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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Nicodemus, Augustus O poder de Deus para a salvação: a mensagem de Romanos 1—7 para a igreja de hoje / Augustus Nicodemus. - São Paulo: Vida Nova, 2019. recurso digital; 6 MB ISBN 978-85-275-0964-0 (recurso eletrônico) 1. Bíblia. Paulo - Comentários 2. Bíblia. Romanos I. Título 18-2189 CDD 227.1 Índices para catálogo sistemático 1. Segurança (Teologia) ©2019, de Edições Vida Nova Todos os direitos em língua portuguesa reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020 vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br 1.ª edição: 2020 Edição digital: março de 2020 Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte. Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram extraídas da Almeida Século 21. As citações bíblicas com indicação da versão in loco foram extraídas da Almeida Revista e Atualizada (ARA), da Nova Versão Internacional (NVI) e da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). Todo grifo nas citações bíblicas é de responsabilidade do autor. DIREÇÃO EXECUTIVA Kenneth Lee Davis GERÊNCIA EDITORIAL Fabiano Silveira Medeiros EDIÇÃO DE TEXTO Cristina Ignacio Marisa Lopes João Guilherme dos Anjos PREPARAÇÃO DE TEXTO Caio B. Medeiros Virgínia Neumann Marcia B. Medeiros REVISÃO DE PROVAS Rosa M. Ferreira GERÊNCIA DE PRODUÇÃO http://vidanova.com.br/ mailto:vidanova@vidanova.com.br Sérgio Siqueira Moura DIAGRAMAÇÃO Luciana Di Iorio CAPA Wesley Mendonça PRODUÇÃO DO ARQUIVO EPUB Booknando Sumário Prefácio Introdução CAPÍTULO 1 O evangelho de Deus CAPÍTULO 2 O amor de Paulo pelos Romanos CAPÍTULO 3 Evangelho: o poder de Deus para salvar CAPÍTULO 4 A revelação de Deus na natureza CAPÍTULO 5 A origem da idolatria CAPÍTULO 6 Abandonados: o juízo de Deus sobre nossa geração CAPÍTULO 7 Homossexualidade: uma perspectiva bíblica CAPÍTULO 8 Mentes reprovadas CAPÍTULO 9 O fundo do poço CAPÍTULO 10 Paulo e o moralista CAPÍTULO 11 O dia do juízo CAPÍTULO 12 A lei no coração CAPÍTULO 13 A hipocrisia e seus defeitos CAPÍTULO 14 A verdadeira circuncisão CAPÍTULO 15 Meu pecado e a glória de Deus CAPÍTULO 16 Debaixo do pecado CAPÍTULO 17 O caminho da justificação CAPÍTULO 18 Cristo, nossa propiciação CAPÍTULO 19 Deus não nos deve nada CAPÍTULO 20 O selo da fé salvadora CAPÍTULO 21 Herdeiros do mundo pela fé CAPÍTULO 22 Abraão: crendo com esperança CAPÍTULO 23 Paz, acesso e regozijo CAPÍTULO 24 O amor de Deus pelos que são seus CAPÍTULO 25 O pecado original CAPÍTULO 26 Os dois homens CAPÍTULO 27 O caminho da santidade CAPÍTULO 28 Como Deus nos liberta da escravidão ao pecado CAPÍTULO 29 Como posso me apresentar a Deus? CAPÍTULO 30 Mortos para a lei CAPÍTULO 31 A lei e o pecado CAPÍTULO 32 Confissões de um judeu após a conversão Considerações finais Para Anna. O volume que você tem em mãos é o resultado de uma série de exposições que fiz em Romanos, quando pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, do capítulo 1 até o final do capítulo 7. PREFÁCIO Não foi a primeira vez que expus a magistral epístola do Apóstolo dos Gentios. Durante meu ministério em Recife, nos anos 1990, expus todos os capítulos da carta na Primeira Igreja Presbiteriana do Recife. E mais recentemente, durante uma temporada no Palavra da Vida Oeste, em Caldas Novas, Goiás, ofereci uma visão panorâmica de toda a carta. Além de pregar essas séries, tenho pregado constantemente em passagens isoladas da carta em muitas e diferentes igrejas no Brasil e no exterior. A razão do meu interesse pela Carta aos Romanos ficará clara para o leitor à medida que se debruçar sobre as páginas que seguem. Romanos é majestosa, misteriosa, inspiradora e desafiadora. Na “Introdução”, apresento as razões de sua importância. Mas, acima de tudo, acredito que a relevância da carta para nossa geração se deva à ênfase que Paulo dedica à doutrina da justificação pela fé, sem as obras da lei. Embora o contexto judaico que provocou essa ênfase na época de Paulo não tenha relevância para leitores brasileiros que vivem no Ocidente cerca de dois mil anos depois, o legalismo e a ênfase na participação meritória do ser humano na salvação, defendida por muitas seitas que se dizem cristãs, criam a mesma demanda dos tempos apostólicos. É preciso mais uma vez redescobrir a doutrina da salvação pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo, como Martinho Lutero fez, dando início à Reforma protestante do século 16. Agradeço aos membros da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, que tão pacientemente acompanharam a exposição em série dos capítulos iniciais dessa carta. A minha oração é que essa obra seja usada por Deus para abençoar todos os leitores que aqui buscarem não somente compreender mais de perto o significado da Carta aos Romanos, mas também aplicar seus ensinos à própria vida. Rev. dr. Augustus Nicodemus Lopes Abril de 2019 A través dos séculos, a igreja tem afirmado e ensinado que Deus salva pecadores mediante a fé em Jesus Cristo. Essa é a mensagem característica da igreja cristã. Embora desempenhe muitas atividades e papéis no mundo, como obras sociais e atendimento a necessitados, além de se posicionar diante da cultura e de se inserir na sociedade, a igreja é reconhecia porque ressoa a mensagem das boas-novas, de que Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. INTRODUÇÃO Desde seu início, a igreja cristã vem proclamando aquilo que conhecemos como o evangelho, que é a boa notícia da parte de Deus. Desde o início, também, foi (e continua sendo) necessário lutar para preservar a pureza dessa mensagem, pois já no primeiro século começaram a aparecer distorções e falsas apresentações dela. Já na época do apóstolo Paulo, por exemplo, havia os judaizantes, isto é, judeus convertidos ao cristianismo que afirmavam que quem cresse em Cristo para ser seu salvador deveria guardar as obras da lei de Moisés a fim de garantir sua salvação. Obviamente, isso nada mais era do que uma distorção do evangelho, porque Deus concede a salvação pela graça, mediante a fé em Cristo Jesus. Na mesma época, apareceram também os libertinos, que usavam a graça de Deus como licença para o pecado; eles diziam que a maneira de as pessoas viverem não importava, já que Cristo as salvara. Essa era outra distorção do evangelho. No século 2, surgiu o chamado gnosticismo, que também distorcia o evangelho ao tentar misturar a fé cristã com categorias do pensamento helênico. Consequentemente, ensinava que Cristo não teve um corpo real durante seu ministério terreno, que ele não ressuscitou com um corpo físico e que a salvação era mediante um conhecimento (gnosis) secreto, dado por Deus a uns poucos iluminados. Esse movimento exigiu que a igreja combatesse os mestres gnósticos, debatendo e finalmente vencendo a batalha no século 4. Mais tarde veio a institucionalização da igreja, a qual, no decorrer dos séculos, tornou-se uma grande hierarquia encabeçada por um papa infalível. Durante a Idade Medieval, doutrinas estranhas entraram na igreja, como a adoração de Maria, a veneração de santos, a doutrina do purgatório, a inclusão das obras como forma de salvação (juntamente com Jesus Cristo) etc. Depois que tudo isso foi vencido, há 500 anos, pela Reforma protestante, surgiu o liberalismo teológico no século 19, outro grande desafio enfrentado pela igreja cristã. Seus adeptos, estudiosos alemães, ingleses e de toda a Europa, passando pelos Estados Unidos e chegando ao Brasil, afirmam que a Bíblia está cheia de erros, que estamos na era da razão e não precisamos de Deus. Para os teólogos liberais, a Bíblia é, na verdade, uma coleção de mitos; eles sustentam que Jesus era um profeta que ensinava sobre morale ética e que seus discípulos inventaram histórias a seu respeito, como a que diz que ele morreu em uma cruz. Novamente, aqui, a igreja precisou lutar pela verdade do evangelho. Embora o liberalismo como movimento esteja praticamente extinto, ainda é possível encontrar quem o defenda. Hoje, porém, a igreja tem se concentrado na luta contra outras distorções do evangelho, como o evangelho da prosperidade, pregado por pastores e denominações que fazem com que o evangelho pareça ser apenas uma chave que dá acesso a Deus, trazendo prosperidade, sucesso e o carro do ano a quem o busca por meio de campanhas e entrega do dízimo. E lá vamos nós, outra vez, lutar pela pureza do evangelho. Em todas as gerações, a igreja tem sido obrigada a lutar pelo evangelho, pois sempre há distorções da mensagem. Vivemos em uma época repleta de distorções a respeito do que são as boas- novas da parte de Deus. Por isso é importante sempre voltarmos às Escrituras e fazermos as seguintes perguntas: O que é o evangelho? Estamos caminhando nele? É no evangelho original, puro e simples que nós cremos? É por esse motivo que estou escrevendo este livro. A carta de Paulo aos crentes de Roma é certamente o melhor lugar para começarmos a responder a essas questões. A importância da Cartade Paulo aos Romanos Todos os leitores da Bíblia reconhecem a tremenda importância de Romanos. As cartas de Paulo têm em média cerca de 1.300 palavras. Romanos tem 7.100 palavras. Mas, não é apenas por ser a mais extensa que Romanos é reconhecida como provavelmente a mais importante de todas. Ela é certamente a mais sistemática, embora não seja um “compêndio de doutrina cristã”, como o reformador Filipe Melâncton chegou a declarar em sua obra Loci Communes (1521). Nela, Paulo desenvolve de forma mais aprofundada temas apresentados nas cartas que havia escrito anteriormente (Gálatas, p. ex.), como a lei, as obras da lei, a salvação pela fé, Israel e a igreja. A importância de Romanos se percebe também pelo impacto que teve em pessoas-chave da história da igreja. Conforme F. F. Bruce nos informa em sua obra Romanos: introdução e comentário (São Paulo: Vida Nova, 1979), essa carta teve um papel decisivo na vida destas pessoas: Agostinho converteu-se lendo Romanos 13.12-14. Lutero converteu-se meditando em Romanos 1.16,17. John Wesley converteu-se ao ouvir o prefácio de Lutero à Carta aos Romanos. Por certo poderíamos citar nomes menos conhecidos que também foram transformados pela leitura dessa carta. Pessoalmente, menciono um de meus professores da Potchefstroom Christian University, na África do Sul, que se converteu no leito de hospital lendo o comentário de Martyn Lloyd-Jones em Romanos 7. A Carta aos Romanos desafiou as mentes mais brilhantes da história da igreja. Alguns dos melhores comentários já produzidos no Novo Testamento foram dessa carta. Aqui cito alguns dos mais conhecidos. Começando com os pais da igreja até a Reforma, temos Orígenes (século 3), João Crisóstomo (homílias do século 4), Teodoreto (século 5, baseado em Crisóstomo), Ambrosiáster (século 4, reconhecidamente um pseudônimo), Pelágio (século 4), Hugo de São Victor (místico conhecido do século 12) e Tomás de Aquino, que desenvolveu o método exegético de Agostinho e tentou forçar Paulo a caber dentro do seu sistema filosófico e do escolasticismo filosófico da Idade Média. Da Reforma e Pós-Reforma temos a obra de Erasmo de Roterdã, Paráfrase do Novo Testamento (1522), e as palestras de Lutero em Romanos proferidas na Universidade de Wittemberg, em 1515-1516, dois anos antes de afixar as 95 teses. Em 1522, ele escreveu Prefácio à Carta de Paulo aos Romanos. Calvino escreveu Comentários às epístolas do apóstolo Paulo, em 1539. Jacó Armínio, século 17, escreveu dois tratados anticalvinistas sobre os capítulos 7 e 9 de Romanos. John Locke, conhecido filósofo, devotou os últimos anos de vida ao estudo das cartas de Paulo. Publicou, entre 1705-1707, Paráfrase e notas em Gálatas, Romanos, Efésios e Coríntios. No Período Moderno temos o clássico comentário do alemão H. A. W. Meyer, já no século 19. Meyer é considerado o fundador do estilo moderno de comentários: científico (aplicação rigorosa [demais] do método gramático-histórico) e popular (conciso e direto). Seu comentário passou por muitas edições e ainda é um dos preferidos dos estudiosos. Charles Hodge, professor de Princeton, publicou seu comentário em Romanos em 1835, reescrito em 1864. Hodge foi muito influenciado por Meyer. Ele oferece uma exposição doutrinária de Romanos baseada na Confissão de Fé de Westminster. Na mesma linha, temos o comentário de John Murray, do Seminário de Westminster (1959). F. Godet, francês, publicou seu comentário de Romanos em 1879; este foi traduzido para o inglês em 1881 por um teólogo franco-suíço treinado na Alemanha. O comentário de Romanos da série International Critical Commentary (ICC), escrito por Sanday e Headlam (1895), foi seguido pelo de C.E. Cranfield, em 2 volumes, em 1979. Também bastante conhecido é o comentário de Robert Haldane, publicado em meados do século passado, com base nas anotações dos estudos que ministrou em Romanos a jovens que estavam se preparando para o ministério em Genebra. Conforme Martyn Lloyd-Jones escreveu no prefácio a esse comentário, um avivamento espiritual teve início com as exposições de Haldane, e todos os seus jovens estudantes, um a um, converteram-se durante as aulas — entre eles o mais tarde famoso M. Daubigne. Karl Barth escreveu seu comentário Carta aos Romanos, em 1918. Essa obra, reescrita em 1921, foi instrumental para o enfraquecimento do liberalismo teológico dominante nos meios acadêmicos e eclesiásticos da Europa, no início do século 20, embora o autor não tenha se livrado da influência do método histórico-crítico em sua obra. Mais próximo de nós, podemos mencionar o volumoso comentário de Martyn Lloyd-Jones, uma transcrição de seus sermões pregados na Capela de Westminster, Inglaterra, de 1955 a 1968. Do lado liberal, temos o influente comentário de Ernest Käsemann, alemão e discípulo de Bultmann (1980). James D. G. Dunn escreveu o comentário de Romanos da conceituada série Word Biblical Commentaries, em 2 volumes (1988), no qual defende a “nova perspectiva sobre Paulo”. Do lado conservador, Douglas Moo escreveu o excelente comentário Romans 1-8, em 1990. Em anos mais recentes, comentários em Romanos têm sido publicados por autores renomados, como Thomas Schreiner, Leon Morris, C. E. B. Cranfield, John Stott, F.F. Bruce, Richard Longenecker, para citar alguns. Tudo isso demonstra a importância da Carta aos Romanos e sua capacidade inesgotável de estimular estudiosos cristãos a desvendar seus mistérios e a entender seus ensinos. A autoria da carta Passemos agora a algumas questões introdutórias à carta. Que Paulo foi seu autor, pouco é disputado hoje, embora no passado alguns críticos radicais tenham chegado a fazê-lo (E. Evanson, 1792; B. Bauer, 1852; A. D. Loman, 1882; R. Steck, 1888). As evidências externas da autoria paulina de Romanos são vastas. Essa carta foi citada e usada por pais da igreja como sendo de Paulo, tais como Clemente de Roma (século 2, 1Clemente 32.2, 35.5, 50.6ss), Inácio de Antioquia (século 2, Carta aos Efésios 19.3), Policarpo, bispo de Esmirna (século 2, Carta aos Filipenses, cap. 6) etc. Quanto às evidências internas, não precisamos entrar em detalhes, uma vez que não se disputa a autoria de Paulo. Mas entre elas temos Romanos 1.1, que afirma a autoria paulina, e o estilo, o vocabulário e a teologia semelhantes às demais cartas reconhecidas como sendo de Paulo, especialmente Gálatas, 1 e 2Coríntios. As teses contrárias não têm ganhado aceitação dos estudiosos. Aqui seria interessante indagarmos qual foi o papel de Tércio na produção de Romanos. Ele aparece em Romanos 16.22: “Eu, Tércio, que redigi esta carta, vos cumprimento no Senhor”. Ao que tudo indica, Tércio foio amanuense de Paulo, aquele que escreveu a carta sob a orientação do apóstolo. Existem várias teorias sobre sua participação na carta. Ele poderia ter feito um esboço, ampliado esse esboço e o submetido à apreciação e à aprovação de Paulo (Sanday; Headlam, Critical and exegetical commentary on the Epistle to the Romans, em The International Critical Commentary, 1895). Ou então ele compôs a carta, seguindo instruções de Paulo, e depois o apóstolo a revisou (O. Roller, Das Formular der paulinischen Briefe: Ein Beitrag zur Lehre vom antiken Briefe, 1933). Ou ainda, segundo a teoria mais provável, ele escreveu por extenso o que Paulo ditou. Essa última é a hipótese mais aceita pelos estudiosos. A integridade do texto de Romanos Há poucos problemas relacionados à integridade do texto de Romanos. O p46, o mais antigo manuscrito existente que contém as cartas de Paulo, não tem o capítulo 16 e tem a doxologia de 16.25-27 no fim do capítulo 15. Outros manuscritos têm a doxologia no fim do capítulo 14. Nada disso, porém, compromete a integridade da carta. A imensa maioria da evidência manuscritológica apresenta o texto de Romanos como o temos em nossas Bíblias. A igreja de Roma Paulo destinou sua carta aos cristãos da cidade de Roma (Rm 1.7). Não sabemos ao certo como a igreja começou ali. Paulo certamente não foi seu fundador, nem Pedro. A principal hipótese levantada pelos estudiosos é que a igreja de Roma foi fundada por judeus que moravam em Roma e foram convertidos em Pentecostes, ao fazerem a peregrinação a Jerusalém. A multidão, ao ouvir os cristãos falando em línguas, reconheceu os idiomas de diversas nacionalidades, mesmo dos “romanos que aqui residem” (At 2.10, ARA). “Residir” não seria aqui a melhor tradução para o verbo empregado por Lucas, embora também tenha essa conotação. O mais provável foi que Lucas quis dizer que estavam “de visita” ou “residindo temporariamente ali durante a festa de Pentecostes” (cf. NVI, “visitantes vindos de Roma”). Esses judeus de Roma, ao regressarem à cidade, já convertidos, começaram a igreja ali. Ambrosiáster, em seu Comentário aos Romanos (século 4), diz no prefácio que os romanos tinham se convertido sem ver nenhum milagre nem qualquer dos apóstolos. A declaração pode apenas significar que a conversão deles não se deu em Roma por meio da pregação de um dos apóstolos. Essa hipótese é reforçada pela existência de uma grande comunidade cristã entre os judeus, sugerida por uma observação na obra Vida de Cláudio (imperador romano) dizendo que ele expulsou os judeus de Roma, em cerca de 49 a.D., “por instigação de certo Chresto”. Lucas se refere a essa expulsão (At 18.2), que levou Áquila e Priscila a saírem da cidade. “Chresto” é provavelmente “Cristo” e a nota pode refletir o levante da comunidade judaica contra os judeus convertidos, causando transtorno popular e obrigando o imperador Cláudio, que não sabia distinguir entre judeus e cristãos, a expulsar todos os judeus da cidade de Roma. Na época em que Paulo escreveu sua carta, a igreja de Roma aparentemente não estava sofrendo perseguições nem de judeus nem de romanos. Além dos judeus convertidos (Rm 2.17; 3.1; 4.1; 7.1,4), a igreja era composta de cristãos gentios (Rm 1.13; 11.13; 15.15,16). Fator motivador e data de composição Antes de escrever essa carta, Paulo tinha planejado visitar a igreja de Roma. Contudo, havia sido impedido em razão de seus labores na região ao redor do mar Egeu (Rm 1.13; 15.22). Seu propósito era visitá-los e repartir com eles algum dom espiritual (Rm 1.11,15). Paulo pretendia também ganhar o apoio da igreja de Roma para seus planos missionários na Espanha (Rm 15.24,28). Ele tinha acabado sua obra missionária de pregar o evangelho “desde Jerusalém e arredores, até o Ilírico” (Rm 15.19) e também concluído o levantamento de uma oferta para os pobres da Judeia (15.22-29). Estava se preparando para ir a Jerusalém. Provavelmente, isso ocorreu no ano em que ele deixou Éfeso, em sua terceira viagem missionária, quando estava na Grécia (At 20.1,2). Tudo isso aponta para a cidade de Corinto como o local de onde Paulo escreveu a carta. Notemos que ele recomenda Febe, que era de Cencreia, o porto de Corinto (Rm 16.1,2), e que envia a saudação de Gaio, que tinha sido hospedeiro de Paulo em Corinto (Rm 16.23; cf. 1Co 1.14). Além disso, menciona Erasto (Rm 16.23), que era tesoureiro da cidade (cf. 2Tm 4.20). A partir desses fatos, podemos com relativa confiança situar a Carta aos Romanos entre os anos 57 e 59 a.D. Qual o propósito de Romanos? Tem havido debate vigoroso entre os estudiosos quanto ao motivo pelo qual o apóstolo escreveu essa carta aos cristãos de Roma. O debate é gerado pelos seguintes fatos. Primeiro, a carta trata de temas gerais do evangelho e aparentemente pouco aborda assuntos locais referentes à situação dos crentes em Roma. Romanos não parece ser uma carta pastoral, como, por exemplo, 1Coríntios. Isso levou autores como o reformador Felipe Melâncton e mais atualmente Anders Nygren (Romans, 1967) a considerar Romanos um compêndio de ensino cristão. A carta teria como alvo dar aos cristãos de Roma, e posteriormente a toda cristandade, uma exposição completa da doutrina cristã. Porém, essa hipótese não explica as referências à situação específica dos romanos, nem explica a omissão de doutrinas importantes na carta, como cristologia e eclesiologia, se de fato fosse um compêndio doutrinário. Outros consideram que Romanos pode ter sido originariamente uma carta circular, escrita por Paulo às igrejas cristãs em geral. Isso explicaria a aplicabilidade geral e ampla da carta e a evidência manuscritológica. A carta que sobreviveu foi a endereçada aos romanos (preservando os capítulos finais e a introdução). Mas, essa tese não explica as referências pessoais em Romanos 1.8-15, nem fornece o motivo pelo qual Paulo teria escrito uma carta circular. Em segundo lugar, Paulo aborda na carta uma situação que parece específica da igreja de Roma, a questão dos fracos e fortes (Rm 14.1—15.13). Parece que Paulo teria informação de que esse problema estava acontecendo na igreja. A Carta aos Romanos teria sido escrita para admoestar os dois grupos a viverem em paz. Os “fracos” seriam judeus cristãos, acostumados a não comer carne, a guardar o sábado e o calendário judaico, enquanto os “fortes” seriam gentios cristãos, que usavam sua liberdade em Cristo para desfrutar de tudo e não seguir a lei de Moisés no que se refere a calendários e dieta. Os dois grupos não conseguiam viver em paz. Paulo, porém, não revela na carta intenção de mediar o debate. Seu propósito é simplesmente pregar em Roma (cf. Rm 1.11,15). Se seu alvo era realmente tratar do problema, porém, por que esperou até o capítulo 14 para abordá-lo? Um terceiro elemento que temos de levar em consideração é o vasto material na carta sobre a lei, Israel, circuncisão e obras da lei, bem como sobre a rejeição do Messias por parte dos judeus; todos esses temas ocupam praticamente do capítulo 2 ao 11. Se a carta era um compêndio doutrinário geral a ser distribuído às igrejas, ou se era uma carta destinada exclusivamente para a igreja de Roma, como explicar tantas referências aos questionamentos dos judeus quanto à doutrina da justificação pela fé? Autores como J. Christiaan Beker defendem que Romanos é um diálogo com o judaísmo, visando a responder perguntas que judeus cristãos fazem em geral: “Qual o papel de Israel na história da salvação?”; “Qual a função da Lei de Moisés e da circuncisão?”; “Por que Israel rejeitou o Messias?”. Paulo teria escrito a carta aos judeus da igreja e a possíveis interlocutores. Todavia, a carta é definitivamente dirigida também aos cristãos gentios de Roma (cf. Rm 1.13; 11.13). Na verdade, não precisamos escolher entre as duas possibilidades. Romanos sem dúvida é uma carta destinada especificamente à igreja de Roma, a julgar pelo conhecimento que Paulo tem dos problemas existentesna igreja, ao mesmo tempo que apresenta os pontos centrais do evangelho de Cristo à luz das questões judaicas daquela época. Há três coisas que Paulo afirma na carta acerca de seu propósito em escrevê-la: (1) preparar sua visita a Roma (1.13; 15.22-24); (2) obter o apoio dos cristãos de Roma para sua missão à Espanha; (3) pedir orações sobre a coleta e a visita a Jerusalém (15.30-32). Como Paulo não era conhecido da igreja, era preciso que preparasse sua visita com essa carta, na qual ele apresenta seus planos missionários e expõe o evangelho que prega. Essa exposição do evangelho é feita à luz das questões judaicas da época. Paulo antecipa as objeções que os judeus cristãos e os judeus em geral fariam à exposição da doutrina da justificação pela fé e suas consequências para o papel da lei, a situação de Israel nos planos de Deus, as obras da lei, como circuncisão, a dieta religiosa e o calendário sagrado dos judeus. A carta, portanto, teria essas finalidades, o que explica seu caráter geral, a audiência judaica em mente e a escolha dos temas. Em contrapartida, Paulo teria aproveitado para abordar algumas questões práticas da igreja, como o relacionamento entre os “fracos” e os “fortes,” tendo tomado conhecimento da ocorrência de tais problemas nessa igreja. Por fim, pensando em Romanos 15.14-16, pode ser que o apóstolo também tenha desejado firmar a igreja nas verdades ouvidas e, como apóstolo dos gentios, estabelecer o seu fundamento apostólico. Romanos é uma exposição clara e profunda da mensagem que Paulo pregava, a qual foi dirigida aos romanos, em preparação à sua visita e em busca de ganhar o apoio deles para a missão. Daí a necessidade de lhes assegurar acerca da sua mensagem e doutrina. Se Roma haveria de ser a base para as futuras viagens missionárias de Paulo, uma carta como Romanos seria necessária. A divisão da carta A carta de Paulo aos Romanos pode ser dividida em cinco grandes blocos, nos quais o apóstolo trata de temas considerados necessários para deixar clara a mensagem que prega e também daqueles temas mais próximos da igreja de Roma. Portanto, a clássica divisão da referida carta segue, em geral, o seguinte esboço: Prefácio e apresentação de seus planos (1.1-17) 1. A condenação de toda a raça humana (1.18—3.20) 2. Justificação pela fé (3.21—5.21) 3. Vida de santidade (6.1—8.39) 4. Israel e o evangelho (9.1—11.36) 5. Orientações práticas para a igreja de Roma (12.1—15.33) Saudações e orientações finais (16.1-27) Nesta obra, tratarei apenas dos capítulos de 1 a 7. Será limitada, portanto, às três primeiras grandes divisões da carta. Meu objetivo é expor com clareza e de maneira acessível os temas grandiosos desenvolvidos pelo apóstolo Paulo nesses capítulos. Queira Deus usar esta obra para a propagação da mensagem de Romanos. este capítulo, observaremos o prefácio e a saudação da carta que Paulo escreveu aos crentes Capítulo 1 O EVANGELHO DE DEUS Romanos 1.1-7 Prefácio e saudação Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, que, humanamente, nasceu da descendência de Davi, e com poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor. Por meio dele recebemos graça e apostolado, por causa do seu nome, a fim de conduzir todos os gentios para a obediência da fé, entre os quais também sois chamados para ser de Jesus Cristo. A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos: Graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Um projeto missionário N de Roma. O trecho abordado segue o padrão das cartas da época: Paulo se apresenta e fornece algumas explicações a respeito de si, identifica os destinatários e faz um voto, que é um desejo de paz e bênção para aqueles que lerão a carta. Essa introdução, no entanto, é maior do que o habitual se comparada às introduções das outras cartas paulinas. O apóstolo apresenta não apenas seu nome, mas também suas credenciais, e em seguida se dedica longamente a explicar o que é o evangelho. Ele também fala acerca de seu chamado para pregar esse evangelho, além de se dirigir aos crentes de Roma para esclarecer quem eles são em relação a Deus. Qual seria a razão para essa introdução extensa? Como já vimos na “Introdução”, Paulo estava planejando visitar a igreja de Roma. Ele queria passar um tempo de comunhão com aqueles cristãos e ser edificado, pois não os conhecia pessoalmente. Sabia, contudo, que havia uma série de boatos a seu respeito que circulavam entre os irmãos romanos. Esses boatos o caracterizavam como um mercenário que plantava igrejas por dinheiro e pregava contra Moisés e as gloriosas instituições da antiga aliança. Paulo tinha conhecimento de tudo isso, e queria ser aceito pela igreja de Roma como missionário, pois tinha planos de pregar o evangelho na Espanha. Roma era, provavelmente, a igreja mais próxima da região da Espanha com condições de servir de base para esse projeto missionário. O apóstolo escreveu essa carta, portanto, com o objetivo de expor o evangelho que pregava e de responder, por antecipação, aos questionamentos que se levantariam, como, por exemplo: “Se você prega a salvação pela fé, de que serve a lei? E os sacrifícios e a nação de Israel, como ficam?”. Portanto, conforme defendemos na “Introdução”, Romanos é uma carta missionária em que Paulo expõe o evangelho e ao mesmo tempo se apresenta, com o objetivo de convencer a igreja de Roma a ajudá-lo a pregar o evangelho na Espanha. É por isso que já na introdução da carta ele apresenta um resumo do que vai tratar: ele diz quem é, fala sobre qual é o conteúdo desse evangelho que prega e de quem o recebeu, estabelece uma relação entre o evangelho e a antiga aliança e se dirige aos romanos como sendo parte do propósito de Deus para levar esse evangelho ao mundo todo. Meu alvo neste capítulo é extrair da passagem o que Paulo nos ensina, o que também nos leva de volta à minha proposição original: O que é o evangelho? Creio que a Carta aos Romanos é o melhor lugar para encontrarmos a resposta. O evangelho procede de Deus Paulo inicia seu argumento de que o evangelho procede de Deus em sua apresentação pessoal: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (v. 1). Além de seu nome, o apóstolo apresenta três credenciais, e todas elas dizem respeito ao fato de que o evangelho vem de Deus. Primeiramente, ele diz que é “servo de Jesus Cristo”. Nesse contexto, servo tem o mesmo significado de escravo, e o uso da palavra aponta para a devoção, submissão e dedicação de Paulo a Jesus Cristo. Seus leitores eram capazes de compreender isso muito bem, pois havia cerca de cem milhões de escravos no Império Romano. Escravos não tinham poder sobre a própria vida e dependiam totalmente de seus senhores. Nenhum romano se apresentaria como escravo, pois eram os dominadores altivos do mundo da época. Paulo, porém, não tem receio de se apresentar dessa maneira, ao mesmo tempo que também apresenta Cristo como senhor — alguém a quem um servo ou escravo pode se submeter. Em segundo lugar, Paulo afirma ter sido chamado por Deus para ser apóstolo, e faz questão de frisar que não foi ele que se constituiu um apóstolo, pelo contrário, foi chamado por Deus para esse fim. Naquela época, a palavra “apóstolo” denotava alguém que fora enviado, indicava uma espécie de delegação, que ocorria quando uma pessoa recebia autoridade de outra para representá- la nos negócios. Essa palavra já era utilizada no mundo romano, anteriormente a Paulo, para designar comandantes de navios que eram enviados para entregar cargas. Cristo também instituiu apóstolos, que neste caso eram pessoas a quem ele chamou para representá-lo, dando-lhes poderes, missões e tarefasespeciais e específicas. Paulo foi uma dessas pessoas levantadas pelo Senhor para levar adiante os negócios de Deus neste mundo. Por isso, faz questão de deixar claro que não fora ele próprio que se colocara como apóstolo, mas, sim, que fora chamado por Deus. A origem do apostolado de Paulo estava na vontade de Deus, e nesse trecho da carta ele se referia, sem dúvida, àquilo que lhe aconteceu na estrada para Damasco. Como judeu convicto e fiel, Paulo se encontrava a caminho de uma missão que incluía prender cristãos para que fossem julgados (e até mesmo mortos) em Jerusalém. No meio dessa missão, Cristo apareceu ressurreto, em seu corpo glorioso, ao fariseu arrogante então chamado Saulo. O Senhor fez com que aquele homem se curvasse aos seus pés e o levantou como representante e voz de Deus para todas as nações. Naquele dia, Paulo foi convertido e constituído apóstolo. Em terceiro lugar, prosseguindo na introdução da Carta aos Romanos, Paulo ainda se apresenta como alguém que foi separado para pregar o evangelho de Deus. Há um jogo de palavras nesse trecho que não aparece no português. “Separado”, em grego, tem a mesma origem de “fariseu”. O termo “fariseu” surgiu cerca de 250 a 300 a.C., durante a Guerra dos Macabeus (uma revolução feita pelos judeus contra a imposição de culturas estrangeiras sobre seus costumes religiosos e culturais). Desse movimento, surgiu o grupo dos hasidim, ou “separados”. A palavra grega para designar esse grupo dá origem ao termo “fariseu”. Os fariseus, portanto, formavam um grupo que queria se manter puro e separado, preservando-se de influências estrangeiras. Eles não se misturavam com as práticas pagãs helênicas. Paulo faz, então, um jogo de palavras, pois havia sido um fariseu judeu, e era agora um “fariseu” de Cristo. Ele, que havia sido um ferrenho defensor da lei de Moisés, pela qual se mantinha separado de práticas pagãs, agora era separado por Deus para pregar as boas-novas que procedem de Deus. Em resumo, estas eram suas credenciais: Paulo, um servo que fora chamado e separado para pregar o evangelho de Deus. O apóstolo utiliza a apresentação de sua carta, portanto, para mostrar que, ao contrário do que diziam os boatos a seu respeito, sua história era marcada por circunstâncias que procediam de Deus. Ele apresenta a sua história — já conhecida pelos romanos — como argumento contra os boatos de que era um mercenário. Com isso, Paulo queria assegurar àqueles a quem escrevia que ele era um servo de Cristo, preparado para pregar o evangelho, e que esse evangelho não vinha dele, mas havia sido dado por Deus. O Deus que o chamou e o constituiu é o mesmo Deus que lhe entregou o evangelho. A primeira lição, portanto, é que o evangelho não tem origem humana. O evangelho é o cumprimento de uma promessa Feita a apresentação, Paulo prossegue dizendo que o evangelho consiste em uma promessa: “... que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho” (v. 2,3a). Em toda a Bíblia, começando por Gênesis, podemos observar como Deus sempre faz promessas. No início do livro, Deus promete que um descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Essa promessa é repetida mais tarde, quando Abraão é chamado para gerar uma descendência que abençoaria todas as famílias da terra. Mais adiante, Deus dá a lei ao povo de Israel e nela descreve o procedimento a ser seguido para os sacrifícios, no qual há promessa de perdão por meio do derramamento de sangue. Depois, vieram os profetas que falavam a respeito do perdão definitivo de todos os pecados que estava por vir. (Isaías fala do servo que sofreria pelos pecados do povo, Ezequiel fala de uma nova aliança, Joel fala do Espírito Santo etc.) Paulo demonstra que o evangelho pregado por ele não é uma invenção, mas apenas o cumprimento de algo que já havia sido prometido. A boa-nova de que Cristo é o salvador está, portanto, em perfeita harmonia com a antiga aliança: no Antigo Testamento temos a promessa, no Novo Testamento temos o seu cumprimento. Paulo vê o Antigo Testamento como registro santo da promessa do evangelho. Por isso desprezar o Antigo Testamento é um erro tão grave. A maioria dos cristãos gosta muito de ler os evangelhos (especialmente o de João), pois falam de amor e das histórias de Jesus; já outros apreciam os ensinamentos das cartas de Paulo ou a grandiosidade de Apocalipse; quase nunca, porém, queremos saber do Antigo Testamento. Quando há algum interesse é, no máximo, por Salmos, em especial o salmo 23. As Escrituras, no entanto, foram reveladas por inspi- ração divina e são um registro da promessa dada por Deus de que viria um salvador. Não conseguimos entender o Novo Testamento sem o Antigo, nem vice-versa, pois o primeiro é a continuação da história da redenção iniciada neste último. O evangelho gira em torno da pessoa de Jesus Cristo Paulo prossegue: “... acerca de seu Filho, que, humanamente, nasceu da descendência de Davi, e com poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 3,4). O evangelho é uma boa notícia a respeito de uma pessoa. Ele não trata de prosperidade material, bênçãos, moralidade e ética etc., mas, sim, de uma pessoa: “acerca de seu Filho”. A promessa de Deus referia-se a alguém que ele haveria de enviar como Salvador. Quando fala de Jesus, Paulo ressalta sua humanidade e divindade. Trata do Filho de Deus que veio segundo a carne, tornando-se um de nós, assumindo ossos e sangue humano. Mais do que isso, ele nasceu como descendente de Davi, o rei que recebera a promessa de que de sua descendência viria aquele que se sentaria no trono do povo de Deus para todo o sempre. Jesus nascera, então, com direito ao trono por causa de sua ascendência real. No entanto, Jesus era mais do que um judeu com linhagem real e pretensões ao trono; ele era o Filho de Deus. Depois de falar sobre a perfeita humanidade de Cristo, Paulo aborda sua divindade e mostra como Jesus foi declarado Filho de Deus com poder (v. 4). Ou seja, aconteceu algo que declarou e confirmou que aquele judeu era mais do que um homem, era o Filho de Deus. Paulo diz também que Jesus foi declarado Filho de Deus “segundo o Espírito de santidade” (v.4). Existem duas interpretações para isso. O apóstolo pode estar falando do Espírito Santo; quando ele o faz, no entanto, utiliza a designação completa (Espírito Santo). Ele pode também estar falando do fato de que Cristo, durante sua vida como homem, nunca cometeu pecado, foi santo em todo o seu proceder. O único ser capaz de tal proeza é Deus; portanto, por causa de seu Espírito de santidade, Cristo foi declarado Filho de Deus. Há mais uma razão que Paulo apresenta para Cristo ter sido declarado Filho de Deus: a ressurreição dos mortos. Ao ressurgir, depois de se oferecer como sacrifício pelos pecados de seu povo, Jesus foi poderosamente declarado Filho de Deus. Se tivesse permanecido morto, ele poderia ser considerado apenas mais um judeu rebelde e revolucionário como tantos outros (como Teudas, por exemplo, que liderou mais de 400 homens em uma revolução armada contra Roma e foi morto; ou ainda como Judas, da época do recenseamento, que iniciou uma revolução e também foi morto, conforme Lucas nos informa em Atos 5.36,37). Quando ressuscitou, Cristo foi confirmado como Filho de Deus. Paulo ainda acrescenta: “com poder foi declarado Filho de Deus”. Ao ressurgir dos mortos ao terceiro dia, o Filho de Deus, em torno de quem o evangelho gira, sobe aos céus, se assenta no trono e pode dizer aos discípulos: “Toda autoridade me foi concedida no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.18,19). O evangelho, então, está relacionado a uma pessoa: Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ressurreto dentre os mortos, entronizado à direitade Deus, aquele que tem todo poder nos céus e na terra. Paulo diz quem é esse Filho de Deus: Jesus Cristo, nosso Senhor (v. 4). Ele é o cumprimento de todas as promessas, o centro do evangelho e a razão das boas-novas, Jesus Cristo, nosso Senhor, de quem somos escravos e servos. Ele é Senhor de todas as coisas. O evangelho deve ser crido e obedecido Paulo continua a dizer na introdução de sua carta: “Por meio dele recebemos graça e apostolado, por causa do seu nome, a fim de conduzir todos os gentios para a obediência da fé” (v. 5). Os gentios eram os não judeus, aqueles que não faziam parte do povo escolhido por Deus. Paulo está afirmando que esse Cristo que ressurgiu dentre os mortos, quando lhe apareceu, constituiu- o, por causa do seu nome, para conduzir os gentios à obediência da fé. Essa foi a missão que Paulo recebeu; esse é o seu apostolado. Cristo o chamou para anunciar o cumprimento da promessa de Deus, segundo a qual o Salvador já veio; quem crer nele será perdoado e receberá a remissão dos pecados. Todos, gentios e judeus, precisam ouvir isso, pois não há salvação em nenhum outro; não há outro caminho senão Jesus. Devemos notar cuidadosamente a expressão “obediência da fé” (v. 5), pois fé não é apenas crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus e cumpriu a promessa do Pai. Fé é obedecer ao que Cristo ordena, e não apenas uma aquiescência intelectual; é uma inclinação, um compromisso da nossa vontade em relação àquele em quem dizemos crer. Por isso Paulo fala da obediência da fé: creiam em Cristo e andem nos caminhos dele. Essa era a mensagem da missão de Paulo. Deus nos chama pelo evangelho para sua glória Em seguida, Paulo finalmente se dirige aos destinatários: “... entre os quais também sois chamados para ser de Jesus Cristo” (v. 6). O apóstolo havia dito que sua missão era pregar o evangelho entre os gentios, entre os quais estão aqueles moradores de Roma, que também haviam sido chamados. O chamado mencionado aqui deve ser interpretado da mesma forma que o próprio chamado de Paulo na estrada para Damasco. Quando Deus apareceu a Paulo, os dois não tiveram uma conversa amigável que envolveu saudações gentis, um aperto de mão e uma oferta por parte de Deus que poderia ou não ser aceita por Paulo. Aliás, se tivesse sido assim, sabe quantos crentes existiriam? Zero, nenhum. O chamado aqui é uma compulsão que Deus coloca no coração do pecador; é uma inclinação irresistível que atrai o pecador com laços de amor, no poder do Espírito Santo. Se não fosse assim, você não seria crente! Não estaria lendo este livro hoje, não fosse pela graça de Deus. O evangelho tem origem em Deus; é ele quem chama, e a nossa parte é obedecer e ir. Paulo afirma: “A todos os que estais em Roma, amados de Deus...” (v. 7). A Bíblia diz que Deus amou o mundo, e é verdade; mas Deus amou os seus, aqueles a quem chama para serem santos, com um amor especial, irresistível, um amor redentor e salvador. O amor de Deus pela humanidade é o que chamamos de graça comum: ele ama todas as suas criaturas. Aqueles a quem chamou, porém, Deus ama com um amor especial, redentor, que levou Cristo a morrer por eles na cruz. Nós, os salvos, não somos amados por Deus da mesma forma que o mundo. Somos amados no sentido de que ele nos amou e nos chamou, de modo irresistível, pelo evangelho, para sermos dele. Esse amor redentor de Deus nos separa do mundo, e somos objeto desse chamado específico. Paulo prossegue, dizendo aos crentes de Roma que foram “chamados para serdes santos” (v. 7), a fim de evitar posturas do tipo “se Deus me amou e me predestinou, posso viver de qualquer jeito!”. Não, não pode! Você foi chamado para ser santo; lembre-se de que Paulo mencionou a “obediência da fé”. A fé verdadeira é a que obedece, e o chamado é para ser santo, e não para viver de qualquer maneira. Assim, a boa notícia é esta: Deus cumpriu as promessas em Cristo Jesus, e agora está, pela pregação da palavra, chamando seu povo e constituindo uma nova raça, que é a sua família, um povo para o seu louvor. Que privilégio poder fazer parte desse povo! Paulo termina dizendo: “Graça e paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (v. 7). Ao colocar Jesus ao lado de Deus como origem da graça e da paz, ele está destacando a divindade de Cristo. Graça e paz vêm do Pai e do Filho, e com isso o apóstolo quer dizer que Cristo é Deus. A segunda pessoa da Trindade é o nosso Senhor e Deus. Conclusão e aplicações práticas Recapitulando brevemente o que vimos até aqui, há quatro pontos de que não podemos nos esquecer no decorrer do estudo de Romanos: (1) O evangelho são as boas-novas que procedem da parte de Deus. A mensagem do evangelho não tem origem no coração humano; a mente humana não poderia conceber tal plano. A origem do evangelho está no Criador de todas as coisas. (2) O evangelho foi antecipado no Antigo Testamento. Ele foi prometido por Deus, e essas promessas foram registradas pelos profetas de Israel. Portanto, o evangelho não é uma invenção dos cristãos, mas está em perfeita harmonia com o que existe desde a antiguidade. (3) O evangelho foi anunciado pelos apóstolos. Deus levantou pessoas (a quem chamou de apóstolos) mediante Jesus Cristo para serem os anunciadores do evangelho, e, da mesma forma que levantou os profetas para que registrassem as promessas, ele chamou os apóstolos para registrarem o cumprimento delas. É por isso que não temos mais apóstolos como os doze e Paulo. Eles foram chamados para um propósito específico (assim como os profetas), e estamos hoje edificados sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos, que é a Sagrada Escritura. Não precisamos de apóstolos, mas, sim, de pastores e mestres que ensinem aquilo que foi registrado pelos apóstolos e pelos profetas. (4) O evangelho gira em torno de Jesus Cristo, o Deus-homem. Devemos parar de seguir falsos profetas que falam de outros evangelhos e raramente falam da pessoa de Cristo e de sua obra na cruz. Essas pessoas jogam iscas: “Você pode fazer uma campanha aqui, uma promessa ali e vai ser coberto de bênçãos”. Isso não é o evangelho! Não estou dizendo que Deus não possa abençoá-lo. Quem se diz crente, mas fica atrás de Deus pela bênção, está sendo enganado por um falso profeta e está enganando o próprio coração, pois o evangelho trata de uma pessoa: aquele que é o cumprimento da promessa de Deus de que enviaria um salvador para nos livrar dos pecados e nos dar a vida eterna. Se você crê nisso, será salvo e herdará a vida eterna; se não, vai viver neste mundo sendo enganado por falsos profetas e morrerá por seus pecados, pelos quais vai responder no dia do juízo e no sofrimento eterno do inferno. Não tenho dúvida de que o inferno estará cheio de gente que creu em um falso evangelho. O evangelho verdadeiro é aquele que foi ensinado pelos profetas no Antigo Testamento e pelos apóstolos no Novo Testamento; ele é o nosso fundamento. Talvez você tenha ouvido um falso evangelho até o dia de hoje, mas quero convidá-lo a examinar o que tem ouvido à luz da palavra de Deus. Talvez você professe crer no verdadeiro evangelho, mas se esqueça de que ele também é um chamado para a santidade, pois a fé sem obras é morta, e a fé no evangelho produz a obediência. Você não pode professar ser um servo de Jesus Cristo se vive desobedecendo a seu Senhor, violando os seus mandamentos e ofendendo-o com suas práticas. Gostaria de que você cresse nisto: O evangelho é poderoso para nos perdoar, mas também para nos transformar. O evangelho é o poder de Deus para salvar todo aquele crê. Talvez você esteja sobrecarregado pela culpa do pecado, mas eis a boa notícia: Deus já enviou alguém para pagar por sua culpa e remir todos os seus pecados, alguém em quem você pode ter vida eterna, graça e paz. Esse alguém é Jesus Cristo, Filho de Deus, descendente de Davi, ressurreto dentre os mortos e que tem todo o poder nos céus e na terra. Louvado seja o Senhor!o capítulo anterior, vimos a razão de Paulo ter escrito essa carta. Ele estava no final de sua Capítulo 2 O AMOR DE PAULO PELOS ROMANOS Romanos 1.8-15 Paulo deseja ver os cristãos em Roma Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por todos vós, pois a vossa fé é anunciada em todo o mundo. Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como sempre vos menciono, pedindo constantemente em minhas orações que agora, de algum modo, pela vontade de Deus, haja boa ocasião para visitar-vos. Porque desejo muito ver-vos, para compartilhar convosco algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos; isto é, para que, juntamente convosco, eu seja encorajado pela fé mútua, vossa e minha. E, irmãos, não quero que ignoreis que muitas vezes planejei visitar-vos (mas até agora tenho sido impedido), para conseguir algum fruto entre vós, como também entre os demais gentios. Sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. De modo que, no que depender de mim, estou pronto para anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma. N terceira viagem missionária, depois de muitos anos pregando na bacia do Mediterrâneo, e havia voltado seus olhos para a Espanha, um campo em que Cristo ainda não havia sido anunciado. Ele planejava, então, chegar à Espanha. No caminho que Paulo optara para lá estavam justamente os cristãos de Roma, uma igreja que ele não havia fundado, mas na qual tinha muitos conhecidos. Embora tivesse amigos lá, Paulo não era oficialmente conhecido da igreja de Roma. O plano de Paulo, então, era o seguinte: levar a cabo o projeto de entregar a oferta que ele havia levantado para os cristãos pobres da Judeia em Jerusalém; de lá ele pegaria um navio com destino a Roma, onde pretendia passar algum tempo com os cristãos locais; e finalmente de Roma ele seria enviado (pela igreja) à Espanha, onde pregaria o evangelho. Como foi dito no capítulo 1, Paulo não era conhecido dos romanos, e a respeito dele circulavam muitos boatos, principalmente por causa da grande comunidade de judeus que havia na cidade. Os judeus perseguiram Paulo desde o início de sua conversão, e a fama do apóstolo na comunidade judaica era de alguém que havia apostatado do judaísmo, traindo a religião de seus pais, negando Moisés, falando contra a lei e o templo, obrigando os judeus a não mais circuncidarem seus filhos, dizendo que Israel não era mais o povo de Deus etc. Paulo sabia que, quando chegasse a Roma, haveria de enfrentar opositores, pois os judeus não estavam presentes apenas na cidade, mas também dentro da própria igreja. Ele resolveu escrever a carta, portanto, a caminho de Jerusalém e com os olhos voltados para a Espanha, na qual explicaria o evangelho que pregava, rebatendo possíveis críticas que viria a receber e tratando de alguns problemas pastorais que precisavam ser esclarecidos, como o relacionamento entre judeus e gentios. Paulo começou a carta falando a respeito de si mesmo e de sua mensagem, defendendo que o evangelho tem origem divina e é uma promessa de Deus, registrada no Antigo Testamento e cumprida no Novo, em Jesus de Nazaré. Ele também mostra como o evangelho é justamente a respeito de Cristo, o Filho de Deus, e deve ser pregado em todo mundo; por isso Paulo tinha interesse de levá-lo até a Espanha. Amor revelado pela oração Na sequência, então, Paulo fala do grande amor que dedica aos cristãos de Roma, do desejo que tem de estar com eles e de seus planos para o período em que estaria na cidade. Ao fazer isso, revela um coração amoroso, pastoral e preocupado, e nos dá acesso ao espírito daquele que foi e é o maior missionário de todos os tempos do cristianismo. Neste capítulo, quero falar do amor de Paulo pelos romanos, algo que fica bem demonstrado pela afirmação de que orava constantemente por eles, por seu desejo de ter comunhão com aqueles irmãos e pelo fato de que ele se sentia devedor de pregar o evangelho a eles. O meu alvo, ao fazer essa exposição, é aprender com o apóstolo o que é ser um crente piedoso, de fato comprometido com a boa- nova do Reino. Nessa passagem, Paulo abre a janela do seu coração, descortinando seu interior, de modo que possamos contemplar como é o coração de um homem temente a Deus e completamente dedicado ao evangelho de Jesus. Minha expectativa é que o Espírito Santo de Deus sonde o meu e o seu coração, e, usando Paulo como exemplo, oriente-nos, corrija-nos, conforte-nos e encoraje-nos a viver uma vida que sirva a Deus com a mesma intensidade do apóstolo. Primeiramente, quero falar sobre o amor de Paulo revelado em suas orações pelos romanos: “Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por todos vós, pois a vossa fé é anunciada em todo o mundo” (v. 8). Mesmo ele não sendo o fundador da igreja de Roma e mesmo tendo ela outros líderes, Paulo agradecia a Deus pelo crescimento que era constatado ali. Aquela era uma igreja que havia espalhado sua fé pelo mundo todo. Em parte, isso se deu porque, como diz o ditado, “todos os caminhos levam a Roma”. Muitas pessoas iam a Roma; lá, conheciam o evangelho e saíam pregando por outros lugares. A obra missionária da igreja de Roma já era conhecida, e a fé daqueles irmãos era propagada por todo o Império Romano. Paulo agradecia todo dia pelo crescimento da igreja de Roma, mesmo não sendo um de seus líderes e não recebendo glória nenhuma, pois seu interesse era que o evangelho crescesse. Ele agradecia por um trabalho que não liderou, por ovelhas que não pastoreou e por frutos que não plantou. Hoje em dia, mal conseguimos agradecer a Deus pelo que ele faz em nossa vida, quanto mais agradecer pelo crescimento espiritual de outras igrejas. O coração de Paulo carrega o amor que devemos ter pelo reino de Deus. Precisamos entender que o reino é maior do que a sua e a minha denominação; há milhares de cristãos, em toda parte, que creem no Senhor Jesus como você crê e como eu creio, e devemos alegrar-nos com esse fato, pois o evangelho está avançando. Deveríamos agradecer a Deus pelos lugares onde o verdadeiro evangelho está sendo ensinado, antes mesmo de agradecer por nós mesmos, pois, independentemente de qualquer coisa, a igreja está crescendo no mundo. Essa é a razão de a igreja, desde o início, ter sido chamada de católica e universal pelos teólogos. Infelizmente, mais tarde, a igreja romana se apropriou do termo “católica”, embora um dos atributos da igreja seja justamente ela ser católica, o que apenas significa que ela se estende pelo mundo todo. A fé é universal; ela alcança todas as raças e todos os povos, e não somente a nós. A alegria pela propagação da semente do evangelho, portanto, estava no coração de Paulo, e isso mostra como ele amava aqueles irmãos. Os pastores dos nossos dias deveriam desenvolver esse sentimento uns pelos outros; em vez disso, há muita concorrência e competição entre denominações. Um pastor tem de ser crente para se alegrar com o avanço de outros, assim como Paulo se alegrava pelo avanço dos pastores de Roma. Paulo coloca isso como prioridade, e note que ele dá graças ao Deus que chama de “meu” (v. 8), o que revela intimidade e um intenso relacionamento pessoal com o Senhor. Ele não se relaciona com uma divindade distante, mas pode chegar a Deus e chamá-lo de “meu”. Essa expressão curta carrega em si um mundo de significados e revela uma relação pessoal intensa. Ele diz, ainda, que essa ação de graças se dá “por intermédio de Jesus Cristo” (v. 8), pois somente por meio dele podemos chamar Deus de nosso; se não for por ele, Deus é apenas o Deus criador de todas as coisas e juiz universal de todos, que haverá de nos julgar pela sua santa lei. Mediante Cristo, podemos dizer que ele é o nosso Deus, com quem temos um relacionamento pessoal diário, constante e profundo. Não deixa de ser irônico observar que Paulo está agradecendo a Deus peloavanço da igreja de Roma; se fosse escrever essa carta hoje, o mais provável é que ele se pronunciasse contra os romanos. Infelizmente, no transcorrer da história, a igreja de Roma se desviou dos caminhos de Deus, em particular durante a Idade Média, e deu origem a uma religião que se propõe cristã, mas que pouco preserva do cristianismo original que Paulo defende nessa carta. A igreja romana carece de reformas (além daquela ocorrida há mais de quinhentos anos, a Reforma protestante), o que mostra que as situações podem mudar, pois a igreja que recebeu uma carta que continha o verdadeiro evangelho foi capaz de se desviar, com o passar do tempo, apostatando e se distanciando da reta doutrina. Daí a necessidade que devemos ter de tomar cuidado e estar alertas, pois o coração humano é enganoso. Paulo amava aqueles irmãos, orava e intercedia por eles. E ele prossegue: “Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como sempre vos menciono...” (v. 9). Agradecer a Deus pelo crescimento de pessoas de outra igreja já é uma grande coisa, mas para interceder todos os dias por elas é preciso ser crente de verdade. Era isso que Paulo fazia, sem ao menos conhecer aquelas pessoas. O problema é que temos dificuldade até mesmo de simplesmente orar, quanto mais orar dessa forma. Esse trecho da carta revela o coração de Paulo e o que é o verdadeiro cristianismo. Quem é comprometido com o evangelho ora pelo progresso dos outros e fica feliz quando outros são exaltados. Paulo diz que ora pelos romanos incessantemente, e apresenta a prova disso invocando a Deus como testemunha. Poderia parecer incrível e até questionável, por parte dos romanos, que Paulo orasse todos os dias por eles, por isso o apóstolo apresenta o próprio Deus como testemunha. Em todas as suas cartas, Paulo menciona orações desse tipo: ele orava incessantemente pelos filipenses, tessalonicenses, colossenses etc. Ele era um homem de oração que amava o povo de Deus. Note como o apóstolo se refere a Deus no versículo 9: “Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como sempre vos menciono...”. O verbo “servir” aqui denota serviço religioso; ou seja, esse Deus, a quem Paulo prestava adoração e louvor como sacerdote em sua vida, era testemunha de suas orações. Talvez o apóstolo tenha escolhido utilizar “em meu espírito” (v. 9) para contrastar com o judaísmo e suas exigências externas legalistas, ou para contrastar com a religião dos gregos e dos romanos, que era muito ritualista. Paulo está dizendo que o serviço que ele presta ao seu Deus é algo interno e sincero, que vem do seu espírito; não é algo de fachada e não é feito para que os outros vejam, mas parte do seu coração. Este é o verdadeiro cristianismo: o que vem de dentro e leva o cristão a servir a Deus em espírito. É claro que o evangelho transforma nossa vida, mas é no espírito que se encontra a sede de nossas afeições religiosas, e é lá que Deus é entronizado por meio de Jesus Cristo e que o Espírito Santo habita. Atos religiosos externos, como ir a um culto, cantar louvores, entregar dízimos e ofertas e participar de uma confissão pública de fé, são bons e necessários, mas não fazem de ninguém um cristão. Nós servimos a Deus no mais profundo de nosso espírito, e não necessariamente por atos religiosos. E Paulo acrescenta: “... no evangelho de seu Filho...” (v. 9), indicando mais uma vez que é somente por meio do evangelho de Jesus Cristo que temos como chegar à presença de Deus para servir, honrar e glorificar o seu nome, orar e interceder. É por meio do verdadeiro evangelho de Cristo que podemos chegar a Deus; não há outro caminho. O apóstolo está dizendo que não é o caminho das obras, da moralidade ou de qualquer outra coisa que parta do ser humano que nos leva a Deus, mas, sim, o serviço a Deus mediante o evangelho do seu Filho. Esse é o Deus que Paulo chama para testemunhar a seu favor, como quem diz: “Eu sei que é incrível que eu esteja dizendo que oro por vocês todos os dias, mas o Deus a quem eu sirvo no meu espírito, por meio do evangelho de seu Filho, é testemunha de que oro por vocês todos os dias: ‘Senhor, abençoe os irmãos de Roma, que lutam pelo evangelho em uma cidade tão difícil, em que vivem perseguidos por todos os lados, ameaçados pelos próprios judeus e cercados de tantos pagãos!’”. Amor revelado pelo desejo de comunhão Paulo, porém, não somente agradecia a Deus e orava pelos irmãos em Roma, mas queria visitá-los também: “... pedindo constantemente em minhas orações que agora, de algum modo, pela vontade de Deus, haja boa ocasião para visitar-vos” (v. 10). O amor que Paulo tinha pelos cristãos romanos não era distante, mas tão concreto e real que ele na verdade queria estar com aqueles irmãos. Isso mostra uma coisa que você já deve ter descoberto na prática: queremos estar com a pessoa por quem oramos. Quando oramos por alguém, sentimos vontade de estar perto daquela pessoa. Então, se alguém o magoou ou ofendeu, ore por essa pessoa. Em pouco tempo você estará pedindo a Deus por uma oportunidade de almoçar com ela. Comece orando, pedindo prosperidade para quem lhe fez mal (mesmo que você não prospere), e logo sentirá vontade de iniciar ou retomar um relacionamento com ele ou ela, pois, quando oramos por alguém, nosso coração se abre para essa pessoa. É isso que vemos acontecer na Carta aos Romanos: Paulo começa a orar por essas pessoas e então se abre, revelando que, na verdade, desejava estar perto deles e ter com eles comunhão. De fato, essa era uma coisa que Paulo já queria há tempos (Rm 15.23): “Mas, agora, não tendo mais o que me detenha nessas regiões, e tendo já há muitos anos grande desejo de visitar-vos...”. Note que ele diz “visitar-vos” e não “ir morar com vocês”, pois seu plano era ir para a Espanha logo depois. É importante destacar também o que Paulo diz no trecho que estamos estudando: “... pedindo constantemente em minhas orações que agora, de algum modo, pela vontade de Deus, haja boa ocasião para visitar-vos” (v. 10). O apóstolo reconhecia a soberania de Deus e sabia que, apesar de seu desejo, sua ida a Roma dependia da vontade de Deus, e por isso ele ora dessa forma. Estamos falando de um homem de fé, que servia a Deus no espírito, que tinha acesso à presença de Deus e que o conhecia intimamente, mas que não era arrogante a ponto de decretar sua ida a Roma. A verdade é esta: quanto mais alguém conhece a Deus, menos arrogante se mostra. Quanto mais você conhece a Deus, menos vai ficar lhe dando ordens e fazendo exigências, mas dirá: “Se for da tua vontade, Senhor, irei a Roma”. E observe que não é outro senão Paulo que está dizendo isso. Por essa passagem podemos presumir que parecia estar surgindo uma ocasião. Paulo estava de partida para Jerusalém, ao final de sua terceira viagem, e calcula-se que tenha ficado aproximadamente quinze anos evangelizando a região do Mediterrâneo. As coisas estavam se encaixando, e parecia real a possibilidade de Paulo ir à Espanha. Como planejar não faz mal a ninguém, Paulo fazia planos; porém, nem sempre as coisas saem como gostaríamos. Paulo chegou a Jerusalém, mas foi preso. Ele também chegou a Roma, é verdade, mas apenas dois anos depois, acorrentado como preso político. Essa cidade que ele tanto amava e tanto queria ver foi o palco de sua morte, no ano 64 d.C., quando o imperador Nero mandou que cortassem sua cabeça na Via Ápia. Os planos nem sempre saem como queremos; Paulo acabou chegando a Roma, mas não do jeito que desejava. Seguindo com o texto, Paulo fala de sua vontade de ter comunhão com aqueles irmãos que ele tanto amava: “Porque desejo muito ver-vos, para compartilhar convosco algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos; isto é, para que, juntamente convosco, eu seja encorajado pela fé mútua, vossa e minha. E, irmãos, não quero que ignoreis que muitas vezes planejeivisitar-vos (mas até agora tenho sido impedido), para conseguir algum fruto entre vós, como também entre os demais gentios” (v. 11-13). Paulo queria oferecer aquilo que Deus havia lhe dado: a maestria no ensino, a fim de ali confirmar a fé dos romanos. E, para deixar claro que não era do tipo que apenas ensinaria sem receber nada em troca, ele diz: “isto é, para que, juntamente convosco, eu seja encorajado pela fé mútua, vossa e minha”. Paulo fora para ensinar, mas também para ser encorajado e confortado pela fé dos romanos, de modo que assim se sentisse mais disposto para continuar a obra de Deus. O apóstolo, apesar de ter chegado àquela estatura, nunca se viu como alguém que não precisasse ser ministrado por outras pessoas. Nós também nunca chegaremos a tal ponto, pois não existe alguém tão pobre espiritualmente que não possa beneficiar o outro com sua presença e comunhão. Paulo queria fortalecer os romanos e ser fortalecido por eles para pregar o evangelho em todo o mundo. Nesse sentido, não entendo bem o fato de haver tantos “desigrejados”. Um desigrejado é alguém que quer ser crente, mas não quer a igreja. Se já houve alguém que poderia ser um desigrejado, esse alguém era Paulo, pois sua intimidade com Deus era muito grande. No entanto, ele queria ir a Roma para ter comunhão com irmãos que nem conhecia, para ministrar e ser ministrado, confortar e ser confortado. Quando insisto a respeito da importância da igreja, não faço isso para ver bancos lotados, a igreja cheia, ofertas e números em ascensão etc. Não é esse o meu interesse; eu insisto nisso porque sei que não podemos ser crentes se não estivermos na comunhão dos santos. Todos nós precisamos de um ambiente onde possamos ser ensinados, ministrados e confirmados, onde possamos exercer nossos dons espirituais. Isso fica muito claro aqui, nesse anseio de Paulo por ver e experimentar a comunhão dos irmãos romanos. É triste esse movimento de desigrejados que está tomando o mundo todo de cristãos que querem Cristo, mas não querem a sua noiva, a igreja. Amor revelado como dívida Paulo não só quer ser confortado pelos romanos, como afirma: “E, irmãos, não quero que ignoreis que muitas vezes planejei visitar- vos (mas até agora tenho sido impedido), para conseguir algum fruto entre vós, como também entre os demais gentios” (v. 13). Paulo também tinha interesse de gerar frutos por meio do trabalho com os romanos e com os outros gentios, a saber, os espanhóis. Paulo ansiava por ver o fruto do evangelho florescer em todo o mundo, e havia feito muitos planos para iniciar o projeto de ir a Roma, mas nem ele conseguia tudo do jeito que queria. Ele fazia planos e mais planos, mas foi impedido diversas vezes (isso se deu, muito provavelmente, pelo fato de ele ainda ter, à época, muito campo missionário na bacia do Mediterrâneo, e, a cada nova igreja plantada, muito trabalho precisava ser feito). Além das outras duas formas como revelou seu amor pelos romanos, Paulo demonstrava esse amor se sentindo devedor a eles: “Sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. De modo que, no que depender de mim, estou pronto para anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma” (v. 14,15). Paulo se sentia devedor por alguns motivos: primeiramente, ele havia sido um fariseu arrogante, prepotente, cego e legalista, cheio de ódio por Cristo e seus seguidores, mas a graça de Deus um dia o alcançara, sem nenhum mérito ou conquista por parte dele. Por graça divina, Deus apareceu a Paulo na pessoa de Cristo Jesus, na estrada para Damasco, e ele foi salvo. Quando entendemos o amor de Deus por nós, nos sentimos devedores a outros, pois, se Deus nos deu a graça de nos perdoar, sentimos que as pessoas também deveriam experimentar essa graça. Já foi dito que evangelizar é semelhante a um mendigo dizer ao outro que encontrou pão. Imagine um mendigo que, após dias passando fome, descobre um lugar onde há pão de graça! Ele sairá correndo para contar aos amigos, pois se sente devedor por ter recebido gratuitamente aquilo de que precisava e, se não contar a ninguém, se sentirá um egoísta. Por isso Paulo diz que é devedor. Ele não pode se sentir de outra forma, pois recebeu o perdão de pecados. E é importante notar que ele diz se sentir devedor a gregos e bárbaros. A palavra “bárbaro” vem da forma que os gregos viam os povos que não participavam da cultura grega, como os persas e egípcios. Os gregos se julgavam a nata intelectual do universo, uma raça nobre. Isso começou a partir dos esforços de Alexandre, o Grande, e da expansão do helenismo, em cerca de 250 a.C. A língua grega era considerada uma língua civilizada; quando uma pessoa de outra cultura falava sua própria língua, os gregos apenas ouviam “bar-bar-bar”. É daí que vem a palavra “bárbaro”, a qual entrou para a nossa língua justamente com um sentido pejorativo que remete a incivilidade. Paulo está enfatizando, portanto, que se sente devedor aos gregos e também àqueles a quem os gregos menosprezam, pois para ele não há diferença: todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23). A prova disso é que ele continua a dizer no texto que é devedor “tanto a sábios como a ignorantes” (v. 14). Paulo demonstra que todos pecaram, só no evangelho de Cristo gregos e bárbaros, sábios e ignorantes podem encontrar a salvação. Por isso o apóstolo se sente devedor em relação a cada ser humano, não apenas a alguns amigos. Ele sabe que as pessoas estão famintas, e sabe onde há pão, onde há perdão, graça e misericórdia. É por esse motivo que ele diz estar “pronto para anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma” (v. 15). Conclusão e aplicações práticas O que podemos aprender aqui? Primeiramente que não nos cansamos de nos maravilhar com o poder do evangelho. Quem está dizendo todas essas coisas e revelando um coração cheio de oração e de vontade de estar com aqueles irmãos, sentindo-se devedor a eles, é o mesmo Saulo de Tarso, aquele fariseu arrogante e pretensioso que achava que estava fazendo um favor a Deus ao perseguir e jogar cristãos aos leões. O evangelho transformou esse homem de um fariseu endurecido e cheio de mágoa em um homem apaixonado pelo evangelho, que ama as pessoas, quer estar com elas e ser por elas edificado e que, além de tudo, se sente devedor a cada um daqueles irmãos, e não o contrário (Paulo poderia sentir que as pessoas lhe deviam algo por ele ser um grande pregador). O evangelho faz isso: ele muda, transforma pessoas. Ele transformou Saulo de Tarso no apóstolo Paulo que escreveu Romanos. Deus pode mudar totalmente uma pessoa, transformando seu coração de pedra, cheio de mágoa, ressentimento e raiva para com a vida e com Deus em um coração alegre, leve, cheio de amor e de vontade de abençoar outras pessoas. É isso que o evangelho faz, e é isto que significa ser cristão: ser alcançado e transformado pelo evangelho. A segunda lição que extraímos do texto é o que vem a ser, de fato, uma vida piedosa e comprometida com o evangelho. Essa era a vida de Paulo, não porque ele era um apóstolo, pois, se Deus o tivesse chamado para ser apenas fazedor de tendas, ele teria esse mesmo coração que buscava servir a Deus, se interessava pelas pessoas, procurava ter comunhão com elas e abençoá-las com os dons que ele havia recebido. Compare isso com a sua vida. Podemos aprender também, do texto, a importância de estarmos em comunhão com outros cristãos. Quando seu pastor insiste para que você vá ao culto, faça parte de um grupo pequeno ou de discipulado, busque relacionamentos para ter comunhão etc., ele não está fazendo isso por outra razão senão pelo fato de que essa é uma recomendação bíblica. Estarmos juntos, ministrarmos uns aos outros e aprendermos uns com os outros são aspectos que fazem parte da comunhão dos santos, algo que é bíblico. As metáforas que a Bíblia utiliza denotam isto: fazemos parte de um corpo, somos parte de um organismo vivo,somos os ramos de uma árvore, as pedras de um edifício etc. A quarta lição que o texto nos ensina é a obrigação de pregar o evangelho. Se você foi alcançado pelo evangelho, por que não se sente devedor? Se sabe o caminho para Deus, você não se sente obrigado a dizer isso para outra pessoa? Eu sei que sentimos uma dificuldade natural de temperamento, e às vezes não sabemos o que dizer. Além disso, o mundo de hoje é muito complexo e, se você disser “Jesus Cristo salva”, terá de explicar cada uma dessas três palavras. Entendo que é difícil, mas há ferramentas, métodos, meios e caminhos para que você possa compartilhar a sua fé. Se não consegue dizer nada, pode pelo menos convidar alguém para ir à sua igreja. Envie o link do site da sua igreja para um amigo ou até mesmo compartilhe um folheto, mas compartilhe, mesmo que não saiba explicar a sua fé. Por último, aprendemos com o texto que podemos fazer planos, mas a resposta final é de Deus. Paulo não tinha a menor ideia de como iria para Roma, mas ele foi, embora não da forma que pensou. Apesar do desfecho da história de Paulo, no entanto, Deus cumpriu seus planos, pois, mesmo preso em Roma, Paulo escreveu as cartas aos Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Se ele não tivesse sido preso, teríamos ficado sem essas cartas, e, mesmo preso, ele acabou abençoando muito mais pessoas do que se estivesse livre. Provavelmente Paulo nunca chegou à Espanha conforme havia planejado. Mas, se ele não chegou lá fisicamente, chegou por meio de seus escritos. Nosso Deus é soberano, e ele reina. É a ele que queremos servir. Que ele nos ajude a ter um tempo diário para servi-lo e nos dê graça para buscarmos comunhão com irmãos e testemunharmos o Cristo vivo, pois somos devedores a todos os homens por causa desse evangelho. D ando prosseguimento ao estudo da Carta aos Romanos, chegamos a dois versículos que são uma declaração gloriosa a respeito do que é a mensagem central do cristianismo (e ao mesmo tempo tema da carta). Capítulo 3 EVANGELHO: O PODER DE DEUS PARA SALVAR Romanos 1.16,17 A justiça pela fé Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego. Pois a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé. No capítulo anterior, vimos como Paulo revelou aos crentes de Roma seus planos de ir visitá-los (1.8-15). Como foi dito, sua intenção era ir a Jerusalém, onde deixaria uma oferta aos cristãos pobres da Judeia, e, de lá, ele planejava tomar um navio com destino a Roma. Na capital do império, Paulo esperava ser recepcionado pela igreja romana, que ele não havia fundado, mas da qual conhecia alguns membros (a lista dessas pessoas está no cap. 16 da carta). Paulo desejava estar junto daqueles irmãos, compartilhar com eles o evangelho e ser por eles abençoado. Também planejava ser enviado pela igreja de Roma para a Espanha em uma viagem missionária para pregar o evangelho (Paulo detalha isso no cap. 15). O apóstolo demonstra grande amor pelos cristãos romanos, mesmo não sendo conhecido da maioria deles. Esse amor se manifestava por meio de suas orações por aquela igreja, por seu desejo de estar em comunhão com os irmãos e seu sentimento de ser devedor para com eles. Ao final da seção que estudamos no capítulo anterior, Paulo diz que está pronto para ir a Roma. Nesse trecho, ele explica por que está pronto a ir a Roma anunciar o evangelho aos seus habitantes, quer judeus, quer gregos. Ao fazer isso, ele nos dá em dois versículos o tema da sua carta e um resumo extraordinariamente claro e conciso do que é a mensagem central do cristianismo. Trata-se de dois versículos gloriosos, impregnados de mensagem e conteúdo, cuja leitura levou Martinho Lutero a entender o caminho da salvação e a justificação que vem pela fé em Jesus Cristo, dando assim origem à Reforma protestante. Esse texto tem influenciado a igreja ao longo da história e dele se originam três dos cinco solas da Reforma: sola fide, sola gratia e solus Christus. “Não me envergonho do evangelho” Paulo afirmou não ter vergonha do evangelho; isso significa que ele não se intimidava por crer em Jesus como o Filho de Deus, o Messias de Israel. Paulo era judeu e havia sido um perseguidor do cristianismo, quando pensava que Jesus era um falso profeta e seus seguidores eram uma ameaça à verdadeira religião, por isso precisavam ser eliminados. O apóstolo empenhou-se em uma cruzada pessoal contra os cristãos. Ele chegou a ter permissão das autoridades de Jerusalém para caçar os seguidores de Cristo nas cidades circunvizinhas. Quando os encontrava cultuando nas casas, ele os prendia e os levava para Jerusalém, onde eram interrogados, presos e até torturados; em alguns casos, como o de Estêvão (At 7), eram apedrejados até a morte. Certo dia, Paulo conheceu Jesus, a quem ele perseguia, na estrada para Damasco, e se transformou de perseguidor em discípulo adorador. Aquilo que Paulo antes perseguia, odiava e do que sentia vergonha era agora a fé que ele abraçava. O apóstolo dedicou a vida a pregar o mesmo evangelho que antes havia perseguido. Essa declaração de que não se envergonhava do evangelho ganha, portanto, um sentido extraordinário, quando nos lembramos de quem está dizendo essas palavras. O evangelho era motivo de vergonha para a nação de Israel como um todo: o filho de Deus era um carpinteiro pendurado em uma cruz? Aquilo era um escândalo! Agora, no entanto, Paulo se tornara um seguidor de Jesus Cristo e pregador do evangelho. Ele não se sentia mais envergonhado, mas, sim, grato por ter crido no evangelho, privilegiado e abençoado por ter sido alcançado e se tornado um pregador desse evangelho. Essa era a razão pela qual ele dissera que estava pronto a ir anunciar o evangelho também em Roma. Ele não tinha mais vergonha, e pregaria onde fosse possível a boa-nova de que Deus, em Cristo, salva o pecador. Quando pensamos que ele diz isso com relação a Roma, essa declaração ganha ainda mais sentido, pois aquela cidade era a capital do império. Os romanos valorizavam a força, o poder e o domínio; eram uma nação conquistadora que havia avançado em suas conquistas por meio de seu poderio militar. Imagine Paulo chegando a essa cidade e dizendo que Deus havia salvado o mundo por meio de um pobre carpinteiro nascido em uma cidadezinha obscura, seguido por um bando de pescadores, traído por um de seus seguidores e negado por outro, condenado por seu próprio povo e entregue, por um procurador romano (Pôncio Pilatos), à morte mais vergonhosa que havia no Império Romano! A cruz era um instrumento de tortura e a pena que os romanos impunham aos presos políticos e aos mais terríveis criminosos. Paulo se dispõe a ir à capital do Império Romano dizer que aquele homem, rejeitado por seu povo e condenado a morrer em uma cruz, era na verdade o Deus que salva o pecador. Eu imagino Paulo tendo de pregar isso aos ouvidos arrogantes dos romanos. É por isso que ele diz: “não me envergonho do evangelho” (v.16). O poder de Deus para a salvação Paulo prossegue explicando o porquê de não se envergonhar do evangelho: “... pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (v. 16). Longe de ser uma fraqueza, como os romanos talvez pensassem, o evangelho era, na verdade, a manifestação do poder de Deus; é nele que o poder de Deus se manifesta de forma clara. Há uma série de pontos, a partir daqui, que precisam ser explicados para que entendamos plenamente o que Paulo está dizendo. A humanidade está perdida Ao dizer que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, Paulo está destacando o fato de que a humanidade está perdida. Se assim não fosse, ele não poderia falar do evangelho como sendo o poder de Deus para a salvação. Se a humanidade estivesse salva, para que salvação? Quando falamos dehumanidade, falamos de modo inclusivo. Todos, sem exceção, estão perdidos, tanto gregos quanto bárbaros (Paulo fala sobre isso em Rm 1.20,21). O apóstolo diz que mesmo aqueles gregos e bárbaros que nunca ouviram o evangelho também estão perdidos e condenados por rejeitarem a revelação que Deus fez de si mesmo na natureza. Embora eles tenham seus deuses, são escravos dos desejos de seu coração. Estão cegos, endurecidos e pensam ser sábios; no entanto, estão debaixo da ira de Deus e caminham para a condenação eterna. Por essa razão, Paulo desejava ir a Roma e à Espanha. Se ele não acreditasse que os espanhóis e os romanos estavam perdidos, não planejaria ir à Espanha nem a Roma. Além dos gregos e bárbaros, o apóstolo fala sobre como os judeus também estão perdidos (caps. 2 e 3). Ele diz que até mesmo os judeus, que receberam a revelação de Deus no Antigo Testamento, que receberam a aliança, de quem vieram as profecias e o Messias, de quem são as Escrituras e o culto, mesmo esses estão perdidos. Eles receberam a lei de Deus, mas a entenderam como um caminho de salvação, criando uma religião legalista e baseada em mérito. Todos, portanto, estão perdidos. No capítulo 3, Paulo faz a famosa declaração: “Porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (v. 23). Essa condenação se estende a toda a raça humana, independentemente de raça, nacionalidade, gênero, cor ou idade. Nossos filhos estão perdidos, tanto os bebês quanto os mais velhos. Toda a raça humana, sem exceção, está manchada pelo pecado e também condenada por ele, porque Deus é justo e santo, e conhece cada pessoa. É aqui que podemos perceber a diferença entre o cristianismo e as outras religiões. As religiões insistem em dizer que o homem é intrinsecamente bom e que a salvação está dentro dele. Ele precisa apenas olhar para dentro de si mesmo (“Ouça seu coração” — alguma semelhança com o que se vê nos filmes de Hollywood?). Se o sujeito é mau, ele só pode ter nascido em um ambiente depravado, de acordo com essa ideia. Vemos isso aqui no Brasil com frequência. Quando há um caso de estupro que ganha as manchetes dos jornais, por exemplo, vemos as pessoas buscando encontrar a culpa por todo lado — na sociedade, na cultura de estupro, na erotização —, mas muito pouco no próprio estuprador. É como se ele fosse uma mera vítima por ter crescido em um ambiente precário; a culpa é colocada nos pais, na sociedade e na educação, e o indivíduo quase escapa de sua responsabilidade. Essa é a religião do homem moderno. Quem não gosta de ouvir que não é responsável pelos próprios atos, que na verdade é uma boa alma e se pagar algumas promessas e participar de alguns atos religiosos vai ficar em paz com Deus? Essa religião agrada ao coração. O cristianismo, ao contrário, começa com uma má notícia: você viola a lei de Deus desde a mais tenra idade. Você está debaixo da ira de um Deus que é poderoso para fazê-lo sofrer eternamente no inferno. É isso que o cristianismo começa dizendo, e nesse sentido ele é único. Deus salva os pecadores mediante o evangelho O evangelho é a boa notícia de que Deus, em seu grande amor por essa humanidade perdida, enviou Jesus Cristo, nascido de mulher e participante da nossa condição humana, para morrer na cruz do Calvário como nosso representante. Ele suportou a ira de Deus e o castigo que estava destinado a cada um de nós. Longe de ser um momento de fraqueza, como talvez os romanos pensassem, no evangelho o poder de Deus é revelado. Ali, quando aquele homem derrama sua última gota de sangue e exclama “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), o que parece um quadro de fraqueza, com um homem crucificado sentindo-se abandonado, é na verdade a manifestação do poder de Deus. Ali Cristo estava levando sobre si as nossas iniquidades. A salvação vem por meio do anúncio desse ato salvador de Deus em Cristo Jesus. Quando Paulo usa a palavra “salvação” (v. 16) nessa passagem, pensamos apenas na salvação da condenação ao inferno. Mas o evangelho nos salva, na verdade, em todos os sentidos: ele nos salva da culpa do pecado (nos colocando em paz com Deus); nos salva do poder do pecado neste mundo, nos ensinando a largar os maus hábitos, a vencer o nosso pecado e as tensões do coração, a subjugar os nossos desejos mais ímpios e a viver fazendo o que é certo, amando o próximo; o evangelho nos livra da presença do pecado, porque um dia o redentor voltará, a ressurreição dos mortos acontecerá e nós participaremos com ele da consumação de todas as coisas, a redenção e salvação final, quando então o pecado será extinto definitivamente da história da raça humana. Portanto, a salvação é completa, não somente da culpa, mas também do poder e da presença do pecado na ressurreição dos mortos. É dessa maneira, e de nenhuma outra, que Deus salva pecadores. Não há nenhuma outra forma de salvação para o ser humano senão mediante o evangelho; Deus salva pecadores mediante o evangelho. Libertação do poder do pecado Gosto de pensar no evangelho nesses termos, como o poder de Deus. Muitos estão atrás de poder; na verdade, podemos dizer que até mesmo muitos evangélicos estão atrás do que chamamos de “religião do poder”. Eles querem ter poder para conquistas, para realizar seus sonhos, para vencer na vida, derrubar gigantes, encontrar a Terra Prometida etc. De fato, o evangelho é uma religião de poder, mas no sentido com que figura no texto do versículo em questão: a maior demonstração do poder de Deus não é lhe conceder um carro novo, uma casa própria, um bom emprego e um excelente casamento. Há mais manifestação do poder de Deus na salvação do pecado que há em você do que em qualquer outro ato miraculoso que ele porventura queira fazer. Até mesmo a ressurreição de mortos é algo simples perto disso que estamos falando. Deus toma pecadores culpados como eu e você e nos faz seus filhos, perdoa nossas iniquidades e nos torna herdeiros dos novos céus e da nova terra, nos quais habita a justiça. Isso, sim, é poder. Quando penso no evangelho como poder, sou levado à conclusão de que o cristianismo não é uma religião formal. Não se trata de cumprir determinados atos, como ir à igreja para escutar sermões todo domingo, tornar-se membro de uma igreja, dar ofertas e dízimos, cantar no coral etc. O cristianismo consiste basicamente em experimentar esse poder de Deus. Não é uma religião formal calcada em realizações humanas, mas é essencialmente uma experiência libertadora que acontece por meio do evangelho do poder de Deus. É uma religião “experiencial” no sentido de que envolve experiência e mudança de vida. Muita gente pensa que é cristã por ter nascido em um lar evangélico. Eu mesmo pensei isso durante muitos anos, pois cresci frequentando a igreja. Cantei no coral jovem (não me convidem, por favor — minha voz não serve mais), fiquei em segundo lugar em um concurso que envolvia o livro de Daniel — uma glória para mim naquela época — e namorei a filha do pastor. Quer mais crente do que isso? Mas me lembro perfeitamente de estar sentado no banco da igreja, ouvindo grandes pregadores e não entendendo nada. Eu não estava interessado. Sempre gostei de desenhar, então levava um pedaço de papel e ficava desenhando o rosto do pregador (em segredo!). Hoje em dia, os jovens usam o celular em vez do papel, mas da mesma forma crescem pensando que são crentes apenas porque estão ali no meio. Somente aos 22 anos conheci o poder do evangelho, o qual transformou a minha vida. Não estou dizendo que você precisa ter uma experiência dramática como a de Paulo no caminho para Damasco, pois Deus tem maneiras diferentes de fazer as pessoas experimentarem o poder do evangelho. O que vale é esse evangelho tê-lo alcançado, não importa a idade que você tenha. Uns experimentam um longo processo, enquanto outros têm uma súbita epifania. Há também quem nem mesmo saiba quando foi alcançado. Um dos homens mais crentes que conheçoé o reverendo Francisco Leonardo, meu sogro. Se você lhe perguntar se ele teve uma experiência desse tipo, ele lhe dirá que, até onde se lembra, foi crente desde menino. Mas o poder de Deus na vida dele é algo visível. Portanto, não se iluda! Ser cristão não é fazer parte do rol de membros de uma igreja. O evangelho é o poder de Deus para salvá-lo da culpa, da presença e do domínio do pecado, e não há salvação fora desse poder. O poder salvador alcança todos os que creem O poder do evangelho dedica-se a salvar todo aquele que crê (não toda a humanidade, mas todo aquele que crê). Isso significa que a salvação não acontece por mérito, raça, gênero, idade, condição social, educação, moralidade, boas obras, caridade ou bondade, mas, sim, por fé — do começo ao fim. É mediante a fé que o poder do evangelho nos alcança, e é por isso que ele pode ser estendido a todo aquele que crê, seja criança, seja velho; seja judeu, seja grego; seja pequeno, seja grande. Paulo diz que o evangelho é poder: primeiro aos judeus, pois a eles foram feitas as promessas e foram eles os primeiros a ouvir, e depois a todo o que crê. Crer aqui não é somente acreditar naquilo que Paulo e os demais apóstolos disseram acerca de Cristo; não se trata simplesmente de mera aceitação intelectual dessas coisas, pois o Diabo também sabe que elas são verdadeiras. Você precisa receber essas verdades, apropriar-se delas, render-se a Jesus, colocar sua confiança plenamente nele e na obra completa da cruz do Calvário, e reconhecer diante de Deus o que Paulo está ensinando: “Deus, sou um pecador perdido, e, se o Senhor me mandar para o inferno, será justo. Não há mérito algum em mim, e, se o Senhor não tiver misericórdia de mim por meio do sacrifício de Jesus, estou condenado pelos meus pecados. Aceita- me como pecador”. Isso é fé. É preciso abraçar esse evangelho com a mente, pois devemos entender e concordar com ele, mas também de todo o coração, envolvendo-nos nele e rendendo-nos a Jesus, demonstrando disposição para viver para ele e em comunhão preciosa com Deus. É dessa forma que esse poder nos é dado: mediante a fé em Cristo Jesus. Como um Deus justo perdoa pecadores? A passagem, então, continua: “Pois a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé” (v. 17). No evangelho, a justiça de Deus é revelada de fé em fé; isso não acontece em nenhum outro lugar, somente no evangelho. A justiça de Deus mencionada nesse versículo não é somente uma qualidade divina, a partir da qual Deus absolve o inocente e condena o culpado. Uma pessoa justa é aquela que trata as outras de acordo com o merecimento delas, e Deus é justo; ele não faz acepção de pessoas. Se ele encontra alguém culpado, ele o condena; se ele vê um inocente, ele o absolve. Se Deus é justo, e como não há um único justo sequer na raça humana, quem pode se salvar? Ou, colocando de outra maneira, como Deus pode salvar pecadores se ele é justo? Seria como um juiz que absolvesse um condenado, réu confesso, reconhecidamente culpado. Nós nos escandalizaríamos com isso — basta observar as nossas reações à leniência da justiça diante de grandes escândalos de corrupção. A mesma questão existe aqui nessa passagem. Como Deus pode perdoar pecadores? Deus não tem a obrigação de perdoar ninguém! Ele deveria condenar toda a raça humana. Como é possível Deus nos perdoar? A resposta está no evangelho revelado: Deus nos mandou seu Filho, que assumiu a nossa natureza como nosso representante, e o castigo que nos era devido Deus fez cair sobre ele. Na cruz, então, Deus revela a sua justiça, pois ali ele está castigando o pecado. Ele é um Deus justo que deve castigar o pecado, e o faz em Jesus, que leva a nossa culpa e sofre a dor que merecíamos. Deus toma, então, a justiça de Cristo (que era perfeito e sem pecado) e a transfere para o pecador. É o que chamamos de imputação. Deus imputa a justiça de Cristo ao pecador, e é feita uma troca: na cruz do Calvário, Jesus recebe a nossa culpa e nós recebemos a sua justiça. É assim que um Deus justo justifica pecadores. Ele continua sendo justo, pois o pecado foi castigado, mas transfere os méritos de Cristo para o pecador, de forma que agora pode recebê-lo. Ele olha para o pecador, mas não vê condenação, pois o pecador está em Cristo. Por isso Paulo vai dizer, mais adiante: “Portanto, agora já não há condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Cristo levou nossa condenação, e Deus nos atribui a justiça de Cristo. É no evangelho que isso se revela, em nenhum outro lugar. O evangelho é poder de Deus para salvar todo aquele que crê porque, no evangelho, Deus revela de que maneira ele justifica o pecador: de fé em fé, do começo ao fim, sendo a própria fé um dom dele. Paulo termina o versículo 17 citando uma passagem do Antigo Testamento (de Habacuque 2.4): “O justo viverá pela fé”. Ou seja: aquele que pela fé foi tornado justo viverá eternamente e será salvo da condenação. Conclusão e aplicações práticas Uma palavra a você que sinceramente busca ser justo diante de Deus e sente no coração o peso dos seus pecados, a culpa e o medo da morte, atemorizado talvez pelo juízo e pelos terrores de Deus: você está lendo aqui que Deus pode salvá-lo mediante a obra de Jesus Cristo no Calvário. Você pode crer em Cristo e receber esse poder que transforma e muda. Tenha a consciência de que Deus, mediante a fé, reconcilia-se conosco por meio do evangelho. No entanto, se você já é salvo, mas seu cristianismo se resume a ouvir sermões, saiba que não é ruim ir à igreja para escutar mensagens edificantes, mas não é o suficiente. O cristianismo é mais do que isso; ele é o poder de Deus para salvá-lo de todas as maneiras possíveis, e você precisa experimentar esse poder. Examine sua vida a fim de verificar em que áreas esse poder tem se manifestado. O evangelho o tem salvado de hábitos pecaminosos, da desobediência aos pais, da teimosia, da imoralidade, da infidelidade ou da desonestidade? O evangelho não nos foi dado somente para o perdão dos pecados, mas também para que tivéssemos força para vencê-los. Se você é cristão, mas vive em um ambiente hostil (trabalho, universidade etc.), recomendo que seja como Paulo: não tenha vergonha de sua fé. Não se envergonhe do evangelho na frente dos seus colegas, pois ele é como um leão: basta você abrir a jaula e deixá-lo sair. Ele é o poder de Deus para salvar a vida dos mais radicais inimigos do evangelho, como fez com Saulo de Tarso. Não tenha vergonha de dizer, no seu trabalho, que você é cristão e filho de Deus, e não tenha vergonha de viver as implicações disso. Não se envergonhe daquele que, na cruz do Calvário, deu a própria vida em favor da sua. Não tenha vergonha dele; ao contrário, você pode dizer com humildade: “Sou grato a Deus por ser cristão. Sou grato a Deus pelo privilégio que ele me deu de experimentar esse poder”. A todos nós: louvemos a esse Deus que quis salvar pecadores, cujo poder se revela na mensagem de seu Filho, que foi pendurado na cruz, morto e ressuscitado pelos nossos pecados. Louvemos porque ele nos quis salvar e nos fez conhecer essa mensagem. Vivamos para a glória desse Deus. Que nos entreguemos a ele, dizendo: “Ó Senhor, que poderei te dar e de que forma poderei te retribuir pela manifestação do evangelho, que é o teu poder na minha vida? Toma a minha vida, usa-me onde quer que eu esteja. Que eu seja um emissário da cruz e um proclamador desse evangelho, sabendo que ele é o poder de Deus que ninguém pode deter”. P aulo escreveu esta carta, como vimos, ao final de sua terceira viagem missionária, a caminho de Jerusalém, com o objetivo de expor o evangelho que pregava. Ele endereçou-a aos irmãos de Roma, a quem pretendia visitar e convencer a Capítulo 4 A REVELAÇÃO DE DEUS NA NATUREZA Romanos 1.18-20 A idolatria e a depravação dos gentios Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiçados homens, que impedem a verdade pela sua injustiça. Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis. p ajudá-lo em seu projeto missionário na Espanha. Além disso, Paulo entendeu que precisava esclarecer boatos oriundos da comunidade judaica a seu respeito. Embora esses pontos já tenham sido tratados na “Introdução”, relembrá-los aqui pode ser bom para entendermos essa passagem em seu contexto. Até aqui, vimos Paulo se apresentando como apóstolo chamado por Deus, falando a respeito do evangelho centrado na pessoa de Cristo. Ele fala de sua disposição de visitar e estar com os irmãos em Roma (v. 8-15) e de seu objetivo de pregar o evangelho em Roma, pois este é o poder de Deus para salvar pecadores e não deve ser motivo de vergonha (v. 16,17). Em seguida, Paulo começa a expor a necessidade que todos têm do evangelho. Ele trata do pecado da humanidade e da ira de Deus contra ela. O apóstolo fala de uma revelação que Deus fez de si mesmo na consciência de todos os homens e por meio das coisas criadas, deixando, portanto, a humanidade indesculpável (v. 18- 20). Nenhuma pessoa pode alegar desconhecimento da existência de Deus, pois ele está arraigado em nosso coração e brilha ao nosso redor, na natureza. A Bíblia ensina que Deus se manifesta de duas maneiras aos homens: pela revelação especial (Rm 1.17) e pela revelação natural (Rm 1.18-20). Em relação à revelação especial, Paulo mostra como o pecador é justificado diante de Deus e como essa justiça é revelada no evangelho. É no evangelho de Cristo, pela fé, que Deus recebe, justifica e perdoa o pecador. Enquanto Deus se revela ao mundo por meio do evangelho no mundo, há ainda outra revelação que já vem acontecendo desde a criação, que é a revelação da ira de Deus. Nessa proposição, podemos perceber o contraste entre a revelação da justiça e a revelação da ira. São duas revelações que acontecem simultaneamente. No evangelho de Jesus Cristo, Deus revela a sua justiça, e, na natureza, revela a sua ira. Essas duas revelações levam a diferentes destinos: a primeira leva à vida eterna, mas a segunda serve para nos mostrar que Deus está irado com a humanidade, e que, sem o evangelho, ela será condenada eternamente. A revelação natural A nossa consciência revela que existe um Deus e este Deus está irado. Essa revelação é feita por um Deus que “se revela do céu”, o local da sua habitação. Lá do mundo espiritual, ele mostra ao homem que está triste e irado. Essa revelação está ativa na consciência das pessoas, e é por isso que o sentimento religioso é universal. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer época, encontramos pessoas que temem um poder superior. A prova disso é que todas as religiões incluem algum tipo de pagamento a fim de apaziguar uma divindade; essa consciência que o homem tem da existência de algo superior faz com que ele viva aterrorizado. O sentimento de culpa é universal, seja entre os chineses, seja entre as tribos indígenas que fazem sacrifícios brutais de animais e crianças. A ira de Deus desce dos céus, e mesmo o homem mais bruto sabe, em seu íntimo, que existe um Deus que está irado com nossos atos. Essa ira não pode ser comparada à raiva humana, que frequentemente envolve cólera ou vingança. A ira de Deus é o desprazer que ele sente diante da rebelião de suas criaturas. Ela demonstra o propósito que ele tem de punir a desobediência e o pecado. Trata-se da resolução inabalável do ser divino de eliminar o pecado e tratar com justiça aqueles que desafiam a sua existência e autoridade. Esta é a ira de Deus: uma retribuição santa diante da ofensa que o pecador lhe faz. Do céu, a ira de Deus se revela, e essa revelação é feita na consciência, na intuição humana. É por isso que a religião existe desde sempre. Por que o homem sente necessidade de se curvar diante de um ser superior para apaziguá-lo? Justamente porque dos céus a ira de Deus se revela. Contra a impiedade e a injustiça Paulo diz: “Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça” (v.18). Deus está irado por duas razões. A primeira delas Paulo chama de “impiedade”. Esse é um termo que significa “falta de religião”, ou seja, viver como se Deus não existisse. Uma pessoa piedosa reconhece a Deus, anda nos seus caminhos, adora- o e quer servi-lo. Já o impiedoso não reconhece a Deus, vive como se ele não existisse e não o leva em consideração. A ira de Deus, então, se levanta contra a impiedade da humanidade, que não o reconhece como Deus, não o trata como tal, não o busca, não o serve e não o adora. Mas Deus não está irado apenas com a impiedade; o texto diz que ele se ira com a “injustiça dos homens”. Outras versões traduzem o termo por perversão: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (ARA). Enquanto impiedade remete ao relacionamento com Deus, perversão aborda o relacionamento entre os homens. Injustiça ou perversão, nesse trecho, significa perverter o direito, a dignidade e a justiça. É o tratamento imoral, injusto e opressor de uma pessoa para com a outra, e Deus está irado contra isso. Ele não se ira apenas com a impiedade em relação a si mesmo, mas também com o fato de que as pessoas se maltratam, se odeiam, se enganam, se defraudam e se oprimem, fazendo seus semelhantes sofrerem. Como a humanidade chegou nessa situação de impiedade e perversão? Paulo diz que os homens “impedem a verdade pela sua injustiça”. A verdade é o conhecimento que Deus manifestou de si mesmo em nossa consciência e por meio da natureza. Há um Deus que é santo e que, por isso, deve receber respeito, adoração e ação de graças de todos os povos — mesmo daqueles que nunca ouviram o evangelho ou a Lei de Moisés. Esse conhecimento inato está no coração do homem, mas este faz com a verdade algo diferente do que Deus espera, o que Paulo chama de “imped[ir] a verdade pela injustiça”. O verbo impedir significa literalmente “manter embaixo”, e passa a ideia de matar alguém por afogamento, mantendo sua cabeça debaixo d’água. O homem não pode mudar a verdade, mas pode sufocá-la, reprimi-la, suprimi-la. A ira de Deus se manifesta justamente porque ele se revelou na natureza e na consciência humana, mas o homem sufocou e reprimiu a verdade. Consequentemente, surgem a impiedade e a perversão ou injustiça. Ninguém nasce ateu, mas toma essa decisão mais tarde na vida. Para fazer isso, a pessoa precisa reprimir a luz de Deus que brilha no seu coração e na sua consciência. Ira justa Alguém poderia dizer: É justo Deus ficar irado? Os homens conhecem realmente a Deus? Esse conhecimento de Deus é assim tão claro para que ele cobre dos homens? Paulo afirma que sim: “Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” (v. 19). Deus é infinito, e nós nunca poderemos conhecê-lo completamente. Ele é infinito em seu ser, em seus atributos, em santidade e poder, em presença e onisciência, em justiça e misericórdia. Não há qualquer possibilidade de conhecimento exaustivo de Deus por parte de suas criaturas. Jamais poderemos conhecê-lo completamente, por causa da nossa natureza limitada e pecadora. Apesar disso, Deus nos revela algumas coisas e se revela entre nós, como diz Paulo (“entre eles”, v. 19), no sentido de que se revela dentro de nós (confirmando o versículo 18). Há um conhecimento inato de Deus que é a imagem e semelhança dele dentro de nós (ou “em nós”), e é por isso que somos religiosos. Temos a consciência de que há alguém superior a nós, a quem prestaremos contas e de quem dependemos. É comum até mesmo que esse conhecimento reapareça no coração das pessoasapós ter sido reprimido em razão de uma tragédia ou de um período de sofrimento pessoal muito grande. Como alguém já disse, “só existe ateu enquanto o pitbull não pula a cerca”. Esse conhecimento possível de Deus é manifesto em nosso coração porque ele assim o fez. De outra maneira, não o conheceríamos. De quem é a iniciativa? Quem revela conhecimento a respeito de si mesmo aos homens? Deus. A humanidade andaria em trevas se Deus não tivesse tomado a iniciativa de se revelar. Ele deseja que nós o conheçamos, o amemos e o sirvamos com todo o nosso coração. Atributos invisíveis vistos claramente Paulo prossegue, dizendo: “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis” (v. 20). Há um Deus que está irado e diz isso à nossa consciência. Ele está irado com a impiedade e a perversão de homens que sufocaram a luz da verdade no coração e a trocaram pela injustiça. Esse Deus é justo em sua ira, pois se revelou à consciência humana e na natureza. Paulo acrescenta a isso o fato de que Deus revelou alguns de seus atributos na própria criação. Ele não se revelou apenas à nossa consciência, mas brilha também ao nosso redor, nas coisas que foram criadas, de modo que as duas revelações se complementam. A natureza, o universo, a sua harmonia e a sua imensidão não fariam sentido se já não tivéssemos a consciência, dentro de nós, de que Deus é o autor de tudo. Há uma harmonia, então, entre a consciência que temos de Deus e a criação. Só sou capaz de olhar para a criação e deduzir que existe um Deus porque a luz dele brilha em mim, e eu não rejeitei essa luz. A criação, portanto, apenas confirma aquilo que minha consciência já sabe: que Deus existe. E esse Deus, de acordo com o que a criação manifesta, tem atributos invisíveis. Atributos são características que definem uma pessoa, e são muitas as características de Deus. A Bíblia está repleta de menções a atributos divinos, desde sua santidade até sua misericórdia, sendo alguns exclusivos dele, como sua onipotência, onisciência, onipresença e qualidade. Outros atributos, no entanto, Deus transmitiu para nós: consciência, inteligência, criatividade, arbítrio, sentimento etc. Somos feitos à sua imagem, e é por isso que clamamos por ele, sentimos que ele existe e o percebemos ao nosso redor. Esses atributos são todos invisíveis, mas ele nos deu algo que não tem: um corpo. Deus é espírito e invisível, mas seus atributos se tornam visíveis pela nossa mente. Os olhos da mente, contemplando a criação e já tendo consciência de que existe um Deus, conseguem vê-lo. Parece contraditório, mas os atributos invisíveis de Deus podem ser vistos claramente pela nossa mente. Paulo menciona dois desses atributos, sendo o primeiro deles o eterno poder de Deus. O apóstolo está dizendo que podemos perceber, por meio da criação, que a natureza não gerou a si mesma e que a matéria não é eterna, como diriam os materialistas, evolucionistas e naturalistas. Ele afirma que existe um poder eterno que precede a natureza e deu origem a ela. É impossível dizer, a partir da revelação da natureza, que as coisas complexas do mundo (as partículas subatômicas, o universo em sua amplidão etc.) surgiram do nada; há um poder por detrás de cada elemento criado, e esse é um atributo divino que Deus nos revelou. O segundo atributo invisível de Deus que Paulo menciona nessa passagem é a sua própria divindade. Deus não é um ser criado, mas é totalmente outro, diferente de nós. Portanto, ele não é limitado como nós, não é finito, não tem começo, não terá fim e não faz parte da sua própria criação. Ele é divino, está acima da sua criação. Foi essa concepção, aliás, que deu origem à ciência moderna. Você já se perguntou o porquê de a ciência moderna ter surgido na Europa cristã da Idade Média, e não em civilizações mais antigas, como Mesopotâmia, Grécia, China ou Egito (que eram civilizações mais avançadas que a Europa cristianizada)? Isso aconteceu porque essas civilizações antigas eram panteístas, ou seja, acreditavam que o mundo era Deus e que Deus era o mundo. Por esse motivo, existe, nessas culturas, adoração à vaca, ao crocodilo, às plantas etc., e isso também explica, por exemplo, por que na mitologia grega os deuses são apresentados como manifestações da natureza. Foi por causa do panteísmo que essas culturas não desenvolveram a ciência como a Europa. As pessoas não tinham coragem de investigar os fenômenos naturais; quando havia um trovão ou um relâmpago, eles interpretavam como a ira de algum deus. Ninguém queria investigar mais a fundo. Mas então vem o cristianismo, dizendo que céus e terra foram criados por Deus no princípio. É claro que os judeus já diziam isso, mas foi o cristianismo que colocou essas verdades na arena pública com grande força. Os teólogos, pastores, professores cristãos e crentes em geral influenciaram fortemente a sociedade ocidental com essa cosmovisão de que o mundo é criação de Deus, não uma extensão dele, e esse mundo tem leis naturais que o explicam. O homem, agora, sentia-se livre para investigar a natureza e pesquisar a respeito dos fenômenos naturais, pois o cristianismo havia desmistificado a criação. Muitos autores da ciência moderna são cristãos. Há bons livros a respeito de história da ciência (como os escritos por Nancy Pearcey, por exemplo) que mostram que os ramos da ciência moderna tiveram início com a pesquisa de cristãos que queriam saber mais a respeito da glória divina, pois viam o universo como expressão, e não extensão, da glória e da majestade de Deus. Pela natureza, então, é que podemos ver que existe um poder eterno, e esse poder é majestoso, glorioso, inteligente e pessoal. A revelação que Deus fez de si mesmo é parcial, mas clara, antiga e universal. “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente” (v. 20), diz Paulo. Se você não consegue enxergar essas coisas, o problema não está em Deus nem na criação, mas em você mesmo. Existe um Deus que é superior a nós; ele está irado com o pecado e, além disso, é todo- poderoso e distinto da criação. Isso está claramente perceptível, de acordo com o que diz o apóstolo. A revelação também é antiga, pois esses atributos são vistos “desde a criação do mundo”. Desde que Deus colocou o homem no mundo, sua majestade e sua glória estão gravadas nele e nas coisas criadas, de maneira que, desde Adão, todo homem tem essa consciência. Esse conhecimento também é universal, pois os atributos são perceptíveis “desde a criação do mundo”. Essas coisas estão gravadas na natureza e disponíveis a toda criatura que já pisou no solo deste planeta, seja de que raça, língua, povo e nação for. Todos têm consciência e acesso à natureza; esse não é um conhecimento particular, esotérico e secreto, mas é algo que Deus tornou público. Não haverá desculpas no Dia do Juízo Esta é a conclusão do que Paulo está dizendo: “[...] esses homens são indesculpáveis” (v. 20). “Esses homens” são aqueles que impedem a verdade pela sua injustiça, que não têm piedade e são perversos; por isso são indesculpáveis. Nos dias de Paulo, a palavra “indesculpável” era muito usada no meio jurídico; no grego, tem a mesma origem de “apologia”. A apologia é uma defesa apresentada por alguém ao ser acusado de um crime, é uma espécie de justificativa para um ato criminoso. O que Paulo está dizendo é que, no dia do juízo, nenhuma dessas pessoas terá uma apologia (defesa) para apresentar diante de Deus, como, por exemplo, “eu não sabia que havia um Deus e que ele se ira com o pecado”. Há um Deus; esse Deus está irado e sua ira se manifesta contra a impiedade e a perversão dos homens que impedem a verdade por sua injustiça. É justo que ele esteja irado; por meio da criação, vemos algumas coisas que ele revelou a respeito de si mesmo; essa revelaçãoé clara, universal e antiga. Conclusão: não há inocentes diante de Deus, nem aqui, nem no Amazonas, nem nos polos, nem nos desertos, nem nas florestas mais inóspitas do mundo. Nunca houve e nunca haverá inocentes diante de Deus, porque os homens detêm a verdade por sua injustiça, vivendo como se Deus não existisse, servindo a outros deuses em lugar de servir a ele, matando uns aos outros e oprimindo-se mutuamente. A ira de Deus está sobre o mundo, tanto sobre pagãos quanto sobre judeus. Conclusão e aplicações práticas Entender tudo isso é importante para que reconheçamos a necessidade e a urgência do evangelho. A revelação da ira de Deus é suficiente para nos deixar sem desculpas, mas não é suficiente para nos salvar, porque não diz de que maneira podemos escapar dessa ira. As árvores, a terra e o sol não podem ensinar a fórmula da reconciliação com Deus nem o que o ser humano precisa fazer para ser aceito por ele. Tudo isso apenas mostra que há um ser todo-poderoso, superior a todos nós, mas para que sejamos salvos é necessário que haja outra revelação, a que chamamos de revelação especial. Essa revelação foi dada por Deus por meio de Jesus Cristo, o Filho, no evangelho. A revelação especial será detalhada na Carta de Paulo aos Romanos e consiste na única forma de sermos salvos da ira de Deus. Para que entendamos, então, a necessidade e a exclusividade do evangelho, primeiro é necessário que entendamos a perdição total da raça humana. Estamos debaixo da ira de Deus com justiça, pois não há inocentes diante dele. Assim, a primeira meditação prática a partir do texto é que devemos valorizar a oportunidade de ouvir o evangelho, enquanto milhões nunca tiveram acesso a ele, mesmo estando condenados — com justiça — pela rebelião do coração diante da revelação que Deus fez de si mesmo. O fato de você estar lendo este livro neste momento é motivo para colocá-lo de joelhos diante de Deus e dizer: “Senhor, como posso continuar vivendo como se tu não existisses? Por que continuo a te desafiar e a ser indiferente para contigo?”. Examine o seu coração, especialmente se você luta com a crença em Deus por causa da ciência, da razão ou do ateísmo. O ateísmo não é uma consequência lógica da ciência; a negação de Deus e o materialismo resultam da supressão da luz de Deus no coração de todo homem. O problema não é intelectual, mas, sim, moral e espiritual. Confronte o seu coração para saber se sua recusa diante de Deus não é resultado de alguma amargura, raiva, sentimento de injustiça ou uma tentativa de justificar algum comportamento seu. Neste último caso, talvez você não queira que Deus exista, porque, se ele existir, você precisará mudar de vida. Outro ponto que devo mencionar é que a razão pela qual insistimos em pregar o evangelho é esta: os povos precisam receber a revelação especial de Deus. É por isso que as igrejas fazem missões e é por isso que apoiamos missionários em países distantes. É por essa razão que insisto para que você compartilhe sua fé com as pessoas, pois elas estão perdidas! Não há salvação fora do evangelho de Jesus Cristo, e você, que o conhece, é responsável por levá-lo adiante. A última coisa que desejo ressaltar é o seu estado diante de Deus. Há um Deus, e ele é santo. E, ao contrário de ser somente um Deus de amor, como talvez você já tenha ouvido falar, ele se ira. Sim, ele é amor, mas também é santo e está irado. Deus se ira pelos seus pecados, e não há nenhuma apologia ou defesa que você possa apresentar para justificar a sua vida ímpia de materialismo, totalmente alheia a Deus, como se ele não existisse. Que você reconheça que esse Deus também ama pecadores que reconhecem essa condição, que estão perdidos, mas buscam a Deus humildemente, não para dizer o que ele deve fazer, mas para se ajoelharem e dizerem: “Deus, tem misericórdia de mim. Mereço a tua ira, mas espero em tua misericórdia, já que tomaste a iniciativa de te revelares. Isso mostra que desejas que eu te conheça plenamente; ilumina-me e guia-me, portanto, mediante Jesus Cristo, para que eu possa ter comunhão contigo e com a tua glória”. E sses versículos fazem parte da explicação que Paulo está dando à igreja de Roma a respeito da condição humana. Como vimos, seu objetivo é convencer a igreja de Roma de que é necessário pregar o evangelho aos pagãos, aqueles que estão longe e nunca ouviram Capítulo 5 A ORIGEM DA IDOLATRIA Romanos 1.21-23 A idolatria e a depravação dos gentios ... porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis. falar dele. O apóstolo tem em mente a região da Espanha, onde o evangelho nunca havia sido pregado. Naquele tempo, seria possível imaginar que as pessoas que nunca tivessem lido a Palavra de Deus, ouvido o evangelho ou tido contato com a lei seriam consideradas inocentes no dia do juízo. Afinal, com base em que Deus poderia julgá-las? Muitos ainda hoje talvez ainda pensem assim. Seria Deus justo em condenar os indígenas, os berberes, os povos que vivem próximos aos polos etc.? O problema com essa forma de pensar é que ela não dá base para o trabalho missionário da igreja. Pense em uma tribo do interior da Amazônia, cujos membros nunca ouviram falar de Jesus, mas têm sua religião e seus deuses e praticam seus costumes. Segundo essa linha de raciocínio, eles estariam salvos, e Deus não poderia perguntar a eles o porquê de não terem aceitado a Cristo. Se um missionário chega a essa tribo, fala de Jesus, e metade da tribo o aceita e a outra não, ele acaba por condenar metade da tribo ao inferno, mas antes essas pessoas iriam para o céu por nunca terem ouvido falar de Cristo. Por essa visão, não teria sido melhor que o missionário nunca tivesse ido até lá? Por essa razão, o apóstolo Paulo começa a carta falando do estado real de toda a humanidade. A situação de todos é de condenação, e essa condenação tem como base a revelação natural de que tratamos no capítulo anterior. A ira de Deus se revela dos céus diante do impedimento da verdade pela injustiça no coração, e esse conhecimento está gravado na consciência das pessoas. Paulo demonstra que Deus se revelou na consciência de todos os homens, e, portanto, eles não são tão inocentes assim. No coração do ser humano, existe o conhecimento de que há um ser superior e de que esse ser está irado (v. 19). Paulo vai além e mostra que os atributos invisíveis de Deus estão evidentes nas coisas que foram criadas (v. 20). Ele finaliza esse trecho dizendo que esses homens são indesculpáveis, e, no dia do juízo final, Deus os condenará de forma justa por terem reprimido a verdade da existência de um Deus todo-poderoso, eterno e santo, rejeitando esse conhecimento na própria consciência e também na natureza. Essa é a razão pela qual Paulo queria ir à Espanha: porque os espanhóis estavam perdidos, assim como todo o mundo pagão. Como toda a humanidade, eles haviam sido condenados por Deus por terem reprimido a verdade que havia em sua consciência e na natureza que brilhava ao seu redor. Por isso, é tão urgente e tão importante fazer missão em todas as épocas. Na sequência, Paulo passa a explicar o mecanismo por meio do qual essa supressão da verdade ocorre. Os homens se afastam de Deus e se tornam o que são; é isso que vamos estudar neste capítulo. Os homens têm conhecimento de Deus O versículo 21 afirma: “... porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu”. As pessoas das quais o versículo fala têm consciência de Deus, o que significa ter consciência de que existe um Deus eque ele é distinto de nós. Todo ser humano detém esse conhecimento ao qual chamamos, na teologia, de “imagem de Deus”. Todo mundo carrega consigo e transmite essa imagem de Deus. O ateísmo — que nada mais é do que virar as costas para Deus — não é algo natural, mas, sim, a decisão deliberada que uma pessoa toma de ignorar as evidências claras, presentes na sua consciência e na natureza, de que existe um ser superior que não é igual à sua criação. Ninguém poderá alegar ignorância no dia do juízo — muito menos nós, cristãos, que recebemos também a revelação especial de Deus. Por meio dela, ele nos mostra com muito mais clareza quem é, quem nós somos e porque somos assim, além de nos convidar à reconciliação por meio do Filho, Cristo Jesus. O julgamento será mais severo para aqueles que tiveram mais luz e conhecimento de Deus. O ateísmo, o agnosticismo, a idolatria e todo tipo de crença que emerge da repressão do conhecimento de Deus não são posturas naturais, mas, sim, decisões tomadas deliberadamente. A natureza humana de fato é corrompida, mas não a ponto de manchar a consciência de que há um Deus. Os homens rejeitam o conhecimento de Deus O apóstolo fala do que as pessoas fizeram com esse conhecimento: “... porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (v. 21). Há, portanto, ao menos duas coisas que os pagãos poderiam ter feito e não fizeram: eles deveriam ter glorificado a Deus e ter lhe dado graças — mas não foi o que aconteceu. Existe claramente um poder por trás da criação do mundo, e, mesmo sem o conhecer pelo nome, o ser humano deveria ter se curvado diante dele. Isso não salvaria as pessoas, por causa de seus pecados, mas seria a reação que Deus esperaria da humanidade. O ser humano também deveria ter dado graças a Deus pela comida, pela chuva, pela colheita etc. Não foi isso que a humanidade fez, no entanto. Na passa- gem de que tratamos neste capítulo, vemos um processo de rejeição de Deus que Paulo divide em algumas etapas. O processo de rejeição Primeira etapa: a futilidade do raciocínio [Eles] tornaram-se fúteis nas suas especulações (v. 21) A primeira fase do processo entra em curso quando alguém passa a raciocinar sem levar Deus em consideração. Não estou criando aqui uma antítese falsa entre razão e fé, como muitas vezes se faz; não é errado raciocinar: podemos crer em Deus e usar muito bem a nossa razão. Aliás, a razão foi dada ao homem para que pudesse ler a natureza, interpretá-la e ter noção de Deus e de sua atuação no mundo. Há muitos intelectuais cristãos, como os vários cientistas que nos deram a ciência moderna. Não existe incompatibilidade entre a razão e a glorificação a Deus; o problema acontece quando alguém começa a raciocinar deixando Deus de fora. Aí se perde a referência, e a pessoa passa a acreditar que a razão por si só pode explicar o mundo, quem somos, para onde vamos e como o universo funciona. Fora do conhecimento de Deus, não há como encontrar resposta para essas grandes questões que acompanham a humanidade desde tempos antigos. Os homens entronizaram a razão, pensando que o raciocínio lógico, a análise racional das coisas e o método científico poderiam por si sós obter essas respostas; mas a realidade é que isso não acontece. Ao afirmar que os homens “tornaram-se fúteis nas suas especulações”, Paulo está querendo dizer que eles se tornaram inúteis, pois seu raciocínio não leva a lugar nenhum. É provável que ele esteja se referindo aos filósofos de sua época (lembre-se que o apóstolo viveu no auge da filosofia grega). De acordo com o que diz Paulo, o raciocínio humano que deixa Deus para trás não pode nos dar a resposta final para todas as coisas. Ele não está indo contra a razão, mas contra o racionalismo, que encara a razão como resposta para todas as coisas. Há alguns séculos, surgiu na Europa o Iluminismo, movimento que se levantou contra a religião e o controle da igreja nas universidades. Por esse movimento, o homem queria ser o seu próprio rei e se libertar das amarras da religião e da fé. Com isso surgiram o racionalismo, o empirismo e o evolucionismo. Homens como Hegel e Marx formularam suas teorias a respeito de como funciona a história humana. Mas para onde tudo isso nos levou, afinal? Até hoje não temos respostas baseadas apenas na razão para as questões que intrigam a humanidade. Darwin, por exemplo, dizia que o processo de seleção natural, que se dá por meio de mutações aleatórias que acontecem de geração em geração e da promoção da sobrevivência dos mais fortes, explicaria a origem da vida e sua diversidade. Até hoje, sua teoria já passou por três revisões (e está para passar por uma quarta), porque, após a descoberta da linguagem do DNA, não há mais como explicar a origem da vida com base no darwinismo. O acaso não gera informação inteligente. Aliás, todas as mutações provocam mutilação, não avanço. Segunda etapa: o obscurecimento do coração ... e o seu coração insensato se obscureceu (v. 21) Por causa dessa insensatez de abandonar a Deus, o coração humano se tornou obscuro. Não temos luz própria dentro de nós, fisicamente falando. A luz vem de fora, e entra através dos nossos olhos, informando à mente o que está acontecendo. Se a luz cessa, ficamos em trevas, e todo mundo sabe o que é ficar em um quarto escuro. A figura é muito clara: uma vez que alguém rejeite aquele que é a fonte de todo conhecimento, sua mente fica como em um quarto escuro; essa pessoa não sabe de onde vem, para onde vai, nem mesmo a diferença entre o certo e o errado. Essa é uma excelente imagem para representar o coração do homem: um coração em trevas. Hoje a verdade é sempre relativa, e o homem está derrubando todos os pilares fundamentais da sociedade; não tem mais respostas e não sabe para onde deve ir. Resta o suicídio, o pragmatismo, o viver para o prazer, para as drogas e a bebida. Não raro, o ser humano elege algum deus para servir, além de outros descaminhos. Terceira etapa: a loucura da autoconsciência Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos... (v. 22) O pior dessa terceira etapa é que os homens perderam o senso de autoavaliação. O ser humano começou a se considerar sábio, pois, ao abandonar Deus, estava finalmente encontrando respostas para a sua origem e a origem do mundo (ao menos assim ele acreditava). As pessoas, dessa forma, tornaram-se loucas. Uma pessoa pode ter mestrado, doutorado e muitos outros títulos, mas ainda assim ser louca. Conheci muitos desse tipo em meus tempos de universidade: pessoas com doutorado em Oxford, Harvard, Yale, na PUC e na USP, mas completamente perdidas na vida pessoal. Casamento arrebentado, mulheres (e ex- mulheres) em constante briga, seres cheios de raiva e incertos das coisas. Com uma porção de diplomas na parede e dizendo-se sábias, essas pessoas abandonaram a sabedoria verdadeira. A loucura começa na mente e desce ao coração, e daí já não se enxerga mais a verdade a respeito de si mesmo. O homem se vê como sábio quando, na verdade, é louco, e não tem mais capacidade de diagnosticar sua real situação. Quarta etapa: a idolatria ... e [os homens] substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis (v. 23) Em tudo isso verifica-se uma grande ironia. Os homens rejeitaram o Deus criador dos céus e da terra, mas não conseguiram ficar sem deuses. O ser humano é religioso por natureza, e seu íntimo clama para se prostrar diante de algum ser superior — não há como fugir disso. Se não adora o verdadeiro Deus, então cria algum outro para adorar, e, assim, sempre se encontra diante do altar de algum deus inventado. Ateísmo e agnosticismo também são formas de religião. Simples assim. No caso demonstrado por Paulo, essa adoração se apresenta sob a forma de idolatria. Mas, afinal, a que ele está se referindo? Ao fato de que o mundo pagão havia se tornado idólatra. Aqueleshomens, que se achavam os mais sábios, eram na realidade os mais idólatras. Paulo havia visitado Atenas, na Grécia, a capital intelectual do mundo da época, conhecida por suas bibliotecas e escolas de filosofia; mas o que ele viu lá? Um altar em cada esquina; até mesmo um altar ao “deus desconhecido”. A idolatria, conforme afirma Paulo, é o resultado da rejeição a Deus. Se você rejeitar o Deus único e verdadeiro, vai acabar sob a sombra de um deus falso qualquer. A verdade é que, quer seja o verdadeiro, quer seja um falso, ninguém fica sem um deus. O que Paulo diz aqui deixa explícita a bobagem da troca feita pelos homens: o Deus glorioso e incorruptível foi trocado por sua criação caída e corruptível — homens, animais e bestas. A glória de Deus foi trocada pela imagem da imagem de uma imagem. Já parou para pensar nisso? O homem é a imagem que reflete a imagem de Deus. Os homens adoram, portanto, uma imagem criada a partir de uma imagem que reflete a imagem de Deus. Quando abandonamos a verdade, é isso que acontece. No entanto, não devemos cair no erro de pensar que essas religiões criadas pelo homem são expressões inocentes e genuínas de pessoas que querem adorar a um deus, mas não sabem quem é o Deus verdadeiro. É muito comum pensar que as religiões são expressões da sinceridade do coração das pessoas. Paulo, porém, as vê como expressão da rebelião contra a verdade de Deus. A natureza e a consciência nos dizem que Deus não é uma árvore, nem um animal ou um rio e que, sem ele, não há religião verdadeira, sincera e inocente. Nesse versículo Paulo está se referindo às religiões de sua época: César e o faraó (seres humanos adorados em Roma e no Egito, respectivamente), a adoração ao pássaro Íbis, ao touro Ápis e ao crocodilo do rio Nilo no Egito. A relação de animais e homens cultuados e adorados no mundo todo é imensa. Uma versão mais moderna disso é o movimento ecologicamente correto, que vê a terra como um organismo vivo, e faz da defesa ecológica do mundo uma verdadeira religião. Não estou dizendo que não temos de lutar pelo meio ambiente, pois Deus nos deu esse planeta e devemos cuidar dele; mas não podemos nos tornar panteístas, acreditando que Deus é tudo e tudo é Deus. Outra forma de idolatria é a adoração ao dinheiro, chamado na Bíblia de Mamom. Qual é a sua maior motivação na vida? Você trabalha por que razão? O que mais deseja na vida? Quando fazemos esse tipo de pergunta a alguém, invariavelmente o dinheiro acaba aparecendo na resposta. Se isso também vale para a sua vida, saiba que você está entre os idólatras. O homem moderno é avarento, vive para acumular bens. Precisamos trabalhar, economizar e ajudar outras pessoas com o dinheiro que conquistamos, mas isso é diferente de correr atrás de dinheiro a vida toda, fazendo disso a nossa prioridade. Outra forma de idolatria é o prazer. Muitas pessoas fazem dele a motivação maior da vida, e pulam de um tipo de prazer para outro. Desse modo, o prazer se torna o grande deus e ídolo da sociedade pós-moderna. Muitas outras coisas podem entrar na lista de possíveis ídolos: filhos, maridos, familiares, carreira, o próprio corpo etc. A grande verdade é a seguinte: sempre haverá alguém a quem você renderá a sua alma e prestará contas a respeito do seu coração. O apóstolo Paulo está dizendo que a humanidade fez isso rejeitando a Deus e adorando a criatura. O autor trata ainda de uma última etapa nesse processo de rejeição a Deus, que é a imoralidade, mas sobre ela falaremos no próximo capítulo. Conclusão e aplicações práticas O primeiro passo que eu gostaria que você tomasse, após a leitura deste capítulo, é pedir a Deus para abrir seus olhos, de modo que possa ver o real estado do seu coração. Tudo o que vimos até aqui, embora Paulo tivesse o mundo pagão em mente, é uma descrição do meu e do seu coração. Todo crente tem um ateu dentro de si, uma parte silenciosa que quer rejeitar Deus, ser autônoma e adorar a qualquer deus que invente, fugindo da submissão a Deus. Por isso, não podemos baixar a guarda nem por um momento sequer. Você tem de mandar o ateu que traz dentro de si ficar calado. Passamos boa parte do tempo cuidando de questões legítimas da vida, mas nos esquecemos da tendência que o nosso coração tem de fugir de Deus e rejeitar os seus caminhos. Essa é a razão pela qual muitas pessoas que frequentam a igreja não têm um comportamento cristão. Confessam a Deus com os lábios, mas vivem como se fossem ateus na prática, e agem como se Deus não existisse. O pior tipo de ateísmo é aquele que professa a Deus com os lábios, mas o nega por intermédio de suas obras (Paulo trata disso em sua segunda carta dirigida a Timóteo). Talvez você esteja lendo este livro justamente para fazer uma avaliação de sua própria vida à luz da verdade de Deus. Quebrante-se diante de Deus, reconheça esse processo degenerativo em sua mente diante dele e diga: “Deus, eu quero uma mudança de paradigma, de mentalidade, de cosmovisão. Não me abandone, pois se o Senhor me abandonar estarei como esses idólatras do texto bíblico”. Espero que esta reflexão também ajude a deixar clara a necessidade de Cristo, do seu perdão e do poder do Espírito Santo. Não precisamos de band-aids nem de cirurgias, mas, sim, de ressurreição, e não há outra forma de fazer isso senão por meio do evangelho de Jesus Cristo. Não há outro poder capaz de realizar transformação e renovação como o evangelho de Cristo. Não existe outra esperança. N os capítulos precedentes, vimos o que Paulo explica sobre a revelação de Deus na consciência e na criação. Vimos também a exposição que Paulo faz de como os homens rejeitaram essa revelação, sufocando o conhecimento da Capítulo 6 ABANDONADOS: O JUÍZO DE DEUS SOBRE NOSSA GERAÇÃO Romanos 1.24,25 A idolatria e a depravação dos gentios É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para desonrarem seus corpos entre si; pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito eternamente. Amém. verdade, tornando-se loucos e procurando, fora de Deus, respostas para as questões da humanidade. No capítulo anterior, vimos também o processo por meio do qual o homem cai na idolatria, fazendo deuses para si mesmo. Deus se revela e o homem o rejeita. Agora chegou a vez de Deus. Paulo fala da retribuição de Deus, a qual é delimitada pelo uso triplo de variações da expressão “por isso que Deus os entregou” nos versículos 24 (“É por isso que Deus os entregou à impureza sexual”), 26 (“Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas”) e 28 (“por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm”). Nos versículos acima citados, Paulo explica que a reação de Deus à rejeição humana foi abandonar o homem aos desejos do seu próprio coração, permitindo, dessa forma, que a humanidade recebesse aquilo que ela realmente queria. Podemos extrair alguns pontos dessa passagem, e meu objetivo, ao discorrer sobre eles, é que entendamos: que vivemos sob a ira de Deus e sua justa retribuição diante do nosso pecado; que a situação do homem é muito pior do que ele imagina; e que qualquer pretensão de mérito ou caminho de salvação própria é mera ilusão. Coração cheio de concupiscências O apóstolo inicia essa passagem escrevendo: “É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações” (v. 24). Algumas versões bíblicas usam a palavra “concupiscência” em lugar de “desejo”. Desejo é algo que pode ser bom ou ruim; nos textos bíblicos, porém, é sempre empregado para denotar a vontade de fazer coisas erradas. Assim, “desejo ardente”, ou concupiscência, refere-se ao anseio por fazer algo que é contrário à natureza de Deus. Paulo está dizendo que abrigamos dentro de nós concupiscências, ou seja, de acordo com o que a Bíblia diz nesta e em outraspassagens, carregamos em nosso íntimo o desejo de fazer coisas ilícitas. Não foi sempre assim, no entanto. Deus criou nossos primeiros pais à sua imagem e semelhança, em santidade e inocência, embora com a capacidade de pecar. Eles usaram a liberdade que tinham para se rebelar, colocando assim a si mesmos (e também a toda sua descendência) debaixo da justa condenação de Deus, lançando a raça humana na corrupção. Nós herdamos de Adão e Eva a inclinação para o mal; passamos a abrigar, desde aquele momento, desejos ilícitos em nosso coração, e esses desejos se revelam até na mais inocente criança. Não demora muito e aquele filho ou filha adorável acaba por mostrar suas “garras”, para que não reste dúvida quanto a seus ancestrais. O coração do homem, portanto, está cheio de inclinações para o mal, e isso governa as nossas ações, preferências e os caminhos que decidimos tomar. O homem, em seu estado natural, rejeitou a revelação divina, conforme vimos nos capítulos anteriores. Deus se revelou como todo-poderoso, santo, justo, verdadeiro, um Deus que demanda obediência, mas nosso coração está cheio de concupiscências, e não queremos servir a um Deus que condena aquilo de que gostamos. Quem em sã consciência quer um Deus que vai lhe dizer o tempo todo que você não pode olhar para a mulher alheia e que tem de tratar bem o seu próximo, independentemente das circunstâncias? Nossos desejos ou inclinações para o mal, portanto, fazem com que rejeitemos a Deus desde o nascimento. Embora a glória de Deus brilhe ao nosso redor, nas coisas criadas, e também em nossa consciência, não queremos saber dele. Pior que isso, o homem distorce o conhecimento de Deus (Rm 1.23). Deus se mostra como alguém diferente da criação, pois ele é incorruptível (ou imortal), não se deteriora, mas é eterno e sempre o mesmo. Os homens, porém, preferiram deuses feitos à sua imagem e semelhança, e ainda por cima passaram a adorar seres irracionais, como aves e répteis. E não para aí. Paulo prossegue dizendo: “pois substituíram a verdade de Deus pela mentira” (v. 25). A palavra “substituir” tem aqui um significado diferente do que verificamos no versículo 23, pois carrega o sentido de travestir, que quer dizer mudar a natureza de algo e revesti-lo de outra coisa. O termo “travesti” vem justamente dessa ideia: alguém que passa a se vestir como o sexo oposto e a adotar seu comportamento. O homem mudou o conhecimento que tinha de Deus e travestiu esse conhecimento, substituindo-o pela mentira. E o texto não diz que a verdade de Deus foi substituída por uma mentira, mas pela mentira, o que revela o uso de um artigo definido: estamos falando da mentira específica da idolatria, não de uma mentira qualquer. Os homens travestiram a verdade de Deus em adoração à criação, travestindo assim a própria glória de Deus. Isso acontece justamente porque os homens não querem servir a um ser como Deus. Ao estudar os deuses do paganismo, percebe- se que são deuses com paixões e desejos humanos. Trata-se de seres vingativos, que têm desejos sexuais, matam, miscigenam-se com homens e mulheres para gerar filhos e tramam guerras de poder, pois são feitos à imagem de homens. Ninguém quer servir a um Deus como aquele que se revelou na criação, porque naturalmente toda a raça humana tem de se humilhar diante dele. Assim, há apenas duas opções para o homem: aceitá-lo como o único Deus que deve receber adoração ou se autoproclamar o deus de sua vida, decidindo então quem mais ocupará esse posto. Como já dissemos em outro capítulo, o ser humano sempre estará diante do altar de algum deus, seja o Deus verdadeiro, seja algum deus travestido. Entregues à imundícia A partir dos pontos apresentados, Deus entrega os homens à imundícia. O apóstolo diz: “É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para desonrarem seus corpos entre si” (v. 24). Entregar, aqui, significa abandonar. A figura é a seguinte: o homem tem suas concupiscências, seus desejos pecaminosos, mas, mesmo assim, ninguém é tão imoral e perverso quanto poderia ser. Por quê? Porque Deus nos refreia. Você nasceu em um lar em que seus pais o ensinaram a respeito do certo e do errado, mora em um país onde a polícia reprime o crime e existem leis e autoridade. Então, por meio de governantes, tutores, educação formal, polícia, penalidades e exemplos de boa conduta, Deus faz com que as pessoas não sejam tão ruins como poderiam ser. Lá no fundo, o seu coração e o meu são iguais ao de um estuprador ou de um traficante! Só não somos tão imorais e perversos quanto qualquer um deles porque Deus nos refreia. É por isso que o castigo de Deus para aqueles que o rejeitam é apenas deixar de refreá-los. Abandonar, portanto, significa tirar as travas do ser humano e deixar que o pecador vá até o fim em seu pecado. Deus não faz isso porque desistiu da humanidade, mas como forma de julgamento. O castigo para o pecado, então, é mais pecado ainda, como os juros cobrados de uma conta bancária que não é paga há muito tempo. Deus permite que o homem siga os próprios caminhos, mas anota os juros, e a conta que essas pessoas pagarão no dia final será maior do que se Deus as tivesse refreado. Quando Deus entrega uma pessoa, uma cultura ou um povo à imundícia, isso demonstra um ato judicial de castigo divino contra aquela pessoa ou grupo. A palavra grega usada para “imundícia” é uma palavra que denotava imoralidade sexual. Essa imoralidade já estava lá, no coração humano, mas Deus permitiu que ela se mostrasse no corpo. Assim, às vezes, Deus entrega o ser humano à própria impureza sexual, mesmo sem castigá-lo. Esta é uma forma de abandoná-lo: Deus permite que o pecador não seja imediatamente castigado e, portanto, viva do jeito que quiser. Você já deve ter se perguntado por que um raio não cai na cabeça de uma pessoa imoral que desafia a Deus ou por que a terra não se abre para engoli-la. Deus pode escolher não castigar de imediato, a fim de permitir que o pecador continue pecando; quando o pecador percebe que não há castigo, afunda-se cada vez mais no pecado. Mas, se um filho de Deus pular a cerca, o Pai também pula atrás dele. O Senhor castiga seus filhos, mas, muitas vezes, permite que os pecadores vivam por um tempo sem ser castigados por seus atos infames. Essa é uma forma clara de Deus revelar sua ira sobre a humanidade, pois ele permite que os mais perversos criminosos façam o que querem. É como se ele dissesse: “Quando vocês me rejeitaram, o que pensaram que aconteceria?”. Não sei quanto a você, mas eu olho para a sociedade ao redor e vejo claramente a ira de Deus sobre nós. Leis estão sendo derrubadas, o poder policial não tem mais credibilidade, não se acha mais bons governantes, a igreja fica calada, e a imoralidade escancarada parece avançar cada vez mais na sociedade sem que ninguém consiga reagir. O que é isso senão a ira de Deus sobre a nossa civilização? Ela está caminhando para o fim bem diante dos nossos olhos. Estamos vivendo um período triste da história. Essa sempre foi a maneira de Deus agir. Veja as seguintes passagens: Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito; abre bem a tua boca, e eu a encherei. Mas meu povo não ouviu minha voz, e Israel não quis saber de mim. Por isso, eu os entreguei à teimosia de coração, para que andassem segundo seus próprios conselhos (Sl 81.10-12). Portanto, fala com eles e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Aquele da casa de Israel que der lugar no coração aos seus ídolos, e puser o tropeço da sua maldade diante de si, e for ao profeta, eu, o SENHOR, haverei de responder-lhe conforme os seus muitos ídolos; para que possa reconquistar o coração da casa de Israel, que se distanciou de mim por causa de seus ídolos (Ez 14.4,5). Deus estava dizendo que curaria e responderia orações a ídolos, como se ele mesmo fosse um desses ídolos, fazendo com que o pecador caísse na própria armadilha. Achouisso pesado? Veja o que diz 2Tessalonicenses 2.9-12: A vinda desse ímpio se dá por meio da força de Satanás com todo o poder, sinais e falsos milagres, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, pois rejeitaram amar a verdade para serem salvos. É por isso que Deus lhes envia a atuação do erro, para que creiam na mentira, para que sejam julgados todos que não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça. Tomando esses textos por base, conseguimos entender melhor o crescimento de tantas seitas: Deus permite que elas surjam como forma de castigar aqueles que correm atrás de mentiras, rejeitando em seu coração a verdade dele. Outra passagem que nos ajuda a entender melhor essa questão é Atos 7.41,42. Aqui, Estêvão prega a respeito do período de Israel no deserto: Naqueles dias, eles fizeram um bezerro, ofereceram sacrifício ao ídolo e o festejaram como obra das suas mãos. Mas Deus se afastou deles e os entregou ao culto dos astros do céu, como está escrito no livro dos profetas: Foi a mim que oferecestes sacrifícios e ofertas por quarenta anos no deserto, ó casa de Israel? O apóstolo Paulo, portanto, não está falando nada de novo na Carta aos Romanos, nada que os profetas já não tivessem anunciado ao povo. Quando o homem rejeita a verdade de Deus no íntimo de seu coração, Deus o entrega ao erro, ao falso profeta e à falsa religião. A desonra por consequência Note que Paulo diz que os homens foram entregues para “desonrarem seus corpos entre si” (v. 24). Isso mostra que o corpo humano foi criado para um fim honroso. Deus criou um homem e uma mulher — e não dois homens, nem duas mulheres, nem duas mulheres e um homem, nem dois homens e uma mulher — e os uniu pelo casamento. Segundo as Escrituras, portanto, o uso honrado do corpo se dá por meio do sexo heterossexual e monogâmico dentro do casamento, o que significa que fazer qualquer coisa diferente disso é desonrar o corpo. A fornicação (sexo entre solteiros), o adultério (sexo em que uma das partes é casada), a prostituição (quando envolve dinheiro) e as relações homoafetivas são formas de desonrar o corpo. São distorções do projeto original de Deus, e é isso que acontece quando os homens são entregues às suas concupiscências. Devemos lembrar que estamos falando de Roma, o local mais dissoluto de sua época; catorze dos quinze imperadores romanos praticaram homossexualidade. Ter concubinas, garotos de programa e praticar prostituição de todo o tipo eram hábitos comuns. Na Grécia, então, nem se fala: Corinto era uma das cidades mais famosas pela quantidade de prostitutas que lá havia, a ponto de seu nome virar um sinônimo de corrupção. Veja a justiça e a ironia de Deus: “Vocês me desonraram, então eu os entrego a si mesmos para que se desonrem entre si”. Ele retribui na justa medida: nós os desonramos; portanto, ele permite que nos desonremos. Como adulteramos a sua glória, acabamos por adulterar o que é natural entre nós. Essa é a justiça de Deus na aplicação do juízo. Conclusão e aplicações práticas Os versículos 24 e 25 de Romanos 1 falam da profunda depravação do coração humano. Não se deixe enganar por quem diz que a solução para nossos problemas está dentro do nosso coração, e que nós, no fundo, somos todos bonzinhos. Essa visão não é bíblica! A visão bíblica diz que somos corrompidos desde a raiz dos cabelos e que nossas justiças são como trapos de imundície. Você só não é tão imoral quanto aqueles que critica e condena porque Deus o refreia. O coração humano é completamente corrompido; é algo que não conseguimos controlar. Isso também vale para os cristãos, pois, quando experimentamos a salvação, somos transformados e santificados por Deus, mas a corrupção do nosso coração permanecerá até nosso último dia nesta terra. O cristão terá de lutar contra isso todos os dias de sua vida. Certa vez, um irmão chegou para mim e disse que não sabia se era cristão (o que pode ser um bom sinal, pois muitos dizem que são, mas, quando morrem, descobrem que nunca foram) porque tinha de brigar todos os dias com o próprio coração, chegando a chorar e ficar desesperado. Essa é a maior prova de conversão! O crente verdadeiro não suporta a corrupção do próprio coração e trava uma dura batalha todos os dias de sua vida. Outro ponto a refletir é que a nossa cultura está sob a ira de Deus. Eu bem sei que gostamos de pensar em Deus como um Deus de amor, e ele de fato é, mas também é um Deus que se ira. Os sinais disso estão em toda parte, e os freios estão sendo tirados. A impunidade é cada vez maior para aqueles que fazem o mal, e a culpa da nossa geração está sendo acumulada para o dia do juízo. Podemos ver isso até mesmo entre os evangélicos: a pessoa usa roupas sensuais e joga toda a culpa no olho do irmão (tanto homens quanto mulheres fazem isso); namorados fornicando; adultério; pornografia; homens afeminados e mulheres masculinizadas. Tudo isso é cada vez mais comum dentro da igreja. Pior ainda: muitos pastores pararam de fazer esse tipo de denúncia por medo da igreja, o que mostra mais ainda que a impunidade é permitida por Deus, pois ele levanta pastores para refrear o seu povo. Eu vejo esses sinais e peço que Deus tenha misericórdia (a começar por mim mesmo). Somente o próprio Deus pode nos salvar de nosso merecido castigo. É preciso um poder extraordinário para salvar pessoas dessa situação de condenação, culpa e escravidão. Oro para que o poder de Deus quebre as amarras e abra os nossos olhos, libertando-nos de nós mesmos e nos trazendo para a luz. Esse não é um poder humano: somente no evangelho de Cristo o encontramos. Ele não está em nós nem em alguma instituição ou pessoa. Paulo não se envergonha do evangelho, pois ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Não precisamos de remendo, e sim de ressurreição! Precisamos nascer de novo, e só o evangelho pode fazer isso. Os que já foram salvos pelo poder do evangelho devem procurar compreender a realidade acerca das pessoas ao seu redor, tanto no trabalho, na escola, na família, como entre vizinhos ou na academia. Elas estão em rebelião contra Deus e debaixo de sua ira, e é assim que devemos enxergá-las! Por isso, precisamos compartilhar o evangelho com essas pessoas. Elas estão indo para o inferno, até que se rendam a Cristo. Testemunhe e ore por elas, e não se esqueça do real estado dessas pessoas. Medite no estado do seu próprio coração, na sua tendência à idolatria e no seu apetite para a imoralidade. Coloque-se ao pé da cruz todos os dias e diga: “Ó Deus, tem misericórdia de mim! Não me abandones, pois sei do que sou capaz se tu Senhor, não me refreares”. Ore como Jesus nos ensinou: “não me deixes cair em tentação, mas livra-me do mal, Senhor!”. Essa tem de ser a oração diária dos que foram salvos pela graça de Cristo. Os que ainda não experimentaram a salvação do poder do pecado nem provaram o poder do evangelho daquele que morreu e ressuscitou ao terceiro dia podem se achegar hoje a Deus. Sem impor limites e exigências, diga a ele: “Senhor, sou um pecador miserável e mereço condenação, mas em ti há poder, Jesus, para me perdoar da escravidão e de suas consequências”. Cristo levou o ferrão do pecado por nossa culpa, mas hoje vive e é poderoso para atender todo pecador que vai a ele. Só em Cristo o ser humano encontrará perdão e nova vida. E sses dois versículos são parte do argumento do apóstolo Paulo no primeiro capítulo de sua Carta aos Romanos, em que ele explica por que quer pregar o evangelho na Espanha. A razão, segundo o apóstolo, é porque todo o mundo Capítulo 7 HOMOSSEXUALIDADE: UMA PERSPECTIVA BÍBLICA Romanos 1.26,27 Uma expressão do juízo de Deus Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas. Porque até as suas mulheres substituíram as relações sexuais naturais pelo que é contrário à natureza. Os homens, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com a mulher, arderam em desejo sensual uns pelosoutros, homem com homem, cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro. p , p q pagão está condenado. Não há inocentes diante de Deus. Nem mesmo aqueles que nunca ouviram o evangelho nem ouviram falar da Lei de Moisés são inocentes diante de Deus, porque ele também se revelou a essas pessoas, primeiro pela consciência e segundo pela criação. A existência tanto de uma quanto da outra, assim como a combinação das duas, mostram de forma inequívoca o que todo ser humano deveria saber: que existe um Deus santo, justo e reto; que ele não é a natureza; e que nós deveríamos dar glória a ele e render-lhe graças durante a nossa vida. Entretanto, a humanidade desprezou esse conhecimento de Deus. Paulo afirmou, no início do capítulo, que os seres humanos reprimiram a semente do conhecimento de Deus que está no coração e se voltaram para os ídolos, criaram deuses à sua imagem e semelhança e rejeitaram a revelação do Criador todo- poderoso. Deus então, como castigo pela rejeição da humanidade, entregou-a aos próprios desejos, às próprias paixões. Por consequência, uma vez retirados as travas e os freios, a humanidade precipitou-se cada vez mais na imoralidade, na violência e na perversão dos seus caminhos. O apóstolo Paulo mostra uma dessas consequências do abandono de Deus: os homens, sem ter mais a graça divina para controlá-los, perverteram a ordem natural das coisas e desonraram seus corpos entre si. Esse argumento do apóstolo apresenta o lesbianismo e o homossexualismo como evidências concretas desse afastamento de Deus. Em outras palavras, os versículos 26 e 27 de Romanos 1 tratam de uma expressão do juízo de Deus sobre a cultura daqueles dias; no entanto, ao fazermos sua transposição para os dias atuais, podemos ver também os mesmos sinais indicativos da ira de Deus sobre a nossa própria cultura e a nossa própria sociedade. E esse é o tema deste capítulo, baseado em Romanos 1.26, 27, texto em que Paulo revela que Deus entregou as pessoas às suas “paixões desonrosas”. No versículo 26, lemos que as mulheres mudaram o modo natural de se relacionarem sexualmente por outro, que é “contrário à natureza” (o lesbianismo). O versículo 27 registra que os homens fizeram a mesma coisa: “arderam em desejo sensual uns pelos outros, homem com homem, cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. Um movimento organizado Estamos diante de um dos assuntos mais sensíveis e polêmicos da atualidade, que é a questão da homossexualidade. Por homossexualidade entende-se não somente a atração e o sentimento entre pessoas do mesmo sexo, mas também as relações sexuais que elas mantêm entre si. Talvez, como muitos, você se pergunte por que esse assunto tem ganhado tanta visibilidade em nossa época. Primeiramente porque o movimento gay se organizou nos últimos trinta anos e assumiu uma militância que não existia até então. Sempre houve pessoas que se sentiam atraídas e mantinham relações com pessoas do mesmo sexo; há relatos dessa prática nas culturas mais antigas de que temos conhecimento. Porém, somente nas últimas décadas, no mundo ocidental, é que pessoas participantes desse movimento se organizaram e passaram a atuar com o objetivo de fazer com que não somente esse tipo de relação fosse considerado aceitável, mas também fosse visto como algo normal e até desejável. Esse movimento, apesar de minoritário, vem ganhando cada vez mais a adesão de políticos, artistas e formadores de opinião, e tem conseguido influenciar a mídia, a política, a cultura e até mesmo a opinião pública de forma geral. Recentemente, uma grande emissora de TV do país exibiu a primeira cena de sexo gay da televisão brasileira em uma de suas novelas. Se, para sua sorte, você é daquele tipo de crente que não assiste a novelas, talvez esteja um pouco surpreso; mas o fato mostra bem como o movimento gay tem conseguido impactar e influenciar a cultura e a mídia em geral. Essa influência tem ganhado até os meios acadêmicos: alguns estudiosos, por exemplo, tentam demonstrar cientificamente a questão da ideologia de gênero, afirmando que os gêneros se constroem socialmente e que tudo é uma questão da escolha do indivíduo. Segundo a última contagem de que tive notícia, já havia dezesseis possibilidades de sexualidade: a pessoa nasce mulher, mas por dentro é homem e gosta de mulher; a pessoa nasce mulher, por dentro é homem e gosta de homem; a pessoa nasce homem, mas por dentro é mulher e gosta de mulher, e por aí vai. Imagine chegar a um hotel e, ao preencher a ficha de hospedagem, em vez de encontrar as tradicionais opções, masculino ou feminino, para indicar o seu gênero, você se depare com nada menos do que dezesseis opções para escolher! Isso é resultado dessa movimentação toda que existe hoje no mundo ocidental com relação à sexualidade. Até aqui os cristãos poderiam dizer que essa é uma questão da pessoa diante de Deus, e que nós respeitamos as escolhas que cada um faz para a própria vida. Mas o fato é que esse movimento tem feito ataques cada vez mais ousados contra o cristianismo, contra a família, contra os padrões tradicionais das culturas ocidentais que, como sabemos, sofreram forte influência do cristianismo. Para começar, eles conseguiram dar a todo pensamento contrário ao que eles defendem o rótulo de discurso de ódio. Se alguém disser que não concorda com a homossexualidade, já será rotulado de homofóbico. Nós nem temos a oportunidade de dizer que respeitamos as pessoas, que as amamos e queremos tratá-las com igualdade, ainda que, em nossa opinião, a homossexualidade seja errada. O movimento gay vem conseguindo emplacar esse tipo de censura na cultura, na opinião pública. Outra coisa que eles têm feito é tentar culpar o cristianismo pela perseguição e violência contra os homossexuais. Segundo esses militantes, a igreja, por considerar a homossexualidade errada, provoca nos fiéis o desejo de combatê-la até mesmo na base da violência contra seus praticantes. Em 2016, quando ocorreu aquela tragédia numa boate gay em Orlando (EUA), na qual dezenas de pessoas foram mortas a tiros, no Brasil um conhecido deputado começou a dizer que a culpa seria dos evangélicos, porque eles dizem que a homossexualidade é errada. Segundo ele, essa postura gera um combate àquilo que é considerado errado e faz nascer mesmo extremistas que usam a violência contra essa minoria. Quem concorda com esse deputado se esquece de que quem promove massacres não é o cristianismo, de forma alguma. Ao contrário, muitos desses crimes são praticados por homossexuais, que brigam entre si. Assim, boa parte dos chamados crimes de homofobia são praticados por outros homossexuais. Entretanto, a mídia vem fazendo uma campanha sistemática, de modo que, ao transmitir a notícia de que um homossexual foi agredido ou atropelado, trata invariavelmente o caso como homofobia, mesmo que, às vezes, não seja isso que de fato está acontecendo. Entre outras ações desse movimento ativista, há a tentativa de criminalizar a opinião. No que pode ser identificado como a investida mais recente, o grupo vem tentando emplacar no Brasil um tipo de legislação que proíba as igrejas de pregarem ou dizerem o que acreditam com relação ao tema. Primeiro havia um projeto que amordaçava completamente as igrejas, o PLC 122/2006, que não foi aprovado. Depois fizeram uma composição, segundo a qual os evangélicos poderiam dizer que a homossexualidade é errada, mas apenas dentro dos limites do templo. Do lado de fora, eles deveriam se manter calados. Esse projeto de lei não foi aprovado, pelo menos até o momento em que escrevo essas palavras. E é claro que a dificuldade que se encontrou para aprová-lo é que a Constituição brasileira assegura direitos civis fundamentais como a liberdade de crença, de consciência e religiosa. No entanto, existe uma tentativa constante, organizada e persistente de criminalizar a opinião a respeito dahomossexualidade sempre que ela for contrária ao que defendem os integrantes (e simpatizantes) do movimento gay. Os cristãos, segundo meu entendimento, respeitam as decisões individuais, afinal, sabemos que cada um dará contas de si mesmo a Deus. Se uma pessoa quiser seguir o caminho da homossexualidade, isso é uma decisão dela, e nós vamos respeitá- la. No entanto, tenho o direito de dizer em relação a essa atitude, como em relação a qualquer outra, que a considero errada, que não concordo com ela e que esse tipo de comportamento ou atitude vai contra aquilo em que acredito. Isso se chama liberdade de expressão, algo que, em muitos aspectos, o movimento gay vem tentando abolir ao tentar rotular a nossa opinião sob o tema de discurso de ódio. Por esse motivo, esse assunto vem assumindo uma dimensão muito grande na mídia e até no meio evangélico e, sempre que alguém decide abordá-lo, tem de tomar o máximo de cuidado, ao mesmo tempo em que deve procurar ser justo para não exagerar ou deturpar as posições das pessoas a esse respeito. Infelizmente, um número grande de igrejas evangélicas ao redor do mundo rendeu-se à pressão desse movimento. Nos Estados Unidos, a igreja-mãe da Igreja Presbiteriana do Brasil, a Presbyterian Church of United States of America (PCUSA), com a qual a denominação brasileira rompeu em 1950, já há algum tempo cedeu à pressão e passou a considerar a prática homossexual algo normal e uma opção de cada um. O passo seguinte foi aceitar o casamento gay e depois pastores e pastoras gay. Há mais de sessenta anos que o presbiterianismo no Brasil não tem relacionamento nenhum com essa igreja, nem a considera igreja-irmã, por causa dessas atitudes que ela vem tomando. Muitas igrejas metodistas, luteranas, episcopais e outras também vêm cedendo à pressão e aceitando o casamento gay como uma possibilidade entre seus membros. Recentemente houve uma polêmica envolvendo a denominação batista, porque uma de suas igrejas fez um casamento gay. A convenção batista se reuniu e, depois que os convencionais discutiram durante um tempo, decidiram desligar essa igreja. A pressão é muito grande e já começou a afetar também o meio batista. Vemos o surgimento da chamada teologia inclusiva, uma tentativa de teólogos do movimento de explicar que a Bíblia não proíbe a homoafetividade, que Deus é amor, e que nós estamos muito enganados quando lemos passagens como essa que estamos abordando neste capítulo. Começam a surgir questionamentos como: “Será que Deus vai me rejeitar porque eu gosto de uma pessoa que tem o mesmo sexo que eu? Será que não existe coisa mais séria com a qual Deus deveria estar ocupado, em vez de ficar me marcando só porque nasci assim?”. Esses teólogos tentam justificar a homossexualidade à luz da Bíblia e chegam ao extremo de dizer que Davi e Jônatas tinham uma relação homoafetiva, porque, em certa passagem, Davi diz o seguinte a seu amigo Jônatas: “Excepcional era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (cf. 2Sm 1.26, ARA). Um dos estragos decorrentes do movimento gay é que ele acabou com a amizade entre pessoas do mesmo sexo, que era o sentimento que Davi tinha por Jônatas. Eu me lembro da época em que as meninas andavam de braços dados na rua e ninguém levantava suspeita; era algo muito normal. Da mesma forma, era muito normal os rapazes estarem juntos, saírem juntos, sentarem juntos, baterem papo, se abraçarem, se beijarem no rosto; ninguém dizia nada. Hoje, se você andar demais com um colega do mesmo sexo, muito junto dele, as pessoas já desconfiam de um relacionamento homossexual. Alguns dos adeptos da teologia inclusiva chegam ao ponto de afirmar que Jesus e João tinham também esse tipo de relação, porque, na noite em que Jesus foi traído, João encostou a cabeça no ombro de Jesus e perguntou-lhe quem era o traidor entre os discípulos. Houve uma época em que um rapaz podia encostar a cabeça no ombro de outro e isso era algo perfeitamente normal. Nosso olhar mudou por causa da pressão do ativismo gay, e passamos a ver maldade onde não havia, passamos a enxergar determinadas coisas onde elas jamais estiveram antes. Infelizmente, isso vem acontecendo. O que está em jogo realmente, para os cristãos que creem na Bíblia como a Palavra de Deus, é como, então, eles devem encarar a questão da homossexualidade. Meu objetivo neste capítulo é expor o que o apóstolo Paulo escreveu sobre esse assunto em Romanos 1.26,27. Antes de prosseguir Antes de seguir em frente, é importante esclarecer alguns pontos. Em primeiro lugar, a posição mais contundente contra essa passagem é daqueles que dizem que Paulo, ao escrever esses versículos, estava simplesmente refletindo o pensamento de sua época, um tempo em que os gays eram vistos com preconceito e, por isso, perseguidos, queimados e apedrejados. Segundo essa ideia, Paulo, mesmo que inspirado por Deus, era humano e estaria pensando como um homem do seu tempo. Assim, segundo esse raciocínio, essa passagem não valeria para nós hoje porque estaria refletindo o pensamento de dois mil anos atrás, quando ninguém conhecia direito a homossexualidade, hoje considerada uma questão genética, inevitável. Ainda segundo esse raciocínio, como Paulo não tinha como saber disso naquela época, ele, assim como todos os seus contemporâneos, achava que a homossexualidade era algo errado. A verdade, porém, é outra. Na época de Paulo, o pensamento era diferente. Embora fosse judeu, Paulo nasceu na cidade grega de Tarso, na Cilícia, e era cidadão romano; a homossexualidade, por sua vez, era bastante comum no mundo greco-romano em que o apóstolo viveu. Aristófanes, um famoso dramaturgo grego que viveu alguns anos antes de Cristo, afirmou, em determinada ocasião, que a homossexualidade era tão comum na cidade de Atenas que ele estava certo de que sua audiência era composta em sua maioria por homossexuais. Os livros de história nos dizem que, dos quinze primeiros imperadores romanos, catorze eram adeptos de práticas homossexuais; Nero, aliás, era casado com um homem. Então, vemos que naquela época o homossexualismo era extremamente comum e bem tolerado, quando não encorajado. A pederastia, que é o envolvimento de homens com meninos, era considerada normal e vista como uma forma de o menino galgar a maturidade. Assim, na verdade Paulo não está refletindo o espírito da época, mas, ao contrário, está se posicionando de modo antagônico a ele. O apóstolo não está condicionado pela cultura dos seus dias, mas, sim, indo contra ela. Os judeus, que eram contrários à prática homossexual, consistiam então em uma minoria. Israel e os judeus representavam uma porção ínfima do vasto Império Romano, uma civilização gigantesca, de alcance mundial. Os judeus não tinham influência nenhuma, e o pensamento dominante dizia que a homossexualidade era algo comum. A bem da verdade, é preciso que se diga que havia alguns filósofos e poetas que questionavam a prática homossexual; mas, no geral, ela era normalmente aceita no mundo da época de Paulo. Portanto, ele não está falando como uma pessoa que está bitolada pela cultura de sua época; na verdade, ele está indo contra aquilo que era aceito como normal em seu tempo. Em segundo lugar vêm aqueles que concordam que nessa passagem Paulo está se posicionando contra o homossexualismo, mas acreditam que ele está se opondo somente ao homossexualismo religioso. Deixe-me explicar. No Antigo Testamento, há quatro passagens em que se fala a respeito da prostituição cultual. Tratava-se de uma prática em que sacerdotes homossexuais, ministros de religiões pagãs que ministravam nos altares, ofereciam sacrifícios e se deitavam com outros homens como parte da cerimônia religiosa. Eles eram os chamados prostitutos cultuais, homens religiosos que praticavam o homossexualismo no contexto de sua religião. Por causa disso, algumas pessoas dizem que nos dois versículos em questão Paulo está, na realidade, condenando a idolatria,o culto aos deuses pagãos. De minha parte, por mais que examine esse texto, não consigo encontrar margem para essa interpretação. Onde é dito nessa passagem que Paulo está proibindo a idolatria? Ele está tratando das relações homossexuais em geral. Em momento algum ele está destacando que é contra a homossexualidade que leva à adoração de deuses estranhos nem exortando as pessoas a não se envolverem em um culto pagão. Paulo está abordando o tema da homossexualidade nos termos mais amplos possíveis, o que engloba a homossexualidade como um todo, e não apenas no contexto do culto. Em terceiro lugar, há ainda quem diga que o texto faz referência apenas à pederastia ou pedofilia, algo muito comum naquele tempo. Isso até poderia ser verdade se a passagem tivesse somente o versículo 27, mas o versículo 26 fala de mulher com mulher, e isso não é pederastia. Paulo não está falando de pederastia, de pedofilia, ele está falando de relações homossexuais, tanto de mulher com mulher quanto de homem com homem, independentemente de idade. Mais uma vez vemos uma tentativa de tirar a força dessa passagem. Em quarto lugar, há quem diga que nessa passagem o apóstolo Paulo está somente proibindo os relacionamentos homossexuais quando estes são abusivos e violentos, porque, se há fidelidade e amor entre o casal gay, então não há nada errado nesse tipo de união. Para essas pessoas, o que vale é o amor, considerado o mais importante, e que haja fidelidade. Paulo estaria condenando apenas as relações homossexuais que fossem violentas. Mas eu olho mais uma vez para o texto e pergunto: “Onde é que está escrito isso?”. Paulo não está destacando nenhum tipo de relação homoafetiva; ele está falando do assunto de modo geral e, portanto, está incluindo todas as formas de relação homossexual. E esse é o último ponto que precisamos destacar. A passagem deve ser lida no seu próprio contexto e de modo natural, da forma simples em que aparece. O apóstolo Paulo está falando de relações homossexuais entre mulheres e mulheres e homens e homens em geral e, portanto, está incluindo todo tipo de relação homoafetiva. Não está destacando uma forma em particular, mas está falando de todas, portanto a passagem tem aplicação global, geral, universal, e vale para os nossos dias perfeitamente. É dessa maneira que vamos tratar a questão da homossexualidade abordada na passagem. Como Paulo considera a homossexualidade? Primeiramente, não há dúvida nenhuma de que Paulo considera a homossexualidade uma prática antinatural e, portanto, errada, pecaminosa. Veja como ele se refere a essa prática: “Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si” (Rm 1.24, ARA). Ele está se referindo exatamente à prática sexual entre indivíduos do mesmo sexo. Paulo diz que isso é uma desonra para o corpo. O verbo desonrar significa tratar alguém ou alguma coisa de maneira indigna, de forma imerecida ou imprópria, e no caso a desonra refere-se ao corpo. Deus nos deu um corpo e o criou com uma finalidade em que se destaca o relacionamento heterossexual, monogâmico, dentro do casamento, conforme se pode perceber claramente no relato da criação do homem e da mulher e nas ordens que Deus lhes deu (Gn 1.27,28). Então, o que estiver fora disso consiste em desonra para o corpo, pois ele não foi feito para essa finalidade e, portanto, está recebendo um tratamento indigno, desonroso. Em segundo lugar, Paulo refere-se à prática homossexual no versículo 27 como um inflamar da sensualidade: “Os homens, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com a mulher, arderam em desejo sensual uns pelos outros, homem com homem”. Paulo chama então essa atração de “homem com homem” e a consequente relação entre eles de um inflamar (um arder) em desejo — palavra na língua grega que significa um sentimento tão forte que a pessoa se sente consumida por um fogo, com um desejo tão intenso que a faz ferver de vontade. A versão da Bíblia na Linguagem de Hoje traduz assim o versículo: “os homens [...] se queimam de paixão uns pelos outros” (1.27, NTLH). E essa paixão que queima é errada não por causa da sua intensidade, mas porque é mal dirigida em seu objeto, é de homem para homem. O homem deveria, sim, se inflamar de paixão, mas por uma mulher, e não por outro homem. Paulo considera, então, que o desejo ardente está dirigido para o alvo errado. Ainda no versículo 27, ele aponta que os adeptos dessa prática estão “cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. Outras versões dizem que tais homens estão “cometendo torpeza” (ARA). Torpeza significa uma atitude vergonhosa ou, como é traduzido na Nova Versão Internacional, um ato indecente: “Começaram a cometer atos indecentes” (NVI). Concluindo o versículo, Paulo diz que esses homens recebem em si mesmos “a devida recompensa do seu erro”, ou seja, a merecida punição por seu erro. Então, não resta aqui dúvida nenhuma: se tomarmos a Bíblia pelo que ela mesma nos diz, não há como questionar que a prática homossexual é considerada algo errado. Não é possível distorcer essa passagem. Aquelas tentativas que mencionei de que nessa passagem, ao tratar da questão da homossexualidade, Paulo estaria se opondo somente à prática no contexto religioso, ou à pederastia, ou à pedofilia, ou ainda aos relacionamentos homossexuais abusivos e violentos, caem todas por terra diante da clareza e da simplicidade do texto. Paulo está afirmando com todas as letras que a homossexualidade é errada (não apenas em casos específicos); trata-se de um pecado diante de Deus. Mas algumas pessoas perguntam se Paulo não estaria sendo incoerente, porque, no Antigo Testamento — em Levítico 20, por exemplo —, está escrito que o homem que se deitar com outro como se fosse mulher está cometendo abominação e deve ser apedrejado. Alguns pensam: “Por que Paulo está pegando uma parte e descartando outra? Ele não deveria dizer também que o correto seria apedrejar os homossexuais?”. Paulo nunca disse que era para fazer isso. Esse tipo de argumentação capciosa ignora a distinção clara que o Novo Testamento faz entre aquilo que é moralmente errado e a aplicação de penalidades que estavam relacionadas à nação de Israel (havia leis que mandavam apedrejar bruxas, feiticeiros, homossexuais, meninos desobedientes...). Antigamente, em Israel, a legislação civil determinava o tipo de punição. Essa legislação de Israel, no entanto, não passou para a igreja. A igreja não é uma nação, não está contida em um território geográfico, não tem uma legislação que prevê punições para infratores. Aquelas leis do Antigo Testamento, incluindo-se as que mandam matar e tudo mais, não passaram para a igreja dos dias de hoje, pois elas dizem respeito a Israel como nação. Em contrapartida, a lei moral de Deus permanece para sempre, e esse tipo de atitude — a prática homossexual, da mesma forma que o adultério, a fornicação, a prostituição — consiste numa quebra do sétimo mandamento, “Não adulterarás” (Êx 20.14). E a lei de Deus permanece para sempre. Assim, quem diz que Paulo está sendo incoerente por não adotar literalmente tudo o que está dito no Antigo Testamento ignora propositalmente esta distinção clara que encontramos na própria Bíblia: o Novo Testamento preserva a lei moral de Deus, revelada no Antigo Testamento, mas descarta a lei civil, visto que o propósito desta última já se cumpriu e não tem mais nenhuma relação com o povo de Deus. O problema da homossexualidade Voltemos então ao primeiro dos dois versículos que estamos analisando neste capítulo: “Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas. Porque até as suas mulheres substituíram as relações sexuais naturais pelo que é contrário à natureza” (v. 26). Paulo argumenta que a homossexualidade é contrária à natureza quando afirma que “mulheres substituíram as relações sexuais naturais”. Qual seriaa relação sexual natural para as mulheres? Ter relações sexuais com um homem. Mas as mulheres mudaram o modo natural e passaram a ter relações com outras mulheres. Esse é o primeiro ponto. Em seguida, no versículo 27, ao referir-se aos homens, Paulo diz: “Os homens, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com a mulher, arderam em desejo sensual uns pelos outros, homem com homem”, o que também é um contato não natural. Este é o problema: a homossexualidade é contrária à natureza; não foi assim que Deus nos criou para nos relacionarmos. Quando Deus criou o mundo, formou o primeiro casal e, ao criar um homem e uma mulher, ele estabeleceu o padrão do que é natural. Natural é homem e mulher em um casamento monogâmico, heterossexual. Segundo a Bíblia, da mesma forma que adorar a criatura em vez de reverenciar o Criador é uma perversão da revelação divina, a homossexualidade é uma perversão da ordem natural das coisas. E é essa comparação que está implícita na argumentação de Paulo, conforme a qual a humanidade perverteu a revelação que Deus fez de si mesmo, adorando a criatura no lugar do Criador, e Deus os entregou a si mesmos. Consequentemente, eles perverteram a ordem natural das coisas, dando nisso que estamos vendo agora. Por algum motivo que desconheço, os tradutores da Bíblia optaram por usar as palavras “homem” e “mulher”, em vez de usar os termos que aparecem no original, que traduzidos ao pé da letra seriam “macho” e “fêmea”: “Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas. Porque até as suas fêmeas...” (v. 26). Para nós, hoje, por causa da ideologia de gênero, essa alteração faz uma enorme diferença, pois uma pessoa só pode ser fêmea por nascimento, enquanto o fato de “ser mulher” é visto como um construto social. É interessante que Paulo, quando se refere às mulheres, diz “fêmeas”, e, no versículo seguinte, semelhantemente diz “machos”, ao referir-se aos homens: “Os machos, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com a mulher, arderam em desejo sensual uns pelos outros, macho com macho, cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro” (v. 27). Vemos assim que Paulo, ao tratar dessa questão, recorre à definição biológica: há macho e fêmea, não há meio-termo. O problema está na inversão ou na perversão dessa ordem. É nisso que consiste, então, o pecado, o erro — uma perversão da ordem sexual natural criada por Deus, uma alteração não autorizada por ele. Onde a homossexualidade se origina? Mas de onde vem essa alteração? Por que as pessoas se entregam à prática da homossexualidade? Paulo entende com muita clareza que a origem desse pecado é a concupiscência do coração humano: “... pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, [...] Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas” (v. 25, 26). Essas paixões, na realidade, já habitavam o coração humano, o que faltava era Deus permitir que se espalhassem pelo corpo. Uma vez que Deus deixou de refreá-las e os entregou a essas paixões, o coração humano foi até aonde queria ir e, por conseguinte, houve essa alteração da ordem natural. Então, olhando por essa perspectiva, a prática homossexual é algo que acontece no íntimo do ser, é resultante da corrupção do coração humano, a qual está agora liberada, porque Deus retirou dele a sua graça. Essa liberação, porém, é punitiva, resulta da reação de Deus à humanidade, a qual rejeitou o conhecimento, a revelação que ele fez de si mesmo na consciência humana e na criação. Veja como Paulo refere-se a “paixões desonrosas” (v. 26) e também fala das “concupiscências de seu próprio coração” (1.24, ARA), bem como de os homens “arderem “em desejo sensual uns pelos outros” (v. 27), ou seja, o apóstolo mostra que tudo isso primeiramente acontece no coração, para depois, então, tornar-se uma prática. Hoje sabemos, porém, que, nesse processo em que as pessoas abraçam a homossexualidade também há fatores externos que precisam ser considerados. Vejamos alguns deles: 1. A educação recebida dos pais. Há pais que, intencionalmente, criam o filho sem uma identidade masculina ou feminina. De vez em quando aparece na mídia algum casal — especialmente na Europa — que cria o menino ou a menina sem definição de sexo. Há casais que, comprando a mentalidade da nossa época, seguem essa onda da ideologia de gênero e dizem que vão deixar o filho decidir o que vai ser, quando ele tiver por volta de 10 anos de idade. Até lá vão tratá-lo como menino e menina ao mesmo tempo ou como nenhum dos dois. 2. Influência da cultura e da mídia. A educação que a criança recebe em casa e na escola — muitas vezes influenciada pela cultura vigente e pela mídia, as quais apresentam a homossexualidade de maneira tão explícita — acaba facilitando, ou até mesmo incentivando, a prática homossexual. Não faz muito tempo, assisti na televisão a uma reportagem sobre a moda masculina para o próximo verão e fiquei admirado com o que vi. Todos os modelos me pareceram afeminados, com as roupas coladas ao corpo. Não havia nada de masculino ali! Sem dúvida, a cultura e a época em que vivemos exercem um papel preponderante sobre o comportamento das pessoas. Então, em um ambiente sem muitas definições claras e objetivas sobre os gêneros masculino e feminino, bem como sobre seus respectivos padrões de comportamento, é natural que as crianças e os adolescentes se mostrem confusos. Pode acontecer até que alguns deles sigam determinado caminho por curiosidade, apenas para saber do que se trata ou o que representa e, com isso, acabem dando uma enorme dor de cabeça aos pais. 3. Abuso sexual sofrido na infância. Muitos homossexuais apontam isso como causa da sua homossexualidade. Lamentamos, obviamente, todo abuso sofrido na infância. Nosso coração enche- se de indignação contra adultos que violentam crianças. As cicatrizes e memórias desses momentos sem dúvida podem contribuir para que uma criança ou adolescente fique confuso quanto ao seu gênero. Admitir isso, todavia, não significa admitir que o abuso na infância leve necessariamente à homossexualidade. 4. Lares disfuncionais. Contextos em que os papéis biblicamente atribuídos ao homem e à sua mulher não são respeitados nem claramente definidos acabam contribuindo para que a criança cresça confusa quanto ao seu papel como homem ou mulher. Além disso, temos a preocupante questão da ausência de modelos masculinos para os rapazes e femininos para as moças. Por um lado, os homens se retraem e não assumem suas funções como líderes e protetores. Por outro, empoderadas pelo feminismo, as mulheres avançam para ocupar papéis que biblicamente não são seus. O resultado é uma geração que cresce confusa e sem referencial. Nos Estados Unidos, os evangélicos têm um movimento chamado Promise Keepers [Guardadores da Promessa]. Trata-se de um movimento muito grande cujo objetivo é unir os homens e mostrar-lhes como exercer sua masculinidade. Por incrível que pareça, é preciso ensinar os homens o que é ser homem hoje! De um lado, há o machismo, que deturpa o papel do homem dizendo que ele tem de ser machão, adúltero, violento, bater em mulher e tudo mais — o que é, obviamente uma aberração, um pecado. Do outro lado, há homens crescendo efeminados por falta de modelos de masculinidade. Muitos meninos não têm um modelo masculino em quem se espelhar, ou, quando há um modelo dentro da família, às vezes ele é ruim, e as consequências são as piores possíveis. Não podemos ignorar esses fatores externos. Não há nada de errado em reconhecermos que algumas pessoas escolhem esse caminho por questões de criação, por abuso na infância, por influência dos amigos, por moda. Não estamos negando isso. Mas uma coisa que também não queremos que seja negada é que se trata de um problema que começa no coração, pois é um problema de corrupção do coração humano. A Palavra de Deus é muito clara a respeito disso,portanto precisamos ficar atentos. O castigo para a prática homossexual No final dessa passagem, Paulo menciona que os homens adeptos da prática homossexual acabam “recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”, ou, como é dito em outra versão, acabam “recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro” (ARA). Paulo refere-se aqui a uma punição que eles recebem no próprio tempo em que vivem essas relações homossexuais; diz ainda que ela é “devida” ou “merecida” e que a recebem “em si mesmos”. Há várias possibilidades de interpretação do que seja essa punição, até mesmo do que seja a própria degradação moral que a pessoa experimenta. Não se iluda: embora os praticantes da homossexualidade sejam chamados de “gay”, termo que significa feliz e alegre em inglês, isso não retrata a vida de muitos deles que, em decorrência desse desvio, sofrem muito, têm problemas de depressão, de identidade, ou seja, vivem uma luta muito grande. Então, a punição a que Paulo se refere pode ser alguma forma de flagelo, dor espiritual, psicológica ou física e até mesmo a própria degradação a que a pessoa se submete ao fazer uma coisa que não é natural — por mais que ela queira pensar que está fazendo algo normal. Mas sempre há consequências para esse ou para qualquer outro tipo de procedimento que afronte a criação natural de Deus Conclusão e aplicações práticas Vimos neste capítulo que sexo e gênero são aspectos definidos biologicamente; o fato de ser macho e fêmea é algo definido na criação; por isso, nós somos do sexo com o qual nascemos. É claro que a sociedade e o convívio com os pais vão nos ajudar a confirmar isso, a amadurecer e a sermos aquilo que já somos por nascimento, verdadeiros homens e verdadeiras mulheres. Este é o papel da família e da sociedade: desenvolver aquilo com o que nós já nascemos. Dessa forma, não podemos aceitar a ideologia de gênero. A homossexualidade não é de fundo genético e, portanto, não é irresistível, mas, sim, uma decisão que o indivíduo toma. A vasta aceitação, prática e defesa da homossexualidade nos dias atuais mostra que a humanidade está sob o juízo de Deus (veja Rm 1.27). Porém, há perdão e libertação no evangelho. Escrevendo aos coríntios sobre esse mesmo assunto, Paulo afirma ter conhecimento de pessoas que tinham sido assim, mas foram transformadas: Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem os que se submetem a práticas homossexuais, nem os que as procuram, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem caluniadores, nem os que cometem fraudes herdarão o reino de Deus. Alguns de vós éreis assim. Mas fostes lavados, santificados e justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus (1Co 6.9-11). Paulo conheceu pessoas que haviam sido sodomitas, praticantes da homossexualidade, mas elas foram justificadas em nome de Cristo Jesus. Portanto, há possibilidade de mudança, perdão, libertação, transformação. A Carta aos Romanos não está tratando a homossexualidade como o pior de todos os pecados. A partir do versículo 28, que veremos no capítulo seguinte deste livro, Paulo lista quase vinte atitudes que ele considera igualmente erradas. A questão da homossexualidade nunca foi tratada isoladamente no Novo Testamento, mas sempre em conjunto com outros comportamentos. Por isso é muito errado olharmos para a homossexualidade como se fosse um pecado sem perdão. Algumas reivindicações do movimento gay estão corretas, pois às vezes a igreja é homofóbica mesmo, rejeita mesmo o homossexual, não o aceita. Às vezes até a própria família vê a homossexualidade como uma coisa odiosa, que tem de ser combatida. A Bíblia não ensina que a homossexualidade é um pecado sem perdão. Só existe, como sabemos, um pecado sem perdão na Bíblia, que é a blasfêmia contra o Espírito Santo. Há outros pecados que a Bíblia trata com o mesmo rigor que a homossexualidade, como a prostituição, o adultério e a fornicação (sexo entre pessoas que não são casadas). Assim, é muito errado a igreja eleger a homossexualidade como o ápice de todos os pecados de imoralidade. Precisamos chamar ao arrependimento todo pecador, não só quem está vivendo a prática da homossexualidade. Temos de chamar ao arrependimento, do mesmo modo, o imoral, aquele que vive na prostituição, o marido que trai a mulher, a mulher que trai o marido, namorados que mantêm relação sexual, e assim por diante. A homofobia é algo errado, e qualquer violência praticada contra uma pessoa por ela ser homossexual deve ser repudiada. Não é assim que a Palavra de Deus encara essa questão. Quanto aos crentes em Jesus Cristo que se sentem atraídos e tentados por pessoas do mesmo sexo, precisamos reconhecer que a situação é mais comum do que se possa imaginar. Note, no entanto, a diferença entre tentação e pecado: ser tentado não é pecar; o pecado ocorre quando a pessoa cai em tentação. Todos nós somos tentados de muitas maneiras: quem não é homossexual pode ser tentado a cobiçar pessoas do outro sexo que são comprometidas ou casadas; quem sofre com a questão da homossexualidade é tentado a cobiçar pessoas do mesmo sexo; no fim, ambos enfrentam tentações. Então, não é pecado ser tentado; pecado é concordar, aceitar, começar a fantasiar, ir para a internet e depois partir para a prática, aí, sim, é pecado. Não posso evitar que um passarinho pouse na minha cabeça, mas posso evitar que ele faça um ninho ali. Pensamentos vêm, desejos surgem, sentimentos chegam ao coração, mas sempre podemos dizer “não”. E podemos lutar contra isso com a graça de Deus, não só contra essa tentação, mas contra qualquer outra, pelo poder do Espírito Santo. Quanto aos que estão envolvidos na prática homossexual, como eu já disse, a igreja não pode ver esse pecado como algo sem perdão. Se esse é o seu caso, é necessário que você entenda que o tratamento que nós lhe daremos é o mesmo que daríamos a uma pessoa que também esteja engajada em qualquer outra prática ilícita, seja ela de caráter sexual ou não. É um tratamento padrão: fé no Senhor Jesus Cristo para perdão de pecados, arrependimento, mudança de vida, comunhão com Deus e o seu povo. A mensagem é a mesma para todos os pecadores, não há diferença nenhuma. Aos pais que porventura tenham filhos que estão sendo tentados nessa área, também tenho algo a dizer. É uma situação muito difícil, que traz muito sofrimento aos pais. Talvez a minha história ajude um pouco. Eu fui um menino muito malvado, dei muito trabalho à minha família, eu roubava coisas de casa, ia para a farra, ficava bêbado, fazia coisas das quais hoje eu tenho vergonha só de falar. Mas eu tinha uma mãe que me amava e orava por mim, e um pai que, embora discordasse completamente do que eu fazia, nunca fechou a porta de casa para mim. Eu sabia que, mesmo depois daquelas noites de farra, podia voltar para casa, pois tinha um lar ali. Eu sabia que meus pais não concordavam com o que eu fazia, isso era claro, mas eles nunca me abandonaram. No dia em que Deus abriu meu coração e eu me tornei crente, meus pais me receberam de braços abertos; eu sabia que tinha um lar para onde voltar, alguém que podia me abrigar, me ajudar e me acolher. Então, o que posso dizer para você, pai ou mãe, é que não feche a porta para o seu filho. Você pode deixar muito claro para ele que não concorda com esse comportamento, mas pode fazer isso sem demonstrar rejeição e ódio. Você pode dizer que vai continuar a amá-lo, mesmo que ele tome uma decisão com a qual você não concorde; pode falar também que a porta do seu coração vai continuar aberta, enquanto for possível, assim como a porta da sua casa. Mas que é claro que dentro de sua casa você não aceitará esses relacionamentos; é claro que nela haverá hora para chegar, enquanto ele viver sob a sua dependência. Pode dizer que seu coração estará sempre aberto para ele, que ele poderá contar sempre com as suasorações, que você estará sempre ao seu lado. Acredito que o amor e a misericórdia são o melhor caminho. Quem sabe um dia seu filho reconheça que é tão rejeitado pelo mundo, olhado com tanto preconceito, mas que tem uma mãe e um pai que o amam, apesar de ele ter dado tanta tristeza ao coração deles. Quem sabe Deus não vai usar isso para fazer a diferença na vida do seu filho. A leitura desses versículos escancara aos nossos olhos uma descrição devastadora do real estado em que se encontra a humanidade diante de Deus. Nessa passagem, o apóstolo Paulo traz uma lista de 21 pecados que marcavam o Capítulo 8 MENTES REPROVADAS Romanos 1.28-31 Uma trágica listagem de pecados Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm; cheios de toda forma de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais; insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem misericórdia. mundo greco-romano de então. Naquela época, o poder do Império Romano estava em evidência, mas a cultura dominante era a grega, e a combinação de ambas as vertentes, com suas ideologias, filosofias, religiões e idolatrias, deixou-nos como legado o que chamamos paganismo, ou seja, uma cultura que se vangloriava do homem, do poderio militar, das suas filosofias e que era marcada por uma profunda corrupção de costumes, pela mais abjeta imoralidade. Esse era o mundo em que vivia o apóstolo Paulo. Olhando para nós mesmos e para o mundo ao nosso redor, percebemos que esses 21 pecados continuam a definir, nos dias de hoje, a própria sociedade em que vivemos, ainda que ela tenha sido criada e sustentada pelos valores da cultura e da religião judaico-cristãs e mesmo com j toda a influência que o cristianismo exerceu no ocidente. Paulo avalia que as pessoas foram entregues a uma disposição mental reprovável, que praticam coisas inconvenientes, que estão cheias de toda forma de injustiça etc. Esse é o tipo de avaliação que você certamente não encontrará na mídia, nem entre os formadores de opinião, os artistas ou os políticos dos nossos dias. Boa parte das pessoas da nossa sociedade discordaria do fato de que algumas das atitudes listadas por Paulo configuram pecado ou até mesmo estejam erradas. Muitas diriam que certos itens que porventura constem na listagem são resultado da pobreza, da falta de acesso à educação, da necessidade de lutar desde cedo usando todo tipo de meio para sobreviver, da violência, de políticas equivocadas que não educam a população, da dominação de algumas classes que oprimem os pobres e assim por diante. Contudo, para o apóstolo Paulo, todas essas coisas são o resultado direto da rejeição a Deus por parte das pessoas. Não é outra a raiz da situação da sociedade em que Paulo vivia, assim como não é outra a causa para a miséria humana que hoje nós vemos ao nosso redor. O mundo virou as costas para Deus, para a revelação que ele fez de si mesmo. O estilo de vida que Paulo retrata nessa passagem descreve bem a sociedade secularizada em que vivemos. O objetivo do apóstolo ao escrever esse catálogo de pecados foi mostrar à igreja de Roma a verdadeira situação do mundo pagão e justificar sua necessidade de pregar o evangelho na Espanha, também dominada por essa mentalidade. Em outras palavras, foi por essa razão que Paulo se dedicou a escrever a Carta aos Romanos: ele queria angariar a simpatia dos crentes de Roma para anunciar o evangelho no emaranhado do mundo pagão, no extremo oeste da Europa, onde Cristo ainda não havia sido anunciado. Por isso Paulo se dedica a demonstrar ao longo do primeiro capítulo de sua epístola — na verdade, desde o versículo 18 — a situação de perdição e miséria em que o mundo pagão se encontra, sem o conhecimento de Deus, preso e condenado pelos próprios pecados. Neste capítulo, vamos buscar compreender o que vem a ser “uma mentalidade condenável”, ou “uma disposição mental reprovável”, de onde ela procede, bem como seus efeitos, e de que maneira podemos combatê-la. Mentalidade condenável O início da passagem registra: “Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm” (v. 28). Outra versão registra a frase da seguinte maneira: “E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Rm 1.28, ARA). Ao pé da letra, o versículo fala de “uma mente reprovada”, ou seja, de uma mentalidade condenada por Deus e que por si só aprova aquilo que Deus condena; uma mente que gera ou produz maus pensamentos. Outra tradução possível seria uma “mente corrompida”. Essa disposição mental reprovável significa ter uma mente que perdeu a capacidade de: • Discernir entre o certo e o errado. Por isso ela é capaz de colocar em prática a lista de pecados que vem em seguida, ou seja, trata-se de uma mente que não acha tais coisas erradas nem ruins. Por ter perdido a capacidade de diferenciar entre o certo e o errado, essa disposição mental é reprovada por Deus. • Perceber as consequências do pecado. Há consequências sempre que alguém pratica coisas erradas, mas a mente reprovada não consegue ver muito além daquilo que tem vontade de fazer. Ela quer experimentar, provar o que não convém, e não leva em consideração as consequências. • Indignar-se e revoltar-se contra as coisas erradas. A pessoa consegue conviver com todo esse catálogo de erros e pecados e não sentir coisa nenhuma, como se vivesse uma espécie de sociopatia espiritual. O sociopata, como se sabe, é alguém incapaz de ter sentimentos por outras pessoas. O sociopata espiritual permanece indiferente: se está certo ou errado, não lhe interessa. • Avaliar o castigo e o juízo decorrentes da prática dessas coisas. Aquilo que o homem plantar, isso também colherá. Um dia as consequências do que fazemos irão nos encontrar, mas uma pessoa de mente condenável está reprovada e não pensa na consequência dos seus atos. Ela não consegue ver o que está certo ou errado, e por isso se lança a fazer aquilo que tem vontade, sem medir as consequências. A pessoa de mente condenável aprecia e tem prazer em fazer o que é errado. Ela procura justificar suas atitudes e decisões pecaminosas, como o caso do marido que trai a esposa e acha isso natural, porque deixou de gostar da esposa e encontrou outra mulher mais atraente e atenciosa. O mesmo processo de justificação ocorre, por exemplo, com a pessoa que opta por ser desonesta no seu negócio porque diz que, se for pagar todos os impostos e andar totalmente conforme a lei, sua empresa falirá. Além de fazer, o indivíduo de mente corrompida também encoraja e defende quem faz coisas semelhantes. Quando a pessoa está entregue a uma disposição mental reprovável, sua tendência é não aceitar correção e críticas; ela não vê em que ponto está errada, não percebe a necessidade de mudar e hostiliza tudo aquilo que pareça ameaçar seu estilo de vida. Com essas palavras, tristemente, acabei de descrever a mentalidade dos nossos dias, pois é assim que as pessoas pensam, é assim que agem e é dessa forma que justificam as coisas que fazem. Sua mente não é mais capaz de discernir entre o certo e o errado, de avaliar as consequências dos próprios atos. Ao contrário, essas pessoas têm prazer em fazer o que é errado, e não somente isso, mas também justificam, dão desculpas, escondem o que fazem, tentam de alguma forma hostilizar qualquer pessoa ou ideologia que vá contra seu pensamento e sua prática condenável. Na carta que escreveu aos efésios, Paulo aborda esse mesmo assunto com outras palavras que nos ajudam a compreendê-lo com mais profundidade: Portanto, digo e dou testemunhono Senhor que não andeis mais como andam os gentios, em pensamentos fúteis, obscurecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância e dureza do coração. Havendo se tornado insensíveis, entregaram-se à devassidão, para cometer com avidez todo tipo de impureza (Ef 4.17-19). Trata-se da mesma tragédia provocada pelo pecado. Paulo fala da vaidade dos pensamentos, do coração entenebrecido, da mente obscurecida, da insensibilidade, da avidez para praticar todo esse catálogo de 21 pecados listados em Romanos 1.29-31. Essa descrição não se aplica apenas ao mundo daquela época, mas também à sociedade corrompida do mundo em que vivemos hoje. E sejamos honestos: as palavras do apóstolo descrevem com precisão o que somos no íntimo, diante de Deus. Nossa mente não funciona mais com clareza. É claro que não estou me referindo à incapacidade intelectual, porque o homem é capaz de aprender, de pesquisar, aumentar o conhecimento, dar contribuições para a ciência. Não é a esse tipo de mentalidade que estou me referindo. Falo da capacidade moral e espiritual de discernir aquilo que, diante de Deus, é certo ou errado e de fazer as escolhas corretas, fugir do erro, lamentá-lo, odiá-lo e não justificar os maus atos. A origem da mentalidade corrompida Certamente Deus, quando nos criou, não nos dotou do tipo de mentalidade que Paulo condena em seu texto. Então, de onde ela vem? A Palavra de Deus nos diz que fomos feitos à sua imagem e semelhança, mas algo aconteceu para que chegássemos ao estado descrito nessa passagem. Paulo menciona duas causas para essa condição mental condenável. A primeira delas é o desprezo por Deus. Vejamos uma vez mais o que o apóstolo diz em Romanos 1.28: “Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm”. Mas o que significa rejeitar o conhecimento de Deus? Como vimos no ensino ministrado por Paulo, Deus se revelou à humanidade, ou seja, ele não ficou desconhecido, incógnito, anônimo, mas se deu a conhecer. Em Romanos 1.18 está dito que “a ira de Deus se revela do céu”. Deus, do céu, revelou que existe e que está irado com a desobediência do ser humano. Essa é uma consciência que está no coração de cada pessoa que vem ao mundo. Mesmo a pessoa mais embrutecida, ignorante e bárbara que possa existir tem em sua consciência o conhecimento de que há um Deus e de que ele está irado pelos malfeitos do ser humano. E não somente isso. Além de se revelar na consciência humana, Deus se revela também por meio da criação, como já vimos em Romanos 1.20: “... os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas”. Os céus proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra das suas mãos, como diz o salmista (Sl 19.1). Toda a criação fala de Deus. Estamos cercados da glória de Deus por dentro e por fora, e essa glória está em todo lugar ao nosso redor. Por isso, Paulo afirma, no fim desse mesmo versículo, que “esses homens são indesculpáveis” (Rm 1.20). Não há ninguém que, no dia do juízo, possa dizer que não sabia da existência de Deus e que esse Deus é santo e determinou o certo e o errado. Não há ninguém que possa apresentar uma defesa diante de Deus no dia do juízo, porque ele se manifestou na consciência das pessoas e na criação, de forma que cada ser humano é responsável diante de Deus por esse conhecimento. Mas, voltando ao versículo 28, vemos que os homens rejeitaram, ou desprezaram, esse conhecimento de Deus. E esse desprezo é universal, cometido por todos. O termo desprezar na língua grega significa literalmente não aprovar. Os homens não aprovaram ter Deus em seu conhecimento. É como se tivessem examinado a revelação e dissessem assim: “Não! Vamos desprezar isso aí, não temos interesse, não queremos saber desse Deus. Eu quero seguir a minha vida, adorar quem eu quiser, servir quem eu quiser, viver do jeito que eu quiser. Não quero nenhuma divindade me dizendo o que é certo e o que é errado, tolhendo a minha liberdade. Quero viver do modo que eu bem entender”. Assim, os homens rejeitaram essa revelação que Deus fez de si mesmo, ou seja, não a aprovaram, desprezaram-na, acharam que não valia a pena reter esse conhecimento de Deus. Em vez disso, optaram por não reconhecer o Criador de todas as coisas e o desdenharam, deixando-o de lado. Em outras palavras, trata-se do processo mental já descrito por Paulo. Em Romanos 1.21, Paulo diz que “se tornaram nulos em seus próprios raciocínios” (ARA); depois, no versículo 25, fala que “substituíram a verdade de Deus pela mentira” e, em vez de aceitar a revelação de Deus e adorá-lo, começaram a adorar a si mesmos e a adorar animais, aves, quadrúpedes, répteis. É só comparar as religiões pagãs da antiguidade com as religiões pagãs modernas para perceber que em ambas, de uma forma ou de outra, adoram-se os elementos da natureza. Assim, essa é a primeira causa da mentalidade reprovada: a rejeição do conhecimento de Deus, o qual faria com que a mente humana funcionasse da maneira correta. Uma vez que alguém rejeita a luz de Deus, sua mente entra em trevas, por mais intelectual que seja a pessoa. Não lhe é mais possível encontrar as respostas para as questões básicas da vida, e a pessoa fica tateando no escuro. Trata-se de um mundo em que nada mais faz sentido: a dor, a violência, a providência, o amor, o carinho, a misericórdia, quem somos, de onde viemos, o que estamos fazendo aqui, por que coisas ruins acontecem, por que coisas boas acontecem, por que isso, por que aquilo... A mente perde o referencial. Todo mundo que viaja sabe o que é entrar em uma área em que o GPS perde o sinal do satélite. Imagine uma pessoa nessa situação, mas que tenha uma encruzilhada à sua frente. Ela não conhece o local, depende totalmente do satélite; como não há sinal, ela está perdida. Assim é a situação da mente corrompida, que perdeu o referencial, pois rejeitou o conhecimento que Deus lhe dera. A segunda causa apresentada por Paulo para explicar a origem da mentalidade reprovável é que Deus, em resposta à rejeição dos homens, entregou-os a si mesmos. Eles desprezaram o conhecimento que Deus revelou de si mesmo, tanto na consciência quanto na criação, e por isso o Senhor os entregou a essa disposição mental reprovável, ou seja, Deus os entregou a eles mesmos. É como se Deus tivesse dito: “Seja feita a sua vontade. Seja feito do jeito que querem. Vocês viraram as costas para mim, menosprezaram-me, rejeitaram-me, querem viver por vocês mesmos... Tudo bem, vou lhes deixar entregues à sua própria mente, ao seu próprio modo de pensar”. E o resultado é isso que Paulo chama de mentalidade condenável. Já vimos nos capítulos anteriores que Deus, como castigo aos seres humanos, por causa dessa rejeição, primeiro os entregou à imundícia: “Deus entregou tais homens à imundícia” (1.24, ARA). Depois, Deus os entregou às paixões infames: “Deus os entregou a paixões desonrosas” (1.26). E agora Paulo afirma que Deus os entregou a uma mente condenável, que é o fim de todo o processo; quando finalmente a pessoa perde a capacidade de entender, discernir e enxergar, significa que ela chegou ao fundo do poço. Um dos dons mais preciosos que temos é a capacidade de pensar, discernir, avaliar, entender, reconhecer. Muitas vezes nem nos damos conta de como é bom termos memória, sermos capazes de nos lembrar das coisas vividas e aprendidas, podermos discernir, fazer cálculos, imaginar, utilizar a lógica, a qual nos ajuda a antecipar o resultado dessa ou daquela decisão que precisamos tomar. A mente humana é privilegiada, e é altamente prazeroso ter o domínio de uma mente clara. Sabemos como são aflitivas as doenças e distúrbios que afetam a capacidade mental do indivíduo. São vários os tipos de enfermidade de ordem mental em que uma pessoa pode, por exemplo,perder a capacidade de reconhecer os outros; às vezes, ela experimenta uma espécie de esquizofrenia e fica ouvindo vozes; ou apresenta uma bipolaridade, com mudanças de humor repentinas e inexplicáveis; ou é um sociopata, que não tem sentimentos por nada nem por ninguém; também há algumas doenças degenerativas, nas quais a pessoa vai perdendo o conhecimento antes retido, até não conseguir mais saber onde está ou quem são seus familiares mais próximos. Imagine agora tudo isso transferido para o mundo espiritual. É isso que Paulo está descrevendo: uma mente acometida por distúrbios causados pelo pecado e que, portanto, não consegue entender o seu próprio estado diante de Deus, não consegue ver o que está errado em suas más atitudes, em seus pecados. Deus a entregou a uma disposição mental reprovável, e essa mente não consegue sequer compreender o fato de que se encontra nesse estado. Quando Deus entrega o homem a si mesmo, trata-se de uma ação punitiva; o castigo do pecado é o pecado. Certa vez, eu estava lendo um comentário em uma rede social em que uma pessoa perguntava a um pastor se a AIDS era a punição pelo pecado da homossexualidade. O pastor disse que não, que o castigo do pecado da homossexualidade era a homossexualidade mesmo. A AIDS é uma doença como qualquer outra; o castigo do pecado é mais pecado; e o castigo para quem rejeita Deus é uma mente reprovada. Paulo faz um interessante trocadilho intencional no original, o qual não aparece na maior parte das nossas traduções bíblicas. Em uma tradução alternativa do versículo 28, teríamos algo como: “por haverem reprovado o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma mente reprovada”. Desse modo, observamos que a punição de Deus ao entregar o homem a si mesmo é proporcional ao erro. Em outras palavras, Deus está dando o castigo na justa proporção: o seu conhecimento foi reprovado, então ele reprova a mente que fez isso. Os efeitos da mente reprovada Paulo, em seguida, apresenta uma lista de 21 “coisas que não convêm”. Elas passam a ser praticadas pelos que foram entregues a “uma mentalidade condenável”, por se recusarem a reconhecer a Deus em sua consciência e na natureza. Tal recusa fez com que se tornassem “cheios de toda forma de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais; insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem misericórdia” (v. 29-31). Dito de modo mais simples, Deus entregou essas pessoas a uma disposição mental reprovável para praticarem coisas inconvenientes. Perceba que essa prática resulta de um problema relacionado com a mente humana. Tudo começa na cabeça, depois vai para a prática. Primeiro a pessoa se justifica, age em pensamento, cobiça a mulher do próximo na cabeça, cobiça os bens do próximo mentalmente, trama planos, inveja, e só depois é que coloca tudo isso em prática; tudo tem início, porém, na disposição mental reprovável. Uma vez que a pessoa é entregue a essa mentalidade nociva, o passo seguinte é que sua vida e sua maneira de ser são imediatamente afetadas, e, uma vez ela tendo perdido o norte ético do certo e do errado, o passo seguinte é ultrapassar os limites na prática. Tudo agora está permitido, a mente se liberou, o indivíduo se sente livre para fazer todas as coisas que tem vontade e que Paulo diz que são erradas, impróprias aos olhos de Deus e dos homens — menos para essas pessoas, que as consideram normais e naturais. Com relação a essa lista trágica de pecados, convém observar que, obviamente, não se trata de uma lista exaustiva. Paulo pretende apenas dar uma amostra do que acontece com uma sociedade ou com o indivíduo que rejeita Deus e, portanto, dispõe- se a seguir o seu próprio caminho. Há muitas outras listas de pecados, por assim dizer, no Antigo e no Novo Testamentos, nas quais encontramos outras coisas que complementam estas. Nessa lista dirigida aos romanos, o apóstolo Paulo não inclui a homossexualidade, pois já tratou disso nos versículos imediatamente anteriores. Outra observação válida é que, ao olharmos para essa lista, percebemos que ela não trata apenas de um tipo de pecado. Na verdade, ela representa a quebra de todos os mandamentos de Deus. Não posso afirmar que Paulo fez isso de propósito, mas podemos relacionar praticamente cada um dos pecados mencionados por ele a um dos mandamentos de Deus. Os quatro primeiros mandamentos relacionam-se com Deus — “Não terás outros deuses além de mim” (Êx 20.3), “Não farás para ti imagem esculpida” (Êx 20.4), “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão” (Êx 20.7), “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar” (Êx 20.8) — e nessa passagem Paulo está mencionando “inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes [...] insensatos” (Rm 1.30,31). Um homem arrogante, insolente, orgulhoso e inimigo de Deus não quer saber de Deus — na verdade, essas atitudes são de afronta direta ao Senhor. Com isso os primeiros quatro mandamentos são quebrados. Em seguida vêm os mandamentos relativos ao próximo. O quinto mandamento diz: “Honra teu pai e tua mãe” (Êx 20.12) e o que encontramos na lista é “desobedientes aos pais” (Rm 1.30). Isso tudo começa cedo, algo que podemos verificar na convivência com os nossos próprios filhos: quando são crianças, eles já manifestam essa mentalidade reprovada de se voltar contra toda a autoridade, contra o que é certo. Não vamos cometer o engano de pensar que isso é coisa de adulto, pois desde cedo se manifesta em nossa raça esse mal com o qual nós nascemos. O texto paulino também fala de pessoas “sem afeto natural”, e isso significa a falta da afeição que naturalmente os pais teriam pelos seus filhos. O que vemos hoje são pai e mãe aborrecendo o filho, espancando, machucando etc. É grande a quantidade de crianças que chega ao hospital com hematomas, dente quebrado, queimadura por ponta de cigarro e outras lesões praticadas no âmbito doméstico. Isso é falta de afeição natural. O quinto mandamento, que manda os filhos honrarem os pais, traz implicitamente o dever de os pais tratarem os filhos com amor e educá-los da forma correta, como Paulo interpreta em Efésios 6.1-4. Quanto ao sexto mandamento, “Não matarás” (Êx 20.13), encontramos na lista de Paulo “injustiça [...] maldade [...] homicídio, discórdia [...] inventores de males [...] sem misericórdia” (Rm 1.29-31). Todas essas atitudes representam a quebra desse mandamento O sétimo mandamento é “Não adulterarás” (Êx 20.14), e Paulo já falou da questão da imoralidade sexual nos versículos 27 e 28. Quando Paulo menciona “inveja [...] engano [... ] inventores de males” (Rm 1.29,30), isso guarda relação com a quebra do oitavo mandamento, “Não furtarás” (20.15), e do décimo mandamento, “Não cobiçarás” (20.17). Paulo menciona ainda “intrometidos, caluniadores” (1.29.30), algo diretamente relacionado à violação do nono mandamento, “não darás falso testemunho”. Como se vê, todos os dez mandamentos foram quebrados, não escapou um só! Essa é a situação do mundo em que vivemos; esse é o meu estado e o seu. Note que Paulo diz que eles estão “cheios de toda forma de” (1.29), pois, no momento em que rejeitaram a Deus, criou-se um vácuo, o qual, se não estiver preenchido por Deus, será preenchido por outra coisa. Uma vez que o indivíduo rejeita o conhecimento de Deus, seu coração se enche dos pecados mencionados na lista. Por uma questão de justiça, é preciso que fique bem claro que, assim como acontece hoje, nem todo mundo na época de Paulo poderia ser acusado de cometer todos esses pecados. Alguém pode argumentar: “Pastor, eu conheço pessoas que rejeitam o conhecimento de Deus, mas que são honestas, trabalhadoras, vivem bem com o marido...”. O fato de Paulo ter produzido essa lista não quer dizer que todo habitante do planeta pratica todas as coisas nela relacionadas.Porém, isso só não acontece devido à misericórdia de Deus. Muita gente deixa de fazer as coisas dessa lista por temor ao castigo, por medo de ser apanhada e ter de responder por seus atos. Você certamente conhece muita gente que parece boazinha e cumpre a lei. Na verdade, foi Deus quem colocou temor nos corações. Há outras pessoas que parecem bondosas e misericordiosas, mas foi Deus que as agraciou com um temperamento bom; outras têm uma disposição naturalmente alegre, de fácil agrado, mas isso não vem da pessoa, o coração dela está pronto para fazer essas 21 coisas ou mais, mas Deus lhe deu uma boa disposição, uma boa índole. Outros tiveram o privilégio de nascer em um lar com valores ou um lar cristão e, mesmo que hoje não sejam mais crentes em Jesus Cristo, aquilo que aprenderam na infância permanece com eles até hoje, pois não conseguem se livrar da boa educação que tiveram. Então, por causa da providência de Deus, das autoridades, das leis, da influência do cristianismo, nem todas as pessoas são tão ruins como poderiam ser; porém, dependendo das circunstâncias, se tivéssemos oportunidade, você e eu faríamos tudo o que está na lista e até outras coisas mais, com requintes de maldade. Portanto, essa lista é uma amostra do que a humanidade sem Deus é capaz de fazer. Em outras palavras, ela reflete uma humanidade que virou as costas para o seu Deus. A última observação sobre essa lista pretende ratificar o que já dissemos no início do estudo da passagem. A lista mostra que todo pecado é decorrente da rejeição a Deus. Note que Paulo mostra que esses 21 pecados estão ligados à atitude de rejeitar a Deus: “Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus” (1.28). Veja como funciona a sequência: as pessoas rejeitaram o conhecimento de Deus; Deus as entregou, então, a uma atitude mental reprovável; e elas fizeram várias coisas inconvenientes, como, por exemplo, serem desobedientes aos pais. O que Paulo está dizendo é que desobedecer aos pais é um comportamento que tem origem na rejeição a Deus no coração da criança, do adolescente e do jovem. Desde a infância, os filhos são estimulados pela nossa sociedade permissiva a aderirem a essas práticas e ideologias, que vêm às vezes do governo, dos formadores de opinião, de determinados psicólogos e educadores, que, em vez de ajudarem os pais a ensinar a criança a lutar contra a malícia do seu coração, a estimulam. Assim, pelo que vemos aqui, a desobediência aos pais é um problema espiritual. Cada um desses pecados da lista está ligado à rejeição a Deus. O mundo, porém, mesmo em suas iniquidades, está diante de Deus. Como diz a expressão latina, todos nós vivemos coram Deo, diante de Deus. Quando o mundo peca, ele peca contra Deus, mesmo que não acredite nele. Nele existimos e nele nos movemos, dele tiramos nossa vida, nosso sustento e o que somos. Todo pecado, enfim, é contra Deus. O resultado final da reprovação de Deus, que o leva a entregar o homem a si mesmo, é um quadro devastador: a justa condenação de toda a raça humana, a completa e integral corrupção da humanidade e impotência para resolver o problema, pois quem está preso nessa mentalidade não consegue ver que está condenado, não consegue perceber como tem ofendido a Deus com seus pecados, nem consegue enxergar as consequências que o aguardam. Conclusão e aplicações práticas Há várias coisas que precisam ser revertidas em nossa vida para que sejamos salvos. A salvação não é tão simples como às vezes alguns movimentos evangélicos querem fazer parecer: “Jesus morreu na cruz e, se quer aceitar Jesus, basta fazer uma oração comigo e confessar em seu coração que você o aceita”. Sim, Deus pode salvar pessoas dessa forma, pois Deus é Deus, ele salva do jeito que quiser; porém, há muito mais coisas envolvidas na salvação de um pecador. Uma delas é a ira de Deus sobre o ser humano, por causa da nossa impiedade e da nossa perversão, porque rejeitamos o conhecimento dele: “... a ira de Deus se revela do céu” (1.18). Não acredite em um evangelho cujo único enfoque seja que Deus é amor. De fato, ele é amor, mas isso é só metade do que a Bíblia diz a respeito do Supremo Criador. Algumas pessoas costumam dizer coisas como: “O nosso Deus é um Deus amoroso, um Deus que compreende, que não fica chateado com essas coisinhas que eu faço. É um Deus de amor, compassivo; ele não se importa com a minha vida errada; não quer saber se traio a minha mulher, se sou desonesto e mentiroso, se vivo fofocando, falando mal dos outros, espalhando calúnias no WhatsApp, no Facebook. Deus nem sabe o que é Facebook”. Trata-se da mais grosseira mentira! Existe um Deus, que de fato é amoroso, mas que está irado com a perversão e a impiedade do ser humano que virou as costas para ele. Isso é algo a ser revertido. O texto que acabamos de estudar mostra claramente que Deus nos abandonou às nossas paixões e à nossa mente depravada e corrompida. Não somos capazes de entender por que somos de determinada maneira, o que fazemos aqui e muito menos de saber o caminho de volta. A mente não funciona mais, ela perdeu o senso de Deus. Como reverter isso? Como uma pessoa perdida no mato, sem um mapa, com o GPS quebrado e no escuro, volta para casa? Ela não consegue voltar. E, pior ainda, ela está cega. A escravidão a essa mente reprovável também é algo que precisa ser revertido. Você pode dizer para uma pessoa com a mente corrompida que ela está perdida por causa dos seus pecados, que está ofendendo Deus, e ela lhe dirá que não consegue ver as coisas da mesma forma que você, que isso é o que você diz, pois ela não se sente assim, não vê dessa forma, ela tem a própria opinião. Você pode dizer que isso tudo está errado, que é óbvio que, se ela fizer tal coisa errada, sofrerá as consequências; mas ela dirá que não concorda, que sabe que há pessoas piores do que ela com as quais nada de ruim aconteceu. A mente dela está presa, escravizada, não consegue se soltar. Como isso pode ser revertido? Você poderia me dizer que a pessoa se salva pelas boas obras, fazendo o bem ao próximo e cumprindo com suas obrigações, pois no fim Deus vai ter misericórdia dela. Mas será que você ainda consegue falar de salvação por obras depois dessa descrição de Paulo? Depois de entendermos o que é uma mente reprovável? Como é possível falar de boas obras e dizer que o ser humano pode usar seu livre-arbítrio e sua força de vontade para romper com tudo isso e voltar para Deus? Como é que uma pessoa numa situação dessa — em que a mente não mais funciona, que já foi abandonada por Deus e que tem sobre si a ira de Deus — se reconcilia com Deus? O que ela pode oferecer a Deus? O que ela dará em troca da sua alma diante de Deus? Há somente uma possibilidade de reverter esse quadro, a qual Paulo já tinha anunciado no início do capítulo: “... não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (1.16). O evangelho é o poder de Deus, e não é à toa que é chamado assim, porque nada menos do que um poder sobrenatural é necessário para reverter essa situação. A palavra aqui traduzida por “poder” é, na língua grega, o termo dynamis, de onde vem a palavra “dinamite”. Esse é o poder, esse é o evangelho; ele é o poder de Deus para reverter essa situação, porque no evangelho, por causa do que Cristo fez na cruz, do seu sacrifício, do seu sangue derramado, do seu sofrer, do seu padecimento por nós, Deus nos perdoa, nos reconcilia com ele, nos justifica, retira de nós a sua ira, nos dá a mente de Cristo, clareia, renova o nosso entendimento, para sabermos o que é certo e errado e dizermos: “... eu era cego e agora estou enxergando!” (Jo 9.25). Só o evangelho faz isso, nada mais. Não há nenhum poder que seja conhecido do homem, fora do evangelho, que possa reverter a situação na qual nos encontramos. Cabe a cada um colocar-se diante deste questionamento e responder a ele com sinceridade: “Em que estado você se encontrahoje? Como você está diante de Deus? Está vivendo na prática costumeira desses pecados, sendo presunçoso, desobediente aos pais, insensato, sem afeição, sem misericórdia, sendo difamador, caluniador? De que forma espera ser perdoado, aceito por Deus e se livrar do juízo vindouro?”. Ao ler essas coisas, pode ser que pense que isso não tem nenhuma relação com você. Talvez esse seja o primeiro indicativo de que está entregue a uma disposição mental reprovável, porque não consegue se ver no que estou descrevendo. Não estou falando de mim mesmo ou expondo a minha opinião; estou lendo a Palavra de Deus e tentando explicá-la a você. Se você leu esses parágrafos e não se identificou, talvez isso já seja a primeira indicação de que está entregue a essa mentalidade reprovada, que não consegue mais entender nada. Mas, se leu esses parágrafos e temeu, se tremeu e deu razão a Deus, se conseguiu enxergar-se nisso atualmente ou no passado e entendeu a transformação no evangelho, saiba que esse é o primeiro passo para a esperança e que você não está longe do reino de Deus. Porque Cristo veio não para quem é são, mas veio para os doentes e, se hoje você se reconhece doente, escravo do seu coração e da sua mente, saiba que Deus, pelo poder do evangelho, quer iluminar sua mente, perdoá-lo e recebê-lo, justificar seus pecados, dar-lhe uma nova vida. Se você já é crente, Deus quer vê-lo se levantar e recomeçar, romper com seus atos pecaminosos. Perdoe quem você tem de perdoar, coloque a sua vida em ordem e tenha um novo começo com esse Deus maravilhoso e todo- poderoso, que pode, pelo evangelho, libertar o pior dos pecadores, a começar por mim. N essa passagem o apóstolo Paulo chega à etapa final da descrição da condenação do mundo gentio, da condenação do mundo pagão da sua época e, consequentemente, por analogia e aplicação, de todas as épocas posteriores e anteriores. No decorrer do capítulo, Paulo começou a demonstrar o estado Capítulo 9 O fundo do poço Romanos 1.32 O resultado da rebelião permanente ... os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que praticam essas coisas, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam. geral de pecaminosidade da raça humana. Primeiro ele demonstra que o mundo pagão está perdido, e em seguida que o mesmo acontece aos judeus. Eles receberam a lei de Deus, ao contrário dos pagãos, mas isso não lhes serviu para a salvação. E Paulo conclui sua explanação ao tratar da condenação e perdição geral de todos os seres humanos, independentemente de serem pagãos, gentios ou judeus. Não há exceção: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23, ARA). Nesse trecho ele termina de explicar ou de expor a perdição dos gentios, isto é, daqueles que nunca ouviram falar do nome de Deus, não receberam a Lei de Moisés, não conhecem o evangelho, mas que são, ainda assim, indesculpáveis. Isso porque, primeiro, Deus se revelou a eles pela consciência e pela natureza (1.18-20); depois, os homens rejeitaram essa revelação (1.21-23); então, Deus retribuiu, entregando-os ao seu próprio coração (1.24-31); e, finalmente, a humanidade, em vez de se arrepender, se rebelou contra Deus (1.32). Rebelião contra o decreto divino A rebelião consiste, assim, na última etapa do processo, que começou com a rejeição da revelação de Deus, seguida da retribuição divina a essa rejeição, à qual, por sua vez, a humanidade reagiu rebelando-se. O que Paulo nos ensina a respeito desse estado de rebelião? Ele nos mostra que a humanidade está em um estado de revolta contra o decreto ou a sentença de Deus. Existe uma sentença divina que pesa sobre todos aqueles que praticam o que lemos nos versículos 29 a 31. Sentença é o veredito que um juiz profere depois de analisar um fato, considerar suas provas, avaliar todas as evidências e ouvir as testemunhas. Nessa passagem, Deus é descrito pelo apóstolo Paulo como o juiz do mundo. Ele não somente é o Criador e sustentador do universo, mas é também o juiz de todas as coisas, aquele que julga as ações de suas criaturas. E, por ser santo, justo, verdadeiro, bom e reto, Deus desaprova e condena veementemente as coisas que as criaturas fazem e que são contrárias à sua santidade e à sua bondade. Por isso, Paulo afirma que Deus julga e profere o decreto “que declara dignos de morte os que praticam essas coisas” (v. 32). O mundo todo está sujeito a essa sentença divina; quem pratica o que está descrito em 1.29-31, somado com o que Paulo já disse em 1.24-27, está condenado à morte: homossexualidade, injustiça, malícia, avareza, maldade, inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; difamação, calúnia, aborrecimento de Deus, insolência, soberba, presunção, invenção de males, desobediência aos pais, insensatez, perfídia, falta de afeição natural e de misericórdia. Há uma condenação de Deus sobre o pecado, e essa condenação é universal, conhecida de todos. A sentença basicamente está dizendo que o castigo para quem quebra a lei de Deus ou o desafia ou o rejeita é a morte. A morte a que o apóstolo Paulo se refere aqui é em primeiro lugar a morte espiritual — sobre a qual ele discorre mais detidamente no terceiro capítulo de sua carta. No pensamento de Paulo, que está de acordo com o que se observa em toda a Bíblia, a morte não é apenas o momento em que o ser humano morre fisicamente, mas diz respeito, primeiramente, à morte espiritual. Lá no jardim Deus disse ao homem: “... no dia em que dela comeres, com certeza morrerás” (Gn 2.17). Em outras palavras, no dia em que o homem desobedecer a Deus, morrerá. Adão comeu do fruto, desobedecendo a Deus, mas não morreu fisicamente. Naquele instante, porém, ele morreu espiritualmente — houve uma separação entre ele e Deus. Esse é o primeiro sentido da morte como resultado do pecado. Depois, há a morte física, que também é o castigo de Deus para a humanidade por causa da desobediência. E o fato de que todos nós vamos morrer e de que todo homem morre é uma prova de que o pecado é universal. Você vai morrer, eu vou morrer, antes de nós todos morreram, os nossos filhos e netos vão morrer, e assim será até o dia da vinda de Jesus Cristo. Isso acontece porque somos pecadores, e esta é a sentença de Deus para a raça humana: “... porque és pó, e ao pó tornarás” (Gn 3.19). Acontece que a morte resultante dessa sentença de Deus não é somente a espiritual — a separação de Deus — e a física, mas também a morte eterna. Isso significa passar a eternidade que se aproxima separado de Deus e em meio à agonia e ao sofrimento que isso causa na alma do homem, que foi feita originariamente para ter comunhão com ele. Aliás, há uma sentença que foi proferida desde que o homem desobedeceu a Deus naquele dia no Éden, e é esta: “... o salário do pecado é a morte...” (Rm 6.23). Deus castigará com a morte a humanidade, porque ela lhe virou as costas em total desobediência, resolvendo seguir o seu próprio caminho. Desse modo, cada ser humano está destinado a experimentar a morte espiritual neste mundo, que implica em separação de Deus, distância de Deus, o vácuo no coração, que traz angústia, culpa, solidão, medo e terror no espírito do homem. Depois, vem a morte física, em que o espírito vai se separar do corpo; e, finalmente, a morte eterna, quando o homem entrará na eternidade para viver em solidão, para sempre separado de Deus e de toda alegria e prazer que existem somente nele. O pagão, a pessoa que, diferentemente de nós, não tem a Bíblia como referência e não tem acesso ao raciocínio abordado neste capítulo, pode não ter de fato uma consciência muito clara desse decreto divino; mas, certamente, tem um conhecimento intuitivo de que há uma punição futura à espera de quem pratica o mal. É possível observar entre todos os povos e culturas essa intuição, essa sensação de que há alguma coisa errada, de que um dia haverá um castigo. Não existe nenhum povo, por mais primitivo que seja, nenhumacultura, por mais distante, isolada e rude que seja, que não carregue essa sensação de culpa, cujos membros não vivam debaixo da expectativa de que um dia virá um castigo pelas coisas erradas que praticam. É por isso que em todas essas culturas, povos, tribos e nações existem religiões. A palavra “religião” vem do termo latino religare, conforme o Oxford Dictionary, que aponta inúmeros autores cristãos e romanos antigos que entendiam ser essa a origem do termo. Religião é um processo, um ritual, pelo qual o homem tenta se reconciliar, se religar a Deus, exatamente porque tem essa consciência de que não está bem com o Criador, de que há alguma coisa errada. Isso explica por que algumas pessoas oferecem sacrifícios aos deuses que inventam, por que se automutilam e se mortificam, na tentativa de fazer determinadas coisas para apaziguar os deuses ou de alguma forma pagar pela culpa que sentem e que um dia haverá de lhes trazer o castigo divino. Em Atos 28 há um exemplo interessante dessa sensação de culpa. Nessa passagem, encontramos o relato do naufrágio do navio em que o apóstolo Paulo estava quando viajava com destino a Roma. A embarcação passou por uma grande tempestade e afundou, mas as pessoas conseguiram sobreviver e chegar a uma ilha chamada Malta, habitada por bárbaros: “Os que habitavam a ilha usaram conosco de muita bondade” (At 28.2). Tratava-se de um povo primitivo, que jamais tivera contato com o evangelho nem com os judeus, que nunca ouvira falar de Deus e não tinha nenhuma noção dos Dez Mandamentos, como nós os conhecemos hoje. Mas veja o que aconteceu: eles receberam o apóstolo Paulo e os demais ocupantes do navio; à noite, por causa do frio, fizeram uma fogueira, para que todos se aquecessem. Paulo resolveu ajudar e foi pegar lenha, só que, quando estava no mato, uma cobra o mordeu na mão. Assim descreve a Bíblia a reação dos bárbaros: “Quando os que habitavam a ilha viram a serpente pendurada na mão dele, disseram uns aos outros: Certamente este homem é um assassino, pois, embora salvo do mar, a Justiça não o deixa viver” (28.4). Embora fossem pagãos, eles demonstravam ter essa consciência. No momento em que viram o ataque da cobra, eles mencionaram a “Justiça” — não sabiam ao certo o nome, pois não conheciam Deus. Para eles a “Justiça” estava atrás desse homem, já que havia mandado a tempestade e, como Paulo não morreu, enviara depois a cobra. A sequência desses dois fatos trágicos os levou a imaginar que, com certeza, tratava-se de um assassino. Isso deixa claro que aqueles pagãos tinham a noção de que há uma lei, um poder superior que julga o que é certo e errado e profere uma sentença. E o conhecimento de que existe essa sentença é uma realidade não somente entre os habitantes da ilha de Malta nos tempos de Paulo, mas também entre todos os povos de todas as eras. Voltando à Carta aos Romanos, observe como Paulo descreve esse fato: “(Porque, quando os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei, tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem)” (Rm 2.14,15). O apóstolo trata da lei, da norma da lei e do espírito da lei que estão gravados no coração dos gentios, que, apesar de nunca terem recebido a Lei de Moisés, de nunca terem lido a Bíblia, de nunca terem ouvido o nome de Jesus ou o evangelho, têm a lei de Deus gravada no coração. Por isso, eles sabem que há uma sentença, que há um Deus que um dia vai punir os pecados, e tentam fugir disso. Vimos que os homens sufocam o conhecimento de Deus (1.18), empurram-no para um canto, pois não lhes interessa viver sabendo disso. É justamente contra esse conhecimento que a humanidade se rebela. A humanidade se rebela não tanto contra o que acontece de ruim — sei que algumas pessoas ficam revoltadas e perguntam por que Deus permite a morte de crianças, tragédias, doenças terríveis que assolam a humanidade, enfim, tanta dor e tanto sofrimento. A humanidade se rebela mais contra essa consciência de que há uma justiça que um dia vai executar a sentença sobre os seus atos maus, pelos quais ela terá de responder. É contra isso que o homem se revolta no íntimo do seu coração; de todas as maneiras ele tenta abafar essa consciência do certo e do errado e do juízo de Deus contra si. Rebelião manifesta em dois tipos de atitude O homem continua com tais práticas mesmo sabendo que a morte é o resultado delas. Vejamos mais uma vez o que Paulo afirma: “... os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que praticam essas coisas, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (1.32). A primeira atitude que manifesta a rebelião do homem contra a lei de Deus, que está no seu coração e na sua consciência, expressa-se no fato de que os homens pecam, mesmo sabendo que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Eles desafiam Deus, como é o caso, por exemplo, de alguém que, ao dirigir um carro em alta velocidade, bêbado e sem cinto de segurança, sabe que a possibilidade de provocar um acidente fatal é bem real, mas assume o volante assim mesmo. A consciência mostra-lhe a verdade, contudo ele não se importa com isso. Mesmo sabendo que Deus vai punir o pecado com a morte, o ser humano segue em frente do mesmo jeito, sem medir consequências, sem refletir a respeito do que o aguarda. No fim das contas, ele considera que vale a pena o prazer do pecado, prazer esse que, ainda que momentâneo, o faz trocar o céu pela eternidade no inferno. Esse raciocínio revela um coração endurecido e disposto a pecar sem levar em conta as consequências. Qualquer pessoa sabe que mentir é errado, mas mente do mesmo jeito; qualquer um sabe que adulterar é errado, mas trai do mesmo jeito; todo mundo sabe que falar mal dos outros é errado, mas calunia do mesmo jeito. (Sobre isso, Provérbios 26.22 diz que as palavras do fofoqueiro são como bocados gostosos que descem até o mais profundo do ventre, não há nada mais gostoso do que falar mal da vida dos outros.) Assim, o homem segue nesse curso desenfreado, como o faraó que, mesmo depois de Deus ter mandado nove pragas sobre o Egito (porque ele não deixava o povo de Deus ir), endureceu o coração e se recusou a liberar os hebreus da escravidão e deixá-los partir (Êx 9.34). O faraó decidiu encarar uma queda de braço com Deus, e é assim que a humanidade vive hoje — mesmo sabendo qual será o resultado, a queda de braço continua. Porém, não é só isso; há algo ainda pior: o ser humano não somente desafia Deus com a prática dessas coisas, mas também aprova quem faz o mesmo. Assim, a segunda atitude que manifesta a rebelião do homem contra a lei de Deus se expressa no fato de ele aprovar que outros pequem também. A palavra “aprovam”, em Romanos 1.32, não tem o sentido de concordar com alguma coisa, mas, sim, de encorajar, incentivar. Podemos até entender que, mesmo conhecendo o decreto de Deus, a pessoa decida desafiá-lo e continue a pecar, porque isso lhe dá certo prazer. Não há como negar que o pecado traz um prazer ilusório, a princípio. Mas a segunda parte da declaração paulina não faz sentido, porque é como se alguém aplaudisse o pecado dos outros, mesmo sem ter prazer nenhum com essa prática. Não é a pessoa que está pecando, mas, sim, os outros, portanto ela não está desfrutando o gosto do pecado. Se pelo menos houvesse uma recompensa, daria para entender; mas aplaudir, encorajar outras pessoas a fazer aquilo que leva à sentença de morte é algo que foge à compreensão. Eis o fundo do poço, e é nesse ponto que termina o processo, de acordo com Paulo. Ele está dizendo que o ser humano não somente desafia Deus, mas também encoraja outros a fazerem o mesmo. Quando, por exemplo, um país aprova leis que chamam o errado de certo e proíbem que digamos o certo porque o consideraerrado; quando um país aprova leis que incentivam a imoralidade, a perversão, a mudança da ordem natural; quando os próprios pais levam os filhos a praticar coisas erradas — isso é o fundo do poço. Eu cresci no Nordeste, numa época em que muitos pais, orgulhosos por terem um filho do sexo masculino, levavam-no para a zona de prostituição quando ele completava dezesseis, dezessete anos de idade, a fim de fazer esse filho “virar homem”. É claro que esse pai também contrata prostitutas e agora leva o filho para esse mesmo caminho. Há outra coisa que é muito comum também: a pornografia, que pertence à mesma família da prostituição. Quando alguém consome pornografia, está na verdade aprovando tal prática, contribuindo com essa indústria, uma das mais rentáveis hoje, a qual movimenta milhões de dólares anualmente. Pode ser que a pessoa não pratique a pornografia, mas, ao consumir esse tipo de produto, está aprovando aqueles que a praticam. E como essa, há tantas outras coisas em nossa sociedade mostrando que nós realmente chegamos ao fundo do poço. O apóstolo Paulo conhecia tudo isso bem de perto. Ele nasceu numa cidade chamada Tarso, situada na província da Cilícia, que, por sua vez, integrava três regiões com “c” — Capadócia, Cilícia e Creta — consideradas as mais depravadas do Império Romano. Por isso ele estava muito bem familiarizado com o mundo pagão. Conhecia essas abominações, sabia bem o que estava dizendo ao afirmar que os homens desafiam Deus não somente fazendo coisas que estão sujeitas à sentença divina, mas também encorajando outros a praticá-las. Mas, afinal de contas, por que uma pessoa encoraja outra a fazer o que é errado? Porque, desse modo, poderá dizer que não é a única que está fazendo aquilo. Quando os pecadores pecam juntos, pecam melhor porque um apoia o outro. Eles saem à procura de apoio, incentivam um ao outro para aliviar a consciência. Essa rebelião contra Deus, portanto, expressa-se nestas duas atitudes: na teimosia do homem em continuar no pecado, mesmo conhecendo suas consequências, e também no encorajamento que ele dá aos outros para que sigam no mesmo caminho. Rebelião consciente Vimos neste capítulo que a rebelião do homem se dá contra a sentença de Deus, e que essa rebelião se expressa de duas maneiras: na atitude de o indivíduo continuar a pecar e na atitude de encorajar outros a pecarem. Há ainda outro aspecto sobre essa rebelião, que reside no fato de ela ser algo bem consciente. Às vezes temos a impressão de que as pessoas fazem coisas erradas porque não têm consciência do certo e do errado. Essa passagem, no entanto, tira de nós a ilusão de que há alguma bondade no coração humano. As pessoas pecam apesar de saber o que é certo e o que é errado; pecam contra a sua consciência. Sabem o que estão fazendo quando fazem algo errado. Paulo já havia dito que as pessoas têm algum conhecimento de Deus. Em Romanos 1.18 ele disse que “a ira de Deus se revela do céu”, se revela em nossa consciência; em seguida, em 1.19, ele diz que “o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles”; e depois, em 1.20, ele observa que os atributos de Deus são perceptíveis por meio das coisas criadas e que, pelas obras da natureza, conseguimos saber que há um Deus, o qual existe antes da natureza, criou todas as coisas, é todo-poderoso, onisciente, onipotente e distinto da natureza. Paulo havia falado desse conhecimento inato, que temos em nossa consciência e também na natureza que nos cerca, e por isso ele afirma que os “homens são indesculpáveis” (v. 20). Ninguém pode dizer que não tem conhecimento de Deus. Nesse trecho que estamos estudando, ele avança mais um pouco e diz que o homem não somente tem conhecimento de que existe um Deus e de que esse Deus é o Criador de todas as coisas, é santo, justo, bom e verdadeiro, mas também tem conhecimento de que há uma sentença de morte sobre aqueles que praticam tais coisas. Em síntese, quando praticam tais coisas, essas pessoas sabem que serão punidas por Deus, mas o fazem da mesma forma, ou seja, não há nada de inocente em seus atos. Elas podem não ter o conhecimento detalhado que temos e que encontramos no evangelho e na Bíblia a respeito da lei de Deus, mas essa intuição gravada no coração da norma da lei é um fenômeno universal. Em outras palavras, quem pratica a “injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais; insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem misericórdia” (Rm 1.29-31) e quem muda “as relações sexuais naturais pelo que é contrário à natureza [...] homem com homem” (Rm 1.26,27), ou mulher com mulher, está fazendo isso conscientemente, sabendo que essas coisas recebem a sentença de morte da parte de Deus. Não há ninguém inocente. Nossa esperança O quadro que vemos mostra que o ser humano chegou ao fundo do poço; porém, é exatamente no fundo do poço que surge a esperança. Sabe qual é a nossa esperança com relação a essas pessoas? É que elas sabem disso. As pessoas não pecam inocentemente. O pecado do homem provocou sua queda e afetou o seu conhecimento de Deus, mas isso não fez com que ele perdesse por completo o conhecimento de Deus, pois ainda traz em si a imagem do Criador, a consciência da existência de Deus e de que ele profere uma sentença. Isso está no coração humano, e, mesmo que a pessoa nunca tenha ouvido o evangelho, consegue perceber e concluir que existe um Deus que um dia vai acertar contas com ela por causa de seus pecados. Essa compreensão ou conclusão é universal, embora nem sempre seja articulada de maneira racional ou consciente. Como vimos, aqueles bárbaros que viram Paulo ser picado pela cobra intuíam que a Justiça não deixaria Paulo viver (eles pensavam que Paulo era um assassino). Então, essa consciência está em todo lugar, e é isso que serve de ponto de contato para pregar o evangelho. Para anunciar o evangelho a um descrente, você não precisa de argumentos elaborados sobre ciência, evolução, refutação do ateísmo, porque já tem o ponto de contato — a pessoa com quem você está falando tem a consciência interior de que no fundo ela está errada. Quando fui evangelista no interior de Pernambuco, numa cidade chamada Gameleira, eu ia de porta em porta anunciando o evangelho. Minha prática era muito simples: eu chegava numa casa, batia à porta com Bíblias e folhetos para oferecer, perguntava se a pessoa queria que eu lesse a Bíblia junto com ela, para explicá-la. Quando a pessoa aceitava, eu entrava; em geral, ela servia um café, nós começávamos a conversar e eu iniciava exatamente pela questão do pecado: “A importância deste livro aqui é que nos fala a respeito do nosso verdadeiro estado. O senhor sabia que é um pecador e que, por consequência dos seus pecados, o senhor está condenado?”. As pessoas diziam que sabiam que eram pecadoras, mas não eram tão más assim, pois conheciam outras piores, como o vizinho que chegava bêbado em casa e batia na mulher. Nesse ponto eu geralmente abria a Bíblia em Êxodo 20, os Dez Mandamentos, e começava a ler, conforme Jesus nos ensinou a ler. Eu explicava, por exemplo, que “Não adulterarás” significa não somente não ir para a cama com quem não é seu cônjuge, mas também não desejar isso. Quando chegávamos lá pelo quinto ou sexto mandamento, eu já notava que a pessoa estava com o semblante caído. Alguma coisa lá dentro da consciência dela estava dizendo que aquilo era verdade e que ela sabia disso. E não foram poucos que depois disso se abriram e pediram ajuda. E era nesse ponto que chegava o evangelho. Então, o fundo do poço é isto: as pessoas pecam contra a consciência, pecam sabendo, encorajam outros a fazer o mesmo e vão cada vez mais fundo no pecado. Mas essa é exatamente a nossa oportunidade, é o ponto de contato, o momento em que podemos chegar paraelas e dizer: “Sabe essa culpa, essa angústia, esse vazio, essa solidão que você não consegue preencher com nada? Sabe de onde vem?”. É exatamente da lei de Deus, gravada no coração, e da consciência de que um dia esse Deus haverá de aplicar a sua sentença. Mas há perdão, há o evangelho de Jesus Cristo, pelo qual Deus perdoa pecadores como você e eu. Temos um ponto de contato, um caminho, uma ponte que podemos construir com o mundo pagão. Conclusão e aplicações práticas Se você está entre os que desafiam Deus insistindo em viver uma vida no pecado, o conteúdo deste capítulo tem muito a lhe ensinar. Pode ser que haja alguns momentos de lucidez em que perceba que essas ações não vão dar certo e que lá na frente virá a consequência. Isso é a voz do Espírito Santo falando à sua consciência. Lá no íntimo, você sabe que essa voz está dizendo a verdade, que há uma consequência, que tudo o que está dito aqui vem da Palavra de Deus, e cedo ou tarde a sentença divina vai encontrá-lo. Por isso, busque o Senhor enquanto ele lhe dá essa oportunidade, enquanto você pode achar. Mude seu caminho, humilhe-se diante de Deus, peça perdão e graça a ele, procure ajuda. Não imagine que pode continuar pecando e ter um resultado bom. Há uma sentença de morte decretada pelo Deus todo-poderoso, pelo Altíssimo, pelo Criador dos céus e da terra, sobre os que praticam tais coisas, e você não vai escapar dele nem de seu decreto — em algum momento ele vai alcançá-lo. Portanto, arrependa-se e creia, enquanto tem a oportunidade. Para os que acreditam não praticar as coisas descritas neste capítulo, sugiro que prestem atenção se não encorajam outros a praticá-las. Há muitas formas de encorajar outras pessoas a praticar o mal. Por exemplo, se você não pratica imoralidade, mas, quando chega um colega contando uma piada imoral, obscena, você ri, é como se o estivesse encorajando a fazer isso mais vezes. A atitude correta seria demonstrar que não aprova a atitude do colega. Sei que é difícil, mas é isso que deveria fazer. Outras vezes os amigos trazem no celular aquelas fotografias ou vídeos cheios de imoralidade, mostram para você e, para não perder o contato, você dá um risinho amarelo, de canto de boca. Isso é uma forma de aprovação. Você deveria demonstrar que não aprova esse tipo de atitude e dizer que, apesar de ser amigo dessa pessoa, é crente no Senhor Jesus e não concorda com esse tipo de comportamento. É necessário tomar uma posição no ambiente de trabalho, na sua família, na escola, onde for, porque, se não fizermos isso, qual será a diferença entre nós e essas pessoas que o apóstolo Paulo está descrevendo, que aprovam os que procedem dessa forma? Em algumas situações ficar calado é ser conivente. Precisamos de sabedoria, é verdade, por causa do ambiente em que estamos, mas é preciso que deixemos claro que não concordamos com determinadas práticas. Agora, se você já percebeu que está pecando, tem consciência de que está debaixo do juízo de Deus e no fundo do coração gostaria de se reconciliar com Deus, a boa-nova do evangelho é exatamente esta: Deus está disposto a perdoar pecadores que o desafiaram, que se rebelaram contra ele, que incentivaram outros a pecarem. Se Deus é tão amoroso, misericordioso e compassivo, é porque ele está pronto a lhe perdoar, esquecer todas as suas iniquidades e tratá-lo como se você nunca tivesse cometido essas coisas. Foi por isso que Deus mandou Jesus Cristo, seu Filho, para morrer na cruz do Calvário e ali sofrer a pena pela rebelião, rejeição e teimosia do ser humano. Portanto, ele pode perdoá-lo, se você humildemente chegar diante dele e disser que não merece outra coisa senão uma sentença de morte, que reconhece que é culpado, mas não veio pedir justiça, e sim misericórdia. Quero ainda dirigir uma palavra aos que estão tentando evangelizar amigos, familiares, colegas de trabalho e aos que estão na frente missionária, evangelizando povos: tenham bom ânimo, a mensagem que vocês levam soa verdadeira para o coração humano, as pessoas sabem o que é certo. Elas sufocam esse conhecimento, não querem admiti-lo, lutam, vêm com teorias, tentam justificar suas afirmações, mas saiba, pelo que diz a própria Bíblia, que lá no fundo elas conhecem a sentença de Deus, lá dentro há uma voz lhes dizendo que o que estão ouvindo é verdadeiro. Então, há um ponto de contato; explore isso, fale disso, pois é daí que começa. Às vezes não adianta muito usar argumentos filosóficos que abordem o ateísmo, o evolucionismo, a apologética; às vezes uma abordagem simples, que tenha esse ponto de contato, pode ajudá-lo a alcançar o coração de um vizinho, amigo ou colega, na situação em que Deus o colocou. E u gostaria de que você imaginasse a seguinte cena: o apóstolo Paulo encontra-se em um espaço público, na cidade de Roma, a cujos moradores cristãos esta carta foi Capítulo 10 PAULO E O MORALISTA Romanos 2.1-5 O julgamento divino é de acordo com a verdade Portanto, quando julgas, és indesculpável, ó homem, sejas quem for, pois te condenas naquilo em que julgas o outro; pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos. Mas nós sabemos que o julgamento de Deus é de acordo com a verdade contra os que praticam tais atos. E tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, mas fazes o mesmo, pensas que escaparás do julgamento de Deus? Ou desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, ignorando que a graça de Deus te conduz ao arrependimento? Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende, acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus. endereçada, dizendo o mesmo que ele disse em Romanos 1.18: “Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça”. Paulo começa dizendo que aquela sociedade, mesmo sendo composta por pagãos que nunca ouviram falar de Deus e não conheciam sua lei, ainda assim estava debaixo da condenação divina, porque Deus havia se manifestado na consciência desses pagãos. Enquanto Paulo fala, mais pessoas se aproximam. Ele afirma que a consciência delas as acusa e que o mundo criado que as cerca também dá testemunho de que existe um Deus e de que ele não se confunde com a criação. Portanto, a idolatria que demonstram em seu comportamento é uma desonra a esse Deus, pois com isso estão , p tornando a verdade de Deus em mentira. Paulo continua: “É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para desonrarem seus corpos entre si” (Rm 1.24). O apóstolo prossegue afirmando que aquele povo está vivendo na imoralidade porque rejeitou o Deus. De repente, no meio da multidão, aparece alguém que concorda com o pregador. Paulo segue dizendo que aquele povo mudou a verdade de Deus em mentira e que estava honrando a criatura, em vez de honrar o Criador. Aquela pessoa no meio da multidão continua concordando com Paulo, que dá seguimento ao discurso dirigido àquele povo, o qual, segundo ele, inverteu a ordem natural e passou a tolerar a união de homem com homem, mulher com mulher, cometendo torpeza diante de Deus. O cidadão no meio da multidão continua concordando com Paulo, e a certa altura se pronuncia, dizendo que aquele pessoal era assim mesmo, fazia tudo errado. Paulo continua, dizendo que os homens estão “cheios de toda forma de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais; insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem misericórdia” (Rm 1.29-31). Paulo enumera 21 pecados, e prossegue dizendo que eles sabem a sentença de Deus, que têm consciência de que Deus vai condenar todos que praticam tais coisas. O homem continua a aplaudir; nesse momento, Paulo se vira e diz: “Portanto, quando julgas, és indesculpável, ó homem, sejas quem for, pois tecondenas naquilo em que julgas o outro; pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos” (Rm 2.1). Esse é o retrato do que está acontecendo no segundo capítulo da Carta aos Romanos. Depois de ter anunciado a condenação sobre gentios, pagãos, depois de ter pronunciado a sentença de Deus, de que são passíveis da morte eterna porque pecam contra a luz, porque desobedecem a Deus, Paulo dirige-se agora ao moralista, figura que representa aquela classe de pessoas que, ao ouvirem e tomarem conhecimento das palavras do primeiro capítulo, concordaram com Paulo, dizendo que todos aqueles ali citados tinham de ser condenados mesmo, pois todos erraram. Mas agora, para a surpresa dessas pessoas, Paulo volta a metralhadora na direção delas e lhes diz que são tão culpadas quanto as outras para as quais apontaram o dedo, pois julgam, condenam e fazem as mesmas coisas. Nessa passagem, o apóstolo Paulo está se dirigindo a um interlocutor imaginário. Trata-se de uma figura de retórica, muito comum naquela época, chamada diatribe, segundo a qual a pessoa que estava falando — e que poderia ser um filósofo, um palestrante, um orador — dirigia-se a uma pessoa imaginária com quem iniciava um diálogo. O objetivo desse recurso era dar força ao diálogo, tornar vívida a sua palavra. Nesses versículos Paulo começa a se dirigir a esse homem imaginário, que é a pessoa que concorda com o que ele disse no capítulo anterior, e por isso julga e condena os gentios. Paulo, então, vira-se para essa pessoa e lhe faz cinco acusações. Condenação geral O apóstolo começa usando esse recurso retórico a fim de mostrar que não somente os pagãos (os quais ele menciona no cap. 1) estão perdidos diante de Deus, mas também os judeus, que receberam a lei divina. Na transição em que passa dos pagãos para os judeus, Paulo inclui um tipo de pessoa entre os gentios que não era exatamente como aqueles que ele havia acabado de descrever. Quando lemos o primeiro capítulo, temos a impressão de que no mundo de Paulo só havia gente devassa, corrompida, entregue aos prazeres mais escabrosos possíveis. Bem, isso não é verdade. Na época de Paulo também havia filósofos, como, por exemplo, os estoicos, que tinham um alto padrão moral, e condenavam a luxúria, a inveja, a busca pelo poder e a imoralidade. Havia filósofos que condenavam a homossexualidade, tão comum no Império Romano e na cultura greco-romana daquela época; havia ainda políticos que faziam discursos no Senado de Roma condenando os costumes pagãos e julgando impiedosamente aquelas pessoas. E havia o judeu — de todos eles o pior, como mostraremos em seguida. O judeu havia recebido a lei de Deus, os Dez Manda-mentos, a aliança de Deus feita por meio dos sacrifícios, do altar, do templo, do serviço dos sacerdotes. Ele entendia que pertencia a uma categoria à parte em relação às demais pessoas. Nos escritos dos judeus, especialmente no período intertestamentário, encontramos declarações afirmando que os pagãos são o combustível do fogo do inferno; que Abraão se encontra na porta do céu, sentado numa cadeira para não deixar nenhum gentio entrar; que todos os judeus entrarão no reino do Messias, mas os gentios serão todos condenados ao inferno; enfim, nesses escritos encontramos essas e outras generalizações semelhantes. De todas as pessoas que costumavam julgar as outras naquela época, os judeus eram os piores, e Paulo tratará deles primeiramente. Só que, antes de fazer isso, ele coloca de modo geral essa condenação às pessoas que costumam criticar os outros, mas fazem as mesmas coisas que criticam. Vamos chamar essas pessoas de moralistas. Então, nos versículos iniciais do capítulo, Paulo se volta a esses moralistas, tanto pagãos — como os filósofos estoicos e alguns políticos de Roma, que mencionei — quanto judeus. Mas, a partir de Romanos 2.4, o foco começa a se concentrar no judeu, e até o fim do capítulo fica claro que é a eles que o apóstolo Paulo está dirigindo suas duras palavras. A autocondenação do hipócrita Paulo começa afirmando que o moralista, isto é, aquele que julga e condena os outros, é tão culpado e sem desculpa quanto os pagãos que julga: “Portanto, quando julgas, és indesculpável, ó homem, sejas quem for, pois te condenas naquilo em que julgas o outro; pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos”. Há três razões que o apóstolo aponta para fazer essa primeira acusação ao interlocutor imaginário. A primeira delas é a seguinte: você é indesculpável e vai ser condenado porque pratica as mesmas coisas que condena nos outros. É claro que os moralistas não iriam cometer todos os vinte e um pecados mencionados no fim do capítulo anterior (1.29-31), além da imoralidade sexual (1.26,27), mas com certeza eram culpados de algumas dessas coisas. E esse é o ponto que o apóstolo Paulo defende: a raça humana toda está debaixo do juízo de Deus, e o fato de uma pessoa apontar o erro de outra não a torna melhor diante do Senhor — na verdade, até aumenta a sua responsabilidade, porque ela está fazendo justamente as mesmas coisas que condena. Então, a primeira razão pela qual essas pessoas estão tão condenadas quanto os pagãos é porque elas praticam exatamente as mesmas coisas que condenam. A segunda razão é o fato de que existe uma sentença de morte, decretada por Deus, contra os que praticarem essas coisas. Observe que a passagem começa com a palavra “Portanto”, que liga esse versículo (2.1) ao anterior (1.32), no qual, por sua vez, Paulo diz que os pagãos conhecem a sentença de morte contra os que praticam as coisas descritas ali. Portanto, o moralista também está condenado, porque ele, semelhantemente, também sabe disso e, ao dizer: “Essa imoralidade está errada, esse pessoal fica falando mal dos outros, é invejoso, avarento”, o moralista está dizendo que sabe que essas coisas estão erradas e, ao praticá-las, cai na mesma situação do pagão, que faz as coisas erradas consciente disso. O moralista sabe que essas coisas estão erradas, pois as condena; no entanto, também as pratica. Essa é a segunda razão pela qual ele está condenado. A terceira razão que o apóstolo aponta para fazer essa acusação a seu interlocutor imaginário é que, ao pronunciar a condenação dos pagãos, dos ímpios, dos imorais, o moralista está se autocondenando: “... pois te condenas naquilo em que julgas o outro” (2.1). Ao dizer, por exemplo, “esse pessoal é mentiroso”, quem ele está condenando? A si mesmo, porque ele também mente. Ao dizer “esse pessoal é cheio de inveja”, quem ele está condenando? A si mesmo, porque ele também tem inveja. Ao dizer “esse pessoal é ingrato”, quem ele está condenando? Está emitindo uma condenação contra si mesmo, porque ele também é ingrato. Então, em tudo o que condena nos outros, ele está pronunciando a sua própria condenação. Note que a palavra “indesculpável”, que aparece nessa passagem, é a mesma que vimos quando analisamos Romanos 1.20, quando Paulo, depois de dizer que Deus se revelou na natureza dando testemunho de si mesmo, conclui dizendo que tais homens são, por isso, “indesculpáveis”. Mas agora não só os pagãos, que nunca ouviram falar da lei de Deus, são indesculpáveis — pois têm o conhecimento de Deus no coração e refletido na natureza —; também é indesculpável o moralista: aquele que julga, critica e condena os outros. Ele também se condena no mesmo ato e é tão indesculpável quanto os pagãos. Talvez um bom exemplo para ilustrar o que Paulo está dizendo seja o caso do rei Davi. Lemos em 2Samuel 12 que Davi adulterou com a mulher de um de seus generais, que ela engravidou e, para encobrir seu adultério, Davi mandou que o general fosse colocado no lugar mais difícil da batalha, para que morresse. Davi escondeu esse fato e, durante alguns meses provavelmente, conviveu com essa situação, até o dia em que Deus mandou um profeta para falar com ele. O profeta contou ao rei Davi uma história que supostamente ocorrera ali. Parafraseando, Natã disse o seguinteao rei: “Aqui no seu reino havia um homem rico que tinha muitas ovelhas. Ele recebeu uma visita importante e quis oferecer um churrasco para o seu visitante. Embora tivesse muitas ovelhas, em vez de pegar uma do seu rebanho, o homem rico olhou para a ovelha do vizinho pobre — que só tinha uma e a havia criado desde pequenina. Então, foi lá, tomou a ovelha do vizinho pobre, matou-a e ofereceu a carne para o seu visitante”. O profeta concluiu a história com uma pergunta a Davi: “O que o senhor acha disso, rei?”. O rei Davi não pensou duas vezes e foi logo dizendo que o homem rico merecia a morte. Então, Natã colocou o dedo no nariz de Davi e disse: “Esse homem é você, Davi. Essa história é sobre você, que tomou a mulher do seu próximo”. Ou seja, ao condenar aquele homem rico que tinha tomado a ovelha do pobre, Davi estava condenando a si mesmo. É disso que Paulo está tratando nesse trecho da Escritura. No momento em que apontamos o dedo para alguém, há outros três apontando de volta para nós. Antes de prosseguir, é preciso fazer um esclarecimento: o apóstolo Paulo não está proibindo que façamos julgamentos justos, pois há situações em que precisamos avaliar as ações, comportamentos e atitudes das pessoas e chegar a uma conclusão. Em Mateus 7.1, Jesus disse, “Não julgueis, para que não sejais julgados”; mas logo adiante ele diz: “Cuidado com os falsos profetas” (7.15). Ora, como eu vou ter cuidado com os falsos profetas se eu não fizer um julgamento para saber quem é falso e quem é verdadeiro? Então, é claro que há momentos em que a própria Bíblia manda que examinemos todas as coisas, que façamos testes, a fim de podermos avaliar o que vem de Deus e o que não vem. Não é esse tipo de julgamento que Paulo está condenando, mas o julgamento hipócrita, quando as pessoas criticam o comportamento dos outros, mas elas mesmas fazem as coisas que estão criticando. Na época de Paulo, eram os moralistas, os filósofos estoicos, alguns políticos de Roma e especialmente os judeus que gostavam de condenar o resto da humanidade, esquecendo-se ou não querendo ver que faziam as mesmas coisas. Então, esta é a primeira coisa que Paulo diz ao moralista: você é tão culpado e indesculpável quanto os pagãos que você mesmo condena, porque pratica as mesmas coisas e sabe que esses atos estão errados; ao agir assim, está se autocondenando. Julgamento além das palavras O texto paulino prossegue mostrando que o moralista será julgado por um Deus que é verdadeiro no dia do juízo: “Mas nós sabemos que o julgamento de Deus é de acordo com a verdade contra os que praticam tais atos” (2.2). Aqui o apóstolo Paulo estabelece um ponto de contato com o moralista, um ponto de concordância. É como se ele dissesse a seu interlocutor imaginário: — Vem cá, nós dois concordamos que Deus, quando julga as pessoas, julga com verdade, “nós sabemos” disso; nós dois sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que tais coisas praticam, ou seja, Deus é verdadeiro. Isso significa que ele não faz acepção de pessoas num julgamento e que ele julgará as pessoas de acordo com o que é verdadeiro; nós dois também sabemos disso, não é? Fico imaginando o moralista dizendo: — É, eu sei, e concordo exatamente com o fato de que Deus é verdadeiro, julgará as pessoas de acordo com aquilo que é verdade, e não fará acepção de pessoas. Então, Paulo vai adiante em sua confrontação: “E tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, mas fazes o mesmo, pensas que escaparás do julgamento de Deus?” (2.3). Em outras palavras, o apóstolo deixa o interlocutor fictício encurralado: — Você está pensando que Deus abrirá uma exceção no seu caso, logo para você que é um presunçoso? Se você concorda comigo que Deus é verdadeiro e fará seu juízo imparcial, o que pode levar uma pessoa a pensar que ele fará uma exceção para alguém? Se você concorda comigo que Deus é verdadeiro no julgamento, por que então está pensando que escapará do juízo de Deus ao criticar e condenar os outros? O que Paulo está dizendo aqui pode ser resumido da seguinte maneira: um dia Deus julgará a humanidade de acordo com as obras que as pessoas cometeram, de acordo com as atitudes, práticas, escolhas, decisões, com o caminhar e o viver aqui, e não de acordo com o que dizem. Deus não escolherá o discurso religioso de ninguém como critério para condená-lo ou não. O que ele julgará serão as suas obras, porque estas revelam o verdadeiro estado do coração; as palavras enganam, mas as obras, trazidas à luz, expressam a verdade interior. Isso é o que a Bíblia ensina do começo ao fim. Se uma pessoa moralista condena o erro das outras — como faziam aqueles filósofos, políticos e judeus —, mas pratica as mesmas coisas, Deus vai julgá-la exatamente como julgaria um pagão. Não haverá diferença, porque Deus é verdadeiro em seu julgamento. Então, o que deixa essa impressão de que Deus abrirá uma exceção? O que nos leva a pensar que Deus condenará o imoral, o idólatra, o impuro e o avarento, mas não fará nada com o moralista que faz as mesmas coisas, só porque ele diz que essas ações são erradas e Deus não aprova isso? O discurso moralista não será uma cortina de fumaça para confundir os olhos de Deus; o Senhor olha além das palavras e vê o que faz aquele que fala. É com base nisso que ele vai julgar. Ninguém se livrará do juízo de Deus simplesmente aderindo a uma igreja, tornando-se religioso, adotando um discurso religioso, condenando o erro dos outros, porque Deus de fato vai julgar cada um segundo a verdade, pelas obras que nós praticamos. Por que você pensa que escapará do juízo de Deus (2.3)? Bondade, tolerância e paciência Desse ponto em diante, percebe-se que Paulo já está chegando ao judeu, o qual tinha em mente desde o início. Ele, no entanto, começou do geral em direção ao particular, porque, de todos os moralistas daquela época, o pior era o judeu. Paulo quer mostrar que eles nunca compreenderam de fato a bondade de Deus para com Israel e para consigo mesmos, nunca compreenderam por que Deus foi bondoso com Israel. Veja o que o apóstolo diz: “Ou desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, ignorando que a graça de Deus te conduz ao arrependimento?” (2.4). Na afirmação “desprezas as riquezas da sua bondade”, vemos que Deus não só é bondoso, ele é rico em bondade, o que significa que ele tem bondade suficiente para derramar abundantemente sobre todos nós. Deus é bilionário em bondade. Mesmo que ele derramasse bondade sobre cada um dos seres humanos que viveram, vivem e viverão sobre a face da terra, ainda assim sobraria bondade. E ele foi particularmente bondoso com Israel, uma nação que ele escolheu do meio das outras. Deus chamou Abraão do meio de outras pessoas, fez com ele um pacto, prometeu-lhe que a descendência dele seria o seu povo, deu-lhe uma aliança, promessas e um culto verdadeiro. Deus disse a Abraão que dele viria o Salvador do mundo, que Deus seria o Deus da sua descendência e que essa descendência tomaria Deus como sendo o único Senhor e verdadeiro Deus. O Senhor tinha sido extremamente bondoso com Abraão e seus descendentes, os judeus. Além disso, vemos no trecho que Deus também foi tolerante. Tolerância significa não castigar de imediato os pecados. Deus é justo e santo. A nação de Israel desobedeceu às leis divinas não uma vez só, mas muitas; ela o provocou; porém, em vez de destruí-la imediatamente com o seu poder, Deus a tolerou. Ele não “fez vista grossa”, mas simplesmente decidiu não castigar ainda, resolveu tolerar um pouco, esperar, apesar de saber que eles estavam errados e mereciam castigo. Em seguida, lemos que Deus tem “paciência” ou “longanimidade” (ARA). Uma pessoa que é longânima tem um ânimo, um fôlego longo, como alguém que consegue ficar embaixo d’água por dois ou três minutos. Deus é longânimo, ele segura seu juízo. Israel desobedeceu ao Senhor, provocou-o mais de uma vez, mas Deus foi longânimo, foipaciente como se dissesse: “ainda não”. Mas qual era o objetivo de Deus com essa bondade, tolerância e paciência? Deus mandou profetas para avisar o povo de Israel; mandou reis que fizeram reformas religiosas; mandou juízes que libertaram a nação de Israel e, por fim, mandou seu próprio Filho. Por que Deus fez isso? A resposta é que ele não estava “fazendo vista grossa” para os pecados na nação de Israel, relevando seus erros, ignorando seus pecados. Como o próprio Paulo diz, o que Deus queria era o arrependimento: “Ou desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, ignorando que a graça de Deus te conduz ao arrependimento?”. Toda misericórdia que Deus demonstrou à nação de Israel no passado tinha o único objetivo de levar os judeus ao arrependimento. Pense na seguinte analogia: um filho faz uma coisa muito errada, trazendo grande prejuízo aos pais, tanto ao nome e à imagem da família quanto um prejuízo financeiro grave, mas os pais o perdoam. “Filho, você está perdoado de todo o coração, nós o amamos e o acolhemos. Você continua sendo nosso filho, apesar de tudo o que fez. Está perdoado, completamente, não temos mais nada contra você.” O que esse filho deveria fazer? Cair em lágrimas de gratidão. Essa atitude dos pais deveria fazê-lo “se tocar”, levá-lo ao mais profundo e sincero arrependimento (“Como é que eu pude fazer isso com os meus pais?”) e a tomar a resolução de nunca mais ofender a quem o ama tanto. Era assim que Deus queria que a nação de Israel reagisse diante de sua bondade, tolerância e paciência. Mas o que a nação de Israel, como aquele filho perdoado pelos pais, fez? Continuou a fazer as mesmas coisas, acreditando que, se houve perdão uma vez, haveria muitas outras mais. Ora, imagine que tipo de filho era a nação de Israel: a bondade, a tolerância e a paciência de Deus conduziram não ao arrependimento, mas à hipocrisia e à presunção. A nação de Israel se sentiu segura, sentiu que podia viver na corrupção de costumes, praticando as mesmas coisas que os pagãos cometiam, porque Deus não haveria de condená-los, por causa da aliança, porque eram filhos de Abraão. Não foi isso que eles disseram a Jesus, quando ele chegou pregando a necessidade de arrependimento? “Nós somos filhos de Abraão, nós não precisamos disso.” A bondade de Deus deve nos levar ao arrependimento, e eu convido você a refletir um pouco sobre esse fato. Já se perguntou por que está vivo até agora? É por causa da bondade de Deus. Por que Deus permitiu que você lesse este livro? Por causa da tolerância, da longanimidade dele; ele não o levou antes e já podia ter levado. Não despreze a bondade de Deus, porque é ela que faz com que você chegue ao arrependimento, nada mais. Deus está demonstrando sua misericórdia, sua tolerância, dando-lhe oportunidade, aguardando, mostrando seu amor por você, vez após vez, dando-lhe oportunidade de ouvir a sua palavra. Por não demonstrarem arrependimento, os judeus estavam desprezando a riqueza da bondade de Deus, e isso fazia com que a cada dia a culpa aumentasse: “Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende, acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (v. 5). A cada crítica que o judeu fazia ao pagão — apesar de ele mesmo cometer as mesmas coisas que criticava —, ele estava acumulando ira, a qual estava reservada para ser derramada sobre si no dia do juízo. Na verdade, ele estava armazenando o castigo para si mesmo. Cada acusação sua aumentava a ira de Deus contra o judeu; cada crítica sua aumentava o juízo de Deus contra sua própria vida. Ou seja, Deus queria que ele se arrependesse, mas o coração se endureceu, conforme escreveu Paulo: “segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende” ou “segundo a tua dureza e coração impenitente” (ARA). O coração desse judeu tornou-se impenitente, isto é, não quis se arrepender, passou a julgar e condenar os outros, enquanto ele próprio praticava as mesmas coisas e achava que estava livre do juízo de Deus, mas, na verdade, estava apenas acumulando diariamente ira contra si mesmo para o dia do juízo. Que mensagem penetrante para nós, e como isso fala ao nosso coração hoje! Essa passagem reforça o ensino que Paulo está trazendo nos três primeiros capítulos da Carta aos Romanos: que não há um justo sequer; que, naquilo que nós criticamos os outros, nós nos condenamos, porque somos participantes dos mesmos pecados; que estamos todos debaixo do juízo de Deus e ele não fará acepção de pessoas no dia do julgamento, pois julgará cada um de acordo com suas obras. O que isso deve nos levar a pensar? Conclusão e aplicações práticas Talvez você conheça uma pessoa assim, que tem esse espírito crítico, moralista, julgador, que gosta de examinar a vida dos outros, ver o que os outros fazem de errado, que conversa sobre isso com outros, que julga no seu coração, achando-se superior a eles ou que está num patamar mais elevado. Entretanto, a pessoa que é verdadeiramente piedosa, santa, espiritual, olha primeiro para si mesma e diz: “Deus, tem misericórdia de mim”. Certa vez, Jesus contou uma parábola de dois homens que subiram ao templo para orar. Um deles, um religioso, orava consigo mesmo, dizendo coisas como: “Ó Deus, graças te dou que eu não sou como os outros homens, eu dou dízimo, eu sou fiel a minha mulher, eu vou de casa para o trabalho, do trabalho para casa, eu não falo mal de ninguém, eu não sou como esse cidadão que está aqui ao meu lado, que é um publicano”. Já o publicano, que era um cobrador de impostos, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito e dizia “Ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!”. Ao concluir sua narrativa, Jesus disse que o publicano foi para casa justificado, mas o outro homem não. (Leia Lucas 18.9-14 para conferir a parábola.) Quem tem esse espírito, essa atitude de arrogância de se achar imune ao juízo de Deus e também costuma criticar e condenar os outros precisa saber que isso ocorre, às vezes, por meio de cobranças indevidas, críticas, mídias sociais, as quais se prestam muito bem para esse tipo de coisa. Que Deus tenha misericórdia de quem age assim, porque isso é resultado de um coração impenitente e endurecido. Se esse é o seu caso, não pense que se livrará do juízo de Deus só porque vê o que os outros fazem de errado. Há também os que estão desapontados com a igreja, por causa de evangélicos que dão testemunho ruim do cristianismo. E é verdade que existem evangélicos que são hipócritas mesmo, apresentam um discurso de moralidade, condenam os outros, mas fazem as mesmas coisas, caem em desgraça, quebram os mandamentos de Deus. Quando tudo vem a público, as pessoas de fora da igreja dizem que não querem ser membros de uma igreja, que não querem esse evangelho, pois muitos que se dizem evangélicos fazem as mesmas coisas, ou até piores, do que os que não professam nenhuma fé. Muitas pessoas não querem saber do evangelho por causa dos hipócritas que há na igreja. É importante que você veja como Deus tratará os hipócritas. Deus não concorda com eles, não, pois não aceita a hipocrisia. Nessa passagem está muito claro que um dia ele haverá de julgar os hipócritas e aqueles que dizem uma coisa e fazem outra. Assim, se você é uma das pessoas que se decepcionaram com os evangélicos, quero dizer-lhe que a sua desilusão não deveria ser com a igreja e com Deus, mas, sim, consigo mesmo. Porque é bem possível que você seja tão hipócrita quanto eles. Todos nós pertencemos à raça humana, que está caída em pecado, e, com a inconsistência que nos é característica, vivemos uma coisa e falamos outra. E foi exatamente por isso que o evangelho nos foi dado, porque somos pecadores que precisam de redenção, de misericórdia e de perdão. Será que há evangelho na passagem trabalhada neste capítulo? Sim, justamente quando Paulo diz que a bondade de Deus nos conduz ao arrependimento (v. 4). É isso que Deus quer denós, que reconheçamos que todas essas práticas são erradas e contrariam a lei de Deus, ferem a sua santidade e trazem sobre nós a sentença de Deus, a qual determina que são dignos de morte os que praticam tais coisas. Deus quer nos levar a reconhecer que somos dignos de morte por causa da nossa iniquidade. Além disso, ele quer nos levar a reconhecer a sua bondade. Tem sido paciente com você e comigo até hoje exatamente porque quer nos levar a essa posição. O que Deus quer de mim e de você? A resposta está na Bíblia: arrependimento. Os 500 anos da Reforma protestante foram comemorados em 2017, e o marco inicial da Reforma foi o dia em que Martinho Lutero, um monge agostiniano, pregou suas 95 teses na porta do Castelo de Wittenberg. Sabe o que afirmam suas primeiras teses? Que a penitência não é um ato de ir ao confessionário, pedir perdão ao sacerdote e rezar um número “x” de orações decoradas ou cumprir qualquer outra penalidade. A penitência não é um ato, mas um estilo de vida; o crente deve viver num constante estado de penitência, de arrependimento. Arrependimento é um estado, uma maneira de viver. Você vive se arrependendo porque sabe que é um pecador, que a corrupção está no seu coração, que você ofende a Deus, que merece somente a ira dele. É isso que Deus quer que haja em nosso coração. A bondade de Deus nos conduz ao arrependimento. Quando refletimos sobre a paciência e a tolerância dele e, acima de tudo, sobre o fato de que mandou o seu Filho morrer na cruz pelos nossos pecados para que pudéssemos ser salvos da nossa inconsistência, da nossa hipocrisia e da nossa falsa moralidade, nós então deveríamos nos curvar diante dele e dizer: “De fato, Senhor, nós não merecemos nada de ti”. Isso deveria também mudar a nossa atitude com relação a outras pessoas, a maneira de olharmos o erro dos outros. Não significa que não veremos os erros, mas, sim, que teremos uma atitude diferente, de chegar perto da pessoa e dizer: “Sei o que você está passando, eu poderia ter feito a mesma coisa, pois sou tão pecador quanto você. Mas venha, vou lhe mostrar onde existe perdão, vou lhe dizer de que maneira podemos ser perdoados e como Deus pode restaurar a sua vida”. Devemos agir assim, em vez de simplesmente apontar o dedo e rotular a pessoa de pecadora e assim por diante. Porque, se fizermos isso, estaremos fazendo a mesma coisa com relação a nós mesmos. Que Deus nos conceda esse arrependimento, que ele derrame sobre nós a sua graça e a sua misericórdia, que tire do nosso meio todo espírito hipócrita de censura e de julgamento, que nos dê um verdadeiro espírito evangélico de quebrantamento e humildade, para nos tratarmos como pecadores que encontraram na graça de Deus o perdão e a reconciliação. N essa passagem Paulo fala do dia do juízo de Deus que está por vir sobre toda a humanidade, quando será revelada a sua justiça. Trata-se de um dia mencionado em toda a Bíblia, o qual está no futuro, Capítulo 11 O DIA DO JUÍZO Romanos 2.5-11 Um julgamento imparcial Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende, acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um segundo suas obras. Assim, ele dará a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e imortalidade; mas dará ira e indignação aos egoístas, aos que obedecem ao pecado em vez de obedecer à verdade. Trará tribulação e angústia a todo ser humano que pratica o mal, primeiro ao judeu, depois ao grego; mas glória, honra e paz a todo que pratica o bem, primeiro para o judeu, depois para o grego; pois em Deus não há parcialidade. porém se torna mais próximo a cada momento que vivemos, embora não possamos precisá-lo com exatidão em nosso calendário. Mas a sua vinda é tão certa quanto a própria existência de Deus. Haverá um dia em que Deus se revelará como juiz de toda a humanidade, em que julgará o procedimento de cada pessoa. O que levou o apóstolo Paulo a tratar desse assunto foi que, como vimos, ele decidiu escrever essa carta com o objetivo de mostrar à igreja de Roma a necessidade de evangelizar a Espanha, a qual ficava ao norte de Roma, numa região em que o evangelho ainda não havia chegado. Para alcançar os espanhóis com a mensagem evangelística, Paulo precisava do suporte de uma igreja que o enviasse, orasse por ele, o ajudasse financeiramente e mandasse uma equipe para acompanhá-lo. Como não era conhecido da igreja de Roma, a carta serviria para que ele se apresentasse à igreja, detalhasse seus planos (dos quais ele trata nos caps. 1 e 15) e a mensagem que ele queria pregar na Espanha, o evangelho que ele anunciava. Nos primeiros três capítulos da carta, ele fala da perdição de toda a raça humana: tanto de pagãos e gentios, aquelas pessoas que nunca ouviram falar da Lei de Moisés, do Deus verdadeiro, do nome de Jesus, assim como de judeus, apesar de terem recebido o conhecimento de Deus. A passagem destacada neste capítulo está inserida na primeira parte da carta, em que o apóstolo Paulo está tentando demonstrar que toda a humanidade está perdida e será julgada de acordo com as suas obras no grande dia do juízo. No capítulo 2 Paulo se dirige aos moralistas, aquelas pessoas entre os pagãos que condenavam as práticas imorais que havia no Império Romano, como era o caso de alguns filósofos estoicos e alguns políticos. Paulo diz que os moralistas estão condenados do mesmo jeito, pois praticam as mesmas coisas que condenam. Paulo, então, passa a tratar especificamente dos judeus. Entre todos os críticos que havia no primeiro século, em meio a todos aqueles que mais condenavam as atitudes dos pagãos, estavam os judeus, que entendiam que, porque Deus lhes outorgara a lei e fizera com eles uma aliança, seu povo estava numa posição privilegiada, e por isso desprezavam os outros povos. Paulo se dirige aos judeus e diz que, no dia do juízo, que se aproxima, Deus não fará qualquer distinção entre as pessoas — vai tratar o judeu da mesma forma que trata o pagão. Isso porque o critério que Deus utilizará para salvar e para condenar é o procedimento da pessoa, e não sua origem religiosa, isto é, não importa se ela é pagã, se é judia, nem de onde ela vem. Mais adiante, iremos investigar se Paulo, aqui, teve uma recaída ao seu modo farisaico de pensar e ensinou a salvação pelas obras. O que nos interessa agora, contudo, é a sua declaração de que a avaliação de Deus com relação à vida eterna e à condenação eterna será baseada em caráter, nas obras, no procedimento, na vida da pessoa, e não naquilo que a pessoa professa ou diz que é. Esse, portanto, é o tema e o foco do que acabamos de ler aqui, quando então o apóstolo Paulo introduz esse tema do justo juízo de Deus. Que Deus nos ajude a perceber a gravidade e a seriedade do que está escrito nesse trecho da Escritura, porque a vida pode passar muito depressa. A nossa vida está sempre por um fio — crianças morrem, adolescentes morrem, jovens morrem... Eu me converti aos 22 anos e tinha um irmão de 17 anos. Eu era motociclista desde aquela época. Meu irmão era motoqueiro (a diferença é que o motoqueiro pilota motos de 125 cilindradas para baixo). Nós vivíamos uma vida muito longe de Deus, mas um dia a graça dele transformou meu coração. Eu me lembro do dia em que, na nossa casa em Recife, eu disse para o meu irmão Ricardo o seguinte: — Ricardo, eu conheci o evangelho de Deus, a graça de Deus, e agora eu entendi que nós somos pecadores, e por isso precisamos nos reconciliar com Deus mediante Jesus Cristo. Ricardo estava com uma jaqueta jeans azul e um capacete verde. Ele ouviu e disse: — Eu não estou preocupado com essas coisas agora, isso pode ser bom para você, mas no momento não me interessa. Ele montou em sua moto e foi para Campina Grande assistir a uma corrida de motocicletas. Naquela viagem ele bateu de frente com um caminhão e morreu no mesmo dia. A morte pode chegar a qualquer momento, e eugostaria de que você pensasse no que vai ler neste capítulo, tenha a idade que for. Deus nos dá a oportunidade de ler sua Palavra e de refletir sobre essas verdades, essas realidades eternas, que são colocadas diante de nós justamente para que sejamos tementes a ele. Um dia no porvir Os versículos 5 e 6 servem de transição entre o capítulo anterior e este capítulo: “Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende, acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um segundo suas obras”. O apóstolo refere-se a um dia futuro, que ele chama do “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (v. 5). Entretanto, a ira de Deus, ou seja, o desprazer de Deus para com o pecado, já está sendo derramada no presente. Nosso Deus é santo, justo, verdadeiro e não pode contemplar o mal sem que a sua natureza justa e santa se revolte e fique indignada com as criaturas que o afrontam. Então, a ira dele está sendo derramada já, aqui e agora, conforme Paulo já mostrou: “a ira de Deus se revela do céu” (1.18) —, ou, literalmente, está sendo revelada do céu. Diariamente a ira de Deus é derramada sobre pecadores: ele os aflige por meio de punições físicas, desgraças, tormentos espirituais, avisos, provocações, para que se lembrem da situação em que se encontram. Todo dia Deus está tirando a paz de pecadores, incomodando-os, em movimentos aos quais chamamos prenúncios da ira final de Deus. Mas isso é apenas o começo. Todo esse sofrimento, essa miséria, essa angústia e essa dor são simplesmente um prenúncio daquilo que está preparado para o que Paulo chama de “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (v. 5). Trata-se, portanto, de uma antecipação, por meio da qual Deus deseja acordar a humanidade e mostrar-lhe que alguma coisa está errada. É como se Deus dissesse: “Será que vocês não enxergam? Será que não percebem que não conseguem resolver seus problemas? Que estão cavando a própria sepultura? Que estão matando uns aos outros? Que não conseguem viver em paz, mesmo que acumulem tesouros, propriedades e se sintam seguros financeiramente? Vocês não estão vendo que alguma coisa está errada?”. Deus derrama sua ira sobre a humanidade a fim de despertá-la, de modo que perceba que algo terrível está se aproximando, que algo muito pior está chegando a cada minuto que passa: o “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (v. 5). Esse evento é chamado de dia da ira porque nele Deus vai derramar a sua ira por completo. Por enquanto ela é derramada de forma mitigada, devido à paciência de Deus. Ele permite a miséria, o sofrimento e a dor, mas contrapõe tudo isso com bênçãos, graça e misericórdia; ele ainda traz algum consolo, algum conforto, de maneira que a situação não é tão ruim quanto poderia ser. O pecador sofre e sente angústias, sente-se solitário, mas Deus provê a medicina, pessoas que o possam ajudar, para de alguma forma aliviar o sofrimento deste mundo. Todavia, no dia da ira não haverá conforto nem nada que diminua a força de sua ira, e ela será derramada plenamente, sem restrição alguma, sobre a humanidade. É o dia em que Deus, finalmente, deixará sua ira ser derramada sem limite sobre a humanidade que o desafiou. Paulo diz que esse é o “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (2.5). É claro que falar sobre esse terrível dia da ira suscita na mente das pessoas dúvidas acerca da justiça do evento. A resposta de Paulo é que nesse dia Deus mostrará que é justo, sim, porque, nos dias de hoje, a ira de Deus está sendo derramada, mas as pessoas não percebem a justiça que há nisso, já que, aparentemente, todos sofrem, quem teme a Deus e quem não teme, quem crê em Deus e quem não crê, quem procura o bem e quem procura o mal. Parece que o sofrimento e a angústia sobrevêm a todos. Você pode estar se perguntando onde está a justiça disso que Deus está fazendo. Naquele dia, o “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (2.5), o Senhor vai mostrar exatamente que tudo o que ele fez foi justo. Ele vai mostrar que nunca cometeu uma única injustiça com nenhum ser humano. Na verdade, ele vai mostrar que foi até misericordioso e compassivo por deixar de derramar toda a sua ira anteriormente, com mais intensidade e vigor. Será o dia em que Deus vai apresentar-se como o justo juiz, e nenhum de nós vai poder imputar-lhe qualquer injustiça e dizer que ele errou por ter sido severo ou brando demais. Não, naquele dia ficará claro que tudo o que Deus fez e permitiu que fizessem é perfeitamente justo; naquele dia toda boca vai se calar. Muitos podem dizer: “Ah, mas Deus não sabia que tal coisa ia acontecer? Por que ele permitiu? Por que isso aconteceu comigo? Por que criança sofre? Por que gente boa morre?”. Naquele dia todo mundo vai obter as respostas a todos esses questionamentos. Pode ser que agora nós não tenhamos todas as respostas, mas as teremos no dia da revelação do justo juízo de Deus. Resta-nos aguardar esse dia sem atribuir a Deus injustiça nenhuma, porque não conhecemos todas as coisas como ele conhece em sua onisciência. Como vimos, trata-se de um dia que está no futuro. Não sabemos quando será, e Deus o oculta de propósito, porque, se não fosse assim, certamente muita gente esperaria para se converter no dia anterior, deixaria para se arrepender dos pecados somente na véspera, a fim de experimentar o pecado até o último momento. Uma das razões pelas quais Deus não revela quando esse dia virá é exatamente para que nós estejamos sempre prontos. O Senhor Jesus contou uma parábola a esse respeito, na qual afirmou que, se o dono da casa soubesse o horário em que o ladrão viria, ele vigiaria a casa para não deixar que fosse arrombada; mas, como não sabemos a que horas vem o ladrão, vigiamos o tempo todo. O dia do Senhor será como um ladrão à noite — nós não sabemos quando ele vem. A razão pela qual isso é oculto de nós é para que nós estejamos sempre preparados para esse dia, pois não sabemos quando ele virá. Nesse dia o Senhor Jesus Cristo descerá do céu em glória e será o juiz. A ele foi dado o poder de julgar, porque ele se tornou um de nós, morreu na cruz por nós, pecadores, e recebeu todo o poder, no céu e na terra, e porque ele é o Filho de Deus e o Filho do Homem. Naquele dia, embora seja ele o juiz, não haverá clemência, mas, sim, julgamento justo. Então, os mortos ressuscitarão, desde Adão até o último que tenha morrido; os vivos serão transformados; toda a humanidade comparecerá diante do tribunal de Deus para o grande dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus. Esse é o ensinamento da Bíblia do começo ao fim, e o apóstolo Paulo está apenas repetindo o que os profetas de Israel disseram, o que o livro dos Salmos registra, o que Moisés ensinou e o que o próprio Jesus ensinou quando esteve aqui. É preciso que um dia a justiça de Deus seja manifesta claramente, um dia em que Deus dirá: “Estes são os meus filhos perdoados dos seus pecados e salvos pela graça”. Aqui existe uma tensão entre o já e o ainda não: quem crê em Jesus Cristo tem a vida eterna aqui e agora, mas isso só será anunciado publicamente no dia da revelação do juízo de Deus. Porque eu não sei quem tem a vida eterna; não sei se você a tem, nem se aquela pessoa que se senta ao meu lado no banco da igreja a tem; eu não sou capaz de apontar com precisão quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Por isso, é preciso um dia público em que Deus dirá: “Esses são aqui e aqueles são para lá”. Como o próprio Jesus disse, naquele dia ele vai separar, vai colocar as nações diante dele e dizer para um grupo: “Vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25.34) e para o outro: “Malditos, afastai-vos de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos” (Mt 25.41). Então, é preciso que haja um dia em que essa separação seja conhecida, porque por enquanto está tudo misturado. Mesmo entre nós, na igreja, hápessoas que estarão em um grupo e outras que irão para o outro. Eu não sei quem são, você também não. Por isso, é preciso um dia em que essa separação será feita publicamente, em que o joio será separado do trigo, um dia em que fique claro que valeu a pena servir a Deus, assim como fique claro quem é de Deus e quem não é. Esse dia se aproxima, quando o julgamento será público, o veredito de Deus será declarado, a justiça dele será vindicada e toda boca se calará diante da sua justiça. Um julgamento, duas sentenças Ao falar do “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (2.5), o apóstolo Paulo acrescenta que Deus “retribuirá a cada um segundo suas obras” (v. 6). Aqui estamos diante do critério que Deus vai usar para retribuir a alguns uma coisa e a outros outra coisa. O critério, que Paulo chama aqui de “obras”, é uma referência àquilo que os homens praticaram, como pensamentos, palavras, atitudes, omissões. O termo “obras” expressa atitudes religiosas da parte do homem em obediência às leis de Deus. A ARA traz a palavra “procedimento”, que tem o mesmo sentido. Esse será o critério naquele dia, Deus julgará o procedimento de cada um e retribuirá cada pessoa de acordo com isso. A retribuição de Deus será baseada no procedimento que as pessoas adotaram aqui, nesta vida. Perceba que no dia do juízo não haverá mais oportunidade para nada do tipo: “Deus, sei que fui mau a vida toda, mas quero uma chance para mudar agora”. O pedido não será atendido. Trata-se do momento final, e o que estará em jogo será o que você fez enquanto estava vivo, enquanto viveu em seu corpo neste mundo. Não serão levados em consideração a raça, o gênero, a língua, a posição social, a religião — não haverá nenhum tipo de cota para ninguém. Deus julgará de acordo com o procedimento, de acordo com as “obras” de cada um. A primeira sentença do juízo de Deus é que “ele dará a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e imortalidade” (2.7), algo que Paulo torna a mencionar adiante, quando diz que Deus dará “glória, honra e paz a todo que pratica o bem” (2.10). Então, qual será a retribuição de Deus? Em primeiro lugar, ele dará vida eterna, glória, honra e paz a um grupo. A vida eterna não é somente a vida sem fim, em contraste com a morte eterna, mas é uma vida em comunhão com Deus, que consiste em conhecer Deus e o seu Filho Jesus Cristo e viver assim para todo sempre. A vida eterna é muito mais algo qualitativo do que quantitativo. Quando pensamos em vida eterna, pensamos em viver para sempre, mas a vida eterna na Bíblia é mais do que isso; significa também viver em comunhão com o Eterno, aquele que existe para todo o sempre. É nesse sentido que a vida é eterna; é a vida no seu ápice, a vida além da vida, e para sempre assim. Faltam adjetivos para qualificarmos o inqualificável; não é à toa que o apóstolo Paulo, assim como Pedro, ao tentar descrevê-la, fala de coisas indizíveis e cheias de glória. Tentar definir a vida eterna seria uma dessas coisas indizíveis. Paulo diz também que Deus dará “glória, honra e paz” (2.10) a todo o que pratica o bem. A glória aqui é a participação na glória de Deus; a honra é ser honrado por Deus; e a paz é o shalom, o reino de Deus esperado, o novo céu e a nova terra, onde não há mais guerra, dor, angústia ou pecado; é a felicidade eterna. Tudo isso está resumido na expressão “vida eterna”. A segunda sentença do julgamento, porém, é que Deus “dará ira e indignação aos egoístas, aos que obedecem ao pecado em vez de obedecer à verdade. Trará tribulação e angústia a todo ser humano que pratica o mal, primeiro ao judeu, depois ao grego” (2.8,9). Paulo afirma que esse segundo grupo receberá a ira, o desprazer, a indignação de Deus — pois está indignado com eles e derramará sobre eles o seu justo juízo e castigo —, tribulação e angústia profunda, indizível, interminável, incapaz de ser compreendida. Se você já não consegue conviver com a angústia deste mundo, saiba que ela é somente uma pequena amostra do que será sentido no dia do juízo e no inferno, quando haverá uma angústia que levará as pessoas ao desespero ou, como disse o próprio Jesus, quando haverá “choro e ranger de dentes” (Mt 22.13). Deus vai retribuir a cada um segundo as obras, e o resultado será apenas vida eterna para um grupo e ira, indignação, tribulação e angústia para o outro. De acordo com o que Paulo afirma nessa passagem, e mesmo de acordo com o restante da Bíblia, não existe uma terceira opção, como o purgatório, por exemplo. Deus não vai enquadrar alguém como um servo “mais ou menos”, colocar essa pessoa para sofrer por um tempo e depois deixá-la entrar no céu. Isso não está registrado em lugar nenhum da Bíblia. Os resultados serão apenas dois: céu ou inferno, usando a linguagem bíblica, vida eterna ou ira eterna. Observe também que não se fala na aniquilação ou extinção da alma. Algumas pessoas acham que o castigo de Deus no dia do juízo será extinguir a pessoa, fazendo com que ela deixe de existir. Se fosse assim, não faria sentido Paulo falar em tribulação, indignação e angústia, pois seres extintos não sentiriam nada. O texto é perfeitamente claro ao afirmar que todos estarão bem vivos e bastante conscientes. Outro ponto importante é que Paulo não está dizendo que a salvação é universal, que naquele dia Deus concederá a vida eterna a todos. Há pessoas que defendem o universalismo, ou seja, que no dia do juízo Deus vai perdoar os pecados de toda a humanidade. Não há o menor fundamento bíblico para essa tese. Repetindo, no dia do juízo dois resultados sobrevirão: vida eterna ou ira eterna. Não há um terceiro, não há meio-termo, não há extinção da pessoa, não há salvação universal. Há somente dois estados, que serão eternos e irreversíveis. Por isso a importância de você prestar atenção ao que está lendo, enquanto ainda tem oportunidade. Uma vez pronunciado o juízo — e ele começa depois da morte — não há volta, não há apelação, não há segunda chance, não há recurso. Ele é final, definitivo e será aplicado imediatamente, por toda a eternidade. Esse é o assunto mais sério da sua vida. Não aja como se o alvo da sua vida fosse arrumar um emprego, formar uma família ou ter alguma profissão. Não estou dizendo que essas coisas não sejam boas e que nós não devamos buscá-las; nada disso, porém, terá valor algum no dia da ira e da revelação do julgamento de Deus. Essa é, de fato, a coisa mais séria de sua vida. Se você não repensar tudo isso agora, mais para frente descobrirá que passou a vida inteira correndo atrás de coisas que não terão o menor impacto quando comparecer diante do santo e justo Juiz. Por isso, preste atenção ao que está escrito nessa passagem — não há nada mais importante do que isso. O efeito externo da fé O apóstolo Paulo nos diz que Deus dará vida eterna aos que perseverarem em fazer o bem, procurarem glória, honra e imortalidade (v. 7). É isso que Deus levará em conta no dia do juízo. Quando ele analisar as obras, dará a vida eterna àqueles que perseveraram em fazer o bem e procuraram glória, honra e imortalidade ou incorruptibilidade (ARA). Quanto ao outro grupo, dará a ira eterna aos que têm coração duro e impenitente (2.5), que são egoístas, desobedecem a verdade e seguem a injustiça (2.8). Naturalmente, o primeiro questionamento que esse texto levanta diz respeito à salvação pela fé em Cristo Jesus, já que sempre ouvimos que a salvação se dá pela fé em Cristo Jesus, e não por obras. De fato, é assim. Nessa passagem, porém, o apóstolo Paulo não está ensinando que a salvação vem por meio de obras — nem poderia, porque estaria contradizendo o que ele mesmo escreve, por exemplo, no terceiro capítulo de sua carta, quando fala sobre justificação pela fé. O que Paulo está dizendo é que a fé que salva é a fé que transforma a pessoa, que a leva a perseverar em fazer o bem e a procurar glória, honra e imortalidade ou incorruptibilidade.Ele está apenas analisando o efeito externo da fé. Quem crê em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador experimentou o poder do evangelho e vai direcionar sua vida para perseverar em fazer o bem e buscar honra, glória e incorruptibilidade. Dessa forma, é possível dizer que, naquele dia do juízo, Deus dará vida eterna aos que agirem assim. Isso ocorrerá porque eles são bonzinhos? Não, todos são pecadores miseráveis. Eles receberão a vida eterna porque creram no Senhor Jesus como Senhor e Salvador e, consequentemente, o evangelho mudou a orientação de sua existência. A fé que salva é esta: a fé que transforma, que nos leva a procurar o bem, a buscar a incorrruptibilidade, a imortalidade, a buscar em primeiro lugar o reino de Deus. Tudo o que Paulo escreveu nessa epístola está em concordância com o que escreveu o apóstolo Tiago. Há quem queira colocar Paulo contra Tiago, alegando que Tiago disse que a justificação se dá por obras e que Paulo disse que a justificação se dá pela fé. Paulo e Tiago, no entanto, estão dizendo a mesma coisa, porque a fé que salva é a fé que produz obras, que transforma a vida da pessoa. De que adianta uma pessoa ser religiosa, ir à igreja, abrir a boca para cantar louvores, fazer declaração de fé, profissão de fé, ser batizada, mas não procurar honra, nem incorruptibilidade, não buscar o reino de Deus em primeiro lugar nem perseverar em fazer o bem? Essa fé pode salvá-la? Eis a resposta de Tiago e a resposta de Paulo: Não! Porque não é fé verdadeira. A fé verdadeira transforma o coração. Por isso, no dia do juízo, o critério de Deus será esse, porque as obras revelam o verdadeiro estado do coração. Da mesma forma, Romanos 2.8,9 diz que os que vão receber a ira serão aqueles que perseveram em fazer o mal, aqueles que são egoístas (a ARA traz “facciosos”, mas “egoístas” é uma tradução melhor do grego). A diferença entre os dois grupos é que a vida dos componentes do primeiro grupo é orientada para Deus; quanto ao segundo, composto por facciosos, egoístas, pessoas que desobedecem à verdade e seguem a injustiça, a vida dos seus membros é orientada para si mesmos. Eles passaram a vida toda procurando o próprio bem, viveram para si mesmos, nunca se preocuparam com as realidades à sua volta, nunca deram a Deus o primeiro lugar, por isso praticaram e viveram iniquidades. E Deus, portanto, vai retribuir-lhes de acordo com isso, como se dissesse: “Não é isso que você quer? Não é isso que procurou a vida toda? Você terá eternamente ira, indignação e angústia, começando já, aqui e agora, neste mundo”. Quem vive para si mesmo, pensando no aqui e agora, já experimenta angústia e tribulação na sua alma. Somente quando vivemos para Deus é que conhecemos paz, honra, glória e bênção no coração. No dia do juízo, o critério será esse, lembrando que as atitudes revelam o que está no coração, como disse o próprio Senhor Jesus: “Pelo fruto se conhece a árvore [...] a boca fala do que o coração está cheio” (Mt 12.33,34). No dia do juízo, Deus vai conhecer a árvore pelo fruto. Você é crente mesmo? No dia do juízo, Deus vai verificar isso pelo seu comportamento. Conclusão e aplicações práticas Esse é o assunto mais importante da minha vida e da sua, o mais urgente para as crianças, para os adolescentes, jovens, adultos e idosos, porque a nossa vida física, biológica, não está em nossas mãos — a qualquer instante a morte pode nos alcançar e podemos nos ver imediatamente diante do tribunal de Deus. Do tempo da nossa morte até o tribunal pode ser muito rápido, porque não sabemos quando será o Dia do Juízo. Mas depois da morte já entramos numa pré-expectativa, num pré-sofrimento ou numa pré-glória de gozo e alegria na presença de Deus, esperando o dia da revelação do seu juízo. Seu destino vai depender da sua atitude hoje, aqui e agora; vai depender do estado do seu coração diante de Deus, do que você pensa de Jesus Cristo, de Deus, da vida eterna. Os que creem em Cristo são transformados pelo poder do evangelho: “Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). O evangelho é um poder que transforma o coração do pecador. Assim, primeiramente eu gostaria de sugerir que você examinasse a sua fé. Você crê em Deus de todo coração? Você crê em Jesus Cristo como Filho de Deus, o Salvador do mundo? Do fundo do coração, você reconhece que é um pecador, que violou a lei de Deus e que, se ele derramasse sua ira sobre você, estaria sendo justo? Você crê que a salvação é somente em Cristo Jesus e que na cruz do Calvário ele derramou seu sangue precioso para salvar pecadores como você e eu? Você crê na vida eterna, na ressurreição dos mortos? Se você realmente crê nisso, examine o seu procedimento, suas atitudes, seu modo de viver. Você persiste em fazer o bem? Deus tem o primeiro lugar na sua vida? Você busca a imortalidade, as coisas do reino de Deus? Eu estou fazendo isso com urgência no meu coração. Conta-se que o famoso pregador Dwight Moody, grande evangelista, foi pregar na cidade de Chicago, em um grande evento do qual participavam milhares de pessoas. Ele pregou a respeito da salvação em Cristo Jesus e do juízo eterno. No meio do sermão ele parou e disse: “Voltem no próximo sábado, que então contarei a vocês como podem escapar do juízo de Deus”. Durante a semana houve o famoso incêndio de Chicago, que queimou metade da cidade e matou milhares de pessoas. Eu não sei o que vai acontecer amanhã com você ou comigo, e é por isso que eu lhe digo, como pregador do evangelho e ministro da Palavra de Deus: leia a Bíblia, examine a sua vida, pergunte a si mesmo se a sua fé é verdadeira e genuína, pergunte a si mesmo por que você não dá a Deus o primeiro lugar na sua vida. Eu não vou esperar outro momento para lhe dizer o que tenho de dizer agora: se a sua consciência, se o seu coração lhe diz que de fato alguma coisa está errada, que de fato alguma coisa não confere, se o seu coração se enche de temor diante daquele grande dia, venha a Cristo hoje, creia nele hoje, porque o fato de que você está lendo este livro é uma prova de que a ira de Deus está sendo mitigada, aliviada pela sua misericórdia e compaixão. “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar” (Is 55.6); “... eis, agora, o dia da salvação” (2Co 6.2, ARA), em que você pode tomar essa decisão e dizer: “Eu quero me arrepender dos meus pecados, mudar a minha vida e servir a Jesus Cristo de todo o meu coração. Assim, peço que me ajude, Deus; assim, peço que tenha misericórdia de mim”. E lembre-se das palavras de Jesus Cristo: “... de modo algum rejeitarei quem vem a mim” (Jo 6.37). Que hoje seja o dia da salvação para a sua vida e, se você já tem a certeza de que pela misericórdia de Deus recebeu o perdão de pecados, hoje é um dia de louvor e gratidão, porque você viu o que aguarda aqueles que rejeitam a graça de Deus no evangelho de Cristo Jesus. N o capítulo anterior, Paulo discorreu a respeito do dia do juízo, o qual está para vir sobre toda a humanidade (2.6-11). O objetivo do apóstolo foi demonstrar a condenação de Capítulo 12 A LEI NO CORAÇÃO Romanos 2.12-16 Deus se revela em seus preceitos Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Pois, diante de Deus, não são justos os que somente ouvem a lei, mas os que a praticam; estes serão justificados. (Porque, quando os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei, tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem.) Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho. toda a raça humana. Ele começou mostrando primeiro que os pagãos, os gentios, aqueles que não são judeus, que nuncaouviram a Lei de Moisés nem o nome de Deus, estão condenados a perecer por causa dos seus pecados. Depois disse que não somente eles, mas também os judeus e qualquer outra pessoa, sob ou sobre a face da Terra, está debaixo da condenação de Deus. O Senhor haverá de julgar as pessoas no dia do juízo de acordo com o que elas fizeram, de acordo com o procedimento delas, tanto as que nunca ouviram ou não receberam a Lei de Moisés quanto os judeus, que receberam essa lei. A razão disso — e é assim que Paulo termina a passagem estudada no capítulo anterior — é uma só: “pois em Deus não há parcialidade” (2.11), ou, como aparece em outra tradução: “Porque para ç q p com Deus não há acepção de pessoas” (ARA). Ou seja, o juízo será absolutamente imparcial, Deus vai julgar não de acordo com aquilo que a pessoa professa, mas de acordo com o procedimento dela, com suas obras, decisões, escolhas, pensamentos, maneira de viver. E Deus assim fará porque é justo e não faz acepção de pessoas. Mas alguém pode objetar a isso. Imagine a cena seguinte: um judeu levanta a mão e diz: “Posso fazer uma pergunta?”. Paulo consente. “Como Deus pode ser justo no dia do juízo, uma vez que os judeus receberam a lei e por isso sabem o que fazer para agradá-lo, ao passo que os pagãos, os gentios, aqueles povos que vivem em locais distantes, onde nunca chegou a lei divina, a revelação que Deus deu a Israel, não sabem nada? Como Deus vai julgá-los com justiça? Como você pode dizer que Deus não fará acepção de pessoas ou que o seu julgamento será perfeito?” Na passagem destacada neste capítulo, Paulo responde a essas indagações. Ele afirma que Deus é absolutamente justo e julgará as pessoas de acordo com o conhecimento que elas têm, e esse conhecimento é dado na forma da lei, como veremos nos parágrafos seguintes. Antes de entrarmos nos dois pontos centrais do que Paulo está dizendo, vamos entender um pouco melhor o que é a lei. O nosso Deus é um Deus santo, é o Criador do céu e da terra, é onipotente, onipresente, onisciente, imutável no seu ser, perfeito em todas as suas obras, justo em todos os seus caminhos. Ele tem uma vontade, que é expressa naquilo que conhecemos como os Dez Mandamentos, a lei divina escrita e dada ao povo de Israel por meio de Moisés. Desse modo, sabemos que Deus zela por sua pessoa e seu nome, porque na lei está dito que não devemos tomar o nome dele em vão e que não devemos adorar outros deuses a não ser ele (Êx 20.3,7). Sabemos, pela lei, que Deus estruturou a sociedade humana com base em hierarquias de autoridade, pois ele manda, por exemplo, que os filhos obedeçam a seus pais (Êx 20.12). Sabemos também que Deus valoriza o casamento e estabeleceu famílias, tanto que ele proíbe que o marido traia a esposa ou que a esposa traia o marido (Êx 20.14). Estamos falando de um Deus que deu coisas boas para a humanidade, para que pudéssemos desfrutar delas; e sabemos disso porque ele disse, por exemplo: “Não furtarás” (Êx 20.15), ou seja, não tire o que é do seu próximo. Também sabemos que Deus nos ama e zela por nossa reputação e nosso nome, porque na lei está dito: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.16). Assim, a lei de Deus é a expressão de quem ele é, de sua santidade, seu amor, sua misericórdia, do que ele gosta e não gosta. Portanto, ela servirá de base para o juízo final. Deus julgará nossas atitudes de acordo com a sua lei, verificando se fizemos o que essa lei manda, se deixamos de fazer ou se fizemos o que ela proíbe. Ele julgará de acordo com isso, portanto seu julgamento será imparcial. A questão é que alguns povos receberam uma revelação mais clara da lei de Deus, como os judeus, por exemplo, que a receberam de forma escrita e detalhada, enquanto outros povos, como os amonitas, os moabitas, os egípcios, os mesopotâmicos, os assírios, os medos, os persas, todos povos da Antiguidade, não receberam essa lei. Essa é a grande questão. Como Deus julgará o mundo se vai usar a lei como base? De que forma ele pode ser justo em seu julgamento se uma parte da humanidade recebeu a lei com clareza e outra não? Vejamos como Paulo responde a esses questionamentos. Conhecimento que determina o juízo A primeira questão que Paulo coloca é que Deus de fato vai julgar as pessoas de acordo com o conhecimento de cada uma: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” (v. 12). O termo “porque” liga a afirmação ao versículo anterior, em que Paulo diz que para Deus não há parcialidade. Compreende-se que, se para Deus não há acepção de pessoas, todos que pecaram serão julgados: “todos os que sem lei pecaram”, sem lei serão julgados e condenados, ou seja, no dia do juízo, o pagão será julgado por Deus sem a Lei de Moisés, enquanto “todos os que sob a lei pecaram” — no caso, os judeus, porque receberam a lei — “pela lei serão julgados”. Assim, segundo o apóstolo Paulo, no dia do juízo, Deus julgará cada um de acordo com a luz que recebeu. Ele não cobrará dos gentios e pagãos o conhecimento da Lei de Moisés; no entanto, quem teve tal conhecimento será julgado segundo o que conhecia. Paulo aborda primeiramente a situação dos gentios, quando se refere a “todos os que sem lei pecaram”. Mas como é possível falar de pecado sem lei? Como é possível haver pecado, se não há lei? Paulo já havia dito que os pagãos têm conhecimento da existência de Deus e de que esse Deus está irado, porque eles — os pagãos, os gentios, esses povos distantes — perverteram e rejeitaram a revelação que Deus fez de si mesmo: “... a ira de Deus se revela do céu” (Rm 1.18); “... os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas” (Rm 1.20); mas os pagãos, os gentios, mesmo “conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que praticam essas coisas, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (1.32). Ou seja, mesmo que não tenham a Lei de Moisés, os gentios têm um conhecimento básico inato que vem da natureza. No mais profundo de sua consciência, todo ser humano sabe que existe um Deus e que ele é santo; todos, instintivamente, sabem que Deus não é a natureza, mas existe antes da natureza, criou todas as coisas e, portanto, tem de ser adorado. Por isso, todos nós temos que viver para ele e agradecer-lhe por todas as coisas. Isso esses povos não fizeram e por essa razão pecaram, não contra a Lei de Moisés, mas contra a consciência e contra o conhecimento de Deus que está no coração de cada um e que brilha ao redor na natureza. Então, no dia do juízo, quando Deus julgar os pagãos, ele não vai lhes perguntar por que não guardaram os Dez Mandamentos (“Dez Mandamentos? O que é isso?”, diriam eles). Antes, Deus dirá ao pagão que ele sabia de sua existência e que é o Criador de todas as coisas, mas preferiu curvar-se diante de aves, quadrúpedes e répteis, os quais transformou em falsos deuses, a adorar o Deus Altíssimo. Deus afirmará que na consciência do pagão está gravado que ele é um Deus santo e não pode ser confundido com as coisas criadas; porém, o pagão nunca lhe deu graças, nunca o procurou nem o adorou. Essa é a base que Deus usará para julgar os povos pagãos e, pelo que Paulo está dizendo aqui, o resultado é que nenhum deles vai se salvar: “... todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão” (2.12). Perecer, nesse caso, significa ser excluído da presença de Deus, condenado ao sofrimento eterno, o que acontecerá a eles por terem rejeitado essa revelação e esse conhecimento que Deus deu à consciência humana e na natureza. Ou seja: Deus é justo e não julgará uma pessoa com base naquilo que ela não sabia. O caso dos judeus é diferente: “... todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados”. Os judeus receberam a lei de Deus de forma escrita, por meio de Moisés, o que envolveu não somente os Dez Mandamentos,mas também uma série de outras leis que refletiam o caráter santo de Deus e a sua vontade. Todavia, os judeus violaram não somente os Dez Mandamentos, mas também todas as outras leis recebidas. Eles desobedeceram à lei de Deus e, portanto, pecaram debaixo da lei. Sabiam que estavam agindo errado e assim mesmo perseveraram em suas práticas degeneradas. Por isso, o apóstolo Paulo diz que eles serão julgados pela lei. No dia do juízo, Deus dirá ao judeu que ele sabia que estava escrito: “Não adulterarás” (Êx 20.14), mas adulterou; que ele sabia que estava escrito “Não cobiçarás a casa do teu próximo” (20.17), mas cobiçou; que ele sabia várias outras coisas que estavam escritas na lei que Deus entregou por meio de Moisés, e não colocou em prática nenhuma delas. Deus não vai falar de Moisés para o pagão; para o judeu, porém, o critério de julgamento será a lei. Em ambos os casos não haverá salvação, porque nem o pagão andou de acordo com a luz que recebeu, nem o judeu obedeceu à lei de Deus perfeitamente. Assim, naquele dia, judeus e gentios serão julgados com justiça por Deus, com base no conhecimento que tiveram, mas o veredito será o mesmo: todos serão condenados e haverão de perecer porque não viveram de acordo com a luz que receberam. A essa altura, depois que Paulo afirmou que “todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados”, alguém poderia perguntar por que motivo então Deus deu a lei. Vamos imaginar que seja a mesma pessoa que fez as objeções do início deste capítulo. Primeiro, essa pessoa levantou a questão da justiça de Deus no dia do julgamento, porque uns receberam a lei e outros não. Paulo respondeu dizendo que Deus as julgará de acordo com o conhecimento que cada uma recebeu. Com base nisso, a pessoa poderia perguntar por que Deus deu a lei, então, se no dia do juízo tanto judeus como não judeus (que não receberam a lei) serão condenados do mesmo jeito. Paulo responde que isso se deve ao fato de que Deus julgará de acordo com o procedimento de cada um, e não de acordo com o fato de ter recebido ou não a lei: “Pois, diante de Deus, não são justos os que somente ouvem a lei, mas os que a praticam; estes serão justificados” (2.13). Os judeus gloriavam-se por terem recebido a lei de Deus e todos os sábados escutavam a leitura dessa lei na sinagoga. Havia um ritual impressionante: a lei era escrita em papiros e guardada em um armário; quando começava o culto na sinagoga, no sábado, os homens entravam e se sentavam, cumprindo toda uma liturgia. As mulheres não participavam do culto, ficavam numa espécie de galeria, observando tudo o que acontecia. Então, uma espécie de assistente da sinagoga levantava-se, ia até o armário, pegava a lei, a abria diante do povo e recitava o shemá — “Ouve, ó Israel: o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4) — e depois lia a passagem do dia. Jesus aproveitou-se dessas ocasiões várias vezes para entregar mensagens ao povo. Os evangelhos contam como ele entrava nas sinagogas e se levantava para ler e explicar a Palavra de Deus. O assistente lia o trecho, fechava o rolo e o guardava; então, o rabino se sentava e começava a explicar o que tinha sido lido para o povo. Isso acontecia todo sábado, e o judeu considerava que ouvir a lei sendo lida e explicada era uma coisa meritória. Alguns rabinos, cujos escritos foram registrados a partir do terceiro século, depois que o templo foi destruído pelos romanos no primeiro século, diziam que ouvir a lei era equivalente a oferecer sacrifícios. Já que os judeus não tinham mais como oferecer sacrifícios, porque o templo havia sido destruído, eles alternaram para a sinagoga e passaram a dizer que ouvir a leitura da lei era um ato de caráter tão redentor quanto o de oferecer sacrifícios no Templo de Salomão. Paulo, nessa passagem, está justamente combatendo os que somente ouvem a lei. A segunda questão que Paulo coloca, portanto, é que a lei não foi dada para ser ouvida somente — ouvir é o primeiro passo —, mas para ser ouvida, compreendida e praticada. E, caso houvesse alguém que pudesse praticar completamente todos os mandamentos — não há, Paulo está falando hipoteticamente, seguindo o raciocínio dos judeus —, essa pessoa seria justificada diante de Deus. Mas tal pessoa não existe. Portanto, Paulo está dizendo que o fato de os judeus terem recebido a lei e fazerem a leitura dela todos os sábados na sinagoga não os coloca em vantagem diante das outras pessoas. E isso precisa ficar claro para nós, hoje também: frequentar uma igreja, ouvir sermões todos os domingos, ler a Palavra e cantar louvores não coloca ninguém em vantagem, muito pelo contrário: o juízo será mais severo para estes. Quem receberá o menor juízo será, em primeiro lugar, o pagão ignorante; em segundo lugar, o judeu; e em terceiro lugar, o cristão, porque este é o que tem mais luz, é o que recebeu mais, o que ouviu mais, o que sabe mais, além de ter o Novo Testamento (uma vez que o judeu só considera o Antigo Testamento). Se Deus julgará de acordo com o que cada um recebeu, então estamos na base da pirâmide, pois, por termos recebido mais conhecimento, receberemos também a pior dose, o julgamento mais severo. Frequentar uma igreja e ouvir sermões só aumenta a responsabilidade, porque no dia do juízo Deus nos julgará de acordo com a luz que recebemos, com todos os sermões que escutamos, com todas as advertências que foram proferidas para nossos ouvidos, com todos os convites que nos foram feitos. Tudo isso será levado em consideração no dia em que eu e você estivermos diante do Juiz dos vivos e dos mortos, Jesus Cristo. Portanto, não são justos diante de Deus os simples ouvintes da lei, mas, sim, aqueles que a ouvem, nela creem, praticam-na, arrependem-se e andam no caminho de Deus. Na sequência do texto, Paulo abre um parêntese (v. 14,15), que explico mais adiante, pois optei aqui por tratar da continuação lógica do que ele vem dizendo (v. 16). Recapitulando, Paulo diz que quem pecou sem lei será julgado sem lei e quem pecou com lei será julgado pela lei (v. 12); depois ele diz que ter a lei não é vantagem, porque só ouvir não adianta, é preciso praticá-la. Depois de uma breve digressão, ele conclui: “Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho” (v. 16). Ou seja, naquele dia Deus julgará com justiça usando esse critério. Paulo ressalta nesse trecho algumas coisas interessantes a respeito do juízo de Deus, e a primeira delas é que esse juízo será por meio de Jesus Cristo. Por que Deus entregou o dia do juízo nas mãos de Jesus Cristo? Para que a raça humana não possa alegar coisas do tipo: “Não é justo eu ser julgado por um anjo” ou “Não é justo eu ser julgado por ti, ó, Deus, porque tu não tens ideia do que eu passo, tu estás aí na glória, és eterno, és espírito e não tens paixões e necessidades como eu tenho”. Por isso, Paulo assegura: quem vai nos julgar é um homem, igual a nós, Jesus Cristo; a ele, que se fez carne, habitou entre nós, assumiu a natureza humana, a ele Deus entregou todo o juízo, justamente para que ninguém questione a integridade do juiz. É um de nós que nos julgará, um membro da raça humana; ele se sentará no trono e julgará com justiça. A segunda afirmação que Paulo faz é que naquele dia serão julgados os segredos dos homens, aquilo que não vemos, não contemplamos e não ouvimos, mas que Deus conhece perfeitamente. Naquele dia tudo virá à tona. Talvez Paulo esteja se referindo aos moralistas (que ele já criticou em Romanos 2.1-4), aqueles que ficam condenando os outros, mas praticam as mesmas coisas que condenam, mesmo que isso não fique evidente, já que esse comportamento está disfarçado sob uma capa de piedade, de religião. No dia do juízo, porém, os segredos serão manifestos e teremos muitas surpresas. Cristo haverá de julgar todos esses segredos. Naquele diatambém os que praticam a lei serão justificados e os que não a praticam serão condenados. Vimos, no capítulo anterior, que Paulo não está ensinando nenhuma doutrina de salvação por obras, mas, sim, que uma pessoa que é salva pela fé em Cristo Jesus deve andar em conformidade com a vontade de Deus. Ela quer obedecer a Deus, quer andar de acordo com os ditames da lei de Deus, enquanto aquele que não teme a lei de Deus de todo o coração, que não crê em Jesus Cristo de fato, viverá de acordo com as paixões da carne. E isso, como diz Paulo, está “segundo o meu evangelho” (2.16), ou seja, de acordo com a mensagem que ele prega. Não que Paulo tivesse um evangelho diferente dos outros apóstolos. O fato é que as pessoas o estavam criticando — como veremos com mais detalhes adiante — porque diziam que ele pregava um evangelho “água com açúcar”, ao ensinar que a salvação é pela graça e pela fé em Cristo Jesus, e não pela lei. Por isso, Paulo faz questão de ressaltar que o evangelho dele não está excluindo a lei, mas, sim, colocando-a no seu devido lugar: ela será a referência, no dia do juízo, para Deus avaliar a conduta de cada um que a conheceu. A lei dos gentios Ao dizer isso, Paulo sente a necessidade de explicar algo mais. Na verdade, ele não escreveu a Carta aos Romanos de próprio punho, conforme se pode ler no fim da carta: “Eu, Tércio, que redigi esta carta, vos cumprimento no Senhor” (16.22). Muitos de nós podemos ter a tendência de ficar imaginando Paulo sentado num gabinete com um monte de pergaminhos, pensando e escrevendo. O que os estudiosos imaginam que realmente aconteceu, porém, foi mais ou menos o seguinte: Paulo andando de um lado para o outro e falando, e Tércio, o secretário dele, escrevendo. — Tércio, anota aí: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” (v. 12). Escreveu, Tércio? — Escrevi, Paulo. — Agora escreve: “Pois, diante de Deus, não são justos os que somente ouvem a lei...” (v. 13). Anotou? — Anotei. — Continuando: “Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho”. Escreveu? — Sim, Paulo. — Pensando bem, do jeito que está, pode dar a impressão de que o gentio não tem lei... Tércio, volta um pouco e coloca o que vou dizer, porque os gentios também têm lei, e acho melhor explicar isso. Nós, estudiosos da Bíblia, também imaginamos que com as demais cartas o esquema foi o mesmo. Paulo tinha amanuenses ou secretários, que tomavam nota daquilo que ele falava, e ele depois, é claro, fazia uma revisão completa de tudo. Mas, afinal, o que Paulo quis acrescentar na parte em que ele disse que no dia do juízo Deus julgará de acordo com a luz de cada um? Ele quis dizer que os gentios têm lei. Veja que declaração extraordinária: “(Porque, quando os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei, tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem)” (v. 14,15). Paulo já havia registrado que o que importa não é ter a lei e somente ouvi-la, mas, sim, praticá-la. Agora, ele observa que isso não significa que só os judeus tenham lei, mas, sim, que os pagãos também têm. Paulo afirma que os gentios que não têm lei procedem por natureza em conformidade com a lei (v. 14), porque têm a norma da lei gravada em seu coração (v.15). O que Paulo está ressaltando é que todas as pessoas têm um conhecimento intuitivo do que é o certo e do que é errado, mesmo que nunca tenham ouvido os Dez Mandamentos. Todo ser humano já nasce com uma espécie de “GPS moral embutido de fábrica”, um guia interno que aponta para o certo e para o errado. Todos nós nascemos com essa bússola moral, porque somos criados por um Deus que tem uma lei, uma vontade, e que faz distinção entre o que é certo e o que é errado. A Bíblia diz que fomos criados à sua imagem e à sua semelhança, e o fato de sermos pecadores não apaga o referencial moral da nossa consciência. Assim, a norma da lei está gravada no coração dos pagãos, que podem não ter a lei escrita, mas a têm gravada no coração. Paulo apresenta várias evidências de que “os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza” (v. 14). Em outras palavras, é possível encontrar, mesmo entre os povos mais primitivos, o cuidado com os idosos, a proteção dos doentes e das crianças, o estabelecimento da família, as punições a ladrões. De onde vem isso nas tribos mais isoladas? É claro que esse padrão moral incutido nas pessoas não é idêntico em todo lugar e não é absolutamente claro, mas existe esse senso de dever, de responsabilidade, de cuidado, de proteção, de honestidade, de heroísmo, de virtude, de bondade, de julgamento e de condenação de coisas erradas. Esse senso existe em toda a humanidade, mesmo entre povos que nunca ouviram falar de Deus ou nunca tiveram acesso aos Dez Mandamentos. Esse conhecimento do certo e do errado, ainda que relativo, é universal. De onde ele vem? Da evolução? Acredito que não. Vem do fato de que o nosso Criador é um Deus moral, santo, cujas regras e normas imprimiu em nosso coração feito à sua imagem e semelhança. Por isso, Paulo diz que os gentios às vezes procedem em conformidade com a lei. Outra coisa que ele destaca como evidência de que os gentios têm a lei é o seguinte: “(... tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem)” (2.15). É como se Paulo dissesse que, entre os gentios que não têm lei, vamos encontrar pessoas que se sentem culpadas e pessoas que ficam se defendendo, pois a consciência as acusa e defende ou então as justifica. Assim, esse raciocínio, esse processo interno de avaliar ações e emitir um juízo de valor é encontrado em todos os povos. Preste atenção no testemunho de alguns pagãos, por exemplo, os estoicos, que vêm de uma escola de filosofia que surgiu em Atenas, no terceiro século antes de Cristo. Esses filósofos, que não conheciam a Lei de Moisés, diziam que no universo operam certas leis que o homem viola em prejuízo de si mesmo. Segundo esse pensamento filosófico, essas são leis da natureza, e o homem deve viver de acordo com elas. Um filósofo pagão formulou essa ideia! Ele nunca tinha ouvido falar de Deus nem dos Dez Mandamentos, mas reconhecia que há certas leis operando na natureza e que o homem deve se guiar por elas. Aristóteles, um dos filósofos gregos mais conhecidos, muitos séculos antes de Cristo Jesus, disse o seguinte: “Os homens cultos e de mente livre se comportam como se fossem lei para si mesmos” (citado por W. Barclay, Romanos, in loco), que é exatamente o que Paulo está dizendo nesse trecho da carta, isto é, que os pagãos, já que não têm a Lei escrita de Moisés, servem de lei para si mesmos, porque a norma está no coração. Plutarco, um historiador e filósofo grego, disse: Quem governará o governador? A lei, a rainha de todos os mortais e imortais, que não está escrita em rolo de papiro ou tábuas de madeira, mas na própria razão, dentro da alma, que mora perpetuamente com ele e nunca deixa sua alma privada de direção moral (citado por W. Barclay, Romanos, in loco). Quem disse isso foi um pagão, alguém que nunca ouviu a Lei de Moisés. Portanto, esse senso comum de justiça que existe em todo lugar, essa consciência do certo e do errado, é a base com a qual Deus julgará as pessoas no dia do juízo. Ou seja, naquele dia, ninguém poderá alegar inocência, ninguém será salvo com base na argumentação de inocência ou ignorância, ninguém poderá se desculpar ou escapar do juízo de Deus, porque até os povos mais rudes, que nunca ouviram falar do evangelho, têm conhecimento do certo e do errado. Essas noções estão presentes em todas as culturas. E de onde provém isso, se não justamenteda imagem de Deus em nós? Justo juízo para gentios e judeus Deus julgará toda a humanidade de acordo com a luz da consciência e da revelação, da norma da lei escrita na consciência humana. O problema é que nenhum de nós segue consistentemente as suas leis. Vejamos um exemplo. Imagine um brasileiro que não queira saber de religião, de Deus nem do evangelho. Ele tem um código. Se alguém lhe perguntar: — Você tem algum código moral? — Sim — ele dirá —, acho que bater em mulher é um negócio muito errado, não se deve bater em mulher nem com uma flor. Esse é o meu código moral, eu sou um cara que respeita as mulheres. Nada impede, no entanto, que um dia ele venha a bater em uma mulher. Ou seja, por menor que seja esse código, nunca se vive de forma consistente com ele. Vejamos outro exemplo. Há muita gente que diz assim: — Sobre esse negócio de religião, eu penso que basta amar o próximo. — Então, vamos ver se você ama mesmo: Você respeita o nome dos outros? Você já falou mal de alguém? Você já cobiçou a mulher, o carro ou o emprego de alguém? Você já desafiou a autoridade de alguém? Porque, se você já fez isso alguma vez, violou a regra de que basta amar o próximo. Ninguém consegue cumprir o seu próprio código de ética, pois todos nós somos incoerentes e inconsistentes. Mesmo que o nosso código de ética seja bem reduzido. ninguém jamais conseguirá cumpri-lo por inteiro. Em resumo, a verdade é que você e eu estamos condenados — não temos argumento diante de Deus, não podemos pleitear inocência com base na ignorância, não podemos dizer que não sabíamos. Conclusão e aplicações práticas Então, é nesse ponto que Paulo entra com o evangelho: se Deus não nos perdoar, nos aceitar, nos justificar, nos livrar da nossa culpa, nós seremos condenados. Pereceremos eternamente longe de Deus, nas trevas e no sofrimento, para todo o sempre, se Deus não agir e não tiver misericórdia de nós. O evangelho de Jesus Cristo é exatamente isto: o Deus que vem salvar uma humanidade perdida, condenada pela própria consciência, pelo próprio conhecimento, que caminha para a condenação, conscientemente, sem poder alegar nada em seu favor. Esse Deus, que não tem obrigação de salvar ninguém, misericordiosamente se fez um de nós. Na figura de Jesus de Nazaré, tomou a forma humana, assumiu a humanidade plena e perfeita, viveu entre nós, experimentou o que é ser gente, cumpriu a lei perfeitamente e, por fim, na cruz do Calvário, ofereceu-se como pagamento por nossa culpa, se nós de fato crermos nele como Senhor e Salvador. Muitas pessoas acham que os povos pagãos, as tribos indígenas, os povos remotos e primitivos são inocentes diante de Deus. Mas isso não é verdade. Eles têm a lei — “o que a lei exige está escrito no coração deles” (2.15) — e a quebram, e por esse motivo vão perecer. Paulo escreveu essa carta justamente porque queria mostrar à igreja de Roma por que ele precisava ir à Espanha pregar o evangelho. Essa é a razão também pela qual nós precisamos ensinar o evangelho aos nossos amigos; essa é a razão pela qual enviamos missionários para evangelizar os povos, porque, sem o conhecimento de Cristo, eles estão absolutamente perdidos, pois não há inocentes. Esse mito do bom indígena precisa ser eliminado do nosso meio; todos, mesmo os indígenas, são indesculpáveis diante de Deus. Há também os que precisam de encorajamento para evangelizar. Como é difícil falar do evangelho! Às vezes você percebe que há uma barreira, mas quero lhe sugerir uma ponte: essa pessoa para a qual você está querendo testemunhar de Cristo Jesus sabe que está errada, que não tem cumprido a lei de Deus, ela sente culpa. É claro que ela disfarça, argumenta, raciocina, racionaliza, procura não pensar nisso; mas, bem lá no fundo, ela tem essa consciência, isso está gravado em seu coração. Lá no íntimo, essa pessoa sabe que Deus existe e que ela está fazendo coisas que não lhe agradam. Então, aproveite essa ponte na hora da evangelização, quando você for conversar com seu amigo. Na maioria das vezes não é preciso chegar falando em termos e nomes teológicos, perguntando se a pessoa sabe quem é Calvino ou coisas do tipo. Comece com aquilo que você e a pessoa têm em comum: o fato de que os dois são pecadores. Com isso você já constrói uma ponte. Comece com a questão da culpa, da angústia, da aflição, do medo, da incerteza: “Você sabe de onde vem isso? Por que se sente assim?”. Pode ser que a pessoa até negue que sente isso, mas você pode afirmar que ela sabe que alguma coisa não está certa. Essa ponte pode ser usada para a comunicação do evangelho e também, é claro, pode ser usada no campo missionário, na fronteira da evangelização. Quero encorajá-lo a testemunhar na escola, no ambiente de trabalho e no campo missionário. Aos pais que têm filhos pequenos ou adolescentes também tenho algo a dizer. Como é difícil criar essa turma, não é mesmo?! Saiba que seu filho já nasce sabendo que os pais estão certos e ele está errado, e que ele ou ela vai fazer muita coisa errada. E pode ter certeza de que aquele choro muitas vezes não é dor, não, é birra mesmo. Seu filho já nasceu com essa consciência de que há um Deus, e ele se sente inadequado. Mas ele ainda não sabe expressar isso, dependendo da idade. À medida que for crescendo, começará a entender esse desconforto interior que sente, porque “até a criança se revela por suas ações” (Pv 20.11) e “A tolice está ligada ao coração da criança” (22.15). Então, não olhe para o seu filho como se ele fosse um anjinho. Para começar, é filho seu, então não existe a possibilidade de ser anjo. Lembre-se de que ele nasceu com a imagem de Deus e tem consciência do certo e do errado, dois pontos que você vai querer usar na hora de educá-lo e ensiná-lo nos caminhos do Senhor. Isso tudo ajuda a nos entendermos melhor: por que sou como sou; por que determinadas coisas tiram a minha paz; por que há determinados procedimentos que a princípio parecem prazerosos, mas depois trazem culpa ao meu coração; por que determinadas coisas me incomodam; por que simplesmente não consigo ficar calado diante do erro. A resposta é que a norma da lei está escrita no meu coração e no seu. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, somos seres morais. O mundo anda dizendo ultimamente que a verdade é relativa, que cada um faz sua própria norma, mas isso é uma grande bobagem. Nem quem afirma tal coisa consegue viver com as consequências dessa aberração. Se você der um beijo na mulher do homem que está dizendo que não existe certo nem errado, na mesma hora verá com certeza se ele acredita nisso! Nem os relativistas conseguem viver com esse relativismo, porque o relativismo vai contra a natureza humana. Existem princípios e regras fundamentais, leis e verdades que pertencem à humanidade como um todo, porque Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Desse modo, essa passagem nos ajuda a entender por que somos assim e por que não conseguimos viver com base no relativismo. Simplesmente porque somos seres morais criados com a intuição do certo e do errado. Nós, crentes, temos uma responsabilidade ainda maior, porque temos a intuição do certo e do errado, a lei de Deus gravada no coração, conhecemos a Lei de Moisés e o evangelho de Jesus Cristo, ou seja, no dia do juízo, o julgamento será para nós muito mais severo. Somente escutar a pregação todo domingo não vai nos salvar; é um bom começo, porque a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, mas simplesmente frequentar uma igreja e ouvir sermões todo domingo na verdade só aumenta a minha e a sua responsabilidade. Sugiro que hoje pense no privilégio que é ter todo esse conhecimento disponível diante de si pelo evangelho e também na grande responsabilidade, no dia em que Deus haverá de julgar os segredos dos homens por meio de Jesus Cristo, segundo esse evangelho. Que Deus tenha misericórdia de nós e que hoje possamos reconhecer a sua justiça e também a sua misericórdia. Que sejaassim a nossa oração: “Senhor, se não vieres nos salvar, nós estaremos perdidos. Tenha misericórdia de nós, por amor de Jesus”. É importante começar a exposição dessa passagem lembrando um pouco da história do Antigo Testamento. Deus, há muito tempo, antes de Cristo, apareceu a um homem Capítulo 13 A HIPOCRISIA E SEUS DEFEITOS Romanos 2.17-24 Escândalo em vez de bênção e salvação Mas se tu te chamas judeu, te apoias na lei e te glorias em Deus; e conheces a vontade dele, aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei, e estás convencido de que és guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, que tens na lei a formulação do conhecimento e da verdade. Tu, pois, que ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, rouba-lhes os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre as nações. chamado Abrão, que morava na Mesopotâmia, e revelou-se a ele como o único Deus verdadeiro. Deus lhe fez promessas, deu-lhe uma aliança e preceitos. Aos descendentes de Abraão, Deus revelou-se mais tarde mediante a legislação, preceitos, normas e promessas que foram dadas por meio de Moisés, no monte Sinai. O Senhor revelou a esse povo descendente de Abraão o seu amor, a sua aliança e o seu propósito de, por meio dele, alcançar o mundo inteiro com a redenção que era necessária. Israel — esse é o nome dado aos descendentes de Abraão —, tendo recebido a verdade, o culto, as promessas e o verdadeiro conhecimento de Deus, deveria levar esse conhecimento a todas as nações, e um dia, de entre os filhos de Abraão, de entre a nação de Israel, viria aquele que seria o Salvador do mundo, o Messias prometido e esperado, que haveria de esmagar a cabeça da serpente e oferecer-se como sacrifício pleno e completo pelos pecados do povo de Deus. Em síntese, a religião que Deus revelou aos filhos de Abraão era uma religião de graça, misericórdia, amor e compaixão. Os judeus, ao receberem os mandamentos, receberam junto um sistema de sacrifícios nos quais se ofereciam animais, cujo sangue era derramado com a finalidade de expiar os pecados cometidos. Assim, quem entendeu com clareza o que Deus estava fazendo no Antigo Testamento sabia que nunca seria salvo pela obediência àquelas normas, mas que a salvação era mediante a fé na promessa de Deus de que viria um Messias, um descendente de Abraão, um descendente de Davi, que haveria de se oferecer em sacrifício e morrer pelos pecados do povo de Deus. Quando o judeu olhava aquele animal sendo morto no templo e o sangue sendo derramado, ele, pela fé, contemplava o Messias que haveria de vir. Então, podemos dizer que no Antigo Testamento havia uma religião — e aqui uso o termo “religião” não de forma pejorativa, como é usado hoje, mas simplesmente para me referir a esse sistema religioso dado por Deus naquela época — de fé e graça. Nunca, jamais ninguém se salvou por obediência à lei ou pela prática das obras da lei no Antigo Testamento. É importante dizer isso, pois muitos evangélicos costumam dizer que no Antigo Testamento imperava a lei e que no Novo Testamento impera a graça. Na verdade, sempre foi graça que imperou. Davi foi salvo pela graça, pela fé no Messias; Abrão foi salvo pela fé nas promessas de Deus; os profetas também; todos os homens e mulheres de Deus no Antigo Testamento foram salvos pela fé no Messias que haveria de vir. Mas o que aconteceu alguns séculos antes de Cristo foi que os judeus perderam essa perspectiva e começaram a interpretar a lei de Deus, os mandamentos, aquelas leis referentes à pureza, à guarda de determinados dias, como fins em si mesmos. Eles começaram a guardar as ordenanças da lei com o objetivo de alcançar mérito diante de Deus e passaram a entender que o caminho da salvação era a obediência estrita aos mandamentos de Deus. Desse modo, eles não somente passaram a ter uma compreensão errada da lei que Deus dera, mas também adicionaram mais leis ainda, criaram preceitos e inventaram normas que não haviam sido dadas por Deus por meio de Moisés ou dos profetas. Então, quando Jesus Cristo veio ao mundo, encontrou um judaísmo deturpado, não mais a verdadeira religião que Deus dera aos judeus. Foi por isso que Jesus condenou a arrogância dos fariseus e contou, como já vimos aqui, aquela parábola do fariseu e do publicano que subiram ao templo. Chegando lá, o fariseu, gloriando-se, orava consigo mesmo, dizendo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como este publicano” (Lc 18.11). Enquanto isso, o publicano, que era um miserável pecador e não tinha coragem sequer de olhar para o céu, dizia: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, um pecador!” (18.13). Jesus, então, conclui a parábola perguntando quem Deus havia perdoado. E diz que não foi o judeu arrogante, que pretendia por justiça própria ser recebido, mas, sim, aquele publicano pecador que se humilhou e reconheceu que precisava de misericórdia. Jesus contou também a parábola do filho pródigo, o filho mais novo de um homem rico que revolveu ir embora e desperdiçar todos os seus bens. Certo dia, ele se arrependeu e voltou para casa. O pai recebeu o filho com muita alegria, mas o irmão mais velho do pródigo não gostou da atitude do pai, a quem questionou: “Como é que o senhor recebe esse pecador miserável que gastou tudo? Eu passei a minha vida toda cumprindo suas ordens e nunca me deste nada!”. (A parábola está registrada em (Lc 15.11- 32). O filho mais velho representa os judeus. Jesus contou essa história justamente para mostrar como o judeu tinha compreendido de forma errada o propósito de Deus em lhes dar a lei. O evangelista Mateus registrou um discurso de Jesus contra o farisaísmo, contra a hipocrisia dos judeus da sua época, que colocavam fardos em cima dos homens, leis e mais leis, ao passo que eles mesmos não queriam levantar sequer um dedo para mover aqueles fardos (veja Mt 23). Na passagem abordada neste capítulo, encontramos o apóstolo Paulo, que tinha sido um judeu estrito, que seguia à risca as normas e a lei, expondo a verdade a respeito do judaísmo da sua época. Seu ponto central é exatamente mostrar que o judeu não pode pensar que será tratado de forma diferente por Deus pelo fato de este lhe haver concedido muitos privilégios que não concedera a outros povos. E ainda pior era o fato de que o judeu, mesmo tendo recebido de Deus a lei, a graça e as promessas, não consegue viver coerentemente de acordo com as demandas da lei. Em resumo, Paulo está querendo mostrar que Deus dera privilégios à nação de Israel para que ela fosse uma bênção para os outros povos, para que os judeus os recebessem com humildade e os servissem. Mas o que eles fizeram? Acharam que aquilo era um privilégio especial que fazia deles um povo diferente, e que Deus usaria dois pesos e duas medidas no dia do juízo (alguns rabinos chegavam a dizer que um filho de Abraão jamais seria condenado ao inferno). Eles desprezavam os outros povos, julgavam-nos e achavam que, porque tinham a lei de Deus, seriam tratados de maneira diferente. Nesses versículos que estamos analisando, o apóstolo Paulo critica essa falsa confiança e a hipocrisia que há no fato de alguém viver de forma diferente do que diz, exatamente como faziam os judeus da sua época. Paulo mostra a gravidade desse ponto primeiro mencionando os privilégios que Deus deu ao povo judeu (Rm 2.17-20). Depois, Paulo denuncia a falsidade que os judeus viviam, pois eles deveriam praticar o que ensinavam aos outros, mas, na verdade, não praticavam. Para sua denúncia, ele escolhe três pecados característicos do judaísmo da sua época (2.21-23). E termina falando do efeito desastroso disso entre os povos: o nome deDeus, que era para ser engrandecido pelos judeus, na verdade acabava sendo enlameado (2.24). Muitos de nós nos perguntamos o que isso tudo tem a ver conosco. Sugiro que, durante a exposição da passagem, dirigida primariamente aos judeus, coloque-se na posição deles, pois, assim como os judeus, nós, os chamados cristãos, também recebemos privilégios da parte de Deus: conhecemos a verdade, fomos iluminados, recebemos o evangelho. Infelizmente, porém, nossa conduta com frequência tem sido motivo de escândalo para aqueles a quem deveríamos ser canal de bênção e de salvação. Em vez de ler essa passagem e pensar, no íntimo, “Bem feito para os judeus!”, deveríamos nos colocar no lugar deles, pois, no fim, essa é de fato a aplicação da passagem para nós. Os privilégios que Deus deu aos judeus Paulo começa um diálogo com esse judeu fictício que representa os demais, dizendo: “Mas se tu te chamas judeu, te apoias na lei e te glorias em Deus; e conheces a vontade dele, aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei, e estás convencido de que és guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, que tens na lei a formulação do conhecimento e da verdade”. Na verdade, o apóstolo não tinha diante de si nenhum judeu. Trata-se de uma diatribe. Conforme já vimos antes, é um artifício de retórica em que, para tornar um ensinamento mais claro, o autor imagina que está discutindo determinado assunto com alguém. Então, lá estava Paulo em sua casa, ditando essa carta para Tércio (que, como vimos, foi quem registrou a Carta aos Romanos), e de repente começa a falar como se estivesse discutindo com algum judeu. Nessa discussão imaginária, Paulo lembra a esse judeu a atitude errada que ele tinha com relação aos privilégios que recebera de Deus. Ao começar com a frase: “Mas se tu te chamas judeu” (2.17), Paulo quer mostrar como alguns se orgulhavam de poder se chamarem judeus. Antes de concluir seu raciocínio, dizendo: “Tu, pois, que ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo?” (2.21), Paulo reforça a seriedade do que está dizendo, ao mostrar os privilégios que o judeu recebeu. A primeira afirmação dele — “Mas se tu te chamas judeu” — mostra que eles se gloriavam disso. A palavra judeu vem de Judá, a tribo mais proemi-nente de Israel, onde estava situada a cidade de Jerusalém, que havia se tornado o centro da religião judaica. O judeu gloriava-se de ser chamado judeu porque esse nome designava a sua religião — eles eram hebreus, mas sua religião era a judaica, que tinha seu centro em Judá. Esse era um título que eles gostavam de mencionar: “Eu sou Simão, o judeu”. Eles tinham orgulho de ser chamados assim, pois isso apontava para o fato de que eles tinham recebido de Deus a revelação única, a única religião verdadeira. Paulo lista, então, alguns privilégios dados por Deus aos judeus. O judeu repousava na lei Este é o primeiro privilégio que o apóstolo menciona: “Mas se tu [...] te apoias na lei” ou, como está em outras versões, “repousas na lei” (2.17, ARA). Repousar aqui quer dizer descansar no fato de que Deus deu a lei aos judeus por meio de Moisés. O judeu achava que isso era garantia de salvação, por isso repousava no fato de ter recebido a lei. Para eles, o fato de Deus ter escolhido os judeus, os descendentes de Abraão, para receberem a sua revelação, significava que eram um povo especial e que Deus não os condenaria mais. Por isso, achavam que podiam repousar, ficar tranquilos, pois a salvação estava garantida. O judeu gloriava-se em Deus O segundo privilégio que o apóstolo menciona é este: “... e te glorias em Deus” (2.17). De fato, o judeu podia se gloriar em Deus porque fazia parte do único povo que havia recebido o conhecimento do verdadeiro Deus; os demais deuses das outras nações eram deuses falsos. Deus revelou-se somente a Israel, e o judeu gloriava-se nisso. É como se o judeu pensasse o seguinte: “O nosso Deus é o único Deus verdadeiro, os deuses pagãos são deuses falsos, e o fato de o único verdadeiro Deus nos ter escolhido significa que somos um povo especial, que não vamos ser tratados como as demais nações”. O judeu gloriava-se por conhecer a vontade de Deus Paulo cita um terceiro privilégio, quando diz: “... te glorias [...] e conheces a vontade dele” (2.17,18). De fato, o judeu conhecia a vontade de Deus, que lhe fora revelada por meio das Escrituras Sagradas, por meio de Moisés e dos profetas. Os outros povos não tinham esse conhecimento; o que eles conheciam de Deus era pela natureza e pela consciência (como já vimos no primeiro capítulo de Romanos). Os judeus, portanto, receberam um conhecimento da vontade de Deus muito mais claro e muito mais elevado na forma da lei. O judeu aprovava as coisas excelentes Paulo prossegue, citando o quarto privilégio: “... aprovas as coisas excelentes” (v. 18). Aqui há uma referência ao fato de que o judeu, por saber o que era certo e o que era errado, podia aprovar o que era certo, pois Deus lhe havia dito na lei: “Não faça isso, não faça aquilo, faça isso, isso e isso”. Os outros povos não tinham esse privilégio; embora tivessem uma consciência do certo e do errado, ela não era tão clara como, por exemplo, os Dez Mandamentos, lei em que o povo de Deus foi instruído com clareza quanto a que determinadas coisas estão certas e determinadas coisas estão erradas. Então, o judeu gloriava-se por saber reconhecer o que era o certo e o que era errado, enquanto as nações pagãs viviam na ignorância. O judeu era instruído na lei Paulo enumera o quinto privilégio, a saber, o fato de que o judeu é “instruído na lei” (2.18) e gloria-se disso. O judeu tinha recebido a Lei de Moisés, os rabinos a ensinavam e todo sábado ela era lida nas sinagogas. Desde criança o judeu decorava a lei; aos 12 anos, ele tinha o Bar Mitzvá, a festa de iniciação em que o menino judeu tinha de recitar textos e mais textos da Lei de Moisés para poder ser recebido na comunidade como adulto responsável. Tudo isso era motivo de orgulho para o judeu. O judeu era guia dos gentios cegos,luz dos que estavam em trevas O judeu era instruído na lei e tinha todo o conhecimento a respeito de Deus. Por isso Paulo menciona o sexto privilégio: “... estás convencido de que és guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas” (2.19). Ele estava certo, pois tinha recebido a luz de Deus, a verdade a respeito dele, e os outros estavam em trevas, eram como cegos sem conhecer a verdade divina; eram ignorantes da verdade de Deus. Mas o judeu se via como superior, pois era o guia desses cegos, era a luz desses povos que estavam em trevas. O judeu era instrutor de ignorantes e mestre de crianças Paulo diz que o judeu se gloria de ser “instrutor de ignorantes” (2.20). Os ignorantes aqui eram os povos gentios, os pagãos, que não tinham conhecimento de Deus. Eles eram mesmo ignorantes a respeito de Deus, e a nação de Israel tinha recebido a verdade para ensiná-la aos outros. Deveriam fazer isso com muita humildade, com gratidão a Deus, cientes de mais esse privilégio que Deus lhes tinha dado. Porém, tornaram-se arrogantes porque viam a si mesmos como mestres e aos outros como ignorantes, pois eles é quem detinham todo o conhecimento. Pensavam assim porque tinham a lei, na qual estava “a formulação do conhecimento e da verdade” (2.20). A sabedoria e a verdade haviam sido dadas ao judeu na forma da lei que receberam de Moisés. Qual é o problema nesse cenário? É a questão de que todos esses privilégios eram reais: de fato, Deus só se revelou à nação de Israel, a verdade estava com a nação judaica, a luz da verdade estava com o povo judeu, e as promessas também. Eles haviam sido colocados por Deus para ser luz para os gentios, instrutores das nações, para levar a verdade de que existe um só Deus, único e verdadeiro, e que ele haveria de enviar um Salvador para o mundo. Isso estava certo. Mas qual era o problema na atitude do judeu? O problema é queo judeu se vangloriava disso e achava que Deus havia feito tais coisas por eles merecerem, por serem uma raça mais elevada, superior aos demais povos. Por acharem isso, tratavam com desdém e desprezo os outros povos. Na leitura de testemunhos escritos por pagãos, gregos e romanos dessa mesma época, é possível perceber que eles odiavam os judeus, criticavam-nos, zombavam deles, porque os judeus tinham a atitude de um povo superior, que não se misturava com os outros, que condenava constantemente os pecados dos gentios. Mas o pior Paulo ainda iria mostrar: esse povo, tendo recebido todos esses privilégios, não tinha a menor base para achar que estava salvo. O fato de receberem a lei e terem sido o povo escolhido por Deus de entre os outros povos no Antigo Testamento não era garantia de salvação, nem garantia de que no dia do juízo eles seriam perdoados, tratados de maneira diferente dos outros. Paulo aponta isso mostrando a incoerência interna ou a incoerência que existia na prática e no pensamento dos judeus da sua época. Paulo denuncia a hipocrisia do judeu Paulo, então, começou listando os privilégios dos judeus, e em seguida passa a listar as atitudes deles, que mostram que não estavam à altura dos privilégios que receberam. O princípio geral era a pretensão deles de ensinar os outros, mas não a si mesmos: “Tu, pois, que ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo?” (2.21). Era a primeira denúncia que Paulo fazia nessa passagem, uma denúncia geral. É como se Paulo dissesse: “Você, que ensina os outros, que acha que é um mestre de crianças, instrutor de ignorantes, guia dos cegos, daqueles que estão em trevas, você, que ensina os pagãos, que diz a eles que estão errados, pois adoram falsos deuses, cometem pecados contra Deus, por que você não ensina primeiro a si mesmo?”. Quando Deus nos dá a verdade, ele quer que primeiro sejamos instruídos por ela, para depois passarmos a instruir outros. Jesus havia dito: “Por que vês o cisco no olho de teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mt 7.3). É necessário primeiro tirar a trave do próprio olho para poder ver o cisco que está no olho do outro. Paulo está dizendo a mesma coisa que Jesus, porém com outras palavras. O apóstolo lista, então, três situações. Não se sabe direito por que Paulo escolheu estes três pecados em particular: roubo, adultério e idolatria. Talvez porque esses três eram bem destacados na Lei de Moisés, desvios que ela proibia com muita veemência: o roubo, a desonestidade, o latrocínio, o adultério, a imoralidade sexual e a idolatria. A Lei de Moisés era muito rigorosa em relação a essas coisas, e o judeu sabia disso. Outra razão provável é que essas práticas eram comuns no judaísmo da época do apóstolo Paulo. Juntando as duas coisas, talvez tenhamos a razão por que Paulo foca nesses três pecados nessa passagem. O judeu pregava contra o furto e furtava “Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?” (2.21). Os judeus na época de Paulo e no primeiro século eram conhecidos por serem desonestos e trapaceiros nos negócios que faziam com os gentios. Quando um judeu fazia negócio com outro judeu, aí sim ele era honesto. Mas, como olhavam os gentios com desprezo, não achavam que era errado, na hora de fazer negócios com eles, usar de artifícios, silogismos e subterfúgios para tirar vantagem. Isso era do conhecimento de muitos naquela época, e está presente nas declarações de autores gregos e romanos que escreveram contra os judeus. Todos sabiam que quem não era judeu precisava ter muito cuidado na hora de fazer negócio com um judeu. Qualquer judeu do primeiro século poderia ler essas linhas e dizer que essa não era a realidade de todos os judeus, o que também é verdade. Evidentemente, não estou generalizando, estou apenas dizendo que naquela época era sabido — e há testemunhos disso — que muitos judeus tinham essas práticas no comércio, quando faziam negócios com outros povos. Entre eles havia respeito, mas com outros povos sentiam liberdade para proceder de maneira desonesta. Por isso Paulo está questionando o judeu, que pregava aos outros: “Não furtarás” (Êx 20.15) — porque este é um dos mandamentos da lei de Deus, que o judeu recebeu —, mas furtava, usava de subterfúgios nos negócios, era desonesto em suas transações e, ao mesmo tempo, ficava lá na sinagoga dizendo que é proibido furtar. O judeu pregava contra o adultério e adulterava “Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras?” (2.22). De fato, “Não adulterarás” (Êx 20.14) é o sétimo mandamento da lei de Deus. Os judeus haviam recebido a lei, sabiam que era verdadeira; eles a liam na sinagoga, falavam a respeito dela, condenavam os gentios por viverem na imoralidade sexual, mas eles mesmos também cometiam adultério. Há casos e relatos de que era muito comum, em determinado período, esse tipo de atitude entre rabinos, e que era por isso que a posição preferida com relação ao divórcio, adotada pela nação de Israel naquela época, é que o marido pudesse se divorciar da mulher por qualquer motivo. Por isso uma vez questionaram Jesus a esse respeito, porque a posição que em geral adotavam é que um homem poderia abandonar a sua mulher alegando qualquer motivo, quando a verdadeira razão era que ele queria ficar com outra. Jesus condenou esse pensamento que se tornara comum em seu tempo, e agora Paulo também faz o mesmo. O judeu pregava contra os ídolos, mas roubava seus templos “Tu, que abominas os ídolos, rouba-lhes os templos?” (2.22). Os dois primeiros mandamentos da lei de Deus condenam a idolatria: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida” (20.3,4). O judeu falava da idolatria, condenava a idolatria que havia entre os povos pagãos, denunciava esse culto falso a deuses estranhos, que eram representados por imagens. Os templos pagãos eram cheios de esculturas feitas de ouro, prata, pedras preciosas e materiais nobres. Também havia utensílios usados nos cultos pagãos, como pás, colheres de prata, facas, utilizados na alimentação e nos sacrifícios, tudo feito de material precioso. O judeu dizia: “Isso é idolatria!” e nem sequer entrava no templo pagão. Mas o que Paulo diz nesse versículo é que o judeu condena a idolatria, abomina os ídolos, mas rouba os templos. Paulo pode estar se referindo a duas coisas: primeiro, que o judeu geralmente não entrava nos templos, mas, quando fazia guerra contra os pagãos e saía vitorioso, entrava no templo dos pagãos e saqueava seus ídolos. Quer dizer, ele era contrário aos ídolos, mas, na hora de entrar no templo, pegar os ídolos cheios de pedras preciosas, ouro e prata, não via problema. A segunda coisa a que Paulo pode estar se referindo é o fato de haver notícias de que, no comércio, os judeus, usando de práticas conhecidas, eram capazes de comprar e negociar objetos provenientes dos templos pagãos, utensílios sagrados. Mas aí é como se Paulo dissesse: “Espera aí, mas isso não é idolatria? Você não é contra? Então, você prega contra a idolatria, mas rouba os templos pagãos, tira proveito das riquezas que estão nos templos pagãos?”. O alvo de Paulo é mostrar a incoerência do judaísmo da sua época, como eles não tinham a menor base para pensar que receberiam de Deus um tratamento diferenciado. Em resumo, os judeus se gloriavam na lei, mas a quebravam sistematicamente: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (2.23). Era isso que o judeu fazia, ele se gloriava na lei dizendo que a havia recebido de Deus, que ele os escolhera, lhes dera as promessas, a aliança, o culto, a verdade e a luz. Mas, ao mesmo tempo em que se gloriava nessas coisas, ele desonrava Deus transgredindo essa mesma lei. Isso é o que chamamos de hipocrisia, dizer uma coisa e fazer outra. Em decorrência desse mau testemunho, Paulo aponta: “Pois, como está escrito, por vossa causa o nome de Deus é blasfemado entre as nações” (2.24). O nome de Deus, que deveriaser glorificado entre as nações por meio do testemunho dos judeus, que deveria ser levado como salvação para os gentios que viviam em trevas e na ignorância, estava sendo blasfemado (blasfemar significa falar mal de alguém ou de algo). Então, os gentios daquela época olhavam para o judeu com desprezo, exatamente porque o judeu era a figura do hipócrita, aquela pessoa falsa, que tinha uma moralidade de aparência, mas não a colocava em prática. Consequentemente, acontecia o que vemos acontecer hoje: “Olhe lá o evangélico, diz que é crente, mas tem a boca suja, namora várias mulheres ao mesmo tempo, não é honesto nos negócios etc. Mas todo domingo ele está na igreja, é membro da igreja, participa da ceia”. Nós ouvimos isso hoje, e a mesma coisa acontecia com o judeu da época de Paulo. O nome de Deus era mal falado entre os povos em razão do mau testemunho daqueles que diziam conhecer a Deus e a sua verdade. Deus os escolhera e lhes concedera privilégios, mas eles destruíam com as mãos aquilo que pregavam com a boca, porque pareciam ignorar o fato de que os nossos atos falam mais alto do que as nossas palavras. Conclusão e aplicações práticas Os judeus não tinham nenhuma base para pensar que seriam salvos só por terem recebido a lei e outros privilégios. Eles eram tão culpados e condenáveis quanto os gentios, os pagãos que eles criticavam e menosprezavam. Na verdade, o judeu estava em uma situação até pior, porque “a quem muito é dado, muito será exigido” (Lc 12.48) e, com esse argumento, Paulo está provando um dos pontos principais da Carta aos Romanos: todos pecaram e carecem da glória de Deus — tanto judeus quanto gentios. Ninguém será salvo por mérito humano, ninguém merece de Deus coisa alguma; todos se extraviaram, todos transgrediram a lei divina, todos agem contra a luz que receberam da parte do Altíssimo. Por isso, se Deus não nos salvasse mediante o evangelho, todos nós estaríamos perdidos, pois não há salvação em nós mesmos, não há como eu justificar a mim mesmo diante de Deus, não há como eu receber de Deus um favor com base no que eu sou, no que eu faço. A moralidade não vai me salvar, porque ela é hipócrita; a religiosidade não vai me salvar, porque ela é insuficiente. Não há nada que eu faça que me justifique diante de Deus. Portanto, se ele não tiver misericórdia de mim, se ele não me salvar, eu estou perdido. Eis o evangelho — por isso que o nome é evangelho, termo que no grego significa “boa-nova”, “boa notícia”. Deus teve compaixão de nós; apesar do que foi feito pelos judeus, apesar do que foi feito pelos povos pagãos, assim mesmo ele enviou seu Filho Jesus Cristo, cumprindo todas as promessas que havia feito, pois elas não são condicionais; são, sim, expressão do querer eterno de Deus. Cristo veio e na cruz do Calvário morreu pelos nossos pecados; ele sofreu o nosso castigo, experimentou a nossa punição, foi castigado em nosso lugar, e agora Deus pode livremente justificar pecadores como você e eu, nos receber como seus filhos, nos dar pleno perdão e, finalmente, a vida eterna e a salvação. Isso é o evangelho. Mas ele só pode ser entendido se você primeiro entender que está perdido, por mais religioso que seja. Por mais que tente, não há nada em você que mereça redenção, e o evangelho é exatamente a boa notícia de que Deus salva pecadores. Se ainda não compreendeu a graça e a misericórdia de Deus, desejo que hoje você se volte para ele. A salvação não é condicionada à sua bondade humana. Talvez imagine que não há jeito de você ser salvo, pois já pecou demais ou encontra-se numa situação muito terrível. Mas a salvação veio exatamente para pecadores, pois isso é o que você e eu somos. Cristo não veio para justos, pois, afinal, quem precisa de médicos são os doentes. Então, não há nada de mal que você tenha cometido que possa afastá-lo do amor e do perdão de Deus que há em Cristo Jesus. Diga apenas: “Deus, eu sou um pecador e reconheço que tenho pecado contra ti, tenho quebrado a tua lei, não mereço nada a não ser a tua condenação. Mas hoje quero me entregar de forma plena, sem restrições e incondicionalmente a Jesus Cristo, meu Salvador, que na cruz pagou toda a minha culpa”. Você pode fazer isso hoje, e a salvação o alcançará. Nós, que um dia já fizemos isso, vamos orar como o salmista: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23,24). “Não fiquem frustrados por minha causa os que esperam em ti, ó SENHOR, Deus dos Exércitos; não passem vexame por minha causa os que te buscam, ó Deus de Israel” (Sl 69.6). Que nós não sejamos motivo de tropeço para aqueles que estão em trevas, que ainda não receberam a luz da verdade. Examine a sua vida, peça a Deus renovação, quebrantamento e transformação, porque ele quer um povo que seja luz e bênção para todos. C omo contei no capítulo anterior, muitos séculos antes de Cristo, Deus apareceu a um homem de nome Abrão, um caldeu que morava numa cidade chamada Ur, na Mesopotâmia, na bifurcação dos Capítulo 14 A VERDADEIRA CIRCUNCISÃO Romanos 2.25-29 Deus anseia pelo convertido de coração Porque, de fato, a circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei; mas se és transgressor da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão. Então, se os que são da incircuncisão cumprirem os preceitos da lei, não serão eles mesmos considerados circuncisos? E, se cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão, ele julgará a ti, que és transgressor da lei com a letra e a circuncisão. Porque judeu não é quem o é exteriormente, nem é circunciso quem o é apenas no exterior, na carne. Mas judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do coração, realizada pelo Espírito, não pela letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus. rios Tigre e Eufrates. Abrão era um idólatra, um astrólogo preso às superstições e à ignorância das religiões daquela época (a palavra Abrão significa “pai elevado”, que alguns intérpretes atribuem ao fato de ele elevar os olhos e consultar as estrelas). Um dia, soberanamente, Deus, o único Deus verdadeiro, apareceu a esse homem. (“Por que a ele e não a outro?”, talvez você se pergunte. Bem, isso está nos desígnios soberanos do Altíssimo.) Enfim, Deus fez algumas promessas a Abrão e também estabeleceu uma aliança com ele. Mandou que saísse de onde vivia com seus parentes e, deixando tudo para trás, fosse para uma terra desconhecida. O Senhor prometeu que daria aquela terra a ele e a seus descendentes; garantiu que ele seria o pai de uma grande nação e que ele seria abençoado por Deus; seus ç p ; filhos seriam uma bênção para todas as nações e, um dia, de entre seus filhos, surgiria aquele que haveria de ser o Messias, o Salvador do mundo. Sem dúvida, foi um grande privilégio que Deus deu a esse homem! Mais adiante, Deus mudou seu nome de Abrão (“pai exaltado”) para Abraão (“pai de multidão”) e estabeleceu uma marca que haveria de selar sua aliança com ele e identificar os seus descendentes: a circuncisão, isto é, a remoção da pele do prepúcio de todos os meninos de sua linhagem. Quando o recém-nascido completasse oito dias de vida, teria de ser circuncidado, pois essa era a marca da aliança que Deus fizera com Abraão e seus descendentes. Esse era o sinal da aliança e da fé que o patriarca demonstrava, porque Deus lhe apareceu, e Abraão, por sua vez, obedeceu ao chamado divino. Ele saiu da terra de seus pais em direção à terra desconhecida que Deus lhe prometera, foi circuncidado já idoso, circuncidou os da sua casa e também submeteu todos os seus descendentes a esse ritual. A circuncisão tinha como objetivo identificar o hebreu — hebreu é filho de Abraão, também chamado de judeu ou israelita. Essa marca que Deus mandou que Abraão colocasse em si e em seus descendentes era um símbolo que, na verdade, simbolizava a conversão interior, um coração temente a Deus, um espírito submisso a ele, umavida de obediência ao Senhor. Era isso que a circuncisão pretendia ensinar aos descendentes de Abraão. Moisés, muitos anos depois de Abraão, quando deu a Lei aos filhos do patriarca hebreu, disse: “Circuncidai o vosso coração” (Dt 10.16). A circuncisão era só uma marca que representava o que Deus quer de verdade, ainda hoje: a circuncisão do coração. Em outro trecho de Deuteronômio, Moisés abordou isso uma vez mais: “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração, e o coração da tua descendência, a fim de que ames o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a alma, para que vivas” (Dt 30.6). A circuncisão era um símbolo da conversão do povo, aquela ação de Deus no interior, porque só assim o judeu poderia amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento. Jeremias, ao proferir uma de suas profecias, certa vez dirigiu- se ao povo de Deus, aos descendentes de Abraão, e disse: “Circuncidai-vos ao SENHOR e circuncidai o coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém” (Jr 4.4). Toda vez que os descendentes de Abraão não queriam obedecer a Deus e deixavam de lhe demonstrar amor, os profetas referiam-se a eles como sendo incircuncisos. Por exemplo, o próprio Jeremias chegou a denunciar: “Eis que os seus ouvidos estão incircuncisos e não podem ouvir” (Jr 6.10, ARA). Em outras palavras, a circuncisão era uma marca aplicada no corpo, mas simbolizava uma operação espiritual, que era feita no coração. O que Deus queria na verdade é que seu povo fosse convertido de coração, que fosse submisso a ele, que o amasse e vivesse para glorificá-lo. Na época de Jesus e de Paulo, séculos depois que a circuncisão havia sido dada como a marca da aliança com Abraão, os judeus já haviam esquecido o que ela simbolizava. Com o passar do tempo, eles começaram a ver a circuncisão apenas como a marca do povo eleito de Deus e a acreditar que o Senhor dos Exércitos jamais condenaria ao inferno quem fosse circuncidado. Havia rabinos que afirmavam que Deus jamais mandaria para a geena, ou inferno, quem houvesse recebido a marca da circuncisão. Portanto, o judeu vangloriava-se disso, uma vez que era circuncidado, e a circuncisão para ele era sinônimo de garantia da vida eterna e de felicidade depois da morte. Tanto é que eles se referiam de forma pejorativa aos povos não circuncidados como “esses incircuncisos”, que estavam condenados e destinados ao inferno, de cujo fogo eram o combustível. O judeu ortodoxo orava agradecendo a Deus por não ter nascido cachorro, nem gentio incircunciso; agradecia a Deus por fazer parte do povo da aliança, por ter a marca da circuncisão, a qual garantia, segundo seu entendimento, sua entrada no céu. Um fato bastante conhecido ilustra a mentalidade dos judeus da época de Jesus e do apóstolo Paulo. João Batista foi mandado por Deus para anunciar a chegada do Messias e começou a pregar o evangelho, dizendo que seus ouvintes deveriam se arrepender dos seus pecados, porque a vinda do Salvador estava próxima. No evangelho de Mateus vemos que muitos judeus chegavam para ser batizados e ouviam o seguinte de João: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi fruto próprio de arrependimento. Não fiqueis dizendo a vós mesmos: Abraão é nosso pai! Eu vos digo que até dessas pedras Deus pode dar filhos a Abraão” (Mt 3.7-9). João Batista estava exortando o povo para que este se arrependesse, mas havia muitos entre os judeus que queriam ser batizados por João Batista, sem, porém, se arrepender. João Batista foi bem taxativo ao afirmar que eles não deveriam ficar pensando que seriam salvos de qualquer maneira, apenas porque eram filhos de Abraão e foram circuncidados ao nascer. Segundo ele, Deus, se quisesse, poderia usar até pedras para dar filhos a Abraão. Outro episódio que mostra como os judeus se achavam superiores por causa da circuncisão está relatado mais adiante, quando Jesus teve uma discussão com os religiosos de sua época referente a esse mesmo assunto. Os judeus lhe disseram coisas como: Somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; por que dizes: Sereis livres? [...] Nosso pai é Abraão. Mas Jesus lhes disse: Se fôsseis filhos de Abraão, estaríeis fazendo as obras de Abraão. [...] Mas agora procurais matar-me [...] Vós fazeis as obras de vosso pai. Eles reagiram: Não somos filhos de prostituição. Temos um Pai, que é Deus. [...] O vosso pai é o Diabo, e quereis satisfazer-lhe os desejos (Jo 8.33,39,40,41,44). Nas épocas de Jesus e do apóstolo Paulo, os judeus achavam que, pelo fato de serem descendência de Abraão e terem a marca da circuncisão, a salvação deles estava garantida. Com isso, descansavam na circuncisão e na lei que haviam recebido e viviam de forma incoerente. Jesus denuncia isso em Mateus 24, chamando-os de hipócritas, porque aparentavam ser uma coisa para os homens, mas na verdade quebravam tudo aquilo que ensinavam. Neste capítulo do nosso estudo de Romanos, vamos tratar de uma passagem em que encontramos o apóstolo Paulo discorrendo nessa mesma linha de João Batista e Jesus. Ele se dirige ao povo judaico e fala sobre duas coisas: primeiro, que a circuncisão não salvará o judeu (2.25-27); segundo, o que significa ser judeu de verdade, ou, em outras palavras, quem é o verdadeiro judeu (2.28,29). O objetivo de Paulo é mostrar que os judeus estarão perdidos e condenados diante de Deus se não se arrependerem e crerem em Jesus Cristo. No capítulo anterior, vimos o apóstolo afirmar que o fato de que eles receberam a lei não é garantia nenhuma de salvação, porque eles quebram a lei. Agora, Paulo continua a atacar essa falsa certeza de salvação dizendo que a circuncisão não lhes garante que sejam salvos. A circuncisão não salvará o judeu Vejamos, uma vez mais, o que diz Paulo no início dessa passagem: Porque, de fato, a circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei; mas se és transgressor da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão. Então, se os que são da incircuncisão cumprirem os preceitos da lei, não serão eles mesmos considerados circuncisos? E se cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão, ele julgará a ti, que és transgressor da lei com a letra e a circuncisão (2.25-27). O ponto central do argumento de Paulo nesses versículos é que a prática da lei é mais importante do que a circuncisão em si. Mas o que é praticar a lei? Veja que três vezes Paulo fala disso: “... a circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei” (v. 25); “... se os que são da incircuncisão cumprirem os preceitos da lei” (v. 26); “E se cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão...” (v. 27). Então, o que Paulo quer dizer por cumprir a lei? (Em outras versões aparecem termos como “guardar”, “praticar” e “observar” a lei.) A resposta é que, na verdade, ele não está se referindo à guarda legalista e rigorosa da Lei de Moisés nem à prática meritória dos mandamentos do Antigo Testamento pela observância de coisas como: “você não pode comer isso, não pode comer aquilo; deve guardar esse dia, guardar aquele outro; seguir as leis de purificação, as leis cerimoniais” etc. Guardar, observar, praticar e cumprir a lei não se refere a nada disso. Paulo está se referindo aqui a praticar e cumprir a lei como ela deveria ter sido guardada e praticada. Quando Deus deu a lei a seu povo, não tinha por objetivo que ela se tornasse um caminho de salvação do tipo: “Se vocês cumprirem todos esses rituais, vocês irão para o céu”. Não. O objetivo da lei era mostrar ao judeu que ele era um pecador, que não podia cumpri-la, e era também apontar para a necessidade da vinda do Messias. É por isso que a própria lei estabelecia o sacrifício de animais, o derramamento de sangue para perdão de pecados, porque já era sabido que o judeu não conseguiria cumprir a lei. Não é interessante isso? É como se Deus tivesse dado a lei e dito: “Aqui estão os Dez Mandamentos” e, em seguida: “Mas vocês vão oferecer sacrifícios”.Já se perguntou por que Deus estabeleceu os sacrifícios? Porque ele sabia que nenhum judeu guardaria a lei, eles iriam transgredir toda a lei, todas as normas da lei; por isso, ela já trazia embutida a graça e o perdão de Deus por meio dos sacrifícios. Guardar e cumprir a lei não era seguir rigorosamente, com precisão, o que a lei mandava, mas entender o propósito da lei, que fora dada a Israel por meio de Moisés, ou seja, que Deus é bom, gracioso, que eu sou pecador, não mereço nada dele, mas ele me oferece perdão por meio do Messias, o Filho de Abraão que haverá de vir ao mundo para perdoar os meus pecados. Os sacrifícios tipificavam essa ideia. Assim, o judeu de verdade, aquele que temia a Deus, guardava a lei, observava seus preceitos como gratidão a Deus, aproximava-se dos sacrifícios em fé, olhava para aqueles animais sendo sacrificados e ali confiava a sua esperança, dizendo: “Deus, sei que sou perdoado por causa desse sangue derramado, que representa o sangue do Messias que haverá de vir”. É isso que significava guardar a lei de verdade, porque o propósito da lei era mostrar Jesus Cristo. Desse modo, o verdadeiro judeu era aquele que entendia que a salvação era pela fé no Messias, não pela guarda meritória dos propósitos ou das normas, instituições e preceitos da lei. Esse é objetivo de Paulo aqui quando fala em prática ou cumprimento ou observância da lei. O centro da lei era crer em Jesus como o Messias prometido por Deus e tipificado no Antigo Testamento. Quem ensinou isso foi o próprio Jesus. Em João 6, há um episódio em que os judeus perguntaram a Jesus o seguinte: “Que faremos para realizar as obras de Deus?” (6.28), ou seja, o que deveria ser feito para cumprirem a vontade de Deus, para guardarem as obras de Deus. Jesus respondeu: “A obra de Deus é esta: Crede naquele que ele enviou” (6.29), isto é, creiam em Cristo. Os judeus estavam esperando uma resposta mais ou menos assim: “Guardem os mandamentos, cumpram os rituais, ofereçam os sacrifícios”. Mas a resposta de Jesus foi: “Vocês querem fazer a vontade de Deus? Querem saber quais são as obras da lei? Querem saber o que Deus exige de vocês? Que creiam em mim, creiam que eu sou o Messias. É isso que Deus quer de vocês e essa é a substância da lei, o centro da religião do Antigo Testamento”. O verdadeiro judeu era aquele que cria no Messias que haveria de vir e que o reconheceu quando ele veio. Diante disso, agora Paulo destrói a falsa esperança do judeu de ser salvo por ser filho de Abraão e ter sido circuncidado. Nesse trecho, Paulo apresenta quatro argumentos. Vejamos o primeiro: “Porque, de fato, a circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei” (2.25). A circuncisão só tem valor se o judeu praticar a lei, mas apenas se praticá-la como deve. Em outras palavras, a circuncisão só vale se o judeu crê no Messias, que é Jesus Cristo. Só assim terá algum valor, porque ele é do povo a quem a vinda do Messias foi prometida. Mas, se ele não crê no Messias, é transgressor da lei, e sua circuncisão não vale nada, é simplesmente uma marca. Ou seja, mais importante do que ser circuncidado é cumprir a lei, obedecer ao propósito da lei, que é este: arrepender-se dos seus pecados e crer em Jesus Cristo como o Messias prometido. Se a pessoa não fizer isso, não terá valor algum sua circuncisão, nem ser filho de Abraão, nem oferecer sacrifícios; toda a sua religiosidade de nada valerá. O segundo argumento de Paulo está no fim desse mesmo versículo: “... mas se és transgressor da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão” (2.25). Se o judeu não crê que Jesus Cristo é o propósito da lei, o fim da lei, a circuncisão dele virou incircuncisão, e ele é igual a um gentio. Não há diferença entre um judeu que não acredita em Jesus e um pagão que não acredita em Jesus: ambos estão no mesmo nível. A circuncisão virou incircuncisão, porque ela só faz sentido se o circuncidado praticar a lei; se não houver prática, a circuncisão não serve absolutamente de nada. O terceiro argumento traz o outro lado da moeda: “Então, se os que são da incircuncisão”, ou seja, os gentios, que não são circuncidados, “cumprirem os preceitos da lei”, cumprindo-a como deve ser cumprida, crendo em Jesus como Salvador, “não serão eles mesmos considerados circuncisos?” (2.26). A resposta é: Sim! Paulo está dizendo que, quando, por exemplo, um brasileiro, que não é judeu, crê em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, ele passa a ser considerado judeu, tornando-se parte do povo ideal de Deus. Ele não é circuncidado externamente, mas, sim, no coração, e essa é a circuncisão que vale. Então, da mesma forma que um judeu pode virar um gentio porque não pratica a lei, o gentio que cumpre a lei vira judeu. O que Paulo quer dizer é que tanto faz se é judeu ou não judeu, o que importa é a fé depositada no Messias que é anunciado na lei. Se alguém não crê nele, com ou sem circuncisão, está condenado diante de Deus. Paulo quer quebrar a confiança que o judeu depositava naquela marca exterior. O quarto argumento está no versículo seguinte: “E, se cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão, ele julgará a ti, que és transgressor da lei com a letra e a circuncisão” (2.27). Os judeus ficavam bastante irritados com o apóstolo Paulo por causa de declarações desse tipo. Não por acaso, Paulo foi perseguido, apedrejado, assediado, denunciado, preso, chicoteado, considerado morto, rejeitado pelo seu povo. Ele dizia aos judeus que sem Cristo a religião deles não valia nada e que no dia do juízo, ao contrário do que pensavam — que seriam salvos e condenariam as nações —, aquelas nações que creram em Jesus Cristo seriam juízes de Israel, isto é, todos eles seriam julgados pelos gentios que creram em Jesus. Paulo dizia que Deus os julgaria, apesar da circuncisão a que se submeteram. O que significa ser judeu de verdade Na segunda parte da passagem, Paulo explica por que tanto faz ser judeu ou gentio e como a conversão nivela tudo. Ele diz que o verdadeiro judeu é quem é judeu por dentro. Ser verdadeiramente judeu não é uma coisa externa, mas, sim, uma atitude, um estado de espírito, e é isso que identifica o povo ideal de Deus: “Porque judeu não é quem o é exteriormente, nem é circunciso quem o é apenas no exterior, na carne” (2.28). Nesse versículo, quando Paulo diz que ser judeu não é algo externo, está dizendo que judeu de fato não é somente aquele que nasceu da descendência de Abraão, nem somente aquele que foi circuncidado no oitavo dia de vida, e muito menos aquele que pratica rigorosamente as cerimônias requeridas pela lei, como guardar dias de festa, abster-se de certos alimentos, seguir as regras de purificação. Ele afirma que a circuncisão também não é aquela que se verifica somente na carne — como já dissemos, a circuncisão era a remoção da pele que cobria o órgão genital masculino. Não, aquilo é somente uma marca física, há algo mais. A circuncisão era feita pelos rabinos, quando o bebê tinha oito dias de vida. Há uma tradição rabínica que diz que os rabinos deixavam crescer a unha do polegar e afiavam a ponta para usarem-na como faca na circuncisão. Naquele dia os pais tinham que oferecer sacrifício de animais — se fossem pobres, um casal de aves bastava, que foi o que José e Maria ofereceram no dia em que Jesus foi circuncidado. Mas, afinal, quem é judeu de verdade? O que é a verdadeira circuncisão? A resposta de Paulo encontra-se no versículo seguinte: “Mas judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do coração, realizada pelo Espírito, não pela letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (2.29). Podemos destacar quatro pontos nessa resposta. Primeiro ponto: “judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do coração”. Circuncidar é uma palavra latina que significa ao pé da letra cortar ao redor. Paulo está dizendo que a verdadeira circuncisão é a realizada no coração. É como se Deus pegasse o coração, removesse a sua pele de incredulidadee desobediência e expusesse o íntimo dele. É isso que a circuncisão representa. É como se Deus cortasse o nosso coração, arrancasse aquela casca, aquela pele grossa de incredulidade e dureza, e expusesse a carne macia que está por dentro, o coração tenro, sensível, disposto a seguir e obedecer a Deus. Então, a verdadeira circuncisão é uma operação feita no coração humano, não no genital masculino. O segundo ponto que Paulo destaca em sua resposta é que a verdadeira circuncisão é a “realizada pelo Espírito”. Em contraste com o rabino, que fazia a operação na carne, o Espírito de Deus opera o coração, algo que homem nenhum pode fazer. Eu não posso operar o seu coração, fazer com que você exponha o que há de mais íntimo nele, nem colocar um coração novo em seu interior. Isso somente o Espírito de Deus faz: ele opera, muda, transforma, circuncida o nosso coração, para que possamos seguir e obedecer a Deus. O terceiro ponto que Paulo destaca é que o verdadeiro judeu é aquele cuja circuncisão foi realizada “não pela letra” (2.29), mas, sim, pelo Espírito. Letra aqui significa a letra da lei. A Lei de Moisés mandava circuncidar o menino no oitavo dia de vida, mas só o cumprimento da lei não salvaria o menino, se Deus depois não operasse o coração dele, para que fosse um servo de Deus obediente. O quarto e último ponto que Paulo destaca nessa parte é que a verdadeira circuncisão é aquela “cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (2.29). Aqui há um jogo de palavras que não havia como os nossos tradutores deixarem claro: a palavra “judeu” vem de Judá, a principal tribo da nação de Israel, de onde veio o Messias, e a palavra “Judá” significa louvor. Em Gênesis 29.35 pode-se ver a origem do nome “Judá” e seu significado. Lá está escrito sobre Lia, a esposa de Jacó: “De novo engravidou e deu à luz um filho; e disse: Desta vez louvarei o SENHOR. Por isso, deu-lhe o nome de Judá”. “Judá” significa aquele que é louvado; logo, judeu é aquele que faz parte do povo que é louvado. Agora fica claro o jogo de palavras: Paulo diz que o verdadeiro louvor não é o que provém dos homens, ou seja, o que decorre do fato de alguém ter nascido na nação de Israel, representada pela tribo de Judá (que significa louvor, aquele que é louvado). O louvor que interessa é o que provém de Deus. Resumindo, esses quatro pontos identificam a verdadeira circuncisão: (1) ela acontece no coração; (2) é feita pelo Espírito Santo; (3) não é resultado de uma obrigação legal, e (4) é aquela cujo louvor não provém dos homens, como se tivesse uma procedência étnica ou de uma raça, mas provém de Deus. Em resumo, ser judeu não é uma questão de raça, mas de estado de espírito. O verdadeiro judeu é aquele que, tanto no Antigo Testamento quanto hoje, crê em Deus e no seu Filho Jesus Cristo; aquele que passou por uma transformação espiritual interna, cujo coração foi convertido, está aberto para Deus, sensível à palavra de Deus, e quer viver para ele. Conclusão e aplicações práticas Quem é o verdadeiro judeu? É todo aquele que crê em Jesus Cristo como Filho de Deus, o Messias de Israel, o Salvador do mundo. O povo de Deus é composto de todos aqueles — gentios e judeus — que creem em Jesus como o Salvador, o Filho de Deus, o Messias prometido. Gentios e judeus que creem em Jesus formam um único povo, pois Deus não tem dois povos. Provavelmente você já ouviu, em alguma igreja, uma teologia que diz que Deus hoje tem dois povos, os judeus e a igreja, e os trata de forma diferenciada. Algumas pessoas hoje acreditam que os judeus, mesmo quando morrem sem acreditar em Jesus, vão para o céu, porque são da descendência de Abraão, foram circuncidados e são herdeiros da aliança. Se você for uma dessas pessoas, espero que, depois de ler este capítulo, abandone essa ideia, pois vimos que está tudo muito claro no texto bíblico. Deus não tem dois povos, ele só tem um povo, a sua igreja, que é composta de gentios que creem em Jesus e não são circuncidados na carne, e de judeus que creem em Jesus e são circuncidados. Porque se um judeu — ainda que seja circuncidado, filho de Abraão e tenha recebido a lei — não crer no Messias, ele vai para o inferno, pois está condenado. Quando alguém nessa posição passa a crer em Jesus, torna-se parte da igreja, passa a fazer parte do povo de Deus. Traçando um paralelo com a nossa situação hoje, temos a questão do batismo. O batismo não vai salvar ninguém. Da mesma forma que na antiga aliança as crianças eram circuncidadas com oito dias de vida, nós, na nova aliança, batizamos os nossos filhos quando eles são pequenos. Da mesma forma que na antiga aliança o fato de um judeu ter sido circuncidado ao oitavo dia não significava que ele estava salvo, porque tinha que circuncidar o coração, os nossos filhos, que foram batizados quando crianças, precisam se converter, pois, caso contrário, irão para o inferno, mesmo batizados. Quando eles se convertem, a vida muda. Nós percebemos quando a criança é convertida, quando o adolescente é convertido, pois a vida deles apresenta mudanças visíveis. Após a conversão, esse jovem é recebido como membro adulto da igreja, depois de fazer a sua profissão pública de fé, mas ele tem de dar mostras da circuncisão de seu coração. É preciso que os adolescentes e jovens saibam que o fato de terem sido criados na igreja, de terem nascido num lar evangélico, de terem sido batizados e passado a sua vida toda na comunidade cristã não quer dizer absolutamente nada, se não houver a circuncisão do coração, uma transformação que vem de dentro, feita pelo Espírito Santo. Eu sei bem o que é isso, pois fui criado na igreja, cheguei a ser presidente da mocidade (não estou dizendo que os presidentes da mocidade não são crentes, mas só que eu não era quando exerci esse cargo), participei do concurso bíblico do livro de Daniel, cantei no coral, namorei a filha do pastor. Quer alguém mais crente do que isso? Mas eu não era convertido. Quando completei dezoito anos, fui embora para o que eu julgava ser meu. Meu coração pedia as coisas do mundo, eu gostava mais daquilo que os meus amigos descrentes faziam, não conseguia ouvir a pregação, ficava desenhando o rosto do pregador, escrevendo, brincando. Se houvesse celular naquela época, eu provavelmente ficaria no WhatsApp dizendo “que pregador chato”, como sei que muitos fazem, ou talvez caçando Pokémon. Eu não era crente, até o dia em que Deus circuncidou o meu coração, aos 22 anos de idade, batizando-o, por assim dizer, se quisermos usar um termo da nova aliança, e a minha vida, de fato, mudou. Se você é filho de crente, foi criado na igreja, está crescendo na igreja, eu lhe digo: Não se iluda. A salvação é individual, é um relacionamento entre você e Deus. Você tem de se arrepender dos seus pecados e crer no Senhor Jesus Cristo de todo o coração. Essa aplicação na verdade se estende a todos nós. Às vezes as igrejas evangélicas dão a impressão de que, se você der dízimo suficiente, fizer sacrifícios suficientes, fizer campanhas suficientes, participar de reuniões o suficiente, Deus se agradará disso e o recompensará. A salvação não está baseada em ritos religiosos, seja batismo, seja contribuição, seja qualquer coisa externa, algo que você faça. Religiosidade não salva ninguém. Se não houver um novo nascimento, uma mudança de vida, uma transformação espiritual em seu coração, você estará condenado, por causa dos seus pecados. Você receberá a justa ira de Deus. Jesus disse: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.5). É disso que Paulo está falando aqui, de um novo nascimento, da mudança de vida no coração, que pode ser percebida na conduta das pessoas. A questão mais importante da nossa vida é exatamente esta: saber se o nosso coração foi circuncidado, se ele foi batizado, se Cristo mudou a nossa vida, se nós somos novas criaturas. Não estou perguntando