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Psicologia da Adolescência 
Contribuições para um estado da arte 
qAs teorias psicológicas têm tratado a adolescência como um 
período crucial do desenvolvimento humano, explorando tanto os 
aspectos emocionais quanto os cognitivos, bem como buscando a 
articulação entre ambos os aspectos. 
q Conjunto de mudanças hormonais que acarretam o crescimento 
físico, o aparecimento de caracteres sexuais secundários e o 
amadurecimento corporal para o desempenho das funções 
procriativas. 
qComeço da adolescência, marcada pelas mudanças biológicas às 
quais se relacionam, em partes, os conflitos psíquicos. 
 
q O final da adolescência é identificado por uma adaptação social 
do adolescente, tendo em vista a definição de uma identidade sexual 
e o desempenho de papéis e funções socialmente reconhecidos, como 
formação profissional, inserção no mercado de trabalho, vivência de 
relações afetivas adultas, mesmo que sinalizadas como 
preferencialmente heterossexuais, com fins procriativos. 
 
q O estudo da adolescência remete a discussão que a psicologia 
trava em torno de duas teses: 
1. Filiação organogênica: preponderância dos fenômenos 
biológicos 
2. Filiação sociogênica: defende as influências do meio sobre o 
indivíduo 
$ No entanto, pode-se considerar que os próprios fatores 
biológicos da condição humana são ressignificados pela cultura. A 
adolescência, por exemplo, se inicia com a puberdade, que coloca o 
sujeito humano em condições de viver a genitalidade e de se 
reproduzir, fatos banalizados pelas normas da cultura no que diz 
respeito às condições de gênero e geração e, nas sociedades 
complexas, pelo pertencimento a uma classe social. 
q Não há como separar o biológico do cultural, se trata de uma 
terceira tese que propõe a superação da dicotomia entre o biológico 
e o cultural. 
q Mesmo que seja um consenso que não há uma consciência da 
natureza particular da infância e da adolescência antes do século 
XVII, a adolescência tem sido considerada, ainda assim, homogênea, 
a-histórica e universal. 
$A adolescência considera todas as pessoas entre 10 e 20 anos 
(faixa etária proposta pela OMS) que têm características comuns, 
quem, nessa faixa etária não apresenta as características esperadas 
é considerado desviante. 
q Os teóricos da psicologia do desenvolvimento reconhecem os 
estudos antropológicos que mostram que existem culturas sem 
adolescência. 
q Há certa desconsideração dos diversos significados emprestados 
à adolescência pelos múltiplos grupos sociais que compõem uma 
sociedade de classe, o que contribui para a concepção a-histórica e 
idealizada da adolescência. 
q As análises históricas do surgimento do sentimento de infância e 
adolescência, bem como as pesquisas acerca da história da família, 
são recursos importantes para desnaturalizar a infância e a 
adolescência e trazê-las para o registro sócio-histórico e cultural. 
q As diferenças sexuais são consideradas do ponto de vista biológico, 
discutindo-se os impactos dos hormônios no desenvolvimento de 
homens e mulheres, mas não as questões relativas à identidade de 
gênero. Desconsidera-se as especificidades que a condição de gênero 
impõe a homens e mulheres para a vivência e experiência de suas 
potencialidades sexuais, reprodutivas e profissionais. 
q Isso culmina no risco de naturalizar a adolescência, o que dificulta 
sua compreensão como categoria produzida nas relações sociais e 
articulada a outras categorias, como gênero, classe, raça/etnia e 
geração, que têm uma contribuição importante ao permitir operar 
com as particularidades que compõem o universo da adolescência 
 
 
 q Coloca mais ênfase nos processos do ego (os processos da 
consciência) 
q Organiza o desenvolvimento humano em estágios psicossociais (se 
interessa mais pelas demandas culturais e sociais dirigidas ao ser 
humano nas diversas fases do desenvolvimento do que na organização 
libidinal ou nos estágios psicossexuais como Freud 
q Defende 3 argumentos básicos 
1. Durante todo o ciclo vital, cada indivíduo passa por 8 estágios 
e em cada um há uma tarefa a ser cumprida 
2. Cada estágio é, em parte, definido pela sociedade na qual a 
pessoa cresce 
Ao associar uma faixa etária a cada estágio, ele considera as 
exigências e expectativas que a nossa cultura dirige ao indivíduo 
naquele momento da vida 
3. Quando uma tarefa básica de um estágio não é completada 
satisfatoriamente, a tarefa do estágio seguinte fica 
comprometida. 
Epigênese da identidade 
q Afirma que tudo o que cresce tem um plano básico e é a partir 
desse plano que se erguem as partes componentes, tendo cada uma 
delas o seu tempo, até que todas tenham sido levantadas para formar 
um todo em funcionamento. 
q A identidade é entendida como um processo de construção que 
conserva e transforma aquisições da etapa anterior. 
q As fases do desenvolvimento da identidade são marcadas por 
etapas que seguem até que se complete o ciclo vital. 
q Erikson considera que cada fase do desenvolvimento humano tem 
suas próprias crises. A adolescência se desenvolve em torno da 
definição de identidade, o conflito se instala entre “identidade X 
confusão de papéis”. A adolescência acaba e começa a chamada “idade 
adulta jovem”, a que o sujeito humano chega a uma definição da 
identidade composta de 3 elementos: identidade sexual, profissional e 
ideológica. 
 $Identidade sexual significa a definição do papel genital do 
adolescente, cujas bases foram estabelecidas na fase fálica (unificação 
das pulsões parciais sob o primado dos órgãos genitais. 
Na infância, a criança reconhece somente o órgão sexual masculino. 
Na puberdade, reconhece a diferença sexual e a existência de pênis e 
vagina. 
 $Identidade ideológica: Erikson diz que a adolescência é um 
regenerador vital no processo de evolução social, pois a juventude 
pode oferecer sua lealdade e energia tanto à conservação quanto à 
correção revolucionária. 
 $Identidade profissional: a escolha de uma profissão é fundamental 
para o adolescente. Aqui a ênfase recai sobre a possibilidade de o 
adolescente escolher uma profissão que no futuro signifique uma 
fonte de renda e que o inclua no mundo dos adultos. 
 A profissão é considerada um dos pilares da construção da 
identidade “sou o que faço” 
 A escolha profissional, o envolvimento com o trabalho, além de 
garantir o status no grupo social, o sentimento de pertinência e a 
sobrevivência física, é também uma maneira de elaborar as questões 
internas, a realidade psíquica 
q Erikson considera que o adolescente precisa responder a pergunta 
“quem sou eu?” cuja resposta significa a segurança para viver as 
etapas posteriores. A confusão de papéis é um grande perigo que o 
adolescente precisa vencer, pois a indefinição o deixará imobilizado nas 
dúvidas e será um prejuízo para a realização da sua capacidade genital 
no sentido freudiano. 
 $As teorias que trabalham sob o prisma das relações de objeto 
colocam ênfase sobre a influência da experiência concreta da criança 
com as figuras parentais. 
 
q Consideram que a grande tarefa da adolescência é a realização do 
luto pela perda estrutural infantil, o que significa o luto pela 
bissexualidade perdida e pelo pais da infância. 
 $ As transações impostas pela puberdade são vividas como uma 
perda do próprio corpo. Além de se despedir do corpo da criança, o 
adolescente também precisa se despedir de suas fantasias infantis 
acerca do corpo. 
 $Luto pela bissexualidade perdida: considera-se, nessa perspectiva, 
que na vivência da criança não há o feminino e o masculino separados. 
As crianças têm a fantasia da onipotência sexual. A diferença sexual 
não é reconhecida e muito menos a função da diferença sexual no que 
se refere a ter filhos ou satisfazer-se afetivamente. 
 $A revivência edipiana, na adolescência, traz o luto pelos pais da 
infância. Os pais, heróis da infância são postos em xeque. Já não são 
fonte só de segurança, mas também de conflitos, dos quais o 
adolescente precisa se afastar. 
 q Knobel consideraque o adolescente exibe múltiplas identidade, o 
que seria patológico na idade adulta, mas nessa fase da vida é 
entendido como “síndrome normal”. O altor chama essas identidades 
de: 
$transitórias – são aquelas assumidas pelo adolescente por 
ocasião de uma aquisição ou conquista 
 Ex: uma competição esportiva ou um momento de 
valorização de um atributo corporal. 
$ocasionais – diante de situações novas, o adolescente 
assume o estereótipo do novo papel, por exemplo, o de universitário 
$circunstanciais – o adolescente procura mostrar a 
identidade mais adequada a cada grupo de pertencimento. 
Ex: pode ser agressivo em casa e submisso frente ao grupo 
de amigos 
$Essas identidades podem se alternar e coexistir. 
q Essas oscilações refletem tanto a tentativa de assumir uma nova 
identidade quanto o retorno a modelos passados, vivências 
necessárias nesse momento de luto pela perda da infância. 
 q Essa corrente identifica a tendência grupal nos adolescentes. O 
grupo uniforme e homogêneo – falando as mesmas gírias, usando as 
mesmas roupas- lhes dá segurança. Cada membro se espelha e se 
identifica com o outro. Pertencer ao grupo, ser aceito pelo grupo 
traz ao adolescente segurança emocional. 
 $A dependência em relação ao grupo de amigos significa, 
por outro lado, a transferência da dependência infantil em relação 
ao grupo familiar. O grupo cumpre, nesse sentido, a função de ajudar 
o adolescente a realizar a passagem do mundo doméstico ao mundo 
público. O líder do grupo substitui a autoridade paterna, e se o 
adolescente deixa de se submeter ao pau para submeter-se ao líder, 
também exercita com ambos a possibilidade da confrontação e do 
desafio. 
 $O grupo permite ao adolescente externar e 
experimentar a violência e a crueldade, uma vez que a culpa fica 
diluída no grupo. Este o ajuda, a distinguir e internalizar o bem e o 
mal. Com o grupo ele aprende comportamentos eticamente 
aceitáveis. Os comportamentos destrutivos em grupo costumam ser 
passageiros e ajudam o adolescente a conhecer e dominar suas 
fantasias destrutivas. 
 q O adolescente manifesta necessidade de intelectualizar e 
fantasiar. Knobel associa essa necessidade ao processo psicodinâmico 
de elaboração do luto pelo corpo e vivências infantis. A crise que o 
adolescente vive por não ser mais criança e não ser ainda adulto só 
pode ser resolvida pela fantasia. Ele cria teorias e projetos que o 
ajudam a superar as angústias das perdas que sofre nesse momento 
e, assim, estabilizar-se. Por outro lado, ele procura estar presente a 
manifestações artísticas e culturais, que também ancoram suas 
fantasias. 
 q Crises religiosas acontecem, com uma oscilação entre períodos 
de profunda fé ou de profundo ateísmo. Knobel explica as relações 
do adolescente com a religião pela necessidade de encontrar algo 
duradouro e imutável quando seu corpo e sua vida estão em plena 
revolução. Além disso, o adolescente “começa a enfrentar a 
separação definitiva dos pais e a possível morte dos mesmos”. 
 q Outro aspecto enfatizado é a desestruturação temporal – o 
passado (infância); o presente (conturbado nas transformações); o 
futuro (o mundo adulto ainda não alcançado). Knobel propõe que 
uma das aquisições da adolescência é a elaboração do tempo. 
 $Para os adolescentes, o tempo vivido é mais importante 
que o tempo cronológico, daí a desorganização do seu dia, quando o 
tempo “dá pra fazer tudo” ou “não dá pra fazer nada” 
 q Quanto a questão sexual, Knobel, apoiado em Arminda Abestury 
e M. Klein, entende que a organização da sexualidade adolescente é 
uma retomada evolutiva das etapas sexuais anteriores, tanto da 
vivência edípica precoce, na segunda metade do primeiro ano de vida, 
quanto daquela iniciada por ocasião da fase fálica. Dessa forma, a 
evolução positiva ou negativa da sexualidade do adolescente está 
associada à imagem internalizada do par parental. 
 q A atitude social reivindicatória do adolescente exterioriza seus 
conflitos internos na busca de organização de sua identidade. Outro 
sinal do comportamento dos adolescentes são suas contradições. O 
adolescente age, muitas vezes, movido pelos seus desejos, o que a 
psicanálise chama de atuação. O seu pensamento é frequentemente 
convertido numa ação e testado pela realidade objetiva. 
q O adolescente busca se separar dos pais, mediando essa separação 
com seus ídolos idealizados. Se a vivência como os pais foi positiva, e se 
os pais mostraram uma relação conjugal satisfatória, o adolescente se 
sentirá encorajado a buscar relacionamentos heterossexuais. 
q As alterações de humor e de ânimo são atribuídas às suas crises 
maníaco-depressivas. 
q A mania funciona como mecanismo de defesa frente à depressão 
pelas perdas vividas. 
 
q As teorias culturalistas e de relações objetais valorizam as 
experiências infantis, enfatizando a importância da socialização 
primária. 
 $Socialização primária: vem da experiência da criança com seu 
grupo social mais próximo, a família. A convivência da criança com os 
adultos significativos resulta ao mesmo tempo em aprendizagens e em 
marcas psíquicas. 
q A tarefa emocional da adolescência proposta por Rikson, é posta no 
sentido da adaptação social e do entendimento da crise vivida na 
adolescência como funcional e adaptativa. 
 
q Para as teorias das relações objetais a principal tarefa da 
adolescência é realizar o luto pelos pais da infância. Neste sentido, a 
adolescência será em maior ou menor grau crítica ou geradora de 
sofrimento dependendo da qualidade das primeiras relações objetivas 
vividas pelo sujeito. 
 
q Já a teoria psicanalítica do sujeito representada por Lacan operou 
uma volta aos escritos de Freud de modo a fundamentar a sua própria 
elaboração teórica na hipótese do inconsciente estruturado como uma 
linguagem. 
q Os psicanalistas filiados à corrente lacaniana colocam ênfase no 
inconsciente como fator decisivo da constituição do sujeito . não 
importam as experiências concretas, mas sim as significações 
produzidas sobre tais experiências. 
q A linguagem não se reduz às palavras, mas estende-se aos sistemas 
de significação e às ordens simbólicas que antecedem o domínio da 
palavra, seja ela falada ou escrita. 
q O falo é o único significante em torno do qual o sujeito se estrutura. 
Rappaport considera que a adolescência pode ter seu início 
identificado a partir dos fenômenos pubertários, aqueles determinados 
biologicamente. Mas é preciso deixar claro que adolescência não é 
sinônimo de puberdade, e que a puberdade sinaliza apenas seu início. O 
que interessa à psicanálise “são as mudanças subjetivas que o indivíduo 
terá que operar para dar conta das metamorfoses que levam à 
maturidade genital, ao exercício da sexualidade genital, de fato, e não 
mais apenas ao nível imaginativo e das mudanças na relação com o 
outro.” 
q Retomando Freud desde a perspectiva lacaniana, a autora entende 
a adolescência como “período privilegiado da vida fantasmática, que 
permite, ou até exige, esta articulação entre a subjetividade infantil, 
onde os pais são as figuras fundamentais da afetividade, e a 
subjetividade adulta”. Tal articulação ocorre no nível do inconsciente. 
 
q Ruffino explica que a psicanálise lacaniana se afasta da 
consideração da adolescência como fase etária para colocá-la no 
registro do trabalho psíquico, tarefa esta que durará o tempo 
necessário a casa sujeito 
 $Ele diz que a adolescência é um produto histórico da modernidade 
nas sociedades ocidentais. Ao contrário das sociedades não-ocidentais 
e pré-modernas, que dispõem de rituais específicos e coletivos que 
marcam a passagem da infância à juventude e desta para a idade 
adulta, as sociedades modernas e ocidentais, distantes dos rituais 
específicos e coletivos, deixaram aos sujeitos a tarefa individual de 
realizar sua própria passagem à idade adulta. (argumento básico dessa 
vertente) 
 $Ruffino trabalha com a hipótese de que “a adolescência faz parte 
dos elementos que participam da ordem simbólica desdeo momento da 
história em que sua existência surgiu como necessária, sendo 
constituída, a partir de então, em elemento fundamental da estrutura 
subjetiva do homem para que este possa se fazer adulto”. 
 $A psicologia da adolescência oscilo, segundo Ruffino, entre dois 
polos. De um lado, os defensores da tese organogênica, que 
procuravam explicar a adolescência a partir dos fenômenos da 
puberdade. Do outro lado, os que entendiam a adolescência a partir de 
explicações de ordem sociogênica, ressaltando as influências sociais e 
culturais da adolescência. Nenhuma das duas vertentes consegue 
explicar a adolescência e a fusão de ambas parece ao autor impossível, 
uma vez que partem de argumentos opostos e excludentes. 
 $Ele propõe pensar na complexidade da adolescência como “uma 
reprodução subjetiva, provocada por algo de real (atordoante) do 
Campo do Outro (exterioridade), enquanto tentativa de simbolização 
do que houver de brutal nesse encontro com o real para o jovem 
púbere.” 
q A adolescência é definida nessa vertente como trabalho psíquico. 
q A tarefa a ser realizada é o luto 
 $ “se definimos a adolescência como tarefa, devemos agora admitir 
que sua tarefa é um trabalho de luto. Não é primordialmente um luto 
pela infância perdida, mas é antes um luto por uma certa forma de 
eficácia simbólica comunitária destruída” 
 $O luto é entendido como superação da tristeza pela perda do 
objeto, ao contrário da melancolia, que significa a cristalização da 
tristeza e a impossibilidade de superá-la 
 
q A corrente pós-estruturalista é habitualmente criticada quanto 
ao caráter de universalidade e à impossibilidade de discutir as 
especificidades e variabilidades históricas, pois as considerações 
acerca das relações sociais são postas no registro da proibição do 
incesto e do parricídio, da lei estruturante do sujeito e da cultura, 
uma lei universal. 
q Ignez discorda de Ruffino quando este afirma que as sociedades 
modernas e ocidentais não dispõem de ritos coletivos de passagem 
da infância para a adolescência. Penso que essas sociedades 
produziram, no registro urbano, tecnológico e consumista de bens 
materiais e simbólicos, verdadeiros ritos de passagem com o qual o 
adolescente tem que ter para ser aceito no mundo dos adultos 
 Ex: adolescentes classe média e média alta- dirigir carro 
dos pais sem carteira e sem consentimento ou tem carteira de 
motorista, comprar um carro e navegar na internet 
 Jovens pobres – trabalho precoce e evasão escolar, mas 
também frequentar bares, usar drogas, ter determinado 
comportamento sexual, cometer pequenos ou grandes delitos, estar 
em uma banda 
 $A paternidade e a maternidade precoces e comuns entre jovens na 
atualidade parecem significar, para uma parcela significativa da 
população, uma forma de passagem ao mundo adulto. 
 $O registro psíquico não se descola do registro sociocultural. Se 
considerarmos o registro psíquicos descolado do contexto de 
pertencimento do sujeito, naturalizaremos tal registro. 
q O tempo da adolescência é o tempo de realização das tarefas 
psíquicas que levam o adolescente à elaboração de uma nova 
identidade. A construção dessa identidade e o tempo de 
de construção são medidos pelos valores do grupo social de 
pertencimento do jovem e pelas significações que as categorias de 
gênero, classe social, raça/etnia e geração geram. 
 
q A psicologia genética é outra grande família teórica, cujos membros 
são principalmente Piaget e Vygotsky. Esses autores têm em comum a 
abordagem genética, aquela que se refere à origem e ao processo de 
formação das funções psicológicas. 
 $Vygotsky se diferencia de Piaget por considerar a dimensão 
dialética e sócio-histórico do desenvolvimento humano 
q A psicologia genética ocupou-se da pesquisa da origem e 
desenvolvimento dos processos de pensamento e linguagem. 
q Autores como Levisky, que se ocupam da problemática emocional 
do adolescente, procuram articular os aspectos emocionais com os 
cognitivos, concordando com a hipótese da construção e 
transformação do pensamento e linguagem nas diversas etapas da 
vida. 
 $Levisky afirma que “a inteligência formal participa ativamente no 
processo de elaboração da crise da adolescência, levando subsídios que 
vão integrar as interferências na vida afetiva.” 
q Os estudos acerca do desenvolvimento cognitivo ocupam-se do 
progresso gradativo da habilidade humana no sentido de obter 
conhecimento e se aperfeiçoar intelectualmente. 
q Em suas pesquisas, Piaget ocupou-se da socio gênese, expressão 
que designa o estudo dos conhecimentos enquanto empreendimento da 
humanidade em seu conjunto, através do esforço dos intelectuais que 
conseguiram captar as demandas por um novo saber e encarnaram as 
motivações e as possibilidades do fazer ciência; da psicogênese, 
estudando a formação do conhecimento no nível do sujeito 
 $O conhecimento, nessa ótica, não procede da experiência única 
dos objetos, nem de uma programação inata e pré-formada no sujeito, 
mas da relação sujeito/objeto 
 $Daí a expressão interacionismo, que possibilita construções 
sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas no sujeito, 
que transformam tanto a ele próprio como ao objeto de conhecimento 
 $Piaget ocupou-se dos estudos de formalização, entendidos como 
pesquisas no campo das relações lógicas. 
 $O sujeito piagetiano é o sujeito epistêmico, universal e que 
constrói conhecimento partindo de estruturas simples em direção às 
mais complexas. A passagem de um estágio a outro provoca um 
desequilíbrio temporário que, posteriormente, dá lugar a uma forma 
superior ou mais complexa de raciocínio. 
1. Sensório-motor, pois a atividade intelectual do bebê é de 
natureza sensorial (percepção) e motora (que leva à ação) 
2. Pré-operacional, momento em que a criança desenvolve a 
capacidade simbólica por intermédio da linguagem, da fala e 
da produção gráfica. 
3. Período das operações concretas, caracterizado pelas 
operações concretas, caracterizando pelas operações mentais 
da criança que ocorrem em resposta a objetos e situações 
reais. 
4. O período das operações formais, marcado pelo 
pensamento formal e que se inicia após os doze anos. É o 
último estágio do desenvolvimento cognitivo e pode ser 
definido como hipotético-dedutivo: o sujeito torna-se capaz 
de deduzir as conclusões de puras hipóteses e não somente através de 
observação do real. 
Ao tratar da adolescência, Piaget considera que, “evidentemente, a 
maturação do instinto sexual é marcada por desequilíbrios 
momentâneos, que dão colorido afetivo muito característico a todo 
este último período da evolução psíquica. 
Mas estes fatos bem conhecidos, que certa literatura psicológica 
banalizou, estão longe de esgotar a análise da adolescência e, além do 
mais, desempenhariam apenas papel bem secundário, se o pensamento 
e a afetividade próprios do adolescente não lhes permitissem exagerar 
lhe a importância” encontramos aqui uma crítica de Piaget à ênfase 
dada ao aspecto da crise da adolescência. 
 $Piaget conclui apresentando o objeto de suas preocupações 
relativas à adolescência: “São, portanto, estruturas gerais destas 
formas finais de pensamento e vida afetiva que devemos descrever 
aqui e não algumas perturbações especiais” 
 $Em seguida, Piaget restaura certa positividade da adolescência: “na 
verdade, apesar das aparências, as conquistas próprias da 
adolescência asseguram ao pensamento e à afetividade um equilíbrio 
superior ao que existia na segunda infância. Os adolescentes têm seus 
poderes multiplicados; estes poderes, inicialmente, perturbam a 
afetividade, mas depois os fortalecem” 
 $O adolescente adquire a habilidade de realizar operações lógicas no 
nível das ideias, desvinculando-se do palpável ou do concreto. É capaz 
de formular hipóteses e chegas a conclusões nem sempre coerentes 
com a verdade fatual ou da observação. 
 $Piaget afirma que o adolescente constrói teorias e sistemas. “o 
que surpreende no adolescente é o seu interesse porproblemas 
inaturais, sem relação com as realidades vividas no dia-a-dia, ou por 
aqueles que antecipam, com uma ingenuidade desconcertante, as 
situações futuras do mundo, muitas vezes irreais. O que mais espanta, 
sobretudo, é a sua facilidade de elaborar teorias abstratas” 
 $A forma de pensamento do adolescente não aparece bruscamente, 
está articulada ao pensamento concreto da segunda infância. A 
passagem do pensamento concreto para o pensamento formal é, na 
perspectiva piagetiana, o produto de uma construção. 
 “após os 11 ou 12 anos, o pensamento formal torna-se possível, isto é, 
as operações lógicas começam a ser transpostas do plano da 
manipulação concreta para o das ideias, expressas em linguagem 
qualquer (a linguagem das palavras ou dos símbolos matemáticos, etc.), 
mas sem o apoio da percepção, da experiência, nem mesmo da 
crença” 
 $O pensamento formal é, para Piaget, uma representação de uma 
representação de ações possíveis, ou seja, uma operação que permite 
pensar o próprio pensamento. A logica das operações formais é a 
mesma lógica das operações concretas. 
“[operações formais] não são outras senão as mesmas operações 
[concretas], mas aplicadas a hipóteses ou proposições. Consistem em 
uma lógica de proposições, em oposição à das relações, das classes, 
dos números, mas o sistema de implicações que regulam estas 
proposições constitui, apenas, a tradução abstrata das operações 
concretas” 
 $É o pensamento formal que permite ao adolescente construir 
sistemas: “a inteligência formal marca, então, a libertação do 
pensamento e não é de admirar que este use e abuse, no começo, do 
poder imprevisto que lhe é conferido. Está é uma das atividades 
essenciais que opõe a adolescência à infância: a livre atividade de 
reflexão espontânea” 
 $Essa nova forma de pensar instrumenta o adolescente para o seu 
exercício necessário de fantasiar e devanear atividades que dão 
suporte às suas angústias no terreno afetivo-sexual; por outro lado, 
a capacidade de argumentar possibilita o enfrentamento das figuras 
de autoridade, também necessário, tendo em vista a destituição dos 
pais da infância. 
 $Nessa etapa de construção do pensamento, o adolescente também 
vive a última forma do egocentrismo, assim descrita por Piaget: 
“manifesta-se pela crença na onipotência da reflexão, como se o 
mundo devesse submeter-se aos sistemas e não estes à realidade. É a 
idade metafísica por excelência: o Eu é forte o bastante para 
reconstruir o Universo e suficientemente grande para incorporá-lo”. 
O egocentrismo metafísico é reduzido quando “o equilíbrio é 
atingido, quando a reflexão compreende que sua função não é 
contradizer, mas se adiantar e interpretar a experiência” 
 $A personalidade é outra conquista da adolescência, segundo Piaget 
“A personalidade começa no fim da infância (8 a 12 anos) com a 
organização autônoma das regras, dos valores e a afirmação da 
vontade, com a regularização e hierarquização moral das tendências. 
Existe personalidade, pode-se dizer, a partir do momento em que se 
forma um programa de vida, funcionando este ao mesmo tempo como 
fonte de disciplina para a vontade e como instrumento de cooperação”. 
A organização autônoma das regras e a formulação de um “programa 
de vida” só são possíveis a partir do pensamento formal ou hipotético 
dedutivo, daí a associação da personalidade com a adolescência. 
 $Piaget continua dizendo que “a personalidade implica uma espécie 
de descentralização do que se integra em um programa de 
cooperação e se subordina a disciplinas autônomas e livremente 
construídas. Acontece que todo desequilíbrio a centralizará de novo 
sobre ela própria, de tal modo que, entre os polos da pessoa e do eu, 
as oscilações serão possíveis em todos os níveis.” 
 $A tentativa de entrada do adolescente no mundo dos adultos se dá 
muitas vezes através de “projetos, programas de vida, sistema muitas 
vezes teóricos, de planos de reformas políticas ou sociais. Através do 
pensamento, quase da imaginação”. 
 $O ar alheio do adolescente em relação ao mundo externo significa, 
a partir da proposta de Piaget, que o adolescente, exercendo sua nova 
habilidade do pensamento formal/hipotético-dedutivo, pensa o mundo e 
o transforma no pensamento” 
 $É o trabalho que garante a inserção no mundo adulto 
 $Piaget articula o desenvolvimento cognitivo com a afetividade: “é 
sempre a afetividade que constitui a mola das ações das quais resulta, 
a cada nova etapa, esta ascensão progressiva, pois é a afetividade que 
atribui valor às atividades e lhes regula energia. Mas a afetividade não 
é nada sem a inteligência, que lhe fornece meios e estabelece fins” 
 
q Vinculado à corrente sócio-histórica, tinha como tema central as 
relações entre o desenvolvimento e a aprendizagem nas diversas 
etapas da vida. 
q Sobre adolescência, Vygotsky discute os interesses e a 
personalidade do adolescente. 
q Ele considera que o adolescente é, antes de tudo, um ser pensante 
capaz de relacionar as necessidades biológicas do organismo com suas 
necessidades culturais superiores, dai surgem os interesses. 
q Considera que as tarefas do adolescente estão relacionadas tanto 
na origem quanto nas possibilidades de realização, ao seu 
pertencimento de classe 
q As tarefas básicas do adolescente serão a tomada de decisão 
quanto à sua vocação e a eleição de uma profissão. 
q Ao estudar a dinâmica e a estrutura da personalidade adolescente 
considera três leis: 
1. Regula o desenvolvimento e a estrutura das funções psíquicas 
superiores, que são o núcleo fundamental da personalidade em 
formação. É a lei de transição das formas e modos de 
comportamento naturais, imediatos e espontâneos aos mediados 
e artificiais que surgem no processo do desenvolvimento cultural 
do comportamento 
Se acha vinculado ao desenvolvimento histórico e social da humanidade. 
Funções psíquicas superiores são entendidas como aquelas que 
caracterizam o funcionamento psicológico tipicamente humano: ações 
conscientemente controladas, atenção voluntária, memorização ativa, 
pensamento abstrato, comportamento intencional. Esses processos se 
diferenciam de mecanismos mais elementares, como reflexos, reações 
automáticas, associações simples. 
2. Diz respeito aos processos de interiorização das relações sociais 
traduzidas nas funções psíquicas superiores, ou seja, as formas 
sociais e coletivas de comportamento se convertem em modo de 
adaptação individual. A internalização das relações sociais 
externas existentes entre as pessoas é a base da formação da 
personalidade. 
3. Diz respeito à interiorização dos comportamentos sociais e 
coletivos, que, ao converter-se em forma individual de conduta, 
perde, durante seu longo caminho de desenvolvimento, os traços 
de operação externa e se converte em operação interna. 
q A personalidade, não é outra coisa senão a autoconsciência do 
homem. O novo comportamento homem se transforma em 
comportamento para si, o homem toma consciência de si mesmo. Essa 
tomada de consciência é o ponto central e o resultado de toda a 
adolescência. 
q Concorda com Busemann que o desenvolvimento da autoconsciência 
depende do conteúdo cultural do meio ao qual pertence o adolescente. 
Mas discorda quando este considera que as diferenças no 
desenvolvimento da autoconsciência do adolescente em razão do sexo 
são muito mais consideráveis do que as diferenças entre as crianças 
de sexos diferentes procedentes de diversas camadas sociais 
“a presença de um problema que exige a formação de conceitos não 
pode, por si só, ser considerada a causa do processo, muito embora as 
tarefas com que o jovem se depara ao ingressar no mundo cultural, 
profissional e cívico dos adultos sejam, sem dúvida, um fator 
importante para o surgimento do pensamento conceitual. Se o meio 
ambiente não apresenta nenhuma dessas tarefas ao adolescentes, não 
lhe faz novas exigências e não estimula o seu intelecto, proporcionando-
lhe uma série de novos objetos, o seu raciocínio não atingiráos 
estágios mais elevados ou só os alcançará com grande atraso” 
“o pesquisador deve ter como objetivo a compreensão das relações 
intrínsecas entre as tarefas externas e a dinâmica do desenvolvimento, 
e deve considerar a formação de conceitos como uma função do 
crescimento social e cultural global do adolescente, que afeta não 
apenas o conteúdo, mas também o método de seu raciocínio” 
q Os experimentos que objetivavam estudar a forma do pensamento 
do adolescente mostram que o caráter transitório dessa fase da vida 
está também presente na forma de pensar: o adolescente é capaz de 
elaborar conceitos e manejá-los no nível abstrato, mas pode ter 
dificuldade em aplica-los numa situação prática ou explica-los com 
palavras. 
q Constata que o processo de formação de conceitos é bastante 
complexo e oscila entre duas direções básicas: do particular para o 
geral e o inverso. E conclui: “A maior dificuldade é a aplicação de um 
conceito, finalmente apreendido e formulado num nível abstrato, a 
novas situações concretas, um tipo de transferência que em geral só 
é dominado no final da adolescência.” 
q Quanto às questões cognitivas, é preciso ressaltar que o 
pensamento formal ou hipotético-dedutivo, visto como a forma mais 
elaborada do pensamento, alcançado na adolescência, também não é 
universal. A qualidade do pensamento na adolescência está referida à 
sua inserção de classe, ou seja, às condições concretas de existência 
que permitem ou impedem o acesso do adolescente a bens materiais 
e simbólicos. 
 
q Procura articular os aspectos emocionais aos cognitivos. 
q Define o sujeito psicológico como um sistema composto por 4 
elementos: sujeito biofisiológico, afetivo, cognitivo e social, em 
constante interação entre si e com o meio. Nessa ótica, o meio 
também é considerado como um sistema composto de três elementos: 
pessoas, objetos naturais e artificiais e regras institucionais, em 
constante interação. 
q Não existe hierarquia entre os elementos que compõem o sujeito 
psicológico – cada um deles é necessário, mas nenhum, isoladamente, é 
suficiente. Dessa forma, o autor reafirma que a totalidade do sujeito 
psicológico é o resultado da interação entre todos os elementos. No 
entanto, admite que necessidades funcionais na relação do sujeito 
psicológico com o meio podem acarretar a prevalência de um dos 
elementos, e que tal prevalência é transitória e relacionada às 
necessidades do sujeito psicológico em interação com o meio em um 
momento particular. 
q O sujeito psicológico é ativo e sua constituição se dá no processo de 
interação com o meio, de forma que tanto o sujeito como o meio 
transformam-se na e pela interação 
q O sujeito psicológico fica caracterizado como um sujeito histórico, 
que não pode ser destacado de seu meio, porque isto acarretaria a 
eliminação do sujeito social, prejudicando o equilíbrio interno do sistema 
e, por outro lado, desconsiderando sua interação ativa com o meio. 
 
q Muitas vezes, a habilidade de construção de hipóteses, teorias e 
sistemas que o adolescente teria é impedida, no seu Desenvolvimento, 
pelas práticas escolares empobrecidas. Por outro lado, quando se 
universaliza essa qualidade de pensamento a todos os adolescentes, ela 
é utilizada no sentido de explicar a suposta alienação do adolescente 
em relação ao mundo real e às consequências dos seus atos, 
reforçando o estereótipo do adolescente como irresponsável e 
inconsequente. 
q Que se considere como tarefas próprias da adolescência a 
aceitação do corpo sexuado pronto para a atividade reprodutiva e a 
aceitação de que cada um dos sexos terá um papel determinado e 
específico nos processos de fecundação e gestação. Há também a 
tarefa de encontrar um lugar na vida produtiva, escolher uma 
profissão, buscar um modo reconhecido como positivo pelo seu grupo 
para sustentar-se economicamente. 
q A autora acredita que essas tarefas estão relacionadas às normas 
da condição de gênero, aos lugares e à divisão de poderes distribuídos 
desigualmente entre homens e mulheres na nossa organização social, 
aos lugares de classe social ocupados pelos sujeitos, às implicações de 
seu pertencimento de raça e etnia, bem como à sua posição geracional. 
q As tarefas não são naturais, nem consequência pura e simples da 
chegada do sujeito a uma determinada faixa etária. A autora trabalha 
com a hipótese de que se a adolescência se inicia com a puberdade, ela 
termina com o acesso do sujeitos ao mundo adulto, segundo a 
realização de determinadas tarefas consideradas importantes pelo seu 
grupo social, que resultam na identidade sexual, ideológica e 
profissional. 
q Pode-se concluir que as transformações afetivas e cognitivas 
vividas pelos adolescentes estão articuladas na construção psicossocial 
de sua identidade. Por outro lado, sabemos que a psicologia procura 
entender o comportamento humano considerando alguns parâmetros 
universais. Por exemplo, a psicologia pode afirmar que brincas é uma 
condição necessária à saúde psíquica do sujeito, ao seu desenvolvimento 
afetivo e cognitivo. No entanto, o significado de brincar e a forma 
como se brinca estão referidos às condições da cultura, de gênero, de 
classe social, de geração, de etnia. 
q Podemos dizer que as tarefas universais de passagem da infância à 
idade adulta, realizada no período da adolescência, são a construção 
de uma identidade sexual, profissional, ideológica, como propõe 
Erikson, mas que tais tarefas estão banalizadas pelas condições e 
significações construídas, nas sociedades complexas, a partir da classe 
social, gênero, geração e raça/etnia.

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