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Anotação impressa Página 1 de 4 Anotacao_Disciplina_ 16/04/2024 15:34 Todas as disciplinas Aula - 1.1 Oralidade e escrita 1.1.2 Concordância Algumas relações entre as expressões dentro das frases são mais evidentes em algumas línguas. Por exemplo, em português, as relações de concordância e regência são muito produtivas e alteram o sentido das mensagens faladas ou escritas. Vamos iniciar nossa exploração pelas relações de concordância. Para começar, em uma afirmação como “Os trabalhos de conclusão de curso foram entregues no prazo”, as palavras em negrito estão todas no plural por causa das regras de concordância verbal e nominal. Podemos definir concordância como a relação entre uma palavra e outra dentro de uma frase, que promove a influência entre elas para que fiquem todas no singular ou no plural, no masculino ou no feminino. No caso dos verbos, a concordância de número e de pessoa surge no lugar do gênero. Nesses casos, há palavras específicas que se relacionam entre si – por exemplo, em “os trabalhos”, o artigo os (masculino plural) é chamado de determinante e acompanha a forma do substantivo trabalhos (masculino plural). Nas relações de concordância nominal, quem define o número e o gênero é o substantivo. Na concordância verbal, é o verbo, como núcleo da frase, quem seleciona e define número e pessoa. Glossário determinante: é o nome dado a palavras que acompanham os substantivos. Assim, ao lermos ou falarmos o determinante em uma frase (antes do substantivo), já sabemos as informações sobre singular ou plural e feminino ou masculino. No caso da concordância verbal, a relação deve se estabelecer entre o verbo e o sujeito a ele relacionado. Em “Os trabalhos foram entregues”, é o substantivo trabalhos (plural) que determina a forma verbal plural foram (terceira pessoa do plural). Até esse ponto, parece muito simples e basta obedecer à lógica da língua para não cometer deslizes de concordância. No entanto, existem algumas situações em que as dúvidas podem ser mais difíceis de solucionar. É possível, por exemplo, que você já tenha ficado em dúvida em relação a uma frase como “faz/fazem dez anos que trabalho aqui” ou ainda “haverá/haverão dias melhores”. Nos dois casos, a escolha adequada é pela forma singular: “faz dez anos” e “haverá dias melhores”, considerando que “dez anos” e “dias melhores” não são expressões que se tornam sujeito das orações. Também é uma relação de lógica, como nas outras situações de concordância, mas é preciso identificar a lógica das orações sem sujeito e o uso de verbos impessoais, como ocorre nesses dois casos. Em outras situações como em “O grupo de mulheres foi/foram levado/levadas ao escritório”, o verbo precisa concordar com “o grupo” ou “mulheres”? As duas formulações são aceitas, mas a mais comum é “O grupo de mulheres foi levado ao escritório.” Em outras situações, como quando se emprega o verbo ter, o singular ou o plural de terceira pessoa é identificado apenas por um acento: “A pesquisa tem chance de publicação” (terceira pessoa do singular) ou “As pesquisas têm chance de publicação” (terceira pessoa do plural). Saiba mais Objeto direto é um complemento que se liga a verbos transitivos diretos. É assim denominado porque a Anotação impressa Página 2 de 4 Anotacao_Disciplina_ 16/04/2024 15:34 ligação entre o verbo e esse complemento não é intermediada por preposição. Ex.: “Comi arroz e feijão ontem” (não há preposição entre a forma verbal comi e o complemento arroz e feijão). Já objeto indireto é um complemento que se liga a verbos transitivos indiretos. É assim denominado porque a ligação entre o verbo e esse complemento é intermediada por preposição. Ex.: “Cheguei ao consultório mais cedo” (há preposição entre a forma verbal cheguei e o complemento consultório). Como você já deve ter percebido, não estamos fazendo uma sequência de regras sobre os tópicos de que tratamos neste capítulo, mas abordando as principais dúvidas e exigências que podem aparecer pelo caminho, ao longo de sua experiência na graduação. Como os problemas e dúvidas em relação à concordância verbal são sempre em maior número e mais expressivos, a maioria de nossos exemplos aqui é sobre esse tipo de concordância. Você pode considerar os exemplos aqui empregados como pontos de partida para explicar e entender melhor as relações de concordância que definem os usos do português padrão na contemporaneidade. 1.1.3 Regência Você já percebeu que, em alguns casos, o à se escreve assim, com acento grave? E será que existe diferença entre “Você assistiu ao filme” e “Você assistiu os doentes”? As duas situações, tanto do à quanto do uso do verbo assistir, são exemplos de regência, que é uma espécie de relação de comando estabelecida entre nomes (substantivos, adjetivos e advérbios) ou verbos e seus complementos (objetos diretos e indiretos). Assim como no caso da concordância, os exemplos de regência de que vamos tratar aqui são os que mais geram dúvidas quando precisamos utilizá-los na fala ou na escrita. Por isso, não é necessário se assustar com termos como objeto direto e indireto, ou outros que vamos encontrar nos exemplos; basta entender, mais uma vez, que a língua não é um objeto ou um instrumento estático e que questões de regência também estão em constante transformação. As duas perguntas sobre o verbo assistir que iniciam este tópico estão relacionadas à diferença de sentido atribuída às ocorrências desse verbo quando se afirma ter assistido a algo (em que alguém viu algo) ou ter assistido algo (em que alguém ajudou). Caso você não perceba mais essa diferença na fala ou mesmo encontre muitos textos escritos sem que haja essa diferenciação de regência, fique tranquilo: você não é o único, e o verbo assistir é nosso tema justamente por isso. Saiba mais Como as línguas mudam com o tempo, quando há uma transformação acontecendo (que passamos a perceber na fala ou na escrita), afirmamos que há uma mudança em curso, ou seja, que estamos presenciando uma mudança acontecer em relação à língua. O que precisamos compreender é que há uma mudança em curso. E o que isso quer dizer exatamente? Quer dizer que as regras gramaticais não controlam o uso da língua e, por isso, os falantes promovem alterações que, às vezes, passam a ser incorporadas na escrita. Esse é o caso, por exemplo, desse verbo. Com o passar do tempo, a diferença entre assistir e assistir a vem sendo apagada pelos falantes, e a regência predominante, inclusive em textos escritos, tem sido a regência de verbo transitivo direto (sem o a). Isso quer dizer que, quando alguém afirma “Assisti o debate para realizar a pesquisa”, não está se referindo a ter ajudado o debate a acontecer, mas a ter visto o debate, mesmo não utilizando a preposição. Nesse ponto, você pode se perguntar: o que está certo e o que está errado? Vamos lá: para estar em conformidade com a norma-padrão, ou seja, se você vai escrever um texto para submetê-lo a uma Anotação impressa Página 3 de 4 Anotacao_Disciplina_ 16/04/2024 15:34 avaliação ou publicá-lo em algum lugar, é importante manter a diferença entre as duas regências (com ou sem a), deixando claro, por exemplo, que “Todos os alunos assistiram ao debate para realizar a pesquisa”. Glossário norma-padrão: conjunto de regras prescritas para o uso da língua falada e escrita em situações formais de comunicação. Há vários outros verbos que passam pelo mesmo processo e apresentam, inicialmente, sentidos diferentes devido à regência, como visar: “A pesquisa visa a responder a uma questão muito importante” (visar a = ter o objetivo de).a. b. “O jogador visou o gol e chutou com efeito” (visar = mirar).c. E aspirar: “O pesquisador aspira a uma publicação acadêmica” (aspirar a = desejar, querer, almejar).a. “Depois de escrever o relatório, precisava aspirar o ar fresco da manhã” (aspirar = cheirar, inalar).b. O que é importante guardar e compreender quanto à regência em geral é o que estamos explorando aqui: às vezes, há mudança de sentido quando um verbo é empregado com objetodireto ou indireto. Enfim, a melhor estratégia para saber qual é a regência adequada para um verbo é ver como ele já foi utilizado em outros textos, em situações e contextos parecidos com aquele em que você deseja empregá-lo. No entanto, um caso de regência merece atenção especial. No começo desta subseção, uma das questões que levantamos é sobre o a escrito com acento grave. Nesse caso, o acento indica que houve a soma entre dois a (o artigo e a preposição), ou seja, uma crase. É uma questão que merece cuidado, principalmente porque, em um texto, uma crase em local inapropriado fica bastante visível e pode sugerir falta de compreensão sobre os mecanismos que regem a organização da língua. Vamos à compreensão do processo que gera a crase em português. São sempre dois a somados. Mesmo quando temos pronomes como àquela, àquele ou àquilo, o que se soma são os dois a. Isso quer dizer que o ambiente linguístico precisa proporcionar essa ocorrência, ou seja, é preciso que um verbo exija a preposição a, que será contraída com o artigo a que antecede um substantivo feminino, nome de localidade ou expressão de modo ou circunstância (vamos tratar de cada item a seu tempo). Assim, temos “Vou à escola hoje”, pois: Quem vai, vai a algum lugar (o verbo ir exige a preposição a para se ligar a seu complemento, pois éa. transitivo indireto). Escola é substantivo feminino, antecedido pelo artigo a.b. Mas qual é a diferença entre as duas frases a seguir? Precisamos chegar à configuração adequada para o programa (chegar a + a configuração).a. Precisamos chegar a configurações adequadas para o programa (chegar a + configurações).b. É preciso perceber, nesse caso, que o substantivo configuração está no singular em (a) e no plural sem artigo precedendo-o em (b). Caso houvesse esse artigo em (b), ele precisaria estar no plural e, então, teríamos ocorrência de crase. Como temos apenas a preposição, o acento grave não deve ser colocado. Há outros casos de ocorrência de crase que precisam ser observados: ela ocorre em expressões Anotação impressa Página 4 de 4 Anotacao_Disciplina_ 16/04/2024 15:34 adverbiais formadas a partir de substantivos femininos, como à toa, à beira e à vista. Mas cuidado: por causa de expressões como à vista, é comum que as pessoas escrevam a prazo ou a partir também com acento grave. O raciocínio pode parecer adequado: se à vista tem acento grave, as outras expressões também teriam. No entanto, prazo é palavra masculina (que não pode ser antecedida pelo artigo feminino a) e partir é verbo. Nesse ponto, chegamos a mais uma descoberta: verbos e substantivos masculinos não podem ser antecedidos por artigo feminino. Assim, com relação à crase, procure sempre observar se: a antecede um substantivo feminino;a. a e o substantivo estão no singular ou no plural.b. Se ainda ficar difícil identificar a ocorrência ou não de acento grave, substitua a palavra depois do a por um substantivo masculino. Assim: Vamos à escola hoje Caso você não saiba se deve colocar acento grave ou não nesse caso,a. troque escola por colégio. Vamos ao colégio hoje Como a estrutura ficou ao colégio, significa que temos ab. preposição a (exigida pelo verbo ir) e o artigo o (a + o = ao). Isso quer dizer que, no feminino, teremos também a preposição a e o artigo a (a + a = à). Última alteração - 16/04/2024