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Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP DISCIPLINA – CLÍNICA INTEGRADA Insuficiência Cardíaca ANATOMIA CARDÍACA O coração é um órgão muscular que bombeia o sangue ao longo do sistema circulatório para distribuí-lo pelo corpo. Ele está localizado no mediastino, envolvido em um saco seroso de duas camadas conhecido como pericárdio. Cavidades Cardíacas: O coração é dividido em quatro cavidades principais: Átrio direito: Recebe o sangue venoso (pobre em oxigênio) do corpo. Átrio esquerdo: Recebe o sangue arterial (rico em oxigênio) dos pulmões. Ventrículo direito: Bombeia o sangue venoso para os pulmões para receber oxigênio. Ventrículo esquerdo: Bombeia o sangue oxigenado para o resto do corpo. Válvulas Cardíacas: Existem quatro válvulas no coração que garantem o fluxo unidirecional do sangue Válvula tricúspide: Entre o átrio direito e o ventrículo direito. (ATRIOVENTRICULAR) Válvula pulmonar: Entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar. (SEMILUNAR) Válvula mitral (bicúspide): Entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo. (ATRIOVENTRICULAR) Válvula aórtica: Entre o ventrículo esquerdo e a aorta. (SEMILUNAR) Parede Cardíaca: A parede do coração é composta por três camadas: Epicárdio: A camada mais externa e também corresponde ao pericárdio visceral. Miocárdio: É a camada muscular intermediária que realiza a contração. Endocárdio: A camada interna que reveste as cavidades cardíacas. Vascularização cardíaca: Artérias Da artéria aorta, acima da valva aórtica, se originam as coronárias, tanto direita quanto esquerda, delas saem algumas ramificações. Da coronária esquerda saem dois ramos principais, o circunflexo e o interventricular anterior. Da coronária direita, sai o ramo marginal direito, o interventricular posterior e, em 60% dos indivíduos, o ramo do nó sinoatrial. Os Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP infartos agudos do miocárdio geralmente estão relacionados com as artérias coronárias. Veias As veias da circulação cardíaca têm como função drenar o sangue para o átrio direito. A principal é o seio coronário, ele percorre da esquerda para a direita e recebe veias tributárias nesse percurso. A maior veia tributária é a cardíaca magna, na sua grande maioria, ela é responsável por drenar as áreas que a coronária esquerda nutre. Outras veias também são importantes na drenagem venosa do coração, como a interventricular posterior, a cardíaca parva, as anteriores do ventrículo direito. Inervação cardíaca: Nó sinusal: é conhecido como marcapasso cardíaco, porque ele gera o primeiro impulso elétrico que inicia toda a atividade nervosa, percorrendo todo o coração. Ele se encontra no átrio direito e promove a despolarização atrial, ou seja, ele comanda o ritmo cardíaco. Entretanto, ele pode sofrer modulação do sistema nervoso autônomo, sendo estimulado pelo simpático ou inibido pelo parassimpático. Nó atrioventricular: tem como função retardar a despolarização ventricular para permitir que estes estejam cheios de sangue na hora da sua contração. Ele se encontra no assoalho do átrio direito. Feixe de His: é responsável pela chegada do estímulo nervoso nos ventrículos, ele sai do nó atrioventricular e se divide em dois, no ramo direito e no ramo esquerdo. Fibras de Purkinje: são continuações dos ramos do feixe de His, são elas que promovem a despolarização ventricular que fará a sístole ventricular acontecer. Elas penetram na parede dos ventrículos, de maneira superficial e profunda. Circulação Sanguínea: O sangue venoso (rico em CO2) flui para o átrio direito e é bombeado para os pulmões para oxigenação. Em seguida, o sangue oxigenado/arterial (rico em O2) retorna ao átrio esquerdo e é bombeado para todo o corpo pela aorta. Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP INTRODUÇÃO Insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clínica complexa, na qual o coração é incapaz de bombear sangue de forma a atender às necessidades metabólicas tissulares, ou pode fazê-lo somente com elevadas pressões de enchimento. Tal síndrome pode ser causada por alterações estruturais ou funcionais cardíacas e caracteriza-se por sinais e sintomas típicos, que resultam da redução no débito cardíaco e/ou das elevadas pressões de enchimento no repouso ou no esforço. O termo “insuficiência cardíaca crônica” reflete a natureza progressiva e persistente da doença, enquanto o termo “insuficiência cardíaca aguda” fica reservado para alterações rápidas ou graduais de sinais e sintomas resultando em necessidade de terapia urgente. CLASSIFICAÇÃO Fração de Ejeção do VE Reduzida (ICFEr) =FEVE <40% Intermediária (ICFEi) = FEVE 40 – 49% Preservada (ICFEp) = FEVE > ou igual 50% Classe funcional (NYHA) Estágios/Progressão da doença (AHA) Duração IC aguda: inferior a 6 meses IC crônica: superior a 6 meses IC esquerda x IC direita IC esquerda: congestão pulmonar - Dispneia aos esforços - Tosse noturna - Dispneia paroxística noturna - Ortopneia - Crepitações pulmonares IC direita: congestão sistêmica - Estase de jugular - Edema MMII - Hepatomegalia - Ascite - Refluxo hepatojugular OBS.: Lembrar que a principal causa de IC direita é IC esquerda e que geralmente a IC é mista. Débito cardíaco Alto débito: perfusão aumentada - Tireotoxicose - Fístula arteriovenosa - Beribéri - Anemia - Doença de Paget Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP Baixo débito: má perfusão (pele fria e sudorese) e congestão - Maioria das etiologias OBS.: DC = Volume sistólico x FC Estabilidade Compensada Descompensada Aparecimento de sinais/sintomas, como edema ou hipoperfusão ou hipotensão, que determinam uma nova terapêutica) Persistentemente descompensada Descompensação persiste Perfil hemodinâmico Quente e seco (A) Compensado Quente e úmido (B) Diuréticos + vasodilatadores Frio e úmido (C) Diuréticos + inotrópicos Frio e seco (L) Reposição volêmica com cristalóides (Soro fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato 250 ml) EPIDEMIOLOGIA Primeira causa de internação pelo SUS No Brasil, a principal causa de IC é a cardiopatia isquêmica crônica Incidência e Prevalência da IC aumenta com a idade (acima de 65 anos) ICFEr mais comum em homens com antecedente de isquemia coronária ICFEp mais comum em mulheres, idosas, com comorbidades como fibrilação atrial, HAS e sobrepeso ICFEr tem prognóstico pior em relação a ICFEp FATORES DE RISCO Doença isquêmica cardíaca (IAM) Hipertensão Arterial Sistêmica Doença de Chagas Valvulopatias (reumática, aórtica) Miocardites e Endocardites Doença cardíaca congênita Cardiomegalia dilatada idiopática Arritmia cardíaca Diabetes Anemia Etilismo ETIOLOGIAS Doenças cardiovasculares - Hipertensão Arterial Sistêmica ‘ - Aterosclerose - Infarto Agudo do Miocárdio - Valvulopatias - Doença cardíaca congênita Cardiomiopatias primárias (a doença restringe-se predominantemente ao músculo cardíaco, sendo subclassificadas em genéticas, mistas e adquiridas) Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP Cardiomiopatias secundárias (comprometimento miocárdico como parte de um distúrbio sistêmico ou multiorgânico) - Amiloidose - Hemocromatose - Feocromocitoma - LÚPUS - Beribéri Pericardiopatias - Pericardite constritiva - Derrame pericárdico Endocardiopatias FISIOPATOLOGIA Conceitos importantes: Pré-carga Distensão longitudinal das fibras miocárdicas durante a diástole, enchimento ventricular. - Aumento da pré-carga ocorre pelo aumento do volume diastólico (insuficiência aórtica/mitral) ou por mecanismo de de Frank Starling (aumento do volume epressão diastólica buscando normalizar o débito cardíaco) Pós-carga É a força que se opõe a contração ventricular durante o esvaziamento/ejeção. - Determinada pelo volume ventricular, espessura da parede e resistência vascular sistêmica Contratilidade Força gerada pelo miocárdio para uma dada pré-carga. IC fração de ejeção preservada (diastólica) Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP Remodelamento CONCÊNTRICO do ventrículo esquerdo IC fração de ejeção reduzida (sistólica) Remodelamento EXCÊNTRICO do ventrículo esquerdo. Fisiopatologia Qualquer elemento que prejudique pré- carga, contratilidade ou pós-carga leva a uma redução do volume sistólico (redução do débito cardíaco) que leva aos mecanismos de compensatórios/adaptação: 1. Mecanismo de Frank Staling Quanto maior o estiramento das fibras miocárdias (pré-carga) no final da diástole, maior a contratilidade miocárdica, ocorrendo elevação progressiva do desempenho cardíaco até que se atinja um platô de adaptação a partir do qual não ocorre mais intensificação da resposta miocárdica, ocorrendo a falha. 2. Neuro-hormonais Ocorre secundário a diminuição do débito cardíaco e à elevação das pressões de enchimento das câmaras cardíacas. Ativação do Sistema Nervoso Simpático - Aumento da FC, da contratilidade e da vasoconstricção periférica Sistema Renina-Angiotensina- Aldosterona (SRAA) - Retenção de água (ADH) e sódio, aumentando a volemia, aumentando a pré-carga e o volume sistólico. - Redução da produção de Óxido nítrico (NO) que é vasodilatador. Aumento na liberação de endotelina e vasopressina - Potentes vasoconstrictores associados ao sistema adrenérgico e SRAA. Citocinas inflamatórias - Fator de necrose tumoral, Interleucina 1 e 6 e interferon-gama. - Essas citocinas promovem o catabolismo proteico, sendo relacionadas ao surgimento de caquexia cardíaca. Peptídeos natriuréticos (BNP e pró- BNP) - Secretados pelo átrios e ventrículos mediante a sobrecarga pressórica ou volumétrica. - Vasodilatação periférica e natriurese, buscando contrabalancear o SRAA e adrenérgico. 3. Remodelamento cardíaco Macroscópico: dilatação e a perda da conformação cardíaca, ventrículo esquerdo perde a forma elíptica e adquire a forma esferoide. Microscópica: morte de cardiomiócitos por necrose e apoptose, com deposição de colágeno e fibroblastos CONCÊNTRICO: sobrecarga de pressão (HAS e estenose aórtica) Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP - Hipertrofia miocárdica - Redução das câmaras cardíacas EXCÊNTRICO: sobrecarga de volume (insuficiência aórtica/mitral) - Hipertrofia miocárdica - Aumento das câmaras cardíacas Com a progressão da doença a médio e longo prazo as respostas compensatórias/adaptativas vão perdendo eficiência e ocorre as alterações patológicas: 1. Aumento da Resistência Vascular Periférica (RVP) – pós-carga 2. Fibrose miocárdica 3. Remodelamento cardíaco QUADRO CLÍNICO O paciente com IC permanece assintomático por vários anos devido aos mecanismos adaptativos. Os sinais e sintomas são consequência do baixo débito cardíaco e/ou síndrome congestiva. Sintomas Típicos: - Ortopneia - Dispneia paroxística noturna - Dispneia - Intolerância ao esforço - Fadiga Menos típicos: - Tosse noturna - Perda de apetite - Palpitações - Ganho de peso - Noctúria e oligúria - Dor abdominal Sinais Típicos: - B3 em galope (representa uma disfunção sistólica no ventrículo esquerdo) - Refluxo hepatojugular - Pressão venosa jugular aumentada - Ictus cordis desviado para esquerda Menos típicos: - Taquicardia - Crepitações pulmonares (em IC crônica pode estar ausente) - Extremidades frias - Edema periférico - Hepatomegalia - Ascite - Respiração de Cheyne-Stokes (taquicardia taquipneia apneia) DIAGNÓSTICO Critério de Framingham (2 maiores ou 1 maior + 2 menores) Exames complementares: Laboratoriais: hemograma, eletrólitos, função renal, glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico, função hepática, Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP uroanálise, troponina, função tireoidiana, CPK, ácido úrico, sorologias. OBS.: Anemia, hiponatremia e insuficiência renal e hepática são marcadores de pior prognóstico. Biomarcadores peptídeo natriurético: BNP e NT-proBNP (os valores desses biomarcadores aumentam proporcionalmente à distensão da parede ventricular) - BNP > 400 pg/ml = IC muito provável - BNP 100 – 400 pg/ml = IC possível - BNP < 100 pg/ml = IC improvável Ecocardiograma: avaliação anatômica e funcional, tamanho das câmaras, espessura das paredes, fração de ejeção ventricular, função valvar, aorta, veia cava e pericárdio, presença de trombos intracavitários. Exame adequado para monitorar a resposta do paciente a terapêutica. Eletrocardiograma: um ECG normal torna pouco provável a IC. Pode apresentar arritmias, sinais de sobrecarga atrioventriculares, bloqueios de ramo e desvio do eixo elétrico - Isquemia = presença de ondas Q, ausência de progressão de R nas derivações precordiais e alterações de repolarização (ST) - Doença de Chagas = bloqueio do ramo direito e bloqueio divisional anterossuperior esquerdo - Doença de depósito e derrame pericárdico= baixa voltagem no plano frontal Radiografia de tórax: cardiomegalia, linhas B de Kerley, dilatação das câmaras atriais e ventriculares Ressonância magnética: avaliação do coração anatômica e funcional. Grande acurácia para função biventricular. Estudo hemodinâmico: coronariografia (pacientes com angina ou evidencia de isquemia miocárdica), avaliação para candidatos de transplante. Ergoespirometria: teste de esforço para avaliar a função cardiorrespiratória, estratificar prognóstico. Consumo de oxigênio (VO2) TRATAMENTO Não farmacológico: Dieta: restrição hídrica e salina dependendo do sódio plasmático Atividade física: promove o aumento da atividade vagal, diminuição da atividade simpática e mobilização de células Thayse Moreira Klein Boaventura - EBMSP progenitoras endoteliais. Melhora a tolerância ao esforço e qualidade de vida. Vacinação: influenza (anualmente) e pneumococo (reforço após 65 anos) Clínicas multidisciplinares IC: seguimento intensivo do paciente mediante orientação continuada sobre a patologia e importância do tratamento. Farmacológico ICFEr = terapia tripla (IECA/BRA + BB + Espironolactona) ICFEp = controle de comorbidades (HAS), alguns estudos com espironolactona e BRA reduziu internações, pacientes diabéticos usando Inibidores de SGLT-2 tiveram redução de internações e mortalidade. Drogas que aumentam sobrevida: Betabloqueadores: succinato de metoprolol, carvedilol, nebivolol e bisoprolol IECA/BRA Antagonista de aldosterona: espironalactona Hidralazina + Nitrato Valsartan-sacubitril Inibidores de SGLT-2 Ivabradina Drogas sintomáticas: Diuréticos Digitálicos: digoxina Cirúrgico Cardiodesfibrilados implantável (CDI) Ressincronização cardíaca (pacientes com FE < 35%, CF III persistentes, na vigência do tratamento clínico otimizado, na presença de bloqueio de ramo esquerdo e documentação de dissincronia) Dispositivos de assistência ventricular (Balão intra-aórtico e ventrículos artificiais) Transplante cardíaco