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ACCESSU EDUCAÇÃO SUPERIOR
FACULDADE ATENEU
C CO OO OR RD D. . P PE ED DA AG GÓ ÓG GI IC CA AS S: : P PR RO OF Fª ª. . L LU UC CI ID DA AL LV VA A B BA AC CE EL LA AR R
P PR RO OF Fª ª. . S SO OL LA AN NG GE E M ME ES SQ QU UI IT TA A
CURSO DE PÓSGRADUAÇÃO
DISCIPLINA:
LER E ESCREVER
DOCENTES:
CRISTINA MÁRCIA MAIA DE OLIVEIRA
DENILSON PORTACIO
LIDUINA MARIA PAULA MEDEIROS
MARIA SOCORRO BEZERRA LEAL
SOLANGE MESQUITA MARTINS
FortalezaCeará
2008
Ler e escrever 2 2
Leitura e escrita são tarefas da escola e
não só do professor de português
Paulo Coimbra Guedes
Jane Mari de Souza
A tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de história é do professor
de história e não do professor de português. A tarefa de ensinar a ler e a escrever
um texto de ciências é do professor de ciências e não do professor de português. A
tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de matemática é do professor de
matemática e não do professor de português. A tarefa de ensinar a ler e a escrever
um texto de geografia é do professor de geografia e não do professor de português.
A tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de educação física é do
professor de educação física e não do professor de português. A tarefa do professor
de português é ensinar a ler a literatura brasileira.
Ler e escrever são tarefas da escola, questões para todas as áreas, uma
vez que são habilidades indispensáveis para a formação de um estudante, que é
responsabilidade da escola. Ensinar é dar condições ao aluno para que ele se
aproprie do conhecimento historicamente construído e se insira nessa construção
como produtor de conhecimento.
Ensinar é ensinar a ler para que o aluno se torne capaz dessa
apropriação, pois o conhecimento acumulado está escrito em livros, revistas, jornais,
relatórios, arquivos. Ensinar é ensinar a escrever porque a reflexão sobre a
produção de conhecimento se expressa por escrito.
Numa primeira instância, ensinar a ler e escrever é alfabetizar, levar o
aluno ao domínio do código escrito. E já aqui é preciso rever a crença de que ao
alfabetizarse o aluno não está propriamente aprendendo uma língua, mas apenas
transpondo a língua que já fala para um outro código. Isso não é verdade para nós,
aqui no Brasil. Os estudos de nossa língua falada, levados a efeito por vários
pesquisadores, entre eles um grande grupo de lingüistas de todo o Brasil reunidos
no Projeto de Gramática do Português Falado, estão mostrando não só que há uma
grande variação lingüística (geográfica e social) interna no País ao contrário do que
sempre disse o mito da unidade lingüística brasileira , mas também que a língua
que falamos difere muito da língua falada em Portugal, a qual deu origem ao
português escrito. Na verdade, hoje podemos dizer que falamos uma língua e temos
de aprender a ler e escrever em outra língua.
E esse novo saber que a ciência da linguagem nos proporciona faz duas
revelações de transcendental importância a nosso respeito:
a) nós, de fato, falamos muito maI o português, não porque sejamos
estúpidos, incompetentes, vagabundos, desleixados, incapazes, como sempre
tentaram nos fazer crer, mas porque falamos muito bem, tão bem quanto qualquer
outro povo do mundo uma olltra língua, parecida com o português, com a qual
somos capazes de dar conta de nossas necessidades expressivas;
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b) nós falamos uma língua apenas parecida com o português e, por
razões de política cultural, temos de aprender a ler e escrever em português.
Por que são tão importantes essas revelações? Porque, em primeiro
lugar, podemos deixar de nos culpar por não termos aprendido a ler e escrever
direito na escola, pois a escola tentou ensinarnos a ler e escrever em português
como se fôssemos falantes de uma língua cujas frases têm sujeito e predicado,
cujos pronomes pessoais mudam de forma conforme a função sintática que exercem
na frase, com desinências verbais próprias para as segundas e as terceiras pessoas,
cujos futuros são simples e em que o adjetivo concorda com o substantivo.
Como a língua que falamos não tem nada disso, agora podemos pôr a
culpa na escola, que não nos ensinou direito e nos culpou por não termos aprendido.
Em segundo lugar, porque podemos, agora, começar a pensar num modo
mais adequado de ensinar a ler e escrever nessa língua que não falamos, nessa
língua apenas parecida com a língua que falamos, nessa língua estrangeira. E aí
está um rumo: o aprendizado de uma língua estrangeira começa pela familiaridade
que desenvolvemos com ela. Logo, nós só vamos aprender a ler e a escrever em
português se praticarmos bastante a leitura e a escrita em português, se praticarmos
muito mais do que nos mandaram praticar. Onde? Só tem um lugar: na escola.
E só tem um meio: nós, professores de todas as áreas, em vez de nos
limitarmos a choramingar que nossos alunos não têm o hábito da leitura, devemos
nos dedicar a proporcionar muitas e muitas oportunidades para que todos
descubram que ler é uma atividade muito interessante, que a leitura nos proporciona
prazer, diversão, conhecimento, liberdade, uma vida melhor, enfim. E essas
oportunidades terão de ser tantas quantas forem necessárias para 'que o aluno
passe a gostar de ler e, por isso, contraia a necessidade da leitura e que esta vire
hábito.
Oportunidade de ler o quê? Tudo, pois o único lugar onde a televisão
ainda pode ser desligada é na escola. A sala de aula é o único lugar onde as
crianças podem ser colocadas quietas nos seus cantos com um livro na mão para
aprender que ler é um diálogo solitário com um texto que se vai desvelando ao seu
olhar. E para a grande maioria de nossas crianças a escola é o único lugar onde há
livro e não só as da classe popular, onde não sobra dinheiro para comprar livro,
mas também na classe média, onde o dinheiro que sobra não costuma comprar livro.
Ler tudo, desde as banalidades que possam parecer divertidas até as coisas que o
professor julga que devem ser lidas para o desenvolvimento pessoal do aluno como
pessoa sensível, civilizada, culta, como cidadão, para o estabelecimento de seu
senso estético, de sua solidariedade humana, do seu conhecimento.
Isso é tarefa do professor de português? É. É tarefa do professor de
história, de geografia, de ciências, de artes, de educação física, de matemática... E.
E tarefa da escola: a escola os professores reunidos na mais básica das atividades
interdisciplinares vai reservar alguns períodos da semana para que os alunos se
dediquem, em suas salas de aula, à leitura individual, solitária, silenciosa de todo
tipo de material impresso: livros, jornais, revistas noticiosas e especializadas,
romances, contos, ensaios, memórias, literatura infantojuvenil, literatura adulta,
Ler e escrever 4 4
paradidáticos de todas as áreas, textos de todo tipo, enfim, postos à sua disposição
para que o exercício da leitura os transforme em leitores. E vão ler a respeito de
quê? Nessa leitura interdisciplinar de formação de leitores vão ler, principalmente, o
que acharem interessante: começando por histórias de aventura e de amor, que
satisfaçam sua necessidade de fantasia, passando por poemas de todo tipo, que
dêem vazão aos seus sentimentos e os organizem, passando por reportagens de
atualidades, de divulgação científica, que encaminhem sua curiosidade e forneçam
uma base para dimensionar o mundo em que vivem, notícias sobre a cidade, sobre o
estado, o país, ensaios sobre história do Brasil, da América, do mundo, sobre os
problemas do presente, sobre outros povos, contemporâneosou antigos, sobre a
política, os costumes, os esportes, a tecnologia, as ciências, as artes etc.
Tratase fundamentalmente de exercitar a leitura para praticar, numa
primeira instância, a decodificação da escrita, adestrando o olho para enxergar mais
do que uma letra de cada vez, mais do que apenas uma palavra, para entender os
processos de construção das palavras (os radicais, os afixos, as desinências), para
enxergar as discrepâncias que caracterizam a ortografia, para atribuir significado a
expressões, a metáforas, para familiarizarse com a sintaxe da língua escrita (a
concordância verbal e nominal, as formas e os tempos verbais, o uso das
preposições, as conjunções e outros nexos), para entender o significado dos sinais
de pontuação, o das letras maiúsculas e o das minúsculas, o das margens do texto,
para construir um repertório de enredos, de personagens, de raciocínios, de
argumentos, de linhas de tempo, de conceitos que caracterizam as áreas de
conhecimento, para, enfim, movimentarse com desenvoltura no mundo da escrita.
Esta leitura de formação de leitor visa desenvolver no aluno a familiaridade com a
língua escrita através da leitura de todo o tipo de texto, numa quantidade tal que o
faça gostar de ler e de perceber a importância da leitura para sua vida pessoal e
social, transformandoa num hábito capaz de satisfazer esse gosto e essa
necessidade.
E como os professores trabalhariam com esses livros? Ensinando a ler,
começando por colocar o aluno na mais adequada postura para ler: sentados em
silêncio administrando a retirada dos livros, conversando com o aluno que solicitar
orientação a respeito do assunto do livro, incentivandoo a olhar no dicionário
alguma palavrachave para o entendimento do texto, ajudando o aluno a usar o
dicionário, fornecendolhe indicações bibliográficas nas quais poderá procurar mais
informações a respeito de um assunto que lhe despertou interesse mais forte,
estimulando esse interesse, incentivandoo a falar aos colegas a respeito do que
está lendo, a trocar impressões com os colegas a respeito de leituras comuns.
E por que em sala de aula e não na biblioteca? Porque a sala de aula é o
lugar onde o professor ensina, onde ele mostra, por sua presença e sua atuação, a
importância da leitura: ele traz os livros, apresentaos, quer que todos escolham o
que vão ler, fica sabendo do interes se que se vai formando em cada um, faz
sugestões, discute e aprofunda os assuntos, responde perguntas e lê com seus
alunos. A biblioteca é o lugar de outra magia: lá está o tesouro inesgotável do
conhecimento construído historicamente pela humanidade. Na biblioteca, o aluno,
explorando o seu acervo, vai expandir seus interesses: vai descobrir que existem
enciclopédias, mapas, atlas, manuais, revistas, livros de todo o tipo e sobre todos os
assuntos, ou vai concentrar
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se numa leitura de aprofundamento de um determinado interesse criado na leitura
em sala de aula. A sala de aula é lugar da criação de um vínculo com a leitura, pela
inserção do aluno na tradição do conhecimento. A biblioteca é o lugar do cultivo
pessoal desse vínculo; lá se processa o amadurecimento intelectual.
Ao lado dessa atividade de leitura orientada pelo gosto, pelo prazer de
atribuir sentido a um texto, cada professor, na aula de sua respectiva área (ou dois
ou mais professores em trabalho multidisciplinar), vai promover a leitura de textos
que valem a pena ser aprofundados: agora todos vão viver o encantamento da
descoberta dos muitos sentidos em um texto decisivo para o conhecimento
produzido pela humanidade. Esta leitura de inserção do aluno no universo da cultura
letrada desenvolve a habilidade de dialogar com os textos lidos, através da
capacidade de ler em profundidade e interpretar textos significativos para a formação
de sua cidadania, cultura e sensibilidade.
O mesmo para a escrita: se nós, professores de todas as áreas,
proporcionarmos a nossos alunos oportunidades para que escrevam muito para
dizer coisas significativas para leitores a quem querem informar, convencer,
persuadir, comover, eles acabarão descobrindo que escrever não é aquela
trabalheira inútil de preencher 25 linhas, de copiar livro didático e pedaços de
enciclopédia. Nossos alunos descobrirão que são capazes de escrever para dizer a
sua palavra, para falar deles, de sua gente, para contar a sua história, para falar de
suas necessidades, de seus anseios, de seus projetos e acabarão por descobrir que
são gente, que têm o que dizer, que têm história, que têm necessidades, anseios,
que têm direito a satisfazer suas necessidades, a fazer projetos, que podem aspirar
a uma vida melhor, enfim.
Por isso, cada professor em sua sala de aula vai vincular – através da
produção escrita conteúdos específicos das áreas com a vida de seus alunos,
solicitandolhes que escrevam sobre aspectos de suas vidas, propondo que esses
textos sejam lidos para os colegas e discutidos em sala de aula. Cada professor lerá
esses textos com interesse pelo que dizem e não apenas para corrigir o português
verificar o acerto de suas respostas. Orientará a reescrita desses textos para que
digam com mais clareza e mais precisão o que querem dizer. E mandará ler um
poema, uma notícia, um conto, uma reportagem, um artigo, um livro que diga coisas
interessantes a respeito de um tema suscitado nas discussões desses textos,
aprofundando essa leitura com os alunos e pedindo que voltem ao assunto para
incorporar os dados novos trazidos por essa leitura, dando continuidade à
discussão.
Ler e escrever 6 6
LER E ESCREVER EM ARTES VISUAIS
Isabel Petry Kehrwald
Por muito tempo, a Educação Artística se constituiu em uma atividade
escolar baseada estritamente no fazer gráfico/plástico da criança, desvinculada,
salvo raras exceções, da origem desta área do conhecimento, isto é, da arte em si.
Aprendiase arte sem ver arte, o que é o mesmo que aprender a ler sem ter acesso
aos livros.
Você, eu e grande parte da nossa geração concluímos seus estudos sem
ter contato com as obras de arte (menos ainda com a arte brasileira, de difícil
circulação), porque se entendia que as imagens poderiam prejudicar a preservação
da espontaneidade e a livre manifestação infantil, objetivos da grande maioria dos
professores. Assim, permanecemos analfabetos no que se refere ao mundo das
imagens e dos objetos que fazem parte do acervo simbólico da humanidade e com o
qual podemos aprender sobre o nosso passado, entender e transformar o presente e
fazer projeções para o futuro.
No final da década de 80, no entanto, surgiram, no Brasil, as idéias que
deram corpo ao entendimento de que arte não é só expressão, mas é também
conhecimento, é comportamento inteligente e sensível, o que eliminou a dicotomia
entre cognição e emoção e pavimentou o terreno para a circulação dos fundamentos
de uma proposta de ensino da arte ancorada na própria arte, em sua história, em
sua apreciação e em seus fazeres. Esta proposta introduzida no Brasil por Ana Mae
Barbosa (1991, p.34), chamada inicialmente metodologia triangular e ora abordagem
triangular " ... enfatiza a necessidade de organizar o ensino das Artes Visuais no
interrelacionamento entre três eixos: o fazer artístico do aluno, a leitura da obra de
arte e a contextualização histórica ...", ou, como sugerem os Parâmetros
Curriculares Nacionais para o Ensino da Arte (PCN Arte) entre a produção do aluno,
a fruição das obras e a reflexão.
Foi a partir da abordagemtriangular que o termo "leitura" incorporouse
ao vocabulário dos professores de arte, entendido como leitura de imagem, de
obras, de objetos, ou de um elemento qualquer.
Dada esta introdução para situar o assunto no tempo vamos verificar seu
espaço e circunstância.
Leitura de imagem
O conceito de leitura pode ser ampliado para um processo de
decodificação e compreensão de expressões formais e simbólicas que envolvem
tanto componentes sensoriais, emocionais, intelectuais, neurológicos, quanto
culturais e econômicos. Os nossos cinco sentidos estão na base desse processo
que inicia muito cedo com a leitura sensorial, passa pela leitura emocional quando
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por exemplo ficamos tristes, alegres ou lembramos algo que afeta nossa
sensibilidade e desemboca depois na leitura racional que segundo Martins (1992,
p.45) ... acrescenta à sensorial e à emocional o fato de estabelecer uma ponte entre
o leitor e o conhecimento, a reflexão e a reordenação do mundo objetivo,
possibilitandolhe atribuir significados. Mais adiante, a autora completando seu
pensamento, conclui: ... ela não é importante por ser racional, mas por aquilo que
seu processo permite, alargando os horizontes de expectativa do leitor e ampliando
as possibilidades de leitura do texto e da própria realidade social.
Ler, portanto, não é tentar decifrar ou adivinhar de forma isenta o sentido
de um texto, mas é, a partir do texto, atribuirlhe significados relacionandoo com
outros textos na busca da sua compreensão, dos seus sentidos e de outras
possíveis leituras. Paulo Freire (1993) nos falava da necessidade de aprender a
fazer a leitura do mundo, não mecanicamente, mas vinculando linguagem e
realidade e usava o termo cosmovisão ao referirse a esse alargamento do olhar.
Transpondo estas idéias para o ensino da arte, podemos dizer que a
leitura das imagens tem objetivos semelhantes e abrange a descrição, interpretação,
compreensão, decomposição e recomposição para que se possa apreendêIas como
um objeto a conhecer.
Se decodificar um texto é entrar em sua trama, na sua textura, no seu
tecido, ler um texto pictórico é adentrar em suas formas, linhas, cores, volumes e
particularidades, na tentativa de desvelar um código milenar que muitas vezes não
está explícito, nos é desconhecido e, por vezes, nos assusta. Por ser um sistema
simbólico, de representação, a subjetividade contida na arte proporciona uma
infinidade de leituras e interpretações que dependem das informações do leitor, das
suas experiências anteriores, das suas vivências, lembranças, imaginação, enfim, do
seu repertório de saberes.
Segundo Fusari e Ferraz (1993, p.74) ... ver é também um exercício de
construção perceptiva onde os elementos selecionados e o percurso visual podem
ser educados ... através de ações planejadas para este fim. A educação do olhar é
fundamental, porque o olhar seleciona, associa, organiza, analisa, constrói,
desconstrói e saboreia as imagens tanto as da arte quanto as do cotidiano,
edificando o que Pillar (1995, p.36) chama de conhecimento visual. Reforçando esta
idéia temos o que nos fala Barbosa (1991, p.20) que, ao educarmos as crianças
para lerem as imagens produzidas por artistas,... As estamos preparando para ler as
imagens que as cercam em seu meio ambiente. Desta forma, o que estamos
pretendendo é uma educação estética, isto é, ensinar a ver, uma vez que o
conhecimento da arte não se dá de forma espontânea e sim mediada, e, no caso em
pauta, esta mediação se dá pela ação do professor e pelas interações que ocorrem
na sala de aula e fora dela. Quanto mais alimentado de imagens da arte estiver o
olhar, maior será a possibilidade de inferências, de criticidade e de sensibilidade nos
demais relacionamentos da vida cotidiana. Para Parsons (1992, p.21), que
identificou estágios do desenvolvimento estético pelo qual todos passamos, cada
passo representa um avanço e é um degrau para compreensões mais apuradas.
Aonde cada indivíduo consegue chegar, ... depende da natureza das obras de arte
com as quais entra em contato e do grau em que se vê estimulado a refletir sobre
elas.
Ler e escrever 8 8
Estudos recentes têm demonstrado que as crianças desde muito
pequenas formulam hipóteses sobre as imagens da arte na tentativa de
compreendêIas. As análises de Parsons (1992) nos permitem entender melhor o
que as crianças pensam sobre a arte e deixam pistas de como podemos ajudáIas
nesta leitura/conversa. Mas como se faz na prática a leitura de uma imagem? Pode
se transpor esse processo para a leitura de uma imagem que não seja da arte?
Na seqüência vamos refletir sobre isto.
Possibilidades de leitura de imagem
Feldman (citado por Barbosa, 1991, p.20), aponta quatro estágios a serem
seguidos para a leitura da imagem que são distintos mas interligados entre si e não
ocorrem necessariamente nessa ordem. São eles: ... descrição, análise,
interpretação e julgamento.
A descrição se refere a prestar atenção ao que se vê e, a partir da
observação, listar apenas o que está evidente, como, por exemplo, tipos de linhas e
formas utilizadas pelo autor, cores, elementos e demais propriedades da obra. Nesta
etapa identificase, também, o título da obra, o artista que a fez, lugar, época,
material utilizado, técnica, estilo ou sistema de representação, se figurativo ou
abstrato etc.
A análise diz respeito ao comportamento dos elementos entre si, como se
influenciam e se relacionam. Por exemplo, os espaços, os volumes, as cores, as
texturas e a disposição na obra criam contrastes, semelhanças e combinações
diferentes que neste momento serão analisadas.
O estágio da interpretação é dos mais gratificantes, pois é quando
procuramos dar sentido ao que se observou, tentando identificar sensações e
sentimentos experimentados, buscando estabelecer relações entre a imagem e a
realidade no sentido de apropriar se da primeira.
No quarto estágio, o do julgamento, emitimos um juízo de valor a respeito
da qualidade de uma imagem, decidindo se ela merece ou não atenção. Nesta etapa
as opiniões são muito divergentes, pois algumas obras têm um significado especial
para algumas pessoas e nenhum valor para outras. Mas é senso comum que um
bom trabalho é o que tem o poder de encantar muitas pessoas por um longo tempo.
Feldman (citado por Barbosa, 1991, p.44)
sugere ainda que as leituras sejam comparativas entre
duas ou mais obras, a fim de que se evidenciem as
semelhanças e diferenças, possibilitando analogias e
aprendizagens mais enriquecedoras. Outros autores
também realizaram interessantes estudos sobre
maneiras de aproximar as artes visuais de crianças e
jovens como, por exemplo, Saunders, Ott, Briére,
Hauser, Ragans, presentes no livro de Barbosa (1991).
Ler e escrever 9 9
Cândido Portinari, Os retirantes, 1944,
óleo sobre tela. MASP, São Paulo. Fonte:
Mange, Marilyn Diggs. Arte Brasileira
para crianças. São Paulo, Martins Fontes,
1988.
No entanto, todos, de uma forma ou outra, se valem dos estágios propostos por
Feldman.
Para explicitar melhor as idéias colocadas, vamos
fazer um exercício de leitura de imagem tomando
como ponto de partida a obra Os retirantes de Cândido
Portinari, datada de 1944 (página ao lado).
LEITURA DA OBRA OS RETIRANTES DE PORTINARI
Descrição: nesta fase, no ensino fundamental, cabe ao professor
direcionar as indagações sobre a obra no sentido de que os alunos identifiquem
seus elementos. É através de algunsmecanismos que entenderá melhor o que está
percebendo. Aqui estão sugestões de algumas perguntas que poderão ser feitas
para iniciar o diálogo com a obra ou o objeto:
O que você está vendo nesta imagem?
Quantas pessoas aí estão? que outros elementos?
Existem linhas nesta imagem?
Como são? lisas, grossas, retas, quebradas, onduladas?
Que cores você vê? são claras, escuras, esfumaçadas?
Que texturas podem ser apontadas? nas roupas, no corpo ou
rosto, no céu, no chão
Que efeitos o artista conseguiu?
Qual o estilo e técnica da pintura?
Ainda entrarão nesta fase as questões relativas ao contexto histórico
da obra e ? que já foi anteriormente referido.
Análise: aqui também se poderá aguçar o olhar do aluno através
das perguntas:
Você identifica movimento na obra?
Há uma figura central? há algum elemento que dá desequilíbrio?
Como é o tratamento da cor em relação às formas? tem contraste? tem
volume?
Como é o fundo?
Interpretação: nesta fase, geralmente, tanto crianças quanto adultos falam
com mais desenvoltura porque podem dar asas à imaginação e conversar com a
obra sem medo do erro e do receio de não entendêIa.
Mesmo assim, perguntas como as da seqüência são bemvindas:
Que sentimentos Os retirantes motivaram?
A realidade expressa na obra é a mesma de hoje?
Se Portinari fosse vivo será que pintaria o mesmo tema?
Que semelhanças e diferenças é possível identificar no ontem da obra e
o hoje?
o que poderíamos fazer para mudar a situação atual? a arte pode
ajudar?
Julgamento: neste estágio é interessante dialogar sobre:
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Você acha que esta obra é importante? por quê?
Por que Portinari a pintou? para quê?
Por que as pessoas querem ter obras de arte?
Elas são importantes?
Que outras obras ou objetos você conhece que têm algo semelhante
com a obra de Portinari?
Outras tantas indagações poderíamos fazer com o objetivo de aproximar
arte e aluno com o intuito de desenvolver o espírito critico, próprio de um apreciador
consciente que se vale desse aprendizado para direcionar, humanizar e qualificar
suas escolhas estéticas. Ainda é pertinente ressaltar que o contato com a arte tem a
função de levar a criança a pensar sobre a sua realidade social e em que ela pode
ser modificada ou acrescida a partir desse estudo. É preciso atentar também que as
perguntas indicadas não podem se tomar um clichê. São apenas um caminho, entre
outros, para estimular a leitura do texto pictórico.
Leitura de imagem e intertextualidade
É na interrelação do indivíduo com os objetos que se dá a organização
de um sistema de imagens visuais/mentais que, gradualmente, conduzem a
percepções cada vez mais complexas e sutis, permitindo não só a compreensão dos
conhecimentos inerentes à arte mas, principalmente, a produção de conhecimento
em arte. Conseqüentemente, o estímulo à leitura das imagens é fundamental para
que alcancemos esta meta e passemos a perceber o que muitas vezes se esconde a
um olhar desatento.
Paul Klee, artista plástico suíço, dizia que a arte não reproduz o visível,
toma visível, e é nesta possibilidade subjacente de se revelar de se construir ao
nosso olhar, de apontar novos significados, que está uma das importâncias da
leitura das imagens para o processo de alfabetização estética.
Aprender a ler os códigos do sistema de representação das artes visuais
é tão importante quanto o entendimento dos sistemas numéricos e de escrita.
É preciso levar em conta que as obras de arte nos remetem, muitas
vezes, a objetos já vistos, a formas ou fatos do cotidiano e passamos a identificar
aspectos comuns entre os mesmos. Essas nuanças podem passar desapercebidas
a um olhar desacostumado. No entanto, um olhar educado para ver... um sensível
olhar pensante ..., segundo Martins (1992, p.15), perceberá as semelhanças e
diferenças, fará analogias, e, por conseqüência, identificará as interrelações, isto é,
o intertexto.
A intertextualidade é ... um espaço de reescrita ..., segundo Peñuela
Canizal (1993, p.77), composto de signos icônicos (imagens) que sugerem objetos
da realidade e/ou por signos plásticos que apresentam semelhanças nas formas,
texturas, cores e outros elementos.
Etimologicamente, intertextualidade quer dizer o que habita dois textos, implícita ou
explicitamente. Por exemplo, observemos as imagens a seguir. Entre a Pietá de
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Michelangelo, de 1498, e a capa da revista Isto É, há semelhança explícita
evidenciada tanto no tema quanto na estrutura das imagens, embora a época, as
intenções e o sistema de representação sejam distintos.
.
Outros tantos exemplos poderíamos citar, mas o que é fundamental neste
caso, é a possibilidade de educar o olhar para a investigação do intertexto, uma vez
que no entrelaçamento de várias imagens cultivase a agilidade visual e o
malabarismo intelectual.
Intertexto na sala de aula
Ao valorizar o intertexto, o professor, ao invés de oferecer uma só
imagem para leitura, irá estimular a manipulação de várias imagens ao mesmo
tempo. Assim serão pesquisados jornais, revistas, catálogos, TV, vídeo, os
multimeios, o computador, os objetos do cotidiano e os recursos contemporâneos
nos quais as interfaces de cada discurso poderão ser descobertas e confrontadas
com a arte, criando novos significados para o aluno. É preciso ter presente, no
entanto, que estas interfaces não estão postas, mas sim se constroem ao olhar do
observador, em decorrência das suas experiências e dos seus repertórios.
Por esse motivo, a leitura da imagem aliando o método comparativo de
análise de obra de arte de Feldman (anteriormente citado em Barbosa, 1991), ao
intertexto contribui para dinamizar a ação pedagógica, pois sintonizase com uma
postura constante, tanto de alunos quanto de professores, de garimpagem das
imagens. Tal qual garimpeiros, a cada imagem que se correlaciona, desfrutam com o
grupo do brilho e da beleza do seu achado.
Michelangelo, Pietá, 1497/99, escultura em
mármore. 195cm de altura, 174cm de
base. Basílica de São Pedra, Vaticano.
Fonte: História Geral da Arte. Escultura II.
Ediciones de Prado, 1996
Fonte: Isto é, n.1334, 26 maio 1995.
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Com um olhar ativo e crítico e a multiplicidade de linguagens, é possível
construir com o aluno conhecimentos estéticos que o façam entenderse co
participante da história do coletivo.
Releitura
Derivada da leitura de imagem surgiu o termo releitura, que se refere ao
processo de produção por parte do aluno de um trabalho prático, envolvendo as
variadas técnicas das artes visuais ou mesmo de outras áreas do conhecimento,
como a música, o teatro ou a dança. Se reler é ler novamente, é reinterpretar,
reelaborar, redefinir, então a releitura é criar novos significados. Não é pois uma
cópia, mas, sim, criação com base em um texto visual que serve como referência
com o intuito de uma aproximação maior com a obra.
A leitura de imagem não precisa necessariamente resultar em releitura. É,
na verdade, um recurso a mais para tomar atraente o ensino da arte e desenvolver
habilidades para a compreensão da gramática visual.
Tomando como exemplo a imagem estudada, Os retirantes, é possível
que o aluno, ao ser estimulado a expressar seus sentimentos em relação à obra, o
faça expondo uma situação pessoal como desenhando sua própria família. Poderá
também inventar uma cena com a mesma temática ou, ainda, criar personagens de
papelão de tamanho natural que poderão dialogar entre si sobre os problemas da
migração, da divisão e posse de terras, entre outros assuntos queum professor
habilidoso poderá levantar para instigar discussões multidisciplinares que levem o
aluno a refletir sobre sua realidade e a realidade de outros povos, semelhanças e
diferenças e o que isto pode servir para sua vida.
A escrita da arte
Conforme Buoro (1996), a arte reapresenta o mundo, o indivíduo e as
práticas sociais, segundo uma forma particular e subjetiva. Ao reapresentar as
idéias, o indivíduo o faz por meio de uma simbologia muito pessoal e que caracteriza
as diferentes linguagens artísticas: ora nos valemos dos símbolos lingüísticos, ora
dos códigos corporais, ora dos musicais ou plásticos. Este procedimento não é
apenas apresentar ou comunicar idéias e sentimentos, mas expressálos aliando o
real e o imaginário, a razão e a emoção, perpassados pelo que de mais refinado
habita em nós: nossa capacidade de criar e sonhar e, com isso, elaborar
conhecimentos que nos humanizam.
É na infância que se desenvolvem as construções simbólicas que
permitem o trânsito entre o real e o imaginário e asseguram a compreensão de que
as produções pessoais são fonte de domínio e saber sobre a escrita diferenciada da
arte e fonte de prazer pelo envolvimento afetivo que proporcionam:Ao privilegiar o
percurso criativo do aluno estaremos desistimulando os modelos prontos para
colorir, as folhas mimeografadas ou xerocadas e as imagens estereotipadas que
empobrecem a manifestação simbólica da criança rumo ao desenvolvimento de sua
identidade como sujeito capaz de criar/recriar, participar/transformar.
É neste fazer/refazer que está a alfabetização na linguagem dos
elementos que constituem as produções artísticas, tais como, as formas, linhas,
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cores, texturas, volume, movimento, equilíbrio etc. que fazem parte dos códigos da
escrita plástica e que precisam ser explorados pela criança para que possa usáIos,
compreendêIos e transformáIos, enriquecendo assim suas vivências. Este fazer
criativo que chamamos de alfabetização artística, abrange as técnicas de compor,
desenhar, pintar, modelar em argila, a escultura, a gravura (xilogravura, infogravura
etc.), as instalações e tantas outras manifestações.
É fundamental que o ensino das artes visuais contemple aspectos
relacionados com o fazer artístico dos alunos, suas técnicas e procedimentos, a
apreciação da arte entendida como leitura das imagens e a contextualização
histórica que situa a obra em seu tempo e espaço e costura as ligações com o
cotidiano. Além desses, a plural idade cultural, a preservação patrimonial, usos e
costumes, folclore, artesanato, festas populares, rituais familiares e outras
manifestações enriquecem o currículo escolar. Com isto pretendese promover uma
educação abrangente, interativa, vinculada ao coletivo e emancipatória no sentido
de contribuir para repensar sua realidade. Assim, as aprendizagens em arte
ocorrerão não só na sala de aula, mas em museus, exposições, oficinas e lojas de
artesanato, no contato com artistas da região e familiares ou conhecidos dos alunos
que executem um ofício ligado à arte, seja popular ou decorativa e que possam dar
depoimentos e mostrar seus trabalhos na escola. Desta forma, será mais fácil para o
aluno o entendimento de que arte é um trabalho como tantos outros e não um
passatempo, ainda que se possa entender a arte como um passatempo produtivo.
Por fim, é preciso entender que todos nós, professores de qualquer área
do conhecimento, somos responsáveis pela educação estética de nossos alunos,
tanto pelo que oferecemos de imagens estereotipadas de qualidade duvidosa quanto
pelo que aceitamos de trabalhos infantis despersonalizados ou, ainda, por nos
omitirmos daquilo que deveríamos fazer e não fazemos. Conhecer a arte, tanto local
quanto universal, e expressarse através da arte é um direito de toda criança.
É necessário que a escola, como local privilegiado onde deve ser
exercido o princípio democrático de acesso à informação e formação de todas as
classes sociais, compreenda que a arte é prática social que, no fazer, faz também
cultura e história.
Referências bibliográficas
BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva, 1991.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros curriculares nacionais para o ensino da
arte. Brasília, 1996.
BUORO, Anamélia B. O olhar em construção. São Paulo: Cortez, 1996.
FELDMAN, E. In: BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva, 1991.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam São Paulo: Cortez,
1993.
FUSARI, Maria F; FERRAZ, Maria H. Metodologia do ensino da arte. São Paulo: Cortez, 1996.
Ler e escrever 1 14 4
MARTINS, Maria H. O que é leitura. 1O.ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.
MARTINS, Mirian C. Aprendiz da arte: trilhas do sensível olhar pensante.São Paulo: Espaço
Pedagógico, 1992.
PARSONS, Michael. Compreender a arte. Lisboa: Presença, 1992.
PEÑUELA CANIZAL, Eduardo. A metáfora da intertextualidade. In: BARBOSA, Ana Mae (org.).
Ensino das artes nas universidades. São Paulo: EDUSP, 1993.
PILLAR, Analice. Desenho e construção de conhecimento na criança. Porto Alegre: Artes Médicas,
1995.
Ler e escrever 1 15 5
Idéias e palavras na/da ciência ou leitura e
escrita: o que a ciência tem a ver com isso?
César V. Machado Lopes
Elaine B. Ferreira Dulac
Palavras são sombras
As sombras viram jogos
Palavras pra brincar
Brinquedos quebram logo.
Britto e Frommer (Titãs)
A linguagem escrita, com certeza, é uma das grandes construções da
humanidade. Vem de muito longe a necessidade de se constituir/representar uma
realidade/significante através do uso das palavras/signos que ultrapassem a tradição
oral, perpetuandose por símbolos impressos que permitam avançar além do uso da
memória como forma de conservação do conhecimento produzido.
Neste texto procuramos destacar a leitura e a escrita como práticas
sociais e culturais, buscando ir além da discussão tradicional da leitura e da escrita,
que distingue a humanidade em analfabetos e alfabetizados e que se traduzem em
dados obtidos dos censos populacionais realizados no País. Acreditamos que esta
dicotomia analfabetos/alfabetizados não contempla a complexidade das implicações
sociais do ler e escrever: o que é ler e escrever? quem sabe quem pode
ler e escrever? como se lê e como se escreve? quem tem acesso à leitura e à
escrita?
Assim parece premente a necessidade da discussão de como se lê e se
escreve e de como os leitores/escritores se relacionam com os textos e como criam
significados a partir dos mesmos. Estas relações texto/leitor podem ser analisadas,
por exemplo, através dos motivos que levam o leitor ao texto, tais como imposições
profissionais e/ou escolares, formação pessoal, prazer, entretenimento,
necessidades cotidianas, utilidade ocasional ou imediata etc.
Em nossa sociedade, constatamos que, para muitas pessoas, a
experiência de ler e escrever, como prática cultural habitual, reduzse aos espaços
escolares. A aprendizagem e aquisição do hábito de leitura vêm restringindose ao
ambiente escolar e à área de língua materna, desconsiderando as possibilidades
educativas de outros contextos, tais como as das demais áreas e do ambiente
familiar e de trabalho.
Parece que nesta sociedade, onde a tradição da linguagem escrita fica
restrita a ambientes escolares/acadêmicos, a forma de comunicação que predomina
é a visual, mais especificamente a televisiva, que impõe um tipo de discurso
fragmentado e descontínuo, com informações descontextualizadas, em que a
Ler e escrever1 16 6
novidade, o impacto, o choque, a fugacidade e o ritmo incessante dão a tônica de
um tipo de discurso cuja recepção não requer aprendizagem ou esforço demasiado.
Tudo que a antena captar meu coração captura
Qual a função da leitura numa sociedade multimídia? A cultura visual,
particularmente a TV, é a forma de comunicação predominante porque sua
tecnologia oferece possibilidades muito maiores de manipulação e controle social.
Isto se toma particularmente evidente quando a mesma é comparada à tecnologia
da leitura, uma vez que esta, geralmente, está disponível a um público específico
que construiu o hábito de ler e tem acesso à literatura. A TV, por outro lado, não é
direcionada a um público específico e está disponível em quase todos os lares desta
civilização ocidental.
Diferentemente da TV, a palavra escrita congela a informação: quando
lemos temos mais tempo de parar e refletir sobre o que foi escrito. Com as
tecnologias de multimídia, os fatos entram no fluxo da discussão parecendo
legítimos e confiáveis, transmitidos pelo olho da câmera numa velocidade alucinante
de informações a serem assimiladas num curto espaço de tempo, sob pena de
tomaremse ultrapassadas. Frente a esta situação ...nos vemos empurrados a correr
quando apenas sabemos andar. .. (Pozo, 1996, p.40) e percebemos ameaçadas
nossas possibilidades de autoreflexão e de pensamento crítico, uma vez que estes
meios apresentam o evento, interpretam, discutem e concluem, frente a nossos
olhos que apenas assistem.
O desenvolvimento destas tecnologias, construído conforme as leis da
racionalidade capitalista, introduziu formas de domínio e controle que parecem mais
se opor do que ampliar as possibilidades de emancipação humana.
A minha escola tem gente de verdade
A importância da linguagem escrita em situações de aprendizagem
escolar é muito clara: desde as séries iniciais, o aprender a ler e escrever é tarefa do
ensino escolar. Todavia desde este nível de ensino até o nível superior e quiçá nos
cursos de pósgraduação deparamonos com professores enfrentando problemas
comuns, como pobreza de vocabulário, falta de habilidade em compreender o
sentido de frases e usar sinais de pontuação, dificuldade de fazer anotações,
problemas de leitura e compreensão de textos em geral.
Mesmo frente a todos estes problemas expostos, ler e escrever são
identificados como processos "naturais" na escola. Após a "alfabetização
tradicional", os demais professores partem do pressuposto de que todos sabem ler e
escrever (naturalmente) e estas "habilidades" são naturalmente necessárias para as
áreas específicas do conhecimento. Ultrapassando esta visão restrita, podemos
identificar a linguagem escrita como um dos meios escolares mais usuais pelos
quais aprendemos, compreendemos, construímos e comunicamos o conhecimento.
Nesta perspectiva nos restam muitos questionamentos: o desenvolvimento da
linguagem é responsabilidade apenas da área de língua materna? ou corresponde a
Ler e escrever 1 17 7
todas e a cada uma das áreas? apenas corrigir erros ortográficos significa
responsabilizarse pelo ler e escrever em sua área? as áreas de ciências
necessitam, também, dar conta do ler e escrever?
Acreditamos que a atividade de ler e de escrever (apenas para
desenvolver habilidades, sem contexto), em geral, parece ser um pouco vazia, um
vazio que é preenchido pelo que se lê do mundo, um mundo que é construído por
meio de cada leitor, em cada ciência, e em cada área. Desta forma acreditamos que
ler e escrever é específico e, portanto, compromisso de todas as áreas escolares.
Nesta perspectiva, o trabalho na área específica das ciências naturais se utiliza das
habilidades de leitura e escrita em diferentes situações de aula, que vão desde a
elaboração de questionários, de apontamentos, até a interpretação e construção de
representações gráficas diversas. Porém, mais importante que estes usos
funcionais, a linguagem escrita pode ser considerada como um dos meios mais
eficazes através dos quais a ciência constituise e constrói realidades.
A constituição das ciências naturais e de seus conceitos pode também ser
entendida como uma construção semântica, sustentandose no significado
compartilhado de determinadas palavras. Na escola, estas palavras, através das
quais procuramos aproximar o/a aluno/a da realidade que a ciência constrói, devem
partir do pressuposto que este é um processo comunicativo que implica existência
de um conjunto de significados socialmente compartilhados, que se apresentam nas
salas de aula sustentados em interações verbais. Donde cabe perguntar se todos os
significados são socialmente compartilhados, tendo em vista que para um mesmo
grupo podemos ter diferentes significados para uma mesma palavra. Por exemplo, a
palavra "evaporação" pode estabelecer múltiplas conexões semânticas num coletivo
de alunos, tais como: desaparecimento de matéria, queima, reação química, mistura
de algo com o ar, processo de mudança de estado exclusivo da água, mudança de
estado físico, entre outros.
Frente a esta natureza complexa e dinâmica dos significados, destacamos
a importância da análise semântica da linguagem empregada pelos alunos, já que
podemos conceber a aprendizagem como algo suscetível de ser representado por
processos de diferenciação e globalização semânticos. Sendo assim, ler e escrever
na área das ciências transcende o simples ato, tomandose uma das principais
formas de aprendizagem utilizadas, não podendo considerarse a linguagem
somente como mais uma habilidade do ser humano, mas atribuindolhe o caráter de
construtora de realidades, do conhecimento e da ciência.
O que foi escondido é o que se escondeu
A ciência escolar, termo que utilizaremos para identificar as ciências
naturais ensinadas no ambiente escolar, difere da ciência praticada pela academia
tanto em relação aos seus objetivos como em relação às suas práticas, ou seja,
difere na sua constituição. A ciência escolar deve possibilitar a ampliação da leitura
de mundo, questionando e apresentando novas perspectivas para análise dos
eventos que cercam os/as alunos/as. No entanto, o que percebemos de forma geral
é que, com sua linguagem esotérica e desconectada da realidade de alunos/ as,
esconde bem mais do que revela novas perspetivas de ver o mundo, propiciando,
deste modo, a construção de um outro mundo – o mundo das ciências que tem
Ler e escrever 1 18 8
suas próprias palavras para explicáIo, distinto do mundo que vivemos, dos
acontecimentos cotidianos e da linguagem coloquial.
Diante do que está colocado até então, temos claro que a ciência tem uma
linguagem específica, particular para explicar e construir o mundo que nos cerca, a
nós mesmos e a todas as interrelações possíveis. Cotidianamente temos uma outra
linguagem que explica estes rnesmos eventos.
Traçando alguns paralelos poderíamos dizer que a linguagem da ciência
está muito mais próxima da escrita, buscando a objetividade da identificação de
coisas e processos por registros impressos, enfatizando produtos do trabalho
científico, na maioria das vezes apresentada de modo impessoal e explicativo
através de conceitos que generalizam eventos. Contrariamente, a linguagem
cotidiana, em geral, estaria mais próxima da fala, enfatizando o mundo dos
acontecimentos; contextualizada, porém intrincada, apresentandose na perspectiva
dos/ as diversos/as narradores/as; sendo, muitas vezes, mais automática do que
consciente.
Representar e ler este mundo tem uma amplitude maior que entender os
conceitoscristalizados pela linguagem científica. Implica, isto sim, perceber a
ciêncialinguagem científica como um recorte da realidade que deve ter um
compromisso com o todo, estabelecendo relações significativas com as demais
formas de ler este mundo.
Ler o mundo pode significar apropriarse das diversas formas de pensar
que ecoam neste planeta e das diversas formas de explicar os fenômenos que
ocorrem em nosso cotidiano, assim como estabelecer relações entre os diferentes
saberes que fazem parte da nossa cultura. Nesta ótica, o ler e o escrever se
instituem não como meros instrumentais teóricos de apropriação da cultura, mas
como fazendo parte de um universo mais amplo de possibilidades, onde ... a leitura
do mundo precede a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade
daquele (Freire, 1993, p.20).
Para dar conta desta necessidade, muitos autores se referem ao termo
alfabetização em ciências, assim como nas outras áreas, no sentido de que nesta
sociedade dita científicotecnológica fazse necessária uma ciência escolar que
possibilite a seus membros a análise crítica dos diversos fatos que ocorrem no
cotidiano e que são veiculados pelos mais diversos meios como, por exemplo, os
livros, as revistas, a TV e o cinema. É preciso saber discernir sobre as informações
que "caem" sobre nós. É preciso ter alguns conhecimentos que permitam ler estas
informações sob uma perspectiva crítica.
Até agora a ciência escolar parece ter apenas enriquecido o vocabulário
de alunos/as com palavras da ciência, esquecendose derelacionálas com seus
significantes e atribuindolhes significados vazios, para os não iniciados na ciência.
Aprendese a respeitar a ciência e sua linguagem. Isto significa aprender ciência (?),
isto talvez a escola fique devendo. Este não estabelecimento de relações
significativas entre o conhecimento científico trabalhado na escola e a ciência e
tecnologias presentes no cotidiano das pessoas e a conseqüente construção do
status de superioridade da ciência para a leitura do mundo, tem propiciado a
Ler e escrever 1 19 9
utilização aleatória da linguagem da ciência como garantia de qualidade de produtos
e também a disseminação dos termos como "comprovado cientificamente", "testado
cientificamente" etc., como identificadores de um discurso de verdade, que tanto
pode ser usado para melhorar a vida da humanidade como também pode ser
utilizado para iludir, enganar, vender, destruir etc. Da mesma forma que a ciência
não é detentora da verdade dos fatos, também temos a clareza que esta não é
neutra, que serve a quem a domina.
Identificando a ciência e a tecnologia no âmbito das construções da
humanidade, estamos localizandoas no espectro da cultura, portanto junto à
pintura, à dança, à literatura, à religião, ao teatro. Logo, despida do manto de
superioridade e possível de ser entendida e compreendida por todas as pessoas.
Porém cabe perguntar se este caráter da ciência é possível dentro da sociedade que
vivemos.
Nosso modelo de sociedade capitalista necessita apoiar seu poder de
decisão em pilares incontestes, como os oferecidos por esta visão distorcida sobre a
ciência, e acessíveis a poucos especialistas. Podemos perceber que o debate
técnicocientífico está cada vez mais pautando o cenário político, cumprindo a
função de ,legitimar o∙poder estabelecido ou contestálo. Podemos perceber este
poder mágico que a ciêncialinguagem científica exerce sobre nós quando nos
vemos suscetíveis à publicidade e compramos um detergente em pó que contém
uma enzima XXXXXase que garante sua ação branqueadora (sabemos o que fazem
as enzimas? o que sua ação tem a ver com a limpeza?), quando almoçamos em um
restaurante natural que propaga comida natural, sem produtos químicos (sabemos o
que é um produto químico? sabemos que algo sem produtos químicos não existe?),
quando compramos um produto de limpeza com o prefixo bio (sabemos o que isto
significa? o que tem a ver este prefixo com o ato de limpar?). Assim como estes,
poderíamos citar mais exemplos que nos levam a uma posição paradoxal: enquanto
a valorização social da ciência e da tecnologia aumentam, seu entendimento
continua sendo negado à maioria da população (Llórens, 199 I, p.13).
A melhor forma de enxergar no escuro
Isto nos deixa a clara necessidade de formar leitores capazes de
compreender a linguagem da ciência e não apenas ledores da ciência (Salinas
citado por Viñao Frago, [1993). Ser leitor requer seleção, renúncia à pretensão
totalitária do texto escrito, estabelecimento de relações não superficiais entre o que
se conhece e o que se lê e requer combinar leitura e escrita (Viñao Frago, [1993?]).
Afinal, quando escrevemos sobre o que conhecemos ou estamos a conhecer
refletimos e somos capazes de qualificar nossa relação com o conhecido.
Não importam as modalidades de leitura ou escrita; o que importa é como
a leitura e a escrita influenciam e determinam nossas vidas, como nos fazem sentir,
ver e construir realidades. Não se trata de ler para viver, nem de viver para ler, mas
sim de viver quando se lê e ler, quando se vive, no livro da vida (Viñao Frago,
[1993?]).
Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem
submetidos a investigações. Diante de um livro não devemos nos perguntar o que
diz, mas o que quer dizer. (Eco, 1986)
Ler e escrever 2 20 0
Referências bibliográficas
ECO, U. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Record, 1986.
FRElRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.São Paulo: Cortez, 1993.
LLÓRENS, J.A. Comenzando a aprender química: ideas para el diseno curdcular.Madrid: Visor, 1991.
POZO, J.I. Aprendices y maestros. Madrid: Alianza, 1996.
SALINAS, Pedra. Defensa de Ia lectura y defensa implícita de Ias viejos analfabetos. In: Ensayos
completos. Madrid: Taurus, 1981. p. 249359 e 402415 citado por INAO FRAGO, A. Por una historia
da lectura como pratica cultural: problemas y uestiones. Murcia: Universidade de Murcia, [19937].
Mimeo.
VINAO FRAGO, A. Por una historia da lectura como pratica cultural: problemas y cuestiones. Murcia:
Universidade de Murcia, [1993?]. Mimeo.
Agradecimento especial aos grupos musicais Legião Urbana e
Titãs pela inspiração dos subtítulos deste artigo.
Ler e escrever 2 21 1
Ler e escrever também com o corpo em
movimento
Clezio J. S. Gonçalves
Introdução
Realizar uma reflexão sobre os processos de leitura e escrita buscando
relacionáIos com o universo de atuação da educação física parece uma tarefa
delicada. Podese constatar que tais relações são frágeis, quase inviáveis, em razão
dos elementos que o senso comum oferece para avaliar a tarefa de ler e escrever.
Descobrese, a partir desta avaliação, que as dimensões da leitura e da escrita são
pertencentes ao conjunto de conhecimentos da língua portuguesa e literatura,
disciplinas consagradas no âmbito escolar com este fim. Para a educação física
cabem os conteúdos que, nesta perspectiva, são definidos pelas palavras educação
portanto, o ato de educar e física o físico, ou seja, educar o físico, podendose
falar numa educação do corpo e/ou o movimento.
Existe uma valorização do ato de ler e escrever no tecido social que se
reflete no universo escolar. A prática e/ou vivência de movimentos na educação
física por parte das crianças é incluída por força de lei no ensino público apenas a
partir da 5ª série do ensino fundamental, com professor especializado. Até lá, os
estudantes ficarão por conta da "boa vontade"ou "esclarecimento" de seus
professores curriculares para realizar atividades que envolvam o corpo e o
movimento. Para o sistema jurídico, legalmente, as necessidades relativas ao
movimento não existem até os nove ou dez anos de idade das crianças. Até lá é
fundamental o domínio do ler e escrever ... afinal, para que mover o corpo?
Felizmente, a humanidade não chegou até o seu atual estágio de
desenvolvimento baseando a construção de seus conhecimentos unicamente no
senso comum. A ciência também contribuiu. Se ficássemos a depender do senso
comum, talvez ainda estaríamos a pensar que o sol gira em tomo da terra e
conforme Sagan (1996, p.23) ... ainda se estaria a acreditar que gnomos, além de
lindos objetos de decoração, realmente possuem um poder fantástico de alterar o
rumo de nossas vidas. Uma das missões da ciência é pesquisar, descobrir o que
existe além das aparências que os fenômenos apresentam. Auxilia assim a
compreender a realidade que nos rodeia além de suas manifestações visíveis, onde
muitas vezes ocultamse processos fundamentais para a compreensão da mesma. A
difusão das idéias em ciência de forma acessível à comunidade, em geral, é uma
responsabilidade a qual a universidade não pode eximirse.
Uma das limitações do senso comum é encerrar diferentes manifestações
da realidade em conceitos reducionistas, perdendo, assim, a riqueza multidiferencial
que a mesma apresenta. Desta forma, uniformizamse complexas situações em
elementos simplistas, mutilandose suas essências. Perdese assim a capacidade de
... maravilharse com o mundo ... (Garder, 1995, p.17).
Ler e escrever 2 22 2
Alguns destes aspectos dizem respeito aos nossos organismos, nossos
corpos, suas capacidades de movimento, de adaptação e exploração do meio
ambiente e ao fantástico surgimento dos atos de falar, ler e escrever. Na escala
evolutiva são etapas diferentes e progressivas na história da humanidade. A
complexidade de organização destes atos, tão corriqueiros mi vida de qualquer
indivíduo, e a importância que os mesmos representam na história de cada sujeito
são de uma profundidade que, pela sua cotidianidade, deixase de prestar atenção
no significado dos mesmos e no que representam para a construção do ser humano
como tal. Como diz Pinker (1997, p.73 ):
Ao ler estas palavras, você estará participando de uma das maravilhas do mundo natural.
Pois você e eu pertencemos a uma espécie com uma característica notável; podemos dar
forma a eventos nos cérebros de outras pessoas com extrema precisão...essa
capacidade é a linguagem. Simplesmente por fazermos barulho com nossas bocas,
podemos com confiança fazer com que surjam novas combinações de idéias nas mentes
de outras pessoas. Essa capacidade surge tão naturalmente que tendemos a esquecer
quão milagrosa ela é.
A evolução do ser humano e a construção da leitura e escrita
É importante, a esta altura, frisar que concordamos com o princípio, em
ciência, de que toda ontogênese (desenvolvimento do indivíduo) repete a filogênese
(desenvolvimento da espécie) como base para compreenderse o ser humano e
suas diferenças para os demais seres na natureza (Fonseca, 1982). Portanto, para
compreendermos um pouco as razões dos nossos atos nos dias atuais é
interessante retomar o caminho evolutivo que a humanidade percorreu para chegar
até aqui.
Assim sendo, seguindose a ordem filogenética da humanidade, nós
aprendemos primeiramente a nos movimentar, situarnos no ambiente e explorálo.
Em seguida, começouse a tomar consciência deste corpo que existe, seus limites e
suas capacidades. Tais elementos de movimento estão inscritos em nossa herança
genética. A título de ilustração, qualquer criança que tenha nascido de parto natural
possui uma necessidade imediata de contatar a epiderme da mãe e encontrar o
aconchego do seio materno. Mesmo de olhos fechados irá movimentarse em busca
do mesmo apenas pelo faro (Montagu, 1991). Este pequeno ato faz com que o
sentido do faro estabeleça uma saudável conexão sináptica direta com o córtex
cerebral sem passar pelo tálamo (Chauchard, 1984).
Na seqüência, o pequenino ser começa a explorar o mundo com seu olho
ávido de curiosidade e busca alcançar objetos com a mão trazendoos até os olhos
para sua observação. Segundo alguns antropólogos, talvez com este gesto (trazer
até os olhos) tenhase iniciado um processo elementar de reflexão na história da
humanidade.
À medida que cresce e se desenvolve, começa a perceberse um
indivíduo com estruturas distintas da mãe, balbuciando seus primeiros sons
vocálicos com os quais entra em contato. Estes sons, num primeiro momento,
manifestamse indistintos e, pouco a pouco, vão sendo trabalhados até tomaremse
Ler e escrever 2 23 3
palavras conhecidas, apenas repetidas inicialmente para depois tomaremse mais
elaboradas, nascendo daí os conceitos. Temse o início do ato de falar.
Ato contínuo, ao término de um ano, colocase em pé e inicia a exploração
deste "infinito" mundo ao seu redor. Um tormento para pais ansiosos, fixos em seu
instinto de preservação e que, algumas vezes, não conseguem perceber a
necessidade vital de movimento do pequenino e o quanto isto representa para o ser
humano que se desenvolve frente aos seus olhos, iniciando seu processo de
comunicação com o mundo e com os outros através do seu próprio corpo. Após
algum tempo, a criança entra em contato com papel e lápis (oh ...materiais
diferentes)e principia a deixar registros e garatujas no ambiente. Iniciase o processo
de escrita que, com o passar do tempo, será sistematizado e oficializado pela
escola.
Este período na vida de cada criança é de no máximo sete anos. Na
escala temporal métrica, representa apenas um lapso frágil de tempo. (como
crescem estas criança, ainda lembrome delas pequeninas). Na escala filogenética
de evolução da humanidade, estes poucos anos na vida de um indivíduo
representam milhares de anos na história da humanidade. Não se consegue
perceber o longo processo de evolução temporal que a natureza desenvolveu até
aqui para construir este ser humano dotado de capacidades e características únicas
e fantásticas, de falar, ler e escrever.
Cabe refletirse aqui que a fala (bem como a escrita) não é fruto de um
mero acúmulo de informações (palavras) que, por armazenagem, retomam ao meio
através de sons reconhecíveis. O que nos diferencia de grande parte do restante
dos seres vivos é a nossa capacidade de processamento ... transformacional das
informações que se recebe (Pinker, 1997, p.231). A fala é um igual modo de
processamento transformacional. Quando se aprende a falar não se aprende a
linguagem através da memorização de frases padronizadas, mas pela compreensão
das regras para a criação de uma declaração com significado. Toda vez que se fala
literalmente criamse significados. A linguagem faz uso infinito de termos finitos,
assim como nós somos capazes de uma combinação infinita de movimentos através
das estruturas finitas de nosso organismo.
Assim, podese perceber que o simples fato do ser humano colocarse em
pé, liberando seus membros para a exploração do ambiente (exploração do meio e
de si início da reflexão), é um fato recente na escala de tempo da vida na terra. Os
registros fósseis apontam para algo em torno de um milhão de anos.
Com o início da escrita, a humanidade entra na história, porque
possibilitou o registro de fatos na continuidade temporal. Tal fato não ultrapassa
3.200 anos (Serres, 1989)em nosso período de tempo. A escrita, como sistema
gráfico capaz de registrar as experiências humanas para serem passadas de
geração a geração, é um acontecimento recente na história humana. A invenção da
imprensa por Gutemberg,em 1455, que permitiu uma socialização do conhecimento
escrito possibilitando uma democratização da informação para diferentes classes
sociais, é um fato, como se percebe, não completou 600 anos.
Ler e escrever 2 24 4
Durante todo o período evolucionário da humanidade, o cérebro, como tal,
também foi desenvolvendose e, com o passar do tempo, diferenciandose das
estruturas anteriores que lhe formavam. O cérebro humano tem hoje um tipo de
estrutura diferente dos primeiros seres humanos. Conforme Dennett (1997), é
possível que a liberação dos membros assumida pela postura bípede tenha
possibilitado que objetos fossem trazidos para a frente dos olhos, e, ao concentrar
se neles, o ser humano tenha iniciado o processo de reflexão. Tal ato teria
estimulado a realização de sinapses naquele cérebro que desenvolvendose chegou
ao neocórtex (estrutura do cérebro característica exclusiva do ser humano), que hoje
partilhado por todos que permite também os processos de utilização de símbolos e
da linguagem. Notese que a ação geradora da reflexão nasce de um movimento
(trazer um objeto) e de uma observação (até os olhos), processo que todas as
crianças realizam indistintamente. Neste caso cabe uma questão de ordem evolutiva
dentro das rotinas domésticas de qualquer lar. Quando uma criança começa a
explorar e "desarrumar" o ambiente, respeitase a sua necessidade evolutiva, que se
manifesta filogeneticamente, de um ser que está construindo e organizando o seu
mundo ou desconsideramos o seu desenvolvimento preferindo a "organização" do
ambiente, iniciandose, desde cedo, a ensinar ao pequenino que existe uma "ordem"
a ser mantida?
Cumpre destacar que Dennett (1997) sugere que talvez o ser humano
tenha iniciado seu processo de reflexão sem possuir as ferramentas conceituais que
as palavras fornecem. Assim, ele deixava marcas no ambiente como forma de
reconhecerse neste mundo. À medida que o ser humano evoluía em suas
experiências e estas puderam ser traduzidas em sistemas de sons articulados
compreensíveis para outros, ele adquiriu uma enorme vantagem evolucionária em
relação às outras espécies. Ao poder comunicar e partilhar suas experiências com o
outro, ele pôde tomar um distanciamento desta realidade para melhor observáIa,
compreendêIa e enriquecerse com a diferença perceptiva do outro. No momento
em que, através da fala, o ser humano estabelece um processo comunicativo, ele
começa a reconhecer diferenças entre si e o outro. Esta diferença representa um
salto qualitativo na sua leitura de mundo e de si próprio. Nasce assim a associação
de esforços que é vital para a sobrevivência na natureza e com ela um salto
qualitativo no desenvolvimento do nosso cérebro.
São apenas sete anos na vida de uma criança, são milhares de anos na
história da humanidade. Este processo desenvolvese cotidianamente em nossos
lares. Talvez, por não compreender os significados e desdobramentos complexos
que isto significa na construção do ser humano como tal, não se consegue
desenvolver significativamente os potenciais que a natureza nos oferece. Os
historiadores nos alertam (Basbawn,1996) que ao não compreendermos nossa
história corremos o risco de repetir os seus erros e desprezar as lições que poderiam
nos fazer melhores amanhã do que somos hoje.
Se a história evolucionária da terra e da vida pudesse ser reunida numa
estante de livros de dois metros de altura por um metro de largura, o surgimento do
ser humano aconteceria apenas no último parágrafo da penúltima página do último
livro. Como se percebe a humanidade é um fato recente na história da própria terra,
e a consciência de nossa caminhada é também novidade para nós mesmos. A
Ler e escrever 2 25 5
velocidade com que os fatos se sucedem nos tempos atuais não nos auxilia a
melhor compreendêIos.
O importante a registrarse é que o sinal mais evidente da presença de
uma mente é a sua capacidade de distanciamento da realidade, através de um
sistema de linguagem e símbolos, que lhe permite assim realizar uma antecipação
do futuro, ela ... realiza uma sondagem de elementos do presente, com os materiais
do passado transformandoos em antecipações do futuro buscando o seu melhor
estado ... (Dennett, 1997, p.67).
Assim a existência da mente é um fato presente na espécie humana,
justamente pela sua capacidade de trabalhar com símbolos existentes nas
palavras/conceitos que se manifestam na fala e na escrita. E os conceitos estão
presentes em nosso meio porque nós trabalhamos com uma linguagem. Um fato
inquestionável é que as palavras fornecem um poderoso manancial de ferramentas
que disponibilizam uma profunda exploração do meio ambiente, distanciandose
dele, analisandoo e planejando sua ação futura.
É fantástico este simples momento na história de uma pessoa, quando da
transição de gestos e movimentos para a comunicação de seus pensamentos
também através das palavras/símbolos. Nenhum outro instante é tão capacitador em
termos de potencialização da mente como este ao adquirirse um sistema de
códigos, sinais e símbolos que lhe permite a reflexão do meio e, principalmente de si
próprio.
A evolução humana e a escola
Aqui cabe uma reflexão: a criança que chega na escola, em qualquer
período, traz toda esta bagagem filogenética. Quanto se compreende deste
fenômeno e de seus desdobramentos nos processos de aprendizagem de um sujeito
que chega até o sistema educacional? Não é preciso muito esforço para observarse
na realidade das escolas, em geral, uma contradição agravante entre as propostas
do sistema de ensino oficial e o desenvolvimento das crianças como seres humanos,
respeitadas as suas etapas evolutivas.
Qual seria esta contradição?
Ao chegar na escola, o sistema de ensino oficial considera, em linhas
gerais, a criança como um ser plenamente estruturado em seu desenvolvimento
orgânico e, portanto, apto a construir processos de abstração de conceitos
(utilizandose principalmente desta riqueza das palavras e da linguagem) para
analisar a realidade. Assim, podem realizar esta tarefa sem necessitar do movimento
(de seus organismos) como um meio também significativo neste processo de
desenvolvimento.
Ou seja, nesta etapa de vida, esta criança dividese entre um corpo que
apenas lhe sustém a sobrevivência, através do movimento, e uma mente que
trabalha com os processos cognitivos.
Ferreiro (1986) afirma que as crianças observadas em suas pesquisas
sobre a aprendizagem da leitura e escrita nas primeiras séries necessitavam levar
para a escola apenas uma mão, os olhos e os ouvidos... o resto do seu corpo era
dispensável. Tal afirmativa tornase importante para refletirmos sobre o lugar que o
Ler e escrever 2 26 6
corpo ocupa na construção do conhecimento no universo escolar. Este alerta
também é compartilhado por Foucault (1988), quando este autor analisa os efeitos
que a disciplinação do corpo tem sobre as relações de poder na sociedade,
incluindose aí a escola.
O que a escola parece esquecer é que na natureza os processos não se
desenvolvem dissociados, mas principalmente integrados, sendo um a contrapartida
de outro na busca da autoorganização do organismo. Assim, imobilizarse estes
infantes num momento em que seus organismos encontramsesedentos da
vitalidade que o movimento possui é uma afronta ao esforço que a natureza faz para
construir este sujeito dotado de tamanha potencialidade global. Equivocase a
escola ao retirar das crianças este direito natural e do qual elas fazem questão de
lembrar quando, nos horários de entrada, recreio e saída, correm de maneira
incompreensível para os professores.
É como se esta criança a partir daquele momento não mais necessitasse
do movimento também como meio de interação com o ambiente para desenvolver as
suas melhores capacidades. Além do rato deste pequenino ser não se encontrar
plenamente desenvolvido nos seus aspectos orgânicos, menos ainda nos seus
processos de abstração, pois é preciso diferenciarse os conceitos de maturação de
um organismo humano e desenvolvimento da capacidade de abstração do mesmo.
Em muitos momentos, um organismo pode ter atingido suficiente
maturação biológica (suas funções fisiológicas e hormonais encontramse em
perfeito estado de funcionamento), mas o desenvolvimento do mesmo como tal
depende de suas estruturas também estarem suficientemente organizadas para que
os processos mentais possam desenvolverse adequadamente. Piaget (1978) nos
lembra disso em vários momentos de sua obra.
Lembrando a pergunta de ordem filogenética feita em alguns parágrafos
atrás a respeito da necessidade de movimento das crianças (uma necessidade que
não é exclusiva delas, mas também dos adultos), não precisamos procurar muitas
escolas para constatar que as mesmas seguem uma ordem baseada principalmente
na restrição espacial (limitandose o tempo entre a sala de aula e o pátio nos
escassos quinze minutos do recreio) e de normatização e regramento do tempo
(controlandose este tempo para tudo, inclusive para as funções fisiológicas dos
pequeninos como beber água ou ir ao banheiro).
Assim, informase de antemão às crianças que existe uma ordem e uma
organização às quais devem adaptarse. Existe um conhecimento estabelecido
através do qual terão acesso pela benevolência de seus tutores. O ponto
fundamental que se quer chamar a atenção é, se os nossos primeiros ancestrais se
conformassem com esta ordem já existente e limitando a sua exploração do
ambiente, teria a humanidade evoluído até o atual estágio? Pior ainda, teriam eles
sequer sobrevivido?
Estamos educando as crianças para um mundo que exige constante
adaptação às mudanças pelas quais passa numa velocidade vertiginosa? Ou as
estamos preparando para um mundo que não existe, pois expulsa o movimento
como componente fundamental da existência humana, sendo este movimento parte
essencial de sua própria natureza?
Esta concepção da escola como um lugar privilegiado para o
desenvolvimento das capacidades mentais (como se estas fossem independentes
da estrutura de um organismo humano) nasce de séculos de equívocos conceituais
Ler e escrever 2 27 7
na história humana. Tal posição só se justifica numa abordagem com a visão voltada
para o passado e que não consegue acompanhar o desenvolvimento de inúmeras
áreas do conhecimento humano. Os avanços que hoje se obtém em diversas áreas
no estudo dos processos cognitivos do cérebro e suas estruturas, nas pesquisas que
descobrem inúmeros componentes na bioquímica do ser humano, permitem a
revisão de muitos pressupostos em filosofia, psicologia e na pedagogia.
Observase, em alguns períodos da história, o privilegiamento da mente
(como nas concepções platônicas do mundo das idéias) como uma entidade
destacada do resto do corpo. Com o passar dos anos, percebeuse o quanto o
cérebro esta implicado nos processos mentais e corporais e as mútuas influências
que um exerce sobre o outro. Uma concepção possível e compreensível para a
Idade Média, porém inadequada para a realidade contemporânea de pesquisas
científicas a respeito. Nas palavras de MerleauPonty (1971, p.208):
O corpo não é pois um objeto. Pela mesma razão a consciência que tenho não é um
pensamento, quer dizer que não posso decompôIo e recompôIo para formar dele uma
idéia clara. Sua unidade é sempre implícita e confusa. Ele é sempre outra coisa além do
que é, sempre sexualidade ao mesmo tempo que liberdade, enraizado na natureza no
momento mesmo em que se transformou pela cultura, nunca fechado sobre si mesmo e
nunca ultrapassado.
Atualmente, nenhum neurocientista arriscaria afirmar que a mente
desenvolve seus processos baseada somente na atividade do cérebro, uma vez que
o mesmo está em constante interação com as estruturas do organismo que lhe
fornecem informações vitais para trabalhar e sem as quais não teria nenhuma
possibilidade de desenvolvimento significativo (Damásio, 1996) e possivelmente de
sobrevivência. Por isto, as fronteiras da mente e do corpo já foram ultrapassadas em
muitas áreas na ciência, mas parece que ainda não chegaram até as nossas
escolas. Como afirma Humprey (1995, p.235). .. os sentimentos entram na
consciência, não como fatos que acontecem conosco, mas como atividades por nós
engendradas e das quais participamos através de nossos organismos.
O movimento significa vida. Um organismo que não apresenta nenhuma
forma de movimento orgânico está morto ou próximo dela. Ao deixarmos o
movimento corporal fora das estratégias de aprendizagem e desenvolvimento na
escola, estamos mutilando a natureza filogenética das crianças que, feridas em sua
ontogenia, tornarseão futuros adultos mutilados. Assim, o movimento pela sua
natureza e complexidade participa ativamente de nossas construções mentais.
Implicações
E o que tudo isto tem a ver com a construção da linguagem escrita e
falada na escola? Tem a ver que o nosso cérebro desenvolve suas sinapses através
das interações com o meio, e estas acontecem mediadas pelas nossas estruturas
corporais/orgânicas, possibilitando através destas interações, a construção de novas
abstrações. Então, a dinâmica do movimento é relevante no processo de aprender.
A criança não está conseguindo melhorar seu processo de aprendizagem
nas atuais condições que a maioria das escolas oferecem? Podem ser inúmeras as
razões: falta de concentração decorrente de uma limitação da visão; hiperatividade
que se rebela contra a imobilidade; agressividade e transferência de condições de
vida para o ambiente da escola, enfim, as razões são inúmeras e sua listagem seria
Ler e escrever 2 28 8
por demais extensa, sendo que algumas circunstâncias fogem da competência do
professor na sala de aula.
Entretanto, uma razão é da responsabilidade do docente. Sua conivência
ao padrão de imobilidade que os alunos são submetidos na organização escolar. Um
aspecto sobre a natureza evolutiva da humanidade é a de que o organismo humano
possui uma capacidade de ...autoorganização ... (Morin, 1997 p.43). Compararse
um organismo humano ao desenvolvimento de uma máquina é empobrecer a
riqueza que a natureza levou milhões de anos para dotar nossas estruturas. Uma
máquina possui um tempo de funcionamento baseado na qualidade de seus
componentes e na substituição dos mesmos por componentes novos quando
acontece alguma irregularidade. Um organismo trabalha com a constante
reorganização de suas estruturas próprias para enfrentar as mudanças de ambiente.
Seguindose este princípio, a reorganização acontece graças à
capacidade de movimento e das versatilidades que o mesmo proporciona ao
organismo. Todos os fatores citados acima, limitantes aos organismos das crianças,
são importantes nas dificuldades que as mesmas apresentam. ImobilizáIas apenas
pioraria alguns casos. Proporcionar experiênciasde movimento, em qualquer
momento nas aulas, possibilitará aos organismos destes infantes elementos
concretos para iniciar um processo de reorganização de suas leituras de mundo às
exigências que o meio está lhe fazendo, uma vez que se encontram numa etapa de
desenvolvimento em que o movimento é parte vital de sua autoorganização. E qual
a relação de tudo isso com a educação física? Se os profissionais desta disciplina
não perceberem as relações possíveis e necessárias com a leitura e escrita muito
pouco conseguirseá avançar. Mas este é um processo de reorganização não só da
área como também de cada profissional. A área da educação física tem um aspecto
paradoxal... se um profissional desejar ele pode trabalhar os seus alunos como
máquinas em busca de performance. O problema é que seres humanos não são
máquinas. E este é o paradoxo da educação física, posso lidar com o ser humano
como máquina, ele responde e produz ...mas ele é muito mais do que isto. Se o
professor de educação física trabalhar apenas com o componente de saúde do
corpo e desconsiderar os aspectos cognitivos e subjetivos na construção do
movimento, estará desrespeitando a capacidade mental de seus alunos e
desconsiderando o esforço que a natureza fez para construir um organismo capaz
de abstrações. Que tipo de abstrações são construídas numa aula de educação
física? Ou será que como profissionais realmente partilhase da crença de que o
movimento não influencia na construção das subjetividades humanas? Se o
movimento é mera repetição, porque trabalhar com um organismo capaz de realizar
operações mentais?
E afinal, se a leitura e a escrita também fazem parte de um processo de
comunicação, este acontece entre sujeitos que comunicamse mediante a inter
relação de seus corpos, então a educação física tem muito a ver com tudo isto.
Nenhuma mensagem de um indivíduo chega a outro senão através da concretização
mediada pelo seu corpo (Humphrey, 1995). Hoje em dia qualquer indivíduo pode
enviar mensagens para qualquer parte do mundo utilizandose de um computador.
Mas para que a idéia passe de sua mente para os sinais digitais do
mesmo ela precisa ser mediada pelo seu corpo (seja através dos dedos do teclado,
Ler e escrever 2 29 9
seja através de sua voz). Hoje nos comunicamos das mais variadas formas, mas
durante séculos nossa comunicação restringiuse às nossas limitações corporais.
Podese ter uma idéia da velocidade com que as mudanças que
vivenciamos hoje acontecem num ritmo alucinante, cujos impactos algumas vezes
passam despercebidos, através do seguinte exercício de reflexão: grande parte da
existência da humanidade aconteceu nas cavernas (Tofler, 1978). Tomandose o
tempo de existência humana da ordem de 500.000 anos (o que é um fato parcial) e
dividindo por 65 anos, neste caso tomandose este número como a base de tempo
para uma geração (que não é de todo verídico, uma vez que aconteceram inúmeras
alterações nos períodos da história), teriase um número de aproximadamente 800
gerações. Deste total, 650 gerações foram passadas nas cavernas e a comunicação
era essencialmente corporal. Tal comunicação está inscrita em nossos genes e nos
acompanha ainda hoje. Há apenas 70 gerações foi possível a comunicação de uma
geração para outra através da invenção da escrita. Apenas as últimas 10 gerações
puderam ter alguma espécie de acesso à comunicação de massa com a invenção da
imprensa por Gutemberg. Apenas as últimas duas gerações conheceram o motor
elétrico e apenas a geração atual conhece o computador. Realizandose o mesmo
exercício de outra maneira e buscando comparar as 800 gerações com um adulto de
80 anos de idade, diríamos que ele aprendeu a viver numa casa aos 65 anos de
idade e comunicarse através da escrita, aos 73 anos de idade. Percebese, assim,
na história da humanidade, o quanto o fenômeno da escrita é um fato recente.
Apesar do fantástico salto qualitativo que ela representa, ainda não se aprendeu a
utilizar plenamente as potencial idades da mesma.
Reflexões finais
No caso das relações do ser humano com o próprio corpo há um
paradoxo a resolver, ou seja, procurase encerrar dentro de uma linguagem escrita
(sinais) a dimensão da experiência de uma vivência corporal. Nietzsche (citado por
Naffah, 1993, p.18) já nos adverte para o quanto há de enganoso na crença de que
os signos verbais e escritos possam dar conta da complexidade de qualquer
realidade. Escreve:
Todo conceito nasce por igualação do não igual. Assim como é certo que nunca uma
folha é inteiramente igual a uma outra, é certo de que o conceito de folha é formado por
arbitrário abandono dessas diferenças particulares por esquecerse do que é distintivo, e
despertase então a representação como se na natureza além das folhas houvesse algo
que fosse "folha" segundo a qual todas as folhas fossem tecidas.
Aqui se estabelece um paradoxo. Se a linguagem representa um
distanciamento, para compreenderse o meio, como distanciarse daquilo que é
condição de nossa existência, no caso nosso próprio organismo? A linguagem
(conseqüentemente a escrita e a fala) é sempre uma redução da complexidade da
experiência. E que bom que ela é assim. Desta forma ela abre espaço para a
construção de um processo mínimo de comunicação com o outro, obrigando cada
um a dirigirse ao diferente como forma de melhor compreender a si e às diferenças
que existem entre um processo perceptivo e outro. Ao mesmo tempo em que
preserva no ser humano o seu direito de liberdade de refletir e experimentar a sua
própria vivência e abstração.
Ler e escrever 3 30 0
Um ponto a ser compreendido é que a dimensão ampla e complexa de uma
experiência concreta somente pode ser compreendida através de sua vivência. E a
escrita como processo de comunicação permite multiplicar esta experiência para ser
vivenciada por outros, e as reflexões dela decorrente potencializarão novas
possibilidades de atuação e intervenção. Este é um aspecto fascinante da leitura e
da escrita como produtos humanos. À medida que se conseguir resgatar a
comunicação do corpo neste processo comunicativo poderseá compreender mais
profundamente a dinâmica de distanciamento que a leitura e a escrita permitem, pois
nos encaminham como seres reflexivos para condições de abstração da experiência.
Assim, pretendese adotar alguns princípios que norteiam uma prática neste
artigo. Esses princípios analisam o ser humano como um organismo natural que, na
sua história evolutiva como espécie, partiu de estruturas simples para estruturas
mais complexas, com tendência natural de movimento e expansão que alteram a
sua estrutura cerebral. Esta estrutura possibilita a aprendizagem de sistemas
simbólicos e da linguagem, permitindo uma capacidade ímpar de intervenção no seu
meio e de construção de abstrações, conferindo a capacidade de realizar previsões
e deixar marcas no seu ambiente, distinguindoo significativamente em toda a
natureza.
Equivocase professor de classe que busca trabalhar com
palavras/conceitos sem utilizarse das capacidades que o movimento orgânico
oferece na potencialização de exploração do mundo e consciência de si próprio
pelas vivências que acontecem através do próprio corpo. E equivocase o professor
de educação física que privilegia apenas o movimento como conteúdo de suas
aulas, deixando de lado a produção de escrita como forma dos alunos registrarem as
suas sensações e impressões a respeito de qualquer vivência que tenha acontecido
durante a mesma, estimulando as suas abstrações, uma vez que fazer é
fundamental,mas fazer e refletir é capacidade humana vital.
É necessidade vital o movimento na vida de um ser humano. Assim como
o processo de ler e escrever (decorrente filogeneticamente da capacidade de
movimento) como forma de deixar marcas que lhe possibilitarão um melhor
distanciamento para refletir sobre a sua experiência e assim avançar evolutivamente
auxiliado pelas palavras/conceitos junto ao movimento. Falar, ler, escrever e
movimentarse ajudam as pessoas a organizarem como sentem as suas
subjetividades.Negar a importância de uma dessas dimensões é mutilar o ser
humano, uma vez que a dimensão de fazer é diferente da dimensão de falar, que é
diferente da dimensão de escrever e que é diferente da dimensão de sentir.
Privilegiar essas diferentes dimensões em etapas fragmentadas na
escola é anular o potencial humano que não acontece disperso, mas avança em
operações conjuntas. Podese dizer que nós começamos primeiramente a sentir
como organismos, depois aprendem a nos movimentar. Posteriormente, começamos
a falar e finalmente a escrever. A criança passa por todas essas etapas nos seus
primeiros anos de vida. O importante é continuar esse processo em conjunto, pois o
avanço em uma etapa permite melhor compreender a anterior. Se, conforme Freire
(1981) e Fiori citado por Freire (1987) aprender a ler e a escrever é aprender a ler e
a escrever o mundo situandose nele, percebese o quanto é necessário avançar
Ler e escrever 3 31 1
conjuntamente no sentido da leitura, da escrita e do movimento como processos
intimamente ligados. É fundamental escrever não apenas a respeito de algo, mas
também a respeito de si própria como forma de deixar suas próprias marcas. É
necessário compreender a unidade comunicativa como uma decorrente da outra e
cujos efeitos de sua má compreensão podem ser danosos no desenvolvimento de
um indivíduo. Infelizmente o que se observa é exatamente a dissociação deste
processo integrado.
As experiências que se tem desenvolvido junto aos alunos de graduação
dos cursos de educação física, pedagogia e prática desportiva na Escola de
Educação Física da UFRGS, onde os mesmos escrevem a respeito de suas
vivências/experiências e reflexões daí decorrentes a respeito das atividades que
desenvolvem, permitem interessantes inferências.
Os alunos da educação física, como regra geral, são mais sintéticos, não
desenvolvendo maiores reflexões a respeito de suas experiências. Alguns iniciam
um processo mais amplo de registro desenvolvendo uma reflexão e
conseqüentemente uma melhor construção de texto. Nestes casos, observase
nestes alunos um aumento de seu índice de leitura. No caso da pedagogia, a
construção dos textos é bem mais elaborada e no conteúdo dos mesmos aparece de
forma significativa o "deslumbramento" dos alunos a respeito da experiência de
movimento que, conforme seus relatos, é uma experiência desconhecida no âmbito
do curso. Na prática desportiva as diferenças vão aparecer por conta das
características do curso de cada aluno, sendo os alunos das exatas mais objetivas e
os das humanas mais abrangentes. Em qualquer situação a experiência gratificante
é quando um discente percebe ao final de seu trabalho que aquele processo de
registro de suas impressões lhe permite realizar uma melhor avaliação de todo o
semestre, possibilitandolhe uma melhor compreensão deste período de
aprendizagem. Estes registros permitem demonstrar a dificuldade que os alunos
possuem de desenvolver as suas próprias idéias e, mais ainda, falar e escrever
sobre como se sentem.
Os trabalhos desenvolvidos no Núcleo de Integração Universidade Escola,
da Próreitoria de Extensão da UFRGS, em atividades de assessoria a inúmeras
escolas e municípios do Rio Grande do Sul, através de encontros, temnos
possibilitado a multiplicação desta proposta com os professores que participam das
mesmas. Através dos seus relatos e acompanhamento, verificase que a tentativa de
trabalhar o movimento orgânico, em conjunto com a leitura e a escrita, tem
apresentado benefícios diversos para todos. Podese citar aqui também as
experiências desenvolvidas pelo autor em escolas públicas de diferentes municípios
(Tapes, Camaquã, Santa Maria, Pelotas) que corroboram os princípios aqui
descritos.
Por que a experiência do movimento do organismo seria importante para
a questão da leitura e da escrita? Porque conforme Dennet (1997, p.73)... Tudo
aquilo que se lê é escrito por alguém. Assim como a fala e a escrita são um
processo... Transformacional da informação que chega do meio para o indivíduo...
(Pinker, 1997, p.73) cada leitura e cada escrita dêem alguém a respeito de algo, a
partir de um ponto de observação, sujeitam as inúmeras imperfeições de
Ler e escrever 3 32 2
decodicações equivocadas. A comunicação do ser humano para seus pares lhe
permite confrontar suas concepções num campo de pluralidade de idéias.
Entretanto, por mais que se multipliquem as trocas, a dimensão de
existência concreta de um indivíduo será determinada pelos limites em seu
organismo, pois a leitura e a escrita serão sempre uma possibilidade organizacional
da realidade de alguém no meio de tantas outras. A qualidade de vida de cada
indivíduo estará ligada às condições concretas de interação com o meio através de
seu organismo. O movimento é, portanto, este indicador de outras possibilidades de
uma manutenção saudável de suas condições orgânicas, mas principalmente da
consciência de suas sensações, seus sentimentos, sua revisão de passado e
construção de possibilidades futuras que o ser humano irá elaborar na busca de
condições cada vez melhores de existência. Certamente não se pode parar no mero
movimento pelo movimento. Mas, certamente, movimentarse em interação com o
meio, através das ferramentas conceituais da linguagem, é uma condição essencial.
Este texto é uma breve reflexão que possui inúmeras limitações e cujo
debate só virá a enriquecêIo. No conjunto desta obra, propõese a agir como um
elemento provocador para a construção de propostas realmente significativas no
processo de construção da leitura, da escrita e também do movimento, já que... O
gesto (movimento) certo com a palavra (falada ou escrita) certa, na hora certa... faz
acontecer mágica.
Referências bibliográficas
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DENNET, D. La consciência explicada. Buenos Aires: Paidós, 1997.
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FOUCAULT, M. Microfisica do poder. São Paulo: Graal, 1988.
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Nota
Este texto contou com a colaboração de Silvana Souza Santos.
Ler e escrever 3 34 4
Ler a paisagem, o mapa, o livro... Escrever
nas linguagens da geografia
Neiva Otero Schãffer
Creio que não há como fugir aqui do maior desafio
deste momento: aguçar nossa capacidade e a dos
nossos alunos... a questão que se coloca é a
contribuição da geografia para a formação de
crianças leitoras e produtoras do texto escrito.
(Guimarães, 1996, p.l 00)
Há, neste momento, uma pressão quase palpável sobre os professores
para que respondam com presteza às exigências que são impostas à escola. Com
muita agilidade, a academia e a sociedade dizem o que a escola deve fazer.
Informam como deve comportarse para que admita as inovações quanto à produção
de conhecimento e para que atenda às expectativas quanto ao perfil do egresso que
desejam da escola. Com uma destreza incrível produzem toneladas de papel e de
imagens, ditando normas. Com uma voracidade ainda maior tentam fazer
desaparecer o funcionamento tradicional: velhas práticas e seus resultados, agora
anacrônicos.
As novas orientações e as novas pautas sugeridas à escola estão
presentes em múltiplas propostas de reforma: do currículo, da aula, do professor, do
livro didático. São discursos que se aproximam na forma, mas que partem de
fundamentos diversos e que contemplam, também, interesses que, com freqüência,
não são comuns. De qualquer maneira dirigemse a superar a concepção da escola
como o espaço do aprender coisas, informações; do padronizar comportamentos; e
do fazer solitário e competitivo do aluno e do professor e a superála por
concepções que se sustentam no aprender a aprender, no promover
comportamentos de autonomia, criatividade e participação, no fazer coletivo.
A possibilidade de reformar, de mudar, inclusive e, sobretudo, o ler e o
escrever, inserese no contexto referido por muitos autores e sintetizado por Lajolo
(1996, p.5):
Neste fim de século, vivemos todos, do Pólo Norte ao Pólo Sul da Terra, um processo
aparentemente irreversível de globalização, cifrado nas mais diferentes linguagens. A
escola precisa ter a capacidade de interagir com todas elas, fazendose palco do grande
diálogo de linguagens de códigos que, porque existem na sociedade, precisam estar
presentes na escola,...
De forma acelerada, práticas tradicionais revestemse de novas
abordagens, novos enfoques e novas perspectivas. Neste sentido, Seabra (1998)
Ler e escrever 3 35 5
lembra que, entre a prensa e o computador, a escola teve sempre por objetivo ler,
escrever, contar, mas redefinese agora o sentido da linguagem e o tratamento do
texto, modificandose a maneira de escrever, visto que os datilógrafos caem em
desuso, como caíram os copistas depois de Gutenberg.
Ler e escrever sempre foram tarefas indissociáveis da vida escolar. Ler e
escrever bem forjaram o padrão funcional da escola elitizada do passado, que
atendia a parcelas pouco numerosas da população em idade escolar. Ler e
escrever, massiva e superficialmente, tem sido a questão dramática da escola
recente, sem equipamentos e estendida a quase toda a população.
Mas ler e escrever com propriedade passa a ser o mote presente nos
vários discursos: é indispensável à reprodução da sociedade capitalista neste
período marcado pela aceleração da técnica, da ciência e da informação
paralelamente da exclusão rápida dos que lêem e escrevem mal ou dos que não
lêem e não escrevem. É o mote também daqueles que, preocupados com a
promoção de parcelas mais numerosas da sociedade, entendem a cidadania como
um direito bem maior do que o de ser mero consumidor atento, questionador da
qualidade do produto no mercado. Para esses, ler e escrever bem transformouse
em estratégia indispensável à cidadania, concebida como formação de opinião
pública capaz de direcionar decisões políticas.
Atendendo a essas diferentes vertentes, as bases legais que sustentam a
educação nacional, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e
os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) l, reportamse aos conteúdos de
aprendizagem. A LDB estabelece, como um dos objetivos do ensino fundamental, a
formação básica do cidadão, que ocorrerá mediante o acesso a determinados
instrumentos, entre os quais salientase o desenvolvimento da capacidade de
aprender. Mas no direito de aprender a aprender, libertado do horizonte do poder,
está o saber, como bem coloca Seabra (1998). Para ela, o saber pode ser prazer, e
o aprender decorre de uma necessidade vital tão forte como alimentarse e procriar.
Aprender seria uma necessidade de todos durante toda a vida e, como necessidade
vital, liberdade e prazer.
O aprender a aprender princípio recorrente em várias propostas implica
domínio de estratégias cognitivas que são comuns a diversas áreas, como o ler, o
escrever e o calcular, e o de estratégias que são específicas a algumas áreas. No
entanto, os avanços no domínio e na complexificação de conceitos científicos não
ocorrem sem a intervenção pedagógica, conforme enfatiza Oliveira (1988). No
processo, destacase o papel da escola e nela o do professor para que cumpram
as exigências desses novos tempos. Neles, ler e escrever bem passam a ser
indispensáveis ao conjunto da sociedade. Não mais cabe a boa leitura exclusiva de
uns poucos, nem a leitura débil e extensiva a todos.
O papel social da escola é notável na promoção sistematizada da
utilização das múltiplas linguagens. Estas, como a verbal, a matemática, a gráfica, a
plástica, a corporal, incluem variadas formas de expressão o texto literário, a
mensagem, o texto técnico, o mapa, a obra de arte e concorrem para que o aluno
compreenda e se expresse, comunique suas idéias e usufrua das produções da
cultura (Brasil, 1997). O domínio da palavra escrita para o conhecimento de si e do
mundo; para a expressão e representação; para a construção da identidade e da
cidadania tem sido salientado e está presente em muitas propostas de renovação
Ler e escrever 3 36 6
curricular. A importância do ler e do escrever chega, então, por diversos meios, aos
professores das diferentes áreas para que reflitam sobre suas práticas e para que
promovam um novo esforço em direção à leitura e à escrita como tarefas escolares
privilegiadas pela sociedade.
Ler e escrever em geografia: o professor e as formas particulares do fazer
geográfico
Fazendo a leitura desses novos discursos e dessas novas orientações
legais, o professor de geografia, que desenvolve uma visão de mundo própria
aquela da geografia precisa ter presente dois pontos fundamentais ao desenvolver
sua prática na perspectiva de uma nova qualidade da leitura e da escrita. De um
lado, ele estará atuando como membro de uma equipe de diferentes formações
disciplinares e de múltiplas linguagens,mas voltados todos à formação integral do
aluno. De outra, seu desempenho como alguém que intervém de forma séria e
competente nessa formação, resulta do conhecimento que possui de sua área
específica, de suas linguagens, de seus procedimentos e de seus recursos.
Seu compromisso profissional como educador implica a compreensão
intransferível da necessidade de adequar os conhecimentos disciplinares/
disciplinados (aqueles da geografia), e que se pretende profundos, a um grupo que
não quer e não precisa ser especialista em geografia (seus alunos), que tem outra
idade, outra experiência de vida, outras expectativas. As palavras de Veiga Neto
(1994, p.40), neste sentido, são sempre um alerta importante:
Aquilo que se ensina nas escolas não é nem o saber acadêmico nem mesmo uma
simplificação desse saber, mas é uma forma muito particular de conhecimento a que se
denomina saber escolar, o qual se origina do saber acadêmico que, num complicado
processo de transposição didática, foi transformando, adaptado c recontextualizado para
depois ser ensinado.
Para que o aluno venha a ler e a escrever em geografia é necessário que,
antes, o professor dirija seu olhar para o outro (o aluno) e para o conjunto (a escola).
Só então é que se há de fazer a volta à disciplina. Esta volta depende da forma
como o professor conhece epistemológica e teoricamente sua área. A que ela se
propõe? Com que trata? A que serve? Um mínimo de informação sobre a evolução
da área de conhecimen10 lhe garante os subsídios para uma avaliação crítica do
seu fazer, de como proceder a uma leitura e a uma escrita pertinentes. Este
conhecimento permite identificar as linhas assumidas nos livros didáticos e sua
própria abordagem, sua pauta de conteúdos, à especificidade da linguagem e da
proposta de análise sócioterritorial que assume.
Ler e escrever em geografia é uma estratégia cognitiva disciplinar que, na
parceria com as demais áreas, permite ao aluno adquirir uma visão de mundo,
reconhecer e estabelecer seu lugar no espaço geográfico, o que inclui a noção,
também, da sua possibilidade de exclusão. Apesar da multiplicação dos recursos
disponíveis para a aprendigem há, ainda, a permanência da palavra, mantendo
válida a afirmativa de que ensinar é sempre uma aventura com a fala, já que esta é a
ferramenta mais utilizada no ensino: o uso da palavra para a transferência de idéias
(Freire, 1997). Esta é uma ferramenta para a geografia, mas é comum a várias
áreas. Cabenos situar aquelas que são nossas linguagens específicas: a leitura e a
escrita da paisagem; das imagens/ dos mapas; e do livro didático de geografia.
Ler e escrever 3 37 7
A leitura em geografia surge como o caminho para buscar, selecionar,
organizar e interpretar a informação, que é a expressão de um momento do lugar e
da vida, portanto uma expressão passageira. Daí que, mais importante que reter a
informação obtida pela leitura do lugar e da vida que ele abriga, os exercícios de
leitura e de escrita devem propiciar aos alunos as condições para que ele possa, de
forma permanente e autônoma, localizar a nova informação, pela leitura do mundo, e
expressáIa, escrevendo para o mundo, de forma pertinente a seu tempo e a seu
espaço, tomandose também legível pelos seus pares.
Para esta leitura, a valorização da experiência vivida e a busca a várias
fontes instigadoras, como o texto escrito, a música, a charge, discutidas de forma
problematizadora, e que representem desafios reflexivos para o estudo de um tema,
acompanham os textos particulares da geografia: o estudo do lugar (do bairro,
cidade), a leitura do texto técnico (o livro didático) e a leitura da imagem
especializada (tradicionalmente o mapa). O recurso à multiplicidade de fontes, entre
as quais incluemse as inovações tecnológicas mais recentes vinculadas à
informatização da sociedade (como as fotos aéreas, as imagens de satélite, a busca
em rede, a digitalização de informações cartografáveis e a produção de mapas), mas
cujo uso fica na dependência do acesso aos mesmos pela escola e pelo professor,
instigam a curiosidade e a criatividade e voltamse a estabelecer a autonomia do
pensar e do fazer.
A leitura da paisagem em geografia, a expressão do lugar
A geografia tem na leitura (conhecimento e interpretação do espaço
geográfico) e na escrita (a representação deste espaço) seus recursos primordiais
de trabalho. O espaço geográfico, como uma interação permanente e dinâmica entre
a natureza e as ações humanas no seu fazer social, toma concretude em diferentes
escalas de análise, do lugar ao global, abrangendo uma gama de situações,
multiplicandose em paisagens. É a paisagem geográfica um recorte específico que
sintetiza os diversos tempos que traçaram a atual fisionomia do lugar um foco
importante para a çnmpreensão de conceitos geográficos e para a compreensão do
mundo.
A partir da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), a
leitura da paisagem vemse tomando uma expressão de uso corrente, indicativa de
uma tarefa específica e apropriada pela área de geografia no ensino. Tomar a
paisagem próxima, concreta, como a escola, a rua, um bairro ou a própria cidade,
uma área a ser visitada a certa distância, ou uma imagem de paisagem, como uma
foto ou outra representação qualquer, como recurso para a aprendizagem, para a
aula, é uma prática que acompanha o ensino de geografia desde suas origens
escolares.
O conceito de paisagem como um recorte visível do espaço geográfico é,
ao mesmo tempo, importante como conhecimento geográfico e rico como recurso
pedagógico. Ler a paisagem na perspectiva dos procedimentos tradicionais significa
observar e descrever (relatar) o maior número de elementos presentes. É retratar,
tomando estático aquele momento, naquele lugar. Ler a paisagem, na perspectiva
da construção de um conhecimento mais significativo e voltado à construção da
Ler e escrever 3 38 8
identidade do sujeito, parte da definição prévia dos objetivos desta leitura. Que
paisagem ler? Com que finalidade?
A leitura da paisagem responde no processo de aprendizagem, a um
objetivo similar ao da leitura de um texto qualquer: para ler o mundo, para
compreender o mundo e o papel de cada um no mundo. Para constituir a sua
identidade, a identidade com seu tempo e com seu lugar. Ler a paisagem responde,
ainda, a objetivos que se reportam as capacidades e atitudes. A paisagem é um
'recurso que permite desenvolver uma série de capacidades: a observação, o
registro, a análise, a comparação e a representação que, em geografia, têm um
caráter específico.
O papel do professor, planejando com atenção a leitura da paisagem e
sensibilizando o grupo para o exercício, permite aprofundar o trabalho e qualificar os
resultados. Com freqüência afirmase que não é possível promover um aluno leitor
sem que haja um professor leitor. Também, para que haja o aluno leitor da
paisagem, é indispensável que O professor consiga fazer essa leitura,
ultrapassando, no seu planejamento, o objetivo da mera retratação do que ali é
oferecido como visível.
Reafirmase, para qualquer leitura, dois compromissos fundamentais
quanto ao desempenho do professor: o compromisso com o conhecimento que lhe é
exigido como profissional de uma área específica do currículo e seu compromisso
como educador. São esses compromissos que conc0rrerão para a orientação eficaz
da leitura de qualquer texto, inclusive e, sobretudo, do texto geográfico.
O aluno pode e deve ser orientadonum trabalho de leitura da paisagem.
Não cabe deixar que a atividade, e seus resultados, ocorram ao azar. Ela deve ser
pensada no sentido de ultrapassar a etapa do ver/ registrar e programada para que
o grupo avance no sentido de inferir, isto é, levantar suposições, hipóteses, a partir
do que é observado; investigar, ou seja, localizar respostas às questões que propôs
às hipóteses que formulou, de forma autônoma ou estimulada; de pensar soluções
ou alternativas diferenciadas ao que verificou como problemático na paisagem
analisada.
Já a representação da paisagem, da leitura que foi feita da paisagem, é
outro momento rico do processo de aprendizagem e que deve ser marcado pela
possibilidade da criação. É o momento de escrever em geografia. Este pode
expressarse pela forma textual ou imagética, mas ganha sentido especial pela
possibilidade de transmitir a compreensão da leitura pela representação
especializada, seja pela forma cartografada (mapa, croqui) ou pela construção de
maquetes.
A leitura da paisagem, como a leitura mais freqüente em geografia,
comporta uma multiplicidade de ações na prática de sala de aula, que tanto pode se
dar no âmbito da própria área (num fazer solitário do professor) como na interação
com outras áreas. Mesmo partindo do suposto que o fazer solitário tem sido a prática
mais comum, ler a paisagem em geografia é uma atividade fecunda. Uma mesma
paisagem permite vários recortes para análise, indo de questões mais concretas e
simples, como é o caso da observação de formas, de elementos constitutivos, de
transformações, de funções, às mais complexas e pautadas na inferência e na
reflexão crítica, como é a observação e a análise do público e do privado numa dada
Ler e escrever 3 39 9
paisagem (o percurso por uma rua ou através de parte de um bairro; a observação
de uma figura sobre a seca no Nordeste). Ela possibilita, assim, ir paulatinamente
avançando no sentido da complexificação nos estudos geográficos e da discussão
de valores e atitudes do grupo em relação a um lugar: o seu lugar de vida ou o
mundo, o lugar de todas as vidas.
Mas, se o professor se aproximar dos colegas, num caminho
interdisciplinar de abordagem temática, passando a conhecer e a dialogar com o que
se passa na aula anterior ou na seguinte, serão possíveis resultados mais amplos,
mais significativos. Há várias possibilidades que se abre para o trabalho
interdisciplinar e para o estudo de temas transversais a partir da leitura da paisagem.
A prática e a iniciativa de cada um e os recursos da escola definirão o projeto
comum. Muitas são as possibilidades de cruzamento disciplinar numa saída a
campo. Como exemplo podese sugerir, para escolas de Porto Alegre, um trabalho
conjunto entre literatura, história e geografia quando naquela primeira disciplina for
oportuna a indicação aos alunos do romance Os ratos, de Dyonélio Machado. Que
qualidade de leitura, de compreensão de mundo, poderia ser propiciada pela
repetição do percurso urbano feito pelo personagem principal na cidade, num dia
qualquer da década de 20, se houver o acompanhamento de professores das outras
duas áreas. Com mais qualidade atenderseia à orientação de Vygotski,
selecionada por Portella e Chianca (1997, p.16), quanto ao fato de que “... a
aprendizagem deve ir além daquilo que o aluno pode ser capaz de fazer por si
mesmo, deve ter desafios que possibilitem ao aluno desenvolver seu potencial..." ou,
conforme ressaltam as autoras “... observar é ver com olhos diferentes, é enxergar
detalhes, examinar a fim de descobrir. É o início do processo de investigação".
A leitura da paisagem está relacionada com o desenvolvimento do
conceito de lugar que, de acordo com Durán (1998), responde à experiência
individual, ao sentido de pertencimento a uma localização concreta, a um certo mapa
mental. Concepção similar aparece nos PCNs (Brasil, 1997, p.112): "O lugar é onde
estão as referências pessoais e o sistema de valores que direcionam formas de
perceber e constituir a paisagem e o espaço geográfico". O lugar, do ponto de vista
geográfico, descreve uma localização espacial, ao mesmo tempo em que uma
experiência humana.
Tratase de um recorte territorial identificável e sobre o qual agregamos
certos valores. O lugar como espaço vivido, como o horizonte cotidiano, traduz a
identidade de cada um. Assim sendo, o conceito e as vivências do lugar assumem
um significado especial no ensino de geografia, na perspectiva de uma educação
que se volta a atitudes de solidariedade e participação e que valoriza o
conhecimento que promove a identidade (pessoal, social, espacial).
Abrir espaço para uma nova leitura do lugar (porque voltada a novos
objetivos e com novos enfoques), no ensino fundamental, exigirá dar um outro
significado às competências da aprendizagem geográfica, vistas como capacidades
complexas no que tange à percepção, compreensão e representação do espaço
vivido e percebido, nas várias dimensões. Durán (1998, p.74), ao mesmo tempo em
que as ressalta a importância desta tarefa de leitura e escrita da paisagem/do lugar
como construtores de identidade, situa a necessidade de que as experiências de
aprendizagem sobre o espaço cotidiano não caiam “... em recursos pueris em
termos didáticos". Lembra que a conexão os entre os conceitos de espaço e lugar
Ler e escrever 4 40 0
tem um processo de evolução, que deve ser iniciado e seguido nas etapas iniciais
de aprendizagem.
Por outro lado, convém ter presente que, apesar das vantagens
pedagógicas do estudo do lugar, pode haver uma visão empobrecedora do que está
próximo. Isto ocorre se não rejeitarmos a mera descrição empírica da paisagem e se
não conseguirmos relacionar, adequadamente, o local com o nacional, o regional e o
mundial, concomitantemente, através do jogo de escalas.
Na leitura da paisagem o trabalho de campo é uma prática importante
para a aprendizagem em geografia. Ele permite, efetivamente, que se possa
construir o conhecimento a partir da realidade observada, analisada e
contextualizada (no tempo e no espaço). Também constitui uma possibilidade de
superação da fragmentação do conhecimento, na medida em que o estudo do real
apresenta uma multiplicidade de aspectos que apontam para a concorrência das
diversas áreas do conhecimento. É, sobretudo, uma vivência capaz de oportunizar o
confronto concreto e simultâneo da teoria e da prática.
Realizada a leitura, ou concomitante a ela, ocorre à escrita da paisagem.
A escrita tradicional reportase ao texto descritivo, repetitivo. Mas, descrever, como
observar, implica várias tarefas e amplas possibilidades: é ordenar aquilo que se
pode observar, é expressar a observação, organizando as idéias através de
linguagem diversas: pela verbalização, dramatização, pelo relatório escrito, textos,
desenhos, mapas... Escrever/descrever precisa sustentarse na reflexão como
caminho para o estabelecimento de hipóteses, para a investigação, para a opinião.
Durán (1998) compreende que a partir de perguntas ou da colocação de problemas
que surgem pela leitura do lugar, através de trabalhos de campo, da sensibilização
com música e imagens, da elaboração de mapas mentais ou cognitivos, jogos de
simulação, exercícios que proponha tomada de decisões... podese realizar
experiências de aprendizagem significativas para os alunos.
No entanto, é importante lembrar que a proposição de um trabalho de
campo, procedimento geográfico que permite a leitura direta e enriquecedora dolugar e sua escrita, paralelamente ao desenvolvimento de atitudes, enfrenta para
sua realização uma série de decisões práticas, conforme relaciona Cruz (1997). O
preparo do trabalho de campo exige um esforço extra e apresenta desafios
especiais para o professor e a escola (planejamento, sensibilização das famílias,
providências materiais, contatos), mostrandose tanto mais factível quanto mais
disposta à ação conjunta estiver à escola.
Uma outra linguagem: ler e escrever com mapas
A representação espacial da informação sobre os lugares (a cartografia)
está invariavelmente vinculada à aula de geografia. Ela é a linguagem, por
excelência, da síntese das informações espaciais; expressa conhecimentos e estuda
situações, sempre enfatizando a idéia de organização do espaço. Por tal razão, a
leitura cartográfica surge, desde o início da escolaridade, como instrumento básico
em geografia para compreender a espacialização dos fenômenos e para representá
los, também espacialmente.
Ler e escrever 4 41 1
Passini (1994, p.9) esclarece a função desta linguagem para a
aprendizagem:
A educação para a leitura de mapas deve ser entendida como o processo de aquisição,
pelos alunos, de um conjunto de conhecimentos e habilidades para que consigam efetuar
a leitura do espaço, representáIo, e desta forma construir os conceitos das relações
espaciais. Neste processo, a função simbólica desempenha um importante papel para o
preparo de leitores eficazes de mapas.
A função simbólica é entendida pela autora como capacidade de perceber
a relação significante e significado. Segundo ela, as crianças recebem mapas
complexos (mapas de adultos, segundo Oliveira citado por Passini, 1994) sem ter
passado por processo de educação cartográfica. Desta forma a deseducação
permanece e os alu1I0S concluem seus cursos na escola fundamentais analfabetos
e despreparados em relação à leitura de mapas. Segundo a autora, desconhecem o
significado dos símbolos e a função das legendas, não conseguem entender a
proporcionalidade das escalas e as deformações decorrentes do uso de projeção
cartográfica. Mantémse, no tempo, a ignorância quanto ao caráter estratégico da
leitura compressiva do mapa, conforme registrava Lacoste (1983) 2 em sua libra já
clássica, ao afirmar que cartas, para quem não aprendeu a lêIas, não têm qualquer
sentido, como uma página escrita nada sig1IIlica para o analfabeto.
Muitos são os textos que, analisando a prática do professor de geografia
em sala de aula, informam que, em linhas gerais e apesar do professor entender e
referir que o uso do mapa é importante, isso não se traduz na sua ação pedagógica.
Via de regra, como indica Passini (1994), o professor acaba utilizando o mapa
somente como meio de localização de fenômenos, quando o utiliza.
A exploração do mapa que as crianças admitem para seu espaço de vida,
seu mapa mental, constitui em sala de aula um recurso didático de grande
significado, porque nos permite saber como nossos alunos percebem o espaço
geográfico em diferentes escalas. Cabe lembrar, ainda, que o mapa, utilizado desde
o início da alfabetização e em situações paulatinamente mais complexas, concorre
para concretizar determinadas relações entre a criança e a realidade. Nessa
perspectiva e ainda acompanhando Passini (1994), é preciso reafirmar que o
processo de educação para o mapa envolve o trabalho concomitante com certos
elementos: a noção de escala, de orientação, de estruturação da legenda, etc. Em
outras palavras, para ter acesso à leitura de um mapa é preciso que o aluno tenha
acesso prévio ao seu código de representação.
Uma análise interessante desenvolve Ligüera (1998) sobre essa
linguagem da geografia: considera o mapa a ferramenta básica para a
aprendizagem geográfica e, paradoxalmente, o maior problema no seu ensino.
Segundo ele, o mapa, como auxiliar didático, põe em jogo mecanismos de
percepção visual e processos mentais que interrelacionam o entendimento e a
memória (níveis variáveis de abstração). Como alunos e professores percebem os
fatos de maneira distinta o que se observa e interpreta do mapa é diferente. A
mesma situação se dá a respeito da percepção do entorno imediato e sua paisagem
em sua respectiva expressão cartográfica. Para o aluno, construir seu mapa é um
processo lento, que requer ensaios e análises contínuas das evidências. Para o
professor significa um enorme desafio metodológico e uma definição clara acerca de
seu pensamento geográfico, isto é, sobre que geografia está ensinando.
Ler e escrever 4 42 2
Ligüera (1998) situa entre as dificuldades para o trabalho com mapas a
falta ou o escasso desenvolvimento de habilidades para sua leitura e confecção, as
quais deveriam ser previamente trabalhadas. É o caso da familiarização com os
símbolos e com as direções e o treinamento em localização. Alerta ao professor
quanto à necessidade de reconhecer que a compreensão da retícula matemática
(latitude e longitude) não é tarefa fácil para os alunos. Segundo o mesmo autor,
como atividade apressada em sala de aula, a confecção de mapas resulta, quase
sempre, no uso e reprodução de mapas elaborados por outros, reduzindo as
possibilidades que este recurso oferece para a leitura e a escrita do lugar e do
mundo.
O mapa atende a nossas necessidades cotidianas de chegar a algum
lugar, de planejar trajetos, e atende a propósitos mais complexos, como aos de
planejamento. No entanto, não fica claro ao aluno sua importância. É comum que o
professor, de diferentes níveis e em diferentes séries, recorra ao mapa apenas como
meio para localizar pontos, cidades, países, rios etc., sendo raros os que procuram
fazer um uso mais elaborado, como a sobreposição de escalas para inferências e
proposições. Passini (1994) localiza, entre os vários motivos para esse
comportamento, desde a falta de preparo para o trabalho com esse material até a
falta ou ausência de recursos (inclusive o próprio mapa) nas escolas.
As análises sobre a prática docente em geografia e o contato com
professores que atuam no ensino fundamental reforçam a assertiva que aponta no
sentido de um "divórcio" entre a geografia em sala de aula c os mapas. Tal divórcio
parece ter início já na primeira etapa do casamento: nos cursos de licenciatura. Não
raro o mapa, a carta e a planta estão presentes nas áreas instrumentais (que
ensinam mapas) e ausentes nas demais.
Mas, é importante que, ao se valorizar o mapa e seu uso em sala de aula,
não se perca a dimensão de que o mapa é, apenas e tãosomente, uma linguagem,
aquela que pode ressaltar o caráter espacial de determinadas relações. Estas é que
precisam ser evidenciadas no entendimento da forma como se processaram e na
forma como continuamente se refazem, construindo um dado espaço, definindo de
um certo território e sua paisagem.
Ler no livro: o livro didático de geografia e a possibilidade de escrever o
mundo
A leitura do texto escrito é a etapa fundamental para que outras etapas na
vida escolar possam ser desenvolvidas, como ouvir e expressar idéias: julgar,
opinar, participar. Desenvolver hábitos de leitura, mesmo do livro didático, implica
criar intimidade com o livro; implica construir sentido; exige um comportamento ativo
de construção de significados e atende a um objetivo que deve estar presente para o
leitor: ler para quê? Na escola, o livro didático é, por excelência, o texto escrito de
caráter informativo, aquele ao qual se credita fidedignidade de informação. Ainda
que se concorde com ScIiarCabral(1994, p.14) que " ... qualquer livro didático deve
desenvolver o gosto pela leitura, desenvolvendo capacidades do leitor como um
todo: lúdicas, estéticas, éticas e afetivas ... ", a prática escolarizada da leitura de
texto tem Ido a de fazer cópias, de repetir.
Ler e escrever 4 43 3
No caso dos livros didáticos de geografia, vários são os conceitos
importantes para o cotidiano do cidadão e que ali estão presentes de forma mais
insistente, permitindo um diálogo ampliado com as outras áreas da formação
escolar. É o caso de cidadania, nas suas diversas e históricas acepções, do acatar
ordens e obedecer às leis até as de participação política ativa na vida social. Da
mesma forma surgem outros conceitos, como trabalho, ambiente, tecnologia.
Guimarães (1996, p. 100) indica a aproximação destes conceitos aos trabalhos de
geografia, desde as séries iniciais, e sua convivência com as demais áreas Este
autor sublinha sua preocupação com a leitura fragmentada da realidade, feita
através de uma correspondência entre conteúdos recorrentes (família, bairro, relevo,
país) e uma mera junção destes todos.
Para este autor a “... concepção mecânica de mundo impede que as
capacidades cognoscitivas das crianças transformem estes conteúdos em
ferramentas de leitura da realidade, num sentido amplo...” salientando que, " ...desde
as primeiras letras, o trabalho de leitura pode contribuir para o desenvolvimento de
um pensar sobre o espaço geográfico como um espaço social, produzido pelo
trabalho humano" (Guimarães, 1996, p.101).
Em artigo sobre os livros didáticos de geografia, Schãffer (1998a) retoma
a análise de livros de Estudos Sociais feito pelo MEC (Brasil, 1994) e que reúne
sérias críticas a esses livros, acusados de não permitirem o desenvolvimento da
alfabetização cartográfica, de transmitirem uma visão idealizada do campo e da
cidade, de exporem o despreparo dos autores quanto ao domínio de conceitos
básicos em geografia e história. O mesmo estudo sugere a divulgação e discussão
nas escolas de critérios de análise para a escolha de livros didáticos, com base na
avaliação do planejamento gráfico da obra, do conteúdo (conceitos, informação
cartográfica) e dos aspectos pedagógicometodológicos (adequação de linguagem).
Apesar dessas críticas é indispensável enfatizar a disseminação do texto técnico da
área (livro de geografia na voz do aluno) ao longo da formação escolar e o apoio que
pode emprestar a uma formação sólida. Voltase a Guimarães (1996, p.103) para
lembrar que
Dependendo do trabalho que se faça com os conteúdos de geografia podese
transformar o temário desta área num campo fértil à problematização, trazendo para a
sala de aula o estudo dos sujeitos que produzem o espaço geográfico. Desenvolvendo os
conceitos existentes nos livros didáticos e que constituem o que é específico à geografia,
pode mos ampliar, ao mesmo tempo o repertório da leitura e da escrita nas séries
subseqüentes.
É indispensável não perder de vista que o aprendizado da leitura não
pode esquecer as experiências prévias dos alunos e o fato de que, em geral, não
desenvolveram suficientemente as noções de tempo e de espaço. O processo de
leitura em geografia pode propiciar novas formas de pensar, de questionar, de
desencadear aprendizagens significativas na direção de mudanças na compreensão
de conceitos e na adoção de atitudes e de valores. A leitura do livro didático de
geografia, tanto quanto a dos demais, precisa pautarse na preocupação com o ato
de ler. Neste sentido, a adoção e a devida exploração de textos complementares,
inclusive de paradidáticos, podem enriquecer e problematizar a aprendizagem,
levando as novas investigações.
Ler e escrever 4 44 4
Guimarães (1996, p.102) pensa que, apesar das deficiências verificadas
em muitos títulos didáticos de geografia, não seja difícil.
...enumerar algumas boas coleções existentes no mercado e que apresentam uma
variada gama de recursos necessários a esse processo de alfabetização. Além do texto
conceitual, há nessas coleções fotos coloridas, mapas, gráficos e desenhos ilustrativos
que, também tomados como textos, aproximam o aprendizado da fronteira entre a
linguagem verbal e a comunicação visual, ampliando, enriquecendo e complexificando
as possibilidades de leitura.
A leitura permite a ampliação e o aprofundamento dos conceitos que
possibilitam a intermediação com a realidade. Empobrecer o uso do livro didático,
restringindoo à leitura descompromissada, ao exercício de localizar e reproduzir
respostas, é furtar ao aluno possibilidades de enriquecer seu aprendizado. De modo
geral, o escrever com o livro didático, paralelamente ao ler o livro didático, tem sido
atividade pouco explorada. Expor por escrito, desenvolver argumentos com base em
vivencias e em leituras especializadas, pertinentes ao seu nível de escolaridade,
qualificar a produção textual, são solicitações pouco freqüentes no ambiente escolar.
Solicitar que o aluno escreva demanda que nós, professores, exercitemos nossa
escrita, que avaliemos previamente o que estamos solicitando, o envolvimento que a
tarefa exigirá de cada aluno e, sobretudo, como avaliar e discutir o que foi escrito.
Sole (1998) é enfática sobre o préfazer: leia antes o texto que seu aluno vai ler,
meça o tempo, imagine as dificuldades, estabeleça estratégias de interação.
Escrever, e escrever bem, retomando ao início deste texto, é uma tarefa
que a escola não pode postergar. Vygotski (1988, p.119) registra a importância e os
encargos vinculados a esta tarefa: “... o ensino da linguagem escrita depende de um
treinamento artificial. Tal treinamento requer atenção e esforços enormes, por parte
dos professores e do aluno,...”, encaminhando a crítica: "Até agora a escrita ocupou
um lugar muito estreito na prática escolar em relação ao papel fundamental que ela
desempenha no desenvolvimento cultural da criança".
Ler e escrever, no mundo atual, imerso em novas tecnologias e em novos
veículos de informação, vai além do domínio da palavra escrita. Em geografia, como
nas demais áreas, é importante estimular o ler em novos documentos, a
competência para a identidade e a intimidade com os recursos tecnológicos em
expansão. Escrever ou comunicarse via computador, localizar informações em rede,
ler imagens e novos mapas já são hoje habilidades necessárias ao cotidiano. O uso
da Internet, que na metade da década de 90 já estava presente em cerca de 20%
das residências norteamericanas, em 10% das alemãs, francesas e britânicas, em
mais de 5% das japonesas, 3 tende a acentuarse rapidamente nos meios letrados e
nos negócios, mesmo em países de baixa escolaridade como o nosso. O uso do
computador, do mouse e da Internet, será tão básico, a curto prazo, quanto é hoje o
ler e o escrever. Para a maioria das crianças e adolescentes é apenas na escola que
poderá ocorrer uma primeira aproximação às novas tecnologias para a leitura e a
escrita. Daí a importância do professor em buscar, previamente, esta aproximação e
esta intimidade.
Considerações finais
Conforme registrava em reflexão anterior (Schãffer, 1998b), é função da
geografia, na escola, analisar a dinamicidade da sociedade e da natureza, em
Ler e escrever 4 45 5
escalas temporais diferenciadas, as relações entre o lugar grandeza de escala
privilegiada no cotidiano e o mundo na perspectiva da economia atual, bem como
refletir sobre formas de resistências e propostas alternativas a modelos
hegemônicos. As diferentes situações de ensino e de aprendizagem,organizadas
pelo professor, devem integrar, portanto, o maior número possível de aspectos
pertinentes ao objeto geográfico em estudo, de forma a promover uma visão
ampliada e contextualizada do mesmo.
A geografia (e a conquista da cidadania) está em aberto, escrita e re
escrita, contraditoriamente, a muitas mãos, num script permanentemente
reelaborado, segundo Rua (1998). Para ele, somente a solidariedade planetária,
nacional e local poderá transformar a possibilidade em realidade e diminuir a
incerteza, levando a uma gestão democrática do espaço onde haja lugar para todos,
onde não hajam excluídos. O professor de geografia pode e deve participar desse
projeto. A leitura e a escrita, como tarefas da escola e como procedimentos de
variadas nuanças em cada área, concorrem para tanto.
O objeto de estudo da geografia está aí, diariamente, exposto a todos os
sentidos de cada aluno, segundo nos mostra Ligüera (1998). O espaço próximo se
vive, forma parte da história pessoal do aluno que lhe atribui uma lógica, a sua
maneira. Os significados implícitos, os preconceitos, as noções prévias formam parte
do desenvolvimento das inteligências pessoais. Ignorar essa forma do aluno
apreender seu espaço real é, além de um erro pedagógico, uma forma de
desconhecer o aluno como pessoa, de omitir a chance de uma leitura e de uma
escrita consistente de si e do mundo.
Os conhecimentos geográficos, meios para a formação do aluno e não
fins em si, associamse aos procedimentos que o professor definiu como os mais
adequados em face dos objetivos a que se propôs. Entre aqueles procedimentos, a
leitura (do texto/do mundo) deve fazer parte constante das atividades em classe e
extra classe, a par das demais rotinas que façam uso de recursos específicos para a
leitura espacial, especialmente mapas, no caso da geografia. Mas a formação
resulta, sobretudo, do aluno entenderse como sujeito social, construindo sua
identidade através da adoção de valores que se concretizam l'm atitudes de
participação e cooperação social.
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1988.
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1989.
Notas
1. O documento de geografia nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) trabalha
sinteticamente as categorias de espaço geográfico, território, lugar, paisagem. Reportase também,
ainda que de forma breve, à evolução do conhecimento geográfico na sua relação com a prática
escolar. É um documento cuja leitura sugerese aos professores de geografia.
2. A Geografia, isto serve antes de qualquer coisa, para fazer a guerra, obra de Yves Lacoste,
passou a circular e a ser popularizada no Brasil a partir do início dos anos 80.
3. Cerca de 5% das residências de estudantes do Sul e do Sudeste do Brasil dispõem de
computador (IBGE, 1998).
Ler e escrever 4 48 8
Leitura e escrita na história
Fernando Seffner
Introdução
Na Enciclopédia, ou Dicionário raciocinado das ciências, das artes e dos
ofícios, por uma sociedade de letrados, editada por Diderot e D’ lembert na França,
entre os anos de 1751 e 1772, temos um conjunto de definições acerca da história e
da ciência que vem a calhar para um texto vai ocuparse de leitura, escrita e história:
"O Entendimento ocupase Ias percepções somente de três maneiras, segundo suas
três faculdades principais, a Memória, a Razão e a Imaginação. Memória, por
conseguinte, história". A definição de históriaestá aqui fortemente vinculada à
memória. Mas a memória, para funcionar adequadamente, precisa do recurso da
leitura e da escrita. Saber ler é algo tão importante para os autores Enciclopédia que
eles propõem uma sociedade de homens leitores (sociedade de letrados) e,
portanto, mais felizes.
Dentre as ciências do homem, enumeradas na Enciclopédia, está lógica,
que pode dividirse em Arte de pensar, em Arte de reter os amentos e em Arte de
comunicálos. A Arte de reter, que aqui nos interessa, apresenta dois ramos: a
Ciência da própria memória e a Ciência dos suplementos da memória. Dentre os
suplementos da memória, principal deles é a escrita. Nesse ponto, conforme Diderot
e D’ lembert nos alertam, temos uma semelhança entre sua proposta e divisão das
ciências feita pelo chanceler Nicolas Bacon (15601626): são da Lógica em Arte de
inventar, de julgar, de reter e de comunicar. Divisão da Arte de reter em Ciência do
que pode ajudar a memória (leitura e escrita) e Ciência da própria memória”:
Na Enciclopédia não se trata da leitura como verbete ou categoria, mas
podese insistentemente ao público que a leia: “É ao Público que lê, a quem cabe
julgarnos: "pensamos ter de distinguilo daquele que fala". Os autores tinham clara
sua missão de registrar acontecimentos, procedimentos e conhecimentos
disponíveis no momento, transmitindoos às futuras gerações, afirmando que o
"objetivo de uma enciclopédia é o de reunir os conhecimentos dispersos sobre a
superfície da Terra e expor o seu sistema geral aos homens com os quais vivemos,
para que os nossos descendentes, tomandose mais instruídos, tomemse, ao
mesmo tempo, mais virtuosos e felizes".
As questões que orientam o presente texto dizem respeito à importância
das atividades de leitura e escrita na aula de história. Concordando com os autores
Ler e escrever 4 49 9
da Enciclopédia, não conseguimos imaginar a área de História sem atividades
específicas de leitura e escrita. A escrita é algo tão importante na história que, para
alguns, só existe história quando existe escrita. Daí as divisões história e pré
história. Podemos considerar que, nas sociedades anteriores à escrita, todo o saber
está guardado na comunidade de indivíduos vivos. Por isso, a morte de um velho é
como um arquivo que queima. Com o aparecimento da escrita, o saber passa a ser
sustentado pelo texto, e é o intérprete desse texto que domina o conhecimento.
Estudar a figura dos sacerdotes da Antigüidade é importante por isso: são eles que
interpretam os textos sagrados, tais como a Bíblia e o Alcorão, onde está contida
toda a história do mundo. A história, por outro lado, é uma determinada leitura do
real, feita com a utilização de um conjunto de procedimentos e informações que
orientam e validam a produção do conhecimento histórico.
No sentido de melhor organizar a exposição, iniciamos traçando alguns
vínculos da leitura e da escrita com a história, enfocados através das questões da
identidade, da memória e da historicidade das práticas leitoras. Este último item, por
si só, mereceria muitas páginas, pois aí se trata da história da leitura. Na
impossibilidade de abordar o tema de forma extensa, indicamos caminhos de leitura
e aprofundamento na bibliografia. A seguir, passamos a enfocar a sala de aula de
história, através da resposta a duas perguntas: "o que se espera que um aluno leia
em história?", e "o que se espera que um aluno escreva em história?".
Por fim, uma diferenciação: a leitura de mundo e leitura da palavra. Em
que pese a indissociabilidade entre elas, conforme muito bem assinala Paulo Freire
em seus escritos, aqui vamos enfatizar a leitura da palavra, em textos, documentos,
cartas, notícias de jornal etc., e a escrita de textos informativos, opinativos, analíticos
etc. Esta ênfase no texto escrito não deve deixar de lado a constatação de que
“lemos através de um campo quase infinito de possibilidades expressivas. Por isso,
ao se pensar em conceitos de leitura é necessário considerar o abrangente princípio
segundo o qual todos lêem o tempo todo" (Citelli, 1994, p.46). Em verdade, o que
desejamos é formar um aluno capaz de realizar uma leitura histórica densa do
mundo, percebendo a realidade social como construção histórica da humanidade,
obras na quais todos têm participação, de forma consciente ou não. Uma leitura
complexa do mundo não pode prescindir da leitura da palavra, tarefa fundamental da
escola:
Por razões que não precisam ser aqui lembradas, é a palavra o centro da preocupação
da educação escolar. E não poderia ser diferente. Afinal, vivemos em uma civilização
logocentrica; nosso sistema mental, nossas formas de relações contratuais, os
movimentos linguagem/pensamento, para indicarmos alguns casos, em tomo da palavra.
DomináIa enquanto leitura e escrita tem sido uma questão sempre presente em nossa
cultura, além de um permanente desafio ao trabalho dos educadores. Exatamente por
isso, os problemas de proficiência lingüística têm ocupado boa parte das discussões
acerca do rendimento escolar. É verdade que, sendo a escola o lugar do exercício
sistemático da linguagem verbal, o ensino da leitura e da escrita passou a ser
praticamente sua exclusiva atribuição. Devese considerar, porém, que reduzir a leitura à
escola é algo limitado, mesmo porque ler implica o desenvolvimento de certas
experiências que não estão necessariamente na escola e que podem ser processadas,
inclusive', fora dela. (Citelli, 1994, p.47)
Leitura, identidade, memória e história
Ler e escrever 5 50 0
Num primeiro momento, aprender a ler e escrever é alfabetizar. Dominado
o código escrito, a tarefa ainda assim está longe de terminada. Ou seja, podemos ter
uma classe de alunos já alfabetizados, mas isso não significa que eles integrem o
recurso à leitura e à escrita na sua maneira de ser e estar no mundo, na sua maneira
de pensar e agir. Ser alfabetizado pode significar apenas que estes alunos lêem
mecanicamente o que lhes cai pela frente: propagandas, anúncios, placas lia rua,
trechos do livro didático, avisos, exercícios passados pelo professor, etc. Ou seja,
eles são "atingidos" pelas coisas escritas, mas pouco interage com elas. De todo
modo, a maior parte dos indivíduos hoje em dia sabe mais do mundo através
especialmente da televisão e do rádio, frente aos quais habituamonos a ter uma
atitude passiva e receptiva acrítica.
Hoje, a leitura do livro não tem mais o monopólio do acesso à informação,
e as práticas de leitura são em geral extensivas, mais utilitárias e menos literárias.
Hoje, lemos para trabalhar, para nos informar, para nos orientar etc. Se por um lado
temos essa prática extensiva e cotidiana de leitura, realizada por um grande número
de indivíduos na sociedade, temos dificuldades na leitura contínua, intensiva, leitura
de um livro do início ao fim, leitura de coleções e de grandes obras. A leitura dos
jovens se inscreve em geral na descontinuidade e na fragmentação: leitura da
resposta certa, do aviso no quadro, do questionário, do bilhete do professor, da
propaganda, do cartaz etc. Qual jovem lê um livro do início ao fim?
A leitura não constitui para a maioria uma fonte importante de
conhecimento sobre o mundo, nem a escrita uma alternativa concreta de intervenção
social. Nas palavras de Jean Foucambert, em palestra n o . 11º COLE Congresso de
Leitura, em 1997, cujo tema era a exclusão social:
[...] o que se evidencia, nesses vinte últimos anos, é a tomada de consciência de que a
escrita é antes de tudo uma linguagem, tal como é considerada a linguagem matemática,
um instrumentoque torna possíveis operações intelectuais particulares, o exercício de
um modo de pensamento voltado para a teoria e a abstração, aquilo que Jack Goody
chama acertadamente de "a razão gráfica", algo que permite passar da exceção, que é o
destino de todas as nossas experiências pessoais, a uma regra, algo que permite dar
conta dessas experiências e encontrar pontos de ação e não de reação, construir o
estrutural a partir do conjuntural.
Ainda segundo Foucambert (1977), duas são as tarefas necessárias para
retirar vasta parcela dos indivíduos da situação de exclusão. Primeiro, possibilitar
que a maioria se apodere da linguagem como instrumento de pensamento, e não
simplesmente como técnica de transcrição da oralidade. Segundo, possibilitar a
utilização dessa linguagem para teorizar uma outra experiência social, diferente
daquela que a classe dominante considera legítima. Teorizar uma experiência social
implica contar sua história. Contar uma história é narrar e numerar. Essas duas
significações do verbo contarem assumem particular importância na narrativa da
história. As datas, a cronologia, o tempo, são categorias explicativas da história,
contribuindo para organizar e possibilitar a compreensão de trajetórias. A leitura da
história considera a análise dos pressupostos de que parte o autor, já que a
narrativa histórica nunca é neutra. Escrever um texto histórico é então esclarecer os
pressupostos de que parto. Em outras palavras, que visão de mundo eu "passo" na
minha escrita. Ler um texto histórico é discutir suas raízes, seu local de enunciação,
seu projeto. Essa atitude não pode ser confundida com uma visão conspirativa da
Ler e escrever 5 51 1
história, do tipo "todo texto tem algo escondido". Todo texto é revelador de uma
determinada leitura de mundo, e é a partir daí que ele precisa ser discutido. Nesse
sentido, a escolha das fontes de pesquisa histórica é importante, pois revela os
"lugares da memória".
Ao falar disso estamos tratando de identidade e memória. Temos que
estimular o aluno a falar sobre sua situação social, mas utilizando recursos da teoria.
Sem ela, a fala sobre a vida cotidiana fica uma fala pobre e desarticulada. Memória é
trabalhar com a lembrança e com o esquecimento, para poder dizer algo, e algo
original, intrinsecamente vinculado à identidade de quem fala. Não basta saber
detalhes sobre a revolução de 1930 ou o episódio de Palmares, é necessário discutir
o que isso significa hoje, na realidade em que o aluno vive, na construção de sua
trajetória social, como isso se integra (ou não) na forma com que ele vai falar sobre o
mundo que o rodeia, construindo uma modalidade original de falar sobre aqueles
acontecimentos, marcada pela situação peculiar de cada um no mundo:
É necessário ter claro que desenvolver uma competência para a leitura (da palavra)
implica contribuir no sentido da formação de um cidadão mais pleno, que possa,
criticamente, se assenhorar de um mecanismo tradicionalmente utilizado pela classe
dominante. Tomar posse da palavra não para refazer o circuito da discriminação, mas
para forçar espaços de libertação. (Citelli, 1994, p.50)
Uma boa possibilidade de trabalho com a identidade na aula de história é
fazer um levantamento das trajetórias de leitura de cada pessoa. Os alunos podem
ser levados também a entrevistar seus pais, avós, tios e conhecidos, perguntando
sobre a leitura em seus ambientes de infância: quem lia, o que era lido, como era
lido, o que as pessoas lembram das leituras dessa época, qual a relação da leitura
com outras atividades etc. Com isso, o aluno percebe a leitura como uma prática
social que tem história, como de resto todas as práticas sociais. O material
resultante dessa pesquisa sobre as trajetórias de leitura de indivíduos determinados,
situados em diferentes graus da escala social e geracional, pode render boas aulas.
As práticas leitoras variaram muito ao longo do tempo, e, inclusive, nem sempre
leitura e escritas foram habilidades coincidentes:
Até bem entrado o século XIX era bastante usual saber ler e não escrever, em especial
entre as mulheres. As duas aprendizagens não eram simultâneas, mas sucessivas. A
segunda exigia mais tempo e dinheiro que a primeira. Escrever, além disso, era
considerado, para o sexo feminino, uma atividade moralmente mais perigosa. Havia, pois,
muitos alfabetizados que podiam receber mensagens escritas, ler textos elaborados por
outros, mas não comunicarse por escrito, produzir textos. (Frago, 1993, p.15).
Ao analisar as diferentes trajetórias de leitura, o aluno poderá perceber
uma associação positiva entre "ser um bom leitor" e "ter acesso a posições de
sucesso profissional e pessoal na vida". Dominar a habilidade da leitura é muito
valorizado socialmente, mas é importante discutir com os alunos a importância da
capacidade leitora no sentido da construção da autonomia individual e coletiva. Ou
seja, vincular a leitura com a discussão da construção da cidadania. Nesse sentido,
a importância das capacidades em leitura e escrita é fundamental para explicar
determinados episódios históricos, conforme podemos ver nesse comentário de Jack
Goody, antropólogo e historiador britânico, referindose ao levante dos escravos
malês, em 1835, na Bahia:
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[... ] me interesso por revoltas, em geral. Mas, nesse caso particular o que me atraiu foi o
fato de o chefe de polícia local atribuir o relativo sucesso da revolta ao papel da escrita
no seu planejamento. Sabese que escravos e homens livres participantes da revolta a
maioria muçulmana de origem ioruba freqüentava escolas informais islamitas, onde
aprendiam a ler e a escrever em caracteres árabes, e que muitos dos líderes tinham
perfeito domínio da leitura e da escrita, o que os colocava acima dos colonizadores
brancos que mal sabiam assinar o nome. Com essa habilidade eles puderam planejar o
levante em segredo, enviando mensagens e instruções que foram apreendidas pela
polícia [...] Assim, meu antigo interesse pelas conseqüências da alfabetização se viu
aguçado por esse episódio que punha à luz os potenciais idades da leitura e da escrita
para a transformação cultural. (Goody, 1998)
O que se espera que um aluno leia em história?
Há uma variedade infinita de materiais escritos como fonte de pesquisa e
aprendizado histórico. Em princípio, o aluno deve tomar contato com exemplares de
todo tipo, efetuando sua leitura e discutindo os procedimentos de análise de cada
fonte. Esperase que o professor organize atividades em sala de aula levando o
aluno a ler documentação histórica diversa: cartas, bulas, decretos, diários de
viagem, escrituras, certidões, notícias de jornais e revistas, legislação variada, fichas
de identificação pessoal, material de arquivos, documentos pessoais (carteira
profissional, de identidade, certidão de nascimento, casamento e óbito etc.), textos
analíticos de diferentes autores, descrições de paisagens, relatórios de ministros, de
prefeitos, de comissões encarregadas de acompanhar determinados
acontecimentos, letras de músicas populares e de hinos, gráficos e conjuntos de
dados econômicos, crônicas de costumes, propagandas de produtos e de eventos
etc.
Cada material pode exigir um determinado tipo de leitura, com auxílio de
dicionário quando se tratar de documento com linguagem mais complicada. O
professor deve evitar a leitura dogmática dos textos clássicos, que muitas vezes é
feita de tal forma em sala de aula que só cabe ao alunoconcordar com o autor,
aceitando aquela versão histórica. Á leitura de cada texto deve ser feita de modo a
salientar os procedimentos que o autor lança mão, em que fontes ele se apóia para
traçar suas conclusões, de que forma aquele texto se relaciona com outros
referentes ao mesmo tema, que conceitos o autor utiliza para abordar a situação em
estudo. Para alguns materiais, como notícias de jornais e revistas, é interessante
discutir sua modalidade de produção, talvez visitando um jornal ou discutindo com
jornalistas e redatores em sala de aula, ou ainda comparando o texto de diferentes
jornais e revistas sobre um mesmo tema.
O livro didático é, muitas vezes, a única leitura histórica que ºaluno tem à
disposição. Se ficarmos apenas nele, as possibilidades de discussão e troca de
idéias se empobrecem muito. A leitura do livro didático deve ser estimulada, mas
não como sendo a única fonte de explicação histórica. Nesse sentido, é bom
trabalhar com diferentes livros didáticos, percebendo as diversas modalidades de
construção de cada episódio histórico, e consultando também, acerca do mesmo
episódio, as enciclopédias, os dicionários (históricos ou não) e os Atlas históricos.
Não somente o que acaba de ser publicado é importante de ser lido. A leitura dos
textos clássicos, especialmente documentos históricos, é indispensável:
Ler e escrever 5 53 3
Livros são escritos sobre este ou aquele grande espírito da Antigüidade e o público os lê,
mas não lê as próprias obras; isto porque quer ler apenas o que acaba de ser publicado
[...] (Schopenhauer, 1994, p.35).
A leitura de todos esses materiais possibilita a aquisição, por parte do
aluno, de um vocabulário histórico específico, configurando o aprendizado de
conceitos. Os conceitos universalizam os temas em ferramentas para entender o
mundo. A leitura de textos que estabeleçam correlação entre diferentes
acontecimentos, em diferentes locais e tempos, possibilita ao aluno incorporar a
história passada da humanidade em seu repertório de vida e na construção de sua
identidade social.
Como organizar as leituras em sala de aula? O professor deve reservar
momentos para leitura individual e silenciosa dos textos. É importante também
praticar a leitura em voz alta, não esquecendo que a fala é um instrumento
privilegiado de organização e construção do conhecimento, e deve ser estimulada.
Uma modalidade muito adequada à aula de história é pedir aos alunos que narrem
episódios históricos, praticando contação de histórias, o que pode ser feito em
conjunto com a área de literatura. Podese também contar uma história utilizando
elementos teatrais. Em todos os casos, após uma leitura seguemse atividades de
compreensão, debate e aprofundamento, possibilitando que o aluno integre os
novos conhecimentos em seu repertório:
[...] só com ela (a ruminação) é que nos apropriamos do que lemos, da mesma forma que
a comida não nos nutre pelo comer mas pela digestão. Se lemos continuamente sem
pensar depois no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral não
acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do corpo: nem a
qüinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto desaparece pela evaporação,
pela respiração ou de outro modo. (Schopenhauer, 1994, p.19)
Repetitio est mater studiorum. Todo livro minimamente importante deveria ser lido de
imediato duas vezes, em parte porque na segunda compreendemos melhor as coisas em
seu conjunto e só entendemos bem o começo quando conhecemos o fim; em parte
porque, para todos os efeitos, na segunda vez abordamos cada passagem com um
ânimo e estado de espírito diferentes do que tínhamos na primeira, o que resulta em uma
impressão diferente e é como se olhássemos um objeto sob uma outra luz.
(Schopenhauer, 1994, p.43)
O que se espera que um aluno escreva em história?
A leitura e a escrita de textos históricos devem levar em conta a
necessidade de explicitação e utilização de conceitos. Conceitos entendidos aqui
como ferramentas de análise, e como possibilidade de universalizar uma discussão.
Trabalhamos em história sempre com a análise de situações determinadas. Discutir
a qualidade da escrita histórica envolve analisar os recursos conceituais utilizados,
as fontes consultadas, a problemática construída, as questões propostas e o estilo
narrativo. Digamos que a situação em estudo seja o 31 de março de 1964 no Brasil.
O professor seleciona questões e prepara atividades de leitura sobre o tema, a partir
de trechos de livros didáticos, notícias de jornais da época, depoimentos colhidos
pelos alunos com seus pais, parentes e vizinhos, observação e descrição de fotos e
imagens do movimento militar, trechos de discursos e outras falas de época e
trechos de filmes que transitam por este acontecimento. Enriquecida a discussão
com essa variedade de material, o professor busca com os alunos os conceitos que
melhor podem expressar a análise do período estudado. Nesse caso, uma
Ler e escrever 5 54 4
possibilidade seria trabalhar os conceitos de mudança e permanência (o que deveria
mudar, na opinião de cada um dos grupos envolvidos no episódio? O que deveria
permanecer como estava, na opinião de cada um dos grupos envolvidos?), e os
conceitos de golpe militar, revolução e contrarevolução.
Finalizando a discussão, o professor pode propor a cada aluno uma
produção escrita, analisando a situação estudada. Essa análise deve ser feita a
partir dos conceitos estudados e questões discutidas. Uma boa proposta é pedir ao
aluno que relacione o 31 de março de 1964 com outros episódios da história
brasileira, nomeados como revolução ou golpe, nos quais também houve um
tensionamento entre grupos que propunham mudanças ou permanências na
estrutura política brasileira. Dessa maneira, a escrita de textos de análise histórica
pelo aluno possibilita operar com conceitos que permitem a comparação entre
características de diferentes períodos históricos.
Ler é compreender o mundo, e escrever é buscar intervir na sua
modificação. Ao pedir que o aluno escreva um texto de análise histórica, estaremos
sempre buscando extrair dele uma posição frente à discussão. Portanto, estamos
trabalhando no sentido de que cada aluno desenvolva uma capacidade
argumentativa própria, utilizando conceitos claros, num ambiente democrático de
troca de idéias e convívio de opiniões diferenciadas. Isso colabora para a formação
da identidade política de cada aluno. O que não podemos permitir é que as
atividades de leitura e escrita na aula de história se transformem num ritual
burocrático, em que o aluno lê sem poder discutir, responde questionários
mecanicamente e escreve textos buscando concordar com o professor para ter sua
boa nota assegurada. Aqui, vale parodiar a frase de Dante Alighieri, ao descrever as
diferentes partes do inferno: "os níveis mais baixos do inferno estão reservados para
aqueles que, em tempos de crise moral, se mantiveram neutros ou indiferentes".
Temos que lutar para a construção de uma postura crítica e filosófica frente aos
textos, fugindo da leitura instrumental ou dogmática, que termina sempre em
"decoreba". Uma postura que exija do aluno leitor uma posição, uma opinião
fundamentada. Buscamos formar alunos que elaborem seu projeto de vida,
posicionandose frente às questões polêmicas da vida social, construindo
alternativas políticas viáveis e manifestando com clareza e argumentação coerentesuas opiniões. Nada pode ser mais nocivo para o aluno do que a decoreba do livro,
como se nele houvesse uma verdade a priori indiscutível:
Conseqüências deste proceder serão a resistência e a recusa ao texto escrito, em geral
o analfabetismo por falta de uso e,já desde o início, o estabelecimento de uma relação
mágica com um objeto dado e canonizado a ser memorizado: o livro. Nada ilustra melhor
esta relação estéril para o leitor e para o livro que a cena narrada por Camilo José
Cela em seu Viaje a Ia Alcarria. O viajante chega a uma aldeia, Casasana. A professora
que o acompanha na visita à escola local, limpeza e ordem miseráveis "fala de
pedagogia...e diz ...que as crianças são boas e aplicadas e muito atentas". Chama em
seguida um menino e uma menina:
Vamos ver, para mostrar a esse senhor. Quem descobriu a América?
O menino não titubeia.
Cristóvão Colombo.
A professora sorri.
_Agora tu. Qual foi a melhor rainha da Espanha?
Isabel, a Católica.
Por quê?
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_Porque lutou contra o feudalismo e o Islã, realizou a unidade de nossa pátria e
levou nossa religião e nossa cultura para além dos mares.
A Professora, satisfeita, explica ao viajante:
E minha melhor aluna.
A pequenina está muito séria, muito possuída de seu papel de número um. O
viajante dálhe uma bala de café com leite, levaa um pouco à parte e pergunta:
Como te chamas?
Rosário Gonzáles, para servir a Deus e ao senhor.
Bem. Vejamos Rosário, tu sabes o que é o feudalismo?
Não senhor.
E o Islã?
Não senhor. Isto não.
A menina está perturbada e o viajante suspende o interrogatório.
Deixemos à menina que fala como um livro. Um livro que não entende, mas por cuja
leitura memorizada será avaliada sua inteligência. (Frago, 1993, p. I 8).
O texto histórico por excelência é a narrativa, mas há diversas
possibilidades de construíIa. Uma modalidade importante é a descrição de
situações e cenários históricosociais. Aqui, temos que atentar para a correta
utilização das informações disponíveis para cada período histórico. Outra
modalidade são textos opinativos, posicionandose a respeito de determinadas
teorias acerca do social, quando o professor deve estar atento para a qualidade e
precisão da argumentação utilizada. Na medida em que o ensino de história tem
como um de seus objetivos a formação da identidade social, são bem vindos na sala
de aula textos sobre a história do aluno, a construção de sua identidade, a
caracterização de determinados períodos de sua vida, de seus antepassados, os
ensaios sobre seus projetos de vida e desejos profissionais futuros etc. A partir dos
princípios do método de alfabetização de Paulo Freire, podemos montar atividades
provocando reflexões acerca de cenas cotidianas da vida dos alunos (descrição das
condições do transporte coletivo, fotografias da vila e dos locais de moradia, fotos de
jornais em que aparece uma parte do bairro ou vila etc.). Com isso, possibilitamos
um adensamento na reflexão dos alunos sobre temas do seu cotidiano.
Posteriormente, podemos solicitar tarefas escritas sobre o que foi discutido.
A organização de linhas de tempo, o estabelecimento de cronologias
comentadas e a montagem de acervos de documentos, imagens, objetos etc., numa
linha cronológica, seguida de comentários explicativos, são boas alternativas de
produção escrita na aula de história, abordando a questão do tempo, uma das
categorias mais importantes da explicação histórica. Um trabalho importante de
leitura e escrita histórica é aquele que se dá a partir da leitura de imagens e posterior
escrita sobre elas. A chegada de Cabral ao Brasil em 1500 pode ser discutida a
partir dos numerosos quadros e gravuras que buscam representar esse momento.
Mesmo ficando apenas nos livros didáticos, o material mais abundante nas escolas,
conseguiremos com facilidade reunir umas quinze diferentes gravuras desse
episódio. ObserváIas com atenção, discutir seus principais elementos, semelhanças
e diferenças, e solicitar uma produção escrita sobre elas propicia uma excelente
aula. A história de um acontecimento pode ser contada a partir de numerosas
linguagens: a literatura, o cinema, os quadrinhos, as gravuras, o teatro.Discutir
aproximações e diferenças entre essas linguagens, a narrativa que produzem, e
perceber no que elas afetam a narrativa histórica tradicional é algo indispensável
hoje. E cabe utilizar sempre materiais pedagógicos interativos, com questões para
Ler e escrever 5 56 6
pensar, que preservam o espaço para o diálogo com o leitor, evitando materiais e
textos fechados e dogmáticos:
Através da análise que fiz dos textos didáticos de história do Brasil (1964 a 1978) pude
verificar que há basicamente dois tipos de textos didáticos de história: aqueles que
elidem os agentes da história e privilegiam o episodismo (locais e datas) em detrimento
da explicitação do processo histórico, e aqueles que, ao contrário, procuram fazer com
que o leitor (o aluno) possa refazer o percurso dos acontecimentos e chegue a uma
interpretação do processo histórico. (Orlandi, 1983, p.143)
Por fim, uma questão importante sobre a produção escrita do aluno: o
aluno escreve para quem? Em geral, apenas para que o professor leia, corrija e
devolva a ele. Esse é um circuito muito pobre para o texto escrito. Esperase que um
aluno escreva textos para a sala de aula, para serem lidos por seus colegas, para
serem afixados num mural, para constituírem parte de um cartaz, para serem
enviados como carta a outros alunos de outras escolas e os seus pais para leitura
em casa, para que se constituam em recursos pedagógicos entre outros grupos ou
classes, para integrarem um jornal histórico, para servirem de base à construção de
uma história em quadrinhos a respeito de determinado episódio histórico etc.
Ampliando a circulação aumentamos o interesse e a responsabilidade dos alunos
em escrever bons textos. Por outro lado, contribuímos para qualificar a
argumentação e o ponto de vista do aluno, na medida em que ele pode comparar
seu texto com o do livro didático, o de outros alunos, o de outros autores e as
opiniões do professor. A opinião do aluno não é nem melhor nem pior do que a
nossa ou a do livro didático, ela é apenas a manifestação da particular relação do
aluno, sua realidade e seu contexto, com aquela opinião qualificada do historiador
ou corrente na historiografia, resultado de pesquisa e investigação.
Considerações finais
O desafio da leitura é um desafio de democracia e de cidadania, da
constituição do aluno cidadão leitor, e isso ultrapassam amplamente as paredes da
escola, mas a escola é uma etapa importantíssima nesse processo. A leitura é
também uma chave para a integração política do jovem, no sentido grego do termo,
a integração à polis, aos códigos de discussão da comunidade política. A leitura e a
escrita constituem um caráter público para o indivíduo.
Uma leitura chama o uso de outras fontes de informação, de outras leituras,
possibilitando a articulação de todas as áreas da escola. Uma leitura remete a
diferentes fontes de conhecimentos, da história à matemática. Nesse sentido, leitura
e escrita são tarefas fundamentais da escola e, portanto, de todas as áreas. Estudar
é ler e escrever.
Os conhecimentos históricos podem servir de apoio na leitura de qualquer
outra modalidade de texto, em qualquer outra área, na medida em que todo texto é
datado historicamente, vinculado a determinada visão de mundo ou conjuntura. A
partir de referenciais da história,podemos interrogar textos produzidos em outras
áreas, verificando sua relação com as discussões e problemáticas de cada período
histórico. Nesse sentido, um olho no texto e outro na realidade social circundante
Ler e escrever 5 57 7
constituem a receita mais apropriada para as atividades de leitura e escrita numa
aula de história:
Admitase, portanto, que ler envolve, de um lado, uma competência específica que
pode ser dada pela escola quando se trata do domínio do código escrito e, de outro,
uma convivência com as complexas instâncias da sociedade global. A rigor, quando se
trata de ler um texto escrito, essas duas variáveis se cruzam num elemento específico
dado pelo signo verbal impresso. (Citelli, 1994, p.48)
As atividades de leitura e escrita associadas ao ensino de história devem
possibilitar que o aluno elabore seu projeto social (escrever) a partir da análise de
outros projetos (leitura do social). Fazer do aluno um agente histórico é ensináIo a
reconhecer diferentes projetos sociais embutidos nas diferentes falas sociais, e
ajudáIo a construir ∙sua trajetória a partir destes referenciais.
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Ler e escrever 5 58 8
Os desafios (?) do ensinar a ler e a escrever
em língua estrangeira
Um Novo Mundo está ai. O do Novo Milênio. Insistir que as
crianças, os jovens aprendam segundo as normas do século
XIX ou dos meados do século XX, conforme os cânones do final
deste século, já soam anacrônico. O ano 2000 está chegando.
Exigindo posturas contemporâneas dos ensinantes. Pedindo
que sintonizem com o que já chegou e está se movendo
velozmente e com a abertura para se recolocar a cada fato,
situação, instrumento.
(Abramovich, 1990, p.94)
Introdução
"Afinal de contas, como as crianças aprendem hoje?" Eis a questão
primeira e instigante que nos colocamos antes de delimitar o tópico da leitura e da
escrita em língua estrangeira. Teóricos como Haggerty (citado por Elias, 1997, p.43)
nos afirmam que os alunos da década de 90 diferem consideravelmente daqueles
que os educadores veteranos com larga experiência docente estavam acostumados
a ter em classe. A razão primordial se deve ao fato de que hoje nós, educadores,
temos que “... ensinar os alunos que temos em sala de aula e não os alunos que
gostaríamos que lá estivessem". Temos de nos dar conta de que devemos ensinar a
todas as crianças as habilidades que necessitam para serem bemsucedidas não só
em sala de aula, mas na própria vida. O grande desafio que Haggerty (citado por
Elias, 1997) propõe é que devemos ensinar as crianças, a partir do nível em que
cada uma se encontra, sem lamentar pelo tipo de aluno exemplar que tínhamos em
sala de aula ou que gostaríamos de ter.
Numa rápida retrospectiva histórica e, a título de curiosidade, a
capacidade de ser amplamente inteligente do ser humano (isto é, ser social, cultural
e tecnologicamente inteligente) data de somente trinta a sessenta mil anos atrás.
Antes disso, pensar em crianças aprendizes/estudantes era pensar em mentes
vazias (daí a visão de cérebro humano como balde vazio que predominou por um
certo tempo na área das ciências naturais), não pensantes, nãocriativas e
Ler e escrever 5 59 9
imaginativas, mas carentes de serem treinadas, formadas e informadas desde o
jardim de infância. Do ponto de vista do mercado de trabalho futuro, cabe também
salientar que, até por volta de 1800, as pessoas aprendiam uma profissão no seu
diaadia, nas situações concretas de emprego. Somente com o advento da
sociedade industrial é que surgiu a demanda por habilidades funcionais do tipo
leitura, escrita, cálculo, como requisitos necessários à rotina dentro do processo de
industrialização (Haggerty, citado por Elias, 1997, p.43).
Por outro lado, ao se pensar o mercado de trabalho de um mundo
globalizado, como o atual, as habilidades requeridas das novas gerações que estão
buscando ou já obtiveram emprego são, predominantemente, as seguintes:
habilidades de aprender a aprender, comunicação oral e habilidade de saber ouvir,
adaptabilidade, pensamento criativo e habilidade criativa de resolução de problemas,
especialmente frente à barreiras/obstáculos; prontidão para ver coisas a partir de
perspectivas diferentes; autogerenciamento; autoestima, automotivação,
metas/perspectivas de crescimento profissional, habilidades interpessoais de
negociação, de trabalho em equipe; capacidade de liderança, além de competência
em leitura, escrita e computação, predisposição para trabalhar muito e paixão por
aprender.
Portanto, como deve as crianças aprender hoje? Como as crianças devem
aprender dentro desse desafio que é uma sociedade em constante mudança?
Abbott (1997, p.9) salienta que uma das habilidades que deve ser mais enfatizada é
a “... de pensar sobre o próprio pensamento..." ou metacognição. Para o autor, a
metacognição é essencial no desenvolvimento de habilidades que são transferíveis
e ligadas ao pensamento reflexivo. Em outras palavras, devemos ser capazes de
recuar, como especialistas, para refletir, reavaliar o que se faz, de uma perspectiva
geral e possibilitar que nossas crianças desenvolvam naturalmente tal habilidade
dentro de seu mundo rico, incerto, colaborativo e de resolução de problemas que é
o verdadeiro mundo do aprendiz de hoje em oposição às tarefas, programas de
listagens de conteúdos e atividades mensuráveis típicas de uma sala de aula de
instrução formal tradicional. A especialização requer certamente muito conhecimento
de conteúdos, mas a metacognição é uma capacidade reflexiva profunda que
desenvolve novas possibilidades, conclui o autor.
Por conseguinte, na literatura corrente sobre abordagens que enfocam o
funcionamento do cérebro, destacamos algumas teses sobre ser inteligente que, de
certa forma, ampliam o conceito de metacognição proposto por Abbott (1997). Para
autores como Sternberg (1997), a inteligência tem aspectos analíticos, criativos e
práticos de onde podemos inferir que há muito mais crianças inteligentes do que
imaginamos. Como o sistema educacional via de regra é um sistema fechado, há
uma tendência de classificar os alunos de acordo com dois tipos de habilidades: a
de memorizar informação e, em escala menor, a habilidade de analisáIa. Por
extensão, o sistema de avaliação também coloca ênfase na memória e na análise, o
que propicia rotulagens do tipo: mais inteligente/mais capaz/estar na média/ser lento
ou inapto e pouco enfatizando a criatividade e a capacidade de aplicação prática da
informação. Quando se fala em testes de habilidade, estes também valorizam as
habilidades de memória e as habilidades analíticas, não contemplando os alunos
quepossuem habilidades mais voltadas para a prática (i.e. aqueles que percebem a
relevância dos fatos para suas próprias vidas são deixados de fora).
Ler e escrever 6 60 0
Gardner (1983/1995), por exemplo, ao analisar a vida de pessoas
extremamente influentes, percebeu que estas, seja no domínio da criatividade ou da
praticidade, ou em ambos, eram na sua origem pessoas comuns ou até medíocres
como alunos. Portanto, a uma sociedade pluralista como a sociedade atual, não se
pode adequar uma concepção monolítica de inteligência e de escolaridade. Para
Sternberg (1997, p.20) isso é “... simplesmente um desperdício de talento".
Como começar então? O ponto de partida continua sendo o que define
tudo: "Que tipo de pessoa queremos formar?" Dentro de uma proposta bem
corrente, como é o caso da aprendizagem social e emocional (social and emotional
learning), autores como Elias (1997) sugerem que se tome como ponto de partida a
construção de uma atmosfera saudável em sala de aula que promova, em primeiro
lugar, a autoestima do aluno, através da adoção da chamada abordagem dos 4Cs lia
educação de crianças, a saber: confiança, competências, chances e cuidados. Para
os autores, as crianças necessitam dos adultos, pois estes lhes inspiram confiança e
lhes possibilitam aprender a se autorealizar e interagir com os pares e com a
comunidade em geral. Os adultos, no caso os educadores, devem propiciar
experiências para que as crianças desenvolvam suas competências;
oportunidades/chances para que possam pôr em uso tais competências; e
demonstrar cuidado/zelo, de modo que as crianças sintamse valorizadas como
membros importantes da sua sala da aula e de sua escola.
O ler e o escrever nas áreas de línguas estrangeiras
A construção de significados e de estilos de expressão da própria
individualidade, através de uma outra língua/linguagem a da língua estrangeira ,
reforça a tese da relevância do ensino de uma segunda língua como
instrumento/ferramenta sóciocultural e não como um fim em si própria, para que o
aluno faça um melhor sentido do seu diaadia na sua cultura de origem, ao mesmo
tempo em que passe a cultivar uma " ... percepção positiva da sua própria cultura e
da cultura do outro: o sensibilizarse interculturalmente" (Matos, 1994, p.17 8). Ler e
escrever, em uma segunda língua, portanto, devem possibilitar ao estudante ampliar
sua autonomia discursiva e seu domínio de conhecimentos, bem como sua
percepção de cidadão que, ao apropriarse dessa nova língua/ linguagem e dessa
nova cultura, passa a ter uma visão de mundo social ampliada, denominada por
Paiva (1996, p.105) de "cidadania ampliada".
Nessa percepção, ler e escrever em língua estrangeira devem ser
entendidos como processos de aprendizagem, de desconstrução e de reconstrução
pelo próprio aluno, em que o objeto a ser apreendido é uma nova cultura, uma nova
visão de mundo, uma nova forma discursiva e não meramente um código forma
lingüístico a ser memorizado, totalmente distanciado de sua subjetividade.
Por conseguinte, a leitura em língua estrangeira não deve ser entendida
como atividade passiva de decodificação de vocabulário ou de idéias específicas (o
mito do "só entendo o texto se posso traduziIo palavra por palavra e se me tomo
bilíngüe na culturaalvo"), mas como um processo dinâmico de desenvolvimento e
implementação de estratégias como inferência, autopredição, autoquestionamento,
onde, na verdade, o verdadeiro significado do texto cada leitor irá imprimir, baseado
nas suas expectativas e vivências e no seu conhecimento prévio sobre o assunto. A
visão mais corrente hoje, a partir de pesquisas na área da análise do discurso
Ler e escrever 6 61 1
(Orlandi, 1988), por exemplo, é a de que “... cada leitura é única e que o texto é um
conjunto de sinais gráficos e o sentido é criado a cada nova leitura, possibilitando ao
aluno que perceba sua ligação com outros textos e com outras leituras do mesmo
texto..." (Grigoletto, 1992, p.44). O que se busca é um leitor intercultural, crítico e
imaginativo e não meramente lógicomatemático.
"Ser humano é ser contador de histórias"
Sylwester (1995, p.105) afirma que “... ser humano é ser contador de
histórias..." e que, do ponto de vista neuronal, faz parte da natureza biológica e
ambiental do cérebro humano o contar histórias. Perguntar a uma criança qual é a
idéia central do texto/ história (o que se denomina de gist da história) é o que deve
ser sempre enfatizado, ao invés de pedirlhe que localize informações, palavras e/ou
estruturas no texto (a técnica de scanning ou de localizar informação específica no
texto). Dias (1996, p.143) também salienta que “... começamos a incorporar o
esquema narrativo (narrative[story] schema) às nossas estruturas cognitivas desde
os nossos primeiros contatos com as estórias da nossa infância".
Conseqüentemente, o saber ler e o saber escrever são ferramentas
socioculturais fundamentais que possibilitam ao aluno ser um melhor ou pior
contador de estórias',principalmente quando "transita" entre duas culturas distintas,
buscando melhor entender suas próprias raízes culturais. Nesse sentido, certos
mitos e crenças carecem de ser revistos, em especial o de que "... ser falante de
uma outra língua é ser bicultural..." (Moita Lopes, 1996, p.39) o que certamente tem
levado à desconstrução do sujeito, a tomar nossos alunos "invisíveis" frente ao
poder de uma cultura imposta, ao invés de promover sua autoimagem (Paiva,
1997). Na verdade, o que devemos estimular nas crianças é o seu potencial para
transitar em diferentes culturas o que Irvine (1998, p.5) denomina de "...
alterl1ânciade códigos culturais..." (cultural code sketch) sem que venha a perder ou
afetar a sua própria identidade, os seus referenciais culturais.
Implicações para o ensino da leitura em língua estrangeira
Diante dos novos desafios que as diferentes ciências do conhecimento
nos colocam, o ensino da leitura em língua estrangeira deverá também passar por
uma profunda revisão nas suas propostas, a fim de coadunarse com afirmações
contidas na Declaração Mundial de Educação para Todos (1990, 1f.) tais como:
... cada pessoa, criança, jovem ou adulto deve estar em condições de
aproveitar as oportunidades educativas para satisfazer suas necessidades básicas
de aprendizagem. Essas necessidades compreendem tanto os instrumentos
essenciais para a aprendizagem (leitura e escrita, expressão oral, cálculo e solução
de problemas) quanto os conteúdos básicos de aprendizagem (conhecimentos,
habilidades, valores e atitudes).
Isso significa que, do ponto de vista didáticopedagógico, devemos
ensinar a leitura em língua estrangeira “... tendo em mente as nossas funções
cerebrais... " (Teaching with the brim in mind), Segundo Jensen (1998, p.34), ou
seja, começar a contar! ler histórias para as crianças, se possível, a partir dos 6
Ler e escrever 6 62 2
meses de idade e não esperar que atinjam os 4 ou 5 anos. Antes do período da
puberdade a maioria das crianças aprende qualquer idioma sem um "sotaque
estrangeiro." As células e as conexões cerebrais já estão prontas e disponíveis para
serem usadas com esse propósito. Já existe um potencial suficiente para
aprendermos mesmo as nuanças mais sutis de pronúncia, afirma Jensen (1998).
Contudo, após a puberdade, essas conexões praticamente desaparecem e as
células com potencial para aquisição da linguagem são praticamente usurpadas por
outras células mais agressivas que desempenham outras funções neuronais. Por
conseguinte" ... as escolas devem expor os alunos a uma gama de vocabulário
maior e mais desafiador assim como a um número bastante diverso de línguas
estrangeiras antes e por volta da idade de 12 anos" (Jensen, 1998, p.34).
Do ponto de vista do ensino, a tradicional memorização de vocabulário
deve ser substituída pelo estímulo de estratégias como a inferência para a
construção do significado das palavras em um contexto específico. Grigoletto (1992,
p.42) ressalta que o ensino da leitura em língua estrangeira como mero pretexto
para a prática de itens gramaticais, simplificados ou fabricados “... não constituem
situações de ensino". Uma leitura mais eficiente em língua estrangeira deve incluir
discussões sobre “... possíveis sentidos do que se lê mais as tentativas de
persuasão do autor". Ênfase também deve ser dada à visão do ato de ler como
interação do leitor com o próprio autor, onde o texto passa a ser visto como veículo
de transmissão de intenções do referido autor. Mais tempo deve ser também
dedicado para se discutir com os alunos os elementos que introduzem a opinião do
autor e as “... razões que levaram o autor a dizer o que disse do modo como disse"
(Grigoletto, 1992, p.42). O autor, inserido num contexto sociocultural específico num
momento histórico determinado, tem como objetivo comunicar algo a um leitor. Daí a
inclusão de perguntas do tipo: "Quem está falando? Por quê? Que tipo de canal está
utilizando?
Em que momento histórico? A partir de qual ideologia?”(Orlandi citado por
Grigoletto, 1992, p.42). É a incorporação da visão discursiva da leitura onde cada
leitura é única e o sentido é criado a cada leitura. Portanto, os alunosleitores”...
constroem sentidos a partir de um determinado momento político, histórico e social"
(Orlandi citado por Grigoletto, 1992, p.42).
Também sugerimos a inclusão de um outro modelo de ficha de leitura,
como, por exemplo, o proposto para a aprendizagem social e emocional (social and
emotional learning) onde o componente emocional passa a ser incorporado ao
processo de compreensão de leitura. Elias (1997, p.63) sugere um formato de ficha
de leitura para jovens leitores, que traduzimos e transcrevemos, a seguir. A partir
das questões propostas, os alunos poderão construir seu próprio texto.
Formato de ficha (Je leitura para jovens leitores
Vou escrever sobre o personagem ....................................................
O problema do personagem é:............................................................
Como o personagem se envolveu no problema?................................
Como o personagem se sentiu? .........................................................
O que o personagem quer/espera que aconteça? ..............................
Ler e escrever 6 63 3
Que pergunta eu gostaria de fazer ao personagem que escolhia um dos
outros personagens ou ao próprio autor do livro? ................................................
Nessa visão de texto como processos de construções de significados,
onde o alunoleitor deixa de ser visto como mero decodificador, mas passa, segundo
Orlandi, citado por Grigoletto (1992, p.42), condição de “... sujeito de suas próprias
leituras ... agente do processo de ler e de construir sentidos ...", é que nos leva a
pensar numa prática de leitura menos tecnicista e mais de cunho educacional,
voltada para o desenvolvimento e implementação de estratégias como inferência,
autopredição, autoquestionamento, tendo como base suas expectativas e vivências.
É, por fim, o envolvimento do aluno com os textos, de forma mais abrangente que a
simples resolução de exercícios proposta pelo professor, o estímulo à criação de um
projeto próprio de leitura.
O ensino da escrita em língua estrangeira
Da mesma forma que a leitura, a escrita em língua estrangeira deve ser
entendida de forma processual, possibilitando ao aluno a expressão de sua própria
individualidade, o desenvolvimento do seu estilo individual, através de diferentes
tipos de discursos escritos, ficando o domínio das convenções e regras de escrita
como "pano de fundo", como ferramentas de expressão de individualidades vivas.
Salles (1994, p.65) afirma que " ... o nascimento de um texto é resultado de um lento
processo de maturação, ou seja, o texto é conseqüência de um trabalho árduo".
A escrita teve seu grande momento de influência e importância dentro de
uma abordagem metodológica tradicional de ensino de línguas estrangeiras
denominada de gramáticatradução. Ainda hoje, porém, alguns professores somente
a percebem como uma excelente ferramenta para o reforço de determinadas
estruturas gramaticais e de retenção de vocabulário o que muito descaracteriza o
seu papel comunicativo.
Do ponto de vista da neurociência, assim como a leitura auxilia na
estimulação de um cérebro em crescimento, a escrita é uma outra forma para
desenvolver vocabulário. Um hemisfério cerebral esquerdo mais rápido e mais ativo
do que o hemisfério direito consegue fazer distinções até bastante minuciosas
dentre os sons percebidos/captados da linguagem oral.
Por outro lado, Bastos (1996, p.209) nos alerta que:
... de uma forma integrada,a escrita se insere em um contexto de aprendizagem, não
apenas reforçandoa mas também desenvolvendo as características cognitivas,
comunicativas e afetivas do aluno.
Por cognitiva, entendese o poder da escrita de desenvolver o raciocínio
do aluno que busca construir sentidos para o seu leitor. Por comunicativa, a escrita
caracterizase pelo desejo de autoexpressão do aluno, pela necessidade de
construção de elos comunicativos com o leitor e pela necessidade de feedback (seja
do professor ou de um colega) que lhe possibilite aprimorar suas estratégias
comunicativas na elaboração de textos. Nesse sentido, um dos grandes
componentes na maturação e crescimento cerebral é a construção específica, se
Ler e escrever 6 64 4
possível imediata e desafiadora de feedback, seja do professor, seja de um outro
aluno como leitor crítico (essa última atividade no inglês se denomina de peer
reading). E por afetiva, a necessidade que o aluno tem de se fazer entender
claramente pelo leitor, numa línguaalvo que não é a sua, vinculado ao desejo de
sairse bem na aprendizagem desse novo idioma.
A questão comunicativa em textos escritos nos remete a atitudes de
intencional idade que devem ser trabalhadas com o aluno, como é o caso da
persuasão. Citelli (1988) sugere que, em estágios mais elementares, se trabalhe na
escrita com a produção de textos onde a persuasão é bastante óbvia. Isso quer
dizer, produzir textos de propaganda, textos de discursos políticos ou textos em que
se expresse opinião sobre algo. Em um estágio intermediário seria interessante
insistir na produção de textos neutros, ou descritivos (como é o caso de textos
elaborados para jornais, textos que dão instruções), para, se possível, chegarse a
um estágio avançado onde sejam produzidos textos com uma aparente ausência de
um sujeito produtor de um discurso.
Implicações para o ensino da escrita em língua estrangeira
Bastos (1996, p.20 1) sugere que se " ... amarrem as mãos do professor
nas suas costas" para resistirem a tentação de marcar erros antes de terem lido o
trabalho para entenderlhe a mensagem". Nesse sentido, Raimes (1983) propõe
uma visão holística de correção constituída de:
a) leitura para compreensão global do texto (conteúdo); b) leitura para
uma análise da organização das idéias (há repetição desnecessária de idéias ou
informações)? A seqüência está lógica?Os parágrafos estão bem divididos? Há
alguma coesão no texto?;
c) leitura para avaliação do uso do vocabulário, estruturas, ortografia, etc.
Sendo assim, fazse necessário o estabelecimento de critérios para a
avaliação da produção escrita do tipo: “.. conteúdo, organização, vocabulário ou uso
da língua e mecânica (Bastos 1996, p.202).
É necessário também que se comece o comentário sobre os trabalhos a
partir de seus aspectos positivos e que se construa a motivação para a escrita
partindo de uma proposta real de produção de textos. Bastos (1996, p.203)
esclarece que:
... não se escreve, na vida real, sem que haja um objetivo e um leitor
definido ... escrever sobre os dias da semana pode ser desmotivador, inibidor ou
causar desinteresse no curso ou levar ao não cumprimento da tarefa.
Em contrapartida, propor um contexto real para que os alunos escrevam
sobre o sua rotina diária parece ser uma estratégia bem mais eficaz do que escrever
como reforço de estruturas gramaticais. Como contexto para o tópico sobre o diaa
dia do aluno, Bastos (1996, p. 204) sugere o seguinte:
Você tem um amigo americano, seu correspondente, que vem ao Brasil este ano. Ele
ainda conhece pouco sobre os nossos hábitos. Escreva parte de uma carta para o seu
amigo, informandolhe sobre o seu diaadia. Ele é estudante também e gostaria de saber
como os estudantes brasileiros organizam o seu dia a dia.
Ler e escrever 6 65 5
Despertar a motivação, o gosto pela autoexpressão escrita, na
comunicação com um leitor significa deixar bem claro ao aluno que a escrita,
enquanto habilidade, requer preparação e feedback. Além disso, a produção de um
texto escrito requer do aluno clareza quanto à intencionalidade. Salles (1994, p.69)
nos alerta para a natureza do propósito do texto ao destacar que asserções do tipo:
“... quero produzir um texto irônico "; " quero que minha história produza efeito de dor
no meu leitor "; " quero deixar claro que sou absolutamente a favor da idéia de que
... ". Daí a importância de se ter uma “... bússola direcionadora...” conclui.
Conclusão
Rever os atos de ler e escrever à luz de novas tendências teóricas foi o
principal objetivo do presente artigo, questionando os possíveis desafios (ou não?)
para os professores, principalmente para os que ainda não perceberam a questão
processual, discursiva e holística que essas duas habilidades abarcam. Tanto a
leitura como a escrita revelam necessidades cognitivas, comunicativas e afetivas do
ser humano, e o desenvolvimento de estratégias que melhor possibilitem a esse ser
humano comunicarse em um outro idioma, também corroboram para o caráter
processual envolvido, no qual não existem uma única leitura c escrita mas várias,
dependendo das vivências e expectativas de cada leitor e/ou escritor. É necessário,
porém, que se separe os momentos de reforço de estruturas lingüísticas e lexicais
que compõem a mecânica da línguaalvo, dos verdadeiros momentos de
desenvolvimento de estratégias de construção e desconstrução de sentidos tanto na
leitura como na escrita na relação leitorescritor.
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Ler e escrever 6 67 7
Não apenas o texto, mas o diálogo em língua
escrita é o conteúdo da aula de português
Paulo Coimbra Guedes
Jane Mari de Souza
Ler é produzir sentido; ensinar a ler é contextualizar textos: o leitor atribui
ao texto que tem diante de si o sentido que lhe é acessível. Assim, o aluno de 5ª
série, que acabou de ler o Soneto da fidelidade, chama a professora para expressar
sua admiração: gostou muito da comparação do amor com fogo na gasolina: "aqui,
'sora, posto que é chama". Cabe ao professor, então, ensinar ao aluno que "posto
que" é uma construção da língua escrita que expressa uma relação tal que liga um
efeito à sua esquerda com uma causa à sua direita, uma expressão da mesma
família do "porque" e do "por causa que" (se essa for a conjunção causal mais
acessível no dialetodo aluno). O professor vai dizer que a leitura corrente do poema
interpreta "não que seja imortal posto que é chama" como o amor não é imortal
porque é como uma chama, que pode se apagar. Vai dizer também que a
comparação do amor com fogo na gasolina, o sentido que o aluno construiu com os
meios expressivos a que tinha acesso, é uma metáfora muito expressiva a partir da
qual ele pode produzir o seu próprio poema a respeito do mesmo tema.
É um direito de cidadania do aluno ter acesso aos meios expressivos
construí dos historicamente pelos falantes e escritores da língua portuguesa para se
tornar capaz de ler e compreender todo e qualquer texto já escrito nessa língua.
Ensinar a ler é levar o aluno a reconhecer a necessidade de aprender a ler tudo o
que já foi escrito, desde o letreiro do ônibus e os nomes das ruas, dos bancos, das
casas comerei ais, leituras fundamentais para a sua sobrevivência e orientação
numa civilização construída a partir da língua escrita; ler o jornal, que vai relacionálo
minimamente com o mundo lá fora; ler os poemas, que vão dar concretude,
qualificar e expandir os limites de seus sentimentos; ler narrativas, que vão organizar
sua relação com a complexidade da vida social, ler as leis e os regulamentos que
regem a sua cidadania, ler os ensaios que apelam à sua racional idade e a
desenvolvem.
Ler e escrever 6 68 8
Ensinar a ler é também dar acesso aos meios expressivos necessários
para que o aluno leia não apenas os seus contemporâneos, dialogando com eles
dentro de um universo comum de questões, problemas e descobertas, mas também
os antigos, até os fundadores da língua para que ele possa perceber que a língua
portuguesa que lê é produto do trabalho de homens como ele que a tornaram capaz
de expressar o que precisaram que ela expressasse.
Desse modo, assim como, numa primeira instância, ensinar a ler é
alfabetizar, levar o aluno ao domínio do código escrito, ensinar a ler continua sendo
levar o aluno ao domínio de códigos mais elaborados e mais especializados. A quem
cabe ensinar o significado corrente de posto que? Em princípio, costumase atribuir
tarefas desse tipo ao professor de português, mas qualquer professor, de qualquer
área, é, pelo menos também em princípio, um leitor da língua portuguesa e, como
tal, pode fazer uma tal ponte entre o significado construído pelo aluno e o significado
corrente da expressão. E o princípio mais saudável para reger essa tarefa é a
sabedoria relativa de cada um: vamos combinar que não é feio nem constrangedor
ignorar o significado de alguma palavra ou expressão, nem mesmo para os
professores de português. Vamos combinar que é muito mais útil para professores e
alunos que todos acabem achando natural procurar resolver as próprias dúvidas em
dicionários, enciclopédias, manuais, guias ortográficos, dicionários especializados.
Vamos combinar que feio e inútil (e muito mais trabalhoso) é estigmatizar a
ignorância alheia e esconder a própria.
Vamos combinar também que textos interessantes, como, por exemplo,
sonetos de amor, não são exclusividade da aula de português e que o sentido que o
professor de ciências, por exemplo, atribuir ao Soneto da fidelidade não é pior do
que o sentido que lhe atribuir o professor de português, e que a explicação que der
aos alunos a respeito do significado de "posto que" vai ser útil, ainda que o professor
de português dela discorde ou tenha algo a acrescentarlhe. Na verdade, o professor
de português deve estar aparelhado é para mostrar as diferenças de efeitos de
sentido que podem ser obtidas com o uso de "posto que", "porque", "de vez que",
"como", "por causa que" e outras conjunções forjadas historicamente na língua para
expressar relações de causa e efeito.
E a respeito desta manchete de jornal da Queda da bolsa na Coréia
derruba pregão em São Paulo (Zero Hora, 27 maio 1998) , certamente o professor
de português pode dizer (consultando, se for o caso, o Aurélio junto com seus
alunos) que bolsa, neste contexto, "é uma instituição destinada a operar em fundos
públicos, ações e obrigações de companhias e outros títulos de crédito". E que
pregão não é um enorme prego, mas, ainda segundo o Aurélio, "o ato pelo quais os
corretores da bolsa anunciam o que vai ser vendido e os lances já oferecidos".
Fazendo isso, o professor de português estará pouco mais do que dando um
exemplo da mais adequada atitude a ser tomada diante da dificuldade de entender
um enunciado dentro do contexto em que ele se apresentou (muito provavelmente
nenhum aluno achou que o jornal tivesse noticiado o fato de que uma bolsa que
alguma senhora coreana tenha deixado cair lá em seu país tenha batido com tanta
força num prego grande enfiado em algum poste ou parede na cidade de São Paulo
a ponto de fazer com que esse prego caísse no chão) porque essas duas definições
do dicionário não possibilitam um mais claro e profundo entendimento da frase.
Certamente o professor de história (ou o de contabilidade, o de economia ou
administração, se for o caso) estará mais habilitado a construir para os alunos o
mais adequado contexto para o entendimento da manchete e da notícia.
Ler e escrever 6 69 9
Do mesmo modo, a contextualização mais adequada para o entendimento
de textos sobre cada área do conhecimento vai ser feita pelo professor da respectiva
área, e isso não se refere apenas aos termos próprios da ciência em questão, mas
também ao valor particular que nesse contexto assumem relações mais gerais de
oposição, de causa e efeito, de condição (o que quer mesmo dizer "se" em
matemática?) etc. Ensinar a ler é contextualizar o texto e explorar os seus possíveis
sentidos; aprofundar a leitura é promover um diálogo da leitura feita pelo aluno com
a leitura feita pela tradição, e essas tarefas são de todas as áreas.
A leitura na aula de português
Basicamente, na aula de português se aprende a ler em português, uma
língua que não falamos, mas em que, por razões de política cultural, temos de ler e
escrever. Então, se ensinar a ler é contextualizar textos, o contexto que cabe ao
professor de português construir com seus alunos é a língua portuguesa, que para
nós, no Brasil, é o produto do trabalho histórico de escritores brasileiros (poetas,
historiadores, cronistas, ficionistas, jornalistas, oradores, ensaístas, críticos,
sociólogos, educadores etc.) sobre a língua portuguesa. A língua portuguesa, por
sua vez, é o conjunto dos recursos expressivos, historicamente construídos por
escritores portugueses para expressar, por escrito, o dialeto de sua língua que se
constituiu como a língua mais adequada para encaminhar as relações de poder
dentro do nascente estado nacional português e que acabou sendo imposta às
colônias portuguesas do ultramar. O trabalho histórico dos escritores brasileiros
sobre essa construção de portugueses foi o de moldar essa língua, forjada para
expressar a natureza e a cultura de Portugal, para que se fizesse apta a expressar a
outra natureza e a outra realidade cultural do Brasil. Desse projeto de autonomia
com relação à metrópole e de construção de uma identidade cultural própria sempre
fez parte um tensionamento dessa língua escrita pela língua falada no Brasil.
Peculiares condições sociais de nossa contemporaneidade –
especialmente a tomada da palavra por segmentos das classes populares
organizados em movimentos, associações, sindicatos, partidos políticos têm
extremizado esse tensionamento na medida em que tais organizações, como
representantes de um povoao quais as classes dominantes sempre sonegaram uma
escola de qualidade que os tivesse civilizado segundo seus padrões (Iingüísticos,
entre outros), participam do diálogo político na língua que conseguem falar e em que
seus representados se reconhecem e os reconhecem como seus representantes.
Neste momento que estamos vivendo, de radical questionamento dos valores
lingüísticos dominantes, começam a ser criadas condições para que possamos
passar a vivenciar uma mudança de atitude com relação aos valores historicamente
atribuídos a essa relação entre a língua falada e a escrita. Na medida em que em
nossa língua falada vem se construindo o orgulho cidadão com que os excluídos
finalmente fazem ouvir a sua palavra até então silenciada pela exclusividade
expressiva da língua culta, que foi configurada segundo os critérios de correção da
língua escrita, podemos passar a vivenciáIa com esse mesmo orgulho. Na medida
em que as lideranças populares descobrirem a riqueza de meios expressivos
construídos historicamente na língua portuguesa e reconhecerem a necessidade de
se apropriarem deles para qualificar seu discurso e sua capacidade de análise de
uma sociedade complexa, orientada pelos critérios da língua escrita, poderemos
passar a vivenciáIa não mais como apenas o instrumento da exclusão dos que não
Ler e escrever 7 70 0
a dominam e do amordaçamento das falas divergentes do velho discurso do poder,
mas também como um acervo de construção de conhecimento. E bom lembrar uma
declaração de Lula: "Lembram de quando eu falava 'menas'? Pois agora já aprendi a
dizer até 'concomitantemente”.
Portanto, a primeira atitude necessária para contextualizar a língua
portuguesa a língua que não falamos, mas em que, por uma questão de política
cultural, temos de ler e escrever, convém repetir outra vez é estabelecer sua
adequada relação com a língua que falamos para trazer para dentro de nossas salas
de aula o diálogo que entre elas vem sendo promovido pelas mais significativas falas
de nossa contemporaneidade e pelos melhores textos da cultura brasileira.
A segunda é verdadeiramente ensinar português: dar aos alunos
condições para que dominem a língua escrita, não só como um conjunto de leis que
regem a correta grafia das palavras e um conjunto de regras sintáticas que orientam
a estruturação de frases, mas também como um complexo históricocultural que vem
produzindo interpretações dos textos reconhecidos como especialmente
significativos para a constituição da história cultural expressa nessa língua escrita.
Ensinar português aos alunos para que se tomem capazes de entender os textos
que lêem e não limitarse a apenas estigmatizáIos como incapazes de entender o
que lêem.
Ensinar ortografia, por exemplo, a partir de uma característica em que fala
e escrita são fundamentalmente opostas: a ortografia constituiuse como um
processo histórico institucionalizado de representação uniformizada da língua
justamente porque a língua falada se rege não pela uniformidade, mas pela
variação. A função da ortografia é preservar a inteligibilidade dos textos, apesar das
variantes de pronúncias regionais, sociais e históricas das palavras, e não se
constituir em um guia para a correta pronúncia das palavras em todas as instâncias
da vida social. Dar a conhecer aos alunos a verdadeira natureza e a verdadeira
função da ortografia pode fazer com que deixem de temêIa e odiáIa como um
inacessível e torturante modelo para que corrijam a sua pronúncia (historicamente
estigmatizada como errada) e passem a valorizáIa como meio de acesso ao
patrimônio cultural expresso na língua escrita.
Ensinar ortografia não para criar problemas ao aluno que se inicia na
língua escrita, mas para resolver os problemas que o aluno começa a detectar em
sua formação como leitora. Sistematizar passo a ortografia, distinguindo os níveis de
dificuldade, desde a relação entre fonema, som e letra, para fixar diferenças entre f e
v entre p e b; passando por regras de aplicação universal como o m antes do p do
b; por regras explicáveis pela morfologia como o o final dos substantivos, como em
navio, em contraste com o u final das formas verbais como em caiu, por exemplo,
ou o "am" do pretérito em contraste com o "ão" do futuro; chegando àquelas regras
baseadas na etimologia que prescrevem sou z, g ouj, s, z ou x ou ch, etc. E em
algum momento posterior, provavelmente no ensino médio, chegar ao estudo
histórico da ortografia, promovendo uma leitura interpretativa da legislação vigente
(Lei 5765, de 18 de dezembro de 1971) e a uma discussão do Acordo de Ortografia
Simplificada entre Brasil e Portugal (1991) para a Lusofonia em estudo no
Congresso Nacional.
Ensinar morfologia não para cobrar na prova a identificação da raiz, do
radical, do prefixo, do sufixo ou a do processo de formação da palavra, mas para
ensinar que as diferenças de significado entre inquieto e inquietante, entre
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interessante, interessada, por exemplo, podem ser tratadas sistematicamente pelo
significado dos sufixos, assim como antediluviano e antidiluviano distinguemse
pelos diferentes sentidos do prefixos. Ensinar a procurar pistas para o significado
das palavras pela raiz comum com outras, como, por exemplo, a que relaciona as
palavras jato, objeto, subjetividade, projeto. Ensinar as formas verbais não como
decoreba dos paradigmas dos tempos dos verbos regulares e dos irregulares e dos
idiossincráticos em geral, mas para explicar o significado e composição de formas
como, por exemplo amemos ou levássemos ou comportarnosíamos, que não
fazem parte do dialeto da grande maioria dos nossos alunos, à medida que eles
forem defrontandose com essas formas em suas leituras. E tratar desses assuntos
todos sempre que for necessário para esclarecer dúvidas de leitura de qualquer
aluno, e voltar a eles se for necessário outra vez e sistematizar cada um deles
apenas quando parecer que tal sistematização vai ser útil.
Ensinar morfossintaxe para mostrar que na língua escrita, diferentemente
da falada, existem regras chamadas de concordância e para explicar como
funcionam a partir do que os alunos estão vendo acontecer nos textos que estão
lendo e não a partir da língua que deveriam falar. Em vez de tentar explicar como se
colocam os pronomes oblíquos, explicar o que significam aqueles o, a, os, as,
no, 10 etc. grudados nos verbos, que esse é o primeiro problema enfrentado por um
falante de uma língua em que eles não existem quando se defrontam Com eles num
texto que estão lendo.
Apresentar os vários tipos de texto e alertar para o que neles pode ser
encontrado:
a) enredo, conflito, seqüência de episódios, narrador e personagens em
romances e contos novelas;
b) problema, sucessão de fatos, o papel dos envolvidos, o ponto de vista
do repórter em notícias e reportagens;
c) pontos de vista e argumentos em entrevistas e artigos;
d) a finalidade, a estrutura (capítulos, artigos, parágrafos, incisos), os
sentidos específicos de seus termos em documentos legais;
e) o tema, as comparações, as metáforas, as metonímias, as antíteses, a
métrica, as rimas ou os versos livres em poemas.
Para aprofundar a leitura dos textos importantes para a formação dos
alunos, solicitar que cada aluno expresse o seu entendimento destes textos com
vistas a um confronto de leituras por meio da leitura em voz alta do texto, da
produção de resumos comparativos de diferentes textos sobre o mesmo assunto, de
paráfrases e paródias de textose construções sintáticas, da explicitação de
implícitos e subentendidos etc.
Ensinar português, em suma, e não tratar os alunos como se devessem
ter aprendido a língua escrita antes de chegar na escola, pois eles só vão poder
aprender português, uma língua que não falam, na escola, lendo uma grande
quantidade de textos, expondose à língua escrita assim como aprenderam a língua
que falam ouvindoa o dia inteiro por toda a parte e tentando falar como falavam as
pessoas ao seu redor.
Leitura na escola, leituras da escola, leituras da cidadania: atividades
multidisciplinares de leitura
Ler e escrever 7 72 2
Na verdade, todo mundo sabe que a língua portuguesa é a mais
desgraçadamente interdisciplinar de todas as disciplinas do currículo oculto da
escola: todos na escola e não apenas professores de qualquer área acham que
estão no seu direito de meterse a dar palpites a respeito não só da mais adequada
conduta lingüística a ser observada pelos alunos no seu trato social com colegas,
professores e adultos em geral, mas também do nível que há muito tempo já deveria
ter atingido o seu domínio da língua que deveriam falar. E a nenhum desses
palpiteiros constrange o fato de que muito freqüentemente façam uma frase com um
erro de concordância para corrigir um erro de concordância de um aluno. Também
não os constrange os erros de ortografia que costumam cometer nos bilhetes com
que xingam os erros de português Ler e dos textos de seus alunos ou os que
costumam cometer nos quadros negros em suas aulas.
E são muito poucos os professores que se dão ao trabalho de, antes de,
antes solicitar a seus alunos o resumo de um determinado texto, fazer, eles
mesmos, esse resumo para verificar sua viabilidade e o grau de dificuldade
envolvido nessa tarefa. E quantos se aproveitam dos resumos errados feitos pelos
alunos para mostrarIhes para que serve fazer um resumo e para comparar essas
diferentes leituras de um texto para confrontáIas e construir uma leitura comum que
leve em consideração as hipóteses de todos? E quantos resolvem mostrar aos
alunos como deveriam ter feito o resumo em questão? Quantos se dão ao trabalho
de ler um texto importante de sua área com os alunos para apresentarIhes a própria
interpretação desse texto? São muitos, poucos. Muito menos são ainda os que se
dispõem a escrever o que quer que seja para mostrar aos alunos como se faz. São
muitos, no entanto, os que não se contrangem de deplorar a qualidade da leitura dos
alunos sem nada terem feito a favor dessa qualidade. E em maior número ainda são
os que reivindicam que o professor de português dê conta de todo esse trabalho.
Sendo assim, a mais séria questão interdisciplinar a ser tratada na escola
a remoção coletiva do entulho formalista que vem atravancando do o ensino de
todas as áreas. No que se refere à leitura, se ler é produzir sentido e não adivinhar
qual o verdadeiro sentido do texto é preciso pôr no código penal certas atividades
escolares muito comuns. Uma delas é, por exemplo, a interpretação de texto de
resposta convergente, cuja inconveniência fica muito clara, neste exemplo (que só
não é caricato porque é real) testemunhado por Arcanjo Pedro Briggmann (1994, p.
42): "a questão 5 da prova de literatura solicitava complete: .... a história de um
___satirizado por seu fanatismo patriótico. Sua intenção é tirar o Brasil das
influências estrangeiras " A professora diz que a resposta correta é militar ou major.
E responde a pergunta de um aluno a respeito do acerto de preencher a lacuna com
soldado dizendo que está errado. O aluno insiste, "dizendo que no meio militar assim
que é usado. A professora responde: Não vivo no meio militar, não conheço, e isso é
aula de literatura”. Ler para chegar a uma resposta que já está pronta é o contário de
ler; é contrário de produzir sentido de ler; é produzir sentido.
Se ler é produzir sentido, um aluno só vai produzir sentido para o que lê
com interesse do latim "interesse", que significa "estar entre", ser envolvido. Ser
humano nenhum vai deixarse envolver em leitura para fazer uma pesquisa sobre,
digamos, a natureza, se o professor mandar singelamente fazer uma pesquisa sobre
a natureza, como os professores de ciências costumam mandar fazer, ou sobre a
história do Rio Grande do Sul. Trabalho de pesquisa precisa de temas específicos
que até podem necessitar de leituras gerais que circunstanciem o ambiente onde se
Ler e escrever 7 73 3
localiza a questão específica a ser examinada. E o resultado final das leituras para
descobrir essa questão específica não pode ser a cópia de trechos de enciclopédias,
livros e revistas.
A que área, a que professor cabe ensinar os alunos a consultar o
dicionário? É verdade que os princípios de construção e o funcionamento de um
dicionário são saberes mais próprios do professor de português, mas ensinar não é
apenas compor um discurso didático a respeito da importância de consultáIo para
resolver dúvidas e mostrar a técnica necessária para manejálo. Para levar o aluno a
adotar diante do dicionário uma atitude de cidadão que reconhece como um direito
seu o domínio das possibilidades de significado das palavras com que o seu mundo
está sendo organizado, é preciso que a escola naturalize essa atitude mostrando
como se faz e mostrando que se faz isso sistematicamente. E a escola é o conjunto
dos professores e dos serviços; por isso, o uso do dicionário precisa ser além de
uma atividade multidisciplinar de leitura, uma atitude multidisciplinar da escola.
Que área, que professor tem a obrigação de dizer para os alunos que
existem dicionários especializados e ensinar para que servem e como podem ser
consultados, e quem constrói atividades interessantes para que eles pratiquem essa
consulta? Quem mostra as enciclopédias da biblioteca, explica para que servem,
como tratam dos conteúdos, como os organizam (se em ordem alfabética como os
dicionários ou por assuntos), quem ensina a usar os seus índices, quem propõe
problemas que possam ser resolvidos com o seu proveitoso uso? Todos aqueles
que quiserem formar alunos autônomos diante do saber, capazes de orientaremse
na busca das informações de que necessitam. A escola tem de querer isso. Essa
tarefa é de cada um dos professores.
Quem ensina os alunos a ler jornais, quem os esclarece a respeito das
diferenças entre notícias, reportagens, entrevistas, artigos, editoriais, ensaios,
crônicas? Quem diz para eles que as revistas de informação semanais costumam
apresentar uma versão mais extensa e aprofundada dos assuntos tratados pelos
jornais? Quem mostra para eles as revistas de divulgação que tratam de temas
determinados ciência em geral, ecologia, viagens, comportamento etc. e as
publicações seriadas sobre história, geografia, informática, astronomia etc? Quem
diz para eles que existem revistas científicas especializadas? Quem chama sua
atenção para os vídeos e cd roms educativos? Quem os informa a respeito das
bibliotecas públicas da cidade e os leva até lá tantas vezes quantas forem
necessárias para que eles se convençam de que usáIas é um dos seus mais
singelos direitos e de que explorar o seu acervo pode ser uma das mais fascinantes
aventuras? E quem os leva muitas vezes às discotecas públicas, aos museus, aos
teatros, aos cinemas?
Existe alguma outra instituição além da escola com condições de
proporcionar às crianças e aos adolescentes uma leitura e uma discussão do
Estatuto da Criança e do Adolescente? E a que área caberia conduzir essa
discussão? A que professoros direitos civis de seus alunos não interessariam? E
não estariam também os professores interessados em discutir com os alunos o
Regimento da Escola, para que todos se beneficiassem de um critério objetivo que
organiza as relações entre uns e outros? E aqueles aspectos da Lei Orgânica do
Município, da Constituição Estadual, da Constituição Federal que afetam não só a
educação, mas outras questões fundamentais como os direitos civis e o racismo, por
exemplo, não deveriam também ser lidos e discutidos com proveito por toda a
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escola? A cidadania não é uma questão da escola, um tema para todas as áreas,
todos os professores, todas as salas de aula e de serviços? Estes são alguns temas
sobre os quais convém montar atividades multidisciplinares de leitura e discussão.
Claro que esse trabalho coletivo envolve não apenas boa vontade e uma adequada
teoria pedagógica; envolve uma tomada de posição e uma mudança de atitude
pessoal com relação ao papel da linguagem e da língua no processo de
aprendizagem e produção de conhecimento.
Escrever é produzir conhecimento: Ensinar a escrever é inserir o aluno na
produção histórica do conhecimento
Na vida real da linguagem, ninguém produz uma frase, um parágrafo,
uma introdução; ninguém faz uma comparação, uma análise, uma descrição, uma
crônica do cotidiano; ninguém usa a linguagem para contar uma história, provar uma
tese. Na vida real da linguagem, falamos e escrevemos para produzir bem
determinados efeitos sobre os nossos interIocutores, até mesmo quando não
queremos produzir efeito nenhum, como é o caso da redação escolar.
Na vida real produzimos discurso; para definir o que é isso podemos
recorrer a Possenti (1988, p.87):
[...] dizer que o falante constitui o discurso significa dizer que ele, submetendose ao que
é detenninado (certos elementos sintáticos e semânticos, certos valores sociais) no
momento em que fala, considerando a situação em que fala e tendo em vista os efeitos
(de sentido) que quer produzir, escolhe, entre os recursos alternativos que o trabalho
lingüístico de outros falantes e o seu próprio, até o momento, lhe põe à disposição,
aqueles que lhe parecem os mais adequados.
Na escola, no entanto, o ensino de Língua Portuguesa, centrado na
tradicional lista de conteúdos e transformado em ensino da metalinguagem da
gramática tradicional, acabou levando os alunos a construírem uma imagem da
língua escrita como conjunto de formas dissociadas e até mesmo opostas às
práticas cotidianas da língua falada. Certamente o ensino de português não é o
único responsável: todas as áreas têm contribuído para que a escola ensine a
escrever apenas redações escolares. Pécora (1983, p.8687), examinando em
redações de vestibular os problemas de uso da língua escrita no que se refere (1) à
oração considerada como um processo de predicação, (2) à coesão textual, (3) às
dificuldades com o uso da norma culta que provocam problemas na oração e a
coesão e (4) à argumentação, especialmente no que se refere a noções confusas e
lugarescomuns, chegou a este diagnóstico a respeito da falsificação das condições
de produção da escrita promovida pela escola.
Portanto, essas utilizações da escrita, que o lugarcomum é, paradoxalmente, a sua
razão de ser, testemunham de forma inequívoca o seu fracasso histórico para instituirse
como um espaço de ação interpessoal. Histórico porque, como se viu, ele não é
determinado pelas condições específicas de produção da escrita, mas por uma
falsificação historicamente dada de tais condições ... Essa falsificação, primeiro, como se
observou pelos problemas de coesão, faz com que a escrita se confunda com uma tarefa
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encerrada nos limites de um ato aparente, isolado de um interesse pessoal e de um
esforço de atuação sobre o interlocutor portanto, confundea com uma não atividade,
que pode ser resolvida pelo preenchimento simples de espaço; segundo, como se
pretendeu evidenciar pela análise dos problemas mais típicos de argumentação, o
processo de falsificação faz com que esse preenchimento de espaço seja realizado
através da retomada de uma linguagem padronizada: por um nivelamento raso da
interlocução em torno de uma leitura préestabelecida. Eis aí o modo peculiar pelo qual a
escrita passa a veicular o que se poderia chamar de ideologia da reprodução, cuja
Conseqüência é o apagamento do presente da interlocução e do ato de linguagem em
um passado instituído. Quer dizer, em um primeiro momento, o processo histórico de
falsificação das condições de produção escrita procede a um esvaziamento de seu
sentido e, posteriornente, fornece modelos para ocupar esse vazio. Ou ainda, ao mesmo
tempo em que impede o aluno de ter acesso às especificidades que fazem da escrita
uma forma única de contato e elaboração de referências para significar o mundo, esse
processo forja novas exigências que não podem ser explicadas senão em função do
mundo admitido pela instituição. A utilização da escrita passa a ser compreendida como
um ato reflexo de manifestação de um poder estranho e contrário à multiplicidade, à
vitalidade dos jogos de linguagem. E última análise, portanto, pode se dizer que os
fracassos mais evidentes examinados por esta tese contam a mesma história: a história
da transformação das condições de produção da escrita em condições de reprodução, e
a transformação de seu espaço em cúmplice privilegiado de um processo de dês
apropriação dos sujeitos da linguagem.
A contrapartida desta produção escolar de textos dissertativos como
exercícios de reprodução de lugarescomuns e de submissão a rígidas formalidades
estruturais, em que os alunos abdicam de qualquer autoria, é a produção de textos
livres como exercícios de uma criatividade descompromissada com a clareza e por a
precisão, em que os artistas abdicam de qualquer leitor. E essas duas paralelas vão
se encontrar no mesmo nenhum lugar: num texto que o autor (o aluno) não quer
escrever e que o leitor (o professor) não quer ler.
Esse nenhum lugar, onde o professor não é verdadeiramente um leitor,
não é apenas a aula de português: a prática antidialógica, que leva o professor a
não mais do que apenas avaliar quase sempre a partir de critérios alheios o texto
do aluno e a jamais comportarse como um leitor que gosta ou não gosta do que leu
que responde às inquietações manifestadas no texto, que quer mesmo saber o que
o aluno teria a dizer a respeito do assunto sobre o qual pediu que ele escrevesse,
essa é a prática antidialógica do trabalho de história, da pesquisa de ciências, da
prova de geografia, do problema de matemática: é a prática da escola.
A desconstrução da atitude diante da língua escrita consolidada pela
história escolar desses alunos, para que passe da produção de redações escolares
para a produção de "discursos, isto é, textos que fazem uso consciente dos recursos
expressivos da língua com a finalidade de produzir deliberados efeitos de sentido
sobre bem determinados leitores", começa, portanto, com a introdução do leitor no
processo de produção de texto. Assim como na leitura o sentido produzido
individualmente por cada leitor tornase mais rico no confronto com os sentidos
produzidos pelos demais leitores, do mesmo modo, o sentido do texto produzido na
escola precisa dos sentidos que a partir dele os seus leitores vão produzir. Precisa
desses sentidos para que o autor do texto os confronte com os (efeitos) de sentido
quequis produzir e reflita sobre esse (des) encontro e reescreva o texto para que o
diálogo se torne produtivo e esclarecedor.
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Para conduzir esse processo é preciso, para começar, que o professor
queira saber o que o aluno tem a dizer sobre o assunto a respeito do qual pediu que
ele escrevesse acreditando que ele realmente tem alguma coisa a dizer. Para
acreditar que o aluno tem algo a dizer é preciso que o professor acreditese como
alguém que tem algo a dizer, isto é, o texto escrito pelo professor é prérequisito
para que o aluno escreva o seu texto. O professor só pode provar a seus alunos que
escrever faz sentido se conseguir mostrarIhes que, tal como ler, escrever é produzir
sentido, que o autor do texto é o primeiro leitor a ser atingido pelos efeitos de sentido
provocados por seu esforço de mobilização dos recursos expressivos historicamente
construídos na língua para pôr uma certa ordem na vida e no mundo.
A seguir, é preciso que o professor constitua, na sala de aula, o público
para os textos de seus alunos e os ponha sistematicamente em discussão. É preciso
reverter a tradicional crença de que somos todos incapazes de escrever
substituindoa pela convicção natural de que:
a) somos todos capazes de escrever para descobrirmos o que somos capazes de
dizer a respeito do assunto de que estamos tratando;
b) essa capacidade brota do trabalho de escrever (e não de uma inspiração
iluminada) e do diálogo do texto resultante desse trabalho com os seus leitores;
c) esse diálogo só faz sentido se for para subsidiar uma ou mais reescritas do texto
com a finalidade de construir a respeito do assunto a clareza possível neste
momento histórico pelo qual passa o autor do texto.
Finalmente, é preciso que o professor seja professor e examine esses
textos para orientar minuciosamente as reescritas que vão qualificáIos. Orientar a
reescrita não é apenas adequar o conteúdo às verdades estabeleci das da ciência
nem a forma do texto ao modo consagrado de escrever nessa área de
conhecimento; é principalmente levar o autor do texto a repensar a pertinência dos
dados com que está lidando, a coerência da tese que apresenta a adequação entre
dados e tese, a perceber lacunas nas informações de que dispõe e a perguntarse
para que vai servir o que está escrevendo.
Assim como salientamos a respeito da prática possível da leitura, também
no que se refere à escrita a escola é o único lugar onde ela ainda pode ser
praticada, e também podemos falar a respeito de duas escritas. Há uma escrita
privada, como, por exemplo, a carta, que se dirige a um único destinatário e só a ele
interessa, e o diário, que se dirige ao próprio autor, em diálogo interior objetivado
consigo mesmo.
É bom que a escola apresente o aluno a essas práticas históricas de
escrita e que os incentive a praticáIas não só porque ninguém mais o fará, mas
também porque são excelentes exercícios para desenvolver a habilidade de
escrever, pois envolvem uma prática de escrita muito próxima das práticas da língua
falada. Há uma escrita pública, que se dirige ao leitor, isto é, tanto àqueles que o
autor tinha em mente ao escrever quanto qualquer um que resolver botar um olho
curioso no texto. O texto público é o texto da escola: não se trata de apenas
incentivar o aluno a escrevêlo, mas de tomáIo como a mais legítima tarefa escolar.
Dentro da escrita pública é preciso também distinguir dois tipos de texto: os que
servem à leitura, expressando a compreensão do texto lido, como o esquema, o
resumo, a paráfrase, a resenha; e o texto que expressa a 'produção de
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conhecimento, basicamente a narração e a dissertação. E preciso trabalhar com,
esses dois tipos de texto sem confundir as suas finalidades.
A escrita na aula de português
Geraldi (1991, p. 105) propõe o texto como o específico da aula de
português: "Se quisermos traçar uma especificidade para o ensino de língua
portuguesa, é no trabalho com textos que a encontraremos. Ou seja, o específico da
aula de português é o trabalho com textos". Para romper com a tradição formalista
da aula de português é preciso acrescentar até mesmo por coerência com o que foi
proposto acima para toda a escola, que também na aula de português o texto
precisa ser tratado como diálogo e não apenas como estrutura: para não repetir os
mesmos velhos procedimentos é preciso, antes de questionar a criatividade, a
coerência, a coesão, a seqüência dos episódios, a introdução o desenvolvimento a
conclusão, a estrutura dos parágrafos, a correção, etc., perguntar pelo papel deste
texto no diálogo de que participa.
Assim, para ensinar a ler uma notícia é necessário dizer o que se
costuma encontrar numa notícia de jornal um fato atual considerado de interesse
geral a respeito dos assuntos pelos quais, segundo o critério do jornal ou da revista,
todo mundo se interessa ; é preciso dizer como o texto das notícias costuma ser
estruturado, explicando as motivações históricas que levaram à formulação da
pirâmide invertida, é preciso fornecer todas as outras informações necessárias para
que os alunos se habilitem a reconhecer uma notícia, distinguindoa de um conto ou
de uma crônica, por exemplo, e para que, desse modo, se tomem capazes de
interpretar adequadamente as notícias que venham a ler.
No que se refere à produção de texto, no entanto, não se trata de ensinar
a escrever uma notícia de jornal apenas para ver se o texto do aluno ficou com cara
de notícia de jornal. Não se trata de ensinar a escrever uma crônica, nem um conto,
nem um relatório: não se trata de ensinar a forma de um determinado tipo de texto
e/ou de avaliar um texto produzido por um aluno pela sua capacidade de obedecer
ao cânone do gênero, de reproduzir uma fôrma. Tratase de solicitar ao aluno que
escreva para contar o que viu como viu, como viveu a experiência de ver o que viu e
para nos mostrar como acha que nós deveríamos ter vivido o que ele viu se também
tivéssemos visto. Se o veículo em que tal texto vai ser publicado é um jornal escolar,
depois de ter sido escrita a primeira versão do texto, depois da discussão de seu
conteúdo e de seu mérito, depois de os leitores ter apontado o que nele há para
acrescentar, tirar ou substituir numa obrigatória reescrita, aí, então, vamos pôlo em
confronto com a tradição formal do gênero e discutir as vantagens e desvantagens e
adequálo a essa tradição formal para resolver se vale mais a pena acatar ou
desobedecer ao cânone do gênero.
Ou seja, o primeiro trabalho com o texto, tanto o do aluno ao produziIo
quanto o do professor ao dáIo à leitura de seus possíveis e concretos leitores em
sala de aula, é o de inserilo significativamente no diálogo em curso a respeito do
assunto de que trata tanto no diálogo em sala de aula quanto nos demais âmbitos
mais amplos da sociedade e da história. Depois disso, vem o trabalho de inserilo no
diálogo mais abstrato do gênero, da estrutura, da coerência, da coesão, da
estrutura, da correção gramatical etc., questionando a conveniência de esse
Ler e escrever 7 78 8
específico texto acomodarse à tradição estabeleci da, tencionar essa tradição ou
mesmo romper com ela, orientando esse questionamento pelos efeitos pretendidos
sobre os leitores a quem o texto pretende atingir.
Ensinar a escrever na aula de português é, portanto, apresentar os
contextos de diálogo em língua escrita e propiciar aos alunos a participação nesses
contextos. O mais amplo deles é o da língua escrita, que organiza nossa vida na
sociedade em que vivemos, e que é, na definiçãode Teberosky (1996, p.25):
... uma atividade intelectual em busca de uma certa eficácia e perfeição que se realiza
por meio de um artefato gráficomanual, impresso ou eletrônico, para registrar,
comunicar, controlar ou influir sobre a conduta dos outros, que possibilita a produção e
não só a reprodução, e que supõe tanto um efeito de distanciamento como uma intenção
estética.
Assim, é preciso criar situações para que o exercício da escrita pelo aluno
se constitua realmente numa atividade intelectual e não na atividade meramente
braçal da cópia , para que ele tenha a oportunidade e devida orientação para
buscar eficácia e perfeição, para que escreva para produzir (e não apenas para
resumir, parafrasear ou repisar lugarescomuns); para registrar, comunicar, influir,
entender, comover, criar, nada menos do que tudo isso.
O contexto imediatamente menos amplo é o da língua portuguesa não é
demais repetir uma língua que não falamos, mas em que, por uma questão de
política cultural, temos de ler e escrever, uma língua que produziu um acervo de
recursos expressivos para dar conta da relação que seus falantes estabeleceram
historicamente com o modo de vida e com a visão de mundo que herdaram de seus
antepassados e que legaram aos seus pósteros. Uma língua que, diferentemente da
língua que falamos, tem frases organizadas por sujeito e predicado, tem regras
sintáticas de concordância entre sujeito e predicado, entre o substantivo e os
determinativos e adjetivos que com ele formam um sintagma, tem regras
morfossintáticas para os pronomes pessoais e outras que as distinguem das regras
de nossa fala. O aluno precisa ir conhecendo o mais amplamente possível esses
recursos expressivos e ir dominando essas regras para inserir seu texto nesse
diálogo.
E o contexto de diálogo mais específico com que tem de ocuparse o
professor de português é o da literatura brasileira, isto é, o diálogo historicamente
travado em língua escrita entre a tradição construída na língua portuguesa, e a
língua em que fomos vivendo nossa relação com nossa terra, nossa história, a
língua em que fomos construindo nossa cultura à imagem e semelhança de uma
outra terra, outra história, outra cultura, que já construíra essa língua que herdamos
e que tivemos forçosamente de modificar não só porque a regra da língua é a
mudança, mas também porque o que tivemos (temos) para expressar foi (é) a
peculiaridade de nossa vida nesta outra terra.
Escrever o que vem escrevendo a literatura brasileira como vem
escrevendo a literatura brasileira é o trabalho específico da aula de português.
Literatura brasileira é todo texto que produz conhecimento li respeito de nossa
realidade social mais próxima e de nossa realidade interior, ao revés do que sempre
nos disse o discurso colonizado que deveríamos ver em nossa realidade interior e
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em nossa realidade exterior mais próxima. É todo texto que discute a língua em que
vamos produzir esse conhecimento à revelia do obscurantismo veiculado a nosso
respeito pelo discurso oficial das classes dominantes. Não se trata, portanto, de
produzir arte literária, mas de produzir conhecimento tal como produziu a literatura
brasileira, que forjou o texto em que nos reconhecemos como brasileiros: como
cultura e 'orno cidadania. Ensinar a escrever literatura brasileira significa levar o
aluno a reconhecer a necessidade de habilitarse para participar desse esforço
histórico de ampliar tanto nosso conhecimento a respeito de nós mesmos quanto à
capacidade expressiva da língua em que temos de escrever para que ela se torne
capaz de dar conta desse novo conhecimento.
Nesse sentido, em vez de dar curso à tradicional atitude colonizada de
reverência ao artista como um ser iluminado, distinto do comum dos mortais, é
preciso que o professor oriente a leitura de poetas, romancistas, contistas, cronistas,
ensaístas, jornalistas para desvelar Ú leitura do aluno o sentido e o valor dos
recursos expressivos de que se vale para mostrar o trabalho que fizeram com os
recursos expressivos construídos historicamente na língua escrita e o trabalho de
criação de novos recursos expressivos para dar conta da configuração de realidades
que exploraram pela primeira vez. Essa visão histórica da construção da língua
escrita como um trabalho de todos os que ampliaram sua capacidade de expressão
coloca esses recursos expressivos à disposição dos alunos e os insere nesse
trabalho em igualdade de condições com todos os escritores do passado e do
presente.
E o mais importante contexto de diálogo em que o texto do aluno precisa
ser inserido é o contexto bem próximo da sala de aula: sua leitura pública e a
conseqüente discussão pelos colegas e pelo professor têm a finalidade de levar o
autor a reescrever o texto para qualificar sua participação nesses diálogos todos. Por
isso, o professor de português precisa ensinarse a conduzir essas discussões, a
orientar reescritas de texto, a avaliar textos segundo critérios claros e estabelecidos
previamente, porque sua tarefa é levar o seu aluno a escrever melhor e não apenas
a classificar seu texto dentro de uma escala qualquer. O professor de português
precisa, enfim, ensinarse a fazer o que quer que seus alunos aprendam a fazer:
precisa ensinarse a escrever para produzir conhecimento.
Questões multidisciplinares para a escrita
A escola insere o aluno no contexto de diálogo da cultura, um diálogo que
se dá por escrito; por isso, ensinar o aluno a escrever para que ele possa participar
nesse diálogo é tarefa de toda a escola. E, para que ele possa participar desse
diálogo na condição de produtor de conhecimento, nenhuma das disciplinas da
escola pode adotar o resumo, a paráfrase, o esquema, a anotação como seu texto
preferencial: nenhuma área pode privilegiar fôrmas textuais em detrimento da escrita
para exercitar o entendimento e produzir sentido.
Se aceitarmos que o texto que mais adequadamente expressa a cultura
contemporânea, científica e tecnológica é a dissertação, o gênero mais amplo sob o
qual se abrigam os artigos, os ensaios, as teses que expressam e divulgam os
avanços do conhecimento (não por acaso o texto que as autoridades educacionais
já definiram como o texto obrigatório da bagagem do candidato a estudante
Ler e escrever 8 80 0
universitário), esse é o mais forte motivo para que todas as áreas se envolvam no
processo de criar condições para que os estudantes se habilitem a praticar a
produção de textos dissertativos, que não se limitem, tal como vêm mostrando as
redações de vestibular, a meramente reproduzir lugarescomuns.
E para criar no aluno uma atitude dialógica com relação ao próprio texto,
o professor de qualquer área pode começar por refletir sobre a qualidade dialógica
do próprio texto; isto quer dizer que ensinar a escrever para produzir conhecimento
envolve aprender a escrever para produzir conhecimento. A graduação não ensinou
o professor a fazer isso? Todo mundo sabe que o conhecimento avança justamente
porque somos capazes de aprender muito mais do que nos ensinaram e que
ninguém é educado para viver a época em que vive. A tarefa do professor nesta
época em que as informações estão de muitas maneiras ao alcance do todos já não
é exatamente a de fornecer essas informações: é ensinar o aluno a organizáIas de
modo que façam sentido.
O professor vai ensinar o aluno a escrever, isto é, a expressar aorganização que é capaz de dar a tudo o que viu, ouviu, leu em livros, revistas, fitas,
discos e teipes e experimentou em laboratórios de toda ordem. Cabe a ele agora,
constituirse no interlocutor do aluno, oferecendolhe uma determinada forma de
organizar a informação dentro de um detenninado campo de estudo, ou seja, seu
conhecimento mais precioso não é mais de ordem factual, mas de ordem relacional.
Como a necessidade é o maior motor do aprendizado, tratase para os professores
(inclusive para os de português), então, de ensinaremse a ensinar a organizar
informações, e isso significa ensinaremse a ensinar a escrever.
A melhor contribuição que o professor de português pode dar a uma
escrita interdisciplinar produtora de conhecimento não é o ensino das formas do
texto dissertativo mas o exercício da escrita da literatura brasileira, como narrativa
do nosso peculiar modo de levar a vida, como descrição minuciosa, fiel e obstinada
de nosso cenário, das cenas que protagonizamos, dos objetos que caracterizam
nossa intervenção nesse cenário, dos diálogos que expressam nosso
processamento das relações humanas. A narrativa e as descrições que a ampliam e
aprofundam levam o aluno a olhar para perto e dizer o que está vendo com os
próprios olhos. A prática dessa atitude e a de registrar com as próprias palavras o
que vê, sente, percebem, intui, ouve, fica sabendo, mantêm acesa a sua curiosidade
e começa a organizar o seu espírito científico.
Além disso, é a prática do texto narrativo que faz a necessária ponte entre
a língua que falamos do modo como a falamos e a língua dos livros. Se é verdade
que as sucessivas hipóteses que as crianças fazem a respeito do modo de ser da
língua escrita, quando estão se alfabetizando, correspondem às sucessivas etapas
segundo as quais a humanidade construiu a escrita desde o primitivo ideograma até
a escrita ortográfica, também é verdade que há uma sucessão histórica que leva da
formulação narrativa de mitos e lendas e conduz aos contemporâneos textos
especializados na divulgação da ciência e na discussão de idéias. Narrar e
descrever são, desse modo, prérequisitos para o dissertar.
O texto dissertativo não pode ser concebido como forma, mas como
discurso, isto é, como inserido num diálogo, que se dá, em primeira instância, entre
Ler e escrever 8 81 1
o autor que o escreve e o texto que vai sendo escrito: se é verdade que a leitura do
texto fica facilitada com a declaração, logo nas primeiras linhas, do particular
problema que o texto vai abordar, mais importante do que isso é enfatizar sempre
que, antes de escrever essa declaração no início do texto, é necessário escrever a
respeito do assunto para descobrir qual é o particular problema que o texto vai
abordar. Antes de escrever para comunicar é preciso escrever para construir o que
se vai comunicar, para descobrir o que temos de mais interessante a dizer a respeito
do assunto. Escrever é uma sucessão de necessárias reescritas.
Ensinar a escrever é uma tarefa de uma escola disposta a olhar para
frente e não para a repetição do passado que nos trouxe à escola que temos hoje:
trabalhar com o texto implica trabalhar com a incerteza e com o erro e não com a
resposta certa, porque escrever é produzir e não reproduzir velhas certezas, pois
certezas nos deixam no mesmo lugar: é o erro que nos leva na direção do novo.
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Ler e escrever literatura: a mediação do
professor
Ângela da Rocha Rolla
Escrever é estar no extremo de si mesmo, e quem está assim se
exercendo nessa nudez, a mais nua que há, tem pudor de que outros
vejam que deve haver de esgar, de tiques, de gestos falhos, de pouco
espetacular na torta visão de uma alma no pleno estertor de criar.
(João Cabral de Meio Neto)
Expressão literária e importância social
O professor de literatura 1 é um privilegiado, pois tem como objeto de sua
área um universo rico de significados as obras literárias de todas as épocas e
nacionalidades patrimônio cultural da humanidade. Esse privilégio nem sempre é
percebido no contexto escolar ou fora dele. Desconhecendo seu poder, o professor
que trabalha com a linguagem e os professores de outras ciências e seus alunos
privase de uma aproximação desse universo.
A leitura e a escritura literárias são produtos humanos e, como tais,
desencadeiam um processo de comunicação social que é inerente à própria
natureza do literário. Lendo e escrevendo literatura, aprendemos a ler e a escrever a
nossa existência humana, atribuindolhe sentido. A literatura necessariamente
manifesta alguma coisa, diferente do seu conteúdo e da sua forma individual e que
constitui o seu próprio objetivo, pelo qual se impõe enquanto literatura. A expressão
literária adota simultaneamente uma infinidade de veículos em combinações que
variam com cada escritor, com cada obra e em cada ato de leitura. A literatura não
somente põe em funcionamento diversas ordens de significações que levam a
diversas ordens de significados, mas, também comporta, pelo fato mesmo da
combinação destes elementos, uma supersignificação.
Dentro desta perspectiva, concebese a literatura como processo, como
algo que acontece, que é fato, não como algo estático que possa ser objeto de
nossa percepção. Assim entendida, ela se liberta da concepção equivocada, muitas
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vezes presente no meio escolar, de que pode ser tratada unilateralmente. 2 Para
Escarpit (1974, p.32), a literatura como processo caracterizase por um projeto, um
meio e uma atitude, ligados entre si através da linguagem. O projeto é a obra em
bruto, tal como a realiza o escritor, o meio é o livro ou pelo menos o documento
escrito. Resta a atitude do leitor. O ato de leitura reproduz, em suas grandeslinhas,
o ato de escrever, mas o leitor não tem um projeto, como o escritor. Tem uma
predisposição.
Esta lhe vem dada por sua formação escolar, por suas experiências de leituras
anteriores, por sua informação, mas, sobretudo por sua problemática pessoal (I 974.
p.33).
Nesse processo há uma relação dialógica entre os elementos. Falando da
obra de arte, Hauser (1977, p.558) definea como construção dialética, como
conversa que se estabelece entre autor e leitor mediante uma contínua ação
recíproca. Sob o ponto de vista da sociologia moderna, a literatura e a arte em geral
constituem um sistema simbólico de comunicação interhumana. Não se pode
separar a repercussão da obra da sua produção, pois, sociologicamente, ela só está
acabada no momento em que repercute e atua. Sociologicamente, não existem os
livros que não são lidos: processo artístico é produção e leitura, o texto impresso não
tem realidade estética se não for lido; sem isso, não é mais do que uma série de
hieróglifos.
A comunicação artística supõe três elementos fundamentais: autor, obra e
público, indissoluvelmente ligados em seus papéis sociais. Segundo Antonio
Candido, há um movimento dialético que engloba a arte e a sociedade num vasto
sistema de influências recíprocas. A atividade do artista estimula a diferenciação de
grupos; a criação de obras modifica os recursos de comunicação expressiva; as
obras delimitam e organizam o público. Há um jogo permanente de relação entre os
três: "o público dá sentido e realidade à obra, e sem ele o autor não se realiza, pois
ele é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criador" (1976,
p.38). O público é, então, elo de ligação entre autor e obra.
Obra e público são dois elementos que atuam um sobre o outro e aos
quais se junta o autor, agente inicial da circulação literária. Conforme Candido (1976,
p.76), todo escritor depende do público. O autor só adquire plena consciência da
obra, quando ela é mostrada através da reação de terceiros. Sem o público não há
ponto de referência para o autor. O público não é passivo, pois a forma como reage
à obra, a intensidade e a qualidade de seu envolvimento podem decidir a orientação
de uma obra e o destino de um artista.
Considerando a formação de um público leitor, surge o papel da escola,
entre outras instituições, como elemento vital para a sua qualificação. Perceber as
relações que se estabelecem acima da simples dualidade coisa/significado que a
multissignificação do literário permite não deve ser privilégio de alguns iniciados,
mas possibilidade aberta a todos. A escola pode e deve ensinar a ler e a escrever.
Ler e escrever, sob esta ótica, supõe um processo dinâmico onde a literatura entra
como principal suporte.
Ler e escrever 8 84 4
O mediador: caminho entre a obra e o leitor
A sociologia da literatura, quando analisa a relação autor/leitor/obra,
mostra que o autor não é tão ativo como parece, nem o leitor tão passivo. Os
receptores aparentemente silenciosos não estão em silêncio. Há uma substancial
diferença entre a obra que o autor faz e a obra que o leitor lê. Os caminhos do autor
e do receptor vão por direções opostas, apesar de se cruzarem. A função que
cumpre a obra de arte para o autor é diferente da que tem na vida do leitor. Ao autor
serve de veículo de distensão, ao receptor, de meio de participação em destinos
alheios, através dos quais clareia a problemática de sua própria existência.
Acentuando o fato de que artista e público não falam a mesma língua desde o
princípio, Hauser (1977, p.2) explicita o conceito de mediadores de leitura.
Qualquer que seja a constituição de uma obra de arte, normalmente passa por muitas
mãos antes de chegar do produtor ao consumidor. A sensibilidade e capacidade
associativa, o gosto e o juízo estético do público são influenciados por uma grande série
de intermediários, intérpretes e críticos, professores e experts.
Sociologicamente, já se sabe a obra não está concluída quando sai da
mão do seu criador, somente quando chega ao seu receptor. Mas o caminho para a
recepção também não se dá de forma direta. A idéia de atitudes espontâneas e
individuais tanto em nível de criação como de recepção não se justifica, na medida
em que são necessárias tradições históricas e convenções sociais ao artista e
instrumentos para a compreensão da obra ao leitor. 3 O artista necessita de
intérpretes e intermediários para ser entendido corretamente e estimado de maneira
apropriada. Quanto mais avançado for o estilo do autor, quanto mais modernas as
obras em consideração e quanto menos entendidos e competentes em arte forem os
sujeitos receptores tanto maiores, diversas e importantes terão de ser as
"mediações".
A idéia de mediação tornase clara em alguns tipos de manifestação
artística como a música, por exemplo, em que a decodificação da composição
musical através do intérprete, que a executa para o público ouvinte, é imprescindível.
Sem a execução do maestro e do músico, ficaria ao aficcionado a tarefa exaustiva (e
na maioria dos casos impossível, quando se trata de leigos no assunto) de traduzir
as notas musicais que, ao serem lidas, não produziriam som, perdendo toda a sua
expressão e o seu valor artístico. Situação semelhante ocorre com o teatro, no qual
as instâncias da encenação, do diretor até o ator, tornam o texto' dinâmico e vivo
diante do espectador, injetandolhe o sangue da criação. No caso deste gênero
artístico, a situação é um pouco diferente, pois a leitura pura e simples do texto
dramático é possível (com a perda dos elementos plásticos), mas também aí a
mediação existe na figura do crítico literário (e/ou outros) que facilita o acesso do
leitor às técnicas de composição da peça enquanto literatura.
Na literatura, o contato direto do leitor com o escritor nem sempre é fator
para uma melhor compreensão da obra, podendo ocorrer exatamente o contrário. As
instâncias mediadoras, de outro modo, podem levar a uma interpretação adequada,
mas provocar um desinteresse pela figura do autor. Na atualidade, os meios técnicos
de mediação que se interpõem entre as criações artísticas e os sujeitos dispostos a
sua recepção, como o jornal, o disco, o rádio, a televisão, o teatro, o cinema,
intervêm na obra de tal modo que correm o risco de transformáIa em outra coisa,
Ler e escrever 8 85 5
fazendoa perder sua especificidade e até sua individualidade. É o caso, por
exemplo, de um romance transformado em filme; uma pintura utilizada em um
anúncio publicitário ou um poema que vira embalagem para presente.
Citando Benjamin, Hauser fala nas técnicas de reprodução modernas que
convertem algo fundamentalmente irrepetível em algo repetido infinita e
invariavelmente (1977, p.597). Trata principalmente do fato desses instrumentos
fazerem uso de produtos estranhos a eles (como a literatura na televisão, por
exemplo), pagando um preço muito alto por isto: a perda de sua singularidade e sua
auréola pessoal. A mediação, que deveria ser responsável por aproximar produção e
consumo, colocase, assim, como impedimento entre ambos. 4
O autor condena os meios técnicos como mediadores, mas reforça o
maestro, o intérprete, o crítico como instâncias que podem aprofundar seu
envolvimento na criação artística. Define o mediador com funções específicas que
necessitam sensibilidade e conhecimento, mas que não constituem qualificação
particular de um grupo restrito: "todo aquele que reage sensível e espontaneamente
às impressões artísticas e julga de um modocompetente assuntos de arte e de
gosto cumpre assim uma função mais ou menos importante" (Hauser, 1977, p.598).
O mediador, segundo ele, tem uma função social paralela à do criador. O escritor é
responsável pela forma da obra e o mediador por seu "mito". Não só personagens
da literatura, mas também seus autores transformaramse em figuras lendárias a
partir da interferência de mediadores. Eles cumprem não só o papel de divulgadores
dos produtos, mas também desempenham a função de revitalizadores do objeto
artístico, na medida em que são responsáveis pelo "renascimento" de autores e
obras.
Dentro da sociedade, os papéis de criador, público e mediador são
difusos e cambiantes. O crítico literário, o professor e o escritor constituem, na
verdade, um público especializado e podem desempenhar a função de mediadores
junto a um público leigo. No processo de escolarização, o professor estabelece uma
relação mediadora entre o livro e o aluno, desempenhando um papel relevante, pelo
menos no que diz respeito à literatura. Não se concebe a leitura como um ato
solitário, pois o leitor participa de uma comunidade de leitores, onde as leituras são
partilhadas como experiências vividas e o caminho que nos conduz até o literário
passa por uma predisposição individual, mas também por mediações externas como
é o caso do professor de português ou de literatura em relação aos seus alunos.
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Periódicos:
Ler e escrever 8 87 7
LEITURA: TEORIA & PRÁTICA. Porto Alegre/Campinas: Mercado Aberto/ ALE. Revista Semestral da
Associação de Leitura do Brasil.
LETRAS DE HOJE. Porto Alegre: PUCRS.
RELElTURA. Revista LatinoAmericana de Literatura Infantil e Juvenil. IBDY/Biblioteca Pública Infantil
e Juvenil de Belo Horizonte.
REVISTA LITERÁRIA BLAU. Porto Alegre. Revista bimestral de literatura.
Notas
1. A literatura, embora não constitua uma disciplina antes do ensino médio, deve ser
objeto de leitura e escrita desde a préescola. Assim, ampliase o sentido da
denominação professor de literatura, que passa a ser também uma atribuição do
professor da préescola e do ensino fundamental.
2. Por unilateral entendese aqui a abordagem do professor, ao interpretar um texto
literário, quando impõe a seus alunos uma única leitura possível, muitas vezes pré
estabelecida peja critica especializada, desconsiderando a participação do leitor e
impedindo o seu diálogo com o texto.
3. Aqui percebese claramente a importância do professor de literatura como o
sujeito que pode interferir positivamente na aproximação entre leitor e obra. No
entanto, é preciso que esse sujeito seja também um leitor aficcionado e um escritor
convincente, o que se pode chamar de um leitor profissional, que possa realmente
ser considerado pelos alunos uma boa fonte de informações literárias, alguém que
eles saibam que "gosta de ler e escrever". Segundo recente pesquisa com
profissionais de Letras, o leitor profissional pode caracterizarse como um "leitor não
ingênuo, que lê para analisar estilos, buscando o valor estético das obras, sendo a
leitura literária e a produção de textos parte integrante do seu cotidiano profissional".
Na tipologia de leitores aparece também um tipo curioso, o leitor compulsivo, que
pode ser um eficiente mediador de leitura: “O leitor compulsivo é eclético: da história
em quadrinhos ao último lançamento de um escritor valorizado pela crítica, tudo lhe
desperta a curiosidade”. Lê o que lhe cai nas mãos, mas mostra um espírito crítico
em relação aos textos, emitindo opiniões a respeito de autores e obras. Tem livro
espalhado por toda a casa, a leitura está em primeiro plano: são pilhas de livros que
compra ou pede emprestado. Adora freqüentar bibliotecas ou tem a sua própria. Lê
de tudo a toda hora, lê no ônibus, no banheiro, lê na hora de dormir. Qualquer
minuto livre que tem, ocupa nessa atividade. Ás vezes até esquece que tem corpo,
embriagase com a leitura (Rolla, 1997, p.53).
4. Sobre este aspecto, é importante considerar a apropriação indevida do literário.
Nem sempre as adaptações para cinema, teatro ou televisão são fiéis ao espírito da
obra original, dando ao espectador uma visão equivocada da obra literária que
serviu de fonte para a nova produção. Podese citar como exemplo a novela
televisiva Mandala, que conduz os leitores a uma leitura falsa do mito de Édipo. Vale
aqui também um alerta para a "substituição" da leitura da obra literária pelo filme que
a relê, prática que está tomandose comum na escola, na intenção de aproximar o
aluno da "leitura".
Ler e escrever 8 88 8
Leitura e escrita na matemática
Lucia Helena Marques CarrascoO ensino isola a matemática da história dos homens e concentrase no
seu aspecto formal e na sua linguagem simbólica. "Isolar a matemática é também
despojáIa de sentido" (Kline, 1976, p.103), e a conseqüência disto é que ela é vista
como um enorme e complicado quebracabeças.
De modo geral as pessoas não sabem dizer o que é matemática, mas
sabem responder se gostam ou não dela, e até conseguem explicar por quê. Pode
se até afirmar que a maioria das pessoas não morre de amores por ela e, talvez, até
sofra do conhecido "medo da matemática".
Michael Guillen, na introdução do seu livro Pontes para o infinito, fala
deste medo. Ele cita uma ocorrência do século IS, sobre um encontro entre o grande
matemático alemão Leonhard Euler e o eminente intelectual francês Denis Diderot,
ateu convicto, a quem Euler teria apresentado uma prova matemática da existência
de Deus.
Segundo parece, Euler aceitara um convite de Diderot, que ao tempo se encontrava na
corte de czar russo. No dia de sua chegada, Euler procurou Diderot e proclamou: [...]
Cavalheiro, (a + b n ) / n = X, portanto Deus existe. Responda! Anteriormente, Diderot
tinha já eloqüente e vigorosamente refutado numerosos argumentos filosóficos para a
existência de Deus, mas neste momento, incapaz de compreender o significado da
equação matemática que Euler lhe apresentara, sentiuse intimidado e não proferiu
palavra. (Guillen, 1987, p.9)
Ler matemática
O fato citado exemplifica, com muita clareza, as dificuldades que os não
matemáticos enfrentam, na nossa sociedade, para lidar com a matemática, tanto no
que se refere ao seu conteúdo como à sua linguagem, visto que os dois se
confundem.
Na ocasião em que ocorreu este fato, século 18, ainda nem haviam sido
desenvolvidas as teorias matemáticas que tratariam das questões sobre o infinito,
muito menos poderia provarse qualquer coisa de natureza transcendental, como a
existência de Deus. Mas diante da frase matemática desconhecida, mas
aparentemente precisa, surge o sentimento de insegurança e impotência.
No mundo de hoje, todas as pessoas reconhecem a importância do
conhecimento matemático para compreenderse um pouco melhor o
desenvolvimento tecnológico que nos envolve, e também para obterse sucesso nos
sistemas educacionais, o que, em última instância, significa alguma garantia de ser
bemsucedido nas relações sociais.
Ler e escrever 8 89 9
Mas, paradoxalmente, justo esta área de conhecimento, que tem uma
relevância tão grande dentro da sociedade e da escola, em particular, é a mais
incompreendida pelas pessoas e, conseqüentemente, a que atinge maior índice de
reprovação escolar.
Refletindo sobre a experiência citada no início deste texto, é possível
destacar que as dificuldades com a matemática residem, principalmente, no
desconhecimento dos limites da matemática, na incompreensão das relações que se
estabelecem entre a matemática e as outras áreas de conhecimento e na
impossibilidade de se ler e escrever matemática.
Em relação à linguagem matemática é importante destacar o seu caráter
de universalidade dentro dos sistemas escolares.
Embora, a nosso ver, a descontextualização da Matemática seja um dos maiores
equívocos da Educação moderna, o que efetivamente se constata é que a mesma
Matemática é ensinada em todo o mundo, com algumas variantes que são bem mais
estratégias para atingir um conteúdo universalmente acordado como devendo ser a
bagagem de toda criança que passa por um sistema escolar. (D' Ambrosio, 1993, p.7)
Por outro lado, apesar da inclusão da mesma matemática em todos os
currículos e da universalidade de sua linguagem, várias pesquisas etnográficas têm
revelado que a matemática está presente nas atividades realizadas por diferentes
povos, mas que a forma como ela se revela não é necessariamente a que aparece
nos currículos (D' Ambrosio, 1993).
Sobre a linguagem simbólica da matemática, também cabe salientar que
esta é considerada, muitas vezes, como a única forma possível para expressarse as
idéias e os resultados da matemática. No entanto, experiências de aprendizagem
com crianças têm mostrado a importância de se passar, durante a representação de
conceitos matemáticos, por outros tipos de linguagem como, por exemplo, a
linguagem pictórica e a língua materna.
[...] a superação das dificuldades com o ensino passa pelo reconhecimento da
essencialidade da impregnação mútua entre a Língua Materna e a Matemática e, em
conseqüência, da absoluta necessidade da utilização inicial de noções intuitivas,
aproximadas, imprecisas, mas fecundas e significativas, descortinadas através do
recurso à Língua. (Machado, 1990, p. 157)
A dificuldade de ler e escrever em linguagem matemática, onde aparece
uma abundância de símbolos, impede muitas pessoas de compreenderem o
conteúdo do que está escrito, de dizerem o que sabem de matemática e, pior ainda,
de fazer matemática.
Neste sentido duas soluções podem ser apresentadas. A primeira
consiste em explicar e escrever, em linguagem usual, os resultados matemáticos.
Como prova de que isto é possível, podese ver a obra, já citada, de Guillen (1987),
que trata, desta forma, de complexos conteúdos matemáticos. Uma segunda
solução seria a de ajudar as pessoas a dominarem as ferramentas da leitura, ou
seja, a compreenderem o significado dos símbolos, sinais e notações.
Fazer uma leitura não deve ser um ato mecânico, de memorização, onde
apenas se decodifica os sinais gráficos. “... a linguagem é um meio de estabelecer
Ler e escrever 9 90 0
relações humanas e... um aspecto fundamental do modo de ser e de existir do ser
humano que, por meio dela, expressa aquilo que compreende do mundo, ao mesmo
tempo em que revela a linguagem do Ser" (Danyluk, 1989, p.23). Ler, portanto,
implica compreender o que está sendo expresso pela linguagem e, desta forma,
entrar em cOlJ1unicação com o autor.
"Compreender não é apenas entender o que as coisas representam, mas
é entender o modo de existir dessas coisasnomundo" (Danyluk, 1989, p.26). A
leitura da palavra, do símbolo, ou a leitura do mundo, realizasé plenamente quando
o significado das coisas que estão representadas emerge pelo ato da interpretação.
A compreensão do que se está lendo, estudando, não estala assim, de repente, como se
fosse um milagre. A compreensão é trabalhada, é forjada, por quem lê por quem estuda...
Por isso mesmo, ler, estudar, é um trabalho paciente, desafiador, persistente. Não é
tarefa para gente demasiado apressada ou pouco humilde que, em lugar de assumir suas
deficiências as transfere para o autor ou autora do livro, considerado como impossível de
ser estudado. (Freire, 1993, p.35)
Isto vale principalmente para a leitura de um texto em linguagem
matemática, só que, na busca de compreender o que está sendo comunicado pelo
texto, ou ainda, na busca do significado dos símbolos, é preciso compreender o
contexto da matemática em que se situa o conteúdo tratado e a relação deste com o
mundo.
Mas, de que contexto e de que relação estáse falando? A matemática
que se conhece na escola parece bastarse a si mesma. Os símbolos parecem tratar
apenas de coisas abstratas. Afinal, o que é matemática? De que objeto ela trata?
Como que se pode ler ou escrever matemática sem compreender o que ela
significa?
Concepções sobre apropriação da realidade
A ciência contemporânea com os seus pressupostos baseiase na
revolução de Galileu. A natureza é um livro aberto e o homem pode lêIo, com a
condição, no entanto, de que aprenda a linguagemem que está escrito. Desde o
momento em que a linguagem da natureza é a "língua mathematica", o homem não
pode explicar cientificamente a natureza nem domináIa praticamente se não faz sua
a linguagem das figuras geométricas e dos símbolos matemáticos, motivo pelo qual
quem não domina a matemática está excluído da compreensão científica da
natureza. Para este a natureza (naturalmente a natureza em um dos seus aspectos)
é muda.
Em que linguagem está escrito o livro do mundo humano e da realidade
humanosocial? Como e para quem se desvenda tal realidade?... O homem quer
compreender a realidade, mas freqüentemente consegue ter "em mãos" apenas a
superfície da realidade ou uma falsa aparência. Como então se desvenda a
realidade na sua autenticidade? (Kosik, 1985, p.116)
A realidade é atingida pela união do fenômeno e da essência. O mundo
dos fenômenos e o mundo das representações, sendo que estas são projeções dos
fenômenos externos na consciência dos homens, representa o mundo da realidade,
Ler e escrever 9 91 1
porque é no fenômeno que se manifesta li essência. Esta manifestação não é algo
que ocorre de forma total e imediata. O fenômeno pode também esconder a
essência e indicar algo que não é ele mesmo. Para compreender o fenômeno é
necessário atingir a essência. A criação de um mundo onde a essência não possa
manifestarse no fenômeno representa a criação de uma outra realidade, sem
movimento, estática e ideal, como é o caso do platonismo (Kosik, 1985).
A realidade entendida neste sentido tão amplo e composto por
... tudo o que é natural e de todos os fatos, artefatos e mentefatos" (D' Ambrosio, 1990,
p.82), supõe o homem não apenas se adaptando e a reproduzindo, mas agindo como um
"... quasecriador, incapaz de criar uma nova realidade mas capaz de criar novas formas,
de perceber e manejar, e portanto de modificar a realidade na qual ele se insere
(D'Ambrosio, 1990, p.39).
Uma realidade em movimento, na qual nada está estagnado e acabado,
onde por trás de toda representação há uma essência não inerte, não pode ser
reduzida a uma totalidade absoluta, mesmo que essa totalidade seja a natureza. Ela
deve ser vista de forma abrangente, como
[...] realidade do homem que na natureza e como parte da natureza cria a realidade
humanosocial, que ultrapassa a natureza e na história define o próprio lugar no universo.
O homem não vive em duas esferas diferentes, não habita, por uma parte do seu ser, na
história, e pela outra, na natureza. Como homem ele está junta e concomitantemente na
natureza e na história. (Kosik, 1985, p.228)
A concepção de realidade apresentada por Kosik (1985) rompe e
expande com a idéia de que o mundo físico, mensurável e quantificável é a
expressão completa da realidade. Mesmo que se inclua o mundo das idéias, dos
conceitos e de todas as manifestações da racional idade, ainda podese ir além, ao
incluir aspectos da natureza do homem, como os emocionais e psicológicos.
Mas, de onde surge esta concepção, que reduz a realidade aos seus
aspectos físicos, empíricos?
Na busca dos fundamentos da ciência, desde tempos muito remotos,
filósofos e cientistas têm apresentado opiniões, muitas vezes divergentes. Na
tentativa de estabelecer os procedimentos e os métodos que conduzem à produção
do saber, diferentes correntes filosóficas e epistemológicas vêm surgindo. Uma
delas, o empirismo lógico ou positivismo lógico, também chamado de
neopositivismo, porque se situa próximo ao positivismo de Conte (século 19), tem
sido bastante contestado atualmente e, podese dizer que é desta corrente que se
herdou muitos dos dogmas sobre a ciência.
Dentre estes dogmas, destacase, inicialmente, o de que existem apenas
dois tipos de conhecimentos reconhecidos como autênticos e verdadeiros: o
empírico e o lógico.
Princípio do Empirismo um enunciado ou um conceito só será
significativo na medida em que possua uma base empírica, ou seja, na medida em
que for fundado na experiência;
Ler e escrever 9 92 2
Princípio do Logicismo para que um enunciado ou sistema de
enunciados possa valer como científico deve ser passível de exata formulação na
linguagem da lógica. (Carvalho, 1988, p.67)
Cabe destacar outros dogmas gerados pela mentalidade cientificista,
ainda hoje existente no espírito de muitos cientistas e professores.
Só o conhecimento científico é verdadeiro e real.
A lógica e a linguagem da ciência têm total autonomia intelectual.
A ciência visa atingir uma concepção mecanicista ou formalista do mundo.
O conhecimento deve ser dividido em várias partes ou especialidades, tanto em
seu desenvolvimento como em sua transmissão.
A razão é o fundamento do conhecimento científico.
Uma mentalidade científica estruturada sobre esses dogmas ignora todas
as reflexões filosóficas sobre o homem e seu lugar no mundo, e despreza todas as
explicações sobre a origem e as causas dos fenômenos conhecimento desse tipo é
considerado metafísico e sem nenhum valor teórico.
Outro aspecto a ser considerado é que o cientificismo anula a história e a
substitui por uma sucessão linear e ordenada de fatos que devem, necessariamente,
conduzir ao progresso, representado por um estado perfeito e positivo (Lopes,
1986).
O cientificismo encarregouse, durante este século, de criar para a ciência
uma imagem de neutralidade, objetividade e racional idade, além de construir um
mito em torno de todos os seus resultados. No entanto essa imagem é perecível e
vemse desintegrando, contínua e intensamente.
O cientificismo nega que a ciência possa cair em contradições, mas a
história mostra que a ciência não está isenta delas. É na história, portanto, que se
constroem as críticas ao cientificismo, e é na história que se pode descobrir a
dimensão essencial da realidade humana.
O homem que busca conhecer a sua realidade tem que se assumir como
ser social, pois suas ações e opções estão vinculadas e impostas pelo meio no qual
está inserido e do qual depende; como ser histórico, porque age e influencia seu
meio num momento definido e não como ser abstrato que poderia existir, tanto hoje
como no passado; e também como um pesquisador, que não se contenta com
simples representações de sua realidade, mas que busca penetrar no cerne das
mesmas, buscando as origens e a essência (Pinto, 1979).
O positivismo reduziu a compreensão da realidade a um único aspecto, ou
seja, a seu aspecto físico, quantificável. Mas, além do mundo físico, existe também o
mundo artístico, o mundo biológico, o mundo psicológico, entre outros. Assim,
rompendo com esta visão positivista é preciso entender que o conhecimento
humano se constrói a partir de uma prática, na qual entram todos os diferentes
modos de apropriação da realidade, em maior ou menor medida. No entanto, como
destaca Kosik (1985), para compreenderse cada um destes aspectos da realidade é
preciso que se tenha uma intencionalidade.
Ler e escrever 9 93 3
No caso, para compreenderse a matemática e a realidade a que ela
introduz, é preciso que se utilize uma chave especial, ou seja, uma intenção
especial. Mas, qual é esta chave? Como se dá a apropriação da realidade
matemática? Como que se pode fazer a leitura (com compreensão) de um texto
matemático e como que se pode chegar a escrever e até construir conhecimento
matemático?
Aparentemente, a matemática está afastada da história e da cultura do
homem, emergindo totalmente em seu mundo simbólico. Mas teria sido sempre
assim?
Historicamente, vêse que a evolução da matemática ocorre começandopor uma concepção metodológica empírica, em que a matemática está diretamente
ligada à cultura e à sociedade da época, e progride até as características atuais, de
ciência extremamente simbólica, onde situase o rigor lógico e o formalismo
excessivo.
Da prática de contagens, geradora da expansão do campo numérico e da
geometria criada a partir de necessidades reais e relacionada com o mundo
empírico, chegase a uma ruptura entre o prático e o teórico, resultante da ênfase
colocada nas idéias e nas formas. Nesta fase, é marcante a influência exercida por
Euclides ao organizar e ampliar a geometria dentro de um enfoque dedutivista.
Referindose a esta influência, destacase que o saber matemático passa, a partir de
Euclides, a ser identificado com a abstração, o teórico, preocupado com a beleza do
raciocínio e a exatidão da forma. Em resumo: a Ciência Matemática passa a ter
existência pres cindindo da realidade concreta, ou seja, é o ato de pura ideação aqui
remotamente Reflexiva em relação ao mundo real. Isso só se toma possível graças
as tipo de sociedade grega da época, em que a divisão do trabalho era bem
demarcada, pois o mundo das idéias pertencia aos cidadãos gregos e o do trabalho
aos escravos. (Souza, 1986, p.54)
Esta última observação referese a um caso em que a mudança de
ênfase no modelo matemático não decorre de razões intrínsecas à própria
matemática, como uma exigência natural de sua evolução, mas é conseqüência de
determinantes sociais ligados ao trabalho criativo de pesquisadores da época.
O que se observa, a partir de Euclides, é que as prioridades da
matemática dirigemse para a expansão da pesquisa, através da utilização do
método dedutivo, para a construção de um modelo formal e racional (no sentido de
estar isento de contradições) de análise das questões teóricas e para o
aprimoramento da linguagem simbólica utilizada dentro deste modelo.
Assim, além da força dada ao método dedutivo, chegase a um nível que
parece valorizar apenas o que é simbólico e abstrato. Isto não significa que o
conteúdo da matemática seja apenas simbólico e abstrato, mas sim que ele se
apresenta desta forma, resultando disto que a maioria das pessoas não tem acesso
a este conhecimento. Em síntese, os matemáticos conseguiram construir um vasto
campo teórico que parece prescindir da realidade humana em geral, pois, como diz
Kline (1976), é apresentado como sendo autosuficiente, de modo a poder alimentar
se em si próprio.
Ler e escrever 9 94 4
Critica ao formalismo matemático
Atualmente destacase a influência de três diferentes tendências dentro
da matemática, conduzidas pelas correntes filosóficas: logicismo, intuicionismo e
formalismo, as quais, basicamente, resultam das contradições teóricas verificadas
ao longo do tempo (cabe destacar os paradoxos encontrados dentro da teoria de
conjuntos e o surgimento das geometrias não euclidianas) e das divergências de
opiniões a respeito do que é matemático, qual seu objeto de estudo, qual o peso da
intuição e qual o procedimento ideal para a construção de tal conhecimento, dentre
outras questões.
A visão da matemática como um encadeamento lógico de sistemas
simbólicos é, de modo geral, bastante comum entre os matemáticos puros, cabendo
fazer exceção aos intuicionistas. Questões que digam respeito à origem do
pensamento matemático ou à validade de suas descobertas para a real idade
concreta, por outro lado, não lhes despertam grande interesse. Apesar disso, os
resultados do pensamento matemático têm dado excelentes contribuições à
sociedade, destacandose a utilidade para as outras ciências e para o
desenvolvimento tecnológico.
Entendida a formalização como ““... o processo de adaptar a matemática
ao processamento mecânico" (Davis e Hersh, 1985, p.167), é necessário reconhecer
o avanço e o aprimoramento que a mesma vem atingindo. Além disso
A possibilidade de as abstrações matemáticas serem tratadas como algo em si,
desvinculadas do substrato empírico que as engendrou, não pode ser negada. Afinal,
assim se processam profícuos trabalhos de numerosos matemáticos que,... deixam para
outros a tarefa de discutir, a posteriori, os possíveis vínculos do que produzem com o
mundo que está aí, de procurar aplicações para o que, ingenuamente, acreditam
produzir de forma livre e desinteressada. (Machado, 1987, p.53)
Decorre dessas observações que a crítica ao formalismo (ou mentalidade
formalista) não pode consistir na negação de sua eficiência, mas pode e deve, por
outro lado, ser desenvolvida com o objetivo de mostrar que o formalismo elimina da
matemática uma série de elementos que não são compatíveis com seu aspecto
mecânico e rígido e que poderiam expressáIa como uma construção humana, na
qual contradições são encontradas, caminhos alternativos são seguidos e em que o
caráter de neutralidade e objetividade não pode ser comprovado.
A matemática como é considerada normalmente, ou seja, a matemática
formalizada que se encontra em livros didáticos e manuais escolares, é bastante
rígida e abstrata. Dentro de uma teoria formalizada não se vê a história da
descoberta, não se percebe os erros, nem se pode fazer novas descobertas. Além
disso, como enfatiza Caraça (1984), não se percebe a influência exercida pelo
ambiente social ao longo do processo de produção do conhecimento. Portanto, "A
história da matemática e a lógica do descobrimento matemático... não se podem
desenvolver sem a crítica e rejeição definitiva do formalismo" (Lakatos, 1978, p.17).
Ler e escrever 9 95 5
O formalismo nasce do êxito alcançado pelo método axiomático. Esse
método consiste num conjunto de noções primitivas (axiomas), das quais decorrem
outras proposições (teoremas) e definições. É importante destacar que uma teoria
axiomática deve ser consistente, ou seja, não pode conter contradições. As
proposições ou teoremas precisam ser demonstrados e, para tal, utilizase um tipo
de raciocínio que parte das noções primitivas, também consideradas "verdades
evidentes" e desenvolvese através de uma cadeia de inferências dedutivas.
Lakatos (1978) desenvolve a crítica ao formalismo, rejeitando a
possibilidade de identificar a matemática com sua abstração axiomática formal, e
mostrando que, como toda ciência natural, ela é falível, refutável e se desenvolve
por caminhos bem diferentes do revelado pela demonstração. No encaminhamento
desta crítica ele argumenta que "o estilo dedutivista oculta a luta, esconde a
aventura... enquanto o resultado final é exaltado como infalibilidade sagrada"
(Lakatos, 1978, p. I 86).
Todo esse procedimento formal destaca Lakatos (1978), pode fazer
sentido se o objetivo é provar para a comunidade acadêmica uma idéia já
construída, mas o formalismo não revela como o pesquisador pensou e construiu
sua idéia.
Dessas últimas colocações podese tirar a conclusão que o tipo de
raciocínio utilizado nas demonstrações formais, ou seja, o raciocínio dedutivo,
responde sem problemas à questão de justificar uma descoberta, mas não é capaz
de explicar o que se passa no momento de criação propriamente dito.
Escrever matemática
Penetrar no mundo do pensamento, nas artimanhas da razão e no
mistério do inconsciente, procurando identificar e compreender o momento da
criação é, sem dúvida, um grande desafio. Descobrir teoremas ou definições em
matemática, fórmulas ou novas relações em física, composições musicais ou de
outra natureza artística, parecem ser todasatividades criativas. E durante a vida
diária, no trabalho, na escola e nas atividades de lazer é possível que uma pessoa
seja criativa e comunique, através de uma linguagem, suas idéias e compreensão
das coisas do mundo?
Participar do processo de criação não deve ser exclusividade de mentes
especiais, privilegiadas, que retêm conhecimentos especializados em uma
determinada área. O encanto e o prazer resultantes deste processo devem ser
experiência dos por todos os indivíduos.
Concebendo a escrita " ... como um sistema de representação, sua
aprendizagem se converte na apropriação de um novo objeto de conhecimento, ou
seja, em uma aprendizagem conceitual" (Ferreiro, 1990, p.9).
As crianças criam representações espontâneas para escrever conjuntos
de palavras e expressar suas hipóteses de registros escritos. No entanto, muitas
Ler e escrever 9 96 6
vezes, na escola, isto não é valorizado e as crianças acabam sendo submetidas a
um treinamento penoso. "Ao invés de se fundamentar nas necessidades
naturalmente desenvolvidas das crianças, e na sua própria atividade, a escrita lhes é
imposta de fora, vindo das mãos dos professores" (Vygotski, 1988, p.119).
Da mesma forma a linguagem matemática é imposta aos alunos, em todos
os níveis de ensino, sem que estes possam criar suas hipóteses para representar as
idéias e os conceitos matemáticos, bem como os procedimentos de cálculo. Muitas
vezes, até para se desenvolver a solução de um problema, em linguagem simbólica,
o professor "ensina" todos os passos que devem ser seguidos e depois aplica vários
problemas semelhantes para fixar o procedimento ensinado.
Naturalmente que existem diferenças significativas entre a linguagem
comum, utilizada pelos alunos para expressar suas vivências e suas primeiras idéias
sobre as coisas, e a linguagem científica (a linguagem matemática, em particular)
que, por sua precisão, deve facilitar o registro do conhecimento científico,
formalizado. Mas, até que o aluno se torne capaz de utilizar esta linguagem
formalizada, ele precisa compreender o significado (a essência) do conceito ou da
teoria que está sendo estudada e que se mostra, geralmente, na própria linguagem
matemática. E precisa saber falar e escrever sobre este conceito, na sua linguagem
usual, para só depois, fazêIo na linguagem simbólica.
Há uma tendência a valorizarse os conhecimentos ditos científicos em
detrimento dos conhecimentos rotineiros, no entanto "os conhecimentos científico e
rotineiro são únicos no sentido de sua orientação para o objeto" (Kopnin, 1978, p.
303). A forma de se olhar e analisar o objeto é que difere. Independentemente da
linguagem em que se expressem estes conhecimentos, o importante é distinguir se o
tratamento dado ao objeto em estudo foi científico ou não.
Muitas vezes a matemática é vista como a linguagem de outras ciências.
Por exemplo, a física utiliza as expressões e os sinais da matemática para expressar
o seu conteúdo teórico. Isto, no entanto, não quer dizer que a matemática seja
desprovida de conteúdo. Como já foi discutido anteriormente, é preciso que se
resgate a construção histórica da matemática, para a constatação de que este
conhecimento possui um objeto real e que seu desenvolvimento não ocorre apenas
no mundo das idéias, ou apenas no nível do simbólico.
Desta forma, o conhecimento matemático, assim como outros
conhecimentos científicos, deve contribuir para que o homem tenha uma melhor
compreensão de sua realidade. Interagindo com as formas específicas de cada
ciência, para proceder à análise de seu mundo, ele começa a se tornar cada vez
mais um pesquisador e um cientista. "O conhecimento não existe para si, mas para
a prática do s homens" (Kopnin, 1978, p.309).
A matemática consiste num corpo de conhecimentos que resulta de
construções humanas. Ela pode ficar centrada em seu aspecto formal e rígido, onde
regras fixas delimitam o campo de ação. Mas pode também ser encarada em termos
de sua construção e de sua inserção na realidade históricosocial.
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O ensino da matemática não deve limitarse ao tratamento de teorias
formalizadas. Ele precisa desvelar sua relação com o mundo, tanto no que se refere
à sua construção como à sua interrelaçào com as outras áreas de conhecimento.
Neste processo não existe uma forma objetiva e única de ação. É dentro de uma
multiplicidade de fatores que ocorre a produção de conhecimento, o que supõe a
presença de um pesquisador crítico e ousado. O ensino da matemática, portanto,
deve criar condições para que o aluno reconheça sua capacidade de construir
conhecimento e proceder continuamente como um pesquisador.
Referências Bibliográficas
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Sobre as múltiplas formas de ler e
escrever música
Jusamara Vieira Souza
Introdução
Historicamente, a importância da escrita e da leitura tem sido atribuída ao
ato de escrever como o principal fator no desenvolvimento intelectual, lingüístico e
social das culturas ocidentais. Apesar das discussões mais recentes sobre a cultura
escrita nem ressaltarem "... que não foi nem a escrita nem a escrita alfabética, por si
sós, a causa de mudanças sociais, culturais e tecnológicas na Europa Ocidental..."
persiste, ainda, a idéia de que a escrita éa única responsável pelas mudanças
cognitivas e transformação da sociedade (Narasimhan, 1995, p.197). Essa posição
em relação à escrita levanos a entendêIa em uma perspectiva mais ampla. Muito
particularmente, mostranos as limitações e contradições visíveis nas teorias
tradicionais, entre elas, a de querer" ... tratar a ausência da escrita, a 'oralidade'
como inferior, algo a evoluir ou, se necessário, a ser erradicado ..." (Narasirnhan,
1995, p.197) e classificar indivíduos que não lêem como "incultos", discriminando,
por exemplo,as sociedades ágrafas. Como 01son e Torrance (1995, p.14) concluem,
as diversas teorias sobre as relações entre a cultura escrita e oralidade, “...
acabaram por evidenciar o etnocentrismo implícito em teorias anteriores que viam a
escrita como' caminho mais nobre' para o esclarecimento e a modernidade."
Se dirigimos nosso olhar para a área de música podemos ver que as
coisas aqui não são muito diferentes. Quando pensamos no tema "notação musical",
as primeiras imagens podem ser aquelas de símbolos incompreensíveis destinados
a alguns poucos iluminados ou talentosos, enfim, uma coisa de outro mundo, para
grandes artistas. É comum as pessoas dizerem: "Eu sou musical, mas não sei ler
música". Existe uma outra variante dessa idéia que é: "Eu não sei nada de música".
Duvidando que alguém não saiba nada de música, já ouvi a seguinte resposta: "Eu
não conheço aquelas bolinhas". Ou seja, se eu não sei ler música, logo não sei
música. A meu ver, é preciso desconstruir essa representação de saber música que,
de uma forma negativa, tem contribuído para que muitos desistam de aprender
música.
Assim, a leitura e escrita musical têm sido usadas muito mais como
instrumentos de exclusão do que de acesso a um novo código. Esta seria uma
primeira idéia que gostaria de discutir neste breve texto. A segunda idéia é que não
devemos nos esquecer que muitas tradições musicais neste planeta são aprendidas
e transmitidas oralmente e isso é válido especialmente para um país como o nosso.
A notação musical em nossos meios culturais
Ler e escrever 1 10 00 0
Existem diferentes maneiras de vivenciar a música. Dançar, ouvir,
apreciar, recordar, ver imagens, emocionarse ou relembrar fatos são algumas
dessas formas. A experiência de ouvir música é talvez a mais democrática delas:
todos nós podemos fazêIa, se não com os ouvidos pelo menos com o corpo. E,
realmente, todos nós ouvimos música diariamente e de diversos modos, com
diferentes intenções, mesmo que não saibamos ler e escrever música. Da mesma
forma, nós podemos tocar um instrumento ou cantar sem, necessariamente,
utilizarmos da leitura e da escrita. Ou seja, existem outros procedimentos, não
menos complexos, que levam à aprendizagem musical, como, por exemplo, em
tradições musicais transmitidas oralmente. Esses procedimentos estão relacionados
com as quatro características a partir das quais Pattanayak (1995, p. 10) define uma
cultura oral. A primeira delas seria a conservação de textos pela memorização; a
segunda, a utilização de textos em contextos de rituais e oratórios; a terceira seriam
os procedimentos para iniciar os membros da sociedade no uso desses textos e, por
último, as diferentes maneiras de se falar sobre eles, explicáIos ou fazerIhes
referências.
Se acreditarmos que para tocar um instrumento não é preciso ler as notas
e que basta ter um bom par de ouvidos, para que serve, então, ler e escrever
música? Será que a grafia musical é tão importante na vida cotidiana das pessoas
como a notação alfabética e a dos algarismos? Onde encontramos a notação
musical no diaadia? Além do tradicional bombom "sonho de valsa", com sua
moldura pautada em tons de lilás, talvez possamos nos lembrar de cartazes e
outdoors ou mesmo da mídia que se utiliza da partitura musical como valor simbólico
de status ou prestígio.
Enquanto nas sociedades urbanas os exemplos de escrita alfabética e
dos algarismos são inúmeros, os exemplos da notação musical parecem ser
escassos. Também, na escola, raramente a notação musical é ensinada. Como
afirma Sinclair (1990, p.15), “... o meio escolar dá importância capital à linguagem e
aos cálculos escritos; porém, com raras exceções, a notação musical é ensinada no
âmbito escolar". A autora lembra ainda, que “... paralelamente, a maior parte dos
pais chama a atenção de seus filhos para as letras e os algarismos e se interessa
pelas perguntas que as crianças fazem a respeito; mas raros são aqueles que fazem
o mesmo em relação à notação musical" (Sinclair, 1990, p.15). Daí podem dizer que,
na prática, a representatividade dos três domínios de leitura e escrita, quer sejam, o
musical, o numérico e o da linguagem, é desigual.
O que é notação musical e para que serve?
Como toda escrita, a notação musical é um sistema de representação
convencional. Embora não seja tão antiga como a escrita alfabética e a dos
algarismos, ela sofre também transformações ao longo da história. Existem
hipóteses de que alguns dos primeiros traços deixados há pelo menos trinta mil anos
a.C. possam referirse a atividades rítmicas ou melódicas. A história da grafia
musical está, portanto, intimamente ligada à dos sistemas de notação.
De maneira semelhante à escrita alfabética e numérica, a escrita musical
se utiliza de símbolos que foram modificandose com o passar do tempo. De
representações simbólicas (o uso de símbolos ou desenhos representando um fato
do mundo exterior) até a escrita tradicional que hoje conhecemos o sistema de cinco
linhas denominado de pauta ou pentagrama, o trajeto foi longo.
Ler e escrever 1 10 01 1
Segundo Huglo (1997, p.143),já no século 7 observavamse os limites da
escrita musical e a impossibilidade de " ... fixar os sons por escrito". Mais tarde, em
840, podemos encontrar referências às figuras notarum, ou seja, aos desenhos das
notas, embora Réomé citado por Huglo (1997, p.143) admitisse que “... uma nota
imaterial de música não se pode fixar por escrito".
No final do século 9, estabeleceramse os neumas, com os quais se
escrevia o canto gregoriano. Os neumas, ou seja, as combinações de acentos e de
sinais de pontuação do discurso (pontos, vírgulas, pontos de interrogação etc.)
teriam sido inventados por volta de 800830 e difundidos por toda parte,
diferenciandose graficamente em cada região da Europa. Cabe ressaltar que esta
forma de notação referiase somente à altura dos sons. Esse sistema ocidental,
ainda ligado a uma tradição oral que vinha desde o século 6, permitia a variabilidade
de interpretação dos sinais gráficos. Embora o sistema fosse útil para auxiliar a
memória, questionavase a necessidade da notação musical para a transmissão dos
cantos litúrgicos:
... por que a notação musical? Qual a vantagem de impor um suplemento de trabalho
aos copistas? Num mundo em que a transmissão do saber se fazia antes que tudo pela
oral idade, num universo em que a assimilação prazerosa da Bíblia pela memória
meditatio substituíra a de Virgílio, nesse povo de clérigos, de salmistas e de chantres
que passavam dez anos de sua existência ensaiando os cânticos recordatio – a serem
apresentados de cor durante a celebração litúrgica, é o caso de indagarse a razão de
ser de uma notação musical. (Huglo, 1997, p.142)
No início do século II firmouse uma convenção do sistema iniciado pela
cultura ocidental, adotando uma forma fixa para cada som. Com o acréscimo de
letras do alfabeto ao lado de cada nota da notação por neumas (signos) sem pauta,esperavase que o cantor pudesse “... reconhecer com certeza, a melodia que por
acaso houvesse perdido nitidez em sua memória, ou, melhor ainda, [pudesse]
decifrar à primeira vista uma peça de canto recémregistrada nessa nova notação e
que ela jamais houvesse ouvido antes...” (Huglo, 1997, p.145)
Da edição de partituras, que data do início do século 16, a escrita musical
continuou se transformando, chegando ao século 20 a uma nova espacialização da
música, extrapolando os limites da pauta. Nessa evolução, em correntes já muito
diversificadas, a atenção se volta cada vez mais para o timbre, através de
descobertas das potencialidades sonoras dos instrumentos, e para os recursos
sonoros de instrumentos eletroacústicos onde os limites da execução instrumental
são quebrados. A notação procura, também, outros modelos de representação
espaçotemporal, procurando a fixação do gesto e do movimento. Esse tipo de
notação pode ser encontrada nos trabalhos de Kubik (1986) e Narasimhan (1995).
Hoje, independente se a notação utilizada é tradicional ou vanguardista,
todas elas trabalham com um sistema de coordenadas: a vertical traz a
simultaneidade e a horizontal representa o seu desdobramento temporal. Por mais
simplificada que ela seja, " ... a cada nota da melodia corresponde um sinal preciso,
seja um ideograma – acento agudo, acento grave etc., seja uma das letras do
alfabeto, seja, finalmente, um signo convencional que indica o intervalo a separar
cada grau da escala de sons ..." (Huglo, 1997, p.142)
Existem basicamente quatro tipos de grafia musical:
a) notação como símbolo icônico;
Ler e escrever 1 10 02 2
b) notação como registro da posição ou disposição corporal;
c) notação associada à significação musical;
d) notação como fixação de alturas (sistema tradicional).
Nos dois últimos sistemas acima citados, a altura dos sons é
convencionada nos sentidos para cima (sons agudos) e para baixo (sons graves).
Isto é, quando escrevemos uma melodia, o desenho formado pela posição das notas
na pauta corresponde ao desenho descrito pela melodia: se a melodia subir, o
desenho também subirá e viceversa. É importante ressaltar que qualquer uma
dessas notações musicais pode registrar apenas parcialmente a intensidade, o
tempo, o fraseado, o timbre, entre outros.
Quando necessitamos da grafia musical? Qual é o seu papel? Como em
outras linguagens, a importância da notação musical é permitir o registro para que a
execução de uma peça musical possa ser corrigida, aperfeiçoada e que a mesma
possa ser executada por outras pessoas. Isto é, ela serve como apoio para a
repetição e execução de obras musicais. Como em outras áreas, a escrita permite
armazenar e fixar o texto musical fazendo dele um objeto de repetição e reflexão,
além de superar, em muito, a capacidade de armazenamento individual de qualquer
conhecedor. Mas, esses procedimentos não podem, igualmente, ser desenvolvidos
na oral idade ou em culturas musicais de tradição oral, como por exemplo, em
escolas de samba?
A importância da notação musical pode ser vista não só na função da
reprodução como também na de auxílio para um ouvir musical consciente,
preocupado com os meios técnicos utilizados pelo compositor, a estrutura da obra, o
acompanhamento consciente do movimento e as curvas de tensão. Ela pode, além
disso, servir de ajuda para tirar a música de seu tempo como, por exemplo, ouvir
trechos, analisar, novamente ouvir o seu todo. Em outras palavras: a notação
musical toma a música mais compreensível, ao apresentar o seu lado matemático,
ajudando a perceber sua estrutura e organização.
Ler e escrever 1 10 03 3
Pedagogicamente, a notação musical é semelhante a um recurso técnico,
podendo, ao mesmo tempo, representar uma escrita após a música, ou antes, da
música, quando queremos reproduzir uma obra. Notação musical pode ser, além
disso, um exercício de composição e audição. O sentido de ler e escrever música
como ajuda auditiva para o ouvir mostrase também na aprendizagem de ler música
que não se quer ou que não se pode tocar.
Ler e escrever música na escola fundamental
Existe muita controvérsia se a leitura e a escrita musical devem ser temas
na escola de ensino fundamental. A discussão remete a uma questão anterior sobre
os objetivos do ensino de música em escolas não específicas. Muitos defendem que
para formar ouvintes críticos e conscientes não seria necessária a leitura musical, ou
seja, a leitura musical seria destinada apenas àqueles que querem aprender um
instrumento, em ensino individual ou em pequenos grupos.
Particularmente, acredito ser possível trabalhar os fundamentos básicos
da leitura e da escrita musical na escola fundamental. É claro que para ler e escrever
música necessitase de um certo aprendizado . Mas, como afirma Reverdy (1997,
p.45), isto " ... não é mais penoso do que aquele por que passam as crianças
quando estão aprendendo a ler em sua própria língua". Para tal, a metodologia a ser
utilizada deve
partir da experiência musical cotidiana dos alunos e o programa deve
orientarse em duas perguntas básicas: a) que música esses sinais gráficos
representam? e b) como decifráIos?
Sobre a metodologia
Ler música é antes de tudo ouvir música. Ler notas é extrair sons de
sinais estabelecidos por uma convenção. Isso exige a habilidade de relacionar um
som com a escrita, ou seja, a capacidade de criar uma imagem aural. 1 Nós só
podemos ler notas quando já conseguimos reter a imagem aural, a qual sempre
podemos evocar, implicando também o desenvolvimento da memória musical.
Ou seja, as informações musicais contidas na partitura devem fazer um
sentido para o ouvinteleitor. Essa idéia da leitura musical como uma prática
significativa está inseri da em uma descrição mais ampla da escrita como
comunicação do que aquela tipicamente aceita pela literatura, como a codificação e
decodificação da linguagem oral (ver Kittay, 1995, p.11).
Se ouvir música é pressuposto para ler música, a recíproca, porém, não é
verdadeira, pois ler música é ouvir música. Por isso, não tem sentido uma leitura
musical que seja abstraída de seu conteúdo sonoromusical. Q4em ensina a ler
notas musicais com giz e lápis, sem observar uma seqüência de procedimentos
metodológicos e sem a experiência sonora, ignora que só conhecer as notas não
leva a uma educação musical. As tarefas de identificação das notas ("Dê nome às
notas") não passariam de um mero exercício de localização espacial, o que seria
apenas um aspecto de toda a pedagogia da escrita musical. Conhecimento de notas
musicais não é nenhum fator que define a formação musical como cultura auditiva,
quer dizer, não é nenhum indicativo de uma aula de música significativa.
Ler e escrever 1 10 04 4
Torres (1996) resumem bem essa questão em uma de suas crônicas
intitulada: A aula de música, ou como aprender a odiar a música? A autora relata
com detalhes uma aula de música que por certo muitos conhecem ou já vivenciaram,
isto é, uma aula que:
Especificamente sobre a aprendizagem da notação musical tradicional, a
autora descreve uma metodologia corrente onde
...pode transcorrer sem que se ouça uma só nota ou que se chegue perto de um só
instrumento ao longo de todo o ano letivo, [que] pode desenvolverse em meio a um
perfeito silêncio, com a única interferência do professor ditando as biografias de
Beethoven, Mozart ou Bach, ou ainda a história da música, ou as definições de música,
nota, clavedesol, sinfonia, contraponto,tom, ritmo etc.,... (Torres, 1996, p.62)
Em minha opinião, esse acúmulo verbal de conhecimentos técnicos sobre
a música "desmusicaliza" a música como cultura, ou seja, a aula de música passa a
ser uma aula sem música.
Não seria difícil propor métodos mais atraentes de leitura e escrita uma
vez que já existem trabalhos nesse sentido. Tratase de concepções didáticas que
descentralizam o canto (como já perguntava Adorno nos anos 50: "quem é que disse
que na aula de música tem que se cantar?"). Desta forma, as tarefas da aula de
música passam a contemplar todas as dimensões do fazer musical quer sejam a
recepção (ouvir música), a reprodução (executar um instrumento ou cantar), a
criação (compor), a informação sobre música (sobre a cultura musical e a história) e
a integração com outras áreas do conhecimento, procurando um equilíbrio entre
elas. Ler e escrever música perpassaria transversalmente todas essas dimensões.
Ou seja, ler e escrever música, tradicionalmente mais ligado à reprodução ("Eu
tenho que ler música para tocar um instrumento"), estaria presente em todas as
dimensões do fazer musical ou formas de relacionarse com a música.
Na área de pesquisa existem inúmeros trabalhos sobre a construção
espontânea de notações de ritmos e melodias, tanto com crianças quanto com
adultos que não passaram por um processo de formação musical específica.
Notações espontâneas são consideradas aquelas que os alunos realizam sem ter
exemplos ou receber informações a respeito, podendo reproduzir ou não elementos
da notação tradicional. Os resultados desses trabalhos têm mostrado outras
possibilidades para iniciarse o aprendizado da leitura e da escrita musical. Por
exemplo, a utilização do gesto como signo visual inicial que contém a futura escrita
da criança, isto é, o reconhecimento e a utilização do gesto com um valor simbólico
como um marco precursor para a apreensão dos signos escritos.
Atualmente convivem na literatura diversos tipos de notação como
símbolo icônico; notação como registro da posição ou disposição corporal; notação
associada à significação musical. Os programas de educação musical nas escolas
deveriam levar em conta esse tipos de notação, permitindo ainda a produção de
outros. Reduzir a um só sistema seria unilateral e eurocêntrico. Deveriam incluir
ainda as possibilidades audiovisuais de escritas e gestosgráficos para a música
durante exercícios de audição.
No cursos de formação continuada, onde venho atuando e trabalhando
com professores não especializados em música, tenho defendido a idéia de que é
importante trabalhar os fundamentos básicos da leitura e escrita musical na escola
fundamental. A metodologia utilizada deve partir da experiência musical cotidiana
Ler e escrever 1 10 05 5
dos alunos e, através de pequenos exercícios, procurarem mostrar algumas das
possibilidades de registro espaçosonoro da música, destacando suas funções e
seus limites. Outros aspectos que devem ser salientados:
a) é preciso tempo para se trabalhar bem, e é preciso um bom material
didático, com uma boa seqüência de passos metodológicos. Apesar de a literatura
brasileira ser escassa nessa área, ainda é possível encontrar alguns bons exemplos:
Cardoso (1972), Trein (1985), Mársico (1987); Moura e colaboradores (1989) e
Zimmermann (1996);
b) entender que ler notas, como ouvir notas, depende da habilidade
específica da escrita. Nesse sentido devese dar atenção especial para o desenho
de linhas muito estreitas que dificultam a leitura;
c) lembrar que notas ou notação musical não são somente os símbolos
para altura'(melodia) e duração (ritmo), mas, também, uma infinidade de outros
ícones gráficos (stacatta, legata etc.) e outras escritas propostas para a
improvisação musical; e, finalmente;
d) considerar que ler e escrever música inclui a produção de notação,
uma vez que a música contemporânea é concebida como uma organização de
matérias, de timbres, de ritmos e de dinâmicas inseparáveis uns dos outros.
Concluindo, gostaria de insistir na questão de que saber música não é só
saber ler e escrever. A idéia de alfabetização musical desvinculada da prática tem
contribuído para que muitos alunos desistam de aprender música, tanto em escolas
específicas como em escolas do ensino fundamental, muito embora esses alunos
continuem com a capacidade para desfrutar da música em geral. Hoje em dia, as
crianças têm trazido para a sala de aula seus rádios, gravadores, walkman;
aparecem cantando, imitando os seus cantores preferidos, agitando o corpo e
deixando acompanharse pela música em todo momento e em todas as partes. Isso
vem comprovar que apesar das aulas de música nas escolas muitas crianças e
jovens continuam gostando dela.
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Nota
I. De acordo com as teorias cognitivas, o termo "aural" referese à escuta interna de sons ou
melodias, isto é, à criação de estruturas auditivas internas ou construção mental do discurso musical.
Ler e escrever 1 10 07 7
PRODUZINDO EXERCICIOS E AVALIAÇÃO
A seguir serão apresentadas sugestões de atividades que podem
subsidiar o trabalho pedagógico do professor em sala de aula, como estão
sugestionadas ou adaptadas de acordo com a proposta de enfoque de estudo da
linguagem numa perspectiva sóciointeracionista, respaldadas nos PCNEM (1998).
Ressaltamos que essas atividades não constituem modelos a serem seguidos, mas
têm a pretensão de se apresentarem como sugestões possíveis de trabalho.
Para tanto, essas sugestões têm como base o ensino de língua na
perspectiva dos gêneros textuais, permitindo o uso funcional da linguagem, o que
contribuirá para a competência discursiva do aluno. Assim, essas atividades aqui
propostas passam a enfatizaro trabalho com os gêneros textuais, tomando como
objeto de investigação o texto completo como ponto de partida para a compreensão
da organização do discurso, em virtude do trabalho com gêneros, em sala de aula,
contribuir para a apropriação do aluno "de dizer" a sua palavra, por meio dos
gêneros em circulação na sociedade. Tanto isso é verdade que para o lingüista
Marcuschi (2002), a comunicação verbal, seja esta escrita ou oral, só é viabilizada
por algum gênero textual, em virtude de este ser visto como "fenômeno histórico
profundamente vinculado à vida cultural e social" e que tem a função de "ordenar e
estabilizar as atividades do diaadia".
Partindo, então, dessas considerações, é que propomos atividades de
exploração dos diferentes gêneros, para o professor poder trabalhar a prática de
produção textual em sala de aula, na perspectiva de alcançar o desejado, ou seja,
uma aprendizagem significativa de gênero em gênero.
Atividade 1 (Sensibilizando o leitor)
ü Preparar a sala de aula em círculo (ouvindo música clássica, se assim
o desejar).
ü Conduzir para a sala de aula diversos suportes de gêneros (revistas,
jornais, livros; poesias, gravuras, panfletos, folhetos de músicas, folheto de cordel,
almanaques etc.), com a finalidade de trabalhar com o aluno e com o professor os
diferentes gêneros, nestes suportes aqui citados.
ü Espalhar no chão, no teto, nas colunas, (textos de revistas, material
atualizado ou não), com a intenção de explorar os diferentes gêneros.
ü Reservar 15 minutos para que o aluno e o professor circulem pela sala
na escolha de uma leitura do gênero textual da sua preferência, se assim o
desejarem.
ü Reservar outros 15 minutos para que o aluno e o professor leiam por
prazer, sem interferência de ninguém e sem nenhum exercício pré estabelecido.
ü Pedir que mudem de texto com colegas ou professor, caso terminem
uma leitura antes dos 15 minutos estipulados.
ü Permitir que levem para casa, emprestado ou presenteado, alguma
revista ou outro material que seja do interesse do leitor.
ü Ler o aluno e ler o professor... Todos os dias sempre no início da aula.
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É uma excelente sugestão para o professor trabalhar em sala de aula
com os gêneros textuais, mas para ter resultados satisfatórios deverá ser executada
durante todo o ano letivo nos 15 primeiros minutos de aula. O professor deverá levar
adiante essa atividade e acreditar que ler diariamente por prazer é imprescindível
para estimular a capacidade leitora do aluno. Por isso, este não deve assimilar essa
atividade como algo que atrapalhe o encaminhamento dos trabalhos diários. Isso é
processo, é solução.
Atividade 2 ( Interpretação)
Propor ao aluno (após a execução da atividade 1), isto é, após a leitura do
texto por ele escolhido, um questionamento do tipo: " o que o texto diz para mim e
o que eu digo para o texto ?"
É uma atividade sugerida para trabalhar com a compreensão da
linguagem, isto é, uma atividade de interpretação que remete a um verdadeiro jogo
entre aquilo que está implícito no texto (que é em parte percebido) e entre aquilo que
o leitor insere no texto por conta própria, com base no seu conhecimento de mundo
(a partir das inferências por ele feitas).
ATIVIDADE 3 (Ler para exercita." o prazer da leitura).
ü Preparar a sala com as cadeiras em filas.
ü Cada aluno deverá receber do professor, um texto pertencente a um
determinado gênero, por exemplo, uma crônica.
ü Em seguida, propor uma leitura rápida, em sala de aula, de vários
exemplares do gênero textual crônica ou de um outro que seja escolhido pelo
professor.
ü Depois, solicitar de cada aluno, a leitura relâmpago de fragmentos de
cada tipo de gênero que passar por ele, reservando um minuto ou menos para cada
aluno fazer a leitura desse texto.
ü A cada palma dada, o aluno passa o texto para o colega próximo e
assim por diante.
ü Por último, esse aluno deverá escolher um dos textos que mais o
agradou na "roda viva de leitura", leváIo para casa ou ler na própria escola, no
intervalo de aula.
ü Feita a leitura desse texto, o aluno o repassa para um colega da sua
sala ou da sala vizinha. Este, com o compromisso de repassar para um outro e,
assim sucessivamente. Quando o texto não mais interessar a nenhuma das partes
(professores e alunos), este irá integrar o acervo de material da biblioteca ou do
cantinho de leitura de outras salas.
É uma atividade sugerida para despertar no leitor, no caso, o aluno, um
objetivo de ler para suprir a sua curiosidade, no primeiro momento, dada a ausência
de objetivos por ele próprio definidos. Leva o aluno a fazer escolhas baseadas em
predições com o conteúdo do texto. Predições essas que são despertadas tanto pelo
assunto, como sobre o autor, o gênero, a época da produção e, por último, pelo
conhecimento prévio desse aluno, suscitando neste o interesse de voltar à leitura do
texto ou textos, na íntegra, com a finalidade de alcançar o seu objetivo definido na
condição de leitor e sem cobrança de nenhuma espécie.
Ler e escrever 1 10 09 9
Além de ser uma sugestão criativa, o professor tem oportunidade de
trabalhar em sala de aula com os gêneros textuais que conduzem o aluno a produzir
textos autênticos (de jornais, de revistas etc.) e, assim, incentivar esse aluno à
leitura e à produção de texto em um contexto apropriado para que os gêneros
possam ser produzidos por este, de maneira funcional e prazerosa. Convém lembrar
que a leitura e a produção com gêneros jornalísticos pressupõem um trabalho com
os veículos em questão.
ATIVIDADE 4 (Lendo para construir o significado)
ü Apresentar ao aluno um exemplar de um artigo de jornal.
ü Em seguida, lançar perguntas que tenham sido preparadas com
antecedência sobre o artigo apresentado em sala de aula, antes de sua leitura
(predição).
ü Depois da leitura feita pelo aluno, o professor deverá propor 3 questões
básicas para
ü suscitar a compreensão do aluno acerca do conteúdo do artigo: o que o
artigo de jornal diz (conteúdo); o que o artigo de jornal significa (interpretação de
informação); e, por último, o que o artigo de jornal significa para mim(essência do
que é lido).
ü Com essa estratégia de leitura, o professor poderá adotar diferentes
metodologias, tais como: estimular o aluno a produzir outros gêneros (elaboração de
uma crítica, de um relatório, de um debate em sala a partir das questões propostas
etc).
É uma sugestão criativa de trabalhar não só o conhecimento prévio do
aluno, como também de estimular a capacidade crítica deste, ampliando assim a sua
compreensão, a partir da leitura que foi realizada com metas pré estabelecidas.
Além disso, incentiva esse aluno a produzir diferentes gêneros de maneira funcional
e prazerosa.
ATIVIDADE 5 (Compreensão do texto através do contexto)
ü Apresentar ao aluno exemplares de diferentes gêneros com os seus
respectivos suportes que contenham dados e informações diversas do tipo: guias
(turísticos, urbanos, regionais etc.); enciclopédias, dicionários, catálogo (de telefone),
impressos oficiais etc.
ü Escolher um desses exemplares a ser trabalhado em sala de aula com
a finalidade de estimular no aluno a competência de lidar com a localização e o
manejo de dados, a exemplo do dicionário em que esse aluno poderá localizar as
palavras, as quais não lhe são familiares, com uso de critérios de ordenação
alfabética.
ü Ainda com o uso do dicionário, o professor poderá solicitar do aluno a
busca de outros significados para as palavras do texto e, por último, suscitarno
aluno o desejo de construir frases com outros significados das palavras que estão
sendo trabalhadas dentro do contexto solicitado por esse professor.
Essa atividade tem a finalidade de estimular a percepção do aluno tendo
em vista que este poderá perceber que as palavras possuem mais de um
Ler e escrever 1 11 10 0
significado, o qual poderá mudar de acordo com o contexto em que estas estiverem
inseridas. É uma atividade estimulante e desafiadora para o professor trabalhar com
o aluno o gênero léxico com o seu respectivo suporte (dicionário), conduzindo o
aluno a despertar para a importância dos significados das palavras, como um
processo em expansão, dado a necessidade de ajustáIas aos seus campos
semânticos, definidos pelo contexto em que estas estão sendo trabalhadas.
Atividade 6 (Compreensão do texto através do contexto)
ü Apresentar ao aluno os gêneros de teor literário, como: poesias,
contos, canções, lendas etc.
ü Fazer a predição do título sobre o que o texto literário irá falar.
ü Em seguida, solicitar de um aluno da turma uma leitura expressiva oral
do texto, dando ênfase às alternâncias.
ü Após a leitura, o professor distribui o texto para que os alunos façam
uma leitura silenciosa.
ü Solicitar, em seguida, que o aluno observe à forma do texto, os
espaços, a pontuação, a seqüência dos escritos etc.
ü O professor e o aluno devem discutir sobre as diferenças existentes
entre os escritos
ü poéticos e não poéticos, com as suas devidas observações.
ü Estimular esse aluno a se manifestar sobre experiências por ele
vivenciadas em situação semelhante à citada em alguns dos versos do poema. Com
isso, o professor estará estimulando o aluno a criar outros versos e formar um novo
poema, de acordo com a sua sensibilidade poética e estética.
Essa atividade tem o objetivo de estimular a reflexão critica do aluno,
devendo este atentar para o conhecimento da forma e da estrutura do gênero
literário, a exemplo do gênero poesia aqui sugerido (título, autor, presença de
espaços entre as estrofes, repetições de estrutura sintáticas, pontuação, campo
semântico etc.).
Material sugerido: poesia Até o fim (Chico Buarque) poesia Poema de
sete faces (Carlos Drumond de Andrade)
Até o Fim
Quando nasci veio um anjo safado
Um chato dum querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida
Ler e escrever 1 11 11 1
ATIVIDADE 7 (Trabalhando sentimentos e emoções através de textos literários)
ü Realização de um trabalho em grupo (com base na atividade anterior
6).
ü Solicitar do aluno a produção de uma coletânea de poemas preferidos
por cada grupo.
ü Propor pinturas de painéis e/ou a dramatização das poesias integrantes
da coletânea por ele produzidas.
ü Propor à criação de uma coreografia inerente as temáticas exploradas
no gênero poesia.
O mais importante nessa atividade é que todos os alunos participem com
as suas contribuições, estimulando nestes a capacidade criativa de cada, como
protagonistas e autores de uma ação de natureza poética. Isso leva o professor a
discutir com o aluno o processo de criação de gêneros poéticos: dificuldades,
facilidades e curiosidades.
Atividade 8 ( Escrever com precisão e clareza)
ü Conduzir para a sala de aula os gêneros / suporte de natureza
instrucional, como forma de explorar a seqüência discursiva básica desse gênero, a
prescrição: receitas, culinárias, regulamentos, códigos, normas de jogo, instrução de
manejo de materiais diversificados, como eletrodomésticos, tecnológicos etc.
ü Distribuir com o aluno textos com a finalidade de familiarizaIo com a
forma e a estrutura peculiar dos gêneros instrucionais.
ü Solicitar do aluno uma leitura silenciosa para que este verifique o que
na compreensão dele faltou para completar o texto de forma que as instruções
ficassem mais claras para execução de uma tarefa (como por exemplo, como
executar um programa via internet);instalar um ar condicionado, confeccionar uma
lanterna etc.
Essa atividade proporciona ao aluno a familiarização com os gêneros de
natureza instrucional, associando o a seqüência discursiva básica desse gênero, a
prescrição. Tal atividade conduzirá esse aluno à execução de tarefa com base na
sua compreensão leitora, que deve ter como parâmetro um texto coeso e coerente.
É uma excelente sugestão para o professor trabalhar com o aluno a gramática de
uso, como o léxico específico (palavras), verbos de ação, marcadores temporais
(primeiro, segundo, depois etc.), numeração de passos, gráficos, figuras (ilustração
do conteúdo) etc. Com a leitura e a produção desse gênero, o aluno é instigado a
pensar na aplicação dessas instruções de forma consciente como leitor e produtor
de texto, propiciando a esse um instrumento a mais na elaboração de resumos
precisos e claros.
ATIVIDADE 9 (Processo de síntese)
ü Trabalhar em sala de aula com exemplares do gênero resenha, de
autores conhecidos ou não, como forma de familiarizar o aluno com a estrutura
da resenha crítica.
ü Solicitar do aluno a leitura de um livro atual, a exemplo dos livros
sugeridos para o vestibular.
Ler e escrever 1 11 12 2
ü pedir deste aluno a produção de um exemplar do gênero resenha
crítica.
ü Conduzir o aluno a questionar e a refletir sobre os atos da leitura que
precede a
ü produção escrita, ou seja, com que finalidade esse aluno faz uso da
leitura: O que você lê? Para que você lê?
ü Incentivar o aluno a ler com um objetivo determinado.
Essa atividade contribui para o aluno produzir o gênero resenha critica. É uma
forma do professor trabalhar com esse aluno do ensino médio a especificidade do
discurso de divulgação científica, no caso específico da resenha crítica. Tal atividade
induz o professor a trabalhar, habitualmente, com o aluno à pluralidade dos
discursos que fazem parte da sua cultura, incentivando este a ler vários assuntos em
livros, revistas, jornais, nas áreas de seu interesse ou especialização.
ATIVIDADE 10 (Relação da linguagem com a ideologia política)
ü Apresentar ao aluno textos com características do discurso político,
utilizando exemplares dos gêneros jomalísticos, como notícias, artigos, charges,
editoriais, quadrinhos, entrevistas etc.
ü Buscar as características do discurso político utilizando diferentes
gêneros textuais.
ü Enfatizar para o aluno a importância das funções da linguagem, da
imagem do enunciador e a sua relação com ideologia e linguagem no discurso
político.
ü Trabalhar, finalmente, com marcadores argumentativos, como uma
forma de relacionar o gênero textual a sua seqüência discursiva básica.
Nessa atividade é importante o professor perceber que, ao estar
trabalhando em sala de aula com o discurso político, este estará contribuindo para
que o aluno faça uma relação da linguagem com a ideologia e analise alguns
mecanismos de argumentação que são imprescindíveis na elaboração de um
discurso coeso e consistente, a exemplo do discurso político, religioso etc. Dessa
maneira, o professor estará trabalhando com a função do locutor no discurso em
relação a questão da ideologia, marcando assim a sua posição social e histórica
compatível com o auditório que pretende envolver.
ATIVIDADE 11 (Interdiscursividade)
ü Trabalhar em sala de aula com exemplares do gênero poemas de
cordel com seus respectivos suportes (folhetos, folhas avulsas, romances etc).
ü Despertarno aluno o interesse pela literatura de cordel como uma
forma de valorizar os elementos da cultura popular, comumente relegados a um
segundo plano quando se trata de literatura.
ü Familiarizar o aluno com as características do gênero poemas de
cordel, articulandoas com os aspectos da interdiscursividade, ou seja, o seu
constante diálogo com outras literaturas.
Ler e escrever 1 11 13 3
ü Ressaltar não só as características desse gênero (marcas formais:
sextilhas, quadras, esquema rítmico etc), como também sua seqüência discursiva
básica, a narrativa.
ü Trabalhar, por exemplo, com os poemas: Pavão Misterioso de José
Camelo de MeIo Resende; A chegada de Lampião no Céu de Rodolfo Coelho
Cavalcante; Despedida de Cordel de Carlos Drumond de Andrade etc.
Como sugestão, essa atividade poderá ser trabalhada pelo professor,
junto ao aluno, dando ênfase aos aspectos da interdiscursividade, aos elementos da
narrativa, às marcas da oralidade, à variação lingüística (preconceito lingüístico,
étnico, sexual etc.). É uma excelente atividade a ser desenvolvida em sala de aula
em virtude de este gênero, poemas de cordel, constituirse em um gênero
intermediário entre a oralidade e a escrita. Além disso, o trabalho com poemas de
cordel proporciona ao professor fazer uma espécie de ponte entre uma cultura
popular e outra, ressaltando o contexto histórico social, ou seja, as condições de
produção ( a época, o autor, o lugar, a temática ).
ATIVIDADE 12 (Intertextualidade)
ü Apresentar, por exemplo, o gênero poema e, em seguida, solicitar do
aluno que faça a transformação desse gênero em outro, de caráter opinativo, a
exemplo do artigo.
ü Propor a paráfrase (a reprodução das idéias de um texto em outro
texto, isto é , por outras palavras, conservando o mesmo sentido, sem ser,
entretanto uma mera cópia).
Com essa atividade, o professor estará propondo o aluno a produzir textos
autênticos, fazendo uso das formas de intertextualidade, como a paráfrase. Com
isso, esse professor estará incentivando o aluno à capacidade de inter relacionar a
temática e as teses com outros textos que tratam do mesmo assunto, com
abordagens semelhantes ou divergentes da sua.
ATIVIDADES 13 /16 (projetos com textos jornalísticos e publicitários)
Projeto 1. Em Dia com O Mundo.
ü Levar para a sala de aula jornais de circulação local ou outros, se
assim o desejar.
ü Propor a produção de um jornal mural, para a escola, baseado nesses
jornais.
ü Utilizar em sala de aula os gêneros jornalísticos com seus respectivos
suportes: jornais e revistas.
ü Explorar os diferentes suportes de gêneros jornalísticos como forma de
conduzir o aluno a se familiarizar com as diferentes seções, nestes contidos.
ü Propor a divisão da turma em grupo para que cada um, dos grupos, se
dedique a trabalhar com as diferentes seções: editoriais, entrevistas, notícias,
publicidades e humor.
Ler e escrever 1 11 14 4
ü Propor, inicialmente, a um desses grupos, a produção do gênero
editorial, considerando a estrutura e a seqüência discursiva desse gênero (trama
argumentativa e a função informativa).
ü Propor, em seguida, a um outro grupo de alunos, a produção do gênero
entrevista, considerando a estrutura e a seqüência discursiva desse gênero
(trama narrativa, conversacional, argumentativa e a função informativa).
ü Sugerir, a um terceiro grupo de alunos, a produção do gênero notícia,
considerando a estrutura e a seqüência discursiva desse gênero (trama narrativa
e a função informativa).
ü Sugerir, a um quarto grupo de alunos, a produção do gênero
publicitário (anúncios), considerando a estrutura e a seqüência discursiva desse
gênero (trama narrativa, descritiva, argumentativa ou conversacional).
ü Sugerir, por último, a um quinto grupo de alunos, a produção do gênero
humorístico, a exemplo das histórias em quadrinhos, considerando a estrutura e
a seqüência discursiva desse gênero (trama argumentativa com base irônica).
Vemos que, com essas atividades, o professor terá oportunidade de trabalhar
com toda a sala de aula, uma vez que formou grupos para produzir diferentes
gêneros jornalísticos (editoriais, entrevistas, notícias, publicidade e humor), como
parte integrante das várias seções do jornal da sala de aula Em Dia com O Mundo
a fim de ser exibido fora da aula, junto à comunidade escolar.
Consideramos que as atividades, acima sugeri das, não têm novidades ou
surpresas, mas o certo é que praticamente não são desenvolvidas pelo professor
como deveriam ser, "processualmente" e é exatamente essa meta que nesse
trabalho buscamos, pois saber fazer não é suficiente, o que vale mesmo é de fato
querer e fazer. Nesse aspecto, julgamos necessário que essas atividades sejam
aplicáveis ao ritmo de cada turma, desde que convenientemente adaptadas as
condições abaixo, explicitadas.
LENDO, ACESSANDO, OUVINDO E ASSISTINDO
É sabido que, na era da Revolução Tecnológica e da Globalização, as
informações são rapidamente superadas em decorrência das novas tecnologias de
informação e comunicação. Por isso, mudanças se fazem necessárias na escola,
devendo esta evoluir para preparar indivíduos capazes de atuar nesse contexto,
onde a utilização das novas tecnologias informacionais vêm conquistando espaço
cada vez maior. A utilização dessas tecnologias apontam para novas idéias de
conhecimento, de ensino e de aprendizagem, sintonizada com a concepção de um
novo currículo, em que a escola, o professor e o aluno devem ser considerados
protagonistas das transformações estruturais da sociedade contemporânea.
É nesse contexto que o ensino da Língua Portuguesa desempenha um
papel fundamental, uma vez que esse ensino aponta para uma concepção de
linguagem que abrange as seguintes vertentes: sóciointeracional e situada, na
medida que a linguagem nessa concepção não pode ser vista como um fato isolado
do contexto social, haja vista que os interlocutores(escritores e leitores)assumem
papéis situados e contextualizados num mundo social, cujos valores contribuem para
Ler e escrever 1 11 15 5
construção dos seus significados, estes aqui considerados como imprescindíveis
para atuação do indivíduo numa sociedade de caráter tecnológico.
Por essa razão, a escola não poderá deixar de vivenciar as inovações
tecnológicas, separandoas de outras experiências da vida, como que pertencesse a
um mundo à parte.
Como indica Nidelcoff (1983), podemos afirmar que a aprendizagem da
linguagem, quando apresentada de forma articulada com a linguagem nãoverbal,
também estará contribuindo para desenvolver no aluno a capacidade de se informar:
saber ler, escutar e ver.
Seguindo nessa direção, o professor e o aluno deverão assimilar a
importância do uso da tecnologia, em especial da linguagem digital, como forma de
contribuição necessária à obtenção de novos conhecimentos e procedimentos
didáticos / metodológicos para o estudo da linguagem em funcionamento. Para isso,
a linguagem digital se faz como meio estratégico para proporcionar a aquisição do
conhecimento, utilizando como ferramenta a informática, ocorrendo, portanto, a
interação de novos conhecimentos conectados à internet, a fim de subsidiar o
processo de ensino e aprendizagem de estudo da linguagem, que viabiliza, assim, o
acesso a bons textos, bons autores, boas obras para uma leitura online, via um
manancial de informação que é disponibilizado no ciberespaço.
Para tanto, indicamos alguns sites disponíveis na internet, que poderão
contribuir de forma significativacom o trabalho do professor quanto ao acesso de
estudos científicos da linguagem, voltados para prática docente, como veículo de
apoio ao desenvolvimento didático/ metodológico de ensino da Língua Portuguesa.
Sites/emails Descrição
www.iltec.pt/ Instituto de Lingüística Teórica e
Computacional
www.instituto camões.pt/cvc/lingüística.html Centro virtual Camões – Lingüística
do Português
www.unb.abralin/ Associação Brasileira de Lingüística
www.netindex.pt/links/POLITICA/
ASSOCIAC/PROFISSIONAIS/Profe/index.html
Associação de Professores de
Língua Portuguesa
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Produção (ficha técnica das autoras)
Cristina Márcia Maia de Oliveira. Mestre em Lingüística. Professora de Língua
Portuguesa e Técnica da SEDUC/CE, Área de Linguagens e Códigos.
Liduina Maria Paula Medeiros. Especialista em Literatura LusoBrasileira, e
especialista em Literatura LusoBrasileira e em Descrição do Português. Professora
de Língua Portuguesa, Técnica da SEDUC/CE, Coordenadora da Área de
Linguagens e Códigos/ Ensino Médio.
Solange Mesquita Martins. Especialista em Língua Portuguesa, Professora de
Língua Portuguesa e Técnica de SEDUC/CE, Área de Linguagens e Códigos.
Leitura: Teoria e Prática
Ler e escrever 1 11 17 7
3.1 Definindo os objetivos da leitura Pesquisas realizadas comprovam que
os leitores que buscam um texto com objetivos bem definidos têm mais sucesso na
sua empreitada do que aqueles que lêem sem objetivos. Está provado também que
é o objetivo que controla a forma como o leitor realiza a operação. Sendo assim, os
alunos, ao ler um texto, precisam ter clareza do objetivo daquela leitura. Esse
objetivo pode ser delimitado pelo professor ou pelo aluno, pois "o propósito de
ensinar as crianças a ler com diferentes objetivos é que, com o tempo, elas
mesmas sejam capazes de se colocar objetivos de leitura que lhes interessam
e que sejam adequados" (SOLÉ, 1998, p. 101).
Além do mais, a escola, ao trabalhar os conteúdos de um modo geral,
precisa propor atividades com situações reais ou, pelo menos, que simulem a
realidade para que os alunos compreendam que a leitura se presta a muitos
propósitos e usos sociais.
Apresentaremos, a seguir, alguns objetivos de leitura, com base em Solé
(1998). A autora, ao explicitar esses objetivos separaos em leituras essenciais na
vida cotidiana e leituras tipicamente escolares.
Para a primeira categoria define como objetivos:
• Ler para obter uma informação precisa
• Ler para seguir instruções
• Ler para obter uma informação de caráter geral
• Ler para aprender
• Ler para revisar um escrito próprio
• Ler por prazer e
• Ler para comunicar um texto a um auditório.
Na segunda categoria, os objetivos são:
• Ler para praticar leitura em voz alta e
• Ler para verificar o que se compreendeu.
Ler para obter uma informação precisa: ao ler com esse objetivo, o
leitor busca localizar algum dado específico em um material escrito. Para atingiIa,
ele se utiliza da estratégia scanning, que consiste em passar os olhos pelo texto,
sem lêIa por completo, já sabendo previamente o que procura. Um problema
detectado nesse tipo de atividade é que o leitor, por não necessitar ler todo o
material escrito para atingir esse objetivo, na maioria das vezes, não capta o sentido
global de um texto. Uma proposta de atividade que exige esse objetivo é solicitar a
identificação do número de um telefone em uma lista telefônica ou encontrar o
horário, o local, o preço e a sinopse de um filme em um jornal.
Ler para seguir instruções: para trabalhar a leitura a fim de atingir esse
objetivo, usamos os textos instrucionais em que o leitor prova que compreendeu o
texto se praticar todas as instruções corretamente. Nessa leitura funcional, o leitor
controla sua compreensão. Como exemplo desses textos, podemos citar as receitas
culinárias, as instruções de um jogo, manual de instrução de um aparelho etc. Para
praticar atividade de leitura com esse objetivo, o professor poderá levar para sala um
jogo com as instruções para que os alunos possam seguir essas instruções. O grupo
Ler e escrever 1 11 18 8
ou aluno vencedor será aquele que primeiro concluir todas as tarefas, cumprindo
todas as tarefas corretamente.
Ler para obter uma informação de caráter geral: para atingir esse
objetivo, é necessário dar uma olhada geral no texto a fim de identificar as idéias
gerais que ele fornece. Assim, o leitor fica sabendo de que trata o texto, se vale a
pena continuar lendoo e se contém o que ele procura. Leitores de jornal e de
páginas da Internet geralmente lêem com esse objetivo, pois, antes de decidir ler
com profundidade um texto nesses dois suportes de leitura, eles "passeiam" por
vários textos.
Ler para aprender: esse objetivo serve para "ampliar os conhecimentos
de que dispomos a partir da leitura de um texto determinado" (SOLÉ, 1998, p. 95).
Ao ler para aprender, o leitor interrogase sobre o que leu, estabelece relações com
o seu conhecimento prévio, sublinha, anota, lê e relê, elabora esquemas e resumos,
anota dúvidas etc. A leitura com essa finalidade tornase mais produtiva quando o
professor fornece as orientaçõesprévias e discute sobre o texto, preferencialmente,
ativando o conhecimento prévio do aluno, informandolhe o que deve aprender.
Ler para revisar um escrito próprio: a leitura com esse propósito é
muito comum nos profissionais que trabalham com as palavras, como escritores,
jornalistas etc. A escola, infelizmente, mantém pouca essa prática, apesar de ter a
obrigação de desenvolver a produção escrita dos alunos. Essa tarefa é muito
complicada, visto que o aluno escritor devese colocar no papel de leitor e distanciar
se o máximo possível de seu texto. Porém, trabalhar textos com esse objetivo é
muito importante para o desenvolvimento da leitura, da escrita e do comportamento
autocrítico do aluno escritor.
Ler por prazer: para Solé (1998, p. 97), o prazer da leitura é uma questão
pessoal, pois cada leitor possui gosto diferente e elabora seus critérios para a
escolha do que vai ler. Assim, para desenvolver o prazer de ler, a escola deverá
deixar o aluno livre tanto na escolha de sua leitura, quanto para saltear capítulos etc.
A leitura com esse objetivo pode auxiliar na leitura de outros propósitos, pois,
através dela o aluno poderá transformarse em um leitor proficiente. Por isso, a
escola precisa criar projetos de leitura que tenham essa finalidade. Geralmente, esse
objetivo está associado à literatura, mas algumas vezes, o que acontece nas aulas
de literatura do Ensino Médio é o estudo de características, principais autores e
obras dos movimentos literários. Não estamos, com essa afirmação, posicionando
nos contra esse estudo. Porém, é necessário compreendermos que a literatura é
escrita com o objetivo de fornecer prazer e, antes de os alunos se depararem com
esse estudo, é preciso que eles gostem de ler. A escola, para estimular essa leitura,
deve propiciar momentos de socialização dos textos lidos. Nesses momentos, os
textos devem ser indicados aos colegas que podem fazer troca de contos, crônicas,
romances etc.
Ler para comunicar um texto a um auditório: a leitura com esse
objetivo é própria de algumas atividades, como ler um sermão, um discurso, uma
conferência, um poema etc. A escola, apesar de solicitar aos alunos que realizem
leitura em voz alta, não faz com que eles pensem que essa atividade pode ser a
simulação de uma situação real. Para que isso aconteça; os alunos devem realizáIa
Ler e escrever 1 11 19 9
para um fim específico. Desse modo, os professores poderão realizar a eleição do
líder de sala e pedir que cada aluno, sendo candidato elabore suas propostas de
ação e o discurso de posse, caso seja eleito. As propostas e os discursos devem ser
lidos para os colegas. Ressaltamos alguns cuidados que devem ser mantidos antes
da realização da leitura a um público: o aluno precisa ter lido e compreendido o texto
previamente e devemse respeitar alguns aspectos, tais como entoação, pontuação,
clareza na dicção ete.
Ler para praticar leitura em voz alta: na escola, muitas atividades são
praticadas com esse propósito, porém, a maioria delas não simula situações reais e
os leitores consideram que esse exercício é apenas uma forma de o professor
avaliar o aluno. Nesses casos, algumas vezes, não se considera a compreensão e o
aluno tem a impressão de que ler é apenas expressar em voz alta algo que está
escrito. Por isso, essa atividade somente deve ser praticada após a compreensão do
texto. Para Solé (1998, p. 98), quando se pratica essa atividade na escola,
pretendese que os alunos leiam com clareza, rapidez, fluência e correção, pronunciando
adequadamente, respeitando as normas de pontuação e com a entoação requeri da. De
fato, todas essas exigências fazem com que, inclusive para o aluno, o primordial da
leitura seja respeitáIas, e nestes casos a compreensão se situa em um nível secundário.
Ler para verificar o que se compreendeu: as atividades de leitura na
escola que exigem esse objetivo são geralmente exercidas com questionários de
perguntas e respostas para se verificar se os alunos aprenderam ou não
determinado conteúdo. Porém, algumas pesquisas (Raphael, 1982; Raphael,
Winograd e Pearson, 1980, Apud Solé, 1998) constataram que é possível responder
a algumas perguntas sem ter compreendido o sentido global de um texto. Importante
ressaltar que quando a escola usa somente essa estratégia para verificar a
compreensão leitora, os alunos passam a achar que a leitura se presta somente a
esse tipo de atividade.
3.2 Despertando para o gosto pela leitura
Infelizmente, a maioria de nossos alunos não se entusiasma com a leitura
de romances, contos, poemas e outros textos literários ou não e os livros não são
objetos pelos quais esses alunos têm apreço. Não podemos esquecer que com
tantos concorrentes, como a TV, os videogames e tantas outras atrações apelativas
do mundo moderno, é necessário compreendermos que as aulas de leitura precisam
ser lúdicas para que nossos alunos, ao experimentar esse ato, sintam prazer em
fazêIa. E a escola, que tem como função principal despertar o gosto pela leitura,
não pode afastar os alunos desse ato tão importante e prazeroso.
São muitos os motivos que fazem com que o Brasil não seja um país de
leitores. Entre esses podemos citar a falta de estímulo para a leitura na escola, o alto
preço do livro e falta de programas públicos que estimulem essa prática. E a escola,
principal espaço de democratização da leitura, precisa fazer algo para transformar
essa realidade. Tal atividade, que poderia divertiIas tanto, não pode ser
transformada em algo mecânico e obrigatório com textos fragmentados sobre os
quais se fazem meia dúzia de perguntas de interpretação e gramática, parecendo,
assim, um trabalho improvisado.
Ler e escrever 1 12 20 0
Como a escola, na maioria das vezes, é o único local onde o aluno da
escola pública vê livros e pessoas utilizandoos para a leitura, cabe ao professor a
tarefa de despertar as crianças e jovens para essa atividade de uma forma lúdica, na
qual o livro deve ser, antes de mais nada, fonte de prazer. Seria ideal se em casa
essa atividade fosse estimulada e até mesmo antes de freqüentar a escola a criança
tivesse contato com a leitura, sendo os livros parte de seus brinquedos, pois, como
afirma Alliend (1987),
(...) as crianças com maior disposição para a leitura são aquelas que provêm de lares em
que os pais lhes lêem histórias, (...) que vêem os adultos lendo em variadas situações,
que percorrem livrarias, folheando livros e revistas, que comentam as notícias de jornais,
(...) que têm em casa um lugar adequado e tranqüilo com livros para ler. (p. 37)
Porém, como a maioria dos alunos da escola pública não tem na família
um estímulo para criar o hábito de leitura, a escola precisa começar a trabalhar essa
atividade de forma lúdica para incentivar esse gosto e perceber que esse ato não
vem apenas do berço. Apesar de a influência da família ser importante para a
formação do leitor, não é ela que define esse estímulo e por isso queremos propor
métodos e apresentar sugestões para a criação de atividades de leitura.
Não se tem, com isso, a intenção de criar um programa fixo, pois cada
escola tem uma realidade diferente e cada sala de aula também tem interesses
diferentes. Apresentaremos somente algumas sugestões que devem ser
consideradas na seleção de textos para qualquer atividade de leitura.
Quando os alunos não têm o hábito da leitura, os textos indicados devem
estar em harmonia com a sua realidade para que eles possam se identificar com
esses textos, pois, quando o leitor se encontra no que lê, a leitura tornase fácil,familiar e divertida. Sendo assim, se os professores estiverem informados das
atividades esportivas e de lazer de seus alunos e procurarem textos e livros com
ações semelhantes, estarão estimulando o gosto pela leitura.
Porém, a leitura não deve ficar somente na realidade do aluno, ela
também deve trazer novos horizontes para que o aluno perceba que se pode viajar
através dela, conhecer o mundo e criar vida nova. E para que isso aconteça, quando
o leitor estiver um pouco mais experiente, deverá entrar em contato com vários tipos
de texto. Além disso, a leitura não deve acabar no ato de ler: os textos e livros
devem ser comentados para que se perceba que sempre se aprende algo novo,
para compreender que o indivíduo cresce interiormente e isso o torna mais valioso.
Um outro aspecto que se deve considerar para a seleção de textos é o
nível intelectual do aluno. Os livros e textos não devem estar além ou aquém desse
nível. Quando a linguagem é muito difícil, a leitura tornase incompreensível e
enfadonha; quando é muito simples faz com que os alunos não pensem e achem
que a leitura não está enriquecendoos intelectualmente.
Há ainda o nível socioeconômico do aluno para o qual o professor deverá
estar atento. Se em casa não há um local adequado para que as atividades de
leitura se desenvolvam, é necessário que a escola crie um espaço para essa
atividade e que a biblioteca esteja sempre aberta aos que não dispõem de livros em
Ler e escrever 1 12 21 1
casa. O momento da leitura no cotidiano da sala de aula poderá germinar uma
semente que fará brotar em outros ambientes.
Para o bom desenvolvimento da leitura, o professor deve ainda procurar
não inibir o interesse do aluno, evitando:
• Ênfase excessiva nos exercícios de habilidades dos alunos e treino de
aspectos isolados como letras e palavras ou frases para não deixar transparecer,
com isso, que a leitura não é um ato de comunicação. Exemplificando, os textos não
devem ser utilizados somente para estudos de análise sintática.
• Os métodos tradicionais como leitura continuada e correção no decorrer
da leitura para não tornar essa atividade mecânica, fazendo com que o aluno não
compreenda o texto como um todo.
• Livro único para todo o ano com repetição de textos que tornam as aulas
monótonas e os alunos ache que não estão tendo oportunidade de buscar coisas
novas. Os professores poderão, inclusive, trabalhar em uma mesma aula com textos
diversificados, a fim de atender ao interesse de todos.
• Exercer influência na leitura de lazer e fazer com que o aluno não tenha
oportunidade de mostrar que se aprende algo novo com essa leitura.
• Usar método uniforme de leitura para crianças atrasadas e adiantadas.
A maior preocupação da escola quanto ao estímulo à leitura deverá ser
nos primeiros anos de escolarização, o que vem concorrer para despertar esse
prazer logo cedo. Porém, se isso não acontecer haverá sempre chance de se
estimular o gosto pela leitura. Pode ser que esse esteja inibido, precisando apenas
de um estímulo. E, para isso, professores e pais devem tentar descobrir os impulsos
e interesses dominantes do leitor, observando alguns aspectos citados, porém sem
esquecer que a liberdade de escolha do leitor é um dos fatores mais importante para
o estímulo.
Apesar dos caminhos aqui apresentados, não existem fórmulas nem
receitas prontas para despertar o gosto pela leitura e nem mesmo a consciência da
importância da leitura levará o aluno a despertar esse gosto. Serão os interesses e
as motivações que o levarão a essa prática.
O aluno poderá descobrir que a leitura promove muitos momentos
agradáveis. Praticandoa como ato individual, o aluno descobrirá o prazer de ler. Na
obra A escolarização do leitor: a didática da destruição da leitura, Silva (1986)
apresenta a leitura como um processo de liberdade:
Ao ler, o aluno poderia relaxar... músculos ... postura ... raciocínio. Poderia abandonar a
lógica e a linearidade impostas pela escola ao modo de pensar e conhecer.( ...) Poderia
deixar de ouvir o mestre, que tudo pode e tudo sabe, para ouvir a si mesmo e aí acreditar
que também sabe e que também pode ... errar... parar de ler... discordar ... não gostar...
misturar... imaginar e sonhar.
Ao ler poderia ficar só. E ficando só, sair do anonimato, da situação de massa a que fica
submetido na escola, para recuperar o pessoal e nele o coletivo.
Abandonar a condição de aluno ... aprendiz ... ouvinte ... criança ...conceito ...
comportamento ... para existir como pessoa e leitor. Sair do compromisso, da obrigação,
da "atividade", escapando assim ao controle, à avaliação e à autoridade.
Ler e escrever 1 12 22 2
Ler se quiser. Quando quiser. Onde quiser. O que quiser. Ler e desler. Ler e reler. Ler
tudo e ler pela metade. Sem começar e sem terminar. Viver profundamente a ação de
querer, experiência de prazer e de liberdade (Silva, 1986, p. 61).
Essa liberdade e esse fascínio de que nos fala a autora são essenciais no
ato de ler e o professor deverá encontrar meios para que os alunos cheguem a esse
estágio para, a partir do interesse pela leitura, descobrir a importância dela para sua
vida, e conseqüentemente, chegar à conclusão de que, terá muito mais facilidade
para se expressar oralmente e também para escrever quem tem prazer em ler.
3.3 Desenvolvendo a leitura para a escolarização do aluno
Na sociedade atual, a palavra escrita ocupa um espaço muito importante,
pois ela deixa registrada a história da humanidade. E a escola, o espaço mais
importante de democratização da leitura e da escrita, precisa trabalhar de modo que
os alunos aprendam a compreender e produzir textos nas diversas situações em que
isso lhes for exigidos. Não só nas aulas de Língua Portuguesa, mas em todas as
disciplinas, essas atividades são essenciais, sendo, portanto, imprescindível que
haja por parte de alunos e professores uma conscientização da importância da
leitura.
Assim, pretendese mostrar a importância da leitura em alguns aspectos:
tentaremos mostrar alguns problemas relacionados ao ensino da leitura na escola;
em seguida, apresentaremos a percepção de que é necessário que se comece a
trabalhar uma leitura crítica para compreender a realidade, não aceitando tudo o
que está escrito como algo correto e não suscetível a críticas. Em alguns momentos,
faremos ainda considerações a respeito da interdependência da leitura e da
escrita, tentando mostrar que a atividade de leitura pode favorecer aos alunos uma
maior facilidade nas produções escritas, pois sabese que escreve com mais
facilidade quem tem o hábito da leitura.
A leitura está presente em todo o processo de escolarização do aluno,
desde a alfabetização até a universidade. Ela é, sem dúvida, responsável pelo
fracasso ou sucesso desses, pois é através dela que se adquirem os conhecimentos
nas diversas áreas. Porém, essa atividade não é função exclusiva da escola. Outras
instituições como família, bibliotecas e instituições governamentais também são
responsáveis pelo seu desenvolvimento.
A leitura é considerada um fator de inquietação e um instrumento que
liberta da alienação e o Brasil, por ser um país com grande percentual de
analfabetos, necessita de ações educacionais que possam reverter o quadro
desolador deste país. Assim, os alunos que não lêem sofrem as conseqüências
desastrosas da falta desse hábito no processo de ensino e aprendizagem. O
professor é uma figura fundamental no papel de desenvolver, com relação à leitura,
ações didáticopedagógicas que superem essa carência no seu espaço de liberdade
à sala de aula.O ensino de leitura, algumas vezes, é uma atividade praticada ao acaso e
ministrado de modo fragmentado, parecendo não ocupar lugar no ensino da Língua
Ler e escrever 1 12 23 3
Portuguesa. Desse modo, alguns professores tentam fazer com que alunos nessas
aulas estudem a língua como forma de purificar sua fala, pois a escola considera
defeituosa essa língua que eles trazem de seu ambiente social. As aulas são, assim,
em sua grande maioria, estudos de gramática em que se impõe a norma culta
padrão. Isso faz com que os alunos pensem que o ensino do Português tem função
somente escolar, achando, assim, que o que aprendeu na escola não serve para
sua vida prática.
A leitura não deve ser praticada somente nas aulas de Línguas
Portuguesa. Ela é a base de toda a escolarização do aluno e os professores das
outras disciplinas também precisam ter consciência de sua importância e
empreender atividades para desenvolvêlas.
Um outro aspecto a ser considerado no fracasso da leitura é a ausência
de uma tradição nas escolas de utilizar as bibliotecas e as salas de leitura. Apesar
de o Ministério da Educação e Cultura e de o Governo do Estado estar ultimamente
se preocupando com a distribuição de livros, em algumas escolas não há estrutura
física e recursos humanos para que se efetive esse programa. Também não há, por
parte de alguns professores e Núcleo Gestor das escolas, uma consciência da
importância de estimular os alunos a usar as bibliotecas. Por esse motivo, algumas
bibliotecas escolares se encontram sem leitores ou são usadas para abrigar aqueles
alunos que praticarem algum ato indevido, tornando, assim, uma sala dos
“castigados”.
Sabese também que a maioria dos professores não tem o habito de ler,
por razoes diversas, como falta de tempo, preço elevado dos livros incompatível com
seu baixo salário, que acabam também por contribuir com a distancia de professores
deste ato tão importante. Porém, apesar de tudo isso, o professor precisa ter
consciência da importância da leitura e tentar superar essas barreiras para a
transformação da situação da leitura na escola, pois como afirma Silva (op. cit.).
O processo de formação do leitor na escola está articulado a um cotidiano onde o que
existe é um intrincado conjunto de mecanismos que acaba por neutralizar a prática da
leitura como geradora de uma experiência de reflexão, domínio de linguagem e
organização do real, construindo o “fazdeconta” do ensinar e do aprender a ler, (silva,
1986, p.67).
O fracasso que a escola vem sofrendo é também o fracasso da leitura
porque seu ensino limitouse somente ao processo de decodificação e sua
compreensão ficou sendo entenda como memorização. E, com esse fracasso, veio
também a falta de estimulação para a produção escrita que se tornou uma atividade
pratica à – somente para ser avaliada pelo professor. A escola precisa criar
programas de estimulação para criar o hábito de leitura alunos e, com isso, facilitar o
desenvolvimento da produção escrita.
Vejamos como o seguinte texto, escrito por um sumário, povo que viveu
há mais de cinco milênios de anos, retrata a importância da palavra escrita para a
sobrevivência. Através da leitura desse texto podemos conversar com nossos alunos
sobre essa importância naquele tempo e nos dias de hoje.
Ler e escrever 1 12 24 4
Mensagem Secreta
Traço estes ideogramas sobre um tablete de argila, como sempre faço
por ordem do príncipe. Só que desta vez não se trata de uma encomenda do
príncipe. Escrevo por mim, não por ele. Gudea não verá esta mensagem. Sofreria
muito. É uma mensagem secreta, não enfeitará as estátuas, nem será conservado
no tempo. Eu a guardarei e a levarei comigo para o túmulo. Este é o lado obscuro da
minha sabedoria e não quero que seja conhecido nem por meus soberanos, nem por
meus contemporâneos.
Gudea e eu somos amigos desde crianças. Na infância éramos iguais.
Mesmo sabendo que ele era filho de reis e que eu era filho de súditos, na infância
não há diferenças. O barro nos sujava, tanto a ele como a mim, a chuva molhava os
dois, os dois éramos aquecidos pelo Sol. As brigas foram de irmãos, as
reconciliações foram de irmãos.
Agora já não é assim. Ele é o príncipe e, embora eu seja seu escriba
favorito, a igualdade já não existe.
Devo escrever suas realizações e suas glórias, que são grandes. Façoo,
mas sei que tudo é terreno é fugaz e sei que tudo terminará um dia.
Gudea é generoso e criador. Conseguiu que o depósito de especiarias de
Lagash seja como o Tigre quando suas águas estarão crescidas. Na Casa do
Tesouro há pedras preciosas, metais nobres e chumbo.
A cidade de Lagash é feliz e poderosa e ama seu príncipe. Eu também o
amo, como súdito e como amigo, mas sei que as glórias dos reis se acabam. Tudo
que é terreno fugaz e tudo terminará um dia. As esculturas perderão suas cabeças e
os corpos dos reis apodrecerão. Os estandartes guerreiros, os elmos de ouro, as
armas, os instrumentos musicais serão corroídos pela umidade e pelo tempo. Os
escravos e os soberanos morrerão.
Mas se eu disser ao príncipe que ele também é mortal, ele me sacrificará,
embora tenhamos sido iguais na infância. E Gudea é mortal. Esforçase em
conseguir a benevolência divina e ignora que essa benevolência consiste justamente
em darlhe o dom de morrer um dia. Gudea perecerá, assim como Lagash perecerá
nas mãos dos invasores. Os poderosos temem a morte, mas a morte não teme os
poderosos.
Tudo terminará um dia e até a lembrança e memória terminariam se eu
não tivesse o poder de traçar estes ideogramas em uma mensagem secreta. A
perenidade das coisas que no futuro serão somente ruínas está na escrita. A
majestade dos templos ficará só na palavra, o brilho do ouro ficará só na palavra, o
sangue correrá só na palavra, o príncipe ressuscitará só na palavra. O homem volta
quando seu nome fica gravado para sempre, mesmo que seu corpo seja somente
cinzas.
(In: VISCONTI, Maria Cristina & JUNQUElRA, Zilda A. Escrita das paredes ao computador. São
Paulo: Ática, 1994
Ler e escrever 1 12 25 5
3.4 Lendo para compreender a realidade
A leitura é uma atividade que abrange duas etapas: a decodificação de
sinais gráficos e a compreensão da mensagem. Esta última, para que se processe
com maior eficácia ainda depende de alguns prérequisitos do leitor como:
conhecimento prévio do assunto, o universo cultural, a rapidez na leitura etc.
Assim, o leitor, através da leitura de vários gêneros textuais, desenvolve o
seu senso crítico, formando opiniões próprias, encontrando novos valores.
Erroneamente, a leitura é, algumas vezes, encarada somente como uma
atividade mecânica de decodificação, que consiste em aceitar todas as idéias de um
determinado autor esquecendose de que quem escreve está susceptível a erros.
Saber ler não é apenas saber decodificar os signos.
É saber compreender o texto, podendo concordar ou discordar, dando
opiniões a respeito do assunto e crescendo interiormente com a leitura.
Professores e alunos precisam ter consciência da importância da leitura
para a libertação da alienação, pois como afirma Alliend (1987, p. 17) “as pessoas
que não lêem tendem a ser rígidas em suas idéias e ações e conduzir suas vidas e
trabalho pelo que se lhes transmitem diretamente”.
Sendo assim, é preciso entender que o processo de compreensão da
leitura é, antes de mais nada, compreender o mundo e compreenderse neste
mundo. Para isso, os alunos precisam ter liberdade de expressão, a fim de se sentir
inserido neste mundo. EscutáIos é dar chance de revelar seu ponto de vista, não só
em relação a um estudo de texto ou livro, mas tambémem relação ao mundo que os
cerca.
Uma boa sugestão seria substituir as fichas de leitura dos livros
paradidáticos por discussões orais que concorrem para a troca de idéias entre os
colegas e mostram que o texto literário é plurissignificativo (tendo o professor o
cuidado para não aceitar uma interpretação que não condiz de maneira nenhuma
com a idéia do texto). Essas discussões servem ainda para expandir a comunicação
oral e a fluência das idéias dos alunos e, assim, contribuem para melhorar a
expressão escrita.
Através da leitura, podese ainda transpor as paredes da escola e
descobrir o mundo lá fora, reconhecendo, assim, que não se está só no mundo, pois
conforme nos alerta Freire (1998):
(...) cada um de nós é um ser no mundo, com o mundo e com os outros. Viver ou
encarar esta constatação evidente, enquanto educador ou educadora, significa
reconhecer nos outros o direito de dizer a sua palavra. (...) Dizerlhes sempre a nossa
palavra sem jamais nos expormos e nos oferecermos a deles, arrogantemente
convencidos de que estamos aqui para salváIos, é uma boa maneira que temos de
afirmar o nosso elitismo, sempre autoritário (Freire, 1998, p. 26).
O domínio da leitura é uma ameaça à dominação e, em face dessa
constatação, a leitura como objeto de escolarização deve ser meta do educador,
Ler e escrever 1 12 26 6
tendo esse a compreensão de que ler é proposta de lazer e prazer, de
enriquecimento cultural e ampliação de horizontes. Diante disso, o tratamento dado
à leitura na escola deve estar voltado para essa proposta.
Portanto, tendo uma visão crítica do objeto escrito, podemos
compreender melhor o mundo que nos cerca e analisar esse mundo de modo mais
crítico, não aceitando tudo o que nos for apresentado. O processo de leitura,
considerado em sentido amplo, ultrapassa o objeto escrito, permitindo que se faça
leitura não só dos textos, mas que essa leitura possase expandir à compreensão
das imagens, das ações das pessoas que nos cercam e de nossas próprias ações.
Compreendendo a leitura desse modo, os alunos desenvolverão a
habilidade de produzir textos críticos e de organizar melhor suas idéias. Vejamos
como Bertold Brecht, no seguinte poema, traduz a importância do aprendizado para
que as pessoas possam, através da leitura, libertarse da alienação e assumir o
comando de suas vidas:
Elogio ao aprendizado
Bertold Brecht8
Aprende o que é mais simples! para aqueles
cujo momento chegou,
nunca é tarde demais.
Aprende o ABC: não basta, mas
Aprendeo! Não desanimes!
Tens de assumir o comando!
Aprende, homem no refúgio!
Aprende, homem na prisão!
Mulher na cozinha, aprende!
Aprende sexagenário!
Tens de assumir o comando!
Procura a escola, tu que não tens casa!
Cobrete de saber, tu que tens frio!
Tu, que tens fome, agarra o livro; é uma arma!
Tens de assumir o comando!
Não tenhas medo de fazer perguntas:
não te deixes levar por convencido,
vê com teus próprios olhos!
O que não sabes por experiência própria,
a bem dizer, não sabes.
Tira a prova da conta:
és tu quem vai pagar!
Aponta o dedo sobre cada item,
pergunta: como foi parar aí?
Tens de assumir o comando!
3.5 Lendo nas diversas disciplinas
Um outro aspecto a ser considerado é a importância da compreensão
leitora para a aprendizagem das diversas disciplinas estudadas na escola.
Consideraremos aqui a relação da leitura para a aprendizagem da Matemática como
exemplo de que, se o aluno não compreende o que lê, poderá fracassar em
Ler e escrever 1 12 27 7
qualquer disciplina. Desse modo, a responsabilidade do ensino e aprendizagem da
leitura não recai somente no professor de Língua Portuguesa, porque cada área tem
textos com características diferentes.
As disciplinas Língua Portuguesa e Matemática, aparentemente
desconexas, têm entre si muitos aspectos comuns e problemas parecidos. A
ausência de uma habilidade na disciplina Matemática poderá desencadear a falta de
compreensão de um texto ou de uma questão de Língua Portuguesa e viceversa.
Exemplo disso é a quantidade de questões não respondidas ou respondidas
erroneamente em uma situaçãoproblema numa avaliação de matemática causada
pela não compreensão do enunciado do item.
Por se entender que as habilidades requeridas na Língua Portuguesa e
na Matemática são fundamentais à aprendizagem para diversas outras disciplinas do
currículo da educação básica, é que essas duas disciplinas são avaliadas no
Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), Avaliação Nacional da Educação
Básica (ANEB) e no Sistema Permanente de Avaliação do Estado do Ceará
(SPAECE). Sendo assim, os alunos que demonstram um bom desempenho nessas
disciplinas, provavelmente, terão mais facilidade de compreensão nas demais.
1
A compreensão leitora e o desenvolvimento do raciocínio lógico
matemático são as habilidades mais básicas e necessárias na vida, cada uma delas
sendo requeridas em diversas disciplinas. São, também, atividades interdisciplinares
que devem ser preocupação de todos os profissionais que fazem a educação. Nessa
perspectiva, a escola necessita rever a crença de que ensinar a ler é tarefa
exclusivamente do professor de Português e que desenvolver o raciocínio lógico
matemático deve ser trabalhado somente pelo professor de Matemática.
Observe o exemplo seguinte. Os itens (a) e (b) relativos à compreensão
textual não requer somente habilidades de compreensão leitora. É necessário
também que os leitores possuam habilidades matemáticas.
Leia o texto abaixo e responda às perguntas
Johan Albert”
Com esta obra estamos comemorando o centenário do nascimento de Johan Albert
que morreu aos 76 anos após uma extensa contribuição ao conhecimento humano.
Os capítulos foram divididos em duas partes: a primeira versando sobre uma biografia
e a segunda sobre as várias contribuições à ciência. Os autores da primeira parte são todos
pessoas que conviveram com Albert no período em que viveu nos Estados Unidos.
(Maio de 1979. Os autores)
Segundo o texto acima:
8 8 In Poemas e Canções, tradução de Geir Campos, Ed. Civilização Brasileira SI Ao Rio de Janeiro,
1966, p.50.
Ler e escrever 1 12 28 8
a) Em que ano Johan Albert nasceu? __________________
b) Em que ano ele morreu? _________________
Portanto, a responsabilidade do ensino da leitura não é exclusivamente do professor
de Português, pois "a tarefa de ensinar a ler e a escrever um texto de
matemática é do professor de matemática e não do professor de português"
(Guedes & Souza, 1999, si d).
Observe a seguinte questão do ENEM 10 em que habilidades referentes à Língua
Portuguesa e à Matemática são necessárias para que o aluno consiga compreender
o que se pede:
(Enem). Em reportagem sobre crescimento da população brasileira, uma revista de divulgação
científica publicou tabela com a participação relativa de grupos etários na população brasileira, no
período de 1970 a 2050 (projeção), em três faixas de idade: abaixo de 15 anos; entre 15 e 65 anos; e
acima de 65 anos.
2
Observase que para a compreensão dessa questão é necessário que o
aluno tenha conhecimentos sobre o tempo cronológico, sobre percentagem, sobre
crescimento populacional, etc. É ainda indispensável para sua adequada
compreensão que o aluno interprete o enunciado da questão, a fim de que consiga
marcar a opção correta.
2 29 9 Exemplo retirado do material utilizado para acompanhamento de alunos do Projeto Leituralizar, sob
a coordenação da Profª Drª.em Lingüística Rosemeire Selma Monteiro.
10 Exemplo retirado de ERNANI, Terra & NICOLA, José de. Português de olho