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O Poder de Deus para a Salvação

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Gustavo

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Prévia do material em texto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Nicodemus, Augustus
O poder de Deus para a salvação: a mensagem de Romanos 1—7 para a
igreja de hoje / Augustus Nicodemus. - São Paulo: Vida Nova, 2019. 
recurso digital; 6 MB
ISBN 978-85-275-0964-0 (recurso eletrônico)
1. Bíblia. Paulo - Comentários 2. Bíblia. Romanos I. Título
18-2189
CDD 227.1
Índices para catálogo sistemático
1. Segurança (Teologia)
©2019, de Edições Vida Nova
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA
Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020
vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br
1.ª edição: 2020
Edição digital: março de 2020
Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da
fonte.
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram extraídas da Almeida Século
21. As citações bíblicas com indicação da versão  in loco foram extraídas da Almeida
Revista e Atualizada (ARA), da Nova Versão Internacional (NVI) e da Nova Tradução
na Linguagem de Hoje (NTLH). Todo grifo nas citações bíblicas é de responsabilidade
do autor.
DIREÇÃO EXECUTIVA
Kenneth Lee Davis
GERÊNCIA EDITORIAL
Fabiano Silveira Medeiros
EDIÇÃO DE TEXTO
Cristina Ignacio
Marisa Lopes
João Guilherme dos Anjos
PREPARAÇÃO DE TEXTO
Caio B. Medeiros
Virgínia Neumann
Marcia B. Medeiros
REVISÃO DE PROVAS
Rosa M. Ferreira
GERÊNCIA DE PRODUÇÃO
http://vidanova.com.br/
mailto:vidanova@vidanova.com.br
Sérgio Siqueira Moura
DIAGRAMAÇÃO
Luciana Di Iorio
CAPA
Wesley Mendonça
PRODUÇÃO DO ARQUIVO EPUB
Booknando
Sumário
Prefácio
Introdução
CAPÍTULO 1 
O evangelho de Deus
CAPÍTULO 2 
O amor de Paulo pelos Romanos
CAPÍTULO 3 
Evangelho: o poder de Deus para salvar
CAPÍTULO 4 
A revelação de Deus na natureza
CAPÍTULO 5 
A origem da idolatria
CAPÍTULO 6 
Abandonados: o juízo de Deus sobre nossa geração
CAPÍTULO 7 
Homossexualidade: uma perspectiva bíblica
CAPÍTULO 8 
Mentes reprovadas
CAPÍTULO 9 
O fundo do poço
CAPÍTULO 10 
Paulo e o moralista
CAPÍTULO 11 
O dia do juízo
CAPÍTULO 12 
A lei no coração
CAPÍTULO 13 
A hipocrisia e seus defeitos
CAPÍTULO 14 
A verdadeira circuncisão
CAPÍTULO 15 
Meu pecado e a glória de Deus
CAPÍTULO 16 
Debaixo do pecado
CAPÍTULO 17 
O caminho da justificação
CAPÍTULO 18 
Cristo, nossa propiciação
CAPÍTULO 19 
Deus não nos deve nada
CAPÍTULO 20 
O selo da fé salvadora
CAPÍTULO 21 
Herdeiros do mundo pela fé
CAPÍTULO 22 
Abraão: crendo com esperança
CAPÍTULO 23 
Paz, acesso e regozijo
CAPÍTULO 24 
O amor de Deus pelos que são seus
CAPÍTULO 25 
O pecado original
CAPÍTULO 26 
Os dois homens
CAPÍTULO 27 
O caminho da santidade
CAPÍTULO 28 
Como Deus nos liberta da escravidão ao pecado
CAPÍTULO 29 
Como posso me apresentar a Deus?
CAPÍTULO 30 
Mortos para a lei
CAPÍTULO 31 
A lei e o pecado
CAPÍTULO 32 
Confissões de um judeu após a conversão
Considerações finais
Para Anna.
O
volume que você tem em
mãos é o resultado de uma
série de exposições que fiz
em Romanos, quando pastor da
Primeira Igreja Presbiteriana de
Goiânia, do capítulo 1 até o final
do capítulo 7.
PREFÁCIO
Não foi a primeira vez que expus a magistral epístola do
Apóstolo dos Gentios. Durante meu ministério em Recife, nos
anos 1990, expus todos os capítulos da carta na Primeira Igreja
Presbiteriana do Recife. E mais recentemente, durante uma
temporada no Palavra da Vida Oeste, em Caldas Novas, Goiás,
ofereci uma visão panorâmica de toda a carta. Além de pregar
essas séries, tenho pregado constantemente em passagens
isoladas da carta em muitas e diferentes igrejas no Brasil e no
exterior.
A razão do meu interesse pela Carta aos Romanos ficará clara
para o leitor à medida que se debruçar sobre as páginas que
seguem. Romanos é majestosa, misteriosa, inspiradora e
desafiadora. Na “Introdução”, apresento as razões de sua
importância. Mas, acima de tudo, acredito que a relevância da
carta para nossa geração se deva à ênfase que Paulo dedica à
doutrina da justificação pela fé, sem as obras da lei. Embora o
contexto judaico que provocou essa ênfase na época de Paulo não
tenha relevância para leitores brasileiros que vivem no Ocidente
cerca de dois mil anos depois, o legalismo e a ênfase na
participação meritória do ser humano na salvação, defendida por
muitas seitas que se dizem cristãs, criam a mesma demanda dos
tempos apostólicos. É preciso mais uma vez redescobrir a
doutrina da salvação pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo,
como Martinho Lutero fez, dando início à Reforma protestante do
século 16.
Agradeço aos membros da Primeira Igreja Presbiteriana de
Goiânia, que tão pacientemente acompanharam a exposição em
série dos capítulos iniciais dessa carta.
A minha oração é que essa obra seja usada por Deus para
abençoar todos os leitores que aqui buscarem não somente
compreender mais de perto o significado da Carta aos Romanos,
mas também aplicar seus ensinos à própria vida.
Rev. dr. Augustus Nicodemus Lopes 
Abril de 2019
A
través dos séculos, a igreja
tem afirmado e ensinado
que Deus salva pecadores
mediante a fé em Jesus Cristo.
Essa é a mensagem
característica da igreja cristã.
Embora desempenhe muitas
atividades e papéis no mundo,
como obras sociais e
atendimento a necessitados,
além de se posicionar diante da
cultura e de se inserir na
sociedade, a igreja é reconhecia
porque ressoa a mensagem das
boas-novas, de que Deus amou
tanto o mundo, que deu o seu
Filho unigênito para que todo
aquele que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna.
INTRODUÇÃO
Desde seu início, a igreja cristã vem proclamando aquilo que
conhecemos como o evangelho, que é a boa notícia da parte de
Deus. Desde o início, também, foi (e continua sendo) necessário
lutar para preservar a pureza dessa mensagem, pois já no
primeiro século começaram a aparecer distorções e falsas
apresentações dela.
Já na época do apóstolo Paulo, por exemplo, havia os
judaizantes, isto é, judeus convertidos ao cristianismo que
afirmavam que quem cresse em Cristo para ser seu salvador
deveria guardar as obras da lei de Moisés a fim de garantir sua
salvação. Obviamente, isso nada mais era do que uma distorção
do evangelho, porque Deus concede a salvação pela graça,
mediante a fé em Cristo Jesus. Na mesma época, apareceram
também os libertinos, que usavam a graça de Deus como licença
para o pecado; eles diziam que a maneira de as pessoas viverem
não importava, já que Cristo as salvara. Essa era outra distorção
do evangelho.
No século 2, surgiu o chamado gnosticismo, que também
distorcia o evangelho ao tentar misturar a fé cristã com
categorias do pensamento helênico. Consequentemente, ensinava
que Cristo não teve um corpo real durante seu ministério terreno,
que ele não ressuscitou com um corpo físico e que a salvação era
mediante um conhecimento (gnosis) secreto, dado por Deus a uns
poucos iluminados. Esse movimento exigiu que a igreja
combatesse os mestres gnósticos, debatendo e finalmente
vencendo a batalha no século 4.
Mais tarde veio a institucionalização da igreja, a qual, no
decorrer dos séculos, tornou-se uma grande hierarquia
encabeçada por um papa infalível. Durante a Idade Medieval,
doutrinas estranhas entraram na igreja, como a adoração de
Maria, a veneração de santos, a doutrina do purgatório, a
inclusão das obras como forma de salvação (juntamente com
Jesus Cristo) etc.
Depois que tudo isso foi vencido, há 500 anos, pela Reforma
protestante, surgiu o liberalismo teológico no século 19, outro
grande desafio enfrentado pela igreja cristã. Seus adeptos,
estudiosos alemães, ingleses e de toda a Europa, passando pelos
Estados Unidos e chegando ao Brasil, afirmam que a Bíblia está
cheia de erros, que estamos na era da razão e não precisamos de
Deus. Para os teólogos liberais, a Bíblia é, na verdade, uma
coleção de mitos; eles sustentam que Jesus era um profeta que
ensinava sobre morale ética e que seus discípulos inventaram
histórias a seu respeito, como a que diz que ele morreu em uma
cruz. Novamente, aqui, a igreja precisou lutar pela verdade do
evangelho.
Embora o liberalismo como movimento esteja praticamente
extinto, ainda é possível encontrar quem o defenda. Hoje, porém,
a igreja tem se concentrado na luta contra outras distorções do
evangelho, como o evangelho da prosperidade, pregado por
pastores e denominações que fazem com que o evangelho pareça
ser apenas uma chave que dá acesso a Deus, trazendo
prosperidade, sucesso e o carro do ano a quem o busca por meio de
campanhas e entrega do dízimo. E lá vamos nós, outra vez, lutar
pela pureza do evangelho.
Em todas as gerações, a igreja tem sido obrigada a lutar pelo
evangelho, pois sempre há distorções da mensagem. Vivemos em
uma época repleta de distorções a respeito do que são as boas-
novas da parte de Deus. Por isso é importante sempre voltarmos
às Escrituras e fazermos as seguintes perguntas: O que é o
evangelho? Estamos caminhando nele? É no evangelho original,
puro e simples que nós cremos?
É por esse motivo que estou escrevendo este livro. A carta de
Paulo aos crentes de Roma é certamente o melhor lugar para
começarmos a responder a essas questões.
A importância da Cartade Paulo aos
Romanos
Todos os leitores da Bíblia reconhecem a tremenda importância
de Romanos. As cartas de Paulo têm em média cerca de 1.300
palavras. Romanos tem 7.100 palavras. Mas, não é apenas por ser
a mais extensa que Romanos é reconhecida como provavelmente a
mais importante de todas. Ela é certamente a mais sistemática,
embora não seja um “compêndio de doutrina cristã”, como o
reformador Filipe Melâncton chegou a declarar em sua obra Loci
Communes (1521). Nela, Paulo desenvolve de forma mais
aprofundada temas apresentados nas cartas que havia escrito
anteriormente (Gálatas, p. ex.), como a lei, as obras da lei, a
salvação pela fé, Israel e a igreja.
A importância de Romanos se percebe também pelo impacto
que teve em pessoas-chave da história da igreja. Conforme F. F.
Bruce nos informa em sua obra Romanos: introdução e
comentário (São Paulo: Vida Nova, 1979), essa carta teve um
papel decisivo na vida destas pessoas: Agostinho converteu-se
lendo Romanos 13.12-14. Lutero converteu-se meditando em
Romanos 1.16,17. John Wesley converteu-se ao ouvir o prefácio de
Lutero à Carta aos Romanos. Por certo poderíamos citar nomes
menos conhecidos que também foram transformados pela leitura
dessa carta. Pessoalmente, menciono um de meus professores da
Potchefstroom Christian University, na África do Sul, que se
converteu no leito de hospital lendo o comentário de Martyn
Lloyd-Jones em Romanos 7.
A Carta aos Romanos desafiou as mentes mais brilhantes da
história da igreja. Alguns dos melhores comentários já produzidos
no Novo Testamento foram dessa carta. Aqui cito alguns dos mais
conhecidos. Começando com os pais da igreja até a Reforma,
temos Orígenes (século 3), João Crisóstomo (homílias do século 4),
Teodoreto (século 5, baseado em Crisóstomo), Ambrosiáster
(século 4, reconhecidamente um pseudônimo), Pelágio (século 4),
Hugo de São Victor (místico conhecido do século 12) e Tomás de
Aquino, que desenvolveu o método exegético de Agostinho e
tentou forçar Paulo a caber dentro do seu sistema filosófico e do
escolasticismo filosófico da Idade Média.
Da Reforma e Pós-Reforma temos a obra de Erasmo de
Roterdã, Paráfrase do Novo Testamento (1522), e as palestras de
Lutero em Romanos proferidas na Universidade de Wittemberg,
em 1515-1516, dois anos antes de afixar as 95 teses. Em 1522, ele
escreveu Prefácio à Carta de Paulo aos Romanos. Calvino
escreveu Comentários às epístolas do apóstolo Paulo, em 1539.
Jacó Armínio, século 17, escreveu dois tratados anticalvinistas
sobre os capítulos 7 e 9 de Romanos. John Locke, conhecido
filósofo, devotou os últimos anos de vida ao estudo das cartas de
Paulo. Publicou, entre 1705-1707, Paráfrase e notas em Gálatas,
Romanos, Efésios e Coríntios.
No Período Moderno temos o clássico comentário do alemão H.
A. W. Meyer, já no século 19. Meyer é considerado o fundador do
estilo moderno de comentários: científico (aplicação rigorosa
[demais] do método gramático-histórico) e popular (conciso e
direto). Seu comentário passou por muitas edições e ainda é um
dos preferidos dos estudiosos.
Charles Hodge, professor de Princeton, publicou seu
comentário em Romanos em 1835, reescrito em 1864. Hodge foi
muito influenciado por Meyer. Ele oferece uma exposição
doutrinária de Romanos baseada na Confissão de Fé de
Westminster. Na mesma linha, temos o comentário de John
Murray, do Seminário de Westminster (1959). F. Godet, francês,
publicou seu comentário de Romanos em 1879; este foi traduzido
para o inglês em 1881 por um teólogo franco-suíço treinado na
Alemanha. O comentário de Romanos da série International
Critical Commentary (ICC), escrito por Sanday e Headlam (1895),
foi seguido pelo de C.E. Cranfield, em 2 volumes, em 1979.
Também bastante conhecido é o comentário de Robert Haldane,
publicado em meados do século passado, com base nas anotações
dos estudos que ministrou em Romanos a jovens que estavam se
preparando para o ministério em Genebra. Conforme Martyn
Lloyd-Jones escreveu no prefácio a esse comentário, um
avivamento espiritual teve início com as exposições de Haldane, e
todos os seus jovens estudantes, um a um, converteram-se
durante as aulas — entre eles o mais tarde famoso M. Daubigne.
Karl Barth escreveu seu comentário Carta aos Romanos, em
1918. Essa obra, reescrita em 1921, foi instrumental para o
enfraquecimento do liberalismo teológico dominante nos meios
acadêmicos e eclesiásticos da Europa, no início do século 20,
embora o autor não tenha se livrado da influência do método
histórico-crítico em sua obra.
Mais próximo de nós, podemos mencionar o volumoso
comentário de Martyn Lloyd-Jones, uma transcrição de seus
sermões pregados na Capela de Westminster, Inglaterra, de 1955
a 1968. Do lado liberal, temos o influente comentário de Ernest
Käsemann, alemão e discípulo de Bultmann (1980). James D. G.
Dunn escreveu o comentário de Romanos da conceituada série
Word Biblical Commentaries, em 2 volumes (1988), no qual
defende a “nova perspectiva sobre Paulo”. Do lado conservador,
Douglas Moo escreveu o excelente comentário Romans 1-8, em
1990. Em anos mais recentes, comentários em Romanos têm sido
publicados por autores renomados, como Thomas Schreiner, Leon
Morris, C. E. B. Cranfield, John Stott, F.F. Bruce, Richard
Longenecker, para citar alguns. Tudo isso demonstra a
importância da Carta aos Romanos e sua capacidade inesgotável
de estimular estudiosos cristãos a desvendar seus mistérios e a
entender seus ensinos.
A autoria da carta
Passemos agora a algumas questões introdutórias à carta. Que
Paulo foi seu autor, pouco é disputado hoje, embora no passado
alguns críticos radicais tenham chegado a fazê-lo (E. Evanson,
1792; B. Bauer, 1852; A. D. Loman, 1882; R. Steck, 1888). As
evidências externas da autoria paulina de Romanos são vastas.
Essa carta foi citada e usada por pais da igreja como sendo de
Paulo, tais como Clemente de Roma (século 2, 1Clemente 32.2,
35.5, 50.6ss), Inácio de Antioquia (século 2, Carta aos Efésios
19.3), Policarpo, bispo de Esmirna (século 2, Carta aos Filipenses,
cap. 6) etc. Quanto às evidências internas, não precisamos entrar
em detalhes, uma vez que não se disputa a autoria de Paulo. Mas
entre elas temos Romanos 1.1, que afirma a autoria paulina, e o
estilo, o vocabulário e a teologia semelhantes às demais cartas
reconhecidas como sendo de Paulo, especialmente Gálatas, 1 e
2Coríntios. As teses contrárias não têm ganhado aceitação dos
estudiosos.
Aqui seria interessante indagarmos qual foi o papel de Tércio
na produção de Romanos. Ele aparece em Romanos 16.22: “Eu,
Tércio, que redigi esta carta, vos cumprimento no Senhor”. Ao que
tudo indica, Tércio foio amanuense de Paulo, aquele que escreveu
a carta sob a orientação do apóstolo. Existem várias teorias sobre
sua participação na carta. Ele poderia ter feito um esboço,
ampliado esse esboço e o submetido à apreciação e à aprovação de
Paulo (Sanday; Headlam, Critical and exegetical commentary on
the Epistle to the Romans, em The International Critical
Commentary, 1895). Ou então ele compôs a carta, seguindo
instruções de Paulo, e depois o apóstolo a revisou (O. Roller, Das
Formular der paulinischen Briefe: Ein Beitrag zur Lehre vom
antiken Briefe, 1933). Ou ainda, segundo a teoria mais provável,
ele escreveu por extenso o que Paulo ditou. Essa última é a
hipótese mais aceita pelos estudiosos.
A integridade do texto de Romanos
Há poucos problemas relacionados à integridade do texto de
Romanos. O p46, o mais antigo manuscrito existente que contém
as cartas de Paulo, não tem o capítulo 16 e tem a doxologia de
16.25-27 no fim do capítulo 15. Outros manuscritos têm a
doxologia no fim do capítulo 14. Nada disso, porém, compromete a
integridade da carta. A imensa maioria da evidência
manuscritológica apresenta o texto de Romanos como o temos em
nossas Bíblias.
A igreja de Roma
Paulo destinou sua carta aos cristãos da cidade de Roma (Rm
1.7). Não sabemos ao certo como a igreja começou ali. Paulo
certamente não foi seu fundador, nem Pedro. A principal hipótese
levantada pelos estudiosos é que a igreja de Roma foi fundada por
judeus que moravam em Roma e foram convertidos em
Pentecostes, ao fazerem a peregrinação a Jerusalém. A multidão,
ao ouvir os cristãos falando em línguas, reconheceu os idiomas de
diversas nacionalidades, mesmo dos “romanos que aqui residem”
(At 2.10, ARA). “Residir” não seria aqui a melhor tradução para o
verbo empregado por Lucas, embora também tenha essa
conotação. O mais provável foi que Lucas quis dizer que estavam
“de visita” ou “residindo temporariamente ali durante a festa de
Pentecostes” (cf. NVI, “visitantes vindos de Roma”). Esses judeus
de Roma, ao regressarem à cidade, já convertidos, começaram a
igreja ali. Ambrosiáster, em seu Comentário aos Romanos (século
4), diz no prefácio que os romanos tinham se convertido sem ver
nenhum milagre nem qualquer dos apóstolos. A declaração pode
apenas significar que a conversão deles não se deu em Roma por
meio da pregação de um dos apóstolos.
Essa hipótese é reforçada pela existência de uma grande
comunidade cristã entre os judeus, sugerida por uma observação
na obra Vida de Cláudio (imperador romano) dizendo que ele
expulsou os judeus de Roma, em cerca de 49 a.D., “por instigação
de certo Chresto”. Lucas se refere a essa expulsão (At 18.2), que
levou Áquila e Priscila a saírem da cidade. “Chresto” é
provavelmente “Cristo” e a nota pode refletir o levante da
comunidade judaica contra os judeus convertidos, causando
transtorno popular e obrigando o imperador Cláudio, que não
sabia distinguir entre judeus e cristãos, a expulsar todos os
judeus da cidade de Roma. Na época em que Paulo escreveu sua
carta, a igreja de Roma aparentemente não estava sofrendo
perseguições nem de judeus nem de romanos. Além dos judeus
convertidos (Rm 2.17; 3.1; 4.1; 7.1,4), a igreja era composta de
cristãos gentios (Rm 1.13; 11.13; 15.15,16).
Fator motivador e data de composição
Antes de escrever essa carta, Paulo tinha planejado visitar a
igreja de Roma. Contudo, havia sido impedido em razão de seus
labores na região ao redor do mar Egeu (Rm 1.13; 15.22). Seu
propósito era visitá-los e repartir com eles algum dom espiritual
(Rm 1.11,15). Paulo pretendia também ganhar o apoio da igreja
de Roma para seus planos missionários na Espanha (Rm
15.24,28). Ele tinha acabado sua obra missionária de pregar o
evangelho “desde Jerusalém e arredores, até o Ilírico” (Rm 15.19)
e também concluído o levantamento de uma oferta para os pobres
da Judeia (15.22-29). Estava se preparando para ir a Jerusalém.
Provavelmente, isso ocorreu no ano em que ele deixou Éfeso, em
sua terceira viagem missionária, quando estava na Grécia (At
20.1,2). Tudo isso aponta para a cidade de Corinto como o local de
onde Paulo escreveu a carta. Notemos que ele recomenda Febe,
que era de Cencreia, o porto de Corinto (Rm 16.1,2), e que envia a
saudação de Gaio, que tinha sido hospedeiro de Paulo em Corinto
(Rm 16.23; cf. 1Co 1.14). Além disso, menciona Erasto (Rm 16.23),
que era tesoureiro da cidade (cf. 2Tm 4.20). A partir desses fatos,
podemos com relativa confiança situar a Carta aos Romanos entre
os anos 57 e 59 a.D.
Qual o propósito de Romanos?
Tem havido debate vigoroso entre os estudiosos quanto ao motivo
pelo qual o apóstolo escreveu essa carta aos cristãos de Roma. O
debate é gerado pelos seguintes fatos. Primeiro, a carta trata de
temas gerais do evangelho e aparentemente pouco aborda
assuntos locais referentes à situação dos crentes em Roma.
Romanos não parece ser uma carta pastoral, como, por exemplo,
1Coríntios. Isso levou autores como o reformador Felipe
Melâncton e mais atualmente Anders Nygren (Romans, 1967) a
considerar Romanos um compêndio de ensino cristão. A carta
teria como alvo dar aos cristãos de Roma, e posteriormente a toda
cristandade, uma exposição completa da doutrina cristã. Porém,
essa hipótese não explica as referências à situação específica dos
romanos, nem explica a omissão de doutrinas importantes na
carta, como cristologia e eclesiologia, se de fato fosse um
compêndio doutrinário. Outros consideram que Romanos pode ter
sido originariamente uma carta circular, escrita por Paulo às
igrejas cristãs em geral. Isso explicaria a aplicabilidade geral e
ampla da carta e a evidência manuscritológica. A carta que
sobreviveu foi a endereçada aos romanos (preservando os
capítulos finais e a introdução). Mas, essa tese não explica as
referências pessoais em Romanos 1.8-15, nem fornece o motivo
pelo qual Paulo teria escrito uma carta circular.
Em segundo lugar, Paulo aborda na carta uma situação que
parece específica da igreja de Roma, a questão dos fracos e fortes
(Rm 14.1—15.13). Parece que Paulo teria informação de que esse
problema estava acontecendo na igreja. A Carta aos Romanos
teria sido escrita para admoestar os dois grupos a viverem em
paz. Os “fracos” seriam judeus cristãos, acostumados a não comer
carne, a guardar o sábado e o calendário judaico, enquanto os
“fortes” seriam gentios cristãos, que usavam sua liberdade em
Cristo para desfrutar de tudo e não seguir a lei de Moisés no que
se refere a calendários e dieta. Os dois grupos não conseguiam
viver em paz. Paulo, porém, não revela na carta intenção de
mediar o debate. Seu propósito é simplesmente pregar em Roma
(cf. Rm 1.11,15). Se seu alvo era realmente tratar do problema,
porém, por que esperou até o capítulo 14 para abordá-lo? Um
terceiro elemento que temos de levar em consideração é o vasto
material na carta sobre a lei, Israel, circuncisão e obras da lei,
bem como sobre a rejeição do Messias por parte dos judeus; todos
esses temas ocupam praticamente do capítulo 2 ao 11. Se a carta
era um compêndio doutrinário geral a ser distribuído às igrejas,
ou se era uma carta destinada exclusivamente para a igreja de
Roma, como explicar tantas referências aos questionamentos dos
judeus quanto à doutrina da justificação pela fé? Autores como J.
Christiaan Beker defendem que Romanos é um diálogo com o
judaísmo, visando a responder perguntas que judeus cristãos
fazem em geral: “Qual o papel de Israel na história da salvação?”;
“Qual a função da Lei de Moisés e da circuncisão?”; “Por que
Israel rejeitou o Messias?”. Paulo teria escrito a carta aos judeus
da igreja e a possíveis interlocutores. Todavia, a carta é
definitivamente dirigida também aos cristãos gentios de Roma (cf.
Rm 1.13; 11.13).
Na verdade, não precisamos escolher entre as duas
possibilidades. Romanos sem dúvida é uma carta destinada
especificamente à igreja de Roma, a julgar pelo conhecimento que
Paulo tem dos problemas existentesna igreja, ao mesmo tempo
que apresenta os pontos centrais do evangelho de Cristo à luz das
questões judaicas daquela época.
Há três coisas que Paulo afirma na carta acerca de seu
propósito em escrevê-la: (1) preparar sua visita a Roma (1.13;
15.22-24); (2) obter o apoio dos cristãos de Roma para sua missão
à Espanha; (3) pedir orações sobre a coleta e a visita a Jerusalém
(15.30-32). Como Paulo não era conhecido da igreja, era preciso
que preparasse sua visita com essa carta, na qual ele apresenta
seus planos missionários e expõe o evangelho que prega. Essa
exposição do evangelho é feita à luz das questões judaicas da
época. Paulo antecipa as objeções que os judeus cristãos e os
judeus em geral fariam à exposição da doutrina da justificação
pela fé e suas consequências para o papel da lei, a situação de
Israel nos planos de Deus, as obras da lei, como circuncisão, a
dieta religiosa e o calendário sagrado dos judeus. A carta,
portanto, teria essas finalidades, o que explica seu caráter geral,
a audiência judaica em mente e a escolha dos temas. Em
contrapartida, Paulo teria aproveitado para abordar algumas
questões práticas da igreja, como o relacionamento entre os
“fracos” e os “fortes,” tendo tomado conhecimento da ocorrência de
tais problemas nessa igreja. Por fim, pensando em Romanos
15.14-16, pode ser que o apóstolo também tenha desejado firmar a
igreja nas verdades ouvidas e, como apóstolo dos gentios,
estabelecer o seu fundamento apostólico.
Romanos é uma exposição clara e profunda da mensagem que
Paulo pregava, a qual foi dirigida aos romanos, em preparação à
sua visita e em busca de ganhar o apoio deles para a missão. Daí
a necessidade de lhes assegurar acerca da sua mensagem e
doutrina. Se Roma haveria de ser a base para as futuras viagens
missionárias de Paulo, uma carta como Romanos seria
necessária.
A divisão da carta
A carta de Paulo aos Romanos pode ser dividida em cinco grandes
blocos, nos quais o apóstolo trata de temas considerados
necessários para deixar clara a mensagem que prega e também
daqueles temas mais próximos da igreja de Roma. Portanto, a
clássica divisão da referida carta segue, em geral, o seguinte
esboço:
Prefácio e apresentação de seus planos (1.1-17)
 
1. A condenação de toda a raça humana (1.18—3.20)
2. Justificação pela fé (3.21—5.21)
3. Vida de santidade (6.1—8.39)
4. Israel e o evangelho (9.1—11.36)
5. Orientações práticas para a igreja de Roma (12.1—15.33)
 
Saudações e orientações finais (16.1-27)
Nesta obra, tratarei apenas dos capítulos de 1 a 7. Será
limitada, portanto, às três primeiras grandes divisões da carta.
Meu objetivo é expor com clareza e de maneira acessível os temas
grandiosos desenvolvidos pelo apóstolo Paulo nesses capítulos.
Queira Deus usar esta obra para a propagação da mensagem de
Romanos.
este capítulo, observaremos o
prefácio e a saudação da carta
que Paulo escreveu aos crentes
Capítulo 1
O EVANGELHO DE DEUS
Romanos 1.1-7
Prefácio e saudação
Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho
de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras,
acerca de seu Filho, que, humanamente, nasceu da descendência de Davi, e com
poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição
dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor. Por meio dele recebemos graça e
apostolado, por causa do seu nome, a fim de conduzir todos os gentios para a
obediência da fé, entre os quais também sois chamados para ser de Jesus Cristo. A
todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos: Graça e
paz a vós, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.
Um projeto missionário
N
de Roma. O trecho
abordado segue o padrão
das cartas da época: Paulo
se apresenta e fornece algumas
explicações a respeito de si,
identifica os destinatários e faz
um voto, que é um desejo de paz
e bênção para aqueles que lerão
a carta.
Essa introdução, no entanto, é maior do que o habitual se
comparada às introduções das outras cartas paulinas. O apóstolo
apresenta não apenas seu nome, mas também suas credenciais, e
em seguida se dedica longamente a explicar o que é o evangelho.
Ele também fala acerca de seu chamado para pregar esse
evangelho, além de se dirigir aos crentes de Roma para esclarecer
quem eles são em relação a Deus.
Qual seria a razão para essa introdução extensa? Como já
vimos na “Introdução”, Paulo estava planejando visitar a igreja de
Roma. Ele queria passar um tempo de comunhão com aqueles
cristãos e ser edificado, pois não os conhecia pessoalmente. Sabia,
contudo, que havia uma série de boatos a seu respeito que
circulavam entre os irmãos romanos. Esses boatos o
caracterizavam como um mercenário que plantava igrejas por
dinheiro e pregava contra Moisés e as gloriosas instituições da
antiga aliança.
Paulo tinha conhecimento de tudo isso, e queria ser aceito pela
igreja de Roma como missionário, pois tinha planos de pregar o
evangelho na Espanha. Roma era, provavelmente, a igreja mais
próxima da região da Espanha com condições de servir de base
para esse projeto missionário. O apóstolo escreveu essa carta,
portanto, com o objetivo de expor o evangelho que pregava e de
responder, por antecipação, aos questionamentos que se
levantariam, como, por exemplo: “Se você prega a salvação pela
fé, de que serve a lei? E os sacrifícios e a nação de Israel, como
ficam?”.
Portanto, conforme defendemos na “Introdução”, Romanos é
uma carta missionária em que Paulo expõe o evangelho e ao
mesmo tempo se apresenta, com o objetivo de convencer a igreja
de Roma a ajudá-lo a pregar o evangelho na Espanha. É por isso
que já na introdução da carta ele apresenta um resumo do que vai
tratar: ele diz quem é, fala sobre qual é o conteúdo desse
evangelho que prega e de quem o recebeu, estabelece uma relação
entre o evangelho e a antiga aliança e se dirige aos romanos como
sendo parte do propósito de Deus para levar esse evangelho ao
mundo todo.
Meu alvo neste capítulo é extrair da passagem o que Paulo nos
ensina, o que também nos leva de volta à minha proposição
original: O que é o evangelho? Creio que a Carta aos Romanos é o
melhor lugar para encontrarmos a resposta.
O evangelho procede de Deus
Paulo inicia seu argumento de que o evangelho procede de Deus
em sua apresentação pessoal: “Paulo, servo de Jesus Cristo,
chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”
(v. 1). Além de seu nome, o apóstolo apresenta três credenciais, e
todas elas dizem respeito ao fato de que o evangelho vem de Deus.
Primeiramente, ele diz que é “servo de Jesus Cristo”. Nesse
contexto, servo tem o mesmo significado de escravo, e o uso da
palavra aponta para a devoção, submissão e dedicação de Paulo a
Jesus Cristo. Seus leitores eram capazes de compreender isso
muito bem, pois havia cerca de cem milhões de escravos no
Império Romano. Escravos não tinham poder sobre a própria vida
e dependiam totalmente de seus senhores. Nenhum romano se
apresentaria como escravo, pois eram os dominadores altivos do
mundo da época. Paulo, porém, não tem receio de se apresentar
dessa maneira, ao mesmo tempo que também apresenta Cristo
como senhor — alguém a quem um servo ou escravo pode se
submeter.
Em segundo lugar, Paulo afirma ter sido chamado por Deus
para ser apóstolo, e faz questão de frisar que não foi ele que se
constituiu um apóstolo, pelo contrário, foi chamado por Deus para
esse fim. Naquela época, a palavra “apóstolo” denotava alguém
que fora enviado, indicava uma espécie de delegação, que ocorria
quando uma pessoa recebia autoridade de outra para representá-
la nos negócios. Essa palavra já era utilizada no mundo romano,
anteriormente a Paulo, para designar comandantes de navios que
eram enviados para entregar cargas.
Cristo também instituiu apóstolos, que neste caso eram
pessoas a quem ele chamou para representá-lo, dando-lhes
poderes, missões e tarefasespeciais e específicas. Paulo foi uma
dessas pessoas levantadas pelo Senhor para levar adiante os
negócios de Deus neste mundo. Por isso, faz questão de deixar
claro que não fora ele próprio que se colocara como apóstolo, mas,
sim, que fora chamado por Deus.
A origem do apostolado de Paulo estava na vontade de Deus, e
nesse trecho da carta ele se referia, sem dúvida, àquilo que lhe
aconteceu na estrada para Damasco. Como judeu convicto e fiel,
Paulo se encontrava a caminho de uma missão que incluía
prender cristãos para que fossem julgados (e até mesmo mortos)
em Jerusalém. No meio dessa missão, Cristo apareceu ressurreto,
em seu corpo glorioso, ao fariseu arrogante então chamado Saulo.
O Senhor fez com que aquele homem se curvasse aos seus pés e o
levantou como representante e voz de Deus para todas as nações.
Naquele dia, Paulo foi convertido e constituído apóstolo.
Em terceiro lugar, prosseguindo na introdução da Carta aos
Romanos, Paulo ainda se apresenta como alguém que foi
separado para pregar o evangelho de Deus. Há um jogo de
palavras nesse trecho que não aparece no português. “Separado”,
em grego, tem a mesma origem de “fariseu”. O termo “fariseu”
surgiu cerca de 250 a 300 a.C., durante a Guerra dos Macabeus
(uma revolução feita pelos judeus contra a imposição de culturas
estrangeiras sobre seus costumes religiosos e culturais). Desse
movimento, surgiu o grupo dos hasidim, ou “separados”. A
palavra grega para designar esse grupo dá origem ao termo
“fariseu”.
Os fariseus, portanto, formavam um grupo que queria se
manter puro e separado, preservando-se de influências
estrangeiras. Eles não se misturavam com as práticas pagãs
helênicas. Paulo faz, então, um jogo de palavras, pois havia sido
um fariseu judeu, e era agora um “fariseu” de Cristo. Ele, que
havia sido um ferrenho defensor da lei de Moisés, pela qual se
mantinha separado de práticas pagãs, agora era separado por
Deus para pregar as boas-novas que procedem de Deus.
Em resumo, estas eram suas credenciais: Paulo, um servo que
fora chamado e separado para pregar o evangelho de Deus.
O apóstolo utiliza a apresentação de sua carta, portanto, para
mostrar que, ao contrário do que diziam os boatos a seu respeito,
sua história era marcada por circunstâncias que procediam de
Deus. Ele apresenta a sua história — já conhecida pelos romanos
— como argumento contra os boatos de que era um mercenário.
Com isso, Paulo queria assegurar àqueles a quem escrevia que ele
era um servo de Cristo, preparado para pregar o evangelho, e que
esse evangelho não vinha dele, mas havia sido dado por Deus. O
Deus que o chamou e o constituiu é o mesmo Deus que lhe
entregou o evangelho.
A primeira lição, portanto, é que o evangelho não tem origem
humana.
O evangelho é o cumprimento de uma
promessa
Feita a apresentação, Paulo prossegue dizendo que o evangelho
consiste em uma promessa: “... que ele antes havia prometido
pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho” (v.
2,3a).
Em toda a Bíblia, começando por Gênesis, podemos observar
como Deus sempre faz promessas. No início do livro, Deus
promete que um descendente da mulher esmagaria a cabeça da
serpente. Essa promessa é repetida mais tarde, quando Abraão é
chamado para gerar uma descendência que abençoaria todas as
famílias da terra. Mais adiante, Deus dá a lei ao povo de Israel e
nela descreve o procedimento a ser seguido para os sacrifícios, no
qual há promessa de perdão por meio do derramamento de
sangue. Depois, vieram os profetas que falavam a respeito do
perdão definitivo de todos os pecados que estava por vir. (Isaías
fala do servo que sofreria pelos pecados do povo, Ezequiel fala de
uma nova aliança, Joel fala do Espírito Santo etc.)
Paulo demonstra que o evangelho pregado por ele não é uma
invenção, mas apenas o cumprimento de algo que já havia sido
prometido. A boa-nova de que Cristo é o salvador está, portanto,
em perfeita harmonia com a antiga aliança: no Antigo
Testamento temos a promessa, no Novo Testamento temos o seu
cumprimento.
Paulo vê o Antigo Testamento como registro santo da
promessa do evangelho. Por isso desprezar o Antigo Testamento é
um erro tão grave. A maioria dos cristãos gosta muito de ler os
evangelhos (especialmente o de João), pois falam de amor e das
histórias de Jesus; já outros apreciam os ensinamentos das cartas
de Paulo ou a grandiosidade de Apocalipse; quase nunca, porém,
queremos saber do Antigo Testamento. Quando há algum
interesse é, no máximo, por Salmos, em especial o salmo 23.
As Escrituras, no entanto, foram reveladas por inspi- ração
divina e são um registro da promessa dada por Deus de que viria
um salvador. Não conseguimos entender o Novo Testamento sem
o Antigo, nem vice-versa, pois o primeiro é a continuação da
história da redenção iniciada neste último.
O evangelho gira em torno da pessoa de
Jesus Cristo
Paulo prossegue: “... acerca de seu Filho, que, humanamente,
nasceu da descendência de Davi, e com poder foi declarado Filho
de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre
os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 3,4). O evangelho é
uma boa notícia a respeito de uma pessoa. Ele não trata de
prosperidade material, bênçãos, moralidade e ética etc., mas, sim,
de uma pessoa: “acerca de seu Filho”. A promessa de Deus
referia-se a alguém que ele haveria de enviar como Salvador.
Quando fala de Jesus, Paulo ressalta sua humanidade e
divindade. Trata do Filho de Deus que veio segundo a carne,
tornando-se um de nós, assumindo ossos e sangue humano. Mais
do que isso, ele nasceu como descendente de Davi, o rei que
recebera a promessa de que de sua descendência viria aquele que
se sentaria no trono do povo de Deus para todo o sempre. Jesus
nascera, então, com direito ao trono por causa de sua ascendência
real.
No entanto, Jesus era mais do que um judeu com linhagem
real e pretensões ao trono; ele era o Filho de Deus. Depois de falar
sobre a perfeita humanidade de Cristo, Paulo aborda sua
divindade e mostra como Jesus foi declarado Filho de Deus com
poder (v. 4). Ou seja, aconteceu algo que declarou e confirmou que
aquele judeu era mais do que um homem, era o Filho de Deus.
Paulo diz também que Jesus foi declarado Filho de Deus
“segundo o Espírito de santidade” (v.4). Existem duas
interpretações para isso. O apóstolo pode estar falando do
Espírito Santo; quando ele o faz, no entanto, utiliza a designação
completa (Espírito Santo). Ele pode também estar falando do fato
de que Cristo, durante sua vida como homem, nunca cometeu
pecado, foi santo em todo o seu proceder. O único ser capaz de tal
proeza é Deus; portanto, por causa de seu Espírito de santidade,
Cristo foi declarado Filho de Deus.
Há mais uma razão que Paulo apresenta para Cristo ter sido
declarado Filho de Deus: a ressurreição dos mortos. Ao ressurgir,
depois de se oferecer como sacrifício pelos pecados de seu povo,
Jesus foi poderosamente declarado Filho de Deus.
Se tivesse permanecido morto, ele poderia ser considerado
apenas mais um judeu rebelde e revolucionário como tantos
outros (como Teudas, por exemplo, que liderou mais de 400
homens em uma revolução armada contra Roma e foi morto; ou
ainda como Judas, da época do recenseamento, que iniciou uma
revolução e também foi morto, conforme Lucas nos informa em
Atos 5.36,37). Quando ressuscitou, Cristo foi confirmado como
Filho de Deus.
Paulo ainda acrescenta: “com poder foi declarado Filho de
Deus”. Ao ressurgir dos mortos ao terceiro dia, o Filho de Deus,
em torno de quem o evangelho gira, sobe aos céus, se assenta no
trono e pode dizer aos discípulos: “Toda autoridade me foi
concedida no céu e na terra. Portanto, ide, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo” (Mt 28.18,19).
O evangelho, então, está relacionado a uma pessoa: Jesus
Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, ressurreto dentre os
mortos, entronizado à direitade Deus, aquele que tem todo poder
nos céus e na terra. Paulo diz quem é esse Filho de Deus: Jesus
Cristo, nosso Senhor (v. 4). Ele é o cumprimento de todas as
promessas, o centro do evangelho e a razão das boas-novas, Jesus
Cristo, nosso Senhor, de quem somos escravos e servos. Ele é
Senhor de todas as coisas.
O evangelho deve ser crido e obedecido
Paulo continua a dizer na introdução de sua carta: “Por meio dele
recebemos graça e apostolado, por causa do seu nome, a fim de
conduzir todos os gentios para a obediência da fé” (v. 5).
Os gentios eram os não judeus, aqueles que não faziam parte
do povo escolhido por Deus. Paulo está afirmando que esse Cristo
que ressurgiu dentre os mortos, quando lhe apareceu, constituiu-
o, por causa do seu nome, para conduzir os gentios à obediência
da fé. Essa foi a missão que Paulo recebeu; esse é o seu
apostolado. Cristo o chamou para anunciar o cumprimento da
promessa de Deus, segundo a qual o Salvador já veio; quem crer
nele será perdoado e receberá a remissão dos pecados. Todos,
gentios e judeus, precisam ouvir isso, pois não há salvação em
nenhum outro; não há outro caminho senão Jesus.
Devemos notar cuidadosamente a expressão “obediência da fé”
(v. 5), pois fé não é apenas crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus
e cumpriu a promessa do Pai. Fé é obedecer ao que Cristo ordena,
e não apenas uma aquiescência intelectual; é uma inclinação, um
compromisso da nossa vontade em relação àquele em quem
dizemos crer. Por isso Paulo fala da obediência da fé: creiam em
Cristo e andem nos caminhos dele. Essa era a mensagem da
missão de Paulo.
Deus nos chama pelo evangelho para sua
glória
Em seguida, Paulo finalmente se dirige aos destinatários: “...
entre os quais também sois chamados para ser de Jesus Cristo”
(v. 6). O apóstolo havia dito que sua missão era pregar o
evangelho entre os gentios, entre os quais estão aqueles
moradores de Roma, que também haviam sido chamados.
O chamado mencionado aqui deve ser interpretado da mesma
forma que o próprio chamado de Paulo na estrada para Damasco.
Quando Deus apareceu a Paulo, os dois não tiveram uma
conversa amigável que envolveu saudações gentis, um aperto de
mão e uma oferta por parte de Deus que poderia ou não ser aceita
por Paulo. Aliás, se tivesse sido assim, sabe quantos crentes
existiriam? Zero, nenhum.
O chamado aqui é uma compulsão que Deus coloca no coração
do pecador; é uma inclinação irresistível que atrai o pecador com
laços de amor, no poder do Espírito Santo. Se não fosse assim,
você não seria crente! Não estaria lendo este livro hoje, não fosse
pela graça de Deus.
O evangelho tem origem em Deus; é ele quem chama, e a
nossa parte é obedecer e ir.
Paulo afirma: “A todos os que estais em Roma, amados de
Deus...” (v. 7). A Bíblia diz que Deus amou o mundo, e é verdade;
mas Deus amou os seus, aqueles a quem chama para serem
santos, com um amor especial, irresistível, um amor redentor e
salvador. O amor de Deus pela humanidade é o que chamamos de
graça comum: ele ama todas as suas criaturas. Aqueles a quem
chamou, porém, Deus ama com um amor especial, redentor, que
levou Cristo a morrer por eles na cruz.
Nós, os salvos, não somos amados por Deus da mesma forma
que o mundo. Somos amados no sentido de que ele nos amou e nos
chamou, de modo irresistível, pelo evangelho, para sermos dele.
Esse amor redentor de Deus nos separa do mundo, e somos objeto
desse chamado específico.
Paulo prossegue, dizendo aos crentes de Roma que foram
“chamados para serdes santos” (v. 7), a fim de evitar posturas do
tipo “se Deus me amou e me predestinou, posso viver de qualquer
jeito!”. Não, não pode! Você foi chamado para ser santo; lembre-se
de que Paulo mencionou a “obediência da fé”. A fé verdadeira é a
que obedece, e o chamado é para ser santo, e não para viver de
qualquer maneira.
Assim, a boa notícia é esta: Deus cumpriu as promessas em
Cristo Jesus, e agora está, pela pregação da palavra, chamando
seu povo e constituindo uma nova raça, que é a sua família, um
povo para o seu louvor. Que privilégio poder fazer parte desse
povo!
Paulo termina dizendo: “Graça e paz a vós, da parte de Deus
nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (v. 7). Ao colocar Jesus ao
lado de Deus como origem da graça e da paz, ele está destacando
a divindade de Cristo. Graça e paz vêm do Pai e do Filho, e com
isso o apóstolo quer dizer que Cristo é Deus. A segunda pessoa da
Trindade é o nosso Senhor e Deus.
Conclusão e aplicações práticas
Recapitulando brevemente o que vimos até aqui, há quatro pontos
de que não podemos nos esquecer no decorrer do estudo de
Romanos: (1) O evangelho são as boas-novas que procedem da
parte de Deus. A mensagem do evangelho não tem origem no
coração humano; a mente humana não poderia conceber tal plano.
A origem do evangelho está no Criador de todas as coisas. (2) O
evangelho foi antecipado no Antigo Testamento. Ele foi prometido
por Deus, e essas promessas foram registradas pelos profetas de
Israel. Portanto, o evangelho não é uma invenção dos cristãos,
mas está em perfeita harmonia com o que existe desde a
antiguidade. (3) O evangelho foi anunciado pelos apóstolos. Deus
levantou pessoas (a quem chamou de apóstolos) mediante Jesus
Cristo para serem os anunciadores do evangelho, e, da mesma
forma que levantou os profetas para que registrassem as
promessas, ele chamou os apóstolos para registrarem o
cumprimento delas. É por isso que não temos mais apóstolos como
os doze e Paulo. Eles foram chamados para um propósito
específico (assim como os profetas), e estamos hoje edificados
sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos, que é a Sagrada
Escritura. Não precisamos de apóstolos, mas, sim, de pastores e
mestres que ensinem aquilo que foi registrado pelos apóstolos e
pelos profetas. (4) O evangelho gira em torno de Jesus Cristo, o
Deus-homem. Devemos parar de seguir falsos profetas que falam
de outros evangelhos e raramente falam da pessoa de Cristo e de
sua obra na cruz. Essas pessoas jogam iscas: “Você pode fazer
uma campanha aqui, uma promessa ali e vai ser coberto de
bênçãos”. Isso não é o evangelho! Não estou dizendo que Deus não
possa abençoá-lo. Quem se diz crente, mas fica atrás de Deus pela
bênção, está sendo enganado por um falso profeta e está
enganando o próprio coração, pois o evangelho trata de uma
pessoa: aquele que é o cumprimento da promessa de Deus de que
enviaria um salvador para nos livrar dos pecados e nos dar a vida
eterna. Se você crê nisso, será salvo e herdará a vida eterna; se
não, vai viver neste mundo sendo enganado por falsos profetas e
morrerá por seus pecados, pelos quais vai responder no dia do
juízo e no sofrimento eterno do inferno.
Não tenho dúvida de que o inferno estará cheio de gente que
creu em um falso evangelho. O evangelho verdadeiro é aquele que
foi ensinado pelos profetas no Antigo Testamento e pelos
apóstolos no Novo Testamento; ele é o nosso fundamento.
Talvez você tenha ouvido um falso evangelho até o dia de hoje,
mas quero convidá-lo a examinar o que tem ouvido à luz da
palavra de Deus. Talvez você professe crer no verdadeiro
evangelho, mas se esqueça de que ele também é um chamado
para a santidade, pois a fé sem obras é morta, e a fé no evangelho
produz a obediência. Você não pode professar ser um servo de
Jesus Cristo se vive desobedecendo a seu Senhor, violando os seus
mandamentos e ofendendo-o com suas práticas.
Gostaria de que você cresse nisto: O evangelho é poderoso para
nos perdoar, mas também para nos transformar. O evangelho é o
poder de Deus para salvar todo aquele crê. Talvez você esteja
sobrecarregado pela culpa do pecado, mas eis a boa notícia: Deus
já enviou alguém para pagar por sua culpa e remir todos os seus
pecados, alguém em quem você pode ter vida eterna, graça e paz.
Esse alguém é Jesus Cristo, Filho de Deus, descendente de Davi,
ressurreto dentre os mortos e que tem todo o poder nos céus e na
terra. Louvado seja o Senhor!o capítulo anterior, vimos a
razão de Paulo ter escrito essa
carta. Ele estava no final de sua
Capítulo 2
O AMOR DE PAULO PELOS
ROMANOS
Romanos 1.8-15
Paulo deseja ver os cristãos em Roma
Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por
todos vós, pois a vossa fé é anunciada em todo o mundo. Porque Deus, a quem sirvo
em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como sempre vos
menciono, pedindo constantemente em minhas orações que agora, de algum modo,
pela vontade de Deus, haja boa ocasião para visitar-vos. Porque desejo muito ver-vos,
para compartilhar convosco algum dom espiritual, a fim de que sejais fortalecidos;
isto é, para que, juntamente convosco, eu seja encorajado pela fé mútua, vossa e
minha. E, irmãos, não quero que ignoreis que muitas vezes planejei visitar-vos (mas
até agora tenho sido impedido), para conseguir algum fruto entre vós, como também
entre os demais gentios. Sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios
como a ignorantes. De modo que, no que depender de mim, estou pronto para
anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma.
N
terceira viagem
missionária, depois de
muitos anos pregando na
bacia do Mediterrâneo, e havia
voltado seus olhos para a
Espanha, um campo em que
Cristo ainda não havia sido
anunciado.
Ele planejava, então, chegar à Espanha. No caminho que
Paulo optara para lá estavam justamente os cristãos de Roma,
uma igreja que ele não havia fundado, mas na qual tinha muitos
conhecidos. Embora tivesse amigos lá, Paulo não era oficialmente
conhecido da igreja de Roma.
O plano de Paulo, então, era o seguinte: levar a cabo o projeto
de entregar a oferta que ele havia levantado para os cristãos
pobres da Judeia em Jerusalém; de lá ele pegaria um navio com
destino a Roma, onde pretendia passar algum tempo com os
cristãos locais; e finalmente de Roma ele seria enviado (pela
igreja) à Espanha, onde pregaria o evangelho.
Como foi dito no capítulo 1, Paulo não era conhecido dos
romanos, e a respeito dele circulavam muitos boatos,
principalmente por causa da grande comunidade de judeus que
havia na cidade. Os judeus perseguiram Paulo desde o início de
sua conversão, e a fama do apóstolo na comunidade judaica era de
alguém que havia apostatado do judaísmo, traindo a religião de
seus pais, negando Moisés, falando contra a lei e o templo,
obrigando os judeus a não mais circuncidarem seus filhos,
dizendo que Israel não era mais o povo de Deus etc.
Paulo sabia que, quando chegasse a Roma, haveria de
enfrentar opositores, pois os judeus não estavam presentes
apenas na cidade, mas também dentro da própria igreja. Ele
resolveu escrever a carta, portanto, a caminho de Jerusalém e
com os olhos voltados para a Espanha, na qual explicaria o
evangelho que pregava, rebatendo possíveis críticas que viria a
receber e tratando de alguns problemas pastorais que precisavam
ser esclarecidos, como o relacionamento entre judeus e gentios.
Paulo começou a carta falando a respeito de si mesmo e de sua
mensagem, defendendo que o evangelho tem origem divina e é
uma promessa de Deus, registrada no Antigo Testamento e
cumprida no Novo, em Jesus de Nazaré. Ele também mostra como
o evangelho é justamente a respeito de Cristo, o Filho de Deus, e
deve ser pregado em todo mundo; por isso Paulo tinha interesse
de levá-lo até a Espanha.
Amor revelado pela oração
Na sequência, então, Paulo fala do grande amor que dedica aos
cristãos de Roma, do desejo que tem de estar com eles e de seus
planos para o período em que estaria na cidade. Ao fazer isso,
revela um coração amoroso, pastoral e preocupado, e nos dá
acesso ao espírito daquele que foi e é o maior missionário de todos
os tempos do cristianismo.
Neste capítulo, quero falar do amor de Paulo pelos romanos,
algo que fica bem demonstrado pela afirmação de que orava
constantemente por eles, por seu desejo de ter comunhão com
aqueles irmãos e pelo fato de que ele se sentia devedor de pregar
o evangelho a eles.
O meu alvo, ao fazer essa exposição, é aprender com o apóstolo
o que é ser um crente piedoso, de fato comprometido com a boa-
nova do Reino. Nessa passagem, Paulo abre a janela do seu
coração, descortinando seu interior, de modo que possamos
contemplar como é o coração de um homem temente a Deus e
completamente dedicado ao evangelho de Jesus. Minha
expectativa é que o Espírito Santo de Deus sonde o meu e o seu
coração, e, usando Paulo como exemplo, oriente-nos, corrija-nos,
conforte-nos e encoraje-nos a viver uma vida que sirva a Deus
com a mesma intensidade do apóstolo.
Primeiramente, quero falar sobre o amor de Paulo revelado em
suas orações pelos romanos: “Em primeiro lugar, dou graças ao
meu Deus, por intermédio de Jesus Cristo, por todos vós, pois a
vossa fé é anunciada em todo o mundo” (v. 8).
Mesmo ele não sendo o fundador da igreja de Roma e mesmo
tendo ela outros líderes, Paulo agradecia a Deus pelo crescimento
que era constatado ali. Aquela era uma igreja que havia
espalhado sua fé pelo mundo todo. Em parte, isso se deu porque,
como diz o ditado, “todos os caminhos levam a Roma”. Muitas
pessoas iam a Roma; lá, conheciam o evangelho e saíam pregando
por outros lugares. A obra missionária da igreja de Roma já era
conhecida, e a fé daqueles irmãos era propagada por todo o
Império Romano.
Paulo agradecia todo dia pelo crescimento da igreja de Roma,
mesmo não sendo um de seus líderes e não recebendo glória
nenhuma, pois seu interesse era que o evangelho crescesse. Ele
agradecia por um trabalho que não liderou, por ovelhas que não
pastoreou e por frutos que não plantou. Hoje em dia, mal
conseguimos agradecer a Deus pelo que ele faz em nossa vida,
quanto mais agradecer pelo crescimento espiritual de outras
igrejas.
O coração de Paulo carrega o amor que devemos ter pelo reino
de Deus. Precisamos entender que o reino é maior do que a sua e
a minha denominação; há milhares de cristãos, em toda parte,
que creem no Senhor Jesus como você crê e como eu creio, e
devemos alegrar-nos com esse fato, pois o evangelho está
avançando. Deveríamos agradecer a Deus pelos lugares onde o
verdadeiro evangelho está sendo ensinado, antes mesmo de
agradecer por nós mesmos, pois, independentemente de qualquer
coisa, a igreja está crescendo no mundo.
Essa é a razão de a igreja, desde o início, ter sido chamada de
católica e universal pelos teólogos. Infelizmente, mais tarde, a
igreja romana se apropriou do termo “católica”, embora um dos
atributos da igreja seja justamente ela ser católica, o que apenas
significa que ela se estende pelo mundo todo. A fé é universal; ela
alcança todas as raças e todos os povos, e não somente a nós.
A alegria pela propagação da semente do evangelho, portanto,
estava no coração de Paulo, e isso mostra como ele amava aqueles
irmãos. Os pastores dos nossos dias deveriam desenvolver esse
sentimento uns pelos outros; em vez disso, há muita concorrência
e competição entre denominações. Um pastor tem de ser crente
para se alegrar com o avanço de outros, assim como Paulo se
alegrava pelo avanço dos pastores de Roma.
Paulo coloca isso como prioridade, e note que ele dá graças ao
Deus que chama de “meu” (v. 8), o que revela intimidade e um
intenso relacionamento pessoal com o Senhor. Ele não se
relaciona com uma divindade distante, mas pode chegar a Deus e
chamá-lo de “meu”. Essa expressão curta carrega em si um
mundo de significados e revela uma relação pessoal intensa.
Ele diz, ainda, que essa ação de graças se dá “por intermédio
de Jesus Cristo” (v. 8), pois somente por meio dele podemos
chamar Deus de nosso; se não for por ele, Deus é apenas o Deus
criador de todas as coisas e juiz universal de todos, que haverá de
nos julgar pela sua santa lei. Mediante Cristo, podemos dizer que
ele é o nosso Deus, com quem temos um relacionamento pessoal
diário, constante e profundo.
Não deixa de ser irônico observar que Paulo está agradecendo
a Deus peloavanço da igreja de Roma; se fosse escrever essa
carta hoje, o mais provável é que ele se pronunciasse contra os
romanos. Infelizmente, no transcorrer da história, a igreja de
Roma se desviou dos caminhos de Deus, em particular durante a
Idade Média, e deu origem a uma religião que se propõe cristã,
mas que pouco preserva do cristianismo original que Paulo
defende nessa carta.
A igreja romana carece de reformas (além daquela ocorrida há
mais de quinhentos anos, a Reforma protestante), o que mostra
que as situações podem mudar, pois a igreja que recebeu uma
carta que continha o verdadeiro evangelho foi capaz de se desviar,
com o passar do tempo, apostatando e se distanciando da reta
doutrina. Daí a necessidade que devemos ter de tomar cuidado e
estar alertas, pois o coração humano é enganoso.
Paulo amava aqueles irmãos, orava e intercedia por eles. E ele
prossegue: “Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no
evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como sempre vos
menciono...” (v. 9). Agradecer a Deus pelo crescimento de pessoas
de outra igreja já é uma grande coisa, mas para interceder todos
os dias por elas é preciso ser crente de verdade. Era isso que
Paulo fazia, sem ao menos conhecer aquelas pessoas.
O problema é que temos dificuldade até mesmo de
simplesmente orar, quanto mais orar dessa forma. Esse trecho da
carta revela o coração de Paulo e o que é o verdadeiro
cristianismo. Quem é comprometido com o evangelho ora pelo
progresso dos outros e fica feliz quando outros são exaltados.
Paulo diz que ora pelos romanos incessantemente, e apresenta
a prova disso invocando a Deus como testemunha. Poderia
parecer incrível e até questionável, por parte dos romanos, que
Paulo orasse todos os dias por eles, por isso o apóstolo apresenta o
próprio Deus como testemunha. Em todas as suas cartas, Paulo
menciona orações desse tipo: ele orava incessantemente pelos
filipenses, tessalonicenses, colossenses etc. Ele era um homem de
oração que amava o povo de Deus.
Note como o apóstolo se refere a Deus no versículo 9: “Porque
Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é
minha testemunha de como sempre vos menciono...”. O verbo
“servir” aqui denota serviço religioso; ou seja, esse Deus, a quem
Paulo prestava adoração e louvor como sacerdote em sua vida, era
testemunha de suas orações.
Talvez o apóstolo tenha escolhido utilizar “em meu espírito” (v.
9) para contrastar com o judaísmo e suas exigências externas
legalistas, ou para contrastar com a religião dos gregos e dos
romanos, que era muito ritualista. Paulo está dizendo que o
serviço que ele presta ao seu Deus é algo interno e sincero, que
vem do seu espírito; não é algo de fachada e não é feito para que
os outros vejam, mas parte do seu coração.
Este é o verdadeiro cristianismo: o que vem de dentro e leva o
cristão a servir a Deus em espírito. É claro que o evangelho
transforma nossa vida, mas é no espírito que se encontra a sede
de nossas afeições religiosas, e é lá que Deus é entronizado por
meio de Jesus Cristo e que o Espírito Santo habita.
Atos religiosos externos, como ir a um culto, cantar louvores,
entregar dízimos e ofertas e participar de uma confissão pública
de fé, são bons e necessários, mas não fazem de ninguém um
cristão. Nós servimos a Deus no mais profundo de nosso espírito,
e não necessariamente por atos religiosos.
E Paulo acrescenta: “... no evangelho de seu Filho...” (v. 9),
indicando mais uma vez que é somente por meio do evangelho de
Jesus Cristo que temos como chegar à presença de Deus para
servir, honrar e glorificar o seu nome, orar e interceder. É por
meio do verdadeiro evangelho de Cristo que podemos chegar a
Deus; não há outro caminho. O apóstolo está dizendo que não é o
caminho das obras, da moralidade ou de qualquer outra coisa que
parta do ser humano que nos leva a Deus, mas, sim, o serviço a
Deus mediante o evangelho do seu Filho.
Esse é o Deus que Paulo chama para testemunhar a seu favor,
como quem diz: “Eu sei que é incrível que eu esteja dizendo que
oro por vocês todos os dias, mas o Deus a quem eu sirvo no meu
espírito, por meio do evangelho de seu Filho, é testemunha de que
oro por vocês todos os dias: ‘Senhor, abençoe os irmãos de Roma,
que lutam pelo evangelho em uma cidade tão difícil, em que
vivem perseguidos por todos os lados, ameaçados pelos próprios
judeus e cercados de tantos pagãos!’”.
Amor revelado pelo desejo de comunhão
Paulo, porém, não somente agradecia a Deus e orava pelos irmãos
em Roma, mas queria visitá-los também: “... pedindo
constantemente em minhas orações que agora, de algum modo,
pela vontade de Deus, haja boa ocasião para visitar-vos” (v. 10). O
amor que Paulo tinha pelos cristãos romanos não era distante,
mas tão concreto e real que ele na verdade queria estar com
aqueles irmãos.
Isso mostra uma coisa que você já deve ter descoberto na
prática: queremos estar com a pessoa por quem oramos. Quando
oramos por alguém, sentimos vontade de estar perto daquela
pessoa. Então, se alguém o magoou ou ofendeu, ore por essa
pessoa. Em pouco tempo você estará pedindo a Deus por uma
oportunidade de almoçar com ela. Comece orando, pedindo
prosperidade para quem lhe fez mal (mesmo que você não
prospere), e logo sentirá vontade de iniciar ou retomar um
relacionamento com ele ou ela, pois, quando oramos por alguém,
nosso coração se abre para essa pessoa. É isso que vemos
acontecer na Carta aos Romanos: Paulo começa a orar por essas
pessoas e então se abre, revelando que, na verdade, desejava
estar perto deles e ter com eles comunhão.
De fato, essa era uma coisa que Paulo já queria há tempos
(Rm 15.23): “Mas, agora, não tendo mais o que me detenha nessas
regiões, e tendo já há muitos anos grande desejo de visitar-vos...”.
Note que ele diz “visitar-vos” e não “ir morar com vocês”, pois seu
plano era ir para a Espanha logo depois.
É importante destacar também o que Paulo diz no trecho que
estamos estudando: “... pedindo constantemente em minhas
orações que agora, de algum modo, pela vontade de Deus, haja
boa ocasião para visitar-vos” (v. 10). O apóstolo reconhecia a
soberania de Deus e sabia que, apesar de seu desejo, sua ida a
Roma dependia da vontade de Deus, e por isso ele ora dessa
forma. Estamos falando de um homem de fé, que servia a Deus no
espírito, que tinha acesso à presença de Deus e que o conhecia
intimamente, mas que não era arrogante a ponto de decretar sua
ida a Roma.
A verdade é esta: quanto mais alguém conhece a Deus, menos
arrogante se mostra. Quanto mais você conhece a Deus, menos
vai ficar lhe dando ordens e fazendo exigências, mas dirá: “Se for
da tua vontade, Senhor, irei a Roma”. E observe que não é outro
senão Paulo que está dizendo isso.
Por essa passagem podemos presumir que parecia estar
surgindo uma ocasião. Paulo estava de partida para Jerusalém,
ao final de sua terceira viagem, e calcula-se que tenha ficado
aproximadamente quinze anos evangelizando a região do
Mediterrâneo. As coisas estavam se encaixando, e parecia real a
possibilidade de Paulo ir à Espanha.
Como planejar não faz mal a ninguém, Paulo fazia planos;
porém, nem sempre as coisas saem como gostaríamos. Paulo
chegou a Jerusalém, mas foi preso. Ele também chegou a Roma, é
verdade, mas apenas dois anos depois, acorrentado como preso
político. Essa cidade que ele tanto amava e tanto queria ver foi o
palco de sua morte, no ano 64 d.C., quando o imperador Nero
mandou que cortassem sua cabeça na Via Ápia. Os planos nem
sempre saem como queremos; Paulo acabou chegando a Roma,
mas não do jeito que desejava.
Seguindo com o texto, Paulo fala de sua vontade de ter
comunhão com aqueles irmãos que ele tanto amava: “Porque
desejo muito ver-vos, para compartilhar convosco algum dom
espiritual, a fim de que sejais fortalecidos; isto é, para que,
juntamente convosco, eu seja encorajado pela fé mútua, vossa e
minha. E, irmãos, não quero que ignoreis que muitas vezes
planejeivisitar-vos (mas até agora tenho sido impedido), para
conseguir algum fruto entre vós, como também entre os demais
gentios” (v. 11-13).
Paulo queria oferecer aquilo que Deus havia lhe dado: a
maestria no ensino, a fim de ali confirmar a fé dos romanos. E,
para deixar claro que não era do tipo que apenas ensinaria sem
receber nada em troca, ele diz: “isto é, para que, juntamente
convosco, eu seja encorajado pela fé mútua, vossa e minha”. Paulo
fora para ensinar, mas também para ser encorajado e confortado
pela fé dos romanos, de modo que assim se sentisse mais disposto
para continuar a obra de Deus.
O apóstolo, apesar de ter chegado àquela estatura, nunca se
viu como alguém que não precisasse ser ministrado por outras
pessoas. Nós também nunca chegaremos a tal ponto, pois não
existe alguém tão pobre espiritualmente que não possa beneficiar
o outro com sua presença e comunhão. Paulo queria fortalecer os
romanos e ser fortalecido por eles para pregar o evangelho em
todo o mundo.
Nesse sentido, não entendo bem o fato de haver tantos
“desigrejados”. Um desigrejado é alguém que quer ser crente, mas
não quer a igreja. Se já houve alguém que poderia ser um
desigrejado, esse alguém era Paulo, pois sua intimidade com Deus
era muito grande. No entanto, ele queria ir a Roma para ter
comunhão com irmãos que nem conhecia, para ministrar e ser
ministrado, confortar e ser confortado.
Quando insisto a respeito da importância da igreja, não faço
isso para ver bancos lotados, a igreja cheia, ofertas e números em
ascensão etc. Não é esse o meu interesse; eu insisto nisso porque
sei que não podemos ser crentes se não estivermos na comunhão
dos santos. Todos nós precisamos de um ambiente onde possamos
ser ensinados, ministrados e confirmados, onde possamos exercer
nossos dons espirituais. Isso fica muito claro aqui, nesse anseio de
Paulo por ver e experimentar a comunhão dos irmãos romanos. É
triste esse movimento de desigrejados que está tomando o mundo
todo de cristãos que querem Cristo, mas não querem a sua noiva,
a igreja.
Amor revelado como dívida
Paulo não só quer ser confortado pelos romanos, como afirma: “E,
irmãos, não quero que ignoreis que muitas vezes planejei visitar-
vos (mas até agora tenho sido impedido), para conseguir algum
fruto entre vós, como também entre os demais gentios” (v. 13).
Paulo também tinha interesse de gerar frutos por meio do
trabalho com os romanos e com os outros gentios, a saber, os
espanhóis.
Paulo ansiava por ver o fruto do evangelho florescer em todo o
mundo, e havia feito muitos planos para iniciar o projeto de ir a
Roma, mas nem ele conseguia tudo do jeito que queria. Ele fazia
planos e mais planos, mas foi impedido diversas vezes (isso se
deu, muito provavelmente, pelo fato de ele ainda ter, à época,
muito campo missionário na bacia do Mediterrâneo, e, a cada
nova igreja plantada, muito trabalho precisava ser feito).
Além das outras duas formas como revelou seu amor pelos
romanos, Paulo demonstrava esse amor se sentindo devedor a
eles: “Sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios
como a ignorantes. De modo que, no que depender de mim, estou
pronto para anunciar o evangelho também a vós que estais em
Roma” (v. 14,15).
Paulo se sentia devedor por alguns motivos: primeiramente,
ele havia sido um fariseu arrogante, prepotente, cego e legalista,
cheio de ódio por Cristo e seus seguidores, mas a graça de Deus
um dia o alcançara, sem nenhum mérito ou conquista por parte
dele. Por graça divina, Deus apareceu a Paulo na pessoa de Cristo
Jesus, na estrada para Damasco, e ele foi salvo. Quando
entendemos o amor de Deus por nós, nos sentimos devedores a
outros, pois, se Deus nos deu a graça de nos perdoar, sentimos
que as pessoas também deveriam experimentar essa graça.
Já foi dito que evangelizar é semelhante a um mendigo dizer
ao outro que encontrou pão. Imagine um mendigo que, após dias
passando fome, descobre um lugar onde há pão de graça! Ele
sairá correndo para contar aos amigos, pois se sente devedor por
ter recebido gratuitamente aquilo de que precisava e, se não
contar a ninguém, se sentirá um egoísta.
Por isso Paulo diz que é devedor. Ele não pode se sentir de
outra forma, pois recebeu o perdão de pecados. E é importante
notar que ele diz se sentir devedor a gregos e bárbaros. A palavra
“bárbaro” vem da forma que os gregos viam os povos que não
participavam da cultura grega, como os persas e egípcios. Os
gregos se julgavam a nata intelectual do universo, uma raça
nobre. Isso começou a partir dos esforços de Alexandre, o Grande,
e da expansão do helenismo, em cerca de 250 a.C. A língua grega
era considerada uma língua civilizada; quando uma pessoa de
outra cultura falava sua própria língua, os gregos apenas ouviam
“bar-bar-bar”. É daí que vem a palavra “bárbaro”, a qual entrou
para a nossa língua justamente com um sentido pejorativo que
remete a incivilidade.
Paulo está enfatizando, portanto, que se sente devedor aos
gregos e também àqueles a quem os gregos menosprezam, pois
para ele não há diferença: todos pecaram e carecem da glória de
Deus (Rm 3.23). A prova disso é que ele continua a dizer no texto
que é devedor “tanto a sábios como a ignorantes” (v. 14). Paulo
demonstra que todos pecaram, só no evangelho de Cristo gregos e
bárbaros, sábios e ignorantes podem encontrar a salvação.
Por isso o apóstolo se sente devedor em relação a cada ser
humano, não apenas a alguns amigos. Ele sabe que as pessoas
estão famintas, e sabe onde há pão, onde há perdão, graça e
misericórdia. É por esse motivo que ele diz estar “pronto para
anunciar o evangelho também a vós que estais em Roma” (v. 15).
Conclusão e aplicações práticas
O que podemos aprender aqui? Primeiramente que não nos
cansamos de nos maravilhar com o poder do evangelho. Quem
está dizendo todas essas coisas e revelando um coração cheio de
oração e de vontade de estar com aqueles irmãos, sentindo-se
devedor a eles, é o mesmo Saulo de Tarso, aquele fariseu
arrogante e pretensioso que achava que estava fazendo um favor
a Deus ao perseguir e jogar cristãos aos leões.
O evangelho transformou esse homem de um fariseu
endurecido e cheio de mágoa em um homem apaixonado pelo
evangelho, que ama as pessoas, quer estar com elas e ser por elas
edificado e que, além de tudo, se sente devedor a cada um
daqueles irmãos, e não o contrário (Paulo poderia sentir que as
pessoas lhe deviam algo por ele ser um grande pregador). O
evangelho faz isso: ele muda, transforma pessoas. Ele
transformou Saulo de Tarso no apóstolo Paulo que escreveu
Romanos.
Deus pode mudar totalmente uma pessoa, transformando seu
coração de pedra, cheio de mágoa, ressentimento e raiva para com
a vida e com Deus em um coração alegre, leve, cheio de amor e de
vontade de abençoar outras pessoas. É isso que o evangelho faz, e
é isto que significa ser cristão: ser alcançado e transformado pelo
evangelho.
A segunda lição que extraímos do texto é o que vem a ser, de
fato, uma vida piedosa e comprometida com o evangelho. Essa era
a vida de Paulo, não porque ele era um apóstolo, pois, se Deus o
tivesse chamado para ser apenas fazedor de tendas, ele teria esse
mesmo coração que buscava servir a Deus, se interessava pelas
pessoas, procurava ter comunhão com elas e abençoá-las com os
dons que ele havia recebido. Compare isso com a sua vida.
Podemos aprender também, do texto, a importância de
estarmos em comunhão com outros cristãos. Quando seu pastor
insiste para que você vá ao culto, faça parte de um grupo pequeno
ou de discipulado, busque relacionamentos para ter comunhão
etc., ele não está fazendo isso por outra razão senão pelo fato de
que essa é uma recomendação bíblica. Estarmos juntos,
ministrarmos uns aos outros e aprendermos uns com os outros
são aspectos que fazem parte da comunhão dos santos, algo que é
bíblico. As metáforas que a Bíblia utiliza denotam isto: fazemos
parte de um corpo, somos parte de um organismo vivo,somos os
ramos de uma árvore, as pedras de um edifício etc.
A quarta lição que o texto nos ensina é a obrigação de pregar o
evangelho. Se você foi alcançado pelo evangelho, por que não se
sente devedor? Se sabe o caminho para Deus, você não se sente
obrigado a dizer isso para outra pessoa? Eu sei que sentimos uma
dificuldade natural de temperamento, e às vezes não sabemos o
que dizer. Além disso, o mundo de hoje é muito complexo e, se
você disser “Jesus Cristo salva”, terá de explicar cada uma dessas
três palavras.
Entendo que é difícil, mas há ferramentas, métodos, meios e
caminhos para que você possa compartilhar a sua fé. Se não
consegue dizer nada, pode pelo menos convidar alguém para ir à
sua igreja. Envie o link do site da sua igreja para um amigo ou
até mesmo compartilhe um folheto, mas compartilhe, mesmo que
não saiba explicar a sua fé.
Por último, aprendemos com o texto que podemos fazer planos,
mas a resposta final é de Deus. Paulo não tinha a menor ideia de
como iria para Roma, mas ele foi, embora não da forma que
pensou. Apesar do desfecho da história de Paulo, no entanto,
Deus cumpriu seus planos, pois, mesmo preso em Roma, Paulo
escreveu as cartas aos Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Se ele não tivesse sido preso, teríamos ficado sem essas
cartas, e, mesmo preso, ele acabou abençoando muito mais
pessoas do que se estivesse livre.
Provavelmente Paulo nunca chegou à Espanha conforme havia
planejado. Mas, se ele não chegou lá fisicamente, chegou por meio
de seus escritos. Nosso Deus é soberano, e ele reina. É a ele que
queremos servir. Que ele nos ajude a ter um tempo diário para
servi-lo e nos dê graça para buscarmos comunhão com irmãos e
testemunharmos o Cristo vivo, pois somos devedores a todos os
homens por causa desse evangelho.
D
ando prosseguimento ao
estudo da Carta aos
Romanos, chegamos a dois
versículos que são uma
declaração gloriosa a respeito do
que é a mensagem central do
cristianismo (e ao mesmo tempo
tema da carta).
Capítulo 3
EVANGELHO: O PODER DE DEUS
PARA SALVAR
Romanos 1.16,17
A justiça pela fé
Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de
todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego. Pois a justiça de Deus se
revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé.
No capítulo anterior, vimos como Paulo revelou aos crentes de
Roma seus planos de ir visitá-los (1.8-15). Como foi dito, sua
intenção era ir a Jerusalém, onde deixaria uma oferta aos cristãos
pobres da Judeia, e, de lá, ele planejava tomar um navio com
destino a Roma. Na capital do império, Paulo esperava ser
recepcionado pela igreja romana, que ele não havia fundado, mas
da qual conhecia alguns membros (a lista dessas pessoas está no
cap. 16 da carta).
Paulo desejava estar junto daqueles irmãos, compartilhar com
eles o evangelho e ser por eles abençoado. Também planejava ser
enviado pela igreja de Roma para a Espanha em uma viagem
missionária para pregar o evangelho (Paulo detalha isso no cap.
15).
O apóstolo demonstra grande amor pelos cristãos romanos,
mesmo não sendo conhecido da maioria deles. Esse amor se
manifestava por meio de suas orações por aquela igreja, por seu
desejo de estar em comunhão com os irmãos e seu sentimento de
ser devedor para com eles. Ao final da seção que estudamos no
capítulo anterior, Paulo diz que está pronto para ir a Roma.
Nesse trecho, ele explica por que está pronto a ir a Roma
anunciar o evangelho aos seus habitantes, quer judeus, quer
gregos. Ao fazer isso, ele nos dá em dois versículos o tema da sua
carta e um resumo extraordinariamente claro e conciso do que é a
mensagem central do cristianismo.
Trata-se de dois versículos gloriosos, impregnados de
mensagem e conteúdo, cuja leitura levou Martinho Lutero a
entender o caminho da salvação e a justificação que vem pela fé
em Jesus Cristo, dando assim origem à Reforma protestante. Esse
texto tem influenciado a igreja ao longo da história e dele se
originam três dos cinco solas da Reforma: sola fide, sola gratia e
solus Christus.
“Não me envergonho do evangelho”
Paulo afirmou não ter vergonha do evangelho; isso significa que
ele não se intimidava por crer em Jesus como o Filho de Deus, o
Messias de Israel. Paulo era judeu e havia sido um perseguidor do
cristianismo, quando pensava que Jesus era um falso profeta e
seus seguidores eram uma ameaça à verdadeira religião, por isso
precisavam ser eliminados.
O apóstolo empenhou-se em uma cruzada pessoal contra os
cristãos. Ele chegou a ter permissão das autoridades de
Jerusalém para caçar os seguidores de Cristo nas cidades
circunvizinhas. Quando os encontrava cultuando nas casas, ele os
prendia e os levava para Jerusalém, onde eram interrogados,
presos e até torturados; em alguns casos, como o de Estêvão (At
7), eram apedrejados até a morte.
Certo dia, Paulo conheceu Jesus, a quem ele perseguia, na
estrada para Damasco, e se transformou de perseguidor em
discípulo adorador. Aquilo que Paulo antes perseguia, odiava e do
que sentia vergonha era agora a fé que ele abraçava. O apóstolo
dedicou a vida a pregar o mesmo evangelho que antes havia
perseguido.
Essa declaração de que não se envergonhava do evangelho
ganha, portanto, um sentido extraordinário, quando nos
lembramos de quem está dizendo essas palavras. O evangelho era
motivo de vergonha para a nação de Israel como um todo: o filho
de Deus era um carpinteiro pendurado em uma cruz? Aquilo era
um escândalo! Agora, no entanto, Paulo se tornara um seguidor
de Jesus Cristo e pregador do evangelho.
Ele não se sentia mais envergonhado, mas, sim, grato por ter
crido no evangelho, privilegiado e abençoado por ter sido
alcançado e se tornado um pregador desse evangelho. Essa era a
razão pela qual ele dissera que estava pronto a ir anunciar o
evangelho também em Roma. Ele não tinha mais vergonha, e
pregaria onde fosse possível a boa-nova de que Deus, em Cristo,
salva o pecador.
Quando pensamos que ele diz isso com relação a Roma, essa
declaração ganha ainda mais sentido, pois aquela cidade era a
capital do império. Os romanos valorizavam a força, o poder e o
domínio; eram uma nação conquistadora que havia avançado em
suas conquistas por meio de seu poderio militar.
Imagine Paulo chegando a essa cidade e dizendo que Deus
havia salvado o mundo por meio de um pobre carpinteiro nascido
em uma cidadezinha obscura, seguido por um bando de
pescadores, traído por um de seus seguidores e negado por outro,
condenado por seu próprio povo e entregue, por um procurador
romano (Pôncio Pilatos), à morte mais vergonhosa que havia no
Império Romano! A cruz era um instrumento de tortura e a pena
que os romanos impunham aos presos políticos e aos mais
terríveis criminosos.
Paulo se dispõe a ir à capital do Império Romano dizer que
aquele homem, rejeitado por seu povo e condenado a morrer em
uma cruz, era na verdade o Deus que salva o pecador. Eu imagino
Paulo tendo de pregar isso aos ouvidos arrogantes dos romanos. É
por isso que ele diz: “não me envergonho do evangelho” (v.16).
O poder de Deus para a salvação
Paulo prossegue explicando o porquê de não se envergonhar do
evangelho: “... pois é o poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (v. 16).
Longe de ser uma fraqueza, como os romanos talvez pensassem, o
evangelho era, na verdade, a manifestação do poder de Deus; é
nele que o poder de Deus se manifesta de forma clara.
Há uma série de pontos, a partir daqui, que precisam ser
explicados para que entendamos plenamente o que Paulo está
dizendo.
A humanidade está perdida
Ao dizer que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de
todo aquele que crê, Paulo está destacando o fato de que a
humanidade está perdida. Se assim não fosse, ele não poderia
falar do evangelho como sendo o poder de Deus para a salvação.
Se a humanidade estivesse salva, para que salvação?
Quando falamos dehumanidade, falamos de modo inclusivo.
Todos, sem exceção, estão perdidos, tanto gregos quanto bárbaros
(Paulo fala sobre isso em Rm 1.20,21). O apóstolo diz que mesmo
aqueles gregos e bárbaros que nunca ouviram o evangelho
também estão perdidos e condenados por rejeitarem a revelação
que Deus fez de si mesmo na natureza.
Embora eles tenham seus deuses, são escravos dos desejos de
seu coração. Estão cegos, endurecidos e pensam ser sábios; no
entanto, estão debaixo da ira de Deus e caminham para a
condenação eterna. Por essa razão, Paulo desejava ir a Roma e à
Espanha. Se ele não acreditasse que os espanhóis e os romanos
estavam perdidos, não planejaria ir à Espanha nem a Roma.
Além dos gregos e bárbaros, o apóstolo fala sobre como os
judeus também estão perdidos (caps. 2 e 3). Ele diz que até
mesmo os judeus, que receberam a revelação de Deus no Antigo
Testamento, que receberam a aliança, de quem vieram as
profecias e o Messias, de quem são as Escrituras e o culto, mesmo
esses estão perdidos. Eles receberam a lei de Deus, mas a
entenderam como um caminho de salvação, criando uma religião
legalista e baseada em mérito.
Todos, portanto, estão perdidos. No capítulo 3, Paulo faz a
famosa declaração: “Porque todos pecaram e estão destituídos da
glória de Deus” (v. 23). Essa condenação se estende a toda a raça
humana, independentemente de raça, nacionalidade, gênero, cor
ou idade. Nossos filhos estão perdidos, tanto os bebês quanto os
mais velhos. Toda a raça humana, sem exceção, está manchada
pelo pecado e também condenada por ele, porque Deus é justo e
santo, e conhece cada pessoa.
É aqui que podemos perceber a diferença entre o cristianismo
e as outras religiões. As religiões insistem em dizer que o homem
é intrinsecamente bom e que a salvação está dentro dele. Ele
precisa apenas olhar para dentro de si mesmo (“Ouça seu coração”
— alguma semelhança com o que se vê nos filmes de Hollywood?).
Se o sujeito é mau, ele só pode ter nascido em um ambiente
depravado, de acordo com essa ideia.
Vemos isso aqui no Brasil com frequência. Quando há um caso
de estupro que ganha as manchetes dos jornais, por exemplo,
vemos as pessoas buscando encontrar a culpa por todo lado — na
sociedade, na cultura de estupro, na erotização —, mas muito
pouco no próprio estuprador. É como se ele fosse uma mera vítima
por ter crescido em um ambiente precário; a culpa é colocada nos
pais, na sociedade e na educação, e o indivíduo quase escapa de
sua responsabilidade.
Essa é a religião do homem moderno. Quem não gosta de ouvir
que não é responsável pelos próprios atos, que na verdade é uma
boa alma e se pagar algumas promessas e participar de alguns
atos religiosos vai ficar em paz com Deus? Essa religião agrada ao
coração.
O cristianismo, ao contrário, começa com uma má notícia: você
viola a lei de Deus desde a mais tenra idade. Você está debaixo da
ira de um Deus que é poderoso para fazê-lo sofrer eternamente no
inferno. É isso que o cristianismo começa dizendo, e nesse sentido
ele é único.
Deus salva os pecadores mediante o evangelho
O evangelho é a boa notícia de que Deus, em seu grande amor por
essa humanidade perdida, enviou Jesus Cristo, nascido de mulher
e participante da nossa condição humana, para morrer na cruz do
Calvário como nosso representante. Ele suportou a ira de Deus e
o castigo que estava destinado a cada um de nós.
Longe de ser um momento de fraqueza, como talvez os
romanos pensassem, no evangelho o poder de Deus é revelado.
Ali, quando aquele homem derrama sua última gota de sangue e
exclama “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt
27.46), o que parece um quadro de fraqueza, com um homem
crucificado sentindo-se abandonado, é na verdade a manifestação
do poder de Deus. Ali Cristo estava levando sobre si as nossas
iniquidades.
A salvação vem por meio do anúncio desse ato salvador de
Deus em Cristo Jesus. Quando Paulo usa a palavra “salvação” (v.
16) nessa passagem, pensamos apenas na salvação da condenação
ao inferno. Mas o evangelho nos salva, na verdade, em todos os
sentidos: ele nos salva da culpa do pecado (nos colocando em paz
com Deus); nos salva do poder do pecado neste mundo, nos
ensinando a largar os maus hábitos, a vencer o nosso pecado e as
tensões do coração, a subjugar os nossos desejos mais ímpios e a
viver fazendo o que é certo, amando o próximo; o evangelho nos
livra da presença do pecado, porque um dia o redentor voltará, a
ressurreição dos mortos acontecerá e nós participaremos com ele
da consumação de todas as coisas, a redenção e salvação final,
quando então o pecado será extinto definitivamente da história da
raça humana. Portanto, a salvação é completa, não somente da
culpa, mas também do poder e da presença do pecado na
ressurreição dos mortos.
É dessa maneira, e de nenhuma outra, que Deus salva
pecadores. Não há nenhuma outra forma de salvação para o ser
humano senão mediante o evangelho; Deus salva pecadores
mediante o evangelho.
Libertação do poder do pecado
Gosto de pensar no evangelho nesses termos, como o poder de
Deus. Muitos estão atrás de poder; na verdade, podemos dizer que
até mesmo muitos evangélicos estão atrás do que chamamos de
“religião do poder”. Eles querem ter poder para conquistas, para
realizar seus sonhos, para vencer na vida, derrubar gigantes,
encontrar a Terra Prometida etc.
De fato, o evangelho é uma religião de poder, mas no sentido
com que figura no texto do versículo em questão: a maior
demonstração do poder de Deus não é lhe conceder um carro novo,
uma casa própria, um bom emprego e um excelente casamento.
Há mais manifestação do poder de Deus na salvação do pecado
que há em você do que em qualquer outro ato miraculoso que ele
porventura queira fazer. Até mesmo a ressurreição de mortos é
algo simples perto disso que estamos falando.
Deus toma pecadores culpados como eu e você e nos faz seus
filhos, perdoa nossas iniquidades e nos torna herdeiros dos novos
céus e da nova terra, nos quais habita a justiça. Isso, sim, é poder.
Quando penso no evangelho como poder, sou levado à
conclusão de que o cristianismo não é uma religião formal. Não se
trata de cumprir determinados atos, como ir à igreja para escutar
sermões todo domingo, tornar-se membro de uma igreja, dar
ofertas e dízimos, cantar no coral etc. O cristianismo consiste
basicamente em experimentar esse poder de Deus. Não é uma
religião formal calcada em realizações humanas, mas é
essencialmente uma experiência libertadora que acontece por
meio do evangelho do poder de Deus. É uma religião
“experiencial” no sentido de que envolve experiência e mudança
de vida.
Muita gente pensa que é cristã por ter nascido em um lar
evangélico. Eu mesmo pensei isso durante muitos anos, pois
cresci frequentando a igreja. Cantei no coral jovem (não me
convidem, por favor — minha voz não serve mais), fiquei em
segundo lugar em um concurso que envolvia o livro de Daniel —
uma glória para mim naquela época — e namorei a filha do
pastor. Quer mais crente do que isso?
Mas me lembro perfeitamente de estar sentado no banco da
igreja, ouvindo grandes pregadores e não entendendo nada. Eu
não estava interessado. Sempre gostei de desenhar, então levava
um pedaço de papel e ficava desenhando o rosto do pregador (em
segredo!). Hoje em dia, os jovens usam o celular em vez do papel,
mas da mesma forma crescem pensando que são crentes apenas
porque estão ali no meio.
Somente aos 22 anos conheci o poder do evangelho, o qual
transformou a minha vida. Não estou dizendo que você precisa ter
uma experiência dramática como a de Paulo no caminho para
Damasco, pois Deus tem maneiras diferentes de fazer as pessoas
experimentarem o poder do evangelho. O que vale é esse
evangelho tê-lo alcançado, não importa a idade que você tenha.
Uns experimentam um longo processo, enquanto outros têm uma
súbita epifania.
Há também quem nem mesmo saiba quando foi alcançado. Um
dos homens mais crentes que conheçoé o reverendo Francisco
Leonardo, meu sogro. Se você lhe perguntar se ele teve uma
experiência desse tipo, ele lhe dirá que, até onde se lembra, foi
crente desde menino. Mas o poder de Deus na vida dele é algo
visível.
Portanto, não se iluda! Ser cristão não é fazer parte do rol de
membros de uma igreja. O evangelho é o poder de Deus para
salvá-lo da culpa, da presença e do domínio do pecado, e não há
salvação fora desse poder.
O poder salvador alcança todos os que creem
O poder do evangelho dedica-se a salvar todo aquele que crê (não
toda a humanidade, mas todo aquele que crê). Isso significa que a
salvação não acontece por mérito, raça, gênero, idade, condição
social, educação, moralidade, boas obras, caridade ou bondade,
mas, sim, por fé — do começo ao fim.
É mediante a fé que o poder do evangelho nos alcança, e é por
isso que ele pode ser estendido a todo aquele que crê, seja criança,
seja velho; seja judeu, seja grego; seja pequeno, seja grande.
Paulo diz que o evangelho é poder: primeiro aos judeus, pois a
eles foram feitas as promessas e foram eles os primeiros a ouvir, e
depois a todo o que crê.
Crer aqui não é somente acreditar naquilo que Paulo e os
demais apóstolos disseram acerca de Cristo; não se trata
simplesmente de mera aceitação intelectual dessas coisas, pois o
Diabo também sabe que elas são verdadeiras. Você precisa
receber essas verdades, apropriar-se delas, render-se a Jesus,
colocar sua confiança plenamente nele e na obra completa da cruz
do Calvário, e reconhecer diante de Deus o que Paulo está
ensinando: “Deus, sou um pecador perdido, e, se o Senhor me
mandar para o inferno, será justo. Não há mérito algum em mim,
e, se o Senhor não tiver misericórdia de mim por meio do
sacrifício de Jesus, estou condenado pelos meus pecados. Aceita-
me como pecador”.
Isso é fé. É preciso abraçar esse evangelho com a mente, pois
devemos entender e concordar com ele, mas também de todo o
coração, envolvendo-nos nele e rendendo-nos a Jesus,
demonstrando disposição para viver para ele e em comunhão
preciosa com Deus. É dessa forma que esse poder nos é dado:
mediante a fé em Cristo Jesus.
Como um Deus justo perdoa pecadores?
A passagem, então, continua: “Pois a justiça de Deus se revela no
evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé”
(v. 17). No evangelho, a justiça de Deus é revelada de fé em fé;
isso não acontece em nenhum outro lugar, somente no evangelho.
A justiça de Deus mencionada nesse versículo não é somente uma
qualidade divina, a partir da qual Deus absolve o inocente e
condena o culpado. Uma pessoa justa é aquela que trata as outras
de acordo com o merecimento delas, e Deus é justo; ele não faz
acepção de pessoas. Se ele encontra alguém culpado, ele o
condena; se ele vê um inocente, ele o absolve.
Se Deus é justo, e como não há um único justo sequer na raça
humana, quem pode se salvar? Ou, colocando de outra maneira,
como Deus pode salvar pecadores se ele é justo? Seria como um
juiz que absolvesse um condenado, réu confesso,
reconhecidamente culpado. Nós nos escandalizaríamos com isso
— basta observar as nossas reações à leniência da justiça diante
de grandes escândalos de corrupção.
A mesma questão existe aqui nessa passagem. Como Deus
pode perdoar pecadores? Deus não tem a obrigação de perdoar
ninguém! Ele deveria condenar toda a raça humana. Como é
possível Deus nos perdoar? A resposta está no evangelho
revelado: Deus nos mandou seu Filho, que assumiu a nossa
natureza como nosso representante, e o castigo que nos era devido
Deus fez cair sobre ele.
Na cruz, então, Deus revela a sua justiça, pois ali ele está
castigando o pecado. Ele é um Deus justo que deve castigar o
pecado, e o faz em Jesus, que leva a nossa culpa e sofre a dor que
merecíamos. Deus toma, então, a justiça de Cristo (que era
perfeito e sem pecado) e a transfere para o pecador. É o que
chamamos de imputação. Deus imputa a justiça de Cristo ao
pecador, e é feita uma troca: na cruz do Calvário, Jesus recebe a
nossa culpa e nós recebemos a sua justiça.
É assim que um Deus justo justifica pecadores. Ele continua
sendo justo, pois o pecado foi castigado, mas transfere os méritos
de Cristo para o pecador, de forma que agora pode recebê-lo. Ele
olha para o pecador, mas não vê condenação, pois o pecador está
em Cristo. Por isso Paulo vai dizer, mais adiante: “Portanto,
agora já não há condenação alguma para os que estão em Cristo
Jesus” (Rm 8.1).
Cristo levou nossa condenação, e Deus nos atribui a justiça de
Cristo. É no evangelho que isso se revela, em nenhum outro
lugar. O evangelho é poder de Deus para salvar todo aquele que
crê porque, no evangelho, Deus revela de que maneira ele
justifica o pecador: de fé em fé, do começo ao fim, sendo a própria
fé um dom dele.
Paulo termina o versículo 17 citando uma passagem do Antigo
Testamento (de Habacuque 2.4): “O justo viverá pela fé”. Ou seja:
aquele que pela fé foi tornado justo viverá eternamente e será
salvo da condenação.
Conclusão e aplicações práticas
Uma palavra a você que sinceramente busca ser justo diante de
Deus e sente no coração o peso dos seus pecados, a culpa e o medo
da morte, atemorizado talvez pelo juízo e pelos terrores de Deus:
você está lendo aqui que Deus pode salvá-lo mediante a obra de
Jesus Cristo no Calvário. Você pode crer em Cristo e receber esse
poder que transforma e muda. Tenha a consciência de que Deus,
mediante a fé, reconcilia-se conosco por meio do evangelho.
No entanto, se você já é salvo, mas seu cristianismo se resume
a ouvir sermões, saiba que não é ruim ir à igreja para escutar
mensagens edificantes, mas não é o suficiente. O cristianismo é
mais do que isso; ele é o poder de Deus para salvá-lo de todas as
maneiras possíveis, e você precisa experimentar esse poder.
Examine sua vida a fim de verificar em que áreas esse poder
tem se manifestado. O evangelho o tem salvado de hábitos
pecaminosos, da desobediência aos pais, da teimosia, da
imoralidade, da infidelidade ou da desonestidade? O evangelho
não nos foi dado somente para o perdão dos pecados, mas também
para que tivéssemos força para vencê-los.
Se você é cristão, mas vive em um ambiente hostil (trabalho,
universidade etc.), recomendo que seja como Paulo: não tenha
vergonha de sua fé. Não se envergonhe do evangelho na frente
dos seus colegas, pois ele é como um leão: basta você abrir a jaula
e deixá-lo sair. Ele é o poder de Deus para salvar a vida dos mais
radicais inimigos do evangelho, como fez com Saulo de Tarso.
Não tenha vergonha de dizer, no seu trabalho, que você é
cristão e filho de Deus, e não tenha vergonha de viver as
implicações disso. Não se envergonhe daquele que, na cruz do
Calvário, deu a própria vida em favor da sua. Não tenha
vergonha dele; ao contrário, você pode dizer com humildade: “Sou
grato a Deus por ser cristão. Sou grato a Deus pelo privilégio que
ele me deu de experimentar esse poder”.
A todos nós: louvemos a esse Deus que quis salvar pecadores,
cujo poder se revela na mensagem de seu Filho, que foi pendurado
na cruz, morto e ressuscitado pelos nossos pecados. Louvemos
porque ele nos quis salvar e nos fez conhecer essa mensagem.
Vivamos para a glória desse Deus. Que nos entreguemos a ele,
dizendo: “Ó Senhor, que poderei te dar e de que forma poderei te
retribuir pela manifestação do evangelho, que é o teu poder na
minha vida? Toma a minha vida, usa-me onde quer que eu esteja.
Que eu seja um emissário da cruz e um proclamador desse
evangelho, sabendo que ele é o poder de Deus que ninguém pode
deter”.
P
aulo escreveu esta carta,
como vimos, ao final de sua
terceira viagem missionária,
a caminho de Jerusalém, com o
objetivo de expor o evangelho
que pregava. Ele endereçou-a
aos irmãos de Roma, a quem
pretendia visitar e convencer a
Capítulo 4
A REVELAÇÃO DE DEUS NA
NATUREZA
Romanos 1.18-20
A idolatria e a depravação dos gentios
Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiçados homens, que
impedem a verdade pela sua injustiça. Pois o que se pode conhecer sobre Deus é
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis,
seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e
percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis.
p
ajudá-lo em seu projeto
missionário na Espanha. Além
disso, Paulo entendeu que
precisava esclarecer boatos
oriundos da comunidade judaica
a seu respeito. Embora esses
pontos já tenham sido tratados
na “Introdução”, relembrá-los
aqui pode ser bom para
entendermos essa passagem em
seu contexto.
Até aqui, vimos Paulo se apresentando como apóstolo chamado
por Deus, falando a respeito do evangelho centrado na pessoa de
Cristo. Ele fala de sua disposição de visitar e estar com os irmãos
em Roma (v. 8-15) e de seu objetivo de pregar o evangelho em
Roma, pois este é o poder de Deus para salvar pecadores e não
deve ser motivo de vergonha (v. 16,17).
Em seguida, Paulo começa a expor a necessidade que todos
têm do evangelho. Ele trata do pecado da humanidade e da ira de
Deus contra ela. O apóstolo fala de uma revelação que Deus fez de
si mesmo na consciência de todos os homens e por meio das coisas
criadas, deixando, portanto, a humanidade indesculpável (v. 18-
20).
Nenhuma pessoa pode alegar desconhecimento da existência
de Deus, pois ele está arraigado em nosso coração e brilha ao
nosso redor, na natureza. A Bíblia ensina que Deus se manifesta
de duas maneiras aos homens: pela revelação especial (Rm 1.17) e
pela revelação natural (Rm 1.18-20). Em relação à revelação
especial, Paulo mostra como o pecador é justificado diante de
Deus e como essa justiça é revelada no evangelho. É no evangelho
de Cristo, pela fé, que Deus recebe, justifica e perdoa o pecador.
Enquanto Deus se revela ao mundo por meio do evangelho no
mundo, há ainda outra revelação que já vem acontecendo desde a
criação, que é a revelação da ira de Deus. Nessa proposição,
podemos perceber o contraste entre a revelação da justiça e a
revelação da ira. São duas revelações que acontecem
simultaneamente.
No evangelho de Jesus Cristo, Deus revela a sua justiça, e, na
natureza, revela a sua ira. Essas duas revelações levam a
diferentes destinos: a primeira leva à vida eterna, mas a segunda
serve para nos mostrar que Deus está irado com a humanidade, e
que, sem o evangelho, ela será condenada eternamente.
A revelação natural
A nossa consciência revela que existe um Deus e este Deus está
irado. Essa revelação é feita por um Deus que “se revela do céu”, o
local da sua habitação. Lá do mundo espiritual, ele mostra ao
homem que está triste e irado. Essa revelação está ativa na
consciência das pessoas, e é por isso que o sentimento religioso é
universal. Em qualquer lugar do mundo, em qualquer época,
encontramos pessoas que temem um poder superior.
A prova disso é que todas as religiões incluem algum tipo de
pagamento a fim de apaziguar uma divindade; essa consciência
que o homem tem da existência de algo superior faz com que ele
viva aterrorizado. O sentimento de culpa é universal, seja entre
os chineses, seja entre as tribos indígenas que fazem sacrifícios
brutais de animais e crianças.
A ira de Deus desce dos céus, e mesmo o homem mais bruto
sabe, em seu íntimo, que existe um Deus que está irado com
nossos atos. Essa ira não pode ser comparada à raiva humana,
que frequentemente envolve cólera ou vingança. A ira de Deus é o
desprazer que ele sente diante da rebelião de suas criaturas. Ela
demonstra o propósito que ele tem de punir a desobediência e o
pecado. Trata-se da resolução inabalável do ser divino de eliminar
o pecado e tratar com justiça aqueles que desafiam a sua
existência e autoridade.
Esta é a ira de Deus: uma retribuição santa diante da ofensa
que o pecador lhe faz. Do céu, a ira de Deus se revela, e essa
revelação é feita na consciência, na intuição humana. É por isso
que a religião existe desde sempre. Por que o homem sente
necessidade de se curvar diante de um ser superior para
apaziguá-lo? Justamente porque dos céus a ira de Deus se revela.
Contra a impiedade e a injustiça
Paulo diz: “Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda
impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela
sua injustiça” (v.18). Deus está irado por duas razões. A primeira
delas Paulo chama de “impiedade”. Esse é um termo que significa
“falta de religião”, ou seja, viver como se Deus não existisse. Uma
pessoa piedosa reconhece a Deus, anda nos seus caminhos, adora-
o e quer servi-lo. Já o impiedoso não reconhece a Deus, vive como
se ele não existisse e não o leva em consideração. A ira de Deus,
então, se levanta contra a impiedade da humanidade, que não o
reconhece como Deus, não o trata como tal, não o busca, não o
serve e não o adora.
Mas Deus não está irado apenas com a impiedade; o texto diz
que ele se ira com a “injustiça dos homens”. Outras versões
traduzem o termo por perversão: “A ira de Deus se revela do céu
contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a
verdade pela injustiça” (ARA). Enquanto impiedade remete ao
relacionamento com Deus, perversão aborda o relacionamento
entre os homens. Injustiça ou perversão, nesse trecho, significa
perverter o direito, a dignidade e a justiça. É o tratamento imoral,
injusto e opressor de uma pessoa para com a outra, e Deus está
irado contra isso.
Ele não se ira apenas com a impiedade em relação a si mesmo,
mas também com o fato de que as pessoas se maltratam, se
odeiam, se enganam, se defraudam e se oprimem, fazendo seus
semelhantes sofrerem. Como a humanidade chegou nessa
situação de impiedade e perversão? Paulo diz que os homens
“impedem a verdade pela sua injustiça”. A verdade é o
conhecimento que Deus manifestou de si mesmo em nossa
consciência e por meio da natureza. Há um Deus que é santo e
que, por isso, deve receber respeito, adoração e ação de graças de
todos os povos — mesmo daqueles que nunca ouviram o
evangelho ou a Lei de Moisés.
Esse conhecimento inato está no coração do homem, mas este
faz com a verdade algo diferente do que Deus espera, o que Paulo
chama de “imped[ir] a verdade pela injustiça”. O verbo impedir
significa literalmente “manter embaixo”, e passa a ideia de matar
alguém por afogamento, mantendo sua cabeça debaixo d’água.
O homem não pode mudar a verdade, mas pode sufocá-la,
reprimi-la, suprimi-la. A ira de Deus se manifesta justamente
porque ele se revelou na natureza e na consciência humana, mas
o homem sufocou e reprimiu a verdade. Consequentemente,
surgem a impiedade e a perversão ou injustiça. Ninguém nasce
ateu, mas toma essa decisão mais tarde na vida. Para fazer isso, a
pessoa precisa reprimir a luz de Deus que brilha no seu coração e
na sua consciência.
Ira justa
Alguém poderia dizer: É justo Deus ficar irado? Os homens
conhecem realmente a Deus? Esse conhecimento de Deus é assim
tão claro para que ele cobre dos homens? Paulo afirma que sim:
“Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles,
porque Deus lhes manifestou” (v. 19).
Deus é infinito, e nós nunca poderemos conhecê-lo
completamente. Ele é infinito em seu ser, em seus atributos, em
santidade e poder, em presença e onisciência, em justiça e
misericórdia. Não há qualquer possibilidade de conhecimento
exaustivo de Deus por parte de suas criaturas. Jamais poderemos
conhecê-lo completamente, por causa da nossa natureza limitada
e pecadora.
Apesar disso, Deus nos revela algumas coisas e se revela entre
nós, como diz Paulo (“entre eles”, v. 19), no sentido de que se
revela dentro de nós (confirmando o versículo 18). Há um
conhecimento inato de Deus que é a imagem e semelhança dele
dentro de nós (ou “em nós”), e é por isso que somos religiosos.
Temos a consciência de que há alguém superior a nós, a quem
prestaremos contas e de quem dependemos.
É comum até mesmo que esse conhecimento reapareça no
coração das pessoasapós ter sido reprimido em razão de uma
tragédia ou de um período de sofrimento pessoal muito grande.
Como alguém já disse, “só existe ateu enquanto o pitbull não pula
a cerca”.
Esse conhecimento possível de Deus é manifesto em nosso
coração porque ele assim o fez. De outra maneira, não o
conheceríamos. De quem é a iniciativa? Quem revela
conhecimento a respeito de si mesmo aos homens? Deus. A
humanidade andaria em trevas se Deus não tivesse tomado a
iniciativa de se revelar. Ele deseja que nós o conheçamos, o
amemos e o sirvamos com todo o nosso coração.
Atributos invisíveis vistos claramente
Paulo prossegue, dizendo: “Pois os seus atributos invisíveis, seu
eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação
do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que
esses homens são indesculpáveis” (v. 20).
Há um Deus que está irado e diz isso à nossa consciência. Ele
está irado com a impiedade e a perversão de homens que
sufocaram a luz da verdade no coração e a trocaram pela
injustiça. Esse Deus é justo em sua ira, pois se revelou à
consciência humana e na natureza.
Paulo acrescenta a isso o fato de que Deus revelou alguns de
seus atributos na própria criação. Ele não se revelou apenas à
nossa consciência, mas brilha também ao nosso redor, nas coisas
que foram criadas, de modo que as duas revelações se
complementam.
A natureza, o universo, a sua harmonia e a sua imensidão não
fariam sentido se já não tivéssemos a consciência, dentro de nós,
de que Deus é o autor de tudo. Há uma harmonia, então, entre a
consciência que temos de Deus e a criação. Só sou capaz de olhar
para a criação e deduzir que existe um Deus porque a luz dele
brilha em mim, e eu não rejeitei essa luz.
A criação, portanto, apenas confirma aquilo que minha
consciência já sabe: que Deus existe. E esse Deus, de acordo com o
que a criação manifesta, tem atributos invisíveis. Atributos são
características que definem uma pessoa, e são muitas as
características de Deus.
A Bíblia está repleta de menções a atributos divinos, desde
sua santidade até sua misericórdia, sendo alguns exclusivos dele,
como sua onipotência, onisciência, onipresença e qualidade.
Outros atributos, no entanto, Deus transmitiu para nós:
consciência, inteligência, criatividade, arbítrio, sentimento etc.
Somos feitos à sua imagem, e é por isso que clamamos por ele,
sentimos que ele existe e o percebemos ao nosso redor.
Esses atributos são todos invisíveis, mas ele nos deu algo que
não tem: um corpo. Deus é espírito e invisível, mas seus atributos
se tornam visíveis pela nossa mente. Os olhos da mente,
contemplando a criação e já tendo consciência de que existe um
Deus, conseguem vê-lo. Parece contraditório, mas os atributos
invisíveis de Deus podem ser vistos claramente pela nossa mente.
Paulo menciona dois desses atributos, sendo o primeiro deles o
eterno poder de Deus. O apóstolo está dizendo que podemos
perceber, por meio da criação, que a natureza não gerou a si
mesma e que a matéria não é eterna, como diriam os
materialistas, evolucionistas e naturalistas. Ele afirma que existe
um poder eterno que precede a natureza e deu origem a ela. É
impossível dizer, a partir da revelação da natureza, que as coisas
complexas do mundo (as partículas subatômicas, o universo em
sua amplidão etc.) surgiram do nada; há um poder por detrás de
cada elemento criado, e esse é um atributo divino que Deus nos
revelou.
O segundo atributo invisível de Deus que Paulo menciona
nessa passagem é a sua própria divindade. Deus não é um ser
criado, mas é totalmente outro, diferente de nós. Portanto, ele não
é limitado como nós, não é finito, não tem começo, não terá fim e
não faz parte da sua própria criação. Ele é divino, está acima da
sua criação.
Foi essa concepção, aliás, que deu origem à ciência moderna.
Você já se perguntou o porquê de a ciência moderna ter surgido
na Europa cristã da Idade Média, e não em civilizações mais
antigas, como Mesopotâmia, Grécia, China ou Egito (que eram
civilizações mais avançadas que a Europa cristianizada)? Isso
aconteceu porque essas civilizações antigas eram panteístas, ou
seja, acreditavam que o mundo era Deus e que Deus era o mundo.
Por esse motivo, existe, nessas culturas, adoração à vaca, ao
crocodilo, às plantas etc., e isso também explica, por exemplo, por
que na mitologia grega os deuses são apresentados como
manifestações da natureza.
Foi por causa do panteísmo que essas culturas não
desenvolveram a ciência como a Europa. As pessoas não tinham
coragem de investigar os fenômenos naturais; quando havia um
trovão ou um relâmpago, eles interpretavam como a ira de algum
deus. Ninguém queria investigar mais a fundo.
Mas então vem o cristianismo, dizendo que céus e terra foram
criados por Deus no princípio. É claro que os judeus já diziam
isso, mas foi o cristianismo que colocou essas verdades na arena
pública com grande força. Os teólogos, pastores, professores
cristãos e crentes em geral influenciaram fortemente a sociedade
ocidental com essa cosmovisão de que o mundo é criação de Deus,
não uma extensão dele, e esse mundo tem leis naturais que o
explicam. O homem, agora, sentia-se livre para investigar a
natureza e pesquisar a respeito dos fenômenos naturais, pois o
cristianismo havia desmistificado a criação.
Muitos autores da ciência moderna são cristãos. Há bons
livros a respeito de história da ciência (como os escritos por Nancy
Pearcey, por exemplo) que mostram que os ramos da ciência
moderna tiveram início com a pesquisa de cristãos que queriam
saber mais a respeito da glória divina, pois viam o universo como
expressão, e não extensão, da glória e da majestade de Deus.
Pela natureza, então, é que podemos ver que existe um poder
eterno, e esse poder é majestoso, glorioso, inteligente e pessoal. A
revelação que Deus fez de si mesmo é parcial, mas clara, antiga e
universal. “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e
divindade, são vistos claramente” (v. 20), diz Paulo. Se você não
consegue enxergar essas coisas, o problema não está em Deus
nem na criação, mas em você mesmo. Existe um Deus que é
superior a nós; ele está irado com o pecado e, além disso, é todo-
poderoso e distinto da criação. Isso está claramente perceptível,
de acordo com o que diz o apóstolo.
A revelação também é antiga, pois esses atributos são vistos
“desde a criação do mundo”. Desde que Deus colocou o homem no
mundo, sua majestade e sua glória estão gravadas nele e nas
coisas criadas, de maneira que, desde Adão, todo homem tem essa
consciência.
Esse conhecimento também é universal, pois os atributos são
perceptíveis “desde a criação do mundo”. Essas coisas estão
gravadas na natureza e disponíveis a toda criatura que já pisou
no solo deste planeta, seja de que raça, língua, povo e nação for.
Todos têm consciência e acesso à natureza; esse não é um
conhecimento particular, esotérico e secreto, mas é algo que Deus
tornou público.
Não haverá desculpas no Dia do Juízo
Esta é a conclusão do que Paulo está dizendo: “[...] esses homens
são indesculpáveis” (v. 20). “Esses homens” são aqueles que
impedem a verdade pela sua injustiça, que não têm piedade e são
perversos; por isso são indesculpáveis. Nos dias de Paulo, a
palavra “indesculpável” era muito usada no meio jurídico; no
grego, tem a mesma origem de “apologia”.
A apologia é uma defesa apresentada por alguém ao ser
acusado de um crime, é uma espécie de justificativa para um ato
criminoso. O que Paulo está dizendo é que, no dia do juízo,
nenhuma dessas pessoas terá uma apologia (defesa) para
apresentar diante de Deus, como, por exemplo, “eu não sabia que
havia um Deus e que ele se ira com o pecado”.
Há um Deus; esse Deus está irado e sua ira se manifesta
contra a impiedade e a perversão dos homens que impedem a
verdade por sua injustiça. É justo que ele esteja irado; por meio
da criação, vemos algumas coisas que ele revelou a respeito de si
mesmo; essa revelaçãoé clara, universal e antiga. Conclusão: não
há inocentes diante de Deus, nem aqui, nem no Amazonas, nem
nos polos, nem nos desertos, nem nas florestas mais inóspitas do
mundo.
Nunca houve e nunca haverá inocentes diante de Deus, porque
os homens detêm a verdade por sua injustiça, vivendo como se
Deus não existisse, servindo a outros deuses em lugar de servir a
ele, matando uns aos outros e oprimindo-se mutuamente. A ira de
Deus está sobre o mundo, tanto sobre pagãos quanto sobre
judeus.
Conclusão e aplicações práticas
Entender tudo isso é importante para que reconheçamos a
necessidade e a urgência do evangelho. A revelação da ira de
Deus é suficiente para nos deixar sem desculpas, mas não é
suficiente para nos salvar, porque não diz de que maneira
podemos escapar dessa ira. As árvores, a terra e o sol não podem
ensinar a fórmula da reconciliação com Deus nem o que o ser
humano precisa fazer para ser aceito por ele. Tudo isso apenas
mostra que há um ser todo-poderoso, superior a todos nós, mas
para que sejamos salvos é necessário que haja outra revelação, a
que chamamos de revelação especial. Essa revelação foi dada por
Deus por meio de Jesus Cristo, o Filho, no evangelho.
A revelação especial será detalhada na Carta de Paulo aos
Romanos e consiste na única forma de sermos salvos da ira de
Deus. Para que entendamos, então, a necessidade e a
exclusividade do evangelho, primeiro é necessário que
entendamos a perdição total da raça humana. Estamos debaixo
da ira de Deus com justiça, pois não há inocentes diante dele.
Assim, a primeira meditação prática a partir do texto é que
devemos valorizar a oportunidade de ouvir o evangelho, enquanto
milhões nunca tiveram acesso a ele, mesmo estando condenados
— com justiça — pela rebelião do coração diante da revelação que
Deus fez de si mesmo.
O fato de você estar lendo este livro neste momento é motivo
para colocá-lo de joelhos diante de Deus e dizer: “Senhor, como
posso continuar vivendo como se tu não existisses? Por que
continuo a te desafiar e a ser indiferente para contigo?”.
Examine o seu coração, especialmente se você luta com a
crença em Deus por causa da ciência, da razão ou do ateísmo. O
ateísmo não é uma consequência lógica da ciência; a negação de
Deus e o materialismo resultam da supressão da luz de Deus no
coração de todo homem. O problema não é intelectual, mas, sim,
moral e espiritual.
Confronte o seu coração para saber se sua recusa diante de
Deus não é resultado de alguma amargura, raiva, sentimento de
injustiça ou uma tentativa de justificar algum comportamento
seu. Neste último caso, talvez você não queira que Deus exista,
porque, se ele existir, você precisará mudar de vida.
Outro ponto que devo mencionar é que a razão pela qual
insistimos em pregar o evangelho é esta: os povos precisam
receber a revelação especial de Deus. É por isso que as igrejas
fazem missões e é por isso que apoiamos missionários em países
distantes. É por essa razão que insisto para que você compartilhe
sua fé com as pessoas, pois elas estão perdidas!
Não há salvação fora do evangelho de Jesus Cristo, e você, que
o conhece, é responsável por levá-lo adiante.
A última coisa que desejo ressaltar é o seu estado diante de
Deus. Há um Deus, e ele é santo. E, ao contrário de ser somente
um Deus de amor, como talvez você já tenha ouvido falar, ele se
ira. Sim, ele é amor, mas também é santo e está irado.
Deus se ira pelos seus pecados, e não há nenhuma apologia ou
defesa que você possa apresentar para justificar a sua vida ímpia
de materialismo, totalmente alheia a Deus, como se ele não
existisse.
Que você reconheça que esse Deus também ama pecadores que
reconhecem essa condição, que estão perdidos, mas buscam a
Deus humildemente, não para dizer o que ele deve fazer, mas
para se ajoelharem e dizerem: “Deus, tem misericórdia de mim.
Mereço a tua ira, mas espero em tua misericórdia, já que tomaste
a iniciativa de te revelares. Isso mostra que desejas que eu te
conheça plenamente; ilumina-me e guia-me, portanto, mediante
Jesus Cristo, para que eu possa ter comunhão contigo e com a tua
glória”.
E
sses versículos fazem parte
da explicação que Paulo está
dando à igreja de Roma a
respeito da condição humana.
Como vimos, seu objetivo é
convencer a igreja de Roma de
que é necessário pregar o
evangelho aos pagãos, aqueles
que estão longe e nunca ouviram
Capítulo 5
A ORIGEM DA IDOLATRIA
Romanos 1.21-23
A idolatria e a depravação dos gentios
... porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe
deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu
coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e
substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem
corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis.
falar dele. O apóstolo tem em
mente a região da Espanha,
onde o evangelho nunca havia
sido pregado.
Naquele tempo, seria possível imaginar que as pessoas que
nunca tivessem lido a Palavra de Deus, ouvido o evangelho ou
tido contato com a lei seriam consideradas inocentes no dia do
juízo. Afinal, com base em que Deus poderia julgá-las? Muitos
ainda hoje talvez ainda pensem assim. Seria Deus justo em
condenar os indígenas, os berberes, os povos que vivem próximos
aos polos etc.?
O problema com essa forma de pensar é que ela não dá base
para o trabalho missionário da igreja. Pense em uma tribo do
interior da Amazônia, cujos membros nunca ouviram falar de
Jesus, mas têm sua religião e seus deuses e praticam seus
costumes. Segundo essa linha de raciocínio, eles estariam salvos,
e Deus não poderia perguntar a eles o porquê de não terem
aceitado a Cristo.
Se um missionário chega a essa tribo, fala de Jesus, e metade
da tribo o aceita e a outra não, ele acaba por condenar metade da
tribo ao inferno, mas antes essas pessoas iriam para o céu por
nunca terem ouvido falar de Cristo. Por essa visão, não teria sido
melhor que o missionário nunca tivesse ido até lá?
Por essa razão, o apóstolo Paulo começa a carta falando do
estado real de toda a humanidade. A situação de todos é de
condenação, e essa condenação tem como base a revelação natural
de que tratamos no capítulo anterior. A ira de Deus se revela dos
céus diante do impedimento da verdade pela injustiça no coração,
e esse conhecimento está gravado na consciência das pessoas.
Paulo demonstra que Deus se revelou na consciência de todos
os homens, e, portanto, eles não são tão inocentes assim. No
coração do ser humano, existe o conhecimento de que há um ser
superior e de que esse ser está irado (v. 19). Paulo vai além e
mostra que os atributos invisíveis de Deus estão evidentes nas
coisas que foram criadas (v. 20).
Ele finaliza esse trecho dizendo que esses homens são
indesculpáveis, e, no dia do juízo final, Deus os condenará de
forma justa por terem reprimido a verdade da existência de um
Deus todo-poderoso, eterno e santo, rejeitando esse conhecimento
na própria consciência e também na natureza.
Essa é a razão pela qual Paulo queria ir à Espanha: porque os
espanhóis estavam perdidos, assim como todo o mundo pagão.
Como toda a humanidade, eles haviam sido condenados por Deus
por terem reprimido a verdade que havia em sua consciência e na
natureza que brilhava ao seu redor. Por isso, é tão urgente e tão
importante fazer missão em todas as épocas.
Na sequência, Paulo passa a explicar o mecanismo por meio do
qual essa supressão da verdade ocorre. Os homens se afastam de
Deus e se tornam o que são; é isso que vamos estudar neste
capítulo.
Os homens têm conhecimento de Deus
O versículo 21 afirma: “... porque, mesmo tendo conhecido a Deus,
não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo
contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu
coração insensato se obscureceu”. As pessoas das quais o versículo
fala têm consciência de Deus, o que significa ter consciência de
que existe um Deus eque ele é distinto de nós. Todo ser humano
detém esse conhecimento ao qual chamamos, na teologia, de
“imagem de Deus”. Todo mundo carrega consigo e transmite essa
imagem de Deus.
O ateísmo — que nada mais é do que virar as costas para
Deus — não é algo natural, mas, sim, a decisão deliberada que
uma pessoa toma de ignorar as evidências claras, presentes na
sua consciência e na natureza, de que existe um ser superior que
não é igual à sua criação.
Ninguém poderá alegar ignorância no dia do juízo — muito
menos nós, cristãos, que recebemos também a revelação especial
de Deus. Por meio dela, ele nos mostra com muito mais clareza
quem é, quem nós somos e porque somos assim, além de nos
convidar à reconciliação por meio do Filho, Cristo Jesus. O
julgamento será mais severo para aqueles que tiveram mais luz e
conhecimento de Deus.
O ateísmo, o agnosticismo, a idolatria e todo tipo de crença que
emerge da repressão do conhecimento de Deus não são posturas
naturais, mas, sim, decisões tomadas deliberadamente. A
natureza humana de fato é corrompida, mas não a ponto de
manchar a consciência de que há um Deus.
Os homens rejeitam o conhecimento de
Deus
O apóstolo fala do que as pessoas fizeram com esse conhecimento:
“... porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram
como Deus, nem lhe deram graças” (v. 21). Há, portanto, ao
menos duas coisas que os pagãos poderiam ter feito e não fizeram:
eles deveriam ter glorificado a Deus e ter lhe dado graças — mas
não foi o que aconteceu.
Existe claramente um poder por trás da criação do mundo, e,
mesmo sem o conhecer pelo nome, o ser humano deveria ter se
curvado diante dele. Isso não salvaria as pessoas, por causa de
seus pecados, mas seria a reação que Deus esperaria da
humanidade. O ser humano também deveria ter dado graças a
Deus pela comida, pela chuva, pela colheita etc.
Não foi isso que a humanidade fez, no entanto. Na passa- gem
de que tratamos neste capítulo, vemos um processo de rejeição de
Deus que Paulo divide em algumas etapas.
O processo de rejeição
Primeira etapa: a futilidade do raciocínio
[Eles] tornaram-se fúteis nas suas especulações (v. 21)
A primeira fase do processo entra em curso quando alguém passa
a raciocinar sem levar Deus em consideração. Não estou criando
aqui uma antítese falsa entre razão e fé, como muitas vezes se
faz; não é errado raciocinar: podemos crer em Deus e usar muito
bem a nossa razão.
Aliás, a razão foi dada ao homem para que pudesse ler a
natureza, interpretá-la e ter noção de Deus e de sua atuação no
mundo. Há muitos intelectuais cristãos, como os vários cientistas
que nos deram a ciência moderna. Não existe incompatibilidade
entre a razão e a glorificação a Deus; o problema acontece quando
alguém começa a raciocinar deixando Deus de fora. Aí se perde a
referência, e a pessoa passa a acreditar que a razão por si só pode
explicar o mundo, quem somos, para onde vamos e como o
universo funciona.
Fora do conhecimento de Deus, não há como encontrar
resposta para essas grandes questões que acompanham a
humanidade desde tempos antigos. Os homens entronizaram a
razão, pensando que o raciocínio lógico, a análise racional das
coisas e o método científico poderiam por si sós obter essas
respostas; mas a realidade é que isso não acontece.
Ao afirmar que os homens “tornaram-se fúteis nas suas
especulações”, Paulo está querendo dizer que eles se tornaram
inúteis, pois seu raciocínio não leva a lugar nenhum. É provável
que ele esteja se referindo aos filósofos de sua época (lembre-se
que o apóstolo viveu no auge da filosofia grega). De acordo com o
que diz Paulo, o raciocínio humano que deixa Deus para trás não
pode nos dar a resposta final para todas as coisas. Ele não está
indo contra a razão, mas contra o racionalismo, que encara a
razão como resposta para todas as coisas.
Há alguns séculos, surgiu na Europa o Iluminismo,
movimento que se levantou contra a religião e o controle da igreja
nas universidades. Por esse movimento, o homem queria ser o seu
próprio rei e se libertar das amarras da religião e da fé. Com isso
surgiram o racionalismo, o empirismo e o evolucionismo. Homens
como Hegel e Marx formularam suas teorias a respeito de como
funciona a história humana.
Mas para onde tudo isso nos levou, afinal? Até hoje não temos
respostas baseadas apenas na razão para as questões que
intrigam a humanidade. Darwin, por exemplo, dizia que o
processo de seleção natural, que se dá por meio de mutações
aleatórias que acontecem de geração em geração e da promoção
da sobrevivência dos mais fortes, explicaria a origem da vida e
sua diversidade. Até hoje, sua teoria já passou por três revisões (e
está para passar por uma quarta), porque, após a descoberta da
linguagem do DNA, não há mais como explicar a origem da vida
com base no darwinismo. O acaso não gera informação
inteligente. Aliás, todas as mutações provocam mutilação, não
avanço.
Segunda etapa: o obscurecimento do coração
... e o seu coração insensato se obscureceu (v. 21)
Por causa dessa insensatez de abandonar a Deus, o coração
humano se tornou obscuro. Não temos luz própria dentro de nós,
fisicamente falando. A luz vem de fora, e entra através dos nossos
olhos, informando à mente o que está acontecendo. Se a luz cessa,
ficamos em trevas, e todo mundo sabe o que é ficar em um quarto
escuro.
A figura é muito clara: uma vez que alguém rejeite aquele que
é a fonte de todo conhecimento, sua mente fica como em um
quarto escuro; essa pessoa não sabe de onde vem, para onde vai,
nem mesmo a diferença entre o certo e o errado. Essa é uma
excelente imagem para representar o coração do homem: um
coração em trevas.
Hoje a verdade é sempre relativa, e o homem está derrubando
todos os pilares fundamentais da sociedade; não tem mais
respostas e não sabe para onde deve ir. Resta o suicídio, o
pragmatismo, o viver para o prazer, para as drogas e a bebida.
Não raro, o ser humano elege algum deus para servir, além de
outros descaminhos.
Terceira etapa: a loucura da autoconsciência
Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos... (v. 22)
O pior dessa terceira etapa é que os homens perderam o senso de
autoavaliação. O ser humano começou a se considerar sábio, pois,
ao abandonar Deus, estava finalmente encontrando respostas
para a sua origem e a origem do mundo (ao menos assim ele
acreditava). As pessoas, dessa forma, tornaram-se loucas.
Uma pessoa pode ter mestrado, doutorado e muitos outros
títulos, mas ainda assim ser louca. Conheci muitos desse tipo em
meus tempos de universidade: pessoas com doutorado em Oxford,
Harvard, Yale, na PUC e na USP, mas completamente perdidas
na vida pessoal. Casamento arrebentado, mulheres (e ex-
mulheres) em constante briga, seres cheios de raiva e incertos das
coisas. Com uma porção de diplomas na parede e dizendo-se
sábias, essas pessoas abandonaram a sabedoria verdadeira.
A loucura começa na mente e desce ao coração, e daí já não se
enxerga mais a verdade a respeito de si mesmo. O homem se vê
como sábio quando, na verdade, é louco, e não tem mais
capacidade de diagnosticar sua real situação.
Quarta etapa: a idolatria
... e [os homens] substituíram a glória do Deus incorruptível por
imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos
quadrúpedes e aos répteis (v. 23)
Em tudo isso verifica-se uma grande ironia. Os homens
rejeitaram o Deus criador dos céus e da terra, mas não
conseguiram ficar sem deuses. O ser humano é religioso por
natureza, e seu íntimo clama para se prostrar diante de algum
ser superior — não há como fugir disso. Se não adora o verdadeiro
Deus, então cria algum outro para adorar, e, assim, sempre se
encontra diante do altar de algum deus inventado. Ateísmo e
agnosticismo também são formas de religião. Simples assim.
No caso demonstrado por Paulo, essa adoração se apresenta
sob a forma de idolatria. Mas, afinal, a que ele está se referindo?
Ao fato de que o mundo pagão havia se tornado idólatra. Aqueleshomens, que se achavam os mais sábios, eram na realidade os
mais idólatras. Paulo havia visitado Atenas, na Grécia, a capital
intelectual do mundo da época, conhecida por suas bibliotecas e
escolas de filosofia; mas o que ele viu lá? Um altar em cada
esquina; até mesmo um altar ao “deus desconhecido”.
A idolatria, conforme afirma Paulo, é o resultado da rejeição a
Deus. Se você rejeitar o Deus único e verdadeiro, vai acabar sob a
sombra de um deus falso qualquer. A verdade é que, quer seja o
verdadeiro, quer seja um falso, ninguém fica sem um deus. O que
Paulo diz aqui deixa explícita a bobagem da troca feita pelos
homens: o Deus glorioso e incorruptível foi trocado por sua criação
caída e corruptível — homens, animais e bestas.
A glória de Deus foi trocada pela imagem da imagem de uma
imagem. Já parou para pensar nisso? O homem é a imagem que
reflete a imagem de Deus. Os homens adoram, portanto, uma
imagem criada a partir de uma imagem que reflete a imagem de
Deus. Quando abandonamos a verdade, é isso que acontece.
No entanto, não devemos cair no erro de pensar que essas
religiões criadas pelo homem são expressões inocentes e genuínas
de pessoas que querem adorar a um deus, mas não sabem quem é
o Deus verdadeiro. É muito comum pensar que as religiões são
expressões da sinceridade do coração das pessoas. Paulo, porém,
as vê como expressão da rebelião contra a verdade de Deus.
A natureza e a consciência nos dizem que Deus não é uma
árvore, nem um animal ou um rio e que, sem ele, não há religião
verdadeira, sincera e inocente.
Nesse versículo Paulo está se referindo às religiões de sua
época: César e o faraó (seres humanos adorados em Roma e no
Egito, respectivamente), a adoração ao pássaro Íbis, ao touro Ápis
e ao crocodilo do rio Nilo no Egito. A relação de animais e homens
cultuados e adorados no mundo todo é imensa. Uma versão mais
moderna disso é o movimento ecologicamente correto, que vê a
terra como um organismo vivo, e faz da defesa ecológica do mundo
uma verdadeira religião. Não estou dizendo que não temos de
lutar pelo meio ambiente, pois Deus nos deu esse planeta e
devemos cuidar dele; mas não podemos nos tornar panteístas,
acreditando que Deus é tudo e tudo é Deus.
Outra forma de idolatria é a adoração ao dinheiro, chamado na
Bíblia de Mamom. Qual é a sua maior motivação na vida? Você
trabalha por que razão? O que mais deseja na vida? Quando
fazemos esse tipo de pergunta a alguém, invariavelmente o
dinheiro acaba aparecendo na resposta. Se isso também vale para
a sua vida, saiba que você está entre os idólatras. O homem
moderno é avarento, vive para acumular bens. Precisamos
trabalhar, economizar e ajudar outras pessoas com o dinheiro que
conquistamos, mas isso é diferente de correr atrás de dinheiro a
vida toda, fazendo disso a nossa prioridade.
Outra forma de idolatria é o prazer. Muitas pessoas fazem
dele a motivação maior da vida, e pulam de um tipo de prazer
para outro. Desse modo, o prazer se torna o grande deus e ídolo
da sociedade pós-moderna.
Muitas outras coisas podem entrar na lista de possíveis ídolos:
filhos, maridos, familiares, carreira, o próprio corpo etc. A grande
verdade é a seguinte: sempre haverá alguém a quem você renderá
a sua alma e prestará contas a respeito do seu coração. O apóstolo
Paulo está dizendo que a humanidade fez isso rejeitando a Deus e
adorando a criatura.
O autor trata ainda de uma última etapa nesse processo de
rejeição a Deus, que é a imoralidade, mas sobre ela falaremos no
próximo capítulo.
Conclusão e aplicações práticas
O primeiro passo que eu gostaria que você tomasse, após a leitura
deste capítulo, é pedir a Deus para abrir seus olhos, de modo que
possa ver o real estado do seu coração. Tudo o que vimos até aqui,
embora Paulo tivesse o mundo pagão em mente, é uma descrição
do meu e do seu coração. Todo crente tem um ateu dentro de si,
uma parte silenciosa que quer rejeitar Deus, ser autônoma e
adorar a qualquer deus que invente, fugindo da submissão a
Deus.
Por isso, não podemos baixar a guarda nem por um momento
sequer. Você tem de mandar o ateu que traz dentro de si ficar
calado.
Passamos boa parte do tempo cuidando de questões legítimas
da vida, mas nos esquecemos da tendência que o nosso coração
tem de fugir de Deus e rejeitar os seus caminhos. Essa é a razão
pela qual muitas pessoas que frequentam a igreja não têm um
comportamento cristão. Confessam a Deus com os lábios, mas
vivem como se fossem ateus na prática, e agem como se Deus não
existisse.
O pior tipo de ateísmo é aquele que professa a Deus com os
lábios, mas o nega por intermédio de suas obras (Paulo trata disso
em sua segunda carta dirigida a Timóteo).
Talvez você esteja lendo este livro justamente para fazer uma
avaliação de sua própria vida à luz da verdade de Deus.
Quebrante-se diante de Deus, reconheça esse processo
degenerativo em sua mente diante dele e diga: “Deus, eu quero
uma mudança de paradigma, de mentalidade, de cosmovisão. Não
me abandone, pois se o Senhor me abandonar estarei como esses
idólatras do texto bíblico”.
Espero que esta reflexão também ajude a deixar clara a
necessidade de Cristo, do seu perdão e do poder do Espírito Santo.
Não precisamos de band-aids nem de cirurgias, mas, sim, de
ressurreição, e não há outra forma de fazer isso senão por meio do
evangelho de Jesus Cristo. Não há outro poder capaz de realizar
transformação e renovação como o evangelho de Cristo. Não
existe outra esperança.
N
os capítulos precedentes,
vimos o que Paulo explica
sobre a revelação de Deus
na consciência e na criação.
Vimos também a exposição que
Paulo faz de como os homens
rejeitaram essa revelação,
sufocando o conhecimento da
Capítulo 6
ABANDONADOS: O JUÍZO DE
DEUS SOBRE NOSSA GERAÇÃO
Romanos 1.24,25
A idolatria e a depravação dos gentios
É por isso que Deus os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus
corações, para desonrarem seus corpos entre si; pois substituíram a verdade de Deus
pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito
eternamente. Amém.
verdade, tornando-se loucos e
procurando, fora de Deus,
respostas para as questões da
humanidade.
No capítulo anterior, vimos também o processo por meio do
qual o homem cai na idolatria, fazendo deuses para si mesmo.
Deus se revela e o homem o rejeita. Agora chegou a vez de Deus.
Paulo fala da retribuição de Deus, a qual é delimitada pelo uso
triplo de variações da expressão “por isso que Deus os entregou”
nos versículos 24 (“É por isso que Deus os entregou à impureza
sexual”), 26 (“Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas”) e
28 (“por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram entregues
pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para fazerem
coisas que não convêm”).
Nos versículos acima citados, Paulo explica que a reação de
Deus à rejeição humana foi abandonar o homem aos desejos do
seu próprio coração, permitindo, dessa forma, que a humanidade
recebesse aquilo que ela realmente queria.
Podemos extrair alguns pontos dessa passagem, e meu
objetivo, ao discorrer sobre eles, é que entendamos: que vivemos
sob a ira de Deus e sua justa retribuição diante do nosso pecado;
que a situação do homem é muito pior do que ele imagina; e que
qualquer pretensão de mérito ou caminho de salvação própria é
mera ilusão.
Coração cheio de concupiscências
O apóstolo inicia essa passagem escrevendo: “É por isso que Deus
os entregou à impureza sexual, ao desejo ardente de seus
corações” (v. 24). Algumas versões bíblicas usam a palavra
“concupiscência” em lugar de “desejo”. Desejo é algo que pode ser
bom ou ruim; nos textos bíblicos, porém, é sempre empregado
para denotar a vontade de fazer coisas erradas. Assim, “desejo
ardente”, ou concupiscência, refere-se ao anseio por fazer algo que
é contrário à natureza de Deus.
Paulo está dizendo que abrigamos dentro de nós
concupiscências, ou seja, de acordo com o que a Bíblia diz nesta e
em outraspassagens, carregamos em nosso íntimo o desejo de
fazer coisas ilícitas. Não foi sempre assim, no entanto. Deus criou
nossos primeiros pais à sua imagem e semelhança, em santidade
e inocência, embora com a capacidade de pecar.
Eles usaram a liberdade que tinham para se rebelar,
colocando assim a si mesmos (e também a toda sua descendência)
debaixo da justa condenação de Deus, lançando a raça humana na
corrupção. Nós herdamos de Adão e Eva a inclinação para o mal;
passamos a abrigar, desde aquele momento, desejos ilícitos em
nosso coração, e esses desejos se revelam até na mais inocente
criança. Não demora muito e aquele filho ou filha adorável acaba
por mostrar suas “garras”, para que não reste dúvida quanto a
seus ancestrais.
O coração do homem, portanto, está cheio de inclinações para
o mal, e isso governa as nossas ações, preferências e os caminhos
que decidimos tomar.
O homem, em seu estado natural, rejeitou a revelação divina,
conforme vimos nos capítulos anteriores. Deus se revelou como
todo-poderoso, santo, justo, verdadeiro, um Deus que demanda
obediência, mas nosso coração está cheio de concupiscências, e
não queremos servir a um Deus que condena aquilo de que
gostamos. Quem em sã consciência quer um Deus que vai lhe
dizer o tempo todo que você não pode olhar para a mulher alheia
e que tem de tratar bem o seu próximo, independentemente das
circunstâncias?
Nossos desejos ou inclinações para o mal, portanto, fazem com
que rejeitemos a Deus desde o nascimento. Embora a glória de
Deus brilhe ao nosso redor, nas coisas criadas, e também em
nossa consciência, não queremos saber dele.
Pior que isso, o homem distorce o conhecimento de Deus (Rm
1.23). Deus se mostra como alguém diferente da criação, pois ele é
incorruptível (ou imortal), não se deteriora, mas é eterno e
sempre o mesmo. Os homens, porém, preferiram deuses feitos à
sua imagem e semelhança, e ainda por cima passaram a adorar
seres irracionais, como aves e répteis.
E não para aí. Paulo prossegue dizendo: “pois substituíram a
verdade de Deus pela mentira” (v. 25). A palavra “substituir” tem
aqui um significado diferente do que verificamos no versículo 23,
pois carrega o sentido de travestir, que quer dizer mudar a
natureza de algo e revesti-lo de outra coisa. O termo “travesti”
vem justamente dessa ideia: alguém que passa a se vestir como o
sexo oposto e a adotar seu comportamento.
O homem mudou o conhecimento que tinha de Deus e
travestiu esse conhecimento, substituindo-o pela mentira. E o
texto não diz que a verdade de Deus foi substituída por uma
mentira, mas pela mentira, o que revela o uso de um artigo
definido: estamos falando da mentira específica da idolatria, não
de uma mentira qualquer. Os homens travestiram a verdade de
Deus em adoração à criação, travestindo assim a própria glória de
Deus.
Isso acontece justamente porque os homens não querem servir
a um ser como Deus. Ao estudar os deuses do paganismo, percebe-
se que são deuses com paixões e desejos humanos. Trata-se de
seres vingativos, que têm desejos sexuais, matam, miscigenam-se
com homens e mulheres para gerar filhos e tramam guerras de
poder, pois são feitos à imagem de homens.
Ninguém quer servir a um Deus como aquele que se revelou
na criação, porque naturalmente toda a raça humana tem de se
humilhar diante dele. Assim, há apenas duas opções para o
homem: aceitá-lo como o único Deus que deve receber adoração ou
se autoproclamar o deus de sua vida, decidindo então quem mais
ocupará esse posto. Como já dissemos em outro capítulo, o ser
humano sempre estará diante do altar de algum deus, seja o Deus
verdadeiro, seja algum deus travestido.
Entregues à imundícia
A partir dos pontos apresentados, Deus entrega os homens à
imundícia. O apóstolo diz: “É por isso que Deus os entregou à
impureza sexual, ao desejo ardente de seus corações, para
desonrarem seus corpos entre si” (v. 24). Entregar, aqui, significa
abandonar.
A figura é a seguinte: o homem tem suas concupiscências, seus
desejos pecaminosos, mas, mesmo assim, ninguém é tão imoral e
perverso quanto poderia ser. Por quê? Porque Deus nos refreia.
Você nasceu em um lar em que seus pais o ensinaram a respeito
do certo e do errado, mora em um país onde a polícia reprime o
crime e existem leis e autoridade. Então, por meio de
governantes, tutores, educação formal, polícia, penalidades e
exemplos de boa conduta, Deus faz com que as pessoas não sejam
tão ruins como poderiam ser.
Lá no fundo, o seu coração e o meu são iguais ao de um
estuprador ou de um traficante! Só não somos tão imorais e
perversos quanto qualquer um deles porque Deus nos refreia. É
por isso que o castigo de Deus para aqueles que o rejeitam é
apenas deixar de refreá-los. Abandonar, portanto, significa tirar
as travas do ser humano e deixar que o pecador vá até o fim em
seu pecado.
Deus não faz isso porque desistiu da humanidade, mas como
forma de julgamento. O castigo para o pecado, então, é mais
pecado ainda, como os juros cobrados de uma conta bancária que
não é paga há muito tempo. Deus permite que o homem siga os
próprios caminhos, mas anota os juros, e a conta que essas
pessoas pagarão no dia final será maior do que se Deus as tivesse
refreado.
Quando Deus entrega uma pessoa, uma cultura ou um povo à
imundícia, isso demonstra um ato judicial de castigo divino contra
aquela pessoa ou grupo. A palavra grega usada para “imundícia”
é uma palavra que denotava imoralidade sexual. Essa
imoralidade já estava lá, no coração humano, mas Deus permitiu
que ela se mostrasse no corpo.
Assim, às vezes, Deus entrega o ser humano à própria
impureza sexual, mesmo sem castigá-lo. Esta é uma forma de
abandoná-lo: Deus permite que o pecador não seja imediatamente
castigado e, portanto, viva do jeito que quiser.
Você já deve ter se perguntado por que um raio não cai na
cabeça de uma pessoa imoral que desafia a Deus ou por que a
terra não se abre para engoli-la. Deus pode escolher não castigar
de imediato, a fim de permitir que o pecador continue pecando;
quando o pecador percebe que não há castigo, afunda-se cada vez
mais no pecado.
Mas, se um filho de Deus pular a cerca, o Pai também pula
atrás dele. O Senhor castiga seus filhos, mas, muitas vezes,
permite que os pecadores vivam por um tempo sem ser castigados
por seus atos infames. Essa é uma forma clara de Deus revelar
sua ira sobre a humanidade, pois ele permite que os mais
perversos criminosos façam o que querem. É como se ele dissesse:
“Quando vocês me rejeitaram, o que pensaram que aconteceria?”.
Não sei quanto a você, mas eu olho para a sociedade ao redor e
vejo claramente a ira de Deus sobre nós. Leis estão sendo
derrubadas, o poder policial não tem mais credibilidade, não se
acha mais bons governantes, a igreja fica calada, e a imoralidade
escancarada parece avançar cada vez mais na sociedade sem que
ninguém consiga reagir. O que é isso senão a ira de Deus sobre a
nossa civilização? Ela está caminhando para o fim bem diante dos
nossos olhos. Estamos vivendo um período triste da história.
Essa sempre foi a maneira de Deus agir. Veja as seguintes
passagens:
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito; abre bem a tua boca, e eu
a encherei. Mas meu povo não ouviu minha voz, e Israel não quis saber de mim. Por
isso, eu os entreguei à teimosia de coração, para que andassem segundo seus
próprios conselhos (Sl 81.10-12).
Portanto, fala com eles e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Aquele da casa de
Israel que der lugar no coração aos seus ídolos, e puser o tropeço da sua maldade
diante de si, e for ao profeta, eu, o SENHOR, haverei de responder-lhe conforme os
seus muitos ídolos; para que possa reconquistar o coração da casa de Israel, que se
distanciou de mim por causa de seus ídolos (Ez 14.4,5).
Deus estava dizendo que curaria e responderia orações a
ídolos, como se ele mesmo fosse um desses ídolos, fazendo com
que o pecador caísse na própria armadilha. Achouisso pesado?
Veja o que diz 2Tessalonicenses 2.9-12:
A vinda desse ímpio se dá por meio da força de Satanás com todo o poder, sinais e
falsos milagres, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, pois
rejeitaram amar a verdade para serem salvos. É por isso que Deus lhes envia a
atuação do erro, para que creiam na mentira, para que sejam julgados todos que não
creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça.
Tomando esses textos por base, conseguimos entender melhor
o crescimento de tantas seitas: Deus permite que elas surjam
como forma de castigar aqueles que correm atrás de mentiras,
rejeitando em seu coração a verdade dele.
Outra passagem que nos ajuda a entender melhor essa
questão é Atos 7.41,42. Aqui, Estêvão prega a respeito do período
de Israel no deserto:
Naqueles dias, eles fizeram um bezerro, ofereceram sacrifício ao ídolo e o festejaram
como obra das suas mãos. Mas Deus se afastou deles e os entregou ao culto dos
astros do céu, como está escrito no livro dos profetas: Foi a mim que oferecestes
sacrifícios e ofertas por quarenta anos no deserto, ó casa de Israel?
O apóstolo Paulo, portanto, não está falando nada de novo na
Carta aos Romanos, nada que os profetas já não tivessem
anunciado ao povo. Quando o homem rejeita a verdade de Deus
no íntimo de seu coração, Deus o entrega ao erro, ao falso profeta
e à falsa religião.
A desonra por consequência
Note que Paulo diz que os homens foram entregues para
“desonrarem seus corpos entre si” (v. 24). Isso mostra que o corpo
humano foi criado para um fim honroso. Deus criou um homem e
uma mulher — e não dois homens, nem duas mulheres, nem duas
mulheres e um homem, nem dois homens e uma mulher — e os
uniu pelo casamento.
Segundo as Escrituras, portanto, o uso honrado do corpo se dá
por meio do sexo heterossexual e monogâmico dentro do
casamento, o que significa que fazer qualquer coisa diferente
disso é desonrar o corpo. A fornicação (sexo entre solteiros), o
adultério (sexo em que uma das partes é casada), a prostituição
(quando envolve dinheiro) e as relações homoafetivas são formas
de desonrar o corpo. São distorções do projeto original de Deus, e
é isso que acontece quando os homens são entregues às suas
concupiscências.
Devemos lembrar que estamos falando de Roma, o local mais
dissoluto de sua época; catorze dos quinze imperadores romanos
praticaram homossexualidade. Ter concubinas, garotos de
programa e praticar prostituição de todo o tipo eram hábitos
comuns. Na Grécia, então, nem se fala: Corinto era uma das
cidades mais famosas pela quantidade de prostitutas que lá
havia, a ponto de seu nome virar um sinônimo de corrupção.
Veja a justiça e a ironia de Deus: “Vocês me desonraram,
então eu os entrego a si mesmos para que se desonrem entre si”.
Ele retribui na justa medida: nós os desonramos; portanto, ele
permite que nos desonremos. Como adulteramos a sua glória,
acabamos por adulterar o que é natural entre nós. Essa é a
justiça de Deus na aplicação do juízo.
Conclusão e aplicações práticas
Os versículos 24 e 25 de Romanos 1 falam da profunda
depravação do coração humano. Não se deixe enganar por quem
diz que a solução para nossos problemas está dentro do nosso
coração, e que nós, no fundo, somos todos bonzinhos.
Essa visão não é bíblica! A visão bíblica diz que somos
corrompidos desde a raiz dos cabelos e que nossas justiças são
como trapos de imundície. Você só não é tão imoral quanto
aqueles que critica e condena porque Deus o refreia. O coração
humano é completamente corrompido; é algo que não
conseguimos controlar.
Isso também vale para os cristãos, pois, quando
experimentamos a salvação, somos transformados e santificados
por Deus, mas a corrupção do nosso coração permanecerá até
nosso último dia nesta terra. O cristão terá de lutar contra isso
todos os dias de sua vida.
Certa vez, um irmão chegou para mim e disse que não sabia se
era cristão (o que pode ser um bom sinal, pois muitos dizem que
são, mas, quando morrem, descobrem que nunca foram) porque
tinha de brigar todos os dias com o próprio coração, chegando a
chorar e ficar desesperado. Essa é a maior prova de conversão! O
crente verdadeiro não suporta a corrupção do próprio coração e
trava uma dura batalha todos os dias de sua vida.
Outro ponto a refletir é que a nossa cultura está sob a ira de
Deus. Eu bem sei que gostamos de pensar em Deus como um
Deus de amor, e ele de fato é, mas também é um Deus que se ira.
Os sinais disso estão em toda parte, e os freios estão sendo
tirados. A impunidade é cada vez maior para aqueles que fazem o
mal, e a culpa da nossa geração está sendo acumulada para o dia
do juízo.
Podemos ver isso até mesmo entre os evangélicos: a pessoa usa
roupas sensuais e joga toda a culpa no olho do irmão (tanto
homens quanto mulheres fazem isso); namorados fornicando;
adultério; pornografia; homens afeminados e mulheres
masculinizadas. Tudo isso é cada vez mais comum dentro da
igreja.
Pior ainda: muitos pastores pararam de fazer esse tipo de
denúncia por medo da igreja, o que mostra mais ainda que a
impunidade é permitida por Deus, pois ele levanta pastores para
refrear o seu povo. Eu vejo esses sinais e peço que Deus tenha
misericórdia (a começar por mim mesmo).
Somente o próprio Deus pode nos salvar de nosso merecido
castigo. É preciso um poder extraordinário para salvar pessoas
dessa situação de condenação, culpa e escravidão. Oro para que o
poder de Deus quebre as amarras e abra os nossos olhos,
libertando-nos de nós mesmos e nos trazendo para a luz.
Esse não é um poder humano: somente no evangelho de Cristo
o encontramos. Ele não está em nós nem em alguma instituição
ou pessoa. Paulo não se envergonha do evangelho, pois ele é o
poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16).
Não precisamos de remendo, e sim de ressurreição! Precisamos
nascer de novo, e só o evangelho pode fazer isso.
Os que já foram salvos pelo poder do evangelho devem
procurar compreender a realidade acerca das pessoas ao seu
redor, tanto no trabalho, na escola, na família, como entre
vizinhos ou na academia. Elas estão em rebelião contra Deus e
debaixo de sua ira, e é assim que devemos enxergá-las!
Por isso, precisamos compartilhar o evangelho com essas
pessoas. Elas estão indo para o inferno, até que se rendam a
Cristo. Testemunhe e ore por elas, e não se esqueça do real estado
dessas pessoas.
Medite no estado do seu próprio coração, na sua tendência à
idolatria e no seu apetite para a imoralidade. Coloque-se ao pé da
cruz todos os dias e diga: “Ó Deus, tem misericórdia de mim! Não
me abandones, pois sei do que sou capaz se tu Senhor, não me
refreares”. Ore como Jesus nos ensinou: “não me deixes cair em
tentação, mas livra-me do mal, Senhor!”. Essa tem de ser a oração
diária dos que foram salvos pela graça de Cristo.
Os que ainda não experimentaram a salvação do poder do
pecado nem provaram o poder do evangelho daquele que morreu e
ressuscitou ao terceiro dia podem se achegar hoje a Deus. Sem
impor limites e exigências, diga a ele: “Senhor, sou um pecador
miserável e mereço condenação, mas em ti há poder, Jesus, para
me perdoar da escravidão e de suas consequências”. Cristo levou o
ferrão do pecado por nossa culpa, mas hoje vive e é poderoso para
atender todo pecador que vai a ele. Só em Cristo o ser humano
encontrará perdão e nova vida.
E
sses dois versículos são
parte do argumento do
apóstolo Paulo no primeiro
capítulo de sua Carta aos
Romanos, em que ele explica por
que quer pregar o evangelho na
Espanha. A razão, segundo o
apóstolo, é porque todo o mundo
Capítulo 7
HOMOSSEXUALIDADE: UMA
PERSPECTIVA BÍBLICA
Romanos 1.26,27
Uma expressão do juízo de Deus
Por isso, Deus os entregou a paixões desonrosas. Porque até as suas mulheres
substituíram as relações sexuais naturais pelo que é contrário à natureza. Os
homens, da mesma maneira, abandonando as relações naturais com a mulher,
arderam em desejo sensual uns pelosoutros, homem com homem, cometendo
indecência e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro.
p , p q
pagão está condenado. Não há
inocentes diante de Deus. Nem
mesmo aqueles que nunca
ouviram o evangelho nem
ouviram falar da Lei de Moisés
são inocentes diante de Deus,
porque ele também se revelou a
essas pessoas, primeiro pela
consciência e segundo pela
criação. A existência tanto de
uma quanto da outra, assim
como a combinação das duas,
mostram de forma inequívoca o
que todo ser humano deveria
saber: que existe um Deus santo,
justo e reto; que ele não é a
natureza; e que nós deveríamos
dar glória a ele e render-lhe
graças durante a nossa vida.
Entretanto, a humanidade
desprezou esse conhecimento de
Deus.
Paulo afirmou, no início do capítulo, que os seres humanos
reprimiram a semente do conhecimento de Deus que está no
coração e se voltaram para os ídolos, criaram deuses à sua
imagem e semelhança e rejeitaram a revelação do Criador todo-
poderoso. Deus então, como castigo pela rejeição da humanidade,
entregou-a aos próprios desejos, às próprias paixões. Por
consequência, uma vez retirados as travas e os freios, a
humanidade precipitou-se cada vez mais na imoralidade, na
violência e na perversão dos seus caminhos. O apóstolo Paulo
mostra uma dessas consequências do abandono de Deus: os
homens, sem ter mais a graça divina para controlá-los,
perverteram a ordem natural das coisas e desonraram seus
corpos entre si.
Esse argumento do apóstolo apresenta o lesbianismo e o
homossexualismo como evidências concretas desse afastamento
de Deus. Em outras palavras, os versículos 26 e 27 de Romanos 1
tratam de uma expressão do juízo de Deus sobre a cultura
daqueles dias; no entanto, ao fazermos sua transposição para os
dias atuais, podemos ver também os mesmos sinais indicativos da
ira de Deus sobre a nossa própria cultura e a nossa própria
sociedade. E esse é o tema deste capítulo, baseado em Romanos
1.26, 27, texto em que Paulo revela que Deus entregou as pessoas
às suas “paixões desonrosas”. No versículo 26, lemos que as
mulheres mudaram o modo natural de se relacionarem
sexualmente por outro, que é “contrário à natureza” (o
lesbianismo). O versículo 27 registra que os homens fizeram a
mesma coisa: “arderam em desejo sensual uns pelos outros,
homem com homem, cometendo indecência e recebendo em si
mesmos a devida recompensa do seu erro”.
Um movimento organizado
Estamos diante de um dos assuntos mais sensíveis e polêmicos da
atualidade, que é a questão da homossexualidade. Por
homossexualidade entende-se não somente a atração e o
sentimento entre pessoas do mesmo sexo, mas também as
relações sexuais que elas mantêm entre si. Talvez, como muitos,
você se pergunte por que esse assunto tem ganhado tanta
visibilidade em nossa época. Primeiramente porque o movimento
gay se organizou nos últimos trinta anos e assumiu uma
militância que não existia até então.
Sempre houve pessoas que se sentiam atraídas e mantinham
relações com pessoas do mesmo sexo; há relatos dessa prática nas
culturas mais antigas de que temos conhecimento. Porém,
somente nas últimas décadas, no mundo ocidental, é que pessoas
participantes desse movimento se organizaram e passaram a
atuar com o objetivo de fazer com que não somente esse tipo de
relação fosse considerado aceitável, mas também fosse visto como
algo normal e até desejável. Esse movimento, apesar de
minoritário, vem ganhando cada vez mais a adesão de políticos,
artistas e formadores de opinião, e tem conseguido influenciar a
mídia, a política, a cultura e até mesmo a opinião pública de
forma geral.
Recentemente, uma grande emissora de TV do país exibiu a
primeira cena de sexo gay da televisão brasileira em uma de suas
novelas. Se, para sua sorte, você é daquele tipo de crente que não
assiste a novelas, talvez esteja um pouco surpreso; mas o fato
mostra bem como o movimento gay tem conseguido impactar e
influenciar a cultura e a mídia em geral.
Essa influência tem ganhado até os meios acadêmicos: alguns
estudiosos, por exemplo, tentam demonstrar cientificamente a
questão da ideologia de gênero, afirmando que os gêneros se
constroem socialmente e que tudo é uma questão da escolha do
indivíduo. Segundo a última contagem de que tive notícia, já
havia dezesseis possibilidades de sexualidade: a pessoa nasce
mulher, mas por dentro é homem e gosta de mulher; a pessoa
nasce mulher, por dentro é homem e gosta de homem; a pessoa
nasce homem, mas por dentro é mulher e gosta de mulher, e por
aí vai. Imagine chegar a um hotel e, ao preencher a ficha de
hospedagem, em vez de encontrar as tradicionais opções,
masculino ou feminino, para indicar o seu gênero, você se depare
com nada menos do que dezesseis opções para escolher! Isso é
resultado dessa movimentação toda que existe hoje no mundo
ocidental com relação à sexualidade.
Até aqui os cristãos poderiam dizer que essa é uma questão da
pessoa diante de Deus, e que nós respeitamos as escolhas que
cada um faz para a própria vida. Mas o fato é que esse movimento
tem feito ataques cada vez mais ousados contra o cristianismo,
contra a família, contra os padrões tradicionais das culturas
ocidentais que, como sabemos, sofreram forte influência do
cristianismo. Para começar, eles conseguiram dar a todo
pensamento contrário ao que eles defendem o rótulo de discurso
de ódio. Se alguém disser que não concorda com a
homossexualidade, já será rotulado de homofóbico. Nós nem
temos a oportunidade de dizer que respeitamos as pessoas, que as
amamos e queremos tratá-las com igualdade, ainda que, em nossa
opinião, a homossexualidade seja errada. O movimento gay vem
conseguindo emplacar esse tipo de censura na cultura, na opinião
pública.
Outra coisa que eles têm feito é tentar culpar o cristianismo
pela perseguição e violência contra os homossexuais. Segundo
esses militantes, a igreja, por considerar a homossexualidade
errada, provoca nos fiéis o desejo de combatê-la até mesmo na
base da violência contra seus praticantes. Em 2016, quando
ocorreu aquela tragédia numa boate gay em Orlando (EUA), na
qual dezenas de pessoas foram mortas a tiros, no Brasil um
conhecido deputado começou a dizer que a culpa seria dos
evangélicos, porque eles dizem que a homossexualidade é errada.
Segundo ele, essa postura gera um combate àquilo que é
considerado errado e faz nascer mesmo extremistas que usam a
violência contra essa minoria. Quem concorda com esse deputado
se esquece de que quem promove massacres não é o cristianismo,
de forma alguma. Ao contrário, muitos desses crimes são
praticados por homossexuais, que brigam entre si. Assim, boa
parte dos chamados crimes de homofobia são praticados por
outros homossexuais. Entretanto, a mídia vem fazendo uma
campanha sistemática, de modo que, ao transmitir a notícia de
que um homossexual foi agredido ou atropelado, trata
invariavelmente o caso como homofobia, mesmo que, às vezes,
não seja isso que de fato está acontecendo.
Entre outras ações desse movimento ativista, há a tentativa
de criminalizar a opinião. No que pode ser identificado como a
investida mais recente, o grupo vem tentando emplacar no Brasil
um tipo de legislação que proíba as igrejas de pregarem ou
dizerem o que acreditam com relação ao tema. Primeiro havia um
projeto que amordaçava completamente as igrejas, o PLC
122/2006, que não foi aprovado. Depois fizeram uma composição,
segundo a qual os evangélicos poderiam dizer que a
homossexualidade é errada, mas apenas dentro dos limites do
templo. Do lado de fora, eles deveriam se manter calados.
Esse projeto de lei não foi aprovado, pelo menos até o momento
em que escrevo essas palavras. E é claro que a dificuldade que se
encontrou para aprová-lo é que a Constituição brasileira assegura
direitos civis fundamentais como a liberdade de crença, de
consciência e religiosa. No entanto, existe uma tentativa
constante, organizada e persistente de criminalizar a opinião a
respeito dahomossexualidade sempre que ela for contrária ao que
defendem os integrantes (e simpatizantes) do movimento gay.
Os cristãos, segundo meu entendimento, respeitam as decisões
individuais, afinal, sabemos que cada um dará contas de si
mesmo a Deus. Se uma pessoa quiser seguir o caminho da
homossexualidade, isso é uma decisão dela, e nós vamos respeitá-
la. No entanto, tenho o direito de dizer em relação a essa atitude,
como em relação a qualquer outra, que a considero errada, que
não concordo com ela e que esse tipo de comportamento ou atitude
vai contra aquilo em que acredito. Isso se chama liberdade de
expressão, algo que, em muitos aspectos, o movimento gay vem
tentando abolir ao tentar rotular a nossa opinião sob o tema de
discurso de ódio. Por esse motivo, esse assunto vem assumindo
uma dimensão muito grande na mídia e até no meio evangélico e,
sempre que alguém decide abordá-lo, tem de tomar o máximo de
cuidado, ao mesmo tempo em que deve procurar ser justo para
não exagerar ou deturpar as posições das pessoas a esse respeito.
Infelizmente, um número grande de igrejas evangélicas ao
redor do mundo rendeu-se à pressão desse movimento. Nos
Estados Unidos, a igreja-mãe da Igreja Presbiteriana do Brasil, a
Presbyterian Church of United States of America (PCUSA), com a
qual a denominação brasileira rompeu em 1950, já há algum
tempo cedeu à pressão e passou a considerar a prática
homossexual algo normal e uma opção de cada um. O passo
seguinte foi aceitar o casamento gay e depois pastores e pastoras
gay. Há mais de sessenta anos que o presbiterianismo no Brasil
não tem relacionamento nenhum com essa igreja, nem a
considera igreja-irmã, por causa dessas atitudes que ela vem
tomando.
Muitas igrejas metodistas, luteranas, episcopais e outras
também vêm cedendo à pressão e aceitando o casamento gay
como uma possibilidade entre seus membros. Recentemente
houve uma polêmica envolvendo a denominação batista, porque
uma de suas igrejas fez um casamento gay. A convenção batista
se reuniu e, depois que os convencionais discutiram durante um
tempo, decidiram desligar essa igreja. A pressão é muito grande e
já começou a afetar também o meio batista.
Vemos o surgimento da chamada teologia inclusiva, uma
tentativa de teólogos do movimento de explicar que a Bíblia não
proíbe a homoafetividade, que Deus é amor, e que nós estamos
muito enganados quando lemos passagens como essa que estamos
abordando neste capítulo. Começam a surgir questionamentos
como: “Será que Deus vai me rejeitar porque eu gosto de uma
pessoa que tem o mesmo sexo que eu? Será que não existe coisa
mais séria com a qual Deus deveria estar ocupado, em vez de ficar
me marcando só porque nasci assim?”. Esses teólogos tentam
justificar a homossexualidade à luz da Bíblia e chegam ao
extremo de dizer que Davi e Jônatas tinham uma relação
homoafetiva, porque, em certa passagem, Davi diz o seguinte a
seu amigo Jônatas: “Excepcional era o teu amor, ultrapassando o
amor de mulheres” (cf. 2Sm 1.26, ARA).
Um dos estragos decorrentes do movimento gay é que ele
acabou com a amizade entre pessoas do mesmo sexo, que era o
sentimento que Davi tinha por Jônatas. Eu me lembro da época
em que as meninas andavam de braços dados na rua e ninguém
levantava suspeita; era algo muito normal. Da mesma forma, era
muito normal os rapazes estarem juntos, saírem juntos, sentarem
juntos, baterem papo, se abraçarem, se beijarem no rosto;
ninguém dizia nada. Hoje, se você andar demais com um colega
do mesmo sexo, muito junto dele, as pessoas já desconfiam de um
relacionamento homossexual.
Alguns dos adeptos da teologia inclusiva chegam ao ponto de
afirmar que Jesus e João tinham também esse tipo de relação,
porque, na noite em que Jesus foi traído, João encostou a cabeça
no ombro de Jesus e perguntou-lhe quem era o traidor entre os
discípulos. Houve uma época em que um rapaz podia encostar a
cabeça no ombro de outro e isso era algo perfeitamente normal.
Nosso olhar mudou por causa da pressão do ativismo gay, e
passamos a ver maldade onde não havia, passamos a enxergar
determinadas coisas onde elas jamais estiveram antes.
Infelizmente, isso vem acontecendo.
O que está em jogo realmente, para os cristãos que creem na
Bíblia como a Palavra de Deus, é como, então, eles devem encarar
a questão da homossexualidade. Meu objetivo neste capítulo é
expor o que o apóstolo Paulo escreveu sobre esse assunto em
Romanos 1.26,27.
Antes de prosseguir
Antes de seguir em frente, é importante esclarecer alguns pontos.
Em primeiro lugar, a posição mais contundente contra essa
passagem é daqueles que dizem que Paulo, ao escrever esses
versículos, estava simplesmente refletindo o pensamento de sua
época, um tempo em que os gays eram vistos com preconceito e,
por isso, perseguidos, queimados e apedrejados. Segundo essa
ideia, Paulo, mesmo que inspirado por Deus, era humano e
estaria pensando como um homem do seu tempo. Assim, segundo
esse raciocínio, essa passagem não valeria para nós hoje porque
estaria refletindo o pensamento de dois mil anos atrás, quando
ninguém conhecia direito a homossexualidade, hoje considerada
uma questão genética, inevitável. Ainda segundo esse raciocínio,
como Paulo não tinha como saber disso naquela época, ele, assim
como todos os seus contemporâneos, achava que a
homossexualidade era algo errado.
A verdade, porém, é outra. Na época de Paulo, o pensamento
era diferente. Embora fosse judeu, Paulo nasceu na cidade grega
de Tarso, na Cilícia, e era cidadão romano; a homossexualidade,
por sua vez, era bastante comum no mundo greco-romano em que
o apóstolo viveu. Aristófanes, um famoso dramaturgo grego que
viveu alguns anos antes de Cristo, afirmou, em determinada
ocasião, que a homossexualidade era tão comum na cidade de
Atenas que ele estava certo de que sua audiência era composta
em sua maioria por homossexuais. Os livros de história nos dizem
que, dos quinze primeiros imperadores romanos, catorze eram
adeptos de práticas homossexuais; Nero, aliás, era casado com um
homem. Então, vemos que naquela época o homossexualismo era
extremamente comum e bem tolerado, quando não encorajado. A
pederastia, que é o envolvimento de homens com meninos, era
considerada normal e vista como uma forma de o menino galgar a
maturidade.
Assim, na verdade Paulo não está refletindo o espírito da
época, mas, ao contrário, está se posicionando de modo antagônico
a ele. O apóstolo não está condicionado pela cultura dos seus dias,
mas, sim, indo contra ela. Os judeus, que eram contrários à
prática homossexual, consistiam então em uma minoria. Israel e
os judeus representavam uma porção ínfima do vasto Império
Romano, uma civilização gigantesca, de alcance mundial. Os
judeus não tinham influência nenhuma, e o pensamento
dominante dizia que a homossexualidade era algo comum. A bem
da verdade, é preciso que se diga que havia alguns filósofos e
poetas que questionavam a prática homossexual; mas, no geral,
ela era normalmente aceita no mundo da época de Paulo.
Portanto, ele não está falando como uma pessoa que está bitolada
pela cultura de sua época; na verdade, ele está indo contra aquilo
que era aceito como normal em seu tempo.
Em segundo lugar vêm aqueles que concordam que nessa
passagem Paulo está se posicionando contra o homossexualismo,
mas acreditam que ele está se opondo somente ao
homossexualismo religioso. Deixe-me explicar. No Antigo
Testamento, há quatro passagens em que se fala a respeito da
prostituição cultual. Tratava-se de uma prática em que
sacerdotes homossexuais, ministros de religiões pagãs que
ministravam nos altares, ofereciam sacrifícios e se deitavam com
outros homens como parte da cerimônia religiosa. Eles eram os
chamados prostitutos cultuais, homens religiosos que praticavam
o homossexualismo no contexto de sua religião. Por causa disso,
algumas pessoas dizem que nos dois versículos em questão Paulo
está, na realidade, condenando a idolatria,o culto aos deuses
pagãos. De minha parte, por mais que examine esse texto, não
consigo encontrar margem para essa interpretação. Onde é dito
nessa passagem que Paulo está proibindo a idolatria? Ele está
tratando das relações homossexuais em geral. Em momento
algum ele está destacando que é contra a homossexualidade que
leva à adoração de deuses estranhos nem exortando as pessoas a
não se envolverem em um culto pagão. Paulo está abordando o
tema da homossexualidade nos termos mais amplos possíveis, o
que engloba a homossexualidade como um todo, e não apenas no
contexto do culto.
Em terceiro lugar, há ainda quem diga que o texto faz
referência apenas à pederastia ou pedofilia, algo muito comum
naquele tempo. Isso até poderia ser verdade se a passagem
tivesse somente o versículo 27, mas o versículo 26 fala de mulher
com mulher, e isso não é pederastia. Paulo não está falando de
pederastia, de pedofilia, ele está falando de relações
homossexuais, tanto de mulher com mulher quanto de homem
com homem, independentemente de idade. Mais uma vez vemos
uma tentativa de tirar a força dessa passagem.
Em quarto lugar, há quem diga que nessa passagem o apóstolo
Paulo está somente proibindo os relacionamentos homossexuais
quando estes são abusivos e violentos, porque, se há fidelidade e
amor entre o casal gay, então não há nada errado nesse tipo de
união. Para essas pessoas, o que vale é o amor, considerado o
mais importante, e que haja fidelidade. Paulo estaria condenando
apenas as relações homossexuais que fossem violentas. Mas eu
olho mais uma vez para o texto e pergunto: “Onde é que está
escrito isso?”. Paulo não está destacando nenhum tipo de relação
homoafetiva; ele está falando do assunto de modo geral e,
portanto, está incluindo todas as formas de relação homossexual.
E esse é o último ponto que precisamos destacar. A passagem
deve ser lida no seu próprio contexto e de modo natural, da forma
simples em que aparece. O apóstolo Paulo está falando de
relações homossexuais entre mulheres e mulheres e homens e
homens em geral e, portanto, está incluindo todo tipo de relação
homoafetiva. Não está destacando uma forma em particular, mas
está falando de todas, portanto a passagem tem aplicação global,
geral, universal, e vale para os nossos dias perfeitamente. É dessa
maneira que vamos tratar a questão da homossexualidade
abordada na passagem.
Como Paulo considera a
homossexualidade?
Primeiramente, não há dúvida nenhuma de que Paulo considera
a homossexualidade uma prática antinatural e, portanto, errada,
pecaminosa. Veja como ele se refere a essa prática: “Por isso,
Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de
seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si” (Rm
1.24, ARA). Ele está se referindo exatamente à prática sexual
entre indivíduos do mesmo sexo. Paulo diz que isso é uma desonra
para o corpo. O verbo desonrar significa tratar alguém ou alguma
coisa de maneira indigna, de forma imerecida ou imprópria, e no
caso a desonra refere-se ao corpo. Deus nos deu um corpo e o criou
com uma finalidade em que se destaca o relacionamento
heterossexual, monogâmico, dentro do casamento, conforme se
pode perceber claramente no relato da criação do homem e da
mulher e nas ordens que Deus lhes deu (Gn 1.27,28). Então, o que
estiver fora disso consiste em desonra para o corpo, pois ele não
foi feito para essa finalidade e, portanto, está recebendo um
tratamento indigno, desonroso.
Em segundo lugar, Paulo refere-se à prática homossexual no
versículo 27 como um inflamar da sensualidade: “Os homens, da
mesma maneira, abandonando as relações naturais com a
mulher, arderam em desejo sensual uns pelos outros, homem com
homem”. Paulo chama então essa atração de “homem com
homem” e a consequente relação entre eles de um inflamar (um
arder) em desejo — palavra na língua grega que significa um
sentimento tão forte que a pessoa se sente consumida por um
fogo, com um desejo tão intenso que a faz ferver de vontade. A
versão da Bíblia na Linguagem de Hoje traduz assim o versículo:
“os homens [...] se queimam de paixão uns pelos outros” (1.27,
NTLH). E essa paixão que queima é errada não por causa da sua
intensidade, mas porque é mal dirigida em seu objeto, é de
homem para homem. O homem deveria, sim, se inflamar de
paixão, mas por uma mulher, e não por outro homem. Paulo
considera, então, que o desejo ardente está dirigido para o alvo
errado.
Ainda no versículo 27, ele aponta que os adeptos dessa prática
estão “cometendo indecência e recebendo em si mesmos a devida
recompensa do seu erro”. Outras versões dizem que tais homens
estão “cometendo torpeza” (ARA). Torpeza significa uma atitude
vergonhosa ou, como é traduzido na Nova Versão Internacional,
um ato indecente: “Começaram a cometer atos indecentes” (NVI).
Concluindo o versículo, Paulo diz que esses homens recebem
em si mesmos “a devida recompensa do seu erro”, ou seja, a
merecida punição por seu erro. Então, não resta aqui dúvida
nenhuma: se tomarmos a Bíblia pelo que ela mesma nos diz, não
há como questionar que a prática homossexual é considerada algo
errado. Não é possível distorcer essa passagem. Aquelas
tentativas que mencionei de que nessa passagem, ao tratar da
questão da homossexualidade, Paulo estaria se opondo somente à
prática no contexto religioso, ou à pederastia, ou à pedofilia, ou
ainda aos relacionamentos homossexuais abusivos e violentos,
caem todas por terra diante da clareza e da simplicidade do texto.
Paulo está afirmando com todas as letras que a homossexualidade
é errada (não apenas em casos específicos); trata-se de um pecado
diante de Deus.
Mas algumas pessoas perguntam se Paulo não estaria sendo
incoerente, porque, no Antigo Testamento — em Levítico 20, por
exemplo —, está escrito que o homem que se deitar com outro
como se fosse mulher está cometendo abominação e deve ser
apedrejado. Alguns pensam: “Por que Paulo está pegando uma
parte e descartando outra? Ele não deveria dizer também que o
correto seria apedrejar os homossexuais?”. Paulo nunca disse que
era para fazer isso. Esse tipo de argumentação capciosa ignora a
distinção clara que o Novo Testamento faz entre aquilo que é
moralmente errado e a aplicação de penalidades que estavam
relacionadas à nação de Israel (havia leis que mandavam
apedrejar bruxas, feiticeiros, homossexuais, meninos
desobedientes...).
Antigamente, em Israel, a legislação civil determinava o tipo
de punição. Essa legislação de Israel, no entanto, não passou para
a igreja. A igreja não é uma nação, não está contida em um
território geográfico, não tem uma legislação que prevê punições
para infratores. Aquelas leis do Antigo Testamento, incluindo-se
as que mandam matar e tudo mais, não passaram para a igreja
dos dias de hoje, pois elas dizem respeito a Israel como nação. Em
contrapartida, a lei moral de Deus permanece para sempre, e esse
tipo de atitude — a prática homossexual, da mesma forma que o
adultério, a fornicação, a prostituição — consiste numa quebra do
sétimo mandamento, “Não adulterarás” (Êx 20.14). E a lei de
Deus permanece para sempre.
Assim, quem diz que Paulo está sendo incoerente por não
adotar literalmente tudo o que está dito no Antigo Testamento
ignora propositalmente esta distinção clara que encontramos na
própria Bíblia: o Novo Testamento preserva a lei moral de Deus,
revelada no Antigo Testamento, mas descarta a lei civil, visto que
o propósito desta última já se cumpriu e não tem mais nenhuma
relação com o povo de Deus.
O problema da homossexualidade
Voltemos então ao primeiro dos dois versículos que estamos
analisando neste capítulo: “Por isso, Deus os entregou a paixões
desonrosas. Porque até as suas mulheres substituíram as relações
sexuais naturais pelo que é contrário à natureza” (v. 26). Paulo
argumenta que a homossexualidade é contrária à natureza
quando afirma que “mulheres substituíram as relações sexuais
naturais”. Qual seriaa relação sexual natural para as mulheres?
Ter relações sexuais com um homem. Mas as mulheres mudaram
o modo natural e passaram a ter relações com outras mulheres.
Esse é o primeiro ponto.
Em seguida, no versículo 27, ao referir-se aos homens, Paulo
diz: “Os homens, da mesma maneira, abandonando as relações
naturais com a mulher, arderam em desejo sensual uns pelos
outros, homem com homem”, o que também é um contato não
natural. Este é o problema: a homossexualidade é contrária à
natureza; não foi assim que Deus nos criou para nos
relacionarmos.
Quando Deus criou o mundo, formou o primeiro casal e, ao
criar um homem e uma mulher, ele estabeleceu o padrão do que é
natural. Natural é homem e mulher em um casamento
monogâmico, heterossexual. Segundo a Bíblia, da mesma forma
que adorar a criatura em vez de reverenciar o Criador é uma
perversão da revelação divina, a homossexualidade é uma
perversão da ordem natural das coisas. E é essa comparação que
está implícita na argumentação de Paulo, conforme a qual a
humanidade perverteu a revelação que Deus fez de si mesmo,
adorando a criatura no lugar do Criador, e Deus os entregou a si
mesmos. Consequentemente, eles perverteram a ordem natural
das coisas, dando nisso que estamos vendo agora.
Por algum motivo que desconheço, os tradutores da Bíblia
optaram por usar as palavras “homem” e “mulher”, em vez de
usar os termos que aparecem no original, que traduzidos ao pé da
letra seriam “macho” e “fêmea”: “Por isso, Deus os entregou a
paixões desonrosas. Porque até as suas fêmeas...” (v. 26). Para
nós, hoje, por causa da ideologia de gênero, essa alteração faz
uma enorme diferença, pois uma pessoa só pode ser fêmea por
nascimento, enquanto o fato de “ser mulher” é visto como um
construto social. É interessante que Paulo, quando se refere às
mulheres, diz “fêmeas”, e, no versículo seguinte,
semelhantemente diz “machos”, ao referir-se aos homens: “Os
machos, da mesma maneira, abandonando as relações naturais
com a mulher, arderam em desejo sensual uns pelos outros,
macho com macho, cometendo indecência e recebendo em si
mesmos a devida recompensa do seu erro” (v. 27). Vemos assim
que Paulo, ao tratar dessa questão, recorre à definição biológica:
há macho e fêmea, não há meio-termo. O problema está na
inversão ou na perversão dessa ordem. É nisso que consiste,
então, o pecado, o erro — uma perversão da ordem sexual natural
criada por Deus, uma alteração não autorizada por ele.
Onde a homossexualidade se origina?
Mas de onde vem essa alteração? Por que as pessoas se entregam
à prática da homossexualidade? Paulo entende com muita clareza
que a origem desse pecado é a concupiscência do coração humano:
“... pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram
e serviram à criatura em lugar do Criador, [...] Por isso, Deus os
entregou a paixões desonrosas” (v. 25, 26). Essas paixões, na
realidade, já habitavam o coração humano, o que faltava era Deus
permitir que se espalhassem pelo corpo. Uma vez que Deus
deixou de refreá-las e os entregou a essas paixões, o coração
humano foi até aonde queria ir e, por conseguinte, houve essa
alteração da ordem natural. Então, olhando por essa perspectiva,
a prática homossexual é algo que acontece no íntimo do ser, é
resultante da corrupção do coração humano, a qual está agora
liberada, porque Deus retirou dele a sua graça. Essa liberação,
porém, é punitiva, resulta da reação de Deus à humanidade, a
qual rejeitou o conhecimento, a revelação que ele fez de si mesmo
na consciência humana e na criação. Veja como Paulo refere-se a
“paixões desonrosas” (v. 26) e também fala das “concupiscências
de seu próprio coração” (1.24, ARA), bem como de os homens
“arderem “em desejo sensual uns pelos outros” (v. 27), ou seja, o
apóstolo mostra que tudo isso primeiramente acontece no coração,
para depois, então, tornar-se uma prática.
Hoje sabemos, porém, que, nesse processo em que as pessoas
abraçam a homossexualidade também há fatores externos que
precisam ser considerados. Vejamos alguns deles:
1. A educação recebida dos pais. Há pais que,
intencionalmente, criam o filho sem uma identidade masculina ou
feminina. De vez em quando aparece na mídia algum casal —
especialmente na Europa — que cria o menino ou a menina sem
definição de sexo. Há casais que, comprando a mentalidade da
nossa época, seguem essa onda da ideologia de gênero e dizem
que vão deixar o filho decidir o que vai ser, quando ele tiver por
volta de 10 anos de idade. Até lá vão tratá-lo como menino e
menina ao mesmo tempo ou como nenhum dos dois.
2. Influência da cultura e da mídia. A educação que a criança
recebe em casa e na escola — muitas vezes influenciada pela
cultura vigente e pela mídia, as quais apresentam a
homossexualidade de maneira tão explícita — acaba facilitando,
ou até mesmo incentivando, a prática homossexual. Não faz
muito tempo, assisti na televisão a uma reportagem sobre a moda
masculina para o próximo verão e fiquei admirado com o que vi.
Todos os modelos me pareceram afeminados, com as roupas
coladas ao corpo. Não havia nada de masculino ali! Sem dúvida, a
cultura e a época em que vivemos exercem um papel
preponderante sobre o comportamento das pessoas. Então, em um
ambiente sem muitas definições claras e objetivas sobre os
gêneros masculino e feminino, bem como sobre seus respectivos
padrões de comportamento, é natural que as crianças e os
adolescentes se mostrem confusos. Pode acontecer até que alguns
deles sigam determinado caminho por curiosidade, apenas para
saber do que se trata ou o que representa e, com isso, acabem
dando uma enorme dor de cabeça aos pais.
3. Abuso sexual sofrido na infância. Muitos homossexuais
apontam isso como causa da sua homossexualidade. Lamentamos,
obviamente, todo abuso sofrido na infância. Nosso coração enche-
se de indignação contra adultos que violentam crianças. As
cicatrizes e memórias desses momentos sem dúvida podem
contribuir para que uma criança ou adolescente fique confuso
quanto ao seu gênero. Admitir isso, todavia, não significa admitir
que o abuso na infância leve necessariamente à
homossexualidade.
4. Lares disfuncionais. Contextos em que os papéis
biblicamente atribuídos ao homem e à sua mulher não são
respeitados nem claramente definidos acabam contribuindo para
que a criança cresça confusa quanto ao seu papel como homem ou
mulher. Além disso, temos a preocupante questão da ausência de
modelos masculinos para os rapazes e femininos para as moças.
Por um lado, os homens se retraem e não assumem suas funções
como líderes e protetores. Por outro, empoderadas pelo
feminismo, as mulheres avançam para ocupar papéis que
biblicamente não são seus. O resultado é uma geração que cresce
confusa e sem referencial.
Nos Estados Unidos, os evangélicos têm um movimento
chamado Promise Keepers [Guardadores da Promessa]. Trata-se
de um movimento muito grande cujo objetivo é unir os homens e
mostrar-lhes como exercer sua masculinidade. Por incrível que
pareça, é preciso ensinar os homens o que é ser homem hoje! De
um lado, há o machismo, que deturpa o papel do homem dizendo
que ele tem de ser machão, adúltero, violento, bater em mulher e
tudo mais — o que é, obviamente uma aberração, um pecado. Do
outro lado, há homens crescendo efeminados por falta de modelos
de masculinidade. Muitos meninos não têm um modelo masculino
em quem se espelhar, ou, quando há um modelo dentro da
família, às vezes ele é ruim, e as consequências são as piores
possíveis.
Não podemos ignorar esses fatores externos. Não há nada de
errado em reconhecermos que algumas pessoas escolhem esse
caminho por questões de criação, por abuso na infância, por
influência dos amigos, por moda. Não estamos negando isso. Mas
uma coisa que também não queremos que seja negada é que se
trata de um problema que começa no coração, pois é um problema
de corrupção do coração humano. A Palavra de Deus é muito clara
a respeito disso,portanto precisamos ficar atentos.
O castigo para a prática homossexual
No final dessa passagem, Paulo menciona que os homens adeptos
da prática homossexual acabam “recebendo em si mesmos a
devida recompensa do seu erro”, ou, como é dito em outra versão,
acabam “recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu
erro” (ARA). Paulo refere-se aqui a uma punição que eles recebem
no próprio tempo em que vivem essas relações homossexuais; diz
ainda que ela é “devida” ou “merecida” e que a recebem “em si
mesmos”.
Há várias possibilidades de interpretação do que seja essa
punição, até mesmo do que seja a própria degradação moral que a
pessoa experimenta. Não se iluda: embora os praticantes da
homossexualidade sejam chamados de “gay”, termo que significa
feliz e alegre em inglês, isso não retrata a vida de muitos deles
que, em decorrência desse desvio, sofrem muito, têm problemas
de depressão, de identidade, ou seja, vivem uma luta muito
grande. Então, a punição a que Paulo se refere pode ser alguma
forma de flagelo, dor espiritual, psicológica ou física e até mesmo
a própria degradação a que a pessoa se submete ao fazer uma
coisa que não é natural — por mais que ela queira pensar que
está fazendo algo normal. Mas sempre há consequências para
esse ou para qualquer outro tipo de procedimento que afronte a
criação natural de Deus
Conclusão e aplicações práticas
Vimos neste capítulo que sexo e gênero são aspectos definidos
biologicamente; o fato de ser macho e fêmea é algo definido na
criação; por isso, nós somos do sexo com o qual nascemos. É claro
que a sociedade e o convívio com os pais vão nos ajudar a
confirmar isso, a amadurecer e a sermos aquilo que já somos por
nascimento, verdadeiros homens e verdadeiras mulheres. Este é o
papel da família e da sociedade: desenvolver aquilo com o que nós
já nascemos. Dessa forma, não podemos aceitar a ideologia de
gênero.
A homossexualidade não é de fundo genético e, portanto, não é
irresistível, mas, sim, uma decisão que o indivíduo toma. A vasta
aceitação, prática e defesa da homossexualidade nos dias atuais
mostra que a humanidade está sob o juízo de Deus (veja Rm
1.27). Porém, há perdão e libertação no evangelho. Escrevendo
aos coríntios sobre esse mesmo assunto, Paulo afirma ter
conhecimento de pessoas que tinham sido assim, mas foram
transformadas:
Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem
imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem os que se submetem a práticas
homossexuais, nem os que as procuram, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados,
nem caluniadores, nem os que cometem fraudes herdarão o reino de Deus. Alguns de
vós éreis assim. Mas fostes lavados, santificados e justificados em nome do Senhor
Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus (1Co 6.9-11).
Paulo conheceu pessoas que haviam sido sodomitas,
praticantes da homossexualidade, mas elas foram justificadas em
nome de Cristo Jesus. Portanto, há possibilidade de mudança,
perdão, libertação, transformação.
A Carta aos Romanos não está tratando a homossexualidade
como o pior de todos os pecados. A partir do versículo 28, que
veremos no capítulo seguinte deste livro, Paulo lista quase vinte
atitudes que ele considera igualmente erradas. A questão da
homossexualidade nunca foi tratada isoladamente no Novo
Testamento, mas sempre em conjunto com outros
comportamentos. Por isso é muito errado olharmos para a
homossexualidade como se fosse um pecado sem perdão.
Algumas reivindicações do movimento gay estão corretas, pois
às vezes a igreja é homofóbica mesmo, rejeita mesmo o
homossexual, não o aceita. Às vezes até a própria família vê a
homossexualidade como uma coisa odiosa, que tem de ser
combatida. A Bíblia não ensina que a homossexualidade é um
pecado sem perdão. Só existe, como sabemos, um pecado sem
perdão na Bíblia, que é a blasfêmia contra o Espírito Santo.
Há outros pecados que a Bíblia trata com o mesmo rigor que a
homossexualidade, como a prostituição, o adultério e a fornicação
(sexo entre pessoas que não são casadas). Assim, é muito errado a
igreja eleger a homossexualidade como o ápice de todos os
pecados de imoralidade. Precisamos chamar ao arrependimento
todo pecador, não só quem está vivendo a prática da
homossexualidade. Temos de chamar ao arrependimento, do
mesmo modo, o imoral, aquele que vive na prostituição, o marido
que trai a mulher, a mulher que trai o marido, namorados que
mantêm relação sexual, e assim por diante. A homofobia é algo
errado, e qualquer violência praticada contra uma pessoa por ela
ser homossexual deve ser repudiada. Não é assim que a Palavra
de Deus encara essa questão.
Quanto aos crentes em Jesus Cristo que se sentem atraídos e
tentados por pessoas do mesmo sexo, precisamos reconhecer que a
situação é mais comum do que se possa imaginar. Note, no
entanto, a diferença entre tentação e pecado: ser tentado não é
pecar; o pecado ocorre quando a pessoa cai em tentação. Todos
nós somos tentados de muitas maneiras: quem não é homossexual
pode ser tentado a cobiçar pessoas do outro sexo que são
comprometidas ou casadas; quem sofre com a questão da
homossexualidade é tentado a cobiçar pessoas do mesmo sexo; no
fim, ambos enfrentam tentações.
Então, não é pecado ser tentado; pecado é concordar, aceitar,
começar a fantasiar, ir para a internet e depois partir para a
prática, aí, sim, é pecado. Não posso evitar que um passarinho
pouse na minha cabeça, mas posso evitar que ele faça um ninho
ali. Pensamentos vêm, desejos surgem, sentimentos chegam ao
coração, mas sempre podemos dizer “não”. E podemos lutar contra
isso com a graça de Deus, não só contra essa tentação, mas contra
qualquer outra, pelo poder do Espírito Santo.
Quanto aos que estão envolvidos na prática homossexual,
como eu já disse, a igreja não pode ver esse pecado como algo sem
perdão. Se esse é o seu caso, é necessário que você entenda que o
tratamento que nós lhe daremos é o mesmo que daríamos a uma
pessoa que também esteja engajada em qualquer outra prática
ilícita, seja ela de caráter sexual ou não. É um tratamento
padrão: fé no Senhor Jesus Cristo para perdão de pecados,
arrependimento, mudança de vida, comunhão com Deus e o seu
povo. A mensagem é a mesma para todos os pecadores, não há
diferença nenhuma. Aos pais que porventura tenham filhos que
estão sendo tentados nessa área, também tenho algo a dizer. É
uma situação muito difícil, que traz muito sofrimento aos pais.
Talvez a minha história ajude um pouco. Eu fui um menino muito
malvado, dei muito trabalho à minha família, eu roubava coisas
de casa, ia para a farra, ficava bêbado, fazia coisas das quais hoje
eu tenho vergonha só de falar. Mas eu tinha uma mãe que me
amava e orava por mim, e um pai que, embora discordasse
completamente do que eu fazia, nunca fechou a porta de casa
para mim. Eu sabia que, mesmo depois daquelas noites de farra,
podia voltar para casa, pois tinha um lar ali. Eu sabia que meus
pais não concordavam com o que eu fazia, isso era claro, mas eles
nunca me abandonaram. No dia em que Deus abriu meu coração
e eu me tornei crente, meus pais me receberam de braços abertos;
eu sabia que tinha um lar para onde voltar, alguém que podia me
abrigar, me ajudar e me acolher.
Então, o que posso dizer para você, pai ou mãe, é que não
feche a porta para o seu filho. Você pode deixar muito claro para
ele que não concorda com esse comportamento, mas pode fazer
isso sem demonstrar rejeição e ódio. Você pode dizer que vai
continuar a amá-lo, mesmo que ele tome uma decisão com a qual
você não concorde; pode falar também que a porta do seu coração
vai continuar aberta, enquanto for possível, assim como a porta
da sua casa. Mas que é claro que dentro de sua casa você não
aceitará esses relacionamentos; é claro que nela haverá hora para
chegar, enquanto ele viver sob a sua dependência. Pode dizer que
seu coração estará sempre aberto para ele, que ele poderá contar
sempre com as suasorações, que você estará sempre ao seu lado.
Acredito que o amor e a misericórdia são o melhor caminho.
Quem sabe um dia seu filho reconheça que é tão rejeitado pelo
mundo, olhado com tanto preconceito, mas que tem uma mãe e
um pai que o amam, apesar de ele ter dado tanta tristeza ao
coração deles. Quem sabe Deus não vai usar isso para fazer a
diferença na vida do seu filho.
A
leitura desses versículos
escancara aos nossos olhos
uma descrição devastadora
do real estado em que se
encontra a humanidade diante
de Deus. Nessa passagem, o
apóstolo Paulo traz uma lista de
21 pecados que marcavam o
Capítulo 8
MENTES REPROVADAS
Romanos 1.28-31
Uma trágica listagem de pecados
Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram entregues pelo próprio
Deus a uma mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm; cheios de
toda forma de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia,
engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes,
orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos pais; insensatos,
indignos de confiança, sem afeto natural, sem misericórdia.
mundo greco-romano de então.
Naquela época, o poder do
Império Romano estava em
evidência, mas a cultura
dominante era a grega, e a
combinação de ambas as
vertentes, com suas ideologias,
filosofias, religiões e idolatrias,
deixou-nos como legado o que
chamamos paganismo, ou seja,
uma cultura que se vangloriava
do homem, do poderio militar,
das suas filosofias e que era
marcada por uma profunda
corrupção de costumes, pela
mais abjeta imoralidade. Esse
era o mundo em que vivia o
apóstolo Paulo. Olhando para
nós mesmos e para o mundo ao
nosso redor, percebemos que
esses 21 pecados continuam a
definir, nos dias de hoje, a
própria sociedade em que
vivemos, ainda que ela tenha
sido criada e sustentada pelos
valores da cultura e da religião
judaico-cristãs e mesmo com
j
toda a influência que o
cristianismo exerceu no
ocidente.
Paulo avalia que as pessoas foram entregues a uma disposição
mental reprovável, que praticam coisas inconvenientes, que estão
cheias de toda forma de injustiça etc. Esse é o tipo de avaliação
que você certamente não encontrará na mídia, nem entre os
formadores de opinião, os artistas ou os políticos dos nossos dias.
Boa parte das pessoas da nossa sociedade discordaria do fato de
que algumas das atitudes listadas por Paulo configuram pecado
ou até mesmo estejam erradas. Muitas diriam que certos itens
que porventura constem na listagem são resultado da pobreza, da
falta de acesso à educação, da necessidade de lutar desde cedo
usando todo tipo de meio para sobreviver, da violência, de
políticas equivocadas que não educam a população, da dominação
de algumas classes que oprimem os pobres e assim por diante.
Contudo, para o apóstolo Paulo, todas essas coisas são o
resultado direto da rejeição a Deus por parte das pessoas. Não é
outra a raiz da situação da sociedade em que Paulo vivia, assim
como não é outra a causa para a miséria humana que hoje nós
vemos ao nosso redor. O mundo virou as costas para Deus, para a
revelação que ele fez de si mesmo.
O estilo de vida que Paulo retrata nessa passagem descreve
bem a sociedade secularizada em que vivemos. O objetivo do
apóstolo ao escrever esse catálogo de pecados foi mostrar à igreja
de Roma a verdadeira situação do mundo pagão e justificar sua
necessidade de pregar o evangelho na Espanha, também
dominada por essa mentalidade. Em outras palavras, foi por essa
razão que Paulo se dedicou a escrever a Carta aos Romanos: ele
queria angariar a simpatia dos crentes de Roma para anunciar o
evangelho no emaranhado do mundo pagão, no extremo oeste da
Europa, onde Cristo ainda não havia sido anunciado. Por isso
Paulo se dedica a demonstrar ao longo do primeiro capítulo de
sua epístola — na verdade, desde o versículo 18 — a situação de
perdição e miséria em que o mundo pagão se encontra, sem o
conhecimento de Deus, preso e condenado pelos próprios pecados.
Neste capítulo, vamos buscar compreender o que vem a ser
“uma mentalidade condenável”, ou “uma disposição mental
reprovável”, de onde ela procede, bem como seus efeitos, e de que
maneira podemos combatê-la.
Mentalidade condenável
O início da passagem registra: “Assim, por haver rejeitado o
conhecimento de Deus, foram entregues pelo próprio Deus a uma
mentalidade condenável para fazerem coisas que não convêm” (v.
28). Outra versão registra a frase da seguinte maneira: “E, por
haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os
entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem
coisas inconvenientes” (Rm 1.28, ARA). Ao pé da letra, o versículo
fala de “uma mente reprovada”, ou seja, de uma mentalidade
condenada por Deus e que por si só aprova aquilo que Deus
condena; uma mente que gera ou produz maus pensamentos.
Outra tradução possível seria uma “mente corrompida”.
Essa disposição mental reprovável significa ter uma mente
que perdeu a capacidade de:
• Discernir entre o certo e o errado. Por isso ela é capaz de
colocar em prática a lista de pecados que vem em seguida,
ou seja, trata-se de uma mente que não acha tais coisas
erradas nem ruins. Por ter perdido a capacidade de
diferenciar entre o certo e o errado, essa disposição mental é
reprovada por Deus.
• Perceber as consequências do pecado. Há consequências
sempre que alguém pratica coisas erradas, mas a mente
reprovada não consegue ver muito além daquilo que tem
vontade de fazer. Ela quer experimentar, provar o que não
convém, e não leva em consideração as consequências.
• Indignar-se e revoltar-se contra as coisas erradas. A pessoa
consegue conviver com todo esse catálogo de erros e pecados
e não sentir coisa nenhuma, como se vivesse uma espécie de
sociopatia espiritual. O sociopata, como se sabe, é alguém
incapaz de ter sentimentos por outras pessoas. O sociopata
espiritual permanece indiferente: se está certo ou errado,
não lhe interessa.
• Avaliar o castigo e o juízo decorrentes da prática dessas
coisas. Aquilo que o homem plantar, isso também colherá.
Um dia as consequências do que fazemos irão nos encontrar,
mas uma pessoa de mente condenável está reprovada e não
pensa na consequência dos seus atos. Ela não consegue ver o
que está certo ou errado, e por isso se lança a fazer aquilo
que tem vontade, sem medir as consequências.
A pessoa de mente condenável aprecia e tem prazer em fazer o
que é errado. Ela procura justificar suas atitudes e decisões
pecaminosas, como o caso do marido que trai a esposa e acha isso
natural, porque deixou de gostar da esposa e encontrou outra
mulher mais atraente e atenciosa. O mesmo processo de
justificação ocorre, por exemplo, com a pessoa que opta por ser
desonesta no seu negócio porque diz que, se for pagar todos os
impostos e andar totalmente conforme a lei, sua empresa falirá.
Além de fazer, o indivíduo de mente corrompida também encoraja
e defende quem faz coisas semelhantes.
Quando a pessoa está entregue a uma disposição mental
reprovável, sua tendência é não aceitar correção e críticas; ela não
vê em que ponto está errada, não percebe a necessidade de mudar
e hostiliza tudo aquilo que pareça ameaçar seu estilo de vida.
Com essas palavras, tristemente, acabei de descrever a
mentalidade dos nossos dias, pois é assim que as pessoas pensam,
é assim que agem e é dessa forma que justificam as coisas que
fazem. Sua mente não é mais capaz de discernir entre o certo e o
errado, de avaliar as consequências dos próprios atos. Ao
contrário, essas pessoas têm prazer em fazer o que é errado, e não
somente isso, mas também justificam, dão desculpas, escondem o
que fazem, tentam de alguma forma hostilizar qualquer pessoa ou
ideologia que vá contra seu pensamento e sua prática condenável.
Na carta que escreveu aos efésios, Paulo aborda esse mesmo
assunto com outras palavras que nos ajudam a compreendê-lo
com mais profundidade:
Portanto, digo e dou testemunhono Senhor que não andeis mais como andam os
gentios, em pensamentos fúteis, obscurecidos no entendimento, separados da vida de
Deus pela ignorância e dureza do coração. Havendo se tornado insensíveis,
entregaram-se à devassidão, para cometer com avidez todo tipo de impureza (Ef
4.17-19).
Trata-se da mesma tragédia provocada pelo pecado. Paulo fala
da vaidade dos pensamentos, do coração entenebrecido, da mente
obscurecida, da insensibilidade, da avidez para praticar todo esse
catálogo de 21 pecados listados em Romanos 1.29-31. Essa
descrição não se aplica apenas ao mundo daquela época, mas
também à sociedade corrompida do mundo em que vivemos hoje.
E sejamos honestos: as palavras do apóstolo descrevem com
precisão o que somos no íntimo, diante de Deus. Nossa mente não
funciona mais com clareza. É claro que não estou me referindo à
incapacidade intelectual, porque o homem é capaz de aprender,
de pesquisar, aumentar o conhecimento, dar contribuições para a
ciência. Não é a esse tipo de mentalidade que estou me referindo.
Falo da capacidade moral e espiritual de discernir aquilo que,
diante de Deus, é certo ou errado e de fazer as escolhas corretas,
fugir do erro, lamentá-lo, odiá-lo e não justificar os maus atos.
A origem da mentalidade corrompida
Certamente Deus, quando nos criou, não nos dotou do tipo de
mentalidade que Paulo condena em seu texto. Então, de onde ela
vem? A Palavra de Deus nos diz que fomos feitos à sua imagem e
semelhança, mas algo aconteceu para que chegássemos ao estado
descrito nessa passagem. Paulo menciona duas causas para essa
condição mental condenável. A primeira delas é o desprezo por
Deus. Vejamos uma vez mais o que o apóstolo diz em Romanos
1.28: “Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus, foram
entregues pelo próprio Deus a uma mentalidade condenável para
fazerem coisas que não convêm”. Mas o que significa rejeitar o
conhecimento de Deus?
Como vimos no ensino ministrado por Paulo, Deus se revelou à
humanidade, ou seja, ele não ficou desconhecido, incógnito,
anônimo, mas se deu a conhecer. Em Romanos 1.18 está dito que
“a ira de Deus se revela do céu”. Deus, do céu, revelou que existe e
que está irado com a desobediência do ser humano. Essa é uma
consciência que está no coração de cada pessoa que vem ao
mundo. Mesmo a pessoa mais embrutecida, ignorante e bárbara
que possa existir tem em sua consciência o conhecimento de que
há um Deus e de que ele está irado pelos malfeitos do ser
humano. E não somente isso. Além de se revelar na consciência
humana, Deus se revela também por meio da criação, como já
vimos em Romanos 1.20: “... os seus atributos invisíveis, seu
eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação
do mundo e percebidos mediante as coisas criadas”. Os céus
proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra das
suas mãos, como diz o salmista (Sl 19.1). Toda a criação fala de
Deus. Estamos cercados da glória de Deus por dentro e por fora, e
essa glória está em todo lugar ao nosso redor. Por isso, Paulo
afirma, no fim desse mesmo versículo, que “esses homens são
indesculpáveis” (Rm 1.20). Não há ninguém que, no dia do juízo,
possa dizer que não sabia da existência de Deus e que esse Deus é
santo e determinou o certo e o errado. Não há ninguém que possa
apresentar uma defesa diante de Deus no dia do juízo, porque ele
se manifestou na consciência das pessoas e na criação, de forma
que cada ser humano é responsável diante de Deus por esse
conhecimento.
Mas, voltando ao versículo 28, vemos que os homens
rejeitaram, ou desprezaram, esse conhecimento de Deus. E esse
desprezo é universal, cometido por todos. O termo desprezar na
língua grega significa literalmente não aprovar. Os homens não
aprovaram ter Deus em seu conhecimento. É como se tivessem
examinado a revelação e dissessem assim: “Não! Vamos desprezar
isso aí, não temos interesse, não queremos saber desse Deus. Eu
quero seguir a minha vida, adorar quem eu quiser, servir quem
eu quiser, viver do jeito que eu quiser. Não quero nenhuma
divindade me dizendo o que é certo e o que é errado, tolhendo a
minha liberdade. Quero viver do modo que eu bem entender”.
Assim, os homens rejeitaram essa revelação que Deus fez de si
mesmo, ou seja, não a aprovaram, desprezaram-na, acharam que
não valia a pena reter esse conhecimento de Deus. Em vez disso,
optaram por não reconhecer o Criador de todas as coisas e o
desdenharam, deixando-o de lado.
Em outras palavras, trata-se do processo mental já descrito
por Paulo. Em Romanos 1.21, Paulo diz que “se tornaram nulos
em seus próprios raciocínios” (ARA); depois, no versículo 25, fala
que “substituíram a verdade de Deus pela mentira” e, em vez de
aceitar a revelação de Deus e adorá-lo, começaram a adorar a si
mesmos e a adorar animais, aves, quadrúpedes, répteis. É só
comparar as religiões pagãs da antiguidade com as religiões
pagãs modernas para perceber que em ambas, de uma forma ou
de outra, adoram-se os elementos da natureza. Assim, essa é a
primeira causa da mentalidade reprovada: a rejeição do
conhecimento de Deus, o qual faria com que a mente humana
funcionasse da maneira correta.
Uma vez que alguém rejeita a luz de Deus, sua mente entra
em trevas, por mais intelectual que seja a pessoa. Não lhe é mais
possível encontrar as respostas para as questões básicas da vida,
e a pessoa fica tateando no escuro. Trata-se de um mundo em que
nada mais faz sentido: a dor, a violência, a providência, o amor, o
carinho, a misericórdia, quem somos, de onde viemos, o que
estamos fazendo aqui, por que coisas ruins acontecem, por que
coisas boas acontecem, por que isso, por que aquilo... A mente
perde o referencial.
Todo mundo que viaja sabe o que é entrar em uma área em
que o GPS perde o sinal do satélite. Imagine uma pessoa nessa
situação, mas que tenha uma encruzilhada à sua frente. Ela não
conhece o local, depende totalmente do satélite; como não há
sinal, ela está perdida. Assim é a situação da mente corrompida,
que perdeu o referencial, pois rejeitou o conhecimento que Deus
lhe dera.
A segunda causa apresentada por Paulo para explicar a
origem da mentalidade reprovável é que Deus, em resposta à
rejeição dos homens, entregou-os a si mesmos. Eles desprezaram
o conhecimento que Deus revelou de si mesmo, tanto na
consciência quanto na criação, e por isso o Senhor os entregou a
essa disposição mental reprovável, ou seja, Deus os entregou a
eles mesmos. É como se Deus tivesse dito: “Seja feita a sua
vontade. Seja feito do jeito que querem. Vocês viraram as costas
para mim, menosprezaram-me, rejeitaram-me, querem viver por
vocês mesmos... Tudo bem, vou lhes deixar entregues à sua
própria mente, ao seu próprio modo de pensar”. E o resultado é
isso que Paulo chama de mentalidade condenável.
Já vimos nos capítulos anteriores que Deus, como castigo aos
seres humanos, por causa dessa rejeição, primeiro os entregou à
imundícia: “Deus entregou tais homens à imundícia” (1.24, ARA).
Depois, Deus os entregou às paixões infames: “Deus os entregou a
paixões desonrosas” (1.26). E agora Paulo afirma que Deus os
entregou a uma mente condenável, que é o fim de todo o processo;
quando finalmente a pessoa perde a capacidade de entender,
discernir e enxergar, significa que ela chegou ao fundo do poço.
Um dos dons mais preciosos que temos é a capacidade de
pensar, discernir, avaliar, entender, reconhecer. Muitas vezes
nem nos damos conta de como é bom termos memória, sermos
capazes de nos lembrar das coisas vividas e aprendidas, podermos
discernir, fazer cálculos, imaginar, utilizar a lógica, a qual nos
ajuda a antecipar o resultado dessa ou daquela decisão que
precisamos tomar. A mente humana é privilegiada, e é altamente
prazeroso ter o domínio de uma mente clara. Sabemos como são
aflitivas as doenças e distúrbios que afetam a capacidade mental
do indivíduo. São vários os tipos de enfermidade de ordem mental
em que uma pessoa pode, por exemplo,perder a capacidade de
reconhecer os outros; às vezes, ela experimenta uma espécie de
esquizofrenia e fica ouvindo vozes; ou apresenta uma
bipolaridade, com mudanças de humor repentinas e inexplicáveis;
ou é um sociopata, que não tem sentimentos por nada nem por
ninguém; também há algumas doenças degenerativas, nas quais
a pessoa vai perdendo o conhecimento antes retido, até não
conseguir mais saber onde está ou quem são seus familiares mais
próximos.
Imagine agora tudo isso transferido para o mundo espiritual.
É isso que Paulo está descrevendo: uma mente acometida por
distúrbios causados pelo pecado e que, portanto, não consegue
entender o seu próprio estado diante de Deus, não consegue ver o
que está errado em suas más atitudes, em seus pecados. Deus a
entregou a uma disposição mental reprovável, e essa mente não
consegue sequer compreender o fato de que se encontra nesse
estado.
Quando Deus entrega o homem a si mesmo, trata-se de uma
ação punitiva; o castigo do pecado é o pecado. Certa vez, eu estava
lendo um comentário em uma rede social em que uma pessoa
perguntava a um pastor se a AIDS era a punição pelo pecado da
homossexualidade. O pastor disse que não, que o castigo do
pecado da homossexualidade era a homossexualidade mesmo. A
AIDS é uma doença como qualquer outra; o castigo do pecado é
mais pecado; e o castigo para quem rejeita Deus é uma mente
reprovada. Paulo faz um interessante trocadilho intencional no
original, o qual não aparece na maior parte das nossas traduções
bíblicas. Em uma tradução alternativa do versículo 28, teríamos
algo como: “por haverem reprovado o conhecimento de Deus, Deus
os entregou a uma mente reprovada”. Desse modo, observamos
que a punição de Deus ao entregar o homem a si mesmo é
proporcional ao erro. Em outras palavras, Deus está dando o
castigo na justa proporção: o seu conhecimento foi reprovado,
então ele reprova a mente que fez isso.
Os efeitos da mente reprovada
Paulo, em seguida, apresenta uma lista de 21 “coisas que não
convêm”. Elas passam a ser praticadas pelos que foram entregues
a “uma mentalidade condenável”, por se recusarem a reconhecer
a Deus em sua consciência e na natureza. Tal recusa fez com que
se tornassem “cheios de toda forma de injustiça, malícia, cobiça,
maldade, inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo
intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes,
orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos
pais; insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem
misericórdia” (v. 29-31).
Dito de modo mais simples, Deus entregou essas pessoas a
uma disposição mental reprovável para praticarem coisas
inconvenientes. Perceba que essa prática resulta de um problema
relacionado com a mente humana. Tudo começa na cabeça, depois
vai para a prática. Primeiro a pessoa se justifica, age em
pensamento, cobiça a mulher do próximo na cabeça, cobiça os
bens do próximo mentalmente, trama planos, inveja, e só depois é
que coloca tudo isso em prática; tudo tem início, porém, na
disposição mental reprovável. Uma vez que a pessoa é entregue a
essa mentalidade nociva, o passo seguinte é que sua vida e sua
maneira de ser são imediatamente afetadas, e, uma vez ela tendo
perdido o norte ético do certo e do errado, o passo seguinte é
ultrapassar os limites na prática. Tudo agora está permitido, a
mente se liberou, o indivíduo se sente livre para fazer todas as
coisas que tem vontade e que Paulo diz que são erradas,
impróprias aos olhos de Deus e dos homens — menos para essas
pessoas, que as consideram normais e naturais.
Com relação a essa lista trágica de pecados, convém observar
que, obviamente, não se trata de uma lista exaustiva. Paulo
pretende apenas dar uma amostra do que acontece com uma
sociedade ou com o indivíduo que rejeita Deus e, portanto, dispõe-
se a seguir o seu próprio caminho. Há muitas outras listas de
pecados, por assim dizer, no Antigo e no Novo Testamentos, nas
quais encontramos outras coisas que complementam estas. Nessa
lista dirigida aos romanos, o apóstolo Paulo não inclui a
homossexualidade, pois já tratou disso nos versículos
imediatamente anteriores.
Outra observação válida é que, ao olharmos para essa lista,
percebemos que ela não trata apenas de um tipo de pecado. Na
verdade, ela representa a quebra de todos os mandamentos de
Deus. Não posso afirmar que Paulo fez isso de propósito, mas
podemos relacionar praticamente cada um dos pecados
mencionados por ele a um dos mandamentos de Deus.
Os quatro primeiros mandamentos relacionam-se com Deus —
“Não terás outros deuses além de mim” (Êx 20.3), “Não farás para
ti imagem esculpida” (Êx 20.4), “Não tomarás o nome do SENHOR
teu Deus em vão” (Êx 20.7), “Lembra-te do dia de sábado, para o
santificar” (Êx 20.8) — e nessa passagem Paulo está mencionando
“inimigos de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes [...]
insensatos” (Rm 1.30,31). Um homem arrogante, insolente,
orgulhoso e inimigo de Deus não quer saber de Deus — na
verdade, essas atitudes são de afronta direta ao Senhor. Com isso
os primeiros quatro mandamentos são quebrados.
Em seguida vêm os mandamentos relativos ao próximo. O
quinto mandamento diz: “Honra teu pai e tua mãe” (Êx 20.12) e o
que encontramos na lista é “desobedientes aos pais” (Rm 1.30).
Isso tudo começa cedo, algo que podemos verificar na convivência
com os nossos próprios filhos: quando são crianças, eles já
manifestam essa mentalidade reprovada de se voltar contra toda
a autoridade, contra o que é certo. Não vamos cometer o engano
de pensar que isso é coisa de adulto, pois desde cedo se manifesta
em nossa raça esse mal com o qual nós nascemos. O texto paulino
também fala de pessoas “sem afeto natural”, e isso significa a
falta da afeição que naturalmente os pais teriam pelos seus filhos.
O que vemos hoje são pai e mãe aborrecendo o filho, espancando,
machucando etc. É grande a quantidade de crianças que chega ao
hospital com hematomas, dente quebrado, queimadura por ponta
de cigarro e outras lesões praticadas no âmbito doméstico. Isso é
falta de afeição natural. O quinto mandamento, que manda os
filhos honrarem os pais, traz implicitamente o dever de os pais
tratarem os filhos com amor e educá-los da forma correta, como
Paulo interpreta em Efésios 6.1-4.
Quanto ao sexto mandamento, “Não matarás” (Êx 20.13),
encontramos na lista de Paulo “injustiça [...] maldade [...]
homicídio, discórdia [...] inventores de males [...] sem
misericórdia” (Rm 1.29-31). Todas essas atitudes representam a
quebra desse mandamento
O sétimo mandamento é “Não adulterarás” (Êx 20.14), e Paulo
já falou da questão da imoralidade sexual nos versículos 27 e 28.
Quando Paulo menciona “inveja [...] engano [... ] inventores de
males” (Rm 1.29,30), isso guarda relação com a quebra do oitavo
mandamento, “Não furtarás” (20.15), e do décimo mandamento,
“Não cobiçarás” (20.17). Paulo menciona ainda “intrometidos,
caluniadores” (1.29.30), algo diretamente relacionado à violação
do nono mandamento, “não darás falso testemunho”.
Como se vê, todos os dez mandamentos foram quebrados, não
escapou um só! Essa é a situação do mundo em que vivemos; esse
é o meu estado e o seu. Note que Paulo diz que eles estão “cheios
de toda forma de” (1.29), pois, no momento em que rejeitaram a
Deus, criou-se um vácuo, o qual, se não estiver preenchido por
Deus, será preenchido por outra coisa. Uma vez que o indivíduo
rejeita o conhecimento de Deus, seu coração se enche dos pecados
mencionados na lista.
Por uma questão de justiça, é preciso que fique bem claro que,
assim como acontece hoje, nem todo mundo na época de Paulo
poderia ser acusado de cometer todos esses pecados. Alguém pode
argumentar: “Pastor, eu conheço pessoas que rejeitam o
conhecimento de Deus, mas que são honestas, trabalhadoras,
vivem bem com o marido...”. O fato de Paulo ter produzido essa
lista não quer dizer que todo habitante do planeta pratica todas
as coisas nela relacionadas.Porém, isso só não acontece devido à
misericórdia de Deus. Muita gente deixa de fazer as coisas dessa
lista por temor ao castigo, por medo de ser apanhada e ter de
responder por seus atos. Você certamente conhece muita gente
que parece boazinha e cumpre a lei. Na verdade, foi Deus quem
colocou temor nos corações. Há outras pessoas que parecem
bondosas e misericordiosas, mas foi Deus que as agraciou com um
temperamento bom; outras têm uma disposição naturalmente
alegre, de fácil agrado, mas isso não vem da pessoa, o coração
dela está pronto para fazer essas 21 coisas ou mais, mas Deus lhe
deu uma boa disposição, uma boa índole. Outros tiveram o
privilégio de nascer em um lar com valores ou um lar cristão e,
mesmo que hoje não sejam mais crentes em Jesus Cristo, aquilo
que aprenderam na infância permanece com eles até hoje, pois
não conseguem se livrar da boa educação que tiveram. Então, por
causa da providência de Deus, das autoridades, das leis, da
influência do cristianismo, nem todas as pessoas são tão ruins
como poderiam ser; porém, dependendo das circunstâncias, se
tivéssemos oportunidade, você e eu faríamos tudo o que está na
lista e até outras coisas mais, com requintes de maldade.
Portanto, essa lista é uma amostra do que a humanidade sem
Deus é capaz de fazer. Em outras palavras, ela reflete uma
humanidade que virou as costas para o seu Deus.
A última observação sobre essa lista pretende ratificar o que já
dissemos no início do estudo da passagem. A lista mostra que todo
pecado é decorrente da rejeição a Deus. Note que Paulo mostra
que esses 21 pecados estão ligados à atitude de rejeitar a Deus:
“Assim, por haver rejeitado o conhecimento de Deus” (1.28). Veja
como funciona a sequência: as pessoas rejeitaram o conhecimento
de Deus; Deus as entregou, então, a uma atitude mental
reprovável; e elas fizeram várias coisas inconvenientes, como, por
exemplo, serem desobedientes aos pais. O que Paulo está dizendo
é que desobedecer aos pais é um comportamento que tem origem
na rejeição a Deus no coração da criança, do adolescente e do
jovem. Desde a infância, os filhos são estimulados pela nossa
sociedade permissiva a aderirem a essas práticas e ideologias, que
vêm às vezes do governo, dos formadores de opinião, de
determinados psicólogos e educadores, que, em vez de ajudarem
os pais a ensinar a criança a lutar contra a malícia do seu
coração, a estimulam. Assim, pelo que vemos aqui, a
desobediência aos pais é um problema espiritual.
Cada um desses pecados da lista está ligado à rejeição a Deus.
O mundo, porém, mesmo em suas iniquidades, está diante de
Deus. Como diz a expressão latina, todos nós vivemos coram Deo,
diante de Deus. Quando o mundo peca, ele peca contra Deus,
mesmo que não acredite nele. Nele existimos e nele nos movemos,
dele tiramos nossa vida, nosso sustento e o que somos. Todo
pecado, enfim, é contra Deus.
O resultado final da reprovação de Deus, que o leva a entregar
o homem a si mesmo, é um quadro devastador: a justa
condenação de toda a raça humana, a completa e integral
corrupção da humanidade e impotência para resolver o problema,
pois quem está preso nessa mentalidade não consegue ver que
está condenado, não consegue perceber como tem ofendido a Deus
com seus pecados, nem consegue enxergar as consequências que o
aguardam.
Conclusão e aplicações práticas
Há várias coisas que precisam ser revertidas em nossa vida para
que sejamos salvos. A salvação não é tão simples como às vezes
alguns movimentos evangélicos querem fazer parecer: “Jesus
morreu na cruz e, se quer aceitar Jesus, basta fazer uma oração
comigo e confessar em seu coração que você o aceita”. Sim, Deus
pode salvar pessoas dessa forma, pois Deus é Deus, ele salva do
jeito que quiser; porém, há muito mais coisas envolvidas na
salvação de um pecador. Uma delas é a ira de Deus sobre o ser
humano, por causa da nossa impiedade e da nossa perversão,
porque rejeitamos o conhecimento dele: “... a ira de Deus se revela
do céu” (1.18).
Não acredite em um evangelho cujo único enfoque seja que
Deus é amor. De fato, ele é amor, mas isso é só metade do que a
Bíblia diz a respeito do Supremo Criador. Algumas pessoas
costumam dizer coisas como: “O nosso Deus é um Deus amoroso,
um Deus que compreende, que não fica chateado com essas
coisinhas que eu faço. É um Deus de amor, compassivo; ele não se
importa com a minha vida errada; não quer saber se traio a
minha mulher, se sou desonesto e mentiroso, se vivo fofocando,
falando mal dos outros, espalhando calúnias no WhatsApp, no
Facebook. Deus nem sabe o que é Facebook”.
Trata-se da mais grosseira mentira! Existe um Deus, que de
fato é amoroso, mas que está irado com a perversão e a impiedade
do ser humano que virou as costas para ele. Isso é algo a ser
revertido.
O texto que acabamos de estudar mostra claramente que Deus
nos abandonou às nossas paixões e à nossa mente depravada e
corrompida. Não somos capazes de entender por que somos de
determinada maneira, o que fazemos aqui e muito menos de saber
o caminho de volta. A mente não funciona mais, ela perdeu o
senso de Deus. Como reverter isso? Como uma pessoa perdida no
mato, sem um mapa, com o GPS quebrado e no escuro, volta para
casa? Ela não consegue voltar. E, pior ainda, ela está cega.
A escravidão a essa mente reprovável também é algo que
precisa ser revertido. Você pode dizer para uma pessoa com a
mente corrompida que ela está perdida por causa dos seus
pecados, que está ofendendo Deus, e ela lhe dirá que não
consegue ver as coisas da mesma forma que você, que isso é o que
você diz, pois ela não se sente assim, não vê dessa forma, ela tem
a própria opinião. Você pode dizer que isso tudo está errado, que é
óbvio que, se ela fizer tal coisa errada, sofrerá as consequências;
mas ela dirá que não concorda, que sabe que há pessoas piores do
que ela com as quais nada de ruim aconteceu. A mente dela está
presa, escravizada, não consegue se soltar. Como isso pode ser
revertido? Você poderia me dizer que a pessoa se salva pelas boas
obras, fazendo o bem ao próximo e cumprindo com suas
obrigações, pois no fim Deus vai ter misericórdia dela. Mas será
que você ainda consegue falar de salvação por obras depois dessa
descrição de Paulo? Depois de entendermos o que é uma mente
reprovável? Como é possível falar de boas obras e dizer que o ser
humano pode usar seu livre-arbítrio e sua força de vontade para
romper com tudo isso e voltar para Deus? Como é que uma pessoa
numa situação dessa — em que a mente não mais funciona, que
já foi abandonada por Deus e que tem sobre si a ira de Deus — se
reconcilia com Deus? O que ela pode oferecer a Deus? O que ela
dará em troca da sua alma diante de Deus?
Há somente uma possibilidade de reverter esse quadro, a qual
Paulo já tinha anunciado no início do capítulo: “... não me
envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação
de todo aquele que crê” (1.16). O evangelho é o poder de Deus, e
não é à toa que é chamado assim, porque nada menos do que um
poder sobrenatural é necessário para reverter essa situação. A
palavra aqui traduzida por “poder” é, na língua grega, o termo
dynamis, de onde vem a palavra “dinamite”. Esse é o poder, esse é
o evangelho; ele é o poder de Deus para reverter essa situação,
porque no evangelho, por causa do que Cristo fez na cruz, do seu
sacrifício, do seu sangue derramado, do seu sofrer, do seu
padecimento por nós, Deus nos perdoa, nos reconcilia com ele, nos
justifica, retira de nós a sua ira, nos dá a mente de Cristo, clareia,
renova o nosso entendimento, para sabermos o que é certo e
errado e dizermos: “... eu era cego e agora estou enxergando!” (Jo
9.25). Só o evangelho faz isso, nada mais. Não há nenhum poder
que seja conhecido do homem, fora do evangelho, que possa
reverter a situação na qual nos encontramos.
Cabe a cada um colocar-se diante deste questionamento e
responder a ele com sinceridade: “Em que estado você se encontrahoje? Como você está diante de Deus? Está vivendo na prática
costumeira desses pecados, sendo presunçoso, desobediente aos
pais, insensato, sem afeição, sem misericórdia, sendo difamador,
caluniador? De que forma espera ser perdoado, aceito por Deus e
se livrar do juízo vindouro?”.
Ao ler essas coisas, pode ser que pense que isso não tem
nenhuma relação com você. Talvez esse seja o primeiro indicativo
de que está entregue a uma disposição mental reprovável, porque
não consegue se ver no que estou descrevendo. Não estou falando
de mim mesmo ou expondo a minha opinião; estou lendo a
Palavra de Deus e tentando explicá-la a você. Se você leu esses
parágrafos e não se identificou, talvez isso já seja a primeira
indicação de que está entregue a essa mentalidade reprovada, que
não consegue mais entender nada. Mas, se leu esses parágrafos e
temeu, se tremeu e deu razão a Deus, se conseguiu enxergar-se
nisso atualmente ou no passado e entendeu a transformação no
evangelho, saiba que esse é o primeiro passo para a esperança e
que você não está longe do reino de Deus.
Porque Cristo veio não para quem é são, mas veio para os
doentes e, se hoje você se reconhece doente, escravo do seu
coração e da sua mente, saiba que Deus, pelo poder do evangelho,
quer iluminar sua mente, perdoá-lo e recebê-lo, justificar seus
pecados, dar-lhe uma nova vida. Se você já é crente, Deus quer
vê-lo se levantar e recomeçar, romper com seus atos pecaminosos.
Perdoe quem você tem de perdoar, coloque a sua vida em ordem e
tenha um novo começo com esse Deus maravilhoso e todo-
poderoso, que pode, pelo evangelho, libertar o pior dos pecadores,
a começar por mim.
N
essa passagem o apóstolo
Paulo chega à etapa final
da descrição da condenação
do mundo gentio, da condenação
do mundo pagão da sua época e,
consequentemente, por analogia
e aplicação, de todas as épocas
posteriores e anteriores. No
decorrer do capítulo, Paulo
começou a demonstrar o estado
Capítulo 9
O fundo do poço
Romanos 1.32
O resultado da rebelião permanente
... os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que
praticam essas coisas, não somente as fazem, mas também aprovam os que as
praticam.
geral de pecaminosidade da raça
humana. Primeiro ele demonstra
que o mundo pagão está perdido,
e em seguida que o mesmo
acontece aos judeus. Eles
receberam a lei de Deus, ao
contrário dos pagãos, mas isso
não lhes serviu para a salvação.
E Paulo conclui sua explanação
ao tratar da condenação e
perdição geral de todos os seres
humanos, independentemente
de serem pagãos, gentios ou
judeus. Não há exceção: “pois
todos pecaram e carecem da
glória de Deus” (Rm 3.23, ARA).
Nesse trecho ele termina de explicar ou de expor a perdição
dos gentios, isto é, daqueles que nunca ouviram falar do nome de
Deus, não receberam a Lei de Moisés, não conhecem o evangelho,
mas que são, ainda assim, indesculpáveis. Isso porque, primeiro,
Deus se revelou a eles pela consciência e pela natureza (1.18-20);
depois, os homens rejeitaram essa revelação (1.21-23); então,
Deus retribuiu, entregando-os ao seu próprio coração (1.24-31); e,
finalmente, a humanidade, em vez de se arrepender, se rebelou
contra Deus (1.32).
Rebelião contra o decreto divino
A rebelião consiste, assim, na última etapa do processo, que
começou com a rejeição da revelação de Deus, seguida da
retribuição divina a essa rejeição, à qual, por sua vez, a
humanidade reagiu rebelando-se. O que Paulo nos ensina a
respeito desse estado de rebelião? Ele nos mostra que a
humanidade está em um estado de revolta contra o decreto ou a
sentença de Deus.
Existe uma sentença divina que pesa sobre todos aqueles que
praticam o que lemos nos versículos 29 a 31. Sentença é o
veredito que um juiz profere depois de analisar um fato,
considerar suas provas, avaliar todas as evidências e ouvir as
testemunhas.
Nessa passagem, Deus é descrito pelo apóstolo Paulo como o
juiz do mundo. Ele não somente é o Criador e sustentador do
universo, mas é também o juiz de todas as coisas, aquele que
julga as ações de suas criaturas. E, por ser santo, justo,
verdadeiro, bom e reto, Deus desaprova e condena
veementemente as coisas que as criaturas fazem e que são
contrárias à sua santidade e à sua bondade. Por isso, Paulo
afirma que Deus julga e profere o decreto “que declara dignos de
morte os que praticam essas coisas” (v. 32). O mundo todo está
sujeito a essa sentença divina; quem pratica o que está descrito
em 1.29-31, somado com o que Paulo já disse em 1.24-27, está
condenado à morte: homossexualidade, injustiça, malícia,
avareza, maldade, inveja, homicídio, contenda, dolo e
malignidade; difamação, calúnia, aborrecimento de Deus,
insolência, soberba, presunção, invenção de males, desobediência
aos pais, insensatez, perfídia, falta de afeição natural e de
misericórdia. Há uma condenação de Deus sobre o pecado, e essa
condenação é universal, conhecida de todos. A sentença
basicamente está dizendo que o castigo para quem quebra a lei de
Deus ou o desafia ou o rejeita é a morte. A morte a que o apóstolo
Paulo se refere aqui é em primeiro lugar a morte espiritual —
sobre a qual ele discorre mais detidamente no terceiro capítulo de
sua carta.
No pensamento de Paulo, que está de acordo com o que se
observa em toda a Bíblia, a morte não é apenas o momento em
que o ser humano morre fisicamente, mas diz respeito,
primeiramente, à morte espiritual. Lá no jardim Deus disse ao
homem: “... no dia em que dela comeres, com certeza morrerás”
(Gn 2.17). Em outras palavras, no dia em que o homem
desobedecer a Deus, morrerá. Adão comeu do fruto,
desobedecendo a Deus, mas não morreu fisicamente. Naquele
instante, porém, ele morreu espiritualmente — houve uma
separação entre ele e Deus. Esse é o primeiro sentido da morte
como resultado do pecado. Depois, há a morte física, que também
é o castigo de Deus para a humanidade por causa da
desobediência. E o fato de que todos nós vamos morrer e de que
todo homem morre é uma prova de que o pecado é universal. Você
vai morrer, eu vou morrer, antes de nós todos morreram, os
nossos filhos e netos vão morrer, e assim será até o dia da vinda
de Jesus Cristo. Isso acontece porque somos pecadores, e esta é a
sentença de Deus para a raça humana: “... porque és pó, e ao pó
tornarás” (Gn 3.19).
Acontece que a morte resultante dessa sentença de Deus não é
somente a espiritual — a separação de Deus — e a física, mas
também a morte eterna. Isso significa passar a eternidade que se
aproxima separado de Deus e em meio à agonia e ao sofrimento
que isso causa na alma do homem, que foi feita originariamente
para ter comunhão com ele. Aliás, há uma sentença que foi
proferida desde que o homem desobedeceu a Deus naquele dia no
Éden, e é esta: “... o salário do pecado é a morte...” (Rm 6.23).
Deus castigará com a morte a humanidade, porque ela lhe virou
as costas em total desobediência, resolvendo seguir o seu próprio
caminho. Desse modo, cada ser humano está destinado a
experimentar a morte espiritual neste mundo, que implica em
separação de Deus, distância de Deus, o vácuo no coração, que
traz angústia, culpa, solidão, medo e terror no espírito do homem.
Depois, vem a morte física, em que o espírito vai se separar do
corpo; e, finalmente, a morte eterna, quando o homem entrará na
eternidade para viver em solidão, para sempre separado de Deus
e de toda alegria e prazer que existem somente nele.
O pagão, a pessoa que, diferentemente de nós, não tem a
Bíblia como referência e não tem acesso ao raciocínio abordado
neste capítulo, pode não ter de fato uma consciência muito clara
desse decreto divino; mas, certamente, tem um conhecimento
intuitivo de que há uma punição futura à espera de quem pratica
o mal. É possível observar entre todos os povos e culturas essa
intuição, essa sensação de que há alguma coisa errada, de que um
dia haverá um castigo. Não existe nenhum povo, por mais
primitivo que seja, nenhumacultura, por mais distante, isolada e
rude que seja, que não carregue essa sensação de culpa, cujos
membros não vivam debaixo da expectativa de que um dia virá
um castigo pelas coisas erradas que praticam. É por isso que em
todas essas culturas, povos, tribos e nações existem religiões. A
palavra “religião” vem do termo latino religare, conforme o Oxford
Dictionary, que aponta inúmeros autores cristãos e romanos
antigos que entendiam ser essa a origem do termo. Religião é um
processo, um ritual, pelo qual o homem tenta se reconciliar, se
religar a Deus, exatamente porque tem essa consciência de que
não está bem com o Criador, de que há alguma coisa errada. Isso
explica por que algumas pessoas oferecem sacrifícios aos deuses
que inventam, por que se automutilam e se mortificam, na
tentativa de fazer determinadas coisas para apaziguar os deuses
ou de alguma forma pagar pela culpa que sentem e que um dia
haverá de lhes trazer o castigo divino.
Em Atos 28 há um exemplo interessante dessa sensação de
culpa. Nessa passagem, encontramos o relato do naufrágio do
navio em que o apóstolo Paulo estava quando viajava com destino
a Roma. A embarcação passou por uma grande tempestade e
afundou, mas as pessoas conseguiram sobreviver e chegar a uma
ilha chamada Malta, habitada por bárbaros: “Os que habitavam a
ilha usaram conosco de muita bondade” (At 28.2). Tratava-se de
um povo primitivo, que jamais tivera contato com o evangelho
nem com os judeus, que nunca ouvira falar de Deus e não tinha
nenhuma noção dos Dez Mandamentos, como nós os conhecemos
hoje. Mas veja o que aconteceu: eles receberam o apóstolo Paulo e
os demais ocupantes do navio; à noite, por causa do frio, fizeram
uma fogueira, para que todos se aquecessem. Paulo resolveu
ajudar e foi pegar lenha, só que, quando estava no mato, uma
cobra o mordeu na mão. Assim descreve a Bíblia a reação dos
bárbaros: “Quando os que habitavam a ilha viram a serpente
pendurada na mão dele, disseram uns aos outros: Certamente
este homem é um assassino, pois, embora salvo do mar, a Justiça
não o deixa viver” (28.4). Embora fossem pagãos, eles
demonstravam ter essa consciência. No momento em que viram o
ataque da cobra, eles mencionaram a “Justiça” — não sabiam ao
certo o nome, pois não conheciam Deus. Para eles a “Justiça”
estava atrás desse homem, já que havia mandado a tempestade e,
como Paulo não morreu, enviara depois a cobra. A sequência
desses dois fatos trágicos os levou a imaginar que, com certeza,
tratava-se de um assassino. Isso deixa claro que aqueles pagãos
tinham a noção de que há uma lei, um poder superior que julga o
que é certo e errado e profere uma sentença. E o conhecimento de
que existe essa sentença é uma realidade não somente entre os
habitantes da ilha de Malta nos tempos de Paulo, mas também
entre todos os povos de todas as eras.
Voltando à Carta aos Romanos, observe como Paulo descreve
esse fato: “(Porque, quando os gentios, que não têm lei, praticam
as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei, tornam-se
lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está
escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua
consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os
defendem)” (Rm 2.14,15). O apóstolo trata da lei, da norma da lei
e do espírito da lei que estão gravados no coração dos gentios,
que, apesar de nunca terem recebido a Lei de Moisés, de nunca
terem lido a Bíblia, de nunca terem ouvido o nome de Jesus ou o
evangelho, têm a lei de Deus gravada no coração. Por isso, eles
sabem que há uma sentença, que há um Deus que um dia vai
punir os pecados, e tentam fugir disso.
Vimos que os homens sufocam o conhecimento de Deus (1.18),
empurram-no para um canto, pois não lhes interessa viver
sabendo disso. É justamente contra esse conhecimento que a
humanidade se rebela. A humanidade se rebela não tanto contra
o que acontece de ruim — sei que algumas pessoas ficam
revoltadas e perguntam por que Deus permite a morte de
crianças, tragédias, doenças terríveis que assolam a humanidade,
enfim, tanta dor e tanto sofrimento. A humanidade se rebela mais
contra essa consciência de que há uma justiça que um dia vai
executar a sentença sobre os seus atos maus, pelos quais ela terá
de responder. É contra isso que o homem se revolta no íntimo do
seu coração; de todas as maneiras ele tenta abafar essa
consciência do certo e do errado e do juízo de Deus contra si.
Rebelião manifesta em dois tipos de
atitude
O homem continua com tais práticas mesmo sabendo que a morte
é o resultado delas. Vejamos mais uma vez o que Paulo afirma: “...
os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos
de morte os que praticam essas coisas, não somente as fazem,
mas também aprovam os que as praticam” (1.32). A primeira
atitude que manifesta a rebelião do homem contra a lei de Deus,
que está no seu coração e na sua consciência, expressa-se no fato
de que os homens pecam, mesmo sabendo que “o salário do pecado
é a morte” (Rm 6.23). Eles desafiam Deus, como é o caso, por
exemplo, de alguém que, ao dirigir um carro em alta velocidade,
bêbado e sem cinto de segurança, sabe que a possibilidade de
provocar um acidente fatal é bem real, mas assume o volante
assim mesmo. A consciência mostra-lhe a verdade, contudo ele
não se importa com isso.
Mesmo sabendo que Deus vai punir o pecado com a morte, o
ser humano segue em frente do mesmo jeito, sem medir
consequências, sem refletir a respeito do que o aguarda. No fim
das contas, ele considera que vale a pena o prazer do pecado,
prazer esse que, ainda que momentâneo, o faz trocar o céu pela
eternidade no inferno. Esse raciocínio revela um coração
endurecido e disposto a pecar sem levar em conta as
consequências. Qualquer pessoa sabe que mentir é errado, mas
mente do mesmo jeito; qualquer um sabe que adulterar é errado,
mas trai do mesmo jeito; todo mundo sabe que falar mal dos
outros é errado, mas calunia do mesmo jeito. (Sobre isso,
Provérbios 26.22 diz que as palavras do fofoqueiro são como
bocados gostosos que descem até o mais profundo do ventre, não
há nada mais gostoso do que falar mal da vida dos outros.) Assim,
o homem segue nesse curso desenfreado, como o faraó que, mesmo
depois de Deus ter mandado nove pragas sobre o Egito (porque
ele não deixava o povo de Deus ir), endureceu o coração e se
recusou a liberar os hebreus da escravidão e deixá-los partir (Êx
9.34). O faraó decidiu encarar uma queda de braço com Deus, e é
assim que a humanidade vive hoje — mesmo sabendo qual será o
resultado, a queda de braço continua.
Porém, não é só isso; há algo ainda pior: o ser humano não
somente desafia Deus com a prática dessas coisas, mas também
aprova quem faz o mesmo. Assim, a segunda atitude que
manifesta a rebelião do homem contra a lei de Deus se expressa
no fato de ele aprovar que outros pequem também. A palavra
“aprovam”, em Romanos 1.32, não tem o sentido de concordar com
alguma coisa, mas, sim, de encorajar, incentivar. Podemos até
entender que, mesmo conhecendo o decreto de Deus, a pessoa
decida desafiá-lo e continue a pecar, porque isso lhe dá certo
prazer. Não há como negar que o pecado traz um prazer ilusório,
a princípio. Mas a segunda parte da declaração paulina não faz
sentido, porque é como se alguém aplaudisse o pecado dos outros,
mesmo sem ter prazer nenhum com essa prática. Não é a pessoa
que está pecando, mas, sim, os outros, portanto ela não está
desfrutando o gosto do pecado. Se pelo menos houvesse uma
recompensa, daria para entender; mas aplaudir, encorajar outras
pessoas a fazer aquilo que leva à sentença de morte é algo que
foge à compreensão.
Eis o fundo do poço, e é nesse ponto que termina o processo, de
acordo com Paulo. Ele está dizendo que o ser humano não
somente desafia Deus, mas também encoraja outros a fazerem o
mesmo. Quando, por exemplo, um país aprova leis que chamam o
errado de certo e proíbem que digamos o certo porque o consideraerrado; quando um país aprova leis que incentivam a
imoralidade, a perversão, a mudança da ordem natural; quando
os próprios pais levam os filhos a praticar coisas erradas — isso é
o fundo do poço.
Eu cresci no Nordeste, numa época em que muitos pais,
orgulhosos por terem um filho do sexo masculino, levavam-no
para a zona de prostituição quando ele completava dezesseis,
dezessete anos de idade, a fim de fazer esse filho “virar homem”.
É claro que esse pai também contrata prostitutas e agora leva o
filho para esse mesmo caminho. Há outra coisa que é muito
comum também: a pornografia, que pertence à mesma família da
prostituição. Quando alguém consome pornografia, está na
verdade aprovando tal prática, contribuindo com essa indústria,
uma das mais rentáveis hoje, a qual movimenta milhões de
dólares anualmente. Pode ser que a pessoa não pratique a
pornografia, mas, ao consumir esse tipo de produto, está
aprovando aqueles que a praticam. E como essa, há tantas outras
coisas em nossa sociedade mostrando que nós realmente
chegamos ao fundo do poço.
O apóstolo Paulo conhecia tudo isso bem de perto. Ele nasceu
numa cidade chamada Tarso, situada na província da Cilícia, que,
por sua vez, integrava três regiões com “c” — Capadócia, Cilícia e
Creta — consideradas as mais depravadas do Império Romano.
Por isso ele estava muito bem familiarizado com o mundo pagão.
Conhecia essas abominações, sabia bem o que estava dizendo ao
afirmar que os homens desafiam Deus não somente fazendo
coisas que estão sujeitas à sentença divina, mas também
encorajando outros a praticá-las.
Mas, afinal de contas, por que uma pessoa encoraja outra a
fazer o que é errado? Porque, desse modo, poderá dizer que não é
a única que está fazendo aquilo. Quando os pecadores pecam
juntos, pecam melhor porque um apoia o outro. Eles saem à
procura de apoio, incentivam um ao outro para aliviar a
consciência.
Essa rebelião contra Deus, portanto, expressa-se nestas duas
atitudes: na teimosia do homem em continuar no pecado, mesmo
conhecendo suas consequências, e também no encorajamento que
ele dá aos outros para que sigam no mesmo caminho.
Rebelião consciente
Vimos neste capítulo que a rebelião do homem se dá contra a
sentença de Deus, e que essa rebelião se expressa de duas
maneiras: na atitude de o indivíduo continuar a pecar e na
atitude de encorajar outros a pecarem. Há ainda outro aspecto
sobre essa rebelião, que reside no fato de ela ser algo bem
consciente. Às vezes temos a impressão de que as pessoas fazem
coisas erradas porque não têm consciência do certo e do errado.
Essa passagem, no entanto, tira de nós a ilusão de que há alguma
bondade no coração humano.
As pessoas pecam apesar de saber o que é certo e o que é
errado; pecam contra a sua consciência. Sabem o que estão
fazendo quando fazem algo errado. Paulo já havia dito que as
pessoas têm algum conhecimento de Deus. Em Romanos 1.18 ele
disse que “a ira de Deus se revela do céu”, se revela em nossa
consciência; em seguida, em 1.19, ele diz que “o que se pode
conhecer sobre Deus é manifesto entre eles”; e depois, em 1.20, ele
observa que os atributos de Deus são perceptíveis por meio das
coisas criadas e que, pelas obras da natureza, conseguimos saber
que há um Deus, o qual existe antes da natureza, criou todas as
coisas, é todo-poderoso, onisciente, onipotente e distinto da
natureza. Paulo havia falado desse conhecimento inato, que
temos em nossa consciência e também na natureza que nos cerca,
e por isso ele afirma que os “homens são indesculpáveis” (v. 20).
Ninguém pode dizer que não tem conhecimento de Deus.
Nesse trecho que estamos estudando, ele avança mais um
pouco e diz que o homem não somente tem conhecimento de que
existe um Deus e de que esse Deus é o Criador de todas as coisas,
é santo, justo, bom e verdadeiro, mas também tem conhecimento
de que há uma sentença de morte sobre aqueles que praticam tais
coisas. Em síntese, quando praticam tais coisas, essas pessoas
sabem que serão punidas por Deus, mas o fazem da mesma
forma, ou seja, não há nada de inocente em seus atos.
Elas podem não ter o conhecimento detalhado que temos e que
encontramos no evangelho e na Bíblia a respeito da lei de Deus,
mas essa intuição gravada no coração da norma da lei é um
fenômeno universal. Em outras palavras, quem pratica a
“injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio, discórdia,
engano, depravação; sendo intrometidos, caluniadores, inimigos
de Deus, insolentes, orgulhosos, arrogantes, inventores de males,
desobedientes aos pais; insensatos, indignos de confiança, sem
afeto natural, sem misericórdia” (Rm 1.29-31) e quem muda “as
relações sexuais naturais pelo que é contrário à natureza [...]
homem com homem” (Rm 1.26,27), ou mulher com mulher, está
fazendo isso conscientemente, sabendo que essas coisas recebem a
sentença de morte da parte de Deus. Não há ninguém inocente.
Nossa esperança
O quadro que vemos mostra que o ser humano chegou ao fundo do
poço; porém, é exatamente no fundo do poço que surge a
esperança. Sabe qual é a nossa esperança com relação a essas
pessoas? É que elas sabem disso. As pessoas não pecam
inocentemente. O pecado do homem provocou sua queda e afetou
o seu conhecimento de Deus, mas isso não fez com que ele
perdesse por completo o conhecimento de Deus, pois ainda traz
em si a imagem do Criador, a consciência da existência de Deus e
de que ele profere uma sentença. Isso está no coração humano, e,
mesmo que a pessoa nunca tenha ouvido o evangelho, consegue
perceber e concluir que existe um Deus que um dia vai acertar
contas com ela por causa de seus pecados. Essa compreensão ou
conclusão é universal, embora nem sempre seja articulada de
maneira racional ou consciente. Como vimos, aqueles bárbaros
que viram Paulo ser picado pela cobra intuíam que a Justiça não
deixaria Paulo viver (eles pensavam que Paulo era um assassino).
Então, essa consciência está em todo lugar, e é isso que serve de
ponto de contato para pregar o evangelho. Para anunciar o
evangelho a um descrente, você não precisa de argumentos
elaborados sobre ciência, evolução, refutação do ateísmo, porque
já tem o ponto de contato — a pessoa com quem você está falando
tem a consciência interior de que no fundo ela está errada.
Quando fui evangelista no interior de Pernambuco, numa
cidade chamada Gameleira, eu ia de porta em porta anunciando o
evangelho. Minha prática era muito simples: eu chegava numa
casa, batia à porta com Bíblias e folhetos para oferecer,
perguntava se a pessoa queria que eu lesse a Bíblia junto com ela,
para explicá-la. Quando a pessoa aceitava, eu entrava; em geral,
ela servia um café, nós começávamos a conversar e eu iniciava
exatamente pela questão do pecado: “A importância deste livro
aqui é que nos fala a respeito do nosso verdadeiro estado. O
senhor sabia que é um pecador e que, por consequência dos seus
pecados, o senhor está condenado?”.
As pessoas diziam que sabiam que eram pecadoras, mas não
eram tão más assim, pois conheciam outras piores, como o vizinho
que chegava bêbado em casa e batia na mulher. Nesse ponto eu
geralmente abria a Bíblia em Êxodo 20, os Dez Mandamentos, e
começava a ler, conforme Jesus nos ensinou a ler. Eu explicava,
por exemplo, que “Não adulterarás” significa não somente não ir
para a cama com quem não é seu cônjuge, mas também não
desejar isso. Quando chegávamos lá pelo quinto ou sexto
mandamento, eu já notava que a pessoa estava com o semblante
caído. Alguma coisa lá dentro da consciência dela estava dizendo
que aquilo era verdade e que ela sabia disso. E não foram poucos
que depois disso se abriram e pediram ajuda. E era nesse ponto
que chegava o evangelho.
Então, o fundo do poço é isto: as pessoas pecam contra a
consciência, pecam sabendo, encorajam outros a fazer o mesmo e
vão cada vez mais fundo no pecado. Mas essa é exatamente a
nossa oportunidade, é o ponto de contato, o momento em que
podemos chegar paraelas e dizer: “Sabe essa culpa, essa
angústia, esse vazio, essa solidão que você não consegue
preencher com nada? Sabe de onde vem?”. É exatamente da lei de
Deus, gravada no coração, e da consciência de que um dia esse
Deus haverá de aplicar a sua sentença. Mas há perdão, há o
evangelho de Jesus Cristo, pelo qual Deus perdoa pecadores como
você e eu. Temos um ponto de contato, um caminho, uma ponte
que podemos construir com o mundo pagão.
Conclusão e aplicações práticas
Se você está entre os que desafiam Deus insistindo em viver uma
vida no pecado, o conteúdo deste capítulo tem muito a lhe
ensinar. Pode ser que haja alguns momentos de lucidez em que
perceba que essas ações não vão dar certo e que lá na frente virá
a consequência. Isso é a voz do Espírito Santo falando à sua
consciência. Lá no íntimo, você sabe que essa voz está dizendo a
verdade, que há uma consequência, que tudo o que está dito aqui
vem da Palavra de Deus, e cedo ou tarde a sentença divina vai
encontrá-lo. Por isso, busque o Senhor enquanto ele lhe dá essa
oportunidade, enquanto você pode achar. Mude seu caminho,
humilhe-se diante de Deus, peça perdão e graça a ele, procure
ajuda. Não imagine que pode continuar pecando e ter um
resultado bom. Há uma sentença de morte decretada pelo Deus
todo-poderoso, pelo Altíssimo, pelo Criador dos céus e da terra,
sobre os que praticam tais coisas, e você não vai escapar dele nem
de seu decreto — em algum momento ele vai alcançá-lo. Portanto,
arrependa-se e creia, enquanto tem a oportunidade.
Para os que acreditam não praticar as coisas descritas neste
capítulo, sugiro que prestem atenção se não encorajam outros a
praticá-las. Há muitas formas de encorajar outras pessoas a
praticar o mal. Por exemplo, se você não pratica imoralidade,
mas, quando chega um colega contando uma piada imoral,
obscena, você ri, é como se o estivesse encorajando a fazer isso
mais vezes. A atitude correta seria demonstrar que não aprova a
atitude do colega. Sei que é difícil, mas é isso que deveria fazer.
Outras vezes os amigos trazem no celular aquelas fotografias ou
vídeos cheios de imoralidade, mostram para você e, para não
perder o contato, você dá um risinho amarelo, de canto de boca.
Isso é uma forma de aprovação. Você deveria demonstrar que não
aprova esse tipo de atitude e dizer que, apesar de ser amigo dessa
pessoa, é crente no Senhor Jesus e não concorda com esse tipo de
comportamento. É necessário tomar uma posição no ambiente de
trabalho, na sua família, na escola, onde for, porque, se não
fizermos isso, qual será a diferença entre nós e essas pessoas que
o apóstolo Paulo está descrevendo, que aprovam os que procedem
dessa forma? Em algumas situações ficar calado é ser conivente.
Precisamos de sabedoria, é verdade, por causa do ambiente em
que estamos, mas é preciso que deixemos claro que não
concordamos com determinadas práticas.
Agora, se você já percebeu que está pecando, tem consciência
de que está debaixo do juízo de Deus e no fundo do coração
gostaria de se reconciliar com Deus, a boa-nova do evangelho é
exatamente esta: Deus está disposto a perdoar pecadores que o
desafiaram, que se rebelaram contra ele, que incentivaram outros
a pecarem. Se Deus é tão amoroso, misericordioso e compassivo, é
porque ele está pronto a lhe perdoar, esquecer todas as suas
iniquidades e tratá-lo como se você nunca tivesse cometido essas
coisas. Foi por isso que Deus mandou Jesus Cristo, seu Filho,
para morrer na cruz do Calvário e ali sofrer a pena pela rebelião,
rejeição e teimosia do ser humano. Portanto, ele pode perdoá-lo,
se você humildemente chegar diante dele e disser que não merece
outra coisa senão uma sentença de morte, que reconhece que é
culpado, mas não veio pedir justiça, e sim misericórdia.
Quero ainda dirigir uma palavra aos que estão tentando
evangelizar amigos, familiares, colegas de trabalho e aos que
estão na frente missionária, evangelizando povos: tenham bom
ânimo, a mensagem que vocês levam soa verdadeira para o
coração humano, as pessoas sabem o que é certo. Elas sufocam
esse conhecimento, não querem admiti-lo, lutam, vêm com
teorias, tentam justificar suas afirmações, mas saiba, pelo que diz
a própria Bíblia, que lá no fundo elas conhecem a sentença de
Deus, lá dentro há uma voz lhes dizendo que o que estão ouvindo
é verdadeiro. Então, há um ponto de contato; explore isso, fale
disso, pois é daí que começa. Às vezes não adianta muito usar
argumentos filosóficos que abordem o ateísmo, o evolucionismo, a
apologética; às vezes uma abordagem simples, que tenha esse
ponto de contato, pode ajudá-lo a alcançar o coração de um
vizinho, amigo ou colega, na situação em que Deus o colocou.
E
u gostaria de que você
imaginasse a seguinte cena:
o apóstolo Paulo encontra-se
em um espaço público, na cidade
de Roma, a cujos moradores
cristãos esta carta foi
Capítulo 10
PAULO E O MORALISTA
Romanos 2.1-5
O julgamento divino é de acordo com a
verdade
Portanto, quando julgas, és indesculpável, ó homem, sejas quem for, pois te condenas
naquilo em que julgas o outro; pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos. Mas nós
sabemos que o julgamento de Deus é de acordo com a verdade contra os que praticam
tais atos. E tu, ó homem, que julgas os que praticam tais coisas, mas fazes o mesmo,
pensas que escaparás do julgamento de Deus? Ou desprezas as riquezas da sua
bondade, tolerância e paciência, ignorando que a graça de Deus te conduz ao
arrependimento? Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende,
acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus.
endereçada, dizendo o mesmo
que ele disse em Romanos 1.18:
“Pois a ira de Deus se revela do
céu contra toda impiedade e
injustiça dos homens, que
impedem a verdade pela sua
injustiça”. Paulo começa dizendo
que aquela sociedade, mesmo
sendo composta por pagãos que
nunca ouviram falar de Deus e
não conheciam sua lei, ainda
assim estava debaixo da
condenação divina, porque Deus
havia se manifestado na
consciência desses pagãos.
Enquanto Paulo fala, mais
pessoas se aproximam. Ele
afirma que a consciência delas
as acusa e que o mundo criado
que as cerca também dá
testemunho de que existe um
Deus e de que ele não se
confunde com a criação.
Portanto, a idolatria que
demonstram em seu
comportamento é uma desonra a
esse Deus, pois com isso estão
, p
tornando a verdade de Deus em
mentira. Paulo continua: “É por
isso que Deus os entregou à
impureza sexual, ao desejo
ardente de seus corações, para
desonrarem seus corpos entre si”
(Rm 1.24). O apóstolo prossegue
afirmando que aquele povo está
vivendo na imoralidade porque
rejeitou o Deus.
De repente, no meio da multidão, aparece alguém que
concorda com o pregador. Paulo segue dizendo que aquele povo
mudou a verdade de Deus em mentira e que estava honrando a
criatura, em vez de honrar o Criador. Aquela pessoa no meio da
multidão continua concordando com Paulo, que dá seguimento ao
discurso dirigido àquele povo, o qual, segundo ele, inverteu a
ordem natural e passou a tolerar a união de homem com homem,
mulher com mulher, cometendo torpeza diante de Deus. O
cidadão no meio da multidão continua concordando com Paulo, e a
certa altura se pronuncia, dizendo que aquele pessoal era assim
mesmo, fazia tudo errado. Paulo continua, dizendo que os homens
estão “cheios de toda forma de injustiça, malícia, cobiça, maldade,
inveja, homicídio, discórdia, engano, depravação; sendo
intrometidos, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes,
orgulhosos, arrogantes, inventores de males, desobedientes aos
pais; insensatos, indignos de confiança, sem afeto natural, sem
misericórdia” (Rm 1.29-31). Paulo enumera 21 pecados, e
prossegue dizendo que eles sabem a sentença de Deus, que têm
consciência de que Deus vai condenar todos que praticam tais
coisas. O homem continua a aplaudir; nesse momento, Paulo se
vira e diz: “Portanto, quando julgas, és indesculpável, ó homem,
sejas quem for, pois tecondenas naquilo em que julgas o outro;
pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos” (Rm 2.1). Esse é o
retrato do que está acontecendo no segundo capítulo da Carta aos
Romanos.
Depois de ter anunciado a condenação sobre gentios, pagãos,
depois de ter pronunciado a sentença de Deus, de que são
passíveis da morte eterna porque pecam contra a luz, porque
desobedecem a Deus, Paulo dirige-se agora ao moralista, figura
que representa aquela classe de pessoas que, ao ouvirem e
tomarem conhecimento das palavras do primeiro capítulo,
concordaram com Paulo, dizendo que todos aqueles ali citados
tinham de ser condenados mesmo, pois todos erraram. Mas agora,
para a surpresa dessas pessoas, Paulo volta a metralhadora na
direção delas e lhes diz que são tão culpadas quanto as outras
para as quais apontaram o dedo, pois julgam, condenam e fazem
as mesmas coisas.
Nessa passagem, o apóstolo Paulo está se dirigindo a um
interlocutor imaginário. Trata-se de uma figura de retórica, muito
comum naquela época, chamada diatribe, segundo a qual a pessoa
que estava falando — e que poderia ser um filósofo, um
palestrante, um orador — dirigia-se a uma pessoa imaginária
com quem iniciava um diálogo. O objetivo desse recurso era dar
força ao diálogo, tornar vívida a sua palavra. Nesses versículos
Paulo começa a se dirigir a esse homem imaginário, que é a
pessoa que concorda com o que ele disse no capítulo anterior, e
por isso julga e condena os gentios. Paulo, então, vira-se para essa
pessoa e lhe faz cinco acusações.
Condenação geral
O apóstolo começa usando esse recurso retórico a fim de mostrar
que não somente os pagãos (os quais ele menciona no cap. 1) estão
perdidos diante de Deus, mas também os judeus, que receberam a
lei divina. Na transição em que passa dos pagãos para os judeus,
Paulo inclui um tipo de pessoa entre os gentios que não era
exatamente como aqueles que ele havia acabado de descrever.
Quando lemos o primeiro capítulo, temos a impressão de que no
mundo de Paulo só havia gente devassa, corrompida, entregue
aos prazeres mais escabrosos possíveis. Bem, isso não é verdade.
Na época de Paulo também havia filósofos, como, por exemplo, os
estoicos, que tinham um alto padrão moral, e condenavam a
luxúria, a inveja, a busca pelo poder e a imoralidade. Havia
filósofos que condenavam a homossexualidade, tão comum no
Império Romano e na cultura greco-romana daquela época; havia
ainda políticos que faziam discursos no Senado de Roma
condenando os costumes pagãos e julgando impiedosamente
aquelas pessoas. E havia o judeu — de todos eles o pior, como
mostraremos em seguida.
O judeu havia recebido a lei de Deus, os Dez Manda-mentos, a
aliança de Deus feita por meio dos sacrifícios, do altar, do templo,
do serviço dos sacerdotes. Ele entendia que pertencia a uma
categoria à parte em relação às demais pessoas. Nos escritos dos
judeus, especialmente no período intertestamentário,
encontramos declarações afirmando que os pagãos são o
combustível do fogo do inferno; que Abraão se encontra na porta
do céu, sentado numa cadeira para não deixar nenhum gentio
entrar; que todos os judeus entrarão no reino do Messias, mas os
gentios serão todos condenados ao inferno; enfim, nesses escritos
encontramos essas e outras generalizações semelhantes. De todas
as pessoas que costumavam julgar as outras naquela época, os
judeus eram os piores, e Paulo tratará deles primeiramente. Só
que, antes de fazer isso, ele coloca de modo geral essa condenação
às pessoas que costumam criticar os outros, mas fazem as
mesmas coisas que criticam. Vamos chamar essas pessoas de
moralistas. Então, nos versículos iniciais do capítulo, Paulo se
volta a esses moralistas, tanto pagãos — como os filósofos estoicos
e alguns políticos de Roma, que mencionei — quanto judeus. Mas,
a partir de Romanos 2.4, o foco começa a se concentrar no judeu, e
até o fim do capítulo fica claro que é a eles que o apóstolo Paulo
está dirigindo suas duras palavras.
A autocondenação do hipócrita
Paulo começa afirmando que o moralista, isto é, aquele que julga
e condena os outros, é tão culpado e sem desculpa quanto os
pagãos que julga: “Portanto, quando julgas, és indesculpável, ó
homem, sejas quem for, pois te condenas naquilo em que julgas o
outro; pois tu, que julgas, praticas os mesmos atos”. Há três
razões que o apóstolo aponta para fazer essa primeira acusação ao
interlocutor imaginário. A primeira delas é a seguinte: você é
indesculpável e vai ser condenado porque pratica as mesmas
coisas que condena nos outros. É claro que os moralistas não
iriam cometer todos os vinte e um pecados mencionados no fim do
capítulo anterior (1.29-31), além da imoralidade sexual (1.26,27),
mas com certeza eram culpados de algumas dessas coisas. E esse
é o ponto que o apóstolo Paulo defende: a raça humana toda está
debaixo do juízo de Deus, e o fato de uma pessoa apontar o erro de
outra não a torna melhor diante do Senhor — na verdade, até
aumenta a sua responsabilidade, porque ela está fazendo
justamente as mesmas coisas que condena. Então, a primeira
razão pela qual essas pessoas estão tão condenadas quanto os
pagãos é porque elas praticam exatamente as mesmas coisas que
condenam.
A segunda razão é o fato de que existe uma sentença de morte,
decretada por Deus, contra os que praticarem essas coisas.
Observe que a passagem começa com a palavra “Portanto”, que
liga esse versículo (2.1) ao anterior (1.32), no qual, por sua vez,
Paulo diz que os pagãos conhecem a sentença de morte contra os
que praticam as coisas descritas ali. Portanto, o moralista
também está condenado, porque ele, semelhantemente, também
sabe disso e, ao dizer: “Essa imoralidade está errada, esse pessoal
fica falando mal dos outros, é invejoso, avarento”, o moralista está
dizendo que sabe que essas coisas estão erradas e, ao praticá-las,
cai na mesma situação do pagão, que faz as coisas erradas
consciente disso. O moralista sabe que essas coisas estão erradas,
pois as condena; no entanto, também as pratica. Essa é a segunda
razão pela qual ele está condenado.
A terceira razão que o apóstolo aponta para fazer essa
acusação a seu interlocutor imaginário é que, ao pronunciar a
condenação dos pagãos, dos ímpios, dos imorais, o moralista está
se autocondenando: “... pois te condenas naquilo em que julgas o
outro” (2.1). Ao dizer, por exemplo, “esse pessoal é mentiroso”,
quem ele está condenando? A si mesmo, porque ele também
mente. Ao dizer “esse pessoal é cheio de inveja”, quem ele está
condenando? A si mesmo, porque ele também tem inveja. Ao dizer
“esse pessoal é ingrato”, quem ele está condenando? Está
emitindo uma condenação contra si mesmo, porque ele também é
ingrato. Então, em tudo o que condena nos outros, ele está
pronunciando a sua própria condenação.
Note que a palavra “indesculpável”, que aparece nessa
passagem, é a mesma que vimos quando analisamos Romanos
1.20, quando Paulo, depois de dizer que Deus se revelou na
natureza dando testemunho de si mesmo, conclui dizendo que tais
homens são, por isso, “indesculpáveis”. Mas agora não só os
pagãos, que nunca ouviram falar da lei de Deus, são
indesculpáveis — pois têm o conhecimento de Deus no coração e
refletido na natureza —; também é indesculpável o moralista:
aquele que julga, critica e condena os outros. Ele também se
condena no mesmo ato e é tão indesculpável quanto os pagãos.
Talvez um bom exemplo para ilustrar o que Paulo está
dizendo seja o caso do rei Davi. Lemos em 2Samuel 12 que Davi
adulterou com a mulher de um de seus generais, que ela
engravidou e, para encobrir seu adultério, Davi mandou que o
general fosse colocado no lugar mais difícil da batalha, para que
morresse. Davi escondeu esse fato e, durante alguns meses
provavelmente, conviveu com essa situação, até o dia em que
Deus mandou um profeta para falar com ele. O profeta contou ao
rei Davi uma história que supostamente ocorrera ali.
Parafraseando, Natã disse o seguinteao rei: “Aqui no seu reino
havia um homem rico que tinha muitas ovelhas. Ele recebeu uma
visita importante e quis oferecer um churrasco para o seu
visitante. Embora tivesse muitas ovelhas, em vez de pegar uma
do seu rebanho, o homem rico olhou para a ovelha do vizinho
pobre — que só tinha uma e a havia criado desde pequenina.
Então, foi lá, tomou a ovelha do vizinho pobre, matou-a e ofereceu
a carne para o seu visitante”. O profeta concluiu a história com
uma pergunta a Davi: “O que o senhor acha disso, rei?”. O rei
Davi não pensou duas vezes e foi logo dizendo que o homem rico
merecia a morte. Então, Natã colocou o dedo no nariz de Davi e
disse: “Esse homem é você, Davi. Essa história é sobre você, que
tomou a mulher do seu próximo”. Ou seja, ao condenar aquele
homem rico que tinha tomado a ovelha do pobre, Davi estava
condenando a si mesmo. É disso que Paulo está tratando nesse
trecho da Escritura. No momento em que apontamos o dedo para
alguém, há outros três apontando de volta para nós.
Antes de prosseguir, é preciso fazer um esclarecimento: o
apóstolo Paulo não está proibindo que façamos julgamentos
justos, pois há situações em que precisamos avaliar as ações,
comportamentos e atitudes das pessoas e chegar a uma conclusão.
Em Mateus 7.1, Jesus disse, “Não julgueis, para que não sejais
julgados”; mas logo adiante ele diz: “Cuidado com os falsos
profetas” (7.15). Ora, como eu vou ter cuidado com os falsos
profetas se eu não fizer um julgamento para saber quem é falso e
quem é verdadeiro? Então, é claro que há momentos em que a
própria Bíblia manda que examinemos todas as coisas, que
façamos testes, a fim de podermos avaliar o que vem de Deus e o
que não vem.
Não é esse tipo de julgamento que Paulo está condenando, mas
o julgamento hipócrita, quando as pessoas criticam o
comportamento dos outros, mas elas mesmas fazem as coisas que
estão criticando. Na época de Paulo, eram os moralistas, os
filósofos estoicos, alguns políticos de Roma e especialmente os
judeus que gostavam de condenar o resto da humanidade,
esquecendo-se ou não querendo ver que faziam as mesmas coisas.
Então, esta é a primeira coisa que Paulo diz ao moralista: você é
tão culpado e indesculpável quanto os pagãos que você mesmo
condena, porque pratica as mesmas coisas e sabe que esses atos
estão errados; ao agir assim, está se autocondenando.
Julgamento além das palavras
O texto paulino prossegue mostrando que o moralista será
julgado por um Deus que é verdadeiro no dia do juízo: “Mas nós
sabemos que o julgamento de Deus é de acordo com a verdade
contra os que praticam tais atos” (2.2). Aqui o apóstolo Paulo
estabelece um ponto de contato com o moralista, um ponto de
concordância. É como se ele dissesse a seu interlocutor
imaginário:
— Vem cá, nós dois concordamos que Deus, quando julga as
pessoas, julga com verdade, “nós sabemos” disso; nós dois
sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que
tais coisas praticam, ou seja, Deus é verdadeiro. Isso significa que
ele não faz acepção de pessoas num julgamento e que ele julgará
as pessoas de acordo com o que é verdadeiro; nós dois também
sabemos disso, não é?
Fico imaginando o moralista dizendo:
— É, eu sei, e concordo exatamente com o fato de que Deus é
verdadeiro, julgará as pessoas de acordo com aquilo que é
verdade, e não fará acepção de pessoas.
Então, Paulo vai adiante em sua confrontação: “E tu, ó
homem, que julgas os que praticam tais coisas, mas fazes o
mesmo, pensas que escaparás do julgamento de Deus?” (2.3). Em
outras palavras, o apóstolo deixa o interlocutor fictício
encurralado:
— Você está pensando que Deus abrirá uma exceção no seu
caso, logo para você que é um presunçoso? Se você concorda
comigo que Deus é verdadeiro e fará seu juízo imparcial, o que
pode levar uma pessoa a pensar que ele fará uma exceção para
alguém? Se você concorda comigo que Deus é verdadeiro no
julgamento, por que então está pensando que escapará do juízo de
Deus ao criticar e condenar os outros?
O que Paulo está dizendo aqui pode ser resumido da seguinte
maneira: um dia Deus julgará a humanidade de acordo com as
obras que as pessoas cometeram, de acordo com as atitudes,
práticas, escolhas, decisões, com o caminhar e o viver aqui, e não
de acordo com o que dizem.
Deus não escolherá o discurso religioso de ninguém como
critério para condená-lo ou não. O que ele julgará serão as suas
obras, porque estas revelam o verdadeiro estado do coração; as
palavras enganam, mas as obras, trazidas à luz, expressam a
verdade interior. Isso é o que a Bíblia ensina do começo ao fim. Se
uma pessoa moralista condena o erro das outras — como faziam
aqueles filósofos, políticos e judeus —, mas pratica as mesmas
coisas, Deus vai julgá-la exatamente como julgaria um pagão.
Não haverá diferença, porque Deus é verdadeiro em seu
julgamento. Então, o que deixa essa impressão de que Deus
abrirá uma exceção? O que nos leva a pensar que Deus condenará
o imoral, o idólatra, o impuro e o avarento, mas não fará nada
com o moralista que faz as mesmas coisas, só porque ele diz que
essas ações são erradas e Deus não aprova isso? O discurso
moralista não será uma cortina de fumaça para confundir os
olhos de Deus; o Senhor olha além das palavras e vê o que faz
aquele que fala. É com base nisso que ele vai julgar. Ninguém se
livrará do juízo de Deus simplesmente aderindo a uma igreja,
tornando-se religioso, adotando um discurso religioso,
condenando o erro dos outros, porque Deus de fato vai julgar cada
um segundo a verdade, pelas obras que nós praticamos. Por que
você pensa que escapará do juízo de Deus (2.3)?
Bondade, tolerância e paciência
Desse ponto em diante, percebe-se que Paulo já está chegando ao
judeu, o qual tinha em mente desde o início. Ele, no entanto,
começou do geral em direção ao particular, porque, de todos os
moralistas daquela época, o pior era o judeu. Paulo quer mostrar
que eles nunca compreenderam de fato a bondade de Deus para
com Israel e para consigo mesmos, nunca compreenderam por que
Deus foi bondoso com Israel. Veja o que o apóstolo diz: “Ou
desprezas as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência,
ignorando que a graça de Deus te conduz ao arrependimento?”
(2.4). Na afirmação “desprezas as riquezas da sua bondade”,
vemos que Deus não só é bondoso, ele é rico em bondade, o que
significa que ele tem bondade suficiente para derramar
abundantemente sobre todos nós. Deus é bilionário em bondade.
Mesmo que ele derramasse bondade sobre cada um dos seres
humanos que viveram, vivem e viverão sobre a face da terra,
ainda assim sobraria bondade. E ele foi particularmente bondoso
com Israel, uma nação que ele escolheu do meio das outras. Deus
chamou Abraão do meio de outras pessoas, fez com ele um pacto,
prometeu-lhe que a descendência dele seria o seu povo, deu-lhe
uma aliança, promessas e um culto verdadeiro. Deus disse a
Abraão que dele viria o Salvador do mundo, que Deus seria o
Deus da sua descendência e que essa descendência tomaria Deus
como sendo o único Senhor e verdadeiro Deus. O Senhor tinha
sido extremamente bondoso com Abraão e seus descendentes, os
judeus.
Além disso, vemos no trecho que Deus também foi tolerante.
Tolerância significa não castigar de imediato os pecados. Deus é
justo e santo. A nação de Israel desobedeceu às leis divinas não
uma vez só, mas muitas; ela o provocou; porém, em vez de
destruí-la imediatamente com o seu poder, Deus a tolerou. Ele
não “fez vista grossa”, mas simplesmente decidiu não castigar
ainda, resolveu tolerar um pouco, esperar, apesar de saber que
eles estavam errados e mereciam castigo.
Em seguida, lemos que Deus tem “paciência” ou
“longanimidade” (ARA). Uma pessoa que é longânima tem um
ânimo, um fôlego longo, como alguém que consegue ficar embaixo
d’água por dois ou três minutos. Deus é longânimo, ele segura seu
juízo. Israel desobedeceu ao Senhor, provocou-o mais de uma vez,
mas Deus foi longânimo, foipaciente como se dissesse: “ainda
não”.
Mas qual era o objetivo de Deus com essa bondade, tolerância
e paciência? Deus mandou profetas para avisar o povo de Israel;
mandou reis que fizeram reformas religiosas; mandou juízes que
libertaram a nação de Israel e, por fim, mandou seu próprio Filho.
Por que Deus fez isso? A resposta é que ele não estava “fazendo
vista grossa” para os pecados na nação de Israel, relevando seus
erros, ignorando seus pecados. Como o próprio Paulo diz, o que
Deus queria era o arrependimento: “Ou desprezas as riquezas da
sua bondade, tolerância e paciência, ignorando que a graça de
Deus te conduz ao arrependimento?”. Toda misericórdia que Deus
demonstrou à nação de Israel no passado tinha o único objetivo de
levar os judeus ao arrependimento.
Pense na seguinte analogia: um filho faz uma coisa muito
errada, trazendo grande prejuízo aos pais, tanto ao nome e à
imagem da família quanto um prejuízo financeiro grave, mas os
pais o perdoam. “Filho, você está perdoado de todo o coração, nós
o amamos e o acolhemos. Você continua sendo nosso filho, apesar
de tudo o que fez. Está perdoado, completamente, não temos mais
nada contra você.” O que esse filho deveria fazer? Cair em
lágrimas de gratidão. Essa atitude dos pais deveria fazê-lo “se
tocar”, levá-lo ao mais profundo e sincero arrependimento (“Como
é que eu pude fazer isso com os meus pais?”) e a tomar a
resolução de nunca mais ofender a quem o ama tanto.
Era assim que Deus queria que a nação de Israel reagisse
diante de sua bondade, tolerância e paciência. Mas o que a nação
de Israel, como aquele filho perdoado pelos pais, fez? Continuou a
fazer as mesmas coisas, acreditando que, se houve perdão uma
vez, haveria muitas outras mais. Ora, imagine que tipo de filho
era a nação de Israel: a bondade, a tolerância e a paciência de
Deus conduziram não ao arrependimento, mas à hipocrisia e à
presunção. A nação de Israel se sentiu segura, sentiu que podia
viver na corrupção de costumes, praticando as mesmas coisas que
os pagãos cometiam, porque Deus não haveria de condená-los, por
causa da aliança, porque eram filhos de Abraão. Não foi isso que
eles disseram a Jesus, quando ele chegou pregando a necessidade
de arrependimento? “Nós somos filhos de Abraão, nós não
precisamos disso.”
A bondade de Deus deve nos levar ao arrependimento, e eu
convido você a refletir um pouco sobre esse fato. Já se perguntou
por que está vivo até agora? É por causa da bondade de Deus. Por
que Deus permitiu que você lesse este livro? Por causa da
tolerância, da longanimidade dele; ele não o levou antes e já podia
ter levado. Não despreze a bondade de Deus, porque é ela que faz
com que você chegue ao arrependimento, nada mais. Deus está
demonstrando sua misericórdia, sua tolerância, dando-lhe
oportunidade, aguardando, mostrando seu amor por você, vez
após vez, dando-lhe oportunidade de ouvir a sua palavra.
Por não demonstrarem arrependimento, os judeus estavam
desprezando a riqueza da bondade de Deus, e isso fazia com que a
cada dia a culpa aumentasse: “Mas, segundo tua teimosia e teu
coração que não se arrepende, acumulas ira sobre ti no dia da ira
e da revelação do justo julgamento de Deus” (v. 5). A cada crítica
que o judeu fazia ao pagão — apesar de ele mesmo cometer as
mesmas coisas que criticava —, ele estava acumulando ira, a qual
estava reservada para ser derramada sobre si no dia do juízo. Na
verdade, ele estava armazenando o castigo para si mesmo. Cada
acusação sua aumentava a ira de Deus contra o judeu; cada
crítica sua aumentava o juízo de Deus contra sua própria vida.
Ou seja, Deus queria que ele se arrependesse, mas o coração se
endureceu, conforme escreveu Paulo: “segundo tua teimosia e teu
coração que não se arrepende” ou “segundo a tua dureza e coração
impenitente” (ARA). O coração desse judeu tornou-se
impenitente, isto é, não quis se arrepender, passou a julgar e
condenar os outros, enquanto ele próprio praticava as mesmas
coisas e achava que estava livre do juízo de Deus, mas, na
verdade, estava apenas acumulando diariamente ira contra si
mesmo para o dia do juízo.
Que mensagem penetrante para nós, e como isso fala ao nosso
coração hoje! Essa passagem reforça o ensino que Paulo está
trazendo nos três primeiros capítulos da Carta aos Romanos: que
não há um justo sequer; que, naquilo que nós criticamos os
outros, nós nos condenamos, porque somos participantes dos
mesmos pecados; que estamos todos debaixo do juízo de Deus e
ele não fará acepção de pessoas no dia do julgamento, pois julgará
cada um de acordo com suas obras. O que isso deve nos levar a
pensar?
Conclusão e aplicações práticas
Talvez você conheça uma pessoa assim, que tem esse espírito
crítico, moralista, julgador, que gosta de examinar a vida dos
outros, ver o que os outros fazem de errado, que conversa sobre
isso com outros, que julga no seu coração, achando-se superior a
eles ou que está num patamar mais elevado. Entretanto, a pessoa
que é verdadeiramente piedosa, santa, espiritual, olha primeiro
para si mesma e diz: “Deus, tem misericórdia de mim”.
Certa vez, Jesus contou uma parábola de dois homens que
subiram ao templo para orar. Um deles, um religioso, orava
consigo mesmo, dizendo coisas como: “Ó Deus, graças te dou que
eu não sou como os outros homens, eu dou dízimo, eu sou fiel a
minha mulher, eu vou de casa para o trabalho, do trabalho para
casa, eu não falo mal de ninguém, eu não sou como esse cidadão
que está aqui ao meu lado, que é um publicano”. Já o publicano,
que era um cobrador de impostos, não ousava sequer levantar os
olhos para o céu, mas batia no peito e dizia “Ó Deus, tem
misericórdia de mim, um pecador!”. Ao concluir sua narrativa,
Jesus disse que o publicano foi para casa justificado, mas o outro
homem não. (Leia Lucas 18.9-14 para conferir a parábola.) Quem
tem esse espírito, essa atitude de arrogância de se achar imune ao
juízo de Deus e também costuma criticar e condenar os outros
precisa saber que isso ocorre, às vezes, por meio de cobranças
indevidas, críticas, mídias sociais, as quais se prestam muito bem
para esse tipo de coisa. Que Deus tenha misericórdia de quem age
assim, porque isso é resultado de um coração impenitente e
endurecido. Se esse é o seu caso, não pense que se livrará do juízo
de Deus só porque vê o que os outros fazem de errado.
Há também os que estão desapontados com a igreja, por causa
de evangélicos que dão testemunho ruim do cristianismo. E é
verdade que existem evangélicos que são hipócritas mesmo,
apresentam um discurso de moralidade, condenam os outros, mas
fazem as mesmas coisas, caem em desgraça, quebram os
mandamentos de Deus. Quando tudo vem a público, as pessoas de
fora da igreja dizem que não querem ser membros de uma igreja,
que não querem esse evangelho, pois muitos que se dizem
evangélicos fazem as mesmas coisas, ou até piores, do que os que
não professam nenhuma fé. Muitas pessoas não querem saber do
evangelho por causa dos hipócritas que há na igreja. É
importante que você veja como Deus tratará os hipócritas. Deus
não concorda com eles, não, pois não aceita a hipocrisia. Nessa
passagem está muito claro que um dia ele haverá de julgar os
hipócritas e aqueles que dizem uma coisa e fazem outra. Assim,
se você é uma das pessoas que se decepcionaram com os
evangélicos, quero dizer-lhe que a sua desilusão não deveria ser
com a igreja e com Deus, mas, sim, consigo mesmo. Porque é bem
possível que você seja tão hipócrita quanto eles. Todos nós
pertencemos à raça humana, que está caída em pecado, e, com a
inconsistência que nos é característica, vivemos uma coisa e
falamos outra. E foi exatamente por isso que o evangelho nos foi
dado, porque somos pecadores que precisam de redenção, de
misericórdia e de perdão.
Será que há evangelho na passagem trabalhada neste
capítulo? Sim, justamente quando Paulo diz que a bondade de
Deus nos conduz ao arrependimento (v. 4). É isso que Deus quer
denós, que reconheçamos que todas essas práticas são erradas e
contrariam a lei de Deus, ferem a sua santidade e trazem sobre
nós a sentença de Deus, a qual determina que são dignos de
morte os que praticam tais coisas. Deus quer nos levar a
reconhecer que somos dignos de morte por causa da nossa
iniquidade. Além disso, ele quer nos levar a reconhecer a sua
bondade. Tem sido paciente com você e comigo até hoje
exatamente porque quer nos levar a essa posição. O que Deus
quer de mim e de você? A resposta está na Bíblia:
arrependimento.
Os 500 anos da Reforma protestante foram comemorados em
2017, e o marco inicial da Reforma foi o dia em que Martinho
Lutero, um monge agostiniano, pregou suas 95 teses na porta do
Castelo de Wittenberg. Sabe o que afirmam suas primeiras teses?
Que a penitência não é um ato de ir ao confessionário, pedir
perdão ao sacerdote e rezar um número “x” de orações decoradas
ou cumprir qualquer outra penalidade. A penitência não é um
ato, mas um estilo de vida; o crente deve viver num constante
estado de penitência, de arrependimento.
Arrependimento é um estado, uma maneira de viver. Você vive
se arrependendo porque sabe que é um pecador, que a corrupção
está no seu coração, que você ofende a Deus, que merece somente
a ira dele. É isso que Deus quer que haja em nosso coração. A
bondade de Deus nos conduz ao arrependimento. Quando
refletimos sobre a paciência e a tolerância dele e, acima de tudo,
sobre o fato de que mandou o seu Filho morrer na cruz pelos
nossos pecados para que pudéssemos ser salvos da nossa
inconsistência, da nossa hipocrisia e da nossa falsa moralidade,
nós então deveríamos nos curvar diante dele e dizer: “De fato,
Senhor, nós não merecemos nada de ti”. Isso deveria também
mudar a nossa atitude com relação a outras pessoas, a maneira
de olharmos o erro dos outros. Não significa que não veremos os
erros, mas, sim, que teremos uma atitude diferente, de chegar
perto da pessoa e dizer: “Sei o que você está passando, eu poderia
ter feito a mesma coisa, pois sou tão pecador quanto você. Mas
venha, vou lhe mostrar onde existe perdão, vou lhe dizer de que
maneira podemos ser perdoados e como Deus pode restaurar a
sua vida”. Devemos agir assim, em vez de simplesmente apontar
o dedo e rotular a pessoa de pecadora e assim por diante. Porque,
se fizermos isso, estaremos fazendo a mesma coisa com relação a
nós mesmos.
Que Deus nos conceda esse arrependimento, que ele derrame
sobre nós a sua graça e a sua misericórdia, que tire do nosso meio
todo espírito hipócrita de censura e de julgamento, que nos dê um
verdadeiro espírito evangélico de quebrantamento e humildade,
para nos tratarmos como pecadores que encontraram na graça de
Deus o perdão e a reconciliação.
N
essa passagem Paulo fala
do dia do juízo de Deus que
está por vir sobre toda a
humanidade, quando será
revelada a sua justiça. Trata-se
de um dia mencionado em toda a
Bíblia, o qual está no futuro,
Capítulo 11
O DIA DO JUÍZO
Romanos 2.5-11
Um julgamento imparcial
Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não se arrepende, acumulas ira sobre ti
no dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um
segundo suas obras. Assim, ele dará a vida eterna aos que, perseverando em fazer o
bem, procuram glória, honra e imortalidade; mas dará ira e indignação aos egoístas,
aos que obedecem ao pecado em vez de obedecer à verdade. Trará tribulação e
angústia a todo ser humano que pratica o mal, primeiro ao judeu, depois ao grego;
mas glória, honra e paz a todo que pratica o bem, primeiro para o judeu, depois para
o grego; pois em Deus não há parcialidade.
porém se torna mais próximo a
cada momento que vivemos,
embora não possamos precisá-lo
com exatidão em nosso
calendário. Mas a sua vinda é
tão certa quanto a própria
existência de Deus. Haverá um
dia em que Deus se revelará
como juiz de toda a humanidade,
em que julgará o procedimento
de cada pessoa.
O que levou o apóstolo Paulo a tratar desse assunto foi que,
como vimos, ele decidiu escrever essa carta com o objetivo de
mostrar à igreja de Roma a necessidade de evangelizar a
Espanha, a qual ficava ao norte de Roma, numa região em que o
evangelho ainda não havia chegado. Para alcançar os espanhóis
com a mensagem evangelística, Paulo precisava do suporte de
uma igreja que o enviasse, orasse por ele, o ajudasse
financeiramente e mandasse uma equipe para acompanhá-lo.
Como não era conhecido da igreja de Roma, a carta serviria para
que ele se apresentasse à igreja, detalhasse seus planos (dos
quais ele trata nos caps. 1 e 15) e a mensagem que ele queria
pregar na Espanha, o evangelho que ele anunciava.
Nos primeiros três capítulos da carta, ele fala da perdição de
toda a raça humana: tanto de pagãos e gentios, aquelas pessoas
que nunca ouviram falar da Lei de Moisés, do Deus verdadeiro, do
nome de Jesus, assim como de judeus, apesar de terem recebido o
conhecimento de Deus.
A passagem destacada neste capítulo está inserida na
primeira parte da carta, em que o apóstolo Paulo está tentando
demonstrar que toda a humanidade está perdida e será julgada
de acordo com as suas obras no grande dia do juízo.
No capítulo 2 Paulo se dirige aos moralistas, aquelas pessoas
entre os pagãos que condenavam as práticas imorais que havia no
Império Romano, como era o caso de alguns filósofos estoicos e
alguns políticos. Paulo diz que os moralistas estão condenados do
mesmo jeito, pois praticam as mesmas coisas que condenam.
Paulo, então, passa a tratar especificamente dos judeus. Entre
todos os críticos que havia no primeiro século, em meio a todos
aqueles que mais condenavam as atitudes dos pagãos, estavam os
judeus, que entendiam que, porque Deus lhes outorgara a lei e
fizera com eles uma aliança, seu povo estava numa posição
privilegiada, e por isso desprezavam os outros povos. Paulo se
dirige aos judeus e diz que, no dia do juízo, que se aproxima, Deus
não fará qualquer distinção entre as pessoas — vai tratar o judeu
da mesma forma que trata o pagão. Isso porque o critério que
Deus utilizará para salvar e para condenar é o procedimento da
pessoa, e não sua origem religiosa, isto é, não importa se ela é
pagã, se é judia, nem de onde ela vem. Mais adiante, iremos
investigar se Paulo, aqui, teve uma recaída ao seu modo farisaico
de pensar e ensinou a salvação pelas obras. O que nos interessa
agora, contudo, é a sua declaração de que a avaliação de Deus
com relação à vida eterna e à condenação eterna será baseada em
caráter, nas obras, no procedimento, na vida da pessoa, e não
naquilo que a pessoa professa ou diz que é. Esse, portanto, é o
tema e o foco do que acabamos de ler aqui, quando então o
apóstolo Paulo introduz esse tema do justo juízo de Deus.
Que Deus nos ajude a perceber a gravidade e a seriedade do
que está escrito nesse trecho da Escritura, porque a vida pode
passar muito depressa. A nossa vida está sempre por um fio —
crianças morrem, adolescentes morrem, jovens morrem...
Eu me converti aos 22 anos e tinha um irmão de 17 anos. Eu
era motociclista desde aquela época. Meu irmão era motoqueiro (a
diferença é que o motoqueiro pilota motos de 125 cilindradas para
baixo). Nós vivíamos uma vida muito longe de Deus, mas um dia
a graça dele transformou meu coração. Eu me lembro do dia em
que, na nossa casa em Recife, eu disse para o meu irmão Ricardo
o seguinte:
— Ricardo, eu conheci o evangelho de Deus, a graça de Deus, e
agora eu entendi que nós somos pecadores, e por isso precisamos
nos reconciliar com Deus mediante Jesus Cristo.
Ricardo estava com uma jaqueta jeans azul e um capacete
verde. Ele ouviu e disse:
— Eu não estou preocupado com essas coisas agora, isso pode
ser bom para você, mas no momento não me interessa.
Ele montou em sua moto e foi para Campina Grande assistir a
uma corrida de motocicletas. Naquela viagem ele bateu de frente
com um caminhão e morreu no mesmo dia.
A morte pode chegar a qualquer momento, e eugostaria de
que você pensasse no que vai ler neste capítulo, tenha a idade que
for. Deus nos dá a oportunidade de ler sua Palavra e de refletir
sobre essas verdades, essas realidades eternas, que são colocadas
diante de nós justamente para que sejamos tementes a ele.
Um dia no porvir
Os versículos 5 e 6 servem de transição entre o capítulo anterior e
este capítulo: “Mas, segundo tua teimosia e teu coração que não
se arrepende, acumulas ira sobre ti no dia da ira e da revelação
do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um segundo
suas obras”. O apóstolo refere-se a um dia futuro, que ele chama
do “dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus” (v. 5).
Entretanto, a ira de Deus, ou seja, o desprazer de Deus para com
o pecado, já está sendo derramada no presente. Nosso Deus é
santo, justo, verdadeiro e não pode contemplar o mal sem que a
sua natureza justa e santa se revolte e fique indignada com as
criaturas que o afrontam. Então, a ira dele está sendo derramada
já, aqui e agora, conforme Paulo já mostrou: “a ira de Deus se
revela do céu” (1.18) —, ou, literalmente, está sendo revelada do
céu.
Diariamente a ira de Deus é derramada sobre pecadores: ele
os aflige por meio de punições físicas, desgraças, tormentos
espirituais, avisos, provocações, para que se lembrem da situação
em que se encontram. Todo dia Deus está tirando a paz de
pecadores, incomodando-os, em movimentos aos quais chamamos
prenúncios da ira final de Deus. Mas isso é apenas o começo. Todo
esse sofrimento, essa miséria, essa angústia e essa dor são
simplesmente um prenúncio daquilo que está preparado para o
que Paulo chama de “dia da ira e da revelação do justo
julgamento de Deus” (v. 5). Trata-se, portanto, de uma
antecipação, por meio da qual Deus deseja acordar a humanidade
e mostrar-lhe que alguma coisa está errada.
É como se Deus dissesse: “Será que vocês não enxergam? Será
que não percebem que não conseguem resolver seus problemas?
Que estão cavando a própria sepultura? Que estão matando uns
aos outros? Que não conseguem viver em paz, mesmo que
acumulem tesouros, propriedades e se sintam seguros
financeiramente? Vocês não estão vendo que alguma coisa está
errada?”. Deus derrama sua ira sobre a humanidade a fim de
despertá-la, de modo que perceba que algo terrível está se
aproximando, que algo muito pior está chegando a cada minuto
que passa: o “dia da ira e da revelação do justo julgamento de
Deus” (v. 5).
Esse evento é chamado de dia da ira porque nele Deus vai
derramar a sua ira por completo. Por enquanto ela é derramada
de forma mitigada, devido à paciência de Deus. Ele permite a
miséria, o sofrimento e a dor, mas contrapõe tudo isso com
bênçãos, graça e misericórdia; ele ainda traz algum consolo,
algum conforto, de maneira que a situação não é tão ruim quanto
poderia ser. O pecador sofre e sente angústias, sente-se solitário,
mas Deus provê a medicina, pessoas que o possam ajudar, para
de alguma forma aliviar o sofrimento deste mundo. Todavia, no
dia da ira não haverá conforto nem nada que diminua a força de
sua ira, e ela será derramada plenamente, sem restrição alguma,
sobre a humanidade. É o dia em que Deus, finalmente, deixará
sua ira ser derramada sem limite sobre a humanidade que o
desafiou. Paulo diz que esse é o “dia da ira e da revelação do justo
julgamento de Deus” (2.5).
É claro que falar sobre esse terrível dia da ira suscita na
mente das pessoas dúvidas acerca da justiça do evento. A
resposta de Paulo é que nesse dia Deus mostrará que é justo, sim,
porque, nos dias de hoje, a ira de Deus está sendo derramada,
mas as pessoas não percebem a justiça que há nisso, já que,
aparentemente, todos sofrem, quem teme a Deus e quem não
teme, quem crê em Deus e quem não crê, quem procura o bem e
quem procura o mal. Parece que o sofrimento e a angústia
sobrevêm a todos.
Você pode estar se perguntando onde está a justiça disso que
Deus está fazendo. Naquele dia, o “dia da ira e da revelação do
justo julgamento de Deus” (2.5), o Senhor vai mostrar exatamente
que tudo o que ele fez foi justo. Ele vai mostrar que nunca
cometeu uma única injustiça com nenhum ser humano. Na
verdade, ele vai mostrar que foi até misericordioso e compassivo
por deixar de derramar toda a sua ira anteriormente, com mais
intensidade e vigor. Será o dia em que Deus vai apresentar-se
como o justo juiz, e nenhum de nós vai poder imputar-lhe
qualquer injustiça e dizer que ele errou por ter sido severo ou
brando demais. Não, naquele dia ficará claro que tudo o que Deus
fez e permitiu que fizessem é perfeitamente justo; naquele dia
toda boca vai se calar.
Muitos podem dizer: “Ah, mas Deus não sabia que tal coisa ia
acontecer? Por que ele permitiu? Por que isso aconteceu comigo?
Por que criança sofre? Por que gente boa morre?”. Naquele dia
todo mundo vai obter as respostas a todos esses questionamentos.
Pode ser que agora nós não tenhamos todas as respostas, mas as
teremos no dia da revelação do justo juízo de Deus. Resta-nos
aguardar esse dia sem atribuir a Deus injustiça nenhuma, porque
não conhecemos todas as coisas como ele conhece em sua
onisciência.
Como vimos, trata-se de um dia que está no futuro. Não
sabemos quando será, e Deus o oculta de propósito, porque, se não
fosse assim, certamente muita gente esperaria para se converter
no dia anterior, deixaria para se arrepender dos pecados somente
na véspera, a fim de experimentar o pecado até o último
momento. Uma das razões pelas quais Deus não revela quando
esse dia virá é exatamente para que nós estejamos sempre
prontos. O Senhor Jesus contou uma parábola a esse respeito, na
qual afirmou que, se o dono da casa soubesse o horário em que o
ladrão viria, ele vigiaria a casa para não deixar que fosse
arrombada; mas, como não sabemos a que horas vem o ladrão,
vigiamos o tempo todo. O dia do Senhor será como um ladrão à
noite — nós não sabemos quando ele vem. A razão pela qual isso é
oculto de nós é para que nós estejamos sempre preparados para
esse dia, pois não sabemos quando ele virá.
Nesse dia o Senhor Jesus Cristo descerá do céu em glória e
será o juiz. A ele foi dado o poder de julgar, porque ele se tornou
um de nós, morreu na cruz por nós, pecadores, e recebeu todo o
poder, no céu e na terra, e porque ele é o Filho de Deus e o Filho
do Homem. Naquele dia, embora seja ele o juiz, não haverá
clemência, mas, sim, julgamento justo. Então, os mortos
ressuscitarão, desde Adão até o último que tenha morrido; os
vivos serão transformados; toda a humanidade comparecerá
diante do tribunal de Deus para o grande dia da ira e da
revelação do justo juízo de Deus. Esse é o ensinamento da Bíblia
do começo ao fim, e o apóstolo Paulo está apenas repetindo o que
os profetas de Israel disseram, o que o livro dos Salmos registra, o
que Moisés ensinou e o que o próprio Jesus ensinou quando
esteve aqui.
É preciso que um dia a justiça de Deus seja manifesta
claramente, um dia em que Deus dirá: “Estes são os meus filhos
perdoados dos seus pecados e salvos pela graça”. Aqui existe uma
tensão entre o já e o ainda não: quem crê em Jesus Cristo tem a
vida eterna aqui e agora, mas isso só será anunciado
publicamente no dia da revelação do juízo de Deus. Porque eu não
sei quem tem a vida eterna; não sei se você a tem, nem se aquela
pessoa que se senta ao meu lado no banco da igreja a tem; eu não
sou capaz de apontar com precisão quem vai para o céu e quem
vai para o inferno. Por isso, é preciso um dia público em que Deus
dirá: “Esses são aqui e aqueles são para lá”. Como o próprio Jesus
disse, naquele dia ele vai separar, vai colocar as nações diante
dele e dizer para um grupo: “Vinde, benditos de meu Pai” (Mt
25.34) e para o outro: “Malditos, afastai-vos de mim para o fogo
eterno, preparado para o Diabo e seus anjos” (Mt 25.41).
Então, é preciso que haja um dia em que essa separação seja
conhecida, porque por enquanto está tudo misturado. Mesmo
entre nós, na igreja, hápessoas que estarão em um grupo e outras
que irão para o outro. Eu não sei quem são, você também não. Por
isso, é preciso um dia em que essa separação será feita
publicamente, em que o joio será separado do trigo, um dia em
que fique claro que valeu a pena servir a Deus, assim como fique
claro quem é de Deus e quem não é. Esse dia se aproxima, quando
o julgamento será público, o veredito de Deus será declarado, a
justiça dele será vindicada e toda boca se calará diante da sua
justiça.
Um julgamento, duas sentenças
Ao falar do “dia da ira e da revelação do justo julgamento de
Deus” (2.5), o apóstolo Paulo acrescenta que Deus “retribuirá a
cada um segundo suas obras” (v. 6). Aqui estamos diante do
critério que Deus vai usar para retribuir a alguns uma coisa e a
outros outra coisa. O critério, que Paulo chama aqui de “obras”, é
uma referência àquilo que os homens praticaram, como
pensamentos, palavras, atitudes, omissões. O termo “obras”
expressa atitudes religiosas da parte do homem em obediência às
leis de Deus. A ARA traz a palavra “procedimento”, que tem o
mesmo sentido. Esse será o critério naquele dia, Deus julgará o
procedimento de cada um e retribuirá cada pessoa de acordo com
isso.
A retribuição de Deus será baseada no procedimento que as
pessoas adotaram aqui, nesta vida. Perceba que no dia do juízo
não haverá mais oportunidade para nada do tipo: “Deus, sei que
fui mau a vida toda, mas quero uma chance para mudar agora”. O
pedido não será atendido. Trata-se do momento final, e o que
estará em jogo será o que você fez enquanto estava vivo, enquanto
viveu em seu corpo neste mundo.
Não serão levados em consideração a raça, o gênero, a língua,
a posição social, a religião — não haverá nenhum tipo de cota
para ninguém. Deus julgará de acordo com o procedimento, de
acordo com as “obras” de cada um.
A primeira sentença do juízo de Deus é que “ele dará a vida
eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória,
honra e imortalidade” (2.7), algo que Paulo torna a mencionar
adiante, quando diz que Deus dará “glória, honra e paz a todo que
pratica o bem” (2.10). Então, qual será a retribuição de Deus? Em
primeiro lugar, ele dará vida eterna, glória, honra e paz a um
grupo. A vida eterna não é somente a vida sem fim, em contraste
com a morte eterna, mas é uma vida em comunhão com Deus, que
consiste em conhecer Deus e o seu Filho Jesus Cristo e viver
assim para todo sempre. A vida eterna é muito mais algo
qualitativo do que quantitativo. Quando pensamos em vida
eterna, pensamos em viver para sempre, mas a vida eterna na
Bíblia é mais do que isso; significa também viver em comunhão
com o Eterno, aquele que existe para todo o sempre. É nesse
sentido que a vida é eterna; é a vida no seu ápice, a vida além da
vida, e para sempre assim. Faltam adjetivos para qualificarmos o
inqualificável; não é à toa que o apóstolo Paulo, assim como
Pedro, ao tentar descrevê-la, fala de coisas indizíveis e cheias de
glória. Tentar definir a vida eterna seria uma dessas coisas
indizíveis.
Paulo diz também que Deus dará “glória, honra e paz” (2.10) a
todo o que pratica o bem. A glória aqui é a participação na glória
de Deus; a honra é ser honrado por Deus; e a paz é o shalom, o
reino de Deus esperado, o novo céu e a nova terra, onde não há
mais guerra, dor, angústia ou pecado; é a felicidade eterna. Tudo
isso está resumido na expressão “vida eterna”.
A segunda sentença do julgamento, porém, é que Deus “dará
ira e indignação aos egoístas, aos que obedecem ao pecado em vez
de obedecer à verdade. Trará tribulação e angústia a todo ser
humano que pratica o mal, primeiro ao judeu, depois ao grego”
(2.8,9). Paulo afirma que esse segundo grupo receberá a ira, o
desprazer, a indignação de Deus — pois está indignado com eles e
derramará sobre eles o seu justo juízo e castigo —, tribulação e
angústia profunda, indizível, interminável, incapaz de ser
compreendida. Se você já não consegue conviver com a angústia
deste mundo, saiba que ela é somente uma pequena amostra do
que será sentido no dia do juízo e no inferno, quando haverá uma
angústia que levará as pessoas ao desespero ou, como disse o
próprio Jesus, quando haverá “choro e ranger de dentes” (Mt
22.13). Deus vai retribuir a cada um segundo as obras, e o
resultado será apenas vida eterna para um grupo e ira,
indignação, tribulação e angústia para o outro.
De acordo com o que Paulo afirma nessa passagem, e mesmo
de acordo com o restante da Bíblia, não existe uma terceira opção,
como o purgatório, por exemplo. Deus não vai enquadrar alguém
como um servo “mais ou menos”, colocar essa pessoa para sofrer
por um tempo e depois deixá-la entrar no céu. Isso não está
registrado em lugar nenhum da Bíblia. Os resultados serão
apenas dois: céu ou inferno, usando a linguagem bíblica, vida
eterna ou ira eterna.
Observe também que não se fala na aniquilação ou extinção da
alma. Algumas pessoas acham que o castigo de Deus no dia do
juízo será extinguir a pessoa, fazendo com que ela deixe de
existir. Se fosse assim, não faria sentido Paulo falar em
tribulação, indignação e angústia, pois seres extintos não
sentiriam nada. O texto é perfeitamente claro ao afirmar que
todos estarão bem vivos e bastante conscientes.
Outro ponto importante é que Paulo não está dizendo que a
salvação é universal, que naquele dia Deus concederá a vida
eterna a todos. Há pessoas que defendem o universalismo, ou
seja, que no dia do juízo Deus vai perdoar os pecados de toda a
humanidade. Não há o menor fundamento bíblico para essa tese.
Repetindo, no dia do juízo dois resultados sobrevirão: vida eterna
ou ira eterna. Não há um terceiro, não há meio-termo, não há
extinção da pessoa, não há salvação universal. Há somente dois
estados, que serão eternos e irreversíveis. Por isso a importância
de você prestar atenção ao que está lendo, enquanto ainda tem
oportunidade. Uma vez pronunciado o juízo — e ele começa depois
da morte — não há volta, não há apelação, não há segunda
chance, não há recurso. Ele é final, definitivo e será aplicado
imediatamente, por toda a eternidade.
Esse é o assunto mais sério da sua vida. Não aja como se o
alvo da sua vida fosse arrumar um emprego, formar uma família
ou ter alguma profissão. Não estou dizendo que essas coisas não
sejam boas e que nós não devamos buscá-las; nada disso, porém,
terá valor algum no dia da ira e da revelação do julgamento de
Deus. Essa é, de fato, a coisa mais séria de sua vida. Se você não
repensar tudo isso agora, mais para frente descobrirá que passou
a vida inteira correndo atrás de coisas que não terão o menor
impacto quando comparecer diante do santo e justo Juiz. Por isso,
preste atenção ao que está escrito nessa passagem — não há nada
mais importante do que isso.
O efeito externo da fé
O apóstolo Paulo nos diz que Deus dará vida eterna aos que
perseverarem em fazer o bem, procurarem glória, honra e
imortalidade (v. 7). É isso que Deus levará em conta no dia do
juízo. Quando ele analisar as obras, dará a vida eterna àqueles
que perseveraram em fazer o bem e procuraram glória, honra e
imortalidade ou incorruptibilidade (ARA). Quanto ao outro grupo,
dará a ira eterna aos que têm coração duro e impenitente (2.5),
que são egoístas, desobedecem a verdade e seguem a injustiça
(2.8).
Naturalmente, o primeiro questionamento que esse texto
levanta diz respeito à salvação pela fé em Cristo Jesus, já que
sempre ouvimos que a salvação se dá pela fé em Cristo Jesus, e
não por obras. De fato, é assim. Nessa passagem, porém, o
apóstolo Paulo não está ensinando que a salvação vem por meio
de obras — nem poderia, porque estaria contradizendo o que ele
mesmo escreve, por exemplo, no terceiro capítulo de sua carta,
quando fala sobre justificação pela fé. O que Paulo está dizendo é
que a fé que salva é a fé que transforma a pessoa, que a leva a
perseverar em fazer o bem e a procurar glória, honra e
imortalidade ou incorruptibilidade.Ele está apenas analisando o
efeito externo da fé.
Quem crê em Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador
experimentou o poder do evangelho e vai direcionar sua vida para
perseverar em fazer o bem e buscar honra, glória e
incorruptibilidade. Dessa forma, é possível dizer que, naquele dia
do juízo, Deus dará vida eterna aos que agirem assim. Isso
ocorrerá porque eles são bonzinhos? Não, todos são pecadores
miseráveis. Eles receberão a vida eterna porque creram no
Senhor Jesus como Senhor e Salvador e, consequentemente, o
evangelho mudou a orientação de sua existência. A fé que salva é
esta: a fé que transforma, que nos leva a procurar o bem, a buscar
a incorrruptibilidade, a imortalidade, a buscar em primeiro lugar
o reino de Deus.
Tudo o que Paulo escreveu nessa epístola está em
concordância com o que escreveu o apóstolo Tiago. Há quem
queira colocar Paulo contra Tiago, alegando que Tiago disse que a
justificação se dá por obras e que Paulo disse que a justificação se
dá pela fé. Paulo e Tiago, no entanto, estão dizendo a mesma
coisa, porque a fé que salva é a fé que produz obras, que
transforma a vida da pessoa. De que adianta uma pessoa ser
religiosa, ir à igreja, abrir a boca para cantar louvores, fazer
declaração de fé, profissão de fé, ser batizada, mas não procurar
honra, nem incorruptibilidade, não buscar o reino de Deus em
primeiro lugar nem perseverar em fazer o bem? Essa fé pode
salvá-la? Eis a resposta de Tiago e a resposta de Paulo: Não!
Porque não é fé verdadeira. A fé verdadeira transforma o coração.
Por isso, no dia do juízo, o critério de Deus será esse, porque as
obras revelam o verdadeiro estado do coração.
Da mesma forma, Romanos 2.8,9 diz que os que vão receber a
ira serão aqueles que perseveram em fazer o mal, aqueles que são
egoístas (a ARA traz “facciosos”, mas “egoístas” é uma tradução
melhor do grego). A diferença entre os dois grupos é que a vida
dos componentes do primeiro grupo é orientada para Deus;
quanto ao segundo, composto por facciosos, egoístas, pessoas que
desobedecem à verdade e seguem a injustiça, a vida dos seus
membros é orientada para si mesmos. Eles passaram a vida toda
procurando o próprio bem, viveram para si mesmos, nunca se
preocuparam com as realidades à sua volta, nunca deram a Deus
o primeiro lugar, por isso praticaram e viveram iniquidades. E
Deus, portanto, vai retribuir-lhes de acordo com isso, como se
dissesse: “Não é isso que você quer? Não é isso que procurou a
vida toda? Você terá eternamente ira, indignação e angústia,
começando já, aqui e agora, neste mundo”. Quem vive para si
mesmo, pensando no aqui e agora, já experimenta angústia e
tribulação na sua alma. Somente quando vivemos para Deus é
que conhecemos paz, honra, glória e bênção no coração. No dia do
juízo, o critério será esse, lembrando que as atitudes revelam o
que está no coração, como disse o próprio Senhor Jesus: “Pelo
fruto se conhece a árvore [...] a boca fala do que o coração está
cheio” (Mt 12.33,34). No dia do juízo, Deus vai conhecer a árvore
pelo fruto. Você é crente mesmo? No dia do juízo, Deus vai
verificar isso pelo seu comportamento.
Conclusão e aplicações práticas
Esse é o assunto mais importante da minha vida e da sua, o mais
urgente para as crianças, para os adolescentes, jovens, adultos e
idosos, porque a nossa vida física, biológica, não está em nossas
mãos — a qualquer instante a morte pode nos alcançar e podemos
nos ver imediatamente diante do tribunal de Deus. Do tempo da
nossa morte até o tribunal pode ser muito rápido, porque não
sabemos quando será o Dia do Juízo. Mas depois da morte já
entramos numa pré-expectativa, num pré-sofrimento ou numa
pré-glória de gozo e alegria na presença de Deus, esperando o dia
da revelação do seu juízo.
Seu destino vai depender da sua atitude hoje, aqui e agora; vai
depender do estado do seu coração diante de Deus, do que você
pensa de Jesus Cristo, de Deus, da vida eterna. Os que creem em
Cristo são transformados pelo poder do evangelho: “Porque não
me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a
salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). O evangelho é um
poder que transforma o coração do pecador.
Assim, primeiramente eu gostaria de sugerir que você
examinasse a sua fé. Você crê em Deus de todo coração? Você crê
em Jesus Cristo como Filho de Deus, o Salvador do mundo? Do
fundo do coração, você reconhece que é um pecador, que violou a
lei de Deus e que, se ele derramasse sua ira sobre você, estaria
sendo justo? Você crê que a salvação é somente em Cristo Jesus e
que na cruz do Calvário ele derramou seu sangue precioso para
salvar pecadores como você e eu? Você crê na vida eterna, na
ressurreição dos mortos? Se você realmente crê nisso, examine o
seu procedimento, suas atitudes, seu modo de viver. Você persiste
em fazer o bem? Deus tem o primeiro lugar na sua vida? Você
busca a imortalidade, as coisas do reino de Deus? Eu estou
fazendo isso com urgência no meu coração.
Conta-se que o famoso pregador Dwight Moody, grande
evangelista, foi pregar na cidade de Chicago, em um grande
evento do qual participavam milhares de pessoas. Ele pregou a
respeito da salvação em Cristo Jesus e do juízo eterno. No meio do
sermão ele parou e disse: “Voltem no próximo sábado, que então
contarei a vocês como podem escapar do juízo de Deus”. Durante
a semana houve o famoso incêndio de Chicago, que queimou
metade da cidade e matou milhares de pessoas. Eu não sei o que
vai acontecer amanhã com você ou comigo, e é por isso que eu lhe
digo, como pregador do evangelho e ministro da Palavra de Deus:
leia a Bíblia, examine a sua vida, pergunte a si mesmo se a sua fé
é verdadeira e genuína, pergunte a si mesmo por que você não dá
a Deus o primeiro lugar na sua vida.
Eu não vou esperar outro momento para lhe dizer o que tenho
de dizer agora: se a sua consciência, se o seu coração lhe diz que
de fato alguma coisa está errada, que de fato alguma coisa não
confere, se o seu coração se enche de temor diante daquele grande
dia, venha a Cristo hoje, creia nele hoje, porque o fato de que você
está lendo este livro é uma prova de que a ira de Deus está sendo
mitigada, aliviada pela sua misericórdia e compaixão. “Buscai o
SENHOR enquanto se pode achar” (Is 55.6); “... eis, agora, o dia da
salvação” (2Co 6.2, ARA), em que você pode tomar essa decisão e
dizer: “Eu quero me arrepender dos meus pecados, mudar a
minha vida e servir a Jesus Cristo de todo o meu coração. Assim,
peço que me ajude, Deus; assim, peço que tenha misericórdia de
mim”. E lembre-se das palavras de Jesus Cristo: “... de modo
algum rejeitarei quem vem a mim” (Jo 6.37).
Que hoje seja o dia da salvação para a sua vida e, se você já
tem a certeza de que pela misericórdia de Deus recebeu o perdão
de pecados, hoje é um dia de louvor e gratidão, porque você viu o
que aguarda aqueles que rejeitam a graça de Deus no evangelho
de Cristo Jesus.
N
o capítulo anterior, Paulo
discorreu a respeito do dia
do juízo, o qual está para
vir sobre toda a humanidade
(2.6-11). O objetivo do apóstolo
foi demonstrar a condenação de
Capítulo 12
A LEI NO CORAÇÃO
Romanos 2.12-16
Deus se revela em seus preceitos
Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a
lei pecaram, pela lei serão julgados. Pois, diante de Deus, não são justos os que
somente ouvem a lei, mas os que a praticam; estes serão justificados. (Porque, quando
os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza, embora não
tenham lei, tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está
escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus
pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem.) Isso acontecerá no dia em que
Deus julgar os pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu
evangelho.
toda a raça humana. Ele
começou mostrando primeiro
que os pagãos, os gentios,
aqueles que não são judeus, que
nuncaouviram a Lei de Moisés
nem o nome de Deus, estão
condenados a perecer por causa
dos seus pecados. Depois disse
que não somente eles, mas
também os judeus e qualquer
outra pessoa, sob ou sobre a face
da Terra, está debaixo da
condenação de Deus. O Senhor
haverá de julgar as pessoas no
dia do juízo de acordo com o que
elas fizeram, de acordo com o
procedimento delas, tanto as que
nunca ouviram ou não
receberam a Lei de Moisés
quanto os judeus, que receberam
essa lei. A razão disso — e é
assim que Paulo termina a
passagem estudada no capítulo
anterior — é uma só: “pois em
Deus não há parcialidade”
(2.11), ou, como aparece em
outra tradução: “Porque para
ç q p
com Deus não há acepção de
pessoas” (ARA). Ou seja, o juízo
será absolutamente imparcial,
Deus vai julgar não de acordo
com aquilo que a pessoa
professa, mas de acordo com o
procedimento dela, com suas
obras, decisões, escolhas,
pensamentos, maneira de viver.
E Deus assim fará porque é justo
e não faz acepção de pessoas.
Mas alguém pode objetar a isso. Imagine a cena seguinte: um
judeu levanta a mão e diz: “Posso fazer uma pergunta?”. Paulo
consente. “Como Deus pode ser justo no dia do juízo, uma vez que
os judeus receberam a lei e por isso sabem o que fazer para
agradá-lo, ao passo que os pagãos, os gentios, aqueles povos que
vivem em locais distantes, onde nunca chegou a lei divina, a
revelação que Deus deu a Israel, não sabem nada? Como Deus vai
julgá-los com justiça? Como você pode dizer que Deus não fará
acepção de pessoas ou que o seu julgamento será perfeito?”
Na passagem destacada neste capítulo, Paulo responde a essas
indagações. Ele afirma que Deus é absolutamente justo e julgará
as pessoas de acordo com o conhecimento que elas têm, e esse
conhecimento é dado na forma da lei, como veremos nos
parágrafos seguintes.
Antes de entrarmos nos dois pontos centrais do que Paulo está
dizendo, vamos entender um pouco melhor o que é a lei. O nosso
Deus é um Deus santo, é o Criador do céu e da terra, é onipotente,
onipresente, onisciente, imutável no seu ser, perfeito em todas as
suas obras, justo em todos os seus caminhos. Ele tem uma
vontade, que é expressa naquilo que conhecemos como os Dez
Mandamentos, a lei divina escrita e dada ao povo de Israel por
meio de Moisés.
Desse modo, sabemos que Deus zela por sua pessoa e seu
nome, porque na lei está dito que não devemos tomar o nome dele
em vão e que não devemos adorar outros deuses a não ser ele (Êx
20.3,7). Sabemos, pela lei, que Deus estruturou a sociedade
humana com base em hierarquias de autoridade, pois ele manda,
por exemplo, que os filhos obedeçam a seus pais (Êx 20.12).
Sabemos também que Deus valoriza o casamento e estabeleceu
famílias, tanto que ele proíbe que o marido traia a esposa ou que
a esposa traia o marido (Êx 20.14). Estamos falando de um Deus
que deu coisas boas para a humanidade, para que pudéssemos
desfrutar delas; e sabemos disso porque ele disse, por exemplo:
“Não furtarás” (Êx 20.15), ou seja, não tire o que é do seu
próximo. Também sabemos que Deus nos ama e zela por nossa
reputação e nosso nome, porque na lei está dito: “Não dirás falso
testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.16).
Assim, a lei de Deus é a expressão de quem ele é, de sua
santidade, seu amor, sua misericórdia, do que ele gosta e não
gosta. Portanto, ela servirá de base para o juízo final. Deus
julgará nossas atitudes de acordo com a sua lei, verificando se
fizemos o que essa lei manda, se deixamos de fazer ou se fizemos
o que ela proíbe. Ele julgará de acordo com isso, portanto seu
julgamento será imparcial.
A questão é que alguns povos receberam uma revelação mais
clara da lei de Deus, como os judeus, por exemplo, que a
receberam de forma escrita e detalhada, enquanto outros povos,
como os amonitas, os moabitas, os egípcios, os mesopotâmicos, os
assírios, os medos, os persas, todos povos da Antiguidade, não
receberam essa lei. Essa é a grande questão. Como Deus julgará o
mundo se vai usar a lei como base? De que forma ele pode ser
justo em seu julgamento se uma parte da humanidade recebeu a
lei com clareza e outra não? Vejamos como Paulo responde a esses
questionamentos.
Conhecimento que determina o juízo
A primeira questão que Paulo coloca é que Deus de fato vai julgar
as pessoas de acordo com o conhecimento de cada uma: “Porque
todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos
os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” (v. 12). O termo
“porque” liga a afirmação ao versículo anterior, em que Paulo diz
que para Deus não há parcialidade. Compreende-se que, se para
Deus não há acepção de pessoas, todos que pecaram serão
julgados: “todos os que sem lei pecaram”, sem lei serão julgados e
condenados, ou seja, no dia do juízo, o pagão será julgado por
Deus sem a Lei de Moisés, enquanto “todos os que sob a lei
pecaram” — no caso, os judeus, porque receberam a lei — “pela lei
serão julgados”.
Assim, segundo o apóstolo Paulo, no dia do juízo, Deus julgará
cada um de acordo com a luz que recebeu. Ele não cobrará dos
gentios e pagãos o conhecimento da Lei de Moisés; no entanto,
quem teve tal conhecimento será julgado segundo o que conhecia.
Paulo aborda primeiramente a situação dos gentios, quando se
refere a “todos os que sem lei pecaram”. Mas como é possível falar
de pecado sem lei? Como é possível haver pecado, se não há lei?
Paulo já havia dito que os pagãos têm conhecimento da existência
de Deus e de que esse Deus está irado, porque eles — os pagãos,
os gentios, esses povos distantes — perverteram e rejeitaram a
revelação que Deus fez de si mesmo: “... a ira de Deus se revela do
céu” (Rm 1.18); “... os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e
divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e
percebidos mediante as coisas criadas” (Rm 1.20); mas os pagãos,
os gentios, mesmo “conhecendo bem o decreto de Deus, que
declara dignos de morte os que praticam essas coisas, não
somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam”
(1.32). Ou seja, mesmo que não tenham a Lei de Moisés, os
gentios têm um conhecimento básico inato que vem da natureza.
No mais profundo de sua consciência, todo ser humano sabe que
existe um Deus e que ele é santo; todos, instintivamente, sabem
que Deus não é a natureza, mas existe antes da natureza, criou
todas as coisas e, portanto, tem de ser adorado.
Por isso, todos nós temos que viver para ele e agradecer-lhe
por todas as coisas. Isso esses povos não fizeram e por essa razão
pecaram, não contra a Lei de Moisés, mas contra a consciência e
contra o conhecimento de Deus que está no coração de cada um e
que brilha ao redor na natureza. Então, no dia do juízo, quando
Deus julgar os pagãos, ele não vai lhes perguntar por que não
guardaram os Dez Mandamentos (“Dez Mandamentos? O que é
isso?”, diriam eles). Antes, Deus dirá ao pagão que ele sabia de
sua existência e que é o Criador de todas as coisas, mas preferiu
curvar-se diante de aves, quadrúpedes e répteis, os quais
transformou em falsos deuses, a adorar o Deus Altíssimo. Deus
afirmará que na consciência do pagão está gravado que ele é um
Deus santo e não pode ser confundido com as coisas criadas;
porém, o pagão nunca lhe deu graças, nunca o procurou nem o
adorou.
Essa é a base que Deus usará para julgar os povos pagãos e,
pelo que Paulo está dizendo aqui, o resultado é que nenhum deles
vai se salvar: “... todos os que sem lei pecaram, sem lei também
perecerão” (2.12). Perecer, nesse caso, significa ser excluído da
presença de Deus, condenado ao sofrimento eterno, o que
acontecerá a eles por terem rejeitado essa revelação e esse
conhecimento que Deus deu à consciência humana e na natureza.
Ou seja: Deus é justo e não julgará uma pessoa com base naquilo
que ela não sabia.
O caso dos judeus é diferente: “... todos os que sob a lei
pecaram, pela lei serão julgados”. Os judeus receberam a lei de
Deus de forma escrita, por meio de Moisés, o que envolveu não
somente os Dez Mandamentos,mas também uma série de outras
leis que refletiam o caráter santo de Deus e a sua vontade.
Todavia, os judeus violaram não somente os Dez Mandamentos,
mas também todas as outras leis recebidas. Eles desobedeceram à
lei de Deus e, portanto, pecaram debaixo da lei. Sabiam que
estavam agindo errado e assim mesmo perseveraram em suas
práticas degeneradas. Por isso, o apóstolo Paulo diz que eles serão
julgados pela lei. No dia do juízo, Deus dirá ao judeu que ele sabia
que estava escrito: “Não adulterarás” (Êx 20.14), mas adulterou;
que ele sabia que estava escrito “Não cobiçarás a casa do teu
próximo” (20.17), mas cobiçou; que ele sabia várias outras coisas
que estavam escritas na lei que Deus entregou por meio de
Moisés, e não colocou em prática nenhuma delas.
Deus não vai falar de Moisés para o pagão; para o judeu,
porém, o critério de julgamento será a lei. Em ambos os casos não
haverá salvação, porque nem o pagão andou de acordo com a luz
que recebeu, nem o judeu obedeceu à lei de Deus perfeitamente.
Assim, naquele dia, judeus e gentios serão julgados com justiça
por Deus, com base no conhecimento que tiveram, mas o veredito
será o mesmo: todos serão condenados e haverão de perecer
porque não viveram de acordo com a luz que receberam.
A essa altura, depois que Paulo afirmou que “todos os que sem
lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei
pecaram, pela lei serão julgados”, alguém poderia perguntar por
que motivo então Deus deu a lei. Vamos imaginar que seja a
mesma pessoa que fez as objeções do início deste capítulo.
Primeiro, essa pessoa levantou a questão da justiça de Deus no
dia do julgamento, porque uns receberam a lei e outros não. Paulo
respondeu dizendo que Deus as julgará de acordo com o
conhecimento que cada uma recebeu. Com base nisso, a pessoa
poderia perguntar por que Deus deu a lei, então, se no dia do
juízo tanto judeus como não judeus (que não receberam a lei)
serão condenados do mesmo jeito. Paulo responde que isso se deve
ao fato de que Deus julgará de acordo com o procedimento de cada
um, e não de acordo com o fato de ter recebido ou não a lei: “Pois,
diante de Deus, não são justos os que somente ouvem a lei, mas os
que a praticam; estes serão justificados” (2.13).
Os judeus gloriavam-se por terem recebido a lei de Deus e
todos os sábados escutavam a leitura dessa lei na sinagoga. Havia
um ritual impressionante: a lei era escrita em papiros e guardada
em um armário; quando começava o culto na sinagoga, no sábado,
os homens entravam e se sentavam, cumprindo toda uma
liturgia. As mulheres não participavam do culto, ficavam numa
espécie de galeria, observando tudo o que acontecia. Então, uma
espécie de assistente da sinagoga levantava-se, ia até o armário,
pegava a lei, a abria diante do povo e recitava o shemá — “Ouve, ó
Israel: o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4) — e
depois lia a passagem do dia. Jesus aproveitou-se dessas ocasiões
várias vezes para entregar mensagens ao povo. Os evangelhos
contam como ele entrava nas sinagogas e se levantava para ler e
explicar a Palavra de Deus. O assistente lia o trecho, fechava o
rolo e o guardava; então, o rabino se sentava e começava a
explicar o que tinha sido lido para o povo.
Isso acontecia todo sábado, e o judeu considerava que ouvir a
lei sendo lida e explicada era uma coisa meritória. Alguns
rabinos, cujos escritos foram registrados a partir do terceiro
século, depois que o templo foi destruído pelos romanos no
primeiro século, diziam que ouvir a lei era equivalente a oferecer
sacrifícios. Já que os judeus não tinham mais como oferecer
sacrifícios, porque o templo havia sido destruído, eles alternaram
para a sinagoga e passaram a dizer que ouvir a leitura da lei era
um ato de caráter tão redentor quanto o de oferecer sacrifícios no
Templo de Salomão. Paulo, nessa passagem, está justamente
combatendo os que somente ouvem a lei.
A segunda questão que Paulo coloca, portanto, é que a lei não
foi dada para ser ouvida somente — ouvir é o primeiro passo —,
mas para ser ouvida, compreendida e praticada. E, caso houvesse
alguém que pudesse praticar completamente todos os
mandamentos — não há, Paulo está falando hipoteticamente,
seguindo o raciocínio dos judeus —, essa pessoa seria justificada
diante de Deus. Mas tal pessoa não existe.
Portanto, Paulo está dizendo que o fato de os judeus terem
recebido a lei e fazerem a leitura dela todos os sábados na
sinagoga não os coloca em vantagem diante das outras pessoas. E
isso precisa ficar claro para nós, hoje também: frequentar uma
igreja, ouvir sermões todos os domingos, ler a Palavra e cantar
louvores não coloca ninguém em vantagem, muito pelo contrário:
o juízo será mais severo para estes.
Quem receberá o menor juízo será, em primeiro lugar, o pagão
ignorante; em segundo lugar, o judeu; e em terceiro lugar, o
cristão, porque este é o que tem mais luz, é o que recebeu mais, o
que ouviu mais, o que sabe mais, além de ter o Novo Testamento
(uma vez que o judeu só considera o Antigo Testamento). Se Deus
julgará de acordo com o que cada um recebeu, então estamos na
base da pirâmide, pois, por termos recebido mais conhecimento,
receberemos também a pior dose, o julgamento mais severo.
Frequentar uma igreja e ouvir sermões só aumenta a
responsabilidade, porque no dia do juízo Deus nos julgará de
acordo com a luz que recebemos, com todos os sermões que
escutamos, com todas as advertências que foram proferidas para
nossos ouvidos, com todos os convites que nos foram feitos. Tudo
isso será levado em consideração no dia em que eu e você
estivermos diante do Juiz dos vivos e dos mortos, Jesus Cristo.
Portanto, não são justos diante de Deus os simples ouvintes da
lei, mas, sim, aqueles que a ouvem, nela creem, praticam-na,
arrependem-se e andam no caminho de Deus.
Na sequência do texto, Paulo abre um parêntese (v. 14,15),
que explico mais adiante, pois optei aqui por tratar da
continuação lógica do que ele vem dizendo (v. 16). Recapitulando,
Paulo diz que quem pecou sem lei será julgado sem lei e quem
pecou com lei será julgado pela lei (v. 12); depois ele diz que ter a
lei não é vantagem, porque só ouvir não adianta, é preciso
praticá-la. Depois de uma breve digressão, ele conclui: “Isso
acontecerá no dia em que Deus julgar os pensamentos secretos
dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho” (v. 16).
Ou seja, naquele dia Deus julgará com justiça usando esse
critério.
Paulo ressalta nesse trecho algumas coisas interessantes a
respeito do juízo de Deus, e a primeira delas é que esse juízo será
por meio de Jesus Cristo. Por que Deus entregou o dia do juízo
nas mãos de Jesus Cristo? Para que a raça humana não possa
alegar coisas do tipo: “Não é justo eu ser julgado por um anjo” ou
“Não é justo eu ser julgado por ti, ó, Deus, porque tu não tens
ideia do que eu passo, tu estás aí na glória, és eterno, és espírito e
não tens paixões e necessidades como eu tenho”. Por isso, Paulo
assegura: quem vai nos julgar é um homem, igual a nós, Jesus
Cristo; a ele, que se fez carne, habitou entre nós, assumiu a
natureza humana, a ele Deus entregou todo o juízo, justamente
para que ninguém questione a integridade do juiz. É um de nós
que nos julgará, um membro da raça humana; ele se sentará no
trono e julgará com justiça.
A segunda afirmação que Paulo faz é que naquele dia serão
julgados os segredos dos homens, aquilo que não vemos, não
contemplamos e não ouvimos, mas que Deus conhece
perfeitamente. Naquele dia tudo virá à tona. Talvez Paulo esteja
se referindo aos moralistas (que ele já criticou em Romanos 2.1-4),
aqueles que ficam condenando os outros, mas praticam as
mesmas coisas que condenam, mesmo que isso não fique evidente,
já que esse comportamento está disfarçado sob uma capa de
piedade, de religião. No dia do juízo, porém, os segredos serão
manifestos e teremos muitas surpresas. Cristo haverá de julgar
todos esses segredos.
Naquele diatambém os que praticam a lei serão justificados e
os que não a praticam serão condenados. Vimos, no capítulo
anterior, que Paulo não está ensinando nenhuma doutrina de
salvação por obras, mas, sim, que uma pessoa que é salva pela fé
em Cristo Jesus deve andar em conformidade com a vontade de
Deus. Ela quer obedecer a Deus, quer andar de acordo com os
ditames da lei de Deus, enquanto aquele que não teme a lei de
Deus de todo o coração, que não crê em Jesus Cristo de fato,
viverá de acordo com as paixões da carne.
E isso, como diz Paulo, está “segundo o meu evangelho” (2.16),
ou seja, de acordo com a mensagem que ele prega. Não que Paulo
tivesse um evangelho diferente dos outros apóstolos. O fato é que
as pessoas o estavam criticando — como veremos com mais
detalhes adiante — porque diziam que ele pregava um evangelho
“água com açúcar”, ao ensinar que a salvação é pela graça e pela
fé em Cristo Jesus, e não pela lei. Por isso, Paulo faz questão de
ressaltar que o evangelho dele não está excluindo a lei, mas, sim,
colocando-a no seu devido lugar: ela será a referência, no dia do
juízo, para Deus avaliar a conduta de cada um que a conheceu.
A lei dos gentios
Ao dizer isso, Paulo sente a necessidade de explicar algo mais. Na
verdade, ele não escreveu a Carta aos Romanos de próprio punho,
conforme se pode ler no fim da carta: “Eu, Tércio, que redigi esta
carta, vos cumprimento no Senhor” (16.22). Muitos de nós
podemos ter a tendência de ficar imaginando Paulo sentado num
gabinete com um monte de pergaminhos, pensando e escrevendo.
O que os estudiosos imaginam que realmente aconteceu, porém,
foi mais ou menos o seguinte: Paulo andando de um lado para o
outro e falando, e Tércio, o secretário dele, escrevendo.
— Tércio, anota aí: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem
lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei
serão julgados” (v. 12). Escreveu, Tércio?
— Escrevi, Paulo.
— Agora escreve: “Pois, diante de Deus, não são justos os que
somente ouvem a lei...” (v. 13). Anotou?
— Anotei.
— Continuando: “Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os
pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o
meu evangelho”. Escreveu?
— Sim, Paulo.
— Pensando bem, do jeito que está, pode dar a impressão de
que o gentio não tem lei... Tércio, volta um pouco e coloca o que
vou dizer, porque os gentios também têm lei, e acho melhor
explicar isso.
Nós, estudiosos da Bíblia, também imaginamos que com as
demais cartas o esquema foi o mesmo. Paulo tinha amanuenses
ou secretários, que tomavam nota daquilo que ele falava, e ele
depois, é claro, fazia uma revisão completa de tudo.
Mas, afinal, o que Paulo quis acrescentar na parte em que ele
disse que no dia do juízo Deus julgará de acordo com a luz de cada
um? Ele quis dizer que os gentios têm lei. Veja que declaração
extraordinária: “(Porque, quando os gentios, que não têm lei,
praticam as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei,
tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige
está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua
consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os
defendem)” (v. 14,15).
Paulo já havia registrado que o que importa não é ter a lei e
somente ouvi-la, mas, sim, praticá-la. Agora, ele observa que isso
não significa que só os judeus tenham lei, mas, sim, que os pagãos
também têm. Paulo afirma que os gentios que não têm lei
procedem por natureza em conformidade com a lei (v. 14), porque
têm a norma da lei gravada em seu coração (v.15). O que Paulo
está ressaltando é que todas as pessoas têm um conhecimento
intuitivo do que é o certo e do que é errado, mesmo que nunca
tenham ouvido os Dez Mandamentos. Todo ser humano já nasce
com uma espécie de “GPS moral embutido de fábrica”, um guia
interno que aponta para o certo e para o errado. Todos nós
nascemos com essa bússola moral, porque somos criados por um
Deus que tem uma lei, uma vontade, e que faz distinção entre o
que é certo e o que é errado. A Bíblia diz que fomos criados à sua
imagem e à sua semelhança, e o fato de sermos pecadores não
apaga o referencial moral da nossa consciência. Assim, a norma
da lei está gravada no coração dos pagãos, que podem não ter a lei
escrita, mas a têm gravada no coração.
Paulo apresenta várias evidências de que “os gentios, que não
têm lei, praticam as coisas da lei por natureza” (v. 14). Em outras
palavras, é possível encontrar, mesmo entre os povos mais
primitivos, o cuidado com os idosos, a proteção dos doentes e das
crianças, o estabelecimento da família, as punições a ladrões. De
onde vem isso nas tribos mais isoladas? É claro que esse padrão
moral incutido nas pessoas não é idêntico em todo lugar e não é
absolutamente claro, mas existe esse senso de dever, de
responsabilidade, de cuidado, de proteção, de honestidade, de
heroísmo, de virtude, de bondade, de julgamento e de condenação
de coisas erradas. Esse senso existe em toda a humanidade,
mesmo entre povos que nunca ouviram falar de Deus ou nunca
tiveram acesso aos Dez Mandamentos.
Esse conhecimento do certo e do errado, ainda que relativo, é
universal. De onde ele vem? Da evolução? Acredito que não. Vem
do fato de que o nosso Criador é um Deus moral, santo, cujas
regras e normas imprimiu em nosso coração feito à sua imagem e
semelhança. Por isso, Paulo diz que os gentios às vezes procedem
em conformidade com a lei. Outra coisa que ele destaca como
evidência de que os gentios têm a lei é o seguinte: “(... tendo ainda
o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora
os acusam, ora os defendem)” (2.15). É como se Paulo dissesse
que, entre os gentios que não têm lei, vamos encontrar pessoas
que se sentem culpadas e pessoas que ficam se defendendo, pois a
consciência as acusa e defende ou então as justifica. Assim, esse
raciocínio, esse processo interno de avaliar ações e emitir um
juízo de valor é encontrado em todos os povos.
Preste atenção no testemunho de alguns pagãos, por exemplo,
os estoicos, que vêm de uma escola de filosofia que surgiu em
Atenas, no terceiro século antes de Cristo. Esses filósofos, que não
conheciam a Lei de Moisés, diziam que no universo operam certas
leis que o homem viola em prejuízo de si mesmo. Segundo esse
pensamento filosófico, essas são leis da natureza, e o homem deve
viver de acordo com elas. Um filósofo pagão formulou essa ideia!
Ele nunca tinha ouvido falar de Deus nem dos Dez Mandamentos,
mas reconhecia que há certas leis operando na natureza e que o
homem deve se guiar por elas.
Aristóteles, um dos filósofos gregos mais conhecidos, muitos
séculos antes de Cristo Jesus, disse o seguinte: “Os homens cultos
e de mente livre se comportam como se fossem lei para si
mesmos” (citado por W. Barclay, Romanos, in loco), que é
exatamente o que Paulo está dizendo nesse trecho da carta, isto é,
que os pagãos, já que não têm a Lei escrita de Moisés, servem de
lei para si mesmos, porque a norma está no coração.
Plutarco, um historiador e filósofo grego, disse:
Quem governará o governador? A lei, a rainha de todos os mortais e imortais, que
não está escrita em rolo de papiro ou tábuas de madeira, mas na própria razão,
dentro da alma, que mora perpetuamente com ele e nunca deixa sua alma privada
de direção moral (citado por W. Barclay, Romanos, in loco).
Quem disse isso foi um pagão, alguém que nunca ouviu a Lei
de Moisés.
Portanto, esse senso comum de justiça que existe em todo
lugar, essa consciência do certo e do errado, é a base com a qual
Deus julgará as pessoas no dia do juízo. Ou seja, naquele dia,
ninguém poderá alegar inocência, ninguém será salvo com base
na argumentação de inocência ou ignorância, ninguém poderá se
desculpar ou escapar do juízo de Deus, porque até os povos mais
rudes, que nunca ouviram falar do evangelho, têm conhecimento
do certo e do errado. Essas noções estão presentes em todas as
culturas. E de onde provém isso, se não justamenteda imagem de
Deus em nós?
Justo juízo para gentios e judeus
Deus julgará toda a humanidade de acordo com a luz da
consciência e da revelação, da norma da lei escrita na consciência
humana. O problema é que nenhum de nós segue
consistentemente as suas leis.
Vejamos um exemplo. Imagine um brasileiro que não queira
saber de religião, de Deus nem do evangelho. Ele tem um código.
Se alguém lhe perguntar:
— Você tem algum código moral?
— Sim — ele dirá —, acho que bater em mulher é um negócio
muito errado, não se deve bater em mulher nem com uma flor.
Esse é o meu código moral, eu sou um cara que respeita as
mulheres.
Nada impede, no entanto, que um dia ele venha a bater em
uma mulher. Ou seja, por menor que seja esse código, nunca se
vive de forma consistente com ele.
Vejamos outro exemplo. Há muita gente que diz assim:
— Sobre esse negócio de religião, eu penso que basta amar o
próximo.
— Então, vamos ver se você ama mesmo: Você respeita o nome
dos outros? Você já falou mal de alguém? Você já cobiçou a
mulher, o carro ou o emprego de alguém? Você já desafiou a
autoridade de alguém? Porque, se você já fez isso alguma vez,
violou a regra de que basta amar o próximo.
Ninguém consegue cumprir o seu próprio código de ética, pois
todos nós somos incoerentes e inconsistentes. Mesmo que o nosso
código de ética seja bem reduzido. ninguém jamais conseguirá
cumpri-lo por inteiro. Em resumo, a verdade é que você e eu
estamos condenados — não temos argumento diante de Deus, não
podemos pleitear inocência com base na ignorância, não podemos
dizer que não sabíamos.
Conclusão e aplicações práticas
Então, é nesse ponto que Paulo entra com o evangelho: se Deus
não nos perdoar, nos aceitar, nos justificar, nos livrar da nossa
culpa, nós seremos condenados. Pereceremos eternamente longe
de Deus, nas trevas e no sofrimento, para todo o sempre, se Deus
não agir e não tiver misericórdia de nós. O evangelho de Jesus
Cristo é exatamente isto: o Deus que vem salvar uma
humanidade perdida, condenada pela própria consciência, pelo
próprio conhecimento, que caminha para a condenação,
conscientemente, sem poder alegar nada em seu favor. Esse Deus,
que não tem obrigação de salvar ninguém, misericordiosamente
se fez um de nós. Na figura de Jesus de Nazaré, tomou a forma
humana, assumiu a humanidade plena e perfeita, viveu entre
nós, experimentou o que é ser gente, cumpriu a lei perfeitamente
e, por fim, na cruz do Calvário, ofereceu-se como pagamento por
nossa culpa, se nós de fato crermos nele como Senhor e Salvador.
Muitas pessoas acham que os povos pagãos, as tribos
indígenas, os povos remotos e primitivos são inocentes diante de
Deus. Mas isso não é verdade. Eles têm a lei — “o que a lei exige
está escrito no coração deles” (2.15) — e a quebram, e por esse
motivo vão perecer. Paulo escreveu essa carta justamente porque
queria mostrar à igreja de Roma por que ele precisava ir à
Espanha pregar o evangelho. Essa é a razão também pela qual
nós precisamos ensinar o evangelho aos nossos amigos; essa é a
razão pela qual enviamos missionários para evangelizar os povos,
porque, sem o conhecimento de Cristo, eles estão absolutamente
perdidos, pois não há inocentes. Esse mito do bom indígena
precisa ser eliminado do nosso meio; todos, mesmo os indígenas,
são indesculpáveis diante de Deus.
Há também os que precisam de encorajamento para
evangelizar. Como é difícil falar do evangelho! Às vezes você
percebe que há uma barreira, mas quero lhe sugerir uma ponte:
essa pessoa para a qual você está querendo testemunhar de
Cristo Jesus sabe que está errada, que não tem cumprido a lei de
Deus, ela sente culpa. É claro que ela disfarça, argumenta,
raciocina, racionaliza, procura não pensar nisso; mas, bem lá no
fundo, ela tem essa consciência, isso está gravado em seu coração.
Lá no íntimo, essa pessoa sabe que Deus existe e que ela está
fazendo coisas que não lhe agradam. Então, aproveite essa ponte
na hora da evangelização, quando você for conversar com seu
amigo.
Na maioria das vezes não é preciso chegar falando em termos
e nomes teológicos, perguntando se a pessoa sabe quem é Calvino
ou coisas do tipo. Comece com aquilo que você e a pessoa têm em
comum: o fato de que os dois são pecadores. Com isso você já
constrói uma ponte. Comece com a questão da culpa, da angústia,
da aflição, do medo, da incerteza: “Você sabe de onde vem isso?
Por que se sente assim?”. Pode ser que a pessoa até negue que
sente isso, mas você pode afirmar que ela sabe que alguma coisa
não está certa. Essa ponte pode ser usada para a comunicação do
evangelho e também, é claro, pode ser usada no campo
missionário, na fronteira da evangelização. Quero encorajá-lo a
testemunhar na escola, no ambiente de trabalho e no campo
missionário.
Aos pais que têm filhos pequenos ou adolescentes também
tenho algo a dizer. Como é difícil criar essa turma, não é mesmo?!
Saiba que seu filho já nasce sabendo que os pais estão certos e ele
está errado, e que ele ou ela vai fazer muita coisa errada. E pode
ter certeza de que aquele choro muitas vezes não é dor, não, é
birra mesmo. Seu filho já nasceu com essa consciência de que há
um Deus, e ele se sente inadequado. Mas ele ainda não sabe
expressar isso, dependendo da idade. À medida que for crescendo,
começará a entender esse desconforto interior que sente, porque
“até a criança se revela por suas ações” (Pv 20.11) e “A tolice está
ligada ao coração da criança” (22.15). Então, não olhe para o seu
filho como se ele fosse um anjinho. Para começar, é filho seu,
então não existe a possibilidade de ser anjo. Lembre-se de que ele
nasceu com a imagem de Deus e tem consciência do certo e do
errado, dois pontos que você vai querer usar na hora de educá-lo e
ensiná-lo nos caminhos do Senhor.
Isso tudo ajuda a nos entendermos melhor: por que sou como
sou; por que determinadas coisas tiram a minha paz; por que há
determinados procedimentos que a princípio parecem prazerosos,
mas depois trazem culpa ao meu coração; por que determinadas
coisas me incomodam; por que simplesmente não consigo ficar
calado diante do erro. A resposta é que a norma da lei está escrita
no meu coração e no seu. Fomos criados à imagem e semelhança
de Deus, somos seres morais.
O mundo anda dizendo ultimamente que a verdade é relativa,
que cada um faz sua própria norma, mas isso é uma grande
bobagem. Nem quem afirma tal coisa consegue viver com as
consequências dessa aberração. Se você der um beijo na mulher
do homem que está dizendo que não existe certo nem errado, na
mesma hora verá com certeza se ele acredita nisso! Nem os
relativistas conseguem viver com esse relativismo, porque o
relativismo vai contra a natureza humana. Existem princípios e
regras fundamentais, leis e verdades que pertencem à
humanidade como um todo, porque Deus nos fez à sua imagem e
semelhança. Desse modo, essa passagem nos ajuda a entender
por que somos assim e por que não conseguimos viver com base
no relativismo. Simplesmente porque somos seres morais criados
com a intuição do certo e do errado.
Nós, crentes, temos uma responsabilidade ainda maior, porque
temos a intuição do certo e do errado, a lei de Deus gravada no
coração, conhecemos a Lei de Moisés e o evangelho de Jesus
Cristo, ou seja, no dia do juízo, o julgamento será para nós muito
mais severo. Somente escutar a pregação todo domingo não vai
nos salvar; é um bom começo, porque a fé vem pelo ouvir a
Palavra de Deus, mas simplesmente frequentar uma igreja e
ouvir sermões todo domingo na verdade só aumenta a minha e a
sua responsabilidade. Sugiro que hoje pense no privilégio que é
ter todo esse conhecimento disponível diante de si pelo evangelho
e também na grande responsabilidade, no dia em que Deus
haverá de julgar os segredos dos homens por meio de Jesus
Cristo, segundo esse evangelho. Que Deus tenha misericórdia de
nós e que hoje possamos reconhecer a sua justiça e também a sua
misericórdia. Que sejaassim a nossa oração: “Senhor, se não
vieres nos salvar, nós estaremos perdidos. Tenha misericórdia de
nós, por amor de Jesus”.
É
importante começar a
exposição dessa passagem
lembrando um pouco da
história do Antigo Testamento.
Deus, há muito tempo, antes de
Cristo, apareceu a um homem
Capítulo 13
A HIPOCRISIA E SEUS DEFEITOS
Romanos 2.17-24
Escândalo em vez de bênção e salvação
Mas se tu te chamas judeu, te apoias na lei e te glorias em Deus; e conheces a vontade
dele, aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei, e estás convencido de que és
guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas, instrutor de ignorantes, mestre de
crianças, que tens na lei a formulação do conhecimento e da verdade. Tu, pois, que
ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar,
furtas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras? Tu, que abominas
os ídolos, rouba-lhes os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela
transgressão da lei? Pois, como está escrito, por vossa causa o nome de Deus é
blasfemado entre as nações.
chamado Abrão, que morava na
Mesopotâmia, e revelou-se a ele
como o único Deus verdadeiro.
Deus lhe fez promessas, deu-lhe
uma aliança e preceitos. Aos
descendentes de Abraão, Deus
revelou-se mais tarde mediante
a legislação, preceitos, normas e
promessas que foram dadas por
meio de Moisés, no monte Sinai.
O Senhor revelou a esse povo
descendente de Abraão o seu
amor, a sua aliança e o seu
propósito de, por meio dele,
alcançar o mundo inteiro com a
redenção que era necessária.
Israel — esse é o nome dado aos descendentes de Abraão —,
tendo recebido a verdade, o culto, as promessas e o verdadeiro
conhecimento de Deus, deveria levar esse conhecimento a todas
as nações, e um dia, de entre os filhos de Abraão, de entre a nação
de Israel, viria aquele que seria o Salvador do mundo, o Messias
prometido e esperado, que haveria de esmagar a cabeça da
serpente e oferecer-se como sacrifício pleno e completo pelos
pecados do povo de Deus. Em síntese, a religião que Deus revelou
aos filhos de Abraão era uma religião de graça, misericórdia,
amor e compaixão.
Os judeus, ao receberem os mandamentos, receberam junto
um sistema de sacrifícios nos quais se ofereciam animais, cujo
sangue era derramado com a finalidade de expiar os pecados
cometidos. Assim, quem entendeu com clareza o que Deus estava
fazendo no Antigo Testamento sabia que nunca seria salvo pela
obediência àquelas normas, mas que a salvação era mediante a fé
na promessa de Deus de que viria um Messias, um descendente
de Abraão, um descendente de Davi, que haveria de se oferecer
em sacrifício e morrer pelos pecados do povo de Deus. Quando o
judeu olhava aquele animal sendo morto no templo e o sangue
sendo derramado, ele, pela fé, contemplava o Messias que haveria
de vir.
Então, podemos dizer que no Antigo Testamento havia uma
religião — e aqui uso o termo “religião” não de forma pejorativa,
como é usado hoje, mas simplesmente para me referir a esse
sistema religioso dado por Deus naquela época — de fé e graça.
Nunca, jamais ninguém se salvou por obediência à lei ou pela
prática das obras da lei no Antigo Testamento. É importante
dizer isso, pois muitos evangélicos costumam dizer que no Antigo
Testamento imperava a lei e que no Novo Testamento impera a
graça. Na verdade, sempre foi graça que imperou. Davi foi salvo
pela graça, pela fé no Messias; Abrão foi salvo pela fé nas
promessas de Deus; os profetas também; todos os homens e
mulheres de Deus no Antigo Testamento foram salvos pela fé no
Messias que haveria de vir.
Mas o que aconteceu alguns séculos antes de Cristo foi que os
judeus perderam essa perspectiva e começaram a interpretar a lei
de Deus, os mandamentos, aquelas leis referentes à pureza, à
guarda de determinados dias, como fins em si mesmos. Eles
começaram a guardar as ordenanças da lei com o objetivo de
alcançar mérito diante de Deus e passaram a entender que o
caminho da salvação era a obediência estrita aos mandamentos
de Deus. Desse modo, eles não somente passaram a ter uma
compreensão errada da lei que Deus dera, mas também
adicionaram mais leis ainda, criaram preceitos e inventaram
normas que não haviam sido dadas por Deus por meio de Moisés
ou dos profetas.
Então, quando Jesus Cristo veio ao mundo, encontrou um
judaísmo deturpado, não mais a verdadeira religião que Deus
dera aos judeus. Foi por isso que Jesus condenou a arrogância dos
fariseus e contou, como já vimos aqui, aquela parábola do fariseu
e do publicano que subiram ao templo. Chegando lá, o fariseu,
gloriando-se, orava consigo mesmo, dizendo: “Ó Deus, graças te
dou porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos,
adúlteros, nem mesmo como este publicano” (Lc 18.11). Enquanto
isso, o publicano, que era um miserável pecador e não tinha
coragem sequer de olhar para o céu, dizia: “Ó Deus, tem
misericórdia de mim, um pecador!” (18.13). Jesus, então, conclui a
parábola perguntando quem Deus havia perdoado. E diz que não
foi o judeu arrogante, que pretendia por justiça própria ser
recebido, mas, sim, aquele publicano pecador que se humilhou e
reconheceu que precisava de misericórdia.
Jesus contou também a parábola do filho pródigo, o filho mais
novo de um homem rico que revolveu ir embora e desperdiçar
todos os seus bens. Certo dia, ele se arrependeu e voltou para
casa. O pai recebeu o filho com muita alegria, mas o irmão mais
velho do pródigo não gostou da atitude do pai, a quem questionou:
“Como é que o senhor recebe esse pecador miserável que gastou
tudo? Eu passei a minha vida toda cumprindo suas ordens e
nunca me deste nada!”. (A parábola está registrada em (Lc 15.11-
32). O filho mais velho representa os judeus. Jesus contou essa
história justamente para mostrar como o judeu tinha
compreendido de forma errada o propósito de Deus em lhes dar a
lei.
O evangelista Mateus registrou um discurso de Jesus contra o
farisaísmo, contra a hipocrisia dos judeus da sua época, que
colocavam fardos em cima dos homens, leis e mais leis, ao passo
que eles mesmos não queriam levantar sequer um dedo para
mover aqueles fardos (veja Mt 23).
Na passagem abordada neste capítulo, encontramos o apóstolo
Paulo, que tinha sido um judeu estrito, que seguia à risca as
normas e a lei, expondo a verdade a respeito do judaísmo da sua
época. Seu ponto central é exatamente mostrar que o judeu não
pode pensar que será tratado de forma diferente por Deus pelo
fato de este lhe haver concedido muitos privilégios que não
concedera a outros povos. E ainda pior era o fato de que o judeu,
mesmo tendo recebido de Deus a lei, a graça e as promessas, não
consegue viver coerentemente de acordo com as demandas da lei.
Em resumo, Paulo está querendo mostrar que Deus dera
privilégios à nação de Israel para que ela fosse uma bênção para
os outros povos, para que os judeus os recebessem com humildade
e os servissem. Mas o que eles fizeram? Acharam que aquilo era
um privilégio especial que fazia deles um povo diferente, e que
Deus usaria dois pesos e duas medidas no dia do juízo (alguns
rabinos chegavam a dizer que um filho de Abraão jamais seria
condenado ao inferno). Eles desprezavam os outros povos,
julgavam-nos e achavam que, porque tinham a lei de Deus,
seriam tratados de maneira diferente. Nesses versículos que
estamos analisando, o apóstolo Paulo critica essa falsa confiança e
a hipocrisia que há no fato de alguém viver de forma diferente do
que diz, exatamente como faziam os judeus da sua época.
Paulo mostra a gravidade desse ponto primeiro mencionando
os privilégios que Deus deu ao povo judeu (Rm 2.17-20). Depois,
Paulo denuncia a falsidade que os judeus viviam, pois eles
deveriam praticar o que ensinavam aos outros, mas, na verdade,
não praticavam. Para sua denúncia, ele escolhe três pecados
característicos do judaísmo da sua época (2.21-23). E termina
falando do efeito desastroso disso entre os povos: o nome deDeus,
que era para ser engrandecido pelos judeus, na verdade acabava
sendo enlameado (2.24).
Muitos de nós nos perguntamos o que isso tudo tem a ver
conosco. Sugiro que, durante a exposição da passagem, dirigida
primariamente aos judeus, coloque-se na posição deles, pois,
assim como os judeus, nós, os chamados cristãos, também
recebemos privilégios da parte de Deus: conhecemos a verdade,
fomos iluminados, recebemos o evangelho. Infelizmente, porém,
nossa conduta com frequência tem sido motivo de escândalo para
aqueles a quem deveríamos ser canal de bênção e de salvação. Em
vez de ler essa passagem e pensar, no íntimo, “Bem feito para os
judeus!”, deveríamos nos colocar no lugar deles, pois, no fim, essa
é de fato a aplicação da passagem para nós.
Os privilégios que Deus deu aos judeus
Paulo começa um diálogo com esse judeu fictício que representa
os demais, dizendo: “Mas se tu te chamas judeu, te apoias na lei e
te glorias em Deus; e conheces a vontade dele, aprovas as coisas
excelentes, sendo instruído na lei, e estás convencido de que és
guia dos cegos, luz dos que estão nas trevas, instrutor de
ignorantes, mestre de crianças, que tens na lei a formulação do
conhecimento e da verdade”. Na verdade, o apóstolo não tinha
diante de si nenhum judeu. Trata-se de uma diatribe. Conforme
já vimos antes, é um artifício de retórica em que, para tornar um
ensinamento mais claro, o autor imagina que está discutindo
determinado assunto com alguém. Então, lá estava Paulo em sua
casa, ditando essa carta para Tércio (que, como vimos, foi quem
registrou a Carta aos Romanos), e de repente começa a falar como
se estivesse discutindo com algum judeu. Nessa discussão
imaginária, Paulo lembra a esse judeu a atitude errada que ele
tinha com relação aos privilégios que recebera de Deus.
Ao começar com a frase: “Mas se tu te chamas judeu” (2.17),
Paulo quer mostrar como alguns se orgulhavam de poder se
chamarem judeus. Antes de concluir seu raciocínio, dizendo: “Tu,
pois, que ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo?” (2.21),
Paulo reforça a seriedade do que está dizendo, ao mostrar os
privilégios que o judeu recebeu. A primeira afirmação dele —
“Mas se tu te chamas judeu” — mostra que eles se gloriavam
disso.
A palavra judeu vem de Judá, a tribo mais proemi-nente de
Israel, onde estava situada a cidade de Jerusalém, que havia se
tornado o centro da religião judaica. O judeu gloriava-se de ser
chamado judeu porque esse nome designava a sua religião — eles
eram hebreus, mas sua religião era a judaica, que tinha seu
centro em Judá. Esse era um título que eles gostavam de
mencionar: “Eu sou Simão, o judeu”. Eles tinham orgulho de ser
chamados assim, pois isso apontava para o fato de que eles
tinham recebido de Deus a revelação única, a única religião
verdadeira. Paulo lista, então, alguns privilégios dados por Deus
aos judeus.
O judeu repousava na lei
Este é o primeiro privilégio que o apóstolo menciona: “Mas se tu
[...] te apoias na lei” ou, como está em outras versões, “repousas
na lei” (2.17, ARA). Repousar aqui quer dizer descansar no fato de
que Deus deu a lei aos judeus por meio de Moisés. O judeu achava
que isso era garantia de salvação, por isso repousava no fato de
ter recebido a lei. Para eles, o fato de Deus ter escolhido os
judeus, os descendentes de Abraão, para receberem a sua
revelação, significava que eram um povo especial e que Deus não
os condenaria mais. Por isso, achavam que podiam repousar, ficar
tranquilos, pois a salvação estava garantida.
O judeu gloriava-se em Deus
O segundo privilégio que o apóstolo menciona é este: “... e te
glorias em Deus” (2.17). De fato, o judeu podia se gloriar em Deus
porque fazia parte do único povo que havia recebido o
conhecimento do verdadeiro Deus; os demais deuses das outras
nações eram deuses falsos. Deus revelou-se somente a Israel, e o
judeu gloriava-se nisso. É como se o judeu pensasse o seguinte: “O
nosso Deus é o único Deus verdadeiro, os deuses pagãos são
deuses falsos, e o fato de o único verdadeiro Deus nos ter
escolhido significa que somos um povo especial, que não vamos
ser tratados como as demais nações”.
O judeu gloriava-se por conhecer a vontade de Deus
Paulo cita um terceiro privilégio, quando diz: “... te glorias [...] e
conheces a vontade dele” (2.17,18). De fato, o judeu conhecia a
vontade de Deus, que lhe fora revelada por meio das Escrituras
Sagradas, por meio de Moisés e dos profetas. Os outros povos não
tinham esse conhecimento; o que eles conheciam de Deus era pela
natureza e pela consciência (como já vimos no primeiro capítulo
de Romanos). Os judeus, portanto, receberam um conhecimento
da vontade de Deus muito mais claro e muito mais elevado na
forma da lei.
O judeu aprovava as coisas excelentes
Paulo prossegue, citando o quarto privilégio: “... aprovas as coisas
excelentes” (v. 18). Aqui há uma referência ao fato de que o judeu,
por saber o que era certo e o que era errado, podia aprovar o que
era certo, pois Deus lhe havia dito na lei: “Não faça isso, não faça
aquilo, faça isso, isso e isso”. Os outros povos não tinham esse
privilégio; embora tivessem uma consciência do certo e do errado,
ela não era tão clara como, por exemplo, os Dez Mandamentos, lei
em que o povo de Deus foi instruído com clareza quanto a que
determinadas coisas estão certas e determinadas coisas estão
erradas. Então, o judeu gloriava-se por saber reconhecer o que era
o certo e o que era errado, enquanto as nações pagãs viviam na
ignorância.
O judeu era instruído na lei
Paulo enumera o quinto privilégio, a saber, o fato de que o judeu é
“instruído na lei” (2.18) e gloria-se disso. O judeu tinha recebido a
Lei de Moisés, os rabinos a ensinavam e todo sábado ela era lida
nas sinagogas. Desde criança o judeu decorava a lei; aos 12 anos,
ele tinha o Bar Mitzvá, a festa de iniciação em que o menino
judeu tinha de recitar textos e mais textos da Lei de Moisés para
poder ser recebido na comunidade como adulto responsável. Tudo
isso era motivo de orgulho para o judeu.
O judeu era guia dos gentios cegos,luz dos que
estavam em trevas
O judeu era instruído na lei e tinha todo o conhecimento a
respeito de Deus. Por isso Paulo menciona o sexto privilégio: “...
estás convencido de que és guia dos cegos, luz dos que estão nas
trevas” (2.19). Ele estava certo, pois tinha recebido a luz de Deus,
a verdade a respeito dele, e os outros estavam em trevas, eram
como cegos sem conhecer a verdade divina; eram ignorantes da
verdade de Deus. Mas o judeu se via como superior, pois era o
guia desses cegos, era a luz desses povos que estavam em trevas.
O judeu era instrutor de ignorantes e mestre de
crianças
Paulo diz que o judeu se gloria de ser “instrutor de ignorantes”
(2.20). Os ignorantes aqui eram os povos gentios, os pagãos, que
não tinham conhecimento de Deus. Eles eram mesmo ignorantes
a respeito de Deus, e a nação de Israel tinha recebido a verdade
para ensiná-la aos outros. Deveriam fazer isso com muita
humildade, com gratidão a Deus, cientes de mais esse privilégio
que Deus lhes tinha dado. Porém, tornaram-se arrogantes porque
viam a si mesmos como mestres e aos outros como ignorantes,
pois eles é quem detinham todo o conhecimento. Pensavam assim
porque tinham a lei, na qual estava “a formulação do
conhecimento e da verdade” (2.20). A sabedoria e a verdade
haviam sido dadas ao judeu na forma da lei que receberam de
Moisés.
Qual é o problema nesse cenário? É a questão de que todos
esses privilégios eram reais: de fato, Deus só se revelou à nação
de Israel, a verdade estava com a nação judaica, a luz da verdade
estava com o povo judeu, e as promessas também. Eles haviam
sido colocados por Deus para ser luz para os gentios, instrutores
das nações, para levar a verdade de que existe um só Deus, único
e verdadeiro, e que ele haveria de enviar um Salvador para o
mundo. Isso estava certo. Mas qual era o problema na atitude do
judeu? O problema é queo judeu se vangloriava disso e achava
que Deus havia feito tais coisas por eles merecerem, por serem
uma raça mais elevada, superior aos demais povos. Por acharem
isso, tratavam com desdém e desprezo os outros povos.
Na leitura de testemunhos escritos por pagãos, gregos e
romanos dessa mesma época, é possível perceber que eles
odiavam os judeus, criticavam-nos, zombavam deles, porque os
judeus tinham a atitude de um povo superior, que não se
misturava com os outros, que condenava constantemente os
pecados dos gentios. Mas o pior Paulo ainda iria mostrar: esse
povo, tendo recebido todos esses privilégios, não tinha a menor
base para achar que estava salvo. O fato de receberem a lei e
terem sido o povo escolhido por Deus de entre os outros povos no
Antigo Testamento não era garantia de salvação, nem garantia de
que no dia do juízo eles seriam perdoados, tratados de maneira
diferente dos outros. Paulo aponta isso mostrando a incoerência
interna ou a incoerência que existia na prática e no pensamento
dos judeus da sua época.
Paulo denuncia a hipocrisia do judeu
Paulo, então, começou listando os privilégios dos judeus, e em
seguida passa a listar as atitudes deles, que mostram que não
estavam à altura dos privilégios que receberam.
O princípio geral era a pretensão deles de ensinar os outros,
mas não a si mesmos: “Tu, pois, que ensinas os outros, não
ensinas a ti mesmo?” (2.21). Era a primeira denúncia que Paulo
fazia nessa passagem, uma denúncia geral. É como se Paulo
dissesse: “Você, que ensina os outros, que acha que é um mestre
de crianças, instrutor de ignorantes, guia dos cegos, daqueles que
estão em trevas, você, que ensina os pagãos, que diz a eles que
estão errados, pois adoram falsos deuses, cometem pecados contra
Deus, por que você não ensina primeiro a si mesmo?”. Quando
Deus nos dá a verdade, ele quer que primeiro sejamos instruídos
por ela, para depois passarmos a instruir outros. Jesus havia dito:
“Por que vês o cisco no olho de teu irmão e não reparas na trave
que está no teu próprio olho?” (Mt 7.3). É necessário primeiro
tirar a trave do próprio olho para poder ver o cisco que está no
olho do outro. Paulo está dizendo a mesma coisa que Jesus, porém
com outras palavras.
O apóstolo lista, então, três situações. Não se sabe direito por
que Paulo escolheu estes três pecados em particular: roubo,
adultério e idolatria. Talvez porque esses três eram bem
destacados na Lei de Moisés, desvios que ela proibia com muita
veemência: o roubo, a desonestidade, o latrocínio, o adultério, a
imoralidade sexual e a idolatria. A Lei de Moisés era muito
rigorosa em relação a essas coisas, e o judeu sabia disso.
Outra razão provável é que essas práticas eram comuns no
judaísmo da época do apóstolo Paulo. Juntando as duas coisas,
talvez tenhamos a razão por que Paulo foca nesses três pecados
nessa passagem.
O judeu pregava contra o furto e furtava
“Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?” (2.21). Os judeus
na época de Paulo e no primeiro século eram conhecidos por
serem desonestos e trapaceiros nos negócios que faziam com os
gentios. Quando um judeu fazia negócio com outro judeu, aí sim
ele era honesto. Mas, como olhavam os gentios com desprezo, não
achavam que era errado, na hora de fazer negócios com eles, usar
de artifícios, silogismos e subterfúgios para tirar vantagem. Isso
era do conhecimento de muitos naquela época, e está presente nas
declarações de autores gregos e romanos que escreveram contra
os judeus. Todos sabiam que quem não era judeu precisava ter
muito cuidado na hora de fazer negócio com um judeu. Qualquer
judeu do primeiro século poderia ler essas linhas e dizer que essa
não era a realidade de todos os judeus, o que também é verdade.
Evidentemente, não estou generalizando, estou apenas dizendo
que naquela época era sabido — e há testemunhos disso — que
muitos judeus tinham essas práticas no comércio, quando faziam
negócios com outros povos. Entre eles havia respeito, mas com
outros povos sentiam liberdade para proceder de maneira
desonesta. Por isso Paulo está questionando o judeu, que pregava
aos outros: “Não furtarás” (Êx 20.15) — porque este é um dos
mandamentos da lei de Deus, que o judeu recebeu —, mas
furtava, usava de subterfúgios nos negócios, era desonesto em
suas transações e, ao mesmo tempo, ficava lá na sinagoga dizendo
que é proibido furtar.
O judeu pregava contra o adultério e adulterava
“Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras?”
(2.22). De fato, “Não adulterarás” (Êx 20.14) é o sétimo
mandamento da lei de Deus. Os judeus haviam recebido a lei,
sabiam que era verdadeira; eles a liam na sinagoga, falavam a
respeito dela, condenavam os gentios por viverem na imoralidade
sexual, mas eles mesmos também cometiam adultério. Há casos e
relatos de que era muito comum, em determinado período, esse
tipo de atitude entre rabinos, e que era por isso que a posição
preferida com relação ao divórcio, adotada pela nação de Israel
naquela época, é que o marido pudesse se divorciar da mulher por
qualquer motivo. Por isso uma vez questionaram Jesus a esse
respeito, porque a posição que em geral adotavam é que um
homem poderia abandonar a sua mulher alegando qualquer
motivo, quando a verdadeira razão era que ele queria ficar com
outra. Jesus condenou esse pensamento que se tornara comum
em seu tempo, e agora Paulo também faz o mesmo.
O judeu pregava contra os ídolos, mas roubava seus
templos
“Tu, que abominas os ídolos, rouba-lhes os templos?” (2.22). Os
dois primeiros mandamentos da lei de Deus condenam a idolatria:
“Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem
esculpida” (20.3,4). O judeu falava da idolatria, condenava a
idolatria que havia entre os povos pagãos, denunciava esse culto
falso a deuses estranhos, que eram representados por imagens.
Os templos pagãos eram cheios de esculturas feitas de ouro,
prata, pedras preciosas e materiais nobres. Também havia
utensílios usados nos cultos pagãos, como pás, colheres de prata,
facas, utilizados na alimentação e nos sacrifícios, tudo feito de
material precioso. O judeu dizia: “Isso é idolatria!” e nem sequer
entrava no templo pagão. Mas o que Paulo diz nesse versículo é
que o judeu condena a idolatria, abomina os ídolos, mas rouba os
templos. Paulo pode estar se referindo a duas coisas: primeiro,
que o judeu geralmente não entrava nos templos, mas, quando
fazia guerra contra os pagãos e saía vitorioso, entrava no templo
dos pagãos e saqueava seus ídolos. Quer dizer, ele era contrário
aos ídolos, mas, na hora de entrar no templo, pegar os ídolos
cheios de pedras preciosas, ouro e prata, não via problema. A
segunda coisa a que Paulo pode estar se referindo é o fato de
haver notícias de que, no comércio, os judeus, usando de práticas
conhecidas, eram capazes de comprar e negociar objetos
provenientes dos templos pagãos, utensílios sagrados. Mas aí é
como se Paulo dissesse: “Espera aí, mas isso não é idolatria? Você
não é contra? Então, você prega contra a idolatria, mas rouba os
templos pagãos, tira proveito das riquezas que estão nos templos
pagãos?”. O alvo de Paulo é mostrar a incoerência do judaísmo da
sua época, como eles não tinham a menor base para pensar que
receberiam de Deus um tratamento diferenciado.
Em resumo, os judeus se gloriavam na lei, mas a quebravam
sistematicamente: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela
transgressão da lei?” (2.23). Era isso que o judeu fazia, ele se
gloriava na lei dizendo que a havia recebido de Deus, que ele os
escolhera, lhes dera as promessas, a aliança, o culto, a verdade e
a luz. Mas, ao mesmo tempo em que se gloriava nessas coisas, ele
desonrava Deus transgredindo essa mesma lei. Isso é o que
chamamos de hipocrisia, dizer uma coisa e fazer outra.
Em decorrência desse mau testemunho, Paulo aponta: “Pois,
como está escrito, por vossa causa o nome de Deus é blasfemado
entre as nações” (2.24). O nome de Deus, que deveriaser
glorificado entre as nações por meio do testemunho dos judeus,
que deveria ser levado como salvação para os gentios que viviam
em trevas e na ignorância, estava sendo blasfemado (blasfemar
significa falar mal de alguém ou de algo). Então, os gentios
daquela época olhavam para o judeu com desprezo, exatamente
porque o judeu era a figura do hipócrita, aquela pessoa falsa, que
tinha uma moralidade de aparência, mas não a colocava em
prática. Consequentemente, acontecia o que vemos acontecer
hoje: “Olhe lá o evangélico, diz que é crente, mas tem a boca suja,
namora várias mulheres ao mesmo tempo, não é honesto nos
negócios etc. Mas todo domingo ele está na igreja, é membro da
igreja, participa da ceia”. Nós ouvimos isso hoje, e a mesma coisa
acontecia com o judeu da época de Paulo. O nome de Deus era mal
falado entre os povos em razão do mau testemunho daqueles que
diziam conhecer a Deus e a sua verdade. Deus os escolhera e lhes
concedera privilégios, mas eles destruíam com as mãos aquilo que
pregavam com a boca, porque pareciam ignorar o fato de que os
nossos atos falam mais alto do que as nossas palavras.
Conclusão e aplicações práticas
Os judeus não tinham nenhuma base para pensar que seriam
salvos só por terem recebido a lei e outros privilégios. Eles eram
tão culpados e condenáveis quanto os gentios, os pagãos que eles
criticavam e menosprezavam. Na verdade, o judeu estava em
uma situação até pior, porque “a quem muito é dado, muito será
exigido” (Lc 12.48) e, com esse argumento, Paulo está provando
um dos pontos principais da Carta aos Romanos: todos pecaram e
carecem da glória de Deus — tanto judeus quanto gentios.
Ninguém será salvo por mérito humano, ninguém merece de
Deus coisa alguma; todos se extraviaram, todos transgrediram a
lei divina, todos agem contra a luz que receberam da parte do
Altíssimo. Por isso, se Deus não nos salvasse mediante o
evangelho, todos nós estaríamos perdidos, pois não há salvação
em nós mesmos, não há como eu justificar a mim mesmo diante
de Deus, não há como eu receber de Deus um favor com base no
que eu sou, no que eu faço.
A moralidade não vai me salvar, porque ela é hipócrita; a
religiosidade não vai me salvar, porque ela é insuficiente. Não há
nada que eu faça que me justifique diante de Deus. Portanto, se
ele não tiver misericórdia de mim, se ele não me salvar, eu estou
perdido. Eis o evangelho — por isso que o nome é evangelho,
termo que no grego significa “boa-nova”, “boa notícia”. Deus teve
compaixão de nós; apesar do que foi feito pelos judeus, apesar do
que foi feito pelos povos pagãos, assim mesmo ele enviou seu
Filho Jesus Cristo, cumprindo todas as promessas que havia feito,
pois elas não são condicionais; são, sim, expressão do querer
eterno de Deus.
Cristo veio e na cruz do Calvário morreu pelos nossos pecados;
ele sofreu o nosso castigo, experimentou a nossa punição, foi
castigado em nosso lugar, e agora Deus pode livremente justificar
pecadores como você e eu, nos receber como seus filhos, nos dar
pleno perdão e, finalmente, a vida eterna e a salvação. Isso é o
evangelho. Mas ele só pode ser entendido se você primeiro
entender que está perdido, por mais religioso que seja. Por mais
que tente, não há nada em você que mereça redenção, e o
evangelho é exatamente a boa notícia de que Deus salva
pecadores.
Se ainda não compreendeu a graça e a misericórdia de Deus,
desejo que hoje você se volte para ele. A salvação não é
condicionada à sua bondade humana. Talvez imagine que não há
jeito de você ser salvo, pois já pecou demais ou encontra-se numa
situação muito terrível. Mas a salvação veio exatamente para
pecadores, pois isso é o que você e eu somos. Cristo não veio para
justos, pois, afinal, quem precisa de médicos são os doentes.
Então, não há nada de mal que você tenha cometido que possa
afastá-lo do amor e do perdão de Deus que há em Cristo Jesus.
Diga apenas: “Deus, eu sou um pecador e reconheço que tenho
pecado contra ti, tenho quebrado a tua lei, não mereço nada a não
ser a tua condenação. Mas hoje quero me entregar de forma
plena, sem restrições e incondicionalmente a Jesus Cristo, meu
Salvador, que na cruz pagou toda a minha culpa”. Você pode fazer
isso hoje, e a salvação o alcançará.
Nós, que um dia já fizemos isso, vamos orar como o salmista:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece
os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e
guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23,24). “Não fiquem
frustrados por minha causa os que esperam em ti, ó SENHOR, Deus
dos Exércitos; não passem vexame por minha causa os que te
buscam, ó Deus de Israel” (Sl 69.6). Que nós não sejamos motivo
de tropeço para aqueles que estão em trevas, que ainda não
receberam a luz da verdade. Examine a sua vida, peça a Deus
renovação, quebrantamento e transformação, porque ele quer um
povo que seja luz e bênção para todos.
C
omo contei no capítulo
anterior, muitos séculos
antes de Cristo, Deus
apareceu a um homem de nome
Abrão, um caldeu que morava
numa cidade chamada Ur, na
Mesopotâmia, na bifurcação dos
Capítulo 14
A VERDADEIRA CIRCUNCISÃO
Romanos 2.25-29
Deus anseia pelo convertido de coração
Porque, de fato, a circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei; mas se és transgressor
da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão. Então, se os que são da
incircuncisão cumprirem os preceitos da lei, não serão eles mesmos considerados
circuncisos? E, se cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão, ele
julgará a ti, que és transgressor da lei com a letra e a circuncisão. Porque judeu não é
quem o é exteriormente, nem é circunciso quem o é apenas no exterior, na carne. Mas
judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do coração, realizada pelo Espírito, não
pela letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.
rios Tigre e Eufrates. Abrão era
um idólatra, um astrólogo preso
às superstições e à ignorância
das religiões daquela época (a
palavra Abrão significa “pai
elevado”, que alguns intérpretes
atribuem ao fato de ele elevar os
olhos e consultar as estrelas).
Um dia, soberanamente, Deus, o
único Deus verdadeiro, apareceu
a esse homem. (“Por que a ele e
não a outro?”, talvez você se
pergunte. Bem, isso está nos
desígnios soberanos do
Altíssimo.) Enfim, Deus fez
algumas promessas a Abrão e
também estabeleceu uma
aliança com ele. Mandou que
saísse de onde vivia com seus
parentes e, deixando tudo para
trás, fosse para uma terra
desconhecida. O Senhor
prometeu que daria aquela terra
a ele e a seus descendentes;
garantiu que ele seria o pai de
uma grande nação e que ele
seria abençoado por Deus; seus
ç p ;
filhos seriam uma bênção para
todas as nações e, um dia, de
entre seus filhos, surgiria aquele
que haveria de ser o Messias, o
Salvador do mundo. Sem dúvida,
foi um grande privilégio que
Deus deu a esse homem!
Mais adiante, Deus mudou seu nome de Abrão (“pai exaltado”)
para Abraão (“pai de multidão”) e estabeleceu uma marca que
haveria de selar sua aliança com ele e identificar os seus
descendentes: a circuncisão, isto é, a remoção da pele do prepúcio
de todos os meninos de sua linhagem. Quando o recém-nascido
completasse oito dias de vida, teria de ser circuncidado, pois essa
era a marca da aliança que Deus fizera com Abraão e seus
descendentes. Esse era o sinal da aliança e da fé que o patriarca
demonstrava, porque Deus lhe apareceu, e Abraão, por sua vez,
obedeceu ao chamado divino. Ele saiu da terra de seus pais em
direção à terra desconhecida que Deus lhe prometera, foi
circuncidado já idoso, circuncidou os da sua casa e também
submeteu todos os seus descendentes a esse ritual. A circuncisão
tinha como objetivo identificar o hebreu — hebreu é filho de
Abraão, também chamado de judeu ou israelita.
Essa marca que Deus mandou que Abraão colocasse em si e
em seus descendentes era um símbolo que, na verdade,
simbolizava a conversão interior, um coração temente a Deus, um
espírito submisso a ele, umavida de obediência ao Senhor. Era
isso que a circuncisão pretendia ensinar aos descendentes de
Abraão.
Moisés, muitos anos depois de Abraão, quando deu a Lei aos
filhos do patriarca hebreu, disse: “Circuncidai o vosso coração” (Dt
10.16). A circuncisão era só uma marca que representava o que
Deus quer de verdade, ainda hoje: a circuncisão do coração. Em
outro trecho de Deuteronômio, Moisés abordou isso uma vez mais:
“O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração, e o coração da
tua descendência, a fim de que ames o SENHOR, teu Deus, de todo
o teu coração e com toda a alma, para que vivas” (Dt 30.6). A
circuncisão era um símbolo da conversão do povo, aquela ação de
Deus no interior, porque só assim o judeu poderia amar a Deus de
todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento.
Jeremias, ao proferir uma de suas profecias, certa vez dirigiu-
se ao povo de Deus, aos descendentes de Abraão, e disse:
“Circuncidai-vos ao SENHOR e circuncidai o coração, ó homens de
Judá e moradores de Jerusalém” (Jr 4.4). Toda vez que os
descendentes de Abraão não queriam obedecer a Deus e deixavam
de lhe demonstrar amor, os profetas referiam-se a eles como
sendo incircuncisos. Por exemplo, o próprio Jeremias chegou a
denunciar: “Eis que os seus ouvidos estão incircuncisos e não
podem ouvir” (Jr 6.10, ARA). Em outras palavras, a circuncisão
era uma marca aplicada no corpo, mas simbolizava uma operação
espiritual, que era feita no coração. O que Deus queria na
verdade é que seu povo fosse convertido de coração, que fosse
submisso a ele, que o amasse e vivesse para glorificá-lo.
Na época de Jesus e de Paulo, séculos depois que a circuncisão
havia sido dada como a marca da aliança com Abraão, os judeus
já haviam esquecido o que ela simbolizava. Com o passar do
tempo, eles começaram a ver a circuncisão apenas como a marca
do povo eleito de Deus e a acreditar que o Senhor dos Exércitos
jamais condenaria ao inferno quem fosse circuncidado. Havia
rabinos que afirmavam que Deus jamais mandaria para a geena,
ou inferno, quem houvesse recebido a marca da circuncisão.
Portanto, o judeu vangloriava-se disso, uma vez que era
circuncidado, e a circuncisão para ele era sinônimo de garantia da
vida eterna e de felicidade depois da morte. Tanto é que eles se
referiam de forma pejorativa aos povos não circuncidados como
“esses incircuncisos”, que estavam condenados e destinados ao
inferno, de cujo fogo eram o combustível. O judeu ortodoxo orava
agradecendo a Deus por não ter nascido cachorro, nem gentio
incircunciso; agradecia a Deus por fazer parte do povo da aliança,
por ter a marca da circuncisão, a qual garantia, segundo seu
entendimento, sua entrada no céu.
Um fato bastante conhecido ilustra a mentalidade dos judeus
da época de Jesus e do apóstolo Paulo. João Batista foi mandado
por Deus para anunciar a chegada do Messias e começou a pregar
o evangelho, dizendo que seus ouvintes deveriam se arrepender
dos seus pecados, porque a vinda do Salvador estava próxima. No
evangelho de Mateus vemos que muitos judeus chegavam para
ser batizados e ouviam o seguinte de João: “Raça de víboras,
quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi fruto próprio de
arrependimento. Não fiqueis dizendo a vós mesmos: Abraão é
nosso pai! Eu vos digo que até dessas pedras Deus pode dar filhos
a Abraão” (Mt 3.7-9). João Batista estava exortando o povo para
que este se arrependesse, mas havia muitos entre os judeus que
queriam ser batizados por João Batista, sem, porém, se
arrepender. João Batista foi bem taxativo ao afirmar que eles não
deveriam ficar pensando que seriam salvos de qualquer maneira,
apenas porque eram filhos de Abraão e foram circuncidados ao
nascer. Segundo ele, Deus, se quisesse, poderia usar até pedras
para dar filhos a Abraão.
Outro episódio que mostra como os judeus se achavam
superiores por causa da circuncisão está relatado mais adiante,
quando Jesus teve uma discussão com os religiosos de sua época
referente a esse mesmo assunto. Os judeus lhe disseram coisas
como:
Somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; por que dizes:
Sereis livres? [...] Nosso pai é Abraão. Mas Jesus lhes disse: Se fôsseis filhos de
Abraão, estaríeis fazendo as obras de Abraão. [...] Mas agora procurais matar-me
[...] Vós fazeis as obras de vosso pai. Eles reagiram: Não somos filhos de prostituição.
Temos um Pai, que é Deus. [...] O vosso pai é o Diabo, e quereis satisfazer-lhe os
desejos (Jo 8.33,39,40,41,44).
Nas épocas de Jesus e do apóstolo Paulo, os judeus achavam
que, pelo fato de serem descendência de Abraão e terem a marca
da circuncisão, a salvação deles estava garantida. Com isso,
descansavam na circuncisão e na lei que haviam recebido e
viviam de forma incoerente. Jesus denuncia isso em Mateus 24,
chamando-os de hipócritas, porque aparentavam ser uma coisa
para os homens, mas na verdade quebravam tudo aquilo que
ensinavam.
Neste capítulo do nosso estudo de Romanos, vamos tratar de
uma passagem em que encontramos o apóstolo Paulo discorrendo
nessa mesma linha de João Batista e Jesus. Ele se dirige ao povo
judaico e fala sobre duas coisas: primeiro, que a circuncisão não
salvará o judeu (2.25-27); segundo, o que significa ser judeu de
verdade, ou, em outras palavras, quem é o verdadeiro judeu
(2.28,29). O objetivo de Paulo é mostrar que os judeus estarão
perdidos e condenados diante de Deus se não se arrependerem e
crerem em Jesus Cristo. No capítulo anterior, vimos o apóstolo
afirmar que o fato de que eles receberam a lei não é garantia
nenhuma de salvação, porque eles quebram a lei. Agora, Paulo
continua a atacar essa falsa certeza de salvação dizendo que a
circuncisão não lhes garante que sejam salvos.
A circuncisão não salvará o judeu
Vejamos, uma vez mais, o que diz Paulo no início dessa passagem:
Porque, de fato, a circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei; mas se és transgressor
da lei, a tua circuncisão tornou-se incircuncisão. Então, se os que são da
incircuncisão cumprirem os preceitos da lei, não serão eles mesmos considerados
circuncisos? E se cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão, ele
julgará a ti, que és transgressor da lei com a letra e a circuncisão (2.25-27).
O ponto central do argumento de Paulo nesses versículos é que
a prática da lei é mais importante do que a circuncisão em si. Mas
o que é praticar a lei? Veja que três vezes Paulo fala disso: “... a
circuncisão é proveitosa, se cumprires a lei” (v. 25); “... se os que
são da incircuncisão cumprirem os preceitos da lei” (v. 26); “E se
cumprir a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão...” (v.
27). Então, o que Paulo quer dizer por cumprir a lei? (Em outras
versões aparecem termos como “guardar”, “praticar” e “observar”
a lei.) A resposta é que, na verdade, ele não está se referindo à
guarda legalista e rigorosa da Lei de Moisés nem à prática
meritória dos mandamentos do Antigo Testamento pela
observância de coisas como: “você não pode comer isso, não pode
comer aquilo; deve guardar esse dia, guardar aquele outro; seguir
as leis de purificação, as leis cerimoniais” etc. Guardar, observar,
praticar e cumprir a lei não se refere a nada disso. Paulo está se
referindo aqui a praticar e cumprir a lei como ela deveria ter sido
guardada e praticada.
Quando Deus deu a lei a seu povo, não tinha por objetivo que
ela se tornasse um caminho de salvação do tipo: “Se vocês
cumprirem todos esses rituais, vocês irão para o céu”. Não. O
objetivo da lei era mostrar ao judeu que ele era um pecador, que
não podia cumpri-la, e era também apontar para a necessidade da
vinda do Messias. É por isso que a própria lei estabelecia o
sacrifício de animais, o derramamento de sangue para perdão de
pecados, porque já era sabido que o judeu não conseguiria
cumprir a lei. Não é interessante isso? É como se Deus tivesse
dado a lei e dito: “Aqui estão os Dez Mandamentos” e, em seguida:
“Mas vocês vão oferecer sacrifícios”.Já se perguntou por que Deus
estabeleceu os sacrifícios? Porque ele sabia que nenhum judeu
guardaria a lei, eles iriam transgredir toda a lei, todas as normas
da lei; por isso, ela já trazia embutida a graça e o perdão de Deus
por meio dos sacrifícios.
Guardar e cumprir a lei não era seguir rigorosamente, com
precisão, o que a lei mandava, mas entender o propósito da lei,
que fora dada a Israel por meio de Moisés, ou seja, que Deus é
bom, gracioso, que eu sou pecador, não mereço nada dele, mas ele
me oferece perdão por meio do Messias, o Filho de Abraão que
haverá de vir ao mundo para perdoar os meus pecados. Os
sacrifícios tipificavam essa ideia. Assim, o judeu de verdade,
aquele que temia a Deus, guardava a lei, observava seus preceitos
como gratidão a Deus, aproximava-se dos sacrifícios em fé, olhava
para aqueles animais sendo sacrificados e ali confiava a sua
esperança, dizendo: “Deus, sei que sou perdoado por causa desse
sangue derramado, que representa o sangue do Messias que
haverá de vir”. É isso que significava guardar a lei de verdade,
porque o propósito da lei era mostrar Jesus Cristo. Desse modo, o
verdadeiro judeu era aquele que entendia que a salvação era pela
fé no Messias, não pela guarda meritória dos propósitos ou das
normas, instituições e preceitos da lei. Esse é objetivo de Paulo
aqui quando fala em prática ou cumprimento ou observância da
lei. O centro da lei era crer em Jesus como o Messias prometido
por Deus e tipificado no Antigo Testamento.
Quem ensinou isso foi o próprio Jesus. Em João 6, há um
episódio em que os judeus perguntaram a Jesus o seguinte: “Que
faremos para realizar as obras de Deus?” (6.28), ou seja, o que
deveria ser feito para cumprirem a vontade de Deus, para
guardarem as obras de Deus. Jesus respondeu: “A obra de Deus é
esta: Crede naquele que ele enviou” (6.29), isto é, creiam em
Cristo. Os judeus estavam esperando uma resposta mais ou
menos assim: “Guardem os mandamentos, cumpram os rituais,
ofereçam os sacrifícios”. Mas a resposta de Jesus foi: “Vocês
querem fazer a vontade de Deus? Querem saber quais são as
obras da lei? Querem saber o que Deus exige de vocês? Que
creiam em mim, creiam que eu sou o Messias. É isso que Deus
quer de vocês e essa é a substância da lei, o centro da religião do
Antigo Testamento”. O verdadeiro judeu era aquele que cria no
Messias que haveria de vir e que o reconheceu quando ele veio.
Diante disso, agora Paulo destrói a falsa esperança do judeu de
ser salvo por ser filho de Abraão e ter sido circuncidado.
Nesse trecho, Paulo apresenta quatro argumentos. Vejamos o
primeiro: “Porque, de fato, a circuncisão é proveitosa, se
cumprires a lei” (2.25). A circuncisão só tem valor se o judeu
praticar a lei, mas apenas se praticá-la como deve. Em outras
palavras, a circuncisão só vale se o judeu crê no Messias, que é
Jesus Cristo. Só assim terá algum valor, porque ele é do povo a
quem a vinda do Messias foi prometida. Mas, se ele não crê no
Messias, é transgressor da lei, e sua circuncisão não vale nada, é
simplesmente uma marca. Ou seja, mais importante do que ser
circuncidado é cumprir a lei, obedecer ao propósito da lei, que é
este: arrepender-se dos seus pecados e crer em Jesus Cristo como
o Messias prometido. Se a pessoa não fizer isso, não terá valor
algum sua circuncisão, nem ser filho de Abraão, nem oferecer
sacrifícios; toda a sua religiosidade de nada valerá.
O segundo argumento de Paulo está no fim desse mesmo
versículo: “... mas se és transgressor da lei, a tua circuncisão
tornou-se incircuncisão” (2.25). Se o judeu não crê que Jesus
Cristo é o propósito da lei, o fim da lei, a circuncisão dele virou
incircuncisão, e ele é igual a um gentio. Não há diferença entre
um judeu que não acredita em Jesus e um pagão que não acredita
em Jesus: ambos estão no mesmo nível. A circuncisão virou
incircuncisão, porque ela só faz sentido se o circuncidado praticar
a lei; se não houver prática, a circuncisão não serve
absolutamente de nada.
O terceiro argumento traz o outro lado da moeda: “Então, se os
que são da incircuncisão”, ou seja, os gentios, que não são
circuncidados, “cumprirem os preceitos da lei”, cumprindo-a como
deve ser cumprida, crendo em Jesus como Salvador, “não serão
eles mesmos considerados circuncisos?” (2.26). A resposta é: Sim!
Paulo está dizendo que, quando, por exemplo, um brasileiro, que
não é judeu, crê em Jesus Cristo como Senhor e Salvador, ele
passa a ser considerado judeu, tornando-se parte do povo ideal de
Deus. Ele não é circuncidado externamente, mas, sim, no coração,
e essa é a circuncisão que vale. Então, da mesma forma que um
judeu pode virar um gentio porque não pratica a lei, o gentio que
cumpre a lei vira judeu. O que Paulo quer dizer é que tanto faz se
é judeu ou não judeu, o que importa é a fé depositada no Messias
que é anunciado na lei. Se alguém não crê nele, com ou sem
circuncisão, está condenado diante de Deus. Paulo quer quebrar a
confiança que o judeu depositava naquela marca exterior.
O quarto argumento está no versículo seguinte: “E, se cumprir
a lei aquele que, por natureza, é da incircuncisão, ele julgará a ti,
que és transgressor da lei com a letra e a circuncisão” (2.27). Os
judeus ficavam bastante irritados com o apóstolo Paulo por causa
de declarações desse tipo. Não por acaso, Paulo foi perseguido,
apedrejado, assediado, denunciado, preso, chicoteado, considerado
morto, rejeitado pelo seu povo. Ele dizia aos judeus que sem
Cristo a religião deles não valia nada e que no dia do juízo, ao
contrário do que pensavam — que seriam salvos e condenariam
as nações —, aquelas nações que creram em Jesus Cristo seriam
juízes de Israel, isto é, todos eles seriam julgados pelos gentios
que creram em Jesus. Paulo dizia que Deus os julgaria, apesar da
circuncisão a que se submeteram.
O que significa ser judeu de verdade
Na segunda parte da passagem, Paulo explica por que tanto faz
ser judeu ou gentio e como a conversão nivela tudo. Ele diz que o
verdadeiro judeu é quem é judeu por dentro. Ser verdadeiramente
judeu não é uma coisa externa, mas, sim, uma atitude, um estado
de espírito, e é isso que identifica o povo ideal de Deus: “Porque
judeu não é quem o é exteriormente, nem é circunciso quem o é
apenas no exterior, na carne” (2.28). Nesse versículo, quando
Paulo diz que ser judeu não é algo externo, está dizendo que
judeu de fato não é somente aquele que nasceu da descendência
de Abraão, nem somente aquele que foi circuncidado no oitavo dia
de vida, e muito menos aquele que pratica rigorosamente as
cerimônias requeridas pela lei, como guardar dias de festa,
abster-se de certos alimentos, seguir as regras de purificação.
Ele afirma que a circuncisão também não é aquela que se
verifica somente na carne — como já dissemos, a circuncisão era a
remoção da pele que cobria o órgão genital masculino. Não, aquilo
é somente uma marca física, há algo mais. A circuncisão era feita
pelos rabinos, quando o bebê tinha oito dias de vida. Há uma
tradição rabínica que diz que os rabinos deixavam crescer a unha
do polegar e afiavam a ponta para usarem-na como faca na
circuncisão. Naquele dia os pais tinham que oferecer sacrifício de
animais — se fossem pobres, um casal de aves bastava, que foi o
que José e Maria ofereceram no dia em que Jesus foi
circuncidado.
Mas, afinal, quem é judeu de verdade? O que é a verdadeira
circuncisão? A resposta de Paulo encontra-se no versículo
seguinte: “Mas judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do
coração, realizada pelo Espírito, não pela letra, cujo louvor não
provém dos homens, mas de Deus” (2.29). Podemos destacar
quatro pontos nessa resposta. Primeiro ponto: “judeu é quem o é
no interior, e circuncisão é a do coração”. Circuncidar é uma
palavra latina que significa ao pé da letra cortar ao redor. Paulo
está dizendo que a verdadeira circuncisão é a realizada no
coração. É como se Deus pegasse o coração, removesse a sua pele
de incredulidadee desobediência e expusesse o íntimo dele. É isso
que a circuncisão representa. É como se Deus cortasse o nosso
coração, arrancasse aquela casca, aquela pele grossa de
incredulidade e dureza, e expusesse a carne macia que está por
dentro, o coração tenro, sensível, disposto a seguir e obedecer a
Deus. Então, a verdadeira circuncisão é uma operação feita no
coração humano, não no genital masculino.
O segundo ponto que Paulo destaca em sua resposta é que a
verdadeira circuncisão é a “realizada pelo Espírito”. Em contraste
com o rabino, que fazia a operação na carne, o Espírito de Deus
opera o coração, algo que homem nenhum pode fazer. Eu não
posso operar o seu coração, fazer com que você exponha o que há
de mais íntimo nele, nem colocar um coração novo em seu
interior. Isso somente o Espírito de Deus faz: ele opera, muda,
transforma, circuncida o nosso coração, para que possamos seguir
e obedecer a Deus.
O terceiro ponto que Paulo destaca é que o verdadeiro judeu é
aquele cuja circuncisão foi realizada “não pela letra” (2.29), mas,
sim, pelo Espírito. Letra aqui significa a letra da lei. A Lei de
Moisés mandava circuncidar o menino no oitavo dia de vida, mas
só o cumprimento da lei não salvaria o menino, se Deus depois
não operasse o coração dele, para que fosse um servo de Deus
obediente.
O quarto e último ponto que Paulo destaca nessa parte é que a
verdadeira circuncisão é aquela “cujo louvor não provém dos
homens, mas de Deus” (2.29). Aqui há um jogo de palavras que
não havia como os nossos tradutores deixarem claro: a palavra
“judeu” vem de Judá, a principal tribo da nação de Israel, de onde
veio o Messias, e a palavra “Judá” significa louvor. Em Gênesis
29.35 pode-se ver a origem do nome “Judá” e seu significado. Lá
está escrito sobre Lia, a esposa de Jacó: “De novo engravidou e
deu à luz um filho; e disse: Desta vez louvarei o SENHOR. Por isso,
deu-lhe o nome de Judá”. “Judá” significa aquele que é louvado;
logo, judeu é aquele que faz parte do povo que é louvado. Agora
fica claro o jogo de palavras: Paulo diz que o verdadeiro louvor
não é o que provém dos homens, ou seja, o que decorre do fato de
alguém ter nascido na nação de Israel, representada pela tribo de
Judá (que significa louvor, aquele que é louvado). O louvor que
interessa é o que provém de Deus.
Resumindo, esses quatro pontos identificam a verdadeira
circuncisão: (1) ela acontece no coração; (2) é feita pelo Espírito
Santo; (3) não é resultado de uma obrigação legal, e (4) é aquela
cujo louvor não provém dos homens, como se tivesse uma
procedência étnica ou de uma raça, mas provém de Deus. Em
resumo, ser judeu não é uma questão de raça, mas de estado de
espírito. O verdadeiro judeu é aquele que, tanto no Antigo
Testamento quanto hoje, crê em Deus e no seu Filho Jesus Cristo;
aquele que passou por uma transformação espiritual interna, cujo
coração foi convertido, está aberto para Deus, sensível à palavra
de Deus, e quer viver para ele.
Conclusão e aplicações práticas
Quem é o verdadeiro judeu? É todo aquele que crê em Jesus
Cristo como Filho de Deus, o Messias de Israel, o Salvador do
mundo. O povo de Deus é composto de todos aqueles — gentios e
judeus — que creem em Jesus como o Salvador, o Filho de Deus, o
Messias prometido.
Gentios e judeus que creem em Jesus formam um único povo,
pois Deus não tem dois povos. Provavelmente você já ouviu, em
alguma igreja, uma teologia que diz que Deus hoje tem dois
povos, os judeus e a igreja, e os trata de forma diferenciada.
Algumas pessoas hoje acreditam que os judeus, mesmo quando
morrem sem acreditar em Jesus, vão para o céu, porque são da
descendência de Abraão, foram circuncidados e são herdeiros da
aliança. Se você for uma dessas pessoas, espero que, depois de ler
este capítulo, abandone essa ideia, pois vimos que está tudo muito
claro no texto bíblico. Deus não tem dois povos, ele só tem um
povo, a sua igreja, que é composta de gentios que creem em Jesus
e não são circuncidados na carne, e de judeus que creem em Jesus
e são circuncidados. Porque se um judeu — ainda que seja
circuncidado, filho de Abraão e tenha recebido a lei — não crer no
Messias, ele vai para o inferno, pois está condenado. Quando
alguém nessa posição passa a crer em Jesus, torna-se parte da
igreja, passa a fazer parte do povo de Deus.
Traçando um paralelo com a nossa situação hoje, temos a
questão do batismo. O batismo não vai salvar ninguém. Da
mesma forma que na antiga aliança as crianças eram
circuncidadas com oito dias de vida, nós, na nova aliança,
batizamos os nossos filhos quando eles são pequenos. Da mesma
forma que na antiga aliança o fato de um judeu ter sido
circuncidado ao oitavo dia não significava que ele estava salvo,
porque tinha que circuncidar o coração, os nossos filhos, que
foram batizados quando crianças, precisam se converter, pois,
caso contrário, irão para o inferno, mesmo batizados.
Quando eles se convertem, a vida muda. Nós percebemos
quando a criança é convertida, quando o adolescente é convertido,
pois a vida deles apresenta mudanças visíveis. Após a conversão,
esse jovem é recebido como membro adulto da igreja, depois de
fazer a sua profissão pública de fé, mas ele tem de dar mostras da
circuncisão de seu coração. É preciso que os adolescentes e jovens
saibam que o fato de terem sido criados na igreja, de terem
nascido num lar evangélico, de terem sido batizados e passado a
sua vida toda na comunidade cristã não quer dizer absolutamente
nada, se não houver a circuncisão do coração, uma transformação
que vem de dentro, feita pelo Espírito Santo.
Eu sei bem o que é isso, pois fui criado na igreja, cheguei a ser
presidente da mocidade (não estou dizendo que os presidentes da
mocidade não são crentes, mas só que eu não era quando exerci
esse cargo), participei do concurso bíblico do livro de Daniel,
cantei no coral, namorei a filha do pastor. Quer alguém mais
crente do que isso? Mas eu não era convertido. Quando completei
dezoito anos, fui embora para o que eu julgava ser meu. Meu
coração pedia as coisas do mundo, eu gostava mais daquilo que os
meus amigos descrentes faziam, não conseguia ouvir a pregação,
ficava desenhando o rosto do pregador, escrevendo, brincando. Se
houvesse celular naquela época, eu provavelmente ficaria no
WhatsApp dizendo “que pregador chato”, como sei que muitos
fazem, ou talvez caçando Pokémon. Eu não era crente, até o dia
em que Deus circuncidou o meu coração, aos 22 anos de idade,
batizando-o, por assim dizer, se quisermos usar um termo da
nova aliança, e a minha vida, de fato, mudou.
Se você é filho de crente, foi criado na igreja, está crescendo na
igreja, eu lhe digo: Não se iluda. A salvação é individual, é um
relacionamento entre você e Deus. Você tem de se arrepender dos
seus pecados e crer no Senhor Jesus Cristo de todo o coração.
Essa aplicação na verdade se estende a todos nós. Às vezes as
igrejas evangélicas dão a impressão de que, se você der dízimo
suficiente, fizer sacrifícios suficientes, fizer campanhas
suficientes, participar de reuniões o suficiente, Deus se agradará
disso e o recompensará. A salvação não está baseada em ritos
religiosos, seja batismo, seja contribuição, seja qualquer coisa
externa, algo que você faça. Religiosidade não salva ninguém. Se
não houver um novo nascimento, uma mudança de vida, uma
transformação espiritual em seu coração, você estará condenado,
por causa dos seus pecados. Você receberá a justa ira de Deus.
Jesus disse: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não
nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”
(Jo 3.5). É disso que Paulo está falando aqui, de um novo
nascimento, da mudança de vida no coração, que pode ser
percebida na conduta das pessoas.
A questão mais importante da nossa vida é exatamente esta:
saber se o nosso coração foi circuncidado, se ele foi batizado, se
Cristo mudou a nossa vida, se nós somos novas criaturas. Não
estou perguntando

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