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Calvino e o comércio, de David W. Hall e Matthew D. Burton © 2017 Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente em inglês sob o título Calvin and commerce © 2009, by David W. Hall e Matthew D. Burton. Todos os direitos são reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, estocada para recuperação posterior ou transmitida de qualquer forma ou meio que seja – eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou de outro modo – exceto breves citações para fins de resenha ou comentário, sem o prévio consentimento de P&R Publishing Company, P.O.Box 817, Phillipsburg, New Jersey 08865-0817. Conselho Editorial Cláudio Marra (Presidente) Filipe Fontes Heber Carlos de Campos Jr Hermisten Maia Pereira da Costa Joel Theodoro da Fonseca Jr Misael Batista do Nascimento Tarcízio José de Freitas Carvalho Victor Alexandre Nascimento Ximenes Produção Editorial Tradução Daniele Damiani Revisão Vagner Barbosa Sandra Couto Mariana Ferreira de Toledo Editoração Ideia Dois Capa Magno Paganelli Produção do e-book Ranna Studio H174c Hall, David W. Calvino e o comércio / David W. Hall; Matthew D. Burton; Traduzido por Daniele Damiani. _ São Paulo: Cultura Cristã, 2017 208 p. Recurso eletrônico (ePub) ISBN 978-65-5989-016-3 Tradução Calvin and commerce 1. Calvinismo 2. Cosmovisão cristã 3. Vida cristã I. Título CDU 275.4 A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora oficial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que refletem a sua própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denominação e pela Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação sobre pontos específicos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé. Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP 01540-040 – São Paulo – SP Fones 0800-0141963 / (11) 3207-7099 www.editoraculturacrista.com.br – cep@cep.org.br http://www.editoraculturacrista.com.br mailto:cep@cep.org.br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio Antônio Batista Marra Sumário Prefácio Introdução 1. Criação O homem como criatura e criador Criação: tempo de abundância e riqueza além das necessidades básicas A responsabilidade do homem pelo domínio da criação de Deus A criação e o equilíbrio entre trabalho (vocação) e descanso (dia de descanso) A riqueza não é moralmente ruim 2. Queda A depravação requer uma ética de trabalho O homem não é “socialista” por natureza O papel da riqueza Juros ou usura? Os pobres e os ricos vieram para ficar 3. Redenção A liberdade cristã Calvino contra o orgulho e a ignorância Administração e propriedade privada A riqueza como um excesso de agradecimento e exaltação pela salvação Investimento como um chamado ao resgate A obra de caridade e a lei Calvino sobre a ética de propriedade e a ética comercial: Êxodo 21–24 Padrão para a caridade 4. Filantropia A caridade extrafamiliar A filantropia de Calvino e o cuidado com os pobres As corretas definições de obra de caridade e pobreza Suposições incorretas sobre a assistência social: Calvino sabia mais 5. Santificação e serviço A igualdade social é o objetivo? Providência Santificação A providência compensa a falta de consideração pelos pobres? O espírito comercial calvinista inicial O trabalho santifica Dignidade para o trabalho do homem 6. Escatologia O presente é mais bem definido pela eternidade do que por si mesmo O investimento a longo prazo e a fidelidade bíblica A preparação e o acúmulo de ativos A tomada de risco e o acúmulo de recompensas são permitidos e incentivados Calvino e a educação Calvino e a frugalidade Os cinco pontos da economia de Calvino Conclusão Prefácio Esta pequena obra deve ser vista como um diálogo, não obstante a necessidade artística das vozes distintas dos diversos personagens. Apesar de nosso ineficiente esforço demonstrado abaixo nunca se equiparar aos clássicos diálogos como em a República de Platão, The Crown Rights of Scotland, de Buchanan, Diálogos sobre a religião natural, de Humes, ou Cartas do diabo ao seu aprendiz, de Lewis, múltiplas vozes podem, ainda, servir para prender a atenção do leitor enquanto instruem. Embora, vez ou outra, este livro revele as vozes distintas de seus autores – sendo um deles especialista financeiro e o outro, teólogo – as vozes, com bastante frequência, também se unificam a fim de formar um coro. Também acreditamos que os leitores periódicos e os profissionais de negócios podem se beneficiar de um resumo não técnico a respeito da ética comercial calvinista de acordo com o formato abaixo. Sob o título de ética comercial calvinista, este livro básico busca, primeiramente, extrair os principais aspectos financeiros, comerciais e econômicos do ensinamento de Calvino e depois aplicá-los aos mercados e decisões da modernidade. Se o diálogo resultante parecer, certas vezes, uma voz teológica do século 16 conversando com a voz do mercado do século 21 – e vice-versa – isto é, em parte, o nosso objetivo. As vozes de outros defensores e adversários também são representadas nesta discussão. Nossa esperança é que este livro propicie uma discussão inteligente do espírito do Calvinismo e de como ele tem impactado os setores comerciais. Claro, a intenção não é que este, por si só, seja um livro didático sobre economia; tampouco abrange tudo o que Calvino escreveu a respeito dos assuntos relacionados a negócios e finanças. Contudo, ao oferecer esta obra como parte da celebração dos 500 anos de João Calvino, os autores acreditam que tanto a homenagem como a elaboração de sua ideia concernente a este assunto são dignas de nota. Esperamos que, dentro destas páginas, um resumo adequado e uma representação das visões de Calvino possam ser acessados. Se, dentro destas mesmas páginas, o leitor também encontrar discussões a respeito de como as visões de Calvino se desenvolveram, quais as consequências resultantes delas e como suas teorias podem ser proveitosamente aplicadas às sociedades modernas, será ainda melhor. Acreditamos que os líderes de empresa apreciarão as percepções de Calvino mais do que qualquer outro público. Convidamos o leitor a examinar nossas discussões. Temos certeza de que a soma é muito melhor do que nossas vozes individuais. Sem dúvida, muitos outros agregarão a essas discussões mais adiante, mas esta atualização do valor do Calvinismo, tanto para o mercado como para compreender os negócios e a economia, serve para todos aqueles que desejam entender nossa história. Também não temos a ilusão de que esta seja uma abordagem exaustiva ou que responda todas as perguntas. Uma abordagem consideravelmente simples é adotada, na qual desejamos apenas contar para as outras pessoas o que aprendemos com Calvino, bem como aplicar os aspectos de sua teologia aos mercados com os quais nos deparamos. Gostaríamos de agradecer às seguintes pessoas por sua ajuda: Dr. Scott Cunningham e Dr. Jon Payne, por lerem todo o texto, darem sugestões e fazerem críticas extremamente úteis. Como resultado, este livro melhorou de forma imensurável; Andrew Hall, estagiário na Narwhal Capital Management, por sua pesquisa e assistência; Michael Brock, pelos muitos anos de compreensão e amizade; David Westall, por suas explicações e sugestões; Mac Plumart e Sean Sunehew, ambos da Narwhal Capital Management, por lerem e rastrearem as referências erradas; e a InvisibleHand Foundation, por seu subsídio educacional para ajudar nas etapas finais desta obra. Este livro é carinhosamente dedicado a nossas esposas e filhos, sem os quais, confessamos abertamente, seríamos perdedores e preguiçosos. Dedicamos também nosso agradecimento aos nossos mestres: Jack Burton, por me dar o exemplo de liderança e me ensinar mais do que posso revelar em toda a minha vida; Bob Matthew, que não somente passou a amar os ideais de Calvino, mas também é, inquestionavelmente, o melhor executivo que qualquer um de nós espera conhecer; Richard Hall, que me ensinou a viver dentro das minhas possibilidades, a evitar dívidas em excesso e a trabalhar; e Pat Fleming, que nos deu e continua nos dando amor, encorajamento, liderança e discernimento. Introdução João Calvino (1509–1564), cujo aniversário de 500 anos foi comemorado em 2009,1 fez uma de suas contribuições mais duradouras quando abriu caminho para as modernas práticas comerciais com base no mercado. Encontrando-se na conjuntura entre a Idade Média e o início da Idade Moderna, Calvino testemunhou e contribuiu para uma imensidão de mudanças na economia mundial, e fez isso baseado em uma declaração de princípios fundamentada na fé. Um resumo feito em meados do século 20 a respeito dos ensinamentos de Calvino mostra o quanto suas ideias eram avançadas em relação aos ensinamentos medievais: Poucos teólogos relacionavam os fatos econômicos com o drama cósmico da redenção de maneira tão clara como Calvino. Para esse reformador, a prosperidade é somente um agente inserido nesse drama, nunca neutro, mas sempre um instrumento de graça ou infortúnio. Essa recusa em objetivar os bens materiais se contrapõe claramente ao pensamento medieval.2 Claro, Calvino não engrandecia a pobreza e buscava “reabilitar a vida material”3 como parte da vocação humana e da obediência cristã. Além do mais, ele era capaz – como não o eram muitos de seus antecessores – de perceber que a economia e o lucro poderiam intensificar a produtividade futura, algo diferente do acúmulo interesseiro. André Biéler resumiu as contribuições de Calvino da seguinte maneira: Ao atribuir à fé toda a esfera da atividade humana, que os cristãos devem submeter ao senhorio de Cristo, Calvino, indubitavelmente, conferiu ao trabalho, ao trabalho econômico e ao dinheiro um lugar que eles não tinham antes, possibilitando aos calvinistas extrair deles toda a sua humanidade e potencialidades sociais.4 A partir de uma perspectiva um pouco mais antagônica, o papel de Calvino na história do comércio foi avaliado nestes termos: Aquele que tentasse traçar o desenvolvimento capitalista em qualquer país da Europa... sempre se depararia com um mesmo fato: a Diáspora calvinista é, ao mesmo tempo, a causa da economia capitalista. Os hispânicos expressaram tal fato com as seguintes palavras de amarga reflexão: “Os hereges facilitam o espírito comercial”.5 Embora alguns economistas possam afirmar que “a característica mais notável da tese da ética protestante seja a ausência do apoio empírico”,6 outros relatam: A Reforma Protestante impulsionou uma revolução mental que tornou possível o advento do Capitalismo moderno. A visão mundial propagada pelo Protestantismo rompeu com as orientações psicológicas tradicionais por meio de sua ênfase na diligência pessoal, frugalidade, parcimônia, responsabilidade individual e por meio da aprovação moral conferida à tomada de risco e ao desenvolvimento financeiro pessoal.7 O teorista social Rodney Stark descobriu ser a liberdade um ingrediente essencial para o crescimento do Capitalismo. Assim como Max Weber, um século antes, a recente obra de Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success, busca responder por que algumas sociedades europeias cultivaram o Capitalismo, ao passo que outras não. Ele sugere que muitos fatores – como o apoio do clérigo ao mercado de capitais, a convicção de que o progresso tecnológico era uma bênção, e não uma maldição, a educação, a inovação manufatureira, o avanço da ciência e as expectativas para soluções administrativas coerentes – contribuíram para o que, com frequência, é citado como a ética protestante, cujo aparecimento se deu simultaneamente à explosão do Capitalismo.8 Pelo menos no que se refere à cobrança de juros, se não ao comércio em geral, a posição de Calvino é “absolutamente decisiva dentro da história econômica do Ocidente”.9 Enquanto muitos interpretam Calvino de maneira incorreta, igualando prosperidade material e predestinação eterna, este estudo mostrará o quanto essa caricatura é incorreta. Todavia, as contribuições de Calvino para a área do desenvolvimento de ativos são, de modo relativo, feitos impressionantes, em especial quando se leva em consideração o fato de que sua prosperidade pessoal foi sempre modesta e ele não administrava nenhuma instituição financeira. Ele era pastor, um clérigo, que ensinava seu povo a partir das Escrituras, recentemente redescobertas, então, pela Reforma Protestante. Antes de se lançarem às águas do pensamento de Calvino, os leitores honestos terão de superar o preconceito residual que se origina a partir das críticas e imagens oferecidas por pessoas como Max Weber.10 Embora esse preconceito quase sempre caracterize nossa percepção quanto às convicções de Calvino, é importante que nos comprometamos a entender o que ele realmente ensinou. Para esse fim, o leitor moderno deve fazer as seguintes perguntas: O que Calvino ensinou ou não ensinou que levou a essa enorme mudança no comércio? Os ensinamentos dele foram adotados rapidamente? Caso tenham sido, por quem e onde? Quais eram os seus pontos de vista com relação a prosperidade, dinheiro, avareza e finanças? Onde podemos encontrar comentários específicos feitos por Calvino relacionados a assuntos de prosperidade e comércio? Quais culturas se beneficiaram ou têm a probabilidade de se beneficiar dos ensinamentos econômicos de Calvino? Esta obra concisa tenta responder tais perguntas. Para tanto, esta também é uma obra claramente teológica; considerá-la de outra forma seria distorcer as fontes originais. Portanto, cada capítulo abaixo foca em um valor megateológico: criação, queda, redenção, filantropia, administração e escatologia. Conforme buscarmos entender os pontos de vista de Calvino a respeito desses tópicos, também mensuraremos o decidido reformador protestante segundo as próprias Escrituras e analisaremos quais práticas comerciais estão mais de acordo com as verdades bíblicas que alimentaram a maior parte do pensamento de Calvino. No decorrer da leitura, discutiremos os paradigmas apresentados por diversas filosofias comerciais. Cada corrente de pensamento tem suas próprias imperfeições e deficiências que sustentam o comportamento ou decisões contrários a determinadas realidades econômicas. Compararemos essas várias correntes de pensamento aos conceitos comerciais contidos nas obras de João Calvino. Um segundo objetivo deste livro é apontar as incompatibilidades dos diversos sistemas quando comparados a um padrão transcultural: a Bíblia. Para melhor esclarecimento, permita-nos, em um breve momento, distinguir este livro de outras exposições econômicas com abordagem bíblica. Afinal, existem muitos livros que apresentam vários sistemas econômicos ou práticas comerciais e tentam revesti-los com o Cristianismo como forma de ilustrar as semelhanças e/ou diferenças. Como consequência, muitos deles chegam à conclusão (explícita ou implicitamente)de que o Cristianismo e a economia são duas vertentes de pensamento completamente independentes. Em outras palavras, as duas correntes lineares do pensamento são examinadas para uma possível relação em vários pontos, porém, não compartilham, necessariamente, de uma equivalência, nem mesmo de um único valor. Como resultado, as duas identidades isoladas são utilizadas para avaliar ou testar uma à outra.11 Nossa abordagem difere daquela que considera o Cristianismo e a economia como duas áreas separadas. Em contrapartida, verificamos que os pontos de vista relacionados à prosperidade resultam da teologia ou de valores fundamentais. A tese de nossa afirmação é que os interesses financeiros e comerciais não são independentes, mas sim uma extensão das convicções teológicas. Sendo assim, examinaremos a conduta financeira sob as lentes bíblicas produzidas por João Calvino. Observaremos o comportamento comercial e econômico da mesma maneira como uma pessoa observaria o comportamento de um indivíduo no sábado, ou de um indivíduo sob influência do álcool, determinando, portanto, quais decisões e ações comerciais são consistentes com as Escrituras e quais poderiam ser convenientemente caracterizadas como pecado. Para as mentes filosóficas, a hierarquia lógica se propagaria da seguinte forma: das convicções religiosas resulta a teologia; da teologia resulta o pensamento político; do pensamento político, então, resulta o pensamento institucional; do pensamento institucional resulta o pensamento cultural; do pensamento cultural resultam os pontos de vista macroeconômicos; dos pontos de vistas macroeconômicos resultam os pontos de vista microeconômicos; e os pontos de vista microeconômicos levam às decisões e ações econômicas pessoais. Ademais, esta obra recapitulará os conceitos comerciais e financeiros articulados por Calvino na tentativa de conseguir reintroduzir a voz desse grande pensador reformado ao mercado de ideias. Compreendendo sua convicção de que as práticas comerciais são derivadas, em parte, do pensamento teológico, procuraremos explorar seus textos em busca de atrativos, contudo, também não chegaremos, genuinamente, a reunir textos comprobatórios que aleguem que Jesus era um capitalista ganancioso. Valores, fé e verdade Não acreditamos apenas que os valores ou ideias e hábitos fundamentais afetam as decisões econômicas de menor importância, mas este livro também aceita a realidade de que certas ideias iniciais – ou pressuposições – podem exercer enormes efeitos em ações mais amplas ou interesses sistêmicos. Portanto, tais pressuposições devem ser identificadas como uma questão de honestidade intelectual e compreendidas como forma de esclarecimento. Todos os sistemas econômicos e as culturas comerciais possuem suposições básicas necessárias para sustentar as variações econômicas periféricas do sistema. A abrangência de tais pressuposições é tão extensa a ponto de cada sistema econômico se tornar atraente para determinadas ideias constituintes. Tal fato explica, parcialmente, por que várias teorias e práticas econômicas são atrativas. Assim como as épocas históricas e os períodos literários quase sempre começam como uma reação a um aspecto do passado ou do presente, também o desenvolvimento das ações econômicas são reações ao descontentamento, escassez ou excesso. Portanto, seria ingênuo abordar tal estudo sem, em primeiro lugar, reconhecer a interconectividade dos vários sistemas e modelos econômicos. O ponto comum dos sistemas pode, com frequência, ser identificado com precisão pela pressuposição de cada um deles. Como afirma John E. Stapleford, “economia, obviamente, refere-se a valor – o preço relativo desta moeda pela fatia de pão – mas também se trata de valores, e sempre foi assim”.12 Considere, por exemplo, as pressuposições fundamentais da economia socialista de Karl Marx. Embora impopular entre os conservadores e evangélicos, é possível notar o mérito – mesmo sendo apenas superficiais – de muitas de suas suposições e valores agregados. Na realidade, a ideia geral de igualdade para todos em si é interessante. Além do mais, a redução da disputa entre classes, às vezes, parece desejável. Semelhantemente, as pressuposições básicas da corrente de pensamento capitalista endossam o valor do trabalho árduo por meio de incentivos. Em ambos os casos, as teorias econômicas possuem suposições definidas. Em referência a essas duas correntes de pensamento em particular, a maioria dos estudiosos concorda que os pontos de vista econômicos de Calvino estavam muito mais próximos do Capitalismo de livre mercado do que do Socialismo centralizado. Todavia, nosso objetivo é evitar caricaturar Calvino como um protolibertário. Em vez disso, preferimos argumentar que as ações econômicas são impulsionadas pelo valor e têm por base as premissas fundamentais. Ademais, esta obra defende que as convicções teológicas de Calvino transcenderam a religião e invadiram a esfera da teoria comercial e do comportamento – não somente em seus textos explícitos a respeito desses assuntos, os quais influenciaram o desenvolvimento moderno da teoria econômica, mas também por meio de sua influência nas decisões comerciais particulares de governos, famílias e pessoas. Além disso, a ciência de tais pressuposições se faz necessária ao examinar qualquer sistema econômico ou filosófico. Com tal consideração em mente, deve-se reconhecer que as pressuposições e suposições podem afetar em grande escala o que é pesquisado e como – chegando, por fim, até a moldar a ideologia em si. Portanto, um estudo competente de qualquer política econômica, sistema comercial ou teoria financeira requer uma análise extensa dos fundamentos de sua visão de mundo e certa avaliação de como tais pilares afetam as práticas do sistema. A teoria comercial raramente é uma proposição neutra. Desconstrua criticamente qualquer teoria comercial e suas pressuposições fundamentais a respeito da natureza do homem, do propósito do lucro, da pobreza, da providência, etc., se tornarão claras. João Calvino falou muitíssimo sobre esses assuntos, e ignorar sua voz é negligenciar ou minimizar um participante-chave do desenvolvimento da moderna teoria comercial. Ademais, o reformador foi rápido em admitir que todo pensamento humano flui de uma teologia sã. Para analisar de maneira adequada um sistema de negócio ou comercial, os analisadores precisam fazer as seguintes perguntas: (1) Quais são as pressuposições que tornam determinada teoria comercial atrativa? (2) Qual perspectiva teológica sustenta tais pressuposições? (3) Os resultados reais das práticas comerciais originados de uma teoria estão de acordo com suas melhores pressuposições? Antes de avançarmos ainda mais, alguns exemplos reforçarão esse ponto inicial. Karl Marx,13 claro, era cético com relação ao acúmulo de capital, criticando os capitalistas como sendo aqueles que insensivelmente acumulam e lucram. Apesar de não desejarmos ser extremamente simplistas, é difícil não pensar em Marx segundo o comentário elementar fornecido pelo economista Paul Samuelson. De acordo com ele, todos os sistemas econômicos buscam solucionar três problemas: (1) O que deve ser feito? (2) Quem deve fazer? (3) Quanto deve ser feito? Samuelson, então, observa que, historicamente, existem duas soluções principais para esse dilema: as soluções centralizadas ou as descentralizadas. Karl Marx apresentou um dos argumentos mais fortes para a soluçãocentralizada enquanto promovia simultaneamente um dos mais ousados movimentos contrários ao Capitalismo. Seu modelo econômico centralizado defendia que a propriedade privada era mais uma maldição do que uma bênção. Muitos sistemas econômicos, hoje, levam isso muito a sério e, embora quiséssemos poder afirmar com confiança que o mundo é o melhor lugar para isso, está faltando a prova conclusiva. Marx argumentou que a busca pelo interesse próprio levaria à anarquia, à crise e à dissolução do próprio sistema com base na propriedade privada, pois, para o marxismo, a símile é o controle tirano da competição, pulverizando os trabalhadores e deixando-os pior do que estariam em um sistema plausível, ou seja, um sistema baseado no domínio social ou público de propriedade.14 Suas ideias não estavam envolvidas pelo mistério. O Manifesto Comunista incluía um programa de dez pontos, defendendo o seguinte: 1. Expropriação da propriedade de terra e o emprego de toda a renda em propósitos públicos. 2. Imposto de renda com forte aumento gradual. 3. Abolição de todo o direito à herança. 4. Confisco da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes. 5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital estatal e monopolista. 6. Centralização dos meios de comunicação e transporte nas mãos do Estado. 7. Extensão das fábricas e instrumentos de produção de posse do Estado; arroteamento de terras improdutivas e melhoria do solo de acordo com um plano comum geral. 8. Obrigação igualitária ao trabalho e formação de exércitos industriais, em especial, para a agricultura. 9. Associação das indústrias agrícola e manufatureira e a abolição gradual da distinção entre cidade e campo por meio de uma distribuição mais equitativa da população. 10. Educação gratuita para todas as crianças em escolas públicas; abolição das formas existentes de trabalho infantil nas fábricas; correlação da educação com a produção industrial.15 Cada um desses conceitos individuais – sem mencionar a soma deles em um grau maior – nem de longe está isento de valores. Na realidade, se uma sociedade implementasse todas essas medidas, ela seria dramaticamente diferente daquela que defende a propriedade privada, incentiva a livre iniciativa e a redução dos impostos, além de não advogar a centralização da agricultura, educação, transporte e afins. Com sua pressuposição de que a propriedade privada seria, na verdade, a causa da luta entre as classes e da escravidão, Marx defendia as soluções centralizadas. Atraindo mais discípulos do que muitos se dão conta, tais noções se infiltraram em muitas sociedades. Os valores que fundamentam essas noções têm consequências, a nosso ver, principalmente adversas. Os valores também têm consequências em outro moderno setor comercial. A florescente corrente de economia ecológica, com seu princípio básico de atenuar quaisquer pecados percebidos contra o ambiente, também traz suposições, valores e consequências para a tabela econômica. A economia ecológica, de acordo com certo escritor “é elaborada com base em três princípios fundamentais: (1) nada é mais valioso do que o ambiente natural, tanto em nível local quanto global, tal como existe hoje; (2) tanto a pressão do crescimento populacional quanto o aumento das demandas de consumo estão pressionando o planeta em direção à exaustão de recursos; e (3) o mundo é irreconhecivelmente frágil”.16 Tais premissas, se implementadas no mundo comercial, estimulariam medidas sólidas que consistentemente incidiriam em sobretaxas sobre a produção. O aumento do interesse pelo ambiente – personificado praticamente ao nível de um ser vivo – em detrimento do benefício social da produção de bens e serviços disponíveis quase sempre atinge aqueles com a menor renda. Como consequência, uma das implicações de tais éticas ambientais simples é que o verde pode se tornar mais importante do que os pobres, na pior das hipóteses. Ideias têm consequências, e os autores presentes se unem a João Calvino na busca por chamar a atenção para isso do início ao fim. Contudo, outra ilustração pode ser encontrada no pedido de auxílio reflexivo à injeção de liquidez do governo durante muitas crises. Enquanto terminamos este livro, existe muita pressão nos Estados Unidos para que o governo socorra diversos mutuários hipotecários importantes. Superficialmente, argumenta-se que a omissão de tal socorro gerará problemas econômicos ainda mais severos. Portanto, as suposições que apoiam a política de livramento são que: (1) a carta patente central do governo inclui a responsabilidade de socorrer entidades privadas cujo colapso possa levar a futura deterioração econômica; (2) toda queda geral de preço é catastrófica; (3) usuários que fizeram empréstimos excessivos, ou mutuários que se estenderam além do limite, não devem sofrer todas as consequências por causa de seu comportamento; e (4) a tributação posterior para financiar tais socorros deve ser assumida pelo governo sem aprovação prévia. Com certeza, colegas interessados nessas questões podem alegar uma circunstância incomparável a fim de justificar a intervenção do governo, porém, os analistas intelectuais também devem avaliar a magnitude de qualquer crise observada de maneira diferente caso um período maior da história seja utilizado como base de comparação. Esse tipo de intervencionismo revela “a errônea convicção de que a intervenção governamental nas questões econômicas pode alcançar com êxito os resultados desejados mesmo que ainda não atrele o controle total caracterizador de um sistema socialista”.17 Os programas econômicos, portanto, não são tão isentos de valores como alguns imaginam, e muitas propostas modernas são mais remanescentes do manifesto de Marx do que os princípios de livre mercado, que permitem aos economistas a autocorreção pela eliminação daqueles que injustamente se estendem além dos limites, o que, por sua vez, cria uma oportunidade para novas empresas operarem com eficiência. O ponto de vista de uma pessoa a respeito do homem e da sociedade também surge em determinadas aplicações econômicas. Posterior à teoria pioneira do economista Mohammed Yunus, ganhador do Nobel da Paz em 2006, muitos adiantamentos significativos têm sido financiados no decorrer dos últimos 20 anos por grupos privados patrocinadores de microfinanciamento. Dentre esses programas bem-sucedidos, um indica, claramente, que o capital privado não é apenas necessário e valorizado nos países em desenvolvimento, mas também que os empréstimos funcionam melhor se estiverem atrelados aos diversos tipos de responsabilidade de prestação de contas. Como de costume, as organizações de microcrédito emprestam pequenas quantias de capital como recurso inicial para um negócio produtivo para aqueles que não têm o valor suficiente. Dessa forma, tais empréstimos devem ser pagos depois de gerarem rentabilidade e reutilizados na economia local. Esses empréstimos, então, são concedidos outra vez para outros, e os receptores originais têm aprendido muito sobre responsabilidade e empreendedorismo. Deixar de exigir o pagamento seria instilar expectativas econômicas erradas. Além do mais, depois de muitas décadas de empréstimos feitos dessa forma, outro componente-chave da responsabilidade foi desenvolvido visto que alguns concessores de empréstimo agora consideram o grupo dos tomadores como uma família ou uma comunidade. Os concessores descobriram que, se oito ou dez receptores de pequenos empréstimos, em contextos de desenvolvimento, estiverem ligados, formando uma unidade,uma pressão social visível se desenvolve a fim de reduzir a taxa de inadimplência. Em outras palavras, se uma pessoa, talvez, deixar de pagar um empréstimo de uma corporação desconhecida e remota, ou não tiver uma punição, é uma coisa. Entretanto, se oito ou dez receptores são tratados como uma unidade associada e a prospectiva também se torna a inadimplência de alguém próximo, mais incentivo é colocado sobre os receptores. Aqui, a existência de um grupo ou uma família torna o empreendimento mais forte.18 O Capitalismo, portanto, pressupõe determinadas condições que o farão dar certo. Sua aderência invisível é de um tipo diferente da aderência imperceptível do estadismo, ambientalismo e outros sistemas macroeconômicos. O Capitalismo quase sempre apresentará mais autoridade explanatória e mais habilidade relacionada à produção. Se tais são valores fundamentais, logo, ninguém deve se surpreender caso o Capitalismo seja visto mais como um sistema de sucesso do que de fracasso. Embora o próprio Calvino não tenha escrito um estudo econômico formal, sugerimos que a visão de mundo envolvida em seus textos e interpretações tenha valor mais duradouro do que muitos modismos econômicos passageiros. Um teste de cinco séculos de suas ideias em relação a outros sistemas comerciais e econômicos é digno de nota. Estamos sendo cautelosos a fim de evitar fazer um endosso furtivo de todos os tipos e expressões do Capitalismo, pois estamos cientes de suas várias deficiências. Sendo assim, continuamos cautelosos quanto aos abusos do materialismo dentro dos muitos contextos capitalistas. O próprio Calvino sabia e condenava tais tentações ou excessos em seu próprio ambiente do século 16; logo, não há nada novo debaixo do sol na disseminação de uma admoestação similar. As tentações das pessoas de abusarem das margens de qualquer paradigma, ou especificamente de se engajarem no hedonismo libertino dentro da construção capitalista, estão presentes (e estavam presentes para Calvino) em nível micro. Ainda assim, o Socialismo não torna um homem mais justo ou capaz de resistir à tentação. Tampouco o Comunismo, o libertarianismo ou o ambientalismo torna um homem menos pecador. A pecaminosidade humana é uma questão macro que persiste por todos os sistemas e no decorrer de toda história. Se a pecaminosidade do homem é um axioma do qual não se pode escapar, então, é possível fazer referência a todos os sistemas econômicos ou comerciais como “gaiolas de ferro”. É apenas uma questão de saber quais gaiolas nos confinam e quais ídolos estão sendo adorados. O abuso do Capitalismo está enraizado nos ídolos do materialismo ou da ganância. O abuso do Socialismo é dedicado ao ídolo da hipocrisia ou da idolatria da comunidade. Avaliações honestas quanto às pressuposições devem também abordar, com imparcialidade, a idolatria onde ela ocorrer. A Bíblia, claro, não ensina um sistema econômico completo e formal. Contudo, ela aborda e faz alusão a determinadas realidades e políticas econômicas. Apresenta, também, uma estrutura moral dentro da qual o comércio pode ser lucrativo, humano e caridoso. Essa é a razão por que esta obra recorrerá a muitas passagens bíblicas – como o fez Calvino. Conforme destacarmos os temas econômicos nas páginas abaixo, um desafio será o de perceber qual sistema comercial se adéqua melhor ao ensinamento bíblico, desafio aceito por Calvino e que levou a muitos comentários provenientes de sua pena e a conselhos para seus companheiros. Independentemente de se concorda ou não com os princípios calvinistas, é inegável que a cultura do comércio moderno foi transformada enquanto Calvino, atuando em um ponto de transformação crucial da história, promovia debates intelectuais com novas ideias. Faz-se necessário um entendimento adequado de suas contribuições. Notas 1 Diversas biografias de Calvino estão disponíveis em http://www.calvin500.org. Uma biografia mais curta também se encontra no volume complementar do autor na série dos 500 anos de Calvino, The Legacy of John Calvin: His Influence on the Modern World (Phillipsburg: P&R Publishing, 2008), p. 43-81 [Ver A vida de João Calvino, de Alister McGrath e Calvino, Genebra e a Reforma, de Ronald Wallace, ambos da Cultura Cristã (N.do E.)]. 2 André Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought (1959; reimp., Genebra: World Alliance of Reformed Churches, 2005), p. 302 [Publicado no Brasil pela Cultura Cristã com o título O Pensamento econômico e social de Calvino (N. do E.)]. 3 Ibid. 4 Ibid., p. 453. 5 Citado por Sergey N. Bulgakov em “The National Economy and the Religious Personality”, Journal of Markets and Morality 11, nº 1 (Primavera, 2008): p. 167. (pub. Orig., 1909.) 6 Laurence R. Iannaccone, “Introduction to the Economics of Religion”, Journal of Economic Literature 36 (setembro, 1998): p. 1474. 7 Jacques Delacroix, “A Critical Empirical Test of the Common Interpretation of the Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism” (dissertação apresentada nas reuniões da International Association of Business and Society, Leuven, Bélgica, 1972), p. 4. Citado em ibid, p. 1474. 8 Rodney Stark, The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success (Nova York: Random House, 2005), xiii, 38, 48, passim. 9 Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 400. Biéler também acrescenta que “Calvino foi o primeiro teólogo a remover o veto que a igreja cristã tinha, desde sua origem, à comercialização em dinheiro” (ibid., p. 402). 10 Max Weber (1864-1920) foi um sociólogo alemão que publicou inúmeros e abrangentes estudos sociológicos, incluindo uma das tentativas mais completas de analisar o impacto do Calvinismo nos setores econômicos, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (1905). Weber escreveu que a obtenção do maior capital possível combinado com o menor nível de prazer possível era o summum bonum do pensamento calvinista. Essa obra, que deve ser parabenizada por buscar explicar a mudança sísmica no comércio ocorrida depois de Calvino, analisou vários setores, contrastando a efetividade do acúmulo de capital entre os vários grupos de protestantes. Weber buscou analisar de maneira lógica as doutrinas calvinistas do chamado, da providência, da frugalidade e o uso da criação, bem como explicar por que os calvinistas pareciam desabrochar em comunidades ricas. Para uma resposta moderna e católica romana à tese de Weber, consulte Michael Novak, The Catholic Ethic and the Spirit of Capitalism (Nova York: The Free Press, 1993). Para uma resposta ortodoxa, consulte a dissertação pré-bolchevista de Sergey N. Bulgakov “The National Economy and the Religious Personality”, p. 157-179. 11 Consulte, por exemplo, Paul Heyne, Are Economists Basically Immoral? (Indianápolis: Liberty Fund, 2008). 12 John E. Stapleford, Bulls, Bears & Golden Calves: Applying Christian Ethics in Economics (Downers Grove: InterVarsity Press, 2002), p. 35. 13 Filósofo e escritor alemão, Karl Marx (1818-1883) é citado como pai do Marxismo e, com base nele, várias vertentes do Socialismo e do Comunismo foram criadas. 14 John E. Roemer, Free to Lose: An Introduction to Marxist Economic Philosophy (Cambridge: Harvard University Press, 1988), p. 2-3, citado em Mark Skousen, The Big Three in Economics: Adam Smith, Karl http://www.calvin500.org Marx, and John Maynard Keynes (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2007), p. 64-65. 15 Karl Marx e Friedrich Engels, The Communist Manifesto, Paul M. Sweezy (trad.) (Nova York: Monthly Review Press, 1964), p. 40. 16 Victor V. Claar e Robin J. Klay, Economicsin Christian Perspective: Theory, Policy, and Life Choices (Downers Grove: InterVarsity Press, 2007), p. 100. Embora alguns economistas contestassem tais pressuposições, os sistemas que as adotam são fundamentados em declarações de princípios inalcançáveis. 17 James P Gills e Ronald H. Nash, A Biblical Economics Manifesto: Economics and the Christian Worldview (Lake Mary: Creation House, 2002), p. 31. 18 Sou agradecido ao Sr. Guillaume Taylor, da UBS de Genebra, o qual também participa da diretoria do ECLOF, por suas informações quanto à explicação sobre a responsabilidade final que, certamente, se adéqua às visões da natureza humana da antiga Genebra, cuja memória desejamos honrar neste livro. 1 Criação Para começar, qualquer compreensão adequada sobre Calvino com relação às questões de dinheiro, riqueza e comércio deve admitir que todas essas entidades são criadas. O reformador suíço sabia que Deus era mais importante do que a riqueza material, e o conselho de Calvino pode servir para orientar investidores, empresários e administradores, em qualquer século, a se distanciarem do materialismo inquietante. O dinheiro é – e sempre será – uma criação; como tal, não deve ser adorado, superenfatizado ou ignorado. Assim como a própria criação, ele tem seu lugar e é útil. Todavia, Calvino advertiu sobre a possibilidade de ele se tornar um ídolo quando visto fora desse espaço que lhe foi designado. Calvino foi explícito ao dizer que Mamom não devia ser servido. Em seu comentário a respeito do texto de Mateus 6.24, ele explicou bem o dilema: “Onde a riqueza detém o domínio do coração, Deus perdeu sua autoridade. De fato, não é impossível que aqueles que são ricos possam servir a Deus; porém, qualquer um que se entregue como escravo à riqueza deve abandonar o serviço de Deus, uma vez que a cobiça nos torna escravos do diabo”.1 Em comentários anteriores, no mesmo capítulo de Mateus, ele, de modo perceptivo, descreveu como o diabo atormentou muitos com a adoração à riqueza: Os homens estão enlouquecendo com o desejo insaciável pelo ganho. Cristo os acusa de insensatez por acumularem bens com tamanho cuidado e, depois, entregarem sua felicidade para às traças e à ferrugem... O que é mais irracional do que colocar seus bens onde possam perecer ou serem roubados pelos homens? Os homens cobiçosos, na verdade, não se preocupam com isso. Eles trancam suas riquezas em cofres bem seguros, porém, não conseguem impedir que sejam expostas aos ladrões ou às traças. Estão cegos e destituídos do são julgamento, causando a si mesmos grande aflição e inquietação quanto ao acúmulo de bens... particularmente quando Deus nos concede um lugar no céu para depositarmos o tesouro e gentilmente nos convida a desfrutar das riquezas que jamais perecem.2 Em vez de se envolver nas ciladas deste mundo, Calvino recomenda a alternativa de que “a preocupação da pessoa seja em meditar sobre a vida celestial”, tema que se repetiria ao longo de todo o seu trabalho. Ele advertiu que, se o dinheiro se tornar o bem principal, “a cobiça predominará imediatamente”.3 Calvino sabia que – de um modo talvez chocante para aqueles que apenas refratam os pensamentos de Calvino por meio das lentes de Max Weber4 ou de outros críticos hostis – “se fôssemos honesta e firmemente convencidos de que a nossa felicidade está no céu, seria fácil para nós calcar o mundo, desprezar as bênçãos terrenas e nos elevarmos em direção ao céu”.5 Ele era enfático ao dizer que, embora a riqueza tivesse lugar como bênção criada, jamais deveria ser confundida com o Criador. Além do mais, sua explicação a respeito da lei frequentemente ecoava seu ensinamento. Comentando sobre o primeiro mandamento, Calvino requer exclusiva lealdade a Deus. Se alguém, de repente, for tentado a colocar a aquisição de bens acima de Deus, tal pessoa é lembrada que Deus é um Deus ciumento e não tolera lealdade concomitante a ele e a Mamom. Mais adiante, em referência ao oitavo mandamento, Calvino adverte contra a concupiscência, que poderia levar a uma variedade de fraudes. Visto que Calvino apoiou tão intensamente a detenção de propriedade privada (o que está implícito nesse mandamento), ele também se opôs a qualquer tomada ou confisco ilegal da propriedade de outras pessoas, à medida que tal apropriação desleal é, normalmente, motivada pela avareza, a qual por si só é uma forma de idolatria (Cl 3.5). Em comentários semelhantes quanto ao décimo mandamento, Calvino adverte contra colocar nosso coração na propriedade de outra pessoa ou buscar “o ganho em detrimento da perda e dificuldade do outro”.6 Não apenas a avareza foi condenada nesse mandamento, mas Calvino percebeu que, por meio dele, Deus buscou “colocar uma restrição aos desejos maus antes de eles prevalecerem”.7 Ele comparou a cobiça e outras tentações a “muitas hélices” que tornam as paixões humanas ainda maiores. Posicionado no estágio inicial do desenvolvimento econômico moderno, Calvino certamente sabia que a riqueza tem suas ciladas se as inclinações interiores de alguém não estiverem ordenadas de maneira correta. Os comentários de Calvino sobre o jovem rico do texto de Lucas 18 refletem o mesmo princípio. Não basta meramente se despojar dos bens, (“ele que priva outras pessoas, incluindo a si mesmo, do uso do dinheiro, não merece louvor”); a pessoa também deve utilizar a riqueza para a glória de Deus e amor ao próximo. A respeito dessa passagem, Calvino observou que “renunciar aos bens não é por si só algo virtuoso, mas, pelo contrário, é uma ambição vazia”. Referindo-se a Crates de Tebas,* da história secular, Calvino ainda observou que o jovem rico foi chamado para ajudar outras pessoas com sua renda como um ato de amor: “E Cristo também está aconselhando-o a não apenas vender, mas a ser liberal na ajuda aos pobres”.8 Calvino acreditava que Cristo estava ensinando seus ouvintes a não adorarem o dinheiro ou os bens. Ele afirmou que tal ensinamento adverte tanto ricos quanto pobres a confiarem em Deus – os ricos são admoestados quanto ao risco das riquezas, e os pobres são chamados a se conformarem com sua sorte – pois, assim, cada um pode servir a Deus. Apesar de Calvino ter ciência de que os bens, por si só, não impedem a obediência a Deus, ele percebeu que, em vista da depravação incurável da humanidade, são raros aqueles que têm com abundância evitarem serem intoxicados pela riqueza.9 A partir de sua leitura meticulosa das Escrituras, Calvino percebeu que Deus não quer que os homens adorem a riqueza ou qualquer coisa relacionada a ela. Ele lhes deu a capacidade de utilizá-la, porém, se o ídolo inventado, sempre presente, da mente humana confunde o Criador com a criação, ele inevitavelmente conduz ao desastre. Enquanto meditava sobre os capítulos iniciais da Bíblia, Calvino observou uma distinção categórica entre o Criador, que é sempre sagrado, e todas as coisas criadas. Em termos de questões econômicas ou administração, o Senhor designou pessoas para cuidar, em primeiro lugar, do jardim, e depois, por consequência, de toda a criação. Vale ressaltar que tal atribuição foi dada ao homem10 em seu estado puro, anterior à queda, e, portanto, essa atribuição não tem parte na maldição imposta a ela. Em outras palavras, foi algo positivo para o homem cuidar de muitos aspectos da criação – animais, jardim, outras coisas e a riqueza. Contudo, o plano de Deus não é que o dinheiro seja adorado ou servido. Ninguém, como Jesus diria mais adiante, pode servir a dois senhores. A pessoa ou serve ao dinheiro como criador ou o utiliza para servir aoCriador; esses dois propósitos são mutuamente excludentes. Calvino entendia a diferença, e seus discípulos colocaram essa fé econômica em prática em muitos setores. Embora seja algo extremo afirmar que Calvino tenha criado os princípios do desenvolvimento da riqueza de novo, historicamente é real que tal desenvolvimento, por muitos séculos depois da morte do reformador, parecia acontecer, de forma misteriosa, por onde quer que os calvinistas passassem. Os secularistas podem tentar justificar tal fenômeno, mas preferimos compreender por que e como o Calvinismo fomentou o tipo de cultura comercial dessa maneira. Calvino e seus discípulos comerciais sabiam que o Antigo Testamento (daqui por diante, AT) estava repleto de sabedoria sobre o tema da riqueza. O livro de Provérbios, por exemplo, tem muito a dizer sobre esse tópico. Para começar, ele ensina que o Senhor pode conceder bens, porém, sua aquisição por meios ilegais é pecaminosa. Ademais, alguns ricos podem exasperar-se: “Os tesouros da impiedade”, escreveu Salomão, “de nada aproveitam” (Pv 10.2); todavia, “a mão dos diligentes vem a enriquecer-se” (Pv 10.4). O rendimento dos justos ajuda sua vida (Pv 10.16), e “a bênção do SENHOR enriquece, e, com ela, ele não traz desgosto” (Pv 10.22). Uma pessoa pode até ser inescrupulosa e enriquecer; entretanto, a desumanidade é contrastada com virtudes como a benevolência (Pv 11.16). O acúmulo também é condenado (Pv 11.26), mas o doar a outras pessoas pode conduzir a um ganho maior, refrigério e bênçãos (Pv 11.24-26). Os descendentes puritanos de Calvino observaram o conselho sobre trabalho e planejamento comercial presente no texto de Provérbios 12.11, o qual defende o trabalho na terra em vez da perseguição de fantasias ou especulações. O texto de Provérbios 13 também adverte contra a pretensão (v. 7) e emite uma admoestação quanto a ser dominado por suas próprias riquezas ou bens (v. 8). Além disso, algum rendimento pode vir acompanhado de perturbação (Pv 15.6). As práticas comerciais calvinistas assimilaram tais ensinamentos em uma cultura corporativa distinta. Os leitores dessa sabedoria do AT também aprendem que o ganho desonesto tende a minguar, enquanto o acúmulo gradual de bens, normalmente, faz tais posses aumentarem cada vez mais (Pv 13.11). A prosperidade pode ser uma recompensa para aqueles que servem corretamente a Deus (Pv 13.21), e até mesmo o homem pobre, se trabalhar a terra que lhe é dada, pode fazer com que ela lhe dê “mantimento em abundância” (Pv 13.23). É um sinal de bondade do homem que “deixa herança aos filhos de seus filhos” (Pv 13.22), porém, de acordo com o contraste na segunda metade desse versículo, “a riqueza do pecador é depositada para o justo”. A distribuição da providência é contínua. Casas e riquezas são herdadas da parte do Senhor (Pv 19.14). Calvino e seus discípulos pegaram esses truísmos e os aplicaram às práticas do comércio e da economia em evolução em seus dias. Novamente, pode-se identificar o pressuposto do lucro referente à ética do comércio calvinista no texto de Provérbios 14.23-24, o qual promete que todo trabalho proveitoso gera algum tipo de rendimento. Em contrapartida, a mera discussão ou até o planejamento elaborado destituído de ação e trabalho “levam à penúria” (Pv 14.23). A riqueza até pode proporcionar certa proteção ou motivo para admiração social, enquanto a insensatez da preguiça e do comportamento não produtivo “não passa de estultícia” (Pv 14.23). Calvino também entendia que oprimir o pobre com o objetivo de aumentar a riqueza pessoal era moralmente errado (Pv 22.16) e uma pessoa não deve levar a outra à exaustão em busca de fortuna (Pv 23.4-5). Na realidade, a fascinação pela riqueza deve ser evitada. Em outras palavras, a pessoa pode cuidar da fortuna, mas não se apaixonar por ela, pois, como lemos em Provérbios 27.24: “as riquezas não duram para sempre, nem a coroa, de geração em geração”. Além disso, a pessoa deve evitar se fatigar a fim de obter um status ou fama que o Senhor não planejou dar. Aceitar tais princípios tem levado muitas nações e famílias a conservarem a riqueza. A palavra de Deus, como era de conhecimento de Calvino, tem muito a nos dizer sobre esse assunto. Em resumo, a aplicação da sabedoria do AT apresenta as seguintes premissas em relação ao comércio: 1. Os tesouros da impiedade de nada aproveitam. 2. A riqueza em si não é condenada. 3. A riqueza tem uma vantagem limitada de longo alcance, mas não deve ser idolatrada. 4. A riqueza não dura para sempre. 5. A obediência piedosa ou a justiça são mais valiosas do que a aquisição de bens. Ao comparar o ensinamento de Jesus presente em Mateus 6 (o qual nos adverte a não acumular tesouros corruptíveis) tanto com a sabedoria do AT relacionados à riqueza quanto com alguns dos comentários de Calvino, um harmonioso coro pode ser ouvido. Ademais, todas essas vozes do coro afirmam que a riqueza é concedida por Deus e pode ser utilizada de maneira bastante produtiva para intensificar a ordem criada. Mais uma vez, a distinção entre a utilização correta e errada da riqueza é o que faz a diferença para Calvino, o qual, por certo, poderia relatá-la melhor do que muitas das inúmeras pessoas abastadas registradas na Bíblia que nunca receberam qualquer repreensão da parte de Deus por possuir ou acumular bens. Dentre elas estão: Abraão, cujas posses estão registradas em Gênesis 12.5 e que, de acordo com o texto de Gênesis 14.14, teve mais de 300 homens treinados nascidos em sua casa. Ele deve ter tido bastante trabalho para treinar 318 soldados (e, muito provavelmente, sua família também). Esse era um homem abastado. José, que, posteriormente ascendeu a uma posição de grande importância e prosperidade no antigo Egito. Ele serviu a Deus por meio da aquisição econômica e administração. Salomão, o qual, sem dúvida, foi a pessoa mais rica do mundo em sua época. Nicodemos e José de Arimateia, que se tornaram seguidores de Cristo. Maria e Marta, que, de acordo com o livro de Atos, usaram sua casa grande para as reuniões da igreja. Barnabé, um herói não valorizado do Novo Testamento, que doou as terras da família para a causa do evangelho. Assim como o AT, o Novo Testamento (daqui por diante, NT) adverte que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (1Tm 6.10). Ainda assim, quando alguém examina as Escrituras ou as obras de Calvino, pode-se claramente perceber que a riqueza se faz presente como criação providencial da parte do Pai. Ela pode também se tornar (imediata ou gradualmente) um meio pelo qual o Senhor prova a lealdade do coração de uma pessoa. O materialismo, ao contrário do Calvinismo, não reconhece a relação apropriada entre riqueza, como criação, e Deus, como o Criador. Deus pode abençoar uma pessoa com bens ou pode optar por não fazê-lo. Se alguém é muito abençoado, então, junto com a bênção vem o chamado para compartilhar com generosidade e trabalhar para a glória de Deus, não para ceder a uma ambição egoísta. Portanto, a prosperidade requer um espírito de servidão ao Senhor e gerenciamento de suas dádivas a fim de glorificá-lo. Além disso, a utilização errônea da riqueza pode refletir valores teológicos ou morais insuficientes. Se a pessoa se esforça exclusivamente para economizar e nunca desfrutar, ela não está aceitando o chamado para glorificar ao Pai por meio do uso do dinheiro. De semelhante modo, as pessoas que são consumidas pelas dívidas e continuamente vivem além de seus recursos demonstram a falta de gerenciamento e responsabilidade. Ambos os padrões representam um desequilíbrio de atitude da pessoa dianteda fartura. A visão de Calvino sobre riqueza, dádiva e fartura determina a maneira como as pessoas vivem dentro dos cenários econômicos. Não se trata de uma teologia abstrata, mas de uma teologia pastoral com conteúdo macroeconômico. Embora a riqueza deva receber o respeito apropriado e ser tratada segundo o chamado de Deus, ela jamais deve ser adorada ou tratada como divina. Pelo contrário, o plano é que seja utilizada como uma ferramenta para a glória do Pai e benfeitoria do homem. Sendo assim, o dinheiro, a riqueza ou as finanças são sempre uma ferramenta – sempre uma criação, nunca o Criador – e são úteis para os fins designados por Deus. O despenseiro sábio irá procurar manter a riqueza em seu lugar – jamais se impressionando com sua atração, mas sempre utilizando-a para servir a Deus, sua criação, a família e a sociedade. A riqueza não é eterna, tampouco é um identificador da bênção de Deus. O Senhor dá e tira. A riqueza pode ser destruída com a mesma facilidade com que foi criada. Em seu comentário a respeito do livro de Gênesis, Calvino declara que, antes da criação, havia somente o vazio e a deformidade. Consequentemente, “o mundo não é eterno”, mas foi criado por Deus.11 Ele pegou o caos sem forma, o vazio, e se impôs nele para criar a beleza e a habitação. Assim, em sua primeira obra revelada, Deus é visto como artesão – “o maravilhoso artífice” (p. 85, 105), o qual pega algo naturalmente inútil e o utiliza para algo de grande proveito. O Pai pega uma massa instável e a transforma em uma biosfera onde o homem, sua principal criação, pode se desenvolver. O propósito da criação é servir ao homem e sustentá-lo, propósito esse com grandes implicações para a economia e ecologia. Além do mais, Calvino observou que Deus desenvolveu a criação sem necessitar ou depender de recursos preexistentes (por exemplo, ele não precisou do sol para criar a luz). O Criador, para Calvino, estava, originalmente – e sempre está – acima de sua criação. E, na conclusão de cada período da criação, Deus revelou sua aprovação a cada dia com a frase: “E viu Deus que isso era bom”. A criação, tanto como um todo quanto em cada uma de suas partes constituintes, é boa. Calvino colocou da seguinte maneira ao fazer um comentário sobre o versículo final de Gênesis 1: “Em cada dia, uma simples aprovação era dada. Mas agora, depois de a arte do mundo ter sido concluída em todas as suas partes, e ter recebido... o toque final, ele a declara perfeitamente boa, a fim de que saibamos que, na simetria das obras de Deus, existe a perfeição absoluta à qual nada pode ser acrescido” (p. 100). Posteriormente, Calvino mencionou que Deus acrescentou “um princípio em desenvolvimento” (p. 82) para a então formada criação. Devido à sua própria lei da natureza criada, Deus também criou as árvores e as ervas antes do sol e da lua. Segundo observação do reformador de Genebra, com o intuito de que “aprendêssemos a remeter todas as coisas a ele, Deus não fez uso do sol e da lua” (p. 82). Calvino percebeu que o homem poderia facilmente atribuir à criação um poder autógeno e desejou contrapor-se ao erro logo no início. Segundo seu argumento, “porque somos acostumados a considerar parte de sua natureza qualidades que se originam de outro lugar” (p. 82), foi necessário que Deus, em sua própria criação, demonstrasse claramente para a humanidade que suas criações iniciais foram totalmente dependentes dele, não de outras criações. Isso prova, segundo a opinião dele, “que a primeira causa é autossuficiente e as causas intermediárias e secundárias possuem apenas o que tomaram emprestado da primeira causa” (p. 82). Logo no início de seu comentário de Gênesis, ele adverte contra pensar que a criação de Deus fosse tão pobre e imperfeita a ponto de precisar ser “assistida por causas secundárias” (p. 82). Deus age, sem dúvida, por meio de suas criaturas, mas não “como se precisasse de ajuda externa, mas porque é seu prazer” (p. 82). Ao longo do caminho, Calvino também ensinou que várias partes da criação foram “dotadas com o poder da propagação” (p. 83), característica que, mais adiante, será importante no momento em que considerarmos a multiplicação da riqueza. Se a riqueza é uma criação, não há razão pela qual não possa render frutos e multiplicar. Todavia, assim como “o sol ainda é servo, e a lua, criada” (p. 87), também a riqueza, como criação, outra vez é designada para servir ou assistir, nunca para ser adorada ou confundida com o Criador. O homem como criatura e criador Umas das características singulares do homem é o fato de ele ser conclamado, em Gênesis 1, como tendo sido criado à imagem de Deus (imago dei). Apesar de alguns teólogos se devotarem intensamente à explicação desse conceito, uma coisa é incontestável: dentro do contexto de Gênesis 1, ser criado à imagem de Deus, com certeza, significa que o homem é capaz de criar e hábil para a criatividade. Moldado à maneira de Deus, o homem pode pegar algo sem forma e convertê-lo em algo com forma; ele consegue pegar uma coisa sem utilidade e transformá-la, com diligência, em algo de grande utilidade. Esse aproveitamento da criação para utilização dos seres humanos é uma parte importante da imago dei. Essa capacidade não só dá ao homem dignidade em termos de talento artístico, mas também lhe permite usar a criação para produzir riqueza e promover seu próprio conforto. A atividade empresarial é uma expressão de criatividade. Deus, claro, não pretendia que o homem aceitasse a criação e simplesmente a deixasse em seu estado nativo – mesmo estando ela repleta de beleza e perfeição. Sua intenção era que o homem aumentasse o que lhe havia sido dado originalmente. Adam Smith, mais adiante, um economista criado na Escócia absolutamente calvinista de seus dias12, colocou da seguinte maneira: “Os bens que cada homem tem representam seu próprio esforço, como fundamento original de todas as demais posses, e são, portanto, sagrados e invioláveis”.13 Apesar de seu espírito inventivo, não se pretendia que o homem criasse falsos deuses ou utilizasse sua criatividade para distorcer a imagem de Deus. Comentando sobre o texto de Isaías 46.5, Calvino observou que Deus “tem sua glória roubada quando é comparado a coisas mudas e inconscientes”. Além disso, em referência a Jeremias 10.6, Calvino descreveu a idolatria como “loucura”, “embriaguez”, “insensatez desmedida” e “vergonhosa”, salientando que “os mais ricos adoravam um deus de madeira, enquanto desprezavam o artífice”. Calvino chegou a se referir à idolatria como algo que conduz “a ilusões sem proveito” quando explicou o texto de Jeremias 2.8. Reconhecendo a premissa de que o homem é feito à imagem de Deus, a maioria dos sistemas econômicos não discutiria a afirmação de que o homem é o criador ou propenso a criar. Todavia, o método da criação, o domínio da criação e os benefícios subsequentes da criação são assuntos de discussão e discordância. A partir dessas diferenças das várias teorias econômicas, nascem as aplicações dentro de nações, sistemas legais, mercados e práticas culturais contrários à visão de Calvino referente à criação. O ideal é um ambiente econômico, legal e cultural que incentive a criação, valorize-a e proteja seus benefícios e recompensas, além de permitir que o mercado julgue a relevância e validade da metodologia da criação. Contudo, é claro que nem todos os sistemas econômicos favorecem esse ideal. Fundamentada em diversas teorias socialistas, por exemplo, está a crença de que a propriedade privada não deve continuar sendo privada. Na realidade, um dos princípios fundamentais da obra Das Kapital de Marx é a aboliçãoda propriedade privada. A propriedade, argumentava Marx, deve ser um ativo do Estado. Inicialmente referindo-se à propriedade privada física – terra – esse conceito migrou no decorrer do tempo para incluir a propriedade intelectual e outros produtos criados. Na segunda metade do século 19, a economia agrária era o foco principal, sendo que quem possuía terras dominava as outras pessoas. Como uma ilustração moderna, entretanto, determinados sistemas legais em todo o mundo não protegeram totalmente os direitos sobre as patentes e propriedade intelectual. Os criadores correm o risco de perder alguns ou até mesmo a maioria dos benefícios de sua criação, que pode ser inventada por outra empresa ou indústria em outro país. Novos medicamentos que, talvez, tenham custado milhões de dólares para serem pesquisados, projetados, compostos, testados e produzidos podem passar pelo processo de engenharia reversa, realizado por empresas em países sem restrições, a um custo mínimo em relação ao custo total do desenvolvimento e, então, podem ser reproduzidos sem consequências provenientes desse sistema jurídico nacional. Em debate está, também, o processo de criação e, algumas vezes, sua natureza destrutiva. No decorrer da história, invenções e novos processos têm impactado, em curto prazo, os mercados de trabalho e de capital. Na criação, descrita em Gênesis, e por toda a Bíblia, as ações de Deus quase sempre são catastróficas, mudando paradigmas e alterando, de maneira radical, as hierarquias, desalojando pessoas e causando rompimentos. Falando em termos de negócio, a história da criação é o relato de um administrador criando novas metodologias de produção, tornando ativa uma nova mão de obra e introduzindo mercados concorrentes onde, anteriormente, havia um ambiente benéfico e estável. Essa destruição criativa14 está evidente também nos episódios de Noé e Moisés, no êxodo e assim por diante – até a vinda de Cristo na terra. A criação dentro do ciclo comercial é um caso de imago dei. O homem, seguindo os passos de seu Criador, também cria; e, quando o faz, o processo de criação tem, quase sempre, efeitos exponenciais. A ação criativa, muitas vezes, pode trazer – e trará – consigo os custos. O dilúvio, claro, matou praticamente toda a humanidade; o êxodo desalojou um povo inteiro por 40 anos, forçando uma geração de fabricantes de tijolos e trabalhadores e operários a novas ocupações; a vida e morte de Cristo fizeram milhares de pessoas mudarem de trabalho (por exemplo, Paulo, Pedro e André), alterarem seus padrões de vida (por exemplo, Zaqueu), mudarem-se e até mesmo perecerem. Há pouco tempo, o advento do refinamento de petróleo substituiu uma indústria inteira de navios baleeiros, a criação de maquinários agrícolas transformou economias e a pólvora derrubou formas de governo. Todavia, existem práticas econômicas hoje que refutam os custos da criação a fim de evitar a dor. Por exemplo, alguns sindicatos de professores estão lutando para excluir a destruição criativa das chamadas charter schools** de seu ramo de atividade, enquanto a Associação dos corretores dos Estados Unidos está lutando para excluir as agências que oferecem descontos online do ramo deles. O subterfúgio dos custos da criação não está limitado apenas aos produtos ou serviços tangíveis; estende-se também ao fluxo livre de informações, ideias e comentários. Em um artigo intitulado “Olympics preview: Beijing’s Internet censorship, surveillance” [prévia das olimpíadas: fiscalização e censura da Internet em Pequim] (25 de junho de 2008), Graham Webster, autor do blog Sinobyte, fez a seguinte observação: “No que diz respeito às Olimpíadas, muitas limitações online foram amenizadas. O acesso à BBC News foi restabelecido; a Wikipedia em inglês está disponível, mas a Wikipedia em chinês ainda está bloqueada. Depois da pressão exercida pelo Comitê Olímpico Internacional, o comitê de Pequim comprometeu-se a diminuir as restrições”. Como os líderes da China podem perceber, ideias associadas a informações e acesso em massa podem ter custos – custos esses que eles vêm relutando em pagar. Com o intuito de proteger o criador de negócios, um sistema jurídico adequado deve estar em vigor. Um sistema judiciário que reconhece os direitos sobre patentes, propriedade intelectual e os direitos patrimoniais é a primeira linha de defesa. Concernente aos custos da criação, quem ou o que deve decidir se eles valem os benefícios? Em um sistema socialista controlado pelo Estado, seria o governo que tomaria a decisão final. Entretanto, tais decisões raramente são paradigmas da lógica objetiva. Em vez de se engajar em uma análise racional de custo/benefício, a tendência dos governantes é serem influenciados por outras forças, como a pesquisa pública, tendências financeiras e, frequentemente, pela pseudociência. Mesmo dentro de uma atmosfera comercial que protege legalmente os direitos dos criadores e incentiva a criação, tradições sociais e culturais podem, de fato, minar esse princípio. Não é necessário fazer uma grande busca de informações para ver os vários argumentos a favor do software gratuito. Basta navegar em outros sites e versões “gratuitas” do Adobe Acrobat, Vista, Microsoft Office e dezenas de outros programas estão disponíveis para download. Com nomes como “Free Software Society” e “Software for All”, um número crescente de grupos demonstra desdém pelo criador do produto ao requerer o software gratuito e o código aberto.15 O prazer da criação, formação da ideia, planejamento, execução e lançamento de algo – o orgulho da autoria – é, inegavelmente, o ponto culminante da existência humana. No entanto, tal prazer é ameaçado e negligenciado em todo o mundo hoje por inimigos que variam desde políticas econômicas adversas até aplicações práticas dos sistemas judiciários soberanos e normas culturais informais. Os calvinistas cultos precisam perceber a necessidade de proteger o criador de negócios e os benefícios de sua criação dos assaltos do coletivismo e Socialismo, sejam tais assaltos provenientes das economias controladas pelo Estado, de sistemas ilegais ineficazes ou de atitudes culturais. Essa noção de criação, independente, mas portadora da marca do Criador, é a assinatura do Calvinismo. Ela também possui muitas aplicações para o comércio. Criação: tempo de abundância e riqueza além das necessidades básicas Não existiam carências materiais no Éden e as sementes da produção futura eram inerentes à criação. Calvino, repetidas vezes, falou a respeito da criação como possuindo uma qualidade de abundância. Ao comentar sobre o texto de Gênesis 1.26, ele salientou ser o propósito de toda criação que “nenhuma conveniência e necessidades da vida”16 faltassem. “Na própria ordem da criação”, escreveu Calvino, “a solicitude paternal de Deus para com o homem é visível porque ele equipou o mundo com todas as coisas necessárias e até mesmo com uma imensa profusão de riqueza antes de formar o homem” (p. 96). “Portanto”, opina Calvino, “o homem era rico antes de nascer”. Um pouco mais adiante, em seu comentário sobre o texto de Gênesis 1, ele falou a respeito da criação como sendo “abundantemente suficiente para a suprema satisfação [do homem]” (p. 100), ainda que tanto a queda quanto o dilúvio noético tenham trazido e acelerado a dinâmica de deterioração do cosmos. A criação original de Deus ainda é considerada como “abundante”, “benéfica” (p. 100), e da “mais alta perfeição”, mostrando ser Deus um excelente Criador. Calvino entendiaMoisés como descrevendo uma casa bem mobiliada, “bem abastecida e repleta”, sem “nada a desejar para sua abundância propícia” (p. 103). A linguagem da criação transmite a ideia de que Deus, “o Arquiteto”, criou uma bela casa, a qual, em seu estado original, ressaltava ser a perfeição a “estrutura para o mundo”. Sendo assim, qualquer deterioração ou decadência que possamos observar hoje não passam da “corrupção” da “mobília apropriada” (p. 104). Quando Calvino explicou a respeito do jardim do Éden, ele afirmou que nenhuma parte da criação era estéril, mas que tudo era “excessivamente rico e fértil” (p. 116). Ao mencionar a bênção liberal estabelecida por Deus sobre sua criação terminada, Calvino ainda salientou que não havia apenas uma provisão adequada de alimento, mas que Deus também havia concedido uma “doçura para a satisfação do paladar e uma beleza para o deleite dos olhos” (p. 116). Além do mais, como consequência de sua criação à imagem de Deus, foi dada a Adão não somente a oportunidade de viver na dimensão do corpo, mas também a de se deleitar na bênção de sua alma com toda a sua capacidade e gozo. Portanto, Deus pretendia que sua criação fosse desfrutada e não pode ser acusado de criação e provisão de baixa qualidade. A criação foi um tempo de abundância. Deus não se contentou em criar um solo improdutivo e desolado, nem um planeta infrutífero. Em Gênesis 2.9, lemos que Deus “fez brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento”. Havia variedade e matéria em demasia, e, incluída nessa criação, estava todo o necessário para a vida e o avanço da sociedade, incluindo as matérias-primas para vestimentas, abrigos, cidades e edifícios (vem à mente a Torre de Babel). Falando a respeito da criação, John Schneider diz: “A visão como um todo é de um excesso extremo quase desconcertante”.17 Implícita nessa abundância, passando para o comércio atual, a riqueza é quase sempre criada pelo excesso de ganho. De acordo com o paradigma socialista, o ganho excessivo é “roubo”. Ou, como coloca o novelista francês Honoré de Balzac: “Por detrás de toda grande fortuna existe um crime”. Os socialistas e moralistas da época nos fariam viver em um estado de rendas iguais, onde nossas necessidades seriam atendidas e qualquer ganho excessivo seria entregue ao Estado para benefício dele. Vale salientar que Deus pretendia que sua criação fosse conhecida e administrada pessoalmente por Adão e Eva. Considere, por exemplo, as palavras de Gênesis 2.16: “O SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente”. No cerne do conflito entre socialistas e capitalistas está a questão de como a riqueza deve ser vista e tratada. O homem de negócios calvinista deve se sentir confortável e não ter vergonha da abundância e experiência pessoal com a riqueza. Uma crítica dessas pessoas defensoras da visão minimalista da simplicidade e dos males do excesso pessoal é que Deus não tencionava que tal abundância fosse exclusivamente em benefício de um homem em detrimento de outro. Contudo, ao longo das Escrituras, Deus continua a despejar abundância sobre aqueles a quem escolhe abençoar. A criação e, especificamente o jardim do Éden, é semelhante ao quarto infantil preparado pelos pais para um recém- nascido. Trata-se de uma breve descrição do nível de abundância que é planejada para que a criança cresça e desfrute. Outro exemplo: leve em consideração uma grande corporação como a General Eletric (GE). Dentro da organização existe uma ampla categorização de empregos, desde o gerente para os trabalhadores de indústria aos motoristas de caminhão e assim por diante. Conforme a GE lucra a partir de seus esforços, todos os empregados se beneficiam de alguma maneira, mesmo que em mínimo grau, ao manter seu emprego e ter uma fonte de sustento. Todavia, se – como quase sempre é o caso da GE – a receita bruta é superior ao custo do emprego e da produção, a corporação deve tomar uma decisão fundamental: o que deve ser feito com o “excesso” de lucro? Para dizer de modo mais simples, ela pode optar por (1) pagar um dividendo aos acionistas ou (2) reinvestir na empresa, comprando novos equipamentos, aumentando a remuneração, introduzindo novas linhas de produto, incrementando a pesquisa e o desenvolvimento e assim por diante. Cada decisão impactará de forma positiva determinado grupo à custa latente do outro. Qual é a escolha correta? Se for empregado, você deve estar propenso à segunda opção, ao passo que um acionista deve preferir a primeira. Segundo a teoria das finanças corporativas, a decisão deve ter por base o retorno esperado dos lucros reinvestidos, independentemente de superarem ou não a atual taxa “mínima” de atratividade dentro da organização.18 Ademais, sob o princípio irrelevante da estrutura de capital19, o valor da empresa não é afetado pela decisão do dividendo. A decisão é neutra. Agora, pegue esse exemplo e substitua a GE por toda a criação – faça com que a terra, o homem, os animais e toda a ordem criada representem uma única e grande corporação. Todos dentro dela participam do processo de produção e prosperam de alguma forma. A “corporação”, nesse caso, a criação, estende a graça comum, da qual todos os “empregados” podem se beneficiar. De tempo em tempo, contudo, a criação paga os dividendos para os seus acionistas. Obviamente, essa analogia não pode ser interpretada no sentido literal, porque nenhum de nós pode comprar “ações” na criação. No entanto, o ponto principal é que os “dividendos” ou “excesso de lucro” “pagos” àqueles a quem Deus elege (debaixo de sua graça específica)20 não desvalorizam sua criação. Tampouco representam injustiça. A criação está repleta de abundância que não só sustenta todas as coisas sob a providência de Deus, mas também despeja riqueza e bênção extras sobre aqueles que ele escolhe, e esses são chamados para reinvestir. Empresas que não lutam por abundância ou não calculam esse objetivo em seu padrão comercial não estão de acordo com o espírito da ética comercial de Calvino. A responsabilidade do homem pelo domínio da criação de Deus Calvino afirmou que era parte da dignidade o fato de Deus ter determinado ao homem que ele teria responsabilidade sobre todas as coisas criadas. Conforme coloca em seu comentário de Gênesis, Deus designou o homem como “senhor do mundo” (p. 96), exibindo, assim, a imagem de Deus. Além disso, tal autoridade não foi dada somente ao singular Adão, mas também a todos os seus descendentes. A princípio, foi criado com domínio, porém, a ordem posterior – “sujeitai-a” (Gn 1.28) – enfatiza que Deus colocou tal posse “sob autoridade dele” (p. 98), significando que o homem tinha um chamado para desenvolver, dominar, organizar, controlar, subjugar, reorganizar e tornar úteis todos os aspectos subservientes da criação. De fato, Calvino ensinou que “era problema [do homem] nutrir as coisas que lhe eram fornecidas” (p. 99). Portanto, nós podemos, com certeza, dizer ter Calvino ensinado que o homem tinha de aperfeiçoar e aumentar a criação como parte de seu domínio. A criação apresenta um padrão de hierarquias também. Nem tudo está no mesmo nível. Algumas espécies são maiores e mais hábeis do que outras. Outras espécies servem a ordens superiores. O domínio é a designação de Deus para pegarmos a criação da maneira como a encontramos e aperfeiçoá-la. Ele não pede a Adão para deixar a criação como está ou deixá-la deteriorar-se. Não. Deus chama os homens a empenharem-se no cuidado e na realização de melhorias. Essa noção fundamental de mudançapara melhor é um truísmo econômico que está mais de acordo com alguns sistemas e práticas comerciais do que outros. Por exemplo, o conceito de herança e de aumento do patrimônio de uma pessoa em benefício das gerações futuras parece ser logicamente compatível com o mandado de domínio. Deus não deseja que sua criação simplesmente se mantenha em estase. Pelo contrário, ele a planejou a fim de que crescesse, produzisse e amadurecesse. Sendo assim, em referência até mesmo aos capítulos iniciais de Gênesis, pode-se perguntar: de que maneira o sistema comercial se adapta tanto à criação quanto à ordem de cuidado? Crescimento, desenvolvimento, produtividade e organização são características que Deus teceu na estrutura da natureza humana. Domínio pressupõe ética de trabalho e prestação de contas a Deus Como alguém pode ter domínio sobre um bem impessoal? Em primeiro lugar, a pessoa reconhece sua condição de criatura; depois, impõe a vantagem do homem sobre ele e, por fim, produz frutos que contêm as sementes da produtividade futura. A economia de Gênesis 1–3 não exige que a riqueza se dissipe nem que permaneça igual. O homem deve cultivar o jardim e, com trabalho árduo, buscar controlar partes da criação a fim de servir a Deus e ao próximo. Calvino resume bem tais conceitos em seus comentários a respeito do texto de Gênesis 2.9: “Nenhuma extremidade da terra era infértil, tampouco havia alguma que não fosse extremamente rica e fértil; contudo, essa bênção de Deus, outrora relativamente moderada, havia, agora, se disseminado de modo maravilhoso” (p. 116). Mais adiante, ele salientou que “não só havia fornecimento abundante de alimento, mas a ele foram acrescidas a doçura para a satisfação do paladar e a beleza para o deleite dos olhos. Portanto, a partir de tão bondosa indulgência, está mais do que evidente o quão inexplicável fora a cobiça do homem” (p. 116). A condição da criação era tal que Adão não tinha apenas uma mera existência física, mas também se sobressaía quanto aos dons da alma (p. 118). Com tal abundância vem a responsabilidade. Dentro da criação, o homem é encarregado do domínio. Mas o que implica esse domínio? Trata-se de um equilíbrio de forças: por um lado, é um chamado para desfrutar, dominar, cultivar e moldar; por outro, é um chamado para proteger, defender, perpetuar e trabalhar. Ademais, domínio implica um relacionamento de ordem e condição. Existe uma hierarquia dentro dele. Uma característica particular do domínio é a exigência de trabalho e, consequentemente, os benefícios resultantes dele. A premissa fundamental de qualquer sistema econômico é a necessidade de trabalho e esforço; portanto, Marx, Smith, Ricardo, Keynes e outros não teriam discordância com a ordem para trabalhar. Todavia, alguns acreditam que a ordem para trabalhar sofre frequentes abusos por parte do sistema de livre mercado. As pessoas que alcançaram um nível de conforto e sustentabilidade a partir de seus investimentos e renda podem optar por não trabalhar. O capitalista reformado precisa estar atento a essa armadilha. O mandado de domínio, por fim, conduz ao mandado de gerenciamento. John Scheneider, em The Good of Affluence, escreve: “O Éden deixou o homem e a mulher livres da escravidão para terem desejos, ele os libertou para sonharem, utilizarem sua criatividade, trabalharem de maneira produtiva e recompensadora, colherem os frutos de seu trabalho e terem prazer humano na plenitude da vida, na imagem de Deus e em sua boa vontade. O Capitalismo foi o sistema que mais nos aproximou da recriação de tal condição em relação a qualquer outro sistema econômico na história do mundo”21. Sem enfatizar em demasia o objetivo e a definição de gerenciamento, os socialistas argumentariam que não existe qualquer problema em relação ao ato em si, porém, é trabalho do governo ou da diretoria de planejamento fazer a designação e a tomada de decisões. Em resposta a tal crítica, o histórico de políticas centralizadas revela muita coisa. Leve em consideração, por exemplo, a fome na Coreia do Norte, a indústria e tecnologia de Cuba (obsoletas desde a década de 60) e a queda da União Soviética. Ludwig Von Mises, economista austríaco, identificou um erro fatal no domínio estatal quanto à falta de informações privadas e individuais relacionadas à verdadeira natureza dos custos e benefícios.22 Mises argumentou que, dentro do sistema socialista, o governo é detentor de todas as coisas – do dinheiro, da terra, do maquinário, do trabalho e do processo de distribuição. Se o governo possui tudo, logo, o “custo” para ele não é nenhum problema. Além do mais, em sistemas econômicos altamente regulamentados, até mesmo os mercados são controlados pelo governo, sendo assim, ninguém consegue mensurar verdadeiramente o preço de um item, porque as transações são forçadas e/ou manipuladas. A relação mútua entre trabalho e riqueza é demonstrada logo nos capítulos iniciais da Bíblia. Calvino buscou harmonizá-los concedendo a cada um deles um lugar particular. Todos os demais sistemas também buscam, com frequência, subordinar o trabalho ou a riqueza, quase sempre rejeitando tanto as hierarquias quanto o trabalho árduo. Todavia, Calvino entende ambos como aspectos bons da criação e da providência de Deus. A criação e o equilíbrio entre trabalho (vocação) e descanso (dia de descanso) Vocação Calvino acreditava que a Bíblia ensina muito a respeito da nobreza do trabalho. O trabalho é um chamado nobre e uma atividade instruída por Deus em seu melhor sentido. Busca-se a excelência e ela é valorizada. Existe dignidade no trabalho do homem e um chamado que é exclusivo para ele e se ajusta às suas forças, talentos e inclinações. No sermão sobre o texto de Mateus 3, Calvino observou que um chamado só é bom se vier da parte de Deus, e definiu “vocação” como um chamado que “leva consigo o fato de Deus estar acenando com o dedo e dizendo: ‘Eu quero que você viva dessa ou daquela maneira.’ Isso é o que chamamos de ‘posições na vida’”.23 Enquanto pregava a respeito do texto de Efésios 4.28, Calvino falava sobre “ocupações”, “ofícios” e “comércio”, advertindo que cada um deles deveria ser adotado se fosse “bom e lucrativo para o bem comum”. Para o reformador, que revelou um ponto de vista que só pode ser caracterizado como muito avançado para um teólogo da sua época, chamado, lucratividade e filantropia atuavam juntos. Ao comentar o texto de Gênesis 2.15-16, Calvino observou que os seres humanos “foram criados para se ocuparem com algum trabalho, não para se entregarem à inatividade e ociosidade”.24 Esse chamado, até mesmo o próprio trabalho, era, acreditava ele, “verdadeiramente prazeroso, repleto de prazer e totalmente isento de todos os problemas e aborrecimentos. Deus tanto ordenou o trabalho produtivo (“o cultivo da terra”) quanto condenou “todo repouso indolente”. Calvino escreveu: “Porquanto nada é mais contrário à ordem da natureza do que desperdiçar a vida comendo, bebendo e dormindo, enquanto, nesse ínterim, não nos propomos a fazer nada” (p. 125). O trabalho é tão importante para os seres humanos que eliminá-lo “arruinaria a vida humana”.25 Calvino entendia que, enquanto os seres humanos respirarem, também devem estar produzindo, trabalhando, planejando, consertando e criando. O jardim do Éden não era um parque de diversões, era uma incubadora de produtos humanos. A Adão foi dada a “custódia do jardim”, e isso era, em parte, para ilustrar como Deus planejou que trabalho e trabalhadores cuidassem e utilizassem a criação. Ou, como expressou o reformadorgenebrês em seu comentário de Gênesis: Que aquele que possui um campo participe ativamente de seus frutos anuais a fim de não permitir que o solo seja prejudicado pela sua negligência, porém, que se esforce a fim de passá-lo para a posteridade da mesma forma como o recebeu, ou até mais bem cultivado. Que se alimente bem de seus frutos a ponto de nem dissipá-los pelo luxo nem permitir que sejam destruídos ou arruinados pela negligência. Além disso, que essa economia [ênfase acrescida] e essa diligência floresçam entre nós, permitindo que cada um se coloque como despenseiro de Deus em todas as coisas que possui. Então, ele nem se comportará de modo dissoluto nem se corromperá abusando das coisas que Deus ordena que sejam preservadas. (p. 125) Em uma observação parecida, John Stapleford escreveu: A fim de que o direito ao trabalho seja exercido, a economia deve gerar empregos (em condições ideais, possibilidades múltiplas de serviço e remuneração, pelo menos com empregos que forneçam um nível adequado de sustento). Estruturas econômicas que inibem o crescimento do serviço, tais como a concentração do poder econômico (por exemplo, monopólio ou domínio estatal dos meios de produção) devem ser desafiadas. O acesso das pessoas ao trabalho não deve ser limitado por discriminação (por raça, gênero, etnia, condição social), favoritismo (por exemplo, acesso político a empregos públicos) ou pela falta de concorrentes (por exemplo, monopolistas ou sindicatos consolidados).26 Victor Claar e Robin Klay também ecoam Calvino quando afirmam que “os seres humanos têm a obrigação de trabalhar, e suas sociedades devem conceder- lhes muitas oportunidades para tal, visto ser o trabalho o principal meio de exercer o gerenciamento”.27 Outro aspecto formador de cultura do pensamento de Calvino era sua ênfase sobre a santidade das vocações ordinárias. Antes de Calvino e da Reforma Protestante, achava-se que a doutrina da vocação ou chamado pertencia exclusivamente ao clero. Entretanto, a visão do reformador quanto ao trabalho como inerentemente honrado pelo nosso Criador elevou todas as disciplinas e vocações legítimas à condição de chamado sagrado. Depois de Calvino, a reivindicação à vocação divina para o trabalho na medicina, no direito ou na educação tornou-se tão válida quanto a reivindicação para o chamado para o trabalho no ministério da igreja. A exigência de trabalho árduo por parte de Calvino não igualava necessariamente o sucesso ou a prosperidade com a bênção divina. Seus pontos de vista, entretanto, tinham uma tendência persistente de elevar determinadas áreas do chamado e trabalho humano. Negócio, comércio e indústria eram todos elevados de acordo com os princípios de Calvino – uma priorização consistente com as realidades em desenvolvimento da empresa moderna. Mesmo com seu ponto de vista firme com relação à provisão (veja capítulo 5 abaixo), Calvino enfatizou que os seres humanos deviam trabalhar de maneira diligente. Enquanto comentava a respeito do texto de Mateus 6.25-30, ele asseverou: Os campos, sem dúvida, devem ser cultivados, o trabalho deve ser realizado para ajuntar os frutos da terra e todo homem deve submeter-se à labuta de seu chamado a fim de criar meios para sua sobrevivência. No entanto, tudo isso não nos impede de sermos supridos pela generosidade imerecida de Deus, sem a qual os homens poderiam destruir seu corpo trabalhando e não alcançar coisa alguma. Somos ensinados, portanto, que aquilo que achamos ter adquirido por nosso próprio esforço provém dele. Embora os filhos de Deus não estejam livres da labuta, ainda assim não dizemos que estão ansiosos quanto à vida, porquanto, pela confiança na providência de Deus, desfrutam de calmo descanso.28 Max Weber e outros estão corretos ao afirmar que o Calvinismo dignificava o trabalho e o chamado de muitas maneiras. Calvino ensinava que qualquer área de trabalho – por exemplo, agricultura, educação, governo e contabilidade – podia ser um chamado válido da parte de Deus, sendo cada um deles tão sagrado quanto a vocação pastoral. Essa foi uma mudança radical na visão de mundo, a qual, por fim, alterou muitos negócios, culturas e vidas humanas. Por meio de sua afirmação resoluta de todos os chamados e o estabelecimento de escolas de Direito, Medicina, História e Educação (não simplesmente religião) dentro da Academia de Genebra, Calvino ajudou a romper as barreiras que faziam a distinção entre o sagrado e o secular. Ele buscava ensinar os genebreses a enxergar o trabalho humano de uma nova maneira, ou seja, à luz da verdade de que uma pessoa pode servir e glorificar a Deus em qualquer área de trabalho. Calvino se relacionava com muitos líderes, empresários, tipógrafos e comerciantes de seu tempo e não censurava nenhum chamado lícito. O espírito calvinista enobrece toda boa obra. Apesar de sua ênfase na vida futura, o Calvinismo conclama seus adeptos a serem líderes nos campos em todas as áreas de esforço humano aqui e agora. Os comentários de Calvino a respeito do quarto mandamento ressaltavam também a dignidade do trabalho. Assim como Deus ordena que o povo descanse no sétimo dia, argumentava Calvino, o Senhor também espera que ele trabalhe todos os outros dias. À medida que o trabalho se torna vital para as pessoas feitas à imagem de Deus, Calvino ensinava que todos os chamados são importantes. Sua doutrina sobre o trabalho foi enfatizada mais adiante – sem mencionar o fato de ter se disseminado de maneira tão ampla – por meio de sua explicação de que o quarto mandamento, o qual ordena o descanso de um dia dentre sete, exige, da mesma maneira, que se trabalhe durante os outros seis dias. Os negócios, o comércio e as empresas que visam ao lucro adotariam uma nova tendência depois de Calvino. Seus ensinamentos liberaram os cristãos a utilizarem o mercado para a glória de Deus. De interesse dos historiadores, tanto dos simpatizantes quanto dos contrários a Calvino, Genebra foi transformada, durante o tempo dele naquele lugar, em um visível e movimentado fórum de desenvolvimento econômico. Local de desenvolvimento intelectual e fomento comercial, conforme evidenciado pelo estabelecimento da Academia de Calvino e da presença de instituições financeiras modernas (por exemplo, o banco Medici), Genebra havia se tornado o centro ideal para aperfeiçoar e exportar a reforma.29 Em todos os lugares por onde o Calvinismo se disseminou, o mesmo ocorreu com o amor pelo livre mercado e pelo Capitalismo. Se uma medida válida de liderança é seu impacto sobre o ambiente imediato, é possível comparar a Genebra anterior e posterior a Calvino. As diferenças são alarmantes. Antes da imigração do reformador, em 1536, por exemplo, Genebra possuía 50 comerciantes, 3 tipógrafos e poucos, se é que havia algum, nobres. Ao final de 1550, Genebra era a pátria de 180 comerciantes, 113 tipógrafos e editores e de, no mínimo, 70 refugiados que reivindicavam nobreza.30 Por certo, não é correto pensar, como pensou Weber, que os calvinistas acreditavam que o sucesso material servia como prova de sua eleição. A fim de refutar tal ideia, basta consultar o ensinamento de Calvino a respeito do oitavo mandamento em sua grande obra, Institutas da Religião Cristã.31 Em sua interpretação, a qual proíbe o roubo, Calvino entendeu, por implicação, ser perfeitamente normal a retenção e proteção de bens pessoais. Na realidade, para Calvino, o mandamento continha uma exigência clara para cada um evitar a cobiça e a avareza, além de exigir que cada pessoa “se empenhe demodo honesto na preservação de seus próprios bens” (Institutas, 2.8.45). Ele advertiu os cristãos a não desperdiçarem o que Deus, de maneira providencial, havia provido, bem como a se importarem com o bem-estar de seu próximo. Ele também escreveu: A esse mandamento, portanto, devemos obedecer adequadamente se, satisfeitos com nossa própria sorte, não planejamos adquirir nada que não seja honesto e lícito; se não desejamos enriquecer por meios injustos nem espoliar os bens de nosso próximo... se não temos pressa de acumular riqueza cruelmente tirada do sangue de outras pessoas; se não guardamos, com avidez excessiva, qualquer coisa que possa satisfazer nossa avareza ou atender a nossa prodigalidade. Por outro lado, que seja nosso objetivo constante dar fielmente nosso conselho e estender nossa ajuda a todos, assistindo-os, dessa forma, na retenção de seus bens (2.8.46). Se Weber tivesse levado em conta essas palavras em sua teoria, suas conclusões poderiam ter sido mais precisas. A oração de Calvino arruína a hipótese de Weber de forma ainda mais rápida. A representação comumente malfeita de Calvino como um capitalista crasso deve ser contrastada com a oração sugerida por ele para o início do trabalho. Nela, a qual está incluída no Catecismo de Genebra de 1562, ele conduzia as pessoas a pedirem para Deus abençoar sua labuta, salientando que, se o Pai não abençoasse, “nada vai bem nem pode prosperar”. Ele orava para que o Espírito Santo auxiliasse os trabalhadores em seu chamado “sem quaisquer artifícios ou enganações” e exortava todos aqueles que trabalhavam a “se preocuparem mais em seguir as ordenanças de Deus do que em satisfazer nosso próprio desejo de enriquecermos”. Juntamente com isso, Calvino orava para que os trabalhadores se importassem com os indigentes e que os prósperos não se tornassem vaidosos. Orava para que Deus diminuísse a prosperidade se soubesse que as pessoas precisavam de uma dose de pobreza para voltar à razão. Distante da insensibilidade para com o menos afortunado, Calvino orava para que os trabalhadores “não esmorecessem na desconfiança”, “esperassem com paciência” a providência de Deus e “descansassem com toda a confiança na bondade genuína [de Deus]”.32 Além disso, ele advertiu contra “lutar avidamente por riqueza e honra, colocando nossa confiança em nossa própria destreza e perseverança, ou contra a dependência do favor dos homens, ou contra a confiança em alguma ideia vã relacionada à fortuna”. Em vez de confiar nesses falsos apoios, argumentava Calvino, a pessoa “deve sempre ter respeito para com Deus”. A ética da prosperidade advinda depois da época de Calvino em Genebra é uma das consequências mais abrangentes de seu pensamento e prática. No entanto, ele também defendia a confiança em Deus – não na riqueza! A “Ética de trabalho calvinista” é um tópico que muitos pesquisadores estudam e discutem. Em essência, alguns historiadores e estudiosos têm identificado certa tendência histórica e difundida. Ela sugere que, em todo lugar onde o caráter do Calvinismo se arraiga, uma cultura frutífera de diligência e trabalho árduo aflora. Apesar da centralidade daquilo que alguns podem considerar um desincentivo ao trabalho, por exemplo, a doutrina reformada da salvação somente pela graça, o Calvinismo, na realidade, incentiva uma ética de trabalho muito forte. Um dos extravasamentos sociais do Calvinismo é a visão que seus adeptos obtêm com relação ao trabalho. O teórico social alemão, Max Weber, estava, em parte, correto em sua análise a respeito dessa visão em sua famosa obra de 1905, A ética protestante e o espírito do Capitalismo. Em sua forma mais direta, o argumento de Weber afirmava que os calvinistas confundiam prosperidade terrena e celestial. O teórico atribuía a eles a convicção questionável de que a prosperidade material poderia ser considerada como um sinal seguro da bênção divina. Se a análise de Weber estivesse correta, então, os calvinistas certamente seriam incentivados a serem os mais intensos dos trabalhadores. Trabalho e comércio iriam adquirir significância eterna, porém, significância essa que poderia ser medida nesta vida por moedas. Segundo a avaliação de André Biéler, Calvino atribuía “ao trabalho humano uma dignidade espiritual e um valor que ele não tinha entre os escolásticos ou no mundo antigo. Tal fato teve enormes efeitos sobre o desenvolvimento econômico das sociedades calvinistas”.33 Em suas Institutas, todavia, Calvino também afirmava que qualquer esforço que não tivesse a caridade como objetivo estava doente em sua própria essência (3.8.50). Ademais, ele alertou que a riqueza poderia incitar grandes problemas e produzir “grande descuido com a virtude” (3.10.4). Em outra passagem, Calvino explica, com clareza, sua visão sobre o relacionamento entre prosperidade e trabalho: Se acreditarmos que todo sucesso desejado depende inteiramente da bênção de Deus, e isso quando se está à espera de todos os tipos de miséria e calamidade, ocorre que não devemos lutar avidamente por riqueza e honra, colocando nossa confiança em nossa própria destreza e perseverança, ou dependendo do favor dos homens, ou confiando em alguma ideia vã relacionada à fortuna; todavia, devemos sempre ter respeito para com o Senhor, pois, debaixo de seu amparo, podemos ser conduzidos em direção ao destino que ele preparou para nós (3.7.9). Nesta mesma seção, a fim de que Calvino não seja mal interpretado, ele solicita que uma “limitação seja imposta sobre nós” para restringir “o exacerbado desejo de se tornar rico, ou o empenho ambicioso pela honra”. Sendo assim, Calvino pede trabalho árduo, mas não iguala necessariamente sucesso ou prosperidade com bênção divina. Suas visões, contudo, tinham uma tendência persistente de estimular diversas áreas do chamado e labor humanos. Weber e outros estão corretos ao reconhecer que o Calvinismo dignificou o trabalho e os chamados de muitas naturezas. Com respeito à doutrina do chamado, a partir do texto de 1Coríntios 7.20, Calvino deduziu que a vocação era um “modo lícito de vida”. Ele, entretanto, não considerava esse modo algo imutável. “Ora, seria algo extremamente difícil”, escreveu Calvino, “se um alfaiate não tivesse liberdade para aprender outro ofício, ou se um comerciante não tivesse liberdade para mudar para a agricultura”.34 Calvino não acreditava que uma pessoa tivesse um fardo de necessidade vocacional, como se jamais pudesse mudar de trabalho. Ao mesmo tempo, entretanto, ele reiterava que a providência de Deus resultava em “diferentes classes e posições no mundo”.35 O reformador acreditava que os seres humanos eram “governadores do mundo”, ainda que sujeitos ao Todo-Poderoso.36 Essa convicção se expressava em ações, nos negócios, no desenvolvimento e como motivo inextinguível para criar e multiplicar. Essa doutrina do chamado continua a alimentar os interesses de investimento e financeiro. O dia do descanso: Uma chave esquecida para um modelo empresarial bem-sucedido Calvino também ensinou que o dia do descanso – o sábado – era uma parte regular, contínua e importante da criação. Nele também estava a recomendação ao lazer apropriado para o desfrute do homem e o descanso “de todos os outros negócios”.37 Não apenas não fazia parte da criação apenas não ser cultuado ou excessivamente adorado, mas também o próprio trabalho não deveria ser reverenciado como sendo absoluto. Para Calvino, o trabalho tinha seu lugar na economia de Deus, assim como também o descanso e a adoração, como o quarto mandamento ensinava. Em seu comentárioa respeito do quarto mandamento, ele ressaltou diversos propósitos para tal ordem, dentre as quais: prover descanso aos trabalhadores, incentivar os cristãos a não dependerem do trabalho deles e lembrá-los de que, com apenas 14% da semana de trabalho separados para o descanso, ainda havia “muito tempo, excluindo o sábado, para todos os seus negócios”.38 Talvez alguém possa estar se perguntando como o fato de separar um dia de serviço e criatividade poderia maximizar os resultados. A partir do ponto de vista puramente matemático, formular um plano comercial que automaticamente sacrifica 14% da semana de trabalho pode parecer um suicídio mercantil. Todavia, como é o caso de outras questões relacionadas à fé, é ofertando e doando que quase sempre encontramos bênção e prosperidade. O mandamento para guardarmos um dia dentre os sete para um descanso santo das atividades vai contra a maioria dos planejamentos empresariais, sejam eles antigos ou modernos. Afinal, poucos cristãos cumprem tal mandamento nos dias de hoje; talvez ele seja transgredido com mais frequência do que as proibições relacionadas ao adultério, roubo e mentira. Ele deve competir acirradamente com o décimo mandamento pela ignorância seletiva, talvez porque o comportamento vedado no quarto mandamento tenha alguma relação com a cobiça tratada no décimo. No entanto, as coisas nem sempre foram assim. Durante séculos, muitos cristãos honraram a Deus, serviram ao seu próximo e providenciaram tempo para a adoração, guardando o sábado. Muitos comércios afloraram sem se preocuparem servilmente 24 horas por dia, 7 dias por semana. Entretanto, para os empresários obedecerem ao antigo mandamento, determinadas objeções de senso comum devem ser atendidas. Podemos pensar, sobretudo, em três obstáculos que devem ser superados: 1. O mandamento do dia de descanso – sábado – não é um vestígio obsoleto de uma sociedade antiga e agrária que não tem qualquer aplicação persuasiva às práticas comerciais de hoje? 2. Se praticado pelos donos de empresas, o dia de descanso, em essência, não é ineficiente e inútil? 3. Posto que pouquíssimos cristãos cumprem tal mandamento hoje, existem quaisquer tradições mais abrangentes que justifiquem tal atitude? O que deve ser recuperado é a valorização da ordem de Deus, a própria finitude do homem e as limitações éticas do empreendedorismo. Os pontos abaixo discorrem sobre três desafios. O mandamento relacionado ao dia de descanso é um vestígio obsoleto? Quando se examina o fundamento transcultural do dia de descanso, fica claro não se tratar meramente de um costume judaico. Por certo, não se trata de uma invenção anticomercial. Tampouco diz respeito, conforme revelado, a somente uma época da história. Uma revisão a respeito do desenvolvimento bíblico em relação ao dia de descanso se faz necessária, a fim de que ele seja aplicado a qualquer modelo comercial. Tal revisão implica também no fato de o dia de descanso ter como base uma ordem da criação na qual Deus é retratado como modelo de criatividade. O dia de descanso é, na realidade, uma simbologia central do ensinamento bíblico. Mencionado dezenas de vezes ao longo das Escrituras, ele é um conceito crucial que incorpora duas ideias centrais: 1. Deus não deseja nos escravizar ao trabalho e à produtividade; existem momentos para o descanso. Ao descansar, tiramos um tempo para desfrutar da criação. O Pai não se importa que a desfrutemos; na verdade, ele nos manda desfrutar, bem como glorificar. O mandamento para cessarmos o labor normal e a produtividade é um gesto que provém da graça e da misericórdia de Deus. Assim como o homem não vive apenas de pão, também não vive somente de trabalho. Somos livres para largar nossas ferramentas. De fato, se alguém chega a uma posição de presunção a ponto de recusar o relaxamento e o descanso, essa pessoa pode ter criado um ídolo. Podemos dizer a nós mesmos que somos imprescindíveis em determinada tarefa, porém, Deus não compartilha da mesma opinião. Somos livres para descansar. 2. O dia de descanso elimina, temporariamente, o trabalho humano por um propósito maior: permitir que o povo de Deus o adore em santidade. Adoração e comunhão com o povo de Deus são atividades de suma importância. Precisamos realizá-las regularmente, e o Pai preparou esse momento. O dia de descanso também desempenha dois papéis como mecanismo de programação divina, se assim permitirmos. Deus planeja a nossa semana, dizendo-nos quando é hora de fazermos certas coisas. Trabalhar não é a única atividade importante. Originado na criação antes da queda, o dia de descanso, como conceito, é um símbolo misericordioso da obra de Deus. Ele se importa demais conosco e nos pastoreia por meio dessa grande ideia. Somente uma pessoa consumida pelas obrigações ou aquisições mundanas poderia deixar de amar uma provisão de Deus como é o dia de descanso. Por ser um conceito tão central do ensinamento bíblico, não devemos nos surpreender com o fato de o dia de descanso aparecer em vários contextos com nuances diferentes. O dia de descanso de Deus está descrito em Gênesis 2 como um repouso em decorrência de seu trabalho da criação. Ele também recomenda tal conduta aos seres humanos. Posteriormente, outras religiões copiaram essa instituição, porém, o padrão divino de sete dias deriva das Escrituras. O próximo foco substancial do ensinamento relacionado ao dia de descanso ocorre dentro do contexto dos Dez Mandamentos, sinalizando que o propósito de Deus para o dia de descanso é duradouro. Tal costume, evidentemente, não era nem temporário nem provincial, mas pertencia a todas as épocas. De qualquer maneira, a instituição é ampliada pelo quarto mandamento, o qual inicia reiterando a ordem de guardar o sábado – o dia santo. A lógica é que a pessoa tem de trabalhar seis dias (um pouco mais que a média dos americanos; se alguém quisesse trabalhar mais de 16 horas por dia, 6 dias por semana, tal pessoa trabalharia 100 horas por semana, toda semana e, ainda assim, guardaria o dia de descanso), mas o sétimo está reservado para Deus. Não é só o cabeça da casa que não deve trabalhar, mas todo trabalho desnecessário de cada membro do lar é proibido. Mesmo aquelas pessoas que não têm uma condição estabelecida ou direitos legais (“os estrangeiros”) devem ter o dia de descanso. Em outras palavras, o exemplo divino estabelecido na criação deve incluir todas as pessoas – universalidade que o texto de Êxodo 20.11 corrobora com este argumento incontestável: se Deus foi capaz de fazer em seis dias tudo o que fez, os seres humanos também devem se limitar a um período estabelecido de trabalho, entremeado por um dia de descanso. No decorrer de todo o restante do AT, Deus enfatizou que essa prática deveria continuar. Não há nada nesses mandamentos que indiquem, de alguma maneira, que eles devem ser cumpridos somente em determinadas épocas ou em certos locais. Conforme categorizado no Decálogo, o mandamento é duplo: (1) a pessoa deve trabalhar seis dias e (2) deve descansar no sétimo. O propósito desse dia é descansar e guardar o santo dia, provendo, ao mesmo tempo, uma oportunidade para os trabalhadores descansarem, cuidarem de suas famílias e estimularem os cristãos. Deus exige tudo isso da cultura humana. O AT também abrange um pouco mais o conceito do dia de descanso a fim de incluir o ano sabático. Isso não exclui o padrão semanal de seis dias de trabalho seguidos por um dia de descanso; ele simplesmente amplia o conceito original. Se todos os seres humanos devem seguir o costume sabático em sua semana, então os israelitas acharam que deveriam aplicá-lo em suas terras e ciclos de vida. A instituiçãodo jubileu (que é exclusivamente para Israel; veja sobre o ano jubileu: Lv 25, Dt 15; no original aparece Dt 26) amplia ainda mais o conceito. O objetivo de cada amplificação do conceito sabático era lembrar as pessoas, em primeiro lugar, que Deus é o supremo dono de todas as coisas e, em segundo, que os seres humanos têm a necessidade de momentos de repouso ou descanso. Toda a criação tem necessidade disso. A escravidão constante ao trabalho não é virtuosa. Conforme a história do AT progredia, todavia, inúmeros abusos e corrupções do dia de descanso aconteciam periodicamente. Rumo ao fim do AT, Isaías ensinou ao povo que toda vez que fizesse certas celebrações ordenadas por Deus, deveria fazer sem hipocrisia. Isso significava também o dever de se preocuparem com os pobres e oprimidos sempre que jejuassem. Assim como Isaías lembrou aos israelitas, agradar a Deus envolve um componente moral juntamente com expectativas baseadas em atitudes. Não é uma questão apenas de cerimônias. Portanto, quando os israelitas guardavam o sábado, eles tinham de abster-se de “cuidar dos seus próprios interesses no meu santo dia”. Eles também tinham de visualizar esse dia como “o sábado deleitoso... e digno de honra” O povo devia honrá-lo servindo a Deus, não seguindo seu próprio caminho ou “pretendendo fazer sua própria vontade, nem falando palavras vãs”. Se o povo guardasse o santo dia de Deus com alegria, prazer e honra e sem hipocrisia para com o próximo, Deus o abençoaria de modo inacreditável (Is 58.13-14). As palavras de Isaías nos dizem muito a respeito de como visualizar o sábado. Depois de muitos séculos de prática, o costume revelado originalmente começou a ser pervertido pela artimanha das mãos humanas. Os fariseus, um dos principais grupos religiosos de Israel, haviam tomado o costume original e o distorcido de tal maneira a deixá-lo praticamente irreconhecível. Eles pegaram uma criação boa de Deus e a transformaram em algo abominável. Criaram inúmeras e onerosas leis que reprimiam a vida no sábado. Não deixavam as pessoas utilizarem fogo, caminharem mais de 1,5 km ou usarem óleo medicinal nesse dia, classificando tais atividades como trabalho. Calvino se referia a essas práticas como tentativas prejudiciais e insensatas de subverter uma instituição planejada por Deus para auxiliar, não oprimir, o homem. Observando a má intenção e superstição dos fariseus, Calvino escreveu: “Foi a hipocrisia, portanto, que os tornou tão precisos em questões frívolas, porquanto se entregaram às vãs superstições. É prática invariável dos hipócritas dar a si mesmos liberdade em assuntos de consequências extremas e dispensar muita atenção a observâncias cerimoniais”.39 Jesus teve de resgatar o sábado e lhe devolver o plano original. Ele não subverteu o sábado no NT; pelo contrário, ele confrontou os fariseus quanto ao uso incorreto do dia. Com seu legalismo e intolerância, eles haviam imposto muitas restrições a essa instituição. Estavam crucificando algo bom criado por Deus. Uma pessoa não podia nem ser curada no sábado nem apanhar seu boi na vala. Opondo-se aos fariseus, Jesus ensinou ao povo que o dia de descanso fora feito para o homem, não vice-versa (Mc 2.27). O plano original não era escravizar o homem a um novo chefe de serviço, mas libertá-lo para descansar e prestar adoração. O sábado, cuja pretensão era que fosse uma dádiva misericordiosa da parte de Deus para o homem, tinha de ser libertado das restrições criadas pelo homem. Esse foi o erro que Jesus buscou corrigir ao mesmo tempo em que ia pessoalmente à sinagoga e guardava o sábado. No entanto, ele não agia da maneira como os legalistas achavam que ele deveria agir e tampouco depreciou ou alterou o sábado em relação ao seu plano original e divino. Ele buscava restaurá-lo como sendo um dia de descanso para o homem reaver a energia por meio da adoração e do lazer. Ele era um antegozo do descanso eterno vindouro, assunto discutido no texto de Hebreus 4. Jesus e os autores do NT nunca apresentaram o tipo de argumento tão frequentemente ouvido nos dias hoje, ou seja, que, uma vez salva, a pessoa pode ignorar a lei de Deus e inventar seus próprios padrões morais. Jesus guardava o sábado e jamais tentou subvertê-lo. A igreja primitiva seguiu seus passos, alterando apenas o dia do sétimo dia judaico para o primeiro dia cristão. Tudo o que Jesus corrigiu foi a versão distorcida do costume por parte dos fariseus. O ensinamento seguinte do NT, no livro de Hebreus, indica que o padrão semanal original também possui um significado espiritual. O dia de adoração de cada semana deve ser uma prévia maravilhosa daquilo que teremos no céu. Tal experiência é retratada como descanso eterno. No céu, os sábados infindáveis serão revelados, o trabalho estará terminado e a criação redimida será desfrutada por toda a eternidade. O descanso sabático, portanto, tornou-se uma representação do céu em Hebreus 4. O mandamento quanto ao dia de descanso, dessa forma, está longe de ser um vestígio de uma sociedade antiga e agrária que não possui aplicação persuasiva para nós hoje. Ademais, pode se tratar de uma chave esquecida para o planejamento comercial e econômico que tanto permite o descanso como também proíbe a transformação do trabalho em um deus ou em algo absoluto. O trabalho tem o seu lugar, porém, não é o summum bonum. Se praticado pelos donos de empresas, o dia de descanso, em essência, não é ineficiente e inútil? Por que qualquer pessoa, em especial os donos de empresa, deve guardar o sábado de Deus hoje? Diversas boas razões que os calvinistas identificaram estão listadas abaixo; indubitavelmente, existem muitas outras. Define limites a determinadas atividades para os donos; por exemplo, o trabalho é bom, porém, não é Deus. Uma observância regular do sábado é a necessidade de um mecanismo limitador para a existência humana. Ele nos impede de nos tornarmos escravos do trabalho. O ensinamento bíblico afirma que o trabalho é bom e parte essencial de uma humanidade sadia. Todavia, proprietários e trabalhadores estão sob a ordem de evitar o trabalho incessante. O sábado é um “não” divino, o qual reforça o “sim” divino pronunciado em prol da alegria humana. Guardar o dia de descanso também impede a vitória da cobiça natural. Requer que o dono se planeje com antecedência. Se um proprietário deve tanto obter sucesso quanto guardar o sábado, é necessário que ele se planeje com antecedência. Na realidade, essa imposição exige que o planejamento futuro seja uma atividade regular. O administrador deve garantir que os recursos, o trabalho e os colaboradores de segunda-feira estejam prontos até o fim do dia no sábado, para guardar o dia de descanso, no domingo. O ano sabático (Êx 23) e o jubileu requerem um planejamento com uma antecedência ainda maior. Se o executivo está constantemente atrasado, com trabalho por fazer, é ineficiente ou lhe falta premeditação, será impossível interromper tudo e separar um dia para o descanso. Portanto, o planejamento é uma exigência implícita na ordem divina. Guardar o sábado, em suma, pode, na verdade, aumentar a organização do executivo. Significa que o proprietário deve se atentar às coisas sagradas e congregar (assim como as outras pessoas) com os santos de Deus. Ele, também, precisa prestar adoração. O proprietário não é ontologicamente superior ao funcionário quando se trata do mandamento relacionado ao dia de descanso. Um efeito de equilíbrio nasce no seio do sábado. Proprietários e trabalhadores se tornam iguais nesse dia. Ninguém é superior na casa do Senhor; comigualdade, todos se aproximam do Soberano. Além disso, nesse dia, cada um descansa, compromete- se com os ministérios de misericórdia e presta adoração livre das distinções de classes sociais. A harmonia social é promovida no restante da semana se os proprietários e trabalhadores se lembrarem, do mesmo modo, que o dia de descanso é o exemplo do descanso eterno e uma trégua da maldição. Guardar o sábado também evita a deificação errônea de outros seres humanos. Um lembrete semanal de que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus é parte essencial da adoração. Tal antropologia se transfere para a ética comercial do indivíduo. Provê uma oportunidade para um testemunho diferente. Quando os cristãos se abstêm das tarefas, recreações e serviços cotidianos em vista do dia do Senhor, tal atitude se torna uma oportunidade de testemunhar. Uma natureza celestial e sã se torna conhecida. Por certo, a pessoa pode receber olhares desdenhosos semelhantes àqueles direcionados aos membros da comunidade amish devido às suas vestimentas antiquadas e conduta. No entanto, nosso testemunho quase sempre é fortalecido quando existe algo diferente e difícil de esquecer. Aqueles que são materialistas, por exemplo, podem se espantar ao se depararem com um empresário que honra a Deus mais do que se apega à riqueza, criando, dessa forma, a chance para ele gentilmente explicar a razão de sua esperança (1Pe 3.15). Os empresários devem se preocupar com seu testemunho, assim como qualquer outra pessoa. Na realidade, a quem é dado muito, muito se exige em relação ao testemunho público. Guardar o sábado é um dos meios ordinários de testemunhar; sua observância pode ser mais necessária para os proprietários do que para os demais. Identifica oportunidades para os proprietários demonstrarem caridade (para com os estrangeiros, empregados, etc.). A ordem original presente em Êxodo 20 seleciona diversos grupos que são protegidos da demanda infinita de trabalho e que, talvez, não tenham proteção legal. Tal ordem evita que os imigrantes e os pobres sejam maltratados; eles também têm o dia de descanso e igual resguardo de sua bênção. O proprietário deve ser caridoso, e essa pequena incursão toda semana, provavelmente, servirá para sensibilizar o executivo quanto a outras necessidades de obras de caridade. Além do mais, o sábado é um dia excelente para se dedicar aos ministérios de caridade e diaconal. Necessita do trabalho para a boa forma física (durante seis dias). A ética de trabalho hebraica era mais vigorosa do que a do Ocidente moderno. O sábado não só exige um dia inteiro de descanso, mas também estipula que todas as pessoas devem trabalhar durante seis dias – não cinco dias ou o tempo médio do Ocidente industrializado (em torno de 30 horas semanais). Guardar o dia de descanso, caso ambas as partes do mandamento sejam cumpridas (“seis dias trabalharás e farás toda a tua obra” – Êx 20.9), pode, na realidade, aumentar a produtividade. Claro, se tal imposição for considerada transcendente, é possível também colocar em dúvida a questão de um dos ídolos de nossos dias – a falsa expectativa da aposentadoria. Muitos de nós idolatramos uma existência onde não haja trabalho – uma época da vida em que viveremos despreocupadamente à custa de nosso dinheiro ou pensão. O mandamento de Êxodo, todavia, não diz: “Trabalhe seis dias se você tiver menos de 65 anos, a não ser que tenha investido bem no mercado de ações”. Trata-se de um mandamento universal. Essa perspectiva a longo prazo afeta o planejamento e os investimentos da pessoa de modo significativo. Posto que pouquíssimos cristãos cumprem tal mandamento hoje, existem quaisquer tradições mais abrangentes que justifiquem tal atitude? Um desafio incômodo frequentemente é apontado: “Se a maioria dos outros cristãos ignora o sábado, por que não devemos fazer o mesmo?” Observe, todavia, que a pergunta, como quase sempre formulada, supõe que (1) os cristãos que não guardam o dia de descanso apresentam um padrão normativo de conduta; ou (2) que as opiniões antigas da igreja devem ser desconsideradas. A igreja universal, por certo, é muito mais ampla do que a nossa própria e limitada experiência cultural. Para refletir a conformidade interdenominacional desse assunto, é possível comparar as visões do Protestantismo Reformado, esboçadas acima, com o Catecismo da Igreja Católica (CIC). O Catecismo Católico se refere ao sábado como “sinal da aliança inquebrantável” entre Deus e Israel. Ele ainda descreve o sábado como “dia de protesto contra as escravidões do trabalho e o culto ao dinheiro”.*** Em concordância com a interpretação tradicional apresentada acima, o CIC afirma o respeito de Jesus para com o dia de descanso e o aponta como o intérprete autêntico de suas atividades. O Catecismo Católico fala a respeito do “ritmo e espírito” desenvolvidos pela observância do sábado. Obviamente, enfatiza também a obrigação de adorar e celebrar a eucaristia nesse dia. De acordo com essa afirmação doutrinária, os cristãos devem evitar trabalhos que impeçam a adoração, a alegria, o repouso físico ou ministérios da misericórdia apropriados ao sábado. Ao adaptar-se ao ensinamento de Jesus, o CIC reconhece, também, que o dia de descanso não deve reprimir as necessidades familiares ou os ministérios diaconais apropriados. Por outro lado, os cristãos “cuidarão para que dispensas legítimas não acabem introduzindo hábitos prejudiciais à religião, à vida familiar e à saúde”. Seguindo a máxima de Agostinho de que “o amor da verdade busca o santo ócio, a necessidade do amor acolhe o trabalho justo”, esse Catecismo recente convoca os cristãos a se lembrarem das necessidades das outras pessoas enquanto repousam. Em suma, o CIC faz a seguinte afirmação: “A instituição do domingo contribui para que todos tenham tempo de repouso e de lazer suficiente para lhes permitir cultivar sua vida familiar, cultural, social e religiosa. Todo cristão deve evitar impor sem necessidade aos outros aquilo que os impediria de guardar o dia do Senhor”. Desde os tempos dos puritanos, na Inglaterra, até o mais recente Catecismo da Igreja Católica, o sábado tem sido reconhecido como um dever moral com diferentes benefícios. Assim como todos os demais mandamentos, a orientação para guardar o dia de descanso está repleta de graça. Ele, de fato, oferece “liberdade” para descansar. Com essa ordem, o soberano Criador não apenas dá permissão para o descanso (permissão essa que, posteriormente, se estenderia ao ano sabático e ao jubileu, em Levítico 25); ele ordena positivamente que os trabalhadores tirem um dia para repousar e retomar o foco. Tal ordem mostra que essa questão não é o que mais importa. Faz parte da lei moral permanente, a qual não pode ser subestimada, exceto para nosso próprio dano. Truett Cathy – fundador da rede de norte-americana de fastfood – Chick-fil- A – é um exemplo incrível disso. Apesar da cultura predominante, desde a inauguração, durante 14% da semana de trabalho, a empresa fica fechada. Ainda assim, seu lucro é exorbitante. Sua única razão para fechar todas as franquias do “eat mor-chikin” [coma mais frango] é obedecer e honrar a Deus. Enquanto isso, ele proporciona um lugar de trabalho humano e dá um testemunho condizente com a lucratividade. Seria possível que Deus usasse pessoas de negócios para chamar a igreja à origem? Seja como for, uma coisa parece clara: se determinados fatores – por exemplo, a criação, o sobrenatural, a moral e Cristo – permanecerem à frente de nossas intenções econômicas, nossos negócios serão diferentes daqueles cujos sistemas econômicossão outros. Por exemplo, segundo a contraditória teoria de trabalho de Marx, o valor de um item é mais bem mensurado em vista de todo o empenho de trabalho dispensado em sua produção. Consequentemente, o trabalho se torna a forma de medida mais valiosa durante esse processo. Marx chega a classificar o capital destinado ao maquinário utilizado na produção dos itens como trabalho acumulado que poderia ser dispensado na operação das máquinas. Como resultado, de acordo com o paradigma de Marx, o trabalhador é incentivado a produzir constantemente; ele está escravizado pelas coisas que agregam valor à equação produtiva – seu tempo e dinheiro. Por outro lado, algumas atitudes capitalistas tomam pouca ou nenhuma providência quanto ao sábado e podem criar certo “hipercapitalista” com tendência a trabalhar sete dias por semana. Em ambos os casos, o dia de descanso não é respeitado. O respeito pelo dia de descanso é definitivamente eficiente, além de ser responsável pelo aumento da produtividade de segunda a sábado. Ele também impulsiona a criatividade e o empreendedorismo. Sem modernização e empreendedorismo, a pessoa que guarda o sábado seria submetida a um turbilhão de atividades no sábado que, hoje, não se fazem mais necessárias. Energia, calor, água e armazenamento de alimentos são apenas alguns exemplos de amenidades que permitem que o cristão desfrute do sábado sem, como afirma Brian Schwertley, um “retorno à idade da pedra nos dias do Senhor”.40 Um item tão básico como a geladeira confere ao cristão o conforto do alimento fresco no dia de descanso; o advento da usina de energia elétrica e sua distribuição liberam o cristão para adorar melhor e desfrutar o dia de descanso. Os mercados que usam novas tecnologias com o intuito de alcançar, de modo eficiente, as massas apoiam a disseminação da prática e o desfrute do sábado. A riqueza não é moralmente ruim Embora alguns economistas lutem para acabar com a má reputação da riqueza ou introduzi-la como um aspecto no território neutro, por certo, ela não é moralmente ruim e pode ser boa, se utilizada debaixo da graça. Na verdade, a riqueza pode ser utilizada de maneira muito positiva. Ela potencialmente tem efeitos salutares. Tamanha é a importância do comércio a ponto de certo autor sugerir ser esse o melhor método para tirar as pessoas da pobreza. Wayne Grudem assevera que “iniciar e manter negócios produtivos e rentáveis” é a única “solução a longo prazo para a pobreza mundial”.41 Grudem também constata que inúmeros obstáculos impedem o bom fluxo do comércio. Excessivas regulamentações governamentais quase sempre inibem os empresários em países mais pobres. O confisco governamental dos bens privados é outro forte desincentivo ao empreendedorismo. Governos ineficientes que não punem o crime ou não oferecem proteção contra fraudes também desestimulam o ambiente comercial. Não obstante tais empecilhos, um dos maiores obstáculos que os empresários têm de superar é a atitude negativa para com o comércio e o lucro em geral. Grudem pergunta: Se as pessoas considerarem o comércio algo mau, elas hesitarão começar um negócio e nunca se sentirão realmente livres para terem prazer em trabalhar no comércio, porque ele sempre estará maculado pela névoa da falsa culpa. Quem pode ter prazer em ser um materialista mau que trabalha com dinheiro mau com o objetivo de obter lucros maus por meio da exploração dos trabalhadores e da produção de bens materiais que saciam a avareza má das pessoas, aumentam seu orgulho mau, sustentam a desigualdade má de posses e alimentam a competitividade má?42 Mais adiante, ele argumenta contra uma das grandes mentiras do “inimigo que quer impedir o povo de Deus de cumprir os seus propósitos”, sugerindo que “se o próprio diabo quisesse manter as pessoas criadas por Deus na vil escravidão da pobreza por toda a vida, se torna difícil pensar em uma forma melhor de como ele poderia fazê-lo do que levar as pessoas a pensarem que o comércio é fundamentalmente mau, pois, assim, elas evitariam se envolver com ele ou se posicionariam contrárias, sempre que possível”.43 Sua alternativa, como calvinista moderno, é que os cristãos invistam em si mesmos e em seus talentos, dominando a terra e utilizando as matérias-primas provenientes da boa criação de Deus para obter lucros e, então, utilizá-los para gerar mais empregos e suprir necessidades verdadeiras. Os economistas raramente abordam a qualidade moral da riqueza. Todavia, em grande parte da sociedade, a riqueza se tornou um saco de pancadas. Durante a década de 80, o padrão de garoto mau nos filmes era um russo ou um nazista. Na década de 90, Hollywood se volta para os chineses, os cartéis de drogas e os vietcongues (enquanto o cinema popular trazia à memória a Guerra do Vietnã) em busca de vilões. Nesta década, os ricos, os poderosos e as gananciosas companhias de petróleo se tornaram os “novos” vilões. Doses diárias de teoria econômica moralista – cortesia da banda Aerosmith e sua música “Eat the Rich” – eram sempre propagadas nos rádios durante as décadas de 80 e 90. Tal catequização cultural acumulou e rendeu visões predominantemente negativas com relação à riqueza. Para entender melhor a difamação da riqueza e dos ricos nos dias de hoje, podemos começar com David Ricardo (1772-1823).44 Ele apresentou um modelo, denominado Lei do milho, segundo o qual a riqueza serve como evidência prima facie da exploração do trabalho. Nele, existem três entidades: (1) o dono da terra, (2) o empregador que arrenda a terra e (3) os trabalhadores que o empregador contrata para cultivar e colher o milho. De acordo com o modelo, qualquer lucro excedente acaba com o dono da terra. Conforme o milho é cultivado e o trabalho requer maiores salários, a demanda pelo produto também cresce e o preço consegue aumentar também. O empregador e seus trabalhadores ficam presos em um ciclo de demanda crescente, salários crescentes e preços crescentes. O dono da terra, todavia, pode ajustar seu arrendamento de modo que qualquer lucro excedente dentro do sistema seja pago a ele. No fim, a riqueza é apresentada como um jogo de soma zero no qual trabalho e gerenciamento estão lutando por uma porção cada vez menor. A partir de Ricardo, Karl Marx selecionou o tema e convocou os trabalhadores comuns para a batalha com seu grito de guerra: “Trabalhadores do mundo, unam-se”. Embora Marx seja citado como “o pai do Comunismo”, ele não era uma voz sozinha gritando no deserto. O Manifesto Comunista foi publicado em 1848, embora, muitos anos antes de seu aparecimento, os temas relacionados ao Socialismo e à redistribuição igualitária da riqueza já tivessem sido apresentados ao público por cortesia da imprensa norte-americana. Horace Greeley, um dos principais jornalistas daqueles dias, foi reconhecido, em 1844, pelos “colegas comunistas como o homem que ‘fez por nós o que jamais conseguiríamos ter feito. Ele fez a obra do século.’”45 Como duas correntes convergentes, os textos e editorais substanciais de Greeley, escritos de 1841 a 1848, os quais “alcançavam 10% dos eleitores nos estados do norte, e quase sempre os 10% mais socialmente envolvidos”,46 se uniram aos textos passionais de Marx para criar um afluente sinuoso que rapidamente conformou o pensamento econômico e sociológico daqueles dias. Muitas vezes, as ideias de uma disciplina levam anos, décadas ou gerações para se expandirem a outras áreas e ao discurso popular, como uma osmose lenta com adaptações e partidas capazes de transformar as ideias originais em meras sombras de si mesmas. Todavia, os temas da exploração,do roubo do valor excedente e das armadilhas da propriedade privada estouraram para a vanguarda dos influenciadores e intelectuais da sociedade, espalhando-se com rapidez para a força de trabalho. Dentro de meses após a publicação do Manifesto Comunista, “as rebeliões dos trabalhadores se disseminaram por toda a Europa – na França, Alemanha, Áustria e Itália”.47 Na virada do século, a obra A ética protestante e o espírito do Capitalismo, de Max Weber, apresentou aos leitores o conceito de “gaiola de ferro”. De acordo com tal conceito, o capitalista cristão fica preso ao Capitalismo, habituado aos seus benefícios, mas enredado em um paradigma imoral. Weber, segundo um economista moderno, afirmava “que o Capitalismo, por sua própria natureza, tinha de se desenvolver em uma cultura materialista e de aquisição mundana das coisas, a busca e deleite pelo desnecessário (luxo)”.48 Corroborando com o argumento de Weber, está a ideia de que nem mesmo o mais justo puritano foi capaz de escapar da tentação e do dilema moral da riqueza. Weber pinta a imagem de cristãos bem-intencionados sendo corrompidos e engaiolados pelas futilidades atraentes da riqueza. Mais próximo aos nossos dias, na década de 60, os socialistas cristãos e teólogos deram mais voz às suas denúncias contra os danos relacionados à abundância e à riqueza. Citando o texto de Atos 2 fora de seu contexto canônico, eles requisitavam um estilo de vida mais simples, característica quase sempre aprovada pelos teoristas coletivistas. Mesmo em vista dos incontáveis benefícios trazidos pelo Capitalismo para a sociedade – aumento de emprego e liberdade, mencionando somente dois – eles ainda se sentiam presos à “gaiola de ferro” introduzida por Weber. Ao comentar sobre esse fenômeno em seu livro, The Good of Affluence, John Schneider observou que “economistas como Robinson e filósofos morais como Hauerwas têm a mesma percepção característica do Capitalismo – ou seja, embora ele possa resultar em enormes vantagens, como a prosperidade, seus fundamentos humanos não são bons, mas bastante imorais”.49 O grande experimento social do século 20 precisava de vilões que ameaçassem ostensivamente suas ideias de amor livre, paz, liberdades sociais e expressões irrestritas. Alimentadas por um século de dúvidas e ataques e inflamadas pela nova teologia da libertação, as décadas de 60 e 70 consolidaram o conceito da imoralidade da riqueza, tornando-o parte da consciência cultural predominante. Ainda hoje há certa tendência predominante de menosprezar a riqueza; basta apenas ouvir as inúmeras críticas ao último violador caluniado – uma das maiores empresas de petróleo. No decorrer dos últimos três anos, os líderes da Exxon e de outras empresas de óleo e gás foram intimados perante o Congresso para justificar seus “lucros excessivos”. Praticamente como um rito anual, o Congresso censura a Exxon e outros membros do grupo de conspiradores por eles denominado “big oil”. No entanto, os lucros de tais produtoras são realmente excessivos? Em 2007, a Exxon Mobil lucrou US$ 40.600 bilhões já com a dedução de impostos – uma quantia inacreditável. Entretanto, com base em sua receita bruta de US$ 358.600 bilhões, a margem de lucro líquido foi de 11.3% em 2007. A tabela abaixo mostra os dados financeiros para as dez principais ações de acordo com o índice S&P 500 com base na capitalização de mercado. Empresa Margem de lucro líquido Rendimento de dividendos Distribuição de dividendos em US$ Exxon 11.3% 1.5% US$ 7.62 bi GE 12.5% 3.3% US$ 11.49 bi Microsoft 27.5% 1.2% US$ 4.01 bi AT&T 15.5% 3.8% US$ 8.7 bi Proctor & Gamble 12.6% 1.9% US$ 4.2 bi Google 29.9% 0% US$ 0 Chevron 8% 2.5% US$ 4.79 bi Johnson e Johnson 19.9% 2.5% US$ 4.67 bi Wal-Mart 3.3% 1.9% US$ 3.58 bi Bank of America 27.5% 6.2% US$ 10.87 bi Dados financeiros concedidos pelo banco de dados da Baseline, compilados por Thomson Financial, Nova York, NY. Comparando a margem de lucro da Exxon com a das outras nove empresas dentre as dez principais, podemos perceber que a Exxon, na verdade, é a terceira empresa menos lucrativa. Se ela for culpada de lucro excessivo, o que dizer de Microsoft, Google e Bank of America, que estabeleceram corporações que retêm mais de 20% do dinheiro dos consumidores? Observe também que a Exxon pagou mais de US$ 7 bilhões em dividendos em 2007, enquanto o Google não pagou absolutamente nada. Uma vez que o campo de jogo é nivelado pela mágica da análise, Google, Microsoft e as outras corporações ganham muito mais que a Exxon por dólar gasto e devolvem menos aos acionistas. Se o Congresso estiver realmente preocupado com os lucros excessivos, deve ordenar que cada empresa limite sua margem de lucro à margem da Exxon e redistribua o excedente para as pessoas dos Estados Unidos. Além disso, a Exxon Mobil utiliza sua fortuna para reinvestir em atividades em todo o mundo, empregando centenas de milhares de pessoas. Por exemplo, 22 mil trabalhadores estão empregados na Exxon no Chade. O sistema econômico nacional não é fortalecido pela presença dessa empresa? Qual a importância final para os milhares de lares no Chade em decorrência do efeito cascata dos lucros da Exxon? Ter uma visão panorâmica fora de contexto tende sempre à distorção ou manipulação. Lucro e riqueza, quando não acumulados, possuem efeito multiplicador que cria valor. O circo político, na melhor das hipóteses, é um espetáculo secundário, porém, ilustra o pensamento da nossa época, ou seja, a riqueza e o lucro são, em grande medida, maus e podem estar sujeitos à redistribuição. Todavia, sob um sistema de mercado eficiente que opera em conformidade com os princípios econômicos bíblicos, o poder da riqueza como instrumento de reinvestimento e graça não pode ser compreendido como algo maléfico, mas bom, criando valor, impactando vidas, desenvolvendo comunidades e promovendo a abundância da criação de Deus a todos os homens como extensão de sua providência. A questão é que Deus criou a riqueza e concedeu aos seres humanos a capacidade de gerenciar e intercambiar a moeda correta. Em vez de restringir a humanidade ao escambo ou troca de mercadorias, devemos reconhecer que o livre fluxo de capital, na realidade, é um exercício de domínio. Trata-se de uma outra maneira de a coroa da criação de Cristo, a humanidade, conseguir praticar a boa administração do restante da criação. A utilização da riqueza para enriquecer a vida de nossas famílias e outras pessoas é uma forma de glorificar a Deus. Não é possível concluir, a partir de um estudo das Escrituras, ser a riqueza inerentemente maléfica; pelo contrário, ela é parte da criação. Apesar de a inveja, cobiça e avareza colocarem em dúvida a administração da riqueza, tais desejos avarentos podem, também, ser direcionados a outras coisas que não são inerentemente maléficas. Calvino tinha uma visão bastante equilibrada para compreender que o Criador havia criado até mesmo a riqueza. Ele percebeu que ela, embora jamais devesse se tornar um ídolo, pode e deve ser utilizada de maneira adequada a fim de consolar as criaturas de Deus. Wayne Grudem se expressa bem quando afirma ser o dinheiro uma invenção humana fundamentalmente boa que “que nos afasta do reino animal e nos permite dominar a terra por meio da produção de bens e serviços que tragam benefícios às outras pessoas. O dinheiro permite que todos os seres humanos se tornem produtivos e desfrutem dos frutos de tal produtividade de modo muito mais amplo do queconseguiríamos se nenhum ser humano tivesse dinheiro e tivéssemos apenas de permutar uns com os outros”.50 Ao revelar o esplendor de Deus, a narrativa da criação possuía importantes implicações para o entendimento do reformador em relação à riqueza, ao homem, ao domínio e ao dia de descanso. Quando se levam em consideração os comentários de Calvino a respeito da criação e do plano de Deus, não se nota o semblante de um mestre mercenário, insensível, furioso, nem de um monge isolado. Calvino, sim, revela os desígnios de Deus como um pastor bondoso orientando os membros de seu rebanho a adorarem o Criador acima da criação enquanto mantêm a energia e diligência necessárias para cuidar da criação a eles confiada. Entre a tensão do Criador e da criação, Calvino faz um mosaico no qual o homem tem domínio sobre um jardim abundante, está propenso a criar, é autorizado a desfrutar dos benefícios de seu trabalho e é responsável por semear e colher para a glória de Deus. Tais benefícios são balanceados por determinada ética de trabalho que requer responsabilidade e a utilização apropriada do dia de descanso a fim de honrar ao Criador. As ferramentas de sustento do homem não incluem somente o empenho criativo, mas também a riqueza e os ganhos financeiros ordenados por Deus não como instrumentos de destruição ou maldade, mas como instrumentos de misericórdia, reinvestimento e ministério. O pensamento de Calvino quanto à criação teve impacto em seus dias em Genebra e ainda influencia os sistemas comerciais que encorajam a criação, protegem o criador da empresa e visualizam a riqueza sem desdém, inveja ou ira. Ao enxergar a riqueza e os bens como criados por Deus e à luz da ordem de administração, é possível obter uma visão positiva de coisas como lucro, comércio, riqueza e ativos. Todavia, juntamente com elas também vêm as tentações da má utilização, como aponta a próxima seção. Notas * Filósofo cínico de Atenas que doou seu dinheiro para viver na pobreza (N. da T.). ** No Brasil, ainda não existem efetivamente escolas nesses padrões. Os Charters Schools são escolas públicas financiadas pelo setor público e privado com maior autonomia em relação às escolas públicas tradicionais. Há estudos e pesquisas para a implantação desse modelo no Brasil, como mostra a reportagem http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/estado-deve-implantar-oss-na-area-da-educacao-aos-moldes- das-charter-schools-americanas-2-25931/, porém, nada parecido existe atualmente (N. da T.). *** Referências ao CIC pesquisadas em: http://www.catequisar.com.br/dw/catecismo.pdf. Acessado em 09/05/2016 (N. da T.). 1 João Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark and Luke (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 1:337. 2 Ibid., 1:332. 3 Ibid., 1:334. 4 Os discípulos de Weber argumentam que os calvinistas buscavam provar sua eleição por meio do acúmulo de capital. Os eleitos, portanto, eram aqueles que obtinham êxito nos negócios e eram identificados exteriormente como prósperos. 5 Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, 1:334. 6 João Calvino, Commentaries on the Four Last Books of Moses (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 3:187. 7 Ibid., 3:188 8 André Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought (1959; reimpr., Genebra: World Alliance of Reformed Churches, 2005), p. 283. 9 Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, 2:401. 10 Utilização da nomenclatura antiga em referência a “pessoa”, claro, sem a intenção de especificar o gênero [essa ressalva se deve à preocupação do autor com o uso da linguagem inclusiva, em geral não adotada em português e definitivamente não empregada por esta Editora (N. do E.)]. 11 João Calvino, Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis (1554; reimpr., Grand Rapids: Baker Book House, 1979), p. 70. Na seção a seguir, os números entre parênteses referem-se às páginas dessa edição do comentário. 12 Embora Mark Skousen, dentre outros, observe que Smith tenha feito parte do Iluminismo escocês junto com o cético David Hume, ele também afirma o seguinte: “Adam Smith foi extremamente influenciado pelas doutrinas calvinistas, favorecendo a frugalidade e o trabalho árduo, condenando, enquanto isso, o luxo excessivo, a usura e a mão de obra ‘improdutiva’”. Skousen, The Big Three in Economics, p. 39. 13 Citado na obra de John E. Stapleford, Bulls, Bears & Golden Calves: Apllying Christian ethics in Economics (Downers Grove: InterVarsity Press, 2002), p. 57. 14 O economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) tornou conhecido o termo “destruição criativa”. 15 Obviamente, esses produtos gratuitos também são designados, em alguns casos, para criar certa necessidade do produto, o qual virá a ter um custo mais adiante. Além do mais, algumas empresas oferecem software “gratuito” apenas para compensar a “perda” ao cobrar mais por outros produtos. 16 Calvino, Commentaries on the First Book of Moses, p. 96. Nas seções a seguir, os números entre parênteses das páginas referem-se a esse comentário. http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/estado-deve-implantar-oss-na-area-da-educacao-aos-moldes-das-charter-schools-americanas-2-25931/ http://www.catequisar.com.br/dw/catecismo.pdf 17 John R. Schneider, The Good of Affluence: Seeking God in a Culture of Wealth (Grand Rapids: Eerdemans, 2002), p. 59. 18 Por exemplo, presuma-se ainda que a GE tenha um objetivo de taxa interna de retorno de 11%, que todas as divisões dela estejam dando um retorno de 12% e que a taxa de retorno livre de risco (como simbolizado pelo título do tesouro direto em 10 anos) seja de 4,5%. Se a GE identificar uma oportunidade com potencial de retorno superior a 11%, a empresa deve investir o excesso de lucro em tal oportunidade. Caso o potencial seja entre 4,5 e 11%, a decisão não está tão evidente e, sem outros motivos potenciais ou sinergias, o lucro deve ser pago como dividendos. Se o retorno esperado for inferior a 4,5%, a empresa deve, sem dúvida, pagar o lucro em forma de dividendos. 19 O teorema de Modigliani-Miller defende que, em um mercado eficiente isento de impostos, a decisão de pagar ou reter o dividendo é irrelevante para o valor de mercado atual das ações. A suposição básica para tal aspecto da teoria é que (1) a empresa esteja pagando um capital “ineficiente”, ou seja, um capital incapaz de superar a taxa mínima de atratividade e 2) os acionistas/recebedores dos dividendos receberão seu pagamento e buscarão um retorno mais alto, reinvestindo a receita em outros empreendimentos comerciais especulativos que estejam superando o valor da taxa mínima de atratividade. Consulte Merton Miller e Franco Modigliani, “Dividend Policy, Growth, and the Valuation of Shares”, Journal of Business, 34, n° 4(1961): p. 411-433. 20 Isso não implica que somente os cristãos receberão riquezas neste mundo. Em oposição ao grave erro da “teologia da prosperidade”, Deus elege algumas pessoas para receberem bens e outras não, porém, a eleição é feita por ele. Homens maus podem prosperar nesta terra, e justos podem viver na pobreza. 21 Schneider, The Good of Affluence, p. 59. 22 Skousen, The Big Three in Economics, p. 208. 23 Citado em Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 357. 24 Calvino, Commentaries on the First Book of Moses, p. 125. Na seção a seguir, os números entre parênteses referem-se às páginas desse comentário. 25 A citação é do sermão de Calvino sobre o texto de Deuteronômio 24, citado em Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 362. 26 Stapleford, Bulls, Bears & Golden Calves, p. 22. 27 Victor V. Claar e Robin J. Klay, Economics in Christian Perspective: Theory, Policy, and Life Choices (Downers Grove: InterVarsity Press), p. 22. 28 Citado em Biéler,Calvin’s Economic and Social Thought, p. 201. 29 Diversos estudos detalham a Genebra de Calvino. Dentre eles estão: E. William Monter, Calvin’s Geneva (Nova York: John Wiley & Sons, 1967); Alastair Duke et al. (orgs.), Calvinism in Europe, 1540–1610: A Collection of Documents (Manchester: Manchester University Press, 1988); J. T. McNeill, “John Calvin on Civil Government”, em Calvinism and the Political Order, George L. Hunt (org.) (Filadélfia: Westminster Press, 1965), p. 22-45; William A. Dunning, A History of Political Theories: From Luther to Montesquieu (Nova York: Macmillan, 1919), p. 26-33; W. Fred Graham, The Constructive Revolutionary: John Calvin, His Socio-Economic Impact (Richmond: John Knox Press, 1975); e William G. Naphy, Calvin and the Consolidation of the Genevan Reformation (Manchester: Manchester University Press, 1994). Duas biografias recentes também agregam ao nosso conhecimento: William J. Bouswsma, John Calvin: A Sixteenth-Century Portrait (Nova York: Oxford University Press, 1988); e Alister McGrath, A Life of John Calvin (Oxford: Basil Blackwell, 1990). 30 Os números de Monter, claro, podem ser questionados. É possível que registros tenham sido mais bem preservados depois de 1536, o que poderia explicar algumas das ascensões da classe mercantil (Monter, Calvin’s Geneva, 5). Entretanto, mesmo que isso fosse estabelecido, o crescimento astronômico dos tipógrafos e da nobreza é certo. Nobres, principalmente da França, fugiram para Genebra porque a adesão ao Protestantismo em sua pátria poderia significar a morte. 31 João Calvino, Institutes of the Christian Religion, John T. McNeil (org.), Ford Lewis Battles (trad.) (Filadélfia: Westminster, 1960). No decorrer da presente obra, todas as citações provenientes das Institutas são da edição mencionada. 32 Duke et al., Calvinism in Europe, 1540-1610, p. 34. A oração de 1562 a ser feita antes do trabalho está presente na íntegra em Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 345. “Bondoso Deus, nosso Pai e Salvador, visto que lhe apraz mandar que trabalhemos a fim de combatermos nossa pobreza, abençoe, assim, nosso trabalho pela sua graça; que sua bênção nos alcance, pois, sem ela, nada pode prosperar; e que o seu favor se faça presente a nós na forma de sua bondade e auxílio, permitindo, assim, que percebamos seu cuidado paterno por nós. Também, Senhor, que lhe apraza nos assistir por intermédio do Espírito Santo, pois, assim, poderemos atender fielmente tanto a nossa condição na vida como nosso chamado, sem engano ou ilusão, mas nos esforçando para seguir o que o Senhor ordenou, não para satisfazer nosso desejo por riqueza. Não obstante, se o seu prazer for fazer nosso trabalho prosperar, mantenha-nos completamente humildes, de modo que não nos coloquemos acima daqueles que não receberam porção tão farta de sua generosidade. No entanto, se lhe aprouver que fiquemos mais pobres e necessitados do que nossa carne gostaria, que lhe apraza ser gracioso para conosco, aumentando a fé em suas promessas, assegurando-nos de que o Senhor sempre nos susterá por meio de sua bondade, assim, não esmorecemos na falta de confiança; porém, pelo contrário, que esperemos pacientemente o Senhor nos encher não somente com sua graça material, mas também com as espirituais, a fim de que tenhamos sempre a imensa oportunidade de agradecê-lo e possamos descansar por completo apenas na sua bondade. Ouve-nos, Pai de misericórdia, por intermédio de Jesus Cristo, seu Filho, nosso Senhor.” Esta oração ser tornou tão popular que estava presente em muitas versões da Bíblia de Genebra (veja a edição de 1599) no anexo de orações “para ser usada em casa todas manhãs e noites”. 33 Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 365. 34 João Calvino, Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 1:248. 35 Ibid., 1:249. 36 Calvino, Commentaries on the First Book of Moses, p. 125. 37 Ibid., p. 106. 38 Calvino, Commentaries on the Four Last Books of Moses, 2: 438. 39 Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, 2:46. 40 Brian Schwertley: “The Sabbath and Modern Industrial Civilization: A Critique of Gary’s North’s ‘The Economics of Sabbath Keeping’”, Reformed Online, http://www.reformedonline.com/view/reformedonline/sabbathciv.htm. 41 Wayne Grudem: Business for the Glory of God: The Bible’s Teaching on the Moral Godness of Business (Wheaton: Crossway Books, 2003), p. 81. 42 Ibid., p. 82. 43 Ibid. 44 Publicado, pela primeira vez, em 1817, On the Principles of Political Economy and Taxation, de Ricardo, foi a primeira grande obra econômica a adentrar o cenário depois de Wealth of Nations, de Smith em 1776. Ricardo era teorista em sua abordagem, caracterizada pelo raciocínio abstrato e dedutivo. Abordando uma série de assuntos, aquele que teve a maior concentração de seus esforços e influência foi o estudo sobre a http://www.reformedonline.com/view/reformedonline/sabbathciv.htm distribuição de renda ou o que é citado como “distribuição funcional da renda”. Consulte Harry Landreth e David C. Colander, History of Economic Thought (Boston: Houghton Mifflin Company, 2002), p. 108-116. 45 Marvin Olasky, The Tragedy of American Compassion (Wheaton: Crossway Books, 2008), p. 51. Horace Greeley (1811-1872) foi editor do influente New York Tribune e fundador do partido republicano liberal. 46 Ibid., p. 56. 47 Skousen, The Big Three in Economics, p. 76. 48 Schneider, The Good of Affluence, p. 24. 49 Ibid., p. 23. 50 Grudem, Business for the Glory of God, p. 47 [Publicado no Brasil pela Cultura Cristã com o título Negócios para a Glória de Deus (N. da T.)]. 2 Queda Antes de serem dadas quaisquer prescrições econômicas, um diagnóstico correto quanto à condição do paciente deve ser realizado. Isso significa que os calvinistas e as outras pessoas devem avaliar a natureza do homem antes de propor correções para a escassez econômica. Embora a fé bíblica de Calvino fosse clara quanto à condição da riqueza como entidade criada, era igualmente claro o fato de toda a criação, incluindo o homem, ter mudado drástica e substancialmente em relação ao seu estado original. Calvino observou que, antes da queda, o mundo era “o reflexo mais nítido e aprazível do favor divino”, ao passo que, subsequentemente, o mundo e os seres humanos foram “amaldiçoados”.1 Caracterizado por “terrível alienação” (p. 173) e condições servis, o mundo caído era a antítese do jardim do Éden. A respeito do trabalho no jardim antes da queda, Calvino falou do “trabalho agradável ao qual Adão se dedicava, trabalho esse que, de certa forma, lhe foi dito para desempenhar; porque ele não havia sido formado para a ociosidade, mas para a ação” (p. 174). Nas condições amaldiçoadas depois da queda, entretanto, o “doce prazer” do cultivo foi trocado pelo “trabalho servil, como se ele tivesse sido condenado ao garimpo” (p. 174).2 Uma vez que o pecado entrou no mundo, as realidades econômicas também mudaram. Desde então, tornou-se impossível fazer uma suposição quanto à bondade, integridade, retidão ou benevolência. Em contrapartida, devido à queda, a depravação do homem deve ser fatorada ao comércio. Os espinhos que afligiram Adão tornariam o trabalho perigoso e menos prazeroso. André Biéler fez uma observação quanto à flutuação da economia primitiva distante da superabundância e em direção à desordem. A causa fundamental, ele escreve, foi espiritual e, para corroborar sua interpretação, o pastor suíço cita os comentários de Calvino a respeito dos efeitos da queda. O reformador explicou que a ânsia dos homens e dos animais “deve ser atribuída à corrupção da natureza”. A natureza passou de um “estadoíntegro” que outrora havia se conservado “pela designação original de Deus” para uma condição sujeita à improdutividade, má colheita, inclemência, estiagem, chuva de granizo e “tudo aquilo que for desregrado no mundo, sendo fruto do pecado”.3 Contrária à economia perfeita anterior à queda, nossa cultura econômica herdada é caracterizada por corrupção, labuta, opressão, vingança e ira divina. A condição econômica que uma vez foi harmoniosa suporta hoje iniquidades e desarranjos extremos. Em um sermão sobre o texto de Deuteronômio 24, Calvino explicou a antropologia fundamental com estas palavras: Sem dúvida, aqui, Deus desejava corrigir essa incredulidade tão predominante em nós, quando alguém acha que nunca terá o suficiente. Esta é a razão por que os homens se apegam às coisas e nunca conseguem se satisfazer; e, quanto mais coisas eles têm, mais a cobiça deles inflama, exatamente como ocorre com alguém que bebe e tem edema. E qual é a causa? Essa incredulidade diabólica no momento em que não reconhecemos que a verdadeira preocupação de Deus é nos suster. Este é o motivo por que os homens são tão insaciáveis e ardem em tamanha inveja a ponto de se apoderarem de grandes quantias para si mesmos, guardá-las e nunca estarem contentes. Recorramos a Deus e reconheçamos que, quando ele nos abençoa, temos o suficiente com o que nos alimentar e nos suster.4 Uma antropologia definida (ou visão da natureza do homem) surge a partir do ensinamento progressivo de Calvino. Em certo sermão sobre Gálatas, Calvino disse: “Se fôssemos todos como os anjos, sem culpa e livres para conseguirmos exercitar o perfeito domínio próprio, não necessitaríamos de regras ou regulamentações. Por que, então, temos tantas leis e estatutos? Devido à iniquidade do homem, pois ele está constantemente transbordando o mal; esta é a razão pela qual se faz necessária uma solução”.5 Se os homens não tivessem pecado, não seriam necessárias quaisquer responsabilidades fiscais ou estruturas externas. Cada pessoa trabalharia de maneira árdua, produziria mais, administraria com excelência e compartilharia de modo benevolente. No entanto, o fato inegável do egoísmo humano requer que antevejamos as seguintes verdades como efeitos da queda sobre o comércio. A depravação requer uma ética de trabalho O Calvinismo é tão singular em sua visão da motivação humana quanto em sua visão do potencial humano. Seguindo a Escritura, ele visualiza a humanidade declinando radicalmente de uma posição outrora superior. Apesar de os seres humanos terem, outrora, cultivado o jardim sem imposições ou restrições externas, desde a queda, os trabalhadores têm de ser motivados. Ociosidade e egoísmo, no universo modificado, se tornaram mais normais do que diligência e administração. Portanto, não se exige apenas trabalho, mas também uma ética de trabalho diferenciada. O chamado para o trabalho é aquele que se adapta às expectativas de que os homens possam fazer o contrário. O egoísmo nato e pervertido, inerente desde a queda, deve ser contrabalanceado ou refreado pela influente ética de trabalho e pelos incentivos. A ética de trabalho calvinista reconhece que raramente as pessoas trabalharão muito em troca de nada. Algum estímulo normalmente se faz necessário para impulsionar os seres humanos a labutarem por muito tempo ou de maneira árdua. Os adeptos de Calvino reconhecem isso e, por essa razão, por exemplo, programam o pagamento ao término de um trabalho (e não antes) ou solicitam que os trabalhadores demonstrem produtividade antes de lhes consentir que recebam os benefícios. O livro de Provérbios ensina que “a fome do trabalhador o faz trabalhar” (16.26), e tal princípio está inserido na ética de trabalho calvinista. Se os humanos ainda vivessem no jardim primitivo, tais censuras não seriam necessárias. No entanto, a realidade da depravação requer uma ética de trabalho que motive e também recompense. Empregadores e empregados entenderão, de modo semelhante, que a depravação afeta o nível motivacional da mão de obra. Sendo assim, exigências, incentivos e recompensas (juntamente com sua suspensão) fazem parte da prestação de contas aceitável neste mundo decaído. Se reconhecermos a depravação, não toleraremos a falta de produtividade Partindo de nossos comentários acima, deduz-se que a ética de trabalho calvinista não retribui nem tolera a ausência de produtividade. Na realidade, uma ética de trabalho ciente da depravação reconhecerá a ociosidade como sintoma do pecado e buscará impedi-la sempre que possível. Obviamente, uma forma de fazer isso é suspender as recompensas daqueles que não trabalham ou que não trabalham bem. Recompensar somente aqueles que são produtivos tem por objetivo anular, onde for possível, um dos efeitos da queda. Qualquer sistema comercial que reconheça as realidades da queda e do pecado humano, portanto, se esforçará para motivar os trabalhadores a produzir. Durante o processo, não se presumirá que produzirão por conta própria, seja para o bem do Estado ou de outras pessoas. Os negócios bem-sucedidos farão dessa realidade um elemento em seu planejamento. Uma das razões para tão grandioso fracasso dentre as comunidades socialistas é a relativa tolerância da ausência de produtividade. Posto que objetivos ousados não eram propostos, os trabalhadores não eram motivados a elevar seu próprio padrão de vida e todos os ativos eram redistribuídos de modo regular, tais economias de Sísifo não incentivavam a multiplicação, intensificação e aumento dos bens ou ativos. Tais dinâmicas são compreensíveis no que tange à ética de trabalho e dos pressupostos calvinistas. Fato não aceitável é esperar que os seres humanos trabalhem de outra maneira. Proprietários e trabalhadores que entendam ser a produtividade algo exigido e esperado a tornarão parte de sua vida comercial. O reconhecimento da fraqueza humana nessa área pode ser um dos primeiros passos em direção à restauração da natureza decaída dos trabalhadores. Aqueles que não se desenvolvem e não produzem não devem ser recompensados; seu desempenho profissional não é aceitável. Os trabalhadores que se desenvolvem e produzem devem ser recompensados; tal atitude, por sua vez, levará a uma maior produtividade. Deus não queria, por exemplo, que o Éden ficasse inerte. Ele foi planejado para o embelezamento, crescimento, produtividade e desenvolvimento. As condições da economia do jardim, por certo, são diferentes das condições da economia entre cardos e abrolhos. A depravação torna necessária a confiança restrita e requer a prestação de contas no mercado Com a discussão anterior em mente, a prestação de contas no mercado se torna essencial. Se os seres humanos não fossem decaídos, seria possível confiar que eles agiriam e trabalhariam por conta própria sem quaisquer recompensas ou punições externas. Todavia, uma vez que entendermos ter a queda introduzido o pecado dentro da cultura humana, nossas práticas comerciais e estratégias de investimento buscarão se fundamentar em uma prestação de contas regular. Os proprietários e gerentes podem confiar, mas tal confiança tem limite. O homem requer prestação de contas porque é pecador. Por ser pecador, tem de trabalhar. O trabalho é atribuído como consequência, não como castigo. Ele santifica o homem e ajuda a suprir suas necessidades. Novamente, porquanto é pecador, ele necessita da prestação de contas – pessoal e estrutural. Um sistema comercial bem arquitetado provê tal prestação de contas estrutural ou sistemática. A fundamentação institucionalizada para essa prestação de contas sistemática possui dois pilares. O primeiro é um sistema jurídicoe moral sólido. Isso é crucial e nunca deve ser esquecido quando falamos a respeito de comércio ou sistemas econômicos. No cerne de seu argumento a favor do Capitalismo apresentado em The Wealth of Nations [A riqueza das nações], Adam Smith discute como o sistema ideal deve ter leis sólidas e proteger a propriedade e os direitos dos proprietários.6 Muitas vezes, os capitalistas são generalizados erroneamente como exploradores, avarentos e destruidores. Tais adjetivos podem ser apropriados para pessoas que adotam o Capitalismo à parte do espírito calvinista. No entanto, até mesmo os capitalistas de princípios devem, no livre mercado, ser constrangidos pelos sistemas jurídico e moral. Sem esse constrangimento, o sistema econômico é distorcido, ocorrendo uma mutação do Capitalismo. Ademais, existem exemplos de distorções por meio das quais aqueles que são poderosos e estão burocraticamente ligados conseguem fazer uso do governo para seus próprios propósitos em detrimento de outras pessoas. Nessa perversão, empresas e indústrias podem ser levadas a contratar determinadas pessoas ou determinados grupos, compelidas a pagar salários acima do mercado e forçadas a elevar os trabalhadores acima de suas aptidões em nome do apaziguamento. Tal comportamento é quase sempre um Socialismo um pouco mais sofisticado e polido, agindo sob o pretexto da imunidade, enquanto direciona as ações dos empresários e donos de comércio. Em seu livro A Biblical Economics Manifesto, James Gills e Ronald Nash advertem os cristãos a não se tornarem vítimas das conspirações dos diversos tipos de centralização excessiva. “A nova classe de cristãos”, escrevem, “que apoia o liberalismo estadunidense e o Big Goverment que o acompanha, insiste que o Estado utilize seu poder coercitivo, se apodere daquilo que julga convenientemente como excesso e o utilize da maneira como melhor parece aos elitistas, que, por coincidência, controlam o Estado naquele momento específico”.7 O texto não é uma declaração política colocando liberais contra conservadores, ou republicanos contra democratas. Implícita nele está a compreensão do fato de que a elite governante está sempre mudando de um partido para o outro na Casa Branca, no Congresso e no Senado. Independentemente do partido, todavia, a distorção se faz presente na capacidade dos elitistas de direcionarem o programa de ação de modo a adequá-la aos seus propósitos à custa do livre mercado. Na realidade, essa predisposição persistente em atrelar os rendimentos do mercado às agendas políticas pode ter gerado a desilusão com políticos de ambos os partidos. Um exemplo extremo de sistema ineficiente é aquele em que é permitido ao governo estender seus poderes e autoridades além de seus limites constitucionais com o propósito de beneficiar pessoas ou grupos que estão bem ligados. A forma mais ofensiva de excesso de concessão é a má utilização do domínio eminente – a apropriação forçada do bem de uma pessoa em prol do bem comum. No passado, o domínio eminente foi exercido para a construção de barragens, aeroportos, rodovias e infraestrutura. Contudo, em 2005, o caso de Kelo versus City of New London estabeleceu novo precedente para o uso extensivo do domínio eminente. Basicamente, a cidade de Nova Londres, Connecticut, condenou bens imóveis privados a fim de utilizá-los para o programa de renovação da área, o qual incluía um centro de conferências, um novo parque estadual, novas casas e vários espaços para o comércio e varejo. Foi exigido que o governo concedesse uma “compensação justa” por se apossar da propriedade, porém, como é possível determinar o valor total de uma terra extraviada de seu dono no momento em que o domínio eminente viola os direitos de propriedade? Com frequência, tal violação é encoberta sob o pretexto das leis ambientais que demandam “espaço aberto”. Zoneamento, comunidades planejadas e até mesmo associações de proprietários também vêm contribuindo para a desintegração dos direitos de propriedade. Ao comentar sobre esse fenômeno, Thomas Sowell escreveu que “a desintegração dos direitos de propriedade tem permitido que comunidades afluentes e ricas afastem as pessoas com rendas média ou baixa e impeçam a construção de moradia para as pessoas comuns que mudariam a característica das comunidades luxuosas existentes”.8 Que irônico o fato de aqueles que defendem a agenda política liberal do meio ambiente serem indiretamente responsáveis pelo aumento do custo de moradia para os cidadãos das classes média e baixa, e, talvez, até pelo agravamento dos problemas de crescimento urbano desordenado e moradores de rua. “Enquanto milhares de acres de terra são tomados pelo mercado em volta de uma comunidade abastada” em nome do espaço aberto ou áreas verdes, Sowell prossegue, “milhões – bilhões – de dólares em terra estão indisponíveis para outros em prol dos benefícios dos moradores existentes [ênfase acrescida] dessa comunidade”.9 Quando a oferta abaixa, os preços sobem, forçando as pessoas à margem da sociedade a buscarem outras alternativas. A primeira opção para o imóvel residencial no bairro X é normalmente a propriedade no bairro Y, o qual, muito provavelmente, não é tão afastado da cidade e está em um ambiente mais “rural”. A depreciação dos direitos de propriedade é uma tendência perigosa e deve ser vista como o maior impedimento para o sistema econômico bíblico. A capacidade de ter domínio sobre os bens imóveis – e vender, comprar e proteger tal propriedade – é vital para o desenvolvimento dos mercados e da riqueza. O poder legal de estabelecer título de propriedade vai muito além da questão técnica e deve ser protegido com cautela. Conforme observa Sowell: Talvez a maneira mais fácil de entender o papel dos direitos de propriedade seja perceber o que acontece na ausência deles. Mesmo em países onde os direitos de propriedade não foram abolidos formalmente, os custos da validação legal de bens de uma casa, fazenda ou comércio podem ser exorbitantes, em relação ao nível de rendimento médio de determinado país. Isso, na realidade, é uma situação comum nos países de Terceiro Mundo. A revista Economist estimou que, na África, somente uma pessoa a cada dez trabalha em uma empresa reconhecida legalmente ou vive em um imóvel cujos direitos de propriedade são reconhecidos pela lei.10 O segundo pilar da prestação de contas sistemática é a movimentação ilimitada/irrestrita dos salários, recompensas e opções de emprego (do lado dos empregados) e, como consequência, o poder irrestrito de contratar e demitir (do lado do empregador). A palavra-chave aqui é “irrestrito”, significando “sem distorção”. Uma distorção do segundo pilar da prestação de contas está presente em instituições e organizações – sejam elas sindicatos, juntas comerciais, cartéis ou outras associações – que impossibilitam o livre fluxo de empregos. O sistema de estabilidade dentro das principais universidades é um ótimo exemplo. Uma vez que o professor alcança determinado status, de repente, o poder do empregador de demitir ou liberar esse trabalhador diminui significativamente. Como resultado, as universidades não podem mandar embora os docentes com desempenho insatisfatório, e os professores com tal estabilidade possuem tanto o poder de ensinar o que quiserem sem medo da repercussão quanto o direito de exigir salários mais altos, independentemente de seu desempenho. Sowell faz a seguinte observação: As proteções e prerrogativas extraordinárias dos membros de universidades permitem não apenas a autoindulgência em demasia, mas até mesmo a corrupção. A posiçãoprivilegiada dos docentes de faculdades e universidades tanto no ensino como no gerenciamento oferece muitos e diferentes tipos de oportunidades de servir aos seus próprios interesses, e não os interesses dos alunos ou da instituição acadêmica.11 Os professores são capazes de restringir o espectro ideológico a essas visões consoantes às suas próprias, não somente ao selecionar o material de leitura para as suas classes, mas ainda ao decidir quem contratar como colegas, membros das instituições de ensino, levando a situações em que é comum a relação 12:1 entre democratas e republicanos em alguns departamentos, mesmo estando os adeptos de ambos os partidos divididos relativamente na mesma proporção por todo o país.12 A mobilidade econômica precisa estar presente a fim de proporcionar a prestação de contas sistemática. Neste exemplo, o termo “mobilidade econômica” é intencionalmente ambíguo de modo a se referir e incluir a movimentação irrestrita de salários e recompensas, bem como uma gama de opções de emprego e direito irrestrito de contratar e demitir empregados. Quando tal mobilidade, de fato, é irrestrita, o sistema está virtualmente livre de distorção. No entanto, são inúmeras as distorções mesmo nas economias laissez- faire [com menor interferência do governo]. Tais distorções reduzem o grau de mobilidade e, por sua vez, vedam a prestação de contas sistemática, postergando, por fim, a santificação econômica. É fácil identificar os efeitos negativos dos sistemas econômicos que beneficiam apenas aqueles burocraticamente interligados. Não é difícil também reconhecer um sistema em que o governo ultrapassou os limites de seu poder visando à exploração. No entanto, as distorções menos explícitas e seus efeitos sobre a santificação econômica são quase sempre de mais difícil percepção. Com o objetivo de manter a mobilidade social irrestrita, as pessoas devem ter o direito de irem em busca de oportunidades para progredirem ou até para mudarem de profissão. O processo de recompensar o educador que alcança determinado patamar reduz muito o poder do empregador de demitir ou liberar esse trabalhador. Como consequência, a universidade se torna extremamente ineficiente e pode chegar ao ponto de não haver orçamento para a contratação de novos – e possivelmente mais bem preparados – educadores. Ademais, esses professores experientes exigem salários mais altos por serviços que quase sempre poderiam ser feitos a um menor custo por empregados mais jovens, porém, igualmente talentosos. Portanto, o custo da educação aumenta (mesmo nas universidades públicas) e, quanto mais cara a educação, mais seletiva ela se torna. Outras distorções com relação ao emprego incluem leis que limitam o poder do empregador de contratar ou demitir funcionários. Embora possam existir benefícios superficiais a tais leis e restrições, um verdadeiro capitalista transcende tais necessidades. Os autores vivem no estado da Geórgia, o qual é considerado um estado com direito ao trabalho. Em um estado com tal direito, os empregadores podem contratar e demitir a seu bel-prazer. Esse poder ilimitado também provê uma estrutura de prestação de contas que não é obstruída por fatores externos. Todavia, em muitos estados por toda a nação e, por certo, em muitos outros países, os empregadores não podem demitir quando assim o desejarem, além de ser requisitado para a maior parte deles que aponte a causa, mesmo quando estão sendo demitidos empregados sem estabilidade de trabalho e não sindicalizados. Ainda mais extremo é o conceito de emprego vitalício existente na França, Japão, Coreia e outros lugares. O efeito negativo é o fato de os empregadores hesitarem contratar novos empregados. Logo, a taxa de desemprego para recém- formados é alta. Por exemplo, na França e no Japão, a taxa de desemprego raramente fica abaixo dos 10%. Dessa forma, os jovens enfrentam uma pressão e concorrência enormes na tentativa de garantir seu emprego. Os resultados finais são o aumento de desemprego e novos deslocamentos de funcionários treinados do lugar de trabalho. Outras distorções incluem a obrigatoriedade da utilização da mão de obra sindicalizada e a sanção governamental da ação afirmativa nas universidades e empresas. Em ambos os casos, as decisões comerciais estão sendo afetadas por fatores não relacionados ao desempenho e à eficiência no geral. Se os empregadores são obrigados a sacrificar o desempenho em vista de ligações burocráticas, sexo, raça ou orientação sexual, enquanto são forçados também a pagar o salário predominante, seu custo comercial se intensifica. A combinação de uma produção reduzida com salários elevados resulta em aumento de custo. Portanto, a ineficiência se torna sistemática e afeta também outras pessoas de fora da organização. Conforme Gills e Nash escrevem: “O Capitalismo também pressupõe um sistema de moralidade. Ele não incentiva as pessoas a fazerem tudo aquilo que desejam. Pelo contrário, existem limites definidos e morais relacionados à maneira como as pessoas devem negociar”. O homem não é “socialista” por natureza O Calvinismo, quando aplicado a assuntos comerciais, afirma prontamente não ser o Socialismo uma ordem da criação. Não obstante, um estudo recente apresenta as seguintes observações: Por certo, o Comunismo, exceto em recalcitrantes países como Cuba, Coreia do Norte e China, está morto. No entanto, o Socialismo, onde os cidadãos, por meio da revelação da vontade coletiva, determinam a alocação dos recursos, bens resultantes e serviços, está bem vivo. Apesar de o direito de propriedade absoluto do governo sobre os meios de produção estar enfraquecendo, o planejamento central, a redistribuição substancial da renda e a engenharia social por meio de regulamentações e da lei ocorrerão em nações mais socialistas. Uma economia capitalista mista, como é a dos Estados Unidos, com 22% de PIP, contrasta notoriamente com o de nações como Israel e Itália (48%), França (47%), Suécia (44%), Hungria (43%), Dinamarca e Portugal (41%) e Reino Unido (39%).13 No estado natural, se nenhum sistema for imposto, o homem acumulará e distribuirá como um indivíduo. Seu interesse no “bem comum” é raramente observado nessa condição. Confisco, violência, roubo e prodigalidade podem ocorrer, porém, na sociedade primitiva, a filantropia pouco aparece no escopo que abrange além da família. Isto pode ser um comentário a respeito da natureza decaída do homem. Também pode ser uma dica sobre comércio e economia, indicando a maneira como funcionarão melhor na vida real. John Stapleford sintetiza a questão da seguinte forma: “Os direitos de propriedade comuns incentivam o uso excessivo e o abuso da propriedade, bem como a isenção da recompensa pelo comprometimento de alguém. Os direitos de propriedade privados incentivam que a propriedade seja considerada como um ativo a longo prazo e proporcionam uma ligação direta entre o esforço individual e o retorno econômico”.14 Além disso, não é necessário olhar além da parábola dos dois filhos para ilustrar a ociosidade que acompanha o emprego assegurado (Mt 21.28-31). Devido à queda, a era econômica áurea em que todos os seres humanos glorificarão a Deus com seus bens não está prevista para ocorrer antes do estabelecimento da Nova Jerusalém. Ao contrário, esperamos o egoísmo, o conflito, o roubo, a destruição da propriedade e a disputa nos setores econômico e comercial. Em vez de vivermos negando tais realidades, devemos buscar soluções duradouras que as levem em consideração.Qualquer um que começar a ter esperança de algo utópico será rapidamente frustrado pela natureza caída de nosso universo. O realismo nos setores comercial e em organizações com fins lucrativos é um começo melhor do que a utopia. Sendo assim, o Calvinismo explica o que esperar do mercado e por que, pois possui uma compreensão realista da natureza do homem. Os filhos de Calvino serão profunda e inevitavelmente distópicos. Em nossa própria época, podemos também extrair muito sobre a visão correta de trabalho se explorarmos os pontos de vista de Calvino sobre a assistência social. O reformador e seus colegas acreditavam que o trabalho devia ser exigido de todos que recebessem um subsídio. Conforme comenta Jeannine Olson: Em Genebra, houve a tentativa de manter a imagem da bourse française como um fundo para ajudar pessoas consideradas merecedoras de tal ajuda, não como uma instituição que ajudava qualquer um de maneira indiscriminada. Os fundos eram destinados àquelas pessoas que eram genuinamente necessitadas, em particular as enfermas ou deficientes físicas. Os pobres merecedores eram numerosos nessa época anterior à medicina moderna ou cirurgia, quando uma simples hérnia ou osso mal alinhado poderia fazer com que alguém não conseguisse mais trabalhar. Os fundos limitados do Fundo Francês não eram destinados para os pobres abandonados, aqueles considerados pessoas sem vontade de trabalhar, preguiçosos, vadios indolentes e vagabundos, para utilizar a terminologia popular da época. Por muito tempo, a suposição de que os receptores da assistência social deveriam ser merecedores de tal ajuda era comum na Europa, porém, a definição de merecimento variava de um lugar para o outro.15 Existem exemplos nos registros da Bourse (termo francês para a tesouraria da igreja), quando os diáconos se negaram a dar assistência a pessoas por causa da preguiça. A assistência social não buscava subsídios que desestimulassem a diligência e responsabilidade pessoais. Esperava-se que os receptores de tais subsídios da igreja conservassem os padrões cristãos de moralidade, e os diáconos tentavam utilizar o Fundo francês como meio de disciplina e incentivo. Ademais, Calvino e seus seguidores pareciam compreender que os bens privados poderiam ajudar as pessoas e famílias a saírem das condições de miséria. Ele parecia entender a maneira como os bens privados poderiam beneficiar os pobres – assunto reiterado por Thomas Sowell quando faz a seguinte observação: “Onde os direitos de propriedade prevalecem no livre mercado, a habitação se difunde regularmente por entre as diferentes classes sociais”.16 Os pontos de vista de Calvino, conforme estamos começando a perceber, formaram uma estrutura de pensamento. Sua visão quanto ao valor do trabalho – sem mencionar o papel da assistência privada e religiosa – não foi ignorada quando ele e seus discípulos, em Genebra, formularam os protocolos para a assistência social. O papel da riqueza Talvez seja o momento apropriado para sintetizar alguns pontos discutidos acima e tecer alguns comentários a respeito da riqueza, conforme definida tanto pelas Escrituras como por Calvino. Para contextualizar, muitos, no Ocidente moderno, começam com a noção de que a riqueza: é inerentemente ruim; é um sinal de exploração; provê uma identificação exterior dos vilões (leve em consideração o termo “barão ladrão”); não deve ser permitido que ela passe para as gerações subsequentes; deve ser redistribuída periodicamente a fim de evitar que os vilões acumulem mais. A riqueza, portanto, é vista em muitos círculos como algo inerentemente ruim – certo comentarista a denomina como o último tipo de intolerância, a intolerância contra o bem-sucedido – e não como uma possível bênção. Nossa argumentação, no entanto, é que a riqueza pode ser moralmente neutra ou boa, dependendo do uso, produtividade e administração. Alguns simples exemplos bíblicos elucidarão nossa linha de raciocínio. A princípio, alguém pode questionar se as Escrituras apresentam exemplos de “ricos justos”. Tendo em mente que Adão não foi abençoado com algo senão a abundância, a pessoa pode listar, com facilidade, os cristãos que não só tiveram muito, mas também ganharam e usaram muito. Depois do dilúvio, por exemplo, Noé e sua família possuíam basicamente o mundo. Além disso, o NT descreve os feitos de muitas pessoas abastadas que utilizaram seus bens para o reino de Deus. E, claro, no decorrer da história da igreja, inúmeras pessoas ricas ajudaram a igreja em sua expansão, ajudaram a construir hospitais e escolas, colaboraram na edificação de igrejas e contribuíram com os amplos ministérios de misericórdia. Na tentativa de contrabalançar a frequente visão negativa da riqueza, os seguintes exemplos bíblicos ilustram usos positivos dela. A riqueza é dada a fim de ajudar a moldar vidas: Boaz Boaz é um herói improvável. Ele não era de uma linhagem sacerdotal; tampouco era guerreiro ou profeta. Ele era apenas dono de terra e homem de negócios – aliás, um homem de negócios astuto. No entanto, a riqueza com a qual Deus o abençoou foi o motivo principal que o separou da multidão. A história tem início com Ruth e sua sogra, Noemi, ambas viúvas, desamparadas e morando juntas, retornando para Israel como indigentes. Ruth passa seus dias fazendo colheitas nos campos e atrai o olhar de Boaz. No final da história, ele “redime” Ruth e a tira da pobreza, assim como a Noemi. Além do mais, do relacionamento de Ruth e Boaz nasce o avô de Davi, mantendo, assim, a linhagem que segue de Adão até Davi e, por fim, a Jesus. O que é de se admirar na história é o fato de, no decorrer dela, a vontade de Deus ser revelada por meio da riqueza de Boaz. Ele está na posição de possuir a terra (na qual Ruth faz a respiga), obter uma safra abundante (que ele divide com Ruth) e ter a perspicácia e o capital para comprar a terra e o direito de propriedade do falecido marido de Noemi (o que lhe dá direito de se casar com Ruth). A riqueza é dada para apoiar a obra de Deus neste mundo: Barnabé Barnabé era de linhagem sacerdotal, porém, sua família havia acumulado tanta terra que ele pôde vendê-la e consagrar o lucro à igreja primitiva quando ela não possuía ativos. O lucro proveniente da liquidação de sua terra veio no momento mais oportuno e sustentou a igreja na época da expansão. Sua riqueza, portanto, foi utilizada para apoiar a obra de caridade. Foi uma doação privada e voluntária que, de um investimento inicial, rendeu muitos frutos. Percebe-se, a partir da narrativa de Atos, que sua doação pode ser vista como um socorro à vida, sem o qual a igreja poderia ter enfrentado dificuldades. Em cada acontecimento, o uso compassivo de sua riqueza (“dinheiro” é mencionado em Atos 4.34,37) foi abençoado e grandemente utilizado para apoiar a instituição de caridade mais forte da história durante um período crítico. Os cristãos que possuem riqueza podem utilizar as bênçãos materiais de Deus para apoiar a obra do Pai; e, sem essa riqueza, muitos desses empreendimentos comerciais que enriqueceram culturas não poderiam existir. Invertendo a situação, ou seja, se a igreja nunca tivesse tido quaisquer bens e tivesse sido confinada somente à pobreza, muitas coisas boas não teriam sido feitas. Ao comentar o texto de Atos 4.32-37, Calvino observou que a discórdia dentro da igreja foi remediada não pela equalização da riqueza, mas pelo espírito de unidade. Observou também que foi vendido somente o necessário e o lucro “não foi dividido igualmente”, mas, ao contrário, foi “deacordo com a necessidade de cada um”. Em meio a seu comentário desses versículos, ele também adverte contra o egoísmo que forja “milhares de subterfúgios repentinos a fim de atrair todas as coisas para nós por bem ou por mal” e elogia a igreja primitiva por vender “seus bens antigos”.17 Mais adiante, Calvino utiliza seus comentários sobre essa passagem como oportunidade para reiterar sua rejeição da propriedade comunal e para advertir contra o orgulho, a avareza, a ingratidão, a hipocrisia e “até mesmo contra os próprios pobres, [os quais são] responsáveis, em parte, por esse mal”. A igreja primitiva dependeu dos bens das famílias que dividiram seus recursos. Se tais famílias abastadas não tivessem posses ou não tivessem dividido seus recursos, ela poderia ter sido extinta. Além do mais, quando os ricos entregam seu dízimo às suas igrejas, acumula-se mais riqueza que pode ser utilizada para projetos de caridade substanciais designados por líderes locais confiáveis. Os bens dados pela providência de Deus sustentaram a igreja primitiva, e o princípio do dízimo (veja abaixo) sustenta promessa contínua. A riqueza não é condenada, mas o egoísmo é: Ananias e Safira Em contrapartida, o próximo capítulo do livro de Atos contém uma história diferente. Ao notar o apreço dispensado a Barnabé, certo casal tentou, aparentemente, reproduzir a doação caridosa dele – não obstante as significativas diferenças. Ananias e Safira imitaram o ato de generosidade de Barnabé (At 5). No entanto, enquanto ele doou toda a sua propriedade e a entregou gratuitamente – não visando ao reconhecimento – eles doaram parcialmente a deles e fizeram isso em busca de notoriedade. Em vez de ofertar em secreto e no espírito do texto de Mateus 6.3 (não deixe que sua mão esquerda saiba o que a mão direita está fazendo), Ananias e Safira ofertaram com grande pompa e exibicionismo. Eles queriam os aplausos humanos, em vez do sorriso divino, e a punição deles, com certeza, é um alerta a respeito da oferta de caridade motivada de forma indevida. Não só a razão deles foi errada, mas eles foram falsos em sua representação ao ofertar, e o Espírito Santo revelou para os apóstolos a falácia. Quando confrontaram o casal, Ananias e Safira sofreram um tipo de derrame, e seus corpos foram removidos. Todavia, o que é instrutivo para o nosso propósito é o fato de que a riqueza em si não é condenada. Ananias e Safira não foram censurados por possuírem bens; foram condenados por reterem uma parte de maneira enganosa, quando poderiam guardar tudo. Essa passagem indica que a riqueza, neste caso, poderia ter sido retida em sua totalidade sem condenação divina. A reprovação vem por conta do egoísmo e da má intenção. Calvino teceu um comentário a respeito de Atos 5.4, afirmando (como o fez em suas observações sobre o capítulo anterior de Atos), de modo perceptível, o direito de os cristãos possuírem e manterem uma propriedade privada: Inferimos, deste texto, que nenhum homem é obrigado a vender seus bens ou terras. Porquanto Pedro diz que Ananias tinha liberdade de manter sua terra e seu dinheiro, visto que o valor real do campo corresponderia à terra que fora vendida. Portanto, ele deveria ter sido considerado fiel, mesmo retendo o que era seu. Pelo que parecem estar fora de seu juízo perfeito, aqueles que dizem não ser lícito aos fiéis possuir algo próprio.18 O lucro é elogiado e aprovado pela Bíblia: parábolas Muitas passagens do AT sugerem que acumular riquezas ou aumentar o patrimônio é uma boa atividade. Embora a caridade seja recomendada no AT, a riqueza não é condenada nas Escrituras hebraicas. Quando o NT tem a oportunidade de defender a redistribuição dos bens ou a equalização das rendas, ele não o faz. Inúmeras parábolas de Jesus fazem alusão a esse assunto. Em uma parábola bastante conhecida, Jesus falou a respeito dos talentos entregues aos servos para serem utilizados ou investidos (Mt 25.14-30). Um servo levou cinco talentos, negociou-os e eles lhe renderam mais cinco. Ao segundo servo foram dados ou emprestados dois talentos para serem negociados no mercado (que parecia não ter regras), e seu trabalho e investimento lhe renderam outros dois talentos. Os lucros de ambos os servos foram aceitos, aprovados e elogiados pelo Salvador, que descreveu os empreendimentos de maneira positiva, utilizando palavras como: “muito bem”, “bom”, “fiel” e dignos de “entrar no gozo” do Senhor (v.21). Além dessa aprovação, os investidores fiéis receberam a promessa de que seriam encarregados de outras tarefas em nome do seu senhor. No entanto, essa parábola contém um contraste importante. Diferentemente dos dois servos diligentes, o terceiro não obteve ganho. Ele pegou o dinheiro inicial do seu senhor e não o negociou nem fez o mínimo esforço para que gerasse juros sobre aquele valor. Essa pessoa não apresentou nem ganho nem lucro ao seu senhor e foi categoricamente criticada pela perda do lucro em potencial. As palavras de Jesus deixam isso claro. Além de chamá-lo o servo de “mau” e “negligente”, o senhor o acusa de não confiar no poder do Senhor (v.26). Sendo assim, a visão de Jesus quanto a juros e lucro pode ser parcialmente discernida a partir de suas palavras no versículo 27: “Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu”. Uma das lições retiradas por Calvino desta parábola é que Deus “não confere a mesma medida de dons a todos de modo indiscriminado, mas os distribui de maneira variada, segundo julga apropriado”.19 A partir desta e de outras passagens, fica explícito que a ética de trabalho de Calvino não incluía a pressuposição de que os lucros e distribuições desiguais não fossem corretos. Pelo contrário, Calvino reconheceu que, em princípio, pessoas diferentes deveriam receber quantias diferentes sem violar a justiça. O que se esperava de cada um, todavia, era que, “independentemente dos dons conferidos a nós pelo Senhor”, esse fundo inicial “rendesse algum ganho” (p. 441). Calvino chegou ao ponto de chamar de extremamente “irracional” o fato de deixarmos nosso capital continuar escondido ao não investi-lo, visto que seu valor “consiste no fruto rendido” (p. 442). Quando Calvino teceu o comentário sobre o texto de Mateus 25.15, ele reconheceu que o “senhor da casa”, ou Deus, que “atribuiu um lugar a todos e ao lhes conferir dons naturais, dá-lhes esta ou aquela ordem, emprega-os no gerenciamento dos bens, eleva-os a vários ofícios, supre-os com meios abundantes de benefícios eminentes e lhes dá oportunidade” (p. 442). Ele até utilizou esta parábola para comparar, não de modo negativo, a vida cristã ao “comércio”, no qual “a troca”, “a negociação”, “a comercialização” e “a produção” são aprovadas (p. 443). Longe de censurar o crescimento, ele afirma, mais adiante, que o objetivo do “ganho” nesta parábola é “gerar lucro” (p. 443). Ao mesmo tempo, também adverte contra o oposto da rentabilidade – a ociosidade. Ele observa que a reprovação contida na parábola dizia respeito àqueles servos improdutivos aos quais foram dados dons, mas eles não os utilizaram. Calvino acreditava que tamanho descaso indolente para com os dons de Deus levaria “à privação de todos eles, e que a pobreza ignóbil e vergonhosa (das pessoas indolentes) resultaria na glória das pessoas boas” (p. 444). Esses indivíduos indolentes “escondem o talento ou o dinheiro na terra, pois, enquanto analisam sua comodidade e recompensas, recusam-se a se submeterema qualquer desconforto; exatamente como vemos muitos que, enquanto estão dedicados a si mesmos e aos seus próprios interesses, evitam quaisquer deveres de caridade e não levam em consideração a edificação geral” (p. 444). Dessa maneira, percebemos em Calvino uma defesa precoce da ideia de que a riqueza pode ser utilizada de forma benéfica. Ela é considerada uma ferramenta. Assim como o apóstolo Paulo, que o precedeu, Calvino sabia que a vida poderia ser plena, quer em condições de abundância ou de necessidade. Ao escrever sobre o texto de Filipenses 4, ele adverte tanto contra a prosperidade, capaz de inflar o sentimento de importância da pessoa, como contra a depressão, capaz de intensificar a adversidade do indivíduo. Calvino descreve a “virtude peculiarmente excelente e rara” mais intensa do que a prosperidade ou a pobreza com as seguintes palavras: “Se o homem souber fazer uso da abundância presente de maneira sóbria e moderada com ações de graça, estiver pronto a partilhar todas as coisas segundo a boa vontade do Senhor, dando, também, uma parte para seu irmão, de acordo com a medida de sua capacidade, e também não for soberbo, esse homem aprendeu a se distinguir e a ter em abundância”.20 Não é, entendia Calvino, a quantidade que traz contentamento, mas a administração e o uso daquilo que Deus provê. Logo, para o reformador protestante e seus seguidores, a riqueza não era inevitavelmente pecaminosa, tampouco um sinal de infidelidade – assim como sua ausência não era sinal de reprovação. Calvino ensinou, entretanto, que, se uma pessoa recebe muito sob a provisão de Deus – assim como aconteceu com Boaz e Barnabé – ela deve utilizar sua riqueza de maneira caridosa, estratégica e fiel. Apesar de nunca ter condenado o lucro e o ganho monetário, Calvino deu esta advertência severa e equilibrada em referência à dificuldade de um homem rico adentrar o céu: Trata-se de um mal comum praticamente a todos o confiar em suas posses. Contudo, esta doutrina é de grande utilidade a todas as pessoas: ao rico, que fique ciente do perigo que corre quanto à sua retaguarda, e ao pobre, que se satisfaça com sua sorte e não deseje avidamente aquilo que traria mais risco do que benefício. De fato, é verdade que as posses, por si só, não nos impedem de seguir a Deus, todavia, como consequência da depravação da mente humana, é praticamente impossível para aqueles com grande abundância evitar que sejam intoxicados por elas.21 As Escrituras discutem constantemente as questões relacionadas ao comércio e economia sem criar a expectativa de que todas as atividades produzirão os mesmos resultados. A primeira carta de Paulo aos coríntios convoca os competidores a participarem da corrida de modo a conquistarem o prêmio (1Co 9.24). Até mesmo nesta ilustração, nem todos levam o prêmio; no entanto, tal fato não torna a competição ilegal. A Bíblia não descreve cada passo de arar, semear, cultivar e investir como bem-sucedido. Existem fracassos nas Escrituras. Assim, parece que, se não sancionadas por completo, a competição e disputa dos mercados são aceitas na Bíblia como realidades econômicas. Juros ou usura? Calvino também ajudou a moldar as atitudes a respeito de outro tópico que há tempos afligia a igreja – a questão de fazer empréstimo com juros. Antes da Reforma, a hiperliteralidade na maioria das comunidades cristãs prevaleceu no tocante a esse assunto. João Calvino tinha algo bom a dizer sobre a questão do comércio com incidência de juros. Ele e outros reformadores protestantes esclareceram e revolucionaram a maneira como o lucro podia ser utilizado para refrear o roubo. “Usura” é um termo antigo e pode ser definido de duas maneiras: (1) cobrança de juros a qualquer momento sobre um empréstimo; ou (2) cobrança com juros tão altos a ponto de se tornar roubo ou exploração dos pobres. Calvino deu início à sua discussão sobre o oitavo mandamento com este axioma: “Visto a caridade ser o intuito da Lei, devemos buscar a definição de roubo a partir daí”.22 Arraigando-se firmemente na regra áurea, ele exige que os direitos de todas as pessoas sejam preservados e que todos os cristãos tratem os outros da mesma maneira como gostariam de ser tratados. Aplicada ao oitavo mandamento, essa percepção da lei classificaria como “ladrões” não somente aqueles que roubam os bens em secreto, mas também aqueles que buscam “ganhar a partir da perda de outras pessoas [e] acumular riqueza por meio de práticas ilegais, além de serem mais dedicados aos seus próprios benefícios do que à equidade” (p. 110-111). Típico da abordagem de Calvino à aplicação da lei, o reformador classificou inúmeros e diferentes pecados sob o título de um único pecado (nesse caso, o roubo) e advertiu sobre as maneiras traiçoeiras que indivíduos depravados poderiam utilizar com o intuito de burlar o sistema, enquanto ainda diminuíam os bens de outros. Ele alertou quanto aos “falsos pretextos”, “astúcia”, “extorsão” e “artimanha” (p. 111). Ele também observou que a lei de Deus “declara que todos os meios ilícitos de ganho são roubo” (p. 111). Além do mais, empregando sua hermenêutica da lei – segundo a qual “um preceito afirmativo está ligado à proibição” – Calvino pede aos administradores que utilizem a liberalidade e generosidade como vacinas ou antídotos contra o roubo. Em suma, cada pessoa “deve guardar em segurança o que possui e o proveito do nosso próximo não deve ser inferior ao nosso” (p. 111). Tais princípios preliminares ditaram a visão de Calvino quanto à usura e defenderam o decoro do empréstimo capitalista. Seu comentário a respeito de Êxodo 22.25 apresenta uma de suas discussões mais completas a respeito da usura, como compreendida no segundo sentido mencionado acima. Calvino advertiu que, embora o objetivo visado no empréstimo seja, de modo geral, o lucro, a prática de cobrar taxas exorbitantes é errada. Ele acrescentou que “negligenciamos os pobres” caso o empréstimo seja restrito apenas aos abastados que podem reembolsar (p. 127). Ademais, salientou que o empréstimo sem juros depende mais da “regra da caridade” do que da lei da política judaica (p. 127). O reformador também reconheceu que a própria lei judaica permitia o lucro com base nos juros provenientes de empréstimos feitos aos gentios.23 Todavia, o absoluto transcultural para Calvino era “que os nossos irmãos necessitados de nossa ajuda não sejam tratados de modo rude” (p. 128). Ele era esperto o bastante para observar que muitos tipos de comércio poderiam ser um “modo de extorsão”. Além disso, escreve que “os homens astutos sempre estão inventando algum pequeno subterfúgio ou outra coisa para enganar a Deus” (p. 129). Calvino entendia bem o mercado a ponto de constatar que “nenhum credor jamais poderia emprestar dinheiro sem que houvesse perda para ele” caso a oposição à usura impusesse total proibição de cobrança de juros (p. 130). Sua percepção da natureza humana o impedia de endossar tal proibição, pois ele percebeu que os que pediriam empréstimo “trapaceariam” o esquema e utilizariam “falsos pretextos” para causar aborrecimentos aos credores (p. 131). Estes poderiam ser vítimas também, e Calvino sabia disso. Seu argumento era que, se os juros fossem totalmente proibidos, a perda dos bens ocorreria em alguns casos. Por si só, isso seria uma violação do oitavo mandamento. Não obstante, ele interpretou o texto de Êxodo 22.25 dirigindo-se somente aos pobres e observou que a usura deve ser permitida sem restrições em casos onde os que fazem o empréstimo tenham condições de reembolsar. Em referência a esse versículo, Calvino afirmou que nem toda usura era condenada.Ele apresentou o seguinte argumento: Se o devedor prolongou o prazo de pagamento por meio de falsos pretextos para perda e inconveniência de seu credor, é coerente que ele obtenha vantagem de sua má-fé e palavra descumprida? Por certo, ninguém, eu acredito, dirá que a usura não deva ser paga ao credor além do valor principal a fim de compensar a perda. Se qualquer homem rico e endinheirado, desejando comprar um pedaço de terra, tiver de tomar emprestado parte da quantia necessária de outra pessoa, aquele que emprestou o dinheiro não deve receber uma parcela dos rendimentos da quinta até que o valor principal seja reembolsado? Diariamente, ocorrem muitos casos em que, no tocante à equidade, a usura não é pior do que a compra (p. 131). André Biéler confirma ter Calvino delineado uma importante distinção entre “o empréstimo para fins pessoais, de um lado, e, de outro, o empréstimo para incentivo à produção”.24 Seguindo os pontos de vista de Aristóteles, como fazia constantemente o Catolicismo romano, o Concílio eclesiástico de Niceia, no século 8º tinha condenado o empréstimo com incidência de juros. Vários decretos papais e importantes obras teológicas, por semelhante modo, censuraram o lucro proveniente tão somente dos juros.25 Calvino, todavia, tinha como base de sua mudança sísmica na exegese duas ideias principais: (1) em um mundo decaído, é possível que as pessoas tomem emprestado com más intenções e, se o credor nunca for reembolsado, tal fato constitui roubo; e (2) em uma economia em crescimento, se alguém deseja emprestar dinheiro a outra pessoa que está produzindo ou desenvolvendo algo, trata-se de um uso profícuo de ativos.26 A liberdade de investir encontrou pilar teológico em Calvino, o qual demonstrou que o empréstimo com incidência de juros podia, no fim, ser moral. André Biéler resume sete condições morais que precisam estar presentes para os juros serem considerados éticos: 1. Os pobres não devem ser prejudicados. 2. A caridade deve ser exercida em primeiro lugar; se o patrimônio de uma pessoa é abundante, é possível utilizá-lo no empréstimo com juros. 3. A regra áurea deve ser evocada – por exemplo, a pessoa não deve emprestar a certa taxa que ela mesma não aceitaria. 4. Os juros só devem ser cobrados de empreendimentos que gerem lucro. 5. Nem a prática comum nem os padrões mundanos decidem o direito da cobrança de juros. 6. O benefício para a comunidade geral tem de ser possível – por exemplo, “a pessoa deve determinar, de maneira apropriada, que o contrato seja proveitoso como um todo, e não prejudicial”. 7. A cobrança de juros deve ser legal ou permitida pelas leis civis da região.27 O argumento de Calvino, em suma, era este: a ética do amor nos convoca a valorizar e proteger a propriedade e o patrimônio de nosso próximo. Quando a pessoa tem recursos para pagar juros, tomar emprestado do próximo sem juros é usar parte de sua riqueza para benefício próprio sem retribuição. Para Calvino, a atitude “eu ganho, ele perde” (caso não sejam cobrados juros), violava o mandamento “não furtarás”. Na verdade, se eu ganho e os filhos do próximo perdem – pela diminuição do patrimônio – a cobrança de juros tem, na realidade, o valor instrumental para restringir a perda de bens. Calvino prosseguiu, com sua explanação sobre o texto de Êxodo 22.25, salientar que, se alguém empresta dinheiro a um conhecido cristão em necessidade, os credores ainda precisam manter em mente o chamado à compaixão. Essas leis do AT – em oposição a muitos equívocos em relação a elas – requerem a caridade. Os pobres, se possível, devem ser ajudados pelas pessoas com recursos. De semelhante modo, se uma pessoa pobre oferecer sua veste como garantia, esta deve ser devolvida a ela à noite, pois pode ser tudo o que tal pessoa tem para se cobrir (Êx 22.27). Apossar-se do pouco que o pobre possui – em especial, se ele tem necessidade de tal coisa – pode ser abusivo caso não haja algum propósito. Calvino manejava de forma consistente tal interpretação, até mesmo recorrendo a outros versículos do AT em concordância com a “regra da caridade” (p. 132). Com base em sua interpretação do texto de Êxodo 22.25, por exemplo, ele conclui ousadamente que, “no momento, a usura não é ilegal, contanto que não transgrida a equidade e a união fraternal” (p. 132). O amor ao próximo era o padrão de Calvino e “até onde é legal receber usura sobre empréstimos será mais bem prescrito pela lei da equidade do que pelas extensas discussões” (p. 132). Em suma, Calvino explica que a pessoa viola o oitavo mandamento (seja por roubo ou usura) quando “outra pessoa fica mais pobre” (p. 149). Ele impunha limite e incentivava os cristãos a respeitar e proteger as posses dos outros. A partir da perspectiva do reformador, portanto, o propósito do oitavo mandamento é: “Ninguém deve ter perda por nossa causa, e será esse o caso se tivermos consideração com os bens dos nossos irmãos” (p. 149). Quantas vezes os pais chamam a atenção dos filhos quanto à maneira de gastar lembrando-os que “dinheiro não nasce em árvores”? Semelhantemente, podemos dizer que “não existe almoço gratuito”. No sentido de alguém ter sempre de pagar pelo almoço, Calvino tinha uma atitude similar para com a usura. Ele percebeu que vivemos, em certo sentido, em um mundo de soma zero. Em outras palavras, o reformador entendia que as coisas sempre têm um custo, de uma maneira ou outra. Contar com a bondade do próximo é ter almoço gratuito. É, também, roubá-lo. Visto que dinheiro não nasce em árvores e não existe almoço gratuito, todos os consumidores devem participar dos custos reais das coisas. A nova perspectiva teológica de Calvino, a qual permite emprestar com juros, reconhecia a realidade de que doações nunca são dadas de maneira gratuita, os empréstimos não podem ser estendidos por tempo indeterminado sem perdas e dinheiro não nasce em árvores. As mudanças subsequentes na prática da usura, bem como na visão dos homens, levaram a uma distribuição mais equitativa dos custos e à prevenção do roubo na forma de empréstimos sem juros, porquanto Calvino percebeu que, em tais empréstimos, alguém estava pagando pelo almoço de alguma forma. Os pobres e os ricos vieram para ficar Um ponto que fica claro enquanto prosseguimos neste estudo é o fato de Calvino compreender que Deus não decretou uma sociedade sem classe social. Os ricos e os pobres vieram para ficar. Jesus afirmou que sempre teríamos os pobres em nosso meio (Jo 12.8).28 Além do mais, Deus não parece estar comprometido a dar os mesmos rendimentos e ativos para todas as pessoas. A ideia humanística da igualdade econômica radical (que data, no mínimo, desde Platão) – o conceito de que a disparidade econômica é uma anormalidade e deve desaparecer – encontra pouquíssima base, se a encontra, no abrangente testemunho das Escrituras. Em contrapartida, uma possível realidade econômica é aceitar que as pessoas, de fato, terão diferentes somas de riqueza e lucro. Sejam elas provenientes de herança, trabalho árduo, sorte em determinados momentos ou épocas incomuns de bênção, a Bíblia não indica que as classes econômicas irão ou devam desaparecer. Este pode ser outro caminho para aceitarmos e valorizarmos a providência de Deus em vez de invejarmos o que os outros têm ou nos lamentarmos pelo fato de um ter menos do que o outro. Calvino foi perspicaz ao comentar diversas vezes sobre tal expectativa. Em certa ocasião, enquanto tecia comentários sobre Filipenses 4.12, ele exortou os cristãos a “se habituaremao sofrimento da pobreza de maneira tal que não lhes será doloroso e penoso quando vierem a ser destituídos de seus bens”.29 O reconhecimento realista da depravação humana tem muito valor para a teoria e prática comerciais. Não prevê-lo é implorar por múltiplos erros com base em pressuposições com graves falhas. Colocando de outra maneira, o realismo sobre o próximo envolve a expectativa da ocorrência de pecado, crime, dano, opressão, maldade, agressão e guerra. Negócios e indivíduos são prudentes ao fatorarem tal expectativa em seus planejamentos. A imagem do homem decaído feita por Calvino não requer nada além de uma ética de trabalho produtiva amparada pela prestação de contas. Esta necessita ser reforçada por um sistema legal sólido e pela movimentação irrestrita de salários, trabalho, oportunidades e consequências. A apreensão calvinista com relação à depravação do homem revela a fraqueza inerente ao conceito de Socialismo. A pecaminosidade humana não condiz com as exigências socialistas de sacrifício próprio e altruísmo. Os sistemas econômicos avançam por causa da providência de Deus, o qual utiliza a riqueza, a ética de trabalho e o mercado aberto como alguns dos meios visíveis de propagar sua vontade neste mundo. Notas 1 João Calvino, Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis (1554; reimpr., Grand Rapids: Baker Book House, 1979), p. 173. Na seção a seguir, os números entre parênteses referem-se às páginas deste comentário. 2 É neste contexto que Calvino também visualiza o trabalho muito além da labuta manual. Ele condena aqueles que “precipitadamente impelem todos os homens à labuta manual” e argumenta existir lugar legítimo para as “artes mecânicas” e muitas formas de trabalho. Ibid., p. 175. 3 Citado em André Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought (1959; reimpr., Genebra: World Alliance of Reformed Churches, 2005), p. 211. 4 Citado em ibid., p. 215. 5 João Calvino, Sermons on Galatians (Edimburgo: Banner of Truth, 1996), p. 313. Ênfase acrescentada. 6 Para total compreensão do tema de Adam Smith, consulte o livro 4 de An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, intitulado “Of Systems od Political Economy”. 7 James P. Gills e Ronald H. Nash, A Biblical Economics Manifesto: Economics and the Christian Worldview (Lake Mary: Creation House, 2002), p. 56. 8 Thomas Sowell, Economic Facts and Fallacies (Nova York: Basic Books, 2008), p. 33. 9 Ibid., p. 34. 10 Ibid., p. 201. 11 Ibid., p. 90-91. 12 Ibid., p. 94-95. 13 Banco Mundial¸ World Development Indicators 2000 (Nova York: Oxford University Press, 2000), tabela 4-13. Citado na obra de John E Stapleford, Bulls, Bear & Golden Calves: Applying Christian Ethics in Economics (Downers Grove: InterVarsity Press, 2002), p. 81. 14 Stapleford, Bulls, Bears & Golden Caves, p. 58. 15 Jeannine Olson, Calvin and Social Welfare: Deacons and the Bourse Française (Selinsgrove: Susquehanna University Press, 1989), p. 139. 16 Sowell, Economics Facts and Fallacies, p. 35. 17 João Calvino, Commentary on the Acts of the Apostles (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 1:193. 18 Ibid., 1:197. 19 João Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 2:441. Na próxima seção, os números entre parênteses referem-se às páginas desse comentário. Consulte também 2:401. Grudem conclui, com base na versão desta parábola presente no Evangelho de Lucas, que “haverá desigualdade de gerenciamento e responsabilidade na era por vir. Isso quer dizer que a ideia da desigualdade de gerenciamento em si é dada por Deus e deve ser boa”. Wayne Grudem, Business for the Glory of God: The Bible´s Teaching on the Moral Goodness of Business (Wheaton: Crossway Books, 2003), p. 51. 20 João Calvino, Commentaries on the Epistle to the Philippians, Colossians and Thessalonians (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 2:124. 21 Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, 2:401. 22 João Calvino, Commentaries on the Four Last Books of Moses (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 3:110. Na seção a seguir, os números entre parênteses referem-se às páginas desta obra. 23 Consulte Deuteronômio 23.19-20. “Deus permitiu que o seu povo recebesse juros dos gentios, pois, de outra maneira, a reciprocidade justa não teria sido preservada” (p. 128). Calvino salientou a diferença entre tomar emprestado para consumo pessoal e tomar emprestado para financiar um negócio, o que é equivalente a um aluguel. 24 Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 402. Nas páginas 400-420, Biéler apresenta uma discussão completa a respeito das visões teológicas quanto à usura. 25 Ibid. Biéler também relata que, em Genebra, era permitido um teto de juros de 5%, em 1538. Em 1546, os colegas de Calvino estavam promulgando defesas da cobrança de juros como sendo um catalisador para o comércio (ibid., p. 421). 26 Ibid., p. 411. 27 Ibid., p. 406-407. 28 A partir deste versículo, Calvino inferiu que os donativos dados ao ministério diaconal da igreja para ajudar os pobres eram adequados. 29 Calvino, Commentaries on the Epistles to the Philippians, Colossians, and Thessalonians, 2:125. 3 Redenção Se levássemos somente parte do testemunho bíblico em consideração, talvez nos tornássemos pessimistas sem necessidade. O mesmo poderia acontecer caso nos concentrássemos exclusivamente na parte do ensinamento de Calvino que lida com os efeitos inextirpáveis e invasivos da depravação. No entanto, um dos aspectos maravilhosos e geradores de confiança a respeito da economia bíblica é o fato do conceito de redenção não estar restrito à salvação da alma. Após a grande e surpreendente mudança na personalidade, vem também a verdade de que as pessoas podem utilizar sua riqueza, negócios e ativos para fazer o bem. Elas conseguem redimir os ativos e aplicá-los em algo bom. Portanto, a compreensão madura de todo o ensinamento de Calvino a respeito desse conceito impedirá as pessoas de se tornarem indevidamente obstinadas. Na realidade, em toda a Bíblia e nos melhores comentários sobre ela, é possível encontrar incentivo para visualizar o comércio, o investimento e a riqueza como áreas sujeitas ao domínio humano e também como campos onde a providência, bondade e criatividade de Deus podem ser observadas. O próprio termo “redenção” é, na verdade, utilizado no Antigo e no Novo Testamento. No livro de Rute, por exemplo, um redentor da mesma família é mencionado (extraído, originalmente, da palavra hebraica Go’el). Na narrativa de Rute, o redentor familiar tinha, segundo a legislação de Levítico 25.25ss., de comprar outra vez a terra da família caso um parente estivesse a ponto de perdê- la. Manter a propriedade na família extensa era um aspecto de redenção. Na época do AT, redenção envolvia fazer uma troca que fosse equivalente ou “um pouco a mais no intuito de evitar trocas desonestas”.1 O conceito era tão importante a ponto de Deus tomar para si esse nome no material profético (por exemplo, Is 43.1-3), e Calvino também observou que Deus empregou o termo Redentor para si mesmo em Êxodo 6.6-8. Mais adiante, no NT, a palavra grega apoutrosis (redenção) é utilizada diversas vezes. Ela aparece no texto de Romanos 3.24 em referência ao que Jesus Cristo faz por meio da justificação – ele concede redenção. Também em Romanos 8.23, quando os cristãos recebem todos os benefícios da adoção, seus corpos são redimidos. O próprio Cristo se torna a nossa redenção (1Co 1.30), ou seja, ele passa a ocupar o nosso lugar e, como consequência, nos chama a nos envolvermos no ministério da redenção (o qual, em 2Co 5.17-18, também é traduzido como“reconciliação”). Em Efésios 1.7, o apóstolo, uma vez mais, compara a salvação à redenção – originalmente, um termo da área econômica. O significado, todavia, é evidentemente espiritualizado, referindo-se à compra de Deus. Além disso, o termo frequentemente adquire uma nuance de fim dos tempos, como observado no texto de Efésios 1.14. Nele, Paulo fala a respeito do Espírito Santo, o qual é “o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade” (observe os diversos termos econômicos presentes nesse único versículo). De semelhante modo, em Efésios 4.30, Paulo se refere à contínua obra de Deus até o “dia da redenção”. Os autores das epístolas do NT raramente hesitam em usar termos comerciais ou econômicos – demonstrando, com sutileza, que eles dificilmente estavam associados à imoralidade – para se referirem ou à salvação do cristão (Cl 1.14) ou ao fim da história da humanidade (veja abaixo o capítulo sobre escatologia). O termo comercial foi tão destacado com relação à redenção a ponto de o próprio Jesus utilizá-lo no texto de Lucas 21.28 para se referir ao fim dos tempos. Seguindo em direção ao fim do NT, a obra de Cristo é apresentada como “tendo obtido eterna redenção” (Hb 9.12), sendo o próprio Cristo o preço do resgate a fim de assegurar nossa eterna herança (Hb 9.15). Outros termos de mercado também são empregados fora de seu sentido original pelos autores do NT. O termo grego com o significado “comprar no [ágora] mercado” (agorazo) é utilizado em Atos 20.28 para descrever a maneira como Deus comprou toda a igreja. Tal transação teve por base o sacrifício de Cristo. A obra resgatadora de Deus também é mencionada no texto de 2Pedro 2.1. Em seu comentário a respeito de outra ocorrência desse termo, no texto de 1Coríntios 6.20, Calvino falou de Deus como pagando o preço de nossa redenção e fez alusão a duas nuances diferentes da palavra “preço”: (1) o significado comum de custo; e (2) “uma taxa extremamente alta” para coisas “que nos custaram muito”.2 Ao refletir sobre a obra redentora de Deus, ele preferiu a segunda interpretação. Ao comentar, pouco depois, o texto de 1Coríntios 7.23,30 (onde aparece o mesmo termo), Calvino adverte contra a preocupação excessiva com as coisas. Os cristãos deviam comprar como se não fossem aficionados por coisas materiais. Ainda assim, eles não foram instruídos a “repartir seus bens” – somente a se portar de tal maneira “que tais bens não se apossassem de suas mentes”.3 O termo da área econômica agorazo, o qual também pode ser traduzido como “comprar”, é frequentemente utilizado no último livro da Bíblia, por exemplo, em Apocalipse 3.18; 5.9; 13.17; 14.3-4; 18.11. As epístolas paulinas fazem uso desse conceito de mercado e não reprovam a concepção de troca de mercadorias no mercado. O próprio Deus não hesita em empregar metáforas notoriamente econômicas para propagar certos aspectos do significado de salvação. O texto de Gálatas 4.5 fala sobre Cristo redimindo seu povo no momento certo; Tito 2.14 o descreve como aquele que redime seu povo da iniquidade; Gálatas 3.13 relata Cristo “nos redimindo da maldição da lei” e 1Pedro 1.18-19 apresenta a seguinte afirmação: “Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata e ouro, que fostes resgatados... mas pelo precioso sangue..., o sangue de Cristo”. Cada uma dessas passagens emprega terminologia econômica, portanto, dando validade às práticas do comércio e dos negócios. Em compreendendo as nuances econômicas presentes no conceito da redenção em si, além da percepção de que a criação permite o desenvolvimento e a multiplicação, as discussões abaixo levam em consideração a maneira como a riqueza pode ser utilizada de modo benéfico, redentor e profícuo. Antes de nos voltarmos a tais discussões, entretanto, devemos observar dois importantes pré- requisitos: (1) a necessidade de liberdade, como apropriadamente definida por Calvino; e (2) a necessidade de um horizonte de longo alcance para suster os cristãos durante as provações e desilusões desta vida. A liberdade cristã A fim de fazer os mecanismos comerciais funcionarem sem percalços, o Calvinismo também espera, historicamente, a presença de uma condição específica – a liberdade pessoal. A liberdade realçada pelo Calvinismo no mercado também buscava os seguintes resultados para os investidores, trabalhadores e proprietários: Livre mercado onde as mercadorias pudessem ser comercializadas diretamente com os compradores em potencial e onde a burocracia e interferência fossem minimizadas. Moeda legal, a qual facilitaria a livre troca de mercadorias. Estabilidade, de modo que os futuros empreendimentos pudessem ser planejados e realizados. Lucro, o qual incentivasse outras pessoas a participarem dos mercados. Ambiente favorável no qual os empresários não fossem nem punidos nem sujeitos a recriminações em vista do desenvolvimento de seus produtos. Domínio pessoal de seus negócios. Acesso aos recursos naturais necessários. Essas características fundamentais representavam uma liberdade pessoal que permitia ao proprietário – fosse de um campo, fábrica ou de propriedade intelectual – cultivar sua propriedade da maneira como achasse melhor. Conforme já tivemos a oportunidade de observar, muitas realidades econômicas não são questões apenas comerciais. Pelo contrário, são questões relacionadas a moralidade e valores. Nesse caso, a liberdade necessária para sustentar os mercados é enfatizada pela explanação de João Calvino sobre a liberdade cristã. Apesar da sua frequente identificação com um tipo impeditivo de determinismo, o reformador, na verdade, corroborou para a compreensão humana de liberdade. Ele o fez precisamente em oposição ao pano de fundo do pensamento medieval e católico. Em sua opinião, a liberdade cristã podia ser mais bem compreendida em contraste com a lei. João Calvino viveu em uma época em que as liberdades que a maioria de nós comemora não eram comuns. Em duas esferas diferentes, ele foi desafiado a colocar em prática uma visão duradoura de liberdade. Em primeiro lugar, na esfera cívica, ele vivia em uma sociedade que, até pouco tempo antes, havia conhecido apenas as monarquias. Não existia história longa de liberdade. Antes da época de Calvino, a maioria das cidades europeias estava debaixo do mando do rei, e os cidadãos tinham poucas liberdades civis. Os textos do reformador ajudariam a estabelecer o fundamento da tradição moderna de liberdade civil. A segunda forma de autoritarismo herdada por ele era concernente à esfera do governo eclesiástico. Antes da Reforma, sob o domínio da igreja romana, os cristãos só tinham liberdades quando a igreja as reconhecia. Por vezes, elas eram raridade. Sendo assim, a ideia de que o cristão poderia ser verdadeiramente livre e ter a liberdade de servir à sua própria consciência era um novo conceito, incentivado de forma substancial por Calvino mediante seu ensinamento. No livro 3 das Institutas, ele abordou o tópico da liberdade cristã, e suas percepções ainda hoje não foram superadas. Para começar, uma distinção crucial deve ser introduzida a partir da conclusão do capítulo 19 desse livro. Calvino falou a respeito de duas formas de liberdade – civil e espiritual (Institutas, 3.19.15). Do mesmo modo, ele ensinou que o governo humano possui duas partes: o governo espiritual é interno e instrui a consciência em questões como piedade e adoração, enquanto o governo civil se refere às questões externas. A igreja deve ensinar e lidar com a ordem espiritual, e os governantes políticos devem administraros assuntos relacionados à ordem civil. O reformador infere que, se prestarmos atenção a tal distinção, “não transferiremos erroneamente a doutrina do evangelho concernente à liberdade espiritual para a ordem civil”. Essa divisão de trabalho se tornaria parte essencial das sociedades estáveis da modernidade e forneceria ampla proteção para a liberdade adequada. Com isso em mente, deve estar mais claro que a igreja e o Estado têm papéis valiosos a desempenhar na vida humana. No entanto, eles não devem interferir na jurisdição peculiar de cada um; Deus planejou que atuassem em esferas distintas. Quando Calvino começou seu capítulo revolucionário sobre a liberdade cristã, ele tentava explicar por que tal assunto era tão importante. Argumentou ser necessário que as pessoas compreendessem isso, mesmo que em nível elementar, a fim de que sua consciência não fosse sobrecarregada pela ameaça de regras intermináveis e escravidão opressora. De fato, afirmou ele, esse tópico era um “adendo característico da justificação”, o que significa dizer que, sendo uma pessoa justificada somente por Deus, ela experimenta a liberdade apenas como consequência de seguir só a Deus. Portanto, a princípio, a visão de liberdade de Calvino deve ser distinguida de qualquer visão humana a respeito dela. Ele acreditava ser a liberdade uma dádiva e deveria ser utilizada conforme os planos de Deus. Para o reformador, essa liberdade espiritual ou cristã consistia de três partes. Primeiro, os cristãos deviam ter sua consciência livre em relação à lei de Deus. Tendo sido justificados por Deus e estando livres das exigências da lei, os cristãos tinham de aprender a olhar para a misericórdia de Deus continuamente e a se afastarem de qualquer pensamento de que seriam salvos pelas obras. Não que a lei não fosse importante para Calvino, mas, em termos de consciência, ele compreendia que os cristãos tinham de encontrar sua segurança em Cristo, não em atos ostensivos de aperfeiçoamento próprio da obediência legal. A liberdade de consciência era importante para o reformador como liberdade civil e começava com o entendimento correto da justificação. A segunda parte da liberdade cristã consiste no fato de os cristãos terem de obedecer à lei por um motivo diferente. Por terem sido regenerados por Deus, eles deviam “obedecer espontaneamente à vontade de Deus” (3.19.4). Em vez de obedecer por causa do medo servil, os cristãos tinham de agir de maneira agradecida em resposta ao amor do Pai, do qual flui a verdadeira liberdade. Essa concepção também significou o fim de vários esquemas perfeccionistas. Os seguidores de Calvino tinham de ser perfeitos em Cristo, não em si mesmos. Isso implicava também no fim do legalismo. A terceira parte da liberdade cristã consistia no fato de os cristãos não serem obrigados a somente observar os rituais externos ou manter os costumes cerimoniais do Antigo Testamento. Em vez disso, era-lhes permitido fazer uso das cerimônias como algo útil ou omiti-las, contanto que não tentassem subverter a lei moral. Portanto, existiam muitas coisas na vida classificadas por Calvino como “indiferentes”. Deixar de fazer tal distinção, acreditava ele, significaria “não acabar com a superstição” (3.19.7). A palavra de Deus era a autoridade para os fiéis, porém, muitas coisas na vida tinham de ser decididas em termos de princípios e dedução. Os crentes em Cristo eram livres para utilizar as coisas boas que Deus havia criado. Tinham de usá-las conforme ele havia designado e para sua glória. Assim, a liberdade era um bom princípio. O objetivo dessa liberdade era “dar paz a consciências hesitantes” (3.19.9). Claro, Calvino não deve ser entendido como incentivando a libertinagem ou utilizando a liberdade como “pretexto para a concupiscência”. A fim de reiterar sua interpretação, Calvino também apresentou uma hierarquia de normas para ajudar as pessoas a tomarem decisões. Questões relacionadas à liberdade cristã tinham de estar sujeitas à lei da caridade (3.19.13). Em outras palavras, os fiéis, por vezes, tinham de impor limites a si mesmos de maneira voluntária, pois, dessa forma, não fariam outros tropeçarem. Logo, a liberdade não é absoluta no esquema de Calvino. Ela é boa e uma dádiva da parte de Deus, porém, até mesmo a liberdade deve ser mantida em perspectiva. Além do mais, exatamente como a lei da liberdade deve estar sujeita à lei da caridade, também a lei do amor “deve, por sua vez, estar subordinada à pureza da fé”. Logo, para Calvino, uma visão com nuance adequada a respeito da liberdade e ética valorizava ao máximo a pureza da fé revelada. A seguir, a regra da caridade triunfou e, depois, veio a liberdade cristã. Manter as coisas dentro desse equilíbrio tênue – equilíbrio esse que era a marca do Calvinismo, devo acrescentar – ajudaria também durante os períodos de reforma. Uma abordagem incremental à reforma é coerente com essa teoria. Na realidade, Calvino não consentia “a intemperança daqueles que fazem todas as coisas de maneira tumultuada e preferem transgredir as restrições de uma só vez a proceder de forma paulatina” (3.19.13). A mudança, em sua opinião, devia vir aos poucos e de modo regular, e ele não queria que nem a liberdade cristã, nem o amor, nem a pureza da fé fossem sacrificados durante o processo. “Não estamos em liberdade para deslocar uma vírgula da ordem de Deus”, escreveu o reformador (3.19.13). E, com essas palavras, ele estabeleceu um limite adequado à liberdade, mesmo permanecendo fiel ao seu princípio emancipador de que “a consciência foi isentada da autoridade humana” sempre que tal autoridade não estiver de acordo com a vontade de Deus. Essa visão de liberdade, por onde se disseminou, proporcionou confiança e proteção aos cidadãos. Em um século, as colônias dos Estados Unidos exibiriam essa particularidade calvinista. Não por acaso, um dos primeiros códigos de lei estadunidenses foi chamado Massachusetts Body of Liberties. A proximidade entre a lei e a liberdade era tamanha a ponto de os discípulos de Calvino chamarem o código de leis de lista de liberdades. A razão era que uma compreensão adequada de liberdade é essencial para qualquer empreendimento bem-sucedido, seja ele comercial, civil ou religioso. Durante a perseguição dos protestantes, em Paris, Calvino viu os efeitos da opressão. Tinha visto os mesmos efeitos nos olhares de muitos refugiados católicos romanos que chegavam com tanta regularidade aos muros de Genebra. Por certo, sua visão de liberdade se formou em referência ao que havia testemunhado. No entanto, é importante observar que seu ensinamento era fundamentado na palavra de Deus, e ele o apresentou de um modo que evitava o uso errado da liberdade cristã. Visões posteriores de liberdade foram influenciadas pelas ideias revolucionárias de Calvino. Adam Smith, em The Wealth of Nations [A riqueza das nações], defendia a “liberdade natural”, vista por ele como a autonomia para trabalhar, investir ou agir à parte de qualquer impedimento do Estado. Smith soava como discípulo de Calvino quando escreveu: “Proibir tantas pessoas de fazer tudo o que podem de cada parte de sua própria produção, ou de empregar seus fundos e diligência da maneira como julgam mais vantajosa para eles, é uma violação manifesta aos direitos mais sagrados da raça humana”.4 Um dos filósofos mais importantes da história, Smith também concluiu que, de acordo com os princípios da liberdade natural, “todo homem, contanto que não viole as leis da justiça, é totalmente livre para ir em busca de seu próprio interesse à sua maneira e para inserir sua diligência e capital na competição contra os de qualquer outro homemou contra a ordem dos homens”.5 Calvino teria proferido um sincero amém. Todavia, ele também ensinou que essa liberdade não era dada por Deus com o objetivo de incentivar a ociosidade ou a preocupação com este mundo. Calvino contra o orgulho e a ignorância Calvino iniciou uma seção bastante lida de sua maior obra lembrando aos seus leitores que um dos objetivos do poder salvífico de Deus é colocar a ética dos cristãos de acordo com a santidade de Deus (Institutas, 3.6.1). Ele afirmou, também, que um dos segredos da vida é a negação de si mesmo, que só pode acontecer se a pessoa compreender que ela e todas as suas habilidades pertencem a Deus. Segundo a fala de Calvino, a pessoa “não deve falar, fazer planos ou agir sem a intenção de glorificar a Deus. Não pertencemos a nós mesmos, portanto, nossa razão ou vontade não devem governar nossos atos e opiniões” (3.7.1). Tal confiança em Deus requer, necessariamente, o abandono do eu. A partir da perspectiva de Calvino, o primeiro passo da maturidade cristã envolve a substituição do egoísmo e impulsos naturais por uma mente renovada que segue a Deus em obediência. A “negação dos valores pessoais” significa que não pertencemos a nós mesmos, mas somos chamados para servir a Deus. Quando a pessoa vive e se conduz dessa maneira – quando aprende “a olhar para Deus em todas as coisas” – ela também “se afasta de todos os pensamentos vãos” (3.7.2). Uma vez implantada em nossos hábitos, tal atitude “não deixa lugar para o orgulho, exibição ou ostentação”. Por outro lado, Calvino percebeu que, quando as pessoas buscam o egoísmo em primeiro lugar, de modo geral, alcançam seu alvo, e o resultado é o oposto ou “uma ânsia perversa por aclamação”. Calvino adverte também contra o acúmulo “de todas essas futilidades que parecem conduzir ao luxo e esplendor” (3.7.8). Ele sabia que, quando focamos nessas futilidades, nossa mente fica inquieta e desconcentrada. Portanto, a pessoa não deve esperar por “nenhuma prosperidade, a não ser a bênção de Deus” (3.7.8). Em vez disso, a pessoa deve confiar todos os resultados ao verdadeiro Soberano, que controla tudo e de cuja bondade devemos ter prazer em depender. O reformador tinha consciência de que seus discípulos precisavam confiar menos na própria vontade e mais na de Deus. Nada, escreveu ele, fosse pobreza ou exílio (e ele era especialista nesse assunto) pode acontecer senão pela vontade e providência do Pai (3.8.11). Se a pessoa se lembrasse mais disso, seria levada a meditar mais sobre o futuro. Isso foi, e continua sendo, um exercício muito útil para os cristãos que enfrentam tribulação nesta vida. Ele também adverte contra o ofuscante “brilho da riqueza, do poder e das honras” e nos impele a sermos sensíveis à vaidade da vida presente (3.9.1). Nunca se alcançaria consistência de outra forma. “Porquanto”, escreveu Calvino, “devemos considerar que nossa mente nunca passa, na realidade, a desejar e aspirar ao futuro até ter aprendido a desprezar a vida presente” (3.9.1). Em outras palavras, não devemos ficar tão fascinados por esta vida a ponto de ignorarmos a eternidade. No entanto, temos de ter o cuidado de considerar as palavras de Calvino “desprezar a vida presente” dentro de todo o contexto de seu pensamento. Havia um equilíbrio a ser encontrado, o qual envolvia tanto a desconfiança desta vida quanto a gratidão por ela. O princípio defendido por ele era este: devemos utilizar os dons e as coisas desta vida para o propósito que “o seu autor os criou e destinou” (3.10.1). Não devemos nem supervalorizar nem desvalorizar o que Deus concede. A frase “utilizar-se do mundo, como se dele não usasse” sintetiza a atitude apropriada; mantendo-a em mente, os cristãos conseguem evitar a indulgência excessiva e vice e versa. “O luxo”, sabia Calvino, pode causar “grande descuido para a virtude. Aqueles que se ocupam em demasia com o cuidado do corpo, de maneira geral, dão pouca atenção para a alma” (3.10.4). Dessa forma, o contentamento sempre foi um grande indicador do espírito calvinista. Comentando, em outro lugar, o texto de Lucas 10.42, o reformador expressou sabiamente seus sentimentos do seguinte modo: “Seja o que for que os cristãos se incumbam de fazer, e independentemente das ocupações nas quais possam se engajar, existe um objetivo para o qual todas as coisas devem ser direcionadas. Em resumo, não fazemos nada além de perambular sem propósito caso não direcionemos todas as nossas ações a um determinado objetivo”. Poucos místicos ou oradores religiosos possuem a profunda espiritualidade presente neste modelo de vida cristã. Ninguém que leia essas palavras pode simplesmente menosprezar Calvino como sendo um racionalista sem coração. Ele sabia que o homem não vive só de pão. Existe uma eternidade adiante, e tal fato animava tudo o que Calvino fazia e pensava. As conclusões bíblicas e econômicas do reformador demandam que a riqueza seja dada de maneira generosa. Assim como a lei do AT exigia que o grão não ceifado fosse deixado para os respigadores, ela também chamava os ricos a gerarem provisões para os pobres entre eles. Os abastados são chamados a serem fartos em boas obras. John Schneider, em The Good of Affluence, menciona inúmeros exemplos, incluindo o chamado para todas as pessoas, mas, em especial, àquelas com melhor condição financeira, a agirem de maneira misericordiosa, pois todos os homens são chamados à sua posição econômica. Cada um tem um chamado para uma ocupação e é incentivado a trabalhar de modo diligente. Em seu sermão intitulado “The Use of Money”, John Wesley resume habilmente a ideia nestas palavras: “Tendo, primeiramente, ganhado tudo o que puder, e, depois, economizado tudo o que puder, doe tudo o que puder”.6 Os textos de Calvino a respeito da redenção e da administração levariam a tais pontos de vista, os quais se disseminaram extensivamente conforme a colonização se desenvolvia e a sociedade moderna se revelava. Com esses fundamentos filosóficos esclarecidos, podemos, agora, valorizar os pontos de vista do reformador com relação ao uso da propriedade privada. Administração e propriedade privada Conforme já observado em diversas ocasiões, o direito de propriedade privada é defendido por toda a Bíblia. No início do livro de Gênesis, diversos crentes receberam terras, engajaram-se em empreendimentos produtivos, passaram sua fortuna adiante dentro da família e possuíram uso irrestrito de propriedade privada. Em nenhuma parte o AT infere que a propriedade deva ser entregue a todos. Os patriarcas hebreus mais antigos utilizaram seus bens para sustentar muitas gerações e, apesar de o governo, às vezes, ser representado como tomando medidas para prevenir desastres (p. ex., durante a fome extrema descrita em Gênesis 41–42), nunca foi ensinado o seu direito de confiscar a propriedade privada. Ademais, como entendiam Calvino e muitos outros, o oitavo mandamento – “não furtarás” – tanto sanciona como protege explicitamente o direito de propriedade privada, patrimônios e negócios. Em outros lugares do AT, os ricos empedernidos são censurados (Pv 21.13), e àqueles insensíveis às necessidades legítimas de pobres responsáveis é dito que odiar o desafortunado é semelhante a desprezar o seu Criador (Pv 22.2). O que é criticado com regularidade, todavia, não é a bênção providencial da riqueza, mas a utilização não generosa ou o abuso dela. O que impulsiona os estatutos do jubileu no texto de Levítico 25 é a preocupação em cuidar dos pobres e não deixá-los perder sua terra para sempre. Está bem claro que o consenso mais sólido do ensinamento cristão a respeitodesse assunto apoia a liberdade de possuir a propriedade privada. A expectativa profética, que não é condenada em parte alguma, era que, um dia, cada pessoa habitaria em sua própria morada e teria sua propriedade particular (Mq 4.4). Ao ler com atenção as páginas do NT, fica claro também não ter Jesus exigido que seus seguidores, exceto alguns deles durante seu ministério na terra, entregassem sua propriedade a uma unidade centralizada. Ele também não tinha a intenção de que eles se ausentassem de todo comércio, empreendimento e produtividade. O chamado à administração está de igual modo claro. Cristo faz uso do termo oikonomos para administrador, o qual é utilizado em outras passagens no NT. Tal termo é utilizado com frequência nas parábolas de Jesus (Lc 12.42; 16.1- 2). Ele aparece também no texto de Romanos 16.23 em referência a um tesoureiro romano. Calvino sabia bem que, quando Paulo falava sobre “responsabilidade” (1Co 4.1-2), ele estava usando – e implicitamente aceitando – o conceito econômico para descrever a administração cristã. Mais adiante, na mesma epístola (1Co 9.17), o ministério em si é descrito em termos fiduciários, como “a responsabilidade de despenseiro confiada” a Paulo. Em Gálatas 4, Paulo fala de modo detalhado a respeito de certa responsabilidade na qual o filho aguarda a adoção plena de seus ativos. Em uma diferenciação radical da visão marxista, o apóstolo nunca censura o conceito da responsabilidade financeira. Pelo contrário, ele o utiliza como metáfora para o período de espera até o retorno de Cristo, o Messias (Gl 4.2-4). A responsabilidade descrita por Paulo é administrada por tutores e curadores, muito semelhante aos agentes modernos. Rumo ao fim de seu ministério, ele chama Timóteo a segui-lo e “guardar o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.14).7 O termo para economia, ou uma organização correta dos bens, é recomendado por seu uso em Efésios 1.10, e, no texto de Efésios 3.2, ele é utilizado em relação ao ministério de Paulo. O texto de Colossenses 1.25 também utiliza tal termo para se referir ao serviço apostólico, e o apóstolo Pedro considerava ser uma boa economia “servir uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu” (1Pe 4.10). Os cristãos possuem diferentes dons e habilidades, mas tudo deve ser utilizado para servir. Quando adquirimos essa visão e aplicamos tais termos à nossa vida e ao nosso patrimônio, torna-se ainda mais evidente o nosso dever de trabalhar, economizar, investir e nos prepararmos para o futuro. O objetivo final é melhorar o patrimônio de alguém; o processo para alcançar o objetivo é a forma de resgate que compreende o chamado à administração. Conforme a utilização de tais termos no NT, comércio, lucro honesto e economia estão longe de ser algo mau ou imoral. Como administradores, investidores sábios buscam retorno, lucro, desenvolvimento ou um maior rendimento líquido. Não só a propriedade (a fonte de tais aumentos) é aceitável em geral, mas também o crescimento de ativos (ou lucro) é o objetivo – objetivo esse exaltado por Deus, não censurado. O desejo de servir o Mestre, junto com o ensinamento presente em várias epístolas e parábolas, conduz a pessoa a aspirar por aumento líquido da propriedade e ativos que o Senhor da providência confiou aos seus servos. Em contrapartida, seus servos não desejam diminuir o fundo inicial; tampouco querem deixá-lo estagnado. O ganho é buscado, não reprovado. Resgate e ganho, portanto, parecem ser extremamente bons e desejáveis. Tal ciência forma determinadas expectativas entre os servos. A riqueza como um excesso de agradecimento e exaltação pela salvação Os servos que se veem como administradores e gerentes dos recursos de Deus em busca de ganho legal e benefício verdadeiro também utilizarão sua riqueza, seus benefícios e propriedade para o bem de outros e como reconhecimento das bênçãos de Deus. O espírito do Calvinismo, uma vez assimilado, levou muitos a visualizarem a riqueza como uma vantagem providencial concedida por Deus com o propósito de beneficiar outras pessoas. Dessa forma, uma visão distinta de caridade (veja abaixo) surge entre os primeiros calvinistas. Em conformidade com ela, esperava-se que os empresários bem-sucedidos dessem retorno. Esse tipo de resgate foi outra faceta da fé que incitou a indústria de Genebra nos século 16. A visão oposta endossa algo semelhante ao acúmulo. Se um indivíduo vê a si mesmo (ou sua família) como o que há de mais importante na vida, a riqueza pode resultar apenas em uma prática de interesse próprio. No entanto, se a pessoa sente um forte chamado no tocante à bênção e à responsabilidade de ser caridosa, a prosperidade poder ser usada em benefício de outras pessoas. Tal caridade, no entanto, não é um comprovante para pagamento futuro como sinal de gratidão apresentado em vista da compreensão de que o indivíduo tem somente o que Deus deseja dar e, quando ele dá em abundância, a doação é uma forma de se importar com as necessidades ao nosso redor. Em vez de difundir o complexo de Silas Marner, o espírito calvinista chama aqueles que lucram a usarem seus bens materiais para abençoar a igreja, a comunidade e aqueles que estão verdadeiramente necessitados. O investidor calvinista manterá ambos em mente: a multiplicação e a caridade. Existe um equilíbrio tênue aqui – que pode ser ilustrado por meio de um exemplo que mostra que os cristãos podem ser piedosos e bem remunerados ao mesmo tempo. No fim dos anos 90, um lançador cristão de beisebol entrou em conflito com relação à dimensão de seu contrato devido ao seu valor astronômico. Ele discutiu, em particular, a culpa que sentia com um pastor calvinista, o qual o admoestou, dizendo que, caso se negasse a receber o altíssimo valor oferecido pelo seu trabalho, ele seria, possivelmente culpado por pecar. A justificativa para o conselho do pastor foi que a todos os homens são dados talentos e habilidades e eles são chamados a buscá-los de tal modo a tirar o máximo proveito (dentro da lei), assim, em retribuição, eles podem economizar e ofertar com frequência. Com relação à economia bíblica, qualquer coisa que impeça ou reduza as três atividades principais – ganho, economia e oferta – é ineficiente. Calvino teria se orgulhado do conselho do pastor. Na realidade, de acordo com Marx Weber, um pastor calvinista que viveu cerca de um século depois de Calvino, Richard Baxter, ensinou de modo similar: Se Deus lhe mostra o caminho para ganhar mais de modo legal, sem prejudicar a sua alma e a de outras pessoas, e você se recusa para optar por aquele menos profícuo, você extingue um dos objetivos de seu chamado: ser administrador de Deus e aceitar suas dádivas em vista da possibilidade de utilizá-las para ele, se e quando assim o desejar. Obviamente, você não deve trabalhar para a satisfação da carne ou do pecado, mas para enriquecer em nome de Deus.8 Investimento como um chamado ao resgate Embora raramente seja considerado dessa forma, o investimento pode ser visto como um chamado ao resgate. Assim como os discípulos de Cristo são convocados a ir por todo o mundo e ampliar a igreja (Mt 28.18-20), eles também são chamados a pegar aquilo que ele dá por meio de sua providência e tentar multiplicá-los, seja ministério eclesiástico ou propriedade privada. O ideal, claro, é ambos caminharem de modo concomitante. Investimento é o exercício de pegar aquilo que Deus concede e resgatá-lo a fim de torná-lo melhor. Essa foi a responsabilidade dada a Adão antes da queda no Éden e é isso que os cristãos fiéis têm feitopor séculos. O investimento, que é pegar o capital inicial e tentar aumentá-lo, faz uso da propensão à criatividade e do objetivo de sermos administradores fiéis. Da mesma forma como o administrador é responsável por aumentar (bem como preservar) o patrimônio de seu senhor, o investidor também pega o que lhe é confiado e o resgata para obter ainda mais. Os investidores cristãos não são chamados apenas para “serem frutíferos e se multiplicarem”, mas também para utilizarem uma base de ativos maior para a glória do Senhor. Tal investimento pode ajudar os cristãos a sustentarem suas próprias famílias e outras pessoas de sua comunidade, tudo sem ajuda ou impedimento exterior. Os investidores têm o objetivo de aumentar seu patrimônio, e isso é uma virtude. Tal crescimento possibilita inúmeros benefícios, dentre eles a habilidade de contratar mais trabalhadores (os quais, do contrário, não estariam empregados), construir centros educacionais e culturais, instituir doações para futuras necessidades espirituais e prover segurança para a família ou para as gerações futuras. Todas essas atividades envolvem pegar o que existe em seu estado original e resgatá-lo ou aperfeiçoá-lo. Quando uma pessoa obtém ganhos e lucros e, então, busca aumentá-los, a multiplicação do original é possível. Tal ação tanto cumpre o mandado de domínio quanto proporciona maior possibilidade para a obra de caridade. Para simplificar: se uma pessoa tem um ganho líquido de R$ 100.000,00 por ano advindos de investimentos e, então, entrega o dízimo sobre essa renda, ou faz doações beneficentes extras sobre esse valor, as instituições de caridade receberiam, no mínimo, R$ 10.000,00 por ano; todavia, se a pessoa tem um ganho líquido de R$ 1.000.000,00 por ano proveniente de investimentos e, então, entrega o dízimo ou faz doações beneficentes extras sobre esse montante, as instituições receberiam, no mínimo, R$100.000,00 por ano. Pergunte a qualquer instituição de caridade o que ela prefere para e dos seus doadores. Dessa maneira, maior prosperidade material resultaria em mais dinheiro disponível para a ação social. E, se mais dinheiro está disponível, mais atividades sociais podem ser custeadas a partir de somas mais elevadas. Uma possível motivação para um bom investimento, portanto, é ganhar mais dinheiro beneficente para cuidar de outras pessoas. No entanto, devemos reiterar que, caso o retorno do investimento seja acumulado ou consumido de modo egoísta, as condições acima não são atendidas e a ação social não crescerá. Se a obra de caridade deve ser multiplicada concomitantemente ao retorno sobre o capital investido, a fidelidade para com os padrões bíblicos de oferta deve estar ligada ao bom investimento. Logo, o investimento pessoal não só é uma virtude nas Escrituras, mas também propicia meios para a ação beneficente. Como escreve John Stapleford: “Mediante os investimentos, a riqueza possibilita a melhora no bem-estar material de todas as pessoas ao facilitar o crescimento econômico. Por meio da caridade, a riqueza possibilita a amenização da pobreza”.9 Em termos de dinheiro disponível para ações beneficentes, as sociedades com menos interferência do governo, menos tributação, economias em ascensão e com livre mercado costumam gerar mais ativos para a obra de caridade. Embora Calvino, claro, não comentasse especificamente sobre questões macroeconômicas como essas, ele falava com frequência a respeito da necessidade de agir para com o próximo de modo caridoso. Ele parecia ter ciência tanto das oportunidades quanto das responsabilidades dos membros de uma sociedade livre de ir em busca da assistência social para as pessoas ao seu redor. O espírito calvinista, se adequadamente aplicado, continua a ser promissor no que tange ao tratamento de uma série de necessidades assistenciais. A pessoa também pode obter ajuda nessa busca ao ter uma visão abrangente da caridade. Mais uma vez, o reformador genebrês auxiliará nosso entendimento. A obra de caridade e a lei A obra de caridade deve orientar o uso dos ativos do cristão. Calvino, apesar de ser frequentemente mal compreendido, na realidade, tinha muito a dizer a respeito da ação beneficente e do uso generoso dos ativos cristãos. Vimos como, para Calvino, a liberdade cristã era subordinada à lei da caridade. A partir disso, concluímos que tal liberdade não era absoluta para Calvino. De fato, certa vez ele observou que, apesar de a liberdade ser mais vantajosa do que a servidão, todavia, “a liberdade de espírito é preferível à liberdade da carne”.10 Com isso em mente, podemos, agora, analisar como Calvino tratava a caridade em relação à lei. O reformador respeitava a ideia de os Dez Mandamentos (a lei moral) conterem dois conjuntos, ou tábuas, de preceitos. A primeira incluía os quatro primeiros mandamentos, os quais se aplicavam a Deus, enquanto a segunda incluía os últimos seis, os quais se aplicavam aos nossos companheiros da raça humana. De acordo com Calvino, essa organização provê uma “regra completa de justiça”, à medida que os cristãos são instruídos quanto aos deveres relacionados à religião e à obra de caridade (Institutas, 2.8.11). Se houvesse conflito, o cristão era instruído pelo reformador a honrar os primeiros quatro mandamentos em detrimento dos últimos seis. Tal orientação se tornaria, no futuro, o pilar de sustentação de uma resistência justa a um magistrado mau, caso ele ordenasse a desobediência a Deus. Além disso, Calvino entendia que o objetivo da lei é a caridade e o fruto da obediência é a pureza da consciência moral. Ele concluiu seu estudo a respeito do uso da lei afirmando que o entendimento correto dela “procura e encontra em todos os seus preceitos todos os deveres de compaixão e caridade” e advertiu contra qualquer um que “procurasse meramente por elementos insípidos e inadequados, como se [a lei] ensinasse a vontade de Deus apenas pela metade” (2.8.51). Portanto, a caridade, conforme será mostrado de modo mais detalhado quando examinarmos seu ensinamento sobre direito de propriedade, é bem dicotomizada segundo o pensamento de Calvino. Ademais, para o reformador, algumas variáveis se sobrepuseram a outras, estabelecendo determinadas hierarquias. No livro 2 das Institutas, Calvino deu um esclarecimento sobre o oitavo mandamento (“não furtarás”) que serve como um de seus principais ensinamentos a respeito de riqueza, propriedade e uso de ativos. Ele inicia sua abordagem sobre tal mandamento com uma condenação geral da injustiça como sendo “abominação a Deus”. Sendo esse o caso, uma responsabilidade ética é estabelecida a fim de conferir a cada homem aquilo que lhe pertence. O furto, portanto, está tirando de alguém os seus pertences. Incumbe-se também uma atitude: “Somos proibidos de almejar as posses de outras pessoas” (2.8.45). Logo, desde o princípio, Calvino reprova a obtenção daquilo que foi cobiçado dos bens de outros. Por outro lado, o reformador acreditava que essa lei levava consigo a implicação de que cada pessoa deve “esforçar-se fielmente a fim de ajudar cada homem a manter seus próprios bens” (2.8.45). João Calvino enfatizou que o bem de cada pessoa não advém por acaso, mas sim pela distribuição da providência de Deus. Dessa forma, deve ser interpretado como “estratagema maléfico” privar alguém – independentemente da forma – dos bens que Deus lhe concedeu para utilizar. Isso implica intervenção no plano sensato de Deus. Calvino sabiamente observou que certos furtos ocorrem pela violência(2.8.45), enquanto outros são provenientes de artifício fraudulento. Contudo, um terceiro tipo de furto acontece quando o bem de uma pessoa é tirado dela por meios ilegais. O reformador incluiu categoricamente na categoria furto – ou seja, como violação do oitavo mandamento – “todos os artifícios por meio dos quais adquirimos os bens e dinheiro de nosso próximo”. Mesmo se a propriedade do próximo for adquirida por meio de ação judicial, Calvino salientou que Deus não é tolo: “Porquanto ele vê as fraudes elaboradas com as quais o homem ardiloso intenta atrair alguém com uma mente menos austera até, por fim, arrastá-lo para dentro de suas ciladas” (2.8.45). Demonstrando uma sensibilidade capaz de abismar a muitos, Calvino alertou tanto sobre “leis rígidas e desumanas” que deixam opressores poderosos apoderarem-se dos bens de outra pessoa quanto sobre as falsas “atrações” que surpreendem o imprudente com o furto. Apesar de algumas dessas coisas escaparem ao discernimento humano, o reformador classificou como furto de bens qualquer método que transfira parte do patrimônio providencial de uma pessoa para outra sem a troca ou recompensa adequada. A injustiça, salientou ele, ocorre não só no tocante ao dinheiro ou à mercadoria, mas também quando a propriedade do próximo é tomada, já que temos a obrigação de proteger os bens uns dos outros. Tal obrigação de aumentar os bens de outras pessoas é uma contribuição distinta de Calvino e, a partir das palavras abaixo, compreende-se a dimensão atribuída por ele ao conceito: Se um administrador ou supervisor devora a riqueza de seu senhor e não zela pelo negócio familiar; se ele gasta injustamente ou desperdiça intencionalmente os bens a ele confiados; se o servo escarnece de seu senhor; se revela os segredos; se, de alguma forma, é desleal para com a vida e os bens dele; se o senhor, todavia, assedia com crueldade a sua família – tudo isso é considerado furto aos olhos de Deus (2.8.46). Sendo essas coisas proibidas pelo oitavo mandamento, Calvino ainda considerava que a obediência à ordem dada incluía o estado de contentamento com a sorte que nos cabe nesta vida – observe como a obediência começa no interior – e o comprometimento zeloso de gerar ganhos de modo honesto e legal (2.8.46). O acúmulo de riqueza mediante a injustiça é roubo, argumentava Calvino, pois implica no aumento dos bens de determinada pessoa em vista da destituição dos bens de seu próximo. Ele advertiu quanto ao ganho por meio do sangue de outros, de meios ilícitos e pela avareza. Advertiu também sobre a busca por ganhos com o intuito de satisfazer a prodigalidade. Em essência, ele exigia que aqueles em busca de ganhos atentassem às outras pessoas. Os calvinistas têm uma responsabilidade ética importante, a saber, ajudar constantemente nosso próximo a manter e aumentar seus bens “até onde nos for possível” (2.8.46). Tal responsabilidade pode demandar que os cristãos comerciantes desistam de algo quando estão lidando com homens incrédulos. No entanto, de qualquer forma, quando abençoado com retornos abundantes, o investidor calvinista sempre é chamado a ajudar outras pessoas em suas necessidades. No tocante à sociedade civil, Calvino enfatizava que os devedores têm de pagar suas dívidas e os políticos têm de manter a paz e assegurar a ordem. As igrejas e os pais devem “nutrir, governar e ensinar” seus filhos a respeito dessas questões, e os empregados devem trabalhar de maneira diligente para seus empregadores. Cada pessoa tem uma “classe social e uma posição” (2.8.46), e todos os homens devem “esforçar-se para proteger e promover o bem-estar e os interesses de outros” (2.8.46). Ao explicar o oitavo mandamento, portanto, Calvino não só demonstrou grande respeito pelos bens, mas também estendeu tal respeito aos bens de outras pessoas. Obviamente, não há nada em Calvino em apoio ao Socialismo ou à propriedade controlada pelo Estado. Calvino sobre a ética de propriedade e a ética comercial: Êxodo 21–24 O texto de Êxodo 21–24 apresenta comentário e esclarecimento referentes à intenção de Deus ao entregar a Lei no Monte Sinai (Êx 20.1-17). Nesses capítulos, o Senhor, como Pai misericordioso, pega os Dez Mandamentos e os explica; gasta tempo para aplicá-los na prática a fim de que o público original e subsequente compreenda a mensagem. Fornece instruções como um Pai longânimo que deve impor regras a um grupo de adolescentes, os quais, logo a seguir, agem como se não tivessem entendido o que ele quis dizer. Eles rapidamente começam a procurar brechas. Talvez até entendam exatamente o que o pai disse e ignorem o espírito da lei. A visão de Calvino a respeito das questões comerciais e de propriedade será percebida de forma mais clara em seus comentários sobre o esclarecimento do oitavo mandamento. Todavia, outras interpretações de seu comentário nesta seção delinearão ainda mais suas opiniões. De modo um tanto sofisticado em comparação à maioria dos comentários, Calvino promoveu a harmonia do comentário do Pentateuco ao utilizar versículos dos livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, uma vez que explicam cada um dos mandamentos. O texto de Êxodo 21.2-11 contém leis pertinentes aos servos e trabalhadores hebreus. Trata-se, principalmente, do esclarecimento sobre as leis de propriedade. Não é de surpreender o fato de Calvino não defender a escravidão. Nem Calvino nem as Escrituras tratam as pessoas, escravos ou não, de maneira sub-humana ou como se não fossem feitas à imagem de Deus. O abuso ou assassinato de escravos era errado e proibido pelo sexto mandamento. No entanto, esta e outras passagens do AT fazem alusão a certo padrão de relações de trabalho que permitia a escravidão na antiga nação de Israel. Nenhuma passagem do AT considera ilegal a escravidão. Era uma prática aceitável. O que a Bíblia faz, contudo, é mostrar como Deus desejava o tratamento benevolente, e esse problema se interpõe entre as questões comerciais e de propriedade. Existia o padrão sabático para a servidão no antigo Israel. O Senhor não queria que os escravos hebreus fossem forçados à escravidão para sempre. Uma pessoa podia comprar um hebreu por até seis anos, porém, no sétimo ano, o trabalhador tinha de ser libertado (Êx 21.2). Êxodo 21.3 também ilustra como Deus queria que a sociedade respeitasse a família. Se o escravo tivesse chegado sozinho (mesmo tendo contraído matrimônio dentro do período de seis anos), deveria sair solteiro. Se tivesse chegado com uma esposa, os dois seriam libertados juntos. De acordo com o versículo quatro, todavia, se o seu senhor tivesse concedido uma esposa ao escravo, e ela tivesse dado à luz filhos, a mulher e os filhos permaneceriam com o dono. Por quê? Porque cada trabalhador era valioso e essencial para o Estado. Essa jurisprudência foi estabelecida com o intuito de evitar o seguinte cenário: suponha que um trabalhador se tornasse escravo temporário e se cassasse com uma mulher. Se ele a levasse quando fosse libertado, tiraria de seu senhor algo de potencial valor/renda. Claro, se trouxesse sua própria esposa com ele e saísse no sétimo ano, não tiraria nada que o senhor já possuísse. Contudo, se o trabalhador chegasse, pegasse um ativo e depois afirmasse “somos uma família”, o senhor ficaria sem o ativo. Tal casuísmo ilustrava como a perda de propriedade, mesmo se tratando de recurso humano, poderia reduzir os ativos de uma pessoa. Evidentemente, o mandamento “não furtarás” não diz respeito apenas à propriedade física, mas tambéma coisas que tenham valor e potencial de ganho. Deus, em sua lei, sabia que os seres humanos procurariam e rapidamente encontrariam brechas – somos engenhosos em encontrar formas para pecar – por isso, o Senhor concedeu proteção àqueles que precisassem. Deus trata com seriedade a questão da justiça àqueles que possuem propriedades agrícolas, vinhedos e rebanhos. Autorizar os trabalhadores a se retirarem prejudicaria os lavradores, vinicultores e pastores. Logo, embora o conceito da servidão hebraica possa ser estranho para nossas relações de trabalho, por favor, atente para a intenção divina de fazer justiça aos que são senhores e também aos que são trabalhadores. Desde o início, notoriamente, Deus não é um socialista praticante. De semelhante modo, se um patriarca hebreu comprasse uma mulher para o seu filho, então, uma vez casados, ela não estava mais debaixo da lei da escravidão, pelo contrário, tinha de ser vista como filha – como parte da família (Êx 21.9). Além disso, seus direitos ao amparo, incluindo alimentação e vestimenta, eram permanentes. Eles não poderiam ser invalidados mesmo se o homem se cassasse com outras mulheres. O princípio defendido aqui é o seguinte: não reduza o patrimônio, contudo, ao mesmo tempo, trate as pessoas de modo justo, independentemente de se elas trabalham para você ou se fazem parte de sua família. Como o senhor se beneficiava do trabalho deles, tinha a obrigação de cuidar deles. Era uma via de mão dupla. Conforme coloca o texto de Êxodo 21.11: “Se não” conceder à mulher os seus direitos conjugais, então, o contrato será anulado e ela “sairá sem retribuição, nem pagamento em dinheiro”. Calvino entendeu que Moisés estava revelando a existência de ônus mútuos no mercado. Todas essas leis e diretrizes foram dadas pelo Senhor a fim de proteger trabalhadores e proprietários. Calvino entendia que a lei divina ou lei moral estava prevendo a depravação e considerou tais preceitos do AT como sendo críticas severas a respeito do roubo de propriedade. Sua pressuposição quanto à depravação humana, cuja tendência é tentar tirar proveito da lei, levou-o a muitas outras conclusões, dentre as quais estava sua visão revolucionária sobre a usura. O capítulo seguinte de Êxodo aborda o oitavo mandamento de maneira mais detalhada. Aqui, o mandamento “não furtarás” implica que a propriedade física está sob domínio privado e deve ser protegida. Na realidade, o texto de Êxodo 22 mostra como o Senhor protege com sabedoria a propriedade particular por meio de uma série de punições.11 Êxodo 22.1 aborda o caso de um homem que rouba um animal pecuário e o abate para consumo pessoal ou o vende para obter lucro. Visto ter se apossado da propriedade de outra pessoa, ele deve reembolsar cinco vezes a quantidade roubada, por certo, uma penalidade rigorosa. Observe que tal punição não é um por um, como ocorre nos acidentes ou casos de responsabilidade civil (por exemplo, os habituais ataques com chifres). Em caso de roubo, o ladrão deve restituir cinco vezes a quantidade roubada. O objetivo da penalidade não é só restituir o proprietário, mas também impedir o ladrão de cometer crimes futuros. O versículo 2 lida com o caso de um ladrão que é pego arrombando durante a noite, é ferido e morre. A situação é classificada como legítima defesa, homicídio culposo, e quem o feriu não é merecedor da pena de morte. Deus não se opõe à proteção de nossa propriedade. No entanto, o terceiro versículo apresenta um equilíbrio justo: se a invasão da casa ocorrer à luz do dia, o proprietário pode ser acusado de crime capital. Ele pode, em outras palavras, fazer uso de medidas mais amenas e evitar matar o ladrão. O que acontece se o ladrão declarar falência ou afirmar não ter meios de pagar? O versículo 3 ensina que ele deve fazer a restituição; caso não consiga, deve pagar com seu próprio serviço – ele será vendido à escravidão. Perceba como Deus prevê e bloqueia tantas brechas. No versículo 4 há um caso e uma punição um pouco diferentes. Se o animal roubado for encontrado vivo em posse do ladrão, ele deve ser devolvido ao dono e quem roubou tem de pagar o dobro do valor do animal. Dessa forma, a propriedade é restituída e a indenização é calculada em 200%. Calvino e seus seguidores viram nesses estatutos esteio adicional para os direitos de propriedade privada. Existem, também, inúmeras formas de roubo. O texto de Êxodo 22.5 fala de duas quintas vizinhas. Se o gado ou ovelha se desviar de seu campo e pastar na terra vizinha, o proprietário dos animais deve reembolsar “com o melhor do seu próprio campo e o melhor de sua própria vinha”. Não a grama sem valor, mas o melhor do campo de quem cometeu o delito deve ser confiscado. De acordo com o versículo 6, se um incêndio irromper e destruir as medas de cereais do vizinho, aquele que deu início ao fogo deve fazer a restituição. Deus nos responsabiliza e não quer que nossos vizinhos sofram em consequência de nossa irresponsabilidade. Se ocorreu dano, alguém tem de consertá-lo. Deus sabia que é assim que a vida funciona. Note a sofisticação dos versículos 7-9. Não se tratava de uma sociedade inculta. Se a uma pessoa entregar bens ao próximo para serem guardados e um ladrão os roubar, então, uma vez capturado quem cometeu o roubo, ele deverá pagar o dobro. Observe mais uma vez a natureza preventiva da legislação. Todavia, o que impede o proprietário de forjar tal perda? Afinal, muito dinheiro pode ser roubado a partir de uma fraude. Se o ladrão nunca for encontrado, a pessoa responsável por guardar os bens deverá se apresentar perante os juízes a fim de determinar se o roubo de fato aconteceu ou se o dono da casa está se beneficiando (Êx 22.8). Isso é justiça, e Deus sabia que os seres humanos saqueariam uns aos outros caso uma legislação adequada não fosse estabelecida. Ademais, como mostra o versículo 9, diante de qualquer alegação de posse ilícita, ambas as partes deverão se apresentar perante os juízes. Tal ação presume um sistema jurídico inicial. E, quando o julgamento tiver acabado, a pessoa declarada culpada deverá restituir o dobro. Tratava-se de prevenção. O versículo 10 apresenta um caso no qual um animal é confiado ao próximo para ser cuidado. Se o animal morrer, se machucar ou desaparecer, ambas as partes deverão se apresentar perante o Senhor (via juízes) e jurar que “não meteu a mão nos bens do seu próximo” (Êx 22.11). Nessa situação, a palavra do homem é seu alvará de soltura e seu juramento deverá ser aceito. Se, mais tarde, for descoberto que ele foi infiel, haverá outras consequências. Entretanto, se for determinado que o animal foi roubado, o ladrão deverá fazer a restituição. No caso de um acidente genuíno, os sobreviventes deverão ser apresentados como prova e não será exigido que o próximo faça a restituição (Êx 22.12-13). Por fim, de acordo com o versículo 14, se o próximo tomar emprestado um animal e ele se ferir ou morrer durante esse período, quem pegou o animal emprestado deverá reembolsar o proprietário. Mais uma vez, o dono tem prejuízo com a perda, logo, quem emprestou é responsabilizado. Todos esses e outros versículos semelhantes se unem para formar a visão calvinista (e capitalista) de livre mercado e direitos de propriedade privada. Os comentários de Calvino a respeito desse assunto sustentam veementemente essas ideias e não questionam os principais aspectos dos direitos de propriedade privada. Padrão para a caridade Juntamente com o lucro e direitos de propriedade vem a responsabilidade pelos necessitados. Para os calvinistas, acaridade se tornou uma atividade abrangente. Ela não começa necessariamente com os mesmos padrões de caridade passíveis de serem associados à doação aos pobres ou abatidos hoje, nem os acompanha. A ação beneficente, segundo o espírito calvinista, é ampla e tem início com a responsabilidade pessoal e a oferta para a igreja. Dízimo Para a igreja, o dízimo era tanto uma disciplina pessoal quanto uma forma de caridade. Com o início da Reforma, as igrejas começaram a ser sustentadas mais pelos seus membros do que pelos donativos do Estado. Embora a igreja genebresa de Calvino tenha herdado a propriedade principal (todos os recintos da igreja foram declarados como sendo propriedade da Reforma quando os cidadãos votaram a favor da religião evangélica, em 1536), o sustento inicial e o trabalho daquela e de outras igrejas protestantes dependiam, em grande parte, da generosidade de seus membros. Calvino percebeu que um dos aspectos essenciais da riqueza era que a oferta regular e generosa fosse direcionada à igreja, a qual, então, supriria as inúmeras necessidades espirituais e sociais. Com referência ao dízimo de Abraão entregue a Melquisedeque (Gn 14.20), Calvino asseverou não ter sido o ato feito de modo “impróprio ou impulsivo”. Pelo contrário, Calvino entendia ser o dízimo uma prática ordenada por Deus e visualizava a atitude de Abraão como um primeiro exemplo do tipo de oferta que é uma honra a Deus e um instrumento útil para os ministérios sacerdotais. Em outra parte, em seu comentário de Malaquias, Calvino deixou explícito que o dízimo é essencial e deve ser considerado como rotina da administração financeira. Ele chamou de “fraude” a prática de reter parte do dízimo para uso pessoal e alertou que “a avareza estava tão pautada [entre as pessoas da época de Malaquias] a ponto de todos, inclinados aos seus próprios benefícios, negligenciarem o templo”.12 Em uma acusação expressa com veemência, Calvino se referiu à omissão do povo de Deus em dar o dízimo como “perversidade”, “hipocrisia”, “imprudência” e “violação das instituições divinas”.13 A questão era tão óbvia para Calvino que ele comentou: “Deus, todavia, julgou ser uma sentença o suficiente para condená-los – eles o defraudaram nos dízimos e nas primícias [as quais] ele corretamente chama de suas e assim as considera”.14 Calvino ressaltou a importância disso ao explicar que “Deus designou que as primícias e outras coisas fossem oferecidas a ele com o intuito de os homens, assim, lembrarem-se continuamente de que todas as coisas eram dele”.15 Em seu comentário sobre Deuteronômio 26, o reformador se referiu ao ato de dizimar como se “Deus estivesse diante dos olhos [dos hebreus], por assim dizer, e eles estivessem lhe retribuindo em mãos”.16 Ademais, ele se referia à motivação correta para tal doação religiosa como oferta de tributo a Deus, “símbolo da emancipação, por terem sido redimidos pela excepcional misericórdia de Deus”.17 Ele explicou também que os cristãos não são senhores de seu dinheiro e bens; pelo contrário, eles mantêm seus bens “tão somente com o título de administradores”18. Para Calvino, dar o dízimo era de suma importância. O dízimo, além de sustentar o ministério sacerdotal contínuo, também era a base para a oferta beneficente. Na época anterior a Calvino, exceto a igreja (que era, em sua maioria, católica romana e predisposta ao excesso) e as heranças familiares, havia poucas, se houvesse, instituições que prestavam ajuda caritativa. Veículos como as diversas fundações, bolsas de estudo privadas e donativos como os da atualidade eram praticamente inimagináveis naquela época. Na realidade, pode-se argumentar que a disseminação dos meios beneficentes multidimensionais como os existentes hoje no Ocidente seguiram a disseminação do Calvinismo de maneira mais certeira do que a disseminação da ética de trabalho protestante da tese de Weber. Talvez exista uma “ética de caridade protestante” proveniente do trabalho de Calvino. A partir dos dias de Calvino, a igreja – com seu zelo pelos refugiados, o estabelecimento de hospitais e muitos outros empreendimentos diaconais – continuou a expandir o alcance de sua caridade externa em círculos maiores. Nada disso teria sido possível sem o dízimo. Na verdade, existe uma provável correlação entre a porcentagem de dizimistas e a obra de caridade privada. As instituições do Estado fazem sua parte na obra assistencial, claro. No entanto, o escopo e a eficiência das igrejas não instituídas (sustentadas pelo dízimo, e não pela tributação) são maiores. Logo, o dízimo apresentou benefício duplo. Além de sustentar os edifícios e trabalhadores das igrejas, também rendeu fundos generosos para o cuidado com os oprimidos e necessitados. Segurança pessoal Para Calvino, o próximo passo da caridade era, para surpresa de alguns, a segurança pessoal. Em outras palavras, o reformador defendia a visão de que a pessoa é responsável pelo seu próprio sustento e o de seus dependentes. Calvino e outros reformadores romperam com o padrão medieval de boas obras. Em vez disso, eles endossaram a ética com base na responsabilidade pessoal. Ao comentar 2Tessalonicenses 3.10, Calvino observou que, embora existam “diferentes formas de trabalho”, cada pessoa deve colaborar com “a sociedade dos homens por intermédio de sua diligência, ou regendo sua família ou administrando negócios públicos ou privados ou aconselhando ou ensinando ou de qualquer outra forma a fim de não ser considerada desocupada”.19 Ele também não pôde deixar de afirmar que “indolência e ociosidade foram amaldiçoadas por Deus”, explicando o seguinte: Além disso, sabemos que o homem foi criado com a visão de que pode fazer alguma coisa. As Escrituras não apenas nos testificam tal fato, mas também a própria natureza o faz ao pagão. Portanto, é plausível que aqueles que desejarem se isentar da lei comum sejam também privados de alimento e da recompensa do trabalho. Paulo proibiu os tessalonicenses de incentivarem sua indolência fornecendo alimento aos ociosos.20 Calvino, então, por meio de seus ensinamentos sobre vocação e da ética de trabalho por ele cultivada, esperava que a perspectiva sobre a caridade conduzisse os indivíduos a se absterem de consumir os recursos de outras pessoas. Não é de bom grado esperar apoio financeiro de outros quando a pessoa é capaz de se sustentar. Mais uma vez, Calvino empregou, de modo geral, as palavras de 1Timóteo 5.8, afirmando que aqueles que não sustentam sua própria família carecem “da compaixão de Deus”. Além do mais, disse que tais indivíduos negam a fé, descrevendo-os como “piores do que as feras selvagens”.21 Para o reformador, a “criminalidade de tal conduta” se demonstrava pela própria natureza, visto que até “os infiéis são propensos a amar os seus”. Em vista das grandes expectativas colocadas, de maneira correta, sobre aqueles que professam seguir as ordens de Cristo, Calvino considerava a conduta ainda mais reprovável. A ética do trabalho era empregada dentro da família de Deus. Em observações anteriores a respeito de 1Timóteo 5.5, ele havia notado a distinção bíblica entre a viúva com real necessidade e aquela que pode suprir suas próprias necessidades ou tem uma assistência familiar adequada. Ao mesmo tempo, ele chama a atenção para as viúvas que se entregam à “ociosidade prazerosa”, “conveniência” ou “alegria exagerada”.22 James Gills e Ronald Nash sugeriram que, quando a caridade é tirada das mãos do setor privado e entregue ao “Grande Governo” invisível, então, fica fácil para os receptores “acharem que certas mercadoriase serviços, como o serviço de saúde e os medicamentos prescritos, não têm custo. Os custos ainda existem, porém, as pessoas que os pagam quase sempre não estão à vista e não são lembradas por aqueles que não só se beneficiam da redistribuição de propriedade feita pelo governo, como passam a agir como se tivessem direito ao aumento de tais benefícios”.23 Cada pessoa tem um chamado divino para o trabalho – para utilizar seu tempo e recursos para a glória de Deus e desenvolvimento do próximo. Uma pessoa não pode doar de modo mais caridoso possível se suas próprias contas são transferidas a outra pessoa. Ademais, somente quando essas bases pessoais estão garantidas é possível acontecer o planejamento consistente para projetos de caridade a longo prazo. Por exemplo, se um grupo deseja iniciar uma faculdade denominacional ou assumir um trabalho de caridade por vários anos, faz-se necessária a doação sem tempo determinado, a qual, normalmente, virá de doadores maduros e estabelecidos que já alcançaram sua segurança financeira. Em seu sermão sobre 1Timóteo 6.17-19, Calvino observou que uma solução para “corrigir a ligação depravada” com a riqueza do mundo é “a utilização correta de nossos bens. As oportunidades do homem de fazer o bem aos outros aumentam com a abundância de sua riqueza e, como sempre relutamos mais do que deveríamos para dar aos pobres, ele [Paulo] fala muito em favor dessa virtude”.24 Em outro sermão sobre os Evangelhos, o reformador nos chama a “nos contentarmos com aquilo que nos foi concedido”, de modo que aqueles que têm recursos possam entender que é maior sua responsabilidade. De semelhante modo, aqueles que são pobres são chamados, sob a doutrina do contentamento, a aceitar sua posição e condição social sem cobiçar ou roubar. Calvino escreveu: Quando a pessoa tem meios de aumentar sua riqueza, que isso seja feito sem causar prejuízo aos outros – e também sem ser consumido pela inveja. E mais: o homem rico não só deve estar contente com aquilo que tem, mas deve também ter o espírito de um homem pobre – ou seja, todos os dias ele deve estar pronto a abandonar tudo o que Deus lhe tem dado e não se torturar por isso; e, se Deus desejar enriquecê-lo mais, ele deve estar ciente de que isso é para o seu benefício.25 Calvino, o que pode vir a ser curioso para alguns, chegou a descrever os pobres materialmente como tendo o ministério singular de servir como “mensageiros” a fim de provar a fé e o amor daqueles ao seu redor. Eles são “mandatários” a fim de testar a compaixão dos abastados.26 O reformador se refere aos ricos que não cuidam dos pobres como “assassinos”, os quais privam outros daquilo que deveriam ter: “Porquanto, de outro modo, eles são como assassinos caso vejam o próximo definhando e, mesmo assim, não abram suas mãos para ajudá-lo”.27 Apesar de intérpretes de Calvino discordarem entre si quanto às aplicações desse ensinamento, parece ser seu objetivo condenar os ricos empedernidos, não defender um sistema no qual certa organização independente pega e redistribui os bens para evitar que sejam assassinos. Com base na denúncia profética sobre o acúmulo, em particular a feita por Isaías, Calvino identificou o problema persistente do descontentamento humano. Aqueles que “nunca têm o suficiente e a quem riqueza alguma é capaz de satisfazer” cobiçam ardentemente “ter todas as coisas só para si mesmos e veem as coisas que as outras pessoas têm como algo que lhes falta”.28 Calvino citou a opinião de Crisóstomo de que os avarentos confiscariam o sol dos pobres, se possível fosse. Aqueles cuja única “preocupação é fechar uma grande negociação” nunca têm o suficiente e nunca demonstram moderação. O reformador observou essa tendência de acumular mesmo quando levava em consideração “o tamanho e a amplitude das casas”: Pois Isaías ressalta a ambição daqueles que desejam morar em palácios grandiosos ou casas amplas. Não há nada de errado se alguém com uma família grande tiver uma casa grande; porém, quando as pessoas, tragadas pela ambição, incrementam suas casas com coisas supérfluas somente para viverem de modo mais luxuoso, eis que surge a ambição vã, a qual deve ser censurada. Tais pessoas agem como se tivessem de ser as únicas a desfrutar de um teto, e os outros devessem ter somente o céu para se cobrir ou tivessem de ir para algum outro lugar a fim de encontrar morada.29 Calvino advertia contra a ânsia pela riqueza, contudo, também via a necessidade da organização de ativos para a segurança da família e do direito de propriedade privada. Patrimônio familiar Logo após a segurança pessoal vem o chamado para sustentar a família, os dependentes e guardar para o futuro. Há tempos, os calvinistas são associados à ideia de herdar o patrimônio de uma geração e aumentá-lo; isso se dá por uma boa razão. Calvino, visualizando a riqueza como dádiva providencial e criação de Deus, acreditava que os patrimônios deveriam ser sempre avolumados, contanto que os meios para tal aumento fossem legais e não excluíssem as ofertas de caridade. Isso não só permitiria à família ter maior liberdade no futuro, como também traria provisão de maneira caridosa a todos os dependentes. A noção moderna de que uma organização estatal (ou qualquer outro grupo extrafamiliar) deve assumir a responsabilidade de prover aos descendentes de um indivíduo era estranha para Calvino. Ao contrário, ele considerava um ato de generosidade dar provisão aos filhos e à futura prole. Aqueles que não sustentam seus próprios descendentes, asseverava ele, são piores do que os incrédulos. Conforme expressou quando fazia o comentário sobre 1Timóteo 5.8, eles agem com “desumanidade e, portanto, tal atitude é um claro desrespeito a Deus”.30 O Calvinismo não incentiva o egoísmo que incita o indivíduo a se preocupar somente com sua própria vida. Quando Deus concede filhos e cônjuges, eles também têm de ser supridos materialmente. Não é condizente com os ensinamentos de Calvino a ação de consumir todos os rendimentos de alguém ao longo da vida e não economizar para as gerações futuras. O modelo bíblico empregado por ele esperava que as pessoas (a) dessem o dízimo, (b) garantissem base material particular por meio de economias e investimentos e (c) buscassem sustentar os filhos e a família. Proporcionar educação aos filhos, seja de que forma for, é, provavelmente, o primeiro investimento a longo prazo em direção a essa finalidade. Ajudar os filhos a começarem sua corrida da vida é uma amorosa ação de caridade; tal responsabilidade é conferida a ninguém menos que a família. Ajudar as gerações futuras provendo ativos não é uma atitude apenas caridosa, mas também sábia, se a retidão também estiver inculcada; pois isso significa menor dependência de cotas e maior rendimento dos fundos provenientes de uma base de ativos maior, se o patrimônio for investido bem e de forma consistente. Por intermédio da redenção de Deus, o cristão é levado a um completo entendimento da liberdade cristã, que permeia todos os aspectos da vida. Sendo assim, Calvino argumentava que a liberdade cristã implica na liberdade de mercado, não como um meio friamente calculado de sobrevivência, mas como uma extensão da adoração e responsabilidade do cristão. Contrabalançando o chamado à liberdade, temos a censura de Calvino ao egoísmo, bem como seu extenso ensinamento sobre a virtude da administração. Implícito em seu argumento sobre a administração está uma defesa acirrada da propriedade privadae dos direitos de propriedade que devem ser endossados e protegidos. A depreciação dos direitos de propriedade desvaloriza a caridade e o sacrifício cristãos, que vêm como resposta à redenção de Deus. A riqueza já foi descrita como instrumentos criados para utilização humana (capítulo 1) e como meios visíveis de se chegar à vontade de Deus (capítulo 2) e, agora, é vista como o manancial da caridade e da oferta proveniente de um coração voltado à ação de graças e ao louvor. Nesse sentido, a caridade e o investimento compartilham fundamentos semelhantes. Ambos são símbolos da redenção de Deus, e a primeira serve também como forma avançada de investimento. A hierarquia da caridade e do investimento, todavia, é fundamentada no princípio básico do dízimo. Além de sustentar suas igrejas e famílias, os calvinistas quase sempre apresentam os melhores exemplos de obra de caridade. No decorrer de toda a história, conforme as convicções associadas à fé reformada começaram a se alojar nos filhos de Calvino e a riqueza foi criada e aumentada, a obra de caridade também encontrou um círculo maior. O espírito filantrópico do Calvinismo estava atado ao seu espírito comercial. Notas 1 R. Laird Harris et al., Theological Wordbook of the Old Testament (Chicago: Moody Press, 1980), p. 144. 2 João Calvino, Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 1:220-221. 3 Ibid., 1:258. 4 Citado em Mark Skousen, The Big Three in Economics: Adam Smith, Karl Marx, and John Maynard Keynes (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2007), p. 10. 5 Citado em ibid., p. 18. 6 John Wesley, “Sermon 50: The Use of Money”, em The Work of the Reverend John Wesley, A.M., 1:446; postado também em: http://new.gbgm-umc.org/umhistory/wesley/sermons/50/. 7 As instruções de Paulo a Timóteo também tomam por certo que os lavradores diligentes merecem obter lucro de suas colheitas (2Tm 2.6), que casas grandes repletas de artigos bons existem (2Tm 2.20) e que a coroa do justo não é sinal de perversidade (2Tm 4.8). 8 Citado em Sergey N. Bulgakov, “The National Economy and the Religious Personality”, Journal of Markets and Morality 11, n° 1 (Primavera de 2008): 171. (Publ. orig. 1909.) 9 John E. Stapleford, Bulls, Bears & Golden Calves: Applying Christian Ethics in Economics (Downers Grove: InterVarsity Press, 2002), p. 25. 10 Calvino, Commentary on the Epistles to the Corinthians, 1:250. 11 Note que nem todos os delitos eram delitos capitais e punições graduais foram estipuladas para se adequarem ao crime. 12 João Calvino, Commentaries on the Twelve Minor Prophets (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 15.:585, 588. 13 Ibid., 15:585. 14 Ibid. 15 Ibid. 16 Calvino, Commentaries on the Four Last Books of Moses, 2:283. 17 Ibid., 2:494. 18 Ibid. 19 João Calvino, Commentaries on the Epistles to the Philippians, Colossians, and Thessalonians (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), 2:355. 20 Ibid. 21 João Calvino, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon (Grand Rapids: Baker Book House, 1979), p. 127. 22 Ibid., p. 125. 23 James O. Gills e Ronald H. Nash, A Biblical Economics Manifesto: Economics and the Christian Worldview (Lake Mary: Creation House, 2002), p. 6. 24 Citado em André Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought (1959; reimpr., Genebra: World Alliance of Reformed Churches, 2005), p. 285. http://new.gbgm-umc.org/umhistory/wesley/sermons/50/ 25 Ibid., p. 286. 26 Ibid., p. 288. 27 Ibid., p. 299. 28 Ibid., p. 298. 29 Comentário sobre o texto de Isaías 5.8, citando em Biéler, Calvin’s Economic and Social Thought, p. 298. 30 Calvino, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus and Philemon, p. 127. 4 Filantropia A esta altura, o leitor deve entender que muito da crítica habitual a Calvino é injusta, talvez, em especial no tocante à sua compaixão pelos oprimidos ou à sua liderança filantrópica em Genebra. Apesar das inúmeras caricaturas, Calvino sabia como ajudar o verdadeiro necessitado de maneira eficiente. A caridade extrafamiliar Calvino viveu em mundo tão, ou mais, repleto de necessidades como o nosso. Sem grandes organizações sociais e redes de segurança das mais variadas, seu mundo era muito mais agressivo que o nosso. Para ele, assim como para muitas pessoas hoje, era sempre desafiador decidir quais necessidades deviam receber fundos. Embora existam muitas tentativas de classificar os objetos merecedores de generosidade, apresentamos, abaixo, uma lista básica de oportunidades para caridade extrafamiliar. Em outras palavras, em vista de a igreja ser sustentada pelos dízimos, e depois de a base financeira pessoal ter sido assegurada e o patrimônio da família ter sido estabelecido, é justo que os seguintes grupos se tornem alvos da caridade privada. Conhecidos próximos. É natural que a compaixão flua para aqueles a quem vemos com mais frequência. Se seus conhecidos próximos estão passando por necessidade, assim como Jesus ensinou na parábola do bom samaritano (Lc 10), os cristãos não devem ignorar tais necessidades. Presumindo que nossos conhecidos próximos estão realmente necessitados ou enfermos, a repreensão severa de Cristo se reserva àqueles que não prestam assistência. O chamado para cuidarmos daqueles que estão mais próximos de nós está bastante evidente. De acordo com Calvino, essa parábola também requer que estendamos nossa caridade além daqueles de nosso convívio direto. Os pobres trabalhadores. Depois de cuidar dos conhecidos mais próximos, é prudente atentar aos pobres trabalhadores. Aqueles que trabalham duro e por longos períodos, porém não têm bons salários, não por sua própria culpa, devem receber complementos benevolentes se as instituições de caridade ou pessoas desejarem subsidiá-los. Não é pecado ter uma ocupação mal remunerada. Por exemplo, aqueles que trabalham nas forças policiais e na educação pública quase sempre são mal remunerados por tanto trabalho e pelo risco que correm. Se as instituições beneficentes desejarem subsidiar os indivíduos que trabalham de modo diligente nessas ocupações necessárias, esta é uma aplicação natural da boa obra de caridade. Pessoas com perspectiva de produtividade. Jovens estudantes e trabalhadores iniciantes promissores também podem receber bolsas de estudo ou outros subsídios beneficentes até assumirem plena produtividade. Obviamente, nem todos serão qualificados para tais concessões, porém, aqueles que recebem ajuda normalmente expressam gratidão que recompensa até a próxima geração. Como qualquer outro tipo de caridade, critérios de seleção precisam ser estabelecidos pelos vários grupos a fim de determinar os receptores merecedores dos benefícios. Se a perspectiva da produtividade futura for traçada, então, determinados campos de trabalho e níveis de renda provavelmente se tornarão fatores principais a serem considerados. Novamente, a melhor obra de caridade é aquela que é objetiva e bem concebida. Instituições: Uma vez direcionadas as oportunidades com foco individual, também existe lugar para o desenvolvimento institucional a longo prazo. A utilização de fundos de doações para criar ativos beneficentes, se utilizados de forma sensata e regular, é um projeto grande capaz de gerar muitos benefícios. De semelhante modo, o estabelecimento de instituições de ensino – pense em quanta educação os católicos romanos e luteranos proporcionaram no decorrer de anos por meio de suas escolas paroquiais – é dos mais enriquecedores e necessários objetos das instituições de caridade religiosas. Ao mesmo tempo, elas podem ajudar a disseminar os valoresteológicos de um grupo. Tais instituições requerem grandes fundos iniciais; e, como é característico, demandam doações para seu sustento. Todavia, elas tocam muitas vidas por gerações. O pobre em geral. Depois de grandes iniciativas filantrópicas terem iniciado, os cristãos podem, então, atentar à pobreza ou necessidade em todo o mundo. Como é característico dessa situação, poucos conseguirão empregar recursos nesse trabalho além dos muito ricos (por meio das fundações privadas) ou das organizações internacionais. O Calvinismo criou e desenvolveu diversas dessas iniciativas mais amplas de caridade. A principal dentre elas – e um ótimo exemplo de instituição de caridade por séculos – foi a Academia de Calvino. O reformador rompeu com a pedagogia medieval, a qual limitava a educação essencialmente à elite aristocrata. Sua Academia, fundada em 1559, foi o piloto da educação de ampla base para a cidade. Embora os genebreses tivessem tentado, durante dois séculos, estabelecer uma universidade, somente depois das iniciativas de Calvino ela finalmente foi instituída.1 Quando da chegada de Calvino, os oficiais da cidade anelavam por uma instituição de ensino de alto nível, porém, em 1536, a maioria dos genebreses considerou ser esse um alvo ambicioso demais. Independentemente das iniciativas mal-sucedidas ocorridas entre a aceitação da Reforma em Genebra, em 1536, e o retorno de Calvino de seu exílio em Estrasburgo, em 1541, está evidente que não houve êxito na instituição de uma universidade duradoura até o reformador colocar as mãos à obra na área da educação depois de Genebra ter firmado sua identidade protestante entre 1550 e 1560. Essa realização beneficente e duradoura não teria acontecido sem a visão de criar uma instituição multigeracional. A Academia de Calvino, a qual era adjacente à Catedral de São Pedro, caracterizava-se pelos dois níveis curriculares – um para a educação pública dos jovens de Genebra (a schola privata) e o outro era um seminário para formar pastores (a schola publica).2 A primeira não deveria desconsiderar o impacto advindo da educação dos jovens financiada pela igreja, especialmente em dias quando ela era, no geral, reservada apenas aos filhos dos aristocratas ou membros das sociedades católicas. Iniciada em 15583, com Calvino e Teodoro Beza no comando da faculdade de Teologia, o edifício da Academia foi consagrado em 5 de junho de 1559, com a presença de 600 pessoas na Catedral de São Pedro. Calvino coletou dinheiro para a escola, e muitos expatriados fizeram doações a fim de colaborar com sua criação. A escola de nível fundamental e médio, dividida em sete séries, tinha 280 alunos matriculados em seu primeiro ano, e o seminário da Academia aumentou para 162 alunos em apenas três anos. Na época da morte de Calvino, em 1564, havia 1200 alunos na escola e 300 no seminário. Ambas as escolas, conforme observaram os historiadores, não cobravam mensalidades e “foram precursoras da moderna educação pública”.4 Poucas instituições na Europa já viram um crescimento tão rápido. Para acomodar a grande quantidade de estudantes, a Academia (naquilo que se tornaria característico da visão calvinista, a saber, que a fé deve influenciar todas as áreas da vida) planejou acrescentar departamentos de Direito e Medicina. Beza pediu oração em favor do novo departamento de Medicina logo no início de 1567, quando a escola de Direito já havia sido estabelecida. Após o massacre ocorrido no Dia de São Bartolomeu (1572), Francis Hotman – e diversos outros importantes acadêmicos constitucionais – passaram a lecionar na escola de Direito de Genebra. A presença de dois gigantes da área jurídica, Hotman (de 1573-1578) e Denis Godefroy, deu à Academia de Calvino uma das primeiras faculdades de Direito da Suíça. A escola de Medicina, idealizada depois da morte do reformador, só foi estabelecida com êxito em 1700.5 A Academia de Calvino se tornou símbolo da educação em todas as principais áreas. Historicamente, a educação, tanto quanto qualquer outro fator singular, tem promovido o avanço cultural e político. Uma das contribuições mais duradouras para a sociedade – contribuição que também assegurou a longevidade de muitas das reformas calvinistas – foi o estabelecimento da Academia em Genebra. Por meio dela, o reformador também obteve êxito onde outros haviam fracassado. Digno de nota, nenhum dentre os outros principais reformadores protestantes recebe créditos pela fundação de uma universidade que durou por séculos. A universidade chegou a se tornar propriedade procurada por alguns admiradores surpreendentes, dentre eles, Thomas Jefferson.6 A filantropia que se estende a muitas famílias e gerações raramente ocorre, a não ser que os seguintes fatores estejam presentes: Visão e um horizonte a longo prazo. Disciplina pessoal para economizar, preservar e utilizar com sabedoria os recursos proporcionados por Deus. Forte senso de responsabilidade para utilizar a riqueza a fim de cuidar daqueles ao nosso redor. Repúdio à ideia de que o Estado é responsável pelos grandes projetos da vida. Disposição para sacrificar-se e dar início a determinadas instituições. Desejo de inculcar virtude e valor com base em crenças. Visão de investimento consistente com os fatores apresentados acima. Será extremamente difícil identificar qualquer visão de mundo, teoria econômica ou sistema religioso que seja mais incentivador ou consistente com tais condições de filantropia do que o protestantismo de Calvino. O reformador também era veemente ao afirmar que a dívida excessiva poderia anular oportunidades de obra de caridade; portanto, ele alertava a respeito do excesso de dívidas. Ele conhecia as múltiplas aplicações do ensinamento de Paulo descritas em Romanos 13.8: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros”. Ademais, o espírito filantrópico de Calvino – que caracteriza o melhor da ética comercial – é notado em seu cuidado para com os pobres em Genebra. A filantropia de Calvino e o cuidado com os pobres Para dar início à consideração deste aspecto de seu trabalho, seria bom nos lembrarmos da maneira como Calvino alcançava, de modo compassivo, os milhares de refugiados desabrigados quando chegavam a Genebra em busca de um lugar para aliviar a consciência fatigada. Essa migração em massa praticamente esgotou os recursos de Genebra. Com a população quase duplicada por conta desse movimento, a igreja genebresa teve de planejar meios de suprir as reais necessidades ao seu redor. Um dos primeiros passos foi analisar o problema e identificar aqueles que eram verdadeiramente necessitados. Segundo, uma visão mais clara do coração de Calvino pode ser percebida a partir do desenvolvimento de formas para utilizar funcionários de uma instituição privada (por exemplo, uma organização não governamental, ONG) no cuidado de muitos. Calvino achava que a compaixão da igreja poderia ser mais bem expressa por meio de seus diáconos. Devido Deus ter ordenado tal ofício para o cuidado dos pobres, o desafio de Calvino era chegar a procedimentos práticos que utilizassem o mecanismo já fornecido por Deus a fim de maximizar os esforços desses ministros da misericórdia. Vale lembrar que, séculos atrás, Calvino foi o primeiro a iniciar princípios e práticas muito avançados para a sua época. Na realidade, se a maioria das organizações governamentais implementasse alguma versão de tais princípios, muitas pessoas poderiam estar em melhores condições. O proficiente volume histórico de Jeannine Olson, Calvin and Social Welfare: Deacons andthe Bourse Française, apresenta um estudo do impacto de Calvino sobre a cultura da Reforma, focando, em particular, o efeito permanente do pensamento de Calvino sobre a instituição do diaconato. Em sua obra, ela observa que, ao contrário de certas caricaturas modernas, os reformadores trabalharam diligentemente para abrigar os refugiados e ministrar aos pobres. O Fundo francês (a tesouraria dos diáconos da igreja) se tornou o pilar da assistência social em Genebra;7 na realidade, essa foi outra das contribuições de Calvino à civilização ocidental. Esse ministério diaconal pode ter tido tanta influência na Europa da época de Calvino quanto sua teologia. O programa de assistência social de Calvino em Genebra foi traçado de modo a se adequar às ênfases teológicas dos reformadores, proporcionando uma ilustração prévia de que a prática de tal assistência era (e é) erigida sobre princípios definidos, os quais eram religiosos ou ideológicos em essência. Ademais, a teologia da Reforma foi a força direcional dessa assistência, assim como a teologia do Catolicismo romano medieval havia sido o princípio direcional para a doação de esmolas. Princípios decisivos moldaram a prática da assistência social 450 anos atrás como moldam, o que significa que, em nenhum momento, tal assistência é, de fato, separada dos valores fundamentais. As atividades do Fundo francês eram inúmeras. Os diáconos que o administravam estavam envolvidos no alojamento de órfãos, idosos ou aqueles que de alguma forma estavam debilitados. Eles cuidavam dos enfermos, tratavam dos órfãos e daqueles envolvidos em atitudes imorais. Essa instituição eclesiástica foi precursora das associações voluntárias nos séculos 19 e 20. No entanto, sua inspiração foi parte da genialidade de Calvino. O Fundo francês foi instituído sob a liderança de João Calvino em torno de 1536 e 1541 (obviamente, não durante seu exílio em Estrasburgo). Seu plano inicial era amenizar o sofrimento dos moradores franceses que chegavam a Genebra fugidos da perseguição sectária na França. Estima-se que em apenas uma década (1550-1560) cerca de 60.000 refugiados passaram por Genebra, número grande o bastante para gerar um estresse social. Nas Ordenanças eclesiásticas, propostas pela primeira vez em 1541, Calvino havia redigido uma declaração dirigida ao diaconato, identificando-o como um dos quatro ofícios básicos da igreja. Essa ordem eclesiástica da Reforma estipulava que devia haver dois tipos de diáconos. “Sempre houve duas categorias na igreja primitiva”, escreveu Calvino, “uma responsável por receber, distribuir e guardar as mercadorias destinadas aos pobres, não apenas as doações diárias, mas também as posses, rendas e pensões; e a outra para atender e cuidar dos enfermos e administrar os subsídios para os pobres”.8 Além disso, a declaração de 1541 atribuía aos diáconos da igreja a responsabilidade de certificar-se de que o hospital “está em boas condições tanto para os enfermos quanto para os idosos impossibilitados de trabalhar, viúvas, crianças órfãs e outras criaturas pobres. Os enfermos devem sempre ser alojados em uma ala de quartos separada daquela de outras pessoas impossibilitadas de trabalhar. Ademais, além do hospital para aqueles de passagem, que deve ser mantido, é preciso dar atenção a qualquer um considerado merecedor de caridade especial”.9 Na conclusão desta seção, Calvino observou que não há problema em “desencorajar a mendicância [pedir esmolas sem trabalhar], atitude contrária à boa ordem, e fomos ordenados a fazê-lo, e que deve haver um de nossos oficiais à entrada das igrejas para retirar do local aqueles que vadiam; e, se algum deles ofender ou for insolente, deve ser levado a um dos representantes do Senhor”.10 Pedir esmola sem um trabalho honesto era uma afronta aos princípios da ética de trabalho protestante bíblica. Tal atitude era considerada pecaminosa e indolente por Calvino e outros. Empregando uma administração sofisticada e uma discriminação das principais causas das necessidades físicas, esse modelo ainda pode nos trazer informações quanto às nossas práticas hoje. Nas Ordenanças Eclesiásticas de Genebra de 1541, Calvino recomendou um importante papel aos diáconos da igreja, que cuidavam de uma grande variedade de necessidades, não muito diferentes das necessidades de assistência social governamental presentes em nossa própria sociedade. Calvino estava tão interessado em ver o diaconato florescer que deixou uma herança não só para a sua família em seu testamento, mas também para a escola de meninos e pobres desconhecidos.11 Com um salário nada exorbitante, Calvino demonstrou sua frugalidade pessoal e seu comprometimento com a caridade por meio de seu legado. Depois de duas décadas, as Ordenanças Eclesiásticas foram revisadas, em 1561. Uma tradução recente das Ordenanças Eclesiásticas de 1561 apresenta a sofisticação e refinamento do diaconato antes mesmo da morte de Calvino.12 As solicitações da revisão de 1561 indicam nitidamente que o ministério aos pobres era significativo e bem ordenado na época de Calvino. Não era nem de baixa prioridade nem desleixado em sua organização. Na verdade, a premeditação e quantidade de detalhes de tal filantropia eram praticamente incomparáveis na época. Os diáconos incentivavam de maneira ativa a ética de trabalho produtiva. Eles proporcionavam subsídios temporários e treinamento de trabalho, quando necessário; na ocasião, chegaram a fornecer ferramentas ou suprimentos necessários, dessa forma, uma pessoa saudável fisicamente poderia se engajar em uma vocação honesta. Eles eram seletivos ao determinar a diferença entre aqueles que eram verdadeiramente necessitados e aqueles que eram apenas ociosos. Se necessário, suspendiam o subsídio. Com o passar do tempo, desenvolveram procedimentos para proteger os recursos da igreja contra o furto, chegando a solicitar que os novos visitantes declarassem seus ofícios e listassem testemunhas abonatórias a fim de atestarem sua honestidade.13 Dentro de uma geração desse trabalho de assistência social, o diaconato de Genebra viu a necessidade de comunicar aos receptores que seu objetivo era que eles voltassem ao trabalho o quanto antes. Na Genebra do século 16 havia casos de abandono, e o Fundo francês quase sempre era requisitado para o sustento de crianças. Ademais, os diáconos socorriam os enfermos em estado terminal, os quais também deixavam seus filhos para serem sustentados. Doações especiais eram dadas às crianças em real necessidade. O Fundo também incluía um ministério para viúvas que quase sempre tinham crianças dependentes e uma série de necessidades. A igreja e outras instituições privadas na Genebra de Calvino não dependiam de organizações governamentais para realizar a obra para a qual estavam munidos. Deve ser observado ainda que, embora o Fundo francês se assemelhasse a muitos outros fundos de assistência social contemporâneos do século 16, ele possuía suas peculiaridades. Estas, naturalmente, eram teológicas e levaram a alguns comprometimentos práticos. Por exemplo, não havia distribuição de alimento garantida. Além do mais, existiam certos pré-requisitos para o recebimento da assistência, incluindo a possibilidade de determinadas inadequações morais anularem a oportunidade de a pessoa ser assistida pelo Fundo. O Fundo francês não tratava apenas de necessidades espirituais ou internas. Em muitas ocasiões, a diaconia genebresa contratou médicos para cuidar dos enfermos. Registros indicam que os diáconos supervisionavam o atendimento médico aos necessitados– evidência clara de que o escopo do ministério diaconal não era limitado à evangelização. Aqueles que comandavam o Fundo também eram prudentes. Em janeiro de 1581, o Fundo adotou uma série de regras constitucionais, ressaltando a necessidade de se ter uma abordagem disciplinar vital e bem ponderada para a importante tarefa de amenizar a pobreza.14 Calvino e os fundadores do diaconato genebrês também eram realistas que consultaram o passado e levaram em consideração a afirmação de Jesus em Marcos 14.7: “Os pobres, sempre os tendes convosco”. Eles viveram no início do movimento da Reforma, aprendendo a partir daquilo que viera antes deles. Modernos defensores da filantropia e da caridade preferem explorar o passado a fim de ver o que ele pode lhes ensinar a olhar exclusivamente para o futuro. Na realidade, se nos pegarmos defendendo práticas notoriamente diferentes daquelas do Fundo de Calvino há cinco séculos, devemos parar e nos perguntar o motivo. Talvez nossos métodos recentes devessem ser considerados suspeitos precisamente à medida que se afastam de boas práticas anteriores na área da assistência social pública. Em resumo, podemos identificar os seguintes princípios da reforma assistencial de Calvino: 1. Era somente para os verdadeiramente desamparados.15 2. Pré-requisitos morais acompanhavam a assistência. 3. Caridade privada ou religiosa, não benefícios estatais, era o veículo para auxílio. 4. Oficiais ordenados administravam os programas de assistência social e apresentavam a prestação de contas. 5. Fundamentos teológicos eram normais. 6. Esperava-se uma ética de trabalho produtiva. 7. A assistência era temporária. 8. A história era valiosa. Ilustrando a filantropia de Calvino, um de seus companheiros reformadores, Martin Brucer, ousou dizer o seguinte a respeito do diaconato: “Sem ele, não pode existir verdadeira comunhão dos santos”.16 Bucer também fez esta observação: “O primeiro dever dos diáconos é fazer a distinção entre os pobres merecedores e não merecedores, perguntando, pois, aos primeiros quais são exatamente as suas necessidades; e aos últimos, se levam uma vida desordenada à custa de outras pessoas e expulsá-los da comunidade de fé. Depois, a atenção deve ser voltada às viúvas necessitadas”.17 Faz-se necessário, tanto para a confirmação da afinidade entre os reformadores quanto da semelhança de pensamento transmitida por Calvino aos seus discípulos, apenas observar as comunidades onde as sementes do Calvinismo brotaram para ver como tal movimento de filantropia se desenvolveu. Nas Ilhas britânicas, o ato de caridade era enfatizado como um dos meios de amenizar a pobreza. John Knox, o qual passou muitos anos cruciais estudando o modelo genebrês de Calvino, deu prosseguimento a essa tradição da Reforma de ministério aos pobres na Escócia. No Second Book of Discipline (1578), ele instituiu o ofício de diácono como função permanente da igreja. Dessa maneira, a tradição calvinista foi estabelecida e era absolutamente uniforme quanto à sua institucionalização do cuidado com os pobres. Tal cuidado era uma função eclesiástica a ser desempenhada por oficiais espirituais de acordo com os padrões e princípios bíblicos. Administrado de modo eficiente em Genebra e em outros lugares, o ministério diaconal atendia os pobres, empregava as doações da igreja, incentivava e ética de trabalho produtiva e reduzia a administração governamental nessa área. Como resume Geoffrey Bromiley: “A resposta à pobreza ainda se encontrava na benevolência exercida de forma particular ou por intermédio da igreja”.18 A partir desse panorama, podemos perceber que diversas organizações de assistência social começaram a se desenvolver pela Europa depois da Reforma protestante. De fato, o diaconato calvinista foi um exemplo em sua manifestação da reforma consistente de fé e vida. Assim, tais protótipos da Reforma se disseminaram e se tornaram catalisadores da reforma na assistência social do século 16. Na realidade, a Reforma “deixou selada na cristandade sua ideia de uma assistência coordenada e administrada aos pobres e necessitados como incumbência da igreja e responsabilidade da comunidade cristã”.19 Trata-se de uma incumbência econômica e comercial, pois a pobreza afeta toda a sociedade. Calvino foi atípico no avanço dessa rede de segurança pessoal particular. Sua filantropia apresenta outro exemplo de como seu coração se compadecia pelos verdadeiramente necessitados. As corretas definições de obra de caridade e pobreza Com a discussão anterior sobre a prática de Calvino em mente, uma discussão informada a respeito da caridade pode ser continuada por meio de uma definição mais precisa daquilo que se qualifica como pobreza. Na sociedade contemporânea, a pergunta “quem são os pobres?” se tornou o ponto central de discórdia tanto para as organizações assistenciais como para organizações comerciais que desejam contribuir para a redução da pobreza. Muito do que passa por “caridade” nos Estados Unidos hoje é, de fato, uma tentativa de legitimar a distribuição da riqueza. Tal tentativa é feita da maneira mais apelativa possível junto aos cidadãos, formulando o problema de tal modo que leve em si o extremo apelo emocional para aqueles que perderão renda. Além disso, a pobreza não é tão difundida no país como a mídia pode representar. O padrão de vida nacional cresceu de maneira drástica no decorrer do último século – para cada grupo econômico. A lacuna entre o que é considerado empobrecimento nos Estados Unidos e o que é considerado empobrecimento nos outros países aumenta dramaticamente desde 1900. O estudo da Heritage Foundation – “Understanding Poverty in America” relata os seguintes fatos a respeito dos “pobres” conforme definidos pelo Departamento de Censo dos Estados Unidos. Ele fornece uma boa oportunidade para levar em consideração a subjetividade da definição de pobreza, visto que: 46% dos “pobres” possui casa própria. 76% possui ar condicionado. Apenas 6% de casas “pobres” são superlotadas. A média dos estadunidenses “pobres” desfruta de mais espaço para viver por metro quadrado do que as pessoas que moram em Paris, Londres, Viena ou Atenas. 97% dos “pobres” possuem televisão em cores, e 62% possuem recepção por cabo ou satélite. 89% dos “pobres” relatam que suas famílias têm o suficiente para se alimentar, enquanto apenas 2% dizem que “frequentemente” não têm o suficiente para comer.20 Compare a visão dos pobres conforme apresentado na Bíblia – homens sem casas, corpo repleto de feridas, famintos, tendo apenas uma túnica para vestir – às condições de muitos dos pobres dos Estados Unidos e a distorção social da definição de pobreza se torna evidente. Ser pobre nos EUA quase sempre implica em “ter menos do que próximo”, em vez de “falta de recursos necessários para a vida”. Por exemplo, pense em um homem que possui uma casa com cinco dormitórios, dirige uma grande SUV e usa um relógio caro. Se o vizinho tem uma casa com apenas dois dormitórios, dirige um carro usado e não pode gastar com um relógio, isso o torna pobre? Embora possa existir uma vasta diferença entre a quantidade de bens que dois homens possuem, não há contexto histórico para rotular o vizinho como pobre. Suas necessidades – alimento, moradia e vestimenta – estão supridas, assim como outros luxos, tais como transporte particular e eletricidade. Além do mais, seu padrão de vida pode ser mantido por meio da oportunidade de emprego. Embora sua condição socioeconômica, talvez, seja inferior à de seu vizinho, ele tem um padrão de vida muito superior ao das pessoas realmente pobres de outras naçõesao redor do mundo. Se um economista aceita o fato de que a condição econômica inferior e a superior sempre estarão presentes entre nós e a erradicação da pobreza é impraticável, a pergunta relacionada à importância da caridade é realmente complicada até certo ponto. É fácil aceitar a caridade e a doação inquestionável aos pobres quando parece que ela fará diferença ou quando é dada por uma instituição subsidiada pelo Estado. Todavia, é muito mais difícil determinar o que pode ser feito a nível individual e pessoal para colaborar com a redução da pobreza. Nesse âmbito, alguém pode fazer perguntas como: Qual é a responsabilidade do indivíduo dentro do sistema econômico com os pobres, e como a obra de caridade pode ser mais bem expressa e mais eficiente em relação tanto aos mandamentos bíblicos quanto à utilidade econômica? Ademais, a responsabilidade econômica nos chama a ir em busca de caminhos eficazes para prover benefícios e crescimento para os pobres. Tanto as exigências bíblicas como as econômicas são atendidas quando os pobres são assistidos em um contexto pessoal e não institucionalizado que requer maior responsabilidade na prestação de contas e permite o progresso por meio do crescimento individual. Nesse espírito, Calvino, por certo, foi sábio ao ir ao encalço da amenização da pobreza. Além disso, enquanto enaltecemos a abordagem de Calvino, também é útil e necessário um breve contraste entre os modelos teóricos e as aplicações práticas de outros sistemas econômicos a respeito da pobreza. Em primeiro lugar, há o randismo,* que vê o altruísmo como algo ruim e não encontra espaço para a caridade em uma sociedade saudável. Sob pressuposições dessa perspectiva, os defensores da economia laissez-faire de livre mercado diriam que a sociedade beneficia mais os pobres ao incentivá-los a melhorar por esforço próprio do que fornecendo donativos. De acordo com essa visão, não existe a base moral necessária para a caridade, e os pobres são entregues a si mesmos. Depois, existe o Capitalismo sólido, que frequentemente é associado ao ponto de vista de Adam Smith. Nesse sistema, o grau de pobreza deve ser reduzido e os pobres devem ser protegidos. O Capitalismo sólido protege os pobres defendendo seus direitos legais e proporcionando-lhes boa infraestrutura, mas não necessariamente mediante transferências monetárias. O capitalista é livre para fazer doação a quem ele julgar merecedor e da maneira que considerar adequada. Tal doação independente é incentivada dentro da sociedade. Em uma sociedade com Capitalismo flexível (como os Estados Unidos de hoje) a obra de caridade é institucionalizada e o governo tem grande parte da responsabilidade de administrá-la. Os negócios devem contribuir para essa amenização centralizada por meio do pagamento de impostos. O governo, então, atua como o principal agente na redistribuição da riqueza e luta para reduzir a pobreza e a necessidade por meio da alocação de receitas fiscais. Em um sistema socialista flexível (como o da Suécia e França), a sociedade decidiu que, no âmbito político, cultural e até legal é essencial que se tenha uma equalização da riqueza e redução das inadequações, mesmo à custa do crescimento econômico conforme definido pelo produto interno bruto (PIB). Aqui, o governo é ainda mais forte. Ele está engajado de maneira ativa na redistribuição da renda, e suas decisões quanto à alocação quase sempre são tomadas em detrimento do crescimento. Em um sistema socialista sólido (marxista), não existem classes sociais. Na teoria, todos estão no mesmo patamar e trabalham para o Estado. Não há necessidade de obra de caridade porque não existe pobreza. Todos são ricos ou pobres ao mesmo tempo. Falando na prática, existem múltiplas distorções dentro de cada sistema econômico. Para a continuação dessa discussão, a ênfase será sobre o Capitalismo flexível, o qual prevalece atualmente nos Estados Unidos. Há três distorções evidentes (e preponderantes) dentro desse sistema em respeito ao tratamento aos pobres. A primeira é o fato de a caridade ser oferecida de modo gratuito, o que desencoraja o crescimento das pessoas menos abastadas. A segunda é a alocação inadequada do dinheiro dos indivíduos para a burocracia. Quando isso ocorre, a burocracia tende a perder o mercado-alvo. Portanto, os pobres não são tratados com eficiência e as doações não servem como um catalisador para o seu retorno a uma condição socioeconômica estável. Além disso, tal sistema está sujeito à corrupção. Um exemplo de larga escala das falhas relacionadas à alocação inadequada do dinheiro é a doação do Banco Mundial para os países de terceiro mundo. Embora bastante generoso, o dinheiro dado de forma gratuita raramente ameniza a pobreza.21 E, por último, existem incentivos e motivações errados sendo impostos pelo governo. Esse é resultado da permissão dada pelos cidadãos ao governo para institucionalizar a doação de caridade e o auxílio à pobreza, que deveria ser uma área de responsabilidade pessoal dos indivíduos. As Escrituras afirmam claramente que tanto os pobres quanto os ricos estarão sempre presentes. O reconhecimento desse fato estabelece limites rígidos aos programas de redução da pobreza e torna a erradicação total inviável. Os calvinistas são receosos de teorias utópicas, logo, tendem a preferir a realidade distópica, mesmo se tal realidade incluir a pobreza. Claro, a tentativa de erradicá-la não deve ser criticada quando realizada por grupos e pessoas independentes. No entanto, a tentativa holística e institucionalizada de fazê-lo e o paradigma teórico que identifica a erradicação da pobreza como um de seus principais objetivos devem ser cuidadosamente analisados. Na verdade, em vista do princípio bíblico de que tanto a riqueza quanto a pobreza estarão sempre presentes, tal empenho sistêmico para a erradicação total do empobrecimento está, com certeza, fadado à frustração e, por fim, ao fracasso na concretização de seu objetivo. Ademais, a pobreza associada ao desemprego (quase sempre a causa mais comum de tal condição) pode ser analisada a fim de indicar uma realidade econômica (além do parâmetro bíblico discutido anteriormente). Ao discutir a pobreza em termos de ciência econômica, muitos teóricos afirmam que os maiores meios para a amenização dessa condição de empobrecimento são os fortes direitos de propriedade e o emprego. Portanto, examinaremos mais adiante o emprego como sendo um substituto da pobreza e, assim, abordaremos questões como: é viável um sistema ter pleno emprego?** E quais são as consequências disso? Certo estudo traz a seguinte conclusão: Não obstante, a pesquisa aponta, de modo extraordinário, a alta mobilidade individual nas economias de mercado, em especial nos Estados Unidos. Ou seja, muitas pessoas vão e voltam da pobreza. Mais de três quartos de todo o período da pobreza são inferiores a dois anos e apenas 7% duram sete anos ou mais (se períodos descontínuos, mas repetidos, forem levados em consideração, a porcentagem dos períodos que duram sete anos ou mais sobe para 20%, porém, o restante desses períodos tem curta duração.) O mesmo padrão se faz presente entre os beneficiários da assistência social, em que cerca de 30% dos casos são crônicos. E, claro, existe a mobilidade dentro da distribuição de renda. No decorrer de uma década ou mais, 86-95% de todas as pessoas no quintil mais baixo da distribuição de renda nos EUA passam para o quintil mais alto, a maioria vindo a ser da classe média.22 Embora Calvino certamentenão tenha quantificado suas ideias dessa forma, seus princípios convergiam para essas mesmas verdades. Sua teologia conduzia a uma amenização da pobreza mais satisfatória do que a assistência social estatista. Suposições incorretas sobre a assistência social: Calvino sabia mais Uma discussão apropriada a respeito da obra de caridade deve abranger a discussão sobre a pobreza. Ademais, nenhum executivo com mentalidade cívica consegue ignorar essa evidente condição pelas ruas. Estima-se que aproximadamente 10-13% do orçamento nacional atual dos Estados Unidos seja mantido pelos impostos incididos sobre o trabalho. Em 2005, o orçamento federal, conforme apresentado pelo Presidente Bush, totalizou US$ 2.4 trilhões, sendo US$ 1.4 trilhão gasto na forma de transferências de renda (seguro social, assistência social governamental, programa de saúde social [Medicaid], seguro desemprego, etc.). Essas quantias são alarmantes. Além de indicarem que a prosperidade é muito mais uma incumbência do trabalho, os números sugerem que devemos solicitar o parecer de bons especialistas comerciais enquanto buscamos proporcionar uma assistência efetiva e eficiente aos necessitados.23 Apesar de as abordagens sem cunho espiritual relacionadas à riqueza talvez considerarem esse tópico desnecessário, Calvino sabia muito mais não somente sobre a solução para a pobreza, mas também sobre a ligação macroeconômica entre pobreza e trabalho. O reformador genebrês também chamou seus associados a serem prudentemente caridosos para com aqueles ao seu redor que tinham reais necessidades. Em seu século e no nosso, as mesmas perguntas foram e devem ser feitas. Como surge a pobreza? Qual é o nível de pobreza? Quem é culpado pela pobreza? E qual o melhor caminho para combater a pobreza? Estas são perguntas fundamentais que cada abordagem, incluindo a de Calvino, deve responder antes de as políticas serem aplicadas. Não é de surpreender que, uma vez esclarecidas as pressuposições fundamentais em relação aos pobres e à pobreza, as decisões sobre a caridade – quanto, onde, por que e quem – já estejam definidas e exijam principalmente a execução. Portanto, as perguntas a serem discutidas são as seguintes: Quais são as convicções fundamentais que permeiam a abordagem da sociedade em relação à pobreza? O que as Escrituras dizem a respeito dessas convicções? Elas estão de acordo com os modelos econômicos e comerciais derivados da Bíblia? Qual é a história econômica de tais convicções? Como essas convicções passam do âmbito econômico para o político e social? Quais são os custos e resultados econômicos dessas pressuposições quando manifestadas em vários sistemas? No decorrer do último século de amenização da pobreza nos Estados Unidos, cinco grandes pressuposições fundamentais impulsionaram o esforço e moldaram o sistema governamental e institucional. Em primeiro lugar, a assistência social governamental baseia-se no conceito de que a pobreza pode ser erradicada. Como observamos acima, todavia, a Bíblia é explícita quando diz que os pobres sempre estarão conosco. Ademais, em nenhum momento durante seu ministério Jesus propôs um plano para eliminação de tal condição. Muitos socialistas cristãos indicam o Sermão do Monte e o alimento dado a cinco mil pessoas como endossos implícitos da redução da pobreza. No entanto, observe que o plano de Cristo era ensinar seus seguidores primeiro, e só depois prover alimento tanto como meio de proporcionar saciamento da fome quanto como instrumento da revelação futura de sua condição como Filho de Deus. Ele não enriqueceu os pobres como um todo; tampouco ordenou que devessem ficar ricos para, assim, ser erradicada a condição de empobrecimento. Apesar das maneiras diferentes – por exemplo, Karl Marx, por meio da coleta em grupo de ativos e do trabalho, e John Maynard por meio de um mercado desimpedido pela anuência da interrupção a curto prazo da política fiscal e monetária – o objetivo principal de eliminar a pobreza se infiltrou aos poucos na mente inconsciente dos engenheiros sociais e líderes políticos do século 20. Uma segunda pressuposição fundamental da abordagem moderna referente à amenização da pobreza é que o dinheiro seja a solução para derrotá-la. O autor Marvin Olasky capta essa ideia de maneira brilhante: “O pensamento materialista [durante a administração de Johnson] era dominante: um oficial administrativo colocou da seguinte forma: ‘A maneira de extinguir a pobreza é dar às pessoas pobres dinheiro suficiente para que não sejam mais pobres.’ O colunista Stewart Alsop escreveu que com US$ 12 a US$ 15 bilhões por ano (2% do produto interno bruto da época) ‘a pobreza poderia ser abolida dos Estados Unidos’”.24 O efeito tem sido um crescimento contínuo na forma de transferências de renda e auxílios diante da ideia de que, com algum número mágico de riqueza redistribuída, os pobres deixarão de ser pobres. Em vista dos axiomas bíblicos concernentes a esse assunto, a frase “dar murro em ponta de faca” salta à mente. Dinheiro não é uma panaceia e esses aumentos contínuos provavelmente trouxeram mais danos do que benefícios em nível individual. Em nível macro, o número de pessoas pobres (conforme definido pelo Departamento de Censo) como parte da população total nos Estados Unidos tem se mantido constante ou levemente acima dos 10%. Ano A taxa de pobreza das famílias 2006 9.8% 2005 9.9% 2004 10.2% 2003 10.0% 2002 9.6% 2001 9.2% 2000 8.7% 1990 10.7% 1980 10.3% 1970 10.1% Fonte: Departamento de Censo dos EUA, Pesquisa da população atual, Suplementos econômicos e sociais anuais. Agência de estatísticas da pobreza e saúde/Divisão HHE, Departamento de Censo dos EUA. O fato de que os pobres sempre estarão presentes não é, todavia, uma justificativa para não se fazer nada; pelo contrário, é uma estrutura realista que contém um mosaico de estratégias efetivas para a amenização da pobreza e para a obra de caridade. Filósofos perspicazes – Calvino, no passado, e muitos outros mais recentemente – já sabem disso há algum tempo. Ao comparar os programas modernos ao empenho em prol da redução da pobreza no passado, Amos G. Warner mencionou o efeito da obra de caridade governamental em um estudo de 1894, fazendo a seguinte observação: Existe certa tendência a reivindicar a assistência pública como sendo um direito, e de os indolentes e incapazes se lançarem diretamente sobre ela. Esse sentimento se fará presente sempre que houver oportunidade. É possível prestar-se tanta assistência a ponto de, enquanto se ajuda um grupo de pessoas, outro seja taxado e tributado até ele mesmo cruzar a linha da pobreza. O peso de sustentar o Estado tende a se difundir pelo caminho mais fácil; consequentemente, o dinheiro levantado para a assistência aos pobres pode vir de bolsos que mal podem poupá-lo.25 Visto que Calvino não esperava que o governo civil fizesse a obra de caridade, suas práticas (e as de períodos anteriores da história) podem ser mais atraentes para as sociedades modernas. A terceira suposição fundamental na abordagem moderna de redução da pobreza é que todos os homens têm direito aos recursos e à liberdade de viver sem passar necessidade. Pode-se especular que essa convicção atual é uma mutação de dois pensamentos aparentemente sem qualquer relação entre si – a natureza do homem e o chamado marxista para diminuir a exploração. No Manifesto Comunista, Marx foi explícito ao dizer que, mesmo em sua visãoutópica, exige-se que todos os homens trabalhem. Ele não fez menção de assistência aos pobres. Como discutido anteriormente, seu interesse era a eliminação da exploração, conforme a compreendia, e a criação de uma economia e sociedade que trabalhariam em conjunto sob a direção do Estado e para benefício dele. Seus inimigos incluíam os capitalistas, os donos de propriedades, a religião e a competição. Seu paradigma endossava, de maneira implícita, o conceito de recursos e benefícios iguais para todos à custa da riqueza. Aliada a essa pressuposição estava a convicção de que o homem é inerentemente bom. O conceito é anterior a Calvino e, conforme relatado acima, está em discordância direta com sua interpretação das Escrituras e com a natureza humana. Entretanto, se um economista, oficial do governo ou assistente social acredita que o homem é bom por natureza, é natural que ele presuma que todos têm o direito nato de ter suas necessidades básicas supridas. Tais ideias formam a base da convicção de que o homem tem direito à assistência e aos recursos. De acordo com o marxismo, a pessoa na condição de pobreza está sendo oprimida e está sendo negado a ela o direito às necessidades da vida. No entanto, a ênfase de Marx sobre a exigência de que todos trabalhem quer dizer que a piedade deve ser demonstrada aos pobres trabalhadores (vítimas da exploração) – não aos pobres que não trabalham. Esse obstáculo foi superado quando a convicção da bondade natural do homem foi introduzida nesse âmbito econômico. Os pobres poderiam, agora, reivindicar abertamente seu direito à assistência (que quase sempre está bem além do básico da subsistência) e não ter obrigação de trabalhar ou de mudar seu comportamento. Se o homem é naturalmente bom ou socialmente merecedor, então, quem é economicamente estável deve socorrer os pobres – ninguém quer que o mocinho pereça ou sofra nos filmes; essa cena final é reservada aos vilões. Portanto, a pessoa só deve aparecer e requerer seu direito à assistência, independentemente de seu comportamento ou decisões pessoais. Afinal, em virtude do ser humana, ela pode esperar que outros tomem por certo sua bondade intrínseca. Essa segunda premissa da moderna redução da pobreza alega a universalidade do merecimento e dos mesmos resultados – duas proposições em discordância com as Escrituras e com o Calvinismo. Visto ter Cristo ensinado a permanência (não solubilidade) da pobreza, devemos considerar em nossas normas o reconhecimento de que a pobreza não pode ser total ou eficientemente erradicada nesta vida. Tal reconhecimento afeta os níveis de expectativa e os objetivos da reforma da assistência social. Por exemplo, se o objetivo é o pleno emprego, a assistência médica universal e a suspensão dos ganhos abaixo de determinado índice anual, isso alterará de forma substancial a reforma da assistência social se comparado à abordagem que enfatiza (como o faz João Calvino) a responsabilidade pessoal, o envolvimento da igreja e a produtividade familiar. O evangelho de João também inclui esse ensinamento como um dos últimos do ministério de nosso Senhor no mundo. No texto de João 12.6, encontra-se a afirmação de que Jesus não era indiferente aos pobres. Jesus respondeu a Judas da maneira como respondeu, em parte, porque ele era um ladrão. Porém, mais uma vez, o mestre reiterou: “Deixa-a!... os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” (Jo 12.7-8). A fidelidade a Jesus e aos seus ensinamentos é uma prioridade ainda maior do que a redução da pobreza. Trata- se de um objetivo absoluto. Jesus não estabeleceu nem casas assistenciais, nem Missões da União, nem meios de assistência social. No tocante às suas atividades, ele parecia estar convencido de que a pobreza continuaria como parte da condição humana e não instituiu meios definitivos para sua extinção. Jesus também afirmou que nosso sustento material é oriundo da providência divina. De acordo com Mateus 6.25-34, ele ensinou que as provisões da vida são dadas aos pássaros, às flores e, por extensão, aos seres humanos pela providência de Deus. Seja qual for nosso destino na vida, seja ele ligado à riqueza ou à pobreza, nossa condição deve ser vista como fluindo a partir da provisão ativa de Deus em nossa vida. Não temos de comparar nossos bens com os de outras pessoas; tampouco devemos nos preocupar com aparentes necessidades. Em vez disso, os cristãos ligados corretamente ao Criador-Provedor devem confiar nele e, depois, agir com responsabilidade. Esse resumo do ensinamento bíblico ressalta o fato de que as pressuposições afetarão as diretrizes. A expectativa final determina os meios adotados. William Willimon reitera tal fato quando diz: Toda filantropia procede de uma visão de mundo. Os nazistas tinham um sistema extensivo de assistência social. Quando os médicos nazistas ajudaram a exterminar aqueles que foram julgados como “deficientes mentais”, eles o fizeram por motivo filantrópico. Tais médicos não consideravam que estavam fazendo algo mau, e sim algo bom para aqueles “menos afortunados”. De semelhante modo, o Presidente que apoiou as mudanças no programa nacional de assistência social porque “elas tirariam os pobres das listas de assistência social e os tornariam pagadores de impostos” estava agindo com base em razões filantrópicas. A filantropia cristã surge a partir de nossas afirmações a respeito da natureza de Deus. As parábolas contadas por Jesus tinham por objetivo descrever um Deus que, pelos nossos padrões, é efusivo, exagerado e, portanto, peculiar. A filantropia cristã deve proceder a partir dessa descrição peculiar de como o mundo é.26 Sendo assim, nossa atitude em relação à pobreza é: (1) evite-a se você puder; (2) procure ajudar outras pessoas; e (3) sempre preste assistência de modo a seguir os ensinamentos bíblicos. Os negócios bem-sucedidos e as igrejas caridosas têm um papel importante a desempenhar na redução da pobreza, porém, antes de iniciar uma nova jornada, líderes responsáveis podem querer consultar Calvino sobre esse assunto. Um calvinista moderno faz um resumo da seguinte maneira: “Aqueles que dão ajuda material sem requerer sequer um mínimo retorno são considerados uma ameaça à verdadeira compaixão, tanto quanto aqueles que viram as costas para o próximo e para seus irmãos”.27 Calvino e seus adeptos não encontram um direito universal à assistência em suas escrituras normativas. Um corolário de apoio quanto ao direito do homem à assistência e a quarta suposição fundamental da moderna redução da pobreza é o fato de o homem não ser responsável por sua condição desfavorável. Conforme discutido anteriormente, Marx via muitos dos anseios do ser humano como resultado da exploração e competição, e nenhuma das situações estava sob controle do indivíduo. Em essência, a exploração e competição diminuem a responsabilidade pessoal. Durante o século 19 e início do século 20, predominou uma atitude diferente, a saber, o homem era responsável por sua condição social, e suas ações e decisões eram fatores de sua posição atual ou componentes para sua futura saída da pobreza. Todavia, no final da década de 60, teóricos sociais começaram a pregar um evangelho com base na premissa de que os pobres são vítimas. Não se analisavam mais os comportamentos, hábitos e decisões do passado; em vez disso, a “sociedade” se tornou o bode expiatório. Faça a ligação da convicção de que o homem é inerentemente bom à ideia de que ele não é responsável por sua situação difícil; depois, acrescente as afirmações de que as únicas fontes do mal são as distinções sociais entre o senhor e o servo,o rico e o pobre, e o senhor da terra e o sem-terra; o resultado final é a distribuição de bens a todos em razão de ordens morais. Em tal cenário, todos são pesados e medidos, exceto o ator central – os pobres. Sob essa perspectiva na qual a sociedade é vista como culpada, é incumbência dela encontrar soluções. Não apenas isso, mas, se a culpa for aceita e confessada, a sociedade não tem direito de pedir aos pobres que mudem seu comportamento. Como facilitadores finais, os assistentes sociais sorriem em sinal de aprovação para as decisões dos pobres e o comportamento antissocial. Sem culpa, vergonha ou pressão para trabalhar e sem obrigação de atender a padrões mínimos da sociedade civilizada (sem mencionar alimento, moradia, assistência médica e materiais de leitura gratuitos), quem iria querer mudar? Essa é precisamente a quarta suposição da moderna macrovisão da pobreza – a compaixão não requer mudança ou responsabilidade presente. A prática de conceder valor monetário aos pobres em forma de transferências com base na convicção de que nunca foram responsáveis por sua condição desfavorável foi reconhecida no século 19 como a principal causa externa da pobreza contínua. De 1818 a 1824, a cada ano a Society for the Prevention of Pauperism in the City of New York, grupo cujo objetivo era combater a escassez de todos os tipos, publicou em seu relatório anual uma lista das dez causas da miséria. As três primeiras eram ignorância, ociosidade e intemperança; depois vinham o “desejo de economizar”, os casamentos imprudentes e precipitados; e os jogos de azar, seguidos por três causas institucionais – penhoristas, prostíbulos e cassinos. Essa lista com ênfase nos fracassos pessoais e atrações institucionais exemplificava a corrente predominante do pensamento social da época, porém, a Society também identificou um novo elemento: a décima causa era “as instituições de caridade que davam dinheiro de maneira muito liberal”. Não havia muitas delas, mas, em uma economia crescente, qualquer facilidade para obtenção de subsídio era vista como moral e materialmente destrutiva.28 A ordem do apóstolo, “se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10), era um princípio prudente de responsabilidade que foi compreendido nos primeiros anos de redução da pobreza nos Estados Unidos. De fato, em meados do século 19, formou-se um novo grupo, a New York Association for Improving the Condition of the Poor, com a finalidade de tentar resolver os problemas relacionados à falta de responsabilidade e à caridade desmedida. A quinta suposição: A devolução da obra de caridade, delegando-a ao Estado Nas Escrituras, a hierarquia do assistencialismo é clara: deixar a família sustentar as viúvas e os órfãos primeiro (1Tm 5.1-8); se a família não se apresentar, a igreja deve mantê-los; e os métodos burocráticos exteriores de assistencialismo devem ser disponibilizados somente como último recurso. Esse modelo foi promulgado por Calvino e aparece por todos os sermões nas colônias estadunidenses até o início do século 19. Ademais, como observa Marvin Olasky: O princípio final de combate à pobreza antes de 1800 era a ênfase nos relacionamentos familiares. Tal compreensão também se refletiu nas primeiras leis dos Territórios do Noroeste, as quais decretavam que pais, avós e filhos de “toda pessoa pobre, velha, cega, coxa e incapaz, ou outra pessoa pobre não apta a trabalhar” deveriam “assistir e sustentar tal pessoa”, salvo se eles próprios não tivessem condições financeiras. Esses parentes diretos que não ofereciam tal apoio eram penalizados com severidade.29 No entanto, para aquelas pessoas sem família, a igreja e suas várias associações e trabalhos assistenciais se tornaram um refúgio. Durante os séculos 18 e 19 e a primeira metade do século 20, a maioria das obras de caridade era financiada e particularmente organizada e liderada por um exército de voluntários que não só davam liberalmente o seu dinheiro, mas também sacrificavam seu tempo e energia emocional para se comprometerem com os pobres, torná-los responsáveis, suprir suas necessidades imediatas e prepará-los para a vida livre da pobreza. Todavia, à medida que as necessidades aumentavam, a reivindicação pelo envolvimento governamental se intensificava. Talvez, conforme o grau de envolvimento do governo aumentasse, o sentimento de obrigação pessoal de mais de um voluntário diminuísse e eles decidissem deixar o governo controlar ainda mais o processo. “O sentimento geral era que muitos programas religiosos haviam sido secularizados de modo efetivo e, com ele, foi-se o entusiasmo do sacrifício para mantê-los em andamento. Parecia não haver razão, exceto a ‘mesquinhez conservadora’, para contrapor-se à instituição de um novo e massivo sistema de assistência controlado pelo governo. Parecia haver poucos motivos para levar a sério o esforço voluntário”.30 Ao longo do tempo e com imensa disposição, o bom senso convencional tornou-se o endosso ao governo como sendo a melhor entidade para liderar e coordenar o empenho em prol da redução da pobreza em âmbito nacional. Essa veio a ser a quinta suposição dessa moderna redução, ou, como colocou Olasky: “A tendência era clara: em qualquer momento que a ênfase da caridade passasse de uma pessoa para a massa e de almas a pedras, o governo se tornaria o propulsor popular do progresso”.31 Independentemente de se o governo está ou não mais bem posicionado para conduzir o assistencialismo da maneira correta, o efeito secundário foi o afastamento do envolvimento pessoal em direção a uma visão “transacional” dele. Por que se envolver com os desabrigados locais quando a culpa pode ser abrandada por meio de um imposto retido mensalmente que, por fim, alcançará os “menos afortunados”? Enquanto o papel do governo aumenta, a convicção de que ele é o mais bem preparado para lidar com a pobreza se consolida na percepção nacional. “Os problemas de suprimento (de organizações de assistência social privada) também foram resultado de uma tendência à contribuição impessoal a longo prazo. A filantropia havia se tornado ‘tão fria quanto o pagamento dos impostos’, com o jornalista Alan Herrich fazendo a seguinte observação: ‘Na realidade, os objetivos de ambos são quase sempre os mesmos’”.32 Enquanto Calvino suplicava que todos os cristãos amassem o próximo como a si mesmos, a recente institucionalização da redução da pobreza tornou mais conveniente simplesmente pagar os impostos ao governo e deixar outra pessoa qualquer lidar com o próximo. Essas cinco suposições fundamentais sobre a pobreza não abrangem a totalidade do empenho em prol de sua redução nos Estados Unidos; tampouco restringem a obra de caridade. No entanto, os conceitos abaixo são diretamente contrários à teologia e ao espírito do Calvinismo. 1. A pobreza pode ser erradicada. 2. O homem tem direito ao sustento. 3. O homem não é responsável por sua condição econômica desfavorável. 4. A compaixão não requer responsabilidade e mudança. 5. O governo é a instituição mais adequada para conduzir os esforços de combate à pobreza. Ademais, não se trata de um experimento improdutivo; custos e efeitos resultaram dessas suposições. Estas cinco premissas estão destacadas aqui como demonstração de uma ideologia básica empobrecida e da perda que há para todas as partes da equação – os pobres, o assistente social, o governo e aqueles que não são pobres. Uma análise completa das consequências negativas dessas cinco premissas está além do escopo deste livro, porém, um breve apontamento de seus efeitos ruins é um argumento com lógica autocomprobatória. Dentre eles estão: (1) corrupção;(2) ineficiência; (3) o entrincheiramento dos assistentes sociais “profissionais” e das organizações governamentais; (4) a distorção da tributação; e (5) a “politização” da redução da pobreza. Mesmo nos séculos 18 e 19, os trabalhadores estavam sempre cientes e operando contra aqueles que “jogavam com o sistema” e apareciam em vários centros a fim de receber auxílio desnecessário. Esses corruptos eram tão adeptos das “rondas” que o coloquialismo “rondador” entrou no léxico de muitas instituições de caridade especificamente para descrevê-los. No caso de determinada cidade, cerca de 70 receptores da assistência patrocinada pelo governo possuíam mais bens (em termos de casas e carros) do que a média de moradores da comunidade que não eram pobres.33 A falta de responsabilidade associada a uma consciência sentimental e cheia de culpa cria um poderoso incentivo para indivíduos que prefeririam tirar de outras pessoas a mudar seu estilo de vida. Não levando em consideração os argumentos relacionados ao sistema de tributação progressiva nos Estados Unidos, existem muitos pontos negativos implícitos no levantamento de fundos pelo Estado a fim de assistir os pobres e necessitados. Pense, por exemplo, no programa de bolsa de estudos da HOPE na Geórgia, cujo suposto objetivo é proporcionar isenção de mensalidade aos estudantes no Estado. De acordo com o website do patrocinador, a bolsa de estudos da HOPE é “um programa educacional para premiar alunos que obtiveram boas notas, ajudando-os com as despesas para o prosseguimento de seus estudos depois de se formarem no Ensino Médio. O HOPE pode ser utilizado nas escolas técnicas públicas e nas faculdades e universidades qualificadas, públicas ou privadas, na Geórgia”.34 Para muitos, trata-se de um programa de mensalidade meritocrático que une os requisitos de residência no Estado e a nota média contínua. No entanto, existe também um programa HOPE Grant que oferece isenção total de mensalidade para qualquer aluno que deseje se formar em uma escola técnica da Geórgia, independentemente da nota média. À primeira vista, esse é o programa ideal para ajudar os pobres que desejam estudar mais. No entanto, o HOPE é financiado pela Georgia Lottery for Education. Inúmeros estudos sobre as lotéricas do Estado indicam que, em base absoluta, os jogos de azar são jogados constantemente por todas as faixas de renda. Contudo, quando visualizada em base relativa, os participantes das faixas de menor renda destinam uma parte maior de seu salário aos jogos. Aqueles que têm um valor disponível bem menor estão gastando uma porcentagem maior de seu dinheiro. Trata-se de um círculo vicioso com potencial de trazer pessoas de baixa renda para debaixo da ajuda genérica do Estado.35 Outros tributos furtivos impostos a todos os cidadãos, incluindo os pobres e os mais ou menos pobres, incluem impostos sobre a propriedade, impostos sobre o tabaco e impostos gerais sobre venda. Portanto, embora um grupo esteja recebendo ajuda em determinada área (seja educação, alimentação, moradia ou serviços médicos), outro grupo – ou até o mesmo grupo que recebe a ajuda – esteja sendo taxado de alguma outra forma. Citando mais uma vez o estudo feito por Amos Warner, em 1894: “O peso de sustentar o Estado tende a se difundir pelo caminho mais fácil; consequentemente, o dinheiro levantado para a assistência aos pobres pode vir de bolsos que mal podem poupá-lo”.36 Dessa maneira, aquele que controla o dinheiro pode controlar as pessoas. Nathaniel Ware, depois de resumir, em 1845, sua interpretação a respeito da queda de Roma, infelizmente previu que o sistema de assistência social governamental estadunidense, cedo ou tarde, seria desenvolvido, pois os funcionários públicos gostavam de recorrer aos eleitores pobres, os quais poderiam lhes dar não apenas o poder de distribuir grandes quantias de dinheiro, mas também o patronato que acompanhava a despesa. Ware observou que os funcionários com mais poder se tornariam mais importantes e seriam mais bem remunerados.37 Na análise final, alguns pobres estão aqui para ficar. Segundo a provisão de Deus, eles devem se alegrar com seu chamado e aceitar seu destino, o qual, para alguns, pode ser muito mais “abundante” do que o dos banqueiros investidores de Wall Street. Os abastados são chamados a serem ricos em “boas obras” e a cuidarem das viúvas e dos órfãos. Nenhum dos custos ou inadequações deve servir como motivação para o descompromisso para com os pobres e a obra de caridade. Pelo contrário, uma perspectiva econômica digna do espírito de Calvino precisa ponderar com cautela as decisões a serem tomadas e determinar se elas estão mais de acordo com o pensamento bíblico sobre a natureza do homem e sua condição desfavorável ou com as suposições errôneas típicas dos modernos programas de redução da pobreza. Muitos gastos do assistencialismo governamental não confirmam necessariamente a dimensão do sofrimento que precisa ser amenizado; todavia, podem indicar a lassidão ou corrupção por parte dos funcionários públicos e a disposição por parte dos indolentes saudáveis fisicamente de serem supridos à custa do dinheiro público.38 Um antídoto para tamanha debilidade estrutural é a abordagem que invoca o setor privado, enfatizando a obra de caridade de pessoas voluntárias sobre o subsídio proveniente de governo impessoal, a agir em prol da redução da pobreza. As frequentes exposições de Calvino sobre o amor pelo próximo o levaram, assim como a seus seguidores, a estender o círculo da filantropia. Associado ao crescimento dos lucros e às bases de ativos, o espírito caridoso do Calvinismo levou a uma era de filantropia, a qual foi planejada para partir de indivíduos e famílias em direção a lugares verdadeiramente necessitados a fim de estimular o desenvolvimento profícuo. Todavia, no decorrer do tempo, a abordagem à redução da pobreza foi transformada por pensamentos maiores de igualdade social e “justiça”. A profunda ética comercial de Calvino se adequará melhor a sistemas ou práticas que trabalhem a fim de eliminar as suposições falsas sobre a pobreza que têm surgido ao longo dos últimos cinquenta a sessenta anos. Notas * Termo ainda não muito difundido fora dos EUA que remete às visões políticas de Rand Paul (N. da T.) ** Expressão da área de Economia que se refere à utilização de toda a mão de obra disponível a preço de equilíbrio (N. da T.). 1 A mais recente história da Universidade de Genebra reconta diversas histórias de fracasso, incluindo uma em 1420, sob autoridade católica romana, e a tentativa de François de Versonnex, em 1429. Veja Marco Marcacci, Histoire de l’Université de Genève: 1559-1986 (Genebra: University of Geneva, 1987), p. 17. Para a pré-história da Academia de Genebra, veja também William G. Naphy, “Reformation and the Evolution of Geneva’s Schools”, em Reformations Old and New: Essay on the Socio-Economic Impact of Religious Change, c. 1470-1630, Beat Kümin (org.) (Londres: Scolar Press, 1996), p. 190-193. Até pouco tempo, Charles Borgeaud, Histoire de l’Universitè de Genève (Genebra, 1900) era a história padrão. 2 E. William Monter, Calvins’s Geneva (Nova York: John Wiley & Sons, 1967), p. 112. As aulas da schola privata começaram no outono de 1558 e as da schola publica começaram em novembro de 1558. Marcacci, Histoire de l’Universitè de Genève (Genebra, 1900), p. 17. 3 Os registros públicos de 17 de janeiro de 1558 referem-se ao estabelecimento da escola de nível fundamental e médio com três cursos (Teologia, Filosofia e Grego). Avisos também foram dados recomendando-a como sendo um recebedor digno de heranças.Veja Henry Martyn Baird, Theodore Beza: The Counsellor of the French Reformation, 1519-1605 (Nova York: G. P. Putnam’s Sons, 1899), p. 104. 4 Donald R. Kelley, Francois Hotman: A Revolutionary’s Ordeal (Princeton: Princeton University Press, 1973), p. 270. 5 Baird, Theodore Beza, p. 106,113. 6 Sobre essa ligação intrigante, veja meu resumo em The Genevan Reformation and the American Founding (Lanham: Lexington Books, 2003), p. 2-4. Agradeço ao Dr. James H. Huston por essa anedota, a qual ele apresenta em sua obra, The Sister Republic: Switzerland and the United States from 1776 to the Present, 2ª ed. (Washington, DC: Library of Congress, 1992), p. 68-76. 7 Jeannine Olson, Calvin and Social Welfare: Deacons and the Bourse Française (Selinsgrove: Susquehanna University Press, 1989), p.11-12. 8 João Calvino, Calvin: Theological Treatise, J. K. S. Reid (org.) (Filadélfia: Westminster, 1954), p. 64. 9 Ibid., p. 65. 10 Ibid., p. 66. 11 Geoffrey Bromiley, “The English Reformers and Diaconate”, em Service in Christ: Essays Presented to Karl Barth on his 80th Birthday, James I. McCord e T. H. L. Parker (orgs.) (Londres: Epworth Press, 1966), p. 113. 12 Cf. Mary Crumpacker, “Ecclesiastical Ordinances, 1561”, em Paradigms in Polity: Classic Readings in Reformed and Presbyterian Church Government, David W. Hall e Joseph H. Hall (orgs.) (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), p. 148-149. 13 Olson, Calvin and Social Welfare, p. 39-40. 14 Ibid., p. 104-106. 15 O diaconato genebrino percebeu rapidamente que deveria fazer uma triagem entre os receptores. Uma razão era o fato de os recursos serem finitos. Grupos beneficentes que percebem não serem os recursos infinitos também veem a necessidade selecionar os candidatos, pois cada dinheiro dado é uma oportunidade não necessariamente renovável. 16 Basil Hall, “Diaconia in Martin Butzer”, em Service in Christ, p. 94. 17 Ibid. 18 Bromiley, “The English Reformers and Diaconate”, p. 113. 19 James Atkinson, “Diaconia at the Time of the Reformation”, em Service in Christ, p. 88. 20 Robert E. Rector e Kirk A. Johnson, “Understading Poverty in America”, Heritage Foundation Backgrounder, n° 1713, 5 de janeiro de 2004, postado em: http://www.heritage.org/research/welfare/bg1713.cfm. 21 Para mais informações, veja as recentes obras de William Easterly, Reiventing Foreign Aid (Cambridge, MA: MIT Press, 2008) e White Man’s Burden: Why the West’s Efforts to Aid the Rest Have Done So Much III and SO Little God (Nova York: Penquin Press, 2006). 22 Peter Gottschalk, Sara McLanahan e Gary D. Sandefur, “The Dynamics and Intergenerational Transmission of Poverty and Welfare Participation” (1994) e John H. Hinderaker e Scott W. Johnson, “Inequality: Should We Worry?” (1996), citado em John E. Stapleford, Bulls, Bears & Golden Calves: Applying Christian Ethics in Economics (Downers Grove: InterVarsity Press, 2002), p. 53. 23 Em 2005 (os últimos dados completos disponíveis), US$ 312 bilhões em receita fiscal foram declarados por corporações estadunidenses públicas e privadas. Ademais, os Estados Unidos gastaram US$ 1.4 trilhões no mesmo ano na forma de transferência de renda – US$ 545 bilhões em segurança social e invalidez, US$ 653 bilhões com os seguros de saúde – Medicare e Medicaid – e US$ 157 bilhões em assistência social governamental. Os impostos incididos sobre o trabalho contabilizaram 21% na forma de transferências de renda federal em 2005 ou 13% de todo o orçamento federal. Além disso, muitas corporações são classificadas como entidades de “repasse” (Subchapter S corporations, LLCs, LLPs, etc.) e são tributadas nas declarações de imposto de renda de pessoa física dos acionistas. Fontes: Internal Revenue Service, Statistics of Income, Final Corporatuon Income Tax Return: 2005 (Washington, DC: Internal Revenue Service, 2008); Census Bureau, Statistical Abstract of the United States: 2008 (Washignton, DC: Government Printing Office, 2007), tabela 522; e Office of Management and Budger, Budget of the United States Government: Fiscal Year 2005 (Washington, DC: Government Printing Office, 2004). 24 Marvin Olasky, The Tragedy of American Compassion (Wheaton: Crossway Books, 2008), p. 174. 25 Citado em ibid., p. 111. 26 William H. Willimon, “The Effusiveness of Christian Charity”, Theology Today 49, n° 1 (Abril de 1992): p. 75-76. 27 Olasky, The Tragedy of American Compassion, p. 21. 28 John Griscom, The First Annual Report of the Managers of the Society for the Prevention of Pauperism in the City of New York (Nova York: J. Seymour, 1818), p. 12-22, citado em Olasky, The Tragedy of American Compassion, p. 17-18. 29 Olasky, The Tragedy of American Compassion, p. 13. 30 Ibid., p. 149. 31 Ibid., p. 129. 32 Ibid., p. 150. 33 “Em Johnson, Rhode Island, isso significa que 73 pais de crianças inseridos no programa de combate à pobreza possuíam mais bens – 58 casas e 113 carros – do que os típicos moradores que não são considerados pobres.” Merrit Ierley, With Charity for All (Nova York: Praeger, 1984), p. 174, citado em http://www.heritage.org/research/welfare/bg1713.cfm Olasky, The Tragedy of Amercian Compassion, p. 179. 34 Veja www.gacollege411.org. 35 Veja, por exemplo, Texas Lottery Commission, “Demographic Study of Texas Lottery Players” (relatório preparado a partir de dados compilados pelo Earl Survey Research Laboratory, Texas Tech University, 2005). Este estudo mostra as pessoas com rendimento inferior a US$20.000 por ano gastando 4.59% da renda todos os anos. O grupo que recebe entre US$20.000 e US$ 29.000 gastou 4.38% da renda anualmente. Para os dois níveis de maior renda (US$76.000 a US$ 100.000 e superior a US$100.000), a quantia gasta em jogos foi inferior a 1% da renda anual. Talvez esses dados revelem que todos os homens são igualmente tentados pelo engodo do dinheiro fácil, porém, os “pobres” sofrem um impacto maior na renda obtida na base relativa. 36 Citado em Olasky, The Tragedy of American Compassion, p. 111. 37 Ibid., p. 48. 38 Ibid., p. 64. http://www.gacollege411.org 5 Santificação e serviço A filantropia, ou o amor pelo ser humano, é tanto um tema quanto um produto do pensamento econômico de Calvino. Ele constantemente ressaltava que o objetivo de uma pessoa não era o mero consumo ou acúmulo de ativos econômicos. Pelo contrário, o reformador acreditava que aqueles a quem muito foi dado têm, em resposta, a responsabilidade de cuidar e doar com generosidade àqueles que têm pouco. Obviamente, não se trata de um sistema de redistribuição moderno. Para Calvino, contribuir com outras pessoas era uma atividade particular ou eclesiástica, não uma prerrogativa governamental. Ainda hoje, suas várias advertências com relação ao acúmulo excessivo de muitos bens podem fornecer o equilíbrio tão necessário para os cristãos atuantes no comércio. Com um chamado à filantropia – o qual pode ser entendido como utilização estratégica da riqueza concedida por Deus para ajudar outros, contextualizado pela prévia responsabilidade de sustentar a própria família e a igreja – os calvinistas começaram a estabelecer instituições educacionais, artísticas e comerciais que perdurariam por muitas gerações. Tal contribuição a longo prazo, ou a utilização dos bens para multiplicar as consequências boas para as gerações futuras, se tornaria o selo da generosidade calvinista. A igualdade social é o objetivo? Neste momento, podemos levantar uma questão legítima: Calvino ou as Escrituras defendia ou defende uma sociedade sem classes sociais? Embora os cristãos, em muitos séculos, tenham utilizado uma variedade de versículos das Escrituras para reiterar a verdade de que nenhuma pessoa é intrinsecamentemelhor do que outra (alguns falam sobre a incorruptibilidade do céu, outros falam sobre a igualdade na igreja e outros, ainda, falam sobre a intenção de Cristo de fazer do último o primeiro e vice-versa), o ensinamento das Escrituras, contudo, não é que a família, a igreja ou a sociedade estarão rigorosamente livres de distinções de algum tipo – pelo menos, não até a maldição da queda ser redimida por completo. Alguns textos bíblicos são mais utilizados do que outros quando se trata desse assunto. Ao comentar o texto de Atos 2.44, Calvino repudiou de maneira explícita aqueles que negavam o direito de propriedade privada, associando essa visão às “tolices dos anabatistas e fanáticos”, os quais ensinavam que o direito de propriedade privada era algo errado. Calvino observou que o autor do texto, se entendido de maneira correta, não “ordenou uma lei que todos devem necessariamente seguir em relação às ações das pessoas em quem o Espírito Santo se manifestou de forma singular”.1 A realidade das diferentes classes econômicas está entretecida no decorrer das narrativas bíblicas e nunca há um pedido para que seja criada uma sociedade sem classes sociais. Tampouco se espera que os cristãos ajam como se os ricos entre eles não fossem ricos ou os pobres não fossem pobres. A expectativa de que as distinções entre rico e pobre desaparecerão da terra não provêm das Escrituras. Por outro lado, a doutrina da providência ajuda a esclarecer as questões da pobreza e da riqueza. A algumas pessoas é dado – por designação de Deus – mais do que a outras, e isso não é mensuração nem de mérito nem de aprovação divina de justiça. O soberano Senhor pode conceder as quantias e os ativos que deseja dar de acordo com seu plano; os resultados não são necessariamente iguais. Por sua provisão, ele pode, de maneira justa, dar menos àqueles que o obedecem e muito àqueles que não o fazem. Argumentos piedosos à parte, não passa de cobiça humana esperar que todas as pessoas tenham o mesmo nível de ativos. Deus parece bastante confortável em prover bens diferentes para serem utilizados por cada pessoa para sua glória. De semelhante modo, a religião bíblica, em especial o Protestantismo de Calvino, identifica as responsabilidades implícitas no fato de Deus ter, de maneira providencial, organizado as diferentes classes sociais na terra. Em vez de tentar arruinar todas elas, João Calvino conclamou as pessoas a aceitarem a providência do Pai, a ofertarem com generosidade ao próximo e acharem contentamento naquilo que Deus dá. A liberalidade também é incentivada repetidas vezes nos comentários de Calvino. Enquanto desaprovava a mínima oferta possível, ele advertia: “Porquanto o que nos torna mais sovinos do que deveríamos ser é – quando olhamos com extremo cuidado e muito adiante, contemplando os perigos que podem vir a acontecer – quando somos extremamente precavidos e cuidadosos – quando calculamos de maneira minuciosa aquilo de que necessitaremos durante toda a nossa vida, ou, in fine, quanto perdemos quando a menor parte é retirada”.2 Similarmente, nos comentários sobre o texto de 2Coríntios 8.13, ele destacou que é “nossa parte nos incitarmos, de tempos em tempos, à liberdade, porque não devemos ter tanto medo de ultrapassar os limites nesse quesito. O perigo está ao lado do exagero (mesquinhez)”.3 Calvino se aproveitou da ocasião para denunciar, mais uma vez (como havia feito em seus comentários sobre Atos 2), a visão dos “fanáticos” que acreditavam que os homens deveriam se despojar “de todas as coisas de modo a tornar tudo comum”.4 Seguindo adiante com sua interpretação de 2Coríntios 8, Calvino, a seguir, deu início a uma importante discussão a respeito do significado de igualdade (em grego, isotēs). Calvino concordava com Aristóteles sobre o significado essencial desse termo como se referindo à “igualdade de direito proporcional” ou oportunidade “de acordo com as posições sociais dos indivíduos e outras circunstâncias”.5 Fazendo alusão ao texto de Colossenses 4.1, o reformador esclarece que a igualdade bíblica não acarreta na mesma uniformidade de condição ou posição social, mas requer “humanidade e clemência” em nossa maneira de tratar todas as pessoas, incluindo os servos: “Assim, o Senhor nos recomenda a proporção dessa natureza, que possamos, conforme permitem os recursos de cada um, ajudar o indigente”.6 Calvino acreditava que, dentro da igreja, essa mutualidade produziria uma imagem de “simetria condizente, mesmo alguns tendo mais e outros menos”.7 Independentemente da classe social à qual pertencemos, somos todos chamados para enfrentar a vida sem amargura, inveja, orgulho ou glutonaria. A igualdade de valor intrínseco é concedida, porém, níveis desiguais de riqueza fazem parte da providência divina, a qual não deve ser desprezada ou afrontada. Para o Estado, uma possível chance de simular a ausência de classes sociais é impor o pleno emprego. Não se faz necessária uma pesquisa enfática, todavia, para entender que o pleno emprego é, na realidade, estruturalmente instável e está abaixo do ideal. A teoria econômica básica identifica quatro tipos de desemprego: o cíclico, o friccional, o clássico e o estrutural. O desemprego cíclico ocorre a qualquer momento quando a plena produção hipotética não é atingida. Quase sempre, pode ser resultado do baixo consumo e diminuição da demanda. Como consequência, é considerado parte do ciclo comercial e, como tal, não pode ser eliminado na prática. O desemprego friccional é aquele que ocorre entre empregos. Na maioria dos casos, é voluntário e temporário, enquanto o empregado procura um trabalho melhor. O desemprego estrutural é o resultado direto de mudanças na economia. Quase sempre esse tipo de desemprego resulta de avanços tecnológicos ou de alterações drásticas na demanda. Ele é natural (e, de modo geral, o efeito colateral do progresso) e não pode ser eliminado de forma prática. Por fim, o desemprego clássico ocorre quando a oferta de trabalhadores excede a demanda. Esse tipo de desemprego é quase sempre combatido por leis salariais e ações afirmativas. Olhando para os tipos de desemprego, fica evidente que o pleno emprego não é plausível nem o ideal. Ademais, o desinteresse pelo pleno emprego pode ser resumido por três razões – sendo as duas primeiras referentes ao desemprego friccional. A primeira delas é o fato de haver empregados que optarão por investir em si mesmos por meio da educação ou de treinamento adicional. Segunda, os empregados tentarão maximizar seu potencial de ganho ou satisfação profissional por meio das mudanças de carreira. Terceira, a mão de obra especializada é absolutamente necessária em um sistema econômico bem- sucedido. Se um sistema econômico ordena ou requer pleno emprego, os resultados se revelarão caóticos devido à necessidade de mão de obra especializada. O pleno emprego pode empregar um ex-advogado desempregado como encanador. O encanador, talvez, tenha de começar a cuidar de grama como sendo sua profissão, e os jardineiros, talvez, tenham de começar a trabalhar como seguranças. Haveria uma frustração crescente com os sacrifícios demandados para suprir essa demanda. Assim como o sonho da ausência de classes sociais, o objetivo do pleno emprego é uma tábua de apoio em uma plataforma utópica que não está de acordo nem com o Calvinismo nem com a realidade econômica a longo prazo. Embora algumas teologias enfatizem mais que o Calvinismo a nobreza do trabalho e do emprego, a perspectiva calvinista vê claramente quea providência é uma força condutora e que inevitavelmente existirão períodos com menos oportunidades em relação ao pleno emprego. Providência Por certo, Calvino tratava do assunto providência de modo proeminente. Referências a essa verdade vital estão entrelaçadas por quase todos os capítulos das Institutas. Essa noção está tão presente no coração de Calvino a ponto de não conseguirmos compreendê-lo por completo se a ignorarmos. Desde o princípio de sua grande obra, o reformador tentou esclarecer que providência não deve ser confundida com destino cego. Calvino a visualizava como “o domínio de Deus estendido a todas as suas obras”, a qual “não é uma sorte vã e ociosa, mas uma sorte vigilante, eficiente e ativa, engajada em uma atividade incessante” (Institutas, 1.16.3). Ele negava que Deus, em vão, observa do céu, e entendia a providência como “algo pelo qual, como aquele que detém a chave, governa todos os acontecimentos. Portanto, devemos provar, assim, que Deus cuida da regulação dos acontecimentos individuais, e todos eles, de igual modo, procedem de seus planos e nada acontece por acaso” (1.16.4). Mais adiante, Calvino afirmou que “nada acontece senão pela ordem ou permissão de Deus” (1.16.8), e, aplicando tal afirmação ao exemplo da morte de um comerciante, ele explicou: “Sua morte não só foi prevista aos olhos de Deus, como também determinada pelo seu decreto. Porquanto não é dito ter ele previsto quanto tempo de vida cada homem teria, mas ter ele determinado e fixado os limites dos quais os homens não passariam [Jó 14.5]” (1.16.9). Portanto, os cristãos devem visualizar “a morte desse tipo como providência de Deus exercida sobre o destino rumo ao seu fim” (1.16.9). Para Calvino, a providência é o princípio determinante de todas as coisas (1.17.1) e, de fato, “o principal propósito da história bíblica é ensinar que o Senhor vigia os caminhos dos seus santos com tamanha diligência a ponto de eles não tropeçarem em uma pedra sequer” (1.17.6). Em suma, para o reformador, o entendimento adequado de providência significava ser ela tanto essencial como prática, enquanto “a ignorância dela significava o auge de toda a miséria; ao passo que a maior bem- aventurança se encontra em conhecê-la” (1.17.11). Calvino observou o consolo dessa doutrina: “A fé deve penetrar de maneira profunda, isto é, encontrar Deus, o Criador de tudo, a fim de concluir que ele também é o eterno Governador e Preservador – não somente pelo fato de conduzir o plano celestial, mas também porque sustenta, alimenta e cuida de todas as coisas que criou, até o menor pardal” (1.16.1). Calvino entendia a doutrina da providência de Deus como um “benefício” muito prático (1.18.1; 1.17.11). Posto tal providência ser o que determina todas as coisas (1.17.1, 4, 7, 9), o reformador acreditava que ela concedia segurança e confiança aos cristãos no imutável decreto de Deus (1.18.6). O último capítulo do livro 1 das Institutas ilustra que Calvino via a doutrina da providência como portadora de muito consolo e muitas aplicações. Ele previu as discrepâncias práticas e abordou-as sucintamente naquele capítulo (1.18.3-5). Mais adiante, falou a respeito do coração grato, da paciência na tribulação e da incrível libertação de preocupações, pois “tudo o que é necessário provém da compreensão” da providência de Deus (1.18.7). João Calvino foi o pregador, não o ser racional, quando pontuou sua discussão a respeito da providência com o retórico refrão: “Se José tivesse parado de viver por causa da infidelidade de seus irmãos, se Jó tivesse voltado sua atenção aos caldeus, se Davi tivesse fixado os olhos em Simei” (1.17.8). Calvino argumentava que a falta da providência de Deus nos deixaria em uma situação insuportável – desesperados diante dos incontáveis inimigos (1.17.10). Além do mais, ele esperava que “alívio” e “consolo” fluíssem à medida que aprendêssemos a confiar na providência divina (1.17.11). Calvino exaltou a providência de Deus com estas palavras: Quanto àqueles a quem isso parece de difícil compreensão, que reflitam por um tempo o quão suportável é sua sensibilidade diante da recusa de algo comprovado por meio de provas bíblicas claras, porque vai além de sua capacidade mental, e criticar as coisas que são reveladas publicamente, as quais, se Deus não tivesse considerado útil para os homens conhecê-las, jamais teria instruído seus profetas e apóstolos a ensiná-las. Porquanto nossa sensatez é tão somente aceitar com humilde disposição para aprender e, sem criticar, tudo aquilo que é ensinado nas Escrituras Sagradas. Aqueles que de modo extremamente insolente escarnecem, mesmo estando bem claro estarem eles tagarelando contra o Pai, não são dignos de mais uma refutação (1.18.4). Cerca de um século depois de Calvino, a Confissão de Fé de Westminster (1646) perpetuava a visão do reformador, descrevendo a providência com as seguintes palavras: “Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as ações delas e todas as coisas, desde a maior até a menor”. Tal visão quanto à providência está em plena concordância com as palavras de Paulo, que, em sua discussão dos dons espirituais em 1Coríntios 12.11, enfatiza o dever de cada pessoa de se contentar com os dons que Deus distribuiu de acordo com a sua vontade. Em consequência, devemos compartilhar nossos dons com o corpo, ou, como coloca Calvino nos comentário sobre as palavras de Paulo: “Os dons não são distribuídos, dessa forma, de modo variado entre os cristãos a fim de que sejam usados separadamente, mas para que, na divisão, haja a unidade, porquanto um só Espírito é a fonte de todos eles”.8 A providência de Deus está presente em todos os acontecimentos. Precisamos aprender a enxergar sua “mão invisível” agindo em todas as coisas. Ele é verdadeiramente soberano sobre toda a história. Duvidar disso é rejeitar o senhorio de Deus. Tal rejeição não é apenas fundamentada na ausência de informações; é também a revolta do coração contra o Criador. Feliz é a pessoa que aprende a enxergar a mão do Pai em tudo na vida. Calvino tinha essa perspectiva e sabia bem que, para “evitar a filosofia natural insensata, devemos sempre começar com o seguinte princípio: todas as coisas na natureza dependem da vontade de Deus e todo o curso da natureza é somente o pronto cumprimento de suas ordens”.9 A providência é ensinada com frequência na Bíblia No início dos Evangelhos, a providência é percebida na vida da mãe de Jesus. Maria, que desejava doar valores e bens para o mundo, era pobre. Ela foi orientada por um anjo a ir para o Egito, porém, não tinha recursos. Maria e José não tinham nem como pagar por um pernoite. No entanto, Deus, em sua providência, trouxe homens sábios do Oriente, trazendo presentes com os quais os pais de Jesus passaram a ter recursos para obedecer a Deus e ir para o Egito. O Salvador do Mundo foi protegido pela providência do Pai. Mesmo o tratamento de Jesus para com Judas revela a providência de Deus. Quando as pessoas leem as passagens nos Evangelhos relacionadas a Judas, não conseguem deixar de perguntar como Deus pôde permitir que algo assim acontecesse. Jesus tinha a resposta: o Pai levantou Judas para um propósito específico: certificar-se de que Judas trairia Jesus; porém, isso também fazia parte do plano divino. Não estava além da providência o fato de Judas trair Jesus. Contudo, o resultado não seria agradável para o traidor. Teria sido melhor se ele não tivesse nascido. Na realidade,toda a vida de Jesus é uma demonstração da providência de Deus. Ele não foi preso antes do tempo determinado pelo Pai para isso nem foi levado um milésimo de segundo depois. Toda a vida de Jesus condiz exatamente com a providência de Deus. O mesmo pode ser dito a respeito do principal cristão do século 1º, o apóstolo Paulo. Ele se converteu exatamente quando a providência de Deus havia planejado. Não foi por acaso que ele foi a Damasco perseguir os cristãos. Deus o encontrou no caminho e não só concedeu a salvação, mas também um grande missionário para a igreja primitiva. Posteriormente, Paulo sofreu um naufrágio. Em Atos 27, vemos como a providência de Deus se estende a fim de cuidar do seu povo. Não apenas Paulo foi poupado, mas também a vida de todos os seus companheiros de bordo foi salva. O apóstolo foi protegido pela providência de Deus e chegou a Roma exatamente como o Pai havia prometido antes. A ação sustentadora de Deus é ensinada em ambos os Testamentos. A providência divina é exercida no sustento de todo o universo (Cl 1.17). E Isaías ensina que ela abrange até mesmo as estrelas: “Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar” (Is 40.26). Ademais, lemos em Hebreus 1.2: “...nos falou pelo Filho... pelo qual também fez o universo”, e Jó 12.10 faz a seguinte observação: “Na sua mão está a alma de todo ser vivente e o espírito de todo o gênero humano”. O texto de Salmos 145.15-16 afirma: “Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente”. De semelhante modo, o salmo 147.8-9 declara: “Que cobre de nuvens os céus, prepara a chuva para a terra, faz brotar nos montes a erva e dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos, quando clamam”. O texto de Atos 17.25 ensina que “[Deus] nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todas dá vida, respiração e tudo mais”, enquanto Jó 34.14-15 nos traz a seguinte lembrança: “Se Deus pensasse apenas em si mesmo e para si recolhesse o seu espírito e o seu sopro, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó”. Se a providência de Deus fosse subtraída do seu caráter, um dos dois ídolos seria criado: ou um deus que, não sendo providente, é o criador; ou um deus que criou, mas não é capaz de sustentar. Nenhum desses ídolos nutrirá a existência humana nem é ensinado nas Escrituras. Essa ideia essencialmente calvinista foi tão longe no tempo a ponto de ser ecoada nas palavras de George Washington, o qual viveu dois séculos depois da Reforma. “Providência, disse Washington certa vez, “tem sido minha única dependência em todos os momentos, pois todos os demais recursos parecem ter fracassado conosco”.10 Igualmente, a Declaração de Independência afirma: “De firme confiança na proteção da divina providência, empenhamos mutuamente nossa vida, nossas fortunas e nossa sagrada honra”. Os primeiros cristãos não tinham medo de confessar que a providência era essencial para Deus e para sua própria sobrevivência. Faria bem para grande parte dos cristãos retomar essa visão da providência de Deus como alicerce de nossa vida diária. A providência divina se estende a todas as pessoas, todos os acontecimentos, todas as épocas e todas as regiões. Thomas Watson, calvinista do século 17, disse: “A região que a Providência visita é muito grande; ela se estende ao céu, à terra e ao mar”.11 Ela também se estende às menores coisas, aos pardais que caem e aos fios de cabelo de nossa cabeça (Mt 10.29-30). Watson conclui: “Por certo, se a providência se estende aos cabelos de nossa cabeça, que dirá à nossa alma”.12 O ensinamento de Calvino sobre a providência tem muitas ramificações. Uma delas se aplica à instituição do livre mercado. Porquanto, se Deus tem domínio soberano sobre as economias, o livre mercado pode facilmente ser um instrumento de sua vontade. Ele pode ter dado a entender que, em grandes economias, o gerenciamento de mercados altamente complexos não seria possível. Certo estudo moderno sintetiza o ponto desta forma: O livre mercado é consistente com a visão bíblica da natureza humana de outra maneira. Ele reconhece a fragilidade dela e as limitações do conhecimento humano. Ninguém é capaz de saber o suficiente a fim de administrar uma economia complexa. Esse poder não deve ser confiado a ninguém. Essa afirmação se aplica igualmente às pessoas que controlam grandes corporações, aos políticos que controlam uma nação e ao pequeno grupo de pessoas indicadas que controlam o Sistema de Reserva Federal. A fim de que o Socialismo dê certo, exige-se uma classe de planejadores oniscientes para prever o futuro, fixar os preços e controlar a produção. No sistema de livre mercado, as decisões não são tomadas por uma elite burocrática e onisciente, mas através de todo um sistema econômico por intermédio de incontáveis agentes da área de economia.13 Dada a discussão da providência divina, voltemos agora nosso foco às suas implicações no comércio. Em particular, examinaremos como a providência estabelece o princípio fundamental para o que chamamos de “santificação econômica”. Antes de abordarmos o tema da santificação, todavia, pode ser conveniente dizer algumas palavras com relação à doutrina da predestinação. Mencionada com frequência em termos espirituais, a predestinação é o complemento natural da soberania de Deus e é relevante para o chamado dos homens, sua posição social na vida, seus bens, talentos e recursos. Todavia, restringir a predestinação à esfera espiritual é teologicamente insuficiente e dá margem a uma miríade de visões de mundo errôneas e convicções que afetam a teoria e prática comerciais. Em uma extremidade do espectro encontra-se o conceito da predestinação econômica e bíblica reformada. Conforme discutido previamente, a grande verdade é que tanto os pobres quanto os ricos estarão sempre presentes. Além disso, a visão reformada defende que cada homem é predestinado ou chamado para a condição econômica e função profissional nas quais se encontra. Não existem acidentes cósmicos de riqueza ou pobreza. Apesar de o homem fazer planos e escolhas, Deus é quem decide o resultado final. No entanto, o homem não é livre para não fazer nada e aguardar o sustento pela graça de Deus. O homem tem responsabilidades gerais e específicas para com Deus e o próximo no momento em que Deus lhe revela sua predestinação econômica e seu chamado. Em primeiro lugar, dentre as responsabilidades está a exigência do trabalho. Em segundo, exige-se que o homem aja dentro dos limites dos sistemas legal e governamental sob os quais se encontra. Em terceiro, seja empregado ou patrão, exige-se que ele obedeça e sirva com coração agradecido, como se trabalhasse para o Senhor. Agora, se o homem é predestinado a ser abastado neste mundo, a exigência é que seja “rico em boas obras”, generoso e perdoador. Os pobres também têm responsabilidades – por exemplo, não sucumbir ao ciúme e ao furto. Ambos têm a responsabilidade de se contentarem e darem graças a Deus em todas as circunstâncias. De acordo com a economia bíblica, alguns são predestinados à riqueza, outros, à pobreza e outros, à classe média. Aos participantes de cada grupo são dadas certas responsabilidades. Aplicável a todas as classes sociais, o modelo também é dinâmico; em outras palavras, essa predestinação econômica