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Calvino	e	o	comércio,	de	David	W.	Hall	e	Matthew	D.	Burton	©	2017	Editora	Cultura	Cristã.	Publicado
originalmente	em	inglês	sob	o	título	Calvin	and	commerce	©	2009,	by	David	W.	Hall	e	Matthew	D.	Burton.
Todos	os	direitos	são	reservados.	Nenhuma	parte	deste	livro	poderá	ser	reproduzida,	estocada	para
recuperação	posterior	ou	transmitida	de	qualquer	forma	ou	meio	que	seja	–	eletrônico,	mecânico,	fotocópia,
gravação	ou	de	outro	modo	–	exceto	breves	citações	para	fins	de	resenha	ou	comentário,	sem	o	prévio
consentimento	de	P&R	Publishing	Company,	P.O.Box	817,	Phillipsburg,	New	Jersey	08865-0817.
Conselho	Editorial
Cláudio	Marra	(Presidente)
Filipe	Fontes
Heber	Carlos	de	Campos	Jr
Hermisten	Maia	Pereira	da	Costa
Joel	Theodoro	da	Fonseca	Jr
Misael	Batista	do	Nascimento
Tarcízio	José	de	Freitas	Carvalho
Victor	Alexandre	Nascimento	Ximenes
Produção	Editorial
Tradução
Daniele	Damiani
Revisão
Vagner	Barbosa
Sandra	Couto
Mariana	Ferreira	de	Toledo
Editoração
Ideia	Dois
Capa
Magno	Paganelli
Produção	do	e-book
Ranna	Studio
H174c
Hall,	David	W.
Calvino	e	o	comércio	/	David	W.	Hall;	Matthew	D.	Burton;
Traduzido	por	Daniele	Damiani.	_	São	Paulo:	Cultura	Cristã,	2017
208	p.
Recurso	eletrônico	(ePub)
ISBN	978-65-5989-016-3
Tradução	Calvin	and	commerce
1.	Calvinismo	2.	Cosmovisão	cristã	3.	Vida	cristã				I.	Título
CDU	275.4
A	posição	doutrinária	da	Igreja	Presbiteriana	do	Brasil	é	expressa	em	seus	“símbolos	de	fé”,	que	apresentam
o	modo	Reformado	e	Presbiteriano	de	compreender	a	Escritura.	São	esses	símbolos	a	Confissão	de	Fé	de
Westminster	e	seus	catecismos,	o	Maior	e	o	Breve.	Como	Editora	oficial	de	uma	denominação	confessional,
cuidamos	para	que	as	obras	publicadas	 espelhem	sempre	 essa	posição.	Existe	 a	possibilidade,	porém,	de
autores,	 às	vezes,	mencionarem	ou	mesmo	defenderem	aspectos	que	 refletem	a	 sua	própria	opinião,	 sem
que	o	fato	de	sua	publicação	por	esta	Editora	represente	endosso	integral,	pela	denominação	e	pela	Editora,
de	 todos	os	pontos	de	vista	apresentados.	A	posição	da	denominação	sobre	pontos	específicos	porventura
em	debate	poderá	ser	encontrada	nos	mencionados	símbolos	de	fé.
	
Rua	Miguel	Teles	Júnior,	394	–	CEP	01540-040	–	São	Paulo	–	SP
Fones	0800-0141963	/	(11)	3207-7099
www.editoraculturacrista.com.br	–	cep@cep.org.br
http://www.editoraculturacrista.com.br
mailto:cep@cep.org.br
Superintendente:	Haveraldo	Ferreira	Vargas
Editor:	Cláudio	Antônio	Batista	Marra
Sumário
Prefácio
Introdução
1.	Criação
O	homem	como	criatura	e	criador
Criação:	tempo	de	abundância	e	riqueza	além	das
necessidades	básicas
A	responsabilidade	do	homem	pelo	domínio	da	criação
de	Deus
A	criação	e	o	equilíbrio	entre	trabalho	(vocação)	e
descanso	(dia	de	descanso)
A	riqueza	não	é	moralmente	ruim
2.	Queda
A	depravação	requer	uma	ética	de	trabalho
O	homem	não	é	“socialista”	por	natureza
O	papel	da	riqueza
Juros	ou	usura?
Os	pobres	e	os	ricos	vieram	para	ficar
3.	Redenção
A	liberdade	cristã
Calvino	contra	o	orgulho	e	a	ignorância
Administração	e	propriedade	privada
A	riqueza	como	um	excesso	de	agradecimento	e
exaltação	pela	salvação
Investimento	como	um	chamado	ao	resgate
A	obra	de	caridade	e	a	lei
Calvino	sobre	a	ética	de	propriedade	e	a	ética
comercial:	Êxodo	21–24
Padrão	para	a	caridade
4.	Filantropia
A	caridade	extrafamiliar
A	filantropia	de	Calvino	e	o	cuidado	com	os	pobres
As	corretas	definições	de	obra	de	caridade	e	pobreza
Suposições	incorretas	sobre	a	assistência	social:
Calvino	sabia	mais
5.	Santificação	e	serviço
A	igualdade	social	é	o	objetivo?
Providência
Santificação
A	providência	compensa	a	falta	de	consideração	pelos
pobres?
O	espírito	comercial	calvinista	inicial
O	trabalho	santifica
Dignidade	para	o	trabalho	do	homem
6.	Escatologia
O	presente	é	mais	bem	definido	pela	eternidade	do	que
por	si	mesmo
O	investimento	a	longo	prazo	e	a	fidelidade	bíblica
A	preparação	e	o	acúmulo	de	ativos
A	tomada	de	risco	e	o	acúmulo	de	recompensas	são
permitidos	e	incentivados
Calvino	e	a	educação
Calvino	e	a	frugalidade
Os	cinco	pontos	da	economia	de	Calvino
Conclusão
Prefácio
Esta	pequena	obra	deve	ser	vista	como	um	diálogo,	não	obstante	a	necessidade
artística	 das	 vozes	 distintas	 dos	 diversos	 personagens.	 Apesar	 de	 nosso
ineficiente	 esforço	 demonstrado	 abaixo	 nunca	 se	 equiparar	 aos	 clássicos
diálogos	 como	 em	 a	 República	 de	 Platão,	 The	 Crown	 Rights	 of	 Scotland,	 de
Buchanan,	Diálogos	sobre	a	religião	natural,	de	Humes,	ou	Cartas	do	diabo	ao
seu	 aprendiz,	 de	 Lewis,	múltiplas	 vozes	 podem,	 ainda,	 servir	 para	 prender	 a
atenção	do	leitor	enquanto	instruem.	Embora,	vez	ou	outra,	este	 livro	revele	as
vozes	 distintas	 de	 seus	 autores	 –	 sendo	 um	 deles	 especialista	 financeiro	 e	 o
outro,	teólogo	–	as	vozes,	com	bastante	frequência,	também	se	unificam	a	fim	de
formar	um	coro.
Também	 acreditamos	 que	 os	 leitores	 periódicos	 e	 os	 profissionais	 de
negócios	 podem	 se	 beneficiar	 de	 um	 resumo	 não	 técnico	 a	 respeito	 da	 ética
comercial	 calvinista	 de	 acordo	 com	 o	 formato	 abaixo.	 Sob	 o	 título	 de	 ética
comercial	calvinista,	este	livro	básico	busca,	primeiramente,	extrair	os	principais
aspectos	 financeiros,	 comerciais	 e	 econômicos	 do	 ensinamento	 de	 Calvino	 e
depois	 aplicá-los	 aos	 mercados	 e	 decisões	 da	 modernidade.	 Se	 o	 diálogo
resultante	 parecer,	 certas	 vezes,	 uma	 voz	 teológica	 do	 século	 16	 conversando
com	a	voz	do	mercado	do	século	21	–	e	vice-versa	–	 isto	é,	em	parte,	o	nosso
objetivo.	As	vozes	de	outros	defensores	e	adversários	também	são	representadas
nesta	 discussão.	 Nossa	 esperança	 é	 que	 este	 livro	 propicie	 uma	 discussão
inteligente	 do	 espírito	 do	Calvinismo	 e	 de	 como	 ele	 tem	 impactado	os	 setores
comerciais.
Claro,	 a	 intenção	 não	 é	 que	 este,	 por	 si	 só,	 seja	 um	 livro	 didático	 sobre
economia;	 tampouco	 abrange	 tudo	 o	 que	 Calvino	 escreveu	 a	 respeito	 dos
assuntos	 relacionados	 a	 negócios	 e	 finanças.	 Contudo,	 ao	 oferecer	 esta	 obra
como	parte	da	celebração	dos	500	anos	de	 João	Calvino,	os	 autores	 acreditam
que	 tanto	 a	 homenagem	 como	 a	 elaboração	 de	 sua	 ideia	 concernente	 a	 este
assunto	 são	dignas	de	nota.	Esperamos	que,	dentro	destas	páginas,	um	 resumo
adequado	e	uma	representação	das	visões	de	Calvino	possam	ser	acessados.	Se,
dentro	destas	mesmas	páginas,	o	 leitor	 também	encontrar	discussões	a	 respeito
de	 como	 as	 visões	 de	 Calvino	 se	 desenvolveram,	 quais	 as	 consequências
resultantes	 delas	 e	 como	 suas	 teorias	 podem	 ser	 proveitosamente	 aplicadas	 às
sociedades	modernas,	será	ainda	melhor.	Acreditamos	que	os	líderes	de	empresa
apreciarão	as	percepções	de	Calvino	mais	do	que	qualquer	outro	público.
Convidamos	o	leitor	a	examinar	nossas	discussões.	Temos	certeza	de	que	a
soma	 é	 muito	 melhor	 do	 que	 nossas	 vozes	 individuais.	 Sem	 dúvida,	 muitos
outros	agregarão	a	essas	discussões	mais	adiante,	mas	esta	atualização	do	valor
do	Calvinismo,	 tanto	para	o	mercado	como	para	 compreender	os	negócios	 e	 a
economia,	serve	para	todos	aqueles	que	desejam	entender	nossa	história.
Também	não	temos	a	ilusão	de	que	esta	seja	uma	abordagem	exaustiva	ou
que	responda	todas	as	perguntas.	Uma	abordagem	consideravelmente	simples	é
adotada,	 na	 qual	 desejamos	 apenas	 contar	 para	 as	 outras	 pessoas	 o	 que
aprendemos	 com	 Calvino,	 bem	 como	 aplicar	 os	 aspectos	 de	 sua	 teologia	 aos
mercados	com	os	quais	nos	deparamos.
Gostaríamos	 de	 agradecer	 às	 seguintes	 pessoas	 por	 sua	 ajuda:	 Dr.	 Scott
Cunningham	e	Dr.	Jon	Payne,	por	lerem	todo	o	texto,	darem	sugestões	e	fazerem
críticas	 extremamente	 úteis.	 Como	 resultado,	 este	 livro	 melhorou	 de	 forma
imensurável;	Andrew	Hall,	estagiário	na	Narwhal	Capital	Management,	por	sua
pesquisa	 e	 assistência;	 Michael	 Brock,	 pelos	 muitos	 anos	 de	 compreensão	 e
amizade;	David	Westall,	por	suas	explicações	e	sugestões;	Mac	Plumart	e	Sean
Sunehew,	 ambos	 da	 Narwhal	 Capital	Management,	 por	 lerem	 e	 rastrearem	 as
referências	erradas;	e	a	InvisibleHand	Foundation,	por	seu	subsídio	educacional
para	ajudar	nas	etapas	finais	desta	obra.
Este	 livro	 é	 carinhosamente	 dedicado	 a	 nossas	 esposas	 e	 filhos,	 sem	 os
quais,	confessamos	abertamente,	seríamos	perdedores	e	preguiçosos.	Dedicamos
também	 nosso	 agradecimento	 aos	 nossos	 mestres:	 Jack	 Burton,	 por	 me	 dar	 o
exemplo	de	liderança	e	me	ensinar	mais	do	que	posso	revelar	em	toda	a	minha
vida;	Bob	Matthew,	que	não	somente	passou	a	amar	os	 ideais	de	Calvino,	mas
também	 é,	 inquestionavelmente,	 o	 melhor	 executivo	 que	 qualquer	 um	 de	 nós
espera	 conhecer;	 Richard	 Hall,	 que	 me	 ensinou	 a	 viver	 dentro	 das	 minhas
possibilidades,	a	evitar	dívidas	em	excesso	e	a	trabalhar;	e	Pat	Fleming,	que	nos
deu	e	continua	nos	dando	amor,	encorajamento,	liderança	e	discernimento.
Introdução
João	Calvino	 (1509–1564),	 cujo	 aniversário	 de	500	 anos	 foi	 comemorado	 em
2009,1	 fez	 uma	 de	 suas	 contribuições	 mais	 duradouras	 quando	 abriu	 caminho
para	as	modernas	práticas	comerciais	com	base	no	mercado.	Encontrando-se	na
conjuntura	 entre	 a	 Idade	 Média	 e	 o	 início	 da	 Idade	 Moderna,	 Calvino
testemunhou	 e	 contribuiu	 para	 uma	 imensidão	 de	 mudanças	 na	 economia
mundial,	e	fez	 isso	baseado	em	uma	declaração	de	princípios	fundamentada	na
fé.
Um	resumo	feito	em	meados	do	século	20	a	respeito	dos	ensinamentos	de
Calvino	 mostra	 o	 quanto	 suas	 ideias	 eram	 avançadas	 em	 relação	 aos
ensinamentos	medievais:
Poucos	 teólogos	 relacionavam	 os	 fatos	 econômicos
com	 o	 drama	 cósmico	 da	 redenção	 de	 maneira	 tão
clara	 como	 Calvino.	 Para	 esse	 reformador,	 a
prosperidade	 é	 somente	 um	 agente	 inserido	 nesse
drama,	nunca	neutro,	mas	 sempre	um	 instrumento	de
graça	ou	infortúnio.	Essa	recusa	em	objetivar	os	bens
materiais	 se	 contrapõe	 claramente	 ao	 pensamento
medieval.2
Claro,	 Calvino	 não	 engrandecia	 a	 pobreza	 e	 buscava	 “reabilitar	 a	 vida
material”3	como	parte	da	vocação	humana	e	da	obediência	cristã.	Além	do	mais,
ele	era	capaz	–	como	não	o	eram	muitos	de	seus	antecessores	–	de	perceber	que	a
economia	e	o	lucro	poderiam	intensificar	a	produtividade	futura,	algo	diferente
do	acúmulo	interesseiro.
André	Biéler	resumiu	as	contribuições	de	Calvino	da	seguinte	maneira:
Ao	atribuir	à	fé	toda	a	esfera	da	atividade	humana,	que
os	 cristãos	 devem	 submeter	 ao	 senhorio	 de	 Cristo,
Calvino,	 indubitavelmente,	 conferiu	 ao	 trabalho,	 ao
trabalho	 econômico	 e	 ao	 dinheiro	 um	 lugar	 que	 eles
não	tinham	antes,	possibilitando	aos	calvinistas	extrair
deles	 toda	 a	 sua	 humanidade	 e	 potencialidades
sociais.4
A	partir	de	uma	perspectiva	um	pouco	mais	antagônica,	o	papel	de	Calvino
na	história	do	comércio	foi	avaliado	nestes	termos:
Aquele	 que	 tentasse	 traçar	 o	 desenvolvimento
capitalista	 em	 qualquer	 país	 da	 Europa...	 sempre	 se
depararia	com	um	mesmo	fato:	a	Diáspora	 calvinista
é,	 ao	mesmo	 tempo,	 a	 causa	da	economia	capitalista.
Os	 hispânicos	 expressaram	 tal	 fato	 com	 as	 seguintes
palavras	de	amarga	 reflexão:	 “Os	hereges	 facilitam	o
espírito	comercial”.5
Embora	 alguns	 economistas	 possam	 afirmar	 que	 “a	 característica	 mais
notável	da	 tese	da	ética	protestante	seja	a	ausência	do	apoio	empírico”,6	outros
relatam:
A	 Reforma	 Protestante	 impulsionou	 uma	 revolução
mental	que	 tornou	possível	o	advento	do	Capitalismo
moderno.	 A	 visão	 mundial	 propagada	 pelo
Protestantismo	 rompeu	 com	 as	 orientações
psicológicas	 tradicionais	 por	 meio	 de	 sua	 ênfase	 na
diligência	 pessoal,	 frugalidade,	 parcimônia,
responsabilidade	 individual	 e	 por	meio	 da	 aprovação
moral	 conferida	 à	 tomada	 de	 risco	 e	 ao
desenvolvimento	financeiro	pessoal.7
O	 teorista	 social	 Rodney	 Stark	 descobriu	 ser	 a	 liberdade	 um	 ingrediente
essencial	 para	 o	 crescimento	 do	 Capitalismo.	 Assim	 como	 Max	 Weber,	 um
século	antes,	a	recente	obra	de	Stark,	The	Victory	of	Reason:	How	Christianity
Led	 to	 Freedom,	 Capitalism,	 and	 Western	 Success,	 busca	 responder	 por	 que
algumas	 sociedades	 europeias	 cultivaram	 o	 Capitalismo,	 ao	 passo	 que	 outras
não.	Ele	 sugere	 que	muitos	 fatores	 –	 como	o	 apoio	 do	 clérigo	 ao	mercado	 de
capitais,	a	convicção	de	que	o	progresso	tecnológico	era	uma	bênção,	e	não	uma
maldição,	 a	 educação,	 a	 inovação	 manufatureira,	 o	 avanço	 da	 ciência	 e	 as
expectativas	para	soluções	administrativas	coerentes	–	contribuíram	para	o	que,
com	 frequência,	 é	 citado	 como	 a	 ética	 protestante,	 cujo	 aparecimento	 se	 deu
simultaneamente	 à	 explosão	 do	 Capitalismo.8	 Pelo	 menos	 no	 que	 se	 refere	 à
cobrança	 de	 juros,	 se	 não	 ao	 comércio	 em	 geral,	 a	 posição	 de	 Calvino	 é
“absolutamente	decisiva	dentro	da	história	econômica	do	Ocidente”.9
Enquanto	 muitos	 interpretam	 Calvino	 de	 maneira	 incorreta,	 igualando
prosperidade	material	e	predestinação	eterna,	este	estudo	mostrará	o	quanto	essa
caricatura	 é	 incorreta.	 Todavia,	 as	 contribuições	 de	 Calvino	 para	 a	 área	 do
desenvolvimento	 de	 ativos	 são,	 de	 modo	 relativo,	 feitos	 impressionantes,	 em
especial	quando	se	leva	em	consideração	o	fato	de	que	sua	prosperidade	pessoal
foi	 sempre	modesta	e	ele	não	administrava	nenhuma	 instituição	 financeira.	Ele
era	 pastor,	 um	 clérigo,	 que	 ensinava	 seu	 povo	 a	 partir	 das	 Escrituras,
recentemente	redescobertas,	então,	pela	Reforma	Protestante.
Antes	 de	 se	 lançarem	 às	 águas	 do	 pensamento	 de	 Calvino,	 os	 leitores
honestos	 terão	 de	 superar	 o	 preconceito	 residual	 que	 se	 origina	 a	 partir	 das
críticas	 e	 imagens	 oferecidas	 por	 pessoas	 como	 Max	 Weber.10	 Embora	 esse
preconceito	quase	sempre	caracterize	nossa	percepção	quanto	às	convicções	de
Calvino,	é	 importante	que	nos	comprometamos	a	entender	o	que	ele	 realmente
ensinou.
Para	esse	fim,	o	leitor	moderno	deve	fazer	as	seguintes	perguntas:
	
O	que	Calvino	ensinou	ou	não	ensinou	que	levou	a	essa	enorme	mudança	no	comércio?
Os	ensinamentos	dele	foram	adotados	rapidamente?	Caso	tenham	sido,	por	quem	e	onde?
Quais	eram	os	seus	pontos	de	vista	com	relação	a	prosperidade,	dinheiro,	avareza	e	finanças?
Onde	 podemos	 encontrar	 comentários	 específicos	 feitos	 por	 Calvino	 relacionados	 a	 assuntos	 de
prosperidade	e	comércio?
Quais	culturas	se	beneficiaram	ou	têm	a	probabilidade	de	se	beneficiar	dos	ensinamentos	econômicos
de	Calvino?
Esta	obra	concisa	tenta	responder	tais	perguntas.
Para	 tanto,	esta	 também	é	uma	obra	claramente	 teológica;	considerá-la	de
outra	 forma	 seria	 distorcer	 as	 fontes	 originais.	 Portanto,	 cada	 capítulo	 abaixo
foca	 em	 um	 valor	 megateológico:	 criação,	 queda,	 redenção,	 filantropia,
administração	e	escatologia.	Conforme	buscarmos	entender	os	pontos	de	vista	de
Calvino	a	respeito	desses	tópicos,	também	mensuraremos	o	decidido	reformador
protestante	 segundo	 as	 próprias	 Escrituras	 e	 analisaremos	 quais	 práticas
comerciais	 estão	mais	 de	 acordo	 com	 as	 verdades	 bíblicas	 que	 alimentaram	 a
maior	parte	do	pensamento	de	Calvino.
No	 decorrer	 da	 leitura,	 discutiremos	 os	 paradigmas	 apresentados	 por
diversas	 filosofias	 comerciais.	Cada	 corrente	de	pensamento	 tem	 suas	próprias
imperfeições	 e	 deficiências	 que	 sustentam	 o	 comportamento	 ou	 decisões
contrários	 a	 determinadas	 realidades	 econômicas.	 Compararemos	 essas	 várias
correntes	 de	 pensamento	 aos	 conceitos	 comerciais	 contidos	 nas	 obras	 de	 João
Calvino.	Um	segundo	objetivo	deste	 livro	 é	 apontar	 as	 incompatibilidades	dos
diversos	sistemas	quando	comparados	a	um	padrão	transcultural:	a	Bíblia.
Para	melhor	esclarecimento,	permita-nos,	em	um	breve	momento,	distinguir
este	 livro	 de	 outras	 exposições	 econômicas	 com	 abordagem	 bíblica.	 Afinal,
existem	muitos	 livros	 que	 apresentam	 vários	 sistemas	 econômicos	 ou	 práticas
comerciais	 e	 tentam	 revesti-los	 com	 o	Cristianismo	 como	 forma	 de	 ilustrar	 as
semelhanças	 e/ou	 diferenças.	 Como	 consequência,	 muitos	 deles	 chegam	 à
conclusão	(explícita	ou	implicitamente)de	que	o	Cristianismo	e	a	economia	são
duas	 vertentes	 de	 pensamento	 completamente	 independentes.	 Em	 outras
palavras,	 as	 duas	 correntes	 lineares	 do	 pensamento	 são	 examinadas	 para	 uma
possível	 relação	em	vários	pontos,	porém,	não	compartilham,	necessariamente,
de	uma	equivalência,	nem	mesmo	de	um	único	valor.	Como	resultado,	as	duas
identidades	isoladas	são	utilizadas	para	avaliar	ou	testar	uma	à	outra.11
Nossa	abordagem	difere	daquela	que	considera	o	Cristianismo	e	a	economia
como	duas	áreas	separadas.	Em	contrapartida,	verificamos	que	os	pontos	de	vista
relacionados	à	prosperidade	resultam	da	teologia	ou	de	valores	fundamentais.	A
tese	 de	 nossa	 afirmação	 é	 que	 os	 interesses	 financeiros	 e	 comerciais	 não	 são
independentes,	mas	sim	uma	extensão	das	convicções	 teológicas.	Sendo	assim,
examinaremos	 a	 conduta	 financeira	 sob	 as	 lentes	 bíblicas	 produzidas	 por	 João
Calvino.	 Observaremos	 o	 comportamento	 comercial	 e	 econômico	 da	 mesma
maneira	 como	 uma	 pessoa	 observaria	 o	 comportamento	 de	 um	 indivíduo	 no
sábado,	 ou	 de	 um	 indivíduo	 sob	 influência	 do	 álcool,	 determinando,	 portanto,
quais	 decisões	 e	 ações	 comerciais	 são	 consistentes	 com	 as	 Escrituras	 e	 quais
poderiam	 ser	 convenientemente	 caracterizadas	 como	 pecado.	 Para	 as	 mentes
filosóficas,	a	hierarquia	lógica	se	propagaria	da	seguinte	forma:	das	convicções
religiosas	 resulta	 a	 teologia;	 da	 teologia	 resulta	 o	 pensamento	 político;	 do
pensamento	 político,	 então,	 resulta	 o	 pensamento	 institucional;	 do	 pensamento
institucional	resulta	o	pensamento	cultural;	do	pensamento	cultural	 resultam	os
pontos	 de	 vista	 macroeconômicos;	 dos	 pontos	 de	 vistas	 macroeconômicos
resultam	 os	 pontos	 de	 vista	 microeconômicos;	 e	 os	 pontos	 de	 vista
microeconômicos	levam	às	decisões	e	ações	econômicas	pessoais.
Ademais,	 esta	 obra	 recapitulará	 os	 conceitos	 comerciais	 e	 financeiros
articulados	por	Calvino	na	tentativa	de	conseguir	reintroduzir	a	voz	desse	grande
pensador	 reformado	 ao	 mercado	 de	 ideias.	 Compreendendo	 sua	 convicção	 de
que	 as	 práticas	 comerciais	 são	 derivadas,	 em	 parte,	 do	 pensamento	 teológico,
procuraremos	explorar	seus	textos	em	busca	de	atrativos,	contudo,	também	não
chegaremos,	 genuinamente,	 a	 reunir	 textos	 comprobatórios	 que	 aleguem	 que
Jesus	era	um	capitalista	ganancioso.
Valores,	fé	e	verdade
Não	 acreditamos	 apenas	 que	 os	 valores	 ou	 ideias	 e	 hábitos	 fundamentais
afetam	 as	 decisões	 econômicas	 de	menor	 importância,	mas	 este	 livro	 também
aceita	 a	 realidade	 de	 que	 certas	 ideias	 iniciais	 –	 ou	 pressuposições	 –	 podem
exercer	 enormes	 efeitos	 em	 ações	 mais	 amplas	 ou	 interesses	 sistêmicos.
Portanto,	 tais	 pressuposições	 devem	 ser	 identificadas	 como	 uma	 questão	 de
honestidade	 intelectual	e	compreendidas	como	forma	de	esclarecimento.	Todos
os	 sistemas	 econômicos	 e	 as	 culturas	 comerciais	 possuem	 suposições	 básicas
necessárias	 para	 sustentar	 as	 variações	 econômicas	 periféricas	 do	 sistema.	 A
abrangência	 de	 tais	 pressuposições	 é	 tão	 extensa	 a	 ponto	 de	 cada	 sistema
econômico	 se	 tornar	 atraente	 para	 determinadas	 ideias	 constituintes.	 Tal	 fato
explica,	parcialmente,	por	que	várias	teorias	e	práticas	econômicas	são	atrativas.
Assim	 como	 as	 épocas	 históricas	 e	 os	 períodos	 literários	 quase	 sempre
começam	como	uma	reação	a	um	aspecto	do	passado	ou	do	presente,	também	o
desenvolvimento	 das	 ações	 econômicas	 são	 reações	 ao	 descontentamento,
escassez	ou	excesso.	Portanto,	seria	ingênuo	abordar	tal	estudo	sem,	em	primeiro
lugar,	 reconhecer	 a	 interconectividade	 dos	 vários	 sistemas	 e	 modelos
econômicos.	 O	 ponto	 comum	 dos	 sistemas	 pode,	 com	 frequência,	 ser
identificado	 com	 precisão	 pela	 pressuposição	 de	 cada	 um	 deles.	 Como	 afirma
John	E.	Stapleford,	“economia,	obviamente,	refere-se	a	valor	–	o	preço	relativo
desta	moeda	pela	 fatia	de	pão	–	mas	 também	se	 trata	de	valores,	 e	 sempre	 foi
assim”.12
Considere,	 por	 exemplo,	 as	 pressuposições	 fundamentais	 da	 economia
socialista	 de	 Karl	 Marx.	 Embora	 impopular	 entre	 os	 conservadores	 e
evangélicos,	é	possível	notar	o	mérito	–	mesmo	sendo	apenas	superficiais	–	de
muitas	 de	 suas	 suposições	 e	 valores	 agregados.	Na	 realidade,	 a	 ideia	 geral	 de
igualdade	para	 todos	em	si	é	 interessante.	Além	do	mais,	a	 redução	da	disputa
entre	 classes,	 às	 vezes,	 parece	 desejável.	 Semelhantemente,	 as	 pressuposições
básicas	 da	 corrente	 de	 pensamento	 capitalista	 endossam	 o	 valor	 do	 trabalho
árduo	 por	 meio	 de	 incentivos.	 Em	 ambos	 os	 casos,	 as	 teorias	 econômicas
possuem	suposições	definidas.
Em	 referência	 a	 essas	 duas	 correntes	 de	 pensamento	 em	 particular,	 a
maioria	dos	estudiosos	concorda	que	os	pontos	de	vista	econômicos	de	Calvino
estavam	 muito	 mais	 próximos	 do	 Capitalismo	 de	 livre	 mercado	 do	 que	 do
Socialismo	 centralizado.	 Todavia,	 nosso	 objetivo	 é	 evitar	 caricaturar	 Calvino
como	 um	 protolibertário.	 Em	 vez	 disso,	 preferimos	 argumentar	 que	 as	 ações
econômicas	 são	 impulsionadas	 pelo	 valor	 e	 têm	 por	 base	 as	 premissas
fundamentais.	 Ademais,	 esta	 obra	 defende	 que	 as	 convicções	 teológicas	 de
Calvino	transcenderam	a	religião	e	invadiram	a	esfera	da	teoria	comercial	e	do
comportamento	 –	 não	 somente	 em	 seus	 textos	 explícitos	 a	 respeito	 desses
assuntos,	 os	 quais	 influenciaram	 o	 desenvolvimento	 moderno	 da	 teoria
econômica,	 mas	 também	 por	 meio	 de	 sua	 influência	 nas	 decisões	 comerciais
particulares	de	governos,	famílias	e	pessoas.
Além	disso,	a	ciência	de	tais	pressuposições	se	faz	necessária	ao	examinar
qualquer	 sistema	 econômico	 ou	 filosófico.	 Com	 tal	 consideração	 em	 mente,
deve-se	reconhecer	que	as	pressuposições	e	suposições	podem	afetar	em	grande
escala	o	que	é	pesquisado	e	como	–	chegando,	por	fim,	até	a	moldar	a	ideologia
em	si.	Portanto,	um	estudo	competente	de	qualquer	política	econômica,	sistema
comercial	 ou	 teoria	 financeira	 requer	uma	análise	 extensa	dos	 fundamentos	de
sua	visão	de	mundo	e	certa	avaliação	de	como	tais	pilares	afetam	as	práticas	do
sistema.	 A	 teoria	 comercial	 raramente	 é	 uma	 proposição	 neutra.	 Desconstrua
criticamente	 qualquer	 teoria	 comercial	 e	 suas	 pressuposições	 fundamentais	 a
respeito	 da	 natureza	 do	 homem,	 do	 propósito	 do	 lucro,	 da	 pobreza,	 da
providência,	etc.,	se	 tornarão	claras.	João	Calvino	falou	muitíssimo	sobre	esses
assuntos,	e	 ignorar	 sua	voz	é	negligenciar	ou	minimizar	um	participante-chave
do	 desenvolvimento	 da	 moderna	 teoria	 comercial.	 Ademais,	 o	 reformador	 foi
rápido	 em	admitir	 que	 todo	pensamento	humano	 flui	 de	uma	 teologia	 sã.	Para
analisar	 de	 maneira	 adequada	 um	 sistema	 de	 negócio	 ou	 comercial,	 os
analisadores	 precisam	 fazer	 as	 seguintes	 perguntas:	 (1)	 Quais	 são	 as
pressuposições	 que	 tornam	 determinada	 teoria	 comercial	 atrativa?	 (2)	 Qual
perspectiva	 teológica	 sustenta	 tais	 pressuposições?	 (3)	 Os	 resultados	 reais	 das
práticas	comerciais	originados	de	uma	teoria	estão	de	acordo	com	suas	melhores
pressuposições?	Antes	 de	 avançarmos	 ainda	mais,	 alguns	 exemplos	 reforçarão
esse	ponto	inicial.
Karl	Marx,13	claro,	era	cético	com	relação	ao	acúmulo	de	capital,	criticando
os	 capitalistas	 como	 sendo	 aqueles	 que	 insensivelmente	 acumulam	 e	 lucram.
Apesar	de	não	desejarmos	ser	extremamente	simplistas,	é	difícil	não	pensar	em
Marx	 segundo	 o	 comentário	 elementar	 fornecido	 pelo	 economista	 Paul
Samuelson.	 De	 acordo	 com	 ele,	 todos	 os	 sistemas	 econômicos	 buscam
solucionar	 três	problemas:	 (1)	O	que	deve	ser	 feito?	 (2)	Quem	deve	 fazer?	 (3)
Quanto	deve	ser	feito?	Samuelson,	então,	observa	que,	historicamente,	existem
duas	 soluções	 principais	 para	 esse	 dilema:	 as	 soluções	 centralizadas	 ou	 as
descentralizadas.
Karl	 Marx	 apresentou	 um	 dos	 argumentos	 mais	 fortes	 para	 a	 soluçãocentralizada	 enquanto	 promovia	 simultaneamente	 um	 dos	 mais	 ousados
movimentos	 contrários	 ao	 Capitalismo.	 Seu	 modelo	 econômico	 centralizado
defendia	que	a	propriedade	privada	era	mais	uma	maldição	do	que	uma	bênção.
Muitos	 sistemas	 econômicos,	 hoje,	 levam	 isso	 muito	 a	 sério	 e,	 embora
quiséssemos	poder	 afirmar	 com	confiança	que	o	mundo	é	o	melhor	 lugar	para
isso,	está	faltando	a	prova	conclusiva.	Marx	argumentou	que
a	 busca	 pelo	 interesse	 próprio	 levaria	 à	 anarquia,	 à
crise	 e	 à	 dissolução	 do	 próprio	 sistema	 com	 base	 na
propriedade	privada,	pois,	para	o	marxismo,	a	símile	é
o	 controle	 tirano	 da	 competição,	 pulverizando	 os
trabalhadores	 e	 deixando-os	pior	 do	que	 estariam	em
um	sistema	plausível,	ou	seja,	um	sistema	baseado	no
domínio	social	ou	público	de	propriedade.14
Suas	ideias	não	estavam	envolvidas	pelo	mistério.	O	Manifesto	Comunista
incluía	um	programa	de	dez	pontos,	defendendo	o	seguinte:
	
1.	 Expropriação	da	propriedade	de	terra	e	o	emprego	de	toda	a	renda	em	propósitos	públicos.
2.	 Imposto	de	renda	com	forte	aumento	gradual.
3.	 Abolição	de	todo	o	direito	à	herança.
4.	 Confisco	da	propriedade	de	todos	os	emigrantes	e	rebeldes.
5.	 Centralização	do	crédito	nas	mãos	do	Estado	por	meio	de	um	banco	nacional	com	capital	estatal	e
monopolista.
6.	 Centralização	dos	meios	de	comunicação	e	transporte	nas	mãos	do	Estado.
7.	 Extensão	 das	 fábricas	 e	 instrumentos	 de	 produção	 de	 posse	 do	 Estado;	 arroteamento	 de	 terras
improdutivas	e	melhoria	do	solo	de	acordo	com	um	plano	comum	geral.
8.	 Obrigação	igualitária	ao	trabalho	e	formação	de	exércitos	industriais,	em	especial,	para	a	agricultura.
9.	 Associação	das	indústrias	agrícola	e	manufatureira	e	a	abolição	gradual	da	distinção	entre	cidade	e
campo	por	meio	de	uma	distribuição	mais	equitativa	da	população.
10.	 Educação	 gratuita	 para	 todas	 as	 crianças	 em	 escolas	 públicas;	 abolição	 das	 formas	 existentes	 de
trabalho	infantil	nas	fábricas;	correlação	da	educação	com	a	produção	industrial.15
Cada	 um	desses	 conceitos	 individuais	 –	 sem	mencionar	 a	 soma	deles	 em
um	 grau	 maior	 –	 nem	 de	 longe	 está	 isento	 de	 valores.	 Na	 realidade,	 se	 uma
sociedade	 implementasse	 todas	 essas	 medidas,	 ela	 seria	 dramaticamente
diferente	daquela	que	defende	a	propriedade	privada,	incentiva	a	livre	iniciativa
e	a	 redução	dos	 impostos,	 além	de	não	advogar	 a	 centralização	da	agricultura,
educação,	 transporte	 e	 afins.	 Com	 sua	 pressuposição	 de	 que	 a	 propriedade
privada	seria,	na	verdade,	a	causa	da	luta	entre	as	classes	e	da	escravidão,	Marx
defendia	 as	 soluções	 centralizadas.	Atraindo	mais	 discípulos	 do	 que	muitos	 se
dão	 conta,	 tais	 noções	 se	 infiltraram	 em	 muitas	 sociedades.	 Os	 valores	 que
fundamentam	 essas	 noções	 têm	 consequências,	 a	 nosso	 ver,	 principalmente
adversas.
Os	valores	também	têm	consequências	em	outro	moderno	setor	comercial.
A	 florescente	 corrente	 de	 economia	 ecológica,	 com	 seu	 princípio	 básico	 de
atenuar	 quaisquer	 pecados	 percebidos	 contra	 o	 ambiente,	 também	 traz
suposições,	 valores	 e	 consequências	 para	 a	 tabela	 econômica.	 A	 economia
ecológica,	de	acordo	com	certo	escritor	“é	elaborada	com	base	em	três	princípios
fundamentais:	(1)	nada	é	mais	valioso	do	que	o	ambiente	natural,	tanto	em	nível
local	 quanto	 global,	 tal	 como	 existe	 hoje;	 (2)	 tanto	 a	 pressão	 do	 crescimento
populacional	quanto	o	aumento	das	demandas	de	consumo	estão	pressionando	o
planeta	em	direção	à	exaustão	de	recursos;	e	(3)	o	mundo	é	irreconhecivelmente
frágil”.16
Tais	 premissas,	 se	 implementadas	 no	 mundo	 comercial,	 estimulariam
medidas	 sólidas	 que	 consistentemente	 incidiriam	 em	 sobretaxas	 sobre	 a
produção.	O	aumento	do	 interesse	pelo	 ambiente	–	personificado	praticamente
ao	nível	de	um	ser	vivo	–	em	detrimento	do	benefício	social	da	produção	de	bens
e	serviços	disponíveis	quase	sempre	atinge	aqueles	com	a	menor	 renda.	Como
consequência,	 uma	 das	 implicações	 de	 tais	 éticas	 ambientais	 simples	 é	 que	 o
verde	pode	 se	 tornar	mais	 importante	do	que	os	pobres,	na	pior	das	hipóteses.
Ideias	 têm	 consequências,	 e	 os	 autores	 presentes	 se	 unem	 a	 João	 Calvino	 na
busca	por	chamar	a	atenção	para	isso	do	início	ao	fim.
Contudo,	 outra	 ilustração	 pode	 ser	 encontrada	 no	 pedido	 de	 auxílio
reflexivo	 à	 injeção	 de	 liquidez	 do	 governo	 durante	 muitas	 crises.	 Enquanto
terminamos	 este	 livro,	 existe	 muita	 pressão	 nos	 Estados	 Unidos	 para	 que	 o
governo	socorra	diversos	mutuários	hipotecários	importantes.	Superficialmente,
argumenta-se	que	a	omissão	de	tal	socorro	gerará	problemas	econômicos	ainda
mais	 severos.	Portanto,	 as	 suposições	que	 apoiam	a	política	de	 livramento	 são
que:	(1)	a	carta	patente	central	do	governo	inclui	a	responsabilidade	de	socorrer
entidades	privadas	cujo	colapso	possa	levar	a	futura	deterioração	econômica;	(2)
toda	queda	geral	de	preço	é	catastrófica;	 (3)	usuários	que	fizeram	empréstimos
excessivos,	 ou	mutuários	 que	 se	 estenderam	além	do	 limite,	 não	devem	 sofrer
todas	 as	 consequências	 por	 causa	 de	 seu	 comportamento;	 e	 (4)	 a	 tributação
posterior	 para	 financiar	 tais	 socorros	 deve	 ser	 assumida	 pelo	 governo	 sem
aprovação	 prévia.	 Com	 certeza,	 colegas	 interessados	 nessas	 questões	 podem
alegar	 uma	 circunstância	 incomparável	 a	 fim	 de	 justificar	 a	 intervenção	 do
governo,	porém,	os	analistas	intelectuais	também	devem	avaliar	a	magnitude	de
qualquer	crise	observada	de	maneira	diferente	caso	um	período	maior	da	história
seja	utilizado	como	base	de	comparação.	Esse	tipo	de	intervencionismo	revela	“a
errônea	convicção	de	que	a	intervenção	governamental	nas	questões	econômicas
pode	alcançar	com	êxito	os	resultados	desejados	mesmo	que	ainda	não	atrele	o
controle	 total	 caracterizador	 de	 um	 sistema	 socialista”.17	 Os	 programas
econômicos,	portanto,	não	são	tão	isentos	de	valores	como	alguns	imaginam,	e
muitas	 propostas	modernas	 são	mais	 remanescentes	 do	manifesto	 de	Marx	 do
que	 os	 princípios	 de	 livre	 mercado,	 que	 permitem	 aos	 economistas	 a
autocorreção	pela	 eliminação	daqueles	que	 injustamente	 se	 estendem	além	dos
limites,	 o	 que,	 por	 sua	 vez,	 cria	 uma	 oportunidade	 para	 novas	 empresas
operarem	com	eficiência.
O	 ponto	 de	 vista	 de	 uma	 pessoa	 a	 respeito	 do	 homem	 e	 da	 sociedade
também	 surge	 em	 determinadas	 aplicações	 econômicas.	 Posterior	 à	 teoria
pioneira	do	economista	Mohammed	Yunus,	ganhador	do	Nobel	da	Paz	em	2006,
muitos	 adiantamentos	 significativos	 têm	 sido	 financiados	 no	 decorrer	 dos
últimos	 20	 anos	 por	 grupos	 privados	 patrocinadores	 de	 microfinanciamento.
Dentre	 esses	 programas	 bem-sucedidos,	 um	 indica,	 claramente,	 que	 o	 capital
privado	 não	 é	 apenas	 necessário	 e	 valorizado	 nos	 países	 em	desenvolvimento,
mas	 também	que	os	empréstimos	funcionam	melhor	se	estiverem	atrelados	aos
diversos	tipos	de	responsabilidade	de	prestação	de	contas.	Como	de	costume,	as
organizações	 de	 microcrédito	 emprestam	 pequenas	 quantias	 de	 capital	 como
recurso	 inicial	 para	 um	 negócio	 produtivo	 para	 aqueles	 que	 não	 têm	 o	 valor
suficiente.	Dessa	 forma,	 tais	 empréstimos	 devem	 ser	 pagos	 depois	 de	 gerarem
rentabilidade	 e	 reutilizados	 na	 economia	 local.	 Esses	 empréstimos,	 então,	 são
concedidos	outra	vez	para	outros,	e	os	receptores	originais	têm	aprendido	muito
sobre	responsabilidade	e	empreendedorismo.	Deixar	de	exigir	o	pagamento	seria
instilar	expectativas	econômicas	erradas.
Além	 do	 mais,	 depois	 de	 muitas	 décadas	 de	 empréstimos	 feitos	 dessa
forma,	outro	componente-chave	da	responsabilidade	foi	desenvolvido	visto	que
alguns	 concessores	 de	 empréstimo	 agora	 consideram	 o	 grupo	 dos	 tomadores
como	uma	família	ou	uma	comunidade.	Os	concessores	descobriram	que,	se	oito
ou	dez	receptores	de	pequenos	empréstimos,	em	contextos	de	desenvolvimento,
estiverem	 ligados,	 formando	 uma	 unidade,uma	 pressão	 social	 visível	 se
desenvolve	a	fim	de	reduzir	a	taxa	de	inadimplência.	Em	outras	palavras,	se	uma
pessoa,	talvez,	deixar	de	pagar	um	empréstimo	de	uma	corporação	desconhecida
e	 remota,	 ou	 não	 tiver	 uma	 punição,	 é	 uma	 coisa.	 Entretanto,	 se	 oito	 ou	 dez
receptores	são	tratados	como	uma	unidade	associada	e	a	prospectiva	também	se
torna	 a	 inadimplência	de	 alguém	próximo,	mais	 incentivo	 é	 colocado	 sobre	os
receptores.	 Aqui,	 a	 existência	 de	 um	 grupo	 ou	 uma	 família	 torna	 o
empreendimento	mais	forte.18
O	Capitalismo,	portanto,	pressupõe	determinadas	condições	que	o	farão	dar
certo.	Sua	aderência	invisível	é	de	um	tipo	diferente	da	aderência	imperceptível
do	 estadismo,	 ambientalismo	 e	 outros	 sistemas	 macroeconômicos.	 O
Capitalismo	 quase	 sempre	 apresentará	 mais	 autoridade	 explanatória	 e	 mais
habilidade	 relacionada	 à	 produção.	 Se	 tais	 são	 valores	 fundamentais,	 logo,
ninguém	 deve	 se	 surpreender	 caso	 o	 Capitalismo	 seja	 visto	 mais	 como	 um
sistema	 de	 sucesso	 do	 que	 de	 fracasso.	 Embora	 o	 próprio	 Calvino	 não	 tenha
escrito	um	estudo	econômico	formal,	sugerimos	que	a	visão	de	mundo	envolvida
em	 seus	 textos	 e	 interpretações	 tenha	 valor	 mais	 duradouro	 do	 que	 muitos
modismos	econômicos	passageiros.	Um	teste	de	cinco	séculos	de	suas	ideias	em
relação	a	outros	sistemas	comerciais	e	econômicos	é	digno	de	nota.
Estamos	sendo	cautelosos	a	fim	de	evitar	fazer	um	endosso	furtivo	de	todos
os	 tipos	 e	 expressões	 do	 Capitalismo,	 pois	 estamos	 cientes	 de	 suas	 várias
deficiências.	 Sendo	 assim,	 continuamos	 cautelosos	 quanto	 aos	 abusos	 do
materialismo	dentro	dos	muitos	contextos	capitalistas.	O	próprio	Calvino	sabia	e
condenava	 tais	 tentações	 ou	 excessos	 em	 seu	 próprio	 ambiente	 do	 século	 16;
logo,	 não	 há	 nada	 novo	 debaixo	 do	 sol	 na	 disseminação	 de	 uma	 admoestação
similar.	 As	 tentações	 das	 pessoas	 de	 abusarem	 das	 margens	 de	 qualquer
paradigma,	ou	especificamente	de	 se	 engajarem	no	hedonismo	 libertino	dentro
da	construção	capitalista,	estão	presentes	(e	estavam	presentes	para	Calvino)	em
nível	 micro.	 Ainda	 assim,	 o	 Socialismo	 não	 torna	 um	 homem	 mais	 justo	 ou
capaz	 de	 resistir	 à	 tentação.	 Tampouco	 o	 Comunismo,	 o	 libertarianismo	 ou	 o
ambientalismo	 torna	 um	 homem	menos	 pecador.	A	 pecaminosidade	 humana	 é
uma	 questão	 macro	 que	 persiste	 por	 todos	 os	 sistemas	 e	 no	 decorrer	 de	 toda
história.	 Se	 a	 pecaminosidade	 do	 homem	 é	 um	 axioma	 do	 qual	 não	 se	 pode
escapar,	 então,	 é	 possível	 fazer	 referência	 a	 todos	 os	 sistemas	 econômicos	 ou
comerciais	 como	 “gaiolas	 de	 ferro”.	 É	 apenas	 uma	 questão	 de	 saber	 quais
gaiolas	 nos	 confinam	 e	 quais	 ídolos	 estão	 sendo	 adorados.	 O	 abuso	 do
Capitalismo	está	enraizado	nos	ídolos	do	materialismo	ou	da	ganância.	O	abuso
do	Socialismo	é	dedicado	ao	ídolo	da	hipocrisia	ou	da	idolatria	da	comunidade.
Avaliações	 honestas	 quanto	 às	 pressuposições	 devem	 também	 abordar,	 com
imparcialidade,	a	idolatria	onde	ela	ocorrer.
A	 Bíblia,	 claro,	 não	 ensina	 um	 sistema	 econômico	 completo	 e	 formal.
Contudo,	 ela	 aborda	 e	 faz	 alusão	 a	 determinadas	 realidades	 e	 políticas
econômicas.	Apresenta,	também,	uma	estrutura	moral	dentro	da	qual	o	comércio
pode	ser	lucrativo,	humano	e	caridoso.	Essa	é	a	razão	por	que	esta	obra	recorrerá
a	muitas	 passagens	 bíblicas	 –	 como	 o	 fez	 Calvino.	 Conforme	 destacarmos	 os
temas	 econômicos	 nas	 páginas	 abaixo,	 um	 desafio	 será	 o	 de	 perceber	 qual
sistema	comercial	se	adéqua	melhor	ao	ensinamento	bíblico,	desafio	aceito	por
Calvino	 e	 que	 levou	 a	 muitos	 comentários	 provenientes	 de	 sua	 pena	 e	 a
conselhos	 para	 seus	 companheiros.	 Independentemente	 de	 se	 concorda	 ou	 não
com	os	princípios	calvinistas,	é	inegável	que	a	cultura	do	comércio	moderno	foi
transformada	enquanto	Calvino,	atuando	em	um	ponto	de	transformação	crucial
da	 história,	 promovia	 debates	 intelectuais	 com	novas	 ideias.	 Faz-se	 necessário
um	entendimento	adequado	de	suas	contribuições.
Notas
1		Diversas	biografias	de	Calvino	estão	disponíveis	em	http://www.calvin500.org.	Uma	biografia	mais	curta
também	se	encontra	no	volume	complementar	do	autor	na	série	dos	500	anos	de	Calvino,	The	Legacy	of
John	Calvin:	His	 Influence	on	 the	Modern	World	 (Phillipsburg:	P&R	Publishing,	2008),	p.	43-81	 [Ver	A
vida	de	João	Calvino,	de	Alister	McGrath	e	Calvino,	Genebra	e	a	Reforma,	de	Ronald	Wallace,	ambos	da
Cultura	Cristã	(N.do	E.)].
2	 	 André	 Biéler,	 Calvin’s	 Economic	 and	 Social	 Thought	 (1959;	 reimp.,	 Genebra:	 World	 Alliance	 of
Reformed	Churches,	 2005),	 p.	 302	 [Publicado	 no	Brasil	 pela	Cultura	Cristã	 com	o	 título	O	Pensamento
econômico	e	social	de	Calvino	(N.	do	E.)].
3		Ibid.
4		Ibid.,	p.	453.
5		Citado	por	Sergey	N.	Bulgakov	em	“The	National	Economy	and	the	Religious	Personality”,	Journal	of
Markets	and	Morality	11,	nº	1	(Primavera,	2008):	p.	167.	(pub.	Orig.,	1909.)
6		Laurence	R.	Iannaccone,	“Introduction	to	the	Economics	of	Religion”,	Journal	of	Economic	Literature	36
(setembro,	1998):	p.	1474.
7		Jacques	Delacroix,	“A	Critical	Empirical	Test	of	the	Common	Interpretation	of	the	Protestant	Ethic	and
the	Spirit	of	Capitalism”	(dissertação	apresentada	nas	reuniões	da	International	Association	of	Business	and
Society,	Leuven,	Bélgica,	1972),	p.	4.	Citado	em	ibid,	p.	1474.
8		Rodney	Stark,	The	Victory	of	Reason:	How	Christianity	Led	to	Freedom,	Capitalism,	and	Western	Success
(Nova	York:	Random	House,	2005),	xiii,	38,	48,	passim.
9	 	 Biéler,	Calvin’s	 Economic	 and	 Social	 Thought,	 p.	 400.	 Biéler	 também	 acrescenta	 que	 “Calvino	 foi	 o
primeiro	 teólogo	 a	 remover	 o	 veto	 que	 a	 igreja	 cristã	 tinha,	 desde	 sua	 origem,	 à	 comercialização	 em
dinheiro”	(ibid.,	p.	402).
10	 	 Max	 Weber	 (1864-1920)	 foi	 um	 sociólogo	 alemão	 que	 publicou	 inúmeros	 e	 abrangentes	 estudos
sociológicos,	incluindo	uma	das	tentativas	mais	completas	de	analisar	o	impacto	do	Calvinismo	nos	setores
econômicos,	The	Protestant	Ethic	and	the	Spirit	of	Capitalism	(1905).	Weber	escreveu	que	a	obtenção	do
maior	 capital	 possível	 combinado	 com	 o	 menor	 nível	 de	 prazer	 possível	 era	 o	 summum	 bonum	 do
pensamento	 calvinista.	 Essa	 obra,	 que	 deve	 ser	 parabenizada	 por	 buscar	 explicar	 a	mudança	 sísmica	 no
comércio	 ocorrida	 depois	 de	Calvino,	 analisou	 vários	 setores,	 contrastando	 a	 efetividade	 do	 acúmulo	 de
capital	 entre	 os	 vários	 grupos	 de	 protestantes.	 Weber	 buscou	 analisar	 de	 maneira	 lógica	 as	 doutrinas
calvinistas	do	chamado,	da	providência,	da	frugalidade	e	o	uso	da	criação,	bem	como	explicar	por	que	os
calvinistas	pareciam	desabrochar	em	comunidades	 ricas.	Para	uma	 resposta	moderna	e	católica	 romana	à
tese	de	Weber,	consulte	Michael	Novak,	The	Catholic	Ethic	and	the	Spirit	of	Capitalism	(Nova	York:	The
Free	 Press,	 1993).	 Para	 uma	 resposta	 ortodoxa,	 consulte	 a	 dissertação	 pré-bolchevista	 de	 Sergey	 N.
Bulgakov	“The	National	Economy	and	the	Religious	Personality”,	p.	157-179.
11	 	Consulte,	 por	 exemplo,	 Paul	Heyne,	Are	Economists	Basically	 Immoral?	 (Indianápolis:	Liberty	Fund,
2008).
12		 John	E.	Stapleford,	Bulls,	Bears	&	Golden	Calves:	Applying	Christian	Ethics	 in	Economics	 (Downers
Grove:	InterVarsity	Press,	2002),	p.	35.
13		Filósofo	e	escritor	 alemão,	Karl	Marx	 (1818-1883)	é	citado	como	pai	do	Marxismo	e,	 com	base	nele,
várias	vertentes	do	Socialismo	e	do	Comunismo	foram	criadas.
14		John	E.	Roemer,	Free	 to	Lose:	An	Introduction	 to	Marxist	Economic	Philosophy	 (Cambridge:	Harvard
University	Press,	1988),	p.	2-3,	citado	em	Mark	Skousen,	The	Big	Three	in	Economics:	Adam	Smith,	Karl
http://www.calvin500.org
Marx,	and	John	Maynard	Keynes	(Armonk,	NY:	M.	E.	Sharpe,	2007),	p.	64-65.
15		Karl	Marx	e	Friedrich	Engels,	The	Communist	Manifesto,	Paul	M.	Sweezy	(trad.)	(Nova	York:	Monthly
Review	Press,	1964),	p.	40.
16		Victor	V.	Claar	e	Robin	J.	Klay,	Economicsin	Christian	Perspective:	Theory,	Policy,	and	Life	Choices
(Downers	 Grove:	 InterVarsity	 Press,	 2007),	 p.	 100.	 Embora	 alguns	 economistas	 contestassem	 tais
pressuposições,	os	sistemas	que	as	adotam	são	fundamentados	em	declarações	de	princípios	inalcançáveis.
17	 	 James	 P	 Gills	 e	 Ronald	 H.	 Nash,	 A	 Biblical	 Economics	 Manifesto:	 Economics	 and	 the	 Christian
Worldview	(Lake	Mary:	Creation	House,	2002),	p.	31.
18		Sou	agradecido	ao	Sr.	Guillaume	Taylor,	da	UBS	de	Genebra,	o	qual	 também	participa	da	diretoria	do
ECLOF,	 por	 suas	 informações	 quanto	 à	 explicação	 sobre	 a	 responsabilidade	 final	 que,	 certamente,	 se
adéqua	às	visões	da	natureza	humana	da	antiga	Genebra,	cuja	memória	desejamos	honrar	neste	livro.
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Criação
Para	começar,	qualquer	 compreensão	adequada	 sobre	Calvino	com	 relação	às
questões	de	dinheiro,	riqueza	e	comércio	deve	admitir	que	todas	essas	entidades
são	 criadas.	O	 reformador	 suíço	 sabia	que	Deus	 era	mais	 importante	do	que	 a
riqueza	material,	e	o	conselho	de	Calvino	pode	servir	para	orientar	investidores,
empresários	 e	 administradores,	 em	 qualquer	 século,	 a	 se	 distanciarem	 do
materialismo	inquietante.	O	dinheiro	é	–	e	sempre	será	–	uma	criação;	como	tal,
não	 deve	 ser	 adorado,	 superenfatizado	 ou	 ignorado.	 Assim	 como	 a	 própria
criação,	 ele	 tem	 seu	 lugar	 e	 é	 útil.	 Todavia,	 Calvino	 advertiu	 sobre	 a
possibilidade	de	ele	se	 tornar	um	ídolo	quando	visto	fora	desse	espaço	que	 lhe
foi	designado.
Calvino	 foi	explícito	ao	dizer	que	Mamom	não	devia	ser	servido.	Em	seu
comentário	 a	 respeito	 do	 texto	 de	 Mateus	 6.24,	 ele	 explicou	 bem	 o	 dilema:
“Onde	a	riqueza	detém	o	domínio	do	coração,	Deus	perdeu	sua	autoridade.	De
fato,	não	é	 impossível	que	aqueles	que	são	ricos	possam	servir	a	Deus;	porém,
qualquer	um	que	se	entregue	como	escravo	à	riqueza	deve	abandonar	o	serviço
de	Deus,	uma	vez	que	a	cobiça	nos	torna	escravos	do	diabo”.1
Em	 comentários	 anteriores,	 no	mesmo	 capítulo	 de	Mateus,	 ele,	 de	modo
perceptivo,	 descreveu	 como	 o	 diabo	 atormentou	 muitos	 com	 a	 adoração	 à
riqueza:
Os	 homens	 estão	 enlouquecendo	 com	 o	 desejo
insaciável	 pelo	 ganho.	 Cristo	 os	 acusa	 de	 insensatez
por	acumularem	bens	com	tamanho	cuidado	e,	depois,
entregarem	sua	felicidade	para	às	traças	e	à	ferrugem...
O	que	é	mais	irracional	do	que	colocar	seus	bens	onde
possam	perecer	ou	serem	roubados	pelos	homens?	Os
homens	cobiçosos,	na	verdade,	não	se	preocupam	com
isso.	 Eles	 trancam	 suas	 riquezas	 em	 cofres	 bem
seguros,	 porém,	 não	 conseguem	 impedir	 que	 sejam
expostas	 aos	 ladrões	 ou	 às	 traças.	 Estão	 cegos	 e
destituídos	do	são	 julgamento,	causando	a	si	mesmos
grande	 aflição	 e	 inquietação	 quanto	 ao	 acúmulo	 de
bens...	particularmente	quando	Deus	nos	concede	um
lugar	 no	 céu	 para	 depositarmos	 o	 tesouro	 e
gentilmente	nos	 convida	 a	 desfrutar	 das	 riquezas	que
jamais	perecem.2
Em	 vez	 de	 se	 envolver	 nas	 ciladas	 deste	 mundo,	 Calvino	 recomenda	 a
alternativa	 de	 que	 “a	 preocupação	 da	 pessoa	 seja	 em	 meditar	 sobre	 a	 vida
celestial”,	 tema	 que	 se	 repetiria	 ao	 longo	 de	 todo	 o	 seu	 trabalho.	 Ele	 advertiu
que,	 se	 o	 dinheiro	 se	 tornar	 o	 bem	 principal,	 “a	 cobiça	 predominará
imediatamente”.3	Calvino	sabia	que	–	de	um	modo	talvez	chocante	para	aqueles
que	 apenas	 refratam	 os	 pensamentos	 de	 Calvino	 por	 meio	 das	 lentes	 de	Max
Weber4	 ou	 de	 outros	 críticos	 hostis	 –	 “se	 fôssemos	 honesta	 e	 firmemente
convencidos	de	que	a	nossa	felicidade	está	no	céu,	seria	fácil	para	nós	calcar	o
mundo,	desprezar	as	bênçãos	terrenas	e	nos	elevarmos	em	direção	ao	céu”.5	Ele
era	 enfático	 ao	dizer	 que,	 embora	 a	 riqueza	 tivesse	 lugar	 como	bênção	 criada,
jamais	deveria	ser	confundida	com	o	Criador.
Além	do	mais,	sua	explicação	a	respeito	da	lei	frequentemente	ecoava	seu
ensinamento.	 Comentando	 sobre	 o	 primeiro	 mandamento,	 Calvino	 requer
exclusiva	 lealdade	 a	 Deus.	 Se	 alguém,	 de	 repente,	 for	 tentado	 a	 colocar	 a
aquisição	de	bens	 acima	de	Deus,	 tal	 pessoa	 é	 lembrada	que	Deus	 é	um	Deus
ciumento	e	não	tolera	lealdade	concomitante	a	ele	e	a	Mamom.	Mais	adiante,	em
referência	ao	oitavo	mandamento,	Calvino	adverte	contra	a	concupiscência,	que
poderia	 levar	 a	 uma	 variedade	 de	 fraudes.	 Visto	 que	 Calvino	 apoiou	 tão
intensamente	 a	 detenção	 de	 propriedade	 privada	 (o	 que	 está	 implícito	 nesse
mandamento),	 ele	 também	 se	 opôs	 a	 qualquer	 tomada	 ou	 confisco	 ilegal	 da
propriedade	 de	 outras	 pessoas,	 à	 medida	 que	 tal	 apropriação	 desleal	 é,
normalmente,	motivada	pela	avareza,	a	qual	por	si	só	é	uma	forma	de	idolatria
(Cl	3.5).
Em	 comentários	 semelhantes	 quanto	 ao	 décimo	 mandamento,	 Calvino
adverte	contra	colocar	nosso	coração	na	propriedade	de	outra	pessoa	ou	buscar
“o	ganho	em	detrimento	da	perda	e	dificuldade	do	outro”.6	Não	apenas	a	avareza
foi	 condenada	 nesse	 mandamento,	 mas	 Calvino	 percebeu	 que,	 por	 meio	 dele,
Deus	 buscou	 “colocar	 uma	 restrição	 aos	 desejos	 maus	 antes	 de	 eles
prevalecerem”.7	Ele	comparou	a	cobiça	e	outras	tentações	a	“muitas	hélices”	que
tornam	 as	 paixões	 humanas	 ainda	 maiores.	 Posicionado	 no	 estágio	 inicial	 do
desenvolvimento	 econômico	moderno,	Calvino	 certamente	 sabia	 que	 a	 riqueza
tem	suas	ciladas	se	as	inclinações	interiores	de	alguém	não	estiverem	ordenadas
de	maneira	correta.
Os	 comentários	 de	 Calvino	 sobre	 o	 jovem	 rico	 do	 texto	 de	 Lucas	 18
refletem	o	mesmo	princípio.	Não	basta	meramente	 se	despojar	 dos	bens,	 (“ele
que	priva	outras	pessoas,	incluindo	a	si	mesmo,	do	uso	do	dinheiro,	não	merece
louvor”);	a	pessoa	também	deve	utilizar	a	riqueza	para	a	glória	de	Deus	e	amor
ao	 próximo.	A	 respeito	 dessa	 passagem,	Calvino	 observou	 que	 “renunciar	 aos
bens	não	é	por	si	só	algo	virtuoso,	mas,	pelo	contrário,	é	uma	ambição	vazia”.
Referindo-se	a	Crates	de	Tebas,*	da	história	secular,	Calvino	ainda	observou	que
o	jovem	rico	foi	chamado	para	ajudar	outras	pessoas	com	sua	renda	como	um	ato
de	amor:	“E	Cristo	também	está	aconselhando-o	a	não	apenas	vender,	mas	a	ser
liberal	na	ajuda	aos	pobres”.8
Calvino	 acreditava	 que	 Cristo	 estava	 ensinando	 seus	 ouvintes	 a	 não
adorarem	o	dinheiro	ou	os	bens.	Ele	afirmou	que	tal	ensinamento	adverte	tanto
ricos	quanto	pobres	a	confiarem	em	Deus	–	os	ricos	são	admoestados	quanto	ao
risco	das	riquezas,	e	os	pobres	são	chamados	a	se	conformarem	com	sua	sorte	–
pois,	assim,	cada	um	pode	servir	a	Deus.	Apesar	de	Calvino	ter	ciência	de	que	os
bens,	por	si	só,	não	impedem	a	obediência	a	Deus,	ele	percebeu	que,	em	vista	da
depravação	incurável	da	humanidade,	são	raros	aqueles	que	têm	com	abundância
evitarem	serem	intoxicados	pela	riqueza.9
A	 partir	 de	 sua	 leitura	 meticulosa	 das	 Escrituras,	 Calvino	 percebeu	 que
Deus	não	quer	que	os	homens	adorem	a	riqueza	ou	qualquer	coisa	relacionada	a
ela.	Ele	lhes	deu	a	capacidade	de	utilizá-la,	porém,	se	o	ídolo	inventado,	sempre
presente,	 da	 mente	 humana	 confunde	 o	 Criador	 com	 a	 criação,	 ele
inevitavelmente	 conduz	 ao	 desastre.	 Enquanto	 meditava	 sobre	 os	 capítulos
iniciais	 da	Bíblia,	 Calvino	 observou	 uma	 distinção	 categórica	 entre	 o	Criador,
que	 é	 sempre	 sagrado,	 e	 todas	 as	 coisas	 criadas.	 Em	 termos	 de	 questões
econômicas	 ou	 administração,	 o	 Senhor	 designou	 pessoas	 para	 cuidar,	 em
primeiro	 lugar,	 do	 jardim,	 e	 depois,	 por	 consequência,	 de	 toda	 a	 criação.	Vale
ressaltar	que	 tal	atribuição	 foi	dada	ao	homem10	 em	seu	estado	puro,	anterior	à
queda,	e,	portanto,	essa	atribuição	não	tem	parte	na	maldição	imposta	a	ela.	Em
outras	 palavras,	 foi	 algo	 positivo	 para	 o	 homem	 cuidar	 de	muitos	 aspectos	 da
criação	–	animais,	jardim,	outras	coisas	e	a	riqueza.
Contudo,	 o	 plano	 de	Deus	 não	 é	 que	 o	 dinheiro	 seja	 adorado	 ou	 servido.
Ninguém,	como	Jesus	diria	mais	adiante,	pode	servir	a	dois	senhores.	A	pessoa
ou	serve	ao	dinheiro	como	criador	ou	o	utiliza	para	servir	aoCriador;	esses	dois
propósitos	 são	 mutuamente	 excludentes.	 Calvino	 entendia	 a	 diferença,	 e	 seus
discípulos	colocaram	essa	fé	econômica	em	prática	em	muitos	setores.
Embora	 seja	 algo	extremo	afirmar	que	Calvino	 tenha	criado	os	princípios
do	 desenvolvimento	 da	 riqueza	 de	 novo,	 historicamente	 é	 real	 que	 tal
desenvolvimento,	 por	 muitos	 séculos	 depois	 da	 morte	 do	 reformador,	 parecia
acontecer,	de	forma	misteriosa,	por	onde	quer	que	os	calvinistas	passassem.	Os
secularistas	podem	 tentar	 justificar	 tal	 fenômeno,	mas	preferimos	compreender
por	 que	 e	 como	 o	 Calvinismo	 fomentou	 o	 tipo	 de	 cultura	 comercial	 dessa
maneira.
Calvino	 e	 seus	 discípulos	 comerciais	 sabiam	 que	 o	 Antigo	 Testamento
(daqui	 por	 diante,	AT)	 estava	 repleto	de	 sabedoria	 sobre	o	 tema	da	 riqueza.	O
livro	 de	 Provérbios,	 por	 exemplo,	 tem	 muito	 a	 dizer	 sobre	 esse	 tópico.	 Para
começar,	ele	ensina	que	o	Senhor	pode	conceder	bens,	porém,	sua	aquisição	por
meios	 ilegais	 é	 pecaminosa.	 Ademais,	 alguns	 ricos	 podem	 exasperar-se:	 “Os
tesouros	 da	 impiedade”,	 escreveu	 Salomão,	 “de	 nada	 aproveitam”	 (Pv	 10.2);
todavia,	“a	mão	dos	diligentes	vem	a	enriquecer-se”	(Pv	10.4).	O	rendimento	dos
justos	ajuda	sua	vida	(Pv	10.16),	e	“a	bênção	do	SENHOR	enriquece,	e,	com	ela,
ele	 não	 traz	 desgosto”	 (Pv	 10.22).	 Uma	 pessoa	 pode	 até	 ser	 inescrupulosa	 e
enriquecer;	 entretanto,	 a	 desumanidade	 é	 contrastada	 com	 virtudes	 como	 a
benevolência	 (Pv	 11.16).	 O	 acúmulo	 também	 é	 condenado	 (Pv	 11.26),	 mas	 o
doar	a	outras	pessoas	pode	conduzir	a	um	ganho	maior,	refrigério	e	bênçãos	(Pv
11.24-26).
Os	 descendentes	 puritanos	 de	 Calvino	 observaram	 o	 conselho	 sobre
trabalho	e	planejamento	comercial	presente	no	texto	de	Provérbios	12.11,	o	qual
defende	o	trabalho	na	terra	em	vez	da	perseguição	de	fantasias	ou	especulações.
O	texto	de	Provérbios	13	também	adverte	contra	a	pretensão	(v.	7)	e	emite	uma
admoestação	quanto	a	 ser	dominado	por	 suas	próprias	 riquezas	ou	bens	 (v.	8).
Além	disso,	algum	rendimento	pode	vir	acompanhado	de	perturbação	(Pv	15.6).
As	práticas	comerciais	calvinistas	assimilaram	tais	ensinamentos	em	uma	cultura
corporativa	distinta.
Os	leitores	dessa	sabedoria	do	AT	também	aprendem	que	o	ganho	desonesto
tende	 a	minguar,	 enquanto	 o	 acúmulo	 gradual	 de	 bens,	 normalmente,	 faz	 tais
posses	 aumentarem	 cada	 vez	 mais	 (Pv	 13.11).	 A	 prosperidade	 pode	 ser	 uma
recompensa	 para	 aqueles	 que	 servem	 corretamente	 a	 Deus	 (Pv	 13.21),	 e	 até
mesmo	o	homem	pobre,	se	trabalhar	a	terra	que	lhe	é	dada,	pode	fazer	com	que
ela	lhe	dê	“mantimento	em	abundância”	(Pv	13.23).	É	um	sinal	de	bondade	do
homem	 que	 “deixa	 herança	 aos	 filhos	 de	 seus	 filhos”	 (Pv	 13.22),	 porém,	 de
acordo	 com	 o	 contraste	 na	 segunda	 metade	 desse	 versículo,	 “a	 riqueza	 do
pecador	 é	 depositada	 para	 o	 justo”.	 A	 distribuição	 da	 providência	 é	 contínua.
Casas	 e	 riquezas	 são	 herdadas	 da	 parte	 do	 Senhor	 (Pv	 19.14).	 Calvino	 e	 seus
discípulos	pegaram	esses	 truísmos	e	os	aplicaram	às	práticas	do	comércio	e	da
economia	em	evolução	em	seus	dias.
Novamente,	pode-se	identificar	o	pressuposto	do	lucro	referente	à	ética	do
comércio	 calvinista	 no	 texto	de	Provérbios	14.23-24,	 o	qual	 promete	que	 todo
trabalho	 proveitoso	 gera	 algum	 tipo	 de	 rendimento.	 Em	 contrapartida,	 a	mera
discussão	ou	até	o	planejamento	elaborado	destituído	de	ação	e	trabalho	“levam
à	penúria”	(Pv	14.23).	A	riqueza	até	pode	proporcionar	certa	proteção	ou	motivo
para	 admiração	 social,	 enquanto	 a	 insensatez	da	preguiça	 e	do	 comportamento
não	produtivo	“não	passa	de	estultícia”	(Pv	14.23).
Calvino	também	entendia	que	oprimir	o	pobre	com	o	objetivo	de	aumentar
a	riqueza	pessoal	era	moralmente	errado	(Pv	22.16)	e	uma	pessoa	não	deve	levar
a	outra	à	exaustão	em	busca	de	fortuna	(Pv	23.4-5).	Na	realidade,	a	fascinação
pela	 riqueza	 deve	 ser	 evitada.	 Em	 outras	 palavras,	 a	 pessoa	 pode	 cuidar	 da
fortuna,	mas	não	se	apaixonar	por	ela,	pois,	como	lemos	em	Provérbios	27.24:
“as	 riquezas	 não	 duram	 para	 sempre,	 nem	 a	 coroa,	 de	 geração	 em	 geração”.
Além	disso,	a	pessoa	deve	evitar	se	fatigar	a	fim	de	obter	um	status	ou	fama	que
o	Senhor	não	planejou	dar.	Aceitar	 tais	princípios	 tem	 levado	muitas	nações	 e
famílias	a	conservarem	a	riqueza.	A	palavra	de	Deus,	como	era	de	conhecimento
de	Calvino,	tem	muito	a	nos	dizer	sobre	esse	assunto.	Em	resumo,	a	aplicação	da
sabedoria	do	AT	apresenta	as	seguintes	premissas	em	relação	ao	comércio:
	
1.	 Os	tesouros	da	impiedade	de	nada	aproveitam.
2.	 A	riqueza	em	si	não	é	condenada.
3.	 A	riqueza	tem	uma	vantagem	limitada	de	longo	alcance,	mas	não	deve	ser	idolatrada.
4.	 A	riqueza	não	dura	para	sempre.
5.	 A	obediência	piedosa	ou	a	justiça	são	mais	valiosas	do	que	a	aquisição	de	bens.
Ao	 comparar	 o	 ensinamento	 de	 Jesus	 presente	 em	Mateus	 6	 (o	 qual	 nos
adverte	 a	 não	 acumular	 tesouros	 corruptíveis)	 tanto	 com	 a	 sabedoria	 do	 AT
relacionados	 à	 riqueza	 quanto	 com	 alguns	 dos	 comentários	 de	 Calvino,	 um
harmonioso	coro	pode	ser	ouvido.
Ademais,	todas	essas	vozes	do	coro	afirmam	que	a	riqueza	é	concedida	por
Deus	 e	 pode	 ser	 utilizada	 de	 maneira	 bastante	 produtiva	 para	 intensificar	 a
ordem	criada.	Mais	uma	vez,	 a	 distinção	 entre	 a	 utilização	 correta	 e	 errada	da
riqueza	é	o	que	faz	a	diferença	para	Calvino,	o	qual,	por	certo,	poderia	relatá-la
melhor	do	que	muitas	das	inúmeras	pessoas	abastadas	registradas	na	Bíblia	que
nunca	receberam	qualquer	repreensão	da	parte	de	Deus	por	possuir	ou	acumular
bens.	Dentre	elas	estão:
	
Abraão,	 cujas	 posses	 estão	 registradas	 em	Gênesis	 12.5	 e	 que,	 de	 acordo	 com	o	 texto	 de	Gênesis
14.14,	teve	mais	de	300	homens	treinados	nascidos	em	sua	casa.	Ele	deve	ter	tido	bastante	trabalho
para	 treinar	 318	 soldados	 (e,	 muito	 provavelmente,	 sua	 família	 também).	 Esse	 era	 um	 homem
abastado.
José,	que,	posteriormente	ascendeu	a	uma	posição	de	grande	 importância	e	prosperidade	no	antigo
Egito.	Ele	serviu	a	Deus	por	meio	da	aquisição	econômica	e	administração.
Salomão,	o	qual,	sem	dúvida,	foi	a	pessoa	mais	rica	do	mundo	em	sua	época.
Nicodemos	e	José	de	Arimateia,	que	se	tornaram	seguidores	de	Cristo.
Maria	 e	Marta,	 que,	 de	 acordo	 com	 o	 livro	 de	Atos,	 usaram	 sua	 casa	 grande	 para	 as	 reuniões	 da
igreja.
Barnabé,	um	herói	não	valorizado	do	Novo	Testamento,	que	doou	as	terras	da	família	para	a	causa	do
evangelho.
Assim	como	o	AT,	o	Novo	Testamento	(daqui	por	diante,	NT)	adverte	que	o
amor	ao	dinheiro	é	a	 raiz	de	 todos	os	males	 (1Tm	6.10).	Ainda	assim,	quando
alguém	 examina	 as	 Escrituras	 ou	 as	 obras	 de	 Calvino,	 pode-se	 claramente
perceber	que	a	riqueza	se	faz	presente	como	criação	providencial	da	parte	do	Pai.
Ela	 pode	 também	 se	 tornar	 (imediata	 ou	 gradualmente)	 um	meio	 pelo	 qual	 o
Senhor	prova	a	lealdade	do	coração	de	uma	pessoa.	O	materialismo,	ao	contrário
do	Calvinismo,	não	reconhece	a	relação	apropriada	entre	riqueza,	como	criação,
e	Deus,	como	o	Criador.
Deus	pode	abençoar	uma	pessoa	com	bens	ou	pode	optar	por	não	fazê-lo.
Se	alguém	é	muito	abençoado,	então,	junto	com	a	bênção	vem	o	chamado	para
compartilhar	com	generosidade	e	trabalhar	para	a	glória	de	Deus,	não	para	ceder
a	uma	ambição	egoísta.	Portanto,	a	prosperidade	requer	um	espírito	de	servidão
ao	Senhor	e	gerenciamento	de	suas	dádivas	a	fim	de	glorificá-lo.	Além	disso,	a
utilização	 errônea	 da	 riqueza	 pode	 refletir	 valores	 teológicos	 ou	 morais
insuficientes.	 Se	 a	 pessoa	 se	 esforça	 exclusivamente	 para	 economizar	 e	 nunca
desfrutar,	ela	não	está	aceitando	o	chamado	para	glorificar	ao	Pai	por	meio	do
uso	 do	 dinheiro.	 De	 semelhante	 modo,	 as	 pessoas	 que	 são	 consumidas	 pelas
dívidas	 e	 continuamente	 vivem	 além	 de	 seus	 recursos	 demonstram	 a	 falta	 de
gerenciamento	 e	 responsabilidade.	 Ambos	 os	 padrões	 representam	 um
desequilíbrio	 de	 atitude	 da	 pessoa	 dianteda	 fartura.	A	 visão	 de	Calvino	 sobre
riqueza,	dádiva	e	fartura	determina	a	maneira	como	as	pessoas	vivem	dentro	dos
cenários	econômicos.	Não	se	trata	de	uma	teologia	abstrata,	mas	de	uma	teologia
pastoral	com	conteúdo	macroeconômico.
Embora	a	riqueza	deva	receber	o	respeito	apropriado	e	ser	tratada	segundo
o	chamado	de	Deus,	ela	 jamais	deve	ser	adorada	ou	 tratada	como	divina.	Pelo
contrário,	o	plano	é	que	seja	utilizada	como	uma	ferramenta	para	a	glória	do	Pai
e	benfeitoria	do	homem.	Sendo	assim,	o	dinheiro,	a	riqueza	ou	as	finanças	são
sempre	 uma	 ferramenta	 –	 sempre	 uma	 criação,	 nunca	 o	Criador	 –	 e	 são	 úteis
para	 os	 fins	 designados	 por	 Deus.	 O	 despenseiro	 sábio	 irá	 procurar	 manter	 a
riqueza	em	seu	lugar	–	jamais	se	impressionando	com	sua	atração,	mas	sempre
utilizando-a	para	servir	a	Deus,	sua	criação,	a	 família	e	a	sociedade.	A	riqueza
não	é	 eterna,	 tampouco	é	um	 identificador	da	bênção	de	Deus.	O	Senhor	dá	e
tira.	A	riqueza	pode	ser	destruída	com	a	mesma	facilidade	com	que	foi	criada.
Em	 seu	 comentário	 a	 respeito	 do	 livro	 de	 Gênesis,	 Calvino	 declara	 que,
antes	da	criação,	havia	somente	o	vazio	e	a	deformidade.	Consequentemente,	“o
mundo	não	é	eterno”,	mas	foi	criado	por	Deus.11	Ele	pegou	o	caos	sem	forma,	o
vazio,	e	se	impôs	nele	para	criar	a	beleza	e	a	habitação.	Assim,	em	sua	primeira
obra	revelada,	Deus	é	visto	como	artesão	–	“o	maravilhoso	artífice”	(p.	85,	105),
o	qual	pega	algo	naturalmente	inútil	e	o	utiliza	para	algo	de	grande	proveito.	O
Pai	pega	uma	massa	instável	e	a	transforma	em	uma	biosfera	onde	o	homem,	sua
principal	criação,	pode	se	desenvolver.	O	propósito	da	criação	é	servir	ao	homem
e	 sustentá-lo,	 propósito	 esse	 com	 grandes	 implicações	 para	 a	 economia	 e
ecologia.	Além	do	mais,	Calvino	observou	que	Deus	desenvolveu	a	criação	sem
necessitar	ou	depender	de	recursos	preexistentes	(por	exemplo,	ele	não	precisou
do	 sol	 para	 criar	 a	 luz).	 O	 Criador,	 para	 Calvino,	 estava,	 originalmente	 –	 e
sempre	está	–	acima	de	sua	criação.	E,	na	conclusão	de	cada	período	da	criação,
Deus	 revelou	 sua	aprovação	a	 cada	dia	 com	a	 frase:	 “E	viu	Deus	que	 isso	era
bom”.	 A	 criação,	 tanto	 como	 um	 todo	 quanto	 em	 cada	 uma	 de	 suas	 partes
constituintes,	 é	 boa.	 Calvino	 colocou	 da	 seguinte	 maneira	 ao	 fazer	 um
comentário	 sobre	 o	 versículo	 final	 de	 Gênesis	 1:	 “Em	 cada	 dia,	 uma	 simples
aprovação	era	dada.	Mas	agora,	depois	de	a	arte	do	mundo	ter	sido	concluída	em
todas	as	 suas	partes,	 e	 ter	 recebido...	o	 toque	 final,	 ele	a	declara	perfeitamente
boa,	a	fim	de	que	saibamos	que,	na	simetria	das	obras	de	Deus,	existe	a	perfeição
absoluta	à	qual	nada	pode	ser	acrescido”	(p.	100).
Posteriormente,	 Calvino	 mencionou	 que	 Deus	 acrescentou	 “um	 princípio
em	desenvolvimento”	(p.	82)	para	a	então	formada	criação.	Devido	à	sua	própria
lei	da	natureza	criada,	Deus	também	criou	as	árvores	e	as	ervas	antes	do	sol	e	da
lua.	 Segundo	 observação	 do	 reformador	 de	 Genebra,	 com	 o	 intuito	 de	 que
“aprendêssemos	 a	 remeter	 todas	 as	 coisas	 a	 ele,	Deus	não	 fez	uso	do	 sol	 e	 da
lua”	 (p.	 82).	 Calvino	 percebeu	 que	 o	 homem	 poderia	 facilmente	 atribuir	 à
criação	 um	 poder	 autógeno	 e	 desejou	 contrapor-se	 ao	 erro	 logo	 no	 início.
Segundo	seu	argumento,	“porque	somos	acostumados	a	considerar	parte	de	sua
natureza	qualidades	que	se	originam	de	outro	lugar”	(p.	82),	foi	necessário	que
Deus,	em	sua	própria	criação,	demonstrasse	claramente	para	a	humanidade	que
suas	criações	iniciais	foram	totalmente	dependentes	dele,	não	de	outras	criações.
Isso	prova,	segundo	a	opinião	dele,	“que	a	primeira	causa	é	autossuficiente	e	as
causas	intermediárias	e	secundárias	possuem	apenas	o	que	tomaram	emprestado
da	 primeira	 causa”	 (p.	 82).	 Logo	 no	 início	 de	 seu	 comentário	 de	Gênesis,	 ele
adverte	contra	pensar	que	a	criação	de	Deus	fosse	tão	pobre	e	imperfeita	a	ponto
de	precisar	ser	“assistida	por	causas	secundárias”	(p.	82).	Deus	age,	sem	dúvida,
por	meio	de	suas	criaturas,	mas	não	“como	se	precisasse	de	ajuda	externa,	mas
porque	é	seu	prazer”	(p.	82).
Ao	longo	do	caminho,	Calvino	também	ensinou	que	várias	partes	da	criação
foram	 “dotadas	 com	 o	 poder	 da	 propagação”	 (p.	 83),	 característica	 que,	 mais
adiante,	será	importante	no	momento	em	que	considerarmos	a	multiplicação	da
riqueza.	 Se	 a	 riqueza	 é	 uma	 criação,	 não	 há	 razão	 pela	 qual	 não	 possa	 render
frutos	e	multiplicar.	Todavia,	assim	como	“o	sol	ainda	é	servo,	e	a	 lua,	criada”
(p.	87),	 também	a	 riqueza,	como	criação,	outra	vez	é	designada	para	 servir	ou
assistir,	nunca	para	ser	adorada	ou	confundida	com	o	Criador.
O	homem	como	criatura	e	criador
Umas	 das	 características	 singulares	 do	 homem	 é	 o	 fato	 de	 ele	 ser
conclamado,	em	Gênesis	1,	como	tendo	sido	criado	à	 imagem	de	Deus	(imago
dei).	Apesar	de	 alguns	 teólogos	 se	devotarem	 intensamente	 à	 explicação	desse
conceito,	uma	coisa	é	incontestável:	dentro	do	contexto	de	Gênesis	1,	ser	criado
à	imagem	de	Deus,	com	certeza,	significa	que	o	homem	é	capaz	de	criar	e	hábil
para	a	criatividade.	Moldado	à	maneira	de	Deus,	o	homem	pode	pegar	algo	sem
forma	 e	 convertê-lo	 em	 algo	 com	 forma;	 ele	 consegue	 pegar	 uma	 coisa	 sem
utilidade	 e	 transformá-la,	 com	 diligência,	 em	 algo	 de	 grande	 utilidade.	 Esse
aproveitamento	 da	 criação	 para	 utilização	 dos	 seres	 humanos	 é	 uma	 parte
importante	 da	 imago	dei.	 Essa	 capacidade	 não	 só	 dá	 ao	 homem	dignidade	 em
termos	de	talento	artístico,	mas	também	lhe	permite	usar	a	criação	para	produzir
riqueza	e	promover	seu	próprio	conforto.
A	atividade	empresarial	é	uma	expressão	de	criatividade.	Deus,	claro,	não
pretendia	 que	 o	 homem	aceitasse	 a	 criação	 e	 simplesmente	 a	 deixasse	 em	 seu
estado	nativo	–	mesmo	estando	ela	 repleta	de	beleza	e	perfeição.	Sua	 intenção
era	que	o	homem	aumentasse	o	que	 lhe	havia	 sido	dado	originalmente.	Adam
Smith,	mais	adiante,	um	economista	criado	na	Escócia	absolutamente	calvinista
de	 seus	 dias12,	 colocou	 da	 seguinte	 maneira:	 “Os	 bens	 que	 cada	 homem	 tem
representam	seu	próprio	esforço,	como	fundamento	original	de	todas	as	demais
posses,	e	são,	portanto,	sagrados	e	invioláveis”.13
Apesar	 de	 seu	 espírito	 inventivo,	 não	 se	 pretendia	 que	 o	 homem	 criasse
falsos	 deuses	 ou	 utilizasse	 sua	 criatividade	 para	 distorcer	 a	 imagem	 de	 Deus.
Comentando	sobre	o	texto	de	Isaías	46.5,	Calvino	observou	que	Deus	“tem	sua
glória	 roubada	 quando	 é	 comparado	 a	 coisas	 mudas	 e	 inconscientes”.	 Além
disso,	 em	 referência	 a	 Jeremias	 10.6,	 Calvino	 descreveu	 a	 idolatria	 como
“loucura”,	 “embriaguez”,	 “insensatez	 desmedida”	 e	 “vergonhosa”,	 salientando
que	 “os	 mais	 ricos	 adoravam	 um	 deus	 de	 madeira,	 enquanto	 desprezavam	 o
artífice”.	Calvino	chegou	a	se	referir	à	idolatria	como	algo	que	conduz	“a	ilusões
sem	proveito”	quando	explicou	o	texto	de	Jeremias	2.8.
Reconhecendo	 a	 premissa	 de	 que	 o	 homem	 é	 feito	 à	 imagem	 de	Deus,	 a
maioria	dos	sistemas	econômicos	não	discutiria	a	afirmação	de	que	o	homem	é	o
criador	ou	propenso	a	criar.	Todavia,	o	método	da	criação,	o	domínio	da	criação
e	 os	 benefícios	 subsequentes	 da	 criação	 são	 assuntos	 de	 discussão	 e
discordância.	A	partir	dessas	diferenças	das	várias	teorias	econômicas,	nascem	as
aplicações	 dentro	 de	 nações,	 sistemas	 legais,	 mercados	 e	 práticas	 culturais
contrários	 à	 visão	 de	 Calvino	 referente	 à	 criação.	 O	 ideal	 é	 um	 ambiente
econômico,	 legal	 e	 cultural	 que	 incentive	 a	 criação,	 valorize-a	 e	 proteja	 seus
benefícios	e	recompensas,	além	de	permitir	que	o	mercado	julgue	a	relevância	e
validade	da	metodologia	da	criação.	Contudo,	é	claro	que	nem	todos	os	sistemas
econômicos	favorecem	esse	ideal.
Fundamentada	em	diversas	teorias	socialistas,	por	exemplo,	está	a	crença	de
que	a	propriedade	privada	não	deve	continuar	sendo	privada.	Na	realidade,	um
dos	 princípios	 fundamentais	 da	 obra	 Das	 Kapital	 de	 Marx	 é	 a	 aboliçãoda
propriedade	 privada.	A	 propriedade,	 argumentava	Marx,	 deve	 ser	 um	 ativo	 do
Estado.	 Inicialmente	 referindo-se	 à	 propriedade	 privada	 física	 –	 terra	 –	 esse
conceito	migrou	 no	 decorrer	 do	 tempo	para	 incluir	 a	 propriedade	 intelectual	 e
outros	produtos	 criados.	Na	 segunda	metade	do	 século	19,	 a	 economia	 agrária
era	o	foco	principal,	sendo	que	quem	possuía	terras	dominava	as	outras	pessoas.
Como	uma	ilustração	moderna,	entretanto,	determinados	sistemas	legais	em	todo
o	mundo	não	protegeram	totalmente	os	direitos	sobre	as	patentes	e	propriedade
intelectual.	Os	criadores	correm	o	risco	de	perder	alguns	ou	até	mesmo	a	maioria
dos	 benefícios	 de	 sua	 criação,	 que	 pode	 ser	 inventada	 por	 outra	 empresa	 ou
indústria	 em	 outro	 país.	 Novos	 medicamentos	 que,	 talvez,	 tenham	 custado
milhões	 de	 dólares	 para	 serem	 pesquisados,	 projetados,	 compostos,	 testados	 e
produzidos	 podem	 passar	 pelo	 processo	 de	 engenharia	 reversa,	 realizado	 por
empresas	em	países	sem	restrições,	a	um	custo	mínimo	em	relação	ao	custo	total
do	 desenvolvimento	 e,	 então,	 podem	 ser	 reproduzidos	 sem	 consequências
provenientes	desse	sistema	jurídico	nacional.
Em	 debate	 está,	 também,	 o	 processo	 de	 criação	 e,	 algumas	 vezes,	 sua
natureza	 destrutiva.	No	 decorrer	 da	 história,	 invenções	 e	 novos	 processos	 têm
impactado,	 em	 curto	 prazo,	 os	mercados	 de	 trabalho	 e	 de	 capital.	 Na	 criação,
descrita	 em	Gênesis,	 e	 por	 toda	 a	Bíblia,	 as	 ações	 de	Deus	 quase	 sempre	 são
catastróficas,	 mudando	 paradigmas	 e	 alterando,	 de	 maneira	 radical,	 as
hierarquias,	 desalojando	 pessoas	 e	 causando	 rompimentos.	 Falando	 em	 termos
de	negócio,	a	história	da	criação	é	o	relato	de	um	administrador	criando	novas
metodologias	de	produção,	tornando	ativa	uma	nova	mão	de	obra	e	introduzindo
mercados	 concorrentes	 onde,	 anteriormente,	 havia	 um	 ambiente	 benéfico	 e
estável.	Essa	destruição	criativa14	está	evidente	 também	nos	episódios	de	Noé	e
Moisés,	no	êxodo	e	assim	por	diante	–	até	a	vinda	de	Cristo	na	terra.	A	criação
dentro	do	ciclo	comercial	é	um	caso	de	imago	dei.	O	homem,	seguindo	os	passos
de	seu	Criador,	também	cria;	e,	quando	o	faz,	o	processo	de	criação	tem,	quase
sempre,	efeitos	exponenciais.
A	ação	criativa,	muitas	vezes,	pode	trazer	–	e	trará	–	consigo	os	custos.	O
dilúvio,	 claro,	matou	 praticamente	 toda	 a	 humanidade;	 o	 êxodo	 desalojou	 um
povo	 inteiro	 por	 40	 anos,	 forçando	 uma	 geração	 de	 fabricantes	 de	 tijolos	 e
trabalhadores	e	operários	a	novas	ocupações;	 a	vida	e	morte	de	Cristo	 fizeram
milhares	de	pessoas	mudarem	de	trabalho	(por	exemplo,	Paulo,	Pedro	e	André),
alterarem	seus	padrões	de	vida	(por	exemplo,	Zaqueu),	mudarem-se	e	até	mesmo
perecerem.
Há	 pouco	 tempo,	 o	 advento	 do	 refinamento	 de	 petróleo	 substituiu	 uma
indústria	 inteira	 de	 navios	 baleeiros,	 a	 criação	 de	 maquinários	 agrícolas
transformou	 economias	 e	 a	 pólvora	 derrubou	 formas	 de	 governo.	 Todavia,
existem	 práticas	 econômicas	 hoje	 que	 refutam	 os	 custos	 da	 criação	 a	 fim	 de
evitar	 a	 dor.	 Por	 exemplo,	 alguns	 sindicatos	 de	 professores	 estão	 lutando	 para
excluir	 a	 destruição	 criativa	 das	 chamadas	 charter	 schools**	 de	 seu	 ramo	 de
atividade,	enquanto	a	Associação	dos	corretores	dos	Estados	Unidos	está	lutando
para	 excluir	 as	 agências	 que	 oferecem	 descontos	 online	 do	 ramo	 deles.	 O
subterfúgio	 dos	 custos	 da	 criação	 não	 está	 limitado	 apenas	 aos	 produtos	 ou
serviços	 tangíveis;	 estende-se	 também	 ao	 fluxo	 livre	 de	 informações,	 ideias	 e
comentários.	 Em	 um	 artigo	 intitulado	 “Olympics	 preview:	 Beijing’s	 Internet
censorship,	 surveillance”	 [prévia	 das	 olimpíadas:	 fiscalização	 e	 censura	 da
Internet	 em	 Pequim]	 (25	 de	 junho	 de	 2008),	 Graham	Webster,	 autor	 do	 blog
Sinobyte,	fez	a	seguinte	observação:	“No	que	diz	respeito	às	Olimpíadas,	muitas
limitações	online	foram	amenizadas.	O	acesso	à	BBC	News	 foi	 restabelecido;	a
Wikipedia	 em	 inglês	 está	 disponível,	 mas	 a	 Wikipedia	 em	 chinês	 ainda	 está
bloqueada.	Depois	 da	 pressão	 exercida	 pelo	Comitê	Olímpico	 Internacional,	 o
comitê	de	Pequim	comprometeu-se	a	diminuir	as	restrições”.	Como	os	líderes	da
China	 podem	 perceber,	 ideias	 associadas	 a	 informações	 e	 acesso	 em	 massa
podem	ter	custos	–	custos	esses	que	eles	vêm	relutando	em	pagar.
Com	 o	 intuito	 de	 proteger	 o	 criador	 de	 negócios,	 um	 sistema	 jurídico
adequado	deve	estar	em	vigor.	Um	sistema	judiciário	que	reconhece	os	direitos
sobre	 patentes,	 propriedade	 intelectual	 e	 os	 direitos	 patrimoniais	 é	 a	 primeira
linha	de	defesa.	Concernente	aos	custos	da	criação,	quem	ou	o	que	deve	decidir
se	eles	valem	os	benefícios?	Em	um	sistema	socialista	controlado	pelo	Estado,
seria	o	governo	que	tomaria	a	decisão	final.	Entretanto,	tais	decisões	raramente
são	paradigmas	da	lógica	objetiva.	Em	vez	de	se	engajar	em	uma	análise	racional
de	custo/benefício,	a	tendência	dos	governantes	é	serem	influenciados	por	outras
forças,	como	a	pesquisa	pública,	 tendências	financeiras	e,	frequentemente,	pela
pseudociência.
Mesmo	 dentro	 de	 uma	 atmosfera	 comercial	 que	 protege	 legalmente	 os
direitos	dos	criadores	e	incentiva	a	criação,	tradições	sociais	e	culturais	podem,
de	 fato,	 minar	 esse	 princípio.	 Não	 é	 necessário	 fazer	 uma	 grande	 busca	 de
informações	para	ver	os	vários	 argumentos	 a	 favor	do	 software	gratuito.	Basta
navegar	 em	 outros	 sites	 e	 versões	 “gratuitas”	 do	 Adobe	 Acrobat,	 Vista,
Microsoft	 Office	 e	 dezenas	 de	 outros	 programas	 estão	 disponíveis	 para
download.	Com	nomes	como	“Free	Software	Society”	e	“Software	for	All”,	um
número	 crescente	 de	 grupos	 demonstra	 desdém	 pelo	 criador	 do	 produto	 ao
requerer	o	software	gratuito	e	o	código	aberto.15
O	 prazer	 da	 criação,	 formação	 da	 ideia,	 planejamento,	 execução	 e
lançamento	 de	 algo	 –	 o	 orgulho	 da	 autoria	 –	 é,	 inegavelmente,	 o	 ponto
culminante	 da	 existência	 humana.	 No	 entanto,	 tal	 prazer	 é	 ameaçado	 e
negligenciado	 em	 todo	o	mundo	hoje	 por	 inimigos	 que	variam	desde	políticas
econômicas	adversas	até	aplicações	práticas	dos	sistemas	judiciários	soberanos	e
normas	 culturais	 informais.	 Os	 calvinistas	 cultos	 precisam	 perceber	 a
necessidade	de	proteger	o	criador	de	negócios	e	os	benefícios	de	sua	criação	dos
assaltos	 do	 coletivismo	 e	 Socialismo,	 sejam	 tais	 assaltos	 provenientes	 das
economias	controladas	pelo	Estado,	de	sistemas	ilegais	ineficazes	ou	de	atitudes
culturais.
Essa	noção	de	criação,	independente,	mas	portadora	da	marca	do	Criador,	é
a	 assinatura	 do	 Calvinismo.	 Ela	 também	 possui	 muitas	 aplicações	 para	 o
comércio.
Criação:	tempo	de	abundância	e	riqueza	além	das	necessidades	básicas
Não	existiam	carências	materiais	no	Éden	e	as	sementes	da	produção	futura
eram	 inerentes	 à	 criação.	Calvino,	 repetidas	 vezes,	 falou	 a	 respeito	 da	 criação
como	 possuindo	 uma	 qualidade	 de	 abundância.	Ao	 comentar	 sobre	 o	 texto	 de
Gênesis	 1.26,	 ele	 salientou	 ser	 o	 propósito	 de	 toda	 criação	 que	 “nenhuma
conveniência	e	necessidades	da	vida”16	faltassem.	“Na	própria	ordem	da	criação”,
escreveu	Calvino,	 “a	 solicitude	paternal	 de	Deus	para	 com	o	homem	é	visível
porque	ele	equipou	o	mundo	com	todas	as	coisas	necessárias	e	até	mesmo	com
uma	imensa	profusão	de	riqueza	antes	de	formar	o	homem”	(p.	96).	“Portanto”,
opina	Calvino,	“o	homem	era	rico	antes	de	nascer”.	Um	pouco	mais	adiante,	em
seu	comentário	sobre	o	texto	de	Gênesis	1,	ele	falou	a	respeito	da	criação	como
sendo	 “abundantemente	 suficiente	 para	 a	 suprema	 satisfação	 [do	 homem]”	 (p.
100),	 ainda	 que	 tanto	 a	 queda	 quanto	 o	 dilúvio	 noético	 tenham	 trazido	 e
acelerado	 a	 dinâmica	 de	 deterioração	 do	 cosmos.	 A	 criação	 original	 de	 Deus
ainda	 é	 considerada	 como	 “abundante”,	 “benéfica”	 (p.	 100),	 e	 da	 “mais	 alta
perfeição”,	mostrando	ser	Deus	um	excelente	Criador.	Calvino	entendiaMoisés
como	 descrevendo	 uma	 casa	 bem	mobiliada,	 “bem	 abastecida	 e	 repleta”,	 sem
“nada	a	desejar	para	sua	abundância	propícia”	(p.	103).	A	linguagem	da	criação
transmite	a	ideia	de	que	Deus,	“o	Arquiteto”,	criou	uma	bela	casa,	a	qual,	em	seu
estado	 original,	 ressaltava	 ser	 a	 perfeição	 a	 “estrutura	 para	 o	 mundo”.	 Sendo
assim,	 qualquer	 deterioração	 ou	 decadência	 que	 possamos	 observar	 hoje	 não
passam	da	“corrupção”	da	“mobília	apropriada”	(p.	104).
Quando	Calvino	 explicou	 a	 respeito	 do	 jardim	 do	 Éden,	 ele	 afirmou	 que
nenhuma	parte	da	criação	era	estéril,	mas	que	 tudo	era	“excessivamente	 rico	e
fértil”	(p.	116).	Ao	mencionar	a	bênção	liberal	estabelecida	por	Deus	sobre	sua
criação	terminada,	Calvino	ainda	salientou	que	não	havia	apenas	uma	provisão
adequada	de	alimento,	mas	que	Deus	também	havia	concedido	uma	“doçura	para
a	satisfação	do	paladar	e	uma	beleza	para	o	deleite	dos	olhos”	(p.	116).	Além	do
mais,	como	consequência	de	sua	criação	à	imagem	de	Deus,	foi	dada	a	Adão	não
somente	 a	 oportunidade	 de	 viver	 na	 dimensão	 do	 corpo,	mas	 também	 a	 de	 se
deleitar	na	bênção	de	sua	alma	com	toda	a	sua	capacidade	e	gozo.	Portanto,	Deus
pretendia	que	sua	criação	fosse	desfrutada	e	não	pode	ser	acusado	de	criação	e
provisão	de	baixa	qualidade.
A	criação	foi	um	tempo	de	abundância.	Deus	não	se	contentou	em	criar	um
solo	improdutivo	e	desolado,	nem	um	planeta	infrutífero.	Em	Gênesis	2.9,	lemos
que	 Deus	 “fez	 brotar	 toda	 sorte	 de	 árvores	 agradáveis	 à	 vista	 e	 boas	 para
alimento”.	 Havia	 variedade	 e	 matéria	 em	 demasia,	 e,	 incluída	 nessa	 criação,
estava	 todo	 o	 necessário	 para	 a	 vida	 e	 o	 avanço	 da	 sociedade,	 incluindo	 as
matérias-primas	 para	 vestimentas,	 abrigos,	 cidades	 e	 edifícios	 (vem	 à	mente	 a
Torre	 de	 Babel).	 Falando	 a	 respeito	 da	 criação,	 John	 Schneider	 diz:	 “A	 visão
como	um	todo	é	de	um	excesso	extremo	quase	desconcertante”.17
Implícita	 nessa	 abundância,	 passando	 para	 o	 comércio	 atual,	 a	 riqueza	 é
quase	 sempre	 criada	 pelo	 excesso	 de	 ganho.	 De	 acordo	 com	 o	 paradigma
socialista,	 o	 ganho	 excessivo	 é	 “roubo”.	Ou,	 como	 coloca	 o	 novelista	 francês
Honoré	 de	 Balzac:	 “Por	 detrás	 de	 toda	 grande	 fortuna	 existe	 um	 crime”.	 Os
socialistas	e	moralistas	da	época	nos	fariam	viver	em	um	estado	de	rendas	iguais,
onde	 nossas	 necessidades	 seriam	 atendidas	 e	 qualquer	 ganho	 excessivo	 seria
entregue	 ao	Estado	 para	 benefício	 dele.	Vale	 salientar	 que	Deus	 pretendia	 que
sua	 criação	 fosse	 conhecida	 e	 administrada	 pessoalmente	 por	 Adão	 e	 Eva.
Considere,	por	exemplo,	as	palavras	de	Gênesis	2.16:	“O	SENHOR	Deus	lhe	deu
esta	ordem:	De	toda	árvore	do	jardim	comerás	livremente”.	No	cerne	do	conflito
entre	socialistas	e	capitalistas	está	a	questão	de	como	a	riqueza	deve	ser	vista	e
tratada.	 O	 homem	 de	 negócios	 calvinista	 deve	 se	 sentir	 confortável	 e	 não	 ter
vergonha	da	abundância	e	experiência	pessoal	com	a	riqueza.
Uma	crítica	dessas	pessoas	defensoras	da	visão	minimalista	da	simplicidade
e	dos	males	do	excesso	pessoal	é	que	Deus	não	 tencionava	que	 tal	abundância
fosse	 exclusivamente	 em	 benefício	 de	 um	 homem	 em	 detrimento	 de	 outro.
Contudo,	 ao	 longo	 das	 Escrituras,	Deus	 continua	 a	 despejar	 abundância	 sobre
aqueles	 a	 quem	 escolhe	 abençoar.	 A	 criação	 e,	 especificamente	 o	 jardim	 do
Éden,	 é	 semelhante	 ao	 quarto	 infantil	 preparado	 pelos	 pais	 para	 um	 recém-
nascido.	Trata-se	de	uma	breve	descrição	do	nível	de	abundância	que	é	planejada
para	que	a	criança	cresça	e	desfrute.
Outro	 exemplo:	 leve	 em	 consideração	 uma	 grande	 corporação	 como	 a
General	Eletric	(GE).	Dentro	da	organização	existe	uma	ampla	categorização	de
empregos,	desde	o	gerente	para	os	 trabalhadores	de	indústria	aos	motoristas	de
caminhão	 e	 assim	 por	 diante.	 Conforme	 a	GE	 lucra	 a	 partir	 de	 seus	 esforços,
todos	os	empregados	se	beneficiam	de	alguma	maneira,	mesmo	que	em	mínimo
grau,	 ao	manter	 seu	emprego	e	 ter	uma	 fonte	de	 sustento.	Todavia,	 se	–	 como
quase	sempre	é	o	caso	da	GE	–	a	receita	bruta	é	superior	ao	custo	do	emprego	e
da	produção,	a	corporação	deve	tomar	uma	decisão	fundamental:	o	que	deve	ser
feito	com	o	“excesso”	de	lucro?	Para	dizer	de	modo	mais	simples,	ela	pode	optar
por	 (1)	 pagar	 um	 dividendo	 aos	 acionistas	 ou	 (2)	 reinvestir	 na	 empresa,
comprando	 novos	 equipamentos,	 aumentando	 a	 remuneração,	 introduzindo
novas	linhas	de	produto,	incrementando	a	pesquisa	e	o	desenvolvimento	e	assim
por	diante.
Cada	decisão	impactará	de	forma	positiva	determinado	grupo	à	custa	latente
do	outro.	Qual	é	a	escolha	correta?	Se	for	empregado,	você	deve	estar	propenso
à	segunda	opção,	ao	passo	que	um	acionista	deve	preferir	a	primeira.	Segundo	a
teoria	das	finanças	corporativas,	a	decisão	deve	ter	por	base	o	retorno	esperado
dos	 lucros	 reinvestidos,	 independentemente	 de	 superarem	 ou	 não	 a	 atual	 taxa
“mínima”	 de	 atratividade	 dentro	 da	 organização.18	 Ademais,	 sob	 o	 princípio
irrelevante	 da	 estrutura	 de	 capital19,	 o	 valor	 da	 empresa	 não	 é	 afetado	 pela
decisão	do	dividendo.	A	decisão	é	neutra.
Agora,	pegue	esse	exemplo	e	substitua	a	GE	por	toda	a	criação	–	faça	com
que	a	terra,	o	homem,	os	animais	e	toda	a	ordem	criada	representem	uma	única	e
grande	 corporação.	 Todos	 dentro	 dela	 participam	 do	 processo	 de	 produção	 e
prosperam	 de	 alguma	 forma.	A	 “corporação”,	 nesse	 caso,	 a	 criação,	 estende	 a
graça	comum,	da	qual	todos	os	“empregados”	podem	se	beneficiar.	De	tempo	em
tempo,	 contudo,	 a	 criação	 paga	 os	 dividendos	 para	 os	 seus	 acionistas.
Obviamente,	 essa	 analogia	não	pode	 ser	 interpretada	no	 sentido	 literal,	 porque
nenhum	de	nós	pode	comprar	“ações”	na	criação.	No	entanto,	o	ponto	principal	é
que	os	“dividendos”	ou	“excesso	de	lucro”	“pagos”	àqueles	a	quem	Deus	elege
(debaixo	 de	 sua	 graça	 específica)20	 não	 desvalorizam	 sua	 criação.	 Tampouco
representam	injustiça.	A	criação	está	repleta	de	abundância	que	não	só	sustenta
todas	as	coisas	sob	a	providência	de	Deus,	mas	também	despeja	riqueza	e	bênção
extras	 sobre	 aqueles	 que	 ele	 escolhe,	 e	 esses	 são	 chamados	 para	 reinvestir.
Empresas	que	não	lutam	por	abundância	ou	não	calculam	esse	objetivo	em	seu
padrão	 comercial	 não	 estão	 de	 acordo	 com	 o	 espírito	 da	 ética	 comercial	 de
Calvino.
A	responsabilidade	do	homem	pelo	domínio	da	criação	de	Deus
Calvino	afirmou	que	era	parte	da	dignidade	o	fato	de	Deus	ter	determinado
ao	homem	que	ele	teria	responsabilidade	sobre	todas	as	coisas	criadas.	Conforme
coloca	em	seu	comentário	de	Gênesis,	Deus	designou	o	homem	como	“senhor
do	 mundo”	 (p.	 96),	 exibindo,	 assim,	 a	 imagem	 de	 Deus.	 Além	 disso,	 tal
autoridade	não	foi	dada	somente	ao	singular	Adão,	mas	também	a	todos	os	seus
descendentes.	A	princípio,	foi	criado	com	domínio,	porém,	a	ordem	posterior	–
“sujeitai-a”	 (Gn	 1.28)	 –	 enfatiza	 que	 Deus	 colocou	 tal	 posse	 “sob	 autoridade
dele”	 (p.	 98),	 significando	que	o	 homem	 tinha	um	chamado	para	 desenvolver,
dominar,	 organizar,	 controlar,	 subjugar,	 reorganizar	 e	 tornar	 úteis	 todos	 os
aspectos	subservientes	da	criação.	De	fato,	Calvino	ensinou	que	“era	problema
[do	 homem]	 nutrir	 as	 coisas	 que	 lhe	 eram	 fornecidas”	 (p.	 99).	 Portanto,	 nós
podemos,	 com	 certeza,	 dizer	 ter	 Calvino	 ensinado	 que	 o	 homem	 tinha	 de
aperfeiçoar	e	aumentar	a	criação	como	parte	de	seu	domínio.
A	criação	apresenta	um	padrão	de	hierarquias	 também.	Nem	 tudo	está	no
mesmo	nível.	Algumas	espécies	são	maiores	e	mais	hábeis	do	que	outras.	Outras
espécies	 servem	 a	 ordens	 superiores.	O	 domínio	 é	 a	 designação	 de	Deus	 para
pegarmos	 a	 criação	 da	 maneira	 como	 a	 encontramos	 e	 aperfeiçoá-la.	 Ele	 não
pede	 a	 Adão	 para	 deixar	 a	 criação	 como	 está	 ou	 deixá-la	 deteriorar-se.	 Não.
Deus	 chama	 os	 homens	 a	 empenharem-se	 no	 cuidado	 e	 na	 realização	 de
melhorias.	 Essa	 noção	 fundamental	 de	 mudançapara	 melhor	 é	 um	 truísmo
econômico	que	está	mais	de	acordo	com	alguns	sistemas	e	práticas	comerciais
do	que	outros.	Por	exemplo,	o	conceito	de	herança	e	de	aumento	do	patrimônio
de	 uma	 pessoa	 em	 benefício	 das	 gerações	 futuras	 parece	 ser	 logicamente
compatível	com	o	mandado	de	domínio.
Deus	não	deseja	que	sua	criação	simplesmente	se	mantenha	em	estase.	Pelo
contrário,	 ele	 a	 planejou	 a	 fim	 de	 que	 crescesse,	 produzisse	 e	 amadurecesse.
Sendo	assim,	em	referência	até	mesmo	aos	capítulos	iniciais	de	Gênesis,	pode-se
perguntar:	de	que	maneira	o	sistema	comercial	se	adapta	tanto	à	criação	quanto	à
ordem	de	cuidado?	Crescimento,	desenvolvimento,	produtividade	e	organização
são	características	que	Deus	teceu	na	estrutura	da	natureza	humana.
Domínio	pressupõe	ética	de	trabalho	e	prestação	de
contas	a	Deus
Como	 alguém	 pode	 ter	 domínio	 sobre	 um	 bem	 impessoal?	 Em	 primeiro
lugar,	a	pessoa	reconhece	sua	condição	de	criatura;	depois,	impõe	a	vantagem	do
homem	 sobre	 ele	 e,	 por	 fim,	 produz	 frutos	 que	 contêm	 as	 sementes	 da
produtividade	futura.
A	 economia	 de	Gênesis	 1–3	 não	 exige	 que	 a	 riqueza	 se	 dissipe	 nem	 que
permaneça	igual.	O	homem	deve	cultivar	o	jardim	e,	com	trabalho	árduo,	buscar
controlar	partes	da	criação	a	fim	de	servir	a	Deus	e	ao	próximo.
Calvino	resume	bem	tais	conceitos	em	seus	comentários	a	respeito	do	texto
de	 Gênesis	 2.9:	 “Nenhuma	 extremidade	 da	 terra	 era	 infértil,	 tampouco	 havia
alguma	que	não	fosse	extremamente	rica	e	fértil;	contudo,	essa	bênção	de	Deus,
outrora	 relativamente	 moderada,	 havia,	 agora,	 se	 disseminado	 de	 modo
maravilhoso”	 (p.	 116).	 Mais	 adiante,	 ele	 salientou	 que	 “não	 só	 havia
fornecimento	abundante	de	alimento,	mas	a	ele	foram	acrescidas	a	doçura	para	a
satisfação	do	paladar	e	a	beleza	para	o	deleite	dos	olhos.	Portanto,	a	partir	de	tão
bondosa	 indulgência,	 está	 mais	 do	 que	 evidente	 o	 quão	 inexplicável	 fora	 a
cobiça	do	homem”	(p.	116).	A	condição	da	criação	era	 tal	que	Adão	não	 tinha
apenas	uma	mera	existência	 física,	mas	 também	se	sobressaía	quanto	aos	dons
da	alma	(p.	118).
Com	tal	abundância	vem	a	responsabilidade.	Dentro	da	criação,	o	homem	é
encarregado	 do	 domínio.	 Mas	 o	 que	 implica	 esse	 domínio?	 Trata-se	 de	 um
equilíbrio	 de	 forças:	 por	 um	 lado,	 é	 um	 chamado	 para	 desfrutar,	 dominar,
cultivar	e	moldar;	por	outro,	é	um	chamado	para	proteger,	defender,	perpetuar	e
trabalhar.	Ademais,	 domínio	 implica	um	 relacionamento	de	ordem	e	 condição.
Existe	uma	hierarquia	dentro	dele.
Uma	 característica	 particular	 do	 domínio	 é	 a	 exigência	 de	 trabalho	 e,
consequentemente,	 os	 benefícios	 resultantes	 dele.	 A	 premissa	 fundamental	 de
qualquer	 sistema	 econômico	 é	 a	 necessidade	 de	 trabalho	 e	 esforço;	 portanto,
Marx,	 Smith,	Ricardo,	Keynes	 e	 outros	 não	 teriam	 discordância	 com	 a	 ordem
para	 trabalhar.	 Todavia,	 alguns	 acreditam	 que	 a	 ordem	 para	 trabalhar	 sofre
frequentes	 abusos	 por	 parte	 do	 sistema	 de	 livre	 mercado.	 As	 pessoas	 que
alcançaram	 um	 nível	 de	 conforto	 e	 sustentabilidade	 a	 partir	 de	 seus
investimentos	 e	 renda	 podem	 optar	 por	 não	 trabalhar.	 O	 capitalista	 reformado
precisa	estar	atento	a	essa	armadilha.
O	mandado	 de	 domínio,	 por	 fim,	 conduz	 ao	mandado	 de	 gerenciamento.
John	Scheneider,	em	The	Good	of	Affluence,	escreve:	“O	Éden	deixou	o	homem
e	 a	 mulher	 livres	 da	 escravidão	 para	 terem	 desejos,	 ele	 os	 libertou	 para
sonharem,	 utilizarem	 sua	 criatividade,	 trabalharem	 de	 maneira	 produtiva	 e
recompensadora,	colherem	os	frutos	de	seu	 trabalho	e	 terem	prazer	humano	na
plenitude	da	vida,	na	imagem	de	Deus	e	em	sua	boa	vontade.	O	Capitalismo	foi
o	 sistema	 que	mais	 nos	 aproximou	 da	 recriação	 de	 tal	 condição	 em	 relação	 a
qualquer	 outro	 sistema	 econômico	 na	 história	 do	mundo”21.	 Sem	 enfatizar	 em
demasia	o	objetivo	e	a	definição	de	gerenciamento,	os	socialistas	argumentariam
que	não	existe	qualquer	problema	em	relação	ao	ato	em	si,	porém,	é	trabalho	do
governo	 ou	 da	 diretoria	 de	 planejamento	 fazer	 a	 designação	 e	 a	 tomada	 de
decisões.	Em	resposta	a	 tal	 crítica,	o	histórico	de	políticas	centralizadas	 revela
muita	coisa.	Leve	em	consideração,	por	exemplo,	a	fome	na	Coreia	do	Norte,	a
indústria	 e	 tecnologia	 de	Cuba	 (obsoletas	 desde	 a	 década	de	60)	 e	 a	 queda	da
União	Soviética.	Ludwig	Von	Mises,	economista	austríaco,	 identificou	um	erro
fatal	 no	 domínio	 estatal	 quanto	 à	 falta	 de	 informações	 privadas	 e	 individuais
relacionadas	à	verdadeira	natureza	dos	custos	e	benefícios.22	Mises	argumentou
que,	dentro	do	sistema	socialista,	o	governo	é	detentor	de	 todas	as	coisas	–	do
dinheiro,	da	terra,	do	maquinário,	do	trabalho	e	do	processo	de	distribuição.	Se	o
governo	possui	tudo,	logo,	o	“custo”	para	ele	não	é	nenhum	problema.	Além	do
mais,	 em	 sistemas	 econômicos	 altamente	 regulamentados,	 até	 mesmo	 os
mercados	 são	 controlados	 pelo	 governo,	 sendo	 assim,	 ninguém	 consegue
mensurar	 verdadeiramente	 o	 preço	 de	 um	 item,	 porque	 as	 transações	 são
forçadas	e/ou	manipuladas.
A	relação	mútua	entre	trabalho	e	riqueza	é	demonstrada	logo	nos	capítulos
iniciais	 da	Bíblia.	Calvino	 buscou	 harmonizá-los	 concedendo	 a	 cada	 um	deles
um	lugar	particular.	Todos	os	demais	sistemas	também	buscam,	com	frequência,
subordinar	o	trabalho	ou	a	riqueza,	quase	sempre	rejeitando	tanto	as	hierarquias
quanto	o	 trabalho	árduo.	Todavia,	Calvino	entende	ambos	como	aspectos	bons
da	criação	e	da	providência	de	Deus.
A	criação	e	o	equilíbrio	entre	trabalho	(vocação)	e	descanso	(dia	de
descanso)
Vocação
Calvino	 acreditava	 que	 a	 Bíblia	 ensina	 muito	 a	 respeito	 da	 nobreza	 do
trabalho.	O	trabalho	é	um	chamado	nobre	e	uma	atividade	instruída	por	Deus	em
seu	melhor	sentido.	Busca-se	a	excelência	e	ela	é	valorizada.	Existe	dignidade	no
trabalho	do	homem	e	um	chamado	que	é	exclusivo	para	ele	e	se	ajusta	às	suas
forças,	 talentos	 e	 inclinações.	 No	 sermão	 sobre	 o	 texto	 de	Mateus	 3,	 Calvino
observou	 que	 um	 chamado	 só	 é	 bom	 se	 vier	 da	 parte	 de	 Deus,	 e	 definiu
“vocação”	como	um	chamado	que	“leva	consigo	o	fato	de	Deus	estar	acenando
com	o	dedo	e	dizendo:	‘Eu	quero	que	você	viva	dessa	ou	daquela	maneira.’	Isso
é	o	que	chamamos	de	‘posições	na	vida’”.23	Enquanto	pregava	a	respeito	do	texto
de	 Efésios	 4.28,	 Calvino	 falava	 sobre	 “ocupações”,	 “ofícios”	 e	 “comércio”,
advertindo	que	cada	um	deles	deveria	ser	adotado	se	fosse	“bom	e	lucrativo	para
o	bem	comum”.	Para	o	reformador,	que	revelou	um	ponto	de	vista	que	só	pode
ser	caracterizado	como	muito	avançado	para	um	teólogo	da	sua	época,	chamado,
lucratividade	e	filantropia	atuavam	juntos.
Ao	 comentar	 o	 texto	 de	Gênesis	 2.15-16,	 Calvino	 observou	 que	 os	 seres
humanos	 “foram	 criados	 para	 se	 ocuparem	 com	 algum	 trabalho,	 não	 para	 se
entregarem	 à	 inatividade	 e	 ociosidade”.24	 Esse	 chamado,	 até	 mesmo	 o	 próprio
trabalho,	 era,	 acreditava	 ele,	 “verdadeiramente	 prazeroso,	 repleto	 de	 prazer	 e
totalmente	isento	de	todos	os	problemas	e	aborrecimentos.	Deus	tanto	ordenou	o
trabalho	 produtivo	 (“o	 cultivo	 da	 terra”)	 quanto	 condenou	 “todo	 repouso
indolente”.	 Calvino	 escreveu:	 “Porquanto	 nada	 é	 mais	 contrário	 à	 ordem	 da
natureza	 do	 que	 desperdiçar	 a	 vida	 comendo,	 bebendo	 e	 dormindo,	 enquanto,
nesse	 ínterim,	 não	 nos	 propomos	 a	 fazer	 nada”	 (p.	 125).	 O	 trabalho	 é	 tão
importante	para	os	seres	humanos	que	eliminá-lo	“arruinaria	a	vida	humana”.25
Calvino	 entendia	 que,	 enquanto	 os	 seres	 humanos	 respirarem,	 também
devem	 estar	 produzindo,	 trabalhando,	 planejando,	 consertando	 e	 criando.	 O
jardim	do	Éden	não	era	um	parque	de	diversões,	era	uma	incubadora	de	produtos
humanos.	A	Adão	 foi	 dada	 a	 “custódia	 do	 jardim”,	 e	 isso	 era,	 em	 parte,	 para
ilustrar	 como	 Deus	 planejou	 que	 trabalho	 e	 trabalhadores	 cuidassem	 e
utilizassem	 a	 criação.	 Ou,	 como	 expressou	 o	 reformadorgenebrês	 em	 seu
comentário	de	Gênesis:
Que	aquele	que	possui	um	campo	participe	ativamente
de	seus	frutos	anuais	a	fim	de	não	permitir	que	o	solo
seja	 prejudicado	 pela	 sua	 negligência,	 porém,	 que	 se
esforce	a	fim	de	passá-lo	para	a	posteridade	da	mesma
forma	 como	 o	 recebeu,	 ou	 até	 mais	 bem	 cultivado.
Que	 se	 alimente	 bem	 de	 seus	 frutos	 a	 ponto	 de	 nem
dissipá-los	 pelo	 luxo	 nem	 permitir	 que	 sejam
destruídos	ou	arruinados	pela	negligência.	Além	disso,
que	essa	economia	[ênfase	acrescida]	e	essa	diligência
floresçam	 entre	 nós,	 permitindo	 que	 cada	 um	 se
coloque	como	despenseiro	de	Deus	em	todas	as	coisas
que	 possui.	 Então,	 ele	 nem	 se	 comportará	 de	 modo
dissoluto	nem	se	corromperá	abusando	das	coisas	que
Deus	ordena	que	sejam	preservadas.	(p.	125)
Em	uma	observação	parecida,	John	Stapleford	escreveu:
A	 fim	 de	 que	 o	 direito	 ao	 trabalho	 seja	 exercido,	 a
economia	deve	gerar	empregos	(em	condições	 ideais,
possibilidades	 múltiplas	 de	 serviço	 e	 remuneração,
pelo	 menos	 com	 empregos	 que	 forneçam	 um	 nível
adequado	 de	 sustento).	 Estruturas	 econômicas	 que
inibem	 o	 crescimento	 do	 serviço,	 tais	 como	 a
concentração	 do	 poder	 econômico	 (por	 exemplo,
monopólio	ou	domínio	estatal	dos	meios	de	produção)
devem	 ser	 desafiadas.	 O	 acesso	 das	 pessoas	 ao
trabalho	não	deve	ser	limitado	por	discriminação	(por
raça,	gênero,	etnia,	condição	social),	 favoritismo	(por
exemplo,	acesso	político	a	empregos	públicos)	ou	pela
falta	 de	 concorrentes	 (por	 exemplo,	monopolistas	 ou
sindicatos	consolidados).26
Victor	Claar	e	Robin	Klay	também	ecoam	Calvino	quando	afirmam	que	“os
seres	humanos	têm	a	obrigação	de	trabalhar,	e	suas	sociedades	devem	conceder-
lhes	 muitas	 oportunidades	 para	 tal,	 visto	 ser	 o	 trabalho	 o	 principal	 meio	 de
exercer	o	gerenciamento”.27
Outro	 aspecto	 formador	 de	 cultura	 do	 pensamento	 de	 Calvino	 era	 sua
ênfase	 sobre	 a	 santidade	 das	 vocações	 ordinárias.	 Antes	 de	 Calvino	 e	 da
Reforma	Protestante,	achava-se	que	a	doutrina	da	vocação	ou	chamado	pertencia
exclusivamente	ao	clero.	Entretanto,	 a	visão	do	 reformador	quanto	ao	 trabalho
como	 inerentemente	 honrado	 pelo	 nosso	Criador	 elevou	 todas	 as	 disciplinas	 e
vocações	 legítimas	 à	 condição	 de	 chamado	 sagrado.	 Depois	 de	 Calvino,	 a
reivindicação	 à	 vocação	 divina	 para	 o	 trabalho	 na	medicina,	 no	 direito	 ou	 na
educação	 tornou-se	 tão	 válida	 quanto	 a	 reivindicação	 para	 o	 chamado	 para	 o
trabalho	no	ministério	da	igreja.
A	 exigência	 de	 trabalho	 árduo	 por	 parte	 de	 Calvino	 não	 igualava
necessariamente	o	sucesso	ou	a	prosperidade	com	a	bênção	divina.	Seus	pontos
de	 vista,	 entretanto,	 tinham	 uma	 tendência	 persistente	 de	 elevar	 determinadas
áreas	do	chamado	e	trabalho	humano.	Negócio,	comércio	e	indústria	eram	todos
elevados	de	acordo	com	os	princípios	de	Calvino	–	uma	priorização	consistente
com	as	realidades	em	desenvolvimento	da	empresa	moderna.
Mesmo	com	seu	ponto	de	vista	firme	com	relação	à	provisão	(veja	capítulo
5	abaixo),	Calvino	enfatizou	que	os	seres	humanos	deviam	trabalhar	de	maneira
diligente.	 Enquanto	 comentava	 a	 respeito	 do	 texto	 de	 Mateus	 6.25-30,	 ele
asseverou:
Os	 campos,	 sem	 dúvida,	 devem	 ser	 cultivados,	 o
trabalho	 deve	 ser	 realizado	 para	 ajuntar	 os	 frutos	 da
terra	e	todo	homem	deve	submeter-se	à	labuta	de	seu
chamado	a	fim	de	criar	meios	para	sua	sobrevivência.
No	 entanto,	 tudo	 isso	 não	 nos	 impede	 de	 sermos
supridos	pela	generosidade	 imerecida	de	Deus,	sem	a
qual	 os	 homens	 poderiam	 destruir	 seu	 corpo
trabalhando	 e	 não	 alcançar	 coisa	 alguma.	 Somos
ensinados,	 portanto,	 que	 aquilo	 que	 achamos	 ter
adquirido	 por	 nosso	 próprio	 esforço	 provém	 dele.
Embora	os	filhos	de	Deus	não	estejam	livres	da	labuta,
ainda	assim	não	dizemos	que	estão	ansiosos	quanto	à
vida,	 porquanto,	 pela	 confiança	 na	 providência	 de
Deus,	desfrutam	de	calmo	descanso.28
Max	Weber	e	outros	estão	corretos	ao	afirmar	que	o	Calvinismo	dignificava
o	trabalho	e	o	chamado	de	muitas	maneiras.	Calvino	ensinava	que	qualquer	área
de	 trabalho	 –	 por	 exemplo,	 agricultura,	 educação,	 governo	 e	 contabilidade	 –
podia	ser	um	chamado	válido	da	parte	de	Deus,	sendo	cada	um	deles	tão	sagrado
quanto	a	vocação	pastoral.	Essa	foi	uma	mudança	radical	na	visão	de	mundo,	a
qual,	por	fim,	alterou	muitos	negócios,	culturas	e	vidas	humanas.
Por	 meio	 de	 sua	 afirmação	 resoluta	 de	 todos	 os	 chamados	 e	 o
estabelecimento	 de	 escolas	 de	 Direito,	 Medicina,	 História	 e	 Educação	 (não
simplesmente	 religião)	 dentro	 da	 Academia	 de	 Genebra,	 Calvino	 ajudou	 a
romper	 as	 barreiras	 que	 faziam	 a	 distinção	 entre	 o	 sagrado	 e	 o	 secular.	 Ele
buscava	 ensinar	 os	 genebreses	 a	 enxergar	 o	 trabalho	 humano	 de	 uma	 nova
maneira,	ou	seja,	à	luz	da	verdade	de	que	uma	pessoa	pode	servir	e	glorificar	a
Deus	em	qualquer	área	de	trabalho.	Calvino	se	relacionava	com	muitos	líderes,
empresários,	 tipógrafos	 e	 comerciantes	 de	 seu	 tempo	 e	 não	 censurava	nenhum
chamado	 lícito.	 O	 espírito	 calvinista	 enobrece	 toda	 boa	 obra.	 Apesar	 de	 sua
ênfase	na	vida	futura,	o	Calvinismo	conclama	seus	adeptos	a	serem	líderes	nos
campos	em	todas	as	áreas	de	esforço	humano	aqui	e	agora.
Os	 comentários	de	Calvino	 a	 respeito	do	quarto	mandamento	 ressaltavam
também	a	dignidade	do	trabalho.	Assim	como	Deus	ordena	que	o	povo	descanse
no	sétimo	dia,	argumentava	Calvino,	o	Senhor	 também	espera	que	ele	 trabalhe
todos	os	outros	dias.	À	medida	que	o	trabalho	se	torna	vital	para	as	pessoas	feitas
à	 imagem	de	Deus,	Calvino	 ensinava	que	 todos	os	 chamados	 são	 importantes.
Sua	doutrina	sobre	o	trabalho	foi	enfatizada	mais	adiante	–	sem	mencionar	o	fato
de	ter	se	disseminado	de	maneira	tão	ampla	–	por	meio	de	sua	explicação	de	que
o	quarto	mandamento,	o	qual	ordena	o	descanso	de	um	dia	dentre	sete,	exige,	da
mesma	maneira,	que	se	trabalhe	durante	os	outros	seis	dias.
Os	negócios,	o	comércio	e	as	empresas	que	visam	ao	lucro	adotariam	uma
nova	 tendência	 depois	 de	 Calvino.	 Seus	 ensinamentos	 liberaram	 os	 cristãos	 a
utilizarem	o	mercado	para	a	glória	de	Deus.	De	interesse	dos	historiadores,	tanto
dos	 simpatizantes	 quanto	 dos	 contrários	 a	 Calvino,	 Genebra	 foi	 transformada,
durante	 o	 tempo	 dele	 naquele	 lugar,	 em	 um	 visível	 e	movimentado	 fórum	 de
desenvolvimento	 econômico.	 Local	 de	 desenvolvimento	 intelectual	 e	 fomento
comercial,	conforme	evidenciado	pelo	estabelecimento	da	Academia	de	Calvino
e	 da	 presença	 de	 instituições	 financeiras	 modernas	 (por	 exemplo,	 o	 banco
Medici),	Genebra	havia	se	 tornado	o	centro	 ideal	para	aperfeiçoar	e	exportar	a
reforma.29
Em	 todos	 os	 lugares	 por	 onde	 o	 Calvinismo	 se	 disseminou,	 o	 mesmo
ocorreu	 com	 o	 amor	 pelo	 livre	 mercado	 e	 pelo	 Capitalismo.	 Se	 uma	 medida
válida	 de	 liderança	 é	 seu	 impacto	 sobre	 o	 ambiente	 imediato,	 é	 possível
comparar	 a	 Genebra	 anterior	 e	 posterior	 a	 Calvino.	 As	 diferenças	 são
alarmantes.	Antes	da	imigração	do	reformador,	em	1536,	por	exemplo,	Genebra
possuía	50	comerciantes,	3	 tipógrafos	e	poucos,	 se	é	que	havia	algum,	nobres.
Ao	 final	 de	 1550,	Genebra	 era	 a	 pátria	 de	 180	 comerciantes,	 113	 tipógrafos	 e
editores	e	de,	no	mínimo,	70	refugiados	que	reivindicavam	nobreza.30
Por	 certo,	 não	 é	 correto	 pensar,	 como	 pensou	Weber,	 que	 os	 calvinistas
acreditavam	que	o	sucesso	material	servia	como	prova	de	sua	eleição.	A	fim	de
refutar	 tal	 ideia,	basta	consultar	o	ensinamento	de	Calvino	a	respeito	do	oitavo
mandamento	 em	 sua	 grande	 obra,	 Institutas	 da	 Religião	 Cristã.31	 Em	 sua
interpretação,	 a	 qual	 proíbe	 o	 roubo,	 Calvino	 entendeu,	 por	 implicação,	 ser
perfeitamente	normal	a	retenção	e	proteção	de	bens	pessoais.	Na	realidade,	para
Calvino,	 o	 mandamento	 continha	 uma	 exigência	 clara	 para	 cada	 um	 evitar	 a
cobiça	 e	 a	 avareza,	 além	 de	 exigir	 que	 cada	 pessoa	 “se	 empenhe	 demodo
honesto	na	preservação	de	seus	próprios	bens”	(Institutas,	2.8.45).
Ele	 advertiu	 os	 cristãos	 a	 não	 desperdiçarem	 o	 que	 Deus,	 de	 maneira
providencial,	havia	provido,	bem	como	a	se	importarem	com	o	bem-estar	de	seu
próximo.	Ele	também	escreveu:
A	 esse	 mandamento,	 portanto,	 devemos	 obedecer
adequadamente	se,	satisfeitos	com	nossa	própria	sorte,
não	planejamos	adquirir	nada	que	não	 seja	honesto	e
lícito;	se	não	desejamos	enriquecer	por	meios	injustos
nem	espoliar	os	bens	de	nosso	próximo...	se	não	temos
pressa	 de	 acumular	 riqueza	 cruelmente	 tirada	 do
sangue	 de	 outras	 pessoas;	 se	 não	 guardamos,	 com
avidez	 excessiva,	 qualquer	 coisa	 que	 possa	 satisfazer
nossa	 avareza	 ou	 atender	 a	 nossa	 prodigalidade.	 Por
outro	 lado,	 que	 seja	 nosso	 objetivo	 constante	 dar
fielmente	 nosso	 conselho	 e	 estender	 nossa	 ajuda	 a
todos,	assistindo-os,	dessa	forma,	na	retenção	de	seus
bens	(2.8.46).
Se	 Weber	 tivesse	 levado	 em	 conta	 essas	 palavras	 em	 sua	 teoria,	 suas
conclusões	poderiam	ter	sido	mais	precisas.
A	 oração	 de	 Calvino	 arruína	 a	 hipótese	 de	 Weber	 de	 forma	 ainda	 mais
rápida.	 A	 representação	 comumente	 malfeita	 de	 Calvino	 como	 um	 capitalista
crasso	 deve	 ser	 contrastada	 com	 a	 oração	 sugerida	 por	 ele	 para	 o	 início	 do
trabalho.	 Nela,	 a	 qual	 está	 incluída	 no	 Catecismo	 de	 Genebra	 de	 1562,	 ele
conduzia	as	pessoas	a	pedirem	para	Deus	abençoar	sua	labuta,	salientando	que,
se	o	Pai	não	abençoasse,	“nada	vai	bem	nem	pode	prosperar”.	Ele	orava	para	que
o	 Espírito	 Santo	 auxiliasse	 os	 trabalhadores	 em	 seu	 chamado	 “sem	 quaisquer
artifícios	 ou	 enganações”	 e	 exortava	 todos	 aqueles	 que	 trabalhavam	 a	 “se
preocuparem	mais	em	seguir	as	ordenanças	de	Deus	do	que	em	satisfazer	nosso
próprio	desejo	de	enriquecermos”.	Juntamente	com	isso,	Calvino	orava	para	que
os	 trabalhadores	 se	 importassem	 com	os	 indigentes	 e	 que	 os	 prósperos	 não	 se
tornassem	vaidosos.	Orava	para	que	Deus	diminuísse	a	prosperidade	se	soubesse
que	as	pessoas	precisavam	de	uma	dose	de	pobreza	para	voltar	à	razão.	Distante
da	 insensibilidade	 para	 com	 o	 menos	 afortunado,	 Calvino	 orava	 para	 que	 os
trabalhadores	 “não	 esmorecessem	 na	 desconfiança”,	 “esperassem	 com
paciência”	 a	 providência	 de	 Deus	 e	 “descansassem	 com	 toda	 a	 confiança	 na
bondade	genuína	[de	Deus]”.32
Além	 disso,	 ele	 advertiu	 contra	 “lutar	 avidamente	 por	 riqueza	 e	 honra,
colocando	nossa	confiança	em	nossa	própria	destreza	e	perseverança,	ou	contra	a
dependência	 do	 favor	 dos	 homens,	 ou	 contra	 a	 confiança	 em	 alguma	 ideia	 vã
relacionada	 à	 fortuna”.	 Em	 vez	 de	 confiar	 nesses	 falsos	 apoios,	 argumentava
Calvino,	 a	 pessoa	 “deve	 sempre	 ter	 respeito	 para	 com	 Deus”.	 A	 ética	 da
prosperidade	 advinda	 depois	 da	 época	 de	 Calvino	 em	 Genebra	 é	 uma	 das
consequências	mais	 abrangentes	 de	 seu	 pensamento	 e	 prática.	No	 entanto,	 ele
também	defendia	a	confiança	em	Deus	–	não	na	 riqueza!	A	“Ética	de	 trabalho
calvinista”	 é	 um	 tópico	 que	 muitos	 pesquisadores	 estudam	 e	 discutem.	 Em
essência,	 alguns	 historiadores	 e	 estudiosos	 têm	 identificado	 certa	 tendência
histórica	 e	 difundida.	 Ela	 sugere	 que,	 em	 todo	 lugar	 onde	 o	 caráter	 do
Calvinismo	se	arraiga,	uma	cultura	frutífera	de	diligência	e	trabalho	árduo	aflora.
Apesar	da	centralidade	daquilo	que	alguns	podem	considerar	um	desincentivo	ao
trabalho,	por	exemplo,	a	doutrina	reformada	da	salvação	somente	pela	graça,	o
Calvinismo,	na	realidade,	incentiva	uma	ética	de	trabalho	muito	forte.
Um	dos	extravasamentos	sociais	do	Calvinismo	é	a	visão	que	seus	adeptos
obtêm	com	relação	ao	trabalho.	O	teórico	social	alemão,	Max	Weber,	estava,	em
parte,	correto	em	sua	análise	a	respeito	dessa	visão	em	sua	famosa	obra	de	1905,
A	 ética	 protestante	 e	 o	 espírito	 do	 Capitalismo.	 Em	 sua	 forma	mais	 direta,	 o
argumento	 de	 Weber	 afirmava	 que	 os	 calvinistas	 confundiam	 prosperidade
terrena	e	 celestial.	O	 teórico	 atribuía	 a	 eles	 a	 convicção	questionável	de	que	 a
prosperidade	material	poderia	ser	considerada	como	um	sinal	seguro	da	bênção
divina.	Se	a	análise	de	Weber	estivesse	correta,	então,	os	calvinistas	certamente
seriam	 incentivados	 a	 serem	 os	 mais	 intensos	 dos	 trabalhadores.	 Trabalho	 e
comércio	 iriam	 adquirir	 significância	 eterna,	 porém,	 significância	 essa	 que
poderia	ser	medida	nesta	vida	por	moedas.	Segundo	a	avaliação	de	André	Biéler,
Calvino	atribuía	“ao	trabalho	humano	uma	dignidade	espiritual	e	um	valor	que
ele	não	 tinha	entre	os	 escolásticos	ou	no	mundo	antigo.	Tal	 fato	 teve	 enormes
efeitos	sobre	o	desenvolvimento	econômico	das	sociedades	calvinistas”.33
Em	suas	Institutas,	todavia,	Calvino	também	afirmava	que	qualquer	esforço
que	não	tivesse	a	caridade	como	objetivo	estava	doente	em	sua	própria	essência
(3.8.50).	Ademais,	ele	alertou	que	a	riqueza	poderia	incitar	grandes	problemas	e
produzir	“grande	descuido	com	a	virtude”	(3.10.4).	Em	outra	passagem,	Calvino
explica,	 com	 clareza,	 sua	 visão	 sobre	 o	 relacionamento	 entre	 prosperidade	 e
trabalho:
Se	 acreditarmos	 que	 todo	 sucesso	 desejado	 depende
inteiramente	da	bênção	de	Deus,	e	isso	quando	se	está
à	 espera	 de	 todos	 os	 tipos	 de	 miséria	 e	 calamidade,
ocorre	que	não	devemos	lutar	avidamente	por	riqueza
e	honra,	colocando	nossa	confiança	em	nossa	própria
destreza	e	perseverança,	ou	dependendo	do	 favor	dos
homens,	ou	confiando	em	alguma	ideia	vã	relacionada
à	 fortuna;	 todavia,	 devemos	 sempre	 ter	 respeito	 para
com	o	Senhor,	pois,	debaixo	de	seu	amparo,	podemos
ser	conduzidos	em	direção	ao	destino	que	ele	preparou
para	nós	(3.7.9).
Nesta	mesma	 seção,	 a	 fim	 de	 que	Calvino	 não	 seja	mal	 interpretado,	 ele
solicita	 que	 uma	 “limitação	 seja	 imposta	 sobre	 nós”	 para	 restringir	 “o
exacerbado	desejo	de	se	tornar	rico,	ou	o	empenho	ambicioso	pela	honra”.	Sendo
assim,	Calvino	pede	trabalho	árduo,	mas	não	iguala	necessariamente	sucesso	ou
prosperidade	 com	 bênção	 divina.	 Suas	 visões,	 contudo,	 tinham	 uma	 tendência
persistente	 de	 estimular	 diversas	 áreas	 do	 chamado	 e	 labor	 humanos.	Weber	 e
outros	estão	corretos	ao	reconhecer	que	o	Calvinismo	dignificou	o	trabalho	e	os
chamados	de	muitas	naturezas.
Com	respeito	à	doutrina	do	chamado,	a	partir	do	texto	de	1Coríntios	7.20,
Calvino	 deduziu	 que	 a	 vocação	 era	 um	“modo	 lícito	 de	 vida”.	Ele,	 entretanto,
não	 considerava	 esse	 modo	 algo	 imutável.	 “Ora,	 seria	 algo	 extremamente
difícil”,	 escreveu	Calvino,	 “se	 um	 alfaiate	 não	 tivesse	 liberdade	 para	 aprender
outro	 ofício,	 ou	 se	 um	 comerciante	 não	 tivesse	 liberdade	 para	 mudar	 para	 a
agricultura”.34	 Calvino	 não	 acreditava	 que	 uma	 pessoa	 tivesse	 um	 fardo	 de
necessidade	vocacional,	como	se	jamais	pudesse	mudar	de	trabalho.	Ao	mesmo
tempo,	 entretanto,	 ele	 reiterava	 que	 a	 providência	 de	 Deus	 resultava	 em
“diferentes	classes	e	posições	no	mundo”.35
O	 reformador	 acreditava	 que	 os	 seres	 humanos	 eram	 “governadores	 do
mundo”,	 ainda	 que	 sujeitos	 ao	Todo-Poderoso.36	 Essa	 convicção	 se	 expressava
em	ações,	nos	negócios,	no	desenvolvimento	e	como	motivo	inextinguível	para
criar	e	multiplicar.	Essa	doutrina	do	chamado	continua	a	alimentar	os	interesses
de	investimento	e	financeiro.
O	dia	 do	 descanso:	Uma	 chave	 esquecida	 para	 um
modelo	empresarial	bem-sucedido
Calvino	também	ensinou	que	o	dia	do	descanso	–	o	sábado	–	era	uma	parte
regular,	contínua	e	importante	da	criação.	Nele	também	estava	a	recomendação
ao	lazer	apropriado	para	o	desfrute	do	homem	e	o	descanso	“de	todos	os	outros
negócios”.37	Não	apenas	não	 fazia	parte	da	 criação	 apenas	não	 ser	 cultuado	ou
excessivamente	 adorado,	 mas	 também	 o	 próprio	 trabalho	 não	 deveria	 ser
reverenciado	como	sendo	absoluto.	Para	Calvino,	o	 trabalho	 tinha	seu	 lugar	na
economia	de	Deus,	assim	como	também	o	descanso	e	a	adoração,	como	o	quarto
mandamento	ensinava.
Em	seu	comentárioa	respeito	do	quarto	mandamento,	ele	ressaltou	diversos
propósitos	 para	 tal	 ordem,	 dentre	 as	 quais:	 prover	 descanso	 aos	 trabalhadores,
incentivar	os	cristãos	a	não	dependerem	do	trabalho	deles	e	 lembrá-los	de	que,
com	apenas	14%	da	semana	de	trabalho	separados	para	o	descanso,	ainda	havia
“muito	tempo,	excluindo	o	sábado,	para	todos	os	seus	negócios”.38
Talvez	alguém	possa	estar	se	perguntando	como	o	fato	de	separar	um	dia	de
serviço	e	criatividade	poderia	maximizar	os	resultados.	A	partir	do	ponto	de	vista
puramente	 matemático,	 formular	 um	 plano	 comercial	 que	 automaticamente
sacrifica	 14%	 da	 semana	 de	 trabalho	 pode	 parecer	 um	 suicídio	 mercantil.
Todavia,	 como	 é	 o	 caso	 de	 outras	 questões	 relacionadas	 à	 fé,	 é	 ofertando	 e
doando	que	quase	 sempre	encontramos	bênção	e	prosperidade.	O	mandamento
para	guardarmos	um	dia	dentre	os	sete	para	um	descanso	santo	das	atividades	vai
contra	 a	 maioria	 dos	 planejamentos	 empresariais,	 sejam	 eles	 antigos	 ou
modernos.	Afinal,	 poucos	 cristãos	 cumprem	 tal	mandamento	nos	dias	de	hoje;
talvez	 ele	 seja	 transgredido	 com	 mais	 frequência	 do	 que	 as	 proibições
relacionadas	ao	adultério,	roubo	e	mentira.	Ele	deve	competir	acirradamente	com
o	décimo	mandamento	pela	ignorância	seletiva,	talvez	porque	o	comportamento
vedado	 no	 quarto	mandamento	 tenha	 alguma	 relação	 com	 a	 cobiça	 tratada	 no
décimo.
No	 entanto,	 as	 coisas	 nem	 sempre	 foram	 assim.	 Durante	 séculos,	 muitos
cristãos	honraram	a	Deus,	serviram	ao	seu	próximo	e	providenciaram	tempo	para
a	 adoração,	 guardando	 o	 sábado.	 Muitos	 comércios	 afloraram	 sem	 se
preocuparem	servilmente	24	horas	por	dia,	7	dias	por	semana.
Entretanto,	 para	 os	 empresários	 obedecerem	 ao	 antigo	 mandamento,
determinadas	objeções	de	senso	comum	devem	ser	atendidas.	Podemos	pensar,
sobretudo,	em	três	obstáculos	que	devem	ser	superados:
	
1.	 O	mandamento	do	dia	de	descanso	–	sábado	–	não	é	um	vestígio	obsoleto	de	uma	sociedade	antiga	e
agrária	que	não	tem	qualquer	aplicação	persuasiva	às	práticas	comerciais	de	hoje?
2.	 Se	praticado	pelos	donos	de	empresas,	o	dia	de	descanso,	em	essência,	não	é	ineficiente	e	inútil?
3.	 Posto	que	pouquíssimos	cristãos	cumprem	 tal	mandamento	hoje,	 existem	quaisquer	 tradições	mais
abrangentes	que	justifiquem	tal	atitude?
O	 que	 deve	 ser	 recuperado	 é	 a	 valorização	 da	 ordem	 de	Deus,	 a	 própria
finitude	 do	 homem	 e	 as	 limitações	 éticas	 do	 empreendedorismo.	 Os	 pontos
abaixo	discorrem	sobre	três	desafios.
O	mandamento	relacionado	ao	dia	de	descanso	é	um
vestígio	obsoleto?
Quando	 se	 examina	 o	 fundamento	 transcultural	 do	 dia	 de	 descanso,	 fica
claro	não	se	tratar	meramente	de	um	costume	judaico.	Por	certo,	não	se	trata	de
uma	 invenção	 anticomercial.	 Tampouco	 diz	 respeito,	 conforme	 revelado,	 a
somente	 uma	 época	 da	 história.	 Uma	 revisão	 a	 respeito	 do	 desenvolvimento
bíblico	 em	 relação	ao	dia	de	descanso	 se	 faz	necessária,	 a	 fim	de	que	 ele	 seja
aplicado	a	qualquer	modelo	comercial.	Tal	revisão	implica	também	no	fato	de	o
dia	de	descanso	 ter	como	base	uma	ordem	da	criação	na	qual	Deus	é	retratado
como	modelo	de	criatividade.
O	dia	de	descanso	é,	na	realidade,	uma	simbologia	central	do	ensinamento
bíblico.	Mencionado	dezenas	de	vezes	ao	longo	das	Escrituras,	ele	é	um	conceito
crucial	que	incorpora	duas	ideias	centrais:
	
1.	 Deus	não	deseja	nos	escravizar	ao	 trabalho	e	à	produtividade;	existem	momentos	para	o	descanso.
Ao	descansar,	tiramos	um	tempo	para	desfrutar	da	criação.	O	Pai	não	se	importa	que	a	desfrutemos;
na	verdade,	 ele	nos	manda	desfrutar,	 bem	como	glorificar.	O	mandamento	para	 cessarmos	o	 labor
normal	e	a	produtividade	é	um	gesto	que	provém	da	graça	e	da	misericórdia	de	Deus.	Assim	como	o
homem	 não	 vive	 apenas	 de	 pão,	 também	 não	 vive	 somente	 de	 trabalho.	 Somos	 livres	 para	 largar
nossas	 ferramentas.	 De	 fato,	 se	 alguém	 chega	 a	 uma	 posição	 de	 presunção	 a	 ponto	 de	 recusar	 o
relaxamento	e	o	descanso,	essa	pessoa	pode	ter	criado	um	ídolo.	Podemos	dizer	a	nós	mesmos	que
somos	 imprescindíveis	 em	 determinada	 tarefa,	 porém,	 Deus	 não	 compartilha	 da	 mesma	 opinião.
Somos	livres	para	descansar.
2.	 O	dia	de	descanso	elimina,	 temporariamente,	o	 trabalho	humano	por	um	propósito	maior:	permitir
que	o	povo	de	Deus	o	adore	em	santidade.	Adoração	e	comunhão	com	o	povo	de	Deus	são	atividades
de	suma	importância.	Precisamos	realizá-las	regularmente,	e	o	Pai	preparou	esse	momento.	O	dia	de
descanso	 também	 desempenha	 dois	 papéis	 como	 mecanismo	 de	 programação	 divina,	 se	 assim
permitirmos.	Deus	 planeja	 a	 nossa	 semana,	 dizendo-nos	 quando	 é	 hora	 de	 fazermos	 certas	 coisas.
Trabalhar	não	é	a	única	atividade	importante.
Originado	na	criação	antes	da	queda,	o	dia	de	descanso,	como	conceito,	é
um	símbolo	misericordioso	da	obra	de	Deus.	Ele	se	 importa	demais	conosco	e
nos	pastoreia	por	meio	dessa	grande	ideia.	Somente	uma	pessoa	consumida	pelas
obrigações	 ou	 aquisições	 mundanas	 poderia	 deixar	 de	 amar	 uma	 provisão	 de
Deus	como	é	o	dia	de	descanso.
Por	ser	um	conceito	 tão	central	do	ensinamento	bíblico,	não	devemos	nos
surpreender	com	o	fato	de	o	dia	de	descanso	aparecer	em	vários	contextos	com
nuances	diferentes.
O	dia	de	descanso	de	Deus	está	descrito	em	Gênesis	2	como	um	repouso	em
decorrência	de	seu	trabalho	da	criação.	Ele	também	recomenda	tal	conduta	aos
seres	 humanos.	 Posteriormente,	 outras	 religiões	 copiaram	 essa	 instituição,
porém,	 o	 padrão	 divino	 de	 sete	 dias	 deriva	 das	 Escrituras.	 O	 próximo	 foco
substancial	 do	 ensinamento	 relacionado	 ao	 dia	 de	 descanso	 ocorre	 dentro	 do
contexto	dos	Dez	Mandamentos,	sinalizando	que	o	propósito	de	Deus	para	o	dia
de	descanso	é	duradouro.	Tal	costume,	evidentemente,	não	era	nem	temporário
nem	provincial,	mas	pertencia	a	todas	as	épocas.
De	qualquer	maneira,	a	 instituição	é	ampliada	pelo	quarto	mandamento,	o
qual	inicia	reiterando	a	ordem	de	guardar	o	sábado	–	o	dia	santo.	A	lógica	é	que
a	pessoa	tem	de	trabalhar	seis	dias	(um	pouco	mais	que	a	média	dos	americanos;
se	 alguém	quisesse	 trabalhar	mais	 de	 16	 horas	 por	 dia,	 6	 dias	 por	 semana,	 tal
pessoa	trabalharia	100	horas	por	semana,	toda	semana	e,	ainda	assim,	guardaria
o	dia	de	descanso),	mas	o	sétimo	está	reservado	para	Deus.	Não	é	só	o	cabeça	da
casa	que	não	deve	 trabalhar,	mas	 todo	 trabalho	desnecessário	de	cada	membro
do	 lar	 é	 proibido.	 Mesmo	 aquelas	 pessoas	 que	 não	 têm	 uma	 condição
estabelecida	ou	direitos	 legais	(“os	estrangeiros”)	devem	ter	o	dia	de	descanso.
Em	outras	palavras,	o	exemplo	divino	estabelecido	na	criação	deve	incluir	todas
as	 pessoas	 –	 universalidade	 que	 o	 texto	 de	 Êxodo	 20.11	 corrobora	 com	 este
argumento	incontestável:	se	Deus	foi	capaz	de	fazer	em	seis	dias	tudo	o	que	fez,
os	 seres	 humanos	 também	 devem	 se	 limitar	 a	 um	 período	 estabelecido	 de
trabalho,	entremeado	por	um	dia	de	descanso.
No	 decorrer	 de	 todo	 o	 restante	 do	 AT,	 Deus	 enfatizou	 que	 essa	 prática
deveria	continuar.	Não	há	nada	nesses	mandamentos	que	 indiquem,	de	alguma
maneira,	que	eles	devem	ser	cumpridos	somente	em	determinadas	épocas	ou	em
certos	locais.
Conforme	categorizado	no	Decálogo,	o	mandamento	é	duplo:	(1)	a	pessoa
deve	trabalhar	seis	dias	e	(2)	deve	descansar	no	sétimo.	O	propósito	desse	dia	é
descansar	e	guardar	o	santo	dia,	provendo,	ao	mesmo	tempo,	uma	oportunidade
para	os	trabalhadores	descansarem,	cuidarem	de	suas	famílias	e	estimularem	os
cristãos.	Deus	exige	tudo	isso	da	cultura	humana.
O	AT	também	abrange	um	pouco	mais	o	conceito	do	dia	de	descanso	a	fim
de	 incluir	 o	 ano	 sabático.	 Isso	 não	 exclui	 o	 padrão	 semanal	 de	 seis	 dias	 de
trabalho	seguidos	por	um	dia	de	descanso;	ele	simplesmente	amplia	o	conceito
original.	 Se	 todos	 os	 seres	 humanos	 devem	 seguir	 o	 costume	 sabático	 em	 sua
semana,	 então	 os	 israelitas	 acharam	 que	 deveriam	 aplicá-lo	 em	 suas	 terras	 e
ciclos	de	vida.	A	 instituiçãodo	 jubileu	 (que	é	exclusivamente	para	 Israel;	veja
sobre	o	ano	jubileu:	Lv	25,	Dt	15;	no	original	aparece	Dt	26)	amplia	ainda	mais
o	conceito.	O	objetivo	de	cada	amplificação	do	conceito	sabático	era	lembrar	as
pessoas,	em	primeiro	lugar,	que	Deus	é	o	supremo	dono	de	todas	as	coisas	e,	em
segundo,	que	os	seres	humanos	têm	a	necessidade	de	momentos	de	repouso	ou
descanso.	 Toda	 a	 criação	 tem	 necessidade	 disso.	 A	 escravidão	 constante	 ao
trabalho	não	é	virtuosa.
Conforme	 a	 história	 do	 AT	 progredia,	 todavia,	 inúmeros	 abusos	 e
corrupções	do	dia	de	descanso	aconteciam	periodicamente.	Rumo	ao	fim	do	AT,
Isaías	ensinou	ao	povo	que	toda	vez	que	fizesse	certas	celebrações	ordenadas	por
Deus,	 deveria	 fazer	 sem	 hipocrisia.	 Isso	 significava	 também	 o	 dever	 de	 se
preocuparem	com	os	pobres	e	oprimidos	sempre	que	jejuassem.
Assim	 como	 Isaías	 lembrou	 aos	 israelitas,	 agradar	 a	 Deus	 envolve	 um
componente	 moral	 juntamente	 com	 expectativas	 baseadas	 em	 atitudes.	 Não	 é
uma	questão	apenas	de	cerimônias.	Portanto,	quando	os	 israelitas	guardavam	o
sábado,	eles	tinham	de	abster-se	de	“cuidar	dos	seus	próprios	interesses	no	meu
santo	 dia”.	 Eles	 também	 tinham	 de	 visualizar	 esse	 dia	 como	 “o	 sábado
deleitoso...	 e	 digno	 de	 honra”	 O	 povo	 devia	 honrá-lo	 servindo	 a	 Deus,	 não
seguindo	seu	próprio	caminho	ou	“pretendendo	fazer	sua	própria	vontade,	nem
falando	 palavras	 vãs”.	 Se	 o	 povo	 guardasse	 o	 santo	 dia	 de	Deus	 com	 alegria,
prazer	e	honra	e	sem	hipocrisia	para	com	o	próximo,	Deus	o	abençoaria	de	modo
inacreditável	(Is	58.13-14).	As	palavras	de	Isaías	nos	dizem	muito	a	respeito	de
como	visualizar	o	sábado.
Depois	 de	 muitos	 séculos	 de	 prática,	 o	 costume	 revelado	 originalmente
começou	a	ser	pervertido	pela	artimanha	das	mãos	humanas.	Os	fariseus,	um	dos
principais	 grupos	 religiosos	 de	 Israel,	 haviam	 tomado	 o	 costume	 original	 e	 o
distorcido	de	 tal	maneira	 a	deixá-lo	praticamente	 irreconhecível.	Eles	pegaram
uma	 criação	 boa	 de	 Deus	 e	 a	 transformaram	 em	 algo	 abominável.	 Criaram
inúmeras	 e	 onerosas	 leis	 que	 reprimiam	 a	 vida	 no	 sábado.	 Não	 deixavam	 as
pessoas	utilizarem	fogo,	caminharem	mais	de	1,5	km	ou	usarem	óleo	medicinal
nesse	dia,	classificando	tais	atividades	como	trabalho.	Calvino	se	referia	a	essas
práticas	 como	 tentativas	 prejudiciais	 e	 insensatas	 de	 subverter	 uma	 instituição
planejada	 por	 Deus	 para	 auxiliar,	 não	 oprimir,	 o	 homem.	 Observando	 a	 má
intenção	 e	 superstição	 dos	 fariseus,	 Calvino	 escreveu:	 “Foi	 a	 hipocrisia,
portanto,	 que	 os	 tornou	 tão	 precisos	 em	 questões	 frívolas,	 porquanto	 se
entregaram	 às	 vãs	 superstições.	 É	 prática	 invariável	 dos	 hipócritas	 dar	 a	 si
mesmos	 liberdade	 em	 assuntos	 de	 consequências	 extremas	 e	 dispensar	 muita
atenção	a	observâncias	cerimoniais”.39
Jesus	 teve	 de	 resgatar	 o	 sábado	 e	 lhe	 devolver	 o	 plano	 original.	 Ele	 não
subverteu	o	sábado	no	NT;	pelo	contrário,	ele	confrontou	os	fariseus	quanto	ao
uso	 incorreto	 do	 dia.	 Com	 seu	 legalismo	 e	 intolerância,	 eles	 haviam	 imposto
muitas	 restrições	 a	 essa	 instituição.	Estavam	crucificando	algo	bom	criado	por
Deus.	Uma	pessoa	não	podia	nem	ser	curada	no	sábado	nem	apanhar	seu	boi	na
vala.	Opondo-se	aos	fariseus,	Jesus	ensinou	ao	povo	que	o	dia	de	descanso	fora
feito	 para	 o	 homem,	 não	 vice-versa	 (Mc	 2.27).	 O	 plano	 original	 não	 era
escravizar	o	homem	a	um	novo	chefe	de	serviço,	mas	libertá-lo	para	descansar	e
prestar	 adoração.	 O	 sábado,	 cuja	 pretensão	 era	 que	 fosse	 uma	 dádiva
misericordiosa	 da	 parte	 de	 Deus	 para	 o	 homem,	 tinha	 de	 ser	 libertado	 das
restrições	 criadas	 pelo	 homem.	 Esse	 foi	 o	 erro	 que	 Jesus	 buscou	 corrigir	 ao
mesmo	tempo	em	que	ia	pessoalmente	à	sinagoga	e	guardava	o	sábado.
No	 entanto,	 ele	 não	 agia	 da	maneira	 como	 os	 legalistas	 achavam	que	 ele
deveria	agir	e	tampouco	depreciou	ou	alterou	o	sábado	em	relação	ao	seu	plano
original	e	divino.	Ele	buscava	restaurá-lo	como	sendo	um	dia	de	descanso	para	o
homem	reaver	a	energia	por	meio	da	adoração	e	do	lazer.	Ele	era	um	antegozo
do	descanso	eterno	vindouro,	assunto	discutido	no	texto	de	Hebreus	4.
Jesus	 e	 os	 autores	 do	 NT	 nunca	 apresentaram	 o	 tipo	 de	 argumento	 tão
frequentemente	ouvido	nos	dias	hoje,	ou	seja,	que,	uma	vez	salva,	a	pessoa	pode
ignorar	a	lei	de	Deus	e	inventar	seus	próprios	padrões	morais.	Jesus	guardava	o
sábado	 e	 jamais	 tentou	 subvertê-lo.	 A	 igreja	 primitiva	 seguiu	 seus	 passos,
alterando	apenas	o	dia	do	sétimo	dia	judaico	para	o	primeiro	dia	cristão.	Tudo	o
que	Jesus	corrigiu	foi	a	versão	distorcida	do	costume	por	parte	dos	fariseus.
O	ensinamento	 seguinte	do	NT,	no	 livro	de	Hebreus,	 indica	que	o	padrão
semanal	original	também	possui	um	significado	espiritual.	O	dia	de	adoração	de
cada	semana	deve	ser	uma	prévia	maravilhosa	daquilo	que	teremos	no	céu.	Tal
experiência	 é	 retratada	 como	 descanso	 eterno.	No	 céu,	 os	 sábados	 infindáveis
serão	revelados,	o	trabalho	estará	terminado	e	a	criação	redimida	será	desfrutada
por	 toda	 a	 eternidade.	 O	 descanso	 sabático,	 portanto,	 tornou-se	 uma
representação	do	céu	em	Hebreus	4.
O	mandamento	quanto	ao	dia	de	descanso,	dessa	forma,	está	 longe	de	ser
um	 vestígio	 de	 uma	 sociedade	 antiga	 e	 agrária	 que	 não	 possui	 aplicação
persuasiva	para	nós	hoje.
Ademais,	 pode	 se	 tratar	 de	 uma	 chave	 esquecida	 para	 o	 planejamento
comercial	 e	 econômico	 que	 tanto	 permite	 o	 descanso	 como	 também	 proíbe	 a
transformação	do	 trabalho	em	um	deus	ou	em	algo	absoluto.	O	 trabalho	 tem	o
seu	lugar,	porém,	não	é	o	summum	bonum.
Se	 praticado	 pelos	 donos	 de	 empresas,	 o	 dia	 de
descanso,	em	essência,	não	é	ineficiente	e	inútil?
Por	que	qualquer	pessoa,	em	especial	os	donos	de	empresa,	deve	guardar	o
sábado	 de	 Deus	 hoje?	 Diversas	 boas	 razões	 que	 os	 calvinistas	 identificaram
estão	listadas	abaixo;	indubitavelmente,	existem	muitas	outras.
Define	 limites	 a	 determinadas	 atividades	 para	 os	 donos;	 por	 exemplo,	 o
trabalho	 é	 bom,	 porém,	 não	 é	Deus.	Uma	 observância	 regular	 do	 sábado	 é	 a
necessidade	 de	 um	 mecanismo	 limitador	 para	 a	 existência	 humana.	 Ele	 nos
impede	 de	 nos	 tornarmos	 escravos	 do	 trabalho.	O	 ensinamento	 bíblico	 afirma
que	 o	 trabalho	 é	 bom	 e	 parte	 essencial	 de	 uma	 humanidade	 sadia.	 Todavia,
proprietários	e	trabalhadores	estão	sob	a	ordem	de	evitar	o	trabalho	incessante.	O
sábado	é	um	“não”	divino,	o	qual	reforça	o	“sim”	divino	pronunciado	em	prol	da
alegria	humana.	Guardar	o	dia	de	descanso	também	impede	a	vitória	da	cobiça
natural.
Requer	que	o	dono	se	planeje	com	antecedência.	Se	um	proprietário	deve
tanto	obter	sucesso	quanto	guardar	o	sábado,	é	necessário	que	ele	se	planeje	com
antecedência.	Na	realidade,	essa	imposição	exige	que	o	planejamento	futuro	seja
uma	atividade	regular.	O	administrador	deve	garantir	que	os	recursos,	o	trabalho
e	os	colaboradores	de	segunda-feira	estejam	prontos	até	o	fim	do	dia	no	sábado,
para	guardar	o	dia	de	descanso,	no	domingo.	O	ano	sabático	(Êx	23)	e	o	jubileu
requerem	um	planejamento	com	uma	antecedência	ainda	maior.	Se	o	executivo
está	constantemente	atrasado,	com	 trabalho	por	 fazer,	 é	 ineficiente	ou	 lhe	 falta
premeditação,	 será	 impossível	 interromper	 tudo	 e	 separar	 um	 dia	 para	 o
descanso.	Portanto,	o	planejamento	é	uma	exigência	implícita	na	ordem	divina.
Guardar	 o	 sábado,	 em	 suma,	 pode,	 na	 verdade,	 aumentar	 a	 organização	 do
executivo.
Significa	que	o	proprietário	deve	se	atentar	às	coisas	sagradas	e	congregar
(assim	 como	as	 outras	 pessoas)	 com	os	 santos	 de	Deus.	Ele,	 também,	precisa
prestar	adoração.	O	proprietário	não	é	ontologicamente	superior	ao	funcionário
quando	 se	 trata	do	mandamento	 relacionado	ao	dia	de	descanso.	Um	efeito	de
equilíbrio	 nasce	 no	 seio	 do	 sábado.	 Proprietários	 e	 trabalhadores	 se	 tornam
iguais	nesse	dia.	Ninguém	é	superior	na	casa	do	Senhor;	comigualdade,	todos	se
aproximam	do	Soberano.	Além	disso,	nesse	dia,	cada	um	descansa,	compromete-
se	com	os	ministérios	de	misericórdia	e	presta	adoração	livre	das	distinções	de
classes	 sociais.	 A	 harmonia	 social	 é	 promovida	 no	 restante	 da	 semana	 se	 os
proprietários	 e	 trabalhadores	 se	 lembrarem,	 do	 mesmo	 modo,	 que	 o	 dia	 de
descanso	é	o	exemplo	do	descanso	eterno	e	uma	trégua	da	maldição.	Guardar	o
sábado	 também	 evita	 a	 deificação	 errônea	 de	 outros	 seres	 humanos.	 Um
lembrete	semanal	de	que	todos	pecaram	e	estão	destituídos	da	glória	de	Deus	é
parte	essencial	da	adoração.	Tal	antropologia	se	transfere	para	a	ética	comercial
do	indivíduo.
Provê	uma	oportunidade	para	um	testemunho	diferente.	Quando	os	cristãos
se	 abstêm	 das	 tarefas,	 recreações	 e	 serviços	 cotidianos	 em	 vista	 do	 dia	 do
Senhor,	 tal	 atitude	 se	 torna	 uma	 oportunidade	 de	 testemunhar.	 Uma	 natureza
celestial	 e	 sã	 se	 torna	 conhecida.	 Por	 certo,	 a	 pessoa	 pode	 receber	 olhares
desdenhosos	 semelhantes	 àqueles	 direcionados	 aos	 membros	 da	 comunidade
amish	 devido	 às	 suas	 vestimentas	 antiquadas	 e	 conduta.	 No	 entanto,	 nosso
testemunho	quase	sempre	é	fortalecido	quando	existe	algo	diferente	e	difícil	de
esquecer.	Aqueles	que	são	materialistas,	por	exemplo,	podem	se	espantar	ao	se
depararem	 com	 um	 empresário	 que	 honra	 a	 Deus	 mais	 do	 que	 se	 apega	 à
riqueza,	criando,	dessa	forma,	a	chance	para	ele	gentilmente	explicar	a	razão	de
sua	 esperança	 (1Pe	 3.15).	 Os	 empresários	 devem	 se	 preocupar	 com	 seu
testemunho,	 assim	 como	 qualquer	 outra	 pessoa.	 Na	 realidade,	 a	 quem	 é	 dado
muito,	muito	se	exige	em	relação	ao	testemunho	público.	Guardar	o	sábado	é	um
dos	meios	ordinários	de	testemunhar;	sua	observância	pode	ser	mais	necessária
para	os	proprietários	do	que	para	os	demais.
Identifica	 oportunidades	 para	 os	 proprietários	 demonstrarem	 caridade
(para	 com	 os	 estrangeiros,	 empregados,	 etc.).	 A	 ordem	 original	 presente	 em
Êxodo	20	seleciona	diversos	grupos	que	são	protegidos	da	demanda	infinita	de
trabalho	 e	 que,	 talvez,	 não	 tenham	 proteção	 legal.	 Tal	 ordem	 evita	 que	 os
imigrantes	e	os	pobres	sejam	maltratados;	eles	também	têm	o	dia	de	descanso	e
igual	resguardo	de	sua	bênção.	O	proprietário	deve	ser	caridoso,	e	essa	pequena
incursão	 toda	 semana,	 provavelmente,	 servirá	 para	 sensibilizar	 o	 executivo
quanto	a	outras	necessidades	de	obras	de	caridade.	Além	do	mais,	o	sábado	é	um
dia	excelente	para	se	dedicar	aos	ministérios	de	caridade	e	diaconal.
Necessita	do	trabalho	para	a	boa	forma	física	(durante	seis	dias).	A	ética
de	trabalho	hebraica	era	mais	vigorosa	do	que	a	do	Ocidente	moderno.	O	sábado
não	 só	 exige	 um	 dia	 inteiro	 de	 descanso,	 mas	 também	 estipula	 que	 todas	 as
pessoas	devem	trabalhar	durante	seis	dias	–	não	cinco	dias	ou	o	tempo	médio	do
Ocidente	 industrializado	 (em	 torno	 de	 30	 horas	 semanais).	 Guardar	 o	 dia	 de
descanso,	 caso	 ambas	 as	 partes	 do	 mandamento	 sejam	 cumpridas	 (“seis	 dias
trabalharás	e	 farás	 toda	a	 tua	obra”	–	Êx	20.9),	pode,	na	 realidade,	aumentar	a
produtividade.
Claro,	 se	 tal	 imposição	 for	 considerada	 transcendente,	 é	 possível	 também
colocar	 em	 dúvida	 a	 questão	 de	 um	 dos	 ídolos	 de	 nossos	 dias	 –	 a	 falsa
expectativa	 da	 aposentadoria.	Muitos	 de	 nós	 idolatramos	 uma	 existência	 onde
não	haja	trabalho	–	uma	época	da	vida	em	que	viveremos	despreocupadamente	à
custa	de	nosso	dinheiro	ou	pensão.	O	mandamento	de	Êxodo,	todavia,	não	diz:
“Trabalhe	seis	dias	se	você	tiver	menos	de	65	anos,	a	não	ser	que	tenha	investido
bem	 no	 mercado	 de	 ações”.	 Trata-se	 de	 um	 mandamento	 universal.	 Essa
perspectiva	a	longo	prazo	afeta	o	planejamento	e	os	investimentos	da	pessoa	de
modo	significativo.
Posto	 que	 pouquíssimos	 cristãos	 cumprem	 tal
mandamento	hoje,	existem	quaisquer	tradições	mais
abrangentes	que	justifiquem	tal	atitude?
Um	desafio	incômodo	frequentemente	é	apontado:	“Se	a	maioria	dos	outros
cristãos	 ignora	 o	 sábado,	 por	 que	 não	 devemos	 fazer	 o	 mesmo?”	 Observe,
todavia,	que	a	pergunta,	como	quase	sempre	formulada,	supõe	que	(1)	os	cristãos
que	 não	 guardam	 o	 dia	 de	 descanso	 apresentam	 um	 padrão	 normativo	 de
conduta;	ou	(2)	que	as	opiniões	antigas	da	igreja	devem	ser	desconsideradas.	A
igreja	universal,	por	certo,	é	muito	mais	ampla	do	que	a	nossa	própria	e	limitada
experiência	cultural.
Para	refletir	a	conformidade	interdenominacional	desse	assunto,	é	possível
comparar	 as	 visões	 do	 Protestantismo	 Reformado,	 esboçadas	 acima,	 com	 o
Catecismo	da	Igreja	Católica	 (CIC).	O	Catecismo	Católico	se	 refere	ao	sábado
como	“sinal	da	aliança	inquebrantável”	entre	Deus	e	Israel.	Ele	ainda	descreve	o
sábado	 como	 “dia	 de	 protesto	 contra	 as	 escravidões	 do	 trabalho	 e	 o	 culto	 ao
dinheiro”.***	 Em	 concordância	 com	 a	 interpretação	 tradicional	 apresentada
acima,	o	CIC	afirma	o	respeito	de	Jesus	para	com	o	dia	de	descanso	e	o	aponta
como	o	intérprete	autêntico	de	suas	atividades.
O	Catecismo	Católico	 fala	 a	 respeito	 do	 “ritmo	 e	 espírito”	 desenvolvidos
pela	observância	do	sábado.	Obviamente,	enfatiza	também	a	obrigação	de	adorar
e	celebrar	a	eucaristia	nesse	dia.	De	acordo	com	essa	afirmação	doutrinária,	os
cristãos	 devem	 evitar	 trabalhos	 que	 impeçam	 a	 adoração,	 a	 alegria,	 o	 repouso
físico	 ou	ministérios	 da	misericórdia	 apropriados	 ao	 sábado.	Ao	 adaptar-se	 ao
ensinamento	 de	 Jesus,	 o	 CIC	 reconhece,	 também,	 que	 o	 dia	 de	 descanso	 não
deve	reprimir	as	necessidades	familiares	ou	os	ministérios	diaconais	apropriados.
Por	outro	 lado,	os	cristãos	“cuidarão	para	que	dispensas	 legítimas	não	acabem
introduzindo	hábitos	prejudiciais	à	religião,	à	vida	familiar	e	à	saúde”.
Seguindo	a	máxima	de	Agostinho	de	que	“o	amor	da	verdade	busca	o	santo
ócio,	 a	 necessidade	 do	 amor	 acolhe	 o	 trabalho	 justo”,	 esse	 Catecismo	 recente
convoca	 os	 cristãos	 a	 se	 lembrarem	 das	 necessidades	 das	 outras	 pessoas
enquanto	repousam.	Em	suma,	o	CIC	faz	a	seguinte	afirmação:	“A	instituição	do
domingo	contribui	para	que	todos	tenham	tempo	de	repouso	e	de	lazer	suficiente
para	 lhes	 permitir	 cultivar	 sua	 vida	 familiar,	 cultural,	 social	 e	 religiosa.	 Todo
cristão	deve	evitar	impor	sem	necessidade	aos	outros	aquilo	que	os	impediria	de
guardar	o	dia	do	Senhor”.
Desde	os	tempos	dos	puritanos,	na	Inglaterra,	até	o	mais	recente	Catecismo
da	 Igreja	Católica,	 o	 sábado	 tem	 sido	 reconhecido	 como	um	dever	moral	 com
diferentes	benefícios.
Assim	como	todos	os	demais	mandamentos,	a	orientação	para	guardar	o	dia
de	 descanso	 está	 repleta	 de	 graça.	 Ele,	 de	 fato,	 oferece	 “liberdade”	 para
descansar.	Com	essa	ordem,	o	soberano	Criador	não	apenas	dá	permissão	para	o
descanso	(permissão	essa	que,	posteriormente,	se	estenderia	ao	ano	sabático	e	ao
jubileu,	 em	Levítico	 25);	 ele	 ordena	 positivamente	 que	 os	 trabalhadores	 tirem
um	dia	para	repousar	e	retomar	o	foco.	Tal	ordem	mostra	que	essa	questão	não	é
o	 que	 mais	 importa.	 Faz	 parte	 da	 lei	 moral	 permanente,	 a	 qual	 não	 pode	 ser
subestimada,	exceto	para	nosso	próprio	dano.
Truett	Cathy	–	fundador	da	rede	de	norte-americana	de	fastfood	–	Chick-fil-
A	 –	 é	 um	 exemplo	 incrível	 disso.	 Apesar	 da	 cultura	 predominante,	 desde	 a
inauguração,	durante	14%	da	semana	de	trabalho,	a	empresa	fica	fechada.	Ainda
assim,	seu	lucro	é	exorbitante.	Sua	única	razão	para	fechar	todas	as	franquias	do
“eat	mor-chikin”	[coma	mais	frango]	é	obedecer	e	honrar	a	Deus.	Enquanto	isso,
ele	proporciona	um	 lugar	de	 trabalho	humano	e	dá	um	 testemunho	 condizente
com	a	 lucratividade.	 Seria	 possível	 que	Deus	 usasse	 pessoas	 de	 negócios	 para
chamar	 a	 igreja	 à	 origem?	 Seja	 como	 for,	 uma	 coisa	 parece	 clara:	 se
determinados	fatores	–	por	exemplo,	a	criação,	o	sobrenatural,	a	moral	e	Cristo	–
permanecerem	à	 frente	de	nossas	 intenções	econômicas,	nossos	negócios	serão
diferentes	daqueles	cujos	sistemas	econômicossão	outros.
Por	exemplo,	segundo	a	contraditória	teoria	de	trabalho	de	Marx,	o	valor	de
um	 item	 é	 mais	 bem	 mensurado	 em	 vista	 de	 todo	 o	 empenho	 de	 trabalho
dispensado	em	sua	produção.	Consequentemente,	o	trabalho	se	torna	a	forma	de
medida	mais	 valiosa	 durante	 esse	 processo.	Marx	 chega	 a	 classificar	 o	 capital
destinado	 ao	 maquinário	 utilizado	 na	 produção	 dos	 itens	 como	 trabalho
acumulado	 que	 poderia	 ser	 dispensado	 na	 operação	 das	 máquinas.	 Como
resultado,	 de	 acordo	 com	o	paradigma	de	Marx,	 o	 trabalhador	 é	 incentivado	 a
produzir	constantemente;	ele	está	escravizado	pelas	coisas	que	agregam	valor	à
equação	 produtiva	 –	 seu	 tempo	 e	 dinheiro.	 Por	 outro	 lado,	 algumas	 atitudes
capitalistas	 tomam	pouca	 ou	 nenhuma	 providência	 quanto	 ao	 sábado	 e	 podem
criar	certo	“hipercapitalista”	com	tendência	a	trabalhar	sete	dias	por	semana.	Em
ambos	os	casos,	o	dia	de	descanso	não	é	respeitado.
O	 respeito	 pelo	 dia	 de	 descanso	 é	 definitivamente	 eficiente,	 além	 de	 ser
responsável	 pelo	 aumento	 da	 produtividade	 de	 segunda	 a	 sábado.	Ele	 também
impulsiona	 a	 criatividade	 e	 o	 empreendedorismo.	 Sem	 modernização	 e
empreendedorismo,	 a	 pessoa	 que	 guarda	 o	 sábado	 seria	 submetida	 a	 um
turbilhão	 de	 atividades	 no	 sábado	 que,	 hoje,	 não	 se	 fazem	 mais	 necessárias.
Energia,	calor,	água	e	armazenamento	de	alimentos	são	apenas	alguns	exemplos
de	amenidades	que	permitem	que	o	cristão	desfrute	do	sábado	sem,	como	afirma
Brian	Schwertley,	um	“retorno	à	idade	da	pedra	nos	dias	do	Senhor”.40	Um	item
tão	básico	como	a	geladeira	confere	ao	cristão	o	conforto	do	alimento	fresco	no
dia	de	descanso;	o	advento	da	usina	de	energia	elétrica	e	sua	distribuição	liberam
o	 cristão	 para	 adorar	melhor	 e	 desfrutar	 o	 dia	 de	 descanso.	 Os	mercados	 que
usam	novas	tecnologias	com	o	intuito	de	alcançar,	de	modo	eficiente,	as	massas
apoiam	a	disseminação	da	prática	e	o	desfrute	do	sábado.
A	riqueza	não	é	moralmente	ruim
Embora	 alguns	 economistas	 lutem	 para	 acabar	 com	 a	 má	 reputação	 da
riqueza	ou	introduzi-la	como	um	aspecto	no	território	neutro,	por	certo,	ela	não	é
moralmente	ruim	e	pode	ser	boa,	se	utilizada	debaixo	da	graça.
Na	 verdade,	 a	 riqueza	 pode	 ser	 utilizada	 de	 maneira	 muito	 positiva.	 Ela
potencialmente	 tem	 efeitos	 salutares.	 Tamanha	 é	 a	 importância	 do	 comércio	 a
ponto	de	certo	autor	 sugerir	 ser	esse	o	melhor	método	para	 tirar	as	pessoas	da
pobreza.	Wayne	Grudem	assevera	que	 “iniciar	 e	manter	negócios	produtivos	 e
rentáveis”	é	a	única	“solução	a	longo	prazo	para	a	pobreza	mundial”.41
Grudem	também	constata	que	 inúmeros	obstáculos	 impedem	o	bom	fluxo
do	comércio.	Excessivas	regulamentações	governamentais	quase	sempre	inibem
os	 empresários	 em	 países	 mais	 pobres.	 O	 confisco	 governamental	 dos	 bens
privados	é	outro	forte	desincentivo	ao	empreendedorismo.	Governos	ineficientes
que	 não	 punem	 o	 crime	 ou	 não	 oferecem	 proteção	 contra	 fraudes	 também
desestimulam	 o	 ambiente	 comercial.	 Não	 obstante	 tais	 empecilhos,	 um	 dos
maiores	obstáculos	que	os	empresários	têm	de	superar	é	a	atitude	negativa	para
com	o	comércio	e	o	lucro	em	geral.
Grudem	pergunta:
Se	as	pessoas	considerarem	o	comércio	algo	mau,	elas
hesitarão	 começar	 um	 negócio	 e	 nunca	 se	 sentirão
realmente	 livres	 para	 terem	 prazer	 em	 trabalhar	 no
comércio,	 porque	 ele	 sempre	 estará	 maculado	 pela
névoa	da	falsa	culpa.	Quem	pode	ter	prazer	em	ser	um
materialista	mau	que	 trabalha	com	dinheiro	mau	 com
o	 objetivo	 de	 obter	 lucros	 maus	 por	 meio	 da
exploração	 dos	 trabalhadores	 e	 da	 produção	 de	 bens
materiais	 que	 saciam	 a	 avareza	 má	 das	 pessoas,
aumentam	seu	orgulho	mau,	sustentam	a	desigualdade
má	de	posses	e	alimentam	a	competitividade	má?42
Mais	adiante,	ele	argumenta	contra	uma	das	grandes	mentiras	do	“inimigo
que	quer	impedir	o	povo	de	Deus	de	cumprir	os	seus	propósitos”,	sugerindo	que
“se	 o	 próprio	 diabo	 quisesse	 manter	 as	 pessoas	 criadas	 por	 Deus	 na	 vil
escravidão	 da	 pobreza	 por	 toda	 a	 vida,	 se	 torna	 difícil	 pensar	 em	 uma	 forma
melhor	de	como	ele	poderia	 fazê-lo	do	que	 levar	as	pessoas	a	pensarem	que	o
comércio	é	fundamentalmente	mau,	pois,	assim,	elas	evitariam	se	envolver	com
ele	ou	se	posicionariam	contrárias,	sempre	que	possível”.43	Sua	alternativa,	como
calvinista	moderno,	é	que	os	cristãos	invistam	em	si	mesmos	e	em	seus	talentos,
dominando	a	 terra	e	utilizando	as	matérias-primas	provenientes	da	boa	criação
de	Deus	para	obter	lucros	e,	então,	utilizá-los	para	gerar	mais	empregos	e	suprir
necessidades	verdadeiras.
Os	economistas	raramente	abordam	a	qualidade	moral	da	riqueza.	Todavia,
em	grande	parte	da	sociedade,	a	riqueza	se	tornou	um	saco	de	pancadas.	Durante
a	década	de	80,	o	padrão	de	garoto	mau	nos	filmes	era	um	russo	ou	um	nazista.
Na	década	de	90,	Hollywood	se	volta	para	os	chineses,	os	cartéis	de	drogas	e	os
vietcongues	 (enquanto	o	cinema	popular	 trazia	à	memória	a	Guerra	do	Vietnã)
em	 busca	 de	 vilões.	 Nesta	 década,	 os	 ricos,	 os	 poderosos	 e	 as	 gananciosas
companhias	de	petróleo	se	 tornaram	os	“novos”	vilões.	Doses	diárias	de	 teoria
econômica	moralista	–	cortesia	da	banda	Aerosmith	e	sua	música	“Eat	the	Rich”
–	 eram	 sempre	 propagadas	 nos	 rádios	 durante	 as	 décadas	 de	 80	 e	 90.	 Tal
catequização	 cultural	 acumulou	 e	 rendeu	 visões	 predominantemente	 negativas
com	relação	à	riqueza.
Para	entender	melhor	a	difamação	da	riqueza	e	dos	ricos	nos	dias	de	hoje,
podemos	começar	com	David	Ricardo	(1772-1823).44	Ele	apresentou	um	modelo,
denominado	Lei	do	milho,	segundo	o	qual	a	riqueza	serve	como	evidência	prima
facie	da	exploração	do	trabalho.	Nele,	existem	três	entidades:	(1)	o	dono	da	terra,
(2)	o	empregador	que	arrenda	a	 terra	e	 (3)	os	 trabalhadores	que	o	empregador
contrata	para	cultivar	e	colher	o	milho.	De	acordo	com	o	modelo,	qualquer	lucro
excedente	acaba	com	o	dono	da	terra.	Conforme	o	milho	é	cultivado	e	o	trabalho
requer	 maiores	 salários,	 a	 demanda	 pelo	 produto	 também	 cresce	 e	 o	 preço
consegue	 aumentar	 também.	 O	 empregador	 e	 seus	 trabalhadores	 ficam	 presos
em	um	 ciclo	 de	 demanda	 crescente,	 salários	 crescentes	 e	 preços	 crescentes.	O
dono	 da	 terra,	 todavia,	 pode	 ajustar	 seu	 arrendamento	 de	 modo	 que	 qualquer
lucro	 excedente	 dentro	 do	 sistema	 seja	 pago	 a	 ele.	 No	 fim,	 a	 riqueza	 é
apresentada	como	um	jogo	de	soma	zero	no	qual	trabalho	e	gerenciamento	estão
lutando	por	uma	porção	cada	vez	menor.
A	 partir	 de	 Ricardo,	 Karl	 Marx	 selecionou	 o	 tema	 e	 convocou	 os
trabalhadores	comuns	para	a	batalha	com	seu	grito	de	guerra:	“Trabalhadores	do
mundo,	unam-se”.	Embora	Marx	seja	citado	como	“o	pai	do	Comunismo”,	ele
não	 era	 uma	 voz	 sozinha	 gritando	 no	 deserto.	 O	 Manifesto	 Comunista	 foi
publicado	 em	1848,	 embora,	muitos	 anos	 antes	de	 seu	 aparecimento,	 os	 temas
relacionados	ao	Socialismo	e	à	 redistribuição	 igualitária	da	riqueza	 já	 tivessem
sido	apresentados	ao	público	por	cortesia	da	imprensa	norte-americana.	Horace
Greeley,	um	dos	principais	jornalistas	daqueles	dias,	foi	reconhecido,	em	1844,
pelos	 “colegas	 comunistas	 como	 o	 homem	 que	 ‘fez	 por	 nós	 o	 que	 jamais
conseguiríamos	ter	feito.	Ele	fez	a	obra	do	século.’”45
Como	 duas	 correntes	 convergentes,	 os	 textos	 e	 editorais	 substanciais	 de
Greeley,	escritos	de	1841	a	1848,	os	quais	“alcançavam	10%	dos	eleitores	nos
estados	 do	 norte,	 e	 quase	 sempre	 os	 10%	 mais	 socialmente	 envolvidos”,46	 se
uniram	 aos	 textos	 passionais	 de	 Marx	 para	 criar	 um	 afluente	 sinuoso	 que
rapidamente	 conformou	 o	 pensamento	 econômico	 e	 sociológico	 daqueles	 dias.
Muitas	vezes,	as	ideias	de	uma	disciplina	levam	anos,	décadas	ou	gerações	para
se	expandirem	a	outras	áreas	e	ao	discurso	popular,	como	uma	osmose	lenta	com
adaptações	 e	 partidas	 capazes	 de	 transformar	 as	 ideias	 originais	 em	 meras
sombras	 de	 si	 mesmas.	 Todavia,	 os	 temas	 da	 exploração,do	 roubo	 do	 valor
excedente	e	das	armadilhas	da	propriedade	privada	estouraram	para	a	vanguarda
dos	influenciadores	e	intelectuais	da	sociedade,	espalhando-se	com	rapidez	para
a	força	de	trabalho.	Dentro	de	meses	após	a	publicação	do	Manifesto	Comunista,
“as	rebeliões	dos	trabalhadores	se	disseminaram	por	toda	a	Europa	–	na	França,
Alemanha,	Áustria	e	Itália”.47
Na	virada	do	século,	a	obra	A	ética	protestante	e	o	espírito	do	Capitalismo,
de	 Max	 Weber,	 apresentou	 aos	 leitores	 o	 conceito	 de	 “gaiola	 de	 ferro”.	 De
acordo	 com	 tal	 conceito,	 o	 capitalista	 cristão	 fica	 preso	 ao	 Capitalismo,
habituado	aos	seus	benefícios,	mas	enredado	em	um	paradigma	 imoral.	Weber,
segundo	um	economista	moderno,	afirmava	“que	o	Capitalismo,	por	sua	própria
natureza,	 tinha	 de	 se	 desenvolver	 em	 uma	 cultura	 materialista	 e	 de	 aquisição
mundana	das	coisas,	a	busca	e	deleite	pelo	desnecessário	(luxo)”.48	Corroborando
com	 o	 argumento	 de	 Weber,	 está	 a	 ideia	 de	 que	 nem	 mesmo	 o	 mais	 justo
puritano	foi	capaz	de	escapar	da	tentação	e	do	dilema	moral	da	riqueza.	Weber
pinta	a	imagem	de	cristãos	bem-intencionados	sendo	corrompidos	e	engaiolados
pelas	futilidades	atraentes	da	riqueza.
Mais	 próximo	 aos	 nossos	 dias,	 na	 década	 de	 60,	 os	 socialistas	 cristãos	 e
teólogos	 deram	 mais	 voz	 às	 suas	 denúncias	 contra	 os	 danos	 relacionados	 à
abundância	e	à	riqueza.	Citando	o	texto	de	Atos	2	fora	de	seu	contexto	canônico,
eles	 requisitavam	 um	 estilo	 de	 vida	mais	 simples,	 característica	 quase	 sempre
aprovada	pelos	teoristas	coletivistas.	Mesmo	em	vista	dos	incontáveis	benefícios
trazidos	pelo	Capitalismo	para	a	sociedade	–	aumento	de	emprego	e	 liberdade,
mencionando	 somente	 dois	 –	 eles	 ainda	 se	 sentiam	 presos	 à	 “gaiola	 de	 ferro”
introduzida	 por	 Weber.	 Ao	 comentar	 sobre	 esse	 fenômeno	 em	 seu	 livro,	 The
Good	of	Affluence,	John	Schneider	observou	que	“economistas	como	Robinson	e
filósofos	 morais	 como	 Hauerwas	 têm	 a	 mesma	 percepção	 característica	 do
Capitalismo	–	ou	seja,	embora	ele	possa	resultar	em	enormes	vantagens,	como	a
prosperidade,	seus	fundamentos	humanos	não	são	bons,	mas	bastante	imorais”.49
O	grande	experimento	social	do	século	20	precisava	de	vilões	que	ameaçassem
ostensivamente	 suas	 ideias	 de	 amor	 livre,	 paz,	 liberdades	 sociais	 e	 expressões
irrestritas.	Alimentadas	 por	 um	 século	 de	 dúvidas	 e	 ataques	 e	 inflamadas	 pela
nova	 teologia	da	 libertação,	as	décadas	de	60	e	70	consolidaram	o	conceito	da
imoralidade	da	riqueza,	tornando-o	parte	da	consciência	cultural	predominante.
Ainda	 hoje	 há	 certa	 tendência	 predominante	 de	 menosprezar	 a	 riqueza;
basta	apenas	ouvir	as	inúmeras	críticas	ao	último	violador	caluniado	–	uma	das
maiores	empresas	de	petróleo.	No	decorrer	dos	últimos	 três	anos,	os	 líderes	da
Exxon	e	de	outras	empresas	de	óleo	e	gás	foram	intimados	perante	o	Congresso
para	 justificar	 seus	 “lucros	 excessivos”.	 Praticamente	 como	 um	 rito	 anual,	 o
Congresso	 censura	 a	 Exxon	 e	 outros	membros	 do	 grupo	 de	 conspiradores	 por
eles	 denominado	 “big	 oil”.	 No	 entanto,	 os	 lucros	 de	 tais	 produtoras	 são
realmente	excessivos?	Em	2007,	a	Exxon	Mobil	 lucrou	US$	40.600	bilhões	 já
com	a	dedução	de	 impostos	–	uma	quantia	 inacreditável.	Entretanto,	com	base
em	sua	receita	bruta	de	US$	358.600	bilhões,	a	margem	de	lucro	líquido	foi	de
11.3%	 em	 2007.	 A	 tabela	 abaixo	 mostra	 os	 dados	 financeiros	 para	 as	 dez
principais	ações	de	acordo	com	o	índice	S&P	500	com	base	na	capitalização	de
mercado.
		Empresa		 		Margem	de	lucro
líquido		
		Rendimento	de
dividendos		
		Distribuição	de	dividendos	em
US$		
		Exxon		 		11.3%		 		1.5%		 		US$	7.62	bi		
		GE		 		12.5%		 		3.3%		 		US$	11.49	bi		
		Microsoft		 		27.5%		 		1.2%		 		US$	4.01	bi		
		AT&T		 		15.5%		 		3.8%		 		US$	8.7	bi		
		Proctor	&
Gamble		
		12.6%		 		1.9%		 		US$	4.2	bi		
		Google		 		29.9%		 		0%		 		US$	0		
		Chevron		 		8%		 		2.5%		 		US$	4.79	bi		
		Johnson	e
Johnson		
		19.9%		 		2.5%		 		US$	4.67	bi		
		Wal-Mart		 		3.3%		 		1.9%		 		US$	3.58	bi		
		Bank	of	America
	
		27.5%		 		6.2%		 		US$	10.87	bi		
Dados	financeiros	concedidos	pelo	banco	de	dados	da	Baseline,	compilados	por	Thomson	Financial,	Nova
York,	NY.
Comparando	a	margem	de	lucro	da	Exxon	com	a	das	outras	nove	empresas
dentre	as	dez	principais,	podemos	perceber	que	a	Exxon,	na	verdade,	é	a	terceira
empresa	menos	lucrativa.	Se	ela	for	culpada	de	lucro	excessivo,	o	que	dizer	de
Microsoft,	Google	e	Bank	of	America,	que	estabeleceram	corporações	que	retêm
mais	 de	 20%	 do	 dinheiro	 dos	 consumidores?	 Observe	 também	 que	 a	 Exxon
pagou	mais	de	US$	7	bilhões	em	dividendos	em	2007,	enquanto	o	Google	não
pagou	 absolutamente	 nada.	 Uma	 vez	 que	 o	 campo	 de	 jogo	 é	 nivelado	 pela
mágica	 da	 análise,	 Google,	 Microsoft	 e	 as	 outras	 corporações	 ganham	 muito
mais	 que	 a	 Exxon	 por	 dólar	 gasto	 e	 devolvem	 menos	 aos	 acionistas.	 Se	 o
Congresso	estiver	realmente	preocupado	com	os	lucros	excessivos,	deve	ordenar
que	cada	empresa	limite	sua	margem	de	lucro	à	margem	da	Exxon	e	redistribua	o
excedente	para	as	pessoas	dos	Estados	Unidos.
Além	disso,	a	Exxon	Mobil	utiliza	sua	fortuna	para	reinvestir	em	atividades
em	todo	o	mundo,	empregando	centenas	de	milhares	de	pessoas.	Por	exemplo,
22	 mil	 trabalhadores	 estão	 empregados	 na	 Exxon	 no	 Chade.	 O	 sistema
econômico	 nacional	 não	 é	 fortalecido	 pela	 presença	 dessa	 empresa?	 Qual	 a
importância	 final	para	os	milhares	de	 lares	no	Chade	em	decorrência	do	efeito
cascata	dos	lucros	da	Exxon?	Ter	uma	visão	panorâmica	fora	de	contexto	tende
sempre	 à	distorção	ou	manipulação.	Lucro	 e	 riqueza,	quando	não	acumulados,
possuem	 efeito	 multiplicador	 que	 cria	 valor.	 O	 circo	 político,	 na	 melhor	 das
hipóteses,	 é	 um	 espetáculo	 secundário,	 porém,	 ilustra	 o	 pensamento	 da	 nossa
época,	ou	seja,	a	riqueza	e	o	lucro	são,	em	grande	medida,	maus	e	podem	estar
sujeitos	 à	 redistribuição.	 Todavia,	 sob	 um	 sistema	 de	 mercado	 eficiente	 que
opera	 em	 conformidade	 com	 os	 princípios	 econômicos	 bíblicos,	 o	 poder	 da
riqueza	como	instrumento	de	reinvestimento	e	graça	não	pode	ser	compreendido
como	algo	maléfico,	mas	bom,	criando	valor,	impactando	vidas,	desenvolvendo
comunidades	e	promovendo	a	abundância	da	criação	de	Deus	a	todos	os	homens
como	extensão	de	sua	providência.
A	 questão	 é	 que	 Deus	 criou	 a	 riqueza	 e	 concedeu	 aos	 seres	 humanos	 a
capacidade	de	gerenciar	e	intercambiar	a	moeda	correta.	Em	vez	de	restringir	a
humanidade	 ao	 escambo	 ou	 troca	 de	 mercadorias,	 devemos	 reconhecer	 que	 o
livre	fluxo	de	capital,	na	realidade,	é	um	exercício	de	domínio.	Trata-se	de	uma
outra	maneira	de	a	coroa	da	criação	de	Cristo,	a	humanidade,	conseguir	praticar
a	 boa	 administração	 do	 restante	 da	 criação.	 A	 utilização	 da	 riqueza	 para
enriquecer	a	vida	de	nossas	famílias	e	outras	pessoas	é	uma	forma	de	glorificar	a
Deus.	Não	é	possível	concluir,	a	partir	de	um	estudo	das	Escrituras,	ser	a	riqueza
inerentemente	 maléfica;	 pelo	 contrário,	 ela	 é	 parte	 da	 criação.	 Apesar	 de	 a
inveja,	 cobiça	e	avareza	colocarem	em	dúvida	a	administração	da	 riqueza,	 tais
desejos	avarentos	podem,	também,	ser	direcionados	a	outras	coisas	que	não	são
inerentemente	 maléficas.	 Calvino	 tinha	 uma	 visão	 bastante	 equilibrada	 para
compreender	que	o	Criador	havia	criado	até	mesmo	a	riqueza.	Ele	percebeu	que
ela,	 embora	 jamais	 devesse	 se	 tornar	 um	 ídolo,	 pode	 e	 deve	 ser	 utilizada	 de
maneira	adequada	a	fim	de	consolar	as	criaturas	de	Deus.
Wayne	 Grudem	 se	 expressa	 bem	 quando	 afirma	 ser	 o	 dinheiro	 uma
invenção	humana	fundamentalmente	boa	que	“que	nos	afasta	do	reino	animal	e
nos	permite	dominar	a	terra	por	meio	da	produção	de	bens	e	serviços	que	tragam
benefícios	às	outras	pessoas.	O	dinheiro	permite	que	todos	os	seres	humanos	se
tornem	produtivos	 e	 desfrutem	dos	 frutos	 de	 tal	 produtividade	de	modo	muito
mais	 amplo	 do	 queconseguiríamos	 se	 nenhum	 ser	 humano	 tivesse	 dinheiro	 e
tivéssemos	apenas	de	permutar	uns	com	os	outros”.50
Ao	revelar	o	esplendor	de	Deus,	a	narrativa	da	criação	possuía	importantes
implicações	 para	 o	 entendimento	 do	 reformador	 em	 relação	 à	 riqueza,	 ao
homem,	ao	domínio	e	ao	dia	de	descanso.	Quando	se	levam	em	consideração	os
comentários	de	Calvino	a	respeito	da	criação	e	do	plano	de	Deus,	não	se	nota	o
semblante	 de	 um	 mestre	 mercenário,	 insensível,	 furioso,	 nem	 de	 um	 monge
isolado.	 Calvino,	 sim,	 revela	 os	 desígnios	 de	 Deus	 como	 um	 pastor	 bondoso
orientando	os	membros	de	seu	rebanho	a	adorarem	o	Criador	acima	da	criação
enquanto	mantêm	a	energia	e	diligência	necessárias	para	cuidar	da	criação	a	eles
confiada.	 Entre	 a	 tensão	 do	Criador	 e	 da	 criação,	Calvino	 faz	 um	mosaico	 no
qual	o	homem	tem	domínio	sobre	um	jardim	abundante,	está	propenso	a	criar,	é
autorizado	a	desfrutar	dos	benefícios	de	seu	trabalho	e	é	responsável	por	semear
e	colher	para	a	glória	de	Deus.
Tais	 benefícios	 são	 balanceados	 por	 determinada	 ética	 de	 trabalho	 que
requer	 responsabilidade	 e	 a	 utilização	 apropriada	 do	 dia	 de	 descanso	 a	 fim	de
honrar	ao	Criador.	As	ferramentas	de	sustento	do	homem	não	incluem	somente	o
empenho	criativo,	mas	também	a	riqueza	e	os	ganhos	financeiros	ordenados	por
Deus	não	como	instrumentos	de	destruição	ou	maldade,	mas	como	instrumentos
de	misericórdia,	reinvestimento	e	ministério.	O	pensamento	de	Calvino	quanto	à
criação	 teve	 impacto	 em	 seus	 dias	 em	Genebra	 e	 ainda	 influencia	 os	 sistemas
comerciais	que	encorajam	a	criação,	protegem	o	criador	da	empresa	e	visualizam
a	 riqueza	 sem	 desdém,	 inveja	 ou	 ira.	 Ao	 enxergar	 a	 riqueza	 e	 os	 bens	 como
criados	por	Deus	e	à	luz	da	ordem	de	administração,	é	possível	obter	uma	visão
positiva	de	coisas	como	lucro,	comércio,	 riqueza	e	ativos.	Todavia,	 juntamente
com	 elas	 também	 vêm	 as	 tentações	 da	má	 utilização,	 como	 aponta	 a	 próxima
seção.
Notas
*	Filósofo	cínico	de	Atenas	que	doou	seu	dinheiro	para	viver	na	pobreza	(N.	da	T.).
**	 No	 Brasil,	 ainda	 não	 existem	 efetivamente	 escolas	 nesses	 padrões.	 Os	 Charters	 Schools	 são	 escolas
públicas	 financiadas	 pelo	 setor	 público	 e	 privado	 com	maior	 autonomia	 em	 relação	 às	 escolas	 públicas
tradicionais.	Há	estudos	e	pesquisas	para	a	implantação	desse	modelo	no	Brasil,	como	mostra	a	reportagem
http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/estado-deve-implantar-oss-na-area-da-educacao-aos-moldes-
das-charter-schools-americanas-2-25931/,	porém,	nada	parecido	existe	atualmente	(N.	da	T.).
***	 Referências	 ao	 CIC	 pesquisadas	 em:	 http://www.catequisar.com.br/dw/catecismo.pdf.	 Acessado	 em
09/05/2016	(N.	da	T.).
1		João	Calvino,	Commentary	on	a	Harmony	of	 the	Evangelists,	Matthew,	Mark	and	Luke	(Grand	Rapids:
Baker	Book	House,	1979),	1:337.
2		Ibid.,	1:332.
3		Ibid.,	1:334.
4		Os	discípulos	de	Weber	argumentam	que	os	calvinistas	buscavam	provar	sua	eleição	por	meio	do	acúmulo
de	 capital.	 Os	 eleitos,	 portanto,	 eram	 aqueles	 que	 obtinham	 êxito	 nos	 negócios	 e	 eram	 identificados
exteriormente	como	prósperos.
5		Calvino,	Commentary	on	a	Harmony	of	the	Evangelists,	1:334.
6		João	Calvino,	Commentaries	on	the	Four	Last	Books	of	Moses	(Grand	Rapids:	Baker	Book	House,	1979),
3:187.
7		Ibid.,	3:188
8	 	 André	 Biéler,	 Calvin’s	 Economic	 and	 Social	 Thought	 (1959;	 reimpr.,	 Genebra:	 World	 Alliance	 of
Reformed	Churches,	2005),	p.	283.
9		Calvino,	Commentary	on	a	Harmony	of	the	Evangelists,	2:401.
10		Utilização	da	nomenclatura	antiga	em	referência	a	“pessoa”,	claro,	sem	a	intenção	de	especificar	o	gênero
[essa	ressalva	se	deve	à	preocupação	do	autor	com	o	uso	da	linguagem	inclusiva,	em	geral	não	adotada	em
português	e	definitivamente	não	empregada	por	esta	Editora	(N.	do	E.)].
11		João	Calvino,	Commentaries	on	the	First	Book	of	Moses	Called	Genesis	(1554;	reimpr.,	Grand	Rapids:
Baker	Book	House,	 1979),	 p.	 70.	Na	 seção	 a	 seguir,	 os	 números	 entre	 parênteses	 referem-se	 às	 páginas
dessa	edição	do	comentário.
12		Embora	Mark	Skousen,	dentre	outros,	observe	que	Smith	tenha	feito	parte	do	Iluminismo	escocês	junto
com	o	 cético	David	Hume,	 ele	 também	 afirma	 o	 seguinte:	 “Adam	Smith	 foi	 extremamente	 influenciado
pelas	doutrinas	calvinistas,	favorecendo	a	frugalidade	e	o	trabalho	árduo,	condenando,	enquanto	isso,	o	luxo
excessivo,	a	usura	e	a	mão	de	obra	‘improdutiva’”.	Skousen,	The	Big	Three	in	Economics,	p.	39.
13	 	 Citado	 na	 obra	 de	 John	 E.	 Stapleford,	 Bulls,	 Bears	 &	 Golden	 Calves:	 Apllying	 Christian	 ethics	 in
Economics	(Downers	Grove:	InterVarsity	Press,	2002),	p.	57.
14		O	economista	austríaco	Joseph	Schumpeter	(1883-1950)	tornou	conhecido	o	termo	“destruição	criativa”.
15	 	 Obviamente,	 esses	 produtos	 gratuitos	 também	 são	 designados,	 em	 alguns	 casos,	 para	 criar	 certa
necessidade	do	produto,	o	qual	virá	a	ter	um	custo	mais	adiante.	Além	do	mais,	algumas	empresas	oferecem
software	“gratuito”	apenas	para	compensar	a	“perda”	ao	cobrar	mais	por	outros	produtos.
16	 	 Calvino,	Commentaries	 on	 the	 First	 Book	 of	 Moses,	 p.	 96.	 Nas	 seções	 a	 seguir,	 os	 números	 entre
parênteses	das	páginas	referem-se	a	esse	comentário.
http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/estado-deve-implantar-oss-na-area-da-educacao-aos-moldes-das-charter-schools-americanas-2-25931/
http://www.catequisar.com.br/dw/catecismo.pdf
17	 	 John	 R.	 Schneider,	 The	 Good	 of	 Affluence:	 Seeking	 God	 in	 a	 Culture	 of	 Wealth	 (Grand	 Rapids:
Eerdemans,	2002),	p.	59.
18		Por	exemplo,	presuma-se	ainda	que	a	GE	tenha	um	objetivo	de	taxa	interna	de	retorno	de	11%,	que	todas
as	divisões	dela	estejam	dando	um	retorno	de	12%	e	que	a	taxa	de	retorno	livre	de	risco	(como	simbolizado
pelo	título	do	tesouro	direto	em	10	anos)	seja	de	4,5%.	Se	a	GE	identificar	uma	oportunidade	com	potencial
de	retorno	superior	a	11%,	a	empresa	deve	investir	o	excesso	de	lucro	em	tal	oportunidade.	Caso	o	potencial
seja	entre	4,5	e	11%,	a	decisão	não	está	tão	evidente	e,	sem	outros	motivos	potenciais	ou	sinergias,	o	lucro
deve	ser	pago	como	dividendos.	Se	o	 retorno	esperado	 for	 inferior	a	4,5%,	a	empresa	deve,	 sem	dúvida,
pagar	o	lucro	em	forma	de	dividendos.
19		O	teorema	de	Modigliani-Miller	defende	que,	em	um	mercado	eficiente	isento	de	impostos,	a	decisão	de
pagar	ou	reter	o	dividendo	é	irrelevante	para	o	valor	de	mercado	atual	das	ações.	A	suposição	básica	para	tal
aspecto	da	teoria	é	que	(1)	a	empresa	esteja	pagando	um	capital	“ineficiente”,	ou	seja,	um	capital	incapaz	de
superar	 a	 taxa	 mínima	 de	 atratividade	 e	 2)	 os	 acionistas/recebedores	 dos	 dividendos	 receberão	 seu
pagamento	e	buscarão	um	retorno	mais	alto,	reinvestindo	a	receita	em	outros	empreendimentos	comerciais
especulativos	 que	 estejam	 superando	 o	 valor	 da	 taxa	mínima	 de	 atratividade.	 Consulte	Merton	Miller	 e
Franco	Modigliani,	 “Dividend	Policy,	Growth,	 and	 the	Valuation	of	Shares”,	Journal	of	Business,	 34,	 n°
4(1961):	p.	411-433.
20		Isso	não	implica	que	somente	os	cristãos	receberão	riquezas	neste	mundo.	Em	oposição	ao	grave	erro	da
“teologia	da	prosperidade”,	Deus	elege	algumas	pessoas	para	receberem	bens	e	outras	não,	porém,	a	eleição
é	feita	por	ele.	Homens	maus	podem	prosperar	nesta	terra,	e	justos	podem	viver	na	pobreza.
21		Schneider,	The	Good	of	Affluence,	p.	59.
22		Skousen,	The	Big	Three	in	Economics,	p.	208.
23		Citado	em	Biéler,	Calvin’s	Economic	and	Social	Thought,	p.	357.
24	 	 Calvino,	Commentaries	 on	 the	 First	 Book	 of	 Moses,	 p.	 125.	 Na	 seção	 a	 seguir,	 os	 números	 entre
parênteses	referem-se	às	páginas	desse	comentário.
25		A	citação	é	do	sermão	de	Calvino	sobre	o	texto	de	Deuteronômio	24,	citado	em	Biéler,	Calvin’s	Economic
and	Social	Thought,	p.	362.
26		Stapleford,	Bulls,	Bears	&	Golden	Calves,	p.	22.
27		Victor	V.	Claar	e	Robin	J.	Klay,	Economics	in	Christian	Perspective:	Theory,	Policy,	and	Life	Choices
(Downers	Grove:	InterVarsity	Press),	p.	22.
28		Citado	em	Biéler,Calvin’s	Economic	and	Social	Thought,	p.	201.
29		Diversos	estudos	detalham	a	Genebra	de	Calvino.	Dentre	eles	estão:	E.	William	Monter,	Calvin’s	Geneva
(Nova	York:	John	Wiley	&	Sons,	1967);	Alastair	Duke	et	al.	(orgs.),	Calvinism	in	Europe,	1540–1610:	A
Collection	of	Documents	(Manchester:	Manchester	University	Press,	1988);	J.	T.	McNeill,	“John	Calvin	on
Civil	Government”,	em	Calvinism	and	the	Political	Order,	George	L.	Hunt	(org.)	(Filadélfia:	Westminster
Press,	1965),	p.	22-45;	William	A.	Dunning,	A	History	of	Political	Theories:	From	Luther	to	Montesquieu
(Nova	York:	Macmillan,	1919),	p.	26-33;	W.	Fred	Graham,	The	Constructive	Revolutionary:	John	Calvin,
His	 Socio-Economic	 Impact	 (Richmond:	 John	 Knox	 Press,	 1975);	 e	William	G.	 Naphy,	Calvin	 and	 the
Consolidation	 of	 the	 Genevan	 Reformation	 (Manchester:	 Manchester	 University	 Press,	 1994).	 Duas
biografias	 recentes	 também	 agregam	 ao	 nosso	 conhecimento:	 William	 J.	 Bouswsma,	 John	 Calvin:	 A
Sixteenth-Century	Portrait	(Nova	York:	Oxford	University	Press,	1988);	e	Alister	McGrath,	A	Life	of	John
Calvin	(Oxford:	Basil	Blackwell,	1990).
30		Os	números	de	Monter,	claro,	podem	ser	questionados.	É	possível	que	registros	tenham	sido	mais	bem
preservados	 depois	 de	 1536,	 o	 que	 poderia	 explicar	 algumas	 das	 ascensões	 da	 classe	mercantil	 (Monter,
Calvin’s	 Geneva,	 5).	 Entretanto,	 mesmo	 que	 isso	 fosse	 estabelecido,	 o	 crescimento	 astronômico	 dos
tipógrafos	e	da	nobreza	é	certo.	Nobres,	principalmente	da	França,	fugiram	para	Genebra	porque	a	adesão
ao	Protestantismo	em	sua	pátria	poderia	significar	a	morte.
31	 	 João	 Calvino,	 Institutes	 of	 the	 Christian	 Religion,	 John	 T.	 McNeil	 (org.),	 Ford	 Lewis	 Battles	 (trad.)
(Filadélfia:	Westminster,	1960).	No	decorrer	da	presente	obra,	todas	as	citações	provenientes	das	Institutas
são	da	edição	mencionada.
32		Duke	et	al.,	Calvinism	in	Europe,	1540-1610,	p.	34.	A	oração	de	1562	a	ser	feita	antes	do	trabalho	está
presente	na	íntegra	em	Biéler,	Calvin’s	Economic	and	Social	Thought,	p.	345.	“Bondoso	Deus,	nosso	Pai	e
Salvador,	 visto	 que	 lhe	 apraz	 mandar	 que	 trabalhemos	 a	 fim	 de	 combatermos	 nossa	 pobreza,	 abençoe,
assim,	nosso	trabalho	pela	sua	graça;	que	sua	bênção	nos	alcance,	pois,	sem	ela,	nada	pode	prosperar;	e	que
o	seu	favor	se	faça	presente	a	nós	na	forma	de	sua	bondade	e	auxílio,	permitindo,	assim,	que	percebamos
seu	cuidado	paterno	por	nós.	Também,	Senhor,	que	lhe	apraza	nos	assistir	por	intermédio	do	Espírito	Santo,
pois,	assim,	poderemos	atender	fielmente	tanto	a	nossa	condição	na	vida	como	nosso	chamado,	sem	engano
ou	 ilusão,	mas	nos	 esforçando	para	 seguir	o	que	o	Senhor	ordenou,	não	para	 satisfazer	nosso	desejo	por
riqueza.	 Não	 obstante,	 se	 o	 seu	 prazer	 for	 fazer	 nosso	 trabalho	 prosperar,	 mantenha-nos	 completamente
humildes,	 de	modo	que	 não	 nos	 coloquemos	 acima	daqueles	 que	 não	 receberam	porção	 tão	 farta	 de	 sua
generosidade.	No	 entanto,	 se	 lhe	 aprouver	 que	 fiquemos	mais	 pobres	 e	 necessitados	 do	 que	 nossa	 carne
gostaria,	que	lhe	apraza	ser	gracioso	para	conosco,	aumentando	a	fé	em	suas	promessas,	assegurando-nos	de
que	o	Senhor	sempre	nos	susterá	por	meio	de	sua	bondade,	assim,	não	esmorecemos	na	falta	de	confiança;
porém,	 pelo	 contrário,	 que	 esperemos	 pacientemente	 o	 Senhor	 nos	 encher	 não	 somente	 com	 sua	 graça
material,	 mas	 também	 com	 as	 espirituais,	 a	 fim	 de	 que	 tenhamos	 sempre	 a	 imensa	 oportunidade	 de
agradecê-lo	e	possamos	descansar	por	completo	apenas	na	sua	bondade.	Ouve-nos,	Pai	de	misericórdia,	por
intermédio	de	Jesus	Cristo,	seu	Filho,	nosso	Senhor.”	Esta	oração	ser	tornou	tão	popular	que	estava	presente
em	muitas	versões	da	Bíblia	de	Genebra	(veja	a	edição	de	1599)	no	anexo	de	orações	“para	ser	usada	em
casa	todas	manhãs	e	noites”.
33		Biéler,	Calvin’s	Economic	and	Social	Thought,	p.	365.
34		João	Calvino,	Commentary	on	the	Epistles	of	Paul	the	Apostle	to	the	Corinthians	(Grand	Rapids:	Baker
Book	House,	1979),	1:248.
35		Ibid.,	1:249.
36		Calvino,	Commentaries	on	the	First	Book	of	Moses,	p.	125.
37		Ibid.,	p.	106.
38		Calvino,	Commentaries	on	the	Four	Last	Books	of	Moses,	2:	438.
39		Calvino,	Commentary	on	a	Harmony	of	the	Evangelists,	2:46.
40		Brian	Schwertley:	“The	Sabbath	and	Modern	Industrial	Civilization:	A	Critique	of	Gary’s	North’s	‘The
Economics	 of	 Sabbath	 Keeping’”,	 Reformed	 Online,
http://www.reformedonline.com/view/reformedonline/sabbathciv.htm.
41		Wayne	Grudem:	Business	for	the	Glory	of	God:	The	Bible’s	Teaching	on	the	Moral	Godness	of	Business
(Wheaton:	Crossway	Books,	2003),	p.	81.
42		Ibid.,	p.	82.
43		Ibid.
44		Publicado,	pela	primeira	vez,	em	1817,	On	the	Principles	of	Political	Economy	and	Taxation,	de	Ricardo,
foi	a	primeira	grande	obra	econômica	a	adentrar	o	cenário	depois	de	Wealth	of	Nations,	de	Smith	em	1776.
Ricardo	era	teorista	em	sua	abordagem,	caracterizada	pelo	raciocínio	abstrato	e	dedutivo.	Abordando	uma
série	de	assuntos,	aquele	que	teve	a	maior	concentração	de	seus	esforços	e	influência	foi	o	estudo	sobre	a
http://www.reformedonline.com/view/reformedonline/sabbathciv.htm
distribuição	de	renda	ou	o	que	é	citado	como	“distribuição	funcional	da	renda”.	Consulte	Harry	Landreth	e
David	C.	Colander,	History	of	Economic	Thought	(Boston:	Houghton	Mifflin	Company,	2002),	p.	108-116.
45		Marvin	Olasky,	The	Tragedy	of	American	Compassion	(Wheaton:	Crossway	Books,	2008),	p.	51.	Horace
Greeley	(1811-1872)	foi	editor	do	influente	New	York	Tribune	e	fundador	do	partido	republicano	liberal.
46		Ibid.,	p.	56.
47		Skousen,	The	Big	Three	in	Economics,	p.	76.
48		Schneider,	The	Good	of	Affluence,	p.	24.
49		Ibid.,	p.	23.
50	 	Grudem,	Business	 for	 the	Glory	 of	God,	 p.	 47	 [Publicado	 no	Brasil	 pela	 Cultura	 Cristã	 com	 o	 título
Negócios	para	a	Glória	de	Deus	(N.	da	T.)].
2
Queda
Antes	 de	 serem	 dadas	 quaisquer	 prescrições	 econômicas,	 um	 diagnóstico
correto	quanto	à	condição	do	paciente	deve	ser	 realizado.	 Isso	significa	que	os
calvinistas	 e	 as	 outras	 pessoas	 devem	 avaliar	 a	 natureza	 do	 homem	 antes	 de
propor	 correções	 para	 a	 escassez	 econômica.	 Embora	 a	 fé	 bíblica	 de	 Calvino
fosse	clara	quanto	à	condição	da	riqueza	como	entidade	criada,	era	 igualmente
claro	 o	 fato	 de	 toda	 a	 criação,	 incluindo	 o	 homem,	 ter	 mudado	 drástica	 e
substancialmente	em	relação	ao	seu	estado	original.	Calvino	observou	que,	antes
da	queda,	o	mundo	era	“o	 reflexo	mais	nítido	e	aprazível	do	 favor	divino”,	ao
passo	 que,	 subsequentemente,	 o	 mundo	 e	 os	 seres	 humanos	 foram
“amaldiçoados”.1	 Caracterizado	 por	 “terrível	 alienação”	 (p.	 173)	 e	 condições
servis,	o	mundo	caído	era	a	antítese	do	jardim	do	Éden.	A	respeito	do	trabalho
no	jardim	antes	da	queda,	Calvino	falou	do	“trabalho	agradável	ao	qual	Adão	se
dedicava,	 trabalho	 esse	 que,	 de	 certa	 forma,	 lhe	 foi	 dito	 para	 desempenhar;
porque	ele	não	havia	sido	formado	para	a	ociosidade,	mas	para	a	ação”	(p.	174).
Nas	 condições	 amaldiçoadas	 depois	 da	 queda,	 entretanto,	 o	 “doce	 prazer”	 do
cultivo	foi	trocado	pelo	“trabalho	servil,	como	se	ele	tivesse	sido	condenado	ao
garimpo”	 (p.	 174).2	 Uma	 vez	 que	 o	 pecado	 entrou	 no	 mundo,	 as	 realidades
econômicas	 também	 mudaram.	 Desde	 então,	 tornou-se	 impossível	 fazer	 uma
suposição	 quanto	 à	 bondade,	 integridade,	 retidão	 ou	 benevolência.	 Em
contrapartida,	 devido	 à	 queda,	 a	 depravação	 do	 homem	 deve	 ser	 fatorada	 ao
comércio.	 Os	 espinhos	 que	 afligiram	 Adão	 tornariam	 o	 trabalho	 perigoso	 e
menos	prazeroso.
André	Biéler	fez	uma	observação	quanto	à	flutuação	da	economia	primitiva
distante	da	superabundância	e	em	direção	à	desordem.	A	causa	fundamental,	ele
escreve,	foi	espiritual	e,	para	corroborar	sua	interpretação,	o	pastor	suíço	cita	os
comentários	de	Calvino	a	respeito	dos	efeitos	da	queda.	O	reformador	explicou
que	 a	 ânsia	 dos	 homens	 e	 dos	 animais	 “deve	 ser	 atribuída	 à	 corrupção	 da
natureza”.	 A	 natureza	 passou	 de	 um	 “estadoíntegro”	 que	 outrora	 havia	 se
conservado	 “pela	 designação	 original	 de	 Deus”	 para	 uma	 condição	 sujeita	 à
improdutividade,	má	colheita,	 inclemência,	estiagem,	chuva	de	granizo	e	“tudo
aquilo	 que	 for	 desregrado	 no	 mundo,	 sendo	 fruto	 do	 pecado”.3	 Contrária	 à
economia	 perfeita	 anterior	 à	 queda,	 nossa	 cultura	 econômica	 herdada	 é
caracterizada	por	corrupção,	labuta,	opressão,	vingança	e	ira	divina.	A	condição
econômica	que	uma	vez	 foi	harmoniosa	suporta	hoje	 iniquidades	e	desarranjos
extremos.	Em	um	sermão	sobre	o	texto	de	Deuteronômio	24,	Calvino	explicou	a
antropologia	fundamental	com	estas	palavras:
Sem	 dúvida,	 aqui,	 Deus	 desejava	 corrigir	 essa
incredulidade	 tão	 predominante	 em	 nós,	 quando
alguém	 acha	 que	 nunca	 terá	 o	 suficiente.	 Esta	 é	 a
razão	por	que	os	homens	se	apegam	às	coisas	e	nunca
conseguem	 se	 satisfazer;	 e,	 quanto	 mais	 coisas	 eles
têm,	 mais	 a	 cobiça	 deles	 inflama,	 exatamente	 como
ocorre	com	alguém	que	bebe	e	tem	edema.	E	qual	é	a
causa?	 Essa	 incredulidade	 diabólica	 no	momento	 em
que	não	 reconhecemos	que	 a	verdadeira	preocupação
de	 Deus	 é	 nos	 suster.	 Este	 é	 o	 motivo	 por	 que	 os
homens	 são	 tão	 insaciáveis	 e	 ardem	 em	 tamanha
inveja	 a	ponto	de	 se	 apoderarem	de	grandes	quantias
para	si	mesmos,	guardá-las	e	nunca	estarem	contentes.
Recorramos	 a	Deus	 e	 reconheçamos	 que,	 quando	 ele
nos	 abençoa,	 temos	 o	 suficiente	 com	 o	 que	 nos
alimentar	e	nos	suster.4
Uma	antropologia	definida	(ou	visão	da	natureza	do	homem)	surge	a	partir
do	ensinamento	progressivo	de	Calvino.	Em	certo	sermão	sobre	Gálatas,	Calvino
disse:	“Se	fôssemos	todos	como	os	anjos,	sem	culpa	e	livres	para	conseguirmos
exercitar	 o	 perfeito	 domínio	 próprio,	 não	 necessitaríamos	 de	 regras	 ou
regulamentações.	 Por	 que,	 então,	 temos	 tantas	 leis	 e	 estatutos?	 Devido	 à
iniquidade	do	homem,	pois	ele	está	constantemente	transbordando	o	mal;	esta	é
a	 razão	pela	qual	 se	 faz	necessária	uma	solução”.5	Se	os	homens	não	 tivessem
pecado,	não	seriam	necessárias	quaisquer	responsabilidades	fiscais	ou	estruturas
externas.	 Cada	 pessoa	 trabalharia	 de	 maneira	 árdua,	 produziria	 mais,
administraria	com	excelência	e	compartilharia	de	modo	benevolente.	No	entanto,
o	 fato	 inegável	 do	 egoísmo	 humano	 requer	 que	 antevejamos	 as	 seguintes
verdades	como	efeitos	da	queda	sobre	o	comércio.
A	depravação	requer	uma	ética	de	trabalho
O	Calvinismo	é	tão	singular	em	sua	visão	da	motivação	humana	quanto	em
sua	visão	do	potencial	humano.	Seguindo	a	Escritura,	ele	visualiza	a	humanidade
declinando	 radicalmente	 de	 uma	 posição	 outrora	 superior.	 Apesar	 de	 os	 seres
humanos	 terem,	 outrora,	 cultivado	 o	 jardim	 sem	 imposições	 ou	 restrições
externas,	 desde	 a	 queda,	 os	 trabalhadores	 têm	 de	 ser	motivados.	Ociosidade	 e
egoísmo,	no	universo	modificado,	se	tornaram	mais	normais	do	que	diligência	e
administração.
Portanto,	não	se	exige	apenas	trabalho,	mas	também	uma	ética	de	trabalho
diferenciada.	O	chamado	para	o	trabalho	é	aquele	que	se	adapta	às	expectativas
de	 que	 os	 homens	 possam	 fazer	 o	 contrário.	 O	 egoísmo	 nato	 e	 pervertido,
inerente	 desde	 a	 queda,	 deve	 ser	 contrabalanceado	 ou	 refreado	 pela	 influente
ética	de	trabalho	e	pelos	incentivos.
A	 ética	 de	 trabalho	 calvinista	 reconhece	 que	 raramente	 as	 pessoas
trabalharão	 muito	 em	 troca	 de	 nada.	 Algum	 estímulo	 normalmente	 se	 faz
necessário	para	impulsionar	os	seres	humanos	a	labutarem	por	muito	tempo	ou
de	maneira	árdua.	Os	adeptos	de	Calvino	reconhecem	isso	e,	por	essa	razão,	por
exemplo,	programam	o	pagamento	ao	 término	de	um	trabalho	(e	não	antes)	ou
solicitam	que	os	trabalhadores	demonstrem	produtividade	antes	de	lhes	consentir
que	 recebam	 os	 benefícios.	 O	 livro	 de	 Provérbios	 ensina	 que	 “a	 fome	 do
trabalhador	 o	 faz	 trabalhar”	 (16.26),	 e	 tal	 princípio	 está	 inserido	 na	 ética	 de
trabalho	calvinista.
Se	 os	 humanos	 ainda	 vivessem	 no	 jardim	 primitivo,	 tais	 censuras	 não
seriam	necessárias.	No	entanto,	a	 realidade	da	depravação	 requer	uma	ética	de
trabalho	 que	 motive	 e	 também	 recompense.	 Empregadores	 e	 empregados
entenderão,	de	modo	semelhante,	que	a	depravação	afeta	o	nível	motivacional	da
mão	 de	 obra.	 Sendo	 assim,	 exigências,	 incentivos	 e	 recompensas	 (juntamente
com	sua	 suspensão)	 fazem	parte	da	prestação	de	contas	aceitável	neste	mundo
decaído.
Se	reconhecermos	a	depravação,	não	 toleraremos	a
falta	de	produtividade
Partindo	 de	 nossos	 comentários	 acima,	 deduz-se	 que	 a	 ética	 de	 trabalho
calvinista	não	retribui	nem	tolera	a	ausência	de	produtividade.	Na	realidade,	uma
ética	de	 trabalho	ciente	da	depravação	 reconhecerá	a	ociosidade	como	sintoma
do	pecado	e	buscará	impedi-la	sempre	que	possível.	Obviamente,	uma	forma	de
fazer	 isso	é	suspender	as	 recompensas	daqueles	que	não	 trabalham	ou	que	não
trabalham	 bem.	 Recompensar	 somente	 aqueles	 que	 são	 produtivos	 tem	 por
objetivo	anular,	onde	for	possível,	um	dos	efeitos	da	queda.
Qualquer	 sistema	 comercial	 que	 reconheça	 as	 realidades	 da	 queda	 e	 do
pecado	humano,	portanto,	se	esforçará	para	motivar	os	trabalhadores	a	produzir.
Durante	o	processo,	não	se	presumirá	que	produzirão	por	conta	própria,	seja	para
o	bem	do	Estado	ou	de	outras	pessoas.	Os	negócios	bem-sucedidos	farão	dessa
realidade	um	elemento	em	seu	planejamento.	Uma	das	razões	para	tão	grandioso
fracasso	dentre	as	comunidades	socialistas	é	a	relativa	tolerância	da	ausência	de
produtividade.	Posto	que	objetivos	ousados	não	eram	propostos,	os	trabalhadores
não	eram	motivados	a	elevar	seu	próprio	padrão	de	vida	e	todos	os	ativos	eram
redistribuídos	 de	 modo	 regular,	 tais	 economias	 de	 Sísifo	 não	 incentivavam	 a
multiplicação,	 intensificação	e	aumento	dos	bens	ou	ativos.	Tais	dinâmicas	são
compreensíveis	no	que	tange	à	ética	de	trabalho	e	dos	pressupostos	calvinistas.
Fato	não	aceitável	é	esperar	que	os	seres	humanos	trabalhem	de	outra	maneira.
Proprietários	e	trabalhadores	que	entendam	ser	a	produtividade	algo	exigido
e	esperado	a	tornarão	parte	de	sua	vida	comercial.	O	reconhecimento	da	fraqueza
humana	nessa	área	pode	ser	um	dos	primeiros	passos	em	direção	à	restauração
da	natureza	decaída	dos	 trabalhadores.	Aqueles	que	não	se	desenvolvem	e	não
produzem	 não	 devem	 ser	 recompensados;	 seu	 desempenho	 profissional	 não	 é
aceitável.	 Os	 trabalhadores	 que	 se	 desenvolvem	 e	 produzem	 devem	 ser
recompensados;	tal	atitude,	por	sua	vez,	levará	a	uma	maior	produtividade.
Deus	não	queria,	por	exemplo,	que	o	Éden	ficasse	inerte.	Ele	foi	planejado
para	 o	 embelezamento,	 crescimento,	 produtividade	 e	 desenvolvimento.	 As
condições	 da	 economia	 do	 jardim,	 por	 certo,	 são	 diferentes	 das	 condições	 da
economia	entre	cardos	e	abrolhos.
A	depravação	torna	necessária	a	confiança	restrita	e
requer	a	prestação	de	contas	no	mercado
Com	a	discussão	anterior	em	mente,	a	prestação	de	contas	no	mercado	se
torna	essencial.	Se	os	seres	humanos	não	fossem	decaídos,	seria	possível	confiar
que	eles	agiriam	e	trabalhariam	por	conta	própria	sem	quaisquer	recompensas	ou
punições	externas.	Todavia,	uma	vez	que	entendermos	ter	a	queda	introduzido	o
pecado	 dentro	 da	 cultura	 humana,	 nossas	 práticas	 comerciais	 e	 estratégias	 de
investimento	buscarão	se	fundamentar	em	uma	prestação	de	contas	regular.
Os	proprietários	e	gerentes	podem	confiar,	mas	tal	confiança	tem	limite.	O
homem	 requer	 prestação	 de	 contas	 porque	 é	 pecador.	 Por	 ser	 pecador,	 tem	 de
trabalhar.	 O	 trabalho	 é	 atribuído	 como	 consequência,	 não	 como	 castigo.	 Ele
santifica	o	homem	e	ajuda	a	suprir	suas	necessidades.	Novamente,	porquanto	é
pecador,	ele	necessita	da	prestação	de	contas	–	pessoal	e	estrutural.	Um	sistema
comercial	 bem	 arquitetado	 provê	 tal	 prestação	 de	 contas	 estrutural	 ou
sistemática.
A	 fundamentação	 institucionalizada	 para	 essa	 prestação	 de	 contas
sistemática	possui	dois	pilares.	O	primeiro	é	um	sistema	jurídicoe	moral	sólido.
Isso	é	crucial	e	nunca	deve	ser	esquecido	quando	falamos	a	respeito	de	comércio
ou	 sistemas	 econômicos.	 No	 cerne	 de	 seu	 argumento	 a	 favor	 do	 Capitalismo
apresentado	 em	 The	 Wealth	 of	 Nations	 [A	 riqueza	 das	 nações],	 Adam	 Smith
discute	como	o	sistema	ideal	deve	ter	leis	sólidas	e	proteger	a	propriedade	e	os
direitos	 dos	 proprietários.6	 Muitas	 vezes,	 os	 capitalistas	 são	 generalizados
erroneamente	como	exploradores,	avarentos	e	destruidores.	Tais	adjetivos	podem
ser	 apropriados	 para	 pessoas	 que	 adotam	 o	 Capitalismo	 à	 parte	 do	 espírito
calvinista.	No	entanto,	até	mesmo	os	capitalistas	de	princípios	devem,	no	 livre
mercado,	 ser	 constrangidos	 pelos	 sistemas	 jurídico	 e	 moral.	 Sem	 esse
constrangimento,	o	sistema	econômico	é	distorcido,	ocorrendo	uma	mutação	do
Capitalismo.
Ademais,	existem	exemplos	de	distorções	por	meio	das	quais	aqueles	que
são	poderosos	e	estão	burocraticamente	ligados	conseguem	fazer	uso	do	governo
para	seus	próprios	propósitos	em	detrimento	de	outras	pessoas.	Nessa	perversão,
empresas	 e	 indústrias	 podem	 ser	 levadas	 a	 contratar	 determinadas	 pessoas	 ou
determinados	grupos,	compelidas	a	pagar	salários	acima	do	mercado	e	forçadas	a
elevar	os	trabalhadores	acima	de	suas	aptidões	em	nome	do	apaziguamento.	Tal
comportamento	 é	 quase	 sempre	 um	 Socialismo	 um	 pouco	 mais	 sofisticado	 e
polido,	 agindo	 sob	 o	 pretexto	 da	 imunidade,	 enquanto	 direciona	 as	 ações	 dos
empresários	e	donos	de	comércio.	Em	seu	livro	A	Biblical	Economics	Manifesto,
James	Gills	e	Ronald	Nash	advertem	os	cristãos	a	não	se	 tornarem	vítimas	das
conspirações	 dos	 diversos	 tipos	 de	 centralização	 excessiva.	 “A	 nova	 classe	 de
cristãos”,	escrevem,	“que	apoia	o	liberalismo	estadunidense	e	o	Big	Goverment
que	o	acompanha,	 insiste	que	o	Estado	utilize	seu	poder	coercitivo,	se	apodere
daquilo	que	julga	convenientemente	como	excesso	e	o	utilize	da	maneira	como
melhor	parece	 aos	 elitistas,	 que,	por	 coincidência,	 controlam	o	Estado	naquele
momento	específico”.7	O	texto	não	é	uma	declaração	política	colocando	liberais
contra	 conservadores,	 ou	 republicanos	 contra	democratas.	 Implícita	 nele	 está	 a
compreensão	 do	 fato	 de	 que	 a	 elite	 governante	 está	 sempre	 mudando	 de	 um
partido	 para	 o	 outro	 na	 Casa	 Branca,	 no	 Congresso	 e	 no	 Senado.
Independentemente	do	partido,	todavia,	a	distorção	se	faz	presente	na	capacidade
dos	elitistas	de	direcionarem	o	programa	de	ação	de	modo	a	adequá-la	aos	seus
propósitos	à	custa	do	livre	mercado.	Na	realidade,	essa	predisposição	persistente
em	 atrelar	 os	 rendimentos	 do	mercado	 às	 agendas	 políticas	 pode	 ter	 gerado	 a
desilusão	com	políticos	de	ambos	os	partidos.
Um	exemplo	extremo	de	sistema	ineficiente	é	aquele	em	que	é	permitido	ao
governo	estender	seus	poderes	e	autoridades	além	de	seus	limites	constitucionais
com	o	propósito	de	beneficiar	pessoas	ou	grupos	que	estão	bem	ligados.	A	forma
mais	ofensiva	de	excesso	de	concessão	é	a	má	utilização	do	domínio	eminente	–
a	 apropriação	 forçada	 do	 bem	 de	 uma	 pessoa	 em	 prol	 do	 bem	 comum.	 No
passado,	 o	 domínio	 eminente	 foi	 exercido	 para	 a	 construção	 de	 barragens,
aeroportos,	rodovias	e	infraestrutura.	Contudo,	em	2005,	o	caso	de	Kelo	versus
City	 of	 New	 London	 estabeleceu	 novo	 precedente	 para	 o	 uso	 extensivo	 do
domínio	 eminente.	 Basicamente,	 a	 cidade	 de	 Nova	 Londres,	 Connecticut,
condenou	 bens	 imóveis	 privados	 a	 fim	 de	 utilizá-los	 para	 o	 programa	 de
renovação	da	 área,	 o	 qual	 incluía	 um	centro	 de	 conferências,	 um	novo	parque
estadual,	novas	casas	e	vários	espaços	para	o	comércio	e	varejo.	Foi	exigido	que
o	governo	concedesse	uma	“compensação	justa”	por	se	apossar	da	propriedade,
porém,	como	é	possível	determinar	o	valor	total	de	uma	terra	extraviada	de	seu
dono	no	momento	em	que	o	domínio	eminente	viola	os	direitos	de	propriedade?
Com	frequência,	tal	violação	é	encoberta	sob	o	pretexto	das	leis	ambientais	que
demandam	“espaço	aberto”.	Zoneamento,	comunidades	planejadas	e	até	mesmo
associações	de	proprietários	também	vêm	contribuindo	para	a	desintegração	dos
direitos	 de	 propriedade.	 Ao	 comentar	 sobre	 esse	 fenômeno,	 Thomas	 Sowell
escreveu	 que	 “a	 desintegração	 dos	 direitos	 de	 propriedade	 tem	 permitido	 que
comunidades	afluentes	e	ricas	afastem	as	pessoas	com	rendas	média	ou	baixa	e
impeçam	 a	 construção	 de	 moradia	 para	 as	 pessoas	 comuns	 que	 mudariam	 a
característica	 das	 comunidades	 luxuosas	 existentes”.8	 Que	 irônico	 o	 fato	 de
aqueles	 que	 defendem	 a	 agenda	 política	 liberal	 do	 meio	 ambiente	 serem
indiretamente	responsáveis	pelo	aumento	do	custo	de	moradia	para	os	cidadãos
das	 classes	 média	 e	 baixa,	 e,	 talvez,	 até	 pelo	 agravamento	 dos	 problemas	 de
crescimento	 urbano	 desordenado	 e	 moradores	 de	 rua.	 “Enquanto	 milhares	 de
acres	de	terra	são	tomados	pelo	mercado	em	volta	de	uma	comunidade	abastada”
em	 nome	 do	 espaço	 aberto	 ou	 áreas	 verdes,	 Sowell	 prossegue,	 “milhões	 –
bilhões	 –	 de	 dólares	 em	 terra	 estão	 indisponíveis	 para	 outros	 em	 prol	 dos
benefícios	 dos	 moradores	 existentes	 [ênfase	 acrescida]	 dessa	 comunidade”.9
Quando	 a	 oferta	 abaixa,	 os	 preços	 sobem,	 forçando	 as	 pessoas	 à	 margem	 da
sociedade	 a	 buscarem	 outras	 alternativas.	 A	 primeira	 opção	 para	 o	 imóvel
residencial	no	bairro	X	é	normalmente	a	propriedade	no	bairro	Y,	o	qual,	muito
provavelmente,	 não	 é	 tão	 afastado	 da	 cidade	 e	 está	 em	 um	 ambiente	 mais
“rural”.
A	depreciação	dos	direitos	de	propriedade	é	uma	tendência	perigosa	e	deve
ser	 vista	 como	 o	 maior	 impedimento	 para	 o	 sistema	 econômico	 bíblico.	 A
capacidade	de	ter	domínio	sobre	os	bens	imóveis	–	e	vender,	comprar	e	proteger
tal	propriedade	–	é	vital	para	o	desenvolvimento	dos	mercados	e	da	riqueza.	O
poder	 legal	 de	 estabelecer	 título	 de	 propriedade	 vai	 muito	 além	 da	 questão
técnica	e	deve	ser	protegido	com	cautela.	Conforme	observa	Sowell:
Talvez	 a	maneira	mais	 fácil	 de	 entender	 o	 papel	 dos
direitos	 de	 propriedade	 seja	 perceber	 o	 que	 acontece
na	ausência	deles.	Mesmo	em	países	onde	os	direitos
de	 propriedade	 não	 foram	 abolidos	 formalmente,	 os
custos	da	validação	legal	de	bens	de	uma	casa,	fazenda
ou	 comércio	 podem	 ser	 exorbitantes,	 em	 relação	 ao
nível	de	rendimento	médio	de	determinado	país.	Isso,
na	 realidade,	 é	 uma	 situação	 comum	 nos	 países	 de
Terceiro	Mundo.	A	revista	Economist	estimou	que,	na
África,	 somente	 uma	 pessoa	 a	 cada	 dez	 trabalha	 em
uma	empresa	 reconhecida	 legalmente	ou	vive	em	um
imóvel	cujos	direitos	de	propriedade	são	reconhecidos
pela	lei.10
O	 segundo	 pilar	 da	 prestação	 de	 contas	 sistemática	 é	 a	 movimentação
ilimitada/irrestrita	dos	salários,	recompensas	e	opções	de	emprego	(do	lado	dos
empregados)	e,	como	consequência,	o	poder	irrestrito	de	contratar	e	demitir	(do
lado	 do	 empregador).	 A	 palavra-chave	 aqui	 é	 “irrestrito”,	 significando	 “sem
distorção”.	Uma	distorção	do	segundo	pilar	da	prestação	de	contas	está	presente
em	instituições	e	organizações	–	sejam	elas	sindicatos,	juntas	comerciais,	cartéis
ou	outras	associações	–	que	impossibilitam	o	livre	fluxo	de	empregos.	O	sistema
de	 estabilidade	dentro	das	 principais	 universidades	 é	 um	ótimo	 exemplo.	Uma
vez	 que	 o	 professor	 alcança	 determinado	 status,	 de	 repente,	 o	 poder	 do
empregador	 de	 demitir	 ou	 liberar	 esse	 trabalhador	 diminui	 significativamente.
Como	resultado,	as	universidades	não	podem	mandar	embora	os	docentes	com
desempenho	insatisfatório,	e	os	professores	com	tal	estabilidade	possuem	tanto	o
poder	de	ensinar	o	que	quiserem	sem	medo	da	repercussão	quanto	o	direito	de
exigir	salários	mais	altos,	 independentemente	de	seu	desempenho.	Sowell	faz	a
seguinte	observação:
As	 proteções	 e	 prerrogativas	 extraordinárias	 dos
membros	 de	 universidades	 permitem	 não	 apenas	 a
autoindulgência	 em	 demasia,	 mas	 até	 mesmo	 a
corrupção.	 A	 posiçãoprivilegiada	 dos	 docentes	 de
faculdades	 e	 universidades	 tanto	 no	 ensino	 como	 no
gerenciamento	 oferece	 muitos	 e	 diferentes	 tipos	 de
oportunidades	de	servir	aos	seus	próprios	interesses,	e
não	 os	 interesses	 dos	 alunos	 ou	 da	 instituição
acadêmica.11
Os	 professores	 são	 capazes	 de	 restringir	 o	 espectro
ideológico	a	essas	visões	consoantes	às	suas	próprias,
não	somente	ao	selecionar	o	material	de	leitura	para	as
suas	 classes,	 mas	 ainda	 ao	 decidir	 quem	 contratar
como	 colegas,	 membros	 das	 instituições	 de	 ensino,
levando	 a	 situações	 em	 que	 é	 comum	 a	 relação	 12:1
entre	 democratas	 e	 republicanos	 em	 alguns
departamentos,	mesmo	 estando	 os	 adeptos	 de	 ambos
os	 partidos	 divididos	 relativamente	 na	 mesma
proporção	por	todo	o	país.12
A	 mobilidade	 econômica	 precisa	 estar	 presente	 a	 fim	 de	 proporcionar	 a
prestação	 de	 contas	 sistemática.	 Neste	 exemplo,	 o	 termo	 “mobilidade
econômica”	 é	 intencionalmente	 ambíguo	 de	 modo	 a	 se	 referir	 e	 incluir	 a
movimentação	 irrestrita	 de	 salários	 e	 recompensas,	 bem	 como	 uma	 gama	 de
opções	 de	 emprego	 e	 direito	 irrestrito	 de	 contratar	 e	 demitir	 empregados.
Quando	tal	mobilidade,	de	fato,	é	irrestrita,	o	sistema	está	virtualmente	livre	de
distorção.	No	entanto,	são	inúmeras	as	distorções	mesmo	nas	economias	laissez-
faire	[com	menor	interferência	do	governo].
Tais	 distorções	 reduzem	 o	 grau	 de	 mobilidade	 e,	 por	 sua	 vez,	 vedam	 a
prestação	de	contas	sistemática,	postergando,	por	fim,	a	santificação	econômica.
É	fácil	identificar	os	efeitos	negativos	dos	sistemas	econômicos	que	beneficiam
apenas	aqueles	burocraticamente	 interligados.	Não	é	difícil	 também	reconhecer
um	 sistema	 em	 que	 o	 governo	 ultrapassou	 os	 limites	 de	 seu	 poder	 visando	 à
exploração.	 No	 entanto,	 as	 distorções	 menos	 explícitas	 e	 seus	 efeitos	 sobre	 a
santificação	econômica	são	quase	sempre	de	mais	difícil	percepção.
Com	o	objetivo	de	manter	a	mobilidade	social	irrestrita,	as	pessoas	devem
ter	 o	 direito	 de	 irem	em	busca	 de	 oportunidades	 para	 progredirem	ou	 até	 para
mudarem	 de	 profissão.	 O	 processo	 de	 recompensar	 o	 educador	 que	 alcança
determinado	patamar	reduz	muito	o	poder	do	empregador	de	demitir	ou	liberar
esse	 trabalhador.	 Como	 consequência,	 a	 universidade	 se	 torna	 extremamente
ineficiente	e	pode	chegar	ao	ponto	de	não	haver	orçamento	para	a	contratação	de
novos	 –	 e	 possivelmente	 mais	 bem	 preparados	 –	 educadores.	 Ademais,	 esses
professores	 experientes	 exigem	 salários	 mais	 altos	 por	 serviços	 que	 quase
sempre	 poderiam	 ser	 feitos	 a	 um	 menor	 custo	 por	 empregados	 mais	 jovens,
porém,	 igualmente	 talentosos.	 Portanto,	 o	 custo	 da	 educação	 aumenta	 (mesmo
nas	universidades	públicas)	e,	quanto	mais	cara	a	educação,	mais	seletiva	ela	se
torna.
Outras	distorções	com	relação	ao	emprego	incluem	leis	que	limitam	o	poder
do	 empregador	 de	 contratar	 ou	 demitir	 funcionários.	 Embora	 possam	 existir
benefícios	 superficiais	 a	 tais	 leis	 e	 restrições,	 um	 verdadeiro	 capitalista
transcende	tais	necessidades.
Os	 autores	 vivem	 no	 estado	 da	Geórgia,	 o	 qual	 é	 considerado	 um	 estado
com	direito	ao	trabalho.	Em	um	estado	com	tal	direito,	os	empregadores	podem
contratar	 e	 demitir	 a	 seu	 bel-prazer.	 Esse	 poder	 ilimitado	 também	 provê	 uma
estrutura	 de	 prestação	 de	 contas	 que	 não	 é	 obstruída	 por	 fatores	 externos.
Todavia,	 em	 muitos	 estados	 por	 toda	 a	 nação	 e,	 por	 certo,	 em	 muitos	 outros
países,	os	empregadores	não	podem	demitir	quando	assim	o	desejarem,	além	de
ser	requisitado	para	a	maior	parte	deles	que	aponte	a	causa,	mesmo	quando	estão
sendo	demitidos	empregados	sem	estabilidade	de	trabalho	e	não	sindicalizados.
Ainda	 mais	 extremo	 é	 o	 conceito	 de	 emprego	 vitalício	 existente	 na	 França,
Japão,	Coreia	 e	 outros	 lugares.	O	 efeito	negativo	 é	o	 fato	de	os	 empregadores
hesitarem	contratar	novos	empregados.	Logo,	a	taxa	de	desemprego	para	recém-
formados	 é	 alta.	 Por	 exemplo,	 na	 França	 e	 no	 Japão,	 a	 taxa	 de	 desemprego
raramente	fica	abaixo	dos	10%.	Dessa	forma,	os	jovens	enfrentam	uma	pressão	e
concorrência	enormes	na	tentativa	de	garantir	seu	emprego.	Os	resultados	finais
são	o	aumento	de	desemprego	e	novos	deslocamentos	de	funcionários	treinados
do	lugar	de	trabalho.
Outras	distorções	 incluem	a	obrigatoriedade	da	utilização	da	mão	de	obra
sindicalizada	e	a	sanção	governamental	da	ação	afirmativa	nas	universidades	e
empresas.	Em	ambos	os	casos,	as	decisões	comerciais	estão	sendo	afetadas	por
fatores	 não	 relacionados	 ao	 desempenho	 e	 à	 eficiência	 no	 geral.	 Se	 os
empregadores	 são	 obrigados	 a	 sacrificar	 o	 desempenho	 em	 vista	 de	 ligações
burocráticas,	sexo,	 raça	ou	orientação	sexual,	enquanto	são	forçados	 também	a
pagar	o	salário	predominante,	seu	custo	comercial	se	intensifica.	A	combinação
de	uma	produção	reduzida	com	salários	elevados	resulta	em	aumento	de	custo.
Portanto,	 a	 ineficiência	 se	 torna	 sistemática	 e	 afeta	 também	 outras	 pessoas	 de
fora	da	organização.	Conforme	Gills	e	Nash	escrevem:	“O	Capitalismo	também
pressupõe	 um	 sistema	 de	moralidade.	 Ele	 não	 incentiva	 as	 pessoas	 a	 fazerem
tudo	 aquilo	 que	 desejam.	 Pelo	 contrário,	 existem	 limites	 definidos	 e	 morais
relacionados	à	maneira	como	as	pessoas	devem	negociar”.
O	homem	não	é	“socialista”	por	natureza
O	Calvinismo,	quando	aplicado	a	assuntos	comerciais,	afirma	prontamente
não	 ser	 o	Socialismo	uma	ordem	da	 criação.	Não	obstante,	 um	estudo	 recente
apresenta	as	seguintes	observações:
Por	 certo,	 o	 Comunismo,	 exceto	 em	 recalcitrantes
países	 como	 Cuba,	 Coreia	 do	 Norte	 e	 China,	 está
morto.	 No	 entanto,	 o	 Socialismo,	 onde	 os	 cidadãos,
por	 meio	 da	 revelação	 da	 vontade	 coletiva,
determinam	a	alocação	dos	recursos,	bens	resultantes	e
serviços,	 está	 bem	 vivo.	 Apesar	 de	 o	 direito	 de
propriedade	 absoluto	 do	 governo	 sobre	 os	 meios	 de
produção	estar	enfraquecendo,	o	planejamento	central,
a	 redistribuição	 substancial	 da	 renda	 e	 a	 engenharia
social	por	meio	de	regulamentações	e	da	lei	ocorrerão
em	nações	mais	socialistas.	Uma	economia	capitalista
mista,	como	é	a	dos	Estados	Unidos,	com	22%	de	PIP,
contrasta	notoriamente	com	o	de	nações	como	Israel	e
Itália	 (48%),	 França	 (47%),	 Suécia	 (44%),	 Hungria
(43%),	 Dinamarca	 e	 Portugal	 (41%)	 e	 Reino	 Unido
(39%).13
No	estado	natural,	 se	nenhum	sistema	for	 imposto,	o	homem	acumulará	e
distribuirá	 como	 um	 indivíduo.	 Seu	 interesse	 no	 “bem	 comum”	 é	 raramente
observado	 nessa	 condição.	 Confisco,	 violência,	 roubo	 e	 prodigalidade	 podem
ocorrer,	 porém,	 na	 sociedade	 primitiva,	 a	 filantropia	 pouco	 aparece	 no	 escopo
que	abrange	além	da	família.	Isto	pode	ser	um	comentário	a	respeito	da	natureza
decaída	 do	 homem.	 Também	 pode	 ser	 uma	 dica	 sobre	 comércio	 e	 economia,
indicando	a	maneira	como	funcionarão	melhor	na	vida	real.
John	 Stapleford	 sintetiza	 a	 questão	 da	 seguinte	 forma:	 “Os	 direitos	 de
propriedade	comuns	incentivam	o	uso	excessivo	e	o	abuso	da	propriedade,	bem
como	a	isenção	da	recompensa	pelo	comprometimento	de	alguém.	Os	direitos	de
propriedade	privados	 incentivam	que	 a	propriedade	 seja	 considerada	 como	um
ativo	a	longo	prazo	e	proporcionam	uma	ligação	direta	entre	o	esforço	individual
e	o	 retorno	econômico”.14	Além	disso,	não	é	necessário	olhar	além	da	parábola
dos	dois	filhos	para	ilustrar	a	ociosidade	que	acompanha	o	emprego	assegurado
(Mt	21.28-31).
Devido	 à	 queda,	 a	 era	 econômica	 áurea	 em	 que	 todos	 os	 seres	 humanos
glorificarão	 a	 Deus	 com	 seus	 bens	 não	 está	 prevista	 para	 ocorrer	 antes	 do
estabelecimento	 da	 Nova	 Jerusalém.	 Ao	 contrário,	 esperamos	 o	 egoísmo,	 o
conflito,	o	roubo,	a	destruição	da	propriedade	e	a	disputa	nos	setores	econômico
e	 comercial.	 Em	 vez	 de	 vivermos	 negando	 tais	 realidades,	 devemos	 buscar
soluções	duradouras	que	as	levem	em	consideração.Qualquer	um	que	começar	a
ter	esperança	de	algo	utópico	será	rapidamente	frustrado	pela	natureza	caída	de
nosso	universo.	O	 realismo	nos	 setores	 comercial	 e	 em	organizações	 com	 fins
lucrativos	 é	 um	 começo	 melhor	 do	 que	 a	 utopia.	 Sendo	 assim,	 o	 Calvinismo
explica	 o	 que	 esperar	 do	 mercado	 e	 por	 que,	 pois	 possui	 uma	 compreensão
realista	 da	 natureza	 do	 homem.	 Os	 filhos	 de	 Calvino	 serão	 profunda	 e
inevitavelmente	distópicos.
Em	 nossa	 própria	 época,	 podemos	 também	 extrair	 muito	 sobre	 a	 visão
correta	 de	 trabalho	 se	 explorarmos	 os	 pontos	 de	 vista	 de	 Calvino	 sobre	 a
assistência	social.	O	reformador	e	seus	colegas	acreditavam	que	o	trabalho	devia
ser	exigido	de	todos	que	recebessem	um	subsídio.	Conforme	comenta	Jeannine
Olson:
Em	Genebra,	houve	a	tentativa	de	manter	a	imagem	da
bourse	 française	como	um	fundo	para	ajudar	pessoas
consideradas	merecedoras	de	tal	ajuda,	não	como	uma
instituição	 que	 ajudava	 qualquer	 um	 de	 maneira
indiscriminada.	 Os	 fundos	 eram	 destinados	 àquelas
pessoas	 que	 eram	 genuinamente	 necessitadas,	 em
particular	as	enfermas	ou	deficientes	físicas.	Os	pobres
merecedores	 eram	 numerosos	 nessa	 época	 anterior	 à
medicina	 moderna	 ou	 cirurgia,	 quando	 uma	 simples
hérnia	 ou	 osso	 mal	 alinhado	 poderia	 fazer	 com	 que
alguém	 não	 conseguisse	 mais	 trabalhar.	 Os	 fundos
limitados	do	Fundo	Francês	não	eram	destinados	para
os	pobres	abandonados,	aqueles	considerados	pessoas
sem	 vontade	 de	 trabalhar,	 preguiçosos,	 vadios
indolentes	 e	 vagabundos,	 para	 utilizar	 a	 terminologia
popular	 da	 época.	 Por	 muito	 tempo,	 a	 suposição	 de
que	 os	 receptores	 da	 assistência	 social	 deveriam	 ser
merecedores	 de	 tal	 ajuda	 era	 comum	 na	 Europa,
porém,	 a	 definição	 de	 merecimento	 variava	 de	 um
lugar	para	o	outro.15
Existem	exemplos	nos	registros	da	Bourse	(termo	francês	para	a	tesouraria
da	igreja),	quando	os	diáconos	se	negaram	a	dar	assistência	a	pessoas	por	causa
da	preguiça.	A	assistência	 social	não	buscava	subsídios	que	desestimulassem	a
diligência	 e	 responsabilidade	 pessoais.	 Esperava-se	 que	 os	 receptores	 de	 tais
subsídios	 da	 igreja	 conservassem	 os	 padrões	 cristãos	 de	 moralidade,	 e	 os
diáconos	tentavam	utilizar	o	Fundo	francês	como	meio	de	disciplina	e	incentivo.
Ademais,	 Calvino	 e	 seus	 seguidores	 pareciam	 compreender	 que	 os	 bens
privados	 poderiam	 ajudar	 as	 pessoas	 e	 famílias	 a	 saírem	 das	 condições	 de
miséria.	 Ele	 parecia	 entender	 a	 maneira	 como	 os	 bens	 privados	 poderiam
beneficiar	 os	 pobres	 –	 assunto	 reiterado	 por	 Thomas	 Sowell	 quando	 faz	 a
seguinte	 observação:	 “Onde	 os	 direitos	 de	 propriedade	 prevalecem	 no	 livre
mercado,	 a	 habitação	 se	 difunde	 regularmente	 por	 entre	 as	 diferentes	 classes
sociais”.16
Os	pontos	 de	 vista	 de	Calvino,	 conforme	 estamos	 começando	 a	 perceber,
formaram	uma	estrutura	de	pensamento.	Sua	visão	quanto	ao	valor	do	trabalho	–
sem	 mencionar	 o	 papel	 da	 assistência	 privada	 e	 religiosa	 –	 não	 foi	 ignorada
quando	 ele	 e	 seus	 discípulos,	 em	 Genebra,	 formularam	 os	 protocolos	 para	 a
assistência	social.
O	papel	da	riqueza
Talvez	seja	o	momento	apropriado	para	sintetizar	alguns	pontos	discutidos
acima	e	tecer	alguns	comentários	a	respeito	da	riqueza,	conforme	definida	tanto
pelas	 Escrituras	 como	 por	 Calvino.	 Para	 contextualizar,	 muitos,	 no	 Ocidente
moderno,	começam	com	a	noção	de	que	a	riqueza:
	
é	inerentemente	ruim;
é	um	sinal	de	exploração;
provê	uma	identificação	exterior	dos	vilões	(leve	em	consideração	o	termo	“barão	ladrão”);
não	deve	ser	permitido	que	ela	passe	para	as	gerações	subsequentes;
deve	ser	redistribuída	periodicamente	a	fim	de	evitar	que	os	vilões	acumulem	mais.
A	 riqueza,	 portanto,	 é	 vista	 em	muitos	 círculos	 como	 algo	 inerentemente
ruim	 –	 certo	 comentarista	 a	 denomina	 como	 o	 último	 tipo	 de	 intolerância,	 a
intolerância	contra	o	bem-sucedido	–	e	não	como	uma	possível	bênção.	Nossa
argumentação,	no	entanto,	é	que	a	riqueza	pode	ser	moralmente	neutra	ou	boa,
dependendo	 do	 uso,	 produtividade	 e	 administração.	 Alguns	 simples	 exemplos
bíblicos	elucidarão	nossa	linha	de	raciocínio.
A	princípio,	alguém	pode	questionar	se	as	Escrituras	apresentam	exemplos
de	“ricos	justos”.	Tendo	em	mente	que	Adão	não	foi	abençoado	com	algo	senão
a	abundância,	a	pessoa	pode	listar,	com	facilidade,	os	cristãos	que	não	só	tiveram
muito,	mas	também	ganharam	e	usaram	muito.	Depois	do	dilúvio,	por	exemplo,
Noé	e	sua	família	possuíam	basicamente	o	mundo.	Além	disso,	o	NT	descreve	os
feitos	 de	 muitas	 pessoas	 abastadas	 que	 utilizaram	 seus	 bens	 para	 o	 reino	 de
Deus.	E,	claro,	no	decorrer	da	história	da	igreja,	inúmeras	pessoas	ricas	ajudaram
a	igreja	em	sua	expansão,	ajudaram	a	construir	hospitais	e	escolas,	colaboraram
na	 edificação	 de	 igrejas	 e	 contribuíram	 com	 os	 amplos	 ministérios	 de
misericórdia.
Na	 tentativa	 de	 contrabalançar	 a	 frequente	 visão	 negativa	 da	 riqueza,	 os
seguintes	exemplos	bíblicos	ilustram	usos	positivos	dela.
A	riqueza	é	dada	a	fim	de	ajudar	a	moldar	vidas:	Boaz
Boaz	 é	 um	 herói	 improvável.	 Ele	 não	 era	 de	 uma	 linhagem	 sacerdotal;
tampouco	 era	 guerreiro	 ou	 profeta.	 Ele	 era	 apenas	 dono	 de	 terra	 e	 homem	 de
negócios	 –	 aliás,	 um	homem	de	 negócios	 astuto.	No	 entanto,	 a	 riqueza	 com	a
qual	 Deus	 o	 abençoou	 foi	 o	 motivo	 principal	 que	 o	 separou	 da	 multidão.	 A
história	tem	início	com	Ruth	e	sua	sogra,	Noemi,	ambas	viúvas,	desamparadas	e
morando	 juntas,	 retornando	 para	 Israel	 como	 indigentes.	 Ruth	 passa	 seus	 dias
fazendo	colheitas	nos	campos	e	atrai	o	olhar	de	Boaz.	No	final	da	história,	ele
“redime”	 Ruth	 e	 a	 tira	 da	 pobreza,	 assim	 como	 a	 Noemi.	 Além	 do	 mais,	 do
relacionamento	 de	 Ruth	 e	 Boaz	 nasce	 o	 avô	 de	 Davi,	 mantendo,	 assim,	 a
linhagem	que	segue	de	Adão	até	Davi	e,	por	fim,	a	Jesus.	O	que	é	de	se	admirar
na	história	é	o	fato	de,	no	decorrer	dela,	a	vontade	de	Deus	ser	revelada	por	meio
da	 riqueza	de	Boaz.	Ele	está	na	posição	de	possuir	a	 terra	 (na	qual	Ruth	 faz	a
respiga),	obter	uma	safra	abundante	(que	ele	divide	com	Ruth)	e	ter	a	perspicácia
e	o	capital	para	comprar	a	terra	e	o	direito	de	propriedade	do	falecido	marido	de
Noemi	(o	que	lhe	dá	direito	de	se	casar	com	Ruth).
A	riqueza	é	dada	para	apoiar	a	obra	de	Deus	neste	mundo:	Barnabé
Barnabé	 era	 de	 linhagem	 sacerdotal,	 porém,	 sua	 família	 havia	 acumulado
tanta	 terra	que	ele	pôde	vendê-la	e	consagrar	o	 lucro	à	 igreja	primitiva	quando
ela	não	possuía	 ativos.	O	 lucro	proveniente	da	 liquidação	de	 sua	 terra	veio	no
momento	mais	oportuno	e	sustentou	a	igreja	na	época	da	expansão.	Sua	riqueza,
portanto,	foi	utilizada	para	apoiar	a	obra	de	caridade.	Foi	uma	doação	privada	e
voluntária	que,	de	um	investimento	 inicial,	 rendeu	muitos	 frutos.	Percebe-se,	a
partir	 da	narrativa	de	Atos,	 que	 sua	doação	pode	 ser	 vista	 como	um	socorro	 à
vida,	 sem	 o	 qual	 a	 igreja	 poderia	 ter	 enfrentado	 dificuldades.	 Em	 cada
acontecimento,	o	uso	compassivo	de	sua	riqueza	(“dinheiro”	é	mencionado	em
Atos	4.34,37)	foi	abençoado	e	grandemente	utilizado	para	apoiar	a	instituição	de
caridade	 mais	 forte	 da	 história	 durante	 um	 período	 crítico.	 Os	 cristãos	 que
possuem	riqueza	podem	utilizar	as	bênçãos	materiais	de	Deus	para	apoiar	a	obra
do	 Pai;	 e,	 sem	 essa	 riqueza,	 muitos	 desses	 empreendimentos	 comerciais	 que
enriqueceram	culturas	não	poderiam	existir.	Invertendo	a	situação,	ou	seja,	se	a
igreja	 nunca	 tivesse	 tido	 quaisquer	 bens	 e	 tivesse	 sido	 confinada	 somente	 à
pobreza,	muitas	coisas	boas	não	teriam	sido	feitas.
Ao	 comentar	 o	 texto	 de	Atos	 4.32-37,	 Calvino	 observou	 que	 a	 discórdia
dentro	da	igreja	foi	remediada	não	pela	equalização	da	riqueza,	mas	pelo	espírito
de	unidade.	Observou	 também	que	 foi	vendido	somente	o	necessário	e	o	 lucro
“não	 foi	 dividido	 igualmente”,	 mas,	 ao	 contrário,	 foi	 “deacordo	 com	 a
necessidade	 de	 cada	 um”.	 Em	 meio	 a	 seu	 comentário	 desses	 versículos,	 ele
também	adverte	contra	o	egoísmo	que	forja	“milhares	de	subterfúgios	repentinos
a	 fim	de	atrair	 todas	as	coisas	para	nós	por	bem	ou	por	mal”	e	elogia	a	 igreja
primitiva	por	vender	“seus	bens	antigos”.17
Mais	adiante,	Calvino	utiliza	seus	comentários	sobre	essa	passagem	como
oportunidade	para	 reiterar	 sua	 rejeição	da	propriedade	comunal	 e	para	advertir
contra	 o	 orgulho,	 a	 avareza,	 a	 ingratidão,	 a	 hipocrisia	 e	 “até	mesmo	 contra	 os
próprios	pobres,	[os	quais	são]	responsáveis,	em	parte,	por	esse	mal”.
A	 igreja	 primitiva	 dependeu	 dos	 bens	 das	 famílias	 que	 dividiram	 seus
recursos.	 Se	 tais	 famílias	 abastadas	 não	 tivessem	 posses	 ou	 não	 tivessem
dividido	 seus	 recursos,	 ela	 poderia	 ter	 sido	 extinta.	Além	 do	mais,	 quando	 os
ricos	entregam	seu	dízimo	às	suas	igrejas,	acumula-se	mais	riqueza	que	pode	ser
utilizada	 para	 projetos	 de	 caridade	 substanciais	 designados	 por	 líderes	 locais
confiáveis.	 Os	 bens	 dados	 pela	 providência	 de	 Deus	 sustentaram	 a	 igreja
primitiva,	e	o	princípio	do	dízimo	(veja	abaixo)	sustenta	promessa	contínua.
A	riqueza	não	é	condenada,	mas	o	egoísmo	é:	Ananias	e	Safira
Em	contrapartida,	o	próximo	capítulo	do	livro	de	Atos	contém	uma	história
diferente.	 Ao	 notar	 o	 apreço	 dispensado	 a	 Barnabé,	 certo	 casal	 tentou,
aparentemente,	reproduzir	a	doação	caridosa	dele	–	não	obstante	as	significativas
diferenças.	Ananias	e	Safira	imitaram	o	ato	de	generosidade	de	Barnabé	(At	5).
No	entanto,	enquanto	ele	doou	toda	a	sua	propriedade	e	a	entregou	gratuitamente
–	não	visando	ao	reconhecimento	–	eles	doaram	parcialmente	a	deles	e	fizeram
isso	 em	 busca	 de	 notoriedade.	 Em	 vez	 de	 ofertar	 em	 secreto	 e	 no	 espírito	 do
texto	de	Mateus	6.3	(não	deixe	que	sua	mão	esquerda	saiba	o	que	a	mão	direita
está	 fazendo),	Ananias	e	Safira	ofertaram	com	grande	pompa	e	exibicionismo.
Eles	queriam	os	aplausos	humanos,	em	vez	do	sorriso	divino,	e	a	punição	deles,
com	 certeza,	 é	 um	 alerta	 a	 respeito	 da	 oferta	 de	 caridade	motivada	 de	 forma
indevida.	 Não	 só	 a	 razão	 deles	 foi	 errada,	 mas	 eles	 foram	 falsos	 em	 sua
representação	ao	ofertar,	e	o	Espírito	Santo	revelou	para	os	apóstolos	a	falácia.
Quando	confrontaram	o	casal,	Ananias	e	Safira	sofreram	um	tipo	de	derrame,	e
seus	corpos	foram	removidos.
Todavia,	o	que	é	instrutivo	para	o	nosso	propósito	é	o	fato	de	que	a	riqueza
em	si	não	é	condenada.	Ananias	e	Safira	não	 foram	censurados	por	possuírem
bens;	 foram	 condenados	 por	 reterem	 uma	 parte	 de	maneira	 enganosa,	 quando
poderiam	guardar	tudo.	Essa	passagem	indica	que	a	riqueza,	neste	caso,	poderia
ter	sido	retida	em	sua	totalidade	sem	condenação	divina.	A	reprovação	vem	por
conta	do	egoísmo	e	da	má	intenção.
Calvino	teceu	um	comentário	a	respeito	de	Atos	5.4,	afirmando	(como	o	fez
em	suas	observações	sobre	o	capítulo	anterior	de	Atos),	de	modo	perceptível,	o
direito	de	os	cristãos	possuírem	e	manterem	uma	propriedade	privada:
Inferimos,	deste	texto,	que	nenhum	homem	é	obrigado
a	vender	seus	bens	ou	terras.	Porquanto	Pedro	diz	que
Ananias	 tinha	 liberdade	 de	 manter	 sua	 terra	 e	 seu
dinheiro,	 visto	 que	 o	 valor	 real	 do	 campo
corresponderia	à	 terra	que	 fora	vendida.	Portanto,	ele
deveria	ter	sido	considerado	fiel,	mesmo	retendo	o	que
era	 seu.	 Pelo	 que	 parecem	 estar	 fora	 de	 seu	 juízo
perfeito,	 aqueles	 que	 dizem	 não	 ser	 lícito	 aos	 fiéis
possuir	algo	próprio.18
O	lucro	é	elogiado	e	aprovado	pela	Bíblia:	parábolas
Muitas	 passagens	 do	 AT	 sugerem	 que	 acumular	 riquezas	 ou	 aumentar	 o
patrimônio	é	uma	boa	atividade.	Embora	a	caridade	seja	recomendada	no	AT,	a
riqueza	 não	 é	 condenada	 nas	 Escrituras	 hebraicas.	 Quando	 o	 NT	 tem	 a
oportunidade	de	defender	a	redistribuição	dos	bens	ou	a	equalização	das	rendas,
ele	não	o	faz.	Inúmeras	parábolas	de	Jesus	fazem	alusão	a	esse	assunto.
Em	 uma	 parábola	 bastante	 conhecida,	 Jesus	 falou	 a	 respeito	 dos	 talentos
entregues	 aos	 servos	 para	 serem	 utilizados	 ou	 investidos	 (Mt	 25.14-30).	 Um
servo	 levou	 cinco	 talentos,	 negociou-os	 e	 eles	 lhe	 renderam	 mais	 cinco.	 Ao
segundo	servo	foram	dados	ou	emprestados	dois	talentos	para	serem	negociados
no	 mercado	 (que	 parecia	 não	 ter	 regras),	 e	 seu	 trabalho	 e	 investimento	 lhe
renderam	 outros	 dois	 talentos.	 Os	 lucros	 de	 ambos	 os	 servos	 foram	 aceitos,
aprovados	 e	 elogiados	 pelo	 Salvador,	 que	 descreveu	 os	 empreendimentos	 de
maneira	positiva,	utilizando	palavras	como:	“muito	bem”,	“bom”,	“fiel”	e	dignos
de	 “entrar	 no	 gozo”	 do	 Senhor	 (v.21).	 Além	 dessa	 aprovação,	 os	 investidores
fiéis	 receberam	 a	 promessa	 de	 que	 seriam	 encarregados	 de	 outras	 tarefas	 em
nome	do	seu	senhor.
No	entanto,	essa	parábola	contém	um	contraste	importante.	Diferentemente
dos	 dois	 servos	 diligentes,	 o	 terceiro	 não	 obteve	 ganho.	 Ele	 pegou	 o	 dinheiro
inicial	 do	 seu	 senhor	 e	 não	 o	 negociou	 nem	 fez	 o	 mínimo	 esforço	 para	 que
gerasse	 juros	 sobre	 aquele	 valor.	 Essa	 pessoa	 não	 apresentou	 nem	 ganho	 nem
lucro	 ao	 seu	 senhor	 e	 foi	 categoricamente	 criticada	 pela	 perda	 do	 lucro	 em
potencial.	As	palavras	de	Jesus	deixam	isso	claro.	Além	de	chamá-lo	o	servo	de
“mau”	 e	 “negligente”,	 o	 senhor	 o	 acusa	 de	 não	 confiar	 no	 poder	 do	 Senhor
(v.26).	 Sendo	 assim,	 a	 visão	 de	 Jesus	 quanto	 a	 juros	 e	 lucro	 pode	 ser
parcialmente	 discernida	 a	 partir	 de	 suas	 palavras	 no	 versículo	 27:	 “Cumpria,
portanto,	 que	 entregasses	 o	 meu	 dinheiro	 aos	 banqueiros,	 e	 eu,	 ao	 voltar,
receberia	com	juros	o	que	é	meu”.
Uma	 das	 lições	 retiradas	 por	 Calvino	 desta	 parábola	 é	 que	 Deus	 “não
confere	 a	 mesma	 medida	 de	 dons	 a	 todos	 de	 modo	 indiscriminado,	 mas	 os
distribui	 de	 maneira	 variada,	 segundo	 julga	 apropriado”.19	 A	 partir	 desta	 e	 de
outras	passagens,	fica	explícito	que	a	ética	de	trabalho	de	Calvino	não	incluía	a
pressuposição	 de	 que	 os	 lucros	 e	 distribuições	 desiguais	 não	 fossem	 corretos.
Pelo	 contrário,	 Calvino	 reconheceu	 que,	 em	 princípio,	 pessoas	 diferentes
deveriam	receber	quantias	diferentes	sem	violar	a	justiça.	O	que	se	esperava	de
cada	um,	todavia,	era	que,	“independentemente	dos	dons	conferidos	a	nós	pelo
Senhor”,	esse	fundo	inicial	“rendesse	algum	ganho”	(p.	441).	Calvino	chegou	ao
ponto	de	chamar	de	extremamente	“irracional”	o	fato	de	deixarmos	nosso	capital
continuar	 escondido	 ao	 não	 investi-lo,	 visto	 que	 seu	 valor	 “consiste	 no	 fruto
rendido”	(p.	442).
Quando	 Calvino	 teceu	 o	 comentário	 sobre	 o	 texto	 de	 Mateus	 25.15,	 ele
reconheceu	que	o	“senhor	da	casa”,	ou	Deus,	que	“atribuiu	um	lugar	a	todos	e	ao
lhes	 conferir	 dons	 naturais,	 dá-lhes	 esta	 ou	 aquela	 ordem,	 emprega-os	 no
gerenciamento	 dos	 bens,	 eleva-os	 a	 vários	 ofícios,	 supre-os	 com	 meios
abundantes	 de	 benefícios	 eminentes	 e	 lhes	 dá	 oportunidade”	 (p.	 442).	 Ele	 até
utilizou	 esta	 parábola	 para	 comparar,	 não	 de	 modo	 negativo,	 a	 vida	 cristã	 ao
“comércio”,	 no	 qual	 “a	 troca”,	 “a	 negociação”,	 “a	 comercialização”	 e	 “a
produção”	são	aprovadas	(p.	443).	Longe	de	censurar	o	crescimento,	ele	afirma,
mais	adiante,	que	o	objetivo	do	“ganho”	nesta	parábola	é	“gerar	lucro”	(p.	443).
Ao	 mesmo	 tempo,	 também	 adverte	 contra	 o	 oposto	 da	 rentabilidade	 –	 a
ociosidade.	 Ele	 observa	 que	 a	 reprovação	 contida	 na	 parábola	 dizia	 respeito
àqueles	 servos	 improdutivos	 aos	 quais	 foram	 dados	 dons,	 mas	 eles	 não	 os
utilizaram.	Calvino	acreditava	que	tamanho	descaso	indolente	para	com	os	dons
de	Deus	levaria	“à	privação	de	todos	eles,	e	que	a	pobreza	ignóbil	e	vergonhosa
(das	 pessoas	 indolentes)	 resultaria	 na	 glória	 das	 pessoas	 boas”	 (p.	 444).	 Esses
indivíduos	indolentes	“escondem	o	talento	ou	o	dinheiro	na	terra,	pois,	enquanto
analisam	 sua	 comodidade	 e	 recompensas,	 recusam-se	 a	 se	 submeterema
qualquer	 desconforto;	 exatamente	 como	 vemos	 muitos	 que,	 enquanto	 estão
dedicados	a	si	mesmos	e	aos	seus	próprios	interesses,	evitam	quaisquer	deveres
de	caridade	e	não	levam	em	consideração	a	edificação	geral”	(p.	444).
Dessa	maneira,	percebemos	em	Calvino	uma	defesa	precoce	da	ideia	de	que
a	 riqueza	 pode	 ser	 utilizada	 de	 forma	 benéfica.	 Ela	 é	 considerada	 uma
ferramenta.	Assim	como	o	apóstolo	Paulo,	que	o	precedeu,	Calvino	sabia	que	a
vida	poderia	ser	plena,	quer	em	condições	de	abundância	ou	de	necessidade.	Ao
escrever	 sobre	o	 texto	de	Filipenses	4,	ele	adverte	 tanto	contra	a	prosperidade,
capaz	de	inflar	o	sentimento	de	importância	da	pessoa,	como	contra	a	depressão,
capaz	 de	 intensificar	 a	 adversidade	 do	 indivíduo.	 Calvino	 descreve	 a	 “virtude
peculiarmente	excelente	e	rara”	mais	intensa	do	que	a	prosperidade	ou	a	pobreza
com	 as	 seguintes	 palavras:	 “Se	 o	 homem	 souber	 fazer	 uso	 da	 abundância
presente	 de	 maneira	 sóbria	 e	 moderada	 com	 ações	 de	 graça,	 estiver	 pronto	 a
partilhar	todas	as	coisas	segundo	a	boa	vontade	do	Senhor,	dando,	também,	uma
parte	para	seu	irmão,	de	acordo	com	a	medida	de	sua	capacidade,	e	também	não
for	soberbo,	esse	homem	aprendeu	a	se	distinguir	e	a	ter	em	abundância”.20
Não	 é,	 entendia	 Calvino,	 a	 quantidade	 que	 traz	 contentamento,	 mas	 a
administração	 e	 o	 uso	 daquilo	 que	 Deus	 provê.	 Logo,	 para	 o	 reformador
protestante	 e	 seus	 seguidores,	 a	 riqueza	 não	 era	 inevitavelmente	 pecaminosa,
tampouco	um	sinal	de	infidelidade	–	assim	como	sua	ausência	não	era	sinal	de
reprovação.	Calvino	ensinou,	entretanto,	que,	se	uma	pessoa	recebe	muito	sob	a
provisão	 de	 Deus	 –	 assim	 como	 aconteceu	 com	 Boaz	 e	 Barnabé	 –	 ela	 deve
utilizar	sua	riqueza	de	maneira	caridosa,	estratégica	e	fiel.
Apesar	de	nunca	ter	condenado	o	lucro	e	o	ganho	monetário,	Calvino	deu
esta	advertência	severa	e	equilibrada	em	referência	à	dificuldade	de	um	homem
rico	adentrar	o	céu:
Trata-se	 de	 um	 mal	 comum	 praticamente	 a	 todos	 o
confiar	 em	 suas	 posses.	 Contudo,	 esta	 doutrina	 é	 de
grande	utilidade	a	todas	as	pessoas:	ao	rico,	que	fique
ciente	do	perigo	que	corre	quanto	à	sua	retaguarda,	e
ao	pobre,	que	se	satisfaça	com	sua	sorte	e	não	deseje
avidamente	 aquilo	 que	 traria	 mais	 risco	 do	 que
benefício.	De	fato,	é	verdade	que	as	posses,	por	si	só,
não	 nos	 impedem	 de	 seguir	 a	 Deus,	 todavia,	 como
consequência	 da	 depravação	 da	 mente	 humana,	 é
praticamente	 impossível	 para	 aqueles	 com	 grande
abundância	evitar	que	sejam	intoxicados	por	elas.21
As	 Escrituras	 discutem	 constantemente	 as	 questões	 relacionadas	 ao
comércio	 e	 economia	 sem	 criar	 a	 expectativa	 de	 que	 todas	 as	 atividades
produzirão	 os	 mesmos	 resultados.	 A	 primeira	 carta	 de	 Paulo	 aos	 coríntios
convoca	os	 competidores	 a	participarem	da	corrida	de	modo	a	 conquistarem	o
prêmio	(1Co	9.24).	Até	mesmo	nesta	ilustração,	nem	todos	levam	o	prêmio;	no
entanto,	tal	fato	não	torna	a	competição	ilegal.	A	Bíblia	não	descreve	cada	passo
de	 arar,	 semear,	 cultivar	 e	 investir	 como	 bem-sucedido.	 Existem	 fracassos	 nas
Escrituras.	Assim,	parece	que,	se	não	sancionadas	por	completo,	a	competição	e
disputa	dos	mercados	são	aceitas	na	Bíblia	como	realidades	econômicas.
Juros	ou	usura?
Calvino	também	ajudou	a	moldar	as	atitudes	a	respeito	de	outro	tópico	que
há	tempos	afligia	a	igreja	–	a	questão	de	fazer	empréstimo	com	juros.	Antes	da
Reforma,	a	hiperliteralidade	na	maioria	das	comunidades	cristãs	prevaleceu	no
tocante	a	esse	assunto.	João	Calvino	tinha	algo	bom	a	dizer	sobre	a	questão	do
comércio	 com	 incidência	 de	 juros.	 Ele	 e	 outros	 reformadores	 protestantes
esclareceram	e	revolucionaram	a	maneira	como	o	lucro	podia	ser	utilizado	para
refrear	 o	 roubo.	 “Usura”	 é	 um	 termo	 antigo	 e	 pode	 ser	 definido	 de	 duas
maneiras:	(1)	cobrança	de	juros	a	qualquer	momento	sobre	um	empréstimo;	ou
(2)	cobrança	com	juros	 tão	altos	a	ponto	de	se	 tornar	 roubo	ou	exploração	dos
pobres.
Calvino	 deu	 início	 à	 sua	 discussão	 sobre	 o	 oitavo	mandamento	 com	 este
axioma:	 “Visto	 a	 caridade	 ser	o	 intuito	da	Lei,	 devemos	buscar	 a	definição	de
roubo	a	partir	daí”.22	Arraigando-se	firmemente	na	regra	áurea,	ele	exige	que	os
direitos	de	todas	as	pessoas	sejam	preservados	e	que	todos	os	cristãos	tratem	os
outros	 da	mesma	maneira	 como	 gostariam	de	 ser	 tratados.	Aplicada	 ao	 oitavo
mandamento,	 essa	 percepção	 da	 lei	 classificaria	 como	 “ladrões”	 não	 somente
aqueles	 que	 roubam	 os	 bens	 em	 secreto,	 mas	 também	 aqueles	 que	 buscam
“ganhar	 a	 partir	 da	 perda	 de	 outras	 pessoas	 [e]	 acumular	 riqueza	 por	meio	 de
práticas	 ilegais,	além	de	serem	mais	dedicados	aos	seus	próprios	benefícios	do
que	à	equidade”	(p.	110-111).
Típico	 da	 abordagem	 de	 Calvino	 à	 aplicação	 da	 lei,	 o	 reformador
classificou	inúmeros	e	diferentes	pecados	sob	o	título	de	um	único	pecado	(nesse
caso,	 o	 roubo)	 e	 advertiu	 sobre	 as	 maneiras	 traiçoeiras	 que	 indivíduos
depravados	poderiam	utilizar	com	o	intuito	de	burlar	o	sistema,	enquanto	ainda
diminuíam	 os	 bens	 de	 outros.	 Ele	 alertou	 quanto	 aos	 “falsos	 pretextos”,
“astúcia”,	“extorsão”	e	“artimanha”	(p.	111).	Ele	também	observou	que	a	lei	de
Deus	“declara	que	todos	os	meios	ilícitos	de	ganho	são	roubo”	(p.	111).	Além	do
mais,	 empregando	 sua	 hermenêutica	 da	 lei	 –	 segundo	 a	 qual	 “um	 preceito
afirmativo	 está	 ligado	 à	 proibição”	 –	 Calvino	 pede	 aos	 administradores	 que
utilizem	a	liberalidade	e	generosidade	como	vacinas	ou	antídotos	contra	o	roubo.
Em	suma,	cada	pessoa	“deve	guardar	em	segurança	o	que	possui	e	o	proveito	do
nosso	 próximo	 não	 deve	 ser	 inferior	 ao	 nosso”	 (p.	 111).	 Tais	 princípios
preliminares	ditaram	a	visão	de	Calvino	quanto	à	usura	e	defenderam	o	decoro
do	empréstimo	capitalista.
Seu	 comentário	 a	 respeito	 de	 Êxodo	 22.25	 apresenta	 uma	 de	 suas
discussões	mais	completas	a	respeito	da	usura,	como	compreendida	no	segundo
sentido	mencionado	acima.	Calvino	advertiu	que,	embora	o	objetivo	visado	no
empréstimo	seja,	de	modo	geral,	o	lucro,	a	prática	de	cobrar	taxas	exorbitantes	é
errada.	Ele	acrescentou	que	“negligenciamos	os	pobres”	caso	o	empréstimo	seja
restrito	apenas	aos	abastados	que	podem	reembolsar	(p.	127).	Ademais,	salientou
que	o	empréstimo	sem	juros	depende	mais	da	“regra	da	caridade”	do	que	da	lei
da	política	judaica	(p.	127).	O	reformador	também	reconheceu	que	a	própria	lei
judaica	permitia	o	lucro	com	base	nos	juros	provenientes	de	empréstimos	feitos
aos	gentios.23	Todavia,	o	absoluto	transcultural	para	Calvino	era	“que	os	nossos
irmãos	necessitados	de	nossa	ajuda	não	sejam	tratados	de	modo	rude”	(p.	128).
Ele	era	esperto	o	bastante	para	observar	que	muitos	tipos	de	comércio	poderiam
ser	um	“modo	de	extorsão”.	Além	disso,	escreve	que	“os	homens	astutos	sempre
estão	 inventando	 algum	 pequeno	 subterfúgio	 ou	 outra	 coisa	 para	 enganar	 a
Deus”	(p.	129).
Calvino	entendia	bem	o	mercado	a	ponto	de	constatar	que	“nenhum	credor
jamais	 poderia	 emprestar	 dinheiro	 sem	 que	 houvesse	 perda	 para	 ele”	 caso	 a
oposição	 à	 usura	 impusesse	 total	 proibição	de	 cobrança	de	 juros	 (p.	 130).	Sua
percepção	 da	 natureza	 humana	 o	 impedia	 de	 endossar	 tal	 proibição,	 pois	 ele
percebeu	 que	 os	 que	 pediriam	 empréstimo	 “trapaceariam”	 o	 esquema	 e
utilizariam	“falsos	pretextos”	para	causar	aborrecimentos	aos	credores	(p.	131).
Estes	poderiam	ser	vítimas	 também,	e	Calvino	 sabia	disso.	Seu	argumento	era
que,	 se	 os	 juros	 fossem	 totalmente	 proibidos,	 a	 perda	 dos	 bens	 ocorreria	 em
alguns	 casos.	 Por	 si	 só,	 isso	 seria	 uma	 violação	 do	 oitavo	 mandamento.	 Não
obstante,	ele	interpretou	o	texto	de	Êxodo	22.25	dirigindo-se	somente	aos	pobres
e	observou	que	a	usura	deve	ser	permitida	sem	restrições	em	casos	onde	os	que
fazem	o	empréstimo	tenham	condições	de	reembolsar.
Em	 referência	 a	 esse	 versículo,	 Calvino	 afirmou	 que	 nem	 toda	 usura	 era
condenada.Ele	apresentou	o	seguinte	argumento:
Se	 o	 devedor	 prolongou	 o	 prazo	 de	 pagamento	 por
meio	de	 falsos	pretextos	para	perda	 e	 inconveniência
de	seu	credor,	é	coerente	que	ele	obtenha	vantagem	de
sua	má-fé	e	palavra	descumprida?	Por	certo,	ninguém,
eu	 acredito,	 dirá	 que	 a	 usura	 não	 deva	 ser	 paga	 ao
credor	 além	do	valor	principal	 a	 fim	de	compensar	 a
perda.	 Se	 qualquer	 homem	 rico	 e	 endinheirado,
desejando	comprar	um	pedaço	de	terra,	tiver	de	tomar
emprestado	 parte	 da	 quantia	 necessária	 de	 outra
pessoa,	 aquele	 que	 emprestou	 o	 dinheiro	 não	 deve
receber	uma	parcela	dos	rendimentos	da	quinta	até	que
o	 valor	 principal	 seja	 reembolsado?	 Diariamente,
ocorrem	muitos	casos	em	que,	no	tocante	à	equidade,
a	usura	não	é	pior	do	que	a	compra	(p.	131).
André	 Biéler	 confirma	 ter	 Calvino	 delineado	 uma	 importante	 distinção
entre	“o	empréstimo	para	 fins	pessoais,	de	um	lado,	e,	de	outro,	o	empréstimo
para	 incentivo	à	produção”.24	Seguindo	os	pontos	de	vista	de	Aristóteles,	como
fazia	 constantemente	o	Catolicismo	 romano,	 o	Concílio	 eclesiástico	de	Niceia,
no	 século	 8º	 tinha	 condenado	 o	 empréstimo	 com	 incidência	 de	 juros.	 Vários
decretos	 papais	 e	 importantes	 obras	 teológicas,	 por	 semelhante	 modo,
censuraram	o	lucro	proveniente	tão	somente	dos	juros.25	Calvino,	 todavia,	 tinha
como	base	de	sua	mudança	sísmica	na	exegese	duas	ideias	principais:	(1)	em	um
mundo	decaído,	é	possível	que	as	pessoas	tomem	emprestado	com	más	intenções
e,	 se	 o	 credor	 nunca	 for	 reembolsado,	 tal	 fato	 constitui	 roubo;	 e	 (2)	 em	 uma
economia	em	crescimento,	 se	alguém	deseja	emprestar	dinheiro	a	outra	pessoa
que	 está	 produzindo	 ou	 desenvolvendo	 algo,	 trata-se	 de	 um	 uso	 profícuo	 de
ativos.26	 A	 liberdade	 de	 investir	 encontrou	 pilar	 teológico	 em	 Calvino,	 o	 qual
demonstrou	que	o	empréstimo	com	incidência	de	juros	podia,	no	fim,	ser	moral.
André	 Biéler	 resume	 sete	 condições	morais	 que	 precisam	 estar	 presentes
para	os	juros	serem	considerados	éticos:
	
1.	 Os	pobres	não	devem	ser	prejudicados.
2.	 A	 caridade	 deve	 ser	 exercida	 em	 primeiro	 lugar;	 se	 o	 patrimônio	 de	 uma	 pessoa	 é	 abundante,	 é
possível	utilizá-lo	no	empréstimo	com	juros.
3.	 A	 regra	 áurea	 deve	 ser	 evocada	 –	 por	 exemplo,	 a	 pessoa	 não	 deve	 emprestar	 a	 certa	 taxa	 que	 ela
mesma	não	aceitaria.
4.	 Os	juros	só	devem	ser	cobrados	de	empreendimentos	que	gerem	lucro.
5.	 Nem	a	prática	comum	nem	os	padrões	mundanos	decidem	o	direito	da	cobrança	de	juros.
6.	 O	benefício	para	a	comunidade	geral	tem	de	ser	possível	–	por	exemplo,	“a	pessoa	deve	determinar,
de	maneira	apropriada,	que	o	contrato	seja	proveitoso	como	um	todo,	e	não	prejudicial”.
7.	 A	cobrança	de	juros	deve	ser	legal	ou	permitida	pelas	leis	civis	da	região.27
O	argumento	de	Calvino,	em	suma,	era	este:	a	ética	do	amor	nos	convoca	a
valorizar	e	proteger	a	propriedade	e	o	patrimônio	de	nosso	próximo.	Quando	a
pessoa	tem	recursos	para	pagar	juros,	tomar	emprestado	do	próximo	sem	juros	é
usar	parte	de	sua	riqueza	para	benefício	próprio	sem	retribuição.	Para	Calvino,	a
atitude	 “eu	 ganho,	 ele	 perde”	 (caso	 não	 sejam	 cobrados	 juros),	 violava	 o
mandamento	 “não	 furtarás”.	 Na	 verdade,	 se	 eu	 ganho	 e	 os	 filhos	 do	 próximo
perdem	–	pela	diminuição	do	patrimônio	–	a	cobrança	de	juros	tem,	na	realidade,
o	valor	instrumental	para	restringir	a	perda	de	bens.
Calvino	 prosseguiu,	 com	 sua	 explanação	 sobre	 o	 texto	 de	 Êxodo	 22.25,
salientar	 que,	 se	 alguém	 empresta	 dinheiro	 a	 um	 conhecido	 cristão	 em
necessidade,	 os	 credores	 ainda	 precisam	 manter	 em	 mente	 o	 chamado	 à
compaixão.	Essas	 leis	 do	AT	–	 em	oposição	 a	muitos	 equívocos	 em	 relação	 a
elas	 –	 requerem	 a	 caridade.	Os	 pobres,	 se	 possível,	 devem	 ser	 ajudados	 pelas
pessoas	com	recursos.	De	semelhante	modo,	se	uma	pessoa	pobre	oferecer	sua
veste	como	garantia,	esta	deve	ser	devolvida	a	ela	à	noite,	pois	pode	ser	tudo	o
que	tal	pessoa	tem	para	se	cobrir	(Êx	22.27).	Apossar-se	do	pouco	que	o	pobre
possui	–	em	especial,	se	ele	tem	necessidade	de	tal	coisa	–	pode	ser	abusivo	caso
não	haja	algum	propósito.
Calvino	 manejava	 de	 forma	 consistente	 tal	 interpretação,	 até	 mesmo
recorrendo	 a	 outros	 versículos	 do	 AT	 em	 concordância	 com	 a	 “regra	 da
caridade”	(p.	132).	Com	base	em	sua	interpretação	do	texto	de	Êxodo	22.25,	por
exemplo,	 ele	 conclui	 ousadamente	 que,	 “no	 momento,	 a	 usura	 não	 é	 ilegal,
contanto	que	não	transgrida	a	equidade	e	a	união	fraternal”	(p.	132).	O	amor	ao
próximo	 era	 o	 padrão	 de	 Calvino	 e	 “até	 onde	 é	 legal	 receber	 usura	 sobre
empréstimos	será	mais	bem	prescrito	pela	lei	da	equidade	do	que	pelas	extensas
discussões”	(p.	132).
Em	suma,	Calvino	 explica	que	 a	pessoa	viola	o	oitavo	mandamento	 (seja
por	 roubo	 ou	 usura)	 quando	 “outra	 pessoa	 fica	 mais	 pobre”	 (p.	 149).	 Ele
impunha	 limite	 e	 incentivava	 os	 cristãos	 a	 respeitar	 e	 proteger	 as	 posses	 dos
outros.	A	 partir	 da	 perspectiva	 do	 reformador,	 portanto,	 o	 propósito	 do	 oitavo
mandamento	é:	“Ninguém	deve	ter	perda	por	nossa	causa,	e	será	esse	o	caso	se
tivermos	consideração	com	os	bens	dos	nossos	irmãos”	(p.	149).
Quantas	 vezes	 os	 pais	 chamam	a	 atenção	 dos	 filhos	 quanto	 à	maneira	 de
gastar	 lembrando-os	 que	 “dinheiro	 não	 nasce	 em	 árvores”?	 Semelhantemente,
podemos	 dizer	 que	 “não	 existe	 almoço	 gratuito”.	 No	 sentido	 de	 alguém	 ter
sempre	 de	 pagar	 pelo	 almoço,	 Calvino	 tinha	 uma	 atitude	 similar	 para	 com	 a
usura.	Ele	percebeu	que	vivemos,	em	certo	sentido,	em	um	mundo	de	soma	zero.
Em	outras	palavras,	o	reformador	entendia	que	as	coisas	sempre	têm	um	custo,
de	 uma	 maneira	 ou	 outra.	 Contar	 com	 a	 bondade	 do	 próximo	 é	 ter	 almoço
gratuito.	É,	 também,	 roubá-lo.	Visto	 que	 dinheiro	 não	 nasce	 em	árvores	 e	 não
existe	almoço	gratuito,	todos	os	consumidores	devem	participar	dos	custos	reais
das	 coisas.	A	nova	perspectiva	 teológica	de	Calvino,	 a	 qual	 permite	 emprestar
com	 juros,	 reconhecia	a	 realidade	de	que	doações	nunca	são	dadas	de	maneira
gratuita,	 os	 empréstimos	 não	 podem	 ser	 estendidos	 por	 tempo	 indeterminado
sem	 perdas	 e	 dinheiro	 não	 nasce	 em	 árvores.	 As	 mudanças	 subsequentes	 na
prática	 da	 usura,	 bem	como	na	 visão	 dos	 homens,	 levaram	a	 uma	distribuição
mais	equitativa	dos	custos	e	à	prevenção	do	roubo	na	forma	de	empréstimos	sem
juros,	 porquanto	 Calvino	 percebeu	 que,	 em	 tais	 empréstimos,	 alguém	 estava
pagando	pelo	almoço	de	alguma	forma.
Os	pobres	e	os	ricos	vieram	para	ficar
Um	ponto	que	 fica	 claro	 enquanto	prosseguimos	neste	 estudo	 é	 o	 fato	de
Calvino	compreender	que	Deus	não	decretou	uma	sociedade	sem	classe	social.
Os	 ricos	 e	 os	 pobres	 vieram	para	 ficar.	 Jesus	 afirmou	que	 sempre	 teríamos	 os
pobres	 em	 nosso	 meio	 (Jo	 12.8).28	 Além	 do	 mais,	 Deus	 não	 parece	 estar
comprometido	a	dar	os	mesmos	 rendimentos	e	ativos	para	 todas	as	pessoas.	A
ideia	humanística	da	 igualdade	econômica	radical	 (que	data,	no	mínimo,	desde
Platão)	–	o	conceito	de	que	a	disparidade	econômica	é	uma	anormalidade	e	deve
desaparecer	 –	 encontra	 pouquíssima	 base,	 se	 a	 encontra,	 no	 abrangente
testemunho	das	Escrituras.	Em	contrapartida,	uma	possível	realidade	econômica
é	 aceitar	 que	 as	 pessoas,	 de	 fato,	 terão	 diferentes	 somas	 de	 riqueza	 e	 lucro.
Sejam	 elas	 provenientes	 de	 herança,	 trabalho	 árduo,	 sorte	 em	 determinados
momentos	 ou	 épocas	 incomuns	 de	 bênção,	 a	 Bíblia	 não	 indica	 que	 as	 classes
econômicas	irão	ou	devam	desaparecer.
Este	pode	ser	outro	caminho	para	aceitarmos	e	valorizarmos	a	providência
de	Deus	em	vez	de	invejarmos	o	que	os	outros	têm	ou	nos	lamentarmos	pelo	fato
de	 um	 ter	menos	 do	 que	 o	 outro.	 Calvino	 foi	 perspicaz	 ao	 comentar	 diversas
vezes	sobre	tal	expectativa.	Em	certa	ocasião,	enquanto	tecia	comentários	sobre
Filipenses	 4.12,	 ele	 exortou	 os	 cristãos	 a	 “se	 habituaremao	 sofrimento	 da
pobreza	de	maneira	tal	que	não	lhes	será	doloroso	e	penoso	quando	vierem	a	ser
destituídos	de	seus	bens”.29
O	 reconhecimento	 realista	 da	 depravação	 humana	 tem	muito	 valor	 para	 a
teoria	 e	 prática	 comerciais.	 Não	 prevê-lo	 é	 implorar	 por	 múltiplos	 erros	 com
base	 em	 pressuposições	 com	 graves	 falhas.	 Colocando	 de	 outra	 maneira,	 o
realismo	sobre	o	próximo	envolve	a	expectativa	da	ocorrência	de	pecado,	crime,
dano,	opressão,	maldade,	agressão	e	guerra.	Negócios	e	indivíduos	são	prudentes
ao	 fatorarem	 tal	 expectativa	 em	 seus	 planejamentos.	 A	 imagem	 do	 homem
decaído	 feita	 por	 Calvino	 não	 requer	 nada	 além	 de	 uma	 ética	 de	 trabalho
produtiva	 amparada	 pela	 prestação	 de	 contas.	 Esta	 necessita	 ser	 reforçada	 por
um	 sistema	 legal	 sólido	 e	 pela	 movimentação	 irrestrita	 de	 salários,	 trabalho,
oportunidades	e	consequências.	A	apreensão	calvinista	com	relação	à	depravação
do	 homem	 revela	 a	 fraqueza	 inerente	 ao	 conceito	 de	 Socialismo.	 A
pecaminosidade	humana	não	condiz	com	as	exigências	socialistas	de	sacrifício
próprio	e	altruísmo.	Os	sistemas	econômicos	avançam	por	causa	da	providência
de	Deus,	o	qual	utiliza	a	riqueza,	a	ética	de	 trabalho	e	o	mercado	aberto	como
alguns	dos	meios	visíveis	de	propagar	sua	vontade	neste	mundo.
Notas
1	João	Calvino,	Commentaries	on	 the	First	Book	of	Moses	Called	Genesis	 (1554;	 reimpr.,	Grand	Rapids:
Baker	Book	House,	1979),	p.	173.	Na	seção	a	 seguir,	os	números	entre	parênteses	 referem-se	às	páginas
deste	comentário.
2	 É	 neste	 contexto	 que	Calvino	 também	 visualiza	 o	 trabalho	muito	 além	 da	 labuta	manual.	 Ele	 condena
aqueles	 que	 “precipitadamente	 impelem	 todos	 os	 homens	 à	 labuta	 manual”	 e	 argumenta	 existir	 lugar
legítimo	para	as	“artes	mecânicas”	e	muitas	formas	de	trabalho.	Ibid.,	p.	175.
3	Citado	em	André	Biéler,	Calvin’s	Economic	and	Social	Thought	(1959;	reimpr.,	Genebra:	World	Alliance
of	Reformed	Churches,	2005),	p.	211.
4	Citado	em	ibid.,	p.	215.
5	João	Calvino,	Sermons	on	Galatians	(Edimburgo:	Banner	of	Truth,	1996),	p.	313.	Ênfase	acrescentada.
6	Para	 total	 compreensão	do	 tema	de	Adam	Smith,	 consulte	o	 livro	4	de	An	 Inquiry	 into	 the	Nature	and
Causes	of	the	Wealth	of	Nations,	intitulado	“Of	Systems	od	Political	Economy”.
7	 James	 P.	 Gills	 e	 Ronald	 H.	 Nash,	 A	 Biblical	 Economics	 Manifesto:	 Economics	 and	 the	 Christian
Worldview	(Lake	Mary:	Creation	House,	2002),	p.	56.
8	Thomas	Sowell,	Economic	Facts	and	Fallacies	(Nova	York:	Basic	Books,	2008),	p.	33.
9	Ibid.,	p.	34.
10	Ibid.,	p.	201.
11	Ibid.,	p.	90-91.
12	Ibid.,	p.	94-95.
13	Banco	Mundial¸	World	Development	Indicators	2000	(Nova	York:	Oxford	University	Press,	2000),	tabela
4-13.	Citado	 na	 obra	 de	 John	E	 Stapleford,	Bulls,	 Bear	&	Golden	Calves:	 Applying	Christian	 Ethics	 in
Economics	(Downers	Grove:	InterVarsity	Press,	2002),	p.	81.
14	Stapleford,	Bulls,	Bears	&	Golden	Caves,	p.	58.
15	 Jeannine	 Olson,	 Calvin	 and	 Social	 Welfare:	 Deacons	 and	 the	 Bourse	 Française	 (Selinsgrove:
Susquehanna	University	Press,	1989),	p.	139.
16	Sowell,	Economics	Facts	and	Fallacies,	p.	35.
17	João	Calvino,	Commentary	on	the	Acts	of	the	Apostles	(Grand	Rapids:	Baker	Book	House,	1979),	1:193.
18	Ibid.,	1:197.
19	João	Calvino,	Commentary	on	a	Harmony	of	the	Evangelists,	Matthew,	Mark,	and	Luke	(Grand	Rapids:
Baker	Book	House,	 1979),	 2:441.	Na	próxima	 seção,	 os	 números	 entre	 parênteses	 referem-se	 às	 páginas
desse	comentário.	Consulte	também	2:401.	Grudem	conclui,	com	base	na	versão	desta	parábola	presente	no
Evangelho	de	Lucas,	 que	 “haverá	 desigualdade	 de	 gerenciamento	 e	 responsabilidade	 na	 era	 por	 vir.	 Isso
quer	dizer	que	a	 ideia	da	desigualdade	de	gerenciamento	em	si	é	dada	por	Deus	e	deve	ser	boa”.	Wayne
Grudem,	 Business	 for	 the	 Glory	 of	 God:	 The	 Bible´s	 Teaching	 on	 the	 Moral	 Goodness	 of	 Business
(Wheaton:	Crossway	Books,	2003),	p.	51.
20	 João	 Calvino,	Commentaries	 on	 the	 Epistle	 to	 the	 Philippians,	 Colossians	 and	 Thessalonians	 (Grand
Rapids:	Baker	Book	House,	1979),	2:124.
21	Calvino,	Commentary	on	a	Harmony	of	the	Evangelists,	2:401.
22	João	Calvino,	Commentaries	on	the	Four	Last	Books	of	Moses	(Grand	Rapids:	Baker	Book	House,	1979),
3:110.	Na	seção	a	seguir,	os	números	entre	parênteses	referem-se	às	páginas	desta	obra.
23	Consulte	Deuteronômio	23.19-20.	“Deus	permitiu	que	o	seu	povo	recebesse	 juros	dos	gentios,	pois,	de
outra	maneira,	a	reciprocidade	justa	não	teria	sido	preservada”	(p.	128).	Calvino	salientou	a	diferença	entre
tomar	emprestado	para	consumo	pessoal	e	tomar	emprestado	para	financiar	um	negócio,	o	que	é	equivalente
a	um	aluguel.
24	 Biéler,	Calvin’s	 Economic	 and	 Social	 Thought,	 p.	 402.	 Nas	 páginas	 400-420,	 Biéler	 apresenta	 uma
discussão	completa	a	respeito	das	visões	teológicas	quanto	à	usura.
25	Ibid.	Biéler	também	relata	que,	em	Genebra,	era	permitido	um	teto	de	juros	de	5%,	em	1538.	Em	1546,	os
colegas	de	Calvino	estavam	promulgando	defesas	da	cobrança	de	juros	como	sendo	um	catalisador	para	o
comércio	(ibid.,	p.	421).
26	Ibid.,	p.	411.
27	Ibid.,	p.	406-407.
28	A	 partir	 deste	 versículo,	Calvino	 inferiu	 que	 os	 donativos	 dados	 ao	ministério	 diaconal	 da	 igreja	 para
ajudar	os	pobres	eram	adequados.
29	Calvino,	Commentaries	on	the	Epistles	to	the	Philippians,	Colossians,	and	Thessalonians,	2:125.
3
Redenção
Se	 levássemos	 somente	 parte	 do	 testemunho	 bíblico	 em	 consideração,	 talvez
nos	tornássemos	pessimistas	sem	necessidade.	O	mesmo	poderia	acontecer	caso
nos	 concentrássemos	 exclusivamente	 na	 parte	 do	 ensinamento	 de	Calvino	 que
lida	com	os	efeitos	inextirpáveis	e	invasivos	da	depravação.	No	entanto,	um	dos
aspectos	maravilhosos	e	geradores	de	confiança	a	respeito	da	economia	bíblica	é
o	 fato	 do	 conceito	 de	 redenção	 não	 estar	 restrito	 à	 salvação	 da	 alma.	 Após	 a
grande	 e	 surpreendente	mudança	 na	 personalidade,	 vem	 também	 a	 verdade	 de
que	as	pessoas	podem	utilizar	sua	riqueza,	negócios	e	ativos	para	fazer	o	bem.
Elas	 conseguem	 redimir	 os	 ativos	 e	 aplicá-los	 em	 algo	 bom.	 Portanto,	 a
compreensão	 madura	 de	 todo	 o	 ensinamento	 de	 Calvino	 a	 respeito	 desse
conceito	impedirá	as	pessoas	de	se	tornarem	indevidamente	obstinadas.
Na	 realidade,	 em	 toda	 a	 Bíblia	 e	 nos	 melhores	 comentários	 sobre	 ela,	 é
possível	 encontrar	 incentivo	 para	 visualizar	 o	 comércio,	 o	 investimento	 e	 a
riqueza	como	áreas	sujeitas	ao	domínio	humano	e	também	como	campos	onde	a
providência,	bondade	e	criatividade	de	Deus	podem	ser	observadas.
O	próprio	termo	“redenção”	é,	na	verdade,	utilizado	no	Antigo	e	no	Novo
Testamento.	No	 livro	 de	Rute,	 por	 exemplo,	 um	 redentor	 da	mesma	 família	 é
mencionado	 (extraído,	 originalmente,	 da	 palavra	 hebraica	Go’el).	 Na	 narrativa
de	Rute,	o	redentor	familiar	tinha,	segundo	a	legislação	de	Levítico	25.25ss.,	de
comprar	outra	vez	a	terra	da	família	caso	um	parente	estivesse	a	ponto	de	perdê-
la.	 Manter	 a	 propriedade	 na	 família	 extensa	 era	 um	 aspecto	 de	 redenção.	 Na
época	do	AT,	redenção	envolvia	fazer	uma	troca	que	fosse	equivalente	ou	“um
pouco	 a	 mais	 no	 intuito	 de	 evitar	 trocas	 desonestas”.1	 O	 conceito	 era	 tão
importante	a	ponto	de	Deus	tomar	para	si	esse	nome	no	material	profético	(por
exemplo,	 Is	43.1-3),	 e	Calvino	 também	observou	que	Deus	empregou	o	 termo
Redentor	para	si	mesmo	em	Êxodo	6.6-8.
Mais	 adiante,	 no	 NT,	 a	 palavra	 grega	 apoutrosis	 (redenção)	 é	 utilizada
diversas	 vezes.	 Ela	 aparece	 no	 texto	 de	 Romanos	 3.24	 em	 referência	 ao	 que
Jesus	Cristo	 faz	por	meio	da	 justificação	–	ele	concede	 redenção.	Também	em
Romanos	8.23,	quando	os	cristãos	recebem	todos	os	benefícios	da	adoção,	seus
corpos	são	redimidos.	O	próprio	Cristo	se	torna	a	nossa	redenção	(1Co	1.30),	ou
seja,	ele	passa	a	ocupar	o	nosso	 lugar	e,	como	consequência,	nos	chama	a	nos
envolvermos	 no	 ministério	 da	 redenção	 (o	 qual,	 em	 2Co	 5.17-18,	 também	 é
traduzido	 como“reconciliação”).	 Em	 Efésios	 1.7,	 o	 apóstolo,	 uma	 vez	 mais,
compara	a	salvação	à	redenção	–	originalmente,	um	termo	da	área	econômica.	O
significado,	 todavia,	 é	 evidentemente	 espiritualizado,	 referindo-se	 à	 compra	de
Deus.	 Além	 disso,	 o	 termo	 frequentemente	 adquire	 uma	 nuance	 de	 fim	 dos
tempos,	como	observado	no	texto	de	Efésios	1.14.	Nele,	Paulo	fala	a	respeito	do
Espírito	 Santo,	 o	 qual	 é	 “o	 penhor	 da	 nossa	 herança,	 até	 ao	 resgate	 da	 sua
propriedade”	 (observe	 os	 diversos	 termos	 econômicos	 presentes	 nesse	 único
versículo).	 De	 semelhante	modo,	 em	 Efésios	 4.30,	 Paulo	 se	 refere	 à	 contínua
obra	de	Deus	até	o	“dia	da	redenção”.	Os	autores	das	epístolas	do	NT	raramente
hesitam	 em	 usar	 termos	 comerciais	 ou	 econômicos	 –	 demonstrando,	 com
sutileza,	 que	 eles	 dificilmente	 estavam	 associados	 à	 imoralidade	 –	 para	 se
referirem	ou	à	salvação	do	cristão	(Cl	1.14)	ou	ao	fim	da	história	da	humanidade
(veja	abaixo	o	capítulo	sobre	escatologia).	O	termo	comercial	foi	tão	destacado
com	relação	à	redenção	a	ponto	de	o	próprio	Jesus	utilizá-lo	no	texto	de	Lucas
21.28	para	se	referir	ao	fim	dos	tempos.	Seguindo	em	direção	ao	fim	do	NT,	a
obra	 de	Cristo	 é	 apresentada	 como	 “tendo	 obtido	 eterna	 redenção”	 (Hb	 9.12),
sendo	 o	 próprio	 Cristo	 o	 preço	 do	 resgate	 a	 fim	 de	 assegurar	 nossa	 eterna
herança	(Hb	9.15).
Outros	 termos	 de	 mercado	 também	 são	 empregados	 fora	 de	 seu	 sentido
original	 pelos	 autores	 do	 NT.	 O	 termo	 grego	 com	 o	 significado	 “comprar	 no
[ágora]	mercado”	(agorazo)	é	utilizado	em	Atos	20.28	para	descrever	a	maneira
como	Deus	 comprou	 toda	 a	 igreja.	Tal	 transação	 teve	 por	 base	 o	 sacrifício	 de
Cristo.	A	obra	 resgatadora	de	Deus	 também	é	mencionada	no	 texto	de	2Pedro
2.1.	Em	seu	comentário	a	respeito	de	outra	ocorrência	desse	termo,	no	texto	de
1Coríntios	 6.20,	 Calvino	 falou	 de	 Deus	 como	 pagando	 o	 preço	 de	 nossa
redenção	 e	 fez	 alusão	 a	 duas	 nuances	 diferentes	 da	 palavra	 “preço”:	 (1)	 o
significado	 comum	 de	 custo;	 e	 (2)	 “uma	 taxa	 extremamente	 alta”	 para	 coisas
“que	 nos	 custaram	 muito”.2	 Ao	 refletir	 sobre	 a	 obra	 redentora	 de	 Deus,	 ele
preferiu	 a	 segunda	 interpretação.	 Ao	 comentar,	 pouco	 depois,	 o	 texto	 de
1Coríntios	 7.23,30	 (onde	 aparece	 o	 mesmo	 termo),	 Calvino	 adverte	 contra	 a
preocupação	excessiva	com	as	coisas.	Os	cristãos	deviam	comprar	como	se	não
fossem	aficionados	por	coisas	materiais.	Ainda	assim,	eles	não	foram	instruídos
a	“repartir	seus	bens”	–	somente	a	se	portar	de	tal	maneira	“que	tais	bens	não	se
apossassem	 de	 suas	 mentes”.3	 O	 termo	 da	 área	 econômica	 agorazo,	 o	 qual
também	 pode	 ser	 traduzido	 como	 “comprar”,	 é	 frequentemente	 utilizado	 no
último	 livro	 da	 Bíblia,	 por	 exemplo,	 em	 Apocalipse	 3.18;	 5.9;	 13.17;	 14.3-4;
18.11.
As	epístolas	paulinas	fazem	uso	desse	conceito	de	mercado	e	não	reprovam
a	concepção	de	troca	de	mercadorias	no	mercado.	O	próprio	Deus	não	hesita	em
empregar	metáforas	notoriamente	econômicas	para	propagar	certos	aspectos	do
significado	de	salvação.	O	texto	de	Gálatas	4.5	fala	sobre	Cristo	redimindo	seu
povo	no	momento	certo;	Tito	2.14	o	descreve	como	aquele	que	redime	seu	povo
da	 iniquidade;	Gálatas	3.13	 relata	Cristo	“nos	 redimindo	da	maldição	da	 lei”	e
1Pedro	1.18-19	apresenta	a	seguinte	afirmação:	“Sabendo	que	não	foi	mediante
coisas	corruptíveis,	como	prata	e	ouro,	que	fostes	resgatados...	mas	pelo	precioso
sangue...,	 o	 sangue	 de	 Cristo”.	 Cada	 uma	 dessas	 passagens	 emprega
terminologia	econômica,	portanto,	dando	validade	às	práticas	do	comércio	e	dos
negócios.
Em	 compreendendo	 as	 nuances	 econômicas	 presentes	 no	 conceito	 da
redenção	em	si,	além	da	percepção	de	que	a	criação	permite	o	desenvolvimento	e
a	multiplicação,	as	discussões	abaixo	levam	em	consideração	a	maneira	como	a
riqueza	pode	ser	utilizada	de	modo	benéfico,	redentor	e	profícuo.	Antes	de	nos
voltarmos	a	tais	discussões,	entretanto,	devemos	observar	dois	importantes	pré-
requisitos:	 (1)	 a	 necessidade	 de	 liberdade,	 como	 apropriadamente	 definida	 por
Calvino;	 e	 (2)	 a	 necessidade	 de	 um	horizonte	 de	 longo	 alcance	 para	 suster	 os
cristãos	durante	as	provações	e	desilusões	desta	vida.
A	liberdade	cristã
A	 fim	 de	 fazer	 os	 mecanismos	 comerciais	 funcionarem	 sem	 percalços,	 o
Calvinismo	 também	 espera,	 historicamente,	 a	 presença	 de	 uma	 condição
específica	 –	 a	 liberdade	 pessoal.	 A	 liberdade	 realçada	 pelo	 Calvinismo	 no
mercado	 também	 buscava	 os	 seguintes	 resultados	 para	 os	 investidores,
trabalhadores	e	proprietários:
Livre	mercado	onde	as	mercadorias	pudessem	ser	comercializadas	diretamente	com	os	compradores
em	potencial	e	onde	a	burocracia	e	interferência	fossem	minimizadas.
Moeda	legal,	a	qual	facilitaria	a	livre	troca	de	mercadorias.
Estabilidade,	de	modo	que	os	futuros	empreendimentos	pudessem	ser	planejados	e	realizados.
Lucro,	o	qual	incentivasse	outras	pessoas	a	participarem	dos	mercados.
Ambiente	favorável	no	qual	os	empresários	não	fossem	nem	punidos	nem	sujeitos	a	 recriminações
em	vista	do	desenvolvimento	de	seus	produtos.
Domínio	pessoal	de	seus	negócios.
Acesso	aos	recursos	naturais	necessários.
Essas	 características	 fundamentais	 representavam	 uma	 liberdade	 pessoal
que	 permitia	 ao	 proprietário	 –	 fosse	 de	 um	 campo,	 fábrica	 ou	 de	 propriedade
intelectual	–	cultivar	sua	propriedade	da	maneira	como	achasse	melhor.
Conforme	 já	 tivemos	 a	 oportunidade	 de	 observar,	 muitas	 realidades
econômicas	 não	 são	 questões	 apenas	 comerciais.	 Pelo	 contrário,	 são	 questões
relacionadas	 a	 moralidade	 e	 valores.	 Nesse	 caso,	 a	 liberdade	 necessária	 para
sustentar	 os	 mercados	 é	 enfatizada	 pela	 explanação	 de	 João	 Calvino	 sobre	 a
liberdade	cristã.	Apesar	da	sua	frequente	identificação	com	um	tipo	impeditivo
de	 determinismo,	 o	 reformador,	 na	 verdade,	 corroborou	 para	 a	 compreensão
humana	de	liberdade.	Ele	o	fez	precisamente	em	oposição	ao	pano	de	fundo	do
pensamento	medieval	 e	 católico.	 Em	 sua	 opinião,	 a	 liberdade	 cristã	 podia	 ser
mais	bem	compreendida	em	contraste	com	a	lei.
João	Calvino	viveu	em	uma	época	em	que	as	 liberdades	que	a	maioria	de
nós	comemora	não	eram	comuns.	Em	duas	esferas	diferentes,	ele	foi	desafiado	a
colocar	 em	 prática	 uma	 visão	 duradoura	 de	 liberdade.	 Em	 primeiro	 lugar,	 na
esfera	 cívica,	 ele	 vivia	 em	 uma	 sociedade	 que,	 até	 pouco	 tempo	 antes,	 havia
conhecido	apenas	as	monarquias.	Não	existia	história	longa	de	liberdade.	Antes
da	época	de	Calvino,	a	maioria	das	cidades	europeias	estava	debaixo	do	mando
do	 rei,	 e	 os	 cidadãos	 tinham	poucas	 liberdades	 civis.	Os	 textos	 do	 reformador
ajudariam	a	estabelecer	o	fundamento	da	tradição	moderna	de	liberdade	civil.	A
segunda	 forma	 de	 autoritarismo	 herdada	 por	 ele	 era	 concernente	 à	 esfera	 do
governo	 eclesiástico.	 Antes	 da	 Reforma,	 sob	 o	 domínio	 da	 igreja	 romana,	 os
cristãos	só	tinham	liberdades	quando	a	igreja	as	reconhecia.	Por	vezes,	elas	eram
raridade.	Sendo	assim,	a	ideia	de	que	o	cristão	poderia	ser	verdadeiramente	livre
e	 ter	 a	 liberdade	 de	 servir	 à	 sua	 própria	 consciência	 era	 um	 novo	 conceito,
incentivado	de	forma	substancial	por	Calvino	mediante	seu	ensinamento.
No	 livro	3	das	 Institutas,	 ele	 abordou	o	 tópico	da	 liberdade	 cristã,	 e	 suas
percepções	ainda	hoje	não	foram	superadas.	Para	começar,	uma	distinção	crucial
deve	 ser	 introduzida	 a	 partir	 da	 conclusão	 do	 capítulo	 19	 desse	 livro.	Calvino
falou	 a	 respeito	 de	 duas	 formas	 de	 liberdade	 –	 civil	 e	 espiritual	 (Institutas,
3.19.15).	 Do	 mesmo	 modo,	 ele	 ensinou	 que	 o	 governo	 humano	 possui	 duas
partes:	o	governo	espiritual	é	interno	e	instrui	a	consciência	em	questões	como
piedade	e	adoração,	enquanto	o	governo	civil	se	refere	às	questões	externas.	A
igreja	 deve	 ensinar	 e	 lidar	 com	 a	 ordem	 espiritual,	 e	 os	 governantes	 políticos
devem	administraros	assuntos	relacionados	à	ordem	civil.	O	reformador	infere
que,	 se	prestarmos	atenção	a	 tal	distinção,	 “não	 transferiremos	erroneamente	a
doutrina	 do	 evangelho	 concernente	 à	 liberdade	 espiritual	 para	 a	 ordem	 civil”.
Essa	 divisão	 de	 trabalho	 se	 tornaria	 parte	 essencial	 das	 sociedades	 estáveis	 da
modernidade	e	forneceria	ampla	proteção	para	a	liberdade	adequada.
Com	 isso	 em	 mente,	 deve	 estar	 mais	 claro	 que	 a	 igreja	 e	 o	 Estado	 têm
papéis	 valiosos	 a	 desempenhar	 na	 vida	 humana.	 No	 entanto,	 eles	 não	 devem
interferir	 na	 jurisdição	 peculiar	 de	 cada	 um;	 Deus	 planejou	 que	 atuassem	 em
esferas	distintas.
Quando	 Calvino	 começou	 seu	 capítulo	 revolucionário	 sobre	 a	 liberdade
cristã,	ele	 tentava	explicar	por	que	 tal	assunto	era	 tão	 importante.	Argumentou
ser	 necessário	 que	 as	 pessoas	 compreendessem	 isso,	 mesmo	 que	 em	 nível
elementar,	a	 fim	de	que	sua	consciência	não	 fosse	sobrecarregada	pela	ameaça
de	regras	intermináveis	e	escravidão	opressora.	De	fato,	afirmou	ele,	esse	tópico
era	um	“adendo	característico	da	justificação”,	o	que	significa	dizer	que,	sendo
uma	 pessoa	 justificada	 somente	 por	Deus,	 ela	 experimenta	 a	 liberdade	 apenas
como	 consequência	 de	 seguir	 só	 a	 Deus.	 Portanto,	 a	 princípio,	 a	 visão	 de
liberdade	de	Calvino	deve	ser	distinguida	de	qualquer	visão	humana	a	 respeito
dela.	Ele	acreditava	ser	a	liberdade	uma	dádiva	e	deveria	ser	utilizada	conforme
os	planos	de	Deus.
Para	 o	 reformador,	 essa	 liberdade	 espiritual	 ou	 cristã	 consistia	 de	 três
partes.	Primeiro,	os	cristãos	deviam	ter	sua	consciência	livre	em	relação	à	lei	de
Deus.	Tendo	sido	justificados	por	Deus	e	estando	livres	das	exigências	da	lei,	os
cristãos	tinham	de	aprender	a	olhar	para	a	misericórdia	de	Deus	continuamente	e
a	 se	 afastarem	de	qualquer	pensamento	de	que	 seriam	salvos	pelas	obras.	Não
que	a	lei	não	fosse	importante	para	Calvino,	mas,	em	termos	de	consciência,	ele
compreendia	que	os	cristãos	tinham	de	encontrar	sua	segurança	em	Cristo,	não
em	atos	ostensivos	de	aperfeiçoamento	próprio	da	obediência	legal.	A	liberdade
de	 consciência	 era	 importante	 para	 o	 reformador	 como	 liberdade	 civil	 e
começava	com	o	entendimento	correto	da	justificação.
A	segunda	parte	da	liberdade	cristã	consiste	no	fato	de	os	cristãos	terem	de
obedecer	 à	 lei	por	um	motivo	diferente.	Por	 terem	sido	 regenerados	por	Deus,
eles	deviam	“obedecer	espontaneamente	à	vontade	de	Deus”	(3.19.4).	Em	vez	de
obedecer	 por	 causa	 do	 medo	 servil,	 os	 cristãos	 tinham	 de	 agir	 de	 maneira
agradecida	em	resposta	ao	amor	do	Pai,	do	qual	flui	a	verdadeira	liberdade.	Essa
concepção	 também	 significou	 o	 fim	 de	 vários	 esquemas	 perfeccionistas.	 Os
seguidores	de	Calvino	tinham	de	ser	perfeitos	em	Cristo,	não	em	si	mesmos.	Isso
implicava	também	no	fim	do	legalismo.
A	 terceira	 parte	 da	 liberdade	 cristã	 consistia	 no	 fato	 de	 os	 cristãos	 não
serem	obrigados	a	somente	observar	os	rituais	externos	ou	manter	os	costumes
cerimoniais	do	Antigo	Testamento.	Em	vez	disso,	 era-lhes	permitido	 fazer	uso
das	 cerimônias	 como	 algo	 útil	 ou	 omiti-las,	 contanto	 que	 não	 tentassem
subverter	a	lei	moral.	Portanto,	existiam	muitas	coisas	na	vida	classificadas	por
Calvino	 como	 “indiferentes”.	 Deixar	 de	 fazer	 tal	 distinção,	 acreditava	 ele,
significaria	 “não	 acabar	 com	 a	 superstição”	 (3.19.7).	A	 palavra	 de	Deus	 era	 a
autoridade	para	os	 fiéis,	 porém,	muitas	 coisas	na	vida	 tinham	de	 ser	decididas
em	 termos	 de	 princípios	 e	 dedução.	 Os	 crentes	 em	 Cristo	 eram	 livres	 para
utilizar	as	coisas	boas	que	Deus	havia	criado.	Tinham	de	usá-las	conforme	ele
havia	designado	e	para	sua	glória.	Assim,	a	liberdade	era	um	bom	princípio.	O
objetivo	dessa	liberdade	era	“dar	paz	a	consciências	hesitantes”	(3.19.9).	Claro,
Calvino	não	deve	ser	entendido	como	incentivando	a	libertinagem	ou	utilizando
a	liberdade	como	“pretexto	para	a	concupiscência”.
A	 fim	 de	 reiterar	 sua	 interpretação,	 Calvino	 também	 apresentou	 uma
hierarquia	 de	 normas	 para	 ajudar	 as	 pessoas	 a	 tomarem	 decisões.	 Questões
relacionadas	 à	 liberdade	 cristã	 tinham	 de	 estar	 sujeitas	 à	 lei	 da	 caridade
(3.19.13).	Em	outras	palavras,	os	 fiéis,	por	vezes,	 tinham	de	 impor	 limites	a	si
mesmos	de	maneira	voluntária,	pois,	dessa	forma,	não	fariam	outros	tropeçarem.
Logo,	a	liberdade	não	é	absoluta	no	esquema	de	Calvino.	Ela	é	boa	e	uma	dádiva
da	 parte	 de	 Deus,	 porém,	 até	 mesmo	 a	 liberdade	 deve	 ser	 mantida	 em
perspectiva.	Além	do	mais,	exatamente	como	a	lei	da	liberdade	deve	estar	sujeita
à	lei	da	caridade,	também	a	lei	do	amor	“deve,	por	sua	vez,	estar	subordinada	à
pureza	da	fé”.	Logo,	para	Calvino,	uma	visão	com	nuance	adequada	a	respeito
da	 liberdade	e	ética	valorizava	ao	máximo	a	pureza	da	fé	revelada.	A	seguir,	a
regra	da	caridade	triunfou	e,	depois,	veio	a	liberdade	cristã.
Manter	 as	 coisas	dentro	desse	equilíbrio	 tênue	–	equilíbrio	 esse	que	era	 a
marca	do	Calvinismo,	devo	acrescentar	–	ajudaria	 também	durante	os	períodos
de	reforma.	Uma	abordagem	incremental	à	reforma	é	coerente	com	essa	teoria.
Na	realidade,	Calvino	não	consentia	“a	intemperança	daqueles	que	fazem	todas
as	coisas	de	maneira	tumultuada	e	preferem	transgredir	as	restrições	de	uma	só
vez	a	proceder	de	forma	paulatina”	(3.19.13).	A	mudança,	em	sua	opinião,	devia
vir	aos	poucos	e	de	modo	regular,	e	ele	não	queria	que	nem	a	 liberdade	cristã,
nem	o	amor,	nem	a	pureza	da	fé	fossem	sacrificados	durante	o	processo.	“Não
estamos	em	liberdade	para	deslocar	uma	vírgula	da	ordem	de	Deus”,	escreveu	o
reformador	(3.19.13).	E,	com	essas	palavras,	ele	estabeleceu	um	limite	adequado
à	liberdade,	mesmo	permanecendo	fiel	ao	seu	princípio	emancipador	de	que	“a
consciência	 foi	 isentada	da	autoridade	humana”	 sempre	que	 tal	 autoridade	não
estiver	de	acordo	com	a	vontade	de	Deus.
Essa	visão	de	liberdade,	por	onde	se	disseminou,	proporcionou	confiança	e
proteção	aos	cidadãos.	Em	um	século,	as	colônias	dos	Estados	Unidos	exibiriam
essa	particularidade	calvinista.	Não	por	acaso,	um	dos	primeiros	códigos	de	lei
estadunidenses	 foi	 chamado	Massachusetts	 Body	 of	 Liberties.	 A	 proximidade
entre	 a	 lei	 e	 a	 liberdade	 era	 tamanha	 a	 ponto	 de	 os	 discípulos	 de	 Calvino
chamarem	 o	 código	 de	 leis	 de	 lista	 de	 liberdades.	 A	 razão	 era	 que	 uma
compreensão	adequada	de	 liberdade	é	essencial	para	qualquer	empreendimento
bem-sucedido,	seja	ele	comercial,	civil	ou	religioso.	Durante	a	perseguição	dos
protestantes,	 em	 Paris,	 Calvino	 viu	 os	 efeitos	 da	 opressão.	 Tinha	 visto	 os
mesmos	 efeitos	 nos	 olhares	 de	 muitos	 refugiados	 católicos	 romanos	 que
chegavam	com	tanta	regularidade	aos	muros	de	Genebra.	Por	certo,	sua	visão	de
liberdade	 se	 formou	 em	 referência	 ao	 que	 havia	 testemunhado.	 No	 entanto,	 é
importante	observar	que	seu	ensinamento	era	fundamentado	na	palavra	de	Deus,
e	ele	o	apresentou	de	um	modo	que	evitava	o	uso	errado	da	liberdade	cristã.
Visões	 posteriores	 de	 liberdade	 foram	 influenciadas	 pelas	 ideias
revolucionárias	de	Calvino.	Adam	Smith,	em	The	Wealth	of	Nations	 [A	riqueza
das	nações],	defendia	a	“liberdade	natural”,	vista	por	ele	como	a	autonomia	para
trabalhar,	 investir	 ou	 agir	 à	 parte	 de	 qualquer	 impedimento	 do	 Estado.	 Smith
soava	 como	 discípulo	 de	Calvino	 quando	 escreveu:	 “Proibir	 tantas	 pessoas	 de
fazer	tudo	o	que	podem	de	cada	parte	de	sua	própria	produção,	ou	de	empregar
seus	 fundos	 e	 diligência	 da	maneira	 como	 julgam	mais	 vantajosa	 para	 eles,	 é
uma	violação	manifesta	 aos	 direitos	mais	 sagrados	 da	 raça	 humana”.4	Um	dos
filósofos	mais	 importantes	 da	história,	Smith	 também	concluiu	que,	 de	 acordo
com	os	princípios	da	liberdade	natural,	“todo	homem,	contanto	que	não	viole	as
leis	da	justiça,	é	totalmente	livre	para	ir	em	busca	de	seu	próprio	interesse	à	sua
maneira	 e	 para	 inserir	 sua	 diligência	 e	 capital	 na	 competição	 contra	 os	 de
qualquer	outro	homemou	contra	a	ordem	dos	homens”.5	Calvino	teria	proferido
um	sincero	amém.	Todavia,	ele	também	ensinou	que	essa	liberdade	não	era	dada
por	Deus	com	o	objetivo	de	incentivar	a	ociosidade	ou	a	preocupação	com	este
mundo.
Calvino	contra	o	orgulho	e	a	ignorância
Calvino	 iniciou	uma	seção	bastante	 lida	de	sua	maior	obra	 lembrando	aos
seus	leitores	que	um	dos	objetivos	do	poder	salvífico	de	Deus	é	colocar	a	ética
dos	cristãos	de	acordo	com	a	santidade	de	Deus	(Institutas,	3.6.1).	Ele	afirmou,
também,	que	um	dos	 segredos	da	vida	 é	 a	negação	de	 si	mesmo,	que	 só	pode
acontecer	se	a	pessoa	compreender	que	ela	e	todas	as	suas	habilidades	pertencem
a	Deus.	Segundo	a	fala	de	Calvino,	a	pessoa	“não	deve	falar,	fazer	planos	ou	agir
sem	a	intenção	de	glorificar	a	Deus.	Não	pertencemos	a	nós	mesmos,	portanto,
nossa	razão	ou	vontade	não	devem	governar	nossos	atos	e	opiniões”	(3.7.1).	Tal
confiança	 em	 Deus	 requer,	 necessariamente,	 o	 abandono	 do	 eu.	 A	 partir	 da
perspectiva	 de	 Calvino,	 o	 primeiro	 passo	 da	 maturidade	 cristã	 envolve	 a
substituição	do	egoísmo	e	impulsos	naturais	por	uma	mente	renovada	que	segue
a	 Deus	 em	 obediência.	 A	 “negação	 dos	 valores	 pessoais”	 significa	 que	 não
pertencemos	a	nós	mesmos,	mas	somos	chamados	para	servir	a	Deus.	Quando	a
pessoa	vive	e	se	conduz	dessa	maneira	–	quando	aprende	“a	olhar	para	Deus	em
todas	as	coisas”	–	ela	também	“se	afasta	de	todos	os	pensamentos	vãos”	(3.7.2).
Uma	vez	implantada	em	nossos	hábitos,	tal	atitude	“não	deixa	lugar	para	o
orgulho,	exibição	ou	ostentação”.	Por	outro	lado,	Calvino	percebeu	que,	quando
as	pessoas	buscam	o	egoísmo	em	primeiro	 lugar,	de	modo	geral,	alcançam	seu
alvo,	e	o	resultado	é	o	oposto	ou	“uma	ânsia	perversa	por	aclamação”.
Calvino	adverte	 também	contra	o	acúmulo	“de	 todas	essas	 futilidades	que
parecem	conduzir	ao	luxo	e	esplendor”	(3.7.8).	Ele	sabia	que,	quando	focamos
nessas	 futilidades,	 nossa	 mente	 fica	 inquieta	 e	 desconcentrada.	 Portanto,	 a
pessoa	 não	 deve	 esperar	 por	 “nenhuma	 prosperidade,	 a	 não	 ser	 a	 bênção	 de
Deus”	 (3.7.8).	 Em	 vez	 disso,	 a	 pessoa	 deve	 confiar	 todos	 os	 resultados	 ao
verdadeiro	Soberano,	 que	 controla	 tudo	 e	 de	 cuja	 bondade	devemos	 ter	 prazer
em	depender.
O	reformador	tinha	consciência	de	que	seus	discípulos	precisavam	confiar
menos	na	própria	vontade	e	mais	na	de	Deus.	Nada,	escreveu	ele,	fosse	pobreza
ou	exílio	(e	ele	era	especialista	nesse	assunto)	pode	acontecer	senão	pela	vontade
e	providência	do	Pai	(3.8.11).	Se	a	pessoa	se	lembrasse	mais	disso,	seria	levada	a
meditar	mais	sobre	o	futuro.	Isso	foi,	e	continua	sendo,	um	exercício	muito	útil
para	os	cristãos	que	enfrentam	tribulação	nesta	vida.
Ele	 também	adverte	contra	o	ofuscante	“brilho	da	riqueza,	do	poder	e	das
honras”	 e	 nos	 impele	 a	 sermos	 sensíveis	 à	 vaidade	 da	 vida	 presente	 (3.9.1).
Nunca	se	alcançaria	consistência	de	outra	forma.	“Porquanto”,	escreveu	Calvino,
“devemos	 considerar	 que	 nossa	 mente	 nunca	 passa,	 na	 realidade,	 a	 desejar	 e
aspirar	 ao	 futuro	 até	 ter	 aprendido	 a	 desprezar	 a	 vida	 presente”	 (3.9.1).	 Em
outras	 palavras,	 não	 devemos	 ficar	 tão	 fascinados	 por	 esta	 vida	 a	 ponto	 de
ignorarmos	a	eternidade.
No	 entanto,	 temos	 de	 ter	 o	 cuidado	 de	 considerar	 as	 palavras	 de	Calvino
“desprezar	a	vida	presente”	dentro	de	todo	o	contexto	de	seu	pensamento.	Havia
um	equilíbrio	a	ser	encontrado,	o	qual	envolvia	tanto	a	desconfiança	desta	vida
quanto	 a	 gratidão	 por	 ela.	 O	 princípio	 defendido	 por	 ele	 era	 este:	 devemos
utilizar	os	dons	e	as	coisas	desta	vida	para	o	propósito	que	“o	seu	autor	os	criou
e	destinou”	 (3.10.1).	Não	devemos	nem	supervalorizar	nem	desvalorizar	o	que
Deus	concede.	A	frase	“utilizar-se	do	mundo,	como	se	dele	não	usasse”	sintetiza
a	 atitude	 apropriada;	 mantendo-a	 em	 mente,	 os	 cristãos	 conseguem	 evitar	 a
indulgência	 excessiva	 e	 vice	 e	 versa.	 “O	 luxo”,	 sabia	 Calvino,	 pode	 causar
“grande	 descuido	 para	 a	 virtude.	 Aqueles	 que	 se	 ocupam	 em	 demasia	 com	 o
cuidado	do	 corpo,	 de	maneira	 geral,	 dão	pouca	 atenção	para	 a	 alma”	 (3.10.4).
Dessa	 forma,	 o	 contentamento	 sempre	 foi	 um	 grande	 indicador	 do	 espírito
calvinista.
Comentando,	 em	 outro	 lugar,	 o	 texto	 de	 Lucas	 10.42,	 o	 reformador
expressou	sabiamente	seus	sentimentos	do	seguinte	modo:	“Seja	o	que	for	que	os
cristãos	 se	 incumbam	 de	 fazer,	 e	 independentemente	 das	 ocupações	 nas	 quais
possam	 se	 engajar,	 existe	 um	 objetivo	 para	 o	 qual	 todas	 as	 coisas	 devem	 ser
direcionadas.	Em	resumo,	não	fazemos	nada	além	de	perambular	sem	propósito
caso	não	direcionemos	todas	as	nossas	ações	a	um	determinado	objetivo”.
Poucos	místicos	ou	oradores	religiosos	possuem	a	profunda	espiritualidade
presente	 neste	 modelo	 de	 vida	 cristã.	 Ninguém	 que	 leia	 essas	 palavras	 pode
simplesmente	menosprezar	Calvino	como	sendo	um	racionalista	sem	coração.
Ele	sabia	que	o	homem	não	vive	só	de	pão.	Existe	uma	eternidade	adiante,	e
tal	 fato	animava	 tudo	o	que	Calvino	 fazia	 e	pensava.	As	conclusões	bíblicas	e
econômicas	 do	 reformador	 demandam	 que	 a	 riqueza	 seja	 dada	 de	 maneira
generosa.	Assim	como	a	lei	do	AT	exigia	que	o	grão	não	ceifado	fosse	deixado
para	os	respigadores,	ela	também	chamava	os	ricos	a	gerarem	provisões	para	os
pobres	 entre	 eles.	 Os	 abastados	 são	 chamados	 a	 serem	 fartos	 em	 boas	 obras.
John	 Schneider,	 em	 The	 Good	 of	 Affluence,	 menciona	 inúmeros	 exemplos,
incluindo	 o	 chamado	 para	 todas	 as	 pessoas,	 mas,	 em	 especial,	 àquelas	 com
melhor	condição	 financeira,	a	agirem	de	maneira	misericordiosa,	pois	 todos	os
homens	são	chamados	à	sua	posição	econômica.	Cada	um	tem	um	chamado	para
uma	 ocupação	 e	 é	 incentivado	 a	 trabalhar	 de	modo	 diligente.	 Em	 seu	 sermão
intitulado	“The	Use	of	Money”,	John	Wesley	resume	habilmente	a	 ideia	nestas
palavras:	 “Tendo,	 primeiramente,	 ganhado	 tudo	 o	 que	 puder,	 e,	 depois,
economizado	tudo	o	que	puder,	doe	tudo	o	que	puder”.6
Os	textos	de	Calvino	a	respeito	da	redenção	e	da	administração	levariam	a
tais	 pontos	 de	 vista,	 os	 quais	 se	 disseminaram	 extensivamente	 conforme	 a
colonização	 se	 desenvolvia	 e	 a	 sociedade	 moderna	 se	 revelava.	 Com	 esses
fundamentos	 filosóficos	 esclarecidos,	 podemos,	 agora,	 valorizar	 os	 pontos	 de
vista	do	reformador	com	relação	ao	uso	da	propriedade	privada.
Administração	e	propriedade	privada
Conforme	 já	 observado	 em	 diversas	 ocasiões,	 o	 direito	 de	 propriedade
privada	é	defendido	por	 toda	a	Bíblia.	No	 início	do	 livro	de	Gênesis,	diversos
crentes	 receberam	 terras,	 engajaram-se	 em	 empreendimentos	 produtivos,
passaram	 sua	 fortuna	 adiante	 dentro	 da	 família	 e	 possuíram	 uso	 irrestrito	 de
propriedade	privada.	Em	nenhuma	parte	o	AT	infere	que	a	propriedade	deva	ser
entregue	a	 todos.	Os	patriarcas	hebreus	mais	antigos	utilizaram	seus	bens	para
sustentar	 muitas	 gerações	 e,	 apesar	 de	 o	 governo,	 às	 vezes,	 ser	 representado
como	tomando	medidas	para	prevenir	desastres	(p.	ex.,	durante	a	fome	extrema
descrita	 em	 Gênesis	 41–42),	 nunca	 foi	 ensinado	 o	 seu	 direito	 de	 confiscar	 a
propriedade	privada.
Ademais,	como	entendiam	Calvino	e	muitos	outros,	o	oitavo	mandamento	–
“não	 furtarás”	 –	 tanto	 sanciona	 como	 protege	 explicitamente	 o	 direito	 de
propriedade	privada,	patrimônios	e	negócios.
Em	outros	lugares	do	AT,	os	ricos	empedernidos	são	censurados	(Pv	21.13),
e	àqueles	insensíveis	às	necessidades	legítimas	de	pobres	responsáveis	é	dito	que
odiar	o	desafortunado	é	semelhante	a	desprezar	o	seu	Criador	(Pv	22.2).	O	que	é
criticado	com	regularidade,	todavia,	não	é	a	bênção	providencial	da	riqueza,	mas
a	 utilização	 não	 generosa	 ou	 o	 abuso	 dela.	 O	 que	 impulsiona	 os	 estatutos	 do
jubileu	 no	 texto	 de	 Levítico	 25	 é	 a	 preocupação	 em	 cuidar	 dos	 pobres	 e	 não
deixá-los	perder	sua	terra	para	sempre.
Está	 bem	 claro	 que	 o	 consenso	 mais	 sólido	 do	 ensinamento	 cristão	 a
respeitodesse	 assunto	 apoia	 a	 liberdade	 de	 possuir	 a	 propriedade	 privada.	 A
expectativa	profética,	 que	não	é	 condenada	 em	parte	 alguma,	 era	que,	 um	dia,
cada	pessoa	habitaria	em	sua	própria	morada	e	 teria	sua	propriedade	particular
(Mq	4.4).
Ao	 ler	 com	 atenção	 as	 páginas	 do	 NT,	 fica	 claro	 também	 não	 ter	 Jesus
exigido	que	seus	seguidores,	exceto	alguns	deles	durante	seu	ministério	na	terra,
entregassem	sua	propriedade	a	uma	unidade	centralizada.	Ele	também	não	tinha
a	 intenção	 de	 que	 eles	 se	 ausentassem	 de	 todo	 comércio,	 empreendimento	 e
produtividade.
O	 chamado	 à	 administração	 está	 de	 igual	 modo	 claro.	 Cristo	 faz	 uso	 do
termo	oikonomos	para	administrador,	o	qual	é	utilizado	em	outras	passagens	no
NT.	Tal	termo	é	utilizado	com	frequência	nas	parábolas	de	Jesus	(Lc	12.42;	16.1-
2).	 Ele	 aparece	 também	 no	 texto	 de	 Romanos	 16.23	 em	 referência	 a	 um
tesoureiro	 romano.	 Calvino	 sabia	 bem	 que,	 quando	 Paulo	 falava	 sobre
“responsabilidade”	(1Co	4.1-2),	ele	estava	usando	–	e	implicitamente	aceitando
–	o	conceito	econômico	para	descrever	a	administração	cristã.	Mais	adiante,	na
mesma	epístola	(1Co	9.17),	o	ministério	em	si	é	descrito	em	termos	fiduciários,
como	 “a	 responsabilidade	 de	 despenseiro	 confiada”	 a	 Paulo.	 Em	 Gálatas	 4,
Paulo	fala	de	modo	detalhado	a	respeito	de	certa	responsabilidade	na	qual	o	filho
aguarda	a	adoção	plena	de	seus	ativos.	Em	uma	diferenciação	 radical	da	visão
marxista,	 o	 apóstolo	 nunca	 censura	 o	 conceito	 da	 responsabilidade	 financeira.
Pelo	contrário,	ele	o	utiliza	como	metáfora	para	o	período	de	espera	até	o	retorno
de	 Cristo,	 o	 Messias	 (Gl	 4.2-4).	 A	 responsabilidade	 descrita	 por	 Paulo	 é
administrada	por	 tutores	 e	 curadores,	muito	 semelhante	 aos	 agentes	modernos.
Rumo	ao	fim	de	seu	ministério,	ele	chama	Timóteo	a	segui-lo	e	“guardar	o	bom
depósito,	mediante	o	Espírito	Santo	que	habita	em	nós”	(2Tm	1.14).7
O	 termo	 para	 economia,	 ou	 uma	 organização	 correta	 dos	 bens,	 é
recomendado	 por	 seu	 uso	 em	 Efésios	 1.10,	 e,	 no	 texto	 de	 Efésios	 3.2,	 ele	 é
utilizado	 em	 relação	 ao	 ministério	 de	 Paulo.	 O	 texto	 de	 Colossenses	 1.25
também	utiliza	tal	termo	para	se	referir	ao	serviço	apostólico,	e	o	apóstolo	Pedro
considerava	ser	uma	boa	economia	“servir	uns	aos	outros,	cada	um	conforme	o
dom	que	recebeu”	(1Pe	4.10).	Os	cristãos	possuem	diferentes	dons	e	habilidades,
mas	tudo	deve	ser	utilizado	para	servir.
Quando	 adquirimos	 essa	 visão	 e	 aplicamos	 tais	 termos	 à	 nossa	 vida	 e	 ao
nosso	 patrimônio,	 torna-se	 ainda	 mais	 evidente	 o	 nosso	 dever	 de	 trabalhar,
economizar,	investir	e	nos	prepararmos	para	o	futuro.	O	objetivo	final	é	melhorar
o	patrimônio	de	alguém;	o	processo	para	alcançar	o	objetivo	é	a	forma	de	resgate
que	 compreende	 o	 chamado	 à	 administração.	 Conforme	 a	 utilização	 de	 tais
termos	no	NT,	comércio,	lucro	honesto	e	economia	estão	longe	de	ser	algo	mau
ou	imoral.
Como	 administradores,	 investidores	 sábios	 buscam	 retorno,	 lucro,
desenvolvimento	ou	um	maior	rendimento	líquido.	Não	só	a	propriedade	(a	fonte
de	tais	aumentos)	é	aceitável	em	geral,	mas	também	o	crescimento	de	ativos	(ou
lucro)	é	o	objetivo	–	objetivo	esse	exaltado	por	Deus,	não	censurado.	O	desejo
de	 servir	 o	 Mestre,	 junto	 com	 o	 ensinamento	 presente	 em	 várias	 epístolas	 e
parábolas,	conduz	a	pessoa	a	aspirar	por	aumento	líquido	da	propriedade	e	ativos
que	 o	 Senhor	 da	 providência	 confiou	 aos	 seus	 servos.	 Em	 contrapartida,	 seus
servos	 não	 desejam	 diminuir	 o	 fundo	 inicial;	 tampouco	 querem	 deixá-lo
estagnado.	O	ganho	é	buscado,	não	reprovado.
Resgate	 e	 ganho,	 portanto,	 parecem	 ser	 extremamente	 bons	 e	 desejáveis.
Tal	ciência	forma	determinadas	expectativas	entre	os	servos.
A	riqueza	como	um	excesso	de	agradecimento	e	exaltação	pela	salvação
Os	 servos	 que	 se	 veem	 como	 administradores	 e	 gerentes	 dos	 recursos	 de
Deus	 em	 busca	 de	 ganho	 legal	 e	 benefício	 verdadeiro	 também	 utilizarão	 sua
riqueza,	 seus	 benefícios	 e	 propriedade	 para	 o	 bem	 de	 outros	 e	 como
reconhecimento	das	bênçãos	de	Deus.
O	espírito	do	Calvinismo,	uma	vez	assimilado,	levou	muitos	a	visualizarem
a	riqueza	como	uma	vantagem	providencial	concedida	por	Deus	com	o	propósito
de	beneficiar	outras	pessoas.	Dessa	forma,	uma	visão	distinta	de	caridade	(veja
abaixo)	 surge	 entre	 os	 primeiros	 calvinistas.	 Em	 conformidade	 com	 ela,
esperava-se	 que	 os	 empresários	 bem-sucedidos	 dessem	 retorno.	 Esse	 tipo	 de
resgate	foi	outra	faceta	da	fé	que	incitou	a	indústria	de	Genebra	nos	século	16.
A	visão	oposta	endossa	algo	semelhante	ao	acúmulo.	Se	um	indivíduo	vê	a
si	mesmo	(ou	sua	família)	como	o	que	há	de	mais	importante	na	vida,	a	riqueza
pode	 resultar	 apenas	 em	 uma	 prática	 de	 interesse	 próprio.	 No	 entanto,	 se	 a
pessoa	sente	um	forte	chamado	no	tocante	à	bênção	e	à	responsabilidade	de	ser
caridosa,	 a	 prosperidade	 poder	 ser	 usada	 em	 benefício	 de	 outras	 pessoas.	 Tal
caridade,	no	entanto,	não	é	um	comprovante	para	pagamento	futuro	como	sinal
de	 gratidão	 apresentado	 em	 vista	 da	 compreensão	 de	 que	 o	 indivíduo	 tem
somente	o	que	Deus	deseja	dar	e,	quando	ele	dá	em	abundância,	a	doação	é	uma
forma	de	se	importar	com	as	necessidades	ao	nosso	redor.	Em	vez	de	difundir	o
complexo	 de	 Silas	 Marner,	 o	 espírito	 calvinista	 chama	 aqueles	 que	 lucram	 a
usarem	seus	bens	materiais	para	abençoar	a	igreja,	a	comunidade	e	aqueles	que
estão	verdadeiramente	necessitados.	O	 investidor	calvinista	manterá	ambos	em
mente:	a	multiplicação	e	a	caridade.
Existe	um	equilíbrio	 tênue	 aqui	 –	que	pode	 ser	 ilustrado	por	meio	de	um
exemplo	que	mostra	que	os	cristãos	podem	ser	piedosos	e	bem	remunerados	ao
mesmo	tempo.	No	fim	dos	anos	90,	um	lançador	cristão	de	beisebol	entrou	em
conflito	 com	 relação	 à	 dimensão	 de	 seu	 contrato	 devido	 ao	 seu	 valor
astronômico.	 Ele	 discutiu,	 em	 particular,	 a	 culpa	 que	 sentia	 com	 um	 pastor
calvinista,	 o	 qual	 o	 admoestou,	 dizendo	 que,	 caso	 se	 negasse	 a	 receber	 o
altíssimo	valor	oferecido	pelo	seu	trabalho,	ele	seria,	possivelmente	culpado	por
pecar.	A	 justificativa	para	o	conselho	do	pastor	 foi	que	a	 todos	os	homens	são
dados	talentos	e	habilidades	e	eles	são	chamados	a	buscá-los	de	tal	modo	a	tirar
o	 máximo	 proveito	 (dentro	 da	 lei),	 assim,	 em	 retribuição,	 eles	 podem
economizar	e	ofertar	com	frequência.	Com	relação	à	economia	bíblica,	qualquer
coisa	 que	 impeça	 ou	 reduza	 as	 três	 atividades	 principais	 –	 ganho,	 economia	 e
oferta	–	é	ineficiente.	Calvino	teria	se	orgulhado	do	conselho	do	pastor.
Na	realidade,	de	acordo	com	Marx	Weber,	um	pastor	calvinista	que	viveu
cerca	de	um	século	depois	de	Calvino,	Richard	Baxter,	ensinou	de	modo	similar:
Se	 Deus	 lhe	 mostra	 o	 caminho	 para	 ganhar	 mais	 de
modo	 legal,	 sem	prejudicar	 a	 sua	 alma	 e	 a	 de	 outras
pessoas,	e	você	se	recusa	para	optar	por	aquele	menos
profícuo,	 você	 extingue	 um	 dos	 objetivos	 de	 seu
chamado:	 ser	 administrador	 de	 Deus	 e	 aceitar	 suas
dádivas	 em	 vista	 da	 possibilidade	 de	 utilizá-las	 para
ele,	 se	 e	 quando	 assim	 o	 desejar.	 Obviamente,	 você
não	 deve	 trabalhar	 para	 a	 satisfação	 da	 carne	 ou	 do
pecado,	mas	para	enriquecer	em	nome	de	Deus.8
Investimento	como	um	chamado	ao	resgate
Embora	 raramente	 seja	 considerado	dessa	 forma,	o	 investimento	pode	 ser
visto	 como	 um	 chamado	 ao	 resgate.	 Assim	 como	 os	 discípulos	 de	 Cristo	 são
convocados	a	ir	por	todo	o	mundo	e	ampliar	a	igreja	(Mt	28.18-20),	eles	também
são	 chamados	 a	 pegar	 aquilo	 que	 ele	 dá	 por	meio	 de	 sua	 providência	 e	 tentar
multiplicá-los,	seja	ministério	eclesiástico	ou	propriedade	privada.	O	ideal,	claro,
é	ambos	caminharem	de	modo	concomitante.
Investimento	é	o	exercício	de	pegar	aquilo	que	Deus	concede	e	resgatá-lo	a
fim	de	torná-lo	melhor.	Essa	foi	a	responsabilidade	dada	a	Adão	antes	da	queda
no	Éden	e	é	isso	que	os	cristãos	fiéis	têm	feitopor	séculos.	O	investimento,	que	é
pegar	o	capital	inicial	e	tentar	aumentá-lo,	faz	uso	da	propensão	à	criatividade	e
do	 objetivo	 de	 sermos	 administradores	 fiéis.	 Da	 mesma	 forma	 como	 o
administrador	é	responsável	por	aumentar	(bem	como	preservar)	o	patrimônio	de
seu	senhor,	o	investidor	também	pega	o	que	lhe	é	confiado	e	o	resgata	para	obter
ainda	 mais.	 Os	 investidores	 cristãos	 não	 são	 chamados	 apenas	 para	 “serem
frutíferos	e	se	multiplicarem”,	mas	também	para	utilizarem	uma	base	de	ativos
maior	 para	 a	 glória	 do	 Senhor.	 Tal	 investimento	 pode	 ajudar	 os	 cristãos	 a
sustentarem	suas	próprias	famílias	e	outras	pessoas	de	sua	comunidade,	tudo	sem
ajuda	ou	impedimento	exterior.
Os	 investidores	 têm	o	objetivo	de	 aumentar	 seu	patrimônio,	 e	 isso	 é	uma
virtude.	Tal	crescimento	possibilita	inúmeros	benefícios,	dentre	eles	a	habilidade
de	 contratar	 mais	 trabalhadores	 (os	 quais,	 do	 contrário,	 não	 estariam
empregados),	 construir	 centros	 educacionais	 e	 culturais,	 instituir	 doações	 para
futuras	 necessidades	 espirituais	 e	 prover	 segurança	 para	 a	 família	 ou	 para	 as
gerações	 futuras.	 Todas	 essas	 atividades	 envolvem	 pegar	 o	 que	 existe	 em	 seu
estado	original	e	resgatá-lo	ou	aperfeiçoá-lo.
Quando	uma	pessoa	obtém	ganhos	e	 lucros	e,	então,	busca	aumentá-los,	a
multiplicação	 do	 original	 é	 possível.	 Tal	 ação	 tanto	 cumpre	 o	 mandado	 de
domínio	quanto	proporciona	maior	possibilidade	para	 a	obra	de	 caridade.	Para
simplificar:	 se	 uma	 pessoa	 tem	 um	 ganho	 líquido	 de	 R$	 100.000,00	 por	 ano
advindos	de	 investimentos	 e,	 então,	 entrega	o	dízimo	 sobre	 essa	 renda,	 ou	 faz
doações	 beneficentes	 extras	 sobre	 esse	 valor,	 as	 instituições	 de	 caridade
receberiam,	 no	 mínimo,	 R$	 10.000,00	 por	 ano;	 todavia,	 se	 a	 pessoa	 tem	 um
ganho	líquido	de	R$	1.000.000,00	por	ano	proveniente	de	investimentos	e,	então,
entrega	 o	 dízimo	 ou	 faz	 doações	 beneficentes	 extras	 sobre	 esse	 montante,	 as
instituições	receberiam,	no	mínimo,	R$100.000,00	por	ano.	Pergunte	a	qualquer
instituição	 de	 caridade	 o	 que	 ela	 prefere	 para	 e	 dos	 seus	 doadores.	 Dessa
maneira,	 maior	 prosperidade	 material	 resultaria	 em	 mais	 dinheiro	 disponível
para	a	ação	 social.	E,	 se	mais	dinheiro	está	disponível,	mais	atividades	 sociais
podem	ser	custeadas	a	partir	de	somas	mais	elevadas.
Uma	 possível	 motivação	 para	 um	 bom	 investimento,	 portanto,	 é	 ganhar
mais	 dinheiro	beneficente	 para	 cuidar	 de	outras	 pessoas.	No	 entanto,	 devemos
reiterar	 que,	 caso	 o	 retorno	 do	 investimento	 seja	 acumulado	 ou	 consumido	 de
modo	egoísta,	as	condições	acima	não	são	atendidas	e	a	ação	social	não	crescerá.
Se	a	obra	de	caridade	deve	ser	multiplicada	concomitantemente	ao	retorno	sobre
o	capital	investido,	a	fidelidade	para	com	os	padrões	bíblicos	de	oferta	deve	estar
ligada	ao	bom	investimento.	Logo,	o	investimento	pessoal	não	só	é	uma	virtude
nas	 Escrituras,	 mas	 também	 propicia	 meios	 para	 a	 ação	 beneficente.	 Como
escreve	 John	 Stapleford:	 “Mediante	 os	 investimentos,	 a	 riqueza	 possibilita	 a
melhora	 no	 bem-estar	 material	 de	 todas	 as	 pessoas	 ao	 facilitar	 o	 crescimento
econômico.	 Por	 meio	 da	 caridade,	 a	 riqueza	 possibilita	 a	 amenização	 da
pobreza”.9
Em	 termos	 de	 dinheiro	 disponível	 para	 ações	 beneficentes,	 as	 sociedades
com	menos	interferência	do	governo,	menos	tributação,	economias	em	ascensão
e	 com	 livre	 mercado	 costumam	 gerar	 mais	 ativos	 para	 a	 obra	 de	 caridade.
Embora	 Calvino,	 claro,	 não	 comentasse	 especificamente	 sobre	 questões
macroeconômicas	 como	 essas,	 ele	 falava	 com	 frequência	 a	 respeito	 da
necessidade	 de	 agir	 para	 com	 o	 próximo	 de	 modo	 caridoso.	 Ele	 parecia	 ter
ciência	 tanto	 das	 oportunidades	 quanto	 das	 responsabilidades	 dos	membros	 de
uma	sociedade	livre	de	ir	em	busca	da	assistência	social	para	as	pessoas	ao	seu
redor.
O	espírito	calvinista,	se	adequadamente	aplicado,	continua	a	ser	promissor
no	que	tange	ao	tratamento	de	uma	série	de	necessidades	assistenciais.	A	pessoa
também	pode	obter	ajuda	nessa	busca	ao	ter	uma	visão	abrangente	da	caridade.
Mais	uma	vez,	o	reformador	genebrês	auxiliará	nosso	entendimento.
A	obra	de	caridade	e	a	lei
A	 obra	 de	 caridade	 deve	 orientar	 o	 uso	 dos	 ativos	 do	 cristão.	 Calvino,
apesar	 de	 ser	 frequentemente	 mal	 compreendido,	 na	 realidade,	 tinha	 muito	 a
dizer	a	respeito	da	ação	beneficente	e	do	uso	generoso	dos	ativos	cristãos.	Vimos
como,	para	Calvino,	a	liberdade	cristã	era	subordinada	à	lei	da	caridade.	A	partir
disso,	concluímos	que	tal	liberdade	não	era	absoluta	para	Calvino.	De	fato,	certa
vez	ele	observou	que,	apesar	de	a	liberdade	ser	mais	vantajosa	do	que	a	servidão,
todavia,	“a	liberdade	de	espírito	é	preferível	à	liberdade	da	carne”.10	Com	isso	em
mente,	podemos,	agora,	analisar	como	Calvino	 tratava	a	caridade	em	relação	à
lei.
O	 reformador	 respeitava	 a	 ideia	 de	 os	 Dez	 Mandamentos	 (a	 lei	 moral)
conterem	dois	 conjuntos,	 ou	 tábuas,	 de	 preceitos.	A	primeira	 incluía	 os	 quatro
primeiros	 mandamentos,	 os	 quais	 se	 aplicavam	 a	 Deus,	 enquanto	 a	 segunda
incluía	os	últimos	seis,	os	quais	se	aplicavam	aos	nossos	companheiros	da	raça
humana.	De	acordo	com	Calvino,	essa	organização	provê	uma	“regra	completa
de	 justiça”,	 à	 medida	 que	 os	 cristãos	 são	 instruídos	 quanto	 aos	 deveres
relacionados	 à	 religião	 e	 à	 obra	 de	 caridade	 (Institutas,	 2.8.11).	 Se	 houvesse
conflito,	 o	 cristão	 era	 instruído	 pelo	 reformador	 a	 honrar	 os	 primeiros	 quatro
mandamentos	 em	 detrimento	 dos	 últimos	 seis.	 Tal	 orientação	 se	 tornaria,	 no
futuro,	 o	 pilar	 de	 sustentação	 de	 uma	 resistência	 justa	 a	 um	magistrado	mau,
caso	ele	ordenasse	a	desobediência	a	Deus.
Além	disso,	Calvino	entendia	que	o	objetivo	da	lei	é	a	caridade	e	o	fruto	da
obediência	é	a	pureza	da	consciência	moral.	Ele	concluiu	seu	estudo	a	respeito
do	uso	da	lei	afirmando	que	o	entendimento	correto	dela	“procura	e	encontra	em
todos	 os	 seus	 preceitos	 todos	 os	 deveres	 de	 compaixão	 e	 caridade”	 e	 advertiu
contra	 qualquer	 um	 que	 “procurasse	 meramente	 por	 elementos	 insípidos	 e
inadequados,	como	se	[a	lei]	ensinasse	a	vontade	de	Deus	apenas	pela	metade”
(2.8.51).
Portanto,	 a	 caridade,	 conforme	 será	 mostrado	 de	 modo	 mais	 detalhado
quando	 examinarmos	 seu	 ensinamento	 sobre	 direito	 de	 propriedade,	 é	 bem
dicotomizada	 segundo	o	 pensamento	 de	Calvino.	Ademais,	 para	 o	 reformador,
algumas	 variáveis	 se	 sobrepuseram	 a	 outras,	 estabelecendo	 determinadas
hierarquias.
No	 livro	 2	 das	 Institutas,	 Calvino	 deu	 um	 esclarecimento	 sobre	 o	 oitavo
mandamento	 (“não	 furtarás”)	 que	 serve	 como	 um	 de	 seus	 principais
ensinamentos	a	 respeito	de	riqueza,	propriedade	e	uso	de	ativos.	Ele	 inicia	sua
abordagem	sobre	tal	mandamento	com	uma	condenação	geral	da	injustiça	como
sendo	 “abominação	 a	Deus”.	 Sendo	 esse	 o	 caso,	 uma	 responsabilidade	 ética	 é
estabelecida	a	 fim	de	conferir	a	cada	homem	aquilo	que	 lhe	pertence.	O	 furto,
portanto,	 está	 tirando	 de	 alguém	 os	 seus	 pertences.	 Incumbe-se	 também	 uma
atitude:	 “Somos	 proibidos	 de	 almejar	 as	 posses	 de	 outras	 pessoas”	 (2.8.45).
Logo,	desde	o	princípio,	Calvino	 reprova	a	obtenção	daquilo	que	 foi	 cobiçado
dos	bens	de	outros.	Por	outro	lado,	o	reformador	acreditava	que	essa	lei	levava
consigo	a	 implicação	de	que	cada	pessoa	deve	“esforçar-se	 fielmente	a	 fim	de
ajudar	cada	homem	a	manter	seus	próprios	bens”	(2.8.45).
João	Calvino	 enfatizou	 que	 o	 bem	 de	 cada	 pessoa	 não	 advém	 por	 acaso,
mas	 sim	 pela	 distribuição	 da	 providência	 de	 Deus.	 Dessa	 forma,	 deve	 ser
interpretado	 como	 “estratagema	maléfico”	 privar	 alguém	–	 independentemente
da	 forma	 –	 dos	 bens	 que	 Deus	 lhe	 concedeu	 para	 utilizar.	 Isso	 implica
intervenção	no	plano	sensato	de	Deus.	Calvino	sabiamente	observou	que	certos
furtos	 ocorrem	 pela	 violência(2.8.45),	 enquanto	 outros	 são	 provenientes	 de
artifício	fraudulento.	Contudo,	um	terceiro	tipo	de	furto	acontece	quando	o	bem
de	 uma	 pessoa	 é	 tirado	 dela	 por	 meios	 ilegais.	 O	 reformador	 incluiu
categoricamente	 na	 categoria	 furto	 –	 ou	 seja,	 como	 violação	 do	 oitavo
mandamento	 –	 “todos	 os	 artifícios	 por	 meio	 dos	 quais	 adquirimos	 os	 bens	 e
dinheiro	de	nosso	próximo”.	Mesmo	se	a	propriedade	do	próximo	for	adquirida
por	meio	de	ação	judicial,	Calvino	salientou	que	Deus	não	é	tolo:	“Porquanto	ele
vê	as	 fraudes	elaboradas	com	as	quais	o	homem	ardiloso	 intenta	atrair	 alguém
com	 uma	 mente	 menos	 austera	 até,	 por	 fim,	 arrastá-lo	 para	 dentro	 de	 suas
ciladas”	(2.8.45).
Demonstrando	 uma	 sensibilidade	 capaz	 de	 abismar	 a	 muitos,	 Calvino
alertou	tanto	sobre	“leis	rígidas	e	desumanas”	que	deixam	opressores	poderosos
apoderarem-se	dos	bens	de	outra	pessoa	quanto	 sobre	 as	 falsas	 “atrações”	que
surpreendem	 o	 imprudente	 com	 o	 furto.	 Apesar	 de	 algumas	 dessas	 coisas
escaparem	 ao	 discernimento	 humano,	 o	 reformador	 classificou	 como	 furto	 de
bens	 qualquer	 método	 que	 transfira	 parte	 do	 patrimônio	 providencial	 de	 uma
pessoa	 para	 outra	 sem	 a	 troca	 ou	 recompensa	 adequada.	A	 injustiça,	 salientou
ele,	ocorre	não	só	no	tocante	ao	dinheiro	ou	à	mercadoria,	mas	também	quando	a
propriedade	do	próximo	é	tomada,	já	que	temos	a	obrigação	de	proteger	os	bens
uns	 dos	 outros.	 Tal	 obrigação	 de	 aumentar	 os	 bens	 de	 outras	 pessoas	 é	 uma
contribuição	distinta	de	Calvino	e,	a	partir	das	palavras	abaixo,	compreende-se	a
dimensão	atribuída	por	ele	ao	conceito:
Se	 um	 administrador	 ou	 supervisor	 devora	 a	 riqueza
de	seu	senhor	e	não	zela	pelo	negócio	familiar;	se	ele
gasta	 injustamente	ou	desperdiça	 intencionalmente	os
bens	 a	 ele	 confiados;	 se	 o	 servo	 escarnece	 de	 seu
senhor;	se	revela	os	segredos;	se,	de	alguma	forma,	é
desleal	 para	 com	 a	 vida	 e	 os	 bens	 dele;	 se	 o	 senhor,
todavia,	 assedia	 com	 crueldade	 a	 sua	 família	 –	 tudo
isso	é	considerado	furto	aos	olhos	de	Deus	(2.8.46).
Sendo	 essas	 coisas	 proibidas	 pelo	 oitavo	 mandamento,	 Calvino	 ainda
considerava	que	a	obediência	à	ordem	dada	 incluía	o	estado	de	contentamento
com	a	 sorte	 que	nos	 cabe	nesta	 vida	–	observe	 como	a	obediência	 começa	no
interior	–	e	o	comprometimento	zeloso	de	gerar	ganhos	de	modo	honesto	e	legal
(2.8.46).	 O	 acúmulo	 de	 riqueza	 mediante	 a	 injustiça	 é	 roubo,	 argumentava
Calvino,	pois	 implica	no	aumento	dos	bens	de	determinada	pessoa	em	vista	da
destituição	dos	bens	de	seu	próximo.	Ele	advertiu	quanto	ao	ganho	por	meio	do
sangue	 de	 outros,	 de	 meios	 ilícitos	 e	 pela	 avareza.	 Advertiu	 também	 sobre	 a
busca	por	ganhos	com	o	 intuito	de	satisfazer	a	prodigalidade.	Em	essência,	ele
exigia	 que	 aqueles	 em	 busca	 de	 ganhos	 atentassem	 às	 outras	 pessoas.	 Os
calvinistas	 têm	 uma	 responsabilidade	 ética	 importante,	 a	 saber,	 ajudar
constantemente	nosso	próximo	a	manter	e	aumentar	seus	bens	“até	onde	nos	for
possível”	 (2.8.46).	 Tal	 responsabilidade	 pode	 demandar	 que	 os	 cristãos
comerciantes	desistam	de	algo	quando	estão	lidando	com	homens	incrédulos.	No
entanto,	 de	 qualquer	 forma,	 quando	 abençoado	 com	 retornos	 abundantes,	 o
investidor	 calvinista	 sempre	 é	 chamado	 a	 ajudar	 outras	 pessoas	 em	 suas
necessidades.
No	 tocante	à	sociedade	civil,	Calvino	enfatizava	que	os	devedores	 têm	de
pagar	suas	dívidas	e	os	políticos	 têm	de	manter	a	paz	e	assegurar	a	ordem.	As
igrejas	e	os	pais	devem	“nutrir,	governar	e	ensinar”	seus	filhos	a	respeito	dessas
questões,	 e	 os	 empregados	 devem	 trabalhar	 de	 maneira	 diligente	 para	 seus
empregadores.	Cada	pessoa	 tem	uma	“classe	 social	 e	uma	posição”	 (2.8.46),	 e
todos	os	homens	devem	“esforçar-se	para	proteger	e	promover	o	bem-estar	e	os
interesses	de	outros”	(2.8.46).
Ao	 explicar	 o	 oitavo	 mandamento,	 portanto,	 Calvino	 não	 só	 demonstrou
grande	respeito	pelos	bens,	mas	também	estendeu	tal	respeito	aos	bens	de	outras
pessoas.	 Obviamente,	 não	 há	 nada	 em	 Calvino	 em	 apoio	 ao	 Socialismo	 ou	 à
propriedade	controlada	pelo	Estado.
Calvino	sobre	a	ética	de	propriedade	e	a	ética	comercial:	Êxodo	21–24
O	texto	de	Êxodo	21–24	apresenta	comentário	e	esclarecimento	referentes	à
intenção	 de	 Deus	 ao	 entregar	 a	 Lei	 no	 Monte	 Sinai	 (Êx	 20.1-17).	 Nesses
capítulos,	o	Senhor,	 como	Pai	misericordioso,	pega	os	Dez	Mandamentos	e	os
explica;	gasta	tempo	para	aplicá-los	na	prática	a	fim	de	que	o	público	original	e
subsequente	 compreenda	 a	 mensagem.	 Fornece	 instruções	 como	 um	 Pai
longânimo	que	deve	impor	regras	a	um	grupo	de	adolescentes,	os	quais,	logo	a
seguir,	 agem	 como	 se	 não	 tivessem	 entendido	 o	 que	 ele	 quis	 dizer.	 Eles
rapidamente	 começam	 a	 procurar	 brechas.	 Talvez	 até	 entendam	 exatamente	 o
que	o	pai	disse	e	ignorem	o	espírito	da	lei.
A	visão	de	Calvino	a	respeito	das	questões	comerciais	e	de	propriedade	será
percebida	de	 forma	mais	clara	em	seus	comentários	 sobre	o	esclarecimento	do
oitavo	 mandamento.	 Todavia,	 outras	 interpretações	 de	 seu	 comentário	 nesta
seção	 delinearão	 ainda	mais	 suas	 opiniões.	De	modo	 um	 tanto	 sofisticado	 em
comparação	 à	 maioria	 dos	 comentários,	 Calvino	 promoveu	 a	 harmonia	 do
comentário	do	Pentateuco	ao	utilizar	versículos	dos	 livros	de	Êxodo,	Levítico,
Números	e	Deuteronômio,	uma	vez	que	explicam	cada	um	dos	mandamentos.
O	 texto	 de	 Êxodo	 21.2-11	 contém	 leis	 pertinentes	 aos	 servos	 e
trabalhadores	hebreus.	Trata-se,	principalmente,	do	esclarecimento	sobre	as	leis
de	 propriedade.	 Não	 é	 de	 surpreender	 o	 fato	 de	 Calvino	 não	 defender	 a
escravidão.	Nem	Calvino	nem	as	Escrituras	tratam	as	pessoas,	escravos	ou	não,
de	maneira	 sub-humana	 ou	 como	 se	 não	 fossem	 feitas	 à	 imagem	 de	Deus.	 O
abuso	ou	assassinato	de	escravos	era	errado	e	proibido	pelo	sexto	mandamento.
No	 entanto,	 esta	 e	 outras	 passagens	 do	 AT	 fazem	 alusão	 a	 certo	 padrão	 de
relações	 de	 trabalho	 que	 permitia	 a	 escravidão	 na	 antiga	 nação	 de	 Israel.
Nenhuma	 passagem	 do	 AT	 considera	 ilegal	 a	 escravidão.	 Era	 uma	 prática
aceitável.	 O	 que	 a	 Bíblia	 faz,	 contudo,	 é	 mostrar	 como	 Deus	 desejava	 o
tratamento	benevolente,	e	esse	problema	se	interpõe	entre	as	questões	comerciais
e	de	propriedade.
Existia	 o	 padrão	 sabático	 para	 a	 servidão	 no	 antigo	 Israel.	O	 Senhor	 não
queria	que	os	escravos	hebreus	fossem	forçados	à	escravidão	para	sempre.	Uma
pessoa	 podia	 comprar	 um	 hebreu	 por	 até	 seis	 anos,	 porém,	 no	 sétimo	 ano,	 o
trabalhador	 tinha	 de	 ser	 libertado	 (Êx	 21.2).	Êxodo	 21.3	 também	 ilustra	 como
Deus	queria	que	a	sociedade	respeitasse	a	família.	Se	o	escravo	tivesse	chegado
sozinho	 (mesmo	 tendo	 contraído	matrimônio	 dentro	 do	 período	 de	 seis	 anos),
deveria	 sair	 solteiro.	 Se	 tivesse	 chegado	 com	 uma	 esposa,	 os	 dois	 seriam
libertados	juntos.
De	 acordo	 com	 o	 versículo	 quatro,	 todavia,	 se	 o	 seu	 senhor	 tivesse
concedido	uma	esposa	ao	escravo,	e	ela	tivesse	dado	à	luz	filhos,	a	mulher	e	os
filhos	permaneceriam	com	o	dono.	Por	quê?	Porque	cada	trabalhador	era	valioso
e	essencial	para	o	Estado.	Essa	jurisprudência	foi	estabelecida	com	o	intuito	de
evitar	 o	 seguinte	 cenário:	 suponha	 que	 um	 trabalhador	 se	 tornasse	 escravo
temporário	 e	 se	 cassasse	 com	 uma	 mulher.	 Se	 ele	 a	 levasse	 quando	 fosse
libertado,	tiraria	de	seu	senhor	algo	de	potencial	valor/renda.	Claro,	se	trouxesse
sua	própria	esposa	com	ele	e	saísse	no	sétimo	ano,	não	tiraria	nada	que	o	senhor
já	 possuísse.	 Contudo,	 se	 o	 trabalhador	 chegasse,	 pegasse	 um	 ativo	 e	 depois
afirmasse	 “somos	 uma	 família”,	 o	 senhor	 ficaria	 sem	 o	 ativo.	 Tal	 casuísmo
ilustrava	como	a	perda	de	propriedade,	mesmo	se	 tratando	de	recurso	humano,
poderia	reduzir	os	ativos	de	uma	pessoa.
Evidentemente,	 o	 mandamento	 “não	 furtarás”	 não	 diz	 respeito	 apenas	 à
propriedade	física,	mas	tambéma	coisas	que	tenham	valor	e	potencial	de	ganho.
Deus,	 em	 sua	 lei,	 sabia	 que	 os	 seres	 humanos	 procurariam	 e	 rapidamente
encontrariam	brechas	–	somos	engenhosos	em	encontrar	formas	para	pecar	–	por
isso,	 o	 Senhor	 concedeu	 proteção	 àqueles	 que	 precisassem.	 Deus	 trata	 com
seriedade	 a	 questão	 da	 justiça	 àqueles	 que	 possuem	 propriedades	 agrícolas,
vinhedos	 e	 rebanhos.	Autorizar	 os	 trabalhadores	 a	 se	 retirarem	prejudicaria	 os
lavradores,	 vinicultores	 e	 pastores.	 Logo,	 embora	 o	 conceito	 da	 servidão
hebraica	 possa	 ser	 estranho	 para	 nossas	 relações	 de	 trabalho,	 por	 favor,	 atente
para	a	 intenção	divina	de	fazer	 justiça	aos	que	são	senhores	e	 também	aos	que
são	 trabalhadores.	 Desde	 o	 início,	 notoriamente,	 Deus	 não	 é	 um	 socialista
praticante.
De	semelhante	modo,	se	um	patriarca	hebreu	comprasse	uma	mulher	para	o
seu	 filho,	 então,	 uma	 vez	 casados,	 ela	 não	 estava	 mais	 debaixo	 da	 lei	 da
escravidão,	pelo	contrário,	tinha	de	ser	vista	como	filha	–	como	parte	da	família
(Êx	 21.9).	 Além	 disso,	 seus	 direitos	 ao	 amparo,	 incluindo	 alimentação	 e
vestimenta,	 eram	permanentes.	Eles	não	poderiam	ser	 invalidados	mesmo	se	o
homem	 se	 cassasse	 com	 outras	 mulheres.	 O	 princípio	 defendido	 aqui	 é	 o
seguinte:	não	 reduza	o	patrimônio,	contudo,	ao	mesmo	 tempo,	 trate	as	pessoas
de	modo	justo,	 independentemente	de	se	elas	 trabalham	para	você	ou	se	fazem
parte	 de	 sua	 família.	Como	 o	 senhor	 se	 beneficiava	 do	 trabalho	 deles,	 tinha	 a
obrigação	de	cuidar	deles.	Era	uma	via	de	mão	dupla.	Conforme	coloca	o	texto
de	Êxodo	21.11:	“Se	não”	conceder	à	mulher	os	seus	direitos	conjugais,	então,	o
contrato	será	anulado	e	ela	“sairá	sem	retribuição,	nem	pagamento	em	dinheiro”.
Calvino	entendeu	que	Moisés	estava	revelando	a	existência	de	ônus	mútuos	no
mercado.
Todas	 essas	 leis	 e	 diretrizes	 foram	 dadas	 pelo	 Senhor	 a	 fim	 de	 proteger
trabalhadores	 e	 proprietários.	 Calvino	 entendia	 que	 a	 lei	 divina	 ou	 lei	 moral
estava	 prevendo	 a	 depravação	 e	 considerou	 tais	 preceitos	 do	 AT	 como	 sendo
críticas	severas	a	respeito	do	roubo	de	propriedade.	Sua	pressuposição	quanto	à
depravação	 humana,	 cuja	 tendência	 é	 tentar	 tirar	 proveito	 da	 lei,	 levou-o	 a
muitas	outras	conclusões,	dentre	as	quais	estava	sua	visão	revolucionária	sobre	a
usura.
O	 capítulo	 seguinte	 de	 Êxodo	 aborda	 o	 oitavo	 mandamento	 de	 maneira
mais	detalhada.	Aqui,	o	mandamento	“não	 furtarás”	 implica	que	a	propriedade
física	 está	 sob	 domínio	 privado	 e	 deve	 ser	 protegida.	Na	 realidade,	 o	 texto	 de
Êxodo	22	mostra	como	o	Senhor	protege	com	sabedoria	a	propriedade	particular
por	meio	de	uma	série	de	punições.11
Êxodo	22.1	aborda	o	caso	de	um	homem	que	rouba	um	animal	pecuário	e	o
abate	para	consumo	pessoal	ou	o	vende	para	obter	lucro.	Visto	ter	se	apossado	da
propriedade	 de	 outra	 pessoa,	 ele	 deve	 reembolsar	 cinco	 vezes	 a	 quantidade
roubada,	por	certo,	uma	penalidade	rigorosa.	Observe	que	tal	punição	não	é	um
por	 um,	 como	 ocorre	 nos	 acidentes	 ou	 casos	 de	 responsabilidade	 civil	 (por
exemplo,	 os	 habituais	 ataques	 com	 chifres).	 Em	 caso	 de	 roubo,	 o	 ladrão	 deve
restituir	 cinco	 vezes	 a	 quantidade	 roubada.	O	 objetivo	 da	 penalidade	 não	 é	 só
restituir	o	proprietário,	mas	também	impedir	o	ladrão	de	cometer	crimes	futuros.
O	versículo	2	lida	com	o	caso	de	um	ladrão	que	é	pego	arrombando	durante
a	 noite,	 é	 ferido	 e	 morre.	 A	 situação	 é	 classificada	 como	 legítima	 defesa,
homicídio	culposo,	e	quem	o	feriu	não	é	merecedor	da	pena	de	morte.	Deus	não
se	 opõe	 à	 proteção	 de	 nossa	 propriedade.	 No	 entanto,	 o	 terceiro	 versículo
apresenta	 um	 equilíbrio	 justo:	 se	 a	 invasão	 da	 casa	 ocorrer	 à	 luz	 do	 dia,	 o
proprietário	 pode	 ser	 acusado	 de	 crime	 capital.	 Ele	 pode,	 em	 outras	 palavras,
fazer	uso	de	medidas	mais	amenas	e	evitar	matar	o	ladrão.
O	que	 acontece	 se	o	 ladrão	declarar	 falência	ou	 afirmar	não	 ter	meios	de
pagar?	O	versículo	3	ensina	que	ele	deve	fazer	a	restituição;	caso	não	consiga,
deve	 pagar	 com	 seu	 próprio	 serviço	 –	 ele	 será	 vendido	 à	 escravidão.	 Perceba
como	Deus	prevê	e	bloqueia	tantas	brechas.
No	versículo	4	há	um	caso	e	uma	punição	um	pouco	diferentes.	Se	o	animal
roubado	for	encontrado	vivo	em	posse	do	ladrão,	ele	deve	ser	devolvido	ao	dono
e	 quem	 roubou	 tem	 de	 pagar	 o	 dobro	 do	 valor	 do	 animal.	 Dessa	 forma,	 a
propriedade	 é	 restituída	 e	 a	 indenização	 é	 calculada	 em	200%.	Calvino	 e	 seus
seguidores	viram	nesses	estatutos	esteio	adicional	para	os	direitos	de	propriedade
privada.
Existem,	também,	inúmeras	formas	de	roubo.	O	texto	de	Êxodo	22.5	fala	de
duas	quintas	vizinhas.	Se	o	gado	ou	ovelha	se	desviar	de	seu	campo	e	pastar	na
terra	vizinha,	o	proprietário	dos	animais	deve	reembolsar	“com	o	melhor	do	seu
próprio	campo	e	o	melhor	de	sua	própria	vinha”.	Não	a	grama	sem	valor,	mas	o
melhor	do	campo	de	quem	cometeu	o	delito	deve	ser	confiscado.
De	acordo	com	o	versículo	6,	se	um	incêndio	irromper	e	destruir	as	medas
de	 cereais	 do	 vizinho,	 aquele	 que	 deu	 início	 ao	 fogo	 deve	 fazer	 a	 restituição.
Deus	nos	responsabiliza	e	não	quer	que	nossos	vizinhos	sofram	em	consequência
de	nossa	irresponsabilidade.	Se	ocorreu	dano,	alguém	tem	de	consertá-lo.	Deus
sabia	que	é	assim	que	a	vida	funciona.
Note	 a	 sofisticação	 dos	 versículos	 7-9.	 Não	 se	 tratava	 de	 uma	 sociedade
inculta.	Se	a	uma	pessoa	entregar	bens	ao	próximo	para	serem	guardados	e	um
ladrão	os	 roubar,	então,	uma	vez	capturado	quem	cometeu	o	 roubo,	ele	deverá
pagar	o	dobro.	Observe	mais	uma	vez	a	natureza	preventiva	da	legislação.
Todavia,	 o	 que	 impede	 o	 proprietário	 de	 forjar	 tal	 perda?	 Afinal,	 muito
dinheiro	 pode	 ser	 roubado	 a	 partir	 de	 uma	 fraude.	 Se	 o	 ladrão	 nunca	 for
encontrado,	 a	 pessoa	 responsável	 por	 guardar	 os	 bens	 deverá	 se	 apresentar
perante	os	juízes	a	fim	de	determinar	se	o	roubo	de	fato	aconteceu	ou	se	o	dono
da	casa	está	se	beneficiando	(Êx	22.8).	Isso	é	justiça,	e	Deus	sabia	que	os	seres
humanos	 saqueariam	 uns	 aos	 outros	 caso	 uma	 legislação	 adequada	 não	 fosse
estabelecida.
Ademais,	como	mostra	o	versículo	9,	diante	de	qualquer	alegação	de	posse
ilícita,	ambas	as	partes	deverão	se	apresentar	perante	os	juízes.	Tal	ação	presume
um	 sistema	 jurídico	 inicial.	 E,	 quando	 o	 julgamento	 tiver	 acabado,	 a	 pessoa
declarada	culpada	deverá	restituir	o	dobro.	Tratava-se	de	prevenção.
O	versículo	10	apresenta	um	caso	no	qual	um	animal	é	confiado	ao	próximo
para	 ser	 cuidado.	 Se	 o	 animal	 morrer,	 se	 machucar	 ou	 desaparecer,	 ambas	 as
partes	deverão	se	apresentar	perante	o	Senhor	(via	juízes)	e	jurar	que	“não	meteu
a	 mão	 nos	 bens	 do	 seu	 próximo”	 (Êx	 22.11).	 Nessa	 situação,	 a	 palavra	 do
homem	é	seu	alvará	de	soltura	e	seu	juramento	deverá	ser	aceito.	Se,	mais	tarde,
for	descoberto	que	ele	foi	infiel,	haverá	outras	consequências.
Entretanto,	 se	 for	 determinado	que	o	 animal	 foi	 roubado,	 o	 ladrão	deverá
fazer	 a	 restituição.	No	caso	de	um	acidente	genuíno,	os	 sobreviventes	deverão
ser	apresentados	como	prova	e	não	será	exigido	que	o	próximo	faça	a	restituição
(Êx	22.12-13).
Por	fim,	de	acordo	com	o	versículo	14,	se	o	próximo	tomar	emprestado	um
animal	 e	 ele	 se	 ferir	 ou	 morrer	 durante	 esse	 período,	 quem	 pegou	 o	 animal
emprestado	 deverá	 reembolsar	 o	 proprietário.	 Mais	 uma	 vez,	 o	 dono	 tem
prejuízo	com	a	perda,	 logo,	quem	emprestou	é	responsabilizado.	Todos	esses	e
outros	 versículos	 semelhantes	 se	 unem	 para	 formar	 a	 visão	 calvinista	 (e
capitalista)	de	 livre	mercado	e	direitos	de	propriedade	privada.	Os	comentários
de	Calvino	a	respeito	desse	assunto	sustentam	veementemente	essas	ideias	e	não
questionam	os	principais	aspectos	dos	direitos	de	propriedade	privada.
Padrão	para	a	caridade
Juntamente	com	o	 lucro	e	direitos	de	propriedade	vem	a	 responsabilidade
pelos	 necessitados.	 Para	 os	 calvinistas,	 acaridade	 se	 tornou	 uma	 atividade
abrangente.	 Ela	 não	 começa	 necessariamente	 com	 os	 mesmos	 padrões	 de
caridade	 passíveis	 de	 serem	 associados	 à	 doação	 aos	 pobres	 ou	 abatidos	 hoje,
nem	os	acompanha.	A	ação	beneficente,	segundo	o	espírito	calvinista,	é	ampla	e
tem	início	com	a	responsabilidade	pessoal	e	a	oferta	para	a	igreja.
Dízimo
Para	a	igreja,	o	dízimo	era	tanto	uma	disciplina	pessoal	quanto	uma	forma
de	caridade.	Com	o	 início	da	Reforma,	as	 igrejas	começaram	a	ser	sustentadas
mais	 pelos	 seus	membros	 do	 que	 pelos	 donativos	 do	 Estado.	 Embora	 a	 igreja
genebresa	de	Calvino	 tenha	herdado	a	propriedade	principal	 (todos	os	 recintos
da	 igreja	 foram	 declarados	 como	 sendo	 propriedade	 da	 Reforma	 quando	 os
cidadãos	votaram	a	favor	da	religião	evangélica,	em	1536),	o	sustento	inicial	e	o
trabalho	daquela	e	de	outras	igrejas	protestantes	dependiam,	em	grande	parte,	da
generosidade	de	seus	membros.
Calvino	 percebeu	 que	 um	 dos	 aspectos	 essenciais	 da	 riqueza	 era	 que	 a
oferta	 regular	 e	 generosa	 fosse	 direcionada	 à	 igreja,	 a	 qual,	 então,	 supriria	 as
inúmeras	necessidades	espirituais	e	sociais.	Com	referência	ao	dízimo	de	Abraão
entregue	a	Melquisedeque	(Gn	14.20),	Calvino	asseverou	não	ter	sido	o	ato	feito
de	 modo	 “impróprio	 ou	 impulsivo”.	 Pelo	 contrário,	 Calvino	 entendia	 ser	 o
dízimo	uma	prática	ordenada	por	Deus	e	visualizava	a	atitude	de	Abraão	como
um	 primeiro	 exemplo	 do	 tipo	 de	 oferta	 que	 é	 uma	 honra	 a	 Deus	 e	 um
instrumento	útil	para	os	ministérios	sacerdotais.
Em	outra	parte,	em	seu	comentário	de	Malaquias,	Calvino	deixou	explícito
que	o	dízimo	é	essencial	e	deve	ser	considerado	como	rotina	da	administração
financeira.	Ele	chamou	de	“fraude”	a	prática	de	reter	parte	do	dízimo	para	uso
pessoal	e	alertou	que	“a	avareza	estava	tão	pautada	[entre	as	pessoas	da	época	de
Malaquias]	 a	 ponto	 de	 todos,	 inclinados	 aos	 seus	 próprios	 benefícios,
negligenciarem	o	templo”.12	Em	uma	acusação	expressa	com	veemência,	Calvino
se	 referiu	 à	 omissão	 do	 povo	 de	Deus	 em	dar	 o	 dízimo	 como	 “perversidade”,
“hipocrisia”,	“imprudência”	e	“violação	das	instituições	divinas”.13	A	questão	era
tão	 óbvia	 para	 Calvino	 que	 ele	 comentou:	 “Deus,	 todavia,	 julgou	 ser	 uma
sentença	o	suficiente	para	condená-los	–	eles	o	defraudaram	nos	dízimos	e	nas
primícias	 [as	 quais]	 ele	 corretamente	 chama	 de	 suas	 e	 assim	 as	 considera”.14
Calvino	 ressaltou	 a	 importância	 disso	 ao	 explicar	 que	 “Deus	 designou	 que	 as
primícias	 e	 outras	 coisas	 fossem	oferecidas	 a	 ele	 com	o	 intuito	de	os	homens,
assim,	lembrarem-se	continuamente	de	que	todas	as	coisas	eram	dele”.15	Em	seu
comentário	 sobre	Deuteronômio	26,	 o	 reformador	 se	 referiu	 ao	 ato	 de	 dizimar
como	se	“Deus	estivesse	diante	dos	olhos	[dos	hebreus],	por	assim	dizer,	e	eles
estivessem	 lhe	 retribuindo	 em	 mãos”.16	 Ademais,	 ele	 se	 referia	 à	 motivação
correta	 para	 tal	 doação	 religiosa	 como	 oferta	 de	 tributo	 a	 Deus,	 “símbolo	 da
emancipação,	 por	 terem	 sido	 redimidos	 pela	 excepcional	 misericórdia	 de
Deus”.17	Ele	explicou	também	que	os	cristãos	não	são	senhores	de	seu	dinheiro	e
bens;	 pelo	 contrário,	 eles	 mantêm	 seus	 bens	 “tão	 somente	 com	 o	 título	 de
administradores”18.	Para	Calvino,	dar	o	dízimo	era	de	suma	importância.
O	dízimo,	além	de	sustentar	o	ministério	sacerdotal	contínuo,	também	era	a
base	para	a	oferta	beneficente.	Na	época	anterior	a	Calvino,	exceto	a	igreja	(que
era,	 em	 sua	maioria,	 católica	 romana	 e	 predisposta	 ao	 excesso)	 e	 as	 heranças
familiares,	 havia	 poucas,	 se	 houvesse,	 instituições	 que	 prestavam	 ajuda
caritativa.	 Veículos	 como	 as	 diversas	 fundações,	 bolsas	 de	 estudo	 privadas	 e
donativos	 como	 os	 da	 atualidade	 eram	 praticamente	 inimagináveis	 naquela
época.	 Na	 realidade,	 pode-se	 argumentar	 que	 a	 disseminação	 dos	 meios
beneficentes	multidimensionais	como	os	existentes	hoje	no	Ocidente	seguiram	a
disseminação	do	Calvinismo	de	maneira	mais	certeira	do	que	a	disseminação	da
ética	 de	 trabalho	 protestante	 da	 tese	 de	 Weber.	 Talvez	 exista	 uma	 “ética	 de
caridade	protestante”	proveniente	do	trabalho	de	Calvino.
A	partir	 dos	dias	 de	Calvino,	 a	 igreja	 –	 com	 seu	 zelo	pelos	 refugiados,	 o
estabelecimento	 de	 hospitais	 e	 muitos	 outros	 empreendimentos	 diaconais	 –
continuou	 a	 expandir	 o	 alcance	 de	 sua	 caridade	 externa	 em	 círculos	 maiores.
Nada	disso	 teria	 sido	possível	 sem	o	dízimo.	Na	verdade,	 existe	uma	provável
correlação	entre	a	porcentagem	de	dizimistas	e	a	obra	de	caridade	privada.	As
instituições	do	Estado	fazem	sua	parte	na	obra	assistencial,	claro.	No	entanto,	o
escopo	e	a	eficiência	das	igrejas	não	instituídas	(sustentadas	pelo	dízimo,	e	não
pela	tributação)	são	maiores.
Logo,	o	dízimo	apresentou	benefício	duplo.	Além	de	sustentar	os	edifícios	e
trabalhadores	das	igrejas,	também	rendeu	fundos	generosos	para	o	cuidado	com
os	oprimidos	e	necessitados.
Segurança	pessoal
Para	Calvino,	o	próximo	passo	da	caridade	era,	para	surpresa	de	alguns,	a
segurança	pessoal.	Em	outras	palavras,	o	reformador	defendia	a	visão	de	que	a
pessoa	é	responsável	pelo	seu	próprio	sustento	e	o	de	seus	dependentes.	Calvino
e	outros	reformadores	romperam	com	o	padrão	medieval	de	boas	obras.	Em	vez
disso,	 eles	 endossaram	 a	 ética	 com	 base	 na	 responsabilidade	 pessoal.	 Ao
comentar	 2Tessalonicenses	 3.10,	 Calvino	 observou	 que,	 embora	 existam
“diferentes	 formas	de	 trabalho”,	 cada	pessoa	deve	 colaborar	 com	“a	 sociedade
dos	 homens	 por	 intermédio	 de	 sua	 diligência,	 ou	 regendo	 sua	 família	 ou
administrando	negócios	públicos	ou	privados	ou	aconselhando	ou	ensinando	ou
de	qualquer	outra	forma	a	fim	de	não	ser	considerada	desocupada”.19	Ele	também
não	pôde	deixar	de	afirmar	que	“indolência	e	ociosidade	foram	amaldiçoadas	por
Deus”,	explicando	o	seguinte:
Além	disso,	 sabemos	que	o	homem	 foi	 criado	com	a
visão	 de	 que	 pode	 fazer	 alguma	 coisa.	As	 Escrituras
não	 apenas	 nos	 testificam	 tal	 fato,	 mas	 também	 a
própria	natureza	o	faz	ao	pagão.	Portanto,	é	plausível
que	 aqueles	 que	 desejarem	 se	 isentar	 da	 lei	 comum
sejam	também	privados	de	alimento	e	da	recompensa
do	 trabalho.	 Paulo	 proibiu	 os	 tessalonicenses	 de
incentivarem	 sua	 indolência	 fornecendo	 alimento	 aos
ociosos.20
Calvino,	então,	por	meio	de	seus	ensinamentos	sobre	vocação	e	da	ética	de
trabalho	 por	 ele	 cultivada,	 esperava	 que	 a	 perspectiva	 sobre	 a	 caridade
conduzisse	 os	 indivíduos	 a	 se	 absterem	 de	 consumir	 os	 recursos	 de	 outras
pessoas.	Não	é	de	bom	grado	esperar	apoio	financeiro	de	outros	quando	a	pessoa
é	 capaz	 de	 se	 sustentar.	Mais	 uma	 vez,	 Calvino	 empregou,	 de	modo	 geral,	 as
palavras	de	1Timóteo	5.8,	afirmando	que	aqueles	que	não	sustentam	sua	própria
família	 carecem	 “da	 compaixão	 de	 Deus”.	 Além	 do	 mais,	 disse	 que	 tais
indivíduos	 negam	 a	 fé,	 descrevendo-os	 como	 “piores	 do	 que	 as	 feras
selvagens”.21	Para	o	reformador,	a	“criminalidade	de	tal	conduta”	se	demonstrava
pela	própria	natureza,	visto	que	até	 “os	 infiéis	 são	propensos	a	 amar	os	 seus”.
Em	vista	das	grandes	expectativas	colocadas,	de	maneira	correta,	sobre	aqueles
que	professam	seguir	as	ordens	de	Cristo,	Calvino	considerava	a	conduta	ainda
mais	reprovável.	A	ética	do	trabalho	era	empregada	dentro	da	família	de	Deus.
Em	observações	anteriores	a	 respeito	de	1Timóteo	5.5,	ele	havia	notado	a
distinção	 bíblica	 entre	 a	 viúva	 com	 real	 necessidade	 e	 aquela	 que	 pode	 suprir
suas	próprias	necessidades	ou	tem	uma	assistência	familiar	adequada.	Ao	mesmo
tempo,	 ele	 chama	 a	 atenção	 para	 as	 viúvas	 que	 se	 entregam	 à	 “ociosidade
prazerosa”,	“conveniência”	ou	“alegria	exagerada”.22
James	Gills	e	Ronald	Nash	sugeriram	que,	quando	a	caridade	é	 tirada	das
mãos	 do	 setor	 privado	 e	 entregue	 ao	 “Grande	Governo”	 invisível,	 então,	 fica
fácil	 para	 os	 receptores	 “acharem	 que	 certas	 mercadoriase	 serviços,	 como	 o
serviço	de	saúde	e	os	medicamentos	prescritos,	não	têm	custo.	Os	custos	ainda
existem,	porém,	as	pessoas	que	os	pagam	quase	sempre	não	estão	à	vista	e	não
são	 lembradas	 por	 aqueles	 que	 não	 só	 se	 beneficiam	 da	 redistribuição	 de
propriedade	feita	pelo	governo,	como	passam	a	agir	como	se	tivessem	direito	ao
aumento	de	tais	benefícios”.23
Cada	 pessoa	 tem	 um	 chamado	 divino	 para	 o	 trabalho	 –	 para	 utilizar	 seu
tempo	 e	 recursos	 para	 a	 glória	 de	Deus	 e	 desenvolvimento	 do	 próximo.	Uma
pessoa	não	pode	doar	 de	modo	mais	 caridoso	possível	 se	 suas	 próprias	 contas
são	transferidas	a	outra	pessoa.	Ademais,	somente	quando	essas	bases	pessoais
estão	garantidas	é	possível	acontecer	o	planejamento	consistente	para	projetos	de
caridade	a	longo	prazo.	Por	exemplo,	se	um	grupo	deseja	iniciar	uma	faculdade
denominacional	 ou	 assumir	 um	 trabalho	 de	 caridade	 por	 vários	 anos,	 faz-se
necessária	 a	 doação	 sem	 tempo	 determinado,	 a	 qual,	 normalmente,	 virá	 de
doadores	maduros	e	estabelecidos	que	já	alcançaram	sua	segurança	financeira.
Em	 seu	 sermão	 sobre	 1Timóteo	 6.17-19,	 Calvino	 observou	 que	 uma
solução	 para	 “corrigir	 a	 ligação	 depravada”	 com	 a	 riqueza	 do	 mundo	 é	 “a
utilização	correta	de	nossos	bens.	As	oportunidades	do	homem	de	fazer	o	bem
aos	 outros	 aumentam	 com	 a	 abundância	 de	 sua	 riqueza	 e,	 como	 sempre
relutamos	mais	do	que	deveríamos	para	dar	 aos	pobres,	 ele	 [Paulo]	 fala	muito
em	favor	dessa	virtude”.24	Em	outro	sermão	sobre	os	Evangelhos,	o	reformador
nos	 chama	 a	 “nos	 contentarmos	 com	 aquilo	 que	 nos	 foi	 concedido”,	 de	modo
que	aqueles	que	têm	recursos	possam	entender	que	é	maior	sua	responsabilidade.
De	semelhante	modo,	aqueles	que	são	pobres	são	chamados,	sob	a	doutrina	do
contentamento,	 a	 aceitar	 sua	posição	 e	 condição	 social	 sem	cobiçar	 ou	 roubar.
Calvino	escreveu:
Quando	a	pessoa	tem	meios	de	aumentar	sua	riqueza,
que	isso	seja	feito	sem	causar	prejuízo	aos	outros	–	e
também	 sem	 ser	 consumido	 pela	 inveja.	 E	 mais:	 o
homem	rico	não	só	deve	estar	contente	com	aquilo	que
tem,	mas	 deve	 também	 ter	 o	 espírito	 de	 um	 homem
pobre	–	ou	seja,	 todos	os	dias	ele	deve	estar	pronto	a
abandonar	 tudo	 o	 que	 Deus	 lhe	 tem	 dado	 e	 não	 se
torturar	por	isso;	e,	se	Deus	desejar	enriquecê-lo	mais,
ele	 deve	 estar	 ciente	 de	 que	 isso	 é	 para	 o	 seu
benefício.25
Calvino,	 o	 que	pode	vir	 a	 ser	 curioso	para	 alguns,	 chegou	 a	 descrever	 os
pobres	 materialmente	 como	 tendo	 o	 ministério	 singular	 de	 servir	 como
“mensageiros”	 a	 fim	 de	 provar	 a	 fé	 e	 o	 amor	 daqueles	 ao	 seu	 redor.	 Eles	 são
“mandatários”	 a	 fim	 de	 testar	 a	 compaixão	 dos	 abastados.26	 O	 reformador	 se
refere	aos	ricos	que	não	cuidam	dos	pobres	como	“assassinos”,	os	quais	privam
outros	 daquilo	 que	 deveriam	 ter:	 “Porquanto,	 de	 outro	 modo,	 eles	 são	 como
assassinos	caso	vejam	o	próximo	definhando	e,	mesmo	assim,	não	abram	suas
mãos	 para	 ajudá-lo”.27	 Apesar	 de	 intérpretes	 de	 Calvino	 discordarem	 entre	 si
quanto	 às	 aplicações	 desse	 ensinamento,	 parece	 ser	 seu	 objetivo	 condenar	 os
ricos	 empedernidos,	 não	 defender	 um	 sistema	 no	 qual	 certa	 organização
independente	pega	e	redistribui	os	bens	para	evitar	que	sejam	assassinos.
Com	base	na	denúncia	profética	sobre	o	acúmulo,	em	particular	a	feita	por
Isaías,	Calvino	identificou	o	problema	persistente	do	descontentamento	humano.
Aqueles	 que	 “nunca	 têm	 o	 suficiente	 e	 a	 quem	 riqueza	 alguma	 é	 capaz	 de
satisfazer”	cobiçam	ardentemente	“ter	todas	as	coisas	só	para	si	mesmos	e	veem
as	coisas	que	as	outras	pessoas	têm	como	algo	que	lhes	falta”.28	Calvino	citou	a
opinião	 de	 Crisóstomo	 de	 que	 os	 avarentos	 confiscariam	 o	 sol	 dos	 pobres,	 se
possível	 fosse.	 Aqueles	 cuja	 única	 “preocupação	 é	 fechar	 uma	 grande
negociação”	 nunca	 têm	 o	 suficiente	 e	 nunca	 demonstram	 moderação.	 O
reformador	 observou	 essa	 tendência	 de	 acumular	 mesmo	 quando	 levava	 em
consideração	“o	tamanho	e	a	amplitude	das	casas”:
Pois	 Isaías	 ressalta	 a	 ambição	 daqueles	 que	 desejam
morar	 em	 palácios	 grandiosos	 ou	 casas	 amplas.	 Não
há	nada	de	errado	se	alguém	com	uma	família	grande
tiver	 uma	 casa	 grande;	 porém,	 quando	 as	 pessoas,
tragadas	 pela	 ambição,	 incrementam	 suas	 casas	 com
coisas	supérfluas	somente	para	viverem	de	modo	mais
luxuoso,	 eis	que	 surge	a	ambição	vã,	 a	qual	deve	 ser
censurada.	Tais	pessoas	agem	como	se	tivessem	de	ser
as	únicas	a	desfrutar	de	um	teto,	e	os	outros	devessem
ter	somente	o	céu	para	se	cobrir	ou	tivessem	de	ir	para
algum	outro	lugar	a	fim	de	encontrar	morada.29
Calvino	 advertia	 contra	 a	 ânsia	 pela	 riqueza,	 contudo,	 também	 via	 a
necessidade	da	organização	de	ativos	para	a	segurança	da	família	e	do	direito	de
propriedade	privada.
Patrimônio	familiar
Logo	após	a	segurança	pessoal	vem	o	chamado	para	sustentar	a	família,	os
dependentes	e	guardar	para	o	futuro.	Há	tempos,	os	calvinistas	são	associados	à
ideia	de	herdar	o	patrimônio	de	uma	geração	e	aumentá-lo;	 isso	se	dá	por	uma
boa	 razão.	Calvino,	visualizando	a	 riqueza	como	dádiva	providencial	e	criação
de	 Deus,	 acreditava	 que	 os	 patrimônios	 deveriam	 ser	 sempre	 avolumados,
contanto	 que	 os	 meios	 para	 tal	 aumento	 fossem	 legais	 e	 não	 excluíssem	 as
ofertas	 de	 caridade.	 Isso	 não	 só	 permitiria	 à	 família	 ter	 maior	 liberdade	 no
futuro,	 como	 também	 traria	 provisão	 de	 maneira	 caridosa	 a	 todos	 os
dependentes.	 A	 noção	 moderna	 de	 que	 uma	 organização	 estatal	 (ou	 qualquer
outro	 grupo	 extrafamiliar)	 deve	 assumir	 a	 responsabilidade	 de	 prover	 aos
descendentes	 de	 um	 indivíduo	 era	 estranha	 para	 Calvino.	 Ao	 contrário,	 ele
considerava	 um	 ato	 de	 generosidade	 dar	 provisão	 aos	 filhos	 e	 à	 futura	 prole.
Aqueles	 que	 não	 sustentam	 seus	 próprios	 descendentes,	 asseverava	 ele,	 são
piores	 do	 que	 os	 incrédulos.	 Conforme	 expressou	 quando	 fazia	 o	 comentário
sobre	1Timóteo	5.8,	eles	agem	com	“desumanidade	e,	portanto,	tal	atitude	é	um
claro	desrespeito	a	Deus”.30
O	 Calvinismo	 não	 incentiva	 o	 egoísmo	 que	 incita	 o	 indivíduo	 a	 se
preocupar	 somente	 com	 sua	 própria	 vida.	 Quando	 Deus	 concede	 filhos	 e
cônjuges,	eles	também	têm	de	ser	supridos	materialmente.	Não	é	condizente	com
os	ensinamentos	de	Calvino	a	ação	de	consumir	todos	os	rendimentos	de	alguém
ao	longo	da	vida	e	não	economizar	para	as	gerações	futuras.	O	modelo	bíblico
empregado	por	ele	esperava	que	as	pessoas	(a)	dessem	o	dízimo,	(b)	garantissem
base	material	particular	por	meio	de	economias	e	investimentos	e	(c)	buscassem
sustentar	 os	 filhos	 e	 a	 família.	 Proporcionar	 educação	 aos	 filhos,	 seja	 de	 que
forma	for,	é,	provavelmente,	o	primeiro	investimento	a	longo	prazo	em	direção	a
essa	 finalidade.	 Ajudar	 os	 filhos	 a	 começarem	 sua	 corrida	 da	 vida	 é	 uma
amorosa	 ação	 de	 caridade;	 tal	 responsabilidade	 é	 conferida	 a	 ninguém	menos
que	 a	 família.	 Ajudar	 as	 gerações	 futuras	 provendo	 ativos	 não	 é	 uma	 atitude
apenas	caridosa,	mas	também	sábia,	se	a	retidão	também	estiver	inculcada;	pois
isso	 significa	 menor	 dependência	 de	 cotas	 e	 maior	 rendimento	 dos	 fundos
provenientes	de	uma	base	de	ativos	maior,	se	o	patrimônio	for	investido	bem	e
de	forma	consistente.
Por	 intermédio	 da	 redenção	 de	 Deus,	 o	 cristão	 é	 levado	 a	 um	 completo
entendimento	da	liberdade	cristã,	que	permeia	todos	os	aspectos	da	vida.	Sendo
assim,	 Calvino	 argumentava	 que	 a	 liberdade	 cristã	 implica	 na	 liberdade	 de
mercado,	não	como	um	meio	 friamente	calculado	de	 sobrevivência,	mas	como
uma	 extensão	 da	 adoração	 e	 responsabilidade	 do	 cristão.	 Contrabalançando	 o
chamado	 à	 liberdade,	 temos	 a	 censura	 de	Calvino	 ao	 egoísmo,	 bem	 como	 seu
extenso	 ensinamento	 sobre	 a	 virtude	 da	 administração.	 Implícito	 em	 seu
argumento	 sobre	 a	 administração	 está	 uma	 defesa	 acirrada	 da	 propriedade
privadae	dos	direitos	de	propriedade	que	devem	ser	endossados	e	protegidos.	A
depreciação	 dos	 direitos	 de	 propriedade	 desvaloriza	 a	 caridade	 e	 o	 sacrifício
cristãos,	que	vêm	como	resposta	à	 redenção	de	Deus.	A	 riqueza	 já	 foi	descrita
como	 instrumentos	 criados	 para	 utilização	 humana	 (capítulo	 1)	 e	 como	meios
visíveis	 de	 se	 chegar	 à	 vontade	 de	Deus	 (capítulo	 2)	 e,	 agora,	 é	 vista	 como	o
manancial	da	caridade	e	da	oferta	proveniente	de	um	coração	voltado	à	ação	de
graças	 e	 ao	 louvor.	 Nesse	 sentido,	 a	 caridade	 e	 o	 investimento	 compartilham
fundamentos	 semelhantes.	 Ambos	 são	 símbolos	 da	 redenção	 de	 Deus,	 e	 a
primeira	serve	também	como	forma	avançada	de	investimento.	A	hierarquia	da
caridade	 e	 do	 investimento,	 todavia,	 é	 fundamentada	 no	 princípio	 básico	 do
dízimo.
Além	 de	 sustentar	 suas	 igrejas	 e	 famílias,	 os	 calvinistas	 quase	 sempre
apresentam	os	melhores	 exemplos	 de	 obra	 de	 caridade.	No	 decorrer	 de	 toda	 a
história,	 conforme	 as	 convicções	 associadas	 à	 fé	 reformada	 começaram	 a	 se
alojar	 nos	 filhos	 de	 Calvino	 e	 a	 riqueza	 foi	 criada	 e	 aumentada,	 a	 obra	 de
caridade	 também	 encontrou	 um	 círculo	 maior.	 O	 espírito	 filantrópico	 do
Calvinismo	estava	atado	ao	seu	espírito	comercial.
Notas
1	R.	Laird	Harris	et	al.,	Theological	Wordbook	of	the	Old	Testament	(Chicago:	Moody	Press,	1980),	p.	144.
2		João	Calvino,	Commentary	on	the	Epistles	of	Paul	the	Apostle	to	the	Corinthians	 (Grand	Rapids:	Baker
Book	House,	1979),	1:220-221.
3		Ibid.,	1:258.
4	 	Citado	 em	Mark	Skousen,	The	Big	 Three	 in	Economics:	 Adam	Smith,	Karl	Marx,	 and	 John	Maynard
Keynes	(Armonk,	NY:	M.	E.	Sharpe,	2007),	p.	10.
5		Citado	em	ibid.,	p.	18.
6		John	Wesley,	“Sermon	50:	The	Use	of	Money”,	em	The	Work	of	the	Reverend	John	Wesley,	A.M.,	1:446;
postado	também	em:	http://new.gbgm-umc.org/umhistory/wesley/sermons/50/.
7		As	instruções	de	Paulo	a	Timóteo	também	tomam	por	certo	que	os	lavradores	diligentes	merecem	obter
lucro	de	suas	colheitas	(2Tm	2.6),	que	casas	grandes	repletas	de	artigos	bons	existem	(2Tm	2.20)	e	que	a
coroa	do	justo	não	é	sinal	de	perversidade	(2Tm	4.8).
8	 	 Citado	 em	 Sergey	 N.	 Bulgakov,	 “The	 National	 Economy	 and	 the	 Religious	 Personality”,	 Journal	 of
Markets	and	Morality	11,	n°	1	(Primavera	de	2008):	171.	(Publ.	orig.	1909.)
9		 John	E.	Stapleford,	Bulls,	Bears	&	Golden	Calves:	Applying	Christian	Ethics	 in	Economics	 (Downers
Grove:	InterVarsity	Press,	2002),	p.	25.
10		Calvino,	Commentary	on	the	Epistles	to	the	Corinthians,	1:250.
11	 	 Note	 que	 nem	 todos	 os	 delitos	 eram	 delitos	 capitais	 e	 punições	 graduais	 foram	 estipuladas	 para	 se
adequarem	ao	crime.
12		João	Calvino,	Commentaries	on	the	Twelve	Minor	Prophets	 (Grand	Rapids:	Baker	Book	House,	1979),
15.:585,	588.
13		Ibid.,	15:585.
14		Ibid.
15		Ibid.
16		Calvino,	Commentaries	on	the	Four	Last	Books	of	Moses,	2:283.
17		Ibid.,	2:494.
18		Ibid.
19		João	Calvino,	Commentaries	on	 the	Epistles	 to	 the	Philippians,	Colossians,	and	Thessalonians	 (Grand
Rapids:	Baker	Book	House,	1979),	2:355.
20		Ibid.
21		João	Calvino,	Commentaries	on	the	Epistles	to	Timothy,	Titus,	and	Philemon	(Grand	Rapids:	Baker	Book
House,	1979),	p.	127.
22		Ibid.,	p.	125.
23	 	 James	 O.	 Gills	 e	 Ronald	 H.	 Nash,	 A	 Biblical	 Economics	 Manifesto:	 Economics	 and	 the	 Christian
Worldview	(Lake	Mary:	Creation	House,	2002),	p.	6.
24		Citado	em	André	Biéler,	Calvin’s	Economic	and	Social	Thought	(1959;	reimpr.,	Genebra:	World	Alliance
of	Reformed	Churches,	2005),	p.	285.
http://new.gbgm-umc.org/umhistory/wesley/sermons/50/
25		Ibid.,	p.	286.
26		Ibid.,	p.	288.
27		Ibid.,	p.	299.
28		Ibid.,	p.	298.
29		Comentário	sobre	o	texto	de	Isaías	5.8,	citando	em	Biéler,	Calvin’s	Economic	and	Social	Thought,	p.	298.
30		Calvino,	Commentaries	on	the	Epistles	to	Timothy,	Titus	and	Philemon,	p.	127.
4
Filantropia
A	esta	altura,	o	leitor	deve	entender	que	muito	da	crítica	habitual	a	Calvino	é
injusta,	talvez,	em	especial	no	tocante	à	sua	compaixão	pelos
oprimidos	 ou	 à	 sua	 liderança	 filantrópica	 em	 Genebra.	 Apesar	 das	 inúmeras
caricaturas,	 Calvino	 sabia	 como	 ajudar	 o	 verdadeiro	 necessitado	 de	 maneira
eficiente.
A	caridade	extrafamiliar
Calvino	 viveu	 em	 mundo	 tão,	 ou	 mais,	 repleto	 de	 necessidades	 como	 o
nosso.	Sem	grandes	organizações	sociais	e	redes	de	segurança	das	mais	variadas,
seu	mundo	 era	muito	mais	 agressivo	 que	 o	 nosso.	 Para	 ele,	 assim	 como	 para
muitas	 pessoas	 hoje,	 era	 sempre	 desafiador	 decidir	 quais	 necessidades	 deviam
receber	 fundos.	 Embora	 existam	 muitas	 tentativas	 de	 classificar	 os	 objetos
merecedores	 de	 generosidade,	 apresentamos,	 abaixo,	 uma	 lista	 básica	 de
oportunidades	 para	 caridade	 extrafamiliar.	 Em	 outras	 palavras,	 em	 vista	 de	 a
igreja	ser	sustentada	pelos	dízimos,	e	depois	de	a	base	financeira	pessoal	ter	sido
assegurada	 e	 o	 patrimônio	 da	 família	 ter	 sido	 estabelecido,	 é	 justo	 que	 os
seguintes	grupos	se	tornem	alvos	da	caridade	privada.
Conhecidos	próximos.	É	natural	que	a	compaixão	flua	para	aqueles	a	quem
vemos	 com	mais	 frequência.	Se	 seus	 conhecidos	próximos	 estão	passando	por
necessidade,	assim	como	Jesus	ensinou	na	parábola	do	bom	samaritano	(Lc	10),
os	 cristãos	 não	 devem	 ignorar	 tais	 necessidades.	 Presumindo	 que	 nossos
conhecidos	 próximos	 estão	 realmente	 necessitados	 ou	 enfermos,	 a	 repreensão
severa	de	Cristo	se	reserva	àqueles	que	não	prestam	assistência.	O	chamado	para
cuidarmos	daqueles	que	estão	mais	próximos	de	nós	está	bastante	evidente.	De
acordo	 com	 Calvino,	 essa	 parábola	 também	 requer	 que	 estendamos	 nossa
caridade	além	daqueles	de	nosso	convívio	direto.
Os	pobres	trabalhadores.	Depois	de	cuidar	dos	conhecidos	mais	próximos,
é	prudente	atentar	aos	pobres	 trabalhadores.	Aqueles	que	 trabalham	duro	e	por
longos	períodos,	porém	não	têm	bons	salários,	não	por	sua	própria	culpa,	devem
receber	 complementos	 benevolentes	 se	 as	 instituições	 de	 caridade	 ou	 pessoas
desejarem	 subsidiá-los.	 Não	 é	 pecado	 ter	 uma	 ocupação	mal	 remunerada.	 Por
exemplo,	aqueles	que	trabalham	nas	forças	policiais	e	na	educação	pública	quase
sempre	são	mal	remunerados	por	 tanto	 trabalho	e	pelo	risco	que	correm.	Se	as
instituições	 beneficentes	 desejarem	 subsidiar	 os	 indivíduos	 que	 trabalham	 de
modo	 diligente	 nessas	 ocupações	 necessárias,	 esta	 é	 uma	 aplicação	 natural	 da
boa	obra	de	caridade.
Pessoas	 com	 perspectiva	 de	 produtividade.	 Jovens	 estudantes	 e
trabalhadores	iniciantes	promissores	também	podem	receber	bolsas	de	estudo	ou
outros	 subsídios	 beneficentes	 até	 assumirem	plena	 produtividade.	Obviamente,
nem	todos	serão	qualificados	para	tais	concessões,	porém,	aqueles	que	recebem
ajuda	normalmente	expressam	gratidão	que	recompensa	até	a	próxima	geração.
Como	 qualquer	 outro	 tipo	 de	 caridade,	 critérios	 de	 seleção	 precisam	 ser
estabelecidos	pelos	vários	grupos	a	fim	de	determinar	os	receptores	merecedores
dos	 benefícios.	 Se	 a	 perspectiva	 da	 produtividade	 futura	 for	 traçada,	 então,
determinados	 campos	de	 trabalho	 e	níveis	de	 renda	provavelmente	 se	 tornarão
fatores	principais	a	serem	considerados.	Novamente,	a	melhor	obra	de	caridade	é
aquela	que	é	objetiva	e	bem	concebida.
Instituições:	Uma	vez	direcionadas	as	oportunidades	com	foco	 individual,
também	 existe	 lugar	 para	 o	 desenvolvimento	 institucional	 a	 longo	 prazo.	 A
utilização	de	 fundos	de	doações	para	criar	ativos	beneficentes,	 se	utilizados	de
forma	sensata	e	regular,	é	um	projeto	grande	capaz	de	gerar	muitos	benefícios.
De	 semelhante	modo,	 o	 estabelecimento	 de	 instituições	 de	 ensino	 –	 pense	 em
quanta	 educação	os	 católicos	 romanos	 e	 luteranos	 proporcionaram	no	decorrer
de	 anos	 por	 meio	 de	 suas	 escolas	 paroquiais	 –	 é	 dos	 mais	 enriquecedores	 e
necessários	 objetos	 das	 instituições	 de	 caridade	 religiosas.	 Ao	 mesmo	 tempo,
elas	 podem	 ajudar	 a	 disseminar	 os	 valoresteológicos	 de	 um	 grupo.	 Tais
instituições	 requerem	 grandes	 fundos	 iniciais;	 e,	 como	 é	 característico,
demandam	 doações	 para	 seu	 sustento.	 Todavia,	 elas	 tocam	 muitas	 vidas	 por
gerações.
O	 pobre	 em	 geral.	 Depois	 de	 grandes	 iniciativas	 filantrópicas	 terem
iniciado,	os	cristãos	podem,	então,	atentar	à	pobreza	ou	necessidade	em	todo	o
mundo.	 Como	 é	 característico	 dessa	 situação,	 poucos	 conseguirão	 empregar
recursos	nesse	trabalho	além	dos	muito	ricos	(por	meio	das	fundações	privadas)
ou	das	organizações	internacionais.
O	Calvinismo	criou	e	desenvolveu	diversas	dessas	iniciativas	mais	amplas
de	 caridade.	 A	 principal	 dentre	 elas	 –	 e	 um	 ótimo	 exemplo	 de	 instituição	 de
caridade	por	séculos	–	foi	a	Academia	de	Calvino.	O	reformador	rompeu	com	a
pedagogia	 medieval,	 a	 qual	 limitava	 a	 educação	 essencialmente	 à	 elite
aristocrata.	Sua	Academia,	fundada	em	1559,	foi	o	piloto	da	educação	de	ampla
base	 para	 a	 cidade.	 Embora	 os	 genebreses	 tivessem	 tentado,	 durante	 dois
séculos,	estabelecer	uma	universidade,	somente	depois	das	iniciativas	de	Calvino
ela	 finalmente	 foi	 instituída.1	 Quando	 da	 chegada	 de	 Calvino,	 os	 oficiais	 da
cidade	anelavam	por	uma	instituição	de	ensino	de	alto	nível,	porém,	em	1536,	a
maioria	 dos	 genebreses	 considerou	 ser	 esse	 um	 alvo	 ambicioso	 demais.
Independentemente	das	iniciativas	mal-sucedidas	ocorridas	entre	a	aceitação	da
Reforma	 em	 Genebra,	 em	 1536,	 e	 o	 retorno	 de	 Calvino	 de	 seu	 exílio	 em
Estrasburgo,	em	1541,	está	evidente	que	não	houve	êxito	na	instituição	de	uma
universidade	 duradoura	 até	 o	 reformador	 colocar	 as	 mãos	 à	 obra	 na	 área	 da
educação	depois	de	Genebra	ter	firmado	sua	identidade	protestante	entre	1550	e
1560.	Essa	realização	beneficente	e	duradoura	não	teria	acontecido	sem	a	visão
de	criar	uma	instituição	multigeracional.
A	 Academia	 de	 Calvino,	 a	 qual	 era	 adjacente	 à	 Catedral	 de	 São	 Pedro,
caracterizava-se	pelos	dois	níveis	curriculares	–	um	para	a	educação	pública	dos
jovens	de	Genebra	 (a	 schola	privata)	 e	 o	 outro	 era	 um	 seminário	 para	 formar
pastores	 (a	 schola	 publica).2	 A	 primeira	 não	 deveria	 desconsiderar	 o	 impacto
advindo	da	 educação	dos	 jovens	 financiada	pela	 igreja,	 especialmente	 em	dias
quando	 ela	 era,	 no	 geral,	 reservada	 apenas	 aos	 filhos	 dos	 aristocratas	 ou
membros	 das	 sociedades	 católicas.	 Iniciada	 em	15583,	 com	Calvino	 e	Teodoro
Beza	 no	 comando	 da	 faculdade	 de	 Teologia,	 o	 edifício	 da	 Academia	 foi
consagrado	em	5	de	junho	de	1559,	com	a	presença	de	600	pessoas	na	Catedral
de	 São	 Pedro.	 Calvino	 coletou	 dinheiro	 para	 a	 escola,	 e	 muitos	 expatriados
fizeram	 doações	 a	 fim	 de	 colaborar	 com	 sua	 criação.	 A	 escola	 de	 nível
fundamental	e	médio,	dividida	em	sete	séries,	tinha	280	alunos	matriculados	em
seu	 primeiro	 ano,	 e	 o	 seminário	 da	 Academia	 aumentou	 para	 162	 alunos	 em
apenas	três	anos.	Na	época	da	morte	de	Calvino,	em	1564,	havia	1200	alunos	na
escola	 e	 300	 no	 seminário.	 Ambas	 as	 escolas,	 conforme	 observaram	 os
historiadores,	 não	 cobravam	 mensalidades	 e	 “foram	 precursoras	 da	 moderna
educação	pública”.4	Poucas	instituições	na	Europa	já	viram	um	crescimento	tão
rápido.
Para	acomodar	a	grande	quantidade	de	estudantes,	a	Academia	(naquilo	que
se	 tornaria	 característico	da	visão	 calvinista,	 a	 saber,	 que	 a	 fé	deve	 influenciar
todas	 as	 áreas	 da	 vida)	 planejou	 acrescentar	 departamentos	 de	 Direito	 e
Medicina.	Beza	pediu	oração	em	favor	do	novo	departamento	de	Medicina	logo
no	início	de	1567,	quando	a	escola	de	Direito	já	havia	sido	estabelecida.	Após	o
massacre	 ocorrido	 no	 Dia	 de	 São	 Bartolomeu	 (1572),	 Francis	 Hotman	 –	 e
diversos	outros	importantes	acadêmicos	constitucionais	–	passaram	a	lecionar	na
escola	 de	 Direito	 de	 Genebra.	 A	 presença	 de	 dois	 gigantes	 da	 área	 jurídica,
Hotman	(de	1573-1578)	e	Denis	Godefroy,	deu	à	Academia	de	Calvino	uma	das
primeiras	 faculdades	 de	 Direito	 da	 Suíça.	 A	 escola	 de	 Medicina,	 idealizada
depois	 da	 morte	 do	 reformador,	 só	 foi	 estabelecida	 com	 êxito	 em	 1700.5	 A
Academia	 de	 Calvino	 se	 tornou	 símbolo	 da	 educação	 em	 todas	 as	 principais
áreas.
Historicamente,	a	educação,	tanto	quanto	qualquer	outro	fator	singular,	tem
promovido	o	avanço	cultural	e	político.	Uma	das	contribuições	mais	duradouras
para	a	sociedade	–	contribuição	que	também	assegurou	a	longevidade	de	muitas
das	reformas	calvinistas	–	foi	o	estabelecimento	da	Academia	em	Genebra.	Por
meio	 dela,	 o	 reformador	 também	obteve	 êxito	 onde	 outros	 haviam	 fracassado.
Digno	 de	 nota,	 nenhum	 dentre	 os	 outros	 principais	 reformadores	 protestantes
recebe	 créditos	 pela	 fundação	 de	 uma	 universidade	 que	 durou	 por	 séculos.	 A
universidade	chegou	a	se	 tornar	propriedade	procurada	por	alguns	admiradores
surpreendentes,	dentre	eles,	Thomas	Jefferson.6
A	filantropia	que	se	estende	a	muitas	famílias	e	gerações	raramente	ocorre,
a	não	ser	que	os	seguintes	fatores	estejam	presentes:
	
Visão	e	um	horizonte	a	longo	prazo.
Disciplina	pessoal	para	economizar,	preservar	 e	utilizar	 com	sabedoria	os	 recursos	proporcionados
por	Deus.
Forte	senso	de	responsabilidade	para	utilizar	a	riqueza	a	fim	de	cuidar	daqueles	ao	nosso	redor.
Repúdio	à	ideia	de	que	o	Estado	é	responsável	pelos	grandes	projetos	da	vida.
Disposição	para	sacrificar-se	e	dar	início	a	determinadas	instituições.
Desejo	de	inculcar	virtude	e	valor	com	base	em	crenças.
Visão	de	investimento	consistente	com	os	fatores	apresentados	acima.
Será	 extremamente	 difícil	 identificar	 qualquer	 visão	 de	 mundo,	 teoria
econômica	ou	sistema	 religioso	que	seja	mais	 incentivador	ou	consistente	com
tais	condições	de	filantropia	do	que	o	protestantismo	de	Calvino.
O	 reformador	 também	 era	 veemente	 ao	 afirmar	 que	 a	 dívida	 excessiva
poderia	 anular	 oportunidades	 de	 obra	 de	 caridade;	 portanto,	 ele	 alertava	 a
respeito	 do	 excesso	 de	 dívidas.	 Ele	 conhecia	 as	 múltiplas	 aplicações	 do
ensinamento	de	Paulo	descritas	em	Romanos	13.8:	“A	ninguém	fiqueis	devendo
coisa	alguma,	exceto	o	amor	com	que	vos	ameis	uns	aos	outros”.
Ademais,	o	espírito	 filantrópico	de	Calvino	–	que	caracteriza	o	melhor	da
ética	comercial	–	é	notado	em	seu	cuidado	para	com	os	pobres	em	Genebra.
A	filantropia	de	Calvino	e	o	cuidado	com	os	pobres
Para	dar	início	à	consideração	deste	aspecto	de	seu	trabalho,	seria	bom	nos
lembrarmos	 da	 maneira	 como	 Calvino	 alcançava,	 de	 modo	 compassivo,	 os
milhares	de	refugiados	desabrigados	quando	chegavam	a	Genebra	em	busca	de
um	 lugar	 para	 aliviar	 a	 consciência	 fatigada.	 Essa	 migração	 em	 massa
praticamente	esgotou	os	recursos	de	Genebra.	Com	a	população	quase	duplicada
por	conta	desse	movimento,	a	igreja	genebresa	teve	de	planejar	meios	de	suprir
as	 reais	 necessidades	 ao	 seu	 redor.	 Um	 dos	 primeiros	 passos	 foi	 analisar	 o
problema	e	identificar	aqueles	que	eram	verdadeiramente	necessitados.
Segundo,	uma	visão	mais	clara	do	coração	de	Calvino	pode	ser	percebida	a
partir	 do	 desenvolvimento	 de	 formas	 para	 utilizar	 funcionários	 de	 uma
instituição	privada	(por	exemplo,	uma	organização	não	governamental,	ONG)	no
cuidado	de	muitos.	Calvino	achava	que	a	compaixão	da	igreja	poderia	ser	mais
bem	expressa	por	meio	de	 seus	diáconos.	Devido	Deus	 ter	ordenado	 tal	ofício
para	 o	 cuidado	 dos	 pobres,	 o	 desafio	 de	 Calvino	 era	 chegar	 a	 procedimentos
práticos	que	utilizassem	o	mecanismo	já	fornecido	por	Deus	a	fim	de	maximizar
os	esforços	desses	ministros	da	misericórdia.
Vale	lembrar	que,	séculos	atrás,	Calvino	foi	o	primeiro	a	iniciar	princípios	e
práticas	 muito	 avançados	 para	 a	 sua	 época.	 Na	 realidade,	 se	 a	 maioria	 das
organizações	 governamentais	 implementasse	 alguma	 versão	 de	 tais	 princípios,
muitas	pessoas	poderiam	estar	em	melhores	condições.
O	 proficiente	 volume	 histórico	 de	 Jeannine	 Olson,	 Calvin	 and	 Social
Welfare:	Deacons	andthe	Bourse	Française,	apresenta	um	estudo	do	impacto	de
Calvino	sobre	a	cultura	da	Reforma,	focando,	em	particular,	o	efeito	permanente
do	 pensamento	 de	Calvino	 sobre	 a	 instituição	 do	 diaconato.	 Em	 sua	 obra,	 ela
observa	 que,	 ao	 contrário	 de	 certas	 caricaturas	 modernas,	 os	 reformadores
trabalharam	diligentemente	para	abrigar	os	refugiados	e	ministrar	aos	pobres.	O
Fundo	 francês	 (a	 tesouraria	 dos	 diáconos	 da	 igreja)	 se	 tornou	 o	 pilar	 da
assistência	social	em	Genebra;7	na	realidade,	essa	foi	outra	das	contribuições	de
Calvino	 à	 civilização	 ocidental.	 Esse	 ministério	 diaconal	 pode	 ter	 tido	 tanta
influência	na	Europa	da	época	de	Calvino	quanto	sua	teologia.
O	 programa	 de	 assistência	 social	 de	 Calvino	 em	 Genebra	 foi	 traçado	 de
modo	a	se	adequar	às	ênfases	teológicas	dos	reformadores,	proporcionando	uma
ilustração	 prévia	 de	 que	 a	 prática	 de	 tal	 assistência	 era	 (e	 é)	 erigida	 sobre
princípios	 definidos,	 os	 quais	 eram	 religiosos	 ou	 ideológicos	 em	 essência.
Ademais,	 a	 teologia	da	Reforma	 foi	 a	 força	direcional	dessa	assistência,	 assim
como	 a	 teologia	 do	 Catolicismo	 romano	 medieval	 havia	 sido	 o	 princípio
direcional	para	a	doação	de	esmolas.	Princípios	decisivos	moldaram	a	prática	da
assistência	social	450	anos	atrás	como	moldam,	o	que	significa	que,	em	nenhum
momento,	tal	assistência	é,	de	fato,	separada	dos	valores	fundamentais.
As	 atividades	 do	 Fundo	 francês	 eram	 inúmeras.	 Os	 diáconos	 que	 o
administravam	estavam	envolvidos	no	alojamento	de	órfãos,	 idosos	ou	aqueles
que	 de	 alguma	 forma	 estavam	 debilitados.	 Eles	 cuidavam	 dos	 enfermos,
tratavam	dos	órfãos	e	daqueles	envolvidos	em	atitudes	imorais.	Essa	instituição
eclesiástica	 foi	precursora	das	associações	voluntárias	nos	séculos	19	e	20.	No
entanto,	sua	inspiração	foi	parte	da	genialidade	de	Calvino.
O	Fundo	francês	foi	instituído	sob	a	liderança	de	João	Calvino	em	torno	de
1536	 e	 1541	 (obviamente,	 não	 durante	 seu	 exílio	 em	 Estrasburgo).	 Seu	 plano
inicial	 era	 amenizar	 o	 sofrimento	 dos	 moradores	 franceses	 que	 chegavam	 a
Genebra	 fugidos	 da	 perseguição	 sectária	 na	 França.	 Estima-se	 que	 em	 apenas
uma	 década	 (1550-1560)	 cerca	 de	 60.000	 refugiados	 passaram	 por	 Genebra,
número	grande	o	bastante	para	gerar	um	estresse	social.
Nas	 Ordenanças	 eclesiásticas,	 propostas	 pela	 primeira	 vez	 em	 1541,
Calvino	 havia	 redigido	 uma	 declaração	 dirigida	 ao	 diaconato,	 identificando-o
como	 um	 dos	 quatro	 ofícios	 básicos	 da	 igreja.	 Essa	 ordem	 eclesiástica	 da
Reforma	estipulava	que	devia	haver	dois	tipos	de	diáconos.	“Sempre	houve	duas
categorias	na	igreja	primitiva”,	escreveu	Calvino,	“uma	responsável	por	receber,
distribuir	e	guardar	as	mercadorias	destinadas	aos	pobres,	não	apenas	as	doações
diárias,	mas	também	as	posses,	rendas	e	pensões;	e	a	outra	para	atender	e	cuidar
dos	 enfermos	 e	 administrar	 os	 subsídios	 para	 os	 pobres”.8	 Além	 disso,	 a
declaração	 de	 1541	 atribuía	 aos	 diáconos	 da	 igreja	 a	 responsabilidade	 de
certificar-se	de	que	o	hospital	“está	em	boas	condições	 tanto	para	os	enfermos
quanto	 para	 os	 idosos	 impossibilitados	 de	 trabalhar,	 viúvas,	 crianças	 órfãs	 e
outras	criaturas	pobres.	Os	enfermos	devem	sempre	ser	alojados	em	uma	ala	de
quartos	 separada	 daquela	 de	 outras	 pessoas	 impossibilitadas	 de	 trabalhar.
Ademais,	além	do	hospital	para	aqueles	de	passagem,	que	deve	ser	mantido,	é
preciso	dar	atenção	a	qualquer	um	considerado	merecedor	de	caridade	especial”.9
Na	 conclusão	 desta	 seção,	 Calvino	 observou	 que	 não	 há	 problema	 em
“desencorajar	 a	mendicância	 [pedir	 esmolas	 sem	 trabalhar],	 atitude	 contrária	 à
boa	ordem,	e	fomos	ordenados	a	fazê-lo,	e	que	deve	haver	um	de	nossos	oficiais
à	entrada	das	igrejas	para	retirar	do	local	aqueles	que	vadiam;	e,	se	algum	deles
ofender	ou	for	insolente,	deve	ser	levado	a	um	dos	representantes	do	Senhor”.10
Pedir	esmola	sem	um	trabalho	honesto	era	uma	afronta	aos	princípios	da	ética	de
trabalho	protestante	bíblica.	Tal	atitude	era	considerada	pecaminosa	e	indolente
por	 Calvino	 e	 outros.	 Empregando	 uma	 administração	 sofisticada	 e	 uma
discriminação	das	principais	causas	das	necessidades	físicas,	esse	modelo	ainda
pode	 nos	 trazer	 informações	 quanto	 às	 nossas	 práticas	 hoje.	 Nas	Ordenanças
Eclesiásticas	de	Genebra	de	1541,	Calvino	recomendou	um	importante	papel	aos
diáconos	da	igreja,	que	cuidavam	de	uma	grande	variedade	de	necessidades,	não
muito	diferentes	das	necessidades	de	assistência	social	governamental	presentes
em	nossa	própria	sociedade.
Calvino	estava	tão	interessado	em	ver	o	diaconato	florescer	que	deixou	uma
herança	não	só	para	a	sua	família	em	seu	testamento,	mas	também	para	a	escola
de	meninos	e	pobres	desconhecidos.11	Com	um	salário	nada	exorbitante,	Calvino
demonstrou	sua	frugalidade	pessoal	e	seu	comprometimento	com	a	caridade	por
meio	de	seu	legado.
Depois	de	duas	décadas,	as	Ordenanças	Eclesiásticas	foram	revisadas,	em
1561.	Uma	tradução	recente	das	Ordenanças	Eclesiásticas	de	1561	apresenta	a
sofisticação	e	refinamento	do	diaconato	antes	mesmo	da	morte	de	Calvino.12	As
solicitações	da	revisão	de	1561	indicam	nitidamente	que	o	ministério	aos	pobres
era	 significativo	 e	 bem	ordenado	 na	 época	 de	Calvino.	Não	 era	 nem	de	 baixa
prioridade	 nem	 desleixado	 em	 sua	 organização.	Na	 verdade,	 a	 premeditação	 e
quantidade	 de	 detalhes	 de	 tal	 filantropia	 eram	 praticamente	 incomparáveis	 na
época.
Os	diáconos	 incentivavam	de	maneira	 ativa	 a	 ética	de	 trabalho	produtiva.
Eles	 proporcionavam	 subsídios	 temporários	 e	 treinamento	 de	 trabalho,	 quando
necessário;	 na	 ocasião,	 chegaram	 a	 fornecer	 ferramentas	 ou	 suprimentos
necessários,	 dessa	 forma,	 uma	 pessoa	 saudável	 fisicamente	 poderia	 se	 engajar
em	 uma	 vocação	 honesta.	 Eles	 eram	 seletivos	 ao	 determinar	 a	 diferença	 entre
aqueles	 que	 eram	 verdadeiramente	 necessitados	 e	 aqueles	 que	 eram	 apenas
ociosos.	 Se	 necessário,	 suspendiam	 o	 subsídio.	 Com	 o	 passar	 do	 tempo,
desenvolveram	procedimentos	para	proteger	os	recursos	da	igreja	contra	o	furto,
chegando	a	solicitar	que	os	novos	visitantes	declarassem	seus	ofícios	e	listassem
testemunhas	 abonatórias	 a	 fim	 de	 atestarem	 sua	 honestidade.13	 Dentro	 de	 uma
geração	 desse	 trabalho	 de	 assistência	 social,	 o	 diaconato	 de	 Genebra	 viu	 a
necessidade	de	comunicar	aos	receptores	que	seu	objetivo	era	que	eles	voltassem
ao	trabalho	o	quanto	antes.
Na	Genebra	do	século	16	havia	casos	de	abandono,	e	o	Fundo	francês	quase
sempre	 era	 requisitado	 para	 o	 sustento	 de	 crianças.	 Ademais,	 os	 diáconos
socorriam	 os	 enfermos	 em	 estado	 terminal,	 os	 quais	 também	 deixavam	 seus
filhos	para	serem	sustentados.	Doações	especiais	eram	dadas	às	crianças	em	real
necessidade.	 O	 Fundo	 também	 incluía	 um	 ministério	 para	 viúvas	 que	 quase
sempre	 tinham	 crianças	 dependentes	 e	 uma	 série	 de	 necessidades.	 A	 igreja	 e
outras	 instituições	 privadas	 na	 Genebra	 de	 Calvino	 não	 dependiam	 de
organizações	governamentais	para	realizar	a	obra	para	a	qual	estavam	munidos.
Deve	ser	observado	ainda	que,	embora	o	Fundo	francês	se	assemelhasse	a
muitos	 outros	 fundos	 de	 assistência	 social	 contemporâneos	 do	 século	 16,	 ele
possuía	 suas	 peculiaridades.	 Estas,	 naturalmente,	 eram	 teológicas	 e	 levaram	 a
alguns	 comprometimentos	 práticos.	 Por	 exemplo,	 não	 havia	 distribuição	 de
alimento	 garantida.	 Além	 do	 mais,	 existiam	 certos	 pré-requisitos	 para	 o
recebimento	 da	 assistência,	 incluindo	 a	 possibilidade	 de	 determinadas
inadequações	 morais	 anularem	 a	 oportunidade	 de	 a	 pessoa	 ser	 assistida	 pelo
Fundo.
O	Fundo	francês	não	tratava	apenas	de	necessidades	espirituais	ou	internas.
Em	muitas	 ocasiões,	 a	 diaconia	 genebresa	 contratou	 médicos	 para	 cuidar	 dos
enfermos.	 Registros	 indicam	 que	 os	 diáconos	 supervisionavam	 o	 atendimento
médico	 aos	 necessitados–	 evidência	 clara	 de	 que	 o	 escopo	 do	 ministério
diaconal	não	era	 limitado	à	 evangelização.	Aqueles	que	comandavam	o	Fundo
também	 eram	 prudentes.	 Em	 janeiro	 de	 1581,	 o	 Fundo	 adotou	 uma	 série	 de
regras	 constitucionais,	 ressaltando	 a	 necessidade	 de	 se	 ter	 uma	 abordagem
disciplinar	 vital	 e	 bem	 ponderada	 para	 a	 importante	 tarefa	 de	 amenizar	 a
pobreza.14	Calvino	e	os	fundadores	do	diaconato	genebrês	também	eram	realistas
que	consultaram	o	passado	e	levaram	em	consideração	a	afirmação	de	Jesus	em
Marcos	14.7:	“Os	pobres,	 sempre	os	 tendes	convosco”.	Eles	viveram	no	 início
do	movimento	da	Reforma,	aprendendo	a	partir	daquilo	que	viera	antes	deles.
Modernos	 defensores	 da	 filantropia	 e	 da	 caridade	 preferem	 explorar	 o
passado	a	fim	de	ver	o	que	ele	pode	lhes	ensinar	a	olhar	exclusivamente	para	o
futuro.	 Na	 realidade,	 se	 nos	 pegarmos	 defendendo	 práticas	 notoriamente
diferentes	daquelas	do	Fundo	de	Calvino	há	cinco	séculos,	devemos	parar	e	nos
perguntar	o	motivo.	Talvez	nossos	métodos	recentes	devessem	ser	considerados
suspeitos	precisamente	à	medida	que	 se	afastam	de	boas	práticas	anteriores	na
área	da	assistência	social	pública.
Em	 resumo,	 podemos	 identificar	 os	 seguintes	 princípios	 da	 reforma
assistencial	de	Calvino:
	
1.	 Era	somente	para	os	verdadeiramente	desamparados.15
2.	 Pré-requisitos	morais	acompanhavam	a	assistência.
3.	 Caridade	privada	ou	religiosa,	não	benefícios	estatais,	era	o	veículo	para	auxílio.
4.	 Oficiais	ordenados	administravam	os	programas	de	assistência	social	e	apresentavam	a	prestação	de
contas.
5.	 Fundamentos	teológicos	eram	normais.
6.	 Esperava-se	uma	ética	de	trabalho	produtiva.
7.	 A	assistência	era	temporária.
8.	 A	história	era	valiosa.
Ilustrando	a	filantropia	de	Calvino,	um	de	seus	companheiros	reformadores,
Martin	Brucer,	 ousou	 dizer	 o	 seguinte	 a	 respeito	 do	 diaconato:	 “Sem	 ele,	 não
pode	 existir	 verdadeira	 comunhão	 dos	 santos”.16	 Bucer	 também	 fez	 esta
observação:	“O	primeiro	dever	dos	diáconos	é	fazer	a	distinção	entre	os	pobres
merecedores	 e	 não	 merecedores,	 perguntando,	 pois,	 aos	 primeiros	 quais	 são
exatamente	as	suas	necessidades;	e	aos	últimos,	se	levam	uma	vida	desordenada
à	custa	de	outras	pessoas	e	expulsá-los	da	comunidade	de	fé.	Depois,	a	atenção
deve	ser	voltada	às	viúvas	necessitadas”.17
Faz-se	 necessário,	 tanto	 para	 a	 confirmação	 da	 afinidade	 entre	 os
reformadores	quanto	da	semelhança	de	pensamento	transmitida	por	Calvino	aos
seus	 discípulos,	 apenas	 observar	 as	 comunidades	 onde	 as	 sementes	 do
Calvinismo	 brotaram	 para	 ver	 como	 tal	 movimento	 de	 filantropia	 se
desenvolveu.	Nas	Ilhas	britânicas,	o	ato	de	caridade	era	enfatizado	como	um	dos
meios	 de	 amenizar	 a	 pobreza.	 John	Knox,	 o	 qual	 passou	muitos	 anos	 cruciais
estudando	o	modelo	genebrês	de	Calvino,	deu	prosseguimento	a	essa	tradição	da
Reforma	 de	 ministério	 aos	 pobres	 na	 Escócia.	 No	 Second	 Book	 of	 Discipline
(1578),	ele	instituiu	o	ofício	de	diácono	como	função	permanente	da	igreja.
Dessa	maneira,	 a	 tradição	 calvinista	 foi	 estabelecida	 e	 era	 absolutamente
uniforme	 quanto	 à	 sua	 institucionalização	 do	 cuidado	 com	 os	 pobres.	 Tal
cuidado	era	uma	função	eclesiástica	a	ser	desempenhada	por	oficiais	espirituais
de	acordo	com	os	padrões	e	princípios	bíblicos.	Administrado	de	modo	eficiente
em	 Genebra	 e	 em	 outros	 lugares,	 o	 ministério	 diaconal	 atendia	 os	 pobres,
empregava	 as	 doações	 da	 igreja,	 incentivava	 e	 ética	 de	 trabalho	 produtiva	 e
reduzia	 a	 administração	 governamental	 nessa	 área.	 Como	 resume	 Geoffrey
Bromiley:	“A	resposta	à	pobreza	ainda	se	encontrava	na	benevolência	exercida
de	forma	particular	ou	por	intermédio	da	igreja”.18
A	partir	 desse	panorama,	podemos	perceber	que	diversas	organizações	de
assistência	social	começaram	a	se	desenvolver	pela	Europa	depois	da	Reforma
protestante.	De	fato,	o	diaconato	calvinista	foi	um	exemplo	em	sua	manifestação
da	 reforma	 consistente	 de	 fé	 e	 vida.	 Assim,	 tais	 protótipos	 da	 Reforma	 se
disseminaram	 e	 se	 tornaram	 catalisadores	 da	 reforma	 na	 assistência	 social	 do
século	16.	Na	 realidade,	a	Reforma	“deixou	selada	na	cristandade	sua	 ideia	de
uma	 assistência	 coordenada	 e	 administrada	 aos	 pobres	 e	 necessitados	 como
incumbência	 da	 igreja	 e	 responsabilidade	 da	 comunidade	 cristã”.19	 Trata-se	 de
uma	incumbência	econômica	e	comercial,	pois	a	pobreza	afeta	toda	a	sociedade.
Calvino	 foi	 atípico	 no	 avanço	 dessa	 rede	 de	 segurança	 pessoal	 particular.
Sua	 filantropia	 apresenta	 outro	 exemplo	 de	 como	 seu	 coração	 se	 compadecia
pelos	verdadeiramente	necessitados.
As	corretas	definições	de	obra	de	caridade	e	pobreza
Com	 a	 discussão	 anterior	 sobre	 a	 prática	 de	 Calvino	 em	 mente,	 uma
discussão	informada	a	respeito	da	caridade	pode	ser	continuada	por	meio	de	uma
definição	 mais	 precisa	 daquilo	 que	 se	 qualifica	 como	 pobreza.	 Na	 sociedade
contemporânea,	a	pergunta	“quem	são	os	pobres?”	se	tornou	o	ponto	central	de
discórdia	 tanto	 para	 as	 organizações	 assistenciais	 como	 para	 organizações
comerciais	 que	 desejam	 contribuir	 para	 a	 redução	 da	 pobreza.	 Muito	 do	 que
passa	 por	 “caridade”	 nos	 Estados	 Unidos	 hoje	 é,	 de	 fato,	 uma	 tentativa	 de
legitimar	a	distribuição	da	riqueza.	Tal	tentativa	é	feita	da	maneira	mais	apelativa
possível	junto	aos	cidadãos,	formulando	o	problema	de	tal	modo	que	leve	em	si
o	 extremo	 apelo	 emocional	 para	 aqueles	 que	 perderão	 renda.	 Além	 disso,	 a
pobreza	não	é	tão	difundida	no	país	como	a	mídia	pode	representar.	O	padrão	de
vida	nacional	 cresceu	de	maneira	drástica	no	decorrer	do	último	 século	–	para
cada	grupo	econômico.	A	lacuna	entre	o	que	é	considerado	empobrecimento	nos
Estados	 Unidos	 e	 o	 que	 é	 considerado	 empobrecimento	 nos	 outros	 países
aumenta	dramaticamente	desde	1900.
O	 estudo	 da	Heritage	 Foundation	 –	 “Understanding	 Poverty	 in	America”
relata	 os	 seguintes	 fatos	 a	 respeito	 dos	 “pobres”	 conforme	 definidos	 pelo
Departamento	de	Censo	dos	Estados	Unidos.	Ele	fornece	uma	boa	oportunidade
para	levar	em	consideração	a	subjetividade	da	definição	de	pobreza,	visto	que:
	
46%	dos	“pobres”	possui	casa	própria.
76%	possui	ar	condicionado.
Apenas	6%	de	casas	“pobres”	são	superlotadas.
A	média	dos	estadunidenses	“pobres”	desfruta	de	mais	espaço	para	viver	por	metro	quadrado	do	que
as	pessoas	que	moram	em	Paris,	Londres,	Viena	ou	Atenas.
97%	dos	“pobres”	possuem	televisão	em	cores,	e	62%	possuem	recepção	por	cabo	ou	satélite.
89%	dos	“pobres”	relatam	que	suas	famílias	têm	o	suficiente	para	se	alimentar,	enquanto	apenas	2%
dizem	que	“frequentemente”	não	têm	o	suficiente	para	comer.20
Compare	a	visão	dos	pobres	conforme	apresentado	na	Bíblia	–	homens	sem
casas,	corpo	repleto	de	feridas,	famintos,	tendo	apenas	uma	túnica	para	vestir	–
às	condições	de	muitos	dos	pobres	dos	Estados	Unidos	e	a	distorção	social	da
definição	 de	 pobreza	 se	 torna	 evidente.	 Ser	 pobre	 nos	 EUA	 quase	 sempre
implica	 em	 “ter	 menos	 do	 que	 próximo”,	 em	 vez	 de	 “falta	 de	 recursos
necessários	para	a	vida”.
Por	 exemplo,	 pense	 em	 um	 homem	 que	 possui	 uma	 casa	 com	 cinco
dormitórios,	 dirige	 uma	grande	SUV	e	 usa	 um	 relógio	 caro.	 Se	 o	 vizinho	 tem
uma	casa	com	apenas	dois	dormitórios,	dirige	um	carro	usado	e	não	pode	gastar
com	um	relógio,	 isso	o	 torna	pobre?	Embora	possa	existir	uma	vasta	diferença
entre	a	quantidade	de	bens	que	dois	homens	possuem,	não	há	contexto	histórico
para	 rotular	 o	 vizinho	 como	 pobre.	 Suas	 necessidades	 –	 alimento,	 moradia	 e
vestimenta	 –	 estão	 supridas,	 assim	 como	 outros	 luxos,	 tais	 como	 transporte
particular	e	eletricidade.	Além	do	mais,	seu	padrão	de	vida	pode	ser	mantido	por
meio	 da	 oportunidade	 de	 emprego.	 Embora	 sua	 condição	 socioeconômica,
talvez,	seja	inferior	à	de	seu	vizinho,	ele	tem	um	padrão	de	vida	muito	superior
ao	das	pessoas	realmente	pobres	de	outras	naçõesao	redor	do	mundo.
Se	um	economista	aceita	o	 fato	de	que	a	condição	econômica	 inferior	e	a
superior	 sempre	 estarão	 presentes	 entre	 nós	 e	 a	 erradicação	 da	 pobreza	 é
impraticável,	 a	 pergunta	 relacionada	 à	 importância	 da	 caridade	 é	 realmente
complicada	até	certo	ponto.	É	fácil	aceitar	a	caridade	e	a	doação	inquestionável
aos	 pobres	 quando	 parece	 que	 ela	 fará	 diferença	 ou	 quando	 é	 dada	 por	 uma
instituição	 subsidiada	 pelo	 Estado.	 Todavia,	 é	muito	mais	 difícil	 determinar	 o
que	pode	ser	feito	a	nível	individual	e	pessoal	para	colaborar	com	a	redução	da
pobreza.	 Nesse	 âmbito,	 alguém	 pode	 fazer	 perguntas	 como:	 Qual	 é	 a
responsabilidade	 do	 indivíduo	 dentro	 do	 sistema	 econômico	 com	 os	 pobres,	 e
como	a	obra	de	caridade	pode	ser	mais	bem	expressa	e	mais	eficiente	em	relação
tanto	 aos	 mandamentos	 bíblicos	 quanto	 à	 utilidade	 econômica?	 Ademais,	 a
responsabilidade	econômica	nos	chama	a	ir	em	busca	de	caminhos	eficazes	para
prover	 benefícios	 e	 crescimento	 para	 os	 pobres.	 Tanto	 as	 exigências	 bíblicas
como	 as	 econômicas	 são	 atendidas	 quando	 os	 pobres	 são	 assistidos	 em	 um
contexto	pessoal	e	não	institucionalizado	que	requer	maior	responsabilidade	na
prestação	de	contas	e	permite	o	progresso	por	meio	do	crescimento	 individual.
Nesse	espírito,	Calvino,	por	certo,	foi	sábio	ao	ir	ao	encalço	da	amenização	da
pobreza.
Além	disso,	enquanto	enaltecemos	a	abordagem	de	Calvino,	também	é	útil
e	 necessário	 um	 breve	 contraste	 entre	 os	 modelos	 teóricos	 e	 as	 aplicações
práticas	 de	 outros	 sistemas	 econômicos	 a	 respeito	 da	 pobreza.	 Em	 primeiro
lugar,	há	o	randismo,*	que	vê	o	altruísmo	como	algo	ruim	e	não	encontra	espaço
para	 a	 caridade	 em	 uma	 sociedade	 saudável.	 Sob	 pressuposições	 dessa
perspectiva,	os	defensores	da	economia	laissez-faire	de	livre	mercado	diriam	que
a	 sociedade	 beneficia	mais	 os	 pobres	 ao	 incentivá-los	 a	melhorar	 por	 esforço
próprio	 do	 que	 fornecendo	 donativos.	De	 acordo	 com	 essa	 visão,	 não	 existe	 a
base	moral	necessária	para	a	caridade,	e	os	pobres	 são	entregues	a	 si	mesmos.
Depois,	existe	o	Capitalismo	sólido,	que	frequentemente	é	associado	ao	ponto	de
vista	de	Adam	Smith.	Nesse	sistema,	o	grau	de	pobreza	deve	ser	reduzido	e	os
pobres	 devem	 ser	 protegidos.	 O	 Capitalismo	 sólido	 protege	 os	 pobres
defendendo	 seus	 direitos	 legais	 e	 proporcionando-lhes	 boa	 infraestrutura,	 mas
não	 necessariamente	 mediante	 transferências	 monetárias.	 O	 capitalista	 é	 livre
para	 fazer	 doação	 a	 quem	 ele	 julgar	 merecedor	 e	 da	 maneira	 que	 considerar
adequada.	Tal	doação	independente	é	incentivada	dentro	da	sociedade.
Em	uma	sociedade	com	Capitalismo	flexível	(como	os	Estados	Unidos	de
hoje)	 a	 obra	 de	 caridade	 é	 institucionalizada	 e	 o	 governo	 tem	grande	 parte	 da
responsabilidade	 de	 administrá-la.	 Os	 negócios	 devem	 contribuir	 para	 essa
amenização	centralizada	por	meio	do	pagamento	de	impostos.	O	governo,	então,
atua	como	o	principal	agente	na	 redistribuição	da	 riqueza	e	 luta	para	 reduzir	a
pobreza	e	a	necessidade	por	meio	da	alocação	de	receitas	fiscais.
Em	um	sistema	socialista	flexível	(como	o	da	Suécia	e	França),	a	sociedade
decidiu	que,	no	âmbito	político,	cultural	e	até	legal	é	essencial	que	se	tenha	uma
equalização	 da	 riqueza	 e	 redução	 das	 inadequações,	 mesmo	 à	 custa	 do
crescimento	 econômico	 conforme	 definido	 pelo	 produto	 interno	 bruto	 (PIB).
Aqui,	 o	 governo	 é	 ainda	 mais	 forte.	 Ele	 está	 engajado	 de	 maneira	 ativa	 na
redistribuição	 da	 renda,	 e	 suas	 decisões	 quanto	 à	 alocação	 quase	 sempre	 são
tomadas	em	detrimento	do	crescimento.
Em	um	sistema	socialista	sólido	(marxista),	não	existem	classes	sociais.	Na
teoria,	 todos	 estão	 no	 mesmo	 patamar	 e	 trabalham	 para	 o	 Estado.	 Não	 há
necessidade	de	obra	de	caridade	porque	não	existe	pobreza.	Todos	são	ricos	ou
pobres	ao	mesmo	tempo.
Falando	 na	 prática,	 existem	 múltiplas	 distorções	 dentro	 de	 cada	 sistema
econômico.	 Para	 a	 continuação	 dessa	 discussão,	 a	 ênfase	 será	 sobre	 o
Capitalismo	 flexível,	o	qual	prevalece	atualmente	nos	Estados	Unidos.	Há	 três
distorções	 evidentes	 (e	 preponderantes)	 dentro	 desse	 sistema	 em	 respeito	 ao
tratamento	aos	pobres.	A	primeira	é	o	fato	de	a	caridade	ser	oferecida	de	modo
gratuito,	 o	 que	 desencoraja	 o	 crescimento	 das	 pessoas	 menos	 abastadas.	 A
segunda	é	a	alocação	inadequada	do	dinheiro	dos	indivíduos	para	a	burocracia.
Quando	 isso	 ocorre,	 a	 burocracia	 tende	 a	 perder	 o	mercado-alvo.	 Portanto,	 os
pobres	 não	 são	 tratados	 com	 eficiência	 e	 as	 doações	 não	 servem	 como	 um
catalisador	 para	 o	 seu	 retorno	 a	 uma	 condição	 socioeconômica	 estável.	 Além
disso,	tal	sistema	está	sujeito	à	corrupção.	Um	exemplo	de	larga	escala	das	falhas
relacionadas	à	alocação	 inadequada	do	dinheiro	é	a	doação	do	Banco	Mundial
para	os	países	de	terceiro	mundo.	Embora	bastante	generoso,	o	dinheiro	dado	de
forma	gratuita	raramente	ameniza	a	pobreza.21	E,	por	último,	existem	incentivos	e
motivações	errados	sendo	impostos	pelo	governo.	Esse	é	resultado	da	permissão
dada	pelos	cidadãos	ao	governo	para	institucionalizar	a	doação	de	caridade	e	o
auxílio	 à	 pobreza,	 que	 deveria	 ser	 uma	 área	 de	 responsabilidade	 pessoal	 dos
indivíduos.
As	 Escrituras	 afirmam	 claramente	 que	 tanto	 os	 pobres	 quanto	 os	 ricos
estarão	sempre	presentes.	O	reconhecimento	desse	fato	estabelece	limites	rígidos
aos	 programas	 de	 redução	 da	 pobreza	 e	 torna	 a	 erradicação	 total	 inviável.	Os
calvinistas	são	receosos	de	 teorias	utópicas,	 logo,	 tendem	a	preferir	a	realidade
distópica,	 mesmo	 se	 tal	 realidade	 incluir	 a	 pobreza.	 Claro,	 a	 tentativa	 de
erradicá-la	 não	 deve	 ser	 criticada	 quando	 realizada	 por	 grupos	 e	 pessoas
independentes.	No	entanto,	a	tentativa	holística	e	institucionalizada	de	fazê-lo	e
o	paradigma	 teórico	que	 identifica	 a	 erradicação	da	pobreza	 como	um	de	 seus
principais	objetivos	devem	ser	cuidadosamente	analisados.	Na	verdade,	em	vista
do	 princípio	 bíblico	 de	 que	 tanto	 a	 riqueza	 quanto	 a	 pobreza	 estarão	 sempre
presentes,	 tal	 empenho	 sistêmico	 para	 a	 erradicação	 total	 do	 empobrecimento
está,	com	certeza,	fadado	à	frustração	e,	por	fim,	ao	fracasso	na	concretização	de
seu	objetivo.
Ademais,	a	pobreza	associada	ao	desemprego	(quase	sempre	a	causa	mais
comum	 de	 tal	 condição)	 pode	 ser	 analisada	 a	 fim	 de	 indicar	 uma	 realidade
econômica	 (além	 do	 parâmetro	 bíblico	 discutido	 anteriormente).	Ao	 discutir	 a
pobreza	 em	 termos	 de	 ciência	 econômica,	 muitos	 teóricos	 afirmam	 que	 os
maiores	 meios	 para	 a	 amenização	 dessa	 condição	 de	 empobrecimento	 são	 os
fortes	direitos	de	propriedade	e	o	emprego.	Portanto,	examinaremos	mais	adiante
o	emprego	como	sendo	um	substituto	da	pobreza	e,	assim,	abordaremos	questões
como:	é	viável	um	sistema	ter	pleno	emprego?**	E	quais	são	as	consequências
disso?
Certo	estudo	traz	a	seguinte	conclusão:
Não	 obstante,	 a	 pesquisa	 aponta,	 de	 modo
extraordinário,	 a	 alta	 mobilidade	 individual	 nas
economias	 de	 mercado,	 em	 especial	 nos	 Estados
Unidos.	 Ou	 seja,	 muitas	 pessoas	 vão	 e	 voltam	 da
pobreza.	 Mais	 de	 três	 quartos	 de	 todo	 o	 período	 da
pobreza	são	inferiores	a	dois	anos	e	apenas	7%	duram
sete	 anos	 ou	 mais	 (se	 períodos	 descontínuos,	 mas
repetidos,	 forem	 levados	 em	 consideração,	 a
porcentagem	 dos	 períodos	 que	 duram	 sete	 anos	 ou
mais	sobe	para	20%,	porém,	o	restante	desses	períodos
tem	curta	 duração.)	O	mesmo	padrão	 se	 faz	 presente
entre	 os	 beneficiários	 da	 assistência	 social,	 em	 que
cerca	de	30%	dos	casos	são	crônicos.	E,	claro,	existe	a
mobilidade	 dentro	 da	 distribuição	 de	 renda.	 No
decorrer	de	uma	década	ou	mais,	86-95%	de	todas	as
pessoas	no	quintil	mais	baixo	da	distribuição	de	renda
nos	 EUA	 passam	 para	 o	 quintil	mais	 alto,	 a	maioria
vindo	a	ser	da	classe	média.22
Embora	Calvino	certamentenão	tenha	quantificado	suas	ideias	dessa	forma,
seus	princípios	convergiam	para	essas	mesmas	verdades.	Sua	teologia	conduzia	a
uma	 amenização	 da	 pobreza	 mais	 satisfatória	 do	 que	 a	 assistência	 social
estatista.
Suposições	incorretas	sobre	a	assistência	social:	Calvino	sabia	mais
Uma	discussão	apropriada	a	 respeito	da	obra	de	caridade	deve	abranger	a
discussão	sobre	a	pobreza.	Ademais,	nenhum	executivo	com	mentalidade	cívica
consegue	 ignorar	 essa	 evidente	 condição	 pelas	 ruas.	 Estima-se	 que
aproximadamente	10-13%	do	orçamento	nacional	atual	dos	Estados	Unidos	seja
mantido	 pelos	 impostos	 incididos	 sobre	 o	 trabalho.	 Em	 2005,	 o	 orçamento
federal,	conforme	apresentado	pelo	Presidente	Bush,	totalizou	US$	2.4	trilhões,
sendo	US$	1.4	trilhão	gasto	na	forma	de	transferências	de	renda	(seguro	social,
assistência	 social	governamental,	 programa	de	 saúde	 social	 [Medicaid],	 seguro
desemprego,	 etc.).	 Essas	 quantias	 são	 alarmantes.	 Além	 de	 indicarem	 que	 a
prosperidade	é	muito	mais	uma	 incumbência	do	 trabalho,	os	números	 sugerem
que	 devemos	 solicitar	 o	 parecer	 de	 bons	 especialistas	 comerciais	 enquanto
buscamos	proporcionar	uma	assistência	efetiva	e	eficiente	aos	necessitados.23
Apesar	de	as	abordagens	sem	cunho	espiritual	relacionadas	à	riqueza	talvez
considerarem	esse	tópico	desnecessário,	Calvino	sabia	muito	mais	não	somente
sobre	 a	 solução	para	 a	pobreza,	mas	 também	sobre	 a	 ligação	macroeconômica
entre	 pobreza	 e	 trabalho.	 O	 reformador	 genebrês	 também	 chamou	 seus
associados	a	serem	prudentemente	caridosos	para	com	aqueles	ao	seu	redor	que
tinham	 reais	 necessidades.	 Em	 seu	 século	 e	 no	 nosso,	 as	 mesmas	 perguntas
foram	e	 devem	 ser	 feitas.	Como	 surge	 a	 pobreza?	Qual	 é	 o	 nível	 de	 pobreza?
Quem	 é	 culpado	 pela	 pobreza?	 E	 qual	 o	 melhor	 caminho	 para	 combater	 a
pobreza?	Estas	são	perguntas	fundamentais	que	cada	abordagem,	incluindo	a	de
Calvino,	 deve	 responder	 antes	 de	 as	 políticas	 serem	 aplicadas.	 Não	 é	 de
surpreender	 que,	 uma	 vez	 esclarecidas	 as	 pressuposições	 fundamentais	 em
relação	aos	pobres	e	à	pobreza,	as	decisões	sobre	a	caridade	–	quanto,	onde,	por
que	e	quem	–	já	estejam	definidas	e	exijam	principalmente	a	execução.
Portanto,	as	perguntas	a	serem	discutidas	são	as	seguintes:
	
Quais	 são	 as	 convicções	 fundamentais	 que	 permeiam	 a	 abordagem	 da	 sociedade	 em	 relação	 à
pobreza?
O	 que	 as	 Escrituras	 dizem	 a	 respeito	 dessas	 convicções?	 Elas	 estão	 de	 acordo	 com	 os	 modelos
econômicos	e	comerciais	derivados	da	Bíblia?
Qual	é	a	história	econômica	de	tais	convicções?
Como	essas	convicções	passam	do	âmbito	econômico	para	o	político	e	social?
Quais	são	os	custos	e	resultados	econômicos	dessas	pressuposições	quando	manifestadas	em	vários
sistemas?
No	 decorrer	 do	 último	 século	 de	 amenização	 da	 pobreza	 nos	 Estados
Unidos,	cinco	grandes	pressuposições	fundamentais	 impulsionaram	o	esforço	e
moldaram	 o	 sistema	 governamental	 e	 institucional.	 Em	 primeiro	 lugar,	 a
assistência	social	governamental	baseia-se	no	conceito	de	que	a	pobreza	pode	ser
erradicada.	 Como	 observamos	 acima,	 todavia,	 a	 Bíblia	 é	 explícita	 quando	 diz
que	os	pobres	sempre	estarão	conosco.	Ademais,	em	nenhum	momento	durante
seu	ministério	 Jesus	propôs	um	plano	para	eliminação	de	 tal	 condição.	Muitos
socialistas	cristãos	 indicam	o	Sermão	do	Monte	e	o	alimento	dado	a	cinco	mil
pessoas	como	endossos	 implícitos	da	 redução	da	pobreza.	No	entanto,	observe
que	o	plano	de	Cristo	era	ensinar	seus	seguidores	primeiro,	e	só	depois	prover
alimento	 tanto	 como	meio	 de	 proporcionar	 saciamento	 da	 fome	 quanto	 como
instrumento	da	 revelação	 futura	de	sua	condição	como	Filho	de	Deus.	Ele	não
enriqueceu	 os	 pobres	 como	 um	 todo;	 tampouco	 ordenou	 que	 devessem	 ficar
ricos	para,	assim,	ser	erradicada	a	condição	de	empobrecimento.
Apesar	 das	 maneiras	 diferentes	 –	 por	 exemplo,	 Karl	 Marx,	 por	 meio	 da
coleta	 em	 grupo	 de	 ativos	 e	 do	 trabalho,	 e	 John	 Maynard	 por	 meio	 de	 um
mercado	 desimpedido	 pela	 anuência	 da	 interrupção	 a	 curto	 prazo	 da	 política
fiscal	e	monetária	–	o	objetivo	principal	de	eliminar	a	pobreza	 se	 infiltrou	aos
poucos	 na	 mente	 inconsciente	 dos	 engenheiros	 sociais	 e	 líderes	 políticos	 do
século	20.
Uma	segunda	pressuposição	fundamental	da	abordagem	moderna	referente
à	amenização	da	pobreza	é	que	o	dinheiro	seja	a	solução	para	derrotá-la.	O	autor
Marvin	 Olasky	 capta	 essa	 ideia	 de	 maneira	 brilhante:	 “O	 pensamento
materialista	 [durante	 a	 administração	 de	 Johnson]	 era	 dominante:	 um	 oficial
administrativo	colocou	da	seguinte	forma:	‘A	maneira	de	extinguir	a	pobreza	é
dar	 às	 pessoas	 pobres	 dinheiro	 suficiente	 para	 que	 não	 sejam	mais	 pobres.’	O
colunista	 Stewart	Alsop	 escreveu	 que	 com	US$	 12	 a	US$	 15	 bilhões	 por	 ano
(2%	 do	 produto	 interno	 bruto	 da	 época)	 ‘a	 pobreza	 poderia	 ser	 abolida	 dos
Estados	 Unidos’”.24	 O	 efeito	 tem	 sido	 um	 crescimento	 contínuo	 na	 forma	 de
transferências	 de	 renda	 e	 auxílios	 diante	 da	 ideia	 de	 que,	 com	 algum	 número
mágico	de	riqueza	redistribuída,	os	pobres	deixarão	de	ser	pobres.	Em	vista	dos
axiomas	bíblicos	 concernentes	 a	 esse	 assunto,	 a	 frase	 “dar	murro	 em	ponta	de
faca”	 salta	 à	mente.	Dinheiro	 não	 é	 uma	panaceia	 e	 esses	 aumentos	 contínuos
provavelmente	trouxeram	mais	danos	do	que	benefícios	em	nível	individual.	Em
nível	macro,	o	número	de	pessoas	pobres	(conforme	definido	pelo	Departamento
de	Censo)	 como	 parte	 da	 população	 total	 nos	Estados	Unidos	 tem	 se	mantido
constante	ou	levemente	acima	dos	10%.
		Ano		 		A	taxa	de	pobreza	das	famílias		
		2006		 		9.8%		
		2005		 		9.9%		
		2004		 		10.2%		
		2003		 		10.0%		
		2002		 		9.6%		
		2001		 		9.2%		
		2000		 		8.7%		
		1990		 		10.7%		
		1980		 		10.3%		
		1970		 		10.1%		
Fonte:	Departamento	de	Censo	dos	EUA,	Pesquisa	da	população	atual,	Suplementos	econômicos	e	sociais
anuais.	Agência	de	estatísticas	da	pobreza	e	saúde/Divisão	HHE,	Departamento	de	Censo	dos	EUA.
O	 fato	 de	 que	 os	 pobres	 sempre	 estarão	 presentes	 não	 é,	 todavia,	 uma
justificativa	para	não	se	fazer	nada;	pelo	contrário,	é	uma	estrutura	realista	que
contém	um	mosaico	de	estratégias	efetivas	para	a	amenização	da	pobreza	e	para
a	obra	de	caridade.
Filósofos	 perspicazes	 –	 Calvino,	 no	 passado,	 e	 muitos	 outros	 mais
recentemente	 –	 já	 sabem	 disso	 há	 algum	 tempo.	 Ao	 comparar	 os	 programas
modernos	 ao	 empenho	 em	 prol	 da	 redução	 da	 pobreza	 no	 passado,	 Amos	 G.
Warner	mencionou	o	efeito	da	obra	de	caridade	governamental	em	um	estudo	de
1894,	fazendo	a	seguinte	observação:
Existe	 certa	 tendência	 a	 reivindicar	 a	 assistência
pública	 como	 sendo	 um	 direito,	 e	 de	 os	 indolentes	 e
incapazes	 se	 lançarem	 diretamente	 sobre	 ela.	 Esse
sentimento	 se	 fará	 presente	 sempre	 que	 houver
oportunidade.	É	possível	prestar-se	tanta	assistência	a
ponto	 de,	 enquanto	 se	 ajuda	 um	 grupo	 de	 pessoas,
outro	 seja	 taxado	 e	 tributado	 até	 ele	mesmo	 cruzar	 a
linha	da	pobreza.	O	peso	de	sustentar	o	Estado	tende	a
se	 difundir	 pelo	 caminho	 mais	 fácil;
consequentemente,	 o	 dinheiro	 levantado	 para	 a
assistência	 aos	 pobres	 pode	 vir	 de	 bolsos	 que	 mal
podem	poupá-lo.25
Visto	 que	 Calvino	 não	 esperava	 que	 o	 governo	 civil	 fizesse	 a	 obra	 de
caridade,	suas	práticas	(e	as	de	períodos	anteriores	da	história)	podem	ser	mais
atraentes	para	as	sociedades	modernas.
A	 terceira	 suposição	 fundamental	 na	 abordagem	 moderna	 de	 redução	 da
pobreza	é	que	 todos	os	homens	 têm	direito	aos	 recursos	e	à	 liberdade	de	viver
sem	 passar	 necessidade.	 Pode-se	 especular	 que	 essa	 convicção	 atual	 é	 uma
mutação	de	dois	pensamentos	aparentemente	sem	qualquer	 relação	entre	si	–	a
natureza	 do	 homem	 e	 o	 chamado	 marxista	 para	 diminuir	 a	 exploração.	 No
Manifesto	 Comunista,	Marx	 foi	 explícito	 ao	 dizer	 que,	 mesmo	 em	 sua	 visãoutópica,	 exige-se	 que	 todos	 os	 homens	 trabalhem.	 Ele	 não	 fez	 menção	 de
assistência	 aos	 pobres.	 Como	 discutido	 anteriormente,	 seu	 interesse	 era	 a
eliminação	 da	 exploração,	 conforme	 a	 compreendia,	 e	 a	 criação	 de	 uma
economia	e	sociedade	que	trabalhariam	em	conjunto	sob	a	direção	do	Estado	e
para	 benefício	 dele.	 Seus	 inimigos	 incluíam	 os	 capitalistas,	 os	 donos	 de
propriedades,	a	 religião	e	a	competição.	Seu	paradigma	endossava,	de	maneira
implícita,	 o	 conceito	 de	 recursos	 e	 benefícios	 iguais	 para	 todos	 à	 custa	 da
riqueza.
Aliada	 a	 essa	 pressuposição	 estava	 a	 convicção	 de	 que	 o	 homem	 é
inerentemente	bom.	O	conceito	é	anterior	a	Calvino	e,	conforme	relatado	acima,
está	 em	 discordância	 direta	 com	 sua	 interpretação	 das	 Escrituras	 e	 com	 a
natureza	humana.	Entretanto,	se	um	economista,	oficial	do	governo	ou	assistente
social	acredita	que	o	homem	é	bom	por	natureza,	é	natural	que	ele	presuma	que
todos	têm	o	direito	nato	de	ter	suas	necessidades	básicas	supridas.
Tais	 ideias	 formam	 a	 base	 da	 convicção	 de	 que	 o	 homem	 tem	 direito	 à
assistência	e	aos	recursos.	De	acordo	com	o	marxismo,	a	pessoa	na	condição	de
pobreza	está	sendo	oprimida	e	está	sendo	negado	a	ela	o	direito	às	necessidades
da	vida.	No	entanto,	a	ênfase	de	Marx	sobre	a	exigência	de	que	todos	trabalhem
quer	dizer	que	a	piedade	deve	ser	demonstrada	aos	pobres	trabalhadores	(vítimas
da	exploração)	–	não	aos	pobres	que	não	trabalham.	Esse	obstáculo	foi	superado
quando	a	convicção	da	bondade	natural	do	homem	foi	introduzida	nesse	âmbito
econômico.	 Os	 pobres	 poderiam,	 agora,	 reivindicar	 abertamente	 seu	 direito	 à
assistência	(que	quase	sempre	está	bem	além	do	básico	da	subsistência)	e	não	ter
obrigação	 de	 trabalhar	 ou	 de	 mudar	 seu	 comportamento.	 Se	 o	 homem	 é
naturalmente	 bom	 ou	 socialmente	 merecedor,	 então,	 quem	 é	 economicamente
estável	deve	socorrer	os	pobres	–	ninguém	quer	que	o	mocinho	pereça	ou	sofra
nos	 filmes;	 essa	 cena	 final	 é	 reservada	 aos	 vilões.	 Portanto,	 a	 pessoa	 só	 deve
aparecer	 e	 requerer	 seu	 direito	 à	 assistência,	 independentemente	 de	 seu
comportamento	 ou	 decisões	 pessoais.	 Afinal,	 em	 virtude	 do	 ser	 humana,	 ela
pode	esperar	que	outros	tomem	por	certo	sua	bondade	intrínseca.	Essa	segunda
premissa	da	moderna	redução	da	pobreza	alega	a	universalidade	do	merecimento
e	dos	mesmos	resultados	–	duas	proposições	em	discordância	com	as	Escrituras
e	com	o	Calvinismo.
Visto	 ter	 Cristo	 ensinado	 a	 permanência	 (não	 solubilidade)	 da	 pobreza,
devemos	considerar	em	nossas	normas	o	reconhecimento	de	que	a	pobreza	não
pode	ser	total	ou	eficientemente	erradicada	nesta	vida.	Tal	reconhecimento	afeta
os	 níveis	 de	 expectativa	 e	 os	 objetivos	 da	 reforma	 da	 assistência	 social.	 Por
exemplo,	 se	 o	 objetivo	 é	 o	 pleno	 emprego,	 a	 assistência	médica	 universal	 e	 a
suspensão	dos	ganhos	abaixo	de	determinado	índice	anual,	isso	alterará	de	forma
substancial	 a	 reforma	 da	 assistência	 social	 se	 comparado	 à	 abordagem	 que
enfatiza	(como	o	faz	João	Calvino)	a	responsabilidade	pessoal,	o	envolvimento
da	igreja	e	a	produtividade	familiar.
O	evangelho	de	João	também	inclui	esse	ensinamento	como	um	dos	últimos
do	ministério	de	nosso	Senhor	no	mundo.	No	texto	de	João	12.6,	encontra-se	a
afirmação	de	que	Jesus	não	era	indiferente	aos	pobres.	Jesus	respondeu	a	Judas
da	maneira	como	 respondeu,	em	parte,	porque	ele	era	um	 ladrão.	Porém,	mais
uma	vez,	o	mestre	 reiterou:	“Deixa-a!...	os	pobres	 sempre	os	 tendes	convosco,
mas	a	mim	nem	sempre	me	tendes”	(Jo	12.7-8).	A	fidelidade	a	Jesus	e	aos	seus
ensinamentos	é	uma	prioridade	ainda	maior	do	que	a	redução	da	pobreza.	Trata-
se	de	um	objetivo	absoluto.	Jesus	não	estabeleceu	nem	casas	assistenciais,	nem
Missões	 da	 União,	 nem	 meios	 de	 assistência	 social.	 No	 tocante	 às	 suas
atividades,	ele	parecia	estar	convencido	de	que	a	pobreza	continuaria	como	parte
da	condição	humana	e	não	instituiu	meios	definitivos	para	sua	extinção.
Jesus	também	afirmou	que	nosso	sustento	material	é	oriundo	da	providência
divina.	De	acordo	com	Mateus	6.25-34,	ele	ensinou	que	as	provisões	da	vida	são
dadas	aos	pássaros,	às	flores	e,	por	extensão,	aos	seres	humanos	pela	providência
de	 Deus.	 Seja	 qual	 for	 nosso	 destino	 na	 vida,	 seja	 ele	 ligado	 à	 riqueza	 ou	 à
pobreza,	nossa	condição	deve	ser	vista	como	fluindo	a	partir	da	provisão	ativa	de
Deus	 em	 nossa	 vida.	 Não	 temos	 de	 comparar	 nossos	 bens	 com	 os	 de	 outras
pessoas;	tampouco	devemos	nos	preocupar	com	aparentes	necessidades.	Em	vez
disso,	os	cristãos	ligados	corretamente	ao	Criador-Provedor	devem	confiar	nele
e,	 depois,	 agir	 com	 responsabilidade.	 Esse	 resumo	 do	 ensinamento	 bíblico
ressalta	o	fato	de	que	as	pressuposições	afetarão	as	diretrizes.	A	expectativa	final
determina	os	meios	adotados.
William	Willimon	reitera	tal	fato	quando	diz:
Toda	filantropia	procede	de	uma	visão	de	mundo.	Os
nazistas	 tinham	 um	 sistema	 extensivo	 de	 assistência
social.	 Quando	 os	 médicos	 nazistas	 ajudaram	 a
exterminar	 aqueles	 que	 foram	 julgados	 como
“deficientes	 mentais”,	 eles	 o	 fizeram	 por	 motivo
filantrópico.	 Tais	 médicos	 não	 consideravam	 que
estavam	 fazendo	 algo	 mau,	 e	 sim	 algo	 bom	 para
aqueles	“menos	afortunados”.	De	semelhante	modo,	o
Presidente	 que	 apoiou	 as	 mudanças	 no	 programa
nacional	de	assistência	social	porque	“elas	tirariam	os
pobres	 das	 listas	 de	 assistência	 social	 e	 os	 tornariam
pagadores	 de	 impostos”	 estava	 agindo	 com	 base	 em
razões	filantrópicas.	A	filantropia	cristã	surge	a	partir
de	nossas	afirmações	a	 respeito	da	natureza	de	Deus.
As	 parábolas	 contadas	 por	 Jesus	 tinham	por	 objetivo
descrever	 um	 Deus	 que,	 pelos	 nossos	 padrões,	 é
efusivo,	exagerado	e,	portanto,	peculiar.	A	 filantropia
cristã	 deve	proceder	a	partir	dessa	descrição	peculiar
de	como	o	mundo	é.26
Sendo	 assim,	 nossa	 atitude	 em	 relação	 à	 pobreza	 é:	 (1)	 evite-a	 se	 você
puder;	(2)	procure	ajudar	outras	pessoas;	e	(3)	sempre	preste	assistência	de	modo
a	 seguir	 os	 ensinamentos	 bíblicos.	 Os	 negócios	 bem-sucedidos	 e	 as	 igrejas
caridosas	 têm	 um	 papel	 importante	 a	 desempenhar	 na	 redução	 da	 pobreza,
porém,	 antes	 de	 iniciar	 uma	 nova	 jornada,	 líderes	 responsáveis	 podem	 querer
consultar	Calvino	sobre	esse	assunto.	Um	calvinista	moderno	faz	um	resumo	da
seguinte	 maneira:	 “Aqueles	 que	 dão	 ajuda	 material	 sem	 requerer	 sequer	 um
mínimo	 retorno	 são	 considerados	 uma	 ameaça	 à	 verdadeira	 compaixão,	 tanto
quanto	aqueles	que	viram	as	costas	para	o	próximo	e	para	seus	irmãos”.27	Calvino
e	 seus	 adeptos	 não	 encontram	 um	 direito	 universal	 à	 assistência	 em	 suas
escrituras	normativas.
Um	corolário	de	apoio	quanto	ao	direito	do	homem	à	assistência	e	a	quarta
suposição	fundamental	da	moderna	redução	da	pobreza	é	o	fato	de	o	homem	não
ser	 responsável	 por	 sua	 condição	 desfavorável.	 Conforme	 discutido
anteriormente,	Marx	via	muitos	dos	anseios	do	 ser	humano	como	 resultado	da
exploração	 e	 competição,	 e	 nenhuma	 das	 situações	 estava	 sob	 controle	 do
indivíduo.	Em	essência,	a	exploração	e	competição	diminuem	a	responsabilidade
pessoal.	 Durante	 o	 século	 19	 e	 início	 do	 século	 20,	 predominou	 uma	 atitude
diferente,	a	saber,	o	homem	era	responsável	por	sua	condição	social,	e	suas	ações
e	 decisões	 eram	 fatores	 de	 sua	 posição	 atual	 ou	 componentes	 para	 sua	 futura
saída	da	pobreza.	Todavia,	no	final	da	década	de	60,	teóricos	sociais	começaram
a	pregar	um	evangelho	com	base	na	premissa	de	que	os	pobres	são	vítimas.	Não
se	analisavam	mais	os	comportamentos,	hábitos	e	decisões	do	passado;	em	vez
disso,	a	“sociedade”	se	tornou	o	bode	expiatório.	Faça	a	ligação	da	convicção	de
que	o	homem	é	inerentemente	bom	à	ideia	de	que	ele	não	é	responsável	por	sua
situação	difícil;	depois,	acrescente	as	afirmações	de	que	as	únicas	fontes	do	mal
são	as	distinções	sociais	entre	o	senhor	e	o	servo,o	rico	e	o	pobre,	e	o	senhor	da
terra	e	o	sem-terra;	o	resultado	final	é	a	distribuição	de	bens	a	todos	em	razão	de
ordens	 morais.	 Em	 tal	 cenário,	 todos	 são	 pesados	 e	 medidos,	 exceto	 o	 ator
central	–	os	pobres.
Sob	 essa	 perspectiva	 na	 qual	 a	 sociedade	 é	 vista	 como	 culpada,	 é
incumbência	dela	encontrar	soluções.	Não	apenas	isso,	mas,	se	a	culpa	for	aceita
e	confessada,	 a	 sociedade	não	 tem	direito	de	pedir	aos	pobres	que	mudem	seu
comportamento.	 Como	 facilitadores	 finais,	 os	 assistentes	 sociais	 sorriem	 em
sinal	de	aprovação	para	as	decisões	dos	pobres	e	o	comportamento	antissocial.
Sem	 culpa,	 vergonha	 ou	 pressão	 para	 trabalhar	 e	 sem	 obrigação	 de	 atender	 a
padrões	 mínimos	 da	 sociedade	 civilizada	 (sem	 mencionar	 alimento,	 moradia,
assistência	médica	e	materiais	de	leitura	gratuitos),	quem	iria	querer	mudar?
Essa	é	precisamente	a	quarta	suposição	da	moderna	macrovisão	da	pobreza
–	a	compaixão	não	 requer	mudança	ou	 responsabilidade	presente.	A	prática	de
conceder	 valor	monetário	 aos	 pobres	 em	 forma	de	 transferências	 com	base	 na
convicção	de	que	nunca	 foram	 responsáveis	por	 sua	condição	desfavorável	 foi
reconhecida	no	século	19	como	a	principal	causa	externa	da	pobreza	contínua.
De	1818	a	1824,	a	cada	ano	a	Society	for	the	Prevention	of	Pauperism	in	the	City
of	 New	 York,	 grupo	 cujo	 objetivo	 era	 combater	 a	 escassez	 de	 todos	 os	 tipos,
publicou	 em	 seu	 relatório	 anual	 uma	 lista	 das	 dez	 causas	 da	 miséria.	 As	 três
primeiras	eram	ignorância,	ociosidade	e	intemperança;	depois	vinham	o	“desejo
de	economizar”,	os	casamentos	 imprudentes	e	precipitados;	e	os	 jogos	de	azar,
seguidos	por	três	causas	institucionais	–	penhoristas,	prostíbulos	e	cassinos.	Essa
lista	com	ênfase	nos	fracassos	pessoais	e	atrações	institucionais	exemplificava	a
corrente	predominante	do	pensamento	social	da	época,	porém,	a	Society	também
identificou	um	novo	elemento:	 a	décima	causa	era	“as	 instituições	de	caridade
que	davam	dinheiro	de	maneira	muito	liberal”.	Não	havia	muitas	delas,	mas,	em
uma	economia	crescente,	qualquer	facilidade	para	obtenção	de	subsídio	era	vista
como	moral	e	materialmente	destrutiva.28
A	ordem	do	 apóstolo,	 “se	 alguém	não	quer	 trabalhar,	 também	não	 coma”
(2Ts	3.10),	era	um	princípio	prudente	de	responsabilidade	que	foi	compreendido
nos	 primeiros	 anos	 de	 redução	 da	 pobreza	 nos	 Estados	 Unidos.	 De	 fato,	 em
meados	 do	 século	 19,	 formou-se	 um	 novo	 grupo,	 a	New	 York	 Association	 for
Improving	 the	 Condition	 of	 the	 Poor,	 com	 a	 finalidade	 de	 tentar	 resolver	 os
problemas	relacionados	à	falta	de	responsabilidade	e	à	caridade	desmedida.
A	 quinta	 suposição:	 A	 devolução	 da	 obra	 de
caridade,	delegando-a	ao	Estado
Nas	 Escrituras,	 a	 hierarquia	 do	 assistencialismo	 é	 clara:	 deixar	 a	 família
sustentar	 as	 viúvas	 e	 os	 órfãos	 primeiro	 (1Tm	 5.1-8);	 se	 a	 família	 não	 se
apresentar,	 a	 igreja	 deve	 mantê-los;	 e	 os	 métodos	 burocráticos	 exteriores	 de
assistencialismo	devem	ser	disponibilizados	somente	como	último	recurso.	Esse
modelo	foi	promulgado	por	Calvino	e	aparece	por	todos	os	sermões	nas	colônias
estadunidenses	 até	 o	 início	 do	 século	 19.	 Ademais,	 como	 observa	 Marvin
Olasky:
O	princípio	final	de	combate	à	pobreza	antes	de	1800
era	 a	 ênfase	 nos	 relacionamentos	 familiares.	 Tal
compreensão	também	se	refletiu	nas	primeiras	leis	dos
Territórios	do	Noroeste,	as	quais	decretavam	que	pais,
avós	e	filhos	de	“toda	pessoa	pobre,	velha,	cega,	coxa
e	incapaz,	ou	outra	pessoa	pobre	não	apta	a	trabalhar”
deveriam	“assistir	e	sustentar	tal	pessoa”,	salvo	se	eles
próprios	 não	 tivessem	 condições	 financeiras.	 Esses
parentes	 diretos	 que	 não	 ofereciam	 tal	 apoio	 eram
penalizados	com	severidade.29
No	 entanto,	 para	 aquelas	 pessoas	 sem	 família,	 a	 igreja	 e	 suas	 várias
associações	e	trabalhos	assistenciais	se	tornaram	um	refúgio.	Durante	os	séculos
18	e	19	e	a	primeira	metade	do	século	20,	a	maioria	das	obras	de	caridade	era
financiada	 e	 particularmente	 organizada	 e	 liderada	 por	 um	 exército	 de
voluntários	 que	 não	 só	 davam	 liberalmente	 o	 seu	 dinheiro,	 mas	 também
sacrificavam	 seu	 tempo	 e	 energia	 emocional	 para	 se	 comprometerem	 com	 os
pobres,	torná-los	responsáveis,	suprir	suas	necessidades	imediatas	e	prepará-los
para	 a	 vida	 livre	 da	 pobreza.	 Todavia,	 à	 medida	 que	 as	 necessidades
aumentavam,	a	reivindicação	pelo	envolvimento	governamental	se	intensificava.
Talvez,	conforme	o	grau	de	envolvimento	do	governo	aumentasse,	o	sentimento
de	 obrigação	 pessoal	 de	 mais	 de	 um	 voluntário	 diminuísse	 e	 eles	 decidissem
deixar	o	governo	controlar	ainda	mais	o	processo.	“O	sentimento	geral	era	que
muitos	programas	religiosos	haviam	sido	secularizados	de	modo	efetivo	e,	com
ele,	foi-se	o	entusiasmo	do	sacrifício	para	mantê-los	em	andamento.	Parecia	não
haver	razão,	exceto	a	‘mesquinhez	conservadora’,	para	contrapor-se	à	instituição
de	um	novo	e	massivo	sistema	de	assistência	controlado	pelo	governo.	Parecia
haver	poucos	motivos	para	levar	a	sério	o	esforço	voluntário”.30
Ao	 longo	 do	 tempo	 e	 com	 imensa	 disposição,	 o	 bom	 senso	 convencional
tornou-se	 o	 endosso	 ao	 governo	 como	 sendo	 a	melhor	 entidade	 para	 liderar	 e
coordenar	o	empenho	em	prol	da	redução	da	pobreza	em	âmbito	nacional.	Essa
veio	a	ser	a	quinta	suposição	dessa	moderna	redução,	ou,	como	colocou	Olasky:
“A	tendência	era	clara:	em	qualquer	momento	que	a	ênfase	da	caridade	passasse
de	 uma	 pessoa	 para	 a	 massa	 e	 de	 almas	 a	 pedras,	 o	 governo	 se	 tornaria	 o
propulsor	popular	do	progresso”.31	 Independentemente	de	 se	o	governo	está	ou
não	mais	bem	posicionado	para	conduzir	o	assistencialismo	da	maneira	correta,
o	efeito	secundário	foi	o	afastamento	do	envolvimento	pessoal	em	direção	a	uma
visão	 “transacional”	 dele.	 Por	 que	 se	 envolver	 com	 os	 desabrigados	 locais
quando	a	culpa	pode	ser	abrandada	por	meio	de	um	imposto	retido	mensalmente
que,	por	fim,	alcançará	os	“menos	afortunados”?	Enquanto	o	papel	do	governo
aumenta,	 a	 convicção	 de	 que	 ele	 é	 o	 mais	 bem	 preparado	 para	 lidar	 com	 a
pobreza	se	consolida	na	percepção	nacional.	 “Os	problemas	de	 suprimento	 (de
organizações	 de	 assistência	 social	 privada)	 também	 foram	 resultado	 de	 uma
tendência	à	contribuição	impessoal	a	longo	prazo.	A	filantropia	havia	se	tornado
‘tão	 fria	 quanto	 o	 pagamento	 dos	 impostos’,	 com	 o	 jornalista	 Alan	 Herrich
fazendo	a	seguinte	observação:	‘Na	realidade,	os	objetivos	de	ambos	são	quase
sempre	os	mesmos’”.32
Enquanto	 Calvino	 suplicava	 que	 todos	 os	 cristãos	 amassem	 o	 próximo
como	a	 si	mesmos,	a	 recente	 institucionalização	da	 redução	da	pobreza	 tornou
mais	 conveniente	 simplesmente	 pagar	 os	 impostos	 ao	 governo	 e	 deixar	 outra
pessoa	qualquer	lidar	com	o	próximo.
Essas	 cinco	 suposições	 fundamentais	 sobre	 a	 pobreza	 não	 abrangem	 a
totalidade	do	empenho	em	prol	de	 sua	 redução	nos	Estados	Unidos;	 tampouco
restringem	a	obra	de	caridade.	No	entanto,	os	conceitos	abaixo	são	diretamente
contrários	à	teologia	e	ao	espírito	do	Calvinismo.
	
1.	 A	pobreza	pode	ser	erradicada.
2.	 O	homem	tem	direito	ao	sustento.
3.	 O	homem	não	é	responsável	por	sua	condição	econômica	desfavorável.
4.	 A	compaixão	não	requer	responsabilidade	e	mudança.
5.	 O	governo	é	a	instituição	mais	adequada	para	conduzir	os	esforços	de	combate	à	pobreza.
Ademais,	 não	 se	 trata	 de	 um	 experimento	 improdutivo;	 custos	 e	 efeitos
resultaram	dessas	suposições.
Estas	 cinco	 premissas	 estão	 destacadas	 aqui	 como	 demonstração	 de	 uma
ideologia	básica	empobrecida	e	da	perda	que	há	para	todas	as	partes	da	equação
–	os	pobres,	o	assistente	social,	o	governo	e	aqueles	que	não	são	pobres.	Uma
análise	completa	das	consequências	negativas	dessas	cinco	premissas	está	além
do	escopo	deste	livro,	porém,	um	breve	apontamento	de	seus	efeitos	ruins	é	um
argumento	com	lógica	autocomprobatória.	Dentre	eles	estão:	(1)	corrupção;(2)
ineficiência;	(3)	o	entrincheiramento	dos	assistentes	sociais	“profissionais”	e	das
organizações	governamentais;	(4)	a	distorção	da	tributação;	e	(5)	a	“politização”
da	redução	da	pobreza.
Mesmo	 nos	 séculos	 18	 e	 19,	 os	 trabalhadores	 estavam	 sempre	 cientes	 e
operando	contra	 aqueles	que	“jogavam	com	o	 sistema”	e	 apareciam	em	vários
centros	a	fim	de	receber	auxílio	desnecessário.	Esses	corruptos	eram	tão	adeptos
das	 “rondas”	 que	 o	 coloquialismo	 “rondador”	 entrou	 no	 léxico	 de	 muitas
instituições	 de	 caridade	 especificamente	 para	 descrevê-los.	 No	 caso	 de
determinada	 cidade,	 cerca	 de	 70	 receptores	 da	 assistência	 patrocinada	 pelo
governo	possuíam	mais	bens	(em	termos	de	casas	e	carros)	do	que	a	média	de
moradores	 da	 comunidade	 que	 não	 eram	 pobres.33	 A	 falta	 de	 responsabilidade
associada	 a	 uma	 consciência	 sentimental	 e	 cheia	 de	 culpa	 cria	 um	 poderoso
incentivo	 para	 indivíduos	 que	 prefeririam	 tirar	 de	 outras	 pessoas	 a	mudar	 seu
estilo	de	vida.
Não	 levando	 em	 consideração	 os	 argumentos	 relacionados	 ao	 sistema	 de
tributação	 progressiva	 nos	 Estados	 Unidos,	 existem	 muitos	 pontos	 negativos
implícitos	no	levantamento	de	fundos	pelo	Estado	a	fim	de	assistir	os	pobres	e
necessitados.	Pense,	por	exemplo,	no	programa	de	bolsa	de	estudos	da	HOPE	na
Geórgia,	 cujo	 suposto	 objetivo	 é	 proporcionar	 isenção	 de	 mensalidade	 aos
estudantes	 no	 Estado.	 De	 acordo	 com	 o	 website	 do	 patrocinador,	 a	 bolsa	 de
estudos	 da	 HOPE	 é	 “um	 programa	 educacional	 para	 premiar	 alunos	 que
obtiveram	boas	 notas,	 ajudando-os	 com	as	 despesas	 para	 o	 prosseguimento	 de
seus	 estudos	 depois	 de	 se	 formarem	 no	 Ensino	 Médio.	 O	 HOPE	 pode	 ser
utilizado	 nas	 escolas	 técnicas	 públicas	 e	 nas	 faculdades	 e	 universidades
qualificadas,	 públicas	 ou	 privadas,	 na	 Geórgia”.34	 Para	 muitos,	 trata-se	 de	 um
programa	de	mensalidade	meritocrático	que	une	os	 requisitos	de	 residência	no
Estado	e	a	nota	média	contínua.	No	entanto,	existe	também	um	programa	HOPE
Grant	que	oferece	isenção	total	de	mensalidade	para	qualquer	aluno	que	deseje
se	formar	em	uma	escola	técnica	da	Geórgia,	independentemente	da	nota	média.
À	 primeira	 vista,	 esse	 é	 o	 programa	 ideal	 para	 ajudar	 os	 pobres	 que	 desejam
estudar	 mais.	 No	 entanto,	 o	 HOPE	 é	 financiado	 pela	 Georgia	 Lottery	 for
Education.	Inúmeros	estudos	sobre	as	lotéricas	do	Estado	indicam	que,	em	base
absoluta,	 os	 jogos	 de	 azar	 são	 jogados	 constantemente	 por	 todas	 as	 faixas	 de
renda.	Contudo,	quando	visualizada	em	base	relativa,	os	participantes	das	faixas
de	menor	renda	destinam	uma	parte	maior	de	seu	salário	aos	jogos.	Aqueles	que
têm	um	valor	disponível	bem	menor	estão	gastando	uma	porcentagem	maior	de
seu	dinheiro.	Trata-se	de	um	círculo	vicioso	com	potencial	de	trazer	pessoas	de
baixa	renda	para	debaixo	da	ajuda	genérica	do	Estado.35
Outros	tributos	furtivos	impostos	a	todos	os	cidadãos,	incluindo	os	pobres	e
os	mais	ou	menos	pobres,	incluem	impostos	sobre	a	propriedade,	impostos	sobre
o	 tabaco	 e	 impostos	 gerais	 sobre	 venda.	 Portanto,	 embora	 um	 grupo	 esteja
recebendo	ajuda	em	determinada	área	(seja	educação,	alimentação,	moradia	ou
serviços	médicos),	 outro	 grupo	–	 ou	 até	 o	mesmo	grupo	que	 recebe	 a	 ajuda	 –
esteja	sendo	taxado	de	alguma	outra	forma.	Citando	mais	uma	vez	o	estudo	feito
por	Amos	Warner,	em	1894:	“O	peso	de	sustentar	o	Estado	tende	a	se	difundir
pelo	 caminho	 mais	 fácil;	 consequentemente,	 o	 dinheiro	 levantado	 para	 a
assistência	aos	pobres	pode	vir	de	bolsos	que	mal	podem	poupá-lo”.36
Dessa	maneira,	 aquele	 que	 controla	 o	 dinheiro	pode	 controlar	 as	 pessoas.
Nathaniel	 Ware,	 depois	 de	 resumir,	 em	 1845,	 sua	 interpretação	 a	 respeito	 da
queda	 de	 Roma,	 infelizmente	 previu	 que	 o	 sistema	 de	 assistência	 social
governamental	 estadunidense,	 cedo	 ou	 tarde,	 seria	 desenvolvido,	 pois	 os
funcionários	 públicos	 gostavam	 de	 recorrer	 aos	 eleitores	 pobres,	 os	 quais
poderiam	lhes	dar	não	apenas	o	poder	de	distribuir	grandes	quantias	de	dinheiro,
mas	 também	 o	 patronato	 que	 acompanhava	 a	 despesa.	Ware	 observou	 que	 os
funcionários	com	mais	poder	se	tornariam	mais	importantes	e	seriam	mais	bem
remunerados.37
Na	análise	final,	alguns	pobres	estão	aqui	para	ficar.	Segundo	a	provisão	de
Deus,	eles	devem	se	alegrar	com	seu	chamado	e	aceitar	seu	destino,	o	qual,	para
alguns,	pode	ser	muito	mais	“abundante”	do	que	o	dos	banqueiros	investidores
de	Wall	Street.	Os	abastados	são	chamados	a	 serem	ricos	em	“boas	obras”	e	a
cuidarem	 das	 viúvas	 e	 dos	 órfãos.	 Nenhum	 dos	 custos	 ou	 inadequações	 deve
servir	como	motivação	para	o	descompromisso	para	com	os	pobres	e	a	obra	de
caridade.	 Pelo	 contrário,	 uma	 perspectiva	 econômica	 digna	 do	 espírito	 de
Calvino	precisa	ponderar	com	cautela	as	decisões	a	serem	tomadas	e	determinar
se	 elas	 estão	 mais	 de	 acordo	 com	 o	 pensamento	 bíblico	 sobre	 a	 natureza	 do
homem	e	sua	condição	desfavorável	ou	com	as	suposições	errôneas	típicas	dos
modernos	programas	de	redução	da	pobreza.
Muitos	 gastos	 do	 assistencialismo	 governamental	 não	 confirmam
necessariamente	a	dimensão	do	sofrimento	que	precisa	ser	amenizado;	 todavia,
podem	 indicar	a	 lassidão	ou	corrupção	por	parte	dos	 funcionários	públicos	e	a
disposição	por	 parte	 dos	 indolentes	 saudáveis	 fisicamente	de	 serem	 supridos	 à
custa	do	dinheiro	público.38	Um	antídoto	para	 tamanha	debilidade	estrutural	é	a
abordagem	 que	 invoca	 o	 setor	 privado,	 enfatizando	 a	 obra	 de	 caridade	 de
pessoas	 voluntárias	 sobre	 o	 subsídio	 proveniente	 de	 governo	 impessoal,	 a	 agir
em	prol	da	redução	da	pobreza.
As	frequentes	exposições	de	Calvino	sobre	o	amor	pelo	próximo	o	levaram,
assim	como	a	seus	seguidores,	a	estender	o	círculo	da	filantropia.	Associado	ao
crescimento	dos	 lucros	e	às	bases	de	ativos,	o	espírito	caridoso	do	Calvinismo
levou	a	uma	era	de	filantropia,	a	qual	 foi	planejada	para	partir	de	 indivíduos	e
famílias	em	direção	a	lugares	verdadeiramente	necessitados	a	fim	de	estimular	o
desenvolvimento	 profícuo.	 Todavia,	 no	 decorrer	 do	 tempo,	 a	 abordagem	 à
redução	 da	 pobreza	 foi	 transformada	 por	 pensamentos	 maiores	 de	 igualdade
social	e	“justiça”.	A	profunda	ética	comercial	de	Calvino	se	adequará	melhor	a
sistemas	ou	práticas	que	trabalhem	a	fim	de	eliminar	as	suposições	falsas	sobre	a
pobreza	que	têm	surgido	ao	longo	dos	últimos	cinquenta	a	sessenta	anos.
Notas
*	Termo	ainda	não	muito	difundido	fora	dos	EUA	que	remete	às	visões	políticas	de	Rand	Paul	(N.	da	T.)
**	Expressão	da	área	de	Economia	que	se	refere	à	utilização	de	toda	a	mão	de	obra	disponível	a	preço	de
equilíbrio	(N.	da	T.).
1		A	mais	recente	história	da	Universidade	de	Genebra	reconta	diversas	histórias	de	fracasso,	incluindo	uma
em	1420,	 sob	autoridade	católica	 romana,	 e	 a	 tentativa	de	François	de	Versonnex,	 em	1429.	Veja	Marco
Marcacci,	Histoire	de	 l’Université	de	Genève:	1559-1986	 (Genebra:	University	 of	Geneva,	 1987),	 p.	 17.
Para	 a	 pré-história	 da	 Academia	 de	 Genebra,	 veja	 também	 William	 G.	 Naphy,	 “Reformation	 and	 the
Evolution	of	Geneva’s	Schools”,	em	Reformations	Old	and	New:	Essay	on	the	Socio-Economic	Impact	of
Religious	Change,	c.	1470-1630,	Beat	Kümin	(org.)	(Londres:	Scolar	Press,	1996),	p.	190-193.	Até	pouco
tempo,	Charles	Borgeaud,	Histoire	de	l’Universitè	de	Genève	(Genebra,	1900)	era	a	história	padrão.
2		E.	William	Monter,	Calvins’s	Geneva	(Nova	York:	John	Wiley	&	Sons,	1967),	p.	112.	As	aulas	da	schola
privata	começaram	no	outono	de	1558	e	as	da	schola	publica	começaram	em	novembro	de	1558.	Marcacci,
Histoire	de	l’Universitè	de	Genève	(Genebra,	1900),	p.	17.
3	 	 Os	 registros	 públicos	 de	 17	 de	 janeiro	 de	 1558	 referem-se	 ao	 estabelecimento	 da	 escola	 de	 nível
fundamental	 e	 médio	 com	 três	 cursos	 (Teologia,	 Filosofia	 e	 Grego).	 Avisos	 também	 foram	 dados
recomendando-a	como	sendo	um	recebedor	digno	de	heranças.Veja	Henry	Martyn	Baird,	Theodore	Beza:
The	Counsellor	of	the	French	Reformation,	1519-1605	(Nova	York:	G.	P.	Putnam’s	Sons,	1899),	p.	104.
4		Donald	R.	Kelley,	Francois	Hotman:	A	Revolutionary’s	Ordeal	 (Princeton:	 Princeton	University	 Press,
1973),	p.	270.
5		Baird,	Theodore	Beza,	p.	106,113.
6		Sobre	essa	ligação	intrigante,	veja	meu	resumo	em	The	Genevan	Reformation	and	the	American	Founding
(Lanham:	Lexington	Books,	2003),	p.	2-4.	Agradeço	ao	Dr.	James	H.	Huston	por	essa	anedota,	a	qual	ele
apresenta	em	sua	obra,	The	Sister	Republic:	Switzerland	and	the	United	States	from	1776	to	the	Present,	2ª
ed.	(Washington,	DC:	Library	of	Congress,	1992),	p.	68-76.
7	 	 Jeannine	 Olson,	 Calvin	 and	 Social	 Welfare:	 Deacons	 and	 the	 Bourse	 Française	 (Selinsgrove:
Susquehanna	University	Press,	1989),	p.11-12.
8		João	Calvino,	Calvin:	Theological	Treatise,	J.	K.	S.	Reid	(org.)	(Filadélfia:	Westminster,	1954),	p.	64.
9		Ibid.,	p.	65.
10		Ibid.,	p.	66.
11		Geoffrey	Bromiley,	“The	English	Reformers	and	Diaconate”,	em	Service	in	Christ:	Essays	Presented	to
Karl	Barth	on	his	80th	Birthday,	James	I.	McCord	e	T.	H.	L.	Parker	(orgs.)	(Londres:	Epworth	Press,	1966),
p.	113.
12		Cf.	Mary	Crumpacker,	“Ecclesiastical	Ordinances,	1561”,	em	Paradigms	in	Polity:	Classic	Readings	in
Reformed	and	Presbyterian	Church	Government,	David	W.	Hall	 e	 Joseph	H.	Hall	 (orgs.)	 (Grand	Rapids:
Eerdmans,	1994),	p.	148-149.
13		Olson,	Calvin	and	Social	Welfare,	p.	39-40.
14		Ibid.,	p.	104-106.
15		O	diaconato	genebrino	percebeu	 rapidamente	que	deveria	 fazer	uma	 triagem	entre	os	 receptores.	Uma
razão	 era	 o	 fato	 de	 os	 recursos	 serem	 finitos.	Grupos	 beneficentes	 que	 percebem	não	 serem	os	 recursos
infinitos	também	veem	a	necessidade	selecionar	os	candidatos,	pois	cada	dinheiro	dado	é	uma	oportunidade
não	necessariamente	renovável.
16		Basil	Hall,	“Diaconia	in	Martin	Butzer”,	em	Service	in	Christ,	p.	94.
17		Ibid.
18		Bromiley,	“The	English	Reformers	and	Diaconate”,	p.	113.
19		James	Atkinson,	“Diaconia	at	the	Time	of	the	Reformation”,	em	Service	in	Christ,	p.	88.
20	 	 Robert	 E.	 Rector	 e	 Kirk	 A.	 Johnson,	 “Understading	 Poverty	 in	 America”,	 Heritage	 Foundation
Backgrounder,	 n°	 1713,	 5	 de	 janeiro	 de	 2004,	 postado	 em:
http://www.heritage.org/research/welfare/bg1713.cfm.
21		Para	mais	informações,	veja	as	recentes	obras	de	William	Easterly,	Reiventing	Foreign	Aid	(Cambridge,
MA:	MIT	Press,	2008)	e	White	Man’s	Burden:	Why	the	West’s	Efforts	to	Aid	the	Rest	Have	Done	So	Much
III	and	SO	Little	God	(Nova	York:	Penquin	Press,	2006).
22	 	 Peter	 Gottschalk,	 Sara	 McLanahan	 e	 Gary	 D.	 Sandefur,	 “The	 Dynamics	 and	 Intergenerational
Transmission	 of	 Poverty	 and	 Welfare	 Participation”	 (1994)	 e	 John	 H.	 Hinderaker	 e	 Scott	 W.	 Johnson,
“Inequality:	 Should	We	Worry?”	 (1996),	 citado	 em	 John	 E.	 Stapleford,	Bulls,	 Bears	 &	Golden	 Calves:
Applying	Christian	Ethics	in	Economics	(Downers	Grove:	InterVarsity	Press,	2002),	p.	53.
23		Em	2005	(os	últimos	dados	completos	disponíveis),	US$	312	bilhões	em	receita	fiscal	foram	declarados
por	corporações	estadunidenses	públicas	e	privadas.	Ademais,	os	Estados	Unidos	gastaram	US$	1.4	trilhões
no	mesmo	ano	na	forma	de	transferência	de	renda	–	US$	545	bilhões	em	segurança	social	e	invalidez,	US$
653	bilhões	 com	os	 seguros	de	 saúde	–	Medicare	 e	Medicaid	–	 e	US$	157	bilhões	 em	assistência	 social
governamental.	Os	impostos	incididos	sobre	o	trabalho	contabilizaram	21%	na	forma	de	transferências	de
renda	 federal	 em	 2005	 ou	 13%	 de	 todo	 o	 orçamento	 federal.	 Além	 disso,	 muitas	 corporações	 são
classificadas	como	entidades	de	“repasse”	(Subchapter	S	corporations,	LLCs,	LLPs,	etc.)	e	são	tributadas
nas	 declarações	 de	 imposto	 de	 renda	 de	 pessoa	 física	 dos	 acionistas.	 Fontes:	 Internal	 Revenue	 Service,
Statistics	 of	 Income,	 Final	 Corporatuon	 Income	 Tax	 Return:	 2005	 (Washington,	 DC:	 Internal	 Revenue
Service,	 2008);	 Census	 Bureau,	 Statistical	 Abstract	 of	 the	 United	 States:	 2008	 (Washignton,	 DC:
Government	Printing	Office,	2007),	tabela	522;	e	Office	of	Management	and	Budger,	Budget	of	the	United
States	Government:	Fiscal	Year	2005	(Washington,	DC:	Government	Printing	Office,	2004).
24		Marvin	Olasky,	The	Tragedy	of	American	Compassion	(Wheaton:	Crossway	Books,	2008),	p.	174.
25		Citado	em	ibid.,	p.	111.
26		William	H.	Willimon,	“The	Effusiveness	of	Christian	Charity”,	Theology	Today	49,	n°	1	(Abril	de	1992):
p.	75-76.
27		Olasky,	The	Tragedy	of	American	Compassion,	p.	21.
28		John	Griscom,	The	First	Annual	Report	of	the	Managers	of	the	Society	for	the	Prevention	of	Pauperism
in	 the	 City	 of	 New	 York	 (Nova	 York:	 J.	 Seymour,	 1818),	 p.	 12-22,	 citado	 em	 Olasky,	 The	 Tragedy	 of
American	Compassion,	p.	17-18.
29		Olasky,	The	Tragedy	of	American	Compassion,	p.	13.
30		Ibid.,	p.	149.
31		Ibid.,	p.	129.
32		Ibid.,	p.	150.
33		“Em	Johnson,	Rhode	Island,	isso	significa	que	73	pais	de	crianças	inseridos	no	programa	de	combate	à
pobreza	 possuíam	 mais	 bens	 –	 58	 casas	 e	 113	 carros	 –	 do	 que	 os	 típicos	 moradores	 que	 não	 são
considerados	pobres.”	Merrit	 Ierley,	With	Charity	 for	All	 (Nova	York:	 Praeger,	 1984),	 p.	 174,	 citado	 em
http://www.heritage.org/research/welfare/bg1713.cfm
Olasky,	The	Tragedy	of	Amercian	Compassion,	p.	179.
34		Veja	www.gacollege411.org.
35		Veja,	por	exemplo,	Texas	Lottery	Commission,	“Demographic	Study	of	Texas	Lottery	Players”	(relatório
preparado	 a	 partir	 de	 dados	 compilados	 pelo	Earl	 Survey	 Research	 Laboratory,	 Texas	 Tech	 University,
2005).	Este	 estudo	mostra	 as	 pessoas	 com	 rendimento	 inferior	 a	US$20.000	por	 ano	 gastando	4.59%	da
renda	 todos	 os	 anos.	 O	 grupo	 que	 recebe	 entre	 US$20.000	 e	 US$	 29.000	 gastou	 4.38%	 da	 renda
anualmente.	Para	os	dois	níveis	de	maior	 renda	 (US$76.000	a	US$	100.000	e	superior	a	US$100.000),	a
quantia	gasta	em	jogos	foi	inferior	a	1%	da	renda	anual.	Talvez	esses	dados	revelem	que	todos	os	homens
são	 igualmente	 tentados	pelo	engodo	do	dinheiro	 fácil,	porém,	os	“pobres”	 sofrem	um	 impacto	maior	na
renda	obtida	na	base	relativa.
36		Citado	em	Olasky,	The	Tragedy	of	American	Compassion,	p.	111.
37		Ibid.,	p.	48.
38		Ibid.,	p.	64.
http://www.gacollege411.org
5
Santificação	e	serviço
A	filantropia,	ou	o	amor	pelo	ser	humano,	é	tanto	um	tema	quanto	um	produto
do	 pensamento	 econômico	 de	 Calvino.	 Ele	 constantemente	 ressaltava	 que	 o
objetivo	 de	 uma	 pessoa	 não	 era	 o	 mero	 consumo	 ou	 acúmulo	 de	 ativos
econômicos.	Pelo	contrário,	o	reformador	acreditava	que	aqueles	a	quem	muito
foi	dado	têm,	em	resposta,	a	responsabilidade	de	cuidar	e	doar	com	generosidade
àqueles	que	têm	pouco.
Obviamente,	 não	 se	 trata	 de	 um	 sistema	 de	 redistribuição	moderno.	 Para
Calvino,	 contribuir	 com	 outras	 pessoas	 era	 uma	 atividade	 particular	 ou
eclesiástica,	 não	 uma	 prerrogativa	 governamental.	 Ainda	 hoje,	 suas	 várias
advertências	com	relação	ao	acúmulo	excessivo	de	muitos	bens	podem	fornecer
o	 equilíbrio	 tão	 necessário	 para	 os	 cristãos	 atuantes	 no	 comércio.	 Com	 um
chamado	à	filantropia	–	o	qual	pode	ser	entendido	como	utilização	estratégica	da
riqueza	 concedida	 por	 Deus	 para	 ajudar	 outros,	 contextualizado	 pela	 prévia
responsabilidade	 de	 sustentar	 a	 própria	 família	 e	 a	 igreja	 –	 os	 calvinistas
começaram	 a	 estabelecer	 instituições	 educacionais,	 artísticas	 e	 comerciais	 que
perdurariam	por	muitas	gerações.	Tal	contribuição	a	longo	prazo,	ou	a	utilização
dos	 bens	 para	 multiplicar	 as	 consequências	 boas	 para	 as	 gerações	 futuras,	 se
tornaria	o	selo	da	generosidade	calvinista.
A	igualdade	social	é	o	objetivo?
Neste	 momento,	 podemos	 levantar	 uma	 questão	 legítima:	 Calvino	 ou	 as
Escrituras	defendia	ou	defende	uma	sociedade	sem	classes	 sociais?	Embora	os
cristãos,	 em	muitos	 séculos,	 tenham	utilizado	uma	variedade	de	versículos	das
Escrituras	 para	 reiterar	 a	 verdade	 de	 que	 nenhuma	 pessoa	 é	 intrinsecamentemelhor	 do	 que	 outra	 (alguns	 falam	 sobre	 a	 incorruptibilidade	 do	 céu,	 outros
falam	 sobre	 a	 igualdade	 na	 igreja	 e	 outros,	 ainda,	 falam	 sobre	 a	 intenção	 de
Cristo	de	fazer	do	último	o	primeiro	e	vice-versa),	o	ensinamento	das	Escrituras,
contudo,	não	é	que	a	família,	a	igreja	ou	a	sociedade	estarão	rigorosamente	livres
de	 distinções	 de	 algum	 tipo	 –	 pelo	 menos,	 não	 até	 a	 maldição	 da	 queda	 ser
redimida	por	completo.	Alguns	textos	bíblicos	são	mais	utilizados	do	que	outros
quando	se	trata	desse	assunto.
Ao	comentar	o	 texto	de	Atos	2.44,	Calvino	 repudiou	de	maneira	explícita
aqueles	que	negavam	o	direito	de	propriedade	privada,	associando	essa	visão	às
“tolices	 dos	 anabatistas	 e	 fanáticos”,	 os	 quais	 ensinavam	 que	 o	 direito	 de
propriedade	privada	era	algo	errado.	Calvino	observou	que	o	autor	do	texto,	se
entendido	 de	 maneira	 correta,	 não	 “ordenou	 uma	 lei	 que	 todos	 devem
necessariamente	 seguir	 em	 relação	 às	 ações	 das	 pessoas	 em	 quem	 o	 Espírito
Santo	se	manifestou	de	forma	singular”.1
A	realidade	das	diferentes	classes	econômicas	está	entretecida	no	decorrer
das	narrativas	bíblicas	e	nunca	há	um	pedido	para	que	seja	criada	uma	sociedade
sem	classes	sociais.	Tampouco	se	espera	que	os	cristãos	ajam	como	se	os	ricos
entre	 eles	não	 fossem	 ricos	ou	os	pobres	não	 fossem	pobres.	A	expectativa	de
que	 as	 distinções	 entre	 rico	 e	 pobre	 desaparecerão	 da	 terra	 não	 provêm	 das
Escrituras.
Por	outro	lado,	a	doutrina	da	providência	ajuda	a	esclarecer	as	questões	da
pobreza	 e	 da	 riqueza.	A	 algumas	 pessoas	 é	 dado	 –	 por	 designação	 de	Deus	 –
mais	do	que	a	outras,	e	isso	não	é	mensuração	nem	de	mérito	nem	de	aprovação
divina	de	justiça.	O	soberano	Senhor	pode	conceder	as	quantias	e	os	ativos	que
deseja	 dar	 de	 acordo	 com	 seu	 plano;	 os	 resultados	 não	 são	 necessariamente
iguais.	 Por	 sua	 provisão,	 ele	 pode,	 de	maneira	 justa,	 dar	menos	 àqueles	 que	 o
obedecem	e	muito	àqueles	que	não	o	fazem.	Argumentos	piedosos	à	parte,	não
passa	de	cobiça	humana	esperar	que	todas	as	pessoas	tenham	o	mesmo	nível	de
ativos.	Deus	parece	bastante	confortável	 em	prover	bens	diferentes	para	 serem
utilizados	por	cada	pessoa	para	sua	glória.
De	 semelhante	modo,	 a	 religião	 bíblica,	 em	 especial	 o	 Protestantismo	 de
Calvino,	 identifica	 as	 responsabilidades	 implícitas	 no	 fato	 de	 Deus	 ter,	 de
maneira	providencial,	organizado	as	diferentes	classes	sociais	na	 terra.	Em	vez
de	 tentar	arruinar	 todas	elas,	João	Calvino	conclamou	as	pessoas	a	aceitarem	a
providência	 do	 Pai,	 a	 ofertarem	 com	 generosidade	 ao	 próximo	 e	 acharem
contentamento	naquilo	que	Deus	dá.
A	 liberalidade	 também	 é	 incentivada	 repetidas	 vezes	 nos	 comentários	 de
Calvino.	 Enquanto	 desaprovava	 a	 mínima	 oferta	 possível,	 ele	 advertia:
“Porquanto	 o	 que	 nos	 torna	 mais	 sovinos	 do	 que	 deveríamos	 ser	 é	 –	 quando
olhamos	 com	 extremo	 cuidado	 e	muito	 adiante,	 contemplando	 os	 perigos	 que
podem	vir	a	acontecer	–	quando	somos	extremamente	precavidos	e	cuidadosos	–
quando	calculamos	de	maneira	minuciosa	aquilo	de	que	necessitaremos	durante
toda	 a	 nossa	 vida,	 ou,	 in	 fine,	 quanto	 perdemos	 quando	 a	 menor	 parte	 é
retirada”.2	Similarmente,	nos	comentários	 sobre	o	 texto	de	2Coríntios	8.13,	 ele
destacou	que	é	“nossa	parte	nos	incitarmos,	de	tempos	em	tempos,	à	liberdade,
porque	não	devemos	 ter	 tanto	medo	de	ultrapassar	 os	 limites	 nesse	quesito.	O
perigo	está	ao	lado	do	exagero	(mesquinhez)”.3	Calvino	se	aproveitou	da	ocasião
para	denunciar,	mais	uma	vez	(como	havia	feito	em	seus	comentários	sobre	Atos
2),	a	visão	dos	“fanáticos”	que	acreditavam	que	os	homens	deveriam	se	despojar
“de	todas	as	coisas	de	modo	a	tornar	tudo	comum”.4
Seguindo	adiante	com	sua	interpretação	de	2Coríntios	8,	Calvino,	a	seguir,
deu	início	a	uma	importante	discussão	a	respeito	do	significado	de	igualdade	(em
grego,	isotēs).	Calvino	concordava	com	Aristóteles	sobre	o	significado	essencial
desse	 termo	 como	 se	 referindo	 à	 “igualdade	 de	 direito	 proporcional”	 ou
oportunidade	 “de	 acordo	 com	 as	 posições	 sociais	 dos	 indivíduos	 e	 outras
circunstâncias”.5	 Fazendo	 alusão	 ao	 texto	 de	 Colossenses	 4.1,	 o	 reformador
esclarece	 que	 a	 igualdade	 bíblica	 não	 acarreta	 na	 mesma	 uniformidade	 de
condição	 ou	 posição	 social,	 mas	 requer	 “humanidade	 e	 clemência”	 em	 nossa
maneira	 de	 tratar	 todas	 as	 pessoas,	 incluindo	os	 servos:	 “Assim,	 o	Senhor	 nos
recomenda	 a	 proporção	 dessa	 natureza,	 que	 possamos,	 conforme	 permitem	 os
recursos	 de	 cada	 um,	 ajudar	 o	 indigente”.6	 Calvino	 acreditava	 que,	 dentro	 da
igreja,	 essa	 mutualidade	 produziria	 uma	 imagem	 de	 “simetria	 condizente,
mesmo	alguns	tendo	mais	e	outros	menos”.7
Independentemente	 da	 classe	 social	 à	 qual	 pertencemos,	 somos	 todos
chamados	para	enfrentar	a	vida	sem	amargura,	inveja,	orgulho	ou	glutonaria.	A
igualdade	 de	 valor	 intrínseco	 é	 concedida,	 porém,	 níveis	 desiguais	 de	 riqueza
fazem	parte	da	providência	divina,	a	qual	não	deve	ser	desprezada	ou	afrontada.
Para	o	Estado,	uma	possível	chance	de	simular	a	ausência	de	classes	sociais
é	impor	o	pleno	emprego.	Não	se	faz	necessária	uma	pesquisa	enfática,	todavia,
para	 entender	 que	 o	 pleno	 emprego	 é,	 na	 realidade,	 estruturalmente	 instável	 e
está	 abaixo	 do	 ideal.	 A	 teoria	 econômica	 básica	 identifica	 quatro	 tipos	 de
desemprego:	 o	 cíclico,	 o	 friccional,	 o	 clássico	 e	 o	 estrutural.	 O	 desemprego
cíclico	 ocorre	 a	 qualquer	momento	 quando	 a	 plena	 produção	 hipotética	 não	 é
atingida.	Quase	sempre,	pode	ser	 resultado	do	baixo	consumo	e	diminuição	da
demanda.	Como	consequência,	é	considerado	parte	do	ciclo	comercial	e,	como
tal,	 não	 pode	 ser	 eliminado	 na	 prática.	O	 desemprego	 friccional	 é	 aquele	 que
ocorre	 entre	 empregos.	 Na	 maioria	 dos	 casos,	 é	 voluntário	 e	 temporário,
enquanto	o	empregado	procura	um	trabalho	melhor.	O	desemprego	estrutural	é	o
resultado	 direto	 de	 mudanças	 na	 economia.	 Quase	 sempre	 esse	 tipo	 de
desemprego	 resulta	 de	 avanços	 tecnológicos	 ou	 de	 alterações	 drásticas	 na
demanda.	Ele	é	natural	(e,	de	modo	geral,	o	efeito	colateral	do	progresso)	e	não
pode	 ser	 eliminado	 de	 forma	 prática.	 Por	 fim,	 o	 desemprego	 clássico	 ocorre
quando	a	oferta	de	trabalhadores	excede	a	demanda.	Esse	tipo	de	desemprego	é
quase	sempre	combatido	por	leis	salariais	e	ações	afirmativas.
Olhando	para	os	 tipos	de	desemprego,	 fica	evidente	que	o	pleno	emprego
não	é	plausível	nem	o	ideal.	Ademais,	o	desinteresse	pelo	pleno	emprego	pode
ser	resumido	por	três	razões	–	sendo	as	duas	primeiras	referentes	ao	desemprego
friccional.	 A	 primeira	 delas	 é	 o	 fato	 de	 haver	 empregados	 que	 optarão	 por
investir	 em	 si	 mesmos	 por	 meio	 da	 educação	 ou	 de	 treinamento	 adicional.
Segunda,	 os	 empregados	 tentarão	 maximizar	 seu	 potencial	 de	 ganho	 ou
satisfação	 profissional	 por	meio	 das	mudanças	 de	 carreira.	 Terceira,	 a	mão	 de
obra	especializada	é	absolutamente	necessária	em	um	sistema	econômico	bem-
sucedido.	 Se	 um	 sistema	 econômico	 ordena	 ou	 requer	 pleno	 emprego,	 os
resultados	 se	 revelarão	 caóticos	 devido	 à	 necessidade	 de	 mão	 de	 obra
especializada.	O	pleno	emprego	pode	empregar	um	ex-advogado	desempregado
como	encanador.	O	encanador,	talvez,	tenha	de	começar	a	cuidar	de	grama	como
sendo	 sua	 profissão,	 e	 os	 jardineiros,	 talvez,	 tenham	 de	 começar	 a	 trabalhar
como	 seguranças.	 Haveria	 uma	 frustração	 crescente	 com	 os	 sacrifícios
demandados	para	suprir	essa	demanda.
Assim	 como	 o	 sonho	 da	 ausência	 de	 classes	 sociais,	 o	 objetivo	 do	 pleno
emprego	 é	 uma	 tábua	 de	 apoio	 em	 uma	 plataforma	 utópica	 que	 não	 está	 de
acordo	nem	com	o	Calvinismo	nem	com	a	realidade	econômica	a	 longo	prazo.
Embora	 algumas	 teologias	 enfatizem	 mais	 que	 o	 Calvinismo	 a	 nobreza	 do
trabalho	e	do	emprego,	a	perspectiva	calvinista	vê	claramente	quea	providência
é	 uma	 força	 condutora	 e	 que	 inevitavelmente	 existirão	 períodos	 com	 menos
oportunidades	em	relação	ao	pleno	emprego.
Providência
Por	 certo,	 Calvino	 tratava	 do	 assunto	 providência	 de	modo	 proeminente.
Referências	a	essa	verdade	vital	estão	entrelaçadas	por	quase	todos	os	capítulos
das	Institutas.	Essa	noção	está	tão	presente	no	coração	de	Calvino	a	ponto	de	não
conseguirmos	compreendê-lo	por	completo	se	a	ignorarmos.
Desde	o	princípio	de	sua	grande	obra,	o	 reformador	 tentou	esclarecer	que
providência	 não	 deve	 ser	 confundida	 com	 destino	 cego.	Calvino	 a	 visualizava
como	“o	domínio	de	Deus	estendido	a	todas	as	suas	obras”,	a	qual	“não	é	uma
sorte	vã	e	ociosa,	mas	uma	sorte	vigilante,	 eficiente	 e	 ativa,	 engajada	em	uma
atividade	incessante”	(Institutas,	1.16.3).	Ele	negava	que	Deus,	em	vão,	observa
do	céu,	e	entendia	a	providência	como	“algo	pelo	qual,	como	aquele	que	detém	a
chave,	governa	 todos	os	acontecimentos.	Portanto,	devemos	provar,	assim,	que
Deus	cuida	da	regulação	dos	acontecimentos	individuais,	e	 todos	eles,	de	igual
modo,	 procedem	 de	 seus	 planos	 e	 nada	 acontece	 por	 acaso”	 (1.16.4).	 Mais
adiante,	Calvino	afirmou	que	“nada	acontece	senão	pela	ordem	ou	permissão	de
Deus”	 (1.16.8),	 e,	 aplicando	 tal	 afirmação	 ao	 exemplo	 da	 morte	 de	 um
comerciante,	 ele	 explicou:	 “Sua	morte	 não	 só	 foi	 prevista	 aos	 olhos	 de	Deus,
como	 também	 determinada	 pelo	 seu	 decreto.	 Porquanto	 não	 é	 dito	 ter	 ele
previsto	 quanto	 tempo	 de	 vida	 cada	 homem	 teria,	 mas	 ter	 ele	 determinado	 e
fixado	 os	 limites	 dos	 quais	 os	 homens	 não	 passariam	 [Jó	 14.5]”	 (1.16.9).
Portanto,	os	cristãos	devem	visualizar	“a	morte	desse	tipo	como	providência	de
Deus	 exercida	 sobre	 o	 destino	 rumo	 ao	 seu	 fim”	 (1.16.9).	 Para	 Calvino,	 a
providência	é	o	princípio	determinante	de	todas	as	coisas	(1.17.1)	e,	de	fato,	“o
principal	propósito	da	história	bíblica	é	ensinar	que	o	Senhor	vigia	os	caminhos
dos	seus	santos	com	tamanha	diligência	a	ponto	de	eles	não	tropeçarem	em	uma
pedra	sequer”	(1.17.6).	Em	suma,	para	o	reformador,	o	entendimento	adequado
de	 providência	 significava	 ser	 ela	 tanto	 essencial	 como	 prática,	 enquanto	 “a
ignorância	dela	significava	o	auge	de	toda	a	miséria;	ao	passo	que	a	maior	bem-
aventurança	se	encontra	em	conhecê-la”	(1.17.11).
Calvino	observou	o	consolo	dessa	doutrina:	“A	fé	deve	penetrar	de	maneira
profunda,	 isto	 é,	 encontrar	Deus,	 o	Criador	de	 tudo,	 a	 fim	de	 concluir	 que	 ele
também	 é	 o	 eterno	 Governador	 e	 Preservador	 –	 não	 somente	 pelo	 fato	 de
conduzir	 o	 plano	 celestial,	 mas	 também	 porque	 sustenta,	 alimenta	 e	 cuida	 de
todas	as	coisas	que	criou,	até	o	menor	pardal”	(1.16.1).
Calvino	entendia	a	doutrina	da	providência	de	Deus	como	um	“benefício”
muito	prático	(1.18.1;	1.17.11).	Posto	tal	providência	ser	o	que	determina	todas
as	coisas	(1.17.1,	4,	7,	9),	o	reformador	acreditava	que	ela	concedia	segurança	e
confiança	aos	cristãos	no	 imutável	decreto	de	Deus	(1.18.6).	O	último	capítulo
do	livro	1	das	Institutas	ilustra	que	Calvino	via	a	doutrina	da	providência	como
portadora	 de	 muito	 consolo	 e	 muitas	 aplicações.	 Ele	 previu	 as	 discrepâncias
práticas	 e	 abordou-as	 sucintamente	 naquele	 capítulo	 (1.18.3-5).	 Mais	 adiante,
falou	 a	 respeito	 do	 coração	 grato,	 da	 paciência	 na	 tribulação	 e	 da	 incrível
libertação	 de	 preocupações,	 pois	 “tudo	 o	 que	 é	 necessário	 provém	 da
compreensão”	da	providência	de	Deus	(1.18.7).
João	 Calvino	 foi	 o	 pregador,	 não	 o	 ser	 racional,	 quando	 pontuou	 sua
discussão	 a	 respeito	 da	 providência	 com	 o	 retórico	 refrão:	 “Se	 José	 tivesse
parado	de	viver	por	causa	da	infidelidade	de	seus	irmãos,	se	Jó	tivesse	voltado
sua	 atenção	 aos	 caldeus,	 se	 Davi	 tivesse	 fixado	 os	 olhos	 em	 Simei”	 (1.17.8).
Calvino	argumentava	que	a	 falta	da	providência	de	Deus	nos	deixaria	em	uma
situação	insuportável	–	desesperados	diante	dos	incontáveis	inimigos	(1.17.10).
Além	 do	 mais,	 ele	 esperava	 que	 “alívio”	 e	 “consolo”	 fluíssem	 à	 medida	 que
aprendêssemos	a	confiar	na	providência	divina	(1.17.11).
Calvino	exaltou	a	providência	de	Deus	com	estas	palavras:
Quanto	 àqueles	 a	 quem	 isso	 parece	 de	 difícil
compreensão,	 que	 reflitam	 por	 um	 tempo	 o	 quão
suportável	é	sua	sensibilidade	diante	da	recusa	de	algo
comprovado	 por	 meio	 de	 provas	 bíblicas	 claras,
porque	vai	além	de	sua	capacidade	mental,	e	criticar	as
coisas	 que	 são	 reveladas	 publicamente,	 as	 quais,	 se
Deus	 não	 tivesse	 considerado	 útil	 para	 os	 homens
conhecê-las,	 jamais	 teria	 instruído	 seus	 profetas	 e
apóstolos	a	ensiná-las.	Porquanto	nossa	sensatez	é	tão
somente	aceitar	com	humilde	disposição	para	aprender
e,	 sem	 criticar,	 tudo	 aquilo	 que	 é	 ensinado	 nas
Escrituras	 Sagradas.	 Aqueles	 que	 de	 modo
extremamente	 insolente	 escarnecem,	 mesmo	 estando
bem	claro	estarem	eles	 tagarelando	contra	o	Pai,	 não
são	dignos	de	mais	uma	refutação	(1.18.4).
Cerca	de	um	século	depois	de	Calvino,	a	Confissão	de	Fé	de	Westminster
(1646)	 perpetuava	 a	 visão	 do	 reformador,	 descrevendo	 a	 providência	 com	 as
seguintes	palavras:	“Deus,	o	grande	Criador	de	todas	as	coisas,	para	o	louvor	da
glória	de	sua	sabedoria,	poder,	justiça,	bondade	e	misericórdia,	sustenta,	dirige,
dispõe	e	governa	todas	as	criaturas,	todas	as	ações	delas	e	todas	as	coisas,	desde
a	maior	até	a	menor”.	Tal	visão	quanto	à	providência	está	em	plena	concordância
com	 as	 palavras	 de	 Paulo,	 que,	 em	 sua	 discussão	 dos	 dons	 espirituais	 em
1Coríntios	12.11,	enfatiza	o	dever	de	cada	pessoa	de	se	contentar	com	os	dons
que	Deus	distribuiu	de	acordo	com	a	 sua	vontade.	Em	consequência,	devemos
compartilhar	nossos	dons	com	o	corpo,	ou,	como	coloca	Calvino	nos	comentário
sobre	as	palavras	de	Paulo:	“Os	dons	não	são	distribuídos,	dessa	forma,	de	modo
variado	 entre	 os	 cristãos	 a	 fim	 de	 que	 sejam	 usados	 separadamente,	mas	 para
que,	 na	 divisão,	 haja	 a	 unidade,	 porquanto	 um	 só	 Espírito	 é	 a	 fonte	 de	 todos
eles”.8
A	 providência	 de	 Deus	 está	 presente	 em	 todos	 os	 acontecimentos.
Precisamos	aprender	a	enxergar	sua	“mão	invisível”	agindo	em	todas	as	coisas.
Ele	é	verdadeiramente	soberano	sobre	toda	a	história.	Duvidar	disso	é	rejeitar	o
senhorio	 de	 Deus.	 Tal	 rejeição	 não	 é	 apenas	 fundamentada	 na	 ausência	 de
informações;	é	 também	a	revolta	do	coração	contra	o	Criador.	Feliz	é	a	pessoa
que	 aprende	 a	 enxergar	 a	 mão	 do	 Pai	 em	 tudo	 na	 vida.	 Calvino	 tinha	 essa
perspectiva	e	sabia	bem	que,	para	“evitar	a	filosofia	natural	insensata,	devemos
sempre	começar	com	o	seguinte	princípio:	todas	as	coisas	na	natureza	dependem
da	vontade	de	Deus	e	todo	o	curso	da	natureza	é	somente	o	pronto	cumprimento
de	suas	ordens”.9
A	providência	é	ensinada	com	frequência	na	Bíblia
No	 início	 dos	 Evangelhos,	 a	 providência	 é	 percebida	 na	 vida	 da	mãe	 de
Jesus.	Maria,	que	desejava	doar	valores	e	bens	para	o	mundo,	era	pobre.	Ela	foi
orientada	por	um	anjo	a	ir	para	o	Egito,	porém,	não	tinha	recursos.	Maria	e	José
não	 tinham	 nem	 como	 pagar	 por	 um	 pernoite.	 No	 entanto,	 Deus,	 em	 sua
providência,	trouxe	homens	sábios	do	Oriente,	trazendo	presentes	com	os	quais
os	pais	de	Jesus	passaram	a	ter	recursos	para	obedecer	a	Deus	e	ir	para	o	Egito.
O	Salvador	do	Mundo	foi	protegido	pela	providência	do	Pai.
Mesmo	o	tratamento	de	Jesus	para	com	Judas	revela	a	providência	de	Deus.
Quando	as	pessoas	leem	as	passagens	nos	Evangelhos	relacionadas	a	Judas,	não
conseguem	 deixar	 de	 perguntar	 como	 Deus	 pôde	 permitir	 que	 algo	 assim
acontecesse.	 Jesus	 tinha	 a	 resposta:	 o	 Pai	 levantou	 Judas	 para	 um	 propósito
específico:	 certificar-se	 de	 que	 Judas	 trairia	 Jesus;	 porém,	 isso	 também	 fazia
parte	 do	 plano	 divino.	 Não	 estava	 além	 da	 providência	 o	 fato	 de	 Judas	 trair
Jesus.	Contudo,	o	resultado	não	seria	agradável	para	o	traidor.	Teria	sido	melhor
se	ele	não	tivesse	nascido.
Na	realidade,toda	a	vida	de	Jesus	é	uma	demonstração	da	providência	de
Deus.	Ele	não	foi	preso	antes	do	tempo	determinado	pelo	Pai	para	isso	nem	foi
levado	um	milésimo	de	segundo	depois.	Toda	a	vida	de	Jesus	condiz	exatamente
com	a	providência	de	Deus.
O	 mesmo	 pode	 ser	 dito	 a	 respeito	 do	 principal	 cristão	 do	 século	 1º,	 o
apóstolo	 Paulo.	 Ele	 se	 converteu	 exatamente	 quando	 a	 providência	 de	 Deus
havia	planejado.	Não	foi	por	acaso	que	ele	foi	a	Damasco	perseguir	os	cristãos.
Deus	o	encontrou	no	caminho	e	não	só	concedeu	a	 salvação,	mas	 também	um
grande	missionário	para	a	igreja	primitiva.
Posteriormente,	 Paulo	 sofreu	 um	 naufrágio.	 Em	 Atos	 27,	 vemos	 como	 a
providência	de	Deus	se	estende	a	fim	de	cuidar	do	seu	povo.	Não	apenas	Paulo
foi	 poupado,	mas	 também	a	 vida	 de	 todos	 os	 seus	 companheiros	 de	 bordo	 foi
salva.	 O	 apóstolo	 foi	 protegido	 pela	 providência	 de	 Deus	 e	 chegou	 a	 Roma
exatamente	como	o	Pai	havia	prometido	antes.
A	 ação	 sustentadora	 de	 Deus	 é	 ensinada	 em	 ambos	 os	 Testamentos.	 A
providência	divina	é	exercida	no	sustento	de	todo	o	universo	(Cl	1.17).	E	Isaías
ensina	que	ela	abrange	até	mesmo	as	estrelas:	“Levantai	ao	alto	os	olhos	e	vede.
Quem	criou	estas	coisas?	Aquele	que	faz	sair	seu	exército	de	estrelas,	todas	bem
contadas,	as	quais	ele	chama	pelo	nome;	por	ser	ele	grande	em	força	e	forte	em
poder,	 nem	uma	 só	vem	a	 faltar”	 (Is	40.26).	Ademais,	 lemos	em	Hebreus	1.2:
“...nos	 falou	 pelo	 Filho...	 pelo	 qual	 também	 fez	 o	 universo”,	 e	 Jó	 12.10	 faz	 a
seguinte	observação:	“Na	sua	mão	está	a	alma	de	todo	ser	vivente	e	o	espírito	de
todo	o	gênero	humano”.
O	texto	de	Salmos	145.15-16	afirma:	“Em	ti	esperam	os	olhos	de	todos,	e
tu,	a	seu	tempo,	lhes	dás	o	alimento.	Abres	a	mão	e	satisfazes	de	benevolência	a
todo	 vivente”.	 De	 semelhante	modo,	 o	 salmo	 147.8-9	 declara:	 “Que	 cobre	 de
nuvens	os	céus,	prepara	a	chuva	para	a	terra,	faz	brotar	nos	montes	a	erva	e	dá	o
alimento	aos	animais	e	aos	filhos	dos	corvos,	quando	clamam”.	O	texto	de	Atos
17.25	ensina	que	“[Deus]	nem	é	servido	por	mãos	humanas,	como	se	de	alguma
coisa	 precisasse;	 pois	 ele	 mesmo	 é	 quem	 a	 todas	 dá	 vida,	 respiração	 e	 tudo
mais”,	enquanto	Jó	34.14-15	nos	traz	a	seguinte	lembrança:	“Se	Deus	pensasse
apenas	 em	 si	mesmo	 e	 para	 si	 recolhesse	 o	 seu	 espírito	 e	 o	 seu	 sopro,	 toda	 a
carne	juntamente	expiraria,	e	o	homem	voltaria	para	o	pó”.
Se	a	providência	de	Deus	fosse	subtraída	do	seu	caráter,	um	dos	dois	ídolos
seria	criado:	ou	um	deus	que,	não	sendo	providente,	é	o	criador;	ou	um	deus	que
criou,	mas	não	é	capaz	de	sustentar.	Nenhum	desses	 ídolos	nutrirá	a	existência
humana	nem	é	ensinado	nas	Escrituras.
Essa	ideia	essencialmente	calvinista	foi	tão	longe	no	tempo	a	ponto	de	ser
ecoada	nas	palavras	de	George	Washington,	o	qual	viveu	dois	séculos	depois	da
Reforma.	 “Providência,	 disse	 Washington	 certa	 vez,	 “tem	 sido	 minha	 única
dependência	em	todos	os	momentos,	pois	todos	os	demais	recursos	parecem	ter
fracassado	conosco”.10	 Igualmente,	 a	Declaração	de	 Independência	 afirma:	 “De
firme	 confiança	 na	 proteção	 da	 divina	 providência,	 empenhamos	 mutuamente
nossa	 vida,	 nossas	 fortunas	 e	 nossa	 sagrada	 honra”.	Os	 primeiros	 cristãos	 não
tinham	medo	de	confessar	que	a	providência	era	essencial	para	Deus	e	para	sua
própria	 sobrevivência.	 Faria	 bem	 para	 grande	 parte	 dos	 cristãos	 retomar	 essa
visão	da	providência	de	Deus	como	alicerce	de	nossa	vida	diária.
A	 providência	 divina	 se	 estende	 a	 todas	 as	 pessoas,	 todos	 os
acontecimentos,	 todas	as	épocas	e	 todas	as	 regiões.	Thomas	Watson,	calvinista
do	 século	17,	 disse:	 “A	 região	que	 a	Providência	visita	 é	muito	grande;	 ela	 se
estende	ao	céu,	à	terra	e	ao	mar”.11	Ela	também	se	estende	às	menores	coisas,	aos
pardais	que	caem	e	aos	 fios	de	cabelo	de	nossa	cabeça	 (Mt	10.29-30).	Watson
conclui:	“Por	certo,	se	a	providência	se	estende	aos	cabelos	de	nossa	cabeça,	que
dirá	à	nossa	alma”.12
O	 ensinamento	 de	 Calvino	 sobre	 a	 providência	 tem	muitas	 ramificações.
Uma	 delas	 se	 aplica	 à	 instituição	 do	 livre	 mercado.	 Porquanto,	 se	 Deus	 tem
domínio	soberano	sobre	as	economias,	o	livre	mercado	pode	facilmente	ser	um
instrumento	 de	 sua	 vontade.	 Ele	 pode	 ter	 dado	 a	 entender	 que,	 em	 grandes
economias,	 o	 gerenciamento	 de	 mercados	 altamente	 complexos	 não	 seria
possível.	Certo	estudo	moderno	sintetiza	o	ponto	desta	forma:
O	livre	mercado	é	consistente	com	a	visão	bíblica	da
natureza	 humana	 de	 outra	 maneira.	 Ele	 reconhece	 a
fragilidade	 dela	 e	 as	 limitações	 do	 conhecimento
humano.	Ninguém	é	capaz	de	saber	o	suficiente	a	fim
de	 administrar	 uma	 economia	 complexa.	 Esse	 poder
não	 deve	 ser	 confiado	 a	 ninguém.	Essa	 afirmação	 se
aplica	 igualmente	 às	 pessoas	 que	 controlam	 grandes
corporações,	aos	políticos	que	controlam	uma	nação	e
ao	pequeno	grupo	de	pessoas	indicadas	que	controlam
o	 Sistema	 de	 Reserva	 Federal.	 A	 fim	 de	 que	 o
Socialismo	 dê	 certo,	 exige-se	 uma	 classe	 de
planejadores	oniscientes	para	prever	o	futuro,	fixar	os
preços	 e	 controlar	 a	 produção.	 No	 sistema	 de	 livre
mercado,	 as	 decisões	 não	 são	 tomadas	 por	 uma	 elite
burocrática	 e	 onisciente,	 mas	 através	 de	 todo	 um
sistema	 econômico	 por	 intermédio	 de	 incontáveis
agentes	da	área	de	economia.13
Dada	a	discussão	da	providência	divina,	voltemos	agora	nosso	foco	às	suas
implicações	 no	 comércio.	 Em	 particular,	 examinaremos	 como	 a	 providência
estabelece	 o	 princípio	 fundamental	 para	 o	 que	 chamamos	 de	 “santificação
econômica”.	 Antes	 de	 abordarmos	 o	 tema	 da	 santificação,	 todavia,	 pode	 ser
conveniente	 dizer	 algumas	 palavras	 com	 relação	 à	 doutrina	 da	 predestinação.
Mencionada	 com	 frequência	 em	 termos	 espirituais,	 a	 predestinação	 é	 o
complemento	 natural	 da	 soberania	 de	Deus	 e	 é	 relevante	 para	 o	 chamado	 dos
homens,	 sua	 posição	 social	 na	 vida,	 seus	 bens,	 talentos	 e	 recursos.	 Todavia,
restringir	 a	 predestinação	 à	 esfera	 espiritual	 é	 teologicamente	 insuficiente	 e	 dá
margem	a	uma	miríade	de	visões	de	mundo	errôneas	e	convicções	que	afetam	a
teoria	e	prática	comerciais.
Em	uma	extremidade	do	espectro	encontra-se	o	conceito	da	predestinação
econômica	 e	 bíblica	 reformada.	 Conforme	 discutido	 previamente,	 a	 grande
verdade	é	que	 tanto	os	pobres	quanto	os	 ricos	 estarão	 sempre	presentes.	Além
disso,	a	visão	 reformada	defende	que	cada	homem	é	predestinado	ou	chamado
para	 a	 condição	 econômica	 e	 função	 profissional	 nas	 quais	 se	 encontra.	 Não
existem	 acidentes	 cósmicos	 de	 riqueza	 ou	 pobreza.	Apesar	 de	 o	 homem	 fazer
planos	e	escolhas,	Deus	é	quem	decide	o	resultado	final.	No	entanto,	o	homem
não	 é	 livre	 para	 não	 fazer	 nada	 e	 aguardar	 o	 sustento	 pela	 graça	 de	 Deus.	 O
homem	tem	responsabilidades	gerais	e	específicas	para	com	Deus	e	o	próximo
no	 momento	 em	 que	 Deus	 lhe	 revela	 sua	 predestinação	 econômica	 e	 seu
chamado.	 Em	 primeiro	 lugar,	 dentre	 as	 responsabilidades	 está	 a	 exigência	 do
trabalho.	Em	segundo,	exige-se	que	o	homem	aja	dentro	dos	limites	dos	sistemas
legal	e	governamental	sob	os	quais	se	encontra.	Em	terceiro,	seja	empregado	ou
patrão,	 exige-se	 que	 ele	 obedeça	 e	 sirva	 com	 coração	 agradecido,	 como	 se
trabalhasse	 para	 o	 Senhor.	 Agora,	 se	 o	 homem	 é	 predestinado	 a	 ser	 abastado
neste	mundo,	a	exigência	é	que	seja	“rico	em	boas	obras”,	generoso	e	perdoador.
Os	pobres	também	têm	responsabilidades	–	por	exemplo,	não	sucumbir	ao	ciúme
e	ao	 furto.	Ambos	 têm	a	 responsabilidade	de	 se	contentarem	e	darem	graças	a
Deus	em	todas	as	circunstâncias.	De	acordo	com	a	economia	bíblica,	alguns	são
predestinados	 à	 riqueza,	 outros,	 à	 pobreza	 e	 outros,	 à	 classe	 média.	 Aos
participantes	de	cada	grupo	são	dadas	certas	responsabilidades.	Aplicável	a	todas
as	 classes	 sociais,	 o	 modelo	 também	 é	 dinâmico;	 em	 outras	 palavras,	 essa
predestinação	econômica

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