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Craque NetoCraque Neto

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– 128 –
O caminho da cruz
Existem muitos relatos de pessoas que dizem ter encontrado Deus através de um sofrimento profundo, 
e há também a expressão cristã “o caminho da cruz”, que acredito apontar para a mesma coisa.
Esse é o nosso principal interesse aqui. Na verdade, essas pessoas não encontraram 
Deus através do sofrimento, porque sofrimento supõe resistência. Elas encontraram Deus 
através da entrega, da completa aceitação daquilo que é, aonde chegaram por força do 
sofrimento intenso por que passaram. Elas devem ter percebido, em algum momento, que 
eram elas que geravam o sofrimento.
Como você compara a entrega com o encontro com Deus?
Como a resistência é inseparável da mente, o abandono da resistência – a entrega – é 
o fim da atuação dominadora da mente, do impostor fingindo ser “você”, o falso deus. 
Todo o julgamento e toda a negatividade se dissolvem. A região do Ser, que tinha sido 
encoberta pela mente, se abre. De repente, surge uma grande serenidade dentro de você, 
uma imensa sensação de paz. E dentro dessa paz existe uma grande alegria. E dentro dessa 
alegria existe amor. E lá no fundo está o sagrado, o incomensurável, o que não pode ser 
nomeado.
Não chamo isso de encontrar Deus, porque como se pode encontrar o que nunca foi 
perdido, a própria vida que é você? A palavra Deus é limitadora, não somente por causa de 
milhares de anos de má interpretação e uso equivocado, mas também porque pressupõe 
uma outra identidade que não é você. Deus é o próprio Ser, não um ser. Não pode haver 
nenhuma relação aqui de sujeito-objeto, nenhuma dualidade, nenhum você e Deus. A 
percepção de Deus é a coisa mais natural que existe. O fato estranho e incompreensível 
não é que possamos nos tornar conscientes de Deus, mas sim que não somos conscientes de 
Deus.
O caminho da cruz a que você se referiu é o velho caminho para a iluminação, e até 
recentemente era o único caminho. Mas não o rejeite nem subestime sua eficácia. Ele ainda 
funciona.
O caminho da cruz é uma inversão completa. Significa que a pior coisa na sua vida, a 
sua cruz, se transforma na melhor coisa que já aconteceu, ao forçar você para a entrega, 
para a “morte”, ao forçar você a se tornar nada, a se tornar como Deus, porque Deus 
também é coisa nenhuma.
Nesse momento, para a maioria inconsciente dos seres humanos, o caminho da cruz 
ainda é o único caminho. Eles só vão acordar através de mais sofrimento e a iluminação,
como um fenômeno coletivo, será precedida por grandes revoluções. Esse processo reflete 
o funcionamento de certas leis universais que governam o crescimento da consciência e já 
previsto por alguns videntes. Ele é descrito, dentre outros lugares, no Livro das Revelações 
ou Apocalipse, embora disfarçado em uma simbologia obscura e algumas vezes 
incompreensível. Esse sofrimento não é imposto por Deus, mas pelos próprios humanos,

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