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C A P Í T U L O
15
SUMÁRIO DO CAPÍTULO
O FÍGADO 603
Síndromes Clínicas 604
Insuficiência Hepática 604
Icterícia e Colestase 605
Encefalopatia Hepática 606
Cirrose 607
Hipertensão Portal 608
Shunts Portossistêmicos 609
Doença Hepática Induzida 
por Drogas ou Toxinas 610
Hepatite Aguda e Crônica 611
Hepatite Viral 614
Outras Infecções Virais do Fígado 620
Hepatite Autoimune 620
Doença Hepática Induzida por Drogas 
e Toxinas 621
Doença Hepática Gordurosa Alcoólica 
e Não Alcoólica 621
Doença Hepática Alcoólica 623
Doença Hepática Gordurosa Não 
Alcoólica (DHGNA) 625
Lesão Mediada por Droga/Toxina 
com Esteatose 625
Doenças Colestáticas do Fígado 626
Colestase Neonatal 626
Colestase Induzida por Sepse 626
Cirrose Biliar Primária 627
Colangite Esclerosante Primária 628
Colestase Induzida por Drogas/ 
Toxinas 629
Doenças Metabólicas Hereditárias 629
Hemocromatose 629
Doença de Wilson 630
Deficiência de a1-Antitripsina 631
Doenças Circulatórias 632
Fluxo Sanguíneo Prejudicado 
para o Fígado 632
Fluxo Sanguíneo Prejudicado Através 
do Fígado 633
Obstrução do Efluxo Venoso Hepático 634
Outras Doenças Inflamatórias 
e Infecciosas 635
Abscessos Hepáticos 635
Doenças Granulomatosas 635
Tumores e Nódulos Hepáticos 635
Tumores Benignos 635
Lesões Precursoras de Carcinoma 
Hepatocelular 636
Carcinomas Hepatocelulares 637
DOENÇAS DA VESÍCULA 
BILIAR E DO TRATO BILIAR 
EXTRA-HEPÁTICO 639
Doenças da Vesícula Biliar 639
Colelitíase (Cálculos Biliares) 639
Colecistite 641
Doenças dos Ductos Biliares 
Extra-hepáticos 642
Coledocolitíase e Colangite 642
Cirrose Biliar Secundária 642
Atresia Biliar 642
Tumores 643
Carcinoma da Vesícula Biliar 643
Colangiocarcinomas 643
Fígado, Vesícula Biliar 
e Trato Biliar*
O FÍGADO
O fígado e seus acompanhantes, a árvore biliar e a vesícula biliar, 
são considerados juntos devido à proximidade anatômica e às 
suas funções inter-relacionadas, e também devido às caracterís-
ticas comuns de algumas doenças que afetam esses órgãos. Este 
capítulo foca principalmente o fígado porque, sem dúvida, ele 
possui o principal papel na fisiologia normal e é o local para o 
desenvolvimento de ampla gama de doenças.
Localizado no cruzamento entre o trato digestório e o res-
tante do corpo, o fígado exerce o crítico trabalho de manter a 
homeostasia metabólica do corpo. Isso inclui o processamento 
de aminoácidos, carboidratos, lipídios e vitaminas da dieta, 
e a síntese de muitas proteínas plasmáticas e a detoxificação e 
excreção para a bile de produtos de eliminação endógenos e xeno-
bióticos. Assim, não é surpreendente que o fígado seja vulnerável 
a ampla variedade de insultos metabólicos, tóxicos, microbianos 
e circulatórios. Em alguns casos, o fígado é o local da doença 
primária. Em outros, o comprometimento hepático é secundário 
a algumas das doenças mais comuns em seres humanos, como 
descompensação cardíaca, diabetes e infecções extra-hepáticas.
O fígado possui enorme reserva funcional, e a regeneração 
sempre ocorre, com exceção da mais fulminante das doenças 
hepáticas. A remoção cirúrgica de 60% do fígado em uma pessoa 
normal é acompanhada de descompensação hepática mínima 
e transitória, com recuperação da maioria de sua massa por 
regeneração em um intervalo de 4-6 semanas. Em pacientes 
que apresentam necrose hepática maciça, a recuperação quase 
perfeita pode ocorrer se o paciente sobreviver ao insulto meta-
bólico da falência hepática. A reserva funcional e a capacidade 
regenerativa do fígado mascaram o impacto clínico da lesão 
hepática inicial. Entretanto, com a progressão da doença difusa 
ou a interrupção do fluxo sanguíneo ou biliar, as consequências 
As contribuições dos Drs. Jim Crawford e Nelson Fausto nas edições 
anteriores para este capítulo são de reconhecido agradecimento.
tahir99-VRG & vip.persianss.ir
C A P Í T U L O 15604 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
da função hepática transtornada tornam-se graves e até com 
ameaça à vida.
SÍNDROMES CLÍNICAS
As principais síndromes clínicas da doença hepática são insu-
ficiência hepática, cirrose, hipertensão portal e colestase. Essas 
condições possuem manifestações clínicas características (Tabe-
la 15-1) e uma bateria de testes para sua avaliação (Tabela 15-2), 
sendo a biópsia hepática o padrão-ouro de procedimento para 
o diagnóstico.
Insuficiência Hepática
A consequência clínica mais grave da doença hepática é a insu-
ficiência hepática. Ela frequentemente é o ponto final do dano 
progressivo ao fígado, pela destruição insidiosa dos hepatócitos 
ou por ondas individualizadas e repetitivas de dano parenqui-
matoso. De forma menos comum, a insuficiência hepática se 
desenvolve como resultado da destruição súbita e maciça do 
fígado. Qualquer que seja a sequência, 80-90% da capacidade 
funcional hepática já deve ter sido perdida antes que suceda 
a insuficiência hepática. Em muitos casos, a balança é inclina-
da para a descompensação por doenças intercorrentes ou por 
eventos que impõem demandas ao fígado. Elas incluem infecção 
sistêmica, distúrbios eletrolíticos, grande cirurgia, insuficiência 
cardíaca e sangramento gastrointestinal.
Os padrões de lesão que podem causar insuficiência hepática 
caem em três categorias:
•	 Insuficiência aguda do fígado com necrose hepática maciça. Mais 
frequentemente induzida por drogas ou por hepatite viral, a 
insuficiência hepática aguda é caracterizada por insuficiência 
hepática clínica que progrediu a partir de um conjunto inicial 
de sintomas para encefalopatia hepática em um intervalo 
de 2-3 semanas. Um curso mais longo, que pode durar até 
três meses, é chamado de insuficiência hepática subaguda. 
A histologia característica correlacionada à insuficiência hepática 
aguda é a necrose hepática maciça, independentemente da causa 
original. É uma doença rara, mas que ameaça a vida e fre-
quentemente demanda o transplante hepático.
•	 Doença hepática crônica. Esse é o caminho mais comum pa-
ra insuficiência hepática e o ponto final do dano hepático 
crônico. Apesar de todos os componentes estruturais do 
fígado estarem envolvidos na fase final da doença hepática 
crônica, o processo inicial que leva ao dano crônico do fígado 
pode ser classificado como primariamente hepatocitário (ou 
parenquimatoso), biliar ou vascular. Independentemente dos 
fatores iniciadores, a doença hepática crônica frequentemente 
termina em cirrose, como descrito adiante.
•	 Insuficiência hepática sem necrose franca. Essa forma é menos 
comum do que as formas descritas anteriormente; os hepa-
tócitos podem ser viáveis, mas incapazes de desempenhar 
função metabólica normal. As condições em que essa forma 
pode ser vista com mais frequência são a lesão mitocondrial na 
síndrome de Reye, o fígado gorduroso da gravidez e algumas 
doenças decorrentes da toxicidade por drogas e toxinas.
Características Clínicas
Os sinais clínicos da insuficiência hepática por doenças crônicas 
do fígado são muito semelhantes, independentemente da causa 
da doença. Icterícia é um achado quase invariável. A síntese e a 
secreção deficientes de albumina pelo fígado levam a hipoalbu-
minemia, que predispõe ao edema periférico. A hiperamoniemia 
é atribuída ao mau funcionamento do ciclo da ureia no fígado. 
Os sinais e sintomas da doença crônica incluem o eritema palmar 
(um reflexo da vasodilatação local) e angiomas em aranha da pele. 
Cada angioma é uma arteríola central dilatada pulsátil da qual 
irradiam pequenos vasos. Também pode ocorrer metabolismo 
prejudicado dos estrogênios e, consequentemente, hiperestro-
genemia, que, no homem, leva a hipogonadismo e ginecomastia. A 
Tabela 15-1 Consequências Clínicas das Doenças Hepáticas
Sinais Característicos da Disfunção Hepática Grave
Icterícia e colestase
Hipoalbuminemia
Hiperamoniemia
Hipoglicemia
Eritema palmar
Angiomas em aranha
Hipogonadismo
Ginecomastia
Perda de peso
Atrofia muscular
Hipertensão Portal Associada à Cirrose
Ascite com ou sem peritonite bacteriana espontânea
Esplenomegalia
Varizes esofágicas
Hemorroidas
Cabeçapor hepatite C atualmente é cerca de 10.000 ao ano e excedeu as 22.000 mortes por ano em 2008. *O risco 
de carcinoma hepatocelular é de 1-4% ao ano.
Figura 15-12 Hepatócitos em vidro despolido na hepatite B crônica, 
causados pelo acúmulo de HBsAg no citoplasma, que possui grandes 
inclusões citoplasmáticas róseas, granulosas e opacas na coloração por 
hematoxilina e eosina; a imunomarcação (detalhe) confirma a tumefação 
do retículo endoplasmático com o antígeno de superfície viral (marrom). 
HBsAg, antígeno de superfície do vírus da hepatite B.
C A P Í T U L O 15618 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Curso Clínico
O período de incubação para a hepatite C varia de 2-26 semanas, 
com média entre 6-12 semanas. A hepatite C aguda é assintomática 
em 75% das pessoas afetadas e pode não ser percebida. Assim, não 
se conhece muito sobre essa fase da doença. O RNA do HCV 
pode começar a ser detectado no sangue, no intervalo de dias 
a oito semanas, a depender do inóculo inicial. As elevações de 
aminotransferases séricas ocorrem em 2-12 semanas. Apesar 
de os anticorpos neutralizantes anti-HCV se desenvolverem no 
intervalo de semanas a poucos meses, eles não conferem imunidade 
eficiente (Fig. 15-14). Respostas imunes fortes, envolvendo células 
CD4+ e CD8+ , estão associadas a infecções autolimitadas pelo 
HCV, mas não se sabe por que apenas uma minoria de pessoas 
é capaz de se curar da infecção.
Na infecção persistente, o RNA circulante do HCV é detectá-
vel, e as aminotransferases apresentam episódios de elevação ou 
elevação contínua apresentando valores flutuantes. Em pequena 
porção das pessoas afetadas, os níveis de aminotransferases são 
normais mesmo quando já há alterações histológicas no fígado. 
O aumento da atividade enzimática pode ocorrer na ausência 
de sintomas clínicos, provavelmente refletindo os eventos de 
necrose de hepatócitos. A infecção persistente é a característica 
diferencial da infecção por HCV, ocorrendo em 80-85% dos pacientes 
com doença aguda subclínica ou assintomática (Fig. 15-13). A cirrose 
se desenvolve em 20% das pessoas persistentemente infectadas: 
ela pode estar presente no momento do diagnóstico ou levar 20 
anos para se desenvolver. Alternativamente, os pacientes podem 
ter infecção crônica por HCV por décadas sem progredir para 
cirrose. A hepatite fulminante é rara. A hepatite C confere um risco 
elevado para o carcinoma hepatocelular.
Vírus da Hepatite D
Também chamado de vírus da hepatite delta, o HDV é um vírus 
de RNA único que tem uma deficiência de replicação, causando 
infecção apenas quando é encapsulado pelo HBsAg. Assim, 
apesar de taxonomicamente distinto do HBV, o HDV é totalmente 
dependente da coinfecção pelo HBV para sua multiplicação. A hepa-
tite delta se origina de duas formas: (1) uma coinfecção aguda 
após a exposição a soro contaminado por HDV e HBV, e (2) 
uma superinfecção de portador crônico de HBV com um novo 
inóculo de HDV. Nas coinfecções, a infecção por HBV deve ser 
a primeira a se estabelecer para que quantidades suficientes de 
HBsAg sejam produzidas para originar os vírions de HDV. A 
maioria das pessoas coinfectadas possui viremias indetectáveis 
e se recupera completamente. De forma contrária, na maioria 
das pessoas superinfectadas há uma aceleração da hepatite, 
progredindo para hepatite crônica mais grave 4-7 semanas 
depois.
A infecção pelo HDV tem distribuição mundial, com taxas 
de prevalência com cerca de 8% entre os portadores de HBsAg 
no sudoeste da Itália, aumentando para 40% na África e no 
Oriente Médio. Surpreendentemente, a infecção por HDV 
não é comum no Sudeste Asiático e China, áreas em que a 
infecção por HBV é endêmica. Períodos epidêmicos têm acon-
tecido nas áreas subtropicais de Peru, Colômbia e Venezuela. 
Nos Estados Unidos, a infecção com o HDV é altamente res-
trita a viciados em drogas e pessoas que recebem múltiplas 
transfusões sanguíneas (p. ex., hemofílicos), que têm taxa de 
prevalência de 1-10%.
MORFOLOGiA
Microscopicamente, a hepatite C crônica apresenta todas 
as características típicas da hepatite crônica descritas ante-
riormente, mas também apresenta algumas características 
particulares: (1) alteração gordurosa, resultado tanto do 
metabolismo de lipídios alterado nos hepatócitos infectados 
como da resistência à insulina e da tão famosa síndrome 
metabólica (descrita adiante); (2) infiltrados linfoides nos 
tratos portais, algumas vezes formando verdadeiros folículos 
linfoides (Fig. 15-7); e (3) a lesão de ducto biliar, que pode 
estar relacionada com a infecção direta de colangiócitos 
pelo vírus.
Figura 15-14 Sequência de marcadores sorológicos da hepatite C. A, infecção aguda com resolução. B, Progressão para infecção crônica. veja o 
texto para abreviações.
619Hepatite aguda e crônica
O RNA do HDV e o antígeno do HDV (HDV Ag) são detec-
táveis no sangue e no fígado logo antes e nos primeiros dias de 
uma doença aguda assintomática. O anticorpo IgM anti-HDV é o 
mais confiável indicador de exposição recente ao HDV e está presente 
em altas concentrações apenas transitoriamente no período 
imediatamente após a infecção. A coinfecção aguda por HDV e 
HBV é mais bem indicada pela detecção da IgM tanto contra o 
HDVAg como contra o HBcAg (denotando uma nova infecção 
com HBV). Com a hepatite crônica delta surgindo a partir da 
superinfecção por HDV, o HBsAg está presente no soro, e os 
anticorpos anti-HDV (IgM e IgG) persistem em baixos títulos 
por meses ou mais.
Vírus da Hepatite E
A hepatite por HEV é uma infecção transmitida entericamente, 
disseminada por água contaminada, ocorrendo principalmente 
nos primeiros anos da infância. O HEV é endêmico na Índia, 
onde a doença é causada por contaminação fecal da água po-
tável. As taxas de prevalência dos anticorpos IgG anti-HEV 
aproximam-se de 40% na população da Índia. Epidemias foram 
descritas na Ásia, na África subsaariana e no México. Infecções 
esporádicas parecem ser raras; elas têm sido vistas principal-
mente em viajantes e contribuem para mais de 50% dos casos 
de hepatite viral aguda esporádica na Índia. Na maioria dos casos, 
a doença é autolimitada; o HEV não está associado a doença hepática 
crônica ou viremia persistente. Uma característica marcante da in-
fecção é a alta mortalidade entre mulheres grávidas, cerca de 20%. O 
período de incubação médio após a exposição é de seis semanas 
(intervalo entre 2-8 semanas).
O HEV é um herpesvírus não envelopado, com RNA de fita 
simples. Um antígeno específico, o HEVAg, pode ser identifica-
do no citoplasma dos hepatócitos durante a infecção ativa. Os 
vírus podem ser detectados nas fezes, e os anticorpos IgG e IgM 
anti-HEV são detectáveis no soro.
Características e Desfechos Clínicos para a Hepatite Viral
Inúmeras condições clínicas podem se desenvolver após a ex-
posição aos vírus causadores de hepatite:
•	 Infecção assintomática aguda: apenas evidência sorológica
•	 Hepatite aguda: anictérica ou ictérica
•	 Hepatite fulminante: necrose hepática maciça ou submaciça 
com insuficiência hepática aguda
•	 Hepatite crônica: com ou sem progressão para cirrose
•	 Estado de portador crônico assintomático, sem doença aparente
Nem todos os vírus hepatotrópicos provocam cada uma des-
sas condições clínicas (Tabela 15-6). Como mencionado ante-
riormente, a persistência viral e o desenvolvimento de doença 
crônica são muito mais comuns após a infecção por HCV do que 
por HBV. Uma vez que outras causas, infecciosas e não infecciosas, 
principalmente drogas e toxinas, podem levar essencialmente às mes-
mas condições, as avaliações sorológicas são decisivas para o diagnós-
tico da hepatite viral e para a identificação do tipo viral.
Breves sumários dos desfechos clínicos da hepatite viral são 
apresentados a seguir.
Infecção Assintomática. Não surpreende que os pacientes 
com infecção assintomática sejam identificados apenas aci-
dentalmente, com base nas aminotransferases séricas mini-
mamente elevadas ou após o fato, pela presença de anticorpos 
antivirais.Hepatite Viral Aguda. Qualquer um dos vírus hepatotrópicos 
pode causar hepatite viral. As infecções agudas são facilmente 
identificáveis nas infecções por HBV, mas apenas raramente 
diagnosticadas nas infecções com HCV. Apesar de a descrição 
a seguir ser baseada principalmente nas infecções por HBV, a 
hepatite viral aguda, independentemente do agente, pode ser dividida 
em quatro fases: (1) período de incubação, (2) fase pré-ictérica sinto-
mática; (3) fase ictérica sintomática (com icterícia e esclera ictérica) 
e (4) convalescença.
O pico de infectividade, atribuído à presença de partículas 
virais infecciosas circulantes, ocorre durante os últimos dias 
assintomáticos do período de incubação e os primeiros 
dias dos sintomas agudos. A fase pré-ictérica é marcada por 
sintomas constitucionais inespecíficos. O mal-estar é seguido 
por alguns dias de fadiga generalizada, náusea e perda de 
apetite. Os sintomas inconstantes são perda de peso, febre de 
baixo grau, dores de cabeça, dores musculares e articulares. 
Cerca de 10% dos pacientes com hepatite B aguda desenvol-
vem uma síndrome semelhante à doença do soro, que consiste 
em febre, erupção cutânea e artralgias, atribuíveis a com-
plexos imunes circulantes. A verdadeira origem de todos esses 
sintomas é sugerida por níveis elevados de aminotransferases 
séricas. O exame físico pode revelar fígado levemente aumen-
tado, doloroso à palpação. Em alguns pacientes, os sintomas 
inespecíficos são mais graves, com febre mais alta, calafrios, 
tremores e cefaleia, algumas vezes acompanhados de dor no 
quadrante superior direito e aumento do fígado doloroso à 
palpação. De forma surpreendente, à medida que a icterícia 
aparece e esses pacientes entram na fase ictérica, outros sin-
tomas melhoram. A icterícia é causada predominantemente 
por hiperbilirrubinemia conjugada, que produz urina de cor 
escura. Com o dano hepatocelular e o consequente defeito na 
conjugação da bilirrubina, a hiperbilirrubinemia não conju-
gada também pode ocorrer. As fezes se tornam mais claras, 
e a retenção de sais biliares pode causar prurido. Uma fase 
ictérica é comum em adultos (mas não em crianças) infectados 
com HAV, presente em cerca de metade dos casos envolvendo 
HBV e ausente na maioria dos casos de infecção por HCV. Em 
poucas semanas ou talvez alguns meses, a icterícia e a maioria 
dos outros sintomas sistêmicos desaparecem à medida que 
começa a convalescença.
Hepatite Fulminante. Em proporção muito pequena dos pa-
cientes com hepatite aguda A, B, D ou E, a insuficiência hepática 
aguda pode resultar de necrose hepática maciça. Com exceção 
dos indivíduos imunossuprimidos, o HCV quase nunca causa 
insuficiência hepática aguda. Os casos com curso mais lento, de 
várias semanas ou meses, são geralmente chamados de “necrose 
hepática subaguda”; o fígado apresenta tanto necrose maciça 
quanto hiperplasia regenerativa. Como discutido adiante, as 
drogas e as substâncias químicas também podem causar necrose 
hepática maciça.
Hepatite Crônica. A hepatite crônica é definida pela presença 
de evidência sintomática, bioquímica ou sorológica de doença 
hepática continuada ou recidivando durante mais de seis meses, 
com inflamação e necrose histologicamente documentadas. 
Embora os vírus de hepatite sejam responsáveis pela maioria dos 
casos, há muitas causas de hepatite crônica (descritas adiante), 
como autoimunidade, drogas e toxinas, doença de Wilson e 
deficiência de a1-antitripsina (A1AT).
A etiologia, e não o padrão histopatológico, é o indicador 
mais importante da probabilidade de desenvolvimento de he-
patite crônica progressiva. Em particular, o HCV é reconhecido 
por causar hepatite crônica que evolui para cirrose (Fig. 15-13), 
independentemente das características histológicas encontradas 
na avaliação inicial.
As características clínicas da hepatite crônica são extrema-
mente variáveis, e não são preditivas do resultado. Em alguns 
pacientes, os únicos sinais de doença crônica são elevações 
persistentes de transaminases séricas. O sintoma mais comum 
é fadiga; os sintomas menos comuns são mal-estar, perda de 
apetite e, ocasionalmente, surtos de icterícia branda. Os achados 
C A P Í T U L O 15620 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
físicos são poucos, sendo os mais comuns angiomas aracneifor-
mes, eritema palmar, dor hepática à palpação, esplenomegalia e 
hepatomegalia brandas. Os estudos laboratoriais podem revelar 
prolongamento do tempo de protrombina e, em alguns casos, 
hiperglobulinemia, hiperbilirrubinemia e elevações brandas 
nas concentrações de fosfatase alcalina. Ocasionalmente, em 
casos de HBV e HCV, complexos antígeno-anticorpo circulantes 
produzem doença de complexos imunes na forma de vasculite 
(subcutânea ou visceral) (Capítulo 9) e glomerulonefrite (Capí-
tulo 13). A crioglobulinemia é encontrada em cerca de 50% dos 
pacientes com hepatite C.
O curso clínico é altamente variável. Pessoas com hepatite C 
podem apresentar remissão espontânea ou ter uma doença de 
curso indolente sem progressão por anos. Alternativamente, 
alguns pacientes apresentam doença rapidamente progressiva 
e desenvolvem cirrose em poucos anos. As principais causas de 
morte em pacientes com hepatite crônica estão relacionadas à 
cirrose — especificamente, insuficiência hepática, encefalopatia 
hepática, hematêmese maciça das varizes esofágicas e carcinoma 
hepatocelular.
Estado de Portador. Um portador é um indivíduo assintomático 
que alberga o vírus e, portanto, pode transmiti-lo. No caso dos 
vírus hepatotrópicos, os portadores são aqueles que:
•	 Abrigam	um	ou	mais	vírus,	mas	estão	livres	de	sintomas	ou	
de alterações histológicas importantes na biópsia hepática
•	 Apresentam	dano	hepático	evidente	na	biópsia	(p. ex.,	so-
mente atividade necroinflamatória branda e fibrose que per-
manece nos estágios iniciais, não cirróticos), mas que estão 
essencialmente livres de sintomas ou deficiências
Os dois tipos de portador constituem reservatórios de infec-
ção. A infecção por HBV no início da vida, particularmente 
por transmissão vertical durante o parto, produz estado de 
portador em 90-95% dos casos. Ao contrário, apenas 1-10% das 
infecções por HBV adquiridas na idade adulta dão origem ao 
estado de portador. As pessoas com a imunidade debilitada são 
particularmente suscetíveis de se tornar portadores. A situação é 
menos clara com o HDV, apesar de existir um risco bem definido 
e baixo de hepatite D pós-transfusão, indicativo do estado de 
portador em associação com a infecção pelo HBV. Estima-se que 
cerca de 0,2-0,6% da população geral dos Estados Unidos seja 
portadora do HCV.
Outras Infecções Virais do Fígado
•	 A	infecção pelo vírus Epstein-Barr (EBV) pode causar hepatite 
moderada durante a fase aguda da mononucleose infecciosa.
•	 A	infecção pelo citomegalovírus, particularmente nos recém-nas-
cidos ou imunocomprometidos, pode causar as alterações 
citomegálicas típicas desse vírus em quase todas as células 
do fígado, inclusive hepatócitos, colangiócitos e células en-
doteliais.
•	 O	herpes simples pode infectar hepatócitos em recém- 
nascidos ou em imunossuprimidos, levando ao aparecimento 
de alterações citopáticas características e necrose hepática.
•	 A	febre amarela, que tem sido a principal e mais grave causa de 
hepatite em países tropicais, causa apoptose de hepatócitos 
que pode ser extensa. Os hepatócitos apoptóticos são in-
tensamente eosinofílicos e chamados de corpos de Councilman 
em homenagem ao patologista que os descreveu. Não é fre-
quente, mas em crianças e pessoas imunocomprometidas a 
hepatite pode ser causada por vírus da rubéola, adenovírus 
ou infecções enterovirais.
RESUMO
Hepatite Viral
•	 No	alfabeto	dos	vírus	hepatotrópicos,	algumas	formas	
mnemônicas podem ser úteis:
 As vogais (hepatites A e E) nunca causam hepatite crônica, 
só aguda.
 Somente as consoantes (hepatite B, C e D) possuem 
potencial para causar doença crônica (C para consoante 
e para crônica).
 A hepatite B pode ser transmitidapor sangue, nascimento 
e “relação sexual” (como se diz no Reino Unido; todas as 
palavras iniciam com b em inglês).
 A hepatite C é o único vírus que origina doença mais fre-
quentemente crônica do que não (quase nunca detectada 
agudamente; 85% ou mais dos pacientes desenvolvem 
hepatite crônica, 20% dos quais vão desenvolver cirrose).
 A hepatite D, o agente delta, é um vírus defeituoso, re-
querendo coinfecção com o vírus da hepatite B para sua 
própria capacidade de infectar e replicar.
 A hepatite E é endêmica em região equatorial e frequen-
temente é epidêmica.
•	 As	células	inflamatórias	na	hepatite	viral	aguda	e	crônica	
são principalmente células T; o padrão da lesão é que é 
diferente, e não a natureza do infiltrado.
•	 A	biópsia	na	hepatite	crônica	viral	é	mais	importante	para	
a graduação e o estadiamento da doença, que são usados 
para avaliar a evolução do tratamento.
•	 Pacientes	com	infecções	por	HBV	e	HCV	de	longa	duração	
estão em maior risco de desenvolver carcinoma hepatoce-
lular, mesmo na ausência de cirrose estabelecida.
Hepatite Autoimune
A hepatite autoimune é uma hepatite crônica com caracterís-
ticas histológicas que podem ser indistinguíveis daquelas da 
hepatite viral crônica. Essa doença pode percorrer uma evolução 
indolente ou grave e tipicamente responde de forma intensa à 
terapia imunossupressora. Os aspectos salientes incluem:
•	 Predominância	feminina	(70%)
•	 Ausência	de	marcadores	sorológicos	virais
•	 Concentrações	elevadas	de	IgG	sérica	(valores	maiores	que	
2,5 g/dL)
•	 Altos	títulos	séricos	de	autoanticorpos	em	80%	dos	casos
•	 Presença	de	outras	formas	de	doença	autoimune,	vista	em	até	
60% dos pacientes, incluindo artrite reumatoide, tireoidite, 
síndrome de Sjögren e colite ulcerativa
A hepatite autoimune pode ser dividida em subtipos de acor-
do com os autoanticorpos produzidos, mas a relevância dessa 
classificação para o manejo clínico é incerta. Muitos pacientes 
apresentam anticorpos circulantes antinucleares, anticorpos 
antimúsculo liso, antimicrossomos de rins/fígado e antiantígeno 
solúvel de pâncreas/fígado. Esses anticorpos podem ser detec-
tados por imunofluorescência ou ensaios imunoenzimáticos. 
Acredita-se que os principais responsáveis pelo dano celular na 
hepatite autoimune sejam as células T auxiliares CD4 + . A hepa-
tite autoimune pode se manifestar com hepatite crônica branda 
ou grave. A resposta à terapia imunossupressora geralmente 
621Doença hepática gordurosa alcoólica e não alcoólica
é drástica, apesar de a remissão completa da doença não ser 
comum. O risco de cirrose, a principal causa de morte, é de 5%.
MORFOLOGiA
Apesar de a hepatite autoimune compartilhar padrões de lesão 
com as hepatites virais aguda e crônica, o tempo de progressão 
das alterações histológicas é diferente. Na hepatite viral, a fibrose 
tipicamente ocorre em decorrência de anos ou décadas de acú-
mulo de lesão parenquimatosa, enquanto na hepatite autoimune 
parece haver uma fase inicial de lesão celular grave e inflamação 
seguida de rápida cicatriz. O importante, mas com causas não 
definidas, é que essa onda inicial de dano aos hepatócitos e ne-
crose geralmente é subclínica. A evolução clínica se correlaciona 
com um número limitado de padrões histológicos:
•	 Lesão	muito	grave	aos	hepatócitos	com	necrose con-
fluente disseminada
•	 Inflamação	marcante	concomitante	a	cicatrização	avançada
•	 Cirrose burned-out (não característisca), associada a 
pouca lesão celular ou inflamação. Esta última categoria é 
o achado mais encontrado no diagnóstico, mas, destacada 
a cautela clínica, a hepatite autoimune tem especificamen-
te levado a número crescente de diagnósticos precoces. 
É importante salientar que o infiltrado mononuclear da 
hepatite autoimune frequentemente possui plasmócitos 
abundantes.
Doença Hepática Induzida por Drogas e Toxinas
Muitas drogas têm efeitos que podem mimetizar as característi-
cas da hepatite viral aguda ou crônica ou da hepatite autoimune.
•	 Como	já	descrito,	a toxicidade do acetaminofeno é uma das prin-
cipais causas de insuficiência aguda levando ao transplante 
de fígado. As características histológicas podem ser indis-
tinguíveis das da hepatite A aguda fulminante ou hepatite B.
•	 A	isoniazida é um exemplo de hepatotoxina idiossincrásica 
que pode causar hepatite crônica que mimetiza precisamente 
a hepatite viral crônica que pode ou não se resolver com a 
remoção do agente causal.
•	 Outras	drogas	(p. ex.,	minociclina	e	nitrofurantoína)	ou	to-
xinas podem induzir uma hepatite autoimune com todas as 
características histológicas e clínicas típicas dessa doença: 
autoanticorpos, IgG elevada e infiltrados hepáticos cheios 
de plasmócitos. Esses casos, algumas vezes, respondem ao 
tratamento com imunossupressores, mas outras vezes não, 
progredindo para cirrose independentemente da retirada do 
agente causador.
DOENÇA HEPÁTICA GORDUROSA 
ALCOÓLICA E NÃO ALCOÓLICA
O consumo excessivo de álcool é a principal causa de doença 
gordurosa do fígado em adultos e pode se manifestar histolo-
gicamente por esteatose, esteato-hepatite e cirrose. Nos últimos 
anos, tem se tornado evidente que outra entidade, a chamada 
doença gordurosa não alcoólica (DHGNA), pode mimetizar todo 
o espectro de alterações hepáticas tipicamente associadas com o 
abuso de álcool. A DHGNA (descrita em mais detalhes adiante) 
está associada com resistência à insulina, obesidade, diabetes 
melito, hipertensão e dislipidemias, em conjunto chamadas de 
síndrome metabólica. Uma vez que as alterações morfológicas 
da doença hepática alcoólica e não alcoólica são indistinguíveis, 
elas são mostradas juntas, seguidas por características clínicas 
distintivas para cada entidade.
MORFOLOGiA
Três categorias de alterações hepáticas são observadas na 
doença hepática gordurosa. Elas podem estar presentes em 
qualquer combinação: esteatose (fígado gorduroso), hepatite 
(alcoólica ou esteato-hepatite) e fibrose.
Esteatose Hepática. O acúmulo hepatocelular de gordura 
começa tipicamente nos hepatócitos centrolobulares. As gotas 
lipídicas variam de pequenas (microvesiculares) a grandes (ma-
crovesiculares); as maiores ocupam e expandem a célula e des-
locam o núcleo para a periferia da célula. À medida que a estea-
tose se torna mais extensa, o acúmulo de lipídios se dissemina a 
partir da veia central para hepatócitos no meio do lóbulo e nas 
regiões periportais (Fig. 15-15). Macroscopicamente, o fígado 
gorduroso com esteatose disseminada é grande (pesando de 
4-6 kg ou mais), um órgão macio, amarelo e gorduroso.
Esteato-hepatite. Essas alterações são mais pronunciadas 
no uso de álcool do que na DHGNA, mas podem ser vistas em 
graus variados de intensidade na doença do fígado gorduroso 
por qualquer causa:
•	 Balonização dos hepatócitos. Células ou focos de 
células isolados sofrem tumefação e necrose; como na es-
teatose, essas características são mais evidentes nas regiões 
centrolobulares.
•	 Corpos de Mallory. Eles consistem em emaranhados 
de filamentos intermediários (incluindo queratinas 8 e 18 
ubiquitinizadas) e são visíveis como inclusões citoplasmáticas 
eosinofílicas nos hepatócitos em degeneração (Fig. 15-16).
•	 Reação neutrofílica. Uma infiltração predominantemente 
neutrofílica permeia o lóbulo e acumula-se em torno dos 
hepatócitos em degeneração, particularmente aqueles que 
Figura 15-15 Doença gordurosa do fígado. A esteatose macrovesicular 
é mais proeminente em volta da veia central e se estende para os tratos 
portais com aumento de sua gravidade. A gordura intracitoplasmática é vista 
como vacúolos claros. Há certo grau de fibrose (corada em azul) presente 
em um padrão caracteristicamente perissinusoidal de “cerca de galinheiro” 
(tricromo de Masson).
(Cortesia da Dra. Elizabeth Brunt, Washington University in St. Louis, St. Louis, Missouri.)
C A P Í T U L O 15622 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
contêm corpos de Mallory. Linfócitos e macrófagos também 
entram nos tratos portais ou parênquima(Fig. 15-16, A e B).
Esteato-hepatite com fibrose. A doença gordurosa do fíga-
do de qualquer tipo tem um padrão distinto de fibrose. Como as 
outras modificações, a fibrose aparece primeiro na região cen-
trolobular como esclerose de veia central. A fibrose peris-
sinusoidal aparece em seguida no espaço de Disse da região cen-
trolobular e então se espalha para fora, circundando hepatócitos 
individuais ou pequenos grupos em um padrão de cerca de 
galinheiro (Fig. 15-15). Essas linhas de fibrose eventualmente 
podem se ligar aos tratos portais e começar a condensar, origi-
nando os septos fibrosos centrais-portais. À medida que 
isso se torna mais proeminente, o fígado se torna mais nodular 
e de aparência cirrótica. Uma vez que a maioria das causas que 
originam a doença gordurosa persiste, a contínua subdivisão de 
nódulos estabelecidos por novas cicatrizes perissinusoidais leva à 
clássica cirrose de Laennec ou micronodular. No início do 
seu desenvolvimento, o fígado é amarelo-bronze, gorduroso e 
aumentado. Entretanto, com a persistência do dano e com o pas-
sar dos anos, o fígado se transforma em um órgão castanho, con-
traído, não gorduroso e composto de nódulos cirróticos que são 
geralmente menores que 0,3 cm em diâmetro — menores do 
que o que é típico para a maioria das hepatites virais (Fig. 15-17). 
O fígado cirrótico em seu estado terminal pode evoluir para uma 
fase “burned-out”, que não apresenta alterações gordurosas ou 
outras características típicas (Fig. 15-18). A maioria dos casos de 
cirrose criptogênica, sem etiologia clara, é agora reconhecida 
como NASH “burned-out”.
Figura 15-16 A, Hepatite alcoólica com aglomerado de células inflamatórias marcando o local de um hepatócito necrótico. Um corpo de Mallory-Denke 
está presente em outro hepatócito (seta). B, Esteato-hepatite com muitos hepatócitos balonizados (cabeças de setas) contendo corpos de Mallory-Denke 
proeminentes; aglomerados de células inflamatórias também são vistos; detalhe mostrando imunomarcação para queratinas 8 e 18 (marrom), com a maioria 
dos hepatócitos, inclusive aqueles com vacúolos de gordura, mostrando marcação citoplasmática normal, mas na célula balonizada (linha pontilhada) as 
queratinas estão colapsadas dentro dos corpos de Mallory-Denke, deixando o citoplasma “vazio”.
(Cortesia da Dra. Elizabeth Brunt, Washington University in St. Louis, St. Louis, Missouri.)
Figura 15-17 Cirrose alcoólica. A nodularidade difusa típica da superfície 
é induzida pela cicatriz fibrosa subjacente. Nessa vista em detalhe, o tama-
nho médio do nódulo é de 3 mm. A tonalidade esverdeada é causada pela 
estase biliar.
Figura 15-18 Esteato-hepatite levando a cirrose. Nódulos pequenos 
aprisionados em tecido fibroso de coloração azul; nesse estágio “burned-out”, 
o acúmulo de gordura não é mais visto (tricromo de Masson).
623Doença hepática gordurosa alcoólica e não alcoólica
Doença Hepática Alcoólica
O consumo excessivo de álcool causa mais de 60% dos casos de 
doença hepática crônica nos países ocidentais e contribui para 
40-50% das mortes devido à cirrose. As seguintes estatísticas 
atestam a magnitude do problema nos Estados Unidos:
•	 Mais	de	10	milhões	de	americanos	são	alcoólicos.
•	 O	abuso	do	álcool	é	a	quinta	causa	de	morte,	sendo	respon-
sável por 80.000-85.000 mortes anualmente. Dessas mortes, 
20.000 são atribuídas à cirrose terminal; outras 10.000-12.000 
são resultado de acidentes automobilísticos.
•	 Cerca	de	25-30%	dos	pacientes	hospitalizados	têm	problemas	
relacionados ao uso abusivo do álcool.
O consumo crônico do álcool tem uma variedade de efeitos 
(Capítulo 7). De máximo impacto, no entanto, são as três for-
mas distintas, ainda que se sobreponham, de doença hepática 
já descritas: (1) esteatose hepática, (2) hepatite alcoólica e (3) 
cirrose, chamadas coletivamente de doença alcoólica do fígado 
(Fig. 15-19).
Cerca de 90-100% dos alcoólicos desenvolvem doença gor-
durosa (p. ex., esteatose hepática) e, destes, 10-35% desenvol-
vem hepatite alcoólica, enquanto somente 8-20% dos alcoólicos 
crônicos desenvolvem cirrose. Esteatose, hepatite alcoólica e 
fibrose podem se desenvolver independentemente, então não 
configuram necessariamente uma sequência de alterações. O 
carcinoma hepatocelular se origina em 10-20% dos pacientes 
com cirrose alcoólica.
PATOGENIA
A ingestão em curto prazo de até 80 g de álcool por dia (5-6 
cervejas ou ±200 mL de destilado com 40% de álcool) geral-
mente produz alterações hepáticas brandas reversíveis, como 
o fígado gorduroso. A ingestão diária crônica de 40-80 g é con-
siderada um fator de risco limite para lesão grave. Por motivos 
que devem estar relacionados com o metabolismo gástrico do 
etanol e diferenças na composição corporal, as mulheres são 
mais suscetíveis do que os homens a lesão hepática. Parece que 
a frequência e o tipo de bebida que é consumido podem afetar 
o risco de desenvolvimento de doença hepática. Por exem-
plo, o consumo excessivo causa mais lesão hepática do que o 
consumo baixo e estável. Deve existir suscetibilidade individual, 
possivelmente genética, porém nenhum marcador genético de 
suscetibilidade foi identificado. Na ausência de compreensão 
clara dos fatores que influenciam o dano hepático, nenhum limite 
superior seguro de consumo de álcool pode ser proposto.
O metabolismo do etanol pela álcool desidrogenase e pelo 
sistema microssomal de oxidação do etanol é discutido no 
Capítulo 7. Como mencionado, a indução do citocromo P-450 
pelo uso crônico do álcool leva a aumento da transformação 
de outras drogas em metabólitos tóxicos. Em particular, esse 
efeito pode acelerar o metabolismo do acetaminofeno em 
compostos altamente tóxicos e aumentar o risco de lesão 
hepática, mesmo com doses terapêuticas. São discutidos a 
Figura 15-19 Doença hepática alcoólica. As inter-relações entre esteatose hepática, hepatite alcoólica e cirrose são mostradas, juntamente com uma 
representação das características morfológicas-chave em nível microscópico. Como explicitado no texto, deve-se notar que esteatose, hepatite alcoólica 
e cirrose também podem se desenvolver independentemente e não como uma sequência de eventos.
C A P Í T U L O 15624 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Características Clínicas
A esteatose hepática pode ser inócua ou tornar-se evidente sob a 
forma de hepatomegalia com elevação branda das concentrações 
séricas de bilirrubina e fosfatase alcalina. A disfunção hepática 
grave é incomum. A abstinência de álcool e o fornecimento de 
dieta adequada constituem tratamento suficiente.
Há uma estimativa de que 15-20 anos de uso abusivo do 
álcool são necessários para desenvolver cirrose alcoólica, mas a he-
patite alcoólica pode ocorrer logo depois de semanas ou meses de 
consumo excessivo. O início é tipicamente agudo e, frequente-
mente, segue o surto de consumo particularmente excessivo. Os 
sintomas e as alterações laboratoriais podem variar de mínimos 
a graves. A maioria dos pacientes apresenta mal-estar, anorexia, 
perda de peso, desconforto abdominal superior, hepatomegalia 
dolorosa à palpação e febre. Os achados laboratoriais típicos 
são hiperbilirrubinemia, fosfatase alcalina elevada e, muitas 
vezes, leucocitose neutrofílica. A alanina aminotransferase e a as-
partato aminotransferase séricas estão elevadas, mas geralmente 
abaixo de 500 U/mL. O prognóstico é imprevisível; cada surto 
de hepatite apresenta cerca de 10-20% de risco de morte. Com 
surtos repetitivos, a cirrose aparece em cerca de um terço dos 
pacientes dentro de poucos anos; a hepatite alcoólica também 
pode ser superposta por cirrose.
As manifestações da cirrose alcoólica são semelhantes às de 
outras formas de cirrose, apresentadas antes. Comumente, os 
primeiros sinais da cirrose estão relacionados a complicações 
da hipertensão portal. O estigma da cirrose (p. ex., abdome 
grosseiramente distendido com ascite, extremidades desgas-
tadas e cabeça de medusa) pode ser a característica de apresen-
tação. Alternativamente,o paciente pode primeiro apresentar 
hemorragia de varizes ou encefalopatia hepática. Em outros 
casos, há início insidioso de mal-estar, fraqueza, perda de peso 
e de apetite, que precedem o aparecimento de icterícia, ascite e 
edema periférico. Os achados laboratoriais refletem a doença 
hepática em desenvolvimento, com aminotransferases séricas 
elevadas, hiperbilirrubinemia, elevação variável de fosfatase 
alcalina, hipoproteinemia (globulinas, albumina e fatores de 
coagulação) e anemia. Finalmente, a cirrose pode ser clinica-
mente silenciosa, descoberta somente na necropsia ou quando 
um estresse, como infecção ou trauma, pende a balança para 
a insuficiência hepática. Em alcoólicos crônicos, o álcool pode 
ser a maior fonte de calorias da dieta, deslocando outros nu-
trientes e levando a má nutrição e a deficiências de vitaminas 
(p. ex., tiamina, vitamina B12). Desses efeitos, a função digestiva 
é dificultada, principalmente com relação a dano crônico nas 
mucosas gástrica e intestinal, e pancreatite.
O prognóstico em longo prazo de pacientes alcoólicos com 
doença é variável. O aspecto mais importante do tratamento 
é a abstinência de álcool. A taxa de sobrevida de cinco anos é 
próxima de 90% em abstêmios que estão livres de icterícia, 
ascite ou hematêmese, mas cai para 50-60% em pessoas que 
continuam a beber. Entre os pacientes com doença hepática 
alcoólica avançada, as causas imediatas de morte são:
•	 Insuficiência	hepática
•	 Hemorragia	gastrointestinal	maciça
•	 Infecção	intercorrente	(para	a	qual	as	pessoas	afetadas	são	
predispostas)
•	 Síndrome	hepatorrenal
•	 Carcinoma	hepatocelular	em	3-6%	dos	casos
RESUMO
Doença Hepática Alcoólica
•	 A	doença	hepática	alcoólica	tem	três	manifestações	prin-
cipais: esteatose hepática, hepatite alcoólica e cirrose, que 
podem ocorrer sozinhas ou combinadas.
•	 O	consumo	de	50-60	g/dia	de	álcool	é	considerado	o	limite	
para o desenvolvimento de doença hepática alcoólica.
•	 A	cirrose	tipicamente	se	desenvolve	depois	de	10-15	anos	
de consumo de álcool ou mais, porém ocorre somente em 
pequena proporção de alcoólicos crônicos; a cirrose alcoó-
lica tem as mesmas características morfológicas e clínicas 
da cirrose causada por hepatite viral.
•	 Os	múltiplos	efeitos	patológicos	do	álcool	incluem	as	
mudanças no metabolismo de lipídios, diminuição da ex-
portação de lipoproteínas e morte celular causada por 
espécies reativas de oxigênio e citocinas.
seguir os efeitos deletérios do álcool e seus subprodutos sobre 
a função hepatocelular.
A esteatose hepatocelular resulta de vários mecanismos: 
(1) desvio de substratos para longe do catabolismo e na dire-
ção da biossíntese de lipídios, devido à geração de um excesso 
de nicotinamida-adenina dinucleotídeo reduzido resultante do 
metabolismo do etanol pela álcool desidrogenase e acetaldeído 
desidrogenase; (2) montagem e secreção prejudicadas de lipo-
proteínas; e (3) catabolismo periférico aumentado de gordura.
As causas da hepatite alcoólica são incertas, mas ela pode 
se originar de um ou mais dos seguintes subprodutos do etanol 
e seus metabólitos:
•	 Acetaldeído (o principal metabólito do etanol) induz a 
peroxidação lipídica e a formação de conjugados acetaldeí-
do-proteína, destruindo ainda mais a função citoesquelética 
e de membrana.
•	 O	álcool afeta diretamente a organização do citoesqueleto 
(como ilustrado pelos corpos de Mallory-Denk), a função 
mitocondrial e a fluidez de membrana.
•	 Espécies reativas de oxigênio geradas durante a oxida-
ção do etanol pelo sistema microssomal oxidativo do etanol 
reagem com as membranas e proteínas e as danifica. As 
espécies reativas de oxigênio também são produzidas por 
neutrófilos, que infiltram áreas de necrose de hepatócitos.
•	 Inflamação mediada por citocinas e dano celular são 
a principal característica da hepatite alcoólica e da doença 
hepática alcoólica de forma geral. O TNF é considerado o 
principal efetor da lesão; iL-1, iL-6 e iL-8 também podem con-
tribuir. O principal estímulo para a produção de citocinas na 
doença hepática alcoólica é a produção de espécies reativas de 
oxigênio, mencionadas anteriormente, e os produtos micro-
bianos (p. ex., endotoxina) derivados das bactérias entéricas.
Já que a geração de acetaldeído e radicais livres é máxima na 
região centrolobular, essa região á a mais suscetível a lesão 
tóxica. A fibrose pericelular e a fibrose sinusoidal se desen-
volvem nessa área do lóbulo. Uma hepatite viral concorrente, 
particularmente a hepatite C, é o principal acelerador da doen-
ça hepática em alcoólicos. A prevalência de hepatite C entre 
pessoas com doença alcoólica é de cerca de 30% (e vice-versa).
Por motivos desconhecidos, a cirrose se desenvolve apenas 
em pequena porção de alcoólicos crônicos. Com a abstinência 
completa, pode ser obervada alguma regressão da fibrose em 
todos os casos, e o fígado micronodular se transforma, com 
regeneração, em um órgão cirrótico macronodular; raramente 
há regressão de toda a cirrose.
625Doença hepática gordurosa alcoólica e não alcoólica
Doença Hepática Gordurosa 
Não Alcoólica (DHGNA)
A DHGNA é uma condição comum na qual a doença hepática 
gordurosa se desenvolve em pessoas que não consomem álcool. 
O fígado apresenta qualquer um dos três tipos de alterações 
descritas anteriormente (esteatose, esteato-hepatite e cirrose). 
O nome esteato-hepatite não alcoólica (NASH) é usado para 
descrever características clínicas evidentes de dano hepático, 
como transaminases elevadas e características histológicas de 
hepatite já descritas. A DHGNA é consistentemente associada 
com resistência à insulina e síndrome metabólica (descrita a 
seguir). Outras anomalias comumente associadas são:
•	 Diabetes	tipo	2	(ou	com	histórico	familiar	da	condição)
•	 Obesidade,	principalmente	obesidade	central	(índice	de	mas-
sa corpórea maior que 30 kg/m2 em brancos e maior do que 
25 kg/m2 em asiáticos)
•	 Dislipidemia	(hipertrigliceridemia,	baixa	lipoproteína	de	
colesterol de alta densidade, alta lipoproteína de colesterol 
de baixa densidade)
•	 Hipertensão
PATOGENIA
A síndrome metabólica é definida pela existência de pelo me-
nos duas das seguintes condições: obesidade, resistência à in-
sulina, dislipidemia e hipertensão. Em pacientes com síndrome 
metabólica, a presença de diabetes tipo 2 e obesidade é o me-
lhor fator preditivo de fibrose grave e progressão da doença. 
A resistência à insulina resulta do acúmulo de triglicerídeos nos 
hepatócitos por pelo menos um dos três mecanismos:
•	 Oxidação	de	ácidos	graxos	prejudicada
•	 Aumento	da	síntese	e	da	captura	de	ácidos	graxos
•	 Diminuição	da	secreção	hepática	da	lipoproteína	do	coles-
terol de muito baixa densidade
Hepatócitos repletos de gordura são altamente sensíveis a 
produtos de peroxidação de lipídios gerados por estresse 
oxidativo, que podem danificar membranas mitocondriais e 
plasmáticas, causando apoptose. Como consequência do es-
tresse oxidativo ou por liberar, a partir do tecido adiposo 
visceral, quantidades de TNF, iL-6 e de valores elevados da 
quimiocina MCP-1, contribuem para o dano hepático e a in-
flamação. Algumas moléculas têm surgido como importantes 
em regular tais processos, como a adiponectina e a leptina.
A DHGNA é a causa mais comum de elevação incidental 
de transaminases séricas. A maioria das pessoas com esteatose 
é assintomática; os pacientes com esteato-hepatite ativa ou fi-
brose também podem ser assintomáticos, mas alguns podem 
apresentar fadiga, mal-estar, dor no quadrante superior direito 
ou sintomas mais graves de doença hepática crônica. A biópsia 
hepática é necessária para o diagnóstico. Felizmente, a frequên-
cia de progressão da esteatose para a esteato-hepatite ativa e da 
esteato-hepatite ativa para a fibrose é baixa. Apesar disso, a 
DHGNA é considerada condição de contribuição significativa 
para a patogenia da cirrose criptogênica.
Uma vez que compartilham características comuns, a inci-
dência de doença da artéria coronária é aumentada em pacientescom DHGNA. O tratamento atual para DHGNA é direcionado 
à redução da obesidade e à diminuição da resistência à insulina. 
Ensaios clínicos com pioglitazona, um ativador do fator de trans-
crição PPAR-g, que modula a expressão dos genes sensíveis à 
insulina, em pacientes não diabéticos com esteato-hepatite, com-
provada por biópsia, demonstraram benefício significativo, evi-
denciado pela reversão das alterações histológicas da DHGNA. 
Mudanças no estilo de vida (dieta e exercícios) parecem ser a 
forma mais eficiente de tratamento.
A DHGNA pediátrica está se tornando um problema crescente 
à medida que a síndrome metabólica e a DHGNA se aproximam 
de proporções epidêmicas. Nas crianças, o aparecimento de lesões 
histológicas é um pouco diferente: a inflamação e a cicatrização tendem a 
ser mais evidentes nos tratos portais e nas regiões periportais, e os infil-
trados mononucleares predominam, em vez dos infiltrados neutrofílicos.
RESUMO
Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica
•	 A	doença	hepática	gordurosa	não	alcoólica	(DHGNA)	está	
associada com síndrome metabólica, obesidade, diabetes 
tipo 2 e dislipidemia e/ou hipertensão.
•	 A	DHGNA	pode	apresentar	todas	as	alterações	associadas	
à doença hepática alcoólica: esteatose, esteato-hepatite 
(NASH) e cirrose, apesar de algumas características da 
esteato-hepatite (como balonização do hepatócito, corpos 
de Mallory-Denk e infiltração neutrofílica) frequentemente 
serem menos proeminentes do que elas são na lesão rela-
cionada ao álcool.
•	 A	DHGNA	pediátrica	vem	sendo	cada	vez	mais	reconhecida	
como um problema da epidemia de obesidade que se es-
palha aos grupos com idade infantil, apesar de seus padrões 
histológicos diferirem um pouco daqueles que são vistos 
em adultos.
Lesão Mediada por Droga/Toxina com Esteatose
A esteatose possui ampla gama de causas, inclusive abuso de 
álcool, nutrição parenteral total, amiodarona e metotrexato. Uma 
categoria especial que merece ênfase envolve a lesão mitocon-
drial que origina uma esteatose microvesicular difusa, geralmen-
te associada com disfunção hepática grave e potencialmente 
fatal. O exemplo clássico é a síndrome de Reye, uma doença rara 
que afeta primeiramente crianças menores de quatro anos de 
idade que tiveram doença viral grave. O início é deflagrado 
por vômitos destrutivos e acompanhado por irritabilidade ou 
letargia e hepatomegalia. Os valores de bilirrubina, amônia e 
aminotransferases séricas são essencialmente normais. Apesar 
de a maioria dos pacientes se recuperar, cerca de 25% progridem 
para coma, acompanhado de elevações nos valores séricos de 
bilirrubina, amônia e aminotransferases. A morte ocorre por 
deterioração neurológica progressiva ou falência hepática. Os 
sobreviventes das doenças mais graves podem ficar com com-
plicações neurológicas permanentes.
A síndrome de Reye tem sido associada com a administração 
de aspirina em doenças virais; enquanto não há evidência defi-
nitiva de que os salicilatos têm o papel principal nessa condição, 
como precaução, a aspirina é contraindicada em crianças e ado-
lescentes com doenças febris. Os agentes que são conhecidos 
por causar disfunção mitocondrial semelhante são tetraciclina 
e valproato, assim como toxinas da fruta ackee de vez, típica da 
Jamaica. Os regimes de terapia antirretroviral altamente ativa 
(HAART), usados para o HIV, também podem causar as mes-
mas lesões histológicas, mas, por motivos desconhecidos, esses 
pacientes não apresentam morbidade significativa.
C A P Í T U L O 15626 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
MORFOLOGiA
O achado patológico-chave é a esteatose microvesicular 
hepatocelular. A microscopia eletrônica da mitocôndria do 
hepatócito revela aumento pleomórfico e claro da matriz, com 
ruptura das cristas e perda de corpos densos. Especificamente na 
síndrome de Reye, geralmente o edema cerebral está presen-
te. Os astrócitos estão tumefatos e podem ocorrer alterações 
mitocondriais semelhantes àquelas vistas no fígado. Não há in-
flamação, como é notável em qualquer infecção viral. Músculos 
esqueléticos, rins e coração também podem apresentar 
alteração gordurosa microvesicular e alterações mitocondriais, 
apesar dessas alterações serem mais sutis do que as do fígado.
DOENÇAS COLESTÁTICAS DO FÍGADO
As doenças colestáticas do fígado incluem as condições que 
levam a disfunção hepatocelular primária (p. ex., colestase neo-
natal, colestase induzida por drogas, sepse) ou lesões aos ductos 
biliares, incluindo algumas que são mecânicas (p. ex., obstrução 
dos grandes ductos por cálculos ou tumor) ou inflamatórias 
(como doenças autoimunes). Para ser mais didático, porém, 
as doenças dos ductos biliares são claramente divididas em 
intra-hepáticas ou extra-hepáticas porque as doenças podem 
afetar os segmentos intra e extra-hepáticos, e exclusivamente 
as doenças dos ductos biliares extra-hepáticos ainda podem 
causar efeitos secundários dentro do fígado. Este tópico dis-
cutirá primeiro as mais importantes doenças colestáticas do 
fígado, um grupo heterogêneo de condições que têm como 
suas características marcantes os sinais clínicos e sintomas da 
colestase; a obstrução biliar é considerada uma das doenças dos 
ductos biliares extra-hepáticos.
Colestase Neonatal
Como mencionado anteriormente, elevações brandas tran-
sitórias na bilirrubina sérica não conjugada são comuns em 
recém-nascidos normais. A hiperbilirrubinemia conjugada 
prolongada que dura mais do que os primeiros 14 dias de vida 
é chamada de colestase neonatal. As principais causas são atresia 
biliar extra-hepática, discutida adiante, e uma variedade de ou-
tras doenças chamadas coletivamente de hepatites neonatais. A he-
patite neonatal não é uma entidade específica nem os distúrbios 
são necessariamente inflamatórios. Em lugar disso, o achado de 
colestase neonatal deve provocar uma busca diligente de doenças 
reconhecidas como tóxicas, metabólicas ou infecciosas do fígado. 
Com grande cautela sobre a etiologia e as melhores ferramentas 
diagnósticas, a hepatite neonatal idiopática constitui apenas 10-15% 
dos casos de hepatite neonatal.
A apresentação clínica nas crianças com qualquer uma das 
formas de colestase neonatal é razoavelmente típica, com ic-
terícia, urina escura, fezes claras ou acólicas e hepatomegalia. 
Defeitos na síntese hepática em graus variados, como hipopro-
trombinemia, podem estar presentes. A diferenciação entre 
as duas causas mais comuns de colestase neonatal — atresia 
extra-hepática e hepatite idiopática — tem grande importância 
porque o tratamento definitivo da atresia biliar requer inter-
venção cirúrgica, enquanto a cirurgia pode interferir negativa-
mente no curso clínico de uma criança com hepatite idiopática 
neonatal. Felizmente, a distinção entre essas doenças pode ser 
feita em 90% dos casos usando dados clínicos e biópsia hepática.
Colestase Induzida por Sepse
A sepse pode afetar o fígado de várias formas. Elas incluem 
os efeitos diretos da infecção bacteriana intra-hepática (p. ex., 
formação de abscessos ou colangite bacteriana), a isquemia 
causada por choque séptico (particularmente quando o fígado 
é cirrótico) ou em resposta a produtos microbianos circulantes. 
O último, aparentemente, promove mais a colestase induzida 
por sepse, particularmente quando a infecção sistêmica é devida 
a organismos gram-negativos.
A alteração mais comum é a colestase canalicular, com a bile 
presa no interior do canalículo centrolobular (Fig. 15-20, A). Os 
achados histológicos incluem ativação intensa das células de 
Kupffer e inflamação portal branda, mas a necrose de hepató-
citos é escassa ou ausente. A colestase ductular é um achado mais 
grave, onde os canais de Hering e os ductos biliares na interface 
dos tratos portais e parênquima se tornam dilatados e contêm 
Figura 15-20 A, Colestase da sepse. Tampões de bile proeminentes estão presentes em canalículos dilatados na região centrolobular. B, Colestase 
ductular. Concreções de bile, escuras e grandes dentro de canaisde Hering evidentemente dilatados e ductos na interface portal-parenquimal. Essa 
característica, indicativa de sepse grave corrente ou bloqueadora, é relacionada à endotoxemia.
(B, Cortesia do Dr. Jay Lefkowitch, Columbia Unversity, New York.)
627Doenças colestáticas do fígado
grandes tampões de bile (Fig. 15-20, B). Essa alteração, que não 
é uma característica típica da obstrução biliar, frequentemente 
acompanha ou antecede o desenvolvimento do choque séptico.
Cirrose Biliar Primária
A cirrose biliar primária (CBP) é uma doença hepática colestática 
crônica, progressiva, e em alguns casos fatal, caracterizada por 
destruição dos ductos biliares intra-hepáticos, inflamação portal 
e cicatrização, e desenvolvimento de cirrose e insuficiência he-
pática ao longo de anos a décadas (7). A característica principal da 
CBP é a destruição não supurativa dos ductos biliares intra-hepáticos de 
pequeno e médio porte. A CBP acomete principalmente mulheres 
de meia-idade, com pico de incidência entre 40-50 anos de idade. 
O nome é um pouco inadequado porque o estágio final da CBP 
não é sempre cirrótico. Alguns pacientes podem morrer ou ser 
submetidos ao transplante por causa da hipertensão portal 
grave na ausência de cirrose bem estabelecida, apesar de outros, 
geralmente apresentando colestase severa intratável, serem 
totalmente cirróticos.
PATOGENIA
Mais de 90% das pessoas com CBP apresentam altos títulos de 
autoanticorpos contra diversas desidrogenases ácidas mitocon-
driais. Ainda não está claro por que a resposta imune está diri-
gida nessas enzimas e por que os ductos biliares intra-hepáticos 
são o alvo desse ataque imune. Evidências recentes sugerem 
que a exposição a certos xenobióticos podem modificar pro-
teínas mitocondriais provocando um possível gatilho para a 
resposta imune.
Curso Clínico
O início da CBP é insidioso, mas a doença frequentemente chama 
a atenção enquanto o paciente ainda está assintomático através 
da descoberta de fosfatase alcalina sérica elevada nos exames 
laboratoriais de rotina. O diagnóstico é feito normalmente pela 
demonstração de anticorpos antimitocondriais e achados carac-
terísticos na biópsia. Os pacientes frequentemente apresentam 
prurido e, geralmente, mostram ter doença avançada.
Os pacientes não tratados progridem para descompensação 
hepática associada com hipertensão portal, com sangramentos 
MORFOLOGiA
A morfologia da CBP é mais relevante no fase pré-cirrótica. Os 
ductos biliares interlobulares são ativamente destruídos por 
inflamação linfocítica ou plasmocítica, com ou sem granulomas 
(lesão ductal florida) (Fig. 15-21). Algumas biópsias, contudo, 
não exibem lesões destrutivas ativas e mostram apenas ductos 
biliares portais. Os espaços portais antes das lesões ductais 
exibem proliferação ductular biliar, inflamação e necrose do 
parênquima periportal adjacente. isso leva ao desenvolvimen-
to de fibrose septal portal-portal (Fig. 15-22). A hepatite de 
de varizes e encefalopatia hepática, após um período de duas ou 
mais décadas. Entretanto, o tratamento oral inicial com ácido urso-
deoxicólico melhora significativamente o curso da doença, retardando 
drasticamente sua progressão. Esses mecanismos de ação ainda são 
desconhecidos, apesar de parecerem incluir a inibição da apoptose do 
epitélio biliar e a inibição da resposta imune. A hiperbilirrubinemia 
é uma característica tardia e geralmente significa uma incipiente 
descompensação hepática. As condições extra-hepáticas as-
sociadas incluem o ressecamento dos olhos e da boca, da sín-
drome de Sjögren, e esclerodermia, tireoidite, artrite reumatoide, 
fenômeno de Raynaud e doença celíaca.
Tabela 15-7 Características Principais da Cirrose Biliar Primária e Colangite Esclerosante Primária
Parâmetro Cirrose Biliar Primária Colangite Esclerosante Primária
Idade 50 anos em média (30-70) 30 anos em média
Gênero 90% feminino 70% masculino
Curso clínico Progressivo Imprevisível, mas progressivo
Condições associadas Síndrome de Sjögren (70%)
Escleroderma (5%)
Doença na tireoide (20%)
Doença inflamatória intestinal (70%)
Pancreatite (≤25%)
Doenças fibrosantes idiopáticas (fibrose retroperitoneal)
Sorologia 95% AMA-positivo
20% ANA-positivo
40% ANCA-positivo
0-5% AMA-positivo (baixo título)
6% ANA-positivo
65% ANCA-positivo
Radiologia Normal Constrituras dos grandes ductos biliares; poda dos pequenos ductos
Lesão ductal Lesões floridas e perda apenas de 
pequenos ductos
Destruição inflamatória dos ductos extra-hepáticos e dos 
grandes ductos intra-hepáticos; obliteração fibrótica dos ductos 
intra-hepáticos médios e pequenos
AMA, anticorpo antimitocondrial; ANA, anticorpo antinuclear ; ANCA, anticorpo citoplasmático antineutrófilo.
Figura 15-21 Cirrose biliar primária. Um trato portal está acentuadamen-
te expandido por um infiltrado de linfócitos e plasmócitos. Note a reação 
granulomatosa a um ducto biliar sofrendo destruição (lesão ductal florida).
C A P Í T U L O 15628 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Colangite Esclerosante Primária
A colangite esclerosante primária (CEP) é uma doença coles-
tática crônica, caracterizada por fibrose progressiva e destrui-
ção dos ductos biliares extra-hepáticos e intra-hepáticos de 
todos os tamanhos (Tabela 15-7). Uma vez que as alterações 
nos ductos ocorrem em regiões, a colangiografia, realizada en-
doscopicamente ou como auxílio da imagem por ressonância 
magnética (IRM), mostra um aspecto de contas característico 
nos segmentos afetados da árvore biliar devido a estreitamentos 
que se alternam com ductos do tamanho normal ou dilatados. 
interface e lobular branda também pode estar presente. As 
características, algumas vezes, não são as mesmas da hepatite 
autoimune; essa síndrome de sobreposição é diagnosticada 
apenas quando o componente hepático é muito evidente e há 
achados sorológicos típicos de hepatite autoimune.
Existem duas vias para a doença hepática avançada, am-
bas levando anos ou décadas de evolução. Alguns pacientes 
desenvolvem hipertensão portal intensa; na avaliação his-
tológica, esses fígados possuem nodularidade disseminada 
sem a cicatriz adjacente vista na cirrose — uma característica 
chamada de hiperplasia nodular regenerativa. Alguns 
fígados frequentemente são maiores do que o normal e podem 
apresentar leve formação de nódulos que difere dos nódulos 
claros da cirrose. Ainda não se sabe por que essas mudanças 
hepatocitárias ocorrem em uma doença que aparentemente 
é de natureza primariamente biliar.
Outros pacientes seguem uma via clássica de perda de ductos 
crescente e disseminada, levando a cirrose e colestase profunda. 
O acúmulo de bile nessa colestase crônica não é centrolo-
bular, como ocorre nas síndromes colestáticas induzidas por 
drogas ou por sepse, mas é periportal/perisseptal e associada 
com degeneração plumosa, marcada por hepatócitos ba-
lonizados e contendo bile, frequentemente com corpos de 
Mallory-Denk proeminentes. Essas células, morfologicamente 
semelhantes àquelas vistas na hepatite alcoólica, diferem por 
sua localização periportal em vez de localização centrolobular. 
Tais fígados em estados terminais mostram cirrose e cor verde 
viva, adequada ao estado ictérico geral (Fig. 15-23). Por haver 
pequena perda de hepatócitos, a hiperplasia nodular regene-
rativa frequentemente leva a hepatomegalia cedo no curso da 
doença, o que distingue da hepatite crônica e do alcoolismo.
A CEP é comumente vista em associação com doença intestinal 
inflamatória (Capítulo 15), particularmente colite ulcerativa, 
que coexiste em aproximadamente 70% dos pacientes afetados. 
Alternativamente, a prevalência de CEP entre as pessoas com 
colite ulcerativa é de cerca de 4%. Essa doença tende a ocorrer 
entre a terceira e a quinta década de vida, mais frequentemente 
após o desenvolvimento de doença intestinal inflamatória. Os 
homens são afetados com mais frequência do que as mulheres, 
em uma proporção de 2:1.
A causa da CEP é desconhecida. A associação com a colite 
ulcerativa,a ligação com alguns alelos de HLA-DR e a presença 
de anticorpos citoplasmáticos antinucleares com localização 
perinuclear (Capítulo 10) em 80% dos casos sugere que é uma 
doença mediada pelo sistema imunológico.
MORFOLOGiA
Os achados característicos da CEP são diferentes nos ductos 
extra-hepáticos e intra-hepáticos grandes em relação aos 
ductos menores. Os ductos maiores apresentam inflamação 
crônica que se sobrepõe à inflamação aguda, muito seme-
lhante às lesões de mucosa da colite ulcerativa. Essas áreas 
inflamadas levam ao estreitamento dos ductos mais amplos, 
tanto pelo edema e inflamação que estreitam o lúmen quanto 
pela subsequente deposição de fibrose na cicatrização. Os 
ductos menores, por sua vez, frequentemente apresentam 
pouca inflamação e uma fibrose concêntrica, chamada 
geralmente de fibrose em casca de cebola, em torno 
dos lumens dos ductos atróficos (Fig. 15-24). Eventualmente, 
os lumens podem desaparecer, deixando para trás uma cicatriz 
fibrosa sólida semelhante a um cordão, a virtualmente diagnós-
tica cicatriz-lápide (tombstone scar). Como a probabilidade 
da amostragem de lesões ductais tão pequenas em uma coleta 
aleatória por biópsia de agulha é minúscula, o diagnóstico não 
depende de biópsia, mas de imagens radiológicas dos ductos 
extra-hepáticos e intra-hepáticos maiores.
Em resposta à perda de ductos, assim como na CBP, proli-
feração ductular, fibrose septal portal-portal e cirrose são os 
eventos seguintes. O fígado com doença avançada é então 
normalmente cirrótico e esverdeado. A neoplasia biliar in-
traepitelial pode aparecer e ser um sinal de aproximação do 
colangiocarcinoma, uma complicação fatal vista na minoria 
dos pacientes.
Figura 15-23 Cirrose biliar primária terminal. Corte sagital demonstra 
o aumento do fígado, a nodularidade indicativa de cirrose e a coloração 
esverdeada devida à colestase.
Figura 15-22 Exemplo de reação ductal em um septo fibroso.
(Cortesia do Dr. Matthew Yeh, University of Washington, Seattle, Washington.)
629Doenças metabólicas hereditárias
Curso Clínico
Os pacientes assintomáticos podem atentar para os valores 
persistentemente elevados de fosfatase alcalina sérica. Outros 
pacientes apresentam sintomas relacionados à colangite aguda 
— infecção que complica estreitamentos biliares assintomáti-
cos preexistentes — como febre, sensibilidade no quadrante 
superior direito e, algumas vezes, icterícia. Os pacientes que 
se encontram em estágios finais podem apresentar fadiga 
progressiva, prurido e icterícia crônica. A CEP geralmente tem 
curso lento, ao longo de muitos anos. O colangiocarcinoma se 
desenvolve em 10-15% dos pacientes com CEP, com tempo 
médio de cinco anos entre o diagnóstico e a transformação 
maligna.
Colestase Induzida por Drogas/Toxinas
A colestase é uma característica comum da lesão hepática 
induzida por drogas ou toxinas e pode ser vista sozinha ou 
associada com outros achados hepáticos. Quando a lesão 
hepatocitária é mínima, ela é chamada de colestase mode-
rada, que é caracterizada por tampões de bile canaliculares 
e/ou tumefação de hepatócitos centrolobulares e acúmulo 
citoplasmático de pigmento biliar. A hepatite colestática, na 
qual os achados de colestase (fosfatase alcalina e bilirrubina 
séricas elevadas, colestase canalicular e hepatocelular) e de 
hepatite (transaminases séricas elevadas, hepatite de interface 
e lobular) coexistem, é uma indicação de lesão induzida por 
droga ou toxina. Causas comuns ou bem conhecidas de tal 
lesão incluem o anabólico C17 alquilado ou contraceptivos 
esteroides, nutrição parenteral total e antibióticos. Doenças 
que se assemelham à CEP e CBP, associadas não só com co-
lestase, mas com perda real de ductos biliares, incluem as 
lesões hepáticas causadas por clorpromazina, amitriptilina e 
arsenicais orgânicos.
DOENÇAS METABÓLICAS HEREDITÁRIAS
Apesar de existir um número relativamente grande de doenças 
hepáticas metabólicas herdadas, nesta seção apenas algumas 
condições comuns selecionadas são discutidas: hemocromatose, 
doença de Wilson e deficiência de A1AT.
Hemocromatose
A hemocromatose hereditária se refere a deficiências genéticas 
caracterizadas pelo acúmulo excessivo de ferro no corpo, a 
maior parte do qual é depositado no fígado, pâncreas e coração. 
Há pelo menos quatro variantes genéticas de hemocromatose heredi-
tária. A forma mais comum é uma doença autossômica recessiva com 
início na vida adulta causada por mutações no gene HFE. As formas 
adquiridas de hemocromatose com fontes conhecidas de ex-
cesso de ferro são chamadas de hemocromatose secundária. Entre 
as mais importantes estão múltiplas transfusões, eritropoiese 
ineficaz (talassemia b e síndromes mielodisplásicas) e ingestão 
aumentada de ferro.
Como discutido no Capítulo 11, o conteúdo de ferro corporal 
total varia de 2-6 g nos adultos normais; cerca de 0,5 g é armaze-
nado no fígado, 98% estando nos hepatócitos. Na hemocroma-
tose hereditária, o ferro é acumulado durante a vida da pessoa 
afetada a partir da absorção intestinal excessiva. O acúmulo 
total de ferro pode exceder 50 g, com mais de um terço dessa 
quantidade acumulando-se no fígado. Os casos completamente 
desenvolvidos exibem (1) cirrose (vista em todos os pacientes), (2) 
diabetes melito (em 75-80% dos pacientes) e (3) pigmentação da pele 
(em 75-80% dos pacientes).
PATOGENIA
O conteúdo de ferro corporal total é rigorosamente regulado, 
uma vez que as limitadas perdas diárias de ferro são equipara-
das pela absorção gastrointestinal. Na hemocromatose he-
reditária, a regulação da absorção intestinal de ferro 
da dieta é defeituosa, levando à acumulação líquida de 
ferro de 0,5-1 g/ano. O gene da hemocromatose hereditária, 
responsável pela forma mais comum dessa doença, é chamado 
HFE. Está localizado no braço curto do cromossomo 6. Ele 
codifica uma proteína que é semelhante em estrutura ao HLA 
classe i. O papel da HFE na regulação da absorção de ferro é 
complexo e não é totalmente compreendido. A expressão da 
proteína HFE mutante nos enterócitos do intestino delgado 
leva a uma absorção inapropriada e aumentada do ferro e de 
sua ligação à transferrina, a principal molécula carreadora 
de ferro no sangue. Mas o HFE não é o único responsável, 
e suas interações com outras proteínas, particularmente a 
hepicidina, produzida pelo fígado, gera uma rede de controle 
do metabolismo do ferro que está sendo elucidada aos poucos.
Aparentemente, o HFE e os outros genes que estão envolvi-
dos em formas menos comuns de hemocromatose hereditária 
regulam a hepicidina, o hormônio de ferro produzido pelo 
fígado. A hepicidina normalmente diminui o efluxo de ferro a 
partir dos intestinos e dos macrófagos para o plasma e inibe 
a absorção de ferro. Quando as concentrações de hepicidina 
estão reduzidas, há aumento na absorção de ferro. Camundon-
gos nos quais o gene da hepicidina foi deletado, desenvolvem 
sobrecarga de ferro semelhante à hemocromatose, e camun-
dongos que têm superexpressão de hepicidina desenvolvem 
deficiência grave de ferro, estabelecendo assim o papel princi-
pal da hepicidina em regular a absorção de ferro. Como deve 
ser esperado, as concentrações de hepicidina estão baixas em 
todas as formas genéticas conhecidas de hemocromatose, 
inclusive a forma mais comum causada por mutações no gene 
HFE. As interconexões entre as funções desses vários genes e 
a síntese de hepicidina ainda estão sendo descobertas.
Figura 15-24 Colangite esclerosante primária. Um ducto biliar sofrendo 
degeneração está aprisionado em uma cicatriz concêntrica densa “em 
casca de cebola”.
C A P Í T U L O 15630 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Características Clínicas
Predominante em homens (em uma proporção de 5-7:1), com 
apresentação clínica um pouco mais cedo, parcialmente por 
causa das perdas fisiológicas de ferro (com menstruação ou 
gravidez) que retardam a acumulação de ferro nas mulheres. 
Nas formas mais comuns, causadas pelas mutações no HFE, 
os sintomas geralmente aparecem naquinta e sexta décadas de 
vida nos homens e mais tarde nas mulheres. Com a triagem po-
pulacional, detectou-se que mesmo portadores homozigotos da 
mutação mais comum do HFE (C28Y) têm penetrância variável; 
assim, a progressão da doença é imprevisível.
As principais manifestações incluem hepatomegalia, pig-
mentação da pele (particularmente das áreas expostas ao sol), 
homeostasia descontrolada da glicose ou diabetes melito franco 
devido à destruição das ilhotas pancreáticas, disfunções cardíacas 
(arritmias, miocardiopatia) e artrite atípica. Em alguns pacientes, 
a queixa de apresentação é a perda de libido e impotência. A tríade 
clássica de cirrose com hepatomegalia, pigmentação da pele e diabetes 
melito pode não se desenvolver até tarde no curso da doença. A 
morte pode resultar de cirrose, carcinoma hepatocelular ou car-
diopatia. O tratamento da sobrecarga de ferro não elimina o risco 
para o desenvolvimento de carcinoma hepatocelular, uma vez 
que o dano oxidativo ao DNA produzido pelo ferro é acumulativo 
e irreversível. O risco de carcinoma hepatocelular em pacientes 
com hemocromatose é 200 vezes maior que na população geral.
Felizmente, a hemocromatose hereditária pode ser diagnos-
ticada muito tempo antes que tenha ocorrido um dano tecidual 
irreversível. A triagem envolve a demonstração de níveis muito 
altos de ferro e ferritina séricos, exclusão de causas secundá-
rias de sobrecarga de ferro e biópsia do fígado, se indicada. 
A triagem dos membros da família dos probandos também é 
importante. O curso natural da doença pode ser alterado por 
uma variedade de intervenções, principalmente flebotomia e o 
uso de quelantes de ferro para diminuir o conteúdo corporal 
total de ferro. Os pacientes diagnosticados na fase subclínica, 
pré-cirrótica, e tratados com flebotomia regular têm expectativa 
de vida normal. Os heterozigotos também apresentam leve 
aumento na absorção e acúmulo de ferro.
Doença de Wilson
Essa doença recessiva autossômica é marcada pela acumulação 
de concentrações tóxicas de cobre em muitos tecidos e órgãos, 
principalmente fígado, cérebro e olho. As causas são mutações 
com perda de função no gene ATP7B, e mais de 300 já foram 
identificadas. Esse gene, localizado no cromossomo 13, codifica 
uma ATPase transportadora de íon metálico que se localiza 
no complexo de Golgi dos hepatócitos. Cerca de um em 100 
A hemocromatose hereditária se manifesta tipicamente após 
o acúmulo de 20 g de estoque de ferro. independentemente 
da fonte, o ferro em excesso parece ser diretamente tóxico 
aos tecidos por um dos seguintes mecanismos:
•	 Peroxidação	lipídica	por	meio	de	reação	de	radicais	livres	
catalisadas pelo ferro
•	 Estimulação	da	formação	de	colágeno
•	 Interações	diretas	do	próprio	ferro	com	o	DNA
MORFOLOGiA
As alterações morfológicas na hemocromatose hereditária 
são caracterizadas principalmente por deposição de he-
mossiderina nos seguintes órgãos (em ordem crescente 
de gravidade): fígado, pâncreas, miocárdio, hipófise, glândula 
suprarrenal, glândulas tireoide e paratireoide, articulações e 
pele. No fígado, o ferro torna-se evidente primeiro sob a forma 
de grânulos amarelo-ouro de hemossiderina no citoplasma 
dos hepatócitos periportais, os quais se coram em azul com 
a coloração do azul da Prússia (Fig. 15-25). Com a carga de 
ferro cada vez maior, há comprometimento progressivo do 
resto do lóbulo, juntamente com a pigmentação do epitélio dos 
ductos biliares e células de Kupffer. O ferro é uma hepatotoxina 
direta, e a ausência de inflamação é característica. Nessa fase, o 
fígado é tipicamente ligeiramente maior que o normal, denso e 
castanho-chocolate. Os septos fibrosos se desenvolvem lenta-
mente, ligando os tratos portais uns aos outros e levando, em 
última análise, a um padrão de cirrose no fígado intensamente 
pigmentado (marrom muito escuro a negro).
Em indivíduos normais, o conteúdo de ferro do tecido hepático 
não fixado é menos de 1.000 mg/g de peso seco de fígado. Os 
pacientes adultos com evidências clínicas de hemocromatose he-
reditária exibem acima de 10.000 mg de ferro por grama de peso 
seco; concentrações acima de 22.000 mg de ferro por grama de 
peso seco são associadas ao desenvolvimento de fibrose e cirrose.
O pâncreas torna-se intensamente pigmentado, tem fibrose 
intersticial difusa e pode exibir alguma atrofia parenquimatosa. 
A hemossiderina é encontrada nas células acinares e das ilhotas, 
e às vezes no estroma fibroso intersticial. Muitas vezes, o cora-
ção está aumentado e tem grânulos de hemossiderina dentro 
das fibras miocardíacas. A pigmentação pode produzir notável 
coloração castanha no miocárdio. Pode aparecer delicada fibro-
se intersticial. Embora a pigmentação da pele seja parcialmente 
atribuível à deposição de hemossiderina nos macrófagos e 
fibroblastos dérmicos, a maior parte da pigmentação resulta da 
produção aumentada de melanina na epiderme. A combinação 
desses pigmentos confere uma cor cinza-ardósia característica 
à pele. Com deposição de hemossiderina nos revestimentos 
sinoviais articulares, pode desenvolver-se uma sinovite 
aguda. Há também deposição excessiva de pirofosfato de cálcio, 
que danifica a cartilagem articular e algumas vezes origina uma 
poliartrite incapacitante chamada de pseudogota. Os testícu-
los podem ser pequenos e atróficos, mas normalmente não 
estão pigmentados.
Figura 15-25 Hemocromatose hereditária. A deposição de ferro he-
patocelular é azul nessa lâmina corada com azul da Prússia. A arquitetura 
parenquimatosa é normal.
631Doenças metabólicas hereditárias
indivíduos é portador assintomático, e a incidência populacional 
da doença é de aproximadamente 1:30.000; assim, ela é muito 
menos comum do que a hemocromatose hereditária.
PATOGENIA
A fisiologia normal do cobre envolve a seguinte sequência:
1. Absorção do cobre ingerido (2-5 mg ao dia)
2. Transporte pelo plasma, complexado com albumina
3. Captação hepatocelular, seguida de ligação a uma a2-globu-
lina (apoceruloplasmina) para formar a ceruloplasmina
4. Secreção de ceruloplasmina no plasma, que responde por 
90-95% do cobre plasmático
5. Captação hepática das ceruloplasminas senescentes, des-
sialiladas, a partir do plasma, seguida da degradação lisos-
somal e secreção de cobre livre na bile.
Na doença de Wilson, as primeiras etapas da absorção do 
cobre e o transporte para o fígado são normais. Entretanto, 
sem a atividade da ATP7B, o cobre não pode ser passado para 
apoceruloplasmina e por isso não pode ser excretado na bile, 
a via primária do corpo para eliminação de cobre. 
Assim, o cobre acumula-se progressivamente nos hepatócitos, 
aparentemente causando lesão tóxica por um mecanismo em 
três etapas: (1) promovendo a formação de radicais livres, (2) 
ligando-se aos grupamentos sulfidrila das proteínas celulares 
e (3) deslocando outros metais em metaloenzimas hepáticas.
É geralmente em torno dos cinco anos de idade que o cobre 
não ligado à ceruloplasmina derrama-se do fígado lesado para 
dentro da circulação. O cobre livre gera oxidação e pode levar 
a hemólise. Ele também pode se depositar em muitos ou-
tros tecidos, como cérebro, córneas, rins, ossos, articulações 
e glândulas paratireoides. Concomitantemente, a excreção 
urinária de cobre aumenta de modo acentuado.
MORFOLOGiA
O fígado, frequentemente, suporta o impacto da lesão na doença 
de Wilson, com alterações hepáticas variando de relativamente 
pequenas a dano maciço e mimetizando muitas outras doenças. 
Assim, a doença de Wilson pode mimetizar a doença hepática 
gordurosa, com esteatose leve a moderada, esteato-hepatite e 
mesmo alguns padrões semelhantes de cicatrização. Os padrões 
de hepatite aguda e crônica simulam os da hepatite viral. A 
hepatite aguda, em sua forma mais grave, pode se manifestar 
com insuficiência hepática fulminante. A hepatite crônica pode 
exibir também características de doença hepática gordurosa, 
inclusive com infiltrado mononuclear e hepatite de interface, 
com esteatose, hepatócitos balonizadose contendo corpos 
de Mallory-Denk. Com a progressão da hepatite crônica, a 
cirrose se desenvolverá. A deposição de excesso de cobre 
pode muitas vezes ser demonstrada por colorações especiais 
(p. ex., coloração com rodanina para cobre, coloração com 
orceína para proteína associada a cobre). Uma vez que o cobre 
também se acumula na colestase obstrutiva crônica, e como a 
histologia não é capaz de distinguir confiavelmente a doença de 
Wilson de outras causas de doença hepática, a demonstração 
de conteúdo hepático de cobre excedendo 250 mg/g de peso 
seco é extremamente útil para fazer o diagnóstico.
No cérebro, a lesão tóxica afeta principalmente os gânglios 
basais, particularmente o putâmen, que demonstra atrofia e 
mesmo cavitação. Quase todos os pacientes com comprome-
timento neurológico desenvolvem lesões oculares chamadas 
anéis de Kayser-Fleischer (depósitos verdes a castanhos 
de cobre na membrana de Descemet no limbo da córnea), o 
que justifica a nomenclatura alternativa dessa condição como 
degeneração hepatolenticular.
Características Clínicas
A idade de início e a apresentação clínica da doença de Wilson 
são extremamente variáveis, mas a doença raramente se ma-
nifesta antes dos seis anos de idade ou em pessoas idosas. A 
apresentação mais comum é a doença hepática aguda ou crônica. 
Manifestações neuropsiquiátricas, incluindo alterações compor-
tamentais brandas, psicose franca ou uma síndrome semelhante 
à doença de Parkinson, são os aspectos iniciais na maioria dos 
casos restantes. De forma distinta de todas as outras formas 
de cirrose, o carcinoma hepatocelular é bastante incomum na 
doença de Wilson. A presença de anéis de Kayser-Fleischer ou 
de aumento importante de conteúdo hepático de cobre em in-
divíduo com baixos valores de ceruloplasmina sérica reforça o 
diagnóstico. O reconhecimento precoce e a terapia de quelação 
do cobre em longo prazo (como com D-penicilamina) e sais de 
zinco (que diminuem a captura do cobre no intestino) alteram 
drasticamente o curso usual de deterioração progressiva.
Deficiência de a1-Antitripsina
A deficiência de a1-antitripsina (A1AT) é um transtorno reces-
sivo autossômico marcado por concentrações séricas anor-
malmente baixas desse importante inibidor de proteases. A 
função principal da a1-antitripsina é a inibição de proteases, 
particularmente a elastase de neutrófilos liberada em sítios 
inflamatórios. A deficiência de a1-antitripsina leva ao desen-
volvimento de enfisema pulmonar porque a falta relativa dessa 
proteína permite que enzimas destrutivas dos tecidos operem 
desordenadamente (Capítulo 12). A doença hepática resulta da 
retenção da a1-antitripsina mutante no fígado.
PATOGENIA
A a1-antitripsina é uma pequena glicoproteína plasmática (394 
aminoácidos), sintetizada predominantemente por hepatócitos. 
O gene AAT, localizado no cromossomo 14, é muito polimórfico, 
e pelo menos 75 formas de a1-antitripsina foram identificadas. A 
maioria das variedades alélicas produz concentrações normais 
ou levemente reduzidas de a1-antitripsina sérica. Porém, os 
homozigotos para o alelo Z (genótipo PiZZ) possuem níveis 
circulantes de a1-antitripsina que são apenas 10% do normal. Os 
alelos AAT são autossômicos codominantes e, consequentemen-
te, os heterozigotos PiMZ têm níveis plasmáticos intermediários 
de AAT. O polipeptídeo PiZ contém um único aminoácido subs-
tituído que resulta em dobragem inadequada do polipeptídio 
nascente no retículo endoplasmático do hepatócito. Assim, 
como a proteína mutante não pode ser secretada pelo hepató-
cito, ela se acumula no retículo endoplasmático e deflagra uma 
resposta à proteína mal dobrada, que pode induzir a apoptose 
(Capítulo 1). Curiosamente, todas as pessoas com o genótipo 
PiZZ acumulam a1-antitripsina no fígado, porém apenas 8-20% 
desenvolvem doença hepática clínica. As manifestações podem 
estar relacionadas à tendência genética pela qual os indivíduos 
suscetíveis são menos capazes de degradar a a1-antitripsina 
acumulada no interior de hepatócitos.
C A P Í T U L O 15632 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
MORFOLOGiA
Os hepatócitos na deficiência de a1-antitripsina contêm inclu-
sões globulares citoplasmáticas redondas a ovais, compos-
tas de a1-antitripsina retida, uma glicoproteína que é fortemente 
positiva na coloração de ácido periódico Schiff (Fig. 15-26). 
Na microscopia eletrônica, eles estão no interior do retículo 
endoplasmático agranular e, algumas vezes, no granular. A 
lesão hepática associada à homozigosidade PiZZ pode variar 
desde colestase intensa com necrose de hepatócitos em 
recém-nascidos a cirrose infantil, com hepatite crônica a fogo 
lento ou cirrose que se torna aparente apenas tarde na vida.
Curso Clínico
De todos os recém-nascidos com deficiência de a1-antitripsina, 
10-20% exibem colestase. Em crianças mais velhas, adolescentes 
e adultos, os sintomas de apresentação podem ser relacionados 
a hepatite crônica, cirrose ou doença pulmonar. A doença pode 
permanecer silenciosa até a cirrose aparecer na meia-idade ou 
mais tarde na vida. O carcinoma hepatocelular se desenvolve 
em 2-3% dos adultos com genótipo PiZZ, mas nem sempre no 
contexto da cirrose. O tratamento e a cura da doença hepática 
grave são o transplante ortotópico de fígado.
RESUMO
Doenças Metabólicas Hereditárias
•	 A	hemocromatose	é	caracterizada	pelo	acúmulo	de	ferro	
no fígado, pâncreas, coração, hipófise, articulações e outros 
tecidos. Ela é geralmente causada por mutações no gene 
HFE, que codifica uma proteína que influencia a captação 
intestinal de ferro.
•	 A	doença	de	Wilson	é	resultado	da	acumulação	de	cobre	
no fígado, cérebro e olhos; é causada pela mutação no gene 
para transportador de íons metálicos ATP7B.
•	 A	deficiência	de	a1-antitripsina em indivíduos com genótipo 
PiZZ causa enfisema pulmonar (devido ao aumento da ativi-
dade da elastase) e doença hepática (causada pelo acúmulo 
de a1-antitripsina mal dobrada).
DOENÇAS CIRCULATÓRIAS
Dado o enorme fluxo de sangue através do fígado, não é de 
surpreender que as perturbações circulatórias exerçam conside-
rável impacto sobre ele. Esses transtornos podem ser agrupados 
conforme esteja prejudicado o fluxo sanguíneo para, através ou 
a partir do fígado (Fig. 15-27).
Fluxo Sanguíneo Prejudicado para o Fígado
Comprometimento da Artéria Hepática
Infartos do fígado são raros, graças ao duplo suprimento san-
guíneo para o fígado. A interrupção da artéria hepática prin-
cipal nem sempre produz necrose isquêmica do órgão, devido 
ao fluxo arterial retrógrado através de vasos acessórios e 
do suprimento venoso portal que sustenta o parênquima 
hepático. A única exceção é a trombose da artéria hepática 
em fígado transplantado, que geralmente leva à perda do 
órgão. Trombose ou compressão dos ramos intra-hepáticos 
da artéria hepática por poliarterite nodosa (Capítulo 9), em-
bolia, neoplasia ou sepse pode resultar em infarto local do 
parênquima.
Obstrução e Trombose da Veia Porta
O bloqueio da veia porta extra-hepática pode ser insidioso e bem 
tolerado ou pode ser um evento catastrófico e potencialmente 
letal; a maioria dos casos cai em algum lugar nesse intervalo. 
Doença oclusiva da veia porta ou de seus ramos principais 
tipicamente produz dor abdominal e, na maioria dos casos, 
ascite e outras manifestações de hipertensão portal, principal-
mente varizes esofágicas, que são propensas a romper-se. O 
comprometimento agudo do fluxo sanguíneo visceral leva a 
congestão profunda e a infarto intestinal. A obstrução da veia 
porta extra-hepática pode originar-se de:
Figura 15-27 Distúrbios circulatórios hepáticos. As formas e as manifes-
tações clínicas do fluxo sanguíneo prejudicado são comparadas.
Figura 15-26 Deficiência de a1-antitripsina. Coloração com ácido pe-
riódico-Schiff do fígado, realçando os grânulos citoplasmáticos vermelhos 
característicos.
(Cortesia do Dr. I. Wanless, Toronto General Hospital, Toronto, Ontário, Canadá.)
633Doenças circulatórias
•	 Sepse	peritoneal	(p. ex.,de medusa — pele abdominal
Complicações Devidas à Insuficiência Hepática
Coagulopatia
Encefalopatia hepática
Síndrome hepatorrenal
Hipertensão portopulmonar
Síndrome hepatopulmonar
Tabela 15-2 Avaliação Laboratorial das Doenças do Fígado
Categoria de Testes Medição no Soro*
Integridade dos 
hepatócitos
Enzimas hepatocelulares citosólicas†
Aspartato aminotransferase sérica (AST)
Alanina aminotransferase sérica (ALT)
Lactato desidrogenase sérica (LDH)
Função excretora 
biliar
Substâncias secretadas na bile† 
Bilirrubina sérica 
Total: não conjugada mais conjugada
Direta: conjugada somente
Delta: ligada covalentemente à albumina
Bilirrubina na urina
Ácidos biliares séricos
Enzimas da membrana plasmática 
(por lesão do canalículo biliar) †
Fosfatase alcalina sérica
g-glutamil transpeptidase sérica
59-nucleotidase sérica
Função dos 
hepatócitos
Proteínas secretadas para dentro do sangue
Albumina sérica‡
Tempo de protrombina† (fatores V, VII, X, 
protrombina, fibrinogênio)
Metabolismo dos hepatócitos
 Amônia sérica† 
Teste de exalação com aminopirina 
(desmetilação hepática) ‡ 
Eliminação de galactose (injeção intravenosa) ‡
*Os testes mais comuns estão em itálico.
†Uma elevação significa doença hepática.
‡Uma diminuição significa doença hepática.
tahir99-VRG & vip.persianss.ir
605Síndromes clínicas
insuficiência hepática aguda pode se manifestar por icterícia ou 
encefalopatia hepática, mas os outros sinais clínicos caracterís-
ticos da doença crônica do fígado estão ausentes ao exame físico.
A insuficiência hepática ameaça a vida por uma série de 
razões. O acúmulo de metabólitos tóxicos pode ter uma série 
de efeitos, e os pacientes são altamente suscetíveis à insuficiên-
cia de múltiplos sistemas de órgãos. Assim, insuficiência res-
piratória com pneumonia e sepse combinam-se à insuficiência 
renal para tirar a vida de muitos pacientes com insuficiência 
hepática. Desenvolve-se coagulopatia atribuível à síntese hepática 
prejudicada dos fatores da cascata de coagulação. A tendência 
hemorrágica resultante pode levar a sangramento gastrointes-
tinal maciço, bem como a sangramento em outros locais. A 
absorção intestinal de sangue impõe uma carga metabólica ao 
fígado, o que piora a extensão da insuficiência hepática.
A perspectiva da insuficiência hepática é particularmente 
grave para pessoas com doença crônica do fígado. Evolução 
descendente rápida é usual, com a morte ocorrendo dentro de 
semanas a alguns meses em cerca de 80% dos casos. Cerca de 40% 
dos pacientes com insuficiência hepática aguda podem se recu-
perar espontaneamente. O transplante de fígado na insuficiência 
hepática aguda ou crônica pode ser curativo. As condições que 
contribuem para morbidade acentuada e eventual mortalidade 
associadas à doença hepática grave são discutidas a seguir.
Icterícia e Colestase
A icterícia resulta da retenção da bile. A formação da bile pelo 
fígado serve para duas funções principais. Primeiro, a bile cons-
titui a principal via para eliminação de bilirrubina, colesterol 
em excesso e xenobióticos que são insuficientemente hidros-
solúveis para serem excretados na urina. Segundo, os ácidos 
biliares secretados e as moléculas de fosfolipídios promovem 
a emulsificação da gordura da dieta na luz do tubo digestório. 
A formação da bile é um processo complexo que pode ser facil-
mente interrompido por uma gama de lesões hepáticas. Assim, 
icterícia, a alteração amarela da cor da pele e escleras (icterus), 
ocorre devido à retenção sistêmica de produtos da bilirrubina 
em valores séricos acima de 2,0 mg/dL (o valor normal em 
adultos é abaixo de 1,2 mg/dL). A colestase é definida como a 
retenção sistêmica, não só de bilirrubina, mas de outros solutos 
eliminados na bile (particularmente ácidos biliares e colesterol).
Bilirrubina e Ácidos Biliares
A bilirrubina é o produto final da degradação do heme (Fig. 15-1). A 
maior parte da produção diária (0,2-0,3 g) é derivada da de-
gradação de eritrócitos senescentes pelo sistema fagocítico 
mononuclear, com o restante sendo derivado primariamente 
do metabolismo das hemoproteínas hepáticas. A destruição 
excessiva de progenitores eritroides na medula óssea devido 
à apoptose intramedular (eritropoiese ineficaz) é importante 
causa de icterícia em doenças hematológicas (Capítulo 11). 
Qualquer que seja a fonte, a heme oxigenase oxida o heme a 
biliverdina, que é então reduzida a bilirrubina pela biliverdina 
redutase. A bilirrubina assim formada fora do fígado, no interior 
de células do sistema fagocítico mononuclear (inclusive o baço), 
é liberada para se ligar à albumina sérica. O processamento 
hepático da bilirrubina envolve a seguinte sequência de eventos:
1. Captação mediada por transportador na membrana sinusoidal
2. Ligação à proteína citosólica e entrega ao retículo endoplas-
mático
3. Conjugação com uma ou duas moléculas de ácido glicurônico 
pela bilirrubina UDP-glicuroniltransferase
4. Excreção de glicuronídeos de bilirrubina atóxicos hidros-
solúveis na bile. A maioria dos glicuronídeos de bilirrubina é 
desconjugada por b-glicuronidases bacterianas e degradada 
a urobilinogênios incolores. Os urobilinogênios e o resíduo 
de pigmento intacto são, em grande parte, excretados pelas 
fezes. Aproximadamente 20% dos urobilinogênios formados 
são reabsorvidos no íleo e cólon, retornados ao fígado e pron-
tamente reexcretados na bile. Os ácidos biliares conjugados e 
não conjugados também são reabsorvidos no íleo e retornam 
ao fígado pela circulação êntero-hepática.
Figura 15-1 Metabolismo e eliminação da bilirrubina. 1, A produção 
normal de bilirrubina (0,2-0,3 g/dia) provém principalmente da degra-
dação de eritrócitos circulantes senescentes, com pequena contribuição 
da degradação de proteínas teciduais contendo heme. 2, A bilirrubina 
extra-hepática é ligada à albumina sérica e transportada ao fígado. 3 e 4, 
Captação hepatocelular (3) e glicuronidação (4) pela glicuronosiltransferase 
nos hepatócitos geram monoglicuronídios e diglicuronídios de bilirrubina, 
que são hidrossolúveis e prontamente excretados na bile. 5, Bactérias intes-
tinais desconjugam a bilirrubina e a degradam até urobilinogênios incolores. 
Os urobilinogênios e o resíduo dos pigmentos intactos são excretados nas 
fezes, com alguma reabsorção e reexcreção na bile.
tahir99-VRG & vip.persianss.ir
C A P Í T U L O 15606 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
A colestase, que resulta da retenção do fluxo biliar devido 
a uma disfunção hepatocelular ou a uma obstrução biliar in-
tra-hepática ou extra-hepática, também pode se manifestar como 
icterícia. Entretanto, em alguns casos, o prurido é um sintoma de 
apresentação, sem que a sua patogenia seja conhecida. Xantomas 
cutâneos (acúmulos focais de colesterol) às vezes aparecem, 
resultado de hiperlipidemia e excreção prejudicada de coles-
terol. Um achado laboratorial característico é a fosfatase alcalina sérica 
elevada, uma enzima presente no epitélio dos ductos biliares e na 
membrana canalicular dos hepatócitos. Uma isozima diferente 
de fosfatase alcalina normalmente está presente em muitos 
outros tecidos, como o osso, de modo que a origem hepática 
dos níveis aumentados no soro deve ser verificada. Outras ma-
nifestações do fluxo biliar reduzido são má absorção intestinal, 
incluindo absorção inadequada de vitaminas lipossolúveis A, 
D e K.
A obstrução biliar extra-hepática é frequentemente sus-
cetível de alívio cirúrgico. Em contraste, a colestase causada 
por doenças da árvore biliar intra-hepática ou insuficiência 
secretória hepatocelular (coletivamente chamadas de colestase 
intra-hepática) não pode ser beneficiada por cirurgia (exceto 
transplante), e a condição do paciente pode ser piorada por um 
procedimento operatório. Assim, há certa urgência em se fazer o 
diagnóstico correto da causa da icterícia e colestase.
RESUMO
Icterícia e Colestase
•	 A	icterícia	ocorre	quando	a	retenção	da	bilirrubina	eleva	
os valores séricos acima de 2,0 mg/dL.
•	 A	hepatite	e	a	obstruçãodiverticulite	aguda	ou	apendicite	
levando a pileflebite na circulação esplâncnica)
•	 Pancreatite	que	dá	início	a	trombose	da	veia	esplênica,	a	qual	
se propaga para a veia porta
•	 Doenças	trombogênicas	e	tromboses	pós-cirúrgicas
•	 Invasão	vascular	por	tumor	primário	ou	secundário	no	fígado	
que progressivamente oclui o influxo portal para o fígado (ex-
tensões de carcinoma hepatocelular podem mesmo ocluir a 
veia porta principal)
•	 Síndrome	de	Banti,	na	qual	a	oclusão	subclínica	da	veia	porta	
(como por sepse umbilical neonatal ou cateterismo da veia 
umbilical) produz um canal vascular fibrótico parcialmente 
recanalizado, que se apresenta como esplenomegalia ou 
varizes esofágicas, anos mais tarde
•	 Cirrose,	apesar	de	não	ser	causa	de	obstrução	extra-hepática,	
reduz o fluxo de sangue nas veias porta e, assim, proporciona 
uma condição para a trombose da veia porta extra-hepática
A trombose intra-hepática de uma radícula da veia porta, 
quando aguda, não causa infarto isquêmico, mas em lugar 
disso resulta em área nitidamente demarcada de coloração 
vermelho-azulada (chamada infarto de Zahn). Não há necrose, 
e as únicas mudanças morfológicas são atrofia hepatocelular e 
congestão acentuada nos sinusoides distendidos. A esclerose 
hepatoportal é uma condição crônica, geralmente idiopática 
(talvez autoimune), branda, de esclerose progressiva do trato 
portal levando a influxo venoso portal prejudicado. As causas 
identificáveis incluem distúrbios mieloproliferativos associados 
com hipercoagulabilidade do sangue, peritonite ou exposição 
a arsenicais.
Fluxo Sanguíneo Prejudicado Através do Fígado
A mais comum causa intra-hepática de obstrução do fluxo san-
guíneo é a cirrose, como descrito anteriormente. Além disso, 
a oclusão física dos sinusoides ocorre em um pequeno mas 
notável grupo de doenças. Na anemia falciforme, os sinusoides 
hepáticos tornam-se atulhados de eritrócitos afoiçados, levando 
à necrose parenquimatosa panlobular. A coagulação intravascular 
disseminada (CID) pode causar oclusão dos sinusoides. Isso, em 
geral, não tem consequência, exceto como parte da eclâmpsia, 
na qual a oclusão dos sinusoides periportais e a necrose pa-
renquimatosa podem ocorrer. O subsequente derramamento 
de sangue abaixo da cápsula pode precipitar uma hemorragia 
intra-abdominal fatal.
Congestão Passiva e Necrose Centrolobular
A congestão passiva e a necrose centrolobular são manifes-
tações hepáticas de comprometimento circulatório sistêmico 
consideradas em conjunto por representarem um continuum 
morfológico. A descompensação cardíaca direita leva a conges-
tão passiva do fígado e, se persistente, pode causar necrose cen-
trobular e fibrose perivenular nas áreas de necrose. Na maioria 
dos casos, a única evidência clínica da necrose centrolobular é 
uma pequena elevação dos níveis de aminotransferase sérica, 
apesar de alguns pacientes apresentarem hiperbilirrubinemia e 
fosfatase alcalina elevada.
MORFOLOGiA
Na descompensação cardíaca direita, o fígado está ligeira-
mente aumentado, tenso e cianótico, com bordos arredon-
dados. Microscopicamente, há congestão dos sinusoides 
centrolobulares. Com o tempo, os hepatócitos centro-
lobulares tornam-se atróficos, resultando em cordões de 
células hepáticas acentuadamente atenuados. Uma com-
plicação incomum da congestão crônica prolongada e grave 
é a chamada esclerose cardíaca. O padrão de fibrose é 
típico, uma vez que é predominantemente centrolobular. 
Raramente há o desenvolvimento de septos fibróticos em 
ponte e cirrose.
insuficiência cardíaca esquerda ou choque pode levar a hipo-
perfusão e hipóxia hepáticas. Nesse caso, as duas áreas mais 
dependentes do fluxo arterial (recebendo poucos nutrientes 
pela veia porta) — especificamente os hepatócitos centrolo-
bulares e os ductos biliares — sofrem necrose isquêmica. A 
combinação da hipoperfusão pelo lado esquerdo e congestão 
retrógrada direita age sinergicamente para gerar lesão definida 
centrolobular de hemorragia e necrose (Fig. 15-28). O fígado 
exibe aspecto variado, mosqueado pela necrose, e hemorragia 
centrolobular, alterando-se com palidez mediazonal em um 
aspecto chamado de fígado em noz-moscada pela seme-
lhança com os cortes de uma noz-moscada.
Figura 15-28 Necrose hemorrágica centrolobular (fígado em noz-mos-
cada). A, O corte de fígado, no qual os principais vasos sanguíneos são 
visíveis, é notável por sua aparência variegada, mosqueada, vermelha, 
representando a hemorragia em regiões centrolobulares do parênquima. 
B, Na observação ao microscópio, a região centrolobular é invadida por 
células sanguíneas vermelhas e os hepatócitos não são claramente vistos. 
Os tratos portais e o parênquima periportal estão intactos.
C A P Í T U L O 15634 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Obstrução do Efluxo Venoso Hepático
Trombose da Veia Hepática (Síndrome de Budd-Chiari)
A síndrome de Budd-Chiari resulta da trombose de uma ou mais 
veias hepáticas principais e é caracterizada por hepatomegalia, 
ascite e dor abdominal. A trombose da veia hepática é associa-
da a distúrbios mieloproliferativos primários (especialmente 
policitemia vera), gravidez, período de pós-parto, uso de con-
traceptivos orais, hemoglobinúria noturna paroxística e cânceres 
intra-abdominais, particularmente o carcinoma hepatocelular. 
Todas essas condições produzem tendências trombóticas ou, 
no caso de cânceres de fígado, fluxo sanguíneo lento. Alguns 
casos são causados pela obstrução mecânica do efluxo san-
guíneo, como por um abscesso maciço intra-hepático ou cisto 
parasitário ou por obstrução da veia cava inferior ao nível das 
veias hepáticas por trombo ou tumor. Cerca de 10% dos casos 
são idiopáticos.
Figura 15-30 Síndrome obstrutiva sinusoidal (conhecida oficialmente 
como doença venoclusiva). A veia central está ocluída por células e colá-
geno recém-formado (seta). Há também fibrose nos espaços sinusoidais. O 
tecido fibroso está corado em azul pela coloração do tricromo de Masson.
(Cortesia do Dr. Matthew Yeh, University of Washington, Seattle, Washington.)
Figura 15-29 Síndrome de Budd-Chiari. A trombose das veias hepáticas 
principais causou extrema congestão no fígado.
MORFOLOGiA
Com trombose de desenvolvimento agudo das grandes veias 
hepáticas ou da porção hepática da veia cava inferior, o fígado 
está intumescido e vermelho-púrpura e tem cápsula tensa 
(Fig. 15-29). Microscopicamente, o parênquima hepático 
afetado revela congestão centrolobular grave e necrose. 
A fibrose centrolobular desenvolve-se nos casos em que a 
trombose é de desenvolvimento mais lento. As veias princi-
pais podem conter trombos recentes totalmente oclusivos, 
oclusão subtotal ou, em casos crônicos, trombos aderentes 
organizados.
A mortalidade atribuída à síndrome de Budd-Chiari aguda 
e não tratada é alta. A pronta criação cirúrgica de um desvio 
venoso portossistêmico permite o fluxo inverso através da 
veia porta e melhora consideravelmente o prognóstico; a 
dilatação direta da obstrução caval pode ser possível durante 
a angiografia. A forma crônica dessa síndrome é menos grave, 
e mais de dois terços dos pacientes estão vivos depois de 
cinco anos.
Síndrome de Obstrução Sinusoidal
Descrita originalmente em jamaicanos bebedores de chá 
de erva contendo alcaloide de pirrolizidina, a síndrome de 
obstrução sinusoidal foi chamada formalmente de doença 
venoclusiva. A nova designação indica mais especificamen-
te que a condição é causada pela lesão tóxica do endotélio 
sinusoidal. As células endoteliais danificadas juntam-se e 
esfacelam, levando à formação de um trombo que bloqueia 
o fluxo sinusoidal. O dano endotelial permite a passagem 
de eritrócitos para dentro do espaço de Disse e também a 
proliferação de células estreladas e fibrose dos ramos termi-
nais da veia hepática (Fig. 15-30). A síndrome de obstrução 
sinusoidal ocorre atualmente nos primeiros 20-30 dias após os 
transplantes de medula óssea, afetando 20% dos receptores. 
Acredita-se que a lesão sinusoidal seja causadapor agentes 
quimioterápicos, como ciclofosfamida, actinomicina D e mi-
tramicina, e pela radiação total do corpo, usada nos regimes 
de pré e pós-transplante. A apresentação clínica se asseme-
lha à síndrome de Budd-Chiari e varia de intermediária a 
acentuada. A síndrome de obstrução sinusoidal não resolvida 
após três meses de tratamento pode ser fatal.
RESUMO
Doenças Circulatórias
•	 As	doenças	circulatórias	do	fígado	podem	ser	causadas	
por bloqueio do fluxo sanguíneo para o fígado, defeitos na 
circulação intra-hepática ou obstrução do efluxo sanguíneo.
•	 A	obstrução	da	veia	porta	por	trombose	intra	ou	extra-he-
pática pode causar hipertensão portal, varizes esofágicas e 
ascite.
•	 A	causa	mais	comum	de	bloqueio	na	circulação	intra-hepá-
tica é a cirrose.
•	 A	condição	de	obstrução	do	efluxo	sanguíneo	inclui	 
a trombose da veia hepática (síndrome de Budd-Chiari) e a 
síndrome da obstrução sinusoidal, chamada anteriormente 
de doença venoclusiva.
635Tumores e nódulos hepáticos
OUTRAS DOENÇAS INFLAMATÓRIAS 
E INFECCIOSAS
Abscessos Hepáticos
Nos países em desenvolvimento, os abscessos hepáticos são 
comuns; a maioria resulta de infecções parasitárias por ame-
bas, sendo menos comuns outros organismos protozoários e 
helmintos. Em países desenvolvidos, os abscessos hepáticos 
são mais raros. No Ocidente, os abscessos bacterianos são mais 
comuns, representando complicação de uma infecção primária 
em outro órgão. Os organismos atingem o fígado através de 
uma das seguintes vias:
•	 Infecção	ascendente	no	trato	biliar	(colangite	ascendente)
•	 Semeadura	vascular,	tanto	portal	quanto	arterial,	predomi-
nantemente a partir do trato gastrointestinal
•	 Invasão	direta	do	fígado	a	partir	de	uma	fonte	próxima
•	 Lesão	penetrante
Doenças debilitantes com deficiência imune são uma condição 
comum — por exemplo, idade extremamente avançada, imunos-
supressão ou quimioterapia com insuficiência medular.
Os abscessos hepáticos (bacterianos) podem ocorrer como 
lesões isoladas ou múltiplas, variando em tamanho desde 
poucos milímetros a lesões maciças de muitos centímetros 
de diâmetro. Muitos patógenos podem causar abscessos 
hepáticos piogênicos e, com frequência, mais de um organis-
mo está envolvido. Os agentes bacterianos mais comuns são 
E. coli, Klebsiella pneumoniae, Proteus spp., pseudomonas e 
Streptococcus milleri. Cada vez mais Candida spp. têm sido 
isoladas. Devido à natureza polimicrobiana dos abscessos, 
a identificação dos organismos é importante. As caracterís-
ticas macroscópicas e microscópicas são aquelas de todos os 
outros abscessos: necrose liquefativa com grande quantidade 
de neutrófilos.
Os abscessos hepáticos estão associados a febre e, na maioria 
dos casos, dor no quadrante superior direito e hepatomegalia 
palpável. A icterícia pode ocorrer se houver obstrução biliar. 
A terapia com antibióticos associada a drenagem percutânea 
ou cirúrgica é frequentemente necessária. Se houver atraso no 
tratamento, principalmente em indivíduos com outras com-
plicações graves coexistentes, a taxa de mortalidade associada 
a grandes abscessos hepáticos é de 30-90%. Com o diagnós-
tico precoce e a conduta adequada, mais de 90% dos pacientes 
podem sobreviver.
Doenças Granulomatosas
Os granulomas são comuns no fígado, estando presentes em 
cerca de 10% dos espécimes de biópsias. Eles podem refletir uma 
doença sistêmica ou ser específicos do fígado. A doença granu-
lomatosa pode ser classificada em quatro categorias etiológicas:
•	 “Causa	visível”,	na	qual	o	agente	infeccioso	pode	ser	visuali-
zado com colorações especiais, como fungos ou organismos 
com características ácidas
•	 “Causa	conhecida”,	na	qual	os	organismos	não	podem	ser	
vistos, mas um diagnóstico prévio (p. ex., tuberculose, sarcoi-
dose sistêmica, lesões destrutivas de ductos em cirrose biliar 
primária sabida) explica as lesões
•	 “Causa	suspeita”,	na	qual	a	aparência	do	granuloma	ou	as	
correlações clinicopatológicas indicam a doença de base, tal 
como a necrose caseosa, que sugere fortemente infecção ou 
eosinofilia que indica lesões induzidas por parasitas ou por 
droga ou toxina
•	 “Causa	desconhecida”,	que	contribui	com	10%	dos	granulo-
mas hepáticos, a maioria dos quais é um achado incidental 
sem importância clínica.
Devido à sua natureza infiltrativa, as doenças granulomatosas 
do fígado contribuem para a colestase intra-hepática com eleva-
ção da fosfatase alcalina e g-glutamil-transpeptidase.
TUMORES E NÓDULOS HEPÁTICOS
O fígado e os pulmões compartilham da característica de 
serem os órgãos viscerais mais envolvidos em metástases. 
De fato, os tumores hepáticos mais comuns são carcinomas metas-
táticos, com colón, pulmão e mama encabeçando a lista de 
sítios primários. As neoplasias hepáticas primárias são quase todos 
carcinomas hepatocelulares, com variação drástica em sua in-
cidência em todo o mundo, como discutido a seguir. Os outros 
dois tipos de cânceres hepáticos primários, o hepatoblastoma 
(um tumor hepatocelular da infância) e o angiossarcoma (um 
tumor de vasos sanguíneos associado à exposição ao cloreto 
de vinil e ao arsênico) são muito raros para merecer uma dis-
cussão aqui.
As massas hepáticas podem chamar a atenção por uma va-
riedade de razões. Elas podem gerar enchimento e desconforto 
epigástricos ou ser detectadas por exame físico de rotina. Podem 
ser incidentalmente detectadas por estudos radiográficos com 
outras indicações.
Tumores Benignos
As lesões benignas mais comuns no fígado são os hemangiomas 
cavernosos, que são idênticos àqueles que ocorrem em outras 
partes do corpo (Capítulo 9). Essas massas bem circunscritas 
consistem em canais vasculares delineados por células endote-
liais e um estroma interveniente. Eles aparecem como nódulos 
macios, bem delimitados, vermelho-azulados, geralmente me-
nores que 2 cm em diâmetro, com frequência diretamente abaixo 
da cápsula. Sua principal importância clínica é não confundi-los 
com tumores metastáticos; a sua perfuração em um procedi-
mento de biópsia percutânea cega pode causar sangramento 
intra-abdominal grave.
Os complexos de Von Meyenburg são outros achados benignos 
bem comuns no fígado. Acredita-se que eles sejam hamartomas 
congênitos de ductos biliares, estando normalmente isolados 
ou presentes em pequeno número. Eles são compostos por 
ductos semelhantes aos biliares separados por um estroma 
moderado, densamente colageneizado. Essas lesões não têm 
potencial maligno, mas quando são múltiplas podem indicar a 
presença de doença fibropolicística do fígado, que pode ocorrer 
em associação com certas formas de doença policística dos rins 
(Capítulo 13).
Hiperplasia Nodular Focal
A hiperplasia nodular focal é encontrada com mais frequência 
em fígados normais. É uma lesão localizada, bem delimitada, 
mas mal encapsulada, consistindo em nódulos de hepatócitos 
hiperplásicos com cicatriz central fibrosa e estrelada. Não é um 
neoplasma verdadeiro, mas representa a resposta a um fluxo 
vascular anormal através de uma anomalia vascular congênita 
ou adquirida que origina áreas alternadas de parênquima em 
regeneração e atrofia. A hiperplasia nodular focal pode variar 
C A P Í T U L O 15636 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
de 1 cm a muitos centímetros de diâmetro. Ela geralmente é 
um achado incidental, mais comum em mulheres em idade 
reprodutiva, nas quais pode crescer em resposta aos estrógenos, 
inclusive os de pílula anticoncepcional. Essas lesões não apre-
sentam risco de malignidade, mas podem causar sintomas por 
pressionar a cápsula hepática.
Adenoma de Células Hepáticas
Os adenomas de células hepáticas são neoplasmas hepatocelu-
lares benignos que geralmente ocorrem em mulheres em idade 
fértil que usaram pílulas anticoncepcionais orais e que regridem 
com a descontinuação de seu uso. Geralmente são tumores bem 
delimitados, mas não encapsulados, amarelo-bronze pálidos ou 
de coloração biliar, e atingem até 30 cm em diâmetro (Fig. 15-
31). Ao exame microscópico, os adenomas de célulashepáticas 
são compostos de lâminas e cordões de células que podem as-
semelhar-se aos hepatócitos normais ou ter alguma variação no 
tamanho celular e nuclear. Os tratos portais estão ausentes; em 
seu lugar, proeminentes vasos arteriais e veias drenantes estão 
distribuídos através da substância do tumor. Os adenomas de 
células hepáticas são importantes por três razões: (1) quando se 
apresentam como massa intra-hepática podem ser confundidos 
com o mais ameaçador carcinoma hepatocelular; (2) adenomas 
subcapsulares têm tendência a romper-se, particularmente 
durante a gravidez (sob estimulação estrogênica), causando 
hemorragia intraperitoneal grave e (3) apesar de raramente 
sofrerem transformação maligna, os adenomas que portam 
mutações na b-catenina podem se desenvolver em um carci-
noma hepatocelular.
Os estudos moleculares agora classificam esses tumores em 
três tipos distintos:
•	 35-40%	dos	adenomas	têm	inativação	bialélica	através	de	
mutações somáticas (90%) ou germinativas (10%) do gene 
HNF1A (codifica um fator de transcrição de hepatócitos) 
ou do gene CYP1B1 (codifica o citocromo P-450). Esses 
adenomas são mais comuns em mulheres, algumas vezes 
associados ao uso de pílulas anticoncepcionais orais, e são 
frequentemente amarelos devido a esteatose acentuada. Eles 
carregam pouco risco de transformação maligna.
•	 10-15%	dos	adenomas	têm	mutações	ativadoras	na	b-cateni-
na. Esses apresentam risco elevado de transformação malig-
na, são mais comuns em homens e podem estar relacionados 
ao uso de esteroides anabolizantes e, possivelmente, a doença 
gordurosa não alcoólica.
•	 Mais	de	50%	dos	adenomas	são	inflamatórios,	sendo	as-
sociados com o aumento da expressão de proteínas reativas 
de fase aguda, como a proteína C reativa e a amiloide sérica 
A no tumor, e algumas vezes no soro. Cerca de 10% des-
ses tumores também apresentam mutações ativadoras na 
b-catenina e podem evoluir com transformação maligna. 
Esse tipo de adenoma é mais comum em mulheres e é fre-
quentemente associado com obesidade e doença hepática 
gordurosa. Morfologicamente, esse subgrupo é idêntico aos 
adenomas, e a distinção deve ser feita pela demonstração de 
um fenótipo inflamatório (tal como a expressão no soro da 
proteína amiloide A, SAA).
Lesões Precursoras de Carcinoma Hepatocelular
Apesar de os adenomas de células hepáticas poderem algumas 
vezes ser pré-malignos, eles representam uma via rara para 
a transformação maligna. Os precursores mais comuns são 
alterações celulares e lesões nodulares encontradas no contexto 
de doença hepática crônica, particularmente hepatite viral crô-
nica, doença hepática alcoólica e doenças metabólicas, como a 
deficiência de a1-antitripsina e a hemocromatose hereditária. 
Normalmente, eles estão em estágio avançado da doença, em 
particular quando a cirrose já está bem estabelecida. Porém, 
apesar de frequentemente se dizer que a cirrose é pré-maligna 
per se, isso é impreciso: os processos que levam à cirrose e à 
transformação maligna geralmente levam anos ou décadas 
para se desenvolver e correm paralelamente um ao outro e não 
em sequência.
Displasia Celular
São conhecidas duas formas de displasia hepatocelular, e am-
bas são mais comuns no contexto de hepatite viral crônica. A 
alteração de grandes células consiste em hepatócitos dispersos, 
geralmente na região periportal ou perisseptal, que são maiores 
do que os hepatócitos normais e possuem núcleos pleomórficos 
e, com frequência, múltiplos (Fig. 15-32, A). Apesar de morfo-
logicamente atípicas, não se acredita que essas células estejam 
em via de transformação maligna, mas sejam marcadores de 
alterações moleculares da raiz da lesão crônica que predis-
põe outros hepatócitos morfologicamente normais a evoluir 
para transformação maligna. A alteração de pequenas células é 
caracterizada por hepatócitos menores do que os hepatócitos 
normais com núcleos de tamanho normal, frequentemente 
hipercromáticos, ovais ou angulados. A alteração de pequenas 
células pode aparecer em qualquer lóbulo hepático, frequen-
temente com a formação de conjuntos vagamente nodulares. 
Figura 15-31 Adenoma hepático. A, Espécime de ressecção cirúrgica 
apresentando uma massa distinta abaixo da cápsula hepática com necrose 
hemorrágica (áreas vermelho-escuras). B, Fotomicrografia mostrando o 
adenoma, com cordões de hepatócitos com aparência normal, ausência 
de tratos portais e neovascularização proeminente (asteriscos). Há uma 
grande área de infarto.
(A, Cortesia da Dra. Paulette Bioulac-Sage, Universidade de Bordeaux, Bordeaux, França.)
637Tumores e nódulos hepáticos
Essa forma de displasia é considerada diretamente pré-maligna 
(Fig. 15-32, B).
Nódulos Displásicos
Os nódulos displásicos provavelmente representam a principal 
via para o carcinoma hepatocelular em doença hepática crônica. 
Em fígados cirróticos, os nódulos displásicos são distinguíveis 
por seu tamanho maior: a maioria dos nódulos cirróticos varia 
de 0,3-0,8 cm, mas nódulos displásicos frequentemente têm 
1-2 cm de espessura (Fig. 15-33, A). Estes são crescimentos neo-
plásicos que englobam muitos lóbulos hepáticos adjacentes, sem 
deslocar todos os tratos portais. Essas lesões são de alto risco 
de transformação maligna e de fato, algumas vezes, contêm 
subnódulos claramente malignos (Fig. 15-33, B).
Carcinomas Hepatocelulares
Epidemiologia
Em uma base global, o carcinoma hepatocelular, CHC, conheci-
do erroneamente como hepatoma, constitui aproximadamente 
5,4% dos cânceres, mas sua incidência varia nas diferentes partes 
do mundo. Mais de 85% dos casos ocorrem em países com altas 
taxas de infecção crônica por HBV. As maiores incidências de 
CHC são encontradas em países da Ásia (sudeste da China, 
Coreia e Taiwan) e em países da África subsaariana, nos quais o 
HBV tem transmissão vertical e, como já discutido anteriormen-
te, o estado de portador começa na infância. Além disso, muitas 
populações são expostas à aflatoxina, que, quando combinada 
com a infecção por HBV, aumenta drasticamente o risco de 
carcinoma hepatocelular em comparação com populações não 
infectadas e não expostas; dependendo do estudo, o aumento 
de risco estimado para CHC varia de 23-216 vezes. O pico de 
incidência do carcinoma hepatocelular nessas áreas é entre 30-
40 anos de idade e, em quase 50% dos casos, o tumor aparece 
na ausência de cirrose. Nos países do Ocidente, a incidência 
de carcinoma hepatocelular aumenta rapidamente devido à 
epidemia de hepatite C. Ela triplicou nos Estados Unidos nas 
Figura 15-32 A, Alteração de grande célula. Hepatócitos muito grandes 
com núcleos muito grandes e frequentemente atípicos são dispersos entre 
os hepatócitos de tamanho normal com núcleos redondos e típicos. B, 
Alteração de pequena célula. Os hepatócitos de aparência normal es-
tão no canto direito inferior. A alteração de pequena célula é indicada por 
hepatócitos menores do que o normal e alta relação núcleo:citoplasma.
(A e B, Cortesia do Dr. Young Nyun Park, Yonsei Medical College, Seoul, Coreia do Sul.)
Figura 15-33 A, Cirrose decorrente de hepatite C com grande nódulo 
identificável (setas). O crescimento intranodular desse nódulo displásico 
sugere lesão de alto grau. B, visão histológica da região delimitada pelo 
quadrado pontilhado em A mostra um carcinoma hepatocelular bem 
diferenciado (CHC) (lado direito) e um subnódulo de CHC moderadamen-
te diferenciado no seu interior (centro, esquerda).
(A e B, Cortesia do Dr. Masamichi Kojiro, Kurume University, Kurume, Japão.)
C A P Í T U L O 15638 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
últimas décadas, mas continua a ser 8-30 vezes menor que a 
incidência em alguns países da Ásia. Nas populações do Oci-
dente, o carcinoma hepatocelular raramente se manifesta antes 
dos 60 anos de idade e, em quase 90% dos casos, os tumores 
se desenvolvem no contexto de cirrose. Há preponderância 
evidentemente masculina em todo o mundo, cerca de 3:1 em 
áreas de baixa prevalência, podendo chegar a 8:1 em áreas de 
altaprevalência.
Figura 15-34 Carcinoma hepatocelular bem diferenciado apresentando 
distorções de estruturas normais: lâminas de hepatócitos são marcadamen-
te alargadas e estruturas “pseudoacinares” frequentes (setas) — canalículos 
biliares anormais — geralmente contêm bile.
PATOGENIA
Muitos fatores gerais relevantes para a patogenia do CHC são 
discutidos no Capítulo 5. Somente poucos pontos merecem 
ênfase neste momento.
•	 Três	associações	etiológicas	importantes	foram	estabele-
cidas: infecção por HBv ou HCv, cirrose alcoólica e ex-
posição a aflatoxinas. Nos Estados Unidos, a DHGNA é 
crescente e tem se tornado um fator de risco importante 
para o câncer hepatocelular. Outras condições associadas 
incluem hemocromatose, deficiência de a1-antitripsina e 
tirosinemia.
•	 Muitos	fatores,	incluindo	idade,	sexo,	substâncias	químicas,	
vírus, hormônios, álcool e nutrição, interagem no desenvol-
vimento do CHC. Por exemplo, a doença mais provável de 
desenvolver CHC é a tirosinemia hereditária, uma condição 
rara, na qual quase 40% dos pacientes desenvolvem esse 
tumor.
•	 Em	muitas	partes	do	mundo,	inclusive	no	Japão	e	na	Europa	
Central, a infecção crônica por HCv é o mais importante 
fator de risco para o desenvolvimento do carcinoma hepá-
tico.
•	 Em	certas	regiões	do	mundo,	como	China	e	sudeste	da	
África, especialmente Moçambique, onde o HBv é endê-
mico, alta exposição a aflatoxinas da dieta, derivadas do 
fungo Aspergillus flavus, é comum. Esses carcinogênicos são 
encontrados em grãos “mofados” e amendoim. A aflatoxina 
pode ligar-se covalentemente ao DNA celular, resultando 
em mutações genéticas como o TP53.
Apesar do conhecimento detalhado sobre os agentes etio-
lógicos do CHC, a patogenia do tumor permanece incerta. 
Na maioria dos casos, ele se desenvolve a partir de 
nódulos displásicos de alto grau com pequenas células 
em fígados cirróticos. Esses nódulos podem ser mono-
clonais e conter aberrações cromossômicas similares àquelas 
vistas no CHC. A célula de origem do CHC é um tópico de 
grande discussão. Acredita-se que os tumores se originam 
tanto de hepatócitos quanto de células progenitoras 
(chamadas de células ductulares ou ovais). A distinção 
entre nódulos displásicos de alto grau e um CHC inicial é difícil 
mesmo em biópsias porque não há marcadores moleculares 
específicos para esses estágios. Um critério importante é a 
vascularização do nódulo, que é quase sempre uma indicação 
clara de malignidade.
Uma característica quase universal do carcinoma 
hepatocelular é a presença de anomalias cromos-
sômicas estruturais e numéricas, um indicativo de 
instabilidade genômica. A origem precisa da instabilidade 
genômica nesse tumor não é conhecida, mas vários fatores 
parecem ser importantes:
•	 Inflamação	e	regeneração,	vistos	em	todas	as	formas	de	
hepatite crônica, são tidos como os principais contribuintes 
para as mutações adquiridas no DNA genômico.
•	 Mutações	adquiridas	em	oncogenes	específicos	(como	
b-catenina) e supressores de tumor (TP53) contribuem 
para descontrolar o crescimento e, assim, aumentar a ins-
tabilidade genômica.
•	 Os	defeitos	adquiridos	no	reparo	do	DNA,	particularmente	
aqueles adquiridos no sistema de reparo de quebras da 
dupla fita, também perpetuam danos no DNA e podem 
causar defeitos cromossômicos.
Nem o HBC nem o HCv contêm oncogenes. Já foi menciona-
do que o gene HBV-X tem algum potencial oncogênico (Capítu-
lo 5). A capacidade tumorigênica desses vírus provavelmente se 
relaciona primariamente à sua capacidade de causar inflamação 
crônica e à proliferação celular aumentada.
MORFOLOGiA
O CHC pode aparecer macroscopicamente como (1) massa 
solitária; (2) tumor multifocal, constituído de nódulos de 
tamanhos variados ou (3) câncer difusamente infiltrante, 
permeando amplamente e às vezes comprometendo o fígado 
inteiro, fundido imperceptivelmente para dentro de um fundo 
de fígado cirrótico. Particularmente nos dois últimos tipos, 
pode ser difícil distinguir radiologicamente os nódulos cirró-
ticos regenerativos dos neoplasmas de tamanho semelhante. 
As massas isoladas de tumor são geralmente amareladas, 
pontilhadas algumas vezes por coloração de bile e áreas de 
hemorragia ou necrose. O CHC tem forte propensão a 
invadir canais vasculares. As metástases intra-hepáticas 
extensas são características e, ocasionalmente, longas mas-
sas semelhantes a serpentes de tumor invadem a veia porta 
(com oclusão da circulação portal) ou a veia cava inferior, 
estendendo-se até o lado direito do coração.
Microscopicamente, os CHC variam de bem diferenciados, 
que reproduzem hepatócitos organizados em padrões de 
cordões, trabéculas ou glandulares (Fig. 15-34), a lesões in-
diferenciadas, frequentemente compostas de células gigantes 
multinucleadas altamente anaplásicas. Nos tumores diferen-
ciados e moderadamente bem diferenciados, pode-se 
identificar glóbulos de bile no interior do citoplasma 
das células e nos pseudocanalículos entre as células. 
639Doenças da vesícula biliar
Características Clínicas
Apesar de o CHC poder se manifestar com hepatomegalia 
silenciosa, ele é mais frequentemente encontrado em pessoas 
com cirrose sintomática. Nesses indivíduos, o rápido aumento 
no tamanho do fígado, súbita piora da ascite ou aparência 
de ascite hemorrágica, febre e dor chamam a atenção para o 
desenvolvimento de um tumor. Não há bons testes sorológicos 
de triagem para o carcinoma hepatocelular. O marcador mais 
comumente utilizado é o nível de alfa-fetoproteína sérica, mas 
ele só é elevado em tumores avançados e apenas em 50% dos 
pacientes. Além disso, resultados falsos positivos são obtidos 
em tumores do saco vitelino e em muitas condições não neo-
plásicas, incluindo cirrose, hepatite crônica, gravidez normal 
e necrose hepática maciça. Dessa forma, esse teste não é nem 
específico nem sensível. A triagem radiológica de pacientes com 
cirrose em um intervalo de seis meses procurando por nódulos dis-
plásicos ou carcinomas hepatocelulares iniciais pequenos é a prática 
clínica atual.
O prognóstico de CHC avançado é sombrio. A ressecção 
cirúrgica ou ablação pode ser curativa para uma única lesão 
pequena (mais frequente no caso da variedade fibrolamelar), 
mas não previne o reaparecimento de novos CHC em fígado 
cronicamente doente. Porém, o transplante pode ser curativo. 
Podem ser encontradas inclusões hialinas acidófilas no interior 
do citoplasma, semelhantes a corpos de Mallory. Na maioria 
dos carcinomas hepatocelulares, é visto pouco estroma, o que 
explica a sua consistência macia.
Uma variedade clinicopatológica do CHC é o carcinoma 
fibrolamelar. Ele ocorre em adultos jovens (20-40 anos de 
idade) com igual prevalência entre homens e mulheres, e não 
tem associação com cirrose ou outro fator de risco. Geral-
mente ocorre como tumor único, com bandas fibrosas em 
seu interior, semelhante na sua superfície à hiperplasia nodular 
focal. A variedade fibrolamelar tem prognóstico melhor do que 
as outras variedades, mais comuns.
Sem ressecção, o tempo médio de sobrevida é de sete meses. 
Testes clínicos recentes têm mostrado que o tratamento com 
sorafenibe, um inibidor de tirosina cinase de amplo espectro, 
proporciona algum benefício àqueles com doença avançada. 
Em alguns países, como Taiwan, os programas de imunização 
contra o HBV têm diminuído substancialmente a incidência de 
CHC, demonstrando que medidas preventivas podem aliviar o 
terrível preço dessa doença em regiões endêmicas.
RESUMO
Tumores do Fígado
•	 Os	tumores	malignos	mais	comuns	do	fígado	são	os	car-
cinomas metastáticos, com mais frequência originados de 
colón, pulmão e mama.
•	 A	principal	doença	maligna	primária	é	o	carcinoma	hepato-
celular. Ele é comum em regiões da Ásia e da África, e sua 
incidência é crescente nos Estados Unidos.
•	 Os	principais	agentes	etiológicos	do	carcinoma	hepato-
celular são as hepatites B e C, cirrose alcoólica, hemo-
cromatose e, mais raramente, a tirosinemia e a deficiência 
de a1-antitripsina.
•	 Nas	populaçõesocidentais,	cerca	de	90%	dos	carcinomas	
hepatocelulares se desenvolvem em fígados cirróticos; na 
Ásia, cerca de 50% dos casos se desenvolvem em fígados 
não cirróticos.
•	 A	inflamação	crônica	e	a	regeneração	associada	a	hepatite	
viral podem ser fatores que predispõem ao desenvolvimen-
to de carcinomas.
•	 Os	carcinomas	hepatocelulares	podem	ser	localizados	ou	
multifocais, tender a invadir vasos sanguíneos e recapitular 
a arquitetura hepática normal em graus variados.
DOENÇAS DA VESÍCULA BILIAR E DO TRATO BILIAR EXTRA-HEPÁTICO
As doenças da vesícula biliar e do trato biliar afetam uma parte 
importante da população do mundo. Mais de 95% das doenças 
da vesícula biliar e do trato biliar são atribuíveis à colelitíase 
(cálculos biliares). Nos Estados Unidos, cerca de 2% do orçamento 
nacional de assistência à saúde é gasto com a colelitíase e suas 
complicações. Nesta seção, as doenças da vesícula biliar (coleli-
tíase e colecistite) são discutidas primeiro, seguidas pelas consi-
derações sobre algumas doenças do trato biliar extra-hepático. 
Deve-se ter em mente que as lesões do trato biliar extra-hepático 
podem se estender aos ductos biliares intra-hepáticos e que os 
tumores do trato biliar (colangiocarcinomas) podem ter locali-
zações intra ou extra-hepáticas.
DOENÇAS DA VESÍCULA BILIAR
Colelitíase (Cálculos Biliares)
Os cálculos biliares afligem 10-20% da população adulta nos 
países desenvolvidos, 20-40% nos países da América Latina e 
somente 3-4% nos países asiáticos. Nos Estados Unidos, cerca de 
um milhão de novos casos de cálculos biliares são diagnostica-
dos anualmente, e dois terços das pessoas afetadas se submetem 
a cirurgia, com a retirada de 25-50 toneladas de cálculos! Existem 
dois tipos de cálculos: cálculos de colesterol, contendo monoidrato 
de colesterol cristalino (80% dos cálculos do Ocidente), e cálculos de 
pigmento, contendo sais de cálcio de bilirrubina.
PATOGENIA
A formação da bile é a única via importante para eliminação 
do excesso de colesterol do corpo, tanto como colesterol livre 
quanto como sais biliares. O colesterol torna-se solúvel em água 
pela agregação aos sais biliares e às lecitinas. Quando as concen-
trações de colesterol excedem a capacidade de solubilização da 
bile (supersaturação), o colesterol não pode mais ficar disperso 
e é nucleado em cristais sólidos de monoidrato de colesterol. 
A formação de cálculos de colesterol é acentuada pela hipo-
motilidade da vesícula biliar (estase), que promove a nu-
cleação e a hipersecreção de muco, que consequentemente 
aprisionam os cristais, permitindo sua agregação em cálculos.
A formação de cálculos de pigmentos acontece mais fre-
quentemente na presença de bilirrubina não conjugada na 
C A P Í T U L O 15640 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
árvore biliar, como ocorre nas anemias hemolíticas e infecções 
biliares. Os precipitados são primeiramente sais de cálcio de 
bilirrubina insolúveis.
Os principais fatores de risco para os cálculos biliares es-
tão listados na Tabela 15-8. Mais de 80% dos indivíduos com 
cálculos biliares, entretanto, não apresentam fator de risco 
identificável além da idade e gênero. Alguns comentários sobre 
esses fatores de risco são:
•	 Idade e gênero. A prevalência de cálculos biliares aumenta 
durante toda a vida. Nos Estados Unidos, menos de 5-6% da 
população abaixo dos 40 anos têm cálculos, em contraste 
com 25-30% das pessoas acima dos 80 anos. A prevalência 
em mulheres de todas as idades é duas vezes maior do 
que em homens.
•	 Etnia e geografia. Os cálculos biliares de colesterol têm 
prevalência aproximada de 50-75% em certos grupos de 
nativos americanos — hopi, navajo e pima —, enquanto os 
cálculos de pigmento são raros; a prevalência parece estar 
relacionada a hipersecreção biliar do colesterol.
•	 Hereditariedade. Além da etnia, a história familiar isolada-
mente confere risco aumentado, do mesmo modo que uma 
variedade de erros inatos do metabolismo, como aqueles 
associados a síntese e secreção prejudicadas de sais biliares.
•	 Ambientais. A influência estrogênica, incluindo anticoncep-
cionais orais e gravidez, aumenta a captação e a síntese de 
colesterol, levando à secreção biliar excessiva de colesterol. 
Obesidade, rápida perda de peso e tratamento com o agente 
hipocolesterolêmico clofibrato também estão fortemente 
associados com a secreção aumentada de colesterol.
•	 Transtornos adquiridos. Qualquer condição em que a 
mobilidade da vesícula biliar é reduzida predispõe a cálculos, 
como gravidez, rápida perda de peso e lesão da medula 
espinhal. Na maioria dos casos, porém, a hipomotilidade 
da vesícula biliar ocorre sem causa evidente.
Figura 15-36 Cálculos de pigmento. Diversos cálculos biliares negros 
facetados estão presentes nessa vesícula sem alterações significativas sob 
os demais aspectos, removida de uma paciente com prótese valvular mitral 
mecânica, levando a hemodiálise intravascular crônica.
Tabela 15-8 Fatores de Risco para Cálculos Biliares
Cálculos de Colesterol
Demografia: nordeste da Europa, Américas do Norte e do Sul, Estados 
Unidos (nativos americanos e mexicanos)
Idade avançada
Hormônios sexuais femininos
Gênero feminino
Anticoncepcionais orais
Gravidez
Obesidade e resistência à insulina
Rápida perda de peso
Estase da vesícula biliar
Doenças congênitas do metabolismo de sais biliares
Síndromes de dislipidemia
Cálculos de Pigmento
Demografia: Ásia mais do que Ocidente, rural mais do que urbano
Hemólise crônica (p. ex., anemia falciforme, esferocitose hereditária)
Infecção biliar
Doenças gastrointestinais: doenças do íleo (p. ex., doença de Crohn), 
ressecção ou desvio ileal, fibrose cística com insuficiência pancreática
Figura 15-35 Cálculos de colesterol. A manipulação mecânica durante 
colecistectomia laparoscópica causou fragmentação de vários cálculos 
de colesterol, revelando interiores que são pigmentados em virtude dos 
pigmentos biliares apreendidos. A mucosa da vesícula biliar é avermelhada 
e irregular como resultado de colecistites aguda e crônica coexistentes.
MORFOLOGiA
Os cálculos de colesterol se originam exclusivamente na 
vesícula biliar e consistem em 50-100% de colesterol. Os cálcu-
los de colesterol puro são amarelo-claros, com proporções 
crescentes de carbonato de cálcio, fosfatos e bilirrubina con-
tribuindo para a alteração da cor de branco-acinzentados a negros 
(Fig. 15-35). Eles têm forma ovoide e são firmes; podem ocorrer 
isoladamente, mas com mais frequência múltiplos cálculos estão 
presentes, com superfícies facetadas devido à aposição apertada. 
A maioria dos cálculos de colesterol é radiotransparente; 
suficiente carbonato de cálcio é encontrado, no máximo, 
em 20% dos cálculos para torná-los radiopacos.
Os cálculos de pigmento podem se originar em qualquer 
local da árvore biliar e são classificados como cálculos negros 
e castanhos. Em geral, os cálculos negros são encontrados 
em bile vesicular estéril, enquanto os cálculos castanhos são 
encontrados em ductos intra ou extra-hepáticos infectados. Os 
cálculos contêm sais de cálcio de bilirrubina não conjugada e, 
em quantidades menores, outros sais de cálcio, glicoproteína 
de mucina e colesterol. Os cálculos negros são geralmente de 
tamanho menor, frágeis ao toque e numerosos (Fig. 15-36). 
Os cálculos castanhos tendem a ser únicos ou em pequeno 
641Doenças da vesícula biliar
número, ter consistência mole, semelhante a sabão, que resulta 
da presença de sais de ácidos graxos retidos pela ação das 
fosfolipases bacterianas nas lecitinas biliares. Em virtude dos 
carbonatos e fosfatos de cálcio, aproximadamente 50-75% 
dos cálculos negros são radiopacos. Os cálculos cas-
tanhos que contêm sabões de cálcio são radiotransparentes.
Características Clínicas
Cerca de 70-80% dos indivíduos com cálculos biliares per-
manecem assintomáticos durante toda a vida, com o risco de o 
desenvolvimento de sintomas diminuir ao longo do tempo. Em 
uma minoria, os sintomas são notáveis. Frequentemente há dor,geralmente excruciante, tipicamente localizada no quadrante 
superior direito ou na região epigástrica, e pode ser constante ou, 
menos comumente, espasmódica. Tal dor “biliar” é causada pela 
obstrução da vesícula biliar ou árvore biliar, ou pela inflamação 
da vesícula biliar em si. As complicações mais graves incluem 
empiema, perfuração, fístulas, inflamação da árvore biliar e coles-
tase obstrutiva ou pancreatite. Quanto maior o cálculo, menor a 
probabilidade de ele entrar nos ductos císticos ou colédoco para 
produzir obstrução; os cálculos muito pequenos, ou “areia”, é 
que são mais perigosos. Ocasionalmente, um cálculo grande pode 
erodir diretamente para dentro de uma alça adjacente de intes-
tino delgado, gerando obstrução intestinal (íleo de cálculo biliar).
Colecistite
A inflamação da vesícula biliar pode ser aguda, crônica ou aguda 
superposta à crônica, e quase sempre ocorre em associação com 
cálculos. Nos Estados Unidos, a colecistite é uma das indicações 
mais comuns para cirurgia abdominal. Sua distribuição epide-
miológica ocorre estreitamente paralela à dos cálculos biliares.
MORFOLOGiA
Na colecistite aguda, a vesícula em geral está aumentada e 
tensa, e pode assumir uma alteração de cor vermelho-vivo ou 
manchada, violácea a verde-negro, conferida por hemorragias 
subserosas. A serosa é frequentemente coberta por fibrina e, 
nos casos graves, por um exsudato fibrinopurulento. Em 90% dos 
casos, os cálculos estão presentes, frequentemente obstruindo 
o colo da vesícula biliar ou o ducto cístico. A luz da vesícula biliar 
está cheia de bile enevoada ou turva que pode conter fibrina, 
sangue e pus franco. Quando o exsudato contido é virtualmente 
pus puro, a condição é chamada de empiema da vesícula. Nos 
casos brandos, a parede da vesícula está espessada, edematosa 
e hiperêmica. Nos casos mais graves, ela é transformada em um 
órgão necrótico verde-negro, condição chamada de colecistite 
gangrenosa. Microscopicamente, as reações inflamatórias não 
são distintivas e consistem nos padrões usuais de inflamação 
aguda (p. ex., edema, infiltração leucocitária, congestão vascular, 
formação de abscesso franco ou necrose gangrenosa).
As alterações morfológicas na colecistite crônica são ex-
tremamente variáveis e, às vezes, mínimas. A mera presença de 
cálculos no interior da vesícula, mesmo na ausência de inflama-
ção aguda, frequentemente é tida como justificativa suficiente 
para o diagnóstico. A vesícula pode estar contraída, de tamanho 
normal ou aumentada. As ulcerações não são frequentes; a 
submucosa e a subserosa frequentemente estão espessadas pela 
fibrose. Na ausência de colecistite aguda superposta à crônica, 
os linfócitos murais são os únicos sinais visíveis de inflamação.
Colecistite Calculosa Aguda
A inflamação aguda da vesícula biliar que contém cálculos é 
chamada de colecistite calculosa aguda e é precipitada pela obs-
trução do colo da vesícula biliar ou ducto cístico. É a complicação 
principal e a razão mais comum para a colecistectomia de emergência. 
As manifestações da obstrução podem aparecer subitamente e 
constituir uma cirurgia de emergência. Em alguns casos, os sin-
tomas podem ser brandos e se resolver sem intervenção médica.
A colecistite calculosa aguda é inicialmente o resultado de 
irritação química e inflamação da parede vesicular no contexto 
da obstrução da saída da bile. A ação de fosfolipases, derivadas da 
mucosa, hidrolisa a lecitina biliar para lisolecitina, que é tóxica 
para a mucosa. A camada mucosa de glicoproteína normal-
mente protetora é rompida, expondo o epitélio da mucosa à 
ação detergente direta dos ácidos biliares. As prostaglandinas 
liberadas na parede da vesícula distendida contribuem para 
a inflamação na mucosa e mural. A distensão e o aumento da 
pressão intraluminal também podem comprometer o fluxo 
de sangue para a mucosa. Esses eventos ocorrem na ausência de 
infecção bacteriana; somente depois uma infecção bacteriana 
pode ocorrer.
Colecistite Acalculosa Aguda
Cerca de 5-12% das vesículas removidas por colecistite aguda 
não contêm cálculos. A maioria dos casos ocorre em paciente 
gravemente doente. Algumas das causas mais comuns que 
predispõem à retirada são:
•	 Cirurgia	principal	não	biliar
•	 Trauma	grave	(p. ex.,	por	acidente	automobilístico)
•	 Queimaduras	graves
•	 Sepse
Outros fatores que podem contribuir incluem desidratação, es-
tase da vesícula biliar, comprometimento vascular e, em último 
caso, infecção bacteriana.
Colecistite Crônica
A colecistite crônica pode ser uma sequela de ataques repetidos 
de colecistite aguda, mas em muitas oportunidades ela se de-
senvolve na ausência aparente de ataques antecedentes. Como 
a colecistite aguda, é quase sempre associada à presença de 
cálculos. Porém, não está claro que os cálculos desempenhem 
um papel direto na iniciação da inflamação ou no desenvol-
vimento da dor porque a colecistite acalculosa crônica causa 
sintomas e histologia semelhantes à da forma calculosa. Sem 
dúvida, a supersaturação da bile predispõe a ambas as inflama-
ções crônicas e, na maioria dos casos, à formação de cálculos. 
Microrganismos, usualmente E. coli e enterococos, podem ser 
cultivados da bile em cerca de um terço dos casos. Diversa-
mente da colecistite calculosa aguda, a obstrução da saída da 
vesícula não é um requisito na colecistite crônica. A maioria das 
vesículas removidas em cirurgia eletiva para cálculos biliares 
exibe características de colecistite crônica, tornando plausível o 
pensamento de que os sintomas biliares muitas vezes emergem 
após a coexistência, durante longo prazo, de cálculos biliares e 
inflamação de baixo grau.
Características Clínicas
A colecistite acalculosa aguda apresenta-se com dor biliar que dura 
pelo menos seis horas. A dor é intensa, usualmente constante, 
localizada na região superior do abdome e, frequentemente, 
irradia para o ombro direito. Outros sintomas clássicos são febre, 
náusea, leucocitose e prostração; a presença de hiperbilirrubine-
mia sugere obstrução do ducto biliar comum. A região subcos-
tal direita é acentuadamente sensível e rígida como resultado 
C A P Í T U L O 15642 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
de espasmo dos músculos abdominais; ocasionalmente, uma 
vesícula sensível, distendida, pode ser palpável. O ataque geral-
mente regride espontaneamente em cerca de 1-10 dias; porém, 
a recorrência é comum. Aproximadamente 25% dos pacientes 
sintomáticos estão suficientemente doentes para necessitar de 
intervenção cirúrgica.
Os sintomas que se originam da colecistite acalculosa aguda ge-
ralmente são obscurecidos pelas condições clínicas subjacentes 
graves dos pacientes. O diagnóstico, portanto, repousa sobre o 
alto índice de suspeição.
A colecistite crônica não tem as manifestações notáveis das 
formas agudas e é usualmente caracterizada por ataques recor-
rentes de dor constante epigástrica ou no quadrante superior 
direito. Náusea, vômito e intolerância a alimentos gordurosos 
são acompanhamentos frequentes.
O diagnóstico da colecistite aguda é geralmente baseado na 
detecção de cálculos por ultrassonografia, tipicamente acompa-
nhada de evidência do espessamento da parede da vesícula 
biliar. A colecistite crônica, por sua vez, é diagnosticada pela 
patologia baseada no exame da vesícula ressecada. A atenção a 
essa doença é importante por causa das seguintes complicações 
graves:
•	 Superinfecção	bacteriana	com	colangite	ou	sepse
•	 Perfuração	da	vesícula	e	formação	de	abscesso	local
•	 Ruptura	de	vesícula	com	peritonite	difusa
•	 Fístula	bilioentérica	(colecistoentérica),	com	drenagem	de	
bile para órgãos adjacentes, entrada de ar e bactérias para 
dentro da árvore biliar e, potencialmente, obstrução intestinal 
induzida por cálculo biliar (íleo biliar)
•	 Agravamento	da	doença	clínica	preexistente,	com	descom-
pensação cardíaca, pulmonar, renal ou hepática
DOENÇAS DOS DUCTOS BILIARES 
EXTRA-HEPÁTICOS
Coledocolitíase e Colangite
A coledocolitíase e a colangite são consideradas juntas,uma 
vez que frequentemente andam de mãos dadas. A coledoco-
litíase é a presença de cálculos dentro da árvore biliar. Em 
países ocidentais, quase todos os cálculos do trato biliar são 
derivados da vesícula; na Ásia, há incidência muito mais alta 
de formação primária de cálculos dentro da árvore biliar e in-
tra-hepáticos, geralmente formação de cálculos de pigmentos. 
A coledocolitíase pode não obstruir imediatamente os ductos 
biliares principais; cálculos assintomáticos são encontrados em 
cerca de 10% dos pacientes no momento da colecistectomia 
cirúrgica. Os sintomas são causados devido a (1) obstrução 
biliar, (2) colangite, (3) abscesso hepático, (4) doença hepá-
tica crônica com cirrose biliar secundária ou (5) colecistite 
calculosa aguda.
Colangite é o termo usado para inflamação aguda da pa-
rede dos ductos biliares, quase sempre causada por infecção 
bacteriana da luz, que geralmente é estéril. Pode resultar de 
qualquer lesão que crie obstrução ao fluxo da bile, mais comu-
mente coledocolitíase, e também de uma cirurgia envolvendo 
a árvore biliar. Outras causas são tumores, stents ou cateteres 
de demora, pancreatite aguda e estenoses benignas. As bac-
térias mais provavelmente entram no trato biliar através do 
esfíncter de Oddi, em vez de pela via hematogênica. Colangite 
ascendente se refere à propensão da bactéria, uma vez dentro 
da árvore biliar, a infectar as radículas biliares intra-hepáticas. 
As bactérias comuns são E. coli, Klebsiella, enterococos, Clos-
tridium e Bacteroides. Dois ou mais organismos são encontrados 
na metade dos casos. Em algumas populações do mundo, a 
colangite por parasitos é um problema importante. Os organis-
mos causadores são Fasciola hepatica ou schistossoma na América 
Latina e no Oriente, Clonorchis sinensis ou Opisthorchis viverrini 
no Oriente, e criptosporídio nas pessoas com síndrome da 
imunodeficiência adquirida.
A colangite bacteriana geralmente produz febre, calafrios, 
dor abdominal e icterícia. A forma mais grave de colangite é a 
supurativa, na qual a bile purulenta enche e distende os ductos 
biliares, com risco acentuado de formação de abscesso hepático. 
Uma vez que o risco predominante nos pacientes com colangite 
é a sepse mais do que a colestase, pronta avaliação diagnóstica 
e intervenção são imperativas.
Cirrose Biliar Secundária
A obstrução prolongada da árvore biliar extra-hepática resulta 
em dano profundo ao fígado em si. A causa mais comum de 
obstrução é a colelitíase extra-hepática. Outras condições obs-
trutivas incluem atresia biliar, cânceres da árvore biliar e da 
cabeça do pâncreas e estenoses resultantes de procedimentos 
cirúrgicos prévios. As características morfológicas iniciais da 
colestase já foram descritas e são inteiramente reversíveis com 
a correção da obstrução. Porém, a inflamação secundária resul-
tante da obstrução biliar inicia uma fibrogênese periportal, que 
eventualmente leva a fibrose e formação de nódulos, gerando 
a cirrose biliar secundária.
Atresia Biliar
A atresia biliar é a principal causa de colestase neonatal, con-
tribuindo para um terço dos casos de colestase em crianças e 
ocorrendo em aproximadamente um em 10.000 nascidos vivos. 
A atresia biliar é definida como a obstrução completa do fluxo de 
bile causada pela destruição ou ausência de todo ou parte dos ductos 
biliares extra-hepáticos. É a causa mais frequente de morte por 
doença hepática na primeira infância, e se responsabiliza por 
mais da metade das crianças encaminhadas para transplante 
de fígado.
As características mais evidentes de atresia biliar incluem:
•	 Inflamação	e	estenose	fibrosante	dos	ductos	biliares	hepáticos	
ou comuns
•	 Inflamação	dos	ductos	biliares	intra-hepáticos	principais,	com	
destruição progressiva da árvore biliar intra-hepática
•	 Aspectos	floridos	de	obstrução	biliar	em	biópsia	hepática	
(p. ex., reação ductular, edema de trato portal e fibrose, e 
colestase do parênquima)
•	 Fibrose	periportal	e	cirrose	no	intervalo	de	3-6	meses	após	o	
nascimento
Curso Clínico
Os lactentes com atresia biliar apresentam-se com colestase 
neonatal; há uma leve predominância do sexo feminino. Os 
lactentes afetados exibem peso ao nascer e ganho de peso 
pós-natal normais. As fezes se tornam acólicas à medida que 
a doença se desenvolve. Os achados laboratoriais não dis-
tinguem entre atresia biliar e colestase intra-hepática, mas 
uma biópsia de fígado provê evidência da obstrução do ducto 
643Tumores
biliar em 90% dos casos de atresia biliar. O transplante de 
fígado é o tratamento definitivo. Sem intervenção cirúrgica, 
ocorre a morte geralmente dentro de dois anos após o nas-
cimento.
RESUMO
Doenças da Vesícula Biliar e dos Ductos 
Extra-hepáticos
•	 As	doenças	da	vesícula	biliar	incluem	a	colelitíase	e	a	cole-
cistite aguda e crônica
•	 A	formação	de	cálculos	biliares	é	uma	condição	comum	
nos países do Ocidente. A grande maioria dos cálculos é 
de cálculos de colesterol. Os cálculos de pigmentos que 
contêm bilirrubina e cálcio são mais comuns nos países da 
Ásia.
•	 Os	fatores	de	risco	para	o	desenvolvimento	de	cálculos	
de colesterol são idade avançada, sexo feminino, uso de 
estrógeno, obesidade e hereditariedade.
•	 A	colecistite	quase	sempre	ocorre	em	associação	com	a	
colelitíase, apesar de ocorrer, em cerca de 10% dos casos, 
na ausência de cálculos.
•	 A	colecistite	calculosa	aguda	é	a	razão	mais	comum	para	a	
colecistectomia de emergência.
•	 As	lesões	obstrutivas	dos	ductos	biliares	extra-hepáticos	
em adultos podem originar a infecção ascendente (colan-
gite) e a cirrose biliar secundária.
•	 Os	lactentes	nascidos	com	atresia	biliar	congênita	apresen-
tam-se com colestase neonatal e requerem transplante de 
fígado para cura.
TUMORES
Carcinoma da Vesícula Biliar
Apesar de incomum, o carcinoma da vesícula biliar é o tumor 
maligno mais frequente do trato biliar. Ele é 2-6 vezes mais 
comum em mulheres e ocorre mais frequentemente na sétima 
década de vida. O carcinoma da vesícula biliar é mais frequente 
nas populações do México e Chile, provavelmente devido à 
grande incidência de cálculos biliares nessas regiões. Nos Es-
tados Unidos, a incidência é maior nos hispânicos e nos nativos 
americanos. Apenas raramente é descoberto em um estágio em 
que a ressecção é possível, e a taxa de sobrevida de cinco anos 
é de 5%. Os cálculos biliares estão presentes em 60- 90% dos 
casos. Na Ásia, onde doenças piogênicas e parasitárias da árvore 
biliar são mais comuns, os cálculos biliares são menos impor-
tantes. Provavelmente, vesículas biliares que contêm cálculos 
ou agentes infecciosos desenvolvem câncer como resultado de 
trauma recorrente e inflamação crônica. O papel dos derivados 
carcinogênicos dos ácidos biliares não está claro.
MORFOLOGiA
Cânceres da vesícula biliar podem exibir dois padrões de cres-
cimento: exofítico ou infiltrante. O padrão infiltrante é mais 
comum e usualmente aparece como área pouco definida de 
espessamento e endurecimento difusos da parede vesicular 
que pode cobrir vários centímetros quadrados ou comprome-
ter toda a vesícula. Esses tumores são cirróticos e têm consis-
tência muito firme. O padrão exofítico cresce para dentro 
da luz como massa irregular em couve-flor, mas ao mesmo 
tempo invade a parede subjacente (Fig. 15-37). A maioria é 
adenocarcinoma, pode ser papilar ou pouco diferenciado. 
Cerca de 5% são carcinomas de células escamosas ou ade-
nocarcinomas, e raramente são tumores neuroendócrinos. 
Ao serem descobertos, muitos cânceres da vesícula biliar já 
invadiram o fígado ou se expandiram para os ductos biliares 
ou para os linfonodos hepáticos.
Figura 15-37 Adenocarcinoma de vesícula biliar. A vesícula biliar aberta 
contém um grande tumor exofítico que virtualmente enche a luz.
Características Clínicas
O diagnóstico pré-operatório do carcinoma da vesícula biliar 
é a exceção mais do que a regra, ocorrendo em menos de 20% 
dos pacientes. Os sintomas de apresentação são insidiosos e 
tipicamente indistinguíveis daquelesassociados à colelitíase: 
dor abdominal, icterícia, anorexia, náusea e vômito. O paciente 
afortunado desenvolverá obstrução inicial e colecistite aguda 
ou se submeterá à colecistectomia para os cálculos sintomáticos 
coexistentes, antes de o tumor se disseminar para outros locais.
Colangiocarcinomas
Os colangiocarcinomas são adenocarcinomas que se originam 
dos colangiócitos que revestem os ductos biliares intra e ex-
tra-hepáticos. Os colangiocarcinomas extra-hepáticos cons-
tituem aproximadamente dois terços desses tumores e podem 
se desenvolver no hilo (conhecidos como tumores de Klatskin) 
ou mais distais na árvore biliar. Os colangiocarcinomas ocorrem 
principalmente em indivíduos de 50-70 anos de idade. Uma vez 
que os colangiocarcinomas intra e extra-hepáticos geralmente 
são assintomáticos até atingir um estágio avançado, o prognós-
tico é ruim, e a maioria dos pacientes têm um tumor que não 
pode ser retirado cirurgicamente. Os fatores de risco incluem 
colangite esclerosante primária, doenças fibropolicísticas da 
árvore biliar e infestações por Clonorchis sinensis ou Ophisthorchis 
viverrini.
Todos os fatores de risco para colangiocarcinomas causam 
colestase crônica e inflamação, o que provavelmente promove o 
aparecimento de mutações nos colangiócitos. Muitas alterações 
C A P Í T U L O 15644 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Figura 15-38 Colangiocarcinoma. A, Neoplasma maciço no lobo direito 
e inúmeras metástases permeando o fígado. B, Células tumorais formando 
estruturas glandulares tubulares inseridas em um estroma esclerótico denso.
genéticas consistentes têm sido encontradas nesses tumores, 
inclusive mutações ativadoras nos oncogenes KRAS e BRAF e 
mutações de perda de função no gene supressor de tumor TP53.
MORFOLOGiA
Os colangiocarcinomas são adenocarcinomas típicos com 
glândulas mais ou menos bem formadas acompanhadas de 
estroma fibroso abundante (desmoplasia), conferindo uma 
consistência firme (Fig. 15-38). Os pigmentos biliares e as in-
clusões hialinas estão ausentes das células tumorais, enquanto 
a mucina intracelular pode ser proeminente.
Uma vez que a obstrução parcial ou total dos ductos biliares 
leva rapidamente à icterícia, os tumores biliares extra-hepá-
ticos tendem a ser relativamente menores no momento do 
diagnóstico, enquanto os tumores intra-hepáticos podem 
causar sintomas somente quando uma área muito maior do 
fígado for tomada pelo tumor. Os colangiocarcinomas podem 
se disseminar para sítios extra-hepáticos, como linfonodos 
regionais, pulmões, ossos e glândulas suprarrenais. A invasão 
ao longo dos nervos peribiliares é outra via de disseminação 
para o abdome. O colangiocarcinoma possui maior propensão 
a disseminação extra-hepática do que o carcinoma hepato-
celular.
Características Clínicas
O colangiocarcinoma intra-hepático pode manifestar-se pela 
presença de massa hepática e sinais e sintomas inespecíficos, 
como perda de peso, dor, anorexia e ascite. Os sinais e sintomas 
originados do colangiocarcinoma extra-hepático (icterícia, fezes 
acólicas, náusea, vômitos e perda de peso) resultam da obs-
trução biliar. Achados comumente associados incluem níveis 
séricos elevados de fosfatase alcalina e aminotransferases. A 
ressecção cirúrgica é o único tratamento disponível, mas na 
grande maioria dos casos não é curativo. O transplante é con-
traindicado. A média de sobrevida é de 6 -18 meses, a não ser 
que uma ressecção agressiva ou paliativa seja feita.
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as causas mais comuns da icterícia envolvendo o acúmulo 
de bilirrubina conjugada.
•	 As	anemias	hemolíticas	são	as	causas	mais	comuns	de	icte-
rícia envolvendo o acúmulo de bilirrubina não conjugada.
•	 A	colestase	é	o	bloqueio	do	fluxo	da	bile	resultando	na	
retenção de bilirrubina, ácidos biliares e colesterol.
•	 A	fosfatase	alcalina	sérica	se	encontra	comumente	elevada	
nas condições colestáticas.
Encefalopatia Hepática
A encefalopatia hepática pode progredir rapidamente para 
insuficiência hepática aguda ou insidiosamente com o com-
prometimento gradual na insuficiência hepática crônica até a 
cirrose. Em qualquer um dos quadros, os pacientes com en-
cefalopatia hepática apresentam um espectro de perturbações 
da consciência que variam desde anormalidades comporta-
mentais a acentuada confusão e estupor ao coma profundo e 
morte. Essas alterações podem progredir ao longo de horas ou 
PATOGENIA
No adulto normal, a taxa de produção sistêmica de bilirrubina 
é igual às taxas de captação hepática, conjugação e excreção 
biliar. A icterícia ocorre quando o equilíbrio entre a produção 
e a remoção de bilirrubina é perturbado; as principais doenças 
responsáveis por esse desequilíbrio estão listadas na Tabela 15-
3. Mais de um mecanismo pode operar para causar a icterícia, 
especialmente na hepatite, quando há hiperbilirrubinemia não 
conjugada e conjugada. Na doença grave, os níveis de bilirru-
bina podem atingir 30-40 mg/dL.
Das várias causas de icterícia, as mais comuns são hepatite, 
obstrução do fluxo da bile (discutidos posteriormente neste 
capítulo) e anemia hemolítica (Capítulo 11). Uma vez que a 
maquinaria hepática para conjugar e excretar bilirrubina não 
amadurece completamente até cerca de duas semanas de ida-
de, quase todo recém-nascido desenvolve hiperbilirrubinemia 
não conjugada transitória e branda, chamada de icterícia 
neonatal ou icterícia fisiológica do recém-nascido.
A icterícia também pode resultar de erros inatos do meta-
bolismo, inclusive na:
•	 Síndrome de Gilbert, condição herdada relativamente 
comum (7% da população), benigna, um pouco hetero-
gênea, que se apresenta com hiperbilirrubinemia branda, 
flutuante. A causa primária é a redução nos níveis hepáticos 
de glicuronosiltransferase atribuída à mutação no seu gene 
codificante; os polimorfismos nesse gene parecem ser res-
ponsáveis pela expressividade variável da doença. A hiper-
bilirrubinemia não está associada a morbidade.
•	 Síndrome de Dubin-Johnson, que resulta de um defeito 
hereditário autossômico recessivo na excreção hepatoce-
lular de glicuronídeos de bilirrubina através da membrana 
canalicular. Os indivíduos afetados apresentam hiperbilirru-
binemia conjugada. Além de apresentarem o fígado escura-
mente pigmentado (devido a polímeros de metabólitos de 
epinefrina, não à bilirrubina) e hepatomegalia, os pacientes 
não possuem problemas funcionais.
Tabela 15-3 Principais Causas da Icterícia
Hiperbilirrubinemia Predominantemente não Conjugada
Produção Excessiva de Bilirrubina
Anemias hemolíticas
Reabsorção de sangue de hemorragias internas (p. ex., sangramento do 
trato alimentar, hematomas)
Síndromes de eritropoiese ineficaz (p. ex., anemia perniciosa, talassemia)
Captação Hepática Reduzida
Interferência de drogas com sistemas de transporte na membrana
Doença hepatocelular difusa (p. ex., hepatite viral ou induzida por drogas, 
cirrose)
Conjugação Prejudicada da Bilirrubina
Icterícia fisiológica do recém-nascido
Hiperbilirrubinemia Predominantemente Conjugada
Excreção Hepatocelular Diminuída
Deficiência de transportadores na membrana canalicular
Disfunção da membrana canalicular induzida por drogas (p. ex., 
contraceptivos orais, ciclosporina)
Dano ou toxicidade hepatocelular (p. ex., hepatite viral ou induzida por 
drogas, nutrição parenteral total, infecção sistêmica)
Fluxo Biliar Intra ou Extra-hepático Prejudicado
Destruição inflamatória de ductos biliares intra-hepáticos (p. ex., cirrose 
biliar primária, colangite esclerosante primária, doença do enxerto versus 
hospedeiro, transplante de fígado); cálculos e carcinoma do pâncreas.
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607Síndromes clínicas
dias na insuficiência hepática fulminante ou gradativamente 
em paciente com função hepática marginal por hepatopatia 
crônica. Os sinais neurológicos flutuantes associados incluem 
rigidez, hiper-reflexia, alterações eletroencefalográficas ines-
pecíficas e, raramente, convulsões. Particularmente carac-
terístico é o asterixe (também chamado de tremores das ex-
tremidades), no qual há movimentos rápidos, arrítmicos, de 
extensão-flexão da cabeça e das extremidades, mais bem vistos 
quando os braços são mantidos em extensão com os punhos 
dorsiflexionados.
Na grande maioria dos casos, há apenas pequenas alterações 
morfológicas no cérebro, como edema e uma reação astrocíti-
ca. Dois fatores parecem ser importantes para a gênese dessa 
doença:
•	 Grave	perda	de	função	hepatocelular
•	 Desvio	do	sangue	da	circulação	portal	para	a	circulação	sis-
têmica ao redor do fígado cronicamente lesionado
No quadro agudo, uma elevação na amônia circulante, que 
impede a função neuronal e promove um edema cerebral ge-
neralizado, parece ser o evento-chave. No quadro crônico, a 
produção desequilibrada de neurotransmissores, particular-
mente nos sistemas monoaminérgicos, opioidérgicos, ácido 
g-aminobutírico (GABA)-érgico e endocanabinoide levam a 
disfunção neuronal.
Cirrose
A cirrose é uma das 10 maiores causas de morte no mundo 
ocidental. Suas principais causas são infecções virais crônicas 
e esteato-hepatite alcoólica e não alcoólica (NASH), doenças 
autoimunes que afetam os hepatócitos e/ou canalículos biliares 
e sobrecarga de ferro. A cirrose é definida como um processo difuso 
caracterizado por fibrose e pela conversão da arquitetura hepática 
normal em nódulos estruturados anormais. Suas principais carac-
terísticas por definição não são focais, mas envolvem a maioria 
(se não todo) o fígado afetado e incluem:
•	 Septos fibrosos na forma de faixas delicadas ou cicatrizes largas 
ao redor de múltiplos nódulos adjacentes. A fibrose dissemi-
nada é geralmente irreversível enquanto a doença persis-
tir ou se as alterações vasculares relacionadas à doença são 
disseminadas, porém com a cessação da lesão causal pode 
ocorrer regressão da fibrose.
•	 Nódulos parenquimatosos, com diâmetros variando de muito 
pequenos (menores que 3 mm em diâmetro — micronódu-
los) a grandes (maiores que 1 cm — macronódulos), são 
circundados por septos fibrosos. Os hepatócitos nesses 
nódulos têm duas origens: (1) hepatócitos preexistentes, 
que no momento do estabelecimento da cirrose já apresen-
tavam sinais replicativos de senescência; e (2) hepatócitos 
recém-originados capazes de replicação, que são derivados 
de células progenitoras encontradas nas adjacências do canal de 
Hering e dos pequenos canalículos biliares — o ninho 
de células-tronco hepatobiliares. Essas células progenitoras 
também dão origem às reações ductulares, encontradas na 
periferia da maioria dos nódulos cirróticos, onde o parên-
quima encontra a cicatriz estromal, e são acompanhados 
por células endoteliais em proliferação, miofibroblastos e 
células inflamatórias.
A única classificação satisfatória para a cirrose é baseada na 
etiologia subjacente presumida. Depois que todas as categorias 
de cirrose de causa conhecida forem excluídas, ainda restam 
cerca de 10% dos casos, que são chamados de cirrose cripto-
gênica, apesar de nos últimos anos ter sido mostrado que a 
PATOGENIA
Três processos são essenciais para a patogenia da 
cirrose: morte dos hepatócitos, deposição de matriz 
extracelular e reorganização vascular.
As alterações no tecido conjuntivo e na matriz extracelular 
(MEC) são comuns a todas as formas de cirrose. No fígado 
normal, a MEC consistindo em fibras colagenosas intersticiais 
(colágenos tipos i, iii, v e xi) está presente somente na cápsula 
hepática nos tratosportais e ao redor das veias centrais. Os 
hepatócitos não apresentam membrana basal propriamente 
dita; em vez disso, uma delicada trama contendo colágeno 
tipo iv e outras proteínas ocupa o espaço entre as células 
endoteliais sinusoidais e os hepatócitos (espaço de Disse). De 
forma distinta, na cirrose, os colágenos tipos i e iii e outros 
componentes da MEC são depositados no espaço de Disse 
(Fig. 15-2).
A principal fonte de colágeno na cirrose são as células estre-
ladas perissinusoidais (chamadas de células de ito), que ocupam 
o espaço de Disse. Apesar de funcionarem normalmente como 
células de reserva de vitamina A, durante o desenvolvimento da 
fibrose elas são ativadas e transformadas em miofibroblastos. 
Acredita-se que o estímulo para a ativação das células estrela-
das e para a produção de colágeno inclua espécies reativas de 
oxigênio, fatores de crescimento e citocinas, como fator de ne-
crose tumoral (TNF), interleucina 1 (iL-1) e as linfotoxinas, que 
podem ser produzidas por hepatócitos lesionados ou células 
de Kupffer ativadas e pelas células endoteliais sinusoidais. As 
células estreladas ativadas produzem fatores de crescimento, 
citocinas e quimiocinas que podem estimular a sua própria 
proliferação e síntese de colágeno — particularmente, o fator 
de transformação do crescimento b (TGF-b). Os fibroblastos 
portais provavelmente também participam de algumas formas 
de cirrose. Durante o curso de uma doença hepática crônica, a 
fibrose é um processo dinâmico que envolve síntese, deposição 
e reabsorção de componentes da MEC, que são modulados 
pelo equilíbrio entre as metaloproteases e os inibidores te-
ciduais de metaloproteases (Capítulo 2). Assim, mesmo no 
estágio avançado, se o processo da doença for alterado ou 
eliminado, pode ocorrer remodelamento significativo e talvez 
até a restauração da função hepática (regressão cirrótica).
Lesões e modificações vasculares também têm papel im-
portante no remodelamento do fígado para o estado cirró-
tico. A inflamação e a trombose de veias portais de artérias 
hepáticas e/ou de veias centrais podem promover zonas 
alternativas de hipoperfusão parenquimatosa, que resultam 
na atrofia do parênquima e hiperperfusão, com regeneração 
compensatória. A principal lesão vascular que contribui para 
defeitos na função hepática é a perda de fenestrações das 
células endoteliais sinusoidais (Fig. 15-2) e o desenvolvimento 
de shunts vasculares entre veia porta-veia hepática e artéria 
hepática-veia porta. Enquanto sinusoides normais têm células 
endoteliais fenestradas que permitem a livre troca de solutos 
entre o plasma e os hepatócitos, a perda de fenestrações e o 
maioria deles se deve a NASH burned-out. Os princípios gerais 
são apresentados a seguir; as características distintivas para 
cada forma de cirrose são discutidas subsequentemente ao se 
tratar de cada doença.
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C A P Í T U L O 15608 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Características Clínicas
Todas as formas de cirrose podem ser clinicamente silenciosas. 
Quando os sintomas aparecem, são tipicamente inespecíficos e 
incluem anorexia, perda de peso, fraqueza e, na doença avan-
çada, debilitação franca. Insuficiência hepática incipiente ou 
manifesta pode desenvolver-se, usualmente precipitada pela 
carga metabólica imposta ao fígado, como pela infecção sis-
têmica ou hemorragia gastrointestinal. A maioria dos casos de 
cirrose fatal envolve um dos seguintes mecanismos:
•	 Insuficiência	hepática	progressiva
•	 Complicação	relacionada	com	hipertensão	portal
•	 Desenvolvimento	de	carcinoma	hepatocelular
espessamento da membrana basal convertem finos sinusoides 
em canais vasculares de alta pressão e grande velocidade, 
sem a devida troca de solutos. Em particular, o movimento 
de proteínas (p. ex., albumina, fatores de coagulação e lipo-
proteínas) entre os hepatócitos e o plasma é acentuadamente 
dificultado. Essas alterações funcionais são agravadas pela 
perda das microvilosidades da superfície dos hepatócitos, 
diminuindo significativamente a sua capacidade de transporte. 
Os shunts vasculares mencionados anteriormente levam a uma 
pressão vascular anormal dentro do fígado e contribuem para 
a disfunção hepática e a hipertensão portal, descritos adiante.
As causas de lesão da célula hepática que dão origem à cir-
rose são variadas e dependem da sua etiologia (viral, alcoólica, 
drogas). Como descrito anteriormente, as células hepáticas nor-
mais são substituídas por nódulos parenquimatosos derivados 
de hepatócitos sobreviventes e de novos hepatócitos gerados 
a partir de células-tronco. As células hepáticas regenerativas 
formam nódulos esféricos confinados por um septo fibroso.
RESUMO
Cirrose
•	 As	três	principais	características	da	cirrose	são:	(1)	com-
prometimento da maior parte ou de todo o fígado, (2) 
pontes de septos fibrosos e (3) nódulos parenquimatosos 
contendo um misto de hepatócitos senescentes e replica-
tivos (frequentemente derivados de células progenitoras).
•	 A	cirrose	geralmente	é	um	processo	final	que	pode	ter	
sido originado de múltiplas causas. As mais frequentes são 
hepatite crônica B e C, e esteato-hepatite não alcoólica. 
As menos frequentes são doenças autoimunes e biliares, e 
condições metabólicas, como a hemocromatose.
•	 As	principais	complicações	da	cirrose	estão	relacionadas	
com diminuição da função hepática, hipertensão portal 
e aumento do risco de desenvolvimento de carcinoma 
hepatocelular.
Hipertensão Portal
A resistência aumentada ao fluxo sanguíneo portal pode desen-
volver-se em uma variedade de circunstâncias pré-hepáticas, 
intra-hepáticas e pós-hepáticas (discutidas adiante). A causa 
intra-hepática dominante é a cirrose, responsabilizada pela maioria dos 
casos de hipertensão portal. Muito menos frequentes são as condi-
ções de hipertensão portal não cirrótica, como a esquistossomose, 
a transformação gordurosa maciça, as doenças granulomatosas 
necrosantes (p. ex., sarcoidose e tuberculose miliar) e as doenças 
que afetam a microcirculação portal, exemplificadas pela hiper-
plasia regenerativa nodular.
Figura 15-2 Fibrose hepática. No fígado normal, o espaço perissinusoidal (espaço de Disse) contém uma delicada rede de componentes da matriz 
extracelular. No fígado fibrótico, as células estreladas são ativadas a produzir uma densa camada de componentes de matriz que é depositada dentro do 
espaço perissinusoidal. A deposição de colágeno bloqueia as fenestrações endoteliais e impede a livre troca de substâncias a partir do sangue. As células 
de Kupffer também são ativadas e produzem citocinas que estão envolvidas na fibrose. Observe que esse esquema não está em escala; na realidade, o 
espaço de Disse é muito mais estreito do que é mostrado na ilustração.
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609Síndromes clínicas
A hipertensão portal na cirrose resulta da resistência au-
mentada ao fluxo portal no nível dos sinusoides e compressão 
das veias hepáticas centrais pela fibrose perivenular e nódulos 
parenquimatosos expansivos. Anastomoses entre os sistemas 
arterial e portal nos septos fibrosos também podem contribuir 
para a hipertensão portal, impondo pressão arterial ao sistema 
venoso hepático de baixa pressão. Outro fator importante na 
causa da hipertensão portal é o aumento do fluxo sanguíneo 
venoso portal resultante da circulação hiperdinâmica. Isso 
é causado pela vasodilatação arterial na circulação esplânc-
nica, resultado primariamente da produção aumentada de 
óxido nítrico (NO) no leito vascular. Ocorre em resposta à 
diminuição da eliminação de DNA bacteriano absorvido pelo 
intestino, que contorna as células de Kupffer devido ao desvio 
de sangue da circulação portal para a circulação sistêmica. 
A presença do DNA bacteriano promove produção elevada 
de NO. As principais consequências clínicas são discutidas a 
seguir (Fig. 15-3).
Ascite
Ascite refere-se à coleção de líquido em excesso na cavidade 
peritoneal. De modo geral, ela se torna clinicamente detectá-vel quando pelo menos 500 mL acumulam-se, porém muitos 
litros podem se acumular e causar distensão abdominal maciça. 
Geralmente, a ascite é um líquido seroso que tem menos de 3 g/
dL de proteína (principalmente albumina). Ainda mais impor-
tante, o gradiente de albumina do soro para a ascite é ≥1,1 g/
dL. O líquido pode conter número escasso de células mesoteliais 
e leucócitos mononucleares. O influxo de neutrófilos sugere 
que há infecção secundária, enquanto a presença de eritrócitos 
indica possível câncer intra-abdominal disseminado. Na ascite 
de longa duração, a filtração de líquido peritoneal através dos 
linfáticos transdiafragmáticos pode produzir hidrotórax, mais 
frequentemente do lado direito.
PATOGENIA
A patogenia da ascite é complexa, envolvendo os seguintes 
mecanismos:
•	 Aumento	do	movimento	do	fluido	intravascular	para	dentro	
do espaço de Disse, causado pela hipertensão sinusoidal e 
pela hipoalbulinemia.
•	 Percolação	do	fluxo	a	partir	do	interstício	hepático	para	
dentro da cavidade peritoneal. O fluxo linfático normal do 
ducto torácico é aproximadamente de 800-1.000 mL/dia. 
Na cirrose, o fluxo linfático hepático pode aproximar-se 
de 20 L/dia, excedendo a capacidade do ducto torácico. A 
linfa hepática é rica em proteínas e pobre em triglicerídeos, 
o que é refletido no líquido ascítico rico em proteína.
•	 Retenção	renal	de	sódio	e	água	devida	ao	hiperaldostero-
nismo secundário (Capítulo 3), a despeito da massa total 
corpórea de sódio maior do que o normal.
Shunts Portossistêmicos
Com a elevação da pressão do sistema portal, desenvolvem-se 
desvios em toda parte onde as circulações sistêmica e portal 
compartilham leitos capilares. Os principais locais são veias em 
torno e dentro do reto (manifestando-se como hemorroidas), 
a junção cardioesofágica (produzindo varizes esofágicas), o 
retroperitônio e o ligamento falciforme do fígado (envolvendo 
colaterais periumbilicais e da parede abdominal). Embora possa 
ocorrer sangramento hemorroidário, ele raramente é maciço 
ou ameaçador à vida. Muito mais importantes são as varizes 
esofagogástricas, que aparecem em 65% dos pacientes com cirrose 
avançada e causam hematêmese maciça e morte em alguns deles 
(Capítulo 14). Raramente, os colaterais da parede abdominal 
aparecem sob a forma de veias subcutâneas dilatadas que se 
estendem do umbigo em direção às margens costais (cabeça de 
medusa).
Esplenomegalia
Congestão de longa duração pode causar esplenomegalia con-
gestiva. O grau de aumento varia amplamente (geralmente 
1.000 g ou menos) e não é necessariamente correlacionado com 
outras características de hipertensão portal. A esplenomega-
lia maciça pode induzir secundariamente uma variedade de 
anormalidades hematológicas atribuíveis ao hiperesplenismo 
(Capítulo 11).
Síndrome Hepatorrenal
A síndrome hepatorrenal geralmente só aparece em doen-
ças hepáticas graves e é marcada pelo desenvolvimento de 
Figura 15-3 Algumas consequências clínicas da hipertensão portal no 
contexto da cirrose. As manifestações mais importantes estão em negrito.
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C A P Í T U L O 15610 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
insuficiência renal sem que haja causas primárias para as 
anormalidades dos rins. Excluídos por essa definição estão 
os danos tóxicos aos rins e ao fígado, como pode ocorrer no 
envenenamento por tetracloreto de carbono ou por cogumelos 
e na toxicidade do cobre da doença de Wilson. Também são 
excluídas as circunstâncias de insuficiência hepática avan-
çada, nas quais o colapso circulatório leva a necrose tubular 
aguda e insuficiência renal. A função renal é prontamente 
restabelecida se a insuficiência hepática for revertida. Apesar 
de a causa exata ser desconhecida, as evidências apontam 
para vasodilatação esplâncnica e vasoconstricção sistêmica, 
promovendo redução grave no fluxo sanguíneo renal, prin-
cipalmente para o córtex.
A síndrome é anunciada pela queda no débito urinário 
e pela elevação dos valores sanguíneos de nitrogênio urei-
co e creatinina. A capacidade de concentrar urina é retida, 
produzindo urina hiperosmolar desprovida de proteínas e 
sedimento anormal, e surpreendentemente pobre em sódio 
(diferentemente do que ocorre na necrose tubular renal). A 
diálise renal e outros tratamentos são as melhores opções 
paliativas para a única cura, o transplante de fígado; porém, 
os receptores de fígados doados que apresentam a síndrome 
hepatorrenal têm taxa de mortalidade elevada nos meses 
seguintes à operação.
Hipertensão Portopulmonar e Síndrome 
Hepatopulmonar
A insuficiência pulmonar na doença hepática crônica é comum 
e pode ser ameaçadora à vida. As causas da lesão hepática 
também podem atingir os pulmões (p. ex., deficiência de a1
-antitripsina, que leva tanto à cirrose quanto ao enfisema). As-
cite, pressão do diafragma para cima e efusões pleurais as-
sociadas à hipertensão portal podem comprometer a capacidade 
pulmonar. Finalmente, alterações no fluxo sanguíneo pulmonar 
decorrentes da insuficiência hepática podem levar a hipertensão 
portopulmonar ou síndrome hepatopulmonar.
A hipertensão portopulmonar é definida como a hiper-
tensão pulmonar arterial associada a doença hepática ou 
hipertensão portal. Apesar de os mecanismos responsáveis 
por essa condição serem desconhecidos, eles parecem en-
volver a hipertensão portal por algum motivo (cirrótico ou 
não cirrótico) e uma excessiva vasoconstrição pulmonar e 
remodelamento vascular, que eventualmente levam à falência 
cardíaca do lado direito; as mais comuns manifestações clínicas 
são dispneia ao esforço e baqueteamento dos dedos, seguidos 
de palpitações e dor no peito.
A síndrome hepatopulmonar está associada à dilatação 
vascular intrapulmonar anormal combinada ao aumento 
do fluxo sanguíneo pulmonar. Desvios do sangue através 
dessas dilatações promovem difusão reduzida do oxigênio, 
originando, assim, a hipoxemia arterial grave com dispneia e 
cianose. A suplementação do oxigênio pode aliviar esses pro-
blemas no início, apesar de a mais grave dilatação vascular 
intrapulmonar ou geração de malformações arteriovenosas 
causar desvio da direita para a esquerda, só parcialmente 
corrigível. Platipneia (respiração mais fácil enquanto deitado 
em comparação à posição sentada ou em pé) e ortodeoxia 
(queda acentuada da saturação arterial de oxigênio com a 
posição em pé) são características patognomônicas da sín-
drome hepatopulmonar.
Pacientes selecionados com hipertensão portopulmonar 
obtiveram algum grau de reversão das funções pulmonares 
comprometidas com o transplante hepático.
DOENÇA HEPÁTICA INDUZIDA 
POR DROGAS OU TOXINAS
Como o principal órgão metabolizador e detoxificador no 
corpo, o fígado está sujeito a dano potencial por uma enorme 
variedade de substâncias químicas farmacêuticas e ambien-
tais. A lesão pode resultar da toxicidade direta, da conversão 
hepática de um xenobiótico em uma toxina ativa ou através de 
mecanismos imunes, usualmente por uma droga ou metabólito 
atuando como hapteno para converter uma proteína celular em 
um imunógeno.
O diagnóstico de uma doença hepática induzida por droga 
ou por toxina deve ser feito levando em consideração a exposi-
ção temporal do dano hepático à droga ou à toxina, e espera-se 
que haja recuperação, se o agente e as outras causas potenciais 
forem retirados. A exposição a uma toxina ou a um agente terapêu-
tico deve sempre ser incluída no diagnóstico diferencial de qualquer 
forma de doença hepática. De longe, o álcool é o principal agente 
que produz lesão tóxica ao fígado; suas características his-
tológicas (mas não clínicas) são compartilhadas com a doença 
gordurosa não alcoólica (DHGNA) e, por isso, são discutidas 
nesta seção.
Uma doença hepática induzida por droga é uma condição 
comum que pode se manifestar de maneira branda ou, muito 
mais seriamente, como insuficiência hepática aguda ou doença 
hepática crônica. Grande número de drogas e produtos químicos 
pode produzir lesão hepática (Tabela 15-4). É importanteter em 
mente que outros compostos que não são sempre lembrados 
como drogas ou medicamentos também podem ser culpados; 
frequentemente, uma anamnese persistente e cuidadosa mostra 
o histórico de pessoas tomando remédios fitoterápicos, suple-
mentos dietéticos, aplicação tópica (p. ex., pomadas, xampu e 
perfumes) e exposições ambientais (p. ex., solventes orgânicos, 
pesticidas e fertilizantes).
Os princípios de lesão por droga e toxina são discutidos no 
Capítulo 7. Aqui é suficiente lembrar que as reações a drogas 
podem ser classificadas como previsíveis ou imprevisíveis (idios-
sincrásicas). Reações previsíveis a drogas ou toxinas ocorrem 
com qualquer um de forma dose-dependente. As reações im-
previsíveis dependem de variações individuais particulares, 
principalmente a propensão a montar uma resposta imune ao 
estímulo antigênico ou a velocidade com a qual o hospedeiro 
metaboliza o agente. Em ambos os casos, a lesão pode ser ime-
diata ou levar meses para se desenvolver.
Uma toxina hepática clássica e previsível é o acetaminofeno, 
agora a maior causa comum de insuficiência hepática aguda que 
necessita de transplante de fígado nos Estados Unidos. O agente 
tóxico não é o acetaminofeno em si, mas os metabólitos tóxicos 
produzidos pelo sistema do citocromo P-450 nos hepatócitos do 
ácino da zona 3 (Fig. 15-4). Uma vez que essas células morrem, 
os hepatócitos da zona 2 os substituem nas funções metabólicas 
e também se tornam lesionados. Em overdoses graves, a zona 
de lesão se estende aos hepatócitos periportais, resultando 
em insuficiência hepática fulminante (Fig. 15-5, A e B). Tanto 
overdoses intencionais como tentativa de suicídio são comuns 
quanto overdoses acidentais. Isso acontece porque a citotoxicida-
de é dependente da atividade do sistema do citocromo P-450, 
que pode ser sobrecarregado por outros agentes ingeridos em 
combinação com o acetaminofeno, como álcool (cuidado com o 
acetaminofeno como remédio para ressaca) ou codeína, presente 
em alguns comprimidos de acetaminofeno.
Exemplos de drogas que podem causar reações idiossin-
crásicas são a clorpromazina (um agente que causa colestase 
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611Hepatite aguda e crônica
em indivíduos que são lentos para metabolizá-la), o halotano 
(que pode causar hepatite mediada por resposta imunológica 
fatal em algumas pessoas que são expostas a esse anestésico 
em múltiplas ocasiões) e outras drogas, como sulfonamidas, 
a-metildopa e alopurinol. Frequentemente, as reações idiossin-
crásicas a drogas ou toxinas envolvem uma variada combinação 
de citotoxicidade direta e mediada por resposta imunológica 
que promove destruição dos hepatócitos ou dos ductos biliares. 
Os exemplos de toxinas hepáticas são dados em cada categoria 
específica de doença discutida adiante.
RESUMO
Doença Hepática Induzida por Drogas ou Toxinas
•	 As	doenças	hepáticas	induzidas	por	drogas	ou	toxinas	
podem ser previsíveis (intrínsecas) ou imprevisíveis (idios-
sincrásicas).
•	 As	hepatotoxinas	previsíveis	afetam	a	maioria	das	pessoas	
de forma dose-dependente.
•	 As	hepatotoxinas	imprevisíveis	afetam	poucas	pessoas	de	
forma idiossincrásica, com frequência envolvendo a combi-
nação de citotoxicidade direta e lesão mediada por resposta 
imune.
•	 Todo	padrão	de	doença	hepática	pode	ser	causado	por	al-
guma toxina ou droga; portanto, a exposição a esses agentes 
deve ser sempre considerada no diagnóstico diferencial.
•	 Além	da	prescrição	e	dos	remédios	tomados	por	conta	
própria, fitoterápicos, suplementos dietéticos, aplicações 
tópicas e exposição ambiental também podem ser res-
ponsáveis pela hepatotoxicidade.
HEPATITE AGUDA E CRÔNICA
A terminologia de hepatite aguda e crônica pode ser confusa, uma 
vez que o termo hepatite é aplicado a grande número de doenças 
diferentes e formas distintas de lesão do fígado. Por exemplo, 
hepatite é a descrição para padrões histopatológicos específicos 
da lesão hepatocitária associada a inflamação e, quando crônica, 
à cicatriz. As formas aguda e crônica da hepatite podem ser dis-
tinguidas, em parte, pela duração e pelo padrão de lesão celular. 
As hepatites virais também são classificadas de acordo com o 
vírus hepatotrópico causador da hepatite como hepatite A, B, C, D 
e E. Como todas as formas de hepatite, inclusive aquelas devidas 
a vírus, assim como as hepatites induzidas por autoimunidade 
ou por drogas e toxinas, compartilham os mesmos padrões de 
lesão, as descrições gerais são apresentadas primeiro, seguidas 
das correlações clinicopatológicas específicas para cada caso.
MORFOLOGiA
No aspecto macroscópico, o fígado comprometido por hepatite 
aguda branda parece normal ou levemente mosqueado. No caso 
extremo, na necrose hepática maciça, o fígado pode retrair-se 
para 500-700 g e se transformar em um órgão vermelho, flácido, 
coberto por uma cápsula grande demais e enrugada. A distribui-
ção da destruição hepática é extremamente caprichosa: o fígado 
inteiro pode ser comprometido ou apenas áreas aleató-
rias. Ao corte (Fig. 15-5, A), as áreas necróticas têm aparência 
como barro vermelho, mole, com coloração de bile em borrões.
Se os pacientes sobreviverem por mais de uma semana, os 
hepatócitos sobreviventes começam a regenerar (Capítulo 2). 
Tabela 15-4 Diferentes Formas de Lesão Hepática Induzida por Drogas e Toxinas
Padrão de Lesão Hepatocelular Achados Morfológicos Exemplos de Agentes Associados
Colestática Colestase hepatocelular moderada, sem inflamação Contraceptivos e esteroides anabólicos, terapia 
de reposição com estrogênio
Hepatite colestática Colestase com inflamação lobular e necrose; pode 
ocorrer destruição de ducto biliar
Inúmeros antibióticos; fenotiazinas
Necrose hepatocelular Necrose hepatocitária isolada
Necrose submaciça, zona 3
Necrose maciça
Metildopa, fenitoína
Acetaminofeno, halotano
Isoniazida, fenitoína
Esteatose Macrovesicular Etanol, metotrexato, corticosteroides, nutrição 
parenteral total
Esteato-hepatite Microvesicular, corpos de Mallory Amiodarona, etanol
Fibrose e cirrose Fibrose periportal e pericelular Metotrexato, isoniazida, enalapril
Granulomas Granuloma epitelioide não caseoso Sulfonamidas, inúmeros outros agentes
Lesões vasculares Síndrome de obstrução sinusoidal (doença 
venoclusiva): obliteração das veias centrais
Síndrome de Budd-Chiari
Dilatação sinusoidal
Peliosis hepatis: cavidades repletas de sangue, não 
delimitadas por células endoteliais
Altas doses de quimioterapia, chás de arbusto
Contraceptivos orais
Contraceptivos orais, inúmeros outros agentes
Esteroides anabólicos, tamoxifeno
Neoplasias Adenoma hepático
Carcinoma hepatocelular
Colangiocarcinoma
Angiossarcoma
Contraceptivos orais, esteroides anabólicos
Thorotrast
Thorotrast
Thorotrast, cloreto de vinil
De Washington K: Metabolic and toxic conditions of the liver. In Iacobuzio-Donahue CA, Montgomery EA (eds): Gastrointestinal and liver pathology. Philadelphia, Churchill Livingstone, 2005.
C A P Í T U L O 15612 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
Se o arcabouço parenquimatoso for preservado, a regeneração 
ocorre de maneira ordenada, e a arquitetura hepática é res-
taurada. Com destruição mais maciça, a regeneração é de-
sordenada, produzindo massas nodulares de células hepáticas 
por tecido de granulação que eventualmente cicatrizam, par-
ticularmente em pacientes com curso de necrose submaciça.
A aparência externa do fígado na hepatite crônica pode ser 
normal ou incluir evidência externa de cicatrização focal ou, à 
medida que a cirrose se desenvolve, apresentar nodularidade 
disseminada circundada por extensa cicatriz.
As características microscópicas da hepatite aguda e crônica, 
independentemente da causa, estão listadas na Tabela 15-5. De 
forma diferente de outros órgãos, em que a distinção entre a 
inflamação aguda e crônica depende predominantemente do tipo 
de célula inflamatória — neutrófilos na inflamação aguda e mo-
nonucleares na inflamação crônica —, o infiltrado mononuclear 
predomina em todas as fases da maioriadas doenças hepáticas 
porque todas elas envolvem o comprometimento de resposta 
imune mediada por células T. Assim, a distinção entre hepati-
te aguda e crônica é baseada no padrão de lesão celular 
e na gravidade da inflamação, com a hepatite aguda 
frequentemente apresentando menos inflamação e 
mais morte de hepatócitos do que a hepatite crônica.
Tanto a lesão hepatocitária quanto a inflamação, quando 
associadas, podem ser altamente variáveis, a depender da 
etiologia e dos fatores do hospedeiro. A lesão do hepatócito 
assume duas formas. A primeira é a tumefação (baloniza-
ção), que produz células com citoplasma que parece vazio 
e em sequência morrem, se rompem e entram no processo 
de necrose (citólise). As células necróticas parecem ter 
desaparecido, deixando o arcabouço sinusoidal de reticulina 
e colágeno no local; os macrófagos que fagocitam os restos 
celulares indicam o local de desaparecimento. O segundo pa-
drão de morte celular é a apoptose, na qual os hepatócitos 
retraem-se, tornam-se intensamente eosinofílicos e possuem 
núcleos fragmentados; as células T efetoras podem ainda es-
tar presentes na vizinhança imediata. Quando localizadas no 
parênquima externo aos tratos portais, essas características 
são chamadas de hepatite lobular (Fig. 15-6).
Nos casos graves, uma necrose confluente dos hepatócitos 
é vista ao redor das veias centrais (Fig. 15-5, B). Nessas áreas, 
podem ser encontrados restos celulares, fibras reticulinas 
colapsadas, congestão/hemorragia e inflamação em graus 
Figura 15-4 Arquitetura microscópica do parênquima hepático. Tanto 
um lóbulo quanto um ácino estão representados. O lóbulo idealizado 
clássico é representado como um hexágono centrado em torno de uma 
veia central (vC), conhecida como vênula hepática terminal, e tem tratos 
portais em três dos seus ápices. Os tratos portais contêm ramos da veia 
porta (vP), artéria hepática (AH) e sistema de ductos biliares (DB). As 
regiões do lóbulo geralmente são chamadas de periportal, zona média e 
centrolobular, de acordo com suas proximidades aos espaços porta e à veia 
central. Outra forma útil de subdividir a arquitetura hepática é usar o su-
primento sanguíneo como ponto de referência. Usando esse critério, ácinos 
triangulares podem ser identificados. Os ácinos têm na base ramos das veias 
portas que penetram o parênquima (“vasos penetrantes”). Em relação à 
distância do suprimento sanguíneo, o ácino é dividido em zonas 1 (mais 
próxima ao aporte de sangue), 2 e 3 (mais distante do aporte de sangue).
Figura 15-5 A, Necrose maciça, secção sagital do fígado. O fígado é 
pequeno (700 g), com coloração de bile, macio e congesto. B, Necrose 
hepatocelular causada por overdose de acetominofeno. Uma necrose con-
fluente é vista na região perivenular (zona 3) (seta grande). Há pouca in-
flamação. O tecido normal residual é indicado pelo asterisco.
(Cortesia do Dr. Matthew Yeh, University of Washington, Seattle, Washington.)
613Hepatite aguda e crônica
variados. Com o aumento da gravidade desenvolve-se a ne-
crose em ponte central-portal, seguida pelo ainda pior 
colapso do parênquima. Quando a lesão é muito intensa, 
ocorre necrose hepática maciça e insuficiência hepática fulmi-
nante. Em alguns casos, a lesão não é suficientemente grave 
para causar a morte (ou necessitar de transplante de fígado) e 
o fígado sobrevive, apesar das cicatrizes abundantes que subs-
tituem as áreas de necrose confluente. Nesses casos, alguns 
pacientes rapidamente desenvolvem cirrose pós-hepatite.
A inflamação portal na hepatite aguda é mínima ou ausente; 
um denso infiltrado mononuclear portal de constituintes 
variados é a lesão definidora da hepatite crônica (Fig. 15-7). 
Também ocorre com frequência a hepatite de interface, 
distinguível da hepatite lobular pela sua localização na adja-
cência entre o parênquima hepatocelular e o estroma portal 
(ou cicatrizes, quando presentes). A principal característica do 
dano hepático crônico grave é a fibrose. No início, apenas os 
tratos portais exibem fibrose, mas em alguns pacientes, com o 
passar do tempo, septos fibrosos — faixas de densa cicatriz 
— estendem-se entre os tratos portais. Na maioria dos casos 
graves, a fibrose continuada e a formação de nódulos levam 
ao desenvolvimento de cirrose (Fig. 15-8).
Tabela 15-5 Características-chave Morfológicas da Hepatite Viral Aguda 
e Crônica
Hepatite Aguda
Alterações Macroscópicas
Fígado aumentado, avermelhado; esverdeado, se colestático
Alterações Parenquimatosas (Microscópicas)
Lesão dos hepatócitos: tumefação (degeneração em balão)
Colestase: tampões biliares canaliculares
HCV: alteração gordurosa focal branda dos hepatócitos
Necrose dos hepatócitos: células isoladas ou agregadas
Citólise (ruptura) ou apoptose (retração)
Se grave: necrose em ponte (portal-portal, central-central, 
portal-central)
Desarranjo lobular: perda de estrutura normal
Alterações regenerativas: proliferação dos hepatócitos
Alterações reativas das células sinusoidais
Acúmulo de detritos celulares fagocitados nas células de Kupffer
Afluxo de células mononucleares para dentro de sinusoides
Tratos portais
Inflamação: predominantemente mononuclear
Derramamento inflamatório para dentro do parênquima adjacente, 
com necrose dos hepatócitos
Hepatite Crônica
Alterações compartilhadas com a hepatite aguda
Lesão, necrose e regeneração dos hepatócitos
Alterações reativas das células sinusoidais
Tratos portais
Inflamação 
Limitada aos tratos portais ou
Difusão inflamatória para dentro do parênquima adjacente, com 
necrose dos hepatócitos (“hepatite de interface”) ou
Inflamação e necrose em ponte
Fibrose 
Deposição portal ou
Deposição portal e periportal ou
Formação de septos fibrosos em ponte
HBV: hepatócitos “em vidro despolido” (acúmulo de HBsAg)
HCV: proliferação das células epiteliais dos ductos biliares, formação de 
agregados linfoides
HBsAg, antígeno de superfície do vírus da hepatite B; HBV; vírus da hepatite B; HCV, 
vírus da hepatite C.
Figura 15-8 Cirrose resultante de hepatite viral crônica. Observe a 
superfície nodular grosseira do fígado.
Figura 15-6 Hepatite viral aguda mostrando ruptura da arquitetura 
lobular, células inflamatórias nos sinusoides e células apoptóticas (seta).
Figura 15-7 Hepatite crônica mostrando expansão do trato portal com 
denso infiltrado de células mononucleares (seta) e hepatite de interface 
com transbordamento de inflamação para o parênquima (cabeça de seta). 
Um infiltrado linfoide extenso é típico da causa da doença nessa biópsia: 
hepatite C crônica.
C A P Í T U L O 15614 Fígado, Vesícula Biliar e Trato Biliar
A identificação clínica da hepatite crônica frequentemente 
necessita da realização de biópsia hepática, além dos dados 
clínicos e sorológicos. A biópsia hepática é útil para confirmar 
o diagnóstico clínico, excluindo doenças concomitantes comuns 
(p. ex., doença gordurosa do fígado, hemocromatose) e para 
determinar características histológicas associadas ao risco 
elevado de malignidade (p. ex., transformação maligna de 
pequenas e grandes células, descrita mais adiante), graduar 
a extensão da lesão hepatocitária e estadiar a progres-
são da fibrose. Tal graduação e estadiamento são úteis para 
o prognóstico e para a escolha entre as opções terapêuticas.
Hepatite Viral
A hepatite viral é causada principalmente pelos vírus de hepa-
tites A (HAV), B (HBV), C (HCV), D (HDV) e E (HEV). Esses 
vírus e suas infecções possuem características distintas, que 
estão resumidas na Tabela 15-6.
Vírus da Hepatite A
A hepatite A é geralmente uma doença benigna, autolimita-
da, com período de incubação de 2-5 semanas (em média, 28 
dias). O HAV não causa hepatite crônica ou estado de portador. 
Raramente causa hepatite fulminante; a taxa de fatalidade as-
sociada ao HAV ocorre apenas em 0,1%. O HAV ocorre em todo 
o mundo e é endêmico em países com higiene e saneamento 
básico abaixo dos padrões, de modo que as populações nesses 
lugares podem ter anti-HAV detectável na idade de 10 anos.As 
epidemias não são comuns. A doença clínica tende a ser branda 
ou assintomática em crianças, com infecções graves acontecendo 
principalmente em adultos.
O HAV é disseminado pela ingestão de água e alimentos 
contaminados e eliminado nas fezes durante 2-3 semanas antes e 
uma semana após a icterícia. O HAV não é eliminado em quanti-
dade significativa na saliva, na urina ou no sêmen. O contato pes-
soal estreito com indivíduo infectado ou contaminação fecal-oral 
durante esse período é responsável pela maioria dos casos e 
explica os surtos em instituições como berçários e escolas. Uma 
vez que a viremia do HAV é transitória, a transmissão de HAV por via 
sanguínea ocorre apenas raramente; por essa razão, o sangue doado não 
é especificamente triado para esse vírus. Epidemia disseminada por 
água contaminada pode ocorrer em países em desenvolvimento, 
onde as pessoas vivem amontoadas e em condições precárias de 
higiene. Nos países desenvolvidos, infecções esporádicas podem 
ocorrer pelo consumo de crustáceos crus ou cozidos em vapor 
(ostras, mexilhões, mariscos), os quais concentram o vírus a partir 
da água do mar contaminada com esgoto humano.
O HAV é um picornavírus pequeno de RNA monofilamentar, 
desprovido de cápsula. Ele atinge o fígado pelo trato intestinal 
após a ingestão, replica-se em hepatócitos e é disseminado na 
bile e nas fezes. O vírus em si não parece ser tóxico aos hepa-
tócitos e, por isso, a lesão hepática parece ser resultado de um 
dano mediado por células T aos hepatócitos infectados. Como 
mostrado na Figura 15-9, anticorpos tipo imunoglobulina M 
(IgM) contra o HAV aparecem no sangue ao início dos sintomas. 
A detecção do anticorpo IgM anti-HAV é o melhor marcador 
diagnóstico da doença; anticorpos IgG persistem mesmo após a 
convalescença e são a imunidade protetora contra a reinfecção. 
Nos Estados Unidos, a prevalência de soropositividade aumenta 
gradativamente com a idade, atingindo 40% aos 50 anos.
As medidas de prevenção e controle da hepatite A incluem 
(1) cuidados de higiene focados na eliminação de excrementos 
humanos e na higiene pessoal; (2) imunização passiva com soro 
contendo imunoglobulinas para pessoas em áreas de risco de 
infecção (muito jovens, muito idosos ou imunocomprometidos) 
após a exposição ao vírus; e (3) administração de vacina de vírus 
inativado, dada tanto antes (p. ex., antes de viajar para áreas 
endêmicas) quanto logo após a exposição.
Vírus da Hepatite B
O vírus da hepatite B pode produzir:
•	 Hepatite	aguda	com	resolução	e	desaparecimento	do	vírus
•	 Hepatite	fulminante	com	necrose	hepática	maciça
•	 Hepatite	crônica	não	progressiva
•	 Hepatite	crônica	progressiva,	em	alguns	casos	culminando	
em cirrose
•	 Estado	de	portador	assintomático
Tabela 15-6 Os Vírus de Hepatite
Vírus Hepatite A Hepatite B Hepatite C Hepatite D Hepatite E
Tipo de vírus ssRNA Parcialmente 
dsDNA
ssRNA ssRNA circular 
defeituoso
ssRNA
Família do vírus Hepatovírus; relacionado 
com picornavírus
Hepadnavírus Flaviridae Partícula subviral na 
família Deltaviridae
Hepevírus
Rota de transmissão Fecal-oral (alimento ou 
água contaminada)
Parenteral, contato 
sexual, perinatal
Parenteral; o uso 
intranasal de cocaína 
é um fator de risco
Parenteral Fecal-oral
Período de incubação 2-6 semanas 4-26 semanas 2-26 semanas Mesmo que HBV 2-8 semanas
Frequência de doença 
hepática crônica
Nunca 10% ∼80% 5% (coinfecção); 
≤70% para 
superinfecção
Nunca
Diagnóstico laboratorial Detecção de anticorpos 
IgM séricos
Detecção de HBsAg 
ou anticorpo contra 
HBcAg
PCR para RNA 
do HCV; ELISA 
de terceira geração 
para detecção de 
anticorpo
Detecção de 
anticorpos IgM e 
IgG; RNA do HDV 
no soro; HDAg no 
fígado
PCR para RNA do 
HEV; detecção de 
anticorpos IgM e IgG 
séricos
dsDNA, DNA dupla fita; ELISA, ensaio imunoabsorvente de ligação de enzimas; HBcAg, antígeno do cerne do vírus da hepatite B; HBsAg, antígeno da superfície do vírus da hepatite 
B; HBV, vírus da hepatite B; HCV, vírus da hepatite C; HDAg, antígeno do vírus da hepatite D; HDV, vírus da hepatite D; HEV, vírus da hepatite E; IgG, IgM, imunoglobulinas G e M; PCR, 
reação em cadeia de polimerase; ssRNA, RNA de fita simples.
De Washington K: Inflammatory and infectious diseases of the liver. In Iacobuzio-Donahue CA, Montgomery EA (eds): Gastrointestinal and Liver Pathology. Philadelphia, Churchill 
Livingstone, 2005.
615Hepatite aguda e crônica
A doença do fígado induzida por HBV é um importante pre-
cursor para o desenvolvimento de carcinoma hepatocelular. A 
Figura 15-10 mostra as frequências aproximadas dos resultados 
clínicos da infecção por HBV.
Epidemiologia e Transmissão. Globalmente, a doença do fígado 
induzida por HBV constitui um enorme problema, com taxa de 
portadores mundial estimada de 400 milhões. Estima-se que o 
HBV infectou mais de dois bilhões dos indivíduos vivos hoje, 
em algum ponto na vida. Cerca de 80% de todos os portadores 
crônicos vivem na Ásia e na orla do Pacífico Ocidental, onde a 
prevalência de hepatite B crônica é maior que 10%. Nos Estados 
Unidos, existem aproximadamente 185.000 novas infecções por 
ano. O HBV é encontrado no sangue nos últimos estágios de um 
longo período de incubação (4-26 semanas) e durante episódios 
ativos de hepatite aguda e crônica. Ele também está presente 
em todos os fluidos do corpo, fisiológicos ou patológicos, com 
exceção das fezes. O HBV é um vírus resistente e pode suportar 
temperatura e umidade extremas. Assim, embora o sangue e os 
líquidos corporais sejam os principais veículos de transmissão, o 
vírus também pode ser disseminado por contato com secreções 
do corpo, como sêmen, saliva, suor, lágrima, leite materno e 
derrames patológicos. Nas regiões endêmicas, a transmissão 
vertical, da mãe para o recém-nascido durante o parto, constitui 
o principal modo de transmissão. Em áreas de baixa prevalência, 
a transmissão horizontal, via transfusão de sangue, produtos 
sanguíneos, diálise, acidentes com agulhas entre trabalhadores 
da área de saúde e compartilhamento de seringas para uso de 
drogas intravenosas e a transmissão sexual (homossexual ou 
heterossexual) constituem os principais mecanismos de infecção 
por HBV. Em um terço dos pacientes, a fonte de infecção é des-
conhecida. A maioria das infecções em adultos é controlada, 
mas a transmissão vertical produz grande taxa de infecção 
persistente em crianças que não conseguem facilmente con-
trolar a infecção. Pessoas cronicamente infectadas possuem risco 
significativamente elevado de desenvolvimento de carcinoma 
hepatocelular, o que explica a elevada taxa de malignidade nos 
países da Ásia e da orla do Pacífico.
Estrutura e Genoma do HBV. O HBV é um membro dos Hepad-
naviridae, uma família de vírus de DNA que causa hepatite em 
múltiplas espécies animais. A replicação do HBV não envolve 
a integração do DNA viral no DNA da célula hospedeira, mas 
o vírus integrado é frequentemente encontrado nas células. Os 
vírus integrados geralmente apresentam grandes deleções e 
rearranjos, e normalmente se tornam inativos. O genoma do 
HBV é uma molécula de DNA circular de fita dupla com 3.200 
nucleotídeos que codifica:
•	 A	região	do	pré-core/core de uma proteína central (core) do 
nucleocapsídeo, o antígeno central da hepatite B (HBcAg) e 
uma proteína pré-core designada antígeno “e” da hepatite 
Figura 15-9 Sequência de marcadores sorológicos na hepatite A aguda. 
HAv, vírus da hepatite A. Não há testes de rotina disponíveis para igG 
anti-HAv; desse modo, a presença desse anticorpo é inferida a partir da 
diferença entre anticorpos total e o igM-HAv.
Figura 15-10 Resultados potenciais da infecção pelo vírus da hepatite B em adultos, com suas frequências anuais aproximadas nos Estados Unidos. *A 
taxa estimada de recuperação da hepatite crônica é de 0,5-1% ao ano. **O risco de carcinoma hepatocelular é de 0,02% ao ano para hepatite B crônica 
e 2,5% ao ano para os casos com desenvolvimento de cirrose.
C A P Í T U L O 15616 Fígado, Vesícula Biliare Trato Biliar
B (HBeAg). O HBcAg é retido no hepatócito infectado; o 
HBeAg é secretado no sangue e essencial para o estabeleci-
mento de uma infecção persistente.
•	 Glicoproteína	do	envelope,	o	antígeno de superfície da 
hepatite B (HBsAg), que pode ser produzido e secretado 
no sangue em grande quantidade. O HBsAg sanguíneo é 
imunogênico.
•	 Uma	DNA polimerase com atividade de transcriptase reversa 
que gera mutações nos genomas dos vírus replicativos em 
alta proporção.
•	 Uma	proteína	da	região	X,	o	HBV-X, que age como tran-
sativador transcricional para muitos genes virais e do hos-
pedeiro através da interação com vários fatores de trans-
crição.	O	HBV-X	é	necessário	para	a	infectividade	viral	
e deve ter um papel no desenvolvimento do carcinoma 
hepatocelular por regular a expressão e a degradação de 
p53 (Capítulo 6).
Curso Clínico
Após a exposição ao vírus, há um longo e assintomático período 
de incubação, que pode ser seguido por doença aguda que dura 
muitas semanas a meses. O curso natural da doença aguda pode 
ser monitorado usando marcadores sorológicos (Fig. 15-11):
•	 O	HBsAg	aparece	antes	do	surgimento	dos	sintomas,	tem	
um pico durante a doença franca e então declina para níveis 
indetectáveis em 3-6 meses.
•	 O	anticorpo	anti-HBs	não	se	eleva	até	que	a	doença	aguda	
tenha surgido e, geralmente, não é detectável durante poucas 
semanas a muitos meses após o desaparecimento do HBsAg. 
O anti-HBs pode persistir por toda a vida, conferindo imu-
nidade; essa é uma das bases para a estratégia de vacinação 
atual, usando HBsAg não infeccioso.
•	 HBeAg,	HBV-DNA	e	a	DNA	polimerase	aparecem	no	soro	
logo após o HBsAg e todos significam replicação viral ativa. 
A persistência do HBeAg é um importante indicador de re-
plicação viral contínua, infectividade e provável progressão 
para hepatite crônica. O aparecimento de anticorpos anti-HBe 
significa que a infecção aguda atingiu seu ápice e a doença 
está regredindo.
•	 A	IgM	anti-HBc	se	torna	rapidamente	detectável	no	soro	
antes do surgimento dos sintomas, concomitantemente ao 
início da elevação das aminotransferases séricas (indicativo 
de destruição hepatocitária). No decorrer dos meses, o anti-
corpo IgM anti-HBc é substituído pelo IgG anti-HBc. Como 
no caso do anti-HAV, não há nenhum teste específico para 
o IgG anti-HBc, mas a sua presença é inferida pelo declínio 
da IgM anti-HBc em relação aos valores totais crescentes de 
anti-HBc.
Em certos casos, surgem cepas mutantes de HBV que não 
produzem HBeAg, mas elas conseguem se replicar e expres-
sam HBcAg (mais de 30% no Mediterrâneo e cerca de 20% 
nos Estados Unidos). Em pacientes infectados com essa cepa 
mutante, a HBeAg deve ser muito baixa ou indetectável, mesmo 
na presença da carga viral do HBV. Outro desenvolvimento 
desfavorável é o surgimento de vírus resistentes à imunida-
de induzida pela vacinação. Por exemplo, a substituição do 
aminoácido arginina na posição 145 do HBsAg por glicina 
altera significativamente o reconhecimento do HBsAg pelos 
anticorpos anti-HBsAg.
A imunidade inata protege o hospedeiro durante as fases ini-
ciais da infecção, e uma forte resposta contra o vírus por células 
CD4+ e CD8+ produtoras de interferon g está associada com 
a resolução da infecção aguda. As evidências atuais sugerem 
que o HBV não causa hepatotoxicidade direta e que o dano aos 
hepatócitos resulta da morte de células infectadas com o vírus 
pelas células T citotóxicas CD8+ .
A hepatite B pode ser amplamente prevenida por vacinação e 
pela triagem de doadores de sangue, órgãos e tecidos. A vacina é 
preparada a partir de HBsAg purificado produzido em levedu-
ras. A vacinação induz uma resposta protetora anti-HBs em 95% 
das crianças e adolescentes. A vacinação geral tem alcançado 
sucesso em países como Taiwan e Gâmbia, mas infelizmente 
não foi adotada em todo o mundo.
Figura 15-11 Sequência de marcadores sorológicos da hepatite B aguda. A, Resolução de infecção aguda. B, Progressão para infecção crônica. veja 
o texto para abreviações.
617Hepatite aguda e crônica
MORFOLOGiA
Microscopicamente, a hepatite B apresenta todas as caracterís-
ticas histológicas da hepatite aguda e crônica descritas anterior-
mente, mas algumas biópsias hepáticas também apresentam 
uma característica morfológica particular que é quase diagnós-
tica, o hepatócito em vidro despolido (Fig. 15-12). Na 
infecção crônica por HBv, alguns hepatócitos possuem muitos 
genomas virais integrados no genoma do hospedeiro. Se, por 
acaso, o gene do antígeno de superfície viral for integrado ao 
genoma do hospedeiro em um sítio adjacente a um promotor 
ativo, a célula é convertida em uma fábrica de produção de 
antígeno de superfície. Geralmente, nessas células não ocorre 
replicação viral total. Uma vez que o antígeno de superfície só 
pode sair da célula como parte de uma partícula viral intacta, o 
antígeno simplesmente se acumula no interior dessas células, 
originando uma grande inclusão citoplasmática que consiste no 
retículo endoplasmático repleto de antígeno de superfície, que 
possui aparência fina, granulosa, semelhante ao vidro despolido.
Vírus da Hepatite C
Epidemiologia e Transmissão. O HCV é também a principal 
causa de doença hepática. O número mundial de portadores é 
estimado em 175 milhões de pessoas (com taxa de prevalência 
variando amplamente entre 0,1-12%, a depender do país). In-
fecção crônica persistente acomete 3-4 milhões de pessoas nos 
Estados Unidos, onde o número de novas infecções por ano se 
reduziu, de cerca de 180.000 em meados dos anos 1980, para 
cerca de 19.000 em 2006. Essa mudança bem-vinda deve-se 
a uma grande redução da hepatite C associada à transfusão 
(como resultado de melhores procedimentos de triagem) e a uma 
diminuição das infecções por usuários de drogas intravenosas 
(relacionada a mudanças por medo da infecção pelo vírus da 
imunodeficiência adquirida). Entretanto, a taxa de morte devida 
à infecção por HCV vai continuar a subir pelos próximos 20-25 
anos por causa do grande período silencioso entre a infecção 
aguda e a insuficiência hepática. A principal via de transmissão 
é através da inoculação de sangue, com o uso de drogas intravenosas 
contribuindo com pelo menos 60% dos casos nos Estados Unidos. A 
transmissão por produtos sanguíneos agora é rara, contribuindo 
com apenas 4% de todos os casos de infecções agudas por HCV. 
A exposição ocupacional entre trabalhadores da área de saúde 
é responsável por outros 4% dos casos. As taxas de transmissão 
sexual e transmissão vertical são baixas, e as infecções de origem 
desconhecida contabilizam 9-27% dos casos. A infecção pelo HCV 
possui taxa de progressão para doença crônica e eventual cirrose muito 
mais elevada do que a infecção por HBV (Fig. 15-13). Na verdade, a 
hepatite C é a condição que mais frequentemente requer trans-
plante de fígado nos Estados Unidos.
Estrutura e Genoma Viral. O HCV é um vírus de RNA de fita 
simples que pertence à família Flaviviridae. Ele contém regiões 
terminais 5’- e 3’- altamente conservadas que flanqueiam um 
único quadro aberto de leitura de aproximadamente 9.500 
nucleotídeos que codificam as proteínas estruturais e não es-
truturais. O HCV é subclassificado em seis genótipos, baseados 
na sequência genética. Além disso, devido à pouca fidelidade 
da replicação do RNA, uma pessoa infectada pode carregar 
muitos variantes de HCV, chamados de quasispecies. As re-
lações entre essas variantes e a progressão da doença estão 
sendo investigadas, mas parece que grande multiplicidade de 
variantes está associada a pior prognóstico. Essa variabilidade 
também dificulta as tentativas de desenvolver uma vacina 
contra o HCV.
Figura 15-13 Esquema dos resultados potenciais da infecção pelo vírus da hepatite C em adultos, com suas frequências anuais aproximadas nos Estados 
Unidos. Estimativas populacionais são para as novas infecções detectadas; devido ao longo período de incubação até a progressão da infecção aguda 
para a cirrose, a taxa anual de mortalidade

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