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Introdução às Sagradas Escrituras (Unifatecie)

Material introdutório às Sagradas Escrituras por Flávio Donizete Batista. Apresenta introdução ao estudo da Bíblia, discute atitudes diversas (veneração e crítica), a tensão Bíblia‑ciência e seu caráter literário, além de dados do autor e edição.

Ferramentas de estudo

Questões resolvidas

Qual é a obra literária que não é atribuída a Jeremias, mas é universalmente admitida que não é obra dele?

a) Baruc
b) Lamentações
c) Isaías
d) Rute

Quem é o autor ou autores de Is 34-35; 24-27; Malaquias; Abdias; Joel e Zc 9-14?

a) Jeremias
b) Isaías
c) Baruc
d) Desconhecido

Qual livro da Bíblia é considerado uma obra-prima poética e foi escrito um pouco depois do retorno da Babilônia?

a) Provérbios
b) Jó
c) Salmos
d) Cântico dos Cânticos

Qual é a diferença entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento em relação à formação e aos aspectos importantes?

a) O Antigo Testamento difere do Novo Testamento em muitos aspectos importantes, mas ambos estão estreitamente ligados à vida e desenvolvimento de um povo. Os Evangelhos são considerados o centro do Novo Testamento, originados na pregação apostólica. As epístolas de Paulo foram escritas entre os anos 51 e 67, tratando de problemas específicos da Igreja Primitiva.
b) O Antigo Testamento e o Novo Testamento são semelhantes em sua formação e aspectos importantes, ambos originados na pregação apostólica. As epístolas de Paulo foram escritas entre os anos 51 e 67, tratando de problemas específicos da Igreja Primitiva.
c) O Antigo Testamento e o Novo Testamento são independentes em sua formação e aspectos importantes, sem relação com a vida e desenvolvimento de um povo. As epístolas de Paulo foram escritas após o século I, sem conexão com a Igreja Primitiva.

No texto apresentado, é abordada a formação do Novo Testamento, destacando a importância da palavra de Jesus e a autoridade dos escritos apostólicos. Sobre o processo de redação e reconhecimento dos escritos do Novo Testamento, é correto afirmar que:
As palavras do Senhor e o relato de seus feitos eram inicialmente transmitidos oralmente e posteriormente começaram a ser redigidos.
Os escritos apostólicos ganharam autoridade e foram reconhecidos como canônicos, equiparando-se aos escritos do Antigo Testamento.
O cânon do Novo Testamento foi se formando ao longo do tempo, com acréscimo gradual de escritos, até chegar à sua configuração final no final do século IV.
a) Apenas I e II estão corretas.
b) Apenas II e III estão corretas.
c) Todas as afirmativas estão corretas.
d) Apenas I e III estão corretas.

Citando o teólogo Karl Rahner, Harrington diz: que é arbitrário afirmar que os apóstolos, ou um apóstolo, tinham deixado uma formal e explícita revelação sobre a natureza inspirada dos escritos do Novo Testamento in individuo, ou em alguma declaração que expressava diretamente essa revelação. (...) A inspiração tem que ser concebida de tal maneira que demonstre por si como a Igreja conhece a inspiração dos livros do Novo Testamento, sem a necessidade de recorrer a qualquer declaração a seu respeito nos tempos apostólicos, a qual não tem suporte histórico (HARRINGTON, 1985, p. 60). É verdade que, definitivamente, a inspiração de um escrito só pode ser conhecida por meio da revelação; a questão é como deve ser concebida essa revelação. Desde que as Escrituras nasceram da e com a Igreja, a Igreja não tem a necessidade da revelação explícita de um apóstolo a fim de ser capaz de reconhecer os livros inspirados: ela os reconhece congenitamente. A revelação requerida é dada pelo fato de que o escrito relevante surge como uma autoexpressão genuína da Igreja primitiva. E pode haver um intervalo entre a revelação do caráter inspirado de certos livros e a clara expressão desse fato. Na prática, a Igreja tinha um cânon antes que existisse qualquer teoria de canonicidade ou lista de livros canônicos. Isso explica a hesitação acerca da inspiração de certos escritos (HARRINGTON, 1985, p. 60).

Qual é o significado teológico do ato de pôr por escrito a Palavra revelada, conforme descrito no texto?

a) A palavra transmitida oralmente se torna tradição e oferece ao homem maiores conhecimentos e competências práticas.
b) A tradição oral é mais importante do que a tradição escrita na religião bíblica.
c) O processo de codificação escrita da Palavra revelada revela a importância da tradição oral e escrita na transmissão da mensagem divina.
d) A tradição escrita elimina o caráter interpretativo da tradição oral na religião bíblica.

Qual é a perspectiva da Bíblia em relação à inspiração e revelação divina?

a) A revelação e a inspiração são dois carismas bem separados, operando de forma independente.
b) A revelação e a inspiração são distintas, mas operam simultaneamente, sendo aspectos correlatos do poder divino.
c) A revelação é a manifestação da Palavra, enquanto a inspiração é o movimento do Espírito, sem relação entre si.

Qual é o tema principal do texto apresentado?

a) A formação literária da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento.
b) A importância dos manuscritos antigos na preservação do texto bíblico.
c) A divisão do texto bíblico em capítulos e versículos.
d) As línguas originais da Bíblia e os materiais de escrita utilizados.

Quais são as recensões em que os manuscritos do Novo Testamento foram classificados?

a) Recensão alexandrina, recensão ocidental, recensão cesariense e recensão bizantina.
b) Recensão latina, recensão siríaca, recensão grega e recensão hebraica.
c) Recensão romana, recensão egípcia, recensão síria e recensão grega.

Partindo dessas premissas, pode-se projetar a seguinte formação do Pentateuco. Existem tradições pré-exílicas, tanto escritas como orais, mas que nunca foram reunidas numa narração única antes do trabalho da corrente sacerdotal e deuteronomista no tempo do exílio e de imediato pós-exílio. Portanto, elas se compõem de materiais originariamente independentes; isso não significa que estas tradições constituíram corpos fechados, sem contato algum entre si, mas simplesmente que não foram reunidas literariamente numa única narração. Embora na consciência da impossibilidade de uma maior precisão, podemos indicar como pré-exílicos alguns textos: o código da aliança (Ex 20,22-23,33), o código deuteronômico (Dt 12-26), alguns relatos patriarcais concernentes a Abraão (Gn 12-25) e Jacó (Gn 26-36), um relato de origem alternativa ao patriarcal concernente à saída do Egito (Ex 1-14), com o acréscimo provável de uma primeira versão do evento teofânico do Sinai (Ex 19-24). A contribuição do grupo sacerdotal e do grupo deuteronomista na época do exílio e do segundo Templo é fundamental no processo de formação do Pentateuco. A mais importante é sobretudo o complexo que é designado por “P”, cuja articulação, porém, não é fácil de determinar. Trata-se de uma narração independente, que integrando os contributos das tradições precedentes, narra uma história salvífica que vai da criação até a ereção do santuário no deserto (Ex 40). O fundo é uma concepção comum aos mitos da criação do Oriente Próximo que, com frequência, terminam com a construção de um templo em que o Deus vem morar; mas a intenção puramente teológica, isto é, a de anunciar a volta da presença de YHWH, comprometida pela intromissão da violência na terra no tempo do dilúvio (Gn 6,11-13), no quadro de uma progressiva revelação de Deus (‘elohím: Gn 1,1; ‘el shadday: Gn 17,1; YHWH: Ex 6,3). A posse da terra torna-se secundária em relação à Lei e a ela subordinada. Esse processo de síntese das tradições conhece, porém, um passado longo e difícil de ser seguido, porque aceita as instâncias dos vários grupos judaicos então existentes (judeus da província de Yehud, samaritanos, judeus da diáspora) e contemporaneamente as instâncias nem sempre fáceis do Império Persa. É com a época asmoneia que, verossimilmente, o Pentateuco atinge sua forma última, soldando juntas a tradição da Torá de Moisés com o Templo e suas disposições.

No final das cartas paulinas, aparece no cânon do Novo Testamento a Carta aos Hebreus, embora o estilo e a impostação argumentativa difiram das cartas de Paulo e seu nome nunca apareça. Todavia, é preciso reconhecer que se trata de um escrito próximo ao ambiente paulino.

Evangelhos de Mateus e de Lucas derivariam de duas fontes: Marcos e a fonte Q; às quais deve-se acrescentar material próprio deles. Por fim, ao Evangelho de Lucas é preciso achegar também os Atos dos Apóstolos, que não são simplesmente a continuação do Evangelho, mas uma segunda parte dele, unida à primeira, mas não distinta, como mostram os dois prólogos. Portanto, Lucas compôs dois escritos, que se pedem e se integram mutuamente, mas provavelmente escritos em tempos sucessivos. A obra é constituída por um complexo material tradicional, de origem diversa, mas que Lucas dispôs num quadro histórico-teológico muito original. Dado o forte interesse pela comunidade cristã de Antioquia não é de excluir que essa cidade seja, ao menos para a primeira parte (cap. 1-12), o lugar de proveniência das tradições dos Atos. Quanto à segunda parte da obra (cap. 13-28) é possível que o evangelista a tenha tirado, ao menos em parte, de um “itinerário” ou “diário de viagem”, dada a complexidade da narração, rica de inúmeros detalhes. A obra joanina A tradição atribuiu ao Apóstolo João um importante grupo de escritos: o Quarto Evangelho, as três cartas e o Apocalipse. Não obstante algumas significativas diferenças, tais escritos pertencem a um mesmo ambiente religioso e cultural, chamado a “comunidade joanina”, situado na região de Éfeso, na Ásia Menor, lá pelo fim do século I. A garantia da tradição apostólica nesta comunidade era precisamente o Apóstolo João, chegado ali nos últimos decênios do século I d.C., após uma precedente permanência de Paulo. É esse ambiente efesino que plasma definitivamente esses escritos, ainda que as tradições veiculadas possam pertencer a tempos e lugares diversos. Os estudiosos modernos procuraram reconstruir a caminhada diacrônica desse Evangelho, aliás, com resultados incertos e, muitas vezes, muito hipotéticos. Certamente, seguindo nisso também a antiga tradição patrística, na base está a pregação e a atividade pastoral do Apóstolo João na Igreja de Éfeso e na região circunstante, em que ele transmite a quem não estiveram presentes a própria experiência e a própria interpretação da fé. Trata-se, em geral, de uma tradição oral; ela é recolhida provavelmente por mais discípulos, fato que explica a diversidade das narrações e dos discursos e a diversidade de estilo que encontramos atualmente no evangelho escrito. Um discípulo mais em vista, o evangelista, compõe um conjunto que reúne o ministério da Galileia e da Judeia, sem, contudo, incluir todos os elementos da tradição joanina. Um redator final retoma o escrito precedente, incluindo elementos antigos que ficaram fora e elementos novos devidos a um horizonte que já não é simplesmente o judaico-palestinense, mas também o grego; daí a inserção do prólogo (1,1-18), alguns acréscimos da reflexão teológica (3,16-21.31-36), o discurso sem ligação de 12,44-50, o segundo discurso de adeus (15,1-17) depois da conclusão de 14,31, a meditação do capítulo 17 e, enfim, o capítulo 21 depois da conclusão de 20,30-31. Ao Apóstolo João é também atribuída a composição de três cartas; são escritos estreitamente afins, ainda que seu valor teológico seja diverso. De fato, enquanto a 1 João é uma joia e também o cume da teologia neotestamentária, a segunda e a terceira cartas são simples bilhetes. Um estudo comparado entre as três cartas e o Quarto Evangelho mostra claramente um estreito parentesco literário e teológico e por isso vale o que acima se disse do Evangelho: provêm da mesma tradição, que vai da pregação do Apóstolo à recepção dos discípulos e, enfim, à redação final. O Apocalipse é um autêntico anúncio do Evangelho a uma comunidade que já é cristã, mas que é provada por graves dificuldades: a autoridade romana embebida de cultura helenista pagã, a forte oposição às comunidades judaicas, tensões e contraposições no seio da comunidade cristã. O autor apresenta-se diversas vezes com o nome de João e se qualifica como “profeta” (cf., respectivamente, Ap 1,1.4.9; 22,8; e Ap 10,11; 19,10; 22,9). A antiga tradição patrística, a partir de Justino e Irineu, identificou-o com o Apóstolo João; algumas tradições discordantes são causadas sobretudo pelo uso desse livro por parte de grupos heréticos e por sua difícil interpretação. A diversidade de estilo e de problemática teológica não são tais de negar a comum referência a João, tanto do apocalipse quanto do Quarto Evangelho; de qualquer forma, é comum o ambiente da comunidade joanina do fim do século I; o contexto é o da perseguição de Domiciano (81-96 d.C.). (PRIOTTO, 2019, p. 161). As cartas católicas Além do corpus paulino e joanino, o Novo Testamento conhece ainda um grupo de cartas denominadas “católica”: a carta de Tiago, duas cartas de Pedro e a Carta de Judas. Esse título significa literalmente “universais”, enquanto não destinadas a uma comunidade particular, mas ao conjunto das Igrejas. Designa, além disso, sua ortodoxia e, portanto, seu direito de pertencer ao cânon escriturístico, apesar das dúvidas e incertezas iniciais. A Carta de Tiago, apesar da abertura, não é uma carta, é, antes, uma homilia ou, melhor, uma coleção de temas homiléticos. O autor é um judeu-cristão da segunda ou terceira geração, culto e bom conhecedor da LXX, que compôs a obra, provavelmente na Síria, por volta do fim do século I (PRIOTTO, 2019, p. 162). A 1 Pedro, mais do que uma carta, é uma catequese ligada à liturgia batismal, dirigida a cristãos já batizados para convocá-los à graça do sacramento recebido e à consequente coerência de vida. O provável autor é Silvano, isto é, Silas, colaborador de Paulo (cf. At 15,22) e agora secretário e colaborador de Pedro. Após a morte do apóstolo em 64, ele recolheu sua lembrança e seu pensamento nesse escrito enviado às comunidades cristãs da Anatólia (1Pd 1,1). A 2 Pedro diferencia-se bastante da primeira quanto à língua, ao estilo e à impostação teológica; é escrita por volta do início do século II, numa situação histórica muito mudada, caracterizada pelo aparecimento de correntes heréticas e por um libertinismo moral. Apresentando-se como o Apóstolo Pedro, já próximo à morte, o autor quer deixar como que um testamento espiritual que salvaguarde e marque o testemunho apostólico sobre Jesus. Trata-se de um discípulo do apóstolo, que vive e age provavelmente no Egito, no qual de fato a carta começou a ser ouvida e estimada. A Carta de Judas é uma breve homilia de caráter judeu-helenista, na qual se polemiza contra as nascentes heresias e se exorta a uma digna conduta cristã. Quem escreve é um judeu-cristão de cultura helenista, que, querendo defender a mensagem apostólica de interpretações arbitrárias, a atribui ao Apóstolo Judas, uma figura que no seu ambiente gozava de uma autoridade particular.

Qual é o objetivo do estudo apresentado sobre as Sagradas Escrituras?

a) Apresentar a história da Editora Edufatecie.
b) Analisar a relação entre literatura e religião.
c) Oferecer uma introdução organizada às Sagradas Escrituras para auxiliar no estudo teológico e na experiência pessoal e comunitária da fé.
d) Discutir a influência da cultura contemporânea na interpretação da Bíblia.

Qual é a diferença entre os livros protocanônicos, deuterocanônicos e apócrifos?

a) Os protocanônicos são os livros do Antigo Testamento aceitos por todas as tradições cristãs, os deuterocanônicos são os livros do Novo Testamento e os apócrifos são os livros considerados não inspirados.
b) Os protocanônicos são os livros do Novo Testamento aceitos por todas as tradições cristãs, os deuterocanônicos são os livros do Antigo Testamento e os apócrifos são os livros considerados inspirados.
c) Os protocanônicos são os livros do Antigo Testamento aceitos por todas as tradições cristãs, os deuterocanônicos são os livros do Antigo Testamento aceitos por algumas tradições cristãs e os apócrifos são os livros considerados inspirados.

vinte e dois, que abraçam a história de todos os tempos e que são justamente considerados divinos” (PRIOTTO, 2019, p. 36). Se para os cinco livros de Moisés trata-se evidentemente do Pentateuco, para os treze livros dos Profetas e os quatro livros dos Hinos não há especificação alguma; todavia, pelas indicações presentes nos outros escritos de Flávio Josefo, o elenco pode facilmente ser deduzido: os treze livros dos profetas correspondem a Josué, Juízes + Rute, 1-2 Samuel, 1-2 Reis, Isaías, Jeremias + Lamentações, Ezequiel, os doze profetas menores, Jó, Ester, Daniel, Esdras-Neemias, 1-2 Crônicas; e os quatro Livros dos Hinos correspondem a Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes. Trata-se de vinte e dois livros, correspondentes às letras do alfabeto hebraico: uma cifra altamente simbólica para definir a plenitude da revelação. Pouco mais tarde, o apócrifo 4Esd 14,18-47 elenca vinte e quatro livros sagrados dos hebreus; trata-se da mesma lista de Flávio Josefo, porque Rute e Lamentações são computados à parte (PRIOTTO, 2019, p. 36). No tempo de Cristo, havia ainda alguma incerteza acerca do cânon e da canonicidade de certos livros. Só foi depois da destruição de Jerusalém (70 d.C.) que um grupo de doutores judeus, que procurava preservar aquilo que restava do passado, se reuniu em Jâmnia, por volta do ano 90 d.C., e aceitaram formalmente o restrito cânon dos fariseus. Por várias razões, incluindo o fato de que a Bíblia grega tinha sido adotada pelos cristãos, certos livros que faziam parte daquela Bíblia (isto é, nossos livros deuterocanônicos) foram rejeitados. A decisão do Sínodo de Jâmnia foi apenas para os judeus – e dali em diante eles aceitaram a lista menor. Ela não podia ser de importância universal, porque agora a sinagoga tinha sido substituída pela Igreja. No tempo da Reforma, os protestantes, desejando fazer traduções diretamente do hebraico, tomaram plena consciência dessa discrepância; eles terminaram por considerar o cânon judaico como o cânon autêntico (HARRINGTON, 1985, p. 54). Com a destruição do Templo em 70 d.C. e o consequente desaparecimento da liturgia sacrifical, o judaísmo palestinense configura-se sempre mais como uma religião do Livro, sobretudo, graças à contribuição da corrente farisaica, que, pondo ao centro o livro, salva o judaísmo, tornando-se sua expressão mais significativa; daí os esforços para definir com exatidão as componentes do Livro Sagrado. As discussões concentram-se especialmente sobre o terceiro grupo dos Escritos, em particular sobre a canonicidade de Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos, como demonstram as discussões de Jâmnia; também a ordem dos livros é ainda flexível. Trata-se, porém, de um debate que interessa um círculo restrito de especialistas, porque, na realidade, esses livros são largamente difundidos e aceitos pelos fiéis. Embora na ausência de um pronunciamento oficial sobre uma definição propriamente dita do cânon, pode-se afirmar que, com o início do século III d.C., o judaísmo já definiu o próprio cânon, como atesta a afirmação do Talmude (PRIOTTO, 2019, p. 36-37). A Igreja Cristã se desenvolveu no ambiente da Diáspora. Na prática, a Bíblia da Igreja foi a Bíblia grega. Da parte cristã, o acolhimento e o reconhecimento dos livros daquele que já é chamado de Antigo Testamento passa através da mediação da LXX; com efeito, o cristianismo se desenvolve muito cedo, prevalentemente no mundo de língua grega e, por isso, foi natural da parte da Igreja o uso da Bíblia grega, que, como já se viu, contém também os assim chamados livros deuterocanônicos e alguns acréscimos a Daniel e Ester. Com isso, é promovido um cânon mais longo em relação ao da tradição de língua hebraica. Todavia, as razões dessa opção não são simplesmente de ordem linguística, porque a aceitação desses livros permite aos cristãos ligar melhor o Antigo Testamento ao Novo Testamento; a aceitação de livros como Tobias, Judite e 1-2 Macabeus cria uma ponte narrativa entre a história de Israel e o nascimento de Jesus; a recepção de livros recentes, como o Eclesiástico e a Sabedoria, permite afirmar que a revelação não terminará com a reforma de Esdras; por sua vez, a presença de livros escritos originalmente em grego, como 2 Macabeus, Sabedoria e os acréscimos a Daniel e Ester, consentem que o cristianismo primitivo saia do mundo restrito de língua hebraica para o mundo helenista e pagão (PRIOTTO, 2019, p. 37). Na realidade, a aceitação desses livros deuterocanônicos não foi pacífica e imediata, como mostra um debate que se prolonga até quase o século VIII. Se, no Oriente, Orígenes, Atanásio e Cirilo de Jerusalém optam pelo cânon breve dos hebreus, no Ocidente, Agostinho defende valorosamente o cânon longo, contra um Jerônimo defensor da veritas hebraica. Se, no Oriente, o Concílio de Laodicéia, na Frígia (360), defende o cânon breve, no Ocidente, os Concílios de Hipona (393) e de Cartago (397 e 419) e a Carta de Inocêncio I a Exupério de Tolosa (405) defendem o cânon longo; mas ainda em 692, o Concílio Quinissexto, em Trullo, testemunha uma certa ambiguidade ratificando ao mesmo tempo os diversos cânones do Concílio de Laodicéia e de Cartago. Somente o Concílio de Florença (1442) e, depois, o de Trento (1546) dissiparam qualquer dúvida, enumerando e definindo solenemente o cânon longo (PRIOTTO, 2019, p. 37-38). Harrington (1985, p. 55) afirma que no Concílio de Laodicéia, o cânon defendido favorece a impressão de que a atitude do Oriente, de um modo geral, era desfavorável aos livros deuterocanônicos; para o Antigo Testamento, ele enumera apenas os livros da Bíblia hebraica. Contudo, deve ser observado que os Padres admitiam que esses livros podiam ser lidos para a edificação do fiel e eram úteis para a instrução dos catecúmenos. Além disso, eles frequentemente expressavam grande estima pelos livros, admitindo-os na adoração litúrgica lado a lado com os outros, e até os citaram com as fórmulas “Está escrito” e “Deus diz nas Escrituras”. A atitude dos Padres Orientais pode ser explicada por dois fatores principais: 1) Na controvérsia com os judeus, a fim de ter uma base comum de argumentação, os Padres se restringiram ao cânon judaico aceito; 2) Os apócrifos judaicos, reivindicando canonicidade, estavam em circulação; assim, todos os livros tinham de ser cuidadosamente examinados, e as credenciais dos livros deuterocanônicos não pareciam ser tão convincentes quanto as dos outros (HARRINGTON, 1985, p. 55). Ao aceitar as Escrituras hebraicas, a Igreja primitiva não só aceita os livros deuterocanônicos, mas opta por uma estrutura nova no elenco dos livros; de fato, dissocia os assim chamados Livros Históricos (Js, Jt, 1-2 Sm, 1-2 Rs) dos Livros Proféticos e coloca estes últimos no fim do Antigo Testamento, acentuando assim seu caráter de profecia cristológica e de Introdução ao evento Jesus. Veremos que o mesmo vale para a nova denominação de “Antigo Testamento”, expressão que pressupõe necessariamente o Novo Testamento. 2.2 A Formação do Cânon do Novo Testamento A Igreja cristã possuía, desde o princípio de sua existência, um cânon das Escrituras inspiradas: o Antigo Testamento. Contudo, para a Igreja primitiva, este Antigo Testamento era, em seu sentido mais profundo, profecia de Cristo – um reconhecimento de que, mesmo aqui, a autoridade última era o próprio Cristo. Cristo tinha comissionado os seus apóstolos para proclamar a boa nova

No começo, as palavras do Senhor e o relato de seus feitos eram repetidos e relatados oralmente, mas logo eles começaram a ser redigidos. Em sua obra missionária, os apóstolos tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades. Pelo menos alguns desses escritos eram trocados entre as igrejas e logo ganharam a mesma autoridade dos escritos do Antigo Testamento. Contudo, é compreensível que tenha decorrido algum tempo antes que a coleção desses escritos do tempo dos apóstolos tivesse tomado o seu lugar, com inquestionável autoridade, ao lado dos livros do Antigo Testamento, especialmente quando se considera que muitos eram escritos ocasionais endereçadas às igrejas individuais (HARRINGTON, 1985, p. 56).

O cânon das Escrituras hebraicas, como se apresentava na tradição da LXX, teve um papel evidente para a determinação do Antigo Testamento por parte da Igreja primitiva. Para o Novo Testamento, podemos reconhecer três critérios principais: a) O critério do testemunho original, que se torna necessariamente critério temporal; trata-se de livros na época apostólica, isto é, na época da geração das testemunhas do evento fundador. b) O critério eclesial: trata-se de livros aceitos em determinadas Igrejas, especialmente por seu uso litúrgico, e progressivamente reconhecidos por todas as Igrejas; são os livros dos quais a Igreja vive e, graças aos quais, exprime a própria fé; c) O critério cristológico: a Igreja reconheceu os escritos que apresentavam uma imagem de Cristo conforme o querigma apostólico. Essa Igreja que reconhece os livros sagrados é uma Igreja dotada de uma estrutura ministerial, isto é, trata-se de comunidades presididas por bispos. Esse ato de fechamento introduz também uma pausa temporal entre uma época normativa, na qual a revelação é ainda aberta a novas aquisições, e uma época na qual a relação com a comunidade crente com o evento da revelação passa já através da mediação objetiva do cânon das Escrituras. Essa pausa temporal para a Bíblia hebraica aconteceu no início do século III d.C.; para a Bíblia cristã coincide com a passagem da época apostólica para a época pós-apostólica (PRIOTTO, 2019, p. 48). Mas esse ato de fechamento é também um ato de abertura.

O que se disse, mostra como se passa da Palavra anunciada ao profeta para a Palavra escrita. A presença de escritos nos quais são recolhidas as palavras proféticas não corresponde ainda automaticamente à Escritura, como a possuímos hoje; com efeito, a formação literária do livro da Bíblia trata-se de um processo muito longo e complexo. Para o momento, basta afirmar que a Palavra profética dada aos poucos por Deus no curso da revelação torna-se tradição escrita, que depois será recolhida em um único livro, que nos conhecemos como Sagrada Escritura ou Bíblia, constituída de duas partes: O Antigo e o Novo Testamentos (PRIOTTO, 2019, p. 29).

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Questões resolvidas

Qual é a obra literária que não é atribuída a Jeremias, mas é universalmente admitida que não é obra dele?

a) Baruc
b) Lamentações
c) Isaías
d) Rute

Quem é o autor ou autores de Is 34-35; 24-27; Malaquias; Abdias; Joel e Zc 9-14?

a) Jeremias
b) Isaías
c) Baruc
d) Desconhecido

Qual livro da Bíblia é considerado uma obra-prima poética e foi escrito um pouco depois do retorno da Babilônia?

a) Provérbios
b) Jó
c) Salmos
d) Cântico dos Cânticos

Qual é a diferença entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento em relação à formação e aos aspectos importantes?

a) O Antigo Testamento difere do Novo Testamento em muitos aspectos importantes, mas ambos estão estreitamente ligados à vida e desenvolvimento de um povo. Os Evangelhos são considerados o centro do Novo Testamento, originados na pregação apostólica. As epístolas de Paulo foram escritas entre os anos 51 e 67, tratando de problemas específicos da Igreja Primitiva.
b) O Antigo Testamento e o Novo Testamento são semelhantes em sua formação e aspectos importantes, ambos originados na pregação apostólica. As epístolas de Paulo foram escritas entre os anos 51 e 67, tratando de problemas específicos da Igreja Primitiva.
c) O Antigo Testamento e o Novo Testamento são independentes em sua formação e aspectos importantes, sem relação com a vida e desenvolvimento de um povo. As epístolas de Paulo foram escritas após o século I, sem conexão com a Igreja Primitiva.

No texto apresentado, é abordada a formação do Novo Testamento, destacando a importância da palavra de Jesus e a autoridade dos escritos apostólicos. Sobre o processo de redação e reconhecimento dos escritos do Novo Testamento, é correto afirmar que:
As palavras do Senhor e o relato de seus feitos eram inicialmente transmitidos oralmente e posteriormente começaram a ser redigidos.
Os escritos apostólicos ganharam autoridade e foram reconhecidos como canônicos, equiparando-se aos escritos do Antigo Testamento.
O cânon do Novo Testamento foi se formando ao longo do tempo, com acréscimo gradual de escritos, até chegar à sua configuração final no final do século IV.
a) Apenas I e II estão corretas.
b) Apenas II e III estão corretas.
c) Todas as afirmativas estão corretas.
d) Apenas I e III estão corretas.

Citando o teólogo Karl Rahner, Harrington diz: que é arbitrário afirmar que os apóstolos, ou um apóstolo, tinham deixado uma formal e explícita revelação sobre a natureza inspirada dos escritos do Novo Testamento in individuo, ou em alguma declaração que expressava diretamente essa revelação. (...) A inspiração tem que ser concebida de tal maneira que demonstre por si como a Igreja conhece a inspiração dos livros do Novo Testamento, sem a necessidade de recorrer a qualquer declaração a seu respeito nos tempos apostólicos, a qual não tem suporte histórico (HARRINGTON, 1985, p. 60). É verdade que, definitivamente, a inspiração de um escrito só pode ser conhecida por meio da revelação; a questão é como deve ser concebida essa revelação. Desde que as Escrituras nasceram da e com a Igreja, a Igreja não tem a necessidade da revelação explícita de um apóstolo a fim de ser capaz de reconhecer os livros inspirados: ela os reconhece congenitamente. A revelação requerida é dada pelo fato de que o escrito relevante surge como uma autoexpressão genuína da Igreja primitiva. E pode haver um intervalo entre a revelação do caráter inspirado de certos livros e a clara expressão desse fato. Na prática, a Igreja tinha um cânon antes que existisse qualquer teoria de canonicidade ou lista de livros canônicos. Isso explica a hesitação acerca da inspiração de certos escritos (HARRINGTON, 1985, p. 60).

Qual é o significado teológico do ato de pôr por escrito a Palavra revelada, conforme descrito no texto?

a) A palavra transmitida oralmente se torna tradição e oferece ao homem maiores conhecimentos e competências práticas.
b) A tradição oral é mais importante do que a tradição escrita na religião bíblica.
c) O processo de codificação escrita da Palavra revelada revela a importância da tradição oral e escrita na transmissão da mensagem divina.
d) A tradição escrita elimina o caráter interpretativo da tradição oral na religião bíblica.

Qual é a perspectiva da Bíblia em relação à inspiração e revelação divina?

a) A revelação e a inspiração são dois carismas bem separados, operando de forma independente.
b) A revelação e a inspiração são distintas, mas operam simultaneamente, sendo aspectos correlatos do poder divino.
c) A revelação é a manifestação da Palavra, enquanto a inspiração é o movimento do Espírito, sem relação entre si.

Qual é o tema principal do texto apresentado?

a) A formação literária da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento.
b) A importância dos manuscritos antigos na preservação do texto bíblico.
c) A divisão do texto bíblico em capítulos e versículos.
d) As línguas originais da Bíblia e os materiais de escrita utilizados.

Quais são as recensões em que os manuscritos do Novo Testamento foram classificados?

a) Recensão alexandrina, recensão ocidental, recensão cesariense e recensão bizantina.
b) Recensão latina, recensão siríaca, recensão grega e recensão hebraica.
c) Recensão romana, recensão egípcia, recensão síria e recensão grega.

Partindo dessas premissas, pode-se projetar a seguinte formação do Pentateuco. Existem tradições pré-exílicas, tanto escritas como orais, mas que nunca foram reunidas numa narração única antes do trabalho da corrente sacerdotal e deuteronomista no tempo do exílio e de imediato pós-exílio. Portanto, elas se compõem de materiais originariamente independentes; isso não significa que estas tradições constituíram corpos fechados, sem contato algum entre si, mas simplesmente que não foram reunidas literariamente numa única narração. Embora na consciência da impossibilidade de uma maior precisão, podemos indicar como pré-exílicos alguns textos: o código da aliança (Ex 20,22-23,33), o código deuteronômico (Dt 12-26), alguns relatos patriarcais concernentes a Abraão (Gn 12-25) e Jacó (Gn 26-36), um relato de origem alternativa ao patriarcal concernente à saída do Egito (Ex 1-14), com o acréscimo provável de uma primeira versão do evento teofânico do Sinai (Ex 19-24). A contribuição do grupo sacerdotal e do grupo deuteronomista na época do exílio e do segundo Templo é fundamental no processo de formação do Pentateuco. A mais importante é sobretudo o complexo que é designado por “P”, cuja articulação, porém, não é fácil de determinar. Trata-se de uma narração independente, que integrando os contributos das tradições precedentes, narra uma história salvífica que vai da criação até a ereção do santuário no deserto (Ex 40). O fundo é uma concepção comum aos mitos da criação do Oriente Próximo que, com frequência, terminam com a construção de um templo em que o Deus vem morar; mas a intenção puramente teológica, isto é, a de anunciar a volta da presença de YHWH, comprometida pela intromissão da violência na terra no tempo do dilúvio (Gn 6,11-13), no quadro de uma progressiva revelação de Deus (‘elohím: Gn 1,1; ‘el shadday: Gn 17,1; YHWH: Ex 6,3). A posse da terra torna-se secundária em relação à Lei e a ela subordinada. Esse processo de síntese das tradições conhece, porém, um passado longo e difícil de ser seguido, porque aceita as instâncias dos vários grupos judaicos então existentes (judeus da província de Yehud, samaritanos, judeus da diáspora) e contemporaneamente as instâncias nem sempre fáceis do Império Persa. É com a época asmoneia que, verossimilmente, o Pentateuco atinge sua forma última, soldando juntas a tradição da Torá de Moisés com o Templo e suas disposições.

No final das cartas paulinas, aparece no cânon do Novo Testamento a Carta aos Hebreus, embora o estilo e a impostação argumentativa difiram das cartas de Paulo e seu nome nunca apareça. Todavia, é preciso reconhecer que se trata de um escrito próximo ao ambiente paulino.

Evangelhos de Mateus e de Lucas derivariam de duas fontes: Marcos e a fonte Q; às quais deve-se acrescentar material próprio deles. Por fim, ao Evangelho de Lucas é preciso achegar também os Atos dos Apóstolos, que não são simplesmente a continuação do Evangelho, mas uma segunda parte dele, unida à primeira, mas não distinta, como mostram os dois prólogos. Portanto, Lucas compôs dois escritos, que se pedem e se integram mutuamente, mas provavelmente escritos em tempos sucessivos. A obra é constituída por um complexo material tradicional, de origem diversa, mas que Lucas dispôs num quadro histórico-teológico muito original. Dado o forte interesse pela comunidade cristã de Antioquia não é de excluir que essa cidade seja, ao menos para a primeira parte (cap. 1-12), o lugar de proveniência das tradições dos Atos. Quanto à segunda parte da obra (cap. 13-28) é possível que o evangelista a tenha tirado, ao menos em parte, de um “itinerário” ou “diário de viagem”, dada a complexidade da narração, rica de inúmeros detalhes. A obra joanina A tradição atribuiu ao Apóstolo João um importante grupo de escritos: o Quarto Evangelho, as três cartas e o Apocalipse. Não obstante algumas significativas diferenças, tais escritos pertencem a um mesmo ambiente religioso e cultural, chamado a “comunidade joanina”, situado na região de Éfeso, na Ásia Menor, lá pelo fim do século I. A garantia da tradição apostólica nesta comunidade era precisamente o Apóstolo João, chegado ali nos últimos decênios do século I d.C., após uma precedente permanência de Paulo. É esse ambiente efesino que plasma definitivamente esses escritos, ainda que as tradições veiculadas possam pertencer a tempos e lugares diversos. Os estudiosos modernos procuraram reconstruir a caminhada diacrônica desse Evangelho, aliás, com resultados incertos e, muitas vezes, muito hipotéticos. Certamente, seguindo nisso também a antiga tradição patrística, na base está a pregação e a atividade pastoral do Apóstolo João na Igreja de Éfeso e na região circunstante, em que ele transmite a quem não estiveram presentes a própria experiência e a própria interpretação da fé. Trata-se, em geral, de uma tradição oral; ela é recolhida provavelmente por mais discípulos, fato que explica a diversidade das narrações e dos discursos e a diversidade de estilo que encontramos atualmente no evangelho escrito. Um discípulo mais em vista, o evangelista, compõe um conjunto que reúne o ministério da Galileia e da Judeia, sem, contudo, incluir todos os elementos da tradição joanina. Um redator final retoma o escrito precedente, incluindo elementos antigos que ficaram fora e elementos novos devidos a um horizonte que já não é simplesmente o judaico-palestinense, mas também o grego; daí a inserção do prólogo (1,1-18), alguns acréscimos da reflexão teológica (3,16-21.31-36), o discurso sem ligação de 12,44-50, o segundo discurso de adeus (15,1-17) depois da conclusão de 14,31, a meditação do capítulo 17 e, enfim, o capítulo 21 depois da conclusão de 20,30-31. Ao Apóstolo João é também atribuída a composição de três cartas; são escritos estreitamente afins, ainda que seu valor teológico seja diverso. De fato, enquanto a 1 João é uma joia e também o cume da teologia neotestamentária, a segunda e a terceira cartas são simples bilhetes. Um estudo comparado entre as três cartas e o Quarto Evangelho mostra claramente um estreito parentesco literário e teológico e por isso vale o que acima se disse do Evangelho: provêm da mesma tradição, que vai da pregação do Apóstolo à recepção dos discípulos e, enfim, à redação final. O Apocalipse é um autêntico anúncio do Evangelho a uma comunidade que já é cristã, mas que é provada por graves dificuldades: a autoridade romana embebida de cultura helenista pagã, a forte oposição às comunidades judaicas, tensões e contraposições no seio da comunidade cristã. O autor apresenta-se diversas vezes com o nome de João e se qualifica como “profeta” (cf., respectivamente, Ap 1,1.4.9; 22,8; e Ap 10,11; 19,10; 22,9). A antiga tradição patrística, a partir de Justino e Irineu, identificou-o com o Apóstolo João; algumas tradições discordantes são causadas sobretudo pelo uso desse livro por parte de grupos heréticos e por sua difícil interpretação. A diversidade de estilo e de problemática teológica não são tais de negar a comum referência a João, tanto do apocalipse quanto do Quarto Evangelho; de qualquer forma, é comum o ambiente da comunidade joanina do fim do século I; o contexto é o da perseguição de Domiciano (81-96 d.C.). (PRIOTTO, 2019, p. 161). As cartas católicas Além do corpus paulino e joanino, o Novo Testamento conhece ainda um grupo de cartas denominadas “católica”: a carta de Tiago, duas cartas de Pedro e a Carta de Judas. Esse título significa literalmente “universais”, enquanto não destinadas a uma comunidade particular, mas ao conjunto das Igrejas. Designa, além disso, sua ortodoxia e, portanto, seu direito de pertencer ao cânon escriturístico, apesar das dúvidas e incertezas iniciais. A Carta de Tiago, apesar da abertura, não é uma carta, é, antes, uma homilia ou, melhor, uma coleção de temas homiléticos. O autor é um judeu-cristão da segunda ou terceira geração, culto e bom conhecedor da LXX, que compôs a obra, provavelmente na Síria, por volta do fim do século I (PRIOTTO, 2019, p. 162). A 1 Pedro, mais do que uma carta, é uma catequese ligada à liturgia batismal, dirigida a cristãos já batizados para convocá-los à graça do sacramento recebido e à consequente coerência de vida. O provável autor é Silvano, isto é, Silas, colaborador de Paulo (cf. At 15,22) e agora secretário e colaborador de Pedro. Após a morte do apóstolo em 64, ele recolheu sua lembrança e seu pensamento nesse escrito enviado às comunidades cristãs da Anatólia (1Pd 1,1). A 2 Pedro diferencia-se bastante da primeira quanto à língua, ao estilo e à impostação teológica; é escrita por volta do início do século II, numa situação histórica muito mudada, caracterizada pelo aparecimento de correntes heréticas e por um libertinismo moral. Apresentando-se como o Apóstolo Pedro, já próximo à morte, o autor quer deixar como que um testamento espiritual que salvaguarde e marque o testemunho apostólico sobre Jesus. Trata-se de um discípulo do apóstolo, que vive e age provavelmente no Egito, no qual de fato a carta começou a ser ouvida e estimada. A Carta de Judas é uma breve homilia de caráter judeu-helenista, na qual se polemiza contra as nascentes heresias e se exorta a uma digna conduta cristã. Quem escreve é um judeu-cristão de cultura helenista, que, querendo defender a mensagem apostólica de interpretações arbitrárias, a atribui ao Apóstolo Judas, uma figura que no seu ambiente gozava de uma autoridade particular.

Qual é o objetivo do estudo apresentado sobre as Sagradas Escrituras?

a) Apresentar a história da Editora Edufatecie.
b) Analisar a relação entre literatura e religião.
c) Oferecer uma introdução organizada às Sagradas Escrituras para auxiliar no estudo teológico e na experiência pessoal e comunitária da fé.
d) Discutir a influência da cultura contemporânea na interpretação da Bíblia.

Qual é a diferença entre os livros protocanônicos, deuterocanônicos e apócrifos?

a) Os protocanônicos são os livros do Antigo Testamento aceitos por todas as tradições cristãs, os deuterocanônicos são os livros do Novo Testamento e os apócrifos são os livros considerados não inspirados.
b) Os protocanônicos são os livros do Novo Testamento aceitos por todas as tradições cristãs, os deuterocanônicos são os livros do Antigo Testamento e os apócrifos são os livros considerados inspirados.
c) Os protocanônicos são os livros do Antigo Testamento aceitos por todas as tradições cristãs, os deuterocanônicos são os livros do Antigo Testamento aceitos por algumas tradições cristãs e os apócrifos são os livros considerados inspirados.

vinte e dois, que abraçam a história de todos os tempos e que são justamente considerados divinos” (PRIOTTO, 2019, p. 36). Se para os cinco livros de Moisés trata-se evidentemente do Pentateuco, para os treze livros dos Profetas e os quatro livros dos Hinos não há especificação alguma; todavia, pelas indicações presentes nos outros escritos de Flávio Josefo, o elenco pode facilmente ser deduzido: os treze livros dos profetas correspondem a Josué, Juízes + Rute, 1-2 Samuel, 1-2 Reis, Isaías, Jeremias + Lamentações, Ezequiel, os doze profetas menores, Jó, Ester, Daniel, Esdras-Neemias, 1-2 Crônicas; e os quatro Livros dos Hinos correspondem a Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes. Trata-se de vinte e dois livros, correspondentes às letras do alfabeto hebraico: uma cifra altamente simbólica para definir a plenitude da revelação. Pouco mais tarde, o apócrifo 4Esd 14,18-47 elenca vinte e quatro livros sagrados dos hebreus; trata-se da mesma lista de Flávio Josefo, porque Rute e Lamentações são computados à parte (PRIOTTO, 2019, p. 36). No tempo de Cristo, havia ainda alguma incerteza acerca do cânon e da canonicidade de certos livros. Só foi depois da destruição de Jerusalém (70 d.C.) que um grupo de doutores judeus, que procurava preservar aquilo que restava do passado, se reuniu em Jâmnia, por volta do ano 90 d.C., e aceitaram formalmente o restrito cânon dos fariseus. Por várias razões, incluindo o fato de que a Bíblia grega tinha sido adotada pelos cristãos, certos livros que faziam parte daquela Bíblia (isto é, nossos livros deuterocanônicos) foram rejeitados. A decisão do Sínodo de Jâmnia foi apenas para os judeus – e dali em diante eles aceitaram a lista menor. Ela não podia ser de importância universal, porque agora a sinagoga tinha sido substituída pela Igreja. No tempo da Reforma, os protestantes, desejando fazer traduções diretamente do hebraico, tomaram plena consciência dessa discrepância; eles terminaram por considerar o cânon judaico como o cânon autêntico (HARRINGTON, 1985, p. 54). Com a destruição do Templo em 70 d.C. e o consequente desaparecimento da liturgia sacrifical, o judaísmo palestinense configura-se sempre mais como uma religião do Livro, sobretudo, graças à contribuição da corrente farisaica, que, pondo ao centro o livro, salva o judaísmo, tornando-se sua expressão mais significativa; daí os esforços para definir com exatidão as componentes do Livro Sagrado. As discussões concentram-se especialmente sobre o terceiro grupo dos Escritos, em particular sobre a canonicidade de Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos, como demonstram as discussões de Jâmnia; também a ordem dos livros é ainda flexível. Trata-se, porém, de um debate que interessa um círculo restrito de especialistas, porque, na realidade, esses livros são largamente difundidos e aceitos pelos fiéis. Embora na ausência de um pronunciamento oficial sobre uma definição propriamente dita do cânon, pode-se afirmar que, com o início do século III d.C., o judaísmo já definiu o próprio cânon, como atesta a afirmação do Talmude (PRIOTTO, 2019, p. 36-37). A Igreja Cristã se desenvolveu no ambiente da Diáspora. Na prática, a Bíblia da Igreja foi a Bíblia grega. Da parte cristã, o acolhimento e o reconhecimento dos livros daquele que já é chamado de Antigo Testamento passa através da mediação da LXX; com efeito, o cristianismo se desenvolve muito cedo, prevalentemente no mundo de língua grega e, por isso, foi natural da parte da Igreja o uso da Bíblia grega, que, como já se viu, contém também os assim chamados livros deuterocanônicos e alguns acréscimos a Daniel e Ester. Com isso, é promovido um cânon mais longo em relação ao da tradição de língua hebraica. Todavia, as razões dessa opção não são simplesmente de ordem linguística, porque a aceitação desses livros permite aos cristãos ligar melhor o Antigo Testamento ao Novo Testamento; a aceitação de livros como Tobias, Judite e 1-2 Macabeus cria uma ponte narrativa entre a história de Israel e o nascimento de Jesus; a recepção de livros recentes, como o Eclesiástico e a Sabedoria, permite afirmar que a revelação não terminará com a reforma de Esdras; por sua vez, a presença de livros escritos originalmente em grego, como 2 Macabeus, Sabedoria e os acréscimos a Daniel e Ester, consentem que o cristianismo primitivo saia do mundo restrito de língua hebraica para o mundo helenista e pagão (PRIOTTO, 2019, p. 37). Na realidade, a aceitação desses livros deuterocanônicos não foi pacífica e imediata, como mostra um debate que se prolonga até quase o século VIII. Se, no Oriente, Orígenes, Atanásio e Cirilo de Jerusalém optam pelo cânon breve dos hebreus, no Ocidente, Agostinho defende valorosamente o cânon longo, contra um Jerônimo defensor da veritas hebraica. Se, no Oriente, o Concílio de Laodicéia, na Frígia (360), defende o cânon breve, no Ocidente, os Concílios de Hipona (393) e de Cartago (397 e 419) e a Carta de Inocêncio I a Exupério de Tolosa (405) defendem o cânon longo; mas ainda em 692, o Concílio Quinissexto, em Trullo, testemunha uma certa ambiguidade ratificando ao mesmo tempo os diversos cânones do Concílio de Laodicéia e de Cartago. Somente o Concílio de Florença (1442) e, depois, o de Trento (1546) dissiparam qualquer dúvida, enumerando e definindo solenemente o cânon longo (PRIOTTO, 2019, p. 37-38). Harrington (1985, p. 55) afirma que no Concílio de Laodicéia, o cânon defendido favorece a impressão de que a atitude do Oriente, de um modo geral, era desfavorável aos livros deuterocanônicos; para o Antigo Testamento, ele enumera apenas os livros da Bíblia hebraica. Contudo, deve ser observado que os Padres admitiam que esses livros podiam ser lidos para a edificação do fiel e eram úteis para a instrução dos catecúmenos. Além disso, eles frequentemente expressavam grande estima pelos livros, admitindo-os na adoração litúrgica lado a lado com os outros, e até os citaram com as fórmulas “Está escrito” e “Deus diz nas Escrituras”. A atitude dos Padres Orientais pode ser explicada por dois fatores principais: 1) Na controvérsia com os judeus, a fim de ter uma base comum de argumentação, os Padres se restringiram ao cânon judaico aceito; 2) Os apócrifos judaicos, reivindicando canonicidade, estavam em circulação; assim, todos os livros tinham de ser cuidadosamente examinados, e as credenciais dos livros deuterocanônicos não pareciam ser tão convincentes quanto as dos outros (HARRINGTON, 1985, p. 55). Ao aceitar as Escrituras hebraicas, a Igreja primitiva não só aceita os livros deuterocanônicos, mas opta por uma estrutura nova no elenco dos livros; de fato, dissocia os assim chamados Livros Históricos (Js, Jt, 1-2 Sm, 1-2 Rs) dos Livros Proféticos e coloca estes últimos no fim do Antigo Testamento, acentuando assim seu caráter de profecia cristológica e de Introdução ao evento Jesus. Veremos que o mesmo vale para a nova denominação de “Antigo Testamento”, expressão que pressupõe necessariamente o Novo Testamento. 2.2 A Formação do Cânon do Novo Testamento A Igreja cristã possuía, desde o princípio de sua existência, um cânon das Escrituras inspiradas: o Antigo Testamento. Contudo, para a Igreja primitiva, este Antigo Testamento era, em seu sentido mais profundo, profecia de Cristo – um reconhecimento de que, mesmo aqui, a autoridade última era o próprio Cristo. Cristo tinha comissionado os seus apóstolos para proclamar a boa nova

No começo, as palavras do Senhor e o relato de seus feitos eram repetidos e relatados oralmente, mas logo eles começaram a ser redigidos. Em sua obra missionária, os apóstolos tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades. Pelo menos alguns desses escritos eram trocados entre as igrejas e logo ganharam a mesma autoridade dos escritos do Antigo Testamento. Contudo, é compreensível que tenha decorrido algum tempo antes que a coleção desses escritos do tempo dos apóstolos tivesse tomado o seu lugar, com inquestionável autoridade, ao lado dos livros do Antigo Testamento, especialmente quando se considera que muitos eram escritos ocasionais endereçadas às igrejas individuais (HARRINGTON, 1985, p. 56).

O cânon das Escrituras hebraicas, como se apresentava na tradição da LXX, teve um papel evidente para a determinação do Antigo Testamento por parte da Igreja primitiva. Para o Novo Testamento, podemos reconhecer três critérios principais: a) O critério do testemunho original, que se torna necessariamente critério temporal; trata-se de livros na época apostólica, isto é, na época da geração das testemunhas do evento fundador. b) O critério eclesial: trata-se de livros aceitos em determinadas Igrejas, especialmente por seu uso litúrgico, e progressivamente reconhecidos por todas as Igrejas; são os livros dos quais a Igreja vive e, graças aos quais, exprime a própria fé; c) O critério cristológico: a Igreja reconheceu os escritos que apresentavam uma imagem de Cristo conforme o querigma apostólico. Essa Igreja que reconhece os livros sagrados é uma Igreja dotada de uma estrutura ministerial, isto é, trata-se de comunidades presididas por bispos. Esse ato de fechamento introduz também uma pausa temporal entre uma época normativa, na qual a revelação é ainda aberta a novas aquisições, e uma época na qual a relação com a comunidade crente com o evento da revelação passa já através da mediação objetiva do cânon das Escrituras. Essa pausa temporal para a Bíblia hebraica aconteceu no início do século III d.C.; para a Bíblia cristã coincide com a passagem da época apostólica para a época pós-apostólica (PRIOTTO, 2019, p. 48). Mas esse ato de fechamento é também um ato de abertura.

O que se disse, mostra como se passa da Palavra anunciada ao profeta para a Palavra escrita. A presença de escritos nos quais são recolhidas as palavras proféticas não corresponde ainda automaticamente à Escritura, como a possuímos hoje; com efeito, a formação literária do livro da Bíblia trata-se de um processo muito longo e complexo. Para o momento, basta afirmar que a Palavra profética dada aos poucos por Deus no curso da revelação torna-se tradição escrita, que depois será recolhida em um único livro, que nos conhecemos como Sagrada Escritura ou Bíblia, constituída de duas partes: O Antigo e o Novo Testamentos (PRIOTTO, 2019, p. 29).

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Introdução às 
Sagradas Escrituras
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AUTOR
Professor Me. Flávio Donizete Batista
O Professor Flávio Donizete Batista possui graduação em Filosofia pela Universidade 
do Sagrado Coração (1999), graduação em Pedagogia pelo Centro Universitário Internacional 
UNINTER (2017), e mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Londrina 
(2003). Atualmente é professor na área de Filosofia nos cursos de Pedagogia, Psicologia, 
e também na área de Teologia. Professor efetivo da Secretaria de Estado da Educação do 
Estado do Paraná, tendo aprovação em dois concursos públicos. Tem experiência na área 
de Educação, com ênfase em Educação e Filosofia, atuando principalmente nos seguintes 
temas: educação, ética, docência, ensino-aprendizagem e relação pedagógica. 
CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/4266799322940706 
APRESENTAÇÃO DO MATERIAL
Olá, Prezado Acadêmico. Prezada Acadêmica.
Sejam todos bem-vindos a esse nosso estudo que agora iniciamos, e que nos ajudará 
a fazer uma grande introdução às Sagradas Escrituras. Não queremos esgotar nenhum 
assunto, ou apresentá-lo de modo exaustivo. Mas queremos ajudar a cada um que reconhece 
a importância do estudo da Bíblia, e sua necessidade, para quem estuda a Teologia.
Quando a Bíblia é o assunto, palavras não faltam para expressar os diferentes 
modos como cada um a entende ou dela se aproxima: respeito, simpatia, paixão, veneração, 
Palavra de Deus, inspiração, religião, Igreja, manual de ética e preceitos morais. Há também 
outras palavras que não soam tão amistosas, indicando certa distância e suspeição: livro 
complicado, manipulado, objeto de poder e da transmissão de valores morais por parte das 
igrejas e religiões contrárias à mentalidade racional e científica de nosso tempo; repertório de 
lendas, cujo valor não ultrapassa os limites da literatura mítica e utópica. Tais sentimentos, às 
vezes contraditórios, quase sempre equivocados e reducionistas, não podem ser ignorados 
quando se pretende oferecer ao público um trabalho de caráter introdutório à Bíblia.
Nenhum sentimento positivo ou negativo em relação à Bíblia está imune dos 
históricos mal-entendidos que herdamos da sociedade e da cultura. Um deles é opor 
Bíblia e ciência e outro é considerá-la simplesmente como objeto de propriedade exclusiva 
das igrejas. Diferentes igrejas tomaram a Bíblia como alicerce de suas doutrinas, de seus 
trabalhos pastorais e relações de poder; justificaram com ela o modo como administraram 
as coisas sagradas, ministram os sacramentos e celebram o culto religioso. Isso tudo é 
legítimo, mas não retira da Bíblia o seu caráter literário, aberto e universal a quem dela 
queira aproximar-se.
Quem disse ser preciso apresentar carteira de identidade ou vinculação religiosa 
para ler a Bíblia ou atestado ideológico de compatibilidade com as ideias pretensamente 
nela veiculadas? Nosso estudo nessa disciplina que ora iniciamos, pretende atingir aqueles 
que sentem necessidade de compreender melhor o texto segundo o contexto que lhe deu 
origem: estudantes do curso de Teologia, que são líderes de igreja e pessoas curiosas, 
jovens iniciantes engajados no trabalho pastoral e talvez alguém sem religião, mas que se 
autodefinem como tendo fé em Deus.
Independentemente do uso que se possa fazer da abordagem sociológica da Bíblia, 
nosso objetivo é tentar desfazer preconceitos que a interpretação dogmática produziu ao ler 
os textos sem considerar as intenções originais de seus autores. Não se trata de negar os 
dogmas, mas de compreendê-los segundo a necessária consciência histórica e sociológica 
que lhes deu origem, considerando-os como frutos de tudo aquilo que é produzido pela 
vida na História. Desse modo, não precisamos negar os dogmas, mas reinterpretá-los, 
atualizando seu sentido e valor diante das novas circunstâncias do mundo contemporâneo.
Chega de perseguição e discriminação àqueles que pensam de modo diferente 
e interpretam a Bíblia de maneira aparentemente estranha. Infelizmente estamos longe 
de superar esse preconceito. Aqueles que produzem opinião e interpretação discordantes 
daquelas declaradas oficiais ainda hoje sofrem discriminação e perseguição, e são chamados 
a prestar contar ao poder que julga ser guardião da “reta verdade” ou da “sagrada” doutrina.
Nosso estudo está estruturado em quatro grandes partes:
Na primeira parte, a palavra escrita, com a discussão sobre o ambiente e a estrutura 
dos livros, formando as duas grandes partes da Bíblia cristã: O Antigo e o Novo Testamento.
Na segunda parte, uma abordagem sobre o cânon das escrituras, com se deu a 
fixação dos livros em uma lista que teve seu processo de definição, de questionamento e 
de aceitação, até chegar à estrutura atual da Bíblia. 
A terceira, sobre a inspiração e a revelação, no aspecto que faz entendermos que 
não são “somente” livros, mas que fazem parte de um grupo especial de livros reconhe-
cidos como Palavra de Deus.
Por fim, na quarta parte, vamos apresentar sobre a palavra escrita, um pouco de 
seus processos de fixação e formação do texto escrito da Bíblia.
Desejo a todos um estudo que realmente ajude na realização de uma grande 
introdução às Sagradas Escrituras. Isso não significa que tudo será novidade para todos, mas 
que trata-se de uma forma organizada para ajudar cada um a começar e a dar continuidade a 
este estudo tão importante para a Teologia e para a experiência pessoal e comunitária da fé.
Estamos juntos nessa jornada.
Grande abraço.
SUMÁRIO
UNIDADE I ...................................................................................................... 4
A Palavra Escrita
UNIDADE II ...................................................................................................27
O Cânon das Escrituras
UNIDADE III .................................................................................................. 49
A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
UNIDADE IV .................................................................................................. 69
O Texto da Bíblia
4
Plano de Estudo:
● Materiais e línguas bíblicas;
● Crescente fértil: onde tudo começou;
● Os livros da Bíblia;
● A Formação da Bíblia.
Objetivos da Aprendizagem:
● Introduzir o estudante no estudo das Sagradas Escrituras;
● Ajudar na compreensão da estrutura básica da Bíblia Sagrada;
● Contribuir para o entendimento dos processos de escrita 
e formação dos livros que compõem a Bíblia Sagrada.
UNIDADE I
A Palavra 
Escrita
Professor Me. Flávio Donizete Batista
5UNIDADE I A Palavra Escrita
INTRODUÇÃO
Olá, Prezado (a) Estudante.
Estamos iniciando nosso estudo de Introdução às Sagradas Escrituras. Podemos 
dizer que é uma das partes mais encantadoras do estudo da Teologia, e responsável por 
ajudar na leitura e compreensão da mensagem que está presente nos livros, escritos em 
um longo processo de formação e maturação de sua própria identidade de Palavra de Deus.
Vamos abordar, inicialmente, o tema da Palavra Escrita, mostrando sua estrutura 
mais básica: Antigo Testamento e Novo Testamento. Serão apresentados alguns aspectos 
históricos do Povo de Israel e da Igreja cristã nascente, que ajudarão na compreensão dos 
processos de formação do livro.
Não podemos esquecer que há um caráter introdutório no estudo das Sagradas 
Escrituras. Outros elementos serão aprofundados no decorrer de nossos estudos, quando 
os livros serão apresentados e analisados dentro de disciplinas específicas, a partir de seus 
gêneros e tipos próprios.
Que todos tenham uma excelente oportunidade de iniciar o estudo das Sagradas 
Escrituras, com a fé e a razão plenamente sintonizadas, para que a construção de um 
sólido conhecimento teológico seja uma realidade para todos.
Ótimos estudos e uma frutuosa caminhada acadêmica para todos nós.
Grande abraço. 
6UNIDADE I A Palavra Escrita
1. MATERIAIS E LÍNGUAS BÍBLICAS
A Bíblia é a Palavra de Deus, revelada a nós em linguagem humana. faremos 
uma breve apresentação sobre os materiais em que ela foi escrita e em quais línguas sua 
redação foi feita.
1.1 Materiais utilizados na escrita da Bíblia
A escrita não era uma atividade simples no tempo bíblico. Não era qualquer pessoa 
que escrevia, e esta precisava estar dedicada exclusivamente à escrita, aprendendo a 
escrever e a trabalhar como um copista. Somente uma sociedade estruturada de maneira 
a ter uma mínima estrutura de governo poderia ter o grupo que se dedicasse à atividade 
redacional. No entanto, há registros de escritos rudimentares em períodos muito antigos da 
história da humanidade. Além de registros pictóricos (pintura rupestre), que datam mais de 40 
mil anos a.C., há indícios na Europa e na Ásia de uma escrita que datam do sétimo milênio 
a.C., com sistemas linguísticos ainda muito rudimentares. (CATENASSI, 2018, p. 60-61).
Na Palestina, assim como no Antigo Oriente, as formas menos correntes de 
escrita estão as feitas em pedras e em metal. Nas construções de templos e tumbas, era 
comum que espaços nas paredes fossem preenchidos com inscrições. Em caso de vitórias 
militares ou da publicação de documentos oficiais, podia-se recorrer à construção de uma 
estela. A narrativa bíblica da construção das tábuas da Lei conserva a escrita em pedra (Ex 
24,12; Dt 4,13). Inscrições em metal são mais raras, geralmente utilizadas para textos de 
grande importância. O texto bíblico guarda testemunhos de registros em bronze (1Mc 8,22; 
14,18.27.48) (CATENASSI, 2018, p. 61).
7UNIDADE I A Palavra Escrita
No Vale do Tigre e do Eufrates, na região mesopotâmica, a terra de aluvião fazia ser 
típica a escrita em tabuinhas de argila, feita com um estilete de bambu ou metal, que depois 
secavam ao sol ou eram cozidas. Foram encontradas muitas dessas tabuinhas em várias 
regiões do antigo Oriente, sendo muitas delas conhecidas no campo de estudo bíblico.
Outra forma corrente e barata de escrita era a óstraca, ou seja, fragmentos de 
algum artefato de cerâmica que se havia quebrado. Foram encontrados vestígios antigos 
na Samaria e na cidade de Laquis (CATENASSI, 2018, p. 63).
Na escrita bíblica, dois materiais ocuparam lugar central: o papiro e o pergaminho. 
O primeiro foi desenvolvido no antigo Egito, em 3000 a.C.; a partir de uma planta de caule 
bastante fibroso, cortado em pequenas tiras. Catenassi descreve com detalhes:
Essas lascas eram entrelaçadas formando uma lâmina grande, na forma do 
pergaminho como o conhecemos, que então era prensada, alisada com um 
tipo de martelo e, ao final, polida. As folhas formadas eram unidas, coladas 
ou costuradas, formando um rolo de muitos metros, como aparece em Jr 36. 
Os papiros foram comercializados em grande escala pelo Egito, chegando à 
Palestina pela Fenícia, mas as condições de umidade em geral colaboraram 
para sua degradação e difícil conservação (CATENASSI, 2018, p. 63).
Perto do ano 100 a.C., na cidade de Pérgamo (na Ásia Menor) foi aperfeiçoada 
uma técnica de preparação do couro de carneiros e cabras para a escrita. Esse material 
resultante foi conhecido como pergaminho. Contudo, o uso da pele de animais para a 
escrita é muito antigo, sendo atestado no Egito dois mil anos antes de Cristo. Também o 
pergaminho era costurado em forma de rolo, como o papiro. Continuamos com Catenassi:
Com o tempo, diante da dificuldade de manusear os rolos, os papiros e os 
pergaminhos foram organizados e costurados na forma de um caderno e com 
capas de madeira ou de couro, formando os chamados códices, facilitando 
a leitura. Essa técnica começou a ser usada no século I d.C., e foi bem 
assimilada no mundo cristão. Para os judeus, os livros sagrados só podiam 
aparecer no formato de rolo (CATENASSI, 2018, p. 65).
Depois de conhecer os materiais que receberam os textos bíblicos, vamos estudar 
as três línguas nas quais a Bíblia foi escrita.
1.2 As línguas bíblicas
Todo trabalho de pesquisa teológico em Sagrada Escritura exige um tempo de 
dedicação para as línguas bíblicas, já que o exegeta tem que partir dos textos em sua 
língua original e propor uma tradução.
Vamos conhecer algumas características das línguas que integram a Bíblia: o 
hebraico, o aramaico e o grego.
O hebraico é chamado na Bíblia de “língua de Canaã” (Is 19,18) ou o “judaico” (Is 
36,11; 2Cr 32,18). 
8UNIDADE I A Palavra Escrita
Quase a totalidade do AT foi escrita nesse idioma - adiante veremos as exceções. 
Trata-se de uma língua semita, que nasceu no Antigo Oriente Próximo e Médio, derivada do 
alfabeto fenício, o primeiro a ser construído, entre os séculos XVIII e XVII a.C. O hebraico 
começou a aparecer próximo de 1200 a.C. na Palestina, e o documento mais antigo que 
temos é um calendário encontrado em Gazer por volta de 925 a.C. Assim como o fenício, 
heraico é escrito da direita para a esquerda (CATENASSI, 2018, p. 66-67).
O hebraico foi a língua escrita e falada na Palestina até a época romana. Temos o 
testemunho das cartas do judeu Bar Kokba, por ocasião das revoltas contra Roma (132-135 
d.C.), que atesta o uso dela. Próximo do ano 200 d.C. e, posteriormente, com o avanço do 
mundo árabe, outras línguas foram sendo utilizadas na região por aproximadamente 16 
séculos até o hebraico começar a ser ensinado nas escolas de Israel na segunda metade 
do século XX, ainda que nunca tenha caído em desuso completo, pois continuava sendo a 
língua oficial da Bíblia judaica, usada nas sinagogas (CATENASSI, 2018, p. 68).
O aramaico é uma língua muito parecida com o hebraico - tendo inclusive as 
mesmas consoantes em seus alfabetos. Ambos são derivações e adaptações do alfabeto 
fenício, acrescentando mais sons que esse primeiro alfabeto. O aramaico foi usado pelas 
tribos nômades que invadiram aMesopotâmia e a Síria no decorrer do segundo e do pri-
meiro milênio a.C., que, com o tempo, intermediaram o comércio entre a Mesopotâmia, 
a Ásia Menor e a costa mediterrânea. Dessa forma, funcionava como língua comercial 
(CATENASSI, 2018, p. 69-70). Nosso autor continua:
A partir do exílio da babilônia, os judeus falavam essa língua junto com o 
hebraico e, depois do exílio, o aramaico tornou-se a língua cotidiana de fala, 
ao passo que o hebraico era reservado à literatura sagrada e à liturgia, típico 
do mundo sinagogal (CATENASSI, 2018, p. 70).
Partes do livro de Esdras refletem a documentação persa e são escritas no 
aramaico oficial: Esd 4,8-6,18). Algumas passagens do Antigo Testamento aparecem, 
sem explicação aparente, em dialetos aramaicos que surgiram após a dominação grega 
(século IV a.C.): Jr 10,11 e Dn 2,4b-7,28. Testemunhos eclesiásticos antigos de Eusébio 
de Cesareia afirmam que o Evangelho de Mateus foi escrito originalmente em aramaico 
ou hebraico (CATENASSI, 2018, p. 70).
9UNIDADE I A Palavra Escrita
A terceira língua em que a Bíblia foi escrita é o grego, que difere do modelo dos 
clássicos gregos, refletindo uma forma popularmente falada e escrita na bacia oriental 
do Mediterrâneo a partir de Alexandre Magno (século IV a.C. - conhecido como a koiné. 
Explica Catenassi:
As conquistas de Alexandre levavam não só a dominação política sobre as 
regiões submetidas ao Império, como também a ampla disseminação da 
cultura grega, em um processo chamado de helenização. Com isso, a língua 
grega também foi sendo assimilada pelas colônias; no Novo Testamento, 
era certamente uma “língua universal” das grandes cidades, que conectava 
o mundo do Antigo Oriente e a Europa. Nos centros urbanos do Novo 
Testamento, o povo falava o heraico nas sinagogas, o aramaico em casa e o 
grego no comércio (CATENASSI, 2018, p. 70).
No Novo Testamento, os textos que chegaram até nós foram todos escritos em 
grego. Porém, também textos sagrados do Antigo Testamento foram produzidos nesta língua, 
provavelmente por sua origem em ambientes de fora da Palestina - é o caso de Tobias, 
Judite, 1 e 2 Macabeus, Baruc e Sabedoria. Os livros de Daniel e Ester contêm algumas 
seções em grego. O livro do Eclesiástico chegou a nós somente por sua tradução grega, 
mas originalmente estava escrito em hebraico. Pode ser que o mesmo tenha acontecido 
com alguns dos outros livros em grego citados anteriormente. Abordaremos esse assunto 
novamente em nosso estudo.
10UNIDADE I A Palavra Escrita
2. CRESCENTE FÉRTIL: ONDE TUDO COMEÇOU
A geografia bíblica é uma ciência de suma importância para conhecermos a Bíblia 
pois, a partir do “pano de fundo” geográfico, vamos percebendo melhor seu processo de 
formação. O tema geografia bíblica está sempre sendo aprimorado - e as novas descobertas 
e ferramentas de análise contribuem para o aprimoramento dessa ciência.
Na primeira fase da formação da Bíblia, temos um arco que pode ser chamado 
de Meia-Lua Fértil ou Crescente Fértil, que circunscreve as regiões do Egito (com o rio 
Nilo), da Palestina (como um corredor de passagem entre o Ocidente e o Oriente) e do 
Oriente (a Assíria, a Babilônia, a Pérsia, especialmente a região entre os rios Tigre e 
Eufrates). Para percorrer o caminho entre o Egito e a Mesopotâmia era obrigatório passar 
pela Palestina, quer no caminho de ida ou mesmo no caminho de volta. O deserto da 
Arábia era praticamente intransponível com os recursos e meios da época e, por isso, o 
caminho era sempre pela costa ocidental da Palestina e depois a travessia das montanhas 
em direção à Mesopotâmia e vice-versa.
A “Meia-Lua Fértil” abrange todo o mundo antigo da Bíblia. O povo de Israel, nos 
seus primórdios, possui uma história que se relaciona com os povos vizinhos e antecessores 
dele. As dificuldades de locomoção eram grandes, os recursos de viagem muito parcos e a 
segurança das caravanas estava sempre ameaçada. Desta forma, as viagens se limitavam 
ao caminho que, geração após geração, costumava-se fazer.
11UNIDADE I A Palavra Escrita
Carlos Frederico descreve bem esse ambiente:
A “Meia-Lua Fértil” era o caminho destes povos nômades ou seminômades 
entre o Egito e a Mesopotâmia, compreendendo também a Pérsia. Nesta 
região, os impérios se sucediam nas conquistas, no domínio e na influência 
de uma cultura sobre a outra ao longo dos séculos. Por outro lado, antes 
mesmo de o ser humano começar a cultivar a terra, o Egito e a Mesopotâmia 
se constituíam em celeiros naturais, quer naquilo que a própria natureza 
oferecia através da fertilidade do solo, quer através dos animais e peixes 
que viviam nos rios e lagos formados pelo Nilo (Egito) e Tigre e Eufrates 
(Mesopotâmia) (SCHLAEPFER, 2019, p. 15).
É dentro dessa circunscrição geográfica que encontramos os primeiros relatos 
da criação, do dilúvio, das histórias de personagens importantes, de heróis invencíveis e 
da presença da divindade como aliada às situações humanas, particularmente quanto ao 
sofrimento e à dor (cf. Gn 1-11).
A caminhada dos patriarcas bíblicos também está dentro desse quadro: Nacor, pai 
de Taré, vivia na Mesopotâmia (Gn 11,24). Taré se tornou o pai de Abraão e um dia decidiu 
tomar o caminho para Canaã, mas ao chegar em Harã, estabeleceu-se ali (Gn 11,31). 
Abraão, casado com Sara, recebeu uma visão de Deus que lhe pediu para ir para Canaã, 
com sua mulher e seus servos, aos setenta e cinco anos de idade (Gn 12,1-9). Ao chegar 
a Canaã, houve uma grande fome e, então, Abraão teve que ir até o Egito para procurar 
alimentos e sobrevivência (Gn 12,10). Mais tarde, são os descendentes de Abraão que 
retornam ao Egito para providenciar víveres com a família de Jacó e seus filhos (Gn 42-50). 
No Egito inicia-se uma nova etapa do povo da Bíblia com o êxodo (Ex3, 1ss).
12UNIDADE I A Palavra Escrita
3. OS LIVROS DA BÍBLIA
 
A Bíblia pode ser descrita como a coleção de escritos reconhecidos como 
inspirados; frequentemente, essa coleção também é chamada de Escrituras, Escritura 
Sagrada, os Livros Sagrados e, especialmente, o Testamento. A palavra “Bíblia” veio até 
nós do grego através do latim. A expressão grega ta biblia (“os livros”); no latim tardio, a 
palavra tomada por empréstimo bíblia (plural neutro em grego) foi considerada como um 
substantivo latino, feminino, singular, significando “o livro”. Por isso, para nós, a Bíblia é 
o Livro por excelência (HARRINGTON, 1985, p. 09).
Embora haja um sentido verdadeiro em que a Bíblia pode ser considerada como 
uma grande obra – a obra de um divino Autor – contudo, do ponto de vista humano, ela 
não é um livro; não é mesmo o livro; é uma biblioteca ou, melhor ainda, é a literatura de um 
povo, o povo escolhido, o povo de Deus. Esta é uma observação importante, um fato que 
deve ser aceito de pronto, se quisermos ter uma compreensão adequada da Bíblia.
Observamos que a Escritura está dividida em duas partes: falamos do Antigo 
Testamento e do Novo Testamento. A palavra “testamento” é uma tradução aproximada do 
grego diatheke; indica uma característica fundamental da revelação, isto é, o pacto ou aliança 
que Deus contraiu com um povo, a quem ele tinha escolhido, o povo de Israel. Essa aliança 
(berith em hebraico), que foi renovada mais uma vez, era também um contrato, visto que o 
povo também, por seu lado, aceitou certas condições, especialmente, a obrigação de ser fiel 
a ele, o único Deus verdadeiro. O Antigo Testamento é a história desse povo à luz do Pacto, 
história de grande infidelidade de sua parte – trazendo, inevitavelmente, merecido castigo em 
sua sucessão – e de constante fidelidade da parte de Deus (HARRINGTON, 1985, p. 10).
13UNIDADE I A Palavra Escrita
O propósito de Deus, isto é, a redenção da humanidade, devia ser alcançado pelo 
envio de seu Filho ao mundo. A vinda do Filho de Deus naturalmente marcou o começo 
de uma nova era. Deus contraiu uma nova e final aliança, selada com o sangue de Cristo, 
com um novo povo – contudo,descendente diretamente do antigo – a Igreja. O Novo 
Testamento relata o cumprimento do plano de Deus. Contudo, esse plano estava ali desde 
o começo, pois os Testamentos, embora distintos, estão estreitamente ligados. O Antigo 
Testamento conduz e é a preparação, a preparação de Deus, para o Novo. Na verdade, o 
Antigo Testamento só pode ser totalmente compreendido à luz do seu cumprimento, que é 
o Novo Testamento (HARRINGTON, 1985, p. 10).
3.1 Estrutura da Bíblia
Os judeus, muito sabidamente, fizeram uma divisão flexível de sua Bíblia; eles falavam 
da Lei, dos Profetas e dos (outros) escritos. A Lei, na avaliação deles tinha o lugar de maior 
destaque, consistia dos cinco livros de Moisés, o Pentateuco. Entre os profetas, eles catalogavam 
não apenas os livros que nos classificamos como proféticos, mas também Josué, Juízes, 
Samuel e Reis, chamados por eles de Profetas Anteriores. Significativamente, não colocavam 
Daniel entre os Profetas (como fazemos), mas o punham na terceira divisão, os Escritos, que 
agrupavam os livros restantes. A divisão hebraica tem muito a recomendá-la, especialmente o 
fato de que (isto é particularmente verdadeiro com respeito aos Escritos) não procura ajustar os 
vários livros dentro de predeterminadas categorias. Podemos indicá-la assim:
QUADRO 1 - ESTRUTURA DA BÍBLIA HEBRAICA 
Fonte: (HARRINGTON, 1985, p. 11).
Desde o século XIII, os católicos dividem o Antigo Testamento em livros históricos, 
didáticos e proféticos. A divisão fornece uma boa indicação do caráter geral dos diferentes 
livros; mas não deve ser supervalorizada, porque, em certos casos, pode ser bem 
equivocada. Contudo, será útil dar uma lista dos livros bíblicos de acordo com essa divisão.
A Lei (torah) O Pentateuco
Os Profetas (nebiim)
Anteriores: Josué a Reis
Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 
profetas menores.
Os Escritos (Kethubim)
1) Salmos, Provérbios, Jó – os “grandes” 
escritos.
2) Cânticos dos Cânticos, Rute, Lamentações; 
Eclesiastes
3) Daniel, Esdras, Neemias, 1 e 2 Crônicas
14UNIDADE I A Palavra Escrita
QUADRO 2 - ESTRUTURA DO ANTIGO TESTAMENTO FEITA PELOS CRISTÃOS NO SÉCULO XIII
Fonte: (HARRINGTON, 1985, p. 11).
Nas versões usadas pela Igreja Católica, muitos desses nomes comumente são 
grafados de modo diferente, e o mesmo acontece com respeito à maioria de outros nomes 
próprios. A razão disto é simples. Os nomes próprios são baseados na Vulgata, que, por sua 
vez, adotou as formas gregas dos nomes como eles ocorrem na versão do Antigo Testamento 
conhecida como Setenta (Septuaginta). Nessa matéria, a conformidade seria muito bem 
recebida, e há um crescente movimento entre os católicos para aceitar as formas hebraicas.
O Novo Testamento é, algumas vezes, dividido com base no modelo do Antigo, em 
livros históricos, didáticos e proféticos.
QUADRO 3 - ESTRUTURA DO NOVO TESTAMENTO
Fonte: (HARRINGTON, 1985, p. 12).
 
Históricos
O Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, 
Números, Deuteronômio)
O Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, 
Números, Deuteronômio); 
Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 
2 Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, 
Ester, 1 e 2 Macabeus.
Didáticos (e poéticos)
Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (Coélet), 
Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico 
(Sirácida).
Proféticos
Quatro profetas maiores:
Isaías, Jeremias (mais Lamentações e Baruc), 
Ezequiel, Daniel.
Doze profetas menores:
Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, 
Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, 
Malaquias.
Históricos Os quatro Evangelhos, Atos dos Apóstolos.
Didáticos
Epístolas de São Paulo: Romanos, 1 e 
2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, 
Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 
Timóteo, Tito, Filemon; a Epístola aos Hebreus; 
as Epístolas Católicas: Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2 
e 3 João; Judas.
Profético O Apocalipse.
15UNIDADE I A Palavra Escrita
4. A FORMAÇÃO DA BÍBLIA 
4.1 O Antigo Testamento
 A formação do Antigo Testamento foi um longo processo. A história sagrada 
começa com a escolha de Abraão feita por Deus em alguma data durante o século XIX 
a.C; e as origens do Antigo Testamento, as tradições formadas em torno dos patriarcas, 
remontam, em germe, a Abraão, o homem das promessas divinas, e a seus descendentes 
imediatos. Contudo, foi com Moisés, o líder natural e o legislador, quem, no século XIII, de 
uma variegada multidão de refugiados forjou uma nação, iniciou um poderoso movimento 
religioso e deu o impulso para a grande obra literária que é a dádiva de Israel – e, em última 
análise, de Deus – à humanidade (HARRINGTON, 1985, p. 13).
O Pentateuco traz a marca de Moisés, mas a obra, como nós a conhecemos, recebeu 
sua forma final muitos séculos depois de Moisés: no século VI ou, mais provavelmente, 
no século V a.C. A literatura profética teve início com Amós e Oséias no século VIII e foi 
completada com Joel e Zacarias 9-14 no século IV a.C. Os livros históricos se estendem 
de Josué (baseados em tradições que remontam ao século XIII a.C.) a 1 Macabeus, escrito 
por volta do começo do século I a.C. O século VI a.C., que viu a forma final dos Provérbios 
e o aparecimento de Jó, foi a época áurea da literatura sapiencial, mas o movimento 
tinha começado sob Salomão no século X a.C., enquanto o livro da Sabedoria surgiu mal 
começava a metade do século antes de Cristo. Isso é suficiente – mesmo quando nada 
tenha sido dito da gênese complexa de cada livro – para assinalar que a formação do Antigo 
Testamento foi lenta e complexa. 
16UNIDADE I A Palavra Escrita
Devemos estar conscientes de que a maior parte dos livros do Antigo Testamento 
é obra de muitas mãos, obra que se desenvolveu através de um longo período, talvez 
séculos. Todos aqueles que colaboraram na produção de cada livro, quer tenham escrito a 
substância dele, quer tenham simplesmente acrescentado alguns detalhes, foram inspirados. 
A maioria deles não tinha consciência de estar sendo movidos por Deus; daqui em diante, 
nós também consideraremos apenas o lado humano da Bíblia e a consideraremos como 
um empreendimento coletivo, a obra de todo um povo que depositou na Bíblia, através dos 
séculos, os tesouros de sua tradição. Ela é a literatura de um povo, entrelaçada na história 
desse povo. Esboçaremos essa atividade literária desde os seus começos e a colocaremos 
contra o seu fundo; desta maneira, obteremos uma visão do Antigo Testamento que facilitará 
grandemente a nossa compreensão dele (HARRINGTON, 1985, p. 13).
Muito do Antigo Testamento está baseado na tradição oral. A parte que vem no 
início de nossa Bíblia – do Pentateuco a Samuel – se baseia em muitas tradições orais 
centradas principalmente em torno dos patriarcas, Moisés, Josué, os Juízes, Samuel, Davi 
e, posteriormente, numa seção dos Reis, Elias e Eliseu. Essas tradições, mesmo antes 
que fossem colocadas na forma escrita, formavam uma verdadeira literatura. “Literatura” é, 
primariamente, uma forma de arte; em certo sentido, é acidental que a maior parte da literatura 
tenha recebido a forma escrita, porque se trata principalmente de palavras e de linguagem 
(quer escritas quer não). Embora os livros bíblicos, como os conhecemos, tenham se formado 
numa data relativamente tardia, isso assinala apenas o registro por escrito das tradições 
que tinham começado, e em muitos casos tinha alcançado completo desenvolvimento, 
muitos séculos antes. Frequentemente, a data de um livro bíblico não é indicação da data do 
material contido no livro; e, quando falamos de “tradições”, não excluímos a possibilidade – 
na verdade, a certeza – de que muitas delas podem ter sido redigidas bem cedo. De fato, a 
atividade literária tardia em Israel estava relacionada, em larga medida, com a reedição de 
antigos escritos. Então, não ignorarmos ou subestimamos, de maneira alguma, a contribuição 
dos séculos anteriores, quando estabelecemos o começo da literatura bíblica, estritamente 
compreendida, no reinado de Salomão (HARRINGTON,1985, p. 14).
Em face da agressão filisteia, que, na metade do século XI tinha derrotado a 
anfictionia israelita (isto é, a confederação dos doze clãs unidos em aliança com Iahweh), 
Israel fez a sua primeira proposta para organizar-se como monarquia. A despeito da 
promessa inicial, Saul fracassou, mas a ideia da monarquia não foi abandonada. Foi feito 
um novo começo com Davi, que teve êxito em estabelecer um reino e mesmo um modesto 
império; tal situação foi mantida e explorada por seu filho, Salomão. 
17UNIDADE I A Palavra Escrita
A fim de conduzir a administração do reino e império, surgiu uma classe de escribas, 
homens cultos. Os anais reais foram guardados e os assuntos do Estado registrados e arquivados. 
Esse expediente forneceu a matéria-prima para os escritos de natureza histórica. Muito cedo, 
no tranquilo reinado de Salomão (cerca de 970-931 a.C.) um escritor de dotes excepcionais 
produziu a primeira obra do Antigo Testamento, a história da corte de Davi: 2Sm 9-20 e 1Rs 
1-2. Um escritor contemporâneo, de não menor capacidade literária e dotado de uma mente 
mais aguda, operando antigas tradições, escreveu uma teologia da história que forma um dos 
quatro principais fios do Pentateuco. Davi (cerca de 1010-970 a.C), cuja habilidade poética é 
abundantemente testemunhada, foi o autor de alguns dos Salmos. Estes foram o núcleo do 
Saltério. A obra toda, que recebeu dele o seu impulso original, foi tradicionalmente atribuída 
a ele. Quase da mesma maneira, a literatura sapiencial, que se desenvolveu nos séculos 
seguintes, foi atribuída a Salomão, o proverbial homem sábio, que começara o movimento entre 
os hebreus ou, pelo menos, forneceu a atmosfera para o seu início.
Depois da morte de Salomão, o reino, unido por Davi, dividiu-se e Israel (ou o Reino 
do Norte) e Judá, dali em diante, seguiram rumos separados. Uma cisma religiosa seguiu a 
divisão política, e só Judá permaneceu fiel, não apenas à dinastia de Davi, mas também a 
uma forma mais pura de religião autêntica. Em Israel, um gole de estado seguiu-se a outro, 
e a adoração de Lahweh – nos santuários cismáticos de Betel e Dã – foi muito afetada por 
influências estrangeiras. O livro dos Reis nos dá a história religiosa paralela dos dois reinos.
Foi em Israel que Elias e Eliseu, os defensores de Lahweh, apareceram; em torno 
deles, desenvolveram-se as tradições que encontramos em 1RS 17-2Rs 1 (Elias) e em 
2Rs 2-13 (Eliseu). Foi em Israel também, durante o reinado de Jeroboão II (783-743 a.C.) 
que os primeiros dos assim chamados profetas “escritores”, Amós e Oséias, levaram a 
cabo sua missão, ainda que Amós não fosse judaíta. Por volta da mesma época, outro fio 
da tradição do Pentateuco, paralelo à tradição javista que se desenvolveu em Judá, tomou 
forma definida. Essa tradição do norte – em sua forma final obra do Eloísta, como agora 
nomeamos esse autor – confrontada com os abusos na adoração de Lahweh correntes 
em Israel, foi compreensivelmente mais conservadora que a outra, colocando como seu 
ideal a religião do êxodo e do deserto. Logo depois de Amós e Oséias, os profetas Isaías 
e Miquéias surgiram em Judá. Contudo, apenas a primeira parte do livro de Isaías (isto é, 
os capítulos 1-39) – e não ele todo – pode ser atribuída a esse grande profeta do século 
VIII. O próprio Isaías nos fala acerca dos discípulos que se reuniram em torno de si 
(8,16). Esse é que publicaram as profecias dele; os escritores inspirados que, mais tarde, 
fizeram acréscimos à obra de seu mestre vieram daquela mesma escola, que continuou 
através dos séculos (HARRINGTON, 1985, p. 15).
18UNIDADE I A Palavra Escrita
Entrementes, o terrível flagelo da Assíria tinha começado a fazer-se sentir e os 
dias do Reino do Norte estavam contados. Samaria, sua capital, sucumbiu diante de Sar-
gão II em 721 a.C.; a população da terra, de acordo com a política assíria, foi deportada; 
e Israel, como uma entidade separada, desapareceu da história. Antes da tragédia final, 
alguns refugiados, homens religiosos que tinha interpretado a situação, fugiram para Judá, 
trazendo consigo suas tradições sagradas. Como resultado disso, sob Ezequias (716-687 
a.C.), foram combinados os dois mais antigos fios do Pentateuco (as tradições do Javista 
e do Eloísta). Outra herança do norte, levada para Jerusalém na mesma época, foi a parte 
legislativa do Deuteronômio (o código deuteronômico, Dt 12-26). Este mais tarde iria ter 
um efeito poderoso e de longo alcance.
O grande poder que tinha destruído Israel ameaçava Judá também, mas este, 
graças em grande medida aos esforços de Isaías, conseguiu sobreviver. Um século mais 
tarde, a Assíria, embora aparentemente em seu apogeu, sucumbiu e desapareceu com 
dramática rapidez. No curto período que cobriu o declínio da Assíria, antes que seu suces-
sor, o império neo-babilônico pudesse afirmar-se, a Judá foi concedida uma breve trégua 
e o jovem e piedoso rei, Josias (640-609 a.C.), pode começar uma reforma religiosa. Uma 
das primeiras obras a serem empreendidas foi a restauração do Templo – que tinha sido 
melancolicamente negligenciada – e durante o trabalho de renovação o “livro da Lei” foi 
descoberto (2Rs 22,8-10). Tratava-se do código deuteronômico que tinha sido levado para 
Jerusalém pelos refugiados de Israel e eventualmente esquecido. Providencialmente vindo 
agora à luz outra vez, ele se tornou a constituição da reforma e foi publicado na estrutura 
de um discurso de Moisés; essa primeira edição corresponde aos capítulos 5-28 do nosso 
Deuteronômio. Mais tarde, ela foi reeditada durante o Exílio, quando os outros discursos de 
Moisés foram acrescentados, um no começo e o outro no fim (HARRINGTON, 1985, p. 16).
O Deuteronômio (ou, mais precisamente, a primeira edição dele) deu o impulso 
para uma obra literária muito importante. A perspectiva deuteronômica era profundamente 
religiosa e notável em seu singular objetivo: a nação permanecia ou caía respectivamente 
por sua fidelidade ou infidelidade a Lahweh e à sua Lei. A história do Povo Escolhido foi 
medida por esse padrão e o resultado forneceu a resposta a um embaraçante problema. 
O problema era este: de um lado, estavam as promessas divinas, que não podiam 
falhar, e, de outro lado, uma catástrofe após a outra tinham sucedido à nação – Israel 
tinha desaparecido e Judá mal tinha sobrevivido. Os deuteronomistas (como podemos 
convencionalmente designá-los) viram muito claramente que todos aqueles males tinham 
sobrevindo a eles, porque o povo tinha sido constantemente infiel ao seu Deus; esta foi a 
lição evidente que tiraram de sua história. 
19UNIDADE I A Palavra Escrita
Esses homens começaram a editar as mais antigas tradições históricas, no processo 
de dar àquela história a especial perspectiva religiosa deles. Contudo, eles tiveram o 
cuidado de não fazer violência ao material, atingindo o seu objetivo ou por meio de modestas 
inserções ou por fornecer uma estrutura característica. Por exemplo, no Livro dos Juízes, 
o ciclo de infidelidade, punição, arrependimento e libertação, no qual a história de cada um 
dos grandes Juízes é colocada, é obra desses editores. Durante o reinado de Josias, os 
livros de Josué-Juízes-Samuel-Reis foram editados, com o Deuteronômio (capítulos 5-28) 
como introdução. 2Rs e Dt foram completados durante o Exílio (587-538 a.C.) e, no começo 
desse período, a história de Josué-Reis foi editada pela segunda (e última) vez. Os profetas 
Sofonias e Naum surgiram durante o reinado de Josias; Habacuc surgiu um pouco mais 
tarde que Naum: ambos foram contemporâneos de Jeremias (HARRINGTON, 1985, p. 17).
Depois da morte prematura de Josias (609 a.C.), o Reino de Judá caminhou 
rapidamente para a destruição; seus últimos e trágicos anos estão refletidos na vida e pessoa 
de Jeremias. A pregação deste grande profeta não foi considerada – exceto na medida em 
que ele foi perseguido por causa dela – mas, depois da sua morte, ela exerceuuma profunda 
influência. Sua mensagem foi escrita e publicada por seu fiel discípulo, Baruc. Em 587 a.C., 
Jerusalém caiu diante de Nabucodonosor, como Jeremias tinha enfaticamente declarado, 
e seus habitantes foram deportados para a Babilônia. Isto deve ter parecido o fim, mas no 
insondável desígnio de Deus o Exílio devia ser o cadinho no qual a religião de Lahweh seria 
purificada de toda a escória; ele marca, também, um momento decisivo na formação da Bíblia.
Lado a lado com o movimento deuteronômico, havia outro, do qual a Lei de 
Santidade (Lv 17-26) é representante. Esse movimento foi inspirado pela perspectiva da 
classe sacerdotal, que insistia na santidade de Lahweh e que pintava a nação como um 
povo sacerdotal, cuja vida toda era uma liturgia. Ezequiel, que tinha sido transportado para a 
Babilônia com outros judaítas, em algum tempo antes da queda de Jerusalém, provavelmente 
em 598 a.C., foi um produto dessa escola, ao passo que seu contemporâneo, Jeremias, 
estava na linha do Deuteronômio. Durante o exílio, os sacerdotes, agora separados do 
Templo e de seu culto, voltaram-se para as antigas tradições, especialmente para a 
legislação mosaica, e as editaram e apresentaram com um ponto claro de vista cúltico. 
Quase toda a legislação encontrada de Gênesis a Números pertence a essa tradição, 
embora inclua muita narrativa além dela; e, depois do Exílio, foram os sacerdotes que 
deram ao Pentateuco a sua forma atual (HARRINGTON, 1985, p. 18).
Nem todos os judaítas tinham sido deportados; uns poucos permaneceram e, de 
certo tempo em tempo, eles iam chorar diante das ruínas do Templo. 
20UNIDADE I A Palavra Escrita
Foi nessas circunstâncias que se formou o livro das Lamentações. É universalmen-
te admitido que esse livro não é obra de Jeremias, embora o escrito seja atribuído a ele pela 
Vulgata – mas não na Bíblia Hebraica. Baruc, colocado imediatamente após Lamentações 
na Vulgata, é de data incerta. Em Babilônia os exilados foram confortados por um profeta 
anônimo, um tardio, mas autêntico discípulo de Isaías; sua obra, contida em Is 40-55, 
foi composta nos anos anteriores a 538 a.C. (quando Ciro, o Grande, tendo conquistado 
Babilônia, permitiu que os judeus retornassem à Palestina). Esses capítulos marcam um 
clímax teológico (e poético) do Antigo Testamento. Logo depois do retorno a Jerusalém, os 
capítulos 55-66 foram acrescentados a Isaías por outros membros da escola isaiana. Não 
era isso o fim, porque, no século V, os capítulos 34-35 e 24-25, finalmente, completaram a 
obra que tinha começado no século VIII. Contudo, com o Segundo Isaías (como nomeamos 
o desconhecido autor de Is 40-55), a profecia tinha atingido o seu clímax; pouco a pouco, 
ela declinaria, para desaparecer no século IV, até o tempo do cumprimento.
Os primeiros exilados retornaram da Babilônia para Jerusalém em 538 a.C.; final-
mente, o Templo e a cidade foram reconstruídos. A obra de restauração foi encorajada e 
apoiada pelos profetas Ageu e Zacarias (apenas Zc 1-8 pertencem a este período). No 
começo deste período - o mais tardar no começo do século V – a Torah foi finalmente 
completada. O Deuteronômio, porque completava a história de Moisés, foi separada da 
grande obra histórica (Josué-Reis) e unido aos primeiros quatro livros da Bíblia. Assim se 
formou o Pentateuco. O pequeno Livro de Rute, provavelmente foi escrito logo depois do 
retorno (embora possa ter aparecido, possivelmente, antes do Exílio). Os últimos profetas 
apareceram nos séculos V e IV: o autor ou autores de Is 34-35; 24-27; Malaquias; Abdias; 
Joel e o autor de Zc 9-14 (HARRINGTON, 1985, p. 19).
Nesse tempo também, especialmente no século V, floresceu outro tipo de literatura: 
a literatura sapiencial. Contudo, não era absolutamente novo, porque já sob Salomão uma 
perspectiva prática encontrou expressão em ditos e máximas de orientação para o dia a dia. 
Pelo termo ‘sabedoria’ deve-se entender não apenas um conhecimento enciclopédico de 
todas as coisas sob o sol, mas também a concisa definição de todas as formas de conduta 
humana, particularmente a arte de ser perfeito cavalheiro. Essa arte, tão indispensável para 
se atingir uma carreira bem-sucedida, tinha sido praticada durante séculos no Egito. Em 
Israel, contudo, essa sabedoria prática era sempre inspirada, pelo menos em certa medida, 
pela fé em Lahweh, tendência muito marcante depois do Exílio. No século V, o livro dos 
Provérbios (parte do qual remontam ao tempo de Salomão) tomou forma final e, um pouco 
depois, surgiu a obra-prima poética da Bíblia: Jó.
21UNIDADE I A Palavra Escrita
O livro de Jó não é absolutamente a única obra poética da Bíblia. Em primeiro 
lugar, há os Salmos: sem dúvida, Davi compôs alguns deles e o seu número continuou 
a aumentar ininterruptamente. A construção do Segundo Templo (depois da volta do 
Exílio) e o restabelecimento do culto do Templo deram um novo impulso à composição 
desses poemas litúrgicos e à adaptação dos antigos Salmos. Pelo fim do século V, é 
muito provável que o Saltério, como o conhecemos, estivesse completo. Naquele mesmo 
século, apareceu o Cântico dos Cânticos.
A redação da história não terminou como Exílio, e a restauração, dominada pela 
figura de Esdras e Neemias, teve também seu historiador. Os livros de 1, 2 Crônicas, 
Esdras e Neemias, (quatro livros em nossa Bíblia) realmente formam um único volume, 
obra de um único autor, a quem convencionamos chamar de Cronista. Na primeira parte 
de seu escrito (1, 2Cr), o autor segue, em larga medida, os livros de Samuel e Reis. Na 
segunda parte, ele depende das memórias de Esdras e Neemias e de outros documentos 
do mesmo período. As diferenças entre 1, 2 Cr e Sm-Rs são notáveis, porque, enquanto 
as últimas constituem uma história religiosa, o Cronista escreveu uma teologia da história. 
Como os deuteronomistas, ele extraiu uma mensagem religiosa da história de seu povo; 
mas ele usa o material muito mais livremente do que aqueles. ele escreveu para os seus 
contemporâneos e mostrou-lhes, uma vez mais, que a existência da nação dependia de 
sua fidelidade ao seu Deus; ele teria seu povo como uma comunidade santa na qual as 
promessas feitas a Davi podiam, por fim, ser cumpridas. A obra foi escrita no século IV, 
antes do advento de Alexandre, o Grande. Um pouco mais cedo, nos dias de Esdras, 
e em oposição a uma estreita perspectiva nacionalista, o autor de Jonas, um brilhante 
escritor satírico, acentuou a universal providência de Deus. E, por volta do mesmo tempo, 
o livro de Tobias, em forma não diferente de uma novela moderna, exaltou a providência 
diária de Deus (HARRINGTON, 1985, p. 20).
Em 333 a.C., com a conquista da Síria e Palestina por Alexandre, começou, em 
Judá, o período grego. Para os judeus ou pelo menos para aqueles que eram fiéis a suas 
tradições, isso significava não a assimilação da cultura grega, como ocorreu em outros 
tempos, mas resistência ao modo grego de vida. Uma indicação disso talvez possa ser 
vista no surgimento de uma forma literária tipicamente hebraica, o midrash1 . Essa forma já 
havia influenciado a obra do Cronista, mas é no começo do período grego que encontramos 
o primeiro midrash bíblico desenvolvido. Nesse período também (por volta da metade do 
século III), podemos datar o Qoheleth (Eclesiastes) e, algum tempo depois, por volta de 180 
a.C., outro escritor de literatura sapiencial Ben Sirac, escreveu o Sirácida (Eclesiástico).
 1Midrash é um método de exegese que se desenvolveu tardiamente no Judaísmo.
22UNIDADE I A Palavra Escrita
Logo os judeus tiveram de enfrentar uma grande crise. Quando Antíoco (175-163 
a.C.) foi elevado ao trono da Síria, determinou que seus súditos judeus fossem forçados 
a adotar o modo grego de vida. A consequente perseguição religiosa provocou a revolta 
dos Macabeus, que começou em 167 a.C. Quase no fim da primeira parte da luta (167-164 
a.C.), o autor de Daniel publicou sua obra a fim deencorajar seus compatriotas. A primeira 
parte da obra (Dn 1-6) é um midraxe; e em Dn 7-12 encontramos um exemplo perfeito de 
uma forma literária judaica então em voga: o apocalipse. Daniel apareceu antes de 164 
a.C. (numa data mais tardia, o livro foi suplementado pela adição de 3,24-90 e os capítulos 
13-14). O livro de Esdras foi escrito um pouco depois de Daniel.
As últimas obras históricas da Bíblia apreendem o espírito dos agitados tempos de 
Macabeus. Por volta do ano 100 a.C., 1 Macabeus foi publicado. 2 Macabeus composto em 
grego e adaptado da obra de um certo Jason de Cirene, surgiu um pouco mais cedo, por 
volta de 120 a.C. Ele cobre muito do mesmo terreno de 1 Mc e, como este, é um escrito de 
natureza histórica, mas num estilo de oratória e tende a usar detalhes com certa liberdade. 
O livro de Judite, um midraxe, apareceu no começo do século I.
Se os judeus palestinenses resistiram efetivamente à helenização, alguns judeus 
do importante centro de Alexandria assimilaram com sucesso o pensamento grego, sem 
sacrificar a herança judaica. A última obra do Antigo Testamento, o livro da Sabedoria, foi 
escrita por um desses. Contudo, embora seja um produto da escola alexandrina e tenha 
sido escrito em grego, a influência grega não deveria ser exagerada; seu autor não foi 
filósofo, mas um autêntico “homem sábio” de Israel (HARRINGTON, 1985, p. 21).
4.2 O Novo Testamento
O Novo Testamento difere do Antigo em muitos aspectos importantes, mas, como o 
Antigo Testamento, está estreitamente ligado à vida e desenvolvimento de um povo, o novo 
povo de Deus: a Igreja Primitiva. Semelhantemente, embora todo o Novo Testamento tenha 
se formado dentro do século I da era cristã, contudo, sua gênese também é complexa. E 
exatamente como os judeus consideram os cinco livros de Moisés, a Lei, como a primeira 
e mais importante parte do Antigo Testamento, também os cristãos consideram os quatro 
Evangelhos como o centro do Novo Testamento. Eles têm a sua origem na pregação 
apostólica, mas os primeiros três Evangelhos, como nós os conhecemos, não apareceram 
antes de uma geração ou mais depois da ressurreição: Marcos é datado de 64-65 d.C. e 
Mateus e Lucas de um tempo imediatamente antes (ou, talvez, logo depois) de 70 d.C. - 
data da destruição de Jerusalém pelos romanos. Lucas escreveu os Atos dos Apóstolos 
logo depois de seu Evangelho (HARRINGTON, 1985, p. 22).
23UNIDADE I A Palavra Escrita
No ínterim, entre os anos 51 e 67, Paulo tinha escrito suas epístolas, ou cartas, 
a várias igrejas, frequentemente tratando de problemas especiais. Nessas epístolas, 
encontramos o começo e o primeiro desenvolvimento de nossa teologia especificamente 
cristã; lendo nas entrelinhas, aprendemos acerca da vida cristã e das dificuldades que a 
Igreja primitiva enfrentou. A epístola aos Hebreus foi escrita um pouco antes de 70 d.C. por 
um discípulo de Paulo. Tiago apareceu no ano 50 d.C. ou, mais provavelmente, em 58 d.C.; 
Pedro escreveu sua epístola (1Pd) por volta de 64 d.C. Das outras epístolas “católicas” 
(assim chamadas porque, em geral, elas são endereçadas aos cristãos em geral), Judas e 
2 Pd foram escritas na década de 70/80 d.C. e 2, 3 Jo, seguidas por 1Jo, foram escritas na 
última década do século. O Apocalipse, livro que não é tão misterioso quanto parece, em 
sua forma final, data de cerca do ano 95 d.C. O século mais cheio de eventos da história 
tinha finalizado aproximadamente quando o Quarto Evangelho foi publicado.
Tudo o que tem sido dito acerca da formação de ambos os Testamentos não é, de 
forma alguma, irrelevante, mas tem uma dependência prática de nosso estudo da inspiração. 
Não é sem importância (especialmente no tocante ao Antigo Testamento) o não podermos 
nomear os autores da maioria dos livros; se o problema fosse simplesmente esse, não 
nos atrapalharia, porque podemos dizer que o eventual autor – quem quer ele possa ter 
sido – era inspirado. Contudo, na prática, raramente podemos indicar um único indivíduo 
como autor de um livro todo. Assinalamos, por exemplo, que Isaías contém material que se 
estende do século VIII ao século V. nossa noção de inspiração deve ser bastante flexível 
para se ajustar a essa situação e outras semelhantes.
Deve ficar bem claro por ora que o Antigo Testamento é o resultado de um 
esforço coletivo. O mesmo é proporcionalmente verdadeiro acerca do Novo Testamento, 
especialmente dos Evangelhos. A obra de um evangelista não era uma responsabilidade 
privada; na realidade, ele era o último liame de uma cadeia. O Evangelho, construído sobre 
as obras e palavras de Cristo, existiu primeiro na Igreja; e o evangelista, embora ele próprio 
diretamente inspirado por Deus, era também o porta-voz de uma Igreja guiada pelo Espírito 
de Deus. Assim, o Novo Testamento, não menos que o Antigo, testemunha a verdade de 
que a palavra escrita de Deus, como a sua Palavra Encarnada, veio serenamente até 
nós, crescendo e desenvolvendo-se até o momento de sua manifestação aos homens. Os 
escritores sagrados eram movidos pelo Espírito de maneira especial, mas a longa preparação 
que seus labores coroaram foi parte do plano salvífico de Deus, de sua solicitude por seu 
Povo Escolhido, o antigo e o novo Israel (HARRINGTON, 1985, p. 23).
24UNIDADE I A Palavra Escrita
SAIBA MAIS
A diferença entre protestantes e católicos, no que se refere à Bíblia, surgiu no século 
XVI com a reforma luterana. Lutero, no intuito de garantir um retorno às fontes mais 
antigas e originais da religião, resolveu substituir a Bíblia cristã em voga, cuja tradução 
era baseada na versão latina de São Jerônimo, feita no século IV, mais conhecida como 
Vulgata, pela versão hebraica da Bíblia, considerada por ele mais original e autêntica. A 
Vulgata tinha como base duas versões: a hebraica e a grega, esta por sua vez, traduzida 
do hebraico para o grego no século III a.C. Essa famosa tradução ficou conhecida como 
Septuaginta, assim chamada por ser a Bíblia que a tradição considerou ter sido traduzida 
por setenta anciãos judeus reunidos em Alexandria. Essa versão grega foi de fato a 
Bíblia utilizada pelos judeus da diáspora e mais tarde tornou-se a versão que serviu 
de base para a composição da maior parte dos livros do Antigo Testamento (alguns 
preferem chamar de Primeiro Testamento, por questões ecumênicas), além de ser a 
Bíblia usada pelos primeiros cristãos de língua grega. 
Fonte: LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 2009, p. 26.
 
SAIBA MAIS
Nenhum sentimento positivo ou negativo em relação à Bíblia está imune dos históricos 
mal-entendidos que herdamos da sociedade e da cultura. Um deles é opor Bíblia e ciência 
e outro é considerá-la simplesmente como objeto de propriedade exclusiva das igrejas.
Fonte: O Autor (2022).
25UNIDADE I A Palavra Escrita
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Prezado Acadêmico(a)!
Chegamos ao final de nossa primeira unidade. Espero que ela tenha ajudado a 
apresentar alguns elementos que nos ajudarão a entender mais as Sagradas Escrituras, 
construindo nossos conhecimentos bíblicos.
Foi importante estudar alguns elementos iniciais do mundo bíblico e do processo de 
estruturação dessa obra que tem despertado tanto interesse e profunda transformação na 
vida de quem a estuda, independente de qual seja a intenção que tenha ao estudá-la. Mas 
lembre-se que nunca queremos esgotar o assunto. Mas despertar o interesse e a busca por 
novos conhecimentos.
Espero que você continue animado em nosso estudo. Até a próxima unidade.
Grande abraço.
26UNIDADE I A Palavra Escrita
 MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título: Introdução às Sagradas Escrituras Católicas
Autor: Cristiane Aleixo Simões.
Editora: Contentus.
Sinopse: Este livro trata de questões específicas do estudo da 
Bíblia, seu contexto, geografia do mundo bíblico, formação do seu 
povo e a experiência de um Deus único. Desenvolve discussões 
sobre a influência de determinadasculturas, autoria e linguagem 
dos textos. Reflete também acerca de diferentes questões sobre 
a tradição, sua importância e papel em diferentes contextos. A 
obra também promove um pensamento sobre a leitura e releitura 
bíblica, historicamente e nos dias atuais.
FILME/VÍDEO
Título: Lutero
Ano: 2003.
Sinopse: Retrata a vida de Martim Lutero, que desafiou todas as 
autoridades políticas e religiosas de seu tempo, pois acreditava que 
algumas atividades praticadas pela Igreja Católica eram imorais. 
O filme também evidencia conflitos religiosos que permanecem 
atuais até os dias de hoje.
27
Plano de Estudo:
● Protocanônicos, Deuterocanônicos e Apócrifos;
● A Formação do Cânon Bíblico;
● Dois testamentos e um livro único: a Bíblia;
● O cânon das Escrituras: o sentido de um fato;
● A forma canônica.
Objetivos da Aprendizagem:
● Saber o significado do cânon bíblico;
● Entender um pouco de seu processo de formação;
● Conhecer a importância de se ter um cânon no processo 
de definição das Sagradas Escrituras.
UNIDADE II
O Cânon das Escrituras
Professor Me. Flávio Donizete Batista
28UNIDADE I A Palavra Escrita 28UNIDADE II O Cânon das Escrituras
INTRODUÇÃO
Olá, Prezado Acadêmico. Olá, Prezada Acadêmica.
Vamos dar prosseguimento ao nosso estudo de Introdução às Sagradas Escrituras. 
Esperamos que sua experiência de aprendizagem esteja sendo válida, de maneira a 
conhecer um pouco mais da Bíblia e de sua importância no estudo teológico.
Nesta unidade, vamos estudar o Cânon Bíblico. Vamos saber sobre seu significado 
e seu processo de definição. Trata-se de um tema importante, pois é necessário saber 
quais os critérios usados para chegar à lista de livros que consideramos canônicos hoje, 
entendendo um pouco como tudo aconteceu.
Estudaremos a definição do cânon no Antigo Testamento e no Novo Testamento, 
mostrando como o processo foi decisivo para que tivéssemos hoje uma coleção de livros 
que não são considerados quaisquer livros, mas como aqueles que fazer parte de um grupo 
especial: o de inspirados pelo próprio Deus.
Um excelente estudo para todos. 
Grande abraço.
29UNIDADE I A Palavra Escrita 29UNIDADE II O Cânon das Escrituras
1. PROTOCANÔNICOS, DEUTEROCANÔNICOS E APÓCRIFOS
O termo grego kanon significava originalmente uma “vara de medir” e, mais tarde, 
num sentido derivado, uma “regra” ou “norma”. Desde o século II, recebe o significado de 
“norma de fé”. A partir do século IV, o adjetivo “canônico” é aplicado aos livros bíblicos, 
enquanto o termo “cânon” inicia a ser utilizado na Igreja Latina no sentido de catálogo 
dos livros bíblicos reconhecidos. Portanto, o termo “cânon” aplicado à Bíblia significa 
primeiramente norma de fé e em sentido derivado o elenco dos livros bíblicos que contêm 
essa norma de fé (PRIOTTO, 2019, p. 30).
Há também o termo canonicidade, que significa que um livro inspirado, destinado 
à Igreja, foi recebido como tal por ela. Embora todos os livros canônicos sejam inspirados 
e nenhum livro inspirado exista fora do cânon, contudo, as noções de canonicidade e 
inspiração não são as mesmas. Os livros são inspirados porque Deus é seu autor; eles são 
canônicos porque a Igreja os reconheceu e os admitiu como inspirados, pois só a Igreja, por 
meio da revelação, pode reconhecer o fato sobrenatural da inspiração. O reconhecimento 
pela Igreja não acrescenta nada à inspiração de um livro, mas reveste o livro de uma 
autoridade absoluta do ponto de vista da fé e, ao mesmo tempo, é o sinal e garantia da 
inspiração (HARRINGTON, 1985, p. 51).
A determinação dos livros canônicos não aconteceu de maneira fácil e automática, 
mas exigiu uma longa caminhada e, por vezes, difícil; a terminologia é variada. 
30UNIDADE I A Palavra Escrita 30UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Quando comparamos as versões católicas e protestantes do Antigo Testamento, 
verificamos que as últimas enumeram 39 livros – como a Bíblia hebraica – enquanto as 
católicas aceitam 45 livros. Priotto (2019) lembra que alguns livros foram reconhecidos 
normativos desde o início (por exemplo, os cinco livros do Pentateuco ou os Evangelhos); 
daí a denominação de “protocanônicos” para os livros bíblicos sempre e sem discussão 
reconhecidos como normativos. Ao invés, são denominados “deuterocanônicos” os livros 
bíblicos cuja canonicidade foi objeto de contestação e reconhecida mais tarde. Os livros 
deuterocanônicos do Antigo Testamento são sete: Tobias, Judite, Baruc, Sabedoria, 
Eclesiástico, 1-2 Macabeus; a eles acrescentam-se algumas seções escritas em grego do 
Livro de Daniel (3,24-90; 13-14) e do livro de Ester (1,1a-r; 3,13a-g; 4,17a-z; 5,1a-f.2a-b; 
8,12a-x; 10,3a-k). Os livros deuterocanônicos do Novo Testamento são Hebreus, Tiago, 2 
Pedro, 2-3 João, Apocalipse e as perícopes de Mc 16,9-20 e Jo 7,53-8,11 (PRIOTTO, 2019, 
p. 31). Harrington escreve o seguinte:
Os católicos chamam estes livros de deuterocanônicos – uma infeliz desig-
nação, visto que parece implicar que eles não têm a mesma autoridade que 
os outros livros. O que realmente significa é que houve uma certa hesitação 
acerca de tê-los universalmente aceitos como canônicos, isto é, Escrituras. 
Por contraste, os livros protocanônicos são aqueles sobre os quais nunca 
houve dúvidas na Igreja (HARRINGTON, 1985, p. 51).
A respeito do cânon do Novo Testamento, houve muita discussão no início da 
Reforma: Lutero e outros reformadores alemães rejeitaram as cartas de Tiago, de Judas, a 
Carta aos hebreus e o Apocalipse; outras Igrejas reformadas, embora não os rejeitassem, 
consideraram os deuterocanônicos do Novo Testamento como livros “de segunda 
classe”; outras Igrejas ainda não puseram em discussão o cânon do Novo Testamento. 
No século XVII, os próprios luteranos voltaram ao cânon tradicional do Novo Testamento. 
No protestantismo hodierno, os deuterocanônicos do Antigo Testamento continuam a ser 
excluídos do cânon, embora comecem a ser mais apreciados e lidos, e a ser trazidos no 
fim da Bíblia; os deuterocanônicos do Novo Testamento, porém, são aceitos e trazidos na 
ordem tradicional (PRIOTTO, 2019, p. 31).
Uma palavra sobre os livros apócrifos. O nome apócrifo é aplicado pelos católicos 
a certos escritos judaicos e cristãos que tiveram a pretensão à autoridade divina, mas 
que, de fato, não são Escrituras inspiradas. Os apócrifos do Antigo Testamento, produto 
do judaísmo, são atribuídos a vários patriarcas e profetas e refletem as ideias religiosas 
e morais do mundo judaico do século II a.C. ao século I d.C. Os apócrifos do Novo 
Testamento são obras de origem cristã. Atribuídos, em geral, a apóstolos, eles refletem 
as crenças, doutrinas e tradições de certos círculos, tanto ortodoxos como heréticos dos 
primeiros séculos da Igreja.
31UNIDADE I A Palavra Escrita 31UNIDADE II O Cânon das Escrituras
2. A FORMAÇÃO DO CÂNON BÍBLICO
Vamos percorrer, mesmo que sucintamente, as etapas que historicamente levaram 
à determinação dos vários livros bíblicos e à sua composição num único livro, a Bíblia. As 
etapas desse processo são três: a formação do cânon do Antigo Testamento, a formação do 
cânon do Novo Testamento e a união dos dois cânones numa única escritura.
2.1 A formação do cânon do Antigo Testamento
No seio do judaísmo, um dos primeiros atestados da existência de uma “Bíblia”, 
isto é, de uma coleção de livros sagrados, aparece no prólogo do Eclesiástico (138 a.C.); 
ali se mencionam a Lei, os Profetas e um terceiro grupo ainda não bem definido (“os outros 
livros”, “os livros que seguem”) que corresponde, provavelmente, aos Escritos. A versão 
dos LXX oferece certamente um princípio de seleção, mas num quadro aberto, como é 
demonstrado pela presença dos sete livros deuterocanônicos (TB, Jt, Br, Sb, Eclo, 1-2 
Mc) e dos acréscimos gregos aos livros de Daniel e de Ester; de fato, trata-se de uma 
tradução ocorrida no curso de dois ou três séculos, atestado só por códices cristãos, com 
divergências sobre a presença de determinados livros(PRIOTTO, 2019, p. 35).
Também a biblioteca de Qumran, mesmo atestando um princípio de seleção, não 
comporta um cânon fechado, mas mais propriamente o testemunho de uma praxe exegética 
e litúrgica. Seja como for, embora num quadro fragmentário, falta o Livro de Ester; são, 
porém, conhecidos alguns livros deuterocanônicos, como a Carta de Jeremias (Br 6), Tobias 
e Eclesiástico; por fim, estão presentes também livros apócrifos, como Jubileus, Henoc e os 
Testamentos do Doze Patriarcas, além, naturalmente, dos textos próprios da comunidade.
32UNIDADE I A Palavra Escrita 32UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Também o testemunho do Novo Testamento, embora importante, não faz referência 
a um cânon preciso e refere-se essencialmente à Lei e aos Profetas; sobre os Escritos, em 
Lc 24,44, ao lado da Lei e dos Profetas, sobressai a menção dos Salmos, que corresponde 
provavelmente ao terceiro grupo dos Escritos. Dos deuterocanônicos são citados 
Eclesiástico, Sabedoria, 1-2 Macabeus, Tobias, aos quais se acrescentam alguns livros 
populares como os Salmos de Salomão, 1-2 Esdras, 4 Macabeus, a Assunção de Moisés e 
Henoc (PRIOTTO, 2019, p. 35-36).
Um primeiro testemunho explícito sobre o cânon bíblico aparece no escritor 
hebreu Flávio Josefo (37-107 d.C.), em sua obra Contra Apionem: “Não existe entre nós 
uma infinidade de livros discutidos e contraditórios, mas apenas vinte e dois, que abraçam 
a história de todos os tempos e que são justamente considerados divinos” (PRIOTTO, 
2019, p. 36). Se para os cinco livros de Moisés trata-se evidentemente do Pentateuco, 
para os treze livros dos Profetas e os quatro livros dos Hinos não há especificação alguma; 
todavia, pelas indicações presentes nos outros escritos de Flávio Josefo, o elenco pode 
facilmente ser deduzido: os treze livros dos profetas correspondem a Josué, Juízes + 
Rute, 1-2 Samuel, 1-2 Reis, Isaías, Jeremias + Lamentações, Ezequiel, os doze profetas 
menores, Jó, Ester, Daniel, Esdras-Neemias, 1-2 Crônicas; e os quatro Livros dos Hinos 
correspondem a Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes. Trata-se de vinte 
e dois livros, correspondentes às letras do alfabeto hebraico: uma cifra altamente simbólica 
para definir a plenitude da revelação. Pouco mais tarde, o apócrifo 4Esd 14,18-47 elenca 
vinte e quatro livros sagrados dos hebreus; trata-se da mesma lista de Flávio Josefo, porque 
Rute e Lamentações são computados à parte (PRIOTTO, 2019, p. 36).
 No tempo de Cristo, havia ainda alguma incerteza acerca do cânon e da canonicidade 
de certos livros. Só foi depois da destruição de Jerusalém (70 d.C.) que um grupo de doutores 
judeus, que procurava preservar aquilo que restava do passado, se reuniu em Jâmnia, por 
volta do ano 90 d.C., e aceitaram formalmente o restrito cânon dos fariseus. Por várias 
razões, incluindo o fato de que a Bíblia grega tinha sido adotada pelos cristãos, certos livros 
que faziam parte daquela Bíblia (isto é, nossos livros deuterocanônicos) foram rejeitados. A 
decisão do Sínodo de Jâmnia foi apenas para os judeus – e dali em diante eles aceitaram a 
lista menor. Ela não podia ser de importância universal, porque agora a sinagoga tinha sido 
substituída pela Igreja. No tempo da Reforma, os protestantes, desejando fazer traduções 
diretamente do hebraico, tomaram plena consciência dessa discrepância; eles terminaram 
por considerar o cânon judaico como o cânon autêntico (HARRINGTON, 1985, p. 54). 
33UNIDADE I A Palavra Escrita 33UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Com a destruição do Templo em 70 d.C. e o consequente desaparecimento da liturgia 
sacrifical, o judaísmo palestinense configura-se sempre mais como uma religião do Livro, 
sobretudo, graças à contribuição da corrente farisaica, que, pondo ao centro o livro, salva 
o judaísmo, tornando-se sua expressão mais significativa; daí os esforços para definir com 
exatidão as componentes do Livro Sagrado. As discussões concentram-se especialmente 
sobre o terceiro grupo dos Escritos, em particular sobre a canonicidade de Eclesiastes e do 
Cântico dos Cânticos, como demonstram as discussões de Jâmnia; também a ordem dos 
livros é ainda flexível. Trata-se, porém, de um debate que interessa um círculo restrito de 
especialistas, porque, na realidade, esses livros são largamente difundidos e aceitos pelos 
fiéis. Embora na ausência de um pronunciamento oficial sobre uma definição propriamente 
dita do cânon, pode-se afirmar que, com o início do século III d.C., o judaísmo já definiu o 
próprio cânon, como atesta a afirmação do Talmude (PRIOTTO, 2019, p. 36-37).
A Igreja Cristã se desenvolveu no ambiente da Diáspora. Na prática, a Bíblia 
da Igreja foi a Bíblia grega. Da parte cristã, o acolhimento e o reconhecimento dos 
livros daquele que já é chamado de Antigo Testamento passa através da mediação da 
LXX; com efeito, o cristianismo se desenvolve muito cedo, prevalentemente no mundo 
de língua grega e, por isso, foi natural da parte da Igreja o uso da Bíblia grega, que, 
como já se viu, contém também os assim chamados livros deuterocanônicos e alguns 
acréscimos a Daniel e Ester. Com isso, é promovido um cânon mais longo em relação ao 
da tradição de língua hebraica. Todavia, as razões dessa opção não são simplesmente 
de ordem linguística, porque a aceitação desses livros permite aos cristãos ligar melhor o 
Antigo Testamento ao Novo Testamento; a aceitação de livros como Tobias, Judite e 1-2 
Macabeus cria uma ponte narrativa entre a história de Israel e o nascimento de Jesus; 
a recepção de livros recentes, como o Eclesiástico e a Sabedoria, permite afirmar que 
a revelação não terminará com a reforma de Esdras; por sua vez, a presença de livros 
escritos originalmente em grego, como 2 Macabeus, Sabedoria e os acréscimos a Daniel 
e Ester, consentem que o cristianismo primitivo saia do mundo restrito de língua hebraica 
para o mundo helenista e pagão (PRIOTTO, 2019, p. 37).
Na realidade, a aceitação desses livros deuterocanônicos não foi pacífica e imediata, 
como mostra um debate que se prolonga até quase o século VIII. Se, no Oriente, Orígenes, 
Atanásio e Cirilo de Jerusalém optam pelo cânon breve dos hebreus, no Ocidente, Agostinho 
defende valorosamente o cânon longo, contra um Jerônimo defensor da veritas hebraica.
34UNIDADE I A Palavra Escrita 34UNIDADE II O Cânon das Escrituras
 Se, no Oriente, o Concílio de Laodicéia, na Frígia (360), defende o cânon breve, 
no Ocidente, os Concílios de Hipona (393) e de Cartago (397 e 419) e a Carta de Inocêncio 
I a Exupério de Tolosa (405) defendem o cânon longo; mas ainda em 692, o Concílio 
Quinissexto, em Trullo, testemunha uma certa ambiguidade ratificando ao mesmo tempo os 
diversos cânones do Concílio de Laodicéia e de Cartago. Somente o Concílio de Florença 
(1442) e, depois, o de Trento (1546) dissiparam qualquer dúvida, enumerando e definindo 
solenemente o cânon longo (PRIOTTO, 2019, p. 37-38).
Harrington (1985, p. 55) afirma que no Concílio de Laodicéia, o cânon defendido 
favorece a impressão de que a atitude do Oriente, de um modo geral, era desfavorável 
aos livros deuterocanônicos; para o Antigo Testamento, ele enumera apenas os livros da 
Bíblia hebraica. Contudo, deve ser observado que os Padres admitiam que esses livros 
podiam ser lidos para a edificação do fiel e eram úteis para a instrução dos catecúmenos. 
Além disso, eles frequentemente expressavam grande estima pelos livros, admitindo-os 
na adoração litúrgica lado a lado com os outros, e até os citaram com as fórmulas “Está 
escrito” e “Deus diz nas Escrituras”.
A atitude dos Padres Orientais pode ser explicada por dois fatores principais: 1) Na 
controvérsia com os judeus, a fim de ter uma base comum de argumentação, os Padres se 
restringiram ao cânon judaico aceito; 2) Os apócrifos judaicos, reivindicando canonicidade, 
estavam em circulação; assim, todos os livros tinham de ser cuidadosamente examinados, 
e as credenciais dos livrosdeuterocanônicos não pareciam ser tão convincentes quanto as 
dos outros (HARRINGTON, 1985, p. 55).
Ao aceitar as Escrituras hebraicas, a Igreja primitiva não só aceita os livros 
deuterocanônicos, mas opta por uma estrutura nova no elenco dos livros; de fato, dissocia os 
assim chamados Livros Históricos (Js, Jt, 1-2 Sm, 1-2 Rs) dos Livros Proféticos e coloca estes 
últimos no fim do Antigo Testamento, acentuando assim seu caráter de profecia cristológica 
e de Introdução ao evento Jesus. Veremos que o mesmo vale para a nova denominação de 
“Antigo Testamento”, expressão que pressupõe necessariamente o Novo Testamento.
2.2 A Formação do Cânon do Novo Testamento
A Igreja cristã possuía, desde o princípio de sua existência, um cânon das 
Escrituras inspiradas: o Antigo Testamento. Contudo, para a Igreja primitiva, este Antigo 
Testamento era, em seu sentido mais profundo, profecia de Cristo – um reconhecimento 
de que, mesmo aqui, a autoridade última era o próprio Cristo. Cristo tinha comissionado 
os seus apóstolos para proclamar a boa nova e edificar a comunidade cristã e os tinha 
enchido do poder do Espírito Santo.
35UNIDADE I A Palavra Escrita 35UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Eles tinham sido testemunhas oculares de sua obra e ouvintes de suas palavras; 
e a importância deles foi ainda maior nos tempos apostólicos. Portanto, a Igreja primitiva 
tinha três autoridades: o Antigo Testamento, o Senhor e os Apóstolos. Contudo, a autoridade 
última, decisiva era Cristo, o Senhor, que falou imediatamente em suas palavras e obras e 
mediatamente no testemunho de suas testemunhas (HARRINGTON, 1985, p. 55-56).
Sobre a formação do cânon, também para o Novo Testamento o processo é longo 
e complexo. Embora no tempo da atividade de Jesus o cânon da Escritura hebraica não 
estivesse ainda definido em todo o seu rigor, sua autoridade era indiscutida, como aparece 
nas expressões “a Lei e os profetas” (Mt 5,17; 7,12; 22,40), “a Escritura” (Mc 12,10; Jo 2,22), 
“as Escrituras” (Mt 21,42; At 17,2), “as Sagradas Escrituras” (Rm 1,2), “a Lei de Moisés, os 
profetas e os salmos (Lc, 24,44), “está escrito” (Mt 2,5; Mc 1,2; Lc 2,3). Mas essa autoridade 
da Escritura hebraica está intimamente conexa com a autoridade da palavra de Jesus; de 
fato, no seu ministério, Ele oferece uma palavra que se coloca como o próprio cumprimento 
da Escritura (Mt 5,17), radicalizando-a (Mt 5,21-28) e, ao mesmo tempo, relativizando-a (Mc 
10,2-9); essa autoridade das palavras de Jesus aparece particularmente em Paulo (1Cor 
7,10-11; 9,14; 11,23-25; 1Ts 4,15; At 20,35). A palavra de Jesus, porém, não é uma palavra 
autoritária que se acrescenta à precedente da tradição hebraica, mas forma com ela um 
todo único, definindo-a como autoridade definitiva (PRIOTTO, 2019, p. 38).
No começo, as palavras do Senhor e o relato de seus feitos eram repetidos e relatados 
oralmente, mas logo eles começaram a ser redigidos. Em sua obra missionária, os apóstolos 
tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades. Pelo menos alguns desses escritos 
eram trocados entre as igrejas e logo ganharam a mesma autoridade dos escritos do Antigo 
Testamento. Contudo, é compreensível que tenha decorrido algum tempo antes que a coleção 
desses escritos do tempo dos apóstolos tivesse tomado o seu lugar, com inquestionável autori-
dade, ao lado dos livros do Antigo Testamento, especialmente quando se considera que muitos 
eram escritos ocasionais endereçadas às igrejas individuais (HARRINGTON, 1985, p. 56).
O conhecimento da palavra de Jesus nas comunidades cristãs primitivas, porém, 
passa pelo anúncio, pela interpretação e pelo testemunho dos apóstolos, de Paulo e 
de seus estreitos colaboradores. Enquanto testemunhas do Ressuscitado, eles são os 
verdadeiros depositários da palavra de Jesus e os intérpretes fiéis: daí a importância de sua 
palavra. Dessa forma, antes mesmo de se constituírem escritos, emerge uma palavra oral, 
o querigma apostólico, cuja indiscutível e última autoridade faz referência à própria pessoa 
de Jesus vivo e operante em sua Igreja. É unicamente essa Palavra que fundamenta e 
constitui a comunidade cristã e é unicamente essa Palavra que preside a formação do Novo 
Testamento, embora sua articulação histórica seja lenta, complexa e, com frequência, já 
não plenamente atingível (PRIOTTO, 2019, p. 38-39).
36UNIDADE I A Palavra Escrita 36UNIDADE II O Cânon das Escrituras
As palavras escritas do Senhor, embora não sejam os escritos mais antigos do 
Novo Testamento foram os primeiros a serem colocados em pé de igualdade com o Antigo 
Testamento e reconhecidos como canônicos. Harrington (1985, p. 56) escreve que por 
volta de 140, Pápias, bispo de Hierápolis, na Frígia, conhece Marcos e Mateus. Justino 
(c. 150) cita os Evangelhos com autoridade. Hegésipo (c.180) fala da “Lei e Profetas do 
Senhor”. Os mártires de Scilla, na Numídia (180), têm, como escritos sagrados, “os livros 
e as epístolas de Paulo, homem justo”; somente os Antigo Testamento e os Evangelhos 
eram chamados de “Livros”, isto é, Escrituras. Harrington (1985, p. 56) acrescenta que os 
escritos dos Padres Apostólicos fornecem certa prova de que, desde as primeiras décadas 
do século II, as grandes igrejas possuíam um livro ou grupo de livros que eram comumente 
conhecidos como “Evangelho” e a que se fazia referência como a um documento que tinha 
autoridade e era universalmente conhecido.
O primeiro grupo dos escritos é constituído pelas cartas paulinas; trata-se de cartas 
destinadas a várias comunidades, mas também às comunidades de toda uma região (2Cor 
1,1; Gl, 1,2) ou cartas que deveriam ser idas a outras comunidades (1Ts 5,27). Isso implica 
a necessidade de conservá-las e recolhê-las, como aparece em 2Pd 3,15-16. Por volta da 
metade do século II d.C., Marcião conhece um grupo de dez cartas (Rm, 1-2Cor; Gl; Ef; 
Fl; Cl; 1-2Ts; Fm), em que faltam ainda as três cartas pastorais (1-2Tm; Tt); pouco depois, 
pelo fim do século II, o célebre Fragmento Muratoriano, que provavelmente representa a 
tradição da Igreja de Roma, recenseia treze cartas paulinas, com a exclusão da Carta aos 
Hebreus; a aceitação desta última é mais penosa no Ocidente, no qual se imporá mais 
tarde graças à autoridade de Hilário de Poitiers, de Jerônimo e de Agostinho, enquanto no 
Oriente aparece desde o século III ao lado das outras cartas paulinas, seja em Clemente 
de Alexandria, seja em Orígenes (PRIOTTO, 2029, p. 39).
Por volta da metade do século II, aparece o testemunho de um segundo grupo de 
escritos, constituído pelos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas, João), escrito na 
segunda metade do século I d.C. Justino os cita com o nome de “memórias dos apóstolos”, 
atestando sua leitura, ao lado dos escritos proféticos do Antigo Testamento, na liturgia 
eucarística. Seu uso litúrgico ao lado das Escrituras hebraicas manifesta sua importância e 
autoridade (PRIOTTO, 2019, p. 39).
Essas duas primeiras coleções de escritos constituem o núcleo original do Novo 
Testamento e testemunham a comum tradição apostólica da palavra de Jesus. Entre o século II 
e III, a eles se acrescentam os Atos dos Apóstolos, cuja autoridade é claramente reconhecida, 
porque ilustram admiravelmente a continuidade entre a obra de Jesus e a da Igreja.
37UNIDADE I A Palavra Escrita 37UNIDADE II O Cânon das Escrituras
As sete cartas restantes (Tg; 1-2Pd; 1-2-3Jo; Jd), à parte 1 Pedro e 1 João, constituem 
o grupo mais instável da coleção neotestamentária. Com efeito, se a 1 Pedro é já conhecida por 
Policarpo de Esmirna, citada como petrina por Irineu e Tertuliano e comentada por Clemente 
de Alexandria e Orígenes, e se, igualmente a 1 João é conhecida e aceita desde a metade 
do século II d.C., não é assim para as restantes cinco cartas. A 2 Pedro, sobretudo por causa 
de sua duvidosa atribuição a Pedro, será aceita somente no fim do século IV; igualmente a 
2 e 3 João, atribuídas ao “presbítero”, serão reconhecidascomo canônicas somente no final 
do século IV, como transparece da trigésima nona carta festiva de Atanásio (367), do Sínodo 
de Hipona (393) e do Sínodo de Cartago (397). A presença de citações de livros apócrifos 
(Henoc e a Assunção de Moisés) provoca alguma dificuldade na aceitação da Carta de Judas; 
todavia ela já é atestada pelo Fragmento Muratoriano e é considerada canônica pela maior 
parte das Igrejas desde o início do século III (PRIOTTO, 2019, p. 39-40).
Enfim, o Apocalipse. Se as Igrejas ocidentais o aceitam e o comentam, nas Igrejas 
Orientais ele encontra notáveis dificuldades para ser aceito como canônico, sobretudo por 
causa do aparente apoio à heresia montanista e do milenarismo, e de seu forte caráter 
profético; nas Igrejas da Síria, da Capadócia e da Palestina esta desconfiança se prolonga 
ao menos até por volta dos séculos V-VI.
Concluindo, pode-se afirmar que já no final do século II emerge um forte núcleo 
canônico constituído pelos quatro Evangelhos, pelos Atos dos Apóstolos, pelas treze cartas 
paulinas, pela 1 Pedro e pela 1 João: vinte livros sobre os futuros vinte e sete; esse núcleo 
é particularmente significativo se tivermos presente a diversidade e a amplidão das Igrejas 
cristãs. No fim do século IV, não obstante resíduas flutuações, acrescentam-se ao precedente 
núcleo os remanescentes sete livros, para formar, assim aquilo que nós conhecemos como 
cânon neotestamentário. A mais antiga atestação é constituída pela trigésima nona carta 
festiva de Atanásio (367), nos quais são elencados os vinte e sete livros do Novo Testamento. 
A partir da segunda metade do século V o consenso é unânime, e isso até o século XVI, 
quando Lutero e outros reformadores alemães rejeitaram Tiago, Judas, Hebreus e Apocalipse; 
essa opção, todavia, não foi partilhada pelas outras Igrejas reformadas; os próprios luteranos, 
um século depois, voltarão ao cânon tradicional (PRIOTTO, 2019, p. 40).
38UNIDADE I A Palavra Escrita 38UNIDADE II O Cânon das Escrituras
3. DOIS TESTAMENTOS E UM LIVRO ÚNICO: A BÍBLIA
Sem dúvida, o Novo Testamento reconhece a autoridade divina das Escrituras 
hebraicas. Quando as cita, escreve: “Deus disse” (2Cor 6,16) ou “O Espírito Santo disse” 
(Hb 3,7), e isso também quando Deus não é o interlocutor da passagem veterotestamentária 
(cf. At 13,37 que cita Sl 16,10). Referindo-se à Palavra de Deus, Hb 4,12, inclui as Escrituras 
junto com as palavras pronunciadas por Deus. Rm 3,2 caracteriza o Antigo Testamento 
como “os oráculos de Deus”. Portanto, o Novo Testamento assume a Escritura hebraica 
como Palavra de Deus, mas claramente no novo horizonte cristológico; desse modo 
as citações neotestamentárias consagram as antigas Escrituras no seu valor profético, 
proclamando que sua verdade está nesse Novo Testamento, que está se formando a 
partir da tradição de Jesus.
Isso é confirmado pela própria designação de “Novo Testamento”. A expressão é 
devida a um escritor cristão anônimo que, por volta do fim do século II d.C., assim designa 
o conjunto desses livros; consequentemente, as Escrituras hebraicas são definidas como 
“Antigo Testamento” (PRIOTTO, 2019, p. 41). O termo “testamento” deriva do vocábulo latino 
testamentum, que, por sua vez, traduz o termo grego diathéke (aliança). A expressão significa, 
pois, “nova aliança” e se refere à promessa de Jr 31,31: “Virão dias – oráculos do Senhor – em 
que firmarei com a casa de Israel e a casa de Judá uma aliança nova”. A designação dos vinte 
e sete livros da segunda parte da Bíblia cristã como “Novo Testamento” atesta, por isso, o 
cumprimento da profecia de Jr 31,31-34 estipulada pelo sangue de Cristo (Lc 22,20; 2Cor 3,6).
39UNIDADE I A Palavra Escrita 39UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Assim, assistimos à formação de dois cânones diferentes, o hebraico e o cristão 
(mesmo com as várias diferenças entre as Igrejas). Os fatores que causam a formação de 
um cânon hebraico são múltiplos: após a destruição do Templo em 70 d.C., e, portanto, 
após cessar a liturgia legítima, a religião hebraica torna-se sempre mais uma religião do 
Livro, com a consequente necessidade de uma Escritura normativa e imutável. As disputas 
entre os fariseus e as seitas judaicas de tendência apocalíptica levaram indubitavelmente 
para a fixação do cânon. Também a formação do Novo Testamento cristão, que, é verdade, 
retomava as antigas Escrituras, mas em sentido cristológico, determinou a necessidade de 
uma clara diferenciação. Enfim, a assunção da parte cristã da LXX, com a consequente 
admissão dos livros deuterocanônicos, levou o judaísmo a limitar a canonicidade aos livros 
bíblicos escritos em hebraico (PRIOTTO, 2019, p. 41).
Também a Igreja Cristã nascente sente a necessidade de distinguir-se da 
comunidade judaica, porque o reconhecimento das Escrituras hebraicas passa já através 
da interpretação cristológica, e por isso, ao centro das Escrituras não está mais a Torá 
de Moisés, mas o Evangelho de Jesus. As controvérsias com as correntes heréticas e a 
necessidade de superar o caráter apenas local de alguns livros acelerem a necessidade de 
um cânon fixo de todas as Escrituras, processo tecnicamente facilitado, a partir do século 
IV d.C., pelas novas capacidades de produzir códices capazes de conter uma coleção tão 
ampla de escritos como a bíblica.
 
40UNIDADE I A Palavra Escrita 40UNIDADE II O Cânon das Escrituras
4. O CÂNON DAS ESCRITURAS: O SENTIDO DE UM FATO
Enquanto norma, o cânon comporta uma autoridade que a ponha e um sujeito 
que a receba: não são livros da Escritura que se autorizam sozinhos como cânon: a 
lista dos livros canônicos não é escriturística. O livro escriturístico nasce no contexto de 
um processo revelador que vai do profeta ao discípulo e, enfim, à comunidade crente. 
Exatamente porque ali reconhece a Palavra de Deus, a Igreja põe a Bíblia nas mãos do 
crente. Portanto, por parte da Igreja, a canonização é um ato de reconhecimento e de 
obediência da fé; esse reconhecimento comporta tanto a transcendência absoluta de Deus 
em relação à Igreja quanto a própria identidade da Igreja, que se constitui precisamente 
reconhecendo e aceitando a Palavra de Deus atestada na Escritura. Nessa perspectiva, a 
Igreja é sobretudo o sujeito que obedece a autoridade; seu ato se define, em primeiro lugar, 
como um receber. Ora, não se pode receber senão aquilo que já existe; nesse sentido, as 
Escrituras constituem uma realidade precedente, fruto da iniciativa admirável e gratuita de 
Deus. Mas, segundo uma mediação que pertence à lógica da encarnação da Palavra, o 
ato de receber próprio da Igreja torna-se necessariamente também um ato de autoridade, 
enquanto é ela que autoriza o cânon das Escrituras, isto é, decide aquilo que pertence a 
estas e aquilo que, ao contrário, lhe é estranho. Existe, pois, um paradoxo: o ato do sujeito 
que se submete na obediência e na humildade ao cânon das Escrituras é, ao mesmo tempo, 
um ato de autoridade (PRIOTTO, 2019, p. 46).
41UNIDADE I A Palavra Escrita 41UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Esse ato de obediência e de autoridade acontece na pregação apostólica; essa 
pregação é constitutiva da Igreja, porque ela só existe na medida em que as Escrituras se 
tornam e permanecem o objeto de sua pregação. Indubitavelmente, esta dualidade de um 
ato único (obediência/recepção e ato de autoridade) remete para a estrutura ministerial 
da Igreja: de um lado, ela se submete à Palavra revelada das Escrituras, de outro, a 
oferece ao povo de Deus para conservá-lo na obediência da fé. Todavia, o ato eclesial 
de determinação do cânon não é um ato automático e fácil, nem uma decisão que segue 
imediatamente à recepção, mas um ato difuso no tempo e no espaço, caracterizado pela 
lentidão dos processos históricos; quando as listas do cânon começam a aparecer na 
Igreja antiga e, depois, nos concílios, trata-se sempre de confirmação daquilo que já era 
conhecido e reconhecido (PRIOTTO, 2019,p. 46-47).
A determinação do cânon aconteceu, pois, numa comunidade crente; isso significa 
que não pode existir Escritura senão numa tradição viva, que preside sua composição e, 
depois, sua transmissão, quer dizer, sua canonização e interpretação. O cânon das Escrituras 
é, pois, um fato de tradição. Por sua natureza está no coração da relação entre Escritura e 
Igreja: a Igreja produz o cânon através de sua fidelidade ao evento que a fundamenta, de 
maneira tal que ele se torna a norma dessa mesma fidelidade. Sem Igreja não acontece 
Escritura, nem Igreja sem Escritura. Trata-se de uma estrutura permanente na vida da Igreja, 
afinal, a decisão sobre o Cânon é o primeiro ato de obediência e de autoridade: o fundamento 
de toda autoridade da Igreja é a necessidade de manter a Igreja na obediência da fé.
Quais são os critérios que presidiram o reconhecimento dos livros sagrados? Priotto 
(2019, p. 48) responde que o cânon das Escrituras hebraicas, como se apresentava na 
tradição da LXX, teve um papel evidente para a determinação do Antigo Testamento por parte 
da Igreja primitiva. Para o Novo Testamento, podemos reconhecer três critérios principais:
a) O critério do testemunho original, que se torna necessariamente critério temporal; 
trata-se de livros na época apostólica, isto é, na época da geração das testemunhas 
do evento fundador.
b) O critério eclesial: trata-se de livros aceitos em determinadas Igrejas, especialmente 
por seu uso litúrgico, e progressivamente reconhecidos por todas as Igrejas; são os 
livros dos quais a Igreja vive e, graças aos quais, exprime a própria fé;
c) O critério cristológico: a Igreja reconheceu os escritos que apresentavam uma 
imagem de Cristo conforme o querigma apostólico.
Essa Igreja que reconhece os livros sagrados é uma Igreja dotada de uma estrutura 
ministerial, isto é, trata-se de comunidades presididas por bispos.
42UNIDADE I A Palavra Escrita 42UNIDADE II O Cânon das Escrituras
 É significativo, afinal, que o tempo em que a Igreja está reconhecendo e definindo 
o cânon é também o tempo em que se está dando a estrutura do episcopado. Ora, a 
verdade dessa estrutura ministerial não é a de uma autoridade que se ergue acima da 
Escritura – afinal, a Igreja não pode ser superior à Escritura –, mas a de uma autoridade 
única da Escritura. Isso significa reconhecer que as Igrejas que se referiram definitivamente 
às Escrituras tinham consciência de que essas Escrituras fundamentavam o ministério de 
seu episcopado (PRIOTTO, 2019, p. 48).
Por fim, o cânon constitui um ato tanto de fechamento quanto de abertura. O cânon 
é, sobretudo, um ato de inclusão, embora longo e, por vezes, cansativo; isto é, ele inclui todo 
o testemunho profético-apostólico, excluindo ao mesmo tempo aquilo que é heterodoxo ou 
simplesmente não é essencial ao conteúdo da revelação. Esse ato de fechamento introduz 
também uma pausa temporal entre uma época normativa, na qual a revelação é ainda aberta a 
novas aquisições, e uma época na qual a relação com a comunidade crente com o evento da 
revelação passa já através da mediação objetiva do cânon das Escrituras. Essa pausa temporal 
para a Bíblia hebraica aconteceu no início do século III d.C.; para a Bíblia cristã coincide com a 
passagem da época apostólica para a época pós-apostólica (PRIOTTO, 2019, p. 48).
Mas esse ato de fechamento é também um ato de abertura. Com efeito, o cânon não é 
simplesmente um documento que codifica o conteúdo da revelação, mas é uma Palavra viva, 
oferecida à comunidade para que possa interpretá-la, aprofundá-la e atualizá-la nas novas 
circunstâncias históricas que ela vive. Esse ato de fechamento canônico só pode realizar-
se com fatos acontecidos; isto é, não pode ser estritamente contemporâneo ao fechamento 
efetivo da época normativa. Afinal, por exemplo, a plena consciência da normatividade da 
época apostólica aconteceu quando a geração apostólica já havia desaparecido. 
Por fim, o ato de fechamento do cânon é a constituição de um “corpo escriturístico”; 
é o novo corpo dado ao Verbo de Deus. Trata-se de uma metáfora significativa, porque se 
esse corpo escriturístico remete necessariamente para a realidade do corpo de cristo, está 
também indissoluvelmente ligado ao corpo da Igreja, que, por sua vez, vive tanto do corpo 
das Escrituras quanto do corpo eucarístico (PRIOTTO, 2019, p. 49).
43UNIDADE I A Palavra Escrita 43UNIDADE II O Cânon das Escrituras
5. A FORMA CANÔNICA
Precisamos lembrar que a Bíblia não é apenas um elenco de livros chegados até nós 
para reunir, um depois do outro, quase uma biblioteca, mas um livro cuja estrutura foi pensada 
em função de uma teologia. Daí a necessidade de distinguir claramente a Bíblia hebraica da 
cristã, embora a primeira seja textualmente igual. De fato, viu-se que a Bíblia hebraica tem 
uma modulação teológica própria, centrada sobre a Torá de Moisés, da qual dependem tantos 
os Profetas como os Escritos. A Bíblia cristã, porém, desloca o centro sobre Jesus, o último 
revelador de Deus; por isso, se, por um lado, acentua a continuidade histórico-salvífica com a 
aliança precedente emprestando sua Escritura hebraica, por outro a interpreta à luz de Jesus. 
É assim que a Escritura hebraica se torna o Antigo Testamento, em que a colocação final dos 
escritos proféticos introduz a vinda do revelador final, e o Novo Testamento, em particular o 
grupo dos quatro Evangelhos, torna-se a nova e definitiva Torá: “Porque a Lei foi dada por 
meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17).
Essa distinção entre Escritura hebraica e Escritura cristã não significa contraposição 
recíproca, mas testemunha duas recepções eclesiais diversas, embora complementares, 
na espera que se cumpra o que escreve Paulo:
A cegueira de uma parte de Israel só há de durar até que chegue à totalidade 
das nações. Então, todo Israel será salvo, como está escrito: O Libertador virá 
de Sião para afastar de Jacó as impiedades E esta será minha aliança com 
eles, quando apagar os seus pecados – Rm 11,25-27 (PRIOTTO, 2019, p. 61).
44UNIDADE I A Palavra Escrita 44UNIDADE II O Cânon das Escrituras
SAIBA MAIS
Em sua história Eclesiástica, Eusébio de Casareia falou de livros cura autoridade 
era reconhecida de forma unânime (omologoumenoi), daqueles discutidos 
(amphiballomenoi) e dos que eram contrastados (Antilogoumenoi). Depois do Concílio 
de Trento, a denominação adotada pela Igreja foi: protocanônicos, para designar os 
livros canonizados em um primeiro momento; deuterocanônicos, os que entraram no 
cânon de um segundo momento. E apócrifos (que significa “algo escondido, oculto”), 
aqueles que não foram considerados canônicos. 
Fonte: CATENASSI, Fabrízio Zandonadi. Introdução teológica e história de Israel. Curitiba: Intersaberes, 2018.
REFLITA
Qual a importância do estabelecimento do Cânon bíblico? Decretar o cânon não incorreu 
no risco de deixar livros inspirados por Deus fora da Bíblia?
Fonte: O Autor (2022). 
45UNIDADE I A Palavra Escrita 45UNIDADE II O Cânon das Escrituras
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluímos mais uma etapa de nosso estudo. Esperamos que ele também tenha 
sido frutuoso para sua formação teológica no aspecto da Introdução às Sagradas Escrituras.
Vimos o processo e a importância da definição do cânon bíblico. Pudemos perceber 
que se tratou de um processo que fez, tanto os judeus, quanto a Igreja Cristã, estabelecer 
quais os livros poderiam fazer parte desse conjunto que é atribuído aos livros que foram 
escritos sob a inspiração de Deus.
Em nossa próxima unidade, vamos estudar de forma mais aprofundada o conceito 
de inspiração e de revelação. Apesar de separados, por uma questão didática, são concei-
tos que se inter-relacionam com o cânon de forma inseparável.
Um ótimo estudo para todos.
46UNIDADE I A Palavra Escrita 46UNIDADE II O Cânon das Escrituras
LEITURA COMPLEMENTAR
Natureza da Canonicidade
Embora o cânon da Igreja Latina estivessefixado no século V, vimos que se 
levantaram dúvidas em algumas partes com respeito à origem apostólica de muitos escritos 
do Novo Testamento (Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João). As discussões com respeito a 
Hebreus persistiram até a Idade Média e as dúvidas só foram acalmadas pela autoridade 
de Tomás de Aquino e Nicolau de Lira, que sustentavam que a epístola era paulina. No 
século XVI, a questão foi levantada uma vez mais. Erasmo (1536) viu-se censurado pelos 
teólogos da Sorbonne por duvidar da origem apostólica de Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 
João e Apocalipse – embora ele não negasse a sua canonicidade. Hoje, quase todos os 
exegetas concordam que Hebreus e 2 Pedro não forma escritas pelos apóstolos e que o 
autor de Tiago não é o apóstolo do mesmo nome, ao passo que a autenticidade de João, 
Apocalipse e algumas das epístolas paulinas é amplamente questionada. Devemos agora 
examinar o critério de canonicidade (HARRINGTON, 1985, p. 59).
Segue-se da história da formação do cânon que a Igreja foi orientada, em parte, 
pela prática e ensino de Cristo e seus apóstolos, que certamente consideravam o antigo 
Testamento como a palavra de Deus. E foi a Igreja que declarou, para sempre, que o Antigo 
Testamento era canônico. Contudo, como pode a Igreja ter sabido quais livros do Novo 
Testamento são inspirados? Parece que isso não pode ser estabelecido por meio dos livros 
individualmente. Não é provável que escritores, não conscientes de sua própria inspiração, 
pudesse ter revelado a inspiração de um determinado livro; e mesmo que estivessem 
cônscios de sua própria inspiração, tem de ser demonstrado que eles, de fato, revelaram 
a inspiração de certos livros. Contudo, a inspiração de um grupo de escritos é parte da 
verdade revelado que deve datar da época apostólica, isto é, da primeira geração da Igreja, 
o período de sua formação. A pesquisa histórica sugere que, ao decidir que os livros do 
Novo Testamento são inspirados, foi ao princípio da Apostolicidade que a Igreja recorreu. 
Contudo, o critério invocado pelos Padres não é sempre a origem apostólica dos livros 
num sentido restrito: algumas vezes, eles consideram os apóstolos não como os autores 
dos livros, mas como o primeiro elo na cadeia de tradição que encontra sua expressão nos 
livros (HARRINGTON, 1985, p. 59-60).
47UNIDADE I A Palavra Escrita 47UNIDADE II O Cânon das Escrituras
Citando o teólogo Karl Rahner, Harrington diz: 
que é arbitrário afirmar que os apóstolos, ou um apóstolo, tinham deixado 
uma formal e explícita revelação sobre a natureza inspirada dos escritos do 
Novo Testamento in individuo, ou em alguma declaração que expressava 
diretamente essa revelação. (...) A inspiração tem que ser concebida de tal 
maneira que demonstre por si como a Igreja conhece a inspiração dos livros 
do Novo Testamento, sem a necessidade de recorrer a qualquer declaração 
a seu respeito nos tempos apostólicos, a qual não tem suporte histórico 
(HARRINGTON, 1985, p. 60).
É verdade que, definitivamente, a inspiração de um escrito só pode ser conhecida 
por meio da revelação; a questão é como deve ser concebida essa revelação. Desde que as 
Escrituras nasceram da e com a Igreja, a Igreja não tem a necessidade da revelação explícita 
de um apóstolo a fim de ser capaz de reconhecer os livros inspirados: ela os reconhece 
congenitamente. A revelação requerida é dada pelo fato de que o escrito relevante surge como 
uma autoexpressão genuína da Igreja primitiva. E pode haver um intervalo entre a revelação 
do caráter inspirado de certos livros e a clara expressão desse fato. Na prática, a Igreja tinha 
um cânon antes que existisse qualquer teoria de canonicidade ou lista de livros canônicos. Isso 
explica a hesitação acerca da inspiração de certos escritos (HARRINGTON, 1985, p. 60). 
 
48UNIDADE I A Palavra Escrita 48UNIDADE II O Cânon das Escrituras
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título: Bibliologia
Autor: Roberto Rohregger.
Editora: Contentus.
Sinopse: Este livro estuda a formação da Bíblia levando em 
consideração sua estrutura, idiomas originais e manuscritos mais 
antigos, refletindo sobre o conceito de inspiração. A obra ainda discute 
o modo como Jesus compreendia as Escrituras e questões sobre a 
fidelidade do texto bíblico, além de fazer um estudo sobre alguns dos 
manuscritos mais importantes, sobre o processo de tradução para o 
português e sobre o contexto atual da Bíblia no Brasil.
 
FILME/VÍDEO 
Título: A Bíblia, no início
Ano: 1966.
Sinopse: As maiores histórias do antigo testamento são trazidas 
para as telas com um domínio e força impressionantes neste filme 
internacional, que exibe os 22 primeiros capítulos do Gênesis. Esta 
é a história espetacular do homem, de sua queda, sua sobrevivência 
e sua fé indomável no futuro. Dando brilho à grandiosidade épica, 
temos as interpretações de George C. Scott como Abrão, Ava 
Garner como Sara e Peter O’Toole como a presença evocativa 
do anjo de Deus. O lendário John Huston dirige esta obra e 
também apresenta uma interpretação digna de nota como Noé. 
Da abertura do filme em meio ao caos cósmico até sua mensagem 
de esperança e salvação, a Bíblia mantém a todo momento sua 
característica de uma conquista monumental do cinema.
49
Plano de Estudo:
● Um Deus que fala;
● A tradição da Palavra;
● A Palavra torna-se Escritura;
● Sobre o Cânon e a Inspiração;
● Sobre a Inspiração Escriturística;
● A Inspiração na Bíblia;
● A Revelação na Bíblia.
Objetivos da Aprendizagem:
● Conhecer os conceitos de inspiração e revelação bíblicas;
● Entender como se deu o processo de reconhecer 
a Bíblia como livro inspirado por Deus.
UNIDADE III
A Palavra: A Inspiração Escriturística
 e a Revelação Bíblica 
Professor Me. Flávio Donizete Batista
50UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
INTRODUÇÃO
Olá, Prezado Acadêmico. Olá, Prezada Acadêmica.
Espero encontrar você disposto a dar continuidade ao nosso estudo de Introdução 
às Sagradas Escrituras. Até aqui, você percebeu o quanto é interessante todo esse mundo 
bíblico, o quanto de informações e conhecimentos aprendemos, o que nos faz perceber que 
o quanto ainda temos de buscar conhecê-lo cada vez mais.
Nesta unidade, vamos abordar a questão da inspiração e revelação bíblicas. Quais 
os significados dessas realidades dentro da formação e da compreensão da Bíblia como 
Palavra de Deus. 
Veremos que ser inspirado é o que diferencia os livros bíblicos de todos os outros 
demais livros, tornando-os Palavra de Deus e fonte da revelação de seu projeto para seu 
povo. E é aí que residem, na inspiração e na revelação, as condições que vão tornar a 
Bíblia o livro que molda e guia toda a história do povo de Deus.
Que no estudo desta unidade, aprendamos mais sobre a Bíblia e consigamos 
compreender a experiência de fé que o povo fez da presença de seu Deus que quis falar 
diretamente a ele.
Um excelente estudo a todos. Sempre busquem mais do que é apresentado. E 
vamos em frente em nosso curso.
Grande abraço. 
51UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
1. UM DEUS QUE FALA
A Carta aos Hebreus começa afirmando que “Muitas vezes e de modos diversos 
Deus falou antigamente a nossos pais e profetas. Agora, nos últimos dias, falou-nos pelo 
Filho, que constituiu herdeiro de tudo, por que criou também o mundo (Hb 1,1-2). Priotto 
(2019, p. 17) escreve que o centro e, consequentemente, o peso teológico de toda frase é 
constituído pela expressão “falou pelo Filho” e, em particular pelo verbo “falou”, que define 
todo o processo revelador de Deus com a categoria do falar. O uso do verbo evidencia a 
revelação como relação e comunicação interpessoal; isto é, ela não é a comunicação de 
uma mensagem abstrata ou de uma doutrina, mas a instauração de uma relação pessoal 
com o homem. Essa relação atinge o ápice com a encarnação do Filho, a Palavra por 
Excelência (Jo 1,14). Portanto, o Deus bíblico é um Deus que fala.O valor simbólico da palavra é imenso, enquanto ela não é somente uma capacidade 
entre as outras, mas a capacidade que define o homem enquanto tal. O homem não seria 
homem se não lhe fosse concedido falar. Enquanto a linguagem concede isso, o ser do 
homem apoia-se sobre a linguagem. Portanto, desde o início estamos na linguagem e 
com a linguagem (PRIOTTO, 2019, p. 18).
As mais importantes funções da linguagem são três: a informação, a expressão e 
o apelo. Se a primeira aparece como a mais evidente, sobretudo na civilização midiática 
moderna, não é, porém, a mais importante, porque a comunicação de dados, de notícias 
e de conhecimentos técnicos está certamente na base do progresso tecnológico, mas não 
necessariamente do progresso humano. 
52UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
Isso acontece somente quando a palavra consente que o homem expresse sua 
interioridade, aquilo que ele é, vive e sente, entrando assim na vida íntima do outro e 
tornando-se comunhão; sem uma palavra que expressa e interpela, o homem não sai de 
sua solidão existencial; graças a ela, porém, consegue construir uma comunhão, que se 
torna amizade e amor (PRIOTTO, 2019, p. 18).
A primeira palavra que Deus pronuncia é a da criação; de fato, antes mesmo do 
livro bíblico, existe o livro cósmico: “Os céus narram a glória de Deus, e o firmamento 
proclama a obra de suas mãos. Um dia a outro dia transmite a mensagem, uma noite a 
outra noite comunica a notícia” (Sl 19,2-3). Diversamente daquilo que é descrito nos antigos 
mitos orientais, na narração bíblica a criação acontece somente através da palavra divina, 
sem nenhuma luta ou esforço. Deus cria através de sua palavra na serena soberania de 
sua ação gratuita; e é exatamente sua palavra que mantém unido todo o universo, porque 
se Ele a retira, a criação recai no caos original: “Se escondes a tua face, eles se perturbam; 
se retiras o teu alento, perecem e voltam ao seu pó. Envias teu Espírito, eles são criados, e 
assim Tu renovas a face da terra (Sl 104, 29-30) (PRIOTTO, 2019, p. 19).
Particularmente solene é a palavra divina que precede a criação do homem, graças 
àquele plural que vê Deus para e quase consultar sua corte para comunicar-lhe seu projeto: 
“Façamos o ser humano à nossa imagem e segundo a nossa semelhança, para que domine 
sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens 
e todos os répteis que rastejam sobre a terra (Gn 1,26). Aqui a palavra precede o homem e, 
precedendo-o, caracteriza-o na sua unicidade, isto é, no seu ser imagem de Deus. Depois, um 
pouco adiante, pela primeira vez, Deus dirige sua palavra a um ser: não mais simplesmente 
“Deus disse”, mas “Deus disse-lhes”. Assim, a palavra divina se oferece como diálogo, 
interpelação e convite à comunhão. Um diálogo que percorrerá toda a revelação divina, até a 
estupenda palavra final: “Sim, eu venho em breve!” (Ap 22,20) (PRIOTTO, 2019, p. 19).
53UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
2. A TRADIÇÃO DA PALAVRA
Enquanto homo loquens, o ser humano é também homo tradens; isto é, o dom 
da palavra se alarga também no tempo, tornando-se mensagem entre as gerações. A 
palavra transmitida torna-se tradição e oferece ao homem não só maiores conhecimentos e 
competências práticas, mas também uma autocompreensão mais rica. Isto é particularmente 
significativo na religião bíblica, em que a tradição não é apenas um dado de fato, mas 
também um imperativo, como recorda o salmo: “O que ouvimos e aprendemos, o que os pais 
nos contaram, não o ocultaremos aos seus descendentes, mas o transmitiremos à geração 
seguinte: os feitos gloriosos do Senhor, seu poder e as maravilhas que fez (Sl 78, 3-4).
Portanto, a Palavra de Deus revelada é conservada pela tradição oral e permite 
sua extensão no tempo e no espaço, tornando-se um elemento estrutural irrenunciável. De 
fato, ela não cessa como advento da tradição escrita, mas se torna o necessário elemento 
interpretativo. A tradição judaica sempre reivindicou a importância teológica da tradição oral. 
Sobre o Novo testamento, podemos afirmar que Jesus não deixa escrito algum, mas 
com sua palavra e sua ação e, em particular, com sua morte e ressurreição, dá origem a uma 
tradição essencialmente oral (cf. 1 Cor 15,1-2). Se os escritos aparecem muito cedo, graças 
sobretudo às cartas que Paulo envia às comunidades, nos primeiros decênios, porém, a tradição 
sobre Jesus é propriamente uma tradição oral, caracterizada pelo anúncio e pela celebração 
litúrgica; sua codificação por escrito não só não eliminará esse caráter, mas o exaltará enquanto 
elemento indispensável para sua correta interpretação. (PRIOTTO, 2019, p. 26).
54UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
3. A PALAVRA TORNA-SE ESCRITURA
Em um certo ponto, essa palavra transmitida oralmente foi posta por escrito. 
Remetendo a descrição da formação histórica dos dois testamentos para um parágrafo 
posterior, é importante destacar o significado do aparecimento do escrito. Esse processo, 
especialmente para o Antigo Testamento, é longo e complexo, porque exige a harmonização 
entre uma pluralidade de tradições orais e de escritos precedentes não sempre coerentes 
entre si, até uma redação final fiel e, ao mesmo tempo, inovadora. Além da complexidade 
dessa problemática, um exemplo nos ajudará a compreender o significado teológico desse 
ato de pôr por escrito a Palavra revelada: o de Jeremias.
O exemplo é constituído pelo fato de serem postas por escrito as palavras reveladas 
a Jeremias, exemplo particularmente significativo porque revela um processo articulado 
e, mais ainda, num período, o do exílio, durante o qual a formação da literatura bíblica é 
particularmente intensa. O processo de codificação escrita articula-se em três momentos. 
Impedido de entrar no templo e de falar, o profeta dita ao escrita Baruc todas as palavras 
que o Senhor lhe havia dito (Jr 36,4-5); o autor é sempre Jeremias, mas como o suporte 
essencial de Baruc; a fidelidade do escrito é evidenciada pela repetida expressão “todas as 
palavras” (36, 2.4.13.18) e pela mesma finalidade, isto é, a conversão do povo (36,7). Como 
segundo momento, segue a leitura do rolo (36,8-26); o primeiro leitor é o próprio Baruc, que 
depois de tê-lo lido pessoalmente e ter atestado sua fidelidade, o lê ao povo e aos chefes.
55UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
Depois o rolo é lido por Judi na presença do rei e por ele queimado: a intenção é 
destruir a Palavra. Por fim, um terceiro momento (36,27-32) descreve a reescrita do rolo 
por parte de Baruc, sob ditado de Jeremias, onde se afirma não só a fidelidade ao primeiro 
rolo, mas também seu enriquecimento de novas palavras; os acréscimos não constituem 
uma alteração da mensagem, mas uma fidelidade criativa devida à circunstância da 
rejeição (PRIOTTO, 2019, p. 27-29). 
Embora a redação dos livros bíblicos seja complexa e, em geral, envolta no 
silêncio, o exemplo acima permite compreender os dados essenciais do processo de 
revelação. Primeiramente, ele interessa não só ao profeta, mas também a todos aqueles 
que, de maneira diversa e segundo diferentes modalidades, tornam possível no tempo e 
no espaço o acolhimento, a conservação, o aprofundamento, a defesa e a atualização da 
palavra revelada. Com isso, é preciso alargar o conceito de autor, estendendo-o à obra 
escondida, mas indispensável, de escribas; de fato, eles não são meros copistas, mas 
participam ativamente do carisma profético, acolhendo e conservando a palavra do profeta, 
mas também defendendo-a dos ataques perseguidores, aprofundando-a e atualizando-a 
nas novas circunstâncias históricas. É graças à obra desses escribas fiéis que a Palavra 
revelada, superando o limite do espaço e do tempo, chega a todo o povo de Deus na história. 
Trata-se de um único dadonão apenas histórico, mas teológico, que terá importantes 
consequências na definição da inspiração do Livro Sagrado (PRIOTTO, 2019, p. 29).
O que se disse, mostra como se passa da Palavra anunciada ao profeta para a 
Palavra escrita. A presença de escritos nos quais são recolhidas as palavras proféticas não 
corresponde ainda automaticamente à Escritura, como a possuímos hoje; com efeito, a 
formação literária do livro da Bíblia trata-se de um processo muito longo e complexo. Para 
o momento, basta afirmar que a Palavra profética dada aos poucos por Deus no curso da 
revelação torna-se tradição escrita, que depois será recolhida em um único livro, que nos 
conhecemos como Sagrada Escritura ou Bíblia, constituída de duas partes: O Antigo e o 
Novo Testamentos (PRIOTTO, 2019, p. 29).
56UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
4. SOBRE O CÂNON E A INSPIRAÇÃO
As comunidades crentes, através de um longo e articulado processo, reconheceram 
a normatividade de determinados livros, agrupando-os num cânon preciso. Ora, além de 
vários critérios, o fundamento último da normatividade dos livros bíblicos é a fé na sua 
inspiração; isto é, trata-se de livros fundamentados sobre a própria autoridade de Deus, 
manifestada através de seu Espírito. Em particular, o fundamento último da normatividade 
do Novo Testamento, inclusive o Antigo Testamento cristão, é a autoridade de Jesus Cristo 
expressa pelo dom do Espírito. Somente quando, sob a direção do Espírito, se reconhece 
essa autoridade cristológica, um escrito eclesialmente originário pode ser acolhido como 
canônico (PRIOTTO, 2019, p. 66).
Canonização e inspiração, pois, são dois conceitos intimamente conexos entre si e 
isso por causa da circularidade existente entre Igreja e Escritura. Tomando o caso do Novo 
Testamento – fundamentalmente, porém, vale a mesma coisa para as Escrituras hebraicas – a 
Igreja cristã precede o Novo Testamento e é ela que o constrói em dois momentos historicamente 
sucessivos, mas teologicamente contemporâneos: primeiramente, escrevendo na época 
apostólica os textos que o compõem, depois, reconhecendo-lhes o caráter de Escritura, isto 
é, constituindo-os corpo canônico, revestido da mesma autoridade que as antigas Escrituras. 
Por outro lado, a Escritura precede a Igreja, porque o Novo Testamento foi escrito à luz do 
Antigo Testamento e, sobretudo, porque o Novo Testamento é o testemunho do evento Jesus, 
de quem ele deriva sua autoridade (PRIOTTO, 2019, p. 66).
57UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
Assim os escritos apostólicos são julgados canônicos porque são reconhecidos 
como inspirados. A inspiração precede e fundamenta o cânon; mas eles são reconhecidos 
como inspirados pela Igreja, que tem a iniciativa de julgá-los canônicos. Desse modo, o 
cânon torna-se o critério prioritário da inspiração; o texto como inspirado porque pertence 
ao cânon. Essa circularidade entre o que é recebido passivamente e o que é determinado 
ativamente é estrutural, feita de uma solidariedade originária e recíproca.
58UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
5. SOBRE A INSPIRAÇÃO ESCRITURÍSTICA
Embora não haja nenhuma menção explícita nas páginas do Antigo Testamento, há 
muitas páginas que a sugerem. Somos informados, por exemplo, que foi por ordem divina que 
Moisés escreveu o livro da aliança (Ex 24,4-5;34, 27) e que Jeremias registrou num livro os 
oráculos do Senhor (Jr 30,2; 36,2). Os judeus faziam uma tríplice divisão dos livros sagrados 
e criam que todos eles procediam de Deus. Assim a Torah era considerada como a Palavra de 
Deus e os Profetas falavam a Palavra de Deus; estes, como os Escritos, constituíam os “livros 
sagrados” mencionados em 1MC 12,9. A Igreja Cristã herdou essas Escrituras e aceitou o 
caráter sagrado delas. Jesus já as tinha citado como Palavra de Deus (Mt 22,31; Mc 7,13; 
Jo 10,34-35). Os apóstolos fizeram a mesma coisa (At 1,16; 4,25; 28,25). Os argumentos 
podiam estar baseados nas Escrituras como na autoridade divina (Rm 3,2; 1Cor 14,21; Hb 
3,7; 10,15). Há dois textos clássicos, 2Tm 3,16 e 2Pd 1,21, que, com referência ao Antigo 
Testamento, consideram respectivamente a extensão e a natureza da inspiração.
A crença da Igreja na inspiração divina das Escrituras também é clara, com re-
ferência aos tempos mais primitivos e no ensino dos teólogos de todas as épocas. No 
século II, as Escrituras são classificadas de “oráculos de Deus” que “foram ditados pelo 
Espírito Santo”, o qual usou os escritores sagrados como “instrumentos”. Mais tarde, os 
escritores falaram do Espírito Santo como “autor” das Escrituras e afirmaram que ambos os 
Testamentos foram inspirados pelo Espírito. O ensino sobre a inspiração pode ser resumido 
em duas declarações: a) Deus (o Espírito Santo) é o autor das Escrituras Sagradas; b) o 
escritor humano é instrumento de Deus.
59UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
6. A INSPIRAÇÃO NA BÍBLIA
Além da palavra theopneustos de 2 TM 3,16, o termo “inspiração” não aparece 
na Bíblia. Contudo, alguma coisa muito mais importante do que a ocorrência ou não de 
um termo específico, a realidade da “possessão do Espírito”, é encontrada com muita 
frequência. Ao mesmo tempo, a maneira pela qual esta é descrita é extremamente 
variada. Será interessante examinar brevemente o extenso padrão da maneira que 
Deus usa para mover os homens no contexto de seu plano salvífico para a humanidade. 
Veremos imediatamente que a “inspiração” é muito mais ampla do que o carisma particular 
desfrutado pelos escritores bíblicos.
No antigo Testamento, o “Espírito de Lahweh” é uma força misteriosa que entra 
poderosamente na história do povo escolhido e executa as obras de Iahweh, salvador 
e juiz. Ele se apodera dos homens escolhidos e os transforma, dá-lhes poder para 
representar papeis excepcionais, e por sua instrumentalidade guia o destino de Israel 
e as etapas da história da salvação. Nos textos mais antigos, a ação do Espírito é mais 
abrupta e transitória: o Espírito de Iahweh “inflama” (Jz 13,25), “cai sobre” (Ez 11,5), 
“arrebata” (1Rs 18,12; 2Rs 2,16), “vem poderosamente sobre” (Jz 14,6). Ele pode 
despertar naqueles que toca, extraordinária força física, que é empregada no serviço 
do povo de Deus (Jz 13,25; 14,6-19; 15,14), pode inflamar os homens para realizar os 
feitos de proeza em batalha (Jz 6,34; 11,29; 1Sm 11,6-7). Em resumo, muitos dos juízes, 
sem preparação ou predisposição, foram abrupta e totalmente mudados, tornaram-se 
capazes de extraordinárias ações de coragem e de força e foram dotados de uma nova 
personalidade, que fez deles líderes e salvadores de seu povo. 
60UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
O Espírito também provoca entusiasmo e êxtase proféticos (Nm 11,24-30; 1Sm 
10,5-13; 19,20-24), o poder para operar milagres (1Rs 17,14; 2Rs 2,15;4-1-44), o dom de 
profecia (Nm 24,2; 1Cr 12,19; 2 Cr 20,14; 24,20) e a interpretação dos sonhos (Gn 40,8; 
41,16.38; Dn 4,5;5,11;6,4). Em todos esses casos, o Espírito “vem sobre” os homens como 
um dom de Deus sumamente livre.
Os textos posteriores apresentam o Espírito de Iahweh repousando, num modo 
de residir sobre os líderes carismáticos. Ele vem repousar sobre Moisés (Nm 11,17-25), 
sobre Josué (Js 27,18; Dt 34,9), sobre Saul (1Sm 16,14) e sobre Davi (1Sm 16,13; 2Sm 
23,2). Os reis, ao contrário dos juízes, eram encarregados de uma função permanente, e 
o rito da unção, que os consagrava, manifestava a marca do Espírito e os investia de uma 
majestade sagrada (1Sm 10,1; 16,13). Mas o Espírito repousou também sobre Elias (2Rs 
2,9) e Eliseu (2,15); e os profetas eram os privilegiados portadores do Espírito.
Os profetas tinham consciência de que uma pressão soberana – sobrepujando até 
as próprias inclinações – os obrigava a falar (Am 3,8; 7,14-15; Jr 20,7-9). Eles falam – e 
apalavra pode custar-lhes muito, pode ser arrancada deles – mas sabem que ela não se 
originou neles: é realmente a Palavra do Senhor que os envia, pois é através do Espírito de 
Iahweh que os profetas recebem a palavra de Iahweh (Is 30,1; Zc 7,2). O Espírito transforma 
o profeta numa “cidade fortificada”, numa “coluna de ferro” (Jr 1,18; 20,11) e faz sua fronte 
de “diamante mais duro que a pederneira” (Ez 3,8-9; Is 6,6-9). Na era messiânica, todos 
os de Israel possuirão inspiração profética oriunda de derramamento geral do Espírito (Jl 
3,1-2; Is 32,15; Ez 39,29).
Voltando para o Novo Testamento, descobrimos que, nos escritos de Lucas, o 
conceito de Espírito é semelhante à ideia do Antigo Testamento. Diz-se de quase todas as 
pessoas mencionadas em Lc 1-2 que são movidas por ou cheias do Espírito Santo: João 
Batista desde o ventre de sua mãe (1,15-18), seus pais, Zacarias (1,67ss) e Isabel (1,41ss), 
bem como Simeão (2,27ss) e Ana (2,36). Em todos os casos, o Espírito Santo é apresen-
tado como um poder divino sobrenatural (cf. 1,35). Jesus como Messias é o portador do 
Espírito Santo – esta é a verdade enfatizada por Lucas. Depois do batismo e tentação, 
foi “no poder do Espírito” que Jesus retornou à Galileia e começou sua obra messiânica 
(4,14) e suas primeiras palavras foram uma citação de Is 61, 1-2: “O Espírito do Senhor 
está sobre mim, porque me escolheu para pregar a boa nova aos pobres” (Lc 4,18). Todo 
o ministério público é, assim, colocado sob o sinal do Espírito e todas as obras e ensino de 
Cristo devem ser vistos à luz dessa introdução. E, no final, o Senhor ressuscitado garantiu 
que enviaria a “promessa do Pai”, o “poder do alto”, sobre os seus discípulos (24,49; At 
1,8), pois o Espírito é o dom do Senhor ressuscitado e elevado ao céu (Jo 7,38-39;1,26). 
Do Pentecostes em diante, o Espírito é o guia e poder motivador da missão cristã. Ele que 
impulsionou o Messias é agora derramado pelo Senhor ressuscitado sobre sua Igreja (At 
1,8; 2,4) e a profecia de Joel 2,28-32 se cumpre (At 2,17-21).
61UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
Em Paulo, o Espírito é basicamente a força dinâmica divina e celestial que existe 
de modo especial no Cristo ressuscitado e enche o seu Corpo, a Igreja. O Espírito não é 
óbvia e explicitamente concebido como ser pessoal distinto. Um texto isolado em Mateus 
(28,19) - uma fórmula batismal pós-ressureição é uma explícita declaração do caráter 
pessoal do Espírito. E João nos relata que o Espírito Santo é um Paráclito, um Advogado, 
exatamente como o Filho (14,16).
Nosso rápido exame, pelo menos, mostrou que, na Bíblia, a ação do Espírito é variada; 
contudo pode ser classificada sob dois títulos gerais. Em primeiro lugar, há uma inspiração 
para agir, isto é, o movimento eficaz do Espírito que segura um homem a fim de fazê-lo 
realizar certos feitos. Esses não são apenas proezas esporádicas ou gestos simbólicos, 
mas também empreendimentos de grande importância e de significado histórico decisivo, 
pois, como vimos, o Espírito de Iahweh recruta e estimula aqueles a quem Deus encarregou 
de conduzir a história sagrada. Em segundo lugar, há, especialmente, nos profetas, uma 
inspiração para falar. Os profetas são os intérpretes do Espírito e o efeito de sua inspiração é 
a proclamação daqueles “oráculos de Iahweh” que ensinam e dirigem o povo.
Por certo, não é por acaso que, embora se diga que o Espírito impulsiona os homens 
a falar ou a agir, a Bíblia não tenha sido exemplo do Espírito descendo sobre um homem 
a fim de movê-lo a pensar e a escrever. Naturalmente, ainda podemos falar de inspiração 
“escriturística”, mas, em vista da evidência, devemos ser cautelosos para não fazer dela a 
manifestação absoluta e exclusiva da inspiração nas Escrituras. Podemos, legitimamente, 
falar da inspiração escriturística, porque, na verdade, a Bíblia é o termo, desejado e dirigido 
por Deus, dos eventos da história sagrada e do ensino oral que a preserva em forma escrita. 
Contudo, é necessário não restringir a inspiração a este estágio final, mas estendê-la, como 
a Bíblia faz, aos mais antigos e não menos importantes estágios da palavra vivida pelos 
pastores e líderes do povo de Deus. Contudo, quando afirmamos que a Bíblia nunca nos 
mostra o Espírito descendo sobre um homem a fim de movê-lo a pensar, não queremos 
dizer que nas Escrituras não haja lugar para o pensamento e o conhecimento. O fato com 
respeito ao assunto é que, na Bíblia, “conhecimento” nunca é especulativo apenas - é algo 
relacionado tanto como coração e ação como com o intelecto. Na Bíblia, a inspiração é o 
movimento do Espírito que atinge o homem por inteiro e faz com que ele pense ou conheça 
primeiro animado a agir, ou a falar, ou a escrever.
Assim, finalizamos com três formas de inspiração. A “inspiração para agir”, 
considerada acima, pode ser descrita como inspiração pastoral, que impulsionava os 
“pastores” ou líderes do povo de Deus. Em seguida, há a inspiração oral, desfrutada pelos 
proclamadores da palavra: profetas e apóstolos. Finalmente, vem a inspiração escriturística, 
que prolonga e completa as outras duas. Todas as três juntas formam aquilo que podemos 
descrever como inspiração “bíblica”. Por esta razão, é muito importante ligar a inspiração 
escriturística com seus antecedentes e vê-la em seu ambiente histórico.
62UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
7. A REVELAÇÃO NA BÍBLIA
Começamos a entender a ideia bíblica de “revelação”, quando apreendemos o sen-
tido a palavra hebraica dabar (“palavra”). Para o hebreu, a palavra era mais que a expres-
são verbal do pensamento; ele considerava a palavra falada uma entidade dinâmica - ela 
está carregada de poder. Então, dabar não significa apenas “palavra”, mas também “coisa” 
ou “feito”; mais precisamente “o fundo de uma coisa em que reside o seu mais profundo 
significado”. Contudo, dabar, naturalmente, também expressa uma ideia. É evidente que 
dabar, significando uma “coisa-palavra”, ultrapassa o significado do grego logos. Se, então, 
a “palavra” humana tem poder e eficácia, compreender-se-á prontamente que, sobretudo, 
a palavra de Iahweh é eficaz (HARRINGTON, 1985, p. 32).
 No Antigo Testamento, Iahweh se revela, ele fala aos homens, por meio dos profe-
tas, na lei, na natureza e na história. Certamente, Israel sabia dos três tipos de porta-vozes 
divinamente indicados, o profeta, o sábio e o sacerdote, e da distinção na sua maneira de 
falar: “não perecerá a lei (instrução) do sacerdote, nem o conselho do sábio, nem a palavra 
do profeta” (Jr 18,18). Iahweh coloca a sua missão na boca do profeta (Jr 1,9), que não pode 
resistir ao chamado divino (Am 7,5; Jr 20,9), e o profeta, por sua vez, proclama a palavra 
de Deus ao povo. A palavra profética é uma força decisiva na história de Israel; seu poder 
efetivo não pode ser contradito (1Rs 2,27; 2 Rs 1,17;9,36), é um fogo consumidor e é “como 
um martelo que arrebenta as rochas” (Jr 23,29). Diferindo em sua ação da Palavra divina 
que cai poderosamente sobre o profeta, a sabedoria divina pode vir mais calmamente sobre 
os homens para ensiná-los (Pr 8,1-21. 32-36; Sb 7-8).
63UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
 Contudo, em nenhum caso é um fenômeno humano: os profetas e os sábios estão 
em comunicação com o Deus vivo. E, naquela comunicação, o que eles aprendem não é 
para eles apenas: é uma mensagem a ser transmitida a todo o povo de Deus.
O profeta falava numa determinada situação e aos seus contemporâneos - embora, 
posteriormente, suas palavras fossem consideradas como relevantes até além de seu contexto 
imediato. Contudo, desde o princípio, a Torah – o “ensino”, a “lei” - era considerada a Palavra 
para todas as pessoas e para todos os tempos. E Israel recebeu na Torah “as palavras” 
(Ex 34,28) de Iahweh (Ex 20,1;22). Iahweh esperava que Israel ouvisse e, conscientemente, 
vivesse de acordo com a palavra que tinha aceitado(Dt 13,1). Sua palavra está próxima: 
palavra falada que pode entrar no coração do homem e produzir fruto (3,11-14). Ela revela o 
caminho da vida ou da morte, colocando diante de Israel dois caminhos (30,15-20).
A Palavra divina é criadora. Contudo, é necessário ver este fato ou, mais precisa-
mente, a concretização dessa verdade, em sua perspectiva própria. Ao estudarmos como 
os hebreus compreenderam a criação, devemos começar por notar que a sua experiência 
de Deus era, em primeiro lugar, uma experiência de salvação, e que seu conceito de Deus 
e da atividade dele estava fundado nos eventos da história da salvação, no fato de que 
Deus tinha se aproximado de seu povo. Gradualmente, por meio da reflexão sobre a ação 
divina em favor deles, os israelitas se tornaram conscientes da soberania de Deus sobre 
os outros povos e sobre todos os homens, e começaram a ver-se como criaturas “frente a 
frente” com o Criador. Eles tinham de compreender que Iahweh, o Deus de Israel, é o Deus 
Criador; mas ele permanece o Deus que chamou Israel à existência e o cercou com seu 
amor (HARRINGTON, 1985, p. 34).
A Palavra de Iahweh é revelação. Falando aos homens, Deus se revela; sua Palavra 
é uma lei e regra de vida, um descobrir o significado das coisas e dos eventos e uma pro-
messa para o futuro. No Sinai, Moisés foi o mediador para o seu povo do código religioso e 
moral de Deus, as “dez palavras” (Ex 20,1-17; Dt 5,6-22). Anteriormente Iahweh tinha falado 
aos patriarcas e se deu a conhecer a Moisés de maneira especial (Ex 3,13-15) e ao povo: 
“Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito (Ex 20,2). A Palavra de Deus revela 
o significado da história do povo (Js 24,2-13); mas não apenas isso: ela também esclarece 
Israel sobre os estágios próximos do plano divino (Gn 15,13-16; Ex 3,7-10; Js 1,1-5 etc.). E, 
além do futuro imediato, que é frequentemente pintado como cores sombrias, ele revela o 
que acontecerá nos “últimos dias”, quando Deus realizar completamente seu plano.
A um só tempo criadora e reveladora, a Palavra de Deus é uma realidade dinâmica, 
um poder que, infalivelmente, alcança os resultados que Deus tem em vista. 
64UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
Enviada por Deus ao mundo como um agente supremamente eficaz – “Minha Pala-
vra que sai de minha boca não voltará para mim vazia, mas realizará aquilo que proponho 
e prosperará naquilo para que a enviei” (Is 55,11) – não se enfraquece ou falha (40,8). 
Ela dirige o curso da história (44,7-8.26-28) e executa a vingança divina: “Tua Palavra 
todo-poderosa precipitou-se do céu... levando a espada afiada de teu autêntico comando e 
permaneceu e encheu todas as coisas de morte (Sb 18,15-16; cf. Ap 18,11-16). Tal poder, 
observável na natureza e na história, assegura a eficácia dos oráculos de salvação. Na 
verdade, “a palavra de nosso Deus permanece para sempre” (Is 40,8); de época em época, 
ela continua a ser uma revelação e uma força vital (HARRINGTON, 1985, p. 34).
No Novo Testamento, a Palavra de Deus é frequentemente a mensagem de sal-
vação, o Evangelho (Lc 8,11; 2 Tm 2,9; Ap 1,9). Ela foi proclamada por Paulo (At 13,5; 1 
Ts 2,13) e pelos outros apóstolos (At 6,2) e pelo próprio Jesus (Mc 2,2; Lc 5,1). Contudo, 
o Evangelho que Paulo e os apóstolos pregaram era, na realidade, Cristo (1Cor 1,23; Gl 
3,1; At 2,36;4,12). Isso era inevitável em vista da verificação cristã de que, nele, Deus tinha 
falado sua Palavra definitiva: “De muitas e várias maneiras, outrora, Deus falou aos nossos 
pais pelos profetas; mas, nestes últimos dias, ele falou a nós por seu Filho” (Hb 1,1-2). E foi 
na pessoa de Jesus que João também focalizou a sua atenção; ele viu muito claramente 
que Jesus mesmo é a mensagem da salvação, a Palavra, o Logos, a perfeita autorrevela-
ção de Deus. Ao falar do Logos como a Palavra feita carne, ao declarar que todas as coisas 
foram feitas por ele, ao enfatizar o seu poder para tornar os homens “filhos de Deus”, João 
sublinha a verdade de que a Revelação de Deus no Logos é para nós.
O uso concreto, existencial da “palavra” – o aspecto dominante do termo em toda 
a Bíblia – indica o modo para a compreensão, num contexto bíblico, da ideia correlata de 
“revelação”. A Bíblia não é uma soma de “verdades” abstratas, um corpo de doutrinas. As 
Escrituras revelam o próprio Deus, uma pessoa viva: o Criador que governa o mundo (Is 
45,12), o santo que convoca os homens para um serviço de amor (Ex 20,1ss; 34,6; Os 
11,1ss), o Senhor da história que guia os tempos e eventos para uma meta de salvação (Ex 
14,18; Am 2,9-10; Jr 32,20; Is 45,1ss; 52,10). Deus se revela por seu impacto sobre a vida 
dos indivíduos e de seu povo. E, na revelação total no Novo Testamento, o que Jesus tornou 
conhecido não foi um sistema a ser aprendido, mas caminho a ser seguido (cf. Jo 11,6). Ele 
falou, mas sua pessoa e seus feitos falaram mais alto que suas palavras; e sua mensagem 
foi uma mensagem de salvação. Os biblistas concordam, cada vez mais, em afirmar que a 
revelação vem a nós essencialmente na estrutura da história: não há revelação do mistério 
de Deus e de Cristo exceto no testemunho transmitido acerca do que eles fizeram e estão 
fazendo para nós, isto é, exceto em relação à nossa salvação (HARRINGTON, 1985, p. 35).
65UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
É claro que, se devemos ser fiéis aos dados da Bíblia, não devemos compreender 
a “revelação” apenas no sentido de afirmações de verdade abstrata, puramente especula-
tiva; devemos compreendê-la no sentido que inclina todo o campo da automanifestação de 
Deus, devemos abarcar tanto ações como palavras – pois Deus não é essência abstrata, 
mas uma pessoa viva. E o mediador ou intérprete desta revelação não é apenas o “profeta” 
que “recebeu” uma visão ou um oráculo, e, em seguida, o transmitiu a outros; ele é, antes 
de tudo, um homem que teve um encontro com Deus, um homem que chegou a reconhecer 
o Salvador e Criador, que experimentou o amor criador e salvífico de Deus.
Restringir a revelação estritamente à assim chamada “profecia” acarretaria o risco 
de negligenciar todo o contexto existencial da ação, da história e da intervenção pessoal 
que cerca a Palavra falada de Deus como uma Palavra viva e vivida. Fracassar em reco-
nhecer a revelação nos eventos da história sagrada como na iluminação concedida aos 
profetas significaria um perigoso empobrecimento da extrema riqueza daquele encontro 
que Deus ofereceu aos homens na Bíblia. Prestar atenção apenas ao ensino de Jesus e 
não ao significado daquilo que ele fez e do que ele foi seria condenar-se a ser classificado 
entre aqueles que não o conhecem. Não reconhecer que a pessoa da Palavra encarnada 
domina Novo Testamento é perder a sua mensagem. O cristianismo não está fundado 
sobre o sermão da montanha, mas sobre o Senhor vivo (HARRINGTON, 1985, p. 36).
Porque a religião bíblica é básica e essencialmente histórica, os eventos sempre 
falarão mais alto que as palavras. Isso é assim porque os escritores sagrados estão 
preocupados com o significado dos eventos; e assim é porque eles estão interessados no 
passado. E sua meditação e análise guiadas pelo Espírito produzem uma mensagem para 
o presente e esperança para o futuro. Não há desenvolvimento hábil e lógico de doutrina 
pelo acúmulo de “proposições”; o processo é tão complexo como a própria história. A Bíblia 
não é um manual de teologia.
Nosso estudo da evidência bíblica nos fez compreender que, do princípio ao fim do 
Antigo Testamento, o Espírito de Deus e a Palavra de Deus não cessam de operar juntos. 
Se o profeta dá testemunho sobre a Palavra, é porque o Espírito se apoderou dele; se Israel, 
um dia, for capaz de se ligar (em seu coração) a esta Palavra, só pode ser no Espírito. E, 
no Novo Testamento, os pregadores começam a proclamar a Palavra apenas quando o 
Espírito vem sobre eles. Podemos crerque a relação entre revelação e inspiração pode 
ser esclarecida por meio de um exame do que existir entre Palavra e Espírito. Revelação 
é a manifestação da Palavra; inspiração é o movimento do Espírito: dois distintos, mas 
inseparáveis poderes divinos; ou, se se prefere, aspectos correlatos do poder divino.
66UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
Podemos concluir que, quando vistas na perspectiva da Bíblia, seria errôneo 
considerar inspiração e revelação como dois carismas bem separados. De fato, inspiração 
e revelação, nas Escrituras são distintas, mas elas operam simultaneamente. Um homem é 
elevado e movido pelo Espírito para dirigir uma fase da história da salvação, para falar como 
profeta ou registrar o essencial dessa pedagogia divina; mas a atividade toda é “revelação”, 
manifestação pessoal de um Deus vivo. Deus revela a verdade que ele mesmo é em termos 
das experiências vividas, faladas e conscientes de seu povo e para aquele fim ele inspira o 
líder, o pregador e o escritor que percebem a verdade e que a transmitem por vivê-la, por 
proclamá-la e por escrevê-la (HARRINGTON, 1985, p. 37).
 
SAIBA MAIS
“Com efeito, nos Livros Sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao 
encontro de seus filhos a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da 
Palavra de Deus, que se torna o apoio vigoroso da Igreja, a solidez da fé para os filhos 
da Igreja, o alimento da alma e a fonte pura e perene da vida espiritual! Por isso se 
devem aplicar por Excelência à Sagrada Escritura as palavras: “A palavra de Deus é viva 
e eficaz” (Hb 4,12) e “é capaz de edificar e dar-vos a herança em todos os santificados” 
(At 20,32). - Trecho da Encíclica Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.
Fonte: CATENASSI, Fabrízio Zandonadi. Introdução teológica e história de Israel. Curitiba: Intersaberes, 2018, p. 36.
REFLITA
A Bíblia deve ser lida através dos óculos da sensibilidade e da problemática que hoje 
marcam a vida dos homens. Na ligação entre a realidade de hoje e a história bíblica do 
passado, surge a luz da revelação de Deus na estrada da vida, mostrando que essa 
nossa caminhada pela vida, esta nossa história, é uma história de salvação onde Deus 
já está, mas onde sua presença ainda não é percebida - Carlos Mesters, biblista.
Fonte: CATENASSI, Fabrízio Zandonadi. Introdução teológica e história de Israel. Curitiba: Intersaberes, 2018.
67UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Prezados, chegamos ao final de mais esta unidade de estudo. Nela estudamos 
sobre a realidade da palavra humana e da palavra divina. A comunicação, característica 
constitutiva de nossa existência, encontra na palavra sua forma por excelência de realização.
A Bíblia é a Palavra de Deus, revelada aos homens. E pudemos estudar como isso 
foi compreendido pelo povo de Deus, em sua experiência de povo escolhido, formando 
comunidades de fé que se reúnem em torno da Bíblia. O Deus da Bíblia é um Deus que 
inspira e que se revela.
Esperamos que a leitura atenta do material tenha ajudado você a compreender a 
importância desses conceitos - inspiração e revelação - fazendo com que você tenha uma 
melhor compreensão da Bíblia dentro desses dois conceitos.
Parabéns pelo seu estudo.
 
68UNIDADE III A Palavra: A Inspiração Escriturística e a Revelação Bíblica
MATERIAL COMPLEMENTAR
LIVRO
Título: Introdução às Sagradas Escrituras
Autor: Raimundo Novato Vieira.
Editora: Contentus.
Sinopse: Este livro tem como foco o estudo da Bíblia. Pensando 
na importância de um estudo contextualizado, traça um histórico 
da Antiguidade até a pós-Modernidade. Trata de analisar, ainda, 
a influência de diferentes elementos na Bíblia, como culturas, 
línguas, ambientes sociogeográfico e religioso, e os materiais 
utilizados para a escrita. A obra também trabalha a relevância de 
conceitos como inspiração e inerrância para os estudos bíblicos, a 
formação do cânon, gêneros literários e a hermenêutica.
 
FILME/VÍDEO
Título: Moisés.
Ano: 1995.
Sinopse: Moisés foi um homem comum chamado por Deus para 
libertar seu povo, os Israelitas. Sua missão, libertá-los da escravi-
dão no Egito e levá-los para Canaã, a terra prometida. Quando os 
israelitas correram risco de captura pelo exército do Faraó, Deus 
dividiu o Mar Vermelho para que Moisés e os que o acompanhavam 
pudessem fugir. Mais tarde durante a dura jornada, Deus proferiu 
através de Moisés, Os Dez Mandamentos, a lei divina.
69
Plano de Estudo:
● Línguas, material de escrita e manuscritos;
● As testemunhas do texto hebraico da Bíblia;
● As versões da Bíblia Hebraica;
● As testemunhas do texto do Novo Testamento;
● As versões do Antigo e do Novo Testamento;
● A formação literária da Bíblia Hebraica;
● A formação literária do Novo Testamento.
Objetivos da Aprendizagem:
● Conhecer os diferentes aspectos do texto
 bíblico, quanto à suas versões.
● Conhecer o processo de formação literária 
da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento.
UNIDADE IV
O Texto da Bíblia
Professor Me. Flávio Donizete Batista
70UNIDADE IV O Texto da Bíblia
INTRODUÇÃO
Olá, Prezado Acadêmico. Olá, Prezada Acadêmica.
Até o momento, percorremos diferentes e importantes aspectos referentes à 
Sagradas Escrituras. Pudemos perceber como se deu a formação da lista (cânon) dos livros 
e como estes livros são considerados inspirados por Deus e instrumentos da revelação 
divina à humanidade.
Nesta unidade, vamos olhar alguns aspectos do texto bíblico, propriamente 
dito, as suas versões e os caminhos que percorreu até chegar ao conjunto de livros que 
chamamos Bíblia.
Espero que todos aproveitem o estudo e percebam que tudo o que estudamos até 
aqui, trata-se da ponta de um iceberg, e que sempre precisamos estar em uma atitude de 
permanente busca do conhecimento.
Grande abraço a todos.
71UNIDADE IV O Texto da Bíblia
1. LÍNGUAS, MATERIAL DE ESCRITA E MANUSCRITOS
Como vimos na primeira unidade de nosso estudo, vamos recuperar algumas 
informações sobre as línguas e os materiais de escrita da Bíblia. 
As línguas originais da Bíblia são o hebraico, o aramaico e o grego. O hebraico e o 
aramaico pertencem à família das línguas semitas. O hebraico é a língua de grande parte 
do Antigo Testamento, enquanto o aramaico é a língua de algumas breves seções (Esd 
4,8-6,18; 7,12-26; Dn 2,4-7,2; duas palavras em Gênesis 31,47 e uma frase em Jr 10,11). 
O grego, ao invés, na forma falada da época helenista (koiné: comum), é a língua do Novo 
Testamento, de 2 Macabeus e do Livro da Sabedoria; o Eclesiástico chegou até nós só em 
grego e, a partir das descobertas modernas, parcialmente também em hebraico; enfim, 
chegaram até nós também os acréscimos deuterocanônicos de Ester e de Daniel, e os 
livros de Judite, Tobias, 1 Macabeus e Baruc.
O material de escrita é variado: pedra (Ex 24,12; 31,18; 32,15; 34,1; Dt 4,13; 
Js 8,32), metal (1Mc 8,22; 14,18.26.48), argila (em forma de tabuletas ou de óstracos), 
papiro e pergaminho. Os dois últimos é que forma sobretudo usados para a redação dos 
manuscritos bíblicos: sua forma característica era o rolo e, mais tarde, o códice. O papel de 
panos, embora inventado pelos chineses no século I d.C., aparece na Síria e Palestina só 
a partir do século VIII, espalhado pelos árabes; do século XII-XIII começa a ser usado para 
os manuscritos bíblicos, substituindo aos poucos o pergaminho.
72UNIDADE IV O Texto da Bíblia
Os manuscritos hebraicos antigos têm só texto consonântico; as vogais foram 
inseridas mais tarde, a partir do século VI; mais tarde ainda, acrescentam-se os acentos. 
Com frequência, os manuscritos antigos apresentam uma escrita contínua, evidentemente 
para poupar material, ou apresentam um espaço muito reduzido entre as palavras. Os 
manuscritos gregos mais antigos são escritos em caracteres maiúsculos; depois, porém, 
prevalece a grafia minúscula, porque mais veloz e menos cara. A parte final de ummanuscrito 
se chama “cólofon”; ele serve para oferecer os dados essenciais do manuscrito, relativos ao 
conteúdo, ao escriba e a seu trabalho.
Desde a Antiguidade sentiu-se a necessidade de se subdividir o texto bíblico em 
seções, seja para uso didático, seja para o uso litúrgico. As primeiras tentativas de dividir 
a Bíblia em capítulos e em versículos remontam a Stephen Langton, nos inícios do século 
XIII. A atual divisão deve-se a Robert Estienne, que, em 1555, pública a Vulgata com a 
divisão em capítulos e versículos, como nós conhecemos (PRIOTTO, 2019, p. 129-130).
73UNIDADE IV O Texto da Bíblia
2. AS TESTEMUNHAS DO TEXTO HEBRAICO DA BÍBLIA
O texto hebraico é testemunhado primeiramente pelo Texto Massorético, assim 
chamado porque foi vocalizado entre os séculos VI-X d.C. pelos massoretas (os homens 
da tradição [massorá = tradição]. Três manuscritos testemunham esse texto:
1) O Códice dos profetas, escrito em 895 d.C., que contém os profetas anteriores 
(Js, Jz, 1-2Sm, 1-2RS) e os profetas posteriores (Is, Jr, Ez e os Profetas Menores).
2) O Códice de Alepo, escrito em 925/930 d.C., não completo, mas provavelmente 
o melhor manuscrito.
3) O Códice de Leningrado, escrito em 1008 d.C., reproduz a Bíblia hebraica inteira 
e é a base das edições críticas modernas (PRIOTTO, 2019, p. 131).
A partir de 1896, foram descobertos numerosos fragmentos de manuscritos mais 
antigos, que ampliaram grandemente o conhecimento da história textual da Bíblia hebraica. 
Os mais importantes são:
1. Os fragmentos da Gueniza do Cairo, mais de 200 mil, remontam ao VI-VII século 
d.C., entre os quais um manuscrito hebraico do Eclesiástico, até então disponível 
só na versão grega.
2. Os manuscritos de Qumran, remontam ao período que vai do século II a.C. ao sé-
culo I d.C. São testemunhados todos os livros bíblicos, excetuados Ester, Judite, 1-2 
Macabeus, Baruc, Sabedoria; de Isaías, Habacuc e Jeremias existe o texto completo.
3. O Papiro de Nash, remonta ao I ou II século a.C., contendo o decálogo e Dt 6,4.
74UNIDADE IV O Texto da Bíblia
4. O Pentateuco Samaritano, redescoberto pelo peregrino Pietro dela Valle em 1616; um 
texto conhecido desde a Antiguidade cristã e rabínica, mas depois caído no esquecimento. 
Pertence a uma tradição muito antiga, que depois evoluiu muito, adaptando-se ao longo 
dos séculos às exigências da comunidade samaritana contemporânea.
5. O texto hebraico na base da LXX – É o texto hebraico pressuposto por essa 
tradução do século III-II a.C., pressupõe um texto pré-massorético, todavia, com o 
limite de uma tradução (PRIOTTO, 2019, p. 131).
A partir dessas testemunhas pode-se sintetizar o percurso do texto hebraico em 
três partes:
1. Período da flutuação – Até o século I d.C. coexistem vários tipos textuais, como 
os encontramos no LXX (séc. III-II a.C.), em Qumran (séc. II a.C, - I d.C.) e no 
Pentateuco samaritano (século V d.C.).
2. Fixação do texto normativo, consonântico – Com a fixação do cânon depois 
da destruição do Templo sentiu-se a exigência de fixar também o texto, assim, 
restabelece-se aquilo que será o Texto Massorético.
3. Fixação das vogais – Do século VI-X d.C. o texto hebraico e aramaico da Bíblia 
chega à definitiva estabilidade por obra dos escribas, os massoretas, que colocam 
os sinais vocálicos e retomam e aprofundam as observações sobre cada uma das 
palavras ou frases feitas pelos escribas na época precedente; o conjunto dessas 
observações se chama massorá e é anotada à margem ou no fim dos manuscritos 
(PRIOTTO, 2019, p. 132).
75UNIDADE IV O Texto da Bíblia
3. AS VERSÕES DA BÍBLIA HEBRAICA
3.1 A versão LXX
É a versão em grego da Bíblia hebraica realizada em Alexandria do Egito. A partir 
do século III a.C. inicia-se a tradução do Pentateuco, depois se prossegue com a tradução 
dos outros livros até a conclusão, por volta do século II a.C. Além dos livros canônicos 
hebraicos aparecem também 1 Esdras, Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Tobias, Baruc, Carta 
de Jeremias, 1-2 Macabeus e, enfim, os acréscimos deuterocanônicos aos livros de Ester 
e de Daniel. Também a extensão dos livros é diferente em relação ao Texto Massorético, 
como, por exemplo, no caso do Livro de Jeremias, que é o 1/8 mais breve do que o Texto 
Massorético. O nome deriva do livro apócrifo Carta de Aristeias que fala de 72 tradutores (6 
x 12, isto é, para cada tribo israelita); número que foi arredondado para 70.
Não se trata de um trabalho unitário, desenvolvido por um único escriba ou por um 
grupo de escribas, mas da soma de traduções individuais feitas por pessoas diferentes no 
espaço de um século e meio. Provavelmente, a intenção era dotar a comunidade judaica 
de Alexandria de uma tradução grega da Torá para uso litúrgico e jurídico. Sua importância 
nasce do fato que constitui o primeiro exemplo de tradução de todo um corpus; sua datação 
antiga faz dela uma testemunha preciosa para o conhecimento histórico do texto hebraico e 
de sua interpretação. Ela representa o anel de conjunção entre os dois testamentos, e a Igreja 
primitiva a adota como “Antigo Testamento”, reconhecendo-lhe uma importância única.
76UNIDADE IV O Texto da Bíblia
3.2 As outras versões gregas
Tendo sido adotada pela Igreja, muito cedo a LXX foi hostilizada pelos hebreus, 
que, por isso, dotaram-se de novas traduções, mais coerentes com o Texto Massorético. E 
são as seguintes:
1) Áquila – É o nome de um prosélito judeu, que trabalha uma tradução servil, palavra 
por palavra e, portanto, absurda, porque incorre em berrantes erros de gramática 
e de sintaxe grega; de fato, a intenção era a de reproduzir exatamente, ou antes 
materialmente, o TM. Existem apenas alguns fragmentos. Remonta a 140 d.C.
2) Teodocião – É o nome de um judeu de Éfeso, que, por volta de 180 d.C., faz uma 
revisão da LXX com a intenção de aproximá-la o mais possível do TM. Foi quase 
completamente perdida, excetuado o Livro de Daniel, que, mas edições cristãs, 
suplantou a versão original do LXX.
3) Símaco – Provavelmente trata-se de um samaritano convertido ao judaísmo, 
que, por volta de 200 d.C. faz uma tradução fiel ao hebraico, mas em bom grego; 
restam só fragmentos.
4) Héxapla – Como se pode imaginar, as traduções precedentes causaram uma 
negativa influência sobre a transcriação da LXX, produzindo confusões. Orígenes 
procura pôr ordem no assunto e, entre 228 e 240 d.C. termina uma extraordinária 
edição da Bíblia, a Héxapla, com um texto articulado em seis colunas paralelas: 
o texto hebraico, a transliteração do hebraico com letras gregas, Áquila, Símaco, 
LXX, Teodocião. Teve especial cuidado com a quinta coluna, isto é, o texto hexaplar 
da LXX, mas que, a seguir, sofrerá alterações pelas frequentes transcrições, que 
provocarão novas recensões (PRIOTTO, 2019, p. 133).
3.3 As versões aramaicas
Após o exílio, na Palestina toma conta sempre mais a linguagem aramaica, de 
modo que se torna necessário – especialmente no culto sinagogal – traduzir o texto 
hebraico para o aramaico. Essa tradução, aliás só oral, foi chamada targúm. Assim nascem 
traduções estandardizadas, muitas vezes ricas de paráfrases e sumamente interessantes 
para conhecer a interpretação antiga do texto bíblico. Lá pelo fim do século I a.C. começa 
a se fixar o targúm por escrito. Eis suas principais testemunhas:
77UNIDADE IV O Texto da Bíblia
1) Targúm do Pentateuco – Ele compreende algumas recensões: (a) o Targúm 
Pseudo-Jonatam (= Jerushalmí I), cujas seções mais antigas remontam à época 
pré-cristã; (b) o Targúm Fragmentário (Jerushalmí II), com seções de todos os livros 
do Pentateuco; sua paráfrase por vezes é notável, outras vezes é antiga e genuína; 
(c) os fragmentos da Guenizá do Cairo, testemunhas da variedades de recensões; 
(d) o Códice Neóphyti, que contém o Targúm palestinense completo, numa versão 
executada provavelmente já no século I d.C. e, portanto, particularmente significativo 
para a contemporaneidadeao Novo testamento; (e) o Targúm Ónqelos, que abarca 
todo o Pentateuco; é de origem palestinense, mas foi editado na Babilônia. Gozou 
de grande autoridade. A paráfrase é sóbria e está contida na mesma tradução.
2) Targúm dos Profetas (ou de Jonatan bem Uzziel) – Abarca os Profetas anteriores 
(Js – Rs) e os Profetas posteriores (Is – Ez); é de origem palestinense, mas recebe 
sua estrutura definitiva no III-IV século d.C na Babilônia. É uma paráfrase, mais do 
que uma tradução.
3) Targúm dos Escritos – É a obra de muitos autores, como testemunha a grande 
variedade de língua e de estilo; não é anterior ao século V d.C. A paráfrase é muito 
desenvolvida.
 
78UNIDADE IV O Texto da Bíblia
4. AS TESTEMUNHAS DO TEXTO DO NOVO TESTAMENTO
Nenhum texto clássico chegou até nós em tal número de exemplares e em 
formas textuais tão diferentes como no Novo Testamento. Conhecem-se cerca de cinco 
mil manuscritos, aos quais se acrescentam mais de dez mil manuscritos das versões 
antigas e milhares de citações dos Padres da Igreja, para um total de cerca de duzentos e 
cinquenta mil variantes. A maior parte das variantes, porém, diz respeito simplesmente à 
ortografia, à gramática ou ao estilo; pouquíssimas referem-se a mudanças do significado 
textual. Naturalmente, os originais foram perdidos desde os primeiros tempos, mas as 
testemunhas mais antigas estão a apenas três ou quatro séculos dos originais e, em 
alguns casos, somente dois séculos. E até, no caso do Papiro Ryland (P52) a distância do 
original é só de três ou quatro decênios.
Para catalogar os manuscritos usa o método elaborado por C. R. Gregory. 
Os manuscritos maiúsculos (ou unciais) são indicados por um número precedido pelo 
zero (p.ex., 01 = Códice Sinaítico); os manuscritos minúsculos são indicados como os 
números árabes; os papiros são indicados com um “P” e um número exponencial (P52= 
Papiro Ryland); os lecionários, porém são indicados com um “l” e um número exponencial 
(l1596= Lecionário de Viena). Enfim, os manuscritos latinos são indicados com as letras 
minúsculas do alfabeto latino (a, b, c...) (PRIOTTO, 2019, p. 135).
79UNIDADE IV O Texto da Bíblia
4.1 Papiros
Provém quase todos do Egito. São cerca de 96 e mais da metade remonta ao III e 
ao IV século d.C., portanto, antes dos grandes códices do século IV; daí sua importância. 
Os principais são:
1) Papiro Ryland (P52) – É o papiro mais antigo (125 d.C. e traz Jo 18,31-33.37).
2) Papiros Chester Beatty (P45.46.47) – Remontam ao século III d.C. e contêm seções 
dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, de São Paulo e do Apocalipse.
3) Papiro Bodmer II (P66) – É importante tanto por sua antiguidade (cerca de 200 
d.C.) como porque traz quase todo o Evangelho de João.
4) P72 – Remonta ao século II d.C. e traz a Carta de Judas e 1-2 Pedro, que, naquele 
tempo não tinham ainda obtido uma colocação segura no cânon.
5) P75 – Remonta a cerca de 200 d.C. e é o mais antigo testemunho de Lucas e um 
dos mais antigos de João. O texto é muito semelhante ao do Códice Vaticano (B = 
02), o que faz essa forma textual remontar ao século III d.C (PRIETTO, 2019, p. 135).
4.2 Códices maiúsculos
Os códices maiúsculos são aproximadamente 299; os mais importantes são:
1) O Códice Sinaítico (01 = A) – Foi descoberto por K. von Tischendorf no Mosteiro 
de Santa Catarina do Sinai. Remonta à primeira metade do século IV d.C. e contém 
o Antigo Testamento da LXX (com algumas lacunas) e todo o Novo Testamento, 
com o acréscimo da Carta de Barnabé e do Pastor Hermas. Assemelha-se muito 
ao Códice Vaticano, com a vantagem de ser completo sobre o Novo Testamento.
2) O Códice Vaticano (03 = B) – Encontra-se na Biblioteca vaticana. Contém o 
Antigo Testamento da LXX (com exceção de Gn 1,1 - 46, 28 e dos Sl 105,27 – 
137,6) e o Novo Testamento (com exceção de Hb 9,15 – 13,25); 1-2 TM; Tt; Fm; 
Ap); é considerado o códice mais antigo (inícios do século IV d.C.) e provém muito 
provavelmente do Egito.
3) O Códice Alexandrino (02 = A) – Contém o Antigo Testamento grego e o Novo 
Testamento, com notáveis lacunas, e, além disso, a Primeira Carta de Clemente 
Romano e parte da segunda; foi transcrito no Egito, por volta do fim do século IV d.C.
4) O Códice Ocidental (05 = D) – É também chamado de Códice de Beza, remonta 
ao século V ou VI d.C.; é o mais antigo códice bilingue (grego e latim) e traz só os 
Evangelhos e os Atos dos Apóstolos (PRIETTO, 2019, p. 135-136).
4.3 Códices minúsculos
São chamados assim porque redigidos em caracteres cursivos ou minúsculos; são 
mais de 2.792 e se difundem do século IX até a invenção da imprensa. Não têm um grande 
valor, exceto quando reproduzem um arquétipo antigo. 
80UNIDADE IV O Texto da Bíblia
Quando entre eles existe uma parentela, constituem uma família, como por exemplo, 
a família Lake (f1), que compreende os códices 118, 131, 209, 582, e a família ferrar (f13), 
caracterizada por três subgrupos encabeçados respectivamente pelos manuscritos 13,69 e 983.
4.4 Lecionários
São manuscritos que contêm as leituras litúrgicas do Novo Testamento. Existem 
2.193; em geral, são posteriores ao século IX. A pesquisa recente acentua sua importância.
4.5 Citações dos Padres
Oferecem um material tão abundante a ponto de abraçar praticamente a totalidade 
do Novo Testamento. Mesmo que às vezes seja difícil decidir se se trata de citações 
reais ou simplesmente citações mnemônicas ou parafrásticas, essas citações podem ser 
importantes porque, com frequência, trazem um texto mais antigo do que o dos grandes 
códices do século IV.
4.6 Recensões
Em base a semelhanças e afinidades, os manuscritos do Novo Testamento foram 
classificados em quatro grupos textuais, chamados recensões:
1) Recensão alexandrina (ou neutra). É o tipo de texto que veio se formando do 
Egito e é considerado o melhor. Normalmente é o mais breve e evita reelaborações 
gramaticais ou estilísticas. Pertencem a ela manuscritos muito antigos e importantes, 
como B, a, A. O arquétipo que está na base dessa recensão remonta ao século II.
2) Recensão ocidental. É chamada assim porque testemunhada por manuscritos 
ocidentais, como a Vetus Latina, as citações dos Padres latinos e dos manuscritos 
greco-latinos; todavia, está presente também nos Padres gregos. Embora conotada por 
numerosos acréscimos, omissões e harmonizações, espelha um testemunho textual 
antigo, cujo arquétipo remonta ao século II. Pertence a essa recensão o códice D.
3) Recensão cesariense. Remonta a uma reelaboração efetuada no Egito por 
volta da primeira metade do século III d.C. e foi difundida de Cesareia Marítima, 
sobretudo graças a Orígenes. Distingue-se da recensão alexandrina pela melhor 
forma linguística e pela infiltração de alguns elementos da recensão ocidental. 
Pertencem a essa recensão as famílias Ferrar e Lake.
4) Recensão bizantina (ou antioquenha, ou siríaca ou koiné). É a recensão mais 
recente, mas também a mais difundida. Provavelmente teve origem em Antioquia da 
Síria por volta da metade do século IV e dali difundiu-se por todo o Império Bizantino. 
Caracteriza-se por um texto amplo, por correções de estilo e por acréscimos 
explicativos, com a intenção de tornar o texto mais fluente e mais elegante. A essa 
recensão pertence o códice A (PRIOTTO, 2019, p. 137).
81UNIDADE IV O Texto da Bíblia
5. AS VERSÕES DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO
A rápida difusão do cristianismo entre as populações de língua não grega comportou 
muito cedo, a partir de 180 d.C., a necessidade de novas traduções. Em relação às duas 
traduções vistas acima, a da LXX e do Targúm, essas novas traduções referem-se à Bíblia 
cristão, isto é, aos dois testamentos. Eis as traduções mais importantes.
5.1 Versões Latinas
1) A Vetus Latina (a versão latina antiga). Trata-se de uma tradução ou do conjunto de 
traduções anteriores à versão Vulgata de Jerônimo (século IV). Essa obra de tradução 
iniciou na África em fins do século II com Tertuliano e difundiu-sevelozmente por 
todo o Ocidente com contínuas adaptações para a linguagem litúrgica dos diversos 
países. Traduz o texto grego da LXX anterior à recensão de Orígenes; isso significa 
que seu texto é muito antigo e possui um notável valor crítico. A difusão é, talvez, 
também a multiplicação das traduções causava confusão; daí a necessidade de 
uma revisão crítica, que aconteceu por obra de Jerônimo. Primeiramente, em 383, 
ele revisou o Novo Testamento, respeitando o mais possível o antigo texto latino, 
mas eliminando erros de tradução evidentes e abrandando as durezas estilísticas. 
Depois, revisou também o Antigo Testamento, traduzido pela LXX, do qual nos 
ficaram 1-2 Macabeus, Baruc, Eclesiástico e Sabedoria, porque a seguir serão 
inseridos na Vulgata, sem ulteriores correções. Da Vetus Latina sobraram apenas 
poucos fragmentos, especialmente pelo que concerne ao Antigo Testamento.
82UNIDADE IV O Texto da Bíblia
2) A Vulgata. Em 390, Jerônimo começa a trabalhar na tradução da Bíblia hebraica, 
diretamente do hebraico, terminando-a em 405. Quanto aos deuterocanônicos, traduz 
Tobias e Judite de um modelo aramaico e as seções deuterocanônicas de Daniel e 
Ester de um modelo grego; os outros deuterocanônicos (1-2 Mc, Br, Ecl, Sb), como 
se disse antes, entram na Vulgata na forma da precedente revisão da Vetus Latina. 
Em pouco tempo a Vulgata se impôs como Bíblia oficial da Igreja latina. Foi revisada 
em 1592 em consequência da injunção do Concílio de Trento (a Sisto-Clementina); 
nos anos 1926-1987 aparece a revisão preparada pelos Beneditinos da Abadia 
de São Jerônimo em Roma, mas só para o Antigo Testamento. Em 1979, após o 
Concílio Vaticano II, foi publicada uma nova tradução em latim dos textos originais, a 
Neo-Vulgata, para uso litúrgico (PRIOTTO, 2019, p. 138-139).
5.2 Versões siríacas
Das versões siríacas que chegaram até nós, duas se referem a toda a Bíblia (a 
Peshitta e a Siro-palestinense), duas se referem ao Antigo Testamento (a Siro-Héxapla 
e a de Jaqub de Edessa) e três referem-se ao Novo Testamento (Vetus Syra, Filoxênia, 
Harclense). Recordamos de modo particular a Peshitta, também chamada “Vulgata siríaca” 
e ainda em uso na Igreja siríaca. Sua origem é muito antiga, ainda que os manuscritos 
sejam do século V d.C. Quanto ao Antigo Testamento, discute-se se a tradução é de 
origem judaica ou cristã e se foi feita de um texto hebraico ou do Targúm; importante foi 
também a influência da LXX, especialmente para os Salmos, Isaías e os 12 profetas. Em 
relação ao Novo Testamento, faltam as cartas católicas mais breves (2-3 Jo; 2 Pd, Jd) e 
o Apocalipse (PRIOTTO, 2019, p. 139).
83UNIDADE IV O Texto da Bíblia
6. A FORMAÇÃO LITERÁRIA DA BÍBLIA HEBRAICA
O Antigo Testamento foi se formando ao longo de três eixos mestres que são a Lei (Torá), 
os Profetas e os Escritos. Esses três eixos mestres não só constituem a estrutura da atual Bíblia 
hebraica, mas revelam a caminhada progressiva do consenso que veio se formando em torno 
desses livros com efeito, é enquanto Lei que os primeiros cinco livros foram reconhecidos como 
obrigatórios e depois como canônicos, tanto pelos judeus como pelos samaritanos e depois 
também pelo Novo Testamento. Na tradição judaica, à Lei seguem os Profetas; lentamente a 
tradição havia reunidos tantos as narrações escritas no espírito dos Profetas (Primeiros Profetas), 
como as palavras dos próprios profetas (Últimos Profetas). A terceira coleção dos Escritos, mais 
recente e menos unitária, agrupa textos bastante diferentes entre si mais e continua aberta 
a ulteriores aquisições (cf. os escritos deuterocanônicos); encontrará sua delimitação só no 
período cristão, seja no cânon hebraico, seja no cristão (PRIOTTO, 2019, p. 146-147).
6.1 A formação da Lei (Pentateuco)
Apesar da pluralidade e, com frequência, da contradição das novas propostas em 
polêmica com a passada hipótese documentária1 , emergem algumas orientações de fundo, 
das quais, independentemente das opções que se querem fazer, não se pode facilmente 
prescindir. podemos sintetizá-las em alguns pontos.
1) É sempre mais evidente a tomada de consciência da complexidade do texto bíblico do 
Pentateuco. Diante das tentações de soluções fáceis e exclusivistas, aparece a necessidade 
de uma aproximação humilde, que saiba ter em consideração as diversidades,ou melhor, 
as riquezas escondidas num texto, fruto de uma longa maturação de fé.
1Tal hipótese, definida e sistematizada por J. Wellhausen, sustenta que o Pentateuco seja o resultado da fusão de quatro 
documentos, convencionalmente chamados Javista, (“J”), Eloísta (“E”), Sacerdotal (“P”) e Deuteronomista (“D).
84UNIDADE IV O Texto da Bíblia
2) Em polêmica contra a precedente tendência de “atomizar” o texto, hoje sente-se 
a necessidade de estudar o texto em seu teor atual; daí um rico florescimento de 
estudos que, embora na variedade de métodos, valorizem o texto na sua riqueza 
literária. É somente a partir dessa aproximação sincrônica que se pode proceder, 
depois, a uma análise diacrônica.
3) O exílio babilônico fez Israel mergulhar numa crise religiosa e política sem 
precedentes na história nacional. Ela constitui um ineludível divisor de águas no 
processo de transmissão e sobretudo aprofundamento das tradições do Pentateuco, 
porque responde - da parte do judaísmo nascente - à inevitável exigência de definir 
claramente a própria identidade religiosa e social, no momento em que os passados 
parâmetros (dinastia davídica, realeza, independência territorial, Templo) pareciam 
definitivamente destruídos. É desse trauma histórico que nascem as duas grandes 
redações, deuteronomista e sacerdotal (PRIOTTO, 2019, p. 147-148).
Partindo dessas premissas, pode-se projetar a seguinte formação do Pentateuco. 
Existem tradições pré-exílicas, tanto escritas como orais, mas que nunca foram reunidas 
numa narração única antes do trabalho da corrente sacerdotal e deuteronomista no tempo 
do exílio e de imediato pós-exílio. Portanto, elas se compõem de materiais originariamente 
independentes; isso não significa que estas tradições constituíram corpos fechados, sem 
contato algum entre si, mas simplesmente que não foram reunidas literariamente numa única 
narração. Embora na consciência da impossibilidade de uma maior precisão, podemos indicar 
como pré-exílicos alguns textos: o código da aliança (Ex 20,22-23,33), o código deuteronômico 
(Dt 12-26), alguns relatos patriarcais concernentes a Abraão (Gn 12-25) e Jacó (Gn 26-36), 
um relato de origem alternativa ao patriarcal concernente à saída do Egito (Ex 1-14), com o 
acréscimo provável de uma primeira versão do evento teofânico do Sinai (Ex 19-24).
A contribuição do grupo sacerdotal e do grupo deuteronomista na época do exílio 
e do segundo Templo é fundamental no processo de formação do Pentateuco. A mais 
importante é sobretudo o complexo que é designado por “P”, cuja articulação, porém, não é 
fácil de determinar. Trata-se de uma narração independente, que integrando os contributos 
das tradições precedentes, narra uma história salvífica que vai da criação até a ereção do 
santuário no deserto (Ex 40). O fundo é uma concepção comum aos mitos da criação do 
Oriente Próximo que, com frequência, terminam com a construção de um templo em que 
o Deus vem morar; mas a intenção puramente teológica, isto é, a de anunciar a volta da 
presença de YHWH, comprometida pela intromissão da violência na terra no tempo do 
dilúvio (Gn 6,11-13), no quadro de uma progressiva revelação de Deus (‘elohím: Gn 1,1; ‘el 
shadday: Gn 17,1; YHWH: Ex 6,3). 
85UNIDADE IV O Texto da Bíblia
Desse modo, P interpreta as tradições precedentes como três etapas de uma mesma 
história, toda orientada para a plena revelação daquele Deus, YHWH, que habita em meio 
à comunidade sacerdotal de Israel, e assim, fundamenta a legitimidade da comunidade 
judaica pós-exílica, que reconstrói o Templo sobre o modelo do santuário mosaico e aliopera o culto de um Deus não só nacional, mas universal. a Esse primeiro complexo de 
P deve ainda unir-se, embora num segundo tempo, a assim chamada Torá sacerdotal (Lv 
1-16), que constitui sua conclusão, e o código da santidade (Lv 17-6/27).
Ao lado da contribuição da corrente sacerdotal está a corrente deuteronomista. No 
início, essa tradição é constituída de código deuteronômico (Dt 12-26) acima citado e por 
sua redescoberta e proclamação na época de Josias (2Rs 22,1-23,30); depois, durante o 
exílio, provavelmente na Babilônia, da parte de círculos distintos dos sacerdotais, segue 
uma reflexão sobre a história de Israel à luz do Deuteronômio (PRIOTTO, 2019, p. 149).
Desconsiderando a forma literária de tal reflexão, sobre a qual existem interpretações 
divergentes (Dt - Js; Dt - 2Rs; Ex - 2Rs…), aparece fortemente o tema de uma identidade 
judaica ligada à terra e à observância de uma lei que é, ao mesmo tempo, cultual e ética. 
Trata-se, então, de harmonizar a tradição sacerdotal com a tradição deuteronomista, coisa 
que aconteceu lentamente no século V: 1) graças ao trabalho de síntese das principais 
tradições legais de Israel da parte do código de santidade (Lv 17-26/27); 2) graças à 
redação do Livros dos Números, que assim se torna o anel de conjunção entre Gênesis-
Levítico e Deuteronômio e também o espaço para integrar na Torá os últimos elementos 
antes de seu fechamento definitivo; 3) e enfim, graças ao trabalho paciente dos escribas 
que, com cuidadas e significativas inserções orientam o texto para o novo horizonte do 
Pentateuco. No processo de fusão das duas tradições prevalece a sacerdotal, porque a 
opção da Torá como Pentateuco significa o abandono de qualquer projeto de Hexateuco 
(Gn - Js), isto é, a dissociação da Torá da posse da terra. Se o horizonte permanece o 
da promessa da terra, continua fundamental o fato de que toda a Torá seja transmitida a 
Moisés, e através dele a Israel, fora do país de Canaã, motivo pelo qual a posse da terra 
torna-se secundária em relação à Lei e a ela subordinada.
Esse processo de síntese das tradições conhece, porém, um passado longo e difícil 
de ser seguido, porque aceita as instâncias dos vários grupos judaicos então existentes 
(judeus da província de Yehud, samaritanos, judeus da diáspora) e contemporaneamente 
as instâncias nem sempre fáceis do Império Persa. É com a época asmoneia que, 
verossimilmente, o Pentateuco atinge sua forma última, soldando juntas a tradição da Torá 
de Moisés com o Templo e suas disposições (PRIOTTO, 2019, p. 150).
86UNIDADE IV O Texto da Bíblia
6.2 A formação dos Livros Proféticos
6.2.1 Os profetas anteriores
A tradição judaica associa os livros de Josué, Juízes, 1-2 Samuel, 1-2 Reis aos 
profetas, seja por causa da crença de uma composição da parte dos profetas, seja por 
sua real harmonia com a mensagem profética. Esses livros constituem uma unidade não 
só porque apresentam a história de Israel da conquista da terra prometida até a perda 
dela com o exílio babilônico, mas sobretudo porque estão unidos por uma mesma língua 
e teologia, a do Deuteronômio. Embora a história literária desse conjunto seja bastante 
complexa, podem-se captar algumas linhas mestras.
O estilo e a teologia deuteronomista são fortemente influenciados pelos tratados 
assírios, motivo pelo qual é verossímil a presença dos primeiros escribas deuteronomistas entre 
os funcionários dos soberanos assírios. Se é difícil hipotizar uma primeira edição da história 
deuteronomista (Dt - 2Rs) sob Josias, parece razoável imaginar a existência de uma “biblioteca” 
deuteronomista no Templo de Jerusalém, dotada de escritos concernentes às tradições mais 
antigas de Israel, como um rolo sobre a conquista do país, ou um ou mais rolos sobre a história 
da realeza, baseados no modelo dos anais do Oriente Próximo antigo (PRIOTTO, 2019, p. 151).
Já existe um consenso sobre a importância do exílio babilônico nos escritos 
deuteronomistas, e, por isso, a hipótese sobre uma obra deuteronomista que compreende 
os livros que vão do Deuteronômio a 2 Reis tem fundamento suficiente. Todavia, os autores 
/ redatores dessa história, provavelmente não se encontram na Judeia, mas antes na 
diáspora babilônica. Efetivamente, a conclusão de 2Rs 25,21, que descreve plasticamente 
a deportação de Judá de sua terra, compreende-se melhor a partir da perspectiva do exílio 
do que da perspectiva de uma residente no país. A redação da história deuteronomista 
na Babilônia pode ser entendida como resposta à crise de identidade sofrida pelos 
exilados judeus. De fato, a explicação da catástrofe torna esta última mais compreensível, 
e a insistência sobre a Torá mosaica consente conservar a identidade hebraica também 
fora da terra prometida. Durante a época persa, essa história deuteronomista conhece 
novas releituras, que testemunham preocupações religiosas e políticas (pureza étnica 
da comunidade) que voltam a ser encontradas nos livros de Esdras e Neemias; assim, 
determinados destaques da Torá refletem claramente a importância do novo culto sinagogal 
na diáspora. Esse trabalho redacional continua até a época helenista, quando a história 
deuteronomista chega à sua forma definitiva.
87UNIDADE IV O Texto da Bíblia
6.2.2 Os profetas posteriores
No centro da investigação já não está o estudo do profeta, acompanhado da 
pesquisa das pequenas unidades que podiam remontar a ele, mas o estudo do livro profético, 
portador de sentido em toda a sua extensão. De fato, os vários redatores que sucederam 
não são uns desajeitados glosadores, mas escribas que reivindicam integralmente o 
carisma profético na medida em que testemunham com suas atividades de escritor uma 
surpreendente capacidade de inovação e, na esteira do mestre, de continuidade profética.
As etapas da redação e da transmissão da mensagem profética são as seguintes:
1) São postos por escrito os lóguia orais: isso significa já um ato de interpretação, 
porque a palavra oral é tirada de sua situação de origem e acrescentada a uma 
compilação de outros lóguia.
2) São acrescentadas pequenas unidades, seja em relação ao contexto imediato, 
seja em relação a todo o livro, quando constituem o esqueleto de amplas seções ou 
do próprio livro (cf. por exemplo, os acréscimos que organizam a estrutura: “palavras 
contra Israel” - “palavras contra os povos” - “palavras de salvação para Israel”).
3) Algumas vezes é inserido um texto que tem valor redacional para todo o livro, 
como por exemplo Is 35, que, provavelmente por volta do fim do século IV ou do início 
do século III, reúne pela primeira vez as tradições do Proto e do Dêutero-Isaías.
4) Também podem ser notados laços redacionais entre os próprios livros, laços que 
servem para fixar um corpus propheticum (Is - Ml).
5) Enfim, alguns acréscimos textuais podem relacionar-se a outros corpos 
escriturísticos: por exemplo, a promessa de um novo céu e de uma nova terra de 
Is 65-66 constitui claramente uma recensão de Gn 1-3 (PRIOTTO, 2019, p. 152).
De que maneira aconteciam esses acréscimos? A circulação dos livros era muito 
restrita e os ambientes culturalmente vivos, depois do exílio, concentravam-se provavelmente 
em Jerusalém. Agora, a intenção primeira era não só a conservação do texto, mas também 
a preservação do sentido; motivo pelo qual os novos desenvolvimentos não se apresentam 
como tais, mas são redigidos na forma profética e colocados de modo anônimo na boca do 
profeta ao qual o livro é atribuído. em nível de corpo profético, o Livro de Isaías assume o 
papel de uma voz diretora, e por isso testemunha uma profecia que, do tempo assírio, chega 
até o advento de um céu novo e de uma terra nova (cf. Eclo 48,24-25). Nesse caminho 
geral, os outros profetas transmitem profecias complementares cada um na própria época.
88UNIDADE IV O Texto da Bíblia
Essa articulação da transmissão profética testemunha, pois, não só uma 
preocupação histórica,mas sobretudo teológica; os acréscimos posteriores são eles 
próprios profecia, porque reinterpretam e atualizam profeticamente a antiga palavra 
profética. Uma leitura puramente historicista trairia seu sentido profundo. A profecia é 
um fenômeno que Israel compartilha com os povos circunvizinhos; todavia, o que lhe é 
precípuo é exatamente essa contínua reinterpretação e atualização da palavra profética, 
motivo pelo qual ela testemunha um significado para as gerações seguintes. É por isso 
que a profecia do Antigo Testamento se conservou até hoje.
Sendo a Torá já um corpus com autoridade, o grupo dos escritos proféticos podia 
tornar-se um corpus só em conexão com o primeiro. A junção do segundo ao primeiro 
não era, pois, só uma operação material, mas significava que os profetas transmitiam e 
interpretavam a Torá, exatamente como mostrará o posterior serviço sinagogal com a dupla 
leitura da Torá e dos Profetas. É possível que a passagem final de Ml 3,22-24, com sua 
significativa alusão à lei de Moisés, queira fechar todo corpo profético, conciliando-o com o 
final de Dt 34 e a interpretando-a não como uma palavra diferente, mas como a atualização 
e a interpretação da única Torá de Moisés.
6.2.3 A formação dos Escritos
É sob esse título, bastante vago, que a tradição judaica reuniu o último bloco dos 
livros sagrados. Diversamente das duas grandes unidades precedentes, esta contém escritos 
bastante diferentes entre si e, em geral, tardios; além disso, constitui um espaço aberto a 
novas aquisições, até que as comunidades judaica e cristã decidiram, com critérios e tempos 
diferentes, fechar o cânon, pondo assim um termo ao crescimento quantitativo da Bíblia.
A ordem dos livros não é homogênea nas várias tradições. Nas edições da Bíblia 
impressa, impôs-se a seguinte classificação: os três grandes escritos: Salmos, Jó e Pro-
vérbios; o grupo dos cinco rolos (meghillot): Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, 
Eclesiastes, Ester; enfim, Daniel, Esdras, Neemias, 1-2 Crônicas. A tradição da diáspora 
grega, adotada depois pela Igreja Cristã, acrescentou-lhe ainda os seguintes livros: Tobias, 
Judite, 1-2 Macabeus, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria e os assim chamados acréscimos 
deuterocanônicos a Ester e a Daniel.
89UNIDADE IV O Texto da Bíblia
7. A FORMAÇÃO LITERÁRIA DO NOVO TESTAMENTO
A formação literária do Novo Testamento, com a da Bíblia hebraica, compartilha 
os mesmos pressupostos, isto é, está intimamente conexa com a história da comunidade 
crente, reflete os vários ambientes que a caracterizam (liturgia, catequese, missão…) e 
depende de uma precedente tradição oral. Todavia, o curto espaço de tempo em que se 
desenvolve (70/80 anos) permite a reconstrução de um percurso diacrônico bastante mais 
fácil em relação ao da Bíblia hebraica.
Seguindo o quadro histórico-cronológico, diferente em relação à atual estrutura 
redacional. aparecem sucessivamente quatro grupos de escritos: as Cartas Paulinas, os 
Evangelhos com os Atos dos Apóstolos, os Escritos Joaninos e, enfim, as Cartas Católicas.
7.1 As cartas paulinas
O epistolário paulino foi redigido entre os anos 50 e 60 d.C., portanto antes dos 
Evangelhos sinóticos que vão da segunda metade dos anos 60 até o fim dos anos 80. 
Naturalmente, referimo-nos ao nível redacional, porque, como se verá, os Evangelhos se 
apoiam sobre fontes precedentes às cartas paulinas, como, aliás, também estas últimas, 
embora não tão largamente. A articulação canônica das cartas segue um critério quantitativo, 
da mais volumosa (Rm) à mais breve (Fm). Com referência à obra direta de Paulo, a crítica 
literária contemporânea distingue três grupos: as cartas autorais ou prolegómena (1 Ts, 
1-2 Cor, Gl, Rm, Fm, Fl), as cartas da primeira tradição paulina (2Ts, Cl, Ef) e as cartas da 
segunda tradição paulina ou antilegómena das cartas pastorais (1 Tm, Tt, 2 Tm).
90UNIDADE IV O Texto da Bíblia
 Se as cartas autorais fazem referência à própria obra do Apóstolo, as do segundo 
grupo testemunham não tanto uma escola ou uma corrente, mas antes a viva tradição 
das comunidades por ele fundadas, que não só conservaram, mas também adaptaram e 
atualizaram seu ensinamento nos novos contextos de suas vidas; assim, as cartas pastorais 
exprimem uma ulterior atualização do pensamento de Paulo em tempos e circunstâncias já 
distantes de seu tempo (PRIOTTO, 2019, p. 155).
A história literária das cartas paulinas é, em parte, análoga à dos textos evangélicos. 
De fato inicia antes de mais nada pelas tradições circulantes nas comunidade pré-paulinas, 
isto é, pelo depósito das tradições recebidas do Senhor e das antigas comunidades (cf. 
1,Cor 11,23; 15,3-5) e por elementos tradicionais sob as formas literárias mais diversas: 
fragmentos literários do querigma primitivo (p. ex., 1Ts 1,10; Gl 1,4), fórmulas litúrgicas 
(1Cor 8,6; 11,24-25; 16,22), hinos (Fl 2,6-11; 1Cor 13), trechos homiléticos e parenéticos ou 
de exortação moral com catálogos dos vícios e das virtudes (p. ex., Gl 5,19-23), midrashim 
cristãos (Gl 4,21-31; 1Cor 10,1-11; 2Cor 3,4018), instruções domésticas… (como Cl 3,18-
4,1). Em nível de história da redação, Paulo retoma e integra esses diversos elementos no 
quadro da nova síntese literária que ele põe por escrito.
Paulo não escreve nenhuma carta de próprio punho, mas serve-se da colaboração 
de um secretário que a redige sob ditado (cf. Rm 16,22); porém, coloca nelas sua assinatura, 
acompanhada de algumas frases de fechamento (1Cor 16,21; Gl 6,11; 2Ts 3,17). Na carta 
a Filêmon, o autógrafo torna-se garantia de débito pelos danos causados pelo escravo 
Onésimo em relação ao patrão (v. 19). Dotado de meios financeiros limitados, Paulo escreve 
provavelmente em papiro, em pequenos trechos literários, para, depois, colar tudo junto; isso, 
aliás, explica certas dissonâncias entre os diversos elementos de uma carta. A alusão aos 
pergaminhos em 2Tm 4,13 reflete o ambiente posterior da última tradição paulina e não a 
original. No cabeçalho das cartas, estão presentes, além de Paulo, outros comitentes e 
colaboradores, como Timóteo, Silvano e Sóstenes e até toda a comunidade (cf. 1Ts 1,1; 
1Cor 1,1 2Cor 1,1; Fm 1,1; Gl 1,2); a eles, com frequência, acrescentam-se os portadores 
das cartas, como Febe e Epafrodito (cf. Rm 16,1-2; Fl 2,25-30); esse horizonte comunitário é 
confirmado pelo destinatário, que é exatamente a comunidade: “Peço-vos encarecidamente 
no Senhor que esta carta seja lida perante todos os irmãos” (1Ts 5,27). Tudo isso confere às 
cartas de Paulo um caráter não só profundamente pessoal, mas também comunitário.
No final das cartas paulinas, aparece no cânon do Novo Testamento a Carta aos 
Hebreus, embora o estilo e a impostação argumentativa difiram das cartas de Paulo e seu 
nome nunca apareça. Todavia, é preciso reconhecer que se trata de um escrito próximo ao 
ambiente paulino. 
91UNIDADE IV O Texto da Bíblia
É uma homilia cristológica, escrita antes da destruição do Templo e caracterizada 
por uma extraordinária familiaridade com o Antigo Testamento e com o culto de Jerusalém 
(PRIOTTO, 2019, p. 157).
O corpus das cartas paulinas não foi improvisado e não coincidiu com a gradual 
inserção das cartas assim que eram escritas, mas exigiu um certo lapso de tempo (50 anos?) 
e um processo do qual é difícil conhecer exatamente as modalidades; mas podemos imaginar 
as linhas mestras. À exceção de 1-2 Timóteo, Tito e Filêmon, as cartas não são endereçadas 
a pessoas, mas às Igrejas; só a Carta aos Gálatas é endereçada expressamente a diversas 
comunidades vizinhas. As cartas eram lidas nas assembleias litúrgicas (cf. 1Ts 5,27) e 
conservadas com veneração. Num só caso se acena a uma troca de cartas (Cl 4,16), mas é 
fácil pensar que os destinatários de uma carta a transmitissem também às outras comunidades, 
após ter feito uma cópia dela; o próprio Paulo sabe que suas cartas eram lidas por um grande 
público e despertavam vivos comentários (2Cor10,9-11). É provável que, depois da morte do 
Apóstolo, muito cedo se tenha feito uma coleção de suas cartas (cf. 2Pd 3,15-16).
7.2 Evangelhos sinóticos e Atos dos Apóstolos
Seguindo o exemplo de Jesus, depois da ressurreição também os apóstolos se 
dedicam, além do serviço litúrgico, a uma obra de anúncio (At 6,4), centrado no mistério 
pascal (At 2,32-33); eram hebreus que pregavam a outros hebreus, proclamando Jesus, 
o crucificado, como Senhor e Mestre (At 2,36). Esse conteúdo essencial do anúncio é 
chamado de querigma, do qual possuímos exemplo concretos nas narrações dos Atos 
(p. ex., 10, 37-43). Portanto, nos anos imediatamente após a morte de Jesus temos uma 
tradição essencialmente oral, segundo o significado etimológico do termo “evangelho”, que 
significa exatamente mensagem proclamada oralmente (cf. 1Cor 15,1).
A composição dos Evangelhos foi precedida de uma rica tradição oral; já os antigos 
sabiam que os Evangelhos nasceram da precedente pregação oral, como testemunha 
Irineu, segundo o qual foi confiado aos escritos aquilo que antes foi pregado oralmente. 
Trata-se de episódios e de cenas perfeitamente delimitáveis e separáveis, sem que percam 
nada de seu significado: controvérsias, parábolas, palavras proféticas, normas comunitárias, 
milagres… Contudo, são fragmentos inseparáveis de sua função pastoral e, em geral, da 
vida das comunidades cristãs. Se não houve a preocupação de fixar os ditos e fatos numa 
narração unitária, nem uma preocupação histórica com um fim em si mesma, todavia, esses 
elementos fragmentários eram lembrados e anunciados num quadro global do ministério de 
Jesus segundo algumas linhas mestras, que constituem a estrutura atual dos Evangelhos: 
pregação do Batista, batismo de Jesus, ministério na Galiléia, ministério em Jerusalém, 
paixão, morte, ressurreição e aparições do Ressuscitado. Foi a ressurreição que marcou o 
ponto-chave do anúncio evangélico, o ponto de referência interpretativo de toda a obra de 
Jesus; e por isso as lembranças pré-pascais não encontram sua justa interpretação numa 
fidelidade material, mas à luz da ressurreição de Jesus.
92UNIDADE IV O Texto da Bíblia
A formação dos vários episódios (perícopes) foi motivada pela própria vida da 
Igreja primitiva, particularmente pela celebração litúrgica, pela catequese e pela missão. 
De fato, foi por desenvolver essas funções fundamentais que os apóstolos recordavam 
as palavras de Jesus e narravam os episódios de sua vida. Acrescentem-se a isso as 
necessidades práticas da comunidade: o comportamento dos cristãos, a defesa contra 
acusações e calúnias, a lembrança afetuosa de um “amigo”. No seguimento dos apóstolos, 
muitas outras pessoas comprometeram-se nesta tarefa eclesial, da qual nasceram os 
escritos evangélicos: não um relato de crônica, mas a interpretação autêntica da obra de 
Jesus à luz de sua ressurreição.
Mesmo sendo o testemunho de uma comunidade de fé, os Evangelhos são a 
obra de determinadas pessoas, identificadas desde a tradição mais antiga como Mateus, 
Marcos e Lucas. Eles realizaram um precioso trabalho de redação da tradição precedente, 
oral e, em parte, já escrita, e como autênticos autores, escreveram suas obras com um 
caráter pessoal. A “história da redação” (Redaktionsgeschichte, em alemão), em particular, 
estudou e evidenciou as diversas estruturas literárias e teólogicas de cada evangelho, 
que testemunham fielmente o querigma, mas de maneira original e complementar. Seu 
valor histórico é inegável, não no quadro de uma visão positivista da história, entendida 
como gravação material dos fatos, mas num quadro de uma história significativa, que tira a 
verdade do ponto culminante da vida de jesus, isto é, de sua ressurreição, e da vida de uma 
Igreja guiada pelo Espírito (PRIOTTO, 2019, p. 159).
Resta ainda uma questão sobre a formação literária dos Evangelhos, isto é, a 
assim chamada questão sinótica. Os primeiros três Evangelhos são semelhantes entre si: 
têm muito material em comum, conservam a mesma ordem ao narrar os acontecimentos 
principais, por vezes quase idênticos até nas expressões e em passagens inteiras. Por isso 
são chamados “sinóticos” (do grego syn [junto] + ópsis [visão] = visão de conjunto), porque 
podem ser lidos juntos em três colunas paralelas. Elas não são iguais, e por isso não 
constituem simplesmente três variantes de um mesmo escrito; mas nem tão diferentes a 
ponto de serem independentes um do outro. Então, como explicar as muitas convergências 
e, ao mesmo tempo, as outras tantas divergências? Essa é exatamente a questão sinótica.
A explicação mais simples e mais convincente, apesar de alguma incerteza, é a assim 
chamada teoria das fontes, segundo a qual devem-se pressupor duas fontes. Uma fonte é 
Marcos (M), da qual se servem tanto Mateus quanto Lucas. Todavia, Mateus e Lucas têm em 
comum cerca de 240 versículos que faltam em Marcos e que, portanto, não podem derivar dele. 
93UNIDADE IV O Texto da Bíblia
Deve-se pressupor que Mateus e Lucas tenham tomado os versículos que têm 
em comum de uma outra fonte (Q, do alemão Quelle), que nos é desconhecida, mas 
reconstruível ao menos com os 240 versículos comuns aos dois evangelistas. Tratar-se-ia 
de uma coleção de lóguia, isto é, de ditos do Senhor, transmitido pela comunidade sem 
moldura narrativa. Enfim, é preciso reconhecer que, tanto Mateus como Lucas, cada 
um tem material próprio e que, portanto, tiraram de fontes próprias. Como conclusão, os 
Evangelhos de Mateus e de Lucas derivariam de duas fontes: Marcos e a fonte Q; às quais 
deve-se acrescentar material próprio deles.
Por fim, ao Evangelho de Lucas é preciso achegar também os Atos dos Apóstolos, 
que não são simplesmente a continuação do Evangelho, mas uma segunda parte dele, unida 
à primeira, mas não distinta, como mostram os dois prólogos. Portanto, Lucas compôs dois 
escritos, que se pedem e se integram mutuamente, mas provavelmente escritos em tempos 
sucessivos. A obra é constituída por um complexo material tradicional, de origem diversa, mas 
que Lucas dispôs num quadro histórico-teológico muito original. Dado o forte interesse pela 
comunidade cristã de Antioquia não é de excluir que essa cidade seja, ao menos para a primeira 
parte (cap. 1-12), o lugar de proveniência das tradições dos Atos. Quanto à segunda parte da 
obra (cap. 13-28) é possível que o evangelista a tenha tirado, ao menos em parte, de um 
“itinerário” ou “diário de viagem”, dada a complexidade da narração, rica de inúmeros detalhes.
7.3 A obra joanina
A tradição atribuiu ao Apóstolo João um importante grupo de escritos: o Quarto 
Evangelho, as três cartas e o Apocalipse. Não obstante algumas significativas diferenças, 
tais escritos pertencem a um mesmo ambiente religioso e cultural, chamado a “comunidade 
joanina”, situado na região de Éfeso, na Ásia Menor, lá pelo fim do século I. A garantia 
da tradição apostólica nesta comunidade era precisamente o Apóstolo João, chegado ali 
nos últimos decênios do século I d.C., após uma precedente permanência de Paulo. É 
esse ambiente efesino que plasma definitivamente esses escritos, ainda que as tradições 
veiculadas possam pertencer a tempos e lugares diversos.
Os estudiosos modernos procuraram reconstruir a caminhada diacrônica desse 
Evangelho, aliás, com resultados incertos e, muitas vezes, muito hipotéticos. Certamente, 
seguindo nisso também a antiga tradição patrística, na base está a pregação e a atividade 
pastoral do Apóstolo João na Igreja de Éfeso e na região circunstante, em que ele transmite 
a quem não estiveram presentes a própria experiência e a própria interpretação da fé.
94UNIDADE IV O Texto da Bíblia
 Trata-se, em geral, de uma tradição oral; ela é recolhida provavelmente por mais 
discípulos, fato que explica a diversidade das narrações e dos discursos e a diversidade 
de estilo que encontramos atualmente no evangelho escrito. Um discípulo mais em vista, o 
evangelista, compõe um conjuntoque reúne o ministério da Galileia e da Judeia, sem, contudo, 
incluir todos os elementos da tradição joanina. Um redator final retoma o escrito precedente, 
incluindo elementos antigos que ficaram fora e elementos novos devidos a um horizonte 
que já não é simplesmente o judaico-palestinense, mas também o grego; daí a inserção do 
prólogo (1,1-18), alguns acréscimos da reflexão teológica (3,16-21.31-36), o discurso sem 
ligação de 12,44-50, o segundo discurso de adeus (15,1-17) depois da conclusão de 14,31, a 
meditação do capítulo 17 e, enfim, o capítulo 21 depois da conclusão de 20,30-31.
Ao Apóstolo João é também atribuída a composição de três cartas; são escritos 
estreitamente afins, ainda que seu valor teológico seja diverso. De fato, enquanto a 1 João 
é uma joia e também o cume da teologia neotestamentária, a segunda e a terceira cartas 
são simples bilhetes. Um estudo comparado entre as três cartas e o Quarto Evangelho 
mostra claramente um estreito parentesco literário e teológico e por isso vale o que acima 
se disse do Evangelho: provêm da mesma tradição, que vai da pregação do Apóstolo à 
recepção dos discípulos e, enfim, à redação final.
O Apocalipse é um autêntico anúncio do Evangelho a uma comunidade que já é 
cristã, mas que é provada por graves dificuldades: a autoridade romana embebida de cultura 
helenista pagã, a forte oposição às comunidades judaicas, tensões e contraposições no 
seio da comunidade cristã. O autor apresenta-se diversas vezes com o nome de João e 
se qualifica como “profeta” (cf., respectivamente, Ap 1,1.4.9; 22,8; e Ap 10,11; 19,10; 22,9). 
A antiga tradição patrística, a partir de Justino e Irineu, identificou-o com o Apóstolo João; 
algumas tradições discordantes são causadas sobretudo pelo uso desse livro por parte de 
grupos heréticos e por sua difícil interpretação. A diversidade de estilo e de problemática 
teológica não são tais de negar a comum referência a João, tanto do apocalipse quanto do 
Quarto Evangelho; de qualquer forma, é comum o ambiente da comunidade joanina do fim do 
século I; o contexto é o da perseguição de Domiciano (81-96 d.C.). (PRIOTTO, 2019, p. 161).
7.4 As cartas católicas
Além do corpus paulino e joanino, o Novo Testamento conhece ainda um grupo de 
cartas denominadas “católica”: a carta de Tiago, duas cartas de Pedro e a Carta de Judas. 
Esse título significa literalmente “universais”, enquanto não destinadas a uma comunidade 
particular, mas ao conjunto das Igrejas. Designa, além disso, sua ortodoxia e, portanto, seu 
direito de pertencer ao cânon escriturístico, apesar das dúvidas e incertezas iniciais.
95UNIDADE IV O Texto da Bíblia
A Carta de Tiago, apesar da abertura, não é uma carta, é, antes, uma homilia ou, 
melhor, uma coleção de temas homiléticos. O autor é um judeu-cristão da segunda ou 
terceira geração, culto e bom conhecedor da LXX, que compôs a obra, provavelmente na 
Síria, por volta do fim do século I (PRIOTTO, 2019, p. 162).
A 1 Pedro, mais do que uma carta, é uma catequese ligada à liturgia batismal, 
dirigida a cristãos já batizados para convocá-los à graça do sacramento recebido e à 
consequente coerência de vida. O provável autor é Silvano, isto é, Silas, colaborador 
de Paulo (cf. At 15,22) e agora secretário e colaborador de Pedro. Após a morte do 
apóstolo em 64, ele recolheu sua lembrança e seu pensamento nesse escrito enviado às 
comunidades cristãs da Anatólia (1Pd 1,1).
A 2 Pedro diferencia-se bastante da primeira quanto à língua, ao estilo e à impostação 
teológica; é escrita por volta do início do século II, numa situação histórica muito mudada, 
caracterizada pelo aparecimento de correntes heréticas e por um libertinismo moral. 
Apresentando-se como o Apóstolo Pedro, já próximo à morte, o autor quer deixar como que 
um testamento espiritual que salvaguarde e marque o testemunho apostólico sobre Jesus. 
Trata-se de um discípulo do apóstolo, que vive e age provavelmente no Egito, no qual de 
fato a carta começou a ser ouvida e estimada.
A Carta de Judas é uma breve homilia de caráter judeu-helenista, na qual se 
polemiza contra as nascentes heresias e se exorta a uma digna conduta cristã. Quem 
escreve é um judeu-cristão de cultura helenista, que, querendo defender a mensagem 
apostólica de interpretações arbitrárias, a atribui ao Apóstolo Judas, uma figura que no seu 
ambiente gozava de uma autoridade particular.
96UNIDADE IV O Texto da Bíblia
SAIBA MAIS
O que é Helenismo.
O contato entre romanos e judeus ocorre por volta da primeira metade do século II 
a.C. Neste contexto, está em desenvolvimento a chamada “civilização helenística”. O 
que é isto? Trata-se de uma cultura que superou os limites de fronteiras geográficas. 
Ser grego ou ser helênico não era uma questão de nacionalidade, mas de mentalidade 
marcada pela novidade de um pensamento onde havia uma valorização da sabedoria, 
da liberdade, da beleza do corpo, dentro de uma filosofia que se impõe aos poucos na 
vida das culturas orientais. A religião também se apresentava de maneira nova, diferente, 
misturando-se aos esportes através dos cultos em homenagem aos deuses do Olimpo, 
originando os famosos jogos olímpicos da Antiguidade. Através do helenismo, uma 
cultura “globalizada” se expande e invade a vida familiar, os costumes, valores, língua, 
política e religião. Ser helenizado significa o mesmo que ser cidadão do mundo.
Fonte: SCHLAEPFER, Carlos Frederico (org.). A Bíblia: elementos historiográficos e literários. 
Petrópolis: Vozes, 2019.
REFLITA
Quem disse ser preciso apresentar carteira de identidade ou vinculação religiosa para 
ler a Bíblia ou atestado ideológico de compatibilidade com as ideias pretensamente nela 
veiculadas?
Fonte: O Autor (2022).
97UNIDADE IV O Texto da Bíblia
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Olá, Prezado Acadêmico. Olá, Prezada Acadêmica.
Chegamos ao final de nossa quarta e última unidade da disciplina de Introdução 
às Sagradas Escrituras, em que pudemos estudar os processos que levaram à formação 
do Antigo e do Novo Testamento, na perspectiva cristã e também, primeiramente, da Bíblia 
hebraica, na perspectiva judaica.
Foi importante perceber como se deu o processo de fixação dos livros sagrados e, 
mesmo brevemente, um pouco do contexto da formação literária de cada um dos grandes 
blocos que compõem a Bíblia.
Vimos que sendo livros, passaram por um processo de formação como qualquer 
outro livro, mas não são, de fato, iguais aos outros livros. Tiveram seu reconhecimento 
sempre associados a uma perspectiva de fé e de vivência comunitária. Fé e tradição, juntas 
no reconhecimento de que Deus fala ao seu povo, e esse povo guarda e registra aquilo que 
seu Deus lhe falou.
98UNIDADE IV O Texto da Bíblia
MATERIAL COMPLEMENTAR
 
LIVRO 
Título: Introdução Teológica e História de Israel
Autor: Fabrízio Zandonadi Catenassi.
Editora: Intersaberes.
Sinopse: Para que possamos realmente entender os contextos 
e as tradições que deram origem à Bíblia, precisamos analisar as 
etapas e os eventos que mais marcaram a história do povo de 
Israel. Neste sentido, é essencial também refletirmos sobre como 
a compreensão da Sagrada Escritura foi amadurecendo ao longo 
dos tempos e como a recepção desses textos foi sendo progressi-
vamente assimilada pelos fiéis. Esse livro se dispõe a essa tarefa.
 
FILME/VÍDEO 
Título: Evangelho Segundo São Mateus
Ano: 1964.
Sinopse: Acompanha a vida de Jesus Cristo, do nascimento à 
ressurreição, a partir do texto de São Mateus. As parábolas, os 
primeiros discípulos, a revolta, a determinação, os milagres, a 
intolerância, a solidão e a impaciência.
99
REFERÊNCIAS
CATENASSI, Fabrízio Zandonadi. Introdução teológica e história de Israel. Curitiba: 
Intersaberes, 2018. 
HARRINGTON, Wilfrid J. Chave para a Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1985. 
LARA, Valter Luiz. A Bíblia e o desafio da interpretação sociológica. São Paulo: Paulus, 
2009, p. 26. 
PRIOTTO, Michelangelo. Introdução Geralàs Escrituras. Petrópolis: Vozes, 2019. 
SCHLAEPFER, Carlos Frederico (org.). A Bíblia: elementos historiográficos e literários. 
Petrópolis: Vozes, 2019. 
100
CONCLUSÃO GERAL
Prezado Acadêmico. Prezada Acadêmica. 
Nos cursos de graduação em Teologia, as disciplinas introdutórias à Sagradas 
Escrituras geralmente trazem certos desafios para os estudantes que chegam ao mundo 
acadêmico com uma visão pouco crítica da Bíblia. Por isso, em nosso estudo, buscamos 
ajudar a cada um de vocês, queridos estudantes, a irem construindo um conhecimento 
sobre as Sagradas Escrituras de maneira a poder compreendê-las dentro de um contexto 
acadêmico, para que a própria fé seja fortalecida. 
Por isso, abordamos nas quatro unidades alguns aspectos que são fundamentais 
nesse processo: aspectos referentes à escrita, ao contexto histórico e geográfico, à 
dimensão teológica dos textos, quanto à inspiração e à revelação dos textos. 
Esperamos que tenha sido um estudo válido. Confiamos na dedicação de todos e 
temos a certeza que entenderam que se trata de uma introdução, o que exigirá a continuidade 
do estudo com novos desafios e novas fontes. 
Na Teologia, a Bíblia tem um lugar especial. Que nossos teólogos e futuros 
teólogos se sintam à vontade transitando nesse espaço, buscando e fazendo descobertas, 
conhecendo na Bíblia o registro e realização da proposta de salvação que Deus apresentou 
ao seu povo, iniciada antes mesmo de Jesus Cristo e que, com sua vinda, trouxe à sua 
plenitude salvífica. 
Grande abraço a todos. Sucesso em seus estudos. 
Até uma próxima oportunidade
+55 (44) 3045 9898
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CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR
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	UNIDADE I
	A Palavra 
	Escrita
	UNIDADE II
	O Cânon das Escrituras
	UNIDADE III
	A Palavra: A Inspiração Escriturística
	 e a Revelação Bíblica
	UNIDADE IV
	O Texto da Bíblia

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