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Psicologia da Adolescência Contribuições para um estado da arte qAs teorias psicológicas têm tratado a adolescência como um período crucial do desenvolvimento humano, explorando tanto os aspectos emocionais quanto os cognitivos, bem como buscando a articulação entre ambos os aspectos. q Conjunto de mudanças hormonais que acarretam o crescimento físico, o aparecimento de caracteres sexuais secundários e o amadurecimento corporal para o desempenho das funções procriativas. qComeço da adolescência, marcada pelas mudanças biológicas às quais se relacionam, em partes, os conflitos psíquicos. q O final da adolescência é identificado por uma adaptação social do adolescente, tendo em vista a definição de uma identidade sexual e o desempenho de papéis e funções socialmente reconhecidos, como formação profissional, inserção no mercado de trabalho, vivência de relações afetivas adultas, mesmo que sinalizadas como preferencialmente heterossexuais, com fins procriativos. q O estudo da adolescência remete a discussão que a psicologia trava em torno de duas teses: 1. Filiação organogênica: preponderância dos fenômenos biológicos 2. Filiação sociogênica: defende as influências do meio sobre o indivíduo $ No entanto, pode-se considerar que os próprios fatores biológicos da condição humana são ressignificados pela cultura. A adolescência, por exemplo, se inicia com a puberdade, que coloca o sujeito humano em condições de viver a genitalidade e de se reproduzir, fatos banalizados pelas normas da cultura no que diz respeito às condições de gênero e geração e, nas sociedades complexas, pelo pertencimento a uma classe social. q Não há como separar o biológico do cultural, se trata de uma terceira tese que propõe a superação da dicotomia entre o biológico e o cultural. q Mesmo que seja um consenso que não há uma consciência da natureza particular da infância e da adolescência antes do século XVII, a adolescência tem sido considerada, ainda assim, homogênea, a-histórica e universal. $A adolescência considera todas as pessoas entre 10 e 20 anos (faixa etária proposta pela OMS) que têm características comuns, quem, nessa faixa etária não apresenta as características esperadas é considerado desviante. q Os teóricos da psicologia do desenvolvimento reconhecem os estudos antropológicos que mostram que existem culturas sem adolescência. q Há certa desconsideração dos diversos significados emprestados à adolescência pelos múltiplos grupos sociais que compõem uma sociedade de classe, o que contribui para a concepção a-histórica e idealizada da adolescência. q As análises históricas do surgimento do sentimento de infância e adolescência, bem como as pesquisas acerca da história da família, são recursos importantes para desnaturalizar a infância e a adolescência e trazê-las para o registro sócio-histórico e cultural. q As diferenças sexuais são consideradas do ponto de vista biológico, discutindo-se os impactos dos hormônios no desenvolvimento de homens e mulheres, mas não as questões relativas à identidade de gênero. Desconsidera-se as especificidades que a condição de gênero impõe a homens e mulheres para a vivência e experiência de suas potencialidades sexuais, reprodutivas e profissionais. q Isso culmina no risco de naturalizar a adolescência, o que dificulta sua compreensão como categoria produzida nas relações sociais e articulada a outras categorias, como gênero, classe, raça/etnia e geração, que têm uma contribuição importante ao permitir operar com as particularidades que compõem o universo da adolescência q Coloca mais ênfase nos processos do ego (os processos da consciência) q Organiza o desenvolvimento humano em estágios psicossociais (se interessa mais pelas demandas culturais e sociais dirigidas ao ser humano nas diversas fases do desenvolvimento do que na organização libidinal ou nos estágios psicossexuais como Freud q Defende 3 argumentos básicos 1. Durante todo o ciclo vital, cada indivíduo passa por 8 estágios e em cada um há uma tarefa a ser cumprida 2. Cada estágio é, em parte, definido pela sociedade na qual a pessoa cresce Ao associar uma faixa etária a cada estágio, ele considera as exigências e expectativas que a nossa cultura dirige ao indivíduo naquele momento da vida 3. Quando uma tarefa básica de um estágio não é completada satisfatoriamente, a tarefa do estágio seguinte fica comprometida. Epigênese da identidade q Afirma que tudo o que cresce tem um plano básico e é a partir desse plano que se erguem as partes componentes, tendo cada uma delas o seu tempo, até que todas tenham sido levantadas para formar um todo em funcionamento. q A identidade é entendida como um processo de construção que conserva e transforma aquisições da etapa anterior. q As fases do desenvolvimento da identidade são marcadas por etapas que seguem até que se complete o ciclo vital. q Erikson considera que cada fase do desenvolvimento humano tem suas próprias crises. A adolescência se desenvolve em torno da definição de identidade, o conflito se instala entre “identidade X confusão de papéis”. A adolescência acaba e começa a chamada “idade adulta jovem”, a que o sujeito humano chega a uma definição da identidade composta de 3 elementos: identidade sexual, profissional e ideológica. $Identidade sexual significa a definição do papel genital do adolescente, cujas bases foram estabelecidas na fase fálica (unificação das pulsões parciais sob o primado dos órgãos genitais. Na infância, a criança reconhece somente o órgão sexual masculino. Na puberdade, reconhece a diferença sexual e a existência de pênis e vagina. $Identidade ideológica: Erikson diz que a adolescência é um regenerador vital no processo de evolução social, pois a juventude pode oferecer sua lealdade e energia tanto à conservação quanto à correção revolucionária. $Identidade profissional: a escolha de uma profissão é fundamental para o adolescente. Aqui a ênfase recai sobre a possibilidade de o adolescente escolher uma profissão que no futuro signifique uma fonte de renda e que o inclua no mundo dos adultos. A profissão é considerada um dos pilares da construção da identidade “sou o que faço” A escolha profissional, o envolvimento com o trabalho, além de garantir o status no grupo social, o sentimento de pertinência e a sobrevivência física, é também uma maneira de elaborar as questões internas, a realidade psíquica q Erikson considera que o adolescente precisa responder a pergunta “quem sou eu?” cuja resposta significa a segurança para viver as etapas posteriores. A confusão de papéis é um grande perigo que o adolescente precisa vencer, pois a indefinição o deixará imobilizado nas dúvidas e será um prejuízo para a realização da sua capacidade genital no sentido freudiano. $As teorias que trabalham sob o prisma das relações de objeto colocam ênfase sobre a influência da experiência concreta da criança com as figuras parentais. q Consideram que a grande tarefa da adolescência é a realização do luto pela perda estrutural infantil, o que significa o luto pela bissexualidade perdida e pelo pais da infância. $ As transações impostas pela puberdade são vividas como uma perda do próprio corpo. Além de se despedir do corpo da criança, o adolescente também precisa se despedir de suas fantasias infantis acerca do corpo. $Luto pela bissexualidade perdida: considera-se, nessa perspectiva, que na vivência da criança não há o feminino e o masculino separados. As crianças têm a fantasia da onipotência sexual. A diferença sexual não é reconhecida e muito menos a função da diferença sexual no que se refere a ter filhos ou satisfazer-se afetivamente. $A revivência edipiana, na adolescência, traz o luto pelos pais da infância. Os pais, heróis da infância são postos em xeque. Já não são fonte só de segurança, mas também de conflitos, dos quais o adolescente precisa se afastar. q Knobel consideraque o adolescente exibe múltiplas identidade, o que seria patológico na idade adulta, mas nessa fase da vida é entendido como “síndrome normal”. O altor chama essas identidades de: $transitórias – são aquelas assumidas pelo adolescente por ocasião de uma aquisição ou conquista Ex: uma competição esportiva ou um momento de valorização de um atributo corporal. $ocasionais – diante de situações novas, o adolescente assume o estereótipo do novo papel, por exemplo, o de universitário $circunstanciais – o adolescente procura mostrar a identidade mais adequada a cada grupo de pertencimento. Ex: pode ser agressivo em casa e submisso frente ao grupo de amigos $Essas identidades podem se alternar e coexistir. q Essas oscilações refletem tanto a tentativa de assumir uma nova identidade quanto o retorno a modelos passados, vivências necessárias nesse momento de luto pela perda da infância. q Essa corrente identifica a tendência grupal nos adolescentes. O grupo uniforme e homogêneo – falando as mesmas gírias, usando as mesmas roupas- lhes dá segurança. Cada membro se espelha e se identifica com o outro. Pertencer ao grupo, ser aceito pelo grupo traz ao adolescente segurança emocional. $A dependência em relação ao grupo de amigos significa, por outro lado, a transferência da dependência infantil em relação ao grupo familiar. O grupo cumpre, nesse sentido, a função de ajudar o adolescente a realizar a passagem do mundo doméstico ao mundo público. O líder do grupo substitui a autoridade paterna, e se o adolescente deixa de se submeter ao pau para submeter-se ao líder, também exercita com ambos a possibilidade da confrontação e do desafio. $O grupo permite ao adolescente externar e experimentar a violência e a crueldade, uma vez que a culpa fica diluída no grupo. Este o ajuda, a distinguir e internalizar o bem e o mal. Com o grupo ele aprende comportamentos eticamente aceitáveis. Os comportamentos destrutivos em grupo costumam ser passageiros e ajudam o adolescente a conhecer e dominar suas fantasias destrutivas. q O adolescente manifesta necessidade de intelectualizar e fantasiar. Knobel associa essa necessidade ao processo psicodinâmico de elaboração do luto pelo corpo e vivências infantis. A crise que o adolescente vive por não ser mais criança e não ser ainda adulto só pode ser resolvida pela fantasia. Ele cria teorias e projetos que o ajudam a superar as angústias das perdas que sofre nesse momento e, assim, estabilizar-se. Por outro lado, ele procura estar presente a manifestações artísticas e culturais, que também ancoram suas fantasias. q Crises religiosas acontecem, com uma oscilação entre períodos de profunda fé ou de profundo ateísmo. Knobel explica as relações do adolescente com a religião pela necessidade de encontrar algo duradouro e imutável quando seu corpo e sua vida estão em plena revolução. Além disso, o adolescente “começa a enfrentar a separação definitiva dos pais e a possível morte dos mesmos”. q Outro aspecto enfatizado é a desestruturação temporal – o passado (infância); o presente (conturbado nas transformações); o futuro (o mundo adulto ainda não alcançado). Knobel propõe que uma das aquisições da adolescência é a elaboração do tempo. $Para os adolescentes, o tempo vivido é mais importante que o tempo cronológico, daí a desorganização do seu dia, quando o tempo “dá pra fazer tudo” ou “não dá pra fazer nada” q Quanto a questão sexual, Knobel, apoiado em Arminda Abestury e M. Klein, entende que a organização da sexualidade adolescente é uma retomada evolutiva das etapas sexuais anteriores, tanto da vivência edípica precoce, na segunda metade do primeiro ano de vida, quanto daquela iniciada por ocasião da fase fálica. Dessa forma, a evolução positiva ou negativa da sexualidade do adolescente está associada à imagem internalizada do par parental. q A atitude social reivindicatória do adolescente exterioriza seus conflitos internos na busca de organização de sua identidade. Outro sinal do comportamento dos adolescentes são suas contradições. O adolescente age, muitas vezes, movido pelos seus desejos, o que a psicanálise chama de atuação. O seu pensamento é frequentemente convertido numa ação e testado pela realidade objetiva. q O adolescente busca se separar dos pais, mediando essa separação com seus ídolos idealizados. Se a vivência como os pais foi positiva, e se os pais mostraram uma relação conjugal satisfatória, o adolescente se sentirá encorajado a buscar relacionamentos heterossexuais. q As alterações de humor e de ânimo são atribuídas às suas crises maníaco-depressivas. q A mania funciona como mecanismo de defesa frente à depressão pelas perdas vividas. q As teorias culturalistas e de relações objetais valorizam as experiências infantis, enfatizando a importância da socialização primária. $Socialização primária: vem da experiência da criança com seu grupo social mais próximo, a família. A convivência da criança com os adultos significativos resulta ao mesmo tempo em aprendizagens e em marcas psíquicas. q A tarefa emocional da adolescência proposta por Rikson, é posta no sentido da adaptação social e do entendimento da crise vivida na adolescência como funcional e adaptativa. q Para as teorias das relações objetais a principal tarefa da adolescência é realizar o luto pelos pais da infância. Neste sentido, a adolescência será em maior ou menor grau crítica ou geradora de sofrimento dependendo da qualidade das primeiras relações objetivas vividas pelo sujeito. q Já a teoria psicanalítica do sujeito representada por Lacan operou uma volta aos escritos de Freud de modo a fundamentar a sua própria elaboração teórica na hipótese do inconsciente estruturado como uma linguagem. q Os psicanalistas filiados à corrente lacaniana colocam ênfase no inconsciente como fator decisivo da constituição do sujeito . não importam as experiências concretas, mas sim as significações produzidas sobre tais experiências. q A linguagem não se reduz às palavras, mas estende-se aos sistemas de significação e às ordens simbólicas que antecedem o domínio da palavra, seja ela falada ou escrita. q O falo é o único significante em torno do qual o sujeito se estrutura. Rappaport considera que a adolescência pode ter seu início identificado a partir dos fenômenos pubertários, aqueles determinados biologicamente. Mas é preciso deixar claro que adolescência não é sinônimo de puberdade, e que a puberdade sinaliza apenas seu início. O que interessa à psicanálise “são as mudanças subjetivas que o indivíduo terá que operar para dar conta das metamorfoses que levam à maturidade genital, ao exercício da sexualidade genital, de fato, e não mais apenas ao nível imaginativo e das mudanças na relação com o outro.” q Retomando Freud desde a perspectiva lacaniana, a autora entende a adolescência como “período privilegiado da vida fantasmática, que permite, ou até exige, esta articulação entre a subjetividade infantil, onde os pais são as figuras fundamentais da afetividade, e a subjetividade adulta”. Tal articulação ocorre no nível do inconsciente. q Ruffino explica que a psicanálise lacaniana se afasta da consideração da adolescência como fase etária para colocá-la no registro do trabalho psíquico, tarefa esta que durará o tempo necessário a casa sujeito $Ele diz que a adolescência é um produto histórico da modernidade nas sociedades ocidentais. Ao contrário das sociedades não-ocidentais e pré-modernas, que dispõem de rituais específicos e coletivos que marcam a passagem da infância à juventude e desta para a idade adulta, as sociedades modernas e ocidentais, distantes dos rituais específicos e coletivos, deixaram aos sujeitos a tarefa individual de realizar sua própria passagem à idade adulta. (argumento básico dessa vertente) $Ruffino trabalha com a hipótese de que “a adolescência faz parte dos elementos que participam da ordem simbólica desdeo momento da história em que sua existência surgiu como necessária, sendo constituída, a partir de então, em elemento fundamental da estrutura subjetiva do homem para que este possa se fazer adulto”. $A psicologia da adolescência oscilo, segundo Ruffino, entre dois polos. De um lado, os defensores da tese organogênica, que procuravam explicar a adolescência a partir dos fenômenos da puberdade. Do outro lado, os que entendiam a adolescência a partir de explicações de ordem sociogênica, ressaltando as influências sociais e culturais da adolescência. Nenhuma das duas vertentes consegue explicar a adolescência e a fusão de ambas parece ao autor impossível, uma vez que partem de argumentos opostos e excludentes. $Ele propõe pensar na complexidade da adolescência como “uma reprodução subjetiva, provocada por algo de real (atordoante) do Campo do Outro (exterioridade), enquanto tentativa de simbolização do que houver de brutal nesse encontro com o real para o jovem púbere.” q A adolescência é definida nessa vertente como trabalho psíquico. q A tarefa a ser realizada é o luto $ “se definimos a adolescência como tarefa, devemos agora admitir que sua tarefa é um trabalho de luto. Não é primordialmente um luto pela infância perdida, mas é antes um luto por uma certa forma de eficácia simbólica comunitária destruída” $O luto é entendido como superação da tristeza pela perda do objeto, ao contrário da melancolia, que significa a cristalização da tristeza e a impossibilidade de superá-la q A corrente pós-estruturalista é habitualmente criticada quanto ao caráter de universalidade e à impossibilidade de discutir as especificidades e variabilidades históricas, pois as considerações acerca das relações sociais são postas no registro da proibição do incesto e do parricídio, da lei estruturante do sujeito e da cultura, uma lei universal. q Ignez discorda de Ruffino quando este afirma que as sociedades modernas e ocidentais não dispõem de ritos coletivos de passagem da infância para a adolescência. Penso que essas sociedades produziram, no registro urbano, tecnológico e consumista de bens materiais e simbólicos, verdadeiros ritos de passagem com o qual o adolescente tem que ter para ser aceito no mundo dos adultos Ex: adolescentes classe média e média alta- dirigir carro dos pais sem carteira e sem consentimento ou tem carteira de motorista, comprar um carro e navegar na internet Jovens pobres – trabalho precoce e evasão escolar, mas também frequentar bares, usar drogas, ter determinado comportamento sexual, cometer pequenos ou grandes delitos, estar em uma banda $A paternidade e a maternidade precoces e comuns entre jovens na atualidade parecem significar, para uma parcela significativa da população, uma forma de passagem ao mundo adulto. $O registro psíquico não se descola do registro sociocultural. Se considerarmos o registro psíquicos descolado do contexto de pertencimento do sujeito, naturalizaremos tal registro. q O tempo da adolescência é o tempo de realização das tarefas psíquicas que levam o adolescente à elaboração de uma nova identidade. A construção dessa identidade e o tempo de de construção são medidos pelos valores do grupo social de pertencimento do jovem e pelas significações que as categorias de gênero, classe social, raça/etnia e geração geram. q A psicologia genética é outra grande família teórica, cujos membros são principalmente Piaget e Vygotsky. Esses autores têm em comum a abordagem genética, aquela que se refere à origem e ao processo de formação das funções psicológicas. $Vygotsky se diferencia de Piaget por considerar a dimensão dialética e sócio-histórico do desenvolvimento humano q A psicologia genética ocupou-se da pesquisa da origem e desenvolvimento dos processos de pensamento e linguagem. q Autores como Levisky, que se ocupam da problemática emocional do adolescente, procuram articular os aspectos emocionais com os cognitivos, concordando com a hipótese da construção e transformação do pensamento e linguagem nas diversas etapas da vida. $Levisky afirma que “a inteligência formal participa ativamente no processo de elaboração da crise da adolescência, levando subsídios que vão integrar as interferências na vida afetiva.” q Os estudos acerca do desenvolvimento cognitivo ocupam-se do progresso gradativo da habilidade humana no sentido de obter conhecimento e se aperfeiçoar intelectualmente. q Em suas pesquisas, Piaget ocupou-se da socio gênese, expressão que designa o estudo dos conhecimentos enquanto empreendimento da humanidade em seu conjunto, através do esforço dos intelectuais que conseguiram captar as demandas por um novo saber e encarnaram as motivações e as possibilidades do fazer ciência; da psicogênese, estudando a formação do conhecimento no nível do sujeito $O conhecimento, nessa ótica, não procede da experiência única dos objetos, nem de uma programação inata e pré-formada no sujeito, mas da relação sujeito/objeto $Daí a expressão interacionismo, que possibilita construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas no sujeito, que transformam tanto a ele próprio como ao objeto de conhecimento $Piaget ocupou-se dos estudos de formalização, entendidos como pesquisas no campo das relações lógicas. $O sujeito piagetiano é o sujeito epistêmico, universal e que constrói conhecimento partindo de estruturas simples em direção às mais complexas. A passagem de um estágio a outro provoca um desequilíbrio temporário que, posteriormente, dá lugar a uma forma superior ou mais complexa de raciocínio. 1. Sensório-motor, pois a atividade intelectual do bebê é de natureza sensorial (percepção) e motora (que leva à ação) 2. Pré-operacional, momento em que a criança desenvolve a capacidade simbólica por intermédio da linguagem, da fala e da produção gráfica. 3. Período das operações concretas, caracterizado pelas operações concretas, caracterizando pelas operações mentais da criança que ocorrem em resposta a objetos e situações reais. 4. O período das operações formais, marcado pelo pensamento formal e que se inicia após os doze anos. É o último estágio do desenvolvimento cognitivo e pode ser definido como hipotético-dedutivo: o sujeito torna-se capaz de deduzir as conclusões de puras hipóteses e não somente através de observação do real. Ao tratar da adolescência, Piaget considera que, “evidentemente, a maturação do instinto sexual é marcada por desequilíbrios momentâneos, que dão colorido afetivo muito característico a todo este último período da evolução psíquica. Mas estes fatos bem conhecidos, que certa literatura psicológica banalizou, estão longe de esgotar a análise da adolescência e, além do mais, desempenhariam apenas papel bem secundário, se o pensamento e a afetividade próprios do adolescente não lhes permitissem exagerar lhe a importância” encontramos aqui uma crítica de Piaget à ênfase dada ao aspecto da crise da adolescência. $Piaget conclui apresentando o objeto de suas preocupações relativas à adolescência: “São, portanto, estruturas gerais destas formas finais de pensamento e vida afetiva que devemos descrever aqui e não algumas perturbações especiais” $Em seguida, Piaget restaura certa positividade da adolescência: “na verdade, apesar das aparências, as conquistas próprias da adolescência asseguram ao pensamento e à afetividade um equilíbrio superior ao que existia na segunda infância. Os adolescentes têm seus poderes multiplicados; estes poderes, inicialmente, perturbam a afetividade, mas depois os fortalecem” $O adolescente adquire a habilidade de realizar operações lógicas no nível das ideias, desvinculando-se do palpável ou do concreto. É capaz de formular hipóteses e chegas a conclusões nem sempre coerentes com a verdade fatual ou da observação. $Piaget afirma que o adolescente constrói teorias e sistemas. “o que surpreende no adolescente é o seu interesse porproblemas inaturais, sem relação com as realidades vividas no dia-a-dia, ou por aqueles que antecipam, com uma ingenuidade desconcertante, as situações futuras do mundo, muitas vezes irreais. O que mais espanta, sobretudo, é a sua facilidade de elaborar teorias abstratas” $A forma de pensamento do adolescente não aparece bruscamente, está articulada ao pensamento concreto da segunda infância. A passagem do pensamento concreto para o pensamento formal é, na perspectiva piagetiana, o produto de uma construção. “após os 11 ou 12 anos, o pensamento formal torna-se possível, isto é, as operações lógicas começam a ser transpostas do plano da manipulação concreta para o das ideias, expressas em linguagem qualquer (a linguagem das palavras ou dos símbolos matemáticos, etc.), mas sem o apoio da percepção, da experiência, nem mesmo da crença” $O pensamento formal é, para Piaget, uma representação de uma representação de ações possíveis, ou seja, uma operação que permite pensar o próprio pensamento. A logica das operações formais é a mesma lógica das operações concretas. “[operações formais] não são outras senão as mesmas operações [concretas], mas aplicadas a hipóteses ou proposições. Consistem em uma lógica de proposições, em oposição à das relações, das classes, dos números, mas o sistema de implicações que regulam estas proposições constitui, apenas, a tradução abstrata das operações concretas” $É o pensamento formal que permite ao adolescente construir sistemas: “a inteligência formal marca, então, a libertação do pensamento e não é de admirar que este use e abuse, no começo, do poder imprevisto que lhe é conferido. Está é uma das atividades essenciais que opõe a adolescência à infância: a livre atividade de reflexão espontânea” $Essa nova forma de pensar instrumenta o adolescente para o seu exercício necessário de fantasiar e devanear atividades que dão suporte às suas angústias no terreno afetivo-sexual; por outro lado, a capacidade de argumentar possibilita o enfrentamento das figuras de autoridade, também necessário, tendo em vista a destituição dos pais da infância. $Nessa etapa de construção do pensamento, o adolescente também vive a última forma do egocentrismo, assim descrita por Piaget: “manifesta-se pela crença na onipotência da reflexão, como se o mundo devesse submeter-se aos sistemas e não estes à realidade. É a idade metafísica por excelência: o Eu é forte o bastante para reconstruir o Universo e suficientemente grande para incorporá-lo”. O egocentrismo metafísico é reduzido quando “o equilíbrio é atingido, quando a reflexão compreende que sua função não é contradizer, mas se adiantar e interpretar a experiência” $A personalidade é outra conquista da adolescência, segundo Piaget “A personalidade começa no fim da infância (8 a 12 anos) com a organização autônoma das regras, dos valores e a afirmação da vontade, com a regularização e hierarquização moral das tendências. Existe personalidade, pode-se dizer, a partir do momento em que se forma um programa de vida, funcionando este ao mesmo tempo como fonte de disciplina para a vontade e como instrumento de cooperação”. A organização autônoma das regras e a formulação de um “programa de vida” só são possíveis a partir do pensamento formal ou hipotético dedutivo, daí a associação da personalidade com a adolescência. $Piaget continua dizendo que “a personalidade implica uma espécie de descentralização do que se integra em um programa de cooperação e se subordina a disciplinas autônomas e livremente construídas. Acontece que todo desequilíbrio a centralizará de novo sobre ela própria, de tal modo que, entre os polos da pessoa e do eu, as oscilações serão possíveis em todos os níveis.” $A tentativa de entrada do adolescente no mundo dos adultos se dá muitas vezes através de “projetos, programas de vida, sistema muitas vezes teóricos, de planos de reformas políticas ou sociais. Através do pensamento, quase da imaginação”. $O ar alheio do adolescente em relação ao mundo externo significa, a partir da proposta de Piaget, que o adolescente, exercendo sua nova habilidade do pensamento formal/hipotético-dedutivo, pensa o mundo e o transforma no pensamento” $É o trabalho que garante a inserção no mundo adulto $Piaget articula o desenvolvimento cognitivo com a afetividade: “é sempre a afetividade que constitui a mola das ações das quais resulta, a cada nova etapa, esta ascensão progressiva, pois é a afetividade que atribui valor às atividades e lhes regula energia. Mas a afetividade não é nada sem a inteligência, que lhe fornece meios e estabelece fins” q Vinculado à corrente sócio-histórica, tinha como tema central as relações entre o desenvolvimento e a aprendizagem nas diversas etapas da vida. q Sobre adolescência, Vygotsky discute os interesses e a personalidade do adolescente. q Ele considera que o adolescente é, antes de tudo, um ser pensante capaz de relacionar as necessidades biológicas do organismo com suas necessidades culturais superiores, dai surgem os interesses. q Considera que as tarefas do adolescente estão relacionadas tanto na origem quanto nas possibilidades de realização, ao seu pertencimento de classe q As tarefas básicas do adolescente serão a tomada de decisão quanto à sua vocação e a eleição de uma profissão. q Ao estudar a dinâmica e a estrutura da personalidade adolescente considera três leis: 1. Regula o desenvolvimento e a estrutura das funções psíquicas superiores, que são o núcleo fundamental da personalidade em formação. É a lei de transição das formas e modos de comportamento naturais, imediatos e espontâneos aos mediados e artificiais que surgem no processo do desenvolvimento cultural do comportamento Se acha vinculado ao desenvolvimento histórico e social da humanidade. Funções psíquicas superiores são entendidas como aquelas que caracterizam o funcionamento psicológico tipicamente humano: ações conscientemente controladas, atenção voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, comportamento intencional. Esses processos se diferenciam de mecanismos mais elementares, como reflexos, reações automáticas, associações simples. 2. Diz respeito aos processos de interiorização das relações sociais traduzidas nas funções psíquicas superiores, ou seja, as formas sociais e coletivas de comportamento se convertem em modo de adaptação individual. A internalização das relações sociais externas existentes entre as pessoas é a base da formação da personalidade. 3. Diz respeito à interiorização dos comportamentos sociais e coletivos, que, ao converter-se em forma individual de conduta, perde, durante seu longo caminho de desenvolvimento, os traços de operação externa e se converte em operação interna. q A personalidade, não é outra coisa senão a autoconsciência do homem. O novo comportamento homem se transforma em comportamento para si, o homem toma consciência de si mesmo. Essa tomada de consciência é o ponto central e o resultado de toda a adolescência. q Concorda com Busemann que o desenvolvimento da autoconsciência depende do conteúdo cultural do meio ao qual pertence o adolescente. Mas discorda quando este considera que as diferenças no desenvolvimento da autoconsciência do adolescente em razão do sexo são muito mais consideráveis do que as diferenças entre as crianças de sexos diferentes procedentes de diversas camadas sociais “a presença de um problema que exige a formação de conceitos não pode, por si só, ser considerada a causa do processo, muito embora as tarefas com que o jovem se depara ao ingressar no mundo cultural, profissional e cívico dos adultos sejam, sem dúvida, um fator importante para o surgimento do pensamento conceitual. Se o meio ambiente não apresenta nenhuma dessas tarefas ao adolescentes, não lhe faz novas exigências e não estimula o seu intelecto, proporcionando- lhe uma série de novos objetos, o seu raciocínio não atingiráos estágios mais elevados ou só os alcançará com grande atraso” “o pesquisador deve ter como objetivo a compreensão das relações intrínsecas entre as tarefas externas e a dinâmica do desenvolvimento, e deve considerar a formação de conceitos como uma função do crescimento social e cultural global do adolescente, que afeta não apenas o conteúdo, mas também o método de seu raciocínio” q Os experimentos que objetivavam estudar a forma do pensamento do adolescente mostram que o caráter transitório dessa fase da vida está também presente na forma de pensar: o adolescente é capaz de elaborar conceitos e manejá-los no nível abstrato, mas pode ter dificuldade em aplica-los numa situação prática ou explica-los com palavras. q Constata que o processo de formação de conceitos é bastante complexo e oscila entre duas direções básicas: do particular para o geral e o inverso. E conclui: “A maior dificuldade é a aplicação de um conceito, finalmente apreendido e formulado num nível abstrato, a novas situações concretas, um tipo de transferência que em geral só é dominado no final da adolescência.” q Quanto às questões cognitivas, é preciso ressaltar que o pensamento formal ou hipotético-dedutivo, visto como a forma mais elaborada do pensamento, alcançado na adolescência, também não é universal. A qualidade do pensamento na adolescência está referida à sua inserção de classe, ou seja, às condições concretas de existência que permitem ou impedem o acesso do adolescente a bens materiais e simbólicos. q Procura articular os aspectos emocionais aos cognitivos. q Define o sujeito psicológico como um sistema composto por 4 elementos: sujeito biofisiológico, afetivo, cognitivo e social, em constante interação entre si e com o meio. Nessa ótica, o meio também é considerado como um sistema composto de três elementos: pessoas, objetos naturais e artificiais e regras institucionais, em constante interação. q Não existe hierarquia entre os elementos que compõem o sujeito psicológico – cada um deles é necessário, mas nenhum, isoladamente, é suficiente. Dessa forma, o autor reafirma que a totalidade do sujeito psicológico é o resultado da interação entre todos os elementos. No entanto, admite que necessidades funcionais na relação do sujeito psicológico com o meio podem acarretar a prevalência de um dos elementos, e que tal prevalência é transitória e relacionada às necessidades do sujeito psicológico em interação com o meio em um momento particular. q O sujeito psicológico é ativo e sua constituição se dá no processo de interação com o meio, de forma que tanto o sujeito como o meio transformam-se na e pela interação q O sujeito psicológico fica caracterizado como um sujeito histórico, que não pode ser destacado de seu meio, porque isto acarretaria a eliminação do sujeito social, prejudicando o equilíbrio interno do sistema e, por outro lado, desconsiderando sua interação ativa com o meio. q Muitas vezes, a habilidade de construção de hipóteses, teorias e sistemas que o adolescente teria é impedida, no seu Desenvolvimento, pelas práticas escolares empobrecidas. Por outro lado, quando se universaliza essa qualidade de pensamento a todos os adolescentes, ela é utilizada no sentido de explicar a suposta alienação do adolescente em relação ao mundo real e às consequências dos seus atos, reforçando o estereótipo do adolescente como irresponsável e inconsequente. q Que se considere como tarefas próprias da adolescência a aceitação do corpo sexuado pronto para a atividade reprodutiva e a aceitação de que cada um dos sexos terá um papel determinado e específico nos processos de fecundação e gestação. Há também a tarefa de encontrar um lugar na vida produtiva, escolher uma profissão, buscar um modo reconhecido como positivo pelo seu grupo para sustentar-se economicamente. q A autora acredita que essas tarefas estão relacionadas às normas da condição de gênero, aos lugares e à divisão de poderes distribuídos desigualmente entre homens e mulheres na nossa organização social, aos lugares de classe social ocupados pelos sujeitos, às implicações de seu pertencimento de raça e etnia, bem como à sua posição geracional. q As tarefas não são naturais, nem consequência pura e simples da chegada do sujeito a uma determinada faixa etária. A autora trabalha com a hipótese de que se a adolescência se inicia com a puberdade, ela termina com o acesso do sujeitos ao mundo adulto, segundo a realização de determinadas tarefas consideradas importantes pelo seu grupo social, que resultam na identidade sexual, ideológica e profissional. q Pode-se concluir que as transformações afetivas e cognitivas vividas pelos adolescentes estão articuladas na construção psicossocial de sua identidade. Por outro lado, sabemos que a psicologia procura entender o comportamento humano considerando alguns parâmetros universais. Por exemplo, a psicologia pode afirmar que brincas é uma condição necessária à saúde psíquica do sujeito, ao seu desenvolvimento afetivo e cognitivo. No entanto, o significado de brincar e a forma como se brinca estão referidos às condições da cultura, de gênero, de classe social, de geração, de etnia. q Podemos dizer que as tarefas universais de passagem da infância à idade adulta, realizada no período da adolescência, são a construção de uma identidade sexual, profissional, ideológica, como propõe Erikson, mas que tais tarefas estão banalizadas pelas condições e significações construídas, nas sociedades complexas, a partir da classe social, gênero, geração e raça/etnia.