que iria mudar o curso de minha vida. Eu havia terminado o curso de Teologia no antigo IAE. Recebera vários chamados, mas o que mais me apelou foi o de trabalhar na Missão Baixo- Amazonas, em Belém, Pará. Queria ser “obreiro do norte”, missionário no meu próprio país. Janete, minha futura esposa (estávamos noivos), iria trabalhar no Instituto Adventista Grão-Pará. Naquela tarde, meu chefe na tesouraria disse: – Roberto, o pastor Rabello está aí fora e deseja falar com você. O pastor João Rabello era meu amigo e havia sido meu preceptor. Pensei: “Por que o professor Rabello, meu amigo, não entra logo e fala comigo?” Saí do trabalho. Não era o pastor João Rabello e sim o pastor Roberto Rabello, da Voz da Profecia. Veio sem avisar. Veio com urgência. Veio numa missão importante. Quando me viu, perguntou: – Você é Roberto Conrad Filho? Quando respondi que sim, ele continuou: – Lá na Voz da Profecia, ouvimos dizer que você canta num bom quarteto e que você tem uma bela voz de baixo. – Eu havia participado, no IAE, de vários quartetos. – Gostaria de convidá-lo a fazer um teste lá no Rio de Janeiro, para ver se você se encaixa no quarteto Arautos do Rei – disse ele. – Pastor Rabello, é uma honra este convite, mas já dei a minha palavra para a União Norte Brasileira – falei com franqueza. – Vou me casar logo depois da formatura, e minha esposa e eu vamos trabalhar em Belém. Queremos ser missionários lá. Houve uma pausa. Ele ficou corado (sempre ficava assim quando se sentia tímido ou quando alguém contestava uma idéia sua que sabia ser correta). Então, falou-me: – Saiba, Roberto, não quero que mude de idéia, mas gostaria que considerasse o seguinte: a obra poderá facilmente encontrar outra pessoa para fazer esse trabalho lá no Norte, mas não temos ninguém disponível para cantar no quarteto da Voz da Profecia. Há três cantores parados lá e mais uma pianista. Quatro pessoas paradas e todo nosso plano de evangelismo público e radiofônico também está interrompido. Peço-lhe que considere a urgência desse apelo. Ore pedindo sabedoria a Deus e ajude a Voz da Profecia na atual conjuntura. Eu estava entre a cruz e a espada. Havia prometido para minha noiva que não iria para a Voz da Profecia, caso fosse chamado, pois ela seria “viúva de marido vivo” (por causa das muitas e longas viagens da equipe). Lá estava o pastor Rabello diante de mim e eu diante dele. Constrangido, eu disse: – Pastor Rabello, eu até poderia pensar em ir fazer o teste, mas o senhor compreende, já dei a minha palavra, aceitamos o chamado e todas as coisas estão bem planejadas. O senhor compreende, não é? Ficaria muito ruim para mim. Desta vez, não vai ser possível. Lembro-me de que ele ficou distante por um momento. Estava avaliando a situação da Voz da Profecia, os planos, as viagens, as gravações, e tudo sem o quarteto. Então, ele insistiu mais uma vez. Disse que eu deveria reconsiderar minha posição. Orar fervorosamente a Deus. Lembrar que, provavelmente, eu fosse a pessoa certa, na hora certa, para o lugar certo, para completar a equipe. Que ele tinha a certeza de que Deus podia resolver tudo para o bem de todos, sem prejuízo para Belém. Despedimo-nos, e ele voltou para o Rio. Alguns dias depois, tomei um ônibus e fui ao Rio para “fazer um teste” e não decepcionar o pastor Rabello. O teste foi positivo. Voltei para São Paulo e o chamado para a Voz da Profecia chegou antes que eu pensasse. Houve mudança de planos. Minha noiva e eu oramos e decidimos ajudar a Voz da Profecia naquela emergência. Combinamos trabalhar lá no Rio por apenas um ano. Esse único ano se estendeu por 25 anos! Chegando ao Rio de Janeiro, tudo era estranho e novo, mas a adaptação foi rápida. Então, comecei a conhecer o pastor Roberto Rabello. O influente e poderoso pregador. Fundador da Voz da Profecia no Brasil. Grande locutor e orador, dono de uma das melhores vozes que o Brasil já conheceu. Homem de Deus. Homem de fé e oração que amava o seu Senhor. Homem simples e espiritual. Homem culto, mas humilde. Era como que o embaixador da Igreja Adventista do Sétimo Dia para o Brasil e para o mundo. Seus conselhos sobre como proceder na vida ministerial foram muito úteis para mim. Como jovem ministro, iniciando o trabalho de Deus, eu era inexperiente. Ele assumiu a posição de conselheiro, orientador, amigo e pai espiritual. Dava orientações com segurança, baseadas na sua longa experiência pastoral e ministerial. Comunicava confiança em tudo o que fazia. Vivia o que recomendava. Em todas as coisas, era um cristão coerente. Roberto Rabello era um homem simples e discreto. Não gostava de se expor à fama. Multidões afluíam a auditórios, cinemas, igrejas, teatrose ginásios para ouvi-lo. Faziam filas enormes para contar-lhe que eram ouvintes do programa, para pedir um autógrafo na Bíblia ou em qualquer objeto. Ele atendia a todos com carinho. Não tinha pressa de se retirar para o descanso pessoal. Estava sempre disposto para mais uma entrevista em rádio ou televisão, ou preparar nova matéria para a imprensa. Sua energia e entusiasmo pela obra da Voz da Profecia pareciam intermináveis. Doava-se totalmente, sem reservas para cumprir cabalmente o seu ministério. Naquele início, tudo era rudimentar e simples. Não havia recursos financeiros. Viajávamos de Kombi, em longas jornadas, milhares de quilômetros por dezenas de estradas esburacadas, sem o mínimo conforto. O quarteto, o pianista e o pastor Rabello íamos apertados na Kombi, que ainda levava nossas malas, um órgão eletrônico Thomas (enorme) e discos LP que vendíamos após os programas para obter alguns recursos para o trabalho de Deus. Um dia, saímos às 4h30 da manhã do Rio de Janeiro. Destino: Mafra, SC, a 970 quilômetros do Rio, para realizar reunião à noite. E, pela graça de Deus, chegamos a tempo. Fazíamos isso para poupar à Voz da Profecia um dia de custos, ou seja, hotel e comida. Eram dias difíceis, diferentes de hoje. Levávamos sanduíches para o primeiro dia de viagem, a fim de economizar. Lembro-me de que o lanche do pastor Rabello era sempre muito simples: um sanduíche de queijo ou tomate e alguma fruta da estação (banana, de preferência). Geralmente, éramos hospedados em casa de irmãos amorosos que ofereciam o seu melhor para nós, sem terem o que era essencial para si. E o pastor Rabello, homem conhecido em todo o Brasil e no mundo, aceitava as condições precárias do trabalho sem jamais reclamar de nada. Fazia o seu melhor para o Mestre. O pastor Rabello era um homem de Deus. E imitava o Senhor Jesus. Como o Mestre da Galiléia, tratava a todos sem nenhum preconceito ou discriminação. Sabia se portar com extrema dignidade diante do presidente da República, de um governador do estado, senadores, deputados, ou quaisquer dignitários. Mas impressionava com o carinho que oferecia aos mais humildes e simples do povo. Operários, lavradores e gente simples da roça tinham acesso imediato a ele, sem restrições. Ele respeitava a todos e todos o amavam. Roberto Rabello era um homem de origem simples. Nasceu numa colônia, no interior do Rio Grande do Sul, região de agricultores. Apesar de se tornar um teólogo erudito e de ser um exímio homem de letras que cultivava a língua materna com probidade e exatidão, não perdeu sua simplicidade, que assombrava a muitos que o conheceram. Seus métodos, seu procedimento, sua comida e vestuário – tudo em sua vida era praticado com extrema simplicidade. Era grande estudioso da Bíblia. Para entendê-la e explicá-la aos outros, dedicava longos períodos ao estudo e à oração. Analisava o texto sagrado explorando toda a literatura disponível sobre o assunto: dicionários, comentários bíblicos, enciclopédias, léxicos e compêndios. Sua sede de conhecer mais era invejável. E, quando emitia um parecer sobre a interpretação de um tema difícil, ele o fazia com extrema segurança. Era confiável na sua interpretação do texto bíblico. Muitos o louvavam por ser o fundador do programa da Voz da Profecia e seu apresentador. Ele possuía voz grave, bela e extraordinária. Voz de locutor AAA. Voz rara, uma das melhores do Brasil em todos os tempos. O timbre agradável, a inflexão da voz, a interpretação do texto, a comunicação simples, direta, franca e compreensível tornavam sua mensagem extremamente agradável ao ouvinte. E a Voz da Profecia, por seu formato e conteúdo, e pelas belas músicas dos Arautos do Rei, era conhecida como o melhor programa de rádio do Brasil. O pastor Rabello não se orgulhava disso. Pelo contrário, reconhecia a grande responsabilidade de fazer o melhor, de oferecer o máximo às multidões. Como homem de Deus, coerente em tudo, humilde, amigo, conselheiro e confidente, o pastor Rabello era amado por todos. Sua influência moral era muito grande. Pessoas comentavam que somente sua presença transformava e santificava o ambiente ao redor. Havia, certamente, pessoas que o admiravam ao extremo, fazendo dele um semideus, o que não era aceitável. Mas em tudo ele se conduzia com prudência e equilíbrio baseados no profundo conhecimento que tinha de Deus. Lembro-me bem de um conceito defendido por ele: “Em caso de dúvida, quando tiver que julgar algo ou alguém (se não tiver certeza da verdade), o melhor é sempre errar pelo lado da misericórdia.” E agia dessa forma. Certa ocasião, foi necessário demitir um funcionário por falta grave. Falta confessada e testemunhada. O que fez o pastor Rabello? Pediu ao funcionário que se apresentasse ao Departamento de Pessoal para ser demitido. Para surpresa de todos, o pastor Rabello pediu que fossem feitos os cálculos concedendo todos os direitos, mais férias, mais proporcional de 13o salário e a indenização. O rapaz não podia crer, mas aceitou e foi embora. Então, nosso pastor falou: – Esse pobre rapaz tem família e filhos; está desempregado. É certo que errou, mas ele vai pensar e refletir no que fizemos. Mais tarde, encontrei o mesmo rapaz, e ele me disse: – Vocês salvaram a minha vida; vocês me deram todos os direitos e eu não tinha nenhum. Eu pensei muito nisso e mudei de vida. Hoje sou outra pessoa. “Quando errar”, dizia o pastor Rabello, “erre pelo lado da misericórdia.” Era justo e misericordioso. De um coração paternalista, perdoador. Nos 25 anos em que trabalhei com o pastor Rabello, ele nunca perdeu o autocontrole, mesmo ao ser contestado, confrontado ou afrontado. Jamais proferiu alguma palavra dura contra alguém; jamais fez um comentário negativo; jamais perdeu a paciência com alguém. Nunca ergueu sua voz para reclamar a autoridade de seu posto. Quando lhe diziam que o seu programa estava ultrapassado, respondia: “É o seu ponto de vista e eu o respeito. Mas tenho a impressão de que o irmão possa estar enganado. As estatísticas e a correspondência indicam o contrário.” Havia bondade constante em sua voz e no modo de tratar a todos: uma palavra boa, de estímulo e coragem. Uma nova oportunidade de vitória. Esperança! Apesar de muito sério e sisudo, o pastor Rabello também possuía senso de humor e participava de pequenas brincadeiras do grupo. Em viagens, os membros do quarteto brincavam de “Estou pensando num personagem bíblico cuja letra inicial é...”. Ninguém podia dizer o nome do personagem, mas precisava descrever algo sobre ele ou uma de suas atividades. Vez por outra, o pastor Rabello afirmava algo profundo, desconhecido, com um detalhe mínimo, e ficávamos tentando lembrar do que ele falava. Isso servia de motivo e inspiração para estudarmos mais a Bíblia e adentrar-nos em detalhes revelados. Mas o pastor Rabello também tinha o seu lado jovial. Quando se espantava de algo, dizia com ênfase “Ui, ui, ui”, ou então “Ora, vejas”. Quando alguém no grupo estava muito alegre e brincalhão, ele observava cuidadosamente e, depois, dizia: “Eclair, estás muito brejeiro [alegre, descontraído] hoje.” E, quando alguém nos ajudava a encontrar um caminho mais curto e rápido para a viagem, ele comentava: “Ele é vaqueano [conhecedor do caminho]; por isso, nos ajudou.” Ficava corado (vermelho mesmo) quando alguém lhe dava um elogio exagerado, quando se assustava com algo, ou quando alguém contava um fato cabeludo (daqueles inacreditáveis). Apesar de sua posição, de sua cultura e fama, era humilde “concidadão dos santos”, isto é, condescendia conosco nas coisas comuns da vida. O pastor Rabello era conhecido por sua voz. Muitas vezes chegávamos a lugares desconhecidos e, quando ele falava ou perguntava algo, as pessoas logo diziam: “O senhor não é Roberto Rabello, da Voz da Profecia?” Ele, espantado, perguntava: “Como me conheces?” E as pessoas respondiam: “Sua voz é inconfundível!” Aconteceu na estrada de Curitiba. Era o último dia de uma viagem de 40 dias. Às 7h30 da manhã, o guarda da Polícia Rodoviária Federal pediu que parássemos.Pediu os documentos do carro e o meu. Examinou com cuidado e perguntou: – Os senhores estavam indo para onde? Respondi que estávamos indo para o Rio de Janeiro. Ele disse: – É, vocês estavam indo... Não vão mais! O carro [Kombi] está apreendido, porque o documento está vencido. Olhei para trás e perguntei: – Pastor Rabello, o tesoureiro pagou e me deu o documento. – O pastor Rabello afirmou que sim. Então, eu disse ao guarda: – Aquele senhor é o nosso diretor e ele estava junto quando o documento do ano me foi entregue. Pode falar com ele. O guarda colocou o rosto dentro do carro e perguntou sobre o documento. O pastor Rabello disse: – Eu afirmo ao senhor que este documento foi pago... – O quê!!! – exclamou o guarda ao ouvi-lo. – É Roberto Rabello neste carro? – Sim! – disse eu. – É Roberto Rabello, da Voz da Profecia, e nós somos os Arautos do Rei. Ele saltou para o lado da Kombi, abriu a porta lateral e, “arrancando” o pastor Rabello para fora, disse: – Quero lhe dar um abraço, meu irmão! Eu ouço o senhor todos os dias às 7h pela Rádio Universo, daqui. Acabei de ouvir o seu programa agora mesmo! – Então disse: – Eu sou evangélico, e o senhor me afirmou que o documento foi pago, eu sei que foi pago. O senhor não mentiria para mim. Eu vou orar a Deus para que nenhum colega peça os documentos hoje e vocês possam chegar ao Rio de Janeiro em segurança. Saímos todos do carro, e o quarteto cantou. O homem chorou. O pastor Rabello orou por ele, por sua família e por nossa viagem. Todos nós abraçamos o guarda desconhecido. Deus ouviu as preces que o guarda fez por nós. À noite, estávamos no Rio de Janeiro. Ninguém nos pediu os documentos do carro. (O documento devidamente pago estava no cofre. O velho, vencido, estava comigo, por engano.) Certa ocasião, nós fomos realizar uma série de conferências em Uruaçu, GO. A cidade fica a 400 quilômetros ao norte de Brasília. Foi feita grande propaganda das conferências da Voz da Profecia. Entre os ouvintes estavam o Sr. Jonas e a esposa, que eram de Mara Rosa, 60 quilômetros mais ao norte. Eles haviam se hospedado na casa de um amigo, João Batista. Lá em Goiás, qualquer coisa é chamada de “trem” e pode ser um “trem bão” ou “trem bom demais da conta”. O Sr. Jonas me contou que ele e a esposa estavam ficando velhos e não tinham decidido sobre religião. Foram a Goiânia, compraram um enorme rádio com muitas faixas de ondas (longas, médias e curtas) e adquiriram uma bateria de caminhão para o rádio funcionar (não havia eletricidade em Maria Rosa). Instalado o rádio, passou a ser ouvido todas as madrugadas, antes de o casal ir para as lides do gado e da lavoura. Determinado dia, movendo o cursor (dial) do rádio, eles ouviram: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o Seu rosto e te dê a paz” (Nm 6:24- 26). O Sr. Jonas disse para a esposa: – Minha velha, não põe a mão neste “trem” porque amanhã cedo nós vamos ouvir de novo. E assim foi que, cada manhã, eles ouviam a Voz da Profecia, transmitida em ondas curtas pela Rádio Universo de Curitiba, Paraná. O Sr. Jonas, contando toda esta história, me disse: – Quando chega a hora, minha velha e eu nos ajoelhamos diante do “trem” [rádio], fazemos a nossa prece, e logo o Roberto Rabello e os Arautos do Rei vêm trazendo “trem bão” de Deus para nós. Tive o privilégio de batizar os quatro! Assim, era o pastor Rabello que eu conheci: simples, discreto e prudente; amoroso, mediador, conselheiro e perdoador; justo e misericordioso; estudioso, erudito e perfeccionista; amigo de Deus e dos homens; imitador de Jesus Cristo. Meu tipo humano inesquecível Carlos Rentfro, pastor e professor já falecido, que residia na Flórida, relata suas impressões do aluno Roberto Rabello: O pastor Rabello e Hedwig Braun foram meus alunos desde 1927 até sua formatura em 1930, no Colégio Adventista em São Paulo. Na ocasião, eu era tesoureiro, gerente assistente e o diretor do curso Comercial. Apesar de não ter nascido no Brasil, eu era fluente na língua portuguesa. Meu pai, o pastor Clarence E. Rentfro, e minha mãe, a enfermeira Mary Haskel Rentfro, foram missionários em Lisboa, Portugal. Eu tinha seis meses de idade quando chegamos lá. A família permaneceu em Portugal até 1917, quando foi transferida para o Brasil, trabalhando como missionários até 1924. Minha formação começou no Brasil. Estudei no Colégio Adventista em São Paulo de 1919 a 1923, quando me formei. Fui então para o Colégio Missionário Emanuel, agora Universidade Andrews, onde fiquei de 1925 a 1927. Escolhemos os melhores alunos para ajudar na tesouraria do colégio. Um deles foi Roberto Rabello. Sua caligrafia era firme e clara, digamos, uma caligrafia esmerada. Ele era dedicado e zeloso em seus deveres de escritório. Certo dia, em 1928, pediu-me um favor. Disse: – Gostaria de mudar os meus estudos paraTeologia. – Eu apreciava muito o seu trabalho na tesouraria, mas assegurei- lhe que apoiaria sua decisão. Formou-se com a classe de 1930. Em 1936, fui chamado para trabalhar na tesouraria da Associação Geral. Em 1941 e 1942, fui secretário-tesoureiro da Associação Cubana do Leste, quando o campo foi dividido. De volta à Associação Geral, trabalhei nas comissões norte- americana e latina de rádio, incluindo a Voz da Profecia. Como gerente comercial para essas três unidades, preparava orçamentos, pagava contas e ajudava nas campanhas de propaganda, como assistente do pastor W. H. Williams, vice-tesoureiro da Associação Geral e tesoureiro da Voz da Profecia sediada em Washington. A Voz da Profecia de Glendale era considerada uma filial até 1948, quando tive o privilégio de ir à Califórnia e unir o escritório central e a filial como uma só unidade. A essa altura, entre 1942 e 1943, começamos a estabelecer centros da Voz da Profecia, em inglês, na Europa, África, América Central e América do Sul, pois o programa fora iniciado nos Estados Unidos e Canadá, e em português, espanhol e alemão em estações de AM e ondas curtas. Em 1943, entregaram-me testes de palestras de rádio de dois oradores que falavam português. Um deles era o pastor Roberto Rabello e o outro era o pastor João Linhares, que havia sido também meu aluno. Escutei-os, avaliando a clareza, a dicção perfeita em português brasileiro e o apelo para ouvintes de rádio. Aparentemente, outros membros da Comissão de Rádio concordaram comigo na escolha do pastor Rabello para ser o orador da Voz da Profecia no Brasil. Ele e a esposa eram fluentes na língua inglesa e poderiam traduzir as palestras para o português, com a originalidade brasileira. Eles iriam cada ano para a Califórnia, até que o estúdio fosse estabelecido no Rio de Janeiro. Também tiveram que ajudar os Arautos do Rei a cantar em português. Ilka dos Reis assumiu a liderança da Escola Radiopostal em Niterói, RJ. Ela também havia sido minha aluna. Concluí que, se o pastor Rabello podia dominar sinais de estúdio, preparo de manuscritos e transmissão pelo rádio, ele seria “o dom de Deus” para o Brasil, a fim de levar pessoas para o reino do Céu. O pastor Rabello era meu tipo humano inesquecível. Ministério inspirador Henry Feyerabend, falecido em 2006, foi cantor dos Arautos do Rei no Brasil e orador do programa de TV Está Escrito no Canadá. Era grande amigo do pastor Rabello. Creio que a primeira vez que me encontrei com o pastor Feyerabend foi numa campal em Bom Retiro, quando eu estava trabalhando como diretor de jovens da União Sul Brasileira. Sabendo que eu era genro do pastor Rabello, nos tornamos grandes amigos. Eu gostava de ouvir suas experiências e o seu sotaque canadense. Tinha ouvido muitas histórias, contadas por ele mesmo, sobre como aprendeu o português. Os jovens morriam de rir ao escutar suas aventuras no idioma de Camões. Meu sogro tinha admiração especial pelo pastor Feyerabend, que não apenas foi membro do quarteto, mas era um bom evangelista e homem dotado de talentos especiais com equipamento eletrônico, tão importante para oestabelecimento do novo estúdio no Rio de Janeiro, o grande sonho do pastor Rabello e de todos os componentes da Voz. Em seu livro Nascido Para Pregar, ele relata muitas experiências de seu ministério na Voz e especialmente quando chegou o equipamento na alfândega do Rio. Todos nós, como brasileiros, sabemos dos percalços e da burocracia daquele tempo para retirar materiais eletrônicos. O material havia chegado e todos pensavam que a melhor maneira de retirar o equipamento da alfândega seria através de um despachante, algo dispendioso naquele tempo. O pastor Rabello, seguro como era com as finanças, ponderou que isso sairia muito caro. Por outro lado, além de ser difícil e complicado, levaria muito tempo e a Voz necessitava instalar seu estúdio com urgência. O pastor Fyerabend conversou com algumas pessoas e estava convencido de que essa era a única saída. No dia seguinte, entrou no escritório do pastor Rabello, logo após o culto matutino, munido das armas necessárias para convencer o chefe da necessidade imediata de retirar o equipamento com a ajuda de um despachante. Foi então que ouviu uma famosa e inolvidável história de como Deus havia dirigido a entrada do equipamento no Brasil. Na sexta-feira, meu sogro visitara o Banco do Brasil e pedira para falar com o chefe alfandegário. Essa era a seção que resolvia todos os problemas de materiais e equipamento vindos do exterior. O cidadão perguntou se o pastor Rabello tinha marcado uma hora para falar com o chefe da alfândega. O pastor Rabello disse que não, mas reiterou que era algo muito importante e que precisava falar com ele. Naquele instante, ao ouvir aquela voz, um senhor que trabalhava lá dentro do escritório dirigiu-se ao pastor Rabello: – Estou escutando uma voz muito familiar. O senhor não é Roberto Rabello? Era o chefe da alfândega com quem meu sogro queria conversar. Ele disse que não perdia um programa sequer e que era um grande privilégio conhecê-lo pessoalmente. – Pastor Rabello, em que lhe posso ser útil? Foi essa a pergunta maravilhosa que facilitou a entrada do equipamento da Voz da Profecia. O despachante foi a “própria voz do pastor Rabello”, já tão conhecida no Brasil e usada pelo Espírito do Senhor para trabalhar nos corações. Naquele mesmo instante, o pastor Rabello saiu do Banco do Brasil com a autorização para tirar todo o equipamento da alfândega, sem nenhum ônus para a Voz da Profecia. O pastor Feyerabend conta outra experiência muito conhecida pelos membros do quarteto e pessoal da Voz da Profecia. Além de inspeções e problemas de alfândega, sabemos que, em lugares estratégicos do país, os automóveis e caminhões são inspeccionados devido ao problema de contrabando e usurpações fiscais. Numa viagem do quarteto a Recife, onde seria realizada uma grande reunião da Voz da Profecia, a caminho do ENA, a Kombi defrontou-se com um posto rodoviário e o policial pediu os documentos. Aparentemente, não sabemos o motivo, havia necessidade de uma autorização para viajar naquela estrada, algo estranho. Eles teriam que voltar para Recife e isso prejudicaria o programa da noite. Os membros do quarteto tentaram convencer o policial de que isso seria muito difícil e que perderiam a reunião. Mas não houve jeito. O policial estava irredutível. Nesse momento, o pastor Rabello, que estava sentado atrás na Kombi e ouvia tudo em silêncio, perguntou ao policial se realmente não haveria uma outra maneira de ajudá-los. De repente, o policial disse: – Eu reconheço essa voz! Será possível? Só pode ser o pastor Roberto Rabello! O pastor Rabello confirmou e apresentou ao oficial os Arautos do Rei e pediu que cantassem para ele “Hei de Estar na Alvorada”. A essa altura, já havia um bom número de pessoas escutando o quarteto. Ao terminar, o grupo recebeu permissão para continuar sua jornada. Logo em seguida, os Arautos e o pastor Rabello pararam à beira da estrada e agradeceram a Deus Sua maravilhosa intervenção. Que inspiração ver como Deus dirige as coisas. Obrigado, pastor Feyerabend, Luiz Mota, pastor Joel Sarli, Samuel Campos, Iracy Botelho e demais membros dos Arautos do Rei, pianistas e organistas, por esse ministério tão inspirador. A primeira cantora Del Delker, cantora emérita da Voz da Profecia, reside nos Estados Unidos. Por ocasião de minha aposentadoria na Associação Geral, em 2003, durante uma pequena recepção realizada na sala de reuniões da administração, o pastor Jan Paulsen, presidente mundial da Igreja Adventista, entregou-me uma cópia da biografia de Del Delker. Nunca esquecerei suas palavras e dedicatória do livro: “Quando fazemos uma boa obra, estamos ajudando a despovoar o lago de fogo; o censo baixa no lago de fogo e sobe no reino de Deus.” Li essa biografia com muita avidez: primeiro, porque foi a primeira cantora de nosso programa; em segundo lugar, porque nos tornamos muito amigos, por razões óbvias de seu relacionamento com meu sogro e também porque nos formamos juntos no La Sierra College em 1958. Em sua biografia, ela conta sua experiência de conversão e como foi trabalhar para o programa The Quiet Hour, em que outro grande orador do rádio, o pastor J. L. Tucker, foi o instrumento usado pelo Senhor para trazê-la para a igreja. Em 1947, Del Delker aceitou um chamado para trabalhar na Voz da Profecia e, lado a lado com o quarteto Arautos do Rei e o pastor H. M. S. Richards, inspirou milhares de ouvintes com sua linda voz de contralto. Uma carta do pastor Rabello dirigida à sua querida “Binha” (Hetty) em 27 de maio de 1947 diz o seguinte: “Temos aqui uma moça que canta nos programas do pastor Richards. O pastor Pérez (pioneiro da Voz de la Esperanza) aproveitou- a em vários dos seus programas e eu vou fazer o mesmo. Temos estado treinando e, na próxima semana, ela deve cantar uns seis ou sete hinos. A voz dela é bastante grave. Falando da Voice, eles deverão logo dar início à construção da sua sede, junto ao sanatório.” (A Voz nos Estados Unidos começou em um pequeno edifício, de maneira simples, e logo foi construída a nova sede em Glendale, na Califórnia.) Essa voz grave e de um lindo contralto foi uma bênção para o programa em português. Tanto ela como o quarteto The King’s Heralds gastavam horas estudando e pronunciando as palavras. Na realidade, cantaram em muitas outras línguas. Não sabiam o que estavam cantando, mas procuravam do fundo do coração transmitir a mensagem do hino. Foi um dom divino. Meu sogro contou que, por ocasião de uma das celebrações da Voz da Profecia, depois que Del Delker cantou em uma de suas muitas viagens pelo Brasil, um membro da igreja se aproximou do pastor Rabello e disse: – Pastor Rabello, gostaria muito de falar com a Srta. Del Delker. Poderia, por gentileza, apresentar-me? – Irmão, lamento muito, mas isso não será possível – explicou o pastor Rabello. –Ela não fala português. – Mas, pastor, ela acabou de cantar em português. Nosso irmão não se conformava. Ficou completamente admirado da perfeição com que ela cantava os hinos. Eu pedi seu parecer acerca de sua convivência com o pastor Rabello e a equipe da Voz da Profecia. Conversamos por telefone e ela disse que continua ativa, mas que sua voz não é mais a mesma, o que é compreensível. Mas suas músicas estão gravadas em nosso coração. Aqui está sua mensagem enviada no dia 5 de maio de 2006: Eu havia recentemente chegado na sede da Voz da Profecia, em Glendale, Califórnia. Terminara o curso secundário e era recém-convertida. De repente, um senhor de porte alto e digno, com uma voz grave, apresentou-se: – Sou Roberto Rabello, Srta. Delker, orador brasileiro da Voz da Profecia. Ouvi-a cantar em inglês e espanhol, e gostaria muito que considerasse cantar em nosso programa em português. – Bem, pastor Rabello, tentarei. Mas o senhor terá que ter muita paciência comigo. Não me parece ser uma língua muito fácil para cantar. Assim, tentei e ele foi muito paciente. Dei-lhe alguns dos meus hinos favoritos e ele os traduziu. Esse foi o início de um longo e prazeroso relacionamento. A princípio, cantar em portuguêsera mais difícil do que cantar em espanhol. O pastor Rabello era muito exigente, o que eu queria que fosse. Após um curto período de gravações, perguntou-me se estaria disposta a viajar pelo Brasil com ele e o grupo da Voz da Profecia. Na verdade, fiquei muito receosa. Já era um desafio cantar nessa língua, mas levantar-me diante de pessoas que falavam em português e cantar? Era realmente amedrontador. Quanto mais conhecia o pastor Rabello, mais eu o admirava. Parecia que uma aura de santidade o envolvia, e era grande prazer trabalhar e viajar com ele. Apesar de não entender muito bem o que estava pregando, cativava-me observar os ouvintes enquanto ele falava. Era óbvio que aquela voz rica e melodiosa pregando sobre o amor de Deus e a volta de Cristo causava impacto nos ouvintes. Os ouvintes ficavam absortos e enlevados. Muitos foram influenciados a tomar decisões para o reino de Deus. Tive o privilégio de viajar cinco vezes ao Brasil. Oh, quanto almejo rever novamente meu querido amigo quando Jesus voltar! São pessoas como Roberto Rabello com quem passaremos a eternidade. Del Delker contou-me que, depois da terceira viagem, seria impossível voltar. O itinerário foi tão intenso que o pastor Rabello teve que prometer que seriam mais “humanos” com ela. Podemos compreender o desejo da equipe da Voz de aproveitá-la ao máximo e desfrutar seus talentos em muitos lugares. Ela também relembra que em uma das viagens perdeu a voz. Estava rouca e teria que cantar no IAE, em São Paulo. Milagrosamente, antes da apresentação, sua voz voltou e, assim, pôde cumprir seu compromisso. Deus, realmente, usou os talentos dessa jovem cantora em todo o mundo. A volta do empresário O Dr. Milton Afonso, empresário e proprietário da Golden Cross, residente no Rio de Janeiro, é um dos homens mais conhecidos no Brasil por sua vasta obra filantrópica. Juntamente com sua esposa Arlete, ele foi rebatizado pelo pastor Roberto Rabello em 1959. Em sua biografia, escrita pelo Dr. Manuel Vásquez, em inglês e português, pode-se ler sobre esse momento feliz e auspicioso na vida do Dr. Milton e sua esposa. Tive o privilégio não somente de conhecer o casal e visitá-lo em sua casa no Rio de Janeiro, como também de participar com ele de muitas reuniões administrativas da igreja e ser o tradutor da homenagem que lhe foi prestada em St. Louis, em julho de 2005, por ocasião da assembléia da Associação Geral. Pedi-lhe que enviasse um depoimento sobre o pastor Rabello. Segue-se a mensagem que preparou sobre o relacionamento com seu amigo: Fui procurado pelo pastor Roberto Rabello no período em que me encontrava afastado da igreja. Na ocasião, eu era um próspero empresário na área de comunicação, editor de aproximadamente 20 revistas das mais diversas especialidades: esporte, política, moda, cinema e fotonovelas. Semanalmente, minha editora lançava centenas de milhares de exemplares através de assinatura e bancas de jornais. Humildemente, ele me procurava no escritório, orava comigo e conversava sobre sua paixão: o evangelismo através do programa Voz da Profecia, transmitido em centenas de emissoras de rádio através do Brasil. Suas orações, humildade e permanentes apelos para que voltasse para a igreja conquistaram meu coração. Ofereci de imediato meu departamento de arte e as páginas de minhas publicações a serviço do programa A Voz da Profecia. Um anúncio em todas as edições oferecia o seguinte: Curso de história sagrada inteiramente grátis. Inscreva-se e receberá um lindo diploma. Caixa Postal 1189, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Algumas semanas depois, me aparece no escritório o pastor Rabello, acompanhado de outros diretores do programa, totalmente desorientados. – Dr. Milton, recebemos mais de 10 mil inscrições para o estudo de história sagrada, que lotaram nossa caixa postal no correio, e não temos pessoal, orçamento e lições para atender a esses milhares de pedidos. Por favor, suspenda tal publicação. Caso contrário, nós ficaremos desmoralizados. A publicação do anúncio foi suspensa, mas milhares de pessoas tiveram contato com a nossa igreja e muitas se converteram. O resultado dessa aproximação e amizade com o pastor Rabello me trouxe de volta à igreja e tive a grande emoção e alegria de ser rebatizado, juntamente com minha esposa Arlete, no ano de 1959. Durante toda a existência do pastor Rabello, tive o privilégio de gozar de sua amizade e conselhos espirituais. Breve Jesus voltará Tive a honra de estudar e trabalhar com o pastor João Wolff, ex-presidente da Divisão Sul-Americana e que agora reside em Curitiba. Estudamos no antigo CAB e a esposa dele, Edy, e Lucila foram colegas de quarto. Ele era presidente da Associação Paraná-Santa Catarina quando dirigi o Departamento de Jovens. Foi também um grande líder de nossa igreja e prestou sempre muito apoio à obra do rádio. Ele nos enviou a seguinte mensagem no dia 21 de abril de 2006: Um dos grandes eventos da Igreja Adventista no Brasil, em 1943, foi o lançamento do programa A Voz da Profecia, tendo como orador o pastor Roberto Rabello. No Rio Grande do Sul, o programa era apresentado na Rádio Farroupilha aos sábados à noite. A alegria e entusiasmo eram contagiantes entre os membros da igreja. O programa era divulgado por todos os meios possíveis entre amigos e vizinhos que não pertenciam à nossa igreja. Minha família morava no interior, próximo ao colégio, hoje Instituto Adventista Cruzeiro do Sul, em Taquara. Lembro-me com emoção que, ainda adolescente, todos os sábados à noite meus pais, com seus filhos e outros membros da igreja, íamos à casa do vizinho não adventista, um dos poucos da região que possuíam um rádio, para ouvirmos o programa da Voz da Profecia. Todos nós ficávamos felizes e impressionados com as mensagens apresentadas. Sabíamos que o orador, pastor Rabello, era filho da família Mendes Rabello, da igreja de Campestre, próxima de onde morávamos, e isso nos emocionava. Jamais poderia imaginar que um dia eu teria oportunidade de conviver e participar das atividades da Voz da Profecia ao lado do pastor Rabello. Aprendi a respeitar e a admirar esse servo do Senhor. Sua dedicação e personalidade peculiar na condução de seu ministério foram uma grande inspiração para mim. De um humilde começo sob a bênção do Senhor, a Voz da Profecia tornou-se um grande ministério. O trabalho cresceu e hoje temos o Sistema Adventista de Comunicação, com toda sua influência e poder, dando continuidade à pregação do evangelho ao anunciar nossa bendita esperança de que breve Jesus voltará. Força para o bem Meu primeiro contato com Wayne Hooper, cantor e músico da Voz da Profecia nos Estados Unidos, foi em 1957, ao fazer os anúncios dos programas da Voz da Profecia em português. Além de Wayne Hooper, segundo tenor, lá estavam Bob Seamount, barítono, Jerry Dill, baixo, e Bob Edwards, primeiro tenor, todos muito solícitos e amáveis durante as gravações. Mais tarde, ao trabalhar na União Sul Brasileira como líder de jovens e ajudar o pastor Francisco Siqueira na organização do 2o Congresso Sul-Americano em Curitiba, em 1970, recebi a incumbência de achar alguém que escrevesse o hino-tema do congresso. Imediatamente, entrei em contato com Wayne Hooper, que já havia composto o famoso cântico “Oh! Que Esperança!”, tema oficial da assembléia da Associação Geral de 1962 e que, podemos dizer, é o hino oficial da Igreja Adventista, e muitos outros hinos. (Hooper ficou muito contente quando soube que “Oh! Que Esperança!” foi o último hino que o pastor Rabello cantou antes de falecer.) Ele atendeu gentilmente o pedido e compôs o hino “Maranata”, com quatro palavras- chaves representando os quatro “As” iniciais de amar, anunciar, apressar e aguardar a volta de Cristo. A Sra. Ruth Guimarães traduziu o hino para o português. Pedi que Hooper fizesse alguns comentários sobre seus contatos com o pastor Rabello, especialmente porque era ele (o pastor Rabello) quem ensinava os membros do quarteto The King’s Heralds a cantar em português, tarefa não muito fácil, pois não sabiam oque estavam cantando. No dia 18 de março de 2006, ele nos enviou seus “parágrafos”, como disse, sobre Roberto Rabello: Minha amizade e trabalhos com Roberto Rabello se estendem por mais de 50 anos. Quando o conheci, ele se encontrava em Glendale, sede da Voz da Profecia, para gravar os programas da Voz da Profecia para o Brasil. Em janeiro de 1944, cheguei para unir-me aos King’s Heralds e cantei em português, pela primeira vez, sob sua orientação. Estávamos quase ao fim da Segunda Guerra Mundial e era difícil encontrar casa para alugar. O pastor Rabello me disse: – Por que você não considera a possibilidade de alugar a casa em que estamos morando, uma vez que logo voltaremos para o Brasil e a casa ficará vazia? Foi exatamente o que aconteceu. Nossa família mudou-se para a casinha que os Rabello consideravam seu lar. Que grande privilégio para mim, um jovem de 24 anos de idade, trabalhar com os três gigantes da irradiação do evangelho para o mundo: H. M. S. Richards em inglês, Braulio Pérez em espanhol e Roberto Rabello em português. Era claro e evidente que, além de ter uma voz baixa e ressonante e uma esmerada enunciação, ali estava um homem de Deus. Dedicado e profundo pensador, ele tinha uma única aspiração na vida: levar a mensagem de esperança aos milhões do Brasil. Era um homem quieto e de poucas palavras enquanto trabalhávamos no estúdio. Mas, com paciência, tato e um “sorrisinho”, dizia-nos: – Vamos repetir mais uma vez para ter um pouco mais de... ou um pouco menos de... Em outras palavras, queria que cantássemos o hino de tal maneira que os ouvintes recebessem a mensagem das palavras, sem estarem cônscios de que o português não era a nossa língua materna. De outubro a novembro de 1962, os King’s Heralds tiveram o privilégio de viajar com o pastor Rabello para participar de grandes reuniões por toda parte. Vimos como o povo o tinha em alta estima, escutando cada palavra que falava. O dia 3 de novembro foi inesquecível. Éramos um dos muitos grupos cantando no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Foi um pandemônio. Os promotores venderam mais bilhetes que lugares para sentar. Umas mil pessoas, iradas, circulavam do lado de fora do estádio. Somente com a ajuda de soldados é que conseguimos entrar. Então, um entusiasta mestre de cerimônias gritou: “Os Arautos do Rei”! Fizemos o nosso melhor para cantar os hinos para as 35 mil pessoas, que ovacionavam com alegria, de pé, como sardinhas enlatadas. Temos acompanhado ao longo dos anos o progresso da obra do rádio no Brasil. Em 1993, quando o pastor Harold Richards Jr. estava para aposentar-se e o pastor Lonnie Melashenko preparava-se para ser o orador da Voz da Profecia, pediram ao quarteto de 1962 que os acompanhasse em um Tour de Encontro no Brasil. Participamos de muitas reuniões de colheita, onde milhares foram batizados. E ali, novamente, tivemos o privilégio de estar sob a sombra desse maravilhoso e gentil homem: Roberto Rabello. Ele foi uma força poderosa para o bem, sendo usado por Deus para levar palavras de vida ao povo do Brasil que ele tanto amava. O que Roberto Rabello me ensinou Montano Barros, ex-orador da Voz da Profecia, também tem algo interessante para falar sobre o pastor Rabello: Eu era um menino quando o vi pela primeira vez. Foi numa programação especial da Voz da Profecia. Não recordo o assunto do sermão nem as músicas cantadas. Lembro-me apenas daquele homem de cabelos grisalhos, fala tranqüila e um sorriso discreto. Com aquele jeito simples e ao mesmo tempo solene, deixou em minha mente infantil um sentimento de paz e segurança. Essa foi a minha primeira impressão de Roberto Rabello. Da outra vez que o vi, foi diferente. Eu era um pastor noviço, vivendo minhas primeiras experiências no ministério pastoral, e ele estava em seus últimos dias de um ministério marcante. Ele foi convidado para ser o orador em um congresso de jovens no interior de Rondônia. Aceitou o convite. E fui encarregado de acompanhá-lo em todas as atividades daquele fim de semana. Confesso que me senti orgulhoso da tarefa e, ao mesmo tempo, preocupado com a grande obrigação. Lembro-me daquele tranqüilo homem em minha casa, comendo à nossa mesa e participando do culto com minha família. Logo cedo, sexta-feira, nós saímos para o compromisso a quinhentos quilômetros de distância. Ainda me vejo, na viagem, discretamente olhando para aquele velho pastor. E refletindo. Se você viveu em um lar cristão, entende o que vou dizer agora. A gente cresce ouvindo histórias dos heróis da Bíblia, homens de Deus no passado e acha tudo aquilo muito distante da realidade. Mas o que aconteceu comigo foi bem real. As palavras, os gestos e a voz indicavam que eu estava ao lado de um homem de Deus. Entretanto, o que mais me impressionou daquele pequeno convívio aconteceu no sábado pela manhã. Saíamos do hotel quando um homem do campo apareceu e perguntou: – O senhor é o pastor Roberto Rabello, aquele que fala no rádio? O pastor respondeu: – Sim, sou ele mesmo, cavalheiro. O homem então continuou: – Posso apertar sua mão? Sem hesitar, o pastor Rabello educadamente estendeu a mão para um ligeiro cumprimento. Agora vem a parte interessante. Aquele senhor não soltava a mão do pastor, criando uma situação constrangedora. Então, o homem simples concluiu: – Agora eu posso morrer. Num relance, o experiente pastor puxou sua mão e respondeu firme: – Não, meu amigo. Você está equivocado. Eu sou um mortal. Apegue-se a Cristo. Eu sei que Roberto Rabello recebeu honras e elogios por suas mensagens em mais de 40 anos dedicados à pregação através do rádio. É comum para um homem de vida pública ter os holofotes voltados para si. Contudo, esse homem não permitiu que o foco fosse desviado de seu verdadeiro alvo: Jesus Cristo. Faz muito tempo que tudo isso aconteceu, mas ainda posso ouvir claramente aquelas palavras soando em meus ouvidos: “Sou um mortal. Apegue-se a Cristo!” Hoje, sentado em minha escrivaninha, enquanto coloco aqui estas poucas linhas, digo que foi um privilégio especial conhecê-lo. Podemos aprender muito das palavras de um pregador. Contudo, aprendemos muito mais de sua própria vida. H Companheiros de Trabalho Depoimentos de pessoas que conviveram com o pastor Rabello á muitas pessoas, incluindo pastores e obreiros, que conviveram com o pastor Rabello e lutaram com ele, ombro a ombro, para que a Voz da Profecia chegasse ao coração do povo brasileiro. Neste capítulo, algumas delas apresentam sua visão sobre esse ministério. Grande privilégio Lóide Rodrigues Arouca (Lóide Pessoa Rodrigues), ex-responsável pela Escola Radiopostal, também tem grande apreço pelo pastor Rabello. Aqui ela descreve um pouco do pioneirismo e das condições que ela e seus colegas enfrentaram nos primeiros anos da Voz da Profecia: Transcorria o mês de dezembro de 1945. Em Niterói, eu gozava férias do curso de Teologia do antigo Colégio Adventista Brasileiro, quando recebi o convite para trabalhar na Escola Radiopostal da Voz da Profecia. Admiradora do programa e convicta da importância do ministério do rádio, senti-me privilegiada com esse convite. Deixando de lado as poucas matérias que me faltavam para concluir o curso, aceitei-o prontamente. Dada a urgência do chamado, iniciei minhas atividades no mesmo dia em que recebi o convite, permanecendo como instrutora bíblica da escola durante oito abençoados anos. E, anos mais tarde, morando em Belém do Pará, fiquei responsável pela filial da Escola Radiopostal inaugurada lá na ocasião. Voltando a dezembro de 1945, a Voz da Profecia estava nos seus primórdios no Brasil. Na Rua Moreira César, 334, em Niterói, um velho e agradável casarão abrigava os escritórios da Voz da Profecia, servindo ainda de residência para o pastor Roberto Mendes Rabello e sua família. Residiam ainda no casarão as funcionárias Catarina Graby e Irene Langensttrassen. Mais tarde, passei a residir no mesmo prédio. A Voz da Profecia, na época, era um trabalho pioneiro no Brasil. Não contávamos com muitos recursos financeiros, as salas detrabalho continham apenas o indispensável para o funcionamento de suas atividades: mesas, cadeiras, duas ou três máquinas de escrever, um mimeógrafo e prateleiras rústicas, feitas de madeira, sem verniz, onde eram guardados papéis, envelopes, Bíblias, livros e lições dos três cursos que a escola oferecia (juvenil, universal e avançado). Como as estantes não tinham portas, confeccionamos cortinas simples para proteger da poeira o nosso precioso material. Nesse ambiente rústico e simples, vivíamos como uma grande família. Quando o trabalho se avolumava, muitas e muitas vezes, fazíamos, voluntariamente, horas extras em domingos, feriados ou mesmo à noite. O pastor Rabello nos proporcionava, a cada dia, um exemplo de dedicação plena e amor à causa, o que nos contagiava. Naquele tempo, os programas radiofônicos eram preparados por ele no Brasil, sendo levados anualmente para as gravações nos Estados Unidos. Nunca, que me recorde, a irmã Hedwig pôde acompanhá-lo. Permanecia em casa cuidando dos filhos, das tarefas domésticas e trabalhando no escritório. Ela e o pastor Rabello formavam um casal muito harmonioso e feliz. Quando nos Estados Unidos, ele escrevia para a esposa e filhos com freqüência e enviava nas cartas pequenas flores, muitas vezes colhidas nos caminhos que percorria, e outros pequenos mimos. Naquela época, os Estados Unidos despertavam em muitos grandes interesses financeiros. Porém, nas suas viagens anuais, o pastor Rabello nunca se aproveitou para tirar qualquer vantagem ou lucro financeiro em benefício próprio. Era austero consigo mesmo. Sua experiência e profunda consagração a Deus transpareciam no seu viver diário, no seu ardor pelo trabalho, na autodisciplina, na integridade moral, na fidelidade aos princípios eternos, no zelo, na humildade e até mesmo no tom de voz, que Deus usou para transmitir mensagens de fé, esperança e paz ao vasto rebanho de ouvintes. Foi um homem feito e burilado por Deus para o trabalho que realizou. Jamais demonstrou vaidade ao receber elogios e, discretamente, procurava esquivar- se de manifestações de grande admiração de ouvintes ou alunos. Entretanto, nunca deixou sem uma palavra de conforto, simpatia e orientação aqueles que o procuravam, mantendo sempre uma postura digna de um fiel filho de Deus a serviço de seu Pai. Inúmeras vezes, contrito, ele viu acontecerem milagres que se revelavam a cada semana na grande quantidade de cartas que nos chegavam de todas as partes do país: decisões, transformação de vidas, comoventes testemunhos, batismos... Iniciei o trabalho na Voz da Profecia sentindo-me privilegiada e, ao sair, senti-me galardoada, pelo muito que aprendi nesse trabalho inspirador e gratificante, pela rica experiência cristã recebida na convivência com pastores fiéis e verdadeiros, como foi o pastor Roberto Rabello. Ao soar o clarim da esplêndida alvorada, certamente ele verá, em plenitude, os abundantes frutos do seu labor. Que alegria será! Manhã radiosa Eclair Cruz, ex-cantor do quarteto Arautos do Rei, foi muito estimado pelo pastor Rabello, como todos os demais cantores que passaram pela Voz da Profecia. O pastor Rabello sempre teve admiração especial por ele, devido à sua humildade e ao seu talento, e pelo fato de ter trabalhado na Voz da Profecia por 22 anos. De São Luís, no Maranhão, ele relatou alguns detalhes de sua última visita ao pastor Rabello: Já no fim de 1995, minha esposa me disse: – Vamos visitar o pastor Rabello. Partimos, sem titubear, pois nossa alma ansiava rever o nobre casal. Lá chegando, a irmã Edith, sua esposa, ao abrir a porta, saudou-nos dizendo: – Salve! Que bom vê-los! Quanta saudade! Entrem, por favor, e assentem-se. – Irmã Edith, sentíamos imensa saudade e nosso coração pedia para vê-los o mais breve possível e, por isso, aqui estamos – disse minha esposa. – Sinto-me muito feliz com a visita de vocês – respondeu ela. – Meu esposo está deitado, descansando da caminhada do dia. Ele está bem, mas sua memória está muito enfraquecida e não se surpreendam se não os reconhecer. Vou avisá-lo que temos visitas. Mas faça o seguinte, Eclair: cante a música do coração dele. Comecei a cantar: “Espero a manhã radiosa, o bendito alvorecer…”, melodia cantada inúmeras vezes em seus sermões, ao viajarmos pelo Brasil. Ao concluir, ele estava diante de mim e disse: – Eclair, você veio me visitar! – Ele não havia esquecido seu velho amigo! Que emoção conversarmos por uns 40 minutos, rememorando os 22 anos juntos na Voz da Profecia! Foram momentos simplesmente inesquecíveis. Um ano mais tarde, no dia de meu aniversário, em 1996, minha mãe me disse: – Acabei de ouvir pelo rádio a notícia de que o pastor Rabello faleceu. Não foi possível conter as lágrimas. Isso ocorre ainda hoje ao me lembrar desse grande, nobre e incansável servo do Senhor. Não fui ao seu funeral porque senti que o meu coração não suportaria a dor. Mas espero vê-lo naquela manhã radiosa. Lição de relacionamento Durante quatro anos, Wilson Almeida cantou nos Arautos do Rei. Nesse período, ele teve o privilégio de conviver quase diariamente com a figura do pastor Roberto Rabello. Aqui estão suas recordações: O pastor Rabello sempre tratava com muito carinho os “rapazes do quarteto”. Jamais o vi usando qualquer palavra áspera, mesmo quando tinha que nos chamar a atenção. Com voz pausada e melodiosa, ele tinha uma característica marcante em sua linguagem: usava preferencialmente o tratamento na segunda pessoa, mesmo em conversas informais. Também tinha duas expressões muito peculiares que usava quase como marca registrada: “Ora, veja” e “Pois”. Certa ocasião, voltávamos de uma apresentação no Hospital Silvestre e eu estava, pela primeira vez, dirigindo o carro da Voz da Profecia, uma Veraneio que havia acabado de substituir a velha Kombi. Entusiasmado com um motor possante que respondia prontamente ao acelerador (principalmente para quem estava acostumado a dirigir um Fusca), confesso que abusei um pouco da velocidade numa das grandes avenidas do Rio de Janeiro. Ao ter de passar num semáforo, descobri que era preciso mais tempo e espaço para frear aquele veículo de grande porte. Assim, foi com grande dificuldade que parei a tempo de não bater na traseira do táxi que estava bem à nossa frente. Quando olhei pelo retrovisor interno, vi o pastor Rabello assentado no seu costumeiro lugar, junto à porta traseira direita do carro, esboçando uma reação não muito intensa, mas perceptível, de seu desagrado com o “quase acidente”. Todos sabíamos o quanto ele valorizava a segurança, mas não disse uma única palavra naquele momento; apenas deu um leve suspiro de alívio. Fiquei mais esperto ao dirigir a Veraneio e chegamos ao escritório sem maiores contratempos. Mais tarde, em particular, ele me procurou: – Ora, veja... Wilson, certamente, diriges muito bem. Demonstraste grande habilidade para frear nosso veículo a tempo de não bateres naquele pobre táxi. Mas, quem sabe, dirijas um pouco mais devagar daqui por diante e todos nos sentiremos mais seguros... Essa foi uma dentre as muitas lições que aprendi com o pastor Rabello sobre o relacionamento cristão. Atitude cautelosa Iracy Botelho Bravo, ex-pianista da Voz da Profecia e que, na época do depoimento, trabalhava no programa canadense Está Escrito, relembra fatos curiosos que revelam traços da personalidade do nosso biografado: Num domingo de manhã, alguém bateu à porta de minha casa, na cidade de São Paulo. Espantada e um tanto desconcertada, reconheci a figura admirável e respeitável do pastor Roberto Rabello. – Você gostaria de trabalhar para a Voz da Profecia? Estamos necessitando de uma organista para acompanhar os Arautos do Rei e fomos informados de que você é formada em piano e tem capacidade para preencher essa função. – Mas que privilégio! Sempre sonhei em trabalhar para Deus na área de música. É claro que aceito o convite. No dia 1º de janeiro de 1967, eu viajava para o Rio de Janeiro para agregar-me ao time da Voz. Trabalhei com pastor Rabello durante os próximos anos e foramos mais felizes de minha vida. Além da função de organista e pianista da Voz, acompanhando e gravando com os Arautos do Rei, tive o privilégio de, por algum tempo, ser secretária do pastor Rabello. Que inspiração trabalhar com alguém de caráter tão íntegro, disposição sempre otimista e alegre, apesar de sua peculiar seriedade! Por trás de sua fisionomia séria e um tanto grave, reconhecíamos alguém com um senso de humor sempre presente e bem interessante. Ele sabia nos fazer rir, quando o momento era propício. Passávamos seis meses por ano viajando através do Brasil em uma Kombi com o pastor Rabello e os Arautos do Rei, apresentando congressos da Voz e séries de conferências. Geralmente, eu me sentava ao lado do pastor Rabello nas viagens e era curioso vê-lo colocar infalivelmente sua pasta de material entre nós dois. Eu não podia deixar de sorrir diante de sua atitude cautelosa. Eu era muito jovem e ele se preocupava com meu bem-estar e eu sempre sentia a sua proteção, como se fosse um pai. O pastor Rabello foi uma pessoa digna de confiança e sempre lembrarei dele com respeito, admiração e saudade. Homem de Deus Alexandre Reichert foi pianista da Voz da Profecia durante vários anos. Hoje, ele vive nos Estados Unidos. É muito requisitado na área de Los Angeles para concertos, congressos e campais pelo seu talento musical. Ele ainda guarda boas lembranças do tempo em que trabalhou junto com o pastor Rabello: Já faz tempo que estou querendo contar esta história, mas o tempo vai passando e só agora, com a ajuda do pastor Léo Ranzolin, posso fazê-lo. É uma simples homenagem que quero prestar a uma pessoa com quem tive o prazer de conviver por quase dez anos e que foi uma inspiração para minha vida, um pai, um amigo e um irmão: pastor Roberto Rabello. Tive o prazer de viver na casa dele por quase seis meses. O pastor Rabello sempre foi um homem estudioso. Qualquer tempo disponível que tinha, lá estava ele estudando, lendo, escrevendo. Estava sempre em dia com tudo que se passava no mundo. Era realmente um homem bem preparado, e foi usado como poucos no serviço do Senhor. Em 1973, tive o prazer de ser chamado para trabalhar na Voz da Profecia, onde atuei por nove anos como diretor musical, arranjador e pianista do quarteto Arautos do Rei. Foi nessa época que pude conviver com o pastor Roberto Rabello e comprovar que ele era realmente um homem de Deus. Nunca o vi discutindo com alguém, nunca o vi de mau humor, nunca ouvi uma frase que fosse contra a reputação de qualquer pessoa. Pelo contrário, quando alguns, com ciúme do carisma que ele possuía e do carinho que recebia do público, quiseram tomar o seu posto, nem nessa hora se abalou. Ele sabia que Deus estava do seu lado e, realmente, nada aconteceu. Ele gostava muito de música e dizia que os membros do quarteto eram seus filhos. Muita coisa cômica acontecia em nossas viagens. Uma vez, em um programa, uma senhora bem idosa, vestida com um pijama, subiu até o púlpito, no meio do sermão, para cumprimentá-lo. Outros lhe diziam: “Faz 30 anos que eu ovo seu programa.” Alexandre conta também a mesma experiência relatada pelo pastor Feyerabend, quando a Kombi da Voz foi interceptada a caminho do ENA, e o policial, ao ouvir a voz do pastor Rabello, deixou-a passar, pois era ouvinte da Voz da Profecia por muitos anos. Alexandre apresenta em seu website um histórico da Voz da Profecia, com fotos dessa organização e de seus componentes ao longo dos anos. Influência no ministério O pastor Joel Sarli foi membro do primeiro quarteto dos Arautos do Rei. Ele e eu tivemos o privilégio de trabalhar juntos no Paraná e, mais tarde, na Associação Geral. Tinha uma vasta experiência pastoral. Foi membro do primeiro quarteto da Voz da Profecia, em 1963, e diretor do curso de Teologia no IAE. Mais tarde, radicou-se no Canadá e Estados Unidos como pastor de igrejas portuguesas e brasileiras. Durante minha gestão como vice-presidente da Associação Geral, fui conselheiro do Departamento Ministerial. Com a saída de um dos associados, o pastor Robert Folkenberg pediu-me que organizasse uma lista de candidatos promissores. Surgiram muitos nomes, mas tudo em vão. Assim, ao apresentar o nome do pastor Sarli à comissão de nomeações, ele foi eleito secretário ministerial associado da Associação Geral. Convivemos juntos e nos aposentamos na mesma época. Solicitei sua mensagem como membro do primeiro quarteto Arautos do Rei, famoso pelo lindo cântico “Hei de Estar na Alvorada”. Seu depoimento: Meu primeiro contato com a voz do pastor Rabello se deu quando eu tinha 9 anos de idade. Vivíamos numa região rural chamada Barra Mansa, no município de Jaú, no interior de São Paulo. O Sr. Marra, um italiano que morava a uns 200 metros de nossa casa, nos deu a oportunidade de ouvir a Voz da Profecia, irradiada pela Rádio Difusora de Araraquara. Nós nos assentávamos ao redor do rádio e, com um sentimento misto de respeito e orgulho, ouvíamos cada palavra que o orador falava. Era o programa radiofônico de nossa igreja! Isso significava muito para nós, que vivíamos cercados por vizinhos católicos. Os anos se passaram e, no meu tempo de colégio, me envolvi em atividades musicais, mas principalmente com a formação de quartetos masculinos. Ouvíamos com admiração cada hino cantado pelo quarteto americano Arautos do Rei. Então aconteceu meu segundo contato com o pastor Rabello. A grande surpresa para mim, em agosto de 1962, foi ser chamado para uma entrevista com o pastor Rabello, que procurava um barítono para integrar o novo quarteto Arautos do Rei que seria formado no Brasil. A partir daí, tive o privilégio de conviver de forma regular com o pastor, o homem, o conselheiro e o amigo Roberto Mendes Rabello. Embora a sua voz sonora sempre me causasse admiração, ao conviver com esse servo do Senhor, o que mais me impressionava era a sua sobriedade e prudência ao emitir sua opinião sobre qualquer assunto que surgisse em nossas longas viagens promocionais da Voz da Profecia. O pastor Rabello era um ministro de Deus, cuja credibililidade nunca foi questionada. Respeitava as pessoas, vivia para a salvação delas, amava a sua igreja e servia com lealdade incondicional ao Senhor. Era um homem de ação, mas não de improviso. Gostava de estar seguro de que qualquer decisão tomada serviria para fazer a causa de Deus prosperar e avançar na direção certa. Jamais vi o pastor Rabello tomar uma decisão precipitada. Qualquer situação que enfrentava o levava a consultar a vontade de seu Senhor. Sua postura em relação às tradições, doutrinas e ética adventistas era absolutamente confiável e equilibrada. Em qualquer lugar que nos apresentávamos, o pastor Rabello era inquestionavelmente a estrela que atraía meninos e meninas, jovens, pessoas de meia-idade e idosos. Multidões queriam ouvi-lo apresentando a mensagem de Jesus. De norte a sul do Brasil, irmãos juntavam suas economias para entregar ao pastor Rabello a fim de que o ministério da Voz da Profecia avançasse. Ele era respeitado e amado por sua igreja. Nunca o uso dos meios enviados à Voz da Profecia foi questionado pelos irmãos. Havia absoluta confiança no homem que conduzia os destinos de A Voz da Profecia. Embora fosse firme, não era arbitrário. Sabia enfrentar oposição sem perder o equilíbrio. Não misturava interesses pessoais com os negócios da igreja. A memória dele ainda traz um sentimento de respeito e admiração no meu coração. Dou graças a Deus por ter tido, no começo de meu ministério, o privilégio de me abrigar à sombra desse homem de fé e visão e ter trabalhado sob a orientação de tal servo de Deus. Sua vida de fé, sua firmeza, sua convicção e sua postura como pastor serviram de diretriz na estrutura de meu ministério. Querido pastor Rabello, o senhor ainda vive na minha memória, influenciando minha maneira de servir ao Senhor. Primeiro quarteto Samuel Dias de Campos e sua esposa Domnina trabalharam juntos na Voz da Profecia. Ele foi membro do primeiro quarteto Arautos do Rei, famoso pela linda música “Hei de Estar naAlvorada”, que foi sua marca registrada. Trabalhou por dois anos como membro do quarteto e, por fim, como instrutor da Escola Radiopostal, respondendo a perguntas teológicas. Sua esposa trabalhou como secretária do pastor Rabello, realizando um excelente trabalho. Enviada de Hortolândia, aqui está sua mensagem sobre a convivência com o pastor Rabello na Voz: Ainda ressoam pelo ar as palavras tantas vezes transmitidas pelo rádio, na voz clara e sonora do orador, expressivamente entoada ao apresentar o programa de fé e esperança que anuncia a volta do Senhor. Voz que sempre despertava em seus ouvintes o interesse por suas palestras primorosamente elaboradas. Não é necessário dizer que me refiro ao orador do programa da Voz da Profecia que marcou época: o pastor Roberto Rabello. Com seu dom peculiar, nunca pôde sequer ser imitado, quanto menos igualado. É do conhecimento de todos que dirigir o programa de rádio da Voz da Profecia era apenas uma parte do trabalho do pastor Rabello; ele foi o diretor geral da instituição e dirigia com maestria aquela entidade. O programa de rádio, entretanto, era a menina de seus olhos, pois era a ponta de lança do seu trabalho em favor de pessoas sinceras. Daí dependia o despertar do interesse das pessoas pelo estudo da Palavra de Deus através da Escola Radiopostal. Era zeloso em sua atividade, cioso do seu dever, íntegro nas atitudes e cordial nos relacionamentos. Notávamos seu empenho em aproximar-se da excelência, especialmente do viver cristão. Ele transparecia consagração; inspirava santificação e apropriação da graça salvadora. Certo dia, antes de nosso chamado para a Voz da Profecia, minha esposa assim se expressou: – Se a sua mãe e o pastor Rabello não forem para o Céu, não sei quem poderá ir. Assim foi o homem: talhado por Deus para o serviço. Eu gostaria de ter ficado mais tempo na Voz, mas os caminhos de Deus foram diferentes. Porém, sempre fico emocionado ao pensar nos dias felizes que passamos naquela instituição. O pastor Rabello, de saudosa memória, foi realmente uma pessoa exemplar, que imprimiu a influência e a marca de uma personalidade íntegra e cristã. Deus seja louvado pelo grande privilégio de ter ombreado com ele na missão de evangelizar as pessoas sinceras. Ao pé do rádio Em novembro de 1996, por ocasião da morte do pastor Rabello, a Revista Adventista publicou um testemunho de Williams Costa Jr., ex-pianista da Voz da Profecia e do Está Escrito, o qual vale a pena ser repetido aqui: Todo domingo, às 6h da tarde, esperava a Voz da Profecia. Quando chegava, eu estava ao “pé do rádio”, na casa do irmão Justino. Ele, a esposa, os filhos e eu sempre estávamos juntos para ouvir o programa. O irmão Justino e sua família moravam em Aerolândia, subúrbio da cidade de Fortaleza, Ceará. Quando o quarteto Arautos do Rei cantava “Servos de Deus, a buzina tocai”, os olhos de todos brilhavam. Quando o pastor Rabello pregava, todos nós ouvíamos com atenção. Quando orava, fechávamos os olhos com reverência. Quando se despedia, nos despedíamos dele. Quando o programa acabava, estávamos felizes pelo que tínhamos ouvido e tristes porque havia sido tão curto. A semana passava e, no domingo seguinte, às 6h da tarde, estávamos novamente “ao pé do rádio”. Naquela época, eu tinha 10 anos e era recém- batizado. Um dia, ouvi falar que o pastor Rabello e os Arautos do Rei estavam se dirigindo a Fortaleza. Já haviam passado por Recife, João Pessoa e, na semana seguinte, estariam em Natal. Eu mal podia esperar que a semana subseqüente chegasse, porque, pela minha lógica, eles estariam em Fortaleza. Qual não foi a minha tristeza e desapontamento quando descobri que a viagem acabara no Estado do Rio Grande do Norte. Tentaram me explicar que “a viagem era somente pelo território da União Este” e que “o Estado do Ceará fazia parte da União Norte”. Ainda tentei argumentar: “Mas eles estão tão perto, por que têm que voltar de Natal?” Naquela época, descobri que o Estado do Ceará, tão perto do Rio Grande do Norte, deixava longe meu sonho de conhecer pessoalmente o pastor Roberto Rabello e os Arautos do Rei. Alguns anos depois, para minha felicidade, eles foram a Fortaleza. O auditório da Faculdade de Direito estava superlotado. Os membros da igreja de Aerolândia compareceram em peso. Papai, mamãe, minhas irmãs, o irmão Justino e sua família... Ninguém podia perder uma reunião como aquela. O programa foi um sonho: os Arautos cantaram, o pastor Rabello pregou e os presentes fizeram fila para cumprimentá-lo em frente do palco. Entrei na fila e esperei mais de uma hora até chegar a minha vez. Lembro-me até hoje de sua amabilidade e do seu aperto de mão. Saí da reunião com o coração cheio de entusiasmo e inspiração. Queria fazer alguma coisa parecida com o que o pastor Rabello fazia. Alguns meses depois, realizei uma série de conferências aos domingos à noite, na igreja de Aerolândia. Os temas foram tirados da série A Voz da Mocidade. Naquela época, eu tinha 13 anos. Tivemos cinco interessados e um batismo. No ano seguinte, a comissão da igreja votou que eu dirigisse a minifilial da Escola Radiopostal. Havia dois alunos. Arrumei em casa todas as lições dos cursos Juvenil, Universal e Avançado. Assim, os interessados não tinham que esperar para receber novas lições e ver corrigidas suas provas. Nós corrigíamos na igreja, tão logo os interessados dessem a resposta. Isso envolvia membros da igreja, personalizava o atendimento e agilizava o processo. Em 1965, chegamos a ter 107 alunos. A igreja de Aerolândia tinha 40 membros. Nossa vida era a igreja. Vivíamos felizes e envolvidos com o trabalho missionário. Eu quis ser músico para cantar no quarteto Arautos do Rei. Era um sonho. Aos 14 anos, no ENA, fui barítono do quarteto Arautos do Nordeste, visível influência dos Arautos do Rei. Comecei a escrever letras de hinos tentando traduzir as músicas do quarteto Arautos americano. Meus primeiros trabalhos de criação musical foram arranjos de músicas para quarteto masculino. O pastor Rabello descansa no Senhor, mas sua mensagem e sua voz continuam vivas no meu coração: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o Seu rosto e te dê a paz.” Durma em paz, pastor Rabello, o senhor cumpriu sua missão. Sua vida e sua mensagem ajudaram a confirmar minha fé e meu sonho de servir a Deus. Jorimilson, filho do irmão Justino, hoje é pastor e eu estou servindo à causa de Deus como obreiro há quase 25 anos. O pastor Rabello não pôde imaginar o impacto que causou em minha vida enquanto gravava nos estúdios “uma mensagem de fé e de esperança que anuncia a volta de Jesus”. Agradeço a Deus a sua vida. Agora que descansa no Senhor, espero reencontrá-lo pessoalmente na manhã da ressurreição, para vivermos juntos com Jesus eternamente. Colega de trabalho O pastor Ademar Quint e eu fomos colegas de quarto no CAB, colegas no curso de Teologia, colegas de formatura (1954), colegas de colportagem e, finalmente, companheiros de ministério. Ele é de Bom Retiro, SC, e eu nasci em Vacaria, RS, me criei em Lajes, SC, e fomos, portanto, membros da mesma Associação Paraná-Santa Catarina. O pastor Ademar teve grande influência no ministério JA (MV), pois foi o pioneiro do famoso Batismo da Primavera, que, durante meus anos de trabalho na Associação Geral, consegui colocar no calendário mundial da Igreja Adventista. Além disso, trabalhou por muitos anos como instrutor da Escola Radiopostal da Voz da Profecia (dezembro de 1956 a março de 1962). De 1959 a 1961, ele escreveu pequenos artigos para a Revista Adventista intitulados “O Cantinho da Voz”. Aqui seguem seus pensamentos sobre sua vida na Voz da Profecia: A igreja de Bom Retiro era uma das grandes e valorosas igrejas na Associação Paraná-Santa Catarina, nas décadas de 1930 e 1940. No fim de 1943, nos meus 14 anos, o programa da Voz da Profecia dava o auspicioso início. A igreja se reunia aos sábados, ao pôr-do-sol, para ouvir pelo rádio do irmãoPaulo Kuntze, alimentado por bateria, a voz do pastor Roberto Rabello. Era uma emoção! A voz inconfundível e penetrante, por algumas décadas, tomou cativos para Cristo todos que a ouviam. Jamais sonhara então que, treze anos mais tarde, estaria no escritório da Voz da Profecia em Niterói, RJ, participando na orientação doutrinária dos cursos bíblicos por correspondência. A Escola Radiopostal atendeu a milhares de interessados em todo o Brasil. Quanta recordação feliz desses alunos! O que dizer do casal Rabello que conhecemos? Ele vivia o que falava. Esse é o princípio da autenticidade que pudemos observar e comprovar do convívio, do trabalho e do conceito sobre o pastor Rabello e dona Hetty, por dois períodos singulares ou até três. No primeiro período, as impressões me chegaram através de meu sogro, Celestino da Silva Barra. Antes de o pastor Rabello se mudar para os Estados Unidos, com o propósito de ampliar seus estudos, era pastor da Igreja Central do Rio de Janeiro. A par da amizade familiar entre as crianças das duas famílias, meu sogro dizia que recebeu do pastor Rabello ajuda e estímulos para as atividades missionárias que o acompanharam por quase 50 anos como fundador de novas congregações que se tornaram igrejas (igreja de Botafogo, Teresópolis, Magé e outros grupos na Baixada). Detacava-se a conduta cavalheiresca e educada como tratava os membros da igreja. No segundo período, quando eu o conheci mais pessoalmente, foi no escritório da Voz da Profecia. Ainda solteiro e com planos para casamento, fui chamado um dia pelo pastor Rabello e dona Hetty: – Como nós conhecemos a sua noiva desde menina, a Dina, temos uma proposta –disse dona Hetty. – O Roberto precisa ir novamente aos Estados Unidos para fazer as gravações da nova série de palestras para mais um ano e eu sempre vou junto. Lucila e Léo, recém-casados, estão lá, e ficarei morando com eles. Assim, você se casa e fica cuidando do nosso apartamento por um ano. Uma proposta de pai para filho. E assim foi feito o trato. No dia 18 de abril de 1957, um jovem casal foi morar numa residência totalmente montada, só para cuidar e guardar, sem mais gastos de aluguel no orçamento da Voz por um ano. Nesse período, o pastor Rabello regressou para as atividades no Brasil e, na sua própria casa, ele se conduzia cavalheirescamente como um hóspede e não como dono da casa. Participava das refeições como convidado e não como dono da situação. Passado o período de um ano, dona Hetty voltou e continuou sua tarefa de datilografar as novas palestras. O que me impressionava nesse trabalho era a ausência de vaidade. Quando em dúvida sobre a colocação de uma frase ou de palavras dentro de uma frase, sem o menor complexo, ela chegava à minha mesa de trabalho para consultar a opinião que se ajustasse melhor. Num terceiro período, quando o pastor Rabello estava de volta na administração da Voz (porque ele teve um período na presidência da Associação Rio-Minas), pediu a cooperação do irmão Celestino Barra para encontrar uma área adequada onde pudesse ser construída a nova sede da Voz da Profecia. Meu sogro achou e indicou o terreno da Rua da Matriz, 16. O terreno foi comprado e, até se tornar inadequada, a construção serviu para a Voz da Profecia e para a igreja do Botafogo. Fazendo referência ao casal Rabello, meu sogro dizia: – Aquele que pede e aceita conselhos humildemente é, na maioria das vezes, superior a quem dá os conselhos. A Voz da Profecia começou a ser irradiada no Brasil em 26 de setembro de 1943, pela Rádio América de São Paulo, e dessa data em diante o programa se popularizou e desenvolveu-se como uma força para ajudar na pregação do evangelho. O pastor Rabello foi um poderoso instrumento de Deus. Calma na tempestade O pastor Sesóstris César, de Hortolândia, SP, também conta sobre sua experiência com o pastor Rabello: Por muitos anos, conheci o pastor Roberto Rabello. Eu era departamental da Voz da Profecia no Rio Grande do Sul, e fizemos planos para levar o grupo da Voz a Porto Alegre. Todos os planos foram feitos para termos um lindo programa na Igreja Central. Chegou a hora do programa começar. O templo estava superlotado. Era domingo à noite. Tudo estava preparado. O quarteto, porém, não chegava. Havia grande ansiedade. A visita do quarteto era sempre um acontecimento fora do comum. Quase em cima da hora, a perua da Voz da Profecia chegou com o grupo. Que alegria! Imediatamente, os equipamentos de som foram levados para dentro, e tudo foi montado com a máxima rapidez. A euforia era grande, e todo mundo entrou na igreja para assistir ao programa. Ninguém se lembrara de cuidar da perua, lá fora, carregada com a bagagem do pessoal. O programa foi lindo, mas o fim não foi tão feliz. Quando terminou o programa e saímos da igreja, a surpresa foi enorme: a perua havia sido arrombada e os assaltantes tinham levado tudo. Ela estava vazia. Malas e objetos do grupo foram levados. O quarteto ficou sem nada. Reinou o desespero. Os membros do quarteto corriam de um lado para outro, desesperados. Então, de quem seria a culpa? Do motorista que não fechara o carro? Do pastor que não tomara providência? Bem, não adiantava chorar pelo leite derramado. Diante da confusão que se criou, uma cena ficou em minha memória: lá em cima da calçada da igreja estava de pé um homem alto, imóvel, com os braços cruzados, tranqüilo, calado, contemplando tudo, em silêncio. Ele também havia sido roubado. Seu domínio próprio era impressionante. O nome daquele homem? Roberto Rabello. Saudade dos primeiros anos A Dra. Leona Glidden Running, ex-professora na Andrews University, foi nossa professora de hebraico e “torturou” muitos futuros pastores, não por ser indelicada, mas sim pelo seu magistral domínio das línguas bíblicas. Como resultado, fiquei encantado com o hebraico e com ela. Foi também uma das primeiras secretárias do pastor Rabello, na sede da Voz, em Glendale, Califórnia. Em janeiro de 1994, ela escreveu uma carta ao pastor Rabello, felicitando-o pelos 50 anos da Voz da Profecia. Nessa carta, ela comenta quão feliz se sentiu ao ver as fotos e ler o histórico do início da Voz da Profecia no Brasil. Ficou contente ao ver a foto do pastor Rabelo, mas notou que ele estava usando uma bengala. Esperava que ele se mantivesse bem de saúde por muitos anos. A Dra. Leona revela então, com nostalgia, os primeiros anos da Voz em 1943: Lembro-me, com saudade, dos primeiros quatro anos em que trabalhei com o irmão, o pastor Braulio Pérez e o pastor Stoehr naquele pequeno prédio, no centro de Glendale. Aprendi a ler em português, ao datilografar as primeiras páginas de um manuscrito que me deram, pois batia à máquina os manuscritos em espanhol. Fiquei muito contente que ambos me deixaram usar minha cabeça e que, se algo parecia estranho, podia perceber que o irmão não tinha entendido muito bem algumas expressões idiomáticas do inglês do pastor Richards. Eu podia explicar para o irmão e para o pastor Pérez, e vocês aprendiam a idiossincrasia da língua. Eu sugeria um palavreado que era aceito, sem problema. Aquilo, realmente, me empolgava. Então, ela comentou o curso de sua vida depois de sair da Voz da Profecia: trabalhou na Pacific Press, foi secretária, foi redatora da revista Ministry, quando teve o privilégio de estudar na Universidade Johns Hopkins (a mesma escola onde o Dr. S. Schwantes se graduou em línguas bíblicas) e lecionar na Universidade Andrews. Formou-se em 1965 e, por dois anos, assessorou o famoso arqueólogo Dr. William F. Albright em suas publicações, até a morte dele em 1971. Depois, ela escreveu a biografia do arqueólogo. Que privilégio para o pastor Rabello foi ter essa famosa mulher como secretária no início da Voz da Profecia. Trata-se de uma fantástica e exímia professora que inspirou milhares de pastores e que o ajudou na infância da Voz da Profecia. A Milagres e Conversões Como a Voz alcançou os corações e mudou vidas pós o falecimento do pastor Rabello, recebi muitas cartas de irmãos de todo o Brasil, relatando suasexperiências e contato com ele. Agora você pode conhecer algumas dessas experiências. Não conseguiu fugir dos adventistas O irmão Oscar W. Ritter, de Porto Alegre, contou-nos que teve a alegria de hospedar o pastor Rabello em sua casa por mais de uma semana, na cidade de Torres. Ele relata o vazio da vida de seu pai, Willy Ritter (primo do falecido pastor Germano Ritter), que procurou muitas religiões, mas nada o satisfazia. Por volta de 1943, mesmo sendo pobre, trabalhando numa loja no centro de Porto Alegre, ele comprou um aparelho de rádio em prestações. Numa sexta- feira à tarde, seu pai ligou o rádio e ouviu o programa da Voz da Profecia. Dali em diante, tornou-se um assíduo ouvinte do programa, comprou uma Bíblia e escreveu para a Voz da Profecia para que fundassem um grupo dos adeptos da Voz da Profecia. Certa vez, enquanto trabalhava numa garagem no centro de Porto Alegre, o Sr. Ritter percebeu que um jovem havia recebido o salário e saíra. Então, ele perguntou: – Por que esse jovem está recebendo o salário hoje, quando todos os outros empregados só recebem amanhã? O caixa respondeu que era por causa de uma religião estranha que ele tinha, mas, por ser bom empregado, os patrões o toleravam. – Ele é adventista e não trabalha no sábado – acrescentou. O Sr. Ritter sabia que aquele jovem não conhecia a Voz da Profecia. – Quando ele voltar na segunda-feira, vou dizer-lhe que escute esse maravilhoso programa – ele decidiu. Na segunda-feira, lá estava seu pai esperando o mecânico, Paulo Alcântara. – Bom dia! O senhor é adventista? – Sim, há muito tempo – respondeu o irmão Paulo. – Mas... É porque o senhor não conhece a Voz da Profecia – contestou o Sr. Ritter. – Sim, eu sei, esse é um dos programas nossos e vou lhe passar às mãos um folheto com todas as estações que o irradiam. O irmão Oscar diz que seu pai “caiu do cavalo” e não sabia o que responder. Pensou: “Fugi tanto dos adventistas e agora estou bem dentro. Amo tanto esse programa e já estou tão habituado a ouvi-lo que nunca mais voltarei atrás.” Nesse ínterim, chegou a resposta da carta dele à Voz da Profecia, orientando-o para que visitasse a igreja adventista de Porto Alegre e procurasse o pastor e Dr. S. Hoffmann. Seu pai tornou-se um fiel adventista e hoje dorme no Senhor, “graças a Deus e àquela voz grave e melodiosa, sublime e confortante cujo silêncio nos emociona”. O irmão Ritter foi um fruto direto da Voz da Profecia. Ajudou a fundar a igreja da Floresta, do Sarandi, de Cachoeirinha e de Sta. Rosa. Foi também um dos idealizadores e fundadores da Federação Adventista da Mocidade Gaúcha (FAMG) e, muitas vezes, seu presidente. Tivemos o privilégio, junto com o pastor Homero Reis, de participar de um acampamento na Rondinha, quando eu era diretor de jovens da União Sul Brasileira, dirigido pelo irmão Ritter. Como o Senhor atua nos corações e trabalha através da Voz e de outras agencias da igreja para levar pessoas preciosas a Cristo! As aflições são degraus Harry e Myrtie Westcott foram missionários no Brasil. Encontramos muita correspondência dos Rabello com a família Westcott. O pastor Westcott era muito carinhoso e, como sabemos, realizou a cerimônia de casamento do casal Rabello. Os Westcott escreviam expressando saudade do Brasil e dos anos que haviam passado em nosso país. Em 13 de janeiro de 1959, escreveram (em inglês): “Estamos sentados confortavelmente junto à nossa lareira. O brilho do carvão é lindo. Olhando ao fundo, podemos ver o Rio e Niterói e os lindos lugares que os circundam. Gostaríamos de voltar e ver as coisas como eram no passado. Mas isso só é possível em pensamento. Há muitas novas faces desde 1935.” Nessa carta carinhosa, os irmãos Westcott dizem que o trabalho do rádio não estava terminado e que pastor Rabello deveria voltar, pois, nessa data, ele era presidente da Associação Rio-Minas. Eles acrescentavam que, com a experiência em administração combinada com a experiência do rádio, o pastor Rabelo faria melhor trabalho que antes. E disseram: “Se usarmos nossas aflições como degraus e não permitirmos que elas nos destruam, poderemos realizar uma melhor obra por termos sofrido lutas e dificuldades. A oração transforma as coisas, não é verdade? Senhor, dá-nos mais fé!” Esse casal teve uma influência sadia e benéfica na vida de um homem que lutava, na ocasião, para saber qual era a direção que o Senhor havia pautado para sua vida. Em carta escrita ao irmão Westcott em 9 de outubro de 1972, o pastor Rabello deu o seguinte relatório: Este ano já visitamos 60 cidades, começando em Minas e Espírito Santo e indo até o Rio Grande do Sul. Falamos a uns 60 mil ouvintes da Voz da Profecia. Mais de 10 mil pessoas foram inscritas nos nossos cursos bíblicos e estão sendo atendidas pelos pastores e igrejas locais. Deus tem abençoado a pregação da mensagem pelo rádio, irmão Westcott. O povo tem confiança em nós. Em alguns lugares, temos tido multidões de 2 mil e até 3 mil pessoas presentes. Vários dos nossos evangelistas seguem o plano de trabalhar com ouvintes da Voz da Profecia e dizem que não há nada mais frutífero. O povo tem confiança no pregador, se ele se apresenta como representante do nosso programa de rádio; e os que assistem já conhecem muito da verdade. Em junho de 1973, enquanto fazia preparativos para o 30o aniversário da Voz da Profecia no Brasil, o pastor Rabello disse o seguinte: “Recentemente ouvimos que, segundo uma pesquisa feita por uma organização especializada, cerca de 50% dos que sintonizam programas religiosos no Brasil ouvem a Voz da Profecia. O alvo de batismos que temos para este ano é de 9.100 para todo o território nacional. Peço aos irmãos que orem para que Deus nos conceda alcançar este elevado alvo.” Em junho de 1975, já com 86 anos de idade, numa de suas últimas cartas ao pastor Rabello, Westcott continua, como um pai e conselheiro amoroso, dizendo que o pastor Rabello fez bem em deixar a administração da Voz e dedicar-se totalmente às mensagens. Em julho de 1975, o pastor Rabello escreveu ao pastor Westcott, informando que fora escolhido um novo orador (Roberto Conrad) para a Voz da Profecia. O novo orador deveria ir aos Estados Unidos para estudar. Isso indicava que o pastor Rabello continuaria trabalhando arduamente na preparação das palestras. Essa foi a última carta do pastor Rabello àquele valoroso missionário em nossas terras. Vale a pena mencionar que esses misssionários muitas vezes enviaram donativos para a Voz da Profecia e o trabalho no Brasil. O pastor Rabello, em suas viagens aos Estados Unidos, angariou milhares de dólares de amigos, ex- missionários e brasileiros. Ele não tinha receio de pedir para a obra do Senhor. Como disse o pastor N. P. Neilsen, missionário do passado: “Meu coração parece estar na América do Sul.” Essa era a razão por que esses missionários doavam à obra na América do Sul. Correspondência entre amigas A irmã Catarina Schneider, esposa do falecido Dr. Schneider, fundador do Hospital Silvestre, foi uma grande amiga da Sra. Hetty e do pastor Rabello. Numa carta escrita pela Sra. Hetty em 23 de abril de 1959, ela conta à sua amiga sobre sua enfermidade e diz que, graças a Deus, havia se recuperado. Há uma nota interessante na carta: O Roberto está muito contente com seu novo trabalho (presidente da Associação Rio-Minas). Deus está abençoando e esperamos que a situação financeira do campo logo melhore. [...] A Divisão pediu ao Roberto que volte para a Voz da Profecia, mas sob as mesmas condições. De maneira que, depois de pensar e orar muito, tivemos que responder que infelizmente Roberto prefere ficar onde está agora. Deus sabe quão dura foi a prova lá, no passado. O problema tinha que ver com a relação entre orador-diretor e gerente. O pastor Rabello queria que a Divisão usasse o modelo da Voz da Profecia nos Estados Unidos e, quando retornou à Voz, a administração da Divisão concordou. Era mais eficaz ter um gerente administrativo interno, mas o orador era o diretor da Voz da Profecia, facilitando o relacionamentoentre os dois. Além de ser uma grande amiga do casal, a irmã Schneider contribuiu muito, financeiramente, para ajudar a obra no Brasil. Na carta mencionada, a Sra. Hetty pedia que ela enviasse uma ajuda para terminar a construção da igreja de Olaria. Os irmãos estavam expostos às intempéries e precisavam terminar a igreja. Transmitia notícias sobre o Hospital Silvestre, fundado pelo seu falecido esposo, e informava que a Escola de Enfermagem já estava funcionando. Poder sobre o inimigo Certa ocasião, o irmão Nélio, do Bairro de Acari, Rio de Janeiro, e familiares foram convidados a visitar uma mulher e seus filhos. A mulher ficava o dia todo em um sofá, entregue a um terrível desânimo. Seu marido trabalhava em um lugar distante e só voltava nos fins de semana. Nossos irmãos fizeram uma faxina completa na casa e, durante essa limpeza, encontraram debaixo das camas muitos objetos em miniatura de feitiçaria e macumba. Colocaram todos os objetos dentro de uma sacola para queimá-los. Voltaram, dias depois, e se reuniram cantando hinos de louvor ao Senhor. Começaram a ler o Salmo 91 e, ao chegarem ao verso 10, a mulher deu um grito e uma gargalhada. Com voz de homem, disse que os irmãos estavam atrapalhando seu trabalho e que todos aqueles objetos encontrados na casa pertenciam a ele. Enquanto alguns irmãos oravam e lutavam com o inimigo, outro irmão saiu com a sacola, derramou uma porção de álcool e colocou fogo. Notou que, apesar do fogo, a sacola não se consumia. Ele voltou ao quarto e ouviu a voz dizer que, enquanto ele estivesse ali, a sacola não se consumiria. Assim, o irmão saiu em busca de ajuda. Telefonou para a Voz da Profecia, no Botafogo, RJ, solicitando urgentemente falar com o pastor Rabello, que o atendeu prontamente e ouviu toda a história. O pastor Rabello disse para ele retornar ao lugar onde os irmãos estavam. Enquanto isso, ele estaria orando pelo grupo, pedindo o auxílio divino em favor da libertação da mulher. Ao voltar, o irmão encontrou a senhora muito agitada e foi aí que o inimigo disse: – Foi pedir ajuda, hein? Você procurou a pessoa certa. Está bem. Não fico mais aqui. Vou embora, pois aquele homem do rádio está lá pedindo ajuda de cima. Ele tem muita fé. É muito forte, e seu pedido está sendo atendido. Com um grito e um uivo, o espírito satânico saiu, como se estivesse vendo um anjo com a espada desembainhada. Naquele mesmo momento, a sacola foi consumida pelo fogo. Nossos irmãos glorificaram ao Senhor, expressando gratidão pela grande vitória sobre o inimigo. A mulher, voltando a si e chorando muito, perguntou o que havia acontecido. Não se recordava de nada. Depois de um banho, seu aspecto era completamente diferente. Ela recebeu estudos bíblicos, fez os cursos da Voz da Profecia e, na ocasião de sua formatura, os certificados foram entregues pelo próprio pastor Rabello. Hoje, para a honra e glória de Deus, aquela senhora, o esposo e os filhos pertencem à família de Deus. Oração pela mãe A irmã Esther Reis Pereira, residente em Loma Linda, Califórnia, trabalhou por 10 anos na Voz da Profecia. Durante aquele período, ela nunca viu o pastor Rabello aborrecido ou brigando com alguém. Ele resolvia tudo com paz e tranqüilidade. O pastor Rabello a batizou e realizou seu casamento. Em 1986, a mãe da irmã Esther ficou muito doente. Tinha uma dor insuportável na barriga, e os médicos não encontravam nada de anormal. O ventre ficava inchado e ninguém conseguia explicar a razão. A mãe de Esther pediu que o pastor Rabello fosse chamado para ungi-la. Ao chegar, ele notou que a mulher estava com uma sonda e tubos no nariz. Não parecia o lugar ideal para a unção. O caso dela era tão grave que os médicos queriam operá-la imediamente, mas estavam preocupados com sua idade – 80 anos. Mas a mulher, com muita fé, não desistiu. Pediu que a Bíblia fosse colocada sobre seu ventre e que o pastor Rabello orasse por ela. Terminada a cerimônia, todos foram embora. No dia seguinte, outra filha foi ver a mãe e a encontrou muito bem, sentada, balançando as pernas, conversando e sorrindo, sem soro e sem sonda. A barriga estava normal. A filha ficou tão surpresa que começou a entoar hinos de louvor. Os médicos não conseguiam explicar o ocorrido e não queriam lhe dar alta. Mas ela estava bem e, depois de mais alguns dias, voltou para casa. A imã Esther ligou para o pastor Rabello, o qual ficou muito feliz e louvou a Deus. Quando este livro foi escrito, a mãe de Esther estava com 93 anos e nunca mais teve problemas com sua barriga. A voz do disco Otávio Peixoto de Melo, escrevendo de Cachoeirinha, RS, conta que, certo dia de agosto de 1969, ele e sua esposa resolveram ouvir um programa radiofônico que era irradiado aos domingos, às 9h da manhã. Ouvir o programa seria uma afronta ao padre local, pois eles eram católicos. Por isso, procuraram ouvi-lo bem baixinho, para que os vizinhos não percebessem. Sintonizaram a freqüência e ouviram: “Esta é a Voz da Profecia. Uma mensagem de fé e esperança que anuncia a volta do Senhor.” Eles ficaram encantados com a voz, que parecia vir do Céu diretamente ao coração deles. Os dois estavam sem rumo na vida, peregrinando por igrejas diferentes, e haviam perdido quase todos os seus bens. No domingo seguinte, resolveram comparecer pessoalmente à rádio para conhecer o dono daquela voz. Para sua decepção, viram um simples LP rodando. Mas descobriram que o pastor Edson Gomes era quem fornecia os discos para a estação. Mais tarde, o dono daquela voz apareceu na cidade e Otávio foi visitá-lo no hotel. Otávio contou-lhe a história e recebeu a incumbência de ser o gerente do programa local, alimentando a rádio, e depois poderia ficar com os discos. Foi uma grande alegria para a família. Em 1971, ele, a esposa e a filha desceram às aguas batismais. O exemplo das mulheres Adelino Dionísio Tavano, de Bauru, SP, relatou que, em 1947, era comerciante em Dourado, São Paulo. Vendia bebidas alcoólicas e tudo que prejudicava os semelhantes. Certo dia, ele recebeu a visita do pastor Hélio Pereira, que estava recoltando naquela cidade, e o convidou para almoçar em sua casa. O pastor Hélio o inscreveu nos cursos da Voz da Profecia. Isso foi o começo de uma vida melhor. Ele respondia às lições e ouvia a Voz da Profecia como um programa que vinha do Céu. Ainda tem as cópias das palestras, hoje encadernadas e com a foto do pastor Rabello na capa. Ele terminou o curso, mas ninguém apareceu para levá-lo à decisão. Pensava: “A igreja sabe semear, mas não sabe colher.” Convidado pelos metodistas, fez parte dessa igreja por muitos anos. Um dia, sendo convidado a pregar, falou sobre a sepultura de Jesus. Chegou um momento em que leu os últimos versos de Lucas 23, onde é dito que, na sexta-feira, as mulheres fizeram preparação para o sábado e descansaram, conforme o mandamento. Nesse momento, ele parou e não sabia como prosseguir. O sábado calou profundamente em seu coração. Em 1957, ouvindo o pastor Nigri, a esposa e filhas de Adelino decidiram se tornar adventistas. As filhas foram estudar no IAE e no Iasp. Finalmente, os filhos também foram para o Iasp. Quando ele nos contou sua história, todos os filhos, genros, netos, netas e dois bisnetos eram adventistas. Aos 81 anos de idade, recordava a voz do pastor Rabello como vinda do Céu. Ele nasceu em 15 de novembro, dia do aniversário do pastor Rabello. Nosso irmão relata um encontro com o pastor Rabello, no grande Congresso Sul-Americano realizado no Quitandinha, RJ, em julho de 1956. Em outra ocasião, viajaram juntos para Bauru e Lençóis Paulista. Eles entraram na casa de um irmão chamado Francisco Toniolo. Ao entrarem, Francisco ouvia a Voz da Profecia. Ele quis desligar para atender as visitas, e o pastor Rabello disse: – Por favor, não desligue, queremos ouvir também. Ao terminar o programa, Adelino perguntou a Francisco se ele conhecia o orador que havia apresentado aquela palestra. Ele respondeu que não. – Ele está aqui conosco e é o mesmo que acaba de falar em seu radinho. Francisco começou a chorar e,abraçando o pastor Rabello, disse: – Não sou digno de que venha em minha casa. O pastor Roberto disse humildemente: – Somos irmãos. Para mim, é um grande presente encontrá-lo ouvindo o nosso programa. Francisco tinha mais de 50 discos da Voz da Profecia para emprestar aos seus amigos e vizinhos. Sua maior alegria era dar estudos e preparar as pessoas para o encontro com o Mestre. A Voz em Fortaleza Durante os anos em que trabalhei na Associação Geral, tive o privilégio de corresponder-me com muitos irmãos do Brasil e de outras partes do mundo. Um deles foi o irmão Francisco de Freitas, um fiel e amorável cristão de Fortaleza. Trocamos cartas durante anos. Vindo ao Brasil de férias com minha esposa, paramos em Fortaleza, porque eu queria que ela conhecesse essa linda cidade e suas praias encantadoras. Pedi a um líder local que, por gentileza, nos levasse à casa do irmão Francisco. Foi uma surpresa para ele quando soube que a Lucila era filha do pastor Rabello. Nosso irmão e seus familiares ficaram tão emocionados que nos abraçamos e choramos de alegria. O irmão Francisco está gravado para sempre em minha mente por sua fidelidade e dedicação à mensagem adventista. Por ocasião do falecimento de meu sogro, ele nos enviou uma bela história. Contou-nos que teve o privilégio de distribuir os primeiros convites para as pessoas assistirem à Voz da Profecia na Rádio Clube de Fortaleza. O pastor Rabello, diversas vezes, foi homenageado pelo diretor da rádio. Nosso irmão viajou com ele por São Luís e Teresina. Durante um encontro no Hotel Piauí, fizeram um culto de pôr-do-sol junto com a equipe da Voz e os Arautos do Rei. Ele disse que encontrara muitas pessoas convertidas como resultado do trabalho da Voz da Profecia. Deus seja louvado pelas pessoas dedicadas e fiéis como o irmão Franscisco, que não mediram esforços e sacrifícios para que a mensagem do rádio chegasse ao coração do povo. O perfume de Cristo Ernesto G. Bussacarini, de Hortolândia, SP, também conta uma história interessante. Eu o conheci em Montemor por ocasião de um curso para deixar de fumar que o pastor Rodolpho Gorski e eu realizamos naquela pequena cidade. Ele foi inscrito na Escola Radiopostal pelo irmão José Ladeira, quando residia no interior de São Paulo. Quando estava na 4ª lição, seu banco o transferiu para a cidade de São Paulo. Ao chegar à 18ª lição, ficou conhecendo o pastor Rabello, na Igreja Central de São Paulo. Nunca mais ele saiu da igreja. Em 1962, no 1º grande batismo do Pacaembu, desceu às aguas batismais. Entusiasmado com a nova fé que abraçara, começou a visitar um irmão chamado José e sua esposa, Luiza. José trabalhava em uma loja da Rua Direita, em São Paulo, e um dia notou que um senhor entrou na loja, pediu licença e começou a gotejar no dorso da mão de cada indivíduo um perfume. Todos gostavam do odor do perfume e o elogiavam. O homem (que, conforme souberam depois, era da Igreja Adventista do Brás, em São Paulo) dizia então: – Assim como vocês gostaram desse perfume, vocês vão gostar deste programa. – E deixava com as pessoas um panfleto com o dia, a hora e o nome da rádio que transmitia o programa da Voz da Profecia. Surpreso, o Sr. José, ao chegar à sua casa, contou à esposa sobre o programa, e ambos sintonizaram o rádio no programa e se tornaram ouvintes assíduos. O casal estava estudando também com as testemunhas de Jeová. Mais tarde, quando houve um debate de duas horas, eles se decidiram pela Igreja Adventista e foram batizados poucos meses depois. Imbuídos do amor de Cristo, levaram a mensagem aos pais de Luiza em Guaxupé, MG, que também se batizaram. – Tudo isso por causa de um perfume, vindo de Jesus, que inebriou essas famílias – conclui Ernesto. Tocado pela Voz Emenegildo Ângelo Ferracini, de Videira, SC, revela como foi sua conversão. Ele gostava muito de escutar os jogos de futebol pela Rádio Tupi de São Paulo. Criado no campo, saía para pescar aos sábados e domingos. Mas, num domingo pela manhã, ficou em casa e ligou o rádio às 8h, justamente na hora que estava sendo introduzido o programa da Voz da Profecia. Ao ouvir o quarteto Arautos do Rei e a mensagem do pastor Rabello, foi tocado profundamente e de tal maneira que não perdeu mais nenhum programa. Entrou em contato com a Igreja Adventista de Piracicaba e, em 1965, foi batizado pelo pastor Roberto Ferrari. Mais tarde, mudou-se para Botucatu, onde conheceu o pastor Rabello durante uma série de conferências dos pastores Geraldo de Oliveira e Arthur Marski. Foi um dos pioneiros do trabalho naquela cidade. Depois, ele foi para Videira a serviço da Superbom. Contatos com a Voz Um dos grandes problemas da Voz da Profecia no Brasil foi o atendimento aos alunos. Eunice Soares Oelminger, de Guaimbê, SP, minha colega de estudos no colégio, conta que seu pai, que era pastor, havia recebido alguns endereços da Voz da Profecia para que entrasse em contato com as pessoas. Um senhor bem idoso, que estava muito doente, recebeu a visita do pastor e teve a oportunidade de estudar a Bíblia por muitas horas, mas veio a falecer. No meio da semana, seu pai visitou a família e fez o convite para uma “missa de sétimo dia”, na Igreja Adventista, às 10h da manhã. O pastor Soares aproveitou a oportunidade para falar sobre a morte, a ressurreição e a vida eterna. Nunca mais aquelas pessoas deixaram de ir à igreja. Na semana seguinte, chegou uma carta da Voz da Profecia endereçada ao homem que morrera. O filho dele respondeu dizendo que, infelizmente, o pai falecera e não poderia continuar o curso. O filho recebeu uma bela e confortante carta, sugerindo que fizesse o curso no lugar do pai. Ele aceitou o desafio, fez as lições e arrumou mais 75 alunos para a Voz da Profecia, quase todos parentes dele! Quando as pessoas tomaram a decisão para o batismo, surgiu um grave problema: à entrada da casa, havia um corredor cheio de todo tipo de imagens, desde o chão até o teto. O pastor Soares não sabia como abordar o assunto. Movido pelo Espírito Santo, discutiu sabiamente o problema e os irmãos disseram: – Pastor, isso nunca vai impedir o nosso batismo. Os pastores e pessoas que saíram em busca dos ouvintes do programa foram instrumentos importantes para a transformação das pessoas. Nas alturas Nelly Von Hoohnholtz, de São Francisco do Sul, SC, é oriunda da pequena cidade de Bossoroca, no interior do Rio Grande do Sul. O pai era hoteleiro, e um dia foi visitado por um colportor que lhe deixou literatura e uma Bíblia. Ela e a irmã ficaram muito interessadas e estudavam sozinhas, mas sempre com desejo de receber mais alimento espiritual. Visitando uma amiga, as irmãs ouviram a Voz da Profecia e ficaram tão empolgadas que pediram licença para ouvir todos os programas em casa. As mensagens e músicas apresentadas lhes tocavam o coração. – Aquela voz penetrante nos elevava às alturas – comenta Nelly. No ano seguinte, elas entraram em contato com os adventistas da cidade mais próxima, Santiago do Boqueirão, e foram convidados para assistir às Bienais em Taquara, RS. Lá foram batizadas, e sua irmã, professora, foi convidada para lecionar na escola de Santa Maria. Nelly estudou no IACS e levou outros alunos das fazendas para a escola, porque os pais, confiando nela, queriam inculcar uma boa formação moral em seus filhos. Mais tarde, Nelly mudou-se para Santo Ângelo e fez amizade com uma senhora muito católica. Como eram boas amigas, Nelly lhe entregou um folheto da Voz da Profecia. A mulher matriculou-se na Escola Radiopostal e passou a ser uma assídua ouvinte do programa. Um dia, a amiga apareceu na casa de nossa irmã e lhe pediu que a levasse à sua igreja. Havia tomado a decisão e desejava que o pastor Rabello fizesse seu batismo. Mas, como o pastor Rabello morava no Rio de Janeiro, ela concordou em ser batizada pelo pastor local e se tornou uma fervorosa adventista. Como é maravilhoso ver que aqueles que foram frutos da Voz da Profecia conduziram outros pelo mesmo caminho! A voz que não saía do pensamento Durante uma semana de oração que dirigino IABC, a irmã Maria da Glória Santos, de Ouvidor, GO, me entregou uma carta contando sua experiência com a Voz da Profecia e sua conversão. Ela vivia numa pequena cidade no interior de Pernambuco e, ao visitar a oficina de seu tio, ouviu através do rádio uma voz “diferente”. Vivia com muita ansiedade, pois sua irmã estava enferma e aquela voz não lhe saía do pensamento. Essa voz tirou-lhe a paz durante dois anos. Um dia, ao conversar com uma senhora, a mulher lhe disse que sabia o que ela estava procurando e indicou-lhe a estação de rádio e o horário do programa Voz da Profecia. Foi uma surpresa para Glória. Ao ligar o rádio, ouviu a mesma voz do passado. Dali por diante, foi uma assídua ouvinte durante doze anos. Fez o curso bíblico e, em 1971, ficou conhecendo o pastor Rabello a convite do pastor da Igreja Presbiteriana. Foi realizada uma conferência num cinema, que ficou superlotado. Ela ficou emocionada ao ver o pastor Rabello se dirigir ao palco. O pastor Rabello era muito apreciado nessa cidade. Glória mudou-se para Brasília e encontrou ali um casal que pertencia à sua família e que se preparava para o batismo. Começou a freqüentar a igreja em 1973, na cidade-satélite do Gama. Ela se tornou uma obreira voluntária por mais de dez anos e muitos dos seus familiares se tornaram adventistas. Saindo das trevas Em 1989, tive o privilégio de realizar uma série de conferências na Igreja Central de Belo Horizonte, MG. Conversando com meu sogro, pastor Rabello, ele se prontificou a ajudar-nos, juntamente com o quarteto Arautos do Rei. Foram noites inesquecíveis e ficamos simplesmente maravilhados de ver o impacto da Voz da Profecia e do pastor Rabello no meio protestante. Ficamos na casa do coronel Paulo Valério, falecido recentemente. Por ocasião do falecimento do pastor Rabello, em 1996, a Sra. Marta Valério, esposa do coronel, escreveu: Lendo a Revista Adventista, soubemos, com pesar e tristeza, do falecimento do pastor Roberto M. Rabello. Sentimos muito. Nossa igreja perde um grande líder. E o Brasil perde um grande evangelista, que, com seus tão bem elaborados programas e mensagens e seu timbre de voz tão peculiar e inesquecível, tocava e convertia tantos corações, inclusive o nosso. Fico recordando esse tempo com o coração agradecido, pois o pastor Roberto Rabello muito nos ajudou a deixar tão densas trevas. Ele ajudou também à minha mãe, que se converteu e se batizou com 87 anos. Encantada pela voz Em 1989, durante essa mesma série de conferências em Belo Horizonte, a irmã Maria Fausta, única adventista em sua família, entregou a vida a Cristo. Sabendo que minha esposa era filha do pastor Rabello, escreveu-me em 1989, após as conferências, o seguinte: Por falar nela (a filha do pastor Rabello), o irmão certamente não se esqueceu de contar-lhe que seu pai foi o responsável indireto pela minha ida para a Igreja Adventista. Há muitos anos eu era ouvinte da Voz da Profecia. Era encantada pela voz do pastor Roberto Rabello. Um dia, ouvindo o programa, fizeram um convite para participar do curso Revelações do Apocalipse. Eu, que não conhecia a igreja, na mesma hora liguei solicitando minha inscrição, com a finalidade de conhecer pessoalmente o pastor Rabello. Não tinha a menor idéia de que aquele passo seria o início de um novo rumo para minha vida. Conheci o pastor Rabello, fiz o curso e não faltei mais a nenhuma reunião da igreja. Que testemunho maravilhoso! A irmã Fausta conheceu o pastor Rabello e o quarteto Arautos do Rei, pois eles foram até Belo Horizonte para ajudar durante um mês na série de conferências. Cristãos de todas as denominações que eram ouvintes da Voz da Profecia estiveram presentes ali. Tesouros da fé Levy Nascimento, de Manaus, teve a alegria de conhecer pessoalmente o pastor Rabello por ocasião de suas visitas à capital amazonense. Os membros da família do irmão Levy eram ouvintes assíduos dos programas da Voz da Profecia, transmitidos por um rádio antigo. A palestra favorita deles era sobre a justificação pela fé. Em 1987, um adventista que trabalhava com ele numa fábrica solicitou sua ajuda para auxiliar outro irmão da cidade de São José que estava enfrentando problemas sérios com outro programa de rádio de Cajual. Os adventistas eram até ameaçados de ser espancados. O amigo de Levy disse que não deixaria o irmão na fé apanhar sozinho e se prontificou a apresentar A Voz da Profecia. Estava confiante de que, levando a voz do pastor Rabello e o programa da Voz da Profecia, as coisas iriam mudar. Como resultado, muitas crianças e adultos fizeram os cursos bíblicos da Voz da Profecia e surgiu um grupo em Cajual. Com a participação pioneira do pastor Rabello e a disposição dos irmãos, mais dois grupos pioneiros surgiram, usando o audiovisual dos Tesouros da Fé. Seminarista admirador Osmar Pires Maciel, de Luziânia, GO, ficou muito triste ao saber do falecimento do pastor Rabello, a quem considerava um grande batalhador da verdade. Tornou-se um grande admirador do orador da Voz da Profecia e diz que entrou na família adventista por intermédio dele. Ele entrou para um seminário católico com o desejo de ingressar na carreira sacerdotal. Um ano antes, ele havia recebido de um colportor um curso bíblico da Voz da Profecia. Não se interessou muito. Mais tarde, foi-lhe concedida a oportunidade de fazer o curso A Bíblia Fala. Depois do curso, ele decidiu ser adventista. Fez mais quatro cursos oferecidos pela Escola Radiopostal, tornando- se um valoroso leigo e ajudando outros a conhecer a Cristo. Segundo ele, outras entidades religiosas admiravam o pastor Roberto Rabello e os Arautos do Rei. Osmar fala de um senhor batista que também admirava o exemplo e a dignidade dos componentes da Voz da Profecia e seu orador, e que se tornou adventista. Visita do pastor Foi uma experiência inesquecível. Minha esposa e eu estávamos noivos. Isso foi há 50 anos, um pouco antes de nosso casamento no dia 20 de fevereiro de 1956. Fazíamos os preparativos para o casamento e meus futuros sogros – o pastor Rabello e sua esposa – nos convidaram para visitar um aluno da Escola Radiopostal. Ainda recordo a casa simples daquele aluno, o pai da irmã Vanice Silva Gavina, de Araruama, RJ. Ela conta como sua família chegou ao conhecimento da mensagem adventista: Que privilégio: receber o orador da Voz da Profecia em nossa humilde casa! Pois é, o pastor Rabello foi visitar um aluno da Escola Radiopostal – José Manoel da Silva, meu pai, hoje falecido (faleceu em 1985, aos 94 anos). Ele já tinha algum conhecimento do evangelho de Cristo, mas tudo veio a tomar vulto a partir do dia em que meu pai adquiriu um rádio a pilhas, uma novidade na época, lá no interior. Conseguimos sintonizar o programa da Voz da Profecia, não me recordo bem a data, pois eu tinha menos de 10 anos de idade. Lembro-me de que o programa era ansiosamente aguardado. Quando chegava a hora, reuníamos todos – meu pai, minha mãe, os nove filhos e, às vezes, vizinhos. Não se ouvia um só ruído. Silêncio absoluto. Ninguém falava. Então, ouvíamos o tradicional “Servos de Deus, a buzina tocai” e, em seguida, a palestra do pastor Rabello. Só saíamos da sala quando acabávamos de ouvir: “O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre ti e te dê a paz.” Meu pai se inscreveu no curso da Escola Radiopostal e, em 1949, concluiu o curso e recebeu o diploma (guardo esse diploma até hoje). Meus irmãos também concluíram o curso. Aí se iniciou o primeiro grupo de adventistas de Ponte dos Leites. Mais tarde, estendeu-se aos vizinhos. A mensagem adventista foi se espalhando e hoje pertencemos à Igreja Adventista do Sétimo Dia de Araruama, com mais de 150 membros batizados. É uma igreja muito bonita. Deus seja louvado! O pastor Rabello foi muito importante em nossa vida. Ouvinte do armazém Gessi Lorena Beck Leitão, de Belo Horizonte, MG, conta que, durante 14 anos, ela foi uma ouvinte entusiasmada da Voz da Profecia. Acompanhe o relato: Desde bem nova, na casa de meus pais, lá em Taquara, RS, eu me trancavano armazém para ouvir o programa A Voz da Profecia, todos os domingos, às 8h, pela Rádio Farroupilha de Porto Alegre. É interessante que uma prima que até hoje não é adventista foi quem nos chamou a atenção para o programa e para o cântico dos Arautos do Rei. Estávamos indo para São Francisco de Paula e o esposo dela, João, sintonizou a Rádio Farroupilha, justamente no horário do programa. Ele disse: – Vejam como eles cantam com perfeição! Fiz o curso da Voz da Profecia e fui batizada na Igreja Central de Taquara, em 5 de dezembro de 1965, pelo agora falecido pastor Henrique Ruhe, sogro do pastor Manoel Porto. Continuei ouvindo o programa até que me casei, aos 30 anos, com um pastor adventista, em 1967. Um dia, indo passear a pé com minha irmã e outra prima, passamos em frente do IACS, onde eu havia terminado o ginásio, em 1962, e contabilidade, em 1965. Era sábado à tarde e o alto-falante transmitia as músicas dos Arautos do Rei. Fiquei com vontade de interromper o passeio, entrar pelo portão e ficar lá dentro escutando. Fui a primeira adventista da família, seguida de minha mãe, meu pai, minha primeira sobrinha Maria Helena, o pai dela (meu irmão Gérson), a esposa dele e a outra filha, Raquel. Meus antepassados até a sexta geração vieram da Alemanha, por volta de 1800, e eram todos luteranos. Devo muito ao colégio e ao professor Waldemar Rabello (irmão do pastor Roberto Rabello). Foi ele quem encaminhou a mim e ao meu irmão para o IACS. Essas histórias nos dão um pequeno vislumbre do grande ministério do pastor Rabello, da Voz da Profecia, da Escola Radiopostal, dos Arautos do Rei e de todos os obreiros que trabalhavam na sede do Botafogo. Muitas dessas experiências foram escritas após o falecimento do pastor Rabello, mas servem para exemplificar a dedicação desse homem totalmente consagrado à causa do Mestre. Há milhares de adventistas espalhados por todo o Brasil que poderiam contar experiências semelhantes. Hoje, a igreja tem muitos outros instrumentos e agências para chegar ao coração do povo. Mas, apesar de toda a força da mídia através da TV, do rádio e da literatura, faz-se necessário o contato pessoal com as pessoas que anseiam por uma vida melhor. Você pode não ter uma voz igual à do pastor Rabello, mas pode ser um canal do amor de Deus. O Mensagens que chegavam aos corações A voz do pastor Rabello e a preparação das palestras da Voz da Profecia pastor Henry Feyerabend e muitos dos que trabalharam com o pastor Rabello reconheceram que ele tinha algo incomum, pois era dotado de uma voz maravilhosa, dádiva do Senhor para a Voz da Profecia no Brasil. Com freqüência, ouvíamos pessoas se referirem a essa voz maviosa que penetrava os corações. Mas não era somente a sua voz que penetrava corações. Uma consagração total fluía de seu ser, levando conforto às pessoas e famílias que viviam com ansiedade. Muitas pessoas que queriam se suicidar abandonaram seus planos ao ouvir aquela voz usada pelo Senhor para levar alívio às almas aflitas e angustiadas. Era uma voz aveludada. Nas palavras do pastor Feyerabend, ela produzia um efeito que acalmava as pessoas. Apesar do pastor Rabello não ser um pregador eloqüente e entusiasta, suas mensagens eram ouvidas com atenção, pois estavam revestidas por essa voz rara e extraordinária. Ele usava o talento que recebera do Senhor. O Jornal do Município de Tanabi, de 1° de maio de 1977, descrevendo a visita da equipe da Voz da Profecia na cidade de Votuporanga, destacou: Desta feita, acontecem conferências a cargo do grande orador sacro pertencente ao programa a Voz da Profecia, pastor Roberto Mendes Rabello. Todos, temos certeza, já ouvimos, pelo menos uma vez, a voz dolente e fraternal de Roberto Rabello através de nossas emissoras de rádio. Incansável, distribui entre os homens de boa vontade a Palavra do Mestre, do Criador Uno e Perfeito. É um magistério, uma devoção, uma missão de alto valor, pouco entendido às vezes, mas necessário para todos nós. É interessante observar a descrição feita por esse jornal sobre a voz do pastor Rabello. Era uma voz especial para o microfone. Esse fato foi confirmado pelo pastor Carlos Rentfro, que, ao analisar o teste do pastor Rabello na Califórnia, sugeriu que ele fosse escolhido. O pastor Rabello tinha excelente dicção. Ao iniciar meus estudos em nosso colégio de La Sierra, fui convidado para fazer os anúncios da Voz da Profecia por dois anos (1957 e 1958). Minha voz não era perfeita e não tinha o som mavioso do orador do programa, mas fui escolhido por ter um bom contraste com a voz dele e, ao mesmo tempo, por já estar residindo perto de Glendale, o que seria uma economia para a Voz da Profecia. Durante os testes e apresentações, compreendi que falar no rádio não era uma tarefa fácil. Exigia muita atenção e uma excelente dicção. Meu sogro notou que eu não estava pronunciando corretamente as palavras, em especial “Escrituras”. A palavra soava como “esquituras”. O curioso é que nunca tinha percebido isso, pois falar em público é muito diferente de falar no rádio. Os membros do quarteto eram muito pacientes e voltavam atrás para que eu pudesse ouvir e repetir a frase mal pronunciada. Foi uma experiência valiosa para o meu ministério, pois aprendi com alguém que era um perito em dicção e pronúncia das palavras. Nunca me esqueço de quantas vezes eu repetia a pronúncia das palavras (especialmente Escrituras), para que saíssem claras e distintas. Desde os dias em que o pastor Rabello estudava no colégio, seus professores o admiravam por sua caligrafia e boa dicção das palavras. Não é de admirar que, nas primeiras décadas da Voz da Profecia, locutores através do Brasil ligavam o rádio não somente para ouvir a mensagem, mas também para aprender a arte da dicção com o orador do programa. Sua gramática era quase impecável. Esse fato é confirmado por um livreto que encontramos em sua caixa de papéis e manuscritos – O Colegial. Ele foi o diretor dessa publicação em 1930, ano de sua formatura, e Durval Stockler, o redator. Deus já estava preparando aquele jovem que se formaria no fim do ano. Parece que estamos lendo e ouvindo suas frases e pensamentos através das publicações da Voz da Profecia e da Revista Adventista ao longo dos anos. Encontrei nos arquivos do pastor Rabello uma carta escrita pelo pastor Luiz Waldvogel, o querido e inesquecível redator da Casa Publicadora Brasileira, e datada de 16 de outubro de 1942. O redator já sabia que Rabello havia sido escolhido para fazer as conferências pelo rádio, “mas ignorava que o empreendimento fosse de tão vastas proporções”. O pastor Rabello escrevera pedindo dicionários de todos os tipos para as traduções das palestras para o português. O novo orador disse que ia apresentar um “Curso Sobre as Santas Escrituras”, mas o pastor Waldvogel sugeriu uma mudança para “Curso Sobre as Sagradas Escrituras”. Essa experiência é notável, pois revela que o pastor Rabello, ao assumir o seu cargo, recorreu a um dos grandes redatores de nossa igreja, pedindo material e sugestões para o seu novo ministério. Há sabedoria em pedir ajuda aos peritos e entendidos. Por falar nisso, de acordo com o pastor Rabello, a Sra. Isolina Waldvogel foi uma das melhores tradutoras de hinos e poesias usados nos programas da Voz da Profecia. As palestras Não é fácil preparar uma palestra para um programa de rádio. Ela tem que ser cronometrada e redigida de maneira concisa e direta para transmitir o tema e a mensagem. Tudo isso exigia muita pesquisa, e o pastor Rabello contava com a ajuda de sua fiel companheira para encontrar ilustrações, fatos históricos, experiências e poesias que pudessem elucidar o assunto. Ele possuía uma vasta biblioteca em português e inglês, incluindo livros em alemão, língua materna de sua esposa. Sendo um profundo pesquisador, sabia alinhavar seus pensamentos para que chegassem ao coração do povo brasileiro. Tinha uma voz especial e penetrante, excelente português, dicção perfeita e, além disso, havia sido pastor por muitos anos. Aliando tudo isso aosseus estudos avançados nos Estados Unidos, ele estava capacitado para alcançar pessoas de todos os níveis. Suas mensagens chegavam ao mais simples e humilde camponês, ao lutador e trabalhador e às classes altas. Ele tinha realmente o dom da comunicação. Sabia chegar às pessoas onde estavam e ia ao encontro de suas necessidades e aspirações pessoais. Suas mensagens serviam de alento e conforto e, ao mesmo tempo, eram desafiantes, instando com as pessoas para que deixassem seus caminhos e seguissem o Salvador. Sermões simples e profundos Examinei centenas de sermões e palestras do pastor Rabello. Algo que me impressiona é como ele pegava qualquer papel que estivesse ao seu dispor para fazer o esboço do sermão. Preferia ter os assuntos escritos com seu próprio punho, especialmente depois que perdeu sua primeira companheira. As palestras eram datilografadas pelas secretárias da Voz. Durante um encontro da parentela em Taquara, RS, no dia 2 de janeiro de 1983, ele preparou o seguinte sermão: A Alvorada de Deus 1. Desejei este encontro para rever familiares, parentes chegados e distantes, amigos de infância e juventude e conhecidos. Foi grande prazer encontrá-los, também aos irmãos que estão conosco: colegas de ministério, membros da família de Deus neste estado. 2. Símbolo do maior dos encontros. A. A alegria deste encontro faz-me pensar na alegria de um outro encontro infinitivamente mais importante e mais feliz – lembrá-lo e também desejá-lo: a alegria de ver os meus familiares – a minha não pequena parentela – os meus amigos de infância, os meus irmãos na fé na grande reunião que Deus vai promover quando Jesus voltar. Sim, a grande reunião da alvorada de Deus. B. Desde a entrada do pecado, o mundo está mergulhado numa já longa noite de males. Enfrentamos doenças, dores, sofrimento, injustiças, perda de entes queridos. Condições do mundo se agravam com o passar dos dias. C. Mas vem vindo uma alvorada. O apóstolo Pedro disse: “Até que o dia clareie.” Esta é a mui firme promessa de Deus. O mal teve princípio e terá fim. Até o zoroastrismo crê no fim do mal. Ensinava o dualismo, a existência de dois poderes: Ahura Mazda, a divindade do bem; e Angra Mainyu, a do mal. Sempre existiram. Mas por fim a do bem triunfará sobre a do mal. D. O reiterado anúncio das Escrituras: Caminhamos para o fim do mal e para o alvorecer de um novo dia. Três pontos altos: Paraíso perdido e Paraíso restaurado, com a cruz no meio. E. Esperança baseada na firme palavra dos profetas. Daniel, nas suas profecias apocalípticas (que revelam os mistérios do futuro, culminando com o triunfo de Cristo), anunciava essa alvorada. Apresentou quatro cadeias proféticas, todas apontando para o reino de Deus (Dn 2:44): estabelecimento do reino (7:13, 14); Filho do homem recebendo domínio (8:25); oposição ao Príncipe dos príncipes será quebrada (8:25); Miguel se levantará para livrar o povo de Deus (12:1). Jesus pregou o evangelho do Reino (Mt 14:23); mandou pregar ao mundo (Lc 9:2, 60); mandou orar para que venha (Mt 6:10); prometeu voltar para o estabelecer (Mt 24:14). Apóstolo Pedro: É necessário que o “Céu receba [Jesus] até aos tempos da restauração de todas as coisas” (At 3:21). Paulo: Dar ênfase à esperança do reino (1Ts 19:10; 2:12; 4:14-17). João: Quatro principais divisões: sete igrejas (Ap 1-3); sete selos (Ap 4-8); sete trombetas (Ap 8-11); desfecho da grande controvérsia (Ap 12-22). Com a vitória de Cristo sobre Satanás, mais clara e convincente (Dn 2). F. Já agora próximo, às portas. O Grande Desapontamento – 1a metade do século 19. Hoje: mui grave situação do mundo: política, econômica, social- religiosa; permissividade desenfreada. H. Kissinger: “Como um historiador tereis agora de predizer que a nossa espécie de sociedade muito provavelmente não durará muito tempo.” Norman Brown: “Hoje, até a sobrevivência da humanidade é uma esperança utópica.” G. Logo Jesus virá com poder e glória (Jo 14:1-3; Mt 24:30, 31; 1Ts 4:13, 16, 17). Naquela reunião maravilhosa estarão: Adão e Eva; Noé, herói do dilúvio e segundo pai da raça; Abraão, o pai de todos os que crêem; Moisés, o grande legislador hebreu; os apóstolos Paulo e Pedro; os mártires de todos os tempos; os nossos queridos que morreram em Cristo; o nosso pai e a nossa mãe; encontraremos também Jesus (Ap 22:4). O Universo inteiro fremirá de júbilo, como nunca antes, sem dúvida, porque pela primeira vez parte da família de Deus terá sido arrancada das garras do mal. Vocês e eu devemos estar lá. Como poderíamos estar ausentes? Cântico: “Hei de Estar na Alvorada.” Como assegurar essa bênção? Recebendo pela fé Aquele que pode salvar do pecado – Jesus Cristo (Jo 1:12). Cristo merece o nosso amor, pois por nos amar deu por nós a Sua vida (Rm 5:8; 2Co 5:14, 15; Is 55:6, 7). Esse era apenas um esboço típico de muitos dos sermões após sua jubilação. Ele procurava chegar ao coração dos ouvintes e, auxiliado pelo quarteto da Voz da Profecia, levava às pessoas uma mensagem de esperança fundamentada nas Escrituras Sagradas. O pastor Rabello não somente produziu palestras para os programas da Voz da Profecia (mais de 2 mil, ao que consta), mas também pregou milhares de sermões nas igrejas, fez sermões de casamentos, funerais e discursos para ocasiões especiais. O O Impacto da Voz Como a Voz da Profecia alcançou corações professor Roberto César de Azevedo, na época diretor de Educação da Divisão Sul-Americana, fez uma dissertação para seu mestrado na Universidade de São Paulo (USP) intitulada: “Voz da Profecia e Conversão no Estado de São Paulo”. Foi um excelente trabalho, que demonstra o grande impacto das mensagens do pastor Rabello e do ministério da Voz da Profecia, que inclui o quarteto Arautos do Rei, a Escola Radiopostal, as visitas e, acima de tudo, a obra de acompanhamento dos pastores para completar o trabalho. Apresenta também uma estatística das conversões através dos anos no Estado de São Paulo. É interessante observar que, por incrível que pareça, houve resistência a princípio de estabelecer um programa de rádio no Brasil. Vinte anos depois, Azevedo menciona uma frase escrita pelo pastor Rabello: “Houve também ceticismo em nosso próprio arraial. Muitos, até mesmo dos nossos obreiros, não criam na eficácia do rádio como meio de evangelização.” O impacto do programa foi tão grande que uma revista católica publicou um artigo alertando: “Os sabatistas ou adventistas do sétimo dia constituem uma das seitas mais perigosas destes últimos tempos. Com uma organização modelar e dispondo de uma fortuna verdadeiramente colossal pela contribuição dos dízimos de todos os seus adeptos, estão, agora, irradiando todas as semanas o seu programa A VOZ DA PROFECIA por mais de 400 estações em todos os países e ilhas das três Américas.” Em 1943, somente três estações irradiavam a Voz da Profecia no Estado de São Paulo, de acordo com a pesquisa do professor Roberto Azevedo. Em 1975, elas totalizavam 93. Surgiram programas em alemão e japonês. É difícil saber quais foram os primeiros conversos como resultado do programa A Voz da Profecia. Sendo que as primeiras irradiações se iniciaram em setembro de 1943, não foi possível constatar nada positivo até o fim da década de 40. De acordo com Azevedo, o primeiro caso é o mencionado na Revista Adventista de setembro de 1949, sob o título: “Como me Tornei Adventista.” Azevedo escreve (com pequenas mudanças editoriais): Escolhemos esta conversão como sendo a primeira do fruto direto da Voz da Profecia pelas seguintes razões: (a) o próprio converso é que escreveu, portanto, é uma informação de primeira mão; (b) o converso não pertencia à Igreja Adventista e, pelo que consta do relato, não conhecia as doutrinas adventistas (ele era da Igreja Ortodoxa); (c) o programa A Voz da Profecia influiu diretamente na sua conversão – ‘o orador apelava aos ouvintes para que se entregassem a Cristo, e eu decidi fazer a minha entrega’; (d) define o estado e a Igreja Adventista a que se dirigiu (Central de São Paulo); (e) define quefoi batizada na Igreja Adventista – ‘consegui o endereço da Igreja Central de São Paulo, recebi estudos bíblicos e FINALMENTE FUI BATIZADA’; (f) o relato aparece na Revista Adventista, que é o órgão oficial da Igreja Adventista no Brasil. Portanto, esse relato de conversão pode ser tomado como sendo a primeira conversão da Voz da Profecia no Brasil e, por coincidência, no Estado de São Paulo. É bom recordar que, antes dessa conversão, realmente outra ou outras poderão ter ocorrido. Porém, como este é o relatório mais seguro, foi tomado como sendo o primeiro resultado de conversão da Voz da Profecia. Assim, o tempo máximo que o rádio no Brasil levou para converter alguém foi de 1943-1949, ou seja, seis anos. É bom recordar agora que o tempo máximo que a comunicação impressa levou para possibilitar a conversão de uma pessoa ao adventismo no Brasil foi de 17 anos. Em outras palavras, podemos afirmar que a velocidade para conversão é acelerada três vezes mais ao ser usado o rádio em vez da imprensa. É muito difícil saber quantas pessoas entraram para a igreja como resultado direto da Voz da Profecia. Recordo, por exemplo, a conversão de nossa família. A irmã Bassi (mãe do falecido pastor Ermano Bassi) foi a primeira a visitar nosso lar, dando-nos a primeira Bíblia. A seguir, o trabalho foi seguido pelo irmão João Zillo, da Igreja do Brás, em São Paulo. A irmã Wanda Apolinário deu os primeiros estudos bíblicos para nossa família. Escutávamos os programas da Voz da Profecia. Finalmente, meus pais foram batizados na Igreja do Brás. Quem merece as estrelas na coroa? O importante é pregar o evangelho e deixar que o Espírito Santo opere nos corações. O rádio serviu como um veículo para levar as pessoas a Cristo, a fim de buscarem ajuda, informação, mais contato com Deus e a igreja. O professor Azevedo termina sua tese com esta frase: “O programa A Voz da Profecia é, portanto, um agente de conversão para a Igreja Adventista tanto no Brasil como nos Estados Unidos.” O mesmo pode ser dito sobre o Está Escrito, Fé para Hoje, Quiet Hour, Amazing Facts, sem contar as escolas, hospitais, sociedades de jovens, Clube de Desbravadores, Escola Sabatina, séries de conferências, enfim, a lista é grande. Todos são agentes e meios usados para encaminhar as pessoas a Cristo. Grande batismo O pastor Roberto Azevedo, diretor de Rádio e Comunicação da União Sul Brasileira e um dos grandes pioneiros na área de comunicação no Brasil, relata os esforços da igreja, em 1960, nas principais cidades do sul do país, para promover o programa da Voz da Profecia. “Milhares de convites, anúncios e cartazes foram levados ao público através de jornais, rádios, veículos, aviões e pelos corajosos obreiros e membros das igrejas, nas ruas, fábricas, nos aglomerados do povo e em especial nos lares, alertando a todos a ouvirem a mensagem do rádio.” Em São Paulo, foram distribuídos pelas sessenta igrejas e grupos da capital e arredores 500 mil convites convidando o povo a ouvir o programa. O pastor Alcides Campolongo realizou uma série de conferências na Casa Verde, que despertou grande interesse. Os evangelistas eram muito cuidadosos naquele tempo para não revelar ao povo a origem do programa. Na décima conferência, o pastor Rabello falou ao povo. Só então é que as conferências foram identificadas com a Voz da Profecia. Quando o pastor Rabello perguntou quantos eram ouvintes da Voz da Profecia, quase a totalidade ergueu a mão. Pelo menos 80% a 90% eram ouvintes. Em outras séries, o povo ficava em suspense sem saber a procedência das conferências. Obreiros e irmãos trabalharam incessantemente para alcançar as pessoas. O pastor Roberto Azevedo menciona que 135 pessoas foram batizadas no dia 8 de abril de 1961 e que esse foi o maior batismo de uma série registrado no Brasil até então. Mais de 40 pessoas aguardavam o batismo seguinte. Mais de 1.200 pessoas lotaram o templo da Igreja Central de São Paulo para assistir a essa grande festa batismal. Líderes da igreja como o pastor Moisés Nigri, o pastor Oswaldo Azevedo, o professor S. Kumpel e o pastor João Linhares estiveram presentes. Esse evento mostra que, nas primeiras décadas do programa da Voz da Profecia, os pastores sabiamente usaram essa agência para alcançar as pessoas. M Celebrações Especiais Comemorações da Voz da Profecia uitas celebrações foram realizadas através do pastor Rabello e a equipe da Voz da Profecia ao longo dos anos em todo o Brasil. O pastor Roberto Conrad, eleito orador e diretor em 1976, foi também um instrumento para levar ao povo brasileiro essa mensagem de fé e de esperança. O pastor Rabello trabalhou lado a lado com ele e o quarteto Arautos do Rei. Nos anos seguintes, a mensagem foi ao ar pela voz de outros oradores importantes para o sucesso do programa. Jubileu de prata Os primeiros 25 anos da Voz da Profecia foram comemorados, em 1968, com uma grande celebração marcada com a presença do líder mundial da Voz, o pastor H. M. S. Richards, em sua primeira visita ao Brasil. Ele estava acompanhado da Srta. Del Delker (cantora) e do casal Brad e Olive Braley, organistas do programa. O pastor Rabello e os Arautos do Rei (composto de Malton Braff, Eclair Cruz, Roberto Conrad e Wesley Blevins) viajaram pelo país com os visitantes. O programa no Teatro da Paz, no dia 9 de novembro de 1968, incluiu muitas músicas e foi planejado para durar 73 minutos. 30 anos de bênçãos O Jornal de Hoje, em sua edição nacional evangélica de maio de 1973, deu grande destaque ao 30º aniversário da Voz da Profecia no Brasil, com fotos dos pastores Rabello e Campolongo, dos Arautos do Rei e do encontro de 22 de abril no Cine Piratininga em São Paulo. Um trecho dizia: Na ocasião, o pastor Roberto Rabello discorreu sobre a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. A sua conferência foi abrilhantada e enriquecida com sublimes cânticos espirituais do quarteto vocal masculino Arautos do Rei, da cidade do Rio de Janeiro e do Coral Carlos Gomes, do Instituto Adventista de Ensino, de Santo Amaro. Nesses dois monumentais encontros, houve muita alegria, muita música espiritual e palavras de apreço ao programa A VOZ DA PROFECIA, bem como ao seu orador, pastor Roberto Rabello. 35 anos A Adventist Review, de 5 de abril de 1979, anunciou o 35º aniversário da Voz da Profecia no Brasil. Mencionou que 10 mil pessoas participaram do grande evento de celebração em Porto Alegre, no ano anterior. A equipe da Voz dos Estados Unidos participou dos eventos com programações realizadas em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. A revista destacou que a Voz da Profecia contava com três escolas radiopostais e era responsável por ao menos 2 mil batismos por mês no Brasil. Em 1978, o jornal da Voz da Profecia dos Estados Unidos fez uma reportagem maravilhosa sobre a obra do rádio no Brasil e a comemoração dos 35 anos. O jovem pianista Jim Teel, que acompanhou a solista Del Delker, contou uma experiência que ficara gravada em sua mente na visita a Recife: Chegamos bem cedo a Recife e entramos numa Kombi, como chamam no Brasil esse veículo, e nos levaram por três horas por estradas empoeiradas e escabrosas até o colégio (ENA), mais ou menos 160 quilômetros de distância. Ao chegar, não somente apresentamos o nosso programa regular, mas tivemos que fazer um segundo programa para aqueles que não tinham conseguido entrar na igreja para o primeiro programa. Fomos tarde para cama, levantamos bem cedo no dia seguinte e viajamos pela mesma estrada. Chegamos justo na hora de iniciar o programa em Recife. Depois, tivemos um almoço rápido e logo voltamos para a programação musical da tarde, que durou várias horas. A essa altura, Del e eu estávamos exaustos e ainda tínhamos outro programa naquela noite. Para complicar a situação, ao chegarmos à pequena igreja, não havia piano – somente um pequeno órgão de pedalar, muito antigo. Justamente quando parecia que tudo ia piorar, algo maravilhoso ocorreu. Os primeiros bancos da igreja superlotada estavam cheios de crianças, muitas das quais receberiam diplomasdos cursos da Escola Radiopostal – uma prática comum no Brasil. Enquanto olhávamos, alguém projetou uma imagem na tela, bem em frente da sala, e ouvimos músicas oriundas de um gravador. De repente, o rosto de todas as crianças se iluminou e a sala encheu-se com o som das vozes cantando em português: “Servos de Deus, a buzina tocai: breve Jesus voltará.” Olhei para Del e ela olhou para mim e, de repente, não estávamos mais cansados. Pensei comigo mesmo: “Se a Voz da Profecia não estiver fazendo nada mais do que colocar as sementes do amor de Deus e da breve volta de Jesus no coração destas crianças, então os dólares, o tempo e as orações dedicados estão sendo muito bem investidos.” 40 anos “A Voz da Profecia: 40 Anos de Evangelismo Radiofônico”. Esse foi o título do artigo da Revista Adventista, em setembro de 1983, por ocasião da comemoração dos 40 anos de atividades da Voz da Profecia no Brasil. “Um saldo de 42% de todas as conversões qualifica a importância do rádio na disseminação da mensagem”, dizia o texto. E sobre o pastor Rabello: “Sua voz tornou-se marca registrada do programa.” De acordo com o pastor José Bellesi, administrador da Voz na época, 410 emissoras transmitiam o programa. Na ocasião, o pastor Neal Wilson, então presidente da Associação Geral, felicitou o pastor Rabello pelos seus 50 anos de ministério e 40 anos como orador da Voz da Profecia. No dia 2 de fevereiro de 1982, o presidente escreveu uma carta destacando o trabalho do pioneiro dos programas evangélicos de rádio no Brasil. “Por todos os relatórios que temos ouvido e pelas visitas pessoais à America do Sul, estou convencido de que seu trabalho pioneiro através do rádio lançou a semente para a grande colheita que estamos agora ceifando”, comentou. A revista Veja, em sua edição de 23 de novembro de 1983, publicou um excelente artigo intitulado: “A Cadeia de Fé”. O texto afirmava: Às 12h30 em ponto, a Rádio Equatorial de Macapá, no Amapá, começa a transmitir o programa religioso A Voz da Profecia. No mesmo horário, o quarteto vocal Arautos do Rei, que tradicionalmente abre esse programa com um cântico sacro, também gorjeia pelas ondas da Rádio Clube de Pouso Alegre, em Minas Gerais, e da Rádio Cultura de Canguçu, no Rio Grande do Sul – duas outras pontas-de-lança de uma impressionante malha de 340 estações de rádio e vinte de televisão, que leva diariamente a mensagem da Igreja Adventista do Sétimo Dia a 4 mil municípios brasileiros. Basicamente, o recado espalhado pelos quatro cantos do país é um só: as pessoas, diz a Voz da Profecia, devem estar preparadas para a iminente segunda vinda de Jesus Cristo à Terra, para premiar os bons e punir os maus. O artigo mencionou que a Voz da Profecia é a mais antiga cadeia radiofônica do país, com 40 anos de existência, recebendo 19 mil cartas por mês. Na ocasião, o pastor Rabello disse que “o segredo de nosso programa é que ele é uma linha direta com as palavras de Jesus Cristo”. O artigo apresentou um pequeno histórico da Igreja Adventista e da Voz da Profecia. Mencionou que, além dos adventistas, havia milhares de ouvintes de outras crenças. Citou o Sr. Agenor Raposo (vizinho e amigo do pastor Rabello), metodista, que nunca perdia um programa da Voz. 45 anos O pastor João Wolff, então presidente da Divisão Sul-Americana, em sua mensagem na Revista Adventista, no mês de setembro de 1988, quando a Voz da Profecia celebrava 45 anos de programação, escreveu: “Era 1943, tempo da Segunda Guerra Mundial, vivíamos no interior do Rio Grande do Sul. Aos sábados à noite, íamos à casa de um dos vizinhos não-adventistas para ouvir as notícias da guerra, e também o programa A Voz da Profecia, que estava começando no Brasil. As notícias do conflito bélico nos atormentavam. As mensagens ‘Jesus em breve virá’ e ‘Servos de Deus a buzina tocai’ enchiam-nos de fé e esperança.” Ele relatou que, na época, o Brasil era o único país que mantinha uma equipe de obreiros, de tempo integral, dedicada à pregação do evangelho através do rádio e da televisão. Mencionou que, a cada ano, mais de 42 mil programas de rádio e 6 mil de televisão eram apresentados no país, e cerca de 100 mil alunos concluíam os cursos oferecidos pela Voz da Profecia. Em um artigo referente ao aniversário dos 45 anos, o pastor Rabello relembrou que o primeiro tema irradiado em 22 de setembro de 1943, através de 17 estações, intitulava-se: “Nosso Século de Maravilhas”. As primeiras palavras proferidas pelo orador foram: “Deveras vivemos num século de maravilhas. Fazemos num ano o trabalho de séculos.” Quais seriam os temas na era eletrônica em que vivemos? 50 anos O pastor Darcy Reis, então diretor da Voz da Profecia, intitulou seu artigo comemorando os 50 anos do programa no Brasil assim: “50 Anos nos Contemplam – Uma força, Ainda não Superada, no Processo de Evangelização.” Escreveu: “Foi no dia 22 de setembro de 1943, através da onda da Rádio Mayrinck Veiga, do Rio de Janeiro, a veiculação do primeiro programa de rádio da Voz da Profecia. Temos, hoje, uma história de meio século para ser contada. Somos o mais antigo programa evangélico do rádio brasileiro.” Em 1993, segundo ele, estimava-se que mais de 200 mil pessoas haviam sido agregadas à igreja como fruto direto do trabalho do rádio. Ele e muitos líderes dessa época estavam convencidos do impacto do rádio sobre o povo brasileiro. Nessa efusiva data, o novo orador, pastor Ronaldo Oliveira, conclamava a igreja para não perder de vista a influência do rádio na vida das pessoas. O pastor João Wolff, presidente da Divisão Sul-Americana, disse: “A Voz da Profecia, com esta tão sagrada missão de advertir o mundo quanto ao breve regresso de Jesus, deve merecer certa prioridade. Não pode ser uma instituição em crise, em retrocesso, deficitária. Este jubileu de ouro de A Voz da Profecia deve nos conscientizar disso.” Por ocasião dos 50 anos de existência do programa, o Jornal da Voz da Profecia, em sua edição de maio-junho de 1993, transmitiu um “Recado do Pastor Rabello”: Foi para mim um privilégio trabalhar na Voz da Profecia. Sou grato a Deus pelas alegrias e vitórias neste ministério. Gostaria de solicitar aos meus bons irmãos que continuem colaborando com a Voz da Profecia inscrevendo pessoas nos cursos bíblicos, visitando os interessados, patrocinando programas em novas emissoras, apoiando financeiramente, orando para que este ministério seja fortalecido com o poder do Espírito Santo, para que Jesus logo possa voltar. O jubileu de ouro da Voz da Profecia foi comemorado com a presença do pastor Lonnie Melashenko, orador da Voz da Profecia nos Estados Unidos, pastor H. M. S. Richards Jr., orador emérito do mesmo programa, Del Delker, cantora, e outros líderes. Acompanhados do quarteto americano (John Thurber, Bob Edwards, W. Hooper e Jerry Dill) e os Arautos do Rei do Brasil (Fernando Iglesias, Josué de Castro, Erlo Braun e Dermival dos Reis), esses líderes realizaram uma maratona evangelística através do Brasil. O roteiro incluiu Salvador, Recife, Belo Horizonte, Vitória, São Luís, Londrina, Curitiba, Belém, Porto Alegre, Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. O clímax ocorreu no Maracanãzinho, com a participação dos Arautos do Rei de todas as épocas, um público de mais de 30 mil pessoas e a participação do casal Rabello. Como resultado da campanha Brasil 93, um milhão de pessoas se inscreveram nos cursos da Voz da Profecia, o que resultou em 20 mil batismos. De todos os relatórios e celebrações, chamou-me a atenção um “ponto de vista” da jovem Patrícia Stabenow, de apenas 22 anos, formada em jornalismo: Cinqüenta anos da Voz da Profecia. Nessa longa estrada, muita coisa mudou. A tecnologia conseguiu muitas proezas em termos de aparelhos de áudio e vídeo. Hoje, temos muito mais chances de fazermos um programa de acordo com a nossa criatividade. Porém, certos detalhes parecem que nunca vão se resolver. Há dez anos, quando a VP comemorava seus quarenta anos, falava-se muito numa mudança de sede, mas o tempo não conseguiu resolver esse problema. Continuamosno mesmo lugar. As necessidades são crescentes, precisamos nos expandir, não só fisicamente, mas espiritualmente. Temos tudo para sermos uma chama ardente e forte do ministério, mas a falta de visão da igreja para a comunicação tem extinguido essa chama vibrante. Precisamos acordar para o fato de que, se quisermos pregar a mensagem ao mundo, devemos usar as armas mais eficazes que já foram criadas no planeta: os meios de comunicação. O advento do rádio e da televisão transformou o mundo numa aldeia global, onde, ao apertarmos um botão, temos acesso ao que acontece do outro lado da Terra. Ora, de posse desses meios tão poderosos, o que estamos esperando? Temos máquinas, aparelhos e, principalmente, pessoas capacitadas para realizar essa tarefa. Por que, então, as coisas não engrenam? O que está faltando? Sabem, o que falta é algo escasso nas pessoas – a conscientização. Somente através dela poderemos sair desse marasmo espiritual em que nos encontramos. Que palavras desafiadoras de uma jovem jornalista! Ainda bem que a igreja, embora às vezes com atraso, tem ouvido o desafio daqueles que, com visão, quiseram levar avante a obra do Senhor. Daqueles momentos difíceis em Niterói, a Voz mudou-se para o Botafogo, no Rio de Janeiro, e inaugurou sua primeira sede no Brasil em 1962, com estúdios, escola e quarteto. Foi algo inédito. Em 1995, graças ao apoio do Dr. Milton Afonso e sua generosa doação, foi feita outra mudança para Nova Friburgo, RJ, unindo os ministérios de rádio e TV. Em 2005, o sistema mudou-se para Jacareí, SP. As palavras da jovem Patrícia não caíram em ouvidos moucos. A música exerce uma influência muito grande na apresentação da mensagem. Durante o jubileu de ouro da Voz da Profecia, os quartetos Arautos do Rei e King’s Heralds trabalharam unidos. Foi notável a experiência relatada por um dos membros do quarteto brasileiro, Juan Salazar Riovelme, chileno que substituiu Erlo Braun como baixo dos Arautos. Em 1962, Juan ouviu que o quarteto americano iria cantar em Chillan, sua cidade natal no Chile. Mesmo não sendo membro da Igreja Adventista, ele resolveu assistir, pois já conhecia o programa Voz de la Esperanza. Ficou completamente inspirado naquela noite, um momento-chave em sua vida, pois mais tarde aceitou a Cristo e foi batizado. Estudou em um colégio adventista do Chile e depois foi para a Argentina, onde terminou seus cursos avançados em Teologia. Ali, ele cantou como barítono em um coral masculino. Resumindo a história, Juan foi convidado para ser o baixo dos Arautos do Rei no Brasil. Podemos imaginar a alegria dos cantores americanos que cantaram naquela noite em 1962, na cidade de Chillan. Jamais imaginaram que, 31 anos depois, encontrariam não somente um fruto de seu ministério, mas um colega de quarteto e música sacra. Que linda colheita! Juan, além de cantor e administrador, era também especialista em computação e engenharia eletrônica, talentos usados para o avanço da Voz da Profecia no Brasil. 60 anos evangelizando o Brasil Em janeiro de 2004, por ocasião dos 60 anos do programa, a Revista Adventista registrou: A Voz da Profecia, o mais antigo programa evangélico de rádio do Brasil, está presente em todas as regiões brasileiras, e completou, em 2003, 60 anos de existência. São mais de mil emissoras cadastradas na Escola Bíblica, e cerca de 2,5 mil correspondências são atendidas por mês. No ano passado, a equipe da Voz viajou por todo o território nacional, realizando mais de 100 apresentações em pequenas e grandes igrejas, campais e auditórios. Essa foi a forma escolhida para comemorar suas bodas de diamante: participar da vida cotidiana das igrejas. Lamentamos que aquela voz que entrou no ar em 1943 não pôde participar desse grande evento. O pastor Rabello descansa agora em Cristo Jesus. Mas a Voz continua falando aos corações de milhões de brasileiros através de outros oradores. S Homenagens Algumas honras conferidas ao pastor Roberto Rabello eria impossível mencionar todas as credenciais, palestras especiais e homenagens recebidas pelo pastor Rabello. Isso sem contar as placas recebidas em congressos de jovens e outras grandes concentrações da igreja, e a oportunidade de ser delegado em várias assembléias da Associação Geral. Vamos destacar apenas algumas homenagens: Associação Brasileira de Comunicadores Cristãos Homenagem ao PIONEIRO da Comunicação Evangélica no Rádio e na Televisão no Brasil Quem é Personalidade no Brasil Câmara do Comércio e Indústria do Estado de São Paulo Cidadão do Estado do Rio de Janeiro Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro Associação Geral da Igreja Adventista Sétimo Dia Homenagem da Igreja Adventista, em sua sede mundial em Takoma Park (agora Silver Spring), no dia 2 de fevereiro de 1982 Medalha Anchieta Condecoração com a Medalha Anchieta pela cidade de São Paulo Sem dúvida, a homenagem mais importante ao pastor Rabello será prestada por nosso Pai celestial. Todos recebem talentos, e o maior talento dele foi sua voz excepcional, usada para levar aos corações sedentos uma mensagem de conforto, alegria e esperança. A Datas e Fatos Cronologia da vida do pastor Rabello e da Voz da Profecia qui estão apenas alguns fatos principais. Para ver todas as formações do quarteto Arautos do Rei e a discografia completa, acesse: www.vozdaprofecia.org.br/arautos.asp 1909 Roberto Mendes Rabello nasce no dia 15 de novembro, em Rolante, RS. 1924 Vai para o Colégio Adventista, em São Paulo. 1928 Termina o curso Comercial. 1930 Forma-se em Teologia pelo Colégio Adventista. 1932 Casa-se com Hedwig Braun, filha do pastor Luiz Braun, em Juiz de Fora, MG. Trabalha em Cambará e Jaguariaíva, PR. 1933 É transferido para Ponta Grossa, PR. Nasce seu primeiro filho, Cláudio. 1934 Muda-se para Curitiba. É ordenado ao ministério. 1936 A filha Lucila nasce em Curitiba. 1937 É transferido para o Rio de Janeiro, onde se torna pastor das igrejas Central, de Olaria, Niterói e Petrópolis. 1940 É chamado para Campos, RJ. 1941 Viaja para o Pacific Union College, nos Estados Unidos. 1943 Forma-se no Pacific Union College. É escolhido para ser orador da Voz da Profecia. No dia 23 de setembro, inicia o programa no Brasil, com 17 emissoras, tendo como locutor auxiliar o pastor João Linhares. 1944 Retorna com a família para o Brasil. 1945 Niterói, RJ, é escolhida como sede da Voz da Profecia. 1956 Cláudio Rabello casa-se com Eunice Alvarenga. Lucila Braun Rabello casa-se com Léo Santos Ranzolin. 1959 O pastor Rabello torna-se presidente da Associação Rio-Minas, além de orador da Voz da Profecia. 1962 Nova sede da Voz da Profecia é inaugurada no dia 21 de outubro, no Botafogo, Rio de Janeiro. 1963 Formação do 1º quarteto Arautos do Rei (junho de 1963 a junho de 1965): 1º tenor, Henry Feyerabend; 2º tenor, Luiz Mota; barítono, Joel Sarli; baixo, Samuel Campos. Pianistas: Robert Benfield, Leni Azevedo, Ênio Monteiro, Genoveva Bergold e Cibele Botelho. Gravação de Hei de Estar na Alvorada. 20º aniversário da Voz da Profecia no Brasil, celebrado com a visita do quarteto The King’s Heralds. 1964 Gravação de O Rapaz Davi e Música Celeste. 1966 Viagem do pastor Rabello à Terra Santa e Europa. 1967 O pastor José Alfredo Torres Pereira é nomeado diretor da Escola Radiopostal e orador auxiliar da Voz da Profecia. 1968 Aniversário de prata. Vinda ao Brasil do pastor H. M. S. Richards e da cantora Del Delker. 1970 No dia 5 de novembro, Hedwig Braun Rabello falece, com 59 anos, na Casa de Saúde Liberdade, em São Paulo. 1972 6a formação do quarteto Arautos do Rei (1972-1975): 1º tenor, Eclair Cruz; 2º tenor, Melchiades Soares; barítono, Wilson Almeida; baixo, Roberto Conrad Filho. Pianista: Alexandre Reichert. 1973 30 anos da Voz da Profecia. 1975 Lançamento do programa Uma Luz no Caminho, sendo o pastor Paulo Sarli o produtor e apresentador. Gravação de Aqui Chegamos Pela Fé. 1976 Aposentadoria do pastor Roberto Rabello. Continua como orador emérito. Roberto Conrad Filho é escolhidocomo novo orador e diretor da Voz da Profecia. 1979 Gravação de Não Desistir. 1983 40 anos da Voz da Profecia, que é irradiado em 340 estações. Revista Veja destaca os 40 anos da Voz. 1984 José Bellesi torna-se administrador da Voz da Profecia. O pastor Rabello contrai núpcias com a Srta. H. Edith Anniehs. 1985 O pastor Rabello e a esposa, Edith, participam da assembléia da Associação Geral de Nova Orleans. 1990 Hélio Carnassale torna-se orador da Voz da Profecia. 1992 Ronaldo de Oliveira torna-se orador da Voz da Profecia. 1993 Mudança do casal Rabello para Curitiba. Comemoração dos 50 anos da Voz da Profecia, com a vinda de Lonnie Melashenko, H. M. S. Richards Jr., Del Delker e do antigo quarteto americano The King’s Heralds. Eles percorrem as principais cidades do Brasil. 1996 O pastor Rabello falece em Curitiba, no dia 16 de agosto. 17a formação do quarteto Arautos do Rei: 1º tenor, Dênio Abreu; 2º tenor, Társis Iraídes; barítono, Jeferson Tavares; baixo, Ronaldo Fagundes. Pianista: Jader Dornelles dos Santos. 1997 Gravação de Se Ele Não For o Primeiro. Neumoel Stina é escolhido como orador da Voz da Profecia. 1999 Gravação de Eu Não Sou Mais Eu. 2001 Gravação em espanhol. 2002 Gravação de Por que, ó Pai? 2003 Montano de Barros torna-se orador da Voz da Profecia. Celebração dos 60 anos da Voz da Profecia. 2005 Mudança da sede da Voz, de Nova Friburgo, RJ, para Jacareí, SP. 2007 Fernando Iglesias (do Está Escrito) assume a função de orador da Voz da Profecia. 22a formação do quarteto Arautos do Rei: 1º tenor, Everson Fuckner; 2º tenor, Felipe Valente; barítono, Elson Gollub; baixo, Milton Andrade. Pianista: Ricardo Martins. N Galeria de Fotos A história do pastor Rabello em imagens este álbum histórico, você poderá ver alguns momentos marcantes do pastor Rabello, sua família e sua obra. Pastor Roberto Mendes Rabello, fundador e orador da Voz da Profecia no Brasil Oliveiros e Izabel Mendes Rabello, pais do pastor Rabello O jovem Roberto (ao centro) e seu pai tocando na pequena banda da cidade Hedwig estudando Secretariado no Colégio Adventista Brasileiro Alice Zorub, Alida Nigri e Hedwig Braun Rabello: colegas de colégio Alunos do Colégio Adventista, em São Paulo, em 1929 Formatura de Roberto Rabello e Hedwig Braun Rabello A família do pastor Luiz e Hanna Braun, em 1944. A partir da esquerda (atrás do casal), Ida, Emília e Hedwig Pastores Dario Garcia (cunhado do pastor Rabello) e Luiz Braun (sogro) Casamento de Roberto e Hedwig Rabello, em 1932 Casal Rabello com os filhos Cláudio e Lucila, em 1936 Despedida dos filhos para a escola na Rua Moreira César, Niterói, sede da Voz O início da Voz, em 1943, nos Estados Unidos. À direita do pastor Rabello (de terno escuro) está o pastor João Linhares, orador associado Roberto Rabello, orador da Voz da Profecia Pastores Roberto Rabello e José Siqueira Casal Rabello Quarteto Th e King’s Heralds realizando gravações junto com os oradores e organizadores do programa O estúdio das gravações dos programas em português Primeira sede da Voz da Profecia no Brasil, à Rua Moreira César, em Niterói Pastor James Aitken, presidente da Divisão Sul-Americana, falando no lançamento da pedra fundamental do prédio da Voz da Profecia Inauguração da nova sede da Voz da Profecia. Na frente, da esquerda para a direita: pastor Joel Camacho, Magalhães Pinto (governador de Minas Gerais) e pastores Domingos Peixoto, Cláudio Belz e Roberto Rabello O primeiro quarteto da Voz da Profecia e o pessoal do escritório em frente ao novo Auditório Guanabara, na sede da Voz da Profecia, no Botafogo Primeiro quarteto Arautos do Rei: Samuel Campos, Joel Sarli, Henry Feyerabend e Luiz Mota. Ao piano, Genoveva Bergold Em destaque, Pastor Rabello (ao centro) e Arautos do Rei Arautos do Rei: harmonia era sua marca registrada Th e King’s Heralds Del Delker, cantora americana Três pioneiros da Voz da Profecia: Pastores Braulio Pérez (orador do programa em espanhol), H. M. S. Richards (em inglês) e Roberto Rabello (em português) Em foto de 1947, H. Stoehr, Roberto Rabello e Braulio Pérez. Ao centro, Leona Running, uma das primeiras secretárias do pastor Rabello e, mais tarde, doutora em línguas bíblicas e professora na Andrews University O pastor H. M. S. Richards cumprimenta oradores da Voz da Profecia de outros países Roberto Rabello e seu irmão Walter, um dos anunciadores do programa, estudam um mapa do Brasil, identificando as cidades onde a Voz da Profecia era irradiada em nosso país O pastor Rabello falou a milhares de ouvintes da Voz da Profecia O pastor Rabello cumprimenta um aluno da Escola Radiopostal por ocasião de uma formatura Pastor Rabello traduzindo o pastor H. M. S. Richards por ocasião de sua visita ao Brasil, em 1968, para celebrar os 25 anos da Voz da Profecia no país Concentração no Ibirapuera, durante a celebração dos 25 anos. De pé, a partir da esquerda: Iracy Botelho, Roberto Azevedo, casal Bradley, pastor Rabello, pastor Richards e esposa, Del Delker, pastor Campolongo e Arautos do Rei As famílias de Cláudio e Eunice Rabello e de Léo e Lucila Ranzolin por ocasião da visita dos pais em 1961, enquanto estudavam na Andrews University Casal Rabello no Hospital Silvestre, em 1965 Netos ajudam a encontrar o automóvel debaixo da neve Léo e Lucila Ranzolin com os fi lhos Léo Jr., Luís Roberto e Larry Nelson Pastor Rabello recebendo o Disco de Ouro dos pastores José Bellesi e Roberto Conrad Homenagem ao pastor Rabello pela Associação Brasileira de Comunicadores Evangélicos Membros da família Rabello em visita ao casal João e Maria do Carmo Rabello, no IAE Reunião da família Rabello em Vancouver (Canadá) por ocasião do casamento de Bob e Benita. Da esquerda para a direita: Léo Jr. e esposa Susan, Léo e Lucila Ranzolin, Shirley (irmã de Eunice), Dennis Fletcher, os noivos, Eunice Fletcher, Edith Rabello, Roberto Rabello, Leila (neta do pastor Rabello), Angela Dorpowski (neta de Dario e Ida Garcia) e esposo. Sentados: Spencer e David, bisnetos do pastor Rabello. De pé: Larissa Rachel, fi lha de Léo Jr. e Susan Bodas de ouro da Voz da Profecia: pastor H. M. S. Richards Jr., Edith Rabello, Roberto Rabello, Ronaldo de Oliveira e o casal Melashenko Plínio, João, Walter e Lucival Rabello Uma das últimas visitas à fi lha, Lucila, em 1991 Pastor Rabello e sua segunda esposa, Edith Anniehs Rabello, estudando a Palavra de Deus em sua casa, em Curitiba https://www.cpb.com.br/classificacao/index/173/17/livros-digitais/ Capa Rosto Expediente Dedicatória Prefácio Introdução 01 :: Minha História 02 :: Primeiro Amor 03 :: Tudo em Família 04 :: Boato de Arrebatamento 05 :: Orador Emérito 06 :: A Última Canção 07 :: Encontros Especiais 08 :: Companheiros de Trabalho 09 :: Milagres e Conversões 01 :: Apêndice 02 :: Apêndice 03 :: Apêndice 04 :: Apêndice 05 :: Apêndice Fotos